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Numero do processo: 13603.002966/2003-95
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 17 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jul 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 1998, 1999, 2000
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. SOCIEDADE DE FATO CARACTERIZADA. ART. 124, INC. I DO CTN. IMPUTAÇÃO AOS SÓCIOS DE FATO. CABIMENTO.
Configurada a sociedade de fato, caracterizada pela interposição de pessoas no quadro societário, revela-se correta a indicação dos verdadeiros sócios como coobrigados, pois é inequívoco, no caso, o interesse comum (dos sócios de fato) na situação que constituiu o fato gerador da obrigação principal.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. SOCIEDADE CONSTITUÍDA IRREGULARMENTE MEDIANTE INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS NO QUADRO SOCIETÁRIO. RESPONSABILIDADE DOS SÓCIOS DE FATO. ART. 135, III. INFRAÇÃO À LEI CARACTERIZADA.
A constituição da sociedade de forma irregular, mediante a utilização de interposição de pessoas no quadro societário, tem o mesmo efeito da dissolução irregular, posto que em ambos os casos, o Fisco somente pode concretizar a execução fiscal se redirecioná-la aos verdadeiros sócios, titulares do empreendimento.
Numero da decisão: 1302-002.798
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário do responsável solidário José Marcelino de Araujo, nos termos do relatório e voto do relator. Votou pelas conclusões do relator o conselheiro Gustavo Guimarães Fonseca, que manifestou intenção de apresentar declaração de voto.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Angelo Abrantes Nunes (suplente convocado), Rogerio Aparecido Gil, Maria Lucia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flavio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Ausente justificadamente o conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo.
Nome do relator: LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 1998, 1999, 2000 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. SOCIEDADE DE FATO CARACTERIZADA. ART. 124, INC. I DO CTN. IMPUTAÇÃO AOS SÓCIOS DE FATO. CABIMENTO. Configurada a sociedade de fato, caracterizada pela interposição de pessoas no quadro societário, revelase correta a indicação dos verdadeiros sócios como coobrigados, pois é inequívoco, no caso, o interesse comum (dos sócios de fato) na situação que constituiu o fato gerador da obrigação principal. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. SOCIEDADE CONSTITUÍDA IRREGULARMENTE MEDIANTE INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS NO QUADRO SOCIETÁRIO. RESPONSABILIDADE DOS SÓCIOS DE FATO. ART. 135, III. INFRAÇÃO À LEI CARACTERIZADA. A constituição da sociedade de forma irregular, mediante a utilização de interposição de pessoas no quadro societário, tem o mesmo efeito da dissolução irregular, posto que em ambos os casos, o Fisco somente pode concretizar a execução fiscal se redirecionála aos verdadeiros sócios, titulares do empreendimento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário do responsável solidário José Marcelino de Araujo, nos termos do relatório e voto do relator. Votou pelas conclusões do relator o conselheiro Gustavo Guimarães Fonseca, que manifestou intenção de apresentar declaração de voto. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 60 3. 00 29 66 /2 00 3- 95 Fl. 2433DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.434 2 Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Angelo Abrantes Nunes (suplente convocado), Rogerio Aparecido Gil, Maria Lucia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flavio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Ausente justificadamente o conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo. Fl. 2434DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.435 3 Relatório Trata o presente de exigência de COFINS, formalizada contra a interessada acima identificada e responsáveis solidários arrolados: José Marcelino de Araújo e Clésio Wagner de Araújo. O lançamento da referida contribuição foi realizado no mesmo procedimento fiscal e com base nos mesmos elementos de prova que deram ensejo ao lançamento de IRPJ e CSLL, formalizados por meio do PA nº 13.603.002968/200384. Cientificados o contribuinte principal e responsáveis solidários da decisão de primeiro grau, neste processo, apenas o primeiro apresentou recurso voluntário, tendo o colegiado da Primeira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes acordado em dar provimento parcial ao recurso voluntário, por meio do Acórdão nº 10196.803, de 25/06/2008, que tem a seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1998, 1999, 2000 O Primeiro Conselho de Contribuintes não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 1998 LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DECADÊNCIA. A Fazenda Pública dispõe de 5 (cinco) anos, contados a partir do fato gerador, para promover o lançamento de tributos e contribuições sociais enquadrados na modalidade do art. 150 do Código Tributário Nacional (CTN), a do lançamento por homologação, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, situação em que se aplica a regra do art. 173, I, do Código. Inexistência de pagamento, ou descumprimento do dever de apresentar declarações, não alteram o prazo decadencial nem o termo inicial da sua contagem. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Anocalendário: 1998, 1999, 2000 Fl. 2435DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.436 4 MULTA QUALIFICADA. SONEGAÇÃO. UTILIZAÇÃO DE PESSOAS SEM CAPACIDADE ECONÔMICOFINANCEIRA NA CONDIÇÃO DE SÓCIAS DE PESSOA URÍDICA. A inclusão de pessoas de reconhecida incapacidade econômicofinanceira no quadro societário de pessoa jurídica, em substituição aos verdadeiros sócios, não é suficiente, tãosomente, para caracterizar a intenção de sonegar. Tal expediente pode configurar tentativa de frustrar eventual execução fiscal, não punível com multa qualificada. A sonegação se consuma no esforço de encobrir o fato gerador, segundo o tipo penal descrito no art. 71 da Lei 4.502/1964, e não na tentativa de frustrar a cobrança do crédito tributário. Não obstante os responsáveis solidários não terem apresentado recurso voluntário nestes autos, uma vez cientificados do Acórdão nº 10196.803, aviaram recurso especial contra aquela decisão, tendo sido, num primeiro momento rejeitados, e, posteriormente, parcialmente admitidos pelo Presidente da Primeira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes. A situação foi descrita no Acórdão nº 9101001.936, de 15/05/2014, proferido pela 1ª Turma da CSRF, verbis: [...] Em sessão de 26 de junho de 2008 os membros da extinta Primeira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, por meio do Acórdão n° 10196.803 acordaram em, (i) por unanimidade de votos, REJEITAR as preliminares de nulidade do lançamento, e ACOLHER a decadência quanto aos fatos geradores até o mês de novembro de 1998, inclusive. No mérito, por unanimidade de votos, DAR provimento PARCIAL ao recurso para reduzir a multa de oficio a 75%. [...] Ciente da decisão do Conselho, Garantia Indústria, Comércio e Importação Ltda. ingressou recurso especial nos seguintes termos: “Como razões de Recurso Especial, informa a recorrente que se reporta às razões apresentadas em recurso voluntário e que foi vencida no acórdão recorrido. O presente feito tratase de exigência de COFINS via tributação reflexa, cujos autos principais são o de número 13603.002968/200384 (IRPJ/CSLL), que ainda se encontram em tramitação perante o CARF, conforme movimentação processual em anexo. Informa a empresa recorrente que as razões de Recurso Especial serão ofertadas quando da interposição de Recurso Especial nos autos principais. “ Aviaram embargos de declaração os responsabilizados José Marcelino de Araújo e Clésio Wagner de Araújo, sendo os mesmos rejeitados de acordo com o decidido no Despacho em Embargos n° 110100.009. Fl. 2436DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.437 5 Tais sujeitos passivos também aviaram recursos especiais de divergência, além de contrarrazões, requerendo o improvimento do REsp da Procuradoria da Fazenda Nacional O recurso especial de divergência dos arrolados como sujeitos passivos solidários foi apresentado em conjunto, numa mesma peça, para os três processos (principal, de IRPJ e CSLL, e decorrentes, de PIS e de Cofins), suscitando 4 matérias, cujas interpretações postulam serem levadas à CSRF para uniformização, a saber: . (i) falta de apresentação de recurso voluntário pelo Sr. Clésio Wagner de Araújo; (ii) não conhecimento das razões de recurso do Sr. José Marcelino de Araújo referentes à declaração de nulidade do Termo de Responsabilidade; (iii) apuração do crédito tributário por arbitramento versus glosa de custos; (iv) eleição da base de cálculo do PIS e da Cofins por dispositivo declarado inconstitucional pelo STF. Pelo despacho 110100.042, de 08/07/2011, o Presidente da 1º Câmara da 1ª SEJUL, inicialmente, negou seguimento ao recurso especial das pessoas físicas. Ante o pedido de revisão do despacho, que reclamou de a apreciação dos processos (matriz e decorrentes) ter sido feita de forma independente, o novo Presidente da 1ª Câmara encaminhou os autos ao antigo presidente, prolator do despacho agravado, solicitando sua manifestação a respeito. O autor do despacho agravado proferiu despacho saneador conjunto para os três despachos anteriores, propondo sua anulação, por ter a análise da admissibilidade sido realizada como se autônomos fossem, pois “admitida a decorrência, aplicarseia aos procedimentos reflexivos,no que couber, a mesma decisão dada ao processo matriz.” Afinal, assim se manifestou: “ (...) entendo que o Despacho n° 110100.044, datado de 08/07/2011, deve ser retificado apenas quanto à. constatação de que se trata do processo matriz, cuja decisão, quanto à. admissibilidade do recurso especial, no que couber, deve ser estendida aos processos decorrentes, acima enumerados, permanecendo inalterada a rejeição ao seguimento da 4ª divergência, supra transcrita, por falta de previsão regimental, devendo o novo Despacho dessa Presidência da 1ª Câmara instruir o processo principal e os decorrentes.” Aduziu considerações a respeito da 4ª divergência, pela importância do tema, mesmo sem a matéria ter sido préquestionada (inaplicabilidade do art. 3°, § 1°, da Lei n° 9.718/1998). Pondera que é inquestionável o motivo regimental que impõe a inadmissibilidade, mas que também inquestionável o direito que os recorrentes têm de se ver desonerados de ônus fiscal sabidamente indevido. Sugeriu que as autoridades competentes reflitam sobre a viabilidade da regulamentação desse procedimento, que poderia ser feita através da introdução de dispositivo regimental. E assim concluiu seu despacho: Feitas essas considerações, entendo que à luz do atual Regimento Interno do CARF não deve ser dado seguimento à divergência em causa, mantendose o que foi posto no precitado Despacho n° 110100.044, quanto a esse aspecto. Fl. 2437DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.438 6 O Presidente da 1ª Câmara concordou com o parecer em todos os seus termos, e manteve a decisão exarada no Despacho n° 110100.044, de 08/07/2011, quanto ao seguimento parcial do recurso especial, negando seguimento apenas à 4ª divergência, pela falta de previsão regimental, determinado que o Despacho saneador instruísse os processos decorrentes, aplicandoselhes o mesmo juízo de admissibilidade do processo matriz, no que couber. [...] Em 15 de maio de 2014 foi proferido o Acórdão nº 9101001.936, pela 1ª Turma da CSRF, mediante o qual decidiu, verbis: ACORDAM os membros da 1ª Turma da CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS, Por unanimidade de votos, recurso provido com retorno à Câmara a quo. Recurso do Contribuinte: 1) Quanto ao Conhecimento: a) Por unanimidade de votos, recurso não conhecido quanto à convalidação do recurso voluntário de Clésio Wagner de Araújo. b) Por maioria de votos, recurso conhecido quanto à responsabilidade de José Marcelino de Araújo. Vencidos os Conselheiros João Carlos de Lima Junior e Paulo Roberto Cortez (Suplente Convocado). c) Por maioria de votos, recurso não conhecido quanto à possibilidade de arbitramento. Vencidos os Conselheiros Antonio Lisboa Cardoso (Suplente Convocado) e Paulo Roberto Cortez (Suplente Convocado). d) Por unanimidade de votos, recurso de Clésio não conhecido por preclusão. 2) Quanto ao Mérito: a) Por maioria de votos, o colegiado considerou o CARF competente para apreciar o mérito da responsabilidade. Vencidos os Conselheiros João Carlos de Lima Junior e Paulo Roberto Cortez (Suplente Convocado) que entendiam que no caso concreto não haveria essa possibilidade. b) Por maioria de votos, o colegiado decidiu pelo retorno à Câmara a quo para manifestação sobre a responsabilidade de José Marcelino de Araújo. Vencidos os Conselheiros Antonio Lisboa Cardoso (Suplente Convocado) que votou pela análise da responsabilidade direta pela CSRF e Karem Jureidini Dias que votou pela nulidade completa da decisão. O acórdão da Câmara Superior tem a seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1998, 1999, 2000 NORMAS PROCESSUAIS RECURSO ESPECIAL Decisão parcial de mérito, no sistema processual brasileiro, usado subsidiariamente no processo administrativo fiscal, é nula, devendo ser anulada para julgamento único, ante a unicidade do julgamento. NORMAS PROCESSUAIS RECURSO ESPECIAL A perfeita comprovação do dissídio jurisprudencial é requisito inafastável para legitimar o recurso especial, sem a qual não pode o recurso ser conhecido. DECADÊNCIA TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO TERMO INICIAL. Fl. 2438DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.439 7 Conforme decisão do STJ em Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008, em não havendo pagamento do tributo, o termo inicial para a contagem do prazo decadencial iniciase no primeiro dia do exercício/período seguinte aquele em que o lançamento poderia ter sido iniciado, exvi do disposto no inciso I, art. 173, do CTN. Se os autos indicam a ocorrência de pagamento, o termo inicial a ser considerado é a data do fato gerador. ATRIBUIÇÃO DE RESPONSABILIDADE PELO CRÉDITO TRIBUTÁRIO COMPETÊNCIA DO CARF PARA JULGAMENTO. A identificação de coresponsáveis pelo crédito tributário constituído mediante lançamento de oficio remete o exame da atribuição de responsabilidade para o âmbito do processo administrativo tributário regulado pelo Decreto 70.235/72, cujo julgamento em segunda instância compete ao CARF. Portanto, embora os responsáveis solidários não tenham apresentado recurso voluntário neste processo, a CSRF acolheu o despacho do presidente da Câmara que deu seguimento parcial aos recursos especiais por eles interpostos, tendo em vista a relação de causa e efeito com as matérias discutidas no PA nº 13603.002968/200384, no qual foram formalizadas as exigências de IRPJ e CSLL, e nos quais os ditos responsáveis, entre os quais o ora recorrente, haviam apresentado tanto o recurso voluntário, quanto o recurso especial, estes com o mesmo teor do apresentado nestes autos, no tocante à imputação da responsabilidade que lhe foi atribuída pela fiscalização. O litígio instaurado com relação ao IRPJ e a CSLL, foi apreciado em segunda instância pela 1ª Câmara do extinto 1ª Conselho de Contribuintes, em 25 de junho de 2008, por meio do Acórdão nº 10196.791, mediante o qual acordaram os membros daquele colegiado, "por unanimidade de votos, NÃO CONHECER do recurso interposto por PLR Comércio e Importação Ltda. Por maioria de votos, CONHECER do recurso interposto pela pessoa de José Marcelino de Araújo, arrolado como responsável solidário, para declarar a nulidade do ato de imputação de responsabilidade, por ser matéria de execução fiscal, de competência da Procuradoria da Fazenda Nacional; vencidos os Conselheiros Sandra Maria Faroni e Alexandre Andrade Lima da Fonte Filho que enfrentavam o mérito dessa inclusão. Em primeira votação, por maioria de votos, foi afastada a tese de não conhecimento desses recursos, vencido o Conselheiro Caio Marcos Cândido. No que concerne as demais matérias, por unanimidade de votos, REJEITAR as preliminares de nulidade do lançamento, e ACOLHER a decadência quanto aos fatos geradores até o 3o. trimestre de 1998, inclusive. No mérito, por unanimidade de votos, manter o arbitramento dos lucros e DAR provimento PARCIAL ao recurso para reduzir a multa de oficio a 75%, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado". O conteúdo da decisão acima, no que interessa ao presente processo, está expressa na seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1998, 1999, 2000 Fl. 2439DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.440 8 PESSOAS ARROLADAS COMO RESPONSÁVEIS PELO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. A atribuição de responsabilidade pelo crédito tributário é matéria de execução, da esfera de competência da d. Procuradoria da Fazenda Nacional (PFN), devendose anular os atos de atribuição de responsabilidade lavrados pela fiscalização e desconhecer as razões de recurso vinculadas ao tema. No entanto, o enfrentamento das outras questões suscitadas, diversas da atribuição de responsabilidade, tomase imprescindível como forma de assegurar aos recorrentes o direito à ampla defesa e ao contraditório, no âmbito processual regulado pelo Decreto 70.235/72. Em 26/01/2017 o processo foi sorteado a este conselheiro para relatar o recurso referido. Por meio do despacho de saneamento foi determinado o retorno dos autos à unidade de origem para ciência aos interessados da decisão da CSRF. Na sequência, foram opostos embargos pelos responsáveis solidários em face do acórdão da CSRF, que foram apreciados e rejeitados conforme Despacho de Admissibilidade de Embargos, exarado pela Presidente da 1ª Turma da CSRF, que determinou a devolução dos autos a este relator para julgamento do recurso do responsável solidário José Marcelino de Araújo, nos termos do Acórdão nº 9101001.936 da CSRF. Portanto a discussão que remanesce nos autos referese exclusivamente à apreciação das razões do recurso voluntário do referido responsável solidário, tão somente quanto ao mérito da sujeição imputada pela fiscalização. A 2ª Turma da DRJBelo Horizonte, ao apreciar as razões de impugnação do referido responsável solidário, proferiu o Acórdão nº 0214.551, manteve a imputação de responsabilidade, conforme sintetizado na seguinte ementa sobre a matéria, verbis: RESPONSABILIDADE PELO CREDITO TRIBUTÁRIO As pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador são solidariamente responsáveis pelo crédito tributário apurado. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei os mandatários, prepostos e empregados e os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. O recorrente José Marcelino foi cientificado desta decisão em 12/07/2007 (fls. 1901), porém não apresentou recurso voluntário neste autos, conforme já relatado. Não obstante, o recorrente contestou a responsabilidade solidária atribuída no recurso voluntário interposto no PA nº 13603.002968/200384, no qual foram formalizadas as exigências de IRPJ e CSLL, no qual repete, em linhas gerais, os argumentos trazidos em sua impugnação que foram bem sintetizados no Acórdão nº 10196.791, proferido naquele processo, verbis: Fl. 2440DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.441 9 [...] Prosseguese com o resumo das impugnações, finalmente quanto àquelas apresentadas pelas pessoas físicas implicadas como responsáveis pelo crédito tributário: [...] C) JOSÉ MARCELINO DE ARAÚJO (FLS. 1612/1674) 1. Dos fatos Os auditores da Receita Federal, no uso de suas atribuições, autuaram a sociedade GARANTIA Ind. Com. e Importação Ltda., exigindo suposto crédito tributário referente ao IRPJ, CSLL, PIS e Cofins exercícios de 1998 a 2000. Destarte, os auditoresfiscais incluíram o impugnante como responsável solidário do pretenso crédito, por mera presunção, sem motivação de ordem fático jurídica que dê suporte. Nesta esteira, referida inclusão não merece prosperar, posto que, conforme restará demonstrado e comprovado, o impugnante não possui nenhuma relação com a sociedade autuada, que implique na responsabilização imputada, sendo inequívoco, ainda, a nulidade do lançamento em relação ao impugnante. 2. Do direito 2.1. Das preliminares 2.1.1. Decadência operada fatos geradores ocorridos em 1998 e primeiro trimestre de 1999 art. 150, § 4o do CTN Teceu o impugnante considerações acerca da decadência, concluindo que houve a homologação tácita do crédito tributário, razão pela qual deve ser acolhida a preliminar suscitada, para o fim de extinguir definitivamente a exigência fiscal referente aos anos de 1998 e primeiro trimestre de 1999. 2.1.2. Ilegitimidade passiva Os fatos imputados ao impugnante advém exclusivamente de presunção, pelo fato de, por meio de quebra ilegal de sigilo bancário, ter a instituição financeira apresentado cadastros bancários anteriores à Lei Complementar n° 105, de 10 de janeiro de 2001, constando o impugnante como avalista da empresa Garantia. Além disso, baseiase em declaração de três empregados da mesma empresa, cujas declarações não fazem prova para imputação de responsabilização tributária. Em momento algum se constata nos autos provas que permitam atribuir ao impugnante a condição de sujeito passivo da obrigação tributária. O simples fato de ter avalizado a empresa autuada em cinco contratos no período de dezembro de 1997 a dezembro de 1998 não autoriza a aplicação da responsabilidade solidária que se pretende imputar ao impugnante por fatos geradores ocorridos entre 1998 e 2000. Fl. 2441DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.442 10 A imputação de coobrigação em um crédito tributário de mais de RS 8 milhões, por ter avalizado uma empresa com quem mantinha relações comerciais foge às raias do razoável. Cabia à fiscalização provar que o impugnante realizou operações associadas às razões que culminaram na exigência fiscal. Tece considerações acerca de presunção e indícios, ressaltando que a extensão dos efeitos do A.I. sobre o impugnante somente teve nascedouro porque houve a presunção de que este era "o verdadeiro dono do negócio" e que ele detinha poderes e os efetivamente exercia de forma e modo a decidir acerca dos pagamentos ou sua abstenção, das obrigações tributárias da empresa. Diante disso, partiuse de meras presunções, que não geram direito. Quanto aos indícios, sua utilização como prova necessita de extrema cautela, devendo ser aplicada somente quando houver absoluta certeza de que não existem alternativas razoáveis para o caso concreto. A eleição de um terceiro o impugnante como sujeito passivo carece de fundamento e de provas, estas últimas que a fiscalização não junta em nenhum momento. O auto de infração está embasado em meras presunções e suposições da autoridade lançadora que pensa serem provas as declarações prestadas por três ex funcionários da empresa autuada, que não afirmaram em nenhum momento que o impugnante geria a empresa ou que dele recebiam ordens. Ante a desconstituição da presunção, não há que se falar em sua inclusão como responsável solidário neste procedimento, tampouco em razão dos avais prestados em períodos diversos dos referentes ao crédito tributário exigido. O impugnante, como prestador de serviços de corretagem de mercadorias, confirma sua condição de dependência do cliente, o que inclui a empresa Garantia. E, ao contrário do que argumenta o agente fiscal, não participa financeiramente das empresas clientes e tampouco empenha seu patrimônio pessoal. O que faz é, por vezes se sentir na obrigação de melhor atendêlos, com prestação de favores como é o caso de assinar como avalista em contratos bancários, procedimento imprescindível para a conquista do cliente num mercado competitivo. Entretanto, de um aval prestado em 1997 e 1998 originar a presunção de participação em fato gerador de obrigação tributaria de 1999 e 2000 ultrapassa o limite do razoável. Em conclusão, os avais ocorreram tãosomente em razão das atividades comerciais exercidas pelo impugnante, sendo certo não ter havido nenhum ato de gestão ou administração da empresa por parte deste. Quanto à capacidade financeira dos sócios, esta não pode ser medida pelas declarações de imposto de renda ou pelas evasivas declarações do Sr. Orlando. Salientese que o sócio Orlando é um conhecido empresário no ramo que atua, já tendo sido sócio anteriormente de outras empresas. Da mesma forma o Sr. Pergentino, que já foi sócio de empresas, antes de constituir a Garantia. 2.1.3. Provas insubsistentes declarações de terceiros não são provas lícitas para imputação de sujeição passiva. Fl. 2442DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.443 11 Consoante ressaise do Termo de Constatação, os agentes fiscais presumiram a sujeição passiva e elegeram um responsável tributário com base em declarações prestadas por terceiros. Insta frisar que o Decreto n° 70.235, de 1972, não possui previsão expressa com relação a todos os tipos de provas existentes em direito. A prova testemunhal e o depoimento pessoal não estão regulamentos no referido decreto. Cita os arts. 350 e 368 do CPC e jurisprudência, para afirmar que estas informações só produzem a verdade com relação aos declarantes, jamais contra terceiros, como o caso do impugnante. Não obstante, o agente fiscal tomou como verdade absoluta declarações e informações de terceiros que não se prestam para o fim colimado pelos auditores fiscais. Isso porque, o Sr. Geraldo foi detido em frente à empresa que presta serviços, colocado no carro pelos auditoresfiscais e levado para a Receita Federal, conforme relatam testemunhas. Do seu depoimento, dada a falta de nexo nas afirmações, ressaise que foi coagido e induzido a dar respostas de acordo com a vontade fiscal. Ademais, o Sr. Geraldo é um funcionário carregador braçal que trabalhou aproximadamente por seis meses na empresa e não poderia obter nenhuma informação sobre a gestão. Verificase ainda que em nenhum momento disse receber ordens do impugnante, mas de Marcos Giovani Virgílio e outros, sequer tendo afirmado que conhecia o impugnante. Situação idêntica é o depoimento prestado pelas Sras. Adna Costa Silva e Marly Elena Costa empacotadeiras, tomado a socapa pelos auditores, que certamente confundiram suas idéias e distorceram suas palavras, e por ser de pouca instrução, não sabiam das malícias utilizadas na condução do seu depoimento. Tais depoimentos, em nome da ampla defesa, devem ser colhidos novamente, como diligência, desta feita sem coação e na presença das panes. A fiscalização limitouse a imputar a responsabilização ao impugnante com base nestas informações de terceiros, deixando de considerar as declarações do sócio Orlando e de perquirir sobre a titularidade da empresa ao seu gestor e procurador, Sr. Nilton. Esse último não foi ouvido pela fiscalização nem chamado para prestar esclarecimentos, conquanto conste do TVF que ele não teria capacidade financeira. Os comentários maliciosos e sarcásticos sobre o depoimento do sócio Orlando não servem para desconsiderálo, demonstrando apenas a intenção dos agentes fiscais na imputação de responsabilidade a terceiro. É crível, utilizando vocabulário dos auditoresfiscais, que o sócio da empresa autuada não quisesse, perante a fiscalização, se comprometer e, portanto, foi o mais evasivo possível. As vacilações e falta de consistência das assertivas dos empregados declarantes não foram suficientes para abalar o crédito dado pela fiscalização quanto à veracidade de tudo o que fora declarado. No relatório de diligências, predominam as opiniões pessoais dos encarregados dos trabalhos, que se constituem em prejulgamentos das situações examinadas, lembrando que é indispensável prova material concreta obtida por meios regulares. Fl. 2443DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.444 12 As informações prestadas por clientes da empresa (Carrefour e Indústria Rettore) não receberam valoração dos agentes fiscais. Em nenhum momento fornecedor ou cliente alegaram que faziam tratativas com o impugnante. A existência dos avais constitui indício fraco e insubsistente para atribuir responsabilidade tributária por débitos de terceiros. Além do procurador, Sr. Nilton, também o Sr. Rogério de Souza Jacob não foi chamado para participar da fiscalização e prestar esclarecimentos, malgrado tenha sido citado no TVF como representante da empresa. Depoimentos de funcionários próximos da direção e da gestão da empresa também não receberam valoração por parte da fiscalização. Diante disso, diligências e provas testemunhais de quem efetivamente pode esclarecer os fatos atinentes às pessoas ligadas na direção da empresa devem ser feitas porque, embora sem nenhum vínculo com a empresa Garantia que lhe pudesse atribuir responsabilidade tributária, se vê diante do constrangimento e sofrendo danos morais e patrimoniais advindos desta imputação de coobrigação. Quanto aos demais tópicos da defesa (da ausência de conduta concorrente à supressão de tributos pelo impugnante; da impossibilidade do impugnante figurar como responsável solidário do crédito tributário; da inaplicabilidade da teoria da descaracterização da personalidade jurídica pela autoridade administrativa; nulidade do arbitramento com relação ao impugnante; inocorrência do fato gerador; impossibilidade de agravamento da multa; da irretroatividade da Lei Complementar 105/2001), o arrazoado constitui, em linhas gerais, reprodução das impugnações apresentadas pelos demais implicados no processo, conforme resumo feito anteriormente. [...] No seu recurso voluntário o recorrente mais uma vez questiona o uso da prova testemunhal no âmbito do processo administrativo fiscal, argumentando que, ainda que se admita o seu uso nos termos do art. 332 do CPC, conforme entendeu o acórdão recorrido, tal prova ainda seria nula por descumprimento do rito de oitiva de testemunhas previsto no próprio CPC, notadamente nos arts. 407 e 413 a 417 daquele código. Ao final de seu recurso, requer, verbis: Diante do exposto, requer seja dado provimento ao recurso para que seja, em preliminar, excluída a responsabilidade do Recorrente pelo pagamento do crédito tributário constituído contra a Garantia Indústria, Comércio e Importação Ltda, e no mérito julgar improcedente o lançamento fiscal, tendo em vista a decadência, o arbitramento não justificado e o agravamento indevido da multa. É o relatório. Fl. 2444DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.445 13 Voto Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado Relator O recurso voluntário é tempestivo e atende aos pressupostos legais e regimentais. Assim, dele conheço. A questão devolvida a este colegiado por decisão da 1ª Turma da CSRF no Acórdão nº 9101001.936, referese à imputação da responsabilidade solidária atribuída ao Sr. José Marcelino de Araújo, que deixou de ser apreciada pelo colegiado da Primeira Câmara do extinto Primeiro Conselho de Contribuintes. Tal discussão está direta e estritamente vinculada à discussão travada no PA nº 13603.002968/200384, no qual foram formalizadas as exigências de IRPJ e CSLL, e no qual foram trazidos em recurso voluntário, pelo ora recorrente, as alegações que deve ser enfrentadas por este colegiado, por determinação da 1ª Turma da CSRF. Assim, impõese adotar os mesmos fundamentos do acórdão proferido nesta data, por este colegiado, no âmbito do PA nº 13603.002968/200384, verbis: O Acórdão de primeiro grau ao apreciar as alegações do responsável solidário arrolado, ora recorrente, assim se pronunciou: III. RESPONSABILIDADE PELO CRÉDITO TRIBUTÁRIO III. 1. ASPECTOS PERTINENTES AOS REGISTROS FEITOS NO TERMO DE VERIFICAÇÃO FISCAL E PEDIDO DE DILIGÊNCIA Neste tópico será examinada a questão da responsabilidade pelo crédito tributário discutida na impugnação apresentada pelos interessados. No termo fiscal de fls. 42/72, estão relatados os trabalhos de investigação levados a efeito pela fiscalização que culminaram na caracterização dos responsáveis pelos impostos e contribuições devidos neste processo. Particularmente Clésio Wagner de Araújo, pessoa física implicada como responsável, salientou que nunca compôs o quadro societário da empresa Garantia nem exerceu ato de gestão e que não há prova de ligações entre a autuada e a Mundial Atacadista da qual foi sócio. José Marcelino de Araújo argumentou que a fiscalização partiu de meras presunções, inexistindo prova no processo capaz de atestar a responsabilidade tributária. Em relação aos avais prestados, destacou que estes ocorreram em períodos diversos dos referentes ao crédito tributário exigido e que decorreram apenas das atividades comerciais exercidas pelo impugnante. Procurou ainda desqualificar os depoimentos apresentados pelos autuantes, postulando a realização de diligência e a produção de provas testemunhais em relação a estes mesmos depoentes e a outros que considera relevantes. Também ressaltou que clientes e fornecedores da autuada em nenhum momento alegaram que faziam tratativas com o impugnante. Sustentou ainda que prova testemunhal e depoimentos não estão regulamentados no Decreto n° 70.235, de 1972. Fl. 2445DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.446 14 Sendo extenso o relatório fiscal, procurase em seguida fazer uma exposição resumida dos elementos coletados pela fiscalização, que serviram de base para a caracterização e identificação dos responsáveis pelo crédito tributário: A) Da incapacidade financeira dos sócios conforme contrato social, a empresa Garantia foi constituída em janeiro de 1996 pelos sócios Srs. Orlando Passos Pereira e Pergentino José Freitas; analisando as declarações de rendimentos dos citados sócios, ficou evidenciado que estes não revelaram capacidade financeira para estar à frente de uma empresa com o faturamento da magnitude do apresentado nos anos de 1996 e 1997, além de não informarem nenhum rendimento ou outro benefício auferido da Garantia; o Sr. Pergentino retirouse da sociedade em junho de 1997, tendo, em resposta à intimação fiscal, esclarecido que recebeu os valores em dinheiro, sem contudo apresentar nenhum documento comprobatório da operação; o Sr. Orlando não atendeu à intimação, tendo a fiscalização comparecido a sua residência na cidade de Paraguaçu/MG para contatálo: foram destacados os seguintes registros: apesar da receita líquida da empresa nos anos de 1998, 1999 e 2000 (superior a RS15.000.000,00 em cada ano), o sócio residia em casa modesta, pagando aluguel; possuía um único veículo automóvel popular ano 1998; não tinha conhecimento de financiamentos obtidos pela empresa em 1997 e 1998 junto ao Banco Rural S.A (valor acima de R$1.000.000,00), nem sabia os nomes dos fiadores; desconhecia a existência de conta corrente no Banco Bandeirantes S.A. com quem a empresa mantinha a maior movimentação financeira; desconhecia os faturamentos da empresa; demonstrou desconhecimento dos nomes dos funcionários que trabalhavam no escritório da empresa; informou de forma incorreta o nome da pessoa para a qual deu procuração com plenos poderes para administrar a empresa, pessoa esta que assinou todos os cheques emitidos em 1998 (Sr. Nilton Andrade Santos); o Sr. Nilton Andrade Santos foi intimado pela fiscalização, mas não compareceu para prestar esclarecimentos. concluiu a fiscalização que o Sr. Orlando Passos Pereira não é nem nunca foi o verdadeiro dono da Garantia Indústria Comércio e Importação Ltda., mas apenas parte de um esquema de sonegação fiscal cujo objetivo era ocultar os verdadeiros responsáveis pela empresa. B) Dos efetivos titulares da empresa prestaram esclarecimentos exempregados da empresa Garantia, conforme Termos de Comparecimento lavrados (Srs. Geraldo Pedro Silva, Marly Elena Costa Silva e Adna Costa Silva); nos depoimentos transcritos, verificouse que os depoentes foram unânimes ao declarar que o verdadeiro dono da empresa era o Sr. José Marcelino de Araújo; os exempregados da Garantia, Sr. Elísio Rodrigues Reis e Neuza Fernandes Silva, intimados a comparecer para prestar esclarecimentos, informaram, em correspondência enviada via postal, que não poderiam se ausentar do trabalho; foi registrado que estas pessoas trabalhavam no final de 2002 na empresa Mundial Atacadista Ltda., pertencente ao Sr. José Marcelino de Araújo: foram trazidas aos autos informações acerca da empresa Cerealista Morato Ltda. que corroboram os depoimentos das Sras. Marly e Adna, segundo os quais a Garantia representava a continuação das atividades daquela empresa: a Cerealista funcionava no mesmo endereço onde a Garantia passou a funcionar a partir de 1996 (galpão pertencente ao Sr. Clésio Wagner de Araújo, posteriormente alienado para o Sr. José Marcelino de Araújo); o telefax da Cerealista aparece em nota fiscal da Garantia; o serviço de contabilidade era Fl. 2446DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.447 15 feito no mesmo escritório; de acordo com a Rais da Cerealista, em 30/08/1996, todos os empregados foram demitidos; estes mesmos funcionários, com exceção de dois, foram admitidos em abril e maio de 1997 pela Garantia; com base nas Dapis, verificouse que os valores de saídas da Cerealista Morato foram reduzidos substancialmente até setembro de 1996, tendo sido interrompido em outubro do mesmo ano, enquanto a Garantia passou a faturar a partir de setembro/1996; em relação aos sócios da Cerealista Morato Ltda., verificouse que estes não detinham capacidade financeira nem declararam haver recebido nenhum benefício pago pela empresa; o Sr. André Luiz Orício foi empregado da Mundial Atacadista Ltda, corroborando informação prestada pelas Sras. Marly e Adna; a Indústria Rettore de Plásticos Ltda. informou que o contato comercial com as empresas Cerealista e Garantia era feito por intermédio do Sr. Marcos Giovanni, que pertenceu ao quadro de funcionários da Mundial Atacadista, corroborando informações prestadas nos depoimentos mencionados; de acordo com informações da Rais, dos 55 empregados que estavam em atividade em 31/12/2001 na Garantia, em 2002, 17 foram admitidos pela Ancora Armazéns Ltda. e 12, pela Mundial Atacadista Ltda: Sr. Marcos Giovanni Lopes Cançado e Rogério de Souza Jacob constam como sócios da empresa Ancora; o Sr. Rogério de Souza Jacob apresentouse à fiscalização como gerente administrativofinanceiro da Garantia; concluiu a fiscalização que não resta dúvida de que há forte ligação entre as empresas Cerealista Morato, Garantia, Mundial Atacadista e Ancora; o Sr. José Marcelino de Araújo compareceu à Seção de Fiscalização para prestar esclarecimentos, enquanto o Sr. Clésio Wagner de Araújo, apesar de regularmente intimado, deixou de comparecer; analisando os documentos bancários enviados pelo Banco Bandeirantes SA. e Banco Rural S.A., verificouse a existência de informações que reforçam as declarações prestadas pelos exfuncionários da Garantia de que o verdadeiro dono da empresa é o Sr. José Marcelino de Araújo: na ficha de cadastro enviada pelo Bandeirantes ao Unibanco S.A., o Sr. José Marcelino figura como diretor da Garantia: relativamente ao Banco Rural, constam contratos de abertura de crédito nos quais os irmãos José Marcelino e Clésio aparecem como intervenientes garantidores e devedores solidários; na ficha cadastral, o Sr. José Marcelino é identificado como diretor comercial da Garantia e o Sr. Clésio, como sócio da Mundial Atacadista e proprietário de galpões onde então funcionava a empresa Garantia: o Sr. Clésio recebeu recursos pagos pela empresa Garantia, representados por dois cheques relacionados à fl. 68, além dos valores pagos a título de aluguel do galpão supracitado, não tendo se dignado a apresentar qualquer documento comprobatório da motivação pelos recebimentos, conquanto tenha sido regularmente intimado; na escrituração também não foi possível identificar as operações a que se referem os mencionados cheques; conclui a fiscalização que as pessoas físicas que constaram no quadro societário das empresas Garantia e Cerealista Morato cederem o nome para figurar como sócios nos contratos sociais em proveito dos Srs. Clésio e José Marcelino. Destacados alguns pontos do TVF, cumpre ainda trazer a lume a conceituação do vocábulo PROVA, constante do livro Vocabulário Jurídico de Plácido e Silva Vol. IV 12a edição Editora Forense. Conceitua prova documental como sendo a prova que se estrutura por documento, papel escrito onde o fato alegado se mostra materializado. Prossegue, discorrendo que a Fl. 2447DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.448 16 prova documental pode ser argüida de falsa. Neste caso, devendo ser mostrada a falsidade, para que anule seu valor probatório. Salientese também o conceito de prova contrária extraído da mesma edição. E a prova trazida pela parte contrária para destruir a prova feita ou apresentada pela outra pane, ou para anular a presunção legal avocada por ela. Designa, portanto, a contraprova ou demonstração de fatos que possam ter força para anular a força de outros fatos afirmados e demonstrados, ou simplesmente alegados. Nesta circunstância, as forças das duas provas são medidas, para que se verifique qual a predominante. Ou seja, para que se conclua de que lado está a verdade acerca dos fatos afirmados por uma e outra parte. Por sua vez, indícios são fatos conhecidos, comprovados, que se ligam a outro fato que se tem de provar. São a base objetiva do raciocínio, ou da atividade meneai, por via dos quais se pode chegar ao fato desconhecido. Presentes os caracteres de gravidade, precisão e concordância, prestamse como ponto de partida para as presunções relativas, gerando o efeito de inverter o ônus da prova. Apenas um indício, desde que veemente, pode levar a conclusão da ocorrência de um fato. Da mesma forma, vários indícios em si fracos, quer dizer, com baixo teor de gravidade e precisão, podem, somados, fazer prova do ilícito, desde que todos indiquem a mesma direção. Deve ser ressaltado ainda que vale para o processo fiscal a mesma regra do art. 332 do CPC, segundo a qual "todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não especificados neste Código, são hábeis para provar a verdade dos fatos, em que se funde a ação ou a defesa". O trabalho fiscal assim constituído encontra amparo legal também no Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto n° 3.000, de 26 de março de 1999 RIR/1999. Reza o art. 276 que a determinação do lucro real pelo contribuinte está sujeita a verificação pela autoridade tributária, com base no exame de livros e documentos de sua escrituração, na escrituração de outros contribuintes, em informação ou esclarecimentos do contribuinte ou de terceiros, ou em qualquer outro elemento de prova. De acordo com o art. 845, II do mesmo regulamento, farseá o lançamento de ofício abandonandose as parcelas que não tiverem sido esclarecidas e fixando os rendimentos tributáveis de acordo com as informações de que se dispuser, quando os esclarecimentos deixarem de ser prestados, forem recusados ou não forem satisfatórios. O § Io deste dispositivo legal preceitua ainda que os esclarecimentos prestados só poderão ser impugnados pelos lançadores com elemento seguro de prova ou indício veemente de falsidade ou inexatidão. O art. 911 do RIR/1999 dispõe que os AuditoresFiscais do Tesouro Nacional procederão ao exame dos livros e documentos de contabilidade dos contribuintes e realizarão as diligências e investigações necessárias para apurar a exatidão das declarações, balanços e documentos apresentados, das informações prestadas e verificar o cumprimento das obrigações fiscais. Finalmente, o art. 927 preceitua que todas as pessoas físicas ou jurídicas, contribuintes ou não, são obrigadas a prestar as informações e os esclarecimentos exigidos pelos AuditoresFiscais do Tesouro Nacional no exercício de suas funções, sendo as declarações tomadas por termo e assinadas pelo declarante. Expostos de forma resumida os resultados decorrentes de um trabalho criterioso e amplo de investigação levado a efeito pela fiscalização nos estritos limites de suas atribuições regulamentares, confrontados com as impugnações apresentadas, começa a ficar patente a fragilidade dos argumentos dos defendentes. Assim, no que respeita aos depoimentos e testemunhos colhidos pela fiscalização, o seu uso como prova no processo é legítimo e sua força probante não se desfaz pela mera Fl. 2448DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.449 17 alegação da defesa no sentido de que tais depoimentos seriam frágeis em razão da ocupação dos depoentes ou de sua condição de "pessoas humildes e simples" (sic). Também não há no processo nenhuma prova no sentido de confirmar a alegação do impugnante de que o Sr. Geraldo Pedro Silva teria sido coagido a prestar esclarecimentos, assim como não há resquícios que possam atestar a coação dos demais depoentes (Sras. Marly Elena Costa Silva e Adna Costa Silva) ou a distorção dos fatos relatados, como aduziu o impugnante. Pelo contrário, conforme se viu no TVF, a fiscalização buscou, em outras fontes, dados que corroboraram as informações prestadas pelos exempregados da empresa GARANTIA. Assim, foram trazidas aos autos informações indicando que a Garantia representava a continuação das atividades da Cerealista Morato Ltda, dados confirmando que os sócios dessas empresas não detinham capacidade financeira, informação da Indústria Rettore de Plásticos de que o contato comercial em nome das empresas Cerealista e Garantia era feito pela mesma pessoa (Marcos Giovanni, que pertenceu ao quadro de funcionários da Mundial Atacadista empresa que teve o Sr. Clésio como sócio que, por sua vez, era proprietário dos galpões onde funcionava a Garantia), informações da Rais acerca de empregados que atuaram nas empresas Cerealista Morato, Garantia, Mundial Atacadista e Ancora Armazéns, documentos fornecidos pelo Banco Bandeirantes S.A. e Banco Rural S.A. indicando o Sr. José Marcelino como diretor da Garantia, os Srs. Clésio e José Marcelino como garantidores e devedores solidários da empresa, além de cheques emitidos pela Garantia destinados ao Sr. Clésio que, intimado, não se dignou a esclarecer e justificar os recebimentos. Em relação aos depoimentos prestados pelos exempregados da empresa Garantia, o impugnante postulou ainda, em nome da ampla defesa, que fossem colhidos novamente em diligência, desta feita realizada sem coação e na presença das partes. Também requereu que fossem chamados a se pronunciar especialmente os Srs. Nilton Andrade Santos e o Sr. Rogério de Souza Jacob. Quanto à realização de diligência, cumpre salientar que cabe ao administrador tributário, por força do art. 18 do Decreto n° 70.235, de 1972, com redação dada pelo art. Io da Lei n° 8.748, de 1993, determinar a realização de diligências e perícias quando as entender necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis. No presente caso, conforme foi salientado, os depoimentos dos exempregados constituíram parte do rol de provas formadas pela fiscalização, não se tratando de um elemento isolado. Também foi evidenciado que o impugnante não trouxe ao processo nenhuma prova objetiva que sustente a existência de vício de qualquer ordem que possa invalidar os depoimentos colhidos a termo pela fiscalização, no cumprimento estrito de suas atribuições regulamentares. Quanto à manifestação do Sr. Nilton Andrade Santos, cumpre lembrar que, de acordo com anotação feita no TVF e documentação de fls. 497/498, este foi intimado e não compareceu à Seção de Fiscalização da DRE/Contagem/MG para prestar informações. No tocante ao Sr. Rogério de Souza Jacob, conforme está relatado no TVF, na condição de diretor financeiro da GARANTIA Indústria Comércio e Importação Ltda., recebeu diversas intimações expedidas no curso da ação fiscal e se manifestou no processo (doe. fls. 01/02, 144/145, 160, 167, 171, 180/182, 203), estando ciente dos acontecimentos e, portanto, poderia a qualquer tempo ter apresentado à fiscalização as informações que julgasse relevantes. De qualquer modo, os impugnantes, no exercício pleno de sua defesa representada pela impugnação ora apreciada, poderiam ter trazido aos autos outros documentos ou informações que considerassem de importância para o contencioso instaurado, lembrando que a regra do processo administrativo fiscal é de que são conhecidos todos os documentos que instruírem a impugnação formalizada por escrito tempestivamente. Notese também que é da essência da relação processual que as alegações de parte a parte estejam devidamente Fl. 2449DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.450 18 instruídas com as respectivas provas (arts. 14, 15 e 16, inciso III do Decreto n° 70.235. de 1972, com alterações posteriores). Nestas condições, deve ser indeferido o pedido de diligência para o fim proposto pelo defendente. Em relação aos avais prestados pelos Srs. Clésio e José Marcelino, a documentação apresentada pelas instituições financeiras não indica se tratar de procedimento normal vinculado a supostas transações comerciais destes senhores com a empresa Garantia, cumprindo lembrar mais uma vez, que o Sr. José Marcelino figura como diretor da Garantia nas fichas cadastrais bancárias (doc. fls. 255 e 273) e o Sr. Clésio recebeu numerário representado por cheques emitidos pela Garantia sem que tenha justificado a operação (fls. 938/941 e 1048/1050), além de ser proprietário de galpões onde funcionou a empresa autuada. Quanto ao período dos avais, os contratos foram firmados em 1998 tendo, em alguns casos, vigorado também em 1999, todos estes períodos abrangidos pelo lançamento (fls. 274/290). Fez ressaltar o impugnante, quanto à capacidade financeira do sócio da empresa Garantia, que esta não pode ser medida pelas declarações de imposto de renda ou pelas evasivas informações prestadas pelo Sr. Orlando Passos Pereira. Entretanto, deixou de observar o defendente que a fiscalização, além das declarações do imposto de renda que, por si só, já fornecem importantes informações acerca da vida fiscal dos contribuintes, realizou diligência no domicílio do sócio contratual, em Paraguaçu/MG, oportunidade em que a capacidade financeira foi aferida também materialmente, conforme foi registrado no TVF e destacado neste voto. Ademais, o sócio demonstrou desconhecimento dos fatos pertinentes à empresa Garantia, tendo passado procuração delegando plenos poderes para administrar a empresa ao Sr. Nilton Andrade Santos, entre outras evidências apresentadas no termo fiscal. Portanto, os impugnantes, efetivamente, não rebateram de forma eficaz as evidências expostas no trabalho fiscal, deixando sem respostas os questionamentos que surgiram das provas coletadas pela fiscalização denunciando o envolvimento das pessoas arroladas como responsáveis pelo crédito tributário. Conforme revelam os trechos transcritos abaixo extraídos do TVF, a conclusão da fiscalização a respeito da responsabilidade tributária não está fundada em "meras presunções" ou em opiniões pessoais dos autuantes como quiseram fazer crer os defendentes, e evidencia ainda que a relação entre a empresa GARANTIA Indústria Comércio e Importação Ltda. e os Srs. Clésio Wagner de Araújo e José Marcelino de Araújo vai muito além do que normalmente se pode classificar como meras relações comerciais: Portanto, os documentos aqui analisados revelam a comunhão de interesses, inclusive de bens, entre a pessoa física dos Srs. José Marcelino de Araújo e Clésio Wagner de Araújo e a empresa Garantia Ind. Com. e Importação Ltda., que conjugavam seus esforços, objetivando um fim comum. Os fatos narrados ainda indicam a sucessão entre as empresas que foram constituídas por esses senhores para figurarem à frente de seus negócios, especialmente quanto à empresa Cerealista Morato Ltda., sucedida pela Garantia Ind. Com. e Importação Ltda. Ficaram amplamente demonstrados acima, veementes indícios de que os Srs. José Marcelino de Araújo e Clésio Wagner de Araújo são os verdadeiros donos do negócio que se operou sob a razão social das empresas Garantia Ind. Com. e Importação Ltda. e Cerealista Morato Ltda., além de inequivocamente comprovado que dele se beneficiou diretamente, pelo menos um dos irmãos, o Sr. Clésio Wagner de Araújo. Portanto, são inverídicos os contratos sociais e respectivas alterações onde figuraram como sócios da empresa terceiros que, conforme apuramos, não revelam capacidade de ocupar tal posição. Esses contratos tiveram como objetivo justamente dissimular a identidade dos efetivos titulares dos negócios que foram perpetrados sob a razão social da empresa Garantia Ind. Com. e Importação Ltda. e Cerealista Morato Ltda., visando impedir a satisfação do crédito Fl. 2450DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.451 19 tributário, haja vista a situação de elevado grau de inadimplência das empresas. [..] Avolumamse, no presente caso, indícios de que esses senhores estavam à frente do negócio, bem como provas cabais de que dele se beneficiou o Sr. Clésio Wagner de Araújo, conforme destacamos no presente Termo, dentre outros: a existência de procuração da Garantia Ind. Com. e Importação Ltda. outorgando plenos poderes a terceiros para administração e movimentação financeira; as cópias de Fichas de Cadastro das Pessoas Físicas responsáveis pela movimentação de conta corrente da Garantia Ind. Com. e Importação Ltda em instituição financeira, dentre as quais constava a do Sr. Clésio Wagner de Araújo; a Ficha de Cadastro da Pessoa Jurídica preenchida para a empresa Garantia Ind. Com. e Importação Ltda, das quais constava o Sr. José Marcelino de Araújo como diretor da empresa, além das cópias de Fichas Cadastrais dos avalistas das operações de crédito da Garantia Ind. Com. e Importação Ltda, das quais constavam os Srs. José Marcelino de Araújo e Clésio Wagner de Araújo. Além desses, dos depoimentos dos antigos empregados emergem declarações como a declaração do antigo empregado da empresa Mundial Atacadista Ltda, informando que o Sr. José Marcelino, além de dono da empresa Mundial, era dono da empresa Garantia Ind. Com. e Importação Ltda., ou ainda, a declaração de outro antigo empregados informando ''que a empresa Cerealista Morato Ltda. e a empresa Garantia eram uma empresa só, uma vez que a Cerealista Morato Ltda. encerrou atividade e a Garantia Ind. Com. e Importação Ltda. continuou com a mesma atividade econômica no mesmo local, comercializando os mesmos produtos e, inclusive, com os funcionários que quiseram continuar, sendo que o dono de ambas era o Sr. José Marcelino ". Assim, pelos fatos e documentos analisados neste Termo, ficou demonstrada a prática adotada por JOSÉ MARCELINO DE ARAÚJO E CLÉSIO WAGNER DE ARAÚJO na condução dos negócios de suas empresas, seu modus faciendi, qual seja, a manutenção da mesma atividade mercantil com sucessão das empresas que representam o negócio; o aproveitamento dos mesmos empregados nas empresas inadimplemento constante das empresas em relação aos tributos federais, estando, em regra, omissas de entrega de declarações; encerramento irregular das empresas e, confecção de contratos sociais e alterações contratuais das empresas em nome dos empregados e de terceiros (interposição de pessoas na figura do sócio da pessoa jurídica). O amplo trabalho de fiscalização demonstra, através da documentação anexada a este termo, que as empresas Garantia Ind. Com. e Importação Lida., bem como a sucedida Cerealista Morato Ltda., serviram para a prática de atos negociais em seu nome, mas que na realidade, beneficiaramse dos mesmos, terceiras pessoas, de forma ardilosa, através de artifícios empregados pelos agentes, com vistas à obtenção de lucros sem o devido recolhimento dos tributos federais. Portanto, são atos praticados através de condutas que objetivaram falsear documentos com o fim direto de prejudicar o direito da Fazenda Pública. Dessarte, pela prática regular de todos os atos típicos da sociedade comercial, inclusive com participação financeira e empenho de seu patrimônio pessoal, os Srs. José Marcelino de Araújo e Clésio Wagner de Araújo, demonstram interesse comum nas atividades da empresa, tendo permanecido a ela vinculados de forma irregular, aparentemente como prepostos ou mandatários, por terem simulado a participação de terceiros no capital social da empresa. Fl. 2451DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.452 20 Portanto, não há dúvidas quanto à caracterização da responsabilidade pelo crédito tributário, dada à robustez das provas que a fundamenta, cuja força probante se sustentou diante das impugnações apresentadas. III.2. ASPECTOS LEGAIS RELATIVOS À CARACTERIZAÇÃO DA RESPONSABILIDADE PELO CRÉDITO TRIBUTÁRIO No que tange às considerações da defesa acerca de aspectos legais da imputação de responsabilidade pelo crédito tributário, primeiramente ressaltese que, de acordo com o TVF, o fundamento legal eleito pela fiscalização se prende às disposições do art. 124,1 e art. 135, II e III do CTN, que assim prescrevem: Art. 124. São solidariamente obrigadas; I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I I os mandatários, prepostos e empregados; III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Em conformidade com os fatos relatados neste voto, extraídos do TVF, estáse diante de um caso típico de responsabilidade solidária passiva, fundamentado no art. 124, I do CTN. Ou seja, o que se comprova, no caso vertente, é que os Srs. Clésio Wagner de Araújo e José Marcelino de Araújo tinham interesse comum na situação que constitui o fato gerador dos tributos ora lançados, dado a abundância de evidências de que conjugavam os seus esforços para um mesmo fim. Ora, existe sociedade, na definição do art. 981 do novo Código Civil Brasileiro, quando duas ou mais pessoas combinam a conjugação de seus esforços ou recursos, para obtenção de um fim comum. Ordinariamente a sociedade constituise por escrito. Se não existir contrato escrito, a sociedade denominase irregular ou de fato. O Prof. De Plácido e Silva, em sua obra "Vocabulário Jurídico" (10a edição. Forense, vol. IV, págs. 253 e 257), assim as caracteriza: SOCIEDADE DE FATO E a que se forma do acordo entre duas ou mais pessoas para a exploração de negócios em comum, sem atender às formalidades legais de registro de contrato e de firma. As sociedades de fato podem igualmente resultar da existência de sociedades irregulares, ou de sociedades legais, que tiveram seus prazos terminados e não se revigoraram. SOCIEDADE IRREGULAR E a sociedade que está funcionando em transgressão às leis, ou sem preencher as formalidades estabelecidas em lei. As sociedades de fato, em princípio, são sociedades irregulares, tendo uma existência desconforme à lei. As sociedades de fato podem preexistir sem contrato escrito. Assim, comprovamse por fatos circunstanciais, que atestam sua real, ou efetiva existência e a intenção das pessoas que a compõem em manter uma soma de negócios sob uma comunhão de interesses e bens. Fl. 2452DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.453 21 Em princípio, mesmo que haja um contrato escrito, as sociedades de fato estabelecem entre os sócios uma responsabilidade ilimitada e solidária, de modo que são eles ligados às obrigações assumidas pela sociedade, (grifos acrescentados) A existência da sociedade de fato ou irregular pode ser exteriorizada por meio de múltiplas situações, hábeis a caracterizálas, como, por exemplo: a exploração de negócio comum entre duas ou mais pessoas com a formação de um capital, com objetivo de lucro e participação dos sócios nos resultados, faltando, no entanto, contrato escrito; a existência de instrumento escrito, mas não levado a registro; a existência de contratos simulados, como o de trabalho ou de prestação de serviços, com a participação do empregado ou prestador de serviços nos lucros do empreendimento Washington de Barros Monteiro em sua obra "Curso de Direito Civil", 5° volume, 2o parte, página 300, ao tecer comentários sobre as sociedade de fato leciona: Já nas questões de estranhos contra a sociedade, poderão aqueles provarlhe a existência de qualquer modo (art. 1.366, segunda parte). Aliás, escreveu PEDRO LESSA, reproduzindo VIVANTE, que os credores de uma sociedade de fato se acham na feliz posição jurídica de poderem valerse de sua existência, ou desconhecêla, segundo lhe convier. Se provam a existência da sociedade, podem agir contra ela, como entidade distinta dos sócios, se não dispõem de tal prova, podem volverse contra os sócios individualmente. E, acrescenta: E de admitirse provada sua existência, quando as circunstâncias revelarem ter havido entre os seus componentes uma comunhão de interesses para certo fim comum, (grifos acrescentados) O Código Comercial Brasileiro no art. 304. admite a existência da sociedade de fato, bem como esclarece os meios de prova de sua existência: Art. 304 São, porém, admissíveis, sem dependência da apresentação do dito instrumento (escritura), as ações que terceiros possam intentar contra a sociedade em comum ou contra qualquer dos sócios em particular. A existência da sociedade, quando por parte dos sócios se não apresenta instrumento, pode provarse por todos os gêneros de prova admitidos em comércio (art. 122), e até por presunções fundadas em fatos de que existe ou existiu sociedade. Maria Helena Diniz, em sua obra "Curso de Direito Civil Brasileiro", p. 284. ensina que: As pessoas jurídicas intervirão por seus órgãos, ativa e passivamente, judicial e extrajudicialmente (CC, art. 17). O órgão da pessoa jurídica, pontifica Orlando Gomes, é uma ou conjunto de pessoas naturais que exprime sua vontade. Não há aqui uma representação no sentido rigoroso do termo, pois esta pressupõe a conjugação de duas vontades, a do representante e a do representado, o que não ocorre com a pessoa jurídica, pois o seu órgão manifesta apenas a vontade da entidade, havendo uma compenetração entre o órgão e a pessoa jurídica, não se verificando aquela dissociação entre representante e representado, que conservam a própria vontade e autonomia. Poderseá falar que há ai uma representação imprópria. Verificase, no presente caso, que o órgão da pessoa jurídica, ou seja, o conjunto de pessoas naturais que exprime a sua vontade, não agiu dentro das formas que preconizam as normas tributárias, pois utilizaram a pessoa jurídica com o intuito de obtenção de lucros à margem da incidência tributária. Nesse sentido, a situação que constituiu o fato gerador consubstanciouse nos negócios realizados conjuntamente por um grupo de pessoas físicas e jurídicas, negócios esses que resultaram em disponibilidade de renda, a ser tributada (art. 43 do CTN). Todas Fl. 2453DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.454 22 essas pessoas tinham interesse comum nesses negócios, uma vez que, em maior ou menor grau, deles se beneficiaram. De acordo com a defesa, a atribuição de responsabilidade tributária se deu sem obediência ao princípio da legalidade. Todavia, tal alegação não prospera, haja vista que o art. 124,1, do CTN, dá guarida, "in casu", à atribuição de responsabilidade tributária levada a cabo pela fiscalização. Em contraposição a este entendimento, é oportuno valerse das lições de Luciano Amaro (págs. 294 e 295 da obra "Direito Tributário Brasileiro"'): (...) Áliomar Baleeiro afirmou que os casos de "interesse comum" mencionados no art. 124, I, do Código Tributário Nacional devem ser explicitados pela lei. E viu nos arts. 42 e 66 do Código, situações em que caberia a solidariedade passiva; tratase aí de tributos incidentes sobre certas operações, nas quais a lei pode definir como coniribitinte qualquer das partes; se um deles é eleito contribuinte o outro poderia ser indicado como responsável solidário. (...) Cabem aqui, porém, algumas observações. Anotese, em primeiro lugar, que, se os casos de "interesse comum" precisassem ser explicitados em lei, como disse Áliomar Baleeiro, o item I do art. 124 seria inútil, pois as hipóteses todas já estariam na disciplina posta pelo item II. Nos casos que se enquadrarem no questionado item I a solidariedade passiva decorre desse próprio dispositivo, sendo desnecessário que a lei de incidência o reitere. Situações outras, não abrangidas pelo item I. é que precisarão ser definidas na lei quando esta quiser eleger terceiro como responsável solidário, (grifos acrescentados) Como se depreende do texto destacado acima, identificada a hipótese de incidência prevista no inciso I do art. 124 do CTN existência de pessoas com interesse comum na situação que deu azo ao fato gerador é inadequado aventarse a necessidade de disposição expressa de lei para caracterizála, uma vez que o próprio dispositivo legal citado já a fundamenta. Também está correto o enquadramento no art. 135, II e III do CTN, considerando, conforme foi ressaltado no TVF de fls. 42/72, que, em decorrência dos fatos evidenciados no trabalho fiscal, os Srs. Clésio Wagner de Araújo e José Marcelino de Araújo são pessoalmente responsáveis pelos créditos tributários resultantes de atos praticados com excesso de poderes e infração à lei, uma vez que foram eles que atuaram sob a razão social da GARANTIA Indústria Comércio e Importação Ltda., colocando interpostas pessoas como titulares da sociedade, ficando inequívoca a participação dessas pessoas nas irregularidades anotadas no TVF. Cabe, ainda, discorrer brevemente acerca do que se deve entender da expressão "infração de lei" do caput do art. 135 do CTN. Ora, o CTN não adjetiva a lei que deve ser infringida para que se responsabilize aquelas pessoas elencadas em seu art. 135. E indubitável que a falta de recolhimento do tributo constitui, por si só, uma ilicitude, porquanto configura o descumprimento de um dever jurídico decorrente de leis tributárias. Constitui também infração à lei, conforme foi anotado no TVF, a prática de sonegação fiscal, consubstanciada na tentativa do contribuinte de impedir o conhecimento por parte da autoridade fiscal da identidade dos verdadeiros sócios da Garantia, mediante a interposição fictícia de pessoas na figura do sócio da pessoa jurídica, fatos estes que suscitaram inclusive a qualificação da multa de ofício e a formalização do competente processo de representação fiscal para fins penais, matéria que será analisada em maiores detalhes adiante em tópico específico. Temse ainda que são várias as decisões do Poder Judiciário que reafirmam tal entendimento, tais quais: Fl. 2454DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.455 23 Tributário Execução Fiscal Responsabilidade pessoal dos sócios CTN, art. 135, III. 1. Na sistemática do CTN vigente (art. 135, III), a infração à lei tributária é pressuposto suficiente para determinar a responsabilidade do sóciogerente. 2. O não recolhimento de tributos é infração à lei Tributária, e, como tal, determina a responsabilidade pessoal do gerente da sociedade de capital. 3. Aspectos relacionados ao direito comercial (integralização de capital e origem dos recursos sob constrição) são irrelevantes para o direito tributário, autônomo cientificamente. 4. Apelação impróvida. Sentença confirmada" (TRF, f Região. AC 1374993/MG, rei Juiz Cândido Ribeiro, DJU 19.12.1997, p. 111.547) Tributário Execução Fiscal Embargos de devedor Responsabilidade tributária do sóciogerente CTN/66, art. 135 Lei 8.009/90 Linha telefônica. 1. A omissão no pagamento dos tributos ou contribuições significa, por si só, infração à lei que os instituiu, disto resultando a responsabilidade pessoal dos diretores, gerentes ou representantes da pessoa jurídica. 2. A Lei 8.009/90 protege o bem de família de penhora a título de cobrança de contribuições relativas ao FGTS e retroage, a fim de alcançar constrição feita antes de sua vigência. 3. E penhorável o uso de linha telefônica, visto que a Lei 8.009/90 não impõe vedação genérica (TRF, 4a Região, I a Turma, AC 2756496/RS, rei Juiz Vladimir Passos de Freitas, DJU 08.10.1997, p. 83.279) ...A falta de recolhimento de contribuições sociais constitui, por si só, infração de lei, pelo que o sóciogerente pode responder pessoalmente pelos débitos fiscais da empresa (art. 135, III, do CTN). (TRF, 4a Região, 2a Turma, REO 94.04..454567/RS, rei. Juíza Tânia Escobar) Portanto, seja em razão das disposições do art. 124, I ou do art. 135, II e III do CTN, e diante das evidências expostas no trabalho fiscal, a caracterização da responsabilidade pelo crédito tributário das pessoas arroladas pela fiscalização encontra sólido amparo legal. Alegaram também os impugnantes que a autoridade administrativa não possui competência para descaracterizar a personalidade jurídica da empresa a fim de atribuir a responsabilidade a terceiros ou a outra pessoa jurídica. Argumentou ainda que a aplicação dessa teoria só poderia ocorrer mediante ordem judicial. No caso vertente, não se pode dizer que houve a descaracterização da personalidade jurídica da empresa autuada, mas a atribuição de responsabilidade tributária a pessoas físicas envolvidas no negócio jurídico operado pela autuada, em consonância com o art. 124, I e o art. 135, II e III do CTN. Notese que o sujeito passivo da obrigação tributária é a pessoa jurídica da empresa GARANTIA Indústria Comércio e Importação Ltda. Descaracterizar a personalidade jurídica da empresa autuada para tãosomente atingir aos seus sócios formais (conforme contrato social) não seria uma medida que. por si só. resguardaria o interesse da Fazenda Nacional. Isso porque restou provado nos autos que houve uma tentativa do contribuinte de impedir o conhecimento por parte da autoridade fiscal da identidade dos verdadeiros sócios da Garantia, mediante a utilização de interpostas pessoas nos contratos sociais e alterações, conforme circunstanciado em minúcias no TVF. Em relação ao tema, vale lembrar que a existência das pessoas jurídicas, dentre elas as sociedades comerciais, começa com a inscrição de seus atos constitutivos no registro que lhes é peculiar (para o comércio, tal registro deve ser feito nas Juntas Comercias). Portanto, as sociedades comerciais que arquivam seus contratos ou atos constitutivos no Registro do Comércio adquirem, assim, personalidade jurídica própria, distinta, pois, das pessoas que a constituem. Desse modo, a sociedade transformase em um novo ser, estranho à individualidade das pessoas que participam de sua constituição, dominando um patrimônio próprio e possuindo órgãos que deliberam e executam, fazendo, assim, cumprir sua vontade. Todavia certo é que, ocorrendo abuso de direito ou fraude através da personalidade jurídica, segundo a doutrina da penetração, devese desconsiderar a personalidade jurídica, Fl. 2455DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.456 24 isto é, não considerar os efeitos da personificação, para atingir a responsabilidade dos sócios. Em qualquer caso, focalizase a doutrina da superação da personalidade jurídica com o propósito de demonstrar que a personalidade jurídica não constitui um direito absoluto, mas está sujeita e contida pela teoria da fraude contra credores (inclusive o Fisco) e pela teoria do abuso de direito. No caso concreto, pelas provas carreadas nos autos, ficou demonstrado que a pessoa jurídica sonegou tributos, por artifícios que impediram ou retardaram, total ou parcialmente, o conhecimento pela autoridade fiscal da ocorrência do fato gerador ou das condições pessoais do contribuinte. Então, em defesa do interesse público, é possível que o próprio Fisco, sem necessidade de socorrerse ao Poder Judiciário, aja, promovendo a desconsideração da personalidade jurídica, em processo administrativo, como forma de responsabilizar os verdadeiros sócios do empreendimento comercial. Entretanto, a despeito da discussão que envolve a descaracterização da personalidade jurídica, vale notar que a fiscalização, conforme já salientado, deu enfoque à responsabilidade solidária das pessoas físicas, que formaram uma sociedade de fato (irregular), para explorar negócios em comum. [...] Adoto integralmente os argumentos expendidos no acórdão recorrido para a justificar a manutenção da responsabilidade solidária aos responsáveis arrolados, entre os quais o ora recorrente, com base no art. 124, inc. I. Com efeito, entendo que restou caracterizada e comprovada pela autoridade fiscal a utilização de interpostas pessoas, sem qualquer condição econômica para compor o quadro social da empresa fiscalizada, ocultando os reais detentores do negócio. O Fisco trouxe, também, elementos convincentes e convergentes que apontam que os Sr. José Marcelino (recorrente) e seu irmão Sr. Clésio, são os sócios de fato da empresa, apontando que os mesmos são os proprietários do imóvel no qual a empresa está estabelecida, que os mesmos prestaram aval bancário a empresa em montantes que superam a centena de milhares de reais em operações de empréstimos tomadas pela empresa, que o Sr. Marcelino constava como diretor da empresa em Fichas de Aberturas de contas, situações corroboradas pelos depoimentos de exempregados da empresa que afirmam que, de fato, são eles os proprietários de fato da empresa autuada. Conforme bem destacado nas conclusões do TVF que julgo oportuno transcrever novamente, verbis: Assim, pelos fatos e documentos analisados neste Termo, ficou demonstrada a prática adotada por JOSÉ MARCELINO DE ARAÚJO E CLÉSIO WAGNER DE ARAÚJO na condução dos negócios de suas empresas, seu modus faciendi, qual seja, a manutenção da mesma atividade mercantil com sucessão das empresas que representam o negócio; o aproveitamento dos mesmos empregados nas empresas inadimplemento constante das empresas em relação aos tributos federais, estando, em regra, omissas de entrega de declarações; encerramento irregular das empresas e, confecção de contratos sociais e alterações contratuais das empresas em nome dos empregados e de terceiros (interposição de pessoas na figura do sócio da pessoa jurídica). O amplo trabalho de fiscalização demonstra, através da documentação anexada a este termo, que as empresas Garantia Ind. Com. e Importação Lida., bem como a sucedida Cerealista Morato Ltda., serviram para a prática de atos negociais em seu Fl. 2456DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.457 25 nome, mas que na realidade, beneficiaramse dos mesmos, terceiras pessoas, de forma ardilosa, através de artifícios empregados pelos agentes, com vistas à obtenção de lucros sem o devido recolhimento dos tributos federais. Portanto, são atos praticados através de condutas que objetivaram falsear documentos com o fim direto de prejudicar o direito da Fazenda Pública. Dessarte, pela prática regular de todos os atos típicos da sociedade comercial, inclusive com participação financeira e empenho de seu patrimônio pessoal, os Srs. José Marcelino de Araújo e Clésio Wagner de Araújo, demonstram interesse comum nas atividades da empresa, tendo permanecido a ela vinculados de forma irregular, aparentemente como prepostos ou mandatários, por terem simulado a participação de terceiros no capital social da empresa. O recorrente reclama que se o acórdão recorrido entende válida a prova testemunhal, com base no art. 332 do CPC, deveria também considerar aplicável os demais artigos daquele código que estabelecem o rito para a oitiva de testemunhas, o que não foi observado pela fiscalização, tornando igualmente inválida a prova. Não tem razão a recorrente. O rito estabelecidos nos artigos 407 e 413 a 417 do CPC são claramente destinados ao processo civil judicial. As disposições do CPC aplicamse supletiva e subsidiariamente aos processos administrativos, nos termos do seu art. 15, apenas no que lhes couber. 1 Assim, as normas atinentes à atuação da autoridade judicial na condução dos processos judiciais e aos ritos próprios daqueles processos, por certo, não se aplicam ao processos administrativo fiscal. Por outro lado, como bem destacou o acórdão recorrido, o recorrente não trouxe qualquer elemento de prova que apontasse que os depoimentos prestados pelos ex empregados da fiscalizada contivessem quaisquer vícios. No que concerne ao enquadramento da situação descrita ao art. 124, inc. I do CTN, concordo, também, com a conclusão do acórdão recorrido no sentido de que se configurou uma sociedade de fato dos responsáveis solidários arrolados, na medida em que os sócios formalmente indicados no contrato social não eram os titulares de fato da sociedade, mas sim interpostas pessoas que ocultavam os reais sócios. Agreguese ao fato destacado pela fiscalização de que os referidos responsáveis solidários arrolados adotaram a mesma prática em outros empreendimentos no sentido de utilizar interpostas pessoas no quadro societário de suas empresas e não recolher nenhum dos tributos devidos em face das atividades econômicas por elas desenvolvidas, revelando o claro intuito de frustrar eventuais execuções fiscais. Configurada a sociedade de fato, entendo correta a indicação dos sócios de fato como coobrigados, pois é inequívoco, no caso, o interesse comum (dos sócios de fato) na situação que constituiu o fato gerador da obrigação principal. No que concerne à aplicação do art. 135, incs. II e III do CTN, também indicados pela autoridade fiscal para fundamentar a responsabilização, poderseia cogitar que 1 Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente. Fl. 2457DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.458 26 uma vez afastada a aplicação da multa qualificada pelo colegiado da Primeira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, não se caracterizaria a infração à lei que justificaria a responsabilização por este critério legal. Com efeito, o Acórdão nº 10196.803, afastou a multa qualificada aplicada, nos termos sintetizados na seguinte ementa, verbis: MULTA QUALIFICADA. SONEGAÇÃO. UTILIZAÇÃO DE PESSOAS SEM CAPACIDADE ECONÔMICOFINANCEIRA NA CONDIÇÃO DE SÓCIAS DE PESSOA JURÍDICA. A inclusão de pessoas de reconhecida incapacidade econômicofinanceira no quadro societário de pessoa jurídica, em substituição aos verdadeiros sócios, não é suficiente, tãosomente, para caracterizar a intenção de sonegar. Tal expediente pode configurar tentativa de frustrar eventual execução fiscal, não punível com multa qualificada. A sonegação se consuma no esforço de encobrir o fato gerador, segundo o tipo penal descrito no art. 71 da Lei 4.502/1964, e não na tentativa de frustrar a cobrança do crédito tributário. O STJ, por meio da Sumula nº 430 consolidou entendimento de que "o inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sóciogerente. A jurisprudência do mesmo tribunal admite, no entanto, o redirecionamento da execução fiscal ao sócio em caso de dissolução irregular da sociedade. No presente caso, temse a constituição da sociedade de forma irregular, mediante a utilização de interpostas pessoas, que tem o mesmo efeito da dissolução irregular, posto que em ambos os casos, o Fisco somente pode concretizar a execução fiscal se redirecionála aos sócios de fato. O ilustre desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Luciano Rinaldi, ao discorrer sobre a responsabilidade dos sócios, analisa situação de transferência de quotas de sociedade pelos sócios a interpostas pessoas, destacando a responsabilidade dos verdadeiros sócios pelos tributos não recolhidos, verbis: 2 Há um aspecto que merece atenção especial, concernente a dissolução irregular da empresa quando constatado que o sócio anterior a repassou para outrem de forma artificial, ardilosa, visando ocultação da real titularidade e/ou blindagem patrimonial. Nesses casos, o terceiro, comumente denominado “sóciolaranja”, geralmente desconhece o negócio jurídico, tendo seu nome ilegalmente utilizado para benefício alheio, tornandose sócio (inconsciente) de uma empresa. Essa situação enquadrase juridicamente como dolo, vício de consentimento (artigo 145, Código Civil). Assim, o vício de consentimento decorrente do dolo é anulável (artigo 171, II, CC), tendo como consequência o restabelecimento da situação jurídica anterior (artigo 182, CC). Noutros termos: confirmada a boa fé do terceiro, vítima de um esquema ilícito, o negócio jurídico ilegal fica privado de qualquer efeito no mundo jurídico, retroagindo a data da celebração e restabelecido o status quo ante. Entretanto, se o “sóciolaranja” empresta seu nome em ato de conluio com o sócio verdadeiro, mancomunados, estará caracterizado a 2 A execução fiscal contra sócios e administradores da pessoa jurídica. 12 de junho de 2016. in https://www.conjur.com.br/2016jun12/lucianorinaldiexecucaofiscalsociospessoajuridica. Fl. 2458DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.459 27 simulação, causa de invalidação dos negócios jurídicos (artigo 167, parágrafo 1º, I, CC). Nessa circunstância, levando em consideração que “o negócio jurídico nulo não é suscetível de confirmação, nem convalesce pelo decurso do tempo” (artigo 169, CC) e “as nulidades devem ser pronunciadas pelo juiz... quando as encontrar provadas” (artigo 168, p.único, CC), é certo que, em caso de transferência simulada de participação societária, a responsabilidade tributária atingirá também o sócio primitivo, ainda que haja dissolução irregular anos depois. Assim, no tocante ao redirecionamento da execução fiscal ao sócio/administrador, restando evidenciada a fraude por meio de vício de consentimento(dolo) ou simulação, a responsabilidade tributária alcançará o mentor do ilícito, por infração da lei (artigo 135, CTN), sendo pouco relevante aferir quem ocupava a gerência da empresa no momento da dissolução irregular. Ora, se o sócio que deixa a sociedade ficticiamente, mediante a transferência de suas quotas, é responsável pelos tributos devidos pela sociedade dissolvida irregularmente, o mesmo deve ocorrer com relação ao sócio de fato, dono do empreendimento, que constitui a empresa em nome de terceiro, interposta pessoa, e deixa de recolher todos os tributos devidos, sob pena de se frustrar a execução fiscal pela Fazenda Pública. Além disso, a utilização de interposta pessoa na constituição formal da empresa tipifica, sem dúvida, uma fraude, que caracteriza a infração à lei por parte dos reais proprietário da empresa. Assim, entendo que deve ser mantida a imputação de responsabilidade também com base no art. 135, do CTN. Ante ao exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. Desta feita, tendo em vista que a imputação de responsabilidade atribuída nestes autos ao responsável solidário José Marcelino de Araújo, ora recorrente, decorre dos mesmos fatos apontados no PA. 13603.002968/200384, impõese adotar os mesmos fundamentos e conclusões do voto exarado naquele processo. Ante ao exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Fl. 2459DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.460 28 Declaração de Voto Conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca No caso em análise, não obstante presentes os pressupostos necessários à tipificação da hipótese tratada pelo art. 135, III, do CTN e, assim, neste particular, não haver quaisquer discordâncias de minha parte com o voto condutor, vale destacar que, quanto ao art. 124, I, também invocado para justificar a responsabilização do solidário, meu entendimento diverge, inclusive, em relação à posição adotada pelo restante do Colegiado. É que, a meu ver, a única interpretação possível acerca do aludido art. 124, I, da Lei Complementar Tributária ex ratione materiae, é de que, para justificar a imposição solidária do dever de recolher o tributo, há que se verificar a existência de um interesse jurídico comum, e não econômico ou, de outra sorte, os sócios das empresas sempre, e sempre, seriam responsabilizáveis pelas dívidas havidas pela sociedade (tornando, pois, letra morta, as regras encartadas nos artigos 132, 133, 134 e 135, todos do mesmo diploma legal). Em suma, a meu ver o interesse na percepção de vantagem econômica não estão abarcado pelas disposições do art. 124, I, até porque, o uso de códigos linguísticos estranhos ao direito para qualificar um fato social é contrário à dogmática jurídica (posição que adoto, inclusive, para a validação, do ponto de vista fiscal/tributário, de operações não dotadas de intento negocial). Apenas a existência de uma relação jurídica comum que encerre um objetivo compartilhado, sendo este objetivo a ocorrência do próprio fato gerador, e não da percepção do fruto advindo deste fato jurígeno (auferir renda ou receita, deter a propriedade), é que legitima, pois, a responsabilização com base no citado dispositivo (respeitados, por óbvio, os entendimentos divergentes). Invoco, neste particular, o escólio de Luciano Amaro que, de forma bem objetiva, ratifica as assertivas acima apostas: Sabendo que a eleição de terceiro como responsável supõe que ele seja vinculado ao fato gerador (art. 128), é preciso distinguir, de um lado, as situações em que a responsabilidade do terceiro deriva do fato de ele ter "interesse comum" no fato gerador (o que dispensa previsão na lei instituidora do tributo) e, de outro, as situações com as quais ele tenha algum outro interesse (melhor se diria, as situações com as quais ele tenha algum vínculo) em razão do qual ele possa ser eleito como responsável. Neste segundo caso é que a responsabilidade solidária do terceiro dependerá de a lei expressamente a estabelecer. 3 E tanto Luciano Amaro, como Paulo de Barros (em seu Curso de Direito Tributário4 deixam extreme de dúvidas que o vínculo a ser observado é, efetivamente, o jurídico; vinculo estabelecido diretamente com o fato jurígeno e não com as consequências deste fato; dentre os exemplos destaquese a responsabilidade dos coproprietários do imóvel 3 AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro, 22ª ed., Rio de Janeiro: Saraiva, 2017, p. 345. 4 CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário, 8ª ed., Rio de Janeiro: Saraiva, 1996, p. 220. Fl. 2460DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.461 29 em relação à obrigação relativo ao IPTU ou dos vários vendedores de uma mesma mercadoria, quanto ao ICMS. Outro interesse (econômico), que não o destacado acima, como bem pontuado por Luciano Amaro, somente encerraria a responsabilização solidária do terceiro se e quando determinado, expressamente, por lei (art. 124, II, do CTN). Por tais razões, compartilho do entendimento do D. Relator apenas quanto a responsabilização do terceiro fundada nos preceitos do art. 135, III, como afirmei alhures, e, nesta esteira, voto por negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Gustavo Guimarães da Fonseca Fl. 2461DF CARF MF
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Numero do processo: 10980.940300/2011-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu May 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jul 17 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3301-000.669
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência.
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator
(assinado digitalmente)
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Rodolfo Tsuboi e Valcir Gassen.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. Winderley Morais Pereira Presidente e Relator (assinado digitalmente) Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Rodolfo Tsuboi e Valcir Gassen. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 09 80 .9 40 30 0/ 20 11 -5 1 Fl. 107DF CARF MF Processo nº 10980.940300/201151 Resolução nº 3301000.669 S3C3T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente processo administrativo de PER/DCOMP para obter reconhecimento de direito creditório de Cofins por suposto pagamento indevido ou a maior e aproveitar esse crédito com débito de outro tributo. A DRF, no despacho decisório, indeferiu o pedido, em razão do recolhimento indicado no PER/DCOMP ter sido integralmente utilizado para quitação de débito confessado pelo contribuinte, não restando crédito disponível para restituição ou compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Assim, diante da inexistência de crédito, o Pedido de Restituição foi indeferido e a compensação declarada não foi homologada, conforme o caso. Cientificada, a interessada apresentou manifestação de inconformidade cuja argumentação é a seguir resumida. Sustenta que é uma instituição de educação sem fins lucrativos e, nos termos do art. 14, X da MP nº 2.15835, de 2001, estaria isenta da Cofins. Argumenta que tal dispositivo estabelece que tal isenção se dá, a partir de 01/02/1999, para as receitas relativas às atividades próprias das entidades a que se refere o art. 13, o qual, por sua vez, referese às “instituições de educação e de assistência social” arroladas no art. 12 da Lei n° 9.532, de 10 de dezembro de 1997. Afirma que se encaixa nos requisitos legais, uma vez que: (a) não remunera, por qualquer forma, seus dirigentes pelos serviços prestados; (b) aplica integralmente seus recursos na manutenção e desenvolvimento dos seus objetivos sociais; e (c) assegura a destinação de seu patrimônio à outra instituição congênere, em caso de extinção. Anexa o seu Estatuto Social para provar o alegado. Relativamente à expressão “atividade própria” (art. 14, X, da MP 2.158/35), argumenta que deve ser entendida como aquela atividade regular e relativa à natureza essencial da entidade. Sustenta que ‘própria’ é toda a atividade prevista em seu estatuto, ou na lei, já que conexa à própria existência da pessoa jurídica. Assim, assevera que “a existência de finalidade lucrativa não devia ser vinculada à gratuidade ou não dos serviços prestados ou à forma de obtenção da receita, nas, sim, à forma como ela é aplicada. Caso constitua objetivo da instituição exercer atividade educacional sem fins lucrativos, ainda que o serviço seja prestado mediante o pagamento de mensalidade ou retribuições, a receita obtida com as mensalidades constitui receita própria de sua atividade e, desta forma, estaria isenta da Cofins.” Afirma, outrossim, que os princípios da legalidade e da legalidade tributária impede o Fisco de exigir tributo que não está previsto em lei, acrescentando que a lei, nesse caso, prevê expressamente uma isenção. Portanto, em seu entendimento, não há “espaço para que atos normativos como, por exemplo, decretos, instruções normativas, atos interpretatórios ou declaratórios criem qualquer redução ou limitação à isenção de Cofins prevista nos artigos 13 e 14 da MP 2.15835/ 01”. Fl. 108DF CARF MF Processo nº 10980.940300/201151 Resolução nº 3301000.669 S3C3T1 Fl. 4 3 No seguimento, tece comentários sobre o instituto da compensação para afirmar que “tendo a instituição recolhido o tributo de forma indevida tem direito à restituição/compensação”. Em razão do alegado, requer a restituição e homologação da compensação pleiteada. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento manteve integralmente o despacho decisório, julgando improcedente a manifestação de inconformidade. Cientificada da decisão da DRJ, foi interposto recurso voluntário repisando os argumentos já apresentados na manifestação de inconformidade. É o Relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução 3301000.653, de 24 de maio de 2018, proferido no julgamento do processo 10980.934785/200920, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Resolução 3301000.653): "A teor do relatado, a discussão no presente processo trata da isenção a ser aplicada as instituições de educação e sem fins lucrativos, previsto no art. 14, X da MP 2.15835/2001. Consultando os autos não é possível identificar quais são as receitas que a Recorrente considerou como isentas para justificar o seu direito creditório. Diante do exposto, voto no sentido de converter o julgamento em diligência, a fim de que a Unidade de Origem intime a Recorrente para que no prazo de 30 (trinta) dias prorrogável uma vez por igual período, detalhar de forma pormenorizada quais são as receitas que aplicou a isenção prevista no art. 14, X da MP 2.15835/2001. A Unidade de Origem, se julgar necessário, poderá manifestarse quanto as informações apresentadas, inclusive fazendo as diligências e intimações que julgar necessárias. Concluída a diligência, os autos deverão ser devolvidos a este Conselho para prosseguimento do julgamento. " Fl. 109DF CARF MF Processo nº 10980.940300/201151 Resolução nº 3301000.669 S3C3T1 Fl. 5 4 Importante frisar que os documentos juntados pela contribuinte no processo paradigma, como prova do direito creditório, encontram correspondência nos autos ora em análise. Desta forma, os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso do paradigma também a justificam no presente caso. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu converter o julgamento em diligência a fim de que a Unidade de Origem intime a Recorrente para que no prazo de 30 (trinta) dias prorrogável uma vez por igual período, detalhar de forma pormenorizada quais são as receitas que aplicou a isenção prevista no art. 14, X da MP 2.158 35/2001. A Unidade de Origem, se julgar necessário, poderá manifestarse quanto as informações apresentadas, inclusive fazendo as diligências e intimações que julgar necessárias. Concluída a diligência, os autos deverão ser devolvidos a este Conselho para prosseguimento do julgamento. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 110DF CARF MF
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Numero do processo: 16561.720088/2016-30
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Aug 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2011, 2012
RENDIMENTOS DE DEBÊNTURES PERPÉTUAS DE PARTICIPAÇÃO DE LUCROS. NATUREZA DE INSTRUMENTO FINANCEIRO PATRIMONIAL. INAPLICABILIDADE DO ART. 58 DO DECRETO-LEI 1598/77.
As debêntures perpétuas de participação de lucros emitidas no presente caso são instrumentos financeiros híbridos de caráter patrimonial, que refletem a participação dos "credores" no sucesso da empresa, e não se sujeitam nem a prazos pré-determinados de pagamento, em razão da possibilidade da diretoria postergar o pagamento, nem a um vencimento da dívida, com retorno do principal. A sua natureza jurídica e contábil tem uma implicação direta sobre a qualificação da remuneração paga, que não tem natureza de juros, mas sim de dividendos, devendo receber o tratamento tributário correspondente. Por se tratar de participação nos lucros decorrente de instrumento patrimonial, e não de dívida, não há que se aplicar o art. 58 do Decreto-Lei nº 1.598/77.
DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS.
Presume-se distribuição disfarçada de lucros o negócio pelo qual a pessoa jurídica realiza com pessoa ligada qualquer negócio em condições de favorecimento, assim entendidas as condições que sejam mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros.
Enquadra-se nesta situação a emissão de debêntures feita exclusivamente em favor dos acionistas da companhia fechada, quando a remuneração é composta unicamente de participação dos lucros, em percentuais estratosféricos para operações desta natureza.
ABATIMENTO DO IRRF.
Afastando-se a natureza de remuneração de debêntures dedutíveis, deixa de ser pertinente IRRF sobre a operação, fazendo-se necessário o abatimento dos valores recolhidos pelo contribuinte a tal título da exigência fiscal.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2011, 2012
LANÇAMENTO REFLEXO.
Aplica-se à CSLL os mesmos fundamentos da decisão relativamente ao IRPJ, por se tratar de lançamento reflexo daquele.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2011, 2012
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. MANUTENÇÃO DA CONDUTA INFRACIONAL APÓS AUTUAÇÕES ANTERIORES, MAS REFERENTE A FATOS GERADORES OCORRIDOS ANTES DA LAVRATURA DO PRIMEIRO AUTO DE INFRAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE.
Constatando-se que o lançamento trata de fatos geradores ocorridos no ano-calendário de 2011 e 2012, e os primeiros lançamentos realizados foram formalizados posteriormente, respectivamente nos anos-calendário de 2012 e 2013, sem o julgamento definitivo dos processos até a dada do presente lançamento, não há como considerar que, somente com base nesses elementos, se qualifique a penalidade, mormente quando, diante dos mesmos fatos, a Fiscalização não qualificou a penalidade nas autuações anteriores referente aos mesmos fatos.
Ausência de demonstração do dolo do Recorrente no sentido de incorrer nas condutas dos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64.
SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE ATRIBUÍDA A ADMINISTRADOR DA PESSOA JURÍDICA. ART. 135, III, DO CTN. SIMPLES INADIMPLEMENTO. IMPOSSIBILIDADE.
A simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa. Precedente do STJ no REsp 1.101.728/SP julgado no rito do art. 543C do CPC/1973. O inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sócio-gerente. Inteligência do Enunciado nº 430 da Súmula do STJ.
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Crédito Tributário Mantido em Parte.
Numero da decisão: 1301-003.295
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado em dar provimento parcial ao recurso voluntário para: (i) por unanimidade de votos, deduzir o IRRF já recolhido na operação; (ii) por maioria de votos, reduzir a multa de ofício para 75% e excluir os coobrigados do polo passivo da obrigação tributária, vencido o Conselheiro Nelso Kichel que negou provimento em relação a esses pontos. Em relação ao mérito da exigência, o Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto acompanhou o voto do relator por suas conclusões.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Augusto Daniel Neto - Relator.
Participaram do presente julgamento os seguintes Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Ausente justificadamente a Conselheira Bianca Felícia Rothschild.
Nome do relator: CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2011, 2012 RENDIMENTOS DE DEBÊNTURES PERPÉTUAS DE PARTICIPAÇÃO DE LUCROS. NATUREZA DE INSTRUMENTO FINANCEIRO PATRIMONIAL. INAPLICABILIDADE DO ART. 58 DO DECRETO-LEI 1598/77. As debêntures perpétuas de participação de lucros emitidas no presente caso são instrumentos financeiros híbridos de caráter patrimonial, que refletem a participação dos "credores" no sucesso da empresa, e não se sujeitam nem a prazos pré-determinados de pagamento, em razão da possibilidade da diretoria postergar o pagamento, nem a um vencimento da dívida, com retorno do principal. A sua natureza jurídica e contábil tem uma implicação direta sobre a qualificação da remuneração paga, que não tem natureza de juros, mas sim de dividendos, devendo receber o tratamento tributário correspondente. Por se tratar de participação nos lucros decorrente de instrumento patrimonial, e não de dívida, não há que se aplicar o art. 58 do Decreto-Lei nº 1.598/77. DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS. Presume-se distribuição disfarçada de lucros o negócio pelo qual a pessoa jurídica realiza com pessoa ligada qualquer negócio em condições de favorecimento, assim entendidas as condições que sejam mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros. Enquadra-se nesta situação a emissão de debêntures feita exclusivamente em favor dos acionistas da companhia fechada, quando a remuneração é composta unicamente de participação dos lucros, em percentuais estratosféricos para operações desta natureza. ABATIMENTO DO IRRF. Afastando-se a natureza de remuneração de debêntures dedutíveis, deixa de ser pertinente IRRF sobre a operação, fazendo-se necessário o abatimento dos valores recolhidos pelo contribuinte a tal título da exigência fiscal. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2011, 2012 LANÇAMENTO REFLEXO. Aplica-se à CSLL os mesmos fundamentos da decisão relativamente ao IRPJ, por se tratar de lançamento reflexo daquele. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2011, 2012 MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. MANUTENÇÃO DA CONDUTA INFRACIONAL APÓS AUTUAÇÕES ANTERIORES, MAS REFERENTE A FATOS GERADORES OCORRIDOS ANTES DA LAVRATURA DO PRIMEIRO AUTO DE INFRAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. Constatando-se que o lançamento trata de fatos geradores ocorridos no ano-calendário de 2011 e 2012, e os primeiros lançamentos realizados foram formalizados posteriormente, respectivamente nos anos-calendário de 2012 e 2013, sem o julgamento definitivo dos processos até a dada do presente lançamento, não há como considerar que, somente com base nesses elementos, se qualifique a penalidade, mormente quando, diante dos mesmos fatos, a Fiscalização não qualificou a penalidade nas autuações anteriores referente aos mesmos fatos. Ausência de demonstração do dolo do Recorrente no sentido de incorrer nas condutas dos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE ATRIBUÍDA A ADMINISTRADOR DA PESSOA JURÍDICA. ART. 135, III, DO CTN. SIMPLES INADIMPLEMENTO. IMPOSSIBILIDADE. A simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa. Precedente do STJ no REsp 1.101.728/SP julgado no rito do art. 543C do CPC/1973. O inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sócio-gerente. Inteligência do Enunciado nº 430 da Súmula do STJ. Recurso Voluntário Provido em Parte. Crédito Tributário Mantido em Parte.
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NATUREZA DE INSTRUMENTO FINANCEIRO PATRIMONIAL. INAPLICABILIDADE DO ART. 58 DO DECRETOLEI 1598/77. As debêntures perpétuas de participação de lucros emitidas no presente caso são instrumentos financeiros híbridos de caráter patrimonial, que refletem a participação dos "credores" no sucesso da empresa, e não se sujeitam nem a prazos prédeterminados de pagamento, em razão da possibilidade da diretoria postergar o pagamento, nem a um vencimento da dívida, com retorno do principal. A sua natureza jurídica e contábil tem uma implicação direta sobre a qualificação da remuneração paga, que não tem natureza de juros, mas sim de dividendos, devendo receber o tratamento tributário correspondente. Por se tratar de participação nos lucros decorrente de instrumento patrimonial, e não de dívida, não há que se aplicar o art. 58 do DecretoLei nº 1.598/77. DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS. Presumese distribuição disfarçada de lucros o negócio pelo qual a pessoa jurídica realiza com pessoa ligada qualquer negócio em condições de favorecimento, assim entendidas as condições que sejam mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros. Enquadrase nesta situação a emissão de debêntures feita exclusivamente em favor dos acionistas da companhia fechada, quando a remuneração é composta unicamente de participação dos lucros, em percentuais estratosféricos para operações desta natureza. ABATIMENTO DO IRRF. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 00 88 /2 01 6- 30 Fl. 1450DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 3 2 Afastandose a natureza de remuneração de debêntures dedutíveis, deixa de ser pertinente IRRF sobre a operação, fazendose necessário o abatimento dos valores recolhidos pelo contribuinte a tal título da exigência fiscal. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2011, 2012 LANÇAMENTO REFLEXO. Aplicase à CSLL os mesmos fundamentos da decisão relativamente ao IRPJ, por se tratar de lançamento reflexo daquele. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2011, 2012 MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. MANUTENÇÃO DA CONDUTA INFRACIONAL APÓS AUTUAÇÕES ANTERIORES, MAS REFERENTE A FATOS GERADORES OCORRIDOS ANTES DA LAVRATURA DO PRIMEIRO AUTO DE INFRAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. Constatandose que o lançamento trata de fatos geradores ocorridos no ano calendário de 2011 e 2012, e os primeiros lançamentos realizados foram formalizados posteriormente, respectivamente nos anoscalendário de 2012 e 2013, sem o julgamento definitivo dos processos até a dada do presente lançamento, não há como considerar que, somente com base nesses elementos, se qualifique a penalidade, mormente quando, diante dos mesmos fatos, a Fiscalização não qualificou a penalidade nas autuações anteriores referente aos mesmos fatos. Ausência de demonstração do dolo do Recorrente no sentido de incorrer nas condutas dos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE ATRIBUÍDA A ADMINISTRADOR DA PESSOA JURÍDICA. ART. 135, III, DO CTN. SIMPLES INADIMPLEMENTO. IMPOSSIBILIDADE. A simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa. Precedente do STJ no REsp 1.101.728/SP julgado no rito do art. 543C do CPC/1973. O inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sóciogerente. Inteligência do Enunciado nº 430 da Súmula do STJ. Recurso Voluntário Provido em Parte. Crédito Tributário Mantido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado em dar provimento parcial ao recurso voluntário para: (i) por unanimidade de votos, deduzir o IRRF já recolhido na operação; (ii) por maioria de votos, reduzir a multa de ofício para 75% e excluir os coobrigados do polo passivo Fl. 1451DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 4 3 da obrigação tributária, vencido o Conselheiro Nelso Kichel que negou provimento em relação a esses pontos. Em relação ao mérito da exigência, o Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto acompanhou o voto do relator por suas conclusões. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Relator. Participaram do presente julgamento os seguintes Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Ausente justificadamente a Conselheira Bianca Felícia Rothschild. Relatório Tratase de Autos de Infração de fls. 1015/1034 e do Termo de Verificação Fiscal TVF (fls. 984/1012), relativo aos anoscalendário de 2011 e 2012, para apuração e cobrança de Imposto de Renda Pessoa Jurídica IRPJ e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL, acrescido de multa qualificada de 150%. Da mesma forma, imputouse responsabilidade solidária aos três sócios diretores: Eduardo Rahme Amaro (diretor clínico), Antônio Rhame Amaro (diretor administrativo) e Edma Huespe (diretora secretária), com fundamento no art. 135, III do CTN. A fiscalização aduz também que o mesmo contribuinte foi objeto de autuação pelas mesmas infrações nos seguintes processos: 16561.720.156/201237 (2007); 16643.720.002/201316 (2008 e 2009) e 16561.720.079/201487 (2010). O Contribuinte é sociedade anônima fechada, cujo capital é distribuído entre os três sócios listados acima. Em 1998, em Assembléia Geral Extraordinária AGE, os acionistas decidiram pela emissão de 21.000 (vinte e uma mil) debêntures (série única, subordinadas, nominativas, endossáveis e não conversíveis em ações, com participação nos lucros, sem vencimento préfixado), no valor global de R$ 21.000.000,00 (vinte e um milhões de reais), sendo: a) R$ 5.052.000,00 oriundos da conta “Lucros Acumulados”; b) e R$ 15.948.000,00: “ingressado na sociedade através de recursos provenientes dos sócios”. A única forma prevista de remuneração das debêntures era a participação sobre o lucro antes da provisão para o Imposto de Renda, em 31 de dezembro de cada ano (a partir de 1998), nos seguintes percentuais: a) a partir de 15/04/1998 50% dos lucros; b) a partir de 02/06/1999 65% dos lucros; c) a partir de 07/01/2002 85% dos lucros. Relativamente aos fatos geradores dos anoscalendário de 2007 a 2010, objeto de outros processos administrativos, o TVF traz algumas considerações fáticas. Fl. 1452DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 5 4 Contabilmente, o Contribuinte deduzia a "participação de debêntures" dos resultado (ficha 6A das DIPJs dos exercícios em questão), e os valores deduzidos eram debitados em Contas de Resultado/Despesas Financeiras e creditados a Passivo Exigível de Longo Prazo/Juros e Participações, sendo segregado uma conta para cada sócio. Nesse mesma conta de Passivo Exigível era controlada a provisão de distribuição de lucros, mas cujo débito decorrente do pagamento aos sócios era sempre inferior ao valor provisionado. Por outro lado, eram lançados mensalmente, a crédito, 85% do Lucro Líquido apurado no mês, e a débito, as retiradas dos sócios, em valores e periodicidade que não foram esclarecidos pelo Contribuinte. A fiscalização aponta que apesar dos vultosos créditos nessa conta de Passivo, as retiradas da sócia Edma Huesp eram feitas mensalmente, no valor fixo de R$ 25.000,00 (nos recibos consta a anotação de prólabore), o que se daria em razão de opção da subscritora das debêntures. A fiscalização lavrou a autuação, concluindo que as debêntures “são apenas um artifício para o interessado deduzir parte significativa do lucro, dando uma aparente validade jurídica para o suposto pagamento de remuneração de debêntures, que, na realidade, configura distribuição de lucro, indedutível da base cálculo do IR e da CSLL”. Nas informações relativas ao processo 16561.720.079/201487 (2010), o TVF informou o seguinte: em AGE de 24.01.2013, o interessado aprovou nova alteração na remuneração das debêntures, desta vez para menor, passando a ser de 30% (trinta por cento)”; “a alteração ocorreu após a lavratura do Auto de Infração relativo ao ano calendário de 2007, o que demonstra que a empresa manteve a prática de planejamento tributário por meio de pagamento de remuneração de debêntures aos sócios, mesmo tendo ciência de que tal prática ia de encontro ao posicionamento do Fisco Federal” “somente em 02/01/2014 os acionistas se reuniram em Assembléia Geral Extraordinária, deliberando pelo resgate total das debêntures, ou seja, cessaram, enfim, o planejamento tributário abusivo aqui abordado”; Reproduz a exposição do modus operandi do Contribuinte, com a redução de 85% do Lucro Líquido a título de ajustes de participação dos lucros, através de créditos na conta do Passivo Exigível a Longo Prazo/Juros Passivos, e esses valores são debitados na conta a medida que os sócios fazem as retiradas. Menciona que os recibos das retiradas da sócia Edma Huespe são identificados como "Lucros", indicando a real natureza da remuneração das debêntures. As conclusões da fiscalização são as seguintes: a) que os debenturistas eram os próprios sócios administradores; b) da emissão de debêntures, não houve qualquer injeção de haveres novos e externos para investimento, desvirtuando o intuito maior da operação; Fl. 1453DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 6 5 c) que a operação não se enquadra como emissão de debêntures, pois não há qualquer previsão de se remunerar os recursos obtidos por meio de pagamento de juros; d) a suposta remuneração das debêntures não tem qualquer paralelo com o mundo real; e) no ano seguinte ao da emissão, a empresa já havia remunerado os debenturistas com mais de 100% (cem por cento) do “capital emprestado”, e mesmo assim, continuou remunerando seus debenturistas; f) passados onze anos, a remuneração acumulada paga aos sócios totaliza um retorno de 680,67%; g) a emissão de debêntures pela fiscalizada não tem qualquer racionalidade econômica, a não ser a economia de tributos; h) “qual empresa ofereceria como remuneração por um empréstimo uma participação de 85% de seu lucro anual a pessoas que não fossem os próprios sócios da empresa?; não é crível que tamanha benesse fosse concedida a um terceiro sem ligação ou influência nos negócios da empresa”; i) “a operação engendrada caracterizase como distribuição disfarçada de lucros, já que se trata de negócio realizado em condições de favorecimento com pessoas ligadas (in casu, os seus próprios acionistas), mediante a remuneração das debêntures com 85% dos lucros apurados”; j) se o objetivo da empresa era a captação de recursos para a consecução de seus objetivos, poderiam ter sido adotadas outras formas de transferência de capital, “proporcionando o alcance dos mesmos resultados perseguidos, sem a necessidade de redução de 85% da base de cálculo do IRPJ e da CSLL”; k) “na verdade, tais fatos denotam a utilização indevida da forma da remuneração de debêntures, cujos pagamentos são, a princípio, dedutíveis do lucro real, porque necessários à manutenção do empreendimento”. Prosseguindo, em relação aos anoscalendário de 2011 e 2012, autuados no presente processo, o TVF indicou que o Contribuinte permaneceu distribuindo aos sócios 85% do Lucro Líquido a título de "participação de debêntures", totalizando um retorno acumulado de 880,48% e 1.020,06%, respectivamente. Intimado a demonstrar com clareza os recursos obtidos através da emissão de debêntures, o interessado “somente juntou documentação de compra das ações da empresa Pro Matre Paulista S/A, em 02.02.2000, por R$ 4.752.618,00 (incorporada em 30.06.2000), “valor muito abaixo do obtido com a emissão de debêntures. O interessado informou à autoridade fiscal que, em AGE de 07.06.2013, foi aprovado o estorno das despesas deduzidas a título de remuneração nos anoscalendário de 2012 e 2013, e que foram apuradas novas demonstrações de resultado. Ainda assim, para 2012, “o contribuinte estava sob fiscalização, e não havia recuperado a espontaneidade”. Sob o fundamento de que o interessado agiu com dolo e persistiu na prática de atos que visavam induzir o Fisco a erro, a fiscalização lançou multa qualificada de 150%, com a imputação de responsabilidade aos sócios, com fundamento no art. 135, III do CTN. Notificado, o Contribuinte e os Responsáveis apresentaram impugnação aduzindo: Fl. 1454DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 7 6 a) cerceamento do direito de defesa por não indicar o dispositivo infringido; b) A lei nº 6404/76 não faz ressalvas quanto às condições, qualidades ou natureza dos titulares das debêntures, e aponta que todas as formalidades legais foram atendidas; c) As debêntures fizeram parte de um plano de reestruturação e preparação da empresa para suportar novo ciclo de crescimento: a expansão das operações e a necessidade dos acionistas de reaverem recursos emprestados à empresa. Afirmam que, logo após a emissão das debêntures, a empresa comprou, em 2000, a companhia Pro Matre Paulista S/A. d) Com relação aos valores transferidos de lucros acumulados, não havia e não há qualquer ressalva, condição ou vedação imposta pela legislação societária ou pela legislação fiscal à subscrição de debêntures mediante compensação dos créditos de lucros acumulados mantidos em conta corrente pelos acionistas. e) Ausência de prova de disparidade entre os valores de mercado e os de remuneração das debêntures, e que a autoridade fiscal “não poderia desnaturar uma operação, simplesmente pela elevada remuneração, já que esta decorre da própria característica do instituto”. Subsidiariamente, aduzem que “a base de cálculo deveria ser a diferença entre o valor total e a média constatada no mercado financeiro”. f) Seria inaplicável a presunção do art.464, inciso VI, do RIR/99, cujo pressuposto essencial é a demonstração da “situação vantajosa” em relação ao valor de mercado, e que, sem isso, é impossível afirmar, com a segurança e a certeza necessárias, se, de fato, foi oferecida condição privilegiada a acionistas, e, sobretudo, qual teria sido a medida desse privilégio. g) A desconsideração dos efeitos do negócio jurídico não se pode limitar à glosa, devendose estender aos recolhimentos de IRRF, cujos valores pedem que sejam deduzidos do credito tributário formalizado. h) Afirmam que os sócios deliberaram pelo estorno das despesas deduzidas a título de remuneração de debêntures, e “como consequência, houve a retificação das declarações dos anoscalendário de 2012 e 2013, pelas quais aumentouse o imposto devido”. Alegam que a “confissão do débito pela entrega das declarações revelase como legítima constituição do crédito tributário", de modo que a autuação seria despicienda. Dizem que o fato de não estarem revestidos pelo benefício da espontaneidade, com o que concordam, traz como única consequência a cobrança de multa. i) Sobre a multa qualificada, aduzem que toda a operação foi feita em observância da lei 6.404/76, e que as autuações foram deflagradas em 2012, 2013 e 2014, de modo que a autuação relativa ao fato gerador de 2011 leva em conta fatos anteriores às autuações; j) Afirmam que não há fundamento para a responsabilização, mas o simples inadimplemento do tributo, e que o CARF afastou a responsabilidade em outros casos julgados; A DRJ julgou improcedente o pleito do contribuinte, em acórdão assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Fl. 1455DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 8 7 Anocalendário: 2011, 2012 CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Antes de instaurada a fase litigiosa, não cabe alegação de cerceamento do direito de defesa. PROVA. MOMENTO DE APRESENTAÇÃO. A prova documental deve ser apresentada com a manifestação de inconformidade, precluindo o direito de o interessado fazê lo em outro momento processual. DILIGÊNCIA. INDEFERIMENTO. A autoridade julgadora pode indeferir os pedidos de diligências que considerar prescindíveis ou impraticáveis. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano calendário: 2011, 2012 INÍCIO DA AÇÃO FISCAL. RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÃO. ESPONTANEIDADE. Iniciada a ação fiscal, a retificação de declaração por iniciativa do próprio declarante, quando vise a reduzir ou a excluir tributo, não produz efeitos. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. Mantémse a qualificação da multa se não afastadas as condições previstas em lei para a sua exigência. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDARIEDADE. INFRAÇÃO DE LEI. Os diretores respondem pessoal e solidariamente pelos créditos tributários resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2011, 2012 RENDIMENTOS DE DEBÊNTURES. DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS. CONDIÇÕES DE FAVORECIMENTO. PESSOA LIGADA. LANÇAMENTO MANTIDO. Configura distribuição disfarçada de lucros o negócio com pessoa ligada quando a esta são oferecidas condições mais vantajosas que as prevalentes no mercado ou que as contratadas com terceiros. PARTICIPAÇÕES DE DEBÊNTURES. DESCARACTERIZAÇÃO. DEDUÇÃO DO IRRF. IMPOSSIBILIDADE. Fl. 1456DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 9 8 Não existe lei autorizando que, do IRPJ devido em função da glosa de participações de debêntures, seja deduzido o IRRF correspondente. CSLL. DECORRÊNCIA. O decidido no julgamento do IRPJ se aplica à tributação dele decorrente. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Irresignado, o Contribuinte e os Responsáveis apresentaram Recurso Voluntário, repisando as razões de sua Impugnação, e aduzindo de forma complementar que o crédito tributário relativo ao IRPJ e CSLL do anocalendário de 2012 é objeto de cobrança no Processo nº 16613.720010/201662, em razão da DCTF Retificadora transmitida em 2013 pelo Contribuinte, após as autuações do anocalendário de 2007. É o relatório, em síntese. Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Relator. O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido pelo Colegiado. I) Preliminar Preliminarmente, aduz a Recorrente a nulidade do auto de infração por cerceamento do direito de defesa, em razão da ausência de indicativo dos dispositivos infringidos. Data vênia, parecenos não proceder a alegação, pois não apenas no TVF, como também no corpo do auto de infração, são indicados os dispositivos que entendeu terem sido descumpridos pelo Contribuinte por exemplo, na fl. 1001, o auditor replica integralmente o art. 464 do RIR/99, para justificar a incidência do seu inciso VI ao presente caso, e da mesma forma o faz em fl. 1007, com o art. 44 da Lei 9.430/96, para fins de motivação da multa aplicada. Desse modo, não procede a alegação nesse ponto. Prosseguindo, aduz também nulidade da autuação no tocante ao ano calendário de 2012, em razão da DCTF Retificadora relativa a esse período estar sendo objeto de cobrança no processo nº 16613.720010/201662. Novamente, não merece prosperar o pleito do Recorrente. Fl. 1457DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 10 9 Conforme o art. 33, §2º do Decreto 7574/2011, a ato que determinar o início do procedimento fiscal exclui a espontaneidade do sujeito passivo em relação ao tributo, ao período e à matéria nele expressamente inseridos. O início da presente fiscalização se deu em Fevereiro de 2015, conforme TIPF, ao passo que a retificação ativa da DCTF, atualmente em cobrança por se tratar de crédito tributário incontroverso, se deu apenas em 27/06/2016, após o início da fiscalização e, portanto, fora do alcance da espontaneidade que justificaria a nulidade da autuação com base na DCTF Original. O que se dá, no presente caso, é que após a cobrança relativa ao ano calendário de 2012, eventual crédito pago naquele processo será descontado dos créditos tributários apurados neste, pela unidade de origem, durante os procedimentos oficiosos de cobrança, não havendo que se falar em duplicidade de cobrança, portanto. Assim, não merece acato também esta alegação do Recorrente. II) Mérito a) Da cobrança de IRPJ e CSLL em razão de distribuição disfarçada de lucros. O mérito do presente caso consiste na cobrança de IRPJ e CSLL, bem como os demais consectários legais, decorrentes de imputada distribuição disfarçada de lucros (DDL), com fundamento no art. 464, VI do RIR/99, c/c art. 467, inc. V do mesmo regulamento, reproduzidos abaixo, in totum: Art.464.Presumese distribuição disfarçada de lucros no negócio pelo qual a pessoa jurídica: VI realiza com pessoa ligada1 qualquer outro negócio em condições de favorecimento, assim entendidas condições mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros. Art.467.Para efeito de determinar o lucro real da pessoa jurídica: V no caso do inciso VI do art. 464, as importâncias pagas ou creditadas à pessoa ligada, que caracterizarem as condições de favorecimento, não serão dedutíveis. Ademais, como exaustivamente pontuado no TVF, a matéria objeto deste processo já foi analisada em outros PAFs, que correspondiam a autuações de anoscalendário pretéritos: 16561.720.156/201237 (2007); 16643.720.002/201316 (2008 e 2009) e 16561.720.079/201487 (2010): a) PAF nº 16561.720.156/201237 Acórdão nº 1301001.979, negado por unanimidade; 1 Art. 465. Considerase pessoa ligada à pessoa jurídica (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 60, § 3º, e Decreto Lei nº 2.065, de 1983, art. 20, inciso IV): I o sócio ou acionista desta, mesmo quando outra pessoa jurídica; II o administrador ou o titular da pessoa jurídica; III o cônjuge e os parentes até o terceiro grau, inclusive os afins, do sócio pessoa física de que trata o inciso I e das demais pessoas mencionadas no inciso II. Fl. 1458DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 11 10 b) PAF nº 16643.720.002/201316 Acórdão nº 1201001.412, provimento parcial por maioria, para aproveitamento do IRRF já pago pelo contribuinte; c) PAF nº 16561.720.079/201487 Acórdão nº 1402002.265, provimento parcial por maioria, para aproveitamento do IRRF já pago pelo contribuinte, redução da multa para 75%, e exclusão dos sócios pessoafísica do pólo passivo; Pois bem, o cerne da autuação diz respeito à possibilidade da remuneração dos sócios se dar através de debêntures, da forma como foram estruturadas na prática. É o que será analisado adiante. A emissão de debêntures é regulada minuciosamente pela Lei nº 6.404/76, a partir do seu art. 52, que determina: Art. 52. A companhia poderá emitir debêntures que conferirão aos seus titulares direito de crédito contra ela, nas condições constantes da escritura de emissão e, se houver, do certificado. Elas são, na lição de Martins, Iudicibus et alli, títulos negociáveis, normalmente a longo prazo, que asseguram aos detentores um direito de crédito contra a companhia emitente, podendo ser oferecidos para os investidores, ou de forma aberta, ao mercado, tornando os subscritores credores da empresa2, passando estes a perceberem remuneração até a data do vencimento do título. Essa remuneração deverá atender ao art. 56 da Lei das S/A, que estipula as suas formas possíveis: Art. 56. A debênture poderá assegurar ao seu titular juros, fixos ou variáveis, participação no lucro da companhia e prêmio de reembolso. Tratase, portanto, de um instrumento de financiamento das atividades da empresa, valores mobiliários emitidos pela sociedade por ações, cuja rentabilidade fixa serve de atrativo ao capital a ser investido, com todas as suas características definidas na Escritura de Emissão, como valor nominal; indexador pelo qual o valor é atualizado; prazo; forma de cálculo; rentabilidade proposta pelo emissor; fluxo de pagamento; e covenants que devem ser obedecidos pela companhia emissora ao longo da vida útil do ativo. Sobre a remuneração das debêntures, ensina Modesto Carvalhosa: O caráter facultativo da norma permite a atribuição de outras vantagens remuneratórias complementares, que façam as debêntures atrativas e com melhor colocação no mercado. Fica então reafirmado o principio da onerosidade e comercialidade da debênture, que não poderá deixar de oferecer vantagem pecuniária, compativelmente remuneratória do capital mutuado. Faculta a Lei de 1976 que, além dos juros, poderá a escritura de emissão estabelecer outras vantagens, como a participação nos lucros e prêmios, notadamente de reembolso. A alusão a juros variáveis constitui acessório do juro fixo estabelecido, consubstanciados aqueles na aceitação, pela comunhão de 2 Manual de Contabilidade Societária, 3ªed. São Paulo: Atlas, 2018, p.341. Fl. 1459DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 12 11 debenturistas, de vantagens adicionais aos juros prefixados, quando da colocação de novas séries, ou de debêntures em tesouraria. Assim os juros fixos constituem a remuneração básica e indeclinável das debêntures, sendo as demais modalidades acessórias daqueles, como a participação nos lucros da companhia e/ou o prêmio de reembolso. E, dentre essas vantagens adicionais aos juros fixos, poderá a companhia emissora oferecer preferência aos tomadores na aquisição de bens, na prestação de serviços ou na aquisição de direito, sempre visando tornar mais atrativa e competitiva a colocação das debêntures no mercado. Os juros constituem, como referido, a forma necessária de remuneração dos recursos emprestados pelos debenturistas companhia. Sendo a remuneração própria do capital mutuado, os juros serão sempre devidos. 3 Ao se tratar de financiamento de sociedades, há dois modelos básicos: a) financiamento por instrumentos patrimoniais, nos quais o sujeito investe em patrimônio, sujeitandose integralmente ao sucesso ou insucesso da empresa; e b) os instrumentos financeiros, através dos quais se empresta dinheiro à empresa, com reduzido risco de não obter o retorno do investimento, sendo remunerado, usualmente, pelos juros desse empréstimo. Entre eles, entretanto, há os instrumentos híbridos, que contém elementos típicos de ambos os instrumentos4. Via de regra, a emissão de debêntures é tradicionalmente considerada como uma espécie de instrumento financeiro, em razão dos seus elementos que são foram indicados anteriormente. Tanto é assim, que a legislação tributária reconhece a sua exclusão do lucro líquido do exercício, como juros passivos pagos em razão das participações no lucro derivadas da titularidade das debêntures. Entretanto, no presente caso estamos diante de debêntures perpétuas, isto é, sempre prazo de vencimento, e com remuneração expressivamente composta por participação nos lucros da sociedade, elementos típicos de instrumentos patrimoniais. Na prática internacional, as dívidas perpétuas, sejam elas contraídas por empréstimos, debêntures ou outro meio, são instrumentos de captação de recursos de sociedades que não lograram obtêlos de outro modo. A sua grande dificuldade, explica Ramon Tomazella, consiste no esvaziamento do direito de devolução do capital investido, pois a diferença entre a participação societária e a operação de crédito é justamente o fato de que o credor tem direito de receber o valor mutuado após o prazo fixado, garantia esta que não possui o acionista, quanto ao capital investido5. 3 CARVALHOSA, Modesto. Comentários à Lei das Sociedades Anônimas, v.1. São Paulo: Saraiva, 2002, p.647. 4 É precisa a observação feita pelos professores da FIPECAFI, ao observar que, em rigor, instrumentos híbridos implicam em um arranjo contratual que possua um derivativo embutido e um contrato hospedeiro. Usouse o termo em um sentido mais amplo, que vem se disseminando na prática, mas com a ressalva de que, rigorosamente, está se tratando de Instrumentos Financeiros com Características de Patrimônio (IFCP). (Manual de Contabilidade Societária, 3ªed. São Paulo: Atlas, 2018, p.307310). 5 TOMAZELLA, Ramon. Os instrumentos financeiros híbridos à lus dos acordos de bitributação. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2017, p.476477. Fl. 1460DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 13 12 A utilização de uma debênture perpétua aproximaa de um instrumento patrimonial, pois as condições de seu resgate equivalem, na prática, à própria liquidação da sociedade, afetando todos os riscos e benefícios econômicos derivados de uma operação financeiras típica. Sobre o tema, remetemos novamente à preciosa lição de Tomazella: Anotese que a proximidade entre a dívida perpétua e a participação societária não decorre simplesmente da sua avaliação sob o prisma da substância econômica, em oposição a sua forma jurídica. Ao contrário, são os direitos e obrigações estabelecidos entre as partes no instrumento contratual que definem os riscos e os benefícios da operação, influenciando tanto na definição da sua essência jurídica, quanto na manifestação dos seus efeitos econômicos. Assim, o risco econômico suportado pelo investidor está diretamente relacionado aos direitos e obrigações pactuados entre a sociedade e o investidor na dívida perpétua, que influenciam na avaliação das responsabilidades contratuais que irradiam da relação jurídica6. É preciso frisar, entretanto, que a ausência de vencimento, por si, não basta para que um instrumento possa ter natureza patrimonial da mesma forma que a presença do vencimento não o torna um instrumento de crédito. O relatório da International Fiscal Association IFA sobre os instrumentos financeiros híbridos apresenta algumas características básicas úteis para enquadrálos como dívida ou patrimônio7. Os instrumentos híbridos com natureza de dívida se aproximam dos patrimoniais quando possuem: i) conversibilidade em ações; ii) participação nos lucros como forma de remuneração; iii) ausência de prazo de pagamento dos juros e do principal; iv) subordinação aos demais créditos em caso de liquidação; v) ausência de prazo de vencimento, ou prazo excessivamente longo; vi) previsão de liquidação do seu valor em ações da sociedade. Essa distinção é relevante pois, a depender da sua qualificação jurídica se dívida ou patrimônio ele estará sujeito ao tratamento tributário de juros ou dividendos pagos. Esse ponto é relevante no âmbito brasileiro, como explica Roberto Quiroga Mosquera e Matheus Piconez, pois apesar da existência de normas contábeis e regulatórias que estabeleçam "testes", no Direito Tributário brasileiro não há normas específicas de qualificação do que seriam instrumentos híbridos, razão pela qual é necessário recurso à legislação societária, no que se refere ao conceito de dividendos e juros, de modo que conforme a natureza do pagamento em retorno do investimento, classificase o instrumento8. No mesmo artigo, os autores indicam como características9: Dividendos Juros São rendimentos pagos de forma variável ou fixa, conforme a deliberação da assembleia. São rendimentos pagos em quantia fixa ou percentual fixo. São rendimentos juridicamente incertos quanto à possibilidade de atribuição e pagamento (existência de renda), uma vez que dependem São rendimentos juridicamente certos quanto à possibilidade de atribuição e pagamento (existência de renda), independendo de 6 TOMAZELLA, Ramon. Ob.Cit., p.478. 7 "Tax Treatment of Hybrid Financial Instruments in Cross Border Transactions", Cahiers de Droit Fiscal Internacional, IFA, v. 85, 2000. 8 MOSQUERA, Roberto Quiroga; PICONEZ, Matheus Bertholo. Tratamento Tributário dos Instrumentos Financeiros Híbridos, in Controvérsias JurídicoContábeis (Aproximações e Distanciamentos), v. 2. São paulo: Dialética, 2011, p.240241. 9 Idem, ibidem, p.246 Fl. 1461DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 14 13 da existência de lucros sociais ou reservas de capital. qualquer outro fator aleatório, como a existência de lucros ou reserva de lucros. Decorrem de uma operação de participação societária. Decorrem de uma operação de crédito Ainda que existam reservas de capital previamente ao lançamento das ações ou em data posterior à emissão, a atribuição e pagamento de dividendos ao acionista serão incertos, uma vez que os prejuízos acumulados poderão consumir as respectivas reservas. Independem de qualquer outro fator aleatório. Os instrumentos financeiros, também cabe lembrar, nos termos do CPC 39, podem gerar para a entidade contratante um passivo financeiro (para os presente caso, é a obrigação contratual de entregar caixa ou outro ativo financeiro a uma entidade) ou instrumento patrimonial (qualquer contrato que evidencie uma participação nos ativos de uma entidade após a dedução de todos os seus passivos). Passemos a analisar o caso concreto, para identificar a natureza jurídica dos pagamentos e, assim, identificar a qualificação jurídica do ativo financeiros adquirido pelos sócios através das debêntures. Pois bem, compulsando a Ata da AGE de fls. 98 e seguintes, se verifica que as debêntures emitidas estão sujeitas a remuneração exclusivamente através de participação dos lucros (na época dos fatos geradores, a 85% do lucro líquido apurado antes do IRPJ), podendo a diretoria deliberar sobre outra periodicidade no pagamento dessa remuneração. Além disso, o vencimento somente se dará nos casos de inadimplemento do pagamento das obrigações da escritura (condição esta que fica ao critério da diretoria, que pode livremente alterar a periodicidade do pagamento) e no caso de dissolução da emitente: Fl. 1462DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 15 14 Por outro lado, a emitente pode deliberar o resgate antecipado das debêntures, e no caso de atrasos no pagamento há a previsão de multa moratória. Pela descrição fática, fica claro que a remuneração das debêntures é exclusivamente variável e dependem da existência de lucros, além disso, o pagamento está condicionado à anuência da Diretoria, visto que ela pode livremente alterar a periodicidade dos pagamentos. Da mesma forma, a ausência de vencimento, conjuntamente às demais características apontadas, demonstra que a debênture perpétua em questão se aproxima muito mais de um instrumento híbrido patrimonial, pois ao postergar indefinidamente a devolução do principal, atrelando a sua remuneração ao sucesso financeiro da sociedade (lucro), o credor suporta um risco semelhante ao do sócio, participando do sucesso da empresa no manejo dos seus ativos o que corrobora a natureza de patrimonial. A própria definição de instrumentos de dívida "perpétuos" no item AG6 do CPC 39 aponta o pagamento de juros como elemento definitório desse meio de financiamento: AG6 Instrumentos de dívida “perpétuos” (como debêntures, “capital notes” e títulos “perpétuos”) normalmente fornecem ao detentor o direito contratual de receber pagamentos de juros em datas préestabelecidas se estendendo por um período indeterminado com ou sem o direito de receber o principal sob condições que sejam muito desfavoráveis no futuro. Por exemplo, a entidade pode emitir um instrumento financeiro determinando que sejam feitos pagamentos anuais em perpetuidade iguais à taxa de juros de 8% a.a. aplicada a um valor de referência ou montante principal de $ 1.000. Assumindo 8% como sendo a taxa de mercado para o instrumento quando emitido, o emissor assume a obrigação contratual de fazer um fluxo futuro de pagamentos de juros co m o valor justo (valor presente) de $ 1.000 no reconhecimento inicial. O detentor e o emissor do instrumento possuem um ativo financeiro e um passivo financeiro, respectivamente É dizer, a debênture perpétua exige, pelo menos sob a perspectiva contábil, o pagamento de juros em prazos prédeterminados. No presente caso, não há o pagamento de juros, mas sim de participação nos lucros, e o prazo está sujeito a alteração por deliberação da Diretoria. No Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários julgou o Proc. Administrativo nº RJ 20113316 Caso Energisa S.A. no qual se discutia exatamente a classificação contábil de Senior Perpetual Notes with Interest Deferral Option Notes (notas perpétuas com opção de diferimento de juros), às quais foram reconhecidas como instrumentos de dívida. Sem entrar nas minúcias do caso, parecenos que o entendimento lá esposado não pode ser replicado aqui, apesar de ambos tratarem de instrumentos perpétuos, pois lá a remuneração se dava através de juros que poderiam ser diferidos, mas não evitados, calculados independentemente da apuração de lucros da sociedade, e possuiam também covenants estabelecidos para proteger os interesses dos investidores. É, sem dúvida, um exame que não pode se dar de conceitualmente, mas sim à partir de uma análise dos tipológica, dependendo do caso concreto que se observa. Um exemplo mencionado por Tomazella é o caso "Hoge Raad", julgado pela Suprema Corte da Holanda, no qual a os títulos de dívida perpétua eram remunerados por juros, mas estes juros Fl. 1463DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 16 15 eram pagos apenas quando a sociedade distribuísse dividentes no caso, a Corte entendeu que ainda o pagamento de juros era diferido, mas não se confundia com a contingência da remuneração baseada na apuração de lucros, havia apenas um elemento temporal no seu pagamento10. Portanto, não há que se falar em instrumento financeiro de dívida perpétuo nos casos em que não exista remuneração através de juros. As debêntures emitidas no presente caso são instrumentos financeiros híbridos de caráter patrimonial, que refletem a participação dos "credores" no sucesso da empresa, e não se sujeitam nem a prazos prédeterminados de pagamento (em razão da possibilidade da diretoria postergar o pagamento), nem a um vencimento da dívida, com retorno do principal. A sua natureza jurídica e contábil tem uma implicação direta sobre a qualificação da remuneração paga: ela não tem natureza de juros, mas sim de dividendos, devendo receber o tratamento tributário correspondente. Essas considerações são relevantes por uma questão essencial para o deslinde do feito: não se está aqui a questionar a possibilidade jurídica do financiamento realizado pelo Contribuinte, através das debêntures emitidas todo o procedimento atendeu aos requisitos da Lei nº 6.404/76 e possui, efetivamente materialidade econômica, não se tratando de mero simulacro contábil ou formal. Entretanto, houve um equívoco no reconhecimento contábil dos valores recebidos na subscrição das debêntures, os quais deveriam ter sido na condição de instrumentos financeiros híbridos patrimoniais adicionados ao Patrimônio Líquido, e não reconhecidos como passivo financeiro. Em estando os pagamentos inteiramente sob controle da companhia, não há que se falar em passivo financeiro, na linha que vem sendo adotada internacionalmente pelo IFRS, e replicada nacionalmente no CPC 39. É relevante, pois, o reconhecimento que a classificação contábil das debêntures emitidas está condicionada à primazia da essência sobre a forma (CPC 00), reconhecendo sua efetiva natureza patrimonial, que irá impactar diretamente sobre a sua natureza jurídicosocietária e, sucessivamente, sobre os seus efeitos tributários, mormente quanto à impossibilidade de dedução do lucro líquido, na apuração do lucro real, por não se tratar de instrumento de dívida. O voto da Diretora Norma Jonssen Parente é sobremaneira eloquente, no Caso Energisa S/A: 5. No caso de debêntures perpétuas com participação nos lucros, o investidor participa do risco da empresa, tendo a mesma situação desfrutada pelo acionista da companhia. De modo que o sucesso ou insucesso da sociedade repercute diretamente em seus rendimentos, visto que tal debenturista é quase um acionista. 6. Dessa forma, não se pode afirmar que o emissor de debêntures perpétuas seja detentor de um exigível. O fato de ser facultado à companhia resgatar a debênture não a torna um exigível (visto que esta opção pertence exclusivamente à sociedade); ainda que tal fato ocorra no futuro não justifica, no presente, seu enquadramento no passivo exigível. Portanto, não 10 TOMAZELLA, Ramon. Ob.Cit., p.482483. Fl. 1464DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 17 16 se pode dizer que a exigibilidade é ínsita ao título sendo presumível sua ocorrência. No caso, a exigibilidade por parte dos debenturistas é remota, pois aos mesmos sequer é facultado direito a um rendimento predeterminado, já que sua remuneração restringese à participação nos lucros sociais. (...) 9. A lei não previu a contabilização das debêntures sem vencimento, sendo bastante objetiva ao vincular o exigível a prazos de vencimento, inexistentes no caso das debêntures perpétuas. Repitase: a dívida em questão não vence, pois, sendo a faculdade de adimplir o principal destas debêntures evento futuro e incerto, não há como garantir a ocorrência da eventual exigibilidade do crédito, nem a curto, médio ou longo prazo. Não resta possibilidade de registro no passivo exigível constatada a incerteza da efetividade da exigibilidade relativa ao título. Assim, fazer projeções quanto ao vencimento das debêntures perpétuas pode revelarse tarefa árdua e eventualmente contraditória com o instituto, dado que este permite a emissão de tais títulos justamente com a característica de perpetuidade. Tecnicamente falando, houve uma omissão legal da Lei 6.404/76, ao nada dispor sobre a possibilidade da inclusão das debêntures perpétuas no âmbito do PL, como se vê no art. 178, §2º, III dessa lei. Em razão dessa omissão, tornase necessário interpretar os fatos contábeis à luz das diretrizes dos art. 177 e 178, caput da Lei das S/A: Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. Art. 178. No balanço, as contas serão classificadas segundo os elementos do patrimônio que registrem, e agrupadas de modo a facilitar o conhecimento e a análise da situação financeira da companhia. Diante disso, e após a conclusão de que a debênture perpétua seria uma instrumento financeiro híbrido patrimonial, há que se lhe dar um tratamento conforme na esteira do tratamento dado nos princípios de contabilidade aceitos globalmente , com a sua escrituração no PL. Em razão de sua natureza jurídica, a remuneração paga aos debenturistas possui natureza de dividendos, como já esclarecido anteriormente, submetendose assim ao disposto no art. 201 c/c art. 191 da Lei das S/A: Art. 191. Lucro líquido do exercício é o resultado do exercício que remanescer depois de deduzidas as participações de que trata o artigo 190. Art. 201. A companhia somente pode pagar dividendos à conta de lucro líquido do exercício, de lucros acumulados e de reserva Fl. 1465DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 18 17 de lucros; e à conta de reserva de capital, no caso das ações preferenciais de que trata o § 5º do artigo 17. Portanto, para fins de aplicação do art. 58 do DecretoLei nº 1.598/77 há que ser feita uma dissociação. Assim prescreve o dispositivo mencionado: Art 58 Podem ser excluídas do lucro líquido do exercício, para efeito de determinar o lucro real, as participações nos lucros da pessoa jurídica: I atribuídas a seus empregados segundo normas gerais aplicáveis, sem discriminações, a todos que se encontrem na mesma situação, por dispositivo do estatuto ou contrato social, ou por deliberação da assembléia de acionistas ou sócios quotistas; II asseguradas a debêntures de sua emissão. A exclusão preconizada acima se aplica à participação de lucros decorrente da remuneração das debêntures que têm natureza jurídica de instrumento financeiro de dívida, pois esse pagamento assume natureza de passivo financeiro, tal qual os juros pagos pelo capital disponibilizado pelo debenturista. Em se tratando de debênture com natureza de instrumento híbrido patrimonial, fica evidente que o pagamento desses lucros não fica sujeito à exclusão do lucro líquido, pois os dividendos só serão apurados após o todas as deduções de praxe sobre o resultado do exercício, incluindo também a provisão do IRPJ e CSLL. Por essas mesmas razões, não procede o argumento subsidiário do Recorrente de que "a base de cálculo deveria ser a diferença entre o valor total e a média constatada no mercado financeiro”, com base no art. 467, V do RIR/99 pois não há sequer que se considerar a taxa de remuneração praticada no mercado para debêntures com natureza de dívida, pois se trata de figuras jurídicas e contábeis diferentes da debênture em questão, de natureza patrimonial. Portanto, correta a imputação jurídica da Fiscalização, referente à distribuição disfarçada de lucros, com base no art. 464, VI do RIR/99: as partes ligadas (Recorrente e seus sócios) realizaram um negócio jurídico (emissão e subscrição de debêntures), em condições de favorecimento (condições de acionista, com pretendido efeito redutor do lucro líquido pré IRPJ/CSLL) que não seriam praticáveis em relação a terceiros (elevadíssima taxa de retorno). A despeito da correção da imputação realizada, no entender deste relator, sequer seria necessário o recurso à presunção do art. 464 do RIR/99, pois está cabalmente comprovado que a remuneração paga aos debenturistas seria, em rigor, dividendos hauridos dos lucros apurados na sociedade, qualificando da mesma forma o caso como uma distribuição disfarçada de lucros. Cabem aqui também algumas considerações acerca do Parecer CVM/SJU nº 15/88 e a sua aplicabilidade ao caso, haja vista que sua ementa dispõe o seguinte: "É possível, diante da Lei n. 6.404/76, a existência de debênture perpétua, a que seja atribuída remuneração apenas a título participativo nos lucros sociais". Fl. 1466DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 19 18 Em primeiro lugar, é preciso observar que o contexto legislativo contábil em que o referido parecer foi exarado é completamente distinto do atual, pois a edição da Lei nº 11.638/07 tratou de introduzir, no Brasil, as regras contábeis compatíveis com os padrões internacionais de contabilidade (IFRS). Em razão disso, foi aprovado pela CVM o Pronunciamento Conceitual Básico (CPC 00), consagrando expressamente no âmbito brasileiro a primazia da essência subjacente e da realidade econômica sobre a forma adotada. Disso não se depreende automaticamente que as regras contábeis geram efeitos sobre a interpretação de atos ou negócios jurídicos, por se tratarem de âmbitos distintos. Tampouco se pode afirmar, no sentido contrário, que o Direito é alheio às razões subjacentes dos negócios, especialmente em vista da regra interpretativa do art. 112 do Código Civil: " Art. 112. Nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciada do que ao sentido literal da linguagem.". O que há, entretanto, é uma relação tangente do entre o Direito Contábil e o Direito Societário, por força do art. 177 e 178 da Lei das S/A, que determina expressamente a observância dos princípios contábeis para fins de construção das demonstrações financeiras, incluindo aí todas as etapas do processo contábil reconhecimento, mensuração e evidenciação. A aplicação das regras contábeis para fins de reconhecimento do negócio jurídico realizado envolvendo debêntures deve, portanto, estar alinhado aos preceitos contábeis contemporâneos já desgarrado do formalismo que vicejava à época da emissão do mencionado Parecer. Isso implica no seu reconhecimento como elemento do PL, e não como passivo financeiro, por todas as razões que foram exaustivamente expostas acima. Adentrando no conteúdo do Parecer da CVM, verificase de pronto um equívoco da parecerista, pois faz remissão às debêntures cuja remuneração exclusiva se faz através de participação aos lucros, referindose aos casos de reorganização de empresas ferroviárias nos Estados Unidos, e cita o seguinte trecho: Fl. 1467DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 20 19 Da leitura do texto, resta absolutamente claro que o "income bond" referida no caso nada tem a ver com a debênture perpétua com remuneração exclusiva de participação dos lucros. Na verdade, na income bond ocorre algo semelhante ao caso Hoge Raad, mencionado acima. Tratase de uma debênture remunerada por juros (interests, expressamente mencionado no texto), mas com o pagamento sujeito a diferimento para o anocalendário em que a empresa apure lucro. Não se trata, portanto, de remuneração por participação dos lucros, mas sim por juros, com diferimento previsto o que não descaracteriza a debênture como instrumento de dívida, como já analisado anteriormente. A própria definição de "income bond", obtida no site da NASDAQ, deixa claro que se trata de figura distinta da analisada no caso: A bond whose payment of interest is contingent on sufficient earnings. These bonds are commonly used during the reorganization of a failed or failing business11. Tradução livre: Um título cujo pagamento de juros é contingente em lucros suficientes. Esses títulos são comumente usados durante a reorganização de um negócio com falhas ou falho. Ao citar também o escólio de Luis de Angulo Rodréguez, este autor menciona que não há, entre o debênturista e os sócios da sociedade, uma affectio societatis para que o título possa ter esse efeito associativo entretanto, no presente caso esse argumento não é válido, pois os debênturistas são, ao mesmo tempo, os únicos sócios da Recorrente. Por fim, ao final, a própria parecerista reconhece que a debênture perpétua com participação nos lucros se enquadra como uma aplicação de risco, e como como forma de 11 https://www.nasdaq.com/investing/glossary/i/incomebond Fl. 1468DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 21 20 crédito, nos termos da Resolução CMN nº 1.460/88, evidenciando a sua natureza de instrumento híbrido patrimonial. Pelas razões expostas acima, entendo que o referido parecer não tem aplicabilidade ao caso em questão. Sobre o argumento do "propósito negocial" da operação, aderimos às considerações feitas pelo Ilustre Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, no Acórdão nº 1402002.265: No que diz respeito aos argumentos dos Recorrentes de que a operação teria sido usual e o montante empregado na capitalização da empresa, especialmente para a aquisição da Pro Matre Paulista S.A., outra sorte não lhes se socorre. Isso porque tal aquisição ocorreu logo após a emissão das debêntures e, ainda assim, uma década após isso, remanesceu a obrigação de remunerar os sócios. Caso o objetivo dos Recorrentes realmente fosse o de capitalizar a empresa para essa aquisição específica, o resgate dos títulos já deveria ter sido feito, até porque restou comprovado que o capital dos sócios foi remunerado, em uma década, em mais de 780%, o que não parece razoável, tampouco se encontra dentro dos parâmetros de mercado. Em relação ao erudito voto do relator supramencionado, aderimos às conclusões esposadas, mas pelas razões que aduzimos anteriormente: não se trata de desconsiderar a operação efetuada visto que ela atendeu aos requisitos legais para tanto mas sim em darlhe o tratamento contábil, jurídicosocietário e jurídico tributário correto, como feito pela fiscalização. O Recorrente pleiteia, também, a possibilidade de aproveitamento do IRRF efetivamente pago, uma vez que tal imposto não será devido na distribuição de lucros. Tem razão o Contribuinte, em seu argumento subsidiário, com acolhida recente inclusive no âmbito da 1ª Câmara Superior de Recursos Fiscais, no Acórdão nº 9101 002.535, cujas razões, de lavra do I. Conselheiro Luís Flávio Neto, reproduzo abaixo: Por restar vencido quanto ao mérito principal deste recurso, a decisão deste Colegiado foi desconsiderar os efeitos jurídicos das operações realizadas pelo contribuinte, de tal forma que as despesas incorridas pela contribuinte não ostentariam a natureza jurídica de debêntures e, assim, não seria aplicável a regra de de dedutibilidade que lhes seria inerente. Por coerência, em face da decisão deste Colegiado de recusar a natureza jurídica de debêntures, também deixa de ser aplicável aos pagamentos em questão a regra que determina a retenção de IRRF sobre a remuneração de debêntures. Dessa forma, os recolhimentos realizados a tal título pela recorrente também deixaram de assumir essa roupagem. Destaco a parte final do voto que orientou o acórdão nº 101 94.986, indicado pela recorrente como paradigma de Fl. 1469DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 22 21 divergência para a interposição do recurso especial ora sob julgamento: “Entendo, todavia, que por uma questão de razoabilidade, deve ser deduzida da exigência o valor pago a título de imposto de renda retido na fonte. É que, ao se considerar como indedutíveis as despesas correspondentes aos rendimentos de debêntures, na realidade estáse tratando os valores contabilizados a título de remuneração de debêntures como lucros distribuídos. Nesse caso, não cabe o imposto de renda retido na fonte, e uma vez que se trata de incidência exclusiva, não compensável na declaração dos beneficiários, deve o respectivo valor ser deduzido da presente exigência.” Do mesmo modo, compreendo assistir razão à (...) quando pleiteia, de forma subsidiária, seja aproveitado o IRRF por ela recolhido na operação, para a compensação dos correspondentes valores exigidos nestes autos. Não há falarse em ausência de expressa disposição legal para tanto, pois se trata de decorrência lógica e necessária da desconsideração das operações de remuneração de debêntures. Pelas razões supradescritas, voto por negar provimento ao Recurso nessa parte, reconhecendo a impossibilidade de dedução do Lucro Líquido dos valores relativos à remuneração das debêntures, mas acolhendo o pedido subsidiário para o abatimento dos valores exigidos nestes autos com o IRRF por ele recolhido na mesma operação. b) Da multa qualificada Em primeiro lugar, há que se afastar a argumentação fiscal no sentido de que o contribuinte "insistiu na conduta equivocada". Sobre isto, precisas são as considerações do Conselheiro Fernando Pinto: Em primeiro lugar porque a presente exigência trata de fatos geradores ocorridos no anocalendário de 2010, sendo que os lançamentos realizados anteriormente (processos 16561.720156/201237 e 16643.720002/201316) foram formalizados posteriormente, respectivamente nos anoscalendário de 2012 e 2013. E ainda que a data da ocorrência do fato gerador que ensejou o lançamento já houvessem sido lavrados autos de infração relativos a períodos anteriores, sobre o mesmo tema, entendo que o cenário não se alteraria, a menos que já houvesse decisão administrativa definitiva e irreformável em relação às exigências anteriores, nos moldes tratados no art. 560 do Decreto nº 7.212/2010 – Regulamento do IPI, que determina que caracteriza “reincidência específica a prática de nova infração de um mesmo dispositivo [...] dentro de cinco anos da data em que houver passado em julgado, administrativamente, a decisão condenatória referente à infração anterior.” (Lei nº 4.502, de 1964, art. 70). Dito isso, é importante ressaltar que, diante dos mesmos fatos, a Fiscalização não qualificou a penalidade nas autuações anteriores. Não havia, até o anocalendário de 2012, decisão administrativa definitiva que servisse como orientação segura para o Contribuinte pelo contrário, a matéria estava em Fl. 1470DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 23 22 franca discussão no âmbito administrativo, não havendo razões para o contribuinte aderir imediatamente aos fundamentos da autuação, ainda passível de revisão. Além disso, aduziu o Conselheiro já citado que a conduta da Recorrente seria uma forma de planejamento tributário conduta elisiva , e não uma forma de evasão, por meio de fraude ou sonegação, razão pela qual afastou a qualificadora da multa baseada na inocorrência de elementos que permitam enquadrar a conduta da autuada nos conceitos dos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. Novamente, concordamos com as assunções feitas por ele que de resto estão absolutamente coerentes com o restante do Acórdão mencionado. De fato, não há nos autos prova de dolo específico de fraude ou simulação da Recorrente o que é apontado pela fiscalização, em rigor, é a intenção de utilizar um mecanismo legal, posto que artificial, para a redução substancial do lucro tributável. Entretanto, entendemos que a intenção negocial na emissão das debêntures não se encontra viciada, tampouco o negócio jurídico, visto que atendeu a todos os requisitos legais. O que há, na verdade, é uma aplicação prática da conhecida citação de Pablo Neruda "somos senhores de nossas escolhas, mas escravos das consequências delas": o negócio jurídico foi realizado de acordo com a vontade da Recorrente, mas a qualificação jurídica e contábil é decorrência das regras societárias e de Direito Contábil, não tendo o agente controle sobre a natureza jurídica do negócio feito, uma vez completa a sua realização. Ainda nessa linha, não há, portanto, qualquer dolo de sonegação, mas sim vício na classificação contábil e jurídica das debêntures, cabendo apenas a multa de ofício de 75%. Desse modo, voto por afastar a qualificadora da multa de ofício, mantendo apenas a multa de 75%, por falta de recolhimento do tributo devido. c) Da responsabilidade dos sócios Sobre a responsabilidade dos sócios, adiro integralmente às considerações do Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, no Acórdão nº 1402002.265, às quais reproduzo abaixo e as tomo como razão de decidir: Para a caracterização da responsabilidade a que alude o art. 135, III, do CTN, fazse necessário a presença dois elementos: Elemento pessoal: diz respeito ao sujeito que deu azo à ocorrência da infração, ou seja, o executor, partícipe ou mandante da infração. Tratase, na realidade, do administrador da sociedade, independentemente de ser ou não sócio. Assim sendo, não poderão ser incluídos como responsáveis quaisquer sujeitos que não possuam poder de decisão; Elemento fático: necessidade de conduta que implique excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto.38 Desse modo, “não basta ser sócio da empresa (pessoa jurídica), é indispensável que exerça função de administração no período contemporâneo aos fatos geradores”. Fl. 1471DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 24 23 Conforme já salientado, o art. 135, III, do CTN possibilita responsabilizar os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado desde que sejam os responsáveis pela ocorrência do elemento fático que ensejou o nascimento da obrigação tributária. O conceito de diretor é dado pelo art. 144 da Lei nº 6.404/76 – Lei das Sociedades Anônimas: o sócio ou administrador de uma organização é o que possui poderes para representála, inclusive em juízo, bem como para praticar todos os atos necessários ao seu regular funcionamento. Já a definição de gerente é trazida pelo Código Civil (art. 1.172 e seguintes): considerase gerente o preposto permanente no exercício da empresa, na sede desta, ou em sucursal, filial ou agência. Notese que na hipótese de lei não determinar poderes especiais, considerase o gerente autorizado a praticar todos os atos necessários ao exercício dos poderes que lhe foram outorgados.41 Maria Rita Ferragut assim conceitua representante: é a pessoa física ou jurídica que, em função de um contrato mercantil, obrigase a obter pedidos de compra e venda de mercadorias fabricadas ou comercializadas pelo representado, não tendo poderes para concluir a negociação em nome do representado. Não possui vínculo empregatício, e sua subordinação tem caráter empresarial, cingindose à organização do exercício da atividade econômica. Percebese que, para a caracterização da responsabilidade de que trata o dispositivo legal em questão, fazse necessária a coexistência de dois elementos essenciais em relação a um fato: que seja praticado por um representante legal de empresa e que denote excesso de poder ou infração à lei ou atos constitutivos da pessoa jurídica. Passo à análise do caso concreto. A autoridade fiscal, ao cominar a penalidade qualificada de 150%, entendeu restar caracterizado o conjunto fáticojurídico a ensejar a responsabilidade tributária dos sócios, todos com poder de gerência. Entendo não lhe assistir razão. Isso porque, ao restar descaracterizada a operação dita como fraudulenta, incide o entendimento já consolidado no âmbito do Superior Tribunal de justiça que pode ser resumida com a transcrição do Enunciado nº 430 da Súmula do STJ: O inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sóciogerente Mais recentemente, julgouse a matéria sob a égide do disposto no art. 543C do CPC/1973 (“recurso repetitivo”), sendo que a Primeira Seção do STJ, no julgamento do REsp 1.101.728/SP, de Relatoria do Ministro Teori Albino Zavascki, consolidou entendimento segundo o qual “a simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa”. Saliento que o simples inadimplemento da obrigação não pode gerar, de per si, a responsabilidade do administrador da pessoa jurídica. Ao assim dispor, por Fl. 1472DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 25 24 outro lado, o STJ deixou transparecer que em hipóteses de um inadimplemento, digamos, “qualificado”, podese sim atribuir a responsabilidade de que tratar o art. 135 do CTN, conforme venho me pronunciando em diversos julgados. Com efeito, não comungo do entendimento daqueles que limitam a aplicação do caput do art. 135 do CTN às hipóteses de cometimento de infração à lei societária, excluindo às infrações às leis tributárias. Não me parece ser crível que, em se tratando de uma norma tributária, excluase do rol de infrações, aptas a ensejar a corresponsabilidade, justamente as próprias leis aplicáveis aos tributos. Ocorre que, no presente caso, estamos diante de um simples inadimplemento de tributo, tanto que votei pela desqualificação da penalidade, reduzindoa ao patamar de 75%. Nesta esteira, em não havendo comprovação do dolo essencial à imputação de responsabilidade com fulcro no art. 135, III do CTN, mas mero inadimplemento, voto pela exclusão dos sócios do pólo passivo da autuação. III) Conclusão Ante o exposto, voto por dar PARCIAL PROVIMENTO ao Recurso Voluntário para reduzir a multa ao patamar de 75% e excluir os sócios do pólo passivo da autuação, acolhendo o pedido subsidiário para o abatimento dos valores exigidos nestes autos com o IRRF por ele recolhido na mesma operação. É como voto. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Fl. 1473DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16327.915389/2009-93
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue May 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jul 05 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2006
RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ADMISSIBILIDADE.
A admissibilidade do recurso especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido.
Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria.
Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigmas só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação.
Numero da decisão: 9303-006.813
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencida a conselheira Vanessa Marini Cecconello, que conheceu do recurso. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Tatiana Midori Migiyama, substituída pela conselheira Semíramis de Oliveira Duro.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Andrada Márcio Canuto Natal, Semíramis de Oliveira Duro, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício).
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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PER/DCOMP. RETIFICAÇÃO. Recorrente ITAÚ UNIBANCO S.A. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2006 RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ADMISSIBILIDADE. A admissibilidade do recurso especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido. Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria. Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigmas só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencida a conselheira Vanessa Marini Cecconello, que conheceu do recurso. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Tatiana Midori Migiyama, substituída pela conselheira Semíramis de Oliveira Duro. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Andrada Márcio Canuto Natal, Semíramis de Oliveira Duro, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 91 53 89 /2 00 9- 93 Fl. 2630DF CARF MF Processo nº 16327.915389/200993 Acórdão n.º 9303006.813 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pelo Sujeito Passivo ao amparo do art. 67, Anexo II, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 22 de junho de 2009, em face do Acórdão CARF nº 3802.003.653, que negou provimento ao recurso voluntário. O acórdão recorrido possui a seguinte ementa, transcrita na parte de interesse: CPMF. PER/DCOMP. MODIFICAÇÃO DO OBJETO DO PLEITO. INADMISSIBILIDADE. O pedido de compensação delimita a amplitude de exame do direito creditório alegado pelo sujeito passivo quanto ao preenchimento dos requisitos de liquidez e de certeza necessários à extinção de créditos tributários. Instaurado o contencioso, não se admite que o contribuinte altere o pedido mediante a modificação do direito creditório aduzido na declaração de compensação. (...) Cientificada do referido acórdão a Contribuinte interpõe Recurso Especial apontando dissídio interpretativo em relação aos acórdãos nºs 1102001.125 e 10808.805. Em seguida, o então Presidente da Segunda Câmara da Terceira Seção do CARF deu seguimento ao recurso. A Fazenda Nacional apresentou contrarrazões. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303006.827, de 17/05/2018, proferido no julgamento do processo 16327.915399/200929, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303006.827): Fl. 2631DF CARF MF Processo nº 16327.915389/200993 Acórdão n.º 9303006.813 CSRFT3 Fl. 4 3 "O Recurso foi apresentado com observância do prazo previsto, restando contudo investigar adequadamente o atendimento aos demais pressupostos de admissibilidade, prerrogativa, em última análise, da composição plenária da Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, a qual tem competência para não conhecer de recurso especiais nos quais não estejam presentes os pressupostos de admissibilidade respectivos. Primeiramente, se faz necessário relembrar e reiterar que a interposição de Recurso Especial junto à Câmara Superior de Recursos Fiscais, ao contrário do Recurso Voluntário, é de cognição restrita, limitada à demonstração de divergência jurisprudencial, além da necessidade de atendimento a diversos outros pressupostos, estabelecidos no artigo 67 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. Por isso mesmo, essa modalidade de apelo é chamado de Recurso Especial de Divergência e tem como objetivo a uniformização de eventual dissídio jurisprudencial, verificado entre as diversas Turmas do CARF. Neste passo, ao julgar o Recurso Especial de Divergência, a Câmara Superior de Recursos Fiscais não constitui uma Terceira Instância, mas sim a Instância Especial, responsável pela pacificação dos conflitos interpretativos e, conseqüentemente, pela garantia da segurança jurídica dos conflitos, não tendo espaço para questões fáticas, que já ficaram devidamente julgadas no Recurso Voluntário. Após essa breve introdução, passemos, então, ao exame do caso em espécie. Passo ao julgamento. A controvérsia suscitada pela Contribuinte referese a ocorrência de erro de preenchimento de PER/COMP e a possibilidade de retificação do direito creditório pleiteado em razão das provas trazidas aos autos. In caso, a decisão recorrida decidiu por negar provimento ao recurso voluntário, sob o entendimento de que a declaração de compensação só poderia ser retificada até a data da expedição do respectivo despacho decisório que decidiu acerca da homologação ou não da compensação. Vejamos fragmentos do aresto: Consta dos autos que em 14/10/2009 fora transmitida pela internet DCTF retificadora, portanto em data posterior à emissão do Despacho Decisório, ocorrido em 07/10/2009. Na mencionada retificadora foi declarado débito no valor total de R$ 10.467.312,78, constando como créditos o pagamento através de DARF no valor de R$ 3.386.779,85 e, como compensação de pagamento indevido ou a maior R$ 7.080.532,93. Analisando todo o acima exposto, o CARF deu provimento parcial ao recurso voluntário apresentado, decidindo no sentido de que a compensação fosse novamente apreciada, havendo entendido que a apresentação da DCTF retificadora, alterando o valor do débito ao qual fora vinculado o pagamento indicado como feito a maior, desconstituiria a causa original da não homologação, impondose o novo exame do feito. Nesse contexto, assim se posicionou a decisão a quo, a respeito da compensação tratada na DCOMP nº 42618.66449.240608.1.3.040833: (...) Como relatado, os autos retornam a esta Delegacia de Julgamento por força de acórdão prolatado pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais que determinou novo exame da compensação declarada pela contribuinte. Entendeu aquele colegiado que a apresentação de DCTF retificadora teria alterado a situação jurídica na qual se baseara o despacho decisório de não homologação, devendose reexaminar a existência do direito creditório. Fl. 2632DF CARF MF Processo nº 16327.915389/200993 Acórdão n.º 9303006.813 CSRFT3 Fl. 5 4 Em novo despacho decisório, a unidade de origem reconheceu a existência de pagamento a maior. Porém, não haveria como homologar a presente declaração de compensação já que o direito de crédito estaria integralmente comprometido na absorção de débito declarado em outra DCOMP. Ressaltese que no recurso apresentado pelo Recorrente na época, bem como no Acórdão proferido pelo CARF, em nenhum momento foi noticiado a questão do alegado equívoco no preenchimento do PER/DECOMP. Naquela oportunidade, restringiase ao erro no preenchimento da DCTF e da retificadora. O Recorrente, em seu recurso, reafirma a existência de pagamento a maior e admite equívoco no preenchimento do PER/DCOMP nº 18652.39612.120406.1.7.04.3183 e da DCTF, havendo erro na indicação nas características do documento de arrecadação pelo qual teria sido feito o pagamento a maior. Notese que o pedido de compensação foi analisado pela autoridade administrativa concernente ao reclamado pagamento a maior ou indevido indicado na DCOMP, com respeito ao qual referida autoridade concluiu inexistir o direito alegado. Instaurado o litígio, não pode a recorrente afirmar que seu crédito seria outro, referente a uma outra compensação, questão completamente alheia ao objeto do litígio, cuja aceitação representaria, também, violação aos princípios do contraditório e da estabilidade da demanda. Com efeito, como é cediço, a compensação que, nos termos do art. 170 do CTN, pressupõe liquidez e certeza dos créditos, é levada a efeito por meio de declaração capaz de extinguir o débito tributário sob condição da sua ulterior homologação, nos termos dos parágrafos 1º e 2º do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996, conforme a redação que lhes foi fornecida pela Lei nº 10.637, de 2002. Portanto, cabe ao Fisco analisar se cabe ou não homologar uma compensação declarada. Noutro giro, os parágrafos sétimo a nono do mesmo art. 74 da mesma Lei nº 9.430, de 1996, incluídos pela Lei nº 10.833, de 20033, indicam as conseqüências da não homologação da DCOMP, bem assim o objeto do litígio instaurado em razão da apresentação de manifestação de inconformidade. Focado nesses parâmetros, entendo que o pleito do sujeito passivo não merece acolhida, pois não cabe a este Colegiado ir além da análise do ato de não homologação da Declaração de Compensação e tal ato, como decidido pelo acórdão recorrido, não merece reparo. Observase vários julgados desta Corte que no caso do preenchimento dos dados do PER/DCOMP, cuja finalidade é a comunicação à administração tributária de um crédito e de um débito, os quais se extinguirão mutuamente, o erro na discriminação de qualquer um dos dois é claramente substancial, não podendo ser considerado simples erro material. Para comprovar a divergência jurisprudencial, a Contribuinte apresentou os acórdãos paradigmas de nºs 1102001.125 e 10808.805. Transcrevese parte do trecho da parte que interessa do Acórdão nº 1102001.125: Anocalendário: 2010 COMPENSAÇÃO. ERRO NO PREENCHIMENTO DA DCOMP. INDICAÇÃO DE SALDO NEGATIVO NO LUGAR DE PAGAMENTO A MAIOR. POSSIBILIDADE DE RETIFICAÇÃO DE OFÍCIO. Quando, em sede de recurso, o contribuinte demonstra ter preenchido a DCOMP de forma incorreta, indicando como crédito saldo negativo quando o correto seria pagamento a maior do imposto referente ao mesmo período, é possível a retificação de ofício pela Fl. 2633DF CARF MF Processo nº 16327.915389/200993 Acórdão n.º 9303006.813 CSRFT3 Fl. 6 5 autoridade julgadora, que determinará a análise do pedido com base no crédito efetivamente existente. DIREITO CREDITÓRIO NÃO ANALISADO. NECESSIDADE DE ANÁLISE DA EXISTÊNCIA DO CRÉDITO. RETORNO DOS AUTOS COM DIREITO A NOVO CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO. Em situações em que não se admitiu a compensação preliminarmente com base em argumento de direito, caso superado o fundamento da decisão, a unidade de origem deve proceder à análise do mérito do pedido, verificando a existência, suficiência e disponibilidade do crédito pleiteado, permanecendo os débitos compensados com a exigibilidade suspensa até a prolação de nova decisão, e concedendose ao sujeito passivo direito a novo contencioso administrativo, em caso de não homologação total. Pelo confronto entre a ementa do acórdão recorrido e a ementa e excerto do voto condutor do primeiro paradigma, não se comprova divergência. Como visto, os autos foram remetidos a unidade de jurisdição da Contribuinte, em comprimento ao Acórdão nº 330201.504 (fls. 58/63), o qual foi emitido um novo despacho decisório onde relata: "o interessado não comprovou crédito de pagamento indevido ou a maior [...]mas transmitiu, utilizando este crédito, declarações de compensação em um valor original total de R$ 109.726,28 [...]Na PER/DCOMP nº 28883.84622.220206.1.3.049350, com informação do crédito relativo a PER/DCOMP nº 42618.66449.240608.1.3.040833, objeto deste processo, foi informado um crédito de R$ 18,08, totalmente utilizado na própria PER/DCOMP. Não havendo crédito disponível, propomos a não homologação da PER/DCOMP nº 42618.66449.240608.1.3.040833". Do retorno dos autos, sobreveio o acórdão nº 3802003.658, ora guerreado, com a negativa de provimento ao Recurso, no esteio de que o pedido de compensação foi analisado pela autoridade administrativa concernente ao reclamado pagamento a maior ou indevido indicado na DCOMP, ao qual referida autoridade concluiu inexistir o direito alegado. Por sua vez, o acórdão paradigma entendeu que em situações em que não se admitiu a compensação preliminarmente com base em argumento de direito, caso superado o fundamento da decisão, a unidade de origem deve proceder à análise do mérito do pedido verificando a existência, suficiência e disponibilidade do crédito pleiteado. Não existe qualquer divergência, a decisão recorrida remeteu os autos para análise do direito creditório, emitindo um novo despacho decisório, o qual restou comprovado a inexistência de crédito, por sua vez, o acórdão paradigma firmou entendimento do retorno dos autos para que abertura de um novo contencioso administrativo. A Contribuinte não pretende a uniformização de teses jurídicas, objetivo primordial do Recurso Especial. A ampla defesa foi exercida em sua plenitude. Nestes autos, não existe direito creditório Neste sentido, não tomo conhecimento do Recurso Interposto, esta E. Câmara Superior não há espaço para rediscussão de matéria fáticoprobatória, exaustivamente discutida na 1º Instância Administrativa. Fl. 2634DF CARF MF Processo nº 16327.915389/200993 Acórdão n.º 9303006.813 CSRFT3 Fl. 7 6 Quanto ao acórdão nº 10808.805, pelo confronto entre a ementa do acórdão recorrido e a ementa e excerto do voto condutor, também não se comprova divergência. Transcrevo fragmentos do aresto: Exercício: 1998 Ementa: IRPJ – PREJUÍZO FISCAL – COMPENSAÇÃO – ERRO DE FATO NO PREENCHIMENTO DE DECLARAÇÃO. Compensação de IRPJ recolhido por estimativa em exercício cujo resultado foi prejuízo fiscal, deve ser admitida, não obstante erro de fato no preenchimento da declaração, que não invalida o procedimento, desde que comprovada a existência dos créditos. Prevalência do princípio da verdade material. Recurso Voluntário Provido. Com efeito, a decisão recorrida consignou que: "o pedido de compensação foi analisado pela autoridade administrativa concernente ao reclamado pagamento a maior ou indevido indicado na DCOMP, com respeito ao qual referida autoridade concluiu inexistir o direito alegado. Instaurado o litígio, não pode a recorrente afirmar que seu crédito seria outro, referente a uma outra compensação, questão completamente alheia ao objeto do litígio, cuja aceitação representaria, também, violação aos princípios do contraditório e da estabilidade da demanda". Por sua vez, o acórdão paradigma fixou o seguinte entendimento: "não obstante erro de fato no preenchimento da declaração, que não invalida o procedimento, desde que comprovada a existência dos créditos. Prevalência do princípio da verdade material". Como se vê, a Contribuinte insiste na rediscussão fática, o acórdão paradigma entende que caso ocorra erro no preenchimento da declaração, não invalida o procedimento, desde que comprovada a existência dos créditos. Ora, o Contencioso foi estendido a Contribuinte, não foi invalidado o procedimento de um suposto erro, foi proferido um novo despacho decisório, o qual foi confirmada a inexistência de crédito. Deste modo, as dessemelhanças fáticas e normativas impedem o estabelecimento de base de comparação para fins de dedução da divergência jurisprudencial. Em se tratando de espécies díspares nos fatos embasadores da questão jurídica, não há como se estabelecer comparação e deduzir divergência. Neste sentido, reportome ao Acórdão no CSRF/010.956: “Caracterizase a divergência de julgados, e justificase o apelo extremo, quando o recorrente apresenta as circunstâncias que assemelhem ou identifiquem os casos confrontados. Se a circunstância, fundamental na apreciação da divergência a nível do juízo de admissibilidade do recurso, é “tudo que modifica um fato em seu conceito sem lhe alterar a essência” ou que se “agrega a um fato sem alterálo substancialmente” (Magalhães Noronha, in Direito Penal, Saraiva, 1o vol., 1973, p. 248), não se toma conhecimento de recurso de divergência, quando no núcleo, a base, o centro nevrálgico da questão, dos acórdãos paradigmas, são díspares. Não se pode ter como acórdão paradigma enunciado geral, que somente confirma a legislação de regência, e assente em fatos que não coincidem com os do acórdão inquinado.” Diante de tudo que foi exposto, em razão das dessemelhanças fáticas e normativas que impedem o estabelecimento de base de comparação para fins de dedução da divergência jurisprudencial, não tomo conhecimento do Recurso interposto pela Contribuinte." Fl. 2635DF CARF MF Processo nº 16327.915389/200993 Acórdão n.º 9303006.813 CSRFT3 Fl. 8 7 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial do contribuinte não foi conhecido. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 2636DF CARF MF
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Numero do processo: 10825.900300/2008-14
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Aug 06 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1001-000.662
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa- Presidente.
(assinado digitalmente)
José Roberto Adelino da Silva - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa e José Roberto Adelino da Silva
Nome do relator: JOSE ROBERTO ADELINO DA SILVA
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Se esta não ocorrer, prevalece o lançamento original. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) José Roberto Adelino da Silva Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa e José Roberto Adelino da Silva Relatório Tratase Recurso Voluntário contra o acórdão, número 0340.428, da 2ª Turma da DRJ/BSB, o qual indeferiu a Manifestação de Inconformidade contra o despacho decisório que não homologou a Declaração de Compensação, transmitida pelo Programa AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 82 5. 90 03 00 /2 00 8- 14 Fl. 106DF CARF MF 2 PER/DCOMP, n°15534.26499.200906.1.7.04I111, em 20/09/2006, de crédito relativo a pagamento a maior de IRPJ (Código de Receita 0220) referente ao F.G. 31/12/2003, no montante de R$6.755,65, visando compensar débitos tributários no total de R$5.519,36, em valores originais, cujo voto, reproduzo, a seguir: Voto A manifestação de inconformidade interposta atende aos pressupostos de admissibilidade. Assim sendo, dela conheço. Despacho Decisório da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Bauru não reconheceu qualquer direito creditório a favor da contribuinte e. por conseguinte, não homologou a compensação declarada nos autos, ao fundamento de que o pagamento informado como origem do credito foi integralmente utilizado para quitação de débitos da contribuinte, não restando crédito disponível para compensação do débito informado na PER/DCOMP de n° 40858.84088.300404.1.3.045145. Com efeito, no que diz respeito ao crédito de IRPJ (código: 5993). relativo ao mês de maio de 2003, no valor de R$ 14.864.44. observo que o mesmo foi utilizado integralmente para pagamento de um débito de IRPJ (código: 5993). do próprio mês de maio de 2003. no valor de R$ 14.864.44. Contudo, a recorrente vem. em sua defesa, alegar que a natureza do crédito em questão é de saldo negativo de IRPJ, e não pagamento indevido ou a maior de IRPJ. Dessa forma, cabe perquirir, à luz do disposto na legislação de regência, se a declaração de compensação ora em exame encontrase devidamente instruída, especialmente no que concerne à comprovação de liquidez e certeza do crédito pleiteado. Nesse sentido, o Código Tributário Nacional (CTN). em seu artigo 170. dispõe: "a lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir ei autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos liquidas e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda ". A respeito do tema, cumpre transcrever o disposto no Regulamento do Imposto de Renda RIR/99, mais exatamente os artigos 221 a 232. verbis: "Apuração Anual do Imposto Ari. 221. A pessoa jurídica que optar pelo pagamento do imposto na forma desta Seção deverá apurar o lucro real em 31 de dezembro de cada ano (Lei 9.430, de 1996, art. 2° e §3° Pagamento por Estimativa Art. 222. A pessoa jurídica sujeita ci tributação com base no lucro real poderei optar pelo pagamento do imposto e adicional, em cada mês, determinados sobre base de cálculo estimada (Lei 9.430, de 1996, art. 2). Parágrafo único. A opção será manifestada com o pagamento do imposto correspondente ao mês de janeiro ou de inicio de atividade, observado o disposto no art. 232 (Lei n 9.430, de 1996, art. 3, parágrafo único). Base de Cálculo Fl. 107DF CARF MF Processo nº 10825.900300/200814 Acórdão n.º 1001000.662 S1C0T1 Fl. 3 3 Art. 223. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de oito por cento sobre a receita bruta auferida mensalmente, observadas as disposições desta Subseção (Lei n? 9.249, de 1995, art. 15, e Lei n? 9.430, de 1996, art. 2?). ﴾....﴿ Suspensão, Redução e Dispensa do Imposto Mensal Art. 230. A pessoa jurídica poderá suspender ou reduzir o pagamento do imposto devido em cada mês, desde que demonstre, através de balanços ou balancetes mensais, que o valor acumulado já pago excede o valor do imposto, inclusive adicional, calculado com base no lucro real do período em curso (Lei n 8.981, de 1995, art. 35, e Lei 9.430, de 1996, art. 2?). ﴾....﴿ Deduções do Imposto Anual Art. 231. Para efeito de determinação do saldo de imposto a pagar ou a ser compensado, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor (Lei n°9.430, de 1996, art. 2o, § 4o): ... III do imposto pago ou retido na fonte, incidente sobre receitas computadas na determinação do lucro real; IV do imposto pago na forma dos ar/s. 222 a 230 ". Conforme legislação acima, a interessada está obrigada, considerando que é optante pelo lucro real, apuração anual, pagar mensalmente o imposto de renda devido por estimativa com base na receita bruta, com a aplicação de um percentual determinado. Pode também suspender o pagamento desde que proceda aos balancetes mensais, demonstrando que o valor acumulado já pago excede o valor do imposto, inclusive adicional, calculado com base no lucro real do período em curso. No final do ano, o imposto apurado deve ser deduzido dos pagamentos recolhidos sob esta sistemática. Assim, somente o saldo negativo de IRPJ a pagar, calculado ao final do período de apuração, é que se mostra passível de restituição e/ou compensação posterior, nos termos da legislação vigente. No entanto, a apuração da liquidez e certeza do crédito pleiteado, no caso, está na dependência da efetiva demonstração, pela requerente, do saldo negativo de IRPJ apurado no final de cada período, uma vez que os valores recolhidos a titulo de estimativa são considerados pela lei como antecipações do imposto de renda devido. Diante dessas considerações, esta Turma de Julgamento tem reiteradamente consignado que em tema de restituição e compensação de saldo negativo de IRPJ com outros tributos, ou com o próprio, cabe o atendimento de quatro premissas: la) a constatação dos pagamentos ou das retenções; 2') a oferta A tributação das receitas que ensejaram as retenções; 3") a apuração do indébito, fruto do confronto acima delineado e, 4") a observância do eventual indébito não ter sido liquidado em autocompensações. Fl. 108DF CARF MF 4 Portanto, não basta A interessada alegar o pagamento a maior ou indevido do tributo, mas também deve trazer, Por ocasião do presente contencioso, provas, lastreadas em lançamentos contábeis, que identifiquem, inequivocamente, a base de cálculo do IRPJ. Inclusive, por se tratar de contribuinte sujeita ao regime de apuração do imposto com base no lucro real, esta deveria, ao fim de cada período base de incidência do imposto. apurar o lucro liquido do exercício mediante a elaboração, com observância das disposições da lei comercial, do balanço patrimonial, da demonstração do resultado do exercício e da demonstração de lucros ou prejuízos acumulados, que serão transcritos no Livro de Apuração de Lucro Real (LALUR), nos termos dos artigos 7° e seu § 4°, e 8°, inciso I, ambos do Decreto Lei n° 1.598, de 1977, in verbis: "Art 7° O lucro real será determinado com base na escrituração que O contribuinte deve manter, com observância das leis comerciais e fiscais. § 4° Ao fim de cada períodobase de incidência do imposto o contribuinte deverá apurar o lucro liquido do exercício mediante elaboração, com observância das disposições c/a lei comercial, do balanço patrimonial, da demonstração do resultado do exercício e da demonstração de lucros ou prejuízos acumulados. Art. 8° O contribuinte deverá escriturar, além dos demais registros requeridos pelas leis comerciais e pela legislação tributária, os seguintes livros: I de apuração de lucro real, no qual: a) serão lançados os ajustes do lucro líquido do exercício, de que tratam os §§ 2°c 3° do artigo 6'; será transcrita a demonstração do lucro real (§ 10); Neste contexto, a contribuinte deveria trazer provas, lastreadas em lançamentos contábeis, dentre estas, destacamse: os registros contábeis de conta no ativo do IRPJ a recuperar, a expressão deste direito em balanços ou balancetes, os Livros Diário e Razão. etc., tudo de forma a ratificar o indébito pleiteado. Consoante noção cediça. a escrituração contábil e fiscal mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais, conforme dispõe o artigo 923 do RIR11999: "Art. 923. A escritura cão mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (DecretoLei n 2 1.598, de 1977, art. 92, § 12). No presente caso, a recorrente , em sua peça impugnatória. traz como prova desse crédito cópia da declaração de rendimentos de fls. 36/48, retificada em 03/06/2008, informando a existência de saldo negativo de IRPJ, no valor de R$ 107.434,19, bem como RAZÃO ANALÍTICO EM REAL DE 01/01/03 ATE 31/12/04 (fl. 53), informando saldo de IRPJ a recuperar no montante de R$ 108.176,01. Dos documentos apresentados pela contribuinte, cabem as seguintes observações: a) na DIPJ original, apresentada em 30/06/2004. não há informação de saldo negativo de IRPJ, ou seja, o imposto a pagar informado foi R$ 0,00 (zero); b) em 03/06/2008, a contribuinte apresentou DIPJ retificadora, informando saldo negativo de IRPJ no valor de R$ 107.434,19; c) não há comprovação do imposto de renda retido na fonte (informe de rendimentos), no valor de R$ 38.506,80. deduzido pela interessada, na linha 13 da ficha 12A da DIPJ/2004, na apuração do saldo Fl. 109DF CARF MF Processo nº 10825.900300/200814 Acórdão n.º 1001000.662 S1C0T1 Fl. 4 5 negativo do IRPJ (fl. 43); b) o formulário denominado "RAZÃO ANALÍTICO EM REAL DE 01/01/03 ATE 31/12/04", de fls. 53/54, não apresenta Termo de Abertura, nem Termo de Encerramento. Desta feita, passase à análise dos itens acima expostos. Quanto à DIPJ retificadora, externando saldo negativo de IRPJ, cabe observar que esta tãosomente indicia que a contribuinte teria efetuado pagamento a maior que o devido. Todavia, resumese à esfera do indicio, vez que a declaração desacompanhada da escrita, não produz o efeito desejado. Quanto ao IRRF, no valor de R$ 38.506,80, ressaltese que a contribuinte não comprova que os rendimentos sobre os quais incidiu o referido IRRF foram oferecidos à tributação, condição essencial para que este possa ser aproveitado na compensação do imposto apurado no final do período, originando, se for o caso, o saldo negativo de IRPJ. Quanto ao formulário de fls. 53/54, denominado "RAZÃO ANALÍTICO EM REAL DE 01/01/03 ATE 31/12/04", não consta Termo de Abertura, nem Termo de Encerramento. Neste contexto, cumpre observar que a legislação dispensa a autenticação do Livro Razão no caso de regularidade na autenticação do Livro Diário (art. 259, parágrafo 3° do RIR199). Assim, a ausência do Livro Diário implica na inabilidade do Livro Razão. Por fim, registrese que a contribuinte além de não juntar cópias do livro Diário, devidamente registrado, não apresentou LALUR, dos quais poderia se verificar os balanços/balancetes de re üção e demonstrativos da apuração do Lucro Real da empresa para o anocalendário de 2003. Ora, tal qual o pagamento de tributos e contribuições, que necessita, para convalidar o recolhimento efetuado, de urna série de atos do sujeito passivo, como manter escrituração contábil, baseada em documentos hábeis e idôneos, e a partir desta documentação determinar o tributo devido e recolher o correspondente valor, o pagamento a maior ou indevido também almeja, para materializar o indébito, atividade semelhante. Por tais razões, a contribuinte, quando apresenta uma Declaração de Compensação, deve, necessariamente, provar um crédito tributário a seu favor para ter o direito de extinguir um débito tributário constituído em seu nome, de forma que o reconhecimento do indébito tributário seja o fundamento fático e jurídico de qualquer declaração de compensação. No que diz respeito ao pedido final da contribuinte de apensamento dos processos n° 10825.900220/200851. 10825.900257/200889. 10825.900692/2008 11, 10825.900753/200832, 10825.9d0722/200881, 10825.900771/200814 e do presente processo, por se tratar de PER/Dcomps vinculados ao mesmo indébito, impende observar que em nada prejudicou a análise do direito credit6rio pleiteado, tendo inclusive referidos processos sido julgados nessa mesma Sessão de Julgamento. Nesse sentido, na declaração de compensação apresentada, o indébito não contém os atributos necessários de liquidez e certeza, os quais são imprescindíveis para reconhecimento pela autoridade administrativa de crédito junto à Fazenda Fl. 110DF CARF MF 6 Pública, sob pena de haver reconhecimento de direito creditório incerto, contrário, portanto, ao disposto no artigo 170 do Código Tributário Nacional (CTN). Diante do exposto, VOTO pela improcedência da manifestação de inconformidade. Voto Conselheiro José Roberto Adelino da Silva Relator Inconformada, a recorrente apresentou o Recurso Voluntário, tempestivo, que apresenta os pressupostos de admissibilidade, previstos no Decreto 70.235/72, e, portanto, dele eu conheço. Em seu recurso, a recorrente alega, basicamente, que: · o crédito realmente existe; como pode ser comprovado pela DIPJ; · todas as compensações efetuadas com crédito oriundo de saldo negativo de IRPJ, gerado no anocalendário 2003, não foram homologadas sob argumento de inexistência de crédito, vez que o crédito informado nas mesmas, já se encontravam vinculados A quitações de débitos da Requerente. Cabe esclarecer que no ano calendário 2003, consoante demonstrado em sua DIPJ, foi gerado um saldo negativo de IRPJ no montante de R$ 107.434,19 (cento e sete mil, quatrocentos e trinta e quatro reais e dezenove centavos), passível de compensação com débitos de tributos federais, a partir do anocalendário subseqüente ao de que foi apurado. · a Requerente ao preencher a Per/Dcomp ocorreuse em equivoco, quando ao completar a ficha de origem do crédito, informou crédito de pagamento indevido ou a maior de IRPJ, vinculando o Darf recolhido a titulo de estimativa de IRPJ devido em maio de 2003, com vencimento em 30/06/2003, ao invés de informar saldo negativo total de IRPJ do anocalendário 2003. · Em decorrência do preenchimento, equivocado, do crédito, descrevendo pagamento indevido ou a maior, o crédito foi atualizado como tal, gerando assim, um saldo de compensação a descoberto no montante total de R$ 5.381,75 (cinco mil, trezentos e oitenta e um mil e setenta e cinco centavos), · Isto posto, é importante ressaltar que a Requerente, agindo sempre com a boafé que lhe é peculiar, reconhece que parte dos débitos foram indevidamente compensados. Insta mencionar, desde já, que todos os pedidos de compensação existentes tendo como base o crédito do exercício de 2003, estão vinculados a este processo administrativo, vez que todos decorrem do Fl. 111DF CARF MF Processo nº 10825.900300/200814 Acórdão n.º 1001000.662 S1C0T1 Fl. 5 7 mesmo crédito, o saldo negativo de IRPJ gerado no respectivo exercício, fato este que deveria acarretar no apensamento dos autos originados pelas Per/Dcomp's onde foi compensado crédito de IRPJ do ano de 2003. · A decisão ora combatida partiu da presunção de que o crédito de IRPJ não existe em face da Requerente, equivocadamente, Por ter sido informado crédito de pagamento indevido ou a maior ao invés de · saldo negativo de IRPJ, decisão esta que não pode prosperar, visto que a requerente possui tal crédito, ocorrendose apenas de um erro nos preenchimentos das Per/Dcomp's. · Ainda, vale mencionar que a Requerente comprovou por todos os meios possíveis que faz jus ao pleito de compensação, pois possui junto a Requerida um crédito, o qual restou devidamente comprovado pelos documentos ¡untados na Manifestação de Inconformidade, bem com os que acompanham o presente recurso; · Insta mencionar ainda, que os documentos não apresentados com a Manifestação de Inconformidade, e frisese a falta foi base para o indeferimento, estão sendo devidamente juntados com o presente. Sendo assim, resta evidente que ocorreu um mero equivoco. Isto posto, requer: · Diante de todo o exposto, requerse respeitosamente que seja concedido TOTAL PROVIMENTO ao presente Recurso Voluntário, a fim de se anular o r. Despacho Decisório que não homologou a compensação declarada na Per/Dcomp n° 40858.84088.300404.1.3.045145, retificandoa de oficio, a fim de regularizar a origem do crédito ali apontado, sendo assim homologada, extinguindose o saldo devedor objeto da compensação. · Desta feita, requerse, ainda, o apensamento dos processos em razão de todos decorrerem do mesmo crédito, ou seja, de compensação utilizando o saldo negativo de IRPJ originado no anocalendário 2003. Inicialmente, cabe ressaltar, que entendo que a recorrente deveria ter sido intimada a apresentar a documentação requerida pela DRJ, se entendido como necessárias e/ou que a autoridade determinasse a correspondente diligência, se fosse o caso, proporcionandolhe o direito à ampla defesa. Apenas negar provimento afirmando que a recorrente deveria ter apresentado toda a documentação contábil para justificar seu pleito, não é exigido em nenhuma norma legal. As normas da RFB, relativamente à retificação de obrigações acessórias, não exigem a apresentação de provas para que sejam aceitas. Ao contrário, dispõem que a retificadora substitui a originalmente entregue em seu todo. Fl. 112DF CARF MF 8 A DRF, no caso, tem o direito de intimar o contribuinte a apresentálas ou de efetuar as competentes diligências, se assim o entender. Essa documentação foi apresentada em sede de recurso voluntário, consoante a documentação anexada aos autos. Entretanto, apesar de todos os esforços realizados pela recorrente, o fato de não ter havido a retificação da PER/DCOMP, originalmente, entregue, não permite a que os lançamentos sejam considerados nulos, posto que, desde a sua instituição através da Instrução Normativa SRF 120/89, a referida obrigação acessória constitui, na verdade, em confissão de dívida. Veja o que diz o Parecer Normativo COSIT 2/2015: Assim, a PER/DCOMP constitui confissão de dívida e, no caso da recorrente, deveria ter sido objeto de retificação. Em não havendo, prevalece o que confessado na originalmente entregue. Veja o que diz o Parecer Normativo COSIT 2/2015: 14.2. Via de regra, objetivando dar maior celeridade ao processo, a análise deste PER/DCOMP é feita eletronicamente, de forma automática, mediante “batimento” das informações contidas no PER/DCOMP com os dados dos sistemas da RFB, inclusive os declarados em DCTF. 14.3. Após a análise preliminar do PER/DCOMP, encontrada alguma inconsistência entre essas informações, é dada ao sujeito passivo a oportunidade de verificar as informações prestadas à RFB e corrigilas, se for o caso – tratase do serviço denominado Autorregularização. De acordo com a Nota Corec nº 30, de 2013, o acompanhamento do processamento eletrônico do PER/DCOMP motivou a disponibilização desse serviço, tendo em vista a observação de que uma parte das decisões proferidas de forma automática, e posteriormente levada ao contencioso, era decorrente de erros cometidos pelos contribuintes no preenchimento do próprio PER/DCOMP ou das declarações que embasavam as informações nele contidas. 14.4. Com a disponibilização do serviço de Autorregularização, dáse ao contribuinte, nos casos por ela contemplados, a possibilidade de, previamente à emissão do despacho decisório, tomar conhecimento da análise completa do direito creditório, que pode ser por ele consultada pelo eCAC durante o prazo improrrogável concedido para autorregularização (45 dias a partir da data de envio da mensagem para sua caixa postal). 14.5. A partir dessa análise preliminar, caso se identifiquem erros nas informações prestadas no PER/DCOMP ou em outras declarações (como a DCTF), o contribuinte terá oportunidade de corrigilos pela sua retificação ou, ainda, pelo cancelamento do PER/DCOMP. 14.6. Findo o prazo concedido para autorregularização, a análise automática do direito creditório será novamente realizada, considerando os elementos atualizados que a embasam. Mantidos o reconhecimento parcial ou não reconhecimento do direito creditório ou constatada a Fl. 113DF CARF MF Processo nº 10825.900300/200814 Acórdão n.º 1001000.662 S1C0T1 Fl. 6 9 insuficiência para homologação da compensação, será emitido despacho decisório. 14.7. Caso não seja detectada nenhuma inconsistência ou esta tenha sido sanada por ocasião da autorregularização, o sistema homologa automaticamente o PER/DCOMP. 14.8. A análise eletrônica do PER/DCOMP equivale àquela executada manualmente pela Delegacia da Receita Federal do Brasil (DRF) de jurisdição do sujeito passivo; inclusive o despacho decisório emitido eletronicamente apresenta a assinatura eletrônica do titular da DRF. 14.9. Com isso, o despacho decisório, sendo eletrônico ou não, é conclusivo quanto ao reconhecimento do direito creditório e finaliza a etapa de análise do processo de reconhecimento do crédito fiscal do sujeito passivo, de competência da DRF de sua jurisdição. (grifei) A própria recorrente afirma ter cometido o equívoco no preenchimento da PER/DCOMP, sem retificála, posteriormente. Portanto, com base em tudo que acima exposto, nego provimento ao presente recurso, crédito tributário negado. É como voto. (assinado digitalmente) José Roberto Adelino da Silva Fl. 114DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.660278/2012-78
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon May 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jul 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do fato gerador: 30/06/2012
DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. NULIDADE.
Estando demonstrados os cálculos e a apuração efetuada e possuindo o despacho decisório todos os requisitos necessários à sua formalização, sendo proferido por autoridade competente, contra o qual o contribuinte pode exercer o contraditório e a ampla defesa e onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal, não há que se falar em nulidade.
DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. FUNDAMENTAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA.
Na medida em que o despacho decisório que indeferiu a restituição requerida teve como fundamento fático a verificação dos valores objeto de declarações do próprio sujeito passivo, não há que se falar em cerceamento de defesa.
COMPENSAÇÃO. CRÉDITO INTEGRALMENTE ALOCADO. Correto o despacho decisório que não homologou a compensação declarada pelo contribuinte por inexistência de direito creditório, quando o recolhimento alegado como origem do crédito estiver integralmente alocado na quitação de débitos confessados.
Numero da decisão: 3401-004.682
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator
(assinado digitalmente)
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente), Robson José Bayerl, Cássio Schappo, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Lázaro Antônio Souza Soares, Tiago Guerra Machado.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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NULIDADE. Estando demonstrados os cálculos e a apuração efetuada e possuindo o despacho decisório todos os requisitos necessários à sua formalização, sendo proferido por autoridade competente, contra o qual o contribuinte pode exercer o contraditório e a ampla defesa e onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal, não há que se falar em nulidade. DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. FUNDAMENTAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. Na medida em que o despacho decisório que indeferiu a restituição requerida teve como fundamento fático a verificação dos valores objeto de declarações do próprio sujeito passivo, não há que se falar em cerceamento de defesa. COMPENSAÇÃO. CRÉDITO INTEGRALMENTE ALOCADO. Correto o despacho decisório que não homologou a compensação declarada pelo contribuinte por inexistência de direito creditório, quando o recolhimento alegado como origem do crédito estiver integralmente alocado na quitação de débitos confessados. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Rosaldo Trevisan Presidente e Relator (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 66 02 78 /2 01 2- 78 Fl. 83DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201278 Acórdão n.º 3401004.682 S3C4T1 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente), Robson José Bayerl, Cássio Schappo, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Lázaro Antônio Souza Soares, Tiago Guerra Machado. Relatório Trata o presente processo de manifestação de inconformidade contra não homologação de compensação declarada por meio eletrônico (PER/DCOMP), relativamente a um crédito de Cofins, que teria sido recolhido a maior no período de apuração. O Despacho Decisório da DERAT/SÃO PAULO, não homologou o pedido de compensação, sob o fundamento de que, embora localizado o pagamento que deu origem ao suposto crédito original de pagamento indevido ou a maior, o mesmo estava à época do encontro de contas integralmente utilizado para quitação de débitos do contribuinte não restando crédito disponível para a compensação dos débitos informados. Notificada da decisão a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade. A DRJ Ribeirão Preto julgou improcedente a impugnação por unanimidade de votos, mantendo o crédito tributário devido. A empresa apresentou recurso voluntário onde somente alega que apesar de ter protestado em sede de impugnação pela falta de motivação do indeferimento no despacho decisório, o acórdão recorrido não demonstrou a motivação, que os atos administrativos devem ser motivados para não ter cerceado seu direito de defesa, não apresentando provas do seu direito. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3401004.681, de 21 de maio de 2018, proferido no julgamento do processo 10880.660277/201223, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3401004.681): "O recurso voluntário é tempestivo e preenche as demais condições de admissibilidade, por isso dele tomo conhecimento. A recorrente protesta pela falta de motivação do despacho decisório que indeferiu o seu pedido de compensação. Fl. 84DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201278 Acórdão n.º 3401004.682 S3C4T1 Fl. 4 3 Entendo que o despacho decisório cumpre os requisitos legais e possui todo o escopo necessário ao exercício do contraditório e da ampla defesa pelo contribuinte. Nele está inscrito o enquadramento legal da autuação: Enquadramento legal: Arts. 165 e 170, da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN). Art. 74 da Lei 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Também nele encontrase a fundamentação da decisão, ficando claro que o crédito indicado foi localizado, mas já havia sido utilizado para quitação de outros débitos do contribuinte: A análise do direito creditório está limitada ao valor do "crédito original na data de transmissão" informado no PER/DCOMP, correspondendo a 4.812,66. A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Entendo que o prejuízo, se havido, foi provocado pelo próprio contribuinte que deixou de apresentar provas que indicassem que era portador do crédito alegado. Ademais, como bem demonstrado no acórdão recorrido, o crédito já havia sido utilizado e alocado, e apesar de ser o único DARF pago pela empresa no ano de 2012, o mesmo foi utilizado em 193 pedidos de compensação. Esse procedimento utilizado pelo contribuinte, de alocar o mesmo crédito a várias Dcomps enseja a cominação de prestação de informação falsa à RFB já que há um campo na PER/DCOMP onde é perguntado se aquele crédito já foi informado em outro PER/DCOMP e o contribuinte respondeu “NÃO” em todas as declarações. Por ser extremamente didático, reproduzo o acórdão recorrido, em sua íntegra, para que não haja dúvidas quanto as suas conclusões que acompanho: Em preliminar, não merece acolhida a alegação de nulidade do Despacho Decisório, vez que o mesmo apresenta de forma clara e precisa o motivo da não homologação da compensação, qual seja, a inexistência de crédito disponível para a compensação dos débitos informados na DCOMP. O Despacho Decisório preenche todos os requisitos formais e materiais para sua validade, contendo todos os elementos necessários ao exercício do direito de defesa do contribuinte, trazendo em seu bojo, ainda que de forma sintética, a fundamentação legal, a identificação da declaração de compensação enviada pela empresa, a data da transmissão, o tipo de crédito, as características do DARF apontado pela empresa na DCOMP, bem como o período de apuração a que se refere. Fl. 85DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201278 Acórdão n.º 3401004.682 S3C4T1 Fl. 5 4 Por outro lado, os motivos da nãohomologação residem nas próprias declarações e documentos produzidos pela contribuinte. Estas são, portanto, a prova e o motivo do ato administrativo, não podendo a interessada alegar que os desconhecia. Importante fixar que a DCOMP se presta a formalizar o encontro de contas entre o contribuinte e a Fazenda Pública, por iniciativa do primeiro, a quem cabe, portanto, a responsabilidade pelas informações sobre os créditos e os débitos, cabendo à autoridade tributária a sua necessária verificação e validação. Encontradas conforme, sobrevém a homologação confirmando a extinção. Não confirmadas as informações prestadas pelo declarante, o inverso se verifica. No caso, a contribuinte declarou um débito e apontou um documento de arrecadação como origem do crédito. Em se tratando de declaração eletrônica, a verificação dos dados informados pela contribuinte foi realizada também de forma eletrônica, tendo resultado no Despacho Decisório em discussão. O ato combatido aponta como causa da não homologação o fato de que, nos sistemas da Receita Federal, embora localizado o DARF do pagamento apontado na DCOMP como origem do crédito, o valor correspondente foi totalmente utilizado e alocado aos débitos informados em DCTF, não restando dele o saldo apontado na DCOMP como crédito. Assim, não padece de nulidade o despacho decisório proferido por autoridade competente, contra o qual o contribuinte pôde exercer o contraditório e a ampla defesa e onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal. O débito declarado e pago encontrase em conformidade com a correspondente DCTF, a qual tem seus efeitos determinados pelo § 1º do artigo 5º do Decreto lei nº 2.124, de 13 de junho de 1984, entre eles o da confissão da dívida e o condão de constituir o crédito tributário, dispensada qualquer outra providência por parte do Fisco. Quando da transmissão e da análise do PER/DCOMP em tela, o crédito efetivamente não existia, pois o pagamento efetuado estava integralmente alocado ao débito declarado pela própria contribuinte em sua DCTF. Assim sendo, na data da transmissão do PER/ DCOMP a interessada não era detentora de crédito líquido e certo, condição sem a qual não há direito à restituição ou compensação. E não tendo o interessado trazido elementos hábeis a desconstituir a confissão do débito que fez na DCTF, inexiste razão para se reconhecer o pleiteado direito creditório relativo a pagamento pretensamente maior do que o devido, referente ao período de apuração. Fl. 86DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201278 Acórdão n.º 3401004.682 S3C4T1 Fl. 6 5 O extrato abaixo é a DCTF retificadora ativa da contribuinte, referente ao tributo e período em análise. Repare que a contribuinte declara um débito de COFINS em junho de 2012 no valor de R$ 29.148,73 e vincula ao débito um pagamento de R$4.985,20. No quadro abaixo, podemos verificar que o referido pagamento vem de um DARF de R$5.083,90, composto de um valor principal (R$4.985,20) mais multa por atraso (R$98,70). Por sinal, esse foi o único DARF de Cofins pago em 2012 pela empresa, conforme demonstra o extrato abaixo. Fl. 87DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201278 Acórdão n.º 3401004.682 S3C4T1 Fl. 7 6 Impende salientar que, sobre esse alegado crédito de R$ 5.083,90, a contribuinte solicita a homologação de nada menos que 193 pedidos de compensação, todos do mesmo período (2º trimestre de 2012), com mesmo vencimento em 31/07/2012 que, somados, resultam em um valor de R$ 948.369,76, conforme relação abaixo dos processos de PER/DCOMP para o mesmo DARF. .... Agrava o fato de tentar utilizar mais de uma vez o mesmo crédito a prestação de informação falsa, pois no PER/DCOMP há um campo onde é perguntado se aquele crédito proveniente de pagamento indevido ou a maior já foi informado em outro PER/DCOMP, ao que o contribuinte respondeu “Não” em todos os PER/DCOMP, em infração ao inciso II do § 1º do art. 45 da IN/SRF 1.300, de 20 de novembro de 2012. Pelo exposto, voto por conhecer do recurso voluntário e no mérito por negarlhe provimento. Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado negou provimento ao recurso voluntário. (Assinado com certificado digital) Rosaldo Trevisan Fl. 88DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201278 Acórdão n.º 3401004.682 S3C4T1 Fl. 8 7 Fl. 89DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10680.721181/2013-86
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon May 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Aug 02 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3301-000.646
Decisão: Vistos relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, para que a unidade de origem verifique se foram computados no saldo a restituir, os valores pagos por DARF das competências de fevereiro/99, agosto e julho de 2001.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Semíramis de Oliveira Duro - Relatora
Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini e Semíramis de Oliveira Duro.
Nome do relator: SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, para que a unidade de origem verifique se foram computados no saldo a restituir, os valores pagos por DARF das competências de fevereiro/99, agosto e julho de 2001. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini e Semíramis de Oliveira Duro. Relatório Na origem, tratamse Declarações de Compensação com informação de crédito no valor de R$ 24.062.333,46 em 09/07/2010 (data da transmissão da primeira Dcomp) e PER Nº 02704.21538.080610.1.2.577463 relativos a crédito de PIS pagos ou depositados dos períodos de apuração 02/99 a 11/2002 oriundo de decisão judicial final proferida na Ação Rescisória nº 2005.01.00.0704442/MG: Tal valor está atualizado pela SELIC, após a dedução do percentual de levantamento de depósitos do PIS, conforme anistia da MP 66/2002, no valor de R$ 523.295,20, consolidado em out/2009. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 06 80 .7 21 18 1/ 20 13 -8 6 Fl. 535DF CARF MF Processo nº 10680.721181/201386 Resolução nº 3301000.646 S3C3T1 Fl. 536 2 Foi proferido despacho decisório nº 1.784 que consignou: Assunto: Programa de Integração Social(Pis) Ação Judicial Anocalendário: 1999, 2000, 2001 e 2002. Ementa: O contribuinte poderá utilizar crédito de tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal(SRF) reconhecido judicialmente, após o trânsito em julgado da ação respectiva, e desde que passível de restituição/compensação, com débitos de sua responsabilidade. Ementa: Somente a autoridade judicial pode dar a destinação legal aos valores depositados em juízo, inclusive reverter os valores indevidamente transformados em pagamento definitivo e colocálos à disposição do contribuinte. Base Legal: Lei nº 9.703/98, IN RFB nº 421/2004 e 900/2008. Declaração de Compensação Homologada em Parte Direito Creditório Reconhecido em Parte A fundamentação do referido despacho decisório pode ser assim sintetizada: O crédito informado no processo de habilitação perfaz o montante de R$ 23.407.532,02, o qual corresponde à soma dos valores dos créditos mensais do PIS (fevereiro/99 a novembro/2002) atualizados até o mês 10/2009, dele deduzida a parcela também atualizada pela taxa Selic (R$ 523.295,20) de parte dos depósitos devolvidos ao contribuinte (10.15%) naquilo que se referia à extensão da base de cálculo do PIS (contribuição incidente sobre as demais receitas, que não o faturamento). Conforme Informação nº 198/DRF/BHE de fls. 191/196 do processo 10680.016910/200226(fls. 31/36 deste processo), que também instrui o processo 10833.000048/200753, o contribuinte protocolou em 29/11/2002 requerimento de benefício previsto no art. 21 da MP nº 66/2002 e no art. 14 da MP nº 75, tendo, para tanto, desistido da ação judicial (1999.38.00.0094460) e solicitado a extinção do processo judicial e a conversão dos depósitos judiciais em renda da União. De acordo com o que ficou definido nos citados atos legais, os débitos do período 02/99 a 04/2002 foram atualizados pela TJLP e os valores depositados foram atualizados pela taxa Selic e transformados em pagamentos definitivos considerando a data de 29/11/2002. A parcela dos depósitos do PIS que superou os débitos foi levantada pelo Contribuinte (10,15%), sendo a parcela restante (89,85%) transformada em pagamento definitivo. No que tange à ação judicial, tratase de ação rescisória proposta por ACESITA S/A e outros com o objetivo de rescindir acórdão do Tribunal Regional Federal da Primeira Região, proferido na Apelação em Mandado de Segurança nº 1999.01.00.1183062/MG, que julgou improcedente o pedido da ora autora, ao entendimento de que inexiste inconstitucionalidade formal da Lei nº 9.718/98, seja porque as contribuições sociais nela previstas não ferem o art. 95, I, da Constituição Federal, seja porque as expressões receita bruta e faturamento, em matéria tributária, se equivalem. Fl. 536DF CARF MF Processo nº 10680.721181/201386 Resolução nº 3301000.646 S3C3T1 Fl. 537 3 Sustentam as autoras que não se aplica ao caso a Súmula nº 343/STF, por se tratar de matéria constitucional. No mérito, entendem que, com a posterior inconstitucionalidade declarada pelo STF em relação ao art. 3º, §1º, da Lei nº 9.718/98, por ter ampliado indevidamente a base de cálculo da exação, ao modificar o conceito de faturamento, não mais subsistem os fundamentos apontados na decisão que se busca rescindir, no tocante à parte que declarou inconstitucional o citado parágrafo. Em contestação, sustenta a Fazenda Nacional, preliminarmente, se incabível a ação rescisória, pois a matéria ora em discussão era controvertida à época em que fora proferida a decisão e a declaração de inconstitucionalidade, acolhida pelo STF, do §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, não se aplica ao caso concreto, pois não gera efeito erga omnes. No mérito requer a improcedência do pedido com a manutenção da decisão. No mérito, discutese a possibilidade de se rescindir a decisão, tendo o TRF1ª Região julgado procedente o pedido rescisório formulado pela autora para desconstituir o acórdão proferido na AMS nº 1999.01.00.1183062/MG, tendo negado provimento à Apelação da Fazenda Nacional e à remessa oficial, com o trânsito em julgado do acórdão ocorrido em 10/07/2009. No que tange ao crédito em si, concluise, de acordo com a decisão judicial, que é devido o PIS apenas em relação às receitas próprias das atividades da empresa, deduzidas as vendas canceladas, devoluções e descontos incondicionais. As bases de cálculo foram apuradas com base nas planilhas elaboradas pelo próprio contribuinte e constantes do processo 10680.000048/200753 (fls. 54/84). Quanto à compensação que envolve supostos créditos decorrentes de depósitos judiciais transformados em pagamento definitivo, cabem aqui as devidas considerações. Os depósitos judiciais constituem forma autônoma de suspensão da exigibilidade de débitos contestados judicialmente, caracterizandose como direito assegurado aos contribuintes. Eventuais destinações que se entendam equivocadas promovidas pelo Juízo aos depósitos judiciais não podem ter, como tratamento a título de correção, procedimento que afaste a competência do Juiz para a determinação dessa correção e os consequentes ajustes contábeis às contas públicas. Por outro lado, também se impõe observar que eventual destinação que se entenda equivocada não autoriza o entendimento de se tratar de indébito passível de restituição administrativa por parte da Receita Federal do Brasil. Desta forma, concluise, por todo o visto, que caso o contribuinte entenda ter sido dada destinação incorreta aos depósitos judiciais por ele feitos, caberá a ele recorrer ao juiz da causa e requerer seja dado ouvido a sua argumentação, cabendo eventuais correções, determinadas judicialmente, então, à Caixa Econômica Federal, de modo a proceder à entrega dos valores e efetuar os lançamentos contábeis exigidos. 1) Foram apurados dois grupos de créditos, sendo o primeiro aquele que diz respeito ao crédito consolidado passível de compensação, e o segundo relativo aos depósitos efetuados; 2) Na apuração do crédito propriamente dito (passível de compensação), foram considerados tão somente os débitos extintos mediante pagamento(DARF) e Compensação (com DARF código 8109 e sem DARF). Os valores da Cofins Fl. 537DF CARF MF Processo nº 10680.721181/201386 Resolução nº 3301000.646 S3C3T1 Fl. 538 4 informados como compensados com pagamentos de períodos anteriores (código 8109) foram deduzidos dos respectivos meses com deflação pela taxa Selic; 3) Ou seja, no crédito passível de compensação não foram considerados os valores depositados pelo contribuinte, ainda que convertidos em pagamentos definitivos, e que poderão ser pleiteados junto à justiça; 4) No que tange aos depósitos efetuados em 28/06/2002, mas que se referem a períodos de apuração anteriores (fevereiro, março e abril/99, julho, agosto, setembro e outubro/2001), o valor do principal foi considerado nos respectivos meses de referência e os juros foram computados na data de arrecadação (28/06/2002), para efeito de apuração do crédito pleiteável junto à justiça; 5) Na apuração dos créditos mensais (passíveis de compensação), não se levaram em conta os débitos extintos por compensação com depósitos judiciais efetuados a maior ou indevidamente em meses anteriores (compensação com DARF nos códigos 7650 e7498); 6) Na apuração dos créditos foram computados os débitos extintos por compensação com pagamentos a maior de períodos anteriores efetuados no código 8109(compensação com DARF). 7) Na apuração dos créditos não passíveis de compensação foram considerados tão somente os depósitos transformados em pagamentos definitivos. O contribuinte, por seu turno, tomou como créditos a diferença entre os valores mensais apurados em DCTF e extintos por qualquer das formas, inclusive aqueles que foram objeto de depósitos, e os valores dos débitos mensais apurados com base no faturamento(Lei Complementar 70/91), mas que não correspondem, em muitos meses do período, à diferença entre as receitas de vendas de mercadorias(excluídas as vendas para o mercado externo), as devoluções e descontos incondicionais e o IPI substituição tributária. Chama a atenção o mês de agosto de 2002 no qual não foi apurada base de cálculo para a Cofins e para o Pis em função do fato de que da receita de vendas total foram deduzidas as receitas de variação cambial (não incluídas nas receitas de vendas). O mesmo aconteceu para o PA 10/2002, para a qual o contribuinte apurou base de cálculo muito inferior à efetiva (R$33.030.536,89 contra 118.858.965,64). Além disso, para os períodos de apuração em que o contribuinte não apurou crédito (de acordo com a planilha constante do processo de habilitação, fls.4 deste processo), o sujeito passivo não informou o detalhamento das bases de cálculo mensais, conforme exigido na intimação. Como visto, a soma dos créditos originais passíveis de compensação importou em R$3.017.553,92 que, com a atualização pela taxa Selic, corresponde a R$ 6.185.704,26 em outubro/2009 e a R$ 6.375.810,17 em julho/2010, mês da transmissão da primeira dcomp com a utilização do crédito. Considerando que nos cálculos aqui efetuados não foram computados os valores totais dos depósitos, mas tão somente os valores transformados em pagamentos definitivos, não cabe a dedução, do crédito apurado acima, do débito apurado pelo contribuinte relativo ao percentual de levantamento dos depósitos do PIS no importe de R$ 523.295,20 em outubro/2009. Por outro lado, o crédito existente, mas não passível de compensação por decorrer de depósitos judiciais, é de R$3.793.131,56, mais os juros incidentes sobre os Fl. 538DF CARF MF Processo nº 10680.721181/201386 Resolução nº 3301000.646 S3C3T1 Fl. 539 5 depósitos efetuados em 28/06/2002, no total de R$ 1.054.673,51, totalizando, portanto, R$4.847.805,07 em valores originais. O Pedido de Restituição Eletrônico(PER) deve ser indeferido por não se tratar de ação de repetição de indébito, ficando a discussão acerca do crédito no âmbito das declarações de compensação transmitidas pelo contribuinte. O valor do crédito em 08/06/2010(data da transmissão do PER) é de R$.6.351.971,90, valor este calculado para efeito de informação no sistema Sief/PerDcomp (Registro do Resultado do Tratamento Manual). O Despacho Decisório indeferiu o pedido de restituição eletrônico (PER) nº 02704.21538.080610.1.2.577463 formulado pelo contribuinte, e reconheceu o direito de utilização do crédito de R$ 6.375.810,17 em julho/2010 e homologou parcialmente as compensações declaradas (até o limite desse crédito). Em manifestação de inconformidade, o contribuinte aduziu, em síntese: As empresas AcesitaS/A, Acesita Energética e Ascipar (antigas denominações de Aperam Inox America do Sul S.A, ArcelorMittal Bionergia Ltda. e Aperam Inox Serviços Brasil Ltda) impetraram Mandado de Segurança visando afastar a aplicabilidade da Lei nº 9.718/98 na parte em que alargou a base de cálculo da Cofins e do Pis e aumentou a alíquota da COFINS de 2% para 3%. O Tribunal deu provimento ao apelo da União e denegou a segurança concedida. As autoras interpuseram Recurso Extraordinário e posteriormente desistiram do recurso para poder aderir à anistia instituída pela Medida Provisória 66/2002. Como os valores devidos estavam sendo depositados em juízo, foi requerido a conversão dos valores referente ao período abrangido pela anistia, valendo tal conversão como efetivo pagamento, sendo que o saldo remanescente referente aos benefícios da anistia deveria ser levantado pelas impetrantes. Para apurar o valor a ser convertido em renda e o valor que seria levantado pelas empresas (tendo em vista os benefícios do parcelamento), foi apresentada petição, demonstrando os cálculos formulados pela empresa. Após intensa discussão quanto à certeza e atualização destes valores, em 14.12.2005, foi proferido despacho ordenando a conversão em renda nos percentuais indicados pela empresa e pela União em concordância. Importante registrar que neste momento, a conversão em renda foi feita com a anuência da União Federal que, em conjunto com as Impetrantes, conferiu os valores e base de cálculo informado em todas as declarações até então transmitidas e apurou o quanto seria devido a título de PIS e COFINS e deste montante descontou as benesses do parcelamento então aderido. O crédito utilizado nas compensações não é referente a qualquer erro de cálculo ou discordância das Impetrantes quanto aos percentuais convertidos em renda e sim, em virtude da rescisão do acórdão proferido pelo TRF. Em 2005 o STF decidiu a tese ali discutida e declarou a inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo das contribuições do PIS e da COFINS. Fl. 539DF CARF MF Processo nº 10680.721181/201386 Resolução nº 3301000.646 S3C3T1 Fl. 540 6 Diante disso, as requerentes ajuizaram ação rescisória distribuída sob o nº 2005.01.000704442. O pedido foi julgado procedente e o acórdão transitou em julgado em 10/07/2009. As empresas formalizaram os pedidos de habilitação de crédito com fundamento no art. 34, §3º, I, f, item 3 da IN 900/2008, que foi deferido. A primeira nulidade do despacho é o fundamento de não homologação pelo fato de que caberia CEF devolver os depósitos mediante ordem judicial. Tal argumento não tem amparo jurídico ou lógico, já que não há mais depósito judicial à disposição do juízo, uma vez que foram convertidos em renda da União. O despacho não apresentou qualquer fundamentação legal para o indeferimento da compensação e analisou situação diversa da que aqui se apresenta. A legislação citada apenas disciplina que somente por ordem judicial é possível conferir a destinação final dos depósitos judiciais, cabendo a CEF eventualmente proceder a devolução dos depósitos judiciais. Não se pretende a compensação de depósitos judiciais e sim depósito convertidos já transformados em pagamento definitivo da União. Nenhum dos dispositivos citados na decisão recorrida se aplica ao caso, o que já importa em nulidade material. Resta clara a completa ausência de motivação e de fundamentação legal para a não homologação do crédito compensado. Os valores depositados foram convertidos em renda e, com a decisão da ação rescisória, tornaramse indevidos. A União verificou que entre os créditos objeto de compensação havia pagamentos realizados por DARF, contudo, sob o fundamento de uma suporta reapuração da base de cálculo, não reconheceu integralmente os valores referentes ao PIS que haviam sido pagos a maior por meio de DARF, mas utilizou parcela deste crédito para quitar os novos valores apurados. Conforme se encontra demonstrado no Relatório Fiscal e planilhas foi feita uma nova apuração da base de cálculo de PIS e COFINS desconsiderando os valores apontados pela requerente e conforme esta nova apuração, a fiscalização foi discricionariamente alocando os créditos passíveis de compensação. A fiscalização efetuou ilegal imputação de pagamentos, ou seja, diminuiu o valor imputado pela Requerente ao pagamento dos débitos indicados na DCOMP alocandoo para pagamento de débitos manifestamente decaídos. Se a RFB entendia como devida a diferença de PIS e COFINS oriunda da reapuração da base de cálculo, deveria ter lançado este valor e não realizar uma imputação sobre um valor de crédito que já estava tomado por outro pedido de compensação. Nesta imputação não há o devido processo legal, contraditório, ampla defesa, Estado de direito. O pedido de compensação é um direito potestativo do contribuinte, cabe a ele dizer qual o crédito e qual o débito deseja quitar com a compensação. Não pode a Fl. 540DF CARF MF Processo nº 10680.721181/201386 Resolução nº 3301000.646 S3C3T1 Fl. 541 7 Receita Federal, sob pena de ferir o dispositivo acima, quitar parte de um débito que o contribuinte, em momento algum, desejou fazêlo, que sequer entende que é devido. A fiscalização somente poderia questionar os resultados apresentados nas declarações fiscais do contribuinte dentro do prazo de que dispõe para a constituição do crédito tributário. Na rescisória ao negar seguimento a apelação da Fazenda Nacional, prevaleceu a decisão da primeira instância que além de julgar inconstitucional o alargamento da base de cálculo do PIS e da COFINS e julgou inconstitucional a majoração da alíquota da COFINS. Ao reapurar a base de cálculo a fiscalização deve incluir o aumento da alíquota como indevido, posto que esta foi a decisão judicial que transitou em julgado. Após a apuração da contribuição devida, o fisco em algumas competências adiciona alguns valores nomeados de crédito comp. ou pagamentos utilizados. O Despacho não explica o porquê da adição destes valores. Em relação ao PIS isto ocorreu nas competências de maio/2001, junho/2001, novembro/2001, dezembro/2001, fevereiro/2002 e março/2002. Protesta por todos os meios de prova admitidos no Direito, em especial os documentos anexados, contudo, caso necessário, pugna pela juntada posterior de novos documentos, tudo com espeque no art. 16, §4°, do Decreto n° 70.235/72. A 16ª Turma da DRJ/RJ1, acórdão n° 1266.728, deu provimento parcial à manifestação de inconformidade para reconhecer um crédito de PIS no valor de R$ 5.727.169,37 (em valores originais), mais os juros correspondentes, no total de R$ 943.944,22, totalizando um crédito de R$ 6.671.113,59 e homologar as compensações declaradas até o limite do crédito reconhecido e indeferir o Pedido de Restituição. A decisão foi assim ementada: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração:01/02/1999 a 30/11/2002 PROVA. JUNTADA POSTERIOR. A prova documental deverá ser apresentada na manifestação de inconformidade, precluindo o direito de a interessada fazêlo em outro momento processual, a menos que a interessada demonstre, com fundamentos, a impossibilidade de apresentação por motivo de força maior; refirase a fato ou direito superveniente ou destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA Não padece de nulidade o despacho decisório, proferido por autoridade competente, contra o qual o contribuinte pode exercer Fl. 541DF CARF MF Processo nº 10680.721181/201386 Resolução nº 3301000.646 S3C3T1 Fl. 542 8 o contraditório e a ampla defesa, onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/02/1999 a 30/11/2002 COMPENSAÇÃO.VERIFICAÇÃO. CERTEZA E LIQUIDEZ. É dever da autoridade, ao analisar os valores informados em Dcomp para fins de decisão de homologação ou não da compensação, investigar a exatidão do crédito apurado pelo sujeito passivo. COMPENSAÇÃO. CONVERSÃO EM RENDA. PAGAMENTO INDEVIDO. A extinção do crédito tributário por conversão em renda de tributo depositado em valor indevido ou maior que o devido, gera, para o sujeito passivo, direito à restituição, podendo o indébito ser objeto de compensação, assim como dos acréscimos legais proporcionais nos termos dos arts. 165 e 167 do CTN. Em seu recurso voluntário a Recorrente sustenta dois pontos: 1 impossibilidade de reapuração da base de cálculo efetuada pela fiscalização e de alteração dos valores apontados pela empresa em sua DCTF e 2 necessidade de reconhecimento dos valores pagos ou convertidos em renda na composição do saldo a restituir. É o relatório. Voto Conselheira Semíramis de Oliveira Duro, Relatora O recurso voluntário é tempestivo e reúne os pressupostos legais de interposição, dele, portanto, tomo conhecimento. Do óbice à reapuração da base de cálculo Insurgese a Recorrente contra a nova apuração da base de cálculo de PIS pela fiscalização, desconsiderando os valores apontados em sua DCTF. No seu entendimento, não é possível permitir a reapuração da base de cálculo em valores superiores aos lançados em DCTF, que reduzam ou mesmo anulem os créditos utilizados. São seus argumentos: Fl. 542DF CARF MF Processo nº 10680.721181/201386 Resolução nº 3301000.646 S3C3T1 Fl. 543 9 Ao reduzir o crédito compensado por meio de reapuração da base de cálculo, alterando os valores a pagar das contribuições lançados em DCTF pelo contribuinte, a fiscalização também está lançando e cobrando tributo decaído. Todo o crédito utilizado pelo contribuinte foi feito com base nos valores lançados em sua DCTF, agora sob o pretexto de “apuração da certeza e liquidez do crédito pleiteado”, a fiscalização simplesmente altera os valores declarados pelo contribuinte em suas DCTF referentes as competências de 1999 a 2003 e automaticamente, ao reduzir o crédito a que tem direito o contribuinte quita estes novos valores lançados. Ou seja, o que aqui se afirma é o seguinte: para apurar a liquidez e certeza do crédito devese ter como limite os valores a pagar declarados pelo contribuinte em sua DCTF, todo o valor apurado além disto, deve ser cobrado mediante o lançamento de oficio: O pedido de compensação não é meio adequado para apurar e quitar os tributos neste caso. E conclui: Ante o exposto, como o Despacho Decisório foi emitido em 15.10.2013, está decaído o direito do Fisco em reapurar o tributo dos anos calendário de 1999 a 2002, cujos valores declarados devem ser mantidos, pois a decadência do direito do fisco em reapurar a base de cálculo do PIS e COFINS no presente caso operou em novembro/2007. Entendo que não há razão nesse argumento. Explico. Diferese a reescrita fiscal e constituição do crédito tributário pelo lançamento. A reescrita fiscal decorre da identificação de créditos ilegítimos utilizados pelo contribuinte na sua escrita fiscal ou erros na apuração da base de cálculo. Já a constituição do crédito tributário referese à exigibilidade do pagamento do saldo devedor do tributo, que não espontaneamente pago ou compensado (DCOMP) ou confessado (mediante DCTF). A constituição do crédito tributário pelo lançamento é que deve se dar no prazo de 5 anos. Dessa forma, se da reescrita fiscal resultar a apuração de saldos devedores, estes serão passíveis de exigência, mediante lançamento de ofício, se relativos aos últimos cinco anos, contados pela regra do art. 150, § 4º do CTN ou do art. 173, I, do CTN. O prazo decadencial para a constituição de crédito tributário foi tratado pelo STJ, no REsp nº 973.733/SC, julgado na sistemática dos recursos repetitivos, no qual se pacificou que a constituição do crédito tributário dos tributos sujeitos a pagamento lançamento por homologação regese pelo art.150, §4º, do CTN, quando ocorre pagamento antecipado, ainda que inferior ao efetivamente devido, sem que o contribuinte tenha incorrido em dolo, fraude ou simulação. Inexistindo pagamento ou ocorrendo dolo, fraude ou simulação, o prazo é o do art.173, I, do CTN, ou seu parágrafo único, se verificada a existência de medidas preparatórias indispensáveis ao lançamento. Fl. 543DF CARF MF Processo nº 10680.721181/201386 Resolução nº 3301000.646 S3C3T1 Fl. 544 10 Dessa forma, a decadência operase em relação ao crédito tributário decorrente da existência de saldo devedor e não em relação à reescrita fiscal. Ademais, para fazer jus à compensação pleiteada, o contribuinte deve comprovar a existência do crédito líquido e certo reclamado à Secretaria da Receita Federal do Brasil, sob pena de restar seu pedido indeferido. A decisão da DRJ, ao tratar desse assunto, foi é irretocável: A interessada alega que a administração não poderia apurar a base de cálculo da contribuição, já que a diferença apurada deveria ser objeto de lançamento de ofício e já transcorreu o prazo decadencial. Para apurar o alegado pagamento a maior é necessário calcular a diferença entre o devido e o recolhido. Para apuração do devido deve ser determinada a base de cálculo. Disciplinando a compensação como modalidade de extinção do crédito tributário, vem o CTN prescrever que a lei pode autorizar a compensação de créditos tributários, que já possuem naturalmente os atributos de liquidez e certeza, com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda Pública, in verbis: Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. (Vide Decreto nº 7.212, de 2010) É dever da autoridade, ao analisar os valores informados em Dcomp para fins de decisão de homologação ou não da compensação, investigar a exatidão do crédito apurado pelo sujeito passivo. Considerandose cabível e necessária a verificação da liquidez e certeza do crédito postulado por ocasião da análise de direito creditório em pedido de restituição ou em compensação declarada pelo contribuinte, é possível efetuar a apuração da base de cálculo, desde que essa alteração implique tão somente a redução ou mesmo a anulação do crédito postulado pelo sujeito passivo. Caso tal apuração implique em valor devido remanescente, é necessário o lançamento de ofício e no caso em questão o período a ser lançado já foi atingido pela decadência. Portanto, tem razão a interessada quando alega que os débitos foram alcançados pela decadência, contudo, somente decaiu o valor que não foi confessado, recolhido ou lançado e no caso em análise a alteração implicou apensas em redução ou anulação do crédito pleiteado, não houve lançamento ou cobrança do débito apurado. Quanto à utilização de saldos a restituir para compensar débitos apurados em períodos diversos, tal compensação não é permitida, já que conforme esclarecido no parágrafo acima a nova apuração da base de cálculo somente pode reduzir ou anular o crédito postulado pelo sujeito passivo, não sendo permitido que o débito apurado seja utilizado para reduzir o crédito a restituir apurado em outros períodos. Verificase que tal situação ocorreu nos meses de janeiro, julho e setembro de 2002. O crédito apurado nestes períodos foi reduzido para compensar débitos de períodos subsequentes. Na apuração realizada nos anos de 1999, 2000, 2001, embora não tenha sido reconhecido qualquer valor verificase que também houve compensação dos valores credores com saldos devedores de períodos de apuração diversos. Fl. 544DF CARF MF Processo nº 10680.721181/201386 Resolução nº 3301000.646 S3C3T1 Fl. 545 11 Nos casos dos débitos dos períodos subsequentes estes deveriam ser objeto de lançamento de ofício, o que não é possível em virtude do transcurso do prazo decadencial. O recalculo do valor a restituir será efetuado na parte final deste voto. Incabível também a alegação de que a reapuração da base de cálculo feriria os princípios do devido processo legal, contraditório, ampla defesa e Estado de direito, já que a interessada pode se defender da nova apuração, inclusive dos valores apurados. A reapuração da base de cálculo é a apuração da certeza e liquidez do crédito pleiteado, sendo possível a interessada contestála mediante apresentação de manifestação de inconformidade. Como se trata de Declaração de Compensação, invertese o ônus da prova, cabendo ao contribuinte comprovar seu direito líquido e certo. Dentro do prazo para homologação determinado no art. 74, § 5º, da Lei nº 9.430, de 1996, não há que se falar em decadência do direito de se aferir o pleito de compensação, que exige o cumprimento dos requisitos de liquidez e certeza do crédito informado. Para tal procedimento não há restrição temporal ao poder de investigação do Fisco, até mesmo porque a iniciativa de suscitar o direito creditório é sempre do contribuinte, ao declarar a compensação promovida. Não se pode concluir que a autoridade fiscal deva aprovar a apuração do contribuinte demonstrada nas declarações apresentadas, e decidir pela homologação da compensação, sem a verificação prévia da liquidez e certeza do indébito tributário que lhe dá suporte. Ou seja: o direito creditório pleiteado pelo contribuinte deve ser declarado líquido e certo pela autoridade administrativa e, para tanto, ela pode e deve investigar a origem do alegado. Necessidade de reconhecimento dos valores pagos ou convertidos em renda na composição do saldo a restituir – Necessária verificação em sede de diligência fiscal Afirma a empresa que não foram computados no saldo a restituir, valores pagos por DARF e outros objeto de depósito judicial convertido em renda. E que isto aconteceu para as competências de fevereiro/99, agosto e julho de 2001. Para tanto, anexa os comprovantes nas efls. 521 e seguintes. Diante disso, entendo como necessária a verificação da liquidez e certeza desses pagamentos, bem como se os mesmos não foram de fato computados. Isso porque, se confirmados, eles devem ser computados nos cálculos finais de liquidação. Logo, o julgamento deve ser convertido em diligência, para averiguação pela unidade de origem. Conclusão Por isso, voto por converter o julgamento em diligência, para que a unidade de origem verifique se foram computados no saldo a restituir, os valores pagos por DARF das competências de fevereiro/99, agosto e julho de 2001. Fl. 545DF CARF MF Processo nº 10680.721181/201386 Resolução nº 3301000.646 S3C3T1 Fl. 546 12 Em seguida, dêse vista ao contribuinte, para manifestação sobre o resultado da diligência. Por fim, que sejam os autos devolvidos ao CARF, para prosseguimento do julgamento. (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Fl. 546DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.905747/2008-89
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jul 20 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/11/2003 a 30/11/2003
Ementa:
COMPENSAÇÃO. CRÉDITO DE PIS. PROVA DE PARTE DO CRÉDITO EM SEDE DE DILIGÊNCIA FISCAL. ADMISSIBILIDADE.
Em sede de diligência fiscal restou apurado que parte do crédito vindicado pelo contribuinte é legítima, o que deve redundar no seu reconhecimento por este Tribunal.
Numero da decisão: 3402-005.367
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário no limite do crédito reconhecido na diligência fiscal realizada nos autos.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Diego Diniz Ribeiro - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodrigo Mineiro Fernandes e Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado).
Nome do relator: DIEGO DINIZ RIBEIRO
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/11/2003 a 30/11/2003 Ementa: COMPENSAÇÃO. CRÉDITO DE PIS. PROVA DE PARTE DO CRÉDITO EM SEDE DE DILIGÊNCIA FISCAL. ADMISSIBILIDADE. Em sede de diligência fiscal restou apurado que parte do crédito vindicado pelo contribuinte é legítima, o que deve redundar no seu reconhecimento por este Tribunal.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário no limite do crédito reconhecido na diligência fiscal realizada nos autos. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra - Presidente. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro - Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodrigo Mineiro Fernandes e Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado).
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Recorrida Fazenda Nacional ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/11/2003 a 30/11/2003 Ementa: COMPENSAÇÃO. CRÉDITO DE PIS. PROVA DE PARTE DO CRÉDITO EM SEDE DE DILIGÊNCIA FISCAL. ADMISSIBILIDADE. Em sede de diligência fiscal restou apurado que parte do crédito vindicado pelo contribuinte é legítima, o que deve redundar no seu reconhecimento por este Tribunal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário no limite do crédito reconhecido na diligência fiscal realizada nos autos. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodrigo Mineiro Fernandes e Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 90 57 47 /2 00 8- 89 Fl. 487DF CARF MF 2 1. Por bem retratar os fatos aqui analisados emprego como meu o Relatório desenvolvido por este Tribunal administrativo quando da resolução n. 3402000449 (fls. 154/156), da lavra do Conselheiro Gilson Macedo Rosenburg Filho, o qual adoto como meu nos termos abaixo: Tratase de processo de restituição/compensação em que o contribuinte teve seu pedido de indébito negado por despacho decisório eletrônico, sob o fundamento de que o crédito financeiro alegado como pagamento indevido foi integralmente utilizado para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Na manifestação de inconformidade, o recorrente alega que a origem de seus créditos tem amparo na Lei 10.485/2002, por se tratar de produtos monofásicos que teriam sido incluídos indevidamente nas bases de cálculo do PIS e da Cofins. A DRJ em Curitiba julgou improcedente a manifestação de inconformidade sob o fundamento de que as alegações trazidas pela interessada constituem fatos que não foram apreciados pela autoridade originalmente competente, posto que resultam de retificação de DCTF feita somente após a ciência do despacho decisório, além de não ter sido trazida aos autos a comprovação da existência do direito creditório alegado de forma genérica na manifestação de inconformidade. Irresignado com a decisão da primeira instância administrativa, o recorrente interpõe recurso voluntário ao CARF, repisando os argumentos apresentados anteriormente na manifestação de inconformidade, ressaltando que os fundamentos jurídicos que sustentam seu pleito derivam de sua atividade societária, comerciante de autopeças, cuja Lei nº 10.485/2002 reduziu a zero a alíquota a ser aplicada na receita bruta auferida na venda destes produtos. O Recurso Voluntário foi analisado e foi proposta uma resolução para fins de identificar o objeto da sociedade, o valor da receita auferida com a comercialização de produtos relacionados nos anexos I e II da Lei nº 10.485/2002, o valor da base de cálculo tributável e o valor dos recolhimentos efetuados pelo recorrente. O processo retornou da origem acompanhado por várias planilhas, além do contrato social. A Delegacia da Receita Federal do Brasil em Curitiba não produziu o termo final de diligência analisando os dados constantes nos documentos acostados aos autos pelo recorrente. (...). 2. Diante deste quadro, o processo foi novamente baixado em diligência por intermédio da resolução acima mencionada, determinado que a unidade preparadora formulasse relatório fiscal com base nos documentos fiscais apresentados pelo contribuinte e, nesse sentido, indicasse a existência ou não de crédito a ser compensado. Fl. 488DF CARF MF Processo nº 10980.905747/200889 Acórdão n.º 3402005.367 S3C4T2 Fl. 488 3 3. Referida diligência foi cumprida, gerando o relatório fiscal, a respeito do qual o contribuinte apresentou manifestação. 4. É o relatório. Voto Conselheiro Relator Diego Diniz Ribeiro 5. O recurso sub judice preenche os pressupostos formais de admissibilidade, motivo pelo qual passo ao seu conhecimento. I. Do crédito compensado 6. Em suma, o contribuinte apresentou pedido de compensação (DCOMP) alegando que recolheu valores que não eram devidos a título de PIS, ao fundamento que na operação perpetrada haveria incidência monofásica da tributação, nos termos da lei n. 10.485/02. 7. Em sede de diligência fiscal, assim apurou a unidade preparadora: (...). 6. A planilha elaborada por esta fiscalização levou em conta que: 6.1 – A tabela apresentada pelo contribuinte relacionando os produtos que vende, e respectiva classificação TIPI, não abrange todos os produtos que vende, conforme acima já se referiu e exemplificou. 6.2 Há produtos listados pelo contribuinte com cuja classificação TIPI não se concorda, mas que, ainda assim, se enquadram em classificação da TIPI cujo código também se encontra entre os que são beneficiados com a alíquota zero. Outros (pneus e câmaras de ar) que, não relacionados nos Anexos I e II da Lei n° 10.485/2002, ainda assim fazem jus à alíquota zero do PIS, conforme previsto no parágrafo único, art. 5°, daquela mesma Lei. 6.3 Levouse em conta, também, que o contribuinte, tal como consta na trigésima alteração de seu Contrato Social (fls. 134 a 138), Cláusula Terceira, tem por objeto social a exploração do ramo de comércio de peças e acessórios, serviços de manutenção e reparação mecânica de veículos auto motores, locação de automóveis sem condutor (49.3.02/0100), transporte de pessoal e pequenos volumes, e estacionamento para veículos e congêneres. 6.3.1 Ou seja, usando de bomsenso, considerouse que, se o contribuinte faturou uma mercadoria com o nome “borracha”, e esta designação, pura e simples, seja insuficiente para saber do que exatamente se trata, que, ainda assim, deve tratarse de Fl. 489DF CARF MF 4 produto para aplicação em um carro, ou seja, que não se trata de “borracha escolar”, por exemplo, embora também a possa vender. 6.4 O fato de se ter chegado à conclusão que determinado produto não se enquadra entre os listados nos Anexos I e II da Lei n° 10.485/2002, a isso se limita. Não se considerou necessário determinar em que código da TIPI tal produto se enquadra. A decisão se deu por exclusão – se o produto não se enquadra entre os previstos nos referidos Anexos, não é relevante determinar em qual se enquadra. Cabe ao contribuinte, isso sim, em não concordando com tal conclusão, indicar em que código da TIPI, previsto naqueles Anexos I e II, se enquadraria o produto, fazendo sua exata descrição, não se admitindo descrição como, por exemplo, sikaflex (NF n° 10349 – Proc. 10 980.905727/200816), que outra coisa não é que não uma marca de produto, embora por ele se presuma tratarse de produto da linha “selantes e correlatos”, que não é peça para automóvel, e, portanto, também não faz jus à alíquota zero do PIS. 6.5 A planilha abrange todas, e tão somente, as notas fiscais em face das quais o contribuinte identificou produtos contemplados com a alíquota zero, por ele demonstradas na relação, de fls. 140 a 147. Não se faz qualquer observação em relação àquelas sobre as quais não se observou divergência de entendimento quanto ao valor beneficiado pela alíquota zero ou não, só o fazendo em relação àquelas cujo valor não beneficiado com a alíquota zero fosse maior que o encontrado pelo contribuinte, neste caso referindo, na coluna “produtos não beneficiados c/ alíq. 0”, o nome dos produtos cuja classificação TIPI não corresponde a nenhuma daquelas constantes nos Anexos I e II da Lei 10.485/2002, para que o contribuinte, querendo, possa refutar o entendimento desta fiscalização, porém, identificando o produto com a correta nomenclatura, o código TIPI em que o considera enquadrado, bem como a defesa/esclarecimento de assim considerar, tal como já alertado no subitem precedente. 7. Dado o acima exposto, confirmase que o crédito utilizado na compensação em causa neste processo está restrito ao valor de R$ 5.000,15 (item 5 e seus subitens, acima). (...) (grifos nosso). 8. Referida diligência foi conclusiva no sentido de que, diante da análise perpetrada pela unidade preparadora, o contribuinte possuía algum crédito de PIS em razão de um indevido pagamento em operações ora sujeitas à monofasia ora subordinadas à alíquota zero, o que redundou em parte do crédito utilizado na presente compensação e glosado pela fiscalização. 9. Logo, há que se reconhecer como válido parte do crédito tomado pelo contribuinte, nos exatos termos em que constatado no sobredito relatório fiscal. Dispositivo Fl. 490DF CARF MF Processo nº 10980.905747/200889 Acórdão n.º 3402005.367 S3C4T2 Fl. 489 5 10. Diante do exposto, dou provimento ao Recurso Voluntário, de modo a reconhecer o crédito pleiteado pelo contribuinte no montante de R$ 5.000,15, nos exatos termos do relatório fiscal produzido pela unidade preparadora. 11. É como voto. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro Fl. 491DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13558.000722/2003-61
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jul 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 1998
LANÇAMENTO FISCAL. DÉBITO INFORMADO EM DCTF.
Constatado que a exigência fiscal decorre de falta de recolhimento dos valores declarados em DCTF, não tendo o contribuinte apresentado elementos que afastem o direito do Fisco de constituir o crédito tributário, há de se manter o lançamento.
Numero da decisão: 2201-004.607
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Dione Jesabel Wasilewski, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Douglas Kakazu Kushiyama, Daniel Melo Mendes Bezerra, Marcelo Milton da Silva Risso e Carlos Alberto do Amaral Azeredo.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO DO AMARAL AZEREDO
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 1998 LANÇAMENTO FISCAL. DÉBITO INFORMADO EM DCTF. Constatado que a exigência fiscal decorre de falta de recolhimento dos valores declarados em DCTF, não tendo o contribuinte apresentado elementos que afastem o direito do Fisco de constituir o crédito tributário, há de se manter o lançamento.
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DÉBITO INFORMADO EM DCTF. Constatado que a exigência fiscal decorre de falta de recolhimento dos valores declarados em DCTF, não tendo o contribuinte apresentado elementos que afastem o direito do Fisco de constituir o crédito tributário, há de se manter o lançamento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carlos Alberto do Amaral Azeredo Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Dione Jesabel Wasilewski, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Douglas Kakazu Kushiyama, Daniel Melo Mendes Bezerra, Marcelo Milton da Silva Risso e Carlos Alberto do Amaral Azeredo. Relatório Trata o presente do Auto de Infração nº 0000415, fl. 179 a 195, oriundo de Auditoria Interna em Declaração de Contribuições e Tributos Federais DCTF, apresentadas em 12/08/1998 e 21/01/1999, correspondentes aos segundo e quarto trimestre de 1998. Os créditos tributários lançados são relativos a Imposto de Renda Retido na Fonte e seus acréscimos legais, inclusive penalidade isolada por falta ou insuficiência de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 55 8. 00 07 22 /2 00 3- 61 Fl. 400DF CARF MF Processo nº 13558.000722/200361 Acórdão n.º 2201004.607 S2C2T1 Fl. 401 2 recolhimento de multa e/ou juros de mora, alcançando um montante consolidado, na data do lançamento, de R$ 1.067.088,57. Cientificado da autuação em 29 de julho de 2003, conforme AR de fl. 200, não concordando com seus termos, o contribuinte apresentou, em 25 de agosto de 2003, a impugnação de fl. 02 e 04, em que requer o cancelamento total da exigência, basicamente afirmando que os valores cobrados teriam sido recolhidos em tempo hábil, não havendo insuficiência de recolhimento de multa e juros a justificar a aplicação de multa isolada. Para corroborar seus argumentos, apresenta uma série de planilhas e comprovantes de recolhimentos. Encaminhado à Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador/BA, fl. 209, o processo retornou à unidade de origem para tratamento nos termos da Nota Técnica Conjunta Corat/Cosit nº 32/2002, em particular para avaliação prévia, em sede de revisão de ofício, dos documentos apresentados pelo contribuinte, fl. 210, o que foi levado a termo pelo Despacho de Revisão de Lançamento de fl. 276, que concluiu pela revisão do valor lançado nos seguintes termos: Debruçada sobre os termos da Impugnação, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador/BA consideroua parcialmente procedente, nos termos do Acórdão de fl. 286 a 289, cujas conclusões podem ser assim resumidas: Diante do exposto, aplicandose o art. 106, inciso II, alínea "c", do CTN, exonero o crédito tributário relativo à multa isolada incidente sobre os tributos recolhidos em atraso sem o pagamento da multa de mora. Quanto às demais infrações, a impugnação se restringiu à apresentação dos DARF, as 03/174, não tendo sido apresentada qualquer prova ou alegação de que os fatos geradores ocorreram em períodos de apurações diferentes dos declarados nas DCTF. Desta forma, considerando que os referidos DARF foram aproveitados na revisão de oficio, às fls.244/252, mantenho os saldos remanescentes do imposto, acompanhado da multa de oficio no percentual de 75% (setenta e cinco por cento) e dos juros de mora, a multa de mora isolada, e os juros de mora isolados. Cientificado do Acórdão da DRJ em 25 de fevereiro de 2008, conforme AR de fl. 302, ainda inconformado, o contribuinte apresentou, tempestivamente, o recurso voluntário de fl. 304/306, em que apresenta as razões que amparam seu pleito de improcedência da exigência fiscal. Fl. 401DF CARF MF Processo nº 13558.000722/200361 Acórdão n.º 2201004.607 S2C2T1 Fl. 402 3 Submetido ao Colegiado de 2ª Instância, esta 1ª Turma Ordinária exarou o Acórdão de fl. 357 a 362, cuja parte dispositiva restou assim expressa: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, dar parcial provimento ao recurso para afastar a exigência em relação ao imposto lançado em DCTF e à multa vinculada, sem prejuízo da posterior cobrança dos valores informados na DCTF, com os acréscimos legais devidos; e manter a exigência da multa isolada e dos juros isolados, nos valores, respectivamente, de R$ 10.864,81 e R$ 1.313,07. Cientificada da Decisão citada no parágrafo precedente, a Procuradoria da Fazenda Nacional formulou o Recurso Especial de fl. 365 a 372, por entender que a manutenção do lançamento é medida que se impõe, não somente porque satisfaz a legislação vigente, como também inibe potencial prejuízo fiscal em relação ao erário. O citado Recurso Especial foi admitido, nos termos do Despacho de fl. 374 a 378, e julgado pela Câmara Superior de Recursos Fiscais, que exarou o Acórdão de fl. 384 a 393, cujo dispositivo é o que se segue: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, para afastar a nulidade do lançamento, devendo os autos retornarem ao colegiado a quo, para apreciação das demais questões do Recurso Voluntário. Vencido o Conselheiro Manoel Coelho Arruda Junior (Relator), que votou por negar provimento ao recurso. Designado o Conselheiro Gustavo Lian Haddad para redação do voto vencedor. É o relatório necessário. Voto Conselheiro Carlos Alberto do Amaral Azeredo Relator Por ser tempestivo e por preencher as demais condições de admissibilidade, conheço do Recurso Voluntário. De início, relevante ressaltar que, tendo em vista o entendimento majoritário manifestado reiteradamente nesta Turma, que avalia com severa restrição a possibilidade de alterar entendimentos expressos por Colegiado formalmente instituído e soberano no âmbito ordinário de 2ª Instância, é indispensável que haja clara limitação dos temas ainda possíveis de serem analisados pelo presente voto. Para tanto, mister reeditar sinteticamente as alegações recursais, bem assim alguns excertos da primeira decisão desta Turma Ordinária, em particular naquilo que não foi objeto do Recurso Especial. São os argumentos da defesa: Fl. 402DF CARF MF Processo nº 13558.000722/200361 Acórdão n.º 2201004.607 S2C2T1 Fl. 403 4 o lançamento de IRRF no valor de R$ 24.337,12 não ocorreu, consoante DCTF dos 2º, 3º e 4º Trimestre de 1998; não houve a constituição do crédito tributário em tela, do que resulta descabida a exigência da comprovação de seu recolhimento; que a planilha que fundamenta o Acórdão recorrido encontrase maculada por incorreções, notadamente no que diz respeito aos períodos de apuração do IRRF e seus respectivos vencimentos; que os dados constantes do Demonstrativo de Débito, em que pese terem sido tratados como saldos remanescentes, em nenhum momento foram mencionados no Auto de Infração, de modo que sua origem é totalmente desconhecida pela recorrente, inclusive porque não declarada em DCTF dos períodos equivalentes; que não havendo saldo remanescente de IRRF, não há que se falar em acréscimos legais; que a inexistência de dados claros e precisos acerca do débito acaba cerceamento seu direito de defesa; que não sendo julgada a insubsistência do lançamento, que seja instaurada perícia contábil para comprovar a origem do crédito em cobrança. O Voto condutor do Acórdão de fl. 357 a 362 pode ser sintetizados pelos excertos abaixo: Assim, em conclusão, penso que deve ser cancelada a exigência formalizada por meio do Auto de Infração, preservandose a DCTF como instrumento hábil e suficiente à formalização da exigência e eventual inscrição do débito em Dívida Ativa da União. Observase, entretanto, que, além do imposto declarado e supostamente não pago, exigido com multa de ofício regulamentar, foi exigido multa de mora e juros de mora, isoladamente, pelo pagamento com atraso, sem os acréscimos. Com relação a estes itens, está correto o lançamento. O art. 43 da Lei nº 9.430, de 1996 expressamente autoriza a formalização da exigência de multa e de juros, isoladamente, sem tributo. E no caso de pagamento com atraso, sem acréscimos legais, é devida a exigência desses encargos, conforme explicitado nos fundamentos da autuação. E como o Contribuinte não logrou comprovar o recolhimento tempestivos, até porque os relatórios da revisão de ofício às fls. 245/252 demonstram detalhadamente as datas dos vencimentos e os respectivos pagamentos, restando caracterizados os pagamentos com atraso. (...) Ante o exposto, encaminho meu voto no sentido de dar parcial provimento ao recurso para afastar a exigência em relação ao imposto lançado em DCTF e à multa vinculada, sem prejuízo da posterior cobrança dos valores informados na DCTF, com os Fl. 403DF CARF MF Processo nº 13558.000722/200361 Acórdão n.º 2201004.607 S2C2T1 Fl. 404 5 acréscimos legais devidos; e manter a exigência da multa de mora isolada e dos juros isolados, nos valores, respectivamente, de R$ 10.864,81 e R$ 1.313,07. Portanto, afastada pela Câmara Superior de Recursos Fiscais as conclusões quanto ao cancelamento da exigência por meio de Auto de Infração de valores declarados em DCTF, restam inalteradas as conclusões da Câmara baixa sobre a procedência do lançamento de multa e juros de mora exigidos isoladamente. Com isso, a presente análise fica restrita às alegações recursais que não tangenciem as matérias já decididas. Em relação à alegação de cerceamento do direito de defesa em razão da inexistência de dados claros e precisos acerca do débito, a análise do Auto de Infração e seus anexos, contido em fl. 179 e seguintes, não deixa a menor dúvida quanto à suficiência e clareza das informações para que o contribuinte promovesse sua defesa, o que, ressaltese, foi feito com significativo resultado, reduzindose o montante principal do tributo lançado para pouco mais de 6% do valor originalmente exigido. Assim, não identifico a mácula apontada pela defesa, o que impõe sua rejeição. Sobre o alegado desconhecimento do contribuinte do valor lançado de IRRF de R$ 24.337,12, não tem razão a defesa, já que este representa o somatório dos saldos remanescentes apurados após o procedimento que considerou os recolhimentos efetuados pelo contribuinte. Em fl. 283, constam expressamente os saldos remanescentes principais, relativos ao código de receita 2932, de R$ 543,42, R$ 3.268,05, R$ 20.440,15 e R$ 85,50, todos com indicação das respectivas datas de vencimento. Portanto, é do somatório de tais parcelas que deriva o valor alegadamente desconhecido pelo contribuinte. Quanto à efetiva constituição do crédito tributário em tela, como já descrito acima, é tema que foi tratado pela Câmara Superior que concluiu pela sua regularidade, não comportando considerações adicionais. Eventuais erros em planilha alegados pela defesa deveriam ser, por ela, pontualmente indicados, já que é seu o ônus de apontar elementos modificativos, impeditivos ou extintivos do direito exercido pelo Fisco de constituição do crédito tributário. Ademais, os sistemas da RFB estão ajustados para as datas de vencimento de cada período de apuração, de acordo com a agenda tributária mensal, o que torna improvável a ocorrência de erros dessa natureza, sendo bastante comuns erros cometidos pelos próprios contribuintes ao declararem seus débitos. Somase a tudo isso, o fato de que os recolhimentos apresentados pelo contribuinte foram todos acatados, não tendo sido apontado pela recorrente um único valor que, comprovado, não tenha sido utilizado para extinguir o montante declarado. Assim, nego provimento ao recurso voluntário. Por fim, o recorrente requer que seja instaurada perícia contábil para comprovar a origem do crédito em cobrança. Ora, a origem é o valor declarado pelo Fl. 404DF CARF MF Processo nº 13558.000722/200361 Acórdão n.º 2201004.607 S2C2T1 Fl. 405 6 contribuinte em sua DCTF. A título meramente exemplificativo, na análise da planilha de fl. 283, notase que o maior saldo remanescente lançado, que é de R$ 20.440,15, corresponde a uma parcela do débito de R$ 212.357,58, exatamente conforme declarado pelo contribuinte em sua DCTF, fl. 338, cuja cópia foi juntada em anexo ao recurso voluntário. Assim, considerando tal providência desnecessária, indefiro o pedido de perícia nos termos do art. 18 do Decreto 70.235/72. Conclusão Por tudo que consta nos autos, bem assim nas razões e fundamentos legais que integram o presente, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carlos Alberto do Amaral Azeredo Fl. 405DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.720190/2015-54
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 13 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Aug 20 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009, 2010, 2011, 2012, 2013
NULIDADE. DECISÃO DA DRJ QUE INOVA NA FUNDAMENTAÇÃO. SUPERAÇÃO.
É nula a decisão da DRJ que mantém a autuação com base em fundamento que não constou do auto de infração, por operar em cerceamento do direito de defesa da contribuinte. Todavia, tal nulidade pode ser superada nos termos do §3o do artigo 59 do Decreto 70.235/1972, o qual prevê que "quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta".
ÁGIO. REQUISITOS LEGAIS. EMPRESA VEÍCULO. NECESSÁRIA INVESTIGAÇÃO SOBRE A EFETIVA EXISTÊNCIA DA ADQUIRENTE.
A acusação de empresa-veículo depende de prova de que as pessoas jurídicas existiriam apenas no papel, ou seja, de que elas efetivamente nunca atuaram como pessoas jurídicas, sujeitos de deveres e obrigações. Mesmo uma holding pura requer um mínimo de elementos materiais que a caracterizem como sociedade empresária, para além de um registro na Junta Comercial e um número no CNPJ. Não subsiste a acusação de que se tratou de empresa-veículo quando a autoridade fiscal sequer investiga tais elementos, partindo da premissa de que se tratou de empresas veículo exclusivamente em razão da sequência de operações realizadas.
AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. DETERMINAÇÃO.
Na aquisição de investimento em empresa com passivo a descoberto, o ágio limita-se ao valor pago pela investidora.
MULTA DE OFÍCIO. DESPROPORÇÃO.
Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
JUROS SOBRE MULTAS.
É legítima a incidência de juros de mora sobre multas fiscais, as quais integram o crédito tributário.
Numero da decisão: 1401-002.685
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, superar as arguições de nulidade. Por voto de qualidade, negar provimento ao recurso quanto à glosa com despesas de ágio decorrentes de erro de cálculo. Vencidos os Conselheiros Livia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga. Por maioria de votos, i) dar provimento ao recurso no tocante à glosa de despesas com ágio incorrido na aquisição das empresas ditas "veículo" pela Fiscalização. Vencido o Conselheiro Cláudio de Andrade Camerano; ii) negar provimento ao recurso no que diz respeito à incidência de juros sobre a multa de ofício. Vencida a Conselheira Letícia Domingos Costa Braga. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Cláudio de Andrade Camerano.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente
(assinado digitalmente)
Livia De Carli Germano - Relatora
(assinado digitalmente)
Cláudio de Andrade Camerano - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Livia De Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga e Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente).
Nome do relator: LIVIA DE CARLI GERMANO
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PL NEGATIVO.EMPRESA VEÍCULO Recorrente ZATIX TECNOLOGIA S/A Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010, 2011, 2012, 2013 NULIDADE. DECISÃO DA DRJ QUE INOVA NA FUNDAMENTAÇÃO. SUPERAÇÃO. É nula a decisão da DRJ que mantém a autuação com base em fundamento que não constou do auto de infração, por operar em cerceamento do direito de defesa da contribuinte. Todavia, tal nulidade pode ser superada nos termos do §3o do artigo 59 do Decreto 70.235/1972, o qual prevê que "quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta". ÁGIO. REQUISITOS LEGAIS. EMPRESA VEÍCULO. NECESSÁRIA INVESTIGAÇÃO SOBRE A EFETIVA EXISTÊNCIA DA ADQUIRENTE. A acusação de empresaveículo depende de prova de que as pessoas jurídicas existiriam apenas no papel, ou seja, de que elas efetivamente nunca atuaram como pessoas jurídicas, sujeitos de deveres e obrigações. Mesmo uma holding pura requer um mínimo de elementos materiais que a caracterizem como sociedade empresária, para além de um registro na Junta Comercial e um número no CNPJ. Não subsiste a acusação de que se tratou de empresa veículo quando a autoridade fiscal sequer investiga tais elementos, partindo da premissa de que se tratou de empresas veículo exclusivamente em razão da sequência de operações realizadas. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. DETERMINAÇÃO. Na aquisição de investimento em empresa com passivo a descoberto, o ágio limitase ao valor pago pela investidora. MULTA DE OFÍCIO. DESPROPORÇÃO. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 01 90 /2 01 5- 54 Fl. 6626DF CARF MF 2 JUROS SOBRE MULTAS. É legítima a incidência de juros de mora sobre multas fiscais, as quais integram o crédito tributário. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, superar as arguições de nulidade. Por voto de qualidade, negar provimento ao recurso quanto à glosa com despesas de ágio decorrentes de erro de cálculo. Vencidos os Conselheiros Livia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga. Por maioria de votos, i) dar provimento ao recurso no tocante à glosa de despesas com ágio incorrido na aquisição das empresas ditas "veículo" pela Fiscalização. Vencido o Conselheiro Cláudio de Andrade Camerano; ii) negar provimento ao recurso no que diz respeito à incidência de juros sobre a multa de ofício. Vencida a Conselheira Letícia Domingos Costa Braga. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Cláudio de Andrade Camerano. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente (assinado digitalmente) Livia De Carli Germano Relatora (assinado digitalmente) Cláudio de Andrade Camerano Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Livia De Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga e Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente). Relatório Tratase de autos de infração para a cobrança de IRPJ e CSLL referentes aos anoscalendário de 2009 (último trimestre), 2010, 2011, 2012 e 2013, em razão de glosas de despesas não comprovadas e de amortizações de ágio consideradas indedutíveis, tendo havido qualificação da multa com relação a estas últimas. As sociedades envolvidas e respectivas denominações que foram utilizadas na narrativa do acórdão recorrido são apresentadas conforme quadro resumo abaixo: Fl. 6627DF CARF MF Processo nº 16561.720190/201554 Acórdão n.º 1401002.685 S1C4T1 Fl. 6.627 3 Conforme observou a decisão recorrida, o Termo de Verificação Fiscal aponta a síntese das operações que geraram os ágios, por empresa envolvida: Quanto à TELEMATICS: ∙ Constituição da pessoa jurídica TAZZARINE ADMINISTRAÇÃO DE BENS LTDA, de Capital Social de R$ 500,00, dividido em 500 cotas de R$ 1,00 cada, em 31/07/2007, cuja razão social foi alterada posteriormente para TELEMATICS INVESTIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA; ∙ Cessão e transferência da totalidade das cotas dos sócios Welson Nelson da Costa e Douglas Antônio da Silva Pereira para Luiz Otávio do Reis Magalhães e CISR (empresaveículo utilizada pelo grupo FIP Pátria) em 26/09/2007, com alteração nessa mesma data da denominação para TELEMATICS PARTICIPAÇÕES E INVESTIMENTOS LTDA, do endereço da sede para Avenida Brigadeiro Faria Lima nº 2.055, 6º andar, sala J, do objeto social que passou a ser a participação em sociedades, na qualidade de sócia ou acionista, no Brasil ou no Exterior e aumento do capital social de R$ 500,00 para R$ 1.000,00, sendo que as novas cotas foram todas subscritas e integralizadas em moeda pela CISR; ∙ Aumento de capital social de R$ 1.000,00 para R$ 4.070.000,00, mediante a subscrição de 4.069.000 cotas pela CISR em 01/10/2007, com previsão de integralização em moeda até 31/12/2007; ∙ Assim a composição societária passou a ser: Fl. 6628DF CARF MF 4 Na mesma data (01/10/2007) a CISR adquiriu 4.000 ações Ordinárias Nominativas (ON) detidas por Gilson Roizman e 4.000 ações ON detidas por Eduardo Silva, todas da ZATIX TECNOLOGIA, pelo valor de R$ 500,00, dando origem à primeira parte do ágio posteriormente amortizado pela fiscalizada; ∙ Aumento do capital social de R$ 4.070.000,00 para R$ 15.070.000,00 (acréscimo de R$ 11.000.000,00) com a criação de 11.000.000 novas cotas de R$ 1,00 cada, subscritas pela CISR, dando origem à segunda parte do ágio posteriormente amortizado pela fiscalizada; ∙ Incorporação da TELEMATICS pela ZATIX TECNOLOGIA em 30/04/2008, que passou a amortizar o ágio que havia sido gerado nas operações descritas acima. Assim, o valor total do ágio contabilizado relativo à TELEMATICS foi de R$ 6.819.710,42, conforme discriminado a seguir: Quanto à CISR ∙ Constituição da empresaveículo COMPANHIA DE INVESTIMENTO EM SERVIÇOS DE RASTREAMENTO (CISR) em 14/09/2007, na forma de sociedade anônima de capital fechado, com capital social de R$ 1.000,00, dividido em 1.000 ações de R$ 1,00, e principal acionista o Grupo Pátria com 997 ações, com a Pátria Investimentos S/A; ∙ Aprovação em 26/09/2007, com registro em Ata da Reunião do Conselho de Administração (ARCA), de aquisição da TELEMATICS, passando a CISR a deter 99,9% das cotas; ∙ Em 28/09/2007, conforme consta do Livro de Transferências de Ações nominativas, a Pátria Investimentos, então sócia majoritária da CISR, transferiu todas as suas 997 cotas para o FIPRastreamento; ∙ Em 01/10/2007, conforme Ata da Reunião do Conselho de Administração (ARCA) realizada nesta data, a CISR realizou investimento de R$ 40.000.000,00 (quarenta milhões de reais) em ZATIX TECNOLOGIA, mediante a subscrição de 80.000 (oitenta mil) novas ações ordinárias ao preço de R$ 500,00 (quinhentos reais) cada uma. O valor subscrito deveria ser integralizado em moeda sendo R$ 20.000.000,00 até 31/12/2007 e R$ 20.000.000,00 até 31/12/2008. Nesta operação foi originada a primeira parte do ágio que posteriormente será amortizado. Ato contínuo foi aprovada também a aquisição pela TELEMATICS, então subsidiária da CISR, de mais 8.000 (oito mil) ações ordinárias nominativas pelo preço de R$ 500,00 cada Fl. 6629DF CARF MF Processo nº 16561.720190/201554 Acórdão n.º 1401002.685 S1C4T1 Fl. 6.628 5 uma, totalizando R$4.000.000,00 (quatro milhões de reais) para pagamento à vista. Nesta operação nasce a 2ª parte do ágio posteriormente amortizado; ∙ Também em 01/10/2007, por meio da AGE realizada nesta mesmíssima data, foi aprovado o aumento de Capital Social da CISR de R$ 1.000,00 (um mil reais) para R$ 16.634.000,00 (dezesseis milhões, seiscentos e trinta e quatro mil reais), mediante emissão de 16.633.000 novas ações ON com valor de R$ 1,00 (um real) cada, com subscrição de 15.343.000 pelo FIP Rastreamento, integralizado com conferência de 20.000 ON detidas pelo FIPRastreamento em ZATIX TECNOLOGIA pelo valor de R$ 10.000.000,00 e R$ 5.343.000,00 em moeda até 31/12/2007. Nesta operação nasce a 3ª parte do ágio amortizado posteriormente. As 1.290.000 novas ON restantes foram subscritas pelo FIPPátria Economia Real, a serem integralizadas em moeda até 31/12/2007. ∙ Ainda em 01/10/2007, conforme já relatado (item 4.1 do TVF), por meio da Segunda Alteração e Consolidação do Contrato Social da TELEMATICS, os sócios deliberaram aumentar o seu Capital Social da TELEMATICS de R$ 1.000,00 para R$ 4.070.000,00, mediante a subscrição de 4.069.000 cotas pela sócia CISR, devendo estas cotas ser integralizadas em moeda até 31/12/2007; ∙ Em 12/12/2007, por meio de AGE, foi aumentado o Capital Social de R$ 16.634.000,00 para R$ 43.170.000,00, mediante aumento de R$ 25.536.000,00, com emissão de 25.536.000 de novas ações ON pelo valor de R$ 1,00, subscritas por Pátria Brazilian Private Equity Fund III – FIP, a ser integralizados em moeda em 31/12/2008; ∙ Em 20/12/2007, conforme consta do Livro de Registro de Transferências de Ações foi realizada a venda de 18.000 ações ON detidas por CISR na ZATIX TECNOLOGIA para a TELEMATICS; ∙ Também em 20/12/2007, por meio da Terceira Alteração e Consolidação do Contrato Social da TELEMATICS, deliberaram os sócios aumentar o Capital Social da TELEMATICS de R$ 4.070.000,00 para R$ 15.070.000,00, com um aumento, portanto de R$ 11.000.000,00 mediante a criação de 11.000.000 de novas cotas no valor de R$ 1,00 cada uma, as quais foram totalmente subscritas pela CISR sendo R$ 2.000.000,00 através de conferência de 4.000 ações ON detidas pela CISR em ZATIX TECNOLOGIA e os R$ 9.000.000,00 restantes em moeda até 31/01/2008; ∙ Em 25/03/2008, por meio de AGE, deliberaram os sócios aumentar o Capital Social de R$ 43.170.000,00 para R$ 100.000.000,00, mediante aumento de R$ 58.830.000,00, com emissão de 58.830.000 de novas ações ON; ∙ Em 30/07/2008, por meio de AGE da ZATIX TECNOLOGIA, foi deliberado aumento de Capital Social desta empresa de R$ Fl. 6630DF CARF MF 6 45.992.993,84 para R$ 69.492.933,84 (aumento de R$ 23.500.000,00), com emissão de 43.796 novas ON com valor de R$ 536,5786 cada, integralmente subscritas por CISR, integralizados em moeda nacional na mesma data em moeda corrente, dando origem à 4ª parte do ágio desta operação; o valor total do ágio contabilizado pela fiscalizada para amortização foi de R$ 22.729.128,89. Quanto à MOBISAT: ∙ Fundada no ano 2000, até 2003 denominada AGRO ONE BRASIL S/A, com objeto social de “serviço de pulverização e controle de pragas agrícolas, representantes comerciais e agentes do comércio de mercadorias em geral não especializado, comércio varejista de outros artigos de uso doméstico não especificados anteriormente, holdings de instituições não financeiras e outras atividades de publicidade não especificadas anteriormente”; de 2003 a 2008 já havia alterado a denominação para MOBISAT SISTEMAS DE RASTREAMENTO S/A, com objeto social alterado para “representantes comerciais e agentes do comércio de medicamentos, cosméticos e produtos de perfumaria, transporte rodoviário de carga, exceto produtos perigosos e mudanças, intermunicipal, interestadual e internacional, transporte rodoviário de produtos perigosos e transporte rodoviário de mudanças”; alterado a partir do ano 2008 para “comércio varejista de outros produtos não especificados anteriormente e outras sociedades de participação, exceto holdings”; ∙ Em 22/07/2008, por meio da AGE da MOBISAT, os acionistas deliberaram aumentar o Capital Social de R$ 14.860.289,00 para R$ 29.175.543,00, mediante emissão de 14.315.254 novas ações ON, ao preço de R$ 14.315.254,00 sendo estas ações totalmente subscritas e integralizadas pela acionista ZATIX PARTICIPAÇÕES, em moeda corrente, sendo 13.544.274 ações integralizadas naquela mesma data e 770.980 ações a serem integralizadas em até 120 dias; ∙ Em 17/08/2008, por meio de AGE da MOBISAT, foi deliberado aumento de Capital Social de R$ 29.175.543,00 para R$ 30.536.473,00, mediante emissão de 7.210.116 novas ações ON pelo preço total de R$ 1.360.930,68, subscritas por CEG EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES S.A., integralizadas mediante conferência de 51.965 ações detidas pela CEG em ZATIX TECNOLOGIA. Estas ações foram avaliadas por Laudo emitido por Apsis Consultoria por valor de até R$ 16.181.747,75; ∙ Em 24/09/2008, por meio de AGE da MOBISAT, foi deliberado aumento de Capital Social de R$ 30.536.473,00 para R$ 162.288.940,00, com um aumento, portanto de R$ 131.752.467,00 mediante emissão de 21.965.428 novas ações ON perfazendo um preço total de R$ 131.752.467,00 subscritas e integralizadas mediante conferência de 100.000.000 de ações ON detidas pelos 3 FIP em CISR, da seguinte forma: Fl. 6631DF CARF MF Processo nº 16561.720190/201554 Acórdão n.º 1401002.685 S1C4T1 Fl. 6.629 7 ∙ As ações da CISR conferidas na integralização de Capital Social da MOBISAT foram avaliadas por Laudo da Apsis Consultoria e nesta operação foi gerado um ágio de R$ 73.721.494,46, que posteriormente foi amortizado pela fiscalizada; ∙ Em 03/11/2008, conforme o Livro de registro de Transferências de Ações, os FIP´s Pátria transferiram suas ações da MOBISAT para a CEG. Posteriormente em 08/11/2008, conforme AGE da MOBISAT, foi aprovado aumento de Capital Social de R$ 162.288.940,00 para R$ 205.536.473,00, um aumento de R$ 43.247.533,00, mediante emissão de 7.210.116 novas ações ON, subscritas e integralizadas por CEG PARTICIPAÇÕES, a serem integralizadas em 40 dias daquela data em moeda corrente; em 04/06/2009, conforme AGE da ZATIX TECNOLOGIA, a MOBISAT foi incorporada pela ZATIX TECNOLOGIA. O patrimônio líquido da MOBISAT, que foi avaliado por meio de Laudo emitido por SVW Auditoria e Consultoria Empresarial em R$ 127.551.407,56, foi vertido para a incorporadora e os acionistas da MOBISAT receberam ações da ZATIX TECNOLOGIA. ∙ O valor total do ágio contabilizado pela fiscalizada para amortização foi de R$ 73.721.494,46; Quanto à CONTROLLOC: ∙ Em 20/03/2008 (Instrumento particular de compra e venda), a Omnilink (Zatix Tecnologia) adquire 100% da participação na Controlloc Tecnologia em Rastreamento de Veículos. O valor total da aquisição, após descontos da venda e consultoria, foi de R$ 38.489.880,00. No cálculo do ágio, foi acrescido o passivo a descoberto da Controlloc, em 31/03/2008, no valor de R$ 9.622.797,97, e reduzido o resultado do período (1º trimestre de 2008), no valor de R$ 64.996,19. Assim, o total do ágio chegou a R$ 48.047.681,78. ∙ Em 09/10/2008, a CONTROLLOC foi incorporada por Omnilink (Zatix Tecnologia), a qual passou a amortizar o ágio. ∙ O valor total do ágio contabilizado pela fiscalizada para amortização foi de R$ 48.047.681,78; Quanto à CEG: ∙ CEG Empreendimento e Participação foi constituída em 29/01/2008, sob a denominação de Z.P.P.S.P.E. EMPREENDIMENTOS E PARTICIPACOES S.A., com Capital Social de R$ 500,00; ∙ Em 17/06/2008, por meio de AGE, foi deliberada a alteração da denominação para CEG Empreendimentos e Participações S.A., a alteração do endereço da sede para a Alameda Surubiju, 1.930, mesmo endereço da ZATIX TECNOLOGIA. Foi Fl. 6632DF CARF MF 8 deliberado também um aumento de Capital Social de R$ 500,00 para R$ 52.465,00 com um aumento de R$ 51.965,00, mediante emissão de 51.965 novas ações ON que foram subscritas por Cileneu Perez Nunes, Eduardo José Gonçalves da Silva e Gilson Roizman. Estas ações foram integralizadas com conferência de 51.965 ações detidas por estas três pessoas físicas em ZATIX TECNOLOGIA; ∙ Em 03/11/2008, por meio de AGE, foi deliberado o aumento de Capital Social em R$ 212.298,00 mediante a emissão de 212.298 novas ações ON ao preço de emissão de R$ 824,312994, perfazendo um preço total de emissão de R$ 175.000.000,00. Destes, R$ 212.298,00 destinado ao aumento do Capital Social e R$ 174.787.702,00 destinados à Reserva de Capital. Estas ações foram subscritas pelos FIP´s e integralizadas parcialmente em moeda e parcialmente com conferência de ações da MOBISAT, as quais foram avaliadas por laudo emitido pela Apsis Consultoria Empresarial Ltda. As novas ações foram subscritas e integralizadas conforme tabela a seguir: ∙ Em 30/12/2008, por meio de AGE, foi deliberado aumento de Capital de R$ 264.763,00 para R$ 191.818.811,67 mediante a capitalização de R$ 191.554.048,67, sendo R$ 174.787.702,00 provenientes da Reserva de Capital e R$ 16.766.346,67 proveniente da Reserva de Lucros, com emissão de 264.763 novas ações ON as quais foram atribuídas aos acionistas da CEG na proporção de suas ações, conforme Anexo I da AGE a seguir: ∙ Em 31/07/2009, por meio de AGE, foi deliberada a redução do Capital Social de R$ 11.293.542,17, passando o Capital para R$ 180.525.269,50; ∙ Em 30/11/2009, por meio de AGE, foi deliberada a incorporação da CEG pela ZATIX TECNOLOGIA, mediante aprovação do Protocolo de Incorporação e Justificação firmado em 30/10/2009 entre a CEG e ZATIX TECNOLOGIA. ∙ O valor total do ágio contabilizado pela fiscalizada para amortização foi de R$ 78.081.399,43. Fl. 6633DF CARF MF Processo nº 16561.720190/201554 Acórdão n.º 1401002.685 S1C4T1 Fl. 6.630 9 Quanto à ZATIX PARTICIPAÇÕES: ∙ Em 21/12/2007 foi constituída a ZATIX PARTICIPAÇÕES, sob a denominação de AZTECA EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES S.A., com Capital Social de R$ 100,00; ∙ Em 13/06/2008, por meio de AGE, foi deliberado um aumento de Capital Social de R$ 100,00 para R$ 12.290.150,00, mediante emissão de 12.290.050 novas ações ON que foram subscritas e integralizadas por Maniza Empreendimentos e Participações S.A., mediante conferência da totalidade de ações de MOBISAT; ∙ Em 22/07/2008, por meio de AGE, foi deliberado o aumento de Capital Social em R$ 14.315.254,00 mediante a emissão de 14.315.254 novas ações ON perfazendo o preço total de emissão de R$ 14.315.254,00. Estas ações foram integralmente subscritas pela acionista Maniza Empreendimentos e Participações S.A. e integralizadas em moeda corrente sendo 13.544.274 na data da AGE e 770.980 a serem integralizadas em até 120 dias; ∙ Em 30/12/2008, por meio de AGE, foi aprovado o Protocolo e Justificação de Incorporação de Ações de emissão da CEG Empreendimentos e Participações S.A. , celebrado naquela data entre os administradores da CEG e da Zatix Participações. Naquela AGE foi aprovada a contratação da Apsis Consultoria para proceder à avaliação das ações de emissão da CEG a serem incorporadas pela Zatix Paricipações. O laudo foi apresentado no mesmo dia e neste as ações da CEG foram avaliadas em até R$ 287.003.349,95 pela Apsis e foram incorporadas pela Zatix Participações pelo valor de R$ 218.247.533,00. A incorporação de ações foi definitivamente aprovada, convertendose a CEG em subsidiária integral da Zatix Participações. Nesta mesma AGE foi autorizado o aumento do Capital Social, mediante a emissão de 33.182.020 novas ações ON pelo preço total de R$ 218.247.533,00. Destes, foram destinados R$ 33.182.020,00 ao Capital Social e R$ 185.065.513,00 à formação de Reserva de Capital, passando o Capital Social da Zatix Participações de R$ 26.605.404,00 para R$59.787.424,00. E assim continua o relatório da decisão recorrida: O Termo de Verificação Fiscal apresenta quadro societário da OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA antes e depois de passar por grande processo de reorganização societária, apontando que os sócios CILINEU, GILSON e EDUARDO reduziram suas participações, a sócia JAG retirouse da empresa, enquanto os FIP PÁTRIA I, FIP PÁTRIA II e FIP PÁTRIA III e a MANIZA tornaramse sócios da OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA: Fl. 6634DF CARF MF 10 Conclui que, na essência, o negócio foi a venda de ações da OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA para FIP PÁTRIA I, FIP PÁTRIA II e FIP PÁTRIA III; e, por parte da nova sócia MANIZA, a permuta de ações da MOBISAT por ações da OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA, porém, pelo complexo caminho conforme quadro abaixo: Além da mudança em seu quadro societário, na reorganização societária da qual foi o centro, a OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA comprou e incorporou as empresas TELETRIM, CONTROLSAT, CONTROLLOC e RODOSIS. A enorme quantidade de subscrições e aportes realizados nas muitas empresas envolvidas na reorganização societária, exemplificada no quadro a seguir, também mostra a alta complexidade do caminho escolhido pelos atores desta história: Fl. 6635DF CARF MF Processo nº 16561.720190/201554 Acórdão n.º 1401002.685 S1C4T1 Fl. 6.631 11 Em vez de aportar recursos diretamente na OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA, os FIPs PÁTRIA I, II e III fizeram primeiro aportes nas pessoas jurídicas interpostas CISR e TELEMATICS, as quais em seguida realizaram aportes na OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA, de forma que os reais adquirentes de ações da OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA foram os FIP PÁTRIA I, FIP PÁTRIA II e FIP PÁTRIA III, e não a CISR e a TELEMATICS, empresas que funcionaram como simples canais de passagem dos recursos aportados pelos fundos. A MANIZA aportou ações de sua controlada MOBISAT na empresa interposta ZATIX PARTICIPAÇÕES, a qual entregou essas ações aos FIPs PÁTRIA I, II e III, os quais em seguida entregaram essas ações para a pessoa jurídica interposta CEG, a qual, algum tempo depois, foi incorporada pela OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA. Aqui também não é preciso se esforçar para perceber que a real permutadora das ações da MOBISAT por ações da OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA, foi a MANIZA e não a ZATIX PARTICIPAÇÕES, a qual foi uma simples empresaveículo para ações e recursos da MANIZA. Com base em uma quantidade muito grande de informações, planilhas e documentos, verificouse que, ao longo da reorganização societária, foram praticadas, entre outras, as etapas ilustradas nas fls. 5.129 a 5.144. Após todo esse processo e de incorporar a maior parte das empresas envolvidas na reorganização societária, a OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA passou a amortizar os ágios descritos na tabela abaixo: Fl. 6636DF CARF MF 12 O resultado prático da amortização fiscal de tantos ágios, que totalizam elevado valor, foi que a OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA não pagou mais IRPJ e CSLL nos últimos cinco anos. Levando isso em conta, concluiuse que a série de operações e reorganizações criaram situações artificiais para se conseguir redução tributária indevida. Tevese por entendimento que a legislação tributária brasileira permite que o ágio seja aproveitado tributariamente nas situações em que ele faz parte do custo para cálculo do ganho de capital na alienação da participação societária avaliada pelo Patrimônio Líquido e nos casos de absorção do patrimônio de outra pessoa jurídica, mediante incorporação, fusão ou cisão. Assevera que na reorganização societária colocada em curso no presente caso, as empresas TELEMATICS, CISR, CEG e ZATIX PARTICIPAÇÕES foram utilizadas como simples empresas veículo ou canais de passagem de recursos financeiros e ações aportados por suas controladoras, os FIPs PÁTRIA I, II e III e MANIZA, situação que não possibilita a amortização tributária dos ágios assim calculados, visto que os patrimônios dos reais aportadores dos recursos para aquisições das participações não se confundiram com os patrimônios das empresas cujas ações foram adquiridas ou permutadas. Aponta que a solução encontrada pelos novos e antigos sócios da OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA para contornar as condições previstas nas normas que permitem a amortização tributária de ágio foi a utilização da CISR, TELEMATICS, CEG e ZATIX PARTICIPAÇÕES como empresasveículo ou canais de passagem para os recursos e ações que pretendiam alienar ou permutar e que tal conduta é fiscalmente inaceitável, tendo sido oportunizada a comprovação de que CISR, TELEMATICS, CEG e ZATIX PARTICIPAÇÕES não foram utilizadas como simples canais de passagem para recursos financeiros e ações de propriedade de seus controladores, mediante intimação: Demonstrar, com riqueza de detalhes, que as empresas relacionadas na tabela abaixo não foram simples veículos para transferências, para outras empresas,dos ágios que foram formados em operações realizadas por elas. Devese demonstrar, inclusive, que essas empresas tiveram consistência econômica, ou seja, que foram efetivamente empresas com funções operacionais (atividades comerciais, prestações de serviço, etc.). A Fiscalizada respondeu que as empresas tinham como objeto social a participação em outras sociedades, conforme previsto Fl. 6637DF CARF MF Processo nº 16561.720190/201554 Acórdão n.º 1401002.685 S1C4T1 Fl. 6.632 13 no artigo 2º, §3º, da Lei 6.404, de 15.12.1976, o qual dispõe: “a companhia pode ter por objeto participar de outras sociedades; ainda que não prevista no estatuto, a participação é facultada como meio de realizar o objeto social, ou para beneficiarse de incentivos fiscais”, não tendo sido criadas para transferir ágios. Portanto, não se trata de empresasveículo, mas sim de sociedades holdings que tinham como objeto deter investimentos em outras sociedades. Essas sociedades possuíam diretores e administradores, devidamente eleitos, a fim de exercer a sua atividade principal. (fls. 5146 e 5147). Reporta que a Fiscalizada respondeu que as empresas tinham como objeto social a participação em outras sociedades, conforme previsto no artigo 2º, §3º, da Lei 6.404, de 15.12.1976, o qual dispõe: “a companhia pode ter por objeto participar de outras sociedades; ainda que não prevista no estatuto, a participação é facultada como meio de realizar o objeto social, ou para beneficiarse de incentivos fiscais, não tendo sido criadas para transferir ágios. Portanto, não se trata de empresasveículo, mas sim de sociedades holdings que tinham como objeto deter investimentos em outras sociedades. Essas sociedades possuíam diretores e administradores, devidamente eleitos, a fim de exercer a sua atividade principal”. Nessa linha, também foi questionada a razão dos aportes de capital não terem sido realizados diretamente nas empresas operacionais ao que foi respondido que não se trata de empresasveículo e que os aportes foram realizados em conformidade com a legislação aplicável à época dos fatos e cada operação estruturada de acordo com a estratégia de investimento idealizada, mas que a empresa não conseguiu demonstrar que a CISR, a TELEMATICS, a CEG e a ZATIX PARTICIPAÇÕES não foram utilizadas como simples veículos de recursos financeiros e ações na estratégia adotada pelos antigos e novos sócios da OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA, concluindo que do ponto de vista tributário essa conduta não permite amortização de ágios apurados em virtude de interposição de empresas entre os reais compradores, vendedores e permutadores de ações. Ainda, questionando, concluiu que o patrimônio da ZATIX TECNOLOGIA não se confundiu com os patrimônios de seus novos sócios, reais proprietários dos recursos financeiros e ações da MOBISAT que a ela chegaram depois de passar pelas empresasveículo CISR, TELEMATICS, CEG e ZATIX PARTICIPAÇÕES. Não havendo, portanto, possibilidade alguma de serem tributariamente aproveitados os ágios indevidamente formados apenas em virtude de ter havido a interposição dessas quatro empresas entre os FIPs PÁTRIA I, II, III, a MANIZA e a OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA. Ao longo dos trabalhos de Auditoria, a ZATIX TECNOLOGIA foi ainda intimada a apresentar todos os comprovantes de pagamento de participações societárias que dão suporte às amortizações de ágios aproveitadas tributariamente por ela a partir do anocalendário 2009 (tabela resumo dos Fl. 6638DF CARF MF 14 demonstrativos às fls. 5.148 a 5.150). A relação de pagamentos e documentos apresentados demonstra que houve realmente desembolsos relativos a pagamentos das aquisições, com ágio, das empresas TELETRIM, CONTROLLOC, RODOSIS e CONTROLSAT. Os aportes realizados pela CISR e pela TELEMATICS na Fiscalizada por si só não suportam o aproveitamento tributário dos ágios contabilizados por essas duas empresas, pois, não houve confusão dos patrimônios dos reais adquirentes das participações (FIPs PÁTRIA I, II e III) com o patrimônio da OMINILINK/ZATIX TECNOLOGIA. Da mesma forma, o aporte de R$ 43.247.533,00 realizado pela CEG na MOBISAT não dá suporte para aproveitamento tributário de ágio, vez que, na verdade, se tratou de aporte indireto dos FIPs PÁTRIA I, II e III, reais proprietários do dinheiro, na MOBISAT, sem ter havido confusão de seus patrimônios. Há a ressalva de que não foram encontradas irregularidades nos ágios seguintes: Que o ágio relativo à aquisição da CONROLLOC foi apurado com erro de cálculo. Considerando que a empresa, quando foi adquirida, tinha passivo a descoberto (patrimônio líquido negativo), valor que deve ser descontado do valor do ágio apurado em virtude de não ter sido efetivamente pago, o cálculo correto do ágio é mostrado na planilha abaixo: O resultado negativo da equivalência patrimonial não pode exceder o valor pelo qual o investimento está contabilizado, de modo a resultar em ativo com saldo negativo. A variação negativa do patrimônio da investida pode, no máximo, anular o investimento contabilizado. Admitir que um investimento apresente valor contábil negativo significa reconhecer a responsabilidade da investidora pelas dívidas da investida para além do capital social nela aplicado, obrigação que não é imputada aos sócios/acionistas de uma sociedade de capital. Assim, somente o preço efetivamente pago pode ser considerado para a formação do ágio. Por conseguinte, o valor do passivo a descoberto, R$ 9.557.801,78, foi tributado no Auto de Infração anexo como despesa não comprovada. Os valores dos ágios listados na tabela a seguir foram tributados: Fl. 6639DF CARF MF Processo nº 16561.720190/201554 Acórdão n.º 1401002.685 S1C4T1 Fl. 6.633 15 Assevera que a Fiscalizada fez parte de um intrincado e tortuoso mecanismo desenvolvido para, por meio da utilização de várias empresasveículo, interpostas entre os reais alienantes e adquirentes de participações societárias, criar situações artificiais para simular que tivesse cumprido as condições necessárias para aproveitamento tributário de ágios calculados. Reduziu, assim, indevidamente seu lucro real e sua base de cálculo da CSLL. Essa conduta do sujeito passivo, além de não cumprir condição essencial prevista no artigo 386 do RIR/99 para possibilitar amortização tributária de ágios, qual seja, a confusão dos patrimônios das reais adquirentes de participações e das empresas adquiridas, enquadrase nas situações previstas no artigo 72 da Lei nº 4.502/1964. Conseqüentemente, as glosas de ágios apurados nas operações que envolveram as empresas CISR, TELEMATICS, CEG, ZATIX PARTICIPAÇÕES e MOBISAT foram penalizadas com a multa qualificada de 150%. Em 24 de agosto de 2017 a DRJ em Salvador BA julgou a impugnação improcedente, em acórdão assim ementado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2009, 2010, 2011, 2012, 2013 HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA. Constatada a ocorrência dolo, fraude ou simulação não se considera homologado o lançamento e, conseqüentemente, não se considera extinto o crédito tributário, ainda que haja pagamento antecipado. DECADÊNCIA. FRAUDE. PRAZO. Constatada a ocorrência de dolo, fraude, ou simulação o direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário, vinculase à regra do art. 173, I do CTN, extinguindose em cinco anos a contar do primeiro dia do exercício seguinte em que o lançamento poderia ter sido efetuado. JUROS DE MORA. MULTA DE OFÍCIO. Os juros de mora são devidos sobre os tributos e a multa de ofício desde o seu lançamento. FATOS CONTABILIZADOS COM REPERCUSSÃO EM EXERCÍCIOS FUTUROS. EFEITOS TRIBUTÁRIOS. DECADÊNCIA. Na hipótese de fato que produza efeito em períodos diversos daquele em que ocorreu, a decadência não tem por referência a data do evento registrado na contabilidade, mas sim, o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado relativo à ocorrência dos fatos geradores em que esse evento produziu o efeito de reduzir o tributo devido. CSLL. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. MESMOS EVENTOS. DECORRÊNCIA. A procedência do lançamento do Imposto de Renda Pessoa Jurídica implica manutenção da exigência fiscal decorrente dos mesmos fatos. Fl. 6640DF CARF MF 16 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010, 2011, 2012, 2013 ÁGIO ARTIFICIAL. AMORTIZAÇÃO. GLOSA. LANÇAMENTO. Correta a glosa de despesas de amortização de ágio, na situação em que referido ágio decorre de reorganizações societárias levadas a efeito dentro de um mesmo grupo empresarial, direta ou indiretamente, sem propósito negocial ou efeito societário a não ser a redução da carga tributária ou sem que se tenha verificado qualquer pagamento ou outro sacrifício patrimonial capaz de validar a alegada maisvalia. LUCRO REAL. LUCRO LÍQUIDO. ÁGIO. FATO ECONÔMICO. EFEITOS FISCAIS. PRINCÍPIOS CONTÁBEIS. APURAÇÃO DOS RESULTADOS CONTÁBEIS E FISCAIS. Os resultados tributáveis das pessoas jurídicas, apurados com base no Lucro Real, têm como ponto de partida o lucro líquido apurado na escrituração comercial, regida pela Lei n° 6.404/1976, conforme estabelecido pelo Decretolei n° 1.598, de 1977. O ágio é fato econômico, cujos efeitos fiscais foram regulados pela lei tributária com substrato nos princípios contábeis geralmente aceitos. Assim, os princípios contábeis geralmente aceitos e as normas emanadas dos órgãos fiscalizadores e reguladores, como Conselho Federal de Contabilidade e Comissão de Valores Mobiliários, têm pertinência e devem ser observadas na apuração dos resultados contábeis e fiscais. CONJUNTO PROBATÓRIO. ATOS FORMAIS. REAL INTENÇÃO. GERAÇÃO DE ÁGIO. SIMULAÇÃO. OBJETIVO REAL. Se o conjunto probatório evidencia que os atos formais praticados (reorganização societária) divergiam da real intenção subjacente (geração artificial de ágio para redução da carga tributária), caracterizase a simulação, cujo elemento principal não é a ocultação do objetivo real, mas sim a existência de objetivo diverso daquele configurado pelos atos praticados, seja ele claro ou oculto. TRANSAÇÕES. PONTO DE VISTA FORMAL. LEGITIMIDADE. OBJETIVO DIVERSO. O fato de cada uma das transações isoladamente e do ponto de vista formal ostentar legalidade não garante a legitimidade do conjunto de operações quando fica comprovado que os atos praticados tinham objetivo diverso daquele que lhes é próprio. MULTA QUALIFICADA. SIMULAÇÃO. Constatada a prática de fraude por simulação, perpetrada mediante a articulação de operações com o intuito de evitar a ocorrência do fato gerador do Imposto de Renda, é cabível a exigência do tributo, acrescido de multa qualificada. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2009, 2010, 2011, 2012, 2013 LANÇAMENTOS. MESMOS PRESSUPOSTOS FÁTICOS. IRPJ. DECORRÊNCIA. Em se tratando de lançamentos decorrentes dos mesmos pressupostos fáticos que serviram de base para o lançamento do Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica, em razão da relação de causa e efeito, no que couber, devem ser estendidas as conclusões advindas da apreciação daquele lançamento aos relativos à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Impugnação Improcedente Fl. 6641DF CARF MF Processo nº 16561.720190/201554 Acórdão n.º 1401002.685 S1C4T1 Fl. 6.634 17 Crédito Tributário Mantido Cientificada em 1o de setembro de 2017, uma sextafeira (fl. 6.482), a contribuinte apresentou recurso voluntário em 3 de outubro de 2017 (fl. 6.483), alegando, em síntese: (i) nulidade da decisão de primeira instância, tendo em vista ela ter concluído pela existência de ágio interno quando esta acusação não constou do TVF, o qual está baseado na existência de empresasveículo. Subsidiariamente, pleiteia a desconsideração da alegação de “ágio interno”, visto esta não constar do TVF. Ainda subsidiariamente, alega ser descabida tal acusação. (ii) no mérito, sustenta: a) foram preenchidos todos os requisitos legais previstos para a dedução das despesas de ágio; b) irrelevância da discussão quanto à (in)existência de “empresaveículo”, pois não há nenhuma base legal para desconsiderar ágios gerados em estruturas que tenham utuilizado "empresasveículo" (o que, alega, não foi o caso). c) é infundada a alegação de empresaveículo na medida em que o ordenamento jurídico Brasileiro prevê especificamente a possibilidade de utilização das chamadas sociedades holdings puras, ou seja, aquelas que existem, não para terem empregados ou atividades próprias, mas apenas para deter participações societárias, não existindo qualquer exigência legal de que tais sociedades holdings tenham empregados ou outros ativos próprios para serem consideradas legítimas; d) irrelevância da discussão quanto ao propósito negocial da estrutura; e) existência de propósito negocial no caso, já que todas as transações objeto do presente processo administrativo foram feitas entre partes independentes e nãorelacionadas, a valores justos de mercado, com base em Laudos de Avaliação elaborados por empresas terceiras e especializadas, no contexto da entrada do Grupo Pátria Investimentos no capital da Omnilink e na posterior associação entre o Grupo Omnilink e o Grupo Graber, com o único e exclusivo propósito de formar a Zatix, uma das maiores e mais completas empresas de tecnologia e soluções para rastreamento de veículos do Brasil e da América Latina; f) possibilidade de apuração de ágio sobre patrimônio líquido negativo uma vez que uma vez que, além de a legislação ser silente sobre a questão, as regras que disciplinam a avaliação de investimento relevante pelo método da equivalência patrimonial apresentam um critério puramente aritmético para determinação desse valor. Ademais, a CVM endereçou a questão de forma expressa no OficioCircular 1/04, concluindo que a parcela negativa do patrimônio líquido deve ser considerada para fins do registro inicial do ágio pago na aquisição de participação societária; g) deve ser reconhecida a decadência do direito de a fiscalização questionar, em 2015, valores de ágio formados e passíveis de amortização fiscal desde os anoscalendário de 2008 e 2009 e, subsidiariamente, deve ser reconhecida a decadência referente ao período de 2009, na medida em que não houve fraude, dolo ou simulação nas operações discutidas no presente caso; e a fiscalização sequer considerou que houve fraude, dolo ou simulação em relação à amortização fiscal do ágio gerado na aquisição da ControlLoc; h) não aplicação da multa agravada; i) desproporção da multa de 75% aplicada em relação ao ágio da ControlLoc face à sua conduta; j) não aplicação dos juros Selic sobre as multas. Recebi o processo em distribuição realizada em 17 de maio de 2018. Fl. 6642DF CARF MF 18 Voto Vencido Conselheira Relatora Livia De Carli Germano O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos para a sua admissibilidade, portanto dele conheço. A autuação fiscal está baseada em basicamente duas acusações, das quais passo a tratar separadamente. Ágio CONTROLLOC (erro de cálculo) Em primeiro lugar, a fiscalização validou o ágio relativo à empresa ControlLoc, no entanto apontou erro no cálculo de seu valor, já que este teria considerado também o valor do passivo a descoberto. Nas palavras da autoridade autuante: O resultado negativo da equivalência patrimonial não pode exceder o valor pelo qual o investimento está contabilizado, de modo a resultar em ativo com saldo negativo. A variação negativa do patrimônio da investida pode, no máximo, anular o investimento contabilizado. Admitir que um investimento apresente valor contábil negativo significa reconhecer a responsabilidade da investidora pelas dívidas da investida para além do capital social nela aplicado, obrigação que não é imputada aos sócios/acionistas de uma sociedade de capital. Assim, somente o preço efetivamente pago pode ser considerado para a formação do ágio. Por conseguinte, o valor do passivo a descoberto, R$ 9.557.801,78, foi tributado no Auto de Infração anexo como despesa não comprovada. A decisão recorrida reiterou tais fundamentos, afirmando, assim, que somente o preço efetivamente pago pode ser considerado para a formação do ágio. Ora, o ágio é resultado de uma operação aritmética: valor pago menos o valor do patrimônio líquido da investida. Quando todo ou parte do valor de patrimônio líquido é negativo, aritmeticamente, de fato o que se tem é uma soma e não uma subtração. Neste sentido, a Recorrente lembra que a CVM determinou expressamente, por meio do OfícioCircular CVM/SNC/SEP n° 1/2004 que, nos casos envolvendo aquisição de sociedade com patrimônio líquido negativo, o saldo inicial da equivalência patrimonial deve ser negativo, com o ágio representando a diferença entre esse resultado e o custo de aquisição, ou seja, devese proceder à soma algébrica do valor do investimento efetivo e da parcela negativa do patrimônio líquido. Assim, defende que "como a Recorrente, ao adquirir o investimento na ControlLoc, assumiu a responsabilidade pela quitação do passivo “a descoberto” como condição precedente à própria materialização da rentabilidade futura, esse valor passou a representar um custo adicional em relação ao seu investimento." É verdade que, de fato, os sócios somente são responsáveis na medida do capital social, de maneira que a investidora, ao adquirir participação societária de empresa com PL negativo, não se torna ela própria devedora de tais passivos os passivos permanecem sendo da investida. Ocorre que, até que o PL se torne positivo, a sociedade investida não Fl. 6643DF CARF MF Processo nº 16561.720190/201554 Acórdão n.º 1401002.685 S1C4T1 Fl. 6.635 19 poderá distribuir lucros a seus sócios/acionistas, de maneira que a aquisição de empresa com PL negativo gera, sim, no momento da aquisição, um ônus para o investidor: o de não receber lucros até aquele montante. Por isso é que se afirma que "ao adquirir esse tipo de investimento o investidor paga parte do preço ao vendedor e parte aos antigos credores da investida, mediante abstenção de parte dos lucros gerados pelo negócio." (BLANCO, André Almeida; GUERRA, Gerson Macedo. Aquisição de Investimento em Sociedade com Passivo a Descoberto: Apuração do Ágio por Rentabilidade Futura, In PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira (coords.). Análise de casos sobre aproveitamento de ágio: IRPJ e CSLL à luz da jurisprudência do CARF — Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. São Paulo: MP Editora, 2016. p.) Assim, deve ser considerado como "custo" da participação societária adquirida tanto o valor pago ao vendedor quanto o valor dos passivos assumidos quando se adquire tal participação. Neste sentido, o valor do passivo a descoberto pode, sim, ser considerado como custo de aquisição para fins de cálculo do ágio a ser amortizado fiscalmente. Conforme observa a doutrina especializada: “[...] apesar de a legislação tributária brasileira conferir expresso tratamento fiscal ao ágio na aquisição de participações societárias [...], não há um tratamento específico para a situação em que o valor do patrimônio líquido apurado pelo método de equivalência patrimonial seja negativo, mencionando apenas que, para fins de apuração do ágio, devese considerar a diferença entre o patrimônio líquido da controlada ou coligada e o custo de aquisição. Assim sendo, se a equivalência patrimonial da sociedade investida indica a existência de patrimônio líquido negativo (passivo a descoberto), entendemos que esse montante deve ser considerado para fins de cálculo do ágio na aquisição de tal investimento.” (MOSQUERA, Roberto Quiroga; BARRETO, Ana Paula Lui; FREITAS, Rodrigo de. Aspectos práticos e polêmicos na amortização do ágio e a jurisprudência do CARF. In ROCHA, Valdir de Oliveira (coord). Grandes Questões Atuais do Direito Tributário. São Paulo: Dialética, 2012. vol. 16. p. 346, grifamos) Ante o exposto oriento meu voto para dar provimento ao recurso voluntário quanto à diferença de ágio relativa à ControlLoc. Em votação na Turma restei vencida quanto à questão acima, razão porque passo a tratar dos argumentos relativos à desproporção da multa de 75% aplicada em relação ao ágio da ControlLoc face à sua conduta, bem como à incidência de juros sobre multa. O argumento acerca da desproporção da multa passa pela análise da constitucionalidade do percentual previsto em lei, discussão que é vedada a este CARF nos termos do enunciado da Súmula CARF n. 2: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Fl. 6644DF CARF MF 20 Quanto à incidência de juros de mora sobre as multas tributárias aplicadas, entendo que basta observar o disposto nos artigos 113, 139 e 161 do CTN para se chegar à conclusão de que os juros moratórios não apenas incidem sobre o principal, mas também sobre a multa de ofício proporcional, já que ambos compõem o crédito tributário constituído, in verbis: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1o. A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. (...) Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. (...) Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. §1 Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. §2 O disposto neste artigo não se aplica na pendência de consulta formulada pelo devedor dentro do prazo legal para pagamento do crédito. Não por outra razão, a Lei 9.430/1996, ao tratar da formalização da exigência de crédito tributário composto exclusivamente por multa ou juros de mora afirma, expressamente, a possibilidade de tal incidência: Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Ademais, o entendimento de se considerar legítima a incidência de juros de mora sobre a multa fiscal encontra sustentação na jurisprudência da Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça (AgRg no REsp 1.335.688PR, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 4/12/2012), que reiterou o entendimento no sentido de ser “legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário”, seguindo a linha já adotada pela Segunda Turma do mesmo Tribunal (REsp nº 1.129.990/PR, em 1/9/2009). Ante o exposto, tendo restado vencida quanto ao mérito do ágio ControlLoc, entendo que é de ser mantida a multa de 75% aplicada, sobre a qual incidem juros Selic. Fl. 6645DF CARF MF Processo nº 16561.720190/201554 Acórdão n.º 1401002.685 S1C4T1 Fl. 6.636 21 Ágios CISR, TELEMATICS, CEG, ZATIX PARTICIPAÇÕES e MOBISAT A segunda acusação é referente aos ágios apurados na aquisição das empresas CISR, TELEMATICS, CEG, ZATIX PARTICIPAÇÕES e MOBISAT. Quanto a estes, a fiscalização questiona a necessidade da complexa reorganização societária realizada já que a operação poderia ser feita de maneira bem mais simples, in verbis (fl. 5.125): Essa reorganização societária poderia ter sido feita de uma forma muito simples: os antigos sócios poderiam ter vendido ações para os novos sócios FIPs PÁTRIA I, II e III; e a nova sócia MANIZA, empresa que em 2008 foi dona da MOBISAT, a qual veio a ser incorporada pela Fiscalizada, poderia ter acordado uma permuta de ações da MOBISAT por ações de sua sucessora OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA. Em outras palavras, a essência do negócio foi: a venda de ações da OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA para seus novos sócios FIPs PÁTRIA I, II e III; e, por parte da nova sócia MANIZA, a permuta de ações da MOBISAT por ações da OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA. Tudo, portanto, poderia ter sido feito de maneira bastante simples e pouco trabalhosa. Contudo, as partes envolvidas optaram por um caminho muito tortuoso, complexo e trabalhoso, (...) Desse modo, acusa que foram utilizadas empresas como "canais de passagem" ou "empresa veículo", nos seguintes termos: (...) Não é preciso nenhum esforço para perceber que os reais adquirentes de ações da OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA foram os FIPs PÁTRIA I, II e III, e não a CISR e a TELEMATICS, empresas que funcionaram como simples canais de passagem dos recursos aportados pelos fundos. (fl. 5.127) (...)não é preciso se esforçar para perceber que a real permutadora das ações da MOBISAT por ações da OMNILINK/ZATIX TECNOLOGIA, foi a MANIZA e não a ZATIX PARTICIPAÇÕES, a qual foi uma simples empresa veículo para ações e recursos da MANIZA. (fl. 5.128) Então, após analisar legislação relativa ao registro e amortização de ágio, o TVF afirma (fl. 5.146): (...) se o patrimônio da real adquirente da participação societária e o patrimônio da adquirida não se confundirem através de incorporação ou fusão, não é permitida dedução tributária do ágio que tenha sido apurado na operação. Por conseguinte, situações artificiais como a utilização de empresas como simples veículos para transferir recursos financeiros e/ou participações societárias para a empresa que será adquirida não Fl. 6646DF CARF MF 22 possibilitam a dedução tributária dos ágios eventualmente apurados dessa forma. Na reorganização societária colocada em curso no presente caso, as empresas TELEMATICS, CISR, CEG e ZATIX PARTICIPAÇÕES foram utilizadas como simples empresas veículo ou canais de passagem de recursos financeiros e ações aportados por suas controladoras, os FIPs PÁTRIA I, II e III e MANIZA, situação que não possibilita a amortização tributária dos ágios assim calculados, visto que os patrimônios dos reais aportadores dos recursos para aquisições das participações não se confundiram com os patrimônios das empresas cujas ações foram adquiridas ou permutadas. Em razão disso, a fiscalização observa que intimou as empresas a comprovar que CISR, TELEMATICS, CEG e ZATIX PARTICIPAÇÕES "não foram simples veículos para transferências, para outras empresas, dos ágios que foram formados em operações realizadas por elas". As empresas responderam que se tratava de holdings puras e, em seguida, o TVF concluiu que "A Fiscalizada não conseguiu demonstrar que a CSIR, a TELEMATICS, a CEG e a ZATIX PARTICIPAÇÕES tiveram consistência econômica. A lei das SAs permite que uma holding participe de outras sociedades, ainda que para beneficiarse de incentivos fiscais. Porém, a legislação tributária prevê condições necessárias para que possa haver dedução tributária de ágio. Entre essas condições está a necessidade de confusão dos patrimônios da empresa cuja a participação foi adquirida e da real adquirente dessa participação." (fl. 5.147). Resta claro, portanto, que a acusação fiscal foi de que o ágio não poderia ser amortizado porque foi apurado mediante a interposição de empresasveículo, ou seja, porque a real aquisição foi realizada não por TELEMATICS, CISR, CEG, ZATIX PARTICIPAÇÕES e MOBISAT, mas FIPs PÁTRIA I, II e III e Maniza. É por isso que o TVF conclui que não ocorreu a confusão patrimonial entre investidora e investida porque se considera como investidora não as adquirentes diretas (tidas como "empresasveículo") mas seus controladores (os FIPs PÁTRIA I, II e III e Maniza). Diante disso, entendo que assiste razão à Recorrente quando sustenta que a decisão recorrida é nula. De fato, o artigo 59 do Decreto 70.235/1972 estabelece que são nulas as decisões proferidas com cerceamento ao direito de defesa e foi isso o que ocorreu quando a decisão recorrida manteve a autuação sob fundamento diverso do que norteou o auto de infração. O fundamento da autuação está claro, conforme analisado acima. Vale ressaltar que o TVF em nenhum momento utiliza o termo "ágio interno" nem sequer contém a palavra "interno" em nenhuma de suas 86 páginas. Da mesma forma, a palavra "grupo" somente é utilizada para se referir ao grupo de FIPs (Pátria I, II e III). Não obstante, toda a fundamentação da decisão recorrida remonta à impossibilidade de se apurar ágio dentro de um mesmo grupo empresarial, para o que ela cita normas editadas pela CVM e pelo Conselho Federal de Contabilidade acerca de "ágio em operações internas" e "transações com o mundo exterior". Ressalto as seguintes passagens da decisão recorrida que deixam claro que respectivamente a delimitação da lide e a conclusão estão baseadas no conceito de ágio interno: Fl. 6647DF CARF MF Processo nº 16561.720190/201554 Acórdão n.º 1401002.685 S1C4T1 Fl. 6.637 23 A matéria central desta lide, diz respeito a amortização de despesas com a conseqüente redução do lucro líquido, decorrentes do ágio fundamentado na expectativa de rentabilidade futura, gerado após movimentações societárias realizadas dentro do mesmo grupo empresarial, fato econômico que a doutrina e os tribunais administrativos hoje denominam de "ágio artificial", ou seja, aquele gerado por via de reorganizações societárias de caráter transitório dentro de um mesmo grupo econômico, sem o efetivo pagamento por uma nova riqueza ou maisvalia gerada, com o exclusivo objetivo de economia tributária. (fl. 6402) A Fiscalização, ao concatenar todas as operações realizadas, na forma registrada no Termo de Verificação Fiscal e reproduzida em síntese no Relatório que antecede esse voto, deixou patente e irrefutável todo o artifício jurídico formal levado a termo pelo sujeito passivo para o aproveitamento do ágio artificialmente gerado, quanto aos aspectos temporais e pessoais: TELEMATICS; CISR; MOBISAT; CEG; e ZATIX PARTICIPAÇÕES. A criação do ágio não envolveu desembolso ou obrigação que não retornasse para o mesmo grupo; nos momentos da geração dos ágios as empresas se submetiam a um controle comum, direta ou indiretamente, afastando qualquer possibilidade de independência entre as partes. Disto decorre que não houve sacrifício financeiro verdadeiro. Do exposto, a conclusão que se extrai, é que o ágio gerado sem ônus verdadeiro, sem substância econômica, com utilização deliberada de artifícios societários estranhos às normas contábeis e às recomendações da Comissão de Valores Mobiliários – CVM, decorrente de uma operação societária entre partes dependentes, em relação à qual não se pode atribuir nenhum custo de aquisição, padece de ilegitimidade em sua origem, não possuindo, por conseqüência, capacidade de promover qualquer alteração do lucro líquido do exercício, ponto de partida para delimitação da base tributável do IRPJ. (fl. 6412) Ora, as acusações são completamente diferentes. Uma coisa é ser acusado de ter realizado as aquisições mediante a interposição de empresasveículo (portanto mediante simulação de pessoas jurídicas, que existiriam apenas "no papel"). A outra é a acusação de ágio interno, a qual envolve questionamentos técnicos relacionados à formação do ágio, devendose analisar se existe "preço" ou "mais valia" e, consequentemente, ágio, em transações realizadas entre partes relacionadas/dependentes. Ressaltese que a única passagem da decisão recorrida que trata do argumento da interposição de empresasveículo é de certa forma desvirtuado de maneira que leve à conclusão pela inadmissibilidade do ágio interno, vejase: Sobre o tema vale ressaltar, a inexistência de um conceito jurídico do que seria uma "empresaveículo" para fins de planejamento tributário, como apontado na defesa. A citada Fl. 6648DF CARF MF 24 definição resulta de uma construção e de constatação de uma situação de fato, não de um conceito jurídico, e que se insere como um item na análise da existência ou não de propósito negocial em uma determinada transação, vinculandose especificamente à função exercida na geração do ágio, inclusive, não se restringido às empresas que nunca foram operacionais, nunca atuaram efetivamente, nunca exerceram seu objetivo social e que tiveram vida útil curta. Apesar do esforço da defesa de tentar demonstrar uma razão negocial como reunião de sinergias entre empresas, propósito esse que não se questiona, ficou patente que as operações societárias foram engendradas com objetivo específico de se criar condições artificiais que viabilizassem a amortização do ágio e ausente a necessária e indispensável independência entre as partes, vez que todas faziam parte direta ou indiretamente do mesmo grupo empresarial nos momentos específicos de geração dos ágios como exaustivamente demonstrado seqüencial, cronológica e esquematicamente no Termo de Verificação Fiscal. (...) (fl. 6411) Ante o exposto, oriento meu voto para considerar nula a decisão recorrida, por ter mantido a autuação com base em fundamento não constante do auto de infração e, assim, operado em cerceamento do direito de defesa da contribuinte. Não obstante, entendo também que a nulidade acima pode ser superada para que se analise o mérito, com fundamento no §3o do artigo 59 do Decreto 70.235/1972. Esse dispositivo estabelece que quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta. De fato, muito provavelmente a decisão recorrida manteve a autuação por fundamento diverso do exposto no TVF porque a acusação constante do TVF é deveras insuficiente. Muito embora toda a investigação tenha sido orientada para a averiguação sobre se as ditas pessoas jurídicas eram mesmo "empresasveículo", a fiscalização não logrou comprovar que as empresas de fato não existiam. Com efeito, não houve sequer investigação sobre a materialidade das pessoas jurídicas ditas "veículo". A acusação quanto a essa circunstância está fundada exclusivamente na sequência de operações societárias realizadas, sem que tenha havido qualquer análise documental de tais empresas individualmente. Ora, a acusação de empresaveículo depende de prova de que as pessoas jurídicas existiriam apenas no papel, ou seja, de que elas efetivamente nunca atuaram como pessoas jurídicas, sujeitos de deveres e obrigações (ou de que apenas assim atuaram com relação à operação societária que se pretende descaracterizar, no caso, a aquisições que deram origem aos ágios). Em sociedades ditas operacionais a prova de que as pessoas efetivamente existiram é, digamos, mais palpável, pois a fabricação e/ou as saídas de bens ou de serviços deixam um rastro material e/ou documental. Fl. 6649DF CARF MF Processo nº 16561.720190/201554 Acórdão n.º 1401002.685 S1C4T1 Fl. 6.638 25 Há porém sociedades que têm por objeto exclusivamente participar de outras sociedades a Lei das S.A. (Lei 6.404/1976) prevê tal possibilidade em seu artigo 2º, § 3º, observando, ademais, que tal participação pode ocorrer ainda que não prevista no estatuto, seja como meio de realizar o objeto social seja para beneficiarse de incentivos fiscais(*). (*) Art. 2º Pode ser objeto da companhia qualquer empresa de fim lucrativo, não contrário à lei, à ordem pública e aos bons costumes. (...) § 3º A companhia pode ter por objeto participar de outras sociedades; ainda que não prevista no estatuto, a participação é facultada como meio de realizar o objeto social, ou para beneficiarse de incentivos fiscais. De qualquer forma, mesmo uma holding "pura" não prescinde de um conteúdo material mínimo não se exige, por óbvio, atividades operacionais, nem necessariamente a contratação de empregados, mas toda empresa tem um endereço sede (imóvel ou virtual), alguém que lhe prepare a contabilidade, alguém que assine por ela e lhe "presente" perante terceiros (Pontes de Miranda), custos com registros de seus atos societários, e tudo isso envolve um mínimo de despesas que, se não são arcadas diretamente por ela, são pagas por alguém em nome dela, e de um modo ou de outro devem, pelo menos, constar de seus registros patrimoniais e contábeis. A ausência de qualquer tipo de despesa, aliada à inexistência de quaisquer outros bens ou direitos que não a participação societária que se adquiriu com ágio, é o que robustece a acusação de que a pessoa jurídica não existiu de fato mas apenas formalmente ou "no papel". Que fique claro: quando dizemos "efetiva existência da pessoa jurídica" estamos nos referindo à existência da pessoa jurídica como "sociedade" ou "empresa", e não como um mero registro formal. O contrato de sociedade é assim conceituado pelo artigo 981 do Código Civil (Lei 10.406/2002): Art. 981. Celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados. Como se sabe, o Direito Brasileiro atual simpatiza com a teoria dos perfis da empresa de Asquini, a qual trata a empresa como "fenômeno poliédrico que assume, sob o aspecto jurídico, em relação ao diferentes elementos nele concorrentes, não um mas diversos perfis: subjetivo, como empresário; funcional, como atividade; objetivo, como patrimônio; corporativo, como instituição” (Exposição de Motivos Complementar apresentada pelo Prof. Sylvio Marcondes responsável pela elaboração do Livro II — “Direito da Empresa” no anteprojeto do Código Civil/2002). Assim, só há que se falar em "sociedade" ou "empresa" na presença de "atividade econômica organizada de produção e circulação de bens e serviços para o mercado, exercida pelo empresário, em caráter profissional, através de um complexo de bens" (BULGARELLI, Waldírio. Tratado de Direito Empresarial, 2ª ed., São Paulo: Atlas, 1995, p.100). No Direito Tributário isso fica claro em diversas passagens. A noção jurídica de empresa está disposta, por exemplo, no caput do art. 132 do Código Tributário Nacional, que dispõe sobre a responsabilidade da pessoa jurídica que resulta da fusão, transformação ou incorporação, pelos tributos devidos pelos antecessores. Segundo este dispositivo, existe uma figura jurídica associada a uma empresa mas, caso tal figura jurídica desapareça, o Fl. 6650DF CARF MF 26 desaparecimento não causa a “morte” da empresa, que continua como entidade autônoma, com vida jurídica própria, respondendo por atos pretéritos. Ressaltese que o acima é apenas um exemplo ilustrativo mas, no caso em questão, nem era preciso ir tão longe. Em resumo, para que a acusação de "empresaveículo" prevalecesse seria necessário que o auto de infração provasse a existência meramente formal das holdings em questão no momento da geração do ágio. Só assim poderia se chegar à conclusão de que não houve a necessária liquidação do investimento e que, portanto, estava ausente um dos requisitos legais para a dedução das despesas com amortização de ágio. No caso, todavia, entendo que a fiscalização não se desincumbiu desse ônus. Pelo contrário, ela parece ter tomado isso como premissa quando constatou a sequência de reorganizações societárias, presunção esta ilegal. Dispositivo Ante o exposto, oriento meu voto para (i) quanto ao erro de cálculo (diferença de ágio relativa à ControlLoc), dar provimento ao recurso voluntário e, porque vencida, manter a multa de ofício e os juros Selic; (ii) quanto aos demais ágios glosados, superar a preliminar de nulidade da decisão recorrida para, no mérito, dar integral provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Livia De Carli Germano Fl. 6651DF CARF MF Processo nº 16561.720190/201554 Acórdão n.º 1401002.685 S1C4T1 Fl. 6.639 27 Voto Vencedor Claudio de Andrade Camerano Redator Designado De se destacar que o presente voto vencedor referese apenas à glosa de despesa com amortização de ágio (Ágio 3), relativo à aquisição da CONTROL LOC, pela Recorrente. Neste item, por maioria de votos, foi negado provimento ao Recurso Voluntário, vencida a Relatora. As demais despesas de amortizações de ágios referentes a outras aquisições, então glosadas pela Fiscalização, tiveram, por maioria de votos, a sua dedutibilidade restabelecida nos termos do relatório e voto da Relatora. Assim, de se acatar o que foi decidido pela Relatora e ratificado por esta Turma Ordinária, relativamente às preliminares trazidas no Recurso Voluntário e as demais despesas de amortização de ágios, com exceção do Ágio 3, objeto deste voto vencedor. Oportuno relembrar a situação que motivou a glosa fiscal (Ágio 3), trazendo excertos do Termo de Verificação Fiscal: 5.3 DO ÁGIO CONSTITUÍDO COM ERRO DE CÁLCULO O ágio relativo à aquisição da CONROL LOC foi apurado com erro de cálculo. Considerando que a empresa, quando foi adquirida, tinha passivo a descoberto (patrimônio líquido negativo), valor que deve ser descontado do valor do ágio apurado em virtude de não ter sido efetivamente pago, o cálculo correto do ágio é mostrado na planilha abaixo. Denominação Empresa Descrição Valor (R$) ÁGIO 3 CONTROLLOC Valor Contabilizado e Amortizado (1) 48.047.681,78 ÁGIO 3 CONTROLLOC Passivo a Descoberto (2) 9.557.801,78 ÁGIO 3 CONTROLLOC Valor Dedutível (Correto) (1) (2) 38.489.880,00 Ora, o resultado negativo da equivalência patrimonial não pode exceder o valor pelo qual o investimento está contabilizado, de modo a resultar em ativo com saldo negativo. A variação negativa do patrimônio da investida pode, no máximo, anular o investimento contabilizado. Admitir que um investimento apresente valor contábil negativo significa reconhecer a responsabilidade da investidora pelas dívidas da investida para além do capital social nela aplicado, obrigação que não é imputada aos sócios/acionistas de uma Fl. 6652DF CARF MF 28 sociedade de capital. Assim, somente o preço efetivamente pago pode ser consideração para a formação do ágio. Por conseguinte, o valor do passivo a descoberto, R$ 9.557.801,78, foi tributado no Auto de Infração anexo como despesa não comprovada. Em que pese o articulado voto da Ilustre Relatora, ora vencido neste item específico, a maioria desta Turma entende que a mensuração de ágio na aquisição de participação societária em empresa que apresente patrimônio líquido negativo, não se dá por meio da simples operação aritmética estabelecida no art.385 do RIR/99: Desdobramento do Custo de Aquisição Art.385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei n. 1.598, de 1977, art.20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte;e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. [...] Ora, uma eventual aquisição de participação societária em sociedade que apresente patrimônio líquido (PL) negativo (passivo a descoberto), não se subsume à operação aritmética supra, pelo fato de que tal dispositivo contempla situações em que o patrimônio líquido da sociedade investida seja positivo. O Patrimônio Líquido representa aquilo (Recursos) que pertence aos sócios, sendo seu valor a diferença positiva entre o valor do Ativo e o valor do Passivo. Se o valor do Passivo for superior ao valor do Ativo, estáse diante de um Passivo a Descoberto, não havendo que se cogitar da existência de um patrimônio líquido negativo, apesar de assim poder constar denominado em Balanços Patrimoniais. A aplicação do método de equivalência patrimonial (MEP) na aquisição inicial de sociedade com PL negativo resultaria em uma contabilização (na Investidora) de um investimento negativo, o que contraria as regras de aplicação da equivalência e apuração de ágio. A Recorrente e a Relatora lembram do disposto no OfícioCircular CVM/SNC/SEP n. 1/2005 (e não de 2004, como citado), que, aparentemente trata da questão de outra forma (favorável a tese da Recorrente). Este entendimento, inserido no referido Ofício de título Assunto: Orientação sobre a Elaboração de Informações Contábeis pelas Companhias Abertas traduz uma sinalização do que as entidades podem fazer neste sentido, da qual não concordo, mas para fins fiscais, a situação deve ser colocada conforme bem assinalado pela autoridade fiscal e que ora se ratifica neste Voto Vencedor. Fl. 6653DF CARF MF Processo nº 16561.720190/201554 Acórdão n.º 1401002.685 S1C4T1 Fl. 6.640 29 De forma que em situações como a ora vista nos autos, o investimento da Investidora fica reduzido a zero, sendo que o que foi efetivamente pago por ele é que se considera ágio, daí que não se pode, como fez a Recorrente, de, para fins de apurar o ágio, somar o PL negativo ao valor pago na aquisição da CONTROL LOC. Tal situação já foi abordada pelo CARF, conforme julgado no Acórdão n.110100.766, de 05/06/2012, proferido pela Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção: AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. DETERMINAÇÃO. Na aquisição de investimento em empresa com passivo a descoberto, o ágio limitase ao valor pago pela investidora. Mantido, portanto, o lançamento naquilo que se refere à glosa das despesas conforme consta no Auto de Infração item CUSTOS, DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS INFRAÇÃO: DESPESAS NÃO COMPROVADAS. Assim, ficam mantidas as exigências de IRPJ e de CSLL, então apuradas com a multa de ofício de 75%. (assinado digitalmente) Claudio de Andrade Camerano Fl. 6654DF CARF MF
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