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Numero do processo: 11080.906514/2008-18
Data da sessão: Fri Jul 30 00:00:00 UTC 2010
Ementa: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS
Período de apuração: 01/02/2001 a 28/02/2001
COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA, CRÉDITO DE PAGAMENTO INDEVIDO. LIQUIDEZ E CERTEZA. FALTA DE COMPROVAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE.
No âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), é condição necessária para a realização da compensação tributária que o sujeito passivo seja simultaneamente titular de débito exigível e de crédito líquido e certo, recíprocos e de valor equivalente. No âmbito desse procedimento, o ônus de provar a existência do crédito a restituir é do sujeito passivo. Para tanto, devem ser apresentados, além do comprovante de pagamento indevido (Darf), os documentos fiscais comprobatórios da origem do indébito tributário (no caso, os comprovantes hábeis e idôneos da transferência dos valores das receitas para terceiras pessoas jurídicas), sem os quais não é possível a Administração tributária verificar a existência do direito creditório informado. Em consequência, a não comprovação da liquidez e certeza do crédito compensado implica não-homologação do procedimento compensatório declarado.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3102-00.728
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
Matéria: Cofins- proc. que não versem s/exigências de cred.tributario
Nome do relator: José Fernandes do Nascimento
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA. O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS Período de apuração: 01/02/2001 a 28/02/2001 COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA, CRÉDITO DE PAGAMENTO INDEVIDO. LIQUIDEZ E CERTEZA. FALTA DE COMPROVAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. No âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), é condição necessária para a realização da compensação tributária que o sujeito passivo seja simultaneamente titular de débito exigível e de crédito líquido e certo, recíprocos e de valor equivalente. No âmbito desse procedimento, o ônus de provar a existência do crédito a restituir é do sujeito passivo. Para tanto, devem ser apresentados, além do comprovante de pagamento indevido (Darf), os documentos fiscais comprobatórios da origem do indébito tributário (no caso, os comprovantes hábeis e idôneos da transferência dos valores das receitas para terceiras pessoas jurídicas), sem os quais não é possível a Administração tributária verificar a existência do direito creditório informado. Em consequência, a não comprovação da liquidez e certeza do crédito compensado implica não- homologação do procedimento compensatório declarado» Recurso Voluntário Negado, Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. 'r1;:éler-Tluerra de Castro - Presidente José Fernandes do Nascimento - Relator EDITADO EM: 20/08/2010 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luis Marcelo Guerra de Castro, Luciano Pontes de Maya Gomes, José Fernandes do Nascimento, Nanci Gama, Beatriz Veríssimo de Sena e Ricardo Paulo Rosa. Relatório Trata-se de Recurso Voluntário interposto pela Interessada, visando a reforma do Acórdão n" 10-18.489, de 27 de fevereiro de 2009 (fls. 35/36), proferido pelos membros da 2a Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre/RS (DRJ/POA), cuja ementa ficou a assim redigida, in verbis: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COHNS Período de apuração- 01/02/2001 a 28/02/2001 Ementa • REST1TUIÇÃO/COMPENSAÇÃO - Direitos creditórios• pleiteados via Declaração de Compensação - Nos termos do artigo 170 do Código Tributário Nacional, essencial a comprovação da liquidez e certeza dos créditos para a efetivação do encontro de contas. Compensação não Homologada Por meio da Declaração de Compensação (DComp) de n' 33931,69688.180804.1.3,04-2160 (fls. 02/06), a Interessada informou a compensação do crédito, proveniente do pagamento maior do que devido da Cofins do mês de fevereiro de 2001 (fl. 04), com parcela do débito da dita Contribuição do mês de julho/2004 (fl. 05). Por meio do Despacho Decisório de fl. 01, diante da confirmação da inexistência do valor do crédito informado, a compensação declarada não foi homologada, com base no argumento de que não fora localizado nos sistemas de dados da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) o Documento de Arrecadação de Receitas Federais (Darf), cujos dados foram reproduzidos na referida DComp (fl. 04). Inconformada com o teor do referido Despacho Decisório, em 01/09/2008, a Interessada apresentou a Manifestação de Inconformidade de fls. 07/25, aduzindo as razões de defesa que foram resumidas no Relatório integrante do Acórdão recorrido, com os seguintes termos: A interessada por sua vez, contesta o Parecer alegando que ao fazer levantamento de importâncias pagas a título de Pis e Coibis, conforme disposição da Lei 9.718/98, constatou valores pagos a maior, conforme seu entendimento e documentos que teriam sido apresentados no presente processo. Contesta o Processo n" 1 1080 906514/2008f1 8 Acórdão n 0310200.728 83-C1 T2 El 2 conceito de receita bruta e a tributação sobre a totalidade das receitas, instituído pela lei acima referida.. Afirma que houve tributação indevida sobre valores repassados a terceiros, que deveriam ter sido excluídos da base tributável com base no disposto no art, 3", §2, inciso III, da Lei 9.718/1998, o que teria gerado indébitos compensáveis. Também é alegado que houve burla à lei pela . falta de regulamentação do dispositivo retrocitado, o que geraria majoração indevida do tributo. Sobreveio o citado Acórdão, em que os membros da Turma julgadora a quo, por unanimidade de votos, não reconheceram o direito creditório informado e, por conseguinte, não homologaram a compensação declarada, com base nos seguintes argumentos: a) não caberia àquele Colegiado se manifestar acerca da inconstitucionalidadefilegalidade de normas que têm presunção de validade e devem ser observadas pela Administração; b) o preceito da Lei IV 9.718, de 1998 (o inciso III do § 2' do art. .3°), que previa a exclusão dos valores transferidos para outras pessoas jurídicas da base de cálculo da Cofins, corno não tinha o atributo da autoexecutoriedade, não produziu efeitos no curso de sua vigência, pois não foi regulamentado pelo Poder Executivo até a sua revogação pela Medida Provisória n° L991-18, de 2000; e c) ademais, não havia nos autos qualquer documentação comprobatória da liquidez e certeza dos direitos creditórios alegados, o que, de plano, já bastaria para frustrar o encontro de contas pretendido, por violação do artigo 170 do CTN. Em 25/0.3/2009, a Recorrente foi cientificada, por via postal (fl. .39), do referido Acórdão. Inconformada, em 17/04/2009 (Il. 40), interpôs o Recurso Voluntário de fls. 40/60, reafirmando as razões de defesa aduzidas na peça impugnatória e requerendo o integral provimento do presente Recurso, para que fosse determinada a homologação das compensações apresentadas. Em cumprimento ao despacho de ti. 61, os presentes autos foram enviados a este e. Conselho. Em cumprimento ao disposto no art. 49 do Anexo II do Regimento Interno deste Conselho, aprovado pela Portaria MF n° 256, de 22 de junho de 2009, na Sessão de maio do corrente ano, mediante sorteio, os presente autos foram distribuídos para este Conselheiro. É o Relatório. Voto Conselheiro José Fernandes do Nascimento, Relator O presente Recurso é tempestivo, preenche os demais requisitos de admissibilidade e trata de matéria da competência deste Colegiada, portanto, dele tomo conhecimento O presente processo trata de litígio referente ao direito da Recorrente de compensar crédito proveniente do pagamento indevido ou maior que o devido da Cb`fins, referente ao mês de fevereiro de 2001 (fl. 04), com parcela do débito da mesma Contribuição do mês de julho de 2004 (fl. 05). De acordo com o Despacho de Decisório de fl. 01, os dados do pagamento indevido, informados pela Recorrente na citada DComp (fl. 04), não foram localizados nos sistemas de dados da RFB, o que motivou a não homologação da compensação em apreço, por inexistência de crédito. Assim, fica evidente que a causa da não-homologação do procedimento compensatório em apreço foi a ausência da comprovação do valor do crédito informado, o que demandaria, para fins de reversão da decisão prolatada, a apresentação das provas confirmatórias da existência do suposto indébito tributário. Entretanto, ao invés de apresentar os elementos probatórios do direito creditório alegado, a defesa da Interessada limitou-se a questões de direito, acompanhada de farta citação doutrinária e jurisprudencial. Nem sequer o comprovante (o Darf) do pagamento indevido não localizado nos sistemas da RFB foi apresentado. Além disso, a Recorrente não se dignou trazer aos autos qualquer informação ou elemento de prova acerca dos valores que, computados como receita, alegou ter transferidos a terceiras pessoas jurídicas, no período de fevereiro de 1999 a agosto de 2000, e supostamente excluídos da base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, com respaldo no inciso III do parágrafo 2° do artigo 3° da Lei 9.718, de 1998. Diante da ausência de tais provas e informações, não há como saber o valor da receita transferida nem as pessoas jurídicas beneficiárias. Em decorrência, como aquilatar o procedimento compensatório em apreço? Impossível! Dessa forma, ao meu juízo, o presente Recurso não passa de uma peça meramente teórica, sem qualquer resultado prático para o deslinde da presente controvérsia, que exigiria a comprovação cabal do valor do crédito utilizado na compensação em comento. Não é demais ressaltar que, em matéria processual, seja administrativa ou judicial, o ônus da prova cabe a quem alega possuir o direito pleiteado, Neste sentido, dispõe o inciso I do art. 333 do Código de Processo Civil. No âmbito do processo administrativo de exigência do crédito tributário, face a natureza vinculada do lançamento e do ato de aplicação de penalidade, é dever da autoridade fiscal apresentar os elementos de prova do fato jurídico tributário (fato gerador) ou do ilícito tributário desencadeador do liame obrigacional, conforme expressamente determina o caput do art. 9" do Decreto n° 70.235, de 1972 (PAF), Por sua vez, na esfera do contencioso administrativo atinente ao procedimento compensatório (compensação espontânea ou autocompensação) quem afirma possuir direito ao encontro de contas entre o crédito e o débito compensados é o próprio sujeito passivo, consequentemente, é dele o ônus de trazer ao processo os elementos probatórios da existência desse direito, cabendo a Administração tributária apenas a função de verificar a regularidade do procedimento em comento, somente homologando-o se devidamente comprovado os requisitos e às condições estabelecidos em lei, dentre os quais, por força do disposto no art. 170 do CTN, destaca-se a imprescindibilidade da comprovação da liquidez e certeza do crédito informado, o que não ocorreu no procedimento em análise. No que tange ao aspecto probatório, fazendo um paralelo entre o procedimento de exigência do crédito tributário e o procedimento compensatório, vearea-se r Processo o' 11080 906514/2008-18 S3-CI T2 Acórdão n " 3102-00.728 Fi 3 que no primeiro quem deve provar o fato jurídico tributário (ou fato gerador em concreto) é a autoridade fiscal, ao passo que no segundo quem tem o ônus de provar o fato jurídico do pagamento indevido é o sujeito passivo que o alega. Não é demais lembrar que, no âmbito do contencioso administrativo, a prova objetiva convencer o julgado acerca da verdade ou falsidade de um fato. É ela o instrumento adequado a construir a verdade no processo, fixando os fatos no mundo jurídica Sem ela o processo se transforma numa peça de natureza meramente teórica ou abstrata, desvirtuando o escopo do processo, seja administrativo ou judicial, que consiste na solução jurídica de um conflito mediante aplicação da norma supostamente violada a um caso concreto,. A importância da prova jurídica corno instrumento de introdução dos fatos no mundo jurídico é ressaltada no excerto extraído da doutrina de Eurico Marcos Diniz de Santil, a seguir transcrito: "O direito não incide sobre fatos, incide sobre a prova dos fatos, ou dizendo de outra forma: o fato jurídico é fato juridicamente provado". Também não se deve olvidar que, em matéria processual, alegar e não provar, é o mesmo que não alegar, daí a origem do brocardo jurídico: allegatio et non probatio, quasi non allegatio. Na esfera do processo administrativo fiscal, que se aplica ao contencioso em apreço, por expressa previsão legal (§ 11 do art. 74 da Lei n° 9.430, de 1996), corrobora o asseverado o disposto nos arts. 15 e 16 do PAF, com as alterações posteriores. Por tais razões, entendo que a completa ausência de provas, seja da origem dos valores que, computados como receita, foram transferidos a terceiras pessoas jurídicas, seja do valor do pagamento indevido declarado, é suficiente para a rejeição das alegações aduzidas pela Recorrente. Porém, ad argumentandwn, não me furtarei de analisar à questão jurídica de fundo suscitada pela Recorrente no presente Recurso, consistente no direito de dedução da base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep e Cofins dos valores das receitas repassados a terceiras pessoas jurídicas, nos termos do inciso III do parágrafo 2° do artigo 3° da Lei 9,718, de 1998, a seguir trasncrito: Art. 32 O faturamento a que se Pvfere o artigo anterior corresponde à receita bruta da pessoa jurídica 22 Para .fins de determinação da base de cálculo das contribuições a que se refere o art, 22, excluem-se da receita bruta.. III- os valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para outra pessoa Jurídica, observadas normas regulamentadoras expedidas pelo Poder Executivo; (....). (grifas não originais) O referido inciso, que entrou em vigor em I' de fevereiro de 1999, foi derrogado pela alínea "b" do inciso IV do artigo 47 da Medida Provisória n° 1991-18, de 09 de SANTI, Eurieo Marcos Diniz de Decadência e prescrição no direito tributário 2 ed Max L irnonad: São Paulo, 2001, p 45 ro-geTerriandes do Nascimento junho de 2000, em 9 de junho de 2000, data da publicação da referida MP, Porém, embora vigente no período de 1° de fevereiro de 1999 a 9 de junho de 2000, cabe consignar que durante esse período, o citado preceito legal não produziu o efeito jurídico nele previsto, por falta da edição da norma regulamentadora da incumbência do Poder Executivo, condição resolutória para desencadear eficácia da citado comando normativo, Da leitura do preceito legal CD apreço, transparece de forma clara que ele veicula norma de eficácia e aplicabilidade limitada que, para produzir os efeitos jurídicos previstos, prescindia de urna regulamentação ulterior integrativa. Como a referida norma não foi editada, o citado preceito legal surgiu e desapareceu do mundo jurídico sem produzir os efeitos jurídicos almejados. Dessa forma, com devida vênia ao entendimento contrário, entendo que o preceito legal em comento, no curso da sua vigência, não produziu o efeito jurídico programado, por falta de edição da norma regulamentar integrativa da alçada do Poder Executivo, Ademais, ainda que assim não fosse, melhor sorte não teria a Recorrente haja vista que o crédito de pagamento indevido, informado na referida DComp (fl. 04) e utilizado na compensação em comento, refere-se à Cofins do mês de fevereiro de 2001, ou seja, diz respeito à base cálculo determinada após 8 (oito) meses do término da vigência da norma que amparava o suposto direito de exclusão do valor da receita repassada a outra pessoa jurídica, origem do alegado indébito tributário. Diante de todo o exposto, NEGO PROVIMENTO ao presente Recurso, para manter inteOmente o Afórdão recorrido.
score : 1.0
Numero do processo: 10945.002796/2005-41
Data da sessão: Thu Sep 01 00:00:00 UTC 2011
Ementa: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS
Período de apuração: 01/02/2004 a 30/06/2005
COFINS. INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. DESPESAS COM SEGURO DA CARGA E DESPESAS DE RASTREAMENTO. LANÇAMENTO CREDOR. POSSIBILIDADE.
Os valores pagos a título de seguro da carga e rastreamento dos veículos da frota geram direito a crédito da COFINS, por se enquadrem no conceito de serviços utilizados como insumos na prestação de serviços.
COFINS. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. RESSARCIMENTO DE CRÉDITOS. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. IMPOSSIBILIDADE.
Por expressa previsão legal, o aproveitamento do crédito na forma estabelecida pela legislação que disciplina o sistema não cumulativo de apuração da Cofins não enseja atualização monetária ou incidência de juros sobre os respectivos valores.
Recurso Voluntário Provido em Parte
Numero da decisão: 3102-01.182
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado. Vencidos os Conselheiros Nanci Gama e Luciano Pontes de Maya Gomes.
Nome do relator: Ricardo Paulo Rosa
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ementa_s : CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS Período de apuração: 01/02/2004 a 30/06/2005 COFINS. INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. DESPESAS COM SEGURO DA CARGA E DESPESAS DE RASTREAMENTO. LANÇAMENTO CREDOR. POSSIBILIDADE. Os valores pagos a título de seguro da carga e rastreamento dos veículos da frota geram direito a crédito da COFINS, por se enquadrem no conceito de serviços utilizados como insumos na prestação de serviços. COFINS. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. RESSARCIMENTO DE CRÉDITOS. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. IMPOSSIBILIDADE. Por expressa previsão legal, o aproveitamento do crédito na forma estabelecida pela legislação que disciplina o sistema não cumulativo de apuração da Cofins não enseja atualização monetária ou incidência de juros sobre os respectivos valores. Recurso Voluntário Provido em Parte
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INCIDÊNCIA NÃOCUMULATIVA. DESPESAS COM SEGURO DA CARGA E DESPESAS DE RASTREAMENTO. LANÇAMENTO CREDOR. POSSIBILIDADE. Os valores pagos a título de seguro da carga e rastreamento dos veículos da frota geram direito a crédito da COFINS, por se enquadrem no conceito de serviços utilizados como insumos na prestação de serviços. COFINS. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. RESSARCIMENTO DE CRÉDITOS. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. IMPOSSIBILIDADE. Por expressa previsão legal, o aproveitamento do crédito na forma estabelecida pela legislação que disciplina o sistema não cumulativo de apuração da Cofins não enseja atualização monetária ou incidência de juros sobre os respectivos valores. Recurso Voluntário Provido em Parte Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. Vencidos os Conselheiros Nanci Gama e Luciano Pontes de Maya Gomes. Luis Marcelo Guerra de Castro Presidente. Ricardo Paulo Rosa Relator. EDITADO EM: 07/10/2011 Fl. 1DF CARF MF Emitido em 12/01/2012 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA, Assinado digitalmente em 14/10/2011 p or LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luis Marcelo Guerra de Castro, Ricardo Paulo Rosa, Luciano Pontes de Maya Gomes, Mara Cristina Sifuentes, Álvaro Arthur Lopes de Almeida Filho e Nanci Gama. Relatório Por bem descrever os fatos, adoto o relatório que embasou a decisão de primeira instância, que passo a transcrever. Tratase no presente processo de pedido de ressarcimento (fl. 01) de créditos da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS, apurada pelo regime não cumulativo e referente às operações de exportação, relativos aos meses de fevereiro de 2004 a junho de 2005, e cujo montante total acumulado, no valor de R$ 45.603,47, foi integralmente lançado pelo interessado no Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais (DACON) na apuração de créditos da referida Contribuição que se reporta ao mês de junho de 2005 (v. fl.306). 2. Inicialmente, a Delegacia da Receita Federal em Foz do Iguaçu (DRF/FOZ/PR) exarou a Informação Fiscal Seort DRF/FOZ n° 67/2007 e Despacho Decisório (fls. 307/313), não reconhecendo o direito creditório pleiteado e indeferindo o Pedido de ressarcimento à inicial, sob os seguintes fundamentos: • O contribuinte juntou ao processo Relato (fls. 02/15), discorrendo sobre os serviços que considera insumos utilizados na prestação de serviços e que seriam passíveis de crédito, quais sejam "seguro de mercadorias" e "serviços de rastreamento de veículos", e, ainda, justificando a inclusão destes gastos à base de cálculo para apuração do crédito da COFINS nãocumulativa, objeto do pedido de ressarcimento, tendo também se promovido a juntada de documentação comprobatória dos custos com os serviços supracitados; • O interessado alega, em sua argumentação, que os gastos despendidos com seguro de mercadorias, rastreamento e escolta, bem como outros métodos que visem a assegurar a proteção da carga, são insumos utilizados na prestação de serviço das empresas de transporte, pois se enquadram no conceito estabelecido pelo art. 8°, § 4°, da IN SRF n° 404/2004; • O contribuinte cita as Soluções de Consulta n° 462/2004 da SRRF — 7ª Região Fiscal e n° 104/2004 da SRRF — 8ª Região Fiscal, nas quais o entendimento da Receita Federal confirmaria o direito reclamado, ou seja, os gastos acima se caracterizariam como insumos utilizados na atividadefim de empresa de transportes rodoviários de carga, podendo, portanto, compor o somatório dos créditos a serem descontados na apuração da COFINS; • Porém, verificase a existência de outras Soluções de Consulta da SRRF — Região Fiscal sobre a matéria, nos 326 e 327, ambas de 29/10/2004, as quais apresentam entendimento divergente daquelas apresentadas pelo solicitante, concluindo que os serviços de comunicações utilizados no rastreamento da frota não se enquadram no conceito de insumo, pois são, na realidade, serviços de telecomunicações usados para segurança do patrimônio da empresa transportadora, e, em relação aos seguros de qualquer espécie — sobre os veículos, ou por danos causados a terceiros, ou para proteção da carga, obrigatórios ou não — escapam ao conceito de insumos para os fins buscados, uma vez que não se subsumem ao conceito da Instrução Normativa antes aludida; • Alertese que a Consulta n° 326, de 2004, acima citada, foi requerida pelo próprio interessado, na qual a solução dada foi desfavorável ao pedido apresentado, Fl. 2DF CARF MF Emitido em 12/01/2012 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA, Assinado digitalmente em 14/10/2011 p or LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 10945.002796/200541 Acórdão n.º 310201.182 S3C1T2 Fl. 2 3 sendo que, não satisfeito, todavia, com a conclusão exarada, o requerente, ainda assim, realizou lançamento do crédito em questão e o pedido de ressarcimento formalizado por este processo; • A respeito da divergência entre Soluções de Consulta, na forma acima comentada, mencionese que as Soluções de Divergência Cosit n°s 1 e 2, que versam sobre a Contribuição para o PIS/Pasep, ambas de 16/02/2005, firmam o entendimento de que o custo com seguro de mercadorias não se tratase insumo passível de crédito; • Podese aplicar à COFINS o entendimento exposto pelas Soluções de Divergência acima citadas, pois as duas contribuições, PIS e COFINS, possuem neste caso a mesma base de cálculo para apuração dos créditos objeto do pedido, e, sendo assim, incluirão como insumos passíveis de dedução os mesmos serviços, ora questionados. 3. Cientificado da decisão da autoridade administrativa local acima mencionada em 14/03/2007, conforme se observa no Aviso de Recebimento (AR) de fl. 315, o contribuinte, irresignado, apresentou, em 12/04/2007, a Manifestação de Inconformidade de fls. 319/333, alegando, em síntese, que: a) o interessado, conforme pode ser constatado na Cláusula Segunda do seu Contrato Social (Anexo I), é empresa que atua no ramo de atividade de transporte rodoviário de carga, sendo que tem no transporte internacional a maior parte da sua receita de prestação de serviço, e que, dentre todas as possibilidades de créditos de PIS e COFINS sobre insumos, viu seu direito glosado com relação a dois itens: serviços de rastreamento de veículos e seguros de mercadorias, pagos a pessoas jurídicas; b) segundo o conceito de insumo definido pelo art. 8°, § 4°, da IN SRF n° 404/2004, para que os insumos do interessado possam gerar crédito de PIS e COFINS, precisam apresentar resposta positiva a dois requisitos: 1 — serem prestados por pessoa jurídica domiciliada no país; 2 — serem aplicados ou consumidos na prestação de serviço do interessado; ou seja, se a resposta for "sim" para os dois itens acima, restará garantido o direito ao crédito; c) o atendimento do requisito 1 é ponto incontroverso, já que os pagamentos referentes aos serviços de rastreamento, bem como o seguro das cargas, são efetuados diretamente a pessoas jurídicas domiciliadas no país, além do que a Fazenda Federal também não apresentou óbices neste sentido; d) quanto ao requisito 2, dentro do ramo de atividade da empresa, acima descrito, o seguro de mercadorias e o serviço de rastreamento devem ser considerados insumos, e, para que o julgamento possa analisar o tema com mais propriedade, posto que de complexidade operacional considerável, apresentamse elementos esclarecedores de sua origem, constituição legal, aplicação prática (operacionalização) e a finalidade a que se propõe, na análise individual do seguro e do rastreamento, a seguir; e) os seguros das mercadorias, contratados pelo interessado, abrangem quaisquer localidades do território brasileiro para os países localizados no Cone Sul (em especial, Paraguai e Uruguai) e viceversa, conforme Apólice de Seguro, apresentada no Anexo II do Requerimento à inicial (fls. 26/39), e o prêmio pago para a seguradora é calculado sobre o valor da mercadoria, aplicandose um percentual (taxa final, conforme Anexo III da inicial, fls. 41/47), o qual é composto pelo somatória de taxas que englobam 3 (três) categorias de seguro: 1 — Fl. 3DF CARF MF Emitido em 12/01/2012 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA, Assinado digitalmente em 14/10/2011 p or LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA 4 obrigatório, de responsabilidade civil do transportador sobre danos a carga (RCTR RC); 2 de responsabilidade civil do transportador sobre o desaparecimento de carga (RCFDC); 3 de responsabilidade civil do transportador em viagem internacional — danos e desaparecimento de carga; f) o primeiro dos seguros (por danos à carga) acima citados é obrigatório, de modo que, sem a sua contratação, o interessado não poderá operar no segmento de transporte de cargas, conforme disposição advinda dos arts. 20, "m", e 112, ambos do Decretolei n° 73/66, regulamentado pelo art. 10 do Decreto n°61.867/67; g) esta obrigatoriedade também se vislumbra nos contratos de prestação de serviço de transporte entre o interessado e seus clientes (Anexo IV do Requerimento à inicial, fls. 49/59), onde, na Cláusula Segunda — Obrigações da Contratada (item 2.4), encontrase firmado que compete ao interessado a manutenção em regularidade desta espécie de seguro; h) como se pode verificar na Apólice de Seguros, item 06 — Taxas (Anexo II), este seguro tem cobertura dentro do território brasileiro e o seu valor é definido através de Tabelas de Taxas em anexo à Apólice (Anexo V), sendo o percentual variável de acordo com a origem e o destino do transporte a ser realizado; i) em relação ao segundo dos seguros (por desaparecimento da carga) anteriormente mencionados, o interessado também tem por "obrigatoriedade operacional" a, contratação de seguro de transporte rodoviário contra roubo e danos a carga, constando como beneficiária a contratante do serviço; j) esta obrigatoriedade não advém de força de lei, mas da exigência do segmento em que o interessado atua, haja vista que seus clientes fazem constar nos contratos de prestação de serviço (Anexo IV, Cláusula Segunda, item 2.13), que ficará por conta desta a contratação de seguro que vise à proteção contra roubos e danos, pois, em caso de qualquer sinistro advindo disso, deverá ser o cliente comunicado e indenizado em no máximo 60 (sessenta) dias do sinistro, implicando, portanto, risco por demais elevado para as empresas deste segmento de transporte; k) tal prática é inerente à atividade de transporte de cargas, e, portanto, não há como o interessado se esquivar, sob pena de sensível perda de sua clientela, que irá contratar serviços com as empresas concorrentes, as quais mantêm sob suas expensas as apólices com cobertura desta natureza (roubo e danos), além do que, como os valores das mercadorias transportadas são expressivos, tomase extremamente temeroso deixarse de arcar com este seguro — que representa o percentual fixo da taxa final de 0,05% a ser aplicado sobre o valor segurado, conforme Anexo VI da inicial, item 6C, fls. 63/64 — e submeterse ao risco de se ver obrigado a indenizar seus contratantes em caso de roubo ou danos, tais como: amassamento, contaminação por água doce ou de chuva, e contato com outras mercadorias, entre outros; 1) portanto, mais que uma despesa operacional, este gasto é um insumo indispensável à prestação do serviço do interessado, posto que exigidas por sua clientela as garantias de que serão reparadas de todo e qualquer dano ou prejuízo advindo do transporte realizado; m) as coberturas acima mencionadas aplicamse somente para o território brasileiro, contudo, as mesmas obrigatoriedades de cobertura para o nosso território também se aplicam para o percurso complementar fora do território brasileiro, e, assim, na composição da taxa final do seguro, somase ainda o percentual do seguro internacional, conforme o destino da mercadoria transportada (v. tb. Anexo VI, fls. 63/64); Fl. 4DF CARF MF Emitido em 12/01/2012 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA, Assinado digitalmente em 14/10/2011 p or LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 10945.002796/200541 Acórdão n.º 310201.182 S3C1T2 Fl. 3 5 n) esses percentuais são definidos de acordo com a carta do IRB — Instituto de Resseguros do Brasil SETECTRA250/91, de 04/11/1991, e, diante do exposto, não há como negar que os gastos com seguro de mercadorias, despendidos Pelo interessado, são insumos utilizados na prestação de serviço das empresas de transporte, pois se enquadram perfeitamente no conceito de insumos, descritos na legislação citada, ou seja, são serviços prestados por pessoas jurídicas e são aplicados ou consumidos durante a prestação; o) além do mais, os gastos com seguro são necessários para garantir que o serviço prestado atinja o seu fim, qual seja, entregar a mercadoria em seu destino e em perfeito estado de conservação, de modo que são aplicados "e" consumidos integralmente na consecução do serviço prestado; p) cabe lembrar que o Direito Civil, no que se refere às obrigações de fazer, classifica a prestação de serviço deste setor (transporte) como obrigação de resultado, a qual atribui toda responsabilidade ao transportador para que atinja de forma inequívoca o fim esperado, qual seja, a entrega da carga no destino, sem avarias, sob pena de responsabilização por perdas e danos, e, diante de todo o exposto, as despesas com seguro de mercadorias devem ser interpretadas como insumos operacionais da atividade do setor transportador, sob pena de prejuízo no não cumprimento da nãocumulatividade, objetivado pelas leis em comento; q) já no que diz respeito aos serviços contratados para rastreamento da frota de veículos do interessado, embora se possa supor que a contratação dos mesmos tem como objetivo principal a proteção do patrimônio da empresa, não é este na realidade o seu objetivo principal, até mesmo porque o interessado mantém seguro exclusivamente para a proteção do seu patrimônio principal, no caso, para todos os seus veículos utilizados na fase operacional de transporte, razão pela qual inexiste necessidade da contratação de serviço de rastreamento para proteção da frota, tal como alegado pelo julgamento a quo; r) no ramo de atividade do interessado, a contratação dos serviços de rastreamento é exigência da Companhia de Seguros, fazendose inclusive constar na Especificação da Apólice (v. 'Mexo II, item 04) em que situação se dará a prestação do serviço de transporte, bem como os recursos com os quais os veículos da transportadora deverão estar providos, para que se cumpram os cuidados necessários à perfeita proteção da carga; s) além destes procedimentos, existe ainda o caso especial das denominadas mercadorias específicas (Anexo VII da inicial, fls. 66/67), que são as que têm maior incidência de roubo, com alto valor agregado, e, para estas, tornase obrigatória a adoção de um gerenciamento de risco, como rastreamento via satélite e/ou acompanhamento de escolta oficial armada trabalho esse praticado por empresas legalmente constituídas, especializadas e autorizadas pelo Ministério da Justiça possibilitando ao transportador minimizar perdas materiais, financeiras e humanas, e, portanto, podese concluir que o Serviço de rastreamento é vital para o ramo de transporte de cargas, encontrandose completamente atrelado às companhias seguradoras e a suas exigências, que objetivam minimizar o risco de sinistro; t) equivocase ainda o relator das Soluções de Divergência n's 01 e 02, de 16/02/2005, mencionadas pelo julgador a quo, na parte em que as mesmas fazem menção à impossibilidade de créditos sobre o custo dos seguros de mercadorias, com a alegação de não haver previsão legal para tanto, já que a norma regulamentadora da nãocumulatividade não estabelece regras limitadoras da possibilidade de crédito, ou seja, não exaure todas as possibilidades de créditos; Fl. 5DF CARF MF Emitido em 12/01/2012 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA, Assinado digitalmente em 14/10/2011 p or LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA 6 u) sendo impraticável a enumeração de todas as possibilidades de créditos, o legislador, inteligentemente, deixou que cada intérprete do texto avalie, segundo o seu segmento , empresarial (industrial, comercial ou prestador de serviço) e de acordo com o ramo de atividade (agroindústria, cooperativa, fábrica de móveis, cerealista, etc.), qual o insumo entende seja aplicável o direito ao crédito, sendo depois este procedimento passível de verificação pela autoridade administrativa, ou seja, ao legislador coube apenas definir o que é insumo e não quais são os insumos que dão direito ao crédito, o que torna impossível negar direito ao crédito, alegando se falta de previsão legal, não sendo "numerus clausus", portanto, as possibilidades de créditos de insumos; v) nos casos das decisões que alegam a inexistência de disposição legal, acaba o julgador pondo à parte as ferramentas preestabelecidas pelo ordenamento jurídico para a solução, de lides, as quais não se limitam à lei, mas abrangem também a jurisprudência, os costumes, e, sobretudo, os princípios gerais do direito, citandose, para exemplificar, o disposto no art. 108 do CTN (que prevê a aplicação da analogia, in bonam partem; dos princípios gerais de direito tributário, citandose os da isonomia, equidade e repulsa ao enriquecimento sem causa — cf. arts. 884 a 886 do CC de 2002; dos princípios gerais de direito público; e da equidade), mesma previsão encontrada no art. 4° da LICC e no art. 126, do CPC, não podendo ser diferente no âmbito do processo administrativo, motivo pelo qual não pode o julgador administrativo abster de posicionarse ante o fato controverso, alegando simplesmente inexistir legislação pertinente ao assunto; w) há incongruência no entendimento apresentado pelos julgadores que emitiram as Soluções de Consulta da SRRF 9ª RF, nos 326 e 327, de 29/10/2004, as quais formaram base para que se negasse o indeferimento do pedido, e as Soluções de Consulta SRRF 7ª RF n° 462/2004 e 8ª RF n° 104/2004; x) concebese como incontestável a possibilidade de efetivação de créditos sobre as despesas com pedágio, armazenamento de mercadorias, mãodeobra para manutenção da frota, os gastos com partes e peças para reposição nos veículos utilizados na atividadefim da empresa de transporte, ou o gás consumido pelas empilhadeiras utilizadas para carga e descarga de caminhões, porém, não se admite a possibilidade dos créditos sobre os itens objetos da presente lide, sinalizando que o julgador poderá estar dando menos importância a estes, julgandoos supérfluos para a realização da atividade, sendo que, pelos argumentos apresentados, demonstrase justamente o contrário; y) os valores objeto do pedido de ressarcimento, pertinentes ao presente processo, devem ser acrescidos da taxa SELIC, por ser uma espécie do gênero restituição, tal como interpretação já manifestada pelo Conselho de Contribuintes (Recurso n° 112197, Acórdão n° 20174277, processo n° 10980.015483/9828); pela Câmara Superior de Recursos Fiscais (Recurso n° 110842; Acórdão n° 20213920, processo n° 13062.000159/9847); e pelos nossos Tribunais (STJ, RESP 576857/RS, DJ de 19/12/2005), desde a data em que poderiam ter sido compensados ou ressarcidos ao interessado, posto que o impedimento para tanto adveio da autoridade administrativa, que, primeiramente, negoulhe o direito em resposta à consulta formulada, e, posteriormente, mantém a negativa pelo indeferimento do pleito protocolado, criando obstáculo à sua efetivação, devendose restituir, portanto, além do principal, a perda do poder aquisitivo da moeda, ocorrido no período em que demandou contra os interesses do autor, sob pena de enriquecimento sem causa; z) diante do exposto, requerse seja conhecida a Manifestação de Inconformidade, com o especial fim de: deferirse integralmente o pedido de ressarcimento protocolizado, para que a interessado possa fazer uso dos créditos na forma prevista na legislação, direito este negado originalmente; autorizarse a devida atualização dos créditos requeridos pela taxa SELIC, a incidir desde o fato gerador Fl. 6DF CARF MF Emitido em 12/01/2012 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA, Assinado digitalmente em 14/10/2011 p or LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 10945.002796/200541 Acórdão n.º 310201.182 S3C1T2 Fl. 4 7 dos mesmos até o efetivo ressarcimento/compensação, posto que o entendimento da autoridade administrativa da 9ª Região Fiscal era no sentido da vedação da apuração dos mesmos sobre os referidos insumos. À fl. 336, tendo em vista o contido na Portaria RFB n° 340, de 22/02/2008, que transferiu a competência para julgamento dos processos relacionados em seu Anexo II, da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento de Curitiba (DRUCTBA) para a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro II (DRJ/R.102), o presente processo foi encaminhado a esta DRJ/RJ02, para julgamento. Assim a Delegacia da Receita Federal de Julgamento sintetizou, na ementa correspondente, a decisão proferida. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/02/2004 a 30/06/2005 COFINS. INCIDÊNCIA NÃOCUMULATIVA. DESPESAS COM SEGURO E SERVIÇOS DE RASTREAMENTO DE VEÍCULOS DA FROTA. RESSARCIMENTO DE CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Os valores das despesas de empresa transportadora, com seguro da carga transportada e com serviços de rastreamento dos veículos da frota, ainda que pagos ou creditados a pessoa jurídica domiciliada no País, não geram direito a crédito da COFINS, passível de ressarcimento. COFINS. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. RESSARCIMENTO DE CRÉDITOS . ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. VEDAÇÃO. É vedada a incidência de juros compensatórios no ressarcimento de créditos da COFINS, no regime de incidência nãocumulativa da contribuição. Insatisfeita com a decisão de primeira instância, a recorrente apresenta recurso voluntário a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, por meio do qual repisa argumentos contidos na Manifestação de Inconformidade. É o relatório. Voto Conselheiro Ricardo Paulo Rosa. Preenchidos os requisitos de admissibilidade, tomo conhecimento do recurso voluntário. Discutese da possibilidade de aproveitamento de créditos de COFINS nas despesas realizadas por empresa transportadora com o seguro da carga transportada e com serviços de rastreamento dos veículos da frota. Já houve a respeito do assunto diferentes entendimentos manifestos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil por meio de solução de consultas registradas por diversas empresas interessadas, tendo a questão conexa, ao final, sido objeto de solução de Fl. 7DF CARF MF Emitido em 12/01/2012 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA, Assinado digitalmente em 14/10/2011 p or LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA 8 divergência editada pelo Órgão Central da Secretaria, firmando entendimento de que não seria possível o lançamento credor do PIS e da COFINS para efeito de abatimento do débito no sistema da não cumulatividade. Assim concluem as Soluções de Divergência COSIT nºs 01 e 02 de 2005. 12. Diante do exposto, soluciono a presente divergência orientando à recorrente que, do valor apurado da Contribuição para o PIS/Pasep, poderá ser descontado créditos desta contribuição calculados sobre os valores das despesas incorridas com fretes, pagos ou creditados a pessoa jurídica domiciliada no País, nas operações de vendas, efetuadas a partir de 1o de fevereiro de 2004, desde que o ônus tenha sido por ela suportado, na condição de vendedora. 13. Os valores das despesas com seguros nas operações de vendas de bens (produtos ou mercadorias), ainda que pagos ou creditados a pessoa jurídica domiciliada no País, por falta de previsão legal, não gera direito a crédito a ser descontado da contribuição para o PIS/Pasep devida pela pessoa jurídica vendedora. Imperioso que se diga, liminarmente, que ambas Soluções de Divergência examinam situação consideravelmente distinta da vertente, pois referemse às despesas com frete ou seguro pagos por empresa que opera no ramo do comércio, como se depreende do termo na condição de vendedora contida na parte final da conclusão das Soluções, ao passo que aqui referimonos às empresas transportadoras. Quanto a isso, peço vênia para discordar do entendimento manifesto no voto condutor da decisão recorrida, nos seguintes termos. O fato de não ser a pessoa jurídica vendedora, mas sim o interessado — empresa que atua no ramo de atividade de transporte rodoviário de cargas — a arcar, por força dos contratos anexados ao seu requerimento, com as citadas despesas de seguro (nesse sentido, vide L Anexo IV, Cláusula Segunda, itens 2.4 e 2.13, fls. 50/51), não autoriza o ressarcimento de créditos pleiteado, quando muito tendo em vista o disposto no art. 123, do CTN, pelo qual, "salvo disposições de lei em contrário, as convenções particulares, relativas à responsabilidade pelo pagamento de tributos, não podem ser opostas à Fazenda Pública, para modificar a definição legal do sujeito passivo das obrigações tributárias correspondentes", in verbis. Ou seja, se os contratos e convenções particulares não se prestam a modificar a definição legal do obrigado, tampouco poderiam se fazer hábeis a alterar o sujeito passivo a que teria, supostamente, direito ao ressarcimento de créditos demandado. Não entendo que se trate de uma modificação na definição legal do sujeito passivo decorrente de convenção entre particulares. Segundo me parece, o foco da discussão é definir se serviços de seguro e rastreamento de veículos são ou não utilizados como insumo na prestação de serviços de transporte, diferentemente do que se estaria analisando se a empresa contratante do serviço é uma empresa que atua na área do comércio. Em outras palavras, o que é utilizado como insumo na prestação de um determinado serviço pode não o ser em outro tipo de atividade. Adentrando um pouco mais à questão, é possível admitir que a previsão contida no inciso IX do artigo 3º da Lei 10.833/03, correspondente aos gastos com “armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, nos casos dos incisos I e II, quando o ônus for suportado pelo vendedor”, ali esteja exatamente por que tais gastos não se enquadram nem como bens adquiridos para revenda e nem como bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Fl. 8DF CARF MF Emitido em 12/01/2012 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA, Assinado digitalmente em 14/10/2011 p or LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 10945.002796/200541 Acórdão n.º 310201.182 S3C1T2 Fl. 5 9 Trazendo novamente ao debate os fundamentos da decisão de primeira instância, peço mais uma vez vênia para divergir do entendimento manifesto de que não é possível o lançamento credor das despesas com seguro e rastreamento por falta de previsão legal. A previsão legal, a meu ver, encontrase no retro citado artigo 3º da Lei 10.833/03, especificamente em seu inciso II, ao referirse aos serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços. De fato, entendo que o âmago da questão esteja na caracterização dos serviços objetos da lide como serviços aplicados ou consumidos na prestação do serviço de transporte, situação na qual estarseia atendendo inclusive as disposições contidas no Ato Normativo expedido pela Secretaria da Receita Federal, qual seja, a IN SRF nº 404/04, referenciada na decisão a quo. Em sede de recurso voluntário, a recorrente reitera os termos da impugnação ao lançamento, reafirmando que está, na condição de transportadora, inclusive obrigada a contratar parte dos serviços dos quais pretende se creditar, nos seguintes termos. O seguro das mercadorias, contratado pela Recorrente no desenvolvimento de sua atividade, abrange quaisquer localidades do território brasileiro para os países locali7ados no Cone Sul, em especial o Paraguai e Uruguai e viceversa, conforme Apólices de seguro apresentada no anexo II da manifestação de inconformidade (M.I.). O prêmio pago para a seguradora é calculado sobre o valor da mercadoria, aplicandose um percentual (taxa final vide anexo III da M.I.) o qual é composto pela somatória de taxas que englobam as 3 (três) categorias de seguro a seguir descritas: a) Seguro Obrigatório de Responsabilidade Civil do Transportador Rodoviário de Carga RCTRRC Danos a Carga; b) Seguro de Responsabilidade Civil do Transportador Rodoviário de Carga Desaparecimento de Carga RCFDC; c) Seguro de Responsabilidade Civil do Transportador Rodoviário em Viagem Internacional Danos a Carga e Desaparecimento de Carga. Cada um dos itens acima tem sua peculiaridade. A seguir, Passaremos a comentar rapidamente sobre estas três modalidades de seguro demonstrando sua estreita relação com a atividade de transportes, restando imprescindível para a realização da atividade de transporte internacional de cargas, enquadrandose como insumo desta prestação de serviço, posto que sua finalidade se esgota no encerramento da prestação do transporte. a) SEGURO OBRIGATÓRIO DANOS A CARGA Dentre os citados, o seguro mencionado na alínea "a" é obrigatório de modo que sem a sua contratação, a Recorrente não poderá operar no segmento de transporte de cargas. A obrigatoriedade é advinda do DecretoLei n° 73/66 que em seu art. 20, assim menciona: Art, 20 Sem prejuízo do disposto em leis especiais, são obrigatórios os seguros de: Fl. 9DF CARF MF Emitido em 12/01/2012 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA, Assinado digitalmente em 14/10/2011 p or LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA 10 m) responsabilidade civil dos transportadores terrestres, marítimos, fluviais e lacustres, por danos à carpa transportada. (Incluída pela Lei n° 8.374, de 1991); (g.n.) Das penalidades, Art. 112. Será aplicada multa de até Cr$20.000.000 (vinte milhões de cruzeiros) às pessoas que deixarem de realizar os seguros legalmente obrigatórios, sem prejuízo de outras sanções legais. (g.n.) Ainda, o Decreto n° 61.867/67 em seu art. 10 assim define o aspecto legal do Seguro Obrigatório de Responsabilidade dos Transportadores , em Geral: Art. 10. As pessoas físicas ou jurídicas, de direito público ou privado, que se incumbirem do transporte de carga, são obrigadas a contratar seguro de responsabilidade civil, em garantia das perdas e danos sobrevindo a carga que lhes tenha sido conferida para transporte, contra conhecimento ou nota de embarque. (g.n.) Esta obrigatoriedade também se vislumbra nos contratos de prestação de serviço de transporte entre a Recorrente e seus clientes (Anexo IV da M.I.), 4de na Cláusula Segunda, Obrigações da Contratada item 2.4, está firmado que compete a Recorrente a manutenção em regularidade desta espécie de seguro. (...) A seguir, discorre sobre as outras duas categorias de seguro e explica que estas, embora não obrigatórias por lei, terminam por sêlo, sob pena de perda significativa de competitividade. De fato, ainda que se possa discutir se a essencialidade pode ou não ser escolhida como um critério de definição do que venha a se caracterizar como insumo na prestação de um serviço, não consigo encontrar razões para considerar que as despesas com seguro da carga não sejam classificadas no mais alto grau de imprescindibilidade na atividade de transporte de mercadorias. A estrutura de custos de uma empresa de transportes compreende dispêndios diversos tais como: motorista, seguro do veículo, seguro da carga, IPVA/ seguro obrigatório, custos administrativos, combustível; pneus e outras peças de reposição, lubrificantes, manutenção, pedágio etc. Dos itens acima, apenas o seguro do veículo, da carga, o seguro obrigatório, alguns custos administrativos, o serviço de manutenção e o pedágio podem ser classificados como serviços. Fazendose uma classificação destes, parece razoável admitir que alguns estejam mais para gastos com preservação do patrimônio e com o funcionamento da empresa como um todo e outros mais vinculados à atividade fim da empresa, a de transportar mercadorias. Podese cogitar que se atividades da empresa cessassem por um determinado período, algumas despesas tais como as despesas com o seguro dos veículos e com as atividades administrativas permaneceriam constantes; contudo, o mesmo não pode ser dito relação às despesas de manutenção dos veículos, peças de reposição, lubrificantes, combustível e seguro da carga, já que estas estão atreladas à efetiva prestação do serviço de transporte. Fl. 10DF CARF MF Emitido em 12/01/2012 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA, Assinado digitalmente em 14/10/2011 p or LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 10945.002796/200541 Acórdão n.º 310201.182 S3C1T2 Fl. 6 11 Considerandose esse critério de avaliação, não vejo como deixar de classificar as despesas com o seguro da carga transportada como serviço empregado diretamente na prestação de serviço de transporte, já que a contratação do seguro e o dispêndio correspondente obedecem à dinâmica determinada pela efetivação do serviço de transporte, enquadrandose, por conseguinte, nas disposições legais que regulamentam a matéria. Quanto às despesas com o serviço de rastreamento, uma vez que estas se constituam em um dos itens colocados pela seguradora à disposição do segurado, com o objetivo de reduzir os riscos, não vejo como enquadrálas de outra forma, se não no mesmo conceito atribuído às despesas com seguro. Finalmente, em relação à requerida atualização com base na taxa Selic, por expressa previsão legal contida no artigo 13 da Lei 10.833/03, não há como atender o pleito da recorrente. Pelo exposto, VOTO POR DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso voluntário apresentado pela recorrente, para reconhecer o direito de crédito referente às despesas com seguro da carga e rastreamento do veículo contratados nas condições especificadas nos autos. Sala de Sessões, 01 de setembro de 2011. Ricardo Paulo Rosa – Relator. Fl. 11DF CARF MF Emitido em 12/01/2012 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA, Assinado digitalmente em 14/10/2011 p or LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 07/10/2011 por RICARDO PAULO ROSA
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Numero do processo: 10120.004599/2001-37
Data da sessão: Tue Apr 24 00:00:00 UTC 2007
Ementa: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES
Período de apuração: 01/10/1995 a 28/02/1996
PIS. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. DECADÊNCIA.
O termo inicial de contagem do prazo de decadência para solicitação de restituição/compensação de valores pagos a maior não coincide com o dos pagamentos realizados quando o indébito exsurge de situação jurídica conflituosa, mas com a publicação da decisão do Supremo Tribunal Federal que, em sede de ADIN, declarou inconstitucional, no todo ou em parte, a norma legal instituidora ou modificadora do tributo.
PIS. SEMESTRALIDADE. BASE DE CÁLCULO.
Até o advento da Medida Provisória nº 1.212/95 a base de cálculo da contribuição era o faturamento do sexto mês anterior ao do fato gerador, não caracterizando decisão “ultra petita” sua concessão sem pedido expresso do contribuinte.
Recurso Especial do Procurador Negado.
Numero da decisão: CSRF/02-02.679
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso especial. Vencidos os Conselheiros Antonio Carlos Atulim (Relator), Antonio Bezerra Neto e Henrique Pinheiro Torres que davam provimento parcial ao recurso, para considerar extinto o direito à restituição pleiteada. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Dalton César Cordeiro de Miranda.
Nome do relator: Antonio Carlos Atulim
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ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Período de apuração: 01/10/1995 a 28/02/1996 PIS. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. DECADÊNCIA. O termo inicial de contagem do prazo de decadência para solicitação de restituição/compensação de valores pagos a maior não coincide com o dos pagamentos realizados quando o indébito exsurge de situação jurídica conflituosa, mas com a publicação da decisão do Supremo Tribunal Federal que, em sede de ADIN, declarou inconstitucional, no todo ou em parte, a norma legal instituidora ou modificadora do tributo. PIS. SEMESTRALIDADE. BASE DE CÁLCULO. Até o advento da Medida Provisória nº 1.212/95 a base de cálculo da contribuição era o faturamento do sexto mês anterior ao do fato gerador, não caracterizando decisão “ultra petita” sua concessão sem pedido expresso do contribuinte. Recurso Especial do Procurador Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso especial. Vencidos os Conselheiros Antonio Carlos Atulim (Relator), Antonio Bezerra Neto e Henrique Pinheiro Torres que davam provimento parcial ao recurso, para considerar extinto o direito à restituição pleiteada. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Dalton César Cordeiro de Miranda. Carlos Alberto de Freitas Barreto - Presidente Antonio Carlos Atulim - Relator Fl. 216DF CARF MF Impresso em 08/06/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/04/2015 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 24/04/201 5 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 07/05/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO 2 Antonio Carlos Atulim - Redator ad hoc EDITADO EM: 23/04/2015 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Josefa Maria Coelho Marques, Gileno Gurjão Barreto, Antonio Carlos Atulim, Maria Teresa Martínez López, Antonio Bezerra Neto, Dalton César Cordeiro de Miranda, Henrique Pinheiro Torres, Flávio de Sá Munhoz, Mário Junqueira Franco Júnior e Manoel Antônio Gadelha Dias (Presidente da CSRF à época do julgamento). Relatório Em 17/08/2001 o contribuinte formulou pedido de restituição por ter recolhido, no período de outubro de 1995 a fevereiro de 1996, o PIS com base na MP nº 1.212/95. Por meio do Acórdão n o 202-16.288 a Segunda Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, por maioria de votos, deu provimento parcial ao recurso voluntário para reconhecer que a decadência do direito à restituição do PIS recolhido com base na MP nº 1.212/95, no período compreendido entre outubro de 1995 e fevereiro de 1996, ocorreu em 16/08/2004, pois os cinco anos devem ser contados a partir da publicação do julgamento na ADIN nº 1.417-7, que ocorreu no Diário da Justiça da União de 16/08/1999. A Procuradoria da Fazenda Nacional apresentou recurso especial com base no art. 32, I e II do Regimento Interno dos Conselhos de Contribuintes, alegando que tal decisão violou os artigos 165 e 168 do CTN, pois o prazo para o pedido de restituição é de cinco anos contados da data do pagamento indevido. Quanto à questão da semestralidade, alegou que não tendo ocorrido nenhum fato novo daqueles previstos no art. 462 do CPC, a concessão da semestralidade de ofício violou o art. 460 do estatuto processual civil, por configurar decisão “ultra petita”. Acrescentou que o art. 6º, parágrafo único, da LC nº 7/70 tratou do prazo de recolhimento que foi alterado pela legislação superveniente e não da base de cálculo do PIS.Requereu a reforma do acórdão recorrido para que seja restabelecida a decisão de primeira instância, que bem teria aplicado o direito ao caso concreto. Por meio do despacho n o 202-00316 (fls. 107/111) foi dado seguimento ao recurso especial. Cientificado do Acórdão n o 202-16.288, do recurso especial do Procurador e do despacho que lhe deu seguimento, o contribuinte não apresentou contra-razões. É o Relatório. Voto Vencido Fl. 217DF CARF MF Impresso em 08/06/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/04/2015 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 24/04/201 5 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 07/05/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10120.004599/2001-37 Acórdão n.º 02-002.679 CSRF/T02 Fls. 121 _________ 3 Conselheiro Antonio Carlos Atulim, Relator O recurso preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. Conforme se verifica nos autos o motivo alegado para a inexistência do indébito foi a declaração de inconstitucionalidade dos Decretos-Leis nº 2.445 e 2.449/88. No tocante ao prazo de decadência para pedir restituição de tributos declarados inconstitucionais, filio-me ao entendimento lançado pelo Ministro Luis Fux no voto proferido no julgamento do RESP Nº 511.279, que transcrevo a seguir: VOTO (...) Todavia, mister enfrentar a questão à luz da eficácia da declaração de inconstitucionalidade num e noutro caso. No sistema adotado pelo Brasil, apenas as decisões proferidas pelo STF no controle concentrado têm efeitos erga omnes. Neste sentido, a lição do ilustre constitucionalista José Afonso da Silva: "A declaração de inconstitucionalidade, na via indireta, não anula a lei nem a revoga; teoricamente, a lei continua em vigor, eficaz e aplicável, até que o Senado Federal suspenda sua executoriedade nos termos do art. 52, X; a declaração na via direta tem efeito diverso, importa em suprimir a eficácia e aplicabilidade da lei ou ato, como veremos nas distinções feitas em seguida. Em primeiro lugar, temos que discutir a eficácia da sentença que decide a inconstitucionalidade na via da exceção, e que se resolve pelos princípios processuais. Nesse caso, a argüição da inconstitucionalidade é questão prejudicial e gera um procedimento incidenter tantum, que busca a simples verificação da existência ou não do vício alegado. E a sentença é declaratória. Faz coisa julgada no caso e entre as partes. Mas, no sistema brasileiro, qualquer que seja o tribunal que a proferiu, não faz ela coisa julgada em relação à lei declarada inconstitucional, porque qualquer tribunal ou juiz, em princípio, poderá aplicá-la por entendê-la constitucional, enquanto o Senado Federal, por resolução, não suspender sua executoriedade, como já vimos." (Curso de Direito Constitucional. São Paulo, Malheiros, 2001, p. 53⁄54) Ora, se a declaração de inconstitucionalidade no controle difuso apenas tem efeitos inter partes, forçoso concluir que o reconhecimento da inconstitucionalidade da lei instituidora do tributo pelo STF só pode ser considerado como termo inicial para a prescrição da ação de repetição do indébito, quando efetuado no controle concentrado de constitucionalidade, ou, mesmo no controle difuso, quando da edição de resolução do Senado Federal, conferindo efeitos erga omnes àquela Fl. 218DF CARF MF Impresso em 08/06/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/04/2015 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 24/04/201 5 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 07/05/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO 4 declaração (CF, art. 52, X). Nesse mesmo sentido, o entendimento de Marco Aurelio Greco e Helenilson Cunha Pontes: "A declaração de inconstitucionalidade pode advir de um julgamento incidenter tantum proferido em processo de outro contribuinte. Ou seja, um contribuinte, por discordar da exigência, ingressa com algum tipo de processo judicial (suponhamos que antes do prazo de cinco anos do pagamento efetuado) e obtém êxito, a ponto de, naquele processo, ser declarada a inconstitucionalidade da lei. Olhemos da perspectiva dos demais contribuintes. Em relação a estes, esta declaração de inconstitucionalidade tem o efeito de deflagrar a fluência do prazo prescricional? A rigor, a pergunta não é exatamente esta, mas sim sobre um dado anterior, qual seja, saber se essa decisão tem o efeito de alterar a situação jurídica subjetiva de quem não foi parte naquele processo. Uma resposta possível é a de que a decisão incidenter tantum não produz efeitos em relação a terceiros. Portanto, numa primeira interpretação, pode-se sustentar que a declaração incidenter tantum não altera a situação jurídica subjetiva do contribuinte que pagou aquele tributo, mas não participou do processo em que houve a respectiva declaração de inconstitucionalidade. A situação dos demais contribuintes somente será alterada se vier a ser editado um dentre outros dois tipos de atos jurídicos que apresentam eficácia geral e, portanto, atinjam todos os contribuintes, mesmo os que não participaram do processo específico. No âmbito federal, pode haver: a) uma Resolução do Senado suspendendo a execução da lei, nos termos do inciso X do artigo 52 da CF⁄88; ou b) um ato de caráter geral que reconheça a inconstitucionalidade e estenda, a todos os contribuintes que se encontrem na mesma situação, os efeitos do julgamento que a declarou. É o caso de Decreto do Presidente da República, de Parecer da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional e de Súmula da Advocacia Geral da União." (Inconstitucionalidade da Lei Tributária - Repetição do Indébito. São Paulo, Dialética, 2002, p. 71⁄72) Definidos os limites do pronunciamento do Supremo Tribunal Federal no controle difuso e no concentrado, subjaz ainda uma questão a ser analisada: tendo em vista que a Ação Direta de Inconstitucionalidade é imprescritível (Súmula 360 do STF), e em face da discricionariedade do Senado Federal em editar a resolução prevista no art. 52, X, da CF⁄88, ficariam as ações de repetição do indébito tributário sujeitas à reabertura do prazo prescricional por tempo indefinido? Os que defendem esta tese sustentam: a) não haver a lei regulando a prescrição da ação para pleitear a restituição de tributo inconstitucional, uma vez que os arts. 168 e 169 do CTN não se refeririam à ação com fundamento na inconstitucionalidade da lei; b) a presunção de Fl. 219DF CARF MF Impresso em 08/06/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/04/2015 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 24/04/201 5 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 07/05/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10120.004599/2001-37 Acórdão n.º 02-002.679 CSRF/T02 Fls. 122 _________ 5 constitucionalidade das leis impediria a afirmação da existência do direito à restituição do indébito antes da declaração da inconstitucionalidade da lei em que se funda a cobrança do tributo. Ora, a inconstitucionalidade da lei, no controle difuso, é causa petendi, e por isso o CTN a ela não se refere, mas tão-somente à ação de repetição, qualquer que seja a sua razão de ser. Por outro lado, a presunção de constitucionalidade das leis não é absoluta. Deveras, num sistema como o brasileiro, em que se admite o controle difuso, inúmeras são as ações em que os contribuintes pleiteiam a repetição sob a invocação incidenter tantum da inconstitucionalidade. Aliás, na hipótese vertente a declaração foi objeto de controle difuso em Recurso Extraordinário, consequentemente, no nosso sistema, não é necessário aguardar uma ação direta de inconstitucionalidade para repetir-se o tributo indevido. Em sendo possível discutir no controle difuso a legalidade do tributo, a declaração de inconstitucionalidade posterior e em controle concentrado não tem o condão de reabrir prazos superados. A seguir esse raciocínio, vinte anos depois de incorporado o tributo ao erário, e satisfeitas necessidades coletivas com esses fundos, o Estado ver-se-ia instado a devolver as quantias sem que a contraprestação também ocorresse, gerando situação de enriquecimento por parte do cidadão em detrimento do Estado. Não é demais lembrar que a segurança jurídica opera-se pro et contra o cidadão e a Administração Pública. Esposando o entendimento acima delineado, afirmou Eurico Marcos Diniz de Santi que: "A máquina do tempo instalada no interior do direito não permite que seu operador navegue para o passado que quiser, o passado do direito é repleto de cavidades obstruídas pelo fluir do tempo que se tornam inacessíveis pelo próprio direito. Quando tomado como fato jurídico, o tempo cristaliza a trajetória de positivação no presente e consolida juridicamente o passado. No direito tributário, a segurança jurídica garante a consolidação do passado impondo ao Legislativo, que produz as leis, o limite da irretroatividade da lei; ao Executivo, que produz atos administrativos, o limite da decadência e ao Judiciário, que produz sentenças e acórdãos, o limite da prescrição. A segurança jurídica, portanto, promove a legalidade, garantindo o passado da lei, sem deixar de assumir a trajetória da lei no presente e os seus efeitos, ainda que no futuro essa lei deixe de ser lei. Como ensina GERALDO ATALIBA, os efeitos garantidos pela segurança jurídica são a coisa julgada não sujeita a recurso ou ação rescisória; o direito adquirido e o ato jurídico perfeito. Fl. 220DF CARF MF Impresso em 08/06/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/04/2015 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 24/04/201 5 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 07/05/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO 6 Assim também entende RICARDO LOBO TORRES, quando diz que: 'a invalidade da lei declarada genericamente opera de imediato, anulando o presente os efeitos dos atos praticados no passado, salvo com relação à coisa julgada, ao ato jurídico perfeito, ao direito adquirido ou, o que é a mesma coisa, opera ex tunc relativamente a certos atos como, por exemplo, a sentença penal; no campo tributário, especificamente, isso significa que a declaração de inconstitucionalidade não atingirá a coisa julgada, o lançamento definitivo, os créditos prescritos (...)'. Por isso, o controle da legalidade não é absoluto, exige o respeito do presente em que a lei foi vigente. Daí surgem os prazos judiciais garantindo a coisa julgada, e a decadência e a prescrição cristalizando o ato jurídico perfeito e o direito adquirido. (...) Como a ADIN é imprescritível, todas as ações que tiverem por objeto direitos subjetivos decorrentes de lei cuja constitucionalidade ainda não foi apreciada, ficariam sujeitas à reabertura do prazo de prescrição, por tempo indefinido. Assim, disseminaria-se a imprescritibilidade no direito, tornando os direitos subjetivos instáveis até que a constitucionalidade da lei seja objeto de controle pelo STF. Ocorre que, se a decadência e a prescrição perdessem o seu efeito operante diante do controle direto de constitucionalidade, então todos os direitos subjetivos tornar-se-iam imprescritíveis. A decadência e a prescrição rompem o processo de positivação do direito, determinando a imutabilidade dos direitos subjetivos protegidos pelos seus efeitos, estabilizando as relações jurídicas, independentemente de ulterior controle de constitucionalidade da lei. O acórdão em ADIN que declarar a inconstitucionalidade da lei tributária serve de fundamento para configurar juridicamente o conceito de pagamento indevido, proporcionando a repetição do débito do Fisco somente se pleiteada tempestivamente em face dos prazos de decadência e prescrição: a decisão em controle direto não tem o efeito de reabrir os prazos de decadência e prescrição. Descabe, portanto, justificar que, com o trânsito em julgado do acórdão do STF, a reabertura do prazo de prescrição se dá em razão do princípio da actio nata. Trata-se de repetição de princípio: significa sobrepor como premissa a conclusão que se pretende. O acórdão em ADIN não faz surgir novo direito de ação ainda não desconstituído pela ação do tempo no direito. Respeitados os limites do controle da constitucionalidade e da imprescritibilidade da ADIN, os prazos de prescrição do direito do contribuinte ao débito do Fisco permanecem regulados pelas três regras que construímos a partir dos dispositivos do CTN." (Decadência e Prescrição no Direito Tributário. São Paulo, Editora Max Limonad, 2000, p. 271⁄277) . Fl. 221DF CARF MF Impresso em 08/06/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/04/2015 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 24/04/201 5 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 07/05/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10120.004599/2001-37 Acórdão n.º 02-002.679 CSRF/T02 Fls. 123 _________ 7 À luz destes argumentos, conclui-se que nem a declaração de inconstitucionalidade no controle concentrado, nem a Resolução do Senado no controle difuso, e tampouco um ato de caráter geral do Executivo que reconheça a inconstitucionalidade, têm o condão de ressuscitar direitos patrimoniais prescritos segundo as regras do CTN. Entendimento em sentido contrário, conduziria à iniqüidade de conferir privilégio aos contribuintes que permaneceram inertes em relação àqueles que ingressaram em juízo atacando a lei inconstitucional, uma vez que os primeiros poderiam recuperar tudo o que pagaram sob o império da lei inconstitucional, enquanto que os segundos somente recuperariam o que recolheram no qüinqüênio imediatamente anterior à propositura das respectivas ações. Portanto, o advento da Resolução nº 49/95 quando muito serve de fundamento para justificar a existência de um indébito, mas não interrompe prazos e nem faz ressurgir direitos patrimoniais atingidos pela decadência ou prescrição. Em virtude destas razões o Secretário da Receita Federal revogou o Parecer Normativo Cosit nº 58/1998, editando o Ato Declaratório SRF nº 96/1999 que fixou a interpretação de que a decadência do direito à repetição de indébito ocorre em 5 anos, contados da extinção do crédito tributário. Estabelecido que a declaração de inconstitucionalidade não faz renascer direitos patrimoniais atingidos pela decadência ou pela prescrição, resta verificar quando ocorre a extinção do crédito tributário referida no art. 168, I do CTN. O STJ acolheu a tese do Professor Hugo de Brito Machado, no sentido de que no caso de tributos sujeitos ao lançamento por homologação, a extinção do crédito tributário, referida no art. 168, I do CTN, ocorre com a combinação do pagamento antecipado e a homologação do lançamento, referidas no art. 156, VII CTN. Segundo este entendimento, caso o contribuinte tenha efetuado algum pagamento, o prazo de cinco anos previsto no art. 150, § 4º do CTN começa a fluir a partir da data da homologação do lançamento. Se a homologação for expressa, os cinco anos do prazo de decadência, contam-se a partir desta data. Se for tácita, contam-se os cinco anos a partir do exaurimento do qüinqüênio previsto no art. 150, § 4º do CTN. Com o devido respeito ao Professor Hugo de Brito Machado e ao tribunal, com esta tese não posso concordar. O art. 156, VII do CTN estabelece que: Art. 156. Extinguem o crédito tributário: (...) VII- o pagamento antecipado e a homologação do lançamento nos termos do disposto no art. 150 e seus §§ 1º e 4º. (grifei) O dispositivo realmente exige a conjugação de dois fatos que são a ocorrência de um pagamento antecipado, ainda que parcial, e a homologação do lançamento, que pode ser tácita ou expressa. Fl. 222DF CARF MF Impresso em 08/06/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/04/2015 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 24/04/201 5 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 07/05/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO 8 Entretanto, esta interpretação não levou em conta que o art. 150, § 1º consigna que (...) O pagamento antecipado pelo obrigado nos termos deste artigo extingue o crédito sob condição resolutória da ulterior homologação do lançamento.(grifei) Por sua vez, o art. 127 do Novo Código Civil deixou claro que quando a condição é resolutiva o ato jurídico tem eficácia deste o momento de sua constituição, ao estabelecer que (...) Se for resolutiva a condição, enquanto esta se não realizar, vigorará o negócio jurídico, podendo exercer-se desde a conclusão deste o direito por ele estabelecido.(...) (grifei). Por outro lado, o disposto nos §§ 2º e 3º do art. 150 do CTN permite concluir que mesmo no caso do pagamento antecipado ser parcial, o valor pago será descontado do que for apurado posteriormente pelo fisco. Em outras palavras, isto significa que o pagamento antecipado, ainda que em montante menor do que o devido, gera efeitos jurídicos a partir do momento em que é efetuado, uma vez que o sujeito passivo passa a ser titular de direitos mesmo antes da homologação tácita ou expressa. Com efeito, uma vez efetuado o pagamento antecipado, o contribuinte não precisa aguardar que sobrevenha a homologação tácita ou expressa para requerer certidão negativa de débitos, nos termos do art. 205 do CTN, pois este direito surge no momento do pagamento que extingue o crédito sob condição resolutória da ulterior homologação. Reforça este argumento o fato de a homologação não ter sido incluída no art. 206 do CTN entre as hipóteses em que a certidão positiva tem efeitos de negativa. Além disso, a teor dos §§ 2º e 3º do art. 150 do CTN o valor antecipado parcialmente não gera efeito sobre a obrigação tributária, mas gera efeito em relação ao crédito tributário, uma vez que deverá ser descontado do que porventura for apurado em momento posterior pelo fisco. Isto demonstra que pelo menos uma parte do crédito tributário foi extinto na data em que ocorreu a antecipação do pagamento. Ora, se o pagamento antecipado efetuado a menor gera efeitos até em relação à obtenção de certidão negativa, como se pode dizer que não ocorreu a extinção, ainda que parcial, do crédito tributário? Portanto, não tenho a menor dúvida de que a homologação do lançamento, seja ela tácita ou expressa, tem efeitos ex tunc, retroagindo à data em que foi feito o pagamento antecipado. A tese do Professor Hugo de Brito Machado seria válida se o art. 150 § 1º do CTN extinguisse o crédito sob condição suspensiva da ulterior homologação do lançamento, mas como o legislador estabeleceu que a condição é resolutória, a extinção definitiva do crédito tributário ocorre no momento da antecipação do pagamento e somente em relação ao montante antecipado. Os efeitos da homologação ou da não-homologação para o fim de exigir- se eventuais diferenças, retroagem à data do pagamento. Desse modo, como o art. 168, I do CTN fixa como dies a quo do prazo de decadência a data da extinção do crédito tributário, considero que o prazo para pleitear restituição ou compensação, em relação a tributos sujeitos ao lançamento por homologação, extingue-se com o decurso de cinco anos, contados da data do pagamento indevido e não da data da homologação. Fl. 223DF CARF MF Impresso em 08/06/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/04/2015 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 24/04/201 5 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 07/05/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10120.004599/2001-37 Acórdão n.º 02-002.679 CSRF/T02 Fls. 124 _________ 9 Este entendimento foi chancelado pelo legislador por meio de interpretação autêntica no art. 3º da Lei Complementar nº 118, de 09/02/2005, no qual ficou estabelecido que para os efeitos do disposto no art. 168, I do CTN, a extinção do crédito tributário ocorre, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, no momento do pagamento antecipado de que trata o art. 150, § 1º da referida lei. Tratando-se de norma expressamente interpretativa, deve ser obrigatoriamente aplicada aos casos não definitivamente julgados, por força do disposto no art. 106, I, do CTN, que tem caráter imperativo. Considerando que no caso dos autos o pedido foi formulado em 17/08/2001, encontram-se prescritos os pagamentos indevidos efetuados até 17/08/1996, exclusive. No mérito, trata-se de verificar se a concessão da semestralidade do PIS pela Câmara recorrida, independentemente de pedido expresso no recurso voluntário, configura a prolação de decisão “ultra petita”. No caso da semestralidade da base de cálculo do PIS existe jurisprudência firme no sentido de que o art. 6º, parágrafo único, da LC nº 7/70, veicula norma relativa à base de cálculo e não a prazo de recolhimento. Desse modo, pode-se argumentar que a Câmara, ao concedê-la de ofício, agiu no sentido de garantir tratamento uniforme aos administrados, fixando corretamente a base de cálculo segundo a interpretação predominante, com vista a atender aos princípios da legalidade, da moralidade e da eficiência, todos com assento no art. 2º da Lei nº 9.794/99. Tal questão foi deslindada com maestria no voto vencedor proferido pelo Conselheiro Rogério Dreyer ao ensejo do julgamento do Recurso n o 203-119.584, cujos fundamentos, mutatis mutandis, aplicam-se ao presente caso concreto, verbis: “Como deflui do relatório, a questão sob análise resume-se à semestralidade do PIS. De novidade, a argumentação voltada à defeito na decisão recorrida, por conta do atendimento ultra petita ao pretendido pelo contribuinte. Entende a representação da Fazenda Pública que, em tendo silenciado o contribuinte quanto a tal argumento, excedeu-se o julgador ao dar guarida a este quanto à questão da semestralidade. Ainda que aparentemente sustentável o evento, não reconheço a sua existência. Em primeiro lugar, incumbe trazer a lume o contido no mesmo Código de Processo Civil citado pelo representante da Fazenda Pública, no artigo 131, cuja redação comanda: Art. 131. O juiz apreciará livremente a prova, atendendo aos fatos e circunstâncias constantes dos autos, ainda que não alegados pelas partes; mas deverá indicar, na sentença, os motivos que lhe firmaram o convencimento. (grifo não constante da norma) Fl. 224DF CARF MF Impresso em 08/06/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/04/2015 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 24/04/201 5 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 07/05/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO 10 Como se vê, aos eventos suscitados, aplica-se a regra acima transcrita e não a alegada pela representação da Fazenda Pública. Dentro desta linha de raciocínio nada mais fez o órgão julgador a quo do que decidir com base no contido no processo, relativamente ao lançamento perpetrado, inexistindo qualquer concessão ultra petita. Aliás, a bem da verdade, tendo o contribuinte, por outras razões que não a que pautou a decisão, requerido a nulidade do lançamento, e tendo a decisão apenas adequado o mesmo a sua real dimensão, poder-se-ia falar em decisão citra petita, ainda que, data venia, não vislumbre igualmente o fenômeno. Devo, por aspecto de caráter isonômico, referir que, dentro da linha de raciocínio do representante da Fazenda Nacional, seria vedado ao julgador decretar, por exemplo, a decadência do direito de pedir em matéria de restituição ou ressarcimento de créditos – matéria de iniciativa do contribuinte - caso a Fazenda Pública ou o órgão julgador de primeiro grau não tivesse se manifestado quanto ao fenômeno, desde que incontroverso. Ainda, no silêncio do contribuinte, não decretar a anulabilidade ou nulidade de auto de infração, por ter ocorrido a decadência do direito de lançar, ou pela existência de defeito material ou formal no ato perpetrado, ou mesmo por erro na edificação do sujeito passivo. Tais constatações, quando inequívocas, devem ser suscitadas de ofício, com as suas conseqüências. Todos estes comportamentos são ínsitos ao julgamento e não se constituem, absolutamente, em decisão extra ou ultra petita. Inserem-se nos limites dos anseios das partes, por se adstringir às divisas do litígio. Aduzo ainda que o contribuinte, à época da sua impugnação, não tinha motivação para suscitar a matéria, visto que a matéria é de decisão recente. Ultrapassada esta questão, passo ao mérito, o qual não comporta maiores discussões, a luz do entendimento já pacificado por esta Egrégia Câmara Superior de Recursos Fiscais e do próprio Superior Tribunal de Justiça. Como tenho referido em meus votos, proferidos na 1ª Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, meu entendimento está fulcrado nas razões expendidas pelo eminente Conselheiro Jorge Freire, muito porque, na espécie, vinha, pari passu, partilhando do mesmo entendimento do ilustre Conselheiro. Inicialmente no sentido de entender ser o fenômeno jurídico do parágrafo único do artigo 6º da LC 07/70 prazo de pagamento e, posteriormente, ser o momento do nascimento da obrigação tributária. Mantendo o diapasão, peço vênia aos meus pares, para reproduzir o voto alentado, proferido no recurso nº 112.172, acórdão nº 201-73.954: “No que pertine a questão, deveras debatida, quanto à base de cálculo do PIS ser a correspondente ao faturamento do sexto mês anterior aquele da ocorrência do fato gerador, em variadas oportunidade manifestei-me em sentido contrário, entendendo, em ultima ratio, ser impossível dissociar-se base de cálculo e fato gerador. Todavia, embora através de órgão fracionário, veio agora o Superior Tribunal de Justiça, que detém a competência constitucional de uniformizar a jurisprudência infraconstitucional (CF, artigo 105, III), em voto relatado pelo Ministro José Delgado, exarar o entendimento de que a base de cálculo do PIS é o sexto mês anterior ao da ocorrência do fato gerador. A Ementa do citado julgado assim dispõe: Fl. 225DF CARF MF Impresso em 08/06/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/04/2015 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 24/04/201 5 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 07/05/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10120.004599/2001-37 Acórdão n.º 02-002.679 CSRF/T02 Fls. 125 _________ 11 PROCESSO CIVIL E TRIBUTÁRIO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO INEXISTENTE. VIOLAÇÃO AO ART. 535, II, DO CPC, QUE SE REPELE. CONTRIBUIÇÃO PARA O PROGRAMA DE INTEGRAÇÃO SOCIAL-PIS.BASE DE CÁLCULO. SEMESTRALIDADE. PARÁGRAFO ÚNICO, DO ART. 6º, DA LC 07/70. MENSALIDADE: MP 1.212/95. 1 – Se, em sede de embargos de declaração, o tribunal aprecia todos os fundamentos que se apresentam nucleares para a decisão da causa e tempestivamente interpostos, não comete ato de entrega de prestação jurisdicional imperfeito, devendo ser mantido. In casu, não se omitiu o julgado, eis que emitiu pronunciamento sobre a aplicação das Leis nºs 8.218/91 e 9.383/91, asseverando que as mesmas dizem respeito ao prazo de recolhimento da contribuição, e não à sua base de cálculo. Por ocasião do julgamento dos embargos, apenas se frisou que era prescindível a apreciação da legislação integral, reguladora do PIS, para o deslinde da controvérsia. 2 – Não há possibilidade de se reconhecer, por conseguinte, que o acórdão proferido pelo tribunal de origem contrariou o preceito legal inscrito no artigo 535, II, do CPC, devendo tal alegativa ser repelida. 3 – A base de cálculo da contribuição em comento, eleita pela LC 07/70, art. 6º, parágrafo único (a contribuição de julho será calculada com base no faturamento de janeiro; a de agosto, com base no faturamento de fevereiro, e assim sucessivamente”), permaneceu incólume e em pleno vigor até a edição da MP 1.212/95, quando, a partir desta, a base de cálculo do PIS passou a ser considerado ö faturamento do mês anterior”(art. 2º). 4 – Recurso especial parcialmente provido.” Na fundamentação de seu voto, o eminente Ministro, em síntese, conclui que até a edição da MP 1.212/95, a base de cálculo das contribuições PIS/PASEP correspondia ao faturamento do sexto mês anterior ao da ocorrência do fato gerador, em interpretação literal da Lei Complementar 7/70. E, que, portanto, as alterações na legislação de tais contribuições pelas Leis 7.691/88, 8.019/90, 8.218/91, 8.383/91, 8.850/94, 9.069/95 e MP 812/94, referiam-se exclusivamente a prazos de recolhimento e não na própria base de cálculo do PIS. De igual sorte, também a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), à sua maioria, em 05/06/2000, também firmou o mesmo entendimento esposado inicialmente pelo STJ. Tendo aquela Egrégia Corte Administrativa a função precípua de uniformizar a jurisprudência dos Conselhos de Contribuintes, nada me resta, em nome da sistematização jurídica, senão acatar tal tese, embora, como afirmei, em relação a tal entendimento, mantenha reserva pessoal.” Fl. 226DF CARF MF Impresso em 08/06/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/04/2015 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 24/04/201 5 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 07/05/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO 12 Com essas considerações, voto no sentido dar provimento parcial ao recurso por considerar extinto o direito à restituição dos pagamentos indevidos efetuados até 17/08/1996. Antonio Carlos Atulim Voto Vencedor Nos termos do art. 17, III, do RICARF 1 , incumbiu-me o Senhor Presidente do Colegiado de formalizar o voto vencedor no Acórdão CSRF/02-02.679, em virtude do redator designado, Conselheiro Dalton César Cordeiro de Miranda, ter deixado o colegiado antes da formalização e assinatura deste acórdão. O voto vencedor se refere exclusivamente quanto à questão da decadência do direito de o contribuinte solicitar a repetição de indébito de tributo em decorrência da declaração de inconstitucionalidade. Considerando que o redator designado participou do julgamento do Acórdão recorrido (Ac. 202-16.288) e que acompanhou o voto vencedor proferido naquele julgado, valho-me dos fundamentos lançados naquele acórdão pelo saudoso Conselheiro Antonio Carlos Bueno Ribeiro, para o fim de formalizar este voto vencedor, in verbis: "(...) Em primeiro lugar impõe-se o exame da questão da extinção do direito de pleitear a restituição em tela, ao fundamento de que na data em que o pedido foi protocolado (17/08/02), já teria decorrido o prazo para a Contribuinte pleitear a repetição de indébito de 5 (cinco) anos, contado da extinção do crédito tributário, inclusive quando se tratasse de pagamento efetuado com base em lei posteriormente declarada inconstitucional pelo STF, consoante o Parecer PGFN/CAT/n o 1.538/99 e Ato Declaratório SRF n o 096/99. Enfim, o presente caso, em face do direito de pleitear a restituição, se enquadra dentre aqueles em que o indébito resta exteriorizado por situação jurídica conflituosa, segundo a terminologia adotada no Acórdão nº 108-05.791, da lavra do ilustre Conselheiro José Antonio Minatel, cujas razões de decidir, neste particular, aqui adoto e abaixo reproduzo: Voltando, agora, para o tema acerca do prazo de decadência para pleitear a restituição ou compensação de valores indevidamente pagos, à falta de disciplina em normas tributárias federais de escalão inferior, tenho como norte o comando inserto no art. 168 do Código Tributário Nacional, que prevê expressamente: ‘Art. 168 – O direito de pleitear a restituição extingue-se com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados: I – nas hipóteses dos incisos I e II do art. 165, da data da extinção do crédito tributário. 1 Art. 17. Aos presidentes de turmas julgadoras do CARF incumbe dirigir, supervisionar, coordenar e orientar as atividades do respectivo órgão e ainda: (...) III - designar redator ad hoc para formalizar decisões já proferidas, nas hipóteses em que o relator original esteja impossibilitado de fazê-lo ou não mais componha o colegiado; Fl. 227DF CARF MF Impresso em 08/06/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/04/2015 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 24/04/201 5 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 07/05/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10120.004599/2001-37 Acórdão n.º 02-002.679 CSRF/T02 Fls. 126 _________ 13 II – na hipótese do inciso III do art. 165, da data em que se tornar definitiva a decisão administrativa ou passar em julgado a decisão judicial que tenha reformado, anulado, revogado ou rescindido a decisão condenatória.’ Veja-se que o prazo é sempre de 5 (cinco) anos, sendo certo que a distinção sobre o início da sua contagem está assentada nas diferentes situações que possam exteriorizar o indébito tributário, situações estas elencadas, com caráter exemplificativo e didático, pelos incisos do referido art. 165 do CTN, nos seguintes termos: ‘Art. 165. O sujeito passivo tem direito, independentemente de prévio protesto, à restituição total ou parcial do tributo, seja qual for a modalidade do seu pagamento, ressalvado o disposto no parágrafo 4 º do art. 162, nos seguintes casos: I – cobrança ou pagamento espontâneo de tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido; II – erro na edificação do sujeito passivo, na determinação da alíquota aplicável, no cálculo do montante do débito ou na elaboração ou conferência de qualquer documento relativo ao pagamento; III – reforma, anulação, revogação ou rescisão de decisão condenatória.’ O direito de repetir independe dessa enumeração das diferentes situações que exteriorizam o indébito tributário, uma vez que é irrelevante que o pagamento a maior tenha ocorrido por erro de interpretação da legislação ou por erro na elaboração do documento, posto que qualquer valor pago além do efetivamente devido será sempre indevido, na linha do princípio consagrado em direito que determina que ‘todo aquele que recebeu o que lhe não era devido fica obrigado a restituir’, conforme previsão expressa contida no art. 964 do Código Civil. Longe de tipificar numerus clausus, resta a função meramente didática para as hipóteses ali enumeradas, sendo certo que os incisos I e II do mencionado artigo 165 do CTN voltam-se mais para as constatações de erros consumados em situação fática não litigiosa, tanto que aferidos unilateralmente pela iniciativa do sujeito passivo, enquanto que o inciso III trata de indébito que vem à tona por deliberação de autoridade incumbida de dirimir situação jurídica conflituosa, daí referir-se a ‘reforma, anulação, revogação ou rescisão de decisão condenatória’. Na primeira hipótese (incisos I e II) estão contemplados os pagamentos havidos por erro, quer seja ele de fato ou de direito, em que o juízo do indébito opera-se unilateralmente no estreito círculo do próprio sujeito passivo, sem a participação de qualquer terceiro, seja a administração tributária ou o Poder Judiciário, daí a pertinência da regra que fixa o prazo para desconstituir a indevida incidência já a partir da data do efetivo pagamento, ou da ‘data da extinção do crédito tributário’, para usar a linguagem do art. 168, I, do próprio CTN. Assim, quando o indébito é exteriorizado em situação fática não litigiosa, parece adequado que o prazo para exercício do direito à restituição ou compensação possa fluir imediatamente, pela inexistência de qualquer óbice ou condição obstativa da postulação pelo sujeito passivo. O mesmo não se pode dizer quando o indébito é exteriorizado no contexto da solução jurídica conflituosa, uma vez que o direito de repetir o valor indevidamente pago só nasce para o sujeito passivo com a decisão definitiva daquele conflito, sendo certo que ninguém poderá estar perdendo direito que não possa exercitá-lo. Aqui, está coerente a regra que fixa o prazo de decadência para pleitear a restituição ou compensação só a partir ‘da data em que se tornar definitiva a decisão administrativa, Fl. 228DF CARF MF Impresso em 08/06/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/04/2015 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 24/04/201 5 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 07/05/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO 14 ou passar em julgado a decisão judicial que tenha reformado, anulado, revogado ou rescindido a decisão condenatória’ (art. 168, II, do CTN). Pela estreita similitude, o mesmo tratamento deve ser dispensado aos casos de soluções jurídicas ordenadas com eficácia erga omnes, como acontece na hipótese de edição de Resolução do Senado Federal para expurgar do sistema norma declarada inconstitucional, ou na situação em que é editada Medida Provisória ou mesmo ato administrativo para reconhecer a impertinência da exação tributária anteriormente exigida. Esse parece ser, a meu juízo, o único critério lógico que permite harmonizar as diferentes regras de contagem de prazo previstas no Estatuto Complementar (CTN). Nessa mesma linha também já se pronunciou a Suprema Corte, no julgamento do RE nº 141.331-0 em que foi relator o Ministro Francisco Resek, em julgado assim ementado: ‘Declarada a inconstitucionalidade das normas instituidoras do depósito compulsório incidente na aquisição de automóveis (RE 121.136), surge para o contribuinte o direito à repetição do indébito, independentemente do exercício financeiro em que se deu o pagamento indevido’ (Apud OSWALDO OTHON DE PONTES SARAIVA FILHO – In ‘Repetição do Indébito e Compensação no Direito Tributário’ – pág. 290 – Editora Dialética – 1.999). Nesse diapasão, impõe-se, em primeiro lugar, determinar o dies a quo para a contagem do prazo de extinção do direito de pleitear a restituição, in casu, ou seja, a partir de que data a declaração de inconstitucionalidade em causa passou a ter efeito erga omnes, de sorte a ensejar a repetição de indébito porventura ocasionado pela norma expungida do mundo jurídico. O resultado do julgamento da indigitada ADIN nº 1.417-0/DF, julgada em 02.08.1999 pelo pleno do STF, foi publicado no Diário de Justiça (edição extra) que circulou em 16/08/1999. Em assim sendo, a extinção do direito de pleitear a restituição em tela dar-se-ia em 16/08/2004, devendo, portanto, ser afastada a prejudicial de decadência invocada pela decisão recorrida. (...)" Embora não concorde com a referida tese, ela foi aprovada por maioria de votos nesta assentada da Câmara Superior de Recursos Fiscais, representando o entendimento vigente quanto à questão na época do julgamento. Antonio Carlos Atulim Fl. 229DF CARF MF Impresso em 08/06/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/04/2015 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 24/04/201 5 por ANTONIO CARLOS ATULIM, Assinado digitalmente em 07/05/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Relatório Voto
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Numero do processo: 13838.000066/00-36
Data da sessão: Tue Feb 02 00:00:00 UTC 2010
Data da publicação: Fri Jul 10 00:00:00 UTC 2015
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/09/1989 a 31/12/1991
FINSOCIAL. REPETIÇÃO DE INDÉBITO.
O dies a quo para contagem do prazo prescricional de repetição de indébito é o da data de extinção do crédito tributário pelo pagamento antecipado e o termo final é o dia em que se completa o qüinqüênio legal, contado a partir daquela data.
Recurso Especial do Contribuinte Negado.
Numero da decisão: 9303-000.674
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso especial. Os Conselheiros Nanci Gama, Rodrigo Cardozo Miranda, Leonardo Siade Manzan, Maria Teresa Martínez López e Susy Gomes Hoffmann votaram pelas conclusões.
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Henrique Pinheiro Torres, Nanci Gama, Judith do Amaral Marcondes Armando, Rodrigo Cardozo Miranda, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Leonardo Siade Manzan, Rodrigo da Costa Pôssas, Maria Teresa Martínez López, Susy Gomes Hoffmann e Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: Relator
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PAVAN & CIA. LTDA. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/09/1989 a 31/12/1991 FINSOCIAL. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. O dies a quo para contagem do prazo prescricional de repetição de indébito é o da data de extinção do crédito tributário pelo pagamento antecipado e o termo final é o dia em que se completa o qüinqüênio legal, contado a partir daquela data. Recurso Especial do Contribuinte Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso especial. Os Conselheiros Nanci Gama, Rodrigo Cardozo Miranda, Leonardo Siade Manzan, Maria Teresa Martínez López e Susy Gomes Hoffmann votaram pelas conclusões. Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Henrique Pinheiro Torres, Nanci Gama, Judith do Amaral Marcondes Armando, Rodrigo Cardozo Miranda, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Leonardo Siade Manzan, Rodrigo da Costa Pôssas, Maria Teresa Martínez López, Susy Gomes Hoffmann e Carlos Alberto Freitas Barreto. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 8. 00 00 66 /0 0- 36 Fl. 320DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 321 2 Relatório Tratase de pedido de Restituição/Compensação de indébitos pertinentes a tributo supostamente pago a maior que o devido. A questão que se apresenta a debate cingese ao termo inicial para o sujeito passivo postular a repetição do alegado indébito. O julgamento deste recurso tem como paradigma o do Recurso nº 227.494, realizado na sessão imediatamente anterior a esta, sendolhe aplicada a tese prevalente naquele julgado, nos termos do art. 47 do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 22 de junho de 2009. Em apertada síntese, este é o relatório. Voto Conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto, Relator O recurso merece ser conhecido por ser tempestivo e atender aos pressupostos de admissibilidade previstos no Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais. A teor do relatado, a questão devolvida a este Colegiado cingese a do termo inicial do prazo extintivo para repetição de indébito. Nos termos do § 2º, in fine, do art. 47 do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 22 de junho de 2009, adoto a tese prevalente no julgamento do Recurso nº 227.494, paradigma para o caso em discussão. A Câmara recorrida afastou a prescrição e determinou o retorno dos autos ao órgão julgador de primeira instância para que fossem julgadas as demais questões de mérito. O representante da Fazenda Nacional pede o restabelecimento da decisão de primeira instância, por entender que o termo de início da contagem da prescrição para repetição de indébito é a extinção do crédito pelo pagamento, nos termos do art. 168, inc. I, do CTN. De imediato, passemos à controvérsia sobre a prescrição do direito pleiteado. Antes, porém, devo registrar que na elaboração deste voto, socorrime dos conhecimentos do Conselheiro Luis Marcelo Guerra de Castro, a quem, desde já agradeço pelos relevantes argumentos sobre a matéria, e peço licença para mais adiante, transcrever excerto do voto por ele proferido no julgamento do Recurso Voluntário nº 133.010, na Terceira Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes. É de bom alvitre esclarecer que, muito embora existam divergências doutrinárias quanto à natureza do prazo para repetição do indébito – se decadencial ou prescricional – para o Fl. 321DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 322 3 deslinde da matéria em apreço, esse questionamento não apresenta qualquer relevância, razão pela qual não será aqui abordado. Até o advento da Lei Complementar nº 118, de 10 de fevereiro de 2005, a maioria esmagadora da doutrina e da jurisprudência de nossos tribunais, abalizadas em posicionamento consolidado no STJ, entendia que o critério correto para se contar o prazo prescricional de repetição de indébito era o da tese dos “cinco mais cinco anos”. Como é de todos sabido, a premissa dessa tese consistia em assumir que a extinção do crédito tributário só se daria quando da homologação do lançamento, fosse ela tácita ou expressa. Como o prazo para homologação é de cinco anos a contar do fato gerador, conforme art. 150, § 4º, do Código Tributário Nacional, no caso da homologação tácita, somente após o decurso dos cinco anos se iniciaria o prazo prescricional para a postulação da restituição do valor indevidamente recolhido. Todavia, essa apascentada jurisprudência foi violentamente atacada com a publicação da Lei Complementar nº 118, em 10 de fevereiro de 2005. Predita lei, além de adaptar o Código Tributário Nacional à nova legislação falimentar, pretendeu reverter esse entendimento sobre a interpretação do inciso I do art. 168 do CTN, para tanto, em seu artigo 3º, assim dispôs: Art. 3º Para efeito de interpretação do inciso I do art. 168 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional, a extinção do crédito tributário ocorre, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, no momento do pagamento antecipado de que trata o § 1º do art 150 da referida Lei. Ora, com esse dispositivo, ressurge no ordenamento jurídico contemporâneo de nosso País a interpretação autêntica. Tal dispositivo recebeu duras críticas da doutrina e, sobretudo, do STJ, que viu o entendimento, até então dominante nessa Corte guardiã da legislação federal, ser alterado por via legislativa direta. O escopo dessa lei era restabelecer o entendimento, que vigia no STF quando a Corte Maior detinha a função de tutor da legislação federal, segundo o qual a contagem do prazo prescricional para repetição de indébito, no caso de lançamento por homologação, se iniciaria a partir da data do pagamento. Apesar das críticas de abalizada doutrina, como por exemplo, Carlos Maximiliano, para quem o mecanismo por meio do qual o Legislador, de forma transversa, pretende substituirse às funções do Juiz, vige no Supremo Tribunal Federal a concepção de que, em tese, a lei interpretativa é válida, desde que esta seja proveniente da mesma fonte legislativa do ato primitivo interpretado; que tenha a mesma hierarquia jurídica do comando jurídico originário; e que seus efeitos não prejudiquem o direito adquirido, a coisa julgada e o ato jurídico perfeito. Fl. 322DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 323 4 A partir dessa lei, a questão, então, passou a ser a data a partir de quando se espraiem os efeitos da interpretação trazida em seu art. 3º. Se prospectiva ou retroativa. Isso porque o STJ e boa parte da doutrina entenderam que a eficácia operavase a partir de junho de 2005, enquanto o art. 4º da lei em comento determinou a aplicação retroativa, nos termos seguintes: Art. 4º. Esta lei entra em vigor em 120 (cento e vinte) dias após sua publicação, observado, quanto ao art. 3º, o disposto no art. 106, inciso I, da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional. A seu turno, esse dispositivo do CTN tem a seguinte dicção: Art 106. A lei aplicase ao ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; (...) De outro lado, os críticos da Lei Complementar nº 118/2005 alegam que a diretriz interpretativa da novel legislação, na realidade, modificou a força normativa da legislação anterior, ao menos em seu sentido até então, majoritariamente, extraído, por essa razão, a pretensa interpretação nela veiculada há de ser tratada como lei nova, e, como tal, deveria respeitar suas características, inclusive, a dos efeitos prospectivos. Assim, a “interpretação” dada ao art. 168 do CTN pelo art. 3º da novel lei complementar não poderia retroagir para alcançar fatos pretéritos, sob pena de violação dos princípios da não surpresa e da segurança jurídica, já que esse dispositivo legal alterou o entendimento consagrado há mais de uma década pelo STJ. Como arrimo dessas críticas, é comum a citação do julgamento da ADIN 605 MC, da relatoria do Ministro Sepúlveda Pertence, onde o STF decidiu: Se, no entanto, a título de lei interpretativa, a segunda lei extrapola da interpretação, é lei nova, que altera a lei antiga, modificandoa ou adicionandolhe normas inexistentes. E assim há de ser examinada. No âmbito judicial, o Superior Tribunal de Justiça, inicialmente, sem declarar formalmente a inconstitucionalidade do art. 4º dessa lei, decidiu, reiteradamente, por meio de sua 1º Seção, que a Lei Complementar nº 118/2005, no tocante ao art. 3º, somente entraria em vigor, em sua integralidade, à partir do mês de junho de 2005. Contra esse entendimento insurgiuse a Fazenda Nacional, que recorreu ao STF. Acolhido o recurso extraordinário apresentado pela Fazenda Nacional, o pleno da corte maior deu provimento ao RE 482.0901 SP, e determinou que o STJ observasse a reserva de plenário para afastar a aplicação do art. 4º dessa lei complementar. Aqui, peço licença para transcrever excerto do Fl. 323DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 324 5 acórdão do STF, por ser emblemático ao deslinde da questão ora submetida a debate. EMENTA: CONSTITUCIONAL. PROCESSO CIVIL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO. ACÓRDÃO QUE AFASTA A INCIDÊNCIA DE NORMA FEDERAL. CAUSA DECIDIDA SOB CRITÉRIOS DIVERSOS ALEGADAMENTE EXTRAÍDOS DA CONSTITUIÇÃO. RESERVA DE PLENÁRIO. ART. 97 DA CONSTITUIÇÃO. TRIBUTÁRIO. PRESCRIÇÃO. LEI COMPLEMENTAR 118/2005, ARTS. 3º E 4º. CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL (LEI 5.172/1966), ART. 106, I. RETROAÇÃO DE NORMA AUTOINTITULADA INTERPRETATIVA. “Reputase declaratório de inconstitucionalidade o acórdão que embora sem o explicitar afasta a incidência da norma ordinária pertinente à lide para decidila sob critérios diversos alegadamente extraídos da Constituição” (RE 240.096, rel. min. Sepúlveda Pertence, Primeira Turma, DJ de 21.05.1999). Viola a reserva de Plenário (art. 97 da Constituição) acórdão prolatado por órgão fracionário em que há declaração parcial de inconstitucionalidade, sem amparo em anterior decisão proferida por Órgão Especial ou Plenário. Recurso extraordinário conhecido e provido, para devolver a matéria ao exame do Órgão Fracionário do Superior Tribunal de Justiça. ......................................................................................................... Brasília, 18 de junho de 2008. V O T O O SENHOR MINISTRO JOAQUIM BARBOSA (Relator): Inicialmente, enfatizo que a discussão travada neste recurso extraordinário se limita à argüida necessidade de submissão do exame incidental de inconstitucionalidade do art. 4º, segunda parte, da LC 118/2005 ao Órgão Especial do Superior Tribunal de Justiça, nos termos do art. 97 da Constituição. Não se discute neste recurso extraordinário a constitucionalidade da norma que fixou a validade de uma única interpretação para a contagem do prazo prescricional para a restituição do indébito tributário. Registro também que o e. Superior Tribunal de Justiça, em outro recurso especial e após a submissão deste recurso extraordinário ao conhecimento e julgamento do Pleno, resolveu por submeter questão análoga ao respectivo Órgão Especial, após decisão proferida pelo eminente Ministro Sepúlveda Pertence, nos autos do RE 486.888 {DJ de 31.08.2006). O referido precedente, firmado por ocasião do julgamento da Argüição de Inconstitucionalidade nos Embargos de Divergência no Recurso Especial 644.736 (rel. min. Teori Zavascki, DJ de 27.08.2007), foi assim ementado: Fl. 324DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 325 6 “CONSTITUCIONAL.TRIBUTÁRIO.LEI INTERPRETATIVA. PRAZO DE PRESCRIÇÃO PARA A REPETIÇÃO DE INDÉBITO, NOS TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. LC 118/2005: NATUREZA MODIFICATIVA (E NÃO SIMPLESMENTE INTERPRETATIVA) DO SEU ARTIGO 3º. INCONSTITUCIONALIDADE DO SEU ART. 4º, NA PARTE QUE DETERMINA A APLICAÇÃO RETROATIVA. 1.Sobre o tema relacionado com a prescrição da ação de repetição de indébito tributário, a jurisprudência do STJ (1a Seção) é no sentido de que, em se tratando de tributo sujeito a lançamento por homologação, o prazo de cinco anos,previsto no art. 168 do CTN, tem início, não na datado recolhimento do tributo indevido, e sim na data da homologação expressa ou tácita do lançamento.Segundo entende o Tribunal, para que o crédito se considere extinto, não basta o pagamento: é indispensável a homologação do lançamento, hipótese de extinção albergada pelo art. 156, VII, do CTN. Assim, somente a partir dessa homologação é que teria início o prazo previsto no art. 168, I. E, não havendo homologação expressa, o prazo para a repetição do indébito acaba sendo, na verdade, de dez anos a contar do fato gerador. 2.Esse entendimento, embora não tenha a adesão uniforme da doutrina e nem de todos os juizes, é o que legitimamente define o conteúdo e o sentido das normas que disciplinam a matéria, já que se trata do entendimento emanado do órgão do Poder Judiciário que tem a atribuição constitucional de interpretálas. 3.O art. 3º da LC 118/2005, a pretexto de interpretar esses mesmos enunciados, conferiulhes, na verdade, um sentido e um alcance diferente daquele dado pelo Judiciário. Ainda que defensável a f interpretação' dada, não há como negar que a Lei inovou no plano normativo, pois retirou das disposições interpretadas um dos seus sentidos possíveis, justamente aquele tido como correto pelo STJ, intérprete e guardião da legislação federal. 4.Assim, tratandose de preceito normativo modificativo, e não simplesmente interpretativo, o art. 3º da LC 118/2005 só pode ter eficácia prospectiva, incidindo apenas sobre situações que venham a ocorrer a partir da sua vigência. 5.O artigo 4º, segunda parte, da LC 118/2005, que determina a aplicação retroativa do seu art. 3º, para alcançar inclusive fatos passados, ofende o princípio constitucional da autonomia e independência dos poderes (CF, art. 2º) e o da garantia do direito adquirido, do ato jurídico perfeito e da coisa julgada (CF, art. 5º, XXXVI). 6.Argüição de inconstitucionalidade acolhida.” Passo ao exame do recurso. Esta é a redação dada aos arts. 3º e 4o da Lei Complementar 118/2005: Fl. 325DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 326 7 “Art. 3º Para efeito de interpretação do inciso I do art. 168 da Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional, a extinção do crédito tributário ocorre, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, no momento do pagamento antecipado de que trata o § 1º do art. 150 da referida Lei. Art. 4º Esta Lei entra em vigor 120 (cento e vinte) dias após sua publicação, observado/ quanto ao art. 3, o disposto no art. 106, inciso I, da Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional.” Por sua vez, o art. 106, I, do Código Tributário Nacional tem a seguinte redação: “Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados;” Discutese no recurso extraordinário se o acórdão recorrido violou a reserva de Plenário para declaração de inconstitucionalidade de lei (art. 97 da Constituição) na medida em que deixou de aplicar retroativamente o art. 3º da LC 118/2005, como determinam o art. 4º da mesma lei e o art. 106, I, do Código Tributário Nacional. Passo a examinar, então, a questão de fundo. Os arts. 3º e 4º da Lei Complementar 118/2 005 objetivam estabelecer, com eficácia retroativa, que a prescrição do direito do contribuinte à restituição do indébito tributário pertinente às exações sujeitas ao lançamento por homologação ocorre em cinco anos contados do pagamento antecipado. Na linha do art. 106, I, do Código Tributário Nacional, interpretado literalmente, a retroatividade de normas meramente interpretativas é irrestrita e, portanto, o disposto no art. 3º da LC 118/2005 também se aplica aos recolhimentos indevidos que se deram antes da publicação da referida lei complementar, independentemente da data de ajuizamento da respectiva ação judicial. Dito de outro modo, o art. 3º e o art. 106, I, do Código tributário Nacional não colocam qualquer limitação ao alcance retroativo da norma que estabelece como o prazo prescricional deverá ser computado. Anteriormente à publicação da LC 118/2005, o Superior Tribunal de Justiça firmara orientação segundo a qual o prazo para restituição do indébito tributário era de cinco anos, contados a partir da homologação do lançamento (art. 156, VII, do CTN), que poderia ser expressa ou tácita. Como o prazo de que dispõe a autoridade fiscal para homologação é de cinco anos (art. 150, §§ 1º e 4º, do CTN), a prescrição do direito à restituição do indébito tributário poderia chegar a dez anos, contados do momento em que ocorria o fato gerador, se houvesse a homologação tácita do lançamento. O art. 3º da LC Fl. 326DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 327 8 118/2005, em um primeiro exame, busca superar o entendimento e firmar uma única possibilidade interpretativa para a contagem do prazo de prescrição de indébito relativo a tributo sujeito ao lançamento por homologação. (Destaquei). Para afastar a aplicação conjunta dos arts. 3º e 4º da Lei 118/2005 e do art. 106, I, do Código Tributário Nacional, assim limitando a retroação às ações ajuizadas após a entrada em vigência da lei complementar em questão, o acórdão recorrido invocou precedente da Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça (EREsp 327.043). 0 mencionado precedente, ainda não publicado, apoiase no principio constitucional da segurança jurídica, como se lê no registro feito pelo eminente relator do acórdão recorrido. Ministro Luiz Fux: “O acórdão embargado assentou que a Primeira Seção reconsolidou a jurisprudência desta Corte acerca da cognominada tese dos cinco mais cinco para a definição do termo a quo do prazo prescricional das ações de repetição/compensação de valores indevidamente recolhidos a titulo de tributo sujeito a lançamento por homologação, desde que ajuizadas até 09 de junho de 2005 (EREsp 327043/DF, Relator Ministro João Otávio de Noronha, julgado em 27.04.2005)”. A Lei Complementar 118/2005 não foi declarada inconstitucional pela Primeira Seção, tendo apenas sido limitada sua incidência às demandas ajuizadas após sua entrada em vigor (09 de junho de 2005), em homenagem, entre outros, ao princípio da segurança jurídica, consoante perfilhado no voto vista desta relatoria: “a Lei Complementar 118, de 09 de fevereiro de 2005, aplicase, tão somente, aos fatos geradores pretéritos ainda não submetidos ao crivo judicial, pelo que o novo regramento não é retroativo mercê de interpretativo. É que toda lei interpretativa, como toda lei, não pode retroagir. Outrossim, as lições de outrora coadunamse com as novas conquistas constitucionais, notadamente a segurança jurídica da qual é corolário a vedação à denominada “surpresa fiscal”. Na lúcida percepção dos doutrinadores, “Em todas essas normas, a Constituição Federal dá uma nota de previsibilidade e de proteção de expectativas legitimamente constituídas e que, por isso mesmo, não podem ser frustradas pelo exercício da atividade estatal.” (Humberto Ávila in Sistema Constitucional Tributário, 2 0 04, pág. 295 a 300) . (...) À mingua de prequestionamento por impossibilidade jurídica absoluta de engendrálo, e considerando que não há inconstitucionalidade nas leis interpretativas como decidiu em recentíssimo pronunciamento o Pretório Excelso, o preconizado na presente sugestão de decisão ao colegiado, sob o prisma institucional, deixa incólume a jurisprudência do Tribunal ao ângulo da máxima tempus regit actum, permite o prosseguimento do julgamento dos feitos de acordo com a jurisprudência reinante, sem invalidar a vontade do legislador através suscitação de incidente de inconstitucionalidade de resultado moroso e duvidoso a afrontar a efetividade da prestação jurisdicional, Fl. 327DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 328 9 mantendo hígida a norma com eficácia aos fatos pretéritos ainda não sujeitos à apreciação judicial, máxime porque o artigo 106 do CTN é de constitucionalidade induvidosa até então e ensejou a edição da LC 118/2005, constitucionalmente imune de vícios”. Ao deixar de aplicar os dispositivos em questão por risco de violação da segurança jurídica (principio constitucional), é inequívoco que o acórdão recorrido declaroulhes implícita e incidentalmente a inconstitucionalidade parcial. Vale dizer, como observou a Primeira Turma desta Corte por ocasião do julgamento do RE 24 0.096 (rei. min. Sepúlveda Pertence, DJ de 21.05.1999), “reputase declaratório de inconstitucionalidade o acórdão que embora sem o explicitar afasta a incidência da norma ordinária pertinente à lide para decidila sob critérios diversos alegadamente extraídos da Constituição”. Portanto, ao invocar precedente da Seção, e não do Órgão Especial, para decidir pela inaplicabilidade de norma ordinária federal com base em disposição constitucional, entendo que o acórdão recorrido deixou de observar a necessária reserva de Plenário, nos termos do art, 97 da Constituição. Em sentido semelhante, registro as seguintes passagens do voto proferido pelo eminente Ministro Sepúlveda Pertence, por ocasião do julgamento de recente precedente (RE 544.246, rei. min. Sepúlveda Pertence, Primeira Turma, DJ de 08.06.2007): “A inaplicação dos dispositivo questionados da LC 118/05 a todos processos pendentes reclamava, pois, a declaração de sua inconstitucionalidade, ainda que parcial. Foi o que fez, na verdade, o acórdão recorrido. Não importa que o precedente invocado da Primeira Seção do Tribunal a quo, EREsp 328043 tenha declarado incidir a lei nova nas ações propostas a partir de sua vigência. O distinguo dada a irretroatividade irrestrita preceituada nos arts. 3º e 4º da LC 118/05 importou na declaração de inconstitucionalidade parcial deles, malgrado sem redução de texto. Estou, pois, em que, assim decidindo – com fundamento em precedente da Seção e não, do Órgão Especial o acórdão recorrido contrariou efetivamente a norma constitucional da “reserva de plenário”, do art. 97 da Lei Fundamental.” É como voto. Do exposto, conheço do recurso extraordinário e doulhe provimento, para que a matéria seja devolvida ao órgão fracionário do Superior Tribunal de Justiça, para que seja observado o art. 97 da Constituição. Da leitura do acórdão, dúvida não há que, segundo o Supremo Tribunal Federal, qualquer medida no sentido de afastar a Fl. 328DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 329 10 aplicação de dispositivo de lei vigente, importa em controle incidental de inconstitucionalidade. Diante desse posicionamento da Corte Maior, o STJ, por sua corte especial, declarou a inconstitucionalidade da parte final do art. 4º da lei em comento, e, após isso, firmou o entendimento de que o disposto no art. 3º da citada lei somente produz efeitos sobre as ações de repetição que se referirem a indébitos pertinentes a fatos geradores ocorridos a partir de junho de 2005. Em outro giro, como bem destacou o Ministro Joaquim Barbosa no voto condutor do acórdão transcrito linhas acima, o art. 3º da Lei Complementar nº 118/2005 pretendeu superar o entendimento vigente sobre o termo inicial da prescrição e firmar uma única possibilidade interpretativa para a contagem do prazo de prescrição de indébito relativo a tributo sujeito a lançamento por homologação. Agora, se o art. 4º, que determinou a aplicação retroativa da interpretação trazida no art. 3º, padece de vício de inconstitucionalidade, não cabe a este Colegiado isto declarar, como será demonstrado a seguir. Para começar este tema, faremos um breve passeio na história do controle de constitucionalidade. O mundo conhece hoje, no dizer 1Cappelletti, dois grandes tipos de sistemas de controle da legitimidade constitucional das leis: O “sistema difuso”, isto é, aquele em que o poder de controle pertence a todos os órgãos judiciários de um dado ordenamento jurídico, que os exercitam incidentalmente, na ocasião da decisão das causas de sua competência; e O “sistema concentrado”, em que o poder de controle se concentra, ao contrário, em um único órgão judiciário. O primeiro deles, o difuso, é também conhecido como sistema de controle do tipo americano, em razão da percepção equivocada de alguns constitucionalistas de que esse sistema tenha sido inaugurado pelos norte americanos no famoso caso Marbury versus Madison, em 1803. O segundo, o concentrado, também pode ser denominado, agora com razão, de sistema austríaco de controle, ou ainda como sistema europeu, porquanto foi inaugurado na Constituição da Áustria de 1º de outubro de 1920, redigida com base em projeto elaborado pelo Mestre da Escola Jurídica de Viena, o grande Hans Kelsen. No Brasil, até a promulgação da Constituição da República de 1891, não existia qualquer controle Judicial de Constitucionalidade. Por influência do jacobinismo parlamentar francês e da idéia inglesa da supremacia do parlamento, o Constituinte de 1824 outorgou ao Poder Legislativo a atribuição 1 M. CAPPELLETTI, O controle Judicial de Constitucionalidade das Leis no Direito Comparado, 2ª ed, Sergio Antônio Fabris Editor, Porto Alegre 1992, p 67 ss. Fl. 329DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 330 11 de fazer leis, interpretálas, suspendêlas e revogálas, bem como velar na guarda da Constituição (art. 15, itens 8º e 9º). Nesse sistema, não havia lugar para o mais incipiente modelo de controle judicial de constitucionalidade. Consagravase, assim, o dogma da soberania do Parlamento. Com a adoção do regime republicano em 1889, os ventos da mudança também sopraram no sistema 2jurídico brasileiro, sobretudo, no que concerne ao papel a ser exercido pelo Poder Judiciário. A Constituição Republicana de 1891 adotou o sistema norte americano, defendido entusiasticamente por Rui Barbosa, personagem principal na elaboração da Carta. A Constituição de 1934 trouxe uma figura nova no controle brasileiro de constitucionalidade, a ADIn Interventiva, que deveria ser proposta pelo ProcuradorGeral da República, perante o Supremo Tribunal Federal, contra lei ou ato normativo estadual que violassem a Constituição Federal. Essa ADIn Interventiva inseriu no nosso ordenamento jurídico um tímido sistema de controle concentrado de constitucionalidade. A Emenda Constitucional nº 16, de 26 de novembro de 1965, inseriu, de forma clara, o controle concentrado, mas restrito às pessoas legitimadas a propor a ação de inconstitucionalidade. Somente com a Constituição Federal de 05 de outubro de 1988 é que se consagrou, de forma ampla, o sistema de controle concentrado, também denominado sistema abstrato ou do tipo europeu. Desde então, o Brasil passou a conviver harmonicamente com os dois tipos de controle, o concentrado e o difuso. Deixemos de lado o sistema europeu, para voltarmos ao que, de fato, interessa ao nosso tema, o controle difuso, que, como dito linhas acima, alguns constitucionalistas apressados atribuíram sua origem à famosa decisão da Suprema Corte norte americana, prolatada em 1803, no caso Marbury versus Madison, cuja sentença foi redigida pelo juiz John Marshall, que fixou, por um lado, aquilo que ficou conhecido como a supremacia da constituição e, por outro, o poderdever dos juízes negarem aplicação às leis contrárias à constituição. Para se chegar àquela decisão, Marshall partiu do seguinte raciocínio: ou a constituição prepondera sobre os atos legislativos que com ela contrastam ou o Poder Legislativo pode mudála por meio de lei ordinária. Não há meio termo, asseverou o Chefe da Suprema Corte, ou a constituição é uma lei fundamental superior e não mutável por dispositivos ordinários, ou seja, é rígida; ou ela é colocada em pé de igualdade com os atos legislativos ordinários, portanto, flexível, e, por conseguinte, pode ser alterada sem qualquer entrave pelo Poder Legislativo. Todavia, se é correto a primeira alternativa, e assim concluiu Marshall, um ato do legislativo contrário à constituição não é lei, é nulo, é como se não existisse. 2 O Decreto 848, de 11 de outubro de 1890, estabeleceu que, na guarda e aplicação da Constituição e das leis nacionais, a magistratura federal só interviria em espécie e por provocação da parte. Fl. 330DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 331 12 Ao proclamar a prevalência da constituição sobre os demais atos legislativos e reconhecer o poder dos juízes de não aplicar as leis inconstitucionais, a Suprema Corte Americana não só inaugurou no mundo moderno o sistema judicial de controle de constitucionalidade, mas, sobretudo, rompeu com o dogma da supremacia do Poder Legislativo, que vige até hoje na Inglaterra e nos demais países que adotam constituições flexíveis. Os fundamentos da inovadora e corajosa decisão da Suprema Corte no caso Marbury versus Madison já haviam sido muito bem delineados por Alexander Hamilton em sua obraprima The Federalist, e partiu do seguinte raciocínio: a função de todos os juízes é a de interpretar as leis e aplicá las ao caso concreto submetido a seu julgamento; a regra básica de interpretação das leis determina que quando dois dispositivos legislativos estiverem contrastando entre si, deve o juiz aplicar a prevalente. Se ambas tiverem igual densidade normativa, devese valer dos critérios tradicionais, segundo os quais: lex posteriori derogat legi priori, lex specialis derogat legi generali, etc. Mas todos esses critérios são desnecessários quando o contraste dáse entre dispositivos de densidade normativa diversa, aí, o critério é o da lex superior derogat legi inferiori. Neste caso, a norma constitucional prevalecerá sempre sobre a lei ordinária, quando a constituição for rígida e não flexível. Do mesmo modo, a lei prevalecerá sempre sobre os decretos. De tudo o que foi exposto, a conclusão óbvia é no sentido de que todo e qualquer juiz, encontrandose no dever de decidir uma lide onde seja relevante ao caso uma lei ordinária que contrasta com a constituição, deve preservar a Carta Magna e não aplicar a norma de menor hierarquia. Vejamos agora como é dividido o controle de constitucionalidade no Brasil. Quanto ao momento de sua realização, o controle é dividido em preventivo e repressivo, o primeiro realizado durante o processo legislativo e, o segundo, após a entrada em vigor da lei. O preventivo é exercido, inicialmente, pelas Comissões de Constituição e Justiça do Poder Legislativo (art. 32, III, do Regimento Interno da Câmara Federal e art. 110 do Regimento Interno do Senado Federal, todos fundamentados no art. 58 da CF/88) e, posteriormente, pela participação do Chefe do Executivo no processo legislativo, quando poderá vetar a lei aprovada pelo Congresso Nacional por entendêla inconstitucional, nos termos do art. 66, § 1º, da CF/88, denominado veto jurídico. Por sua vez, se o projeto de lei é de iniciativa do Poder Executivo, ou se se trata de Medida Provisória, há, ainda, além dos controles de constitucionalidade acima mencionados, o realizado previamente, no âmbito do Poder Executivo, pela Casa Fl. 331DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 332 13 Civil da Presidência da República, por força do estatuído no art. 2º da Lei nº 9.649, de 27/05/1998, que assim dispõe: Art. 2º. À Casa Civil da Presidência da República compete assistir direta e imediatamente ao Presidente da República no desempenho de suas atribuições, especialmente na coordenação e na integração das ações do governo, na verificação prévia da constitucionalidade e legalidade dos atos presidenciais, ... (grifo nosso). O repressivo, por sua vez, poderá se dar de maneira concentrada, por via de ação direta de inconstitucionalidade ou de ação declaratória de constitucionalidade, competindo em ambos os casos, somente, ao Supremo Tribunal Federal processar e julgar tais ações, conforme dispõe a alínea “a” do inciso I do art. 102 da Constituição Federal de 1988. Pode ainda o controle repressivo darse de forma difusa, ou seja, como incidente processual, no julgamento de casos concretos. Depois de tudo o que aqui foi dito, perguntase: podem os órgãos judicantes da administração afastar a aplicação de lei inconstitucional? podem esses órgãos afastar a aplicação de lei que entenderem inconstitucional ou incompatível com a constituição? A resposta à primeira pergunta é positiva, pois a lei inconstitucional, como bem asseverou Marshal, não é lei, é ato nulo. Por conseguinte, não obriga, não vincula ninguém. Já a resposta à segunda pergunta é negativa, pois da interpretação sistemática da Constituição Federal (especialmente dos seus arts. 97; 102, III, “a” e “c”; e 105, II, “a” e “b”), temse que a competência para realizar o controle difuso de constitucionalidade é exclusiva do Poder Judiciário e estendida a todos os seus componentes. Nesse sentido, valiosas são as palavras do exProcuradorGeral da República e Professor Titular da Universidade de Brasília, Dr. Inocêncio Mártires Coelho, conforme elucidativo artigo por ele publicado na Revista Jurídica Virtual (nº 13) da Presidência da República, do qual transcrevemos o seguinte trecho: ...Nessa linha de raciocínio que ousaríamos chamar fática, livre e realista e ainda acompanhando o pensamento do maior jurista do século XX, podese dizer, igualmente, que sem aquela declaração de incompatibilidade, proferida pelo órgão a tanto legitimado, nenhuma norma será reputada inconstitucional; que onde a Constituição não atribuir a algum órgão, distinto do que produz as leis, a prerrogativa de aferirlhes a constitucionalidade, norma alguma poderá reputarse inconstitucional; e que, finalmente, enquanto não for anulada e nos limites em que o seja toda lei é simplesmente constitucional... (grifo nosso). Fl. 332DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 333 14 Por tais razões, podese concluir, que, não tendo a Constituição Federal de 1998 dado competência a órgãos da administração para efetuarem o controle repressivo de constitucionalidade das leis, não podem seus órgãos judicantes afastar a aplicação de lei que julgarem inconstitucional, pois competência não tem quem quer, mas quem a teve atribuída pela Constituição. No mesmo sentido, é a lição de Lúcio Bittencourt3 a respeito da incompetência dos órgãos do Poder Executivo para afastar a aplicação de uma lei sob alegação de sua inconstitucionalidade: É princípio assente entre os autores, reproduzindo a orientação pacífica da jurisprudência, que milita sempre em favor dos atos do Congresso a presunção de constitucionalidade. É que ao Parlamento, tanto quanto ao Judiciário, cabe a interpretação do Texto constitucional, de sorte que, quando uma lei é posta em vigor, já o problema de sua conformidade com o Estatuto Político foi objeto de exame e apreciação, devendose presumir boa e válida a resolução adotada. (...) Oscar Saraiva entende que o julgamento da inconstitucionalidade é privativo do Judiciário, porque, se êste cabe, por fôrça de preceito expresso, a função em aprêço, nenhum dos outros podêres tem competência para exercêla 'sob pena de se confundirem as atribuições dêstes, o que a nossa Constituição veda, ao prescrever a sua separação e independência'. Não acolhemos, todavia, êsse entendimento do culto e esclarecido jurisconsulto, que se choca, aliás, com a opinião unânime dos doutôres. Damolhe razão, apenas quando nega aos funcionários administrativos competência para se recusar a aplicar uma lei sob alegação de sua inconstitucionalidade. É que a sanção presidencial afasta qualquer possível manifestação dos funcionários administrativos, que não dispõem do exercício do poder executivo. (sic) Desta feita, se o órgão administrativo deixa de aplicar lei vigente por considerála inconstitucional, não apenas invade a esfera de competência do Poder Judiciário como também fere de morte um dos princípios norteadores da administração pública, qual seja, o princípio da hierarquia, pois se está discordando do Chefe do Poder Executivo que, ao não vetar a lei, está reconhecendo sua constitucionalidade. Em face do exposto, parecenos equivocada a afirmação daqueles que pregam que se a administração é vinculada aos ditames da lei, muito mais será aos da Lei Maior, logo pode negar aplicação à lei manifestamente inconstitucional. Rotundo engano, pois, primeiro, milita a favor de todas as leis a presunção de constitucionalidade; segundo, mesmo sendo uma presunção juris tantum, só ao órgão legitimamente indicado pela 3 Bittencourt, Lúcio O Contrôle Jurisdicional da Constitucionalidade, Forense, 1968, 2º edição, págs.91 a 96. Fl. 333DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 334 15 Constituição Federal como competente para exercer o controle de constitucionalidade cabe desconstituir a presunção. Pertinente trazer à colação as conclusões de Lúcio Bittencourt sobre o tema, na obra já citada: A lei, enquanto não declarada pelos tribunais incompatível com a Constituição, é lei não se presume lei é para todos os efeitos. Submete ao seu império tôdas as relações jurídicas a que visa disciplinar e conserva plena e íntegra aquela fôrça formal que a torna irrefragável, segundo a expressão de Otto Mayer. Aliás, em relação à lei, ocorre ainda situação diversa da que se manifesta no tocante aos atos jurídicos públicos ou privados, e que reforça a idéia de sua eficácia enquanto não declarada por via jurisdicional. É que, em relação a ela, existe o princípio da obrigatoriedade, que constitui, dentro de qualquer doutrina de direito público, a garantia e a segurança da ordem jurídica. Sendo a lei obrigatória, por natureza e por definição, não seria possível facilitar a quem quer que fôsse furtarse a obedecerlhes os preceitos sob o pretexto de que a considera contrária à Carta Política. A lei, enquanto não declarada inoperante, não se presume válida: ela é válida, eficaz e obrigatória. (sic) Ainda sobre o tema, não menos valiosos são os ensinamentos do festejado constitucionalista Luís Roberto Barroso4: A presunção de constitucionalidade das leis encerra, naturalmente, uma presunção iuris tantum, que pode ser infirmada pela declaração em sentido contrário do órgão jurisdicional competente. O princípio desempenha uma função pragmática indispensável na manutenção da imperatividade das normas jurídicas e, por via de conseqüência, na harmonia do sistema. O descumprimento ou nãoaplicação da lei, sob o fundamento de inconstitucionalidade, antes que o vício haja sido proclamado pelo órgão competente, sujeita a vontade insubmissa às sanções prescritas pelo ordenamento. Antes da decisão judicial, quem subtrairse à lei o fará por sua conta e risco. (grifo nosso). A meu sentir, é imperioso reconhecer que, no Direito brasileiro, o controle de constitucionalidade das leis em vigor é atribuição exclusiva do Poder Judiciário. Com isso, não sendo declarada a inconstitucionalidade pelo Jurisdicional, seja com efeitos erga omnes no controle concentrado de constitucionalidade, seja com efeito inter partes no controle difuso, a lei goza de presunção de constitucionalidade, e, por conseguinte, é válida e tem aplicação cogente em todo o território nacional. A declaração incidental de inconstitucionalidade de lei é ato de tamanha gravidade, que, desde a Constituição Federal de 1934, há exigência expressa de reserva de plenário para que os 4 BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e Aplicação da Constituição. São Paulo: ed. Saraiva, 3º edição, pp 170 e 171. Fl. 334DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 335 16 tribunais exerçam o controle difuso de constitucionalidade. Por essa regra, suscitado o incidente de inconstitucionalidade por um dos membros do tribunal, suspendese o julgamento do processo e remetese a questão incidental para o pleno ou órgão que o represente. A inconstitucionalidade somente será declarada por voto da maioria absoluta dos membros do tribunal (art. 97 da Seção I do Capítulo III Do Poder Judiciário do Título IV Das Organizações dos Poderes da CF/88). Essa exigência veio para uniformizar a interpretação constitucional no âmbito de cada tribunal. E como se processaria o incidente de inconstitucionalidade no processo administrativo, já que, diferentemente do que ocorre nos tribunais do Judiciário, nos administrativos não há a previsão para tal. Aliás, não poderia mesmo haver, pois, conforme já fartamente demonstrado, órgão nenhum da administração tem poderes para exercer o controle difuso de constitucionalidade. Ora, se para os tribunais do Judiciário é exigida a reserva de plenário, como então, querer que os órgãos judicantes da administração, por suas turmas ou Câmaras, possam exercer o controle de constitucionalidade. Se assim fosse possível, a esfera administrativa estaria investida de mais poder do que o próprio judiciário. E o que dizer, então, da impossibilidade de a Fazenda Nacional recorrer ao Supremo Tribunal Federal quando a instância administrativa julgar determinada lei inconstitucional, o que não ocorre quando o controle é feito no Judiciário. Vejase ao absurdo a que chegaríamos: se determinada lei fosse declarada inconstitucional em controle difuso, a questão, se as partes forem diligentes, iria ser decidida, em última instância, pelo STF. Agora reparem, se a inconstitucionalidade fosse apontada na esfera administrativa, a questão sequer chegaria a ser discutida no Judiciário, que dirá no Supremo Tribunal Federal. Com isso, a decisão administrativa teria mais força do que a de todos os outros órgãos do Poder Judiciário, à exceção do Supremo. Em outras palavras, em matéria de inconstitucionalidade, a Câmara Superior de Recursos Fiscais estaria alçada no mesmo patamar do STF, pois da decisão que declarasse alguma lei inconstitucional, assim como ocorre no STF, não caberia qualquer recurso. De tudo o que foi dito, resta concluir que falece aos órgãos judicantes da Administração competência para afastar a aplicação de lei ainda vigente. Missão atribuída exclusivamente ao Poder Judiciário. Aliás, há disposição legal expressa no sentido de vedar este colegiado afastar aplicação de lei por vício de inconstitucionalidade, salvo as exceções nele previstas, o que não é o caso dos autos. Vide art. 26A do Decreto nº 70.235/1972, com a redação dada pelo art. 25 da Lei nº 11.941/2009. A norma inserta nesse dispositivo do Processo Administrativo Fiscal foi reproduzida no art. 62 do atual regimento interno do CARF. Fl. 335DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 336 17 Demais disso, cabe ressaltar que sobre essa matéria os antigos 1º, 2º e 3º Conselhos de Contribuintes sumularam o entendimento de falecer competência aos órgãos administrativos afastar a aplicação de lei por vício de inconstitucionalidade. Por outro lado, não me parece razoável o entendimento de parte da doutrina de que essa lei complementar não se aplicaria ao caso em discussão, pois a normatização da repetição de indébito é toda dada pelo CTN, mais especificamente, no art. 168, e o caso dos autos está amparado, justamente, nesse dispositivo, o qual recebeu a interpretação autêntica trazida pelo art. 3º da Lei complementar nº 118/2005. Aliás, há disposição legal expressa no sentido de vedar este colegiado afastar aplicação de lei por vício de inconstitucionalidade, salvo as exceções nele previstas, o que não é o caso dos autos. Vide art. 26A do Decreto nº 70.235/1972, com a redação dada pelo art. 25 da Lei nº 11.941/2009. A norma inserta nesse dispositivo do Processo Administrativo Fiscal foi reproduzida no art. 62 do atual regimento interno do CARF. Demais disso, cabe ressaltar que sobre essa matéria os antigos 1º, 2º e 3º Conselhos de Contribuintes sumularam o entendimento de falecer competência aos órgãos administrativos afastar a aplicação de lei por vício de inconstitucionalidade. Por outro lado, não me parece razoável o entendimento de parte da doutrina de que essa lei complementar não se aplicaria ao caso em discussão, pois a normatização da repetição de indébito é toda dada pelo CTN, mais especificamente, no art. 168, e o caso dos autos está amparado, justamente, nesse dispositivo, o qual recebeu a interpretação autêntica trazida pelo art. 3º da Lei Complementar nº 118/2005. Ultrapassada a questão da inconstitucionalidade do art. 4º da Lei Complementar nº 118/2005, passase à análise do termo inicial da prescrição do direito de a reclamante repetir o indébito objeto destes autos. O direito à repetição de indébito é assegurado aos contribuintes no art. 1655do Código Tributário Nacional CTN. Todavia, como todo e qualquer direito, esse também tem prazo para ser exercido. A Carta Política da República, de 1988, exigiu lei complementar para estabelecer normas gerais de prescrição e decadência tributários, conforme se vê da alínea “b” do inciso III do art. 146. Art. 146. Cabe à lei complementar: 5 Art. 165. O sujeito passivo tem direito, independentemente de prévio protesto, à restituição total ou parcial do tributo, seja qual for a modalidade do seu pagamento, ressalvado o disposto no § 4º do artigo 162, nos seguintes casos: I cobrança ou pagamento espontâneo de tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido; Fl. 336DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 337 18 I .................................................................................................... III estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária, especialmente sobre: a) ..................................................................................................... b) obrigação, lançamento, crédito, prescrição e decadência tributários; A lei com o status exigido pela Constituição para fixar as hipóteses de prescrição e decadência tributária, quer para a cobrança do débito quer para a devolução do indébito, como é de todos sabido, é a Lei nº 5.172/1966, alçada a categoria de Código Tributário Nacional, recepcionada pela Constituição como lei complementar. Para o caso aqui em debate interessa, apenas, essa última hipótese, a qual é tratada no art. 168 do Código, que estabelece o prazo de 05 anos para a repetição, contados da seguinte forma: I da data de extinção do crédito tributário nas hipóteses: a) de cobrança ou pagamento espontâneo de tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido; b) de erro na edificação do sujeito passivo, na determinação da alíquota aplicável, no cálculo do montante do débito ou na elaboração ou conferência de qualquer documento relativo ao pagamento; II da data em que se tornar definitiva a decisão administrativa ou passar em julgado a decisão judicial que tenha reformado, anulado, revogado ou rescindido a decisão condenatória nas hipóteses: a) de reforma, anulação, revogação ou rescisão de decisão condenatória. A exegese desse artigo não deixa margem a dúvida de que o prazo prescricional para repetição de indébito é de 05 anos. A celeuma que se instaurou na doutrina, e também na jurisprudência gira em torno do termo inicial da contagem do prazo. O art. 1686 fixa duas datas distintas, como não poderia deixar de ser, para hipóteses também distintas. A primeira data da extinção do crédito tributário – aplicase aos casos previstos nos incisos I e II do art. 165 do CTN; e a segunda – data em que se tornar definitiva a decisão administrativa ou judicial ou 6 Art. 168. O direito de pleitear a restituição extinguese com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados: I nas hipóteses dos incisos I e II do artigo 165, da data da extinção do crédito tributário. Fl. 337DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 338 19 passar em julgado a decisão judicial que tenha reformado, anulado, revogado ou rescindido a decisão condenatória, destinase, exclusivamente, às hipóteses enumeradas no inciso II do mencionado art. 165. A exegese, como todos sabem, é a arte de se extrair da norma o seu conteúdo por meio das técnicas de interpretação. Todavia, não pode ir além disso, ou seja, não pode extrair aquilo que não está na norma. O exegeta não pode criar, não pode inventar, tem que se ater ao comando normativo, sob pena de transformarse em legislador positivo, usurpando competência que não lhe foi dada. Em outro giro, a lei complementar fixou, numerus clausus, os eventos que servem como data do termo de início da contagem do prazo prescricional de repetição de indébito – a extinção do crédito tributário que se pretende repetir, e da data em que se tornar definitiva a decisão administrativa ou passar em julgado a decisão judicial que tenha reformado, anulado, revogado ou rescindido a decisão condenatória – afora essas duas hipóteses, nenhum outro dispositivo legal versa sobre o termo inicial da prescrição para repetir o indébito. Assim, toda a engenharia jurídica e criativa utilizada para dar sustentação a outros marcos temporais da contagem desse prazo não encontra respaldo no arcabouço jurídico nacional. Aliás, é de se ressaltar que essas teses que criaram termos de início alternativos ao dado pelo CTN, não só carecem de amparo legal, como afrontam o ordenamento jurídico, in casu, a própria Constituição, art. 146, III, “b”, e o Código Tributário Nacional que detém o status normativo exigido na Carta Cidadã para disciplinar essa matéria. Nesse ponto, transcrevo excerto do voto do Conselheiro Luis Marcelo Guerra de Castro7: Nessa linha, penso, portanto, que a inexistência de Lei em sentido formal ou material que apóie a jurisprudência administrativa da qual ora se diverge, faz com que a mesma entre em conflito com o princípio da legalidade, insculpido no art. 37 da Constituição Federal de 19888, na medida em que, uma vez afastada a regra jurídica formalmente vigente, simplesmente não existe outra de igual concretude para ser aplicada. Nesse ponto, não custa relembrar que, sob o ponto de vista da atuação da Administração Pública, onde inegavelmente está inserida este Colegiado, dito princípio assume feições diversas da prevista no art. 5o, II da CF de 19889, denominado Autonomia da Vontade. Diferentemente deste último, à Administração Pública só é permitido fazer aquilo que a lei (regra jurídica) prevê. 7 julgamento do recurso voluntário nº 133.010, na Terceira Câmara do do Terceiro Conselho de Contribuintes. 8 “Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência...” 9 “II ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;” Fl. 338DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 339 20 Sobre esse aspecto, peço licença para trazer a lição de JJ Gomes Canotilho10, que assim esquadrinha os diferentes ângulos de atuação do princípio em discussão: “O princípio da legalidade postula dois princípios fundamentais: o princípio da supremacia ou prevalência da lei (Vorrang des Gesetzes) e o princípio da reserva de lei (Vorbehalt des Gesetzes). Estes princípios permanecem válidos, pois num Estado democráticoconstitucional a lei parlamentar é, ainda, a expressão privilegiada do princípio democrático (daí a sua supremacia) e o instrumento mais apropriado e seguro para definir os regimes de certas matérias, sobretudo dos direitos fundamentais e da vertebração democrática do Estado (daí a reserva de lei). De uma forma genérica, o princípio da supremacia da lei e o princípio da reserva de lei apontam para a vinculação jurídicoconstitucional do poder executivo (cfr., infra. fontes de direito e estruturas normativas)”. (grifei) Ou seja, como é cediço, o princípio da legalidade é o alicerce do Estado de Direito e, nessa condição, irradia seus efeitos sobre os demais valores defendidos no plano constitucional, inclusive sobre a Segurança Jurídica, invocado como fundamento para a decisão em debate. Nesse aspecto, recorro à lição de Sacha Calmon Navarro membro de corrente doutrinária contrária àquela que inspirou a prolação dos votos vencedores que, baseado na doutrina alemã11, pontifica: “O conceito de segurança jurídica é considerado conquista especial do Estado de Direito. Sua função é a de proteger o indivíduo de atos arbitrários do poder estatal, já que as intervenções do Estado nos direitos dos cidadãos podem ser muito pesadas e, às vezes, injustas. No entanto, se tais intervenções têm base em lei e visam o bemestar público, será preciso decidirse pela avaliação conjunta do interesse coletivo e do interesse do particular afetado para se aferir a juridicidade (conformação do direito) da medida estatal. Esse princípio é freqüentemente denominado ‘princípio da proporcionalidade’...” (grifei). Poderseia então argumentar que a solução ora discutida seria então resultado do sopesamento entre os princípios constitucionais aparentemente conflitantes, mediante a redução da “força” do princípio da legalidade. 10 Canotilho, Joaquim José Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. Coimbra, Portugal, Almedina, 2000, 7ª Edição, p. 256 11 STEIN Torstein, A Segurança Jurídica na Ordem Legal da República Federal da Alemanha, apud Navarro, Sacha Calmon, Reflexões Sobre o Artigo 3º da Lei Complementar 118. Segurança Jurídica e a BoaFé como Valores Constitucionais. As Leis Interpretativas no Direito Tributário Brasileiro. Disponível em http://www.sacha.adv.br/admin/arq_publica/bc7f621451b4f5df308a8e098112185d.pdf Fl. 339DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 340 21 Ocorre que essa solução só seria possível, penso, se os princípios constitucionais invocados possuissem o mesmo grau de concretude das normas cuja aplicação tem sido afastada. Ou seja, se os princípios em conflito pudessem ser traduzidos em regras jurídicas, passíveis de aplicação imediata, independente de lei complementar ou ordinária. Nesse ponto, é importante reforçar que, malgrado seu poder, que os torna aptos a, nas palavras de Paulo de Barros Carvalho12, informar e iluminar a compreensão de segmentos normativos, os princípios invocados, a bem da verdade, não são regras jurídicas, conforme a que precisa lição de Alexy, para quem os primeiros, enquanto “mandatos de otimização”13, assim se distinguem das últimas: “El punto decisivo para la distinción entre reglas y principios es que los principios son normas que ordenan que algo sea realizado en la mayor medida posible, dentro de las posibilidades jurídicas y reales existentes. Por lo tanto, los principios son mandatos de optmización, que están caracterizados por el hecho de que pueden ser cumplidos en diferente grado y que la medida debida de su cumplimiento no sólo depende de las posibilidades reales sino también de las jurídicas. El ámbito de las posibilidades jurídicas es determinado por los principios y reglas opuestos. En cambio, las regias son normas que sólo pueden ser cumplidas o no. Si una regla es válida, entonces de hacerse exactamente lo que el exige, ni más ni menos. Por lo tanto, las reglas contienen determinaciones en el ámbito de lo fáctica y jurídicamente posible. Esto significa que la diferencia entre reglas y principios es cualitativa y no de grado. Toda norma es o bien una regla o un principio” (grifei) Como esclarece José Afonso da Silva14, apesar de sempre vigentes, as normas principiológicas constitucionais normalmente não reúnem todos os elementos necessários para sua incidência direta. Às vezes, faltalhes o que Alexy definiu como “possibilidade jurídica”. Daí porque, desenvolveu o mestre paulista a clássica distinção entre normas de eficácia plena, contida e limitada: “Quando essa regulamentação normativa é tal que se pode saber, com precisão, qual a conduta positiva ou negativa a seguir relativamente ao interesse descrito na norma, é possível afirmarse que está é completa e juridicamente dotada de plena eficácia”. 12 Curso de direito tributário. 3ª edição, p.72 13 Teoria de los Derechos Fundamentales, apud Inocêncio Mártires Coelho. Interpretação Constitucional. Porto Alegre, 1997, Sérgio Antonio Fabris Editor, p. 85. 14Aplicabilidade das Normas Constitucionais. 3ª. ed., São Paulo, Malheiros, 1998, p. 99: Fl. 340DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 341 22 Ainda sob o prisma da concretude, esclarecem Manuel Atienza e Juan Ruiz Manero15 que as regras: “constituem concreções relativas às circunstâncias genéricas que constituem suas condições de aplicação, derivadas do balanço entre os princípios relevantes em ditas circunstâncias. Estas concreções, constituídas pelas regras, pretendem ser concludentes e excluir, como base para adotar um curso de ação, a deliberação de seu destinatário sobre o balanço de razões aplicáveis ao caso. Esta pretensão, sem embargo, resulta em ocasiões falida: quando o resultado de aplicar a regra é inaceitável a luz dos princípios do sistema que determinam a justificação e o alcance da própria regra. Em tais casos, a pretensão concludente e excludente das regras fracassa e o ordenado ou permitido por elas alcança só um valor prima facie que se vê finalmente, uma vez consideradas todas as circunstâncias, afastado” Assim sendo, um princípio constitucional que não reúne os elementos condicionantes para sua eficácia plena não pode substituir a regra jurídica insculpida no CTN, no máximo, afastar sua aplicação por meio dos adequados instrumentos de controle da constitucionalidade, medida que foge à competência deste colegiado. Ou seja, se efetivamente fosse afastada a aplicação da norma, o resultado seria igualmente a improcedência do pedido, pois essa medida não faria surgir uma nova em seu lugar e, nessa condição, o tornaria carente de fundamento legal. Relembrese, o Decreto nº 20.910, de 1932 não pode servir de base para a concessão de restituição tributária. 2. Interpretação Conforme a Constituição Doutrinadores de peso, como Paulo Bonavides16, defendem a interpretação conforme a Constituição, como método de harmonização da norma infraconstitucional aos princípios constitucionais, pretendendo, ao que parece, conferir a essa técnica contornos de mera busca pelo verdadeiro sentido do texto da norma hierarquicamente inferior à Constituição. Ocorre que tal linha, que, ao que parece, tem sido seguida majoritariamente por este Colegiado, diverge daquela que tem sido adotada pelo Supremo Tribunal Federal, que firmou norte no sentido de que a interpretação conforme a Constituição, em verdade, corresponde a um método de controle da 15 Ilícitos atípicos apud Decadência e Prescrição do Direito do Contribuinte e a LC 118: Entre Regras e Princípios, in Temas de Direito Público — Estudos em Homenagem ao Ministro José Augusto Delgado. Coordenação Cristiano Carvalho e Marcelo Magalhães Peixoto. Curitiba, 2005. Juruá, pp 149 a 178 16 Curso de direito constitucional, p. 518. Fl. 341DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 342 23 constitucionalidade, sentido igualmente atribuído por Celso Ribeiro Bastos17 e Jorge Miranda18. Tal convicção ganha força em função da leitura do parágrafo único, do art. 28, da Lei nº 9.868, de 10 de novembro de 1999, que assim disciplina os possíveis resultados da Ação Declaratória de Inconstitucionalidade ou da Ação Declaratória de Constitucionalidade. Parágrafo único. A declaração de constitucionalidade ou de inconstitucionalidade, inclusive a interpretação conforme a Constituição e a declaração parcial de inconstitucionalidade sem redução de texto, têm eficácia contra todos e efeito vinculante em relação aos órgãos do Poder Judiciário e à Administração Pública federal, estadual e municipal. (grifei) Nesse sentido, trago à colação manifestação do Ministro Carlos Ayres Britto, em voto vista proferido em questão de ordem suscitada nos autos da ADPF no 54: “38. Em remate, a interpretação conforme não se exprime num típico exercício de hermenêutica, pois o típico exercício de hermenêutica se dá é num precedente contexto de serena aceitação da validade do dispositivo sobre que recai. Ela se inscreve é entre os mecanismos de controle de constitucionalidade, como exigência do sumo princípio da supremacia material da Constituição. Por isso que, já no citado segundo momento processual de sua aplicabilidade, ela é manejada como instrumento de sindicabilidade jurídica do ato público de menor escalão hierárquico. Por conseguinte, mecanismo pelo qual se afere tanto a validade formal quanto material de um modelo jurídicopositivo posto em cotejo com a Magna Carta.” Nesse diapasão, penso que falta competência legal a este Colegiado para, por meio da préfalada técnica, interferir no texto do Código Tributário como se encontra vigente ou afastar a sua aplicação a hipóteses que, sem a pretensa colisão com os princípios constitucionais invocados nos votos vencedores, se subsumiriam perfeitamente ao seu texto. Aliás, ainda que tivéssemos competência para tanto, a técnica da interpretação conforme, na lição de J.J. Gomes Canotilho19, não admite alteração do texto normativo. Leciona o autor: “...daqui se conclui que a interpretação conforme só permite a escolha entre dois ou mais sentidos possíveis da lei mas nunca a 17 Hermenêutica e interpretação constitucional, apud Sérgio Augusto Zampol Pavani. A Interpretação Conforme e Constituição e o Controle Difuso de Constitucionalidade. Estudos em Homenagem ao Ministro José Augusto Delgado. Coordenação Cristiano Carvalho e Marcelo Magalhães Peixoto. Curitiba, 2005. Juruá. pp. 581 a 599. 18 Manual de direito constitucional, tomo II, p. 267. A Interpretação Conforme e Constituição e o Controle Difuso de Constitucionalidade. Estudos em Homenagem ao Ministro José Augusto Delgado. Coordenação Cristiano Carvalho e Marcelo Magalhães Peixoto. Curitiba, 2005. Juruá. pp. 581 a 599. 19Op. cit., p. 1265/1266 Fl. 342DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 343 24 revisão de seu conteúdo. A interpretação conforme a constituição tem, assim, os seus limites na ‘letra e na clara vontade do legislador’, devendo ‘respeitar a economia da lei’ e não podendo traduzirse na ‘reconstrução’ de uma norma que não esteja devidamente explícita no texto”.(grifei) Nesse mesmo sentido, concluiu o Tribunal Pleno do STF, nos autos da ADI 3046/SP20: “III. Interpretação conforme a Constituição: técnica de controle de constitucionalidade que encontra o limite de sua utilização no raio das possibilidades hermenêuticas de extrair do texto uma significação normativa harmônica com a Constituição.” Importa ponderar, noutro giro, que nem a interpretação conforme nem qualquer outro método de controle da constitucionalidade admite que o intérprete inove em relação ao texto da lei, conforme deixou claro o Pretório Excelso na decisão proferida nos autos da Representação no 1.417721: “O princípio da interpretação conforme a Constituição (Verfassungskonforme Auslegung) é princípio que se situa no âmbito do controle da constitucionalidade e não apenas simples regra de interpretação. A aplicação desse princípio sofre, porém, restrições, uma vez que, ao declarar a inconstitucionalidade de uma lei em tese, o STF em sua função de Corte Constitucional atua como legislador negativo, mas não tem o poder de agir como legislador positivo para criar norma jurídica diversa da instituída pelo Poder Legislativo. Por isso, se a única interpretação possível para compatibilizar a norma com a Constituição contrariar o sentido inequívoco que o Poder Legislativo lhe pretendeu dar, não se pode aplicar o princípio da interpretação conforme à Constituição que implicaria, em verdade, criação de norma jurídica, o que é privativo do legislador positivo. (...) No caso, não se pode aplicar a interpretação conforme a Constituição por não se coadunar essa com a finalidade inequivocamente colimada pelo legislador, expressa literalmente no dispositivo em causa, e que dele ressalta pelos elementos da interpretação lógica.” (os grifos constam do original) Nessa linha, importa relembrar, que, como é cediço, no Regime Constitucional vigente, o “remédio” contra a omissão do legislador que ameace a efetividade dos direitos e garantias, não é a criação ou alteração do texto legal, por qualquer dos meios de controle da constitucionalidade, mas o Mandado de Injunção, 20 Relator Min. Sepúlveda Pertence (resp. pelo acórdão), DJ 28.05.2004. 21 Relator Min. Moreira Alves, DJ 15.04.1988. Fl. 343DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 344 25 ex vi do art. 5º, caput, inciso VXXI e §1º22. Nem a Ação de Inconstitucionalidade por Omissão, definida no § 2o do art 103, tem o efeito positivo ou inovador aplicado no voto do qual se discorda. Não se vê, portanto, como, em sede de recurso voluntário, conciliar a pretensão do interessado e a aplicação da legislação como se encontra vigente. Todavia, devese reconhecer que, na jurisprudência dos antigos conselhos de contribuintes, proliferaramse teses e mais teses criando várias outras hipóteses de marco inicial da contagem desse prazo. Como exemplo, podese citar a data da publicação da resolução do Senado nos casos em que o indébito decorresse de lei declarada inconstitucional em controle difuso pelo STF; a data do dispositivo legal23, por meio do qual a administração teria reconhecido o direito de não mais se pagar o tributo inconstitucional; a tese do 5 mais 5 e por aí vai. Entretanto, com a edição da Lei Complementar nº 118, de 09/02/2005, cujo artigo 3º deu interpretação autêntica ao art. 168, inciso I, do Código Tributário Nacional, estabelecendo que a extinção do crédito tributário ocorre, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, no momento do pagamento antecipado de que trata o art. 150, § 1º, da Lei nº 5.172/1966, o único entendimento possível é o trazido na novel lei complementar. Esclareçase, por oportuno, que em se tratando de norma expressamente interpretativa, deve ser obrigatoriamente aplicada aos casos não definitivamente julgados, por força do disposto no art. 106, I, do CTN. Aliás, não se pode olvidar que o entendimento segundo o qual o termo inicial da prescrição é a data da extinção do crédito tributário pelo pagamento era o adotado pelo STF antes de a competência para apreciar este tipo de matéria passar para o STJ. Aqui sobreleva citar as palavras do Ministro Marco Aurélio de Mello proferida na votação do RE acima transcrito: O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO Presidente, diria mesmo que a Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça foi surpresada com os embargos declaratórios e a veiculação da matéria, isso porque o caso não é simplesmente de aplicação da lei no tempo, mas, sim, de afastamento peremptório de preceito que revelou, ou melhor, explicitou mais ainda, se é que era preciso, o princípio segundo o qual a prescrição tem como termo inicial a data do nascimento da ação. E se afastou a Lei 22 LXXI concederseá mandado de injunção sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania; § 1º As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata. 23 Pacificouse, noutro giro, o entendimento de que, independentemente da modalidade de controle da constitucionalidade, considerase como início da contagem do prazo prescricional a data da publicação da lei que dispense os agentes públicos de adotar providências tendentes à cobrança dos tributos declarados inconstitucionais. Fl. 344DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 345 26 Complementar nº 118/2005, mais precisamente o artigo esclarecedor, artigo 4º, no que remeteu ao artigo 106, inciso I, do Código Tributário Nacional, que versa, justamente, a aplicação da lei a ato ou fato pretérito, em qualquer hipótese, quando seja expressamente para mim, ela foi simplesmente interpretativa interpretativa, excluída a aplicação de penalidade no caso de infração. Aqui estamos diante daquela situação concreta em que se dobrou o prazo alusivo à prescrição mediante uma interpretação inteligente, sem dúvida alguma, mas que, a meu ver, de início, não se coaduna com o que se contém no Código Tributário Nacional. Acompanho, integralmente, o relator no voto proferido, em situação que viria a ser apanhada pelo nosso verbete. Em outro giro, embora não concorde com a tese dos 5 + 5 adotada pelo Superior Tribunal de Justiça, por entender que a homologação tem efeitos declaratórios, e, portanto, seus efeitos retroagem à data do pagamento,devese reconhecer que tal tese tem sua lógica, posto que, assim como o CTN, o termo inicial é a data da extinção do crédito tributário. A divergência reside na interpretação de quando se deu essa extinção. Aqui, ao contrário das demais teses adotadas para refutar o disposto no art. 168 do CTN, parte deste dispositivo e, como dito linhas acima, interpretao de forma a fixar quando se deu o evento da extinção do crédito tributário. Não se inventou nada, apenas se interpretou a lei. Interpretação esta, a meu sentir, não escorreita, já que diferenciada da que foi dada pelo legislador. De qualquer sorte, na interpretação do STJ, continua valendo o marco estabelecido no CTN, o que varia é o momento em que ele se deu, já nas teses outras, aqui combatida, o interprete buscou outro termo de início, sem qualquer pertinência com o estabelecido em lei. Gizese que nenhum tribunal pátrio abriga hoje em dia qualquer dessas teses inovadoras adotadas nos antigos Conselhos de Contribuintes, já que o STJ, a partir de novembro de 2005, espancou qualquer tese que não tivesse como marco temporal da prescrição a data da extinção do crédito tributário, e consolidou a posição de que a decretação da inconstitucionalidade pelo STF ou a edição de resolução do Senado não exercem qualquer influência sobre a contagem do prazo de prescrição. Vejamos: EREsp na 435.835 / SC SC 24: CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. LEI N° 7.787/89. COMPENSAÇÃO. PRESCRIÇÃO. DECADÊNCIA. TERMO INICIAL DO PRAZO. PRECEDENTES. 1.Está uniforme na Ia Seção do STJ que, no caso de lançamento tributário por homologação e havendo silêncio do Fisco, o prazo 24 Relator (para o acórdão): Ministro José Delgado, julgado em 24/03/2004, publicado no DJ de 04/06/2007; Fl. 345DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 346 27 decadencial só se inicia após decorridos 5 (cinco) anos da ocorrência do fato gerador, acrescidos de mais um qüinqüênio, a partir da homologação tácita do lançamento. Estando o tributo em tela sujeito a lançamento por homologação, aplicamse a decadência e a prescrição nos moldes acima delineados. 2.Não há que se falar em prazo prescricional a contar da declaração de inconstitucionalidade pelo STF ou da Resolução do Senado. A pretensão foi formulada no prazo concebido pela jurisprudência desta Casa Julgadora como admissível, visto que a ação não está alcançada pela prescrição, nem o direito pela decadência. Aplicase, assim, o prazo prescricional nos molde sem que pacificado pelo STJ, id est, a corrente dos cinco mais cinco. AgRg no REsp 852086 / RJ25: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL. ADMINISTRADORES E AUTÔNOMOS. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PRESCRIÇÃO. PRAZO. I Nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo prescricional para se pleitear a compensação ou a restituição do crédito tributário somente se opera quando decorridos cinco anos da ocorrência do fato gerador, acrescidos de mais cinco anos, contados a partir da homologação tácita, em nada influenciando o termo inicial da prescrição, a declaração de inconstitucionalidade da exação, pelo STF, seja em controle difuso ou concentrado, conforme restou decidido no julgamento dos EREsp n° 435.835/SC, Rei. p/ acórdão Min. JOSÉ DELGADO, julgado em 24/03/2004. REsp 841652 / PR 26: TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. COFINS.PRESCRIÇÃO. SOCIEDADE CIVIL. ISENÇÃO. ACÓRDÃO VERGASTADO.ENFOQUE EMINENTEMENTE CONSTITUCIONAL. COMPETÊNCIA DO STF. Nos tributos lançados por homologação, o prazo para a propositura da ação de repetição de indébito será de dez anos a contar do fato gerador, se a homologação for tácita (tese dos "cinco mais cinco"), e de cinco anos a contar da homologação, se expressa. Precedentes. O Tribunal a quo negou a pretensão recursal sob enfoque eminentemente constitucional, cujo reexame é da competência exclusiva do STF. Recurso especial conhecido em parte e improvido. De outro modo não poderia ser, pois ao se deslocar o prazo de prescrição da data da extinção do crédito tributário para 25 Relator: Ministro Castro Meira, julgado em 17/05/2007, publicado no DJ de 29.05.2007. 26 Relator: Ministro Castro Meira, julgado em 17/05/2007, publicado no DJ de 29.05.2007. Fl. 346DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 347 28 qualquer outra data, estarseia criando direito novo, totalmente incompatível com o CTN, e também, com o art. 146 da Constituição da República. Impõese ressaltar que o interprete não pode dar à norma um alcance maior do que a ela o legislador não deu, sob pena de se transformar o ato de interpretar em ato de legislar. Aquele, da alçada do aplicador da lei; esse, com exclusividade, da do legislador. Sobre a tese do termo de início ser deslocado da extinção do crédito tributário, para a data da publicação da resolução do Senado que retirou do mundo jurídico a lei declarada inconstitucional pelo STF, devese esclarecer que ela encontra se totalmente desvinculada da jurisprudência de nossos tribunais, bem como da boa doutrina, como se pode ver a seguir. Regina Maria Macedo Nery Ferrari27, apoiada na doutrina de Oswaldo Aranha Bandeira de Melo28, leciona que a Resolução Senatorial que dá efeitos erga omnes à decisão do STF que declara a inconstitucionalidade de lei teria efeito constitutivo e, nessa condição, somente após a publicação surtiria efeitos para as partes que não integraram o litígio. O Conselheiro Luis Marcelo, no aludido voto proferido na Terceira Câmara do Terceiro Conselho, aduz que um dos efeitos que pode ser afastado de plano é o da imprescritibilidade, característica própria da ADI e das demais ações de cunho declaratório. Todavia, depois da suspensão efetuada pelo Senado, perde a lei ou ato normativo sua eficácia; perde sua executoriedade, vale dizer, a sua revogação, e, a partir daí, não mais pode ser considerada em vigor. Ora, parecenos claro, dentro de tal colocação de idéias, que só a partir dessa suspensão é que a lei perde a eficácia, o que nos leva a admitir seu caráter constitutivo. A lei até tal momento existiu e, portanto, obrigou, criou direitos, deveres, com toda sua carga de obrigatoriedade, e só a partir do ato do Senado é que ela vai passar a não obrigar mais, já que, enquanto tal providência não se concretizar, pode o próprio Supremo, que decidiu sobre sua invalidade, alterar seu entendimento, conforme manifestação dos próprios ministros do Supremo, em voto proferido na decisão do Mandado de Segurança 16.512, de maio de 1966. Assim sendo, não estão com a razão aqueles que consideram ter efeito retroativo a suspensão pelo Senado, pois, se não podemos negar o caráter normativo de tal ato, o mesmo, embora não se confunda com a revogação, opera como ela, já que retira, por disposição constitucional, a eficácia da lei ou ato normativo tido por inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. 27 Efeitos da Declaração de Inconstitucionalidade. São Paulo, Revista dos Tribunais, 2004, 5ª ed., p. 205. 28 A Teoria das Constituições Rígidas, apud Efeitos da Declaração de Inconstitucionalidade. São Paulo, Revista dos Tribunais, 2004, 5ª ed. Fl. 347DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 348 29 José Afonso da Silva29, apoiado em doutrinadores da envergadura de Pontes de Miranda, Alfredo Buzaid e Themístocles Brandão Cavalcanti, esclarece que: O problema deve ser decidido, pois, considerandose dois aspectos. No que tange ao caso concreto, a declaração surte efeitos ex tunc, isto é, fulmina a relação jurídica fundada na lei inconstitucional desde o seu nascimento. No entanto, a lei continua eficaz e aplicável, até que o Senado suspenda sua executoriedade; essa manifestação do Senado, que não revoga nem anula a lei, mas simplesmente lhe retira a eficácia, só tem efeitos, daí por diante, ex nunc. Pois, até então, a lei existiu. Se existiu, foi aplicada, revelou eficácia, produziu validamente seus efeitos. O Ministro Teori Albino Zavascki30, em obra dedicada ao tema, citado no voto do Conselheiro Luis Marcelo, estabelece limites temporais para o poder vinculativo advindo da Resolução Senatorial, a saber: Em qualquer caso, o efeito vinculante da declaração de inconstitucionalidade é, sob o aspecto temporal, logicamente posterior ao efeito da inconstitucionalidade em si: esta é ex tunc, desde a edição da norma; aquele só é vinculante a partir do ato do qual decorre, que é superveniente à norma inconstitucional [Essa linha de entendimento norteou o acórdão do Supremo Tribunal Federal no Recurso em Mandado de Segurança 17.976, Relator Min. Amaral Santos (julgamento de 13.09.68), em cujo voto está dito que 'a suspensão da vigência da lei por inconstitucionalidade torna sem efeito os atos praticados sob o império da lei inconstitucional. Contudo, a nulidade da decisão transitada em julgado só pode ser declarada por via de ação rescisória'. Esclareceu o Min. Eloy da Rocha, na oportunidade, que 'a suspensão da execução da lei, pelo Senado, tem efeito ex nunc']. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça31, sobre o tema, firmouse no seguinte sentido: REsp nº 547.744/MG32: Como a ADIN é imprescritível, todas as ações que tiverem por objeto direitos subjetivos decorrentes de lei cuja constitucionalidade ainda não foi apreciada, ficariam sujeitas à reabertura do prazo de prescrição, por tempo indefinido. Assim, disseminariase a imprescritibilidade no direito, tornando os direitos subjetivos instáveis até que a constitucionalidade da lei 29 Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo. Malheiros, 1994, 10ª ed., p. 57. 30 Eficácia das Sentenças na Jurisdição Constitucional. São Paulo. Revista dos Tribunais, 2001, pp. 81101 31 jurisprudência trazida à colação no voto proferido pelo Conselheiro Luis Marcelo Guerra de Castro, no voto proferido no julgamento do Recurso Voluntário nº 133.010, da Terceira Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes. 32 Publicado no DJ de 09/12/2003, Relator: Ministro Luiz Fux. Fl. 348DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 349 30 seja objeto de controle pelo STF. Ocorre que, se a decadência e a prescrição perdessem o seu efeito operante diante do controle direto de constitucionalidade, então todos os direitos subjetivos tornarseiam imprescritíveis. A decadência e a prescrição rompem o processo de positivação do direito, determinando a imutabilidade dos direitos subjetivos protegidos pelos seus efeitos, estabilizando as relações jurídicas, independentemente de ulterior controle de constitucionalidade da lei. (grifei) O acórdão em ADIN que declarar a inconstitucionalidade da lei tributária serve de fundamento para configurar juridicamente o conceito de pagamento indevido, proporcionando a repetição do débito do Fisco somente se pleiteada tempestivamente em face dos prazos de decadência e prescrição: a decisão em controle direto não tem o efeito de reabrir os prazos de decadência e prescrição. Descabe, portanto, justificar que, com o trânsito em julgado do acórdão do STF, a reabertura do prazo de prescrição se dá em razão do princípio da actio nata. Tratase de petição de princípio: significa sobrepor como premissa a conclusão que se pretende. O acórdão em ADIN não faz surgir novo direito de ação ainda não desconstituído pela ação do tempo no direito. Respeitados os limites do controle da constitucionalidade e da imprescritibilidade da ADIN, os prazos de prescrição do direito do contribuinte ao débito do Fisco permanecem regulados pelas três regras que construímos a partir dos dispositivos do CTN. (grifei) O Ministro Teori Albino Zavascki, em declaração de voto proferida nos autos EREsp n° 423.994/MG33, entendeu que: Em suma, não há como afirmar que a declaração de inconstitucionalidade, notadamente quando formulada em controle difuso, importe, no plano da norma, qualquer efeito extintivo ou modificativo. A norma permanece nula, como sempre foi. Também nenhum efeito dessa espécie ocorre no plano das relações jurídicas individuais (salvo, evidentemente, a que envolve as partes diretamente vinculadas à ação individual proposta). Mas, mesmo havendo sentença de inconstitucionalidade proferida em ação de controle concentrado, as relações jurídicas individuais formadas inconstitucionalmente (como, v. g., o pagamento de um tributo inconstitucional), não são diretamente atingidas pela declaração e muito menos desfeitas de modo automático. A seu turno, o Ministro Gilmar Ferreira Mendes34, sobre os efeitos desconstitutivos da sentença proferida em sede de controle da constitucionalidade, pondera: Não se está a negar caráter de princípio constitucional ao princípio da nulidade da lei inconstitucional. Entendese, porém, 33 Publicado no DJ de 05/04/2004. 34 Jurisdicão Constitucional. Brasilia. Forense. 2005, 5ª edição, pp. 333 e 334. Fl. 349DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 350 31 que tal princípio não poderá ser aplicado nos casos em que se revelar absolutamente inidôneo para a finalidade perseguida (casos de omissão; exclusão de benefício incompatível com o princípio da igualdade), bem como nas hipóteses em que a sua aplicação pudesse trazer danos para o próprio sistema jurídico constitucional (grave ameaça à segurança jurídica). (...) Acentuese, desde logo, que, no direito brasileiro, jamais se aceitou a idéia de que a nulidade da lei importaria na eventual nulidade de todos os atos que com base nela viessem a ser praticados. Embora a ordem jurídica brasileira não disponha de preceitos semelhantes aos constantes do § 79 da Lei do Bundesverfassungsgericht que prescreve a intangibilidade dos atos não mais suscetíveis de impugnação, não se deve supor que a declaração de inconstitucionalidade afete todos os atos praticados com fundamento na lei inconstitucional. Embora o nosso ordenamento não contenha regra expressa sobre o assunto e se aceite, genericamente, a idéia de que o ato fundado em lei inconstitucional está eivado, igualmente, de iliceidade concedese proteção ao ato singular, em homenagem ao princípio da segurança jurídica, procedendose à diferenciação entre o efeito da decisão no plano normativo (Normebene) e no plano do ato singular (Einzelaktebene) mediante a utilização das chama das fórmulas de preclusão. De qualquer sorte, os atos praticados com base na lei inconstitucional que não mais se afigurem suscetíveis de revisão não são afetados pela declaração de inconstitucionalidade. (os grifos não constam do original) Nesse mesmo sentido é a doutrina de JJ Canotilho35: Pode também entenderse que os limites à retroactividade se encontram na definitiva consolidação de situações, actos, relações, negócios a que se referia a norma declarada inconstitucional. Se as questões de facto ou de direito regulados pela norma julgada inconstitucional se encontram definitivamente encerradas porque sobre elas incidiu caso julgado judicial, porque se perdeu um direito por prescrição ou caducidade, porque o acto se tornou inimpugnável, porque a relação se extinguiu com o cumprimento da obrigação, então a dedução de inconstitucionalidade, com a conseqüente nulidade ipso jure, não perturba, através da sua eficácia retroactiva, esta vasta gama de situações ou relações consolidadas. Como bem asseverou o Conselheiro Luis Marcelo, no voto já citado linhas acima: (...) um exemplo claro da aplicação das chamadas normas de preclusão pode ser extraído da decisão proferida nos autos do 35 Canotilho, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional, apud Jurisdição Constitucional. Brasília. Forense. 2005, 5ª edição, p. 388. Fl. 350DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 351 32 Resp nº 686.05836 MG, em que se discutia o cabimento de ação rescisória em face da decretação da inconstitucionalidade de lei que fundamentou a sentença: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. EFICÁCIA TEMPORAL DA COISA JULGADA. DESCONSTITUIÇÃO DOS EFEITOS PRETÉRITOS DE SENTENÇA TRANSITADA EM JULGADO, TENDO EM VISTA A POSTERIOR DECLARAÇÃO PELO STF, EM CONTROLE DIFUSO, DA INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI EM QUE SE FUNDA. IMPRESCINDIBILIDADE DA AÇÃO RESCISÓRIA. SUSPENSÃO DA EXECUÇÃO DAS NORMAS PELO SENADO FEDERAL. MODIFICAÇÃO NO ESTADO DE DIREITO QUE FAZ CESSAR, DESDE A EDIÇÃO DA RESOLUÇÃO, AUTOMATICAMENTE, A FORÇA VINCULANTE DO PROVIMENTO JURISDICIONAL. (...) 4. Em nosso sistema, as decisões tomadas em controle difuso de constitucionalidade, ainda que pelo STF, limitam sua força vinculante às partes envolvidas no litígio. Não afetam, por isso, de forma automática, como decorrência de sua simples prolação, eventuais sentenças transitadas em julgado em sentido contrário, para cuja desconstituição é indispensável o ajuizamento de ação rescisória. 5. A edição de Resolução do Senado Federal suspendendo a execução das normas declaradas inconstitucionais, contudo, confere à decisão in concreto efeitos erga omnes, universalizando o reconhecimento estatal da inconstitucionalidade do preceito normativo, e acarretando, a partir de seu advento, mudança no estado de direito capaz de sustar a eficácia vinculante da coisa julgada, submetida, nas relações jurídicas de trato sucessivo, à cláusula rebus sic stantibus. 6. No caso concreto, temse ação ordinária por meio da qual se busca desconstituir os efeitos pretéritos da aplicação do art. 3º, I, da Lei 7.787∕89, emanados de sentença transitada em julgado, invocando a posterior declaração de sua inconstitucionalidade pelo STF em controle difuso. Uma vez esgotado, porém, o prazo para a propositura da ação rescisória, tal intento é inviável.(grifei) Conclui o ilustre Conselheiro: (...) ainda que se discutam os efeitos da declaração de inconstitucionalidade, tornouse pacífico na jurisprudência da Corte Constitucional, que a reclamada nulidade só atinge o ato que ainda encontra condições de ser revisto, o que não ocorre, v.g. com aquele atingido pela prescrição. Como prova de tais 36 Relator designado: Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 19/10/2006, publicado no DJ de 16/11/2006. Fl. 351DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 352 33 conclusões, o reconhecido constitucionalista, cita voto proferido pelo Ministro Rodrigues Alckmin, nos autos do RE 86.05637: Não contendo a ordem jurídica brasileira disciplina geral sobre o direitodever de revogar ou anular os atos administrativos ou sobre o prazo dentro do qual isso possa ocorrer afigurase difícil afirmar, com segurança, o dever do Poder Público de anular todos os atos praticados com base na lei inconstitucional. É certo que, por analogia, poderseia cogitar da aplicação dos prazos prescricionais a essa situação, de modo que seria admissível o dever de a Administração proceder à revisão apenas dos atos ainda suscetíveis de impugnação na via judicial. Releva ainda mencionar a posição do Ministro Teori Zavascki, em voto proferido no EREsp n° 423.994/MG38: O caso dos autos é paradigmático, porque põe em confronto duas orientações do STJ, adotadas há muito tempo, mas que, em se tratando de tributo sujeito a lançamento por homologação, se mostram incompatíveis, expondo a fragilidade dos fundamentos que as sustentam. Tal fragilidade reside, segundo penso, na circunstância de terem, ambas, se assentado sobre bases que desconsideram inteiramente um princípio universal em matéria de prescrição: o princípio da actio nata, segundo o qual a prescrição se inicia com o nascimento da pretensão ou da ação (Pontes de Miranda, Tratado de Direito Privado, Bookseller Editora, 2.000, p. 332). Realmente, ocorrendo o pagamento indevido, nasce desde logo o direito a haver a repetição do respectivo valor, e, se for o caso, a pretensão e a correspondente ação para a sua tutela jurisdicional. Direito, pretensão e ação são incondicionados, não estando subordinados a qualquer ato do Fisco ou a decurso de tempo.(grifei) (...) Por tais razões, não se pode justificar, do ponto de vista constitucional, a orientação segundo a qual, relativamente à repetição de tributos inconstitucionais, o prazo prescricional somente corre a partir da data da decisão do STF que declara a sua inconstitucionalidade. Isso significaria, conforme já se disse, atribuir eficácia constitutiva àquela declaração. Significaria, também, atrelar o início do prazo prescricional não a um termo (= fato futuro e certo), mas a uma condição (= fato futuro e incerto). Não haveria termo a quo do prazo, e sim condição suspensiva. Isso equivale a eliminar a própria existência do prazo prescricional de cinco anos previsto no art. 168 do CTN, já que, sem termo "a quo", o termo "ad quem" será indeterminado. O prazo prescricional será incerto, aleatório e eventual, já que, se ninguém tomar a iniciativa de provocar jurisdicionalmente a declaração de inconstitucionalidade, não estará em curso prazo prescricional algum, mesmo que o 37 DJ 01/07/1977. 38 Julgado em 08/10/2003, publicado no DJ de 05/04/2004. Fl. 352DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 353 34 recolhimento do tributo indevido tenha ocorrido há cinco, dez ou vinte anos. Em palestra proferida no XX CONGRESSO BRASILEIRO DE DIREITO TRIBUTÁRIO, publicada na revista RDT da Malheiros, o Professor e Doutor Eurico de Santi, com a costumeira maestria, demonstra que a prescrição para repetir tributo tem como termo inicial a data da extinção do crédito tributário pelo pagamento. Com a palavra o mestre de Santi: 3. Desafios da interpretação I, “o início do caos”: a origem da tese dos 10 anos IR, IPI, ICMS, ISS, IPVA etc, demais contribuições e outros tributos, sujeitos ao lançamento por homologação, sempre tiveram suas leis discutidas e os respectivos indébitos reconhecidos em nome do princípio da legalidade, mas sempre sujeitos ao limite temporal desse controle da legalidade, balizado pela regra de prescrição do direito à repetição do indébito, cujo prazo desde a CF67 foi de 5 anos, contados do momento pagamento indevido. Assim foi recepcionada na CF/88, a regra do Art. 168 do CTN: “O direito de pleitear a restituição extinguese com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados: (...) I – nas hipóteses do inciso I (“pagamento espontâneo de tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável”) e II do art. 165, da data da extinção do crédito tributário”. Sendo que, por quase trinta anos, doutrina e jurisprudência foram uníssonas no entendimento de que o dies a quo deste prazo é o momento do pagamento indevido, i.é, a data da extinção do crédito: a regra parecia tão clara que sequer se falava de interpretação (tampouco em “tese”), passavamse 5 anos e, simplesmente, “ocorria” a prescrição do direito de repetir o indébito (por exemplo, no TIT, decadência e prescrição sequer precisavam de paradigmas, no recurso especial). Tudo começou com o reconhecimento, pelo STF, da inconstitucionalidade do Art. 10, primeira parte, do Decretolei nº 2.288/86, que instituiu o controvertido empréstimo compulsório sobre consumo de combustíveis, justamente, depois de esgotado o prazo para propositura da ação de repetição do indébito deste tributo – i.é, cinco anos contados da data da extinção do crédito tributário ex vi do Art. 168, I, do CTN. Deveras, o simples fato era que havia ocorrido a prescrição: bastava aplicar, então, a clara regra prevista no Art. 168 do CTN. É por isso que as regras de prescrição elegem em seus suportes facticos o tempo, o tempo é um fator objetivo e indiscutível: todos tendem a concordar com os dias do calendário e com os ponteiros do relógio: assim, pela legalidade da prescrição, a tipicidade do tempo realiza a segurança jurídica em detrimento da própria legalidade do tributo. Fl. 353DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 354 35 Além disso, convenhamos, tratavase de um tributo irrelevante, contingente e provisório: o empréstimo compulsório sobre combustíveis. Que, alías, enquanto empréstimo, mesmo passado o prazo de ação para questionar o indébito tributário, ensejaria, simplesmente, a exigência do cumprimento de sua claúsula de restituição, tal qual prevista na lei instituidora: novamente, bastava aplicar a lei. 4. Ruptura da legalidade: a sede de fazer justiça! Mas a sede de “justiça” foi maior. Assim, em nome da luta pela reparação da ilegalidade do empréstimo compulsório, corrompeuse sistemicamente, a legalidade da regra de prescrição, disciplinada na própria Constituição ex vi do Art. 146, III, “c”. A partir daí, os prazos de decadência e prescrição, que tem na segurança jurídica sua única razão de existir servindo como técnicas de limitação do próprio princípio da legalidade encontraramse modificados por mera tese. Assim, sem a devida lei complementar e mediante mera e contingente interpretação, alterouse o prazo de prescrição de praticamente todos nossos tributos federais, estaduais e municipais. Tudo, decorrência de uma criativa e sedutora tese que clamava por “Justiça”. E o STJ fez sua justiça salomônica: tese de 10 para cá, tese de 10 para lá. E todos nós ficamos no meio! Até hoje incertos do prazo, mas sempre certos que somos sempre nós, contribuintes, que pagamos a conta. Não lutamos contra gigantes abstratos, o Estado é um moinho concreto que se alimenta do nosso trabalho: é nosso dinheiro que entra; e bem ou mal, é nosso dinheiro que sai para prover o numerário para as restituições de indébito pleiteadas. E se a carga tributária aumenta, é, também, porque alguém tem que pagar mais, para que outros, ou os mesmos, possam restituir mais. Assim, corrompendose a legalidade em nome da legalidade, mas em absurdo desrespeito a segurança jurídica, o termo inicial do prazo deixou de ser o “pagamento antecipado” e passou a ser o momento da homologação tácita ou expressa desse pagamento, sob a alegação de que a extinção do crédito só se realiza com a ulterior homologação do pagamento, ex vi do Art. 156, VII do CTN. Firmouse, assim, a denominada tese dos dez anos, conforme o seguinte acórdão do STJ: Embargos de Divergência em Recurso Especial nº 43.9955/RS Relator: Min. Cesar Asfor Rocha EMENTA: Tributário – Empréstimo Compulsório sobre a aquisição de combustíveis – DecretoLei nº 2.288/86 – Restituição Decadência – Prescrição – Inocorrência. Consoante entendimento fixado pela egrégia Primeira Seção, sendo o empréstimo compulsório sobre a aquisição de combustíveis sujeito a lançamento por homologação, à falta Fl. 354DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 355 36 deste, o prazo decadencial só começa a fluir após o decurso de cinco anos da ocorrência do fato gerador, somados de mais cinco anos, contados estes da homologação tácita do lançamento. Por sua vez, o prazo prescricional tem como termo inicial a data da declaração de inconstitucionalidade da Lei em que se fundamentou o gravame.”(DJ: 24/04/1995) 5. Restaurando a legalidade: dura lex, lex sed A efetivação do princípio da legalidade exige o respeito a sua tríplice dimensão: irretroatividade, reserva legal e tipicidade. A tese dos dez anos fere, num só golpe, estas três perspectivas: (i) corrompeu a irretroatividade, criando, projetando e introduzindo, no passado, novo critério legal de prescrição (como o efeito que agora se pretende com a LC 118, só que, aqui, mediante lei); (ii) desrespeitou, flagrantemente, a reserva legal, arrostando matéria de lei para a discrionariedade do Poder Judiciário, ignorando o princípio da separação dos Poderes; e (iii) afrontou a tipicidade do Art. 168, fundamental nas regras de decadência e prescrição, sobrepondo à clareza objetiva do critério da regra posta, a incerta subjetividade de valores contingentes. A legalidade se realiza no ato de aplicação, mas não muda. O artigo 168 sempre esteve lá, da mesma forma, e a LC 118 em nada o alterou. O prazo legal sempre foi, e continua sendo, de 5 anos a contar do pagamento antecipado: primeiro, porque pagamento antecipado não significa pagamento provisório à espera de seus efeitos, mas pagamento efetivo, realizado antes e independentemente de ato de lançamento; segundo, porque se interpretou o “sob condição resolutória da ulterior homologação do lançamento” de forma equivocada como se fosse, necessariamente, uma condição suspensiva que desloca o efeito do pagamento para a data da homologação39. Ocorre que o Art. 150 § 1º referese a “condição resolutiva” que, como tal, não impede a plena eficácia do pagamento antecipado que equivale, assim, para todos os efeitos à data da extinção do crédito tributário, no caso dos tributos sujeitos ao Art. 150 do CTN. Desta forma, é a data efetiva em que o contribuinte recolhe o valor, a título de tributo, que haverá de funcionar como dies a quo do prazo de prescrição. Em suma, legalmente, o contribuinte sempre gozou de cinco anos para pleitear o débito do Fisco, e nunca dez. 6. Concluindo: legalidade e as decisões judiciais HERBERT HART40, analisando a definitividade e a infalibilidade das decisões dos tribunais superiores, faz uma instigante 39 LUCIANO AMARO aponta a impropriedade técnica de o CTN dirigir a homologação como condição resolutiva: “Ora, os sinais aí estão trocados. Ou se deveria prever, como condição resolutória, a negativa de homologação (de tal sorte que, implementada essa negativa, a extinção restaria resolvida) ou teria de definirse, como condição suspensiva, a homologação (no sentido de que a extinção ficaria suspensa até o implemento da homologação). Direito tributário brasileiro, p. 344 40 O conceito de direito, p. 1556 Fl. 355DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 356 37 analogia com os jogos em que, num primeiro momento, não há a figura do juiz, mas que, quando instituído, funcionará como marcador oficial dos pontos e cujas decisões serão definitivas. Explica que nesse tipo de sistema passa a ocorrer um novo tipo de interação entre os actantes do jogo, que deixam de opinar sobre a pontuação ou sobre as regras do jogo, porque as determinações do marcador oficial são indisputáveis e definitivas. E continua: Não difere dessa situação os julgados do STJ (“marcador oficial”) com relação às regras do termo inicial do prazo de prescrição do direito ao indébito: é certo que a autoridade e a definitividade das decisões do STJ são inquestionáveis. Contudo, como ensina HERBERT HART41: “‘O resultado é o que o marcador diz que é’ não é uma regra de marcação: é uma regra que atribui autoridade e definitividade à aplicação por ele em casos concretos da regra de pontuação”. Não é a legalidade: é o simples efeito concreto da coisa julgada. Remanesce, assim, o seguinte problema, como diz o legendário titular da Cadeira de Jurisprudência da Universidade de Oxford: “o fato de as decisões oficiais em descompasso com a regra de jogo serem aceitas não significa que o jogo de críquete ou de basebol já não esteja a jogarse; por outro lado, se estas distorções forem freqüentes ou se o juiz repudiar a regra do jogo positivada, há que chegar um ponto em que, ou os jogadores não aceitam mais as determinações destoantes do marcador ou, se o fazem, o jogo vem a alterarse; já não é críquete ou basebol que se joga, mas “o jogo do Juiz” 42. Enfim, a partir do direito e da aplicação efetiva da legalidade, continuamos entendendo, como aliás vimos defendendo desde 23 de maio de 2000, que nunca coube falar em prazo de 10 anos: nem antes, nem depois da tese dos 10 anos; nem antes, nem depois da LC 118. Em suma, o prazo de prescrição no CTN e o direito continuam os mesmos: tudo não passou de um pesadelo e, agora, o dia está amanhecendo, há luz, e todos nós, acordados, podemos nos dar conta deste simples fato: os tribunais interpretam a lei, podendo até alterar sua eficácia legal, mas não alteram a lei... Outro ponto que clama por refutar a tese adotada no acórdão recorrido é o da total inversão da finalidade da prescrição. Explico: esse instituto extintivo do direito de ação, oriundo do direito civil, tem por escopo estabilizar as relações jurídicas e contribuir para a estabilidade social, na medida em que impede que conflitos jurídicos se perpetuem no tempo e passe de uma geração para outra. 41 O conceito de direito, p. 1569. 42 Tradução livre do original: The concept of law, Oxford university Press, 1961. Fl. 356DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 357 38 A tese adotada no acórdão recorrido, simplesmente, mantém a possibilidade de conflitos extintos em um passado distante sejam ressuscitados e venham assombrar a geração presente ou futura. Tomese, por exemplo, o caso da Lei nº 4.502/1964 – lei básica do IPI – que prevê a incidência desse tributo sobre produtos das indústrias gráficas. O Judiciário, sistematicamente, vem decidindo em sentido contrário, que sobre tais produtos incide apenas ISS, e não o imposto federal. A prevalecer a tese esposada no acórdão recorrido, se a União vier a editar qualquer ato dispensando a fiscalização de lançar o IPI sobre esses produtos, o prazo de prescrição do tributo pago desde 1964 seria reaberto, a partir desse ato, que passaria a ser o termo inicial da prescrição. Com isso, poderseia repetir eventuais indébitos relativos a tributos ocorridos no longínquo ano do golpe militar, ou seja, meio século depois. Tal fato acarretaria ônus insuportável aos cofres públicos, de tal monta que, a geração sobrevivente dos anos de chumbo sucumbiria ao caos financeiro decorrente dessa canhestra engenharia jurídica inventada para legitimar, ao arrepio da lei e da constituição, a devolução de um tributo pago por uma geração, que, aliás, dele se beneficiou. Por derradeiro, transcrevo excerto do voto do Luis Marcelo para refutar a tese que defende a renúncia da Fazenda Pública à prescrição. Outro ponto da matéria sob exame que foi objeto de análise pelo Superior Tribunal de Justiça, é a definição dos efeitos do ato governamental que, a teor do artigo 18 da Lei 10.522/2002, resultado de sucessivas conversões da Medida Provisória 1.110, de 1995, que dispensa a adoção de medidas tendentes à cobrança administrativa ou judicial dos tributos declarados inconstitucionais. Conforme já foi dito, este colegiado tem equiparado esses atos à confissão de indébito, capaz de interromper ou de caracterizar renúncia à prescrição que, nesses casos, militaria em favor da Fazenda Pública. Mais uma vez, peço vênia a meus pares para discordar de mais um dos pontos em que se baseia a tese vencedora ora contestada. Em primeiro lugar, penso, estribado na doutrina de Pontes de Miranda43, que é impossível estender, por analogia, as hipóteses de interrupção da prescrição taxativamente expressas na legislação tributária. Por outro lado, independentemente da indisponibilidade dos bens públicos, admitindo, apenas para argumentar, que os interesses em testilha fossem privados, é cediço que, nos termos 43 Tratado de direito privado, apud Eurico Marcos Diniz de Santi. Decadência e Prescrição do Direito do Contribuinte e a LC 118: Entre Regras e Princípios, in Temas de Direito Público — Estudos em Homenagem ao Ministro José Augusto Delgado. Coordenação Cristiano Carvalho e Marcelo Magalhães Peixoto. Curitiba. Juruá, 2005, pp 149 a 178. Fl. 357DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 358 39 da Lei nº 10.406, de 2002 (Novo Código Civil), o ato de renúncia44 deve ser interpretado restritivamente e que a renúncia tácita à prescrição somente se opera pela prática de atos incompatíveis com esse fato preclusivo45. Dessa forma, não consigo enxergar nos atos em questão os efeitos vislumbrados nos votos vencedores. Ao meu ver, no caso da medida provisória nº 1.110, de 1995, que, após sucessivas reedições, foi convertida na Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002, esse raciocínio ganha ainda mais força dada a ressalva expressa contida no § 3º do seu art. 1846. Nesse aspecto, transcrevo trecho do voto vencedor do Recurso Especial no 747.09147 “Sem razão, contudo. Em nosso sistema, considerado o princípio da indisponibilidade dos bens públicos, está assentado o entendimento de que a renúncia à prescrição já consumada em favor da Fazenda Pública não pode ser simplesmente tácita, daí porque, segundo orientação já antiga do próprio STF, é “incensurável a tese de que a renúncia da prescrição em favor da Fazenda Pública só possa fazerse por lei” (RE 80.153∕SP, Segunda Turma, Min. Leitão de Abreu, 13.10.1976). A doutrina posicionase em igual sentido: “O Poder Público pode renunciar a direito próprio, mas esse ato de liberalidade não pode ser praticado discricionariamente, dependendo de lei que o autorize. A renúncia tem caráter abdicativo e em se tratando de ato de renúncia por parte da Administração depende sempre de lei autorizadora, porque importa no despojamento de bens ou direitos que extravasam dos poderes comuns do administrador público” (NOBRE JUNIOR, Edilson Pereira. Prescrição: decretação de ofício em favor da Fazenda Pública in Revista Forense 345∕35). “A administração, uma vez consumado o prazo prescricional, não pode satisfazer o direito prescrito, salvo autorização legislativa, vez que isso importaria em liberalidade com o patrimônio público, que o executor da lei só pode praticar por determinação da própria lei” (CARVALHO, Selma Drumond. Aplicabilidade das normas sobre prescrição à Fazenda Pública in Informativo Jurídico Consulex, Volume 14, nº 40, página 11). No presente caso, o art. 18 da Lei 10.522∕2002 simplesmente dispensou “a constituição de créditos da Fazenda Nacional, a inscrição como Dívida Ativa da União e o ajuizamento da respectiva execução fiscal” relativamente à quota de 44Art. 114. Os negócios jurídicos benéficos e a renúncia interpretamse estritamente. 45Art. 191. A renúncia da prescrição pode ser expressa ou tácita, e só valerá, sendo feita, sem prejuízo de terceiro, depois que a prescrição se consumar; tácita é a renúncia quando se presume de fatos do interessado, incompatíveis com a prescrição. 46§ 3º O disposto neste artigo não implicará restituição ex officio de quantia paga. 47 Relator: Ministro Teori Albino Zavascki, publicado no DJ de 06/02/2006 Fl. 358DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13838.000066/0036 Acórdão n.º 9303000.674 CSRFT3 Fl. 359 40 contribuição para exportação para o café. Nada dispôs sobre renúncia a prescrição. Pelo contrário, em seu §3º expressamente dispôs que a dispensa nela prevista não autorizava a restituição ex officio de quantias já pagas. Portanto, além de não fazer menção alguma à renúncia à prescrição, a lei deixou claro que não abria mão, espontaneamente, dos valores já recebidos, muito menos, portanto, dos valores já recebidos e insuscetíveis de lhe serem exigidos por via judicial, quando consumada a prescrição. Em outras palavras: não houve renúncia alguma, nem expressa e nem tácita, mas, ao contrário, houve a clara e expressa manifestação no sentido de não abrir mão dos valores já recebidos. Diante do exposto e considerando que no período de apuração em análise o pedido foi protocolado após o transcurso do prazo quinquenal, contado a partir da extinção do crédito tributário pelo pagamento, é de se considerar a prescrição do direito de repetir o indébito pretendido pelo sujeito passivo no recurso ora em exame. Com essas considerações, voto no sentido de negar provimento ao recurso do sujeito passivo. Carlos Alberto Freitas Barreto Fl. 359DF CARF MF Impresso em 13/07/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/06/2015 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 10/07/2015 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO
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Numero do processo: 10670.001348/2004-17
Data da sessão: Tue Mar 09 00:00:00 UTC 2010
Ementa: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL - ITR
ITR - RECURSO ESPECIAL - ACÓRDÃO FUNDAMENTADO EM LAUDO DA EMATER - INEXISTÊNCIA DE DECISÃO CONTRÁRIA À EVIDÊNCIA DA PROVA DOS AUTOS - RECURSO NÃO CONHECIDO.
Não contaria à evidencia da prova dos autos, para desafiar recurso especial com base no artigo 7º, I, do Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais, o julgado que se louva em laudo subscrito por engenheiro florestal da EMATER para especificar as razões pelas quais não subsiste autuação de malha, feita em razão da parte autuada ter informado o VTN
menor daquele considerado nos registros da autoridade fiscal.
Recurso especial não conhecido.
Numero da decisão: 9202-000.490
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do recurso. Vencidos os Conselheiros Caio Marcos Candido, Gonçalo Bonet Allage, Elias Sampaio Freire e Carlos Alberto Freitas Barreto.
Matéria: ITR - ação fiscal - outros (inclusive penalidades)
Nome do relator: Moises Giacomelli Nunes da Silva
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ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL - ITR ITR - RECURSO ESPECIAL - ACÓRDÃO FUNDAMENTADO EM LAUDO DA EMATER - INEXISTÊNCIA DE DECISÃO CONTRÁRIA À EVIDÊNCIA DA PROVA DOS AUTOS - RECURSO NÃO CONHECIDO. Não contaria à evidencia da prova dos autos, para desafiar recurso especial com base no artigo 7 0, I, do Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais, o julgado que se louva em laudo subscrito por engenheiro florestal da EMATER para especificar as razões pelas quais não subsiste autuação de malha, feita em razão da parte autuada ter informado o VTN menor daquele considerado nos registros da autoridade fiscal. Recurso especial não conhecido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por aioria de votos, em não conhecer do recurso. Vencidos os Conselheiros Caio Marcos Ca dido, Gonçalo Bonet Allage, Elias Sampaio Freire e Carlos Alberto Freitas Ba. CARLOS ALBERTO F'' ' AS BA' 'ETO - Presidente 411111‘ MOISES • • 'w saA• ILVA — Relator 1 4 MAIO 2019EDITADO EM: Participaram, do presente julgamento, os Conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente), Susy Gomes Hoffmann (Vice-Presidente), Caio Marcos Candido, Gonçalo Bonet Allage, Julio César Vieira Gomes, Rogério de Lellis Pinto (suplente convocado), Moises Giacomelli Nunes da Silva, Francisco de Assis Oliveira Junior, Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira e Elias Sampaio Freire.Ausente, justificadamente, o Conselheiro Manoel Coelho Arruda Junior. Relatório Segundo o relatório de fls. 108 e seguintes, decidido por maioria, o laudo de avaliação de imóvel rural emitido pela EMATER/MG — Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais, se constitui em documento hábil para comprovar o valor da terra nua— VTN. Intimada do acórdão, a parte recorrente argumenta que tal documento não se constitui em prova hábil para identificar a existência de características particulares desfavoráveis do imóvel para justificar o VTN abaixo do arbitrado pela fiscalização. Argumenta a recorrente que o documento apresentado pela EMATER/MG não preenche os requisitos da Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT no que diz respeito aos métodos de avaliação e fontes de pesquisa. É o relatório. Voto Conselheiro MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Relator O recurso é tempestivo, na conformidade do prazo estabelecido pelo artigo 15 do Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria n° 147 de 25 de junho de 2007, do Ministro da Fazenda. Foi interposto por parte legítima e está devidamente fundamentado. Assim, conheço do recurso e passo ao exame do mérito. Pelo que se verifica dos temlos do recurso, este não aponta de forma direta e objetiva em que ponto o acórdão guerreado teria afrontado a evidência da prova. Dito acórdão vem alicerçado única e exclusivamente no argumento de que o laudo apresentado pela EMATER/MG não preenche os requisitos da NBR 8799 da ABNT, demonstrando os métodos de avaliação e as fontes de pesquisa. Assim, do que se extrai dos próprios fundamentos do recurso, este está a atacar questões relacionadas aos aspectos foimais do respectivo laudo e não a veracidade das informações nele constante. Ademais, o laudo de fls. 92 a 106 traz a descrição do imóvel, o mapa onde se localiza a gleba de terras, o nome de seu respectivo proprietário, fazendo referência que em relação à metodologia foi utilizado o método comparativo, segundo a NBR 8799 da ABNT, usando, para identificação do valor, o principio da similaridade. O mencionado laudo vem subscrito pelo técnico da EMATER/MG (engenheiro florestal) cuja Anotação de Responsabilidade Técnica — ART consta da fl. 98. Desta foima, ao contrário do que sustenta o recurso, o acórdão em questão baseou-se na única prova existente nos autos, decidindo conforme as informações que dela podem ser colhidas. Por oportuno, registro que se trata de auto de infração de malha, que não vem alicerçado em nenhuma prova e que tem como 2 Processo n° 10670.001348/2004-17 CSRF-T2 Acórdão n.° 9202-00.490 Fl. 2 fundamento o fato da parte recorrida ter informado na declaração do ITR valor menor daquele que a fiscalização arbitra para a região, sem que o mesmo esteja relacionado a quaisquer especificidades do imóvel tributado. O recurso previsto no inciso I, do artigo 70 do Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais, vigente à época (Portaria NF n° 147, de 25 de julho 2007) somente é cabível quando o acórdão recorrido decidir de forma contraria à prova dos autos. Nestas circunstancias, para que se admita o recurso especial com base em tal fundamento, é necessário que a decisão, de forma direta, negue aplicação da prova existente nos autos, situação que não se verifica no caso concreto, em que a decisão recorrida, tendo por norte o principio do livre convencimento do julgador, previsto no artigo 29, do Decreto n.° 70.235, louvou-se da prova não para refutá-la, mas sim para acolhê-la. ISTO POSTO, não tendo demonstrado a parte recorrente de que o acórdão recorrido contrariou a evidência da prova dos autos, não conheço do recurso. É o voto. • Moisés me -1 Nunes da 'lva. Relator 3
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Numero do processo: 15889.000072/2008-41
Data da sessão: Tue Apr 16 00:00:00 UTC 2013
Data da publicação: Thu Nov 14 00:00:00 UTC 2013
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Data do fato gerador: 01/03/1998, 31/07/2007
RECURSO COM MATÉRIA INOVADORA.
Recurso que apresenta espeque em matérias novas sem a existência de fatos novos fere o princípio do duplo grau de jurisdição.
No caso em exame a recorrente apresentou em seu recurso voluntário matérias dissociadas da impugnação, sem a existência de fatos novos.
AUTUAÇÃO COM BASE EM DOCUMENTOS DA RECORRENTE.
Deseja a Recorrente beneficiar-se de sua própria torpeza, sob o argumento de erro material e ou de fato na verificação de ausência de contribuição social de recolhimento de algumas rúbricas e em períodos descontínuos. Esquece, entretatno, que o levantamento foi realizado em documentos elaborados por ela mesma, que servem como confissão.
Numero da decisão: 2301-003.438
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, I) Por unanimidade de votos: a) em dar provimento parcial ao recurso, a fim de manter a responsabilidade pelo lançamento somente do contribuinte principal, nos termos do voto do Relator; b) em não conhecer dos demais argumentos do recurso, nos termos do voto do Relator.
MARCELO OLIVEIRA - Presidente.
(assinado digitalmente)
Wilson Antônio de Souza Côrrea - Relator.
(assinado digitalmente)
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcelo Oliveira (Presidente), Mauro Jose Silva, Wilson Antonio de Souza Correa, Bernadete de Oliveira Barros, Damião Cordeiro De Moraes, Leonardo Henrique Pires Lopes.
Nome do relator: WILSON ANTONIO DE SOUZA CORREA
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Data do fato gerador: 01/03/1998, 31/07/2007 RECURSO COM MATÉRIA INOVADORA. Recurso que apresenta espeque em matérias novas sem a existência de fatos novos fere o princípio do duplo grau de jurisdição. No caso em exame a recorrente apresentou em seu recurso voluntário matérias dissociadas da impugnação, sem a existência de fatos novos. AUTUAÇÃO COM BASE EM DOCUMENTOS DA RECORRENTE. Deseja a Recorrente beneficiar-se de sua própria torpeza, sob o argumento de erro material e ou de fato na verificação de ausência de contribuição social de recolhimento de algumas rúbricas e em períodos descontínuos. Esquece, entretatno, que o levantamento foi realizado em documentos elaborados por ela mesma, que servem como confissão.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, I) Por unanimidade de votos: a) em dar provimento parcial ao recurso, a fim de manter a responsabilidade pelo lançamento somente do contribuinte principal, nos termos do voto do Relator; b) em não conhecer dos demais argumentos do recurso, nos termos do voto do Relator. MARCELO OLIVEIRA - Presidente. (assinado digitalmente) Wilson Antônio de Souza Côrrea - Relator. (assinado digitalmente) Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcelo Oliveira (Presidente), Mauro Jose Silva, Wilson Antonio de Souza Correa, Bernadete de Oliveira Barros, Damião Cordeiro De Moraes, Leonardo Henrique Pires Lopes.
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Recurso que apresenta espeque em matérias novas sem a existência de fatos novos fere o princípio do duplo grau de jurisdição. No caso em exame a recorrente apresentou em seu recurso voluntário matérias dissociadas da impugnação, sem a existência de fatos novos. AUTUAÇÃO COM BASE EM DOCUMENTOS DA RECORRENTE. Deseja a Recorrente beneficiarse de sua própria torpeza, sob o argumento de erro material e ou de fato na verificação de ausência de contribuição social de recolhimento de algumas rúbricas e em períodos descontínuos. Esquece, entretatno, que o levantamento foi realizado em documentos elaborados por ela mesma, que servem como confissão. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, I) Por unanimidade de votos: a) em dar provimento parcial ao recurso, a fim de manter a responsabilidade pelo lançamento somente do contribuinte principal, nos termos do voto do Relator; b) em não conhecer dos demais argumentos do recurso, nos termos do voto do Relator. MARCELO OLIVEIRA Presidente. (assinado digitalmente) Wilson Antônio de Souza Côrrea Relator. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 88 9. 00 00 72 /2 00 8- 41 Fl. 383DF CARF MF Impresso em 18/11/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/10/2013 por WILSON ANTONIO DE SOUZA CORREA, Assinado digitalmente em 12/11/2013 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 23/10/2013 por WILSON ANTONIO DE SOUZA COR REA 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcelo Oliveira (Presidente), Mauro Jose Silva, Wilson Antonio de Souza Correa, Bernadete de Oliveira Barros, Damião Cordeiro De Moraes, Leonardo Henrique Pires Lopes. Fl. 384DF CARF MF Impresso em 18/11/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/10/2013 por WILSON ANTONIO DE SOUZA CORREA, Assinado digitalmente em 12/11/2013 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 23/10/2013 por WILSON ANTONIO DE SOUZA COR REA Processo nº 15889.000072/200841 Acórdão n.º 2301003.438 S2C3T1 Fl. 7 3 Relatório Crédito lançado contra a Recorrente que se refere às contribuições devidas à Seguridade Social, correspondentes à parte da empresa e às destinadas ao financiamento dos beneficios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, bem como às destinadas aos terceiros, não recolhidas oportuna e imperiosamente. Informa a Fiscalização que os valores foram apurados através das Folhas de Pagamentos de empregados e contribuintes individuais, recibos de férias, rescisões de contrato de trabalho e Guias de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social GFIP, no período de 03/1998 a 07/2007. Foram deduzidos os valores pagos a titulo de saláriofamília, salário maternidade e os valores recolhidos a titulo de retenção sobre notas fiscais de serviços. Com suas razões a Recorrente impugnou o lançamento, cujo qual foi julgado parcialmente procedente, pois as Autoridades Julgadoras verificaram que ocorreram lançamentos por homologação, razão pela qual aplicaram, quanto a decadência, a existência dela no prazo de cinco anos a contar da data do fato gerador, com fulcro no artigo 150, § 4 do CTN, ou seja, como o lançamento é de 12.DEZ.2007, até a competência 11/2002, ocorreu a homologação tácita, e, por conseqüência extinguiuse o direito de a Fazenda Pública efetuar o lançamento. Quanto os demais argumentos arrolados na impugnação a decisão singular os manteve na integra. Para melhor julgar, urge que se traga neste relatório as matérias arroladas na impugnação, sendo elas: : i) decadência; ii) que não há incidência de contribuição previdenciária sobre valores pagos pela Recorrente a estagiários; iii) que os valores relacionados com o salário maternidade, nas competências 04/2005, 05/2005, 06/2005, 07/2005 e 08/2005 foram pagos e não considerados no lançamento, e que deveriam ter sido deduzidos do montante; iv) insurgiuse também quanto aos juros aplicados Em 22 de outubro de 2008 tomou ciência e no dia 21 de novembro do mesmo ano aviou o presente recurso, alegando a existência de erro de fato e material causadores de ausência de elementos suficientes para determinar a exigência de diferenças de RAT nas competências ora cobradas. Eis em apertada síntese o relato do necessário. Fl. 385DF CARF MF Impresso em 18/11/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/10/2013 por WILSON ANTONIO DE SOUZA CORREA, Assinado digitalmente em 12/11/2013 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 23/10/2013 por WILSON ANTONIO DE SOUZA COR REA 4 Voto Wilson Antônio de Souza Côrrea Relator O presente Recurso Voluntário não acode os pressupostos de admissibilidade, razão pela qual, desde já, dele não conheço. Quanto a constituição no pólo passivo do presente PAF deve constar tão somente a Recorrente KEPLER WEBER INOX LTDA, eis que não existe nenhum outro figurante. Como se vê às fls. 169 em PDF, o MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL FISCALIZAÇÃO – N° 09420800F00 é direcionado tão somente contra a Recorrente e, igualmente o DEMONSTRATIVO DE EMISSÃO E PRORROGACÃO DE MPF, fls. 171, bem como o TIAF de fls. 173/5/7. Já o TEF de fls. 179 cometeu o equívoco de mencionar a Recorrente e Outros, cujos quais não aparecem nem intimados e tão pouco para defesa. Desta forma, cristalino está o equívoco cometido, devendo permanecer no pólo passivo do presente processo administrativo, tão somente a Recorrente KEPLER WEBER INOX LTDA. Quanto ao mérito do presente remédio recursal alega a Recorrente que das diferenças lançadas devese observar que houve erro de fato nos lançamentos e uma das evidências é que, do período de cinco anos, foram constatados somente débito de alguns meses demonstrando impossibilidade fática de isto ocorrer. E, outra evidência da ocorrência de erro de fato seria o fato de não se encontrar no lançamento, justificativa para a identificação de diferença de SAT/RAT. Diz que não houve levantamento nem conclusão sobre o PPRA e o LTCAT estar a identificar a presença de agente nocivo; não houve análise nem referência a relatórios médicos ou de exames; não houve acusação de que não manteriam relação de conformidade com os fatos nem com os relatórios médicos, nem com o PCMSO, nem com a Portaria 19/98; não houve análise nem referencia a Comunicações de Acidente de Trabalho; não foram pesquisados nem referidos na NFLD os registros de controle de entrega de EPIs, e o número do Certificado de Aprovação: não foram informadas decisões judiciais estivessem condenando o INSS a admitir período de trabalho como especial; e por último, nem justificada veio a base de cálculo utilizada na NFLD. Enfim, a Recorrente lançou se não foram todos, quase todos os desatinos possíveis para desqualificar a NFLD em destaque. Com toda a vênia que a Recorrente é merecedora, mas não olvidemos que, em que pese a perfulgência do recurso apresentado, o cerne dele, toda matéria trazida se trata de matéria inovadora nos autos do processo, haja vista que na impugnação trouxe as seguintes argumentações: i) decadência; ii) que não há incidência de contribuição previdenciária sobre valores pagos pela Recorrente a estagiários; iii) que os valores relacionados com o salário maternidade, nas competências 04/2005, 05/2005, 06/2005, 07/2005 e 08/2005 foram pagos e não considerados no lançamento, e que deveriam ter sido deduzidos do montante; iv) insurgiu se também quanto aos juros aplicados. Matéria diferente das ora arroladas no presente recurso. Fl. 386DF CARF MF Impresso em 18/11/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/10/2013 por WILSON ANTONIO DE SOUZA CORREA, Assinado digitalmente em 12/11/2013 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 23/10/2013 por WILSON ANTONIO DE SOUZA COR REA Processo nº 15889.000072/200841 Acórdão n.º 2301003.438 S2C3T1 Fl. 8 5 Realmente, as razões contidas no presente recurso voluntário estão totalmente dissociadas das alegações argumentadas na impugnação, que teve a sua análise para julgamento de primeiro grau, e, portanto, vindo para os autos agora, não há dúvida que fere o princípio do duplo grau de jurisdição e consumada está a preclusão da matéria antes não impugnada em tempo devido. Neste sentido, vide decisão antes adotada por este Colegiado de iguais teores que muitas outras acompanham: Processo 10675.001104/200818 Contribuinte RIBEIRO BARROSO CONST. ELETRICAS LTDA Relator(a) Nº Acórdão 2302002.387 Tributo / Matéria CPSS Contribuições para a Previdência e Seguridade Social Decisão Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros da 2ª TO/3ª CÂMARA/2ª SEJUL/CARF/MF/DF, por unanimidade, em conhecer parcialmente do Recurso Voluntário e, na parte conhecida, negarlhe provimento, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. Liége Lacroix Thomasi – Presidente Substituta. Arlindo da Costa e Silva Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Liége Lacroix Thomasi (Presidente Substituta de Turma), Wilson Antonio de Souza Correa, André Luis Mársico Lombardi, Juliana Campos de Carvalho Cruz e Arlindo da Costa e Silva. Ementa Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2006 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO VOLUNTÁRIO. IMPUGNAÇÃO INOVADORA. PRECLUSÃO. No Processo Administrativo Fiscal, dada à observância aos princípios processuais da impugnação específica e da preclusão, todas as alegações de defesa devem ser concentradas na impugnação, não podendo o órgão ad quem se pronunciar sobre matéria antes não questionada, sob pena de supressão de instância e violação ao devido processo legal. CERCEAMENTO DE DEFESA. GREVE. INOCORRÊNCIA. Não configura a greve dos servidores da Secretaria da Receita Federal do Brasil hipótese de cerceamento do direto de defesa do contribuinte, quando a repartição onde se encontra o processo permanecer aberta e disponível ao sujeito passivo para consulta os autos. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. AUTO DE INFRAÇÃO. ATO ADMINISTRATIVO. PRESUNÇÃO DE VERACIDADE E LEGALIDADE. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. Tendo em vista o consagrado atributo da presunção de veracidade que caracteriza os atos administrativos, gênero do qual o lançamento tributário é espécie, operase a inversão Fl. 387DF CARF MF Impresso em 18/11/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/10/2013 por WILSON ANTONIO DE SOUZA CORREA, Assinado digitalmente em 12/11/2013 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 23/10/2013 por WILSON ANTONIO DE SOUZA COR REA 6 do encargo probatório, repousando sobre o notificado o ônus de desconstituir o lançamento ora em consumação. Havendo um documento público com presunção de veracidade não impugnado eficazmente pela parte contrária, o desfecho há de ser em favor dessa presunção. Recurso Voluntário Negado Por fim, há ainda de se observar que a NFLD sob julgo teve como fato gerador os valores pagos aos segurados empregados e contribuintes individuais, apurados através de folhas de pagamento, recibos de férias, rescisões de contrato de trabalho e em GFIP. Tudo elaborado pela Recorrente, e, nos termos do § 10 do artigo 225 do Regulamento de Previdência Social, aprovado pelo Decreto n° 3.048/1999, se constitui em termo de confissão de divida. Então, se a Fiscalização realizou a autuação com base nos documentos elaborados pela própria Recorrente, não pode ela querer alegar que os documentos encontram se eivados. Portanto, não assiste razão a Recorrente e, dois são os motivos. Primeiro que as matérias aviadas no presente recurso tratamse de matérias novas nos autos do processo, completamente distorciadas das que foram aviadas na impugnação, agredindo frontalmente o duplo grau de jurisdição. Segundo que os documentos que serviram de base para autuação, são de lavra da própria Recorrente. CONCLUSÃO Diante do acima exposto, como o presente recurso voluntário atende os pressupostos de admissibilidade, dele conheço para manter no pólo passivo somente a Recorrente KEPLER WEBER INOX LTDA e no mérito NEGARLHE PROVIMENTO, mantendo na integra a decisão recorrida. É o voto. Wilson Antônio de Souza Côrrea Relator Fl. 388DF CARF MF Impresso em 18/11/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/10/2013 por WILSON ANTONIO DE SOUZA CORREA, Assinado digitalmente em 12/11/2013 por MARCELO OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 23/10/2013 por WILSON ANTONIO DE SOUZA COR REA
score : 1.0
Numero do processo: 10630.720361/2010-93
Data da sessão: Tue Jan 22 00:00:00 UTC 2013
Data da publicação: Fri Aug 16 00:00:00 UTC 2013
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005
PREVIDENCIÁRIO. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL. TERCEIROS.
A empresa/órgão público são obrigados a arrecadar e recolher, mediante desconto, as contribuições devidas ao SEST e SENAT, incidentes sobre as remunerações pagas aos segurados contribuintes individuais, transportadores autônomos, que lhe prestam serviços, no prazo estabelecido na legislação.
Recurso Voluntário Não Conhecido.
Numero da decisão: 2403-001.806
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso por intempestividade.
Carlos Alberto Mees Stringari-Presidente
Ivacir Júlio de Souza-Relator
Participaram do presente julgamento, os Conselheiros Carlos Alberto Mees Stringari, Ivacir Júlio de Souza, Paulo Maurício Pinheiro Monteiro, Marcelo Magalhães Peixoto, Carolina Wanderley Landim e Maria Anselma Coscrato dos Santos.
Nome do relator: IVACIR JULIO DE SOUZA
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005 PREVIDENCIÁRIO. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL. TERCEIROS. A empresa/órgão público são obrigados a arrecadar e recolher, mediante desconto, as contribuições devidas ao SEST e SENAT, incidentes sobre as remunerações pagas aos segurados contribuintes individuais, transportadores autônomos, que lhe prestam serviços, no prazo estabelecido na legislação. Recurso Voluntário Não Conhecido.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso por intempestividade. Carlos Alberto Mees Stringari-Presidente Ivacir Júlio de Souza-Relator Participaram do presente julgamento, os Conselheiros Carlos Alberto Mees Stringari, Ivacir Júlio de Souza, Paulo Maurício Pinheiro Monteiro, Marcelo Magalhães Peixoto, Carolina Wanderley Landim e Maria Anselma Coscrato dos Santos.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 4; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1757; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; access_permission:can_modify: true; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2C4T3 Fl. 2 1 1 S2C4T3 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10630.720361/201093 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2403001.806 – 4ª Câmara / 3ª Turma Ordinária Sessão de 22 de janeiro de 2013 Matéria CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA Recorrente MUNICÍPIO DE GOVERNADOR VALADARES PREFEITURA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005 PREVIDENCIÁRIO. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL. TERCEIROS. A empresa/órgão público são obrigados a arrecadar e recolher, mediante desconto, as contribuições devidas ao SEST e SENAT, incidentes sobre as remunerações pagas aos segurados contribuintes individuais, transportadores autônomos, que lhe prestam serviços, no prazo estabelecido na legislação. Recurso Voluntário Não Conhecido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso por intempestividade. Carlos Alberto Mees StringariPresidente Ivacir Júlio de SouzaRelator Participaram do presente julgamento, os Conselheiros Carlos Alberto Mees Stringari, Ivacir Júlio de Souza, Paulo Maurício Pinheiro Monteiro, Marcelo Magalhães Peixoto, Carolina Wanderley Landim e Maria Anselma Coscrato dos Santos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 63 0. 72 03 61 /2 01 0- 93 Fl. 66DF CARF MF Impresso em 16/08/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/07/2013 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMARAES, Assinado digitalmente em 29/07/2013 por IVACIR JULIO DE SOUZA, Assinado digitalmente em 15/08/2013 por CARLOS ALBERTO MEE S STRINGARI 2 Relatório A instância a quo produziu o Relatório abaixo que li, compulsei com os autos e tendo corroborado o transcrevi na íntegra: “Tratase de crédito lançado pela fiscalização contra o Município acima identificado no montante de R$ 2.494,37 (dois mil quatrocentos e noventa e quatro reais e trinta e sete centavos), consolidado em 22.12.2010, relativo às contribuições devidas pelo Município a outras entidades, denominadas terceiros SEST (1,5%) e SENAT (1%), incidentes sobre os valores pagos aos contribuinte individuais, transportadores autônomos, não recolhidas em época própria, referente ao período de 01.2005 a 06.2007. De acordo com Relatório Fiscal de fls. 18/20, a atribuição do poder de arrecadar a contribuição para terceiros pela Secretaria da Receita Federal do Brasil está prevista no art. 3 0 da Lei n° 11.457/2007. Verificada a ausência de recolhimento das contribuições devidas sobre a remuneração dos contribuintes individuais transportadores autônomos, no período de 01.2005 a 12.2005, restou configurado, em tese, o ilícito tipificado na Lei n° 8.137/90, fato que será objeto de comunicado à autoridade pública competente. As cópias dos documentos que embasaram o lançamento, encontramse anexas ao processo principal n° 37.319.7276. No Relatório Fiscal do referido lançamento, consta todas as informações fiscais consideradas relevantes sobre os débitos levantados. A Ação Fiscal foi precedida do Mandado de Procedimento Fiscal MPF e os documentos que serviram de base para a Fiscalização foram solicitados através do Termo de Inicio de Procedimento Fiscal e Termos de Intimação, documentos juntados as fls. 38/40 do processo principal, comprot 10630.720359/201014, ao qual este encontrase apensado. O Município tomou ciência do Auto de Infração em 29.12.2010, via postal, conforme Aviso de Recebimento AR de fls. 21. Apresentou impugnação em 28.01.2011, os termos do instrumento e anexos de fls. 25/40. Faz um breve relato do fato gerador da autuação e diz que o Auto de Infração exige, de maneira indevida, a regularização do débito, sob pena de sua inclusão no Cadastro Informativo de Créditos não quitados do setor Público Federal CADIN, bem como de imediata cobrança judicial. Em análise da planilha de descrição dos débitos, aduz que a exigibilidade dos mesmos estão prescritas/decadentes, conforme legislação vigente. Fl. 67DF CARF MF Impresso em 16/08/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/07/2013 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMARAES, Assinado digitalmente em 29/07/2013 por IVACIR JULIO DE SOUZA, Assinado digitalmente em 15/08/2013 por CARLOS ALBERTO MEE S STRINGARI Processo nº 10630.720361/201093 Acórdão n.º 2403001.806 S2C4T3 Fl. 3 3 O período do Auto de Infração referese a 01.2005 a 12.2005 , inclusive 130 salário. Encontrase prescrita/decadente, em sua totalidade; tornando indevida a exigência, pois resta comprovado o prazo superior a cinco anos contado a partir da data de inscrição da divida que é efetivamente 22.12.2010, inserido na correspondência. 0 prazo de cinco anos estabelecido na norma legal para cobrança da divida se concretizou em 12.2010. 0 momento da inscrição da divida na Receita Federal do Brasil foi realizado em 22.12.2010, sendo atingidos pelo prazo de cinco anos. Dessa forma, fazse imperativo a declaração de prescrição/decadência do débito na esfera administrativa. Cita a Súmula Vinculante n° 08, a Súmula n° 85 do STJ, o DecretoLei Federal n°20.910 de 06.01.1932 para reforçar seu entendimento. Acerca da prescrição qüinqüenal e a decadência, reproduz doutrina de Silvio Rodrigues e ementas de julgados do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, ementa de Recurso Extraordinário do STF Supremo Tribunal Federal. Ante o expendido, alicerçado na Súmula Vinculante do STF, no DecretoLei Federal n° 20.910/32, requer seja declarada a prescrição qüinqüenal total e/ou a decadência do débito em debate. Caso não se acolha a impugnação, pugna o Município de Governador Valadares pela parcelamento do débito perante a Secretaria da Receita Federal do Brasil, com fulcro na Lei n° 10.522/02.” DA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA Após analisar aos argumentos da impugnante, na forma do registro de fls.43, a 7ª Turma da Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil de Belo Horizonte – MG DRJ/BHE, em 22 de janeiro de 2011, exarou o Acórdão n° 02.32.041, mantendo procedente o lançamento. DO RECURSO Irresignada, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário de fls.54. É o Relatório. Fl. 68DF CARF MF Impresso em 16/08/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/07/2013 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMARAES, Assinado digitalmente em 29/07/2013 por IVACIR JULIO DE SOUZA, Assinado digitalmente em 15/08/2013 por CARLOS ALBERTO MEE S STRINGARI 4 Voto Conselheiro Ivacir Júlio de Souza, Relator DA TEMPESTIVIDADE Conforme registro de fls.46, o contribuinte recebeu em 14/03/2011, o Ofício 167/2001 colacionado às fls. 48 o qual notificavao dos Acórdãos do presente Auto de Infração (Al) n° 37.319.7284 e demais 37.319.7276, 37.319.7292 resultado da mesma ação fiscal. Às fls. 54, registramse que o Recurso Voluntário foi interposto em 15/04/2011. Cumpre ressaltar que o mesmo fora recebido próforma posto que sua intempestividade já houvera sido observada às fls. 52 conforme Termo de Perempção emitido pela Seção de Controle e Acompanhamento tributário. Portanto, dele tomo conhecimento. CONCLUSÃO Não conheço do Recurso por INTEMPESTIVIDADE. É como voto. Ivacir Júlio de Souza Fl. 69DF CARF MF Impresso em 16/08/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/07/2013 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMARAES, Assinado digitalmente em 29/07/2013 por IVACIR JULIO DE SOUZA, Assinado digitalmente em 15/08/2013 por CARLOS ALBERTO MEE S STRINGARI
score : 1.0
Numero do processo: 13805.012741/96-44
Data da sessão: Thu Jun 13 00:00:00 UTC 2013
Data da publicação: Mon Aug 05 00:00:00 UTC 2013
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 1993, 1994
IRPJ. OMISSÃO DE RECEITAS. CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM QUE A AUTUADA CONSTAVA COMO UMA DAS PRESTADORAS. RECEITAS AUFERIDAS EXCLUSIVAMENTE PELA OUTRA CONTRATADA. RECEITAS RATEADAS EM PARTES IGUAIS. À MÍNGUA DE PREVISÃO CONTRATUAL OU LEGAL, CABE AO FISCO DEMONSTRAR QUE A AUTUADA PRESTOU OS SERVIÇOS E FAZIA JUS ÀS RECEITAS.
Não podem prosperar os lançamentos fundados em meras presunções não autorizadas legalmente, devendo a autoridade autuande desincumbir-se de seu ônus probatório para inequivocamente atrelar a contribuinte à receita alegadamente omitida.
O fato de a autuada constar da avença como uma das contratadas - em liame obrigacional que não prevê a forma do rateio do preço entre as prestadoras do serviço - não autoriza a conclusão de que ela faria jus à metade das receitas, que foi o que teve lugar na controvérsia sob apreciação.
Improcedência do lançamento.
CSLL. PIS-REPIQUE. COFINS. IRRF. LANÇAMENTOS DECORRENTES.
Ante a similitude de pressupostos fáticos, o decidido em relação ao processo principal aplica-se aos lançamentos meramente decorrentes.
Numero da decisão: 1101-000.906
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO DE OFÍCIO, na esteira do voto do Relator, vencido o Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão, que convertia o julgamento em diligência. Declarou-se impedida a Conselheira Nara Cristina Takeda Taga. Ausentes, justificadamente, os Conselheiros Valmar Fonseca de Menezes e Mônica Sionara Schpallir Calijuri, integrando o Colegiado o Conselheiro José Sérgio Gomes.
MARCOS AURÉLIO PEREIRA VALADÃO - Presidente.
BENEDICTO CELSO BENÍCIO JÚNIOR Relator
EDITADO EM: 27/06/2013
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente), Edeli Pereira Bessa, Benedicto Celso Benício Júnior, José Ricardo da Silva e José Sérgio Gomes.
Matéria: IRPJ - AF - lucro real (exceto.omissão receitas pres.legal)
Nome do relator: BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR
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OMISSÃO DE RECEITAS. CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM QUE A AUTUADA CONSTAVA COMO UMA DAS PRESTADORAS. RECEITAS AUFERIDAS EXCLUSIVAMENTE PELA OUTRA CONTRATADA. RECEITAS RATEADAS EM PARTES IGUAIS. À MÍNGUA DE PREVISÃO CONTRATUAL OU LEGAL, CABE AO FISCO DEMONSTRAR QUE A AUTUADA PRESTOU OS SERVIÇOS E FAZIA JUS ÀS RECEITAS. Não podem prosperar os lançamentos fundados em meras presunções não autorizadas legalmente, devendo a autoridade autuande desincumbirse de seu ônus probatório para inequivocamente atrelar a contribuinte à receita alegadamente omitida. O fato de a autuada constar da avença como uma das contratadas em liame obrigacional que não prevê a forma do rateio do preço entre as prestadoras do serviço não autoriza a conclusão de que ela faria jus à metade das receitas, que foi o que teve lugar na controvérsia sob apreciação. Improcedência do lançamento. CSLL. PISREPIQUE. COFINS. IRRF. LANÇAMENTOS DECORRENTES. Ante a similitude de pressupostos fáticos, o decidido em relação ao processo principal aplicase aos lançamentos meramente decorrentes. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO DE OFÍCIO, na esteira do voto do Relator, vencido o Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão, que convertia o julgamento em diligência. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 80 5. 01 27 41 /9 6- 44 Fl. 334DF CARF MF Impresso em 06/08/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 04/07/2013 por MARCOS AURELI O PEREIRA VALADAO 2 Declarouse impedida a Conselheira Nara Cristina Takeda Taga. Ausentes, justificadamente, os Conselheiros Valmar Fonseca de Menezes e Mônica Sionara Schpallir Calijuri, integrando o Colegiado o Conselheiro José Sérgio Gomes. MARCOS AURÉLIO PEREIRA VALADÃO Presidente. BENEDICTO CELSO BENÍCIO JÚNIOR – Relator EDITADO EM: 27/06/2013 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente), Edeli Pereira Bessa, Benedicto Celso Benício Júnior, José Ricardo da Silva e José Sérgio Gomes. Relatório Cuidase de Remessa de Ofício em face da Colenda DRJ/SDR assim ementada, verbis: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Exercício: 1994, 1995 Ementa: OMISSÃO DE RECEITAS. COMPROVAÇÃO. Compete à fiscalização trazer aos autos elementos que comprovem a omissão de receitas, na sua ausência excluise a exigência fiscal. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido — CSLL Imposto sobre a Renda Retido na Fonte — IRRF Contribuição para a Seguridade Social — COFINS Contribuição para o Programa de Integração Social — PIS/Repique MESMOS PRESSUPOSTOS FÁTICOS. DECORRÊNCIA. Sendo decorrente dos mesmos pressupostos fáticos que motivaram o lançamento do imposto de renda da pessoa jurídica, aplicase a CSLL, IRRF, COFINS e PIS/Repique, mutatis mutandis, o que foi decidido quanto à exigência do IRPJ, devido à íntima relação de causa e efeito entre elas. Lançamento Improcedente De acordo com os Autos de Infração e com o correlato Termo de Verificação Fiscal, a autuada (SILEX CONSULTORIA E PARTICIPAÇÕES LTDA) e outra empresa integrante do mesmo grupo econômico (SILEX TRADING S/A) entabularam contrato de prestação de serviços com a sociedade PARANAPANEMA S/A MINERAÇÃO, INDÚSTRIA E CONSTRUÇÃO no dia 15 de outubro de 1993. Fl. 335DF CARF MF Impresso em 06/08/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 04/07/2013 por MARCOS AURELI O PEREIRA VALADAO Processo nº 13805.012741/9644 Acórdão n.º 1101000.907 S1C1T1 Fl. 3 3 Através dessa avença (fls. 3440), a SILEX – parte do contrato que corresponde à conjugação entre a autuada e a SILEX TRADING S/A – deveria prestar serviços de assessoria e consultoria à PARANAPANEMA com vistas à alienação das ações que esta última detinha no ITAÚSA – Investimentos Itaú S/A, sendo que, se e somente se a dita participação societária fosse alienada até 15 de dezembro de 1993, o grupo SILEX teria direito ao recebimento de preço no importe de 3,13% do valor de alienação das ações. É importante dizer que o contrato não traz qualquer previsão relativa ao rateio do preço entre os prestadores de serviços, além de contemplar cláusula que expressamente estipulava que os prestadores de serviços não tinham a obrigação de produzir relatórios formais (Cláusula 5, fls. 3536). Ademais, existe cláusula expressa no sentido de que cada parte arcaria com as próprias despesas, de modo que a tomadora dos serviços não reembolsaria quaisquer despesas aos prestadores (Cláusula 10, fl. 38). A venda das ações teve lugar no prazo contratual. Contudo, apesar de o contrato prever que tanto a autuada quanto a SILEX TRADING S/A prestariam os serviços em questão, foi esta quem recebeu a integralidade do preço pago pela PARANAPANEMA, tendo emitido todas as Notas Fiscais de prestação de serviços e se apropriado da totalidade das receitas, que foram oferecidas à tributação. Ao tempo da fiscalização, a autuada foi intimada (fl. 31) a esclarecer a razão pela qual todas as receitas atinentes ao contrato de que se cuida foram apropriadas pela SILEX TRADING S/A, a despeito de o liame obrigacional prever que ambas prestariam os serviços. Em resposta, esclareceu a contribuinte que O faturamento foi feito pela SILEX TRADING S/A, pois todas as despesas como telefone, viagens, hospedagens e etc. foram pagas pela mesma (fl. 33). Sobrevieram, pois, os lançamentos de ofício aqui discutidos, tendo a fiscalização imputado à Recorrida a infração de omissão de receitas nos três períodos em que a SILEX TRADING S/A faturou contra a PARANAPANEMA e a autuada não (dezembro/93, fevereiro/94 e março/94), com exigências de Imposto de Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ, Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, PISREPIQUE, COFINS e Imposto de Renda Retido na Fonte – IRRF (art. 44 da Lei n. 8.541/92; apenas nas competências do ano calendário 1994). Todos os Autos de Infração contemplam ainda exigências de juros de mora e multa de ofício de 100% (art. 4o da Lei n. 8.218/91). Os seguintes trechos são extraídos do extremamente conciso Termo de Verificação Fiscal, que repousa às fls. 5253, litteris: Recebidos os pagamentos, a lógica e a Lei, à vista do contrato firmado entre a SILEX e a PARANAPANEMA, determinavam que tais valores fossem rateados em partes iguais entre a Silex Consultoria Financeira e Participações Ltda e a Silex Trading S/A. Todavia tal fato não aconteceu. A Silex Trading S/A apropriou a totalidade das importâncias pagas, a revelia da realidade dos fatos, como receitas exclusivamente suas. Ora a Silex Consultoria Financeira e Participações Ltda não tem amparo legal para renunciar a sua parte nos pagamentos feitos em retribuição aos serviços prestados. Esta sua receita poderia até ser Fl. 336DF CARF MF Impresso em 06/08/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 04/07/2013 por MARCOS AURELI O PEREIRA VALADAO 4 doada à Silex Trading S/A mas, necessariamente, deveria ter sido oferecida à tributação federal. Assim, de ofício, procedemos ao rateio das importâncias pagas pela Paranapanema imputando à Silex Consultoria Financeira e Participações Ltda 50% (cinqüenta por cento) do valor a assessoria financeira prestada e adicionamos ao lucro real da mesma os valores abaixo discriminados que lhe cabem pelos serviços prestados. A contribuinte teve ciência das autuações em 31 de outubro de 1996 e apresentou tempestivas impugnações – uma para cada auto de infração, com a mais ampla abordagem tendo sido deduzida na resposta ao lançamento de Imposto de Renda de Pessoa Jurídica, a que as demais expressamente remetem com poucas considerações específicas, que serão delineadas a seguir. Na impugnação ao lançamento de Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (fls. 5880), a autuada asseverou que a autuação deveria ser integralmente cancelada, eis que se funda em meras presunções não autorizadas pela lei para chegar à conclusão de que a autuada teria auferido receitas decorrentes do contrato com a PARANAPANEMA, não havendo qualquer lastro documental e/ou contratual a suportar tal inferência. A seguinte passagem consta de tal postulação, verbis: 27. Ao contrário do que o Sr. Fiscal quer nos fazer acreditar, a receita de um serviço compete a quem o executou, no caso à Silex Trading S.A., independentemente de quem tenha figurado no contrato. É importante frisar, nesse sentido, que em nenhum momento o contrato definiu qual seria a participação de cada empresa na execução do serviço e na receita ao final percebida. As obrigações contratuais foram estipuladas somente entre as empresas do grupo Silex, de um lado, e a Paranapanema S.A., de outro, ou seja, entre a parte tomadora e a parte prestadora dos serviços. 28. A Impugnante e a Silex Trading S.A. dispunham, portanto, de total liberdade para definir, independentemente de qualquer acerto documentado ou formal, a participação de cada uma na execução do serviço contratado e no recebimento da receita dele decorrente. 29. Tratavase de um contrato de resultado, em que a contraprestação só seria devida em caso de êxito. Assim sendo, em nenhum momento a Impugnante teve direito às importâncias avençadas, as quais couberam exclusivamente à Sílex Trading S.A., vale dizer, a única executora do serviço e única responsável pela obtenção do resultado positivo almejado, qual seja, a venda das ações da Itaúsa detidas pela empresa Paranapanema S.A. 30. Em que pese a realidade dos fatos, preferiu o Sr. Auditor Fiscal estabelecer uma proporção totalmente arbitrária, para não dizer aleatória, baseada tão somente em seus palpites e suposições, os quais, certamente, não são suficientes para sustentar um lançamento de ofício. 31. A fim de sustentar a alegada omissão de receita, caberia ao Sr. Fiscal comprovar, de forma contundente e indiscutível, que a Impugnante tinha direito à metade da receita resultante do contrato, o que em nenhum momento foi feito. De fato, deveria o Sr. Fiscal Fl. 337DF CARF MF Impresso em 06/08/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 04/07/2013 por MARCOS AURELI O PEREIRA VALADAO Processo nº 13805.012741/9644 Acórdão n.º 1101000.907 S1C1T1 Fl. 4 5 provar a existência de uma estipulação entre a Silex Trading S.A. e a Impugnante, que atribuísse a essa última 50% da receita auferida, ou, ao menos, provar que 50% do serviço foi efetivamente prestado pela Impugnante. (fls. 6566; sem grifos no original) Asseverou, na linha de que a única executora do serviços teria sido a SILEX TRADING S/A, que o grupo econômico a que ambas as empresas pertenceriam teria reestruturado as suas operações meses antes da assinatura do contrato em testilha, ocasião em que as atividades de assessoria concentraramse na SILEX TRADING S/A, ao passo que a autuada passou a ser praticamente uma holding pura. Alega que transferiu uma série de bens à SILEX TRADING S/A nos meses que antecedem o contrato de que se cuida, além do fato de que 21 (vinte e um) de seus funcionários passaram a prestar serviços para a SILEX TRADING S/A no mesmo período, sendo que, em troca, teria recebido ações da SILEX TRADING S/A, de modo que sequer teria capacidade operacional para prestar os serviços à PARANAPANEMA, tendo constado da avença unicamente pelo fato de ter mais tradição no mercado do que a outra integrante do grupo. As transferências de bens, de funcionários e também o ingresso da autuada no capital da SILEX TRADING S/A são demonstrados pelos documentos de fls. 81 e seguintes. Ainda, a autuada traz à balha fluxograma em que são mostradas as suas decrescentes receitas de prestação de serviços nos anoscalendários discutidos em relação aos anos anteriores, ao passo que a importância da prestação de serviços na receita total da SILEX TRADING S/A no mesmo lapso temporal estava em franca ascensão (fls. 7172). Também traz aos autos declaração do então Presidente da PARANAPANEMA que atesta que os serviços teriam sido praticados, em nível de diretoria, pelo Sr. Roberto Gianetti da Fonseca, diretor da Silex Trading S.A., com o qual foram mantidos os contatos sobre a negociação das referidas ações e que culminaram na venda da referida participação societária em leilão na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (fl. 240). Por fim, aponta a mácula do lançamento de não levar em conta os prejuízos que acumulara nos exercícios anteriores. Quanto à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, assevera que também não foram observadas as bases negativas do tributo anteriormente apuradas. Na impugnação relacionada ao lançamento de PIS/REPIQUE, traz o argumento específico de que a modalidade Repique é inaplicável à hipótese, eis que a inconstitucionalidade dos Decretos n. 2.445/88 e 2.449/88 foi pronunciada pelo STF incidenter tantum – de modo que tal decisão não lhe afetaria –, ao passo que a Resolução n. 49 do Senado Federal, que deu eficácia erga omnes à decisão da Suprema Corte, apenas produziria efeitos em 10 de outubro de 1995, tempos depois dos períodos aqui analisados. No que tange ao Imposto de Renda Retido na Fonte – cujo fato gerador é precisamente a omissão de receitas (art. 44 da Lei n. 8.541/92), postula que tal exação jamais poderia ter lugar, eis que as receitas supostamente omitidas não poderiam ter sido distribuídas aos sócios, vez que foram todas elas apropriadas pela SILEX TRADING S/A, verbis: Fl. 338DF CARF MF Impresso em 06/08/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 04/07/2013 por MARCOS AURELI O PEREIRA VALADAO 6 18. E é exatamente esse o caso dos autos. A receita supostamente omitida pela Impugnante não poderia ter sido distribuída aos seus sóciosquotistas simplesmente porque, como reconhece o próprio Fiscal Autuante, a receita foi integralmente contabilizada pela empresa Silex Trading S.A., a qual, portanto, se apropriou da totalidade daqueles valores. 19. Ora, se a integralidade da receita foi apropriada pela empresa Silex Trading S.A. e é esse aliás o próprio fundamento da autuação seria impossível distribuíla aos sócios da Impugnante, o que indiscutivelmente afasta a presunção veiculada pelo artigo 44 da Lei 8.541/92. (fl. 274) Não houve alegações específicas na impugnação relativa à autuação de COFINS. A Colenda DRJ/SDR acolheu in totum as impugnações, com o cancelamento das autuações, fazendoo com esteio nas seguintes razões, litteris: 30. No presente caso, constatase que o rateio das receitas no percentual de 50% (cinqüenta por cento) foi presumido pelo auditor fiscal e não decorreu de cláusula contratual. Portanto, não sendo uma presunção legal, cabe razão a impugnante ao alegar que o auditor fiscal deveria ter provado que a autuada tivesse executado metade do serviço contratado e, conseqüentemente, fazia jus à metade do rendimento decorrente. 31. Embora não tenha sido apontado pelo auditor fiscal, com base na análise da documentação acostada aos autos e dos demonstrativos de controle de prejuízos fiscais do sistema SAPLI (fls.273/275), constatase a existência de indícios que a autuada realmente tenha contribuído na execução dos serviços contratados, e que o grupo SILEX obteve vantagem fiscal com a tributação da receita integralmente na Sílex Trading S/A, conforme abaixo exposto: a) na resposta a intimação fiscal de 05/12/1995 (1ls,29/30), a Silex Trading S/A infbrmou que os profissionais envolvidos no projeto foram: Marcos Giannetti da Fonseca (CPF 206.270.33849), Adoaldo Moura da Silva (CPF 003.874.95800)„lan Rainer Ensio Jarne (CPF 659.257,85800) e Roberto Giannetti da Fonseca (CPF 233.993.338 20), que eram diretores e acionistas (direta ou indiretamente), da empresa e que recebiam prólabore. Consultando a Declaração de Rendimentos — D1RP.1/1994 apresentada pela Sílex Consultoria Financeira e Participações Ltda, verificase que dos quatro profissionais indicados pela Sílex Trading S/A, os três primeiros também Jaziam parte do quadro funcional da autuada: Marcos Giannetti da Fonseca como presidente, Adoaldo Moura da Silva como vicepresidente e Jan Rainer Ensto Jarne como vicepresidente; b) as duas empresas tinham suas sedes no mesmo endereço ( f131), na Alameda Santos, 1800 – 1° andar, São Paulo, capital; c) mesmo reconhecendo integralmente as receitas decorrentes do contrato a Sílex Trading S/A tinha prejuízo fiscal acumulado suficiente para compensar o resultado positivo apurado. O mesmo não aconteceria Fl. 339DF CARF MF Impresso em 06/08/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 04/07/2013 por MARCOS AURELI O PEREIRA VALADAO Processo nº 13805.012741/9644 Acórdão n.º 1101000.907 S1C1T1 Fl. 5 7 com a Sílex Consultoria Financeira e Participações Lida caso tivesse reconhecido metade destas receitas, pois não teria saldo de prejuízo acumulado para compensar o resultado positivo, o que resultaria em imposto a pagar. 32. Entretanto, conforme já relatado, o auditor fiscal limitouse a afirmar que, a lógica e a Lei, à vista do contrato firmado entre a SILEX e a PARANAPANEMA, determinavam 01 que tais valores fossem rateados em partes iguais entre a Sílex Consultoria Financeira e Participações Lida e a Sílex Trading S/A, o que é insuficiente para a caracterização da omissão de receita, inclusive quanto à determinação do percentual de participação de cada empresa na execução dos serviços, o que somente poderia ser demonstrado com a identificação e segregação de todos os custos envolvidos no projeto, o que definitivamente não consta dos autos. 33. Portanto, não existindo cláusula contratual determinando que a autuada fazia jus a metade dos valores pagos pela Parapanema S/A, nem tendo sido demonstrado pela fiscalização o percentual de participação da autuada na execução dos serviços, considero improcedente o lançamento de oficio em questão. (fls. 327328; sem grifos no original) Diante da extrapolação do valor de alçada, submetese esse julgamento da instância a qua ao reexame necessário. É o relatório. Voto Conselheiro BENEDICTO CELSO BENÍCIO JÚNIOR O valor do crédito tributário exonerado pela decisão de 1a instância administrativa extrapola o valor de alçada (R$ 1.000.000,00), de modo que conheço da Remessa ex officio. Depreendese dos autos que se está diante de lançamentos levados a efeito ante a premissa de que a autuada teria omitido receitas relacionadas ao contrato de prestação de serviços que ela (a autuada) e outra empresa do mesmo grupo econômico (SILEX TRADING S/A) firmaram com a PARANAPANEMA com vistas à alienação das ações que esta detinha no ITAÚSA. Como visto, toda preço pago pela PARANAPANEMA foi apropriado pela SILEX TRADING S/A, apesar de a autuada também figurar no contrato na qualidade de prestadora de serviços. Entendo que o labor fiscal encerrado nos autos de infração aqui discutidos não pode prosperar, de modo que deve ser ratificada a decisão de 1a instância administrativa. Fl. 340DF CARF MF Impresso em 06/08/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 04/07/2013 por MARCOS AURELI O PEREIRA VALADAO 8 Com efeito, simplesmente através de contrato que não previa qualquer forma de rateio do preço dos serviços entre os prestadores, presumiu o Sr. AuditorFiscal que a autuada fazia jus à metade dos valores pagos pela PARANAPANEMA, de modo que procedeu como se o sujeito passivo efetivamente tivesse auferido tais quantias. Essa presunção, contudo, não tem respaldo legal, sendo que as considerações da autoridade autuante no sentido de que a Lógica e a Lei determinariam que a autuada fosse tida como beneficiária dos valores em questão não foram acompanhadas, em absoluto, do declínio das disposições legais a permitir tais ilações – o que, muito provavelmente, e deu em decorrência da inexistência de tais preceitos normativos. Consoante asseverado pela decisão da instância a qua, cabia à Receita Federal a demonstração inequívoca de que a autuada efetivamente prestou os serviços contratados na avença com a PARANAPANEMA, de modo que teria direito a auferir a receita apropriada exclusivamente pela outra integrante do grupo SILEX. Ademais, entendo como muito relevante um aspecto declinado na decisão recorrida, a saber, o fato de que há indícios no sentido de que a autuada teria participado da prestação dos serviços e de que a apropriação integral das receitas por parte da SILEX TRADING S/A provavelmente se deu para a obtenção de indevida vantagem fiscal – eis que os prejuízos acumulados por esta superavam o estoque de prejuízos da autuada. Nada obstante, apesar de todas essas questões que eventualmente permitiriam a confecção de lançamentos que realmente partissem de bases sólidas para a constatação da omissão de receitas, temse que a parca fiscalização – que envolve unicamente uma intimação direcionada à autuada, que foi devidamente respondida, sem que qualquer esclarecimento tenha sido requisitado à SILEX TRADING S/A – chegou ao fim com as autuações em vergaste, sem que qualquer menção a esses indícios tenha sido feita. E tais autuações, como visto, são calcadas na frágil e insustentável consideração de que a lógica e a Lei, à vista do contrato firmado entre a SILEX e a PARANAPANEMA, determinavam que tais valores fossem rateados em partes iguais entre a Silex Consultoria Financeira e Participações Ltda e a Silex Trading S/A. Uma vez que compete a esse Colegiado, exclusivamente, o julgamento da higidez dos lançamentos que são submetidos ao seu crivo, temse que essas considerações acerca dos indícios de efetiva prestação de serviços por parte da autuada são feita a lattere, não tendo qualquer influência no deslinde da vertente contenda. E, como se viu, os lançamentos em questão fundamse em meras ilações, em presunções da autoridade autuante – que se não desincumbiu de seu ônus probatório –, de modo que não podem prosperar. Nesses termos, nego provimento ao Recurso de Ofício, com a manutenção integral da decisão da douta DRJ/SDR, inclusive, por óbvio, no que tange aos lançamentos decorrentes. É como voto. BENEDICTO CELSO BENÍCIO JÚNIOR – Relator Fl. 341DF CARF MF Impresso em 06/08/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 04/07/2013 por MARCOS AURELI O PEREIRA VALADAO Processo nº 13805.012741/9644 Acórdão n.º 1101000.907 S1C1T1 Fl. 6 9 Fl. 342DF CARF MF Impresso em 06/08/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 27/06/2013 por BENEDICTO CELSO BENICIO JUNIOR, Assinado digitalmente em 04/07/2013 por MARCOS AURELI O PEREIRA VALADAO
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Numero do processo: 10166.005415/2001-20
Data da sessão: Wed Feb 28 00:00:00 UTC 2007
Ementa: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO SANADA COM MODIFICAÇÃO DA DECISÃO. EFEITOS INFRINGENTES. Constatada omissão relativa à ação judicial noticiada apenas em sede de embargos de declaração, cujo desconhecimento levou o Colegiado a conhecer do Recurso Voluntário por não saber da concomitância, cabe completar o Acórdão.
NORMAS PROCESSUAIS. OPÇÃO PELA VIA JUDICIAL. DESISTÊNCIA DA ESFERA ADMINISTRATIVA. O contribuinte que busca a tutela jurisdicional abdica da esfera administrativa, na parte em que trata do mesmo objeto.
Embargos providos, com efeitos infringentes.
Numero da decisão: 203-11.851
Decisão: ACORDAM os Membros da Terceira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, em acolher os Embargos de Declaração no Acórdão n° 203-10.745 para, dando-lhes efeitos infringentes, alterar o julgado para não conhecer do Recurso Voluntário, face à opção pela via judicial. O Conselheiro Dalton Cesar Cordeiro de Miranda declarou-se impedido de votar.
Matéria: IRPJ - restituição e compensação
Nome do relator: EMANUEL CARLOS DANTAS DE ASSIS
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COseteed:G*163r Fl.• '4" Segundo Conselho de Contribuintes _ 00,00‘4°•SeeltenCi-r _ e • Processo n2 : 10166.00541512001-20 ero- "vice Recurso n2 : 125.612 Acórdão n° : 203-11.851 Recorrente : DICLER DE ASSUNÇÃO — ADVOGADOS E CONSULTORES ASSOCIADOS S/C Recorrida : Terceira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO SANADA COM MODIFICAÇÃO DA DECISÃO. EFEITOS INFRINGENTES. Constatada omissão relativa à ação judicial noticiada apenas em sede de embargos de declaração, cujo desconhecimento levou o Colegiado a conhecer do Recurso Voluntário por não saber da concomitát' leia, cabe completar o Acórdão. NORMAS PROCESSUAIS. OPÇÃO PELA VIA JUDICIAL. DESISTÊNCIA DA ESFERA ADMINISTRATIVA. O contribuinte que busca a tutela jurisdicional abdica da esfera administrativa, na parte em que trata do mesmo objeto. Embargos providos, com efeitos infringentes. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos de Recurso interposto por: DICLER DE ASSUNÇÃO — ADVOGADOS E CONSULTORES ASSOCIADOS S/C. ACORDAM os Membros da Terceira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, em acolher os Embargos de Declaração no Acórdão n° 203-10.745 para, dando-lhes efeitos infringentes, alterar o julgado para não conhecer do Recurso Voluntário, face à opção pela via judicial. O Conselheiro Dalton Cesar Cordeiro de Miranda declarou-se impedido de votar. Sala das Sessões, em 28 de fevereiro de 2007. Antonio terra Nelo Presiden'e E •gbir-21":".-";:r Assis Relator Participaram, ainda, do p - ente ju gamento os Conselheiros Antonio Ricardo Accioly Campos (Suplente), Silvia de Brito Oliveira Valdemar Ludvig„ Odassi Guerzoni Filho e Eric Moraes de Castro. Ausente, justificadamente, o Conselheiro Cesar Piantavigna. /eaal 1,------CRIEulwrir.secucosimooFc2RNEscoatim0000ERcnoitat. o Es aroma. MIMO ursino de Olvota 91850 1 • -44. zs, CC-MF -va Ministério da Fazenda Fl. P 4" Segundo Conselho de Contribuintes Processo n2 : 10166.005415/2001-20— - Recurso n2 : 125.612 Acórdão n° : 203-11.851 Recorrente : DICLER DE ASSUNÇÃO — ADVOGADOS E CONSULTORES ASSOCIADOS S/C RELATÓRIO Trata-se de Embargos de Declaração interpostos pelo contribuinte, contra o Acórdão n° 203-10.745. Aponta o embargante omissão no julgado, por não ter levado em conta decisão do TRF da 1* Região na Apelação em Mandado de Segurança n° 200334.00.042940-4/DF (cópia às fls. 187/193). Informa que em 30/09/2005 (DJU de 30/09/2005, sessão 02, p. 115/134) — antes, portanto, do Acórdão embargado - foi publicada a referida decisão, tomando público que todas as Sociedades de Advogados inscritas na OAB/DF estavam definitivamente isentas da COFINS. Ainda segundo a Embargante, em 07/04/2006 a decisão mencionada transitou em julgado. Argúi que, como Sociedade de Advogados regularmente constituída em 13/12/1996 e inscrita na OAB/DF sob o n° 392/RS (ver certidões de fls. 185/186), "não teve como deixar de ser beneficiada" pela decisão judicial. Isto apesar de, por si mesma, não ter dado causa a qualquer concomitárs leia com a via administrativa. Ao final afirma que, "para que não restem dúvidas quando da execução do presente julgado na via administrativa, e até ao efeito de pré-questionamento da matéria, oportuno tempore, são os presentes Embargos para que tais fatos, de conhecimento público e notório, ocorridos antes do julgamento do Ac. 203-10.745, possam ser devidamente contemplados em seus efeitos, pelo mesmo." Após parecer favorável ao recebimento, os Embargos foram admitidos e vieram a esta Câmara para julgamento. É o relatório, no que interessa a este julgamento. Sala das Sessões, en emient..2: • - - eiro de 2007. tal-rarip EMANUikir L' 4.1? rE ASSIS 1W-SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES CONFERE COM O ORIGINAL emala 4,2 o o ci e, g Matilde Caril:É-de Oliveira Mat. siape 91650 2 , . CC-MF - . Ministério da Fazenda 4') Segundo Conselho de Contribuintes Fl. _ . Processo n2 : 10166.005415/2001-20 . . Recurso n2 : 125.612 Acórdão n° : 203-11.851 VOTO DO CONSELHEIRO-RELATOR EMANUEL CARLOS DANTAS DE ASSIS Como se vê no relatório do Acórdão embargado, a referida decisão judicial não havia sido noticiada nos autos, até então. Por isto não foi considerada por esta Terceira Câmara. Todavia, sendo certo que a Embargante é registrada na OAB/DF e que no julgamento de primeira instância, mantido pelo TRF, foi concedida a segurança para "desobrigar as sociedades de advogados registradas na OAB/DF do recolhimento da COFINS, podendo ser compensada, desde 11/12/1998, com outros tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal" (fl. 188, relatório da Apelação em Mandado de Segurança n° 2003.34.00.042940-4/DF), o processo judicial há de ser considerado, à luz do art. 38, parágrafo único, da Lei n° 6.830/80. Este processo administrativo objetiva a restituição, cumulada com compensação, de indébito da COFINS relativo a pagamentos dos períodos de apuração 11/1997 a 12/2002. Fundamenta-se na alegada isenção concedida às sociedades civis de profissão regulamentada de que trata o art. 1° do Decreto-Lei n°2.397/87. A ação judicial, por sua vez, também almejou a repetição de indébito da Contribuição, sob o fundamento de que as Sociedades Civis de Advogados estão desobrigadas de contribuir. Claramente, há concomitância das partes e dos pedidos. Por isto, e face à prevalência do provimento judicial, não cabe conhecer do Recurso Voluntário. Diante do exposto, e tendo em vista o parágrafo único do art. 38 da Lei n° 6.830/80, voto por dar provimento aos Embargos de Declaração para, concedendo-lhes efeitos infiingentes, alterar a decisão e não conhecer do Recurso Voluntário, face à opção pela via judicial. Sala das Sessões, em 28 de fevereiro de 2007. E • loer AR 1(9)--4.--,4'r DE ASSIS • i-SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES CONFERE COM O ORIGINAL Brunias, n.0(;) 0.TI c,s7 Marido tele Oliveira MaL Siape 91650 3 Page 1 _0032000.PDF Page 1 _0032100.PDF Page 1
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Numero do processo: 11516.002701/2010-70
Data da sessão: Wed Mar 14 00:00:00 UTC 2012
Ementa: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO
Ano-calendário: 2005
DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO.
Nos tributos submetidos ao denominado lançamento por homologação, regra geral, decorrido o prazo de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador, considera-se
homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, conforme o art. 150, § 4º, do CTN. Contudo, ocorrendo dolo, fraude ou simulação, o termo inicial para contagem do prazo decadencial se desloca para o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, conforme o art. 173, I, do CTN.
ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL
Ano-calendário: 2005
INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI. INCOMPETÊNCIA PARA APRECIAÇÃO.
As autoridades administrativas são incompetentes para apreciar argüições de inconstitucionalidade de lei regularmente editada, tarefa privativa do Poder Judiciário.
ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ
Ano-calendário: 2005
ARBITRAMENTO DO LUCRO.
Sujeita-se ao arbitramento do lucro o contribuinte cuja escrituração contiver deficiências que a tornem imprestável para identificar a efetiva movimentação financeira ou para determinar o lucro real.
DEPÓSITO BANCÁRIO. OMISSÃO DE RECEITAS.
Configuram omissão de receita os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove,
mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nestas operações.
BASE DE CÁLCULO DO ARBITRAMENTO. DEPÓSITOS BANCÁRIOS.
RECEITA DECLARADA. INEXISTÊNCIA DE DUPLICIDADE.
Na ausência de provas de que as receitas escrituradas pelo contribuinte integram o montante total dos depósitos bancários, não há que se falar em duplicidade de cobrança sobre uma mesma base tributável.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA.
Nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis, será aplicada à multa de oficio de 150%.
MAJORAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO.
A falta de apresentação à fiscalização dos arquivos magnéticos de que tratam os arts. 11 a 13 da Lei nº 8.218/91 não dá margem à majoração, em 50%, da multa de ofício aplicada, se em razão da ausência de escrituração contábil e fiscal, hábil a amparar a tributação do sujeito passivo com base no lucro real, este teve seu lucro arbitrado pela autoridade lançadora.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA OU DECORRENTE.
Aplica-se às exigências decorrentes, o mesmo tratamento dispensado ao lançamento da exigência principal, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula.
Numero da decisão: 1102-000.667
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, afastar as preliminares, e, no mérito, DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso para desagravar a multa de ofício aplicada, nos termos do voto do relator.
Nome do relator: João Otávio Oppermann Thomé
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2005 DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. Nos tributos submetidos ao denominado lançamento por homologação, regra geral, decorrido o prazo de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, conforme o art. 150, § 4º, do CTN. Contudo, ocorrendo dolo, fraude ou simulação, o termo inicial para contagem do prazo decadencial se desloca para o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, conforme o art. 173, I, do CTN. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2005 INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI. INCOMPETÊNCIA PARA APRECIAÇÃO. As autoridades administrativas são incompetentes para apreciar argüições de inconstitucionalidade de lei regularmente editada, tarefa privativa do Poder Judiciário. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005 ARBITRAMENTO DO LUCRO. Sujeitase ao arbitramento do lucro o contribuinte cuja escrituração contiver deficiências que a tornem imprestável para identificar a efetiva movimentação financeira ou para determinar o lucro real. DEPÓSITO BANCÁRIO. OMISSÃO DE RECEITAS. Configuram omissão de receita os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o Fl. 4145DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.146 2 titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nestas operações. BASE DE CÁLCULO DO ARBITRAMENTO. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. RECEITA DECLARADA. INEXISTÊNCIA DE DUPLICIDADE. Na ausência de provas de que as receitas escrituradas pelo contribuinte integram o montante total dos depósitos bancários, não há que se falar em duplicidade de cobrança sobre uma mesma base tributável. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. Nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis, será aplicada à multa de oficio de 150%. MAJORAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO. A falta de apresentação à fiscalização dos arquivos magnéticos de que tratam os arts. 11 a 13 da Lei nº 8.218/91 não dá margem à majoração, em 50%, da multa de ofício aplicada, se em razão da ausência de escrituração contábil e fiscal, hábil a amparar a tributação do sujeito passivo com base no lucro real, este teve seu lucro arbitrado pela autoridade lançadora. TRIBUTAÇÃO REFLEXA OU DECORRENTE. Aplicase às exigências decorrentes, o mesmo tratamento dispensado ao lançamento da exigência principal, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, afastar as preliminares, e, no mérito, DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso para desagravar a multa de ofício aplicada, nos termos do voto do relator. Documento assinado digitalmente. Ivete Malaquias Pessoa Monteiro Presidente. Documento assinado digitalmente. João Otávio Oppermann Thomé Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ivete Malaquias Pessoa Monteiro, Silvana Rescigno Guerra Barretto, João Otávio Oppermann Thomé, Leonardo de Andrade Couto, Gleydson Kleber Lopes de Oliveira, e Antonio Carlos Guidoni Filho. Relatório Fl. 4146DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.147 3 Contra a empresa acima qualificada (doravante SCHAEFER YACHTS ou recorrente) foram lavrados, às fls. 883 a 934, autos de infração para exigência do Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ, da Contribuição para o Programa de Integração Social – PIS, da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – Cofins, e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, perfazendo um crédito tributário no montante de R$ 18.489.163,19, aí já incluídos os juros de mora calculados até a data da lavratura e a multa de ofício de 225%. Consoante o Termo de Verificação e Encerramento de Ação Fiscal, fls. 836 a 882, a empresa foi autuada no ano calendário de 2005 pela constatação da ocorrência de receitas oriundas da venda de produtos de fabricação própria e de omissão de receitas decorrentes de depósitos bancários de origem não comprovada. A empresa, que era optante pelo lucro real, teve o seu lucro arbitrado naquele ano, em razão das deficiências constatadas pela fiscalização na escrituração por ela mantida e da falta de apresentação de livros obrigatórios para aquela modalidade. Ainda de acordo com a fiscalização, tendo em vista o desrespeito ao princípio contábil da entidade, caracterizado pela confusão patrimonial e de atividades com as empresas SPA COMÉRCIO DE EMBARCAÇÕES E EQUIPAMENTOS NÁUTICOS LTDA (doravante SPA) e ESTALEIRO KIWI BOATS LTDA (doravante KIWI BOATS), a apuração da base imponível dos tributos foi feita de forma consolidada na pessoa da recorrente, vale dizer, tanto a receita declarada quanto as omissões detectadas, bem como os valores de tributos eventualmente recolhidos por todas elas, foram imputados à recorrente, com a ressalva quanto aos valores da receita declarada pela SPA, que foi desconsiderada (i.e., não foi somada) em razão de não ter qualquer consistência ou lastro em documentos. Segundo a fiscalização, a SPA representava interposta pessoa de SCHAEFER YACHTS e KIWI BOATS, em razão das evidências que relata. Assim, integram o presente processo os Termos de Verificação e Encerramento de Ação Fiscal lavrados em desfavor das empresas SPA e KIWI BOATS (fls. 617 a 660), bem como a documentação relativa aos respectivos procedimentos de fiscalização ali levados a efeito, na forma de anexos (Anexo I, com 6 volumes, contém os documentos referentes à SPA, e Anexo II, com 9 volumes, contém os documentos referentes à KIWI BOATS) No decorrer dos trabalhos de fiscalização, em vista de respostas consideradas evasivas, e em decorrência de reiteradas negativas do contribuinte em entregar livros contábeis e fiscais a que estava obrigado, foram lavrados Termos de Embaraço contra todas as três empresas, bem como foi proposto pelo Auditor Fiscal a submissão de todas elas a Regime Especial de Fiscalização, nos termos do artigo 33 da Lei nº 9.430/96 e Instrução Normativa RFB nº 979/09. Por meio dos respectivos Despachos Decisórios, aprovados pelo Superintendente da Receita Federal do Brasil da 9ª Região Fiscal, foi imposta a aplicação do referido Regime Especial a todas elas, a partir de sua ciência e até o dia 31 de dezembro de 2010. Durante este período em que esteve submetida ao Regime Especial de Fiscalização, constatou a fiscalização que o próprio “grupo” assumiu a entidade única da recorrente, posto que toda a produção e comercialização de embarcações, no ano de 2010, passou a ser realizada pela SCHAEFER YACHTS, sem que nenhuma mudança na linha de produção tivesse sido implementada. Fl. 4147DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.148 4 Após a regular intimação para a comprovação da origem dos depósitos bancários havidos nas três empresas formalmente constituídas, e exclusão das operações de empréstimo e transferências identificadas, os créditos bancários cuja origem não fora identificada foram considerados receitas omitidas pela recorrente, à qual, conforme dito, foi acrescida a receita declarada por SCHAEFER YACHTS e KIWI BOATS, para apuração dos tributos devidos. Por entender ter havido o dolo, materializado nas figuras qualificadoras de sonegação e fraude, a multa de ofício imposta foi majorada para 150% dos tributos lançados, e pelo fato de não ter o contribuinte prestado os devidos esclarecimentos a que fora intimada, e não ter apresentado os arquivos ou sistemas previstos nos arts. 11 a 13 da Lei nº 8.218/91, a multa foi agravada em 50%, do que resultou o percentual final de 225%. O contribuinte impugnou o feito, aduzindo, em síntese, os argumentos a seguir relacionados, os quais foram posteriormente renovados na peça recursal. O arbitramento é improcedente posto que amparado em suposta ausência de apresentação dos livros comerciais e fiscais, porém estes foram exibidos à fiscalização. Ademais, existe incoerência entre o ato da fiscalização que arbitra o resultado por ausência de livros, mas os utiliza para apurar a base imponível. Padece de legitimidade o lançamento tributário dirigido apenas contra a recorrente e abrangendo as outras sociedades empresárias, mormente quando o próprio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais já decidiu que inexiste simulação na instalação de duas empresas na mesma área geográfica com objetivo de racionalizar operações e diminuir a carga tributária. Especificamente, no caso concreto, as atividades desenvolvidas pelas três empresas, que ilegalmente foram reunidas neste auto de infração, já foram exaustivamente analisadas pelo CARF, que assim decidiu ao analisar auto de infração lavrado anteriormente, sendo que, naquela ocasião, a fiscalização entendera que as atividades eram totalmente desenvolvidas na empresa KIWI BOATS (Acórdão nº 10323.357, cuja ementa reproduz). Ou seja, a autoridade fiscal apenas alterou o contribuinte lançado, de Estaleiro KIWI BOATS, anteriormente, para Estaleiro SCHAEFER YACHTS, no presente, sem levar em conta que não houve mudança da natureza jurídica que anteriormente existia. Os fatos geradores anteriores a agosto de 2005 foram atingidos pela decadência, tendo em vista tratarse de lançamento sujeito ao regime de homologação, independentemente de pagamento, e de ter sido notificada do lançamento em 08.09.2010, consoante jurisprudência do CARF que transcreve. A mera existência de erros nas declarações e nos registros contábeis não configura ou evidencia o intuito de fraude para exigência de multa qualificada. Ademais, a multa foi qualificada e majorada com fundamento em legislação posterior aos fatos, no caso a Lei nº 11.488/2007, que não pode ser aplicada com efeitos retroativos. E, ainda que pudesse ser aplicada retroativamente, a incorreta fundamentação legal torna nulo o auto com relação às multas aplicadas. Os autos de infração do PIS e da COFINS são nulos, porque, sendo ilegal o arbitramento, deve prevalecer a apuração dos tributos com base na nãocumulatividade, o que Fl. 4148DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.149 5 não foi feito. Além disto, devem também ser afastadas as suas exigências porque não foram apontadas precisamente a legislação infringida e a penalidade aplicável. O lançamento do crédito tributário não foi antecedido de processo regular de arbitramento, com a instituição do contraditório, caracterizando evidente cerceamento de defesa, pelo que deve o auto de infração ser cancelado. O Estaleiro SCHAEFER YACHTS promove a instalação de equipamentos náuticos que serão adquiridos no mercado pelos clientes, sendo que, por vezes, estes clientes apresentam uma lista dos equipamentos que gostariam de adquirir para posterior instalação, prestando assim a recorrente verdadeiro assessoramento e administração dos bens de seus clientes. Assim, é comum que os clientes depositem valores na conta da recorrente para que esta efetue os pagamentos aos fornecedores dos equipamentos comprados por seus clientes, e tal fato explica a divergência entre o faturamento declarado e a movimentação bancária constatada. Ademais, a movimentação bancária encontrase totalmente registrada no caixa da recorrente, podendo a fiscalização ter facilmente correlacionado os depósitos efetuados com os pagamentos de fornecedores. É improcedente o lançamento apenas contra a recorrente, desconsiderando a personalidade jurídica das demais empresas, sem processo próprio e adequado, por ausência de dispositivo legal que autorize tal procedimento, e posto que elas possuem atividades bem distintas, embora complementares. A SPA tem por finalidade a prestação de serviços de assessoria e administração na compra de embarcações, administrando todas as fases envolvidas na aquisição de uma embarcação, verificando o material empregado e os acessórios que compõe a embarcação encomendada. A KIWI BOATS, por sua vez, fabrica “kits” de fibra de vidro (cascos) de acordo com a encomenda de clientes, e o fornecimento destes se dá mediante a emissão da competente nota fiscal. Já a SCHAEFER YACHTS promove a instalação, nos “kits” de fibra de vidro produzidos por terceiro, dos equipamentos que são adquiridos no mercado por seus clientes. É improcedente o arbitramento do resultado, vez que o fundamento legal utilizado (inciso III do art. 530 do RIR/99) não se coaduna com a situação dos autos, e que a comprovação da imprestabilidade da contabilidade deve ser robusta. No levantamento fiscal foram somados de forma quadruplicada valores decorrentes de apenas uma atividade, visto que, ao total dos depósitos bancários registrados na contabilidade, foram somados de modo ilícito, posto que todos transitaram pelo Banco, os valores declarados, os saldos credores de caixa apurado pela fiscalização, os suprimento de caixa apurados e as demonstrações. O registro contábil dos depósitos bancários na conta caixa justifica sua origem, impede o lançamento por falta de comprovação da origem, e torna insubsistente o arbitramento efetuado, nos termos da jurisprudência do antigo Conselho de Contribuintes e Câmara Superior de Recursos Fiscais que reproduz. Fl. 4149DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.150 6 É ilegal a utilização dos extratos bancários e dos valores neles consignados para determinação do valor a ser tributado, por violação à Lei Complementar n° 105, de 10 de janeiro de 2001. A simples existência de depósitos bancários não configura renda, devendo ser aplicada a Súmula 182 do Tribunal Federal de Recursos (TFR) cujo enunciado estabelece ser ilegítimo o lançamento do Imposto de Renda arbitrado com base apenas em extratos ou depósitos bancários. Inexiste, e tampouco foi demonstrado pela fiscalização, o evidente intuito de fraude, apto a ensejar a imposição de multa qualificada de 150%. O dolo da recorrente não pode ser presumido; ao contrário, deve ser presumida a sua inocência, especialmente após a decisão do CARF nos autos do processo n° 11516.002462/200418. O aumento de 50% da multa imposta é incabível, posto que em nenhum momento a recorrrente deixou de responder as intimações apresentadas pela fiscalização. A imposição da taxa Selic sobre os débitos apurados é inconstitucional. Valem para a tributação reflexa do PIS, da COFINS e da CSLL, as mesmas alegações expendidas relativamente ao IRPJ. A 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto/SP julgou improcedente a impugnação, mantendo integralmente o crédito tributário exigido. Em suas razões de decidir, consignou que o arbitramento fora corretamente aplicado, tendo em vista as inúmeras irregularidades descritas no termo de intimação de fls. 564 a 566, que a contribuinte não regularizara, não procedendo o argumento de que o fundamento legal do arbitramento estaria incorreto, vez que o Termo de Verificação, parte integrante da peça impositiva, identificara que ele ocorreu em face do art. 530, incisos I, II e III do RIR/99. Com relação à unificação das atividades, sustentou que o simples fato de existir mais de uma empresa localizada na mesma planta industrial, como é o caso, não tem o condão de descaracterizar a individualidade de cada uma delas, mas que, entretanto, o que ensejou a unificação foi o fato de não haver registro contábil distinto para cada uma das empresas, apto a demonstrar a evolução dos ativos e representar as atividades de cada uma das sociedades empresárias de forma autônoma, o que leva a concluir que se trata de uma única entidade com denominações diferentes, circunstância, aliás, confirmada em face de o grupo ter assumido a identidade única de Estaleiro Yachts Ltda. Consignou que a conduta dolosa da recorrente fora evidenciada e provada nos autos, em face de ter ela recebido vultosas quantias em depósito durante todo o anocalendário de 2005 e não têlas oferecido à tributação, bem assim ter entregue a DIPJ com apuração do resultado pela sistemática do lucro real sem, contudo, ter qualquer espécie de apuração dos estoques, conforme consta dos autos. Com relação ao agravamento da multa em 50%, consignou que, muito embora a recorrente tenha atendido às intimações endereçadas pelo Fisco, a referida majoração Fl. 4150DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.151 7 justificase porque não houve a apresentação dos arquivos ou sistemas referenciados nos artigos 11 a 13 da Lei nº 8.218/91. O Acórdão 1433.380, fls. 1019 a 1046, está assim ementado: “DEPÓSITO BANCÁRIO. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA ORIGEM. OMISSÃO DE RECEITA. RESULTADO. PRESUNÇÃO JURIS TANTUM. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. FATO INDICIÁRIO. FATO JURÍDICO TRIBUTÁRIO. Caracteriza omissão de receita decorrente de presunção legal a ausência de comprovação da origem de depósitos mantidos em conta corrente bancária. LUCRO ARBITRADO. FALTA DE ESCRITURAÇÃO NA FORMA DAS LEIS COMERCIAIS E FISCAIS. Comprovado inexistir escrituração que atende aos requisitos das leis comerciais e fiscais, tampouco terem sido apresentados livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, procedese ao arbitramento do resultado para efeito de apuração do Imposto de Renda e seus reflexos. DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. MARCO INICIAL DE CONTAGEM DO PRAZO. A sistemática de lançamento por homologação exige o pagamento antecipado do tributo, de modo a incidir a contagem do prazo decadencial a partir do fato gerador, conforme preceitua o § 4º do artigo 150 do Código Tributário Nacional, bem assim a inocorrência das hipóteses de dolo, fraude ou simulação. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. PIS. COFINS. Em se tratando de exigências reflexas de tributos e/ou contribuições que tem por base os mesmos fatos que ensejaram o lançamento do imposto sobre a renda de pessoa jurídica (IRPJ), a decisão de mérito prolatada no processo principal constitui prejulgado na decisão dos processos decorrentes. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. Cabível a aplicação da multa de ofício qualificada, de 150%, quando apurado que o sujeito passivo valeuse de artifício doloso, visando sonegação fiscal. MULTA DE OFÍCIO MAJORADA. A falta de atendimento para apresentação de arquivos magnéticos enseja a majoração da multa de ofício em 50%. SIGILO BANCÁRIO. QUEBRA. TRANSFERÊNCIA. ENTREGA DOS EXTRATOS BANCÁRIOS PELO CONTRIBUINTE. Instaurandose procedimento de ofício, a prestação, por parte das instituições financeiras, de informações requeridas pela administração tributária constitui transferência do sigilo bancário para o Fisco. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. ARGUIÇÃO. Apreciar arguições de inconstitucionalidade e ilegalidade refoge à competência da instância administrativa. Fl. 4151DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.152 8 TAXA SELIC. A utilização da taxa SELIC para o cálculo dos juros de mora decorre de lei, sobre cuja aplicação descabe aos órgãos do Poder Executivo discutir.” Cientificada desta decisão em 30.05.2011, conforme AR de fls. 1053, e com ela inconformada, a contribuinte interpôs recurso voluntário em 27.06.2011, fls. 1055 a 1128, no qual contesta os fundamentos adotados pela decisão recorrida, de que as empresas não possuiriam registro contábil distinto para cada uma delas, afirmativa esta que estaria em contradição com outros trechos da própria decisão em que o julgador reconhece a existência de escrituração individualizada. Reprisa os argumentos já expostos por ocasião da inicial, e acrescenta, ainda, o seguinte: A desconsideração dos atos jurídicos perfeitos praticados pelas empresas ocorreu, como destacou o julgador singular em seu voto nas fls. 1.032, com fundamento no art. 116 do CTN, dispositivo este que prescinde de regulamentação, pelo que resta ausente de amparo legal o presente lançamento. O acórdão recorrido é omisso ao não analisar os argumentos lançados na peça de impugnação, quanto à exigência de PIS e COFINS, no sentido de que não foi apontada, precisamente, a legislação infringida e a penalidade aplicável. A falta de fundamentação da DRJ, neste aspecto, importa em nulidade da decisão. As multas aplicadas são confiscatórias. Encaminhados os autos ao CARF por despacho, os recebo por sorteio. É o relatório. Voto Conselheiro João Otávio Oppermann Thomé O recurso é tempestivo e preenche os requisitos de admissibilidade, dele tomo conhecimento. Apresenta a recorrente, como preliminares, de forma bastante sintética, os seguintes pontos: nulidade do auto de infração por indevida quebra do sigilo bancário; inocorrência da infração, por falta de (ou inadequado) enquadramento legal; ilegitimidade passiva; decadência; Fl. 4152DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.153 9 inexigibilidade das multas por aplicação retroativa da lei 11.488/2007; nulidade dos autos de infração PIS e COFINS, por falta de (ou inadequado) enquadramento legal; ausência do processo de arbitramento anterior ao lançamento. Embora não elenque como preliminar, também demanda a nulidade da decisão de primeira instância, porque teria sido omisso o julgador ao não analisar todos os argumentos lançados na peça de impugnação. Especificamente, teria havido omissão na contestação à alegação da recorrente de que não foi apontada, precisamente, a legislação infringida e a penalidade aplicável relativas às exigências de PIS e de COFINS. De início, cumpre observar que, nos termos do artigo 59 do Decreto nº 70.235/72 – PAF, que rege o processo administrativo fiscal, somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Eventual equívoco ou omissão no tocante ao enquadramento legal, somente vicia a exigência se houver prejuízo ao contribuinte, por impossibilitar a sua defesa. No caso concreto, os fatos que deram origem à tributação estão perfeitamente descritos no trabalho fiscal. O contribuinte, por sua vez, defendeuse plenamente de todas as acusações, demonstrando saber exatamente as razões de autuação. Por este motivo, não procedem as alegações de nulidade por esta razão. Também não verifico qualquer omissão na decisão de piso que pudesse caracterizar o cerceamento ao seu direito de defesa, visto que o julgador a quo analisou os argumentos da recorrente e fundamentou a sua decisão, sendo certo que, tendo encontrado motivo suficiente para decidir, não está o julgador obrigado a enfrentar todos os argumentos trazidos pela parte. De qualquer sorte, a omissão reclamada gira em torno de eventual inadequação do enquadramento legal utilizado, pelo que considero aplicáveis as mesmas considerações acima já feitas. Também não assiste razão à recorrente quando protesta que o regular processo de arbitramento exige a instituição de prévio contraditório, nos termos do art. 148 do CTN, e que a sua falta caracterizaria cerceamento ao direito de defesa. Isto porque cediço que a fase que antecede o lançamento tributário tem caráter meramente inquisitório, e não reclama seja instaurado o contraditório. No âmbito da legislação que rege o Processo Administrativo Fiscal, o direito ao contraditório está assegurado a partir da ciência, pelo contribuinte, da formalização do crédito tributário por meio do lançamento. Neste sentido, é claro o artigo 14 do Decreto nº 70.235/72, que assim determina: “Art. 14. A impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento.” Portanto, não houve qualquer cerceamento ao direito de defesa da recorrente. Por fim, eventuais erros ou equívocos na apuração dos tributos, ou na descrição e enquadramento dos fatos à hipótese tributária prevista na norma, devem ser enfrentados como matéria de mérito, o que pode levar à insubsistência parcial, ou até, em certos casos, total, do crédito lançado, mas não importam a sua nulidade, pelo que as demais Fl. 4153DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.154 10 situações que, no entender da recorrente, conduziriam à nulidade do feito, serão analisadas nos tópicos específicos adiante, inclusive as questões da decadência, por sua vinculação à caracterização ou não do dolo, fraude ou simulação, e da ilegitimidade passiva. Afastadas as preliminares, passo ao mérito. Contesta a recorrente o recurso da autoridade fiscal ao arbitramento dos seus lucros. Sustenta que o fundamento legal utilizado (inciso III do art. 530 do RIR/99) não se coaduna com a situação dos autos, visto que os livros comerciais e fiscais foram exibidos à fiscalização, e que, sendo este o caso, a comprovação da imprestabilidade da contabilidade deveria ter sido feita de forma robusta, sendo incoerente que a fiscalização arbitre o resultado por suposta ausência de livros e os utilize para apurar a base imponível. Em primeiro lugar, ao contrário do que alega a recorrente, o fundamento legal utilizado pelo fisco não foi somente o inciso III do artigo 530 do RIR/99, mas também os incisos I e II do referido artigo, conforme, aliás, já salientara a autoridade julgadora a quo. Mais importante que a simples menção do dispositivo legal, entretanto, é a descrição dos fatos constante no Termo de Verificação e Encerramento de Ação Fiscal, no qual colhemse as seguintes irregularidades apontadas pelo fisco, as quais, ao fim e ao cabo, conduziram à adoção do lucro arbitrado, e que a seguir sintetizo. Inicialmente intimado em 07.08.2009 a apresentar os livros contábeis e fiscais, o contribuinte apresentou o Livro Diário e os livros fiscais sem o registro na Junta Comercial do Estado de Santa Catarina (JUCESC). Após sucessivas intimações, somente em 01.03.2010 foi entregue o Livro Diário devidamente registrado. A fiscalização intimou a empresa a apresentar uma demonstração da correlação de contas que permitisse a análise comparada dos valores registrados na DIPJ 2006, relativa ao ano calendário 2005, com os valores do Balanço Patrimonial e da Demonstração do Resultado do exercício encerrado em 31.12.2005 constantes do Diário apresentado. A recorrente respondeu (fls. 322) que “não existe como estabelecer uma correlação entre valores constantes da DIPJ 2006 ano calendário 2005 entregue e o balanço do exercício encerrado em 31/12/2005 uma vez que, o Balanço é resultado da recontabilização dos fatos ocorridos na empresa no exercício de 2005, devendo a DIPJ ser objeto de declaração retificadora.” A fiscalização intimou a empresa a justificar as divergências encontradas nos saldos finais em 31/12/2005 de diversas contas escrituradas no Livro Razão, no Balancete de Verificação, e, finalmente, no Balanço Patrimonial constante do Diário apresentado, sendo que em alguns casos a divergência encontravase entre um deles e algum dos outros dois documentos, e em outros casos, os três eram divergentes entre si (fls. 315316). A recorrente respondeu (fls. 322) que “Não encontramos as divergências apontadas e acreditamos que a única razão para a existência de diferenças nos saldos, tenha sido algum erro cometido com relação aos relatórios encadernados. Para tentar sanar o problema reemitimos os relatórios e solicitamos a substituição dos anteriormente entregues e iremos providenciar o registro na JUCESC.” A fiscalização intimou a empresa a justificar a divergência entre o Lucro Líquido Apurado na Demonstração do Resultado do Exercício encerrado em 31/12/2005, Fl. 4154DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.155 11 constante do Diário apresentado (R$ 6.608.899,40, fls. 715) e o valor registrado como Resultado do Exercício deste mesmo ano no Patrimônio Líquido do Balanço Patrimonial em 31.12.2005, neste mesmo Diário apresentado, que era de apenas R$ 301.342,91 (fls. 714). A recorrente respondeu (fls. 322) que “não existe a divergência conforme novos balanços e razão.” Tendo ficado claro que os Livros Diário e Razão entregues seriam substituídos, a fiscalização reintimou a empresa a apresentar os Livros Diário e Razão corrigidos. A recorrente respondeu em 28.04.2010 (fls. 563) da seguinte forma: “... informamos que o Livro Diário e o Livro Razão referentes ao ano calendário de 2005 foram encadernados com erros de páginas, mas que as correções já foram efetuadas e os novos livros já foram encaminhados para esta fiscalização.” Entretanto, consignou a fiscalização que o conjunto de folhas avulsas, que fora deixado na recepção do Serviço de Fiscalização, não possuía qualquer valor contábil, e novamente intimou a recorrente a apresentar os referidos livros (fls. 565566). Por fim, na resposta em que informava a recorrente estar apresentando os livros reemitidos e também o balanço correto e que estaria buscando uma alternativa que permitisse o registro do livro corrigido na JUCESC, consignou a fiscalização que estava recebendo um livro Razão encadernado em espiral, e que não estava aceitando as folhas avulsas apresentadas como sendo o livro Diário (fls. 567). Não há registros posteriores de que o Diário corrigido tenha sido entregue. A fiscalização também intimou a empresa a justificar porque em sua escrita contábil não existia registro de nenhuma utilização dos insumos adquiridos ao longo do ano calendário 2005 na montagem das dezenas de embarcações vendidas. A recorrente respondeu (fls. 570) o seguinte: “Com relação à falta de movimentação dos estoques informamos que até este momento não conseguimos documentos hábeis para garantir uma adequada apuração de custos dos produtos fabricados e vendidos, assim como não conseguimos reconstruir os estoques existentes no exercício de 2005. Por estas razões os estoques apontados no balanço não contempla as baixas dos produtos utilizados para fabricação dos produtos vendidos.” De se ressaltar que se trata, no caso, de mais de 15.000 notas fiscais de materiais adquiridos. Para arrematar, os livros de Controle de Produção e Estoque, de Registro de Inventário, e de Apuração do Lucro Real (LALUR) — apesar das sucessivas intimações da fiscalização, e da afirmação da recorrente em resposta a todas elas (fls. 563, 567, 570) de que “estamos empenhados no sentido de reconstituílos o mais breve possível, para poder efetuar a sua entrega a esta Fiscalização, conforme solicitado” — jamais foram apresentados. Diante de tal quadro, correto o procedimento fiscal de desqualificar a escrituração apresentada, procedendo ao arbitramento dos lucros da recorrente, em Fl. 4155DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.156 12 conformidade com o que determina o artigo 530 do RIR/99. Além de não ter apresentado todos os livros que são exigidos pela legislação comercial e fiscal, aqueles que foram apresentados não se revelam adequados e suficientes para a determinação do lucro real da recorrente, aliás, sequer para determinar o lucro líquido com observância dos preceitos da lei comercial, posto que não continham a apuração do custo dos produtos vendidos, fato este reconhecido pela própria recorrente. Tampouco assiste razão à recorrente quando sustenta haver incoerência na utilização, pela fiscalização, de elementos coletados na sua escrituração para efetuar o arbitramento. Ora, não há qualquer impedimento a que a autoridade fiscal assim proceda, aliás, antes pelo contrário, é certo que, nos termos da lei, deve a fiscalização valerse de todos os elementos de que dispuser para apurar a base imponível. No caso, tratase de informação prestada pela própria recorrente na sua Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica – DIPJ, e que foi utilizada pela fiscalização como receita declarada. Contesta a recorrente o procedimento da autoridade fiscal de efetuar o lançamento apenas contra ela, abrangendo os fatos jurídicos ocorridos nas empresas SPA e KIWI BOATS, em desconsideração à personalidade jurídica das mesmas. Em especial, observa que o próprio CARF, no caso específico da recorrente, já decidiu que o procedimento fiscal de reunir as receitas das empresas, como se de uma única empresa só se tratasse, estava equivocado, sendo que, naquela ocasião, a fiscalização entendera que as atividades eram totalmente desenvolvidas na empresa KIWI BOATS. O Acórdão nº 10323.357, que deu provimento por unanimidade ao recurso voluntário interposto pela KIWI BOATS, está assim ementado: “SIMULAÇÃO — INEXISTÊNCIA — Não é simulação a instalação de duas empresas na mesma área geográfica com o desmembramento das atividades antes exercidas por uma delas, objetivando racionalizar as operações e diminuir a carga tributária. OMISSÃO DE RECEITAS — SALDO CREDOR DE CAIXA — DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA — A reunião das receitas supostamente omitidas por duas empresas para serem tributadas conjuntamente como se auferidas por uma só importa em erro na quantificação da base de. cálculo e na identificação do sujeito passivo, conduzindo à nulidade do lançamento.” Pela leitura do voto condutor daquela decisão, verificase ter havido aparente superficialidade nos trabalhos fiscais, naquela ocasião. Conforme bem observou o relator, a prova de que os atos e negócios jurídicos atacados não passam de mera aparência ou ocultam uma outra relação jurídica de natureza diversa compete exclusivamente ao fisco, e há de ser feita com base em indícios, que hão de ser graves, precisos, e concordantes entre si. Após discorrer neste sentido, assim arrematou o relator: “A meu sentir, disso não se desincumbiu o fisco. A falta de aprofundamento da ação fiscal faz com que os fatos apontados como indícios de simulação, quais sejam, a instalação das duas empresas na mesma área geográfica e as alterações dos seus objetivos sociais, reservandose a uma a fabricação do casco e à outra os serviços de montagem da embarcação, possam ser tidos como desdobramento da atividade antes exercida por uma delas, objetivando racionalizar as operações e minorar a carga tributária. Fl. 4156DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.157 13 A conclusão diversa chegaria se a fiscalização comprovasse que a empresa desqualificada não mantinha registros e inscrições fiscais próprias, que não possuía quadro próprio de empregados, que não celebrava negócios, que não emitia documentação, que não mantinha escrituração fiscal relativa a seus negócios. O argumento de que o desmembramento das atividades operacionais teve por único escopo obter economia tributária não é suficiente, por si só, para a desconsideração dos atos e negócios jurídicos realizados com amparo legal.” De fato, na esteira da evolução do pensamento doutrinário e jurisprudencial nacionais, a interpretação dos atos negociais deixou de ser feita apenas de um ponto de vista puramente formal, para uma visão que leva em consideração a presença ou não do propósito negocial, bem como a presença ou não de outras patologias nos negócios jurídicos, que não exclusivamente a simulação e a fraude, mas também o abuso de forma e o abuso de direito. Evolução a qual também encontrou acolhida no CARF, conforme deixou registrado o i. relator do referido acórdão, ao sinalizar que as conclusões poderiam ser outras, no caso de indícios contundentes. Portanto, a despeito do que naquela ocasião tenha sido decidido, importa verificar se, no presente caso, desincumbiuse a fiscalização do ônus probatório a seu cargo. Inicialmente, registrese que não há dúvidas de que as empresas SCHAEFER YACHTS e KIWI BOATS partilham de uma única área geográfica. Comprovam este fato as fotos anexas aos autos, e os relatos feitos de que o acesso a ambas as empresas, em que pese uma conste nos cadastros da RFB como sediada no nº 18.500, e a outra no nº 18.550, se dá pela mesma portaria, que há uma única recepção, que as instalações de direção e administração são comuns, que os funcionários da contabilidade são os mesmos, e que a máquina que emite as notas fiscais é a mesma. Estas são constatações feitas in loco pela fiscalização, e que em nenhum momento foram contraditadas pela recorrente. Por outro lado, até este ponto podese considerar tais providências como simples racionalização de operações com vistas a uma redução dos seus custos administrativos. De se observar que em casos como este, em que há o compartilhamento de instalações e equipamentos, deve ser feito o rateio das despesas, atendendo a algum critério lógico e razoável, em conformidade com as normas de contabilidade de custos. Há vários julgados no CARF reconhecendo a validade do rateio de custos e despesas entre empresas, quando atendida esta condição. Entretanto, com relação às despesas antes mencionadas, não consta que tal providência tenha sido tomada pela recorrente. Pelo contrário, o que os autos evidenciam é a inexistência de contabilidade de custos, tendo a própria recorrente reconhecido a impossibilidade de providenciar a adequada apuração dos seus custos dos produtos fabricados e vendidos. Segundo a recorrente, as empresas não dividiriam instalações e equipamentos. Cada uma delas possui fornecedores, funcionários, equipamentos e instalações próprias, e desenvolve as suas atividades de forma independente uma da outra, conquanto complementares. Conforme já relatado, afirma a recorrente que a KIWI BOATS fabrica somente os cascos de fibra de vidro de acordo com a encomenda de clientes, e a SCHAEFER YACHTS apenas promove a instalação, nesses cascos, dos equipamentos que são adquiridos no mercado pelos seus clientes. Fl. 4157DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.158 14 Assim, segundo as alegações recursais, que são as mesmas opostas ao fisco, quer fazer crer a recorrente que todas as embarcações seriam feitas sob encomenda, como se os clientes comprassem separadamente o casco e os diversos equipamentos, para que a recorrente os montasse. De se reproduzir a resposta categórica por ela dada quando intimada a justificar por que a empresa não fazia o destaque do IPI nas notas fiscais de venda de mercadorias. Disse a recorrente (fls. 580, grifo nosso): “A empresa Estaleiro Schaefer Yachts Ltda não comercializa embarcações, somente realiza montagem de kit de acessórios solicitado pelo cliente que varia de acordo com cada pedido, por esta razão as notas fiscais não geravam débito de imposto (IPI). (...) Uma vez que a empresa realiza exclusivamente montagem, não efetua o débito na saída dos tributos destacados nas notas fiscais” Tais alegações, contudo, chocamse frontalmente com a situação de fato verificada pela fiscalização. Consoante o Termo de Verificação Fiscal, as embarcações produzidas pela SCHAEFER YACHTS e KIWI BOATS são enviadas para a rede de revendedores (MM Náutica, Força 10, High Performance, Band Náutica, entre outras), suportadas por notas fiscais de simples demonstração emitidas pela KIWI BOATS. Essas notas descrevem barcos prontos para demonstração e “test drive” (CFOP 5.912 e 6.912), diversas delas inclusive com destaque do IPI lançado. Nestes casos, quando o barco é vendido, a revenda emite uma nota de devolução (simbólica) do barco para a KIWI BOATS, também com destaque do IPI, e, então, posteriormente, são emitidas as notas fiscais de venda do casco, pela KIWI BOATS, e dos kits e montagens, pela SCHAEFER YACHTS. A documentação fiscal anexa aos autos, portanto, não confirma as alegações recursais a respeito da forma de comercialização dos seus produtos. Como elementos suplementares de prova de que a recorrente fabrica e comercializa barcos prontos, destaquese os catálogos dos produtos, que contém a marca SCHAEFER YACHTS (às fls. 611 a 616, encontramse catálogos dos barcos modelo Phantom), e a informação veiculada pela própria empresa em sua página na internet (fls. 377 do Anexo II), na qual o Sr. Márcio Schaefer é apresentado como o presidente da Schaefer Yachts e “responsável por projetar os barcos Phantom desde o começo até o fim, incluindo a distribuição dos quartos, e os métodos de construção, mas com foco especial no design”. Consta ainda no texto de apresentação da empresa o seguinte: “Uma lancha da Schaefer Yachts não é um projeto copiado ou adaptado de similares americanos ou europeus, (...) Verdadeiras naves, os barcos do estaleiro Schaefer têm cinco anos de garantia estrutural para o casco e são produzidos em sede própria de 9.000 m2 , no município de Palhoça, Grande Florianópolis, numa fábrica totalmente setorizada e concebida para a produção de lanchas. Com mais de 800 unidades entregues desde sua fundação, o elevado grau de satisfação dos clientes Schaefer Yachts é sua maior garantia de estar adquirindo as melhores lanchas do país.” Tampouco a alegação da recorrente de que cada empresa teria seus próprios fornecedores se confirma. Fl. 4158DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.159 15 A fiscalização constatou que na escrita fiscal da empresa KIWI BOATS havia mais de 700 (setecentas) notas fiscais de entrada referentes a itens que são aplicados não na fabricação do casco, que seria alegadamente sua única atividade, mas sim na montagem da embarcação, atividade esta que alegadamente competiria à SCHAEFER YACHTS (v. Termo de Verificação e Encerramento de Ação Fiscal na empresa Kiwi Boats, fls. 635 a 660, e fls. 1046 a 1792 do Anexo II). São notas fiscais em que consta como adquirente a KIWI BOATS, e que descrevem itens tais como carregadores de bateria, máquina de fazer gelo, aquecedor de água, rádio, TV, DVD, microondas, antena, motor, hélice, tanque de combustível, sonda, ar condicionado, cabos e comandos eletrônicos, tecidos e estofamentos, entre muitos outros. Assim, muito embora cada empresa emitisse uma nota fiscal distinta para formalizar a venda dos produtos, uma exclusivamente pelo casco, e a outra pelos demais itens, a contabilidade e escrita fiscal das referidas empresas não espelham esta segregação, ao contrário, demonstram que um mesmo item pode ser adquirido ora por uma, ora por outra empresa, sem nenhum critério. A propósito, quando intimada a KIWI BOATS a justificar porque em sua escrita contábil também não existia registro de nenhuma utilização dos insumos adquiridos ao longo do anocalendário 2005 na montagem das dezenas de cascos vendidos, respondeu ela (fls. 330 do Anexo II) o seguinte: “Com relação à falta de movimentação dos estoques informamos que até este momento não conseguimos documentos hábeis para garantir uma adequada apuração de custos dos produtos fabricados e vendidos, assim como não conseguimos reconstruir os estoques existentes no exercício de 2005. Por estas razões os estoques apontados no balanço não contempla as baixas dos produtos utilizados para fabricação dos produtos vendidos.” Tratase de resposta idêntica, ipsis litteris, àquela dada pela SCHAEFER YACHTS quando questionada sobre a mesma situação, e que evidencia a imprestabilidade também da escrita da KIWI BOATS para fins de apuração dos seus resultados, acaso pudesse ela ser tratada como entidade autônoma. Quanto à alegação recursal de que cada empresa teria instalações próprias, muito embora estejam situadas no mesmo espaço geográfico, cumpre destacar que foi firmado um contrato de locação entre as empresas, tendo a KIWI BOATS como locadora de parte do terreno de propriedade da SCHAEFER YACHTS, e pelo qual deveria pagar o valor anual de R$ 12.000,00. Tal contrato, assim, seria um instrumento formal para dar respaldo à alegação de individualidade das empresas. Entretanto, a fiscalização apurou que o valor do suposto aluguel não dera entrada nas contas Caixa ou Bancos da SCHAEFER YACHTS, e nem fora por ela apropriado como receita. A fiscalização, às fls. 843, relata como deveria darse a emissão e o registro dos documentos fiscais, caso as operações efetivamente tivessem ocorrido na forma que a recorrente alega (produção sob encomenda, aquisição do casco e dos equipamentos pelos clientes, e montagem pela SCHAEFER YACHTS), verbis: “Para que fossem tratadas de forma individualizada, ao concluir a fabricação do casco nu, a empresa Estaleiro Kiwi Boats Ltda., deveria emitir uma nota fiscal de venda do casco para o adquirente, para entrega por conta e ordem, para a empresa Estaleiro Schaefer Yachts Ltda. Fl. 4159DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.160 16 Por sua vez, a empresa Estaleiro Schaefer Yachts Ltda., deveria registrar a entrada deste produto em seu estabelecimento (tanto na escrita fiscal como contábil), proceder a montagem dos ‘kits’ e demais componentes e acessórios e, na saída da embarcação pronta, emitir uma nota fiscal, na qual deveria constar: a)o preço total do produto pronto; b) o valor dos insumos fornecidos pelo adquirente (casco, motor, etc); c) o valor total da industrialização (mão de obra aplicada no produto industrializado e o valor dos insumos de propriedade do industrializador executor da encomenda aplicados no produto), e calcular o IPI sobre os itens ‘b’ e ‘c’ (que compõe a base de calculo do IPI, conforme arts. 131 e 132 do RIPI/2002).” A documentação fiscal emitida, contudo, não corrobora a suposta forma de produção alegada pela recorrente. Não existe uma única nota fiscal emitida pela KIWI BOATS para dar suporte à transferência do casco nu produzido para a SCHAEFER YACHTS, e nem há nesta última qualquer registro contábil ou fiscal da entrada destes cascos. A fiscalização demonstrou que a linha de produção é contínua entre as duas empresas formalmente constituídas, sendo que a cada barco a ser construído corresponde uma única ordem de produção, cujo número identifica o modelo e o número de série da embarcação, ordem esta que a acompanha desde o início da moldagem do casco em uma empresa até a embarcação pronta e acabada na outra. Conforme o relato fiscal, e as fotos anexas aos autos, há um galpão no qual se inicia a produção dos cascos (setor de laminação), pela empresa KIWI BOATS, sendo que este galpão tem acesso direto a outros três galpões para onde são encaminhados os cascos, conforme o seu tamanho (setores de acabamento). Nestes últimos, além da conclusão do processo de fabricação dos cascos, ainda pela empresa KIWI BOATS, são também montados todos os demais acessórios e equipamentos, já pela empresa SCHAEFER YACHTS. Ora, como nem uma nem a outra escrituram nem o Livro Registro de Inventário, nem o Livro Registro de Controle da Produção e do Estoque (este obrigatório pela legislação do IPI – Decreto nº 4.544/2002, art. 369), e não apuram os respectivos custos dos produtos vendidos, sendo que a produção se dá conforme acima descrito, iniciandose com uma ordem de produção, e terminando com um barco pronto, tudo ocorrendo dentro de um mesmo complexo industrial, não há outra conclusão possível senão a de que inexiste a alegada segregação das operações de cada empresa. Assim, o que as notas fiscais emitidas pelas empresas em questão demonstram é tão somente uma “repartição” do faturamento pela venda do produto final, em que a KIWI BOATS emite diretamente em nome do adquirente da embarcação uma nota fiscal de venda do casco nu, e a SCHAEFER YACHTS emite outra nota fiscal para o mesmo adquirente, contendo a seguinte segregação: materiais montados no casco, e prestação de serviços. Diante de tais constatações, perfeitamente correto o procedimento fiscal de tributálas como uma única entidade, consolidando as suas escritas fiscais e contábeis, e aproveitando os recolhimentos, eventualmente por elas feitos, na apuração dos tributos lançados. Além das empresas KIWI BOATS e SCHAEFER YACHTS, há que se falar, no ano de 2005, na participação de uma terceira empresa envolvida no negócio. Tratase da empresa SPA Comércio de Embarcações e Equipamentos Náuticos Ltda (SPA), constituída em agosto de 2004, pelos Srs. Márcio Luz Schaefer e Pedro Odílio Phelippe, que também são os Fl. 4160DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.161 17 mesmos sócios da empresa SCHAEFER YACHTS, sendo que o Sr. Márcio Luz Schaefer também é o sócio majoritário da KIWI BOATS, com 95 % de participação. Esta empresa, conforme as alegações da recorrente, tem por finalidade a prestação de serviços de assessoria e administração na compra de embarcações, administrando todas as fases envolvidas na aquisição de uma embarcação, verificando o material empregado e os acessórios que compõe a embarcação encomendada. Vejamos o que apurou o fisco com relação a esta empresa. Reproduzo a seguir um trecho do Termo de Verificação e Encerramento de Ação Fiscal na empresa SPA, de fls. 617 a 634: “O endereço cadastral da empresa é Rua Saul Antonio Scherer, 57, sala 2, no centro da cidade de Antonio Carlos e, em 08/07/2008, em companhia do supervisor Arlindo, fomos dar ciência do Termo de Início de Fiscalização. O local, uma pequena sala de menos de 20 m2, estava fechado porém, através do vidro da porta, foi possível verificar que o espaço estava quase totalmente tomado por caixas arquivo e pastas de arquivo de documentos. A proprietária do imóvel, sra. Rosita Dilma da Silva Scherer, que mora no andar superior do imóvel, afirmou desconhecer a empresa SPA Comércio de Embarcações e Equipamentos Náuticos Ltda., que o referido imóvel está alugado para a empresa Embracon Empreendimentos Ltda., CNPJ n° 85.135.283/000131, conforme contrato de Locação do qual ela nos forneceu uma cópia (fls. 534 e 535), e que raramente alguém aparece ali, servindo apenas de depósito. Nos dirigimos a empresa Embracon, em sua sede na cidade de São José. A Embracon presta diversos serviços, entre eles os de contabilidade. Na ausência dos sócios, fomos atendidos por um funcionário reconheceu que a empresa SPA já havia sido cliente deles, mas não soube explicar a razão de constar em um endereço da Embracon.” A fiscalização constatou ainda que, no mesmo endereço acima descrito, outras empresas estavam cadastradas, concluindo que provavelmente isto seria feito para que estas se beneficiassem dos favores fiscais do município, que arrecada o Imposto sobre Serviços com base em estimativa. De qualquer sorte, ficou claro que a SPA jamais funcionou no seu endereço cadastral. Intimada a apresentar cópia do contrato de locação e comprovantes do pagamento do aluguel do imóvel onde está registrada a empresa, apresentou o Contrato de Sublocação do Imóvel celebrado entre a SPA e a Embracon (fls. 151152 do Anexo I), e respondeu (fls. 149 do Anexo I) o seguinte: “Esclarecemos que, tendo em vista que os direitos locatícios pertencem ao contador, à época, da empresa, e, portanto, a prestação locatícia era paga, conjuntamente, com os honorários contábeis;” A fiscalização constatou que o valor do aluguel fixado a partir de novembro de 2005 (R$ 735,00) era superior ao valor dos honorários pagos registrados na contabilidade, e que, entre out/2004 e mar/2005, não consta o registro de qualquer pagamento referente a honorários contábeis (fls. 531 do Anexo I). Fl. 4161DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.162 18 Ao tomar ciência do Termo de Início de Fiscalização, na sede das empresas KIWI BOATS e SCHAEFER YACHTS, o sócio Pedro Odílio Phelippe informou (fls. 1.138 do Anexo I) que “a empresa tem sua sede social em Antonio Carlos/SC, mas desenvolve suas atividades no endereço: Rod BR 282, Km 18, 18500, Aririu, Palhoça/SC.” (que é a sede das empresas citadas). Ainda no mesmo documento, esclarece o sócio que a referida empresa não possui quaisquer bens em seu ativo imobilizado, nem tampouco qualquer embarcação no seu ativo. Às fls. 1178 do Anexo I podese conferir o balanço patrimonial de encerramento em 31/12/2005 desta empresa, abaixo sinteticamente demonstrado (valores em reais): Caixa 637.599,19 Banco Bradesco 138.315,52 Clientes Nacionais 327.690,87 Ativo Permanente (softwares) 4.385,93 Total do Ativo 1.107.991,51 Fornecedores 2.578,00 Obrigações fiscais (IRRF s/folha) 5.893,95 Obrigações sociais (INSS,FGTS,contr.sind.) 37.786, 68 Obrigações contratuais (clientes) 918.131,19 Capital social 20.000,00 Lucros ou prejuízos acumulados 210.962,95 Total do Ativo 1.107.991,51 Intimada a respeito dos lançamentos efetuados nas contas relativas aos contratos de clientes e adiantamentos de clientes, respondeu a empresa (fls. 12 do Anexo I): “Os valores registrados nas contas representam o registro contábil dos valores entregues pelos clientes ao nosso caixa ou depositados no Banco, para que a empresa efetue o pagamento dos equipamentos e materiais comprados em nome do cliente para serem empregados na montagem de seus kits de embarcação. Nossa empresa em razão dos conhecimentos que possui no ramo de equipamentos náuticos se coloca à disposição do cliente para realizar a compra dos materiais e equipamentos por ele desejados. O Cliente é informado de que, para a realização dos pagamentos, a empresa solicitará verbalmente que sejam efetuados depósitos em sua conta corrente ou que sejam entregues na sede da empresa o numerário em valor suficiente para a realização dos pagamentos aos fornecedores dos equipamentos. Fl. 4162DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.163 19 As baixas realizadas nas contas de Adiantamentos e Contratos de Clientes representam os valores dos equipamentos instalados nos Kits embarcação dos Clientes.” A empresa apresentou à fiscalização diversos “Contratos Particulares de Montagem de Embarcação” que teriam sido celebrados entre a empresa e seus clientes (fls. 18 a 73 do Anexo I). Nesses, a SPA figura como contratada para a “administração de projeto junto a terceiros de tais equipamentos com prazo determinado para conclusão da Embarcação”. O prazo de entrega é de 90 dias após a assinatura, e nos contratos estão descritos os principais equipamentos que comporão cada embarcação. Duas circunstâncias, em especial, chamam a atenção com relação aos referidos contratos, circunstâncias as quais também foram referidas pela fiscalização. Em primeiro lugar, os contratos apresentados pela SPA não estavam assinados pelas contratantes, mas tão somente pela própria, como contratada. Em segundo lugar, nos referidos contratos não há indicação clara de qual seria a remuneração devida à SPA pelos supostos serviços prestados, já que um único valor é informado, englobando tanto a administração do projeto quanto a montagem propriamente dita. Confirase a redação padrão da cláusula Segunda: “Pela execução do presente contrato juntamente com os serviços a CONTRATANTE pagará à CONTRATADA o valor de R$ ... pelos serviços de administração de projeto.” A fiscalização intimou diversos desses terceiros, adquirentes das embarcações, a prestar informações e encaminhar documentos referentes a esses contratos e às respectivas aquisições de bens e serviços efetuada. Recebeu 20 respostas, as quais encontram se no Anexo I, havendo um resumo às fls. 544 a 546 deste. Conforme destacou a fiscalização, quatro deles (Valdair Kalfels, Raphael Gomes Santiago, Belquior Saraiva Neto, e Mariana Jeanete Theis Bonet) responderam que não firmaram qualquer contrato nem entabularam qualquer negociação com a SPA. Os demais apresentaram documentos (notas fiscais e recibos) que não guardavam qualquer equivalência com relação ao estabelecido no contrato, inclusive os únicos dois que reconheceram o contrato firmado com a SPA (Milton José de Carvalho Montenegro, e Levi Rodrigues da Silva). Intimada sobre quem prestaria os serviços de assessoria e administração na compra de embarcações, respondeu a SPA (fls. 158 do Anexo I), o seguinte: “Os serviços de assessoria prestados pela nossa empresa são prestados pelos sócios, Pedro Odílio Phelippe, empresário e Márcio Luz Schaefer, projetista naval, que são remunerados pelos lucros obtidos pela empresa.” Intimada a respeito das transações efetuadas com as empresas KIWI BOATS e SCHAEFER YACHTS, respondeu (fls. 839 do Anexo I) o seguinte: “Não possuímos registros que permitam individualizar a entrega de numerário efetuada pelos clientes uma vez. que o controle dos materiais empregados e colocados nas embarcações era efetuado pelos proprietários.” Fl. 4163DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.164 20 De se ressaltar que tal afirmativa contradiz frontalmente o quanto constante nos referidos contratos, bem como o quanto antes respondido pela SPA, visto que a empresa seria alegadamente responsável pela administração de todas as fases envolvidas na aquisição de uma embarcação, bem como pela verificação do material empregado e dos acessórios que comporiam a embarcação encomendada. À vista de todas estas constatações, concluiu o fisco que a SPA nada mais era do que interposta pessoa de KIWI BOATS e SCHAEFER YACHTS, pelo que a sua receita declarada foi simplesmente descartada, conquanto os eventuais recolhimentos por ela feitos tenham sido aproveitados no lançamento de ofício. Por fim, considerese ainda os seguintes indícios complementares de inexistência da alegada segregação de fato das operações entre as três empresas fiscalizadas. Em primeiro lugar, destaquese que os contratos sociais das empresas SCHAEFER YACHTS e a KIWI BOATS não evidenciam a alegada segregação de atividades entre elas, senão antes uma quase total identidade destas. Vejamos quais eram os seus objetivos sociais à época dos fatos (2005): 1) da empresa SCHAEFER YACHTS, conforme a Terceira alteração contratual, fls. 07 a 12: “ Construção de embarcações em fibra de vidro, materiais compostos e madeira; Venda de equipamentos náuticos; Reformas de embarcações em geral e projetos navais; Importação e exportação de materiais, equipamentos náuticos e embarcações; Propaganda e Marketing.” 2) da empresa KIWI BOATS, conforme a Segunda alteração contratual e consolidação, fls. 04 a 08 do Anexo II: “ Construção de embarcações em fibra de vidro, materiais compostos e madeira; Venda de equipamentos náuticos; Reformas de embarcações; Projetos de embarcações; Importação e exportação de materiais, equipamentos náuticos e embarcações.” Vejase também a evolução do quadro societário das empresas envolvidas. A SCHAEFER YACHTS foi constituída em 16 de abril de 1999, tendo o seu quadro societário composto pelo Sr. Márcio Luz Schaefer, com 99% das quotas do capital social, e sua esposa, Sra. Raquel Ribeiro Szpoganicz Schaefer, com 1% das quotas. Fl. 4164DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.165 21 Na 1ª Alteração Contratual, em 17 de julho de 2000, foram admitidos na sociedade a Sra. Adelina Luz Schaefer (mãe do Sr. Márcio), com 95% do capital, e Pedro Odílio Phelippe, com 5%, e retiramse os sócios anteriores. Na 3ª Alteração Contratual, feita em 15 de julho de 2004, e vigente à época dos fatos, retirase da sociedade a Sra. Adelina Luz Schaefer, e retorna o Sr. Márcio Luz Schaefer, com 95% das quotas do capital. A KIWI BOATS, empresa constituída em fevereiro de 1994, tinha o seu quadro societário composto pelo Sr. Márcio Luz Schaefer, com 95% das quotas do capital social, e sua mãe Adelina Luz Schaefer, com 5% das quotas. Na 1ª Alteração Contratual, feita em 20 de julho de 2000, e vigente à época dos fatos, foi admitida na sociedade a Sra. Raquel Ribeiro Szpoganicz Schaefer (esposa do Sr. Márcio) com 5% das quotas, e retirase da sociedade a Sra. Adelina Luz Schaefer. A SPA, de acordo com a 2ª Alteração Contratual, datada de 20 de outubro de 2005, que teve por objetivo somente alterar a sede da sociedade, iniciou suas atividades em 1º de agosto de 2004, e tem seu quadro societário composto pelo Sr. Márcio Luz Schaefer, com 90% das quotas do capital social, e Pedro Odílio Phelippe, com 10% das quotas. Assim, além de ocuparem as empresas o mesmo espaço geográfico, e de todas as demais evidências já relatadas, também compartilham o mesmo objeto social, e tem na sua composição societária sempre a participação do mesmo sócio majoritário, com 95% da KIWI BOATS e da SCHAEFER YACHTS, e com 90% da SPA, tudo a demonstrar tratarse de uma única entidade. Diante de tais provas, em situações semelhantes, também assim já decidiu o CARF, conforme ementas abaixo reproduzidas: “CRIAÇÃO DE VÁRIAS EMPRESAS PARA OPTAR PELO REGIME DO LUCRO PRESUMIDO – Há evasão ilegal de tributos quando se criam oito sociedades de uma só vez, com os mesmos sócios que, sob a aparência de servirem à revenda dos produtos da recorrente, têm, na realidade, o objetivo admitido de evadir tributo, ao abrigo da tributação litigada – lucro presumido.” (Acórdão nº 103 07.260/86) “CRIAÇÃO DE DUAS EMPRESAS COM O MESMO OBJETO SOCIAL – Caracterizase como evasão ilegal do imposto, pelo que se tributam como de um só os resultados de duas ou mais empresas, constituídas e administradas pelos mesmos sócios, com o mesmo objetivo social, utilizando os mesmos equipamentos e instalações industriais e comerciais, com consumo de energia, de despesas telefônicas e outras em comum e não diferenciadas, apropriadas por apenas uma delas.” (Acórdão nº 1053.523/89) Conforme já referido, tendo em vista a impossibilidade de apuração do lucro real, em face das irregularidades constatadas, o lançamento foi efetuado pelo lucro arbitrado. Nesta modalidade de apuração do lucro, a receita bruta conhecida é o parâmetro por excelência a ser adotado, sobre ele aplicandose um percentual de arbitramento, conforme a atividade da empresa. No caso concreto, foi adotada como receita conhecida a receita omitida (depósitos bancários de origem não comprovada, ocorridos nas contas mantidas pelas três empresas Fl. 4165DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.166 22 formalmente constituídas – SPA, KIWI BOATS, e SCHAEFER YACHTS) e a receita declarada pelas empresas KIWI BOATS e SCHAEFER YACHTS. A recorrente demanda a nulidade do auto de infração por indevida quebra do seu sigilo bancário. Ora, esta alegação é de todo improcedente, vez que, no presente caso, os extratos bancários não foram obtidos pela fiscalização junto às instituições financeiras, ao abrigo das normas estabelecidas pela Lei Complementar n° 105, de 10 de janeiro de 2001 e legislação correlata, questão a qual está pendente de apreciação pelo STF em sede de repercussão geral. De fato, no caso, os extratos bancários foram apresentados ao fisco pelas próprias empresas fiscalizadas, em atendimento a intimação para este fim, pelo que não há que se falar em quebra de sigilo. Alega a recorrente que os depósitos bancários, por si só, não constituem fato gerador do imposto de renda, devendo ser aplicada a Súmula 182 do Tribunal Federal de Recursos (TFR) cujo enunciado estabelece ser ilegítimo o lançamento do Imposto de Renda arbitrado com base apenas em extratos ou depósitos bancários. Não lhe assiste razão neste aspecto. A Súmula 182 do TFR, bem como a jurisprudência invocada pela recorrente, tinha aplicabilidade enquanto vigente o artigo 6º, § 5º, da Lei nº 8.021/1990, que estabelecia que teria de ser demonstrado o nexo causal entre o depósito e o fato que representa omissão de rendimentos, mediante prova cabal e robusta de que ele foi utilizado como renda consumida. Esta realidade foi diametralmente alterada com a revogação daquele dispositivo pela Lei nº 9.430/96, cujo artigo 42 estabeleceu o seguinte, verbis: Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Nesta nova realidade erigida pelo legislador à condição de presunção legal, a caracterização da ocorrência do fato gerador do imposto de renda não se dá pela mera constatação de um depósito bancário, isoladamente considerada, mas sim pela falta de esclarecimentos da origem dos numerários depositados. Ou seja, há uma correlação lógica estabelecida pelo legislador entre o fato conhecido (ser beneficiado com um depósito bancário sem demonstração de sua origem) e o fato desconhecido (auferir rendimentos), e é esta correlação que dá fundamento à presunção legal em comento, de que o dinheiro surgido na conta bancária, sem qualquer justificativa, provém de receitas ou rendimentos omitidos. Tratase, como é cediço, de presunção legal relativa, que possui o condão de inverter o ônus da prova. Regularmente intimada, cabe à recorrente afastar a presunção de omissão de receitas, apresentando, nos termos da lei, documentação hábil e idônea que comprove, individualizadamente, a origem dos valores creditados em sua contacorrente. Neste quesito, a fiscalização analisou as respostas ofertadas pela recorrente, bem como pelas empresas KIWI BOATS e SPA, em conjunto com os documentos por ela apresentados, e reputou comprovadas as transferências oriundas da empresa SPA para as outras duas empresas, bem como outras operações identificadas, tais como empréstimos, de sorte que tais valores não Fl. 4166DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.167 23 compõe o montante considerado não comprovado na relação constante às fls. 705 a 711, o qual foi posteriormente consolidado mês a mês pelo fisco para fins de tributação. Em sede recursal, limitase a recorrente a alegar que o registro contábil dos depósitos bancários na conta caixa justificaria a sua origem, impedindo o lançamento por falta de comprovação da origem. Ora, tal contabilização, que consiste em simples registro de movimentação entre as contas Bancos e Caixa, ou seja, a débito da conta Bancos e a crédito da conta Caixa, sem que exista no mesmo dia, conforme consignou o i. Auditor Fiscal, na grande maioria dos lançamentos analisados, nenhuma entrada de Caixa que justifique esses valores (fls. 853). Assim, esta alegação da recorrente, desprovida de quaisquer elementos de prova, não possui o condão de infirmar a acusação fiscal, especialmente em face da inversão do ônus da prova. Ademais, salientese que o fato de um depósito bancário estar contabilizado não ilide a presunção legal em comento, posto que a legislação trata de depósitos bancários de origem não comprovada, e não de depósitos bancários não contabilizados. Quanto à alegação de que teria havido sobreposição do montante dos créditos bancários à sua receita declarada, gerando neste aspecto duplicidade de lançamento sobre uma mesma base, não se pode acatar tal argumento, posto que este se assenta na premissa de que toda a receita auferida pela empresa teria transitado, necessariamente, pelas contascorrentes bancárias, tese esta que não se faz acompanhada de quaisquer provas. Aliás, as evidências constantes dos autos apontam justamente em sentido contrário, ou seja, de que efetivamente houve recebimento em espécie de valores provenientes dos clientes, senão vejamos. Quando intimada a apresentar a documentação hábil e idônea relativa aos valores creditados na conta passiva “2001800001 Adiantamento de Clientes” no ano de 2005, e da respectiva baixa desses valores, ainda que em ano subseqüente, respondeu a SCHAEFER YACHTS (fls. 147) o seguinte: “4 a conta ‘2001800001 Adiantamento de Clientes’ é utilizada para registrar os valores que os clientes depositaram em nossas contas bancárias para nós efetuarmos os pagamentos dos equipamentos que eles, os clientes, adquiram para serem montados em suas embarcações. A baixa desses valores é efetuada pela entrega dos barcos.” Intimada a respeito da mesma questão, deu a KIWI BOATS (fls. 156 do Anexo II) a mesma resposta, ipsis litteris. Contudo, em ambos os casos constatou a fiscalização que, de acordo com as cópias do Razão apresentadas, todos os valores creditados na referida conta “Adiantamento de Clientes”, tiveram como contrapartida não as contas “Bancos”, mas sim a conta Caixa. Tal assertiva em nenhum momento foi contraditada pela recorrente, e dá azo a que se conclua ter havido recebimentos de clientes em espécie. Além disto, conforme acima relatado, intimada a respeito desta mesma questão, a SPA expressamente reconheceu (fls. 12 do Anexo I) que solicitava aos seus clientes, em alguns casos, que fosse entregue numerário em espécie na sede da empresa, em valor Fl. 4167DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.168 24 suficiente para a aquisição dos equipamentos, e que o registro contábil dos adiantamentos representava “os valores entregues pelos clientes ao nosso caixa ou depositados no Banco”. Para arrematar, nos procedimentos de circularização junto a terceiros, adquirentes das embarcações, obteve a fiscalização a confirmação, por parte de alguns deles, de que parte ou o total dos valores pagos, em alguns casos, o fora em moeda corrente. As respostas obtidas, conforme já referido, encontramse anexas aos autos, podendose conferir um resumo às fls. 544 a 546 do Anexo I. Portanto, à vista dos fatos acima relatados, não pode ser acolhida a alegação de duplicidade de lançamento sobre uma mesma base, seja porque não logrou a recorrente fazer qualquer correlação dos depósitos bancários com as receitas que foram por ela declaradas, que era de sua obrigação fazer, seja porque há evidências concretas, no caso, de que parte das receitas por ela auferidas não circularam pelas contas bancárias. Assim, tanto a receita declarada na DIPJ, quanto a receita omitida, apurada com base nos depósitos bancários de origem não comprovada, deve ser submetida aos percentuais de arbitramento previstos na lei. Quanto à aplicação da multa qualificada (150%), por todo o exposto, creio estar suficientemente demonstrado a presença de simulação nos atos praticados pelas empresas formalmente constituídas, ao tentar dar a aparência de que uma única atividade na verdade segregarseia em três distintas empresas, localizadas todas de fato no mesmo espaço geográfico (embora uma delas declarasse ter sua sede em outro local, também naquele espaço comum desenvolveria suas atividades). Além de ter sido demonstrado que a forma de produção e de comercialização das embarcações não corresponde àquela alegada pela recorrente, ficou ainda evidenciada a interposição de empresa para recebimento de valores decorrentes de sua comercialização, empresa esta que nunca funcionou no endereço cadastral de sua sede — um depósito fechado e abarrotado de documentos, que fora supostamente sublocado do contador responsável pela escrituração das empresas, sem que tenha sido sequer feito prova do pagamento pela referida sublocação. Há contratos apresentados para justificar tal forma de comercialização, cujo teor ou existência foram frontalmente negados pelas contrapartes, supostas contratantes. Há ainda um contrato firmado entre as empresas KIWI BOATS e SCHAEFER YACHTS, para a suposta locação de parte do terreno de propriedade desta para aquela, o qual teria o intuito de dar respaldo formal à existência de uma sede própria à primeira, cujos efeitos não se materializaram, visto que não houve pagamento em decorrência do mesmo, e nem sequer a devida apropriação de receita. Assim, caracterizada in casu a simulação, provado, entendo eu, o intuito de fraude a que alude o artigo 44 da Lei n° 9.430/96, que prevê a exasperação da multa de ofício, vez que o evidente intuito de fraude possui um amplo conceito onde se inserem as condutas dolosas tipificadas como sonegação, fraude ou conluio, conforme previsto nos artigos 71 a 73 da Lei n° 4.502/64, por aquela lei referidos. Especificamente, entendo que, com os procedimentos adotados pela recorrente, tenham sido modificadas substancialmente, e de modo intencional, as Fl. 4168DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.169 25 características do fato gerador, o que levou à redução do imposto devido, conduta esta que se amolda ao conceito de fraude exposto no artigo 72 da Lei n° 4.502/64, verbis: “Art. 72 Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento.” Além disto, ante a falta de apresentação por parte das empresas fiscalizadas do Livro de Controle de Produção e Estoque, do Livro de Registro de Inventário, do Livro de Apuração do Lucro Real, e a apresentação da escrituração comercial sem apuração dos custos dos produtos vendidos, e com seus balanços apresentando valores em total dissonância com o declarado na DIPJ, tornase incompreensível saber com base em que informaram as empresas apuração pelo lucro real no ano calendário de 2005. De se salientar que tal situação de completo descontrole e confusão nos registros contábeis das empresas, e de total inadequação da escrituração por elas mantidas para a apuração do lucro real, se faz presente há vários anos, conforme se pode inferir das referências feitas nos autos às fiscalizações pretéritas, abrangendo anoscalendário anteriores (2002 e 2003, PAF nº 11516.004364/200750), caracterizando assim a reiteração na sua conduta dolosa. Portanto, plenamente justificada a exasperação da multa aplicada. Protesta a recorrente que o aumento em 50% da multa imposta é incabível, posto que em nenhum momento a recorrrente deixou de responder as intimações apresentadas pela fiscalização. De fato, houve resposta a todas as intimações feitas pela fiscalização, de sorte que não prosperaria o agravamento da multa por este motivo. Contudo, o agravamento aplicado pela fiscalização teve também outro fundamento. Consta do Termo de Verificação Fiscal, às fls. 880 o seguinte, no item “8.3 – Do agravamento das multas”: “Conforme consta às fls. 131, deste processo e fls. 142 do Anexo II, o contribuinte não forneceu os arquivos magnéticos a que fora intimado pelo Termo de Início de Fiscalização e reintimado pelo Termo de Intimação 01/2009.” Tal assertiva em nenhum momento foi contraditada pela recorrente, aliás, ao contrário, esta expressamente reconheceu, em atendimento à intimação fiscal, a impossibilidade técnica de apresentar os arquivos solicitados, conforme consta às fls. acima referidas. Confirase o dispositivo legal que autoriza a majoração da multa nesses casos: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Fl. 4169DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.170 26 (...) II – cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n. 4.502, de 30/11/1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (...) § 2º As multas a que se referem os incisos I e II do caput passarão a ser de cento e doze inteiros e cinco décimos por cento e duzentos e vinte e cinco por cento, respectivamente, nos casos de não atendimento pelo sujeito passivo, no prazo marcado, de intimação para: I prestar esclarecimentos; II apresentar os arquivos ou sistemas de que tratam os arts. 11 a 13 da Lei nº 8.218, de 29 de agosto de 1991, com as alterações introduzidas pelo art. 62 da Lei nº 8.383, de 30 de dezembro de 1991;” Portanto, justificada estaria também a majoração da multa aplicada. Contudo, nos debates ocorridos em sessão, restei convencido por meus pares de que, em casos como o presente — em que a apresentação dos arquivos magnéticos em questão em nada alteraria o lançamento afinal efetuado, que se operou sob a forma do lucro arbitrado — não se justifica a majoração da multa em 50%. Tal entendimento, ao que consta, já teria sido manifestado pela própria Câmara Superior de Recursos Fiscais, cuja função precípua é justamente uniformizar a jurisprudência das câmaras baixas a respeito da correta interpretação da lei tributária. Deste modo, neste ato subscrevendo tal entendimento, reproduzo a seguir alguns julgados neste sentido: MULTA AGRAVADA Não há o que se falar em agravamento da multa de oficio, na hipótese do arbitramento do lucro da pessoa jurídica pela não apresentação dos livros e documentos. (Acórdão 10197.110, relator Valmir Sandri, sessão de 04 de fevereiro de 2009) MULTA DE OFICIO. AGRAVAMENTO. A simples falta de atendimento de intimações nos prazos estipulados não é motivo para o agravamento da multa, principalmente quando a fiscalização já sabia que o sujeito passivo não possuía escrituração contábil e fiscal capaz de suportar auditoria pelo Lucro Real. (Acórdão 10323.588, relator Alexandre Barbosa Jaguaribe, sessão de 15 de outubro de 2008) MAJORAÇÃO DA MULTA — IMPOSSIBILIDADE. Incabível o agravamento da multa de oficio de 75% para 112,5%, quando o contribuinte não exibe à fiscalização os meios magnéticos que amparariam sua tributação com base no lucro real e que, juntamente com a não apresentação dos livros e documentos, foi motivo de arbitramento do lucro por parte da autoridade lançadora. (Acórdão 107 08.606, relator Hugo Correia Sotero, sessão de 21 de junho de 2006) Fl. 4170DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.171 27 MULTA AGRAVADA. FALTA DE ATENDIMENTO À INTIMAÇÃO Dispondo a fiscalização dos elementos necessários para apuração da matéria tributável, descabe o agravamento da multa por não atendimento à intimação para apresentação dessas informações. (Acórdão 10323.390, relator Leonardo de Andrade Couto, sessão de 5 de março de 2008) Quanto aos protestos da recorrente no sentido de que a multa foi qualificada e majorada com fundamento em legislação posterior aos fatos, no caso a Lei nº 11.488/2007, a qual não poderia ser aplicada com efeitos retroativos, estes não tem qualquer procedência. Isto porque a referida lei não instituiu ou majorou qualquer das penalidades aplicáveis aos fatos aqui descritos, mas tão somente realocou as referidas penalidades, que já estavam previstas desde a edição original da Lei nº 9.430/1996, entre os incisos e os parágrafos do seu artigo 44. Quanto às alegações de inconstitucionalidade da imposição da taxa Selic sobre os débitos apurados, e da confiscatoriedade das multas aplicadas, tais questões dispensam maiores considerações a respeito, em razão de se encontrarem devidamente pacificadas por meio de súmulas, de observação obrigatória no âmbito deste Colegiado, abaixo transcritas: “Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.” “Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais.” Quanto à alegação de que os fatos geradores anteriores a agosto de 2005 teriam sido atingidos pela decadência, por tratarse de lançamento sujeito ao regime de homologação, independentemente de pagamento, cumpre observar que, tendo sido mantida a multa qualificada, a decadência regese não pelo prazo quinquenal previsto na primeira parte do parágrafo 4° do art. 150 do CTN, mas sim pelo disposto na parte final do referido dispositivo, que desloca o prazo decadencial para aquele previsto no art. 173, inciso I, do mesmo diploma, consoante a remansosa e pacífica jurisprudência desta Casa. Assim, mesmo com relação aos fatos geradores mais antigos, relativos ao PIS e à COFINS da competência de janeiro de 2005, somente teria início a contagem do prazo quinquenal em 01.01.2006, extinguindose o direito da Fazenda em 31.12.2010. Como os lançamentos foram cientificados à recorrente em 08.09.2010, não há que se falar em decadência. Para concluir, aos lançamentos decorrentes ou reflexos, tendo em vista que efetuados em razão dos mesmos fatos que deram origem ao lançamento principal, e não havendo qualquer arguição específica à qual deva ser dado provimento, devese aplicar a eles a mesma decisão adotada quanto à exigência do IRPJ, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula. Pelo exposto, afasto as preliminares, e, no mérito, dou parcial provimento ao recurso voluntário, para desagravar a multa de ofício aplicada, reduzindoa ao percentual de 150%. Fl. 4171DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO Processo nº 11516.002701/201070 Acórdão n.º 110200.667 S1C1T2 Fl. 4.172 28 É como voto. Documento assinado digitalmente. João Otávio Oppermann Thomé Relator Fl. 4172DF CARF MF Impresso em 30/10/2013 por MARIA MADALENA SILVA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 05/ 04/2012 por JOAO OTAVIO OPPERMANN THOME, Assinado digitalmente em 10/04/2012 por IVETE MALAQUIAS PES SOA MONTEIRO
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