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Numero do processo: 18186.723185/2014-72
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 18 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Sep 23 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2012 NULIDADE DO LANÇAMENTO. VÍCIO FORMAL. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NÃO OCORRÊNCIA. Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidas por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Estando devidamente circunstanciadas na decisão recorrida as razões de fato e de direito que a fundamentam, e não ocorrendo cerceamento de defesa, não há motivos para decretação de sua nulidade. A autoridade julgadora é livre na apreciação da prova, visando a formação de sua convicção, ao teor da legislação de regência. Inexiste a necessidade emissão de MPF/TDPF para a revisão de ofício de declaração de ajuste anual, ao teor da legislação de regência (art. 3º, parágrafo único da IN RFB nº 579, de 08/12/2005). DEDUÇÃO. LIVRO-CAIXA. DESPESAS DE CUSTEIO. RENDIMENTOS DO TRABALHO NÃO ASSALARIADO. COMPROVAÇÃO. CONJUNTO PROBATÓRIO INSUFICIENTE O contribuinte que perceber rendimentos do trabalho não assalariado poderá deduzir da receita decorrente do exercício da atividade recebida no decorrer e até o final do ano-calendário, as despesas de custeio escrituradas em livro-caixa, necessárias à percepção da receita e manutenção da fonte produtora, desde que devidamente comprovadas. Mantém-se o lançamento quando o contribuinte não apresenta documentação hábil e idônea a fim de comprovar a efetividade das despesas declaradas, em conformidade com a legislação de regência. PAF. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei tributária. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. PAF. DILAÇÃO PROBATÓRIA. PEDIDO DE DILIGÊNCIA, PERÍCIA OU PRODUÇÃO DE NOVAS PROVAS. SÚMULA CARF Nº 163. Presentes os elementos de convicção necessários à solução da lide, despiciendo o pedido de dilação probatória formulado.
Numero da decisão: 2001-008.649
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer do recurso voluntário, rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, negar provimento. (documento assinado digitalmente) Raimundo Cassio Goncalves Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente), Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca (Substituta), Leonardo Nuñez Campos (Substituto) e Wilderson Botto.
Nome do relator: WILDERSON BOTTO

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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2012 NULIDADE DO LANÇAMENTO. VÍCIO FORMAL. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NÃO OCORRÊNCIA. Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidas por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Estando devidamente circunstanciadas na decisão recorrida as razões de fato e de direito que a fundamentam, e não ocorrendo cerceamento de defesa, não há motivos para decretação de sua nulidade. A autoridade julgadora é livre na apreciação da prova, visando a formação de sua convicção, ao teor da legislação de regência. Inexiste a necessidade emissão de MPF/TDPF para a revisão de ofício de declaração de ajuste anual, ao teor da legislação de regência (art. 3º, parágrafo único da IN RFB nº 579, de 08/12/2005). DEDUÇÃO. LIVRO-CAIXA. DESPESAS DE CUSTEIO. RENDIMENTOS DO TRABALHO NÃO ASSALARIADO. COMPROVAÇÃO. CONJUNTO PROBATÓRIO INSUFICIENTE O contribuinte que perceber rendimentos do trabalho não assalariado poderá deduzir da receita decorrente do exercício da atividade recebida no decorrer e até o final do ano-calendário, as despesas de custeio escrituradas em livro-caixa, necessárias à percepção da receita e manutenção da fonte produtora, desde que devidamente comprovadas. Mantém-se o lançamento quando o contribuinte não apresenta documentação hábil e idônea a fim de comprovar a efetividade das despesas declaradas, em conformidade com a legislação de regência. PAF. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei tributária. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. PAF. DILAÇÃO PROBATÓRIA. PEDIDO DE DILIGÊNCIA, PERÍCIA OU PRODUÇÃO DE NOVAS PROVAS. SÚMULA CARF Nº 163. Presentes os elementos de convicção necessários à solução da lide, despiciendo o pedido de dilação probatória formulado.

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VÍCIO FORMAL. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NÃO OCORRÊNCIA. Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidas por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Estando devidamente circunstanciadas na decisão recorrida as razões de fato e de direito que a fundamentam, e não ocorrendo cerceamento de defesa, não há motivos para decretação de sua nulidade. A autoridade julgadora é livre na apreciação da prova, visando a formação de sua convicção, ao teor da legislação de regência. Inexiste a necessidade emissão de MPF/TDPF para a revisão de ofício de declaração de ajuste anual, ao teor da legislação de regência (art. 3º, parágrafo único da IN RFB nº 579, de 08/12/2005). DEDUÇÃO. LIVRO-CAIXA. DESPESAS DE CUSTEIO. RENDIMENTOS DO TRABALHO NÃO ASSALARIADO. COMPROVAÇÃO. CONJUNTO PROBATÓRIO INSUFICIENTE O contribuinte que perceber rendimentos do trabalho não assalariado poderá deduzir da receita decorrente do exercício da atividade recebida no decorrer e até o final do ano-calendário, as despesas de custeio escrituradas em livro-caixa, necessárias à percepção da receita e manutenção da fonte produtora, desde que devidamente comprovadas. Mantém-se o lançamento quando o contribuinte não apresenta documentação hábil e idônea a fim de comprovar a efetividade das despesas declaradas, em conformidade com a legislação de regência. Fl. 1533DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.649 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.723185/2014-72 2 PAF. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei tributária. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. PAF. DILAÇÃO PROBATÓRIA. PEDIDO DE DILIGÊNCIA, PERÍCIA OU PRODUÇÃO DE NOVAS PROVAS. SÚMULA CARF Nº 163. Presentes os elementos de convicção necessários à solução da lide, despiciendo o pedido de dilação probatória formulado. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer do recurso voluntário, rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, negar provimento. (documento assinado digitalmente) Raimundo Cassio Goncalves Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente), Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca (Substituta), Leonardo Nuñez Campos (Substituto) e Wilderson Botto. RELATÓRIO Por bem retratar os fatos ocorridos desde a constituição do crédito tributário por meio do lançamento até sua impugnação, adoto e reproduzo o relatório da decisão ora recorrida (fls. 1361/1368): Este processo trata da impugnação em face da Notificação de Lançamento - Imposto de Renda Pessoa Física (fls. 28/33) referente à Declaração do Imposto de Renda Pessoa Física - DIRPF - do exercício de 2013 (ano 2012) (fls. 37/44). Foram apuradas as seguintes infrações: - Compensação indevida de carnê-leão – R$ 15.715,05 (fl. 30); - Dedução indevida de livro caixa - R$ 380.505,56 (fl. 31). Fl. 1534DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.649 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.723185/2014-72 3 Como resultado, foram apurados: 1) o imposto suplementar (código 2904) de R$ 102.743,04, multa de ofício (75%) e juros de mora; e 2) o imposto (código 0211) de R$ 15.430,31, multa de ofício (20%) e juros de mora; em detrimento do imposto a restituir declarado de R$ 2.180,73. A ciência da autuação ocorreu em 25/02/14 (fl. 1333) e a impugnação foi apresentada em 27/03/14 (fls. 2/19), acompanhada dos documentos às fls. 20/1278. A Contribuinte traz as alegações a seguir sintetizadas, além de documentos: - Tempestividade. - Suspensão da exigibilidade da obrigação tributária. - Singela exposição fática. Alega que, quando intimada pela Fiscalização, teria apresentado os documentos que lastrearam a dedução do livro caixa, ora reapresentados. Contudo, em gritante erro material, a Autuante os teria desprezado (não lido) e glosado a dedução, arguindo pela falta de comprovação ou de previsão legal, o que não seria verdade. - Do direito. Suscita o art. 75 do RIR/99. Defende a dedução de despesas com empregados registrados em seu nome. Defende que, quando o imóvel é exclusivamente utilizado para o exercício da atividade profissional, a dedução das despesas é integral, e afirma que todas as despesas se referem à R. Joaquim Floriano, 243, Cj. 55, local em que ela exerce sua atividade, sendo esse o seu endereço no CRM. Defende a despesa com aquisição de produtos farmacêuticos e laboratoriais imprescindíveis à dermatologia. Defende a dedução de despesas com celular, administradores e contabilistas, conforme ementas de julgados reproduzidas, além das demais despesas escrituradas. Alega que há notória compatibilidade dos valores recebidos pela Impugnante e as despesas com livro caixa. - Pedido. Requer: 1) a nulidade a notificação de lançamento, pois legítimas as deduções; 2) perícia-diligência técnica-contábil no livro caixa, para demonstrar que as despesas são essenciais e imprescindíveis, indicando perito técnico. Em 30/06/14, apresentou Manifestação de Inconformidade referente à compensação de ofício da malha débito (fls. 1281/1332). Parte do crédito tributário referente à matéria não impugnada foi transferida ao processo nº 10437-720.095/2015-08 (fls. 1334/1336). A decisão de primeira instância, por unanimidade, manteve o lançamento do crédito tributário em litígio. Cientificada da decisão, em 31/10/2019 (fls. 1372), a contribuinte, por procuradores habilitados interpôs, em 02/12/2019 - segunda-feira, recurso voluntário (fls. 1376/1405 e 1455/1484), insurgindo-se contra a manutenção da autuação, repisando as alegações da peça impugnatória e trazendo outros argumentos, a seguir brevemente sintetizados por intermédio dos seguintes tópicos: I – Tempestividade do recurso voluntário - Ciência do acórdão recorrido: 31/10/2019 (quinta-feira) - trintídio: 30/11/2019 (sábado) - prorrogação: 02/12/2019 (segunda- feira); II – Total suspensão da exigibilidade da obrigação tributária contemplada pelo PAF Nº 18186-723185/2014-72 - Total combate à Notificação de Lançamento nº 2013/014437117409478; Fl. 1535DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.649 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.723185/2014-72 4 III – Crédito tributário exigido na Notificação de Lançamento nº 2013/014437117409478; IV – Absoluta e total nulidade da fiscalização que desaguou o presente PAF, reflexamente, é nulo de pleno direito - Auditor fiscal preso - Operação Publicano; V – CARF - Revisão de lançamento; VI - Da Notificação de Lançamento nº 2013/014437117409478 - Exigência fiscal; VII – Ainda sobre a irregular glosa de livro-caixa; VIII – Do direito; IX – Mandado de segurança e correção-reprimenda e correção judicial - Total nulidade. Cita escólio doutrinário a motivar as pretensões recursais. Requer, ao final: a) - seja declarada nula e ilegal a notificação de lançamento, posto que nunca esteve em malha fiscal e tampouco havia ordem determinando sua fiscalização por meio de MPF- TDPF; b) - caso não se entenda, seja o julgamento convertido em diligência, visando a apuração técnica e contábil de que as despesas deduzidas nos livros-caixa constituem elementos essenciais e imprescindíveis, e que não há qualquer vínculo com a pessoa jurídica de que é sócia majoritária; c) - a total improcedência da notificação de lançamento lavrada. Instrui a peça recursal com os documentos de fls. 1406/1452. É o relatório. VOTO Conselheiro Wilderson Botto, Relator. Admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, razões por que dele conheço e passo à sua análise. Preliminares O Recorrente, em sede de preliminar, alega haver nulidade da autuação, porquanto nunca esteve sob “malha fiscal” e tampouco fora lavrado TDPF (MPF) para inspecioná-la, tendo sido incluída manualmente em “lista de bloqueio” por auditor fiscal e sem qualquer comando ou ordenança da RFB, sendo o lançamento fiscal lavrado nulo de pleno direito, sobretudo por violar as garantias fundamentais da contribuinte, asseguradas por direitos constitucionais subjetivos, preconizados no art. 2º da Lei nº 9.784/99. Contudo, razão não lhe assiste. De fato, quanto a preliminar arguida, vale registrar que o presente feito seguiu os trâmites regulares. A fiscalização atuou dentro da estrita legalidade e no limite institucional de sua competência, estando o lançamento devidamente formalizado, ao teor do art. 11 do Decreto nº 70.235/72 (PAF). Acresça-se ainda que o lançamento está claramente motivado e as base legais enquadradas, contendo a descrição da infração e dos dispositivos legais que deram suporte a penalidade aplicada e o valor devido, de maneira a oportunizar o pleno exercício ao contraditório – sendo-lhe concedido os prazos legais para apresentação de defesa e recurso voluntário – que, diga-se passagem, foram exercidos com plenitude, a tempo e modo. Fl. 1536DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.649 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.723185/2014-72 5 Quanto à análise das alegações suscitadas e da valoração das provas apresentadas, as autoridades lançadora e julgadora formarão livremente suas convicções motivadas, buscando a verdade material – o que de fato ocorreu, cujos fundamentos estão lastreados pela legislação de regência e com base no suporte e documental fornecido pela contribuinte em atendimento aos termos de intimação expedidos (fls. 35/36 e 1410/1413) – malgrado o inconformismo da contribuinte. Logo, do ponto de vista procedimental, o lançamento ocorreu dentro da estrita legalidade e sem qualquer prejuízo ou inobservância ao contraditório, inexistindo a suposta nulidade aventada. Alia-se o fato de que, da leitura do lançamento, a autuação está amparada nos fatos descritos que, no entender da autoridade fiscal, ensejaram a apuração detalhada dos valores e dos encargos aplicados, com a indicação dos dispositivos legais atinentes, não ocorrendo na espécie as causas ensejadoras de nulidades previstas no art. 59, I e II do PAF, aliás como bem fundamentado na decisão recorrida. Ademais, em relação à nulidade por inexistência de MPF/TDPF, vale salientar que os mesmos são prescindíveis nos casos de revisão interna das declarações de ajuste. Nesses casos o início do procedimento fiscal ocorre com a emissão da intimação para o contribuinte, conforme preconiza o art. 3º da IN RFB nº 579, de 08/12/2005, ao prescrever que o sujeito passivo será intimado a apresentar, no prazo fixado na intimação, esclarecimentos e/ou documentos sobre inconsistências detectadas na revisão da declaração de ajuste (como de fato ocorreu no presente caso), diante de indícios de irregularidades, as quais foram confirmadas resultando na lavratura da notificação fiscal objurgada. Não obstante, ainda no que tange à regularidade da ação fiscal, cabe ressaltar que o MPF (atual TDPF), foi instituído com o objetivo de regular a execução dos procedimentos fiscais sobre os tributos e contribuições administrados pela RFB, sendo meros instrumentos de controle administrativo. Também é fato que as normas alusivas aos procedimentos de fiscalização visam o disciplinamento de sua regular execução. E, qualquer irregularidade no cumprimento de tais disposições somente seria oponível na fase propriamente procedimental da ação fiscal, não tendo o condão de afetar o crédito tributário posteriormente formalizado, estando ou não a contribuinte em malha fiscal. Vale dizer que, eventuais problemas com o MPF/TPDF não geram a invalidação da apuração fiscal e nem implicam na imprestabilidade dos documentos obtidos para respaldar o lançamento fiscal. Não é demais novamente relembrar, que a atividade fiscal é vinculada e obrigatória, ao teor do art. 142 do CTN, de modo que, diante de irregularidades detectadas, não pode o agente fiscal, instituído em sua função, deixar de efetuar o lançamento, sob pena de responsabilidade funcional. Sendo assim, não há dúvida que eventual descumprimento de normas de controle não retira qualquer atributo do ato administrativo do lançamento, que é estabelecido por lei. Fl. 1537DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.649 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.723185/2014-72 6 Logo, do ponto de vista procedimental, a conduta fiscal no presente feito ocorreu dentro da estrita legalidade, em detrimento das alegações recursais – sendo certo que meros instrumentos de controle administrativo (MPF/TDPF) não afetam o crédito tributário constituído, não invalidam o trabalho fiscal e nem implicam na imprestabilidade dos documentos obtidos para respaldar o lançamento, os quais, diga-se de passagem, foram franqueados pela contribuinte, em atendimento aos termos de intimação expedidos (fls. 35/36 e 1410/1413) – inexistindo assim o suposto vício aventado. Quanto às supostas violações aos princípios constitucionais aventados, também nada a prover. Como é sabido, o CARF não é competente para se pronunciar sobre ilegalidades e inconstitucionalidades, cuja matéria, aliás, também já se encontra sumulada: Súmula nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser aplicados, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. Por tais razões, rejeito a preliminar de nulidade suscitada. Mérito Da dedução indevida de despesas a título de livro-caixa: O litígio recai sobre a glosa da dedução indevida de livro-caixa, no valor de R$ 380.505,56, apurada em sede de revisão da DAA/2012 apresentada, buscando, por oportuno, nessa seara recursal, obter nova análise do processado, com o restabelecimento das despesas declaradas, em face da atividade jurídica regularmente desenvolvida, como profissional liberal autônoma. Pois bem. Em que pese as alegações trazidas, do cotejo dos documentos carreados, aliado aos fundamentos traçados na decisão recorrida (fls. 1361/1368) e atendo-se às informações contidas no lançamento (fls. 28/33), não há como prosperar a pretensão recursal. Assim, considerando que a Recorrente, nesta fase recursal, não trouxe novas alegações contundentes a modificar o julgado – sem contudo, como lhe competia, justificar ou demonstrar, por documentação hábil, a eventual possibilidade de divisão das despesas alocadas ao endereço de exercício profissional de ambas, PF (autônoma) e a PJ (Clínica Dermatológica), além da relação de outras despesas não dedutíveis escrituradas no livro-caixa, ao teor da legislação de regência – me convenço do acerto da decisão recorrida, pelo que adoto como razão de decidir os fundamentos lançados no voto condutor (fls. 1364/1368), mediante transcrição dos excertos abaixo, à luz do disposto no art. 114, § 12, I da Portaria MF nº 1.634, de 21/12/2023 (Novo RICARF): Quanto à dedução das despesas de livro caixa, pertinente reproduzir os seguintes artigos do Decreto nº 9.580/2018 - Regulamento do Imposto de Renda - RIR/2018: Fl. 1538DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.649 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.723185/2014-72 7 Art. 66. As deduções ficam sujeitas à comprovação ou à justificação, a juízo da autoridade lançadora (Decreto-Lei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). Art. 68. O contribuinte que perceber rendimentos do trabalho não assalariado, inclusive os titulares dos serviços notariais e de registro, a que se refere o art. 236 da Constituição, e os leiloeiros, poderão deduzir da receita decorrente do exercício da atividade (Lei nº 8.134, de 1990, art. 6º; e Lei nº 9.250, de 1995, art. 4º, caput, inciso I): I - a remuneração paga a terceiros, desde que haja vínculo empregatício, e os encargos trabalhistas e previdenciários correspondentes; II - os emolumentos pagos a terceiros; e III - as despesas de custeio pagas, necessárias à percepção da receita e à manutenção da fonte produtora. Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica (Lei nº 8.134, de 1990, art. 6º, § 1º): I - a quotas de depreciação de instalações, máquinas e equipamentos e a despesas de arrendamento; II - a despesas com locomoção e transporte, exceto na hipótese de representante comercial autônomo; e III - em relação aos rendimentos a que se referem os art. 39 e art. 40. Art. 69. As deduções de que trata o art. 68 não poderão exceder à receita mensal da atividade, permitido o cômputo do excesso de deduções nos meses seguintes, até dezembro do mesmo ano-calendário (Lei nº 8.134, de 1990, art. 6º, § 3º). § 1º O excesso de deduções porventura existente no final do ano-calendário não será transposto para o ano seguinte (Lei nº 8.134, de 1990, art. 6º, § 3º). § 2º O contribuinte deverá escriturar as receitas e as despesas em livro-caixa e comprovar a sua veracidade por meio de documentação idônea, mantida em seu poder, à disposição da fiscalização, enquanto não ocorrer a prescrição ou a decadência (Lei nº 8.134, de 1990, art. 6º, § 2º). § 3º O livro-caixa de que trata o § 2º independerá de registro. Por meio da leitura do art. 68 acima, verificamos que as despesas do livro caixa somente podem ser deduzidas dos rendimentos do trabalho não assalariado. Em sua declaração de ajuste, constatamos que a Contribuinte ofereceu à tributação rendimentos recebidos de pessoa física de R$ 471.884,00 (fl. 38), sendo o limite para as deduções de livro caixa. A dedução foi pleiteada no valor total de R$ 380.505,56, integralmente glosada na autuação pela falta de comprovação ou de previsão legal da dedutibilidade. Junto à impugnação, foram apresentados os demonstrativos das despesas mensais e os documentos comprobatórios (fls. 45/1278). Ressalte-se que estes devem conter a perfeita identificação do adquirente e das despesas realizadas. Estas últimas, por sua vez, devem ser necessárias e indispensáveis à manutenção da fonte produtora dos rendimentos. Tal tópico requer a análise individualizada, cotejada com a atividade desenvolvida pela profissional (dermatologia), a fim de se determinar a essencialidade do dispêndio e a possibilidade deste se enquadrar como uma despesa de custeio passível de dedução. Fl. 1539DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.649 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.723185/2014-72 8 Citam-se, como exemplos, despesas relativas a aluguel, água, luz, telefone, material de expediente ou de consumo. Note-se que, ao especificar expressamente as despesas dedutíveis e ao condicionar essas deduções à estrita conexão com a manutenção da respectiva fonte produtora dos rendimentos, a legislação objetiva vedar a utilização de critérios subjetivos para o cálculo do tributo devido e, em consequência, afastar qualquer possibilidade de liberalidade ou poder discricionário na dedução. De outra parte, para se verificar se as despesas são realmente necessárias, ou seja, se elas efetivamente têm alguma relação com a atividade desenvolvida pela Contribuinte, devem ser observados os critérios de normalidade, usualidade, necessidade e pertinência. Adicionalmente, é oportuno diferenciar despesa necessária e despesa útil, eis que se restringe à primeira a previsão legal de dedução. Na acepção da palavra, necessário é aquilo “que não se pode dispensar; que se impõe; essencial; indispensável...” (Dicionário Aurélio Eletrônico, 1997). No presente caso, por meio da consulta ao CREMESP (fl. 20), confirma-se que a Contribuinte é dermatologista desde 1988 e exerce sua atividade à R. Joaquim Floriano, 243, cj. 55, SP/SP. Por sua vez, a consulta ao cadastro CNPJ informa que nesse mesmo endereço também funcionava a empresa Clínica Dermatológica Dra. Luciane Scattone S/S Ltda ME - CNPJ (...), constituída em 2004 (fl. 1341/1342). Por meio de seu contrato social (fls. 1349/1352), verifica-se que a Contribuinte possuía 90% do capital, enquanto sua irmã Cristiane Scattone (pedagoga), os 10% restantes. A responsabilidade técnica pela execução dos serviços profissionais estava a cargo da Contribuinte. Em sua DIRPF, a Contribuinte declarou ter recebido rendimentos tributáveis dessa empresa no valor de R$ 7.464,00 (fl. 37), correspondente ao pró-labore (fl. 1348). Declarou, também, ter recebido rendimentos isentos, referentes a lucros e dividendos dessa mesma empresa, no valor de R$ 200.000,00 (fls. 39, 1348): Como noticiado na impugnação e conforme a DIPJ desse exercício (fls. 1355/1360), que também informa que a Contribuinte é sua representante, a clínica foi tributada pelo lucro presumido e apurou o lucro presumido líquido (após o IRPJ e CSLL) de R$ 68.761,15, conforme o demonstrativo abaixo: Note-se que o lucro distribuído à sócia (R$ 200.000,00) foi: 1) superior ao líquido apurado pelo lucro presumido (R$ 68.761,15), e 2) correspondente à quase totalidade do lucro contábil apurado pela clínica (R$ 208.016,45 - fl. 1359) (equivalente à receita bruta excluída das despesas e dos tributos efetivamente pagos), que foi distribuído somente a 1 das sócias, a Contribuinte. Fl. 1540DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.649 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.723185/2014-72 9 Reportando-nos ao lucro contábil, verificamos que nos exercícios 2009 e 2010 (processo nº 18186.725427/2013-81) a Autoridade Autuante constatara nos livros da empresa "não haver pagamentos de despesas do tipo aluguel, funcionários, água, luz, condomínio, materiais, etc., prevalecendo em sua grande maioria somente os pagamentos de impostos da jurídica". Em consulta à DIPJ do presente exercício, não se verifica, por exemplo, nenhuma despesa com funcionários ou mercadorias. No exercício 2009, a contabilidade indicava que o lucro líquido contábil correspondeu a 65% das receitas, sendo que no exercício 2013, 74%. Verifica-se, assim, que a clínica não registrou nenhuma despesa relativa ao custo dos serviços prestados, a exemplo dos produtos farmacêuticos e hospitalares, e também às despesas básicas e necessárias para o funcionamento de uma clínica. Em contrapartida, na pessoa física, são registradas todas as despesas com produtos farmacêuticos, empregados, taxas de condomínio (Edif. Admiral Offices), contas telefônicas e de internet. Nesse contexto, não é crível que a pessoa jurídica tenha podido prestar os serviços dermatológicos que resultaram na receita bruta de R$ 282.735,00 sem incorrer nos custos e nas despesas acima. Assim, claramente esses gastos estão sendo todos direcionados à pessoa física. Neste ponto, cabe registrar que, em sua DIRPF, a Contribuinte ofereceu rendimentos à tributação (R$ 486.469,10), os quais combinados com as despesas (na maior parte do livro caixa - 78% dos rendimentos) e o IR já pago, resultaram em um saldo de imposto a restituir (fl. 44). Por sua vez, por meio da DIPJ da empresa, verifico que esta ofereceu rendimentos à tributação pelo lucro presumido, pagou o IRPJ sobre uma base de cálculo presumida, mas apurou lucros contábeis (R$ 208.016,45) correspondentes a 74% da receita bruta (R$ 282.735,00), distribuindo-os somente à Contribuinte, como já acima descrito. Ressalte-se que nenhum lucro foi distribuído à outra sócia minoritária nesse ano, assim como nos exercícios 2009 e 2010. Isto é, mesmo tendo faturado R$ 282.735,00 por meio de serviços dermatológicos, a clínica não teria declarado diversas despesas inerentes à prestação desses serviços, o que fez, por consequência, aumentar o seu lucro contábil, passível de distribuição, sob determinadas condições, de forma isenta ao sócio. À fl. 1268, observamos que a Contribuinte anotou uma orientação a uma possível funcionária no sentido de que, "conforme conversamos, vocês deverão retirar do livro 2012 os seguintes itens: IPTU condomínio luz telefone referentes aos conjuntos 54 e 56. O restante das compras com ou sem CPF, ou sem citar o conjunto, devem ser colocados como conj. 55 e portanto, será lançado no livro caixa 2012". Ressaltamos que somente em 18/06/14, isto é, após a data da ciência da autuação (25/02/14), o endereço da empresa foi alterado para o cj. 56 (fls. 1341/1342). Verifico que ambos os conjuntos 55 e 56 foram declarados como de propriedade da Contribuinte (fl. 41). Constata-se assim que, de fato, tanto a pessoa física quanto a pessoa jurídica atuavam no mesmo endereço, ambas prestando serviços dermatológicos. Notadamente, a maioria das despesas do livro caixa estão endereçadas para o conjunto 55, não sendo possível identificar exatamente quais despesas corresponderiam aos serviços prestados pela pessoa física e quais aos da pessoa jurídica. Fl. 1541DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.649 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.723185/2014-72 10 A Impugnante cita o PN CST nº 60/78, acerca da "dedução de 1/5 das despesas com aluguel, energia, água, taxas, impostos, telefone, telefone celular, condomínio, quando o imóvel utilizado para a atividade profissional é também residencial", defendendo que, "caso o imóvel seja utilizado exclusivamente para exercício da atividade profissional, a dedução dos mencionados valores será integral" (fl. 9). Ainda, reproduz ementa do CARF a permitir a dedução de despesa com telefone celular, quando utilizado profissionalmente. De início, cabe observar que, no presente caso, o conjunto 55 não se tratou de imóvel utilizado como residência da profissional, não cabendo aplicar a orientação do referido PN. Foi sim utilizado para o exercício profissional da dermatologia, porém, por 2 pessoas completamente distintas. Assim, como permitir a defendida dedução integral sem prejudicar uma ou outra, haja vista serem tributadas separadamente e sob regras completamente distintas. Mesmo em relação às despesas com empregados, registrados em nome da Contribuinte, igualmente não há como se distinguir quais serviços foram prestados à pessoa física da Contribuinte ou à pessoa jurídica da clínica dermatológica. Nesse contexto, em que se constata a impossibilidade de divisão das despesas relativas aos serviços de dermatologia entre as pessoas física e jurídica envolvidas, e a inexistência de dispositivo legal que disponha acerca de seu rateio, concluo por mantê-las glosadas conforme a autuação. Dentre essas despesas estão aquelas relativas à aquisição dos produtos farmacêuticos e médicos (fls. 47, 51, 73/76, 79, 92, e outros), à internet e telefonia fixa (fls. 53/54, 59/62, 90/91, 95/102), aos empregados (fls. 55/57, 70/72, 93/94), ao material de papelaria e limpeza (fls. 58, 107/108), às despesas com o imóvel (fls. 68, 162/164), à energia elétrica (fl. 113) e à anuidade à associação profissional (fls. 232/235). Quanto às despesas referentes ao conjunto 56 (imóvel contíguo), a exemplo do aluguel de novembro a dezembro (fl. 1274), da energia elétrica (fl. 120), do condomínio (fl. 126) e do IPTU (fl. 221/222), suas glosas também devem ser mantidas, uma vez que não há prova de que, em 2012, tal imóvel tenha sido usado pela pessoa física da Contribuinte para sua atividade profissional. Curioso aqui notar, relativamente à despesa com aluguel, que referido imóvel foi declarado como de sua propriedade, inclusive até o final de 2012 (Declaração de Bens da DIRPF - fl. 41). De modo semelhante, as despesas alocadas a outros endereços distintos do conjunto 55, a exemplo das fls. 77 (apto. 104), 117, 143, 219 (Av. Macuco) e 122/124, 224/226 (conjunto 54), não são dedutíveis uma vez que não vinculadas à atividade profissional. As despesas com telefonia celular também são consideradas indedutíveis (fls. 80/89), pela não comprovação de que as diversas linhas abrangidas (9532-9164 / 9635 9773 / 9966- 5532 / 9999-0333) tenham sido todas utilizadas exclusivamente para uso profissional, aliada ao fato de que, se comprovado, restaria a impossibilidade de sua divisão entre a profissional autônoma e a empresa. As despesas não diretamente ligadas a esse exercício profissional não são dedutíveis, a exemplo das despesas com alimentos (fls. 111/112, 190), chaveiro (fls. 118/119), tapetes (fls. 132/133), flores (fl. 135), aulas de música (fl. 136), contribuições associativas (fl. 213) e locação de veículos e transporte (fls. 52, 133/134, 140, 147/149). Quanto à última despesa, o art. 68, § único, II, dispõe que são indedutíveis as "despesas com locomoção e transporte, exceto na hipótese de representante comercial autônomo". Fl. 1542DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.649 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.723185/2014-72 11 As despesas sem comprovação de pagamento também não dedutíveis, exemplo das fls. 132/133. As despesas sem descrição, sem pagador ou com pagador distinto, ou ilegíveis também não dedutíveis, também são mantidas glosadas, pela impossibilidade de serem classificadas como necessárias à atividade de dermatologia, a exemplo das fls. 63/66, 103, 128, 139, 200, 205, 208/210 e 215. As despesas exemplificativas acima apontadas correspondem aos primeiros meses de 2012, verificando-se a reincidência qualitativa das despesas nos meses posteriores. Desta forma, uma vez que verificada a impossibilidade de divisão entre a pessoa física (autônoma) da Contribuinte e a pessoa jurídica de sua clínica das despesas alocadas ao endereço de exercício profissional de ambas, além da motivação individualmente exposta acima para as outras despesas consideradas indedutíveis, concluo por manter a glosa do livro caixa integralmente. De fato, não remanesce dúvida que todas as deduções levadas ao ajuste anual estão sujeitas à comprovação ou justificação por documentação hábil e idônea, a juízo da autoridade lançadora, nos termos dos arts. 73 e 76, § 2º do RIR/99, cabendo à contribuinte apresentar o suporte documental probatório necessário à confirmação de suas alegações. Destarte, e à míngua de comprovação efetiva e consistente, restando desatendidos os requisitos para dedutibilidade das despesas escrituradas no livro-caixa – levando-se em conta que tanto a PF (autônoma) e a PJ (Clínica Dermatológica) atuavam no mesmo endereço, prestando serviços dermatológicos, e que não foi possível distinguir e individualizar quais despesas corresponderiam aos serviços prestados separadamente, impossibilitando assim a divisão das despesas dos serviços dermatológicos prestados por ambas, bem pela inexistência de dispositivo legal dispondo acerca de seu rateio, aliado ao fato de que a PJ (Clínica Dermatológica) não registrou despesa relativa ao custo dos serviços prestados, além da motivação individualizada para as despesas consideradas não dedutíveis, ora novamente trazidas e já detidamente apreciadas pela DRJ/RJO – e constando a regularidade da ação fiscal, correta é a decisão recorrida, tudo em sintonia com a legislação de regência, razão pela qual mantenho a glosa e reconheço a subsistência do crédito tributário em litígio. Vale novamente relembrar que, o lançamento rege-se por expressa determinação legal, sendo a atividade fiscal vinculada e obrigatória, na exata dicção do art. 142 do CTN, competindo ao Fisco revisar a declaração de ajuste anual, calcular a exigência e constituir o crédito tributário, sob pena de responsabilidade funcional. Quanto ao escólio doutrinário trazido para justificar as pretensões recursais, tem-se que o mesmo não é oponível ao texto explícito do direito positivo, mormente em se tratando do direito tributário brasileiro, por sua estrita subordinação à legalidade, tudo à inteligência do art. 150, I, da CF/88. Em relação ao pedido de dilação probatória, com especial destaque para realização de prova pericial técnica contábil, não vislumbro a sua eventual necessidade, visto que o processo Fl. 1543DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.649 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.723185/2014-72 12 se encontra suficientemente instruído e é contundente em demonstrar a sujeição passiva em relação à autuação remanescente em litígio. Ademais no processo fiscal a produção probatória somente se justifica se necessária à formação de convicção do julgador (art. 18 do Decreto nº 70.235/72), o que se torna despiciendo no presente feito, cuja matéria, aliás, neste mesmo sentido, já se encontra assentada neste CARF: Súmula nº 163: Aprovada pelo Pleno em sessão de 06/08/2021 – vigência em 16/08/2021 O indeferimento fundamentado de requerimento de diligência ou perícia não configura cerceamento do direito de defesa, sendo facultado ao órgão julgador indeferir aquelas que considerar prescindíveis ou impraticáveis. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 12.975, de 10/11/2021, DOU de 11/11/2021). Por fim, quanto ao pedido de suspensão da cobrança do crédito tributário exigido, e como bem fundamentado na decisão recorrida, cabe salientar que, durante o curso processual, o crédito tributário ficará com a exigibilidade suspensa, na exata dicção do art. 151, III do CTN, sendo despiciendo o pedido formulado nesse sentido, sobretudo levando-se em conta que a suspensão requerida já foi aplicada por força de lei. Conclusão Ante o exposto, voto por rejeitar a preliminar de nulidade suscitada, e no mérito em NEGAR PROVIMENTO ao presente recurso, para manter o lançamento remanescente em litígio e as alterações decorrentes realizadas na base de cálculo do imposto de renda. É como voto. (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto Fl. 1544DF CARF MF Original http://idg.carf.fazenda.gov.br/noticias/2021/arquivos-e-imagens/portaria-me-no-12975-sumulas-carf-atribui-efeito-vinculante.pdf http://idg.carf.fazenda.gov.br/noticias/2021/arquivos-e-imagens/portaria-me-no-12975-sumulas-carf-atribui-efeito-vinculante.pdf Acórdão Relatório Voto

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11511947 #
Numero do processo: 16682.720865/2021-37
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Aug 05 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Sep 24 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2018 RECURSO ESPECIAL. ADMISSIBILIDADE. TEMPESTIVIDADE DO LAUDO. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Não se conhece de recurso especial contra matéria que não foi objeto de decisão no acórdão recorrido. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2018 AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. INTERPOSIÇÃO DE EMPRESA-VEÍCULO SEM SUBSTÂNCIA ECONÔMICA. É legítima a desconsideração de sociedade sem substância econômica própria e que se presta, apenas, a reproduzir formalmente os pressupostos necessários à aplicação dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e a viabilizar artificialmente o aproveitamento fiscal do ágio.
Numero da decisão: 9101-007.648
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas em relação à matéria possibilidade de amortização do ágio. No mérito, por voto de qualidade, acordam em dar provimento ao recurso, com retorno dos autos ao colegiado a quo para apreciação dos argumentos subsidiários de defesa não apreciados no acórdão recorrido, vencidos os Conselheiros Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic (relatora), Luis Henrique Marotti Toselli, Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior e Jandir José Dalle Lucca que votaram por negar provimento. Votaram pelas conclusões da divergência os Conselheiros Edeli Pereira Bessa e Guilherme Adolfo dos Santos Mendes. Designado para redigir os fundamentos do voto vencedor o Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Assinado Digitalmente Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic - Relatora Assinado Digitalmente Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Redator do voto vencedor e Presidente em exercício Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Maria Carolina Maldonado Mendonca Kraljevic, Efigenio de Freitas Junior (substituto integral), Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior, Jandir Jose Dalle Lucca, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente).
Nome do relator: MARIA CAROLINA MALDONADO MENDONCA KRALJEVIC

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ADMISSIBILIDADE. TEMPESTIVIDADE DO LAUDO. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Não se conhece de recurso especial contra matéria que não foi objeto de decisão no acórdão recorrido. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2018 AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. INTERPOSIÇÃO DE EMPRESA-VEÍCULO SEM SUBSTÂNCIA ECONÔMICA. É legítima a desconsideração de sociedade sem substância econômica própria e que se presta, apenas, a reproduzir formalmente os pressupostos necessários à aplicação dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e a viabilizar artificialmente o aproveitamento fiscal do ágio. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas em relação à matéria “possibilidade de amortização do ágio”. No mérito, por voto de qualidade, acordam em dar provimento ao recurso, com retorno dos autos ao colegiado a quo para apreciação dos argumentos subsidiários de defesa não apreciados no acórdão recorrido, vencidos os Conselheiros Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic (relatora), Luis Henrique Marotti Toselli, Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior e Jandir José Dalle Lucca que votaram por negar provimento. Votaram pelas conclusões da divergência os Conselheiros Edeli Pereira Bessa e Guilherme Adolfo dos Santos Mendes. Designado para redigir os fundamentos do voto vencedor o Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Fl. 1691DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 2 Assinado Digitalmente Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic – Relatora Assinado Digitalmente Fernando Brasil de Oliveira Pinto – Redator do voto vencedor e Presidente em exercício Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Maria Carolina Maldonado Mendonca Kraljevic, Efigenio de Freitas Junior (substituto integral), Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior, Jandir Jose Dalle Lucca, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso especial interposto pela Fazenda Nacional em face do Acórdão nº 1201-006.794, proferido em 16.05.2024, pela 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento (fls. 1499/1540), assim ementado: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2018 ÁGIO. CRIAÇÃO. AMORTIZAÇÃO. EMPRESA VEÍCULO. REAL ADQUIRENTE. É indedutível o ágio por rentabilidade futura formado na aquisição de ações por uma empresa veículo que foi constituída apenas com o objetivo de se obter ganhos tributários na amortização do ágio por parte da cedente que incorporou a empresa veículo. ÁGIO. RENTABILIDADE FUTURA. DEMONSTRAÇÃO DO VALOR ECONÔMICO FINANCEIRO. EFETIVIDADE E CONTEMPORANEIDADE. É ônus da adquirente e constitui requisito indispensável para a dedução da amortização do ágio correspondente de forma objetiva e precisa, a demonstração do valor econômico financeiro da participação societária em aquisição, a partir das perspectivas de rentabilidade futura da empresa. Não basta estimá-lo de forma subjetiva, é preciso determiná-lo e demonstrá-lo, matematicamente, de forma precisa, e arquivar a respectiva documentação, tudo ao tempo em que é feita a aquisição. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2018 ÁGIO. AMORTIZAÇÃO. GLOSA. PRAZO DECADENCIAL. Fl. 1692DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 3 Para fins de contagem do prazo decadencial para a constituição de crédito tributário relativo à glosa de amortização de ágio deve-se levar em conta o período de sua repercussão na apuração do tributo em cobrança, nos termos a Súmula Vinculante do Carf n°116. MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS MENSAIS. É aplicável a multa de 50%, isoladamente, sobre o valor de estimativa mensal que deixe de ser recolhido, ainda que o lançamento tenha sido feito após o encerramento do período de apuração do tributo. MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFÍCIO INCIDENTE SOBRE O TRIBUTO APURADO COM BASE NO LUCRO REAL ANUAL. COMPATIBILIDADE. Tratando-se de infrações distintas, é perfeitamente possível a exigência concomitante da multa de ofício isolada sobre estimativa obrigatória não recolhida ou recolhida a menor com a multa de ofício incidente sobre o tributo apurado, ao final do ano-calendário, com base no lucro real anual. JUROS MORATÓRIOS. INCIDÊNCIA. MULTA DE OFÍCIO A multa lançada de ofício constitui uma obrigação tributária principal, integrando efetivamente o crédito tributário. Os juros de mora incidem sobre a totalidade do débito quando não há o adimplemento no prazo legal, não há como justificar a não incidência desses juros sobre o valor da multa de ofício. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2018 AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. Somente pode ser considerado nulo o Auto de Infração lavrado por autoridade incompetente nos termos do art. 59 do PAF ou quando há inobservância dos pressupostos legais para a constituição do lançamento e para lavratura do auto de infração. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2018 TRIBUTOS REFLEXOS (CSLL) Aplicam-se, no julgamento dos autos de tributos reflexos, as mesmas razões de decidir utilizadas na fundamentação da decisão acerca da impugnação ao lançamento do IRPJ, nos pontos em que não tenha havido argumentação específica em relação aos tributos reflexos. Na oportunidade, os membros do colegiado, por unanimidade de votos, deram provimento ao recurso voluntário. Em seu recurso especial, sustenta a Fazenda Nacional que o referido acórdão conferiu à legislação tributária interpretação divergente daquela dada por outros julgados do CARF quanto às matérias “possibilidade de amortização do ágio”, com base nos Acórdãos Fl. 1693DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 4 paradigma de números 9101-003.612 e 9101-003.363; e “tempestividade do laudo de avaliação”, com base nos Acórdãos paradigma de números 1402-002.144 e 1301-001.788. No mérito, sustenta a Fazenda Nacional, em resumo, que (i) o disposto no artigo 7º da Lei nº 9.532/1997 autorizou a dedução fiscal da amortização do ágio pautado em rentabilidade futura quando ocorrer a confusão patrimonial entre controladora e controlada; (ii) segundo prevê o referido artigo 7º, após haver a confusão patrimonial entre controladora e controlada, o que pode ocorrer por meio de incorporação, fusão ou cisão, o ágio então registrado pela controladora poderá ter a despesa com a sua amortização contábil deduzida na apuração do IRPJ e da CSLL; (iii) no que tange aos investimentos realizados em sociedade coligada ou controlada, de acordo com o artigo 385 do RIR/99, em função do método de avaliação com base na equivalência patrimonial, o correspondente preço do ágio ou deságio deverá ser registrado pela parte que o suporta em conta distinta daquela onde é escriturado o valor patrimonial do investimento adquirido (desdobramento do custo de aquisição); (iv) para gozar da dedutibilidade preconizada no art. 386 do RIR/99, não basta a pessoa jurídica, por exemplo, simplesmente incorporar uma controlada na qual detenha participação societária com ágio; entre as condições e requisitos previstos, deve essa pessoa jurídica ter efetivamente suportado o ágio por ele registrado, ou seja, o ágio deve existir, deve ter propósito negocial e substrato econômico a justificar a sua origem; (v) para existir, o ágio ou deságio deve sempre ter como origem um propósito negocial (aquisição de um investimento) e, assim, um substrato econômico (transação comercial); (vi) o para existir, o ágio ou deságio deve sempre ter como origem um propósito negocial (aquisição de um investimento) e, assim, um substrato econômico (transação comercial); (vii) a aquisição de um investimento por meio de mera escrituração artificial, sem a sua real materialização no mundo econômico, e sem observar os requisitos impostos pela lei que concede o benefício fiscal, não é hábil a gerar um ágio cuja despesa de amortização será dedutível na apuração do IRPJ e da CSLL; (viii) para o reconhecimento da dedutibilidade de um ágio nos termos dos artigos 385 e 386 do RIR/99, esse ágio deve ter se pautado na rentabilidade futura da participação societária adquirida e, para a aferição dessa razão econômica, deve o documento que a atesta ter sido elaborado antes do efetivo pagamento da “mais valia” a que se refere; e (ix) com bem registrou o voto condutor do acórdão da impugnação, o laudo apresentado pelo contribuinte não é contemporâneo à operação analisada nem hábil a comprovar a expectativa de rentabilidade futura. Sobreveio o despacho de admissibilidade, que deu seguimento ao recurso especial da Fazenda Nacional, nos seguintes termos: 1- DIVERGÊNCIA QUANTO À POSSIBILIDADE DE AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. Para a demonstração da alegada divergência, foram apresentados os seguintes argumentos: (...) Vê-se que os paradigmas apresentados, Acórdãos nºs 9101-003.612 e 9101- 003.363, constam do sítio do CARF, e que eles não foram reformados na matéria que poderia aproveitar à recorrente. Fl. 1694DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 5 Além disso, esses paradigmas servem para a demonstração da alegada divergência jurisprudencial em relação ao acórdão recorrido. Realmente, há similitude fática entre os casos cotejados, e as decisões foram divergentes. Tanto no recorrido quanto nos paradigmas, os julgadores se ocuparam em examinar questão sobre a possibilidade de dedução de despesas de amortização de ágio pago com recursos transferidos por empresa ligada, no contexto de discussões sobre a figura do real adquirente (real investidor), a utilização de empresa veículo, a ocorrência ou não da confusão patrimonial que autorizaria a dedução do ágio, etc. O acórdão recorrido entendeu que “a Lei 9.532/97 permite ao contribuinte adquirir participações societárias mediante a interposição de empresas veículo, assegurando-lhe a amortização fiscal do ágio, inexistindo razões para demonizar sua utilização”. Já os paradigmas defenderam entendimento no sentido de que não tendo havido a confusão patrimonial entre a real adquirente (real investidora) e a empresa investida, ainda que a operação envolvesse partes independentes, com efetivo pagamento do ágio, o ágio não poderia ser dedutível das bases de cálculo do IRPJ e CSLL. A divergência, portanto, está caracterizada. Desse modo, proponho que seja DADO SEGUIMENTO ao recurso especial da PGFN para a matéria tratada neste primeiro tópico. 2- DIVERGÊNCIA QUANTO À TEMPESTIVIDADE DO LAUDO DE AVALIAÇÃO. Para a demonstração da alegada divergência, foram apresentados os seguintes argumentos: (...) Vê-se que os paradigmas apresentados, Acórdãos nºs 1402-002.144 e 1301- 001.788, constam do sítio do CARF, e que eles não foram reformados na matéria que poderia aproveitar à recorrente. Além disso, esses paradigmas servem para a demonstração da alegada divergência jurisprudencial em relação ao acórdão recorrido. Realmente, há similitude fática entre os casos cotejados, e as decisões foram divergentes. Tanto no recorrido quanto nos paradigmas, os julgadores se ocuparam em examinar questão sobre a necessidade de apresentação de laudo contemporâneo à operação que originou o ágio, para fins de sua dedutibilidade. De acordo com o acórdão recorrido, “a recorrente tem razão em parte quando alude à generalidade da norma quanto ao laudo, relativamente à redação vigente, à época dos fatos, do artigo 20, $ 32, do DL 1.598/77. É que o dispositivo não Fl. 1695DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 6 exigia um documento específico ou mesmo com qualquer fronteira de contemporaneidade aos fatos, como passou a ser após a Lei nº 12.973/14”. Os paradigmas, por outro lado, concluíram que a apresentação de laudo tempestivo, elaborado antes da operação que originou o ágio, é elemento indispensável para a sua dedutibilidade. A divergência, portanto, está caracterizada. Desse modo, há que ser DADO SEGUIMENTO ao recurso especial da PGFN para a matéria tratada neste segundo tópico. Intimado, o contribuinte apresentou contrarrazões, sustentando, quanto à admissibilidade, que (i) as discussões em torno do laudo de avaliação, tal como delineadas na autuação, foram superadas, tanto que não se discute mais nos autos se o laudo foi contemporâneo às operações e o CARF sequer reconheceu esse como um fundamento autônomo da autuação; (ii) não há divergência interpretativa, vez que o CARF, nos presentes autos, não fundamentou sua decisão na questão da tempestividade do laudo, mas sim na inexistência de artificialidade da operação e na legitimidade da amortização do ágio e a crítica ao laudo foi considerada acessória e irrelevante, pois vinculada à tese de empresa-veiculo; (iii) o trecho do acórdão recorrido transcrito pelo despacho de admissibilidade do recurso especial não reflete as efetivas razões de decidir da Turma; (iv) nada há no acórdão recorrido de menção à tempestividade de laudo que permita à PGFN afirmar que o entendimento adotado pela Turma diverge daquele exposto nos acórdãos paradigmas; (v) como consequência disso, não há qualquer divergência de interpretação de norma a justificar a admissão do Recurso Especial nesta parte, impondo-se o seu não conhecimento quanto à tempestividade do laudo; (vi) os acórdãos paradigmas 1402-002.144 e 1301-001.788 sequer tratam de fatos semelhantes aqueles analisados nos presentes autos, já que, em tais casos, o CARF legitimou acusações fiscais que questionavam o laudo de avaliação com base no argumento de que este teria sido elaborado posteriormente à operação; (vii) a análise atenta das decisões permite verificar que os acórdãos paradigmas, em verdade, não se prestaram a comprovar a divergência exigida à admissibilidade do recurso dirigido a esta C. CSRF, eis que proferidos em contexto fático completamente diverso; (viii) o ponto fulcral da discussão nos acórdãos paradigmas é a elaboração tardia do laudo, o que, segundo a interpretação então adotada, violaria o 8 39 do art. 20 do Decreto-Lei n° 1.598/77 (vigente à época), que exige que o registro do ágio seja “baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante de escrituração”; e (ix) a situação fática aqui tratada é completamente distinta daquela trazida nos acórdãos paradigmas: a Autoridade Fiscal supostamente” questiona o fato de que o laudo foi preparado anos antes da operação, e não depois. No mérito, sustenta, em resumo, que (i) a posição da autoridade lançadora caminha em sentido contrário à intenção do legislador ordinário, instituidor do mecanismo de amortização fiscal do ágio, que buscava uma antecipação de caixa ao Governo Federal (organismo do qual faz parte a própria Receita Federal do Brasil) nos processos de privatização, por meio da indução das Fl. 1696DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 7 partes interessadas nos leilões de privatização a ofertarem o maior preço possível tendo em conta esse mecanismo; (ii) a Lei 9.532/97 (ou qualquer outra norma à época vigente) não traz qualquer exigência no sentido de que apenas a “confusão patrimonial” entre a pessoa que “efetivamente teria suportado o investimento” e a sociedade investida poderia dar origem à amortização fiscal do ágio, ao contrário, a norma se limita a descrever que, na hipótese de incorporação entre investidora e investida, está autorizada a amortização fiscal do ágio; (iii) em regra, verificando-se o antecedente do art. 7º da Lei 9.532/97 (incorporação entre investidora e investida), deve-se aplicar seu consequente, que é a autorização para amortização do ágio para fins fiscais e a única exceção à aplicação do consequente da norma é a constatação da fraude, dolo ou da simulação, nos termos do art. 149, VII, do CTN; (iv) no presente caso, não há qualquer questionamento quanto à validade formal ou substancial das operações praticadas, há, isso sim, uma ilegal desconsideração da existência da CBI, efetuada com base em conceitos que não existem na Lei 9.532/97 ou em qualquer norma existente no ordenamento; (v) a autoridade lançadora não questiona que a CBI efetivamente adquiriu as ações da Recorrida junto à Anglo American, também não questiona o fato de que a CBI realizou o pagamento - com recursos detidos por ela - para aquisição da participação societária e, no mesmo sentido, não há questionamento quanto aos lançamentos contábeis efetuados pela CBI para registro do investimento; (vi) apesar das elocubrações da autoridade fiscal, o fato é que a operação ocorreu efetivamente entre a CBI e a Recorrida: foi a CBI quem desembolsou os valores para pagamento à Anglo American em razão da aquisição de metade das ações da Recorrida e, não sem razão, foi a CBI quem registrou o ágio relativo ao investimento feito na Recorrida; (vii) a figura do “real adquirente”, como quer a autoridade fiscal, requer a desqualificação dos atos e negócios jurídicos regular e legalmente praticados, a exemplo da compra da participação na Recorrida feita pela CBI; (viii) afirmar que a Vale é a “Real Investidora” é, portanto, claro e evidente artifício, que visa apenas e tão somente a apresentar uma pretensa justificativa para se afastar o direito à amortização fiscal do ágio; (ix) em 19/06/2002, a Vale e a CBI celebraram o Contrato de Adiantamento para Futuro Aumento de Capital (fls. 13.710 - “Contrato de AFAC”) por meio do qual a Vale transferiu à CBI os recursos utilizados para a aquisição e, uma vez transferidos os recursos à CBI, eles passam a ser de propriedade dessa empresa que, por sua vez, se compromete a repagar o valor à Vale ou a convertê-lo em ações a serem subscritas pela Vale; (x) o próprio CARF e a CSRF têm proferido diversas decisões - e de maneira reiterada - esclarecendo que a existência de uma empresa- veículo não é elemento suficiente para desqualificar a validade das operações (e, consequentemente, do ágio a elas associado), contanto que os requisitos legais sejam cumpridos; (xi) os contribuintes podem organizar suas atividades econômicas livremente, nada havendo no sistema jurídico brasileiro que impeça a adoção de estruturas que resultem em maximização dos lucros empresariais e, inclusive, na redução da carga tributária, desde que esse objetivo seja atingido de forma lícita, observando-se os ditames e comandos da legislação tributária; (xi) segundo a redação original do 83º, artigo 20, do Decreto-Lei 1.598/77, em vigor à época dos fatos, o registro do ágio fundamentado na expectativa de rentabilidade futura da participação a ser adquirida “deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante Fl. 1697DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 8 de escrituração”; (xii) qualquer documento utilizado pela sociedade que irá registrar o ágio como fundamento para seu pagamento deve ser aceito pela fiscalização: basta que este documento seja hígido (i.e. não seja fraudulento) e que demonstre que havia expectativa de rentabilidade futura que justifique o valor do ágio pago; (xiii) a legislação não prevê qualquer restrição à forma ou à metodologia utilizadas para a fundamentação do ágio em rentabilidade futura, de tal modo que não cabe às autoridades fiscais estabelecerem requisitos adicionais; (xiv) caso fosse requerida forma especial ou prazo máximo para elaboração do demonstrativo do ágio na redação original do mencionado dispositivo, não seria necessária a alteração promovida pela Lei 12.973/14, no qual o ágio deixa de ser objeto de demonstração ou laudo, passando a ser obrigatória a avaliação da maisvalia ou menos-valia dos ativos líquidos da empresa investida, que deve ser elaborada e protocolada até o último dia útil do 13º mês subsequente ao da aquisição da participação societária; (xv) não há, assim, como se questionar que a CBI e a Recorrida cumpriram o comando do 830, artigo 20, do Decreto-Lei 1.598/77 e esse cumprimento se deu tanto sob a ótica literal, posto que a Recorrida arquivou o demonstrativo que serviu de base à escrituração, quanto sob a ótica sistemática-teleológica, visto que o documento comprova que o preço pago à Anglo American pela CBI estava lastreado na rentabilidade futura do empreendimento; (xvi) a própria fiscalização reconhece que o Laudo de Avaliação comprova, por meio do método do fluxo de caixa descontado, que a rentabilidade futura esperada da Recorrida era muito superior ao preço pago pela CBI e, considerando-se a superioridade dessa rentabilidade futura, somente se pode concluir que a totalidade do sobrepreço foi paga em razão dessa expectativa - devidamente justificada pelo Laudo de Avaliação; e (xvii) o Laudo de Avaliação avaliou exatamente o bem detido pela Companhia que, em conjunto com seus ativos (estudos e maquinário adequado), dão origem à rentabilidade do investimento realizado pela CBI. É relatório. VOTO VENCIDO Conselheira Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic, Relatora I – ADMISSIBILIDADE O prazo para o sujeito passivo e para a Fazenda Nacional interporem recurso especial é de 15 dias contados da data de ciência da decisão recorrida. E eventuais embargos de declaração opostos tempestivamente, isto é, no prazo de 5 dias da ciência do acórdão embargado, interrompem o prazo para a interposição de recurso especial1. Ainda, de acordo com o art. 5º do Decreto nº 70.235/1972, os prazos são contínuos, excluindo-se na sua contagem o dia do início e incluindo-se o do vencimento. Ademais, os prazos só se iniciam ou vencem em dia de expediente normal no órgão em que corra o processo ou deva ser praticado o ato. 1 Tais previsões estavam contidas nos artigos 65 e 68 do Regimento Interno do CARF (“RICARF”) aprovado pela Portaria MF nº 343/2015 e, atualmente, são objeto dos artigos 119 e 116 do RICARF aprovado pela Portaria MF nº 1.634/2023. Fl. 1698DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 9 Especialmente no que se refere à Fazenda Nacional, de acordo com os artigos 23, § 9º, do Decreto nº 70.235/1972, e 7º, §5º, da Portaria MF 527/2010, o prazo para a interposição do recurso será contado a partir da data da intimação pessoal presumida, isto é, 30 dias contados da entrega dos respectivos autos à PGFN, ou em momento anterior, na hipótese de o Procurador se dar por intimado mediante assinatura no documento de remessa e entrega do processo administrativo. No presente caso, os autos foram encaminhados à PGFN para ciência do acórdão recorrido em 25.07.2024 (fl. 1541) e devolvidos com recurso especial em 05.09.2024 (fl. 1618). Assim, é tempestivo o recurso especial ora em análise. No exame da admissibilidade do recurso especial, além da tempestividade e dos demais requisitos contidos na legislação, é preciso verificar: (i) o prequestionamento da matéria, que deve ser demonstrado pelo recorrente com a precisa indicação na peça recursal do prequestionamento contido no acórdão recorrido, no despacho que rejeitou embargos opostos tempestivamente ou no acórdão de embargos; e (ii) a divergência interpretativa, que deve ser demonstrada por meio da indicação de até duas decisões por matéria, bem como dos pontos nos paradigmas que divirjam de pontos específicos do acórdão recorrido. Com relação à divergência, o Pleno da CSRF concluiu que “a divergência jurisprudencial deve ser comprovada, cabendo a quem recorre demonstrar as circunstâncias que identifiquem ou assemelham os casos confrontados, com indicação da similitude fática e jurídica entre eles”2. Para fins didáticos, analisaremos, de forma segregada, cada uma das matérias objeto do recurso especial da Fazenda Nacional, devidamente admitidas. I.1 - Possibilidade de amortização do ágio O acórdão recorrido enfrentou a possibilidade de amortização fiscal do ágio, estando, pois, prequestionada a matéria. No que se refere à divergência interpretativa, o acórdão recorrido analisou a aquisição de participação societária da Salobo pela CBI com recursos transferidos pela Vale em razão de contrato de adiantamento para futuro aumento de capital (“AFAC”), com a finalidade específica de adquirir 50% do capital da Salobo. Um ano e dois meses após a aquisição da participação societária, a CBI foi incorporada pela Salobo e o ágio passou a ser amortizado para fins fiscais. De acordo com a Autoridade Fiscal, não teria havido a exigida confusão patrimonial entre a real investidora – Vale – e a investida - Salobo - e a CBi seria uma “empresa ‘de papel’, sem qualquer fundamento econômico ou qualquer perspectiva de rentabilidade futura”, que “nunca existiu de fato: não realizava atividade operacional e não tinha sede própria” (fl. 1503). Nesse contexto, o relator do acórdão recorrido, inicialmente, fez considerações pessoais sobre a amortização fiscal do ágio e, em seguida, passou a adotar, em razão do princípio 2 Acórdão n. 9900-00.149, de 08.12.2009. Fl. 1699DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 10 da colegialidade, a posição da turma com relação à possibilidade de amortização fiscal do ágio com uso de empresa-veículo. Confira-se: Assim, fosse esse um julgamento monocrático, essa seria a sorte do presente caso. Tampouco assim não fora, este Colegiado, amparado em contemporânea, elevada e respeitável jurisprudência, vem se posicionando em sentido contrário. Temos afirmado a validade da amortização do ágio gerado com emprego de empresa veículo, desde que tal sociedade não tenha sido constituída sob estratagema doloso. De tal modo, em face do princípio da colegialidade insto-me a não carrear voz discordante, curvando-me ao judicioso entendimento da maioria da Turma, bem ilustrado na figura dos seguintes julgados: Acórdão CSRF nº 9101-006.486, de 07/03/2023: UTILIZAÇÃO DE EMPRESA VEÍCULO. LEGALIDADE. MANUTENÇÃO DA DEDUTIBILIDADE DO ÁGIO. O ágio fundamentado em rentabilidade futura, à luz dos artigos 7o e 8o da Lei n° 9.532/97, pode ser deduzido por ocasião da absorção do patrimônio da empresa que detém o investimento pela empresa investida (incorporação reversa). O uso de holding (ou empresa veículo), constituída no Brasil com recursos provenientes do exterior, para adquirir a participação societária com ágio e, em seguida, ser incorporada pela investida, reunindo, assim, as condições para o aproveitamento fiscal do ágio. não caracteriza simulação, de modo que é indevida a tentativa do fisco de requalificar a operação tal como foi formalizada e declarada pelas partes. TRANSFERÊNCIA DOS RECURSOS POR EMPRESA CONTROLADORA DOMICILIADA NO EXTERIOR PARA SOCIEDADE HOLDING. LEGITIMIDADE DA DEDUÇÃO DO ÁGIO. IMPROCEDÊNCIA DA TESE DO REAL ADQUIRENTE. A transferência, por controladora domiciliada no exterior, dos recursos empregados na aquisição de participação societária por empresa holding constituída no Brasil não impede a amortização fiscal do ágio após esta ser incorporada pela investida. A tese do "real adquirente", que busca limitar o direito à dedução fiscal do ágio apenas na hipótese de existir confusão patrimonial entre a pessoa jurídica que disponibilizou os recursos necessários à aquisição do investimento e a investida, não possui fundamento legal, salvo quando caracterizada hipótese de simulação, o que não se revela no caso. (grifei) STJ, Recurso Especial nº 2.026.473-SC, de 05/09/2023: Fl. 1700DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 11 PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. INEXISTÊNCIA. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. FIM DE PREQUESTIONAMENTO. MULTA. DESCABIMENTO. IMPOSTO DE RENDA E CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO. ÁGIO. DESPESA. DEDUÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. OPERAÇÃO ENTRE PARTES DEPENDENTES. POSSIBILIDADE. 'NEGÓCIO JURÍDICO ANTERIOR À ALTERAÇÃO LEGAL. EMPRESA-VEÍCULO. PRESUNÇÃO DE INDEDUTIBILIDADE. ILEGALIDADE. [...] 4. A controvérsia principal dos autos consiste em saber se agiu bem o Fisco ao promover a glosa de despesa de ágio amortizado pela recorrida com fundamento nos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/1997. sob o argumento de não ser possível a dedução do ágio decorrente de operações internas (entre sociedades empresárias dependentes) e mediante o emprego de "empresaveículo". 5. Ágio, segundo a legislação aplicável na época dos fatos narrados na inicial, consistiria na escrituração da diferença (para mais) entre o custo de aquisição do investimento (compra de participação societária) e o valor do patrimônio líquido na época da aquisição (art. 20 do Decreto-Lei n. 1.598/1977). 6. Em regra, apenas quando há a alienação, liquidação, extinção ou baixa do investimento é que o ágio a elas vinculado pode ser deduzido fiscalmente como custo, para fins de apuração de ganho ou perda de capital. 7. A exceção à regra da indedutibilidade do ágio está inserida nos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/1997, os quais passaram a admitir a dedução quando a participação societária é extinta em razão de incorporação, fusão ou cisão de sociedades empresárias. 8. A exposição de motivos da Medida Provisória n. 1.602/1997 (convertida na Lei n. 9.532/1997) visou limitar a dedução do ágio às hipóteses em que fossem acarretados efeitos econômico-tributários que a justificassem. 9. O Código Tributário Nacional autoriza que a autoridade administrativa promova o lançamento de ofício quando "se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo. fraude ou simulação" (art. 149. VII) e também contém norma geral antielisiva (art. 116. parágrafo único), a qual poderia, em última análise, até mesmo justificar a requalificação de negócios jurídicos ilícitos/dissimulados, embora prevaleça a orientação de que a "plena eficácia da norma depende de lei ordinária para estabelecer os procedimentos a serem seguidos" (STF. ADI 2446. rel. Min. Carmen Lúcia). 10. Embora seja justificável a preocupação quanto às organizações societárias exclusivamente artificiais, não é dado à Fazenda, alegando buscar extrair o "propósito negocial" das operações, impedir a Fl. 1701DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 12 dedutibilidade, por si só, do ágio nas hipóteses em que o instituto é decorrente da relação entre "partes dependentes" (ágio interno), ou quando o negócio jurídico é materializado via "empresa-veículo", ou seja. não é cabível presumir, de maneira absoluta, que esses tipos de organizações são desprovidos de fundamento material/econômico. 11. Do ponto de vista lógico-jurídico, as premissas em que se baseia o Fisco não resultam automaticamente na conclusão de que o "ágio interno" ou o ágio resultado de operação com o emprego de "empresa-veículo" impediria a dedução do instituto em exame da base de cálculo do lucro real, especialmente porque, até 2014, a legislação era silente a esse respeito. 12. Quando desejou excluir, de plano, o ágio interno, o legislador o fez expressamente (com a inclusão do art. 22 da Lei n. 12.973/2014), a evidenciar que, anteriormente, não havia vedação a ele. 13. Se a preocupação da autoridade administrativa é quanto à existência de relações exclusivamente artificiais (como as absolutamente simuladas), compete ao Fisco, caso a caso. demonstrar a artificialidade das operações, mas jamais pressupor que o ágio entre partes dependentes ou com o emprego de "empresa-veículo" já seria, por si só, abusivo. 14. No caso concreto, adotando o cenário fático narrado na sentença e no acórdão, em razão dos limites impostos pela Súmula 7 do STJ, não há demonstração de que as operações entabuladas pela parte recorrida foram atípicas, artificiais ou desprovidas de função social, a ponto de justificar a glosa na dedução do ágio. [...] (grifei) Afastando a tese do “real adquirente”, esta Turma vem entendendo que, ausentes caracteres de conduta dolosa – tal qual no caso presente, uma vez que nem sequer houve qualificação da multa de ofício – o “dever fundamental de pagar tributos” não deve ser tomado pelo valor máximo da exação, desde que, naturalmente, não incida determinação legal que conduza a tal quadro. De fato, entender pela assunção espontânea, pelo sujeito passivo, de maior ônus tributário, é patriotada que não se deve esperar de contribuinte algum. Sob tal prisma, é possível concluir que, no caso concreto em análise, as operações de aquisição e incorporação, tomadas em conjunto, possuíam um propósito negocial lícito de economia de tributos, não produzindo, por conseguinte, uma vantagem tributária antijurídica e não configuram uma fraude, de forma que o racional acusatório laborado pela fiscalização não possui suporte fático/jurídico, pelo que as glosas da amortização do ágio devem ser afastadas. Nesse contexto, é útil referir ao racional desenvolvido no voto condutor do recentíssimo acórdão nº 1201-006.316, que, pelo elevado grau de aderência das razões lá esposadas ao caso ora em análise, faço integrar ao presente voto os seguintes trechos: (...) Fl. 1702DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 13 Ante o exposto, afasto a glosa do ágio. Portanto, no acórdão recorrido, diante de um ágio gerado a partir da aquisição de participação societária com uso de empresa-veículo supostamente sem substância econômica, concluíram os julgadores pela possibilidade de sua amortização fiscal – apesar de a ementa do acórdão recorrido estar em dissonância com o voto. No Acórdão paradigma nº 9101-003.612, por sua vez, após tecer considerações teóricas acerca da exigência de confusão patrimonial entre a “real investidora” e a investida, passaram os julgadores a analisar o caso concreto, nos seguintes termos: Conclui-se, portanto, que o art. 386 do RIR/1999, sob o aspecto pessoal, se dirige à investidora que vier a incorporar sua investida (ou por ela ser incorporada), após ter efetivamente acreditado na mais valia do investimento, feito os estudos de rentabilidade futura e desembolsado os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço, pago em momento anterior pela investidora em razão da confiança na rentabilidade futura da investida. (...) No caso analisado nos presentes autos, é incontroverso que houve desembolso de valores por ocasião da aquisição das ações da recorrente (PIMACO). Também não se discute que tais valores superaram os valores contábeis das ações alienadas. A existência do ágio oriundo de tal operação não foi alvo de questionamento pela Fiscalização ou pela própria PGFN, nas contrarrazões que opôs ao recurso especial da contribuinte. Ocorre que os recursos financeiros utilizados na aquisição das ações da recorrente não pertenciam à BFL Participações e Empreendimentos, mas sim aos seus sócios controladores (grupo BIC), que realizaram, em agosto de 2006, aportes de recursos em torno de 100 milhões de reais na BFL, empresa que tinham acabado de criar no mês anterior, com o objetivo específico de realizar, por meio dela (BFL), a aquisição da empresa PIMACO (ora recorrente). Interpretando-se o conteúdo do art. 386 do RIR/1999 sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, verifica-se que não restaram observados, no caso concreto, os aspectos pessoal e material necessários à subsunção da situação fática à previsão normativa. Sendo assim, a recorrente não fazia jus ao direito de deduzir as despesas decorrentes da amortização do ágio oriundo da operação levada a cabo em 05/09/2006. Como não foi a BFL que desembolsou os valores que deram origem ao ágio contábil, restou desatendido o aspecto pessoal da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999. O numerário que pagou pela aquisição das ações da recorrente, no ano de 2006, saiu dos ativos dos reais investidores: Grupo BIC. Fl. 1703DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 14 A empresa BFL, embora conste formalmente como a adquirente das ações da recorrente, não tinha lastro econômico para efetivamente realizar algum sacrifício patrimonial que justificasse a criação do ágio. Pertencia aos seus sócios controladores (Grupo BIC) a capacidade econômica para levar adiante o negócio de aquisição da PIMACO, e foram efetivamente esses sócios controladores que desembolsaram recursos para a aquisição das ações da PIMACO (ora recorrente). Observa-se, pela conjugação dos indícios e das características das operações societárias que se sucederam, que a participação da BFL foi antecipada e artificialmente concebida como forma de o grupo econômico recém formado poder posteriormente clamar pelo direito ao aproveitamento tributário do ágio previsto no art. 386 do RIR/1999. A constituição e os aportes de capital na BFL visaram exclusivamente à sua utilização como "empresa veículo": ela receberia os valores dos reais investidores (Grupo BIC), aplicaria tais riquezas na aquisição das ações da PIMACO e seria, em seguida, incorporada por esta. Verifica-se que a BFL teve duração efêmera e deixou como único legado a possibilidade de utilização indevida de um benefício fiscal, como é característico das "empresas veículos". (...) A empresa BFL foi incorporada pela recorrente, e esta, julgando que estaria configurada a "confusão patrimonial" entre o ágio e o investimento que lhe deu causa, passou a aproveitar as despesas da amortização do ágio para fins tributários. Ocorre que tal "confusão patrimonial", principal manifestação do aspecto material necessário à efetiva incidência da norma tributária prevista no art. 386 do RIR/1999, deve obrigatoriamente se dar entre a investida e a investidora originária, real. Por investidora originária, entende-se aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição da participação societária. No caso sob análise, quem está nesse papel são os sócios controladores da BFL. Mas após as referidas operações societárias, o que se constata é que os reais investidores e a investida permaneceram como empresas apartadas. Com efeito, a PIMACO se manteve intacta e isolada das demais empresas do grupo BIC. Sendo assim, a amortização operada pelo recorrente não teve amparo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 ou dos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Conforme se viu, a possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, só tem sentido em situações em que a investidora de fato, responsável por arcar com o dispêndio que faz nascer o ágio, incorpora a pessoa jurídica em que possua participação societária (investimento) ou seja por ela incorporada. No caso dos autos, a investidora originária não participou de "confusão patrimonial" alguma. Vê-se, portanto, que o Acórdão paradigma nº 9101-003.612 analisou situação na qual a dita “real investidora” integraliza na denominada “empresa-veículo” o capital necessário para a aquisição do investimento com ágio. E, diante dessa situação, em síntese, concluem os Fl. 1704DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 15 julgadores pela ausência de confusão patrimonial entre a “real investidora” e a investida, o que, supostamente, violaria os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997. Apesar de no Acórdão paradigma nº 9101-003.612 o capital necessário para a aquisição da participação societária ter sido transferido para a empresa-veículo via integralização de capital e, no acórdão recorrido, via AFAC, entendo que isso não é suficiente para desassemelhar os referidos casos, estando, pois, caracterizada a divergência interpretativa. Assim, deve ser conhecido o recurso especial da Fazenda Nacional com relação ao Acórdão paradigma nº 9101-003.612. Com relação ao Acórdão paradigma nº 9101-003.363, por sua vez, o redator do voto vencedor foi o mesmo relator do Acórdão paradigma nº 9101-003.612, de forma que, após tecer considerações teóricas muito similares, passou a aplicá-las ao caso concreto, nos seguintes termos: Conclui-se, portanto, que o art. 386 do RIR/1999, sob o aspecto pessoal, se dirige à investidora que vier a incorporar sua investida (ou por ela ser incorporada), após ter efetivamente acreditado na mais valia do investimento, feito os estudos de rentabilidade futura e desembolsado os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço, pago em momento anterior pela investidora em razão da confiança na rentabilidade futura da investida. (...) No caso analisado nos presentes autos, é incontroverso que houve desembolso de valores nas várias etapas que integraram a aquisição das quotas representativas do capital social da contribuinte KCB e da KENKO. Também não se discute que os valores despendidos superaram o valor contábil das quotas alienadas. A existência do ágio oriundo de tais operações não foi alvo de questionamento pela Fiscalização ou pela própria PGFN em seu recurso especial. Ocorre que os recursos financeiros utilizados na aquisição das quotas da contribuinte e da KENKO não pertenciam às empresas KCTissueB, KCdoB, KCC ou KCR, mas às controladores estrangeiras do grupo KIMBERLYCLARK: KC_DELAWARE, KC_PENSILVANIA, KIMBERLYCLARK HOLLAND HOLDINGS BV e KIMBERLYCLARK CORPORATION. Tais empresas internalizaram em território brasileiro a integralidade dos valores utilizados nas operações de aquisição de participações societárias com ágio, por meio de operações de integralização de aumento de capital das controladas brasileiras, de pagamentos de empréstimos contraídos no exterior ou ainda de concessão de empréstimos entre suas controladas brasileiras, posteriormente liquidados por confusão. Interpretando-se o conteúdo do art. 386 do RIR/1999 sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, verifica-e que não restaram observados, no caso concreto, os aspectos pessoal e material necessários à subsunção da situação fática à previsão normativa. Fl. 1705DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 16 Sendo assim, a contribuinte recorrida não fazia jus ao direito de deduzir as despesas decorrentes da amortização do ágio oriundo das operações de aquisição das suas quotas e das representativas do capital da empresa KENKO. Como não foram a KCTissueB, a KCdoB, a KCC ou a KCR que desembolsaram o valores que deram origem aos ágios contábeis, restou desatendido o aspecto pessoal da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999. Os numerários que pagaram pela aquisição das quotas da contribuinte recorrida e da KENKO saíram dos ativos das reais investidoras, KC_DELAWARE, KC_PENSILVANIA, KIMBERLYCLARK HOLLAND HOLDINGS BV e KIMBERLYCLARK CORPORATION. As empresas KCTissueB, KCdoB, KCC e KCR, embora constem formalmente como as adquirentes das quotas da contribuinte e da KENKO, não tinham lastro econômico para efetivamente realizarem algum sacrifício patrimonial que justificasse a criação dos ágios. Pertencia às empresas estrangeiras KC_DELAWARE, KC_PENSILVANIA, KIMBERLYCLARK HOLLAND HOLDINGS BV e KIMBERLYCLARK CORPORATION a capacidade econômica para levar adiante os negócios de aquisição das participações societárias e foram efetivamente estas empresas que desembolsaram recursos para a aquisição das quotas da recorrida e da KENKO. As investidoras estrangeiras provavelmente sabiam que, se realizassem os investimentos diretamente na aquisição das quotas da contribuinte e da KENKO, sem a participação de empresas sediadas em território brasileiro, não poderiam posteriormente pleitear o aproveitamento tributário dos ágios oriundos das operações. Por se tratarem de pessoas jurídicas sediadas no exterior, as investidoras não se submetem à legislação tributária brasileira. A posterior incorporação de uma controlada brasileira provavelmente não provocaria os mesmos efeitos tributários para as investidoras em seu país de origem. Assim optaram as empresas estrangeiras integrantes do grupo multinacional KIMBERLYCLARK por adotar procedimentos de engenharia societária que permitissem, ao final, a reunião dos ágios e dos investimentos que lhes deram causa em uma mesma pessoa jurídica (a contribuinte KCB), situação semelhante à requerida pela legislação para permitir o uso tributário do ágio, mas não o suficiente para emular-lhe os efeitos. Observa-se, pela conjugação dos indícios e das características das operações societárias que se sucederam, que a participação das empresas KCTissueB, KCdoB, KCC e KCR foi antecipada e artificialmente concebida como forma de o grupo econômico recém formado em território brasileiro poder posteriormente clamar pelo direito ao aproveitamento tributário do ágio previsto no art. 386 do RIR/1999. Não invalida tal conclusão o fato de a primeira operação de compra de participação societária da empresa KENKO ter se dado no ano de 1996, antes, portanto, do início da vigência da Lei nº 9.532/1997. Todas as demais operações, responsáveis pela geração de um ágio quantificado em assombrosos R$ Fl. 1706DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 17 565.419.803,30 (de um total de R$ 631.570.243,60, quando considerada a operação realizada em 1996), foram realizadas após o início da vigência da citada lei. As holdings KCTissueB, KCdoB, KCC e KCR, constituídas pelo grupo KIMBERLYCLARK no Brasil, não possuíam patrimônio relevante antes de tomarem parte nas operações analisadas no presente processo. Sendo assim, atuaram efetivamente como "empresas veículos" ao receberem valores das reais investidoras estrangeiras com a finalidade específica de aplica-los na aquisição de quotas da contribuinte KCB e da KENKO e serem em seguida por estas incorporadas. Verifica-se que após a extinção das mencionadas holdings, por conta de sua incorporação pelas investidas, o único legado deixado foi a aventada possibilidade de utilização indevida de um benefício fiscal, como é característico das "empresas veículos". As empresas KCTissueB, KCdoB, KCC e KCR foram todas, ao final das operações de reorganização societária analisadas, incorporadas pela contribuinte KCB (de forma direta ou após terem sido incorporadas pela KENKO, esta posteriormente incorporada pela KCB). Depois disso, a contribuinte, julgando que estaria configurada a "confusão patrimonial" entre os ágios e os investimentos que lhes deram causa, passou a aproveitar as despesas da amortização do ágio para fins tributários. Ocorre que tal "confusão patrimonial", principal manifestação do aspecto material necessário à efetiva incidência da norma tributária prevista no art. 386 do RIR/1999, deve obrigatoriamente se dar entre a investida e a investidora originária, real. Por investidora originária, entende-se aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição da participação societária. Ou seja, no caso sob análise, a reais investidoras são as empresas KC_DELAWARE, KC_PENSILVANIA, KIMBERLYCLARK HOLLAND HOLDINGS BV e KIMBERLYCLARK CORPORATION (e apenas estas). Sendo assim, a amortização operada pela recorrida não teve amparo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 ou dos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Conforme se viu, a possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, só tem sentido em situações em que a investidora de fato, responsável por arcar com o dispêndio que faz nascer o ágio, incorpora a pessoa jurídica em que possua participação societária (investimento) ou é por ela incorporada. No caso dos autos, as investidoras reais não participaram de "confusão patrimonial" alguma. Vê-se, pois, que o Acórdão paradigma nº 9101-003.363 possui elemento que o distancia do acórdão recorrido. No referido caso, as “reais investidoras” estavam localizadas no exterior e isso, de acordo com o voto vencedor, faria com que a incorporação da investida pelas “reais investidoras” não tivesse o condão de gerar a amortização fiscal do ágio, o que levou à Fl. 1707DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 18 criação do artificial grupo econômico no Brasil – situação que não está presente no acórdão recorrido. Diante disso, não deve ser conhecido do recurso especial na presente matéria com relação ao Acórdão paradigma nº 9101-003.363, mas somente com base no Acórdão paradigma nº 9101-003.612. I.2 - Tempestividade do laudo de avaliação No que se refere à matéria “tempestividade do laudo de avaliação”, os trechos do acórdão recorrido invocado pela Fazenda Nacional, para demonstrar o prequestionamento e a divergência interpretativa, consistem em opinião pessoal do relator, não integrando a fundamentação do acórdão proferido pelo colegiado. Veja-se: Do mérito (...) Quanto à existência de um laudo de avaliação prévio, a fiscalização bem apontou que o documento entregue no curso do procedimento fiscal foi “elaborado em 05 de novembro de 1996, quando da transferência dos direitos minerários da jazida da VALE para a SALOBO”, bem assim “tinha como objetivo certificar se o valor de R$ 198.746.666,32 tinha sido adequadamente atribuído pela VALE aos seus direitos minerários da jazida de Salobo que seriam transferidos à SALOBO, passando a incorporar o patrimônio desta, não tendo nada a ver com a transação que se daria 6 anos depois”. De outro bordo, a recorrente assinala que a norma de regência da matéria “faz referência unicamente a uma “demonstração”. O termo utilizado pelo legislador é bastante amplo e dá liberdade ao contribuinte de se valer de qualquer meio, método ou documentação hábil para comprovar a motivação da rentabilidade futura da aquisição”. E conclui que “qualquer documento utilizado pela sociedade que irá registrar o ágio como fundamento para seu pagamento deve ser aceito pela fiscalização: basta que este documento seja hígido (i.e. não seja fraudulento) e que demonstre que havia expectativa de rentabilidade futura que justifique o valor do ágio pago”. A recorrente tem razão em parte quando alude à generalidade da norma quanto ao laudo, relativamente à redação vigente, à época dos fatos, do artigo 20, § 3º, do DL 1.598/77. É que o dispositivo não exigia um documento específico ou mesmo com qualquer fronteira de contemporaneidade aos fatos, como passou a ser após a Lei nº 12.973/14. Mas aquela redação já exigia que o lançamento do ágio (§ 2º) deveria ser baseado em uma demonstração a ser arquivada, pelo contribuinte, como comprovante do valor escriturado. Ora, no caso em tela, o que se tem é um audo que avalia direitos minerários em R$ 198.746.666,32. E isso é algo bem diferente de Fl. 1708DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 19 mensurar a aquisição societária no montante de R$ 136.158.830,88, de onde se destacaria um ágio de R$ 88.471.565,65. Assim, fosse esse um julgamento monocrático, essa seria a sorte do presente caso. Tampouco assim não fora, este Colegiado, amparado em contemporânea, elevada e respeitável jurisprudência, vem se posicionando em sentido contrário. Temos afirmado a validade da amortização do ágio gerado com emprego de empresa veículo, desde que tal sociedade não tenha sido constituída sob estratagema doloso. De tal modo, em face do princípio da colegialidade insto-me a não carrear voz discordante, curvando-me ao judicioso entendimento da maioria da Turma, bem ilustrado na figura dos seguintes julgados: Acórdão CSRF nº 9101-006.486, de 07/03/2023: UTILIZAÇÃO DE EMPRESA VEÍCULO. LEGALIDADE. MANUTENÇÃO DA DEDUTIBILIDADE DO ÁGIO. O ágio fundamentado em rentabilidade futura, à luz dos artigos 7o e 8o da Lei n° 9.532/97, pode ser deduzido por ocasião da absorção do patrimônio da empresa que detém o investimento pela empresa investida (incorporação reversa). O uso de holding (ou empresa veículo), constituída no Brasil com recursos provenientes do exterior, para adquirir a participação societária com ágio e, em seguida, ser incorporada pela investida, reunindo, assim, as condições para o aproveitamento fiscal do ágio. não caracteriza simulação, de modo que é indevida a tentativa do fisco de requalificar a operação tal como foi formalizada e declarada pelas partes. TRANSFERÊNCIA DOS RECURSOS POR EMPRESA CONTROLADORA DOMICILIADA NO EXTERIOR PARA SOCIEDADE HOLDING. LEGITIMIDADE DA DEDUÇÃO DO ÁGIO. IMPROCEDÊNCIA DA TESE DO REAL ADQUIRENTE. A transferência, por controladora domiciliada no exterior, dos recursos empregados na aquisição de participação societária por empresa holding constituída no Brasil não impede a amortização fiscal do ágio após esta ser incorporada pela investida. A tese do "real adquirente", que busca limitar o direito à dedução fiscal do ágio apenas na hipótese de existir confusão patrimonial entre a pessoa jurídica que disponibilizou os recursos necessários à aquisição do investimento e a investida, não possui fundamento legal, salvo quando caracterizada hipótese de simulação, o que não se revela no caso. (grifei) STJ, Recurso Especial nº 2.026.473-SC, de 05/09/2023: Fl. 1709DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 20 PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. INEXISTÊNCIA. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. FIM DE PREQUESTIONAMENTO. MULTA. DESCABIMENTO. IMPOSTO DE RENDA E CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO. ÁGIO. DESPESA. DEDUÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. OPERAÇÃO ENTRE PARTES DEPENDENTES. POSSIBILIDADE. 'NEGÓCIO JURÍDICO ANTERIOR À ALTERAÇÃO LEGAL. EMPRESA-VEÍCULO. PRESUNÇÃO DE INDEDUTIBILIDADE. ILEGALIDADE. [...] 4. A controvérsia principal dos autos consiste em saber se agiu bem o Fisco ao promover a glosa de despesa de ágio amortizado pela recorrida com fundamento nos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/1997. sob o argumento de não ser possível a dedução do ágio decorrente de operações internas (entre sociedades empresárias dependentes) e mediante o emprego de "empresaveículo". 5. Ágio, segundo a legislação aplicável na época dos fatos narrados na inicial, consistiria na escrituração da diferença (para mais) entre o custo de aquisição do investimento (compra de participação societária) e o valor do patrimônio líquido na época da aquisição (art. 20 do Decreto-Lei n. 1.598/1977). 6. Em regra, apenas quando há a alienação, liquidação, extinção ou baixa do investimento é que o ágio a elas vinculado pode ser deduzido fiscalmente como custo, para fins de apuração de ganho ou perda de capital. 7. A exceção à regra da indedutibilidade do ágio está inserida nos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/1997, os quais passaram a admitir a dedução quando a participação societária é extinta em razão de incorporação, fusão ou cisão de sociedades empresárias. 8. A exposição de motivos da Medida Provisória n. 1.602/1997 (convertida na Lei n. 9.532/1997) visou limitar a dedução do ágio às hipóteses em que fossem acarretados efeitos econômico-tributários que a justificassem. 9. O Código Tributário Nacional autoriza que a autoridade administrativa promova o lançamento de ofício quando "se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo. fraude ou simulação" (art. 149. VII) e também contém norma geral antielisiva (art. 116. parágrafo único), a qual poderia, em última análise, até mesmo justificar a requalificação de negócios jurídicos ilícitos/dissimulados, embora prevaleça a orientação de que a "plena eficácia da norma depende de lei ordinária para estabelecer os procedimentos a serem seguidos" (STF. ADI 2446. rel. Min. Carmen Lúcia). 10. Embora seja justificável a preocupação quanto às organizações societárias exclusivamente artificiais, não é dado à Fazenda, alegando buscar extrair o "propósito negocial" das operações, impedir a Fl. 1710DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 21 dedutibilidade, por si só, do ágio nas hipóteses em que o instituto é decorrente da relação entre "partes dependentes" (ágio interno), ou quando o negócio jurídico é materializado via "empresa-veículo", ou seja. não é cabível presumir, de maneira absoluta, que esses tipos de organizações são desprovidos de fundamento material/econômico. 11. Do ponto de vista lógico-jurídico, as premissas em que se baseia o Fisco não resultam automaticamente na conclusão de que o "ágio interno" ou o ágio resultado de operação com o emprego de "empresa-veículo" impediria a dedução do instituto em exame da base de cálculo do lucro real, especialmente porque, até 2014, a legislação era silente a esse respeito. 12. Quando desejou excluir, de plano, o ágio interno, o legislador o fez expressamente (com a inclusão do art. 22 da Lei n. 12.973/2014), a evidenciar que, anteriormente, não havia vedação a ele. 13. Se a preocupação da autoridade administrativa é quanto à existência de relações exclusivamente artificiais (como as absolutamente simuladas), compete ao Fisco, caso a caso. demonstrar a artificialidade das operações, mas jamais pressupor que o ágio entre partes dependentes ou com o emprego de "empresa-veículo" já seria, por si só, abusivo. 14. No caso concreto, adotando o cenário fático narrado na sentença e no acórdão, em razão dos limites impostos pela Súmula 7 do STJ, não há demonstração de que as operações entabuladas pela parte recorrida foram atípicas, artificiais ou desprovidas de função social, a ponto de justificar a glosa na dedução do ágio. [...] (grifei) Afastando a tese do “real adquirente”, esta Turma vem entendendo que, ausentes caracteres de conduta dolosa – tal qual no caso presente, uma vez que nem sequer houve qualificação da multa de ofício – o “dever fundamental de pagar tributos” não deve ser tomado pelo valor máximo da exação, desde que, naturalmente, não incida determinação legal que conduza a tal quadro. De fato, entender pela assunção espontânea, pelo sujeito passivo, de maior ônus tributário, é patriotada que não se deve esperar de contribuinte algum. Sob tal prisma, é possível concluir que, no caso concreto em análise, as operações de aquisição e incorporação, tomadas em conjunto, possuíam um propósito negocial lícito de economia de tributos, não produzindo, por conseguinte, uma vantagem tributária antijurídica e não configuram uma fraude, de forma que o racional acusatório laborado pela fiscalização não possui suporte fático/jurídico, pelo que as glosas da amortização do ágio devem ser afastadas. Nesse contexto, é útil referir ao racional desenvolvido no voto condutor do recentíssimo acórdão nº 1201-006.316, que, pelo elevado grau de aderência das razões lá esposadas ao caso ora em análise, faço integrar ao presente voto os seguintes trechos: (...) Fl. 1711DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 22 Ante o exposto, afasto a glosa do ágio. Portanto, o acórdão recorrido não analisou a matéria “tempestividade do laudo de avaliação” e não houve oposição de embargos de declaração pela Fazenda Nacional para buscar sanar tal vício. Disso se extrai que a matéria “tempestividade do laudo de avaliação” não foi enfrentada pelo acórdão recorrido, estando ausente, pois, o requisito do prequestionamento. Assim, não deve ser conhecido o recurso especial da Fazenda Nacional com relação à matéria “tempestividade do laudo de avaliação”. II – MÉRITO Como já me manifestei em outras oportunidades, nos termos dos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, bem como 20 do Decreto-lei nº 1.598/1977, com a redação aplicável aos fatos, a amortização do ágio pela investidora era condicionada à verificação dos seguintes requisitos: (i) aquisição de investimento avaliado pelo MEP com ágio por expectativa de rentabilidade futura da investida; (ii) desdobramento do custo de aquisição do investimento em valor do patrimônio líquido da investida e ágio; (iii) elaboração de documento demonstrando o valor da previsão de rentabilidade futura da investida que embasou o registro do ágio; (iv) confusão patrimonial entre investida e investidora mediante incorporação, fusão ou cisão; e (v) amortização não inferior a 1/60 por mês, ou seja, em período igual ou superior a 5 anos. No presente caso, não houve questionamentos acerca do valor do ágio, da sua fundamentação econômica ou registro contábil, mas, no que se refere à matéria objeto do presente recurso especial, apenas a imputação de suposta ausência de confusão patrimonial entre investidora e investida, a autorizar a amortização fiscal do ágio, em razão da utilização de empresa veículo. Ocorre que, a meu ver, a partir do momento em que a Vale transfere para a CBI, via AFAC, os recursos necessários à aquisição da Salobo, esses valores passaram, legitimamente, a pertencer à CBI, que, com sacrifício do próprio patrimônio, adquiriu a participação societária na Salobo. Diante disso, sendo a CBI a adquirente da Salobo e tendo, posteriormente, ocorrido a cisão e a confusão patrimonial entre investidora e investida, não há que se falar em impossibilidade de amortização fiscal do ágio. Ademais, não havendo vedação legal à utilização das ditas “empresas-veículos” e tampouco comprovação de dolo, fraude ou simulação, não pode a Autoridade Fiscal desconsiderar os atos regularmente praticados pelo contribuinte – ainda que resultem em maior economia tributária. Isso porque não há, no ordenamento jurídico atual, qualquer proibição ao contribuinte, munido de duas opções igualmente válidas, de optar por aquela que implique em maior economia tributária. Muito se discutiu acerca da possibilidade de a Autoridade Fiscal desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do Fl. 1712DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 23 fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, como autoriza o parágrafo único do art. 116 do CTN, o que culminou com a análise do tema pelo STF nos autos da ADI nº 2.446, de relatoria da Ministra Cármen Lúcia3. Em seu voto, a Ministra Relatora, além de confirmar que a plena eficácia do parágrafo único do art. 116 do CTN depende de lei ordinária, concluiu que: “A norma não proíbe o contribuinte de buscar, pelas vias legítimas e comportamentos coerentes com a ordem jurídica, economia fiscal, realizando suas atividades de forma menos onerosa, e, assim, deixando de pagar tributos quando não configurado fato gerador cuja ocorrência tenha sido licitamente evitada”. Portanto, como reconheceu a Ministra Cármem Lúcia, o contribuinte pode, por meios lícitos, evitar a “relação jurídica que faria nascer obrigação tributária”. Do mesmo modo, a meu ver, o contribuinte pode organizar os seus negócios de forma mais eficiente do ponto de vista tributário. Nessa mesma linha, explicam Alexsandro Broedel Lopes e Eliseu Martins que “não haverá transação sem que o aspecto tributário não influencie o comportamento do contribuinte: tirados os efeitos tributários de qualquer transação, esta teria contornos diversos”. Assim, os administradores de qualquer empreendimento com fins lucrativos têm por objetivo maximizar o resultado empresarial, o que é feito, inclusive, por meio da redução dos custos e despesas, dentre eles, a tributação, razão pela qual não faz qualquer sentido “desqualificar uma ação empresarial porque esta tem como objetivo pagar menos tributos”4. Por fim, mas não menos importante, há pouco o Superior Tribunal de Justiça se manifestou favoravelmente à possibilidade de utilização de “empresa-veículo” para fins de amortização fiscal do ágio, reforçando os argumentos aqui expostos5. Confira-se: A empresa-veículo, por sua vez, seria aquela constituída com a "função específica de transferir participação societária entre controladora e controlada" (MOREIRA JÚNIOR, Gilberto de Castro; SILVA JÚNIOR, Ademir Bernardo. Da dedutibilidade do ágio para fins fiscais: análise do precedente da Columbian Chemicals Brasil LTDA [Acórdão n. 1102-000.875] In: Análise de casos sobre aproveitamento de ágio: IRPJ e CSLL à luz da jurisprudência do CARF. PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira (coord). São Paulo: MP Editora, 2016). (...) Dito isso, tenho que, do ponto de vista lógico-jurídico, as premissas em que se baseia a Fazenda passam longe de resultar automaticamente na conclusão de que o “ágio interno” ou o ágio resultado de operação com o emprego de “empresa 3 J. em 11.04.2022. 4 LOPES, Alexsandro Broedel; MARTINS, Eliseu. Do Ágio Baseado em Expectativa de Rentabilidade Futura - Algumas Considerações Contábeis. In MOSQUEIRA, Roberto Quiroga; LOPES, Alexsandro Broedel (coord.). Controvérsias Jurídico-Contábeis (Aproximações e Distanciamentos). 3. ed., São Paulo: Dialética, p. 67-70. 5 Resp nº 2026473/SC, Rel. Min. Gurgel de Faria, 1ª Turma, j. em 05.09.2023. Fl. 1713DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 24 veículo” impediria a dedução do instituto em exame da base de cálculo do lucro real. Primeiro, porque os supracitados arts. 7º e 8º da Lei n. 9.532/1997 em nenhum momento dispuseram de maneira expressa sobre a impossibilidade apriorística do aproveitamento do ágio nas operações de partes dependentes ou mediante o emprego de empresa interposta. (...) Segundo, porque se a preocupação da autoridade administrativa é quanto à existência de relações exclusivamente artificiais (como as absolutamente simuladas), compete ao Fisco, caso a caso, demonstrar a artificialidade das operações, mas jamais pressupor que a só existência de ágio entre partes dependentes ou com o emprego de "empresa-veículo" já seria abusiva. (...) Sobre o emprego da "empresa-veículo", a sua rejeição apriorística contraria o disposto no art. 2º, § 3º, da Lei n. 6.404/1976 (o qual faculta a criação de holding “como meio de realizar o objeto social, ou para beneficiar-se de incentivos fiscais”). Não há proibição legal para que uma sociedade empresária seja criada como "veículo" para facilitar a realização de um negócio jurídico; inclusive há razões reais ("propósito negocial") para tanto, pois é possível que as pessoas jurídicas originais queiram manter sua segregação por diversas razões (estratégicas, econômicas, operacionais...). Nesse contexto, deve ser negado provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional. III – CONCLUSÕES Diante do exposto, CONHEÇO do RECURSO ESPECIAL apenas com relação à matéria “possibilidade de amortização fiscal do ágio” e, na matéria conhecida, NEGO-LHE PROVIMENTO. Assinado Digitalmente Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic VOTO VENCEDOR Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, redator designado A I. Relatora restou vencida em seu voto para negar provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional. A maioria qualificada do Colegiado se estabeleceu em face das razões por Fl. 1714DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 25 mim apresentadas na sessão de julgamento para negar dar provimento ao recurso, com retorno dos autos ao colegiado a quo. Os mesmos fundamentos ora reproduzo. Solicitei vista dos autos porque, conforme venho me manifestando que, nas exigências referentes à amortização de ágio após confusão patrimonial entre a suposta investidora e a sua investida, há de se examinar as razões pelas quais foi interposta uma empresa como adquirente do investimento. No caso concreto, utilizou de uma suposta holding denominada CBI (Caulim do Brasil Investimentos S.A.), para a aquisição do investimento (ações de SALOBO). Pois bem, antes de adentrar na análise da operação em si, convém discorrer sobre a legislação tributária que rege a matéria, em especial sobre a necessidade de não se confundir o direito à contabilização do ágio com as condições para sua amortização, ao menos em termos fiscais. Vejamos, com base no Decreto nº 3.000, de 1999 (RIR/99), vigente à época dos fatos geradores, a legislação que rege a matéria: Amortização do Ágio ou Deságio Art.391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 25, e Decreto-Lei nº1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). [grifo nosso] Avaliado pelo Valor de Patrimônio Líquido Art.426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (Decreto-Lei nº1.598, de 1977, art. 33, e Decreto-Lei nº1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I - valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II - ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III - provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. [grifos nossos] Constata-se, assim, que, em regra geral, o ágio deverá ser ativado e utilizado como custo somente no momento da alienação do investimento, obviamente se essa vier a ocorrer. Excepcionalmente, o ágio pode vir a ser amortizado, nos termos do art. 386, III, e seu § 6º, II, do RIR/99, verbis: Art.386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida Fl. 1715DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 26 com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): [...] III- poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; [...] §6º O disposto neste artigo aplica-se, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): [...] II- a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. (grifos nossos) Para amortização do ágio, a meu ver, diversas premissas necessitam ser cumpridas. o efetivo pagamento do custo total de aquisição, inclusive o ágio; 1) a realização das operações originais entre partes não ligadas; 2) seja demonstrada a lisura na avaliação da empresa adquirida, bem como a expectativa de rentabilidade futura; 3) a extinção do investimento em razão da absorção do patrimônio da investidora pela investida, ou vice-versa, conforme prevê o art. 386, e seu inciso III, do RIR/99, ou seja, confusão patrimonial entre a investidora e investida. Como se passará a demonstrar a partir de agora, a avaliação detalhada de como se deu esse último pressuposto será o ponto nodal para se confirmar ou não a negativa de aproveitamento do ágio levada a efeito pela autoridade fiscal. Isso porque se pode facilmente extrair da dicção do 7º da Lei nº 9.532/97 que o aspecto pessoal delineado pela norma, no caso de pessoa jurídica absorver patrimônio de outra na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, passa necessariamente pelo reconhecimento de que a pessoa jurídica investidora originária é aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, coordenou e comandou os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição da pessoa jurídica investida. Ou, se examinado sob o ângulo da holding formada no Brasil especificamente para aquisição do investimento, se a operação realizada necessitava dessa interposição, quer por questões negociais, regulatórias ou mesmo para viabilização do negócio. Enfim, as operações efetivamente realizadas pela holding são essenciais no exame de sua eventual artificialidade na operação levada a efeito. Dessa forma, para que o ágio com fundamento em rentabilidade futura possa compor o resultado do período, o regulamento do imposto de renda impõe, em regra, a alienação do investimento – nesse caso, na forma de custo de aquisição -, ou, em situação de exceção, mediante amortização, desde que haja incorporação, fusão ou cisão entre investidora e investida (art. 386, caput e inciso III), ainda que de forma reversa (art. 386, § 6º, II). Fl. 1716DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 27 Saliento ainda que a tese de que os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/97 trouxeram um benefício fiscal relativo à amortização do ágio não prospera. A esse respeito, reproduzo excerto do voto do i. Conselheiro João Otávio Oppermann Thomé no bojo do acórdão 1102-000.873: A profunda alteração levada a efeito pela Lei no 9.532/97 consiste no seguinte: antes dela (na vigência do art. 34 do Decreto-Lei no 1.598/77), era absolutamente irrelevante (nos casos de incorporação, fusão ou cisão) o fundamento no qual baseava-se o anterior registro do ágio ou deságio. Bastaria à pessoa jurídica avaliar o acervo líquido recebido a preços de mercado, e toda a diferença entre este acervo e o valor contabilmente registrado, relativo à participação societária extinta, era imediatamente deduzido como perda, para fins fiscais, qualquer que fosse o fundamento daquele ágio. Após a Lei no 9.532/97, nos casos de incorporação, fusão ou cisão, o ágio fundamentado em rentabilidade futura não mais pode ser deduzido imediatamente como perda, senão de forma “parcelada” em, no mínimo, cinco anos; o ágio fundamentado na diferença entre o valor contábil e o valor de mercado de bens do ativo não mais pode ser deduzido imediatamente como perda, senão de forma também “parcelada”, acompanhando a depreciação, amortização, ou exaustão normal do bem; e o ágio baseado em outros fundamentos econômicos não apenas não mais pode ser deduzido imediatamente como perda, como ainda sequer pode ser amortizado ao longo do tempo. A nova lei, portanto, possui caráter manifestamente anti-elisivo. Não somente pelo seu próprio conteúdo normativo, já que a partir de sua edição foram sensivelmente restringidas as possibilidades de dedução do ágio, conforme acima exposto, como também pela própria manifestação do legislador, contida na exposição de motivos ao art. 8° da MP 1.602/97, posteriormente convertido no art. 7° da Lei no 9.532/97, verbis: “O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vêm utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo.” Este ponto merece ser melhor explicitado, visto que há muitos juristas e doutrinadores - quiçá a maioria, até - que tratam os referidos artigos 7o e 8o como um incentivo fiscal às privatizações. Contudo, o entendimento aqui exposto não é Fl. 1717DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 28 isolado, e, neste sentido, transcrevo excerto de manifestação de Luís Eduardo Schoueri em recente livro6 a respeito do tema: “Muitos acreditam que a referida lei constituiu incentivo fiscal às privatizações. Neste sentido é o entendimento de Roberto Quiroga Mosquera e Rodrigo de Freitas, quando estes assinalam que o tratamento fiscal conferido ao ágio pela Lei no 9.532/1997 ‘foi estabelecido no contexto de incentivo às privatizações, em que o Estado brasileiro tinha interesse em oferecer condições vantajosas aos adquirentes e, com isso, conseguir melhores preços’. O mesmo raciocínio pode ser visto em Marcel e Michel Gulin Melhem, segundo os quais uma (e talvez a principal) das razões para a criação das normas sobre dedutibilidade do ágio na incorporação teria sido o incentivo ao “então chamado Programa Nacional de Desestatização, tornando as empresas estatais mais atraentes aos investidores privados, uma vez que o ágio eventualmente pago nos leilões de privatização poderia ser deduzido fiscalmente”. É, ainda, o mesmo entendimento de João Dácio Rolim e de Frederico de Almeida Fonseca, para quem um dos motivos para o tratamento dado ao ágio pela Lei no 9.532/1997 “foi o de fomentar o chamado ‘Programa Nacional de Desestatização do Governo Federal’”. Tal posicionamento não deixa de ser curioso. Afinal, se anteriormente o ágio era deduzido integralmente, a imposição de restrições não poderia ser considerada um incentivo. A exposição de motivos da Medida Provisória no 1.602/1997 deixou hialino esse intuito de restrição da consideração do ágio como despesa dedutível, mediante a instituição de óbices à amortização de qualquer tipo de ágio nas operações de incorporação. Com isso, o legislador visou limitar a dedução do ágio às hipóteses em que fossem acarretados efeitos econômico-tributários que os justificassem. Segundo as palavras utilizadas à época pelo Poder Executivo para justificar a introdução de disciplina diferenciada para o ágio conforme sua fundamentação, houve a necessidade de se coibir planejamentos tributários consistentes na aquisição com ágio de empresas deficitárias e posterior incorporação que fizesse com que o ágio fosse deduzido na empresa lucrativa. Como antigamente não havia qualquer coerência e consistência para a dedução do ágio, a falta de regulamentação específica estava sendo utilizada para distorcer a lógica do sistema, o que gerou motivação suficiente para que o legislador barrasse esses artifícios prejudiciais à completude do ordenamento jurídico.” Ainda que possa não ser o entendimento dominante, também no CARF se encontram manifestações no mesmo sentido do quanto exposto no presente voto. Peço vênia para transcrever trecho do voto proferido pelo ilustre Conselheiro Mário Junqueira Franco Júnior, no acórdão no 101-95.786, de 18 de 6 SCHOUERI, Luis Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo: Dialética, 2012, p. 66- 68. Fl. 1718DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 29 outubro de 2006, à época acompanhado por unanimidade pela antiga Primeira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes: “Antigamente, o Decreto 1.598/77, em seu artigo 34, atual artigo 430 do RIR/99 [...] Não havia prazo mínimo para esta operação de registro da perda, certo que alguns contribuintes, fortes na avaliação apenas de bens tangíveis e ignorando a valorização de intangíveis, registravam perdas quase pela totalidade do ágio pago na aquisição. E isso em operações muitas das vezes instantâneas. [...] A motivação para a nova regra teve caráter antielisivo, conforme a exposição de motivos ao artigo 8° da MP 1.602/97, convertido no artigo 7° da Lei 9.532/97, verbis: [...] A única conclusão possível, portanto, é que a nova regulamentação, além de tomar despicienda qualquer avaliação de acerco líquido quando existente ágio ou deságio, criou prazo mínimo para a amortização, no caso 5 anos, como forma de evitar o ganho fiscal imediato que anteriormente se obtinha, pelo reconhecimento a um só tempo da diferença entre o valor contábil e o valor do acervo líquido. No entanto, não há na norma qualquer permissão para que tal efeito represente um ajuste ao lucro líquido, mediante exclusão no LALUR. O fato é contábil, representativo do controle na escrituração da amortização do ágio após a incorporação. Como bem observou a decisão recorrida, apenas se a amortização ultimar-se em período anterior a cinco anos, haverá necessidade de ajustes por adição e exclusão, para respeito ao prazo mínimo definido na norma.” O entendimento, data vênia equivocado, de que o referido artigo veicularia incentivo fiscal foi tão veemente e reiteradamente alardeado, que na própria Câmara de Deputados foi debatido um projeto de lei visando à revogação do “benefício fiscal” previsto no inciso III do artigo 7o (que trata da amortização do ágio fundamentado em expectativa de resultados futuros). De fato, o então Deputado Valdemar Costa Neto apresentou o Projeto de Lei n° 2.922-A, de 2000, por meio do qual propunha, em seu artigo 1°, a revogação do inciso III do art. 7o da Lei n° 9.532/97, ao argumento de ser “completamente absurdo o benefício fiscal que ela concedeu as empresas vencedoras dos leilões de privatização de empresas estatais”. Ainda, posteriormente, foi apresentada emenda, pelo Deputado Luiz Antonio Fleury, a este projeto de lei, propondo a supressão da revogação antes proposta, na qual, mais uma vez, deu-se ao referido artigo a conotação de incentivo fiscal, verbis: “Inclusive, a forma de contabilização atualmente prevista no inciso III do art. 7o da Lei n.° 9.532, de 10 de dezembro de 1997, representou um incentivo para que as empresas privadas participassem dos programas de desestatização. Fl. 1719DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 30 Neste sentido, podemos até dizer que um dos principais incentivos apresentados pelos processos de privatização está inserido na seara fiscal, eis a razão pela qual o benefício fiscal do inciso III do art. 7o da Lei n° 9.532, de 1997, se faz necessário.” O Relator da matéria na Comissão de Finanças e Tributação, Deputado Antonio Cambraia, em seu voto, acolheu integralmente as ponderações apresentadas pela emenda supressiva, ressaltando que, por meio do artigo da Lei n° 9.532/97 em questão, “estimula-se o investimento em outras empresas e a reorganização societária, tão importantes num contexto de baixo crescimento econômico do país”. O Projeto de Lei n° 2.922-A foi rejeitado, no mérito, por unanimidade, tendo sido arquivado em 02/12/2004, consoante informações obtidas em www.camara.gov.br. O entendimento de que se trata de um incentivo fiscal tem permeado as mais recentes decisões do CARF a respeito do tema. Neste contexto foram proferidos diversos dos acórdãos citados pela recorrente em sede de recurso e memoriais apresentados, bastando a tanto citar o Acórdão no 1301-000.711 (Tele Norte Leste, de relatoria do ilustre Conselheiro Valmir Sandri) e o Acórdão no 1402- 000.802 (Banco Santander, de relatoria do ilustre Conselheiro Antônio José Praga de Souza). Transcrevo abaixo breve excerto do Acórdão no 1301-000.711: “Na verdade, o Programa Nacional de Desestatização, juntamente com as regras atinentes à dedutibilidade do ágio fizeram parte de todo um contexto para a formulação dos preços ofertados nos leilões de privatização e para as sucessivas reorganizações societárias realizadas pelas empresas objeto da desestatização, servindo como atrativo e motivo para o aumento substancial dos valores auferidos pelo Governo com a privatização. Noutro giro, a dedutibilidade do ágio e a possibilidade de a empresa realizar a reorganização societária para o seu aproveitamento fez parte do pacote de condições ofertadas às empresas que participaram das privatizações, tendo, todas elas, conforme pesquisa na internet, adotado a política incentivada acima.” Não me sensibilizam, contudo, os argumentos expendidos neste sentido. Identifico nos artigos 7o e 8o da Lei n° 9.532/97 tão somente uma nova normatização atinente ao registro e amortização do ágio - a propósito, sem sombra de dúvidas, mais restritiva que a anterior. Além disto, não há nenhum elemento na Lei n° 9.532/97 que expressamente a vincule ao Programa Nacional de Desestatização. Pelo contrário, suas regras são válidas para todo e qualquer evento de fusão, incorporação ou cisão que implique a extinção de participação societária anteriormente adquirida com ágio. Retornando ao caso concreto, compulsando os autos, não identifiquei as razões acerca da existência de qualquer impossibilidade jurídica ou operacional de a VALE adquirir Fl. 1720DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 31 diretamente as ações da SALOBO e, posteriormente, realizar a sua posterior incorporação com o consequente início da amortização do ágio. Nesse contexto, o Contribuinte sustenta que que a utilização da CBI foi uma opção negocial legítima, e que a autuação parte da premissa equivocada de que a Vale deveria ter sido a adquirente direta. A tese central da autoridade fiscal autuante é que CBI foi a efetiva compradora das ações, tendo assumido os direitos e os ônus econômicos da operação. Entre as justificativas apresentadas pelo Contribuinte, destacam-se:  A CBI celebrou o contrato de compra e venda com a Anglo American, efetuou o pagamento e registrou contabilmente o investimento e o ágio referente à aquisição das ações de SALOBO. A VALE não teria sido parte no contrato de aquisição;  Os recursos foram transferidos pela Vale à CBI mediante AFAC (Adiantamento para Futuro Aumento de Capital). Segundo o Contribuinte, uma vez recebidos pela CBI, esses recursos passaram a integrar seu patrimônio, cabendo à CBI suportar o ônus econômico da operação;  Argumenta ainda que não existe, na legislação, o conceito de “real adquirente” defendido pela fiscalização. Assim, o fato de a Vale ter aportado recursos não retiraria da CBI a condição de investidora e adquirente;  Também sustenta que a obtenção de recursos junto à controladora para realizar uma aquisição é uma prática empresarial comum e não descaracteriza a compradora formal da participação societária; Quanto à impossibilidade de aquisição direta pela VALE, em diferentes momentos de suas manifestações, alega que a estrutura adotada para a aquisição da participação societária da Anglo American na Salobo por intermédio da CBI teria sido influenciada ou justificada pela existência de supostos óbices de natureza societária e regulatória. Nesse sentido, afirma que haveria “óbices societários (CVM) e regulatórios” que justificariam a utilização da empresa-veículo, chegando a sustentar que a “operação direta era inviável” e que a modelagem adotada decorreria de condicionantes regulatórios externos. Todavia, embora a contribuinte faça referência a tais alegados obstáculos em sua Impugnação (fls. 13.453 e seguintes), no Recurso Voluntário (fls. 13.749 e seguintes) e nas Contrarrazões ao Recurso Especial da Fazenda Nacional (fls. 13.947 e seguintes), não identifica objetivamente qual dispositivo legal, regulamentar ou contratual impediria a VALE de adquirir diretamente a participação detida pela Anglo American na Salobo, nem especifica qual regra da CVM, do então DNPM, da legislação minerária, de eventual acordo de acionistas ou de qualquer outro regime regulatório proibiria tal aquisição. Da mesma forma, a contribuinte não demonstra a existência de qualquer impedimento jurídico concreto à realização de operação societária diretamente entre VALE e SALOBO, seja por meio de incorporação direta, seja por meio de incorporação reversa. As peças de Fl. 1721DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 32 defesa limitam-se a afirmar genericamente a existência de “óbices societários” e “regulatórios”, sem individualizar a respectiva norma, sem explicitar o mecanismo jurídico de impedimento e sem esclarecer de que forma tais restrições inviabilizariam a operação apontada pela fiscalização. Mais do que isso, não foi juntado aos autos qualquer documento apto a comprovar a alegação defensiva. Não há parecer regulatório, manifestação de órgão supervisor, decisão administrativa, cláusula contratual, acordo de acionistas, ato da CVM, ato do DNPM ou qualquer outro elemento de prova que demonstre que a Vale estivesse impedida de adquirir diretamente a participação societária em questão ou, posteriormente, de promover reorganização societária envolvendo a Salobo. Assim, as alegações de supostos obstáculos regulatórios permanecem em plano meramente assertivo. Embora a contribuinte invoque a existência de óbices dessa natureza para justificar a interposição da CBI, não produziu prova que permita concluir pela efetiva impossibilidade jurídica de aquisição direta da participação societária pela Vale ou de posterior incorporação da Salobo, circunstância que enfraquece a força persuasiva da justificativa apresentada e impede que tal argumento seja acolhido apenas com base em afirmações genéricas desacompanhadas de demonstração concreta. Desse modo, o conjunto probatório dos autos reforça a conclusão de que a interposição da CBI não se justificou por qualquer necessidade econômica, operacional, societária ou regulatória efetivamente demonstrada. Embora a contribuinte tenha aludido, em termos genéricos, à existência de supostos “óbices societários” e “regulatórios”, jamais identificou qual norma concreta impediria a VALE de adquirir diretamente a participação da Anglo American na SALOBO, tampouco produziu prova de eventual restrição à realização de posterior incorporação entre VALE e SALOBO. A alegação permaneceu desacompanhada de qualquer suporte documental ou normativo. Tal circunstância assume especial relevância porque a própria VALE já detinha diretamente 50% do capital social da SALOBO antes da aquisição da participação remanescente. Como destacado pela fiscalização, a VALE era a empresa que havia desenvolvido os estudos geológicos e de viabilidade econômica do empreendimento, era titular originária dos direitos minerários, financiou integralmente a aquisição mediante AFAC especificamente destinado à compra das ações, comunicou a operação ao mercado em seu próprio nome e foi quem efetivamente decidiu assumir o dispêndio correspondente ao ágio pago pela expectativa de rentabilidade futura. Assim, todos os elementos econômicos substanciais da operação estavam concentrados na VALE, e não na CBI. Por outro lado, os fatos apurados pela fiscalização evidenciam que a CBI possuía as características típicas de uma sociedade de prateleira ou veículo transitório. Foi constituída por empregados da VALE, tinha sede no mesmo endereço da controladora, permaneceu inativa por longo período, não possuía atividade operacional própria, não mantinha empregados, não desenvolveu empreendimento econômico relevante e somente foi utilizada quando sobreveio a Fl. 1722DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 33 oportunidade de aquisição da participação societária na SALOBO. Isoladamente, tais circunstâncias poderiam se mostrar em mero indício, mas, em seu conjunto, demonstram cabalmente a artificialidade da interposição de CBI na operação. Com efeito, apenas um ano e dois meses após a aquisição da participação societária na SALOBO, a CBI foi incorporada pela própria SALOBO e extinta. Diante da ausência de atividade operacional relevante, da inexistência de empregados, da utilização de recursos integralmente aportados pela VALE e da não demonstração de finalidade econômica autônoma para sua manutenção, os fatos apurados pela fiscalização indicam que a função desempenhada pela CBI esgotou-se com a implementação da estrutura societária concebida para a aquisição da participação e para o subsequente aproveitamento do ágio pela SALOBO. Nesse contexto, a ausência de qualquer justificativa negocial ou regulatória comprovada para a utilização da CBI, somada ao fato de a VALE já ocupar diretamente posição societária de 50% na SALOBO e poder adquirir em seu próprio nome a participação remanescente da Anglo American, conduz à conclusão de que a interposição da empresa-veículo teve por finalidade exclusiva criar artificialmente uma cadeia societária destinada a deslocar o ágio para a sociedade operacional que futuramente geraria resultados tributáveis. Em outras palavras, a estrutura adotada permitiu construir formalmente uma incorporação entre CBI e SALOBO, sem que houvesse necessidade de uma reorganização societária envolvendo diretamente a VALE, verdadeira financiadora e beneficiária econômica da aquisição. De fato, se existisse razão econômica, societária ou regulatória legítima para impedir que a VALE adquirisse diretamente a participação ou promovesse reorganização societária envolvendo a SALOBO, seria natural que tal circunstância tivesse sido claramente identificada e comprovada nos autos. Ocorre que a contribuinte se limitou a mencionar, de forma genérica, supostos “óbices societários” e “regulatórios”, sem indicar qual norma os estabeleceria, qual autoridade os teria imposto ou de que modo inviabilizariam a aquisição direta ou a incorporação entre VALE e SALOBO. A ausência dessa demonstração enfraquece substancialmente a explicação apresentada e reforça a percepção de que a estrutura adotada não atendia a finalidade negocial autônoma. Assim, longe de infirmar a autuação, a inexistência de justificativa concreta para a não utilização de uma aquisição direta pela VALE acaba por corroborar a tese fiscal de que a CBI foi utilizada como mero instrumento de passagem, destinado a contornar a disciplina dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997. A operação não promoveu a confusão patrimonial entre a verdadeira investidora, isto é, a VALE, e a sociedade cuja rentabilidade futura justificou o pagamento do ágio, isto é, a SALOBO. Ao contrário, a utilização de uma sociedade sem substância econômica própria permitiu apenas reproduzir formalmente os pressupostos necessários à amortização do ágio, sem que estivesse presente a situação material que a legislação buscou disciplinar. Nessa perspectiva, os elementos coligidos pela fiscalização revelam que a interposição da CBI não teve outra função relevante senão viabilizar artificialmente o aproveitamento fiscal do ágio, razão pela qual se Fl. 1723DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.648 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16682.720865/2021-37 34 mostra legítima a sua desconsideração para fins da aplicação dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997. CONCLUSÃO Isso posto, voto por DAR provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, com retorno ao Colegiado a quo para apreciação dos argumentos subsidiários de defesa não apreciados no acórdão recorrido. Assinado Digitalmente Fernando Brasil de Oliveira Pinto Fl. 1724DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido I – ADMISSIBILIDADE I.1 - Possibilidade de amortização do ágio I.2 - Tempestividade do laudo de avaliação II – MÉRITO III – CONCLUSÕES Voto Vencedor CONCLUSÃO

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Numero do processo: 10314.727503/2015-31
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 06 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Sep 22 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 TRIBUTÁRIO. AUTO DE INFRAÇÃO. MOTIVAÇÃO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. No âmbito da realização do ato administrativo de lançamento, não há nulidade quando a autoridade fiscal descreve de forma sucinta, mas objetiva, clara e suficiente, os motivos pelos quais tem cabimento a lavratura do Auto de Infração. TRIBUTÁRIO. AUTO DE INFRAÇÃO. DEMONSTRATIVO DE MULTA E JUROS DE MORA. LANÇAMENTO TOTALIZADO NO ESTABELECIMENTO MATRIZ. INOCORRÊNCIA. A totalização no estabelecimento matriz, constante do Demonstrativo de Multa e Juros de Mora, não implica reconhecer que o lançamento tenha sido realizado no próprio estabelecimento matriz, notadamente quando pelo Demonstrativo de Apuração verifica-se a adoção, por cada estabelecimento, da respectiva base de cálculo. Nulidade não reconhecida. TRIBUTÁRIO. PREVIDENCIÁRIO. AUTO DE INFRAÇÃO. GUIA DE RECOLHIMENTO AO FGTS E INFORMAÇÕES À PREVIDÊNCIA SOCIAL - GFIP. AUSÊNCIA DE RETIFICAÇÃO. RECOLHIMENTO INTEMPESTIVO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA NÃO CONFIGURADA. CABIMENTO DA MULTA DE MORA. No âmbito das contribuições sociais previdenciárias, a ausência de retificação pelo contribuinte quanto à Guia de Recolhimento ao FGTS e Informações à Previdência Social - GFIP, pelo fato de não haver a correção da infração, impede o reconhecimento da denúncia espontânea, notadamente em relação a recolhimentos intempestivos feitos sem a inclusão da multa de mora correspondente.
Numero da decisão: 2302-004.646
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Voluntário, rejeitar as preliminares e, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Angélica Carolina Oliveira Duarte Toledo - Relator Assinado Digitalmente Nome do Presidente - Presidente Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosimery Brandao Barbosa, Angelica Carolina Oliveira Duarte Toledo, Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca (substituto[a] integral), Rosane Beatriz Jachimovski Danilevicz, Roberto Carvalho Veloso Filho, Johnny Wilson Araujo Cavalcanti (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Alfredo Jorge Madeira Rosa, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca.
Nome do relator: ANGELICA CAROLINA OLIVEIRA DUARTE TOLEDO

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AUTO DE INFRAÇÃO. MOTIVAÇÃO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. No âmbito da realização do ato administrativo de lançamento, não há nulidade quando a autoridade fiscal descreve de forma sucinta, mas objetiva, clara e suficiente, os motivos pelos quais tem cabimento a lavratura do Auto de Infração. TRIBUTÁRIO. AUTO DE INFRAÇÃO. DEMONSTRATIVO DE MULTA E JUROS DE MORA. LANÇAMENTO TOTALIZADO NO ESTABELECIMENTO MATRIZ. INOCORRÊNCIA. A totalização no estabelecimento matriz, constante do Demonstrativo de Multa e Juros de Mora, não implica reconhecer que o lançamento tenha sido realizado no próprio estabelecimento matriz, notadamente quando pelo Demonstrativo de Apuração verifica-se a adoção, por cada estabelecimento, da respectiva base de cálculo. Nulidade não reconhecida. TRIBUTÁRIO. PREVIDENCIÁRIO. AUTO DE INFRAÇÃO. GUIA DE RECOLHIMENTO AO FGTS E INFORMAÇÕES À PREVIDÊNCIA SOCIAL – GFIP. AUSÊNCIA DE RETIFICAÇÃO. RECOLHIMENTO INTEMPESTIVO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA NÃO CONFIGURADA. CABIMENTO DA MULTA DE MORA. No âmbito das contribuições sociais previdenciárias, a ausência de retificação pelo contribuinte quanto à Guia de Recolhimento ao FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP, pelo fato de não haver a correção da infração, impede o reconhecimento da denúncia espontânea, notadamente em relação a recolhimentos intempestivos feitos sem a inclusão da multa de mora correspondente. Fl. 2060DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.646 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10314.727503/2015-31 2 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Voluntário, rejeitar as preliminares e, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Angélica Carolina Oliveira Duarte Toledo – Relator Assinado Digitalmente Nome do Presidente – Presidente Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosimery Brandao Barbosa, Angelica Carolina Oliveira Duarte Toledo, Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca (substituto[a] integral), Rosane Beatriz Jachimovski Danilevicz, Roberto Carvalho Veloso Filho, Johnny Wilson Araujo Cavalcanti (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Alfredo Jorge Madeira Rosa, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca. RELATÓRIO Reproduzo trecho do Relatório da decisão de piso, que bem descreve o processo (e- fls. 2000/2027): Trata-se de processo administrativo tributário relativo ao lançamento de contribuições sociais previdenciárias devidas pela empresa ao adicional de financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa e riscos ambientais do trabalho (GILRAT), no período compreendido pelas competências 01/2011 a 12/2011, incluindo o décimo terceiro salário de 2011, no valor de R$ 843.488,36. O lançamento é fundamentado pelo Termo de Constatação Fiscal de fls. 1.548/1.553. Trata-se de empresa enquadrada no CNAE 22.11-1/00 0 Fabricação de pneumáticos e de câmaras de ar. O contribuinte é parte integrante da ação judicial nº 0004532-16.2009.403.6100 (nº antigo 2009.61.00.004532-2), em trâmite perante a 7ª Vara Federal da Justiça Federal de São Paulo. A empresa apurou a contribuição devida ao adicional de financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa Fl. 2061DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.646 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10314.727503/2015-31 3 e riscos ambientais do trabalho (GILRAT) no percentual de 2%, quando o correto para o CNAE 22.11-1/00 é 3%. O contribuinte, intimado a apresentar justificativa para a divergência de alíquota, informou que, após procedimento de auditoria interna, no ano de 2012, constatou o recolhimento a menor da contribuição em tela, promovendo o recolhimento espontâneo - principal devido + juros (nos termos do artigo 138 do Código Tributário Nacional), no valor total de R$ 4.965.835,28 (quatro milhões, novecentos e sessenta e cinco mil, oitocentos e trinta e cinco reais e vinte e oito centavos), e procedendo o protocolo de Denúncia Espontânea na Receita Federal do Brasil. Sustenta a fiscalização que: Relativamente à alíquota correta a ser aplicada (3,0000 %) não foi apresentado nenhum contra argumento. É de se notar, inclusive, que o contribuinte reconhece que as contribuições foram recolhidas em valores inferiores aos devidos. Por outro lado, análise das documentações apresentadas pelo contribuinte, em especial o demonstrativo intitulado “APURAÇÃO INSS PATRONAL - 2011” entregue em meio magnético pelo contribuinte em resposta à Intimação- 26082015 (ciência em 28/08/2015), assim como as GFIP’s entregues e os recolhimentos efetuados espontaneamente, demonstram que ainda assim restaram diferenças não recolhidas, decorrentes da utilização de alíquota RAT diferente da prevista (3,0000%, conforme já mencionada em “03.04”) e do não pagamento dos acréscimos legais, JUROS e MULTA DE MORA, devidos para quitação após a data de vencimento, e os quais estão previstos, no caso dos JUROS, na Lei n. 8.212, de 24.07.91, art. 35, combinado com o art. 61 da Lei n. 9.430, de 27.12.96, com redação da MP n. 449, de 04.12.2008, convertida na Lei n. 11.941, de 27.05.2009, e da MULTA DE MORA no art. 35 da lei 8.212/91 (alterado pelo art. 26 da Lei nº 11.941/2009) c/c art. 61 da Lei 9.430/96. Junta anexos ao TCF onde demonstra as divergências apuradas. O contribuinte apresentou impugnação e os autos foram encaminhados à DRJ. O julgamento foi convertido em diligência pela Resolução n. 108-001.288, para verificação das ponderações formuladas, especialmente quanto à ocorrência da denúncia espontânea e ao cálculo efetuado. Sobreveio o Relatório de diligências às e-fls. 1970/1977, concluindo pela manutenção integral dos valores exigidos. Posteriormente, os membros da 32ª TURMA/DRJ08, por unanimidade de votos, julgaram improcedente a impugnação. Cientificada do acórdão, a contribuinte apresentou recurso voluntário tempestivo, repisando os argumentos contidos em sua impugnação (e-fls. 2087e seguintes), em breve síntese: a) Preliminarmente, alega a nulidade absoluta da autuação por ausência de descrição clara e precisa dos fatos geradores e da motivação do lançamento. Fl. 2062DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.646 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10314.727503/2015-31 4 A Recorrente sustenta que o auto de infração viola o art. 142 do CTN e o art. 10 do Decreto n. 70.235/72, pois a Fiscalização teria se limitado a afirmar, de forma genérica, que, embora a empresa tivesse efetuado em 2012 o pagamento espontâneo das diferenças de SAT relativas ao ano de 2011, ainda teriam restado “diferenças não recolhidas”, sem esclarecer adequadamente a origem, a composição e o fundamento jurídico dessas diferenças. Afirma que a Fiscalização não enfrentou a denúncia espontânea, tampouco indicou, no lançamento, que a exigência decorreria da suposta ausência de recolhimento integral de multa de mora, de juros ou da alegada falta de apresentação correta de GFIPs retificadoras. Segundo a Recorrente, tal motivação somente teria surgido após a conversão do julgamento em diligência, ocasião em que também se passou a justificar o cálculo pela chamada “imputação proporcional”, com base no art. 163 do CTN e na Nota COSIT n. 106/2004, critério que não constava do auto de infração. Defende, assim, que a ausência de descrição precisa dos fatos, da motivação jurídica e do critério de cálculo prejudicou o contraditório e a ampla defesa, configurando vício material insanável do lançamento; b) Ainda, alega a nulidade da autuação por deficiência do discriminativo de débito. A Recorrente afirma que os Anexos 1, 2 e 3 indicam supostas diferenças devidas por estabelecimento e por mês, mas que tais valores não se refletiriam no Demonstrativo de Multa e Juros de Mora, no qual tudo teria sido somado e atribuído ao CNPJ final 0001. Sustenta que não houve divisão do total, da multa e dos juros por estabelecimento, nem totalização individualizada para cada unidade, o que seria contraditório com os próprios anexos do lançamento. Para a Recorrente, essa unificação no estabelecimento matriz prejudicou o direito de defesa, pois impôs ao contribuinte o ônus de extrair valores de extensos anexos para tentar compreender e conferir a exigência. Por essa razão, afirma haver ofensa ao art. 142 do CTN, ao contraditório, à ampla defesa e ao devido processo legal; c) No mérito, alega a impossibilidade de exigência de multa de mora diante da configuração da denúncia espontânea. A Recorrente sustenta que, em 2012, antes de qualquer procedimento fiscal, identificou o equívoco no recolhimento do SAT/GILRAT à alíquota de 2%, quando aplicável a alíquota de 3%, e promoveu o pagamento das diferenças de principal acrescidas dos juros SELIC, além de apresentar petição à Receita Federal informando o ocorrido, com tabela dos valores e comprovantes de recolhimento. Invoca o art. 138 do CTN para defender que a denúncia espontânea exclui a multa, inclusive a multa de mora, entendimento que afirma estar consolidado no STJ, no Ato Declaratório PGFN nº 04/2011 e no Parecer PGFN n. 2.113/2011. Sustenta, ainda, que o caso se enquadra no REsp n; 1.149.022/SP, julgado Fl. 2063DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.646 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10314.727503/2015-31 5 sob o rito dos repetitivos, pois teria inicialmente declarado e recolhido o SAT à alíquota de 2% e, posteriormente, antes da fiscalização, quitado a diferença decorrente da alíquota de 3% com juros. Por fim, invoca o art. 19, §§ 4º e 5º, da Lei n. 10.522/2002, para afirmar que o entendimento consolidado pelo STJ e reconhecido pela PGFN impediria a constituição do crédito relativo à multa de mora, razão pela qual requer a anulação integral da autuação ou o afastamento da multa exigida. É o relatório. VOTO Conselheira Angélica Carolina Oliveira Duarte Toledo, Relatora. O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual dele conheço. Conforme relatado, a controvérsia envolve lançamento de contribuições sociais previdenciárias relativas ao GILRAT, referente às competências de 01/2011 a 12/2011, incluindo o décimo terceiro salário, em razão da apuração da contribuição pela Recorrente à alíquota de 2%, quando, segundo a Fiscalização, seria aplicável a alíquota de 3% em razão de seu enquadramento no CNAE 22.11-1/00. A Recorrente não controverte, propriamente, a alíquota aplicável. Sustenta, em síntese, a nulidade do lançamento por ausência de descrição clara dos fatos e por deficiência do discriminativo de débito e, no mérito, defende a impossibilidade de exigência de multa de mora, ao argumento de que teria regularizado espontaneamente a infração antes do início da ação fiscal. Passo à análise. 1 PRELIMINARES A Recorrente sustenta, inicialmente, que o lançamento seria nulo por ausência de descrição clara e precisa dos fatos geradores e da motivação da exigência, ao argumento de que a Fiscalização teria se limitado a afirmar que, embora realizados recolhimentos espontâneos em 2012, ainda remanesceriam diferenças não recolhidas. Não obstante, não lhe assiste razão. Da leitura do Termo de Constatação Fiscal, verifica-se que a Fiscalização indicou os elementos necessários à compreensão da exigência: a Recorrente estava enquadrada no CNAE 22.11-1/00, sujeito à alíquota de 3% para fins de GILRAT; contudo, declarou e recolheu a contribuição com utilização da alíquota de 2%; posteriormente, apresentou recolhimentos espontâneos; e, após análise das GFIPs entregues, das GPSs pagas e do demonstrativo Fl. 2064DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.646 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10314.727503/2015-31 6 “APURAÇÃO INSS PATRONAL - 2011”, concluiu-se que ainda remanesciam valores não recolhidos, inclusive em razão do não pagamento integral dos acréscimos legais. A descrição feita pela Fiscalização, embora sucinta, permitiu identificar a matéria tributável, o período autuado, a alíquota reputada correta, a alíquota utilizada pela Recorrente, os recolhimentos posteriormente efetuados e a razão pela qual se entendeu remanescente o crédito tributário. Não se exige que o auto de infração antecipe, de forma exaustiva, todos os fundamentos que poderão ser desenvolvidos no curso do contencioso, mas que contenha elementos suficientes para permitir ao sujeito passivo compreender a exigência e exercer sua defesa. No caso, a própria impugnação e o recurso voluntário demonstram que a Recorrente compreendeu a controvérsia, tendo se defendido especificamente quanto à denúncia espontânea, à multa de mora, à apropriação dos pagamentos e à alegada deficiência dos demonstrativos. Também não procede a alegação de que a motivação teria sido criada apenas em sede de diligência. A diligência determinada pela DRJ teve por finalidade esclarecer os pontos controvertidos, especialmente quanto à ocorrência de retificações, à denúncia espontânea e à metodologia de apropriação dos pagamentos. Não houve inovação do lançamento, mas apenas aprofundamento e esclarecimento de elementos já relacionados à exigência originalmente formalizada. Quanto à alegação de ausência de menção expressa à imputação proporcional no lançamento, entendo que ela tampouco conduz à nulidade. O fundamento da autuação consistiu na existência de diferenças remanescentes decorrentes da utilização de alíquota inferior à devida e do não recolhimento integral dos acréscimos legais. A forma de apropriação dos pagamentos efetuados pela Recorrente foi objeto de esclarecimento em diligência, sem alteração do critério jurídico do lançamento ou da infração imputada. Nesse sentido, relevante se faz o teor da Súmula CARF n. 228: SÚMULA CARF Nº 228 Aprovada pelo Pleno da CSRF em sessão de 05/09/2025 – vigência em 16/09/2025 A imputação proporcional é o único método admitido pelo Código Tributário Nacional para determinação dos valores devidos em face de recolhimento ou compensação de débitos em atraso, quando não computada a integralidade dos acréscimos moratórios. Rejeito, portanto, a preliminar de nulidade por ausência de motivação ou descrição suficiente dos fatos. A Recorrente também alega nulidade por deficiência do discriminativo de débito, sustentando que os Anexos 1, 2 e 3 indicariam valores por estabelecimento e competência, enquanto o Demonstrativo de Multa e Juros de Mora teria totalizado os valores no CNPJ da matriz. Também neste ponto não há nulidade a reconhecer. Fl. 2065DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.646 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10314.727503/2015-31 7 O Demonstrativo de Multa e Juros de Mora não tem por finalidade discriminar a base de cálculo por estabelecimento, mas demonstrar a incidência dos acréscimos legais sobre os valores apurados. A identificação da base de cálculo e dos valores lançados por estabelecimento consta do Demonstrativo de Apuração e dos anexos do Termo de Constatação Fiscal. Assim, a totalização no CNPJ da matriz, para fins de demonstração dos acréscimos legais, não significa que o lançamento tenha sido realizado de forma centralizada, tampouco impede a compreensão da exigência. Conforme consignado pela decisão recorrida, os valores foram apurados por estabelecimento, estando os demonstrativos em harmonia com os anexos do Termo de Constatação. Não demonstrado prejuízo concreto ao exercício do contraditório e da ampla defesa, rejeito também esta preliminar. 2 MÉRITO No mérito, a Recorrente sustenta que teria ocorrido denúncia espontânea, nos termos do art. 138 do CTN, pois, antes do início de qualquer procedimento fiscal, identificou o recolhimento a menor do GILRAT, promoveu o pagamento das diferenças de principal acrescidas de juros SELIC e apresentou petição à Receita Federal informando o ocorrido. Contudo, compreendo que, no caso concreto, não estão presentes os pressupostos para a aplicação do art. 138 do CTN. Nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça distingue a hipótese de tributo regularmente declarado e pago a destempo daquela em que há declaração parcial ou incorreta do débito, posteriormente retificada antes de qualquer procedimento fiscal, com pagamento concomitante da diferença e dos juros. No primeiro caso, aplica-se a Súmula STJ n. 360, segundo a qual o benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados, mas pagos a destempo. No segundo, pode haver denúncia espontânea, desde que haja regularização integral da infração antes da ação fiscal. No presente caso, a infração não se limita ao pagamento a menor. A Recorrente apresentou GFIPs com informação incorreta quanto à alíquota do GILRAT, declarando percentual inferior ao devido. Assim, para que se pudesse reconhecer a regularização espontânea integral, seria necessário que, antes do início do procedimento fiscal, a contribuinte tivesse corrigido validamente as declarações que continham a informação incorreta, além de recolher as diferenças de principal e juros. A apresentação de petição administrativa à Receita Federal, ainda que acompanhada de memória de cálculo e comprovantes de recolhimento, não substitui a retificação válida da GFIP. A GFIP é o instrumento próprio de declaração das informações previdenciárias, Fl. 2066DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.646 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10314.727503/2015-31 8 com reflexos na constituição do crédito e na alimentação dos sistemas da Previdência Social. Enquanto não retificada validamente, permanece hígida a informação anteriormente prestada pelo contribuinte. A própria legislação então vigente atribuía relevância específica à GFIP. A empresa estava obrigada a informar mensalmente à RFB, em GFIP, os dados cadastrais, fatos geradores, bases de cálculo e valores devidos das contribuições sociais, considerando-se informado à RFB aquilo que consta da GFIP. Daí a importância de verificar se houve, ou não, retificação válida da declaração incorreta. No caso, conforme apurado na decisão recorrida, a Recorrente não comprovou a retificação válida das GFIPs antes do início da ação fiscal. Em relação ao estabelecimento matriz, foram apresentadas GFIPs sob o código de recolhimento 650, o qual, pelo conceito de chave previsto no Manual da GFIP, não retifica as declarações anteriormente transmitidas sob o código 115. Além disso, tais declarações teriam sido apresentadas apenas em 2017, após a lavratura do auto de infração. Quanto às GFIPs consideradas válidas em relação à matriz e às filiais abrangidas pelo lançamento, transmitidas antes da ciência do Termo de Início de Ação Fiscal e não substituídas validamente, permaneceu a informação da alíquota de 2%, e em alguns casos de 0%, em contrariedade ao Anexo IV do Regulamento da Previdência Social. Dessa forma, ainda que a Recorrente tenha promovido recolhimentos antes do início da fiscalização, não houve regularização integral da infração. A petição protocolada perante a Receita Federal não tem o efeito de corrigir as GFIPs anteriormente transmitidas com alíquota incorreta, nem de substituir o procedimento declaratório próprio. Também não socorre a Recorrente a invocação do REsp n. 1.149.022/SP. Ao contrário, o referido precedente reconhece a denúncia espontânea quando o contribuinte, após declaração parcial do débito, retifica a declaração antes de qualquer procedimento fiscal e quita concomitantemente a diferença. No caso dos autos, faltou justamente a comprovação da retificação válida das GFIPs antes da ação fiscal. Pela mesma razão, não há contrariedade ao Ato Declaratório PGFN n. 04/2011, ao Parecer PGFN n. 2.113/2011 ou ao art. 19 da Lei nº 10.522/2002. Tais normas e manifestações dizem respeito aos efeitos da denúncia espontânea quando configurada, especialmente quanto ao afastamento da multa moratória. Aqui, entretanto, a questão antecedente é a ausência de configuração do próprio instituto, diante da falta de regularização integral da infração antes do início da ação fiscal. Não configurada a denúncia espontânea, subsiste a exigência da multa de mora e dos acréscimos legais, nos termos da legislação aplicável. Fl. 2067DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.646 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10314.727503/2015-31 9 Por fim, considerando a identidade dos argumentos, reproduzo os fundamentos trazidos pela DRJ no acórdão de piso, que bem explicam a controvérsia, e adoto como razões de decidir do presente voto (art. 114, § 12, do RICARF): DA QUESTÃO DE MÉRITO. Inicialmente, é importante destacar que mesmo o contribuinte não impugna o caráter indevido do seu procedimento em adotar uma alíquota inferior àquela prevista no Anexo IV do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99, para fins de incidência do adicional de financiamento dos benefícios concedidos em razão do índice de incidência da incapacidade laborativa e riscos ambientais do trabalho - GILRAT. A questão que se coloca é saber se houve ou não a ocorrência do instituto da denúncia espontânea e se, tendo ocorrido este instituto, isto afastaria a incidência da multa de mora prevista no artigo 61 da Lei nº 9.430/96. Analiso. Primeiramente, é preciso destacar fatos relevantes. DOCUMENTO VALIDADO O primeiro deles está no fato relativo à Guia de Recolhimento ao FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP. O contribuinte apresentou, originariamente, a referida declaração com informação incorreta da alíquota do adicional de financiamento dos benefícios concedidos em razão do índice de incidência da incapacidade laborativa e riscos ambientais do trabalho - GILRAT. Confira se a relação de declarações válidas apresentadas pelo contribuinte, relacionadas pela fiscalização no Anexo 1, fl. 1.978, juntada como arquivo não- paginável HASH DO ARQUIVO VINCULADO:326A329ADA975460AB2A5FF6E62498EA8C29E0322B4AF235496A79 0047A28B46: (...) Estas Guia de Recolhimento ao FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP foram transmitidas antes da ciência do contribuinte quanto ao Termo de Início de Ação Fiscal, ocorrida em 17/04/2014. Nos termos do item 7 e subitens 7.1 e 7.2 do Manual da Guia de Recolhimento ao FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP, aprovado pela Instrução Normativa RFB nº 880, de 16/10/2008, considera-se Guia de Recolhimento ao FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP válida a última exportada em relação ao conceito de “chave”: “Para a Previdência, em regra, é considerada válida apenas uma GFIP/SEFIP para cada chave, transmitida pelo empregador/contribuinte.” Outrossim, à época da ocorrência dos fatos geradores, assim dispunha a Instrução Normativa RFB nº 971/2009: Fl. 2068DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.646 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10314.727503/2015-31 10 Art. 47. A empresa e o equiparado, sem prejuízo do cumprimento de outras obrigações acessórias previstas na legislação previdenciária, estão obrigados a: ... omissis ... VIII - informar mensalmente, à RFB e ao Conselho Curador do FGTS, em GFIP emitida por estabelecimento da empresa, com informações distintas por tomador de serviço e por obra de construção civil, os dados cadastrais, os fatos geradores, a base de cálculo e os valores devidos das contribuições sociais e outras informações de interesse da RFB e do INSS ou do Conselho Curador do FGTS, na forma estabelecida no Manual da GFIP; ... omissis ... § 11. Para o fim do inciso VIII do caput, considera-se informado à RFB quando da entrega da GFIP, conforme definição contida no Manual da GFIP. Art. 288. A RFB verificará, por intermédio de sua fiscalização, a regularidade e a conformidade das demonstrações ambientais de que trata o art. 291, os controles internos da empresa relativos ao gerenciamento dos riscos ocupacionais, em especial o embasamento para a declaração de informações em GFIP, de acordo com as disposições previstas nos arts. 57 e 58 da Lei nº 8.213, de 1991. Parágrafo único. O disposto no caput tem como objetivo: I - verificar a integridade das informações do banco de dados do CNIS, que é alimentado pelos fatos declarados em GFIP; II - verificar a regularidade do recolhimento da contribuição prevista no inciso II do art. 22 da Lei nº 8.212, de 1991, e da contribuição adicional prevista no § 6º do art. 57 da Lei nº 8.213, de 1991; III - garantir o custeio de benefícios devidos. Art. 472. Caso haja denúncia espontânea da infração, não cabe a lavratura de Auto de Infração para aplicação de penalidade pelo descumprimento de obrigação acessória. Parágrafo único. Considera-se denúncia espontânea o procedimento adotado pelo infrator que regularize a situação que tenha configurado a infração, antes do início de qualquer ação fiscal relacionada com a infração, dispensada a comunicação da correção da falta à RFB. Diante do exposto acima, há profunda importância em se saber se o contribuinte retificou ou não as Guia de Recolhimento ao FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP, e se o fez, quando o fez. Em consulta aos sistemas da RFB, em específico o GFIPWeb, colhe-se que o seguinte tratamento dado pelo contribuinte quanto a declarações retificadoras. Em relação ao estabelecimento matriz (/0001-54), o contribuinte apresentou Guia de Recolhimento ao FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP no código de recolhimento 650. Ocorre que, segundo o Manual da GFIP, este código de Fl. 2069DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.646 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10314.727503/2015-31 11 recolhimento diz respeito à declaração relativa ao recolhimento ao FGTS e informações à Previdência Social relativo a anistiados, reclamatória trabalhista, reclamatória trabalhista com reconhecimento de vínculo, acordo, dissídio ou convenção coletiva, comissão de conciliação prévia ou núcleo intersindical de conciliação trabalhista. Assim, pelo conceito de chave, a GFIP apresentada no código de recolhimento 650 não retifica as informações prestadas nas declarações anteriormente transmitidas nos códigos de recolhimento 115. Ademais, ainda que se desconsidere este fato, a apresentação se deu no ano de 2017, muito tempo após, portanto, a própria lavratura do Auto de Infração. Veja-se exemplos por amostragem: (...) Já em relação às Guia de Recolhimento ao FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP consideradas como válidas em relação ao estabelecimento matriz e demais filiais abrangidas pelo Auto de Infração (/0002-35, /0004-05, /0009-01, /0014-79, /0016-30, /0033-31, /0035-01 e /0037-65), isto é, aquelas que foram transmitidas antes da ciência do contribuinte quanto ao Termo de Início de Ação Fiscal, ocorrida em 17/04/2014, e não substituídas pelas declarações entregues no código 650, como visto acima, a informação da alíquota para o adicional de financiamento dos benefícios concedidos em razão do índice de incidência da incapacidade laborativa e riscos ambientais do trabalho – GILRAT se manteve em 2% (alguns casos, em 0%), em contradição ao que determina o Anexo IV do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99. Confira- se exemplos por amostragem de cada estabelecimento: (...) Dessa maneira, em se tratando de lançamento que se perfaz pela forma do lançamento por homologação (artigo 150, Código Tributário Nacional - CTN), constituindo a Guia de Recolhimento ao FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP o instrumento de que se vale o contribuinte para realizá-lo, a entrega de declaração que não retifica a anterior, e a não entrega de declaração retificadora antes da ciência quanto ao início do procedimento fiscal não configura a denúncia espontânea, ainda que se perfaça o recolhimento da eventual diferença devida. O Código Tributário Nacional - CTN, no seu artigo 138, prevê os requisitos à configuração da denúncia espontânea, verbis: Art. 138. A responsabilidade é excluída pela denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do tributo devido e dos juros de mora, ou do depósito da importância arbitrada pela autoridade administrativa, quando o montante do tributo dependa de apuração. Parágrafo único. Não se considera espontânea a denúncia apresentada após o início de qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização, relacionados com a infração. Do exposto, tem-se: Fl. 2070DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.646 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10314.727503/2015-31 12 1) A infração deve ser denunciada, isto é, sanada, corrigida. 2) A correção deve ser espontânea, isto é, voluntariamente pelo contribuinte. 3) A correção deve ocorrer antes de cientificado o contribuinte quanto ao início de procedimento fiscal. 4) A correção deve vir acompanhada do tributo devido e dos juros de mora, se houver. Portanto, pelas telas acima colacionadas e considerando o disposto no artigo 138, Código Tributário Nacional - CTN, até o momento em que se profere este Voto, mostra-se seguro afirmar que o contribuinte não promoveu a retificação de nenhuma Guia de Recolhimento ao FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP no tocante à sua sujeição tributária ao adicional de financiamento dos benefícios concedidos em razão do índice de incidência da incapacidade laborativa e riscos ambientais do trabalho - GILRAT, mantendo-se as alíquotas originariamente informadas, 0 e 2%, de forma a afastar a ocorrência do instituto da denúncia espontânea, uma vez que persiste a infração à legislação tributário- previdenciária, porque a correção da infração se perfaz, no presente caso, considerando a força de confissão de dívida atribuída à GFIP ( artigo 225, § 1º do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99), pela sua retificação antes da ciência do primeiro ato inerente ao procedimento fiscal, ainda que haja pagamento. Na espécie, o pagamento desacompanhado da correspondente correção da infração (retificação da Guia de Recolhimento ao FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP), implica o reconhecimento de ser devida a multa de mora aplicável ao recolhimento feito em atraso. Sobre o tema, confira-se precedentes do CARF: (...) Diante do exposto, afasto a tese de ocorrência da denúncia espontânea. 3 CONCLUSÃO Pelo exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário, rejeitar as preliminares de nulidade e, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Angélica Carolina Oliveira Duarte Toledo Fl. 2071DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 preliminares 2 mérito 3 Conclusão

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Numero do processo: 18186.725427/2013-81
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 18 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Sep 23 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2009 NULIDADE DO LANÇAMENTO. VÍCIO FORMAL. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NÃO OCORRÊNCIA. Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidas por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Estando devidamente circunstanciadas na decisão recorrida as razões de fato e de direito que a fundamentam, e não ocorrendo cerceamento de defesa, não há motivos para decretação de sua nulidade. A autoridade julgadora é livre na apreciação da prova, visando a formação de sua convicção, ao teor da legislação de regência. Inexiste a necessidade emissão de MPF/TDPF para a revisão de ofício de declaração de ajuste anual, ao teor da legislação de regência (art. 3º, parágrafo único da IN RFB nº 958, de 15/07/2009). DEDUÇÃO. LIVRO-CAIXA. DESPESAS DE CUSTEIO. RENDIMENTOS DO TRABALHO NÃO ASSALARIADO. COMPROVAÇÃO. CONJUNTO PROBATÓRIO INSUFICIENTE O contribuinte que perceber rendimentos do trabalho não assalariado poderá deduzir da receita decorrente do exercício da atividade recebida no decorrer e até o final do ano-calendário, as despesas de custeio escrituradas em livro-caixa, necessárias à percepção da receita e manutenção da fonte produtora, desde que devidamente comprovadas. Mantém-se o lançamento quando o contribuinte não apresenta documentação hábil e idônea a fim de comprovar a efetividade das despesas declaradas, em conformidade com a legislação de regência. PAF. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei tributária. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. PAF. DILAÇÃO PROBATÓRIA. PEDIDO DE DILIGÊNCIA, PERÍCIA OU PRODUÇÃO DE NOVAS PROVAS. SÚMULA CARF Nº 163. Presentes os elementos de convicção necessários à solução da lide, despiciendo o pedido de dilação probatória formulado.
Numero da decisão: 2001-008.648
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer do recurso voluntário, rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, negar provimento. (documento assinado digitalmente) Raimundo Cassio Goncalves Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente), Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca (Substituta), Leonardo Nuñez Campos (Substituto) e Wilderson Botto.
Nome do relator: WILDERSON BOTTO

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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2009 NULIDADE DO LANÇAMENTO. VÍCIO FORMAL. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NÃO OCORRÊNCIA. Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidas por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Estando devidamente circunstanciadas na decisão recorrida as razões de fato e de direito que a fundamentam, e não ocorrendo cerceamento de defesa, não há motivos para decretação de sua nulidade. A autoridade julgadora é livre na apreciação da prova, visando a formação de sua convicção, ao teor da legislação de regência. Inexiste a necessidade emissão de MPF/TDPF para a revisão de ofício de declaração de ajuste anual, ao teor da legislação de regência (art. 3º, parágrafo único da IN RFB nº 958, de 15/07/2009). DEDUÇÃO. LIVRO-CAIXA. DESPESAS DE CUSTEIO. RENDIMENTOS DO TRABALHO NÃO ASSALARIADO. COMPROVAÇÃO. CONJUNTO PROBATÓRIO INSUFICIENTE O contribuinte que perceber rendimentos do trabalho não assalariado poderá deduzir da receita decorrente do exercício da atividade recebida no decorrer e até o final do ano-calendário, as despesas de custeio escrituradas em livro-caixa, necessárias à percepção da receita e manutenção da fonte produtora, desde que devidamente comprovadas. Mantém-se o lançamento quando o contribuinte não apresenta documentação hábil e idônea a fim de comprovar a efetividade das despesas declaradas, em conformidade com a legislação de regência. PAF. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei tributária. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. PAF. DILAÇÃO PROBATÓRIA. PEDIDO DE DILIGÊNCIA, PERÍCIA OU PRODUÇÃO DE NOVAS PROVAS. SÚMULA CARF Nº 163. Presentes os elementos de convicção necessários à solução da lide, despiciendo o pedido de dilação probatória formulado.

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer do recurso voluntário, rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, negar provimento. (documento assinado digitalmente) Raimundo Cassio Goncalves Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente), Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca (Substituta), Leonardo Nuñez Campos (Substituto) e Wilderson Botto.

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VÍCIO FORMAL. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NÃO OCORRÊNCIA. Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidas por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Estando devidamente circunstanciadas na decisão recorrida as razões de fato e de direito que a fundamentam, e não ocorrendo cerceamento de defesa, não há motivos para decretação de sua nulidade. A autoridade julgadora é livre na apreciação da prova, visando a formação de sua convicção, ao teor da legislação de regência. Inexiste a necessidade emissão de MPF/TDPF para a revisão de ofício de declaração de ajuste anual, ao teor da legislação de regência (art. 3º, parágrafo único da IN RFB nº 958, de 15/07/2009). DEDUÇÃO. LIVRO-CAIXA. DESPESAS DE CUSTEIO. RENDIMENTOS DO TRABALHO NÃO ASSALARIADO. COMPROVAÇÃO. CONJUNTO PROBATÓRIO INSUFICIENTE O contribuinte que perceber rendimentos do trabalho não assalariado poderá deduzir da receita decorrente do exercício da atividade recebida no decorrer e até o final do ano-calendário, as despesas de custeio escrituradas em livro-caixa, necessárias à percepção da receita e manutenção da fonte produtora, desde que devidamente comprovadas. Mantém-se o lançamento quando o contribuinte não apresenta documentação hábil e idônea a fim de comprovar a efetividade das despesas declaradas, em conformidade com a legislação de regência. Fl. 192DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.648 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.725427/2013-81 2 PAF. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei tributária. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. PAF. DILAÇÃO PROBATÓRIA. PEDIDO DE DILIGÊNCIA, PERÍCIA OU PRODUÇÃO DE NOVAS PROVAS. SÚMULA CARF Nº 163. Presentes os elementos de convicção necessários à solução da lide, despiciendo o pedido de dilação probatória formulado. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer do recurso voluntário, rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, negar provimento. (documento assinado digitalmente) Raimundo Cassio Goncalves Lima - Presidente (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente), Maria Auxiliadora de Sousa Ramalho Fonseca (Substituta), Leonardo Nuñez Campos (Substituto) e Wilderson Botto. RELATÓRIO Por bem retratar os fatos ocorridos desde a constituição do crédito tributário por meio do lançamento até sua impugnação, adoto e reproduzo o relatório da decisão ora recorrida (fls. 84/95): Este processo trata da impugnação em face da Notificação de Lançamento - Imposto de Renda Pessoa Física (fls. 18/22) e do Termo de Constatação Fiscal (TCF - fls. 40/41), referentes à Declaração do Imposto de Renda Pessoa Física - DIRPF - do exercício de 2010 (ano 2009) (fls. 64/69). Foram apuradas as seguintes infrações: - Omissão de rendimentos - Gama Saúde Ltda - R$ 923,10; - Dedução indevida de livro caixa - R$ 232.667,13. Fl. 193DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.648 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.725427/2013-81 3 Como resultado, foi apurado o imposto suplementar de R$ 63.854,89, multa de ofício (75%) e juros de mora. A ciência da autuação ocorreu em 23/05/13 (fl. 71) e a impugnação foi apresentada em 24/06/13 (fls. 2/17), acompanhada dos documentos às fls. 18/62. A Contribuinte traz as alegações a seguir sintetizadas, além de documentos: - Tempestividade. - Suspensão da exigibilidade da obrigação tributária. - Singela exposição fática. Relata ter sido intimada e autuada por AFRFB, imaginando que passava por regular procedimento de malha fiscal. - Nulidade absoluta - Lançamento suplementar nulo - Vício formal - Auditor Fiscal preso (Operação Publicano). Alega que o Autuante foi preso preventivamente por causar prejuízo ao Erário, conforme exposto à mídia, tendo a Contribuinte prestado depoimento à Polícia Federal. Que o Autuante agia sem qualquer determinação da RFB, sem a Contribuinte estar selecionada em malha fina, ofendendo princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, segurança jurídica, interesse público, eficiência e imparcialidade. Que o Autuante teria encaminhado intimações e constatações simulados, enganosos e falsos. Que a Contribuinte teria conversado com o superior hierárquico do Autuante, que teria lhe fornecido documento demonstrando que não estava em malha fina, e que o Fiscal a teria incluído manualmente em "lista bloqueio", à semelhança de outras centenas de contribuintes. Que o Fiscal exigiria vantagens financeiras para não autuá-los. Assim, uma vez que nunca esteve sob fiscalização e que não havia Mandado de Procedimento Fiscal (MPF), a autuação seria nula, por absoluto vício formal. Suscita a IN RFB nº 958/09 sobre a revisão da DIRPF, o art. 116 da Lei nº 8.112/90 sobre os deveres dos servidores públicos civis, e o art. 2º da Lei nº 9.784/99 (PAF), alegando prejuízo em suas garantias fundamentais. - Da notificação de lançamento. Alega que a motivação de que "dividir o mesmo espaço não tem razão de ser" não é verídica, não havendo qualquer confusão entre a Impugnante e a clínica dermatológica, uma vez que estão situadas em locais distintos, estando a pessoa jurídica no conjunto 55 (conforme comprovante do CNPJ, DIPJ e contrato social), e a pessoa física nos conjuntos 54 e 56, e que a proximidade dos endereços não ensaia qualquer confusão. Que a clínica exerceria atividades dermatológica e cirúrgica (médica), enquanto a Impugnante, as atividades de estética. Que as despesas de seu livro caixa seriam inevitáveis e indispensáveis ao exercício da Impugnante, e que seriam de valor elevado, vez que os materiais eram importados e sem correspondentes nacionais, e que não caberia à malha fiscal analisar essas despesas, mas tão somente se havia compatibilidade de valores. Que o Autuante falaria em "despesas não lançadas na pessoa jurídica", mas a empresa seria optante do lucro presumido, não importando suas despesas. - Pedido. Requer: a) que a notificação seja declarada nula, pois não estava sob procedimento fiscal; requerendo b) perícia-diligência para comprovar tal fato; c) que a Impugnante não seja equiparada à pessoa jurídica, tornando inócua a notificação de lançamento; d) perícia-diligência técnica-contábil no livro caixa, para demonstrar que as despesas são essenciais e imprescindíveis e que não há vínculo com a pessoa jurídica, indicando perito técnico. Fl. 194DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.648 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.725427/2013-81 4 A decisão de primeira instância, por unanimidade, manteve o lançamento do crédito tributário exigido. Cientificada da decisão, em 31/10/2019 (fls. 99), a contribuinte, por procuradores habilitados interpôs, em 02/12/2019 - segunda-feira, recurso voluntário (fls. 103/124 e 148/169), insurgindo-se parcialmente contra a manutenção da autuação, repisando as alegações da peça impugnatória e trazendo outros argumentos, a seguir brevemente sintetizados por intermédio dos seguintes tópicos: I – Tempestividade do recurso voluntário - Ciência do acórdão recorrido: 31/10/2019 (quinta-feira) - trintídio: 30/11/2019 (sábado) - prorrogação: 02/12/2019 (segunda- feira); II – Total suspensão da exigibilidade da obrigação tributária contemplada pelo PAF nº 18186.725427/2013-81 - Total combate à Notificação de Lançamento nº 2010/772477864804624; III – Crédito tributário exigido na Notificação de Lançamento nº 2010/772477864804624; IV – Absoluta e total nulidade da fiscalização que desaguou o presente PAF, reflexamente, é nulo de pleno direito - Auditor fiscal preso - Operação Publicano; V – CARF - Revisão de lançamento; VI - Da Notificação de Lançamento nº 2010/772477864804624 - Exigência fiscal; VII – Mandado de segurança e correção-reprimenda e correção judicial - Total nulidade. Cita escólio doutrinário a motivar as pretensões recursais. Requer, ao final: a) - seja declarada nula e ilegal a notificação de lançamento, posto que nunca esteve em malha fiscal e tampouco havia ordem determinando sua fiscalização por meio de MPF-TDPF; b) - caso não se entenda, seja o julgamento convertido em diligência, visando a apuração técnica e contábil de que as despesas deduzidas nos livros-caixa constituem elementos essenciais e imprescindíveis, e que não há qualquer vínculo com a pessoa jurídica de que é sócia majoritária; c) - que não seja a pessoa física equiparada à pessoa jurídica, tornando-se inócuo lançamento lavrado; e d) – a total improcedência da notificação de lançamento lavrada. Instrui a peça recursal com os documentos de fls. 125/145. É o relatório. VOTO Conselheiro Wilderson Botto, Relator. Admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, razões por que dele conheço e passo à sua análise. Preliminares A Recorrente, em sede de preliminar, alega haver nulidade da autuação, porquanto nunca esteve sob “malha fiscal” e tampouco fora lavrado TDPF (MPF) para inspecioná-la, tendo sido incluída manualmente em “lista de bloqueio” por auditor fiscal e sem qualquer comando ou ordenança da RFB, sendo o lançamento fiscal lavrado nulo de pleno direito, sobretudo por violar Fl. 195DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.648 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.725427/2013-81 5 as garantias fundamentais da contribuinte, asseguradas por direitos constitucionais subjetivos, preconizados no art. 2º da Lei nº 9.784/99. Contudo, razão não lhe assiste. Ademais, as alegações ora novamente repisadas já foram detidamente apreciadas pela 18ª Turma da DRJ/RJO, estando a decisão recorrida assim fundamentada (fls. 86/89): A contribuinte alega terem sido cometidos diversos vícios e ilegalidades durante o procedimento de fiscalização, que, segundo crê, inquinariam de nulidade o presente lançamento. Inicialmente, cabe esclarecer que o presente julgamento deve se ater à verificação do lançamento com as normas legais vigentes, porque cabe à esfera administrativa somente aplicar as normas legais, sem poder apreciar quaisquer outras arguições, inclusive, acerca de violação de princípios constitucionais, em razão de a atividade de lançamento ser vinculada, nos termos do parágrafo único do art. 142 do Código Tributário Nacional - CTN: Art. 142 (...) Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Os princípios, em razão de sua própria natureza, são inaplicáveis, no âmbito administrativo, enquanto não traduzidos em uma norma que proíba ou obrigue a determinada conduta. Princípios jamais serão, na estreita margem de ação da autoridade administrativa, oponíveis a uma determinada norma emanada de autoridade competente. Nessa seara sobressai-se inconteste o princípio da legalidade. Se há lei mandando fazer algo, não cabe ao administrador verificar se está de acordo com este ou aquele princípio. A verificação desta adequação é matéria estranha à competência da autoridade administrativa, estando circunscrita ao legislador, de forma preventiva, no momento da feitura da norma, e ao judiciário, a posteriori, via controle repressivo. De qualquer modo, se fosse o caso de se questionar a obediência a princípios, deveria ser obrigatoriamente observado o princípio do interesse público, que no presente caso assume relevância ainda maior, em razão da análise de eventual irregularidade praticada por membro do quadro funcional. Como no campo tributário, vige, no seu mais alto grau, o princípio da legalidade, a norma tributária não deixa qualquer margem à utilização pela autoridade fiscal de qualquer outro princípio. É importante destacar que o já citado art. 142 do CTN e os arts. 10 e 11 do Decreto nº 70.235/72 (PAF), específicos em relação à matéria tributária, estabelecem os requisitos de validade do lançamento, além daqueles previstos para os atos administrativos em geral: CTN Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, Fl. 196DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.648 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.725427/2013-81 6 determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Decreto 70.235/72 (...) Art. 11. A notificação de lançamento será expedida pelo órgão que administra o tributo e conterá obrigatoriamente: I - a qualificação do notificado; II - o valor do crédito tributário e o prazo para recolhimento ou impugnação; III - a disposição legal infringida, se for o caso; IV - a assinatura do chefe do órgão expedidor ou de outro servidor autorizado e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. Parágrafo único. Prescinde de assinatura a notificação de lançamento emitida por processo eletrônico. Constata-se que a notificação ora impugnada, acompanhada do TCF, contém todos os requisitos estabelecidos na legislação supracitada, descrevendo adequadamente os fatos que deram suporte ao lançamento, as irregularidades apuradas, a correspondente fundamentação legal e a demonstração da reconstituição da base de cálculo do imposto e do crédito tributário exigido. Cumpre ressaltar que os casos que acarretam a nulidade do lançamento estão previstos no art. 59 do PAF, nos seguintes termos: Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam consequência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo.(...) Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. Art. 61. A nulidade será declarada pela autoridade competente para praticar o ato ou julgar a sua legitimidade. Da leitura dos dispositivos legais anteriormente transcritos, depreende-se que ensejam a nulidade do lançamento os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os Fl. 197DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.648 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.725427/2013-81 7 despachos e decisões proferidas por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Entretanto, verifica-se que, no caso, não ocorreram as causas de nulidade supracitadas, uma vez que a notificação foi lavrada por Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil, servidor competente para efetuar o lançamento, perfeitamente identificado pelo nome e matrícula. Além disso, o lançamento impugnado contém todos os requisitos estabelecidos nos dispositivos legais acima transcritos, e encontra-se devidamente motivado com a descrição do fato gerador e o respectivo enquadramento legal, de forma clara e precisa, contendo, portanto, todas as informações necessárias para que a Interessada pudesse, na fase impugnatória, manifestar-se e apresentar provas que elidissem a autuação, como, aliás, o fez em uma extensa impugnação, demonstrando conhecimento dos fatos. Do mesmo modo, não vejo como a alegação de que o fato de a Contribuinte não estar selecionada pela denominada "malha fina" ou da falta de Mandado de Procedimento Fiscal (MPF), atual do Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal (TDPF), possam ser aptos a ensejar a nulidade do lançamento. No caso da denominada "lista bloqueio", este é um instrumento usual da Fiscalização, por meio do qual há o registro nos sistemas de IRPF de que determinada DIRPF está sendo objeto de verificação pelo servidor público que o registra. Com tal procedimento, por exemplo, um saldo de imposto a restituir declarado somente seria restituído após as verificações necessárias. Visando analisar as elevadas despesas de livro caixa dos anos de 2007 a 2010, o Autuante lavrou as intimações datadas de 17/08/12 e 29/10/12 (fls. 31/34) e, posteriormente, baseando-se nos esclarecimentos e documentos apresentados pela Contribuinte efetuou, dentre outros, o lançamento ora combatido. Nesse contexto, qualquer autoridade fiscal com acesso a esse sistema pode constatar quem efetuou tal "seleção manual". A pertinência quanto ao lançamento porventura resultante deverá ser analisada como uma questão de mérito, e não de nulidade. No mesmo sentido, a ausência de MPF/TDPF não possui o condão de invalidar os trabalhos de fiscalização desenvolvidos, nem de tornar imprestáveis os dados e documentos obtidos para respaldar o lançamento de créditos tributário apurado, uma vez que o referido documento é um instrumento interno de planejamento e controle das atividades fiscais relativas aos tributos e contribuições administrados pela RFB. Isto se deve ao fato de que a atividade de lançamento é obrigatória e vinculada e, detectada a ocorrência da situação descrita na lei como necessária e suficiente para ensejar o fato gerador da obrigação tributária, não pode o agente fiscal deixar de efetuar o lançamento, sob pena de responsabilidade funcional. Estes instrumentos não podem obstar o exercício da atividade de lançamento conferida ao Auditor Fiscal, que decorre exclusivamente de lei. (...) Desta forma, resta rejeitada a alegação de nulidade do lançamento. De fato, quanto a preliminar arguida, vale registrar que o presente feito seguiu os trâmites regulares. A fiscalização atuou dentro da estrita legalidade e no limite institucional de sua competência, estando o lançamento devidamente formalizado, ao teor do art. 11 do Decreto nº Fl. 198DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.648 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.725427/2013-81 8 70.235/72 (PAF). Acresça-se ainda que o lançamento está claramente motivado e as base legais enquadradas, contendo a descrição da infração e dos dispositivos legais que deram suporte a penalidade aplicada e o valor devido, de maneira a oportunizar o pleno exercício ao contraditório – sendo-lhe concedido os prazos legais para apresentação de defesa e recurso voluntário – que, diga-se passagem, foram exercidos com plenitude, a tempo e modo. Quanto à análise das alegações suscitadas e da valoração das provas apresentadas, as autoridades lançadora e julgadora formarão livremente suas convicções motivadas, buscando a verdade material – o que de fato ocorreu, cujos fundamentos estão lastreados pela legislação de regência e com base no suporte e documental fornecido pela contribuinte em atendimento aos termos de intimação expedidos (fls. 31/34) – malgrado o inconformismo da contribuinte. Logo, do ponto de vista procedimental, o lançamento ocorreu dentro da estrita legalidade e sem qualquer prejuízo ou inobservância ao contraditório, inexistindo a suposta nulidade aventada. Alia-se o fato de que, da leitura do lançamento, a autuação está amparada nos fatos descritos que, no entender da autoridade fiscal, ensejaram a apuração detalhada dos valores e dos encargos aplicados, com a indicação dos dispositivos legais atinentes, não ocorrendo na espécie as causas ensejadoras de nulidades previstas no art. 59, I e II do PAF, aliás como bem fundamentado na decisão recorrida. Ademais, em relação à nulidade por inexistência de MPF/TDPF, vale salientar que os mesmos são prescindíveis nos casos de revisão interna das declarações de ajuste. Nesses casos o início do procedimento fiscal ocorre com a emissão da intimação para o contribuinte, conforme preconiza o art. 3º da IN RFB nº 958, de 15/07/2009, ao prescrever que o sujeito passivo será intimado a apresentar, no prazo fixado na intimação, esclarecimentos e/ou documentos sobre inconsistências detectadas na revisão da declaração de ajuste (como de fato ocorreu no presente caso), diante de indícios de irregularidades, as quais foram confirmadas resultando na lavratura da notificação fiscal objurgada. Não obstante, ainda no que tange à regularidade da ação fiscal, cabe ressaltar que o MPF (atual TDPF), foi instituído com o objetivo de regular a execução dos procedimentos fiscais sobre os tributos e contribuições administrados pela RFB, sendo meros instrumentos de controle administrativo. Também é fato que as normas alusivas aos procedimentos de fiscalização visam o disciplinamento de sua regular execução. E, qualquer irregularidade no cumprimento de tais disposições somente seria oponível na fase propriamente procedimental da ação fiscal, não tendo o condão de afetar o crédito tributário posteriormente formalizado, estando ou não a contribuinte em malha fiscal. Vale dizer que, eventuais problemas com o MPF/TPDF não geram a invalidação da apuração fiscal e nem implicam na imprestabilidade dos documentos obtidos para respaldar o lançamento fiscal. Não é demais novamente relembrar, que a atividade fiscal é vinculada e obrigatória, ao teor do art. 142 do CTN, de modo que, diante de irregularidades detectadas, não pode o agente Fl. 199DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.648 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.725427/2013-81 9 fiscal, instituído em sua função, deixar de efetuar o lançamento, sob pena de responsabilidade funcional. Sendo assim, não há dúvida que eventual descumprimento de normas de controle não retira qualquer atributo do ato administrativo do lançamento, que é estabelecido por lei. Logo, do ponto de vista procedimental, a conduta fiscal no presente feito ocorreu dentro da estrita legalidade, em detrimento das alegações recursais – sendo certo que meros instrumentos de controle administrativo (MPF/TDPF) não afetam o crédito tributário constituído, não invalidam o trabalho fiscal e nem implicam na imprestabilidade dos documentos obtidos para respaldar o lançamento, os quais, diga-se de passagem, foram franqueados pela contribuinte, em atendimento aos termos de intimação expedidos (fls. 31/34) – inexistindo assim o suposto vício aventado. Quanto às supostas violações aos princípios constitucionais aventados, também nada a prover. Como é sabido, o CARF não é competente para se pronunciar sobre ilegalidades e inconstitucionalidades, cuja matéria, aliás, também já se encontra sumulada: Súmula nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser aplicados, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. Por tais razões, rejeito a preliminar de nulidade suscitada. Mérito Da dedução indevida de despesas a título de livro-caixa: O litígio recai sobre a glosa da dedução indevida de livro-caixa, no valor de R$ 232.667,23, apurada em sede de revisão da DAA/2010 apresentada, buscando, por oportuno, nessa seara recursal, obter nova análise do processado, com o restabelecimento integral das despesas declaradas, em face da atividade jurídica por ela regularmente desenvolvida, como profissional liberal autônoma. Pois bem. Em que pese as alegações trazidas, do cotejo dos documentos carreados, aliado aos fundamentos traçados na decisão recorrida (fls. 84/95) e atendo-se às informações contidas no lançamento e no termo de constatação fiscal (fls. 18/22 e 40/41), não há como prosperar a pretensão recursal. Assim, considerando que a Recorrente, nesta fase recursal, não trouxe novas alegações contundentes a modificar o julgado – diga-se de passagem, limitando-se, basicamente, em repisar as alegações da peça impugnatória, sem contudo justificar ou demonstrar, por documentação hábil, a eventual possibilidade de divisão das despesas alocadas ao endereço de exercício profissional de ambas, PF (autônoma) e a PJ (Clínica Dermatológica), além da motivação Fl. 200DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.648 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.725427/2013-81 10 de outras despesas não dedutíveis escrituradas no livro-caixa, ao teor da legislação de regência – me convenço do acerto da decisão recorrida, pelo que adoto como razão de decidir os fundamentos lançados no voto condutor (fls. 90/94), mediante transcrição dos excertos abaixo, à luz do disposto no art. 114, § 12, I da Portaria MF nº 1.634, de 21/12/2023 (Novo RICARF): Quanto à omissão de rendimentos, esta foi apurada conforme DIRF entregue pela fonte pagadora. Não tendo apresentado alegações ou documentos a combater especificamente a infração, deve ser mantida integralmente. Quanto à dedução das despesas de livro caixa, pertinente reproduzir os seguintes artigos do Decreto nº 9.580/2018 - Regulamento do Imposto de Renda - RIR/2018: Art. 66. As deduções ficam sujeitas à comprovação ou à justificação, a juízo da autoridade lançadora (Decreto-Lei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). Art. 68. O contribuinte que perceber rendimentos do trabalho não assalariado, inclusive os titulares dos serviços notariais e de registro, a que se refere o art. 236 da Constituição, e os leiloeiros, poderão deduzir da receita decorrente do exercício da atividade (Lei nº 8.134, de 1990, art. 6º; e Lei nº 9.250, de 1995, art. 4º, caput, inciso I): I - a remuneração paga a terceiros, desde que haja vínculo empregatício, e os encargos trabalhistas e previdenciários correspondentes; II - os emolumentos pagos a terceiros; e III - as despesas de custeio pagas, necessárias à percepção da receita e à manutenção da fonte produtora. Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica (Lei nº 8.134, de 1990, art. 6º, § 1º): I - a quotas de depreciação de instalações, máquinas e equipamentos e a despesas de arrendamento; II - a despesas com locomoção e transporte, exceto na hipótese de representante comercial autônomo; e III - em relação aos rendimentos a que se referem os art. 39 e art. 40. Art. 69. As deduções de que trata o art. 68 não poderão exceder à receita mensal da atividade, permitido o cômputo do excesso de deduções nos meses seguintes, até dezembro do mesmo ano-calendário (Lei nº 8.134, de 1990, art. 6º, § 3º). § 1º O excesso de deduções porventura existente no final do ano-calendário não será transposto para o ano seguinte (Lei nº 8.134, de 1990, art. 6º, § 3º). § 2º O contribuinte deverá escriturar as receitas e as despesas em livro-caixa e comprovar a sua veracidade por meio de documentação idônea, mantida em seu poder, à disposição da fiscalização, enquanto não ocorrer a prescrição ou a decadência (Lei nº 8.134, de 1990, art. 6º, § 2º). § 3º O livro-caixa de que trata o § 2º independerá de registro. Por meio da leitura do art. 68 acima, verificamos que as despesas do livro caixa somente podem ser deduzidas dos rendimentos do trabalho não assalariado. Em sua declaração de ajuste, constato que a Contribuinte ofereceu à tributação rendimentos recebidos de: 1) Fl. 201DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.648 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.725427/2013-81 11 pessoas jurídicas (fl. 64), sendo R$ 34.979,54 provenientes do trabalho não assalariado conforme DIRFs; e de 2) pessoas físicas de R$ 248.094,00 (fl. 65), sendo o total de R$ 283.073,54 o limite para as deduções de livro caixa. A dedução foi pleiteada no valor total de R$ 232.667,13 (fl. 65), integralmente glosado na autuação (fl. 20), conforme Termo de Constatação Fiscal (TCV) e Planilha (fls. 40/41). Conforme o TCV, a glosa foi assim motivada: A Contribuinte entende que não caberia ao setor de malha fiscal adentrar na análise das despesas do livro caixa, mas tão somente analisar a compatibilidade de valores. No entanto, cabe esclarecer que todas as deduções pleiteadas, inclusive o livro caixa, estão sujeitas à comprovação e justificação, a juízo da autoridade lançadora, conforme dispõe o art. 66 do RIR/2018: Art. 66 - As deduções ficam sujeitas à comprovação ou à justificação, a juízo da autoridade lançadora (Decreto-Lei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). § 1º O sujeito passivo será intimado a apresentar, no prazo estabelecido na intimação, esclarecimentos ou documentos sobre inconsistências ou indícios de irregularidade fiscal detectados nas revisões de declarações, exceto quando a autoridade fiscal dispuser de elementos suficientes para a constituição do crédito tributário. Assim, a Fiscalização intimou a Contribuinte e analisou o livro caixa e os comprovantes das despesas, ressaltando-se que estes devem conter a perfeita identificação do Fl. 202DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.648 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.725427/2013-81 12 adquirente e das despesas realizadas, sendo que estas últimas devem ser necessárias e indispensáveis à manutenção da fonte produtora dos rendimentos. Tal análise deve ser individualizada, cotejada com a atividade desenvolvida pela profissional (dermatologia), a fim de se determinar a essencialidade do dispêndio e a possibilidade deste se enquadrar como uma despesa de custeio passível de dedução. Citam-se, como exemplos, despesas relativas a aluguel, água, luz, telefone, material de expediente ou de consumo. Note-se que, ao especificar expressamente as despesas dedutíveis e ao condicionar essas deduções à estrita conexão com a manutenção da respectiva fonte produtora dos rendimentos, a legislação objetiva vedar a utilização de critérios subjetivos para o cálculo do tributo devido e, em consequência, afastar qualquer possibilidade de liberalidade ou poder discricionário na dedução. De outra parte, para se verificar se as despesas são realmente necessárias, ou seja, se elas efetivamente têm alguma relação com a atividade desenvolvida pela Contribuinte, devem ser observados os critérios de normalidade, usualidade, necessidade e pertinência. Adicionalmente, é oportuno diferenciar despesa necessária e despesa útil, eis que se restringe à primeira a previsão legal de dedução. Na acepção da palavra, necessário é aquilo “que não se pode dispensar; que se impõe; essencial; indispensável...” (Dicionário Aurélio Eletrônico, 1997). No presente caso, por meio da consulta ao CREMESP (fl. 77), apresentada pela Contribuinte junto à impugnação referente ao exercício 2013, confirma-se que a Contribuinte é dermatologista desde 1988 e exerce sua atividade à R. Joaquim Floriano, 243, cj. 55, SP/SP. Por sua vez, o cadastro CNPJ informa que nesse mesmo endereço também funcionava a empresa Clínica Dermatológica Dra. Luciane Scattone S/S Ltda ME - CNPJ (...), constituída em 2004 (fl. 42). Por meio de seu contrato social (fls. 59/62), verifica-se que a Contribuinte possuía 90% do capital, enquanto sua irmã Cristiane Scattone (pedagoga), os 10% restantes. A responsabilidade técnica pela execução dos serviços profissionais estava a cargo da Contribuinte. Apesar de, em sua impugnação, ela afirmar que suas atividades como autônoma seriam exercidas nos conjuntos 54 e 56, e as da pessoa jurídica no conjunto 55, e de defender que "a proximidade dos endereços não ensaia qualquer confusão", não há qualquer prova nos autos de que a Contribuinte de fato exercia suas atividades nesses conjuntos 54 e 56, e não no conjunto 55, conforme registro no conselho profissional. Em sua DIRPF, a Contribuinte declarou ter recebido rendimentos tributáveis dessa empresa no valor de R$ 5.530,00 (fl. 64), correspondentes ao pró-labore, conforme DIPJ da empresa (fls. 78/83), que também a informa como representante da empresa. Ela declarou, também, ter recebido rendimentos isentos referentes a lucros e dividendos dessa mesma empresa, no valor de R$ 120.281,34 (fl. 66): Como noticiado na impugnação e conforme a DIPJ desse exercício, a clínica foi tributada pelo lucro presumido e apurou o lucro presumido líquido (após o IRPJ e CSLL) de R$ 36.255,53, conforme demonstrado abaixo: Fl. 203DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.648 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.725427/2013-81 13 Note-se que, uma vez que o lucro distribuído à sócia (R$ 120.281,34) foi superior ao líquido apurado pelo lucro presumido (R$ 36.255,53), conclui-se, à semelhança dos exercícios 2009 (processo nº 18186.722978/2013-93) e 2013 (processo nº 18186.723185/2014 72), que o valor distribuído correspondeu ao lucro contábil apurado pela clínica, correspondente à receita bruta excluída das despesas e dos tributos efetivamente pagos, e que foi distribuído somente à sócia, a Contribuinte. Reportando-nos ao lucro contábil, conforme apontado pelo Autuante, não há registros na contabilidade da empresa de despesas com aluguel, funcionários, água, luz, condomínio e materiais, prevalecendo em sua grande maioria os pagamentos de impostos da empresa. Verifica-se, assim, que a clínica não registrou nenhuma despesa relativa ao custo dos serviços prestados, a exemplo dos produtos farmacêuticos e hospitalares, e também às despesas básicas e necessárias para o funcionamento de uma clínica. Em contrapartida, na pessoa física, são registradas as despesas com produtos farmacêuticos, empregados, taxas de condomínio (Edif. Admiral Offices), contas telefônicas e de internet, dentre outras. Em sua defesa, a Contribuinte alega que a clínica teria exercido atividades dermatológicas e cirúrgicas, enquanto a Contribuinte, atividades estéticas. Nesse contexto, não é crível que a pessoa jurídica tenha podido prestar os citados serviços sem contabilizar em sua contabilidade nenhuma das despesas acima. Assim, claramente essas despesas foram todas direcionados à pessoa física. Neste ponto, cabe registrar que, em sua DIRPF, a Contribuinte ofereceu rendimentos à tributação, os quais combinados com as despesas (na maior parte do livro caixa 92%) e o IR já pago, resultaram em um saldo de imposto a pagar (R$ 1.883,76 - fl. 69) bastante diminuto, tendo em vista a receita bruta de R$ 287.912,34 (IR a pagar equivalente a 0,65% da receita bruta). Em contrapartida, por meio da DIPJ da empresa, verifico que esta ofereceu rendimentos à tributação pelo lucro presumido, pagou o IRPJ sobre uma base de cálculo presumida, mas apurou lucros contábeis (R$ 120.281,34) correspondentes a 80% da receita bruta (R$ 149.077,00), distribuindo-os somente à Contribuinte, como já acima descrito. Ressalte-se que nenhum lucro foi distribuído à outra sócia minoritária, à semelhança dos exercícios 2009 e 2013. Isto é, mesmo a clínica tendo faturado R$ 149.077,00 por meio de serviços dermatológicos e cirúrgicos, esta não declarou nenhuma despesa relativa a produtos farmacêuticos, empregados, condomínio, energia ou telefones, o que fez, por consequência, aumentar o seu lucro contábil, passível de distribuição, sob determinadas condições, de forma isenta ao sócio. Quanto ao endereço, observo que somente em 18/06/14 o endereço da empresa foi alterado para o cj. 56 (fls. 75/76), sendo que ambos os conjuntos - 55 e 56 - foram declarados como de propriedade da Contribuinte (fl. 67). Fl. 204DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.648 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.725427/2013-81 14 Constata-se assim que, de fato, tanto a pessoa física quanto a pessoa jurídica atuavam no mesmo endereço - conjunto 55, ambas prestando serviços dermatológicos. Notadamente, a maioria das despesas do livro caixa estão endereçadas para o conjunto 55, não sendo possível identificar exatamente quais despesas corresponderiam aos serviços prestados pela pessoa física e quais aos da pessoa jurídica. Mesmo em relação às despesas com empregados, registrados em nome da Contribuinte, igualmente não há como se distinguir quais serviços foram prestados à pessoa física da Contribuinte ou à pessoa jurídica da clínica dermatológica. Nesse contexto, em que se constata a impossibilidade de divisão das despesas relativas aos serviços de dermatologia entre as pessoas física e jurídica envolvidas, e a inexistência de dispositivo legal que disponha acerca de seu rateio, concluo por mantê-las glosadas. Ademais, as glosas das despesas vinculadas a outros endereços distintos do conjunto 55 também devem ser mantidas, uma vez que não há prova de que esses imóveis tenham sido usados pela pessoa física da Contribuinte para sua atividade profissional. As despesas não diretamente ligadas a esse exercício profissional também não são dedutíveis. Desta forma, uma vez que verificada a impossibilidade de divisão entre a pessoa física (autônoma) da Contribuinte e a pessoa jurídica de sua clínica das despesas alocadas ao endereço de exercício profissional de ambas, além da motivação de outras despesas acima consideradas indedutíveis, concluo por manter a glosa do livro caixa integralmente. De fato, não remanesce dúvida que todas as deduções levadas ao ajuste anual estão sujeitas à comprovação ou justificação por documentação hábil e idônea, a juízo da autoridade lançadora, nos termos dos arts. 73 e 76, § 2º do RIR/99, cabendo à contribuinte apresentar os documentos necessários à confirmação de suas alegações. Destarte, e à míngua de comprovação efetiva e consistente, restando desatendidos os requisitos para dedutibilidade das despesas escrituradas no livro-caixa – levando-se em conta que tanto a PF (autônoma) e a PJ (Clínica Dermatológica) atuavam no mesmo endereço, prestando serviços dermatológicos, e que não foi possível distinguir e individualizar quais despesas corresponderiam aos serviços prestados separadamente, impossibilitando assim a divisão das despesas dos serviços dermatológicos prestados por ambas, bem pela inexistência de dispositivo legal dispondo acerca de seu rateio, aliado ao fato de que a PJ (Clínica Dermatológica) não registrou nenhuma despesa relativa ao custo dos serviços prestados, produtos farmacêuticos e hospitalares, e também às despesas básicas e necessárias para o seu funcionamento, as quais foram efetivamente contabilizadas na PF (autônoma), como bem fundamentado na decisão recorrida – e constando a regularidade da ação fiscal, correta é a decisão recorrida, tudo em sintonia com a legislação de regência, razão pela qual mantenho a glosa e reconheço a subsistência do crédito tributário em litígio. Vale novamente relembrar que, o lançamento rege-se por expressa determinação legal, sendo a atividade fiscal vinculada e obrigatória, na exata dicção do art. 142 do CTN, competindo ao Fisco revisar a declaração de ajuste anual, calcular a exigência e constituir o crédito tributário, sob pena de responsabilidade funcional. Fl. 205DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-008.648 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 18186.725427/2013-81 15 Quanto ao escólio doutrinário trazido para justificar as pretensões recursais, tem-se que o mesmo não é oponível ao texto explícito do direito positivo, mormente em se tratando do direito tributário brasileiro, por sua estrita subordinação à legalidade, tudo à inteligência do art. 150, I, da CF/88. Em relação ao pedido de dilação probatória, com especial destaque para realização de prova pericial técnica contábil, não vislumbro a sua eventual necessidade, visto que o processo se encontra suficientemente instruído e é contundente em demonstrar a sujeição passiva em relação à autuação remanescente em litígio. Ademais no processo fiscal a produção probatória somente se justifica se necessária à formação de convicção do julgador (art. 18 do Decreto nº 70.235/72), o que se torna despiciendo no presente feito, cuja matéria, aliás, neste mesmo sentido, já se encontra assentada neste CARF: Súmula nº 163: Aprovada pelo Pleno em sessão de 06/08/2021 – vigência em 16/08/2021 O indeferimento fundamentado de requerimento de diligência ou perícia não configura cerceamento do direito de defesa, sendo facultado ao órgão julgador indeferir aquelas que considerar prescindíveis ou impraticáveis. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 12.975, de 10/11/2021, DOU de 11/11/2021). Por fim, quanto ao pedido de suspensão da cobrança do crédito tributário exigido, e como bem fundamentado na decisão recorrida, cabe salientar que, durante o curso processual, o crédito tributário ficará com a exigibilidade suspensa, na exata dicção do art. 151, III do CTN, sendo despiciendo o pedido formulado nesse sentido, sobretudo levando-se em conta que a suspensão requerida já foi aplicada por força de lei. Conclusão Ante o exposto, voto por rejeitar a preliminar de nulidade suscitada, e no mérito em NEGAR PROVIMENTO ao presente recurso, para manter o lançamento remanescente em litígio e as alterações decorrentes realizadas na base de cálculo do imposto de renda. É como voto. (documento assinado digitalmente) Wilderson Botto Fl. 206DF CARF MF Original http://idg.carf.fazenda.gov.br/noticias/2021/arquivos-e-imagens/portaria-me-no-12975-sumulas-carf-atribui-efeito-vinculante.pdf http://idg.carf.fazenda.gov.br/noticias/2021/arquivos-e-imagens/portaria-me-no-12975-sumulas-carf-atribui-efeito-vinculante.pdf Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 12448.726206/2013-16
Turma: Quarta Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 25 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Sep 22 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/11/2012 a 30/11/2012 MUDANÇA DE CRITÉRIO JURÍDICO. NÃO CARACTERIZAÇÃO. A modificação de critério jurídico mencionada no art. 146 do CTN vincula-se a uma alteração na adoção de critérios legalmente estabelecidos, ou na mudança de interpretação dada à legislação tributária pela administração. A mudança de critério jurídico é uma alteração nos fundamentos do lançamento, uma inovação que deve obedecer às restrições impostas pelo citado artigo 146. A existência de decisões díspares, prolatadas pela instância de piso, em processos que analisam o plano de participação nos lucros e nos resultados (PLR) de períodos distintos, instituídos por um mesmo sujeito passivo da obrigação tributária, não configura alteração do critério jurídico do lançamento. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. LEI Nº 10.101/2000. A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, sendo imprescindível a existência de regras claras e objetivas, bem como a indicação do período de vigência e dos prazos para revisão do acordo. CANCELAMENTO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. EVENTUAL DECISÃO POR VOTO DE QUALIDADE. APLICAÇÃO DO ART. 112 DO CTN. O art. 112 do CTN é hialino ao tratar sobre a lei tributária definidora de infrações. Multas e tributos são ontológica e teleologicamente distintos, razão pela qual teratológica a pretensão de, com arrimo no art. 112 do CTN, cancelar a integralidade da obrigação principal tributária.
Numero da decisão: 2004-000.477
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar e negar provimento ao recurso. No mérito, o conselheiro Leonam Rocha de Medeiros acompanhou a relatora pelas conclusões e manifestou interesse em apresentar declaração de voto. Assinado Digitalmente Ludmila Mara Monteiro de Oliveira - Relatora Assinado Digitalmente Jorge Cláudio Duarte Cardoso - Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Mario Hermes Soares Campos (Substituto Integral), Leonam Rocha de Medeiros, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira e Jorge Cláudio Duarte Cardoso (Presidente). Ausente a Conselheira Miriam Denise Xavier, substituída pelo Conselheiro Mario Hermes Soares Campos.
Nome do relator: LUDMILA MARA MONTEIRO DE OLIVEIRA

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NÃO CARACTERIZAÇÃO. A modificação de critério jurídico mencionada no art. 146 do CTN vincula- se a uma alteração na adoção de critérios legalmente estabelecidos, ou na mudança de interpretação dada à legislação tributária pela administração. A mudança de critério jurídico é uma alteração nos fundamentos do lançamento, uma inovação que deve obedecer às restrições impostas pelo citado artigo 146. A existência de decisões díspares, prolatadas pela instância de piso, em processos que analisam o plano de participação nos lucros e nos resultados (PLR) de períodos distintos, instituídos por um mesmo sujeito passivo da obrigação tributária, não configura alteração do critério jurídico do lançamento. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. LEI Nº 10.101/2000. A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, sendo imprescindível a existência de regras claras e objetivas, bem como a indicação do período de vigência e dos prazos para revisão do acordo. CANCELAMENTO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. EVENTUAL DECISÃO POR VOTO DE QUALIDADE. APLICAÇÃO DO ART. 112 DO CTN. O art. 112 do CTN é hialino ao tratar sobre a lei tributária definidora de infrações. Multas e tributos são ontológica e teleologicamente distintos, razão pela qual teratológica a pretensão de, com arrimo no art. 112 do CTN, cancelar a integralidade da obrigação principal tributária. Fl. 546DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.477 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.726206/2013-16 2 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar e negar provimento ao recurso. No mérito, o conselheiro Leonam Rocha de Medeiros acompanhou a relatora pelas conclusões e manifestou interesse em apresentar declaração de voto. Assinado Digitalmente Ludmila Mara Monteiro de Oliveira – Relatora Assinado Digitalmente Jorge Cláudio Duarte Cardoso – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Mario Hermes Soares Campos (Substituto Integral), Leonam Rocha de Medeiros, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira e Jorge Cláudio Duarte Cardoso (Presidente). Ausente a Conselheira Miriam Denise Xavier, substituída pelo Conselheiro Mario Hermes Soares Campos. RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto por JGP GLOBAL GESTAO DE RECURSOS LTDA contra o acórdão, proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília (DRJ/BSB), que julgou improcedente a impugnação apresentada, mantendo-se as seguintes exigências: DEBCAD nº 51.032.138-0 – no valor de R$ 358.491,92, lavrado em 27/6/2013, referente à contribuição social destinada à seguridade social correspondente à contribuição da empresa, inclusive para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho (GILRAT), não declarada em Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social - GFIP, incidentes sobre os pagamentos efetuados a segurados empregados nas competências 1/2009 e 7/2009; DEBCAD nº 51.032.139-9 – totalizando R$ 94.511,51, lavrado em 27/6/2013, referente à contribuição para outras entidades e fundos, não declarada em GFIP, incidente sobre os pagamentos efetuados a segurados empregados nas competências 1/2009 e 7/2009. Fl. 547DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.477 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.726206/2013-16 3 Em sua peça impugnatória (f. 238/265) sustenta que i) regras claras e objetivas foram estabelecidas no Plano de Participação nos Lucros ou Resultados (PLR); e, ii) havia “informações acerca de seu período de vigência e prazo para revisão.” Aduziu ainda que o direito insculpido no inc. XI do art. 7º da Carta Constitucional independe de observância do disposto na Lai nº 10.101/2000. Em petição acostada às f. 401/404 narra que a idêntico plano de PLR foi posto sob escrutínio, culminando com o cancelamento da exigência. Pediu que igual deslinde fosse, nestes autos, conferido – vide acórdão da DRJ/RJ1 às f. 405/411. Ao apreciar os motivos de insurgência, prolatado o acórdão assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. LEI Nº 10.101/2000. O pagamento de participação nos lucros a empregado em desacordo com a legislação específica é fato gerador de contribuições sociais. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido (f. 414) Cientificada da decisão da DRJ em 11 de setembro de 2018 (f. 438), apresentou, em 10 de outubro de 2018(f. 440), recurso voluntário (f. 442/494), formulando os seguintes pedidos: (i) preliminarmente, restou evidenciado que na autuação fiscal objeto desse processo administrativo houve a modificação nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa com relação aos fatos já conhecidos e analisados no procedimento fiscal realizado em 2010, de modo que esse novo entendimento só poderia ser aplicado aos fatos geradores ocorridos após a fiscalização concluída em 28.06.2013, sob pena de violação do artigo n° 146, do Código Tributário Nacional, conforme entendimento jurisprudencial pacífico. Ou, ao menos, seja reconhecida a impossibilidade de imposição das penalidades exigidas, nos termos do artigo 100, parágrafo único, do Código Tributário Nacional; (ii) no mérito, restou demonstrado que o Programa de PLR celebrado pela Recorrente efetivamente possui regras claras e objetivas, conforme entendimento manifestado no procedimento fiscal realizado em 2010, e também contém previsões a respeito da sua vigência e possibilidade de revisão, atendendo, assim, a todos os requisitos da Lei n° 10.101/2000, não havendo razão para a exigência de contribuição previdenciária sobre os pagamentos de Fl. 548DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.477 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.726206/2013-16 4 participação nos resultados por ela efetuados a seus empregados com base em tal Programa; e (iii) subsidiariamente, caso não se entenda pelo cancelamento integral do lançamento tributário em questão e em sendo o resultado proferido por voto de qualidade, o que também se admite apenas para fins de argumentação, seja cancelada a integralidade do crédito tributário ou, ao menos, afastada a aplicação da multa de ofício, à luz do disposto no artigo 112, inciso II, do Código Tributário Nacional. É o relatório. VOTO Conselheira Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Relatora Inicialmente, acuso o recebimento de memoriais gentilmente ofertados pela parte Recorrente, os quais mereceram minha atenciosa leitura. O recurso é tempestivo e preenche os demais pressupostos de admissibilidade, razão pela qual conheço-o. Anoto que, não obstante qualquer preliminar ter sido arguida na defesa de ingresso, a temática veio a ser apreciada pela instância a quo, após noticiado o êxito noutros autos (f. 401/404), razão pela qual merece ser conhecida. Além disso, possível aventar configurar matéria de ordem pública, eis que a modificação de critério jurídico, quando devidamente comprovada, acarreta a nulidade da autuação. I – DA PRELIMINAR: DA SUPOSTA MODIFICAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO Conforme relatado, sustenta a parte ora Recorrente ter restado evidenciado que na autuação fiscal objeto desse processo administrativo houve a modificação nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa com relação aos fatos já conhecidos e analisados no procedimento fiscal realizado em 2010, de modo que esse novo entendimento só poderia ser aplicado aos fatos geradores ocorridos após a fiscalização concluída em 28.06.2013, sob pena de violação do artigo n° 146, do Código Tributário Nacional, conforme entendimento jurisprudencial pacífico. Ou, ao menos, seja reconhecida a impossibilidade de imposição das penalidades exigidas, nos termos do artigo 100, parágrafo único, do Código Tributário Nacional. (sublinhas deste voto) Fl. 549DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.477 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.726206/2013-16 5 Certo que nas hipóteses de erro de direito – isto é, quando há equívoco na valoração jurídica dos fatos –, o ato administrativo de lançamento tributário revela-se imodificável, nos termos do art. 146, do CTN, segundo o qual a modificação introduzida, de ofício ou em consequência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. Esclarece a Recorrente que [c]onforme se verifica do trecho acima transcrito do Relatório Fiscal que embasou o auto de infração objeto do processo administrativo nº 11052.001161/2010-10, naquela oportunidade (procedimento fiscal realizado em 2010), a fiscalização considerou que o Programa de PLR sob análise não atenderia às disposições contidas na Lei n° 10.101/2000, em razão, EXCLUSIVAMENTE, de alguns empregados da Recorrente não terem recebido o pagamento de tais verbas, resultando na lavratura dos autos de infração objeto dos processos administrativos n°s 11052.001161/2010-10, 11052.001162/2010- 56 e 11052.001163/2010-09. Alegação essa que já restou afastada por decisão de primeira instância que cancelou esses autos de infração (doc. 03), e que não guarda qualquer relação com o fundamento do lançamento ora questionado. (sublinhas deste voto) Da leitura do breve excerto é possível coletar algumas informações importantes, que demonstram ter inexistido modificação de critério jurídico. A uma, a indigitada mudança de critério jurídico teria ocorrido a partir do cotejo de decisões dissonantes proferidas pela DRJ. A duas, os períodos de autuação distintos e sequer é possível atestar a identidade entre os planos. A três, é evidente a disparidade entre os motivos apresentados pela fiscalização para justificar a carência de higidez do plano de PLR ora analisado e o trazido à baila. A quatro, as fiscalizações, como reconhecido, são distintas. A Recorrente desenvolve linha argumentativa no sentido de que no presente caso [haveria] uma absoluta insegurança jurídica, visto que, quando da análise do Programa de PLR em questão por dois auditores fiscais distintos (nos procedimentos fiscais realizados em 2010 e em 2012), enquanto um deles considerou que tal Programa possuiria regras claras e objetivas (2010), para o outro, tal Programa não possuiria regras claras e objetivas (2012). Caso juízos distintos externados por auditores fiscais na análise de processos díspares, ainda que de mesmo contribuinte, configurasse modificação de critério jurídico, como pretende a Recorrente, o instituto jurídico da prevenção teria de ser aplicado à fiscalização. Fl. 550DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.477 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.726206/2013-16 6 Ora, a modificação de critério jurídico, se houvesse existido, deveria decorrer de alteração atribuída pelo julgador das balizas externadas no próprio lançamento. Rejeito, por essas razões, a preliminar. II – DO MÉRITO: DOS REQUISITOS PARA A HIGIDEZ DO PLANO DE PLR Consabido que a Carta de 1988, pródiga em contemplar uma série de direitos para promoção e resguardo da dignidade da pessoa humana, conferiu ao trabalhador e à trabalhadora o direito social de perceber montantes a título de participação nos lucros ou resultados, desvinculada da remuneração – ex vi do inc. XI do art. 7º. Sempre prudente lembrar que tais direitos fundamentais albergam não só uma proibição de intervenção, mas ainda uma vedação da proteção insuficiente. Daí porque certo afirmar que a Constituição procurou estabelecer limites ao poder de conformação do legislador e dos próprios contratantes na conformação do contrato de trabalho. O constituinte definiu a estrutura básica do modelo jurídico da relação de emprego com efeitos diretos sobre cada situação concreta. A disciplina normativa mostra-se apta, em muitos casos, a constituir direito subjetivo do empregado em face do empregador, ainda que, em algumas configurações, a matéria venha a ser objeto de legislação específica. Não obstante seja um direito social que visa promover a tão necessária integração capital-trabalho, me parece não encartar a norma constitucional uma imunidade. A uma porque a imunidade tributária é norma constitucional que decepa a competência – isto é, retira dos entes tributantes a possibilidade de instituição de exação para gravar certas situações e objetos. Daí o porquê a imunidade é sempre expressa, delimitando direta e escancaradamente a situação ou objeto sobre o qual resta proibida a instituição de tributos. Com a devida vênia aos que entendem de forma diversa, o inc. XI do art. 7º da CRFB/88 em momento algum caçou a competência da União para tributar planos de PLR – isto é, “a mencionada norma não traz um comando que limite a competência do legislador ordinário.” A duas porque o inc. XI do art. 7º da nossa Constituição relegou à lei ordinária estabelecer os critérios de instituição da PLR. Se estivéssemos diante de uma imunidade, por força do disposto no inc. II do art. 146 da CRFB/88, tal tarefa caberia à lei complementar, eis que responsável por “regular as limitações constitucionais ao poder de tributar.” Assim, “ao recordar o comando esculpido no artigo 7º, inciso XI da Carta da República não observo um comando que limite a competência do legislador ordinário, ao reverso, vejo a criação de um direito dos trabalhadores limitado por lei.” Firmada a natureza jurídica da norma, passo à análise do que determinava a Lei nº 10.101/2001, com a redação vigente à época dos fatos geradores. Peço vênia para fazer a transcrição do regramento, no que importa: Fl. 551DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.477 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.726206/2013-16 7 Art. 2o A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: I - comissão paritária escolhida pelas partes, integrada, também, por um representante indicado pelo sindicato da respectiva categoria; II - convenção ou acordo coletivo. § 1o Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo, podendo ser considerados, entre outros, os seguintes critérios e condições: I - índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa; II - programas de metas, resultados e prazos, pactuados previamente. § 2o O instrumento de acordo celebrado será arquivado na entidade sindical dos trabalhadores. (sublinhas deste voto) De acordo com a fiscalização, a primeira afronta à Lei nº 10.101/00 ocorreu porque [o] Programa de Participação nos Lucros e Resultados da empresa, datado de 05/10 prevê em sua Cláusula 13º, que a vigência "vigorará por prazo indeterminado" e que a revisão ou alteração dos critérios, condições e conceitos instituídos no Programa de Participação competirá exclusivamente ao Comitê Executivo da JGP Global, conforme Cláusula 10, não especificando data de vigência ou revisão. (f. 18; sublinhas deste voto) Ao sentir da Recorrente, “a Lei nº 10.101/00 não exige que o programa de PLR possua um determinado de vigência, tampouco para que seja revisto.” (f. 490) A interpretação ofertada, desprovida de embasamento doutrinário ou jurisprudencial, colide com a literalidade do disposto no § 1o do art. 2º da Lei nº 10.101/00. Inobservado um único requisito, certo não ser hígido o plano instituído. Acrescento que tampouco vislumbro a existência de regras claras e objetivas, eis que a autoavaliação parece ter sido o critério preponderante adotado. Às f. 141/143 acostado o Programa de Avaliação de Desempenho, no qual consta que a avaliação se daria da seguinte forma: Inaceitável – I Não Satisfatório – NS Fl. 552DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.477 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.726206/2013-16 8 Satisfatório- S Mais Que Satisfatório – MS Excelente - E Não Se Aplica - NA Às f. 146/230 apresentados os formulários preenchidos pelos colaboradores e revisados pela chefia imediata. Todos os empregados receberam o conceito final S (Satisfatório) ou MS (Mais que Satisfatório). Ao final de cada formulário, atribuídos pontos a depender i) da faixa salarial bruta; ii) do padrão de desempenho no cargo ou função; iii) do padrão comportamental e da iv) avaliação individual. Inexiste no Programa de Avaliação de Desempenho informação acerca dos pontos distribuídos, além de merecer atenção o fato de a avaliação individual possuir o maior peso entre os demais critérios. Na cláusula 3ª do Programa de Avaliação de Desempenho – f. 142 – consta que “dentre outros princípios, a avaliação se pautará pela imparcialidade.” Parece-me hercúleo considerar imparcialidade no contexto de autoavaliação, o que corrobora a ausência de regras claras e objetivas no plano. Ambos os descumprimentos à Lei nº 10.101/00 apontados pela fiscalização deveras subsistem. III – DO PEDIDO SUBSIDIÁRIO Em caráter subsidiário pediu que, na hipótese de julgamento por voto de qualidade, seja “cancelada a integralidade do crédito tributário ou, ao menos, afastada a aplicação da multa de ofício, à luz do disposto no artigo 112, inciso II, do Código Tributário Nacional.” O dispositivo citado determina que “[a] lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades, interpreta-se da maneira mais favorável ao acusado, em caso de dúvida quanto à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos.” Multas e tributos são ontológica e teleologicamente distintos. Isto porque, em primeiro lugar, a multa é sempre uma sanção de ato ilícito, ao passo que tributo jamais poderá sê- lo; em segundo lugar, os tributos são a fonte precípua – e imprescindível – para o financiamento do aparato estatal, enquanto as multas são receitas extraordinárias, auferidas em caráter excepcional, cuja função é desestimular comportamentos tidos como indesejáveis. Teratológico, portanto, pretender a aplicação do art. 112 do CTN, que versa sobre sanções, para pretender o cancelamento da integralidade do crédito tributário. Rejeito o pedido. Caso o deslinde destes autos venha ocorrer por voto de qualidade poderá a ora Recorrente aderir ao disposto na Lei nº 14.689/2023. IV – DO DISPOSITIVO Fl. 553DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.477 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.726206/2013-16 9 Ante o exposto, rejeito a preliminar e, no mérito, nego provimento ao recurso. Assinado Digitalmente Ludmila Mara Monteiro de Oliveira DECLARAÇÃO DE VOTO Conselheiro Leonam Rocha de Medeiros, em declaração de voto. Inicialmente, parabenizo a Ilustre Relatora por bem expor sua respeitada decisão, conquanto rogo vênia para, em alguns pontos, apresentar conclusões próprias, o que faço por meio desta declaração de voto, na qual externo meus fundamentos para a tomada de decisão. O debate nefrálgico principal é afeto a desconsideração do Plano de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) da empresa autuada. A fiscalização, por ter desconsiderado o PLR da pessoa jurídica, efetuou o lançamento de ofício para constituição da exigência de contribuições previdenciárias tendo como base de cálculo os pagamentos efetuados aos segurados empregados a título de PLR com supedâneo no referido plano. A empresa não havia declarado tais pagamentos como base tributável em GFIP. A fiscalização motivou a desconsideração do PLR por violações da Lei nº 10.101, essencialmente do §1º do art. 2º da Lei nº 10.101. O relatório fiscal, que formalizou a acusação, consta no e-fls. 15/21. Muito bem. Antes de adentrar na querela em si, entendo que a interpretação a nortear o debate deve ser por critério teleológico, que busca a finalidade do instituto, o que não significa ser a interpretação a todo tempo favorável ou flexibilizada. O ponto é que sempre se buscará apropriar se a finalidade foi ou não atendida no propósito pretendido pela norma no horizonte estabelecido pela lei. Neste horizonte, há divergência interpretativa de partida com o voto relatado. Por outras palavras, visualizo norma imunizante, apesar da norma constitucional ser de eficácia limitada com condicionamento de sua completude aos termos regulados em lei. Vale dizer, a norma do art. 7º, inciso XI, da Constituição Federal, quando o plano seguir os termos do procedimento regulado por lei, ceifa os poderes normativos da União Fl. 554DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.477 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.726206/2013-16 10 relacionados ao art. 195, I, “a”, da Constituição Federal (para as contribuições previdenciárias)1 e ao art. 149 (para as contribuições destinadas a terceiros)2, para entender que os pagamentos a título de PLR se qualifiquem como “demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados, a qualquer título”. Por isso, uma imunidade. Conquanto, a lei ordinária pode e deve, pela própria imposição constitucional, regulamentar o procedimento, isto é, a forma e procedibilidade de como devem ser negociados e formalizados esses acordos ou planos de PLR. O fato da Lei nº 10.101 ser ordinária (e não complementar) deve-se a circunstância dela tratar exclusivamente de normas procedimentais – os procedimentos possíveis para o acordo de PLR se formalizar, ser pactuado. Isto não significa que o art. 7º, inciso XI, da Constituição Federal, para fins tributários, como contrapartida ao empregador, deixe de introduzir veículo normativo imunizante. Quando do julgamento das normas de imunidade das entidades beneficentes de assistência social, o STF entendeu e aclarou haver espaço para normas procedimentais serem estabelecidas por lei ordinária, a exemplo das normas sobre o CEBAS, nas situações nas quais o núcleo da imunidade não é violado e são veiculadas na lei ordinária meras normas procedimentais. Neste horizonte, não há dúvidas de que a Lei nº 10.101 estabelece os procedimentos para a negociação entre capital e trabalho. Isto, não torna a norma imunizante em uma isenção. A contrapartida do empregador que concede a PLR, pactuado conforme norma de procedimento legal, é o benefício da imunidade tributária que retira os pagamentos de PLR do conceito de base tributável (do conceito de salário-de-contribuição), de modo que, teleologicamente, deixa de ter natureza jurídica de “remuneração” ou de “contraprestação pelo trabalho”, na forma do art. 7º, inciso XI, da Carta Política. O fato de a norma ser constitucional de eficácia limitada (CF, art. 7º, XI), prescindindo do regramento infraconstitucional na regulamentação dos procedimentos para lhe dar a amplitude, completude e integrá-la (RE 398.284), não desnatura a imunidade que ordena que a PLR seja desvinculada do conceito de remuneração, de modo a afastar a incidência de contribuições que incidam sobre as remunerações pagas. 1 Constituição Federal. Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: I - o empregador, da empresa e da entidade a ela equiparada na forma da lei, incidentes sobre: a) a folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados, a qualquer título, à pessoa física que lhe preste serviço, mesmo sem vínculo empregatício; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998). 2 Constituição Federal. Art. 149. Compete exclusivamente à União instituir contribuições sociais, de intervenção no domínio econômico e de interesse das categorias profissionais ou econômicas, como instrumento de sua atuação nas respectivas áreas, observado o disposto nos arts. 146, III, e 150, I e III, e sem prejuízo do previsto no art. 195, § 6º, relativamente às contribuições a que alude o dispositivo. Fl. 555DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.477 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.726206/2013-16 11 Não fosse assim, os Tribunais ao apreciarem alguns elementos da PLR, por exemplo, nunca flexibilizariam quaisquer das regras, vez que deveriam aplicar a interpretação meramente literal (CTN, art. 111, II). Ocorre que, não raro, aplicam exatamente a interpretação teleológica. Veja-se, verbi gratia, em relação a regra de arquivamento do instrumento na entidade sindical dos trabalhadores (Lei 10.101, § 2º do art. 2º), o STJ já decidiu de forma teleológica, que: “A ausência de homologação de acordo no sindicato, por si só, não descaracteriza a participação nos lucros da empresa a ensejar a incidência da contribuição previdenciária” (REsp 865.489/RS, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, DJe 24/11/2010). Fosse norma de isenção, penso que o STJ não poderia adotar a fundamentação que proferiu. Meu ponto para deliberar sobre a natureza jurídica, se isenção ou se imunidade, é para que se aplique a correta medida hermenêutica. Se fosse isenção, a interpretação deve ser restritiva (CTN, art. 111, II). Mas, tratando-se de imunidade deve imperar a regra de interpretação teleológica. De qualquer forma, a interpretação teleológica nem sempre é ampliativa, pode até ser restritiva, importando o fim mesmo do instituto, sem prejuízo do olhar posto pela regulamentação (Lei nº 10.101). Dito isto, vê-se, a partir da acusação fiscal, que a desconsideração do plano de PLR se deu em ato motivado da auditoria por inobservância do dever de constar no instrumento negociado “regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo” na forma exigida no §1º do art. 2º da Lei nº 10.101. Especialmente, a fiscalização ponderou os seguintes motivos: (i) os quesitos da avaliação individual de desempenho dos empregados careceriam de objetividade; (ii) não haveria regras e mecanismos de aferição desses critérios; (iii) a avaliação de desempenho seria realizada pelo chefe imediato do empregado, o que daria margem a eventuais arbitrariedades por parte do avaliador; e (iv) o programa de PLR não possuiria prazo de vigência e prazo para sua revisão. Pois bem. Diante do referencial hermenêutico que adoto, importa essencialmente observar se atendida a finalidade de “integração entre o capital e o trabalho e como incentivo à produtividade” a partir de “negociação entre a empresa e seus empregados” mediante procedimento(s) escolhido(s) “pelas partes de comum acordo”, no escopo de participar os segurados empregados “nos lucros ou resultados da empresa”, de forma desvinculada do salário (CF, art. 7º, XI, c/c arts. 1º e 2º da Lei nº 10.101). Neste sentido, ao ler o plano observo, sim, “regras claras e objetivas”, especialmente da intelecção das cláusulas 1ª a 5ª (e-fls. 135/140). Ademais, da leitura há Fl. 556DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.477 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.726206/2013-16 12 pactuação com olhares em índice de lucratividade para fins de distribuição. Parece-me que, em verdade, o lançamento se atém a tecer críticas, com base em juízo de valor próprio, acerca da adequação do método avaliativo, especialmente por ser individualizado. Entretanto, embora importante para a garantia do interesse público, é nítido o papel secundário exercido pela fiscalização tributária, a qual não lhe foi concedida a função de avaliação do mérito das regras aprovadas na negociação entre as partes. A interferência na autonomia privada é medida excepcional, exigindo-se a certeza da autoridade fiscal apoiada em elementos objetivos, quanto à desconformidade do acordado frente aos preceitos legais. As cláusulas 1ª a 5ª contextualizam aspecto de atendimento de regras claras e objetivas, o que afasta a acusação fiscal nos itens I, II e III. O questionamento fiscal finda por ser sobre a adequação do método avaliativo. Porém, a autoridade fiscal não participa do dia a dia da vida laboral da empresa, na forma como atuam e são avaliados os segurados empregados, de maneira que as questões que lhe configuram obscuras podem estar perfeitamente claras para as partes do acordo negociado. Ademais, por vezes, profissionais não submetidos a métricas quantitativas são avaliados por critérios comportamentais (individuais) em diversas atividades econômicas. É certo que um critério e/ou informação que pareça omisso para a auditoria no instrumento de negociação, pode estar univocamente delimitado e ser inteligível pelos atores sociais principais, tendo em conta a vivência cotidiana no seio da vida laboral. Logo, a análise sobre a inexistência de “regras claras e objetivas”, nos instrumentos de negociação, não pode ficar restrita ao plano abstrato e crítico do método e mecanismo de avaliação. O que poderia ocorrer, inclusive como condição inerente, é a lavratura de um auto de infração quando não se estiver atendendo ao cumprimento do próprio negociado, como, por exemplo, se as avaliações não forem realizadas ou quando houver uma simulação ou dissimulação de avaliações, o que deve ser plenamente provado além da dúvida razoável. Criticar o método avaliativo e os mecanismos de aferição, que constam pactuados, não me parece ser autorizado na lei, assim como também não me parece permitido, como motivação para lançar, criticar critérios de autoavaliação ou de avaliação individual, por si só, entendendo-os como questionáveis em abstrato. Isso não me parece ser suficiente para fulminar o plano negociado e violar o propósito negocial (a finalidade teleológica). O plano abstrato dos juízos de valor, quando pauta o lançamento, acaba trazendo sérios debates e riscos de cometimento de equívocos pelo agente fiscal, pois suas eventuais dificuldades na compreensão dos métodos avaliativos e de sua eficácia não significam, necessariamente, obstáculos à cognição dos segurados empregados e dos sindicatos que os representam, diante de uma eventual lógica laboral e proceder cotidiano destes atores sociais. Pensar de forma abstrata, como entendo que foi a lógica do lançamento, neste particular das regras claras e objetivas, pode chegar ao limite de indagar se o texto da Lei nº Fl. 557DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.477 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.726206/2013-16 13 10.101 é objetivo ao exigir regras “claras e objetivas”, pois o conceito é aberto e, para alguns, é de extremo subjetivismo as definições objetivas que se exigiu, criando-se um paradoxo. Portanto, as motivações I, II e III não sustentam o lançamento de ofício lavrado, sob minha ótica no enfrentamento normativo decisório motivado. Contudo, para que o plano seja válido é preciso que não viole qualquer elemento da essência do instituto. Então, é preciso enfrentar a acusação relativo ao item IV. Ainda consta como acusação fiscal, o não atendimento do dever legal do plano negociado estabelecer prazo de vigência e prazo para sua revisão. Muito bem. Assiste razão à fiscalização neste específico ponto, o que é suficiente para manter o lançamento de ofício em sua inteireza. Tem razão a fiscalização neste particular relativo à violação do dever legal do plano negociado estabelecer prazo de vigência e prazo para sua revisão, pois o plano não pactuou de forma verdadeira estes aspectos e o §1º do art. 2º da Lei nº 10.101 assenta essa obrigação de ser pactuado entre os atores sociais do negociado o “período de vigência e prazos para revisão do acordo”. A recorrente entende que cumpriu a regra e que houve a pactuação, pois afirma que a cláusula 13 estabelece um prazo, sendo o “prazo indeterminado”, enquanto a cláusula 10 estabelece a forma e prazo da revisão que se traduz na prescrição de que “Compete exclusivamente ao Comitê executivo da JGP GLOBAL [empresa], a qualquer tempo, rever ou alterar os critérios, condições e conceitos instituídos neste Programa de Participação”. Ocorre que, a despeito da qualificação jurídica pretendida pela recorrente, essa não se sustenta. Como já afirmei, importa o fim teleológico da norma que é negociação entre as partes, dentro do procedimento estabelecido por lei (Lei nº 10.101), para fins de incentivo à produtividade ou para que os segurados participem da distribuição dos lucros da empresa. Neste sentido, não se pode conceber a possibilidade unilateral, cogente e sobreposta da empregadora, com exclusividade e a qualquer tempo, revisar e modificar o negociado e, ainda mais, estabelecer que o negociado é por prazo indeterminado com possibilidade de ser ceifado a qualquer momento, sem prazo mínimo, especialmente diante dos poderes da empregadora de alterar a qualquer tempo toda a negociação, até mesmo em relação as “condições e conceitos instituídos neste Programa de Participação”. Como bem observou a Ilustre Relatora, é assente na jurisprudência administrativa que “Inobservado um único requisito, certo não ser hígido o plano instituído”. De mais a mais, no que não apresentei ponderações, como no capítulo preliminar ou no capítulo do pedido subsidiário, acompanho a relatora, sem ressalvas. Fl. 558DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2004-000.477 – 2ª SEÇÃO/4ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 12448.726206/2013-16 14 Ante o exposto, acompanho o voto, embora pelas conclusões no que aqui delineado, para rejeitar a preliminar e negar provimento ao recurso voluntário. Eis minha declaração de voto. Assinado Digitalmente Leonam Rocha de Medeiros Fl. 559DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Declaração de Voto

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Numero do processo: 10469.723539/2019-13
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Aug 05 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Sep 21 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2014, 2015, 2016, 2017 RECURSO ESPECIAL. NÃO CONHECIMENTO. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA ENTRE OS ACÓRDÃOS COMPARADOS. A ausência de similitude fático-jurídica entre as decisões comparadas (acórdão recorrido x paradigma) impede a caracterização do dissídio, prejudicando o conhecimento recursal. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2014, 2015, 2016, 2017 MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. IMPOSSIBILIDADE. Apesar de a aplicação da Súmula CARF 105 ser restrita à multa isolada lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, os argumentos que ensejaram a aprovação da referida súmula são totalmente aplicáveis à multa isolada lançada com base no art. 44, inciso II, alínea b, da Lei nº 9.430/1996, com a redação dada pelo art. 14 da Lei nº 11.488/2007.
Numero da decisão: 9101-007.645
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas em relação à exigência de cumulação de multa de ofício com multa isolada, vencida a Conselheira Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic que votou por conhecer integralmente do recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em dar provimento ao recurso para cancelar a exigência de multas isoladas concomitantes, vencida a Conselheira Edeli Pereira Bessa que votou por negar provimento. Designado para redigir o voto vencedor quanto ao conhecimento o Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli. Assinado Digitalmente Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic - Relatora Assinado Digitalmente Luis Henrique Marotti Toselli - Redator designado Assinado Digitalmente Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Maria Carolina Maldonado Mendonca Kraljevic, Efigenio de Freitas Junior (substituto integral), Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior, Jandir Jose Dalle Lucca, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente).
Nome do relator: MARIA CAROLINA MALDONADO MENDONCA KRALJEVIC

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NÃO CONHECIMENTO. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA ENTRE OS ACÓRDÃOS COMPARADOS. A ausência de similitude fático-jurídica entre as decisões comparadas (acórdão recorrido x paradigma) impede a caracterização do dissídio, prejudicando o conhecimento recursal. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2014, 2015, 2016, 2017 MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. IMPOSSIBILIDADE. Apesar de a aplicação da Súmula CARF 105 ser restrita à multa isolada “lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996”, os argumentos que ensejaram a aprovação da referida súmula são totalmente aplicáveis à multa isolada lançada com base no art. 44, inciso II, alínea b, da Lei nº 9.430/1996, com a redação dada pelo art. 14 da Lei nº 11.488/2007. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas em relação à exigência de cumulação de multa de ofício com multa isolada, vencida a Conselheira Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic que votou por conhecer integralmente do recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em dar provimento ao recurso para cancelar a exigência de multas isoladas concomitantes, vencida a Fl. 1662DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 2 Conselheira Edeli Pereira Bessa que votou por negar provimento. Designado para redigir o voto vencedor quanto ao conhecimento o Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli. Assinado Digitalmente Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic – Relatora Assinado Digitalmente Luis Henrique Marotti Toselli – Redator designado Assinado Digitalmente Fernando Brasil de Oliveira Pinto – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Maria Carolina Maldonado Mendonca Kraljevic, Efigenio de Freitas Junior (substituto integral), Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior, Jandir Jose Dalle Lucca, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso especial interposto pelo contribuinte em face do Acórdão nº 1402-007.105, proferido em 10.09.2024, pela 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento (fls. 1045/1157) assim ementado: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2014, 2015, 2016, 2017 FATOS CONTABILIZADOS COM REPERCUSSÃO EM EXERCÍCIOS FUTUROS. EFEITOS TRIBUTÁRIOS. DECADÊNCIA. Na hipótese de fato que produza efeito em períodos diversos daquele em que ocorreu, a decadência não tem por referência a data do evento registrado na contabilidade, mas sim a data de ocorrência dos fatos geradores em que esse evento produziu o efeito de reduzir o tributo devido. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. UTILIZAÇÃO DE EMPRESA VEÍCULO. A amortização do ágio, como regra geral, é indedutível para a apuração do lucro real, bem como da base de cálculo da CSLL. A possibilidade de deduzi-la prevista Fl. 1663DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 3 no art. 386, III, do RIR/99 - art. 7º, III, da Lei n° 9.532/97 e art. 10 da Lei n° 9.718/98 - não pode prevalecer quando, para sua configuração, é utilizada empresa veículo para, em nome dela e com recursos provenientes de sua controladora, serem adquiridas ações com ágio da empresa que vem a ser a incorporadora e que passa a amortizar ágio de si mesma. A condição legal de ocorrência de uma operação de incorporação, mediante extinção da investida ou da investidora, e da consequente confusão patrimonial entre elas, não pode ser admitida apenas como uma exigência formal, mas deve ser considerada como um requisito de efetivo conteúdo econômico e societário, que reflita um verdadeiro propósito negocial e não apenas uma opção empresarial dos interessados. TRANSFERÊNCIA DE ÁGIO. IMPOSSIBILIDADE. A subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/99, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material. Exclusivamente no caso em que a investida adquire a investidora original (ou adquire diretamente a investidora de fato) é que haverá o atendimento a esses aspectos, o que não ocorre quando inserida no procedimento uma terceira pessoa jurídica com nítido caráter de empresa veículo. POSTERGAÇÃO. EFEITOS Somente se comprovada a ocorrência de postergação, cabe ao Fisco aplicá-la, procedendo aos devidos ajustes nos valores lançados. Inexistindo tal comprovação, não há o que se ajustar. LANÇAMENTOS REFLEXOS. Excetuadas as especificidades de cada tributo, inexistindo fatos novos a serem apreciados, estendem-se aos lançamentos reflexos o decidido no lançamento matriz. MULTA ISOLADA SOBRE ESTIMATIVAS NÃO PAGAS. MULTA DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. O não recolhimento ou o recolhimento a menor de estimativas mensais sujeita a pessoa jurídica optante pela sistemática do lucro real anual, à multa de ofício isolada estabelecida no artigo 44, inciso II, “b”, da Lei nº 9.430/1996, ainda que encerrado o ano-calendário. Na oportunidade, os membros do colegiado, por maioria de votos, negaram provimento ao recurso voluntário. Em seu recurso especial, sustenta o contribuinte que o acórdão recorrido conferiu à legislação tributária interpretação divergente daquela dada por outros julgados do CARF quanto às seguintes matérias: Fl. 1664DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 4  Matéria nº 1: ausência de previsão legal acerca da necessidade de confusão patrimonial entre “real adquirente” e “real investida”, com base nos Acórdãos paradigmas de números 9101-006.486 e 9101-003.609;  Matéria nº 2: inexistência de previsão legal para a adição, à base de cálculo da CSLL, da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível pela fiscalização, com base nos Acórdãos paradigmas de números 9101-002.310 e nº 1103-00.630;  Matéria nº 3: impossibilidade de exigência da multa isolada após o encerramento do ano-base, com base nos Acórdãos paradigmas de números 1301-001.680 e nº 1103-001.102;  Matéria nº 4: impossibilidade de cumulação da multa isolada com a multa de ofício, com base nos Acórdãos paradigmas de números 1202-001.228 e nº 1301-002.415.  Matéria nº 5: inexistência de ampliação do lucro de exploração, com base nos Acórdão paradigma nº 1201-003.924. O despacho de admissibilidade deu seguimento parcial ao recurso especial apenas quanto às matérias “inexistência de previsão legal para a adição, à base de CSRF, do cálculo da CSLL, da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível pela fiscalização” e “impossibilidade de cumulação da multa isolada com a multa de ofício”. Confira-se: Análise da demonstração da divergência - 2º matéria: inexistência de previsão legal para a adição, à base de CSRF cálculo da CSLL, da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível pela fiscalização Quanto a essa matéria, no Acórdão recorrido prevaleceu o entendimento de que “dispêndios que violem as regras de dedutibilidade do IRPJ não podem reduzir o lucro líquido que é, também, a base de cálculo da CSLL, com os ajustes previstos na sua legislação específica”. Após examinar o conteúdo dos arts. 248 e 277 do RIR/99 — que definem lucro líquido e lucro operacional — restou assentado na decisão recorrida que somente poderão reduzir o lucro líquido as despesas operacionais que preencham os requisitos previstos no art. 299, que trata das despesas necessárias. Nesse sentido, prossegue afirmando que “[os] dispêndios glosados afetam o próprio resultado do exercício, diga-se, a própria base de cálculo da Contribuição Social, definida no art. 2º da Lei 7.689, de 1988, com as alterações do art. 2º da Lei 8.034, de 1990”. Por fim, no voto vencedor do Acórdão recorrido destacou-se que “o art. 13, da Lei nº 9.249/951, quando trata das despesas indedutíveis das bases de cálculo de IRPJ e de CSLL, é taxativo ao dispor que tais vedações de dedutibilidade se aplicam independentemente do disposto no art. 47 da Lei nº 4.502/64, justamente a base legal do art. 299 do RIR/99”. Fl. 1665DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 5 Diante dessa decisão, a Recorrente sustenta que, ao manter a glosa das amortizações de ágio também para efeito de lançamento da CSLL, o Acórdão recorrido adotou entendimento que divergiu da interpretação da legislação tributária que prevaleceu nos Acórdãos nº 9101-002.310 e nº 1103-00.630. Referindo-se ao primeiro paradigma, a Recorrente afirma que, sob contexto análogo, na referida decisão restou assentado que “inexiste previsão legal para que se exija a adição à base de cálculo da CSLL da amortização do ágio considerada indedutível na apuração do lucro real”. Da mesma forma, quanto ao segundo paradigma, a Recorrente destaca que naquele caso “também se entendeu por afastar a tributação pela CSLL sobre as despesas com amortização de ágio”. Em análise ao inteiro teor dos paradigmas, verifica-se que neles se discutiu a repercussão da glosa de amortização de ágio para efeito de apuração da CSLL, de maneira análoga ao que se encontra no caso apreciado pelo Colegiado recorrido. Mas, diversamente da fundamentação que orientou o Acórdão recorrido, nos paradigmas prevaleceu entendimento oposto. No caso do primeiro paradigma (Acórdão n? 9101-002.310) restou assentado que “inexiste previsão legal para que se exija a adição à base de cálculo da CSLL da amortização do ágio pago na aquisição de investimento avaliado pela equivalência patrimonial”. De maneira análoga ao primeiro paradigma, no segundo (Acórdão nº 1103- 00.630), prevaleceu entendimento no sentido de que, “com relação à dedução das despesas de amortização do ágio, para fins da CSLL, registro que não há previsão legal para a indedutibilidade dessas despesas, tal como é preceituada para o lucro real, pelo art. 25 do Decreto-lei n. 1.598/77”, acrescentando-se ainda que “a Lei n. 7.689/88 (art. 2º, caput e $ 1°, “c”, “1” a “3º não contempla essa indedutibilidade”. Portanto, entendo que restou demonstrada a divergência jurisprudencial suscitada. E tendo sido atendidos os demais pressupostos de admissibilidade, proponho que seja dado seguimento à 2ª matéria: inexistência de previsão legal para a adição, à base de CSRF, do cálculo da CSLL, da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível pela fiscalização. (...) Análise da demonstração da divergência – 4ª matéria: impossibilidade de cumulação da multa isolada com a multa de ofício A Recorrente alega que o entendimento adotado pelo Colegiado recorrido acerca da imposição da multa isolada pela falta de recolhimento de estimativas mensais diverge da interpretação que prevaleceu em casos semelhantes, nos Acórdãos nº 1202-001.228 e nº 1301-002.415. Depois de reproduzir excertos das decisões comparadas, a Recorrente afirma que “resta clara a divergência jurisprudencial quanto à matéria debatida: enquanto o acórdão recorrido entendeu pela possibilidade de cumulação entre as multas de Fl. 1666DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 6 ofício e isolada, os acórdãos paradigmas decidiram pela impossibilidade de tal cobrança concomitante, mesmo após a mudança legislativa sofrida pelo dispositivo legal em questão em 2007”. De fato, da contraposição dos fundamentos expressos nos votos que conduziram a decisão recorrida e os paradigmas, evidencia-se que a Recorrente logrou êxito em comprovar a ocorrência do alegado dissenso jurisprudencial, pois, em situações fáticas semelhantes, sob a mesma incidência tributária e à luz das mesmas normas jurídicas, chegou-se a conclusões distintas. Primeiramente, cumpre observar que nos três casos discutiam-se fatos ocorridos após o Início da vigência das alterações promovidas pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, muito embora um dos períodos analisado no primeiro paradigma seja anterior. E sob esse mesmo contexto fático, no voto que conduziu a decisão recorrida prevaleceu o entendimento no sentido de que trata-se de “imposições diferentes, com fatos geradores diferentes, tipificações legais diferentes e motivações fáticas diferentes”, acrescentando-se que “nem se queira invocar os dizeres da Súmula CARF nº 105, posto que ali se cuida de fatos anteriores a 2005, o que não é o caso dos autos”. Por outro lado, no primeiro paradigma (Acórdão nº 1202-001.228) prevaleceu o entendimento de que “é inaplicavel a penalidade quando há concomitância com a multa de ofício sobre o ajuste anual, ainda que após a vigência das alterações da Lei nº 11.488/2007”, destacando-se que “a cumulação das multas, ainda que incidentes em bases de cálculo distintas, dariam causa a bis in idem”. No segundo paradigma (Acórdão nº 1301-002.415) restou assentado que “a multa isolada não se destina a apenar casos de omissão de receita, deduções indevidas de despesas, exclusões não autorizadas do ou falta de adição ao lucro líquido”, acrescentando-se que, “para essas infrações, aplica-se a multa que é cobrada juntamente com o tributo, do qual ela (a multa) é um acessório”. Adicionalmente, o paradigma reproduziu entendimento firmando pelo Superior Tribunal de Justiça, segundo o qual “a aplicação da multa vinculada afastaria, pelo princípio da consunção, a multa isolada”. Ante o exposto, entendo que restou caracterizada a divergência de interpretação suscitada, razão pela qual proponho que seja dado seguimento à 4° matéria: impossibilidade de cumulação da multa isolada com a multa de ofício. Contra tal decisão, interpôs o contribuinte agravo, que foi rejeitado. Com relação às matérias admitidas, no mérito, sustenta o contribuinte em seu recurso especial, em síntese, que (i) o legislador determinou a base de cálculo da CSLL de forma exaustiva (numerus clausus), fixando, taxativa e individualmente, cada um dos ajustes aplicáveis (artigo 20 e parágrafos, da Lei n0 7.689/88), não arrolando, como hipótese de adição ao lucro líquido, o valor correspondente à amortização do ágio na aquisição de investimentos avaliados Fl. 1667DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 7 pelo método da equivalência patrimonial; (ii) tendo em vista que o ordenamento foi silente quanto à adição ao lucro líquido, para fins de apuração da base de cálculo da CSLL, da parcela do ágio, não cabe à Fiscalização exigir o que a lei não exige; e (iii) as multas impostas pela autuação são decorrentes de uma infração única e inseparável, em relação a qual foram imputadas duas penalidades, o que configura dupla (e inadmissível) imposição de pena ao mesmo fato. A Fazenda Nacional, intimada, apresentou contrarrazões, alegando, em resumo, que (i) (i) a legislação fiscal que autorizou a contabilização do custo de aquisição do investimento em duas subcontas distintas, uma para o ágio e outra para o patrimônio líquido, determinou, em contrapartida, a neutralidade da amortização do ágio para fins da apuração do IRPJ; (ii) no caso do presente processo administrativo, o único dispositivo que poderia fundamentar eventual dedução da despesa com a amortização do ágio seria o inciso III do art. 386 do RIR/99; (iii) na época da edição do Decreto-Lei nº 1.598/77, sequer existia a CSLL como tributo no ordenamento jurídico – razão pela qual não existe qualquer ressalva específica com relação à CSLL no referido Decreto-Lei; (iv) considerando que a CSLL possuía traços muito semelhantes ao IRPJ – inclusive no que diz respeito à base de cálculo – o legislador editou o art. 57 da Lei nº 8.981, de 1995; (v) o legislador determinou, expressamente, que na apuração do montante devido a título de CSLL devem ser aplicadas as mesmas normas relativas ao IRPJ e é justamente na atividade de apuração que se encaixam as regras que disciplinam as provisões, despesas dedutíveis, adições, entre outros aspectos que devem ser considerados pelos contribuintes em seus registros contábeis; (vi) uma vez não sendo expressa a autorização para a dedução da base de cálculo da CSLL das despesas com a amortização de ágio considerado indevido, essas despesas não são dedutíveis; (vii) as infrações apenadas pela chamada “multa de ofício” e pela “multa isolada” são diferentes: multa de ofício decorre do não pagamento de tributo pelo contribuinte: já a multa isolada decorre do descumprimento do regime de estimativa; (viii) o não pagamento de referidos tributos sobre bases estimadas é infração bastante diversa daquela consistente em desrespeito às regras de determinação do lucro real praticada pelo sujeito passivo, sendo assim, nada impede que dessas infrações resultem penalidades distintas; (ix) as multas de ofício e isolada não decorrem da mesma infração, e não incidem sobre a mesma base de cálculo; são multas inteiramente diversas, previstas em lei, e não configuram nenhum bis in idem; e (x) após o advento da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, não há sequer espaço para discussão do assunto, em face da clareza do texto legal. É relatório. VOTO VENCIDO Conselheira Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic, Relatora I – ADMISSIBILIDADE Fl. 1668DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 8 O prazo para o sujeito passivo e para a Fazenda Nacional interporem recurso especial é de 15 dias contados da data de ciência da decisão recorrida. E eventuais embargos de declaração opostos tempestivamente, isto é, no prazo de 5 dias da ciência do acórdão embargado, interrompem o prazo para a interposição de recurso especial1. Ainda, de acordo com o art. 5º do Decreto nº 70.235/1972, os prazos são contínuos, excluindo-se na sua contagem o dia do início e incluindo-se o do vencimento. Ademais, os prazos só se iniciam ou vencem em dia de expediente normal no órgão em que corra o processo ou deva ser praticado o ato. No presente caso, o contribuinte foi cientificado do acórdão recorrido em 27.01.2025 (fl. 1165) e, em 11.02.2025 (fl. 1166), interpôs o recurso especial ora em análise. Diante disso, é tempestivo o recurso. No exame da admissibilidade do recurso especial, além da tempestividade e dos demais requisitos contidos na legislação, é preciso verificar: (i) o prequestionamento da matéria, que deve ser demonstrado pelo recorrente com a precisa indicação na peça recursal do prequestionamento contido no acórdão recorrido, no despacho que rejeitou embargos opostos tempestivamente ou no acórdão de embargos; e (ii) a divergência interpretativa, que deve ser demonstrada por meio da indicação de até duas decisões por matéria, bem como dos pontos nos paradigmas que divirjam de pontos específicos do acórdão recorrido. Com relação à divergência, o Pleno da CSRF concluiu que “a divergência jurisprudencial deve ser comprovada, cabendo a quem recorre demonstrar as circunstâncias que identifiquem ou assemelham os casos confrontados, com indicação da similitude fática e jurídica entre eles”2. Para fins didáticos, analisaremos, separadamente, o preenchimento dos pressupostos de admissibilidade em relação a cada uma das matérias objeto do recurso especial do contribuinte. I.1 – Inexistência de previsão legal para a adição, à base de cálculo da CSLL, da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível pela fiscalização No que se refere ao prequestionamento, o acórdão recorrido, no voto vencedor, expressamente tratou da amortização fiscal do ágio da base de cálculo da CSLL, estando, pois, preenchido o pressuposto. Já com relação à divergência interpretativa, o acórdão recorrido analisou situação na qual o lançamento de IRPJ e CSLL decorreu da glosa de despesas com ágio em operação na qual houve aquisição de participação societária com ágio por meio de suposta empresa-veículo, seguida de reestruturação societária que culminou na transferência do ágio. 1 Tais previsões estavam contidas nos artigos 65 e 68 do Regimento Interno do CARF (“RICARF”) aprovado pela Portaria MF nº 343/2015 e, atualmente, são objeto dos artigos 119 e 116 do RICARF aprovado pela Portaria MF nº 1.634/2023. 2 Acórdão n. 9900-00.149. Sessão de 08/12/2009. Fl. 1669DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 9 A decisão recorrida manteve o lançamento com relação ao IRPJ por entender que, no caso, ocorreu “uma sequência de operações cujo único propósito foi o de produzir uma despesa dedutível na apuração do IRPJ e da CSLL através da projeção na investida (COSERN) do ágio pago pelas investidoras (GUARANIANA, COELBA e UPTICK) na aquisição do investimento, em uma verdadeira operação sem qualquer substrato econômico, sem motivação e sem demonstração de qual a expectativa de rentabilidade futura do investimento pretendido”. No que se refere à CSLL, o lançamento foi mantido por não preencher a despesa com ágio os requisitos de dedutibilidade do art. 47 da Lei nº 4.502/64 – supostamente aplicáveis à CSLL por força do art. 13 da Lei nº 9.249/951 –, bem como pela impossibilidade de um “dispêndio produzido de forma equivocada” refletir na apuração do lucro contábil, ponto de partida para a apuração da CSLL. Confira-se: A CSLL tem como base de cálculo o lucro líquido do período com os ajustes determinados na respectiva legislação, conforme dicção dos artigos 248 e 277, RIR/1999: (...) De outro giro, também pacífico, o lucro operacional resulta do confronto das receitas operacionais com as despesas operacionais (artigo 299, RIR/1999). Da interpretação sistemática destes dispositivos, extrai-se que somente poderão reduzir o lucro líquido as despesas operacionais que preencham os requisitos previstos no artigo 299, acima transcrito, quais sejam, as despesas necessárias, de forma que, dispêndios que violem as regras de dedutibilidade do IRPJ, não podem reduzir o lucro líquido que é, também, a base de cálculo da CSLL, com os ajustes previstos na sua legislação específica. Mesmo considerando que as despesas, no presente caso, possam ter natureza não operacional, cabe lembrar que o que as torna indedutíveis da base de cálculo da Contribuição Social é o próprio conceito de resultado do exercício apurado com observância da legislação comercial, visto que esta impõe que o ponto de partida para se chegar à base de cálculo tanto do IRPJ como da CSLL, deve observar postulados e princípios contábeis. Ora, segundo o Princípio da Entidade, um dispêndio produzido de forma equivocada não deve estar na contabilidade. Em outras palavras, a contabilização de despesas inexistentes implica inobservância do princípio contábil da entidade, devendo ensejar, também por esta razão, a sua glosa, afetando, portanto, a base de cálculo do IRPJ e também da CSLL. Como consequência, dispêndios glosados afetam o próprio resultado do exercício, diga-se, a própria base de cálculo da Contribuição Social, definida no art. 2º da Lei 7.689, de 1988, com as alterações do art.2º da Lei 8.034, de 1990. Mais a mais, o art. 13, da Lei nº 9.249/951, quando trata das despesas indedutíveis das bases de cálculo de IRPJ e de CSLL, é taxativo ao dispor que tais vedações de dedutibilidade se aplicam independentemente do disposto no art. 47 da Lei nº 4.502/64, justamente a base legal do art. 299 do RIR/99. Fl. 1670DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 10 Assim, pela vinculação e nexo entre as glosas efetuadas para fins de apuração do Lucro Real e da base de cálculo da CSLL, voto por negar provimento ao recurso também em relação a tal matéria. Pelas razões expostas, igualmente encaminho meu voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário em relação à CSLL. O Acórdão paradigma nº 9101-002.310, por sua vez, trata de lançamento exclusivo de CSLL, decorrente da exigência de adição ao lucro líquido, base de cálculo da CSLL, de amortizações de ágio que foram adicionadas ao lucro real, base de cálculo do IRPJ, porque referentes a investimento mantido no patrimônio da investidora. Diante disso, concluíram os julgadores que “inexiste previsão legal para que se exija a adição à base de cálculo da CSLL da amortização do ágio pago na aquisição de investimento avaliado pela equivalência patrimonial”. Trata-se, pois, de situação fática peculiar, que, inclusive, levou à rejeição do Acórdão paradigma nº 9101-002.310 em diversas oportunidades recentes, como no Acórdão nº 9101-007.064, de 10.07.20243, e no Acórdão nº 9101-007.007, de 05.06.20244. Assim, em razão da ausência de similitude fática, rejeito o Acórdão paradigma nº 9101-002.310. No que se refere ao Acórdão paradigma nº 1103-000.630, é fato que, como observou a Conselheira Edeli Pereira Bessa, no Acórdão nº 9101-006.049, de 04.04.2022, o voto condutor traz “argumentos contrários à indedutibilidade das amortizações no âmbito da CSLL”, mas, “naqueles autos foi dado provimento integral ao recurso voluntário, afirmando-se o não cabimento da glosa não só na base da CSLL, como também do IRPJ”. Confira-se: Com relação à dedução das despesas de amortização do ágio, para fins da CSLL, registro que não há previsão legal para a indedutibilidade dessas despesas, tal como é preceituada para o lucro real, pelo art. 25 do DecretoLei n. 1.598/77. A Lei n. 7.689/88 (art. 2º, caput e § 1º, “c”, “1” a “3”) não contempla essa indedutibilidade. Tanto o art. 38 da Lei n. 8.541/92 como o art. 57 da Lei n. 8.981/95, previram expressamente a manutenção da base de cálculo da CSLL, ressalvadas as alterações a ela feitas nessas leis. E nenhuma delas previu a indedutibilidade em comentário. Também as leis posteriores, como as Leis ns. 9.249/95 e 9.430/96 não instituíram essa indedutibilidade para a CSL. Não há norma legal como a do art. 22 da Medida Provisória n. 2.158/01, que estendeu à CSLL as regras da incompensabilidade das bases negativas de CSLL se, entre a data da apuração das bases negativas e a da compensação, houver, cumulativamente, mudança de controle e de ramo de atividade, bem como da 3 Participaram da sessão de julgamento os julgadores Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Luiz Tadeu Matosinho Machado, Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Heldo Jorge dos Santos Pereira Júnior, Jandir José Dalle Lucca e Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente em exercício). 4 Participaram da sessão de julgamento os julgadores Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Luiz Tadeu Matosinho Machado, Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Heldo Jorge dos Santos Pereira Júnior, Jandir José Dalle Lucca e Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente em exercício). Fl. 1671DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 11 impossibilidade de compensação das bases negativas de CSLL da sucedida pela sucessora por incorporação, fusão ou cisão. Com estas considerações, conheço do recurso voluntário para dar-lhe provimento. A circunstância de, no Acórdão paradigma nº 1103-000.630, os conselheiros concluírem pelo cancelamento do lançamento tanto do IRPJ, como da CSLL foi considerada relevante para se entender pela ausência de similitude fática com relação ao acórdão recorrido, tanto no Acórdão nº 9101-006.049, de 04.04.20225, como no Acórdão nº 9101-007.062, de 10.07.20246. Isso porque, naqueles casos, apesar de o lançamento envolver IRPJ e CSLL, os contribuintes buscavam “que a exigência de CSLL seja [fosse] cancelada ainda que afirmada a indedutibilidade no âmbito do IRPJ”. Não obstante tais precedentes, entendo que, no presente caso, o entendimento contido no Acórdão paradigma nº 1103-000.630, de ausência de base legal para a indedutubilidade do ágio na base de cálculo da CSLL, reformaria a decisão proferida no acórdão recorrido. Diante disso, conheço do recurso especial com relação ao Acórdão paradigma nº 1103-000.630. I.2 – Impossibilidade de cumulação da multa isolada com a multa de ofício No que se refere ao prequestionamento, o acórdão recorrido versa expressamente sobre a matéria “impossibilidade de cumulação da isolada cumulada com a multa de ofício”, estando, pois, preenchido o pressuposto. No que se refere à divergência interpretativa, o contribuinte invoca os Acórdãos paradigmas 1202-001.228 e 1301-002.415. Ambos versam sobre a possibilidade de exigência concomitante de multa de ofício com multa isolada por falta de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ e CSLL, aplicada após a alteração promovida pelo 14 da Lei nº 11.488/2007 no art. 44, inciso II, alínea b, da Lei nº 9.430/1996. Enquanto nos paradigmas se entendeu que deve subsistir apenas a exigência da multa de ofício, no acórdão recorrido se concluiu pela possibilidade de exigência concomitante da multa de ofício com multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, com relação à períodos de apuração posteriores à alteração do art. 44, inciso II, alínea b, da Lei nº 9.430/1996 pelo 14 da Lei nº 11.488/2007 – donde a divergência interpretativa. 5 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edeli Pereira Bessa, Livia De Carli Germano, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Luis Henrique Marotti Toselli, Luiz Tadeu Matosinho Machado, Alexandre Evaristo Pinto, Gustavo Guimarães da Fonseca (Suplente convocado) e Andrea Duek Simantob (Presidente em exercício). 6 Participaram da sessão de julgamento os julgadores Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Luiz Tadeu Matosinho Machado, Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Heldo Jorge dos Santos Pereira Júnior, Jandir José Dalle Lucca e Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente em exercício). Fl. 1672DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 12 Diante do exposto, deve ser conhecido o recurso especial do contribuinte quanto à matéria em referência. II – MÉRITO II.1 – Impossibilidade de cumulação da multa isolada com a multa de ofício Exige-se, nos autos de infração subjacente, multa isolada por falta de recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e CSLL, com base no art. 44, inciso II, alínea b, da Lei nº 9.430/1996, com a redação dada pelo art. 14 da Lei nº 11.488/2007, conforme abaixo: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (...) II - de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (...) b) na forma do art. 2o desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano-calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica”. Acerca da possibilidade de exigência concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas e multa de ofício é a Súmula CARF 105, aprovada em 08.12.2014: “A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício”. Os precedentes que ensejaram a aprovação da Súmula CARF 1057 concluíram pela impossibilidade de concomitância entre multa isolada por falta de recolhimento de estimativa e multa de ofício por falta de recolhimento de tributo com base nos seguintes fundamentos: (i) aplicação do critério da consunção, segundo o qual a primeira conduta (falta de recolhimento da estimativa mensal) é meio de execução, é etapa preparatória da segunda (falta de recolhimento do tributo ao final do ano-calendário); (ii) a multa isolada por falta de recolhimento de estimativa somente pode ser exigida no curso do ano-calendário, tendo em vista que, ao final do exercício, desaparece a base imponível da multa isolada, surgindo uma nova base, que corresponde ao tributo efetivamente apurado, única que pode ser objeto de penalização; e (iii) não é legítima a exigência de duas penalidades (multa isolada e multa de ofício) com base no mesmo fato apurado em procedimento fiscal. Cumpre ressaltar, entretanto, que a referida súmula versa sobre a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas com base na redação original do art. 44 §1º, IV da Lei nº 9.430/1996, enquanto a multa ora em discussão foi lançada com fundamento no art. 44, II, “b”, da 7 Acórdãos precedentes: 101-001.261, de 22/11/2011; 9101-001.203, de 17/10/2011; 9101-001.238, de 21/11/2011; 9101-001.307, de 24/04/2012; 1402-001.217, de 04/10/2012; 1102-00.748, de 09/05/2012; 1803-001.263, de 10/04/2012. Fl. 1673DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 13 Lei nº 9.430/1996, com a redação que lhe foi atribuída pelo art. 14 da Lei nº 11.488/2007. Confira- se, abaixo, a comparação entre a redação dos referidos dispositivos: Art. 44 §1º, IV da Lei nº 9.430/1996 (redação original) Art. 44, II, “b”, da Lei nº 9.430/1996 (redação do art. 14 da Lei nº 11.488/2007) Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I - de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; II - cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (...) § 1º As multas de que trata este artigo serão exigidas: IV - isoladamente, no caso de pessoa jurídica sujeita ao pagamento do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido, na forma do art. 2º, que deixar de fazê-lo, ainda que tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano-calendário correspondente; Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (...) II - de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (...) b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano-calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. Da análise do quadro acima, pode-se concluir que não houve alteração substancial na penalidade aplicada por falta de recolhimento de estimativas mensais – exceto com relação à redução no seu percentual. Embora a redação atribuída ao dispositivo pelo art. 14 da Lei nº 11.488/2007 utilize a expressão “exigida isoladamente sobre o valor do pagamento mensal”, isso não a diferencia da multa isolada versada na redação original do art. 44 da Lei nº 9.430/1996, tendo em vista que ambas as redações fazem referência expressa ao art. 2º da Lei nº 9.430/1996, que trata do pagamento mensal por estimativa. Portanto, a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas com fundamento no art. 44 da Lei nº 9.430/1996, com redação do art. 14 da Lei nº 11.488/2007, é a mesma daquela versada na redação original do art. 44 da Lei nº 9.430/1996, exceto com relação ao seu percentual. Tanto é assim que, de acordo com a exposição de motivos da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, a alteração do art. 44 da Lei nº 9.430/1996 teve por objetivo "reduzir o percentual da multa de ofício, lançada isoladamente, nas hipóteses de falta de Fl. 1674DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 14 pagamento mensal devido pela pessoa física a título de carnê -leão ou pela pessoa jurídica a título de estimativa"8. Diante disso, apesar de a aplicação da Súmula CARF 105 ser restrita à multa isolada “lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996”, entendo que os argumentos que ensejaram a aprovação da referida súmula são totalmente aplicáveis à multa isolada lançada com base no art. 44, inciso II, alínea b, da Lei nº 9.430/1996, com a redação dada pelo art. 14 da Lei nº 11.488/2007. Ademais, o STJ, por meio de suas duas turmas, entendeu pela impossibilidade de exigência concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativa com multa de ofício, em razão da aplicação do princípio da consunção ou da absorção. Confira-se: TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. OFENSA AOS ARTIGOS 489 E 1.022, AMBOS, DO CPC/2015. NÃO CARACTERIZAÇÃO. MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO. ART. 44, I E II, DA LEI 9.430/1996 (REDAÇÃO DADA PELA LEI 11.488/2007). EXIGÊNCIA CONCOMITANTE. IMPOSSIBILIDADE NO CASO. PRECEDENTES. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E NÃO PROVIDO. (...) 6. Logo, o princípio da consunção ou da absorção é aplicável nos casos em que há uma sucessão de condutas típicas com existência de um nexo de dependência entre elas, hipótese em que a infração mais grave absorve as de menor gravidade, como no caso em apreço. Assim, em casos como o ora analisado, deve-se imperar a lógica do princípio penal da consunção, em que a infração mais grave abrange aquela menor que lhe é preparatória ou subjacente, de forma que não se pode exigir concomitantemente a multa isolada e a multa de ofício por falta de recolhimento de tributo. Cobra-se apenas a multa de ofício pela falta de recolhimento de tributo, em detrimento da multa prevista no artigo 12, inciso III, da Lei 8.218/1991. 7. Recurso Especial conhecido e não provido. (REsp n. 2.104.963/RJ, relator Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 5/12/2023, DJe de 19/12/2023, grifamos.) TRIBUTÁRIO. ADUANEIRO. MULTA ISOLADA. MULTA DE OFÍCIO. APLICAÇÃO CONCOMITANTE. IMPOSSIBILIDADE. PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO. 1. A multa de ofício tem cabimento nas hipóteses de ausência de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos casos de declaração inexata, sendo exigida no patamar de 75% (art. 44, I, da Lei n. 9.430/96). 2. A multa isolada é exigida em decorrência de infração administrativa, no montante de 50% (art. 44, II, da Lei n. 9.430/96). 8 Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/Exm/EMI-3-MF-MPS-Mpv-351-07.htm, acesso em 09.08.2022. Fl. 1675DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 15 3. A multa isolada não pode ser exigida concomitantemente com a multa de ofício, sendo por esta absorvida, em atendimento ao princípio da consunção. Precedentes: AgInt no AREsp n. 1.603.525/RJ, relator Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma, DJe de 25/11/2020; AgRg no REsp 1.576.289/RS, relator Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe 27/5/2016; AgRg no REsp 1.499.389/PB, relator Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 28/9/2015; REsp n. 1.496.354/PR, relator Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, DJe de 24/3/2015. 4. Recurso especial provido. (REsp n. 1.708.819/RS, relator Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, julgado em 7/11/2023, DJe de 16/11/2023, grifamos.) Ressalta-se que no REsp n. 2.104.963/RJ, julgado pela Segunda Turma do STJ, caso concreto trata da multa prevista no artigo 12, III, da Lei nº 8.218/1991, isto é, da multa por ausência de entrega ao Fisco de arquivos digitais contendo registros contábeis. No entanto, o racional adotado para afastar a concomitância da referida multa com a multa de ofício é o principio da consunção e a jurisprudência citada refere-se à concomitância entre multa de ofício e multa isolada por falta de recolhimento de estimativa. Portanto, seja em razão da plena aplicação do racional da Súmula CARF 105 ao presente caso, seja da jurisprudência de ambas as turmas do STJ, deve ser dado provimento ao recurso especial do contribuinte. III – CONCLUSÕES Diante do exposto, voto por CONHECER do RECURSO ESPECIAL do contribuinte e, no mérito, DAR-LHE PROVIMENTO. Assinado Digitalmente Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic VOTO VENCEDOR Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli, redator designado Fui designado redator do voto vencedor no tocante ao não conhecimento da matéria “inexistência de previsão legal para a adição, à base de cálculo da CSLL, da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível pela fiscalização”. A maioria do Colegiado, em sentido contrário ao da Relatora, entendeu que o Acórdão nº 1103-000.630 não é hábil a caracterizar a necessária divergência jurisprudencial. Fl. 1676DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.645 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 10469.723539/2019-13 16 Trata-se de julgado que realmente vem sendo rejeitado para a finalidade pretendida pela Recorrente. Nesse sentido me manifestei, por exemplo, no Acórdão nº , in verbis: ... no que diz respeito à CSLL, não conheço da matéria por já ter me curvado ao que restou decidido por essa E. 1ª Turma no Acórdão nº 9101-006.374, julgado este que recebeu a seguinte ementa: CSLL. AMORTIZAÇÃO FISCAL DE ÁGIO. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL NÃO DEMONSTRADA. Não há divergência jurisprudencial quando os precedentes comparados tenham tratado de amortização de ágio em contextos jurídicos diversos. O paradigma 9101-002.310 não tratou de despesas com amortização de ágio deduzidas após incorporação, mas de participação mantida na investidora. Já o caso dos autos discute a glosa de despesas com amortização de ágio tomadas em razão da incorporação, e pretensamente registradas com base nos critérios trazidos pela Lei 9.532/1997. Panoramas jurídicos diversos, portanto. Quanto ao paradigma 1103-00.630, embora ali também se tratasse de amortização fiscal do ágio na forma da Lei 9.532/1997, e seu voto condutor traga argumentos contrários à indedutibilidade das amortizações no âmbito da CSLL, naqueles autos foi dado provimento integral ao recurso voluntário, afirmando-se o não cabimento da glosa não só na base da CSLL, como também do IRPJ. Assim, o outro Colegiado do CARF decidiu a questão sob circunstâncias distintas daquelas que a Contribuinte quer ver prevalecer nestes autos, qual seja, que a exigência de CSLL seja cancelada ainda que afirmada a indedutibilidade no âmbito do IRPJ. (g.n.) Em razão, então, da dessemelhança apontada, a maioria do Colegiado votou para conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas em relação à exigência de cumulação de multa de ofício com multa isolada. Assinado Digitalmente Luis Henrique Marotti Toselli Fl. 1677DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido I – ADMISSIBILIDADE I.1 – Inexistência de previsão legal para a adição, à base de cálculo da CSLL, da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível pela fiscalização I.2 – Impossibilidade de cumulação da multa isolada com a multa de ofício II – MÉRITO II.1 – Impossibilidade de cumulação da multa isolada com a multa de ofício III – CONCLUSÕES Voto Vencedor

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Numero do processo: 15504.727304/2018-51
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 06 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Oct 05 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2013, 2014, 2015 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO VOLUNTÁRIO. IMPOSTO SOBRE A RENDA DA PESSOA FÍSICA. RENDIMENTOS RECEBIDOS POR MÉDICA POR INTERMÉDIO DE SOCIEDADE SIMPLES. DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS. RECLASSIFICAÇÃO COMO RENDIMENTOS DO TRABALHO. ART. 129 DA LEI Nº 11.196/2005. VERDADE MATERIAL. MULTA QUALIFICADA. REVISÃO DO LANÇAMENTO APÓS NOTIFICAÇÃO. ARTIGOS 145 E 149 DO CTN. APROVEITAMENTO DE TRIBUTOS RECOLHIDOS PELA PESSOA JURÍDICA. RECURSO VOLUNTÁRIO PARCIALMENTE CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO. I. CASO EM EXAME Recurso voluntário interposto contra acórdão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre/RS, que julgou improcedente a impugnação e manteve lançamento de ofício de IRPF relativo aos anos-calendário de 2013, 2014 e 2015. A exigência fiscal decorreu da reclassificação de valores declarados como lucros distribuídos pela Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME para rendimentos tributáveis do trabalho recebidos pela pessoa física da recorrente. A fiscalização entendeu que a sociedade não possuía substância operacional própria para a prestação dos serviços médicos. A autuação considerou que os serviços foram prestados pessoalmente pela médica Andrea Boueri Ticle Lima a tomadores como Hospital Mater Dei, Ecograf e Clínica Radiológica. A autoridade fiscal também entendeu que a pessoa jurídica teria sido utilizada como interposta pessoa para mascarar honorários médicos sob a forma de distribuição de lucros. A recorrente sustentou a regularidade da sociedade simples, constituída em 1996. Alegou que a clínica possuía objeto social compatível com serviços médicos especializados, contabilidade regular, emissão de notas fiscais, apuração de resultados e distribuição de lucros. Defendeu a aplicação do art. 129 da Lei nº 11.196/2005, a inexistência de vínculo empregatício, a ausência de simulação e a validade da tributação pela pessoa jurídica. A recorrente também alegou a impossibilidade de revisão do lançamento para majoração da multa de ofício de 75% para 150%. Sustentou que não houve fato novo, erro de fato, fraude funcional ou hipótese legal que autorizasse a alteração em prejuízo do contribuinte. Pediu, subsidiariamente, o afastamento da multa qualificada e o aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO Há quatro questões em discussão: (i) saber se o recurso voluntário deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade; (ii) saber se os valores recebidos pela recorrente por intermédio da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME devem ser tratados como lucros isentos ou como rendimentos tributáveis do trabalho; (iii) saber se a multa de ofício poderia ser majorada de 75% para 150% após a notificação do lançamento; e (iv) saber se os tributos recolhidos pela pessoa jurídica podem ser aproveitados em relação ao IRPF exigido da pessoa natural, na proporção de sua participação societária. III. RAZÕES DE DECIDIR O recurso voluntário não deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade. A Súmula CARF nº 2 estabelece que o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. A matéria de fundo deve ser apreciada segundo a orientação firmada pela composição colegiada em precedentes específicos sobre prestação de serviços intelectuais na área médica. Nesses precedentes, prevaleceu o entendimento de que a forma societária pode ser afastada quando o conjunto probatório demonstra que os valores pagos aos médicos não representam efetiva distribuição de lucros, mas remuneração por trabalho médico. No caso concreto, o acórdão recorrido assentou que a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME funcionava em endereço residencial dos sócios, sem prestação de serviços no local. Também registrou a ausência de comprovação de cadastro no CNES, a apresentação de alvará posterior à intimação fiscal, a inexistência de estrutura física própria relevante e a utilização de equipamentos e recursos dos tomadores dos serviços. O acórdão recorrido também apontou que a prestação dos serviços médicos era pessoal. Em relação ao Hospital Mater Dei, foram considerados o cadastramento da médica no corpo clínico, a submissão a regimento interno e a código de integridade, a necessidade de reporte a coordenador de equipe e a habitualidade das atividades. Em relação à Ecograf e à Clínica Radiológica, foram considerados os contratos que indicavam a médica Andrea como responsável pela execução dos serviços, a prestação nas sedes das contratantes e a cessão dos recursos necessários pelos tomadores. A circulação dos pagamentos reforçou a conclusão fiscal adotada pelo acórdão recorrido. O voto registrou que alguns cheques emitidos por tomadores foram nominais à fiscalizada e não transitaram pela conta bancária da pessoa jurídica. Também registrou que as distribuições de lucros ocorriam logo após os créditos feitos pelo Hospital Mater Dei e em valores próximos aos pagamentos recebidos pela clínica. A reclassificação dos valores como rendimentos tributáveis do trabalho não depende da caracterização de vínculo de emprego. Para fins de IRPF, importa a efetiva prestação pessoal do serviço pela pessoa física e o auferimento de renda. Os rendimentos do trabalho, assalariado ou não, integram a base de cálculo do ajuste anual. O art. 129 da Lei nº 11.196/2005 não se aplica quando o conjunto probatório demonstra que a pessoa jurídica não atuou como verdadeira prestadora dos serviços. A norma não protege a utilização de pessoa jurídica para dissimular relação de prestação pessoal de serviços e para conferir aparência de lucros isentos a valores com natureza remuneratória. A revisão do lançamento para modificar o percentual da multa de 75% para 150% encontra amparo nos artigos 145, III e 149, VIII, do CTN. A exteriorização do lançamento anterior em desconformidade com a evidente intenção da autoridade lançadora, caracteriza erro de fato passível de correção por meio da sua revisão de ofício, ainda que tal equívoco não possa ser imputado ao sujeito passivo. A estabilidade do lançamento regularmente notificado não assegura ao sujeito passivo a manutenção de crédito tributário realizado com evidente erro de fato na sua formalização. Mantida a qualificação da multa, aplica-se retroativamente a Lei nº 14.689/2023 para reduzir a multa qualificada de 150% para 100%, nos termos do art. 106, II, c, do CTN. O aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica deve ser admitido. Embora o acórdão recorrido tenha afirmado não haver desconsideração formal da personalidade jurídica, sua fundamentação tratou a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME como estrutura sem substância econômica própria, atribuiu suas receitas à pessoa física e reclassificou seus lucros distribuídos como honorários médicos. A desconsideração substancial da pessoa jurídica impõe a recomposição fiscal correspondente. Se a estrutura societária foi afastada para exigir IRPF da pessoa natural, os tributos recolhidos pela pessoa jurídica devem ser aproveitados em relação aos valores devidos pela pessoa física, na proporção da participação societária da recorrente.
Numero da decisão: 2202-012.079
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso. No mérito, acordam, por maioria de votos, em dar-lhe parcial provimento para permitir o aproveitamento dos tributos pagos pela pessoa jurídica, em relação aos valores devidos pela pessoa física, na proporção de sua participação societária e reduzir a multa qualificada ao percentual de 100%, vencidos os conselheiros Thiago Buschinelli Sorrentino (relator) que deu provimento parcial em maior extensão, reduzindo a multa qualificada ao percentual de 75%, e Andressa Pegoraro Tomazela, que deu provimento integral. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Marcelo Valverde Ferreira da Silva. Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino - Relator Assinado Digitalmente Marcelo Valverde Ferreira da Silva - Redator Designado Assinado Digitalmente Ronnie Soares Anderson - Presidente Participaram da reunião de julgamento os conselheiros Marcelo Valverde Ferreira da Silva, Henrique Perlatto Moura, Thiago Buschinelli Sorrentino, Andressa Pegoraro Tomazela, Rafael de Aguiar Hirano (substituto[a] integral), Ronnie Soares Anderson (Presidente).
Nome do relator: THIAGO BUSCHINELLI SORRENTINO

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A exigência fiscal decorreu da reclassificação de valores declarados como lucros distribuídos pela Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME para rendimentos tributáveis do trabalho recebidos pela pessoa física da recorrente. A fiscalização entendeu que a sociedade não possuía substância operacional própria para a prestação dos serviços médicos. A autuação considerou que os serviços foram prestados pessoalmente pela médica Andrea Boueri Ticle Lima a tomadores como Hospital Mater Dei, Ecograf e Clínica Radiológica. A autoridade fiscal também entendeu que a pessoa jurídica teria sido utilizada como interposta pessoa para mascarar honorários médicos sob a forma de distribuição de lucros. A recorrente sustentou a regularidade da sociedade simples, constituída em 1996. Alegou que a clínica possuía objeto social compatível com serviços médicos especializados, contabilidade regular, emissão de notas fiscais, apuração de resultados e distribuição de lucros. Defendeu a aplicação do art. 129 da Lei nº 11.196/2005, a inexistência de vínculo empregatício, a ausência de simulação e a validade da tributação pela pessoa jurídica. A recorrente também alegou a impossibilidade de revisão do lançamento para majoração da multa de ofício de 75% para 150%. Sustentou que não houve fato novo, erro de fato, fraude funcional ou hipótese legal que autorizasse a alteração em prejuízo do contribuinte. Pediu, subsidiariamente, o afastamento da multa qualificada e o aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO Há quatro questões em discussão: (i) saber se o recurso voluntário deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade; (ii) saber se os valores recebidos pela recorrente por intermédio da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME devem ser tratados como lucros isentos ou como rendimentos tributáveis do trabalho; (iii) saber se a multa de ofício poderia ser majorada de 75% para 150% após a notificação do lançamento; e (iv) saber se os tributos recolhidos pela pessoa jurídica podem ser aproveitados em relação ao IRPF exigido da pessoa natural, na proporção de sua participação societária. III. RAZÕES DE DECIDIR O recurso voluntário não deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade. A Súmula CARF nº 2 estabelece que o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. A matéria de fundo deve ser apreciada segundo a orientação firmada pela composição colegiada em precedentes específicos sobre prestação de serviços intelectuais na área médica. Nesses precedentes, prevaleceu o entendimento de que a forma societária pode ser afastada quando o conjunto probatório demonstra que os valores pagos aos médicos não representam efetiva distribuição de lucros, mas remuneração por trabalho médico. No caso concreto, o acórdão recorrido assentou que a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME funcionava em endereço residencial dos sócios, sem prestação de serviços no local. Também registrou a ausência de comprovação de cadastro no CNES, a apresentação de alvará posterior à intimação fiscal, a inexistência de estrutura física própria relevante e a utilização de equipamentos e recursos dos tomadores dos serviços. O acórdão recorrido também apontou que a prestação dos serviços médicos era pessoal. Em relação ao Hospital Mater Dei, foram considerados o cadastramento da médica no corpo clínico, a submissão a regimento interno e a código de integridade, a necessidade de reporte a coordenador de equipe e a habitualidade das atividades. Em relação à Ecograf e à Clínica Radiológica, foram considerados os contratos que indicavam a médica Andrea como responsável pela execução dos serviços, a prestação nas sedes das contratantes e a cessão dos recursos necessários pelos tomadores. A circulação dos pagamentos reforçou a conclusão fiscal adotada pelo acórdão recorrido. O voto registrou que alguns cheques emitidos por tomadores foram nominais à fiscalizada e não transitaram pela conta bancária da pessoa jurídica. Também registrou que as distribuições de lucros ocorriam logo após os créditos feitos pelo Hospital Mater Dei e em valores próximos aos pagamentos recebidos pela clínica. A reclassificação dos valores como rendimentos tributáveis do trabalho não depende da caracterização de vínculo de emprego. Para fins de IRPF, importa a efetiva prestação pessoal do serviço pela pessoa física e o auferimento de renda. Os rendimentos do trabalho, assalariado ou não, integram a base de cálculo do ajuste anual. O art. 129 da Lei nº 11.196/2005 não se aplica quando o conjunto probatório demonstra que a pessoa jurídica não atuou como verdadeira prestadora dos serviços. A norma não protege a utilização de pessoa jurídica para dissimular relação de prestação pessoal de serviços e para conferir aparência de lucros isentos a valores com natureza remuneratória. A revisão do lançamento para modificar o percentual da multa de 75% para 150% encontra amparo nos artigos 145, III e 149, VIII, do CTN. A exteriorização do lançamento anterior em desconformidade com a evidente intenção da autoridade lançadora, caracteriza erro de fato passível de correção por meio da sua revisão de ofício, ainda que tal equívoco não possa ser imputado ao sujeito passivo. A estabilidade do lançamento regularmente notificado não assegura ao sujeito passivo a manutenção de crédito tributário realizado com evidente erro de fato na sua formalização. Mantida a qualificação da multa, aplica-se retroativamente a Lei nº 14.689/2023 para reduzir a multa qualificada de 150% para 100%, nos termos do art. 106, II, c, do CTN. O aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica deve ser admitido. Embora o acórdão recorrido tenha afirmado não haver desconsideração formal da personalidade jurídica, sua fundamentação tratou a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME como estrutura sem substância econômica própria, atribuiu suas receitas à pessoa física e reclassificou seus lucros distribuídos como honorários médicos. A desconsideração substancial da pessoa jurídica impõe a recomposição fiscal correspondente. Se a estrutura societária foi afastada para exigir IRPF da pessoa natural, os tributos recolhidos pela pessoa jurídica devem ser aproveitados em relação aos valores devidos pela pessoa física, na proporção da participação societária da recorrente.

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RECURSO VOLUNTÁRIO. IMPOSTO SOBRE A RENDA DA PESSOA FÍSICA. RENDIMENTOS RECEBIDOS POR MÉDICA POR INTERMÉDIO DE SOCIEDADE SIMPLES. DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS. RECLASSIFICAÇÃO COMO RENDIMENTOS DO TRABALHO. ART. 129 DA LEI Nº 11.196/2005. VERDADE MATERIAL. MULTA QUALIFICADA. REVISÃO DO LANÇAMENTO APÓS NOTIFICAÇÃO. ARTIGOS 145 E 149 DO CTN. APROVEITAMENTO DE TRIBUTOS RECOLHIDOS PELA PESSOA JURÍDICA. RECURSO VOLUNTÁRIO PARCIALMENTE CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO. I. CASO EM EXAME Recurso voluntário interposto contra acórdão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre/RS, que julgou improcedente a impugnação e manteve lançamento de ofício de IRPF relativo aos anos-calendário de 2013, 2014 e 2015. A exigência fiscal decorreu da reclassificação de valores declarados como lucros distribuídos pela Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME para rendimentos tributáveis do trabalho recebidos pela pessoa física da recorrente. A fiscalização entendeu que a sociedade não possuía substância operacional própria para a prestação dos serviços médicos. A autuação considerou que os serviços foram prestados pessoalmente pela médica Andrea Boueri Ticle Lima a tomadores como Hospital Mater Dei, Ecograf e Clínica Radiológica. A autoridade fiscal também entendeu que a pessoa jurídica teria sido utilizada como interposta pessoa para mascarar honorários médicos sob a forma de distribuição de lucros. A recorrente sustentou a regularidade da sociedade simples, constituída em 1996. Alegou que a clínica possuía objeto social compatível com Fl. 1163DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 2 serviços médicos especializados, contabilidade regular, emissão de notas fiscais, apuração de resultados e distribuição de lucros. Defendeu a aplicação do art. 129 da Lei nº 11.196/2005, a inexistência de vínculo empregatício, a ausência de simulação e a validade da tributação pela pessoa jurídica. A recorrente também alegou a impossibilidade de revisão do lançamento para majoração da multa de ofício de 75% para 150%. Sustentou que não houve fato novo, erro de fato, fraude funcional ou hipótese legal que autorizasse a alteração em prejuízo do contribuinte. Pediu, subsidiariamente, o afastamento da multa qualificada e o aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO Há quatro questões em discussão: (i) saber se o recurso voluntário deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade; (ii) saber se os valores recebidos pela recorrente por intermédio da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME devem ser tratados como lucros isentos ou como rendimentos tributáveis do trabalho; (iii) saber se a multa de ofício poderia ser majorada de 75% para 150% após a notificação do lançamento; e (iv) saber se os tributos recolhidos pela pessoa jurídica podem ser aproveitados em relação ao IRPF exigido da pessoa natural, na proporção de sua participação societária. III. RAZÕES DE DECIDIR O recurso voluntário não deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade. A Súmula CARF nº 2 estabelece que o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. A matéria de fundo deve ser apreciada segundo a orientação firmada pela composição colegiada em precedentes específicos sobre prestação de serviços intelectuais na área médica. Nesses precedentes, prevaleceu o entendimento de que a forma societária pode ser afastada quando o conjunto probatório demonstra que os valores pagos aos médicos não representam efetiva distribuição de lucros, mas remuneração por trabalho médico. No caso concreto, o acórdão recorrido assentou que a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME funcionava em endereço residencial dos sócios, sem prestação de serviços no local. Também registrou a ausência de comprovação de cadastro no CNES, a apresentação de alvará posterior à Fl. 1164DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 3 intimação fiscal, a inexistência de estrutura física própria relevante e a utilização de equipamentos e recursos dos tomadores dos serviços. O acórdão recorrido também apontou que a prestação dos serviços médicos era pessoal. Em relação ao Hospital Mater Dei, foram considerados o cadastramento da médica no corpo clínico, a submissão a regimento interno e a código de integridade, a necessidade de reporte a coordenador de equipe e a habitualidade das atividades. Em relação à Ecograf e à Clínica Radiológica, foram considerados os contratos que indicavam a médica Andrea como responsável pela execução dos serviços, a prestação nas sedes das contratantes e a cessão dos recursos necessários pelos tomadores. A circulação dos pagamentos reforçou a conclusão fiscal adotada pelo acórdão recorrido. O voto registrou que alguns cheques emitidos por tomadores foram nominais à fiscalizada e não transitaram pela conta bancária da pessoa jurídica. Também registrou que as distribuições de lucros ocorriam logo após os créditos feitos pelo Hospital Mater Dei e em valores próximos aos pagamentos recebidos pela clínica. A reclassificação dos valores como rendimentos tributáveis do trabalho não depende da caracterização de vínculo de emprego. Para fins de IRPF, importa a efetiva prestação pessoal do serviço pela pessoa física e o auferimento de renda. Os rendimentos do trabalho, assalariado ou não, integram a base de cálculo do ajuste anual. O art. 129 da Lei nº 11.196/2005 não se aplica quando o conjunto probatório demonstra que a pessoa jurídica não atuou como verdadeira prestadora dos serviços. A norma não protege a utilização de pessoa jurídica para dissimular relação de prestação pessoal de serviços e para conferir aparência de lucros isentos a valores com natureza remuneratória. A revisão do lançamento para modificar o percentual da multa de 75% para 150% encontra amparo nos artigos 145, III e 149, VIII, do CTN. A exteriorização do lançamento anterior em desconformidade com a evidente intenção da autoridade lançadora, caracteriza erro de fato passível de correção por meio da sua revisão de ofício, ainda que tal equívoco não possa ser imputado ao sujeito passivo. A estabilidade do lançamento regularmente notificado não assegura ao sujeito passivo a manutenção de crédito tributário realizado com evidente erro de fato na sua formalização. Fl. 1165DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 4 Mantida a qualificação da multa, aplica-se retroativamente a Lei nº 14.689/2023 para reduzir a multa qualificada de 150% para 100%, nos termos do art. 106, II, “c”, do CTN. O aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica deve ser admitido. Embora o acórdão recorrido tenha afirmado não haver desconsideração formal da personalidade jurídica, sua fundamentação tratou a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME como estrutura sem substância econômica própria, atribuiu suas receitas à pessoa física e reclassificou seus lucros distribuídos como honorários médicos. A desconsideração substancial da pessoa jurídica impõe a recomposição fiscal correspondente. Se a estrutura societária foi afastada para exigir IRPF da pessoa natural, os tributos recolhidos pela pessoa jurídica devem ser aproveitados em relação aos valores devidos pela pessoa física, na proporção da participação societária da recorrente. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso. No mérito, acordam, por maioria de votos, em dar-lhe parcial provimento para permitir o aproveitamento dos tributos pagos pela pessoa jurídica, em relação aos valores devidos pela pessoa física, na proporção de sua participação societária e reduzir a multa qualificada ao percentual de 100%, vencidos os conselheiros Thiago Buschinelli Sorrentino (relator) que deu provimento parcial em maior extensão, reduzindo a multa qualificada ao percentual de 75%, e Andressa Pegoraro Tomazela, que deu provimento integral. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Marcelo Valverde Ferreira da Silva. Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino – Relator Assinado Digitalmente Marcelo Valverde Ferreira da Silva – Redator Designado Assinado Digitalmente Ronnie Soares Anderson – Presidente Fl. 1166DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 5 Participaram da reunião de julgamento os conselheiros Marcelo Valverde Ferreira da Silva, Henrique Perlatto Moura, Thiago Buschinelli Sorrentino, Andressa Pegoraro Tomazela, Rafael de Aguiar Hirano (substituto[a] integral), Ronnie Soares Anderson (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto contra o Acórdão n. 10-65.127, proferido pela 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre/RS, que julgou improcedente a impugnação apresentada e manteve lançamento de ofício de Imposto de Renda da Pessoa Física relativo aos anos-calendário de 2013, 2014 e 2015, incidente sobre valores que a recorrente afirma terem sido regularmente declarados e tributados pela pessoa jurídica Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME. Afirma-se, inicialmente, a tempestividade do recurso, ao argumento de que a recorrente foi intimada da decisão recorrida em 15 de julho de 2019, tendo o prazo recursal começado a fluir no dia seguinte e se encerrado em 14 de agosto de 2019, data em que o recurso teria sido protocolado dentro do prazo legal de trinta dias. Narra-se que a fiscalização e a decisão recorrida compreenderam que a recorrente, médica radiologista, não poderia ter se valido da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME para prestar serviços médicos especializados, pois a constituição e utilização da pessoa jurídica teriam implicado tributação menos onerosa e suposta violação ao princípio da isonomia. Sustenta-se, contudo, que tal conclusão desconsiderou que a sociedade é simples, foi constituída em 1996, existe de fato e de direito, possui objeto social compatível com as atividades desempenhadas e passou a atuar em parceria com o Hospital Mater Dei apenas a partir de novembro de 2011. Alega-se que a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME não foi criada para mascarar honorários médicos ou para obter vantagem tributária indevida, mas para organizar a prestação de serviços médicos por seus sócios, com hierarquia interna, responsabilidade técnica, contabilidade regular, emissão de notas fiscais, apuração de resultados e distribuição de lucros. Acrescenta-se que a parceria com o Hospital Mater Dei envolvia gestão da Unidade OncoMater, cessão onerosa de espaço e estrutura, assunção de custos, glosas, despesas operacionais, depreciação, medicamentos, materiais e risco econômico pela própria sociedade. Argumenta-se que a decisão recorrida teria sido simplista, por reproduzir extensamente a impugnação, por tratar de preliminar não suscitada e por deixar de enfrentar os argumentos centrais da defesa, sobretudo aqueles relativos à existência real da sociedade simples, à validade da tributação pela pessoa jurídica, à ausência de vínculo empregatício, à inexistência de simulação e à regularidade da distribuição de lucros. Sustenta-se, em preliminar, a impossibilidade de revisão do lançamento para majoração da multa de ofício de 75% para 150%, ao fundamento de que a autoridade fiscal não Fl. 1167DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 6 poderia alterar o critério jurídico originalmente adotado sob a simples alegação de erro. Defende- se que não houve fato novo, erro de fato, fraude funcional ou circunstância desconhecida que autorizasse a revisão do lançamento, mas mera alteração de enquadramento jurídico, vedada pelos artigos 145, 146 e 149 do Código Tributário Nacional. Aduz-se, no mérito, que o artigo 129 da Lei n. 11.196/2005 autoriza a prestação de serviços intelectuais por pessoa jurídica, em caráter personalíssimo ou não, sujeitando-a à legislação aplicável às pessoas jurídicas. Defende-se que a norma prestigia a livre iniciativa, a liberdade de organização e a possibilidade de constituição de sociedades simples por profissionais intelectuais, inclusive médicos, não podendo a fiscalização desconsiderar automaticamente a pessoa jurídica apenas porque a atividade é exercida por seus próprios sócios. Assevera-se que a desconsideração da personalidade jurídica somente seria admissível mediante demonstração de abuso, desvio de finalidade ou confusão patrimonial, hipóteses que a recorrente afirma inexistirem. Explica-se que a Clínica atuava dentro de seu objeto social, mantinha contabilidade regular, recebia os pagamentos em nome próprio, registrava receitas e despesas, apurava lucros e preservava patrimônio próprio, inclusive com lucros acumulados, o que afastaria a tese de confusão patrimonial. Sustenta-se, ainda, que não foram comprovados os requisitos de vínculo empregatício nos contratos analisados. Argumenta-se que pessoalidade, habitualidade e onerosidade não bastam para descaracterizar a prestação de serviços por sociedade simples, pois tais elementos também podem estar presentes em contratos civis de prestação de serviços intelectuais. Afirma-se que o requisito decisivo seria a subordinação, e que esta não foi demonstrada. Afirma-se, quanto aos contratos celebrados com Ecograf, Clínica Radiológica e Hospital Mater Dei, que a fiscalização presumiu contratação direta da médica Andrea, mas ignorou que os pagamentos teriam sido feitos à pessoa jurídica, contabilizados regularmente e acompanhados de emissão de notas fiscais. Aduz-se que a prestação de serviços nas dependências dos tomadores, a exigência de cadastramento no corpo clínico e a observância a regimentos internos e códigos de integridade não configuram, por si só, subordinação trabalhista. Argumenta-se, especificamente quanto ao Hospital Mater Dei, que a relação contratual era de parceria médico-hospitalar, com divisão de receitas, custos e riscos. Sustenta-se que a Clínica recebia percentual sobre o lucro da Unidade OncoMater, após abatimento de despesas, medicamentos, materiais, custos de pessoal, manutenção, depreciação, energia, água, telefone, tributos e glosas, de modo que sua remuneração não se vinculava ao número individual de consultas, procedimentos ou horas de trabalho da recorrente. Defende-se que a assunção do risco econômico pela Clínica afasta a tese de emprego ou de recebimento disfarçado de honorários médicos, pois, em caso de resultado negativo da operação, a sociedade suportaria os ônus. Acrescenta-se que o Hospital Mater Dei Fl. 1168DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 7 cedia estrutura de forma onerosa e precária, enquanto a Clínica geria a unidade, coordenava a equipe e respondia tecnicamente pelos serviços, sem subordinação direta ao hospital. Alega-se que a economia tributária, ainda que existente, constitui propósito negocial lícito quando realizada antes do fato gerador, sem fraude, simulação ou criação artificial de despesas. Sustenta-se que não há norma que imponha ao contribuinte a forma mais onerosa de tributação, nem regra que permita à fiscalização desconsiderar negócio jurídico apenas porque dele resulta economia fiscal. Impugna-se, também, a base de cálculo adotada pela fiscalização, ao argumento de que os valores imputados individualmente aos sócios foram calculados por critério de supostos atendimentos médicos, sem correspondência com os lucros efetivamente distribuídos e percebidos. Afirma-se que, em 2015, por exemplo, a fiscalização teria utilizado base total superior ao montante de lucros distribuídos, o que revelaria vício de motivação do lançamento. Sustenta-se que a multa qualificada de 150% é inexigível, porque não houve comprovação de dolo, fraude, sonegação ou conluio. Aduz-se que a fiscalização se apoiou em presunções e juízos de valor sobre a finalidade da pessoa jurídica, sem indicar condutas dolosas específicas praticadas pela recorrente. Argumenta-se que, no máximo, haveria divergência interpretativa sobre a forma de tributação, insuficiente para justificar penalidade qualificada. Pondera-se, subsidiariamente, que, caso mantida a desconsideração da pessoa jurídica, devem ser deduzidos do IRPF exigido os valores já recolhidos pela Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME a título de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, sob pena de bis in idem, confisco e enriquecimento sem causa da Administração Tributária. Pede-se, ao final, o conhecimento e provimento do recurso voluntário, com a reforma do acórdão recorrido e o cancelamento integral do lançamento tributário, por inexistir omissão de rendimentos tributáveis pela pessoa física e por ser válida a tributação apurada e recolhida por intermédio da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME. Pede-se, subsidiariamente, o afastamento da multa qualificada de 150%, seja pela impossibilidade de revisão do lançamento, seja pela ausência de prova de fraude, dolo ou simulação. Pede-se, ainda, caso subsista a exigência, a dedução proporcional dos valores já pagos pela pessoa jurídica a título de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, com incidência da multa apenas sobre eventual saldo residual de IRPF. O órgão julgador de origem houve por bem manter o lançamento, em acórdão assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF Ano-calendário: 2013; 2014; 2015 INCONSTITUCIONALIDADE. O exame da constitucionalidade ou legalidade das leis é tarefa estritamente reservada aos órgãos do Poder Judiciário. Fl. 1169DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 8 VALOR DO LANÇAMENTO. ERRO. O lançamento pode ser revisto de ofício pela autoridade administrativa sempre que comprovado erro. SOCIEDADE. NATUREZA JURÍDICA DOS RENDIMENTOS PAGOS AOS SÓCIOS. VERDADE MATERIAL. Apurando-se que as atividades e os negócios jurídicos desenvolvidos possuem aspectos diversos da realidade formal, sendo os supostos sócios prestadores de serviços e o lucro, na verdade, refere-se à remuneração dos serviços prestados, os valores recebidos devem ser classificados, segundo a sua efetiva natureza jurídica, como rendimentos tributáveis de prestação de serviços, que correspondem à verdade material dos fatos, e não como lucros isentos do imposto de renda. MULTA QUALIFICADA. Restando provada a ocorrência da circunstância qualificadora, imprescindível para a aplicação da multa, cabível a aplicação da penalidade de 150%. TRIBUTOS RECOLHIDOS POR PESSOA JURÍDICA. COMPENSAÇÃO COM IMPOSTO DEVIDO POR PESSOA FÍSICA. VEDAÇÃO LEGAL. A compensação do imposto de renda devido pela pessoa física com eventuais valores recolhidos espontaneamente por pessoas jurídicas, ainda que tais recolhimentos tenham sido, porventura, indevidos, é incabível por expressa vedação legal. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. EFEITOS. As decisões administrativas e as decisões judiciais, excetuando-se as proferidas pelo STF sobre a inconstitucionalidade das normas legais, não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se aproveitam em relação a qualquer outra ocorrência, senão àquela objeto da decisão. Ciência em 15/07/2019 (fls. 1.092). Interposição em 13/08/2019 (fls. 1.095). Ante o exposto, pede-se a desconstituição do crédito tributário. É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheiro Thiago Buschinelli Sorrentino, Relator RESUMO I. CASO EM EXAME Fl. 1170DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 9 Recurso voluntário interposto contra acórdão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre/RS, que julgou improcedente a impugnação e manteve lançamento de ofício de IRPF relativo aos anos-calendário de 2013, 2014 e 2015. A exigência fiscal decorreu da reclassificação de valores declarados como lucros distribuídos pela Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME para rendimentos tributáveis do trabalho recebidos pela pessoa física da recorrente. A fiscalização entendeu que a sociedade não possuía substância operacional própria para a prestação dos serviços médicos. A autuação considerou que os serviços foram prestados pessoalmente pela médica Andrea Boueri Ticle Lima a tomadores como Hospital Mater Dei, Ecograf e Clínica Radiológica. A autoridade fiscal também entendeu que a pessoa jurídica teria sido utilizada como interposta pessoa para mascarar honorários médicos sob a forma de distribuição de lucros. A recorrente sustentou a regularidade da sociedade simples, constituída em 1996. Alegou que a clínica possuía objeto social compatível com serviços médicos especializados, contabilidade regular, emissão de notas fiscais, apuração de resultados e distribuição de lucros. Defendeu a aplicação do art. 129 da Lei nº 11.196/2005, a inexistência de vínculo empregatício, a ausência de simulação e a validade da tributação pela pessoa jurídica. A recorrente também alegou a impossibilidade de revisão do lançamento para majoração da multa de ofício de 75% para 150%. Sustentou que não houve fato novo, erro de fato, fraude funcional ou hipótese legal que autorizasse a alteração em prejuízo do contribuinte. Pediu, subsidiariamente, o afastamento da multa qualificada e o aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO Há quatro questões em discussão: (i) saber se o recurso voluntário deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade; (ii) saber se os valores recebidos pela recorrente por intermédio da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME devem ser tratados como lucros isentos ou como rendimentos tributáveis do trabalho; (iii) saber se a multa de ofício poderia ser majorada de 75% para 150% após a notificação do lançamento; e (iv) saber se os tributos recolhidos pela pessoa jurídica podem ser aproveitados em relação ao IRPF exigido da pessoa natural, na proporção de sua participação societária. III. RAZÕES DE DECIDIR O recurso voluntário não deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade. A Súmula CARF nº 2 estabelece que o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. A matéria de fundo deve ser apreciada segundo a orientação firmada pela composição colegiada em precedentes específicos sobre prestação de serviços intelectuais na área médica. Nesses precedentes, prevaleceu o entendimento de que a forma societária pode ser Fl. 1171DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 10 afastada quando o conjunto probatório demonstra que os valores pagos aos médicos não representam efetiva distribuição de lucros, mas remuneração por trabalho médico. No caso concreto, o acórdão recorrido assentou que a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME funcionava em endereço residencial dos sócios, sem prestação de serviços no local. Também registrou a ausência de comprovação de cadastro no CNES, a apresentação de alvará posterior à intimação fiscal, a inexistência de estrutura física própria relevante e a utilização de equipamentos e recursos dos tomadores dos serviços. O acórdão recorrido também apontou que a prestação dos serviços médicos era pessoal. Em relação ao Hospital Mater Dei, foram considerados o cadastramento da médica no corpo clínico, a submissão a regimento interno e a código de integridade, a necessidade de reporte a coordenador de equipe e a habitualidade das atividades. Em relação à Ecograf e à Clínica Radiológica, foram considerados os contratos que indicavam a médica Andrea como responsável pela execução dos serviços, a prestação nas sedes das contratantes e a cessão dos recursos necessários pelos tomadores. A circulação dos pagamentos reforçou a conclusão fiscal adotada pelo acórdão recorrido. O voto registrou que alguns cheques emitidos por tomadores foram nominais à fiscalizada e não transitaram pela conta bancária da pessoa jurídica. Também registrou que as distribuições de lucros ocorriam logo após os créditos feitos pelo Hospital Mater Dei e em valores próximos aos pagamentos recebidos pela clínica. A reclassificação dos valores como rendimentos tributáveis do trabalho não depende da caracterização de vínculo de emprego. Para fins de IRPF, importa a efetiva prestação pessoal do serviço pela pessoa física e o auferimento de renda. Os rendimentos do trabalho, assalariado ou não, integram a base de cálculo do ajuste anual. O art. 129 da Lei nº 11.196/2005 não se aplica quando o conjunto probatório demonstra que a pessoa jurídica não atuou como verdadeira prestadora dos serviços. A norma não protege a utilização de pessoa jurídica para dissimular relação de prestação pessoal de serviços e para conferir aparência de lucros isentos a valores com natureza remuneratória. A revisão do lançamento para elevar a multa de 75% para 150% não encontra amparo nos arts. 145 e 149 do CTN. O demonstrativo de crédito tributário originalmente notificado à contribuinte indicava multa de 75%. A posterior alteração para 150% decorreu de inconsistência interna imputável à Administração Tributária, e não de fato novo, omissão do sujeito passivo, falsidade, dolo descoberto posteriormente, fraude funcional ou outra hipótese taxativa de revisão de ofício. A estabilidade do lançamento regularmente notificado constitui garantia do sujeito passivo. A Administração Tributária não pode transferir ao contribuinte o ônus de falha material praticada na consolidação do crédito tributário, quando a correção pretendida implica agravamento da exigência fiscal em seu prejuízo. Fl. 1172DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 11 Deve prevalecer o percentual de 75% constante do demonstrativo de crédito tributário original. O conhecimento, pela contribuinte, da motivação constante do Termo de Verificação Fiscal não convalida a alteração posterior da multa em patamar superior ao formalmente notificado. Ainda que fosse mantida a qualificação da multa, a Lei nº 14.689/2023 teria incidência retroativa benéfica para reduzir a multa qualificada de 150% para 100%, nos termos do art. 106, II, “c”, do CTN. Essa conclusão fica prejudicada no caso concreto, diante do acolhimento da tese principal de manutenção da multa em 75%. O aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica deve ser admitido. Embora o acórdão recorrido tenha afirmado não haver desconsideração formal da personalidade jurídica, sua fundamentação tratou a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME como estrutura sem substância econômica própria, atribuiu suas receitas à pessoa física e reclassificou seus lucros distribuídos como honorários médicos. A desconsideração substancial da pessoa jurídica impõe a recomposição fiscal correspondente. Se a estrutura societária foi afastada para exigir IRPF da pessoa natural, os tributos recolhidos pela pessoa jurídica devem ser aproveitados em relação aos valores devidos pela pessoa física, na proporção da participação societária da recorrente. 1 CONHECIMENTO Presentes os pressupostos, conheço do recurso voluntário. 2 PRECEDENTES ESPECÍFICOS DESTA COMPOSIÇÃO COLEGIADA Segundo argumenta o sábio juiz da Suprema Corte de Israel, Aharon Barak, ao discorrer sobre o papel de um magistrado em uma democracia (The Judge in a Democracy. Mercer County: Princeton University Press, 2009, p. 209-211), uma das funções da adjudicação é estabilizar expectativas, de modo a conferir previsibilidade e segurança jurídica. Portanto, uma vez que um dado colegiado tiver apreciado uma matéria, seria de bom aviso aos julgadores vencidos que aderissem à posição vencedora, em nome do que chamaríamos aqui de “Princípio do Colegiado”. Não obstante, em questões tidas por essenciais à própria jurisdição, prossegue Barak, deve o juiz insistir em divergência, nas hipóteses em que houver oportunidade para convencimento da maioria sobre a solução adequada a ser tomada. Fl. 1173DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 12 Evidentemente, o CARF não é um órgão jurisdicional, e seus conselheiros não são juízes. O papel do exame do recurso voluntário é realizar controle de legalidade, e não de validade amplo (SORRENTINO, Thiago B. Pode o fisco ajuizar ação para rever decisão administrativa favorável ao contribuinte?. Revista de Doutrina Jurídica, Brasília, DF, v. 111, n. 2, p. 205–225, 2020. DOI: 10.22477/rdj.v111i2.613). Contudo, há espaços de intersecção entre a jurisdição e a atividade de controle administrativo, tal como estruturada no âmbito federal, e essa sobreposição pontual permite aplicar a orientação sugerida por Barak, acerca da necessária estabilidade e previsibilidade após o exame de uma determinada questão pelo colegiado, e sobre as hipóteses que sugeririam a necessidade de propor a revisão de entendimentos já tomados. Há uma tentação que acomete o julgador de temperamento independente: a de confundir a profundidade de sua convicção com a correção absoluta de seu juízo. Esse equívoco, embora compreensível em quem sente o peso da toga como responsabilidade pessoal, desconhece a natureza essencialmente coletiva da jurisdição e o lugar que o precedente ocupa na arquitetura do Estado de Direito. O ofício de julgar não é um solilóquio. Não é o palco em que o magistrado declama suas certezas para um auditório que lhe tributa reverência; é, ao contrário, um diálogo entre gerações de intérpretes, um tecido que se vai construindo fio a fio, no qual a voz singular somente ganha sentido quando integrada ao padrão maior que o conjunto produz. A doutrina do stare decisis, nascida no common law e progressivamente incorporada às tradições de civil law que primam pela coerência sistêmica, não é uma rendição intelectual. Seu fundamento não repousa na presunção de que o precedente é infalível, mas na convicção de que a segurança jurídica, a isonomia e a previsibilidade das decisões valem mais, em regra, do que a satisfação individual de uma divergência pessoal. Quem decide em sentido contrário à orientação firmada pelo tribunal competente não demonstra coragem intelectual; demonstra, quando não existem fundamentos supervenientes que justifiquem a distinção ou a superação do precedente, uma espécie de voluntarismo que faz da função jurisdicional instrumento de expressão idiossincrática, e não de realização do direito. Segurança jurídica, dir-se- ia, é o compromisso que o Estado assume com o cidadão de que casos iguais serão tratados igualmente, ao longo do tempo e através das pessoas. Não obstante, o argumento mais profundo em favor do stare decisis transcende a dimensão pragmática da estabilidade. Ele remete a uma compreensão que a psicologia da Gestalt iluminou com a força de uma epifania: o todo é mais do que a soma das partes. O colegiado não é a justaposição mecânica de opiniões individuais, um simples somatório aritmético de convicções paralelas. É algo qualitativamente distinto, uma entidade deliberativa que produz, no encontro e no atrito das inteligências, uma síntese que nenhum de seus membros, isoladamente, seria capaz de engendrar. Quando os julgadores se reúnem em câmara, em turma, em plenário, a deliberação os transforma. A tese que emergia individual e apressada encontra resistência, nuança, a objeção que não havia sido considerada, a perspectiva que o ângulo singular não alcança. O que daí resulta, esse entendimento amadurecido e coletivamente construído, carrega uma legitimidade Fl. 1174DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 13 que a convicção solitária simplesmente não possui. Desprezá-lo, em nome da própria percepção que não foi submetida ao mesmo crisol, é um gesto de soberba epistemológica. Tal compreensão vincula-se, ademais, ao que se poderia chamar de princípio do colegiado: a ideia de que a unidade decisória não é o julgador, mas o órgão. O colegiado existe precisamente porque o direito reconhece que a complexidade das questões jurídicas supera a capacidade cognitiva de qualquer mente, por mais aguda que seja. Não há vício nessa constatação; há sabedoria institucional. O julgador que, convencido da excelência de seu raciocínio, recusa-se a acatar a orientação firmada pelo colegiado superior está, na prática, substituindo a arquitetura deliberativa do sistema pela autoridade não legitimada de sua própria consciência. Está a agir como se o tribunal fosse ele, e não aquela entidade coletiva, histórica e plural que o supera. Resulta daí que a divergência, embora legítima e até saudável quando manifestada nos espaços apropriados, não pode converter-se em dissidência permanente que mine a uniformidade da jurisprudência e fragmente a orientação que o jurisdicionado merece receber de modo coerente. Cumpre acrescentar que o respeito ao precedente não apaga a individualidade do julgador. A ratio decidendi a que ele adere não é uma jaula; é uma tradição viva, suscetível de distinção quando os fatos divergem, de superação quando a sociedade evolui, de reconsideração quando o erro originário se demonstra suficientemente grave. O stare decisis não é um mecanismo de ossificação do direito, mas de sua continuidade reflexiva. O julgador que adere ao entendimento consolidado, ainda que a contragosto, preserva algo que vai além do caso concreto: preserva a confiança de que o sistema jurídico tem memória e coerência, de que não está sujeito aos humores cambiantes de cada julgador de plantão. Essa é uma forma de respeito ao administrado que nenhuma brilhante divergência solitária jamais poderá substituir. Ao fim, a grandeza do colegiado reside exatamente nisso: na capacidade de absorver e superar as perspectivas individuais para produzir algo que as transcende. Como a catedral que nenhum artesão medieval viveu para ver concluída, mas que cada um deles construiu com dedicação anônima, o direito jurisprudencial é uma obra coletiva, intergeracional, que se ergue tijolo a tijolo, voto a voto, pela contribuição disciplinada de cada um de seus construtores. Ao julgador que diverge cabe, portanto, a nobreza da contenção: registrar sua posição nos autos com a precisão que o rigor intelectual exige, e então, resignado não à derrota, mas à grandeza do conjunto, acompanhar o entendimento do colegiado. Não porque sua voz não valha, mas porque o coro vale mais. Nesse contexto, apesar de possuir entendimento divergente, penso que é o momento de aderir nominalmente à posição desta 2ª Turma, até que haja modificação nas circunstâncias que sugiram a necessidade de reexame da matéria de direito (para os casos que sigam a tipologia deste, na linha desses precedentes). Em relação à situação da prestação de serviços intelectuais na área médica, e novamente ressalvada minha idiossincrática leitura, aplicarei o entendimento firmado por ocasião Fl. 1175DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 14 do julgamento dos seguintes precedentes: 15956.720051/2017-96 (2202-011.608), Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão em 04 de novembro de 2025 e publicação em 05 de dezembro de 2025; 15956.720169/2016-33 (2202-011.605), Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão em 04 de novembro de 2025 e publicação em 05 de dezembro de 2025; 15956.720051/2017-96 (2202-011.608), Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão em 04 de novembro de 2025 e publicação em 05 de dezembro de 2025; 15956.720169/2016-33 (2202-011.605), Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão em 04 de novembro de 2025 e publicação em 05 de dezembro de 2025. Nesses recursos voluntário, a controvérsia central consistiu em definir se os valores recebidos pelos contribuintes, declarados como rendimentos isentos a título de distribuição de lucros, correspondiam efetivamente a lucros societários ou se, como entendeu a fiscalização, constituíam remuneração por serviços médicos prestados, disfarçada sob a forma de participação societária. Neles, a fiscalização partiu da premissa de que as empresas teriam constituído uma estrutura societária apenas formal, com centenas de médicos admitidos como sócios, mas sem verdadeira affectio societatis. Os elementos apontados foram semelhantes: participação societária simbólica, em geral de R$ 1,00; concentração quase integral das cotas e do poder decisório no sócio-administrador; outorga de procurações amplas; alta rotatividade de sócios; pagamentos frequentes, inclusive várias vezes no mesmo mês ou no mesmo dia; correlação dos valores com plantões, locais de atendimento e produção individual; ausência de lastro contábil suficiente para demonstrar a apuração de lucros; existência de escalas e penalidades; e alegada promessa de recebimento de valores sem tributação. Com base nesse conjunto, a fiscalização reclassificou os valores como rendimentos tributáveis do trabalho e aplicou multa de ofício qualificada. A defesa dos contribuintes sustentou, em linhas gerais, que as empresas eram sociedades simples regularmente constituídas, voltadas à organização da prestação de serviços médicos. Alegou-se que, nesse tipo societário, a distribuição de lucros poderia ser desproporcional ao capital social e vinculada à contribuição de cada sócio para a produção de receitas, nos termos do contrato social e do art. 1.007 do Código Civil. Também se afirmou que as escalas e regras internas representavam mera organização operacional, e não subordinação trabalhista; que a multiplicidade de sócios e a rotatividade eram compatíveis com a dinâmica da atividade médica; que não havia prova individualizada de fraude ou conluio; e que, em todo caso, seria indevida a multa qualificada por ausência de dolo específico. O conselheiro relator rejeitou as preliminares de nulidade, conexão, prejudicialidade externa e insuficiência de fundamentação, por entender que o lançamento e as decisões recorridas permitiam a compreensão da acusação e o exercício da defesa. No mérito, porém, deu razão aos recorrentes. Para ele, os indícios utilizados pela fiscalização não eram suficientes, por si sós, para descaracterizar o vínculo societário e transformar os lucros declarados Fl. 1176DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 15 em remuneração tributável. O relator entendeu que a distribuição de resultados conforme a produção individual poderia ser compatível com sociedade simples de profissionais; que a participação simbólica no capital, a delegação de poderes, a concentração de gestão, a rotatividade e as escalas deveriam ser lidas à luz da economia de serviços especializados e da organização de uma sociedade médica; e que a fiscalização não teria demonstrado, de modo robusto e individualizado, simulação, fraude ou conluio. A posição deste relator também se apoiou na leitura dos precedentes do Supremo Tribunal Federal sobre terceirização, pejotização e liberdade de organização produtiva. Em sua compreensão, a ADPF 324, o RE 958.252, a ADC 66 e reclamações constitucionais posteriores indicariam que, em relações envolvendo profissionais qualificados, especialmente sem demonstração de hipossuficiência concreta, não se poderia presumir fraude apenas porque o serviço foi prestado mediante pessoa jurídica ou estrutura societária. A partir dessa premissa, concluiu que o arranjo adotado pelas empresas poderia ser juridicamente válido e que a Administração não poderia desconsiderá-lo com base em presunções genéricas. Por isso, votou pelo provimento integral dos recursos, com cancelamento do lançamento; e, subsidiariamente, afastaria a multa qualificada por ausência de prova de dolo, fraude ou conluio. Prevaleceu, contudo, a divergência aberta pela conselheira Sara Maria de Almeida Carneiro Silva, nossa colega de ontem e de sempre, a quem sempre renderemos homenagens; designada redatora para os acórdãos. Para a posição vencedora, o conjunto probatório demonstrava que os valores pagos pelas empresas aos médicos não representavam efetiva distribuição de lucros, mas remuneração por trabalho médico. A conselheira redatora atribuiu especial peso à frequência dos pagamentos, à ausência de apuração contábil compatível com distribuição de resultados, à participação societária irrisória, à concentração extrema de poder no sócio-administrador, à outorga de procurações, à rotatividade incompatível com vínculo societário estável, às escalas e penalidades e à promessa de economia tributária. Esses elementos, examinados em conjunto, foram considerados suficientes para demonstrar a simulação da condição de sócio e a natureza tributável dos valores recebidos. Assim, a posição vencedora manteve a reclassificação dos rendimentos como tributáveis pelo IRPF. A conselheira Sara concluiu que a forma societária não correspondia à realidade material da relação mantida entre os médicos e as empresas, pois os pagamentos eram vinculados à prestação de serviços, e não à participação nos resultados da sociedade. Desse modo, confirmou-se a validade do lançamento quanto ao imposto e aos juros, rejeitando-se a tese de que os valores deveriam permanecer como lucros isentos. A divergência vencedora, entretanto, não manteve integralmente a penalidade originalmente aplicada. Embora tenha reconhecido a simulação e preservado a tributação dos valores como rendimentos do trabalho, a decisão aplicou a retroatividade benigna da Lei nº 14.689/2023, que reduziu o percentual da multa qualificada, e deu provimento parcial aos recursos apenas para reduzir a multa de ofício ao patamar de 100%. O resultado, em ambos os acórdãos, foi o provimento parcial por voto de qualidade, vencidos o relator Thiago Buschinelli Fl. 1177DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 16 Sorrentino e a conselheira Andressa Pegoraro Tomazela, que davam provimento integral, e vencido também o conselheiro Marcelo Valverde Ferreira da Silva, que dava provimento parcial em maior extensão. Em síntese, os casos examinaram a validade fiscal da estrutura societária de sociedades destinadas à prestação de serviços de saúde e a natureza dos valores pagos a médicos admitidos como sócios. O relator Thiago entendeu que o Fisco não comprovou suficientemente a simulação, que os elementos apontados poderiam ser compatíveis com sociedade simples de profissionais e que os recursos deveriam ser integralmente providos. A posição vencedora, redigida pela conselheira Sara, entendeu o oposto quanto ao mérito: considerou comprovada a simulação e manteve a reclassificação dos lucros como rendimentos tributáveis, mas reduziu a multa qualificada para 100% em razão da legislação superveniente mais benéfica. 3 PRECEDENTE ESPECÍFICO DE OUTRA TURMA DA SEGUNDA SEÇÃO DO CARF Apenas para registro, anoto a existência do seguinte precedente, pertinente ao mesmo grupo: Numero do processo: 15504.725785/2018-61 Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção Câmara: Segunda Câmara Seção: Segunda Seção de Julgamento Data da sessão: Thu Jul 24 00:00:00 UTC 2025 Data da publicação: Thu Aug 14 00:00:00 UTC 2025 Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2013, 2014, 2015 SOCIEDADE. NATUREZA JURÍDICA DOS RENDIMENTOS PAGOS AOS SÓCIOS. VERDADE MATERIAL. Quando as atividades e os negócios jurídicos desenvolvidos possuem aspectos diversos da realidade formal, sendo os supostos sócios prestadores de serviços e o lucro, na verdade, refere-se à remuneração dos serviços prestados, os valores recebidos devem ser classificados, segundo a sua efetiva natureza jurídica, como rendimentos tributáveis de prestação de serviços, que correspondem a verdade material dos fatos, e não como lucros isentos do imposto de renda. NÃO APRESENTAÇÃO DE NOVAS RAZÕES DE DEFESA PERANTE A SEGUNDA INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. CONFIRMAÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA. Não tendo sido apresentadas novas razões de defesa perante a segunda instância administrativa, a fundamentação da decisão pode ser atendida mediante declaração de concordância com os fundamentos da decisão recorrida, nos termos do artigo 114, §12, I da Portaria MF n.º 1.634/2023. COMPENSAÇÃO. PEDIDO. APRECIAÇÃO. INCOMPETÊNCIA DO CARF. A competência para apreciar pedido de compensação de tributos é do titular da unidade da Receita Federal do Fl. 1178DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 17 Brasil da jurisdição do domicílio tributário do contribuinte. MULTA QUALIFICADA. CONDUTA DOLOSA. SIMULAÇÃO. A prática de simulação, caracterizada pela utilização de interposta pessoa, para dissimular o recebimento de rendimentos pelo sujeito passivo, enseja a qualificação da multa de ofício. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. RETROATIVIDADE BENIGNA. APLICAÇÃO. SUPERVENIÊNCIA DA LEI Nº 14.689/2023. Aplica-se legislação de forma retroativa a ato ou fato pretérito, quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo de sua prática. Superveniência da Lei nº 14.689, de 20 de setembro de 2023, que alterou o percentual da multa qualificada, reduzindo-a a 100%, por força da nova redação do art. 44, da Lei nº 9.430/96. Numero da decisão: 2201-012.134 Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo quanto ao pedido de compensação, vencidos os Conselheiros Luana Esteves Freitas (relatora) e Thiago Álvares Feital, que votaram pelo conhecimento integral. Na parte conhecida, por maioria de votos, em dar-lhe provimento parcial para: i) excluir da tributação os valores recebidos das empresas: a) Segmento Farma; b) Schering; c) Novartis; d) Merck; e) Permanyer; f) Planmarck; g) Astrazeneca; ii) reduzir a multa qualificada para o percentual de 100%, em virtude da retroatividade benigna; vencidos os Conselheiros Luana Esteves Freitas (Relatora) e Thiago Álvares Feital, que deram provimento integral ao recurso. Designado o Conselheiro Marco Aurélio de Oliveira Barbosa para redigir o voto vencedor. Assinado Digitalmente Luana Esteves Freitas – Relatora Assinado Digitalmente Marco Aurélio de Oliveira Barbosa – Presidente e Redator designado Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Debora Fófano dos Santos, Fernando Gomes Favacho, Weber Allak da Silva, Luana Esteves Freitas, Thiago Álvares Feital, Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente). Nome do relator: LUANA ESTEVES FREITAS 4 PRELIMINARES E MÉRITO Nos termos do art. 114, § 12º, I do Regimento Interno do CARF (RICARF/2023), se não houver inovação nas razões recursais, nem no quadro fático-jurídico, o relator pode aderir à fundamentação coligida no acórdão-recorrido. Assim, registro o seguinte trecho do acórdão-recorrido: Esclareça-se, inicialmente, que o trabalho de Fiscalização é pautado de formalidade intrínseca da atividade legal exercida, na busca da verdade material dos fatos com a sua subsunção aos preceitos legais. Fl. 1179DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 18 Trata-se de atividade plenamente vinculada, não podendo haver discricionariedade por parte da autoridade lançadora, conforme preconiza o art. 142, transcrito a seguir: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. O que esta autoridade julgadora irá analisar é se o lançamento foi efetuado conforme a legislação e os elementos de que possuía a Fiscalização, contrapondo- os com as alegações trazidas pelo impugnante juntamente com as provas que as acompanhem. Ilegalidade/Inconstitucionalidade Com relação às alegações de ilegalidade e inconstitucionalidade, saliente-se que não são suscetíveis de apreciação na via administrativa quaisquer arguições de inconstitucionalidade de leis tributárias ou fiscais, isso porque as autoridades administrativas, enquanto responsáveis pela execução das determinações legais, devem sempre partir do pressuposto de que o Legislador tenha editado leis compatíveis com a Constituição Federal. Noutras palavras, as autoridades administrativas não podem negar aplicação às leis regularmente emanadas do Poder Legislativo. O exame da constitucionalidade ou legalidade das leis é tarefa estritamente reservada aos órgãos do Poder Judiciário, nos termos do art. 102 da Constituição Federal de 1988. A autoridade tributária, tanto a lançadora quanto a julgadora, encontra-se cingida aos estritos termos da legislação fiscal, estando impedida de ultrapassar tais fronteiras para examinar questões outras como as suscitadas na impugnação em tela, uma vez que às autoridades tributárias cabe apenas cumprir e aplicar a lei. [...] Jurisprudência Administrativa e Judicial Com relação à jurisprudência judicial, esclarece-se que a eficácia dos acórdãos dos tribunais limita-se especificamente ao caso julgado e às partes inseridas no processo de que resultou a sentença, não aproveitando esses acórdãos em relação a qualquer outra ocorrência senão aquela objeto da sentença, ainda que Fl. 1180DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 19 de idêntica natureza, seja ou não interessado na nova relação o contribuinte parte do processo de que decorreu o acórdão. Quanto às decisões administrativas aludidas pelo contribuinte ao longo de sua peça impugnatória, cumpre observar que essas só se aplicam aos autos nos quais foram proferidas, não sendo cabível seu emprego a qualquer outro processo, mesmo que versando sobre a mesma matéria, por não se constituírem em norma geral. Doutrinas No que se refere às doutrinas transcritas, cabe esclarecer que mesmo a mais respeitável doutrina, ainda que dos mais consagrados tributaristas, não pode ser oposta ao texto explícito do direito positivo, mormente em se tratando do direito tributário brasileiro, por sua estrita subordinação à legalidade. Mérito A autuada questionou a totalidade do crédito tributário lançado por meio do presente lançamento de ofício, quando apresentou esclarecimentos, pontos de vista no tocante às suas teses, várias considerações e argumentos para amparar sua defesa. A extensa impugnação está sintetizada no relatório. Omissão de Rendimentos Entendeu a fiscalização, após todos os esclarecimentos e elementos de prova trazidos ao procedimento fiscal pelo contribuinte e pelas pessoas físicas e jurídicas diligenciadas e também informações constantes dos bancos de dados da RFB, que os rendimentos recebidos pelo contribuinte da pessoa jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] são referentes a honorários médicos e não a lucros distribuídos. Nos itens 4.6 e 4.7 do Termo de Verificação de Infração estão descritas as omissões de rendimentos apuradas. 4.7. Omissão de Rendimentos do Trabalho Recebidos de Pessoa Jurídica — Anos-calendário 2013 a 2015 4.7.1. Conforme já exaustivamente demonstrado, restou comprovado que os rendimentos recebidos pelo sujeito passivo possuem natureza remuneratória de prestação de serviços, referem-se a honorários médicos, e não a lucros distribuídos. 4.7.2. Além disso, conforme preconiza o inciso III do art. 28 da Lei n.º 8.212, de 24/07/1991, com redação da MP n.º 1.596-14, de 10/11/1997, convertida na Lei n.º 9.528, de 10/12/1997, integrarão o salário de contribuição do contribuinte individual a remuneração auferida em uma ou mais empresas ou pelo exercício de sua atividade por conta própria, durante o mês. Fl. 1181DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 20 4.7.3. O Anexo 03 deste Termo relaciona as notas fiscais emitidas pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] em nome de pessoas jurídicas para as quais o fiscalizado prestou serviços nos anos-calendário 2013 a 2015. O referido Anexo discrimina o valor atribuído à fiscalizada como omissão de rendimentos em cada nota fiscal. Esses valores foram lançados no Auto de Infração resultante desta fiscalização como “Omissão de Rendimentos do Trabalho Recebidos de Pessoa Jurídica”. Por oportuno, transcreve-se parte do Termo de Verificação Fiscal com as constatações e conclusões da fiscalização. 3.2. Com Relação à [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] 3.2.3. Em resposta ao Termo de Intimação Fiscal — Diligência n.º 01/2018, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] informou que a sede da empresa é no endereço residencial dos sócios [NOME ANONIMIZADO] e Andrea, servindo apenas como “endereço administrativo”, onde não ocorre a prestação de serviço, que é realizada nas empresas dos clientes. 3.2.4. Intimada a apresentar o Alvará de Funcionamento e Autorização da Vigilância Sanitária, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] apresentou um alvará concedido pela Prefeitura de [MUNICÍPIO ANONIMIZADO] datado de 07/06/2018, ou seja, data posterior à ciência do Termo de Intimação. 3.2.5. Intimada a comprovar a existência do Cadastro de Estabelecimento de Saúde junto ao CNES — [ÓRGÃO ANONIMIZADO], a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] não o fez, alegando que “está dispensada de tal cadastro, sabendo-se que o endereço da empresa é somente um endereço administrativo onde não ocorre prestação de serviço à saúde”. 3.2.6. Com relação aos bens do ativo imobilizado, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] informou que, tendo em vista a prestação dos serviços ocorrer nas dependências dos clientes, a clínica utiliza móveis, utensílios, aparelhos e equipamentos eletroeletrônicos dos locais onde são realizadas as prestações de serviços. 3.2.7. Com relação aos critérios utilizados para distribuição dos lucros aos sócios, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] informou que estes foram divididos da seguinte forma: Ano-calendário;Critério de distribuição informado 2013;De acordo com a participação no quadro societário da empresa 2014;Proporcional à participação no capital social e considerando o trabalho dos sócios 2015;Proporcional à participação no capital social e considerando o trabalho dos sócios Intimada a comprovar o efetivo recebimento de lucros da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], a fiscalizada apresentou cópias de comprovantes de Fl. 1182DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 21 transferências bancárias para sua conta conjunta com o sócio [NOME ANONIMIZADO], que é seu marido, e de alguns extratos da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA]. Além disso, a fiscalizada informou que tais comprovantes se referem aos pagamentos de lucros distribuídos a ela e a seu marido, uma vez que são casados em regime de comunhão universal de bens. Ressalta-se que a fiscalizada não apresentou nenhum documento capaz de comprovar o regime de casamento e, a partir do momento em que optou por transmitir a DIRPF separadamente da de seu marido, deveria comprovar individualmente tais recebimentos. Cumpre ressaltar ainda que os recibos apresentados pela contribuinte não comprovam a totalidade dos lucros recebidos informados por ela em seu Termo de Resposta. 3.2.8. Cabe destacar ainda a Cláusula Quinta — Objetivo Social da 2ª Alteração Contratual: “A sociedade terá por objetivo a prestação de Serviços Médicos especializado com responsabilidade pessoal e sem caráter empresarial”. Tal dispositivo foi inserido no Contrato Social para afastar a responsabilidade da pessoa jurídica no caso de uma ação judicial movida contra algum de seus profissionais. Quando um médico é acionado judicialmente em um processo por dano material e moral, o ônus da prova é de quem move o processo. No caso de pessoa jurídica, há uma inversão do ônus da prova e a empresa passa a ser tratada no processo como se fosse um hospital. Ou seja, o fiscalizado e seus sócios declaram, no Contrato Social, que assumem a responsabilidade pessoal pelos seus serviços, comprovando que a prestação era feita pelo profissional pessoa física e não pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA]. 3.2.9. Pelo exposto, resta claro que a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] não existe de fato e que foi constituída apenas para que seus sócios pudessem auferir vantagens tributárias indevidas. 3.3. Com Relação ao [HOSPITAL ANONIMIZADO] e aos Contratos Celebrados com a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] 3.3.6. Por todo o exposto, verificou-se que a existência da pessoa jurídica era totalmente desnecessária na relação estabelecida entre o [HOSPITAL ANONIMIZADO] e o contribuinte nos anos-calendário fiscalizados. Pela simples leitura do Regimento Interno do hospital, resta clara a existência de pessoalidade diante da necessidade de cadastramento do médico em seu Corpo Clínico. Fl. 1183DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 22 Além disso, conforme já relatado, o próprio regimento interno recomenda que os membros do corpo clínico se organizem preferencialmente por meio de pessoas jurídicas. Ou seja, a contratação é feita intuitu personae, e os serviços serão prestados por aquele profissional específico, que teve seu currículo analisado previamente. Outro ponto importante é que, apesar de relatar, em seu Termo de Resposta, que os médicos membros do corpo clínico exercem suas atividades sem subordinação, na prática não é o que se observa. Ao estabelecer que as ações de seus membros devem ser pautadas pelo Regimento Interno e pelo Código de Integridade do [HOSPITAL ANONIMIZADO], bem como pela necessidade de se reportar ao Coordenador de Equipe, resta clara a existência de subordinação do médico perante o hospital. Além disso, é possível constatar que a habitualidade está presente nas atividades desenvolvidas pelo fiscalizado, que fazem parte da atividade fim do [HOSPITAL ANONIMIZADO]. 3.3.7. Destaca-se ainda o fato de a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] não possuir empregados médicos, permitindo concluir que os serviços foram prestados pessoalmente por seus sócios. Especialmente no caso da fiscalizada, que detém uma especialidade médica diferente dos outros sócios, fica claro que ela sequer poderia ser substituída por outro sócio, reforçando ainda mais o caráter pessoal na prestação dos serviços. 3.3.8. Por fim, é importante frisar que, ao consultar o nome da fiscalizada em um site de busca na Internet, foram encontradas citações relacionando a médica com o [HOSPITAL ANONIMIZADO]. Verificou-se que não há qualquer menção à [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA]. 3.3.9. Ademais, conforme previsto em contrato, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] somente é responsável pelos serviços prestados, sendo os equipamentos, empregados e demais bens utilizados na prestação de serviço de propriedade/responsabilidade do [HOSPITAL ANONIMIZADO]. Ou seja, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] utilizou toda estrutura física, logística e operacional do [HOSPITAL ANONIMIZADO] para a prestação dos serviços, o que ocorre normalmente em relações de emprego, e não em relações entre duas pessoas jurídicas. Por fim, não há qualquer informação no site do [HOSPITAL ANONIMIZADO] de que o hospital terceiriza os serviços prestados no [UNIDADE ANONIMIZADA]. 3.3.10. Sendo assim, resta indubitavelmente comprovado que a existência da pessoa jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] era totalmente dispensável na execução dos serviços, sendo necessária apenas a existência de seus sócios, Fl. 1184DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 23 profissionais com capacidade técnica adequada para cumprir a demanda contratada. 3.4. Com Relação ao Contrato Celebrado entre a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] e a [CLÍNICA ANONIMIZADA 1] 3.4.1. Intimada a apresentar os contratos celebrados com a fiscalizada e/ou com as empresas das quais ela era sócia nos anos-calendário sob fiscalização, bem como informar quais serviços foram prestados por ela ou por suas respectivas empresas, a [CLÍNICA ANONIMIZADA 1] informou que a contribuinte prestou serviços em nome da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA]. Ainda em resposta ao referido Termo, a [CLÍNICA ANONIMIZADA 1] apresentou um Contrato de Prestação de Serviços Médicos celebrado com a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], que estabelece, em sua cláusula 2ª, que a sócia Andrea será a prestadora dos serviços, além de se responsabilizar civil e juridicamente pelos exames por ela realizados. A cláusula 1ª do referido contrato estabelece que a [CLÍNICA ANONIMIZADA 1] disponibilizará todos os recursos humanos e materiais necessários para a prestação dos serviços e que tais serviços serão prestados na sede da [CLÍNICA ANONIMIZADA 1]. 3.4.2. Diante de todas as informações aqui relatadas, é possível verificar que, na verdade, houve a contratação da médica Andrea para a realização de exames de ultrassonografia diagnóstica. Não havia a possibilidade de ser substituída, uma vez que ela é a única médica integrante do quadro societário da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] que possui tal especialidade e que a clínica não possuía empregados médicos nos anos- calendário fiscalizados. Além disso, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] utilizou toda a estrutura física e operacional da [CLÍNICA ANONIMIZADA 1] e nada pagou por isso, o que ocorre normalmente nas relações de emprego, e não nas relações entre duas empresas. 3.4.3. Por fim, analisando-se as cópias dos cheques apresentados pela [CLÍNICA ANONIMIZADA 1], os quais eram todos nominais à fiscalizada, em conjunto com os extratos bancários da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] apresentados pela contribuinte, verificou-se que tais cheques nunca foram depositados na conta da pessoa jurídica, confirmando que a existência da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] era totalmente dispensável na relação jurídica estabelecida entre a fiscalizada e a [CLÍNICA ANONIMIZADA 1]. 3.5. Com Relação ao Contrato Celebrado com a [CLÍNICA ANONIMIZADA 2] 3.5.1. Assim como a [CLÍNICA ANONIMIZADA 1], a [CLÍNICA ANONIMIZADA 2] também informou que todos os serviços prestados pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] foram executados pela fiscalizada. Fl. 1185DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 24 3.5.2. De acordo com o Contrato de Prestação de Serviços Médicos celebrado entre as partes, a [CLÍNICA ANONIMIZADA 2] cederá à [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] todos os equipamentos e recursos necessários para a prestação de serviços de radiologia e ultrassom. Além disso, estabelece que os serviços deverão ser prestados na sede da [CLÍNICA ANONIMIZADA 2]. A cláusula segunda do contrato proíbe a subcontratação de outro profissional ou empresa para a prestação do serviço sem o consentimento da contratante, e designa a fiscalizada como a responsável pela prestação dos serviços. 3.5.3. Pelo exposto, assim como ocorreu com a [CLÍNICA ANONIMIZADA 1], constatou-se que, na verdade, houve a contratação da médica Andrea para a realização de exames de imagem. Além disso, mais uma vez, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] utilizou toda a estrutura física e operacional da [CLÍNICA ANONIMIZADA 2], corroborando que a existência da pessoa jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] era totalmente dispensável na relação jurídica aqui descrita. 3.5.4. Por fim, analisando-se as cópias de cheques apresentadas pela [CLÍNICA ANONIMIZADA 2] e comparando-as com os extratos bancários da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], constatou-se que tais cheques nunca foram depositados na conta da pessoa jurídica, evidenciando que os pagamentos foram feitos diretamente à fiscalizada. 3.6. Com Relação aos Serviços Prestados a Outras Pessoas Jurídicas e a Pessoa Física 3.6.1. Considerando que, nos outros casos de prestação de serviços a pessoas jurídicas e a uma pessoa física, todos os sócios informaram o nome do profissional que o prestou, resta claro, mais uma vez, que a contratação se deu de forma pessoal, sendo a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] totalmente dispensável na relação jurídica estabelecida. 3.7. Com Relação aos Lucros Distribuídos aos Sócios 3.7.6. A 2ª Alteração Contratual da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], assinada em 10/10/2012, em sua Cláusula Oitava, dispõe que “os lucros apurados em balanço a ser realizado após o término do exercício social serão distribuídos entre os sócios na proporção do capital social, podendo os sócios optarem pelo aumento de capital utilizando estes lucros, e compensar os prejuízos em exercícios futuros de acordo com a legislação em vigor”. Por sua vez, a 3ª Alteração Contratual, assinada em 30/12/2014, trouxe nova redação à Cláusula Oitava: “os lucros apurados em balanço a ser realizado após o término do exercício social serão distribuídos entre os sócios de forma que os sócios minoritários recebam, no mínimo, o valor de suas proporcionalidades na participação no capital e, em consequência, os sócios majoritários recebam, no Fl. 1186DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 25 máximo, o valor de suas proporcionalidades na participação do capital, podendo os sócios optarem pelo aumento de capital utilizando estes lucros, e compensar os prejuízos em exercícios futuros de acordo com a legislação em vigor”. Sendo assim, nos anos-calendário fiscalizados, existiram duas formas de distribuição de lucros: Ano-calendário;Forma de distribuição indicada 2013;Proporcional à participação no capital social 2014;No mínimo o percentual de participação no capital social para os sócios minoritários e, no máximo, o percentual de participação no capital social para a fiscalizada, sócia majoritária 2015;No mínimo o percentual de participação no capital social para os sócios minoritários e, no máximo, o percentual de participação no capital social para a fiscalizada, sócia majoritária 3.7.7. Em resposta ao TIF n.º 02/2017, a fiscalizada esclareceu apenas que a retirada de lucro da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] era feita em forma de adiantamento de retirada de lucro mensal, transferindo o resultado final para a conta de resultado. Apresentou uma planilha contendo valores de lucros distribuídos, indicando a contrapartida no extrato bancário da clínica, e alguns comprovantes de transferências bancárias da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] para sua conta. Informou ainda que sua conta é conjunta com a de seu marido, que também é sócio da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], e que os valores transferidos se referiam a pagamentos de lucros dos dois, pois são casados em regime de comunhão universal de bens. Ressalta-se que a fiscalizada não apresentou nenhum documento que comprovasse o regime de casamento e, além disso, uma vez que optou por transmitir a DIRPF separada da de seu marido, deveria comprovar individualizadamente os valores que correspondiam aos lucros recebidos por cada um. 3.7.8. Conforme constam nos extratos bancários da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], as distribuições de lucros aos sócios sempre ocorreram logo após o pagamento do [HOSPITAL ANONIMIZADO] ser creditado na conta e, somando-se os valores de lucros distribuídos, verificou-se que eles são muito próximos àqueles creditados pelo hospital. 3.7.9. Tudo isso conduz à convicção de que essas “distribuições de lucros” têm, na verdade, natureza de honorários médicos, e que a 3ª Alteração do Contrato Social da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], ao estabelecer apenas valores mínimos e máximos de lucros distribuídos, foi realizada justamente para dar “legitimidade” a essa desigualdade na distribuição. Fl. 1187DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 26 3.8. Além de todos os fatos descritos anteriormente, após a análise dos extratos bancários da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], bem como das informações prestadas pelas pessoas diligenciadas, constatou-se que os pagamentos feitos pela [CLÍNICA ANONIMIZADA 1] e pela [CLÍNICA ANONIMIZADA 2], para as quais a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] emitiu notas fiscais mensalmente durante os anos fiscalizados, sequer transitaram pela conta bancária da empresa, indicando que foram feitos diretamente à fiscalizada, médica que prestou o serviço. Conforme já relatado, alguns cheques eram nominais a ela. 4. Lançamento de Ofício 4.3. Conforme detalhadamente demonstrado neste Termo, verificou-se que os rendimentos recebidos pelo sujeito passivo têm natureza remuneratória decorrente de serviços prestados, referindo-se, portanto, a honorários médicos e não a lucros distribuídos. Nesse sentido, ainda que o valor recebido seja denominado lucro distribuído, para fins de tributação do imposto de renda leva-se em consideração a essência do rendimento, sua verdadeira natureza. A tributação deve ser realizada de acordo com os fatos geradores efetivamente ocorridos. A situação de fato é que houve recebimento de rendimentos do trabalho percebidos pela médica Andrea Boueri Ticle Lima, tributados indevidamente como receita da interposta pessoa jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA]. 4.5. Conforme já mencionado neste Termo, na maior parte das notas fiscais emitidas pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] nos anos-calendário fiscalizados, foi possível apurar o valor do serviço atribuído a cada sócio. Sendo assim, foram adotados os seguintes procedimentos pela fiscalização: Procedimento;Descrição Desconsideração dos lucros distribuídos;Os valores de lucros distribuídos aos sócios da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] foram desconsiderados, visto que restou comprovado que tais lucros são, na verdade, honorários médicos recebidos pelos sócios Notas fiscais emitidas em nome do [HOSPITAL ANONIMIZADO];Nas notas fiscais em que mais de um profissional prestou o serviço, o valor atribuído a cada sócio foi realizado de acordo com as informações prestadas pelo próprio fiscalizado Critério de rateio;Em algumas notas emitidas em nome do [HOSPITAL ANONIMIZADO], foi informado o número total de procedimentos realizados em cada nota fiscal, bem como o número de procedimentos realizados por cada médico Cálculo fiscal;A Auditora-Fiscal calculou o valor atribuído a cada sócio com base no percentual de procedimentos realizados por ele Fl. 1188DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 27 4.6. O Anexo 02 deste Termo discrimina, para cada nota fiscal emitida pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] nos anos-calendário fiscalizados, o valor atribuído a cada sócio para fins de apuração da omissão de rendimentos. Não há lei que expressamente vede a constituição de pessoas jurídicas ou a celebração de negócio jurídico. Contudo, a análise não pode ser feita dessa maneira simplista e limitada, pois embora uma determinada ação não tenha sido proibida expressamente em uma lei, pode essa ação ir de encontro a vários preceitos previstos no ordenamento jurídico. São vários fatos observados e comprovados e não apenas um ou outro fato isolado, que o sujeito passivo, em sua impugnação, tentou demonstrar serem insuficientes para alicerçar a autuação fiscal. Constata-se que os médicos criaram a sociedade [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] para prestar serviços para outras empresas, porém, ao invés de serem remunerados regularmente por seus serviços profissionais, buscaram dar a esses pagamentos a roupagem de lucro, tendo em vista a isenção do imposto de renda das pessoas físicas. No caso, há um conjunto de elementos, dentre os quais os a seguir ilustrados, que demonstram que houve recebimento de rendimentos do trabalho pelo contribuinte que foram tributados indevidamente como receita da pessoa jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA]. A empresa jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] não detém as condições próprias de uma sociedade empresarial, posto que não tem nenhuma estrutura física, nem tampouco realiza, diretamente, nenhuma atividade comercial ou de prestação de serviços. São os “sócios” que realizam todas as atividades, ficando claro que são estes, efetivamente, os prestadores de serviços médicos. Quando intimada a apresentar o Alvará de Funcionamento e Autorização da Vigilância Sanitária, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] apresentou um alvará concedido pela Prefeitura de [MUNICÍPIO ANONIMIZADO] com data posterior ao da ciência do Termo de Intimação, demonstrando que o mesmo somente foi solicitado quando exigido pela fiscalização. O Alvará de Funcionamento, assim como o da Vigilância Sanitária, é necessário para funcionamento de qualquer consultório ou clínica. No caso, caberia ao impugnante apresentar a prova de que a sociedade faz regularmente solicitação de emissão de alvarás de funcionamento, como alegado na impugnação. Também não foi comprovada a existência do Cadastro de Estabelecimento de Saúde junto ao CNES — [ÓRGÃO ANONIMIZADO]. Fl. 1189DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 28 O CNES — Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde — foi instituído pelo Ministério da Saúde com o objetivo de ter um banco de dados com todos os estabelecimentos que prestem assistência à saúde, públicos e privados, existentes em todo território nacional. O Ministério da Saúde obriga que todo estabelecimento, independentemente do seu tamanho, estrutura ou nível de complexidade, efetue o cadastro. Até ambulatórios que funcionam dentro de empresas, clubes ou escolas precisam preencher o CNES corretamente. Com relação à distribuição de lucros pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], foi ressaltado no Termo de Verificação Fiscal que a contribuinte, quando intimada a comprovar o efetivo recebimento de lucros da clínica, apresentou somente uma planilha contendo valores de lucros distribuídos, indicando a contrapartida no extrato bancário da clínica, e alguns comprovantes de transferências bancárias da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] para sua conta. Como bem ressaltado no Termo de Verificação Fiscal, a existência da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] era desnecessária na relação entre o contribuinte e o [HOSPITAL ANONIMIZADO]. Esse fato ficou demonstrado na pessoalidade diante da necessidade de cadastramento do médico em seu Corpo Clínico, na subordinação, pois as ações de seus membros são pautadas pelo Regimento Interno e pelo Código de Integridade do [HOSPITAL ANONIMIZADO] e pela necessidade de se reportar ao Coordenador de Equipe, e na habitualidade, pois as atividades desenvolvidas pelo contribuinte fazem parte da atividade fim do [HOSPITAL ANONIMIZADO]. Também, no caso da [CLÍNICA ANONIMIZADA 2] e da [CLÍNICA ANONIMIZADA 1], verifica-se que de fato houve a contratação da médica Andrea para a realização dos exames. Todos estes fatos levam à conclusão de que a jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] não desenvolve, efetivamente, nenhuma atividade, sendo que as atividades são desenvolvidas diretamente pelos médicos. Dessa forma, não se aplica ao caso dos autos o contido no art. 129 da Lei n.º 11.196/2005, uma vez que tal dispositivo legal só é aplicável se verdadeiramente presente uma relação civil e comercial entre a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] e os profissionais médicos. O art. 129 da Lei n.º 11.196/2005 deve ser interpretado sistematicamente com as demais normas do ordenamento jurídico brasileiro, não podendo servir de manto protetor para a criação de pessoas jurídicas com o objetivo de disfarçar/dissimular uma relação de prestação de serviços. A realidade fática prevalece sobre o instrumento formal, pois as circunstâncias e o cotidiano nas relações podem ser diversas daquilo que foi documentado. Fl. 1190DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 29 A essência do ato jurídico é o fato, e não a forma; e, no caso, a fiscalização demonstrou cabalmente que a efetiva prestação de serviços pelo contribuinte diverge frontalmente da formalidade aparente, na qual ele figura como sócio da pessoa jurídica. Registre-se que não houve, no caso, a desconsideração da personalidade jurídica da sociedade. A fiscalização não negou a existência da jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] e nem, tampouco, adotou qualquer procedimento no sentido de efetivar a desconsideração de sua personalidade jurídica. A dita pessoa jurídica permaneceu com sua personalidade intacta, tendo a autoridade fiscal procedido apenas à desconsideração do negócio jurídico simulado, qual seja, a distribuição de lucros. Por fim, esclareça-se que a controvérsia acerca da existência ou não de vínculo de emprego é irrelevante para a incidência do imposto de renda devido pela pessoa física, posto que ambos constituem rendimentos produzidos pelo trabalho e, como tal, são tributáveis, sujeitando-se à retenção do imposto de renda pela fonte pagadora, no momento de sua percepção, e também à tributação na declaração de ajuste anual pelo contribuinte. Tanto os rendimentos do trabalho assalariado, com vínculo empregatício, quanto os rendimentos do trabalho não assalariado, sem vínculo empregatício, devem ser somados para a determinação da base de cálculo do ajuste anual. A forma de tributação no ajuste anual, portanto, não difere em função da existência ou não de vínculo de emprego, já que ambos os rendimentos são somados à base de cálculo do imposto para fins de apuração do imposto devido na declaração. Importa, neste processo, não a relação jurídica empregatícia, mas a efetiva prestação do serviço pela pessoa física e o auferimento de renda. Base de Cálculo Apurada Afirma o impugnante que a fiscalização desconsiderou o lucro distribuído pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] e optou por método diverso para apuração individual das receitas, qual seja, suposto número de atendimentos por médico. Afirma que a planilha elaborada pela fiscalização em nada condiz com os valores efetivamente recebidos. Requer, assim, que seja o lançamento limitado ao valor que alega efetivamente ter recebido. O procedimento adotado pela fiscalização está correto. Os valores dos lucros distribuídos informados pelo contribuinte em sua declaração de ajuste anual divergem dos extratos bancários apresentados. Fl. 1191DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 30 Assim, não há como considerar, como requer a contribuinte, como rendimentos omitidos, o valor informado na declaração de ajuste anual como lucros distribuídos, posto que tal valor encontra-se incorreto. No caso, foi verificado que na maior parte das notas fiscais emitidas pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] nos anos-calendário fiscalizados era possível apurar o valor do serviço atribuído a cada sócio, tendo, então, sido adotado o seguinte procedimento: Procedimento;Descrição Desconsideração dos lucros distribuídos;Os valores de lucros distribuídos aos sócios da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] foram desconsiderados Notas fiscais emitidas em nome do [HOSPITAL ANONIMIZADO];Nas únicas notas fiscais em que mais de um profissional prestou o serviço, o valor atribuído a cada sócio foi realizado de acordo com as informações prestadas pelo próprio contribuinte Anexo 02 do Termo de Verificação Fiscal;Estão discriminados, para cada nota fiscal emitida pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], o valor atribuído a cada sócio para fins de apuração da omissão de rendimentos Anexo 03 do Termo de Verificação Fiscal;Relaciona as notas fiscais emitidas pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] em nome de pessoas jurídicas para as quais a contribuinte prestou serviços nos anos-calendário 2013 a 2015 Não procede, portanto, o argumento do contribuinte de que a fiscalização presumiu o valor recebido pelo contribuinte. [...] Da Qualificação da Multa de Ofício Com relação à multa aplicada, assim dispõe o art. 44 da Lei n.º 9.430, de 27/12/1996: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I — de 75% sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II — de 50%, exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: a) na forma do art. 8º da Lei n.º 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social Fl. 1192DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 31 sobre o lucro líquido, no ano-calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. § 2º Os percentuais de multa a que se referem o inciso I do caput e o § 1º deste artigo serão aumentados de metade, nos casos de não atendimento pelo sujeito passivo, no prazo marcado, de intimação para: I — prestar esclarecimentos; II — apresentar os arquivos ou sistemas de que tratam os arts. 11 a 13 da Lei n.º 8.218, de 29 de agosto de 1991; III — apresentar a documentação técnica de que trata o art. 38 desta Lei. A multa qualificada de 150% tem por fundamento o parágrafo 1º do artigo 44 da Lei n.º 9.430/1996, transcrito, que trata da qualificação das infrações nos casos previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502/1964. Lei n.º 4.502, de 30 de novembro de 1964. Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I — da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II — das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. Como se percebe, nos casos de lançamento de ofício, a regra é aplicar a multa de 75%, estabelecida no inciso I do artigo acima transcrito. Excepciona a regra a comprovação do intuito doloso, a qual acarreta a aplicação da multa qualificada de 150%, prevista no § 1º do artigo 44 da Lei n.º 9.430 de 1996, com a redação dada pela Lei n.º 11.488, de 15/06/2007. O conceito de dolo encontra-se no inciso I do art. 18 do Decreto-lei n.º 2.848, de 07 de dezembro de 1940 — Código Penal, que dispõe ser o crime doloso aquele em que o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo. Fl. 1193DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 32 No lançamento foi aplicada a multa de ofício no percentual de 150% sobre o valor do imposto devido nos lançamentos referentes às receitas. No Termo de Verificação Fiscal consta a motivação para o lançamento da multa qualificada, conforme transcrição: 5.1.3. Conforme exaustivamente demonstrado neste Termo, o contribuinte, agindo em conluio com seus sócios, utilizou-se da pessoa jurídica interposta [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] para simular a distribuição de lucros e, desta forma, receber seus honorários médicos sem recolher o IRPF devido. Não é possível crer que a contribuinte praticou apenas uma conduta negligente, pois diante de todo o conjunto probatório resta claro que o único objetivo da constituição da pessoa jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] era mascarar o recebimento de honorários médicos por parte de seus sócios visando uma economia ilícita de tributos. 5.1.4. Conclui-se, portanto, que a fiscalizada praticou conduta definida como sonegação no art. 71 da Lei n.º 4.502, de 30/11/1964, bem como as condutas de fraude e conluio, previstas nos arts. 72 e 73, respectivamente, da mesma Lei. Ressalte-se que qualquer conduta dolosa do sujeito passivo, com vistas a reduzir ou suprimir tributo, estará sempre enquadrada em uma das hipóteses previstas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502/1964. Portanto, é irrelevante distinguir se a conduta se configurou em sonegação, fraude ou conluio, bastando apenas que se enquadre em qualquer um dos tipos definidos na citada lei e que no lançamento tenham sido indicadas todas as circunstâncias que possibilitaram a identificação do elemento subjetivo. No presente caso, conforme já analisado, restou comprovada a ocorrência de evasão fiscal, diante da clara intenção de ludibriar o Fisco, quando promoveu a alteração das características essenciais dos honorários profissionais, mascarando- os como se fossem lucros distribuídos. A evasão fiscal consiste em prática que infringe a lei, cometida após a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária, e objetiva reduzi-la ou ocultá-la. O sujeito passivo, sabendo que tem que pagar aquele tributo, encontra uma forma de dissimulá-lo, com o intuito de não pagá-lo ou minimizar o pagamento. A atitude está intrínseca na questão da evasão, pois o dolo e a intenção de não pagar ou pagar a menos do que é devido ao Estado está associada à ocorrência do fato gerador e, portanto, caracteriza-se como ilícita. É preciso reconhecer que as hipóteses em que é facultado ao contribuinte realizar negócios sem ter de contribuir para o fisco são restritas e pressupõem a atuação dentro de limites impostos pela lei, não havendo espaço para hipóteses de simulação, fraude ou dolo. Fl. 1194DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 33 Entretanto, havendo simulação, fraude ou dolo, resta caracterizada a evasão fiscal, forma ilícita de afastar a incidência tributária. Dentro da evasão encontram-se manobras ardilosas que, depois de ocorrido o fato gerador, visam a desviar a regra de incidência tributária, abrangendo as mais diversas formas de simulação. Não é razoável supor que a autuada, na qualidade de médica, não tivesse o conhecimento e discernimento necessários para compreender o mecanismo e as consequências tributárias da prática adotada. Não trata, portanto, o presente lançamento de simples omissão de rendimentos. Portanto, não há como considerar involuntária a conduta do contribuinte nem mera divergência de interpretação fática ou da legislação, o que torna devida a multa qualificada prevista no artigo 44, inciso I, parágrafo 1º, da Lei n.º 9.430, de 1996. Diante do exposto, rejeito o argumento. 5 AGRAVAMENTO DA MULTA POR DECISÃO SUPERVENIENTE À NOTIFICAÇÃO DO LANÇAMENTO Disse o órgão julgador de origem: Revisão do Lançamento Contrariamente às alegações da contribuinte, o lançamento pode ser revisto de ofício pela autoridade administrativa sempre que se comprove erro, conforme artigo 149 da Lei n.º 5.172, de 25 de outubro de 1966 — Código Tributário Nacional. Observa-se que, no primeiro auto de infração entregue à contribuinte, apesar de no demonstrativo de crédito tributário constar a multa de 75%, no Termo de Verificação Fiscal, item 5, “Multa Aplicada”, estão demonstradas as razões para aplicação da multa qualificada de 150%. A contribuinte, em sua impugnação, demonstrou estar ciente do agravamento da multa de ofício, tanto que apresentou suas alegações. As hipóteses de alteração do lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo são tema do art. 145 do Código Tributário Nacional: Art. 145. O lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo só pode ser alterado em virtude de: I — impugnação do sujeito passivo; Fl. 1195DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 34 II — recurso de ofício; III — iniciativa de ofício da autoridade administrativa, nos casos previstos no artigo 149. O art. 145 do CTN, referindo-se à revisão de ofício como hipótese de alteração do lançamento de ofício, remete às situações elencadas no art. 149 daquele mesmo diploma legal: Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: I — quando a lei assim o determine; II — quando a declaração não seja prestada, por quem de direito, no prazo e na forma da legislação tributária; III — quando a pessoa legalmente obrigada, embora tenha prestado declaração nos termos do inciso anterior, deixe de atender, no prazo e na forma da legislação tributária, a pedido de esclarecimento formulado pela autoridade administrativa, recuse-se a prestá-lo ou não o preste satisfatoriamente, a juízo daquela autoridade; IV — quando se comprove falsidade, erro ou omissão quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória; V — quando se comprove omissão ou inexatidão, por parte da pessoa legalmente obrigada, no exercício da atividade a que se refere o artigo seguinte; VI — quando se comprove ação ou omissão do sujeito passivo, ou de terceiro legalmente obrigado, que dê lugar à aplicação de penalidade pecuniária; VII — quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; VIII — quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior; IX — quando se comprove que, no lançamento anterior, ocorreu fraude ou falta funcional da autoridade que o efetuou, ou omissão, pela mesma autoridade, de ato ou formalidade especial. Parágrafo único. A revisão do lançamento só pode ser iniciada enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública. Enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública, não há óbice para correção de erro no auto de infração. De fato, o agravamento da multa não constava no documento originalmente entregue à recorrente, como reconhece a DRJ. Nesse sentido, disse a autoridade lançadora (fls. 18): Fl. 1196DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 35 Após o encerramento dos trabalhos de fiscalização em nome da contribuinte Andréa Boueri Ticle Lima, CPF *, verificou-se um erro no Demonstrativo de Apuração do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, uma vez que constava o percentual de 75% para a multa aplicada, contrariamente ao informado no item 5.1 do Termo de Verificação e na Representação Fiscal para Fins Penais. De acordo com o artigo 149 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional – CTN), o lançamento pode ser revisto de ofício pela autoridade administrativa sempre que se comprove erro quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária. Deste modo, encaminho novamente o Auto de Infração, acompanhado do Termo de Verificação Fiscal e anexos, além do Termo de Encerramento Consolidado, com o percentual da multa aplicada corrigido, qual seja, 150%. Apesar de o órgão julgador de origem procurar caracterizar o ato como simples erro material, de lapso manifesto (por ter escrito “75%” ao invés de “150%”), a conjunção dos textos citados não permite essa modificação, em prejuízo do cidadão. A pretensão de manter a multa qualificada de 150%, quando o primeiro auto de infração entregue à contribuinte indicava expressamente, no demonstrativo de crédito tributário, o percentual de 75%, não encontra amparo no artigo 149 do Código Tributário Nacional, e a autoridade fiscal, ao invocar genericamente esse dispositivo para justificar a alteração em desfavor do sujeito passivo, omite que a revisão de ofício do lançamento regularmente notificado não é faculdade discricionária da administração, mas competência vinculada a hipóteses taxativas, cuja incidência deve ser demonstrada caso a caso, e não presumida a partir da mera existência de uma divergência interna entre as peças do auto de infração. Convém partir de uma distinção que a autoridade autuante parece ter ignorado. Há uma diferença ontológica entre o erro material, que decorre de falha mecânica ou de digitação na consolidação de um documento, e o erro de fato ou de direito a que se refere o artigo 149, que pressupõe uma inexatidão substancial na apuração do crédito tributário, na declaração do contribuinte ou na conduta deste perante o Fisco. A discrepância entre o percentual de 75% constante do demonstrativo de crédito tributário e o percentual de 150% fundamentado no Termo de Verificação Fiscal é, por sua própria natureza, um erro do primeiro tipo: trata-se de uma falha na transposição de um dado já apurado e já fundamentado para a planilha de consolidação, e não de uma reavaliação do mérito da qualificação da penalidade. Reconhecer essa distinção é condição prévia para qualquer análise do artigo 149, porquanto esse dispositivo não foi concebido para sanar inconsistências redacionais da própria autoridade lançadora, mas para permitir a revisão do lançamento diante de fatos novos ou de condutas do sujeito passivo que comprometam a exatidão original da exigência fiscal. Fl. 1197DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 36 Assentada essa premissa, cumpre examinar, um a um, os incisos do artigo 149, para demonstrar que nenhum deles autoriza, no caso concreto, a manutenção da multa em patamar superior àquele que constava do demonstrativo de crédito tributário notificado à contribuinte. O inciso I exige que a lei determine, de forma específica, a revisão do lançamento. Não há, no caso, qualquer dispositivo legal que imponha à autoridade administrativa o dever de revisar o demonstrativo de crédito tributário para fazê-lo coincidir com o Termo de Verificação Fiscal; a hipótese, portanto, não se verifica, e a autoridade tampouco a invoca especificamente, limitando-se a uma referência genérica ao artigo 149 como um todo, o que já revela a fragilidade do enquadramento legal pretendido. O inciso II pressupõe a ausência de declaração, por quem de direito, no prazo e na forma da legislação tributária. A contribuinte, todavia, não apenas prestou as declarações a que estava obrigada, como também apresentou impugnação tempestiva, demonstrando pleno conhecimento dos termos em que o lançamento lhe fora notificado. Não há, pois, omissão declaratória que justifique a revisão. O inciso III trata do descumprimento de pedido de esclarecimento formulado pela autoridade administrativa. Inexiste, nos autos, qualquer notícia de que se tenha formulado à contribuinte pedido de esclarecimento sobre o percentual da multa aplicada, e muito menos de que esta se tenha recusado a atendê-lo ou o tenha atendido de forma insatisfatória. A hipótese é, portanto, estranha ao caso. O inciso IV exige a comprovação de falsidade, erro ou omissão quanto a elemento de declaração obrigatória do próprio sujeito passivo. Aqui reside o ponto que mais nitidamente expõe a impropriedade da revisão pretendida: o erro, se existente, não é da contribuinte, mas da própria autoridade fiscal, que consolidou de forma inexata, no demonstrativo de crédito tributário, um percentual de multa distinto daquele que fundamentara no Termo de Verificação Fiscal. O inciso IV pressupõe falha imputável ao sujeito passivo na prestação de informações; não alberga, e não poderia albergar, falha de elaboração do próprio auto de infração pela autoridade lançadora. O inciso V refere-se a omissão ou inexatidão da pessoa legalmente obrigada no exercício da atividade de lançamento por homologação, prevista no artigo 150 do Código. Tratando-se, no caso, de lançamento de ofício decorrente de ação fiscal, a hipótese sequer é tecnicamente aplicável. O inciso VI exige ação ou omissão do sujeito passivo que dê lugar à aplicação de penalidade pecuniária. Ora, a penalidade já havia sido aplicada e fundamentada no Termo de Verificação Fiscal desde a lavratura original do auto de infração; não há ação ou omissão posterior da contribuinte que justifique nova aplicação ou agravamento de multa, e o que se busca, em rigor, não é aplicar penalidade em razão de conduta nova, mas corrigir, em prejuízo da contribuinte, um erro de transposição cometido pela própria autoridade. Fl. 1198DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 37 O inciso VII demanda a comprovação de dolo, fraude ou simulação por parte do sujeito passivo. Note-se a ironia da situação: o dolo, quando mencionado nos autos, foi invocado pela própria autoridade fiscal como fundamento para a qualificação da multa em 150%, constante do Termo de Verificação Fiscal; não se trata, portanto, de fato novo a justificar revisão, mas de fundamento já preexistente à notificação do lançamento, o que evidencia, mais uma vez, que a hipótese de revisão de ofício é estranha ao caso, pois nada se descobriu depois da notificação que antes se ignorasse. O inciso VIII autoriza a revisão quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior. Também aqui a hipótese não se sustenta, porquanto a motivação para a multa qualificada já constava integralmente do Termo de Verificação Fiscal desde a notificação original; não há fato novo, desconhecido à época, que tenha emergido posteriormente e que justifique a revisão. O que se pretende corrigir é uma inconsistência interna do próprio auto de infração, não uma lacuna de conhecimento da autoridade fiscal superada por descoberta ulterior. O inciso IX, por fim, é o único que poderia, em tese, aproximar-se da situação dos autos, na medida em que prevê a revisão quando se comprove, no lançamento anterior, fraude ou falta funcional da autoridade que o efetuou, ou omissão de ato ou formalidade especial. Ainda assim, a hipótese não se verifica, e a razão é estrutural, não apenas circunstancial. A falta funcional a que alude o inciso IX pressupõe um vício na própria atividade de lançamento, suficientemente grave para comprometer a validade do ato administrativo, a exemplo de incompetência da autoridade, inobservância de formalidade essencial ou conduta dolosa do agente público. Um erro material de consolidação de planilha, decorrente de falha mecânica e plenamente identificável pelo cotejo entre o demonstrativo e o Termo de Verificação Fiscal, não atinge esse patamar de gravidade. Poder-se-ia objetar, a essa altura, que a própria trivialidade do vício militaria em favor de sua correção, porquanto um erro que não coloca em dúvida a validade do lançamento seria, por isso mesmo, corrigível sem maiores consequências. O argumento, contudo, inverte os termos em que a questão deve ser colocada. Que o erro seja trivial, escusável e desprovido de consequências relevantes em outras esferas do direito público é proposição com a qual não se controverte; no âmbito disciplinar, por exemplo, uma falha dessa natureza dificilmente ultrapassaria o patamar de mera irregularidade, insuficiente para configurar infração funcional, e no âmbito administrativo geral poderia até mesmo ser sanada de ofício, sem prejuízo a qualquer interessado, justamente porque, nesses domínios, a correção não recai sobre ninguém em particular nem onera posição jurídica individual já consolidada. A esfera tributária, todavia, não comporta essa mesma indiferença, e a razão é precisa: aqui, ao contrário do que ocorre na relação interna entre a administração e seus agentes, há um sujeito passivo que ocupa, por definição constitucional, a posição central de toda a Fl. 1199DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 38 engrenagem fiscal, pois é em função do contribuinte e da capacidade contributiva que se justifica a própria existência da tributação, e não o inverso. Um erro que, na esfera disciplinar, se dissolveria em mera irregularidade sem vítima identificável, na esfera tributária recai diretamente sobre quem suporta o ônus do tributo, e transforma-se, por isso, em majoração de crédito tributário imposta a quem não lhe deu causa. A trivialidade do vício, que em outros campos do direito público autorizaria sua correção indolor, é exatamente o que deveria impedir, na seara fiscal, que se transferisse ao contribuinte o custo de uma falha qualificada, em todas as demais esferas, como menor e desimportante. É precisamente neste ponto que a Teoria do Risco oferece a chave de leitura adequada para o caso. Quem exerce a atividade de lançamento tributário, prerrogativa exclusiva e indelegável da administração, assume também o risco inerente a essa atividade, incluído nele o risco de falhas materiais na elaboração dos próprios atos administrativos. No direito tributário, não é dado à administração transferir ao administrado o ônus de uma falha que lhe é inteiramente imputável. Admitir o contrário equivaleria a inverter a lógica das garantias que informam todo o sistema de revisão do lançamento: o sujeito passivo, que nada fez para causar a inconsistência entre o demonstrativo e o Termo de Verificação Fiscal, e que depositou legítima confiança no percentual que lhe fora formalmente notificado, seria onerado por um erro alheio, justamente naquilo que a legislação de regência mais zelosamente protege, a saber, a estabilidade do lançamento regularmente notificado. Essa estabilidade, consagrada no artigo 145 do Código Tributário Nacional, não é mero formalismo processual; é garantia substancial de segurança jurídica, que somente cede diante de hipóteses estritas e taxativas, exatamente porque o legislador reconheceu que o lançamento, uma vez notificado, gera no contribuinte uma expectativa legítima quanto aos seus termos. Quando a própria autoridade fiscal busca corrigir, em prejuízo do sujeito passivo, um erro que lhe é inteiramente imputável, e o faz sem que se configure qualquer das hipóteses estritas do artigo 149, ela não está exercendo a prerrogativa de revisão de ofício; está, na verdade, tentando contornar, por via oblíqua, a própria garantia de estabilidade que o artigo 145 lhe impõe observar. Conclui-se, portanto, que nenhuma das nove hipóteses do artigo 149 do Código Tributário Nacional autoriza a revisão pretendida, e que o argumento de que a contribuinte teria demonstrado, em sua impugnação, conhecimento do agravamento da multa não supre essa ausência de fundamento legal, pois o conhecimento da motivação constante do Termo de Verificação Fiscal não convalida, por si só, um lançamento cuja consolidação formal, notificada à contribuinte, indicava percentual diverso. Há de prevalecer, à míngua de requisito legal para a revisão de ofício, o percentual de 75% constante do demonstrativo de crédito tributário original, sob pena de se transferir ao sujeito passivo o risco de uma falha cuja autoria e cuja responsabilidade são exclusivamente da administração fiscal. Diante do exposto, acolho o argumento. Fl. 1200DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 39 6 APROVEITAMENTO DE TRIBUTOS RECOLHIDOS PELA PESSOA JURÍDICA DESCONSIDERADA Sem prejuízo de meu entendimento pessoal sobre a matéria de fundo, uma vez adotada a racionalidade deste Colegiado sobre a presença dos requisitos que ensejam a tributação da renda pela pessoa natural, deve-se reler a conclusão a que chegou o órgão julgador de origem sobre a desconsideração da pessoa jurídica. Evidentemente, não se tratou de simples realocação de ingressos, com base no afastamento pontual e bem identificado de um, ou uma quantidade mínima, de operações. Sustenta-se que, embora o acórdão recorrido afirme formalmente não ter havido desconsideração da personalidade jurídica da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda., toda a sua fundamentação conduz, materialmente, à conclusão oposta. Com efeito, o próprio acórdão declara que a pessoa jurídica teria sido constituída apenas para que seus sócios pudessem auferir vantagens tributárias indevidas, que sua existência seria dispensável nas relações contratuais examinadas e que os valores por ela recebidos deveriam ser tratados como rendimentos da pessoa física da contribuinte. Essa operação lógica não preserva a personalidade jurídica; ao contrário, retira-lhe eficácia fiscal justamente para atribuir à sócia os efeitos econômicos de receitas formalmente auferidas pela sociedade. Verifica-se que o acórdão recorrido não se limita a requalificar isoladamente determinado pagamento. A decisão parte de uma premissa ampla e estrutural: a de que a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda. não existiria de fato como verdadeira prestadora de serviços, mas funcionaria como pessoa jurídica interposta para encobrir a prestação individual de serviços médicos. Essa premissa aparece de modo expresso quando o acórdão reproduz e acolhe a conclusão fiscal de que a clínica “não existe de fato” e teria sido constituída “apenas para que seus sócios pudessem auferir vantagens tributárias indevidas”. A partir daí, todo o raciocínio decisório passa a tratar a sociedade como entidade sem substância própria, substituindo sua atuação formal pela atuação direta da contribuinte. Observa-se que a decisão recorrida ancora essa conclusão em fatos concretos que, no seu entendimento, evidenciariam a artificialidade da pessoa jurídica. O acórdão menciona que a sede da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda. funcionaria no endereço residencial dos sócios, servindo apenas como “endereço administrativo”, sem prestação de serviços no local. Registra, ainda, que, quando intimada a apresentar alvará de funcionamento e autorização da vigilância sanitária, a sociedade apresentou alvará datado de 07/06/2018, posterior à ciência do termo de intimação, e que não comprovou cadastro no CNES. Também aponta que a clínica não possuiria bens próprios relevantes para a prestação dos serviços, pois utilizaria móveis, utensílios, aparelhos e equipamentos dos próprios tomadores. Acrescenta-se que o acórdão recorrido utiliza essas circunstâncias para negar substância operacional à sociedade. Ao afirmar que a empresa “não detém as condições próprias de uma sociedade empresarial”, porque não possuiria estrutura física nem realizaria diretamente atividade comercial ou prestação de serviços, a decisão não apenas examina a regularidade de Fl. 1201DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 40 documentos acessórios. Ela conclui que a pessoa jurídica não seria a verdadeira titular da atividade econômica, pois, segundo o acórdão, “são os sócios que realizam todas as atividades”, sendo eles, “efetivamente, os prestadores de serviços médicos”. Essa passagem é central: nela, o acórdão desloca a autoria da prestação da pessoa jurídica para as pessoas físicas dos sócios. Demonstra-se a desconsideração material também pelo tratamento dado aos contratos celebrados com os tomadores de serviços. Em relação ao Hospital Mater Dei, o acórdão afirma que a existência da pessoa jurídica seria “totalmente desnecessária” na relação estabelecida com a contribuinte nos anos-calendário fiscalizados. Para sustentar essa conclusão, aponta a necessidade de cadastramento do médico no corpo clínico, a análise prévia do currículo, a prestação pessoal dos serviços, a submissão ao regimento interno e ao código de integridade do hospital, a necessidade de reporte ao coordenador de equipe e a habitualidade decorrente do fato de as atividades integrarem a atividade-fim do tomador. Tais fundamentos foram empregados para esvaziar a autonomia da sociedade contratada e afirmar que, na realidade, quem prestava o serviço era a contribuinte, pessoa física. Ressalta-se que o mesmo raciocínio foi aplicado aos contratos com a Ecograf e com a Clínica Radiológica. O acórdão registra que, no contrato com a Ecograf, a sócia Andrea seria a prestadora dos serviços, responsabilizando-se civil e juridicamente pelos exames realizados, que os serviços seriam prestados na sede da contratante e que a Ecograf disponibilizaria os recursos humanos e materiais necessários. A partir desses elementos, conclui que teria havido, em verdade, a contratação da médica Andrea para realização de exames de ultrassonografia diagnóstica, sem possibilidade prática de substituição, pois ela seria a única integrante da sociedade com a especialidade indicada e a clínica não possuiria empregados médicos. Assinala-se que, quanto à Clínica Radiológica, o acórdão novamente afirma que todos os serviços prestados pela Clínica Radiológica e Oncológica Ltda. teriam sido executados pela fiscalizada. Destaca que a contratante cederia todos os equipamentos e recursos necessários, que os serviços deveriam ser prestados em sua sede, que a subcontratação dependeria de consentimento e que Andrea fora designada como responsável pela prestação dos serviços. Com base nisso, a decisão conclui que, também ali, teria havido contratação direta da médica Andrea para realização de exames de imagem, sendo a existência da pessoa jurídica “totalmente dispensável” na relação jurídica descrita. Evidencia-se, ainda, que o acórdão fundamenta a conclusão de artificialidade na forma de circulação dos pagamentos. A decisão menciona que, no caso da Ecograf e da Clínica Radiológica, cheques nominais à fiscalizada não teriam sido depositados na conta bancária da pessoa jurídica, o que indicaria que os pagamentos foram feitos diretamente à médica que prestou os serviços. Também aponta que, quanto aos pagamentos do Hospital Mater Dei, as distribuições de lucros aos sócios ocorreriam logo após o crédito dos valores na conta da clínica e em montantes muito próximos aos recebidos do hospital. A partir desses elementos, o acórdão conclui que as “distribuições de lucros” teriam, na verdade, natureza de honorários médicos. Fl. 1202DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 41 Conclui-se, portanto, que o acórdão recorrido não preservou a personalidade jurídica da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda. para fins fiscais. Embora tenha afirmado que não houve desconsideração formal da personalidade jurídica, a decisão desconsiderou, na prática, a eficácia dos atos praticados pela sociedade, a titularidade das receitas por ela formalmente auferidas, a validade fiscal da distribuição de lucros e a própria função contratual da pessoa jurídica nas relações com seus tomadores. O acórdão substituiu a forma jurídica declarada — prestação de serviços por sociedade simples e posterior distribuição de lucros — por uma realidade reconstruída pela fiscalização — prestação pessoal de serviços médicos pela contribuinte e recebimento de honorários tributáveis na pessoa física. Afirma-se, assim, que houve verdadeira desconsideração substancial da pessoa jurídica, ainda que o acórdão tente afastar essa qualificação por meio de declaração expressa em sentido contrário. A conclusão decorre do próprio conteúdo decisório: a clínica foi tratada como estrutura desprovida de existência econômica própria, constituída para escamotear a prestação individual de serviços; seus contratos foram interpretados como meras formas aparentes; suas receitas foram atribuídas diretamente à contribuinte; e seus lucros distribuídos foram reclassificados como honorários médicos. Esse conjunto de fundamentos revela que a decisão não apenas desconsiderou um negócio jurídico isolado, mas neutralizou a própria personalidade fiscal da sociedade para alcançar a pessoa física de sua sócia. Assim, se toda a estrutura foi rejeitada, deve-se aplicar ao quadro a orientação correspondente (cf., e.g., 11065.722731/2015-66 (Acórdão 2202-011.901), Rel. Henrique Perlatto Moura, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão 08/04/2026, publicação 18/05/2026; 11634.720004/2019-96 (Acórdão 2202-011.923), Rel. Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão 10/04/2026, publicação 12/05/2026; 12448.730776/2014-91 (Acórdão 2202-011.756), Rel. Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão 21/01/2026, publicação 05/03/2026). Diante do exposto, acolho o argumento. 7 REDUÇÃO DO PERCENTUAL DA MULTA QUALIFICADA – FUNDAMENTO SUBSIDIÁRIO. Para a hipótese de restar vencido no ponto sobre a qualificação da multa (alteração de percentual após a notificação regular ao contribuinte), reduz-se, de 150% para 100%, a razão da multa aplicada, em decorrência da modificação da legislação de regência (art. 8º da Lei 14.689/2023), aplicado retroativamente (art. 106, II, c do CTN). 8 DISPOSITIVO Ante o exposto, CONHEÇO parcialmente do recurso voluntário, com exceção das alegações de inconstitucionalidade, REJEITO as preliminares, e, no mérito, DOU-LHE PARCIAL Fl. 1203DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 42 PROVIMENTO, tão-somente para reduzir o percentual da multa, de 150 para 75%, e para permitir o aproveitamento dos tributos pagos pela pessoa jurídica, em relação aos valores devidos pela pessoa natural, na proporção de sua participação societária. É como voto. Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino VOTO VENCEDOR Conselheiro Marcelo Valverde Ferreira da Silva, redator designado A fim de bem delimitar o alcance pretendido por este voto vencedor, é preciso esclarecer que o ilustre relator, conheceu parcialmente do recurso voluntário, com exceção das alegações de inconstitucionalidade, bem como rejeitou as preliminares deduzidas pelo recorrente. No mérito, a despeito de registrar seu entendimento pessoal, adotou o posicionamento majoritário deste colegiado, fundamentando sua decisão, nos termos do art. 114, § 12, I, do RICARF, acolhendo a redução da multa proporcional ao percentual de 75%, bem como, admitindo o aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica, na proporção da participação societária do sujeito passivo. Tratará este voto vencedor, exclusivamente, da manutenção da multa qualificada, matéria em que o relator restou vencido. Registre-se a concordância deste colegiado com as demais matérias desenvolvidas pelo ilustre relator. Pois bem, todo a discussão gira ao redor da possibilidade de uma vez cientificado ao contribuinte o lançamento tributário, possa ser ele alterado, em razão da constatação de erro na exteriorização do documento de sua constituição. No caso concreto, a despeito do Termo de Verificação de fls. 20 a 51 deduzir um capítulo inteiro registrando a aplicação da multa qualificada prevista no artigo 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996, no lançamento anterior foi aplicado o percentual ordinário da multa proporcional de 75%, posteriormente revisado por meio do documento de fls. 2 a 15. A autoridade lançadora, reconhecendo a inexatidão do percentual da multa aplicada (Informação Fiscal de fls. 18 a 19), realizou a revisão de ofício do lançamento, cientificando o sujeito passivo do valor do crédito tributário retificado, bem como oferecendo nova oportunidade para impugná-lo. Contra este procedimento, o sujeito passivo deduz sua insurgência, acolhida pelo ilustre relator, sob o argumento de que a situação não pode ser encarada como mero erro material, que não se teria verificado quaisquer das hipóteses autorizativas do artigo 149, do CTN, que não poderia ser transferido ao sujeito passivo equívoco exclusivo da autoridade lançadora que representaria evidente agravamento da exigência. Fl. 1204DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 43 A matéria em questão está disciplinada nos artigos 145, 146 e 149, do Código Tributário Nacional: Art. 145. O lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo só pode ser alterado em virtude de: I - impugnação do sujeito passivo; II - recurso de ofício; III - iniciativa de ofício da autoridade administrativa, nos casos previstos no artigo 149. Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em consequência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. [...] Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: I - quando a lei assim o determine; II - quando a declaração não seja prestada, por quem de direito, no prazo e na forma da legislação tributária; III - quando a pessoa legalmente obrigada, embora tenha prestado declaração nos termos do inciso anterior, deixe de atender, no prazo e na forma da legislação tributária, a pedido de esclarecimento formulado pela autoridade administrativa, recuse-se a prestá-lo ou não o preste satisfatoriamente, a juízo daquela autoridade; IV - quando se comprove falsidade, erro ou omissão quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória; V - quando se comprove omissão ou inexatidão, por parte da pessoa legalmente obrigada, no exercício da atividade a que se refere o artigo seguinte; VI - quando se comprove ação ou omissão do sujeito passivo, ou de terceiro legalmente obrigado, que dê lugar à aplicação de penalidade pecuniária; VII - quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; VIII - quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior; IX - quando se comprove que, no lançamento anterior, ocorreu fraude ou falta funcional da autoridade que o efetuou, ou omissão, pela mesma autoridade, de ato ou formalidade essencial. Fl. 1205DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 44 Parágrafo único. A revisão do lançamento só pode ser iniciada enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública. Os dispositivos acima mencionados, não deixam dúvidas, da possibilidade da revisão de ofício do lançamento, após a sua notificação ao sujeito passivo. No entanto, é necessário a constatação de algum dos incisos do artigo 149, do CTN, não poderá importar em alteração do critério jurídico do lançamento, somente podendo se realizar enquanto não decorrido o prazo decadencial. No entender deste redator, caso a Administração constate posteriormente um erro de fato que resultou em tributação inferior à devida, poderá efetuar lançamento complementar ou revisar o lançamento para exigir a diferença do tributo. Não somente a jurisprudência administrativa é repleta de decisões autorizando a revisão do lançamento quando constatado erro de fato, mas também o STJ admite essa revisão quando ocorrida tal modalidade de erro. No julgamento do REsp 1.130.545/RJ, submetido ao rito dos recursos repetitivos, o STJ fixou entendimento de que a retificação de dados cadastrais que revele fato não conhecido por ocasião do lançamento anterior autoriza sua revisão, com fundamento no art. 149, VIII, do CTN. Nesse específico precedente, a revisão resultou na cobrança de diferença de IPTU decorrente de erro na metragem do imóvel, ou seja, em agravamento do crédito tributário, resultando no Tema Repetitivo nº 387 (STJ): A retificação de dados cadastrais do imóvel, após a constituição do crédito tributário, autoriza a revisão do lançamento pela autoridade administrativa (desde que não extinto o direito potestativo da Fazenda Pública pelo decurso do prazo decadencial), quando decorrer da apreciação de fato não conhecido por ocasião do lançamento anterior, ex vi do disposto no artigo 149, inciso VIII, do CTN. Ocorre que o ilustre relator entende não ser cabível a aplicação do artigo 149, VIII, do CTN, ao caso concreto, argumentando que a situação não envolve o conhecimento de fato novo ignorado por ocasião ao lançamento, mas que as circunstâncias eram de pleno conhecimento da autoridade lançadora, que teria deixado de aplicar a qualificação da multa, embora essa fosse a sua intenção. Divirjo deste entendimento, na medida em que admito a aplicação do referido inciso ao caso concreto, autorizando a revisão do lançamento “quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior”. A autoridade fiscal pretendeu a aplicação da multa qualificada ao caso concreto, tanto que a ele especificamente fez menção no Termo de Verificações. O fato não conhecido se refere ao erro na falta de aplicação da qualificadora, o que foi devidamente retificado por meio do documento de fls. 2 a 15. Ainda que a situação representasse o agravamento da exação, e que o fato que lhe deu causa somente pode ser imputado à autoridade lançadora, penso que as limitações impostas pela lei à revisão não se prestem para a manutenção do lançamento sabidamente equivocado, em detrimento àquele pretendido pela fiscalização. Tal pretensão sempre existiu, não representando qualquer alteração do critério jurídico e realizada dentro do Fl. 1206DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 45 limite temporal para o lançamento do tributo, razão pela qual o entendimento da maioria do colegiado foi pela manutenção da qualificação da multa. No entanto, desde a entrada em vigor da Lei nº 14.689/2023, a multa qualificada aplicada em razão da constatação da ocorrência das hipóteses dos artigos 71, 72 e 73, da Lei nº 4.502/1964, passou a ser de 100% sobre a totalidade ou diferença do imposto lançado de ofício, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata. Tal novo percentual há que ser aplicado ao caso concreto, nos termos do artigo 106, II, “c”, do CTN. Assim sendo, conforme já esclarecido nos parágrafos iniciais deste voto vencedor, ratifica-se tudo quanto contido no voto do relator, exceto a manutenção da qualificação da multa aplicada, que por maioria de votos restou vencido, cabendo sua aplicação no percentual de 100%, em razão da sua retroatividade benigna. Assinado Digitalmente Marcelo Valverde Ferreira da Silva Fl. 1207DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido 1 CONHECIMENTO 2 PRECEDENTES ESPECÍFICOS DESTA COMPOSIÇÃO COLEGIADA 3 PRECEDENTE ESPECÍFICO DE OUTRA TURMA DA SEGUNDA SEÇÃO DO CARF 4 PRELIMINARES E MÉRITO 5 agravamento da multa por decisão superveniente à notificação do lançamento 6 APROVEITAMENTO DE TRIBUTOS RECOLHIDOS PELA PESSOA JURÍDICA DESCONSIDERADA 7 REDUÇÃO DO PERCENTUAL DA MULTA QUALIFICADA – FUNDAMENTO SUBSIDIÁRIO. 8 DISPOSITIVO Voto Vencedor

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Numero do processo: 13896.722252/2018-35
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jun 15 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Sep 28 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Data do fato gerador: 23/09/2011 ICMS. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO DA CONTRIBUIÇÃO PARA A COFINS Conforme decidido pelo Supremo Tribunal Federal, por ocasião do julgamento do Tema 69 da Repercussão Geral, O ICMS não compõe a base de cálculo para incidência do PIS e da COFINS. Os efeitos da exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da COFINS devem se dar após 15.03.2017, ressalvadas as ações judiciais e administrativas protocoladas até (inclusive) 15.03.2017 e o ICMS a ser excluído da base de cálculo do PIS é o destacado nas notas fiscais.
Numero da decisão: 3102-004.037
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3102-004.017, de 19 de junho de 2026, prolatado no julgamento do processo 13896.722212/2018-93, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo - Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Luis Cabral, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Wilson Antonio de Souza Correa, Fabio Kirzner Ejchel, Sabrina Coutinho Barbosa, Pedro Sousa Bispo (Presidente).
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO

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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Data do fato gerador: 23/09/2011 ICMS. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO DA CONTRIBUIÇÃO PARA A COFINS Conforme decidido pelo Supremo Tribunal Federal, por ocasião do julgamento do Tema 69 da Repercussão Geral, “O ICMS não compõe a base de cálculo para incidência do PIS e da COFINS”. Os efeitos da exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da COFINS devem se dar após 15.03.2017, ressalvadas as ações judiciais e administrativas protocoladas até (inclusive) 15.03.2017 e o ICMS a ser excluído da base de cálculo do PIS é o destacado nas notas fiscais. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3102-004.017, de 19 de junho de 2026, prolatado no julgamento do processo 13896.722212/2018-93, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Luis Cabral, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Wilson Antonio de Souza Correa, Fabio Kirzner Ejchel, Sabrina Coutinho Barbosa, Pedro Sousa Bispo (Presidente). Fl. 229DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-004.037 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13896.722252/2018-35 2 RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que julgou o Pedido de Ressarcimento/Compensação apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de COFINS. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, em síntese abaixo, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Data do fato gerador: 23/09/2011 BASE DE CÁLCULO. EXCLUSÃO DO ICMS. No que se refere à exclusão do ICMS das bases de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins, independentemente de a matéria ter sido objeto de decisão vinculante do STF, na hipótese em que o direito é postulado mediante ação própria, prevalece a autonomia da ação (liberdade de promover ou de prosseguir a ação) e, assim, o cumprimento da decisão judicial específica e própria prevalece e somente pode ser cumprido após o seu trânsito em julgado, conforme preceitua o art. 170-A do CTN. Em seguida, devidamente notificada, a Empresa interpôs o presente recurso voluntário pleiteando a reforma do acórdão. No Recurso Voluntário, a empresa suscitou as mesmas questões preliminares e de mérito, repetindo as argumentações apresentadas na Manifestação de Inconformidade sobre o crédito pleiteado. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: Fl. 230DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-004.037 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13896.722252/2018-35 3 O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele se deve conhecer. A lide trata de direito creditório da Recorrente decorrente de suposto pagamento de Darf indevido ou a maior de COFINS ocorrido em 25/02/2010, relativo ao período de apuração de 01/2010. Visando a utilização do seu crédito, a recorrente apresentou declarações de compensações que foram indeferidas parcialmente pela autoridade tributária sob o argumento de que havia insuficiência de crédito, posto que o contribuinte não teria demonstrado a sua certeza e liquidez. De acordo com os esclarecimentos prestados pelo contribuinte em resposta ao Termo de Intimação Fiscal SEORT/DRF/BRE n.º 30/2018, os ajustes promovidos na apuração da contribuição devida no período tiveram como fundamento o julgamento do Recurso Extraordinário n.º 574.706, pelo Supremo Tribunal Federal, o qual firmou entendimento de que o ICMS não compõe a base de cálculo das contribuições ao Pis e Cofins. Ocorre que, tanto o Despacho Decisório, quanto o acórdão proferido pela DRJ, indeferiram o pedido formulado pela contribuinte, ao argumento de que não havia decisão judicial definitiva que permitisse a exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da COFINS, uma vez que a ação judicial de repercussão geral do STF não respaldava a pretensão do sujeito passivo em obter restituição ou compensação de valores recolhidos, pois não há vinculação da RFB ao quanto decidido naquela ação, posto que ainda em andamento. Posteriormente, a recorrente noticiou nos autos que seria titular da ação judicial n.º 0005636-74.2014.4.03.6130, transitada em julgado, que reconheceu o direito à exclusão do ICMS da base de cálculo das contribuições ao PIS e à COFINS. Ante tal informação, a autoridade fiscal informou que a ação judicial não foi objeto de análise inicialmente na medida em que o contribuinte silenciou sobre sua existência, quando indagado sobre a motivação do crédito apurado. Seguem maiores esclarecimentos da autoridade sobre essa ação: (...) 6. Em 15/12/2014, o sujeito passivo ajuizou o Mandado de Segurança n.º 0005636- 74.2014.4.03.6130, postulando provimento jurisdicional para excluir o ICMS da base de cálculo das contribuições ao Pis e Cofins. 7. Em 17/12/2014, o pedido de liminar foi indeferido, tal como o pedido de reconsideração em data de 25/03/2015. 8. Em 24/07/2015, o contribuinte obteve em 1ª instância sentença que denegou a segurança pretendida. 9. Em 20/06/2016, o Recurso de Apelação interposto pelo autor não foi provido pelo Tribunal Regional Federal (TRF) da 3ª Região, assim como o Agravo Interno, em 16/02/2017. Fl. 231DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-004.037 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13896.722252/2018-35 4 10. Em 26/07/2018, através de juízo de retratação, o TRF deu parcial provimento à apelação do autor para “que seja reconhecida a inexigibilidade do ICMS na base de cálculo do PIS e da COFINS e permitir a compensação de créditos tributários com débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados pela Receita Federal do Brasil, ressalvadas, porém, as contribuições previstas no art. 2º e 26, parágrafo único, da Lei 11.457/2007, observando-se o prazo prescricional quinquenal e a limitação do art. 170-A do CTN. A compensação fica sujeita à devida homologação pelo Fisco e os valores deverão ser atualizados com a utilização da Taxa Selic, excluindo-se todos os demais índices de juros e correção monetária”. 11. Em 10/06/2019 foi certificado, pelo TRF, o trânsito em julgado da decisão, com data de 30/05/2019. Cópias das decisões judiciais encontram-se juntadas ao dossiê n.º 13032.078786/2019-63. 12. Nesse sentido, tem-se que, conforme restou decidido pelo Poder Judiciário, o contribuinte tem o direito à utilização do crédito por meio de compensação administrativa a partir do trânsito em julgado da ação própria. 13. Contudo, as declarações de compensação em discussão foram apresentadas em data anterior ao trânsito em julgado da ação judicial própria (30/05/2019). Importante registrar ainda que, com exceção de uma delas, as DCOMP foram apresentadas inclusive em data anterior à decisão judicial que deu provimento parcial ao pleito do contribuinte (26/07/2018). Por último, registra-se que cinco das DCOMP foram apresentadas em data anterior ao ajuizamento da ação (15/12/2014). 14. Portanto, resta claro que, na data de transmissão de cada uma das DCOMP, o contribuinte não possuía respaldo judicial da ação própria para efetivar a compensação. 15. Salienta-se ainda que, na hipótese em que o direito é postulado mediante ação judicial própria, o contribuinte deve aguardar o trânsito em julgado dessa ação judicial própria, a fim de proceder à execução judicial ou à compensação administrativa, conforme entendimento da Solução de Consulta Cosit n.º 119/2017. Nesse sentido, não pode ser reconhecido qualquer direito creditório em favor deste contribuinte com base na ação de repercussão geral, independentemente de ser ela definitiva ou não, porquanto o contribuinte ajuizou ação própria para discussão da mesma matéria, devendo esta última prevalecer sobre aquela. Já adentrando na questão da exclusão do ICMS da base de cálculo, essa temática foi muito debatida nas turmas do CARF, e até pouco tempo atrás não se tinha entendimento uniforme quanto ao seu julgamento, isso porque havia turmas que achavam já aplicável imediatamente aos casos discutidos, no âmbito administrativo, a decisão do STF no RE 574.906, sob repercussão geral, enquanto outras turmas entendiam que, por essa decisão ainda não ter transitado em julgado, em vista de julgamento pendente de embargos de declaração e estar sujeita a modulação dos seus efeitos, não seria de aplicação imediata nos processos à época discutidos. Fl. 232DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-004.037 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13896.722252/2018-35 5 No entanto, essa questão foi definitivamente resolvida com o julgamento datado de 13/05/2021 dos referidos embargos de declaração, nos seguintes termos: Decisão: O Tribunal, por maioria, acolheu, em parte, os embargos de declaração, para modular os efeitos do julgado cuja produção haverá de se dar após 15.3.2017 - data em que julgado o RE nº 574.706 e fixada a tese com repercussão geral "O ICMS não compõe a base de cálculo para fins de incidência do PIS e da COFINS" -, ressalvadas as ações judiciais e administrativas protocoladas até a data da sessão em que proferido o julgamento, vencidos os Ministros Edson Fachin, Rosa Weber e Marco Aurélio. Por maioria, rejeitou os embargos quanto à alegação de omissão, obscuridade ou contradição e, no ponto relativo ao ICMS excluído da base de cálculo das contribuições PIS-COFINS, prevaleceu o entendimento de que se trata do ICMS destacado, vencidos os Ministros Nunes Marques, Roberto Barroso e Gilmar Mendes. Tudo nos termos do voto da Relatora. Presidência do Ministro Luiz Fux. Plenário, 13.05.2021 (Sessão realizada por videoconferência - Resolução 672/2020/STF). (negrito nosso) Como se observa, o STF modulou os efeitos do julgado cuja produção haverá de se dar após 15/03/2017, ressalvadas as ações judiciais e administrativas protocoladas até a data da sessão em que proferido o julgamento. No caso concreto, por aplicação do caput do artigo 99 e seu § único do novo RICARF, deve ser aplicada a referida decisão do STF, proferidas na sistemática dos recursos repetitivos, para considerar que o valor do ICMS não compõe a base de cálculo para fins de incidência do PIS e da COFINS, devendo ser recalculadas as contribuições com base nesse julgado. Vale ressaltar, ainda, que o fato de a empresa ter apresentado declarações de compensações anteriormente ao trânsito em julgado da sua ação própria entendo que isso se torna-se irrelevante no atual cenário, visto que o provimento dado pelo STF no julgamento da matéria, na sistemática dos repetitivos, deixa claro que a tese firmada se aplica também a todos os casos nos quais as ações judiciais e administrativas tenham sido protocoladas até a data da sessão em que proferido o julgamento, tal como se enquadra o processo administrativo ora analisado. Por fim, observa-se nos termos de verificação fiscal, DD e informação fiscal complementando o DD que não há qualquer menção a falta de habilitação do crédito como motivação do despacho denegatório, tal como alega o julgador a quo. Assim, em vista desta constatação, tal argumento deve ser afastado por representar clara inovação na fundamentação do DD. Diante do exposto, voto no sentido de conhecer do recurso e dar-lhe provimento para excluir o ICMS destacado da base de cálculo das contribuições, nos termos da tese firmada no âmbito do RE n.º 574.706/PR, devendo os autos retornarem à Fl. 233DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-004.037 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13896.722252/2018-35 6 unidade de origem, para que se possa analisar, por meio de novo Despacho Decisório, a liquidez e certeza do crédito pleiteado pela contribuinte. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Fl. 234DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10166.722316/2013-40
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 03 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Sep 28 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2010, 2011, 2012 CONCOMITÂNCIA DE PROCESSOS JUDICIAL E ADMINISTRATIVO. IDENTIDADE DE OBJETO. RENÚNCIA DA LIDE ADMINISTRATIVA EM DECORRÊNCIA DA APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA JURISDIÇÃO UNA. RECURSO VOLUNTÁRIO NÃO CONHECIDO. SÚMULA CARF Nº. 1. Configurada a concomitância de processos administrativo e judicial com mesmo objeto, implica automaticamente desistência do recurso e da lide administrativa em face do Poder Judiciário ter a última palavra para resolução do mérito da lide, por força da Carta Política da República que adotou o princípio da Jurisdição Una. Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. (Súmula CARF nº 1 Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). DIALETICIDADE. AUSÊNCIA. NÃO CONHECIMENTO. Para ser conhecido o recurso é necessário o enfrentamento dos fundamentos da decisão atacada.
Numero da decisão: 2101-003.997
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Ana Carolina da Silva Barbosa - Relatora Assinado Digitalmente Débora Fófano dos Santos- Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Ana Carolina da Silva Barbosa, Heitor de Souza Lima Junior, Raimundo Cassio Goncalves Lima (substituto[a]integral), Roberto Junqueira de Alvarenga Neto, Silvio Lucio de Oliveira Junior, Débora Fófano dos Santos (Presidente).
Nome do relator: ANA CAROLINA DA SILVA BARBOSA

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IDENTIDADE DE OBJETO. RENÚNCIA DA LIDE ADMINISTRATIVA EM DECORRÊNCIA DA APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA JURISDIÇÃO UNA. RECURSO VOLUNTÁRIO NÃO CONHECIDO. SÚMULA CARF Nº. 1. Configurada a concomitância de processos administrativo e judicial com mesmo objeto, implica automaticamente desistência do recurso e da lide administrativa em face do Poder Judiciário ter a última palavra para resolução do mérito da lide, por força da Carta Política da República que adotou o princípio da Jurisdição Una. Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. (Súmula CARF nº 1 Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). DIALETICIDADE. AUSÊNCIA. NÃO CONHECIMENTO. Para ser conhecido o recurso é necessário o enfrentamento dos fundamentos da decisão atacada. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Voluntário. Fl. 115DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.997 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.722316/2013-40 2 Assinado Digitalmente Ana Carolina da Silva Barbosa – Relatora Assinado Digitalmente Débora Fófano dos Santos– Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Ana Carolina da Silva Barbosa, Heitor de Souza Lima Junior, Raimundo Cassio Goncalves Lima (substituto[a]integral), Roberto Junqueira de Alvarenga Neto, Silvio Lucio de Oliveira Junior, Débora Fófano dos Santos (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário (e-fls. 77/112) interposto por RAMUNILSON GOMES BARRETO em face do Acórdão nº. 03-87.248 (e-fls. 67/72), proferido pela 6ª Turma da DRJ/BSB, em 27/09/2019, que não conheceu da manifestação de inconformidade para os anos-calendário 2010 e 2011, por haver concomitância entre a esfera administrativa e a esfera judicial, e julgou improcedente o pedido de restituição do imposto de renda retido na fonte incidente sobre o 13º salário do ano-calendário 2009. Em sua origem, tratam os autos dos pedidos de restituição do imposto de renda retido na fonte incidente sobre o 13º salário dos exercícios 2010, 2011 e 2012 (e-fl. 03). Foi emitido o Despacho Decisório DRF/BSB nº 180/2014/DIORT/DRF/BSB (e-fls. 28/30), cuja decisão indeferiu a restituição, assim ementado: Assunto: Imposto Sobre a Renda de Pessoa Física – IRPF Exercícios: 2010, 2011 e 2012 Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DA PESSOA FÍSICA. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PROPOSITURA DE AÇÃO JUDICIAL COM O MESMO OBJETO DO PEDIDO ADMINISTRATIVO. RENÚNCIA À INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. A propositura de ação judicial pelo sujeito passivo, por qualquer modalidade processual, antes ou posteriormente ao lançamento, com o mesmo objeto, importa em renúncia às instâncias administrativas ou desistência de eventual recurso interposto. Pedido Indeferido Conforme constou no Despacho Decisório, foi ajuizada ação ordinária, em face da União Federal (Fazenda Nacional), Processo nº 0045760-06.2011.4.01.3400, objetivando a isenção Fl. 116DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.997 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.722316/2013-40 3 e restituição do imposto de renda incidente sobre os proventos de aposentadoria recebidos pelo interessado, ou seja, contendo o mesmo objeto do pedido administrativo de restituição do imposto de renda retido na fonte sobre o 13º salário, exercícios 2010, 2011 e 2012 (e-fl. 3). Tendo sido devidamente cientificado do Despacho Decisório em 25/08/2017, conforme aviso de recebimento (e-fls. 32/33), o contribuinte apresentou em 09/09/2014, sua Manifestação de Inconformidade acompanhada por documentos (e-fls. 36/56), requerendo o reexame da situação. Sobreveio o julgamento da Impugnação e foi proferido o Acórdão nº. 03-87.248 (e- fls. 67/72), não ementado, conforme disposto no art. 2º da Portaria RFB nº 2.724, de 27 de setembro de 2017 (DOU de 29/09/2017), por meio do qual foi mantido o indeferimento do pedido de restituição para os valores referentes aos anos calendários de 2010 e 2011 em razão da concomitância, e para os valores referentes ao ano calendário de 2009, por ter a sentença reconhecido a isenção apenas a partir de 08/09/2010. A intimação do resultado do julgamento foi encaminhada ao sujeito passivo pela via postal, e recebida em seu endereço em 30/10/2019, conforme Aviso de Recebimento (e-fls. 74). Em 25/11/2019, foi protocolado o Recurso Voluntário (e-fls. 77/112), reiterando os argumentos apresentados em Manifestação de Inconformidade, nos seguintes termos: 1 – Inconformado com o Acórdão em que julgou improcedente o meu pedido, venho informar que faço jus a isenção de imposto de renda, conforme laudo médico pericial (doc.1), como também sentença (doc.02) e acórdão (doc.03) do processo nº. 0045760-06.2011.4.01.3400, processo já arquivado (doc. 04). 2 – Ante ao exposto, estou respaldado legalmente, solicito que seja reconsiderado o meu pedido, tendo em vista as decisões proferidas, como medida de mais inteira justiça. Em seguida, os autos foram remetidos a este Conselho para apreciação e julgamento do Recurso Voluntário. Não foram apresentadas contrarrazões. É o relatório. VOTO Conselheira Ana Carolina da Silva Barbosa, Relatora. Fl. 117DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.997 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.722316/2013-40 4 1 ADMISSIBILIDADE O Recurso Voluntário é tempestivo, porém não deve ser conhecido. Conforme relatado, o referido processo administrativo foi formalizado para requerer a restituição do imposto de renda da pessoa física, protocolado em 25/03/2013, relativo aos anos calendário de 2009, 2010 e 2011 em razão de estar o contribuinte alcançado pela isenção, conforme diagnóstico de doença inserida no rol previsto no art. 6º, XIV, da Lei nº 7713/88, tendo sido seu direito decidido na esfera judicial, por meio do processo nº 0045760- 06.2011.4.01.3400. A sentença juntada aos autos (e-fls. 05/19) reconheceu o direito à isenção a partir de 08/09/2010 e condenou a União à restituição do imposto de renda incidente sobre os proventos de aposentadoria por invalidez, tendo sido determinada a expedição de Requisição de Pequeno Valor – RPV após a liquidação dos valores a serem restituídos: Diante do exposto, JULGO PROCEDENTE o pedido formulado para declarar o direito do autor à isenção no pagamento de imposto de renda incidente sobre seus proventos de aposentadoria por invalidez, com base no art. 6º, XIV, da Lei nº 7713/88, desde 08/09/2010; e condenar a ré a restituir a parte autora os valores descontados de seus proventos sob o mesmo título. Os valores retroativos deverão ser corrigidos exclusivamente pela Taxa SELIC a teor da Lei nº 9.250/95, que afasta a correção monetária e os juros. Devem ser compensados, no que se refere ao imposto de renda, os valores eventualmente restituídos por ocasião da declaração anual de ajuste. (...) Após o trânsito em julgado, mantida esta decisão, intime-se a parte ré para cumprir a obrigação de fazer e apresentar planilha de cálculos das parcelas retroativas. Apurados os valores devidos, expeça-se RPV. Conforme destacou o Despacho Decisório e o Acórdão nº. 03-87.248, a decisão judicial alberga os anos calendários de 2010 e 2011, e como a data do diagnóstico foi 09/09/2010, não teria sido reconhecido o direito à isenção para o ano calendário de 2009. Dessa forma, e considerando art. 871 do Decreto nº 7.574/2011, o Parecer Normativo Cosit nº 072, de 22 de agosto de 2014 e a Súmula CARF nº. 13, a manifestação de inconformidade não foi conhecida para os anos calendários 2010 e 2011. 1 “Da Renúncia ou da Desistência ao Litígio nas Instâncias Administrativas Art.87. A existência ou propositura, pelo sujeito passivo, de ação judicial com o mesmo objeto do lançamento importa em renúncia ou em desistência ao litígio nas instâncias administrativas (Lei no6.830, de 1980, art. 38, parágrafo único). Parágrafo único. O curso do processo administrativo, quando houver matéria distinta da constante do processo judicial, terá prosseguimento em relação à matéria diferenciada.” Fl. 118DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.997 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.722316/2013-40 5 No que diz respeito ao ano calendário de 2009, decidiu corretamente a decisão de piso, considerando que a sentença reconheceu a isenção a partir de 08/09/2010. Em sede de recurso, o recorrente não apresentou qualquer argumento adicional, nem se insurgiu quanto ao decidido no Acórdão. Vale a leitura do trecho relativo ao ano calendário de 2009: ANO-CALENDÁRIO 2009 O impugnante alega que seja considerada a sua doença para fins de tributação, conforme documentação em anexo. O art. 39, inciso XXXIII e parágrafos 4º e 5º, do Decreto nº 3.000, de 29/03/1999 – RIR/99, rege a matéria: Art. 39. Não entrarão no cômputo do rendimento bruto: . . . XXXIII - os proventos de aposentadoria ou reforma, desde que motivadas por acidente em serviço e os percebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, estados avançados de doença de Paget (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome de imunodeficiência adquirida, e fibrose cística (mucoviscidose), com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma (Lei nº 7.713, de 1988, art. 6º, inciso XIV, Lei nº 8.541, de 1992, art. 47, e Lei nº 9.250, de 1995, art. 30, § 2º); . . . § 4º Para o reconhecimento de novas isenções de que tratam os incisos XXXI e XXXIII, a partir de 1º de janeiro de 1996, a moléstia deverá ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, devendo ser fixado 2 “a) a propositura pelo contribuinte de ação judicial de qualquer espécie contra a Fazenda Pública, em qualquer momento, com o mesmo objeto (mesma causa de pedir e mesmo pedido) ou objeto maior, implica renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso de qualquer espécie interposto, exceto quando a adoção da via judicial tenha por escopo a correção de procedimentos adjetivos ou processuais da Administração Tributária, tais como questões sobre rito, prazo e competência; g) a competência para declarar a concomitância de instâncias e seus efeitos é da autoridade competente para decidir sobre a matéria na fase processual em que se encontra o processo administrativo, qualquer que seja o rito a que esteja submetido;” 3 Súmula CARF nº 1 Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Fl. 119DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.997 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.722316/2013-40 6 o prazo de validade do laudo pericial, no caso de moléstias passíveis de controle (Lei nº 9.250, de 1995, art. 30 e § 1º). § 5º As isenções a que se referem os incisos XXXI e XXXIII aplicam-se aos rendimentos recebidos a partir: I - do mês da concessão da aposentadoria, reforma ou pensão; II - do mês da emissão do laudo ou parecer que reconhecer a moléstia, se esta for contraída após a aposentadoria, reforma ou pensão; III - da data em que a doença foi contraída, quando identificada no laudo pericial. § 6º As isenções de que tratam os incisos XXXI e XXXIII também se aplicam à complementação de aposentadoria, reforma ou pensão. . . . Do dispositivo legal acima transcrito, infere-se que duas condições básicas devem ser comprovadas, concomitantemente: - que os rendimentos percebidos pelo portador da moléstia grave prevista em lei sejam oriundos de aposentadoria ou reforma; - que a moléstia grave, contraída antes ou após a aposentadoria ou reforma, seja comprovada através de laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios, devendo ser fixado o prazo de validade do laudo pericial, no caso de moléstias passíveis de controle. De acordo com o laudo médico pericial expedido por médica do trabalho em atendimento a 24ª Vara do Juizado Especial Federal da Seção Judiciária do Distrito Federal, o contribuinte é portador de neoplasia maligna a partir de 08/09/2010 (fl. 56) com aposentadoria publicada no DOU em 04/02/2011 (fl. 48). O juiz concedeu a isenção do imposto de renda sobre os proventos de aposentadoria a partir de 08/09/2010 conforme sentença transcrita acima (fl. 07). Portanto, no ano-calendário 2009 o contribuinte não era portador de doença especificada em lei e não recebia proventos de aposentadoria, não fazendo jus a isenção do imposto de renda pleiteada sobre valores recebidos a título de 13º salário. Diante do exposto, julgo IMPROCEDENTE o pedido de restituição do imposto de renda retido na fonte incidente sobre o 13º salário do ano-calendário 2009 e por NÃO CONHECER da manifestação de inconformidade para os anos-calendário 2010 e 2011 por haver concomitância entre a esfera administrativa e a esfera judicial. Fl. 120DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.997 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.722316/2013-40 7 Fica a cargo da DRF de origem observar o disposto no Parecer Normativo Cosit nº 07, de 22 de agosto de 2014, bem como cumprir a decisão judicial. (grifos acrescidos) O completo não enfrentamento da decisão recorrida na peça recursal leva ao não conhecimento do recurso por ausência de dialeticidade, visto que o julgador deve ter, na peça recursal, todos os elementos que levam à necessidade da reforma da decisão recorrida, sobretudo quando estes argumentos foram analisados de forma individualizada pelo acórdão proferido pela DRJ. No presente caso, contudo, o recorrente não apresenta qualquer questionamento sobre a decisão de piso. Dessa forma, considerando que houve a renúncia da esfera administrativa para questionamento do mérito, ou seja, há concomitância no que diz respeito aos anos calendários 2010 e 2011, a vedação da Súmula CARF nº. 1, e ainda considerando a ausência completa de enfrentamento da decisão recorrida e a ausência de dialeticidade, deixo de conhecer do recurso voluntário. 2 CONCLUSÃO Diante de todo o exposto, não conheço do Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Ana Carolina da Silva Barbosa Fl. 121DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 Admissibilidade 2 CONCLUSÃO

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Numero do processo: 11030.901639/2013-04
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 13 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Sep 29 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2008 SALDO NEGATIVO DE IRPJ. QUITAÇÃO DE ESTIMATIVA POR MEIO DE COMPENSAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 177. De acordo com a Súmula CARF nº 177, as estimativas compensadas e confessadas mediante Declaração de Compensação (DCOMP) integram o saldo negativo de IRPJ ou CSLL ainda que não homologadas ou pendentes de homologação.
Numero da decisão: 1301-008.334
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 1301-008.329, de 15 de julho de 2026, prolatado no julgamento do processo 11030.901640/2013-21, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros - Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rafael Taranto Malheiros, Eduarda Lacerda Kanieski, Jose Eduardo Dornelas Souza e Luis Angelo Carneiro Baptista. Ausente o conselheiro Iagaro Jung Martins.
Nome do relator: RAFAEL TARANTO MALHEIROS

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QUITAÇÃO DE ESTIMATIVA POR MEIO DE COMPENSAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 177. De acordo com a Súmula CARF nº 177, as estimativas compensadas e confessadas mediante Declaração de Compensação (DCOMP) integram o saldo negativo de IRPJ ou CSLL ainda que não homologadas ou pendentes de homologação. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 1301-008.329, de 15 de julho de 2026, prolatado no julgamento do processo 11030.901640/2013-21, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rafael Taranto Malheiros, Eduarda Lacerda Kanieski, Jose Eduardo Dornelas Souza e Luis Angelo Carneiro Baptista. Ausente o conselheiro Iagaro Jung Martins. RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF Fl. 117DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.334 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11030.901639/2013-04 2 nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que acolhera em parte o Pedido de Compensação apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de saldo negativo de IRPJ. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. O contribuinte foi cientificado do julgado acima. Irresignado, apresentou Recurso Voluntário arguindo, em suma, que a compensação não homologada se encontra em execução fiscal e que a sua não aceitação como crédito compensável na apuração do Saldo Negativo implicaria dupla cobrança. Este é o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: Admissibilidade Inicialmente, reconheço a plena competência deste Colegiado para apreciação do Recurso Voluntário, na forma do art. 43 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634/2023. O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Mérito A lide neste momento processual se refere a glosa de estimativa compensada de CSLL não confirmada pelo Despacho Decisório. A DCOMP que compensou esta estimativa foi não homologada (e, por isso, não confirmada) A recorrente alega, basicamente, que este valor já está em cobrança judicial e que a sua desconsideração para o Saldo Negativo implicaria em dupla cobrança. Tem razão a recorrente. Este tema já foi muito debatido neste Conselho, sendo objeto da Súmula CARF nº 177: Fl. 118DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.334 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11030.901639/2013-04 3 Súmula CARF nº 177 Estimativas compensadas e confessadas mediante Declaração de Compensação (DCOMP) integram o saldo negativo de IRPJ ou CSLL ainda que não homologadas ou pendentes de homologação. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 12.975, de 10/11/2021, DOU de 11/11/2021). Segundo referido enunciado, a estimativa confessada mediante DCOMP deve ser considerada para composição do saldo negativo de IRPJ/CSLL, ainda que não homologada. Portanto, essa parcela deve integrar o saldo negativo do recorrente, independentemente do desfecho da análise do PERDCOMP referente à estimativa compensada. Diante do exposto, dou provimento ao Recurso Voluntário, reconhecendo integralmente o Saldo Negativo pleiteado e homologando as compensações até o limite do crédito vindicado. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Redator Fl. 119DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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