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Numero do processo: 10932.000595/2007-11
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Sep 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Nov 27 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Data do fato gerador: 21/09/2007
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-005.837
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 93 2. 00 05 95 /2 00 7- 11 Fl. 288DF CARF MF Processo nº 10932.000595/200711 Acórdão n.º 9202005.837 CSRFT2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Presidente em exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 15979.000274/200701. Tratase de auto de infração, referente às contribuições devidas ao INSS, destinadas à Seguridade Social. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Fl. 289DF CARF MF Processo nº 10932.000595/200711 Acórdão n.º 9202005.837 CSRFT2 Fl. 0 3 Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202005.782, de 26/09/2017, proferido no julgamento do processo 15979.000274/200701, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202005.782): Pressupostos De Admissibilidade O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Do mérito Aplicação da multa retroatividade benigna Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade Fl. 290DF CARF MF Processo nº 10932.000595/200711 Acórdão n.º 9202005.837 CSRFT2 Fl. 0 4 benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdãonº9202004.262 (Sessão de23dejunhode2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. Fl. 291DF CARF MF Processo nº 10932.000595/200711 Acórdão n.º 9202005.837 CSRFT2 Fl. 0 5 A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º doart. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pelaMP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas noart. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdãonº9202004.499 (Sessão de 29desetembrode2016): Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: Fl. 292DF CARF MF Processo nº 10932.000595/200711 Acórdão n.º 9202005.837 CSRFT2 Fl. 0 6 I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao Fl. 293DF CARF MF Processo nº 10932.000595/200711 Acórdão n.º 9202005.837 CSRFT2 Fl. 0 7 raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na Fl. 294DF CARF MF Processo nº 10932.000595/200711 Acórdão n.º 9202005.837 CSRFT2 Fl. 0 8 NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). Fl. 295DF CARF MF Processo nº 10932.000595/200711 Acórdão n.º 9202005.837 CSRFT2 Fl. 0 9 § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de Fl. 296DF CARF MF Processo nº 10932.000595/200711 Acórdão n.º 9202005.837 CSRFT2 Fl. 0 10 ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Por fim, destacase que, independente do lançamento fiscal analisado referirse a Auto de Infração de Obrigação Principal (AIOP) e Acessória (AIOA), este último consubstanciado na omissão de fatos geradores em GFIP, lançados em conjunto, ou seja formalizados em um mesmo processo, ou em processos separados, a aplicação da legislação não sofrerá qualquer alteração, posto que a Portaria PGFN/RFB nº 14/2009 contempla todas as possibilidades, já que a tese ali adotada tem por base a natureza das multas. Conclusão Face o exposto, voto no sentido de CONHECER do recurso ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL, para, no mérito, DAR LHE PROVIMENTO, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. É como voto. Face o exposto, voto por conhecer do Recurso Especial e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 297DF CARF MF Processo nº 10932.000595/200711 Acórdão n.º 9202005.837 CSRFT2 Fl. 0 11 Fl. 298DF CARF MF
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Numero do processo: 10166.727873/2012-76
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Oct 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Dec 04 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Ano-calendário: 2011
PRELIMINAR. ALEGAÇÃO DE CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. AUTOS COM TODOS OS ELEMENTOS. INOCORRÊNCIA.
Improcede a alegação de cerceamento do direito de defesa, se os fatos descritos, bem assim os fundamentos legais em que se assentam o procedimento fiscal, não contêm qualquer óbice à apresentação dos argumentos de defesa.
MULTA POR ATRASO NO CUMPRIMENTO. EFEITOS DA DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 49.
A denúncia espontânea não afasta a aplicação da multa por atraso no cumprimento de obrigações tributárias acessórias. Aplicação da Súmula CARF nº. 49. Assim, impossível aplicar-se o benefício previsto no art. 138 do CTN no caso de multa por entrega de FCONT em atraso.
MULTA COM EFEITO DE CONFISCO. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 2
Aplicação da Súmula CARF nº. 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
FCONT. OBRIGATORIEDADE DE APRESENTAÇÃO.
A obrigatoriedade de apresentação do FCONT decorre da opção pelo RTT na DIPJ e alcança as empresas sujeitas a tributação com base no lucro real.
OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. LEGALIDADE. ATO ADMINISTRATIVO.
Em se tratando de obrigação tributária acessória, a lei estabelece as linhas gerais, cabendo ao ato administrativo especificar conteúdo, forma e periodicidade.
MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DO FCont. ENTREGA INTEMPESTIVA. CABIMENTO.
Mantem-se a aplicação da multa por atraso na entrega do FCont quando inexistirem razões previstas em lei ou normas que, diante das razões apresentadas pela interessada, justifiquem o afastamento da mesma.
Numero da decisão: 1001-000.027
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado,por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Edgar Bragança Bazhuni - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva.
Nome do relator: EDGAR BRAGANCA BAZHUNI
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ementa_s : Assunto: Obrigações Acessórias Ano-calendário: 2011 PRELIMINAR. ALEGAÇÃO DE CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. AUTOS COM TODOS OS ELEMENTOS. INOCORRÊNCIA. Improcede a alegação de cerceamento do direito de defesa, se os fatos descritos, bem assim os fundamentos legais em que se assentam o procedimento fiscal, não contêm qualquer óbice à apresentação dos argumentos de defesa. MULTA POR ATRASO NO CUMPRIMENTO. EFEITOS DA DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 49. A denúncia espontânea não afasta a aplicação da multa por atraso no cumprimento de obrigações tributárias acessórias. Aplicação da Súmula CARF nº. 49. Assim, impossível aplicar-se o benefício previsto no art. 138 do CTN no caso de multa por entrega de FCONT em atraso. MULTA COM EFEITO DE CONFISCO. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 2 Aplicação da Súmula CARF nº. 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. FCONT. OBRIGATORIEDADE DE APRESENTAÇÃO. A obrigatoriedade de apresentação do FCONT decorre da opção pelo RTT na DIPJ e alcança as empresas sujeitas a tributação com base no lucro real. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. LEGALIDADE. ATO ADMINISTRATIVO. Em se tratando de obrigação tributária acessória, a lei estabelece as linhas gerais, cabendo ao ato administrativo especificar conteúdo, forma e periodicidade. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DO FCont. ENTREGA INTEMPESTIVA. CABIMENTO. Mantem-se a aplicação da multa por atraso na entrega do FCont quando inexistirem razões previstas em lei ou normas que, diante das razões apresentadas pela interessada, justifiquem o afastamento da mesma.
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ALEGAÇÃO DE CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. AUTOS COM TODOS OS ELEMENTOS. INOCORRÊNCIA. Improcede a alegação de cerceamento do direito de defesa, se os fatos descritos, bem assim os fundamentos legais em que se assentam o procedimento fiscal, não contêm qualquer óbice à apresentação dos argumentos de defesa. MULTA POR ATRASO NO CUMPRIMENTO. EFEITOS DA DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 49. A denúncia espontânea não afasta a aplicação da multa por atraso no cumprimento de obrigações tributárias acessórias. Aplicação da Súmula CARF nº. 49. Assim, impossível aplicarse o benefício previsto no art. 138 do CTN no caso de multa por entrega de FCONT em atraso. MULTA COM EFEITO DE CONFISCO. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 2 Aplicação da Súmula CARF nº. 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. FCONT. OBRIGATORIEDADE DE APRESENTAÇÃO. A obrigatoriedade de apresentação do FCONT decorre da opção pelo RTT na DIPJ e alcança as empresas sujeitas a tributação com base no lucro real. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. LEGALIDADE. ATO ADMINISTRATIVO. Em se tratando de obrigação tributária acessória, a lei estabelece as linhas gerais, cabendo ao ato administrativo especificar conteúdo, forma e periodicidade. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 72 78 73 /2 01 2- 76 Fl. 86DF CARF MF Processo nº 10166.727873/201276 Acórdão n.º 1001000.027 S1C0T1 Fl. 87 2 MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DO FCont. ENTREGA INTEMPESTIVA. CABIMENTO. Mantemse a aplicação da multa por atraso na entrega do FCont quando inexistirem razões previstas em lei ou normas que, diante das razões apresentadas pela interessada, justifiquem o afastamento da mesma. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado,por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pela Recorrente em face de decisão proferida pela 4ª Turma da Delegacia Regional de Julgamento em Brasília (DF), mediante o Acórdão nº 0351.049, de 28/02/2013 (efls. 49/55), objetivando a reforma do referido julgado. Contra a Recorrente acima identificada foi lavrada Notificação de Lançamento (efl. 23) com a exigência do crédito tributário no valor de R$10.000,00 a título de multa de ofício isolada por dois meses de atraso na entrega em 08/08/2012 do Controle Fiscal Contábil de Transição (FCONT), do anocalendário de 2011, cujo prazo final era 30/06/2012. O lançamento teve o seguinte enquadramento legal: art. 16 da Lei nº 9.779/99; art. 57, inciso I, da Medida Provisória 215835/01; e art. 2º da Instrução Normativa RFB 967/09. Em homenagem à economia processual, adotarei parte do Relatório constante no referido Acórdão de primeira instância, pelo que peço vênia para transcrevêlo: Inconformada com a presente exigência fiscal, a autuada apresentou impugnação ao lançamento arguindo a nulidade da Notificação de Lançamento por não atender aos requisitos do art. 11 do Decreto 70.235/72, além do fato da exigência fiscal, criada a partir de março de 2011, aplicarse retroativamente a todo o ano de 2011. Fl. 87DF CARF MF Processo nº 10166.727873/201276 Acórdão n.º 1001000.027 S1C0T1 Fl. 88 3 Nesse sentido, discorre: “Por outro lado, ao não indicar o preceito legal em que se baseou, mas indicar uma Norma Legal não aplicável ao caso, a IN 967/09, que fora alterada e a regra impositiva substituída por outra, o lançamento fiscal cerceou a defesa, e ainda é nulo por vício formal e material, porque deixou de indicar o preceito legal aplicável ao caso. Pela instrução indicada na norma legal não havia obrigação da empresa para a apresentação e, portanto, a multa é indevida e ilegal, incidindo nas nulidades do ar. 59, II, do Decreto 70.235/72.” Observa que a apresentação do FCONT era obrigatória, conforme IN RFB 967/2009 e 970/2009, apenas quando houvesse a situação da empresa ter procedido a lançamento contábil com base em métodos e critérios diferentes daqueles prescritos pela legislação tributária em vigor no dia 31/12/2007, conforme exigência do RTTRegime Tributário de Transição. A exigência da apresentação do FCONT para quaisquer situações surgiu apenas com as alterações promovidas pela IN RFB nº 1.139, de 28/03/2011. Considerando o princípio da anualidade, as obrigações principal e acessória somente podem ser exigidas a partir do exercício seguinte ao de sua instituição ou alteração. No caso, com o FCONT apresenta informações para período anual, a norma editada em março de 2011 somente poderia vigorar para fatos geradores a partir de 2012. Ressalta que a multa em questão não foi criada por lei, sendo que a art. 16 da Lei nº 9.779/99 diz apenas que a Receita Federal poderá criar obrigações acessórias, entendendo ser necessária uma norma legal específica, conforme preceitua a própria Constituição federal em seu art. 5º, inciso II. Assim o ato é nulo de pleno direito, porque não atende ao que a legislação fiscal determina para sua natureza, infringindo preceitos de ordem pública (art. 37 da Constituição Federal) e princípios claros de Direto Tributário. No mérito alega, em síntese; que apresentou a Controle Fiscal Contábil de TransiçãoFCont em atraso, porém espontaneamente, conforme disciplinado no art. 138 do CTN. Nesse sentido, cita doutrinadores e vasta jurisprudência. Discorre sobre as infrações de natureza continuada, e registra que: “No caso presente, o fato gerador tributário constituise apenas um fato gerador conforme indicado na Notificação, qual seja, “a falta de apresentação no prazo do FCONT.” [...] A aplicação de várias multas como realizado neste Auto de Infração, uma para cada mês de atraso, contraria o Direito Pátrio, merecendo sua nulidade.” Destaca as dificuldades para preenchimento do FCONT, erros nas versões dos programas geradores de declaração e de validações eletrônicos disponibilizados. Fl. 88DF CARF MF Processo nº 10166.727873/201276 Acórdão n.º 1001000.027 S1C0T1 Fl. 89 4 Por fim, ressalta a onerosidade excessiva do valor da multa, ante a vedação da utilização de tributo como forma de confisco, de acordo com art. 150, inciso IV, da Constituição Federal. Ante todo o exposto, entendendo demonstrada a insubsistência e improcedência da ação fiscal, requer seja acolhida a presente impugnação e cancelado o débito fiscal reclamado. A DRJ analisou a impugnação apresentada pela contribuinte e considerando que empresa entregou suas Declaração do Imposto de Renda da Pessoa JurídicaDIPJ pelo critério do lucro real, e que efetuou a entrega da escrituração Fcont de forma espontânea, ou seja, antes de qualquer procedimento de ofício, julgou procedente em parte o lançamento, com a redução da multa, conforme parte final do voto, a seguir transcrita: Desta forma, por força do disposto no artigo 106, inciso II, letra “c”, do Código Tributário NacionalCTN, a lei nova aplicase a ato ou fato não definitivamente julgados quando lhes comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo de sua prática. Como a interessada apresentou sua última Declaração de Informações da Pessoa JurídicaDIPJ (fls.48) apurando lucro real, deve a multa objeto do presente processo ser ajustada para o montante de R$ 3.000,00, previsto na alínea “b”, do inciso I, do art. 57 da Medida Provisória 2158 35/ 2001, com a redação dada pela Lei nº 12.766/2012, e com a redução prevista no parágrafo 3º do mesmo artigo, resultando no montante de R$ 1.500,00. Eis a ementa do Acórdão: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2011 CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA Preterição do direito de defesa decorre de despachos ou decisões e não da lavratura do ato ou termo como se materializa a feitura do auto de infração sendo incabível a alegação de cerceamento de defesa se nos autos existem os elementos de provas necessários à solução do litígio e a infração está perfeitamente demonstrada e tipificada. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO. Antes da lavratura de auto de infração, não há que se falar em violação ao princípio do contraditório, já que a oportunidade de contradizer o fisco é prevista em lei para a fase do contencioso administrativo, que se inicia com a impugnação do lançamento. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DO FCont. ENTREGA INTEMPESTIVA. CABIMENTO. Mantemse a aplicação da multa por atraso na entrega do FCont quando inexistirem razões previstas em lei ou Fl. 89DF CARF MF Processo nº 10166.727873/201276 Acórdão n.º 1001000.027 S1C0T1 Fl. 90 5 normas que, diante das razões apresentadas pela interessada, justifiquem o afastamento da mesma. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA DECLARAÇÃO. ESPONTANEIDADE. INFRAÇÃO DE NATUREZA FORMAL. A entrega da Declaração, intempestivamente, embora feito o recolhimento dos tributos devidos, não caracteriza a espontaneidade, com o condão de ensejar a dispensa da multa prevista na legislação. O princípio da denúncia espontânea não inclui a prática de ato formal, não estando alcançado pelos ditames do art. 138 do Código Tributário Nacional. MULTA. CARÁTER CONFISCATÓRIO. A vedação ao confisco pela Constituição Federal é dirigida ao legislador, cabendo à autoridade administrativa apenas aplicar a multa, nos moldes da legislação que a instituiu. RETROATIVIDADE BENIGNA. REDUÇÃO DA MULTA. Lei nova que comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo de sua prática aplicase a ato ou fato não definitivamente julgado. Redução da multa em função da nova redação da legislação. Ciente da decisão de primeira instância em 22/07/2013, conforme Aviso de Recebimento à efl. 59, a recorrente apresentou recurso voluntário em 20/08/2013 (efls. 60/83), conforme carimbo de recepção à efl. 60. No recurso interposto, a recorrente apresenta os argumentos apresentados em sede de primeira instância. É o Relatório. Voto Conselheiro Edgar Bragança Bazhuni O recurso é tempestivo, atende aos demais requisitos de admissibilidade e dele conheço. Observo, inicialmente, que não há discussão quanto ao atraso ter efetivamente ocorrido. Tratase de uma repetição dos argumentos apresentados em sede de primeira instância. Estes argumentos foram fundamentadamente afastados em primeira instância, pelo Fl. 90DF CARF MF Processo nº 10166.727873/201276 Acórdão n.º 1001000.027 S1C0T1 Fl. 91 6 que peço vênia para transcrever o excerto, a seguir, do voto condutor do acórdão recorrido, adotandoo desde já como razões de decidir, em cumprimento ao disposto no §1º do art. 50 da Lei nº 9.784/1999: Preliminarmente não há que se falar em nulidade do lançamento quando todos os requisitos previstos no art. 11 do Decreto n° 70.235, de 06/03/19972, foram observados na ocasião da lavratura do auto de infração, verbis: Art. 11. A notificação de lançamento será expedida pelo órgão que administra o tributo e conterá obrigatoriamente: I a qualificação do notificado; II o valor do crédito tributário e o prazo para recolhimento ou impugnação; III a disposição legal infringida, se for o caso; IV a assinatura do chefe do órgão expedidor ou de outro servidor autorizado e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. Parágrafo único. Prescinde de assinatura a notificação de lançamento emitida por processo eletrônico. Além disso, o art. 59 do referido decreto, que regula o Processo Administrativo Fiscal, enumera os casos que acarretam a nulidade do lançamento, verbis: "Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa." Registrase que a preterição do direito de defesa decorre de despachos ou decisões e não da lavratura do ato ou termo como se materializa a feitura da notificação de lançamento, sendo incabível a alegação de cerceamento de defesa se nos autos existem os elementos de provas necessários à solução do litígio e a infração está perfeitamente demonstrada e tipificada, como no caso. E mais, o impugnante articulou perfeitamente a sua defesa, não demonstrando qualquer dúvida quanto ao ilícito fiscal que lhe foi imputado. No presente caso, não foi negado ao contribuinte o direito de discordar com a autuação. De fato, com a apresentação da impugnação ao lançamento, conhecida e ora analisada, foi dado ao requerente a oportunidade de defenderse e mais, foilhe também garantido o direito de ter suas razões analisadas pelo órgão revisor. Dessa forma, não se observando as hipóteses de nulidade previstas no artigo 59 do Decreto nº 70.235/72, e estando o lançamento revestido dos elementos exigidos pelo art. 142 do código Tributário Nacional (Lei nº 5.172/66), rejeitamse a preliminar de nulidade argüida pelo interessado. No entanto, a recorrente questionou a decisão da DRJ, nos seguintes pontos: Primeiro, alega que "A impugnação apresentou algumas deficiências na Notificação do Lançamento fiscal, especialmente na capitulação legal da legislação que foi Fl. 91DF CARF MF Processo nº 10166.727873/201276 Acórdão n.º 1001000.027 S1C0T1 Fl. 92 7 aplicada na autuação, no entanto, a r. decisão a quo não levou em consideração essa situação, que sem sombras de dúvidas implica num cerceio de defesa". Este ponto foi questionado pela recorrente em relação ao mérito e será objeto de análise mais adiante. Segundo, alega que a decisão, ao afirmar que não existe o cerceio de defesa, "contraria frontalmente os princípios de Direito da Administração, com supedâneo no art. 37 da Constituição Federal e que foi regulamentado na Lei n° 9.784/99, disciplinando o Processo Administrativo Federal". E acrescenta: Portanto, cercear a defesa não é somente aquelas apontadas na decisão ora recorrida, mas qualquer outra que tolhe do contribuinte a informação necessária à sua ampla defesa e do contraditório. São princípios do Direito. Nesse aspecto, o procedimento fiscal é deficiente e nulo de pleno direito, conforme foi fundamento na Impugnação e que será demonstrado em outros pontos do presente recurso. A recorrente não apontou, objetivamente, quais as outras questões que foram deficientes na autuação ("...cercear a defesa não é somente aquelas apontadas na decisão ora recorrida, MAS QUALQUER OUTRA..."). Tanto na impugnação, quanto no recurso voluntário, alegou suposta deficiência nas exigências do art. 11, do Decreto n° 70.235/72, o que foi objeto de análise da DRJ e não merece reparos. Dessa forma, não se observando as hipóteses de nulidade previstas no artigo 59 do Decreto n° 70.235/72, e estando o lançamento revestido dos elementos exigidos pelo art. 142 do código Tributário Nacional (Lei n° 5.172/66), REJEITO A PRELIMINAR de nulidade argüida pelo interessado. Com relação à lide propriamente dita, com os mesmos os argumentos apresentados em sede primeira instância, a recorrente alega dificuldades para preenchimento do FCONT; ilegalidade e irretroatividade da norma, não obrigatoriedade de entrega da FCONT, infração continuada, espontaneidade do contribuinte e onerosidade excessiva da multa. No tocante ao instituto da denúncia espontânea, sustentando ser o mesmo plenamente aplicável à hipótese de que se trata, é de se ressaltar que, embora a contribuinte tenha apresentado espontaneamente a declaração antes de qualquer atividade administrativa da fiscalização, entendese que, mesmo nesses casos a aplicação da multa permanece pertinente, uma vez que, em se tratando de obrigação acessória, a ela não se aplica o instituto da denúncia espontânea, previsto no art. 138 do CTN, verbis: Art. 138 A responsabilidade é excluída pela denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do tributo devido e dos juros de mora, ou do depósito da importância arbitrada pela autoridade administrativa, quando o montante do tributo dependa de apuração. Parágrafo único. Não se considera espontânea a denúncia apresentada após o início de qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização, relacionados com a infração. Fl. 92DF CARF MF Processo nº 10166.727873/201276 Acórdão n.º 1001000.027 S1C0T1 Fl. 93 8 Ou seja, a exclusão de responsabilidade pela denúncia espontânea da infração se refere à multa de ofício relativa à obrigação principal, qual seja, aquela decorrente da falta de pagamento do tributo, não alcançando a obrigação acessória. A multa aplicada pela falta de entrega, ou entrega a destempo (após o prazo legalmente estabelecido), nada tem a ver com o fato gerador da obrigação tributária principal. Tratase, sim, de uma penalidade decorrente do descumprimento de uma obrigação acessória formal. Se a obrigação tributária principal não for adimplida, ai sim, a penalidade de ofício aplicada apresenta relação direta com o fato gerador da obrigação principal. Por fim, a acrescentar, em relação ao instituto da denúncia espontânea, tema que versa os autos, suscitado pela recorrente, é respaldado por entendimento sumulado do CARF: Súmula CARF nº. 49: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. A hipótese colocada, sem dúvida alguma, configura aquela a situação prevista na Súmula acima mencionada, desta forma, diante da especificidade da Súmula CARF nº. 49 e conforme Regimento Interno deste Conselho, que prevê a obrigatória observância das Súmulas CARF pelos conselheiros, não havendo que se falar, portanto, em benefícios da denúncia espontânea. A seguir, insurgese a recorrente contra os valores das multas aplicadas, contra a onerosidade excessiva da multa, que por isto estaria ferindo os princípios da razoabilidade, da finalidade, da proporcionalidade e do não confisco tributário. Por sua ótica, esses montantes teriam efeito confiscatório, afrontando assim o inciso IV do art. 150 da Constituição Federal. Assim reza o dispositivo constitucional invocado pela recorrente (grifo não consta do original): Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: [...] IV utilizar tributo com efeito de confisco; [...] Por pertinente, reproduzo abaixo o artigo 3º da Lei nº 5.172/1966 (CTN) (grifo não consta do original): Art. 3º Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada. Ora, desde que tributo não é sanção de ato ilícito, conforme dispõe o CTN, fica patente a distinção entre tributo e multa, esta, sim, de natureza punitiva. E a vedação Fl. 93DF CARF MF Processo nº 10166.727873/201276 Acórdão n.º 1001000.027 S1C0T1 Fl. 94 9 constitucional invocada se refere tão somente a tributo. Quanto à multa ora em discussão, inaplicável a limitação constitucional do poder de tributar trazida pela recorrente. E para sepultar de vez qualquer discussão sobre esse ponto, deve ser trazida à colação a Súmula nº. 2 deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, pelo que desnecessário se faz qualquer outro comentário: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. A hipótese colocada, sem dúvida alguma, configura aquela a situação prevista na Súmula acima mencionada, desta forma, diante da especificidade da Súmula CARF nº. 2 e conforme Regimento Interno deste Conselho, que prevê a obrigatória observância das Súmulas CARF pelos conselheiros, não havendo que se falar, portanto, em inconstitucionalidade de lei. Quanto aos demais questionamentos, temse que a obrigação tributária acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos e pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente a penalidade pecuniária. O Ministro da Fazenda pode instituir obrigações acessórias relativas a tributos federais, cuja competência foi delegada à Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB). A multa em análise encontra fundamentação legal no artigo 16 da Lei nº 9.779, de 1999, e no art. 57, inciso I, da Medida Provisória nº 2.15835 de 2001, com a redação vigente à época, abaixo reproduzidos: Art. 16. Compete à Secretaria da Receita Federal dispor sobre as obrigações acessórias relativas aos impostos e contribuições por ela administrados, estabelecendo, inclusive, forma, prazo e condições para o seu cumprimento e o respectivo responsável.” Art. 57. O descumprimento das obrigações acessórias exigidas nos termos do art. 16 da Lei nº 9.779, de 1999, acarretará a aplicação das seguintes penalidades: I R$ 5.000,00 (cinco mil reais) por mêscalendário, relativamente às pessoas jurídicas que deixarem de fornecer, nos prazos estabelecidos, as informações ou esclarecimentos solicitados;” Cabe esclarecer que o obrigação acessória é desvinculada da obrigação principal no sentido de que a obrigação tributária pode ser principal ou acessória. A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária (art. 113 do Código Tributário Nacional). As obrigações acessórias decorrem diretamente da lei, no interesse da administração tributária. É autônoma e sua observância independe da existência de obrigação principal correlata. Os deveres instrumentais previstos na legislação tributária ostentam caráter Fl. 94DF CARF MF Processo nº 10166.727873/201276 Acórdão n.º 1001000.027 S1C0T1 Fl. 95 10 autônomo em relação à regra matriz de incidência do tributo, uma vez que vinculam inclusive as pessoas jurídicas que gozem de imunidade ou outro benefício fiscal (art. 175 e art. 194 do Código Tributário Nacional). Sobre a matéria, a Lei nº 11.638, de 22 de dezembro de 2007, estendeu às sociedades de grande porte disposições relativas à elaboração e divulgação de demonstrações financeiras e ao critério de reconhecimento de receitas, custos e despesas computadas na apuração do lucro líquido do exercício, alterando a Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976 e a Lei nº 6.385, de 7 de dezembro de 1976. A Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, instituiu o Regime Tributário de Transição (RTT) de apuração do lucro real, que trata dos ajustes tributários decorrentes dos novos métodos e critérios contábeis introduzidos pela referida Lei nº 11.638, de 22 de dezembro de 2007. O RTT terá eficácia até a entrada em vigor de lei que discipline os efeitos tributários dos novos métodos e critérios contábeis, buscando a neutralidade tributária. Será optativo nos anoscalendário de 2008 e 2009 e obrigatório a partir do anocalendário de 2010, inclusive para a apuração do IRPJ apurado com base no lucro presumido ou arbitrado, da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), da Contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins). Para fins da escrituração contábil os registros contábeis que forem necessários para a observância das disposições tributárias relativos à determinação da base de cálculo do imposto de renda e, também, dos demais tributos, quando não devam, por sua natureza fiscal, constar da escrituração contábil, ou forem diferentes dos lançamentos dessa escrituração, serão efetuados exclusivamente em (a) livros ou registros contábeis auxiliares; ou (b) livros fiscais (art. 8º do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977). O Controle Fiscal Contábil de Transição (FCONT) decorre, basicamente, do Regime Transitório de Tributação (RTT) e alcança as empresas sujeitas a tributação com base no lucro real, as quais dependem de escrituração contábil e, por conseguinte, estão obrigadas à entrega da Escrituração Contábil Digital (ECD). A Instrução Normativa RFB nº 949, de 16 de junho de 2009, instituiu o Controle Fiscal Contábil de Transição (FCONT) para fins de registros auxiliares no art. 8º do DecretoLei nº 1.598, de 1977, destinado obrigatória e exclusivamente às pessoas jurídicas sujeitas cumulativamente ao lucro real e ao RTT. Esse controle é uma escrituração das contas patrimoniais e de resultado, em partidas dobradas, que considera os métodos e critérios contábeis aplicados pela legislação tributária. A Instrução Normativa RFB, nº 949, de 16 de junho de 2009, que regulamenta o Regime Tributário de Transição (RTT) de apuração do lucro real, em sua redação original, determinava que: Art. 2º As alterações introduzidas pela Lei nº 11.638, de 28 de dezembro de 2007, e pelos arts. 37 e 38 da Lei nº 11.941, de 2009, que modifiquem o critério de reconhecimento de receitas, custos e despesas computadas na escrituração contábil, para apuração do lucro líquido do exercício definido no art. 191 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, não terão efeitos para fins de apuração do lucro real e da base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) da pessoa jurídica sujeita ao RTT, devendo ser considerados, para fins tributários, os métodos e critérios contábeis vigentes em 31 de dezembro de 2007. [...]Art. 7º Fica instituído o Controle Fiscal Fl. 95DF CARF MF Processo nº 10166.727873/201276 Acórdão n.º 1001000.027 S1C0T1 Fl. 96 11 Contábil de Transição (FCONT) para fins de registros auxiliares previstos no inciso II do § 2º do art. 8º do DecretoLei nº 1.598, de 1977, destinado obrigatória e exclusivamente às pessoas jurídicas sujeitas cumulativamente ao lucro real e ao RTT. Art. 8º O FCONT é uma escrituração, das contas patrimoniais e de resultado, em partidas dobradas, que considera os métodos e critérios contábeis aplicados pela legislação tributária, nos termos do art. 2º. § 1º A utilização do FCONT é necessária à realização dos ajustes previstos no inciso IV do art. 3º, não podendo ser substituído por qualquer outro controle ou memória de cálculo. § 2º Para fins de escrituração do FCONT, poderá ser utilizado critério de atribuição de custos fixos e variáveis aos produtos acabados e em elaboração mediante rateio diverso daquele utilizado para fins societários, desde que esteja integrado e coordenado com o restante da escrituração, nos termos do art. 294 do Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999. § 3º O atendimento à condição prevista no § 2º impede a aplicação do disposto no art. 296 do Decreto nº 3.000, de 1999. § 4º No caso de não existir lançamento com base em métodos e critérios diferentes daqueles prescritos pela legislação tributária, baseada nos critérios contábeis vigentes em 31 de dezembro de 2007, nos termos do art. 2º, fica dispensada a elaboração do FCONT. Art. 9º O FCONT deverá ser apresentado em meio digital até às 24 (vinte e quatro) horas (horário de Brasília) do dia 30 de novembro de 2009, mediante a utilização de aplicativo a ser disponibilizado no dia 15 de outubro de 2009, no sítio da Secretaria da Receita Federal do Brasil na Internet, no endereço Parágrafo único. Para a apresentação do FCONT é obrigatória a assinatura digital mediante utilização de certificado digital válido. Por sua vez, a Instrução Normativa RFB nº 967, de 15 de outubro de 2009, que aprova o programa Validador e Assinador da Entrega de Dados para o Controle Fiscal Contábil de Transição – FCONT, em seu art. 2º, assim estabelece: Art. 2º O FCont será transmitido anualmente ao Sistema Público de Escrituração Digital (Sped), instituído pelo Decreto nº 6.022, de 22 de janeiro de 2007, mediante a utilização de aplicativo de que trata o art. 1º, disponibilizado no sítio da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) na Internet, no endereço http://www.receita.fazenda.gov.br, até o último dia útil do mês de junho do ano seguinte ao anocalendário a que se refira a escrituração. (Redação dada pela Instrução Normativa RFB nº 1.272, de 4 de junho de 2012) § 1º Excepcionalmente para dados relativos ao anocalendário de 2008, o prazo a que se refere o caput será encerrado às Fl. 96DF CARF MF Processo nº 10166.727873/201276 Acórdão n.º 1001000.027 S1C0T1 Fl. 97 12 23h59min (vinte e três horas e cinquenta e nove minutos), horário de Brasília, do dia 30 de novembro de 2009. § 1º Excepcionalmente para dados relativos ao anocalendário de 2008, o prazo a que se refere o caput será encerrado às 23h59min (vinte e três horas e cinquenta e nove minutos), horário de Brasília, do dia 18 de dezembro de 2009.(Redação dada pela Instrução Normativa RFB nº 975, de 7 de dezembro de 2009 ) § 1º Nos casos de extinção, cisão parcial, cisão total, fusão ou incorporação, o FCont deverá ser entregue pelas pessoas jurídicas extintas, cindidas, fusionadas, incorporadas e incorporadoras até o último dia útil do mês subsequente ao do evento. (Redação dada pela Instrução Normativa RFB nº 1.272, de 4 de junho de 2012 ) § 2º Para os casos de cisão, cisão parcial, fusão, incorporação ou extinção ocorridos em 2009 e em 2010, até o mês anterior ao prazo final da apresentação da DIPJ do exercício de 2010 (DIPJ 2010, anocalendário 2009), a apresentação dos dados a que se refere o art. 1º deverá ocorrer no mesmo prazo fixado para apresentação da DIPJ 2010. § 2º Excepcionalmente para dados relativos ao anocalendário de 2009, o prazo a que se refere o caput será encerrado às 23h59min59s (vinte e três horas, cinquenta e nove minutos e cinquenta e nove segundos), horário de Brasília, do dia 30 de julho de 2010. (Redação dada pela Instrução Normativa RFB nº 1.046, de 24 de junho de 2010 ) (grifei) § 2º O prazo para entrega do FCont será encerrado às 23h59min59s (vinte e três horas, cinquenta e nove minutos e cinquenta e nove segundos), horário de Brasília, do dia fixado para entrega da escrituração. (Redação dada pela Instrução Normativa RFB nº 1.272, de 4 de junho de 2012) (...) Como se observa, a legislação tributária estabelece que o descumprimento das obrigações acessórias exigidas, nos termos do art. 16 da Lei nº 9.779/1999 (dentre as quais se insere a não apresentação da escrituração FCONT), até o prazo fixado para a sua entrega, gera multa de R$5.000,00 por mêscalendário de atraso ou fração (posteriormente alterada para R$1.500,00, pela Lei nº 12.766/2012). Isto significa a aplicação de uma multa de R$1.500,00 que se acumula com periodicidade mensal. A intenção do legislador é forçar a entrega da declaração o quanto antes, cominando multa que é majorada a cada mês (para cada mês de atraso somase uma nova multa). Logo, depreendese, que a multa prevista no art. 57, inciso I, da MP nº 2.158 35, de 2001, deve ser aplicada cumulativamente a cada mêscalendário que decorrer sem a entrega de declaração. Fl. 97DF CARF MF Processo nº 10166.727873/201276 Acórdão n.º 1001000.027 S1C0T1 Fl. 98 13 Assim, tendo a sido o Controle Fiscal Contábil de Transição – FCONT previsto desde 2009 e a multa sido lançada com fulcro em bases legais e normativas vigentes à época da notificação de lançamento, portanto, não havendo que se falar em retroatividade da norma. Também não procede a alegação da não obrigatoriedade de entrega da FCONT, conforme exposto acima e transcrição de excerto da legislação, feita pela própria recorrente em sua peça postulatória (IN n° 1.139, de 28.03.2011, art. 8º, § 4º), verbis: A elaboração do FCONT é obrigatória, mesmo no caso de não existir lançamento com base em métodos e critérios diferentes daqueles prescritos pela legislação tributária, baseada nos critérios contábeis vigentes em 31 de dezembro de 2007, nos termos do art. 2o. (Redação dada pela Instrução Normativa RFB n° 1.139, de 28 de março de 2011). (grifo no original) Temse, ainda, que nos estritos termos legais, o procedimento fiscal está em conformidade com o princípio da legalidade, a que o agente público está vinculado (art. 37 da Constituição Federal, art. 116 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, art. 2º da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999 e art. 26A do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). A proposição afirmada pela defendente, desse modo, não tem cabimento. Por todo o exposto acima, voto por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni, Relator Fl. 98DF CARF MF
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Numero do processo: 10435.721373/2014-75
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 31 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Dec 04 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2013
Ementa
MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA DECLARAÇÃO DE DÉBITOS E CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS FEDERAIS.
A entrega de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF após o prazo previsto pela legislação tributária sujeita a contribuinte à incidência da multa correspondente.
DENÚNCIA ESPONTÂNEA.
O instituto da denúncia espontânea não é aplicável às obrigações acessórias, que são atos formais criados para facilitar o cumprimento das obrigações principais, embora sem relação direta com a ocorrência do fato gerador.
Numero da decisão: 1001-000.108
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente), Edgar Bragança Bazhuni, José Roberto Adelino da Silva e Eduardo Morgado Rodrigues.
Nome do relator: LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2013 Ementa MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA DECLARAÇÃO DE DÉBITOS E CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS FEDERAIS. A entrega de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF após o prazo previsto pela legislação tributária sujeita a contribuinte à incidência da multa correspondente. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. O instituto da denúncia espontânea não é aplicável às obrigações acessórias, que são atos formais criados para facilitar o cumprimento das obrigações principais, embora sem relação direta com a ocorrência do fato gerador.
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A entrega de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF após o prazo previsto pela legislação tributária sujeita a contribuinte à incidência da multa correspondente. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. O instituto da denúncia espontânea não é aplicável às obrigações acessórias, que são atos formais criados para facilitar o cumprimento das obrigações principais, embora sem relação direta com a ocorrência do fato gerador. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente), Edgar Bragança Bazhuni, José Roberto Adelino da Silva e Eduardo Morgado Rodrigues. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 43 5. 72 13 73 /2 01 4- 75 Fl. 64DF CARF MF 2 Relatório Versa o presente processo sobre lançamento (fl. 28), no qual é exigido da contribuinte acima identificada crédito tributário relativo à multa por atraso na entrega de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), relativa ao mês de novembro de 2013. Ciente do lançamento, a contribuinte ingressou com impugnação (fls. 2/18) na qual solicita o cancelamento da exigência tributária, sob alegação de denúncia espontânea.. A decisão de primeira instância (efls. 33/35) manteve o crédito tributário. Cientificada da decisão de primeira instância em 12/08/2014 (efl. 38) a Interessada interpôs recurso voluntário em 04/09/2014 (efls. 41/60), em que aduz, em resumo (repetindo argumentos da impugnação): que a Recorrente entregou a DCTF em atraso, de forma espontânea, antes de qualquer procedimento da fiscalização em exigilas; que é inaplicável qualquer forma ou nominação de multa, quando da efetivação da denúncia espontânea e pagamento do tributo devido ou parcelamento deste, já que a expressão contida na lei se for o caso afasta a multa na hipótese de cumprimento espontâneo dá obrigação tributária, seja ela principal, acessória ou acessória que se tornou principal; apresenta acórdãos do Conselho de Contribuintes que corroborariam a tese de que o cumprimento a destempo, mas espontâneo e antes de qualquer exigência da administração fazendária, autorizaria a aplicação do disposto no artigo 138 do Código Tributário Nacional, a fim de caracterizar a inexigibilidade da multa pretendida; que no acórdão recorrido.já na descrição do voto condutor, observarseia o equívoco do ilustre julgador ao considerar a DCTF como uma obrigação acessória desvinculada de natureza tributária, pois seria certo que as informações prestadas na referida declaração (DCTF) são situações tributárias ocorridas na empresa. Se exige informações das situações tributárias ocorridas na empresa, como desvinculála da ocorrência do fato gerador dos tributos. que até mesmo nos casos de pedidos de parcelamento há que se considerar a denúncia espontânea para elidir exigência de qualquer multa; seria absurdamente incoerente admitirse aplicação de penalidade a este contribuinte de forma idêntica à qual lhe seria aplicada caso permanecesse inerte, aguardando eventual manifestação da autoridade fazendária. Voto Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa Relator O recurso voluntário é tempestivo. Definiu acertadamente a decisão de primeira instância que a entrega da DCTF constituise em obrigação acessória, desvinculada de natureza tributária, pois assim prevista nos §§ 2º e 3º do art. 113 do CTN: Fl. 65DF CARF MF Processo nº 10435.721373/201475 Acórdão n.º 1001000.108 S1C0T1 Fl. 65 3 § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. Mesmo nos casos de entrega espontânea da declaração, antes de qualquer procedimento por parte do Fisco, a aplicação de multa como a prevista no art. 7º da Lei nº 10.426/2002 permanece pertinente, uma vez que, em se tratando de obrigação acessória, a ela não se aplica o instituto da denúncia espontânea, previsto no art. 138 do CTN. A exclusão de responsabilidade pela denúncia espontânea da infração (art. 138 do CTN) se refere à multa de ofício que acompanha a obrigação principal. A multa aplicada pela falta de entrega, ou entrega após o prazo legalmente estabelecido, nada tem a ver com o fato gerador da obrigação tributária principal. Tratase, sim, de uma penalidade decorrente do descumprimento de uma obrigação acessória formal. Este é o entendimento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) a respeito da matéria, já tendo sido, inclusive, objeto da Súmula CARF nº 49: Súmula CARF nº 49: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. Adiantese que o § 2º do art. 7º da Lei nº 10.426/2002 prevê uma redução da multa aplicada, nos casos de a declaração ser apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício (redução à metade) ou uma redução a 75% no caso da declaração ser apresentada no prazo fixado em intimação, respeitados os limites mínimos estabelecidos no parágrafo 3º do mesmo artigo. Desta forma, é evidente que, ao contrário do que alega a recorrente, a imposição da penalidade está legalmente prevista, mesmo neste caso de apresentação espontânea da declaração (com ou sem paramento ou parcelamento do tributo), com a devida redução da multa à metade. Adiciono, no que se refere às decisões administrativas e judiciais apontadas, relacionamse a litígio entre partes específicas em que o sujeito passivo não foi parte do processo e/ou tratam de decisão sem força vinculante por não se enquadrar no disposto no RICARF, em especial em seus artigos 62, 72 e 74 (Portaria MF nº 343, de 2015). Desta forma, voto por conhecer e negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa Relator Fl. 66DF CARF MF 4 Fl. 67DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13971.723077/2013-49
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Oct 19 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2012
NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. IMPROCEDÊNCIA.
No curso do procedimento fiscal, o sujeito passivo teve diversas oportunidades de apresentar documentos e esclarecimentos à fiscalização. Ademais, a fase litigiosa do procedimento administrativo somente se instaura com a impugnação do sujeito passivo ao lançamento já formalizado.
Não há que se falar em cerceamento de defesa quando o contribuinte tem acesso a todas as informações necessárias à compreensão das razões que levaram à autuação, tendo apresentado impugnação e recurso voluntário em que combate todos os fundamentos do auto de infração.
Considerando a extensa e detalhada Impugnação bem como o ecurso apresentado pela recorrente, restou comprovado o exercício do contraditório e da ampla defesa sendo, portanto, improcedentes as alegações de cerceamento do direito de defesa e de nulidade do procedimento fiscal.
NULIDADE DA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. NÃO COMPROVADA A INCOMPETÊNCIA DO ÓRGÃO DE JULGAMENTO. IMPOSSIBILIDADE.
As Delegacias da Receita Federal de julgamento julgam processos relativos aos contribuintes circunscritos às unidades da Secretaria da Receita Federal, observando-se a matéria em julgamento. Vale dizer, as DRJ possuem competência material e territorial, conforme disciplinado em ato próprio.
FALTA DE CIÊNCIA PRÉVIA E DE PRESENÇA DE ADVOGADO. JULGAMENTO PELA DRJ. INEXISTÊNCIA DE NULIDADE.
Consoante regra o art. 25 do Decreto nº 70.235/72, com a redação dada pela MP nº 2.158-35/01, os julgamentos de primeira instância do contencioso tributário federal serão realizados no âmbito das DRJ, órgãos de deliberação interna, sem a participação das partes ou previsão de ciência prévia da data da sessão, sem que isso acarrete prejuízo à defesa, à qual é conferida a devida oportunidade de formular suas razões e carrear provas, motivo pelo qual não há falar em nulidade.
NULIDADE DA DECISÃO DE 1ª INSTÂNCIA. INEXISTÊNCIA.
O julgador não está obrigado a rebater todos os argumentos trazidos no recurso, nem a esmiuçar exaustivamente seu raciocínio, bastando apenas decidir fundamentadamente, entendimento já pacificado neste Conselho.
Hipótese em que o acórdão recorrido apreciou de forma suficiente os argumentos da impugnação e as provas carreadas aos autos, ausente vício de motivação ou omissão quanto à matéria suscitada pelo contribuinte, não há que se falar em nulidade do acórdão recorrido.
INOVAÇÃO RECURSAL.
O contencioso administrativo instaura-se com a impugnação, que deve ser expressa, considerando-se não impugnada a matéria que não tenha sido diretamente contestada pelo impugnante. Inadmissível a apreciação em grau de recurso de matéria não suscitada na manifestação de inconformidade.
LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. LOCAL DA LAVRATURA. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 6.
É legítima a lavratura de auto de infração no local em que foi constatada a infração, ainda que fora do estabelecimento do contribuinte.
RETENÇÃO E APREENSÃO DE LIVROS E DOCUMENTOS.
O art. 35 da Lei nº 9.430, de 1996, possibilita ao Fisco o poder de reter e apreender livros e documentos, não sendo necessária ordem judicial para tanto.
TERMO DE INÍCIO DO PROCEDIMENTO FISCAL. PRORROGAÇÕES. NULIDADE DO PROCEDIMENTO FISCAL NÃO CONFIGURADA.
De acordo com a Portaria RFB nº 11.371/2007, o Mandado de Procedimento Fiscal é emitido exclusivamente de forma eletrônica e a ciência do sujeito passivo se dá por meio da internet através do código de acesso informado no termo de início do procedimento fiscal. Deste modo, cabia à Recorrente acessar as informações relativas à fiscalização, por meio do código de acesso disponibilizado pela Secretaria da Receita Federal, não podendo alegar desconhecimento sobre os fatos fiscalizatórios, tampouco nulidade do procedimento.
COMPENSAÇÃO. RECOLHIMENTOS EFETUADOS AO SIMPLES.
A compensação de créditos recolhidos ao Simples Nacional somente é possível com débitos da própria empresa e quando se tratar de compensação de ofício oriunda de deferimento em processo de restituição ou após a exclusão da empresa do Simples Nacional.
AVISO PRÉVIO INDENIZADO. NÃO INCIDÊNCIA CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. JURISPRUDÊNCIA UNÍSSONA. RECURSO REPETITIVO STJ. OBSERVÂNCIA OBRIGATÓRIA.
Em face da natureza eminentemente não remuneratória do verba denominada Aviso Prévio Indenizado, na forma reconhecida pelo Superior Tribunal de Justiça nos autos do Recurso Especial nº 1.230.957/RS, julgado sob a indumentária do artigo 543-C, do CPC, o qual é de observância obrigatória por este Colegiado nos termos do artigo 62, § 2º, do RICARF, não há se falar em incidência de contribuições previdenciárias sobre aludida rubrica, impondo seja rechaçada a tributação imputada.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA DE 150%.
Restando configurado um dos elementos previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502, de 30 de novembro de 1964, o percentual da multa de que trata o inciso I, do artigo 44, da Lei n.º 9.430/1996 deverá ser duplicado.
SÓCIO ADMINISTRADOR. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. CONFIGURAÇÃO. SUJEIÇÃO PASSIVA.
Constatada uma das situações de fato previstas no caput do art. 135 do Código Tributário Nacional, impõe-se à responsabilização do sócio administrador da empresa pelo crédito tributário constituído.
Numero da decisão: 2401-004.999
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso e rejeitar a preliminar de nulidade. No mérito, por maioria, negar provimento ao recurso. Vencida a relatora e os conselheiros Carlos Alexandre Tortato e Rayd Santana Ferreira que davam provimento parcial para que fosse aproveitado os montantes pagos de forma unificada sob o regime do Simples Nacional. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Presidente
(assinado digitalmente)
Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora
(assinado digitalmente)
Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Redatora designada
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Carlos Alexandre Tortato, Rayd Santana Ferreira, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Cleberson Alex Friess e Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez.
Nome do relator: LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA
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NULIDADE DA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. NÃO COMPROVADA A INCOMPETÊNCIA DO ÓRGÃO DE JULGAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. As Delegacias da Receita Federal de julgamento julgam processos relativos aos contribuintes circunscritos às unidades da Secretaria da Receita Federal, observando-se a matéria em julgamento. Vale dizer, as DRJ possuem competência material e territorial, conforme disciplinado em ato próprio. FALTA DE CIÊNCIA PRÉVIA E DE PRESENÇA DE ADVOGADO. JULGAMENTO PELA DRJ. INEXISTÊNCIA DE NULIDADE. Consoante regra o art. 25 do Decreto nº 70.235/72, com a redação dada pela MP nº 2.158-35/01, os julgamentos de primeira instância do contencioso tributário federal serão realizados no âmbito das DRJ, órgãos de deliberação interna, sem a participação das partes ou previsão de ciência prévia da data da sessão, sem que isso acarrete prejuízo à defesa, à qual é conferida a devida oportunidade de formular suas razões e carrear provas, motivo pelo qual não há falar em nulidade. NULIDADE DA DECISÃO DE 1ª INSTÂNCIA. INEXISTÊNCIA. O julgador não está obrigado a rebater todos os argumentos trazidos no recurso, nem a esmiuçar exaustivamente seu raciocínio, bastando apenas decidir fundamentadamente, entendimento já pacificado neste Conselho. Hipótese em que o acórdão recorrido apreciou de forma suficiente os argumentos da impugnação e as provas carreadas aos autos, ausente vício de motivação ou omissão quanto à matéria suscitada pelo contribuinte, não há que se falar em nulidade do acórdão recorrido. INOVAÇÃO RECURSAL. O contencioso administrativo instaura-se com a impugnação, que deve ser expressa, considerando-se não impugnada a matéria que não tenha sido diretamente contestada pelo impugnante. Inadmissível a apreciação em grau de recurso de matéria não suscitada na manifestação de inconformidade. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. LOCAL DA LAVRATURA. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 6. É legítima a lavratura de auto de infração no local em que foi constatada a infração, ainda que fora do estabelecimento do contribuinte. RETENÇÃO E APREENSÃO DE LIVROS E DOCUMENTOS. O art. 35 da Lei nº 9.430, de 1996, possibilita ao Fisco o poder de reter e apreender livros e documentos, não sendo necessária ordem judicial para tanto. TERMO DE INÍCIO DO PROCEDIMENTO FISCAL. PRORROGAÇÕES. NULIDADE DO PROCEDIMENTO FISCAL NÃO CONFIGURADA. De acordo com a Portaria RFB nº 11.371/2007, o Mandado de Procedimento Fiscal é emitido exclusivamente de forma eletrônica e a ciência do sujeito passivo se dá por meio da internet através do código de acesso informado no termo de início do procedimento fiscal. Deste modo, cabia à Recorrente acessar as informações relativas à fiscalização, por meio do código de acesso disponibilizado pela Secretaria da Receita Federal, não podendo alegar desconhecimento sobre os fatos fiscalizatórios, tampouco nulidade do procedimento. COMPENSAÇÃO. RECOLHIMENTOS EFETUADOS AO SIMPLES. A compensação de créditos recolhidos ao Simples Nacional somente é possível com débitos da própria empresa e quando se tratar de compensação de ofício oriunda de deferimento em processo de restituição ou após a exclusão da empresa do Simples Nacional. AVISO PRÉVIO INDENIZADO. NÃO INCIDÊNCIA CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. JURISPRUDÊNCIA UNÍSSONA. RECURSO REPETITIVO STJ. OBSERVÂNCIA OBRIGATÓRIA. Em face da natureza eminentemente não remuneratória do verba denominada Aviso Prévio Indenizado, na forma reconhecida pelo Superior Tribunal de Justiça nos autos do Recurso Especial nº 1.230.957/RS, julgado sob a indumentária do artigo 543-C, do CPC, o qual é de observância obrigatória por este Colegiado nos termos do artigo 62, § 2º, do RICARF, não há se falar em incidência de contribuições previdenciárias sobre aludida rubrica, impondo seja rechaçada a tributação imputada. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA DE 150%. 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E OUTROS Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2012 NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. IMPROCEDÊNCIA. No curso do procedimento fiscal, o sujeito passivo teve diversas oportunidades de apresentar documentos e esclarecimentos à fiscalização. Ademais, a fase litigiosa do procedimento administrativo somente se instaura com a impugnação do sujeito passivo ao lançamento já formalizado. Não há que se falar em cerceamento de defesa quando o contribuinte tem acesso a todas as informações necessárias à compreensão das razões que levaram à autuação, tendo apresentado impugnação e recurso voluntário em que combate todos os fundamentos do auto de infração. 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Hipótese em que o acórdão recorrido apreciou de forma suficiente os argumentos da impugnação e as provas carreadas aos autos, ausente vício de motivação ou omissão quanto à matéria suscitada pelo contribuinte, não há que se falar em nulidade do acórdão recorrido. INOVAÇÃO RECURSAL. O contencioso administrativo instaurase com a impugnação, que deve ser expressa, considerandose não impugnada a matéria que não tenha sido diretamente contestada pelo impugnante. Inadmissível a apreciação em grau de recurso de matéria não suscitada na manifestação de inconformidade. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. LOCAL DA LAVRATURA. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 6. É legítima a lavratura de auto de infração no local em que foi constatada a infração, ainda que fora do estabelecimento do contribuinte. RETENÇÃO E APREENSÃO DE LIVROS E DOCUMENTOS. O art. 35 da Lei nº 9.430, de 1996, possibilita ao Fisco o poder de reter e apreender livros e documentos, não sendo necessária ordem judicial para tanto. TERMO DE INÍCIO DO PROCEDIMENTO FISCAL. PRORROGAÇÕES. NULIDADE DO PROCEDIMENTO FISCAL NÃO CONFIGURADA. De acordo com a Portaria RFB nº 11.371/2007, o Mandado de Procedimento Fiscal é emitido exclusivamente de forma eletrônica e a ciência do sujeito passivo se dá por meio da internet através do código de acesso informado no termo de início do procedimento fiscal. Deste modo, cabia à Recorrente acessar as informações relativas à fiscalização, por meio do código de acesso disponibilizado pela Secretaria da Receita Federal, não podendo alegar desconhecimento sobre os fatos fiscalizatórios, tampouco nulidade do procedimento. COMPENSAÇÃO. RECOLHIMENTOS EFETUADOS AO SIMPLES. A compensação de créditos recolhidos ao Simples Nacional somente é possível com débitos da própria empresa e quando se tratar de compensação de ofício oriunda de deferimento em processo de restituição ou após a exclusão da empresa do Simples Nacional. AVISO PRÉVIO INDENIZADO. NÃO INCIDÊNCIA CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. JURISPRUDÊNCIA UNÍSSONA. RECURSO REPETITIVO STJ. OBSERVÂNCIA OBRIGATÓRIA. Fl. 2759DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.760 3 Em face da natureza eminentemente não remuneratória do verba denominada Aviso Prévio Indenizado, na forma reconhecida pelo Superior Tribunal de Justiça nos autos do Recurso Especial nº 1.230.957/RS, julgado sob a indumentária do artigo 543C, do CPC, o qual é de observância obrigatória por este Colegiado nos termos do artigo 62, § 2º, do RICARF, não há se falar em incidência de contribuições previdenciárias sobre aludida rubrica, impondo seja rechaçada a tributação imputada. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA DE 150%. Restando configurado um dos elementos previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502, de 30 de novembro de 1964, o percentual da multa de que trata o inciso I, do artigo 44, da Lei n.º 9.430/1996 deverá ser duplicado. SÓCIO ADMINISTRADOR. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. CONFIGURAÇÃO. SUJEIÇÃO PASSIVA. Constatada uma das situações de fato previstas no caput do art. 135 do Código Tributário Nacional, impõese à responsabilização do sócio administrador da empresa pelo crédito tributário constituído. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 2760DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.761 4 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso e rejeitar a preliminar de nulidade. No mérito, por maioria, negar provimento ao recurso. Vencida a relatora e os conselheiros Carlos Alexandre Tortato e Rayd Santana Ferreira que davam provimento parcial para que fosse aproveitado os montantes pagos de forma unificada sob o regime do Simples Nacional. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Presidente (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez – Redatora designada Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Carlos Alexandre Tortato, Rayd Santana Ferreira, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Cleberson Alex Friess e Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez. Fl. 2761DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.762 5 Relatório Contra a empresa em epígrafe foi lavrado, em 24/09/2013, o Auto de Infração (DEBCAD 51.047.9502) no valor total de R$ 1.054.457,14 (um milhão, cinquenta e quatro mil e quatrocentos e cinquenta e sete reais e quatorze centavos) consoante se observa às fls. 878/879. Referido Auto de Infração (AI) foi lavrado em cumprimento do Mandado de Procedimento Fiscal (MPF) n.º 0920400.2013.00093, com abrangência sobre as competências de 1/2009 a 12/2012, inclusive 13° salário, para apurar as contribuições sociais incidentes sobre a remuneração paga aos segurados empregados. O início do procedimento ocorreu em 10/4/2013, mediante notificação pessoal, ao sujeito passivo, do Termo de Inicio de Procedimento Fiscal (TIPF), folhas 3 e 4. Para melhor compreensão da matéria, necessário se faz transcrever trechos do Relatório Fiscal (fls. 944/993), segundo o qual: 2. Em auditoria realizada na empresa Transportadora Ociani Ltda.3 e, concomitantemente, na empresa Transportes Gasparzinho Ltda. EPP4 , abaixo qualificada, constatouse que a autuada alocou parte de seus trabalhadores (empregados e contribuintes individuais) em uma empresa de fachada (Gasparzinho), de forma a burlar a legislação fiscal, com o intuito de esconder a ocorrência de fato gerador da contribuição previdenciária. 3. Verificouse que os segurados formalmente registrados na Gasparzinho são, verdadeiramente, empregados da Ociani, pois respondem a uma cadeia única de comando, visto que só há uma estrutura organizada e não duas. Com este procedimento, a autuada, que apurou Lucro Real no período analisado, omitiu a ocorrência de fato gerador da cota patronal da contribuição previdenciária (inclusive o RAT) e a destinada a Outras Entidades , incidentes sobre a massa salarial dos segurados empregados e contribuintes individuais registrados na microempresa mencionada, uma vez que a mesma é optante do SIMPLES NACIONAL. 4. Os dados relacionados a fatos geradores, base de cálculo e os valores das contribuições previdenciárias lançadas neste processo fiscal deveriam ter sido declarados à Secretaria da Receita Federal do Brasil – RFB, através das Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia e Informações à Previdência Social – GFIP. Entretanto, o sujeito passivo deixou de cumprir com a obrigação tributária acessória descrita acima. Adicionalmente, a Ociani não recolheu aos cofres públicos a contribuição previdenciária patronal, objeto da presente autuação (AI nº 51.047.950 2). A contribuição destinada às Outras Entidades foi objeto de outro AI, integrante do Processo Administrativo Fiscal nº 13971.723077/201349. Fl. 2762DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.763 6 5. A GFIP tem previsão legal no inciso IV do artigo 32 da Lei 8.212/91 e consiste em documento de apresentação obrigatória por parte do sujeito passivo, através do qual este deve declarar à RFB, na forma, prazo e condições estabelecidas por esse órgão, dados relacionados a fatos geradores, base de cálculo e valores devidos das contribuições previdenciárias. 6. O documento citado acima tem importância crucial, na medida em que a declaração nele contida constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência do crédito tributário, e suas informações compõem a base de dados para fins de cálculo e concessão dos benefícios previdenciários (§ 2º, do artigo 32, da Lei 8.212/91). 7. Importante dizer que estão abrangidos no presente lançamento apenas as contribuições devidas, não recolhidas e NÃO DECLARADAS pelo sujeito passivo nas GFIP, pois as contribuições não recolhidas pela empresa, mas declaradas em GFIP, constituem objeto de cobrança automatizada realizada pela RFB, não sendo estas abrangidas pelos lançamentos de ofício realizados pela Auditoria do mencionado órgão federal. 8. A fiscalizada opera no ramo de transporte rodoviário de cargas em geral, prestação de serviços de logística e armazém geral. Período de lançamento 9. O lançamento abrange o período de 01/2009 a 12/2012, inclusive os décimos terceiros salários. [...] 11. O presente lançamento está intrinsecamente relacionado à sonegação de contribuições previdenciárias pelo sujeito passivo, mediante prática fraudulenta à legislação do SIMPLES Federal (Lei nº 9.317/96) e do SIMPLES Nacional (Lei Complementar nº 123/2006). [...] 23. E é exatamente em razão desta incomparável vantagem econômica, no tocante ao recolhimento de tributos, que, em que pese às Leis instituidoras dos aludidos sistemas trazerem em seu bojo o conceito legal de microempresa e empresa de pequeno porte, várias empresas não enquadradas legalmente nas referidas categorias empresariais vêm buscando a todo o custo formas de burlar a legislação e de se revestirem destas espécies de pessoas jurídicas. 24. Estas empresas assim procedem com o inequívoco objetivo de serem favorecidas com os benefícios fiscais proporcionados pelos sistemas tributários diferenciados, anteriormente mencionados, instituídos e destinados único e exclusivamente em favor das verdadeiras microempresas e empresas de pequeno porte. Fl. 2763DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.764 7 25. Como se sabe, a legislação do SIMPLES, tanto do revogado SIMPLES FEDERAL como do vigente SIMPLES NACIONAL, adotaram o montante da Receita Bruta auferido pelas empresas como critério para o enquadramento das pessoas jurídicas nos conceitos legais de microempresas e empresas de pequeno porte. 26. Diante disto, diversas empresas, no intuito de driblar estes limites, fragmentamse o quanto necessário em novas pessoas jurídicas (que optam pelo SIMPLES), não raro apenas no papel (portanto, “empresas” fictícias), como ocorrido no presente caso concreto, faturando através delas apenas montantes que não ultrapassem os limites estabelecidos na LEGISLAÇÃO DO SIMPLES. 27. Finalmente, implementam mais uma “maldade” do pacote, qual seja, a administração destas empresas (as originais, existentes de fato), obviamente, providenciam para que boa parte de seus empregados se mantenha registrada nos CNPJ das “empresas” fictícias criadas e desse modo deixam de recolher valores elevadíssimos correspondentes às contribuições previdenciárias incidentes sobre as remunerações destes empregados (cota patronal). 28. Por oportuno, ressaltamos que através da utilização destes artifícios a Ociani, vem, há muitos anos, inserindo a maior parte de sua folha de pagamento na Gasparzinho, empresa fictícia optante pelo extinto SIMPLES FEDERAL e pelo vigente SIMPLES NACIONAL, atingindo, assim, altos níveis de sonegação. HISTÓRICO 29. A Ociani iniciou as atividades em 06/11/1981, em Gaspar/SC. A sociedade era formada por Oswaldo Krauss, atual sócio da Gasparzinho, dois irmãos e sua esposa. O objeto social era o transporte de cargas em geral. A sede era situada à Rua Geral, nº 68, Belchior Central, Gaspar/SC. Em 1986 a sociedade passou a ser integrada apenas pelo Sr. Oswaldo, esposa e o filho Eduardo Roberto Krauss. No período o Sr. Oswaldo detinha 50% das cotas e o restante era dividido igualmente entre a Sra. Ana Oechsler Krauss e Eduardo. 30. Em 1996 retiraramse da sociedade Sr. Oswaldo e a Sra. Ana, dando lugar aos filhos Jaison Eduardo Krauss, Carlos Alberto Krauss e Everson Delberto Krauss. No mesmo ano, conforme registros constantes do cadastro da RFB, Sr. Oswaldo fundou a empresa Belchior Prestadora de Serviços Ltda. ME, também sediada em Gaspar/SC, da qual detinha 50% das cotas. Ainda conforme os registros constantes do cadastro da RFB, a empresa recém criada mantevese inativa ao menos desde do anocalendário de 1999. 31. No ano de 2001, mediante a terceira alteração contratual, os irmãos Eduardo e Everson retiraramse do quadro societário da Ociani que passou a ser integrado somente por Jaison e Carlos Alberto, situação que não se modificou até o presente momento. Fl. 2764DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.765 8 Na mesma ocasião a empresa alterou o seu endereço para a Rua Ari Barroso, nº 1.002, Itoupavazinha, Blumenau/SC (endereço atual). Eduardo e Everson, egressos da sociedade, fundaram, em sequência, juntamente com o irmão caçula Jefferson Luis Krauss, a empresa Transportes Rodojato Ltda. 32. No quadro que se segue apresentase um histórico do quadro societário da autuada, com os dados a partir do ano de 1986 (primeira alteração contratual). O Contrato Social e as Alterações Contratuais da Ociani constam do DOC 11. [...] 33. A Gasparzinho iniciou as atividades em 01/09/2004. O objeto social era o transporte de cargas em geral. A sede era situada à Rua Ari Barroso, nº 1051, Salto do Norte, Blumenau/SC. Os sócios eram o Sr. Oswaldo e duas de suas noras, Kátia, esposa de Eduardo, e Rita, esposa de Carlos Alberto. A Participação do Sr. Oswaldo no capital da sociedade era de 98% das cotas. Desde o início a empresa optou pela tributação no SIMPLES FEDERAL. 34. Na Primeira Alteração Contratual, houve alteração do endereço da sede para Rua Ari Barroso, nº 1051 – Fundos. Já na Segunda Alteração, em 13/07/2005, o endereço foi alterado para a Rua José Patrocínio dos Santos, nº 2875, sala 01, bairro Belchior Central, CEP 89110000, Gaspar – SC. 35. Na Terceira Alteração, em 19/04/2007, Kátia retirouse da sociedade. Na Quarta Alteração, ocorrida em 07/10/2010, Rosemery ingressou na sociedade no lugar de Rita. Rosemery é esposa de Everson. 36. Na Quinta Alteração, em 06/06/2011, ocorreu nova alteração do endereço da sede social, que passou à Rua Helena Herkenhoff, nº 53, sala 01, bairro Velha, Blumenau. Este é o endereço residencial do Sr. Oswaldo, constante do cadastro da RFB e do próprio Contrato Social. No quadro abaixo consta histórico do quadro societário da Gasparzinho. Contrato Social e Alterações da Gasparzinho integram o DOC 17. [...] ESTRUTURA ADMINISTRATIVA E OGANIZACIONAL ÚNICA 37. Como mencionamos anteriormente, a Gasparzinho tinha como endereço sede de seu único estabelecimento a residência do Sr. Oswaldo, na Rua Helena Herkenhoff, nº 53, Velha Central, Blumenau/SC. O local foi objeto de diligência, realizada no dia 12/08/2013, pelos Auditores Fiscais Murilo Cuba Netto e Everaldo Back. Foram realizados registros fotográficos (constantes do DOC 36) onde se evidencia a ausência de estrutura para abrigar sequer um pequeno caminhão. Também não havia qualquer placa ou inscrição identificativa da Gasparzinho. A campainha foi tocada diversas vezes sem que houvesse qualquer resposta. Na ocasião foi Fl. 2765DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.766 9 entrevistado o Sr. Edwin Reiter, vizinho, morador da casa ao lado, de número 67 da Rua Helena Herkenhoff. O Sr. Edwin relatou que não tinha conhecimento do funcionamento de uma transportadora no endereço ao lado e que conhecia o Sr. Oswldo Krauss, com quem não teria intimidade. O fato foi registrado no Termo de Constatação nº 1 (DOC 35). A Gasparzinho apresentou comprovante de residência do seu sócio, uma conta de luz constante do DOC 22, a qual comprova que o Sr. Oswaldo reside no endereço citado. 38. Em diligências realizada na sede da Ociani em Blumenau, constatouse a existência de um estrutura administrativa responsável pelo controle das atividades da fiscalizada e da Gasparzinho. Na visita realizada no dia em que se deu ciência do Termo de Início de Procedimento Fiscal (18/04/2013) foram reunidos documentos e tomados depoimentos os quais demonstram claramente que o controle das atividades da Gasparzinho é feito diretamente pela Ociani. Mais que isto, tratase de fato de uma única organização com controle da família Krauss, sobretudo dos irmãos Jaison, Carlos Alberto (sócios da Ociani), Everson e Jefferson. Entrevistas realizadas em 18/04/2013 (DOC 02) 39. Em depoimento dado por Daiana Francine Sonntang, Analista de RH, registrada na Ociani, a segurada informou ser responsável pelo RH da empresa. Relatou que, entre outras atribuições, realiza a transmissão da GFIP da Ociani, Gasparzinho, Transportes Rodojato (sociedade de Everson e Eduardo, sediada em Gaspar/SC) e Operações Rio 2007 (empresa de Jefferson e sócio externo à família 12, sediada no Rio de Janeiro/RJ). Relatou ainda que representa as mesmas empresas (exceto a Operações Rio) junto ao Sintroblu13 quando das rescisões de contratos de trabalho, e ainda, que a guarda das fichas de registros dos empregados das referidas empresas, exceto as da sediada no Rio de Janeiro, é feita naquele estabelecimento (Ociani). Ressaltase que foram realizados registros fotográficos do arquivo com as pasta funcionais dos trabalhadores da Ociani, Gasparzinho e Rodojato (DOC 45). 40. Mailton Lauro Ferreira, encarregado de carga e descarga registrado na Ociani, informou que compõem a sua equipe os seguintes funcionários: Sandro, Manuel, Joaquim e Antônio. Embora não tenha dado os sobrenomes dos referidos empregados, não há registros de empregados com estes nomes na Ociani na GFIP da competência 04/2013. Ao contrário, na Gasparzinho constam os seguintes empregados na mesma competência: [...] 41. Mailton ainda relatou que seu chefe imediato é o Everson e que não saberia informar quem seriam os proprietários da Ociani, mas que Jaison e Everson respondiam pela empresa. Fl. 2766DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.767 10 42. Zeina Viviane Peixe, auxiliar administrativa, registrada na Ociani, informou que trabalha no SAC14 e que quando da sua admissão na empresa, em março de 2012, entregou currículo ao Jefferson que o encaminhou para a Eliete15, tendo esta realizado a sua contratação. 43. Jefferson L. Krauss também prestou informações na ocasião. Relatou que é sócio da empresa Operações Rio e que é responsável pelo setor financeiro das empresas Ociani, Rodojato e Operações Rio. 44. Danyelle Rocha Santos, auxiliar administrativa, atuante no financeiro da Ociani, informou que os “donos” da empresa seriam o Sr. Oswaldo e sua esposa e seu chefe imediato, Jefferson Krause. Já Katlin Kamer, auxiliar de escrita fiscal, registrada na Ociani, relatou que os “donos” da empresa seriam o Sr. Oswaldo e os cinco filhos. Também informou que Jefferson é o seu chefe imediato. Lista de ramais, relação de motoristas e aniversariantes do mês 45. Na mesma ocasião em que foram tomados os depoimentos acima mencionados, a fiscalização teve acesso a alguns documentos, comuns no dia a dia de qualquer empresa, como a lista de ramais e a relação de aniversariantes do mês. Cópias destes documentos compõem os DOC 04 e 06, respectivamente. [...] 49. Outro documento a que teve acesso a fiscalização, por ocasião da diligência às instalações da Ociani, no dia 18/04/2013, foi uma relação de motoristas, apresentada pelo encarregado de carga e descarga da Ociani, Mailton Lauro Ferreira, constante do DOC 05, onde mais uma vez figuram funcionários formalmente registrados na Gasparzinho. Apenas a título de exemplo citamos, dentre os dez primeiros da lista constante da figura 3, sete são registrados na Gasparzinho: Deivid Spindola Ferreira, Anderson Andrieti, Jures Cláudio Claudino, Joel Tamasia, Edson Pila Souza e Jauri Evaristo. [...] 50. Constatouse, na análise de diversos documentos, a seguir detalhados, que a gestão de RH dos empregados formalmente registrados na Gasparzinho, cabia à Ociani, por intermédio da funcionária Eleiete Demarch e, mais recentemente, pela funcionária Daiana Sonntang, pois vejamos. 51. O relatório de folha de pagamento da Gasparzinho apresentado à fiscalização (DOC 18 e 33), foi emitido pelo programa (software) de folha de pagamento da Ociani, pela usuária Daiana e contém as referidas inscrições no rodapé do relatório, como pode ser observado na figura 4, a seguir disposta. [...] Fl. 2767DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.768 11 CONCLUSÕES 84. De todo exposto extraise que os segurados registrados como empregados da Gasparzinho, optantes do SIMPLES NACIONAL, são na realidade empregados da autuada, empresa de administração familiar, que utilizouse de um artifício bastante conhecido que foi a alocação de empregados em empresa fictícia com vistas a ocultar do Fisco a ocorrência de fato gerador da contribuição previdenciária. Esta auditoria reuniu diversos elementos comprobatórios que demonstram, em seu conjunto, e de forma irrefutável, que a empresa Transportes Gasparzinho Ltda. é uma ficção e que a real empregadora da mão de obra formalmente alocada nela é a Ociani. 85. Os elementos de convicção dos fatos acima citados encontramse vastamente relatados no corpo desta peça e documentados, mediante os chamados DOC, integrantes deste processo administrativo. Passamos a relembrar alguns desses principais elementos comprobatórios: a) A autuada é uma empresa de administração familiar. O Sr. Oswaldo e esposa foram sócios fundadores. Quatro de seus cinco filhos já tiveram passagem pelo quadro societário. Atualmente Jaison e Carlos Alberto Krauss são os sócios, mas dois outros filhos têm participação administrativa: Everson e Jefferson Krauss. O Sr. Oswaldo, aparentemente, está afastado da administração, mas tem grande identificação com a empresa e alguns dos seus empregados entendem que ele e a esposa ainda são donos do negócio; b) A “empresa” Transportes Gasparzinho Ltda. tem como sede de seu único estabelecimento a residência do seu sócio, os Sr. Oswaldo; c) A referida “transportadora” tem apenas um caminhão e uma centena de trabalhadores20 registrados com cargos relacionados à atividade de transporte de armazenagem de mercadorias. Não há registros de custos e despesas necessários ao desenvolvimento das atividades; d) O Sr. Oswaldo, sócio administrador da Gasparzinho, afirma ser responsável por todas as atividades administrativas da “empresa”, no entanto, há diversos elementos comprobatórios de que estas atividades, sobretudo a gestão de recursos humanos, eram realizada pela Ociani; e) A autuada foi a única cliente da Gasparzinho no período em análise. É uma transportadora que conta com uma frota de aproximadamente sessenta veículos, mas pouquíssimos funcionários com cargos relacionados à sua atividade fim. Inversamente à Gasparzinho, conta com estrutura administrativa bem estabelecida. TERCEIRIZAÇÃO ÍLICITA Fl. 2768DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.769 12 86. Como foi amplamente demonstrado neste relatório, Gasparzinho mantinha empregados nela FORMALMETE registrados a serviço da autuada, esta que, de fato, era a real empregadora da mãodeobra alocada nas “empresa” optante do SIMPLES. Verificase a ocorrência de uma terceirização ilícita da mãodeobra. 87. O fenômeno da terceirização, válido em face das normas de proteção ao trabalho, não consiste no mero fornecimento de mãodeobra para a execução de serviços essenciais da empresa tomadora. Ao contrário, somente se admite a contratação da empresa terceirizada para a prestação de serviços ligados a atividademeio do tomador e, ainda assim, desde que inexistentes a pessoalidade e a subordinação direta, nos termos do entendimento jurisprudencial consubstanciado nos incisos I e III do Enunciado 331 do TST. [...] DA CARACTERIZAÇÃO DOS EMPREGADOS 89. Como foi amplamente demonstrado neste relatório, a autuada alocou grande parte da sua mão de obra em uma empresa fictícia de forma a se beneficiar indevidamente das benéfices do SIMPLES. A administração do pessoal e dos recursos eram integralmente realizados pela autuada. Portanto, os segurados formalmente registrados na Gasparzinho, de fato, estão subordinados juridicamente ao comando único emanado da administração da Ociani, que assumiu os riscos da atividade econômica, que detém o poder de mando, de decisão, financeiro e econômico. O empregado colocase à disposição do empregador, dele recebendo ordens. A subordinação decorre do poder do empregador em dirigir e comandar a execução da obrigação pelo empregado; controlar o cumprimento dessa obrigação; aplicar penas disciplinares (advertência, suspensão, dispensa) quando o empregado não satisfaz, devidamente, a prestação a que se obrigou, ou se comporte de modo incompatível com a confiança, que está na base do contrato. 90. A fiscalização constatou que a autuada era, em última análise, a responsável pela prática dos atos relacionados à administração de pessoal, desde a seleção do pessoal a ser contratado, demissão, pagamento de verbas salariais e benefícios. Foram juntadas provas documentais destes atos, constantes dos DOC acostados, de forma que sua ocorrência pode ser facilmente constatada. Tais fatos foram relatados e demonstrados no corpo deste relatório. Configurase, desta forma, a pessoalidade na prestação dos serviços desempenhados por estes segurados. 91. A remuneração dos segurados empregados e empresários das empresas fictícias encontrase registrada em folha de pagamento, ainda que a formalização dos vínculos empregatícios aconteça por intermédio de outra pessoa jurídica (Gasparzinho), o ônus do pagamento, inclusive dos encargos decorrentes, recaía em última análise, sobre a autuada, Fl. 2769DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.770 13 conforme o visto e revisto neste Relatório. Desta forma, fica configurada a onerosidade, presente entre os pressupostos do vínculo empregatício. 92. Foi demonstrado, ainda, que a prestação de serviços dos referidos segurados era não eventual, tendo em vista que estes desempenhavam suas atividades de forma contínua, sob o comando da autuada, restando configurada a continuidade. 93. A jornada de trabalho é diária, definida pela autuada, sendo por ela controlada mediante ponto, caracterizando a “não eventualidade”. 94. Diante de todo o exposto, concluise que a Ociani é a real empregadora dos segurados formalmente registrados nas empresas de fachada e, portanto, a responsável pelo recolhimento das contribuições previdenciárias e as destinadas a Outras Entidades incidentes sobre as remunerações dos referidos funcionários. Demais disso, a fiscalização entendeu pela responsabilidade solidária dos sócios administradores e aplicou a multa qualificada, pois, segundo descrição dos fatos e enquadramento legal, restou comprovada, no presente caso, em relação à falta de recolhimento da cota patronal da contribuição previdenciária, a incidência, sobre a remuneração dos trabalhadores formalmente registrados nas empresas fictícias Gasparzinho, da multa em seu percentual duplicado, 150%, por restar caracterizada a prática de sonegação e conluio, conforme artigos 71 a 73 da Lei n.º 4.502/64. Devidamente cientificados do Auto de Infração em 27/09/2013 (fls. 994/995), a requerente apresentou impugnação em 25/10/2013, através de procurador habilitado (fl. 206), com razões às fls. 1.443/1.546. Alega, em síntese, que: Das Preliminares. 2.1 Encaminhamento dos Autos para a Procuradoria da Fazenda Nacional Diante das inovações legislativas, e pelo fato de que o lançamento tributário foi efetuado em desacordo com diversas matérias e julgados do STF e do STJ, requer a Impugnante a intimação da Procuradoria da Fazenda Nacional para, querendo, apresentar manifestação, antes do julgamento por este órgão administrativo, nos termos do art. 19, §§ 4º, 5 º e 7 º da Lei n° 10.522/2002. 2.2 Nulidade do Auto de Infração por Violação às Atribuições da Fiscalização Tributária no Ato da Auditoria Quanto às questões de direito, é preciso compreender que a auditoria violou regras basilares que se referem ao próprio ato de fiscalização, notadamente frente ao art. 194 do CTN, o Decreto n° 70.235/1972 e o Decreto n° 7.574/2011. Isso ocorreu porque, conforme constam dos documentos integrantes do procedimento de fiscalização (documento 25), a auditoria não se desenvolveu nos termos pontuados pela legislação ora citada, Fl. 2770DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.771 14 mas apenas para angariar alguns documentos que foram apresentados de forma a fundamentar um entendimento de que há terceirização irregular. Essa não é a função da Fiscalização Tributária e não poderia a auditoria ser efetuada da forma como o foi. A atuação da Fiscalização Tributária deve ser efetuada com a orientação aos sujeitos passivos. É fato inegável que as normas gerais de Direito Tributário acarretam uma série de inconvenientes a esses sujeitos, pois nem sempre são estruturadas de forma clara e simplificada. O próprio CTN, no Livro Segundo (arts. 96 ao 218) contém uma série de dispositivos cuja extensão e significado ainda são questionados no Poder Judiciário e geram inúmeras dúvidas. Portanto, nada mais adequado do que a Fazenda Pública prestar auxílio ao sujeito passivo, lhe informando seu posicionamento sobre dispositivos que poderiam gerar inconvenientes na aplicação das regras inerentes ao cumprimento das obrigações tributárias (principal e acessória). Portanto, como não houve correta investigação dos motivos de fato que levaram as sociedades empresárias ora mencionadas a se estruturar da forma como estão, houve violação, por parte da Fazenda Pública, ao art. 194 do CTN, razão pela qual o auto de infração merece ser anulado. 2.3 Violação aos Poderes de Fiscalização No caso em tela, o Poder Executivo fez a regulamentação das disposições externadas no CTN mediante uma legislação processual bastante complexa, que foi compilada mediante a edição do Decreto n° 7.574/2011. Portanto, firme no princípio da legalidade, a Fiscalização Tributária federal deverá atentar para as disposições do CTN e do Decreto n° 7.574/2011, sob pena de invalidação dos atos por se ter ampliado poderes que não estão previstos nas disposições normativas. Não foi o que se verificou na auditoria aferida. Houve violações aos direitos da Impugnante, com o lançamento de ofício formalizado mediante prova colhida de forma ilegal. O posicionamento jurisprudencial que se firmou tanto no STJ quanto no STF é o de que não há possibilidade da fiscalização, mesmo com intervenção da autoridade policial (art. 200 do CTN), possa apreender documentos sem autorização judicial. São conferidos à fiscalização os poderes para realização de quaisquer diligências, no interior da empresa, exceto a apreensão de documentos sem autorização judicial. Conforme se depreende do documento 25, em diversas oportunidades a Impugnante foi compelida a entregar livros e documentos fora do estabelecimento empresarial. Essa é uma prática reiterada das Fiscalizações Tributárias, que exige a Fl. 2771DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.772 15 entrega de documentos e informações fora da sede social, sob pena de agravamento das multas ou até mesmo de caracterização de embaraço à fiscalização. No caso em tela essa situação foi aferida em diversas oportunidades, tudo documentado conforme se demonstra com precisão no procedimento de fiscalização. As provas que foram produzidas fora do estabelecimento empresarial, portanto, devem ser consideradas provas obtidas por meios ilícitos, diante da afronta ao art. 195 do CTN. Dessa forma, é indispensável que se declarem nulos todos os documentos que foram analisados pela Fiscalização Tributária fora da sede do estabelecimento empresarial. Como se pode observar, quase todos os documentos foram analisados fora do local sede da Impugnante, razão pela qual não conferem sustentação e validade ao auto de infração ora combatido. Por conseguinte, a nulidade do auto de infração é medida que se impõe, o que desde já se requer. 2.4 Nulidade do Auto de Infração por Falta de Requisito Indispensável de Validade do TIAF No caso em tela, o TIAF quedou silente quanto ao referido prazo, nada mencionando a esse respeito. Portanto, é nulo o referido documento, anulando, por conseguinte, todos os atos de fiscalização, inclusive o auto de infração. O prazo inicial para os procedimentos fiscalizatórios é determinado em 60 (sessenta) dias, podendo ser renovado por sucessivos períodos. No caso em tela, o TIAF foi entregue em 10.04.2013 e a fiscalização deveria ter sido concluída em 09.08.2013. Poderia ter ocorrido a renovação desse prazo, mas a Impugnante nunca foi intimada dessa prorrogação, o que torna nula a fiscalização deflagrada pela autoridade fiscalizadora. [...] O Termo de Ciência da Continuidade do Procedimento Fiscal externado nas fls. 485 do procedimento de fiscalização não é válido exatamente porque não informa qual o prazo em que a auditoria será finalizada, violando diretamente as disposições do dispositivo legal acima transcrito. A obrigação de manter um prazo mínimo e máximo para conclusão dos trabalhos dos Auditores Fiscais está previsto no art. 196 do CTN, cuja redação assim se apresenta: O documento 25 do procedimento de fiscalização não está firmado por pessoa habilitada a tanto, sendo certo que na data aposta do referido documento, a fiscalização tinha plena ciência de quem eram os representantes legais, já havia se apossado dos atos constitutivos e sabia da nulidade que estava sendo praticada. Mesmo assim persistiu no erro. Quando não houver prorrogação do prazo de fiscalização e o Auditor Fiscal continuar os procedimentos, há verdadeira Fl. 2772DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.773 16 nulidade, eis que estará atuando sem poderes para tanto, conforme especificam com precisão os dispositivos legais acima transcritos. E importante salientar que o procedimento de fiscalização foi iniciado em 10.04.2013 e finalizou com a lavratura do auto de infração entregue à Impugnante em 27.09.2013. Para que seja dada validade ao procedimento de fiscalização, a legislação processual tributária exige que o Auditor Fiscal tenha autorização para tanto. Não é o que se observa no caso em tela. Os trabalhos de auditoria e fiscalização iniciaram com vício no TIAF, pois não indicaram o prazo para sua conclusão. Não satisfeito com a irregularidade, em junho fora expedido termo de prorrogação (documento 25) que foi entregue à pessoa não habilitada para representar a Impugnante. E mesmo que se entenda que o referido termo de prorrogação cumpre com sua função, ainda assim não trouxe o prazo para conclusão dos trabalhos. E se, ainda com todas essas violações, o referido termo for considerado válido, há violação aos dispositivos acima transcritos porque extrapolou o prazo de 60 dias. Enfim, por mais que se queira dar validade ao procedimento de fiscalização, há inegável desleixo por parte da autoridade fiscalizadora, que não cumpriu com as exigências legais. Some a toda essa questão o fato de que em setembro de 2013 a cidade de Blumenau ter passado por mais uma enchente. Esse evento não causou muita destruição à cidade, mas diante dos alertas das autoridades, muitos cidadãos retiraram previamente seus pertences para evitar as perdas que comumente são acarretadas à população desta cidade. Com isso, diversos colaboradores da Impugnante foram liberados para cuidar de suas famílias e a cidade parou por praticamente uma semana. Os prejuízos com situações como essas são evidentes e causam redução no faturamento. Aliado a todas essas intempéries, a Impugnante ainda precisou dar atenção à Fiscalização Tributária que se fez presente em diversas ocasiões sem autorização para tanto, pois os prazos do TIAF e do termo de prorrogação já haviam expirado. Portanto, não havendo cumprimento das determinações externadas no art. 33 do Decreto n° 7.574/2011 e no art. 196 do CTN, resta declarar a nulidade do TIAF e, por conseguinte, de todo o procedimento de fiscalização. 3 RAZÕES DE FATO QUE TOLHEM DE VALIDADE O AUTO DE INFRAÇÃO ORA COMBATIDO E OS DOCUMENTOS COLHIDOS NO PROCEDIMENT O DE FISCALIZAÇÃO (DOCUMENTO 25) Acaso não haja acolhimento de nenhuma das preliminares, a Impugnante demonstra que apenas com a análise da situação de fato é possível encontrar irregularidades na constatação narrada pela auditoria e demonstrar que a nulidade do auto de infração é medida necessária. Fl. 2773DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.774 17 Como será demonstrado nos próximos itens, a auditoria parte de premissa equivocada, constituída mediante opinião desprovida do indispensável substrato probatório. 3.1 Inexistência de "Empresa de Fachada" O Relatório Fiscal (documento 25) concluiu, indevidamente, que a Impugnante teria constituído uma sociedade empresária "de fachada" para alocar parte de seus funcionários. Ainda narra que o objetivo da constituição dessa suposta sociedade irregular seria [...] burlar a legislação fiscal, com o intuito de esconder a ocorrência do fato gerador da contribuição previdenciária. Essas premissas não são verdadeiras. A sociedade empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. não foi constituída com o objetivo descrito no Relatório Fiscal. O objetivo e fundamento de consumição da referida sociedade está demonstrado em todas as entrevistas realizadas com os sócios tanto da sociedade referida quanto da Impugnante. As sociedades da família Krauss não possuem a mesma linha de comando, não estão sediadas no mesmo local e não operam com o mesmo objeto social, são distintas, tendo sido constituídas dessa forma através dos motivos acima declinados. O Relatório Fiscal quer fazer crer que pelo fato dos sócios serem membros da mesma família, então teriam burlado a fiscalização tributária. As entrevistas, contudo, demonstram o contrário. As informações colhidas também demonstram posicionamentos diversos daquela conclusão oportunizada pelo Relatório Fiscal. A análise de determinados fatos isolados não pode ser dissociada do contexto fático, sob pena de se atingir objetivo diverso daquele esperado pela sociedade. Assim, pelos documentos acostados à presente impugnação bem como pelos depoimentos dos sócios colhidos nas entrevistas (documento 25), fica demonstrado que a realidade narrada até este momento é a que representa a verdade dos fatos. Por conseguinte, as conclusões do Relatório Fiscal não são válidas e nem verdadeiras, eis que ficou comprovado nesta defesa que: a) a sociedade empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. não é e nunca foi "empresa de fachada", tendo sido constituída por força das divergências de opinião entre pai e filhos, sendo administrada exclusivamente pelo Sr. Osvaldo, sem interferência dos respectivos filhos; b) a Impugnante é sociedade empresária administrada por Jaison e Carlos (irmãos), sem interferência, do Sr. Osvaldo. Aliás, a divergência de opiniões é que foi o fator fundamental de constituição das sociedades, já que os membros da família não mais conseguiam trabalhar com o mesmo objeto social. Diante dos fatos e argumentos ora apresentados, está demonstrado com precisão que entre a Impugnante e a sociedade empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. não há mesma sede, objeto e linha de comando. Por conseguinte, o Fl. 2774DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.775 18 auto de infração não tem como subsistir, devendo ser anulado, o que desde já se requer. 3.2 Inexistência de Prática Fraudulenta e de Sonegação de Contribuições Previdenciárias Os documentos anexados à presente defesa, aliados às provas colhidas na auditoria, demonstram que não ocorreu a prática de nenhuma atividade fraudulenta, tampouco a sonegação de quaisquer tributos. As ásperas acusações efetuadas no Relatório Fiscal não se coadunam com a idoneidade tributária da Impugnante, que sempre amou se forma lícita, cumprindo com seus desígnios sociais. Não há, por essa razão, intuito de fraude ou de sonegação de contribuições previdenciárias na atuação da Impugnante. 3.3 Nulidade de Prova: Entrevistas com Colaboradores e Terceiro Um dos elementos de prova que está demonstrado no Relatório Fiscal se refere à entrevistas com terceiros. Os entrevistados não possuem vínculo direto com a administração das sociedades referidas nesta defesa. Essas provas são nulas, conforme se analisa neste item. 3.4 Impropriedade do Uso da Lista de Ramais, Relação de Aniversariantes e Colaboradores A Impugnante efetivamente terceirizou parte de sua produção contratando a Transportes Gasparzinho Ltda. EPP., especialmente nos momentos em que havia maior demanda e não se encontrava mão de obra disponível no mercado local de trabalho. Essa prática, contudo, não viola qualquer disposição legal e é, inclusive, prática utilizada pela RFB que terceiriza serviços como limpeza, segurança e atendimento. Como se pode verificar, a prática da terceirização, nesse caso, também é lícita. 3.5 Inviabilidade das Ações Trabalhistas como Prova nestes Autos Essas provas não são admissíveis. Primeiro porque em nenhuma das ações houve sentença condenatória determinando que a terceirização era ilícita. Segundo porque a auditoria está utilizando como verdade absoluta pedidos que foram efetuados pelos autores daquelas ações e que demonstram a inexistência de qualquer ilícito. Terceiro porque para a relação de emprego (que é diversa da relação tributária) o tomador e o prestador do serviço são subsidiariamente responsáveis pelo adimplemento do crédito trabalhista. Ademais, as informações prestadas pelos interrogados nas fls. 6/12 acima mencionadas são conflitantes. A única conclusão que se pode obter dos documentos referidos é de que não havia um comando único entre a Impugnante e Transportes Gasparzinho Fl. 2775DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.776 19 Ltda. EPP. Portanto, não há como se utilizar ações trabalhistas cujo mérito não foi apreciado para demonstrar a suposta prática de ilícitos tributários (que na verdade jamais ocorreram). 3.6 Procuração Outorgada a Carlos Alberto Krauss Por si só, a existência de Procuração não demonstra que havia o efetivo exercício da administração pelo outorgado. De outra sorte, o Sr. Carlos ainda esclareceu os motivos da existência dessa procuração. Os esclarecimentos foram efetuados na entrevista. Segundo consta do relato do Sr. Carlos, na ocasião da outorga dos poderes o Sr. Osvaldo passava por sérias problemas de saúde e, por essa razão, temerosos de que o procedimento cirúrgico poderia não restar exitoso (total ou parcialmente), haveria necessidade de ter alguém que pudesse honrar com o pagamento dos salários (principal preocupação do Sr. Osvaldo). O que merece atenção especial é o fato de que em nenhum momento houve a produção de documento ou até mesmo de mera alegação de que o Sr. Carlos administrava a sociedade Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. A auditoria não juntou um cheque, um cartão de banco ou qualquer documento comercial ou fiscal assinado pelo Sr. Carlos. E o mais importante: a auditoria apurou crédito tributário, nestes autos, referente ao período 01/2008 a 13/2008; a procuração é de 2012. Assim, não há prova alguma e nem indícios de que o Sr. Carlos efetivamente administrou a sociedade referida. 3.7 Prestação de Serviços com Exclusividade Sustenta que não há irregularidades na forma como a terceirização (lícita) realizada entre as sociedades mencionadas. 3.8 Inadequação da Via Eleita com a Apresentação de Informações sobre Faturamento, Número de Empregados, Mass a Salarial, Despesas e Frota O Relatório Fiscal trouxe informações falaciosas e tendentes a deturpar a realidade que foi minudentemente avaliada pela auditoria. Quando o referido documento menciona que o faturamento da Impugnante é maior do que o da sociedade Transportes Gasparzinho Ltda. EPP., mesmo com menor número de funcionários, há notória violação às questões de fato, pois não se atentou para a forma de atuação de ambas as sociedades. Mas a Impugnante esclarece o tema, suprindo a falta acarretada pelo Relatório Fiscal. Como já dito, a Impugnante, pode determinação de seus sócios, labora com o transporte de cargas para longas distâncias, bem Fl. 2776DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.777 20 como realiza parte da distribuição das mercadorias nas localidades próximas ao destino. A auditoria realizada sabia dessas informações, com precisão, pois teve amplo acesso a todos os documentos, inclusive ao ativo imobilizado. Com relação às despesas e às frotas, como ambas as sociedades laboram em áreas diversas do ramo de transporte, é evidente que há diferentes bens constituindo o ativo imobilizado, sendo que esta prática não acarreta quaisquer máculas ou irregularidades. Portanto, a narrativa externada no Relatório Fiscal quanto ao tema ora posto não merece acolhida para fins de dar sustentabilidade à manutenção do auto de infração, que merece ser anulado. 3.9 Funcionários com Atividades Administrativas Como já comprovado em mais de uma oportunidade durante esta peça de defesa, as duas sociedades laboram em áreas diversas. A atividade da Impugnante é transportar a mercadoria, recebendo a do cliente em uma cidade e levandoa até outra localidade previamente determinada. A sociedade empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP., por sua vez, atua em parte desse processo de transporte, viabilizando a carga e descarga das mercadorias na cidade de Blumenau. Por essa razão, não precisa manter uma estrutura administrativa complexa e nem uma sede social com diversos funcionários. A maior parte das funções administrativas é concentrada na pessoa do Sr. Osvaldo. O restante da parte burocrática é realizado pela assessoria e consultoria contábil. Eventualmente há necessidade de solicitar um auxílio ao departamento de Recursos Humanos da Impugnante, o que foi efetuado em tão raras ocasiões que poucas foram as menções dessa prática pelo Relatório Fiscal. Assim, a narrativa apresentada pela auditoria não se coaduna com a realidade vivenciada e nem com os documentos que foram analisados durante o trâmite dos trabalhos. 3.10 Conclusões Apresentadas no Relatório Fiscal Após toda a narrativa apresentada pela auditoria (Impugnante nos itens 3.1 a 3.9 desta peça), houve a conclusão indevida de que a família Krauss, por ter relações comerciais entre, as suas respectivas sociedades empresárias, pratica terceirização ilícita e constitui empresa fictícia. Atuando desse modo, a auditoria deturpa os fatos e traz ao procedimento de fiscalização apenas parte da realidade fática, o que evidencia o intuito de constituir crédito tributário pelo lançamento de ofício e não o de verificar o fato jurídico para aferir se é gerador ou não de tributo. Fl. 2777DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.778 21 Desse modo, incide a auditoria em diversas violações legais, tais como as externadas em dispositivos do CTN e do Decreto n° 7.574/2011. 3.11 Aplicação da Multa Qualificada em seu Percentual Máximo No caso dos autos, diante de toda a narrativa efetuada no Relatório Fiscal, houve a imposição de multa no percentual de 150%, mediante a constituição de multa de ofício qualificada nos termos do art. 35A da Lei n° 8.212/1991 e no art. 44, inciso I e § I o da Lei n° 9.430/1996. É evidente que as duas sociedades envolvidas neste auto de infração não praticaram ilícito doloso tributário. O único fato que foi considerado para a aplicação da penalidade e principalmente da suposta conduta dolosa foi o de sócios de ambas as sociedades são membros da mesma família. Portanto, não ficou evidenciado o dolo, o que tolhe de validade a imposição de multa de ofício no percentual aferido. 3.12 Solidariedade dos SóciosAdministradores pelo Adimplemento de Obrigações Tributárias da Impugnante Quer fazer crer a auditoria que se deve responsabilizar solidariamente os sóciosadministradores pelo crédito tributário lançado de ofício. O que se fez foi uma verdadeira desconsideração da personalidade jurídica administrativa, mas sem a observância dos requisitos necessários. Na realidade, o Relatório Fiscal tenta repristinar o já declarado inconstitucional art. 13 da Lei n° 8.620/1993, que foi expurgado do ordenamento jurídico através de decisão do STF na análise do Recurso Extraordinário n° 562.276/PR (julgamento nos termos do art. 543B do CPC). Portanto, é inegável que não há como responsabilizar solidariamente os sóciosadministradores pelos débitos tributários da sociedade. 3.13 Prática de Crime Contra a Ordem Tributária e a RFFP Mesmo que houvesse, em tese, a tipicidade em relação ao crime previsto no art. 337A do CP, ainda assim não é permitido ao Auditor Fiscal enviar a RFFP para o MPF, por força do art. 83, caput da Lei n° 9.430/1996. A violação a essa determinação enseja, em tese, a prática do crime previsto no art. 316, § I o do CP. Assim sendo, a eventual prática de crime contra a ordem tributária somente poderá ser objeto de RFFP após o término do presente processo administrativo. 4 FUNDAMENTOS DE MÉRITO 4.1 Utilização de Presunções e Ficções Jurídicas e o Procedimento de Lançamento do Crédito Tributário Fl. 2778DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.779 22 No caso dos autos é notório que a auditoria efetuada na Impugnante se utilizou de presunções e ficções jurídicas para fins de lançar o tributo mediante auto de infração. Essa prática é vedada pela legislação, pois a obrigação tributária é ex lege, ou seja, tem seus limites, requisitos e minúcias previstas na legislação. É nesse sentido que se manifesta o art. 3º do CTN. Como é possível observar a análise perfilhada nos itens 2 e 3, a auditoria partiu de uma falsa premissa, não analisando a questão de fato, não verificando o histórico de cada uma das sociedades e nem apreciando com acuidade as informações que foram apresentadas nas entrevistas. Os documentos colhidos e apresentados pelo procedimento de fiscalização não são suficientes a corroborar um lançamento de ofício da forma como efetuado, especialmente quanto à questão de definição do dolo. Por essa razão, é possível presumir que a auditoria constituiu o crédito tributário através de presunções e ficções jurídicas. Ao invés de buscar a verdade real, a auditoria se concentrou em alguns fatos que, se analisados isoladamente, lhe eram favoráveis, explorou esses fatos e lavrou o auto de infração. A forma com a qual a família Krauss passou a explorar o ramo de transportes foi esclarecida nas entrevistas. Se os irmãos não conseguem mais trabalhar juntos e se cada um possui clientes diversos, patrimônio e sede sociais diversas, não há como obrigálos a atuarem sob a mesma sociedade, notadamente porque não há affectio societatis. 4.2 Dedução dos Valores Pagos a Título de SIMPLES pela Sociedade Empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. O auto de infração merece ser anulado, pois contém valores lançados que já foram recolhidos, em parte, a título de SIMPLES. No caso em tela, a auditoria incluiu como base de cálculo da contribuição previdenciária descrita no art. 22 da Lei n° 8.212/1991, o valor integral das remunerações pagas aos colaboradores da sociedade empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. No entanto, esta última sociedade efetuou recolhimentos a título de SIMPLES, desde o ano de 2004. Dessa forma, houve inegável tributação em duplicidade, pois se está tributando o mesmo fato gerador mediante dois regimes tributários distintos: SIMPLES e lucro real. Como não se encontram, no procedimento de fiscalização, no auto de infração ou em qualquer outra planilha do documento 25 a dedução dos valores já recolhidos, o lançamento de ofício contém valores que já foram adimplidos, razão pela qual deve ser anulado. 4.3 Responsabilidade Tributária dos Sócios Fl. 2779DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.780 23 A prática de conferir responsabilidade tributária solidária entre a sociedade e os sócios é vedada pelo ordenamento jurídico e representa uma repristinação do já declarado inconstitucional art. 13 da Lei n.º 8.620/1993. A exegese acerca da expressão "infração de lei" tem como melhor entendimento a infração da legislação comercial ou civil, excluindose a tributária. A infração mencionada pelo dispositivo acima transcrito não pode ser entendida como infração às disposições legais tributárias, porque tal interpretação levaria à responsabilização solidária e ilimitada de todos os sócios, diretores e acionistas de quaisquer pessoas jurídicas, sendo estas de Direito Público ou Privado. Enfim, o simples e mero não recolhimento do tributo não é fato que pode ser utilizado para poder redirecionar qualquer lide (judicial ou administrativa) aos sócios, diretores ou administradores da sociedade, conforme pacífico entendimento do STJ. O primeiro requisito que se encontra, para responsabilização dos diretores, é a existência do dolo ao afrontar o Estatuto Social ou as determinações dos textos do Direito Positivo que regem as operações mercantis. O dolo não se presume. O dolo deve ser comprovado, de plano, pela autoridade fiscalizadora, no Relatório Fiscal (inexistente no caso dos autos). Como não se encontram presentes nenhum desses elementos, desde já não haveria como atribuir qualquer responsabilidade ao sócio. Esta é a orientação da jurisprudência, há longa data, dominante nos Tribunais Superiores. Somente com a demonstração de afronta à lei, ao contrato social ou estatuto, devidamente resguardado o direito ao contraditório e ampla defesa, poderá haver um redirecionamento dos débitos para o sócio administrador ou acionista, o que, de fato, não ocorreu no caso em tela. Portanto, demonstrado ficou o entendimento jurisprudencial unânime no sentido de que não há nenhuma evidência probatória capaz de legitimar a inclusão dos sócios administradores da Impugnante como responsáveis solidários pelo adimplemento do crédito tributário proveniente do lançamento ora combatido. 4.5 Redução da Multa Qualificada Pelo que se depreende do auto de infração, a multa aplicada foi de 150%, ou seja, o percentual máximo. Esse percentual é incompatível com a realidade fática e viola flagrantemente as normas jurídicas que disciplinam o tema. Isso ocorre porque a majoração da multa além do percentual mínimo deve ser justificada, o que não ocorreu de forma clara e precisa, apenas sendo efetuada mediante presunções e diante das sociedades serem de membros da mesma família. Fl. 2780DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.781 24 A multa ora imputada à Impugnante é formal, possuindo caráter de penalização. Em nenhuma hipótese esta multa poderá ser entendida como uma forma de indenização referente à mora. Este é o posicionamento exarado pelo Judiciário e muito bem discernido pelo eminente Sacha Calmon Navarro Coelho, que transcreve parte de decisão judicial, conclusiva para o deslinde da controvérsia: Desse modo, exigir a multa ora combatida corresponde a verdadeiro enriquecimento sem causa, ocasionado pela afronta à CF/1988, em especial no que diz respeito ao princípio do não efeito confiscatório (art. 150, inciso IV). Assim sendo, não há como acolher a multa aplicada no percentual previsto na no auto de infração, sendo necessária a sua redução, neste momento, aos percentuais mínimos previstos em lei. A pena aplicada à Impugnante possui caráter nitidamente confiscatório. A multa exigida tem o caráter nitidamente punitivo. Mesmo que outra denominação lhe seja dada, punitiva é sua única característica. 4.4 Envio da RFFP para o MPF No caso em tela é necessário rever o ato praticado pelo Auditor Fiscal, eis que o mesmo declara no Relatório Fiscal que já elaborou o RFFP. O documento não pode ser encaminhado ao MPF antes do término deste processo administrativo, sob pena de incidência do funcionário público no crime tipificado no art. 316, § I º do CP. Portanto, a Impugnante requer que o Auditor Fiscal seja intimado a não encaminhar para a RFFP para o MPF, conforme ponderações legais acima oportunizadas. 5 – PEDIDOS Diante do exposto, requer: a) recebimento da presente, bem como dos documentos que seguem anexos com intimação da Procuradoria da Fazenda Nacional para, querendo, possa se manifestar sobre o feito, diante das decisões das matérias arguidas nesta defesa constantes em decisões do STJ (art. 543C do CPC) e do STF (art. 543B do CPC), conforme determinação do art. 19, §§ 5 o e 7o da Lei n° 10.522/2002 com as alterações da Lei n° 12.844/2013; b) declaração da suspensão da exigibilidade do crédito tributário, nos termos do art. 151, inciso III do CTN, permitindo a expedição de Certidão Positiva com Efeitos de Negativa em favor da Impugnante; c) preliminarmente, a anulação do auto de infração e, por conseguinte, do lançamento tributário de ofício, externado no Fl. 2781DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.782 25 procedimento de fiscalização anexo (documento 25), pelos seguintes motivos: c l ) violação ao art. 194 do CTN (fundamentação no item 2); c.2) violação ao art. 195 do CTN (fundamentação no item 2); c.3) irregularidades formais do auto de infração, violando, assim, o art. 196 do CTN e art. 33, § 3o do Decreto n° 7.574/2011 (fundamentação no item 2); c.4) nulidade do auto de infração por força de violação ao art. 10, inciso III do Decreto nº 70.235/1972 e art. 39, inciso III do decreto nº 7.574/2011, haja vista as irregularidades na explanação dos motivos que implicaram a imposição do percentual da multa de mora e de ofício; d) não sendo acolhidos nenhum dos pedidos preliminares, requer, no mérito, a declaração de nulidade do auto de infração constante do lançamento tributário de ofício, formalizado mediante o procedimento de fiscalização anexo (documento 25), pelo motivo de utilização de ficções e presunções para constatação da situação fática, violando as disposições do art. 3º do CTN e arts. 5º, inciso II e 150, inciso I da CF/1988 (fundamentação no item 4); e) não sendo acolhidos totalmente quaisquer dos pleitos externados nos itens "c" e "d", requer, sucessiva e subsidiariamente: e.l) redução das multas (de mora e de ofício), para percentual único inferior a 20%, nos termos do entendimento firmado pelo STF e de acordo com as disposições do art. 112 do CTN (fundamentação no item 4); e.2) sejam anulados os Termos de Responsabilização Solidária dos sócios administradores da Impugnante, nos termos do remansoso posicionamento jurisprudencial, bem como da exegese do art. 135, inciso III do CTN (fundamento no item 4); f) intimação do Auditor Fiscal que lavrou o auto de infração para que não encaminhe RFFP ao MPF até o término deste processo administrativo, nos termos do art. 83, caputài Lei n° 9.430/1996, advertindoo de que a violação ao dispositivo acarreta, em tese, a prática do crime previsto no art. 316, § 1º do CP; g) o Procurador que esta subscreve manifesta interesse em se fazer presente na data do julgamento desta Impugnação, razão pela qual requer a intimação da data da sessão de forma pessoal, sendo possível o envio de correspondência física para o endereço constante na Procuração ou mediante correspondência eletrônica a ser encaminhada para gustavo@fvaadvogados.adv.br; A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador (BA) lavrou Decisão Administrativa textualizada no Acórdão nº 1535.262 da 7ª Turma da Fl. 2782DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.783 26 DRJ/SDR, às fls. 2.486/2.513, julgando procedente o lançamento e mantendo o crédito tributário em sua integralidade. Recordese: “ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2012 CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS DESTINADAS A OUTRAS ENTIDADES E FUNDOS (TERCEIROS). INCIDÊNCIA. Compete à Secretaria da Receita Federal do Brasil a arrecadação e fiscalização das contribuições devidas a Terceiros (Entidades e Fundos). ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCALASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2012 MPF. PRORROGAÇÃO DE PRAZO. A intimação, após a expiração do prazo inicial do MPF, exigindo a exibição de documentos por parte da empresa submetida a procedimento fiscal, demonstra tacitamente a continuidade dos trabalhos, sendo desnecessário que do ato conste menção expressa à prorrogação haja vista a possibilidade de controle do sujeito passivo pelo sítio eletrônico da Receita Federal do Brasil. NÃO SUSPENSÃO DO PROCESSO DE LANÇAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. A suspensão da exigibilidade do crédito tributário protege o devedor contra atos de cobrança da autoridade administrativa, mas não impede o lançamento que, nos termos do Código Tributário Nacional, é atividade vinculada e obrigatória. CARÁTER CONFISCATÓRIO DA MULTA. Não é confiscatória a multa exigida nos estritos limites do previsto em lei para o caso concreto, não sendo competência funcional do órgão julgador administrativo apreciar alegações de ilegalidade ou inconstitucionalidade da legislação vigente. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA DE 150%. Sempre que restar configurado pelo menos um dos casos previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502, de 30 de novembro de 1964, o percentual da multa de que trata o inciso I, do artigo 44, da Lei n.º 9.430/1996 deverá ser duplicado. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido” A Recorrente e os demais interessados foram cientificados da decisão de 1ª Instância no dia 23/05/2014, conforme Avisos de Recebimento fl. 2.515. Fl. 2783DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.784 27 Inconformada com a decisão exarada pelo órgão julgador a quo, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário às fls. 2.517/2.676, com as seguintes considerações: “[...] Por acórdão proferido pela 7ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador (BA), a Impugnação interposta pelo Recorrente foi julgada improcedente e o lançamento de ofício constituído mediante Auto de Infração foi integralmente mantido. A decisão foi proferida mediante julgamento secreto e sem a prévia intimação do Recorrente ou de seu Procurador, mesmo diante de requerimento expresso para tanto. Pugna pela declaração de nulidade do Auto de Infração objeto desta discussão, conforme razões que seguem abaixo. PRELIMINARMENTE 2.1 Nulidade da Decisão por Notório Cerceamento de Defesa Inicialmente cumpre esclarecer que desde a data da lavratura do Auto de Infração o Procurador que esta subscreve vem adotando todas as posturas necessárias para que tenha acesso aos autos em formato eletrônico. Apesar de diversas diligências terem sido efetuadas diretamente à Delegacia de Blumenau/SC, até o presente momento se alega que há problemas no cadastramento de Advogados para ter acesso aos autos no formato administrativo. Por essa razão, há notório cerceamento de defesa no caso em tela, pois o Advogado que está efetuando os procedimentos de defesa do Recorrente até o presente momento não tem acesso aos autos no formato eletrônico, mesmo com procuração física apresentada juntamente com a Impugnação. Mais grave do que esse cenário é fato de que o Recorrente também não tem acesso aos autos eletrônicos, simplesmente porque há dificuldades em permitir o acesso do mesmo às referidas informações. É preciso elucidar que tanto o Recorrente quanto o Advogado que esta subscreve possuem Certificação Digital e têm acesso ao eCAC, mas por uma situação ainda não esclarecida por parte da própria Receita Federal do Brasil, até o momento ambos não tiveram acesso a qualquer processo administrativo em formato eletrônico. A demonstração do alegado pode ser facilmente detectada com a consulta aos processos administrativos que estão cadastrados em nome do Procurador e do próprio Recorrente, além do documento que segue anexo. Na data da entrega dos documentos eletrônicos, a fiscalização apresentou ao Recorrente apenas uma pasta zipada com documentos até as fls. 902. A partir dessa página, diante da Fl. 2784DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.785 28 impossibilidade de acesso aos autos e da fiscalização não ter entregue os documentos ao Recorrente, não há como saber se existe ou não Relatório Fiscal. Os documentos anexos comprovam o alegado e a perícia pode constatar que o documento eletrônico (que está na posse do Procurador do Recorrente e está disponível para perícia) contém apenas a paginação até as fls. 902 dos autos. Tece as mesmas considerações lançadas na sua peça impugnatória, e, ao final, sustenta estar provado que o Advogado habilitado nos autos não tem acesso à íntegra do processo digital, razão pela qual pleiteia a nulidade do julgamento proferido pela 7ª Turma da Delegacia de Salvador (BA), determinando à Delegacia de Blumenau/SC que inclua o Advogado Gustavo Nascimento Fiúza Vecchíetti (OAB/SC 15.422) como Procurador do Recorrente para o presente processo administrativo e, ato seguinte, lhe conceda o prazo de 30 (trinta) dias para oportunizar a defesa administrativa (Impugnação). 2.2 Nulidade da Decisão por Violação ao Devido Processo Legal Instituição de Tribunal de Exceção Não acolhido o pleito formulado no item 2.1, ainda há outra nulidade flagrante no julgado que ora se pede a nulidade ou a reforma: instituição de Tribunal de Exceção sem competência para processar e julgar o feito. O Recorrente tem domicílio fiscal em Blumenau/SC, o que é confirmado e declarado pelo próprio julgado de primeiro grau. O processo de fiscalização ocorreu igualmente na cidade de Blumenau e todos os atos processuais foram praticados na referida localidade. O Anexo IV à Portaria RFB n° 1.403/2013 (documento anexo) demonstra que em Florianópolis/SC há Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, sendo que naquela localidade há 6 (seis) Turmas, com jurisdição sobre o Estado de Santa Catarina. Portanto, a competência para processamento e julgamento do presente feito deve ser efetuada perante a DRJ com competência definida pelo domicílio fiscal do Recorrente. O Regimento Interno da RFB não permite o redirecionamento da Impugnação interposta pelo Recorrente a qualquer uma das DRJs existentes. O art. 233, caput, da Portaria MF n° 203/2012 não autoriza o redirecionamento do julgamento da Impugnação a qualquer uma das DRJs. Os dispositivos seguintes (especialmente os arts. 234 a 239) igualmente não esclarecem que a Impugnação poderá ser redirecionada a qualquer uma das DRJs, por conveniência ou qualquer outro motivo elencado pela RFB. Portanto, o que se verifica no caso em tela é o julgamento da Impugnação do Recorrente por um órgão colegiado distante do Fl. 2785DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.786 29 domicílio fiscal e sem justificativa ou dispositivo autorizador que lhe atribua competência para tanto. Há, no caso em tela, verdadeira instituição de Tribunal de Exceção, vedado pela CF/1988 (art. 5º, inciso XXXVII). Por essa razão, o Recorrente pugna pela nulidade do julgamento efetuado pela 7ª Turma da DRJ de Salvador (BA), requerendo, ainda, o encaminhamento dos autos à DRJ de Florianópolis (SC) para apreciação e julgamento dos pedidos externados na Impugnação. 2.3 Nulidade da Decisão por Violação aos Princípios do Contraditório e da Ampla defesa Não sendo acolhidos os pleitos externados nos itens 2.1 ou 2.2, o Recorrente demonstra que ainda há nulidade no julgado proferido pelo órgão de primeiro grau. O Procurador do Recorrente, apesar de não ter acesso aos autos do processo eletrônico (já provado no item 2.1), fez requerimento expresso na Impugnação para que pudesse acompanhar as discussões do Colegiado e apresentar razões de defesa mediante sustentação oral. Ainda requereu que fosse intimado da data do julgamento com razoável antecedência. O pedido não foi acolhido. O Recorrente ou seu Procurador não foram intimados da data do julgamento, mesmo que o fossem, não poderiam participar das discussões do órgão colegiado e, ainda, não lhe foi oportunizada a participação nas discussões através de apresentação de memoriais ou sustentação oral. A situação discutida nesse momento enseja notória violação aos princípios do contraditório, ampla defesa e, igualmente, do devido processo legal. No Estado Democrático de Direito não há cabimento para julgamentos secretos, especialmente por parte de órgão vinculado ao Poder Executivo Federal. O art. 37, caput, da CF/1988 é taxativo ao elencar que os órgãos públicos obedecerão aos princípios da legalidade e ao da publicidade (dentre outros). Ainda cumpre salientar que o art. 133 da própria CF/1988 dispõe que o Advogado é indispensável à administração da Justiça, sendo inviolável por seus atos e manifestações no exercício da profissão. A Lei n° 8.906/1994 prevê, no art. 7o , os direitos do Advogado, sendo que o inciso X assim dispõe: [...] Não existem dispositivos legais que violem as determinações acima elencadas, ou seja, não há normas que permitam às DRJ vedarem o acesso aos Advogados devidamente constituídos em processos administrativos. Fl. 2786DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.787 30 Além desses argumentos, em todos os julgamentos onde houver discussão (tal como no presente) mediante órgão colegiado, a intervenção do Advogado é um direito assegurado por Lei Nacional (Lei n° 8.906/1994), além de ter suporte no Texto Constitucional (art. 133 da CF/1988). Por todas essas razões, não é possível que o ordenamento jurídico pátrio consagre violações aos direitos dos cidadãos para permitir julgamento secreto de ato tão relevante quanto a incidência tributária mediante lançamento de ofício. Nenhum julgamento poderá ser secreto, especialmente para o Advogado que está constituído no feito. Essa é a exegese do Decreto n° 70.235/1972, da Lei n° 8.906/1994 e da CF/1988. Assim sendo, o Recorrente pugna para que a decisão de primeiro grau seja anulada e outro julgamento seja proferido, com intimação do Recorrente e/ou de seu Procurador e que este último possa participar da sessão, oportunizando razões mediante sustentação oral, nos termos da legislação já enaltecida. 3 NO MÉRITO 3.1 Análise dos Fatos e das Provas que Norteiam a Discussão Através da narrativa entabulada na decisão, o Relator apresentou os fatos que motivaram a decisão da Turma quanto ao mérito dos pedidos formulados na Impugnação. Como se pode perceber, não houve uma apreciação das provas e dos argumentos jurídicos oportunizados no processo de fiscalização. O que se percebe é uma análise fática do colegiado com notória incompatibilidade às determinações processuais, entabuladas nos Decretos n°s 70.235/1972 e 7.574/2011. Os arts. 63 e 65 do Decreto n° 7.574/2011 exigem que o julgador deva apreciar livremente a prova, mediante motivação para tanto. Isso não ocorreu no caso em tela. Como se pode perceber, os inúmeros fatos que foram apresentados nos autos pela Impugnação não foram sequer combatidos ou considerados. Se a Turma entende que os mesmos não são verdadeiros, deveria ter declarado essa situação e explicado os motivos. Da mesma forma, quando analisou as provas colhidas durante o ato de fiscalização, era necessário analisar as provas apresentadas tanto pela fiscalização quanto pelo contribuinte. O que se efetuou nos presentes autos foi uma completa a total ausência quanto à análise dos fatos e das provas apresentadas pelo Recorrente. O acórdão limitouse a adotar toda a postura entabulada no suposto relatório fiscal do qual o Recorrente não teve acesso e indeferir os argumentos jurídicos do Recorrente. Não houve análise dos fatos oportunizados na Impugnação e nem fundamentação sobre a análise das provas que estão Fl. 2787DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.788 31 delineadas com a Impugnação. O que se verifica é a notória intenção de manter a integralidade do auto de infração, ignorando por completo as alegações e os relevantes fatos narrados e oportunizados na Impugnação. Por essa razão, a decisão da 7ª Turma da Delegacia de Salvador deve ser declarada nula. A fim de elucidar a questão e demonstrar a veracidade e propriedade das razões que acomete o Recorrente, os fatos que norteiam a verdade real sobre o tema posto são elucidados nas próximas linhas. Como será demonstrado nos próximos itens, a fiscalização partiu de premissa equivocada, constituída mediante opinião desprovida do indispensável substrato probatório. As premissas entabuladas no eventual relatório fiscal do qual o Recorrente não teve acesso não são verdadeiras. A sociedade empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. não foi constituída com objetivo ilícito. O objetivo e fundamento de constituição da referida sociedade está demonstrado em todas as entrevistas realizadas com os sócios tanto da sociedade referida quanto do Recorrente. Para demonstrar a impropriedade da conclusão obtida no suposto Relatório Fiscal do qual o Recorrente não teve acesso, é preciso esclarecer qual a forma de atuação de cada uma das empresas da família Krauss. A auditoria tinha conhecimento da verdade dos fatos e, de forma pouco louvável, manteve uma linha de conclusão completamente diversa da coerência ventilada nas provas colhidas. O Recorrente e a sociedade Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. são constituídas por sócios que possuem vínculo de parentesco. Além dessas sociedades, ainda há outras duas que são de propriedade de membros da família Krauss, que não possuem relevância com o caso em tela. Em 1981 o Sr. Osvaldo Krauss iniciou a atuação no ramo de transportes, sendo sócio do Recorrente juntamente com sua esposa e dois irmãos. Na época, o Sr. Osvaldo possuía cinco filhos que não mantinham idade para gerenciar a sociedade. A maior parte deles já trabalhava na área do transporte, apesar de serem jovens. À medida que os filhos do Sr. Osvaldo foram atingindo a maioridade e diante da autuação na sociedade empresária Transportadora Ociani Ltda., passaram a opinar sobre a forma de administração. A família sempre se manteve unida, gerindo a sociedade da forma mais adequada possível. Ao longo dos anos, os problemas no setor de transportes foram se diversificando e acarretando divergências de opinião entre os irmãos. Dentre os maiores problemas que existem na área do transporte, a CN£P» arrolou os seguintes: Fl. 2788DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.789 32 a) precária condição das rodovias brasileiras; b) falta de investimento e de financiamento para a troca da frota; c) elevado custo operacional, especialmente em relação ao combustível; d) acentuado nível de acidentes; e) elevado custo dos demais insumos; f) dificuldade de angariar mão de obra, especialmente para condução de veículos para o transporte à longa distância. Todos os problemas que foram descritos acima estão comprovados mediante estudos desenvolvidos pela CNT cujas menções foram acostadas à Impugnação. O principal descontentamento existente entre os membros da família Krauss ocorreu em relação à dificuldade de transporte à longa distância. Tanto o Sr. Osvaldo quanto os filhos foram motoristas e conduziram cargas para diversas localidades do país. Era comum que as viagens durassem mais de 30 dias, sendo que no início, o Sr. Osvaldo e o Sr. Carlos chegavam a ficar até 90 dias viajando. Essa situação acarreta prejuízos diretos e imediatos com a família, que foi o principal motivo pela mudança de atuação na sociedade. A ausência do lar somada aos problemas já citados acima fez com que os irmãos, entre si, e o pai, começassem a repensar a forma de atuação no ramo de transportes. A maior problemática foi a de que quatro opiniões diversas surgiram e a família não mais se entendia. Por essa razão, entre o final da década de 1990 e o início do ano 2000 a família resolveu separar os ramos de atividade. Todos esses fatos estão provados nos autos, especialmente quanto às entrevistas que foram conduzidas pela autoridade fiscalizadora. Quatro formas de atuação no mercado de transportes, então, surgiram e cada grupo seguiu cursos diversos. A família se separou e começou a atuar da seguinte forma: a) Carlos e Jaison passaram a atuar com o transporte de longa distância e a distribuição de cargas em determinadas cidades, tendo a sede social em Blumenau/SC; b) Jefferson, juntamente com outro sócio que não é membro da família, passou a explorar a distribuição de cargas nas imediações da cidade do Rio de Janeiro; c) Eduardo e Everson, não tendo interesse em viajar e nem em montar uma estrutura para atendimento a vários clientes, receberam a oferta de uma grande rede de supermercados da região de Blumenau/SC e passaram a trabalhar exclusivamente para esse cliente, efetuando o transporte de cargas do gênero supermercadista, na região do Vale do Itajaí; Fl. 2789DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.790 33 d) o Sr. Osvaldo, não tendo mais idade para viajar e nem para conduzir veículos, juntamente com sua nora, passaram a explorar o fornecimento o transporte local de cargas, bem como a mão de obra para carga e descarga das mercadorias. O mercado, contudo, possuía (e ainda possui) uma carência incomensurável de mão de obra para atuar seja na área de condução dos veículos, seja para proceder à carga e descarga de mercadorias, além das entregas locais. Por ter experiência acentuada e ter sido condutor de veículos pesados por muitas décadas, o Sr. Osvaldo é pessoa que conhece muitos profissionais do ramos de transportes. Sua facilidade em contatar profissionais dessa área, aliado à idoneidade e credibilidade, fazem com que muitos com este queira trabalhar. E desse modo, se verificou, a partir de 2004, que este poderia suprir a demanda do mercado nesse segmento. Portanto, esse foi o fundamento para a constituição dessa sociedade empresária, no ano de 2004. Essa assertiva, por si só, já demonstra que não é possível sustentar as afirmações efetuadas no eventual e inexistente Relatório Fiscal. As sociedades da família Krauss não possuem a mesma linha de comando, não estão sediadas no mesmo local e não operam com o mesmo objeto social. São distintas, tendo sido constituídas da forma e pelos motivos acima declinados. Alegar algo de forma diversa é utilizar silogismo, deduções e presunções sem o competente instrumento probatório adequado. Foi exatamente nessa linha de ser inexistente). O Auditor quis apresentar a solução para um problema de família que já ocorria há mais de uma década: instituir uma ordem de comando único; o Auditor esperava conseguir o que nem mesmo o Sr. Osvaldo e sua esposa conseguiram, ou seja, amenizar a situação conflituosa entre os irmãos durante todos esses anos. Senhores Julgadores, o Auditor não tem provas de que havia uma cadeia única de comando porque nunca existiu essa situação. Ademais, as empresas foram instituídas desta forma exatamente porque os pais não conseguiram manter a ordem a paz na família e os irmãos não conseguem trabalhar sob uma única ordem de comando. ISSO ESTÁ CLARO E PROVADO COM VÁRIOS DEPOIMENTOS E DIVERSOS DOCUMENTOS. ESSAS PROVAS FORAM CONSIDERADAS COMPLETAMENTE INEXISTENTES PELO JULGAMENTO DE PRIMEIRO GRAU E SEQUER FORAM MENCIONADAS NO ACÓRDÃO. O JULGAMENTO QUE SE PEDE A NULIDADE FOI FIRMADO EM PREMISSAS TOTALMENTE FALACIOSAS E EM PROVAS INEXISTENTES. O suposto comando único das empresas, alegado pelo Auditor, não foi identificado, sequer no inexistente Relatório Fiscal. E não há qualquer documento no procedimento de fiscalização quanto àquele que supostamente seria o detentor do poder de comandar ambas as sociedades. É evidente que essa inexistência de único comando não foi provada porque não há comando único das sociedades. Cada uma das sociedades possui sócios distintos que administram os seus"' respectivos objetos sociais. Fl. 2790DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.791 34 Portanto, ao inexistente Relatório Fiscal faltou essa prova e sobraram alegações fáticas desprovidas de comprovação. É preciso frisar, e repetir detidamente, que os sócios e os objetivos sociais de ambas as sociedades são diversos. Essa demonstração ficou enaltecida com as entrevistas realizadas pelos sócios e demonstrado com a vasta documentação angariada no procedimento de fiscalização. No processo de fiscalização estão acostados o ato constitutivo e as alterações da sociedade empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. Estes documentos demonstram que a referida sociedade foi constituída em 01.09.2004 tendo dois objetos sociais: a) transporte rodoviário de cargas em geral; b) serviços de carga e descarga em geral. A referida sociedade possuía no quadro societário o Sr. Osvaldo Krauss e suas noras Kátia Simone Mannrich e Rita de Cássia de Oliveira Krauss, estas últimas que realizavam pequenos serviços burocráticos e administrativos. O que se constata, portanto, é que tanto o objeto social quanto os sócios e a sede da referida sociedade sempre foram diversos dos elementos de empresa do Recorrente. Essa constatação é suficiente para demonstrar que a sociedade empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. foi constituída por sócios diversos do Recorrente e para atuar em ramo de atividade que não se confunde com o deste. O julgamento faz menção de que o inexistente Relatório Fiscal quer fazer crer que pelo fato dos sócios serem membros da mesma família, então teriam burlado a fiscalização tributária. A mesma exegese foi adotada pelo julgamento de primeiro grau. As provas colhidas nos autos (especialmente as entrevistas com os envolvidos e com diversos colaboradores), contudo, demonstram o contrário. As informações colhidas também demonstram posicionamentos diversos daquela conclusão oportunizada pela fiscalização. A análise de determinados fatos isolados não pode ser dissociada do contexto fático, sob pena de se atingir objetivo diverso daquele esperado pela sociedade. O que se verificou no caso em tela é que desde a primeira intervenção a intenção da auditoria sempre foi a de lavrar auto de infração, a qualquer custo e mesmo que sem provas cabais. Essa realidade fica demonstrada com a forma de apresentação dos documentos e dos fatos, pois diversas informações não foram abordadas e restaram ausentes nas manifestações da fiscalização. Essas informações, tais como as ora apresentadas, representam o contexto integral e não apenas fatos ou documentos isolados que podem levar a uma incorreta conclusão da situação. Fl. 2791DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.792 35 Assim, pelos documentos acostados à Impugnação e ao presente Recurso Ordinário, bem como pelos depoimentos dos sócios colhidos nas entrevistas e nos depoimentos dos demais colaboradores, fica demonstrado que a realidade narrada até este momento é a que representa a verdade dos fatos. Por conseguinte, as conclusões da fiscalização e do julgamento de primeiro grau não são válidas e nem verdadeiras, eis que a verdade real é de que: a) a sociedade empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. não é e nunca foi "empresa de fachada", tendo sido constituída por força das divergências de opinião entre pai e filhos, sendo administrada exclusivamente pelo Sr. Osvaldo, sem interferência dos respectivos filhos; b) o Recorrente é sociedade empresária administrada por Jaison e Carlos (irmãos), sem interferência do Sr. Osvaldo. Aliás, a divergência de opiniões é que foi o fator fundamental de constituição das sociedades, já que os membros da família não mais conseguiam trabalhar com o mesmo objeto social. Outra informação muito pertinente e que tem notória interferência na situação oportunizada à Vossas Senhorias é que tão logo houve a lavratura dos autos de infração, a autoridade fiscalizadora cancelou sumariamente o CNPJ de Transportes Gasparzinho Ltda. EPP., por entender que nem as Impugnações protocolizadas eram suficientes a manter o efeito suspensivo. Na ocasião, a autoridade referida adotou o procedimento por entender que a sociedade em questão era uma "empresa de fachada". Irresignada com a decisão (arbitrária e fundada em fatos totalmente inverídicos), a referida sociedade impetrou mandado de segurança perante o Juízo Federal de Blumenau, que declarou a inadmissibilidade de cancelamento do CNPJ respectivo, ou seja, validou a existência da referida sociedade. A partir da decisão (liminar e sentença), a RFB. sequer deflagrou processo administrativo para cancelamento do CNPJ, ou seja, aceitou os fatos de que a sociedade empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. é sociedade válida e não possui qualquer irregularidade quanto à sua constituição ou ao desenvolvimento do seu objeto social. A decisão judicial é esclarecedora e as peças processuais pertinentes se encontram nos documentos anexos, além de serem integrantes dos autos do Mandado de Segurança n° 501400552.2013.404.7205 (consulta disponível em www.jfsc.jus.br). Diante dos fatos e argumentos ora apresentados, está demonstrado com precisão que entre o. Recorrente e a sociedade empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. não há mesma sede, não há mesmo objeto e, igualmente, não há e nunca houve mesma linha de comando. Por conseguinte, o auto de infração não tem como subsistir, devendo ser anulado, porquanto não há provas para a sua subsistência. Fl. 2792DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.793 36 3.2 Encaminhamento dos Autos Previamente à Procuradoria da Fazenda Nacional O acórdão julgou improcedente o pedido de encaminhamento dos autos à Procuradoria da Fazenda Nacional, nos termos do art. 19 da Lei n° 10.522/2002. Segundo entendeu o julgado, o dispositivo referido não tem relação com o processo administrativo, não sendo necessária e nem possível o encaminhando dos autos ao órgão referido, pois o mesmo não integra a estrutura da Receita Federal do Brasil. Pedese licença para divergir de forma veemente do entendimento firmado na decisão. Isso porque a legislação determina claramente que é necessário evitar prejuízos à União Federal com decisões administrativas que conflitem com o entendimento jurisprudencial pacificado pelos Tribunais Superiores (STJ e STF especificamente). Para tanto, há necessidade de manifestação do órgão de defesa judicial da Fazenda Nacional. Em 2013 a Lei n° 12.8448 alterou o art. 19 da Lei n° 10.522/20029 , determinando que a Receita Federal do Brasil deve reproduzir em suas decisões o entendimento firmado pela jurisprudência do STJ e do STF, quando verificadas as circunstâncias dos arts. 543B e 543C do CPC. Da mesma forma, deverá ocorrer a revisão de ofício do lançamento tributário quando o crédito já lançado de ofício estiver em desacordo com o entendimento jurisprudencial acima firmado. A questão mais relevante do dispositivo é a determinação no seu § 4o que determina a constituição de crédito tributário pela órgão fiscalizador nos casos que menciona. A redação do dispositivo está assim estruturada: [...] As disposições integrantes da nova legislação processual, veiculadas por lei ordinária, devem ser precedidas de manifestação por parte da Procuradoria da Fazenda Nacional. Diante das inovações legislativas, e pelo fato de que o lançamento tributário foi efetuado em desacordo com diversas matérias e julgados do STF e do STJ, a intimação da Procuradoria da Fazenda Nacional era indispensável para o regular processamento do feito, conforme previsto no art. 19, §§ 4º , 5o e T da Lei n° 10.522/2002. Diante da improcedência do pedido, o julgamento a quo deve ser anulado para que haja intimação da Procuradoria da Fazenda Nacional a fim de, querendo, se manifestar sobre a Impugnação e, somente após transcorrido o prazo para manifestação, novo julgamento ser efetuado. [...]” No mais, tece extenso arrazoado reprisando os mesmos argumentos lançados em sua peça de impugnação, e, ao final, requer: Fl. 2793DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.794 37 “4 – PEDIDOS Ex positis, requer: a) preliminarmente, seja declarada a nulidade da decisão proferida pela 7ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador (BA), nos presentes autos, diante: a.1) do cerceamento de defesa proveniente da vedação de acesso aos autos pelo Recorrente e seu Procurador (fundamentação no item 2.1); a.2) deferido o pleito anterior, seja determinando à Delegacia de Blumenau/SC que inclua o Advogado Gustavo Nascimento Fiúza Vecchietti (OAB/SC 15.422) como Procurador do Recorrente para o presente processo administrativo e, ato seguinte, lhe conceda o prazo de 30 (trinta) dias para oportunizar nova defesa administrativa Impugnação (fundamentação no item 2.1); a.3) da falta de competência jurisdicional para julgamento do feito pela Delegacia de Salvador (BA) (fundamento no item 2.2); a.4) deferido o pleito anterior, sejam os autos remetidos para julgamento na Delegacia de Florianópolis (SC) (fundamento no item 2.2); a.5) do cerceamento de defesa, com notória violação aos princípios do devido processo legal, contraditório, ampla defesa, legalidade, publicidade e de negativa de vigência das prerrogativas e direitos do Advogado devida e regularmente inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, por força do julgamento secreto proferido pela 7ª Turma da Delegacia de Salvador (BA) (fundamento no item 2.3); a.6) deferido o pleito anterior, seja designado novo julgamento de primeiro grau, com intimação do Recorrente e/ou de seu Procurador, e que este último possa participar da sessão, oportunizando razões mediante sustentação oral, nos termos da legislação já enaltecida; b) no mérito: b.1) nulidade do auto de infração, diante da inexistência de provas que confirmem a narrativa efetuada pela fiscalização, pela ausência de fundamentação da decisão em relação às provas e aos pedidos formulados na Impugnação e diante da utilização de presunções e ficções jurídicas vedadas pela legislação (fundamentação externada no item 3.1); b.2) seja declarada a nulidade do julgamento a quo, diante da falta de intimação da Procuradoria da Fazenda Nacional para se manifestar sobre o feito, nos termos do art. 19, §§ 4o , 5o e 7o da Lei n° 10.522/2002 (fundamento no item 3.2); b.3) deferido o pleito "b.2", seja a Procuradoria da Fazenda de Blumenau/SC intimada para, querendo, se manifestar nos Fl. 2794DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.795 38 presente feito e, ato seguinte, encaminhados os autos para julgamento pela autoridade competente (fundamento no item 3.2); b.4) nulidade do auto de infração, e do julgado de primeiro grau, por violações aos poderes e limites da fiscalização (fundamentos no item 3.3); b.5) seja declarada a nulidade do auto de infração diante do não cumprimento das determinações externadas no art. 33 do Decreto n° 7.574/2011 e no art. 196 do CTN quanto aos prazos de cumprimento dos trabalhos da fiscalização (fundamento no item 3.4); b.6) seja declarada a nulidade do auto de infração, com reforma da decisão de primeiro grau, por não ser possível utilizarse de ficções e presunções em contrariedade à prova produzida nos autos, com a consequente nulidade do lançamento com fundamento no art. 3o do CTN e nos arts. 5º , inciso II e 150, inciso I da CF/1988 (fundamento no item 3.5); b.7) caso mantido o auto de infração: b.7.1) que sejam deduzidos dos valores, os numerários que já foram pagos a título de SIMPLES, haja vista a identidade dos fatos jurídicos tributários (fundamentação no item 3.6); b.7.2) seja reduzida a base de cálculo das contribuições previdenciárias, com a exclusão da incidência tributária sobre as seguintes verbas (fundamentos no item 3.7): b.7.2.1) terço constitucional de férias; b.7.2.2) auxíliodoença; b.7.2.3) abono assiduidade e folgas não gozadas; b.7.2.4) licençaprêmio não gozada; b.7.2.5) auxíliocreche; b.7.2.6) auxílioescolar; b.7.2.7) ressarcimento de despesas pela utilização de ferramentas próprias b.7.2.8) ajuda de custo; b.7.2.9) auxíliobabá; b.7.2.10) auxílio combustível; b.7.2.11) gratificação semestral; b.7.2.12) férias usufruídas; b.7.2.13) adicional de horas extras; b.7.2.14) aviso prévio indenizado; Fl. 2795DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.796 39 b.7.2.15) adicional noturno; b.7.2.16) adicional de insalubridade; b.7.2.17) adicional de periculosidade; b.7.2.18) salário família; b.7.2.19) aviso prévio; b.7.2.20) décimo terceiro salário proporcional; b.8) seja determinada a redução da multa qualificada para o percentual mínimo (fundamentos no item 3.8); c) havendo o acolhimento total ou parcial dos pleitos acima externados ou não sendo os mesmos acolhidos, requer, ainda, a declaração de nulidade dos termos de responsabilização solidária dos sóciosadministradores do Recorrente, por não ter sido provado o dolo e nem ter ocorrido quaisquer das situações previstas nos arts. 71 a 73 da Lei n° 4.502/1964 (fundamentos no item 3.9); d) requer a intimação do Recorrente ou de seu Procurador para que se façam presentes na sessão de julgamento, inclusive declarando, desde já, o intuito de apresentar defesa mediante sustentação oral; e) por fim, requer o recebimento do presente, bem como dos documentos acostados e o julgamento de todos os pleitos ora apresentados com o consequente conhecimento e provimento do presente recurso para o especial fim de que sejam deferidas as preliminares com a consequente: e.1) baixa dos autos em diligência para perícia no arquivo 13971723076201302_COPIA_3D3D3D8.zip, ou a imediata declaração de nulidade do auto de infração por não ter sido disponibilizado ao Recorrente o Relatório Fiscal; e.2) nulidade da decisão de primeiro grau; e.3) envio dos autos à Delegacia de Blumenau/SC; e.4) renovação do prazo de 30 (trinta) dias para que o Recorrente possa apresentar nova Impugnação; e.5) após a apresentação da Impugnação, seja a Procuradoria da Fazenda Nacional de Blumenau/SC intimada para, querendo, se manifestar a respeito destes autos; e.6) com ou sem manifestação da Impugnação, sejam os autos remetidos para julgamento pela Delegacia de Florianópolis/SC; e.7) tão logo haja pauta para julgamento no referido órgão julgador, seja o Recorrente e/ou seu Procurador intimados da referida data e também para acompanhamento do julgamento, manifestando, desde já, o interesse em apresentar sustentação oral; Fl. 2796DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.797 40 e.8) não sendo acolhidas as preliminares, sejam declarada a nulidade do auto de infração ou a redução dos valores conforme pleiteado acima.” É o relatório. Fl. 2797DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.798 41 Voto Vencido Conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa – Relatora 1. DOS PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE 1.1. DA TEMPESTIVIDADE A Recorrente e os demais interessados foram cientificados da r. decisão em debate no dia 23/05/2014 conforme Avisos de Recebimento às Fls. 2.262; 2.264 e 2.266, e o presente Recurso Voluntário foi apresentado, TEMPESTIVAMENTE, no dia 23/06/2014, razão pela qual CONHEÇO DO RECURSO já que presentes os requisitos de admissibilidade. 2. DAS PRELIMINARES DE NULIDADE 2.1 DA NULIDADE DA DECISÃO CERCEAMENTO DE DEFESA A Recorrente suscita a preliminar acima descrita ao fundamento de que desde a data da lavratura do Auto de Infração o seu Procurador regularmente constituído vem adotando todas as posturas necessárias para que tenha acesso aos autos em formato eletrônico. No entanto, apesar de diversas diligências efetuadas diretamente à Delegacia de Blumenau/SC, até o presente momento se alega que há problemas no cadastramento de Advogados para ter acesso aos autos no formato administrativo. E por essa razão, entende que há cerceamento de defesa no caso em tela, pois o Advogado que está efetuando os procedimentos de defesa da Recorrente até o presente momento não tem acesso aos autos no formato eletrônico, mesmo com procuração física apresentada juntamente com a Impugnação. Entendo que o inconformismo não merece acolhida. Com efeito, durante a ação fiscal não se faz ainda presente nessa fase procedimental, investigatória, o princípio do contraditório e da ampla defesa, o qual somente passa a ser obrigatoriamente observado na fase processual administrativa, que é inaugurada com a apresentação da peça impugnatória. De outra banda, não incorre em cerceamento do direito de defesa do Autuado o lançamento tributário cujo Relatório Fiscal e demais relatórios complementares descrevem, de maneira clara e precisa, os fatos jurídicos apurados, os procedimentos de Fiscalização, a motivação do lançamento, os dispositivos legais violados, a matéria tributável e seus acréscimos legais, bem como os fundamentos legais que lhe dão esteio jurídico. Nesse sentido, observase que a após ser notificada do Auto de Infração em comento, a ora Recorrente apresentou sua extensa e detalhada defesa (Impugnação de fls. 986/1.103), rebatendo todos os argumentos lançados no Auto de Infração. Ademais, após o julgamento de primeira instância, a Recorrente e os demais interessados (sócios administradores) foram devidamente cientificados da decisão no dia 23/05/2014, conforme Avisos de Recebimento às Fls. 2.262; 2.264 e 2.266, e, mais uma vez, Fl. 2798DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.799 42 tiveram acesso a todas as informações necessárias à compreensão das razões que levaram à manutenção do crédito tributário, tendo apresentado recurso voluntário de 160 laudas em que combate todos os fundamentos da decisão. Diante do exposto, entendo que restou comprovado o exercício do contraditório e da ampla defesa, motivo pelo qual voto por negar provimento à nulidade por cerceamento de defesa. 2.2 NULIDADE DA DECISÃO POR VIOLAÇÃO AO DEVIDO PROCESSO LEGAL INSTITUIÇÃO DE TRIBUNAL DE EXCEÇÃO A afirma Recorrente que o seu domicílio fiscal é na cidade de Blumenau/SC, o que é confirmado e declarado pelo próprio julgado de primeiro grau. Sustenta que o processo de fiscalização ocorreu igualmente na cidade de Blumenau/SC e todos os atos processuais foram praticados na referida localidade. Discorre no sentido de que o Anexo IV à Portaria RFB n° 1.403/2013 demonstra que em Florianópolis/SC há Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, sendo que naquela localidade há 6 (seis) Turmas, com jurisdição sobre o Estado de Santa Catarina. Nesse sentido, entende que a competência para processamento e julgamento do presente feito, em primeira instância, deveria ter ocorrido perante a DRJ com competência definida pelo domicílio fiscal do Recorrente. Sustenta que há, no caso em tela, verdadeira instituição de Tribunal de Exceção, vedado pela CF/1988 (art. 5º, inciso XXXVII). Por essa razão, a Recorrente pugna pela nulidade do julgamento efetuado pela 7ª Turma da DRJ de Salvador (BA), requerendo, ainda, o encaminhamento dos autos à DRJ de Florianópolis (SC) para apreciação e julgamento dos pedidos externados na Impugnação. No tocante à nulidade aventada, entendo que não assiste razão ao Recorrente. Cumpre destacar que as Delegacias da Receita Federal de julgamento julgam processos relativos aos contribuintes circunscritos às unidades da Secretaria da Receita Federal, observandose a matéria em julgamento. Vale dizer, as DRJ possuem competência material e territorial, conforme disciplinado em ato próprio. Nesse sentido, a portaria RFB 1.006/2013, vigente na data em que foi proferida a decisão recorrida, disciplinava a competência, territorial (circunscrição) e por matéria, das Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ), relacionando as matérias de julgamento por Turma. No Anexo I da referida Portaria há a indicação da “localização” das DRJ, da “circunscrição territorial” e das “matérias”. Consta do referido Anexo que tanto as DRJ de Santa Cataria/SC quanto as DRJ/BA possuem competência para o julgamento da matéria afeta à contribuições sociais previdenciárias, em suas respectivas circunscrições. Com base nessas considerações, rejeito a preliminar de nulidade do julgamento efetuado pela 7ª Turma da DRJ de Salvador (BA). Fl. 2799DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.800 43 2.3 NULIDADE DA DECISÃO POR VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS DO CONTRADITÓRIO E DA AMPLA DEFESA Ainda em sede de preliminar, a Recorrente sustenta que conquanto tenha feito requerimento expresso na Impugnação para que o seu advogado pudesse acompanhar as discussões do Colegiado e apresentar razões de defesa mediante sustentação oral, tal pleito sobrou negado pela Turma julgadora de primeira instância. Com essas considerações, pugna para que a decisão de primeiro grau seja anulada e outro julgamento seja proferido, com intimação do Recorrente e/ou de seu Procurador e que este último possa participar da sessão, oportunizando razões mediante sustentação oral, nos termos da legislação já enaltecida. Em que pese o seu esforço, não prospera o arrazoado da Recorrente. Alegações do gênero vêm sendo seguidamente repelidas pelo judicante, vide, ilustrativamente, a AC nº 504986261.2014.04.7000/PR, j. 16/09/2015 pelo TRF da 4ª Região, e a AMS 11119 SP 001111925.2007.4.03.6100, j. 05/09/2013 pelo TRF da 3ª Região. Isso porque, o artigo 25, inciso I, do Decreto nº 70.235/72, com redação dada pela MP nº 2.15835/01, definiu que as Delegacias de Julgamento da Receita Federal são órgãos de deliberação interna, da qual participam somente os julgadores e não representantes das partes, não havendo tampouco previsão legal para que estas sejam intimadas previamente das sessões decisórias. Portanto, não vislumbro razões para modificar a decisão de origem também quanto a esse ponto. 3. DO MÉRITO 3.1. Análise dos Fatos e das Provas que Norteiam a Discussão A Recorrente sustenta que quando do julgamento de primeira instância não houve uma apreciação das provas e dos argumentos jurídicos oportunizados no processo, e que os inúmeros fatos que foram apresentados nos autos pela Impugnação não foram sequer combatidos ou considerados. Informa que a sociedade empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP não foi constituída com objetivo ilícito, e que o objetivo e fundamento de constituição da referida sociedade está demonstrado em todas as entrevistas realizadas com os sócios tanto da sociedade referida quanto do Recorrente. Nega uma cadeia única de comando porque nunca existiu essa situação e que isso está claro e provado com vários depoimentos e diversos documentos. Alega que essas provas foram desconsideradas pelo julgamento de primeiro grau e sequer foram mencionadas no acórdão. Assim, pretende a nulidade da decisão de primeiro grau, eis que, segundo a recorrente, teria sido firmada em premissas totalmente falaciosas e em provas inexistentes. Contudo, razão não lhe assiste. É que a decisão recorrida enfrentou o tema em debate e concluiu que a Recorrida e a Transporte Gasparzinho Ltda. EPP atuavam sob a mesma Fl. 2800DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.801 44 direção com o único propósito de obter a redução da sua carga tributária, neste caso para as contribuições sociais patronais. Confirase: “[...] Da análise da defesa apresentada, depreendese que toda irresignação da impugnante gira em torno do fato de ter sido desconsiderada, unicamente para fins tributários e previdenciários, a constituição da empresa Transportes Gasparzinho Ltda. EPP, CNPJ 06.981.844/000147, optante pelo SIMPLES, que presta serviços, exclusivamente, para a autuada Transportadora Ociani Ltda., CNPJ n.° 75.785.675/000192. Como conseqüência, a defesa se insurge contra as contribuições sociais lançadas em nome da autuada. Da leitura do Relatório Fiscal podemos citar subsidiariamente a este caso o Código Civil, para abrigar a impecável conduta da autoridade fiscal que revelou, mediante juntada de documentos, a ocorrência de simulação, via interposição de pessoas, consoante art. 167 do Código Civil, in fine: Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. Consoante Relatório Fiscal, os fatos geradores das contribuições sociais, cota patronal atinente às contribuições previdenciárias decorrem das remunerações pagas, devidas ou creditadas, a segurados do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), por serviços prestados efetivamente à empresa autuada, mas que, formalmente, encontravamse registrados na empresa Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. A fiscalização demonstra, detalhadamente, no mencionado Relatório Fiscal e nos documentos juntados que a autuada, no período de 1/2009 a 12/2012, simulou a contratação de empregados por interposta pessoa jurídica, a Transportes Gasparzinho Ltda. EPP, com o objetivo de se eximir ou reduzir o pagamento de contribuição previdenciária, já que esta prestadora de serviço, por ser optante do SIMPLES, concentraria menor carga tributária, sobretudo referente às contribuições sociais. E isso é fato cabalmente demonstrado, pela robusta colação probatória trazida aos autos do processo administrativo tributário, logo, não há falar em presunção. Nesse compasso, para demonstrar cabalmente os atos simulados, perpetrados pela autuada, citaremos, apenas a título de exemplo, as principais causas que levaram o fisco a concentrar e considerar a Transportadora Ociani Ltda. e solidários, como responsáveis tributários pelas contribuições sociais surgidas das prestações de serviço pactuadas formalmente perante a Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. a) A autuada é uma empresa de administração familiar. O Sr. Oswaldo e esposa foram sócios fundadores (fl. 915). Quatro de seus cinco filhos já tiveram passagem pelo quadro societário. Fl. 2801DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.802 45 Atualmente Jaison e Carlos Alberto Krauss são os sócios, mas dois outros filhos têm participação administrativa: Everson e Jefferson Krauss (Doc. 11, às folhas 42 a 112). O Sr. Oswaldo, aparentemente, está afastado da administração, mas tem grande identificação com a empresa e alguns dos seus empregados entendem que ele e a esposa ainda são donos do negócio (Doc. 2, às folhas 5 a 12); b) A Transportes Gasparzinho Ltda. tem como sede de seu único estabelecimento a residência do seu sócio, o Oswaldo (Doc. 36, às folhas 672 a 676); c) A Transportes Gasparzinho Ltda. tem apenas um caminhão e uma centena de trabalhadores registrados com cargos relacionados à atividade de transporte de armazenagem de mercadorias (Doc. 19, às folhas 458 a 459). Não há registros de custos e despesas necessários ao desenvolvimento das atividades; d) O Oswaldo, sócio administrador da Gasparzinho, afirma ser responsável por todas as atividades administrativas da "empresa", no entanto, há diversos elementos comprobatórios, juntados aos autos, de que estas atividades, sobretudo a gestão de recursos humanos, eram realizadas pela Ociani (Doc. 18 e 33, às folhas 177 a 457 e 535 a 656); e e) A autuada foi a única cliente da Gasparzinho no período em análise. É uma transportadora que conta com uma frota de aproximadamente sessenta veículos (Doc. 13, às folhas 121 a 125), mas pouquíssimos funcionários com cargos relacionados à sua atividade fim. Inversamente à Gasparzinho, conta com estrutura administrativa bem estabelecida. Como foi amplamente demonstrado no Relatório Fiscal, Gasparzinho mantinha empregados nela formalmente registrados a serviço da autuada, esta que, de fato, era a real empregadora da mãodeobra alocada na "empresa" optante do SIMPLES. Verificase a ocorrência de uma terceirização ilícita da mãodeobra. Assim, ao afastar os anteparos e os negócios jurídicos artificiais, a autoridade lançadora pode constatar os fatos geradores praticados por este sujeito passivo, efetuando os lançamentos correspondentes, consoante prevê toda a legislação pertinente, conforme veremos. [...] No caso sob análise, entendo que restou cabalmente demonstrado pelo fisco, que o único propósito que conduziu o sujeito passivo a efetivar o conjunto de atos e negócios jurídicos desencadeados a partir da constituição da empresa Transportes Gasparzinho Ltda. EPP, praticamente sob a mesma administração da autuada, sob a mesma condução gerencial, para executar as mesmas atividades, foi pura e simplesmente a intenção de obter a redução da sua carga tributária, neste caso para com as contribuições sociais patronais. Fl. 2802DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.803 46 As provas diretas e indiretas anexadas ao processo administrativo pela autoridade autuante comprovam de forma insofismável, que, apesar da existência formal da Transportes Gasparzinho Ltda. EPP, esta se caracterizava pela mais completa confusão funcional, administrativa, patrimonial e contábil, o que demonstra o acerto do Fisco em apurar as contribuições sociais em um único empreendimento cuja atividade finalística, era e continua sendo os serviços de transportes. [...] Os fatos, já delineados acima e pormenorizados no Relatório Fiscal do presente AI, comprovados pelo Fisco, em seu conjunto, são suficientes para demonstrar de forma irrefutável, a unicidade do empreendimento. [...] Deste modo, devemos aplicar à relação previdenciária o principio da primazia da realidade, que significa que os fatos relativos ao contrato de trabalho devem prevalecer em relação à aparência que, formal ou documentalmente, possam oferecer, o que se encontra em vigor na presente situação. A auditoria não quis a desconsideração da personalidade jurídica da empresa Transportes Gasparzinho Ltda. EPP, porque ao verificar que na prestação de serviços realizados pelas pessoas físicas estavam presentes os elementos que caracterizam a relação de emprego, quais sejam pessoalidade, não eventualidade, subordinação no trabalho e remuneração, efetuou o lançamento das contribuições sociais incidentes sobre as respectivas remunerações, considerando, frisese, para efeitos previdenciários, que as pessoas físicas prestaram serviços, efetivamente, para a autuada na qualidade de segurados empregados. Valendo ressaltar que muitos dos segurados empregados já estavam qualificados e registrados pela empresa Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. Desta forma, permaneceu a relação jurídica existente entre os sócios, urna vez que a sociedade regularmente constituída, somente se desfaz nos termos do Código Civil. No entanto, quanto à incidência das contribuições previdenciárias e sociais, a situação fática constatada pela fiscalização prevalece sobre as disposições formais inseridas nos contratos de natureza civil, firmados entre a autuada e a prestadora de serviços. As evidências trazidas aos autos demonstram que não se está diante de duas empresas, mas, sim, de apenas uma, que promoveu o desmembramento (no papel) de suas atividades, caracterizando simulação, nos termos do art. 167, §1°, do Código Civil (Lei n° 10.406/2002): [...] Fl. 2803DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.804 47 Por tudo, restou demonstrada a intenção da autuada de expor uma falsa verdade no intuito de ludibriar o fisco. A aparência de duas empresas atuando de forma autônoma e independente, inclusive no que diz respeito às informações prestadas a órgãos públicos — apresentação das declarações pertinentes, enquadramento cadastral adotado, contratos sociais, cadastros em órgãos públicos, elaboração das respectivas folhas de salários, entrega de GFIP, escriturações fiscal e contábil independentes, contratações de empregados feitas por cada uma das empresas, permitiu que uma delas optasse pelo sistema instituído pela lei do Simples, importando em redução no recolhimento da carga tributária, uma vez que recebeu tratamento tributário favorecido, ocasionando evasão fiscal.” (grifei) Verificase, portanto, que a lide foi solvida nos limites necessários e com a devida fundamentação, coerência e clareza, ainda que sob ótica diversa daquela almejada pela Recorrente. Ademais, não custa lembrar que, mesmo consoante o artigo 31 do Decreto nº 70.235/72, o julgador administrativo não está obrigado a rebater cada questão levantada pelo contribuinte quando a fundamentação delineada seja suficiente para embasar a decisão. Isso porque, se a fundamentação embasa a decisão, obviamente o julgador apreciou as demais teses e delas discordou. Recordese: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE. DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. INOCORRÊNCIA. O julgador administrativo não está obrigado a rebater todas as questões levantadas pela parte, mormente quando os fundamentos utilizados tenham sido suficientes para embasar a decisão. (CARF, 2ª Seção de Julgamento, 2ª Câmara/1ª Turma Ordinária, Acórdão nº 2201002.671, Relator. Conselheiro Francisco Marconi de Oliveira, Data da Sessão 11/02/2015) Portanto, a Recorrente pode discordar do teor da decisão, mas não tem razão quanto à alegada nulidade, pois o acórdão recorrido está motivado e atende ao princípio da persuasão racional do julgador. 3.2. Encaminhamento dos Autos Previamente à Procuradoria da Fazenda Nacional A Recorrente se insurge contra o acórdão a quo, ao argumento de que este julgou improcedente o pedido de encaminhamento dos autos à Procuradoria da Fazenda Nacional, nos termos do art. 19 da Lei n° 10.522/2002. Pretende a anulação do julgamento de primeira instância para que haja intimação da Procuradoria da Fazenda Nacional a fim de, querendo, se manifestar sobre a Impugnação e, somente após transcorrido o prazo para manifestação, novo julgamento ser efetuado. Compulsando detidamente os presentes autos, verifico que a Recorrente inova na fase recursal ao apresentar tese não levada ao julgado de primeiro grau. Fl. 2804DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.805 48 Analisando o conteúdo das razões de impugnação com as do recurso voluntário, verificase que a recorrente inova nesse último relativamente às alegações “Encaminhamento dos Autos Previamente à Procuradoria da Fazenda Nacional”, pois não foram ventiladas anteriormente. A possibilidade de conhecimento e apreciação de novas alegações e novos documentos deve ser avaliada à luz dos princípios que regem o Processo Administrativo Fiscal Decreto nº 72.235/72, o qual dispõe: Art. 14. A impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento. Art. 15. A impugnação, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, será apresentada ao órgão preparador no prazo de trinta dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência. Art. 16. A impugnação mencionará: (...) III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; (...) § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (...) Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. Da leitura dos dispositivos relacionados acima, resta evidente que a fase litigiosa somente se inicia com a apresentação da manifestação de inconformidade (impugnação) contendo as matérias expressamente contestadas, de forma que são os argumentos submetidos à primeira instância que determinam os limites do litígio. Nesse sentido, este Colegiado tem decidido por não conhecer de matéria que não tenha sido objeto de litígio no julgamento de primeira instância. Confirase: “Acórdão nº 3301002.475 – CARF 3ª Câmara/1ªTurma Ordinária Fl. 2805DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.806 49 Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Anocalendário: 2006, 2007 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL, PRECLUSÃO. O contencioso administrativo instaurase com a impugnação, que deve ser expressa, considerandose não impugnada a matéria que não tenha sido diretamente contestada pelo impugnante. Inadmissível a apreciação em grau de recurso de matéria não suscitada na instância a quo. Não se conhece do recurso quando este pretende alargar os limites do litígio já consolidado, sendo defeso ao contribuinte tratar de matéria não discutida na impugnação. DECADÊNCIA Tendo a contribuinte sido cientificado no transcurso do quinquênio legal não há que se falar em decadência. NULIDADE DO MPF Tendo sido realizadas as prorrogações e inclusões no procedimento de fiscalização, não há que se acolher a nulidade do procedimento. Recurso Voluntário conhecido em parte e na parte conhecida Improvido” Dessa forma, não conheço das inovações recursais relativas às alegações acerca dos itens 3.2 Encaminhamento dos Autos Previamente à Procuradoria da Fazenda Nacional. 3.3. Violação às Atribuições da Fiscalização Tributária Excesso de Poderes e Utilização de Presunções e Ficções Indevidas Sustenta a Recorrente que a auditoria realizada no processo de fiscalização violou regras basilares que se referem ao próprio ato de fiscalização, notadamente frente ao art. 194 do CTN, o Decreto n° 70.235/1972 e o Decreto n° 7.574/2011. Segundo ela, isso teria ocorrido porque, conforme constam dos documentos integrantes do procedimento de fiscalização, referida auditoria não se desenvolveu nos termos pontuados pela legislação ora citada, mas apenas para angariar alguns documentos que foram apresentados de forma a fundamentar um entendimento de que há terceirização irregular. Afirma que essa não é a função da Fiscalização Tributária e não poderia a auditoria ser efetuada da forma como o foi. Prossegue no sentido de que a “auditoria não poderia ter se desenvolvido da forma como apresentado no processo de fiscalização. O que se verificou mediante o ato de fiscalização foi a violação às normas que disciplinam a relação de incidência tributária para que se permitisse a organização de documentos e ‘entrevistas’ voltadas especificamente à lavratura do auto de infração. Tamanho foi o desleixo com os direitos e garantias fundamentais que nenhuma importância foi conferida a um dos mais importantes requisitos do auto de infração: o Relatório Fiscal”. Fl. 2806DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.807 50 Narra que “a auditoria não teve o intuito de aferir quais os motivos da família Krauss ter assumido postura diversa em cada uma das sociedades empresárias. Tampouco foi objeto de investigação os problemas que norteiam o setor de transportes e que culminaram na forma de atuação tanto do Recorrente quanto da sociedade empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP”. Ademais, sustenta que é pacífico o entendimento jurisprudencial no sentido de que não há possibilidade da fiscalização, mesmo com intervenção da autoridade policial (art. 200 do CTN), possa apreender documentos sem autorização judicial, o que não teria sido observado na espécie, pois, em várias ocasiões, a Recorrente foi compelida a entregar livros e documentos fora do estabelecimento empresarial. Por fim, conclui que não houve correta investigação dos motivos de fato que levaram as sociedades empresárias ora mencionadas a se estruturar da forma como estão, e, portanto, houve violação ao art. 194 do CTN por parte da Fazenda Pública, razão pela qual entende que o auto de infração merece ser anulado. Sobre o tema, assim se pronunciou a DJR de origem: “Como já relatado no tópico anterior a fiscalização se pautou dentro dos limites da absoluta legalidade, logo, não há falar em excesso de poderes ou violação de direitos, haja vista que a todo momento, no procedimento fiscal, os sujeitos passivos tinham conhecimento do que estava sendo requerido, analisado e auditado, prova disso tudo são as notificações e termos assinados e anexados aos autos (fls. 3/4, 30/31, 488, 490, 492/493, 533/534, 671 etc.). Ademais, os poderes conferidos à administração tributária autorizam os agentes fiscais proceder a fiscalização tanto em pessoas físicas quanto em pessoas jurídicas, contribuintes ou não, mesmo que se trate de entidade imune ou isenta. Logo, os atos fiscalizatórios decorrem da faculdade outorgada pela Constituição Federal às pessoas políticas quanto à instituição de tributos. Isso justifica e fundamenta todos os atos praticados pela fiscalização, durante o procedimento fiscal, por serem traduzidos como um poderdever, cometido às entidades impositoras, necessário à busca do fato imponível e da contribuição previdenciária sonegada. Demais a mais, das alegações lançadas na defesa, deduzse que os sujeitos passivos fazem confusão quanto à nulidade pelo AI ter sido lavrado fora da repartição, cabe esclarecer que o Decreto n.º 70.235/1972, em seu art. 10, dispõe: ‘Art. 10 O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta e conterá obrigatoriamente: (...) II o local, a data e a hora da lavratura;’ Como se verifica na cabeça do art. 10 acima citado, o AI deve ser lavrado no local da verificação da falta, o que não significa Fl. 2807DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.808 51 no estabelecimento do contribuinte ou outro local onde a falta foi praticada, mas sim onde foi constatada. Dispondose dos elementos suficientes para caracterizar a infração e formalizar o lançamento, o AI pode ser lavrado dentro da própria repartição fiscal, o que não constitui irregularidade e não é motivo para nulidade do lançamento. Não há que se confundir a confecção do AI (processamento de informações), que é um procedimento material, desprovido de qualquer efeito jurídico apriorístico, com lavratura de AI, procedimento formal e produtor de efeitos jurídicos previstos em lei. Caso contrário, o agente seria obrigado a levar seu computador e sua impressora até a sede da empresa ou na residência do contribuinte e lá processar as informações e imprimir o AI. Não há efeito jurídico que se possa extrair de tal raciocínio. Assim, local da verificação da falta não significa local onde a falta foi praticada, mas sim onde foi constatada. O local de verificação da falta está vinculado ao conceito de circunscrição, para prevenir a fiscalização ou prorrogar a competência. Ressaltese que esse entendimento já é sedimentado administrativamente, inclusive com Súmula do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, cito: Súmula CARF nº6: É legítima a lavratura de auto de infração no local em que foi constatada a infração, ainda que fora do estabelecimento do contribuinte.” (grifei). Analisando as razões acima expostas, não vislumbro motivo para modifica las, razão pela qual acolhoas integralmente como fundamentos de decidir. E acrescento. A interpretação pretendida pela Recorrente a respeito do tema seria que o Auto de Infração, obrigatoriamente,, deveria ser lavrado “no local em que realizada a falha”, o que, por outro lado, efetivamente não se apresenta como a mais adequada. Na verdade, o artigo 10 do Decreto nº 70.235/72 possibilita que o agente competente, assim que identificada a falta cometida pelo contribuinte, possa, imediatamente, promover o lançamento, não sendo necessário a sua localização física no estabelecimento do contribuinte faltoso. Por certo, a adequada interpretação aponta no sentido diametralmente oposto àquele pretendido pela Recorrente, não podendo aqui, portanto, de forma alguma ser admitido. Por fim, sobre a alegada impossibilidade do Fisco reter e/ou apreender documentos sem ordem judicial, melhor sorte não socorre à Recorrente. Dispõe o artigo 35 da Lei nº 9.430, de 1996 que “Os livros e documentos poderão ser examinados fora do estabelecimento do sujeito passivo, desde que lavrado termo escrito de retenção pela autoridade fiscal, em que se especifiquem a quantidade, espécie, natureza e condições dos livros e documentos retidos”. Fl. 2808DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.809 52 É de se acrescentar, ainda, que a legislação tributária nacional permite o acesso dos órgãos de fiscalização aos livros e documentos das empresas responsáveis pelo recolhimento de tributos, não sendo estes objetos sigilosos, conforme orientação do art. 195 do Código de Trânsito Nacional. Dessa forma, não há ilegalidade na apreensão dos livros e documentos contábeis durante o procedimento fiscalizatório, sendo que tal conduta prescinde de autorização judicial. A jurisprudência comparece nesse sentido. Confirase: PROCESSUAL PENAL E PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL, ORDINÁRIO OU DE REVISÃO CRIMINAL. NÃO CABIMENTO. CRIME CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA. INÉPCIA DA DENÚNCIA. SENTENÇA CONDENATÓRIA. PRECLUSÃO. NULIDADE DA PROVA. APREENSÃO DE DOCUMENTOS FISCAIS INDEPENDENTE DE MANDADO JUDICIAL. PRECEDENTES DO STJ. APREENSÃO DE DOCUMENTOS PELA ADMINISTRAÇÃO FAZENDÁRIA. POSSIBILIDADE. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. (...) 3. Não há ilegalidade na apreensão de documentos e livros relacionados à atividade de pessoa jurídica por autoridades fiscais, ainda que sem o respectivo mandado judicial. Precedentes. (...) (STJ, 6ª Turma, HC 307.483/MG, Rel. Ministro Nefi Cordeiro, julgado 09/08/2016, DJe 23/08/2016) Em conclusão, tendo sido observadas as previsões da legislação de regência e os princípios norteadores da autuação da Administração Pública, e, ainda, observados os demais direitos e garantias do cidadão contribuinte, também nesta parte, não merece reparo o procedimento da Autoridade Autuante não devendo, pois, prosperar o intentado pela Recorrente. 3.4. Nulidade do Auto de Infração por Ausência de Requisito Fundamental no TIAF Aqui, novamente a Recorrente alega nulidade do procedimento fiscalizatório. Dessa vez, sustenta que o TIAF não possuía os requisitos necessários à sua validade, pois o TIAF foi entregue em 10/04/2013 e a fiscalização deveria ter sido concluída em 09/08/2013. Afirma que poderia ter ocorrido a renovação desse prazo, mas a Recorrente nunca foi intimada dessa prorrogação, o que torna nula a fiscalização. Em relação à alegação de nulidade da lavratura fiscal por suposta violação ao procedimento fiscal, no que tange à ciência do contribuinte quanto ao término do procedimento fiscal fora da vigência do MPF, tal argumento não procede. De proêmio, cumpre esclarecer que de acordo com o artigo 4º da Portaria RFB Nº 3014, de 29 de junho de 2011, vigente à época em que ocorreu o procedimento fiscalizatório, o Mandado de Procedimento Fiscal é emitido exclusivamente de forma eletrônica e a ciência do sujeito passivo se dá por meio da internet através do código de acesso informado no termo de início do procedimento fiscal. Consta dos autos, que o contribuinte foi devidamente cientificado em 10/04/2013 quanto ao início do procedimento fiscal (fls. 3/4). Em consulta ao sítio eletrônico da Receita Federal do Brasil, ao consultar a existência do MPF, digitandose o CNPJ do Fl. 2809DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.810 53 contribuinte, juntamente com o código de acesso n.º 13200042, temse o histórico do MPF, verificandose que o mesmo foi prorrogado até 4/12/2013. O procedimento fiscal foi encenado por meio do Termo de Encerramento do Procedimento Fiscal (TEPF), folha 962, em 27/9/2013, com ciência pessoal do sujeito passivo. Dessa forma, verificase que tanto a lavratura do TEPF como a ciência pelo sujeito passivo se deram na vigência do MPF, isto é, antes de 4/12/2013. O encerramento do procedimento fiscal não se dá com a mera consolidação administrativa do crédito tributário, mas sim pela ciência do sujeito passivo quanto ao TEPF, que, à semelhança do Termo de Início do Procedimento Fiscal (TIPF), visa dar segurança jurídica ao contribuinte quanto aos limites da atividade administrativa, em cumprimento ao disposto no artigo 196, do Código Tributário Nacional (CTN). Assim, somente com a ciência do sujeito passivo quanto ao encerramento do procedimento fiscal é que se tem a conclusão deste, de maneira que se torna irrelevante a data na qual houve a lavratura material do documento de encerramento. Dessa maneira, considerando os preceitos trazidos pela Portaria RFB n.º 3014/2011, o MPF somente se extinguiu quando da ciência do contribuinte quanto ao TEPF, que ocorreu em 27/9/2013, simultaneamente à ciência das lavraturas fiscais. Logo, não resta dúvida que a ciência do contribuinte quanto ao encerramento do procedimento fiscal ocorreu na plena vigência do MPF. Deste modo, cabia à Recorrente acessar as informações relativas à fiscalização, por meio do código de acesso disponibilizado pela Secretaria da Receita Federal, não podendo alegar desconhecimento sobre os atos fiscalizatórios, tampouco nulidade do procedimento. 3.5. Utilização de Presunções e Ficções Jurídicas pela Fiscalização Tributária A contribuinte alega que no caso dos autos é notório que a auditoria efetuada se utilizou de presunções e ficções jurídicas para fins de lançar o tributo mediante auto de infração, e que tal prática é vedada pela legislação. Se insurge no sentido de que “Como é possível observar a análise perfilhada nos itens 2 e 3, a auditoria partiu de uma falsa premissa, não analisando a questão de fato, não verificando o histórico de cada uma das sociedades e nem apreciando com acuidade as informações que foram apresentadas nas entrevistas. Os documentos colhidos e apresentados pelo procedimento de fiscalização não são suficientes a corroborar um lançamento de ofício da forma como efetuado, especialmente quanto à questão de definição do dolo”. (grifei). Entretanto, não vislumbro a alegada presunção por parte da fiscalização. Ao revés, compulsando o Relatório Fiscal (fls. 904/955) e documentos que o acompanham, verificase que a Auditoria demonstra, detalhadamente que a autuada, no período de 1/2009 a 12/2012, simulou a contratação de empregados por interposta pessoa jurídica, a Transportes Gasparzinho Ltda. EPP, com o objetivo de se eximir ou reduzir o pagamento de contribuição previdenciária, já que esta prestadora de serviço, por ser optante do SIMPLES, concentraria menor carga tributária, sobretudo referente às contribuições sociais. Fl. 2810DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.811 54 E isso é fato cabalmente demonstrado, pela robusta colação probatória trazida aos autos do processo administrativo tributário, logo, não há falar em presunção. 3.6. Abatimento dos Valores Pagos a Título de Simples A recorrente pretende o abatimento dos valores pagos a título do SIMPLES NACIONAL. Sustenta que no caso dos autos o lançamento desconstituiu a contabilidade, entendendo que a sociedade empresária Transportes Gasparzinho Ltda. EPP. (que estava no SIMPLES) não existe e os tributos são devidos pelo Recorrente (tributado pelo lucro real). No entanto, em nenhum momento houve abatimento dos valores que efetivamente foram pagos a título de SIMPLES. A DRJ negou provimento com as seguintes considerações: “No Simples Nacional estão incluídos os seguintes impostos e contribuições: Federais: Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS), Contribuição para o PIS/PASEP e Contribuição para a Seguridade Social; Estaduais: Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS); e Municipais: Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS). O ingresso de empresa no Simples Nacional implica o recolhimento mensal por meio de Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS). O recolhimento da contribuição dos segurados empregados e contribuintes individuais é efetuado mediante Guia de Recolhimento da Previdência Social (GPS). Ocorre que consoante o parágrafo 10, do art. 21, da Lei Complementar n.° 123, de 14 de dezembro de 2006, que instituiu o Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (Simples Nacional), os créditos apurados no Simples Nacional não poderão ser utilizados para extinção de outros débitos para com as Fazendas Públicas, salvo por ocasião da compensação de oficio oriunda de deferimento em processo de restituição ou após a exclusão da empresa do Simples Nacional. Reforça este entendimento o disposto no §60, do art. 44, da Instrução Normativa RFB n.º 900, de 30 de dezembro de 2008, a seguir reproduzido: Instrução Normativa RFB n.° 900, de 30 de dezembro de 2008. Art. 44. (..) § 6° É vedada a compensação de contribuições previdenciárias com o valor recolhido indevidamente para o Simples Nacional, instituído pela Lei Complementar n° 123, de 2006, e o Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Simples), instituído pela Lei n° 9.317, de 5 de dezembro de 1996. Fl. 2811DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.812 55 Diante do exposto, está claro que os valores recolhidos para o Simples não podem ser compensados com os valores apurados pela fiscalização neste processo". Entretanto, com a devida venia ao entendimento firmado pela instância a quo, entendo que nesse particular razão assiste à Recorrente. Diz a Súmula CARF nº 76: “Na determinação dos valores a serem lançados de ofício para cada tributo, após a exclusão do Simples, devem ser deduzidos eventuais recolhimentos da mesma natureza efetuados nessa sistemática, observandose os percentuais previstos em lei sobre o montante pago de forma unificada.” Sendo assim, entendo que devem ser deduzidos da base de cálculo das contribuições lançadas os percentuais sobre os montantes pagos de forma unificada sob o regime simplificado. Apenas para ilustrar, esclareço que em relação às contribuições destinadas a Outras Entidades e Fundos, não há que se falar em dedução de recolhimentos efetuados, uma vez que as empresas que aderiram ao SIMPLES NACIONAL não recolhem tributação a terceiros. 3.7. Das Contribuições Previdenciárias A Recorrente questiona a incidência de contribuições sobre auxílio terço constitucional de férias, auxíliodoença, abono assiduidade e folgas não gozadas, licença premio não gozada, auxíliocreche, auxílioescolar, ressarcimento de despesas pela utilização de ferramentas próprias, ajuda de custo, auxíliobabá, auxíliocombustível, gratificação semestral, férias usufruídas, adicional de horas extras, aviso prévio indenizado, adicional noturno, adicional de insalubridade, adicional de periculosidade, salário família, aviso prévio, décimo terceiro salário proporcional. Cita jurisprudência sobre cada item. A DRJ negou provimento ao pedido por entender que o parágrafo 9º, do art. 28, da Lei n.º 8.212/91 enumera taxativamente, as parcelas que não integram o salário de contribuição. Sendo assim, não deveria ser excluído da base de cálculo das contribuições previdenciárias. Entretanto, o Superior Tribunal de Justiça tem feito uma interpretação mais abrangente da referida norma ao admitir a exclusão de certas parcelas ainda que não estejam expressamente previstas no dispositivo legal mencionado. Tal posicionamento está consubstanciado no julgamento do Recurso Especial nº 1.230.957/RS, julgado sob a sistemática do artigo 543C do Código de Processo Civil de 1973, no qual reconheceu a natureza do aviso prévio indenizado, nos seguintes termos: PROCESSUAL CIVIL. RECURSOS ESPECIAIS. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA A CARGO DA EMPRESA. REGIME GERAL DA PREVIDÊNCIA SOCIAL. DISCUSSÃO A RESPEITO DA INCIDÊNCIA OU NÃO SOBRE AS SEGUINTES VERBAS: TERÇO CONSTITUCIONAL DE FÉRIAS; SALÁRIO MATERNIDADE; SALÁRIO PATERNIDADE; AVISO PRÉVIO INDENIZADO; IMPORTÂNCIA PAGA NOS QUINZE DIAS QUE ANTECEDEM O AUXÍLIODOENÇA. Fl. 2812DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.813 56 [...] 2.2 Aviso prévio indenizado. A despeito da atual moldura legislativa (Lei 9.528/97 e Decreto 6.727/2009), as importâncias pagas a título de indenização, que não correspondam a serviços prestados nem a tempo à disposição do empregador, não ensejam a incidência de contribuição previdenciária. A CLT estabelece que, em se tratando de contrato de trabalho por prazo indeterminado, a parte que, sem justo motivo, quiser a sua rescisão, deverá comunicar a outra a sua intenção com a devida antecedência. Não concedido o aviso prévio pelo empregador, nasce para o empregado o direito aos salários correspondentes ao prazo do aviso, garantida sempre a integração desse período no seu tempo de serviço (art. 487, § 1º, da CLT). Desse modo, o pagamento decorrente da falta de aviso prévio, isto é, o aviso prévio indenizado, visa a reparar o dano causado ao trabalhador que não fora alertado sobre a futura rescisão contratual com a antecedência mínima estipulada na Constituição Federal (atualmente regulamentada pela Lei 12.506/2011). Dessarte, não há como se conferir à referida verba o caráter remuneratório pretendido pela Fazenda Nacional, por não retribuir o trabalho, mas sim reparar um dano. Ressaltese que, "se o aviso prévio é indenizado, no período que lhe corresponderia o empregado não presta trabalho algum, nem fica à disposição do empregador. Assim, por ser ela estranha à hipótese de incidência, é irrelevante a circunstância de não haver previsão legal de isenção em relação a tal verba" (REsp 1.221.665/PR, 1ª Turma, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJe de 23.2.2011). [...] (STJ, 1ª Seção, REsp 1230957/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, julgado em 26/02/2014, DJe 18/03/2014) E, de acordo com o artigo 62, § 1º, inciso II, “b” da Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015 (RICARF): Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal; II que fundamente crédito tributário objeto de: a) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 103A da Constituição Federal; Fl. 2813DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.814 57 b) Decisão do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos do art. 543B ou 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), na forma disciplinada pela Administração Tributária; Diante do que determina a norma acima transcrita, devem ser excluídas da base de cálculo o valor relativo ao aviso prévio indenizado, mantendose as demais. 3.8. Da Multa de Ofício Qualificada em 150% A Recorrente se opõe a multa qualificada pelo Fisco. Entende que caso dos autos não há qualquer prova demonstrando as alegações fáticas pontuadas pela fiscalização. A imposição da multa foi justificada pela Autoridade Lançadora por meio de relatório fiscal minudente, onde constatou a prática de sonegação e conluio, conforme artigos 71 a 73 da Lei 4.502/64. Confirase: 98. A aplicação da multa de ofício tem regulação prevista na Lei 9.430/96, conforme art. 44. O inciso II deste dispositivo, com a redação alterada pela Lei 11.488 de 15/06/2007, transcrito a seguir, assim determina sobre a aplicação da multa de ofício: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007). § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007). 99. Os artigos 71, 72 e 73 da Lei 4.502/64 assim dispõem: Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I – da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II – das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento. Fl. 2814DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.815 58 Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 7l e 72. (grifos nosso). 100. Devemos então verificar se os fatos anteriormente narrados, que detalham a conduta da autuada, se encaixam em alguma das definições de evidente intuito de fraude, que estão estampadas nos artigos 71, 72 e 73, acima transcritos. Em caso positivo, de se aplicar a multa qualificada. Ou seja, não cabe aqui avaliar de forma subjetiva se a conduta foi claramente ou evidentemente uma fraude ou não. A avaliação deve ser objetiva, verificando se a conduta se encaixa ou não em algum dos dispositivos citados. E a nova redação do dispositivo deu fim a toda essa discussão. 101. Numa análise objetiva dos fatos aqui apurados frente aos dispositivos legais em comento, não há como não deixar de enquadrar a conduta acima descrita nas definições contidas na Lei 4.502/64, já transcrita. A sonegação, conforme citado artigo, apresenta as seguintes exigências: • Uma ação ou omissão; e • Que esta ação ou omissão seja dolosa; e • Que ela impeça ou retarde o conhecimento pelo Fisco: o da ocorrência do fato gerador; ou o da natureza do fato gerador; ou o das circunstâncias materiais do fato gerador. Já a fraude caracterizase por: • Uma ações ou omissão; e • Que esta ação ou omissão seja dolosa; e • Que ela impeça ou retarde a ocorrência do fato gerador, de forma a reduzir o montante do tributo devido; ou • Que ela exclua ou modifique as características essenciais do fato gerador, de forma a reduzir o montante do tributo devido. 102. Incorrendo o contribuinte em uma das duas situações acima, de se aplicar a multa qualificada. 103. Assim, o contribuinte, ao registrar seus empregados em empresa fictícia com o propósito de se beneficiar indevidamente da tributação reduzida oferecida pelo SIMPLES, praticou, de forma inequívoca, uma ação dolosa, ou seja, intencional e consciente, a qual claramente retardou o conhecimento dos fatos por parte do Fisco, além das reais circunstâncias materiais do fato gerador. Ademais, houve a modificação de característica essencial do fato gerador, uma vez que os montantes da Contribuição Previdenciária devidos foram Fl. 2815DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.816 59 reduzidos, uma vez que tiveram a tributação na forma do SIMPLES. 104. A Ociani não praticou estes atos de forma involuntária, ou incorreu em erro em sua conduta. Restou caracterizada a atitude dolosa. Desta forma, a conduta sob análise amoldase às hipóteses previstas nos artigos da Lei 4.502/64 acima citados. 105. A multa qualificada é aplicável somente no período de vigência da MP 449, ou seja, 12/2009 em diante. Desta forma, [...] 119. Trazendo a linha argumentativa acima descrita para o caso em tela, temos a situação, já anteriormente exposta, que atesta a clara intenção do contribuinte em reduzir o valor de tributo, através do uso de empresa de fachada e a opção ao SIMPLES. A Ociani, objetivando elidir o pagamento de da Contribuição Previdenciária, decidiu, de forma consciente, registrar formalmente a sua mão de obra em empresa fictícia beneficiada com a opção ao mencionado regime simplificado de tributação. Não que a empresa não possa terceirizar parte de suas atividades a prestadoras de serviços beneficiadas pelo SIMPLES. Não é esta a nossa argumentação, mas para aproveitar esta “brecha” na legislação, deveria observar alguns mínimos requisitos, como a contratação de empresas regularmente constituídas (de forma autônoma), independentes nos aspectos patrimoniais e operacionais em relação a contratante, que o objeto do contrato não esteja inserido dentro dos seus próprios objetivos sociais e, principalmente, que não haja subordinação dos empregados da contratada perante a contratante. Ora, em que pese o esforço da Recorrente para tentar justificar a sua conduta, não vislumbro, no caso em apreço, razões para modificar a aplicação ou até mesmo a redução da multa em destaque. Diante do exposto, portanto, deve ser declarada procedente a aplicação da multa qualificada de 150% prevista no artigo 44, inciso I e §1°, da Lei n.° 9.430/1996. 3.9. Da responsabilidade dos sócios A Recorrente pretende a reforma do julgado para excluir a responsabilidade solidária imputada aos sócios. Entende que não há nenhuma evidência probatória capaz de legitimar a inclusão dos sóciosadministradores do Recorrente como responsáveis solidários pelo adimplemento do crédito tributário proveniente do lançamento ora combatido. Entretanto, entendo que a irresignação não merece prosperar. Conforme amplamente demonstrado acima (e detalhadamente descrito no relatório fiscal), os sóciosadministradores, JAISON EDUARDO KRAUSS e CARLOS ALBERTO KRAUSS, durante a administração da Ociani, objetivando elidir o pagamento da Contribuição Previdenciária, decidiram, de forma consciente, registrar formalmente a sua mão de obra em empresa fictícia beneficiada com a opção ao regime simplificado de tributação. As condutas foram todas praticadas conscientemente. A alocação da própria mão de obra em empresa de fachada, criada com único intuito de se elidir da cobrança da Contribuição Previdenciária, foi um ato consciente e voluntário. Fl. 2816DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.817 60 Assim, o contribuinte, ao registrar seus empregados em empresa fictícia com o propósito de se beneficiar indevidamente da tributação reduzida oferecida pelo SIMPLES, praticou, de forma inequívoca, uma ação dolosa, ou seja, intencional e consciente, a qual claramente retardou o conhecimento dos fatos por parte do Fisco. Frente aos fatos acima narrados, não resta dúvida de que as pessoas físicas participaram da irregularidade tributária e tinham interesse comum na situação que constituiu o fato gerador dos tributos ora exigidos neste processo, sendo certo, no meu entender, o enquadramento como responsáveis solidários. Portanto, mantenho a decisão também quanto a este ponto. 3. CONCLUSÃO: Pelos motivos expendidos, CONHEÇO do Recurso Voluntário da recorrente para, rejeitar as preliminares arguidas, e, no mérito, DARLHE PARCIAL PROVIMENTO, nos termos do relatório e voto. É como voto. (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa. Fl. 2817DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.818 61 Voto Vencedor Conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez – Redatora designada. Com a maxima venia, divirjo da Relatora quanto aos recolhimentos efetuados na sistemática do Simples Nacional. Segundo relatado, a recorrente entende que devem ser abatidos os valores recolhidos pela Transportes Gasparzinho Ltda. EPP a título de contribuição patronal previdenciária do montante exigido nestes AIs, ainda que na sistemática do Simples. A teor do §10, do art. 21, da Lei Complementar nº 123, de 2006, que instituiu o Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (Simples Nacional), os créditos apurados no Simples Nacional não poderão ser utilizados para extinção de outros débitos para com as Fazendas Públicas, salvo por ocasião da compensação de ofício oriunda de deferimento em processo de restituição ou após a exclusão da empresa do Simples Nacional. Nesse sentido, a Resolução CGSN nº 94, de 29/11/11, disciplina: Art. 119. A compensação dos valores do Simples Nacional recolhidos indevidamente ou em montante superior ao devido, será efetuada por aplicativo disponibilizado no Portal do Simples Nacional, observandose as disposições desta Seção. (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 21, §§ 5º a 14) (Redação dada pelo(a) Resolução CGSN nº 129, de 15 de setembro de 2016) ... § 5º Os créditos apurados no Simples Nacional não poderão ser utilizados para extinção de outros débitos junto às Fazendas Públicas, salvo quando da compensação de ofício oriunda de deferimento em processo de restituição ou após a exclusão da empresa do Simples Nacional. (Lei Complementar nº123, de 2006, art. 21, § 10) (grifei) No caso, não se está diante de processo de restituição e tampouco de exclusão do Simples Nacional. Logo, não cabe a aplicação da compensação prevista na Resolução CGSN nº 94 e na Súmula CARF nº 76, citada pela Relatora. Cabe destacar ainda que está sendo pleiteada a compensação (abatimento) de supostos créditos de uma outra empresa, Transportes Gasparzinho Ltda. EPP, com débitos da empresa autuada, o que não é possível, pois a compensação somente pode ser realizada entre débitos e créditos do mesmo contribuinte. Fl. 2818DF CARF MF Processo nº 13971.723077/201349 Acórdão n.º 2401004.999 S2C4T1 Fl. 2.819 62 Essa é a inteligência que se extrai do CTN, art. 170: Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. Portanto, incabível a compensação (abatimento) pleiteada pelo Recorrente. Pelo exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez. Fl. 2819DF CARF MF
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Numero do processo: 16682.721161/2012-91
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 05 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Feb 01 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF
Ano-calendário: 2008
NULIDADE DO LANÇAMENTO. EXAME DE DOCUMENTOS
A arguição de nulidade do lançamento em relação aos contratos de prestação de serviço que não foram solicitados e nem examinados em sua profundidade pelo Auditor Fiscal diz respeito à questão de prova da verificação da ocorrência do fato gerador do IRRF. Referida matéria deve ser reservada ao exame do mérito de demanda. O lançamento foi fundamentado e o Fiscal delimitou a base de incidência tributária. Se existem inconsistências relevantes, elas serão analisadas por ocasião da apreciação do mérito.
PLATAFORMAS. NATUREZA DE EMBARCAÇÕES
As plataformas (fixas ou flutuantes) devem ser consideradas como embarcações. Natureza foi conferida aos navios sonda na Solução de Consulta COSIT nº 225/2014 e às plataformas semissubmerssíveis na Solução de Consulta COSIT nº 12/2015.
COLIGAÇÃO DE CONTRATOS. BIPARTIÇÃO ARTIFICIAL. IRRF. ALÍQUOTA ZERO DAS REMESSAS A EMPRESAS ESTRANGEIRAS A TÍTULO DE AFRETAMENTO
A vinculação na execução simultânea de contratos de afretamento e de prestação de serviços é perfeitamente legítima e não autoriza a desconsideração dos contratos pactuados da forma como efetivada no lançamento.
No caso em apreço constata-se que a presunção lançada pela fiscalização para descaracterizar os contratos de afretamento não encontra respaldo na Lei nº 9.481/97 com as alterações estabelecidas pela Lei nº 13.043, de 13 de novembro de 2014, que trouxe em seu bojo a bipartição de contratos como consequência natural do negócio jurídico. Insubsistência da motivação do lançamento.
TRIBUTAÇÃO DAS REMESSAS FEITAS A PARAISOS FISCAIS
Correta a exigência do IRRF à alíquota de 25% no caso dos pagamentos a residentes em paraísos fiscais, conforme art. 8º da Lei nº 9.779/99.
Numero da decisão: 2401-005.149
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso voluntário e afastar a preliminar de nulidade. No mérito, por maioria, dar-lhe provimento parcial para: (i) exonerar o crédito tributário exigido no lançamento, com exceção dos pagamentos realizados em favor de empresas residentes em países de tributação favorecida, em que incide o imposto à alíquota de 25%; e (ii) afastar os juros sobre a multa de ofício, com relação à parte mantida da exigência fiscal. Vencido o conselheiro Cleberson Alex Friess que negava provimento quanto à incidência dos juros sobre a multa de ofício.
(Assinado digitalmente)
Cleberson Alex Friess Presidente em exercício.
(Assinado digitalmente)
Andréa Viana Arrais Egypto - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Rayd Santana Ferreira, Luciana Matos Pereira Barbosa e Virgilio Cansino Gil. Ausente justificadamente a Conselheira Miriam Denise Xavier.
Nome do relator: ANDREA VIANA ARRAIS EGYPTO
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PETROBRAS Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Anocalendário: 2008 NULIDADE DO LANÇAMENTO. EXAME DE DOCUMENTOS A arguição de nulidade do lançamento em relação aos contratos de prestação de serviço que não foram solicitados e nem examinados em sua profundidade pelo Auditor Fiscal diz respeito à questão de prova da verificação da ocorrência do fato gerador do IRRF. Referida matéria deve ser reservada ao exame do mérito de demanda. O lançamento foi fundamentado e o Fiscal delimitou a base de incidência tributária. Se existem inconsistências relevantes, elas serão analisadas por ocasião da apreciação do mérito. PLATAFORMAS. NATUREZA DE EMBARCAÇÕES As plataformas (fixas ou flutuantes) devem ser consideradas como embarcações. Natureza foi conferida aos navios sonda na Solução de Consulta COSIT nº 225/2014 e às plataformas semissubmerssíveis na Solução de Consulta COSIT nº 12/2015. COLIGAÇÃO DE CONTRATOS. BIPARTIÇÃO ARTIFICIAL. IRRF. ALÍQUOTA ZERO DAS REMESSAS A EMPRESAS ESTRANGEIRAS A TÍTULO DE AFRETAMENTO A vinculação na execução simultânea de contratos de afretamento e de prestação de serviços é perfeitamente legítima e não autoriza a desconsideração dos contratos pactuados da forma como efetivada no lançamento. No caso em apreço constatase que a presunção lançada pela fiscalização para descaracterizar os contratos de afretamento não encontra respaldo na Lei nº 9.481/97 com as alterações estabelecidas pela Lei nº 13.043, de 13 de novembro de 2014, que trouxe em seu bojo a bipartição de contratos como consequência natural do negócio jurídico. Insubsistência da motivação do lançamento. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 68 2. 72 11 61 /2 01 2- 91 Fl. 16216DF CARF MF 2 TRIBUTAÇÃO DAS REMESSAS FEITAS A PARAISOS FISCAIS Correta a exigência do IRRF à alíquota de 25% no caso dos pagamentos a residentes em paraísos fiscais, conforme art. 8º da Lei nº 9.779/99. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso voluntário e afastar a preliminar de nulidade. No mérito, por maioria, darlhe provimento parcial para: (i) exonerar o crédito tributário exigido no lançamento, com exceção dos pagamentos realizados em favor de empresas residentes em países de tributação favorecida, em que incide o imposto à alíquota de 25%; e (ii) afastar os juros sobre a multa de ofício, com relação à parte mantida da exigência fiscal. Vencido o conselheiro Cleberson Alex Friess que negava provimento quanto à incidência dos juros sobre a multa de ofício. (Assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess – Presidente em exercício. (Assinado digitalmente) Andréa Viana Arrais Egypto Relatora. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Rayd Santana Ferreira, Luciana Matos Pereira Barbosa e Virgilio Cansino Gil. Ausente justificadamente a Conselheira Miriam Denise Xavier. Fl. 16217DF CARF MF Processo nº 16682.721161/201291 Acórdão n.º 2401005.149 S2C4T1 Fl. 3 3 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto, em face da decisão da 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro I (DRJ/RJI), que julgou improcedente a impugnação, considerando procedente o lançamento do Imposto de Renda na Fonte no valor de R$ 506.401.044,16, com multa de ofício de 75%, no valor de R$ 379.800.783,12, e juros de mora, no valor de R$ 218.643.974,52, totalizando R$ 1.104.845.801,12 (fl. 02), conforme ementa do Acórdão nº 1254.293 (fls. 15949/15986): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Anocalendário: 2008 CONTRATO DE AFRETAMENTO DE PLATAFORMA E CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS NATUREZA DO PAGAMENTO PARA FINS TRIBUTÁRIOS Para fins tributários, é necessário verificar qual a natureza dos pagamentos, tendo em vista a realidade fática, e não a formalidade dos contratos. Dos fatos apontados nos autos, restou comprovado tratarse de um único contrato de prestação de serviços, embora formalmente sejam firmados dois acordos, um de afretamento e outro de prestação de serviços. CONTRATO DE AFRETAMENTO DE PLATAFORMA RETENÇÃO DO IRRF ALÍQUOTA ZERO IMPOSSIBILIDADE. Para fins de usufruir a aplicação da alíquota zero na determinação do imposto de renda retido na fonte, é necessário que a finalidade seja o transporte de cargas e pessoas. Embora as plataformas se locomovam na água, a atividade para a qual foram concebidas é a pesquisa, exploração e prospecção de petróleo. RENÚNCIA FISCAL INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA Embora a Lei 9.481/97, Lei nº 9.532/97 e o art. 691, I do RIR/99, não tenham, de forma expressa, restringido o tipo de atividade explorada pela embarcação afretada, seja ela destinada ao transporte de passageiros/carga, à exploração de petróleo ou outras atividades marítimas, devese levar em conta que não é possível ampliar o sentido da norma, dando interpretação ampla ao termo embarcação, já que o artigo 111 do CTN dispõe: "interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre a outorga de isenções”. NULIDADE – AUSÊNCIA DE CONTRATOS DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS – INCABÍVEL Não cabe declarar nulidade do lançamento quando está demonstrada, por outros meios de prova, a infração apurada. Fl. 16218DF CARF MF 4 Caberia, se fosse o caso, à autuada demonstrar o equívoco no lançamento com provas apresentadas na impugnação. REMUNERAÇÃO A QUALQUER TÍTULO PAÍSES COM TRIBUTAÇÃO FAVORECIDA INCIDÊNCIA DO IRRF EM REMUNERAÇÃO DE QUALQUER NATUREZA. O artigo 8º da Lei nº 9.779/99 determina que a alíquota para o cálculo do imposto de renda retido na fonte é de 25% quando o beneficiário tiver sede em país com tributação favorecida ou paraíso fiscal, seja qual for o motivo da remuneração. ATO DECLARATÓRIO NORMATIVO Nº 8/99 – REVOGADO INAPLICABILIDADE O Ato Declaratório Normativo nº 8/99 foi revogado pela IN SRF nº 252/2002, mantendo sua força normativa para o período que ficou vigente, de 29/01/1999 até 03/12/2002. PAÍSES SIGNATÁRIOS DE TRATADOS INTERNACIONAIS PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO – INAPLICABILIDADE PARA PAGAMENTOS DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS As remessas decorrentes de contratos de prestação de assistência técnica e de serviços técnicos sem transferência de tecnologia sujeitamse à tributação de acordo com o art.685, inciso II, alínea “a”, do Decreto nº 3.000, de 1999, bem como que nas Convenções para Eliminar a Dupla Tributação da Renda das quais o Brasil é signatário, esses rendimentos classificamse no artigo Rendimentos não Expressamente Mencionados. JUROS DE MORA INCIDENTES SOBRE MULTA DE OFÍCIO – BASE LEGAL CABIMENTO A multa de ofício integra a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, o crédito tributário, sendo legítima a incidência dos juros de mora calculados com base na Taxa Selic. JUROS DE MORA. TAXA SELIC BASE LEGAL – SÚMULA nº 4 CARF CABIMENTO A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil são devidos nos períodos de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia – SELIC para títulos federais. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido O presente processo trata sobre cobrança de créditos tributários (CT) relativos ao IRRF lançados através da lavratura de AI Auto de Infração (fls. 15.181/15.185), o qual foi cientificado a contribuinte pessoalmente em 06/12/2012 (fl. 15182). No Termo de Verificação Fiscal (fls. 15226/15345) o Auditor Fiscal aduziu o seguinte: Fl. 16219DF CARF MF Processo nº 16682.721161/201291 Acórdão n.º 2401005.149 S2C4T1 Fl. 4 5 1. O objetivo do processo é apurar a possível incidência do imposto de renda retido na fonte sobre os pagamentos em favor de empresas estrangeiras, a título de afretamento de plataformas, navios sondas para pesquisa/exploração de petróleo e gás; 2. A autuada esclareceu que a maior parte da remuneração destes serviços se refere a afretamento e é destinada ao exterior, fazendo jus ao benefício da alíquota de IRRF reduzida a zero conforme previsto no artigo 691 do RIR/99; 3. Assevera que o artigo 8º, da Lei n° 9.779/99, determina a aplicação da alíquota de 25% quando o beneficiário da remuneração destes serviços for residente em paraíso fiscal ou em país com tributação favorecida; 4. O Ato Declaratório SRF n° 08, de 29/01/1999, esclarecia que a aplicação da alíquota zero só caberia para os contratos firmados até 31/12/1998, tendo sido esse Ato expressamente revogado pela IN SRF n° 252/2002; 5. O benefício da alíquota zero seria vinculado a quatro requisitos cumulativos: a. O pagamento tem que ser de frete, afretamentos, aluguéis e arrendamentos; b. O bem locado tem que ser necessariamente embarcação estrangeira ou aeronave; c. A operação tem que ser regular e autorizada por autoridade competente; d. O domicílio do beneficiário não pode ser em paraíso fiscal ou em país com tributação favorecida; 6. O artigo 2º, inciso V da Lei nº 9.537/97, define embarcação como sendo qualquer construção, inclusive plataformas flutuantes, sujeita à inscrição na autoridade marítima e suscetível de locomoção na água, transportando pessoas ou cargas; 7. Cita autuação anterior em que restou consignado que as plataformas não se enquadram no conceito de embarcação e por isso não se beneficiam da alíquota zero prevista no artigo 1° da Lei n° 9.481/97; 8. Destaca que em outros lançamentos ocorreram situações onde foram firmados dois contratos, constando a PETROBRAS como contratante, sendo um de prestação de serviços com empresa brasileira (autuada naqueles lançamentos), e outro de afretamento com empresa estrangeira controladora da primeira. Do total desses contratos eram atribuídos o percentual de 90% ao contrato de afretamento e 10 % ao contrato de prestação de serviços. Entretanto, constatouse que o Fl. 16220DF CARF MF 6 pagamento relativo à prestação de serviços era insuficiente para cobrir os custos destes, fazendo com que a controladora estrangeira retornasse à empresa nacional parte dos valores recebidos a título de afretamento sob a forma de aporte. Esses repasses foram tributados por se entender que tais pagamentos feitos à empresa estrangeira, a título de afretamento, incluíam remuneração pela prestação de serviços; 9. Foram solicitados detalhes das remessas ao exterior englobadas na Ficha 32 linhas 50 (Operações com o Exterior Importações não especificadas) e os contratos relativos aos afretamentos pagos a empresas estrangeiras, no anocalendário 2008, informados na Ficha 32 da DIPJ; 10. Da análise dos contratos de afretamento e de prestação de serviços concluiuse que afretamento é parte secundária, integrante e inseparável dos serviços contratados; 11. Foram efetuados 3.119 pagamentos a 243 beneficiários, referentes ao afretamento de 567 unidades, no montante de cerca de nove bilhões de reais no ano de 2008, sem retenção de IRRF e sem recolhimento da CIDE; 12. Diante do volume dos pagamentos foram selecionados os beneficiários do quadro abaixo e intimada a autuada para apresentar os contratos de afretamento com os seus respectivos anexos e aditivos, bem como cópia dos invoices e Relatórios/Boletins de Medição; 13. Afirma que devido ao diminuto prazo disponível para conclusão do trabalho, o histórico de pedidos de prorrogação de prazo e ao risco de decadência de créditos tributários, optouse por não demandar os contratos de prestação de serviços vinculados ao segundo lote de afretamentos informados. 14. O simples teor dos contratos, apresentados no segundo lote, já seria suficiente para demonstrar que o modelo de contratação era semelhante ao do primeiro lote; Fl. 16221DF CARF MF Processo nº 16682.721161/201291 Acórdão n.º 2401005.149 S2C4T1 Fl. 5 7 15. Após análise dos documentos, confirmouse que as contratações de prestação de serviços de sondagem, perfuração ou exploração de poços foi artificialmente bipartida em dois contratos, um de afretamento e outro de serviços, onde de um lado estava a PETROBRAS, como contratante, e do outro, empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico, atuando em conjunto, de forma interdependente, com responsabilidade solidária; 16. O percentual maior do preço é pago pelo afretamento da unidade e destinada ao exterior, sem retenção do imposto de renda na fonte e sem o recolhimento da CIDE, e o percentual pago pelos serviços no Brasil, tributado na fonte, encontrase em um patamar bem inferior ao do afretamento; 17. Quanto à repartição formal dos contratos, não há que se falar em afretamento autônomo, pois o fornecimento da unidade é apenas parte integrante e instrumental dos serviços contratados; 18. Mesmo nos casos onde há somente pagamento de afretamento (ALASKAN STAR SS39, FALCON STAR SS45) o IRRF, no percentual de 25%, ainda seria devido uma vez que a empresa beneficiária está sediada em paraíso fiscal/país com tributação favorecida; 19. Assevera que as características dos contratos de afretamento e de prestação de serviços de cada unidade operacional apresentam vínculos que comprovam não serem eles autônomos e conclui que a autuada infringiu a legislação tributária quando efetuou pagamentos de afretamento ao exterior sem fazer a retenção do IRRF. 20. Em todos os casos analisados as empresas estrangeira e nacional pertenciam ao mesmo grupo econômico e desempenharam, de forma conjunta e solidária, atividades formalmente contratadas de forma segregada, tendo ambas um único objetivo que era a prestação de serviços para a autuada; 21. Na apuração do IRRF, foi observado o disposto no artigo 725 do RIR/99, com o reajustamento da base de cálculo. 22. A BASE LEGAL para lançamento do IRRF foram os artigos 682, inciso I; 685, inciso II, alínea “a” e 708 do RIR/99. 23. Restou demonstrado que os serviços contratados pela autuada, perante os quinze beneficiários selecionados, correspondem à definição de "serviços técnicos", sujeito à incidência do IRRF com alíquota de 15%, e da CIDE com alíquota de 10%, com exceção dos beneficiários sediados em países com tributação favorecida, sujeitos ao IRRF à alíquota de 25%, por força do artigo 8° da Lei n° 9.779/99, chegando no seguinte resultado: Fl. 16222DF CARF MF 8 A Contribuinte apresentou tempestivamente sua IMPUGNAÇÃO (fls. 15350/15447) instruída com os documentos nas fls. 15448 a 15943, amparada nos seguintes argumentos: 1. Os indícios apontados pelo fisco para concluir que no caso haveria um único contrato de prestação de serviços que abarcaria o afretamento das embarcações denotam apenas a existência de contratos coligados união de contratos com dependência recíproca necessária/ voluntária, figura conhecida e reconhecida pela doutrina civilista e que nada tem de ilegal; 2. Os contratos de afretamento podem ser de várias modalidades, interessando ao caso o afretamento a casco nu, semelhante a aluguel de coisa móvel, e o afretamento por tempo, no qual a embarcação é entregue armada e tripulada, ou seja, envolve prestação dos serviços que constituem a gestão náutica da embarcação. Porém, a gestão comercial utilizar a embarcação nos fins a que se destina, que em última análise, é o objetivo do afretamento será sempre transferida ao Afretador que pode exercêla de forma direta ou terceirizada, como faz a Recorrente quando contrata empresa no Brasil para prestar serviços de sondagem, perfuração ou exploração de poços, fato que afasta a pretensão fiscal de que o afretamento seja parte de tais serviços, ainda que estes sejam prestados pela dona da embarcação; 3. No caso está havendo alteração via interpretação da qualificação da relação jurídica entre as partes, com violação aos artigos 170 da CF/88, 109 e 110 do CTN e da jurisprudência administrativa e judicial; 4. O auto de infração foi lavrado sem que fossem solicitados à Requerente e muito menos examinados pela d. autoridade Fiscal os contratos de prestação de serviços relacionados no Auto de Infração. As autuações foram lavradas a partir de cópias dos contratos de prestação de serviços de 2 embarcações NOBLE MURAVLENKO E NOBLE SEGERIUS e o Convite relativo à unidade OCEAN WINNER, obtidos no curso de outros procedimentos fiscais e em razão das conclusões a que chegaram os Fiscais autuantes nesses Fl. 16223DF CARF MF Processo nº 16682.721161/201291 Acórdão n.º 2401005.149 S2C4T1 Fl. 6 9 outros procedimentos. Daí a nulidade do lançamento em relação aos contratos que não foram solicitados nem examinadas pela d. autoridade lançadora; 5. As plataformas marítimas móveis são embarcações sujeitas ao IRRF à alíquota zero, tudo conforme a legislação e pacíficos pronunciamentos da doutrina, da jurisprudência e de diversas autoridades administrativas, inclusive na esfera tributária; 6. Assentado que as plataformas móveis são embarcações, sujeitas, portanto, à alíquota zero de IRRF, cumpre apenas ressaltar que mesmo relativamente às 2 (duas) únicas plataformas (Alaskan Star e Atlantic Star) cujo pagamento do afretamento se deu a beneficiário residente em país de tributação favorecida (Ilhas Cayman), ainda assim é aplicável por força do Ato Declaratório 8/99 a alíquota zero e não a alíquota de 25% prevista no art. 8º da Lei nº 9.779/97; 7. Quando menos não seriam tributáveis os valores pagos a domiciliados em países signatários de tratados para evitar dupla tributação; 8. Em qualquer hipótese, não poderão ser exigidos juros de mora sobre o valor lançado a título de multa de ofício, por falta de previsão legal. Diante da impugnação tempestiva, o processo foi encaminhado à DRJ/RJI para julgamento, em que, através do Acórdão nº 1254.293, decidiu pela improcedência da impugnação apresentada mantendo o crédito tributário constante do AI. A Contribuinte foi instada a pagar ou a recorrer através de intimação (fls. 15987/15988), com data de ciência eletrônica por decurso de prazo em 17/04/2013 (fl. 15991). Tempestivamente, em 26/04/2013, por entender que a decisão recorrida limitouse a referendar as conclusões do AI sem trazer qualquer argumento que pudesse infirmar os fundamentos da impugnação, apresentou RECURSO VOLUNTÁRIO (fls. 15994/16121), em que reitera os argumentos apresentados por ocasião da impugnação e destaca que: 1. A coligação/união de contratos é figura conhecida e reconhecida pela doutrina civilista; 2. Mesmo se fosse contratada apenas uma empresa sediada no estrangeiro, também seriam feitos dois contratos distintos formalizados em um único instrumento, ou contratos coligados, um de prestação de serviços e outro de afretamento de embarcação, cada qual com sua individualidade e sujeitos às regras tributárias próprias; 3. Os contratos de afretamento podem ser de várias modalidades, sendo as mais conhecidas o afretamento a casco nu, o afretamento a tempo e o afretamento por viagem; Fl. 16224DF CARF MF 10 4. No caso em comento as modalidades utilizadas são o afretamento a casco nu, semelhante ao aluguel de coisa móvel, onde fica a cargo do Afretador tanto a gestão náutica quanto a gestão comercial da embarcação, e o afretamento por tempo, onde fica a cargo do Fretador a gestão náutica, que consiste na entrega da embarcação ao Afretador armada e tripulada; 5. Nas duas modalidades de afretamento a gestão comercial, que é a utilização da embarcação nos fins a que se destina, sempre é transferida ao Afretador que poderá exercêla diretamente ou de forma terceirizada; 6. A contribuinte, quando firma contrato de afretamento, seja a casco nu ou a tempo, terceiriza a gestão comercial contratando no Brasil empresas para prestar os serviços de sondagem, perfuração ou exploração de poços; 7. Se a Contribuinte desenvolvesse a gestão comercial de forma direta, sem contratar empresas terceirizadas para prestar esses serviços, o contrato de afretamento continuaria sendo necessário, o que evidencia a sua absoluta autonomia em relação ao contrato de prestação de serviço. Dessa forma fica demonstrado que a afirmação do Fiscal de que não há afretamento puro e simples e que o fornecimento das unidades é parte integrante e indissociável dos serviços contratados, não subsiste; 8. A fiscalização alterou a forma e substancia dos contratos típicos de direito privado, violando os artigos 109 e 110 do CTN; 9. O entendimento por parte da fiscalização de que ocorreu um único contrato com a empresa sediada no exterior, afronta a liberdade do contribuinte de contratar e de organizar os seus negócios, violando o artigo 170 da CF/88; 10. O Auto de Infração é nulo em relação aos contratos de prestação de serviços que não foram solicitados e nem examinados pelo auditor fiscal; 11. Traz argumentos no sentido de que as plataformas são embarcações, invocando precedentes da própria contribuinte que corrobora esse entendimento. Cita jurisprudências do STF e do TRF da 2ª Região no sentido de que plataformas marítimas móveis são embarcações; 12. A legislação tributária remete à linguagem comum que define embarcações como sendo toda construção cujo objetivo é navegar, ou seja, o que distingue e individualiza embarcação é a capacidade de navegar; 13. As plataformas móveis, objeto do auto de infração, são embarcações em razão de suas características técnicas e de acordo com as normas de Direito Marítimo; 14. Há um evidente equívoco do Fisco quando alega que o artigo 2º, inciso V, da Lei n° 9.537/97, ao incluir a expressão "transportando Fl. 16225DF CARF MF Processo nº 16682.721161/201291 Acórdão n.º 2401005.149 S2C4T1 Fl. 7 11 pessoas ou carga", estaria adotando um conceito de embarcação para o qual a efetiva destinação ao transporte de cargas e pessoas seria essencial; 15. A Autoridade Marítima baixou a NORMAN 01, aprovada pela Portaria nº 9, de 11/02/2000, do Diretor de Portos e Costas, onde as Plataformas Móveis são conceituadas, em razão das características técnicas, como embarcações, e a NORMAN n° 04, aprovada pela Portaria 0061/DPC. De 22/10/2001, que inclui no rol dessas embarcações as destinadas a realizar prospecção, perfuração, produção, armazenamento de petróleo (plataformas, navios sonda, FPSO e FSO); 16. No contexto do Capítulo 89, Posição 8905 da Nomenclatura Comum do Mercosul NCM as plataformas de perfuração e exploração móveis são tratadas como espécies do gênero Embarcação e não do gênero estruturas flutuantes; 17. Plataformas são embarcações de acordo a Instrução Normativa nº 136, de 08/10/1987 da Secretaria da Receita Federal; 18. Existem várias manifestações de Autoridades Administrativas no sentido de que Plataformas Móveis são embarcações e cita como exemplo o Parecer SLTN nº 68, de 27/01/10970, exarado no Processo 124.364/68, e o Parecer CST nº 145, de 21/07/1971, exarado no Processo nº 406.771/71; 19. Comprovado que Plataformas móveis são Embarcações, portanto sujeitas à alíquota zero de IRF, é inaplicável a tributação de 25% prevista no artigo 8º, da Lei 9.779/97 mesmo para os pagamentos de afretamento referentes às Plataformas Alaskan Star e Atlantic Star cujo beneficiário é residente em país de tributação favorecida (Ilhas Cayman); 20. Exigir Imposto de Renda na Fonte sobre remessas efetuadas pela Petrobrás, relativas a contratos celebrados antes de 31/12/0998, viola as normas constitucionais pertinentes ao Estado de Direito (art. 1º, “caput”), à Segurança Jurídica (art. 5º, “caput”) e à igualdade (art. 5º, “caput”, e art. 150, inciso II); 21. Assevera sobre a impossibilidade material e formal da revogação do Ato Declaratório SRF nº 8/99 pela Instrução Normativa SRF nº 252/2002; 22. No caso concreto, onde estão sendo remetidos para países com os quais o Brasil firmou acordos para evitar a bitributação, valores destinados ao pagamento de contrato de afretamento ou, como sustenta a fiscalização, supostos serviços prestados, é perfeitamente aplicável o disposto no artigo 7º da Convenção Modelo da OCDE/1977, devendo a tributação de tais rendimentos acontecer somente no país de residência do beneficiário; Fl. 16226DF CARF MF 12 23. O CTN e a Legislação Ordinária Federal não amparam a incidência de Juros de Mora sobre a Multa de Ofício. Finaliza seu Recurso Voluntário requerendo seu provimento para o fim de se reconhecer a insubsistência dos Autos de Infração lavrados, caso não seja reconhecida a sua nulidade. A Procuradoria Geral da Fazenda Nacional apresentou suas contrarrazões ao Recurso Voluntário da Petrobrás, onde, em síntese, aduz a seguintes razões para manutenção da decisão recorrida: 1. Inexistência de nulidade no lançamento uma vez que não houve prejuízo à defesa, não houve nenhuma violação do devido processo legal ou à ampla defesa e tampouco deficiência na motivação; 2. A existência de jurisprudências sobre os contratos de prestação de serviços firmados pela Petrobrás, no sentido de que existe artificialidade na contratação fracionada de serviços e afretamento, especialmente quando as empresas afretadora e prestadora de serviço são de um mesmo grupo econômico. Cita os processos administrativos como exemplos nº 15521.000124/200504, 15521.000127/200963, 19395.720024/201262, 19395.720263/2012 12 e 16682.721162/201235 como exemplo; 3. Apesar da repartição formal dos contratos não existe afretamento autônomo. A única contratação existente é de pesquisa e exploração de petróleo e gás, sendo o fornecimento da unidade apenas parte integrante e instrumental dos serviços contratados; 4. Inexistência de dupla tributação das remessas feitas a países signatários de tratados internacionais para evitar a dupla tributação, uma vez que inexistem impedimentos por parte destes tratados e a legislação tributária nacional exige a tributação de rendimentos provenientes de prestação de serviços técnicos sem transferência de tecnologia; 5. Em relação às remessas feitas a paraísos fiscais não tem cabimento a pretensão da recorrente de emprestar validade ao Ato Declaratório 8/99 até os dias atuais uma vez que a mesma autoridade que o editou determinou sua revogação, expressamente, sem margem a qualquer resquício de dúvidas; 6. Ainda que não restasse caracterizada a bipartição artificial do contrato de prestação de serviços, a tributação pelo IRRF do afretamento de plataforma seria devida na alíquota de 15%, uma vez que estas não se enquadram na definição de Embarcações; 7. Afirma que incidem juros de mora sobre as multas de ofício e diz que afastar sua incidência frustraria totalmente a finalidade dos dispositivos legais que cominam multa de ofício, uma vez que o prazo necessário à conclusão do processo administrativo, somado ao tempo de uma posterior fase judicial acabariam com o impacto punitivo ou Fl. 16227DF CARF MF Processo nº 16682.721161/201291 Acórdão n.º 2401005.149 S2C4T1 Fl. 8 13 educativo da multa, dada a corrosão pela inflação. Cita a Súmula nº 4 do CARF para reforçar seu entendimento. Finaliza suas contrarrazões requerendo que seja negado provimento ao Recurso Voluntário, mantendo incólume o lançamento fiscal em análise. É o relatório Fl. 16228DF CARF MF 14 Voto Conselheira Andréa Viana Arrais Egypto Relatora. Juízo de admissibilidade O Recurso Voluntário foi apresentado dentro do prazo legal e atende aos requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. Delimitação da lide Trata o presente processo da exigência de Imposto de Renda na Fonte sobre pagamentos em favor de empresas estrangeiras a título de afretamento. Entendeu a Fiscalização que os contratos de prestação de serviços firmados pela Recorrente foram artificialmente bipartidos em dois contratos, um de afretamento e outro de serviços, tendo de um lado, como contratante, a PETROBRAS, e de outro, empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico, as quais atuaram em conjunto e com responsabilidade solidária. Segundo a Fiscalização, em que pese a repartição formal dos contratos, não há que se falar em afretamento autônomo, pois o fornecimento da unidade é apenas parte integrante e instrumental dos serviços contratados que absorvem o afretamento, sendo que a maior parte do preço é atribuída ao afretamento da unidade e destinada ao exterior, sem retenção do Imposto de Renda na Fonte e sem o recolhimento da CIDE, enquanto parcela muito inferior é atribuída aos serviços prestados por empresas no Brasil, e tributada na fonte. Relata que dos casos concretos, traz vasta comprovação de que as empresas contratadas pela Petrobras representam um só grupo econômico e que há evidente semelhança entre as contratações examinadas no curso do procedimento fiscal atual e os anteriores com vinculação entre as contratadas. Em razões recursais a contribuinte argumenta acerca da nulidade do lançamento por ter a autoridade fiscal abarcado na autuação contratos não analisados. Disserta sobre a prestação de serviços e do afretamento e conclui que em qualquer hipótese, estando em um mesmo instrumento ou em contratos separados, permanece a individualidade de cada instrumento que se sujeita as regras tributárias que lhes são próprias. Assevera que o fato das empresas que contrataram com a Recorrente pertencerem ao mesmo grupo econômico não interfere na individualização dos contratos. Isso porque a união dos contratos por sua dependência recíproca é absolutamente legítima e não autoriza a desqualificação de um e a absorção pelo outro. Destaca que o Fisco não poderia transformar o contrato de afretamento em contrato de prestação de serviço técnico a fim de tributálo como tal. Fl. 16229DF CARF MF Processo nº 16682.721161/201291 Acórdão n.º 2401005.149 S2C4T1 Fl. 9 15 Traz argumentos sobre a natureza de embarcação das plataformas. Pleiteia pela aplicação da alíquota zero nos limites da lei com relação aos pagamentos a beneficiários residente em país de tributação favorecida e a não tributação dos valores pagos a beneficiários localizados em países signatários de tratados para evitar a dupla tributação. Requer a não incidência de juros sobre a multa de ofício. A Procuradoria Geral da Fazenda Nacional apresentou suas contrarrazões em que requer seja negado provimento ao Recurso Voluntário com a manutenção do lançamento fiscal. Preliminar Nulidade do lançamento com relação aos contratos de prestação de serviço que não foram solicitados e nem examinados pela autoridade fiscal A Recorrente afirma que a autoridade lançadora admitiu que não foram por ela solicitados e nem analisados os contratos de prestação de serviços que se deram em diversas embarcações, extrapolando as conclusões obtidas da análise dos demais contrato. Aduz que foi através da análise conjunta dos contratos de prestação de afretamento e de prestação de serviços técnicos que levou a fiscalização a se convencer do cabimento do lançamento, razão porque a autoridade lançadora não poderia ter presumido que os contratos não solicitados e nem examinados, seriam essencialmente iguais aos de fato examinados, necessitando provar tal alegação. Destarte, de acordo com a Autoridade Fiscal, diante do volume de dados a serem trabalhados, e após a aplicação de filtros, chegouse a um total de quinze beneficiários. Com a delimitação dos beneficiários, a autuada foi intimada a apresentar os contratos de afretamento. No entanto, em função do prazo disponível para conclusão do trabalho e em face do risco de decadência de créditos tributários, optouse por não demandar os contratos de prestação de serviços vinculados ao segundo lote de afretamentos informados. Asseverou que o simples teor dos contratos de afretamento, apresentados no segundo lote, já seria suficiente para demonstrar que correspondem ao mesmo modelo de contratação já observado nos contratos obtidos na primeira etapa do procedimento fiscal. Ocorre que a arguição de nulidade do lançamento em relação aos contratos de prestação de serviço que não foram solicitados e nem examinados em sua profundidade pelo Auditor Fiscal diz respeito à questão de prova da verificação da ocorrência do fato gerador do IRRF sobre os pagamentos efetuados em favor de empresas estrangeiras a título de afretamento. Referida matéria deve ser reservada ao exame do mérito da demanda. Isso porque o lançamento foi fundamentado e o Fiscal delimitou a base de incidência tributária. Se existem inconsistências relevantes, elas serão posteriormente analisadas por ocasião da apreciação do mérito. Assim, rejeito a preliminar. Fl. 16230DF CARF MF 16 Da decisão recorrida e a natureza de embarcação das plataformas Conforme se constata do Termo de Verificação Fiscal, conquanto a autoridade fiscal tenha se referido à tese de que as plataformas não são embarcações e, portanto, não estariam albergadas pela redução da alíquota zero de IRF positivada no art. 691 do RIR/99, o fez, dentro do contexto da análise de outros procedimentos fiscais anteriores que não chegaram a examinar as características dos contratos firmados para a obtenção das unidades (fls. 15.229/15.231). A motivação inserida na acusação fiscal ora em exame, diz respeito à análise da artificialidade da bipartição dos contratos de afretamento e de prestação de serviços para justificar a tributação das remessas de valores para pagamento de afretamentos a empresas do exterior, além da caracterização de que os valores pagos decorreram da realização de serviços técnicos. Inobstante o conceito de embarcação não ter sido a motivação para o lançamento, a decisão de piso incluiu como fundamento jurídico adicional a tese de que a plataforma não seria embarcação para o fim de usufruir o benefício previsto no art. 691 do RIR/99. No entanto, o argumento principal adotado na decisão da DRJ para manter a procedência do Auto de Infração foi a contratação artificialmente bipartida em dois contratos. O Recurso Voluntário traz em seu bojo, nas fls. 16.051/16.082 vários conceitos de “embarcação”; disserta acerca da natureza das plataformas que sempre foram denominadas de embarcação e estão submetidas às regras a elas aplicáveis, tais como, registro de propriedade sob determinada bandeira com nome e nacionalidade, classificação, certificados de borda livre, linha de carga, tonelagem e segurança de equipamentorádio, apólice de seguro casco. Assevera sobre as características técnicas; destaca a jurisprudência dos Tribunais Regionais Federais, do Supremo Tribunal Federal no RE 76.133/RJ, além da nomenclatura comum do Mercosul, das normas de Direito Marítimo, das manifestações administrativas da RFB, e legislação tributária que conferem às plataformas o tratamento de embarcações. Em face das razões recursais acerca do tema destacado, necessário se faz a análise da matéria em questão. Com efeito, a Lei nº 9.537, de 11 de dezembro de 1997, ao dispor sobre a segurança do tráfego aquaviário em águas sob jurisdição nacional, estabeleceu em seu art. 2º o conceito de embarcação nos seguintes termos: Art. 1° A segurança da navegação, nas águas sob jurisdição nacional, regese por esta Lei. § 1° As embarcações brasileiras, exceto as de guerra, os tripulantes, os profissionais nãotripulantes e os passageiros nelas embarcados, ainda que fora das águas sob jurisdição nacional, continuam sujeitos ao previsto nesta Lei, respeitada, em águas estrangeiras, a soberania do Estado costeiro. § 2° As embarcações estrangeiras e as aeronaves na superfície das águas sob jurisdição nacional estão sujeitas, no que couber, ao previsto nesta Lei. Art. 2° Para os efeitos desta Lei, ficam estabelecidos os seguintes conceitos e definições: V Embarcação qualquer construção, inclusive as plataformas flutuantes e, quando rebocadas, as fixas, sujeita a Fl. 16231DF CARF MF Processo nº 16682.721161/201291 Acórdão n.º 2401005.149 S2C4T1 Fl. 10 17 inscrição na autoridade marítima e suscetível de se locomover na água, por meios próprios ou não, transportando pessoas ou cargas;(Grifamos). Cumpre destacar que o inciso XIV do mesmo diploma legal define plataforma nos seguintes termos: XIV Plataforma instalação ou estrutura, fixa ou flutuante, destinada às atividades direta ou indiretamente relacionadas com a pesquisa, exploração e explotação dos recursos oriundos do leito das águas interiores e seu subsolo ou do mar, inclusive da plataforma continental e seu subsolo; (Grifamos). Por sua vez, o Superior Tribunal de Justiça, por ocasião do julgamento do REsp 1341077/RJ, de relatoria do Ministro Mauro Campbell Marques, julgado em 09/04/2013, (DJe 16/04/2013), ao tratar da isenção do IPI de que trata a Lei nº 8.032/90, conferiu às plataformas marítimas a natureza de embarcação quando determinou que, “em se tratando de legislação especial, sua revogação não impede que as partes, peças e componentes destinados ao reparo, revisão e manutenção de embarcações, ainda que plataformas petrolíferas, gozem da isenção genérica prevista no art. 2°, inciso II, alínea "j", e o art. 3° da Lei n° 8.032/90, como disciplina geral”. Ademais, o Código Tributário Nacional determina que a definição, conceitos e formas de institutos típicos de direito privado não podem ser alterados pela lei tributária: Art. 109. Os princípios gerais de direito privado utilizamse para pesquisa da definição, do conteúdo e do alcance de seus institutos, conceitos e formas, mas não para definição dos respectivos efeitos tributários. Art. 110. A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias. Assim, cumpre deixar claro que as plataformas (fixas ou flutuantes) devem ser consideradas como embarcações, tanto que esta natureza foi conferida aos navios sonda na Solução de Consulta COSIT nº 225/2014 e às plataformas semissubmerssíveis na Solução de Consulta COSIT nº 12/2015, ao analisar o tratamento legal para o IRRF sobre os valores remetidos ao exterior. Da coligação de contratos – Bipartição artificial – exigência do IRRF De acordo com a acusação fiscal, os contratos de afretamento e de prestação de serviços devem ser considerados como únicos e correspondentes à prestação de serviços técnicos de pesquisa e exploração de petróleo e gás. A bipartição dos contratos pela Recorrente deuse unicamente com o intuito de evitar a incidência do Imposto de Renda Retido na Fonte sobre as remessas efetuadas às empresas sediadas no exterior. As empresas atuavam de forma conjunta, solidária e contínua, prestando serviços técnicos, embora sob a forma de contratos Fl. 16232DF CARF MF 18 segredados formalmente, porém, eram de fato vinculados e sem independência, o que demonstra que não havia afretamento autônomo. O motivo pelo qual a fiscalização chegou a essa conclusão e considerou todos os valores pagos como prestação de serviços técnicos foi o fato das empresas pertencerem ao mesmo grupo econômico, tendo como única intenção, segundo a fiscalização, firmar contrato de prestação de serviços com menor impacto tributário. Em análise aos contratos (fls. 15.257/15.335) afirma constar do contrato de afretamento determinação de que este deve ser executado simultaneamente com o contrato de prestação de serviços, havendo estreita vinculação entre eles de modo a não ter uma existência autônoma. Ao estabelecer a base legal para o lançamento de ofício (item 6, fls. 15.336/15.341), a fiscalização destacou que a regra geral para a tributação do IRF sobre valores pagos, creditados, entregues ou remetidos a residentes ou domiciliados no exterior é estabelecida pelo art. 685, inciso II do RIR/1999, com alíquota de 25% (vinte e cinco por cento). Porém, tratandose de serviços técnicos o Regulamento prevê o regramento no dispositivo do art. 708, com alíquota de 15% (quinze por cento). Indica que o conceito de serviço técnico pode ser extraído da IN SRF nº 252, de 3 de dezembro de 2002, para concluir que os serviços contratados pela Petrobras correspondem à definição de “serviços técnicos” e sujeitamse à incidência do IRRF à alíquota de 15% (quinze por cento), com exceção aos beneficiários sediados em países com tributação favorecida, sujeitos à alíquota de 25% (vinte e cinco por cento), por força do art. 8º da Lei nº 9.779/99. Pois bem. Inicialmente, ante a desconsideração por parte da fiscalização da natureza dos contratos de afretamento, há de se fazer uma análise do fato conhecido e comprovadamente existente (pagamentos em favor de empresas estrangeiras a título de afretamento de plataformas) e o fato desconhecido cuja existência se quer provar (pagamentos a empresas estrangeiras por prestação de serviços técnicos). Deve ser verificado se os parâmetros adotados pela fiscalização configuram indícios para a artificialidade dos contratos, sua descaracterização e a absorção dos afretamentos pelos contratos de prestação de serviços. Conforme se constata do TVF, a razão para que a fiscalização entendesse que existia uma artificialidade nos contratos de afretamento e os considerasse como de prestação de serviço técnico foi a coligação dos contratos de afretamentos com os de prestação de serviços por empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico e o percentual adotado nos contratos relativos ao afretamento. A acusação fiscal constatou que os contratos firmados pela Petrobras para obtenção de unidade de pesquisa e exploração de petróleo/gás, inseremse em uma estrutura complexa de contratos interligados envolvendo empresas nacionais e estrangeiras, no entanto entendeu ser artificial a relação percentual entre o custo do afretamento e dos serviços adotados. Em razões recursais, a Recorrente disserta acerca da normalidade negocial da contratação simultânea de empresas vinculadas para o afretamento de embarcação destinada à prospecção e exploração de petróleo e para a prestação dos serviços relativos à referida exploração, de forma a proporcionar com maior grau de segurança e garantia do fornecimento concomitante dos dois objetos contratuais, na medida em que a execução dos serviços sem plataforma seria impossível e o fornecimento da embarcação sem a execução dos serviços seria inútil. Fl. 16233DF CARF MF Processo nº 16682.721161/201291 Acórdão n.º 2401005.149 S2C4T1 Fl. 11 19 Notoriamente, os contratos que ensejaram a exigência fiscal ora em debate foram firmados pela Petrobras através de contratos distintos, porém coligados, pela própria natureza e complexidade do negócio e dos objetos contratuais. O fato da pessoa jurídica que faz o afretamento pertencer ao mesmo grupo econômico da pessoa jurídica que faz a prestação de serviços não caracteriza, por si só, simulação ou abuso de direito, pela própria liberdade de contratar, conforme disciplinado no Código Civil: Art. 421. A liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato. Nesse diapasão, os chamados contratos coligados são dependentes entre si, embora preservem sua autonomia. Segundo Maria Helena Diniz: Na coligação, as figuras contratuais unirseão em torno de relação negocial própria, sem perderem, contudo, sua autonomia, visto que se regem pelas normas alusivas ao seu tipo.1. Na definição de Orlando Gomes: Os contratos coligados são queridos pelas partes contratantes como um todo. Um depende do outro de tal modo que cada qual, isoladamente, seria desinteressante. Mas não se fundem. Conservam a individualidade própria, por isso se distinguindo dos contratos mistos. 2. Dessa forma, o fato de haver necessidade de serem executados simultaneamente contratos de afretamento e de prestação de serviços (fls. 15.257/15.335), de nenhum modo traz indicativo de inexistência ou artificialidade de negócio jurídico, mas tão somente da existência de contratos coligados de modo a garantir a segurança e eficácia dos objetos negociais sem os desnaturar como contratos distintos. Conforme bem destacou a Recorrente em razões recursais (fls. 16024/16025): Quando a Recorrente forma tais contratos de afretamento (seja casco nu ou a tempo) a ela é transferido o direito de utilizar as embarcações nessas finalidades econômicas (gestão comercial). Desse modo, poderia perfeitamente a Recorrente exercer tais 1 DINIZ, Maria Helena. Tratado Teórico e Prático dos Contratos, Vol. 1, São Paulo, Saraiva, 1993 2 GOMES, Orlando. Contratos.Atualizadores Antonio Junqueira de Azevedo e Francisco Paulo de Crescenzo Marino. Coord. Edvaldo Brito. Rio de Janeiro: Forense, 26ª Edição, 2007. Fl. 16234DF CARF MF 20 atividades de forma direta – utilizandose de seus próprios técnicos, empregados ou autônomos por ela remunerados – ou de forma indireta – mediante contratação de empresa especializada, como ocorreu no caso concreto. Essa empresa especializada pode ser terceira pessoa ou mesmo o próprio fretador, mas os contratos serão sempre diversos: o primeiro de afretamento (a casco nu ou por tempo envolvendo serviços náuticos) e o segundo de prestação de serviços. Assim, seja qual for a forma pela qual a Recorrente exerça a gestão comercial da embarcação, é absolutamente incabível e equivocado sustentar que o afretamento faz parte de um serviço que a Recorrente desenvolve para si mesma – diretamente ou de forma terceirizada. Prova disso é que se a Recorrente estivesse desenvolvendo a gestão comercial de forma direta, com técnicos seus empregados, o contrato de prestação de serviços com a empresa nacional inexistiria e nem por isso o contrato de afretamento perderia efeito ou deixaria de ser necessário, tudo a evidenciar a sai absoluta autonomia em relação a esse outro contrato ao qual a fiscalização pretende assimilálo, fundilo ou integrálo. A caracterização de contrato de afretamento como sendo de prestação de serviços técnicos, por presunção, sem trazer motivação sólida e prova robusta e adequada da acusação, de modo a afastar a autonomia dos contratos e a liberdade na gestão dos negócios da empresa, não pode prevalecer. O lançamento foi efetuado tomando como base a totalidade dos valores remetidos ao exterior a título de afretamento das embarcações como se não existissem referidos contratos e sem comprovação de ausência de propósito negocial. Sendo assim, estarseia afirmando que foram cedidas plataformas sem pagamento de qualquer valor, ou que os serviços poderiam ser realizados sem a plataforma. Não verifico base fática e legal para se considerar 100% (cem por cento) do valor do afretamento como prestação de serviços técnicos. O fato dos contratos terem sido pactuados com empresas do mesmo grupo não autorizaria essa presunção. Da mesma forma, a existência de cláusulas contratuais estabelecendo a vinculação dos contratos de afretamento e de prestação de serviços não transformaria todos os valores pagos em prestação de serviços técnicos remetidos ao exterior. Tendo em vista que a constituição do crédito tributário é atividade administrativa plenamente vinculada, não pode a fiscalização lançar mão de presunções, sem autorização em lei, para a cobrança de tributo. A complexidade do negócio jurídico envolvido demandaria da autoridade Fiscal uma análise mais aprofundada da ocorrência do fato gerador para se chegar à conclusão de que os valores remetidos ao exterior decorreram da prestação de serviços e não do pagamento dos afretamentos. A vinculação na execução simultânea de contratos de afretamento e de prestação de serviços é perfeitamente legítima e não autoriza a desconsideração dos contratos pactuados da forma como efetivada no lançamento. No caso em apreço constatase que a presunção lançada pela fiscalização para descaracterizar os contratos de afretamento não encontra respaldo na Lei nº 9.481/97, com as alterações estabelecidas pela Lei nº 13.043, de 13 de novembro de 2014, que trouxe em seu Fl. 16235DF CARF MF Processo nº 16682.721161/201291 Acórdão n.º 2401005.149 S2C4T1 Fl. 12 21 bojo a bipartição de contratos como consequência natural do negócio jurídico, conforme se destaca: Art. 1º A alíquota do imposto de renda na fonte incidente sobre os rendimentos auferidos no País, por residentes ou domiciliados no exterior, fica reduzida para zero, nas seguintes hipóteses: (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 10.12.97) I receitas de fretes, afretamentos, aluguéis ou arrendamentos de embarcações marítimas ou fluviais ou de aeronaves estrangeiras ou motores de aeronaves estrangeiros, feitos por empresas, desde que tenham sido aprovados pelas autoridades competentes, bem como os pagamentos de aluguel de contêineres, sobrestadia e outros relativos ao uso de serviços de instalações portuárias; (Redação dada pela Lei nº 13.043, de 2014) § 2o No caso do inciso I do caput deste artigo, quando ocorrer execução simultânea do contrato de afretamento ou aluguel de embarcações marítimas e do contrato de prestação de serviço, relacionados à prospecção e exploração de petróleo ou gás natural, celebrados com pessoas jurídicas vinculadas entre si, do valor total dos contratos a parcela relativa ao afretamento ou aluguel não poderá ser superior a: (Redação dada pela Lei nº 13.043, de 2014) Vigência I 85% (oitenta e cinco por cento), no caso de embarcações com sistemas flutuantes de produção e/ou armazenamento e descarga (Floating Production Systems FPS); (Incluído pela Lei nº 13.043, de 2014) Vigência II 80% (oitenta por cento), no caso de embarcações com sistema do tipo sonda para perfuração, completação, manutenção de poços (naviossonda); e (Incluído pela Lei nº 13.043, de 2014) Vigência III 65% (sessenta e cinco por cento), nos demais tipos de embarcações. (Incluído pela Lei nº 13.043, de 2014) Vigência § 7o Para efeitos do disposto no § 2o, será considerada vinculada a pessoa jurídica proprietária da embarcação marítima sediada no exterior e a pessoa jurídica prestadora do serviço quando forem sócias, direta ou indiretamente, em sociedade proprietária dos ativos arrendados ou locados. (Incluído pela Lei nº 13.043, de 2014) § 8o O Ministro da Fazenda poderá elevar ou reduzir em até 10 (dez) pontos percentuais os limites de que trata o § 2o. (Incluído pela Lei nº 13.043, de 2014) (Grifamos). Conforme se vê do diploma legal, no caso de execução simultânea do contrato de afretamento ou aluguel de embarcações marítimas e do contrato de prestação de Fl. 16236DF CARF MF 22 serviço relacionados à prospecção e exploração de petróleo ou gás natural, celebrados com pessoas jurídicas vinculadas entre si, do valor total dos contratos, a parcela relativa ao afretamento ou aluguel não poderá ser superior a 85% (oitenta e cinco por cento), no caso de embarcações com sistemas flutuantes de produção e/ou armazenamento e descarga, podendo referido percentual ser elevado em até 10 % (dez por cento). Referida lei apenas corroborou situação já existente em face de negócios jurídicos firmados em que envolviam a prospecção e exploração de petróleo em águas profundas no mar, por envolver afretamento de plataforma de custos elevadíssimos, equipadas com tecnologia específica para a tal exploração e que prepondera significativamente sobre o valor do serviço, tanto que o próprio legislador considerou as proporções percentuais razoáveis. Desse modo, se o próprio legislador trata da execução simultânea do contrato de afretamento de embarcações marítimas e do contrato de prestação de serviço relacionados à prospecção e exploração de petróleo ou gás natural por pessoas jurídicas vinculadas entre si, inclusive estabelecendo o limite da parcela relativa ao afretamento, que poderá chegar a 95% (§ 8º, do art. 1º da Lei nº 9.481/97), verificase que a presunção configurada na acusação fiscal ressai totalmente insubsistente. A uma, porque não se pode motivar o lançamento por presunção não estabelecida em lei; a duas, porque não há ilegitimidade na contratação de afretamento na forma como pactuada; a três, porque dentro do conjunto dos contratos, independente se foi feito de forma conjunta ou separada, deveria o fiscal ter excluído da base de incidência o que efetivamente não configura a prestação de serviços. Não há motivação razoável para a interpretação a que chegou a fiscalização. Nesse diapasão, a Coordenação Geral de Tributação (COSIT) publicou a Solução de Consulta nº 225, de 19 de agosto de 2014, antes mesmo das alterações introduzidas na Lei nº 9.481/97, pela Lei nº 13.043/2014, em que respalda o procedimento adotado pela Recorrente no que tange a liberdade das empresas na forma de montar os seus negócios e de contratação, em especial para a exploração de petróleo. Vejamos: SC COSIT nº 225/2014 Assunto: Imposto de Renda Retido na Fonte Ementa:AFRETAMENTO DE NAVIOS SONDA. POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DA ALÍQUOTA ZERO DE IRRF SOBRE OS VALORES REMETIDOS PARA O EXTERIOR 14. O centro da questão é a forma de contratação dos referido navios sonda para operação no Brasil, que será feito por meio de dois contratos distintos: (i) contrato de afretamento; e (ii) contrato de prestação de serviço. O primeiro contrato será efetuado entre a consulente, que é uma empresa domiciliada no exterior, e uma empresa brasileira da área de petróleo e gás. Já o contrato de prestação de serviços para operação do navio sonda será efetuado entre a empresa brasileira da área de petróleo e gás e uma empresa operadora brasileira. 15. É certo que as empresas são livres para montar os seus negócios e para contratar na forma que melhor entenderem, visando a otimização de suas operações e a obtenção de lucros. Essa liberdade não é absoluta pois tem como limite a observância das leis. Fl. 16237DF CARF MF Processo nº 16682.721161/201291 Acórdão n.º 2401005.149 S2C4T1 Fl. 13 23 16. Portanto, em princípio, não se vislumbra nenhum óbice que, na gestão de seus negócios, determinada empresa opte por efetuar dois contratos com empresas distintas, uma para afretamento do bem e outra para sua operação. Com base no exposto, concluise: 22. A presente Solução de Consulta não convalida nem invalida nenhuma das afirmativas da consulente, pois isso importa em análise de matéria probatória, incompatível com o instituto da consulta. Com efeito, as soluções de consulta não se prestam a verificar a exatidão dos fatos apresentados pelo interessado, uma vez que elas se limitam a interpretar a aplicação da legislação tributária a tais fatos, partindo da premissa de que eles estão corretos e vinculando sua eficácia à conformidade entre fatos narrados e realidade. 23. As empresas são livres para administrar os seus negócios e para contratar da forma que melhor entenderem, visando a otimização de suas operações e a obtenção de lucros. Essa liberdade não é absoluta, pois tem como limite a observância das leis. 24. Respeitados os aspectos acima citados nesta solução de consulta, o pagamento, crédito, emprego ou remessa da contraprestação do contrato de afretamento de navios sonda está enquadrado no inciso I do art. 1º da Lei nº 9.481, de 1997, estando sujeito à alíquota zero do IRRF. (Grifamos). Já sob a égide das alterações introduzidas pela Lei nº 13.043/2014, foi exarada a Solução de Consulta nº 12, de 9 de fevereiro de 2015 que trata da alíquota zero de IRRF sobre os valores remetidos ao exterior a título de afretamento de plataformas semissubmerssíveis, conforme se destaca a seguir: SC COSIT nº 12/2015 ASSUNTO:IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF AFRETAMENTO DE PLATAFORMAS SEMISSUBMERSSÍVEIS POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DA ALÍQUOTA ZERO DE IRRF SOBRE OS VALORES REMETIDOS PARA O EXTERIOR 18. O centro da questão é, portanto, se plataformas semissubmersíveis seriam embarcações para fins de enquadramento na alíquota zero de IRRF de que trata a I do art. 1º da Lei nº 9.481, de 13 de agosto de 1997, base legal do inciso I do art. 691 do RIR/1999, e, se for o caso, qual seria o limite da parcela relativa ao contrato de afretamento do valor global do contrato, já que há execução simultânea de prestação de serviço, relacionados à prospecção e exploração de petróleo ou gás Fl. 16238DF CARF MF 24 natural, celebrados com pessoas jurídicas vinculadas entre si, no s plataformas. 19. Nesse contexto, mediante consulta a internet ao sítio www.portalmaritimo.com, constatase que plataformas semissubmersíveis são espécies do gênero plataformas flutuantes que abrangem também os naviossonda, podendo em alguns casos navegar. Além disso, ambas as plataformas flutuantes são dotadas de equipamentos tipo sonda para perfuração e produção em águas profundas. 21. Assim, entendese que o legislador pátrio, ao limitar a oitenta por cento a parcela do contrato de afretamento, no caso de embarcações com sistema do tipo sonda para perfuração, completação, manutenção de poços, em relação ao do valor global do contrato, que envolver simultaneamente a de prestação de serviço de operação dessas embarcações, reconheceu a aplicabilidade da alíquota zero de IRRF para as plataformas semissubmersíveis, tendo em vista que se enquadram na definição de embarcação dotada de sistema tipo sonda. Conclusão 23. Com base no exposto, concluise: que plataformas semissubmersíveis estão incluídas no disposto no inciso II do §2º do art. 1º da art. 1º da Lei nº 9.481, de 1997, alterado pela Lei nº 13.043, de 2014. 24. Assim, o pagamento, crédito, emprego ou remessa da contraprestação do contrato de afretamento de plataforma semissubmersível está sujeito à alíquota zero do IRRF, conforme disposto no inciso I do art. 1º da Lei nº 9.481, de 1997, base legal do inciso I do art. 691 do RIR/1999. A parcela relativa ao contrato de afretamento, por sua vez, estará limitada à 80% do valor global do contrato, quando houver execução simultânea de prestação de serviço, relacionados à prospecção e exploração de petróleo ou gás natural, celebrados com pessoas jurídicas vinculadas entre si. (Grifamos). Mais uma vez a Administração reafirma a legitimidade na bipartição dos contratos, o que corrobora a razoabilidade da forma contratual no tipo específico da atividade objeto da demanda e a indevida descaracterização dos contratos de afretamento. Além da clara insuficiência da configuração do fato gerador da forma como inserida na acusação fiscal, até mesmo por força da existência de contratos distintos e perfeitamente hígidos, necessário se faz ainda trazer à reflexão a distinção da natureza dos contratos. Enquanto que o afretamento tem por objeto uma obrigação de dar, o contrato de prestação de serviços tem por objeto uma obrigação de fazer. Também nesse ponto encontrase configurada a naturalidade na distinção contratual. Importante nesse ponto trazer à colação entendimento exarado pelo Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Reclamação 14.290, quando do voto da Ministra Relatora Rosa Weber, traz em destaque os debates ocorridos para a aprovação da Súmula Vinculante nº 31 relativa ao ISS sobre locação de bens móveis, em que se discutiu a distinção da incidência Fl. 16239DF CARF MF Processo nº 16682.721161/201291 Acórdão n.º 2401005.149 S2C4T1 Fl. 14 25 tributária quando ocorre a locação de serviços juntamente com a prestação de serviços, em firmando entendimento de que a cobrança de forma conjunta não desnatura a distinção entre os contratos Vejamos: O SENHOR MINISTRO CEZAR PELUSO […] Veja bem: estamos afirmando que é inconstitucional quando incide sobre locação de móveis, mas só quando é dissociada da operação de serviço. Quando for associada, cabe imposto? Não. Então, a referência a dissociada é desnecessária, porque, quando associada, também não incide.[sic] (Fls. 324). Embora a Corte tenha optado por suprimir a expressão quando dissociada da prestação de serviço do texto da súmula, essa supressão foi motivada pela presunção de que ela seria redundante, pois serviria apenas para reforçar o óbvio: o tributo incide sobre a prestação de serviços, independentemente dos esforços para escamoteálo em contratos de locação. Nesse sentido são os seguintes trechos dos debates, omitidos das razões de agravo regimental: O SENHOR MINISTRO JOAQUIM BARBOSA – Eu não vejo prejuízo na supressão dessa expressão. A minha preocupação foi em relação àquelas situações em que a prestação de serviço vem escamoteada sob a forma de locação. Por exemplo: locação de maquinário, e vem o seu operador. Nessa hipótese, muito comum. O SENHOR MINISTRO CEZAR PELUSO Então, esse caso aí é a prestação de serviço típica, não é a locação de móvel como tal. O SENHOR MINISTRO JOAQUIM BARBOSA – Pois é, mas a prestação é escamoteada aí. O SENHOR MINISTRO CEZAR PELUSO Sim, mas a pergunta é a seguinte: existem, neste caso, locação de móvel e prestação de serviço, ou existem ambas ? O SENHOR MINISTRO JOAQUIM BARBOSA – Tem as duas coisas, mas o que aparece é só a locação de móveis. O SENHOR MINISTRO CEZAR PELUSO Então a locação de móvel não tem incidência, mas a prestação de serviço tem. O SENHOR MINISTRO JOAQUIM BARBOSA Mas, como eu disse, não vejo essas questões periféricas que podem surgir aí, podem ser resolvidas em reclamação e em outros procedimentos. Não vejo nenhum problema. O SENHOR MINISTRO CEZAR PELUSO O meu receio é exatamente que se raciocine nestes termos: quando associadas, elas ficam sujeitas a imposto? Não ficam. Fl. 16240DF CARF MF 26 A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA O que o Ministro Peluso aponta é sério. Nós temos que dar uma redação que não gere dúvida, porque, poder resolver por reclamação, é, de início, já acentuarmos que poderá haver dúvida. O SENHOR MINISTRO JOAQUIM BARBOSA – Que haverá reclamação, não tenho a menor dúvida. Reclamação virou a panaceia. A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA Então, eu acho que, se Vossa Excelência, que propôs, atentando inclusive aos precedentes, entender que realmente a proposta do Ministro Peluso cobre aquilo que discutimos e que foi consolidado como a matéria solucionada pelo Tribunal, melhor que se dê adesão à proposta e se elimine a parte final. O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES (PRESIDENTE E RELATOR) Portanto: É inconstitucional a incidência do Imposto Sobre Serviço de qualquer natureza sobre operações de locação de bens móveis. O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO Presidente, com isso ficamos fiéis ao que assentado pela Corte, já que, quando da formalização do leading case , não houve o exame da matéria quanto à conjugação "locação de bem móvel e serviço". Devese esperar, portanto, reiterados pronunciamentos do Tribunal sobre possível controvérsia, envolvida a junção, para posteriormente editarse um verbete (grifei). Aliás, a própria sequência da frase pinçada pelo agravante, mas ausente de sua transcrição, revela o alcance do precedente: O SENHOR MINISTRO CEZAR PELUSO [...] Veja bem: estamos afirmando que é inconstitucional quando incide sobre locação de móveis, mas só quando é dissociada da operação de serviço. Quando for associada, cabe imposto? Não. Então, a referência a dissociada é desnecessária, porque, quando associada, também não incide. Quando há contrato de locação de móveis e, ao mesmo tempo, prestação de serviço, a locação de móveis continua não suportando o imposto; o serviço, sim. Se não tiver nenhuma ligação com prestação de serviço, também continua não suportando; não há incidência. Noutras palavras, o dissociada aí realmente é inútil e pode gerar dúvida. E, quando for associada, está sujeita ao imposto sobre prestação de serviço? A meu ver, com o devido respeito, não há prejuízo algum ao sentido das inúmeras decisões, se for cortada a expressão final "dissociada da prestação de serviço". É inconstitucional a incidência sobre locação de móveis, só. Portanto, o que o agravante poderia ter discutido, mas não o fez, é a necessidade de adequação da base de cálculo do ISS para refletir apenas o Fl. 16241DF CARF MF Processo nº 16682.721161/201291 Acórdão n.º 2401005.149 S2C4T1 Fl. 15 27 vulto econômico da prestação de serviços, sem a parcela de retribuição relativa à locação de bem móvel. Em sentido diverso, com base em uma única fala tirada de contexto, incompleta, o agravante busca estender uma orientação evidentemente inaplicável ao caso. Ante o exposto, nego provimento ao agravo regimental.” (ARE 656709 AgR, 2ª Turma, Rel. Min. Joaquim Barbosa, julgado em 14/02/2012). (Grifamos). No caso em exame, o contrato de afretamento não poderia ter sido tratado como um contrato único de prestação de serviços. O que a fiscalização poderia ter feito, mas não o fez, seria o arbitramento da base de cálculo, nos termos do art. 148 do CTN, para refletir apenas o vulto econômico da prestação de serviços, sem a parcela relativa ao valor do afretamento No entanto, por entender que poderia existir potencialmente a realização do fato gerador, resolveu aferir a base tributável sobre a totalidade dos valores, sem a efetiva constatação da ocorrência do fato jurídico tributário. Conforme bem destaca a Recorrente à fl. 16.019, as embarcações em causa – navios, navios sonda e plataformas – em razão da complexidade técnica são bens de vultoso valor e essencial ao desenvolvimento da atividade a que se destinam, representam a maior parcela do valor contratado. Nesse contexto, se cabível a unificação, seria mais lógico e coerente que o afretamento abarcasse a prestação de serviços do que o contrário como pretendeu o Fisco. Quando muito, o que caberia, caso a fiscalização tivesse comprovado atribuição irreal de preços aos contratos – o que no caso sequer se cogitou – seria eventual glosa de excesso de custo de afretamento ou tributação de parte como serviço, nada justificando ou autorizando a desqualificação do contrato de afretamento para atribuirlhe a natureza de prestação de serviços e com isso tributálo integralmente como tal. Falta à acusação fiscal elementos de prova que ratifiquem as razões que a levaram para fundamentar a tese de que todos os valores pagos de afretamento são, na verdade, prestação de serviços, afastando a alíquota zero do IRRF, conforme determinação contida no art. 9º do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, in verbis: Art. 9o A exigência do crédito tributário e a aplicação de penalidade isolada serão formalizados em autos de infração ou notificações de lançamento, distintos para cada tributo ou penalidade, os quais deverão estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) Tendo em vista o entendimento ora firmado de que no presente caso não houve a comprovação de que os contratos de afretamento se tratavam de prestação de serviços, restou prejudicada a análise concernente a não tributação dos valores pagos a beneficiários localizados em países signatários de tratados para evitar a dupla tributação. Fl. 16242DF CARF MF 28 Da tributação das remessas feitas a paraísos fiscais No que tange ao argumento da Recorrente de que é indevida a exigência do IRRF em relação às remessas efetuadas a países com tributação favorecida por entender que não poderia a IN SRF 252/02 revogar o Ato Declaratório SRF n.º 8/99 que criou uma exceção para os contratos firmados antes de 31/12/1998 ao afastar a aplicação do artigo 8º da Lei nº 9.779/99 (IRRF à alíquota de 25% decorrentes de operação em que o beneficiário seja residente ou domiciliado em país que não tribute a renda), entendo que não lhe assiste razão. Conforme bem asseverou a Procuradoria da Fazenda Nacional em suas contrarrazões: No presente caso, a mesma autoridade que editou o Ato Declaratório, a autoridade máxima da Receita Federal do Brasil, determinou sua revogação, expressamente, sem margem a qualquer resquício de dúvidas. Assim sendo, não tem cabimento a pretensão da recorrente de emprestar validade ao Ato Declaratório 8/99 até os dias atuais. Por fim, a utilização da expressão “sem interrupção de sua força normativa” significa que, para os fatos geradores ocorridos durante sua vigência, e decorrentes de contratos firmados até 31/12/1998, não se aplica o disposto no artigo 8º da Lei nº 9.779/99. Exemplificando, caso o lançamento abarcasse fatos geradores de 29/01/1999 até 03/12/2002, e se tratasse de remuneração de afretamento de embarcações, mesmo na hipótese de beneficiário com sede em paraíso fiscal, a alíquota seria zero. Nesse ponto, correta a exigência do IRRF à alíquota de 25% no caso dos pagamentos a residentes em paraísos fiscais, conforme art. 8º da Lei nº 9.779/99: Art. 8o Ressalvadas as hipóteses a que se referem os incisos V, VIII, IX, X e XI do art. 1o da Lei no 9.481, de 1997, os rendimentos decorrentes de qualquer operação, em que o beneficiário seja residente ou domiciliado em país que não tribute a renda ou que a tribute à alíquota máxima inferior a vinte por cento, a que se refere o art. 24 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, sujeitamse à incidência do imposto de renda na fonte à alíquota de vinte e cinco por cento. Da incidência dos juros sobre a multa de ofício Pleiteia o contribuinte a não incidência dos juros correspondentes à taxa SELIC sobre o montante devido a título de multa de ofício, no caso de não ser cancelado a exigência do lançamento. Fl. 16243DF CARF MF Processo nº 16682.721161/201291 Acórdão n.º 2401005.149 S2C4T1 Fl. 16 29 A exigência combatida no Recurso Voluntário tem como fundamento o artigo 61, § 3º, da Lei nº. 9.430/96, que assim determina: Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (Vide Decreto nº 7.212, de 2010) § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (Vide Medida Provisória nº 1.725, de 1998) (Vide Lei nº 9.716, de 1998)(Grifamos). Ocorre que as multas de ofício não são débitos decorrentes de tributos, vez que são penalidades que decorrem de punição aplicada pela fiscalização quando verificadas a falta de pagamento ou recolhimento dos tributos e contribuições, após o vencimento do prazo para tal; e a falta de declaração e declaração inexata, o que enseja a aplicação da multa contida no artigo 44 da Lei nº. 9.430/96: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Vide Lei nº 10.892, de 2004) (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Vide Lei nº 10.892, de 2004) (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Dessa forma, a incidência dos acréscimos moratórios previstos no art. 61 da Lei nº. 9.430/96 somente ocorre sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, ao passo que a multa de ofício não decorre de tributos ou contribuições, mas sim do descumprimento do dever legal de declarálo e/ou pagálo. Fl. 16244DF CARF MF 30 Acrescentese ainda que o art. 161, § 1º do Código Tributário Nacional, do mesmo modo, não autoriza referida incidência, posto que a previsão ali contida está condicionada a edição de uma lei específica regulando a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício, conforme se destaca da norma: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. Assim, entendo que assiste razão a recorrente, razão porque afasto a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício com relação à parte mantida do lançamento. Conclusão Ante o exposto, CONHEÇO do Recurso Voluntário, para afastar a preliminar de nulidade e, no mérito, DARLHE PARCIAL PROVIMENTO, para exonerar o crédito tributário exigido no lançamento relativo ao IRRF nos pagamentos em favor de empresas estrangeiras a título de afretamento, com exceção aos pagamentos a residentes em países de tributação favorecida em que deve incidir o imposto à alíquota de 25%. Sobre a exigência mantida, afasto a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício. (Assinado digitalmente) Andréa Viana Arrais Egypto. Fl. 16245DF CARF MF
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Numero do processo: 10380.904982/2009-83
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Nov 01 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2006
PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO A MAIOR DE ESTIMATIVA. POSSIBILIDADE DE COMPENSAÇÃO.
Conforme já pacificado pela Súmula CARF n° 84, o pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Tendo sido verificada a liquidez e certeza do crédito tributário em sede de diligência, a homologação pretendida deve ser reconhecida.
Numero da decisão: 1301-002.646
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário e homologar as compensações até o limite de crédito reconhecido, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente.
(assinado digitalmente)
Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro- Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Roberto Silva Junior, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Ângelo Abrantes Nunes, José Eduardo Dornelas Souza, Milene de Araújo Macedo e Bianca Felicia Rothschild.
Nome do relator: MARCOS PAULO LEME BRISOLA CASEIRO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário e homologar as compensações até o limite de crédito reconhecido, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente. (assinado digitalmente) Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro- Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Roberto Silva Junior, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Ângelo Abrantes Nunes, José Eduardo Dornelas Souza, Milene de Araújo Macedo e Bianca Felicia Rothschild.
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INDUSTRIA E COMERCIO DE ALIMENTOS Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2006 PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO A MAIOR DE ESTIMATIVA. POSSIBILIDADE DE COMPENSAÇÃO. Conforme já pacificado pela Súmula CARF n° 84, o pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Tendo sido verificada a liquidez e certeza do crédito tributário em sede de diligência, a homologação pretendida deve ser reconhecida. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário e homologar as compensações até o limite de crédito reconhecido, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente. (assinado digitalmente) Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Roberto Silva Junior, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Ângelo Abrantes Nunes, José Eduardo Dornelas Souza, Milene de Araújo Macedo e Bianca Felicia Rothschild. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 38 0. 90 49 82 /2 00 9- 83 Fl. 226DF CARF MF Processo nº 10380.904982/200983 Acórdão n.º 1301002.646 S1C3T1 Fl. 227 2 Relatório Cuida o presente processo de pedido de compensação (DCOMP) nº 42189.35348.310506.1.3.040101 (fls. 01/07), o qual visa compensar recolhimento a maior de CSLL, efetuado em 31/01/2006, no valor requerido de R$ 273.483,70. A DRF, por meio de Despacho Decisório (fls. 08/09), ao analisar as informações prestadas na referida DCOMP, acabou por não homologar a compensação declarada por se tratar de pagamento a titulo de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Liquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período. Inconformado, o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade às fls. 11/23. Vejamos a síntese de suas alegações, conforme se depreende do acórdão relatado pela instância a quo: No período em questão, o contribuinte declarou em DCTF débito tributário relativo a estimativa mensal de IRPJ/CSLL, pagandoo. Posteriormente, verificando erro, transmitiu a devida DCTF retificadora, diminuindo tal débito. Depois de encerrado o anocalendário em questão, apresentou PER/DCOMP, aproveitandose da diferença entre o valor pago .e a quantia declarada na DCTF retificadora. • Para sua surpresa, a contribuinte recepcionou Intimação/Despacho Decisório pela Secretaria da Receita Federal (SRF), comunicando a improcedência do crédito informado na PER/DCOMP, sob o argumento de que tal crédito tratavase de pagamento a titulo de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado como dedução do imposto de renda mensal da pessoa jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre Lucro Liquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ao para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período. • Pelo que está acima exposto, fica muito evidente que, ainda que o tributo recolhido em demasia fosse considerado estimava mensal da IRPJ/CSLL, logo, passível de compensacão apenas após a constituição do saldo negativo ao final do período de, apuração, a compensação pleiteada pela requerente ainda seria legitima. • Ocorre que, quando a compensação foi pleiteada, o exercício já estava encerrado, logo, jamais o despacho decisório poderia ainda tratar tais recolhimentos como mera estimativa, tendo em conta que já era cediço o quantum devido no regime de apuração pelo lucro real anual. • Em síntese, por qualquer via tal recolhimento é indevido ou a maior, pois o montante da obrigação tributária já era conhecido quando a compensa cão foi pleiteada, sendo injustificável a motivação do despacho decisório, que alegou que o recolhimento por estimativa só poderia servir para compor o saldo negativo do IRPJ/CSLL ao final do período de apuração. • Ocorre que o Despacho Decisório ora impugnado ignorou completamente o fato da ocorrência do erro no recolhimento, como foi exposto, tendo a integralidade Fl. 227DF CARF MF Processo nº 10380.904982/200983 Acórdão n.º 1301002.646 S1C3T1 Fl. 228 3 do valor recolhido como tributo pago por estimativa. Na situação considerada pelo fisco, o valor da compensação darseia com a posterior verificação da existência de pagamento indevido, passível apenas no final do exercício, ao comparar o valor recolhido com o montante devido ao fim do período de apuração com base no regime de Lucro Real Anual. • Infelizmente o Despacho Decisório, de forma incauta, fundamentase em regra geral sem considerar as particularidades do caso concreto, no qual o recolhimento efetuado foi superior ao devido e declarado através da DCTF. Situação bem diversa, talvez a que tenha fundamentado a decisão impugnada, é aquela na qual o contribuinte realiza pagamentos por estimativa mensal e os declara ao fisco e, em dado período de apuração, vislumbra que os recolhimentos superam o lucro real até aquele momento, porém, antes mesmo do encerramento do exercício, quando apenas então teria a condição de contemplar se os recolhimentos efetuados e declarados ao fisco eram ou não indevidos. • O caso da impugnante é bem diverso, o valor declarado ao fisco como devido por estimativa mensal de IRPJ/CSLL é inferior ao que foi recolhido, logo, inegável a caracterização de pagamento indevido. • Ocorre que o Despacho Decisório fundamenta a decisão nele contida igualando o caso da impugnante com a metodologia de apuração por estimativa presente no regime de lucro real anual, onde, na declaração anual de ajuste, vislumbrase se os recolhimentos estimados são superiores ou inferiores ao devido, resultando na constatação de pagamento indevido. • Tal confusão fica notória quando a decisão expõe que "por tratarse de pagamento ao titulo de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ e CSLL do período". Como se vê, a decisão impugnada considera que o recolhimento efetuado pela impugnante era devido ao titulo de estimativa mensal, quando a DCTF do período de apuração em debate demonstrava valor inferior ao que foi efetivamente recolhido, constituindose assim em pagamento indevido. • A impugnante entende estar havendo um notório mal entendido por parte da SRF, quando pretende tratar de pagamento por estimativa o que não é, pois coma já foi exaustivamente exposto tratase de pagamento em excesso do recolhimento mensal por estimativa. De outra forma, pelo que pretende a SRF, jamais poderia haver pagamento indevido ou a maior quando o contribuinte fosse recolher a estimativa mensal, pois, em qualquer circunstância tal recolhimento seria considerado uma estimativa mensal, a ser totalizada ao final do exercício, e comparada com o quantum devido no Lucro Real anual. • A situação sobredita não pode merecer guarida jurídica, pois ignora completamente um fato da vida real de qualquer contribuinte, tão passível de ocorrer no cotidiano que há previsão legal para seu tratamento, que é o erro no cômputo do tributo devido pelo contribuinte, levandoo a recolher mais do que o exigido pela legislação. Pela decisão ora impugnada, tal realidade seria irrelevante quando trata se de recolhimento por estimativa, pois o contribuinte estimando certo ou errado o valor do tributo mensal, tal estimativa seria dada como efetiva para efeito de comparação com o valor anual devido. Fl. 228DF CARF MF Processo nº 10380.904982/200983 Acórdão n.º 1301002.646 S1C3T1 Fl. 229 4 • Obviamente, tal entendimento não pode prosperar, pois cerceia completamente um direito liquido e certo do contribuinte de reaver o que erroneamente apurou e recolheu. Admitir o contrário seria subverter inclusive principio geral de direito, no qual há repulsa geral ao locupletamento sem causa, neste caso, por parte da Fazenda Pública. • Diante do exposto, resta evidente tratarse de recolhimento indevido, visto realizado em monta superior ao declarado em DCTF, justificandose o pedido de compensação pleiteado e refutandose por completo a negativa do fisco em reconhecer tal límpido direito. • Ainda que a hipótese levantada no Despacho Decisório merecesse guarida, apesar da notória impropriedade da decisão em aplicar regra genérica a caso especifico circunstancialmente diverso, outros detalhes táticos merecem especial atenção, pois de forma alguma poderiam ter sido completamente ignorados na motivação da decisão impugnada. • Posteriormente, percebendo que havia recolhido valor a maior, a empresa transmitiu o PER/DCOMP, tendose ainda retificado a DCTF. • Diante dos fatos ignorados no Despacho Decisório, resta evidenciado que o recolhimento gerador do direito creditório pleiteado já era passível de comparação com o valor efetivamente devido para o anocalendário em questão. Isso porque, no momento da entrega da DIPJ, já se sabia qual era o IRPJ/CSLL efetivamente devido pelo regime de apuração do Lucro Real Anual. • O valor do IRPJ/CSLL devido no ano em questão havia sido informado ao fisco, quando da transmissão da DIPJ. Nestes termos, já era possível determinar que os recolhimentos realizados por estimativa mensal ao longo do exercício superavam o valor efetivamente devido no calendário, motivando a composição do saldo negativo demonstrado na Ficha 12 A da DIPJ mencionada. • De outro modo, é logicamente inviável admitir que, no momento da transmissão do PER/DCOMP, já após o encerramento do resultado do ano ern questão, ainda, se pudesse tratar os recolhimentos efetuados naquele ano como estimativas mensais, quando já havia o aperfeiçoamento do quantum devido, manifestadamente inferior ao total recolhido ao longo do exercício. • Tal ilógica acepção tragada no despacho decisório afronta qualquer hermenêutica, ou mesmo, a mera etimologia do instituto defendido pelo fisco, qual seja, o da estimativa. Por definição de nossa pátria linguagem, estimativa é a previsão de um valor, circunstância ou resultado. Desta forma, é irrazoável admitir ainda se tratar de estimativa de recolhimento de tributo devido, quando já se sabe, e não apenas se estima, o valor definitivo da contribuição devida. Em simples questionamento: Como se pode considerar recolhimento estimado da IRPJ/CSLL de determinado anocalendário, quando o pedido de compensação se deu posteriormente? • Em que pese a impugnante ter por certo, como já foi exaustivamente demonstrado, tratarse de recolhimento indevido, pois recolheu valor de estimativa mensal superior aquele declarado ao fisco, ainda que se admitisse a ilógica tese do fisco, considerando tratarse de recolhimento por estimativa, logo, restrito a composição de saldo negativo, no caso concreto em análise, também se trataria de saldo negativo, fato formalmente consignado na DIPJ transmitida pelo contribuinte. Fl. 229DF CARF MF Processo nº 10380.904982/200983 Acórdão n.º 1301002.646 S1C3T1 Fl. 230 5 • Sabendo de tais fatos, a compensação pleiteada pela impugnante é devida por encontrar respaldo fático e legal, visto que, pelo que já foi fartamente exposto, a origem do crédito não homologado foi o pagamento indevido, seja por se tratar de recolhimento a maior quando comparado com o valor devido declarado em DCTF, seja pelo fato de já se ter, na época do pleito de compensação, a certeza de que tais recolhimentos excediam ao tributo devido no final do exercício em questão. • O direito a restituição ou compensação dos valores indevidamente recolhidos pelo contribuinte encontrase previsto no inciso II do art. 165 do CTN. • Para a fruição do direito, fazse necessária a ocorrência de pagamento indevido, decorrente de erro do contribuinte quando do recolhimento do tributo ou ainda, na extinção de decisão condenatória que cominava ao contribuinte o pagamento de tributo. • Dito isto, tendo em vista o que já foi relatado, resta evidente tratarse de recolhimento indevido. Ocorre que, em um primeiro momento, a impugnante declarou valor a titulo de estimativa mensal do IRPJ/CSLL devido. Em momento posterior, revisando o cômputo da monta devida, o contribuinte constatou erro da determinação do montante do débito, retificando a competente declaração (DCTF), informando que o valor correto seria outro menor. • Pelo exposto, fica notório que o fato descrito se alinha perfeitamente com a hipótese de recolhimento indevido prevista no art.165, II, do CTN, acima transcrito, por tratarse de inequívoco erro no cálculo do montante do débito, sendo importante salientar que o equivoco foi devidamente saneado e informado SRF através da retificação da DCTF do período. • Em relação a transmissão da DCTF retificadora é relevante relembrar o que dispõe o §1º do art. 9º da IN SRF n° 255/02, vigente à época dos fatos em debate, abaixo transcrito: Art. 9º. Os pedidos de alteração nas informações prestadas em DCTF serão formalizados por meio de DCTF retificadora, mediante a apresentação de nova DCTF elaborada com observância das mesmas normas estabelecidas para a declaração retificada. § 1° A DCTF mencionada no caput deste artigo terá a mesma natureza da declaração originariamente apresentada, substituindoa integralmente, e servirá para declarar novos débitos, aumentar ou reduzir os valores de débitos já informados ou efetivar qualquer alteração nos créditos vinculados em declarações anteriores. • Da leitura da norma acima, se extrai que, ao transmitir a DCTF retificadora informando valor de débito relativo a IRPJ/CSLL devida por estimativa inferior ao originalmente declarado, o novo valor declarado substituiu o anterior para todos os efeitos, tendo em vista que a declaração retificadora substitui integralmente a retificada. Desta feita, é inegável que o valor devido ao titulo da exação em debate é inferior ao que foi declarado, logo, alinhandose plenamente na figura de pagamento indevido, prevista no art. 165, II, do CTN. • Pelo que decidiu o despacho da SRF em impugnação, o contribuinte jamais erraria no recolhimento estimado de IRPJ e CSLL, quando sujeito ao lucro real anual, pois qualquer que fosse a monta recolhida estarseia sempre diante de recolhimento por estimativa, negando o fato, até usual, de que o contribuinte pode erra no cálculo do débito. Se a própria norma (art. 165, II, CTN) previu a Fl. 230DF CARF MF Processo nº 10380.904982/200983 Acórdão n.º 1301002.646 S1C3T1 Fl. 231 6 possibilidade de erro do contribuinte, jamais poderia o intérprete afastar tal comum, corriqueira e verossímil possibilidade. • Diante de tamanha impropriedade, parece ao contribuinte tratarse de mera confusão no trato das circunstâncias particulares do caso concreto por parte da SRF, que confundiu o recolhimento alvo do pedido de compensa cão com o valor mensal apurado com base no regime de estimativa, pois o valor recolhido foi superior ao valor da estimativa, logo, em parte indevido. O que não poderia ser alvo de compensa cão, pelas normas expostas como fundamento da decisão, é o valor do tributo calculado e recolhido ao titulo de estimativa, ou seja, o valor exato da exação devida sob o regime de estimativa e não eventuais recolhimentos a maior. • Sobre este fato, é importante analisar o que diz o inciso IV do §4° do art. 2° da Lei No. 9.430/96, abaixo transcrito, aplicável à IRPJ/CSLL, conforme art. 28 da Lei N°. 9430/96: Art. 2° A pessoa jurídica sujeita a tributação com base no lucro real poderá optar pelo pagamento do imposto, em cada mês, determinado sobre base de cálculo estimada, mediante a aplicação, sobre a receita bruta auferida mensalmente, dos percentuais de que trata o art. 15. da Lei n° 9.249, de 26 de dezembro de 1995, observado o disposto nos §§ 1 ° e 2° do art. 29 e nos arts. 30 a 32, 34 e 35 da Lei n°8.981, de 20 de janeiro de 1995, com as alterações da Lei n° 9.065, de 20 de junho de 1995. § 4° Para efeito de determinação do saldo de imposto a pagar ou a ser compensado, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor: IV do imposto de renda pago na forma deste artigo. • Como está claro na norma acima, o que está vinculado ao tributo devido no regime de apuração anual é o valor recolhido na forma do art. 2°, ou seja, o tributo calculado na forma ali prescrita, logo, o que foi pago em excesso não foi pago na forma prevista na lei, logo, não está inserido na vinculação sobredita. Sendo a norma omissa a qualquer valor eventualmente pago em excesso, por ausência previsão legal, jamais poderia a SRF pretender fazer tal vincula ção, uma vez que o legislador não o fez. • Neste exato sentido, o então Conselho de Contribuintes proferiu decisões pela possibilidade de compensa cão dos valores pagos a maior, de forma indevida, nos recolhimento de estimativas mensais de IR e CSLL já no mês subseqüente ao mesmo. Ainda mais flagrante é tal direito no caso em debate, quando a compensação foi feita apenas no exercício subseqüente, quando não mais há de ser falar em estimativa, visto que já era conhecido o quantum devido no exercício. • Tal entendimento pode ser exemplificado pelas seguintes decisões: RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA A MAIOR QUE O DEVIDO O valor do recolhimento a titulo de estimativa maior que o devido segundo as regras a que está submetido o lucro real anual, é passível de compensação/restituição, a partir do mês seguinte. O valor que está vinculado à apuração no final do ano é a estimativa recolhida de acordo com a legislação de regência do referido sistema. (Acórdão 10516205, Processo No. 14033.000221/200528, 1 ° CC, Quinta Câmara, Sessão de 06/12/2006, Relator José Clóvis Alves, Provimento por unanimidade). [O contribuinte aduziu outros atos administrativos em seu favor] Fl. 231DF CARF MF Processo nº 10380.904982/200983 Acórdão n.º 1301002.646 S1C3T1 Fl. 232 7 • Por tudo que foi exposto, resta claro o direito da impugnante, configurado que está o pagamento a maior, logo indevido, tendo em vista que excedente ao que preconiza o art, 2° da Lei 9.430/96, desta feita, alheio a vinculação dada aos recolhimentos por estimativa. Motivo este, pelo qual, o egrégio Conselho de Contribuintes tem reiteradamente reconhecido o erro da SRF ao vincular o pagamento excedente das estimativas mensais em debate. • Afora tudo o que 16 foi exposto, que deixa de forma induvidosa o direito da impugnante, o art. 858, §1°, II do RIR/99 • A justificativa trazida pelo fisco para negar neste e em outros casos a compensação de estimativas mensais de IR e CSLL seria o fato de não se saber, por ocasião do recolhimento, se haveria ou não recolhimento indevido, visto que ainda não se saberia a exação devida no regime anual. No caso em tela, tal justificativa não tem qualquer sentido pois, como já dito, a compensação foi pleiteada no ano seguinte, logo, quando já se sabia o valor da obrigação anual e, por conseguinte, já se tinha a certeza da impropriedade do recolhimento feito em demasia. Portanto, se o Fisco prefere fazer vista grossa à realidade do pagamento indevido, como já demonstrado, não pode negar que a hipótese levantada para negar a compensação não se aplica ao caso presente. • A própria SRF, através do Ato Declaratório SRF No. 3/00, reconhece o direito dos contribuintes em compensarem o saldo negativo do 1RPJ e CSSL já a partir de janeiro do ano calendário subseqüente, conforme se vê abaixo transcrito: O SECRETÁRIO DA RECEITA FEDERAL, no uso de suas atribuições e tendo em vista o disposto no § 4º do art. 39 da Lei n° 9.250, de 26 de dezembro de 1995, nos arts. 1° e 6º da Lei n°9.430, de 27 de dezembro de 1996, e no art. 73 da Lei n° 9.532, de 10 de dezembro de 1997, declara que os saldos negativos do Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sobre o Lucro Liquido, apurados anualmente, poderão ser restituídos ou compensados com o imposto de renda ou a contribuição social sobre o lucro liquido devidos a partir do mês de janeiro do anocalendário subseqüente ao do encerramento do período de apuração, acrescidos de juros equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia Selic para títulos federais, acumulada mensalmente, calculados a partir do mês subseqüente ao do encerramento do período de apuração até o mês anterior ao da restituição ou compensação e de um por cento relativamente ao mês em que estiver sendo efetuada. (G.N). • Da simples leitura da norma acima se extrai que, ainda que diante de insensata visão de não reconhecer como indevidos os recolhimentos alvo do pleito de compensação, a impugnante teria o direito de compensar os valores recolhidos. No caso em análise, pleiteouse a compensação dos mesmos apenas posteriormente, quando a norma torna passível de compensação, quando negativo, o tributo recolhido ao titulo de estimativa mensal já a partir de janeiro do exercício subseqüente. • Como fica evidente, ainda que os valores recolhidos a maior não fossem considerados como indevidos, logo passíveis de restituição ou compensação, na época em que as compensações foram pleiteadas já eram passíveis de compensação ao titulo de saldo negativo de 1RPJ/CSLL em relação ao ano calendário em questão. • Do exposto, se extrai que não ha como negar o direito da compensação pleiteada pelo contribuinte, de outra forma, terseia a insólita situação do contribuinte ser obrigado a recolher o débito cuja compensação não foi homologada, tão somente para gerar novo direito creditório passível de restituição ou Fl. 232DF CARF MF Processo nº 10380.904982/200983 Acórdão n.º 1301002.646 S1C3T1 Fl. 233 8 compensação. Isto é evidente, pois caso a compensação não seja homologada, o crédito fiscal usado na mesma, decorrente do pagamento a maior da estimativa ou na pior das hipóteses, constituinte de saldo negativo de IRPJ, ficaria novamente desvinculado, logo, passível de restituição ou compensação. • A absurda situação acima descrita parece há muito não mais existir no ordenamento jurídico pátrio, pois é de flagrante atentado ao principio da economia processual ou, em uma visão mais finalista, afronta o instituto da compensação, há décadas aplicável as relações obrigacionais e hoje prevista no art. 368 do Código Civil. • Em resumo, o fisco tem que restituir ou compensar os valores em debate de qualquer maneira, seja através da compensação já pleiteada, objeto do presente processo, ou em pedido futuro, pois ao negar a presente compensação, os valores recolhidos tornamse desvinculados de qualquer relação jurídica, devendo pois ser imediatamente restituídos ao contribuintes, pois de outra forma estaria caracterizado o enriquecimento ilícito da Fazenda Pública, possibilidade rechaçada pelo ordenamento pátrio. 5. Por fim, o administrado requereu: que fosse homologada a declaração de compensação, seja pelo fato do recolhimento objeto do pedido de compensação ter sido efetuado em monta superior ao que determina a lei, seja pelo fato deste valor, na época do pedido de compensação, já compor saldo negativo de IRPJ/CSLL; e que fosse cancelada a cobrança constante na intimação / despacho decisório.” A 4° Turma da DRJ/FOR prolatou o Acórdão n° 0818.529, o qual julgou improcedente a manifestação de inconformidade, pois entendeu que não seria possível a compensação de pagamento indevido ou a maior de estimativas em vistas à vedação contida na Instrução Normativa nº 600/05. "ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2006 DECISÕES ADMINISTRATIVAS. EFEITOS. São improfícuos os julgados administrativos trazidos pelo sujeito passivo, pois tais decisões não constituem normas complementares do Direito Tributário, já que foram proferidas por órgãos colegiados sem, entretanto, uma lei que lhes atribuísse eficácia normativa. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2006 ESTIMATIVA MENSAL. PAGAMENTO INDEVIDO. RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. INTEGRAÇÃO DO PAGAMENTO INDEVIDO AO PAGAMENTO A MAIOR. ART. 10 DA IN SRF 600/2005. CARÁTER VINCULANTE. Por força do artigo 10 das INs SRF no 460, de 2004, e 600, de 2005, a pessoa jurídica tributada pelo lucro real anual que efetuar pagamento indevido de imposto de renda ou de CSLL a titulo de estimativa mensal, somente poderá utilizar o valor pago na dedução do IRPJ ou da CSLL devida ao final do período de apuração em que houve o pagamento indevido ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou de CSLL do período. Fl. 233DF CARF MF Processo nº 10380.904982/200983 Acórdão n.º 1301002.646 S1C3T1 Fl. 234 9 Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido” Contra a decisão, o contribuinte apresentou Recurso Voluntário, reiteirando os argumentos apresentados em sede de manifestação de inconformidade, destacando que não há óbice legal para a compensação do pagamento a maior ou indevido de estimativas. Este colegiado, por meio do resolução nº 1102000.263 proferiu decisão, no sentido de converter o julgamento em diligência para que: (i) seja atestada a existência, ou não, de PER/DCOMP´s relativa ao saldo negativo de CSLL do anocalendário de 2005; e (ii) seja atestada de forma conclusiva e justificada, se existe saldo passível de utilização para que seja procedida a compensação do saldo negativo de CSLL, com os débitos objeto do pedido de compensação deste processo, considerados todos os demais pedidos de compensação relacionados ao direito creditório proveniente do saldo negativo de CSLL do anocalendário de 2005. Às fls. 139/143, foi lavrado Relatório Fiscal conclusivo da diligência solicitada por este colegiado. Em atenção ao Relatório de Diligência, o contribuinte apresentou sua Manifestação (fls. 146/157). Eis a síntese do necessário. Passo a decidir. Voto Conselheiro Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais pressupostos de admissibilidade, dele, portanto, conheço. Tratase de procedimento de Declaração de Compensação não homologado por se tratase de pagamento a título de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado na dedução do imposto ou da contribuição devidos no final do período de apuração ou para compor o saldo negativo do período. A decisão deste colegiado sumarizou a problemática, nos seguintes termos: Conforme salientado em sede de relatório supra, a Contribuinte sustenta que em janeiro de 2006 efetuou o recolhimento do valor de R$1.020.217,57 para pagamento de estimativas de CSLL do mês de dezembro de 2005 (fls. 36). Citado montante, após a apresentação de DCTF retificadora (fls. 40/41), foi reduzido para R$746.733,87, razão pela qual restou caracterizado o recolhimento a maior de tributo devido naquele período (de R$273.483,70). O valor em referência, atualizado em 31.05. 2006, totalizaria R$286.200,69. Em 31.05.2006, a Contribuinte transmitiu a PER/DCOMP n. 42189.35348.310506.1.3.04010 (fls. 1/7), por meio da qual pretendeu utilizar o Fl. 234DF CARF MF Processo nº 10380.904982/200983 Acórdão n.º 1301002.646 S1C3T1 Fl. 235 10 crédito que entendia fazer jus para quitar débitos de COFINS, relativos aos meses de janeiro a março de 2006, de estimativas de CSLL relativas ao mês de março de 2006 e de estimativas de IRPJ relativas ao mês de abril de 2006, no valor total de R$ 286.200,69. São essas as compensações que são objeto desse processo administrativo. A decisão deste Colegiado reconheceu a possibilidade de compensação de estimativas recolhidas indevidamente ou a maior ao longo de determinado anocalendário, independentemente da formação do saldo negativo do período respectivo, nos termos da Súmula 84 do CARF. Desta forma, em vista à verificar a pretensão do contribuinte de compensar o valor do saldo negativo de CSLL em sua DIPJ e não o montante de estimativas recolhidas em janeiro de 2006 (referente ao mês de dezembro de 2005), já que fez constar dele (saldo negativo) o valor de tais estimativas, convertou o julgamento em diligência para que: (i) seja atestada a existência, ou não, de PER/DCOMP´s relativa ao saldo negativo de CSLL do ano calendário de 2005; e (ii) seja atestada de forma conclusiva e justificada, se existe saldo passível de utilização para que seja procedida a compensação do saldo negativo de CSLL, com os débitos objeto do pedido de compensação deste processo, considerados todos os demais pedidos de compensação relacionados ao direito creditório proveniente do saldo negativo de CSLL do anocalendário de 2005. O Relatório de Diligência atestou que não foi transmitido nenhuma DCOMP, como origem do direito creditório, o saldo negativo de CSLL relativo ao anocalendário de 2005, o que descarta a hipótese de duplicidade do direito creditório. Confirase: "Acrescentese que não há no Sistema de Informação desta Delegacia registro de compensação, utilizandose do saldo negativo do CSLL, anocalendário 2005." Destarte, destaca que o crédito pleiteado em DCOMP relativo a pagamento a maior ou indevido de estimativa mensal é suficiente para quitar os débitos declarados a compensar, excetuando a multa de mora no importe de R$ 6.934,63 "Destaquese que em referência ao DARF, R$ 1.020.217,57, de que trata o PER/DCOMP nº 42189.35348.310506.1.3.040101, encontrase disponibilizado no Sistema de Informação desta Delegacia a parte de R$ 273.483,70. Assim, se esse valor for considerado como pagamento indevido, ainda assim, haveria insuficiência de saldo para acobertar a referida DCOMP, fls.135/138, em razão de multa de mora não computada pelo contribuinte no valor de R$ 6.934,63." No tocante ao valor referente multa de mora, o contribuinte juntou comprovante de quitação, de modo que a compensação deve ser integralmente reconhecida, conforme fls 193/199. Pois bem, acompanho o entendimento deste Colegiado no tocante que o débito por estimativa possui fato gerador definido, isto é, base de cálculo e prazo de vencimento estabelecido pela legislação, de forma que o pagamento que superar o valor devido no período, apurado de acordo com a legislação de regência (art. 2º da Lei nº 9.430, de 1996), configura, sim, pagamento indevido (indébito tributário), passível de restituição ou compensação de imediato. Fl. 235DF CARF MF Processo nº 10380.904982/200983 Acórdão n.º 1301002.646 S1C3T1 Fl. 236 11 Como bem apontou, a matéria tratada nestes autos foi objeto de Súmula neste Colegiado, qual seja, a Súmula CARF nº 84, abaixo transcrita: Súmula CARF nº 84 – Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Adicionalmente, ressaltase que o processo administrativo fiscal regese pelo princípio da verdade material, segundo o qual fatos inexistentes ou erros evidentes não devem prosperar em detrimento da verdade material, inobstante a presunção de veracidade relativa dos atos administrativos. Igualmente, em decorrência deste princípio, impõese sejam sanadas as falhas, omissões e enganos eventualmente cometidos pelo Fisco. Assim, frente a confirmação do direito creditório emitido pelo relatório conclusivo da diligência solicitada pela Colegiado, tendo a mesma atestado sua liquidez e certeza, bem como a quitação da multa de mora pelo contribuinte, entendo que a compensação pleiteada deve ser homologada. Diante de todo o acima exposto, voto no sentido de DAR PROVIMENTO ao recurso voluntário, a fim de homologar a DCOMP nº 42189.35348.310506.1.3.040101 pleiteada. É como voto. (assinado digitalmente) Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro Fl. 236DF CARF MF Processo nº 10380.904982/200983 Acórdão n.º 1301002.646 S1C3T1 Fl. 237 12 Fl. 237DF CARF MF
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Numero do processo: 10875.908418/2009-78
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Oct 19 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Dec 06 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Data do fato gerador: 31/07/2008
PROCESSUAL - ART. 17 DO DECRETO 70.235/75 - INADMISSIBILIDADE DO RECURSO.
Se o recurso voluntário não devolve a matéria abordada na manifestação de inconformidade, inovando a discussão tratada nos autos, não há como dele conhecer, mormente pela preclusão da matéria inovada.
Numero da decisão: 1302-002.472
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente), Rogério Aparecido Gil, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Carlos César Candal Moreira Filho, Ester Marques Lins de Sousa e Gustavo Guimarães da Fonseca.
Nome do relator: LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO
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Se o recurso voluntário não devolve a matéria abordada na manifestação de inconformidade, inovando a discussão tratada nos autos, não há como dele conhecer, mormente pela preclusão da matéria inovada. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente), Rogério Aparecido Gil, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Carlos César Candal Moreira Filho, Ester Marques Lins de Sousa e Gustavo Guimarães da Fonseca. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 87 5. 90 84 18 /2 00 9- 78 Fl. 97DF CARF MF Processo nº 10875.908418/200978 Acórdão n.º 1302002.472 S1C3T2 Fl. 3 2 Relatório Cuidam os autos de processo de compensação em que o recorrente pretendeu a quitação de obrigações afeitas à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido mediante pretenso crédito decorrente de pagamento indevido. A vista disto, transmitiu, em 09/08/2007, a Dcomp de nº 16465.83350.090807.1.3.041572, vinculando um DARF de recolhimento, sob o código CSLL (2484 Estimativa), pago em 31/07/2008, no valor de R$ 41.658,59, a fim de quitar débito do próprio Cofins, relativo à competência de abril de 2007, no montante de R$ 18.468,12. Em Outubro de 2010, foi proferido despacho decisório por meio do qual deixouse de homologar a predita compensação tendo em conta a seguinte fundamentação fática: A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas Integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos Informados no PER/DCOMP. O contribuinte manejou manifestação de inconformidade abordando, genericamente o seu direito de compensar o valor declinado na DCOMP, destacando que o direito creditório em questão decorreria de erro de preenchimento da DCTF. Em sessão realizada em maio de 2014, a DRJ de Juiz de Fora houve por bem julgar improcedente a manifestação de inconformidade, conforme argumentos resumidos na ementa, O contribuinte teve ciência do resultado do julgamento acima em 27/06/2014, uma sextafeira (AR de fl. 51), tendo interposto o seu recurso administrativo em 29/07/2014 (doc. de fl. 53). O trecho a seguir transcrito resume suficientemente a tese central do apelo. Vejase: Sobre o assunto, a impugnante, absolutamente impossibilitada dado inexistir via legal de fazer frente à exigência de juntada de todos os documentos necessários e aptos a comprovação da regularidade de seu agir, antecipa a apresentação daqueles que instruem a presente 'Manifestação' (notas Fiscais e Extratos), cuja crítica cautelar e minudente já é suficiente ao desnude da conclusão, de que os valores dos serviços tomados e os valores destacados no recebimento líquido dos seus preço guardam identidade com os montantes declarados com retidos e que por consequência compuseram o meio formal da compensação ora discutida (PERDCOMP). Ao final, invoca o princípio da verdade material a fim de reforçar a sua tese quanto a consideração dos documentos, segundo ele, colacionados no feito. O processo foi, então, encaminhado à este Colegiado para análise e julgamento. É o relatório. Fl. 98DF CARF MF Processo nº 10875.908418/200978 Acórdão n.º 1302002.472 S1C3T2 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado, Relator Nos presentes autos o contribuinte solicita a restituição do pretenso pagamento indevido de CSLL (2484 Estimativa) pago em 31/07/2008. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1302002.402, de 19.10.2017, proferido no julgamento do processo nº 10875.900328/200858, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1302002.402): O recurso voluntário é tempestivo, e sobre isso não há dúvidas. O problema, todavia, é que há, no caso, uma confusão impar!!! A questão aventada na manifestação de inconformidade cingia se à "erro material" de preenchimento da DCTF, na qual foi informado o DARF para recolhimento de IRPJ (estimativa) e que, em razão deste erro, transmitiuse, após a prolação do despacho decisório, declaração retificadora. A DRJ não acolheu a manifestação porque, a despeito da transmissão de uma nova DCTF para demonstrar a existência do crédito, considerando que esta providência se deu no curso de ação fiscal, caberia ao contribuinte demonstrar, por meio de documentos idôneos, que o novo valor refletiria, de fato, a correção da realidade apresentada, valendo destacar, neste particular, que da relação que consta da citada manifestação, não foram descritos livros, balancetes ou documentos fiscais que pudessem dar suporte às informações retificadas. No recurso voluntário, como se dessume do relatório acima, o contribuinte lança discussão absolutamente desconectada das razões propostas na manifestação de inconformidade e do próprio acórdão! Discutese, no apelo, a comprovação de valores retidos por tomadores de serviços a título de IRRF (?!?) e que tais valores poderiam ser objeto de compensação com outros tributos ou com o próprio IRPJ relativo à competências subsequentes (?!?!?!), invocando, inclusive, o princípio da verdade material para justificar o conhecimento, pela autoridade julgadora, das notas fiscais juntadas ao processo (?!?!?!??!!?). Esta discussão, digase, é totalmente estranha ao processo; não se conecta com a manifestação de inconformidade, nem tampouco se opõe aos argumentos tratados no acórdão recorrido (cuja análise se cingiu à imprestabilidade da apresentação de DCTF após a prolação do despacho decisório, desacompanhada dos documentos que se prestariam para Fl. 99DF CARF MF Processo nº 10875.908418/200978 Acórdão n.º 1302002.472 S1C3T2 Fl. 5 4 demonstrar, de fato, os motivos que levaram o contribuinte a retificar a sua declaração). No caso, pois, recurso voluntário é inadmissível, ante a inegável preclusão ocorrida quanto a fatos/argumentos não suscitados na manifestação de inconformidade, em especial à luz do que dispõe o art. 17 do Decreto 70.235/72, cujo teor transcrevo a seguir: Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. Objetivamente, o contribuinte nem mesmo aventou os motivos pelos quais não trouxe a alegação, e respectivas provas, quando do oferecimento de sua manifestação de inconformidade. Se é fato que o processo administrativo admite uma flexibilização no procedimento de instrução, e, portanto, se pauta, de fato, pelo princípio da verdade material, não se pode olvidar que determinadas amarras não podem ser sobrepujadas; o primado da verdade material pode nortear o julgador de sorte a garantir que ele aprecie provas e argumentos não contempladas pela instância interior, mas que tenham sido produzidas no momento oportuno; pretender, neste ponto, analisar provas e argumentos que não foram sequer disponibilizadas à DRJ, representaria iniludível supressão de instância. Em vista do exposto, não conheço recurso. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, não conheço do recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Fl. 100DF CARF MF
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Numero do processo: 10950.001898/2007-32
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Oct 17 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Dec 22 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006
CRÉDITO. CÁLCULO. RATEIO. RECEITA DE EXPORTAÇÃO. COMERCIAL EXPORTADORA. EXCLUSÃO.
As receitas decorrentes de exportação de mercadorias adquiridas com o fim específico de exportação não integram o total das receitas de exportação da empresa comercial exportadora, para efeito de cálculo do índice de rateio utilizado, na apuração do crédito da contribuição passível de aproveitamento.
CRÉDITOS. COMBUSTÍVEIS. GLOSA.
Mantém-se a glosa dos créditos aproveitados indevidamente sobre os gastos com combustíveis que não foram utilizados na produção industrial dos produtos fabricados e vendidos.
CRÉDITO PRESUMIDO DA AGROINDÚSTRIA. CEREALISTA. APROVEITAMENTO. VEDAÇÃO.
A pessoa jurídica que exerce cumulativamente as atividades de limpeza, padronização, armazenagem e comercialização de produtos agrícolas, soja e milho, não faz jus ao crédito presumido da agroindústria a título de Cofins.
CRÉDITO PRESUMIDO DA AGROINDÚSTRIA. RESSARCIMENTO/ COMPENSAÇÃO. VEDAÇÃO.
Os saldos credores trimestrais de créditos presumidos da agroindústria, a título de Cofins, não são passiveis de ressarcimento/compensação.
SALDO CREDOR TRIMESTRAL. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. VEDAÇÃO.
É expressamente vedado por lei a atualização monetária do ressarcimento do saldo credor trimestral dos créditos da Cofins não cumulativa, pela taxa Selic.
Recurso Especial do Contribuinte Negado.
Numero da decisão: 9303-005.830
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama (relatora), Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. Votou pelas conclusões o conselheiro Demes Brito.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Valcir Gassen e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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DIREITO A CRÉDITOS. Recorrente FERTIMOURAO AGRICOLA EIRELI EM RECUPERACAO JUDICIAL Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 CRÉDITO. CÁLCULO. RATEIO. RECEITA DE EXPORTAÇÃO. COMERCIAL EXPORTADORA. EXCLUSÃO. As receitas decorrentes de exportação de mercadorias adquiridas com o fim específico de exportação não integram o total das receitas de exportação da empresa comercial exportadora, para efeito de cálculo do índice de rateio utilizado, na apuração do crédito da contribuição passível de aproveitamento. CRÉDITOS. COMBUSTÍVEIS. GLOSA. Mantémse a glosa dos créditos aproveitados indevidamente sobre os gastos com combustíveis que não foram utilizados na produção industrial dos produtos fabricados e vendidos. CRÉDITO PRESUMIDO DA AGROINDÚSTRIA. CEREALISTA. APROVEITAMENTO. VEDAÇÃO. A pessoa jurídica que exerce cumulativamente as atividades de limpeza, padronização, armazenagem e comercialização de produtos agrícolas, soja e milho, não faz jus ao crédito presumido da agroindústria a título de Cofins. CRÉDITO PRESUMIDO DA AGROINDÚSTRIA. RESSARCIMENTO/ COMPENSAÇÃO. VEDAÇÃO. Os saldos credores trimestrais de créditos presumidos da agroindústria, a título de Cofins, não são passiveis de ressarcimento/compensação. SALDO CREDOR TRIMESTRAL. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. VEDAÇÃO. É expressamente vedado por lei a atualização monetária do ressarcimento do saldo credor trimestral dos créditos da Cofins não cumulativa, pela taxa Selic. Recurso Especial do Contribuinte Negado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 95 0. 00 18 98 /2 00 7- 32 Fl. 781DF CARF MF Processo nº 10950.001898/200732 Acórdão n.º 9303005.830 CSRFT3 Fl. 3 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama (relatora), Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. Votou pelas conclusões o conselheiro Demes Brito. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Valcir Gassen e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo contra o Acórdão nº 3801004.391, da 1ª Turma Especial da 3ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, que negou provimento ao recurso, consignando a seguinte ementa: “ASSUNTO: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. MÉTODO DE RATEIO PROPORCIONAL. RESSARCIMENTO. No cálculo do rateio proporcional para atribuição de créditos no regime da não cumulatividade das contribuições sociais, excluise da proporção as receitas de exportação decorrentes das aquisições de mercadorias com fim específico de exportação. VENDAS MERCADO INTERNO E EXTERNO. CUSTOS, DESPESAS E ENCARGOS COMUNS. RATEIO PROPORCIONAL. A determinação do crédito pelo rateio proporcional, entre receitas de exportação e receitas do mercado interno, aplicase somente aos custos, despesas e encargos que sejam vinculados às receitas de mercado interno e exportação. CRÉDITOS DA NÃO CUMULATIVIDADE. COMBUSTÍVEIS. COMPROVAÇÃO. Os combustíveis utilizados ou consumidos diretamente no processo fabril geram o direito de descontar créditos da contribuição apurada de forma não cumulativa, todavia o reconhecimento dos créditos está condicionado a efetiva comprovação de que as aquisições de combustíveis são utilizadas efetivamente no processo produtivo. CRÉDITO PRESUMIDO. ATIVIDADE AGROINDUSTRIAL. CEREALISTA. VEDAÇÃO. Fl. 782DF CARF MF Processo nº 10950.001898/200732 Acórdão n.º 9303005.830 CSRFT3 Fl. 4 3 Há vedação legal ao aproveitamento do crédito presumido para as cerealistas que exerçam cumulativamente as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal. VENDAS COM SUSPENSÃO. VIGÊNCIA. DO ART. 9º DA LEI Nº 10.925, DE 2004. O art. 9º da Lei nº 10.925, de 2004 teve eficácia a partir de 4 de abril de 2006, data prevista na norma regulamentadora, in casu, a Instrução Normativa SRF nº 660, de 2006. RESSARCIMENTO DE CONTRIBUIÇÃO NÃO CUMULATIVA. CORREÇÃO MONETÁRIA PELA TAXA SELIC. VEDAÇÃO EXPRESSA. É incabível, por expressa vedação legal, a incidência de atualização monetária pela taxa Selic sobre o ressarcimento de créditos de contribuição não cumulativa. Recurso Voluntário Negado. ” Irresignado, o sujeito passivo opôs Embargos de Declaração, alegando que a decisão prolatada incorreu em contradição entre a decisão e seus fundamentos. Todavia, os embargos foram rejeitados. O sujeito passivo interpôs, então, Recurso Especial suscitando divergência em relação às seguintes matérias: · Rateio dos créditos apurados; · Glosa das aquisições de combustíveis; · Aproveitamento do crédito presumido da atividade agroindustrial; · Possibilidade de ressarcimento do crédito presumido; · Vendas efetuadas com suspensão; e · Atualização monetária. Mediante Despacho do Presidente da Primeira Câmara da Terceira Seção do CARF foi dado seguimento parcial ao recurso. Foram admitidas as matérias “rateio dos créditos apurados”, “glosa das aquisições de combustíveis”, “aproveitamento do crédito presumido da atividade agroindustrial”, “possibilidade de ressarcimento do crédito”, e “atualização monetária (SELIC)”. Apenas a matéria “vendas efetuadas com suspensão – eficácia do art. 9º da Lei 10.925/04” teve o seguimento negado. Contrarrazões ao recurso especial interposto pelo sujeito passivo foram apresentadas pela Fazenda Nacional. É o relatório. Voto Fl. 783DF CARF MF Processo nº 10950.001898/200732 Acórdão n.º 9303005.830 CSRFT3 Fl. 5 4 Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303 005.815, de 17/10/2017, proferido no julgamento do processo 10950.001882/200720, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão, quanto à admissibilidade do recurso e quanto ao mérito (Acórdão 9303005.815): Da Admissibilidade "Depreendendose da análise do Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo, entendo que devo conhecêlo, na parte admitida em Despacho, eis que atendidos os critérios de conhecimento trazidos pelo art. 67 do RICARF/2015 – com alterações posteriores. O que concordo com o despacho de exame de admissibilidade. Ora, em relação à discussão acerca: · Do rateio dos créditos apurados, foi comprovada a divergência, vez que a decisão recorrida entendeu pela exclusão das receitas de exportação decorrentes das aquisições de mercadorias com fim específico de exportação do cálculo do rateio proporcional e o acórdão indicado como paradigma de nº 3202001.618 concluiu pela não exclusão dos valores de receita que se originaram de operações com o fim específico de exportação; · Das aquisições de combustíveis, foi comprovada a divergência, eis que enquanto o aresto recorrido adotou um conceito restritivo de insumo e o indicado como paradigma de nº 203.12.896 reconheceu o direito de aproveitar créditos decorrentes de aquisições de combustíveis e lubrificantes utilizados no processo produtivo e nas operações de vendas e entrega direta da produção; · Do crédito presumido da atividade agroindustrial, foi comprovada a divergência, vez que o aresto recorrido entendeu pela vedação legal ao aproveitamento do crédito presumido por enquadrar o sujeito passivo como cerealista que exerce cumulativamente as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal e o acórdão indicado como paradigma de nº 3202001.618 divergiu da interpretação relativa ao processo produtivo de grão e o conceito de agroindústria, sem a restrição ao direito creditório; · Da possibilidade de ressarcimento do crédito presumido, também foi comprovada a divergência, eis que o aresto recorrido não conheceu das alegações em relação à forma de utilização do crédito presumido, divergindo, assim, da interpretação adotada no acórdão paradigma de nº 3803002.336 que, por sua vez não aplicou a restrição prevista na IN SRF 660/06 quanto ao direito a compensação e/ou ressarcimento do Crédito Presumido de PIS e COFINS; · Da atualização monetária, foi comprovada a divergência, vez que o aresto recorrido entendeu não ser cabível a aplicação de correção Fl. 784DF CARF MF Processo nº 10950.001898/200732 Acórdão n.º 9303005.830 CSRFT3 Fl. 6 5 monetária, com base na taxa Selic, nos casos de pedidos de ressarcimento de contribuição nãocumulativa, por expressa vedação legal, enquanto que o acórdão paradigma de nº 3802001.418 entendeu pela possibilidade de atualização do crédito pela taxa Selic. Em vista do exposto, entendo que devo conhecer o recurso especial em relação às matérias admitidas em Despacho de Exame de Admissibilidade – ou seja, sobre as seguintes matérias: · Rateio dos créditos apurados; · Glosa das aquisições de combustíveis; · Aproveitamento do crédito presumido da atividade agroindustrial; · Possibilidade de ressarcimento do crédito presumido; · Atualização monetária. Contrarrazões devem ser consideradas, eis que tempestivas." Do Mérito "Antes de se adentrar a cada matéria, importante trazer breve histórico do caso vertente: · O sujeito passivo desenvolve atividades agroindustriais e produz as mercadorias de NCM dos capítulos 8 a 12 referidas no art. 8º da Lei 10.925/074, realizando operações no mercado interno e exportações diretas e indiretas; · Observa a sistemática não cumulativa das contribuições, nos termos da Lei 10.833/03 e da Lei 10.637/02, sendo que para a sua atividade, adquire de fornecedores pessoas físicas residentes no país e jurídicas situadas no mercado interno, bens e serviços – insumos – para a produção de mercadorias; · Tendo acumulado créditos por aquisições – custos, despesas e demais encargos, protocolou pedido de ressarcimento do saldo de crédito. Ventiladas tais considerações, passo a discorrer a priori sobre o critério de rateio dos créditos apurados e em seguida sobre as demais matérias conhecidas." (...)1 "Com todo respeito ao voto da ilustre relatora, mas discordo de suas conclusões. A discussão gira em torno das seguintes matérias: i) rateio das receitas de exportação; ii) glosa de créditos sobre combustíveis; iii) aproveitamento do crédito presumido da agroindústria; iv) ressarcimento/compensação do crédito presumido da agroindústria; e, v) atualização monetária do ressarcimento do saldo credor. i) rateio das receitas de exportação 1 Deixouse de transcrever, do voto do paradigma, a parte na qual a relatora enfrentou as questões admitidas no recurso, pois todos os entendimentos foram vencidos na votação, não se aplicando, portanto, na solução do presente litígio (íntegra do voto no acórdão do processo paradigma). Fl. 785DF CARF MF Processo nº 10950.001898/200732 Acórdão n.º 9303005.830 CSRFT3 Fl. 7 6 O contribuinte questionou o critério utilizado pela autoridade administrativa para o rateio das receitas, utilizado para apuração dos créditos da Cofins, passiveis de desconto e/ ou ressarcimento. Conforme demonstrado nos autos e não impugnado pelo contribuinte, as receitas de exportação decorrem de vendas de mercadorias próprias e de mercadorias adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação. A Lei nº 10.833, de 29/12/2003, assim dispõe sobre os créditos da Cofins não cumulativa, vinculados às exportações: "Art. 6º A COFINS não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de: I exportação de mercadorias para o exterior; (...). III vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. § 1º Na hipótese deste artigo, a pessoa jurídica vendedora poderá utilizar o crédito apurado na forma do art. 3º, para fins de: I dedução do valor da contribuição a recolher, decorrente das demais operações no mercado interno; II compensação com débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, observada a legislação específica aplicável à matéria. § 2º A pessoa jurídica que, até o final de cada trimestre do ano civil, não conseguir utilizar o crédito por qualquer das formas previstas no § 1º poderá solicitar o seu ressarcimento em dinheiro, observada a legislação específica aplicável à matéria. § 3º O disposto nos §§ 1º e 2º aplicase somente aos créditos apurados em relação a custos, despesas e encargos vinculados à receita de exportação, observado o disposto nos §§ 8º e 9º do art. 3o. § 4º O direito de utilizar o crédito de acordo com o § 1º não beneficia a empresa comercial exportadora que tenha adquirido mercadorias com o fim previsto no inciso III do caput, ficando vedada, nesta hipótese, a apuração de créditos vinculados à receita de exportação."(destaque não original). Ora, nos termos deste dispositivo, é vedado o aproveitamento (desconto) de créditos vinculados às receitas de exportação de mercadorias adquiridas com o fim específico de exportação, por da parte da exportadora (comercial/trading). Assim, se tais receitas não geram créditos para a exportadora, obviamente, que não podem integrar as receitas de exportação, para efeito de cálculo do índice de rateio utilizado para a apuração dos créditos da contribuição a que o contribuinte faz jus. No mês de outubro de 2006, as receitas de exportação do contribuinte decorreram integralmente da exportação de mercadorias adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação. Portanto, neste mês, o índice apurado foi de zero, caso contrário, estaria permitindo o aproveitamento com base num índice de 100,0%, em total desacordo com o § 4º do art. 6º da Lei nº 10.833, de 2003, citado e transcrito anteriormente. ii) glosa de créditos sobre combustíveis. A Lei nº 10.833, de 2003, prevê o aproveitamento de créditos sobre custos com combustíveis, desde que utilizados na produção ou fabricação dos bens vendidos, conforme estabelece o art. 3º, inciso II, literalmente: Fl. 786DF CARF MF Processo nº 10950.001898/200732 Acórdão n.º 9303005.830 CSRFT3 Fl. 8 7 "Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...). II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei nº 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; " (...)." No presente caso, conforme demonstrado nos autos e não impugnado pelo contribuinte as glosas foram efetuadas sobre os gastos com combustíveis que não foram utilizados/consumidos no processo de produção ou fabricação dos produtos vendidos e sim em outros setores da empresa. Comprova esta afirmativa excertos transcritos do relatório produzido pela fiscalização, abaixo transcrito: iii) aproveitamento do crédito presumido da agroindústria O contribuinte pleiteia créditos presumidos da Cofins sobre as aquisições de produtos agrícolas (soja e milho) adquiridos de produtores rurais pessoas físicas, beneficiados e vendidos por ele. No entanto, somente faz jus a esse crédito as pessoas jurídicas produtoras de mercadorias de origem animal e vegetal, conforme estabelece a Lei nº 10.925, de 23 de junho de 2004, que assim dispõe: "Art. 8º As pessoas jurídicas, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias de origem animal ou vegetal, classificadas nos capítulos 2, 3, exceto os produtos vivos desse capítulo, e 4, 8 a 12, 15, 16 e 23, e nos códigos 03.02, 03.03, 03.04, 03.05, 0504.00, 0701.90.00, 0702.00.00, 0706.10.00, 07.08, 0709.90, 07.10, 07.12 a 07.14, exceto os códigos 0713.33.19, 0713.33.29 e 0713.33.99, 1701.11.00, 1701.99.00, 1702.90.00, 18.01, 18.03, 1804.00.00, 1805.00.00, 20.09, 2101.11.10 e Fl. 787DF CARF MF Processo nº 10950.001898/200732 Acórdão n.º 9303005.830 CSRFT3 Fl. 9 8 2209.00.00, todos da NCM, destinadas à alimentação humana ou animal, poderão deduzir da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, devidas em cada período de apuração, crédito presumido, calculado sobre o valor dos bens referidos no inciso II do caput do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. § 1º O disposto no caput deste artigo aplicase também às aquisições efetuadas de: I cerealista que exerça cumulativamente as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal, classificados nos códigos 09.01, 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, 12.01 e 18.01, todos da NCM; (...); III pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária. § 2º O direito ao crédito presumido de que tratam o caput e o § 1º deste artigo só se aplica aos bens adquiridos ou recebidos, no mesmo período de apuração, de pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no País, observado o disposto no § 4º do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003. (...). § 4º É vedado às pessoas jurídicas de que tratam os incisos I a III do § 1º deste artigo o aproveitamento: I do crédito presumido de que trata o caput deste artigo; (destaques não originais) (...)." No presente caso, do exame da Trigésima Quarta Alteração do Contrato Social às fls. 129/138, constatase que o contribuinte exerce, dentre outras, as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal, bem como a atividade agrícola, o que o enquadra no § 4º, inciso I, do art. 8º, da Lei nº 10.925/2004, que veda o aproveitamento de crédito presumido da agroindústria para tais atividades. Além disto, segundo o disposto no art. 8º, citado e transcrito anteriormente, a pessoa jurídica para ter direito ao crédito presumido da agroindústria deve produzir mercadorias classificadas nos capítulos e códigos da Nomenclatura Comum do Mercosul elencados no caput do artigo; as mercadorias devem ser destinadas à alimentação humana ou animal; e as pessoas jurídicas produtoras devem adquirir os insumos (conforme alusão ao inciso II do art. 3o da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e ao inciso II do art. 3o da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003) de pessoas físicas, de cerealista ou de pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária, o que não é o caso em discussão. iv) ressarcimento/compensação do crédito presumido da agroindústria. Embora o julgamento desta matéria tenha ficado prejudicado, em virtude do não reconhecimento do direito de o contribuinte aproveitar os créditos presumidos da agroindústria, ora reclamados, demonstrase, a seguir, a falta de amparo para o ressarcimento/compensação de tais créditos. Fl. 788DF CARF MF Processo nº 10950.001898/200732 Acórdão n.º 9303005.830 CSRFT3 Fl. 10 9 O crédito presumido da agroindústria referente ao PIS e à Cofins foi inicialmente instituído pela Lei nº 10.833, de 29/12/2003, art. 3º, § 11, foi extinto pela Lei nº 10.925, de 23/07/2004, art. 16, convertida da MP nº 183, de 30/4/2004. Contudo, esta mesma lei o reinstituiu, nos termos do art. 8º, já citado e transcrito anteriormente, e art. 15, que assim dispõe: "Art. 15. As pessoas jurídicas, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias de origem vegetal, classificadas no código 22.04, da NCM, poderão deduzir da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, devidas em cada período de apuração, crédito presumido, calculado sobre o valor dos bens referidos no inciso II do caput do art. 3o das Leis nos 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. (destaque não original) [...]." Ora, segundo o disposto nos art. 8º e 15, citados e transcritos anteriormente, o crédito presumido da agroindústria somente pode ser utilizado para a dedução da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, devidas em cada período de apuração, inexistindo previsão legal para o ressarcimento/compensação. Com efeito, não é despiciendo reiterar que a compensação e o ressarcimento admitidos pelo art. 6º da Lei n° 10.833, de 2003, contemplam unicamente aos créditos apurados na forma do art. 3º daquela lei, assim dispondo: "Art. 6º A COFINS não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de: [...]; § 1º Na hipótese deste artigo, a pessoa jurídica vendedora poderá utilizar o crédito apurado na forma do art 3º, para fins de: (destaque não original) [...]." Neste diapasão, a IN SRF nº 600, de 28 de dezembro de 2005, dispõe em seu art. 21: “Art. 21. Os créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins apurados na forma do art. 3º da Lei nº 10.637. de 30 de dezembro de 2002. e do art. 3º da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003, que não puderem ser utilizados na dedução de débitos das respectivas contribuições, poderão sêlo na compensação de débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições de que trata esta Instrução Normativa, se decorrentes de: (destaque não original) [...].” Segundo, estes dispositivos legais, apenas os créditos apurados na forma do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003, podem ser objeto de pedido de restituição/compensação, ou seja, os créditos sobre insumos adquiridos com incidência da contribuição cujo ônus do pagamento efetivo é do adquirente. Os créditos presumidos da agroindústria não são apurados na forma daquele artigo, mas sim nos termos do art. 8º, § 3º da Lei nº 10.925, de 23/07/2004. Já suas utilizações estão previstas no próprio art. 8º e no art. 15, desta mesma lei, citados e Fl. 789DF CARF MF Processo nº 10950.001898/200732 Acórdão n.º 9303005.830 CSRFT3 Fl. 11 10 transcritos anteriormente, ou seja, podem ser utilizados apenas e tão somente para dedução da contribuição devida em cada período de apuração. v) atualização monetária do ressarcimento do saldo credor. A atualização monetária do ressarcimento de saldo credor da Cofins não cumulativa, calculados à taxa Selic, é expressamente vedado pela própria Lei nº 10.833, de 2003, que instituiu o regime nãocumulativo, assim dispondo: “Art. 13. O aproveitamento de crédito na forma do § 4º do art. 3º, do art. 4º e dos §§ 1º e 2º do art. 6º, bem como do § 2º e inciso II do § 4º e § 5º do art. 12, não ensejará atualização monetária ou incidência de juros sobre os respectivos valores.” Contra disposição expressa da lei não é cabível aplicar analogias com decisões judiciais não aplicáveis ao caso concreto, como pretende a relatora. Diante do exposto, voto por negar provimento ao recurso especial do contribuinte." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial do contribuinte foi conhecido e, no mérito, o colegiado negoulhe provimento. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 790DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10530.003848/2007-31
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 03 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 28 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2005
DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. RESPONSABILIDADE PESSOAL DO DIRIGENTE DE ÓRGÃO PÚBLICO. INAPLICABILIDADE. SÚMULA CARF Nº 65.
Inaplicável a responsabilidade pessoal do dirigente de órgão público pelo descumprimento de obrigações acessórias, no âmbito previdenciário, constatadas na pessoa jurídica de direito público que dirige (Súmula CARF nº 65).
Numero da decisão: 2202-004.197
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa - Presidente.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Waltir de Carvalho, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Virgílio Cansino Gil, Rosy Adriane da Silva Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Martin da Silva Gesto.
Nome do relator: MARCO AURELIO DE OLIVEIRA BARBOSA
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RESPONSABILIDADE PESSOAL DO DIRIGENTE DE ÓRGÃO PÚBLICO. INAPLICABILIDADE. SÚMULA CARF Nº 65. Inaplicável a responsabilidade pessoal do dirigente de órgão público pelo descumprimento de obrigações acessórias, no âmbito previdenciário, constatadas na pessoa jurídica de direito público que dirige (Súmula CARF nº 65). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Waltir de Carvalho, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Virgílio Cansino Gil, Rosy Adriane da Silva Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Martin da Silva Gesto. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 53 0. 00 38 48 /2 00 7- 31 Fl. 213DF CARF MF 2 Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 19515.001700/200813. "Tratase de recurso voluntário interposto contra o acórdão de Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, que manteve a cobrança do crédito tributário. O Auto de Infração foi lavrado por descumprimento de obrigação acessória verificada durante ação fiscal realizada em órgão público. A autuação ocorreu em nome do sujeito passivo, na condição de dirigente de órgão público, por força do disposto no art. 41 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, vigente à época dos fatos geradores. O recorrente tomou ciência do lançamento e apresentou defesa, entretanto, a primeira instância de julgamento manteve a autuação. Inconformado com a decisão, o sujeito passivo apresentou recurso voluntário ao CARF, onde alega a improcedência da autuação. É o relatório." Voto Conselheiro Marco Aurélio de Oliveira Barbosa – Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 2202004.158, de 03/10/2017, proferido no julgamento do processo 19515.001700/200813, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 2202004.158): "O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. O lançamento em questão foi efetuado contra o dirigente do órgão público com base no art. 41 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, que, à época dos fatos geradores, estabelecia: Art. 41. O dirigente de órgão ou entidade da administração federal, estadual, do Distrito Federal ou municipal, responde pessoalmente pela multa aplicada por infração de dispositivos desta Lei e do seu regulamento, sendo obrigatório o respectivo desconto em folha de pagamento, mediante requisição dos órgãos competentes e a partir do primeiro pagamento que se seguir à requisição. Fl. 214DF CARF MF Processo nº 10530.003848/200731 Acórdão n.º 2202004.197 S2C2T2 Fl. 3 3 Contudo, o dispositivo transcrito foi revogado pela Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008, convertida na Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, não mais se aplicando, contra dirigente de órgão público, a penalidade por descumprimento de obrigação acessória. Sobre a matéria, a Súmula CARF nº 65 dispõe o seguinte: Inaplicável a responsabilidade pessoal do dirigente de órgão público pelo descumprimento de obrigações acessórias, no âmbito previdenciário, constatadas na pessoa jurídica de direito público que dirige. Em função disso, aplicase ao caso, a retroatividade benigna de que trata a alínea “c” do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional CTN): Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: [...] II tratandose de ato não definitivamente julgado: [...] c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifei) Portanto, o lançamento em questão deve ser cancelado. Conclusão Pelo exposto, voto por CONHECER do recurso para, no mérito, DARLHE PROVIMENTO. (assinado digitalmente) Rosy Adriane da Silva Dias Relator" Pelo exposto, voto por CONHECER do recurso para, no mérito, DARLHE PROVIMENTO. (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Fl. 215DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10675.907441/2009-00
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Nov 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 02 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/07/2002 a 31/07/2002
PIS/PASEP. BASE DE CÁLCULO. LEI 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. DECISÃO STF. REPERCUSSÃO GERAL.
As decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, reconhecidas como de Repercussão Geral, sistemática prevista no artigo 543-B do Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas no julgamento do recurso apresentado pelo contribuinte. Artigo 62-A do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais.
Declarado inconstitucional o § 1º do caput do artigo 3º da Lei 9.718/98, integra a base de cálculo da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS e da Contribuição para o PIS/Pasep o faturamento mensal, representado pela receita bruta advinda das atividades operacionais típicas da pessoa jurídica.
Recurso Especial do Contribuinte Negado.
Numero da decisão: 9303-005.953
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Valcir Gassen e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ALARGAMENTO DA BASE DE CÁLCULO. AÇÃO JUDICIAL. Recorrente BANCO TRIÂNGULO S/A Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/07/2002 a 31/07/2002 PIS/PASEP. BASE DE CÁLCULO. LEI 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. DECISÃO STF. REPERCUSSÃO GERAL. As decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, reconhecidas como de Repercussão Geral, sistemática prevista no artigo 543B do Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas no julgamento do recurso apresentado pelo contribuinte. Artigo 62A do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Declarado inconstitucional o § 1º do caput do artigo 3º da Lei 9.718/98, integra a base de cálculo da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS e da Contribuição para o PIS/Pasep o faturamento mensal, representado pela receita bruta advinda das atividades operacionais típicas da pessoa jurídica. Recurso Especial do Contribuinte Negado. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Valcir Gassen e Vanessa Marini Cecconello. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 67 5. 90 74 41 /2 00 9- 00 Fl. 330DF CARF MF Processo nº 10675.907441/200900 Acórdão n.º 9303005.953 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de recurso especial de divergência apresentado pelo sujeito passivo, com fundamento no art. 67, do anexo II, do antigo regimento interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256/2009, em face do Acórdão nº 3803003.127, de 27/12/2012, o qual possui a seguinte ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário (...) PIS/PASEP. BASE DE CALCULO. DEFINIÇÃO. DECISÃO JUDICIAL. STF. RE 401.4387/MG. A base de cálculo do PIS/Pasep é o faturamento, que corresponde à receita bruta da venda de mercadorias, de mercadorias e serviços e da prestação de serviços, definida no provimento judicial in concreto como a soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais, nos termos da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal. Para melhor contextualizar os fatos ocorridos, transcrevo parte do relatório da decisão recorrida: A Contribuinte manejou o Mandado de Segurança 2000.38.03.0007782, em que discutiu a inexistência de relação jurídicotributária que a sujeite ao recolhimento do PIS e da COFINS nos termos da Lei nº 9.718/98. Obteve provimento no sentido de se aplicar a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal quanto à inconstitucionalidade do art. 3º, § 1º, da citada lei, e no bojo do Recurso Extraordinário 401.3487/Minas Gerais foi favorecida com o seguinte dispositivo: "A tese do acórdão recorrido está em aberta divergência com a orientação da Corte, cujo Plenário, em data recente, consolidou, com nosso voto vencedor declarado, o entendimento de inconstitucionalidade apenas do § 1° do art. 3° da Lei n° 9.718/98, que ampliou o conceito de receita bruta, violando assim a noção de faturamento pressuposta na redação original do art. 195, I, b, da Constituição da República, e cujo significado é o estrito de receita bruta das vendas de mercadorias e da prestação de serviços de qualquer natureza, ou seja, soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais (cf RE n° 346 084PR Rel orig Min ILMAR GALVÃO; RE n° 357 950RS, RE n° 358.273RS e RE n° 390.840MG, Rel. MM. MARCO AURÉLIO, todos julgados em 09.11.2005. Ver Informativo STF n° 408, p. 1).(grifo aqui) Diante do exposto, e com fundamento no art. 557, § 1°A do CPC, conheço do recurso e doulhe provimento, para, concedendo a ordem, excluir, da base de incidência do PIS, receita estranha ao faturamento do recorrente, entendido esse nos termos já suso enunciados." Assim, como se depreende da ementa do acórdão recorrido, a Turma negou provimento ao recurso voluntário do contribuinte com o entendimento de que declarados inconstitucional o §1º e constitucional o caput do artigo 3º da Lei nº 9.718/98, o faturamento, que corresponde à receita bruta da venda de mercadorias, de mercadorias e serviços e da prestação de Fl. 331DF CARF MF Processo nº 10675.907441/200900 Acórdão n.º 9303005.953 CSRFT3 Fl. 4 3 serviços, definida no provimento judicial in concreto como a soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais. O contribuinte apresentou recurso especial de divergência pleiteando a reforma do julgamento, argumentando que a incidência da Contribuição para o PIS/PASEP deve se dar sobre o faturamento, assim entendido a receita bruta de venda de mercadoria e de prestação de serviço, com a consequente exclusão das receitas financeiras decorrentes das operações bancárias. Assim, no seu entender, a receita de prestação de serviços, que configura o faturamento das instituições financeiras e seguradoras englobaria apenas as taxas e tarifas cobradas pelas instituições, sendo que as receitas da atividade financeira propriamente dita estariam fora do conceito de faturamento fixado pelo STF. O contribuinte assevera ainda ser imperioso o cancelamento do acordão recorrido sob pena de ofensa direta à coisa julgada formada nos autos do Mandado de Segurança 2000.38.03.0007782, que, na sua compreensão, teria determinado que a base de cálculo da Contribuição para o PIS/PASEP fosse calculada com base no faturamento, entendido como a receita da venda de mercadorias e a prestação de serviços. O recurso especial foi admitido pelo Presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento. A PFN apresentou, tempestivamente, contrarrazões, pedindo que seja negado provimento ao recurso. Em apertada síntese, defende o entendimento no sentido de que para as instituições financeiras as receitas decorrentes de prestação de serviços abrangem tanto as advindas da cobrança de taxas e tarifas quanto aquelas de intermediação financeira. Aduz que não pode se depreender da declaração de inconstitucionalidade do STF que o conceito de faturamento é restrito. Isso porque a declaração de inconstitucionalidade, pelo STF, do § 1º do art. 3º da Lei 9.718/98, não alterou, nesse particular, o critério definidor da base de incidência das contribuições como as receitas decorrentes das atividades empresariais típicas, e não somente a venda de mercadorias ou de serviços do contribuinte. Assim, por perfilar desse entendimento, afirma inexistir violação à coisa julgada formada nos autos da ação judicial proposta pelo contribuinte. É o relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303005.944, de 28/11/2017, proferido no julgamento do processo 10675.720831/201001, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303005.944): Fl. 332DF CARF MF Processo nº 10675.907441/200900 Acórdão n.º 9303005.953 CSRFT3 Fl. 5 4 "O recurso especial do sujeito passivo é tempestivo e atende aos demais requisitos formais para o seu conhecimento. O acórdão paradigma apresentado pela recorrente representa bem a divergência de interpretação e, portanto, deve ser conhecido, ressaltando que a PFN não contestou aspectos relativos ao conhecimento do recurso. No mérito, discutese entendimento sobre o que vem a ser “receita” para as instituições do mercado financeiro. Como relatado, a Recorrente obteve decisão judicial (Mandado de Segurança 2000.38.03.0007782,) para calcular o PIS utilizando o conceito de faturamento, cujo significado corresponde a receita bruta das vendas de mercadorias e da prestação de serviços de qualquer natureza, ou seja, soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais. Esse entendimento ficou claro na fundamentação do voto constante da decisão judicial, conforme trechos acima transcritos no Relatório. Portanto, como se vê, a questão referese ao sentido a ser atribuído à expressão “o faturamento, assim considerado a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza”, especificamente para a compreensão do que se entende por “receita de serviços” para as instituições financeiras. Pois bem. No meu entender, a referida decisão judicial efetivamente não adentrou no mérito da discussão sobre o que deve ser entendido por receita de serviços para as instituições financeiras. Logo, não há que se falar em desrespeito a coisa julgada: a decisão judicial apenas afastou a aplicação do §1º do art. 3º da Lei n.º 9.718/98, na esteira do que já restara assentado no Supremo Tribunal Federal, e definiu que a base de cálculo da contribuição deve ser o faturamento, “cujo significado é o estrito de receita bruta das vendas de mercadorias e da prestação de serviços de qualquer natureza, ou seja, soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais”. E mais nada! Contudo, resta ainda a discussão sobre a conceito de “faturamento” para fins de incidência do PIS e da Cofins para as instituições financeiras, ou seja, sobre o que deve ser entendido por “a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza” em relação às instituições financeiras. Como muito bem destacado no voto condutor do Acórdão CSRF nº 9303002940, julgado em 03/06/2014, que tratou especificamente sobre a mesma matéria deste litígio, a controvérsia teve início na promoção do alargamento do conceito de faturamento para efeito de cálculo das Contribuições para o PIS/Pasep e Cofins, introduzido pela Lei 9.718/98, que incluiu na base de cálculo toda e qualquer receita, independentemente de sua classificação contábil. O Supremo Tribunal Federal ao apreciar a matéria decidiu, em sistemática de Repercussão Geral, nos seguintes termos: EMENTA: RECURSO. Extraordinário. Tributo. Contribuição social. PIS. COFINS. Alargamento da base de cálculo. Art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98.Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE nº 346.084/PR, Rel. orig. Min. ILMAR GALVÃO, DJ de 1º.9.2006; REs nos 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, DJ de 15.8.2006) Repercussão Geral do tema. Reconhecimento pelo Plenário. Recurso improvido. É inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS prevista no art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. Fl. 333DF CARF MF Processo nº 10675.907441/200900 Acórdão n.º 9303005.953 CSRFT3 Fl. 6 5 Decisão O Tribunal, por unanimidade, resolveu questão de ordem no sentido de reconhecer a repercussão geral da questão constitucional, reafirmar a jurisprudência do Tribunal acerca da inconstitucionalidade do § 1º do artigo 3º da Lei 9.718/98 e negar provimento ao recurso da Fazenda Nacional, tudo nos termos do voto do Relator. Vencido, parcialmente, o Senhor Ministro Marco Aurélio, que entendia ser necessária a inclusão do processo em pauta. Em seguida, o Tribunal, por maioria, aprovou proposta do Relator para edição de súmula vinculante sobre o tema, e cujo teor será deliberado nas próximas sessões, vencido o Senhor Ministro Marco Aurélio, que reconhecia a necessidade de encaminhamento da proposta à Comissão de Jurisprudência. Votou o Presidente, Ministro Gilmar Mendes. Ausentes, justificadamente, o Senhor Ministro Celso de Mello, a Senhora Ministra Ellen Gracie e, neste julgamento, o Senhor Ministro Joaquim Barbosa. Plenário, 10.09.2008. RE 585.235QO, Min. Cezar Peluso Portanto, tanto a decisão judicial obtida pelo contribuinte quanto o julgado do STF que reconheceu a repercussão geral para a matéria, apenas afastou a aplicação do art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98, mas não adentrou no alcance das receitas financeiras, nem tampouco ventilou a possibilidade de exclusão da receita bruta operacional do faturamento. Por outro lado, o Supremo Tribunal Federal já fixou o conceito de receita bruta como sendo não somente aquela decorrente da venda de mercadorias e da prestação de serviços, mas também à soma das receitas oriundas do exercício de atividades empresariais. Nesse sentido, vejamos o leading case RE 390.840/MG, onde o Ministro Cezar Peluzo delimita o conceito de faturamento nos seguintes termos: Faturamento nesse sentido, isto é, entendido como resultado econômico das operações empresariais típicas, constitui a base de cálculo da contribuição, enquanto representação quantitativa do fato econômico tributado. Noutras palavras, o fato gerador constitucional da COFINS são as operações econômicas que se exteriorizam no faturamento (sua base de cálculo), porque não poderia nunca corresponder ao de emitir faturas, coisa que, como alternativa semântica possível, seria de todo absurda, pois bastaria à empresa não emitir faturas para se furtar à tributação”. (negritei) No mesmo sentido, vejamos os trechos dos pronunciamentos dos Ministros Marco Aurélio, Carlos Brito, Cezar Peluzo e Sepúlveda Pertence sobre a matéria, trazidos pela Procuradoria da Fazenda Nacional, na ocasião do julgamento do Pleno do STF dos Recursos Extraordinários nºs 357.9509/RS, 390.8405/MG, 358.2739/RS e 346.0846/PR (leading cases): Min. Marco Aurélio (relator): Presidente, na condição de relator, permitame aos colegas escancarar a questão versada neste processo. Houve a edição da Lei 9.718/98, sob a égide da Carta da redação anterior a Emenda Constitucional nº. 20. O artigo 3º, cabeça, dessa lei preceituou algo que se mostrou consentâneo com o Diploma Maior: “art. 3º. O faturamento a que se refere o artigo anterior corresponde a receita bruta da pessoa jurídica.” O Tribunal estabeleceu a sinonímia “faturamento/receita bruta”, conforme decisão proferida na ADC nº 11/DF – receita bruta evidentemente apanhando a atividade precípua da empresa. O SR. MINISTRO CARLOS BRITO – Receita operacional. O SR. MINISTRO MARCO AURELIO (RELATOR) – Operacional. (...)” Min. Carlos Brito: Fl. 334DF CARF MF Processo nº 10675.907441/200900 Acórdão n.º 9303005.953 CSRFT3 Fl. 7 6 Receita operacional consiste naquilo que já estava definido pelo DecretoLei 2397, de 1987, art. 22, § 1º, “a”, assim redigido – parece que o Min. Veloso acabou de fazer também essa remissão à lei: “a) a receita bruta das vendas de mercadorias e serviços, de qualquer natureza, das empresas públicas ou privadas definidas como pessoa jurídica ou a elas equiparadas pela legislação do imposto de renda; Por isso, estou insistindo na sinonímia “faturamento” e “receita operacional”, exclusivamente, correspondente aqueles ingressos que decorrem da razão social da empresa, da sua finalidade institucional. Min. Cezar Peluso: “Quanto ao caput do art. 3º, julgoo constitucional, para lhe dar interpretação conforme à Constituição, nos termos do julgado proferido no RE 150.755/PE, que tomou a locução receita bruta como sinônimo de faturamento, ou seja, no significado de “receita bruta de venda de mercadoria e de prestação de serviços”, adotado pela legislação anterior, e que , a meu juízo, se traduz na soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais”. Min. Sepúlveda Pertence: “(...) Lamentando não poder nada mais acrescentar a tudo que aqui foi dito hoje, acompanho o voto do Min. Cezar Peluso e, nos outros casos, o do Ministro Marco Aurélio.” Destarte, resta claro que o entendimento assentado no STF é de que faturamento não se restringe unicamente à venda de mercadorias e serviços, mas também às receitas decorrentes de outras atividades empresariais desempenhadas pelo sujeito passivo, como delimita objetivamente o Ministro Cezar Peluzo no RE 444.601ED: “O conceito de receita bruta sujeita à incidência da COFINS envolve, não só aquela decorrente da venda de mercadorias e da prestação de serviços, mas também a soma das receitas oriundas do exercício de outras atividades empresariais." Em conclusão, no meu entender, em consonância com a jurisprudência do STF, o faturamento das instituições financeiras deve compreender não apenas as receitas de prestação de serviços (taxas e tarifas), mas também as demais receitas decorrentes de outras atividades empresariais da recorrente. Pois bem. E quais são as atividades empresariais típicas de um banco? A clara delimitação de quais são as atividades empresariais da Recorrente pode ser extraída do seu próprio Estatuto Social (efls. 79/ss), onde consta: Artigo 2º O objeto social do BANCO TRIÂNGULO S.A. é a prática de operações ativas, passivas e acessórias, inerentes à carteira comercial, à carteira de crédito, financiamento e investimento e à carteira de investimentos, de acordo com as disposições legais e regulamentares em vigor. Percebese, portanto, que o rol de atividades indicadas no objeto social da Recorrente (operações ativas e passivas inerentes às carteiras comercial, de crédito, financiamento e investimento) envolve necessariamente, de forma ampla, todas as receitas decorrentes e/ou provenientes da prestação de serviços de intermediação financeira, dentre as quais podemos citar os “spreads bancários”, prêmios, ágios/deságios na venda de moedas estrangeiras (receitas cambiais), juros oriundos da intermediação ou aplicação de recursos financeiros próprios ou de terceiros, financiamento bancário, negociação de títulos e valores mobiliários, etc..., em suma, todas as receitas ordinárias, típicas, provenientes da prestação de serviços geradas pelos bancos. Fl. 335DF CARF MF Processo nº 10675.907441/200900 Acórdão n.º 9303005.953 CSRFT3 Fl. 8 7 A meu ver, não há como fazer uma interpretação restritiva para abarcar no conceito de receita bruta apenas aquelas decorrentes das receitas com “taxas e tarifas” cobradas pelas instituições para prestar serviços bancários, como pretende a Recorrente. Categoricamente, todos sabem, o negócio principal de um banco não se restringe apenas em cobrar taxas ou tarifas pela prestação de serviços bancários (sobre a abertura ou manutenção de contascorrentes, pela emissão de talonário de cheques, pelo fornecimento de extratos bancários, etc...), até mesmo porque em muitos casos, após um determinado volume de movimentação financeira de seus clientes, estas taxas e tarifas são até mesmo isentadas. Estas últimas representam, a bem da verdade, atividades acessórias àquela principal. A essência da atividade bancária reside justamente na prática de operações ativas e passivas inerente à sua carteira comercial (desconto de duplicatas, com um percentual de deságio, p. ex.), carteira de crédito (os valores depositados por determinados clientes na instituição são oferecidos a outros clientes, por meio de empréstimos, cheques especiais, etc... devidamente remunerados pelos juros cobrados), etc... Aliás, são justamente essas atividades que constam como objeto social no Estatuto Social da Recorrente. Destarte, é de concluirse que as instituições financeiras têm como atividade principal a intermediação de recursos financeiros. Por conseguinte, as receitas oriundas de todas as operações bancárias (receitas operacionais), em sentido lato, aqui incluídas as receitas advindas da cobrança de taxas/tarifas (serviços bancários) e das operações de intermediação financeira, compõem o faturamento porque estão relacionadas ao exercício do objeto social dessas instituições. Por fim, registrese que a jurisprudência desta Câmara Superior tem decidido no mesmo sentido defendido neste voto (Acórdãos nº 9303002.962; 9303002.960, 9303 002.957, dentre outros). Ante o exposto, voto por negar provimento ao recurso especial. " Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial do contribuinte foi conhecido e, no mérito, o colegiado negoulhe provimento. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 336DF CARF MF
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