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11237027 #
Numero do processo: 13770.000375/00-00
Data da sessão: Wed May 24 00:00:00 UTC 2006
Numero da decisão: 203-00.730
Decisão: RESOLVEM os Membros da Terceira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, por maioria de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto do Relator. Vencidos os Conselheiros Emanuel Carlos Dantas de Assis, Silvia de Brito Oliveira e Antonio Bezerra Neto. A Conselheira Mônica Monteiro Garcia de Los Rios (Suplente) declarou-se impedida de votar.
Nome do relator: CESAR PIANTAVIGNA

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Processo n° : 13770.000375/00-00 Recurso n° : 129.815 Recorrente : ARACRUZ CELULOSE S/A Recorrida : DRJ em Juiz de Fora - MG RESOLUÇÃO N° 203-00.730 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos de recurso interposto por: ARACRUZ CELULOSE S/A. RESOLVEM os Membros da Terceira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, por maioria de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto do Relator. Vencidos os Conselheiros Emanuel Carlos Dantas de Assis, Silvia de Brito Oliveira e Antonio Bezerra Neto. A Conselheira Mônica Monteiro Garcia de Los Rios (Suplente) declarou-se impedida de votar. Sala das Sessões, em 24 de maio de 2006. tonio Bzerra Neto Preside Cdai Relator' Participaram, ainda, do presente julgamento os Conselheiros Antonio Ricardo Accioly Campos (Suplente), Eric Moraes de Castro e Silva e Dalton Cesar Cordeiro de Miranda. Ausentes, justificadamente, os Conselheiros Valdemar Ludvig e Odassi Guerzoni Filho. Eaal/mdc MIN. DA FAgENDA - 2.° CC CONFERE COM 0 ORIGINAL BRASILIA .C.S7 ' i' 161 V I U "0 1 Ministério da Fazenda Segundo Conselho de Contribuintes CC-MF Fl. Processo n° : 13770.000375/00-00 Recurso n° : 129.815 Recorrente : ARACRUZ CELULOSE S/A RELATÓRIO Pedido de ressarcimento de crédito presumido de IPI (fls. 01 e 02), apresentado em 27/07/2000, solicitava o pagamento da importância de R$ 70.007,69. 0 pleito constou associado a excesso de créditos de IPI verificados no segundo trimestre de 2000 (fl. 01). As fls. 191/192 constam elencados materiais cujos créditos de IPI foram glosados, ao argumento de não condizerem aos conceitos de matéria-prima, produto intermediário e material de embalagem. Seguiu parecer (fls. 194/201) opinando pelo acolhimento parcial (R$ 43.846,75) da postulação da Recorrente, que foi agasalhado pelo despacho decisório constante de fl. 202. Impugnação (fls. 248/263) sustentou, em síntese, que os materiais cujos créditos foram excluídos da apuração do incentivo sob análise compreendiam-se dentro dos conceitos de matéria-prima, produto intermediário e material de embalagem, razão pela qual pediu que as respectivas importâncias compusessem os levantamentos pertinentes ao beneficio. Decisão (fls. 311/318) da instância de piso manteve intacto o indeferimento parcial da pretensão. Recurso Voluntário (fls. 322/339) reinveste no acolhimento integral do pleito. o relatório, no essencial (artigo 31 do Decreto n° 70.235/72). weendhltillm- MIN. DA FAX110,4 - 2.° I cFERE COM O O.L . .. 0 3, L....2.'6 -; ro i./ 2 Ministério da Fazenda Segundo Conselho de Contribuintes CC-MF Fl. Processo n° : 13770.000375/00-00 Recurso n° : 129.815 VOTO DO CONSELHEIRO-RELATOR CESAR PIANTAVIGNA A segurança do trato da matéria está a depender de esclarecimentos relacionados ao processo de industrialização desenvolvido pela Recorrente. Centrando-se na premissa de que o processo de industrialização da Recorrente inaugura-se com o recebimento de toras de eucalipto e finaliza com a obtenção da celulose e o acondicionamento desta pela empresa para venda, é necessário indicar-se quais os materiais que são consumidos e/ou desgastados dentro da seqüência de atos e procedimentos situados entre os dois marcos aludidos. Assim, com atenção aos citados parâmetros inicial e final do processo de industrialização é importante, para o deslinde do caso vertente, descrever toda a seqüência de atos e procedimentos que se estabelece de um ponto a outro, associando a cada qual das etapas produtivas os materiais que nelas foram empregados e consumidos e/ou desgastados, especificando quais representariam insumos e quais seriam exemplares de peças e/ou equipamentos. Tal providencia é principalmente recomendada em relação aos itens assinalados As fls. 191/192, cujas aplicações e aproveitamentos no processo de industrialização da Recorrente devem ser detalhadamente explicitados. a proposta. Sala da o-es, em 24 de maio de 2006. CES tAVIGNA WIIN. DA F AZENO A - 2.° CC COIF ERE C OM O oruGNAL BRASILIA . 1_95_1 a6: V tar 3

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Numero do processo: 15586.720015/2011-92
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jan 26 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Feb 24 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 PEDIDO DE RESSARCIMENTO. CRÉDITO. CONCEITO DE INSUMO. Para fins de apuração de crédito da Contribuição para o PIS/Pasep não cumulativa nos termos do inciso II do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, deve ser observado o conceito de insumo estabelecido pelo STJ no REsp nº 1.221.170-PR a partir do critério da essencialidade e relevância. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 PEDIDO DE RESSARCIMENTO. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. CERTEZA E LIQUIDEZ. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. INDEFERIMENTO. NÃO HOMOLOGAÇÃO. O deferimento do pedido de ressarcimento e a homologação da declaração de compensação estão condicionados à comprovação da certeza e liquidez dos créditos requeridos, cujo ônus é do contribuinte. Não havendo certeza e liquidez dos créditos apresentados, o ressarcimento deverá ser indeferido e a compensação não homologada. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 PROCESSOS VINCULADOS. DECORRÊNCIA. MATÉRIA JÁ APRECIADA. NOVA APRECIAÇÃO. INCABÍVEL. Incabível nova apreciação de matéria, referente ao mesmo período e ao mesmo tributo, já analisada em processo vinculado por decorrência. O princípio da segurança jurídica exige que processos com origem em um mesmo procedimento fiscal, onde foram analisadas as mesmas matérias fáticas, tenham as mesmas decisões que apliquem os mesmos direitos de forma uniforme e não contraditória.
Numero da decisão: 3402-012.926
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Voluntário na parte em que combate as glosas relativas aos serviços de operação da usina, prestados pela Vale S/A, e, na parte conhecida, em lhe dar parcial provimento para: I) desfazer o reenquadramento feito pela Fiscalização nas vendas realizadas para a Vale S/A com fim específico de exportação, reconhecendo o direito de a Recorrente utilizar os créditos relativos a essas vendas para fins de compensação no presente processo; e II) reverter as glosas relativas às notas fiscais emitidas pelas empresas ASTE Assessoria e Suporte Técnico para Eventos Ltda (locação de barracas para montagem de lavatórios), NM Engenharia e Anticorrosão Ltda (serviços de manutenção e tratamento anticorrosivo), Refrigeração Espírito Santo Ltda (serviços de manutenção preventiva/corretiva em sistemas de refrigeração de salas elétricas), CEPEMAR Serviços de Consultoria em Meio Ambiente Ltda (serviço de monitoramento marinho), CONCREMAT Engenharia e Tecnologia (serviços de gerenciamento de projetos de engenharia e de obras diversas) e METACON Engenharia Ltda (serviços técnicos de engenharia de projetos industriais mecânicos e elétricos). Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os julgadores Anselmo Messias Ferraz Alves, Cynthia Elena de Campos, José de Assis Ferraz Neto, Laercio Cruz Uliana Junior (substituto integral), Mariel Orsi Gameiro e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente).
Nome do relator: ARNALDO DIEFENTHAELER DORNELLES

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Voluntário na parte em que combate as glosas relativas aos serviços de operação da usina, prestados pela Vale S/A, e, na parte conhecida, em lhe dar parcial provimento para: I) desfazer o reenquadramento feito pela Fiscalização nas vendas realizadas para a Vale S/A com fim específico de exportação, reconhecendo o direito de a Recorrente utilizar os créditos relativos a essas vendas para fins de compensação no presente processo; e II) reverter as glosas relativas às notas fiscais emitidas pelas empresas ASTE Assessoria e Suporte Técnico para Eventos Ltda (locação de barracas para montagem de lavatórios), NM Engenharia e Anticorrosão Ltda (serviços de manutenção e tratamento anticorrosivo), Refrigeração Espírito Santo Ltda (serviços de manutenção preventiva/corretiva em sistemas de refrigeração de salas elétricas), CEPEMAR Serviços de Consultoria em Meio Ambiente Ltda (serviço de monitoramento marinho), CONCREMAT Engenharia e Tecnologia (serviços de gerenciamento de projetos de engenharia e de obras diversas) e METACON Engenharia Ltda (serviços técnicos de engenharia de projetos industriais mecânicos e elétricos). Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os julgadores Anselmo Messias Ferraz Alves, Cynthia Elena de Campos, José de Assis Ferraz Neto, Laercio Cruz Uliana Junior (substituto integral), Mariel Orsi Gameiro e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente).

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CRÉDITO. CONCEITO DE INSUMO. Para fins de apuração de crédito da Contribuição para o PIS/Pasep não cumulativa nos termos do inciso II do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, deve ser observado o conceito de insumo estabelecido pelo STJ no REsp nº 1.221.170-PR a partir do critério da essencialidade e relevância. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 PEDIDO DE RESSARCIMENTO. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. CERTEZA E LIQUIDEZ. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. INDEFERIMENTO. NÃO HOMOLOGAÇÃO. O deferimento do pedido de ressarcimento e a homologação da declaração de compensação estão condicionados à comprovação da certeza e liquidez dos créditos requeridos, cujo ônus é do contribuinte. Não havendo certeza e liquidez dos créditos apresentados, o ressarcimento deverá ser indeferido e a compensação não homologada. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 PROCESSOS VINCULADOS. DECORRÊNCIA. MATÉRIA JÁ APRECIADA. NOVA APRECIAÇÃO. INCABÍVEL. Incabível nova apreciação de matéria, referente ao mesmo período e ao mesmo tributo, já analisada em processo vinculado por decorrência. O princípio da segurança jurídica exige que processos com origem em um mesmo procedimento fiscal, onde foram analisadas as mesmas matérias Fl. 995DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 2 fáticas, tenham as mesmas decisões que apliquem os mesmos direitos de forma uniforme e não contraditória. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Voluntário na parte em que combate as glosas relativas aos serviços de operação da usina, prestados pela Vale S/A, e, na parte conhecida, em lhe dar parcial provimento para: I) desfazer o reenquadramento feito pela Fiscalização nas vendas realizadas para a Vale S/A com fim específico de exportação, reconhecendo o direito de a Recorrente utilizar os créditos relativos a essas vendas para fins de compensação no presente processo; e II) reverter as glosas relativas às notas fiscais emitidas pelas empresas ASTE Assessoria e Suporte Técnico para Eventos Ltda (locação de barracas para montagem de lavatórios), NM Engenharia e Anticorrosão Ltda (serviços de manutenção e tratamento anticorrosivo), Refrigeração Espírito Santo Ltda (serviços de manutenção preventiva/corretiva em sistemas de refrigeração de salas elétricas), CEPEMAR Serviços de Consultoria em Meio Ambiente Ltda (serviço de monitoramento marinho), CONCREMAT Engenharia e Tecnologia (serviços de gerenciamento de projetos de engenharia e de obras diversas) e METACON Engenharia Ltda (serviços técnicos de engenharia de projetos industriais mecânicos e elétricos). Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os julgadores Anselmo Messias Ferraz Alves, Cynthia Elena de Campos, José de Assis Ferraz Neto, Laercio Cruz Uliana Junior (substituto integral), Mariel Orsi Gameiro e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário (e-fls. 666 a 698) interposto em 30/12/2013 contra decisão proferida no Acórdão 12-61.146 - 16ª Turma da DRJ/RJ1, de 06/11/2013 (e-fls. 652 a 660), que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade para não reconhecer o direito creditório e não homologar a compensação. Os fatos iniciais constam do relatório do referido Acórdão, que reproduzo a seguir: Trata o presente de Pedido de Ressarcimento nº 40396.64980.031208.1.1.080300, relativo ao PIS não-cumulativo – Exportação, do Fl. 996DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 3 1º trimestre de 2006, no valor de R$ 1.064.690,98. Vinculadas a tal crédito foram apresentadas as seguintes DCOMPs: 11202.08213.031208.1.3.089504 39702.11750.191208.1.3.080683 De acordo com o Parecer nº 38/2011 (fls. 125/135) foi apurado o que se segue: Os exames da escrituração e documentação da Cia Nipo Brasileira de Pelotização Nibrasco apurou a existência de débitos de contribuição que foram objeto de lançamento do crédito tributário por meio do auto de infração formalizado pelo processo nº 15586.001586/2010-43. Quanto à apuração do crédito a descontar, foram efetuadas as seguintes glosas: a) Serviços classificados como insumos Foram glosados créditos calculados sobre serviços que não são, direta e efetivamente, aplicados ou consumidos na fabricação de seu produto. Entre esses serviços encontram-se: serviços de gerenciamento e de elaboração de projetos e consultoria de engenharia; serviços de operação e manutenção de aterro industrial; serviços controle e consultoria ambiental; informações de indicadores econômicos; assessoria econômico-financeira contábil; planos de saúde para funcionários; locação de andaimes, sanitários químicos e outros módulos; serviços topográficos; desenvolvimento de softwares; compras de bens de uso e consumo; entre outros, todos estampados no “Demonstrativo de Glosa de Créditos de PIS e Cofins”, fl.123. b) Serviços de operação da usina O contribuinte também aproveitou créditos sobre serviços prestados pela Companhia Vale do Rio doce – CVRD, atualmente denominada Vale S/A, identificados em seus demonstrativos como Fator C, Fator K e Fator Y. De acordo com o contrato apresentado, fls.85/113, trata-se da prestação de serviços necessários e dos serviços correlatos por parte da CVRD, para o funcionamento da usina de pelotização da NIBRASCO. Nos termos do item VI do contrato, os fatores apontados referem-se à compensação monetária pela operação normal da usina, nos quais estão inclusos os seguintes elementos: Fator C: valor dos materiais, serviços e suprimentos diretamente medidos na operação da usina; valor para a NIBRASCO dos serviços e materiais complementares relativos ao Departamento de Pelotização da CVRD, tais como inspeções, controle de qualidade, oficinas, sala de controle, engenharia industrial, transporte de pessoal e de materiais, etc.; valor para a NIBRASCO correspondente ao total das despesas com mão-de-obra e respectivos encargos e provisões do Departamento de Pelotização da CVRD dividido pelo número de usinas operadas pela CVRD na Ponta de Tubarão. Fl. 997DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 4 Fator K: despesas gerais da CVRD. Refere-se a todas as despesas incorridas pela CVRD, em Vitória e no Rio de Janeiro, pela prestação de serviços necessários ou úteis para a administração regular da NIBRASCO, entre os quais: telex e outras modalidades de comunicação, elaboração e processamento de dados, treinamento de pessoal, órgãos de pessoal, comercial e de compras, assistência jurídica e fiscal, estatística, serviços de contabilidade e custo, etc., que não estejam incluídos em nenhum componente da compensação. Fator Y: componente voltado a compensar a CVRD pelo custo financeiro do capital de giro que a CVRD proverá para a operação e manutenção da Usina, através da manutenção em estoque de sobressalentes e de materiais de consumo. Observa-se da análise dos componentes da compensação pela operação da usina que vários deles não são aplicados ou consumidos diretamente na produção de pelotas de minério de ferro e, por conseguinte, não se subsumem ao conceito de insumo para aproveitamento de crédito da contribuição para o PIS. Nesta condição estão os serviços voltados à administração regular da NIBRASCO abarcados pelo Fator K. No tocante ao Fator Y, salienta-se que a legislação somente estabeleceu o aproveitamento de créditos sobre os valores das aquisições de bens para a industrialização, não integrando o cálculo as aquisições de bens de consumo e o custo financeiro atinente à manutenção em estoque. Além da lavratura do citado auto de infração, a reversão da receita do mercado externo em receita do mercado interno influencia os valores passíveis de ressarcimento e/ou compensação, pois como já visto, somente são passíveis de ressarcimento e/ou compensação os valores dos créditos vinculados à receita de exportação. O valor do crédito a descontar vinculado às receitas de exportação foi determinado com base no rateio proporcional entre as receitas de exportação e receitas no mercado interno, regime adotado pelo contribuinte. O Parecer e Despacho Decisório (fl.125/135 e 138) reconheceu o direito creditório no valor de R$ 504.641,48 e homologou a compensação até o limite do crédito reconhecido. A ciência foi efetuada em 29/03/2011 (fl. 139) e a manifestação de inconformidade (fls. 143/222) foi apresentada em 28/04/2011, alegando em síntese: O despacho decisório é nulo por não conter a descrição dos fatos constantes do processo nº 15586.001586/2010-43. A interessada contesta as razões do auto de infração nº 15586.001586/2010-43, que considerou como vendas no mercado interno as vendas de pelotas para a CVRD informadas no DACON como com fim específico de exportação. Insumo é um conceito mais amplo do que o alegado pela fiscalização. Fl. 998DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 5 Os serviços glosados oneram a atividade empresarial, pois são tributados em razão do faturamento da empresa prestadora e em virtude do faturamento da empresa vendedora, existindo, então, evidente cumulatividade na incidência das contribuições. A glosa dos serviços de operação e manutenção de equipamentos da produção contraria o entendimento manifestado pela RFB na Solução de Consulta nº 30/2010. Quanto ao FATOR K são serviços necessários à operação de industrialização e, portanto, passíveis de creditamento. Cita Acórdão nº 16-29677 de 2011 da 9ª Turma da DRJ SP1 que trata da possibilidade de apuração de crédito de insumos relativos à armazenagem de mercadoria e frete. Quanto ao FATOR Y (matérias de estoque sobressalente e materiais de consumo) cita o Acórdão nº 06-27264 de 2010 da 3ª Turma da DRJ Curitiba. Por fim, requer perícia para comprovação do caminho que percorrem as pelotas. O julgamento em primeira instância, formalizado no Acórdão 12-61.146 - 16ª Turma da DRJ/RJ1, resultou em uma decisão de improcedência da Manifestação de Inconformidade, tendo se ancorado nos seguintes fundamentos: (a) que não há nulidade no Despacho Decisório; (b) que o reenquadramento das vendas informadas no DACON como com fim específico de exportação para venda no mercado interno foi tratado no auto de infração do qual a interessada teve ciência e pode exercer seu direito de defesa (PAF 15586.001586/2010-43), não podendo a questão ser novamente apreciada no presente processo; (c) que o CARF entendeu estar correto o reenquadramento das vendas feito pela Fiscalização; (d) que a decisão a ser tomada no presente processo (de compensação) deve considerar a decisão proferida no processo do auto de infração (PAF 15586.001586/2010-43); (e) que a perícia é prescindível, uma vez que a questão da receita de venda de pelotas foi tratada no processo de auto de infração, não sendo possível nova apreciação da matéria já decidida pelo CARF; (f) que na produção de bens destinados a venda, somente é considerado insumo o bem que sofra alterações, tais como: consumo; desgaste; dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto e o serviço aplicado ou consumido na produção; Fl. 999DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 6 (g) que na prestação de serviço, somente é considerado insumo o bem ou serviço aplicado ou consumido na prestação de serviços; (h) que o conceito de insumos a ser observado é o disposto no art. 66, §5º da IN 247/2002; (i) que os serviços glosados não se enquadram no conceito de insumo; e (j) que as despesas dos fatores K e Y não se enquadram no conceito de insumo dado pela legislação. Tendo sido considerada cientificada da decisão da DRJ em 14/12/2013 (Termo de Ciência por Decurso de Prazo na e-fl. 664), a empresa interpôs Recurso Voluntário em 30/12/2013 (carimbo da DRF Vitória na e-fl. 666), argumentando, em síntese, que: (a) para o aproveitamento da imunidade tributária atinente às receitas decorrentes de exportação, não importa que a venda seja destinada a recinto alfandegado, ou mesmo que a venda seja destinada diretamente ao embarque para exportação; (b) a operação de venda realizada pela Recorrente para a Vale S/A destinou-se exclusivamente ao mercado externo, conforme os memorandos de exportação e demais documentários atinentes à espécie; (c) as decisões proferidas nos PAF 15586.0001584/2010-54 e 15586.001601/2010- 53, que tratam de casos semelhantes, rechaçam qualquer argumento contrário de que as vendas de minério “pelotas” não tiveram o fim de exportação; (d) a IN RFB nº 1.094/2010 prescreve que nas operações de mercadorias com fim específico de exportação ocorre o fenômeno da não-incidência tributária; (e) o contrato de compra e venda das pelotas de minério de ferro, os memorandos de exportação das notas fiscais de pelotas, os relatórios de movimentação das pelotas no Complexo de Tubarão – controle de estoque, o modelo esquemático da planta industrial do Complexo de Tubarão, as cartas de correção das notas fiscais, a carta de encaminhamento da Vale S/A declarando que não se creditou do PIS e COFINS e a declaração da Vale S/A informando os termos contratuais firmados com a Recorrente e afirmando que as pelotas fornecidas foram adquiridas com o fim específico e exportação comprovam que as vendas do minério de ferro aglomerado – pelotas – se deram com o fim específico de exportação; (f) a RFB não pode exigir o cumprimento de certos requisitos (obrigações acessórias) para que fosse reconhecida a não incidência (poderia sustentar tal entendimento se de isenção se tratasse); Fl. 1000DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 7 (g) a passagem do produto por pátio pertencente ao próprio remetente não pode ser considerada circulação ou remessa que descaracteriza a remessa direta para exportação/recintos alfandegados; (h) os serviços glosados são todos decorrentes da própria operação da Recorrente e oneram a atividade empresarial, pois além de serem tributados em razão do faturamento da empresa prestadora, serão tributados em virtude do faturamento da empresa vendedora, existindo, então, evidente cumulatividade na incidência das contribuições; (i) os serviços glosados foram prestados para a efetivação da produção das pelotas de minério de ferro pela Recorrente; (j) os serviços glosados do fator K (telex e outras modalidades de comunicação, processamento de dados, treinamento de pessoal etc.) são necessários à operação de industrialização e, portanto, passíveis de creditamento; (k) as glosas do fator Y (matérias de estoque sobressalente e materiais de consumo) subsomem-se ao conceito de insumo; e (l) todos os créditos utilizados pela Recorrente são hígidos e estão intimamente ligados à atividade desenvolvida, sem o que seria inviável o processo produtivo. Vindo o Recurso Voluntário para julgamento neste Conselho, entendeu-se que as glosas feitas pela Fiscalização, e mantidas pela DRJ, haviam sido baseadas em um conceito de insumo já superado pela decisão proferida pelo STJ no REsp 1.221.170/PR, e decidiu-se, por meio da Resolução nº 3402-002.664 (e-fls. 710 a 718), de 21/09/2020, converter o feito em diligência para que a unidade da RFB de origem: 1. intimasse a Recorrente a apresentar laudo técnico com a demonstração detalhada da utilização de cada um dos bens entendidos como insumos no processo produtivo desenvolvido pela empresa, nos termos do REsp nº 1.221.170/PR; 2. intimasse a Recorrente a justificar porque considera que cada um dos bens do item anterior é essencial ou relevante ao seu processo produtivo, do qual resulta o produto final destinado a venda ou serviço prestado, em conformidade com os critérios delimitados no Voto da Ministra Regina Helena Costa proferido no REsp nº 1.221.170/PR; e 3. elaborasse relatório conclusivo acerca da apuração das informações solicitadas nos itens anteriores, manifestando-se sobre dos fatos e fundamentos apresentados pela Recorrente, inclusive, sobre o eventual enquadramento de cada bem e serviço do período de apuração no conceito de insumo delimitado no Parecer Normativo Cosit nº 05/2018 e no Voto da Ministra Regina Helena Costa proferido no REsp nº 1.221.170/PR, de aplicação obrigatória no âmbito da RFB (Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF), bem como quanto a correção da metodologia adotada no cálculo da depreciação. A diligência foi cumprida pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Vitória/ES, que, ponderando que “segundo a decisão do STJ e a Nota SEI, já citadas, nem todo item essencial deve ser considerado como insumo com direito a creditamento do PIS e da COFINS, devendo-se excluir os bens e serviços vinculados as atividades administrativas, jurídicas, contábeis, Fl. 1001DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 8 comerciais”, conclui, por meio do Termo de Encerramento de Diligência Fiscal de e-fls. 932 a 967, lavrado em 03/10/2023, que os serviços de que tratam as notas fiscais emitidas pelas empresas ASTE Assessoria e Suporte Técnico para Eventos Ltda (locação de barracas para montagem de lavatórios), NM Engenharia e Anticorrosão Ltda (serviços de manutenção e tratamento anticorrosivo), Refrigeração Espírito Santo Ltda (serviços de manutenção preventiva/corretiva em sistemas de refrigeração de salas elétricas) e CEPEMAR Serviços de Consultoria em Meio Ambiente Ltda (serviço de monitoramento marinho) enquadram-se no conceito de insumo para fins de creditamento da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, enquanto os serviços de que tratam as notas fiscais emitidas pelas empresas Transportadora Binotto S/A (serviços de transporte), Companhia Brasileira de Soluções e Serviços (fornecimento de cartão alimentação), Agência Estado Ltda (serviços de consultoria e auditoria financeira, contábil e tributária), CONCREMAT Engenharia e Tecnologia (serviços de gerenciamento de projetos de engenharia e de obras diversas), METACON Engenharia Ltda (serviços técnicos de engenharia de projetos industriais mecânicos e elétricos) e PRICEWATERHOUSECOOPERS International S/C Ltda (serviços de consultoria e auditoria financeira, contábil e tributária) NÃO se enquadram no conceito de insumo para fins de creditamento da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS. A Recorrente apresentou, às e-fls. 975 a 986, manifestação acerca do Termo de Encerramento de Diligência Fiscal de e-fls. 932 a 967, onde defendeu a essencialidade dos bens e serviços cujas glosas permaneceram mantidas pela Fiscalização após a aplicação do conceito de insumo estabelecido pelo STJ no REsp 1.221.170/PR, bem como a possibilidade de aproveitamento de crédito das Contribuições não cumulativas sobre eles. Após, os autos vieram para minha relatoria. É o relatório. VOTO Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, Relator. O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos formais de admissibilidade, razão pela qual dele se toma conhecimento, exceto em relação à parte em que combate matéria que não se encontra sob a lide. 1. Dos limites da lide Conforme relatado, a lide estabelecida nos autos surge a partir da Manifestação de Inconformidade (e-fls. 143 a 222) apresentada pela ora Recorrente contra o Despacho Decisório de e-fl. 138, que reconheceu apenas parte do crédito (R$ 504.641,48) pleiteado por meio das DCOMP nº 11202.08213.031208.1.3.08-9504 e nº 39702.11750.191208.1.3.08-0683 (R$ 1.064.690,98), relativo à Contribuição para o PIS/PASEP – Exportação não cumulativa do primeiro trimestre de 2006. Fl. 1002DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 9 O Parecer SEFIS nº 38/2011 (e-fls. 125 a 135) nos mostra as razões da Fiscalização para o reconhecimento parcial do crédito pleiteado (e para a consequente homologação parcial da DCOMP), que podem ser assim sintetizadas:  reenquadramento de vendas realizadas para a Vale S/A, informadas no DACON como sendo para o fim específico de exportação, para a categoria de vendas no mercado interno (que deveriam ser tributadas e que não seriam passíveis de ressarcimento e/ou compensação); e  glosas relativas aos custos de serviços classificados como insumos que não são, direta e efetivamente, aplicados ou consumidos na fabricação do produto, conforme “Demonstrativo de Glosa de Créditos de PIS e Cofins” apresentado na e-fl. 123.  glosas relativas aos custos com os serviços de operação da usina, pagos para a Vale S/A e identificados como Fator K (despesas gerais da CRVD – Vale S/A) e Fator Y (remuneração do capital de giro provido pela CRVD – Vale S/A). A Manifestação de Inconformidade apresentada pela ora Recorrente para combater os pontos acima destacados foi julgada improcedente pela DRJ, de tal sorte que a apresentação do Recurso Voluntário de e-fls. 666 a 693 faz com que toda a matéria seja trazida para análise do Colegiado. Não obstante, é preciso que se diga que, embora o Parecer SEFIS nº 38/2011 tenha referido glosas sobre serviços de operação da usina prestados pela Vale S/A (Fator K e Fator Y), fato é que essas glosas não aconteceram no presente processo, conforme pode ser observado no “Demonstrativo de Glosa de Créditos de PIS e Cofins” apresentado na e-fl. 123. Dessa forma, embora a Recorrente tenha se defendido dessas glosas em seu Recurso Voluntário, essa não é uma matéria que se encontra sob a lide aqui estabelecida, razão pela qual o Recurso Voluntário não merece ser conhecido nessa parte. Cabe a este Colegiado, portanto, analisar e decidir sobre: a) o reenquadramento de vendas realizadas para a Vale S/A, informadas no DACON como sendo para o fim específico de exportação, para a categoria de vendas no mercado interno; e b) as glosas listadas no “Demonstrativo de Glosa de Créditos de PIS e Cofins” de e-fl. 123. 2. Do conceito de insumo Não obstante os argumentos trazidos pela Recorrente relativamente ao conceito de insumo, a discussão que se tem hoje sobre essa matéria já evoluiu muito em relação àquela que se tinha quando da apresentação do Recurso Voluntário em 30/12/2013, especialmente após a decisão do STJ no REsp nº 1.221.170-PR (em 2018). Por essa razão, não analisaremos de forma minuciosa cada um dos argumentos trazidos pela Recorrente em voluntário, mas sim esclareceremos, a partir da referida decisão do STJ, o entendimento seguido no presente voto para fins de aplicação do disposto no art. 3º da Lei Fl. 1003DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 10 nº 10.637, de 2002 (Contribuição para o PIS/Pasep), e no art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003 (COFINS), especialmente no que diz respeito ao conceito de insumo (inciso II do art. 3º de ambas as Leis). Dispõe o caput do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: I - bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) a) no inciso III do § 3º do art. 1º desta Lei; e (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008) b) nos §§ 1º e 1º-A do art. 2º desta Lei; (Redação dada pela lei nº 11.787, de 2008) II - bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei nº 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) III – (VETADO) IV - aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa; V - valor das contraprestações de operações de arrendamento mercantil de pessoa jurídica, exceto de optante pelo Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte - SIMPLES; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) VI - máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos ou fabricados para locação a terceiros, ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) VII - edificações e benfeitorias em imóveis de terceiros, quando o custo, inclusive de mão-de-obra, tenha sido suportado pela locatária; VIII - bens recebidos em devolução, cuja receita de venda tenha integrado faturamento do mês ou de mês anterior, e tributada conforme o disposto nesta Lei. IX - energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumida nos estabelecimentos da pessoa jurídica. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) X - vale-transporte, vale-refeição ou vale-alimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica que explore as atividades de Fl. 1004DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 11 prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção. (Incluído pela Lei nº 11.898, de 2009) XI - bens incorporados ao ativo intangível, adquiridos para utilização na produção de bens destinados a venda ou na prestação de serviços. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) De maneira muito semelhante, dispõe o caput do art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: I - bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) a) no inciso III do § 3º do art. 1º desta Lei; e (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008) b) nos §§ 1º e 1º-A do art. 2º desta Lei; (Redação dada pela lei nº 11.787, de 2008) II - bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei nº 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) III - energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) IV - aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa; V - valor das contraprestações de operações de arrendamento mercantil de pessoa jurídica, exceto de optante pelo Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte - SIMPLES; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) VI - máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos ou fabricados para locação a terceiros, ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços; (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) VII - edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, utilizados nas atividades da empresa; VIII - bens recebidos em devolução cuja receita de venda tenha integrado faturamento do mês ou de mês anterior, e tributada conforme o disposto nesta Lei; Fl. 1005DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 12 IX - armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, nos casos dos incisos I e II, quando o ônus for suportado pelo vendedor. X - vale-transporte, vale-refeição ou vale-alimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica que explore as atividades de prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção. (Incluído pela Lei nº 11.898, de 2009) XI - bens incorporados ao ativo intangível, adquiridos para utilização na produção de bens destinados a venda ou na prestação de serviços. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) Conforme se depreende da leitura desses dispositivos legais, o legislador estabeleceu uma série de creditamentos que a pessoa jurídica poderá fazer para deduzir dos valores das Contribuições apurados na forma do art. 2º da Lei nº 10.637, de 2002, e da Lei nº 10.833, de 2003, por vezes vinculando esse direito ao exercício de uma atividade específica. Como se trata de textos legais muito semelhantes, as referências que fizermos a partir de agora apenas a inciso se aplicam para ambas as Leis, deixando a referência expressa à lei específica para as poucas diferenças existentes. O inciso I, por exemplo, trata da atividade comercial, permitindo à pessoa jurídica que a exerce a apropriação de créditos relativos aos bens adquiridos para revenda, com as exceções que lista. O inciso II, por sua vez, trata da atividade industrial e da atividade de prestação de serviços, permitindo à pessoa jurídica que as exerce a apropriação de créditos relativos aos insumos (bens e serviços) utilizados na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Observe-se que os permissivos dispostos nos incisos I e II não são excludentes, de tal sorte que uma pessoa jurídica que atue tanto na revenda de bens quanto na prestação de serviços e na produção e venda de bens poderá apurar créditos relativos aos bens adquiridos para revenda, aos insumos utilizados na prestação de serviços e aos insumos utilizados na produção de bens. O inciso IX da Lei nº 10.637, de 2002, e o inciso III da Lei nº 10.833, de 2003, permitem à pessoa jurídica o creditamento relativo aos custos com energia elétrica e energia térmica consumidas em seus estabelecimentos, independentemente da atividade para onde essas energias são direcionadas. Note-se que, caso não existissem esses incisos, o crédito das Contribuições, relativo à energia elétrica e à energia térmica, somente estaria permitido, nos termos do inciso II, para aquela parcela utilizada como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Da mesma forma, os incisos IV, V e VII, que tratam, respectivamente, dos créditos relativos aos aluguéis pagos a pessoa jurídica, ao valor das contraprestações de operações de Fl. 1006DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 13 arrendamento mercantil de pessoa jurídica e às edificações e benfeitorias em imóveis de terceiros, não estão vinculados ao exercício de uma atividade específica. O inciso VI permite à pessoa jurídica a apropriação de créditos relativos à aquisição ou fabricação de máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, desde que destinados à locação a terceiros, à utilização na produção de bens para venda ou à utilização na prestação de serviços. O inciso VIII tem o efeito de expurgar do valor devido a título de contribuição aquela parcela composta pela venda de bens que, por alguma razão, acabam sendo devolvidos. O inciso IX da Lei nº 10.833, de 2003, permite à pessoa jurídica o aproveitamento de créditos de COFINS relativos à armazenagem de mercadoria e ao frete na operação de venda, nos casos dos incisos I e II, quando o ônus for por ela suportado, hipótese que foi estendida para a Contribuição para o PIS/Pasep pelo disposto no inciso II do art. 15 da Lei nº 10.833, de 2003. Note- se que, nesse caso, por estar para além da fase de fabricação ou de produção dos bens, a armazenagem e o frete não podem ser considerados como insumos dessas atividades, cujo creditamento está previsto no inciso II. O inciso X permite, de forma casuística, apenas para a pessoa jurídica que explore as atividades de prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção, o crédito de Contribuições não cumulativas relativo ao vale-transporte, vale-refeição ou vale-alimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados. Por fim, o inciso XI, tratando novamente da atividade de produção de bens para venda e da atividade de prestação de serviços, permite à pessoa jurídica que as exerce o aproveitamento dos créditos relativos aos bens incorporados ao ativo intangível, e que sejam utilizados nessas atividades. Feita essa breve análise dos incisos do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e da Lei nº 10.833, de 2003, é preciso contextualizar a polêmica que se estabeleceu, em relação ao disposto no inciso II (especificamente em relação ao conceito de insumo), entre a RFB e as pessoas jurídicas contribuintes da Contribuição para o PIS/Pasep não cumulativa e da COFINS não cumulativa. Ocorre que, a fim de disciplinar a incidência não cumulativa das Contribuições, foram publicadas a IN SRF nº 247, de 2002, e a IN SRF nº 404, de 2004, que, a partir de uma visão própria da legislação do IPI, restringiram o conceito de insumo apenas àquilo que fosse utilizado diretamente na produção de bens ou na prestação de serviços, restringindo, com isso, o universo de bens e de serviços que poderiam gerar direito a crédito para as pessoas jurídicas. Inconformados com essa visão restritiva do conceito de insumo trazida pela IN SRF nº 247, de 2002, e pela IN SRF nº 404, de 2004, não foram poucos os contribuintes que recorreram ao Poder Judiciário na tentativa de firmar a tese de que insumo, para efeitos de creditamento da Contribuição para o PIS/Pasep não cumulativa e da COFINS não cumulativa, corresponde a todos os custos e despesas necessários ao desenvolvimento empresarial. Fl. 1007DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 14 No REsp nº 1.221.170, que tratou dos Temas 779 e 780 e que foi julgado sob a sistemática de recursos repetitivos, o STJ assentou a tese de que era ilegal a disciplina de creditamento prevista na IN SRF nº 247, de 2002, e na IN SRF nº 404, de 2004, e que “o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte”. Eis a ementa: TRIBUTÁRIO. PIS E COFINS. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. NÃO-CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. DEFINIÇÃO ADMINISTRATIVA PELAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS 247/2002 E 404/2004, DA SRF, QUE TRADUZ PROPÓSITO RESTRITIVO E DESVIRTUADOR DO SEU ALCANCE LEGAL. DESCABIMENTO. DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE INSUMOS À LUZ DOS CRITÉRIOS DA ESSENCIALIDADE OU RELEVÂNCIA. RECURSO ESPECIAL DA CONTRIBUINTE PARCIALMENTE CONHECIDO, E, NESTA EXTENSÃO, PARCIALMENTE PROVIDO, SOB O RITO DO ART. 543-C DO CPC/1973 (ARTS. 1.036 E SEGUINTES DO CPC/2015). 1. Para efeito do creditamento relativo às contribuições denominadas PIS e COFINS, a definição restritiva da compreensão de insumo, proposta na IN 247/2002 e na IN 404/2004, ambas da SRF, efetivamente desrespeita o comando contido no art. 3o., II, da Lei 10.637/2002 e da Lei 10.833/2003, que contém rol exemplificativo. 2. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 3. Recurso Especial representativo da controvérsia parcialmente conhecido e, nesta extensão, parcialmente provido, para determinar o retorno dos autos à instância de origem, a fim de que se aprecie, em cotejo com o objeto social da empresa, a possibilidade de dedução dos créditos realtivos a custo e despesas com: água, combustíveis e lubrificantes, materiais e exames 4. Sob o rito do art. 543-C do CPC/1973 (arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015), assentam-se as seguintes teses: (a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de não-cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de terminado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte. (STJ, REsp n° 1.221.170-PR, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia, Primeira Seção, Data do julgamento: 22/02/2018) Vê-se, com isso, que o STJ adotou uma posição intermediária entre o que defendia a RFB e o que pleiteavam os contribuintes, definindo insumo para fins de creditamento das Fl. 1008DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 15 Contribuições não cumulativas como tudo aquilo que é essencial ou relevante para a produção de bens para venda (processo produtivo) ou para a prestação de serviços. Nesse ponto alguém poderia objetar que a ementa do REsp nº 1.221.170 não associou a essencialidade ou relevância ao processo produtivo ou à prestação de serviços, mas sim ao “desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte”, de tal forma que mesmo os insumos utilizados fora do processo produtivo ou desconectados da prestação de serviços poderiam gerar direito a crédito, se essenciais ou relevantes ao desenvolvimento da atividade econômica. Mas essa não é a interpretação a ser extraída da decisão emanada no REsp nº 1.221.170, que precisa ser compreendida a partir da leitura dos votos apresentados pelos Ministros e do Acórdão exarado, e que não deixam dúvidas de que os insumos que geram direito a crédito das Contribuições não cumulativas são aqueles essenciais e relevantes à produção de bens para venda (ao processo produtivo) ou à prestação de serviços. Essa é a posição expressa pelo Juiz Federal Andrei Pitten Velloso em artigo publicado no Jornal Carta Forense e no Portal do Contador sob o título “PIS/COFINS não cumulativo: o conceito de insumos à luz da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça”: A nosso juízo, a distinção fundamental diz respeito à vinculação com o processo produtivo ou com a atividade específica de prestação de serviços. Em que pese tenha se consignado na ementa do julgado que a relevância diz respeito ao “desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte”, a análise atenta dos votos exarados e das posições refutadas evidencia que não foi acolhido o direito ao creditamento de despesas que não são necessárias para a realização o serviço contratado ou para a produção do bem comercializado, como sucede com as despesas atinentes à comercialização e à entrega dos bens produzidos, entre as quais sobressaem os gastos com publicidade e com comissões de vendas a representantes. Apesar de serem despesas operacionais, os gastos com publicidade, com as vendas e com a entrega de produtos comercializados não geram direito a creditamento, porquanto não dizem respeito à sua industrialização. Para que não restem dúvidas de que os insumos aptos a gerar crédito das Contribuições não cumulativas, nos exatos termos do inciso II do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e da Lei nº 10.833, de 2003, são aqueles vinculados à produção de bens ou à prestação de serviços, reproduzimos a seguir alguns excertos do voto do Ministro relator Napoleão Nunes Mais Filho, que falam por si sós: 34. Observa-se, como bem delineado no voto proferido pelo eminente Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, que a conceituação de insumo prevista nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 está atrelada ao critério da essencialidade para a atividade econômica da empresa, de modo que devem ser considerados, no conceito de insumo, todos os bens e serviços que sejam pertinentes ao processo produtivo ou que viabilizem o processo produtivo, de forma que, se retirados, Fl. 1009DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 16 impossibilitariam ou, ao menos, diminuiriam o resultado final do produto; é fora de dúvida que não ocorre a ninguém afirmar que os produtos de limpeza são insumos diretos dos pães, das bolachas e dos biscoitos, mas não se poderá negar que as despesas com aqueles produtos de higienização do ambiente de trabalho oneram a produção das padarias. ... 39. Em resumo, Senhores Ministros, a adequada compreensão de insumo, para efeito do creditamento relativo às contribuições usualmente denominadas PIS/COFINS, deve compreender todas as despesas diretas e indiretas do contribuinte, abrangendo, portanto, as que se referem à totalidade dos insumos, não sendo possível, no nível da produção, separar o que é essencial (por ser físico, por exemplo), do que seria acidental, em termos de produto final. 40. Talvez acidentais sejam apenas certas circunstâncias do modo de ser dos seres, tais como a sua cor, o tamanho, a quantidade ou o peso das coisas, mas a essencialidade, quando se trata de produtos, possivelmente será tudo o que participa da sua formação; deste modo, penso, respeitosamente, mas com segura convicção, que a definição restritiva proposta pelas Instruções Normativas 247/2002 e 404/2004, da SRF, efetivamente não se concilia e mesmo afronta e desrespeita o comando contido no art. 3o., II, da Lei 10.637/2002 e da Lei 10.833/2003, que explicita rol exemplificativo, a meu modesto sentir. (grifei) Também alguns excertos do voto-vista da Ministra Regina Helena Costa: Demarcadas tais premissas, tem-se que o critério da essencialidade diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço, constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço, ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência. Por sua vez, a relevância, considerada como critério definidor de insumo, é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva (v.g., o papel da água na fabricação de fogos de artifício difere daquele desempenhado na agroindústria), seja por imposição legal (v.g., equipamento de proteção individual - EPI), distanciando-se, nessa medida, da acepção de pertinência, caracterizada, nos termos propostos, pelo emprego da aquisição na produção ou na execução do serviço. (grifei) Por fim, um breve excerto do voto-vogal do Ministro Mauro Campbell Marques: Continuando, extrai-se do supracitado excerto do voto proferido no REsp nº 1.246.317 que a definição de “insumos” para efeito do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002 - PIS e mesmo artigo da Lei n. 10.833/2003 - COFINS é que: 1º - O bem ou serviço tenha sido adquirido para ser utilizado na prestação do serviço ou na produção, ou para viabilizá-los (pertinência ao processo produtivo); Fl. 1010DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 17 2º - A produção ou prestação do serviço dependa daquela aquisição (essencialidade ao processo produtivo); e 3º - Não se faz necessário o consumo do bem ou a prestação do serviço em contato direto com o produto (possibilidade de emprego indireto no processo produtivo). Definido o conceito de insumo para fins de creditamento da Contribuição para o PIS/Pasep não cumulativa e da COFINS não cumulativa como tudo aquilo que é essencial ou relevante para a produção de bens para venda (processo produtivo) ou para a prestação de serviços, é preciso agora estabelecer os critérios para sua aplicação. Para esse feito nos socorremos da criteriosa análise desenvolvida no voto do relator da apelação feita no processo nº 5016070-05.2017.4.04.7100/RS (TRF4), Juiz Federal Andrei Pitten Velloso: Para se aplicar a tese firmada pelo STJ, faz-se necessário concretizar as noções de "essencialidade" e de "relevância" para o desempenho de atividade fim da empresa, o que deve ser feito à luz dos fundamentos determinantes do julgado em apreço. Em primeiro lugar, vale registrar que, como ressaltou o Ministro Napoleão Nunes Maia, o conceito de insumo não pode ficar restrito aos itens utilizados diretamente na produção, estendendo-se a todos aqueles necessários para o desempenho da atividade produtiva: "... a conceituação de insumo prevista nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 está atrelada ao critério da essencialidade para a atividade econômica da empresa, de modo que devem ser considerados, no conceito de insumo, todos os bens e serviços que sejam pertinentes ao processo produtivo ou que viabilizem o processo produtivo , de forma que, se retirados, impossibilitariam ou, ao menos, diminuiriam o resultado final do produto; é fora de dúvida que não ocorre a ninguém afirmar que os produtos de limpeza são insumos diretos dos pães, das bolachas e dos biscoitos, mas não se poderá negar que as despesas com aqueles produtos de higienização do ambiente de trabalho oneram a produção das padarias." Daí a conclusão de que: "a adequada compreensão de insumo, para efeito do creditamento relativo às contribuições usualmente denominadas PIS/COFINS, deve compreender todas as despesas diretas e indiretas do contribuinte, abrangendo, portanto, as que se referem à totalidade dos insumos, não sendo possível, no nível da produção, separar o que é essencial (por ser físico, por exemplo), do que seria acidental, em termos de produto final." Nessa mesma linha se insere a manifestação do Ministro Mauro Campbell Marques: Fl. 1011DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 18 "a definição de “insumos” para efeito do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002 - PIS e mesmo artigo da Lei n. 10.833/2003 - COFINS é que: 1º - O bem ou serviço tenha sido adquirido para ser utilizado na prestação do serviço ou na produção, ou para viabilizá-los (pertinência ao processo produtivo); 2º - A produção ou prestação do serviço dependa daquela aquisição (essencialidade ao processo produtivo); e 3º - Não se faz necessário o consumo do bem ou a prestação do serviço em contato direto com o produto (possibilidade de emprego indireto no processo produtivo). Em resumo, é de se definir como insumos, para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, todos aqueles bens e serviços pertinentes ao, ou que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços, que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração importa na impossibilidade mesma da prestação do serviço ou da produção, isto é, cuja subtração obsta a atividade da empresa, ou implica em substancial perda de qualidade do produto ou serviço daí resultantes." (excerto do voto do Ministro Mauro Campbell Marques - destaques originais) Especificamente quanto à concreção do significado dos critérios da essencialidade e da relevância, é esclarecedor este excerto do voto da Ministra Regina Helena Costa: Demarcadas tais premissas, tem-se que o critério da essencialidade diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço, constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço, ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência. Por sua vez, a relevância, considerada como critério definidor de insumo, é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva (v.g., o papel da água na fabricação de fogos de artifício difere daquele desempenhado na agroindústria), seja por imposição legal (v.g., equipamento de proteção individual - EPI), distanciando-se, nessa medida, da acepção de pertinência, caracterizada, nos termos propostos, pelo emprego da aquisição na produção ou na execução do serviço. Desse modo, sob essa perspectiva, o critério da relevância revela-se mais abrangente do que o da pertinência. Destarte, tais noções dizem com o processo produtivo, não com a ulterior comercialização e entrega dos bens produzidos. Deve-se diferenciar, portanto, entre elementos e custos necessários à produção dos bens e aqueles pertinentes à sua comercialização e entrega. Nesse sentido, o Ministro Napoleão Nunes Maia recorreu ao exemplo da elaboração de um bolo Fl. 1012DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 19 para indicar que a energia do forno é fundamental para o processo produtivo, mas, em contraposição, o papel utilizado para envolver o bolo não se qualifica como um item essencial: "13. Mais um exemplo igualmente trivial: se não se pode produzir um bolo doméstico sem os ovos, a farinha de trigo e o fermento, que são ingredientes – ou insumos – materiais e diretos, por que será que ocorrerá a alguém que conhece e compreende o processo de produção de um bolo afirmar que esse produto (o bolo) poderia ser elaborado sem o calor ou a energia do forno, do fogão à lenha ou a gás ou, quem sabe, de um forno elétrico? Seria possível produzir o bolo sem o insumo do calor do forno que o assa e o torna comestível e saboroso? 14. Certamente não, todos irão responder; então, por qual motivo os ovos, a farinha de trigo e o fermento, que são componentes diretos e físicos do bolo, considerados insumos, se separariam conceitualmente do calor do forno, já que sem esse calor o bolo não poderia ser assado e, portanto, não poderia ser consumido como bolo? Esse exemplo banal serve para indicar que tudo o que entra na confecção de um bem (no caso, o bolo) deve ser entendido como sendo insumo da sua produção, quando sem aquele componente o produto não existiria; o papel que envolve o bolo, no entanto, não tem a essencialidade dos demais componentes que entram na sua elaboração." Trilhando essa senda, o Ministro Mauro Cambpell indicou expressamente que despesas com comissões de vendas a representantes e propagandas não geram direito a crédito, por não serem essenciais ou relevantes ao processo produtivo: "Segundo o conceito de insumo aqui adotado não estão incluídos os seguintes "custos" e "despesas" da recorrente: gastos com veículos, materiais de proteção de EPI, ferramentas, seguros, viagens, conduções, comissão de vendas a representantes, fretes (salvo na hipótese do inciso IX do art. 3º da Lei nº 10.833/03), prestações de serviços de pessoa jurídica, promoções e propagandas, telefone e comissões. É que tais "custos" e "despesas" não são essenciais ao processo produtivo da empresa que atua no ramo de alimentos, de forma que a exclusão desses itens do processo produtivo não importa a impossibilidade mesma da prestação do serviço ou da produção e nem, ainda, a perda substancial da qualidade do serviço ou produto." Conclusão diversa implicaria em distorção do entendimento acolhido pelo Superior Tribunal de Justiça, vez que redundaria na aplicação da tese do crédito financeiro, vinculado às noções de custos e despesas operacionais considerados no âmbito do IRPJ. Fl. 1013DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 20 Esclarecida a compreensão desta relatoria sobre a matéria e esclarecidos os critérios a serem utilizados como balizas nos casos concretos, passemos a analisar as glosas feitas pela fiscalização. 3. Das vendas para a Vale S/A com o fim específico de exportação A Fiscalização identificou que parte dos créditos de compensação pleiteados pela ora Recorrente eram oriundos de vendas realizadas para a Vale S/A com o fim específico de exportação, vendas essas que, para a Fiscalização, não atendiam aos requisitos legais para que pudessem ser equiparadas a exportação. Diante disso, a Fiscalização considerou essas vendas como tendo sido realizadas no mercado interno, passíveis, portanto, de tributação, o que acabou gerando as seguintes consequências: a) lavratura de auto de infração para constituição do crédito das Contribuições relativo a essas vendas (PAF 15586.001586/2010-43); e b) reapuração do valor do crédito passível de ressarcimento/compensação (com base no rateio de créditos), uma vez que somente os créditos vinculados à receita de exportação são passíveis de ressarcimento/compensação. No tocante ao crédito passível de utilização na compensação de outros tributos e contribuições, também ficou assentado que, nos termos do ar. 5º, § 1º, da Lei nº 10.637/2002, do art. 21 da IN/SRF nº 600/2005 e IN/SRF nºs 291/2003, 379/2003 e 460/2004, o mesmo corresponde ao valor apurado após a dedução de débitos da própria contribuição, e desde que seja derivado de operações de venda para o exterior ou de venda à empresa comercial exportadora, com fim específico de exportação. Cabe ressaltar que a fiscalização, em procedimento de auditoria efetuada na empresa para este período de apuração, verificou que algumas vendas que o contribuinte havia considerado como vendas no mercado interno para empresas comerciais exportadoras, com fim específico de exportação, equiparando-se assim a receita de exportação, na verdade não atendiam aos requisitos para tal. Desta forma, estas vendas foram consideradas pela fiscalização como vendas no mercado interno e, assim sendo, deveriam ter sido tributadas, o que gerou a lavratura de auto de infração, que como já dito acima, está constituído no processo nº 15586.001586/2010-43. Além da lavratura do citado auto de infração, a reversão da receita do mercado externo em receita do mercado interno influencia os valores passíveis de ressarcimento e/ou compensação, pois como já visto, somente são passíveis de ressarcimento e/ou compensação os valores dos créditos vinculados à receita de exportação. Outrossim, salienta-se que, em razão da pessoa jurídica ter efetuado, concomitantemente, operações de vendas no mercado interno e exportação para o exterior, o valor do crédito a descontar vinculado às receitas de exportação foi determinado com base na proporção da receita bruta auferida com vendas de pelotas de minério de ferro, único bem produzido pela interessada. Fl. 1014DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 21 Após o rateio dos créditos, procedeu-se ao encontro dos valores, confrontando, primeiramente, os débitos com os créditos vinculados às vendas no mercado interno, e, em restando saldo devedor, deste com os créditos vinculados às exportações. Obteve-se, assim, o valor dos saldos de créditos relativos às operações no mercado interno, a serem transferidos para os períodos seguintes, e dos saldos dos créditos vinculados às exportações, estes passíveis de compensação. A DRJ manteve o reenquadramento das vendas informadas no DACON como com fim específico de exportação para venda no mercado interno, conforme realizado pela Fiscalização, sob o argumento de que a matéria teria sido tratada no processo 15586.001586/2010-43, já decidido pelo CARF de forma contrária à ora Recorrente. Para a DRJ, a matéria fática já julgada não pode ser novamente apreciada, de tal sorte que a decisão a ser tomada no presente processo de compensação deve considerar a decisão proferida no processo relativo ao auto de infração. A interessada alega nulidade por ausência de descrição dos fatos que geraram o auto de infração lavrado no processo nº 15586.001586/2010-43. Não houve ausência da descrição dos fatos. A questão do reenquadramento das vendas informadas no DACON como com fim específico de exportação para venda no mercado interno foi tratada no auto de infração do qual a interessada teve ciência e pode exercer seu direito de defesa. Tal questão não pode ser novamente apreciada no presente processo. Cabe informar que o processo nº 15586.001586/201043 foi julgado pela 5ª Turma da DRJ RJ2 por meio do acórdão 1334.003. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento do Rio de Janeiro/RJ2 acolheu parcialmente as alegações, por entender que o contrato de compra e vendas das pelotas de minério de ferro firmado entre a Nibrasco e a Companhia Vale do Rio Doce CVRD, as cartas de correção das notas fiscais em conjunto com os Memorandos de Exportação eram suficientes para comprovar a venda realizada com o fim específico de exportação. Destacando, porém, que tais documentos foram apresentados somente quanto às notas fiscais emitidas até junho de 2008, não existindo provas quanto ao mês de outubro de 2008. Por conseguinte, determinou o cancelamento do auto de infração, para excluir aquelas notas fiscais cuja exportação foi considerada provada. Contudo, manteve o crédito tributário formalizado para o período de abril de 2008, calculado sobre a receita decorrente da transferência de crédito de ICMS, correspondente à Cofins no valor principal de R$ 2.178.379,29 e ao PIS no valor principal de R$ 472.937,61, a ser acrescido de multa de ofício e juros moratórios. O processo foi remetido ao CARF para julgamento dos recursos de ofício e voluntário interpostos, respectivamente pela DRF e pela contribuinte. Fl. 1015DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 22 O CARF, por meio do acórdão nº 3302002.228 de 24 de julho de 2013 (fls. 633/651), deu provimento ao recurso de ofício nos seguintes termos: Assim, concluindo, diferentemente do contido na decisão da DRJ/RJ2, de que não há juntada de documentação que dê suporte às alegações de que os produtos foram remetidos diretamente para embarque ou para o pátio da CVRD, no sentido de comprovar o fim específico de exportação, consoante regra constante na legislação tributária federal, deve ser dado provimento ao recurso de ofício, reformando-se a decisão de primeira instância, no que atine a esta questão. Quanto ao recurso voluntário foi dado provimento parcial para: cancelar parcialmente o Auto de Infração no que se refere ao lançamento sobre a receita decorrente da cessão de créditos de ICMS para a CVRD, fato gerador ocorrido em 30/abril/2008, mantendo, porém, o lançamento sobre receitas de vendas efetuadas no mercado interno para a Companhia Vale do Rio Doce, no período de apuração de 01 a 31 de outubro de 2008. Assim, a matéria já julgada não pode ser novamente apreciada, destacando- se que se refere ao mesmo período e mesmo tributo. A decisão do processo de compensação deve considerar a decisão proferida no processo do auto de infração. Portanto, deixo de apreciar as alegações referentes ao reenquadramento das vendas informadas no DACON como com fim específico de exportação para venda no mercado interno, uma vez que tal matéria foi tratada no processo 15586.001586/2010-43, já decidido pelo CARF. Para defender o direito à compensação dos créditos relativos às vendas realizadas para a Vale S/A com o fim específico de exportação, a Recorrente argumenta em voluntário que, “para o aproveitamento da imunidade ora soerguida, não importa que a venda seja destinada a recinto alfandegado, ou mesmo que a venda seja destinada diretamente ao embarque para exportação”, e esclarece que “a operação de venda realizada pela RECORRENTE para a CRVD (VALE S.A.) destinou-se exclusivamente ao mercado externo, conforme os memorandos de exportação e demais documentários atinentes à espécie”, bem como cita jurisprudências judiciais e administrativas que lhe favorecem. Não obstante os argumentos e as jurisprudências judiciais e administrativas trazidas pela Recorrente em seu Recurso Voluntário, fato é que a DRJ tem razão quando afirma que o reenquadramento das vendas realizadas para a Vale S/A não deve ser novamente apreciado no presente processo, bem como que a decisão tomada no processo relativo ao auto de infração (PAF 15586.001586/2010-43) deve ser aqui reproduzida. Isso porque há uma evidente vinculação (por decorrência) entre o presente processo e aquele que trata da lavratura do auto de infração para a cobrança das Contribuições devidas em razão do reenquadramento feito pela Fiscalização das vendas informadas no DACON Fl. 1016DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 23 como com fim específico de exportação para venda no mercado interno. O fato e o período que aqui se discutem estão abrangidos pelo processo 15586.001586/2010-43. Por terem como origem um mesmo procedimento fiscal, onde foram analisadas as mesmas matérias fáticas, entendo que o princípio da segurança jurídica exige que as decisões prolatadas nos dois processos apliquem os mesmos direitos de forma uniforme e não contraditória. Por isso, para a preservação das relações jurídicas já estabelecidas e para a uniformização do direito aplicável, é preciso que se observe e aplique a decisão anteriormente prolatada por este CARF no processo vinculado 15586.001586/2010-43, independentemente de se concordar ou não com essa decisão. Não obstante, é preciso que se faça um adendo àquilo que foi dito pela DRJ a respeito do histórico do processo 15586.001586/2010-43. É fato que a DRJ, ao julgar a impugnação ao auto e infração objeto do processo 15586.001586/2010-43, cancelou parcialmente o lançamento feito pela Fiscalização para excluir as notas fiscais cuja exportação foi considerada provada, assim como é fato que o CARF, por meio do Acórdão 3302-002.228, de 24/07/2013, deu provimento ao Recurso de Ofício, por entender que “não há juntada de documentação [nos autos] que dê suporte às alegações de que os produtos foram remetidos diretamente para embarque ou para o pátio da CVRD, no sentido de comprovar o fim específico de exportação”. Ocorre, no entanto, que após a decisão da DRJ no presente processo, o Acórdão 3302-002.228 foi reformado pelo Acórdão de Recurso Especial 9303-004.233, que reconheceu o fim específico de exportação em relação às vendas realizadas pela Recorrente para a Vale S/A, exceto em relação ao período de outubro de 2008. Dessa forma, aplicando-se a este processo, que trata do primeiro trimestre de 2006, a decisão extraída do processo 15586.001586/2010-43, ao qual o presente processo está vinculado por decorrência, é de se desfazer o reenquadramento feito pela Fiscalização nas vendas realizadas para a Vale S/A com fim específico de exportação, reconhecendo-se o direito de a Recorrente utilizar os créditos relativos a essas vendas para fins de compensação no presente processo. 4. Das glosas dos serviços classificados como insumos 4.1 Da Resolução 3402-002.664 Tendo em vista que as glosas promovidas pela Fiscalização, e mantidas pela DRJ, haviam sido baseadas no conceito mais restritivo do que são insumos, extraído das Instruções Normativas SRF nº 247/2002 e nº 404/2004, conceito esse que, conforme visto em tópico anterior, encontra-se superado com a decisão proferida pelo STJ no REsp nº 1.221.170/PR, e considerando que careciam os autos da comprovação do eventual enquadramento dos itens glosados no conceito de insumo segundo os critérios da essencialidade ou relevância, este Fl. 1017DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 24 Conselho decidiu, por meio da Resolução nº 3402-002.664, de 21/09/2020, converter o julgamento em diligência para que a unidade da RFB de origem: 1. intimasse a Recorrente a apresentar laudo técnico com a demonstração detalhada da utilização de cada um dos bens entendidos como insumos no processo produtivo desenvolvido pela empresa, nos termos do REsp nº 1.221.170/PR; 2. intimasse a Recorrente a justificar porque considera que cada um dos bens do item anterior é essencial ou relevante ao seu processo produtivo, do qual resulta o produto final destinado a venda ou serviço prestado, em conformidade com os critérios delimitados no Voto da Ministra Regina Helena Costa proferido no REsp nº 1.221.170/PR; e 3. elaborasse relatório conclusivo acerca da apuração das informações solicitadas nos itens anteriores, manifestando-se sobre dos fatos e fundamentos apresentados pela Recorrente, inclusive, sobre o eventual enquadramento de cada bem e serviço do período de apuração no conceito de insumo delimitado no Parecer Normativo Cosit nº 05/2018 e no Voto da Ministra Regina Helena Costa proferido no REsp nº 1.221.170/PR, de aplicação obrigatória no âmbito da RFB (Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF), bem como quanto a correção da metodologia adotada no cálculo da depreciação. A diligência foi cumprida pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Vitória/ES, que, por meio do Termo de Encerramento de Diligência Fiscal de e-fls. 932 a 967, lavrado em 03/10/2023, entendeu que os serviços de que tratam as notas fiscais emitidas pelas empresas ASTE Assessoria e Suporte Técnico para Eventos Ltda (locação de barracas para montagem de lavatórios), NM Engenharia e Anticorrosão Ltda (serviços de manutenção e tratamento anticorrosivo), Refrigeração Espírito Santo Ltda (serviços de manutenção preventiva/corretiva em sistemas de refrigeração de salas elétricas) e CEPEMAR Serviços de Consultoria em Meio Ambiente Ltda (serviço de monitoramento marinho) enquadram-se no conceito de insumo para fins de creditamento da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, enquanto os serviços de que tratam as notas fiscais emitidas pelas empresas Transportadora Binotto S/A (serviços de transporte), Companhia Brasileira de Soluções e Serviços (fornecimento de cartão alimentação), Agência Estado Ltda (serviços de consultoria e auditoria financeira, contábil e tributária), CONCREMAT Engenharia e Tecnologia (serviços de gerenciamento de projetos de engenharia e de obras diversas), METACON Engenharia Ltda (serviços técnicos de engenharia de projetos industriais mecânicos e elétricos) e PRICEWATERHOUSECOOPERS International S/C Ltda (serviços de consultoria e auditoria financeira, contábil e tributária) NÃO se enquadram no conceito de insumo para fins de creditamento da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS. A Recorrente apresentou, às e-fls. 975 a 986, manifestação acerca do Termo de Encerramento de Diligência Fiscal de e-fls. 932 a 967, onde defendeu a essencialidade dos bens e serviços cujas glosas permaneceram mantidas pela Fiscalização após a aplicação do conceito de insumo estabelecido pelo STJ no REsp 1.221.170/PR, bem como a possibilidade de aproveitamento de crédito das Contribuições não cumulativas sobre eles. 4.2 Das glosas revertidas pela Fiscalização Fl. 1018DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 25 Conforme exposto no tópico anterior, a Fiscalização, quando da realização da diligência determinada pelo CARF, reverteu as glosas relativas às notas fiscais emitidas pelas empresas ASTE Assessoria e Suporte Técnico para Eventos Ltda (locação de barracas para montagem de lavatórios), NM Engenharia e Anticorrosão Ltda (serviços de manutenção e tratamento anticorrosivo), Refrigeração Espírito Santo Ltda (serviços de manutenção preventiva/corretiva em sistemas de refrigeração de salas elétricas) e CEPEMAR Serviços de Consultoria em Meio Ambiente Ltda (serviço de monitoramento marinho), por entender que esses itens se enquadram no conceito de insumo para fins de creditamento da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS. A Fiscalização apontou que: i) as barracas para montagem de lavatórios (ASTE Assessoria e Suporte Técnico para Eventos Ltda) integram o processo de produção por imposição da Norma Regulamentadora nº 24 do Ministério do Trabalho; ii) os serviços de manutenção e tratamento anticorrosivo (NM Engenharia e Anticorrosão Ltda) e os serviços de manutenção preventiva/corretiva em sistemas de refrigeração de salas elétricas (Refrigeração Espírito Santo Ltda) estão intrinsecamente relacionados ao processo produtivo e a sua subtração compromete a consecução da atividade-fim da empresa; e iii) o monitoramento marinho (CEPEMAR Serviços de Consultoria em Meio Ambiente Ltda) é relevante no processo produtivo, tendo em vista sua imposição legal. Concordando com as conclusões a que chegou a Fiscalização, reverto as glosas inicialmente promovidas pela Fiscalização em relação a esses itens. 4.3 Das glosas sobre as notas fiscais da Transportadora Binotto S/A A Fiscalização, após a realização da diligência determinada pelo CARF, manteve a glosa relativa às notas fiscais emitidas pela Transportadora Binotto S/A sob o argumento de que os serviços de transporte não estão vinculados ao processo produtivo, razão pela qual não se enquadram no conceito de insumo para fins de creditamento da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS. Em sua manifestação ao Termo de Encerramento de Diligência Fiscal, a Recorrente sustenta a imprescindibilidade do serviço de transporte “para que as matérias primas utilizadas cheguem até a usina, bem como, ao final do processo de produção, os produtos formados sejam distribuídos”. __________________________________ II.2. DOS SERVIÇOS PRESTADOS PELA TRANSPORTADORA BINOTTO S/A. 10. É imprescindível, para que as matérias primas utilizadas cheguem até a usina, bem como, ao final do processo de produção, os produtos formados sejam distribuídos, o meio de transporte. 11. Logo, a falta do serviço de transportes inviabiliza o início e o final do processo produtivo da REQUERENTE sendo evidente sua essencialidade. Fl. 1019DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 26 12. Com efeito, o laudo pericial confeccionado pelo FEST, da análise a atividade desempenhada pela RECORRENTE e os insumos necessários, concluiu pela relevância e essencialidade do serviço de transporte. Observe: 13. A propósito, ao apreciar caso análogo (Proc. n.º 10783.910727/2012-32) no qual figurava como parte a HISPANOBRAS, empresa pertencente ao mesmo grupo econômico, o I. Auditor igualmente compreendeu pela essencialidade e relevância do serviço. 14. Conclui-se, portanto, sem muitas dúvidas, sobre a essencialidade dos serviços de transportes prestado pela empresa supramencionada. Este CARF já tem jurisprudência consolidada sobre a matéria, no sentido de ser possível o aproveitamento de crédito das Contribuições não cumulativas sobre as despesas com serviços de fretes de insumos da produção, inclusive na aquisição de insumos não onerados por essas Contribuições (Súmula CARF nº 188), e de não ser possível o aproveitamento de créditos sobre o transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa (Súmula CARF nº 217). No caso dos autos, não há qualquer elemento de prova que evidencie que tipo de mercadoria foi transportada ao amparo das notas fiscais nº 2549, nº 2982 e nº 2988, emitidas pela Transportadora Binotto S/A, ou mesmo em que condições ocorreram esses transportes. Diante da impossibilidade de se determinar a que se prestaram os transportes que se encontram em exame nos autos, e considerando que, em se tratando de declaração de compensação, incumbe a quem alega o crédito o ônus de provar a sua existência (certeza do crédito), bem como de demonstrar o seu valor (liquidez do crédito), mantenho as glosas relativas às notas fiscais emitidas pela Transportadora Binotto S/A. 4.4 Da glosa sobre a nota fiscal da Companhia Brasileira de Soluções e Serviços No curso da diligência levada a efeito pela Fiscalização por determinação deste CARF, a Recorrente sustentou a essencialidade e relevância dos serviços prestados pela Companhia Brasileira de Soluções e Serviços dizendo tratar-se de cartões de alimentação para empregados da empresa, exigidos por força da NR 4, Norma Regulamentadora expedida pelo Ministério do Trabelho e Emprego, em cumprimento ao art. 200 da CLT. Fl. 1020DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 27 30. Trata-se de prestação de serviço de fornecimento de cartões alimentação para empregados da empresa no período. 31. De pronto, necessário se faz asseverar que o serviço prestado é essencial visto que o mesmo se dá em cumprimento à NR 4, Norma Regulamentadora expedida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em cumprimento ao art. 200, da CLT, relativa à saúde do trabalhador. 32. É notório que a devida alimentação do trabalhador industrial é de essencial importância para a própria Companhia, visto que, além de afetar diretamente o seu desempenho laboral, pode vir a avariar sua saúde. 33. Ainda, o desrespeito a NR 4 importa nas penalidades previstas na NR 28, dentre elas, o embargo ou interdição da atividade industrial, bem como a imposição de multas. 34. Sem a concessão desses requisitos básicos, como a alimentação, porém imprescindíveis ao obreiro – enquanto trabalhador e ser humano, é impensável conceber a possibilidade de se ter o desenvolvimento do processo produtivo empreendido pela NIBRASCO. 35. Dessa forma, a fim de garantir a saúde laboral de seus colaboradores e em cumprimento a NR 4, do MTE, é CRUCIAL o amparo ora fornecido ao trabalhador, sendo assim relevante engrenagem da cadeia de produção da NIBRASCO. A Fiscalização, após a realização da diligência determinada pelo CARF, manteve a glosa sob o argumento de que “o art. 3º, inciso X, da Lei 10.637/2002, dispõe que a pessoa jurídica poderá descontar os créditos da Contribuição para o PIS/Pasep de incidência não-cumulativa em relação a vale-transporte, vale-refeição ou vale-alimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica que explore as atividades de prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção”, sendo que a empresa não explora essas atividades. O art. 3º, inciso X, da Lei 10.637/2002, dispõe que a pessoa jurídica poderá descontar os créditos da Contribuição para o PIS/Pasep de incidência não- cumulativa em relação a vale-transporte, vale-refeição ou vale-alimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica que explore as atividades de prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção. Como a lei define exatamente quem tem o direito ao crédito pela aquisição destes itens e a interessada não explora estas atividades, fica claro que o item não se enquadra para a contribuinte no conceito de insumo, para fins de creditamento de PIS/Pasep, sendo devida a glosa dos referidos créditos. Em sua manifestação ao Termo de Encerramento de Diligência Fiscal, a Recorrente repisa o argumento de que a prestação de serviço de fornecimento de cartões alimentação para empregados da empresa se dá em cumprimento à NR 4, Norma Regulamentadora expedida pelo Ministério do Trabalho e Emprego, daí a sua essencialidade. _____________________ II.3. DOS SERVIÇOS PRESTADOS PELA COMPANHIA BRASILEIRA DE SOLUÇÕES E SERVIÇOS. Fl. 1021DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 28 15. A prestação de serviço de fornecimento de cartões alimentação para empregados da empresa é essencial, visto que o mesmo se dá em cumprimento à NR 4, Norma Regulamentadora expedida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em cumprimento ao art. 200, da CLT, relativa à saúde do trabalhador. 16. Sendo que o desrespeito a NR 4 implica as penalidades previstas na NR 28, dentre elas, o embargo ou interdição da atividade industrial, bem como imposição de multas. 17. Dessa forma, a fim de garantir a saúde laboral de seus colaboradores e em cumprimento a NR 4, do MTE, é CRUCIAL o amparo ora fornecido ao trabalhador, sendo assim relevante engrenagem da cadeia de produção da NIBRASCO. Sem razão a Recorrente. A IN RFB nº 2.121, de 2022, em seu art. 176, § 2º, inciso VI, diz expressamente que as despesas com alimentação não podem ser consideradas insumo da produção: Art. 176. Para efeito do disposto nesta Subseção, consideram-se insumos, os bens ou serviços considerados essenciais ou relevantes para o processo de produção ou fabricação de bens destinados à venda ou de prestação de serviços (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 37; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 21). § 1º Consideram-se insumos, inclusive: ... § 2º Não são considerados insumos, entre outros: ... VI - despesas destinadas a viabilizar a atividade da mão de obra empregada no processo de produção ou fabricação de bens ou de prestação de serviços, tais como alimentação, vestimenta, cursos, plano de saúde e seguro de vida; ... Quanto ao que dispõe o inciso X do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, já vimos no tópico “Do conceito de insumo” que se trata de um casuísmo que permite às pessoas jurídicas que explorem as atividades de prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção o creditamento da Contribuição para o PIS/PASEP relativa, entre outros, ao custo com o fornecimento de vale-refeição ou vale-alimentação para os empregados. Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: ... Fl. 1022DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 29 X - vale-transporte, vale-refeição ou vale-alimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica que explore as atividades de prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção. Ao dispor sobre as atividades das pessoas jurídicas que fazem jus a esse creditamento (prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção), a Lei nº 10.637, de 2002, acabou por excluir todas as demais pessoas que não explorem essas atividades, como é o caso da Recorrente. Diante disso, concordando com o resultado da diligência nesse tópico, nego provimento na matéria e mantenho as glosas promovidas pela Fiscalização sobre a nota fiscal emitida pela Companhia Brasileira de Soluções e Serviços. 4.5 Das glosas sobre as notas fiscais da Agência Estado Ltda A Fiscalização, no Termo de Encerramento de Diligência Fiscal, ao analisar os serviços prestados pela Agência Estado Ltda, concluiu que eles não se enquadram no conceito de insumo para fins de creditamento da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, uma vez que dizem respeito a atividades administrativas e não estão intrinsecamente relacionados ao exercício da atividade fim da Recorrente. Para sustentar o que afirma, reproduz as explicações trazidas pela Recorrente quando da realização da diligência: (e-fls. 767 a 768) Conforme NT 02-18, da FEST, à página 50, “A atividade industrial da Nibrasco demanda diversos controles e análises, visando sua continuidade e proporcionar informações pertinentes aos executantes das atividades. Entre as empresas contratadas para estas atividades de apoio, temos: (...), AGÊNCIA ESTADO, (...)”. Por se tratar de fornecimento de informações para elaboração de planejamento de produção e manutenção, aplicava-se a usina em geral e, por isto, seus custos eram registrados em centro de custo primário de apoio, para então ser redistribuído em fases de apuração subsequente até o produto final. (e-fls. 750 a 752) 42. Necessário se faz destacar um ponto acerca das empresas cuja atividade econômica principal está atrelada a consultoria e auditoria financeira, contábil e tributária. No presente caso, podemos citar os serviços prestados pela a) AGENCIA ESTADO LTDA; b) PRICEWATERHOUSECOOPERS INTERNACIONAL S/C LTDA. 43. É notório que a atividade de consultoria e auditoria financeira, contábil e tributária é de indispensável importância para os fins societários da RECORRENTE. 44. É cediço que a consultoria e auditoria financeira (lato sensu) de uma empresa, bem como a disponibilização de informações especializadas relativas ao mercado interno e externo, são de primordial essencialidade para a tomada de decisões empresariais. Fl. 1023DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 30 45. Com os dados obtidos pela AGÊNCIA ESTADO LTDA e PRICEWATERHOUSECOOPERS INTERNACIONAL S/C LTDA , os diretores podem criar, coordenar e executar diversos planejamentos de melhoria e efetividade nos mais diferentes setores da Companhia, inclusive no que se refere à segurança e produtividade da atividade industrial. 46. Vislumbra-se que a disponibilização de informações especializadas advindas das atividades das referidas empresas é de máxima importância para a segurança das decisões corporativas, garantindo a excelência e a superioridade do material fabricado pela RECORRENTE. 47. Inclusive, em laudo pericial confeccionado pelo renomado FEST, compreendeu-se pela essencialidade e relevância do serviço para a consecução dos fins da RECORRENTE. Nesse sentido, confira-se excerto do estudo técnico: 48. Há de se esclarecer, ainda, que as empresas ali mencionadas desempenham a mesma atividade de consultoria e auditoria financeira desenvolvidas por AGENCIA ESTADO e PRICEHOUSECOOPERS. 49. Assim, é evidente que os serviços prestados pela AGÊNCIA ESTADO LTDA e pela PRICEWATERHOUSECOOPERS INTERNACIONAL S/C LTDA são de essencial importância para o processo produtivo da RECORRENTE, sendo impossível idealizar uma realidade onde seja factível exercer a atividade industrial da Companhia sem a devida assessoria de excelência. Em sua manifestação ao Termo de Encerramento de Diligência Fiscal, a Recorrente não agrega qualquer nova informação, limitando-se a reproduzir, de forma bem resumida, o que já havia apresentado para a Fiscalização: _____________________ II.4. DOS SERVIÇOS PRESTADOS PELA AGÊNCIA ESTADO LTDA E PRICEWATERHOUSECOOPERS INTERNACIONAL S/C LTDA. 18. Como cediço, a atividade de consultoria e auditoria financeira, contábil e tributária é de indispensável importância para os fins societários da REQUERENTE. 19. Corroborando à essencialidade e relevância dos referidos serviços de apoio operacional, o laudo confeccionado pela FEST asseverou: Fl. 1024DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 31 20. Logo, o serviço prestado é essencial à atividade produtiva da empresa autora, restando comprovada a sua caracterização como insumo. Como se extrai das explicações apresentadas pela Recorrente, estamos aqui discutindo os serviços de consultoria e auditoria financeira, contábil e tributária prestados pela Agência Estado Ltda, que, a meu ver, por mais relevantes que possam ser para o desenvolvimento das atividades da empresa, não se mostram essenciais ou relevantes para o processo de industrialização promovido pela Recorrente. Assim, concordando com o entendimento expresso pela Fiscalização de que esses serviços dizem respeito a atividades administrativas, e não se mostram essenciais ou relevantes para o processo produtivo, mantenho a glosa relativa às notas fiscais emitidas pela Agência Estado Ltda. 4.6 Das glosas sobre as notas fiscais da CONCREMAT Engenharia e Tecnologia No curso da diligência realizada por determinação do CARF, a Recorrente descreveu os serviços prestados pela CONCREMAT Engenharia e Tecnologia como sendo “serviços de gerenciamento de projetos de engenharia e de obras diversas para empreendimentos industriais e obras civis de meio ambiente”. Trata-se de serviços de gerenciamento de projetos de engenharia e de obras diversas para empreendimentos industriais e obras civis de meio ambiente. Os processos produtivos da empresa, desde a preparação da matéria-prima (recuperação, moagem, ciclonagem, espessamento, homogeneização, filtragem, prensagem de rolos, mistura), de formação de pelotas cruas (pelotamento, peneiramento de rolos), de tratamento térmico (queima e resfriamento), e até a classificação e estocagem (peneiramento vibratório, empilhamento), são processos produtivos complexos, que essencialmente demandam serviços de gerenciamento, de coordenação, de elaboração de projetos e de consultoria de engenharia, serviços de engenharia nas áreas administrativas, elétrica e mecânica, serviços de softwares e de implementação de sistemas de informação, tendo em vista que diversos dos equipamentos industriais utilizados possuem controladores lógicos programáveis – CLP’s, entre outros dispositivos eletroeletrônicos e mecatrônicos. O documento teve seus valores registrados em centro de custo de operação e manutenção em várias fases da usina (fases de alimentação, peneiramento, queima e moagem). Fl. 1025DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 32 Disse ainda que esses serviços “integram o complexo processo produtivo das pelotas de minério de ferro, na medida em que fornecem a coordenação, condução e gerenciamento de todo o processo operacional da confecção das pelotas de minério de ferro e suas respectivas etapas, além de fornecerem a estrutura adequada e da manutenção necessária à engenharia despendida na confecção mencionada”. A Fiscalização, após a diligência, manteve a glosa sob o argumento de que esses serviços não se enquadram no conceito de insumo, uma vez que, embora necessários, os serviços de gerenciamento de projetos não são aplicados ou consumidos no processo produtivo. Em sua manifestação ao Termo de Encerramento de Diligência Fiscal, a Recorrente reafirma a essencialidade e relevância dos serviços prestados pela CONCREMAT Engenharia e Tecnologia, descrevendo-os da seguinte forma: a) CONCREMAT ENGENHARIA E TECNOLOGIA: presta serviços de gerenciamento de projetos de engenharia e de obras diversas para empreendimentos industriais e obras civis de meio ambiente, em várias etapas do processo produtivo da empresa, desde a preparação da matéria até a classificação e estocagem; Aqui entendo que a razão assiste a Recorrente e que as glosas devem ser revertidas. Estando os projetos de engenharia e as obras relacionados com as diversas etapas do processo produtivo, entendo que o gerenciamento desses projetos e dessas obras também são essenciais e relevantes para a produção da empresa, de tal sorte que é possível enquadrá-los no conceito de insumo estabelecido pelo STJ no REsp nº 1.221.170. Dessarte, dou provimento ao Recurso Voluntário nessa parte e reverto as glosas promovidas pela Fiscalização sobre as notas fiscais emitidas pela CONCREMAT Engenharia e Tecnologia. 4.7 Da glosa sobre as notas fiscais da METACON Engenharia Ltda Os serviços prestados pela METACON Engenharia Ltda foram descritos pela Recorrente, no curso da diligência realizada por determinação do CARF, como “serviços técnicos de Engenharia de Projetos Industriais Mecânicos (Sistemas, componentes de equipamentos, hidráulica, pneumática, etc) e Eletricos (Elétrica, eletrônica e instrumentação), “as built” e modificações em documentação técnica dos equipamentos e instalações”, os quais foram empregados “na manutenção da área de alimentação (recuperadora de pelotas e correias transportadoras) e na área do pelotamento (discos de pelotamento, correias, peneiras)”. Para justificar a manutenção das glosas, a Fiscalização deixou consignado no Termo de Encerramento de Diligência Fiscal que os serviços de gerenciamento, coordenação, e elaboração de projetos são anteriores ao processo produtivo e que, embora necessários, não são serviços aplicados ou consumidos no processo produtivo. Fl. 1026DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 33 Em sua manifestação ao Termo de Encerramento de Diligência Fiscal, a Recorrente reafirma a essencialidade e relevância dos serviços prestados pela METACON Engenharia Ltda, descrevendo-os da seguinte forma: b) METACON ENGENHARIA LTDA: presta serviços técnicos de Engenharia de Projetos Industriais Mecânicos (Sistemas, componentes de equipamentos, hidráulica, pneumática, etc) e Eletricos (Elétrica, eletrônica e instrumentação), “as built” e modificações em documentação técnica dos equipamentos e instalações. Os serviços foram empregados na manutenção da área de alimentação (recuperadora de pelotas e correias transportadoras) e na área do pelotamento (discos de pelotamento, correias, peneiras); Da mesma forma que no item anterior, e pelas mesmas razões, entendo que também aqui a razão assiste a Recorrente. Segundo a Recorrente vem sustentando, os serviços prestados pela METACON Engenharia Ltda foram empregados na manutenção de duas áreas vinculadas ao processo produtivo: área de alimentação (recuperadora de pelotas e correias transportadoras) e área do pelotamento (discos de pelotamento, correias, peneiras). Isso comprova a essencialidade e relevância que esses serviços têm para produção da empresa, o que faz com que, nos termos do que foi decidido pelo STJ no REsp nº 1.221.170, esses serviços possam ser enquadrados como insumos da produção. E o fato levantado pela Fiscalização de que esses serviços são anteriores ao processo produtivo não torna isso inválido. Dessa forma, também aqui dou provimento ao Recurso Voluntário e reverto as glosas promovidas pela Fiscalização sobre as notas fiscais emitidas pela METACON Engenharia Ltda. 4.8 Da glosa sobre a nota fiscal da PRICEWATERHOUSECOOPERS A defesa da Recorrente em relação à essencialidade e relevância dos serviços prestados pela PRICEWATERHOUSECOOPERS INTERNATIONAL S/C LTDA é a mesma apresentada em relação aos serviços prestados pela Agência Estado Ltda, uma vez que, também aqui, estamos tratando de serviços de consultoria e auditoria financeira, contábil e tributária. Dessa forma, pelas mesmas razões apresentadas no tópico 4.5 (esses serviços dizem respeito a atividades administrativas, e não se mostram essenciais ou relevantes para o processo produtivo), mantenho a glosa relativa às notas fiscais emitidas pela PRICEWATERHOUSECOOPERS INTERNATIONAL S/C LTDA. Conclusão Diante do exposto, voto por não conhecer do Recurso Voluntário na parte em que combate as glosas relativas aos serviços de operação da usina, prestados pela Vale S/A, para, na parte conhecida, dar-lhe parcial provimento para: I) desfazer o reenquadramento feito pela Fiscalização nas vendas realizadas para a Vale S/A com fim específico de exportação, Fl. 1027DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.926 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15586.720015/2011-92 34 reconhecendo o direito de a Recorrente utilizar os créditos relativos a essas vendas para fins de compensação no presente processo; e II) reverter as glosas relativas às notas fiscais emitidas pelas empresas ASTE Assessoria e Suporte Técnico para Eventos Ltda (locação de barracas para montagem de lavatórios), NM Engenharia e Anticorrosão Ltda (serviços de manutenção e tratamento anticorrosivo), Refrigeração Espírito Santo Ltda (serviços de manutenção preventiva/corretiva em sistemas de refrigeração de salas elétricas), CEPEMAR Serviços de Consultoria em Meio Ambiente Ltda (serviço de monitoramento marinho), CONCREMAT Engenharia e Tecnologia (serviços de gerenciamento de projetos de engenharia e de obras diversas) e METACON Engenharia Ltda (serviços técnicos de engenharia de projetos industriais mecânicos e elétricos). (documento assinado digitalmente) Arnaldo Diefenthaeler Dornelles Fl. 1028DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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11237195 #
Numero do processo: 15444.720071/2020-32
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jan 26 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Feb 25 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 22/03/2018 INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. ART. 33 DA LEI 11.488/2007. CESSÃO DE NOME. AUSÊNCIA DE PROVA DO DOLO ESPECÍFICO E DA EFETIVA INTERPOSIÇÃO. NÃO INDICAÇÃO NA DECLARAÇÃO NÃO É, POR SI, OCULTAÇÃO DOLOSA. NECESSIDADE DE PROVA DE SIMULAÇÃO. CANCELAMENTO. A interposição fraudulenta exige prova cumulativa de cessão de nome sem interesse próprio, operação exclusiva de terceiros e dolo específico de acobertamento. Fiscalização não demonstrou que importador formal era mera interposta nem comprovou finalidade de acobertar real beneficiário, presumindo dolo da configuração objetiva. A não indicação de sujeitos na declaração de importação não caracteriza, por si só, ocultação típica, sendo imprescindível provar que decorreu de dolo ou simulação. Cancelamento do auto de infração.
Numero da decisão: 3402-012.932
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário para cancelar o Auto de Infração. Assinado Digitalmente José de Assis Ferraz Neto – Relator Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves, Cynthia Elena de Campos, Jose de Assis Ferraz Neto, Laercio Cruz Uliana Junior (substituto[a] integral), Mariel Orsi Gameiro, Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente)
Nome do relator: JOSE DE ASSIS FERRAZ NETO

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ART. 33 DA LEI 11.488/2007. CESSÃO DE NOME. AUSÊNCIA DE PROVA DO DOLO ESPECÍFICO E DA EFETIVA INTERPOSIÇÃO. NÃO INDICAÇÃO NA DECLARAÇÃO NÃO É, POR SI, OCULTAÇÃO DOLOSA. NECESSIDADE DE PROVA DE SIMULAÇÃO. CANCELAMENTO. A interposição fraudulenta exige prova cumulativa de cessão de nome sem interesse próprio, operação exclusiva de terceiros e dolo específico de acobertamento. Fiscalização não demonstrou que importador formal era mera interposta nem comprovou finalidade de acobertar real beneficiário, presumindo dolo da configuração objetiva. A não indicação de sujeitos na declaração de importação não caracteriza, por si só, ocultação típica, sendo imprescindível provar que decorreu de dolo ou simulação. Cancelamento do auto de infração. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário para cancelar o Auto de Infração. Assinado Digitalmente José de Assis Ferraz Neto – Relator Fl. 813DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 2 Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves, Cynthia Elena de Campos, Jose de Assis Ferraz Neto, Laercio Cruz Uliana Junior (substituto[a] integral), Mariel Orsi Gameiro, Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente) RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra o Acórdão nº 107-024.134, proferido pela 10ª Turma da Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil 07, que por unanimidade de votos, em 18/10/2023, julgou procedente em parte a impugnação, mantendo-se integralmente o crédito tributário exigido, e em excluir o Sr. Mauricio Fernando Tosta Barreto do rol dos sujeitos passivos, conforme ementa abaixo: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 22/03/2018 CESSÃO DE NOME. OPERAÇÃO DE COMÉRCIO EXTERIOR. ACOBERTAMENTO DE REAL IMPORTADOR. MULTA. A pessoa jurídica que ceder o seu nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros, com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários, fica sujeita à multa prescrita pelo artigo 33 da Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007. IMPORTAÇÃO. MULTA POR CESSÃO DE NOME. APLICAÇÃO. PESSOAS FÍSICAS. IMPOSSIBILIDADE. A penalidade prevista no art. 33 da Lei nº 11.488/2007, por acobertamento de reais intervenientes ou beneficiários em operações de importação, aplica-se, conforme o próprio texto legal, somente a pessoas jurídicas. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido Por bem descrever os fatos ocorridos até aquele momento, transcrevo o relatório da decisão recorrida: RELATÓRIO DE FISCALIZAÇÃO ANEXO AO AUTO DE INFRAÇÃO Fl. 814DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 3 [...] deve ser consignado que o objeto do presente processo é a embarcação Prestige 560 FLY 2018, sendo certo que o detalhamento das operações referentes à citada embarcação encontra-se na parte final do texto. 1 -DA ORIGEM DA AÇÃO FISCAL A ação fiscal decorreu do TDPF/RPF em epígrafe, que tinha como objeto a verificação da regularidade da entrada de embarcações no país, admitidas temporariamente pela fiscalizada, YACHT CENTER GROUP COMERCIO E IMPORTACAO LTDA, doravante denominada simplesmente YACHT.[...] Nas pesquisas realizadas, foi verificado que as faturas utilizadas nas admissões temporárias apresentavam formato diferente de outras faturas dos mesmos exportadores emitidas para outros importadores brasileiros, fato que apontava para possível falsidade dos documentos. Outro indício de irregularidade observado foi o fato de terem sido usadas, no processo de nacionalização de algumas embarcações, faturas com o mesmo número das faturas usadas no processo de admissão temporária anterior da mesma embarcação, alterando somente o campo forma de pagamento. Registre-se que, em regra, nas sucessivas prorrogações do Regime de Admissão Temporária, também eram usadas faturas com a mesma numeração. Outra questão que saltou aos olhos da Fiscalização referia-se ao modus operandi engendrado pela fiscalizada para algumas embarcações. Os bens eram admitidos temporariamente para exposição em determinado evento náutico no Brasil e permaneciam aqui, com a prorrogação do regime, até que fosse conveniente para a fiscalizada a nacionalização ou até que fosse indeferido o pedido de prorrogação da admissão temporária. [...] 2 - DA CONDUÇÃO DO PROCEDIMENTO DE FISCALIZAÇÃO [...] Emitido o TDPF, os Auditores titulares do procedimento de fiscalização deslocaram-se ao município de Angra dos Reis, em 02.08.2019, onde lavraram o Termo de Retenção de Mercadorias e Nomeação de Fiel Depositário do Anexo 2 e o Termo de Ciência e Intimação do Anexo 3. Importante repisar que os mencionados termos se referiam às embarcações que ainda se encontravam em Admissão Temporária no país, listadas a seguir: [...] III- EMBARCAÇÃO PRESTIGE 560 FLY-2018 - FABRICANTE: JEANNEAU; EXPORTADOR: JEANNEAU (FRANÇA). PAF Nº: 10711.720.645/2018-37. DI 18/0531906-1. FATURA: 11-088065 (SEM COBERTURA CAMBIAL). [...] No dia 23.08.2019, a fiscalizada juntou ao dossiê 10010.079493/0819-68 pedido de prorrogação, solicitando 60 dias para atendimento da intimação. [...] No dia 16.09.2019, foi solicitada pela fiscalizada nova prorrogação para atendimento dos termos de intimação lavrados. Fl. 815DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 4 Em paralelo às exigências de documentos formuladas nos termos de intimação lavrados, foi solicitada à Assessoria de Assuntos Internacionais da Receita federal do Brasil, ASAIN-RFB, com base nos acordos de intercâmbio de informações firmados pelo Brasil, que fossem requeridas aos países de procedência dos bens dados sobre a autenticidade das faturas apresentadas no Brasil para a instrução do despacho de admissão temporária, bem como detalhes sobre a operação de saída dos bens em questão dos respectivos países de procedência. No dia 11.11.2019, a interessada anexou ao e-dossiê 10010.079493/0819-68 os documentos do anexo 5, dentre os quais destacam-se novas faturas de algumas embarcações que não haviam sido entregues à Aduana Brasileira nas admissões temporárias realizadas no Brasil e nem mesmo nas nacionalizações realizadas, bem como os DAU (Documento Administrativo único) que acobertaram a saída de algumas embarcações dos países de procedência. Registre-se que referido documento presta-se a formalizar importações ou exportações realizadas por países membros da Comunidade Europeia. No dia 28.11.2019, foi encaminhado à fiscalizada o Termo de Intimação nº 432/2019 (Anexo 13), no qual foram solicitados informações e comprovantes dos pagamentos das embarcações nacionalizadas pela YACHTCG, como forma de facultar à interessada a possibilidade de demonstrar que os pagamentos das embarcações haviam sido feitos em datas e valores compatíveis com as operações declaradas ao Fisco, devendo ser consignado que, passado o prazo concedido, referido termo não foi atendido. 3 - DA ANÁLISE DOS FATOS E DO DIREITO [...] Observa-se, portanto, que a fiscalizada lograva retardar o pagamento dos tributos até que se tornasse conveniente ou inevitável a nacionalização, por exemplo, até que conseguisse um comprador para a embarcação que já era de sua propriedade, até que tivesse seu pedido de prorrogação de prazo de admissão negado, etc. Para atingir seu intento, a fiscalizada usava, em geral, nas sucessivas prorrogações do regime de admissão temporária, fatura com o mesmo número e data da utilizada na instrução da primeira declaração apresentada à Aduana Brasileira. Vejamos agora o caso de uma embarcação que ainda está em admissão temporária no país. Por exemplo, o caso da embarcação PRESTIGE 620, CASCO 61: Referida embarcação foi admitida temporariamente em 2015, desembaraçada com a utilização da DI 15/1944559-0, registrada em 06/11/2015, processo 10711.725718/2015-34, para evento que seria realizado entre 12 e 13.11.2015. Posteriormente, foi formalizado o processo 10711.723978/2016-56, no qual foi solicitada a transferência do regime para nova admissão temporária, com a utilização da DI 16/1779627-3, registrada em 10/11/2016, para evento que seria realizado até o final do verão de 2017. Fl. 816DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 5 No ano seguinte, foi formalizado o processo 10711.721327/2017-11 e utilizada a DI 17/0743059-6, registrada em 08/05/2017, em nova admissão temporária para evento que seria realizado entre 21/09/2017 e 26/09/2017. Portanto, a embarcação Prestige 620, retida em 02.08.2019 pelo Termo de Retenção de Mercadorias e Nomeação de Fiel Depositário do Anexo 2, encontra- se no Brasil desde 2015, com prorrogações sucessivas de admissão temporária, provavelmente até que a fiscalizada encontre interessado em sua aquisição ou até quando seja denegado pedido de prorrogação de admissão temporária, quando, então, promoveria sua nacionalização e o pagamento dos impostos, exatamente como fez no caso de embarcações listadas no Termo de Intimação 275/2019. [...] No que concerne às 3 embarcações acima identificadas, deve ser repisado que, em paralelo às exigências de documentos formuladas nos termos de intimação lavrados, foi solicitada à Assessoria de Assuntos Internacionais da Receita federal do Brasil, ASAIN-RFB, com base nos acordos de intercâmbio de informações firmados pelo Brasil, que fossem requeridas aos países de procedência dos bens dados sobre a autenticidade das faturas apresentadas no Brasil para a instrução dos despachos de admissão temporária, bem como detalhes sobre a operação de saída dos bens em questão dos respectivos países de procedência. Em resposta aos pedidos de informação formulados, foram apresentados os documentos dos anexos 10, 11 e 12. No anexo 11, destacam-se as seguintes informações do Setor de Inteligência da Aduana da França sobre o regime em que se deu a saída de cada uma das embarcações PRESTIGE 500 CASCO 303, PRESTIGE 620 CASCO 61 e PRESTIGE 560 FLY-2018 da Europa. [...] Já no anexo 11, destaca-se a ratificação por parte da Adida Aduaneira para a Embaixada da França no Brasil de que o código 1000 usado no campo 37 dos DAU refere-se ao REGIME DE EXPORTAÇÃO DEFINITIVA. Finalmente, no Anexo 12, constam os detalhes dos pagamentos das embarcações que ainda se encontram em admissão temporária no país, evidenciando-se que referidas embarcações já foram liquidadas no exterior, antes do registro das declarações de admissão temporária. No anexo 12, consta também a informação de que as faturas usadas nas admissões temporárias no Brasil das embarcações PRESTIGE 560 e PRETIGE 620 Fl. 817DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 6 não foram emitidas por JEANNEAU em Dompierre, ratificando, portanto, a falsidade dos documentos usados na fraude cometida. [...] Retornemos, então, ao caso da embarcação objeto do presente processo, Prestige 560 CASCO FLY 2018: Bem admitido temporariamente em 2018 pela DI 18/0531906-1, registrada em 22/03/2018, processo 10711.720645/2018-37, para evento que seria realizado entre 14 e 22 de abril de 2018. Prazo concedido até 23/03/2019. Em 20/03/2019 foi solicitada nova concessão de admissão temporária para evento que seria realizado entre 27 de abril a 05 de maio de 2019, que foi concedida com prazo até 23/09/2019. Como ficou exaustivamente demonstrado, principalmente com as informações obtidas da Aduana Francesa, acostadas nos anexos 10, 11 e 12, a embarcação Prestige 560 FLY 2018 também foi importada com a utilização de fatura falsa, o que ensejou a aplicação da pena de perdimento prevista no artigo 689, VI do RA. Referida pena foi formalizada nos autos do processo 15444.720287/2019-64. No entanto, o presente caso ainda guarda uma outra irregularidade mais grave praticada pela fiscalizada, descrita detalhadamente no item 4.2 do presente relatório, a ocultação do real beneficiário da operação de importação. Inicialmente cabe registrar que a embarcação em questão se encontrava em admissão temporária no país, quando foi lavrado o termo de retenção do anexo 2, em 02.08.2019. Não obstante, YACHT emitiu a nota fiscal de venda nº 266, em 15.10.2019, em favor de HOMERO FREDERICO ICAZA FIGNER, CPF 219.480.547- 87, mesmo sem ter nacionalizado o bem e, portanto, sem ter pago os tributos devidos. Em diligência instaurada em desfavor do adquirente do bem no Brasil, o Sr. HOMERO FREDERICO ICAZA FIGNER, doravante denominado simplesmente Homero, constatou-se que YACHT ocultou ao Fisco o real beneficiário da operação de importação realizada, a citada pessoa física. 4- FATOS E FUNDAMENTOS CARACTERIZADORES DA CESSÃO DE NOME POR PARTE DE YACHTCG Restou claramente evidenciado na diligência realizada em desfavor de Homero que, embora a YACHT promovesse a importação do bem em nome próprio, formalmente registrando a declaração de importação e dando uma aparência de legalidade à operação, na realidade, referenciada prática era efetivada com o objetivo escuso de ocultar ao Fisco o real beneficiário dessa operação, comprovadamente a verdadeira encomendante da embarcação importada pela YACHTCG através da Declaração de Importação objeto deste Auto de Infração. Fl. 818DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 7 A referida operação foi efetuada sem a observância da legislação que estabelece os requisitos e condições para a atuação de pessoa jurídica importadora em operações procedidas para revenda a encomendante predeterminado (Lei nº 11.281/2006 e Instrução Normativa SRF nº 634/2006). [...] 4.2 - DOS FATOS QUE CARACTERIZAM A OCULTAÇÃO DO REAL BENEFICIÁRIO - PROCEDIMENTO FISCAL EM DESFAVOR DE HOMERO Inicialmente cabe destacar que a embarcação em questão se encontrava em admissão temporária no país, quando foi lavrado o termo de retenção do anexo 2, em 02.08.2019. Não obstante, YACHT emitiu a nota fiscal de venda nº 266, em 15.10.2019 em favor de Homero, mesmo sem ter nacionalizado o bem e, portanto, sem ter pago os tributos devidos. Tendo em vista a emissão da nota fiscal acima indicada, foi emitido o TDPF de Diligência N° 0719500-2020-00012-1, a fim de que fossem averiguadas as condições nas quais a embarcação PRESTIGE 560 FLY 2018, alvo deste relatório, teria sido adquirida por HOMERO da empresa YACHT. Na diligência realizada, foram constatados os seguintes fatos que demonstram claramente a ocultação de HOMERO realizada por YACHT: O primeiro elemento importante para elucidação do caso é o contrato firmado por Homero com YACHT (anexo 15), para que esta última prestasse os serviços de importação para a posterior venda da embarcação PRESTIGE 560 FLY 2018. Retiramos trecho para ilustração. Fl. 819DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 8 Evidencia-se, portanto, pelo objeto do contrato, que Homero contratou YACHT para realizar operação de importação de um bem, para posterior venda. Afigura-se relevante apontar, ainda, a data da formalização do contrato: novembro de 2017. Vejamos detalhe do documento: Fl. 820DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 9 Considerando que o registro da declaração de admissão temporária do bem ocorreu em 22.03.2018, quatro meses após a formalização do acordo para a importação, resta claro que a operação de comércio exterior foi concretizada para atender especificamente a vontade do Sr.Homero. Importante consignar, outrossim, que nosso ordenamento não permite que pessoas físicas figurem como encomendantes ou adquirentes em importações promovidas por pessoas jurídicas importadoras. Caso uma pessoa física pretenda realizar operação de importação, poderá fazer por sua própria conta, valendo-se, inclusive, do auxílio de despachante aduaneiro. Portanto, evidencia- se um dos motivos para a ocultação do real beneficiário da operação de comércio exterior. (...) Merece destaque, ainda, as datas dos pagamentos realizados por Homero à YACHTCG, anteriores à operação de comércio exterior e a clara informação, no contrato, de que os repasses financeiros complementares deveriam ocorrer quando a embarcação estivesse liberada na fábrica, não remanescendo dúvidas, portanto, sobre o real interessado pela operação, o Sr. Homero: Fl. 821DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 10 Relevante apontar outro fato que robustece a convicção do conhecimento e participação do adquirente nas operações realizadas: Contrato de depósito firmado entre Homero e BR Marina Ribeira, celebrado em 01/05/2018 denota que a embarcação já estaria na posse do adquirente em mencionada data. No entanto, a primeira nota fiscal emitida em favor de Homero foi a NF 263, que datava de 26/04/2019 e ostentava o código 6922 (Simples faturamento). Portanto, o adquirente estranhamente aceitou receber um documento fiscal “provisório” quase um ano após firmar contrato de depósito da embarcação em questão. E mais, somente em outubro de 2019, portanto, após a retenção da embarcação pela Fiscalização ocorrida em agosto de 2019, a YACHT emitiu a nota fiscal de entrada nº 265 para justificar o ingresso do bem em seu estoque. Na mesma data, 15/10/2019, foi emitida a nota de venda nº 266, para acobertar a transferência definitiva do bem ao adquirente. Tudo, ressalte-se, sem a nacionalização da embarcação. Finalmente, é imprescindível repisar que, no dia 28.11.2019, foi encaminhado à fiscalizada YACHT o Termo de Intimação nº 432/2019 (Anexo 13), no qual foram solicitados informações e comprovantes dos pagamentos das embarcações nacionalizadas, como forma de facultar à interessada a possibilidade de demonstrar que os pagamentos das embarcações haviam sido feitos em datas e valores compatíveis com as operações declaradas ao Fisco. Apesar de devidamente intimado, o contribuinte fiscalizado não apresentou os documentos e informações exigidos, tampouco informou a devida razão para o não atendimento da requisição contida em regular Termo de Intimação. Fl. 822DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 11 Em 06.03.2020, YACHT foi uma vez mais intimada (Termo de Intimação 73/2020) a informar como foi realizado o pagamento aos exportadores dos bens importados a partir de 2015, detalhando as datas e apresentando os documentos comprobatórios dos desembolsos realizados, com a devida exibição de extratos e documentos bancários (transferências, contratos de câmbio) que atestassem o regular envio de numerário utilizado para quitação das embarcações. Uma vez mais quedou-se inerte a fiscalizada. Por outro lado, informações extraídas do sistema E-FINANCEIRA, referentes a movimentação bancária da empresa YACHT, não apontam, no período em exame, a transferência de recursos afetos à liquidação de contrato de câmbio, restando caracterizada a impossibilidade de rastreamento dos recursos usados nas operações de comércio exterior realizados pela fiscalizada. Observados os fatos consignados, resta patente a incidência de mais uma circunstância que bem denota a natureza irregular da importação ora em exame, porquanto inexistente a comprovação do pagamento devido em razão da importação efetivada e da consequente entrada do bem em território nacional. Sendo assim, resta plenamente evidenciado, a partir dos documentos e elementos apurados na presente fiscalização, no que pertine ao desembaraço da embarcação PRESTIGE 560 FLY, por meio da Declaração de Importação 18/0531906-1, que YACHT cedeu seu nome para a realização de operação de comércio exterior de terceiros. Assim, para obviar os obstáculos criados por Lei e por todos os instrumentos legais que regem a matéria, apontados neste relatório, efetuou a sociedade empresária YACHT importação de produto exclusivamente em seu próprio nome, documentando depois a transferência subsequente da embarcação, como se tratasse de uma usual compra e venda de uma embarcação, burlando, assim, os limites estabelecidos pela lei e demais atos infralegais para empresas que objetivem operar no comércio exterior. 5- CONCLUSÃO Considerando as razões de fato e de direito aqui aduzidas, sujeita-se a fiscalizada à aplicação da multa prevista no artigo 33 da Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007. A penalidade encontra-se regulamentada pelo artigo 727 do Decreto 6.759/2009. [...] A empresa YACHT CENTER foi intimada da decisão de primeira instância em 25/10/2023 (e-fl. 667) e apresentou o Recurso Voluntário (e-fls. 760 a 772) em 16/11/2023 (Termo de Solicitação de Juntada na e-fl. 758) pelo qual pediu a improcedência do auto de infração e subsidiariamente a redução da multa de 10% do valor aduaneiro para 1% do valor aduaneiro (artigo 711, III, do RA/2009, conforme precedente do CARF às fls. 666 dos autos). Concluída a exposição dos fundamentos constantes do Relatório Fiscal, passa-se ao registro dos principais argumentos apresentado no recurso voluntário. Fl. 823DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 12 A Recorrente YACHT, empresa distribuidora exclusiva no Brasil das lanchas da marca francesa PRESTIGE, insurge-se contra auto de infração que lhe imputa a prática de cessão de nome, por supostamente ocultar seus clientes das autoridades aduaneiras. No caso específico deste processo administrativo, alega-se que a Recorrente teria ocultado o encomendante pessoa física, Sr. HOMERO FREDERICO, na importação de uma embarcação PRESTIGE 560. O auto de infração fundamenta-se na alegação de que a Recorrente, embora promovesse a importação do bem em nome próprio e formalmente registrasse a declaração de importação dando aparência de legalidade à operação, na realidade o fazia com o objetivo escuso de ocultar ao Fisco o real beneficiário da operação, comprovadamente o verdadeiro encomendante da embarcação. A fiscalização sustenta que a operação foi efetuada sem observância da legislação que estabelece os requisitos e condições para atuação de pessoa jurídica importadora em operações procedidas para revenda a encomendante predeterminado, notadamente a Lei nº 11.281/2006 e a Instrução Normativa SRF nº 634/2006. O acórdão recorrido acolheu a tese da fiscalização, concluindo que restou evidenciada a realização de importação utilizando regime de admissão temporária com vistas ao acobertamento do real interveniente ou beneficiário da operação. Segundo o acórdão, antes de a Recorrente realizar a admissão temporária, o bem já se encontrava com transferência de recursos por parte do adquirente ocultado, evidenciando que a YACHT promoveu de forma simulada importação por encomenda de terceiros, realizando importação de bem em nome próprio, cedendo seu nome para a realização de operação de comércio exterior de terceiros, em violação à legislação tributária e aduaneira e em prejuízo ao controle aduaneiro previsto no art. 237 da Constituição Federal. Em suas razões recursais, a Recorrente apresenta três fundamentos principais para reforma da decisão. Primeiramente, invoca precedente importante envolvendo empresa concorrente do mesmo segmento de importação de lanchas. A Recorrente relata que sua concorrente, a empresa AZUL COMÉRCIO DE PRODUTOS NÁUTICOS, detentora da representação da fabricante norte- americana de lanchas MASTERCRAFT, sofreu autuação fiscal sob o mesmo fundamento de ocultação de seus clientes, pessoas físicas ou jurídicas, que segundo a fiscalização deveriam figurar nas declarações de importação na condição de encomendantes. Aquela autuação deu origem ao PAF nº 18130.720004/2022-10, o qual foi julgado mediante acórdão definitivo favorável à AZUL COMÉRCIO DE PRODUTOS NÁUTICOS, com base na Solução de Consulta nº 207, de 15 de dezembro de 2021. A Recorrente sustenta que a operação da concorrente é exatamente a mesma operação da empresa YACHT, sendo que a primeira representa e distribui lanchas MASTERCRAFT norte-americanas e a Recorrente representa e distribui lanchas PRESTIGE francesas, não havendo razão para que o direito seja aplicado de forma diferente para empresas do mesmo segmento. Fl. 824DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 13 Ressalta que a única penalidade lançada neste processo administrativo fiscal, da qual se defende, é aquela de cessão de nome para supostamente acobertar seus clientes, situação totalmente equivalente àquela da empresa AZUL COMÉRCIO DE PRODUTOS NÁUTICOS, decidida favoravelmente pela Delegacia da Receita Federal mediante aplicação da Solução de Consulta nº 207/2021. Em segundo lugar, a Recorrente argumenta pela inexistência de dolo de ocultar ou ceder nome, sustentando que a penalidade aplicável, no máximo, seria aquela do artigo 711, inciso III, do Regulamento Aduaneiro de 2009. A Recorrente registra que existe nos autos manifestação formal do Governo da França que afasta, por completo, qualquer tipo de falsificação das faturas comerciais ou de subfaturamento. Trata-se de resposta da Aduana da França dirigida à Receita Federal do Brasil quanto à autenticidade de três faturas comerciais que instruíram admissões temporárias da Recorrente, incluindo a PRESTIGE 560 objeto deste processo. A autoridade aduaneira francesa qualificou as três faturas comerciais apresentadas pela Receita Federal simplesmente como versões compactas da invoice original, com todos os dados de interesse fiscal preservados, concluindo pela inexistência de qualquer irregularidade nas exportações, que estão em conformidade do ponto de vista financeiro e aduaneiro. A Recorrente sustenta ainda que a própria autoridade aduaneira da França afasta o dolo na operação. Argumenta que o auto de infração não descreve qual seria o dolo na ocultação do Sr. HOMERO FREDERICO, nem qual o benefício ilícito que seria obtido com a omissão do seu nome na declaração de importação, reconhecendo o próprio auto de infração que não seria possível informar seu CPF como encomendante na declaração de importação por ser ele pessoa física. Ressalta que o auto de infração reconhece expressamente que nem toda interposição tem intuito doloso ou fraudulento, citando trecho em que a própria fiscalização admite que muitas empresas utilizavam a interposição sem objetivar qualquer vantagem tributária, realizando-a apenas para terceirizar atividades-meio, concentrando-se em suas atividades-fim, casos em que a interposição não tinha nada de ilícito nem gerava qualquer redução na arrecadação fiscal. A Recorrente invoca precedente do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais segundo o qual, nos casos em que não há dolo mas apenas o descumprimento de obrigação acessória consistente em incluir o nome do encomendante no campo adquirente da declaração de importação, a única penalidade aplicável é aquela do artigo 711, inciso III, do Regulamento Aduaneiro de 2009, correspondente a multa de um por cento do valor aduaneiro. Sustenta que a falta de informação de um encomendante no campo adquirente de uma declaração de importação, por si só, caracteriza apenas a infração do artigo 711, inciso III, do Regulamento Aduaneiro, e que apenas quando for configurado o dolo de ocultar, de ceder o nome, é que cabem as penalidades mais graves. Em terceiro lugar, a Recorrente sustenta que a importação da lancha PRESTIGE 560 FLY não poderia ser legalmente feita por conta própria do Sr. HOMERO FREDERICO. Argumenta que a aquisição da lancha junto ao estaleiro francês foi feita parte com recursos adiantados pelo Sr. HOMERO FREDERICO e parte com recursos da própria Recorrente, uma vez que ela recebeu a Fl. 825DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 14 lancha anterior do Sr. HOMERO FREDERICO como parte do pagamento e ainda não havia vendido essa lancha devido à crise econômica. A Recorrente reconhece que esse sinal de compra ou adiantamento parcial do valor da lancha pelo Sr. HOMERO FREDERICO significa que ele seria o comprador final da embarcação depois de nacionalizada pela Recorrente, porém sustenta que não era legalmente possível que ele, enquanto pessoa física, fosse informado nas declarações de importação como encomendante da lancha, citando que o próprio auto de infração reconhece expressamente que o ordenamento não permite que pessoas físicas figurem como encomendantes ou adquirentes em importações promovidas por pessoas jurídicas importadoras. A Recorrente questiona que, se a importação fosse realizada como conta própria do Sr. HOMERO FREDERICO, como ficaria a questão de parte do pagamento ter sido feito com recursos da Recorrente, e a questão de que o estaleiro exportador não tratava de exportações de lanchas PRESTIGE para o Brasil com ninguém senão com a YACHT, sua concessionária exclusiva no Brasil. Argumenta que da mesma forma como se acusa a Recorrente de ter cedido nome para o Sr. HOMERO FREDERICO porque parte do pagamento foi antecipado por ele, também se poderia acusar o Sr. HOMERO FREDERICO de ceder nome para a YACHT se a nacionalização tivesse sido registrada em nome da pessoa física do Sr. HOMERO FREDERICO, porque parte do pagamento foi feito com recursos da YACHT. Sustenta que se a importação não podia ser enquadrada como encomenda do Sr. HOMERO FREDERICO porque pessoa física não pode ser encomendante no Siscomex, nem como importação própria do Sr. HOMERO FREDERICO porque parte dos recursos veio da YACHT e esta era representante exclusiva da marca PRESTIGE no Brasil, a única saída para esse paradoxo é reconhecer que está correta a classificação dessa operação como conta própria da YACHT, desaparecendo assim a cessão de nome. Argumenta que exatamente essa foi a conclusão a que se chegou na Solução de Consulta nº 207, de 15 de dezembro de 2021, que serviu de base para a Delegacia da Receita Federal decidir favoravelmente o processo administrativo de interesse da empresa concorrente AZUL COMÉRCIO DE PRODUTOS NÁUTICOS. Conclui que uma operação de importação lícita do mundo real não pode ser impossível de declarar corretamente, sendo essa a situação absurda que se delineia no auto de infração. Em seus pedidos, a Recorrente requer primeiramente que seja dado provimento ao recurso voluntário para, no mérito, julgar improcedente o auto de infração. Sucessivamente, requer a redução da multa de dez por cento do valor aduaneiro para um por cento do valor aduaneiro, com fundamento no artigo 711, inciso III, do Regulamento Aduaneiro de 2009, conforme precedente do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. VOTO Fl. 826DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 15 1. Pressupostos legais de admissibilidade O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos formais de admissibilidade, razão pela qual dele se toma conhecimento. 2. Objeto do presente litígio Conforme relatório, trata o presente processo de auto de infração lavrado contra YACHT CENTER GROUP COMERCIO E IMPORTACAO LTDA, em 09/04/2020, no valor originário de R$ 291.501,03, referente à multa decorrente da cessão de nome da pessoa jurídica, de que trata o artigo 33, da Lei nº 11.488/2007, por atuar como interposta pessoa para ocultar o real adquirente de operação de comércio exterior, SR. HOMERO FREDERICO ICAZA FIGNER, CPF nº 219.480.547- 87, adquirente final da embarcação PRESTIGE 560 FLY 2018. I - DO MÉRITO Faz-se necessário analisar os elementos constitutivos do tipo infracional imputado, especialmente o elemento subjetivo consistente na finalidade de acobertar e a natureza da conduta praticada pela Recorrente. O art. 33 da Lei nº 11.488/2007 estabelece que a pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de dez por cento do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a cinco mil reais. Art. 33. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). A configuração da infração exige a presença cumulativa de elementos objetivos e subjetivos: primeiro, o elemento objetivo consistente na cessão do nome, isto é, figurar formalmente na operação que na realidade pertence a terceiros e não à cedente; segundo, o elemento subjetivo específico representado pela expressão "com vistas a", que denota finalidade determinada, propósito deliberado, intenção direcionada ao acobertamento dos reais intervenientes ou beneficiários; terceiro, o elemento normativo caracterizado pela ocultação de quem efetivamente deveria figurar na operação perante as autoridades aduaneiras. A multa de 10% do valor da operação constitui sanção gravosa do ordenamento jurídico aduaneiro. Essa severidade justifica-se apenas em casos de fraude, com interposição deliberada e planejada, finalidade manifestamente ilícita, ocultação destinada a viabilizar subfaturamento ou burlar impedimentos legais, e estrutura montada especificamente para fraudar o controle aduaneiro. Fl. 827DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 16 Justamente em razão dessa gravidade, o ônus probatório recai integralmente sobre a fiscalização, que deve demonstrar de forma robusta, inequívoca e conclusiva não apenas a ocultação objetiva do beneficiário, mas sobretudo o dolo específico de acobertar exigido expressamente pelo tipo legal. Em matéria sancionatória administrativa, especialmente quando se exige elemento subjetivo específico e se aplica penalidade grave, não se contenta com meras presunções baseadas na estrutura da operação. 1. DA ALEGAÇÃO DE QUE PESSOA FÍSICA NÃO PODE SER ENCOMENDANTE A Recorrente sustenta que a importação da embarcação PRESTIGE 560 FLY não poderia ser legalmente realizada por conta própria do Sr. HOMERO FREDERICO, pois a aquisição junto ao estaleiro francês foi feita parte com recursos adiantados pelo Sr. HOMERO FREDERICO e parte com recursos da própria YACHT, que recebeu embarcação usada do Sr. HOMERO FREDERICO como parte do pagamento. A Recorrente argumenta que não era legalmente possível que o Sr. HOMERO FREDERICO, enquanto pessoa física, fosse informado nas declarações de importação como encomendante da embarcação, citando inclusive reconhecimento expresso da própria fiscalização nesse sentido. O relatório fiscal efetivamente reconhece, às fls. 83/84, que o ordenamento jurídico não permite que pessoas físicas figurem como encomendantes ou adquirentes em importações promovidas por pessoas jurídicas importadoras, esclarecendo que caso uma pessoa física pretenda realizar operação de importação, poderá fazê-lo por sua própria conta, valendo-se inclusive do auxílio de despachante aduaneiro. O Acórdão recorrido, ao enfrentar esse argumento, sustenta que a existência de impedimento legal para pessoa física figurar como encomendante não autoriza a Recorrente a violar a legislação tributária e aduaneira, sendo irrelevante a forma de pagamento aceita pela empresa YACHT para atuar como importador em nome do real adquirente Sr. HOMERO FREDERICO. A decisão conclui que o fato de a Recorrente ter recebido um barco como parte do pagamento não descaracteriza a infração de cessão de nome indubitavelmente comprovada. Entendo, contudo, que o Acórdão recorrido não enfrentou adequadamente o paradoxo jurídico suscitado pela Recorrente. A Recorrente questiona, de forma juridicamente relevante, como deveria ter sido declarada a operação para estar em conformidade com a legislação. Se a declaração em nome da Recorrente configura cessão de nome, e se a declaração em nome do Sr. HOMERO FREDERICO seria vedada por impossibilidade legal de pessoa física figurar como encomendante, e ainda se parte do pagamento proveio da própria empresa YACHT, cria-se situação na qual nenhuma forma de declaração seria considerada regular pela fiscalização, o que contraria princípios básicos de segurança jurídica e razoabilidade. O acórdão recorrido responde a esse questionamento sustentando que a única conclusão possível seria que a pessoa física não poderia ter acesso a tal bem pela via da importação, não existindo direito absoluto à importação de bens. Essa conclusão, todavia, ignora que a Recorrente, como concessionária exclusiva da marca PRESTIGE no Brasil, possui atividade Fl. 828DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 17 empresarial lícita e regular de intermediação comercial entre o fabricante estrangeiro e consumidores finais brasileiros, e que essa atividade não pode ser simplesmente inviabilizada por interpretação que torne impossível qualquer forma lícita de declaração da operação. 2. DA CONDIÇÃO DE CONCESSIONÁRIA EXCLUSIVA E INTERESSE COMERCIAL PRÓPRIO A Recorrente sustenta que é revendedora exclusiva das embarcações francesas PRESTIGE no Brasil, conforme documentação juntada aos autos, e que o próprio fabricante JEANNEAU confirmou que não realiza vendas para o Brasil senão através da empresa YACHT, sua concessionária exclusiva. A Recorrente argumenta que, nessa condição, possui interesse comercial próprio e legítimo na operação, negociando diretamente com o exportador francês e figurando nos documentos de exportação da França. (e-fls. 600 a 604) Fl. 829DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 18 Fl. 830DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 19 Fl. 831DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 20 O relatório fiscal reconhece que a Recorrente atua como distribuidora exclusiva das embarcações PRESTIGE no Brasil, mas sustenta que isso é irrelevante para a configuração da infração de cessão de nome. O acórdão recorrido, acompanhando esse entendimento, afirma que o fato de a recorrente ser concessionária exclusiva não muda em nada a configuração da infração, pois a legislação da época proibia importação indireta por pessoa física, e que não existe direito absoluto à importação de bens. Verifico, contudo, que a fiscalização não logrou demonstrar que a empresa YACHT era mera interposta pessoa sem interesse comercial próprio na operação, elemento essencial para caracterizar cessão de nome no sentido técnico-jurídico do art. 33 da Lei nº 11.488/2007. Os elementos dos autos revelam que a Recorrente possui atividade empresarial efetiva e reconhecida no mercado náutico brasileiro, atuando como concessionária exclusiva da marca PRESTIGE, operando regularmente há anos no mercado de embarcações de luxo, mantendo estrutura operacional própria, funcionários e estabelecimento comercial. (e-fls. 591 a 599) Mais relevante ainda, a empresa YACHT negocia diretamente com o estaleiro exportador francês JEANNEAU, figura nos documentos de exportação da França como destinatária das mercadorias, e o próprio fabricante confirmou mediante declaração juntada aos autos que não realiza vendas para o Brasil senão através da Recorrente, sua concessionária exclusiva naquele país. Adicionalmente, a empresa YACHT recebeu embarcação usada do Sr. HOMERO FREDERICO como parte do pagamento pela embarcação nova, assumindo a propriedade desse bem e o risco comercial de sua posterior revenda no mercado brasileiro, tendo inclusive investido recursos próprios na operação. (e-fls. 510 a 528) Esses elementos demonstram que a Recorrente não era mera empresa laranja ou testa de ferro sem interesse próprio na operação, mas sim intermediária comercial com função econômica real e legítima no negócio. Nos casos típicos de cessão de nome punível com multa de dez por cento do valor da operação, a empresa cedente não possui atividade empresarial real, não mantém qualquer relação com o exportador estrangeiro, não possui interesse comercial próprio, funciona apenas como instrumento formal para ocultar o verdadeiro importador, não assume riscos comerciais e não aufere benefício legítimo, características que manifestamente não se verificam no caso da Recorrente. Os autos indicam que a empresa intermediou a negociação, recebeu embarcação usada na permuta com Sr. HOMERO FREDERICO. O valor da embarcação usada foi recebido pela Recorrente pelo valor de R$ 3.000.000,00 (três milhões), que entraria no negócio como dação em pagamento. As informações prestadas pela Recorrente apontam para operação comercial regular, com negociação de preços, condições de pagamento e permuta de bem usado, elementos característicos de intermediação comercial genuína, ainda que eventualmente inadequada quanto ao regime jurídico aplicável (e-fls. 510 a 528). (Anexo 15) Fl. 832DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 21 Fl. 833DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 22 Fl. 834DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 23 Fl. 835DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 24 Fl. 836DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 25 Fl. 837DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 26 A fiscalização limitou-se a constatar que havia adquirente final pré-determinado e que houve pagamento antecipado parcial por esse adquirente, presumindo daí a cessão de nome. Essa presunção, todavia, é insuficiente para caracterizar a infração quando a empresa que figura formalmente na importação possui, como efetivamente possui a empresa YACHT, interesse comercial próprio, legítimo e comprovado na operação. 3. DO ELEMENTO SUBJETIVO: AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DO DOLO ESPECÍFICO DE ACOBERTAR A Recorrente sustenta a inexistência de dolo de ocultar ou ceder nome, argumentando que a própria autoridade aduaneira da França afastou qualquer irregularidade na operação, que não houve subfaturamento, que não se identifica qual seria o benefício ilícito obtido com a omissão do nome do Sr. HOMERO FREDERICO na declaração de importação, e que o próprio auto de infração reconhece que nem toda interposição tem intuito doloso ou fraudulento. Fl. 838DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 27 O relatório fiscal e o acórdão recorrido sustentam que restou claramente evidenciado que a Recorrente promoveu a importação com o objetivo escuso de ocultar ao Fisco o real beneficiário da operação, que a operação foi efetuada sem observância da legislação que estabelece requisitos para importação por encomenda, e que a Recorrente apresentou documentos que não correspondiam à realidade da operação com o objetivo não apenas de postergar tributos, mas também de promover a ocultação do real adquirente. A expressão "com vistas ao acobertamento" utilizada pelo legislador no art. 33 da Lei nº 11.488/2007 denota elemento subjetivo específico do tipo, exigindo que a conduta seja praticada com finalidade determinada de acobertar os reais intervenientes ou beneficiários. Não basta que haja ocultação objetiva do beneficiário, elemento meramente factual. É necessário que essa ocultação seja intencional e finalística, isto é, praticada com o propósito deliberado e comprovado de impedir que as autoridades aduaneiras identifiquem o verdadeiro beneficiário da operação para obter vantagem ilícita específica dessa ocultação. O art. 33 exige dolo específico, não se contentando com dolo genérico ou mera negligência no cumprimento de obrigações acessórias. O dolo genérico consiste na mera consciência e vontade de praticar a conduta, como saber que está importando mercadoria, saber que há adquirente final predeterminado e saber que deveria haver declaração adequada da operação. O dolo específico, elemento essencial do tipo ora analisado, caracteriza-se pela finalidade especial exigida pela lei, consistente em querer especificamente ocultar o real beneficiário, com o propósito deliberado de impedir sua identificação pelas autoridades fiscais, para obter vantagem ilícita decorrente dessa ocultação. Analisando detidamente os autos, verifico que a fiscalização presumiu o dolo específico a partir da estrutura da operação e da constatação de que houve contrato prévio com o Sr. HOMERO FREDERICO e pagamento antecipado parcial por ele, mas não demonstrou efetivamente, de forma robusta e inequívoca, que a empresa YACHT agiu com vistas a acobertar o Sr. HOMERO FREDERICO nos termos exigidos pelo tipo infracional. O raciocínio utilizado pela fiscalização e acolhido pelo acórdão recorrido seguiu a seguinte lógica: o Sr. HOMERO FREDERICO foi ocultado da declaração de importação, logo a empresa YACHT quis acobertá-lo, logo há cessão de nome punível com multa de 10% do valor da operação. Esse raciocínio é manifestamente insuficiente em matéria sancionatória que exige demonstração de dolo específico e aplica uma penalidade grave do ordenamento aduaneiro. A ocultação objetiva, por si só, não demonstra a finalidade subjetiva de acobertar exigida pelo tipo. A ocultação verificada nos autos pode ter decorrido de múltiplas causas que não implicam necessariamente dolo específico de acobertar: desconhecimento da legislação específica sobre importação por encomenda prevista na Lei nº 11.281/2006, interpretação equivocada sobre o regime jurídico aplicável à operação, impossibilidade técnica percebida pela Recorrente em razão da vedação legal para pessoa física figurar como encomendante, conveniência operacional inadequada mas desprovida de finalidade ilícita, ou erro na escolha do regime jurídico aplicável Fl. 839DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 28 tendo a empresa declarado como importação por conta própria quando deveria ter sido importação por encomenda com habilitação prévia. Elemento crucial não demonstrado pela fiscalização é a existência de benefício ilícito identificável que motivasse a ocultação. Em casos típicos de cessão de nome punível com a severidade do art. 33, há vantagem ilícita clara e evidente que explica e motiva a ocultação do real beneficiário: ocultar débitos fiscais substanciais do verdadeiro importador, permitir que pessoa impedida legalmente realize importações burlando o impedimento, viabilizar subfaturamento de mercadorias mediante ocultação do real importador, evitar fiscalização específica sobre contribuinte com histórico irregular, ou obter benefícios fiscais indevidos mediante a estrutura de interposição fraudulenta. A fiscalização não identificou nem demonstrou qualquer dessas vantagens ilícitas típicas no caso concreto ora analisado. Não há subfaturamento da mercadoria, pois o valor declarado na importação não foi questionado pela fiscalização e foi confirmado como correto pela própria autoridade aduaneira francesa. Não há débitos fiscais do Sr. HOMERO FREDERICO sendo ocultados das autoridades, não constando dos autos que ele estivesse impedido de importar ou que possuísse pendências que justificassem ocultar sua identidade. Não há benefício fiscal indevido obtido pela Recorrente em razão da estrutura adotada, pois os tributos incidentes sobre a importação eram os mesmos independentemente de figurar a empresa YACHT ou HOMERO FREDERICO. Não há impedimento legal para que pessoa física importe embarcações de recreio por conta própria. Não há ocultação da origem ou qualidade da mercadoria, tendo a embarcação sido corretamente descrita na declaração de importação quanto a todas as suas características. A única vantagem mencionada pela fiscalização seria a postergação do pagamento de tributos mediante a utilização do regime de admissão temporária quando cabível seria a nacionalização imediata. Ocorre que essa suposta vantagem de natureza financeira não decorre da ocultação do Sr. HOMERO FREDERICO como beneficiário final, mas sim do uso alegadamente indevido do regime de admissão temporária, que constitui infração autônoma e distinta, inclusive já objeto de outro processo administrativo fiscal com aplicação de pena de perdimento. São motivações completamente diferentes que não devem ser confundidas: postergar o pagamento de tributos por dificuldades financeiras, ainda que mediante uso irregular de regime aduaneiro especial, é uma coisa; acobertar beneficiário com finalidade fraudulenta específica para obter vantagem ilícita da ocultação é outra completamente diversa, exigindo prova própria, específica e inequívoca. 4. DA MANIFESTAÇÃO DA AUTORIDADE ADUANEIRA FRANCESA A Recorrente destaca que existe nos autos, às fls. 341, manifestação formal do Governo da França que afasta por completo qualquer tipo de falsificação das faturas comerciais ou de subfaturamento. Trata-se de resposta da Aduana da França dirigida à Receita Federal do Brasil quanto à autenticidade de três faturas comerciais que instruíram admissões temporárias da Recorrente, incluindo a PRESTIGE 560 objeto deste processo. A Recorrente sustenta que a própria Fl. 840DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 29 autoridade aduaneira francesa qualificou as faturas como versões compactas da invoice original, com todos os dados de interesse fiscal preservados, concluindo pela inexistência de qualquer irregularidade nas exportações, que estão em conformidade do ponto de vista financeiro e aduaneiro. O relatório fiscal menciona o documento da autoridade francesa, mas o interpreta de forma diversa, sustentando que a Aduana da França teria confirmado que as faturas usadas nas admissões temporárias não foram emitidas pelo fabricante JEANNEAU, ratificando a falsidade dos documentos usados na fraude cometida. Analisando detidamente o documento original da autoridade aduaneira francesa constante às fls. 341, verifico que a Recorrente tem razão quanto à interpretação mais adequada do teor da manifestação. A autoridade francesa, após realizar verificações junto ao exportador JEANNEAU, consigna expressamente que as verificações efetuadas não revelaram qualquer irregularidade na exportação, que as transações relativas às exportações estão em conformidade do ponto de vista financeiro e aduaneiro, qualificando as faturas apresentadas pela fiscalização brasileira como versões resumidas ou compactas das faturas originais, preservando todos os elementos essenciais de interesse fiscal. Essa manifestação oficial da autoridade aduaneira do país de origem das mercadorias possui relevância jurídica para afastar o dolo específico de acobertar exigido pelo tipo infracional. Se a própria Aduana da França, após investigação específica solicitada pela Receita Federal do Brasil com base em acordos de intercâmbio de informações, conclui pela regularidade financeira e aduaneira das operações de exportação, pela ausência de qualquer irregularidade nas verificações efetuadas junto ao exportador, e pela conformidade das transações, não há como sustentar que a Recorrente agiu com dolo específico de fraudar mediante ocultação do beneficiário final. A fiscalização tentou desqualificar essa manifestação sustentando que as faturas seriam falsas porque não foram emitidas pelo JEANNEAU, mas essa interpretação não encontra respaldo no teor da manifestação da autoridade francesa, que expressamente consigna a regularidade das operações após verificações junto ao próprio exportador. O fato de as faturas apresentadas serem versões resumidas não implica falsidade nem fraude, mas sim adequação documental para fins específicos do procedimento aduaneiro brasileiro, prática que a própria autoridade francesa considera compatível com a regularidade da operação. Abaixo segue excerto traduzido do documento da Aduana Francesa. (e-fls. 798 a 808) (...) Fl. 841DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 30 Fl. 842DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 31 (...) Fl. 843DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 32 Abaixo segue print da fatura comercial nº 11-088065 (e-fls. 355) que instruiu o Despacho Aduaneiro de Importação no regime de Admissão Temporária onde se constata que a embarcação importada PRESTIGE 560 – FLY 2018, Nº de Série FR – SPB RT145B818 refere-se à mesma embarcação destacada no documento emitido pela Aduana da França. Fl. 844DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 33 Fl. 845DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 34 5. DA AUSÊNCIA DE INTENÇÃO EM OCULTAR A fiscalização sustenta que a Recorrente promoveu a ocultação do Sr. HOMERO FREDERICO mediante estrutura fraudulenta destinada a impedir a identificação do real beneficiário pelas autoridades aduaneiras. O acórdão recorrido acolhe essa tese, concluindo pela existência de cessão de nome com finalidade de acobertamento. Verifico, contudo, que os elementos dos autos revelam evidências incompatíveis com a intenção persistente e dolosa de ocultar o Sr. HOMERO FREDERICO das autoridades fiscais. A documentação posterior à admissão temporária e antes da nacionalização demonstra que a Recorrente formalizou diversos atos em relação ao Sr. HOMERO FREDERICO que são incompatíveis com estrutura de ocultação fraudulenta: emissão de nota fiscal de simples faturamento em favor do Sr. HOMERO FREDERICO em abril de 2019, celebração de contrato de depósito da embarcação entre o Sr. HOMERO FREDERICO e a empresa BR Marina em maio de 2018 demonstrando que a embarcação já estava na posse do adquirente, emissão de nota fiscal de venda definitiva para o Sr. HOMERO FREDERICO em outubro de 2019 ainda que antes da nacionalização, mantendo toda a documentação disponível para eventual fiscalização posterior. A própria natureza da mercadoria importada milita contra a tese de ocultação dolosa do destinatário final. Trata-se de embarcação de luxo de altíssimo valor, produto sujeito a registro obrigatório em órgãos competentes, documentação extensa e permanente, dificultando na prática a ocultação prolongada ou definitiva do proprietário efetivo. Além disso, não houve estrutura sofisticada típica de operações fraudulentas de ocultação, não tendo sido utilizadas triangulações complexas envolvendo múltiplas jurisdições, multiplicidade de intervenientes fictícios ou outros expedientes característicos de fraudes elaboradas para acobertar beneficiários. Se a empresa YACHT efetivamente tivesse agido com dolo específico de acobertar o Sr. HOMERO FREDERICO das autoridades fiscais, não teria emitido notas fiscais em favor dele, não teria permitido que seu nome constasse de contrato de depósito com marina, não teria mantido documentação clara e acessível sobre a operação. Esses elementos demonstram que, embora tenha havido ocultação objetiva do Sr. HOMERO FREDERICO na declaração de importação, essa ocultação não decorreu de intenção dolosa de acobertá-lo das autoridades, mas de interpretação inadequada sobre o regime jurídico aplicável ou de impossibilidade técnica percebida para declarar de forma diversa. 6. DA CONFUSÃO ENTRE IMPORTAÇÃO POR ENCOMENDA IRREGULAR E CESSÃO DE NOME A fiscalização e o acórdão recorrido incorreram em confusão conceitual entre institutos jurídicos que, embora relacionados, possuem natureza jurídica, elementos constitutivos e consequências jurídicas absolutamente distintas. A importação por encomenda irregular caracteriza-se pela não observância dos requisitos formais estabelecidos na Lei nº 11.281/2006 e na Instrução Normativa SRF nº 634/2006, consistindo essencialmente em ausência de habilitação prévia do importador para operar no Fl. 846DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 35 regime de importação por encomenda e não identificação do encomendante na declaração de importação. Constitui erro no regime jurídico aplicável ou negligência no cumprimento de obrigações acessórias. Representa irregularidade de forma, não de conteúdo, sendo sancionada com penalidade leve de um por cento do valor aduaneiro nos termos do art. 711, inciso III, alínea a, do Regulamento Aduaneiro. Pode decorrer de desconhecimento da legislação, interpretação equivocada ou negligência, não exigindo demonstração de dolo específico de acobertar. Já a cessão de nome punível pelo art. 33 da Lei nº 11.488/2007 caracteriza-se por interposição fraudulenta deliberada, com dolo específico de acobertar os reais beneficiários da operação. Constitui fraude substancial consistente na ocultação dolosa de intervenientes com finalidade ilícita clara. Representa ilicitude de conteúdo, não mera irregularidade formal, sendo sancionada com penalidade grave de dez por cento do valor da operação. Exige demonstração inequívoca de dolo específico de acobertar, não se contentando com mera negligência ou erro, e pressupõe empresa completamente alheia à operação funcionando como laranja ou testa de ferro. São infrações autônomas e absolutamente distintas quanto aos seus elementos constitutivos, à gravidade da conduta e à proporcionalidade da sanção. A existência de importação por encomenda irregular, caracterizada pela não observância formal da Lei nº 11.281/2006, não implica necessariamente cessão de nome punível com dez por cento do valor da operação. A fiscalização equiparou indevidamente situações jurídicas diversas, aplicando sanção gravíssima destinada a fraudes dolosas a situação que, no máximo, configuraria irregularidade formal de natureza muito menos grave. No caso concreto, os elementos dos autos demonstram que havia encomendante predeterminado, o Sr. HOMERO FREDERICO, que não foi identificado na declaração de importação, e que não foram observados os requisitos da Lei nº 11.281/2006. Isso configura, em tese, importação por encomenda irregular. Mas a fiscalização não demonstrou que essa irregularidade decorreu de dolo específico de acobertar o encomendante com finalidade ilícita, elemento essencial para caracterizar cessão de nome nos termos do art. 33. A ocultação pode ter decorrido de erro, de impossibilidade técnica percebida, de interpretação inadequada sobre o regime aplicável, sem que houvesse o dolo específico exigido pelo tipo mais grave. 7. DO REGIME DE ADMISSÃO TEMPORÁRIA E SUA RELAÇÃO COM A CESSÃO DE NOME A fiscalização sustenta que a Recorrente utilizou o regime de admissão temporária de forma irregular para postergar o pagamento de tributos quando deveria ter realizado a nacionalização imediata, e que esse uso irregular do regime evidencia a existência de dolo de acobertar o Sr. HOMERO FREDERICO. O acórdão recorrido acolhe essa tese, sustentando que a empresa YACHT apresentou à autoridade aduaneira na admissão temporária do bem documentos que não correspondiam à realidade da operação com o objetivo não apenas de postergar tributos, mas Fl. 847DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 36 também de promover a ocultação do real adquirente, configurando a infração do art. 33 da Lei nº 11.488/2007. Verifico, contudo, que a vinculação estabelecida pela fiscalização entre o uso irregular do regime de admissão temporária e o dolo específico de acobertar o encomendante não encontra sustentação lógica nem jurídica adequada. A utilização irregular do regime de admissão temporária, se efetivamente ocorrida, constitui infração autônoma e distinta da cessão de nome, caracterizada pelo uso de regime aduaneiro especial quando não cabível sua aplicação e pela postergação indevida do pagamento de tributos. Essa conduta pode configurar infração específica prevista no Regulamento Aduaneiro, tendo inclusive sido objeto de outro processo administrativo fiscal com aplicação de pena de perdimento da embarcação. Embora ambas as infrações estejam relacionadas à mesma operação de importação da embarcação PRESTIGE 560 FLY 2018, isso não significa que a existência de uma comprove automaticamente a existência da outra, especialmente quando possuem elementos constitutivos diferentes e exigem demonstração de elementos subjetivos distintos. A utilização irregular do regime de admissão temporária pode ter sido estratégia para postergar o pagamento de tributos em razão de dificuldades financeiras, conforme inclusive admitido pela própria Recorrente em outros autos, mas essa motivação de natureza financeira não se confunde necessariamente nem comprova a finalidade dolosa específica de ocultar o Sr. HOMERO FREDERICO como beneficiário final da mercadoria das autoridades aduaneiras. São motivações distintas que não devem ser confundidas: postergar tributos por dificuldades financeiras mediante uso irregular de regime aduaneiro especial é uma coisa; acobertar beneficiário com finalidade fraudulenta específica para obter vantagem ilícita da ocultação de sua identidade é outra completamente diversa, exigindo prova própria, específica e inequívoca. A própria Recorrente admite expressamente que se valeu da admissão temporária com motivação financeira, o que demonstra transparência incompatível com estrutura fraudulenta elaborada para ocultar. Essa admissão franca explica o uso irregular da admissão temporária como tentativa de gestão financeira, ainda que irregular e passível de sanção autônoma, mas não comprova intenção dolosa de ocultar o Sr. HOMERO FREDERICO como beneficiário final da mercadoria. Concluo, portanto, que a utilização indevida da admissão temporária configura irregularidade autônoma que foi objeto de processo administrativo fiscal próprio, mas não comprova nem evidencia o dolo específico de acobertar o Sr. HOMERO FREDERICO exigido como elemento essencial pelo art. 33 da Lei nº 11.488/2007 para caracterizar cessão de nome punível com multa de 10% do valor da operação. 8. DO NÃO ATENDIMENTO ÀS INTIMAÇÕES FISCAIS Fl. 848DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 37 O acórdão recorrido atribui relevância significativa ao fato de que a Recorrente não atendeu aos Termos de Intimação nº 432/2019 e nº 73/2020, que solicitavam informações e documentos comprobatórios sobre os pagamentos efetuados ao exportador estrangeiro e liquidação dos contratos de câmbio. A decisão sustenta que a Recorrente se omitiu no dever de prestação de informações e de comprovação documental, dificultando o procedimento fiscal de apuração da regularidade da operação, incorrendo em ofensa à obrigação prevista na legislação aduaneira. Embora seja inegável que o importador possui obrigação legal de manter documentos relativos às operações de comércio exterior e apresentá-los quando exigidos pela fiscalização, conforme previsto no art. 18 do Regulamento Aduaneiro e no art. 70 da Lei nº 10.833/2003, o não atendimento a intimações fiscais, por si só, não comprova o dolo específico de acobertar exigido pelo tipo infracional do art. 33. Em matéria sancionatória, o silêncio ou a omissão não podem ser interpretados automaticamente como confissão de conduta dolosa, especialmente quando se trata de elemento subjetivo específico essencial do tipo. Além disso, a relevância do não atendimento às intimações sobre comprovação de pagamentos ao exportador fica substancialmente reduzida diante da manifestação formal da autoridade aduaneira francesa às fls. 341, que confirmou expressamente, após verificações realizadas junto ao próprio exportador JEANNEAU, que as operações de exportação estão em conformidade do ponto de vista financeiro e aduaneiro e que não foi revelada qualquer irregularidade nas verificações efetuadas. Se a própria autoridade aduaneira do país de origem, consultada formalmente pela Receita Federal do Brasil com base em acordos internacionais de intercâmbio de informações, confirmou a regularidade financeira das operações após investigação junto ao exportador, o não atendimento pela empresa YACHT às intimações sobre comprovação de pagamentos perde significativamente sua força como elemento probatório do dolo específico de acobertar. Portanto, embora o não atendimento a intimações fiscais configure descumprimento de obrigação acessória passível de sanção específica, não constitui elemento suficiente para comprovar o dolo específico de acobertar exigido pelo art. 33 da Lei nº 11.488/2007, especialmente quando a autoridade estrangeira competente confirmou a regularidade da operação do ponto de vista financeiro. 9. DO PRECEDENTE ENVOLVENDO EMPRESA CONCORRENTE A Recorrente invoca precedente envolvendo sua concorrente direta que foi autuada sob fundamento substancialmente idêntico ao ora analisado, qual seja, ocultação de clientes pessoas físicas que segundo a fiscalização deveriam figurar como encomendantes nas declarações de importação. Aquela autuação, objeto do PAF nº 18130.720004/2022-10, foi julgada integralmente procedente em favor da concorrente mediante Acórdão nº 108-037.034, proferido Fl. 849DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 38 pela 12ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento da 8ª Região em sessão de 21 de março de 2023, com exoneração da totalidade do crédito tributário lançado. (e-fls. 773 a 797) Embora a Solução de Consulta COSIT nº 207, de 15 de dezembro de 2021, que serviu de base na decisão do Acórdão nº 108-037.034, não possua eficácia vinculante perante este Conselho, o fato de a Delegacia de Julgamento da Receita Federal ter adotado expressamente essa orientação em caso substancialmente semelhante ao presente confere à decisão administrativa mencionada relevância interpretativa. Tal circunstância recomenda sua apreciação técnica, especialmente diante da convergência fática entre as situações analisadas. Analisando detidamente o Acórdão nº 108-037.034 da DRJ08, que integra os autos deste processo como documento anexo ao recurso voluntário, verifico que a situação fática ali julgada apresenta identidade substancial com o caso ora sob análise. No caso da concorrente AZUL COMÉRCIO DE PRODUTOS NÁUTICOS, tratava-se de empresa representante exclusiva da marca MASTERCRAFT de embarcações norte-americanas no Brasil, que importava embarcações em seu próprio nome para posterior revenda a clientes pessoas físicas pré-determinados, havendo contratos prévios de compra e venda celebrados com esses clientes antes do registro das declarações de importação e pagamentos antecipados realizados pelas pessoas físicas adquirentes finais. A fiscalização imputou à empresa AZUL COMÉRCIO DE PRODUTOS NÁUTICOS a prática de cessão de nome e interposição fraudulenta, sob o fundamento de que teria ocultado os reais beneficiários das operações, que seriam as pessoas físicas adquirentes finais. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento da 8ª Região, ao analisar aquele caso, aplicou a orientação contida na Solução de Consulta COSIT nº 207/2021, que esclareceu que na importação por encomenda uma empresa adquire mercadorias no exterior com recursos próprios e promove seu despacho aduaneiro de importação a fim de revendê-las posteriormente a uma pessoa jurídica ou a uma pessoa física em razão de contrato firmado entre a importadora e o encomendante, e que a importação por conta própria de pessoa jurídica mediante encomenda de pessoa física realizada no mercado interno rege-se pela legislação tributária ordinária no âmbito aduaneiro, ou seja, de importação comum, e pela comercial na esfera das relações contratuais privadas. Com base nessa orientação, a Delegacia de Julgamento concluiu que não se configurava a responsabilidade solidária do agenciador de negócios que atua meramente na intermediação Fl. 850DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 39 entre comprador e vendedor, e que a operação da AZUL COMÉRCIO DE PRODUTOS NÁUTICOS caracterizava importação comum por conta própria com posterior revenda no mercado interno, não se configurando interposição fraudulenta, decidindo pela procedência integral das impugnações e exoneração da totalidade do crédito tributário lançado. Cotejando aquela situação com a ora analisada, verifico identidade substancial nos seguintes elementos essenciais: primeira, ambas as empresas são representantes ou concessionárias exclusivas de marcas estrangeiras de embarcações de luxo no Brasil, a AZUL COMÉRCIO DE PRODUTOS NÁUTICOS da marca MASTERCRAFT norte-americana e a YACHT da marca PRESTIGE francesa; segunda, ambas importavam embarcações em nome próprio para posterior revenda a clientes pessoas físicas no mercado brasileiro; terceira, em ambos os casos havia clientes pessoas físicas pré-determinados antes do registro das declarações de importação, com contratos de compra e venda previamente celebrados; quarta, em ambos os casos as pessoas físicas adquirentes finais realizaram pagamentos antecipados parciais antes da importação; quinta, em ambos os casos a fiscalização imputou a infração de cessão de nome e interposição fraudulenta sob o fundamento de ocultação dos reais beneficiários; sexta, em ambos os casos a fiscalização alegou que as pessoas físicas deveriam ter sido identificadas como encomendantes nas declarações de importação; sétima, em ambos os casos existe a questão jurídica de que pessoas físicas não podem figurar como encomendantes no sistema Siscomex nos termos da legislação vigente. A única distinção relevante entre os casos é que no caso AZUL COMÉRCIO DE PRODUTOS NÁUTICOS havia a presença de intermediário comercial, que atuava como broker ou corretor apresentando clientes à AZUL COMÉRCIO DE PRODUTOS NÁUTICOS, ao passo que no caso ora analisado não há intermediário, negociando a própria YACHT diretamente com os clientes finais pessoas físicas. A Solução de Consulta COSIT nº 207/2021, embora não possua eficácia vinculante geral junto ao CARF, representa a interpretação oficial da Coordenação-Geral de Tributação da Receita Federal do Brasil sobre a matéria, ou seja, da cúpula técnica da administração tributária federal responsável pela orientação institucional sobre questões tributárias complexas. Quando essa orientação técnica é acolhida e aplicada pela Delegacia de Julgamento em caso concreto substancialmente idêntico ao ora analisado, ela serve de fundamento persuasivo relevante que demonstra o entendimento institucional adequado para a matéria. Trata-se, portanto, de elemento adicional que milita em favor do Recorrente, por evidenciar que a própria Administração Tributária, em caso análogo, adotou solução compatível com a tese ora defendida. 10. DA INADEQUAÇÃO DO ENQUADRAMENTO NO ART. 33 DA LEI Nº 11.488/2007 Sintetizando a análise realizada nos itens anteriores, verifico que quanto ao elemento pessoa jurídica cedente está configurado factualmente, pois a Recorrente YACHT é pessoa jurídica que figurou formalmente na importação. Quanto ao elemento cessão de nome, a fiscalização não demonstrou suficientemente que a empresa YACHT era mera interposta pessoa Fl. 851DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 40 sem interesse comercial próprio, tendo-se limitado a constatar sua participação formal sem investigar adequadamente sua condição de concessionária exclusiva com interesse comercial legítimo na operação. Quanto ao elemento operação de terceiros, a fiscalização não provou cabalmente que a operação era exclusivamente do Sr. HOMERO FREDERICO sem qualquer interesse econômico da Recorrente, tendo confundido importação por encomenda irregular, caracterizada pela não observância de requisitos formais da Lei nº 11.281/2006, com interposição fraudulenta para acobertar, que exige demonstração de dolo específico e ausência total de interesse da cedente. Quanto ao elemento “com vistas a” consistente na finalidade específica de acobertar, não foi demonstrado pela fiscalização, havendo ausência de prova robusta e inequívoca do dolo específico exigido pelo tipo. A fiscalização limitou-se a presumir o dolo a partir da estrutura da operação, mas não demonstrou qual seria o benefício ilícito que motivaria a ocultação, não afastou interpretações alternativas plausíveis da conduta, não explicou satisfatoriamente como a operação deveria ter sido declarada considerando as peculiaridades do caso, e não justificou por que a manifestação favorável da autoridade aduaneira francesa não afastaria o dolo de fraude. Quanto ao elemento acobertamento, houve ocultação objetiva do Sr. HOMERO FREDERICO na declaração de importação, mas sem demonstração pela fiscalização da finalidade específica de acobertá-lo exigida pelo tipo, havendo evidências nos autos de que a empresa YACHT não teve intenção persistente de ocultar o Sr. HOMERO FREDERICO das autoridades, tendo emitido documentos fiscais em favor dele e permitido que seu nome constasse de diversos atos relacionados à embarcação. Quanto ao elemento “reais beneficiários”, está configurado que o Sr. HOMERO FREDERICO era o destinatário final da mercadoria e adquirente da embarcação após sua nacionalização pela YACHT. A configuração do tipo infracional previsto no art. 33 da Lei nº 11.488/2007 exige a presença de todos os elementos cumulativamente. A ausência de qualquer deles, especialmente do elemento subjetivo nuclear consistente no dolo específico de acobertar, impede a subsunção da conduta ao tipo e impossibilita a aplicação da sanção de dez por cento do valor da operação. No caso concreto ora analisado, a fiscalização não demonstrou elementos essenciais do tipo, notadamente que a Recorrente era mera cedente de nome sem interesse comercial próprio, que a operação era exclusivamente de terceiros sem qualquer participação econômica da empresa YACHT, e sobretudo que houve dolo específico de acobertar o Sr. HOMERO FREDERICO com finalidade ilícita clara e comprovada. A multa de 10% do valor da operação prevista no art. 33 da Lei nº 11.488/2007 é uma sanção grave previsto no ordenamento jurídico aduaneiro. Essa severidade justifica-se apenas em casos de fraude, deliberada e planejada, com finalidade manifestamente ilícita, Fl. 852DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 41 ocultação destinada a viabilizar subfaturamento ou burlar impedimentos legais, e estrutura montada especificamente para fraudar o controle aduaneiro exercido pelas autoridades competentes. 11. DA IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DE PENALIDADE DIVERSA A Recorrente requer subsidiariamente a redução da multa de 10% do valor aduaneiro para 1% do valor aduaneiro, com fundamento no art. 711, inciso III, do Regulamento Aduaneiro de 2009, que trata de infração consistente em omitir ou prestar de forma inexata ou incompleta informação de natureza administrativo-tributária, cambial ou comercial necessária à determinação do procedimento de controle aduaneiro apropriado. O acórdão recorrido indeferiu esse pedido, sustentando que ao julgador administrativo não compete alterar os fundamentos jurídicos do lançamento, mas aferir a sua legalidade perante a legislação que rege a matéria. Concordo integralmente com o acórdão recorrido quanto a esse ponto específico. O pedido subsidiário de redução da multa mediante aplicação de dispositivo legal diverso é efetivamente incabível. Ao julgador administrativo não compete alterar os fundamentos jurídicos do lançamento, substituindo o tipo infracional especificamente imputado pela autoridade fiscal lançadora por tipo infracional completamente diverso. Este é princípio basilar do processo administrativo tributário, que veda não apenas a reformatio in pejus mas também a substituição do tipo infracional escolhido e fundamentado pela autoridade fiscal competente para o lançamento. O auto de infração imputou especificamente e de forma exclusiva a infração prevista no art. 33 da Lei nº 11.488/2007, descrevendo detalhadamente seus elementos constitutivos típicos: cessão de nome, para operação de comércio exterior de terceiros, com vistas ao acobertamento de reais beneficiários. Cabe a este Conselho verificar se os elementos desse tipo específico estão ou não demonstrados de forma suficiente nos autos, e não substituir o fundamento jurídico escolhido pela autoridade fiscal lançadora, aplicando tipo infracional completamente diverso que não foi objeto da acusação original formulada no auto de infração. Aplicar o art. 711, inciso III, do Regulamento Aduaneiro implicaria alterar completamente o tipo infracional: de cessão de nome dolosa para acobertamento de beneficiários, que exige dolo específico e configura fraude substancial sancionada com 10% do valor, para mera prestação inexata de informações, que pode decorrer de negligência e configura irregularidade formal sancionada com 1% do valor. Essa alteração não compete ao julgador administrativo, mas exclusivamente à autoridade fiscal lançadora no exercício de sua competência privativa para constituir o crédito tributário. 12. DA IRREGULARIDADE DECORRENTE DA COMERCIALIZAÇÃO INTERNA DE EMBARCAÇÃO NÃO NACIONALIZADA. Fl. 853DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 42 A Fiscalização sustenta que a cronologia negocial da embarcação — especialmente a celebração de contrato de depósito pelo adquirente e a empresa BR Marina em maio de 2018, a emissão de Nota Fiscal nº 263 apenas em abril de 2019, e a emissão tardia das Notas Fiscais nº 265 (entrada) e nº 266 (venda) emitidas pela recorrente YACHT somente após a retenção do bem pela Aduana, em outubro de 2019 — demonstraria que a operação teria sido realizada diretamente pelo adquirente, que teria incorporado o bem ao seu patrimônio antes mesmo da nacionalização, o que, segundo o Fisco, reforçaria a tese de ocultação do real adquirente e caracterizaria interposição fraudulenta. A análise detida dos autos revela, contudo, que essa cronologia não autoriza a conclusão fiscal. Importa distinguir rigorosamente, neste ponto, a existência de irregularidades de natureza comercial ou civil da ocorrência de fraude tipificada no art. 33 da Lei nº 11.488/2007. É incontroverso que a embarcação permaneceu em território nacional, desde sua admissão, sem conclusão do despacho de importação. Em razão da retenção formalizada pela fiscalização aduaneira, a DI de nacionalização não chegou a ser registrada, permanecendo o bem sob regime suspensivo. Nessa situação, a legislação aduaneira é clara ao estabelecer que a mercadoria estrangeira não nacionalizada não circula como bem próprio do importador, não se incorporando ao seu ativo enquanto não concluído o despacho de importação. Trata-se de norma de natureza fiscal e de controle aduaneiro, cujo descumprimento pode gerar sanções específicas, mas que não transmuda, por si só, a titularidade jurídica da operação de importação nem altera a identificação do sujeito passivo aduaneiro. Do ponto de vista jurídico-aduaneiro, a venda de mercadoria estrangeira ainda não nacionalizada constitui infração autônoma, tipificada no art. 689, inciso X, do Regulamento Aduaneiro, que prevê pena de perdimento para a mercadoria estrangeira exposta à venda, vendida ou mantida à venda no País sem ter sido submetida ao despacho de importação. Desse modo, a alienação realizada pela empresa YACHT, em tese, poderia configurar esse ilícito administrativo, sem qualquer necessidade de reconstrução ficcional de que o adquirente seria o “importador oculto”. A ilicitude civil ou comercial da operação não converte automaticamente o adquirente em sujeito passivo da importação nem comprova, por si só, a existência de fraude ou simulação. Art. 689. Aplica-se a pena de perdimento da mercadoria nas seguintes hipóteses, por configurarem dano ao Erário (Decreto-Lei nº 37, de 1966, art. 105; e Decreto- Lei nº 1.455, de 1976, art. 23, caput e § 1º, este com a redação dada pela Lei no 10.637, de 2002, art. 59): (...) X - estrangeira, exposta à venda, depositada ou em circulação comercial no País, se não for feita prova de sua importação regular; (...) Fl. 854DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 43 O contrato de depósito firmado diretamente entre o adquirente e marina privada tampouco é elemento apto a demonstrar interposição fraudulenta. O depósito não transfere propriedade e é amplamente utilizado no setor náutico para guarda de embarcações, independentemente de sua situação aduaneira. O fato de o adquirente ter negociado condições de guarda antes da conclusão do despacho não significa que estivesse adquirindo o bem diretamente do exterior, mas sim que antevia sua futura aquisição no mercado interno — prática comum em operações com bens de elevado valor e entrega programada. Também não se pode extrair presunção de fraude da emissão inicial, pela Recorrente, de nota fiscal de simples faturamento, uma vez que esse documento, por definição, não representa circulação de mercadoria nem transferência de propriedade. No mesmo sentido, o fato de a empresa YACHT ter emitido nota fiscal de entrada e nota fiscal de venda somente após a retenção da embarcação não demonstra ocultação do adquirente, mas revela apenas que buscou regularizar a escrituração interna após a intervenção da fiscalização. Tais irregularidades — ainda que censuráveis sob a ótica comercial e eventualmente caracterizadoras de infrações administrativas autônomas — não evidenciam simulação, fraude ou ocultação do sujeito passivo da importação. A conclusão, portanto, é que a venda de mercadoria estrangeira ainda não nacionalizada pode ser irregular e até ensejar penalidades próprias, mas não se confunde com a fraude aduaneira tipificada no art. 33 da Lei nº 11.488/2007, que exige comprovação de atos inequívocos de ocultação do real adquirente perante a autoridade aduaneira e de comprometimento do controle fiscal. A cronologia negocial apresentada não comprova que o adquirente tenha participado da importação, nem que a Recorrente tenha atuado como mera interposta, limitando-se a revelar inconsistências e/ou irregularidades comerciais da empresa YACHT, que não são suficientes para caracterizar interposição fraudulenta sem lastro probatório material. Por essas razões, rejeito o argumento fiscal no ponto e concluo que a alienação antecipada da embarcação, ainda que irregular sob outros prismas, não autoriza o enquadramento da conduta na penalidade do art. 33 da Lei nº 11.488/2007. 13. CONCLUSÃO A fiscalização não logrou demonstrar que a Recorrente agiu com o dolo específico de acobertar o Sr. HOMERO FREDERICO das autoridades fiscais. Faltam elementos essenciais do tipo devidamente comprovados de forma robusta e inequívoca, especialmente o elemento subjetivo nuclear caracterizado pela expressão "com vistas ao acobertamento", que exige demonstração de finalidade específica, não se contentando com mera presunção baseada na estrutura da operação. A fiscalização limitou-se a constatar que havia encomendante predeterminado e que houve pagamento antecipado parcial por ele, presumindo daí automaticamente o dolo específico de acobertar. Essa presunção é manifestamente insuficiente quando se analisa Fl. 855DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.932 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15444.720071/2020-32 44 detidamente os elementos dos autos: a empresa YACHT não era mera empresa “laranja”, mas concessionária exclusiva estabelecida com interesse comercial próprio legítimo na operação; parte do pagamento proveio da própria empresa YACHT mediante recebimento de embarcação usada; a própria autoridade aduaneira francesa confirmou a regularidade da operação após investigação junto ao exportador; não se identifica benefício ilícito claro que motivasse a ocultação dolosa; a Recorrente emitiu documentos fiscais para o Sr. HOMERO FREDERICO e permitiu que seu nome constasse de diversos atos; pessoa física não pode ser encomendante no sistema conforme reconhecido pela própria fiscalização. Em matéria punitiva, especialmente quando se imputa infração que exige elemento subjetivo específico expresso na lei e se aplica uma sanção grave do ordenamento aduaneiro, a prova deve ser conclusiva. A mera presunção baseada na estrutura da operação e na constatação de encomendante predeterminado não é suficiente para demonstrar o dolo específico exigido pelo tipo. A ocultação objetiva do encomendante na declaração de importação, por si só, não demonstra a finalidade subjetiva específica de acobertá-lo das autoridades fiscais exigida pela expressão legal "com vistas ao acobertamento". A insuficiência probatória quanto aos elementos essenciais do tipo, especialmente quanto ao dolo específico de acobertar que constitui o elemento central diferenciador entre irregularidade formal negligente e fraude substancial dolosa, impõe necessariamente o cancelamento do lançamento, por impossibilidade jurídica de subsunção da conduta efetivamente comprovada nos autos ao tipo infracional especificamente imputado pela autoridade fiscal lançadora. Quanto ao pedido subsidiário de redução da multa para 1% do valor aduaneiro com base no art. 711, inciso III, do Regulamento Aduaneiro, conforme fundamentado detalhadamente no item III deste voto, ratifico o indeferimento pelo acórdão recorrido, pois não cabe ao julgador administrativo alterar os fundamentos jurídicos do lançamento fixados pela autoridade fiscal lançadora, competindo-lhe apenas aferir a legalidade e a suficiência probatória do tipo infracional especificamente imputado no auto de infração. III – DISPOSITIVO Ante o exposto, conheço do Recurso Voluntário e, no mérito, dar-lhe provimento para cancelar o Auto de Infração. Assinado Digitalmente JOSÉ DE ASSIS FERRAZ NETO Fl. 856DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 19515.720005/2023-85
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 12 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Feb 23 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Ano-calendário: 2018, 2019 CONCORDÂNCIA COM FUNDAMENTOS DA DECISÃO RECORRIDA RÉPLICA DAS RAZÕES IMPUGNATÓRIAS. APLICAÇÃO DO RICARF O Recorrente não apresentou em suas razões recursais fundamentos ou prova documental aptas a afastar a autuação. Assim, mantém-se os fundamentos da decisão conforme art. 114, §12 do RICARF. FALTA DE LANÇAMENTO DO IMPOSTO. ESCRITURAÇÃO SEM O VALOR DEVIDO. Deve-se efetuar o lançamento de ofício do imposto, quando constatado que a fiscalizada, na condição de estabelecimento industrial ou equiparado, deixou de escriturar os débitos de IPI, lançados em suas Notas Fiscais de Saída. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA. PRÁTICA DE ATO ILÍCITO NO EXERCÍCIO DA GERÊNCIA OU REPRESENTAÇÃO LEGAL. CARACTERIZAÇÃO. O administrador é responsabilizado pessoalmente pelo crédito tributário, quando se comprova que o mesmo praticou atos ilícitos no exercício da gerência ou de representação legal da empresa fiscalizada. MULTA CONFISCATÓRIA. INCONSTITUCIONALIDADE DE NORMAS. INCOMPETÊNCIA PARA JULGAMENTO. SÚMULA CARF N. 02. A argumentação sobre o caráter confiscatório da multa aplicada no lançamento tributário implica em aferição de constitucionalidade da legislação tributária que estabeleceu o patamar das penalidades fiscais, o que é vedado ao CARF, nos termos da sua Súmula n. 2.
Numero da decisão: 3301-014.702
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso voluntário e, na parte conhecida, rejeitar as preliminares e negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Keli Campos de Lima – Relatora Assinado Digitalmente Paulo Guilherme Deroulede – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcio Jose Pinto Ribeiro, Bruno Minoru Takii, Marco Unaian Neves de Miranda (substituto[a] integral), Rachel Freixo Chaves, Keli Campos de Lima, Paulo Guilherme Deroulede (Presidente)
Nome do relator: KELI CAMPOS DE LIMA

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APLICAÇÃO DO RICARF O Recorrente não apresentou em suas razões recursais fundamentos ou prova documental aptas a afastar a autuação. Assim, mantém-se os fundamentos da decisão conforme art. 114, §12 do RICARF. FALTA DE LANÇAMENTO DO IMPOSTO. ESCRITURAÇÃO SEM O VALOR DEVIDO. Deve-se efetuar o lançamento de ofício do imposto, quando constatado que a fiscalizada, na condição de estabelecimento industrial ou equiparado, deixou de escriturar os débitos de IPI, lançados em suas Notas Fiscais de Saída. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA. PRÁTICA DE ATO ILÍCITO NO EXERCÍCIO DA GERÊNCIA OU REPRESENTAÇÃO LEGAL. CARACTERIZAÇÃO. O administrador é responsabilizado pessoalmente pelo crédito tributário, quando se comprova que o mesmo praticou atos ilícitos no exercício da gerência ou de representação legal da empresa fiscalizada. MULTA CONFISCATÓRIA. INCONSTITUCIONALIDADE DE NORMAS. INCOMPETÊNCIA PARA JULGAMENTO. SÚMULA CARF N. 02. A argumentação sobre o caráter confiscatório da multa aplicada no lançamento tributário implica em aferição de constitucionalidade da legislação tributária que estabeleceu o patamar das penalidades fiscais, o que é vedado ao CARF, nos termos da sua Súmula n. 2. Fl. 27455DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 2 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso voluntário e, na parte conhecida, rejeitar as preliminares e negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Keli Campos de Lima – Relatora Assinado Digitalmente Paulo Guilherme Deroulede – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcio Jose Pinto Ribeiro, Bruno Minoru Takii, Marco Unaian Neves de Miranda (substituto[a] integral), Rachel Freixo Chaves, Keli Campos de Lima, Paulo Guilherme Deroulede (Presidente) RELATÓRIO Para fins de economia processual adoto o relatório da decisão recorrida a fim de elucidar os fatos que motivaram a autuação, vejamos: RELATÓRIO 1. Trata-se de análise de impugnação ao auto de infração do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, referentes aos anos calendários 2018 e 2019. No processo também foi atribuída responsabilidade solidária ao senhor THIAGO HENRIQUE TEODORO, pelos tributos lançados na fiscalizada, nos termos do artigo 135 do Código Tributário Nacional (CTN). 2. No mesmo procedimento fiscal também foram efetuados lançamentos de créditos tributários do Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas – IRPJ, da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, do Programa de Integração Social – PIS, da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – COFINS e da Multa Regulamentar do IPI que foram apresentados e estão controlados, respectivamente, nos processos nº 19515.720006/2023-20, 15746.721490/2023- 30 e 15746.720400/2023-93. 3. No presente processo o crédito tributário lançado encontra-se demonstrado a seguir: Fl. 27456DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 3 4. A síntese do que consta no Termo de Verificação Fiscal (TVF) traz as seguintes informações: • No procedimento fiscal, a autoridade tributária constatou que a empresa TEODORO E MORAES INDÚSTRIA COMÉRCIO E DISTRIBUIDORA DE METAIS EIRELI (TEODORO) participou de esquema fraudulento de emissão de documentação fiscal inidônea, operado com o auxílio de outras pessoas jurídicas, a maioria inexistentes de fato, constituídas para, em conluio, emitirem documentos fiscais destinados a simular transações comerciais proporcionando a si e aos demais beneficiários a geração e o aproveitamento de créditos de impostos como ICMS, PIS/COFINS, IPI, custos indevidos e a sonegação de impostos. • A empresa foi constituída em 21/02/2011 e no período fiscalizado a empresa era tributada pelo Lucro Real, com capital social declarado de R$ 100.000,00 e encontrava-se ativa no CNPJ - Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas e CADESP – Cadastro de Controle do ICMS do Estado de São Paulo. Seu CNAE principal declarado é o de FUNDIÇÃO DE METAIS NÃO FERROSOS E SUAS LIGAS. • Na DIRF de 2018, consta a informação de um único vínculo, informado na categoria 0561 –remuneração do trabalho assalariado. Tratava-se do titular da empresa, Thiago Henrique Teodoro, CPF 070.051.376-04. • Na DIRF DE 2019, constam 2 (dois) empregados declarados na DIRF. Somando- se os valores relativos a esses beneficiários, tem-se R$ 22.600,00 em rendimentos tributáveis e R$ 481,14 em imposto retido. (Cecília Megumi Arakaki e Thiago Henrique Teodoro). • Em consulta ao SPED Contribuições constatou que a empresa apurou o PIS e a COFINS pelo regime não cumulativo. • Na DCTF declarou os seguintes débitos: 2018 - R$ 105,10 de IPI (fevereiro); Fl. 27457DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 4 2019 - R$ 480,93 de IRRF, R$ 2,00 de PIS e R$ 4,00 de COFIS, em julho/2019. • De acordo com a Escrituração Contábil Fiscal - ECF dos anos-calendário de 2018 e 2019, a empresa fiscalizada adotou a forma de tributação pelo lucro real anual, onde declarou os seguintes valores de receita bruta: • A movimentação financeira declarada no SPED e-financeira apresentou os seguintes valores totais: • As operações comerciais constantes no sistema NF-e apresentava as seguintes totalizações das notas fiscais (compras e vendas): • Apresentou quadros discriminativos (referentes aos anos calendário 2018 e 2019), relacionando somente os “fornecedores” da fiscalizada TEODORO declarados pela Receita Federal do Brasil como INEXISTENTES DE FATO e os do Grupo LATASA. Destacou que as notas fiscais emitidas por essas empresas inexistentes de fato e empresas do Grupo Latasa representaram mais de 66 % das compras da TEODORO nos anos 2018 e 2019: Fl. 27458DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 5 • Apresentou quadros discriminativos (também referentes aos anos calendário 2018 e 2019), relacionando somente os “clientes” da fiscalizada TEODORO declarados pela Receita Federal do Brasil como INEXISTENTES DE FATO e os do Grupo LATASA. Destacou que as notas fiscais emitidas pela impugnante TEODORO para esses “clientes” por essas empresas inexistentes de fato e empresas do Grupo Latasa representaram mais de 25 % e 66% das vendas da fiscalizada nos anos 2018 e 2019, respectivamente: • Ressaltou que as empresas do grupo LATASA e a empresa CONNY aparecem nas notas fiscais tanto de compra, quanto de venda da empresa fiscalizada TEODORO. • Será demonstrado mais adiante que a TEODORO teria sido utilizada por outras empresas que se beneficiavam do esquema fraudulento de emissão de notas fiscais inidôneas para sonegar tributos, inflar custos, omitir receitas e reduzir Fl. 27459DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 6 indevidamente a receita bruta. Tratava-se de pessoa jurídica noteira mista, com expressivo volume de compras e vendas e com elevada movimentação financeira (conta de passagem), incompatíveis com o porte do seu estabelecimento e capital social de R$ 100.000,00. Da Ação Fiscal desenvolvida na empresa TEODORO • A fiscalização foi iniciada com a ciência pessoal do representante legal da contribuinte do Termo de Início de Procedimento Fiscal, em 20/10/2020, durante a diligência fiscal realizada nas dependências da empresa TEODORO. • A diligência fiscal foi acompanhada pelo próprio titular Thiago Teodoro. • Durante a diligência fiscal, conforme relatado no Termo de Constatação Fiscal, verificou-se a permanência de vários veículos nas dependências da empresa e equipamentos para fundição de alumínio (principal atividade da empresa). O titular informou que a TEODORO possuía somente quatro veículos e que se utilizava também de fretes de Terceiros. Informou ainda que possuía cerca de 30 funcionários, sendo 16 próprios e os demais terceirizados, esta última informação em contradição com os dados da DIRF, acima reproduzidos. • Das informações solicitas em intimação, a fiscalização destacou: • Em 18/10/2021, a empresa atendeu a fiscalização apresentando os extratos bancários e as autorizações para que a Receita Federal do Brasil obtivesse as informações de movimentação financeira diretamente das instituições bancárias. • Com as autorizações apresentadas pela TEODORO, foram solicitados aos Bancos Itaú, Santander e Bradesco as citadas informações financeiras da empresa do período de 2018 a 2019. • Em 18/02/2022, após a análise das informações bancárias apresentadas pelas instituições financeiras, a TEODORO foi intimada para, no prazo de 10 dias, esclarecer detalhadamente as operações que deram origem aos fluxos financeiros (entradas e saídas de dinheiro) informados nos extratos bancários, os quais envolviam as empresas CONNY, NEO RODAS, GALVASUL e todas do GRUPO Fl. 27460DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 7 LATASA. Esses fluxos foram discriminados em uma planilha e anexados à intimação fiscal. No TVF, demonstrou partes dessa planilha: • Destacou que na citada planilha foram relacionados lançamentos bancários a débito e a crédito de mesmo valor, realizados no mesmo dia. Inferiu que essa prática demonstra indícios de simulação de pagamento buscando provar a boa-fé. • Após o pedido de prorrogação de prazo, a fiscalização concedeu mais 10 dias para o atendimento da intimação fiscal. Em 19/09/2022, a TEODORO solicitou mais 60 dias de prorrogação do prazo, alegando dificuldades para a conciliação de tantas informações. • Em 06/04/2023, a TEODORO foi intimada para apresentar, no prazo de 20 dias, todas as notas fiscais de vendas do estabelecimento dos anos 2018 e 2019. • Em 28/04/2023, a fiscalizada apresentou as notas fiscais de venda solicitadas, porém informou que as conciliações e as justificativas solicitadas anteriormente estariam sendo providenciadas. Alegou que o tempo era exíguo para o enorme volume de trabalho, tornando-se impossível o atendimento no prazo fixado. Ressaltou que mais de um ano se passou e nada mais foi apresentado à fiscalização. Das diligências vinculadas realizadas. • Visando subsidiar a presente ação fiscal foram abertas as seguintes diligências vinculadas: • As empresas acimas listadas foram intimadas para, no prazo de 10 dias: - Apresentar contrato social e alterações; Fl. 27461DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 8 - Apresentar planilha com todas as informações relativas às compras e vendas realizadas com a TEODORO (data de emissão, número, valor e data de pagamento da nota fiscal); - Comprovar o efetivo transporte das mercadorias adquiridas ou vendidas (conhecimento de transporte ou a identificação do veículo); - Comprovar o efetivo pagamento das operações comerciais (TED, DOC etc); - Identificar os compradores/vendedores (nome completo) que participaram das operações; - Apresentar cópia dos pedidos de compra/vendas (cartas/e-mails etc); - Informar o destino dado às mercadorias adquiridas; - Demonstrar a contabilização das operações em questão Do Resultado das diligências. • A CONNY apresentou notas fiscais de compra da TEODORO (2018 e 2019), que totalizam mais de R$ 127.000.000,00 e notas fiscais de venda para TEODORO, também 2018 e 2019, que totalizam mais de R$ 230.000.000,00. • A empresa CONNY seria um suposto fornecedor e cliente da TEODORO e foi declarada “inexistente de fato” pela RFB. Na resposta à intimação informou: - O frete era de responsabilidade da TEODORO e, por esse motivo não tinha qualquer documento; - As transações comerciais eram realizadas diretamente com o Sr. Thiago; - Não poderia apresentar os e-mails e os documentos fiscais solicitados, uma vez que os computadores e documentos da CONNY foram apreendidos no procedimento investigatório criminal oriundo do Ministério Público do Estado do Paraná (17/08/2020); - As sucatas de cobre e/ou alumínio (insumos) adquiridas, além de servirem para a produção de lingotes, as vezes também eram revendidas da forma que eram compradas. • Novamente intimada para apresentar, por escrito, todas as informações de compra e venda de mercadorias e apresentar os respectivos comprovantes de pagamento/recebimento. A empresa atendeu a intimação apresentando novamente a citada planilha das notas fiscais e os correspondentes comprovantes solicitados. (cópia dos TEDs). • A empresa TRATHO seria um suposto cliente da TEODORO e em resposta às intimações apresentou as notas fiscais de venda de mercadorias emitidas pela Fl. 27462DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 9 TEODORO e os respectivos comprovantes de pagamento, sem oferecer qualquer outro esclarecimento. • No ano de 2022, a empresa TRATHO foi autuada pela RFB (Processos nºs 15746.720555/2022-49 e 15746.720564/2022-30) por utilizar documentos fiscais inidôneos na apuração dos seus tributos (2017 e 2018). Tais verificações recaíram especificamente sobre alguns supostos fornecedores de mercadorias, dentre eles estavam as empresas TEODORO e a CONNY (empresa diligenciada, já citada anteriormente). Aquela fiscalização constatou que os mesmos endereços de IP foram utilizados para a emissão de notas fiscais de venda da TEODORO e da CONNY, cujo destinatário era a empresa TRATHO, comprovando assim, que a emissão das notas fiscais de diferentes empresas ocorria de forma centralizada no mesmo equipamento. Também foi constatado naquela fiscalização que a TEODORO foi a principal fornecedora de mercadorias da CONNY e que esta foi fornecedora expressiva da TRATHO. Constatou-se que para cada bloco de notas fiscais emitidas pela TEODORO para a TRATHO, havia um bloco de notas fiscais emitidas, nos mesmos quantitativos e mesmas datas ou próximas, tendo a TEODORO como participante. Considerando todos os fatos mencionados restou comprovado para a fiscalização que as operações da TRATHO com as empresas TEODORO e CONNY, informadas nos documentos fiscais, não existiram de fato. • A TRATHO apresentou notas fiscais de compra (2019) com a TEODORO (filial) que totalizaram mais R$ 5.000.000,00, porém não comprovou as correspondentes operações realizadas com a TEODORO. • A METAL CLASS seria uma suposta fornecedora e cliente da empresa TEODORO e foi baixada voluntariamente. A empresa foi intimada através de seu representante legal Ivan Gavranic – CPF 608.109.398-00. Embora a ciência postal da intimação fiscal tenha ocorrido, nada foi apresentado à fiscalização. • A METAL CLASS representou notas fiscais de venda para TEODORO, relativo ao ano de 2019, que totalizaram mais de R$ 39.000.000,00 e notas fiscais de compra, também do ano de 2019, que totalizaram mais de R$ 9.000.000,00, porém não comprovou as correspondentes operações realizadas com a TEODORO. • A empresa JJP (inexistente de fato) embora intimada (ciência postal), não atendeu a fiscalização. • A empresa VLADS seria um suposto fornecedor da TEODORO. Na resposta às intimações apresentou a planilha solicitada e os comprovantes recebimento (extratos bancários). Informou que as negociações eram feitas com o Sr. Thiago. Fl. 27463DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 10 • A VLADS representou notas fiscais de venda para TEODORO, relativo ao ano de 2019, que totalizaram mais de R$ 10.000.000,00, porém não comprovou as correspondentes operações realizadas com a TEODORO. • As intimações encaminhadas à empresa CADENCE (inexistente de fato) e à sua responsável legal Jamille Cunha de Mello, via postal, retornaram sem recebimento com as informações: “Mudou-se” e “Não Procurado”. • A empresa RECIVALE seria um suposto fornecedor e também cliente da TEODORO e tinha como razão social LATASA RECICLAGEM S.A. Na resposta às intimações apresentou a planilha solicitada, os correspondentes comprovantes de pagamento/recebimento e alguns pedidos de compra. Apresentou também as seguintes informações: - Os fretes foram realizados pela empresa Transportadora Rápida Itaquaquecetuba Ltda - 59.202.085/0001-33. Fica disponibilizados os respectivos conhecimentos de transportes; - As transações comerciais eram realizadas diretamente com o Sr. Thiago, via telefone, no formato “spot” (comercialização imediata/instantânea); - As mercadorias adquiridas da TEODORO tanto foram utilizadas na indústria como para comercialização, conforme mercado ou estoque da ocasião. A empresa apresenta o Kardex; - Fica disponibilizado o Razão das contas contábeis. • A RECIVALE atendeu parcialmente a intimação quanto aos esclarecimentos dos lançamentos contábeis. Deixou de esclarecer os lançamentos que totalizaram R$ 91.515.999,15, cujos registros demonstram pagamentos realizados a empresa CONNY. • A empresa PONTAL seria um suposto cliente da empresa TEODORO e anteriormente se denominava LATASA EXTRUSÃO. Na resposta à intimação apresentou a planilha solicitada e os comprovantes de pagamento, notas fiscais de frete da empresa Transportadora Rápida Itaquaquecetuba Ltda – CNPJ 59.202.085/0001-33 e uma resposta por escrito para solicitar dilação de prazo para os demais documentos. Nada mais foi apresentado. • A PONTAL EXTRUSÃO representou notas fiscais de compra do ano de 2019, que totalizaram mais de R$ 8.000.000,00, porém não comprovou as correspondentes operações realizadas com a TEODORO. Fl. 27464DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 11 • A empresa LATASA IND e COM seria um suposto fornecedor e cliente da TEODORO. Na resposta à intimação apresentou a planilha solicitada, os correspondentes comprovantes de pagamento/recebimento e alguns pedidos de compra de mercadorias. Apresentou também as seguintes informações: - Os fretes foram realizados pela empresa Transportadora Rápida Itaquaquecetuba Ltda -59.202.085/0001-33. Fica disponibilizados os respectivos conhecimentos de transportes; - As transações comerciais eram realizadas diretamente com o Sr. Thiago, via telefone, no formato “spot11 (comercialização imediata/instantânea); - As mercadorias adquiridas da TEODORO tanto foram utilizadas na indústria como para comercialização, conforme mercado ou estoque da ocasião. A empresa apresenta o Kardex; - Fica disponibilizado o Razão das contas contábeis • A empresa LATASA METAIS seria um suposto fornecedor e cliente da TEODORO. Na resposta à intimação apresentou a planilha solicitada, os correspondentes comprovantes de pagamento/recebimento e alguns pedidos de compra de mercadorias. Apresentou também as seguintes informações: - Os fretes foram realizados pela empresa Transportadora Rápida Itaquaquecetuba Ltda -59.202.085/0001-33. Fica disponibilizados os respectivos conhecimentos de transportes; - As transações comerciais eram realizadas diretamente com o Sr. Thiago, via telefone, no formato “spot11 (comercialização imediata/instantânea); - As mercadorias adquiridas da TEODORO tanto foram utilizadas na indústria como para comercialização, conforme mercado ou estoque da ocasião. A empresa apresenta o Kardex; - Fica disponibilizado o Razão das contas contábeis. Do compartilhamento de informações – “Operação Blindagem Metálica” • As três últimas empresas citadas (RECIVALE e as empresas do GRUPO LATASA) foram alvo da Operação Blindagem Metálica, deflagrada a partir de pedido de busca e apreensão autorizado pela 1ª Vara Federal de Taubaté através do processo nº: 002036-40.2021.4.03.6121. • Nessa operação foi constatado a existência de uma organização criminosa comandada pela LATASA RECICLAGEM S.A. (atualmente RECIVALE INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE METAIS S.A – CNPJ 04.266.100/001-15). Participavam dessa organização as empresas integrantes do seu grupo (denominado ReciclaBR) e as Fl. 27465DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 12 empresas cooptadas para atuar como intermediárias de empresas inexistentes de fato. Esse esquema (emissão de notas fiscais fictícias e simulação de circulação de produtos e de transações financeiras, na tentativa de burlar os órgãos de fiscalização) gerava créditos tributários para as empresas do grupo LATASA. • De forma simplificada, o esquema consistia na emissão de notas fiscais de venda de sucata de alumínio (NCM 7602) por pessoas jurídicas do grupo ReciclaBR para pessoa jurídica intermediária cooptada, que na sequência emitia nota fiscal de venda da mesma quantidade de produto a outra pessoa jurídica do Grupo ReciclaBR só que como lingote ou tarugo de alumínio (NCM 7601), com crédito dos tributos IPI, PIS, COFINS e ICMS. • Na operação os pagamentos acompanhavam esta troca de notas fiscais como forma de dar maior credibilidade às operações e simular a boa-fé do suposto adquirente. • Os acréscimos de preços nestas emissões sequenciais correspondiam à comissão da pessoa jurídica intermediária (cerca de 5%) e o custo do transporte, que também era simulado. • A intermediação de pessoas jurídicas cooptadas podia envolver mais de uma camada de blindagem (outros intermediários), daí o nome da operação (Operação Blindagem Metálica. • A empresa TEODORO participou deste esquema citado como empresa noteira (blindadora). • No mesmo ato que deferiu a busca e apreensão dos documentos, a autoridade responsável pela Operação Blindagem Metálica autorizou o compartilhamento das informações e de todas as evidências colhidas com a Receita Federal do Brasil. • A partir dos dados colhidos nas quebras de sigilo telemático e nos mandados de busca e apreensão, foram obtidas as provas desta requintada simulação operada pelo grupo ReciclaBR. Como exemplo das várias provas encontradas, a seguir, reproduzimos parte de um arquivo encontrado com slides referente a programação operacional e financeira do mês de março/2019, que demonstra a forma de organização e controle das citadas simulações: Fl. 27466DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 13 • O fluxo operacional, demonstrado acima, iniciados a partir de P1, evidenciavam a programação de troca de notas fiscais entre as empresas P1 (LATASA INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA), TEODORO e P3 (LATASA METAIS). A diferença entre o total dos documentos emitidos e o total dos fluxos financeiros corresponde às despesas com as comissões e os fretes (“P3 faz cheque nominal para Teodoro pagar 3º”). • Destacou que a empresa TEODORO supostamente comprou sucata da LATASA INDÙSTRIA por R$ 9,00 e emitiu nota fiscal de venda, no mesmo dia ou em dias próximos, de ligas de alumínio por R$ 9,50 para a LATASA METAIS, gerando assim créditos de IPI, PIS e COFINS para essa última empresa. O quadro a seguir, elaborado pela fiscalização, discrimina as informações das notas fiscais constantes das quatro primeiras linhas do quadro de fluxo financeiro e assim demonstrar os citados créditos gerados para a LATASA METAIS: Fl. 27467DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 14 • Os slides, abaixo reproduzidos, de arquivos referentes ao mês 03/2019, apresentam também os seguintes fluxos operacional e financeiro em que consta também a intermediação da empresa MIDAS: • Reproduziu ainda outro fluxo exemplificativo com as operações iniciadas através de P2 (LATASA RECICLAGEM S.A): • Nesse fluxo fica evidente a programação da troca de notas fiscais entre as empresas P2 (LATASA RECICLAGEM S.A.), VLADS, TEODORO e P1 (LATASA INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA) e o controle do grupo ReciclaBR, quanto aos fretes, veículos e estoques a ser utilizado. • Na sequência, é mostrado o correspondente fluxo financeiro: Fl. 27468DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 15 • As notas fiscais de nºs 25.100 e 24.980 emitidas pela VLADS serviram, tão somente, para o pagamento de comissão e de frete da operação em questão. • A seguir, nesse último fluxo financeiro apresentado, aparecem as operações da TEODORO juntamente com as empresas METAL CLASS e LATASA INDUSTRIA E COMÉRCIO LTDA (P1): • A partir das evidências apresentadas ficaram comprovadas a inexistência das operações discriminadas nos documentos fiscais do grupo LATASA com a TEODORO, assim como das empresas MIDAS, VLADS e METAL CLASS, todas envolvidas no esquema fraudulento apresentado (troca de notas fiscais visando benefícios tributários indevidos). Destaca-se que as empresas VLADS e METAL CLASS não conseguiram comprovar para a fiscalização (diligências vinculadas) as operações realizadas com a TEODORO. • Através do Ofício nº SP20220040 – RFB/Copei/Espei08, a Receita Federal comunicou a Procuradoria da República em Taubaté/SP os resultados tributários ocorridos após a deflagração da Operação Blindagem Metálica, que gerou auto regularização do grupo LATASA em valores superiores a R$ 360 milhões. O grupo Fl. 27469DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 16 econômico LATASA retificou suas declarações no intuito de desconsiderar créditos tributários de PIS, COFINS e IPI proveniente de 29 pessoas jurídicas, no período de 2018 a 2021. Entre os documentos desconsiderados da escrita contábil-fiscal do grupo estavam os documentos fiscais das empresas TEODORO, METAL CLASS e MIDAS. • Considerando os citados “fornecedores e clientes” inexistentes de fato, a falta de comprovação das operações comerciais por parte dos supostos clientes e fornecedores diligenciados durante a fiscalização, as simulações de pagamento (entrada e saída de dinheiro) verificadas através dos extratos bancários e considerando ainda a confirmação e as provas da organização criminosa envolvendo as empresas citadas na Operação Blindagem, ficou demonstrado que a TEODORO foi utilizada por outras empresas que se beneficiaram do esquema fraudulento de emissão de notas fiscais inidôneas para sonegar tributos, inflar custos, omitir receitas e reduzir indevidamente a receita bruta. E, por se tratar a TEODORO de uma pessoa jurídica noteira mista, foram apurados novos valores de receita bruta para os anos de 2018 e 2019, desconsiderando todos as notas fiscais inidôneas em questão. Da matéria tributável apurada A- Lucro Arbitrado (IRPJ e CSLL) • A TEODORO realizou a apuração do imposto de renda na sistemática do Lucro Real Anual, conforme as Escriturações Contábeis Fiscais (ECF) entregues dos anos 2018 e 2019. • Como demonstrado através do balancete de 2018 (quadro a seguir), extraído da Escrituração Contábil Digital (ECD), os lançamentos a débito e a crédito aparecem zerados, o que impossibilitou a conciliação das correspondentes informações com a ECF de 2018: • Com relação ao ano calendário 2019, a ECF e a ECD da TEODODO apresentavam as seguintes composições de Receita Bruta para o ano de 2019: Fl. 27470DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 17 • Como ficou demonstrado nos quadros acima reproduzidos (ECF e ECD de 2019 da TEODORO), as duas escriturações apresentam o mesmo valor de receita bruta, porém apresentam composições diferentes da receita. Destacou que somente na ECD apareceu valor de IPI sobre Receita Bruta (R$ -6.534.915,52) e somente a ECF apresentou valor de Crédito Presumido de IPI de R$ 7.440.511,93 • De acordo com a ECD de 2019, a apuração do IPI apresenta os seguintes valores (crédito final de R$ 2.028.605,29): • Destacou que, de acordo com a escrituração contábil do ano de 2019, a TEODORO registrou as suas notas fiscais de venda sem os correspondentes valores de IPI. Os valores de IPI das notas fiscais de venda foram registrados a débito das contas “(-) IPI Sobre Receita Bruta" e a crédito da conta “IPI”. • Quanto aos registros contábeis de 2019 relativos às suas compras (conta 4102 – COMPRA DE MERCADORIAS), a TEODORO registrou 765 notas fiscais em duplicidade, o que aumentou indevidamente seus custos desse ano em R$ 116.997.935,11. Os lançamentos da citada conta contábil foram discriminados no ANEXO III deste TVF e as notas fiscais dobradas se encontram identificadas e Fl. 27471DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 18 destacadas das demais (negrito). Nesse anexo também foram discriminadas (em itálico) as notas fiscais emitidas pelas empresas inexistentes de fato (mencionadas no segundo quadro do parágrafo 10) e as notas fiscais inidôneas emitidas pelas empresas que operaram nº esquema fraudulento do grupo LATASA, as quais totalizaram R$ 391.201.746,54. • Ainda quanto aos registros contábeis de 2019, a TEODORO escriturou suas notas fiscais inidôneas emitidas para as empresas CONNY, R. P. DE JESUS (ambas inexistente de fato), TRATHO (empresa diligenciada) e para as empresas do esquema fraudulento gerenciado pelo grupo LATASA, as quais totalizaram R$ 259.923.202,82 • A falta de todos os lançamentos contábeis do ano 2018 (escrituração deficiente), as informações não correspondentes da ECD e da ECF do ano de 2019, os lançamentos em dobro das notas fiscais de compra do ano de 2019, assim como a proporção da utilização de notas fiscais inidôneas nas escriturações (mais de 66%), que evidenciaram vícios e indícios de fraude, tornaram as citadas escriturações imprestáveis para a determinação do lucro real. Por essas razões, com fundamento no artigo 603, inciso III, b do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto nº 9.580/2018) os lucros da TEODORO, dos anos- calendário de 2018 e 2019, foram arbitrados. • A apuração da base de cálculo obedece ao previsto no artigo 605 do mesmo texto legal. • Para a apuração da receita bruta da TEODORO do ano de 2018, foram consideradas os valores das notas fiscais de venda e devoluções de venda (menos as notas fiscais inidôneas da empresa inexistente de fato (CONNY), das empresas do grupo LATASA e da empresa TRATHO), subtraindo-se desses valores os correspondentes valores de IPI. Essas informações, discriminadas por documento, se encontram no ANEXO IV deste TVF. Essa apuração resultou nos seguintes totais: Fl. 27472DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 19 • Para o ano de 2019, apurou-se a receita bruta considerando os valores das notas fiscais de venda contabilizadas na conta 3101-RESULTADO OPERACIONAL (já registradas sem o IPI), desconsiderando as citadas notas fiscais inidôneas das empresas inexistentes, das empresas do grupo LATASA e das empresas TRATHO e METAL CLASS. Todas essas informações, discriminadas por lançamentos contábil, encontram-se no ANEXO V deste TVF. Essa apuração resultou nos seguintes totais: • As receitas brutas apuradas pela fiscalização (dos anos de 2018 e 2019) também foram utilizadas para se apurar a base de cálculo da CSLL, prevista no artigo 20 da Lei nº 9.249/95. B – Da apuração do PIS e da COFINS pelo regime cumulativo • A apuração do lucro pela sistemática do lucro arbitrado implica na apuração do PIS e da COFINS pelo regime cumulativo, conforme o previsto nos artigos 10, II da Lei nº 10.833/2003 e 8º, II da Lei nº 10.637/2002. • Serviram de base de cálculo para a apuração dessas contribuições, as novas receitas brutas mensais apuradas para os IRPJ, excluindo-se dessas bases os valores de ICMS, conforme decisão do Supremo Tribunal Federal no Recurso Extraordinário – RE nº 574.706, por ocasião do julgamento do Tema 69 com Repercussão Geral. • No ANEXO VI encontram-se discriminados, por notas fiscais e por lançamentos, as bases de cálculo mensais do PIS e da COFINS dos anos de 2018 e 2019, respectivamente. Os correspondentes totais mensais, demonstrados a seguir, foram lançados nos respectivos Autos de Infração para o cálculo das contribuições mensais devidas: Fl. 27473DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 20 • Considerando os valores declarados em DCTF (2019), foram deduzidos dos respectivos tributos apurados os valores de R$ 2,00 para o PIS e R$ 4,00 para a COFIS, ambos referente a julho/2019. C – Da apuração do IPI • Para a apuração do IPI (Matriz e Filial) dos anos 2018 e 2019, utilizou a Escrituração Fiscal Digital EFD ICMS/IPI da empresa TEODORO. Na apuração foram excluídas todas as notas fiscais inidôneas mencionadas neste relatório. • De acordo com a EFD ICMS e IPI de 01/2018, os dois estabelecimentos não apresentaram saldo credor remanescente de IPI. A empresa apresentou DCTF e recolhimento de IPI para 02/2018 no valor R$ 105,10, que foi considerado na apuração fiscal. • Conforme discriminado no ANEXO VII, por estabelecimento (matriz e filial), por nota fiscal e por ano (2018 e 2019), apurou os seguintes totais mensais devidos e os seguintes totais mensais glosados de IPI, os quais foram lançados nos correspondentes Autos de Infração (Insuficiência de Recolhimento e Glosa de IPI): Fl. 27474DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 21 D – Da multa regulamentar do IPI • O Art. 83 da Lei 4.502 de 1964, assim determina: “Incorrem em multa igual ao valor comercial da mercadoria ou ao que lhe é atribuído na nota fiscal, respectivamente: II - Os que emitirem, fora dos casos permitidos nesta Lei, nota-fiscal que não corresponda à saída efetiva, de produto nela descrito, do estabelecimento emitente, e os que, em proveito próprio ou alheio, utilizarem, receberem ou registrarem essa nota para qualquer efeito, haja ou não destaque do imposto e ainda que a nota se refira a produto isento.(Redação dada pelo Decreto-Lei n' 400, de 1968)§ 1' No caso do inciso I, a pena não prejudica a que for aplicável ao comprador ou recebedor do produto, e no caso do inciso II, é independente da que for cabível pela falta ou insuficiência de recolhimento do imposto, em razão da utilização da nota, não podendo, em qualquer dos casos, o mínimo da multa aplicada ser inferior ao grau máximo da pena prevista no artigo seguinte para a classe de capital do infrator.” • Como já foi exposto, a TEODORO, além escriturar operações de compra que não ocorreram no ano de 2019 (R$ 391.201.746,54, discriminadas no ANEXO III), também emitiu e escriturou notas fiscais de venda nesse mesmo ano, as quais não corresponderam a saída efetiva das mercadorias nelas discriminadas (R$ 259.923.202,82, discriminadas no ANEXO V). Essa infração também está prevista no Regulamento do IPI, Decreto nº 7.212 de 15 de junho de 2010, art. 572, II. • Dessa forma, foi aplicada a multa já fundamentada no valor de R$ 651.124.948,36 correspondente à soma das notas fiscais inidôneas (compra e venda) escrituradas. E – Da qualificação da Multa Fl. 27475DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 22 • A simulação reiterada de operações comerciais operada pela TEODORO seja operando com noteiras, seja ela mesmo operando como noteira, serviu para inflar seus custos, reduzindo o lucro, gerar créditos indevidos de tributos para si e para terceiros, culminando na redução ou no não pagamento de tributos. As condutas implicam no enquadramento em todos os casos mencionados no § 1º, do artigo 44 da Lei nº 9430/96 que são os artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502 de 30 de novembro de 1.964: “Art . 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II - das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72.” • A simulação de operações com noteiras ou como noteira caracteriza fraude e a prática reiterada de registrar notas fiscais inidôneas evidencia o dolo. • A emissão indevida de notas fiscais para as empresas do Grupo LATASA implicou nos custos e no creditamento indevido de impostos para o mesmo. As trocas de notas fiscais demonstradas evidenciam a fraude e o conluio. • A emissão indevida de notas fiscais para as noteiras (saídas) buscou ocultar a distorção do estoque em função do registro das notas inidôneas na entrada que evidencia o dolo e a sonegação. • Os fatos narrados neste Termo de Verificação Fiscal impõem a aplicação da multa de ofício agravada de 150% nos termos do §1° do art. 44, da Lei n° 9.430/96, sobre as infrações apuradas. Da responsabilidade tributária • A orquestração e a operacionalização deste esquema de emissão e registro de notas fiscais relatando operações inexistentes está diretamente relacionada a participação de Thiago Henrique Teodoro - CPF 070.051.376-04 de forma reiterada, conforme as respostas das empresas diligências (mencionadas nos parágrafos que tratam das diligências fiscais). • A tentativa de ludibriar o fisco com emissão de notas fiscais, circulação simulada de mercadorias e a omissão de rendimentos mediante fraude caracterizam infração a lei e, com fundamento no artigo 124, I do Código Tributário Nacional, Fl. 27476DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 23 estão sendo Responsabilizados Solidariamente com a TEODORO nesta autuação, sobre todo o montante do crédito tributário apurado. Das Considerações Finais • Foram verificadas condutas no transcorrer da ação fiscal que configuram, EM TESE, crime contra a ordem tributária conforme definido na Lei n° 8.137/90. Desta forma lavramos a competente Representação Fiscal para Fins Penais, formalizada através do processo n° 19515-720.020/2023-23. • Tendo em vista, conforme já exposto, que a escrituração a que estava obrigado o contribuinte revelou evidentes indícios de fraudes ou continha vícios, erros ou deficiências que a tornaram imprestável para determinar o lucro real, a tributação de lucro foi arbitrado e foram zerados os prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas da contribuição social sobre o lucro, no ano calendário de 2018 e 2019, ficando o contribuinte INTIMADO a proceder os ajustes necessários em sua escrituração, caso não apresente impugnação ao referido Auto de Infração ou, se impugnado, não lhe sejam acolhidas as razões de sua impugnação, de modo a ajustar os prejuízos e bases de cálculo negativas da contribuição social sobre o lucro, apurados na declaração de rendimentos. • Tendo em vista a nova forma de apuração de PIS e de COFINS, regime cumulativo, em virtude do lucro arbitrado, fica o contribuinte INTIMADO a proceder os ajustes necessários, zerando saldos credores de PIS e COFINS em sua escrituração e na EFD, caso não apresente impugnação aos referidos Autos de Infração ou, se impugnados, não lhes sejam acolhidas as razões de sua impugnação. • Tendo em vista os fatos relatados neste e nos demais documentos anexos aos Processos Administrativos Fiscais nº - PAF nº 19515-720.005/2023-85(IPI); 19515- 720.006/2023-20(IRPJ e CSLL); 15746-721.490/2023-30(PIS e COFINS); 15746- 720.400/2023-30(MULDI). • Foi constituído o crédito tributário, nos termos do art. 926, do RIR/99, lavrando- se os Autos de Infração. • Neste mesmo procedimento fiscal foi constituído também o crédito tributário referente ao tributo Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, constante do PAF nº 19515-720.005/2023-85. 5. Cientificados da autuação em 21/09/2023 (fls. 14.520 e 14.522), a contribuinte e o senhor Thiago Henrique Teodoro apresentaram Impugnação na mesma peça defensiva em 17/10/2023 (fls. 14.525) alegando, em síntese, que: • A fiscalização realizada in loco na sede da Impugnante não foi suficiente para a análise plena das atividades exercidas pela empresa. Isso porque, o Sr. Auditor que procedeu à fiscalização permaneceu apenas nas dependências da fábrica, sem averiguar o galpão que fica em frente ao endereço em que estava, onde todo o grande volume de estoque estava armazenado. Fl. 27477DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 24 • O equívoco foi um dos pontos que corroboraram para o indevido entendimento da existência de fraude por simulação nas operações da Impugnante. Assim, necessária se faz uma nova diligência que abarque todo o espaço físico da empresa e que seja capaz de conferir as atividades exercidas • Informou que concluiu o levantamento dos documentos hábeis a comprovarem as compras realizadas, os quais pugna pela juntada (documentos comprobatórios), com base no postulado da verdade real. • A Lei nº 9.784/1999 trata dos processos administrativos no âmbito da Administração Pública Federal, explicitando a necessidade de observância aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade proporcionalidade, ampla defesa e contraditório. • Os processos administrativos, portanto, devem atender a formalidade moderada, com a adequação entre meios e fins, assegurando-se aos contribuintes a produção de provas e, principalmente, resguardando-se o cumprimento à estrita legalidade, para que só sejam mantidos lançamentos tributários que efetivamente atendam à exigência legal. • O artigo 38, da Lei nº 9.784/1999 prescreve que o interessado poderá, na fase instrutória e antes da tomada da decisão, juntar documentos e pareceres, requerer diligências e perícias, bem como aduzir alegações referentes à matéria objeto do processo. • Ao se levar às últimas consequências, as regras atualmente vigentes para o Decreto nº 70.235/72, estar-se-ia mitigando a aplicação de um dos princípios mais caros ao processo administrativo que é o da verdade material. • Na prática, o direito da parte à produção de provas comporta graduação, a critério da autoridade julgadora, com fulcro em seu juízo de valor acerca da utilidade e necessidade, de modo a assegurar o equilíbrio entre a celeridade desejável e a segurança indispensável na realização da justiça. • Assim, desde já pugna pela oportunidade de apresentação de outros documentos que evidenciem o Direito ora invocado. • A Impugnante TEODORO E MORAES IND. COM. DISTRIBUIDORA DE METAIS – EIRELI., é pessoa jurídica de direito privado, fabricante e atuante no mercado de alumínio, contém uma fundição ao qual realiza a fundição com sucatas, fazendo os produtos para venda, como LINGOTE DE ALUMÍNIO, além de revendas de diversos materiais. • A partir de 15/10/2019 realizou a alteração da atividade econômica/Objeto Social da sua SEDE e atividade principal para Fundição de metais não ferrosos e suas ligas, realizando além de capacitação técnica para desenvolvimento da nova atividade, investimentos em aquisição de equipamentos para industrialização. • Afirmou que para iniciar tal atividade de forma correta, afim de gerar uma linha de produtos singulares com a qualidade desejada pelos clientes, que estavam em Fl. 27478DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 25 fase de prospecção, a empresa iniciou a sua própria operação de fabricação e comercialização. • Destacou ainda que da análise das notas fiscais contidas no anexo da fiscalização, referentes a uma das empresas citadas, Conny Comércio de Materiais Elétricos e Metais EIRELI, CNPJ 04.368.025/0001-01, seria possível se concluir que esta realizava venda de produtos acabados e não de sucata, para que, posteriormente, a impugnante realizasse a comercialização destes produtos. • Destacou que ao contrário do que apontaram as diligências na empresa CONNY, onde esta apontava que a responsabilidade pelo frete era da TEODORO, verifica- se nas notas fiscais de venda que a responsabilidade do frete era da fornecedora. • Nas folhas 14.559 e 14.560 apresentou fotos e fluxograma de suposto processo produtivo de lingote de alumínio. • Ressaltou que a impugnante estaria sofrendo processos junto à CETESB decorrentes de industrialização, fumaça, licenças e normas que estariam sendo readequados. • Desta forma, afirmou que teria demonstrado que a partir de 15/10/2019 passou a realizar industrialização. Das diligências não realizadas. • A impugnante na época da fiscalização, além de sua unidade fabril e de estoques em fábrica diligenciada, possuía também em frente a fábrica fiscalizada um galpão de armazenamento de materiais, além das suas filiais em outros Estados • Pois bem, na data da fiscalização, caberia aos auditores fiscais durante o processo administrativo, ao menos, diligenciar as unidades e principalmente estoque relativo as compras dos materiais adquiridos. • Para comprovar que os materiais existiam e existem até hoje, juntou fotos de galpão com estoques de materiais. • Desta forma, requer que seja diligenciado para que ocorra a fiscalização em galpão de materiais e também de suas filiais e, com isto, comprovar a compra e venda dos materiais e suas transformações em industrialização. Dos pontos divergentes com o Termo de Verificação Fiscal (TVF) A- Das empresas inexistentes • Consta do termo que os “fornecedores” de mercadorias da TEODORO, encontram-se como INEXISTENTES DE FATO, as quais representam mais de 66% das compras da impugnante no período de 2018 e 2019. • Sobre a questão destacou a Sumula do STJ nº 509: “Súmula 509 - É lícito ao comerciante de boa-fé aproveitar os créditos de ICMS decorrentes de nota fiscal posteriormente declarada inidônea, quando demonstrada a veracidade da compra e venda.” • Em que pese o referido julgado Fl. 27479DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 26 e a súmula tratarem de créditos de ICMS, outro não é raciocínio para o PIS e a COFINS, haja vista que ambos são regidos pela sistemática da não cumulatividade. • Em resumo, o entendimento do STJ é no sentido de validar o crédito do contribuinte quando existir (i) a boa-fé do adquirente e (ii) prova da efetividade das operações. • A impugnante afirma que comprovou a sua boa-fé em relação a licitude de suas operações, uma vez que todas as aquisições foram feitas antes da declaração de inidoneidade dos fornecedores. Não existia a mínima possibilidade da IMPUGNANTE desconfiar da inidoneidade dos fornecedores, já que o site da própria Receita Federal atestava tais regularidades. • Quanto à efetividade das operações, a IMPUGNANTE trouxe aos autos seguintes documentos: a) Cartão CNPJ dos fornecedores, declarados inexistentes; b) Sintegra; c) Notas fiscais, com comprovantes de pagamentos; d) Conciliação da data de emissão de nota fiscal com a data de baixa de CNPJ; • Com isto, entendeu que para o presente caso seria aplicável a Sumula do STJ • Desta forma, entendeu que é possível o reconhecimento dos créditos pleiteados pela IMPUGNANTE a título de PIS e COFINS e, consequentemente, a extinção dos débitos relacionados no “Item I”, nos termos do art. 156, II do Código Tributário Nacional – CTN. B - Da indevida presunção de fraude ou simulação • A fim de fundamentar a glosa do crédito sobre as aquisições de fornecedores, afirmam existirem indícios de que tais empresas servem apenas à emissão de NF (“noteiras”), “afastando” a boa-fé da IMPUGNANTE. • Os indícios resultaram das operações realizadas pela Receita Federal em conjunto com a Polícia Federal, a fim de declarar a idoneidade das empresas, impedindo o creditamento das contribuições. • Nas Operações citadas, iniciadas a partir do ano de 2020, houve investigação policial, com todas as diligências e comprovações necessárias, que acarretaram na demonstração de um procedimento fraudulento em algumas empresas investigadas. • Porém, a IMPUGNANTE jamais sofreu qualquer condenação, entre as empresas suspeitas e investigadas. O AFRFB aplicou ao presente caso o mesmo raciocínio apurado nas Operações, sem demonstrar o envolvimento da IMPUGNANTE, utilizando-se de presunção como se investigação fosse • Ressaltou que as operações da Receita Federal do Brasil e da Polícia Federal vieram apenas a corroborar a lisura e boa-fé dos atos praticados pela IMPUGNANTE. Isso porque, Fl. 27480DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 27 considerando que a operação conseguiu localizar dezenas de empresas ligadas umas às outras, caso a IMPUGNANTE tivesse participado do esquema fraudulento, certamente teria sido processada criminalmente, o que não foi. • Tentando desqualificar a idoneidade das operações da IMPUGNANTE, o Auditor Fiscal reportou o percentual de operações realizadas com empresas supostamente inidôneas, afirmando que 66% das aquisições de 2018 e 2019, seriam com fornecedores que se encontram com situação cadastral “INEXISTENTE DE FATO”, “INAPTA”, “BAIXADA”. • Os dados constantes na informação fiscal se referem apenas ao GRUPO LATASA, porém, no período de 2018 E 2019, a IMPUGNANTE adquiriu seus produtos de vários tipos de fornecedores, cooperativas, pessoas físicas, comercializadores etc., o que demonstra que não fez qualquer distinção entre eles e que não participa de qualquer simulação quanto às operações realizadas. • Os argumentos utilizados além de inadequados, também não representam a realidade dos fatos, porque o número de operações no período é muito superior àquele mencionado, com empresas ainda ativas, inclusive com fornecedores que limitam o valor do creditamento, sendo presumida a boa-fé da IMPUGNANTE. • A má-fé não se presume, sendo fundamental prova inequívoca pelo fisco quanto à ocorrência do dolo, fraude e simulação e, ainda, do nexo causal, o que não se verifica no caso em tela, já que o Sr. Auditor se pautou em supostos indícios, valendo-se de presunções próprias. • Feitas essas considerações, não restam dúvidas de que as conclusões postas na informação fiscal não se coadunam com o aplicável, nem com a realidade apurada, não bastando meros indícios para acusar o direito creditório da IMPUGNANTE. C- Da impossibilidade da autora fiscalizar seus fornecedores e da irretroatividade das declarações de inaptidão e idoneidade. • Os fornecedores, foram questionados pela fiscalização, sob os argumentos de existirem indícios de fraude e simulação. • Quanto à suposta irregularidade, mesmo que posteriormente as empresas tenham sido declaradas inaptas, tal situação em nada altera o direito ao crédito, isso porque, a época dos fatos (2018 e 2019) não havia qualquer procedimento investigatório, muito menos inexistência de fato das empresas. • Todos os processos referentes aos fornecedores foram finalizados e apurados no ano de 2023, sendo que os fornecimentos ocorreram entre 2018 e 2019, ou seja, muitos anos depois das operações questionadas, não podendo retroagir. • A fiscalização tentou imputar penalidade pela inaptidão ou pela simples baixa de alguns fornecedores, ocorridos anos depois do encerramento das operações realizadas com a IMPUGNANTE, retroativamente, o que não pode se permitir. Fl. 27481DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 28 • Por outro lado, ainda que as declarações de inaptidão tivessem se dado em 2018 e 2019, não competia a IMPUGNANTE a fiscalização de seus fornecedores, pois, conforme prevê o art. 142 do CTN, tal atividade é privativa da autoridade administrativa. • Tal fato deve ser objeto de diligência pela própria RFB a fim de tomar as medidas cabíveis, investigando e penalizando a própria empresa inadimplente ou fraudadora. • A Fiscalização não investigou as empresas tidas como “noteiras”, mas quer imputar à IMPUGNANTE, penalidade decorrente de tal conclusão, baseada em indícios. • A IMPUGANANTE não pode ser penalizada por eventuais infrações cometidas por terceiros, ainda que fornecedores tidos posteriormente como inaptos. D – Do Balancete • A auditor fiscal teria alegado que, conforme demonstrado através do balancete de 2018, extraído da Escrituração Contábil Digital (ECD), os lançamentos a débito e a crédito apareceram zerados, o que teria impossibilitado a conciliação das correspondentes informações com a ECF de 2018. • Em relação à aparente discrepância apresentada nos lançamentos a débito e a crédito no balancete de 2018, extraído da Escrituração Contábil Digital (ECD) da empresa, a impugnante gostaria de apresentar uma análise aprofundada para esclarecer essa situação aparentemente contraditória. • A assertiva inicial careceria de precisão e precisaria ser reconsiderada à luz das evidências fornecidas pela própria ECD da empresa. • Afirmou que uma análise minuciosa da ECD 2018 apresentada pela empresa revelaria, de fato, que os saldos mensais não apenas existiriam, mas também estariam meticulosamente documentados mês a mês. Os registros detalhados incluiriam transações a débito e a crédito, evidenciando uma série de atividades financeiras e contábeis ao longo do ano. Argumentou que a afirmação de que os saldos foram zerados é imprecisa e contradiz as informações fornecidas pela própria documentação da empresa: • A ausência de indícios de fraude ou vícios contábeis nos registros apresentados deve ser enfaticamente considerada. A contabilidade da empresa está em Fl. 27482DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 29 conformidade com as normas contábeis e fiscais, refletindo transparência e integridade. Não há razão lógica para impor um lucro arbitrado, uma vez que a contabilidade da empresa é precisa e reflete suas operações de maneira fidedigna. • Ressaltou que, antes de qualquer medida punitiva ser aplicada durante um processo de fiscalização, os contribuintes têm o direito de corrigir quaisquer discrepâncias identificadas em suas declarações. • O princípio do contraditório e da ampla defesa garante que os contribuintes sejam notificados de possíveis irregularidades e tenham a oportunidade de retificar seus registros antes de sofrerem penalidades. Neste caso, a suposta falta de conciliação poderia ter sido corrigida de acordo com os procedimentos padrão, sem a imposição imediata de sanções. E – Da operação Blindagem Metálica e auto regularização • Conforme mencionado no Termo de Verificação Fiscal – TVF, a Receita Federal comunicou a Procuradoria da República em Taubaté/SP os resultados tributários ocorridos após a deflagração da Operação Blindagem Metálica. • Informou a Receita Federal, que as empresas do GRUPO LATASA, retificaram as declarações no intuito de desconsiderar créditos tributários de PIS, COFINS e IPI proveniente de 29 pessoas jurídicas, no período de 2018 a 2021 • Citou por fim, que os documentos da empresa TEODORO, foram desconsiderados da escrita contábil-fiscal do grupo LATASA, ou seja, não computado ou incluídos na operação deflagrada. • “Desta forma, como os altos valores, de débitos da empresa Impugnante, não sendo consideradas, deve-se refazer os cálculos, como informado, porém de forma precisa, com a realização de perícia com os valores e apontamentos corretos, pois se a IMPUGNANTE, não faz parte desta operação blindagem, devem ser recalculadas, fazendo assim, a determinação de uma nova diligência e perícia contábil-fiscal”. F – Das considerações da defesa • “Requer a Impugnante, a realização de produção de prova pericial, pois é cabível quando o fato a ser provado necessite de conhecimento técnico especializado e esteja fora do campo de atuação das autoridades fiscais e julgadoras. A perícia é imprescindível quando a prova não pode ou não cabe ser produzida por uma das partes e/ou se mostre, justificadamente, necessária para a solução da lide”. • “As multas aplicadas são inconstitucionais e desproporcionais, pois não pode a autoridade lançadora e julgadora administrativa discutir a constitucionalidade de lei em sede administrativa” • Ocorreu a nulidade por ausência de cumprimento de formalidades no TDPF. O TDPF está viciado, pois não foi indicado no mesmo a Fl. 27483DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 30 relação dos dados identificados da Impugnada, tampouco os tributos que estavam sendo fiscalizados, o que fere o art. 5º e §s 1º e 2º, da Portaria RFB 6.478/2017. • Como a multa de 150% supera o montante do tributo devido, tal imposição, além de ferir os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, afronta o princípio que veda a instituição do tributo com efeito de confisco. Do direito Da nulidade dos autos de infração por vício material • A autuação ora Impugnada decorre de fiscalização por meio da qual, equivocadamente, se concluiu que houve atuação fraudulenta pela Impugnante, gerando o arbitramento do lucro pela DEFIS-SP e consequente aplicação de multa de 150% sobre o valor apurado. • Porém, a fiscalização realizada não foi suficiente para análise plena das atividades desempenhadas pela Impugnante, bem como há documentos capazes de comprovar as operações que foram apontadas pela RFB como fraudulentas. • Diante disso, tendo em vista que o Auto de Infração objeto desta Impugnação foi motivado por suposta fraude identificada pelo Sr. Auditor Fiscal, que restou descaracterizada, há evidente vício material na aplicação das normas e apuração dos alegados débitos, devendo ser reconhecida a nulidade do referido Auto de Infração por (i) ausência de confirmação das infrações apontadas; (ii) ausência de certeza na liquidez das bases fiscalizadas; (iii) falta de análise de documentação necessária; e, consequentemente (iv) ausência de motivação. • Existe vício material que gera reconhecimento de nulidade do Auto de Infração quando não foram considerados todos os documentos necessários para análise plena das operações do contribuinte, bem como quando a fiscalização realizada in loco foi precária. • Pelo exposto, resta claro que o Auto de Infração ora Impugnado está eivado de vícios materiais, sendo evidente a necessidade de reconhecimento de sua nulidade. Do valor do débito exigido • Uma das hipóteses de vício material que geram o reconhecimento de nulidade do Auto de Infração é o erro na base de cálculo e na fundamentação utilizadas para apuração do montante supostamente devido. • A fiscalização foi precariamente realizada e os documentos necessários para análise das operações da Impugnante não foram considerados em sua totalidade, o que resultou em entendimento distorcido pela DEFISSP sobre suposta fraude praticada pela empresa e, consequentemente, apuração de valor devido. • No Auto de Infração ora Impugnado, o arbitramento do lucro pela DEFIS-SP foi realizado sob fundamentação de que os documentos da Impugnante são imprestáveis para se apurar seu verdadeiro lucro nos períodos de 2018 e 2019. • Porém, a Impugnante possui condições de demonstrar sua movimentação financeira, bem como determinar seu lucro real com base nos documentos Fl. 27484DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 31 levantados, incabível se torna o arbitramento do lucro pela DEFIS-SP e, ainda que este se fizesse necessário, a base de cálculo arbitrada pela RFB é equivocada, o que também gera nulidade do Auto de Infração. • Necessário se faz o reconhecimento da nulidade do Auto de Infração por erro material na apuração da base de cálculo e, consequentemente, do suposto débito. • Subsidiariamente, em caso de entendimento diverso pelos Ilustres Julgadores, clara se faz a necessidade de recálculo dos valores apontados no Auto de Infração, considerando os documentos apresentados pela Impugnante, refletindo também nos encargos (juros e multa) calculados sobre o valor principal do suposto débito. Da inaplicabilidade da multa de 150% • No mesmo sentido do que já foi abordado na presente Impugnação, incabível se faz a aplicação de multa de 150% sobre o suposto débito seja pela (i) nulidade do Auto de Infração por comprovados vícios formais; ou, caso assim não se entenda (ii) pela inexistência de fraude e/ou simulação capazes de ensejar referida multa. • Verifica-se que a multa de 150% só seria aplicada nos casos previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964, quais sejam, sonegação, fraude e conluio, respectivamente. • Porém, restou comprovada que a conclusão de alegada fraude cometida pela Impugnante foi equivocada, tanto pela precariedade da fiscalização realizada, como pela ausência de análise dos documentos referentes às operações ocorridas em 2018 e 2019, o que evidencia falta de “confirmação das infrações” e de “certeza da liquidez das bases fiscalizadas.” • Diante disso, pela falta de comprovação de fraude cometida, não há que se falar em imposição da multa de 150%. • Nessa esteira, pugna, inicialmente, o reconhecimento da nulidade do Auto de Infração por vício material na aplicação equivocada de multa, ou, subsidiariamente, caso os Ilustres Julgadores assim não entendam, a redução da multa para 75% sobre o valor a ser recalculado do suposto débito principal, por inexistência dos requisitos necessários para duplicação deste percentual. Da desconsideração do sócio administrador como sujeito passivo • O Auditor Fiscal que lavrou o Auto de Infração ora impugnado, inseriu no campo “Demais Sujeitos Passivos”, o Sr. Thiago Henrique Teodoro, sócio administrador da empresa Impugnante, utilizando, como base, o previsto no artigo 135 do CTN. • É possível extrair do texto legal supramencionado que a responsabilização pessoal do representante da pessoa jurídica só é possível nos casos em que ocorrer “excesso de poderes ou infração de lei”. • Ocorre que a suposta fraude atribuída à Impugnante resulta de análise precária de documentos e de fiscalização in loco incompleta, não havendo certeza do Fl. 27485DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 32 envolvimento doloso da Impugnante no alegado “esquema” apontado no Termo de Verificação fiscal que embasou o Auto de Infração. • Assim, ainda que os Ilustres Julgadores entendam pelo prosseguimento do Auto de Infração eivado de vícios materiais, incabível a responsabilização do sócio administrador por ausência de comprovação dos requisitos constantes no artigo 135 do CTN. Dos pedidos • Por todo o exposto, requer a Impugnante a declaração de nulidade do Auto de Infração objeto desta Impugnação por comprovada existência de vícios materiais, em consonância ao pacífico entendimento adotado pelo CARF, ao passo que foi comprovada a (i) ausência de confirmação das infrações apontadas; (ii) ausência de certeza na liquidez das bases fiscalizadas; (iii) falta de análise de documentação necessária; e, consequentemente (iv) ausência de motivação. • Subsidiariamente: a. o recálculo do suposto débito utilizando a documentação acostada a estes autos em observância ao postulado da verdade real, com a consequente adequação dos juros de mora; b. seja afastada a multa de 150% por inaplicabilidade do artigo 44, inciso I e § 1º da Lei nº 9.430/96 com a redação dada pelo art.14 da Lei nº 11.488/07; e c. seja excluído do rol de sujeitos passivos do Auto de Infração o Sr. Thiago Henrique Teodoro, sócio administrador da Impugnante, por ausência de comprovação dos requisitos constantes no artigo 135 do CTN. • Pugna, por fim, no caso de não reconhecimento da nulidade do Auto de Infração, pela realização de nova fiscalização in loco capaz de averiguar todas as dependências da Impugnada e analisar as atividades realizadas. 6. Os documentos apresentados com a impugnação foram juntados aos autos. 7. É o relatório. Em apreciação das impugnações, a 8ª TURMA/DRJ08 por meio do acordão 08- 044.686 entendeu por julgar parcialmente procedente a impugnação da empresa Teodoro apenas reduzir a multa qualificada de 150% para 100% conforme decisão abaixo, vejamos: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Ano-calendário: 2018, 2019 FALTA DE LANÇAMENTO DO IMPOSTO. ESCRITURAÇÃO SEM O VALOR DEVIDO. Deve-se efetuar o lançamento de ofício do imposto, quando constatado que a fiscalizada, na condição de estabelecimento industrial ou equiparado, deixou de escriturar os débitos de IPI, lançados em suas Notas Fiscais de Saída. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2018, 2019 MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. DOLO. CARACTERIZAÇÃO. LEGALIDADE. Fl. 27486DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 33 A multa de ofício deve ser qualificada quando comprovado nos autos que o sujeito passivo praticou condutas tipificadas em lei como sonegação, fraude e conluio. Estando a multa aplicada prevista em lei, não cabe qualquer manifestação, em âmbito administrativo, a respeito de inconstitucionalidade, proporcionalidade, razoabilidade ou de “não confisco” de legislação tributárias aceitas e vigentes no ordenamento jurídico. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. ALTERAÇÃO DA LEGISLAÇÃO. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. Tratando-se de ato não definitivamente julgado, em caso de alteração da legislação tributária que reduz o percentual da multa de ofício qualificada, aplica- se ao caso o Princípio da Retroatividade Benigna, reduzindo o percentual da multa para aquele previsto na legislação superveniente. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA. PRÁTICA DE ATO ILÍCITO NO EXERCÍCIO DA GERÊNCIA OU REPRESENTAÇÃO LEGAL. CARACTERIZAÇÃO. Inconformados, os Recorrentes apresentaram recurso voluntário nos exatos termos da manifestação de inconformidade argumentado:  Postulado da verdade material  Preliminar de nulidade do Auto de Infração por vício material e necessidade de perícia técnica. No mérito:  Erro na base de cálculo e na fundamentação utilizadas para apuração do montante supostamente devido.  Da irretroatividade das declarações de inaptidão e inidoneidade  Da inaplicabilidade da multa de 100% por violação ao não confisco, proporcionalidade e capacidade contribuitiva.  Da desconsideração do sócio administrador como sujeito passivo. É o relatório. VOTO Conselheira Keli Campos de Lima, Relatora. O Recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto deve ser admitido. Fl. 27487DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 34 Inicialmente é importante ponderar que os Recorrentes apresentarem suas razões recursais em peça única e, assim sendo o recurso será analisado conjuntamente. Da Preliminar de nulidade do Auto de Infração por vício material e necessidade de perícia técnica. Como relatado, cuida-se de procedimento de fiscalização e auditoria nas escriturações contábil e fiscal Recorrente, diligências vinculadas em fornecedores e clientes, além da análise dos documentos compartilhados da “Operação Blindagem Metálica”, em que constatou que teria ocorrido a utilização e registro de notas fiscais inidôneas nos anos calendários de 2018 e 2019. Em 2018, constatou-se que a contabilidade seria omissa e deficiente, enquanto no ano calendário de 2019, a fiscalização verificou ainda que teria ocorrido o registro contábil em duplicidade de 765 notas fiscais de compra e que os registro de notas fiscais inidôneas seriam mais de 66% das escriturações do ano. Especificamente em relação ao IPI, a autoridade constatou que a impugnante registrou suas notas fiscais de venda sem os correspondentes registros dos valores devidos do IPI. 37. Na presente apuração fiscal ficou caracterizado que a impugnante, na condição de estabelecimento industrial ou equiparado, deixou de escriturar os débitos de IPI, lançados em suas Notas Fiscais de Saída, e de recolher os correspondentes valores devidos, em desrespeito à legislação do imposto. Assim, além do presente processo relativo ao IPI no mesmo procedimento fiscal também foram efetuados lançamentos de créditos tributários do Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas – IRPJ, da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, do Programa de Integração Social – PIS, da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – COFINS e da Multa Regulamentar do IPI, respectivamente, nos processos nº 19515.720006/2023-20, 15746.721490/2023-30 e 15746.720400/2023-93. No presente autos, temos o lançamento de Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, referentes aos anos calendários 2018 e 2019, por contatação de que a Recorrente na condição de estabelecimento industrial ou equiparado, deixou de escriturar os débitos lançados em suas Notas Fiscais de Saída, em desrespeito à legislação do IPI. Além da imputação, foi atribuída ao Recorrente THIAGO HENRIQUE TEODORO, a responsabilidade solidária pelos tributos lançados na fiscalizada, nos termos do artigo 135 do Código Tributário Nacional (CTN). Em preliminar, os Recorrentes argumentam a nulidade do Auto de Infração por vício material e necessidade de perícia técnica. Invocam que diligência realizada no curso da fiscalização foi superficial e levou ao equívoco, fato que corroboraram para o indevido entendimento da existência de fraude por simulação nas operações da Impugnante. Em razão disso, seria necessária uma nova diligência que abarque todo o espaço físico da empresa e que seja capaz de conferir as Fl. 27488DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 35 atividades exercidas e consequente o cancelamento do auto que foi lavrado com informações insuficiente e baseado em suposições. Argumentam ainda, que a questão acerca da comprovação da efetividade das operações não foi devidamente apreciada ( Cartão CNPJ dos fornecedores, declarados inexistentes; sintegra; notas fiscais, com comprovantes de pagamentos; conciliação da data de emissão de nota fiscal com a data de baixa de CNPJ). Pois bem. Conforme se infere das razões recursais apresentadas pela Recorrente, não há qualquer elemento ou argumento diferente do que já não tenha sido apresentado em impugnação e apreciado pelo acordão recorrido. Ao contrário, os Recorrentes insistem trazer argumentos tanto em preliminar, quanto em razões de mérito que em nada desconstituem o trabalho da fiscalização e de sua participação na “Operação Blindagem Metálica”. Os argumentos apresentados preliminarmente, insistem na necessidade de uma perícia no local – após 7 anos da fiscalização – bem como em sua boa-fé amparada tão somente no cruzamento de dados do Sintegra, notas fiscais, com comprovantes de pagamentos; conciliação da data de emissão de nota fiscal com a data de baixa de CNPJ o que foi descaracterizado durante todo o trabalho de fiscalização. Neste ponto, importante repisar os argumentos da decisão Recorrida cuja razões de decidir adoto: “(...) 27. Ao analisarmos todo o procedimento fiscal, constata-se que a autoridade tributária realizou seu trabalho de auditoria, onde emitiu as intimações que achou necessárias, analisou e confrontou os registros constante da Escrituração Contábil Digital (ECD), da Escrituração Fiscal Digital – EFD ICMS/IPI, das declarações constantes Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF) e, também, com aquelas informações constantes dos documentos, provas e esclarecimentos oferecidos pela fiscalizada, assim como com aquelas obtidas das diligências vinculadas realizadas e nas provas compartilhadas da “Operação Blindagem Metálica”, para só então formar sua convicção, onde ao final do procedimento fiscal, entendeu que a fiscalizada, na condição de estabelecimento industrial ou equiparado, deixou de escriturar os débitos lançados em suas notas fiscais de saída e, assim, efetuou os lançamentos tributários, nos quais, foram apresentados no relatório fiscal e nos autos de infração todo o descritivo do procedimento realizado, das infrações fiscais que entendeu terem sido cometidas pela fiscalizada e pelo responsável solidário, bem como, das respectivas legislações tributárias atingidas, de maneira clara e compreensível, de modos que as impugnantes tinham todos os elementos para apresentar assuas defesas. 28. Com a apresentação das impugnações, as defesas, tanto da pessoa jurídica fiscalizada quanto da pessoa física responsabilizada solidariamente, mostraram Fl. 27489DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 36 que tinham pleno conhecimento das infrações a elas imputadas, de modos que puderam oferecer seus argumentos e sua documentação comprobatória, que serão analisados neste voto. 29. Diante dos fatos, entendo que neste processo ficou caracterizado o pleno exercício do direito constitucional ao contraditório e à ampla defesa das impugnantes, como também, considero que, na presente lide, não existe razão na argumentação da defesa de que no lançamento efetuado teriam ocorrido vícios materiais na aplicação das normas e na apuração do auto de infração, seja por ausência de motivação ou por qualquer das outras argumentações apresentadas. 30. Acrescento ainda que a nulidade do auto de infração somente poderia ocorrer se os atos fossem praticados por agente incompetente, conforme dispõem os artigos 59 e 60 do Decreto nº 70.235/1972, abaixo transcritos: Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. (...)Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. (grifos meus) 31. Com relação a competência para a constituição do crédito tributário, o art. 6º da Lei 10.593/2002, com redação dada pela Lei 11.457/2007, assim dispõe: Art. 6º São atribuições dos ocupantes do cargo de Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil: I - no exercício da competência da Secretaria da Receita Federal do Brasil e em caráter privativo: a) constituir, mediante lançamento, o crédito tributário e de contribuições;(grifos meus) 32. Portanto, considerando que, no presente caso, todos os créditos tributários foram constituídos por Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil, assim, conclui- se que não há vício de competência nos referidos lançamentos. 33. Diante de todo o exposto, indefiro os requerimentos de nulidade do auto de infração. (...)” Em relação ao argumento de nulidade por necessidade de realização de nova perícia, igualmente o argumento não deve prosperar e na mesma linha adoto os fundamentos da decisão recorrida, vejamos: “(...) Fl. 27490DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 37 75. Ressalto que as diligências ou perícias devem ser solicitadas juntamente com a impugnação, expostas as motivações que as justifiquem, com a formulação dos quesitos mínimos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito, conforme estabelecido no artigo 16, inciso IV do decreto 70.235/1972. Constato que no presente caso não foram atendidos os requisitos mínimos para as solicitações. 76. Acrescento ainda que a realização de diligências ou perícia tem por finalidade a elucidação de questões que suscitem dúvidas para o julgamento e, portanto, tais procedimentos visam à formação de convicção do julgador 77. Na presente análise, considero desnecessárias a diligência e a perícia propostas pela impugnante, por entender presentes, nos autos, todos os elementos de convicção necessários à adequada solução da lide, conforme fundamentos anteriormente apresentados. 78. Diante do exposto, indefiro os requerimentos de diligência e de perícia apresentados. (...)” Assim entendo que não há que se falar em retorno dos autos a delegacia de julgamento da Receita para determinação de nova diligência a ser realizado nas dependências da empresa autuada, pelo que rejeito a preliminar arguida. No mérito. No mérito, os Recorrentes repisam o argumento da impugnação de erro na base de cálculo e na fundamentação utilizadas para apuração do montante supostamente devido e da irretroatividade das declarações de inaptidão e inidoneidade. Em análise das razões recursais, verifica-se que entendimento da Recorrente é, como já dito, a alegação de sua boa-fé que pode ser comprovada pelas telas do Sintegra, cartão de CNPJ das empresas, comprovante de pagamento das operações o que, por si só, seriam suficientes. Insistem que a “invalidade das transações consubstanciadas em notas fiscais pode ser decretada com efeitos retroativos, desde que estejam eivadas de ilegalidade em sua origem. Entretanto, terceiros que não tenham condições de apurar irregularidades eventualmente perpetradas por seus parceiros comerciais, como é o caso da Recorrente, não podem ser prejudicados por ulterior decisão da administração.” Ocorre que os Recorrentes, em que pese terem juntado vasta documentação à sua peça de impugnação, não trouxeram qualquer elemento ou documento apto a afastar as apurações realizadas e sua participação como empresa noteira no esquema fraudulento, destaca- se:  a inexistência das operações discriminadas nos documentos fiscais do grupo LATASA com a TEODORO, assim como das empresas MIDAS, VLADS e METAL Fl. 27491DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 38 CLASS, todas envolvidas no esquema fraudulento apresentado (troca de notas fiscais visando benefícios tributários indevidos). Destaca-se que as empresas VLADS e METAL CLASS não conseguiram comprovar para a fiscalização (diligências vinculadas) as operações realizadas com a TEODORO.  Através do Ofício nº SP20220040 – RFB/Copei/Espei08, a Receita Federal comunicou a Procuradoria da República em Taubaté/SP os resultados tributários ocorridos após a deflagração da Operação Blindagem Metálica, que gerou auto regularização do grupo LATASA em valores superiores a R$ 360 milhões. O grupo econômico LATASA retificou suas declarações no intuito de desconsiderar créditos tributários de PIS, COFINS e IPI proveniente de 29 pessoas jurídicas, no período de 2018 a 2021. Entre os documentos desconsiderados da escrita contábil-fiscal do grupo estavam os documentos fiscais das empresas TEODORO, METAL CLASS e MIDAS.  Considerando os citados “fornecedores e clientes” inexistentes de fato, a falta de comprovação das operações comerciais por parte dos supostos clientes e fornecedores diligenciados durante a fiscalização, as simulações de pagamento (entrada e saída de dinheiro) verificadas através dos extratos bancários e considerando ainda a confirmação e as provas da organização criminosa envolvendo as empresas citadas na Operação Blindagem, ficou demonstrado que a TEODORO foi utilizada por outras empresas que se beneficiaram do esquema fraudulento de emissão de notas fiscais inidôneas para sonegar tributos, inflar custos, omitir receitas e reduzir indevidamente a receita bruta. E, por se tratar a TEODORO de uma pessoa jurídica noteira mista, foram apurados novos valores de receita bruta para os anos de 2018 e 2019, desconsiderando todos as notas fiscais inidôneas em questão. Reitera-se que a respeito destas constatações do procedimento de fiscalização os Recorrentes, tanto em manifestação de inconformidade como agora em sede recursal, não trouxeram qualquer argumento ou documento apto a desconstituí-los, insistindo tão somente em sua boa-fé, o que nos termos do procedimento fiscal ficou descaracterizada. Assim, considerando que se trata de réplica das razões impugnatórias, que também em recuso voluntário não foi apresentado qualquer argumento ou documento apto a afastar as conclusões apuradas no processo de fiscalização e que a decisão da DRJ foi acertada ao manter o lançamento, adoto-a e reproduzo-a em relação à preliminar e em relação ao mérito da autuação como fundamento no presente voto, nos termos do art. 114, §12 do RICARF aprovado pela Portaria MF nº 1.634/2023 . “(...) 36. No mérito, ao adentrarmos no que consta dos autos, verifica-se que a fiscalização efetuou amplo trabalho de auditoria nas escriturações contábil e fiscal Fl. 27492DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 39 da contribuinte, diligências vinculadas em fornecedores e clientes da fiscalizada, além da análise dos documentos compartilhados da “Operação Blindagem Metálica”, de onde constatou que teria ocorrido a utilização e registro de notas fiscais inidôneas nos dois anos calendários fiscalizados. No ano calendário 2018, a autoridade tributária constatou que a contabilidade seria omissa e deficiente, enquanto no ano calendário de 2019, a fiscalização verificou ainda que teria ocorrido o registro contábil em duplicidade de 765 notas fiscais de compra e que os registro de notas fiscais inidôneas seriam mais de 66% das escriturações do ano. Especificamente em relação ao IPI, a autoridade constatou que a impugnante registrou suas notas fiscais de venda sem os correspondentesregistros dos valores devidos do IPI. 37. Na presente apuração fiscal ficou caracterizado que a impugnante, na condição de estabelecimento industrial ou equiparado, deixou de escriturar os débitos de IPI, lançados em suas Notas Fiscais de Saída, e de recolher os correspondentes valores devidos, em desrespeito à legislação do imposto. 38. De outro lado, a defesa argumentou no sentido de uma “ausência de indícios de fraude ou vícios contábeis nos registros apresentados”. Afirmou que a contabilidade da empresa estaria em conformidade com as normas contábeis e fiscais, refletindo suas operações de maneira fidedigna. 39. Alegou ainda que no seu entender o princípio do contraditório e da ampla defesa garantiriam aos contribuintes, durante o processo fiscalizatório, que estes poderiam retificar as “discrepâncias identificadas em suas declarações”, sem a imposição imediata de sanções. 40. Em relação a esta última argumentação da defesa, considero que o entendimento da impugnante está equivocado e merece um esclarecimento. Ressalto que o princípio do contraditório e da ampla defesa garantem aos contribuintes, em relação aos processos aos quais sejam parte, amplo acesso às informações processuais, com a garantia de poder se manifestar e apresentar seus argumentos e respostas dentro do processo, podendo, inclusive, utilizar todos os meios legais para defender seus interesses. No entanto, tal princípio, uma vez instalado procedimento fiscalizatório, de maneira alguma autoriza que a empresa fiscalizada possa retificar as declarações para corrigir eventuais discrepâncias para, assim, evitar a imposição das sanções decorrentes. Tal situação fica mais clara com a leitura do § 1° do artigo 7º do decreto nº 70.235/1972, que novamente reproduzo: Art. 7º O procedimento fiscal tem início com: (Vide Decreto nº 3.724, de 2001 I - o primeiro ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, cientificado o sujeito passivo da obrigação tributária ou seu preposto; II - a apreensão de mercadorias, documentos ou livros; III - o começo de despacho aduaneiro de mercadoria importada. Fl. 27493DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 40 § 1° O início do procedimento exclui a espontaneidade do sujeito passivo em relação aos atos anteriores e, independentemente de intimação a dos demais envolvidos nas infrações verificadas. (grifos meus) 41. Como visto, após iniciado o procedimento fiscal a contribuinte perde a espontaneidade e já não detém a possibilidade para retificar os registros das declarações contábeis/fiscais do período fiscalizado. 42. Ressalto ainda que, conforme já analisado nas preliminares de nulidade, o presente processo respeitou o pleno exercício do direito constitucional ao contraditório e à ampla defesa das impugnantes. 43. Esclarecimento feito, continuemos na análise do outro argumento apresentado pela impugnante. 44. Destaco que, conforme disposto nos artigos 15 e 16 do Decreto nº 70.235/1972, abaixo reproduzidos, a defesa, com a finalidade comprovar que os seus registros contábeis não continham vícios, indícios de fraude ou deficiências e que estariam em conformidade com as normas contábeis e fiscais, refletindo suas operações de maneira fidedigna, deveria, necessariamente, instruir sua impugnação com as suas razões e justificativas devidamente acompanhadas de documentos e elementos de provas que pudessem dar respaldo às suas alegações: Art. 15. A impugnação, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, será apresentada ao órgão preparador no prazo de trinta dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência. Art. 16. A impugnação mencionará: [...] III - os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; [...] § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazê-lo em outro momento processual, a menos que: (Grifos meus) 45. Ao analisarmos todos os elementos de provas apresentadas junto à impugnação (fls.14.559 a 14.996), constata-se que a defesa anexou uma gama variada e uma grande quantidade de provas documentais. Cito como exemplo dos documentos apresentados as copias de inscrição e de situação cadastral em secretarias de fazenda e na Receita federal de diversas empresas, algumas Danfes com a fiscalizada como destinatária, contratos de locação de galpão, notas fiscais de transportadoras tendo a fiscalizada como remetente, cópia de extrato bancário Fl. 27494DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 41 da impugnante, cópia de e-mails com pedidos e de contratos de fornecimento endereçadas à fiscalizada, dentre outros documentos. 46. Cabe ressaltar, no entanto, que apesar da variedade e quantidade de documentos apresentados, verifica-se que a impugnante não instruiu e nem apresentou elementos mínimos de prova que pudessem embasar seus argumentos de que os seus registros contábeis refletiriam suas operações de maneira fidedigna, ou de que os mesmos não conteriam vícios, indícios de fraude ou deficiências que possibilitassem a apuração correta do IPI. Com isto, entendo que a defesa não apresentou elementos mínimos que pudessem caracterizar como descabida, a constatação fiscal de que a impugnante registrou suas notas fiscais de venda sem os correspondentes registros dos valores do IPI. Não há elementos para descaracterizar a infração fiscal. 47. Desta forma, após ratificada neste julgamento administrativo a caracterização da infração fiscal, iniciemos a análise das alegações da impugnante de que a apuração do tributo devido, efetuada pela autoridade fiscal, seria equivocada. 48. Nesse quesito, a impugnante, nas suas argumentações, não evidenciou quais seriam os pontos específicos da apuração fiscal em que, supostamente, a autoridade tributária teria cometido o equívoco, limitando-se a enfatizar uma suposta fiscalização “precariamente realizada” e que documentos necessários para análise as operações da impugnante não teriam sido considerados em sua totalidade. Alegou, também, que como as empresas do grupo LATASA teriam retificado as suas declarações e desconsiderado em suas escriturações contábil/fiscal os documentos da impugnante, entendeu, com isto, que a consequência na apuração fiscal seria que os valores dos débitos deveriam ser recalculados. 49. Na apuração fiscal do IPI devido dos anos calendários de 2018 e 2019, constante no Anexo VII do TVF (fls.14.466), verifico que a fiscalização considerou o valor de todas as notas de venda e de devolução de venda, excluindo-se as notas fiscais consideradas inidôneas. 50. Ainda em relação à apuração fiscal, e ao contrário do argumentado pela impugnante, verifico que a autoridade tributária efetuou um amplo trabalho de auditoria nos documentos fiscais da contribuinte e nas escriturações contábil/fiscal, analisando minuciosamente quais documentos efetivamente representavam as operações de fato da impugnante e, também, quais eram inidôneos e, consequentemente, foram excluídos da apuração fiscal. Entre os documentos inidôneos estavam as notas fiscais emitidas pela impugnante para as empresas do grupo LATASA. 51. De outro lado, constata-se que a impugnante, na sua defesa, não apresentou evidências comprobatórias e nem provas materiais de que teria ocorrido falha na apuração efetuada por fiscalização “precariamente realizada” e nem identificou qual das suas operações não teria sido considerada na apuração do IPI devido. Fl. 27495DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 42 52. Diante do todo o exposto e da ausência da apresentação pela defesa de elementos mínimos para embasar suas argumentações, considero correta a apuração fiscal efetuada. (...)” Já em relação a responsabilidade solidária do Recorrente THIAGO HENRIQUE TEODORO, igualmente aos demais argumentos, não há qualquer fundamento e provas aptos a descaracterizá-la insistindo o Recorrente na tese da necessidade de nova diligência para apuração dos fatos. Assim, também neste ponto adoto os fundamentos da decisão recorrida, vejamos: 79. A fiscalização acusou o senhor Thiago Henrique Theodoro de ter participação direta na orquestração e a operacionalização do esquema de emissão e registro de notas fiscais de operações inexistentes. Afirmou que a tentativa de ludibriar o fisco com emissão de notas fiscais de operações inexistentes, circulação simulada de mercadorias e a omissão de rendimentos mediante fraude caracterizam infração a lei. 80. Com isto, com base no artigo 135 do CTN, a autoridade fiscal imputou responsabilidade solidaria e pessoal ao senhor Thiago Henrique Theodoro. 81. A defesa argumentou que a fraude atribuída à empresa fiscalizada seria derivada de “análise precária de documentos” e de fiscalização incompleta e que não haveria certeza do envolvimento doloso da impugnante fiscalizada. 82. Sobre esta última argumentação da defesa, entendo que a mesma deve ser afastada de plano, uma vez que conforme já visto nas análises das preliminares de nulidade, do mérito do litígio e da multa qualificada aplicada não ocorreu a “análise precária de documentos”, nem deficiências de fiscalização alegadas, ficando plenamente caracterizada que a conduta da empresa fiscalizada a enquadraria em todas as infrações delituosas estabelecidos nos artigos 71,72 e 73 da Lei nº 4.502/64, incluída, entre outras condutas dolosas, está a omissão dolosa da escrituração dos débitos de IPI, que foram discriminados e lançados nas Notas Fiscais das operações de Saída, em desrespeito claro à legislação do citado tributo, o que caracteriza a sonegação, prevista no artigo 71 da citada lei. 83. A defesa também alegou que seria incabível a responsabilização do sócio administrador por ausência de comprovação dos requisitos constantes no artigo 135 do CTN. 84. Reproduzo abaixo o artigo 135 do CTN: Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I - as pessoas referidas no artigo anterior; Fl. 27496DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 43 II - os mandatários, prepostos e empregados; III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. (grifos meus) 85. Da leitura do dispositivo acima reproduzido, infere-se que é atribuída responsabilidade pessoal à pessoa física, na condição de gerência ou representante da pessoa jurídica fiscalizada, quando as obrigações tributárias lançadas forem resultantes de seus atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. 86. Conforme já verificado neste voto, o senhor Thiago Henrique Theodoro, único sócio da empresa fiscalizada, detém plenos poderes para representá-la perante a Receita Federal do Brasil. A título ilustrativo reproduzo novamente trecho da impugnação, onde o senhor Thiago se apresenta como representante legal da empresa fiscalizada e assina a peça impugnatória: Processo Administrativo n' 19515.7200052023-85 Referente ao Procedimento Fiscal n' 0819000.2020.00565 TEODORO E MORAES INDUSTRIA COMERCIO E DISTRIBUIDORAS DE METAIS LTDA., pessoa jurídica de direito privado, inscrita no CNPJ sob o nº 13.361.398/0001-33, sediada na Rodovia Índio Tibiriçá, 3863, Vila Sol Nascente, Suzano/SP, CEP 08655- 000, por seu representante legal THIAGO HENRIQUE TEODORO, inscrito no CPF, MF sob o nº 070.051.376-04, residente e domiciliado à Rua Gonroku Yoshimoto, 400, Casa 54, Guaio, Suzano/SP. CEP 08664-465, o qual também figura como sujeito passivo no Auto de Infração em epígrafe, vem, tempestivamente, com fundamento no Decreto nº 70.235/72, apresentar IMPUGNAÇÃO ao referido Auto de Infração, pelas razões de fato e de direito a seguir articuladas. (grifos e negritos meus) 87. Como visto, fica bastante claro que o senhor Thiago Henrique Theodoro, além de plenos poderes para representar a contribuinte, detinha também amplo conhecimento gerencial de todo o processo auditado e fiscalizado, a ponto de avocar para si a responsabilidade e efetivamente exercer a sua defesa e a da empresa fiscalizada na peça impugnatória. 88. Neste ponto da análise, cabe acrescentar o entendimento expresso no Parecer PGFN/CRJ/CAT nº 55/2009, cujos trechos são citados abaixo, que tem como fundamento a jurisprudência dominante do STJ, e trata da matéria referente à responsabilidade tributária derivada da aplicação do artigo 135, inciso III, do CTN: CONSEQUÊNCIAS DA ADOÇÃO DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA 96.A consequência jurídica principal da conclusão de que o administrador que comete ato ilícito, no exercício da gerência, responde solidariamente com a pessoa jurídica pelo crédito tributário, sem benefício de ordem, é a de Fl. 27497DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 44 que ele, nesse caso, deve ser considerado “sujeito passivo” e “devedor” para efeito de aplicação da legislação tributária em geral. É ele “sujeito passivo” porque, por força do art. 121, parágrafo único, II, do CTN, todo responsável é sujeito passivo tributário. É ele “devedor” em razão de que a pretensão do Fisco para com ele é exigível independentemente da solvabilidade da pessoa jurídica. (...) VII CONCLUSÃO 106.Em resumo, alinhamos aqui os fundamentos e as conclusões do presente Parecer: a) A responsabilidade do dito “sócio-gerente”, de acordo com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, decorre de sua condição de “gerente” (administrador), e não da sua condição de sócio; b) A responsabilidade do administrador, por força do art. 135 do CTN, na linha da jurisprudência do STJ, é subjetiva e decorre de prática de ato ilícito; c) Para efeito de aplicação do art. 135, III, do CTN, responde também a pessoa que, de fato, administra a pessoa jurídica, ainda que não constem seus poderes expressamente do estatuto ou contrato social; (...) j) A jurisprudência do STJ aponta para a responsabilidade solidária, inclusive em precedentes desfavoráveis à Fazenda Nacional, em que se afirma que o “sócio” só pode ser responsabilizado solidariamente se detiver poderes de gerência e se tiver praticado ato ilícito no exercício dessa gerência, na forma do art. 135, III, do CTN; k) a análise sistemática da ordem jurídica aponta para a responsabilidade solidária dos administradores, visto que estes, no regramento do Código Civil (art. 1.016), respondem solidariamente perante terceiros (inclusive o Estado) pela prática de atos ilícitos; não haveria sentido em ser o crédito tributário menos garantido que o crédito comum; l) a obrigação do responsável é autônoma à da pessoa jurídica no que tange à natureza (licitude ou ilicitude do fato jurídico), ao nascimento (momento do surgimento) e à cobrança (exigência simultânea ou não), mas é subordinada no que tange à existência, validade e eficácia; a obrigação da pessoa jurídica contribuinte, por sua vez, independe da obrigação do responsável no que tange a esses elementos; (grifos meus) 89. Pela leitura do citado Parecer, a responsabilidade pessoal do administrador, nos termos do artigo 135, inciso III, do CTN, se aplica pela prática de ato ilícito, quando no exercício da gerência ou como representante da pessoa jurídica fiscalizada. Tal responsabilização deve decorrer de ato praticado com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. Fl. 27498DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 45 90. No presente caso, conforme já amplamente explicitado nas análises de mérito do litígio e na correta aplicação da multa qualificada, que a conduta da empresa fiscalizada se amolda perfeitamente como sendo de atos ilícitos, com infração clara à legislação tributária. 91. Para perfeita adequação da acusação fiscal ao entendimento constante do citado parecer, é necessária a comprovação de que a conduta ilícita, com infração à legislação tributária, derivou de atos executados pelo senhor Thiago Henrique Theodoro, no exercício da gerência ou atuando como representante legal da fiscalizada. 92. Ao analisarmos os documentos de representação extraído da resposta ao Termo de Início de Procedimento Fiscal (TIF) (fls. 26) e, também, da peça impugnatória (fls.14.565), trechos abaixo reproduzidos, verifico que o senhor Thiago Henrique Theodoro sempre esteve a frente da administração da fiscalizada: 93. Ao adentramos no que consta nos outros documentos dos autos, constato pelo relato fiscal que diversas empresas diligenciadas confirmaram que as transações comerciais eram realizadas diretamente com o senhor Thiago Henrique Theodoro. Entre as empresas diligenciadas citadas estão a Conny Com. de Materiais Elétricos e Metais Eirelli, a Recivalle – Ind e Com. de Metais S.A. (Latasa Metais S.A), a Latasa – Industria e Comércio Ltda. e a Latasa Metais Ltda. Cabe ressaltar que todos os documentos fiscais trocados entre a fiscalizada e as empresas diligenciadas citadas foram considerados inidôneos, pois se referiam a transações comerciais simuladas. 94. Com a verificação de que a administração da fiscalizada sempre esteve a seu cargo e a confirmação efetuada nas diligências fiscais de que efetivamente participou diretamente de negociações fictícias, entendo que ficou comprovada a participação direta do senhor Thiago Henrique Theodoro no gerenciamento e operacionalização de operações simuladas e fraudulentas. 95. Também da comprovação da administração direta da empresa fiscalizada pelo senhor Thiago Henrique Theodoro, considero que também ficou plenamente Fl. 27499DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 46 caracterizada a sua participação na omissão dolosa da escrituração dos débitos de IPI, que foram discriminados e lançados nas Notas Fiscais das operações de Saída, caracterizando a sonegação, em desrespeito claro à legislação do citado tributo. 96. A fiscalização ainda apontou a participação direta do senhor Thiago Henrique Theodoro na simulação de pagamentos de aquisições simuladas e fraudulentas, conforme trecho extraído do demonstrativo de responsáveis tributários, constantes do auto de infração de IRPJ (fls.14.475): No Termo de Verificação Fiscal anexo ao presente Auto de Infração está demonstrado que o sócio/administrador da empresa agiu com dolo na administração da empresa, seja por utilizar de documentos fiscais cientes de acobertarem uma transação fictícia já que a simulação de pagamento das aquisições fraudulentas deu-se através de utilização de sua conta bancária, mas também atuando ainda ativamente na produção de vendas simuladas(grifos e negritos meus) 97. Nesse quesito, consta que a autorização que permitiu o acesso da fiscalização à movimentação financeira da empresa fiscalizada foi autorizada e assinada, isoladamente, pelo senhor Thiago Henrique Theodoro (fls.11 a 13) 98. Complementarmente, reproduzo recortes fornecidos pelas instituições financeiras, nas quais o senhor Thiago Henrique Theodoro figura como a única pessoa física, representante legal, autorizada a movimentar as contas bancárias da fiscalizada junto as instituições bancárias Banco Itau (fls.435), Banco Santander (fls.650) e Banco BRADESCO (fls. 804): Fl. 27500DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 47 99. Com isto, considero que ficou patente que todas as movimentações financeiras da empresa fiscalizada foram autorizadas diretamente pelo senhor Thiago Henrique Theodoro, inclusive aquelas transações em que ficou caracterizada a simulação de pagamentos de operações comerciais inexistentes. 100. Diante de todas as evidências apresentadas, entendo que ficou claro e comprovado que o impugnante, senhor Thiago Henrique Theodoro, no exercício da gerência ou atuando como representante legal da fiscalizada, efetivamente cometeu todos os atosilícitosimputados, com clara infração à legislação tributária. 101. Desta forma, entendo como correta a imputação da responsabilidade pessoal e solidária ao senhor Thiago Henrique Theodoro. (...)” Por fim, em relação ao argumento da inaplicabilidade da multa de 100% por violação ao não confisco, proporcionalidade e capacidade contribuitiva é imperioso destacar que a análise implicaria em juízo de constitucionalidade, o que não é oponível na esfera administrativa de julgamento, uma vez que sua apreciação foge à competência legal deste colegiado para Fl. 27501DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.702 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 19515.720005/2023-85 48 examinar possíveis violações às normas legitimamente inseridas no ordenamento jurídico. Neste sentido, é a súmula nº 02 do CARF: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Neste sentido, por não caber a este colegiado apreciar, tampouco afastar a aplicação de lei tributária válida e vigente, o recurso voluntário não deve ser conhecido neste ponto. Dispositivo Diante do exposto, voto em conhecer parcialmente do recurso voluntário e, na parte conhecida, rejeitar as preliminares e negar provimento aos Recursos voluntários. Assinado Digitalmente Keli Campos de Lima Fl. 27502DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 13971.901039/2018-48
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 17 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Feb 24 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2014 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. VÍCIOS DE OMISSÃO. Devem ser acolhidos os embargos de declaração quando se constatam vícios na decisão embargada como omissões sobre pontos que deveriam ser apreciados.
Numero da decisão: 3301-014.882
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher, parcialmente, os embargos de declaração, integrando o acórdão com as razões relativas ao indeferimento da diligência e à possibilidade de revisão de ofício, sem, contudo, atribuir-lhes efeitos infringentes. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3301-014.834, de 17 de dezembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 13971.720087/2017-56, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Paulo Guilherme Deroulede – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcio Jose Pinto Ribeiro, Bruno Minoru Takii, Marcelo Enk de Aguiar (substituto[a] integral), Rachel Freixo Chaves, Keli Campos de Lima, Paulo Guilherme Deroulede (Presidente). Ausente(s) o conselheiro (a Rodrigo Kendi Hiramuki, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Marcelo Enk de Aguiar.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE

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conteudo_txt : Metadados => date: 2026-02-24T11:11:20Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-02-24T11:11:20Z; Last-Modified: 2026-02-24T11:11:20Z; dcterms:modified: 2026-02-24T11:11:20Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-02-24T11:11:20Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-02-24T11:11:20Z; meta:save-date: 2026-02-24T11:11:20Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-02-24T11:11:20Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-02-24T11:11:20Z; created: 2026-02-24T11:11:20Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 8; Creation-Date: 2026-02-24T11:11:20Z; pdf:charsPerPage: 1579; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-02-24T11:11:20Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 13971.901039/2018-48 ACÓRDÃO 3301-014.882 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 17 de dezembro de 2025 RECURSO EMBARGOS EMBARGANTE CIA. HERING INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2014 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. VÍCIOS DE OMISSÃO. Devem ser acolhidos os embargos de declaração quando se constatam vícios na decisão embargada como omissões sobre pontos que deveriam ser apreciados. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher, parcialmente, os embargos de declaração, integrando o acórdão com as razões relativas ao indeferimento da diligência e à possibilidade de revisão de ofício, sem, contudo, atribuir-lhes efeitos infringentes. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3301-014.834, de 17 de dezembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 13971.720087/2017-56, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Paulo Guilherme Deroulede – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcio Jose Pinto Ribeiro, Bruno Minoru Takii, Marcelo Enk de Aguiar (substituto[a] integral), Rachel Freixo Chaves, Keli Campos de Lima, Paulo Guilherme Deroulede (Presidente). Ausente(s) o conselheiro (a Rodrigo Kendi Hiramuki, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Marcelo Enk de Aguiar. Fl. 1574DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.882 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.901039/2018-48 2 RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista no art. 87, §§ 1º, 2º e 3º, do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de embargos de declaração opostos pelo contribuinte, em face de Acórdão de Recurso Voluntário, nos quais alega os seguintes vícios: 1. Erro na premissa de que não teriam sido apresentados os documentos que comprovassem o direito creditório e que a discussão é eminentemente conceitual; 2. Erro na premissa adotada pelo acórdão que teria afirmado que a Embargante teria anexado documentos que não guardariam relação com a competência ora em análise; 3. Contradição entre o indeferimento do pedido de diligência, por desnecessidade, e a conclusão de validade do despacho decisório, por supostamente ter analisado os documentos e concluído que não se caracterizariam como insumos, para fins de crédito de PIS e Cofins; 4. Contradição quanto à suficiência dos documentos que comprovam as despesas objeto do recurso voluntário, pios se os documentos apresentados pela embargante durante o procedimento de Fiscalização foram suficientes para o julgamento da DRJ porque não seriam supostamente suficientes para o julgamento do CARF; 5. Omissão quanto ao fato de que todos os documentos foram apresentados perante a Fiscalização; 6. Omissão quanto à análise dos documentos apresentados por amostragem em relação aos bens importados para revenda; 7. Omissão quanto aos fundamentos que demonstraram a nulidade da revisão de ofício. O despacho de admissibilidade admitiu parcialmente os embargos, para sanar a obscuridade quanto à validação do despacho decisório, a contradição quanto à rejeição da diligência e a omissão quanto aos fundamentos que demonstraram a nulidade da revisão de ofício”. É o relatório. Fl. 1575DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.882 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.901039/2018-48 3 VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: A embargante tomou ciência do acórdão embargado em 03/02/2023, opondo os embargos em 08/02/2023, dentro do prazo de cinco dias previsto no artigo 116 do Anexo do Regimento Interno do CARF, sendo, portanto, tempestivos. Passo à análise dos vícios alegados. Contradição entre o indeferimento do pedido de diligência, por desnecessidade, e a conclusão de validade do despacho decisório, por supostamente ter analisado os documentos e concluído que não se caracterizariam como insumos, para fins de crédito de PIS e Cofins Quanto à validade do despacho decisório, a embargante alega obscuridade na afirmação de que o Despacho Decisório teria avaliado a essencialidade e relevância dos bens e serviços tomados pela embargante como insumos, conforme o excerto abaixo da decisão: “No despacho decisório consta expressamente que a certeza e liquidez do indébito pleiteado, decorrente de desconto de créditos do PIS, foram analisadas a partir da documentação apresentada pela recorrente. No entendimento daquela autoridade, os custos/despesas com bens e/ ou serviços cujos créditos foram glosados não constituem insumos e/ ou não são essenciais nem relevantes ao desenvolvimento de sua atividade econômica.” Contudo, no tópico “2. FUNDAMENTOS, item 2.1 – O Conceito de Insumos” do Despacho Decisório, a autoridade fiscal avaliou os insumos da embargante com base nas IN SRF nº 247/2002 e 404/2004, com a seguinte conclusão feita: “Muito embora tal conceito suscite entre contribuintes e esta Secretaria discussões quanto a seu alcance, em sede administrativa tais controvérsias há muito perderam sentido. Por meio das Instruções Normativas SRF nº 247/2002 e nº 404/2004, ficou claro que por insumos devem ser entendidos aqueles bens e serviços que sejam diretamente utilizados no processo produtivo, em detrimento de teorias que defendam ser insumo todo e qualquer ônus suportado pela pessoa jurídica, como claramente demonstram as normas a seguir: [...] Fl. 1576DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.882 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.901039/2018-48 4 Como se depreende, tanto um bem quanto um serviço podem ser considerados insumos, desde que atendidos os requisitos abaixo: a) Quando se trata de um bem utilizado na fabricação de produtos, ele deve: • exercer ação direta sobre o produto em fabricação; • sofrer alteração sob a forma de desgaste, dano ou perda de propriedade física ou química e; • não estar incluído no ativo imobilizado. b) Quando se trata de um bem utilizado na prestação de serviços, ele deve: • ser consumido na prestação deste serviço e; • não estar incluído no ativo imobilizado. c) Quando se trata de um serviço utilizado na fabricação de produtos, ele deve: • ser prestado por pessoa jurídica domiciliada no país e; • ser aplicado ou consumido na produção ou fabricação do produto. d) Quando se trata de um serviço utilizado na prestação de serviços, ele deve: • ser prestado por pessoa jurídica domiciliada no país e; • ser aplicado ou consumido na prestação do serviço.” Destarte, é evidente que o Despacho Decisório não avaliou a essencialidade e/ou a relevância dos insumos, pois estava sob a égide das instruções normativas, posteriormente, declaradas ilegais pelo STJ no REsp 1.221.170/PR. Assim, o excerto acima transcrito da decisão deve ser alterado para: “No despacho decisório consta expressamente que a certeza e liquidez do indébito pleiteado, decorrente de desconto de créditos do PIS, foram analisadas a partir da documentação apresentada pela recorrente. No entendimento daquela autoridade, os custos/despesas com bens e/ ou serviços cujos créditos foram glosados não constituem insumos, nos termos das IN SRF nº 247/2002 e 404/2004, às quais estava a autoridade fiscal vinculada à época.” Contudo, o fato de o Despacho Decisório ter adotado um conceito de insumos, posteriormente declarado ilegal, não o torna ato nulo, nos termos do artigo 591 do Decreto nº 70.235/72. Apenas que deve ser reformado, para que os insumos sejam apreciados sob os critérios adotados no REsp 1.221.170/PR. 1 Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Fl. 1577DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.882 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.901039/2018-48 5 Assim, acolho os embargos nesta parte, para sanar a obscuridade, sem imprimir-lhes efeitos infringentes. Quanto ao indeferimento do pedido de diligência, a decisão embargada fundamentou a desnecessidade de diligência nos seguintes termos: “A recorrente requereu a baixa dos autos em diligência para verificar se foi observado o conceito de insumos dado pelo STJ no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. No entanto, trata-se de pedido desnecessário, tendo em vista que o julgamento nesta fase recursal levará em conta o conceito de insumos dado pelo STJ naquele julgamento.” A meu ver, não há contradição, pois se o pedido de diligência é apenas para fazer a subsunção dos itens glosados ao conceito definido pelo STJ e a decisão iria realizar a subsunção, não haveria motivo para o deferimento da diligência. Já a questão relativa à documentação juntada aos autos ser suficiente, ou não, à subsunção do conceito de insumo não é fundamento à realização de diligência, se a recorrente teve oportunidade para juntar essa documentação aos autos. Por certo, quando da interposição da manifestação de inconformidade, não havia decisão do STJ proferida no REsp 1.221.170/PR. Contudo, na interposição do recurso voluntário, em 18/12/2019, já havia sido proferida a decisão do STJ, inclusive emitido o Parecer Cosit nº 5/2018, o que possibilitou à recorrente juntar quaisquer outros documentos que entendesse necessário para a subsunção dos insumos glosados aos critérios de essencialidade e relevância definidos no REsp 1.221.170/PR, nos termos da alínea “b”2 do §4º do artigo 16 do Decreto nº 70.235/72 Assim, o acórdão deve ser integrado com o fundamento acerca da função da diligência no processo administrativo fiscal. Neste sentido, o ônus da prova, como já mencionado em outros capítulos, cabe a quem alega o direito. Destarte, deve ser aplicado o artigo 16 do Decreto nº 70.235/72 e o artigo 373 do CPC, ou seja, caberia ao contribuinte juntar em recurso 2 § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazê-lo em outro momento processual, a menos que: (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) b) refira-se a fato ou a direito superveniente; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) c) destine-se a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) Fl. 1578DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.882 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.901039/2018-48 6 voluntário os documentos suficientes à subsunção das glosas de insumos aos critérios do REsp 1.221.170/PR, não destinando a diligência a suprir deficiência probatória que já poderia ter sido suprida por ocasião da interposição da peça recursal. Portanto, acolho os embargos neste tópico, devendo o acórdão embargado ser integrado com as razões acima delineadas, sem efeitos infringentes. Omissão quanto aos fundamentos que demonstraram a nulidade da revisão de ofício A embargante alega que o acórdão embargado não apreciou os fundamentos aduzidos no recurso voluntário sobre a nulidade da revisão de ofício das compensações homologadas tacitamente, em desacordo com os arts. 145, 146 e 149 do CTN. No item 2.2 do recurso voluntário, a embargante aduziu que a revisão de ofício com base no artigo 149, inciso VIII do CTN, não seria aplicável à situação dos autos, tendo em vista o julgamento do REsp 1.130.545/RJ, sob a sistemática de recursos repetitivos, esclarecendo que somente fatos novos, desconhecidos pelo Fisco quando do lançamento ensejariam a possibilidade de revisão do lançamento anterior realizado. Alegou que houve alteração de critério jurídico quanto à essencialidade e relevância dos bens/serviços utilizados como insumos, ensejando a nulidade da revisão de ofício. Por sua vez, a decisão embargada consignou que “Ao contrário do entendimento da recorrente, a decisão revisora da autoridade administrativa está amparada no art. 145 c/c o art. 149, inciso VIII, ambos do CTN.” O caso concreto diz respeito à revisão de ofício da DCOMP 24023.41817.250912.1.7.04-3178, conforme excerto do Despacho Decisório: “Consta nos sistemas da Receita Federal do Brasil que a Declaração de Compensação no 24023.41817.250912.1.7.04-3178 encontra-se homologada, motivo pelo qual, no que tange a esta Declaração, a presente análise tem natureza de revisão de ofício.” Quanto à possibilidade de revisão de despacho decisório, entendo que a Administração Pública possui o poder-dever de anular de ofício os próprios atos eivados de ilegalidade, decorrente do princípio da autotutela. Neste sentido as Súmulas nº 346 e 473 do STF e os artigos 53 e 54 da Lei nº 9.784, de 1.999: Fl. 1579DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.882 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.901039/2018-48 7 Súmula nº 346: A Administração Pública pode declarar a nulidade dos seus próprios atos. Súmula nº 473: A Administração pode anular seus próprios atos, quando eivados de vícios que os tornam ilegais, porque deles não se originam direitos; ou revogá-los, por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos, e ressalvada, em todos os casos, a apreciação judicial. Lei nº 9.784/99: Art. 53. A Administração deve anular seus próprios atos, quando eivados de vício de legalidade, e pode revogá-los por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos. Art. 54. O direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos, contados da data em que foram praticados, salvo comprovada má-fé. O caso diz respeito a declaração de compensação, cujos créditos pleiteados devem ser líquidos e certos, a teor do artigo 170 do CTN. Ademais, não se trata de lançamento para constituição de crédito tributário, nos termos do artigo 149 do CTN, uma vez que os tributos objeto da declaração de compensação consistem em confissão de dívida e já estão lançados. Não houve lançamento de crédito tributário anterior ou posterior, sendo inaplicáveis ao caso os artigos 146 e 149 do CTN. Ademais, o art. 146 do CTN diz respeito à alteração de critério jurídico pela Administração Tributária de forma geral a ser aplicada a fatos futuros e não a decisões individuais no âmbito do contencioso administrativo, as quais não prospectam efeitos para os contribuintes em relação a fatos geradores futuros. Diante do exposto, voto para acolher, parcialmente, os embargos de declaração, integrando o acórdão com as razões relativas ao indeferimento da diligência e à possibilidade de revisão de ofício, sem, contudo, atribuir- lhes efeitos infringentes. Fl. 1580DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.882 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.901039/2018-48 8 Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de acolher, parcialmente, os embargos de declaração, integrando o acórdão com as razões relativas ao indeferimento da diligência e à possibilidade de revisão de ofício, sem, contudo, atribuir-lhes efeitos infringentes. Assinado Digitalmente Paulo Guilherme Deroulede – Presidente Redator Fl. 1581DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 13971.905759/2012-97
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 17 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Feb 24 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2011 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. VÍCIOS DE OMISSÃO. Devem ser acolhidos os embargos de declaração quando se constatam vícios na decisão embargada como omissões sobre pontos que deveriam ser apreciados. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2011 DILIGÊNCIA. INDEFERIMENTO. A realização de diligência requerida com a finalidade de suprir a falta de apresentação de provas no momento processual oportuno deve ser indeferida. REVISÃO DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. PRINCÍPIO DA AUTOTUTELA. SÚMULAS 346 E 473 DO STF. LEI Nº 9.784/99, ARTS. 53 E 54. A Administração Pública possui o poder-dever de anular de ofício os próprios atos eivados de ilegalidade, decorrente do princípio da autotutela, conforme as Súmulas nº 346 e 473 do STF e os artigos 53 e 54 da Lei nº 9.784, de 1.999.
Numero da decisão: 3301-014.907
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher, parcialmente, os embargos de declaração, integrando o acórdão com as razões relativas ao indeferimento da diligência e à possibilidade de revisão de ofício, sem, contudo, atribuir-lhes efeitos infringentes. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3301-014.903, de 17 de dezembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 13971.905755/2012-17, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Paulo Guilherme Deroulede – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcio Jose Pinto Ribeiro, Bruno Minoru Takii, Marcelo Enk de Aguiar (substituto[a] integral), Rachel Freixo Chaves, Keli Campos de Lima, Paulo Guilherme Deroulede (Presidente). Ausente(s) o conselheiro (a Rodrigo Kendi Hiramuki, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Marcelo Enk de Aguiar.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE

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HERING INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2011 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. VÍCIOS DE OMISSÃO. Devem ser acolhidos os embargos de declaração quando se constatam vícios na decisão embargada como omissões sobre pontos que deveriam ser apreciados. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2011 DILIGÊNCIA. INDEFERIMENTO. A realização de diligência requerida com a finalidade de suprir a falta de apresentação de provas no momento processual oportuno deve ser indeferida. REVISÃO DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. PRINCÍPIO DA AUTOTUTELA. SÚMULAS 346 E 473 DO STF. LEI Nº 9.784/99, ARTS. 53 E 54. A Administração Pública possui o poder-dever de anular de ofício os próprios atos eivados de ilegalidade, decorrente do princípio da autotutela, conforme as Súmulas nº 346 e 473 do STF e os artigos 53 e 54 da Lei nº 9.784, de 1.999. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher, parcialmente, os embargos de declaração, integrando o acórdão com as razões relativas ao indeferimento da diligência e à possibilidade de revisão de ofício, sem, contudo, atribuir-lhes efeitos infringentes. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3301-014.903, de 17 de dezembro de 2025, prolatado no Fl. 1437DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.907 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.905759/2012-97 2 julgamento do processo 13971.905755/2012-17, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Paulo Guilherme Deroulede – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcio Jose Pinto Ribeiro, Bruno Minoru Takii, Marcelo Enk de Aguiar (substituto[a] integral), Rachel Freixo Chaves, Keli Campos de Lima, Paulo Guilherme Deroulede (Presidente). Ausente(s) o conselheiro (a Rodrigo Kendi Hiramuki, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Marcelo Enk de Aguiar. RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista no art. 87, §§ 1º, 2º e 3º, do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de embargos de declaração opostos pelo contribuinte, em face de Acórdão de Recurso Voluntário, nos quais alega os seguintes vícios: 1. Erro na premissa de que não teriam sido apresentados os documentos que comprovassem o direito creditório e que a discussão é eminentemente conceitual; 2. Erro na premissa adotada pelo acórdão que teria afirmado que a Embargante teria anexado documentos que não guardariam relação com a competência ora em análise; 3. Contradição entre o indeferimento do pedido de diligência, por desnecessidade, e a conclusão de validade do despacho decisório, por supostamente ter analisado os documentos e concluído que não se caracterizariam como insumos, para fins de crédito de PIS e Cofins; 4. Contradição quanto à suficiência dos documentos que comprovam as despesas objeto do recurso voluntário, pois se os documentos apresentados pela embargante durante o procedimento de Fiscalização foram suficientes para o julgamento da DRJ porque não seriam supostamente suficientes para o julgamento do CARF; 5. Omissão quanto ao fato de que todos os documentos foram apresentados perante a Fiscalização; 6. Omissão quanto à análise dos documentos apresentados por amostragem em relação aos bens importados para revenda; Fl. 1438DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.907 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.905759/2012-97 3 7. Omissão quanto aos fundamentos que demonstraram a nulidade da revisão de ofício. O despacho de admissibilidade admitiu parcialmente os embargos, para sanar a obscuridade quanto à validação do despacho decisório, a contradição quanto à rejeição da diligência e a omissão quanto aos fundamentos que demonstraram a nulidade da revisão de ofício”. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: A embargante tomou ciência do acórdão embargado em 10/04/2023, opondo os embargos em 12/04/2023, dentro do prazo de cinco dias previsto no artigo 116 do Anexo do Regimento Interno do CARF, sendo, portanto, tempestivos. Passo à análise dos vícios alegados. Contradição entre o indeferimento do pedido de diligência, por desnecessidade, e a conclusão de validade do despacho decisório, por supostamente ter analisado os documentos e concluído que não se caracterizariam como insumos, para fins de crédito de PIS e Cofins Quanto à validade do despacho decisório, a embargante alega obscuridade na afirmação de que o Despacho Decisório teria avaliado a essencialidade e relevância dos bens e serviços tomados pela embargante como insumos, conforme o excerto abaixo da decisão: “[...] No despacho decisório consta expressamente que a certeza e liquidez do indébito pleiteado, decorrente de desconto de créditos do PIS, foram analisadas a partir da documentação apresentada pela recorrente. No entendimento daquela autoridade, os custos/despesas com bens e/ ou serviços cujos créditos foram glosados não constituem insumos e/ ou não são essenciais nem relevantes ao desenvolvimento de sua atividade econômica.” Contudo, no tópico “2. FUNDAMENTOS, item 2.1 – O Conceito de Insumos” do Despacho Decisório, a autoridade fiscal avaliou os insumos da Fl. 1439DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.907 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.905759/2012-97 4 embargante com base nas IN SRF nº 247/2002 e 404/2004, com a seguinte conclusão feita: “Muito embora tal conceito suscite entre contribuintes e esta Secretaria discussões quanto a seu alcance, em sede administrativa tais controvérsias há muito perderam sentido. Por meio das Instruções Normativas SRF nº 247/2002 e nº 404/2004, ficou claro que por insumos devem ser entendidos aqueles bens e serviços que sejam diretamente utilizados no processo produtivo, em detrimento de teorias que defendam ser insumo todo e qualquer ônus suportado pela pessoa jurídica, como claramente demonstram as normas a seguir: [...] Como se depreende, tanto um bem quanto um serviço podem ser considerados insumos, desde que atendidos os requisitos abaixo: a) Quando se trata de um bem utilizado na fabricação de produtos, ele deve: • exercer ação direta sobre o produto em fabricação; • sofrer alteração sob a forma de desgaste, dano ou perda de propriedade física ou química e; • não estar incluído no ativo imobilizado. b) Quando se trata de um bem utilizado na prestação de serviços, ele deve: • ser consumido na prestação deste serviço e; • não estar incluído no ativo imobilizado. c) Quando se trata de um serviço utilizado na fabricação de produtos, ele deve: • ser prestado por pessoa jurídica domiciliada no país e; • ser aplicado ou consumido na produção ou fabricação do produto. d) Quando se trata de um serviço utilizado na prestação de serviços, ele deve: • ser prestado por pessoa jurídica domiciliada no país e; • ser aplicado ou consumido na prestação do serviço.” Destarte, é evidente que o Despacho Decisório não avaliou a essencialidade e/ou a relevância dos insumos, pois estava sob a égide das instruções normativas, posteriormente, declaradas ilegais pelo STJ no REsp 1.221.170/PR. Assim, o excerto acima transcrito da decisão deve ser alterado para: “No despacho decisório consta expressamente que a certeza e liquidez do indébito pleiteado, decorrente de desconto de créditos do PIS, foram analisadas a partir da documentação apresentada pela recorrente. No entendimento daquela autoridade, os custos/despesas com bens e/ ou Fl. 1440DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.907 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.905759/2012-97 5 serviços cujos créditos foram glosados não constituem insumos, nos termos das IN SRF nº 247/2002 e 404/2004, às quais estava a autoridade fiscal vinculada à época.” Contudo, o fato de o Despacho Decisório ter adotado um conceito de insumos, posteriormente declarado ilegal, não o torna ato nulo, nos termos do artigo 591 do Decreto nº 70.235/72. Apenas que deve ser reformado, para que os insumos sejam apreciados sob os critérios adotados no REsp 1.221.170/PR. Assim, acolho os embargos nesta parte, para sanar a obscuridade, sem imprimir-lhes efeitos infringentes. Quanto ao indeferimento do pedido de diligência, a decisão embargada fundamentou a desnecessidade de diligência nos seguintes termos: “A recorrente requereu a baixa dos autos em diligência para verificar se foi observado o conceito de insumos dado pelo STJ no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. No entanto, trata-se de pedido desnecessário, tendo em vista que o julgamento nesta fase recursal levará em conta o conceito de insumos dado pelo STJ naquele julgamento.” A meu ver, não há contradição, pois se o pedido de diligência é apenas para fazer a subsunção dos itens glosados ao conceito definido pelo STJ e a decisão iria realizar a subsunção, não haveria motivo para o deferimento da diligência. Já a questão relativa à documentação juntada aos autos ser suficiente, ou não, à subsunção do conceito de insumo não é fundamento à realização de diligência, se a recorrente teve oportunidade para juntar essa documentação aos autos. Por certo, quando da interposição da manifestação de inconformidade, não havia decisão do STJ proferida no REsp 1.221.170/PR. Contudo, na interposição do recurso voluntário, em 18/12/2019, já havia sido proferida a decisão do STJ, inclusive emitido o Parecer Cosit nº 5/2018, o que possibilitou à recorrente juntar quaisquer outros documentos que entendesse necessário para a subsunção dos insumos glosados aos critérios de essencialidade e relevância definidos no 1 Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Fl. 1441DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.907 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.905759/2012-97 6 REsp 1.221.170/PR, nos termos da alínea “b”2 do §4º do artigo 16 do Decreto nº 70.235/72 Assim, o acórdão deve ser integrado com o fundamento acerca da função da diligência no processo administrativo fiscal. Neste sentido, o ônus da prova, como já mencionado em outros capítulos, cabe a quem alega o direito. Destarte, deve ser aplicado o artigo 16 do Decreto nº 70.235/72 e o artigo 373 do CPC, ou seja, caberia ao contribuinte juntar em recurso voluntário os documentos suficientes à subsunção das glosas de insumos aos critérios do REsp 1.221.170/PR, não destinando a diligência a suprir deficiência probatória que já poderia ter sido suprida por ocasião da interposição da peça recursal. Portanto, acolho os embargos neste tópico, devendo o acórdão embargado ser integrado com as razões acima delineadas, sem efeitos infringentes. Omissão quanto aos fundamentos que demonstraram a nulidade da revisão de ofício A embargante alega que o acórdão embargado não apreciou os fundamentos aduzidos no recurso voluntário sobre a nulidade da revisão de ofício das compensações homologadas tacitamente, em desacordo com os arts. 145, 146 e 149 do CTN. No item 2.2 do recurso voluntário, a embargante aduziu que a revisão de ofício com base no artigo 149, inciso VIII do CTN, não seria aplicável à situação dos autos, tendo em vista o julgamento do REsp 1.130.545/RJ, sob a sistemática de recursos repetitivos, esclarecendo que somente fatos novos, desconhecidos pelo Fisco quando do lançamento ensejariam a possibilidade de revisão do lançamento anterior realizado. Alegou que houve alteração de critério jurídico quanto à essencialidade e relevância dos bens/serviços utilizados como insumos, ensejando a nulidade da revisão de ofício. Por sua vez, a decisão embargada consignou que “Ao contrário do entendimento da recorrente, a decisão revisora da autoridade 2 § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazê-lo em outro momento processual, a menos que: (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) b) refira-se a fato ou a direito superveniente; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) c) destine-se a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) Fl. 1442DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.907 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.905759/2012-97 7 administrativa está amparada no art. 145 c/c o art. 149, inciso VIII, ambos do CTN.” O caso concreto diz respeito à revisão de ofício de duas DCOMPs, conforme excerto do Despacho Decisório: “Cuida este processo de análise do Pedido de Restituição nº 40017.61392.171111.1.2.04-1250, cumulado com a(s) Declaração(ões) de Compensação no(s) 01645.04144.211111.1.3.04-9243, 37385.98707.250511.1.3.04-1201 e 33959.29744.060611.1.3.04-4505, estando as duas últimas homologadas desde o segundo trimestre de 2016 e protegidas de reforma pelo decurso do prazo de 5 anos. O crédito solicitado é de pagamento indevido ou a maior do PIS/Pasep nãocumulativo, competência janeiro de 2011, no valor de R$ 55.633,18. Constam nos sistemas da Receita Federal do Brasil o reconhecimento parcial do crédito pleiteado, assim como a homologação da(s) compensação(ões) declarada(s), motivo pelo qual a presente análise tem natureza de revisão de ofício.” Quanto à possibilidade de revisão de despacho decisório, entendo que a Administração Pública possui o poder-dever de anular de ofício os próprios atos eivados de ilegalidade, decorrente do princípio da autotutela. Neste sentido as Súmulas nº 346 e 473 do STF e os artigos 53 e 54 da Lei nº 9.784, de 1.999: Súmula nº 346: A Administração Pública pode declarar a nulidade dos seus próprios atos. Súmula nº 473: A Administração pode anular seus próprios atos, quando eivados de vícios que os tornam ilegais, porque deles não se originam direitos; ou revogá-los, por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos, e ressalvada, em todos os casos, a apreciação judicial. Lei nº 9.784/99: Art. 53. A Administração deve anular seus próprios atos, quando eivados de vício de legalidade, e pode revogá-los por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos. Art. 54. O direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos, contados da data em que foram praticados, salvo comprovada má-fé. O caso diz respeito a declaração de compensação, cujos créditos pleiteados devem ser líquidos e certos, a teor do artigo 170 do CTN. Ademais, não se trata de lançamento para constituição de crédito tributário, nos termos do Fl. 1443DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.907 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13971.905759/2012-97 8 artigo 149 do CTN, uma vez que os tributos objeto da declaração de compensação consistem em confissão de dívida e já estão lançados. Não houve lançamento de crédito tributário anterior ou posterior, sendo inaplicáveis ao caso os artigos 146 e 149 do CTN. Ademais, o art. 146 do CTN diz respeito à alteração de critério jurídico pela Administração Tributária de forma geral a ser aplicada a fatos futuros e não a decisões individuais no âmbito do contencioso administrativo, as quais não prospectam efeitos para os contribuintes em relação a fatos geradores futuros. Diante do exposto, voto para acolher, parcialmente, os embargos de declaração, integrando o acórdão com as razões relativas ao indeferimento da diligência e à possibilidade de revisão de ofício, sem, contudo, atribuir- lhes efeitos infringentes. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de acolher, parcialmente, os embargos de declaração, integrando o acórdão com as razões relativas ao indeferimento da diligência e à possibilidade de revisão de ofício, sem, contudo, atribuir-lhes efeitos infringentes. Assinado Digitalmente Paulo Guilherme Deroulede – Presidente Redator Fl. 1444DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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11241247 #
Numero do processo: 11274.720143/2021-71
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 04 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Fri Feb 27 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2017 a 31/12/2017 NULIDADE DO LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA Não é nulo o lançamento que obedeça aos requisitos legais, descrevendo, de forma clara, os fatos e fundamentos jurídicos, a forma de apuração da base de cálculo e a tributação devida. AFERIÇÃO INDIRETA. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NULIDADE. O uso da aferição indireta para apurar parcelas salariais tributadas, quando observados os requisitos legais, não acarreta nulidade nem cerceia o direito à ampla defesa. O descumprimento de intimação fiscal para o fornecimento de documentos justifica o uso da aferição indireta. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. A tempestiva interposição de impugnação ao lançamento tributário, gera efeitos de suspender a exigibilidade do crédito tributário e postergar, consequentemente, o vencimento da obrigação para o término do prazo fixado para o cumprimento da decisão definitiva no âmbito administrativo.
Numero da decisão: 2201-012.642
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário.. Assinado Digitalmente Weber Allak da Silva – Relator Assinado Digitalmente Marco Aurélio de Oliveira Barbosa – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Weber Allak da Silva, Luana Esteves Freitas, Cleber Ferreira Nunes Leite, Thiago Álvares Feitas, Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente) e de forma não presencial a conselheira Lilian Cláudia de Souza (Substituta).
Nome do relator: WEBER ALLAK DA SILVA

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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2017 a 31/12/2017 NULIDADE DO LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA Não é nulo o lançamento que obedeça aos requisitos legais, descrevendo, de forma clara, os fatos e fundamentos jurídicos, a forma de apuração da base de cálculo e a tributação devida. AFERIÇÃO INDIRETA. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NULIDADE. O uso da aferição indireta para apurar parcelas salariais tributadas, quando observados os requisitos legais, não acarreta nulidade nem cerceia o direito à ampla defesa. O descumprimento de intimação fiscal para o fornecimento de documentos justifica o uso da aferição indireta. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. A tempestiva interposição de impugnação ao lançamento tributário, gera efeitos de suspender a exigibilidade do crédito tributário e postergar, consequentemente, o vencimento da obrigação para o término do prazo fixado para o cumprimento da decisão definitiva no âmbito administrativo.

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INEXISTÊNCIA Não é nulo o lançamento que obedeça aos requisitos legais, descrevendo, de forma clara, os fatos e fundamentos jurídicos, a forma de apuração da base de cálculo e a tributação devida. AFERIÇÃO INDIRETA. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NULIDADE. O uso da aferição indireta para apurar parcelas salariais tributadas, quando observados os requisitos legais, não acarreta nulidade nem cerceia o direito à ampla defesa. O descumprimento de intimação fiscal para o fornecimento de documentos justifica o uso da aferição indireta. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. A tempestiva interposição de impugnação ao lançamento tributário, gera efeitos de suspender a exigibilidade do crédito tributário e postergar, consequentemente, o vencimento da obrigação para o término do prazo fixado para o cumprimento da decisão definitiva no âmbito administrativo. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário.. Assinado Digitalmente Weber Allak da Silva – Relator Fl. 534DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.642 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11274.720143/2021-71 2 Assinado Digitalmente Marco Aurélio de Oliveira Barbosa – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Weber Allak da Silva, Luana Esteves Freitas, Cleber Ferreira Nunes Leite, Thiago Álvares Feitas, Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente) e de forma não presencial a conselheira Lilian Cláudia de Souza (Substituta). RELATÓRIO 1 – DO LANÇAMENTO Trata-se de lançamento de ofício, realizado em 05/03/2021, pelo não recolhimento de contribuições previdenciárias (segurados, empresa e GIRAT), incidentes sobre a remuneração de segurados empregados e contribuintes individuais não declarados em GFIP no período de 01/2017 a 13/2018, além de multa por descumprimento de obrigação acessória. Segundo narrado no relatório fiscal (fls. 308/321), foram identificados valores de remunerações auferidas pelos segurados empregados do ente federativo (não vinculados a regime próprio de previdência), e por aqueles vinculados aos fundos municipais, não declarados em GFIP. Também foram identificados pagamentos a contribuintes individuais, pagos por intermédio de notas de empenhos de despesas, e não declarados em GFIP. As diferenças referentes aos segurados empregados foram apuradas com base no cruzamento entre as informações constantes nas folhas de pagamento apresentadas, notas de empenho despesas e GFIP. Para o cálculo da contribuição de segurados foram aplicadas as seguintes alíquotas de 11% para os contribuintes individuais e 8% para os segurados empregados. Segundo a autoridade fiscal, foram considerados os limites máximos do salário-de-contribuição, conforme discriminado abaixo: - Para o exercício 2017, vide: Portaria MF nº 8, de 13 de janeiro de 2017, Art. 2º = R$ 5.531,31. - Para o exercício 2018, vide: PORTARIA MF nº 15, de 16 de janeiro de 2018, Art. 2º = R$ 5.645,80. Os cálculos das diferenças e contribuições apuradas foram discriminados nas planilhas anexas ao auto de infração (fls. 186/195). Para as competências nas quais o contribuinte não apresentou a documentação solicitada, o valor da base de cálculo e da contribuição de segurados foi arbitrada, conforme descrito no item 10.1 do relatório fiscal. Quanto às GPS recolhidas, somente foram apropriadas para os valores devidos declarados nas GFIPs. Fl. 535DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.642 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11274.720143/2021-71 3 A contribuição do GILRAT, incidente sobre os valores de remuneração apurados, foi calculada a partir da operação (2% * FAP); onde o FAP é o Fator Acidentário de Prevenção, cujo valor é 0,5, totalizando uma alíquota efetiva de 1%. Foi aplicada a multa de ofício de 75% prevista no art. 35-A da Lei 8.212/91, incluída pela MP 449/2008, convertida na Lei n. 11.941, de 27/05/2009. Auto por descumprimento de obrigação acessória Além do lançamento referente à obrigação principal, foi lavrado auto de infração por descumprimento de obrigação acessória. Segundo a autoridade fiscal, o contribuinte não apresentou os empenhos de despesas dos fundos municipais de saúde e educação, para o exercício 2018; apesar de ter sido intimado, através dos Termos de Intimação Fiscal nº 01 e 03 (fls. 29/38). Assim incorreu na infração prevista nos artigos 92 e 102 da Lei nº 8.212/1991, e no Decreto 3.048/ 1999, art. 283, II, “j”; art. 292, incisos II, III e IV. A referida omissão resultou no lançamento do crédito tributário por aferição indireta. 2- DA IMPUGNAÇÃO Em 06/05/2021 foi juntada impugnação ao lançamento com as seguintes alegações:  Cerceamento ao direito de defesa, alegando que auditoria deixou de individualizar a situação jurídica de cada servidor, considerando que o Município possui Regime Próprio de Previdência Social;  Nulidade, argumentando que o fisco lavrou auto de infração sem a devida observância dos fatos motivadores da penalidade imputada;  Que não se pode inverter o ônus da prova em favor do fisco;  Requereu a suspensão do crédito tributário. Em 03/12/2021 a Impugnação foi julgada improcedente em parte pela 11ª Turma da DRJ01, através do Acórdão 101-014.730, do qual transcrevemos os principais trechos: Da Arguição de Nulidade A fiscalização informa que as contribuições apuradas são relativas aos empregados e contribuintes individuais vinculados ao Regime Geral da Previdência Social – RGPS e não declarados através da GFIP. Portanto, não inclui aqueles pertencentes ao Regime Próprio de Previdência Social do Município. As planilhas de fls. 113/231 demonstram a apuração das bases de cálculo relativas aos segurados do RGPS não declaradas em GFIP, bem como, o levantamento das contribuições por eles devidas. Vê-se, assim, que não há prejuízo ao direito de defesa da Impugnante. Fl. 536DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.642 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11274.720143/2021-71 4 Desta forma, tendo o auditor-fiscal autuante demonstrado os fatos que suportaram o lançamento, oportunizando ao contribuinte o direito de defesa e do contraditório, em observância aos pressupostos formais e materiais do ato administrativo, nos termos da legislação de regência, especialmente os artigos 142 do CTN e 10 do Decreto n° 70.235/72, não há que se falar em nulidade do lançamento. ................................................................................................................................. Da Suspensão da Exigibilidade A Impugnante pede a suspensão da exigibilidade do crédito tributário discutido. A esse respeito, esclarece-se que a suspensão da exigibilidade do crédito tributário, nos termos do art. 151, III do CTN, é medida necessária implementada quando do recebimento das contestações e dos recursos, verbis: Art. 151. Suspendem a exigibilidade do crédito tributário: (...)111 - as reclamações e os recursos, nos termos das leis reguladoras do processo tributário administrativo; (...)Portanto, encontra-se suspensa a exigibilidade do crédito tributário em questão. .............................................................................................................................. Conclusão. Diante de todo o exposto e considerando tudo o mais que dos autos consta, voto no sentido de indeferir os pedidos formulados e considerar IMPROCEDENTE a Impugnação, mantendo o crédito tributário lançado. 3 – DO RECURSO VOLUNTÁRIO Após ciência da decisão de 1ª instância em 28/12/2021, o contribuinte apresentou Recurso Voluntário em 27/01/2022, reproduzindo as mesmas alegações contidas na Impugnação. É o relatório. VOTO Conselheiro Weber Allak da Silva, Relator. O recurso voluntário é tempestivo e preenche os requisitos de admissibilidade, razão pela qual deve ser conhecido. Preliminar de nulidade – cerceamento de defesa Fl. 537DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.642 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11274.720143/2021-71 5 O Recorrente reproduz a alegação de nulidade, já enfrentada na decisão recorrida. Argumenta que a autoridade fiscal não teria descrito de forma clara os fatos geradores dos tributos lançados. Alega, ainda, que poderia ocorrer a bitributação das contribuições sociais, porque o Município recolhe as aludidas contribuições incidentes sobre a remunerações dos servidores efetivos em favor do RPPS, conforme guias de recolhimento anexadas. Como já apontado no acórdão recorrido, não procede a alegação de nulidade. Os fatos motivadores do lançamento foram descritos de forma clara no relatório fiscal (fls. 308/321). Foram lançadas as contribuições incidentes sobre a remuneração de segurados não vinculados ao regime próprio de previdência do ente federativo, identificadas a partir da análise das folhas de pagamentos e empenhos de despesas, que, no entanto, não estavam declaradas na GFIP. Verifica- se que a defesa do Recorrente não trouxe elementos capazes de demonstrar que os valores apurados, com base na documentação analisada, eram indevidos, se limitando a arguição de nulidade. Inexiste violação ao direito de defesa, quando o auto de infração descreve a motivação do lançamento, indicando como foi apurada a base de cálculo, através das planilhas anexadas aos autos (fls. 186/195). Mesmo nos levantamentos realizados por aferição indireta a autoridade fiscal indicou a motivação, que decorreu da não apresentação de parte dos documentos solicitados. Quanto à alegação de que teria recolhido a contribuição referentes aos servidores efetivos, não possui relevância para o caso em análise, tendo em vista que o lançamento envolve somente segurados vinculados ao Regime Geral de Previdência, como descrito no relatório fiscal e seus anexos. Inexiste nulidade na medida que o Recorrente não demonstrou a ocorrência de algum vício, previsto no art.59 do Decreto 70.235/1972, capaz de implicar em nulidade do ato de lançamento. O auto de infração foi lavrado por autoridade competente, que descreveu, de forma clara, os fatos motivadores do lançamento, garantindo, portanto, a ampla defesa do autuado, a partir de apresentação de impugnação/recurso. Prova do fato gerador A alegação de que o fisco teria realizado o lançamento sem provas, com base na inversão do ônus da prova, não pode prosperar. Como já descrito, o relatório fiscal, e demais documentos juntados aos autos, demonstram que o lançamento se baseou nas informações existentes na documentação apresentada, que foi relacionada no item 3 do relatório fiscal. Em sede de Recurso, foram anexadas cópias de balancetes contábeis (fls.416/522) e guias de recolhimento de contribuições para o Regime de Previdência dos servidores efetivos (fls. 383/415). Porém, tais documentos não comprovam quaisquer erros na apuração realizada pela autoridade fiscal. Fl. 538DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.642 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11274.720143/2021-71 6 Quanto ao levantamento, realizado por aferição indireta, a autoridade fiscal descreveu que foi motivada pela falta de apresentação de documentos e esclarecimentos. Tal omissão acarretou a autuação do contribuinte por descumprimento de obrigação acessória. Neste caso, cabe a aplicação do artigo 33, § 3°, da Lei n° 8.212/91. Em momento algum o Recorrente apresentou elementos aptos a desconstituir os fatos e valores descritos no auto de infração, limitando-se a alegações genéricas. Portanto a decisão de 1ª instância deve ser mantida pelos fundamentos narrados no presente voto. Suspensão da Exigibilidade do Crédito Tributário A suspensão da exigibilidade do crédito tributário é efeito que decorre direta e automaticamente da interposição do recurso voluntário, nos termos do mencionado artigo 151, III do Código Tributário Nacional. Conclusão Ante o exposto, voto por rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. (documento assinado digitalmente) Weber Allak da Silva Fl. 539DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10435.902371/2018-17
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 11 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Feb 23 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/07/2015 a 30/09/2015 REVISÃO DE DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. VÍCIO DE LEGALIDADE. POSSIBILIDADE. Nos termos da Súmula nº 473 do STF e do art. 53 da Lei nº 9.784/99, a Administração pode anular seus próprios atos, quando eivados de vícios que os tornam ilegais, porque deles não se originam direitos; ou revogá-los, por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos, e ressalvada, em todos os casos, a apreciação judicial. Se o Despacho Decisório emitido se mostra em desacordo com a legislação tributária, a Receita Federal, dentro do prazo de 05 anos a contar da emissão do ato, pode anulá-lo por estar eivado de vício de ilegalidade e emitir novo Despacho Decisório, retificando a decisão anterior. AJUSTES POSITIVOS DO RAIPI. CARÊNCIA PROBATÓRIA. O recorrente apenas relatou, genericamente, que não foram considerados no cálculo a existência de ajustes positivos no RAPI, não demonstrando, por meio de cálculos e planilhas, o eventual erro na apuração da Autoridade Fiscal. CRÉDITO PRESUMIDO. POSSIBILIDADE DE RESSARCIMENTO. São passíveis de ressarcimento os créditos presumidos do IPI instituídos pelos artigos 11-A e 11-B da Lei nº 9.440/1997. A Instrução Normativa RFB 1.717/2017 extrapolou seu poder regulamentar ao excluir, dos créditos de IPI passíveis de ressarcimento, o crédito presumido de que trata o inciso IX do art. 1º da Lei nº 9.440/97, razão pela qual tal restrição deve ser considerada ilegal por este Conselho e deixar de ser aplicada ao caso. Mesmo tendo ocorrido alterações na legislação no tocante ao prazo de vigência, forma de apuração e requisitos de investimentos, as disposições dos arts. 1º, IX; 11; 11-A e 11-B, todos da Lei nº 9.440/97, tratam do mesmo incentivo fiscal. A própria Receita Federal, ao firmar entendimento na Solução de Consulta COSIT nº 14/2016, considerou que a sucessão de disposições referentes ao crédito presumido de IPI ora tratado revelava um único incentivo fiscal, isso na medida em que asseverou que foram previstos três períodos de vigência distintos. A Exposição de Motivos das Medidas Provisórias nº 471/2009 e 512/2010, instituidoras dos arts. 11-A e 11-B da Lei nº 9.440/97, considerou expressamente que as propostas visavam ampliar o prazo de vigência de incentivos fiscais destinados a fomentar o desenvolvimento regional e “a reabertura de prazo até 29/12/2010 para que as empresas então habilitadas ao regime pudessem apresentar novos projetos de investimento produtivos”. Se de fato teria ocorrido o fim do aproveitamento do art. 1º, IX, da Lei nº 9.440/97 em 2010, permaneceria sem explicação o motivo pelo qual a Instrução Normativa nº 1.300, de 2012, previa o ressarcimento do crédito de IPI auferido em razão do referido dispositivo legal. Não existe fundamento teleológico para a interpretação de que o incentivo fiscal permitiria apenas o abatimento com débitos do IPI, com o consequente e inevitável acúmulo do saldo credor do imposto. POSSIBILIDADE DE DEDUÇÃO DO CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI DOS DÉBITOS DE OUTROS ESTABELECIMENTOS. O julgador não precisa decidir sobre matéria que não foi fundamento para o indeferimento do pedido de ressarcimento e que restar prejudicada pela decisão proferida.
Numero da decisão: 3302-015.261
Decisão: Acordam os membros do Colegiado em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário da seguinte forma: por unanimidade de votos, para rejeitar as preliminares e, no mérito, por maioria de votos, para dar provimento ao pedido de ressarcimento, por entenderem que o crédito presumido previsto nos artigos 11-A e 11-B da Lei nº 9.440/1997 é ressarcível, vencido o conselheiro Mário Sérgio Martinez Piccini, que votou pela impossibilidade de ressarcimento, entendendo que a compensação na escrita fiscal é a única possibilidade de seu aproveitamento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3302-015.258, de 13 de novembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 10435.902369/2018-30, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Mário Sérgio Martinez Piccini, Marina Righi Rodrigues Lara, Francisca das Chagas Lemos e Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente). Ausente a Conselheira Louise Lerina Fialho.
Nome do relator: LAZARO ANTONIO SOUZA SOARES

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VÍCIO DE LEGALIDADE. POSSIBILIDADE. Nos termos da Súmula nº 473 do STF e do art. 53 da Lei nº 9.784/99, a Administração pode anular seus próprios atos, quando eivados de vícios que os tornam ilegais, porque deles não se originam direitos; ou revogá- los, por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos, e ressalvada, em todos os casos, a apreciação judicial. Se o Despacho Decisório emitido se mostra em desacordo com a legislação tributária, a Receita Federal, dentro do prazo de 05 anos a contar da emissão do ato, pode anulá-lo por estar eivado de vício de ilegalidade e emitir novo Despacho Decisório, retificando a decisão anterior. AJUSTES POSITIVOS DO RAIPI. CARÊNCIA PROBATÓRIA. O recorrente apenas relatou, genericamente, que não foram considerados no cálculo a existência de ajustes positivos no RAPI, não demonstrando, por meio de cálculos e planilhas, o eventual erro na apuração da Autoridade Fiscal. CRÉDITO PRESUMIDO. POSSIBILIDADE DE RESSARCIMENTO. São passíveis de ressarcimento os créditos presumidos do IPI instituídos pelos artigos 11-A e 11-B da Lei nº 9.440/1997. A Instrução Normativa RFB 1.717/2017 extrapolou seu poder regulamentar ao excluir, dos créditos de IPI passíveis de ressarcimento, o crédito presumido de que trata o inciso IX do art. 1º da Lei nº 9.440/97, razão pela qual tal restrição deve ser considerada ilegal por este Conselho e deixar de ser aplicada ao caso. Fl. 7811DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 2 Mesmo tendo ocorrido alterações na legislação no tocante ao prazo de vigência, forma de apuração e requisitos de investimentos, as disposições dos arts. 1º, IX; 11; 11-A e 11-B, todos da Lei nº 9.440/97, tratam do mesmo incentivo fiscal. A própria Receita Federal, ao firmar entendimento na Solução de Consulta COSIT nº 14/2016, considerou que a sucessão de disposições referentes ao crédito presumido de IPI ora tratado revelava um único incentivo fiscal, isso na medida em que asseverou que foram previstos três períodos de vigência distintos. A Exposição de Motivos das Medidas Provisórias nº 471/2009 e 512/2010, instituidoras dos arts. 11-A e 11-B da Lei nº 9.440/97, considerou expressamente que as propostas visavam "ampliar o prazo de vigência de incentivos fiscais destinados a fomentar o desenvolvimento regional" e “a reabertura de prazo até 29/12/2010 para que as empresas então habilitadas ao regime pudessem apresentar novos projetos de investimento produtivos”. Se de fato teria ocorrido o fim do aproveitamento do art. 1º, IX, da Lei nº 9.440/97 em 2010, permaneceria sem explicação o motivo pelo qual a Instrução Normativa nº 1.300, de 2012, previa o ressarcimento do crédito de IPI auferido em razão do referido dispositivo legal. Não existe fundamento teleológico para a interpretação de que o incentivo fiscal permitiria apenas o abatimento com débitos do IPI, com o consequente e inevitável acúmulo do saldo credor do imposto. POSSIBILIDADE DE DEDUÇÃO DO CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI DOS DÉBITOS DE OUTROS ESTABELECIMENTOS. O julgador não precisa decidir sobre matéria que não foi fundamento para o indeferimento do pedido de ressarcimento e que restar prejudicada pela decisão proferida. ACÓRDÃO Acordam os membros do Colegiado em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário da seguinte forma: por unanimidade de votos, para rejeitar as preliminares e, no mérito, por maioria de votos, para dar provimento ao pedido de ressarcimento, por entenderem que o crédito presumido previsto nos artigos 11-A e 11-B da Lei nº 9.440/1997 é ressarcível, vencido o conselheiro Mário Sérgio Martinez Piccini, que votou pela impossibilidade de ressarcimento, entendendo que a compensação na escrita fiscal é a única possibilidade de seu aproveitamento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes Fl. 7812DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 3 aplicado o decidido no Acórdão nº 3302-015.258, de 13 de novembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 10435.902369/2018-30, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Mário Sérgio Martinez Piccini, Marina Righi Rodrigues Lara, Francisca das Chagas Lemos e Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente). Ausente a Conselheira Louise Lerina Fialho. RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que reconheceu a existência de direito creditório de R$ 351.851,56 referentes ao presente período de apuração, homologando parcialmente as declarações de compensação correlatas, até o limite do crédito reconhecido. O pedido é referente ao suposto crédito de IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS – IPI. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, em síntese abaixo, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS - IPI Período de apuração: 01/07/2015 a 30/09/2015 PAF. ATO ADMINISTRATIVO ANTERIOR. ANULAÇÃO. A Administração deve anular seus próprios atos, quando eivados de vício de legalidade. PAF. ATO ADMINISTRATIVO. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Reputa-se não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte. PAF. ATO NORMATIVO. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. PRESUNÇÃO DE LEGITIMIDADE. Fl. 7813DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 4 A autoridade administrativa não possui atribuição para apreciar a arguição de inconstitucionalidade ou de ilegalidade de dispositivos que integram a legislação tributária. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. ART. 11-A E ART. 11-B DA LEI Nº 9.440/97. Por ausência de previsão legal ou regulamentar, não são passíveis de ressarcimento os créditos presumidos do IPI instituídos pelos artigos 11-A e 11-B da Lei nº 9.440/1997, nos termos da Solução de Consulta Interna nº 25/2016 da Coordenação-Geral de Tributação da Receita Federal do Brasil - COSIT. DCOMP. DIREITO CREDITÓRIO. QUANTUM RECONHECIDO. As declarações de compensação devem ser homologadas no limite do direito creditório cuja liquidez e certeza venham a ser demonstradas pelo sujeito passivo. Cientificado do acórdão recorrido, o Sujeito Passivo interpôs Recurso Voluntário apontando: a. Impossibilidade de Revisão das Dcomp´s anteriormente homologadas; b. Discorre sobre o Direito ao Benefício Fiscal; c. A DRJ não analisou profundamente os argumentos trazidos pela Recorrente; d. Assim acontecendo, ocorrerá um esvaziamento do conteúdo da Norma prevista em Lei. e. Cita entendimento do TRF5, do Direito ao Ressarcimento. f. Elenca sua compreensão da possibilidade de utilização do Crédito de IPI da Lei 9.440/97 para abatimento de débitos de IPI de outro estabelecimento; g. Aponta divergências no cálculo do montante do Crédito Presumido, pois a fiscalização desconsiderou a existência de “Ajustes Positivos” no RAPI. h. Requer que seja determinada a distribuição por dependência do processo nº 10435.730160/2019-49 (Multa isolada por não homologação das Dcomps). i. Pede a reformulação do Despacho Decisório em apreço, por afronta ao artigo 149 do CTN e julgar totalmente improcedente, bem como efetuar os ajustes reconhecidos pela fiscalização. Os argumentos acima apresentados são os mesmos da Manifestação de Inconformidade. É o relatório. VOTO Fl. 7814DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 5 Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto condutor consignado no acórdão paradigma como razões de decidir. Deixa-se de transcrever a parte vencida do voto do relator, que pode ser consultada no acórdão paradigma e deverá ser considerada, para todos os fins regimentais, inclusive de pré-questionamento, como parte integrante desta decisão, transcrevendo-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto vencedor do redator designado. Quanto à admissibilidade e às preliminares, transcreve-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto do relator do acórdão paradigma: ADMISSIBILIDADE O recurso foi apresentado com observância do prazo previsto, bem como dos demais requisitos de admissibilidade. Sendo assim, dela tomo conhecimento e passo a apreciar. DAS PRELIMINARES A Recorrente alega inicialmente que não houve análise de sua manifestação de Inconformidade, sendo que a DRJ teria apenas reproduzido a Solução de Consulta Interna nº 25/2016, que no seu entender seria inaplicável. Percorrendo o acórdão da decisão de piso, verifico que foram aplicados os fundamentos da citada exposição, não adotando a SCI tão somente. Diante do apresentado, ao contrário do que alega a Recorrente, a DRJ de origem analisou o argumento, motivo pelo qual deve ser afastada alegação de nulidade e cerceamento de defesa. Quanto à argumentação referente a impossibilidade de revisão das Perdcomp´s já homologadas, verifico que tal tese foi perfeitamente pontuado no Acórdão CSRF nº 9303-005.788, de 21/09/2017: “SALDO CREDOR. RESSARCIMENTO. CERTEZA/LIQUIDEZ. MONTANTE. APURAÇÃO. DESNECESSIDADE DE LANÇAMENTO. DECADÊNCIA. É dever da autoridade administrativa verificar o cumprimento das obrigações tributárias, por parte do contribuinte, mediante análise da escrituração fiscal e contábil, para apurar o saldo credor passível de repetição/compensação pleiteado por ele, não havendo necessidade de se lançar de ofício os créditos aproveitados indevidamente, assim como não há que se falar na decadência do direito de a Fazenda Nacional deduzir tais créditos.” Resulta das constatações em tela, portanto, que o ato administrativo que homologa ou deixa de homologar declarações de compensação não é nem equivale a lançamento tributário, do qual também prescinde para a análise e Fl. 7815DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 6 apuração de eventual direito creditório a ressarcir pleiteado pelo sujeito passivo e utilizado em compensação. Tais itens foram perfeitamente pontuados no processo 10435.902.369/2018-30, do mesmo contribuinte, no Acórdão DRJ 01-37.870: Na específica hipótese de suposto direito creditório ressarcível oposto em compensações, inexiste legislação que vede a ampla apuração do crédito invocado pelo contribuinte. E de outra forma não se haveria de cogitar, pois, caso prevalecesse a tese arguida pelo impugnante, no sentido de que o ato administrativo que homologa ou não a declaração de compensação equivale a “lançamento tributário”, implicaria também a impossibilidade de apuração do alegado direito creditório em face do transcurso de prazo decadencial. Ou seja, o sujeito passivo poderia alegar a existência de créditos decorrentes da não-cumulatividade do tributo relativos a períodos de apuração pretéritos e, dias antes do prazo de cinco anos de que dispõe para o exercício de seu direito, apresentar o respectivo pedido de ressarcimento, encontrando-se a Administração Tributária, então, obrigada a deferir o pleito sem o exame de sua legitimidade, tratando-se de raciocínio que reduz a absurdo, de forma iniludível, a tese em discussão. Não por outra razão, a Solução de Consulta Interna Cosit nº 16/2012 já concluiu que, “após transcorrido o prazo decadencial, nos termos do art. 150, § 4º, do CTN, assim como o prazo para homologação de compensação de que trata o art. 74, § 5º, da Lei 9.430, de 1996 (homologação tácita), há apenas a impossibilidade de lançamento de diferenças do imposto devido”, haja vista a constatação de que: “Como se trata de Declaração de Compensação, inverte-se o ônus da prova, cabendo ao contribuinte comprovar seu direito líquido e certo. Dentro do prazo para homologação determinado no art. 74, § 5º, da Lei nº 9.430, de 1996, não há que se falar em decadência do direito de se aferir o pleito de compensação, que exige o cumprimento dos requisitos de liquidez e certeza do crédito informado.” Assim, dentro do prazo de homologação é pacífico na jurisprudência do CARF a possibilidade de revisão de Perdcomp´s, respeitado os princípios de devido processo legal previstos no Decreto 70.235/72 (PAF). Diante do exposto, rejeito as preliminares alegadas. Quanto ao mérito, transcreve-se o entendimento majoritário da turma, expresso no voto vencedor do redator designado do acórdão paradigma: Com as vênias de estilo, em que pese o voto muito bem fundamentado do Conselheiro Relator Mário Sérgio Martinez Piccini, ouso dele discordar em relação a negar provimento ao pedido de ressarcimento do crédito presumido de IPI previsto no art. 11-B da Lei nº 9.440/1997. Explico. O Despacho Decisório que indeferiu o Pedido de Ressarcimento e não homologou as compensações a ele vinculadas foi embasado nos seguintes termos: Fl. 7816DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 7 Trata, o presente processo, do Pedido de Ressarcimento (PER) n° 08740.47151.140415.1.1.01-1450, retificado pelo PER nº 36211.87984.290116.1.5.01-9067, transmitido em 29/01/2016, através do qual, o contribuinte em epígrafe, pleiteia pretenso crédito presumidos de IPI, criado pelos artigos 11-A e 11-B da Lei nº 9.440/1997, referente ao 1º Trimestre de 2015, no montante de R$ 19.711.329,82, já apreciado eletronicamente pelo Sistema de Controle de Crédito- SCC (fls. 7339-7477). 2. Contudo, a Representação Fiscal da Superintendência Regional da Receita Federal do Brasil - 42 Região Fiscal (fls. 2-18), constante do dossiê nº 10010.025308/0519-27, protocolizada em 10/05/2019, cujas peças foram juntadas às fls. 2-7336 deste processo, relata o seguinte: (...) 3. Os artigos 11-A e 11-B da Lei nº 9.440/1997, que criaram os créditos presumidos do IPI em apreço, foram interpretados pela Solução de Consulta Interna nº 25/2016- Cosit, cuja Ementa transcrevemos: Ementa: Somente é permitido o ressarcimento de créditos presumidos do IPI quando haja expressa previsão legal ou regulamentar. Por ausência de expressa previsão legal ou regulamentar, não são passíveis de ressarcimento os créditos presumidos do IPI criados pelos artigos 11-A e 11-B da Lei n° 9.440, de 1997. (Solução de Consulta Interna n° 25/2016 - Cosit) Dispositivos Legais: IN RFB n° 1300, de 12 de agosto de 2008, artigo 21, § 3°; Decreto n° 7.212. de 15 de junho de 2010, arts. 256 e 268; Decreto n° 7.389, de 09 de dezembro de 2010; Decreto n° 7.422, de 31 de dezembro de 2010 4. Destarte, a partir do Item 6, assim fundamenta a Solução de Consulta Interna nº 25/2016 - Cosit: (...) Lei nº 9.440, de 14 de março de 1997 -Artigo 11-8 (incluído pela Lei nº 12.407, de 19 de maio de 2011) 14. Na sequência, temos a Lei nº 12,404, de 19 de maio de 2011, que criou mais um novo benefício, também na forma de crédito presumido de IPI, inserindo, na multicitada Lei n° 9.440/97, o artigo 11-B: Art. 11-B. As empresas referidas no § 19 do art. 19, habilitadas nos termos do art. 12, farão jus a crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, como ressarcimento das contribuições de que tratam as Leis Complementares nos 7, de 7 de setembro de 1970, e 70, de 30 de dezembro de 1991, desde que apresentem projetos que contemplem novos investimentos e a pesquisa para o desenvolvimento de novos produtos ou novos modelos de produtos já existentes. § 1º Os novos projetos de que trata o caput deverão ser apresentados até o dia 29 de dezembro de 2010, na forma estabelecida pelo Poder Executivo. (...) § 6º O crédito presumido de que trata o caput extingue-se em 31 de dezembro de 2020, mesmo que o prazo de que trata o § 2º ainda não tenha se encerrado." Fl. 7817DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 8 15. Esse novo crédito presumido criado pela Lei nº 12.407, de 2011, foi regulamentado pelo Decreto nº 7.389, de 9 de dezembro de 2010, sendo que, mais uma vez, tanta a Lei de criação, assim como a sua regulamentação, não faz qualquer referência ou menção quanto à possibilidade de eventual saldo credor de tais créditos ser objeto de ressarcimento. (Grifou-se) (...) Conclusão 22. Com base no exposto nos fundamentos conclui-se que: 22.1 Somente é permitido o ressarcimento de créditos presumidos do IPI quando haja expressa previsão legal ou regulamentar; 22.2 Por ausência de expressa previsão legal ou regulamentar, não são passíveis de ressarcimento os créditos presumidos do IPI criados pelos artigos 11-A e 11-8 da Lei nº 9.440, de 1997." (grifou-se) (...) 7. Diante o exposto, e tendo em vista a Representação Fiscal constante do dossiê nº 10010.025308/0519-27, copiado para as fls. 2-7336 deste processo, constatou- se a necessidade de se rever de ofício o direito creditório referente ao PER Retificador nº 36211.87984.290116.1.5.01-9067, bem como das DCOMP, constantes da Tabela 2, já apreciados eletronicamente pelo Sistema SCC, posto que houve vício de legalidade. (...) 9. Com efeito, nos termos do art. 74 da Lei nº 9.430/1996, somente os créditos passíveis de restituição ou de ressarcimento, poderão ser utilizados na compensação de débitos próprios, ipsis litteris: (...) 10. Portanto, conforme os documentos e planilhas acostados aos autos, há que se deferir parcialmente o direito creditório do PER Retificador n° 36211.87984.290116.1.5.01 9067, no valor ressarcível de R$ 903.766,04, que será utiliza para compensação das DCOMP vinculadas, até o limite do crédito. Conforme resta evidente, o fundamento do Despacho Decisório reside na alegação de ausência de expressa previsão legal ou regulamentar para o ressarcimento dessa espécie de crédito presumido, ou seja, aquele previsto no art. 11-B da Lei nº 9.440/97 (não se discute, neste processo, o crédito presumido previsto no art. 11-A, por não ter sido objeto da ação fiscal). Essa matéria não é nova neste Conselho, tendo sido proferidas decisões contra e a favor do contribuinte. Vejamos os precedentes contrários, a seguir: i) Acórdão nº 3202-002.075, Sessão de 15 de outubro de 2024: IMPOSSIBLIDADE DE RESSARCIMENTO DE CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. Fl. 7818DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 9 Impossibilidade de ressarcimento de crédito presumido de IPI previsto nos artigos 11-A e 11-B da Lei 9.440/97. Ausência de previsão legal específica. Apuração sobre o faturamento da revenda de bens importados. Descabimento. VOTO (...) No presente caso, a controvérsia restringe-se à análise da possibilidade de ressarcimento de crédito presumido de IPI previsto nos arts. 11-A e 11-B da Lei 9.440/97. Essa matéria não é nova no CARF, tampouco na Câmara Superior. Veja-se, por exemplo, o Acórdão nº. 9303-012.642, Rel. Tatiana Midori, julgado em 06/12/2021, no qual foi decidido, por unanimidade de votos, que os créditos presumidos de IPI, referidos nos arts. 11-A e 11-B da Lei nº 9.440/97, não são passíveis de ressarcimento, pois não há previsão legal específica para tanto. Portanto, inexistindo norma específica, o aproveitamento dos créditos de IPI deve seguir a regra geral prevista no Regulamento do IPI (RIPI/2010) - em especial os arts. 256 e 257, pela qual os créditos escriturados serão passíveis de dedução do valor do imposto devido. ii) Acórdão nº 3402-011.950, Sessão de 19 de junho de 2024: CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. RESSARCIMENTO. COMPENSAÇÃO. FALTA DE PREVISÃO NORMATIVA ESPECÍFICA. DESCABIMENTO. Descabido, por falta de falta de previsão normativa específica, o ressarcimento/compensação dos créditos presumidos de IPI criados pelos art. 11-A e 11-B da Lei nº 9.440, de 1997, que não se confundem com o crédito presumido do imposto previsto no inciso IX, do art. 1º, e art. 11, IV, da Lei nº 9.440/1997. (...) VOTO VENCEDOR (...) Entendo que não há previsão legal sobre a possibilidade de ressarcimento/compensação dos créditos presumidos previstos nos artigo 11-A e 11-B, da Lei Federal 9.440/1997 com outros tributos com fundamento no §3º, do art. 6º, do Decreto nº 2.179/1997, incluído pelo Decreto nº 6.556/2008, nem no art. 135, § 6º, do Decreto nº 7.212/2010, tampouco com esteio no art. 21, §3º, III, da IN RFB nº 1.300/2012, pois tais dispositivos somente permitem o aproveitamento no caso do crédito presumido de IPI decorrente dos inciso IX, do art. 1º, e inciso IV, do art. 11, ambos da Lei Federal 9.440/1997. iii) Acórdão nº 9303-014.296, Sessão de 17 de outubro de 2023: CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. RESSARCIMENTO/COMPENSAÇÃO. FALTA DE PREVISÃO NORMATIVA ESPECÍFICA. DESCABIMENTO. Fl. 7819DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 10 Descabido, por falta de falta de previsão normativa específica, o ressarcimento/compensação dos créditos presumidos de IPI criados pelos art. 11-A e 11-B da Lei nº 9.440, de 1997, que não se confundem com o crédito presumido do imposto previsto no inciso IX, do art. 1º, e art. 11, IV, da Lei nº 9.440/1997. Como precedente favorável à tese do contribuinte, trago o acórdão nº 3201- 004.921, exarado na sessão de 25/02/2019: CRÉDITO PRESUMIDO RESSARCIMENTO/COMPENSAÇÃO. DE INCENTIVO IPI. FISCAL. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. PREVISÃO NOS ARTS. 1º, IX, 11, 11-A E 11-B DA LEI N. 9.440/1997. IDENTIDADE. INTERPRETAÇÃO DE INCENTIVOS FISCAIS. FINALIDADE DA LEI. PREVISÃO NA LEI DE RESSARCIMENTO. POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DO ART. 74 DA LEI N. 9.430/1996. LIMITAÇÃO DA APLICAÇÃO DA LEI GARANTIDORA DO RESSARCIMENTO. ATO INFRALEGAL. IMPOSSIBILIDADE. As disposições dos arts. 1º, IX, 11, 11-A e 11-B, todos da Lei n. 9.440/1997, tratam do mesmo incentivo fiscal. Não existe fundamento teleológico para entender que o incentivo fiscal permitiria apenas o abatimento com débitos do IPI e o acúmulo do saldo credor do imposto. Interpretação de que os dispositivos da Lei nº 9.440/97 (art. 1º, IX, art. 11, art. 11-A e art. 11-B) guardam identidade, que atende ao desiderato da lei. Havendo a identidade de benefícios os arts. 11-A e 11-B não são benefícios que devam ser considerados como em compartimento estanque em relação ao art. 1º, IX, da Lei n. 9.440/1997. Com a identidade de benefício, é possível o aproveitamento e lastro legal que possibilita o ressarcimento. Apesar de ainda ser matéria polêmica neste Conselho, no âmbito do Poder Judiciário as decisões têm sido todas favoráveis ao contribuinte, conforme verificamos dos seguintes precedentes: i) Tribunal Regional Federal da 1ª Região, PROCESSO Nº 1060620- 38.2024.4.01.3400, 6ª VARA FEDERAL - SALVADOR/BA, Relator: Juiz Federal MARCEL PERES, julgado em 25/08/2025: SENTENÇA I - RELATÓRIO Trata-se de Ação Anulatória com Efeitos Declaratórios ajuizada por FORD MOTOR COMPANY BRASIL LTDA em face da UNIÃO FEDERAL (FAZENDA NACIONAL). A parte autora alega, em síntese, que, na condição de empresa habilitada no regime automotivo da Lei nº 9.440/97, possui direito a créditos presumidos de IPI como forma de ressarcimento das contribuições ao PIS e à COFINS. Contudo, a Receita Federal, por meio da Solução de Consulta COSIT nº 25/2016 e da Instrução Normativa nº 1.717/2017, passou a vedar o ressarcimento e a compensação de tais créditos com outros tributos federais. Pleiteia, assim, a anulação das decisões administrativas que negaram seus pedidos de ressarcimento, bem como a Fl. 7820DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 11 declaração de seu direito de utilizar os créditos para compensação, nos termos do art. 74 da Lei nº 9.430/96. A petição inicial foi instruída com documentos. (...) 2. DO MÉRITO A controvérsia central reside em definir se os créditos presumidos de IPI, apurados pela autora com base nos arts. 11-A e 11-B da Lei nº 9.440/97, são passíveis de ressarcimento e compensação com outros tributos federais. A pretensão autoral procede em parte. Isso porque, apesar do indeferimento da liminar em momento anterior, verifica-se que a questão jurídica posta em debate foi apreciada pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do REsp n. 1.804.942/PE, o qual foi textualmente utilizado pelo Tribunal quando da apreciação do agravo de instrumento interposto, cuja transcrição merece ser realizada (id. 2158785650): (...) O fundamento central reside na interpretação do termo técnico "ressarcimento", contido na norma que instituiu o benefício. O art. 74 da Lei nº 9.430/96 estabelece que o sujeito passivo que apurar crédito passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios. Dessa forma, a interpretação adotada pela autoridade fiscal na Solução de Consulta COSIT nº 25/2016 e formalizada na Instrução Normativa nº 1.717/2017, ao criar uma distinção entre os regimes fiscais e vedar a compensação dos créditos oriundos dos arts. 11-A e 11-B, excede o poder regulamentar, impondo uma restrição não prevista em lei e esvaziando a finalidade do incentivo fiscal. A evolução legislativa do benefício, ainda que com alterações na metodologia de cálculo, manteve sua natureza essencial de "ressarcimento" do PIS e da COFINS, devendo-se-lhe aplicar a sistemática de aproveitamento de créditos prevista no art. 74 da Lei nº 9.430/96. Deve-se, portanto, reconhecer o direito da autora a ter seus créditos classificados como ressarcíveis. Contudo, a presente decisão possui natureza eminentemente declaratória quanto ao direito ora controvertido, não sendo possível validar a exatidão e a certeza dos montantes escriturados pela parte. A verificação da higidez de tais créditos é matéria afeta à competência da autoridade fiscal, a ser realizada em procedimento administrativo próprio de controle e eventual homologação. III. DISPOSITIVO Ante o exposto, acolho parcialmente os pedidos, apenas para afastar o óbice jurídico decorrente da classificação de eventuais créditos como não ressarcíveis, devendo a ré proceder à reanálise dos pedidos administrativos que, com base exclusivamente em tal fundamento, foram analisados e indeferidos. Fica ressalvada, dessa forma, a prerrogativa da autoridade fiscal de proceder à análise da regularidade de tais créditos em procedimento próprio. Fl. 7821DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 12 ii) Tribunal Regional Federal da 1ª Região, AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 1034650-51.2024.4.01.0000, Relator: DESEMBARGADOR FEDERAL PEDRO BRAGA FILHO, julgado em 14/11/2024: A solução da controvérsia reside precisamente em saber se são ou não distintos os benefícios fiscais previstos nos arts. 1º, IX, 11-A e 11-B, todos da Lei 9.440/1997. O Superior Tribunal de Justiça, intérprete-mor da legislação federal, firmou entendimento no sentido de que os benefícios fiscais previstos nos aludidos artigos da Lei nº 9.440/1997 são os mesmos, ou seja, créditos presumidos de IPI, esclarecendo que as disposições dos arts. 11-A e 11-B desse diploma legal nada mais fizeram que promover alterações para ajustar o benefício fiscal às finalidades previstas pelo legislador ordinário. Nesse sentido, confira-se o seguinte julgado daquele Tribunal: (...) (REsp n. 1.804.942/PE, relator Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 21/6/2022, DJe de 27/6/2022.) Do voto do Ministro Benedito Gonçalves, extraio os seguintes excertos, que bem delineiam a presente discussão: (...) Conclusivamente, o conceito legal e geral de ressarcimento tributário, firmado na Lei 9.430/1996, não pode ser pontualmente limitado por Instrução Normativa da Receita Federal neste caso concreto, de modo a fazer escapar uma prerrogativa dada pela Lei ao contribuinte. No entanto, apesar dos judiciosos argumentos expostos no julgado supracitado, entendo que há impedimento legal para determinar que a compensação seja efetuada antes do trânsito em julgado da decisão judicial que a assegura. De fato, é intransponível o óbice imposto pelo art. 170-A do Código Tributário Nacional (CTN), cuja redação dispõe que: Art. 170-A. É vedada a compensação mediante o aproveitamento de tributo, objeto de contestação judicial pelo sujeito passivo, antes do trânsito em julgado da respectiva decisão judicial. Além disso, a pleiteada compensação acabaria por esgotar o próprio objeto da ação, o que é vedado pelo art. 1º, º 3º, da Lei 8.437/1992. iii) Tribunal Regional Federal da 5ª Região, PROCESSO Nº 0810549- 43.2019.4.05.8100, APELAÇÃO/REMESSA NECESSÁRIA, Relatora: DESEMBARGADORA FEDERAL MADJA DE SOUSA MOURA SIQUEIRA, julgado em 18/08/2022: EMENTA: CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. REGIME AUTOMOTIVO. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. DECRETO. LIMITAÇÃO DA APLICAÇÃO DA LEI GARANTIDORA DO RESSARCIMENTO. ATO INFRALEGAL. IMPOSSIBILIDADE. PRECEDENTE DESTE TRIBUNAL. APELAÇÃO E REMESSA OFICIAL IMPROVIDAS. Fl. 7822DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 13 1. Recurso interposto contra sentença que concedeu a segurança requestada para o efeito de determinar à autoridade coatora que se abstenha de indeferir os pedidos autorais de utilização do crédito de Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI previsto na Lei nº 9.440/97 para o ressarcimento/compensação com outros tributos administrados pela Receita Federal do Brasil (art. 74 da Lei n° 9.430/96), sob o entendimento de que tais créditos não são passíveis de ressarcimento e compensação. 2. A Lei nº 9.440/97, com o intuito de promover o desenvolvimento das regiões Norte, Nordeste e Centro-oeste, autorizou às empresas do ramo automotivo, instaladas ou que viessem a se instalar nas referidas regiões, creditarem-se do Imposto sobre Produtos Industrializados como ressarcimento das contribuições para o PIS/PASEP e a COFINS, incidentes sobre o seu faturamento. 3. É cediço que os decretos têm a função de complementar a lei. A jurisprudência já assentou que "o intuito de regulamentar o diploma legal instituidor do benefício extrapola os limites do exercício do poder regulamentador, ao estabelecer restrições não previstas na lei ou até mesmo modificar a natureza de conceitos legais ali estabelecidos, o que não pode prevalecer". Precedente: TRF5, AG110570, Rel. Des.(a) Federal Margarida Cantarelli, Quarta Turma, DJE: 03/12/2010. 4. Esta Corte, em caso análogo, já decidiu que o decreto regulamentador, "ao limitar o aproveitamento de crédito presumido à dedução do IPI devido pela saída de produtos tributados, desbordou do propósito insculpido na lei regulamentada (Lei nº 9.440/97), afastando-se da concepção de 'fiel execução' à qual deveria atender". Precedente: (TRF5, 0801144-09.2012.4.05.8300, Desembargador Federal Luiz Alberto Gurgel De Faria, Terceira Turma, Julg.: 20/03/2014). 5. "Não se tem como dizer que o aproveitamento mediante ressarcimento dos créditos presumidos de IPI não compensados já não mais existe por decurso de prazo desde 2010, em especial levando-se em conta a previsão contida na IN nº 1.300/12, acerca do ressarcimento do crédito de IPI auferido em razão do disposto no art. 1º, IX, da Lei n. 9.440/97. É perceptível, portanto, que a própria Receita Federal considerava o incentivo fiscal do art. 1º, IX, da Lei n. 9.444/97 o mesmo previsto nos arts. 11-A e 11-B da mesma Lei; daí ser possível afirmar que o seu prazo de vigência somente findará em dezembro de 2020". 6. "A Instrução Normativa RFB nº 1.717/2017, ao deixar de prever de forma expressa a possibilidade de ressarcimento e compensação de créditos presumidos de IPI, de que trata o inciso IX do art. 1º da Lei nº 9.440/97, contrariou o escopo da lei regulamentada, esvaziando o conteúdo da referida Lei nº 9.440/97. De nada adianta reconhecer o crédito e inviabilizar o seu uso". 7. Precedente: (STJ, REsp nº 1804942 - PE (2019/0086841-3), Rel. Min. Benedito Gonçalves). 8. Apelação improvida. iv) Tribunal Regional Federal da 5ª Região, PROCESSO Nº 0818451- 97.2017.4.05.8300, APELAÇÃO/REMESSA NECESSÁRIA, Relator: DESEMBARGADOR FEDERAL MANUEL MAIA DE VASCONCELOS NETO, julgado em 07/08/2018: Fl. 7823DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 14 EMENTA CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. REGIME AUTOMOTIVO. INCENTIVO FISCAL. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. PREVISÃO NOS ARTS. 1º, IX, 11, 11-A E 11-B DA LEI N. 9.440/97. IDENTIDADE. PREVISÃO REGULAMENTAR DE COMPENSAÇÃO. INSTRUÇÃO NORMATIVA N. 1.717/2017 DA RECEITA FEDERAL. INEXISTÊNCIA DE PREVISÃO DE RESSARCIMENTO (COMPENSAÇÃO) COM OUTROS TRIBUTOS. ILEGALIDADE. INTERPRETAÇÃO DE INCENTIVOS FISCAIS. FINALIDADE DA LEI. PREVISÃO NA LEI DE RESSARCIMENTO. POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DO ART. 74 DA LEI N. 9.430/96. LIMITAÇÃO DA APLICAÇÃO DA LEI GARANTIDORA DO RESSARCIMENTO. ATO INFRALEGAL. IMPOSSIBILIDADE. PRECEDENTE DESTE TRIBUNAL. APELAÇÃO E REMESSA OFICIAL IMPROVIDAS. 1. Inexistência de discussão quanto à habilitação, por parte da apelada, para fruição do crédito presumido de IPI. Em nenhum momento a autoridade apontou a inexistência do direito de creditamento do IPI, conquanto afirme a impossibilidade de ressarcimento. 2. Não se discute, igualmente, que recentemente, a partir da Solução de Consulta COSIT n. 25/2016, foi editada a Instrução Normativa n. 1.717/2017, a qual deixou de prever de forma expressa a possibilidade de ressarcimento e compensação dos créditos presumidos de IPI de que trata o inciso IX do art. 1º da Lei n. 9.440/97. 3. Para a apelante, não existe ato ilegal por parte da autoridade, isso porque: a) os benefícios previstos nos arts. 11-A e 11-B da Lei nº 9.440/97 seriam distintos daquele de que trata o inciso IX do art. 1º da mesma lei; b) o art. 11-B da Lei nº 9.440/97 não teria criado apenas uma nova forma de cálculo do benefício do inciso IX do art. 1º da referida lei; c) O aproveitamento como ressarcimento ou compensação, fora do próprio IPI, foi previsto no Decreto nº 6.556/2008 somente para a hipótese do inciso IX do art. 1º da Lei nº 9.440/97; d) o benefício previsto no inciso IX do art. 1º da Lei nº 9.440/97 foi extinto em razão do decurso do prazo; e) falta amparo legal para a compensação de crédito presumido de IPI; f) inexistência de mudança de entendimento por parte da Receita Federal, pois a Instrução Normativa nº 1.717/2017, ao não prever mais a forma de aproveitamento mediante ressarcimento dos créditos presumidos de IPI não compensados com o próprio IPI em nada inovou no sistema, pois simplesmente deixou de prever uma forma de aproveitamento não mais existente por decurso do prazo legal desde 2010; g) violação à Separação de Poderes no comando judicial em face da ausência de autorização legislativa. 4. Mesmo tendo ocorrido alterações na legislação no tocante à prazo de vigência, forma de apuração e requisitos de investimentos, as disposições dos arts. 1º, IX, 11, 11-A e 11-B, todos da Lei n. 9.440/97, tratam do mesmo incentivo fiscal. 5. A própria Receita Federal, ao firmar entendimento na Solução de Consulta COSIT nº 14/2016, considerou que a sucessão de disposições referentes ao crédito presumido de IPI ora tratado revelava um único incentivo fiscal, isso na medida em que asseverou que previram três períodos de vigência distintos. 6. A exposição de motivos da Medida Provisória n. 471/2009, instituidora do art. 11-A da Lei n. 9.440/97, considerou expressamente que a proposta visava "ampliar Fl. 7824DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 15 o prazo de vigência de incentivos fiscais destinados a fomentar o desenvolvimento regional". 7. Se de fato teria ocorrido o fim do aproveitamento do art. 1º, IX, da Lei n. 9.440/97 em 2010, permaneceria sem explicação o motivo pelo qual a Instrução Normativa n. 1.300, de 2012, previa o ressarcimento do crédito de IPI auferido em razão do referido dispositivo legal. 8. Não existe fundamento teleológico para entender que o incentivo fiscal permitiria apenas o abatimento com débitos do IPI e o acúmulo do saldo credor do imposto. 9. Interpretação de que os dispositivos da Lei nº 9.440/97 (art. 1º, IX, art. 11, art. 11-A e art. 11-B) guardam identidade, que atende ao desiderato da lei vista a partir da Constituição Federal (art. 43, § 2º, III; art. 151, I). 10. Em suma: 1) há identidade de benefícios; 2) o art. 11-B não é benefício que deva ser considerado como em compartimento estanque em relação ao art. 1º, IX, da Lei n. 9.440/97; 3) Se há identidade de benefício, é possível o aproveitamento; 4) foi extinto o primeiro prazo; 5) o amparo legal existe em razão da existência do reconhecimento da identidade de incentivo fiscal; 6) houve, sim, mudança de entendimento ao ser editada a IN 1.1717/2017; 7) há lastro legal para o comando judicial que possibilitou o ressarcimento. 11. Ainda que o incentivo fiscal do art. 11-B da Lei n. 9.440/97 não fosse visto como o mesmo do art. 1º, IX, da mesma lei, constata-se que a própria disposição normativa estabelece que o crédito presumido de IPI será objeto de ressarcimento. 12. Com a previsão de ressarcimento, aplica-se o permissivo contido no art. 74 da Lei n. 9.430/96. 13. Este Tribunal já teve oportunidade de se debruçar sobre a questão da limitação da possibilidade de ressarcimento, via compensação, do crédito presumido do IPI decorrente do referido benefício fiscal ao proclamar que "o art. 6º, VI e parágrafo único, do Decreto n. 2.179/97 - invocado pela Fazenda -, ao limitar o aproveitamento de crédito presumido à dedução do IPI devido pela saída de produtos tributados, desbordou do propósito insculpido na lei regulamentada (Lei n. 9.440/97), afastando-se da concepção de "fiel execução" a qual deveria atender”. (Proc. 0801144-09.2012.405.8300, Rel. Des. LUIZ ALBERTO GURGEL DE FARIA). 14. Na linha do precedente invocado, não se poderia pensar em limitar a aplicação do incentivo fiscal em debate mediante a simples consideração de que o Executivo poderia desbordar do objetivo traçado pelo legislador para impedir a utilização do ressarcimento via compensação. 15. Apelação e remessa oficial improvidas. v) Tribunal Regional Federal da 5ª Região, PROCESSO Nº 0801144- 09.2012.4.05.8300, APELAÇÃO/REMESSA NECESSÁRIA, Relator: DESEMBARGADOR FEDERAL LUIZ ALBERTO GURGEL DE FARIA, julgado em 20/03/2014: RELATÓRIO Fl. 7825DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 16 Trata-se de apelação e remessa oficial de sentença que julgou procedente o pedido, para anular a decisão administrativa que negou o pleito de ressarcimento, de crédito presumido de IPI previsto no art. 1º, IX da Lei nº 9.440/97, formalizado mediante compensação (PAF 11971.000342/2002-39), declarando, ainda, o direito de utilização do saldo credor, mediante compensação com débitos vencidos ou vincendos de tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal. Honorários advocatícios forma fixados em R$ 2.000,00 (dois mil reais). (...) VOTO Analisando os autos, tenho que a sentença é irreprochável. Vejamos. In casu, a sociedade empresária recorrida obteve teve assegurado seu direito de utilização do saldo credor, mediante compensação com débitos vencidos ou vincendos de tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal. No bojo do Processo Administrativo nº 11971.000342/2002-39, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais do Ministério da Fazenda/CARF não homologou a declaração de compensação apresentada pela contribuinte, através da qual se pretendia compensar créditos presumidos de Imposto sobre Produtos Industrializados/IPI que possuiria com base no art. 1º, IX, da Lei n.º 9.440/97, com débitos de tributos diversos do IPI. O pleito administrativo formulado pela recorrida foi indeferido pelo Fisco, sob o fundamento de que inexistia direito a tal compensação (nos moldes em que foi requerida), eis que, nos termos da legislação pertinente (Lei nº 9.440/ 97 e Decreto nº 2.179/97, especialmente), apenas se facultava ao sujeito passivo a possibilidade de compensação na forma de dedução de IPI na saída de produtos tributados, não sendo possível a utilização de créditos desta natureza na compensação de dívidas de outras espécies. Dito isso, passa-se ao exame da controvérsia. É consabido que os atos normativos derivados (caso do Decreto) têm o efeito de complementar a lei (ato normativo originário e autônomo), "para sua fiel execução". Tais atos não podem inovar na ordem jurídica, sob pena de afrontar o comando do art. 5º, II, da CF/88, devendo apenas complementar a legislação, preocupando-se não em alterá-la, mas em torná-la exequível. Na hipótese dos autos, através de uma cognição sumária, verifica-se que o art. 6º, VI e parágrafo único, do Decreto nº 2.179/ 97 - invocado pela Fazenda para justificar a reforma da decisão -, ao limitar o aproveitamento de crédito presumido à dedução do IPI devido pela saída de produtos tributados, desbordou do propósito insculpido na lei regulamentada (Lei n.º 9.440/97), afastando-se da concepção de "fiel execução" a qual deveria atender. A meu ver, a restrição imposta pelo decreto, máxime diante do contexto dos autos, destoa do fundamento da política de desenvolvimento regional que dá suporte ao benefício fiscal concedido na Lei n.º 9.440/97, o que justifica a manutenção do julgado hostilizado. Nessa senda, entendeu o magistrado a quo que: Fl. 7826DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 17 Conforme relatado, a Lei nº 9.440/97, visando o desenvolvimento das regiões Norte, Nordeste e Centro-oeste, autorizou às empresas do ramo automotivo, instaladas ou que viessem a se instalar nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, creditarem-se do Imposto sobre Produtos Industrializados como ressarcimento das contribuições para o PIS/PASEP e a COFINS, incidentes sobre o seu faturamento. A utilização desses créditos foi remetida pela lei ao regulamento, tendo sido editado o Decreto nº 2.179/97, cujo art. 6º, remete ao art. 103 do Regulamento do Imposto sobre Produtos Industrializados, aprovado pelo Decreto nº 87.981, de 23 de dezembro de 1982, o chamado RIPI/82, que passo a transcrever: "Art. 103. Os créditos do imposto escriturados pelos estabelecimentos industriais, ou equiparados a industrial, serão utilizados mediante dedução do imposto devido pelas saídas de produtos dos mesmos estabelecimentos. § 1º Quando, do confronto dos débitos e créditos, num período de apuração do imposto, resultar saldo credor, será este transferido para o período seguinte. § 2º O direito à utilização do crédito está subordinado ao cumprimento das condições estabelecidas para cada caso e das exigências previstas para a sua escrituração, neste Regulamento." Da redação da mencionada norma, constata-se a previsão de utilização do crédito presumido do IPI tão-somente com o imposto devido pela saída de produtos. Apesar disso, porém, penso que não possa prevalecer a tese da União. Isso porque, de acordo com o entendimento esposado pela ré, empresas como a autora - que, por força de disposição da Lei nº 9.826/99, têm grande parte de suas saídas suspensas, já que a tributação é concentrada nas montadoras - não poderiam utilizar o saldo credor de IPI, acumulado em razão de não poderem proceder à dedução descrita pela norma. Ora, filiar-se a esse posicionamento seria esvaziar o conteúdo da norma, retirando a sua finalidade e neutralizando os seus efeitos. Afinal, de nada adianta reconhecer o crédito e não permitir sua utilização. Tanto é assim, que, em 2008, o ente federal, reconhecendo a falha, e, visando evitar situações tais como a presente, editou o Decreto nº 6.556, em substituição ao Decreto nº 2.179/97, de modo a prever outras formas de utilização do crédito presumido. Desta feita, tendo em vista a finalidade da norma, que não pode ser alterada ou suprimida por força de decreto regulamentar, aliada à previsão constante da Lei nº 9.430/96, que permite a compensação de créditos com débitos relativos a quaisquer tributos e contribuições, entendo pela anulação da decisão que negou o pedido de ressarcimento formalizado mediante compensação. De outro modo, diante da impossibilidade deste Juízo de homologar a compensação, quer por ser ato privativo da autoridade fazendária, quer pela necessidade de verificação da conformidade do ato com as demais exigências legais, posiciono-me pelo acolhimento do pedido sucessivo, de declaração do direito à utilização dos créditos. Penso que os argumentos esposados pelo juízo originário (os quais passam a compor a fundamentação deste decisum) não são dignos de retoques. Note-se que Fl. 7827DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 18 o próprio Poder Público, certamente percebendo a indevida limitação imposta pelo supracitado Decreto, alterou o seu comando originário (através do Decreto nº 6.556/08), trazendo regulamentação diferente da anterior, passando a prever outras formas de utilização do crédito decorrente. Não se quer com isso afirmar que o Decreto nº 6.556/08 deve ser aplicado de forma retroativa, mas apenas destacar a verossimilhança da tese de que o Decreto nº 2.179/ 97, em sua concepção originária, restringia de modo indevido a lei por ele regulada, tolhendo o seu desígnio político. Tenho que a suspensão temporária da exigibilidade do crédito tributário referente ao Processo Administrativo nº 11971.000342/2002-39 é medida prudente, pois impede a promoção de execução fiscal que poderá, futuramente, perder seu fundamento de validade, a depender do julgamento desta ação. Ademais, tal postura não ofende o art. 170-A do CTN, já que não implica a extinção do crédito tributário (art. 156, II, do CTN), nem inviabiliza que a Fazenda constitua definitivamente tal crédito e, posteriormente, promova a exação dos valores discutidos, caso o pleito da recorrida não seja acolhido ao fim do processo. Ante o exposto, NEGO PROVIMENTO à apelação e à remessa oficial. A questão, que sempre foi pacífica no âmbito judicial (tanto na 1ª quanto na 2ª instâncias), restou consolidada por meio de acórdão proferido à unanimidade pela 1ª Turma do STJ no julgamento do REsp nº 1.804.942/PE, Relator Ministro BENEDITO GONÇALVES, com publicação no DJe em 27/06/2022: EMENTA PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. RESSARCIMENTO DA CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. BENEFÍCIO FISCAL ESTABELECIDO EM FAVOR DE MONTADORAS E FABRICANTES DE VEÍCULOS AUTOMOTORES. REGIÕES NORTE, NORDESTE E CENTRO-OESTE. FORMA DE UTILIZAÇÃO DO CRÉDITO. VIOLAÇÃO DOS ARTS. 489 E 1.022 DO CPC/2015. NÃO OCORRÊNCIA. RESSARCIMENTO DE CRÉDITOS ORIUNDO DE BENEFÍCIO FISCAL. APLICABILIDADE DO CONCEITO DE RESSARCIMENTO TRIBUTÁRIO. ARTIGO 74 DA LEI 9.430/1996. POSSIBILIDADE DE RESSARCIMENTO NA COMPENSAÇÃO DE DÉBITOS PRÓPRIOS RELATIVOS A QUALQUER TRIBUTOS E CONTRIBUIÇÕES ADMINISTRADOS PELA RECEITA FEDERAL DO BRASIL 1. Tendo o recurso sido interposto contra decisão publicada na vigência do Código de Processo Civil de 2015, devem ser exigidos os requisitos de admissibilidade na forma nele previsto, conforme Enunciado Administrativo n. 3/2016/STJ. 2. A questão controvertida de mérito dos autos consiste na definição da extensão do benefício fiscal previsto no art. 11-B da Lei n. 12.407/2011, se a sua aplicabilidade autoriza ao contribuinte que requeira à Receita Federal do Brasil o ressarcimento mediante a compensação de qualquer tributo por ela administrado. 3. De início, afasta-se a alegada violação dos artigos 489 e 1.022 do CPC/2015, porquanto o acórdão recorrido manifestou-se de maneira clara e fundamentada a respeito das questões relevantes para a solução da controvérsia. A tutela Fl. 7828DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 19 jurisdicional foi prestada de forma eficaz, não havendo razão para a anulação do acórdão proferido em sede de embargos de declaração. 4. Não há a apontada violação aos artigos 319, IV, 356, I, 490, 371, 933 e 934 do CPC/15 (fls. 699/705), na medida em que as alegações da recorrente se direcionam propriamente quanto ao mérito da pretensão recursal, que diz respeito ao modo de aproveitamento do saldo credor do crédito presumido de IPI (art. 11-B da Lei 9.440/1997). 5. Desde a edição Lei n. 9.440/1997, em sua versão original, até a superveniência da Lei n. 12.407/2011 (objeto da conversão da MP n. 512/2010), o arquétipo básico do benefício permaneceu inalterado - concessão de crédito presumido de IPI como forma de ressarcimento da contribuição ao PIS e da COFINS - sendo que se lhe foram acrescentadas qualificadoras tributárias que sofisticaram o favor fiscal, de um modo a aproximá-lo das finalidades perseguidas pelo legislador. 6. Tratando genericamente do instituto da restituição e da compensação, a Lei 9.430/1996 dispõe que o sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão (art. 74). 7. Na hipótese dos autos, o contribuinte apura crédito fundado em benefício fiscal instituído em Lei, que consiste pontualmente em crédito presumido de IPI, como ressarcimento das contribuições sociais do PIS e da COFINS. Portanto, nos termos do art. 74 da Lei 9.430/1996, o contribuinte pode apurar seus créditos na "compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados" pela Receita Federal do Brasil (art. 74 da Lei 9.430/1996). 8. Recurso especial não provido. ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Primeira Turma, por unanimidade, negar provimento ao recurso especial, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Sérgio Kukina, Regina Helena Costa, Gurgel de Faria e Manoel Erhardt (Desembargador convocado do TRF-5ª Região) votaram com o Sr. Ministro Relator. A fundamentação desse acórdão se deu nos seguintes termos: Da compensação do saldo credor do crédito presumido de IPI de que trata o art. 11-B da Lei nº 9.440/97 com débitos de outros tributos federais Em síntese, propriamente quanto ao mérito, a Fazenda sustenta em seu recurso especial que não há uma "unicidade de benefício fiscal relativo aos créditos presumidos de IPI, previstos nos arts. 1º, IX, 11, 11-A e 11-B, todos da Lei n. 9.440/97" e que deve ser negada a "possibilidade de compensação do crédito presumido do IPI do art. 11-B da Lei nº 9.440/97 com outros tributos federais devidos pela impetrante". Fl. 7829DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 20 (...) Sobre o ponto controvertido, vejamos, naquilo é pertinente, o teor da Lei n. 9.440/1997, na versão original: (...) Com a edição da Lei n.12.218/2010 (conversão da MP 471/2009), foi incluído o art. 11-A, cujo teor é: (...) Posteriormente, com a edição da Lei n. 12.407/2011 (conversão da MP n. 512/2010), foi incluído o art. 11-B: (...) Após a vigência da Lei 12.407/2011, a Instrução Normativa n. 1.300/2012 permitia a possibilidade de ressarcimento dos créditos presumidos de IPI de que trata o inciso IX do art. 1º da Lei n. 9.440/97, dispondo em seu em seu artigo 21, §§ 2º e 3º, que: (...) Ocorre Instrução Normativa RFB nº 1.717/17 deixou de prever de forma expressa a possibilidade de ressarcimento e compensação dos créditos presumidos de IPI de que trata o inciso IX do art. 1º da Lei n° 9.440/97. Portanto, a questão controvertida nos autos se concentra na definição da extensão do benefício fiscal previsto no art. 11-B da Lei n. 12.407/2011: se a sua aplicabilidade autoriza ao contribuinte que requeira à Receita Federal do Brasil o ressarcimento mediante a compensação de tributos por ela administrados. Embora a questão tenha se concentrado na investigação jurídica no sentido de definir se há a continuidade, ou não, de um mesmo benefício fiscal, observo que em todas as hipóteses normativas do benefício, acima transcritas, o mecanismo legal adotado foi o mesmo: a concessão de crédito presumido de IPI como forma de ressarcimento da contribuição ao PIS e da COFINS. Desde a Lei n. 9.440/1997, em sua versão original, até a edição da Lei n. 12.407/2011 (conversão da MP n. 512/2010), o arquétipo básico permaneceu inalterado - repiso, concessão de crédito presumido de IPI como forma de ressarcimento da contribuição ao PIS e da COFINS -sendo que se lhe foram acrescentadas qualificadoras tributárias que sofisticaram o favor fiscal, de um modo a aproximá-lo das finalidades perseguidas pelo legislador. Entretanto, a solução da controvérsia deve se concentrar no tipo básico fundamental do benefício fiscal, cujo núcleo está contido no termo técnico tributário "ressarcimento". Se todas as formulações legais asseguraram o ressarcimento da contribuição social do PIS e da COFINS, na forma de crédito presumido de IPI, devemos investigar tecnicamente o que a Lei entende, autenticamente, como ressarcimento tributário. (...) Na hipótese dos autos, o contribuinte apura crédito fundado em benefício fiscal instituído em Lei, que consiste pontualmente em crédito presumido de IPI, como Fl. 7830DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 21 ressarcimento da contribuição social do PIS e da COFINS. Os requisitos que conduzem o contribuinte a gozar de referido benefício não estão em controvérsia nos autos. Portanto, o contribuinte efetivamente dispõe de referidos créditos e os pretende apurar na "compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados" pela Receita Federal do Brasil (art. 74 da Lei 9.430/1996). Diante do panorama legal, que deve passar pela aplicabilidade do citado art. 74 da Lei 9.430/1996, compreendo que razão assiste ao TRF5, no ponto em que o Relator do acórdão recorrido sustenta que "com a previsão de ressarcimento, aplica-se o permissivo contido no art. 74 da Lei n. 9.430/96" (fl. 496). Conclusivamente, o conceito legal e geral de ressarcimento tributário, firmado na Lei 9.430/1996, não pode ser pontualmente limitado por Instrução Normativa da Receita Federal neste caso concreto, de modo a fazer escapar uma prerrogativa dada pela Lei ao contribuinte. Em arremate, a disposição contida no art. 170-A do CTN diz respeito a demanda na qual o tributo esteja sendo objeto de controvérsia. Entretanto, nestes autos a discussão não trata de indébito tributário, pois, conforme pontuado acima, é fato incontroverso a existência do crédito do IPI. Ante o exposto, nego provimento ao recurso especial. Em resumo, as decisões administrativas contrárias à tese do contribuinte se embasam na alegação de ausência de expressa previsão legal ou regulamentar para o ressarcimento do crédito presumido previsto no art. 11-B da Lei nº 9.440/97, em especial por se tratar de incentivo fiscal distinto daquele previsto no art. 1º, IX, do mesmo diploma legal. As decisões judiciais afirmam que, além de se tratar do mesmo incentivo fiscal, (que apenas foi prorrogado sucessivamente, apesar de alterações na forma de cálculo e requisitos exigidos), o Decreto nº 2.179/97, antes de ser alterado pelo Decreto nº 6.556/2008, assim como a Instrução Normativa RFB nº 1.717/2017, exorbitaram do seu poder regulamentar, ao não prever a possibilidade de ressarcimento dos referidos créditos presumidos. O STJ, indo além, especificou que, além de se tratar do mesmo incentivo fiscal, o seu “arquétipo básico” permaneceu inalterado - concessão de crédito presumido de IPI como forma de ressarcimento da contribuição ao PIS e da COFINS -, o que significa que sua própria definição (natureza jurídica) já contém a previsão legal suficiente para a autorização ao ressarcimento, com a consequente possibilidade de compensação com outros tributos além do IPI. Dessa forma, restou superada a alegação de ausência de previsão legal específica para o ressarcimento, de acordo com a entendimento prolatado pelo STJ, a quem compete, por determinação constitucional, a interpretação da legislação federal. De qualquer sorte, entendo acertada a posição da Corte Superior. Os arts. 11, 11-A, 11-B e 11-C se referem ao mesmo incentivo fiscal, aquele previsto no art. 1º, Fl. 7831DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 22 IX, apesar de, obviamente, não serem idênticos. Contudo, as diferenças em relação à forma de cálculo e os requisitos para a concessão não alteram o fato de que são meras prorrogações do incentivo original. Tal conclusão se mostra evidente, a meu ver, a partir da análise cronológica dos incentivos fiscais. Com efeito, o incentivo fiscal original, previsto no art. 1º, IX, da Lei nº 9.440/97, teve vigência até 31 de dezembro de 1999, com possibilidade de prorrogação prevista no art. 11: Art. 1º Poderá ser concedida, nas condições fixadas em regulamento, com vigência até 31 de dezembro de 1999: (...) IX - crédito presumido do imposto sobre produtos industrializados, como ressarcimento das contribuições de que tratam as Leis Complementares nos 7, 8 e 70, de 7 de setembro de 1970, 3 de dezembro de 1970 e 30 de dezembro de 1991, respectivamente, no valor correspondente ao dobro das referidas contribuições que incidiram sobre o faturamento das empresas referidas no § 1º deste artigo. (...) § 14. A utilização dos créditos de que trata o inciso IX será efetivada na forma que dispuser o regulamento. (...) Art. 11. O Poder Executivo poderá conceder, para as empresas referidas no § 1º do art. 1º, com vigência de 1º de janeiro de 2000 a 31 de dezembro de 2010, os seguintes benefícios: I - (Revogado pela Lei nº 12.218, de 2010); II - (Revogado pela Lei nº 12.218, de 2010); III - (Revogado pela Lei nº 12.218, de 2010); IV - extensão dos benefícios de que tratam os incisos IV, VI, VII, VIII e IX do art. 1º. O Poder Executivo decidiu exercer essa faculdade, por meio do Decreto nº 3.893/2001, nos seguintes termos: DECRETO Nº 3.893, DE 22 DE AGOSTO 2001. Dispõe sobre a concessão de incentivo fiscal para o desenvolvimento regional, nos termos do art. 11 da Lei nº 9.440, de 14 de março de 1997. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso IV, da Constituição, e tendo em vista o disposto no art. 11 da Lei nº 9.440, de 14 de março de 1997, DECRETA: Art. 1º Às empresas referidas no §1º do art. 1º da Lei nº 9.440, de 14 de março de 1997, poderá ser concedido, até 31 de dezembro de 2010, o incentivo fiscal do crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), como Fl. 7832DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 23 ressarcimento das contribuições de que tratam as Leis Complementares nºs 7, de 7 de setembro de 1970, nº 8, de 3 de dezembro de 1970 e nº 70, de 30 de dezembro de 1991, no montante correspondente à aplicação da alíquota de 7,30% (sete vírgula trinta por cento) sobre o valor do faturamento decorrente da venda de produtos de fabricação própria, desde que as referidas empresas tenham: I - sido habilitadas ao regime fiscal previsto no art. 1º da Lei nº 9.440, de 1997, no prazo estipulado no art. 12 do mesmo diploma legal; II - cumprido com todas as condições estipuladas na Lei nº 9.440, de 1997, e constantes do termo de Aprovação assinado pela empresa; e III - comprovado a regularidade do pagamento dos tributos e contribuições federais. Parágrafo único. O incentivo fiscal alcançará os fatos geradores ocorridos a partir do mês subsequente ao da sua concessão. Destaco que, apesar de não haver qualquer controvérsia sobre o fato desse decreto ter apenas prorrogado o prazo de vigência do incentivo original, como facultava o art. 11, o seu texto deixa expresso que houve uma alteração na forma de cálculo do crédito presumido, o que em nada modificou sua natureza jurídica, mantendo-se a possibilidade de ressarcimento, nos termos do Decreto nº 2.179/97, com a alteração promovida pelo Decreto nº 6.556/2008. Registre-se, também, que tal possibilidade de ressarcimento nunca foi contestada, apesar do Decreto nº 3.893/2001 não tratar dessa questão. A Administração Tributária entendeu que o permissivo do Decreto nº 2.179/97, com as alterações promovidas pelo Decreto nº 6.556/2008, seria aplicável também durante a prorrogação, o que parece bastante lógico, pois o Decreto nº 3.893/2001 tratou apenas da prorrogação e de outras questões meramente procedimentais. Em seguida, a Lei nº 12.218/2010 inclui, na Lei nº 9.440/97, o art. 11-A, com vigência no dia seguinte ao fim da vigência estabelecida pelo art. 11: Art. 1º A Lei nº 9.440, de 14 de março de 1997, passa a vigorar acrescida do seguinte art. 11-A: "Art. 11-A. As empresas referidas no § 1º do art. 1º, entre 1º de janeiro de 2011 e 31 de dezembro de 2015, poderão apurar crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, como ressarcimento das contribuições de que tratam as Leis Complementares nºs 7, de 7 de setembro de 1970, 8, de 3 de dezembro de 1970, e 70, de 30 de dezembro de 1991, no montante do valor das contribuições devidas, em cada mês, decorrente das vendas no mercado interno, multiplicado por: I - 2 (dois), no período de 1º de janeiro de 2011 a 31 de dezembro de 2011; II - 1,9 (um inteiro e nove décimos), no período de 1º de janeiro de 2012 a 31 de dezembro de 2012; Fl. 7833DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 24 III - 1,8 (um inteiro e oito décimos), no período de 1º de janeiro de 2013 a 31 de dezembro de 2013; IV - 1,7 (um inteiro e sete décimos), no período de 1º de janeiro de 2014 a 31 de dezembro de 2014; e V - 1,5 (um inteiro e cinco décimos), no período de 1º de janeiro de 2015 a 31 de dezembro de 2015. (...) § 4º O benefício de que trata este artigo fica condicionado à realização de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica na região, inclusive na área de engenharia automotiva, correspondentes a, no mínimo, 10% (dez por cento) do valor do crédito presumido apurado. § 5º A empresa perderá o benefício de que trata este artigo caso não comprove no Ministério da Ciência e Tecnologia a realização dos investimentos previstos no § 4º, na forma estabelecida em regulamento." Essa lei foi resultado da conversão da Medida Provisória nº 471/2009, cuja exposição de motivos trouxe as seguintes razões: Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Temos a honra de submeter à elevada consideração de Vossa Excelência proposta de edição de Medida Provisória (MP), que implementa medidas complementares à política de desenvolvimento produtivo do País, visando, em caráter de relevância e urgência, ampliar o prazo de vigência de incentivos fiscais destinados a fomentar o desenvolvimento regional. 2. A indústria automotiva foi beneficiada com um conjunto de medidas estabelecendo incentivos fiscais visando a regionalização da indústria automotiva brasileira, notadamente para as empresas do setor instaladas ou que viessem a se instalar nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, cuja vigência expirar-se-á em 31 de dezembro de 2010. 3. Nos estados das regiões focadas pela legislação que instituiu o mencionado regime automotivo brasileiro voltado para o desenvolvimento regional, destaca-se uma evolução no nível de emprego, que demonstra o crescimento do número de pessoas empregadas na indústria. 4. Por sua vez, uma observação sobre o desempenho das relações comerciais ligadas ao setor automobilístico nos estados das regiões mencionadas, traduz a assertiva da medida deflagrada. Verifica-se que o Estado da Bahia assumiu participação significativa nas exportações de veículos automotores produzidos no Brasil, enquanto o Estado de Goiás experimenta papel importante na importação desses veículos. 5. Mesmo com os avanços mencionados, observa-se ainda um distanciamento considerável nos indicadores econômicos das regiões mencionadas: As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, conjuntamente detêm 42,78% da população brasileira, mas respondem por apenas 26,9% de participação no Produto Interno Bruto do Brasil - PIB, a preços correntes, em 2006, segundo dados do IBGE. Todos Fl. 7834DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 25 os estados dessas regiões, exceto o Distrito Federal por sua estrutura econômica diferenciada, ostentam um PIB per capita inferior ao dado nacional. Por sua vez, a caracterização do setor apresenta-se de acordo com a tabela abaixo, 6. A prorrogação da vigência dos incentivos fiscais estabelecidos nas Leis nº 9.440, de 1997 e nº 9.826, de 1999, por um período adicional de 5 (cinco) anos, enseja a manutenção de medidas indutoras da melhoria dos níveis de investimento, produção, vendas e emprego e propiciará a preservação do potencial competitivo da indústria automotiva brasileira, podendo atrair ainda novas inversões para a região. 7. Dessa forma, busca-se uma atuação proativa no sentido de conter possíveis consequências de um eventual comprometimento da competitividade brasileira, que poderia culminar com o fechamento de empresas, perda de postos de trabalho e redução da renda e da atividade econômica nas regiões focadas. 8. Há urgência na adoção dessas medidas porque se faz necessário garantir segurança jurídica e previsibilidade aos planos de investimentos do setor contemplado correspondentes aos exercícios aos quais se aplicarão os benefícios fiscais. Isso, pois as decisões de investimento para os anos supervenientes se dão ainda no presente ano e, para que sejam acertadas, devem considerar os benefícios fiscais futuramente vigentes. Além disso, a proposta é relevante e urgente, pois dará efetividade à decisão de consolidar a aplicação de medidas de recuperação da crise recentemente vivida, que causou danos à produção da indústria brasileira, com consequente reflexo na quantidade de postos de trabalho. (...) 11. São estas, Senhor Presidente da República, as razões que justificam a edição da Medida Provisória, ora submetida à elevada consideração de Vossa Excelência. Ora, o item 6 da Exposição de Motivos deixa expresso que se trata de uma prorrogação do incentivo fiscal original, necessária para a manutenção da melhoria dos níveis de investimento, produção, vendas e emprego e a preservar o potencial competitivo da indústria automotiva brasileira, podendo atrair ainda, adicionalmente, novas inversões para a região. O Decreto nº 7.422, de 31/12/2010, regulamentou o art. 11-A em seu art. 2º, mas também cuidou de outro benefício, aquele previsto na Lei nº 9.826/99, em seu art. 3º (os demais artigos são aplicáveis a ambos os benefícios fiscais): Art. 1º Este Decreto regulamenta o art. 11-A da Lei nº 9.440, de 14 de março de 1997, e o art. 1º da Lei nº 9.826, de 23 de agosto de 1999. Art. 2º As empresas de que trata o § 1º do art. 1º da Lei nº 9.440, de 1997, instaladas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, poderão apurar, entre 1º de janeiro de 2011 e 31 de dezembro de 2015, crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI como ressarcimento da Contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - COFINS, no montante do valor das contribuições devidas, em cada mês, decorrente das Fl. 7835DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 26 vendas no mercado interno dos produtos referidos no inciso IV do art. 2º do Decreto nº 2.179, de 18 de março de 1997, multiplicado por: I - dois, no período de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2011; II - um inteiro e nove décimos, no período de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2012; III - um inteiro e oito décimos, no período de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2013; IV - um inteiro e sete décimos, no período de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2014; e V - um inteiro e cinco décimos, no período de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2015. (...) Art. 3º Os estabelecimentos industriais instalados nas áreas de atuação da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia - SUDAM e da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste - SUDENE e na região Centro- Oeste, exceto no Distrito Federal, farão jus a crédito presumido do IPI, a ser deduzido na apuração deste imposto, incidente nas saídas de produtos classificados nas posições 87.02 a 87.04 da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados - TIPI, aprovada pelo Decreto no 6.006, de 28 de dezembro de 2006. Parágrafo único. O crédito presumido de que trata o caput: I - corresponderá a trinta e dois por cento do valor do IPI incidente nas saídas do estabelecimento industrial dos produtos referidos no caput, nacionais ou importados diretamente pelo beneficiário; e II - poderá ser aproveitado em relação às saídas ocorridas até 31 de dezembro de 2015. Esse decreto traz um fato muito importante na presente análise: o art. 2º, que regulamenta o art. 11-A, é silente em relação à forma de aproveitamento do crédito presumido de IPI, o que demonstra que o Poder Executivo já entendia que essa questão estaria tratada no Decreto nº 2.179/97, com as alterações promovidas pelo Decreto nº 6.556/2008. Afinal, não seria crível supor que, na ausência de dispositivos tratando do assunto, o crédito não teria como ser aproveitado. Por outro lado, o art. 3º, que cuida do benefício fiscal previsto no art. 1º da Lei nº 9.826/99, expressamente afirma que este deverá ser deduzido na apuração do IPI incidente nas saídas de produtos classificados nas posições 87.02 a 87.04 da TIPI. Se a dedução do próprio imposto fosse automática, não haveria a necessidade desse texto constar do dispositivo, pois a lei não utiliza palavras ou expressões inúteis (verba cum effectu sunt accipienda). Fl. 7836DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 27 Além disso, se essa fosse a única possibilidade de utilização do benefício do art. 11-A, como afirma o Fisco, deveria constar do texto do decreto, tal qual ocorreu com o benefício da Lei nº 9.826/99. Observe-se que, ao contrário da Lei nº 9.440/97, que delegou ao regulamento a forma de utilização do benefício, a Lei nº 9.826/99 expressamente determina a forma de sua utilização: LEI Nº 9.826, DE 23 DE AGOSTO DE 1999. Dispõe sobre incentivos fiscais para desenvolvimento regional, altera a legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, e dá outras providências. Art. 1º Os empreendimentos industriais instalados nas áreas de atuação da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia - SUDAM e Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste - SUDENE farão jus a crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, a ser deduzido na apuração deste imposto, incidente nas saídas de produtos classificados nas posições 8702 a 8704 da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados - TIPI, aprovada pelo Decreto nº 2.092, de 10 de dezembro de 1996. § 1º O disposto neste artigo aplica-se, também, aos empreendimentos industriais instalados na região Centro-Oeste, exceto no Distrito Federal. § 2º O crédito presumido corresponderá a trinta e dois por cento do valor do IPI incidente nas saídas, do estabelecimento industrial, dos produtos referidos no caput, nacionais ou importados diretamente pelo beneficiário. Outra questão a ser destacada no benefício acima é que ele trata simplesmente de “crédito presumido de IPI”, enquanto o benefício do art. 11-A trata de “crédito presumido do IPI, como ressarcimento das contribuições”. Isso justifica o fato do texto daquele benefício expressamente determinar sua utilização exclusivamente como dedução do próprio IPI na escrita fiscal, enquanto o texto deste benefício possibilita também o ressarcimento, exatamente conforme o entendimento do STJ, que pôs fim à celeuma. Tal fato também é verificado na Lei nº 9.363/96, que instituiu outro “crédito presumido do IPI, como ressarcimento das contribuições”: Art. 1º A empresa produtora e exportadora de mercadorias nacionais fará jus a crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados, como ressarcimento das contribuições de que tratam as Leis Complementares nºs 7, de 7 de setembro de 1970, 8, de 3 de dezembro de 1970, e 70, de 30 de dezembro de 1991, incidentes sobre as respectivas aquisições, no mercado interno, de matérias- primas, produtos intermediários e material de embalagem, para utilização no processo produtivo. (...) Art. 4º Em caso de comprovada impossibilidade de utilização do crédito presumido em compensação do Imposto sobre Produtos Industrializados devido, pelo produtor exportador, nas operações de venda no mercado interno, far-se-á o ressarcimento em moeda corrente. Fl. 7837DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 28 O mesmo ocorre com a Lei nº 10.276/2001, que criou um método alternativo de cálculo do mesmo benefício fiscal da Lei nº 9.363/96 (o que confirma que a mera mudança na forma de cálculo não desnatura o benefício fiscal): Art. 1º Alternativamente ao disposto na Lei nº 9.363, de 13 de dezembro de 1996, a pessoa jurídica produtora e exportadora de mercadorias nacionais para o exterior poderá determinar o valor do crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), como ressarcimento relativo às contribuições para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PIS/PASEP) e para a Seguridade Social (COFINS), de conformidade com o disposto em regulamento. (...) § 5º Aplicam-se ao crédito presumido determinado na forma deste artigo todas as demais normas estabelecidas na Lei nº 9.363, de 1996. Assim, confirma-se, mais uma vez, a tese do STJ, segundo a qual quando a lei trata de um “crédito presumido” como “forma de ressarcimento”, esse crédito é ressarcível, pela própria definição da natureza no benefício fiscal ser uma “forma de ressarcimento”; esse crédito, portanto, é passível de ressarcimento e, por consequência, compensável, nos termos do art. 74 da lei nº 9.430/96. Vale destacar que, no caso da Lei nº 10.276/2001, foi necessário introduzir um dispositivo determinando que todas as demais normas estabelecidas na Lei nº 9.363, de 1996 seriam autoaplicáveis, pois o legislador optou por criar o método alternativo em outra lei. No presente caso, as alterações no benefício fiscal foram realizadas pela técnica legislativa de inclusão de dispositivos ao texto original, com o acréscimo de uma letra, tal como determina a Lei Complementar nº 95, de 1998: LEI COMPLEMENTAR Nº 95, DE 26 DE FEVEREIRO DE 1998 Dispõe sobre a elaboração, a redação, a alteração e a consolidação das leis, conforme determina o parágrafo único do art. 59 da Constituição Federal, e estabelece normas para a consolidação dos atos normativos que menciona. Art. 1º A elaboração, a redação, a alteração e a consolidação das leis obedecerão ao disposto nesta Lei Complementar. (...) Art. 12. A alteração da lei será feita: I - mediante reprodução integral em novo texto, quando se tratar de alteração considerável; II – mediante revogação parcial; III - nos demais casos, por meio de substituição, no próprio texto, do dispositivo alterado, ou acréscimo de dispositivo novo, observadas as seguintes regras: Fl. 7838DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 29 a) revogado; b) é vedada, mesmo quando recomendável, qualquer renumeração de artigos e de unidades superiores ao artigo, referidas no inciso V do art. 10, devendo ser utilizado o mesmo número do artigo ou unidade imediatamente anterior, seguido de letras maiúsculas, em ordem alfabética, tantas quantas forem suficientes para identificar os acréscimos; (Redação dada pela Lei Complementar nº 107, de 26.4.2001) Ou seja, a utilização dessa técnica de redação indica que o legislador apenas queria promover acréscimos ao benefício fiscal previsto no art. 11. Seria completamente fora da melhor técnica de redação criar um novo benefício por meio da introdução de dispositivos vinculados a outro benefício, gerando interpretações distintas quanto à sua natureza. O correto, segundo a própria lei complementar que regula o tema, seria criar novo benefício através de outra lei, como ocorreu com o benefício fiscal criado pela Lei nº 9.826/99. Observe-se que, apesar da grande semelhança com o art. 11-B, o legislador optou, corretamente, por sua criação através de outra lei. Prosseguindo com a análise cronológica, o legislador prorrogou até 31/12/2020, por meio da Lei 12.407/2011, o benefício do art. 11-A (que se encerrou em 31/12/2015), apenas acrescentando que seria necessário que as empresas que pretendessem utilizá-lo apresentassem projetos que contemplem novos investimentos e a pesquisa para o desenvolvimento de novos produtos ou novos modelos de produtos já existentes: LEI Nº 12.407, DE 19 DE MAIO DE 2011 Art. 1º A Lei nº 9.440, de 14 de março de 1997, passa a vigorar acrescida do seguinte art. 11-B: “Art. 11-B. As empresas referidas no § 1º do art. 1º, habilitadas nos termos do art. 12, farão jus a crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), como ressarcimento das contribuições de que tratam as Leis Complementares nºs 7, de 7 de setembro de 1970, e 70, de 30 de dezembro de 1991, desde que apresentem projetos que contemplem novos investimentos e a pesquisa para o desenvolvimento de novos produtos ou novos modelos de produtos já existentes. § 1º Os novos projetos de que trata o caput deverão ser apresentados até o dia 29 de dezembro de 2010, na forma estabelecida pelo Poder Executivo. § 2º O crédito presumido será equivalente ao resultado da aplicação das alíquotas previstas no art. 1º da Lei nº 10.485, de 3 de julho de 2002, sobre o valor das vendas no mercado interno, em cada mês, dos produtos constantes dos projetos de que trata o caput, multiplicado por: I – 2 (dois), até o 12º mês de fruição do benefício; II – 1,9 (um inteiro e nove décimos), do 13º ao 24º mês de fruição do benefício; III – 1,8 (um inteiro e oito décimos), do 25º ao 36º mês de fruição do benefício; Fl. 7839DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 30 IV – 1,7 (um inteiro e sete décimos), do 37º ao 48º mês de fruição do benefício; e V – 1,5 (um inteiro e cinco décimos), do 49º ao 60º mês de fruição do benefício. § 3º Fica vedado o aproveitamento do crédito presumido previsto no art. 11-A desta Lei nas vendas dos produtos constantes dos projetos de que trata o caput. § 4º O benefício de que trata este artigo fica condicionado à realização de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica na região, inclusive na área de engenharia automotiva, correspondentes a, no mínimo, 10% (dez por cento) do valor do crédito presumido apurado. (...) § 6º O crédito presumido de que trata o caput extingue-se em 31 de dezembro de 2020, mesmo que o prazo de que trata o § 2º deste artigo ainda não tenha se encerrado. A Lei 12.407/2011 foi resultado da conversão da Medida Provisória 512, de 2010, cuja Exposição de Motivos não deixa dúvidas (se é que ainda existe alguma, à essa altura) de que se trata de uma prorrogação: Excelentíssimo Senhor Presidente da República, 1. Temos a honra de submeter à elevada consideração de Vossa Excelência o anexo projeto de Medida Provisória, que permite a apresentação de novos projetos pelas empresas já habilitadas assim como a alteração da habilitação aos incentivos previstos na Lei nº 9.440, de 14 de março de 1997. 2. Em dezembro de 2009, foi editada a Medida Provisória nº 471, posteriormente convertida na Lei nº 12.218, de 30 de março de 2010, que prorrogou até 31 de dezembro de 2015 a vigência dos incentivos fiscais para a regionalização da indústria automotiva previstos nas Leis nº 9.440, de 1997, e nº 9.826, de 23 de agosto de 1999. A legislação anterior previa que esta vigência fosse até 31 de dezembro de 2010. Estes incentivos visam direcionar investimentos da indústria automotiva para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. 3. A Lei nº 12.218, de 2010, no entanto, não permitiu que novas empresas fossem habilitadas, tampouco que novos projetos fossem apresentados. Desta maneira, a Lei tratou apenas de garantir a continuidade dos projetos já existentes, garantindo assim a geração de emprego e renda naquelas regiões decorrentes de tais projetos. Justificou-se a prorrogação, à época, em virtude dos efeitos benéficos que o programa já teve, particularmente, no que diz respeito ao aumento do emprego, exportações e produção do setor automotivo nas regiões abrangidas. 4. A esse respeito, é importante informar que a participação das regiões beneficiadas no emprego total do setor automotivo passou de praticamente zero antes da criação do regime para mais de 13% (treze por cento) em 2009. Na mesma comparação, a participação nas exportações totais de veículos alcançou 10%, partindo de praticamente zero. 5. Mesmo com os avanços mencionados, observa-se ainda um distanciamento considerável nos indicadores econômicos das regiões mencionadas. As regiões Fl. 7840DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 31 Norte, Nordeste e Centro-Oeste, conjuntamente detêm 42,78% da população brasileira, mas respondem por apenas 26,9% de participação no Produto Interno Bruto do Brasil (PIB), a preços correntes, em 2006, segundo dados do IBGE. Todos os estados dessas regiões, exceto o Distrito Federal por sua estrutura econômica diferenciada, ostentam um PIB per capta inferior ao dado nacional. 6. A indústria automotiva brasileira, por sua vez, passa por um momento peculiar. Se, por um lado, a produção, o emprego e as exportações crescem, por outro lado, as importações crescem mais ainda. Como resultado, o setor, que se mostrava superavitário no comércio internacional até 2008, apresentou déficit de U$ 3,7 bilhões de dólares em 2009. As estimativas apontam um déficit superior a U$ 5 bilhões de dólares em 2010, considerando-se todos os ramos da indústria, inclusive o de autopeças. 7. Neste contexto, a proposta de Medida Provisória visa combinar incentivos para o aumento da produção nacional com o reforço das políticas de desenvolvimento regional, com base no que dispõe a própria Constituição Federal. 8. O art. 1º da presente minuta propõe, portanto, o acréscimo do Art. 11-B à Lei nº 9.440, de 1997, para permitir, com o § 2º do novo artigo, a reabertura de prazo até 29 de dezembro de 2010 para que as empresas hoje habilitadas ao regime previsto na referida Lei possam apresentar novos projetos de investimento produtivos. 9. As empresas que tiverem projetos aprovados farão jus a crédito presumido de IPI equivalente ao valor apurado da contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins incidentes sobre o faturamento, multiplicado por um fator que varia de 2,0 a 1,5 entre o primeiro e o quinto ano de fruição do benefício. O texto fala expressamente que o art. 11-A prorrogou o benefício do art. 11, porém não permitiu que novas empresas fossem habilitadas, tampouco que novos projetos fossem apresentados. Desta maneira, a Lei tratou apenas de garantir a continuidade dos projetos já existentes. Cita que, mesmo com os avanços trazidos pelo benefício fiscal, observa-se ainda um distanciamento considerável nos indicadores econômicos das regiões mencionadas, o que indica a preocupação do Poder Executivo com a urgência na prorrogação do incentivo, cujo encerramento em 31/12/2015 poderia trazer graves prejuízos à indústria nacional e acentuar o distanciamento econômico com as regiões mais desenvolvidas. Nesse contexto propõe, com o art. 1º da minuta de MP, o acréscimo do art. 11-B à Lei nº 9.440/97 para permitir, com o § 2º do novo artigo, a reabertura de prazo até 29/12/2010 para que as empresas então habilitadas ao regime previsto na referida Lei possam apresentar novos projetos de investimento produtivos. O art. 11-B foi regulamentado pelo Decreto 7.389, de 2010, que não trata da questão da forma de aproveitamento do crédito presumido, à exemplo do que já ocorreu com o decreto que regulamentou o art. 11-A. Mais uma vez, a única interpretação possível é a de que permanece a regra geral de utilização deste Fl. 7841DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 32 benefício específico, estabelecida pelo Decreto nº 2.179/97, com as alterações promovidas pelo Decreto nº 6.556/2008 (que permitiram o ressarcimento). Esse entendimento também se coaduna com uma interpretação teleológica do benefício fiscal. Como bem demonstrado pelo contribuinte em seu Recurso Voluntário, o valor do crédito presumido concedido é muito superior ao valor do IPI devido pelas saídas (fls. 7822/7823): As prorrogações efetivadas para o benefício fiscal deixam evidente a preocupação do Poder Executivo com uma redução gradual dos fatores de multiplicação para o seu cálculo, iniciando com o fator 2 e decrescendo ano a ano até o fator 1,5. Esse cuidado visa a evitar uma abrupta diminuição no valor, possibilitando às empresas se adaptarem a um novo cenário econômico sem o incentivo fiscal. Contudo, não faz qualquer sentido todo esse cuidado se, mesmo com o menor fator (1,5), a alíquota do crédito presumido ainda supera a do IPI, sendo que o excesso não poderia ser ressarcido/compensado, resultando em um represamento de crédito. Nesse contexto, pouco importa se o multiplicador é 1,5 ou 2,0 pois, em qualquer caso, o valor que efetivamente seria utilizado pelas empresas é o mesmo. Logo, a interpretação da legislação que leva à impossibilidade de ressarcimento se mostra totalmente contraditória com os dispositivos legais, as exposições de motivos e com os objetivos buscados pelas leis de incentivo fiscal. Por fim, a Lei nº 13.755/2018 incluiu, na Lei nº 9.440/97, o art. 11-C, com vigência no dia seguinte ao fim da vigência estabelecida pelo art. 11-B, perdurando até 31/12/2025: Fl. 7842DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 33 Art. 30. A Lei nº 9.440, de 14 de março de 1997, passa a vigorar com as seguintes alterações: “Art. 11-C. As empresas referidas no § 1º do art. 1º desta Lei, habilitadas nos termos do art. 12 desta Lei, farão jus a crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), como ressarcimento das contribuições de que tratam as Leis Complementares nºs 7, de 7 de setembro de 1970 , e 70, de 30 de dezembro de 1991, em relação às vendas ocorridas entre 1º de janeiro de 2021 e 31 de dezembro de 2025, desde que apresentem projetos que contemplem novos investimentos e pesquisa para o desenvolvimento de novos produtos ou de novos modelos de produtos já existentes, podendo contemplar os produtos constantes dos projetos de que trata o § 1º do art. 11-B que estejam em produção e que atendam aos prazos dispostos no § 2º do art. 11-B desta Lei. § 1º Os novos projetos de que trata o caput deste artigo deverão ser apresentados até 30 de junho de 2020 e deverão atender aos valores mínimos de investimentos realizados pela empresa habilitada na região incentivada no período de 1º de janeiro de 2021 a 31 de dezembro de 2025, na forma estabelecida pelo Poder Executivo. O art. 11-C foi regulamentado pelo Decreto 10.457/2020, o qual, mais uma vez, não traz qualquer dispositivo referente à forma de utilização do crédito presumido de IPI, levando à única interpretação possível: esse novo decreto apenas regulamenta pontos específicos referentes às modificações em relação ao benefício fiscal como consta do art. 11, os quais devem ser complementados pelas disposições genéricas do Decreto nº 2.179/97, com as alterações promovidas pelo Decreto nº 6.556/2008. Na linha com o entendimento exposto neste voto, observo que a Lei Complementar 214, de 2025, visando a detalhar aspectos da Reforma Tributária, trouxe a previsão expressa de possibilidade de ressarcimento em seu texto, agora como um “crédito presumido da CBS”: CAPÍTULO II DO REGIME AUTOMOTIVO Art. 309. Até 31 de dezembro de 2032, farão jus a crédito presumido da CBS, nos termos desta Lei Complementar, os projetos habilitados à fruição dos benefícios estabelecidos pelo art. 11-C da Lei nº 9.440, de 14 de março de 1997, e pelos arts. 1º a 4º da Lei nº 9.826, de 23 de agosto de 1999. § 1º O crédito presumido de que trata o caput: I - incentivará exclusivamente a produção de veículos equipados com motor elétrico que tenha capacidade de tracionar o veículo somente com energia elétrica, permitida a associação com motor de combustão interna que utilize biocombustíveis isolada ou simultaneamente com combustíveis derivados de petróleo; e II - será concedido exclusivamente a: Fl. 7843DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 34 a) projetos aprovados até 31 de dezembro de 2024, de pessoas jurídicas que, em 20 de dezembro de 2023, estavam habilitadas à fruição dos benefícios estabelecidos pelo art. 11-C da Lei nº 9.440, de 14 de março de 1997, e pelos arts. 1º a 4º da Lei nº 9.826, de 23 de agosto de 1999; e b) novos projetos, aprovados até 31 de dezembro de 2025, que ampliem ou reiniciem a produção em planta industrial utilizada em projetos ativos ou inativos habilitados à fruição dos benefícios de que trata a alínea “a” deste inciso. § 2º O benefício de que trata este artigo será estendido a projetos de pessoas jurídicas de que trata a alínea “a” do inciso II do § 1º relacionados à produção de veículos tracionados por motor de combustão interna que utilizem biocombustíveis isolada ou cumulativamente com combustíveis derivados de petróleo, desde que a pessoa jurídica habilitada: I - inicie a produção de veículos de que trata o inciso I do § 1º até 1º de janeiro de 2028, no estabelecimento incentivado; e II - assuma, nos termos do ato concessório do benefício, compromissos relativos: a) ao volume mínimo de investimentos; b) ao volume mínimo de produção; c) ao cumprimento de processo produtivo básico; e d) à manutenção da produção por prazo mínimo, inclusive após o encerramento do benefício. (...) Art. 311. Em relação aos projetos habilitados à fruição dos benefícios estabelecidos pelo art. 11-C da Lei nº 9.440, de 14 de março de 1997, o crédito presumido de que trata o art. 309 desta Lei Complementar será calculado mediante a aplicação dos seguintes percentuais sobre o valor das vendas no mercado interno, em cada mês, dos produtos constantes nos projetos de que trata o art. 309, fabricados ou montados nos estabelecimentos incentivados: I - 11,60% (onze inteiros e sessenta centésimos por cento) até o 12º (décimo segundo) mês de fruição do benefício; II - 10% (dez inteiros por cento) do 13º (décimo terceiro) ao 48º (quadragésimo oitavo) mês de fruição do benefício; III - 8,70% (oito inteiros e setenta centésimos por cento) do 49º (quadragésimo nono) ao 60º (sexagésimo) mês de fruição do benefício. (...) 3º Os percentuais de que tratam os incisos I a III do caput serão reduzidos à razão de 20% (vinte por cento) do percentual inicial ao ano, entre 2029 e 2032, até serem extintos a partir de 2033. (...) Art. 313. Os créditos apurados em decorrência dos benefícios de que trata o art. 309 somente poderão ser utilizados para: I - compensação com débitos da CBS; e Fl. 7844DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 35 II - compensação com débitos próprios relativos a tributos administrados pela RFB, observadas as condições e limites vigentes para compensação na data da declaração. § 1º Os créditos de que trata este artigo: I - não poderão ser transferidos a outro estabelecimento da pessoa jurídica; II - devem ser utilizados somente para dedução e compensação de débitos próprios do estabelecimento habilitado e localizado na região incentivada; e III - não podem ser objeto de ressarcimento. § 2º Consideram-se débitos próprios do estabelecimento habilitado e localizado na região incentivada a parcela dos débitos de impostos e contribuições federais da pessoa jurídica na forma de rateio estabelecida em Ato do Poder Executivo da União. Esse fato corrobora a interpretação segundo a qual não há qualquer sentido na concessão desse incentivo fiscal, nestes moldes, em montante superior ao do próprio tributo, sem que seja possível o ressarcimento/ compensação. Contudo, é importante destacar uma alteração importante: a compensação com outros tributos está permitida, porém o ressarcimento em espécie está vedado. Tal distinção não estava presente nas regulamentações anteriores. Deve ser ressaltado que também se mostra contraditória a previsão expressa no art. 21, § 3º, inciso III, da Instrução Normativa RFB 1300, de 20/11/2012, tendo em vista que, no entender da Autoridade Fiscal responsável pela emissão do Despacho Decisório, tal benefício fiscal teria sido extinto em 31/12/2010, quando se encerrou o período de prorrogação estabelecido no art. 11 da Lei 9440/97: CAPÍTULO III DO RESSARCIMENTO Seção I - Do Ressarcimento de Créditos do IPI Art. 21. Os créditos do IPI, escriturados na forma da legislação específica, serão utilizados pelo estabelecimento que os escriturou na dedução, em sua escrita fiscal, dos débitos de IPI decorrentes das saídas de produtos tributados. (...) § 3º São passíveis de ressarcimento, somente os seguintes créditos: I - os créditos relativos a entradas de matérias-primas, produtos intermediários e material de embalagem para industrialização, escriturados no trimestre-calendário; II - os créditos presumidos de IPI a que se refere o inciso I do § 1º, escriturados no trimestre-calendário, excluídos os valores recebidos por transferência da matriz; e III - o crédito presumido de IPI de que trata o inciso IX do art. 1º da Lei nº 9.440, de 14 de março de 1997. Fl. 7845DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 36 Ora, como seria possível o ressarcimento de um crédito presumido originado de um incentivo fiscal extinto quase 02 anos antes? Tal contradição perdurou até 17/07/2017, quando a Instrução Normativa RFB 1717/2017 passou a tratar a matéria nos seguintes termos: Art. 40. Na hipótese de remanescerem, ao final do trimestre-calendário, créditos do IPI passíveis de ressarcimento depois de efetuadas as deduções e transferências admitidas na legislação, a pessoa jurídica poderá requerer à RFB o ressarcimento do saldo credor ou utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a tributos administrados pela RFB. § 1º São passíveis de ressarcimento ou de compensação somente os créditos do IPI escriturados no trimestre-calendário de referência do pedido de ressarcimento, observado o disposto no § 2º. § 2º Podem compor o saldo credor passível de ressarcimento ou compensação somente os seguintes créditos do IPI: I - os créditos relativos a entradas de matérias-primas, produtos intermediários e material de embalagem para industrialização; II - os créditos presumidos do IPI, como ressarcimento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, previstos na Lei nº 9.363, de 1996, e na Lei nº 10.276, de 2001, excluídos os valores recebidos por transferência da matriz; e III - os créditos presumidos de IPI de que tratam os incisos III a VIII do caput do art. 12 do Decreto nº 7.819, de 2012, nos termos do art. 15 do mesmo Decreto, excluídos os valores recebidos por transferência da matriz. Como se verifica, a Instrução Normativa RFB 1717/2017 extrapolou seu poder regulamentar ao excluir, dos créditos de IPI passíveis de ressarcimento, o crédito presumido de IPI de que trata o inciso IX do art. 1º da Lei nº 9.440/97, razão pela qual esta restrição deve ser considerada ilegal por este Conselho e deixar de ser aplicada ao presente caso. Pelo exposto, voto por dar provimento a este pedido do Recurso Voluntário, para considerar ressarcível o crédito presumido de IPI previsto no art. 11-B da Lei nº 9.440/97. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para rejeitar as preliminares e, no mérito, para dar provimento ao pedido de Fl. 7846DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.261 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10435.902371/2018-17 37 ressarcimento, por entenderem que o crédito presumido previsto nos artigos 11-A e 11-B da Lei nº 9.440/1997 é ressarcível. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Redator Fl. 7847DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 13005.720320/2016-57
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 21 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Feb 23 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/10/2011 a 31/12/2011 AQUISIÇÃO. PRODUTO SUJEITO A ALÍQUOTA ZERO. CRÉDITO. VEDAÇÃO. É vedado o aproveitamento de crédito relativo à aquisição de produto sujeito à alíquota zero, nos termos do § 2º, inciso II, do art. 3º da Lei nº 10.833/2003 e da Lei n° 10.637/2002.
Numero da decisão: 3102-003.295
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Joana Maria de Oliveira Guimarães – Relatora Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Fabio Kirzner Ejchel, Joana Maria de Oliveira Guimarães, Jorge Luis Cabral, Sabrina Coutinho Barbosa, Wilson Antônio de Souza Correa, Pedro Sousa Bispo (Presidente).
Nome do relator: JOANA MARIA DE OLIVEIRA GUIMARAES

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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/10/2011 a 31/12/2011 AQUISIÇÃO. PRODUTO SUJEITO A ALÍQUOTA ZERO. CRÉDITO. VEDAÇÃO. É vedado o aproveitamento de crédito relativo à aquisição de produto sujeito à alíquota zero, nos termos do § 2º, inciso II, do art. 3º da Lei nº 10.833/2003 e da Lei n° 10.637/2002. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Joana Maria de Oliveira Guimarães – Relatora Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Fabio Kirzner Ejchel, Joana Maria de Oliveira Guimarães, Jorge Luis Cabral, Sabrina Coutinho Barbosa, Wilson Antônio de Souza Correa, Pedro Sousa Bispo (Presidente). Fl. 310DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.295 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720320/2016-57 2 RELATÓRIO Por bem narrar os fatos, adoto o relatório contido na decisão proferida pela DRJ: Trata o presente processo de Pedido Eletrônico de Ressarcimento (PER) nº 41336.83942.310112.1.1.11-0226, no valor de R$ 64.791,45, auferidos no 4º trimestre/2011, referente a créditos da não cumulatividade da(o) Cofins, vinculadas à receita não tributada no mercado interno. A Interessada também transmitiu Declaração(ões) de Compensação (Dcomp), utilizando o referido crédito para compensar débitos próprios. A partir da análise das informações prestadas na Escrituração Fiscal Digital – EFD, nº Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais (Dacon), bem como aquelas prestadas em resposta à intimação, o Auditor Fiscal identificou que os valores informados nas linhas 1 e/ou 2 das fichas 6B/16B do Dacon referem-se à aquisição, mediante importação, de matérias-primas de adubos ou fertilizantes, cujas alíquotas da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins foram reduzidas a zero, por força do artigo 1º, incisos I, II e IV, da Lei n.º 10.925, de 2004, sendo vedada a apuração de crédito, conforme consta expressamente no inciso II do § 2º do artigo 3º das Leis n.º 10.637, de 2002 (PIS/Pasep), e n.º 10.833, de 2003 (Cofins). A Autoridade Fiscal esclareceu que os gastos com serviços de fretes, relacionados a estas aquisições não geram crédito, uma vez que os valores relativos aos mesmos compõem o custo de aquisição dos produtos adquiridos, assim, essas despesas somente gerariam crédito de PIS e de Cofins se os produtos transportados fossem passíveis de gerar crédito da não cumulatividade. Além disso, esclarece que as despesas relacionadas ao frete de transporte de produtos importados, ainda que se referisse a produtos sujeitos ao pagamento das contribuições, não geram crédito, face a inexistência de previsão legal. Pelo mesmo motivo, glosou também os créditos de PIS e de Cofins gerados na aquisição de vermiculita expandida e casca de arroz, cujos valores foram informados na “linha 13”- outras operações com crédito das fichas 06 A/16A do Dacon. Sendo assim o pedido de ressarcimento foi deferido parcialmente e a(s)compensação(ões) homologada(s) até o limite do crédito parcialmente reconhecido, conforme demonstrativos a seguir: Fl. 311DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.295 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720320/2016-57 3 Inconformado com a decisão (fls. 119/121), da qual teve ciência em 05/10/2016, o interessado interpôs, em 04/11/2016, a Manifestação de Inconformidade (fls. 145/169). Após descrição dos fatos, a Manifestante informa que a atividade principal exercida pela empresa é a produção e o comércio de substratos para plantas. A seguir, demonstra, segundo seu entendimento, o conceito de “alíquota zero”. Aquisição de matérias primas de adubos e fertilizantes Alega que, embora a legislação vigente reze que as contribuições do PIS e da Cofins não são devidas na quase totalidade das operações praticadas pelo contribuinte, pois são de alíquota zero, este faz jus ao crédito da não cumulatividade, visto que para a produção utiliza matérias primas importadas e na entrada destas no território nacional foi exigido o pagamento das contribuições. Argumenta que, embora o preenchimento da Declaração de Importação seja de responsabilidade da Inconformada, o Auditor Fiscal não permitiu o desembaraço da mercadoria sem o pagamento das contribuições para o PIS e para a Cofins. Relata que diante de decisões proferidas anteriormente acerca dos Pedidos Eletrônicos de Ressarcimento, questionou a Alfândega da Receita Federal do Brasil em Rio Grande/RS sobre a alíquota incidente sobre importação da matéria prima utilizada na produção de substrato para plantas, pois agentes da Receita Federal, estabelecida em Santa Cruz do Sul/RS mencionaram à Inconformada que a alíquota de PIS/Cofins foi reduzida a 0%. Questionou ao Auditor se poderia aplicar a redução nas próximas importações e foi instruído a realizar uma consulta formal, nos termos previstos na Instrução Normativa da Receita Federal do Brasil n° 1.396/2013. Afirma que o processo de consulta costuma levar até mais de três anos para ser solucionado e não pode esperar por todo este tempo para obter uma resposta concreta do Fisco sobre como proceder. Menciona que, no ano de 2015, já teve deferido, pela Delegacia da Receita Federal de Santa Cruz do Sul/RS, Pedido Eletrônico de Ressarcimento, referente a créditos da não cumulatividade de PIS e da Cofins, vinculados às receitas não tributadas no mercado interno, proferidos nos Processos Administrativos n° 13005.721108/2015-26 e n° 13005.721109/2015-71. Os pedidos de ressarcimento Fl. 312DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.295 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720320/2016-57 4 de créditos efetuados pela Inconformada passaram a ter decisões desfavoráveis recentemente. Alega que a postura adotada pelos agentes fiscais afronta o princípio da não cumulatividade, pois é exigido o pagamento do PIS/Cofins sobre matérias-primas importadas, mas não é permitido o creditamento das contribuições. Defende que comprovou o pagamento das contribuições, sendo assim, o não deferimento do creditamento/compensação implicaria em enriquecimento ilícito da União, além de lesar o contribuinte sem que essa tenha dado causa aos fatos. Aquisição de casca de arroz de empresa optante pelo Simples Nacional Informa que, dentre as matérias-primas adquiridas, para fins de suporte da produção industrial, está a casca de arroz, que lhe é fornecida por empresas optantes pelo Simples Nacional. Alega que a Lei Complementar n° 123/2006, em face do disposto nos artigos 23 e 24, prevê que as empresas optantes pelo Simples Nacional não poderão apropriar ou transferir créditos relativos a impostos ou contribuições abrangidos por esse regime e não poderão utilizar ou destinar qualquer valor a título de incentivo fiscal. Argumenta que, por outro lado, as pessoas jurídicas sujeitas ao regime de apuração não-cumulativo das contribuições do PIS e da Cofins podem descontar os créditos calculados em relação às aquisições de bens e serviços de pessoa jurídica optante pelo Simples Nacional, respeitadas as vedações e restrições contidas nas Leis n° 10.833/2003 e n° 10.637/2002. Expõe que nesse sentido pronunciou-se a Receita Federal do Brasil através do Ato Declaratório Interpretativo RFB nº 15, de 26 de setembro de 2007. Frete na compra de matéria-prima no mercado interno. Informa que a Autoridade Fiscal apontou que os valores relativos aos fretes compõem o custo de aquisição dos produtos adquiridos, assim estas despesas somente geram crédito de PIS/Cofins se os produtos transportados forem passíveis de geração de crédito. Alega que não houve qualquer creditamento sobre o valor do frete na compra da matéria-prima no mercado interno. Frete na aquisição de produtos importados Informa que a Autoridade Fiscal referiu no relatório que “o frete no transporte de produtos importados, ainda que se referisse a produtos sujeitos ao pagamento das contribuições (....) não geraria crédito de PIS e de COFINS, haja vista a inexistência de previsão legal que autorize o creditamento na sistemática de apuração não cumulativa para estas operações”. Alega que o frete utilizado para transportar matérias-primas importadas, do local de desembaraço aduaneiro até o estabelecimento fabril, não foi utilizado na base Fl. 313DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.295 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720320/2016-57 5 de cálculo dos créditos, o que demonstra que a Autoridade Fiscal não analisou corretamente o crédito postulado. Por fim, requer que seja aceita a presente Manifestação de Inconformidade, com o reconhecimento do direito creditório no valor de R$ 45.607,29 e homologação das compensações realizadas. É o relatório. A 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto (SP), por meio do Acórdão nº 14-104.594, de 29 de janeiro de 2020, julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pela Recorrente, assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS Período de apuração: 01/10/2011 a 31/12/2011 AQUISIÇÃO. PRODUTO SUJEITO A ALÍQUOTA ZERO. CRÉDITO. VEDAÇÃO. É vedado o aproveitamento de crédito relativo à aquisição de produto sujeito à alíquota zero, nos termos do § 2º, inciso II, do art. 3º da Lei nº 10.833/2003 e da Lei n° 10.637/2002. AQUISIÇÕES DE BENS DE PESSOA JURÍDICA OPTANTE PELO SIMPLES NACIONAL. APURAÇÃO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As pessoas jurídicas sujeitas ao regime de apuração não cumulativa do PIS/Pasep e COFINS, observadas as vedações previstas e demais disposições da legislação aplicável, podem apurar créditos referentes às aquisições de bens de pessoas jurídicas optantes pelo Simples Nacional Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido A Recorrente interpôs Recurso Voluntário, requerendo o reconhecimento do direito creditório pleiteado, no valor de R$ 45.607,29 (quarenta e cinco mil, seiscentos e sete reais e vinte e nove centavos). É o relatório. VOTO Conselheira Joana Maria de Oliveira Guimarães, Relatora O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido. Aquisição de matérias-primas de adubos e fertilizantes Fl. 314DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.295 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720320/2016-57 6 O artigo 114, §12, inciso I, do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 1634/2023, permite que a fundamentação da decisão seja feita mediante declaração de concordância com os fundamentos da decisão recorrida: Art. 114. As decisões dos colegiados, em forma de acórdão ou resolução, serão assinadas pelo presidente, pelo relator, pelo redator designado ou por conselheiro que fizer declaração de voto, devendo constar, ainda, o nome dos conselheiros presentes, ausentes e impedidos ou sob suspeição, especificando-se, se houver, os conselheiros vencidos, a matéria em que o relator restou vencido e o voto vencedor. (...) §12. A fundamentação da decisão pode ser atendida mediante: I - declaração de concordância com os fundamentos da decisão recorrida; e II - referência a súmula do CARF, devendo identificar seu número e os fundamentos determinantes e demonstrar que o caso sob julgamento a eles se ajusta. (...) Diante do permissivo normativo acima referenciado e por concordar com os fundamentos apresentados no acórdão recorrido em relação a este tópico, adoto, como minhas razões de decidir, o seguinte trecho do acórdão recorrido: Aquisição de matérias primas de adubos e fertilizantes A glosa relativa às aquisições de matérias primas de adubos ou fertilizantes decorreu de expressa vedação legal quanto ao aproveitamento de créditos do PIS/Cofins, nos termos do art. 3º, § 2º, II das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, pois o produto adquirido é sujeito à alíquota 0% da contribuição, de acordo com o art. 1º, IV da Lei nº 10.925/2004. Tais dispositivos legais, assim disciplinam: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) § 2º Não dará direito a crédito o valor:(Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) I - de mão-de-obra paga a pessoa física; e(Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) II - da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição. (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) Fl. 315DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.295 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720320/2016-57 7 (...) Lei nº 10.925/2004 Art. 1º Ficam reduzidas a 0 (zero) as alíquotas da contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - COFINS incidentes na importação e sobre a receita bruta de venda no mercado interno de:(Vide Decreto nº 5.630, de 22/12/2005) I - adubos ou fertilizantes classificados no Capítulo 31, exceto os produtos de uso veterinário, da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados - TIPI, aprovada pelo Decreto nº 4.542, de 26 de dezembro de 2002, e suas matérias-primas; De acordo com as alegações apresentadas, o contribuinte pretende obter deferimento do pedido de ressarcimento, defendendo que pagou indevidamente PIS/Cofins sobre importação, portanto tem direito ao crédito, ou seja, quer substituir os créditos inexistentes da não cumulatividade, declarados no PER, por outro de natureza distinta. É importante destacar que só cabe a retificação da DCOMP para corrigir meras inexatidões materiais de preenchimento ou de digitação, consoante o exposto no art. 108 da IN RFB n.º 1.717 de 17/07/2017 (DOU de 18.07.2017), normativo atualmente vigente sobre a matéria: Art. 108. A retificação da declaração de compensação gerada por meio do programa PER/DCOMP ou elaborada mediante utilização de formulário será admitida somente na hipótese de inexatidões materiais verificadas no preenchimento do referido documento. A expressão “inexatidões materiais” está no Decreto n.º 70.235/72: Art. 32. As inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e os erros de escrita ou de cálculos existentes na decisão poderão ser corrigidos de ofício ou a requerimento do sujeito passivo. Como se vê, as inexatidões materiais não se referem a alterações na essência do mérito do tema examinado, mas, sim, a erros de preenchimento (ou de digitação). O erro no tipo de crédito não se enquadra em inexatidão material (erro de preenchimento ou de digitação), mas, sim, em erro de direito, mais especificamente, em erro no critério jurídico, pois se trata de crédito de natureza diversa (pagamento indevido ou a maior). Ademais, complementando todo o disposto acima, até para justificar a não análise do crédito de pagamento indevido ou a maior, por ser estranho à lide, cumpre ressaltar que cabe à autoridade julgadora de primeira instância o julgamento de Manifestação de Inconformidade que não reconheceu o direito creditório ou não homologou a compensação por meio do Despacho Decisório, não podendo expandir o litígio para abarcar uma análise que sequer foi feita pela autoridade administrativa competente, até porque um novo pedido de restituição Fl. 316DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.295 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720320/2016-57 8 deveria ter sido formalizado em instrumento próprio para então poder ser passível de análise. Cabe salientar que no Parecer Fiscal, a Autoridade Fiscal menciona sobre os gastos com frete na aquisição de matéria-prima por este fazer parte do custo de aquisição dos produtos adquiridos e esclarece que o frete no transporte de produtos importados não gera crédito, por falta de previsão legal. Não constam valores glosados a este título e sim referentes à bens utilizados como insumos e aquisição de casca de arroz e vermiculita expandida. Desta forma, está correta a decisão da Autoridade Fiscal em não permitir o aproveitamento de créditos do PIS/Cofins relativas a essas aquisições, por expressa vedação legal. Acrescenta-se que a Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara desta Terceira Seção de Julgamento do CARF já teve a oportunidade de apreciar recursos voluntários interpostos pela própria Recorrente, sobre o tema em discussão neste tópico, convergindo o entendimento pelo não reconhecimento do crédito pleiteado, conforme se pode extrair do trecho do acórdão 3302-010.857, de relatoria do Conselheiro Gilson Macedo Rosenburg Filho, abaixo reproduzido: Aquisição de matérias-primas de adubos e fertilizantes. A recorrente se insurge contra a glosa relativa às aquisições de matérias-primas de adubos ou fertilizantes. Entende que recolheu o tributo quando da sua importação, logo, teria direito ao ressarcimento dos respectivos créditos. As aquisições em questão são referentes as matérias-primas de adubos e fertilizantes e a legislação do PIS e da Cofins apurada pela não-cumulatividade atribui alíquota zero para essa operação, senão vejamos: O art. 1º da Lei nº 10.925, de 23 de julho de 2004, reduziu a zero as alíquotas do PIS e da Cofins nos seguintes termos: “Art.1º Ficam reduzidas a 0 (zero) as alíquotas da contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - COFINS incidentes na importação e sobre a receita bruta de venda no mercado interno de: I - adubos ou fertilizantes classificados no Capítulo 31, exceto os produtos de uso veterinário, da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados - TIPI, aprovada pelo Decreto nº 4.542, de 26 de dezembro de 2002, e suas matérias-primas; (---) Parágrafo único. O Poder Executivo regulamentará a aplicação das disposições deste artigo.” (destacou-se) Em virtude do dispositivo contido no parágrafo único, o Poder Executivo editou, em 26 de agosto de 2004, o Decreto nº 5.195, que foi posteriormente revogado pelo Decreto nº 5.630, de 22 de dezembro de 2005, o qual passou a regulamentar Fl. 317DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.295 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720320/2016-57 9 a redução à zero das alíquotas do PIS e da Cofins incidentes na importação e na comercialização no mercado interno dos produtos de que trata o art. 1º da Lei nº 10.925 de 2004, nos seguintes termos: “Art. 1º Ficam reduzidas a zero as alíquotas da Contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - COFINS incidentes na importação e sobre a receita bruta decorrente da venda no mercado interno de: I - adubos ou fertilizantes classificados no Capítulo 31 da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) e suas matérias-primas; (---) § 1º A redução de alíquotas de que trata o caput não se aplica à receita bruta decorrente da venda de produtos classificados no Capítulo 31 da NCM destinados ao uso veterinário. § 2º A redução a zero das alíquotas da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, no caso das matérias-primas de que tratam os incisos I e II do caput, aplica-se somente nos casos em que a pessoa jurídica adquirente seja fabricante dos produtos neles relacionados. Art. 2º A Secretaria da Receita Federal poderá disciplinar, no âmbito de sua competência, a aplicação das disposições deste Decreto.” (destacou-se) (...) Não obstante, para ter direito à alíquota zero prevista no art. 1º da Lei nº 10.925, de 2004, é conditio sine qua non que o fertilizante fabricado pela empresa adquirente das matérias-primas esteja classificado no Capítulo 31 da NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul). O Capítulo 31 da NCM é assim composto: 3101.00.00 - Adubos (fertilizantes) de origem animal ou vegetal, mesmo misturados entre si ou tratados quimicamente; adubos (fertilizantes) resultantes da mistura ou do tratamento químico de produtos de origem animal ou vegetal. 31.02 - Adubos (fertilizantes) minerais ou químicos, nitrogenados (azotados). 31.03 - Adubos (fertilizantes) minerais ou químicos, fosfatados. 31.04 - Adubos (fertilizantes) minerais ou químicos, potássicos. 31.05 - Adubos (fertilizantes) minerais ou químicos, que contenham dois ou três dos seguintes elementos fertilizantes: nitrogênio (azoto), fósforo e potássio; outros adubos (fertilizantes); produtos do presente Capítulo apresentados em tabletes ou formas semelhantes, ou ainda em embalagens de peso bruto não superior a 10 kg. Fl. 318DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.295 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720320/2016-57 10 É fato incontroverso que as matérias-primas importadas são para fabricação de produtos classificados no Capítulo 31 da NCM (adubos e fertilizantes). Ou seja, a alíquota aplicada na operação em análise é zero. Ocorre que o inciso II, do § 2º, do art. 3º das leis nº 10637/2002 e 10.833/2003, veda o direito ao crédito da aquisição de insumos utilizados para fabricação de produtos sujeitos à alíquota zero. (...) § 2º Não dará direito a crédito o valor: I - de mão-de-obra paga a pessoa física; e II - da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição. Portanto, não vejo motivos para reversão das glosas referentes à aquisição de insumos para fabricação de adubos ou fertilizantes. Forte nestes argumentos, nego provimento a este capítulo recursal. Possibilidade de reverter o pedido de ressarcimento em pedido de restituição. Analisando as razões recursais postas neste capítulo, fica evidente que a recorrente reproduziu as mesmas apresentadas na manifestação de inconformidade. Por entender que a decisão proferida pela instância a quo seguiu o rumo correto, utilizo sua ratio decidendi como se minha fosse para fundamentar este capítulo recursal, nos termos do § 1º do art. 50 da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999 e do art. 2º, § 3º do Decreto nº 9.830, de 10 de junho de 2019 e do § 3º do art. 57 do RICARF, in verbis:. De acordo com as alegações apresentadas, o contribuinte pretende obter deferimento do pedido de ressarcimento, defendendo que pagou indevidamente PIS/Cofins sobre importação, portanto tem direito ao crédito, ou seja, quer substituir os créditos inexistentes da não- cumulatividade, declarados no PER, por outro de natureza distinta. É importante destacar que só cabe a retificação da DCOMP para corrigir meras inexatidões materiais de preenchimento ou de digitação, consoante o exposto no art. 108 da IN RFB n.º 1.717 de 17/07/2017 (DOU de 18.07.2017), normativo atualmente vigente sobre a matéria: Art. 108. A retificação da declaração de compensação gerada por meio do programa PER/DCOMP ou elaborada mediante utilização de formulário será admitida somente na hipótese de inexatidões materiais verificadas no preenchimento do referido documento. A expressão “inexatidões materiais” está no Decreto n.º 70.235/72: Fl. 319DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.295 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720320/2016-57 11 Art. 32. As inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e os erros de escrita ou de cálculos existentes na decisão poderão ser corrigidos de ofício ou a requerimento do sujeito passivo. Como se vê, as inexatidões materiais não se referem a alterações na essência do mérito do tema examinado, mas, sim, a erros de preenchimento (ou de digitação). O erro no tipo de crédito não se enquadra em inexatidão material (erro de preenchimento ou de digitação), mas, sim, em erro de direito, mais especificamente, em erro no critério jurídico, pois se trata de crédito de natureza diversa (pagamento indevido ou a maior). Ademais, complementando todo o disposto acima, até para justificar a não análise do crédito de pagamento indevido ou a maior, por ser estranho à lide, cumpre ressaltar que cabe à autoridade julgadora de primeira instância o julgamento de Manifestação de Inconformidade que não reconheceu o direito creditório ou não homologou a compensação por meio do Despacho Decisório, não podendo expandir o litígio para abarcar uma análise que sequer foi feita pela autoridade administrativa competente, até porque um novo pedido de restituição deveria ter sido formalizado em instrumento próprio para então poder ser passível de análise. Diante de todo exposto e em virtude de que a interessada não apresentou argumentos para contrapor a ratio decidendi do acórdão de manifestação de inconformidade e por consequência, reformar a decisão de piso, mantenho a decisão do capítulo a quo pelos seus próprios fundamentos. (g.n.) (Recorrente: Carolina Soil do Brasil Ltda.; Processo nº 13005.720322/2016-46; Acórdão nº 3302-010.857; Relator Conselheiro Gilson Macedo Rosenburg Filho; sessão de 24/05/2021) No mesmo sentido do acórdão nº 3302-010.857, acima mencionado, citam-se os seguintes: acórdão nº 3302-010861 (processo nº 13005.720336/2016-60) e acórdão nº 3302- 010859 (processo nº 13005.720333/2016-26). Isso posto, nego provimento ao Recurso Voluntário neste tópico. Aquisição de casca de arroz de empresa optante pelo Simples Nacional Também neste tópico, por concordar com o entendimento exarado pela DRJ, adoto, como razões de decidir, o seguinte trecho do acórdão recorrido: Aquisição de casca de arroz de empresa optante pelo Simples Nacional Através do Ato Declaratório Interpretativo RFB 15/2007, cujo trecho transcrevo a seguir, a Receita Federal pronunciou-se acerca da possibilidade de desconto de créditos do PIS e da Cofins quando da aquisição de bens ou serviços de pessoas jurídicas optantes pelo Simples Nacional. Fl. 320DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.295 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720320/2016-57 12 Artigo único. As pessoas jurídicas sujeitas ao regime de apuração não cumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social(Cofins), observadas as vedações previstas e demais disposições da legislação aplicável, podem descontar créditos calculados em relação às aquisições de bens e serviços de pessoa jurídica optante pelo Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte(Simples Nacional), instituído pelo art. 12 da Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de 2006.(grifo nosso)Contudo é necessário observar as vedações e restrições contidas nas Leis 10.833/2003 e 10.637/2002. Contudo é necessário observar as vedações e restrições contidas nas Leis 10.833/2003 e 10.637/2002. Conforme se depreende do Relatório de Auditoria Fiscal, a glosa não foi motivada no fato dos fornecedores serem optantes pelo Simples Nacional. O motivo da glosa foi o fato de serem operações não sujeitas ao pagamento das contribuições PIS/Cofins, aplicando-se então, segundo a ótica da autoridade fiscal, a vedação ao aproveitamento de crédito prevista no art. 3°, § 2°, II das Leis n° 10.637/2002 e 10.833/2003: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) § 2º Não dará direito a crédito o valor: II - da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição. Assim, se uma operação de venda não estiver sujeita ao pagamento das contribuições, não há que se falar em apuração de crédito pelo adquirente. Por outro lado, se a operação estiver legalmente sujeita ao pagamento da contribuição, poderá haver apuração de crédito, mesmo que o vendedor seja optante pelo Simples Nacional. No presente caso, a casca de arroz é matéria prima do adubo e fertilizante e segundo o artigo 1º da Lei nº 10.925/2004 a alíquota incidente sobre este produto é zero, portanto não dá direito ao crédito. 1º Ficam reduzidas a 0 (zero) as alíquotas da contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - COFINS incidentes na importação e sobre a receita bruta de venda no mercado interno de: (Vigência) (Vide Decreto nº 5.630, de 2005) I - adubos ou fertilizantes classificados no Capítulo 31, exceto os produtos de uso veterinário, da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Fl. 321DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.295 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720320/2016-57 13 Industrializados - TIPI, aprovada pelo Decreto nº 4.542, de 26 de dezembro de 2002, e suas matérias-primas;( grifo nosso) (g.n.) Isso posto, devem ser mantidas as glosas relativas às aquisições de casca de arroz, mesmo quando adquiridas de empresa optante pelo Simples Nacional. Conclusão Pelo exposto, conheço do Recurso Voluntário e nego provimento. É como voto. Assinado Digitalmente Joana Maria de Oliveira Guimarães Fl. 322DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10380.729991/2018-70
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jan 26 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Fri Feb 27 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2014, 2015 IRPJ. CSLL. LUCRO PRESUMIDO. SERVIÇOS HOSPITALARES. SOCIEDADE EMPRESÁRIA. ART. 15 DA LEI Nº 9.249/95. REGISTRO NA JUNTA COMERCIAL. DESNECESSIDADE. PRIMAZIA DA SUBSTÂNCIA SOBRE A FORMA. Para fins de aplicação dos percentuais de presunção reduzidos de que trata o art. 15, § 1º, III, a, da Lei nº 9.249/95, o requisito de organização sob a forma de sociedade empresária deve ser analisado sob a ótica da primazia da substância sobre a forma e da Teoria da Empresa adotada pelo Código Civil (art. 966). A ausência do registro formal na Junta Comercial, por si só, não descaracteriza a natureza empresarial, bastando que a pessoa jurídica, embora formalmente constituída como Sociedade Simples, demonstre inequivocamente, por meio da maneira de organização dos fatores de produção, que configura uma unidade econômica com substância de sociedade empresária1.
Numero da decisão: 1201-007.402
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Lucas Issa Halah – Relator Assinado Digitalmente Nilton Costa Simões – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Raimundo Pires de Santana Filho, Renato Rodrigues Gomes, Isabelle Resende Alves Rocha, Lucas Issa Halah, Marcelo Antonio Biancardi e Nilton Costa Simoes (Presidente).
Nome do relator: LUCAS ISSA HALAH

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CSLL. LUCRO PRESUMIDO. SERVIÇOS HOSPITALARES. SOCIEDADE EMPRESÁRIA. ART. 15 DA LEI Nº 9.249/95. REGISTRO NA JUNTA COMERCIAL. DESNECESSIDADE. PRIMAZIA DA SUBSTÂNCIA SOBRE A FORMA. Para fins de aplicação dos percentuais de presunção reduzidos de que trata o art. 15, § 1º, III, "a", da Lei nº 9.249/95, o requisito de organização sob a forma de "sociedade empresária" deve ser analisado sob a ótica da primazia da substância sobre a forma e da Teoria da Empresa adotada pelo Código Civil (art. 966). A ausência do registro formal na Junta Comercial, por si só, não descaracteriza a natureza empresarial, bastando que a pessoa jurídica, embora formalmente constituída como "Sociedade Simples", demonstre inequivocamente, por meio da maneira de organização dos fatores de produção, que configura uma unidade econômica com substância de sociedade empresária1. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Lucas Issa Halah – Relator Fl. 2075DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.402 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.729991/2018-70 2 Assinado Digitalmente Nilton Costa Simões – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Raimundo Pires de Santana Filho, Renato Rodrigues Gomes, Isabelle Resende Alves Rocha, Lucas Issa Halah, Marcelo Antonio Biancardi e Nilton Costa Simoes (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de procedimento fiscal instaurado para verificar o cumprimento das obrigações tributárias relativas ao Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), nos anos-calendário de 2014 e 2015. A fiscalização constatou que o contribuinte, CLÍNICA DE ORIENTAÇÃO VACINO DIETÉTICA LTDA, optante pelo regime de tributação do lucro presumido, apurou a base de cálculo do IRPJ utilizando o percentual de 8% em 2014 e 2015. Para a CSLL, utilizou 32% nos três primeiros trimestres de 2014 e 12% no quarto trimestre, e 12% no ano-calendário de 2015. Segundo o Termo de Verificação Fiscal (TVF), foram identificadas duas infrações: 1. Aplicação indevida dos percentuais de presunção reduzidos (8% para IRPJ e 12% para CSLL): A autoridade fiscal apontou que o contribuinte não cumpria os requisitos cumulativos do art. 15, III, "a", da Lei nº 9.249/95 8, para usufruir dos coeficientes reduzidos. O TVF sustenta que o benefício exige que a prestadora de serviços (i) execute "serviços hospitalares", (ii) seja organizada sob a forma de "sociedade empresária" e (iii) atenda às normas da Anvisa. o Quanto à natureza dos serviços: A fiscalização argumentou que os objetos sociais do contribuinte – "Serviços de Vacinação e Imunização humana" e "Atendimento em Pediatria em geral" – não se enquadram como "serviços hospitalares" na forma prevista na lei. o Quanto à forma societária: O TVF afirma que, nos anos fiscalizados (2014 e 2015), o contribuinte estava organizado como "Sociedade Simples Pura", conforme registros no Cartório de Ofício de Notas (14º e 15º Aditivos) A transformação para Fl. 2076DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.402 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.729991/2018-70 3 "Sociedade Empresária Limitada" somente ocorreu em 09/10/2017, após o período da autuação. Por não atender aos requisitos, a fiscalização concluiu que o contribuinte deveria aplicar o percentual de 32% tanto para o IRPJ quanto para a CSLL, conforme art. 15, 20 e art. 20 da Lei nº 9.249/95. 2. Omissão de receitas no oferecimento à tributação: A fiscalização detectou que, embora o contribuinte tenha escriturado corretamente todas as receitas auferidas em 2014 e 2015 nos Livros Razão, deixou de oferecer à tributação a parcela dessas receitas recebida por meio de por meio de cartões de crédito. O TVF descreve que o contribuinte registrava o valor total das receitas de cartões de crédito a crédito na conta "Vendas a Prazo" (nº 41105.0002) e, em contrapartida, a débito na conta "Recebimentos Cartões" (nº 11301.0001). Desta forma, procedeu-se ao lançamento de ofício das diferenças de IRPJ e CSLL decorrentes de ambas as infrações, além de PIS e COFINS relativos às receitas omitidas. A Impugnação O contribuinte, devidamente cientificado, apresentou impugnação, contestando unicamente a glosa referente aos percentuais de presunção. Em sua defesa, o impugnante aduziu, em síntese: 1. Quanto à natureza dos serviços: Afirmou ser uma clínica médica prestadora de "serviços hospitalares de imunização (vacinação)", enquadrados como "serviços de auxílio diagnóstico e terapia e patologia clínica". Sustentou que sua atividade se enquadra na exceção do art. 15, § 1º, III, "a", da Lei nº 9.249/95, e que atende a todas as exigências da ANVISA, comprovado por alvará sanitário, citando as Soluções de Consulta Cosit nº 181/2018 e 33/2018. 2. Quanto à forma societária (Sociedade Empresária): Argumentou que, embora formalmente registrado como sociedade simples no período, sua organização e funcionamento material (substância econômica) eram inquestionavelmente de sociedade empresária. Para comprovar seu caráter empresarial de facto, destacou: o A estrutura física (estabelecimento principal com 410 m², frota de quatro veículos para atendimento domiciliar); o O volume de operações (cerca de 65.000 vacinas por ano no período, mais de 192.000 clientes cadastrados); o A organização de mão de obra (emprego de cerca de 20 funcionários, incluindo enfermeiros e técnicos). o A natureza de seu contrato social, que previa elementos de sociedade empresária, como a adoção da responsabilidade limitada, a presença de sócia não-médica Fl. 2077DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.402 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.729991/2018-70 4 ("empresária") , divisão do capital em quotas, administração com pró-labore e regras para distribuição de lucros. o Invocou o art. 126 do CTN, defendendo que a substância econômica da atividade deve prevalecer sobre a forma jurídica para fins tributários. o Alegou que o registro na Junta Comercial em 2017 foi um "fato isolado" que apenas formalizou uma condição de empresa que já detinha em 2014 e 2015, citando jurisprudência do CARF. O impugnante não se insurgiu contra a infração de omissão de receitas (recebimentos via cartão de crédito), mencionando, quanto ao PIS e COFINS (que decorriam apenas dessa infração 52), que "não se insurgiu e solicitou o pagamento parcelado". O Acórdão Recorrido A 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento (DRJ) em São Paulo/SP, por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário. A ementa do Acórdão nº 108-032.821 consignou: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2014, 2015 LUCRO PRESUMIDO. SERVIÇOS HOSPITALARES. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO. Para fins de utilização do percentual de presunção de 8%, a ser aplicado sobre a receita bruta auferida no período de apuração pela pessoa jurídica, com vistas à determinação da base de cálculo do imposto, consideram-se serviços hospitalares aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde, prestados pelos estabelecimentos assistenciais de saúde que desenvolvem as atividades previstas nas atribuições 1 a 4 da RDC Anvisa nº 50, de 2002. Para fazer jus ao percentual de presunção referido, a prestadora dos serviços deve, ainda, estar organizada, de fato e de direito, como sociedade empresária e atender às normas da Anvisa. Caso contrário, a receita bruta advinda da prestação dos serviços, ainda que caracterizados como hospitalares, estará sujeita ao percentual de presunção de 32%. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2014, 2015 LUCRO PRESUMIDO. SERVIÇOS HOSPITALARES. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO. Para fins de utilização do percentual de presunção de 12%, a ser aplicado sobre a receita bruta auferida no período de apuração pela pessoa jurídica, com vistas à determinação da base de cálculo da contribuição, consideram-se serviços Fl. 2078DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.402 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.729991/2018-70 5 hospitalares aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde, prestados pelos estabelecimentos assistenciais de saúde que desenvolvem as atividades previstas nas atribuições 1 a 4 da RDC Anvisa nº 50, de 2002. Para fazer jus ao percentual de presunção referido, a prestadora dos serviços deve, ainda, estar organizada, de fato e de direito, como sociedade empresária e atender às normas da Anvisa. Caso contrário, a receita bruta advinda da prestação dos serviços, ainda que caracterizados como hospitalares, estará sujeita ao percentual de presunção de 32%. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2014, 2015 MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. PRECLUSÃO. Consolida-se administrativamente a matéria não expressamente impugnada, operando-se em relação a ela a preclusão processual. Em seu voto, a DRJ adotou os seguintes fundamentos: 1. Preclusão: A DRJ delimitou o escopo de sua análise. Informou que o lançamento de IRPJ e CSLL abarcava duas infrações: (i) aplicação indevida dos coeficientes de presunção e (ii) receitas escrituradas, mas não oferecidas à tributação (cartões de crédito). Os lançamentos de PIS e COFINS decorriam apenas da segunda infração. A DRJ constatou que o impugnante questionou apenas a matéria relativa aos percentuais de presunção, não se insurgindo contra a acusação de omissão de receitas. Assim, com base no art. 17 do Decreto nº 70.235/72 71, declarou a preclusão processual sobre a matéria não impugnada (omissão de receitas), restringindo seu julgamento à controvérsia dos percentuais. 2. Análise do Mérito (Percentuais): A DRJ analisou os requisitos do art. 15, § 1º, III, "a", da Lei nº 9.249/95 entendendo que um deles não se encontrava atendido. o Natureza do Serviço: A DRJ acolheu o argumento do impugnante neste ponto. Citando a IN RFB nº 1.234/2012 e a RDC Anvisa nº 50/2002, a DRJ verificou que a atividade do contribuinte (CNAE 86.30-5-06 - Serviços de vacinação e imunização humana) está explicitamente prevista na "Atribuição 1" da referida RDC ("imunizações"). Concluiu, assim, que "as atividades de vacinação enquadram-se como serviços hospitalares". o Forma Societária: A DRJ, neste ponto, apoiando-se na Solução de Consulta Cosit nº 36/2016, a DRJ afirmou que a lei exige que a organização como sociedade empresária seja verificada "tanto de fato quanto de direito". Fl. 2079DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.402 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.729991/2018-70 6 Citando os arts. 967 e 982 do Código Civil, a DRJ ressaltou que a inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis (Junta Comercial) é "obrigatória" para a qualificação de direito. Como o próprio contribuinte admitiu e a fiscalização apontou, nos anos-calendário de 2014 e 2015 o contribuinte estava formalmente organizado como "sociedade simples", só vindo a alterar sua natureza para empresária em 09/10/2017. Por não cumprir o requisito legal de direito (inscrição na Junta Comercial) durante o período autuado, a DRJ concluiu que o impugnante não fazia jus aos percentuais reduzidos. Dessa forma, a impugnação foi julgada improcedente, mantendo-se integralmente o lançamento. O Recurso Voluntário Inconformado com a decisão da DRJ, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário, alegando que o acórdão da DRJ incorreu em equívoco, destoando do entendimento do próprio CARF. Destaca que a decisão recorrida, embora tenha admitido que suas atividades de vacinação se enquadram como "serviços hospitalares" e tenha reconhecido como "propícias" as alegações de sua "qualificação material como sociedade empresária" , manteve a exigência fiscal "prendendo-se unicamente ao argumento de que para a qualificação da Recorrente como sociedade empresária seria obrigatória a sua inscrição na junta comercial". O recorrente reitera e aprofunda os argumentos de sua impugnação, defendendo: 1. Adesão à "Teoria da Empresa" pelo Código Civil: Argumenta que o Código Civil de 2002 (art. 966) abandonou a "Teoria dos Atos de Comércio" e adotou a "Teoria da Empresa", que identifica a sociedade empresária por seus aspectos econômicos e pela organização dos fatores de produção. 2. Primazia da Substância sobre a Forma (Art. 126 do CTN): Sustenta que o aspecto "puramente formal" (a ausência de registro na Junta Comercial) não pode definir o regime tributário. Afirma ser "incontroverso" que o recorrente organizava seus fatores de produção como uma sociedade empresária de facto. Cita o art. 126, III, do CTN, que dispensa a regular constituição da pessoa jurídica para a capacidade tributária passiva, bastando que ela "configure uma unidade econômica ou profissional". O relevante, segundo o recorrente, é a "substância econômica da atividade desenvolvida". 3. Incoerência do Fisco (Municipal vs. Federal): Alega que o Fisco do Município de Fortaleza reconhece sua natureza empresária para exigir o ISS sobre a receita bruta (valor mais elevado), em vez do ISS fixo das sociedades profissionais. Argumenta ser uma "brutal incoerência" a esfera federal negar essa mesma natureza apenas para exigir mais IRPJ e CSL. Fl. 2080DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.402 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.729991/2018-70 7 4. Jurisprudência do CARF: O recorrente invoca o princípio da "primazia da essência/realidade sobre a forma", que alega ser recorrentemente aplicado pelo CARF em casos idênticos. Transcreve diversas ementas (Acórdãos nºs 1401-005.652 116, 1401- 005.653 117, 1401-005.493 118, 1401-005.494 119, e 1201-003.409) que teriam firmado a tese de que "A formalização da pessoa jurídica como sociedade simples não afasta, por si só, a sua natureza de sociedade empresária, quando os elementos constantes dos autos demonstram que a contribuinte exerce atividade econômica organizada". Destaca, ainda, trecho de voto do Acórdão nº 1402-001.982, no qual o relator defende que a essência do negócio deve prevalecer sobre a forma, e que um "vício meramente formal" (o registro como simples) não deveria justificar uma carga tributária maior. Pede, ao final, o provimento do recurso para reformar o acórdão recorrido e extinguir o crédito tributário. É o relatório. VOTO Conselheiro Lucas Issa Halah, Relator. 1 ADMISSIBILIDADE O Recurso é tempestivo e preenche aos demais requisitos de admissibilidade, merecendo conhecimento. 2 DIREITO A controvérsia meritória cinge-se a definir se a Recorrente, no período fiscalizado (2014-2015), preenchia o requisito legal de estar "organizada sob a forma de sociedade empresária", previsto no art. 15, § 1º, III, "a", da Lei nº 9.249, de 1995 (com redação dada pela Lei nº 11.727/2008), para fins de aplicação dos percentuais de presunção reduzidos de 8% (IRPJ) e 12% (CSLL) sobre as receitas de serviços hospitalares. Defende-se que a análise deve privilegiar a realidade fática da organização empresarial (primazia da realidade sobre a forma), em detrimento do mero registro formal dos atos constitutivos. Fl. 2081DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.402 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.729991/2018-70 8 A decisão recorrida, proferida pela Delegacia Regional de Julgamento (DRJ), embora tenha admitido que a atividade de vacinação humana exercida pela Recorrente se enquadra no conceito de serviços hospitalares, conforme Atribuição 1 da RDC Anvisa nº 50/2002, e reconhecido serem "propícias as alegações expostas pelo contribuinte no que concerne a sua qualificação material como sociedade empresária", negou o direito aos percentuais reduzidos. Vejamos excertos do Acórdão Recorrido: “24 Depreende-se do excerto acima que a redação conferida pela IN RFB nº 1540, de 2015, ao caput do art. 30 da IN RFB nº 1.234, de 2012, atribui um caráter objetivo ao conceito de “serviços hospitalares”. Consideram-se como tal os serviços que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, previstas nas atribuições 1 a 4 da Resolução RDC nº 50, de 2002, da Anvisa, a qual dispõe sobre o Regulamento Técnico para planejamento, programação, elaboração e avaliação de projetos físicos de estabelecimentos assistenciais de saúde. As 4 primeiras atribuições (de um total de 8) são atribuições fim - constituem funções diretamente ligadas à atenção e assistência à saúde; por essa razão, foram utilizadas pela legislação tributária como suporte interpretativo ao conceito, algo vago, de “serviços hospitalares” presente no art. 15 da Lei nº 9.249, de 1995. 25 A Impugnante, nos termos de seu contrato social, possui como objeto a prestação de serviços de vacinação e imunização humana, cadastrada no CNAE 86.30-5-06 - Serviços de vacinação e imunização humana. A atividade exercida consta explicitamente da atribuição 1 da RDC Anvisa nº 50, de 2002: ATRIBUIÇÃO 1: PRESTAÇÃO DE ATENDIMENTO ELETIVO DE PROMOÇÃO E ASSISTÊNCIA À SAÚDE EM REGIME AMBULATORIAL E DE HOSPITAL-DIA ATIVIDADES: 1.1-Realizar ações individuais ou coletivas de prevenção à saúde tais como: imunizações, primeiro atendimento, controle de doenças, visita domiciliar, coleta de material para exame etc.; (...) (grifou-se) 26 Nesse sentido, as atividades de vacinação enquadram-se como serviços hospitalares, pois estão previstas na Atribuição 1 da Resolução RDC Anvisa nº 50, de 2002. Resta saber se a Impugnante cumpre a segunda condição posta no art. 15, § 1º, III, “a”, da Lei nº 9.249, de 1995, qual seja estar organizada sob a forma de sociedade empresária.” Adicionalmente, corrobora a tese da Recorrente o fato, trazido no Recurso Voluntário, de que o próprio Fisco do Município de Fortaleza já a enquadra na condição de sociedade empresária para fins de tributação do Imposto Sobre Serviços (ISS). Conforme alegado, a municipalidade exige o ISS com base na receita bruta, tratamento aplicável às sociedades Fl. 2082DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.402 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.729991/2018-70 9 empresárias, em detrimento do regime de tributação por valor fixo anual, aplicável às sociedades uniprofissionais (ou "sociedades simples" em sentido lato). Ora, tal consideração pelo fisco municipal reforça a natureza empresária da sociedade em questão, como também explicita ser incoerente, que diferentes esferas da administração tributária (municipal e federal) atribuam naturezas jurídicas distintas a uma mesma entidade, com base nos mesmos fatos e para o mesmo período. Tal situação reforça a necessidade de aplicação do princípio da primazia da realidade sobre a forma, reconhecendo-se a natureza empresarial da Recorrente com base na maneira/forma de sua efetiva organização econômica, independentemente da formalidade do registro, para todos os fins fiscais. O único óbice apontado pelo Acórdão Recorrido foi de natureza formal, qual seja, a constatação de que, no período, a Recorrente possuía seus atos constitutivos registrados no Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas, e não na Junta Comercial, caracterizando-se, formalmente, como "sociedade simples". Com a devida vênia, o entendimento da instância “a quo” não deve prosperar. A exigência legal de que a prestadora de serviços esteja "organizada sob a forma de sociedade empresária" remete ao conceito material de empresário e sociedade empresária, conforme delineado pelo Código Civil de 2002, que adotou a Teoria da Empresa. O artigo 966 do referido diploma define como empresário quem "exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços". O elemento central, portanto, é a “organização” dos fatores de produção (capital, trabalho, insumos, tecnologia) de forma profissional para a exploração de uma atividade econômica. O parágrafo único do mesmo artigo excetua, em regra, as profissões intelectuais, mas ressalva a possibilidade de sua caracterização como empresária "se o exercício da profissão constituir elemento de empresa", o que abrange diversas atividades na área da saúde que demandam estrutura e organização complexas. O registro dos atos constitutivos na Junta Comercial, previsto no art. 967 do Código Civil, é requisito para a “regularidade” da sociedade empresária, mas não elemento constitutivo de sua “natureza”. A ausência do registro não descaracteriza, por si só, a natureza empresarial da atividade economicamente organizada. Ademais, o próprio Código Tributário Nacional, em seu art. 126, III, estabelece que a capacidade tributária passiva da pessoa jurídica independe "de estar a pessoa jurídica regularmente constituída, bastando que configure uma unidade econômica ou profissional", o que dá causa à equiparação a empresário para fins tributários. Tal dispositivo consagra a primazia da realidade econômica para fins tributários. Nesse sentido, a interpretação adotada pela Colenda Câmara Superior de Recursos Fiscais no Acórdão nº 9101-006.407, ao analisar caso análogo, mostra-se mais consentânea com o Fl. 2083DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.402 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.729991/2018-70 10 ordenamento jurídico, revertendo entendimento firmado em sentido contrário pelo Acórdão nº 1201-005.083, no qual restei vencido por partilhar do posicionamento que ao fim e ao cabo prevaleceu na Câmara Superior. Na CSRF, o Contribuinte restou vencedor por unanimidade de votos, sendo os fundamentos do relator partilhados pela maioria, excetuando-se a Conselheira Edeli que acompanhou-o pelas conclusões declaradas em voto. O entendimento do Conselheiro Relator Gustavo Guimarães da Fonseca, do qual partilho, foi no sentido de que o conceito de sociedade empresária invocado pelo art. 15 da Lei nº 9.249/95 é material e subjetivo, ligado à efetiva organização da atividade nos moldes do art. 966 do Código Civil, e não meramente formal, atrelado ao registro em Junta Comercial. A menção à forma de sociedade empresária no art. 15 diz respeito à maneira/forma de organização dos fatores produtivos, e não à formalidade de registro perante a junta comercial, mero requisito de regularidade societária. Por isso o dispositivo exige a organização sob a forma (sob o modo de organização dos fatores de produção) de sociedade empresária (em contraposição ao modo pelo qual se organiza os fatores produtivos da sociedades simples) e o atendimento às normas da Anvisa, sem mencionar o atendimento das normas da Junta Comercial. Conforme ressaltado no voto condutor daquele julgado, condicionar a aplicação dos percentuais de presunção ao registro formal poderia gerar tratamento tributário distinto a contribuintes materialmente idênticos, violando a isonomia e a capacidade contributiva. Embora a Conselheira Edeli Bessa tenha apresentado declaração de voto naquele julgamento, a maioria do colegiado acompanhou o Relator, sem ressalvas. No caso vertente, a própria decisão recorrida reconheceu a existência de elementos que apontam para a "qualificação material como sociedade empresária" da Recorrente, elementos estes identificados no relatório. Dentre eles, podemos identificar nos autos os variados veículos de propriedade da sociedade (e-fls. 1.887/ 1.893), o elevado número de funcionários (vide folhas de pagamento de fls. 1.906 a 1.933), e a celebração de contrato com A Caixa Econômica Federal para realizar vacinação sob o plano de saúde Caixa Saúde (fls. 1.934/1.983), o que se mostra compatível com a forma de organização de fatores de produção típica de uma sociedade empresária. Diante disso, e em linha com a jurisprudência, a mera ausência de registro na Junta Comercial no período fiscalizado não constitui óbice à aplicação dos percentuais de presunção reduzidos previstos no art. 15, § 1º, III, "a", e no art. 20 da Lei nº 9.249/95. Vale pontuar, tampouco se pode entender a exceção contida na alínea “a” do inciso III do art. 15 da Lei nº 9.249/95 como benefício fiscal. Trata-se de exceção que tão somente reconhece que tais serviços, pela maneira como são executados e pela demanda intensiva de capital (como equipamentos de ressonância magnética e as próprias vacinas), possuem margem de lucro típica de uma atividade comercial, demandando a aplicação dos mesmos coeficientes de presunção a ela aplicáveis. Fl. 2084DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.402 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10380.729991/2018-70 11 Impõe-se, portanto, a reforma da decisão recorrida neste ponto, reconhecendo-se o direito da Recorrente à aplicação dos percentuais de 8% (IRPJ) e 12% (CSLL) sobre as receitas decorrentes da prestação de serviços hospitalares (vacinação) nos anos-calendário de 2014 e 2015. 3 DISPOSITIVO Pelo exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário para no mérito, dar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Lucas Issa Halah Fl. 2085DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 Admissibilidade 2 Direito 3 Dispositivo

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