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Numero do processo: 10480.725955/2012-13
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Aug 10 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Aug 31 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2008
ADMISSIBILIDADE. ART. 67 DO ANEXO II DO RICARF. DIVERGÊNCIA. NÃO DEMONSTRADA. NÃO CONHECIMENTO.
O recurso especial interposto para a Câmara Superior de Recursos Fiscais, para ser conhecido, deve demonstrar a divergência de interpretação da legislação tributária entre a decisão recorrida e a paradigma, que pode ter sido proferida por outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF. Contudo, a demonstração resta prejudicada quando se constata que decisão recorrida e paradigmas possuem suportes fáticos que não se comunicam. Recurso não conhecido.
MULTA ISOLADA. MULTA DE OFÍCIO. LEI. NOVA REDAÇÃO. FATOS GERADORES A PARTIR DE 2007.
Tratam os incisos I e II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 de suportes fáticos distintos e autônomos com diferenças claras na temporalidade da apuração, que tem por consequência a aplicação das penalidades sobre bases de cálculo diferentes. A multa de ofício aplica-se sobre o resultado apurado anualmente, cujo fato gerador aperfeiçoa-se ao final do ano-calendário, e a multa isolada sobre insuficiência de recolhimento de estimativa apurada conforme balancetes elaborados mês a mês ou ainda sobre base presumida de receita bruta mensal. O disposto na Súmula nº 105 do CARF aplica-se aos fatos geradores pretéritos ao ano de 2007, vez que sedimentada com precedentes da antiga redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, que foi alterada pela MP nº 351, de 22/01/2007, convertida na Lei nº 11.489, de 15/07/2007.
Numero da decisão: 9101-003.052
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas em relação à concomitância da multa, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que não conheceram do recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe negaram provimento. Por unanimidade de votos, acordam em rejeitar a preliminar de impedimento do relator.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente).
Nome do relator: ANDRE MENDES DE MOURA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2008 ADMISSIBILIDADE. ART. 67 DO ANEXO II DO RICARF. DIVERGÊNCIA. NÃO DEMONSTRADA. NÃO CONHECIMENTO. O recurso especial interposto para a Câmara Superior de Recursos Fiscais, para ser conhecido, deve demonstrar a divergência de interpretação da legislação tributária entre a decisão recorrida e a paradigma, que pode ter sido proferida por outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF. Contudo, a demonstração resta prejudicada quando se constata que decisão recorrida e paradigmas possuem suportes fáticos que não se comunicam. Recurso não conhecido. MULTA ISOLADA. MULTA DE OFÍCIO. LEI. NOVA REDAÇÃO. FATOS GERADORES A PARTIR DE 2007. Tratam os incisos I e II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 de suportes fáticos distintos e autônomos com diferenças claras na temporalidade da apuração, que tem por consequência a aplicação das penalidades sobre bases de cálculo diferentes. A multa de ofício aplica-se sobre o resultado apurado anualmente, cujo fato gerador aperfeiçoa-se ao final do ano-calendário, e a multa isolada sobre insuficiência de recolhimento de estimativa apurada conforme balancetes elaborados mês a mês ou ainda sobre base presumida de receita bruta mensal. O disposto na Súmula nº 105 do CARF aplica-se aos fatos geradores pretéritos ao ano de 2007, vez que sedimentada com precedentes da antiga redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, que foi alterada pela MP nº 351, de 22/01/2007, convertida na Lei nº 11.489, de 15/07/2007.
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ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 ADMISSIBILIDADE. ART. 67 DO ANEXO II DO RICARF. DIVERGÊNCIA. NÃO DEMONSTRADA. NÃO CONHECIMENTO. O recurso especial interposto para a Câmara Superior de Recursos Fiscais, para ser conhecido, deve demonstrar a divergência de interpretação da legislação tributária entre a decisão recorrida e a paradigma, que pode ter sido proferida por outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF. Contudo, a demonstração resta prejudicada quando se constata que decisão recorrida e paradigmas possuem suportes fáticos que não se comunicam. Recurso não conhecido. MULTA ISOLADA. MULTA DE OFÍCIO. LEI. NOVA REDAÇÃO. FATOS GERADORES A PARTIR DE 2007. Tratam os incisos I e II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 de suportes fáticos distintos e autônomos com diferenças claras na temporalidade da apuração, que tem por consequência a aplicação das penalidades sobre bases de cálculo diferentes. A multa de ofício aplicase sobre o resultado apurado anualmente, cujo fato gerador aperfeiçoase ao final do anocalendário, e a multa isolada sobre insuficiência de recolhimento de estimativa apurada conforme balancetes elaborados mês a mês ou ainda sobre base presumida de receita bruta mensal. O disposto na Súmula nº 105 do CARF aplicase aos fatos geradores pretéritos ao ano de 2007, vez que sedimentada com precedentes da antiga redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, que foi alterada pela MP nº 351, de 22/01/2007, convertida na Lei nº 11.489, de 15/07/2007. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas em relação à concomitância da multa, vencidos os AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 48 0. 72 59 55 /2 01 2- 13 Fl. 1562DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.563 2 conselheiros Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que não conheceram do recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe negaram provimento. Por unanimidade de votos, acordam em rejeitar a preliminar de impedimento do relator. (assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente). Relatório Tratase de Recurso Especial (efls. 1384/1424) interposto pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional ("PGFN") em face da decisão proferida no Acórdão nº 1103 001.097 (efls. 1336/1382), pela 3ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da Primeira Seção, na sessão de 26/08/2014, no qual foi negado provimento ao recurso de ofício, e dado provimento parcial ao recurso voluntário da DISLUB COMBUSTÍVEIS LTDA ("Contribuinte"). Resumo Processual A autuação fiscal (efls. 03/46), relativa ao anocalendário de 2008, discorre sobre operação de alienação de ações. Entendeu a autoridade fiscal que a Contribuinte, em vez de alienar diretamente suas ações da CIMEC para a Camargo Correa, efetuou a alienação inicialmente para os seus sócios (pessoas físicas), em duas etapas (novembro de 2007 e agosto de 2008) em valor notoriamente inferior ao de mercado, que, por sua vez, posteriormente alienaram as ações (por valor de mercado) para a Camargo Correa (em março e agosto de 2008). Teria havido uma transferência da tributação do ganho de capital da Contribuinte para os sócios pessoa física, em uma operação com ausência de propósito negocial. E, diante da presença de elementos como (a) alienação; (b) pessoa ligada; (c) valor inferior ao de mercado e (d) bem do ativo permanente, teria restado caracterizada a distribuição disfarçada de lucros (DDL), com base no art. 464 do RIR/99. Também foi tipificada infração tributária relativa a dedução indevida de IRPJ e CSLL retidos na fonte. Como resultado da nova apuração de ofício, foi apurada falta de pagamento de estimativa mensal, razão pela qual foram lançadas as multas isoladas. Foram lavrados os autos de infração de IRPJ e CSLL. Fl. 1563DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.564 3 A Contribuinte apresentou impugnação (efls. 637/682), que foi julgada procedente em parte (efls. 1140/1154) pela primeira instância (DRJ), para afastar a tributação sobre a primeira alienação das ações (ocorrida em novembro de 2007) e por consequência parte da multa isolada por estimativa mensal. Em razão do crédito tributário exonerado, foi efetuada remessa necessária (recurso de ofício). A Contribuinte interpôs recurso voluntário (efls. 1175/1215). A segunda instância (Turma Ordinária do CARF) negou provimento ao recurso de ofício, e deu provimento parcial ao recurso voluntário, para afastar as exigências de IRPJ e CSLL relativas a DDL e manter a glosa de tributos retidos na fonte. Foi interposto pela PGFN recurso especial (efls. 1384/1424), que foi admitido pelo despacho de exame de admissibilidade de efl. 1451/1456. Foram apresentadas contrarrazões pela Contribuinte (efls. 1474/1494). A Contribuinte não interpôs recurso especial. A seguir, maiores detalhes sobre a fase contenciosa. Da Fase Contenciosa. A contribuinte apresentou impugnação (efls. 637/682), que foi julgada procedente em parte pela 3ª Turma da DRJ/Recife, nos termos do Acórdão nº 1140.719 (e fls. 1140/1154), para afastar a tributação sobre a primeira alienação das ações ocorrida em 30/11/2007 e por consequência parte da multa isolada por estimativa mensal, conforme ementa a seguir. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2008 NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. REQUISITOS ESSENCIAIS. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NÃO OCORRÊNCIA. Tendo sido regularmente oferecida a ampla oportunidade de defesa, com a devida ciência do auto de infração, e não provada violação das disposições previstas na legislação de regência, restam insubsistentes as alegações de cerceamento do direito de defesa e de nulidade do procedimento fiscal. PEDIDO DE PERÍCIA. INDEFERIMENTO. Indeferese o pedido de perícia quando o expediente é prescindível à solução da lide. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCRO. ALIENAÇÃO. SÓCIO. VALOR INFERIOR AO DE MERCADO. Fl. 1564DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.565 4 Presumese distribuição disfarçada de lucros no negócio pelo qual a pessoa jurídica aliena, por valor notoriamente inferior ao de mercado, bem do seu ativo a sócio, independentemente da alienação deste para terceiro. A caracterização da presunção se dá no momento da alienação ao sócio. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2008 MULTA ISOLADA. MULTA PROPORCIONAL. CONCOMITÂNCIA. É cabível a aplicação da multa exigida em face do não recolhimento das estimativas mensais concomitantemente com a multa proporcional referente ao IRPJ devido e não pago ao final do período, haja vista as respectivas hipóteses de incidência cuidarem de situações distintas. TRIBUTAÇÃO REFLEXA CSLL. Estendese ao lançamento decorrente a decisão prolatada no lançamento matriz, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula. Em razão do crédito tributário exonerado, foi efetuada remessa necessária (recurso de ofício). Foi interposto recurso voluntário (efls. 1175/1215) pela Contribuinte. A 3ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da Primeira Seção, na sessão de 26/08/2014, decidiu no sentido de negar provimento ao recurso de ofício e dar provimento parcial ao recurso voluntário, para afastar as afastar as exigências de IRPJ e CSLL relativas a DDL e manter a glosa de tributos retidos na fonte, conforme Acórdão nº 1103001.097 (efls. 1336/1382) nos termos da ementa a seguir. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 DDL PLANOS DE VALOR PROVAS E VALORAÇÃO DO QUADRO O mero erro na capitulação legal não vitima o lançamento. Não é o que ocorre no caso vertente. O motivo e a razão decorrentes da valoração do quadro fático feita pelo autuante levaram à requalificação jurídica dos fatos como ganho de capital da recorrente por esta ser a efetiva alienante das ações para terceiro. Porém, a requalificação jurídica final se deu por DDL com aplicação de suas regras. Há incompatibilidade e incongruência do motivo, da razão e da consequente requalificação jurídica dos fatos (ganho de capital pela alienação a terceiro), com a finalização por requalificação jurídica por DDL (distribuição a sócio de lucro). Sintoma disso Fl. 1565DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.566 5 foi se considerarem ocorridas as DDL nas datas de alienação das ações pelos sócios a terceiro, e não nas datas de alienação das ações pela recorrente para seus sócios. Insubsistência da exigência ao se colocarem em planos de valor diversos o motivo, a razão e requalificação jurídica consequente dada aos fatos e a que foi ultimada por DDL. GLOSA DE TRIBUTOS RETIDOS NA FONTE Não resulta cabalmente comprovado o alegado erro formal, em que os excessos de dedução de IRRF e de CSLL na fonte é neutralizado pelos pagamentos a maior de estimativas de IRPJ e de CSLL, com resultado de IRPJ e CSLL pagos nos montantes indicados na DIPJ/09. Glosa de tributos retidos na fonte mantida. MULTA ISOLADA E MULTAS PROPORCIONAIS CONCOMITÂNCIA Multa isolada para as estimativas descabida. Apenado o continente, incabível apenar o conteúdo. Penalizar pelo todo e ao mesmo tempo pela parte do todo seria uma contradição de termos lógicos e axiológicos. Princípio da consunção em matéria apenatória. A aplicação da multa de ofício de 75% sobre IRPJ e CSLL exigidos exclui a aplicação da multa de ofício de 50% sobre IRPJ e CSLL por estimativa do mesmo anocalendário. DDL RECURSO DE OFÍCIO Descompasso temporal, de anocalendário, entre a data indicada como de DDL (data da alienação das ações pelos sócios a terceiro, em 2008) e a data em que se teria dado a DDL (data da alienação das ações aos sócios, em 2007). Razão adicional para se negar provimento ao recurso de ofício. Foi interposto pela PGFN recurso especial (efls. 1384/1424). Apresenta divergências em relação a duas matérias: (1) distribuição disfarçada de lucros (DDL) e (2) concomitância de multa de ofício e multa isolada por insuficiência de recolhimento de estimativa mensal. Discorre que a autuação fiscal foi correta ao tipificar com DDL a alienação das ações aos sócios, pessoas ligadas, por valor inferior ao do mercado. Requer pela manutenção da parte da decisão da DRJ que confirma a exação relativa à alienação de ações efetuada em agosto de 2008 (efl. 1421). Pugna pelo restabelecimento da multa isolada por entender que não incide sobre a mesma base de cálculo da multa de ofício. O recurso foi admitido por despacho de exame de admissibilidade (efls. 1451/1456). A Contribuinte apresentou contrarrazões (efls. 1474/1494). Discorre sobre a inadmissibilidade do recurso especial da PGFN, por ausência de similitude fática entre o acórdão recorrido e os paradigmas nº 120200.204 e 1101000.868. O primeiro trataria de operação nitidamente fraudulenta de venda de imóvel a título gratuito aos sócios, e o segundo de operação em mercado de ações da Bovespa e BM&F, no processo de desmutualização. Também protesta a respeito da admissibilidade em relação à concomitância da multa de ofício e multa isolada por insuficiência no recolhimento de estimativas mensais, em razão da Fl. 1566DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.567 6 aplicação da Súmula CARF nº 105. No mérito, aduz que a autuação fiscal padece de erro material insanável, vez que apresentou como motivo o ganho de capital, e efetuou o lançamento tipificando a infração tributária DDL. Ainda que se entendesse como DDL, não teria se consumado a infração, por falta de preenchimento dos requisitos da presunção legal e hiperavaliação das ações da CIMEC realizada pela autoridade fiscal. Ad argumentandum, pugna pela compensação do tributo pago pelos sócios pessoas físicas, e pelo descabimento de multa isolada por duplicidade e confisco. Requer pela inadmissibilidade do recurso especial e, caso apreciado o mérito, seja julgado total ou parcialmente improcedente o recurso especial da PGFN. A Contribuinte não interpôs recurso especial. Posteriormente, foi apresentada petição (efls. 1544/1548), no qual contesta a competência do relator, que estaria impedido de participar do presente julgamento (art. 42, I, RICARF c/c art. 144, II, no Código de Processo Civil) por ter integrado o Colegiado da turma a quo. Assim requer pelo reconhecimento do impedimento do relator e pela designação de nova distribuição dos autos nos termos do art. 17, IX, do RICARF. É o relatório. Voto Conselheiro André Mendes de Moura, Relator. A princípio, cumpre apreciar a preliminar de competência aduzida pela Contribuinte, na petição de efls. 1544/1548. Contestase a competência do relator, que estaria impedido de participar do presente julgamento (art. 42, I, RICARF c/c art. 144, II, no Código de Processo Civil) por ter integrado o Colegiado da turma a quo, ocasião em que foi apreciado o recurso voluntário e proferido o Acórdão nº 1103001.097, no qual se decidiu no sentido de negar provimento ao recurso de ofício e dar provimento parcial ao recurso voluntário. De fato, eu era integrante da 3ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da Primeira Seção, e participei do julgamento, cujo relator era o então Conselheiro Marcos Takata. Há que se observar o que predica a legislação processual do contencioso administrativo tributário sobre o assunto. O art. 37 do Decreto nº 70.235, de 1972 (PAF), determina: O julgamento no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais farseá conforme dispuser o regimento interno. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) Por sua vez, o RICARF estabelece as hipóteses de impedimento no Anexo II: Art. 42. O conselheiro estará impedido de atuar no julgamento de recurso, em cujo processo tenha: Fl. 1567DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.568 7 I atuado como autoridade lançadora ou praticado ato decisório monocrático; II interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto; e III como parte, cônjuge, companheiro, parente consanguíneo ou afim até o 3º (terceiro) grau. § 1º Para efeitos do disposto no inciso II do caput, considerase existir interesse econômico ou financeiro, direto ou indireto, nos casos em que o conselheiro representante dos contribuintes preste ou tenha prestado consultoria, assessoria, assistência jurídica ou contábil ou perceba remuneração do interessado, ou empresa do mesmo grupo econômico, sob qualquer título, no período compreendido entre o primeiro dia do fato gerador objeto do processo administrativo fiscal até a data da sessão em que for concluído o julgamento do recurso. § 2º As vedações de que trata o § 1º também são aplicáveis ao caso de conselheiro que faça ou tenha feito parte como empregado, sócio ou prestador de serviço, de escritório de advocacia que preste consultoria, assessoria, assistência jurídica ou contábil ao interessado, bem como tenha atuado como seu advogado, nos últimos cinco anos. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) § 3º O conselheiro estará impedido de atuar como relator em recurso de ofício, voluntário ou recurso especial em que tenha atuado, na decisão recorrida, como relator ou redator relativamente à matéria objeto do recurso. § 4º O impedimento previsto no inciso III do caput aplicase também aos casos em que o conselheiro possua cônjuge, companheiro, parente consanguíneo ou afim até o 2º (segundo) grau que trabalhem ou sejam sócios do sujeito passivo ou que atuem no escritório do patrono do sujeito passivo, como sócio, empregado, colaborador ou associado. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) (Grifei) Com a devida vênia, mas entendo que o fato de ter participado do julgamento como integrante da turma a quo, sem que tivesse sido relator ou redator da matéria objeto do recurso, não me confere a condição de impedido da participar do presente julgamento. De qualquer forma, o RICARF dispõe sobre o procedimento a ser adotado no caso da arguição em debate, no Anexo II: Art. 44. O impedimento ou a suspeição será declarado por conselheiro ou suscitado por qualquer interessado, cabendo ao arguido, neste caso, pronunciarse por escrito sobre a alegação, o qual, se não for por ele reconhecido, será submetido à deliberação do colegiado. Registro que a arguição de impedimento foi apreciada pelo Colegiado na presente sessão. Decidiuse, por unanimidade, indeferir a arguição suscitada. Fl. 1568DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.569 8 Portanto, passo ao voto. Inicio pelo exame da admissibilidade. São duas as matérias devolvidas pelo recurso especial da PGFN: (1) alienação de ações aos sócios pessoas físicas qualificada pela autoridade fiscal como distribuição disfarçada de lucros (DDL) e (2) concomitância de multa de ofício e multa isolada por insuficiência de recolhimento de estimativa mensal. A admissibilidade de ambas as matérias encontrase contestada pela Contribuinte nas contrarrazões. No que diz respeito à primeira matéria (alienação de ações aos sócios pessoas físicas qualificada pela autoridade fiscal como distribuição disfarçada de lucros DDL), aduz a Contribuinte que os paradigmas apresentados pela PGFN não guardam similitude fática com o suporte fático dos presentes autos. Para que se possa empreender a devida comparação, há que se compreender, a princípio, o contexto em que se deu a autuação fiscal, e a evolução da discussão do direito na fase contenciosa. A Contribuinte (DISLUB COMBUSTÍVEIS LTDA) detinha participação societária de 36,75% na CIMEC (Cia Industrial e Mercantil de Cimentos). Em 30/11/2007, parte das ações da CIMEC (80%) são transferidas, pelo valor do custo contábil, para sócios pessoas física da Contribuinte. O DISLUB não recebeu nenhum pagamento dos adquirentes (sócios), ficando com um "direito creditório". Em 12/03/2008, os sócios transferem, de maneira onerosa, a valor de mercado, as ações da CIMEC para a adquirente CCSA (Camargo Correa S/A). Em 21/08/2008, outra parte das ações da CIMEC (20%) é objeto de transferência, pelo valor do custo contábil, para sócios pessoas física da Contribuinte, sem pagamento, restando à alienante o "direito creditório". Em 22/08/2008, ocorre nova transferência onerosa a valor de mercado das ações da CIMEC para a adquirente CCSA (Camargo Correa S/A). Concluiu a autoridade fiscal: 15. Do exposto, demonstrase que o procedimento adotado simplesmente transfere a tributação do ganho de capital da alienação da participação societária na "CIMEC" da "DISLUB" para as pessoas físicas de "HUMBERTO", "SÉRGIO" e "VALDYR". 16. A prática adotada pela administração da "DISLUB" consistiu numa série de procedimentos, realizados num curto intervalo de tempo, com o objetivo de construir uma situação contábil que lhe permitisse a tributação do ganho de capital nas pessoas físicas dos sócios, ao invés de fazêlo na própria empresa "DISLUB". Nestes procedimentos, não se verifica a realização de desembolsos financeiros por parte dos sócios Fl. 1569DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.570 9 adquirentes, fato que não ocorreria numa transação de livre mercado. 17. No caso em tela observamos uma clara falta de propósito negocial, uma vez que a empresa fiscalizada optou por uma forma mais complexa diante da possibilidade de um ato puro e simples de venda de participação societária. Também corrobora esta constatação o fato da alienação ter sido feita aos sócios sem o recebimento de valor algum, apenas de forma escriturai: a ações passaram para o nome dos sócios, ficando estes como devedores da "DISLUB". 18. Com efeito, ficou evidente que a seqüência de atos praticados objetivou unicamente reduzir a tributação através da transferência da sujeição passiva da "DISLUB" para os seus sócios. Recapitulamos que a "DISLUB" transferiu sua participação societária na "CIMEC" para os seus sócios pessoas físicas, sem ter recebido valor algum na negociação, ficando apenas com um direito creditório. Momentos depois, estes sócios venderam suas ações para a Camargo Correa S/A por um valor bem superior ao de aquisição. Ato contínuo, retornam estes recursos como aumento de capital social na "DISLUB". Ressaltese ainda que a transferência das ações deu se de forma paulatina, na medida em que a compradora estava para efetuar seus pagamentos. Com isso, a tributação do ganho de capital da operação recaiu nos sócios "HUMBERTO", "SERGIO" e "VALDYR". Até o momento, evidenciavase que a autuação fiscal seria no sentido de tributar o ganho de capital, decorrente da venda de ações da CIMEC, da alienante pessoa jurídica Contribuinte, para a adquirente CSSA. Afastouse o negócio jurídico simulado (venda das ações da Contribuinte para os sócios e venda dos sócios para a CSSA), e se propôs a tributação de ganho de capital sobre a real intenção: venda das ações da CIMEC pela Contribuinte para a CSSA. Ocorre que a fundamentação da autuação fiscal tomou outros rumos. Entendeu a Fiscalização que estariam presentes os elementos da presunção legal prevista no art. 464 do RIR/99: (a) alienação; (b) pessoa ligada; (c) valor inferior ao de mercado e (d) bem do ativo permanente. Tipificou a infração tributária com base no artigo a seguir transcrito: Art. 464. Presumese distribuição disfarçada de lucros no negócio pelo qual a pessoa jurídica (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 60, e DecretoLei nº 2.065, de 1983, art. 20, inciso II): I aliena, por valor notoriamente inferior ao de mercado, bem do seu ativo a pessoa ligada; II adquire, por valor notoriamente superior ao de mercado, bem de pessoa ligada; III perde, em decorrência do não exercício de direito à aquisição de bem e em benefício de pessoa ligada, sinal, Fl. 1570DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.571 10 depósito em garantia ou importância paga para obter opção de aquisição; IV transfere a pessoa ligada, sem pagamento ou por valor inferior ao de mercado, direito de preferência à subscrição de valores mobiliários de emissão de companhia; V paga a pessoa ligada aluguéis, royalties ou assistência técnica em montante que excede notoriamente ao valor de mercado; VI realiza com pessoa ligada qualquer outro negócio em condições de favorecimento, assim entendidas condições mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros. § 1º O disposto nos incisos I e IV não se aplica nos casos de devolução de participação no capital social de titular, sócio ou acionista de pessoa jurídica em bens ou direitos, avaliados a valor contábil ou de mercado (Lei nº 9.249, de 1995, art. 22). § 2º A hipótese prevista no inciso II não se aplica quando a pessoa física transferir a pessoa jurídica, a título de integralização de capital, bens e direitos pelo valor constante na respectiva declaração de bens (Lei nº 9.249, de 1995, art. 23, § 1º). § 3º A prova de que o negócio foi realizado no interesse da pessoa jurídica e em condições estritamente comutativas, ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros, exclui a presunção de distribuição disfarçada de lucros (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 60, § 2º). E foi precisamente a possível incongruência do procedimento da autoridade autuante o objeto de análise do voto do relator Marcos Takata na decisão recorrida, cuja ementa transcrevo: DDL PLANOS DE VALOR PROVAS E VALORAÇÃO DO QUADRO O mero erro na capitulação legal não vitima o lançamento. Não é o que ocorre no caso vertente. O motivo e a razão decorrentes da valoração do quadro fático feita pelo autuante levaram à requalificação jurídica dos fatos como ganho de capital da recorrente por esta ser a efetiva alienante das ações para terceiro. Porém, a requalificação jurídica final se deu por DDL com aplicação de suas regras. Há incompatibilidade e incongruência do motivo, da razão e da consequente requalificação jurídica dos fatos (ganho de capital pela alienação a terceiro), com a finalização por requalificação jurídica por DDL (distribuição a sócio de lucro). Sintoma disso foi se considerarem ocorridas as DDL nas datas de alienação das ações pelos sócios a terceiro, e não nas datas de alienação das ações pela recorrente para seus sócios. Insubsistência da exigência ao se colocarem em planos de valor diversos o motivo, Fl. 1571DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.572 11 a razão e requalificação jurídica consequente dada aos fatos e a que foi ultimada por DDL. A tese ganhou reforço principalmente pelos eventos adotados pela Fiscalização como parâmetros para apuração da matéria tributável. Segue tabela elaborada no Termo de Encerramento Fiscal: Data Descrição Valor (RS) Receita da alienação 14.361.764,40 () Custo contábil da participação societária alienada Investimento Permanente na CIMEC (5.308 ações) (5.308.800,00) 12/03/2008 9.052.964,40 Receita da alienação 22.203.515,41 () Custo contábil da participação societária alienada Investimento Permanente na CIMEC (1.328 ações) (1.328.000,00) 22/08/2008 20.875.515,41 Como se pode observar, a apuração da matéria tributável tomou como base a alienação dos sócios pessoa física para a CSSA (eventos ocorridos em 12/03/2008 e 22/08/2008). Tributouse a diferença entre o custo contábil das ações e o valor da alienação. Ou seja, a Fiscalização tratou a situação como se fosse ganho de capital. O anocalendário da autuação fiscal diz respeito apenas a 2008. Isso porque, para se apurar o quantum conforme a hipótese de incidência da distribuição disfarçada de lucros, o evento delineado pela norma é o da alienação das ações da Contribuinte para os sócios pessoa física, que ocorreu em duas etapas: 30/11/2007 e 07/03/2008. Transcrevo novamente o caput e o inciso I do art. 464 do RIR/99: Art. 464. Presumese distribuição disfarçada de lucros no negócio pelo qual a pessoa jurídica (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 60, e DecretoLei nº 2.065, de 1983, art. 20, inciso II): I aliena, por valor notoriamente inferior ao de mercado, bem do seu ativo a pessoa ligada; (Grifei) Inclusive, foi por conta de tal situação que a decisão de primeira instância afastou a autuação fiscal relativa à primeira venda de ações. Tendo ocorrido em 30/11/2007, a tributação deveria ter incidido no anocalendário de 2007. Vale transcrever excerto do voto: 30. Como relatado, a participação da CIMEC foi transferida aos sócios em duas parcelas: a primeira (80% das ações), em 30.11.2007; a segunda (20% restantes), em 21.08.2008. Essas datas por conseguinte deveriam balizar a tributação, o que não se fez na autuação. 31. No auto de infração, como dito, as datas dos fatos geradores correspondem às das alienações das ações à CCSA pelos sócios, ou seja: 12.03.2008 e 22.08.2008, e a infração foi descrita como “Distribuição Disfarçada de Lucro/Alienação de Bem à Pessoa ligada Por Valor Notoriamente Inferior ao de Mercado”. Fl. 1572DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.573 12 32. No Termo de Encerramento (apuração do imposto), todavia, consignouse a infração como “Distribuição Disfarçada de Lucro Configurada na Transferência de ganho de Capital na Alienação de Participação Societária”, particularidade incompatível com a transferência anterior aos sócios, elemento do fato indiciário da DDL. 33. Ou seja, apesar de os efeitos tributários serem idênticos (adição ao lucro líquido para efeito de apuração do Lucro real), ou se trata de ganho de capital, e há tributação a esse título, ou se trata de distribuição disfarçada de lucro. Há que se observar entretanto a data relativa a cada infração. 34. Nesse quadro, não pode subsistir o crédito (imposto e multa por falta de recolhimento de estimativa) decorrente do lançamento relativo à data de 12.03.2008, pois que diz respeito à infração (Distribuição disfarçada de Lucro) do anocalendário de 2007. Cálculos da exoneração ao final. 35. Sorte diversa tem o crédito decorrente da alienação da segunda parcela da participação, haja vista a data da operação (22.08.2008) inserirse no mesmo mês da data da transferência das ações para os sócios (21.08.2008). A decisão recorrida, por sua vez, entendeu que todo o lançamento deveria ser afastado, pela incongruência entre a fundamentação e a tipificação. Segue excerto do voto: A sequência de atos no procedimento discutido nada tem com DDL. A forma complexa, o curto intervalo de tempo entre o negócio com o sócio e o negócio do sócio com terceiro, e a transferência de recursos pelos sócios para a recorrente (decorrente da venda das ações da CIMEC para a CCSA pelos sócios adquirentes), nada disso tem relação com o sentido de DDL. Tudo isso tem relação com requalificação jurídica dos fatos (para fins fiscais) por abusividade, para se reconhecer que quem vendeu as ações da CIMEC para a CCSA é a recorrente (sendo dela o ganho de capital auferido na venda para a CCSA), e não seus sócios. Para a valoração empreendida pelo autuante, ele ressalta a venda aos sócios sem recebimento de valor algum pela recorrente, reconhecendo apenas escrituralmente o valor, com a transferência de direito às pessoas ligadas (sócios) sem pagamento e por valor inferior ao de mercado (fls. 36 e 37). Também, o “retorno” dos recursos da venda das ações à CCSA para a recorrente (digo retorno entre aspas, pois o que a recorrente recebeu não foi o valor da venda aos sócios, mas boa parte do valor da venda pelos sócios à CCSA). Ora, se isso tem importância, a DDL não seria a diferença entre o valor de venda das ações da CIMEC à CCSA e o preço de venda das ações aos sócios da recorrente – como pretendeu o autuante. A DDL seria o próprio valor de venda das ações da CIMEC à CCSA, se esse for o valor de mercado. (...) Fl. 1573DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.574 13 A evidência do que disse até agora, ou pelo menos um sintoma, está no equívoco do autuante na aplicação das regras de DDL ao afirmar que a DDL se configurou na alienação final pelos sócios. Ora, a DDL se aperfeiçoa e se encerra na data da alienação aos sócios, e não na sequência praticada pelos sócios, i.e., na alienação feita pelos sócios. É o que se vê nos instrumentos específicos dos autos de infração (fls. 5 e 16 – datas de 12/3/08 e 22/8/08, que são as das vendas feitas pelos sócios à CCSA). Como é dito no Termo de Encerramento de Ação Fiscal: Assim, em breve síntese: os fatos tratam de alienação de ações da Contribuinte para a CSSA. A alienação deuse primeiro para os sócios da Contribuinte pelo custo contábil. Na sequência, ocorreu alienação das ações dos sócios para a CSSA, a valor de mercado. A Fiscalização entendeu ter ocorrido distribuição disfarçada de lucros (DDL). A decisão recorrida julgou no sentido de que houve um descompasso entre a fundamentação da autuação fiscal, no qual se evidenciou a tributação de ganho de capital, tomandose como evento a alienação das ações dos sócios para a CSSA, e a subsunção dos fatos à norma, no qual se qualificou os fatos como DDL, aduzindo que se DDL fosse o evento tributável seria a alienação das ações da Contribuinte para os sócios. Passemos aos paradigmas. O primeiro paradigma, nº 120200.204, trata de tributação de DDL, no qual ocorreu a alienação de bem do ativo permanente por valor notoriamente inferior ao de mercado para pessoa física ligada. Assim se posicionou o voto: Quanto a presunção da distribuição disfarçada de lucros calcada no fato de verificarse a operação de vendas de imóveis aos sócios, em condições de favorecimento, é inquestionável, tanto porque apurado pela autoridade fiscal, como confirmado pela Recorrente, que as operações de pagamentos dos sócios não foram efetivadas, constando em aberto os débitos junto a contabilidade da Recorrente que, no plano da realidade, configura expressiva repercussão negativa patrimonial para a mesma, o que justifica o tratamento que tal operação perpetrou se à titulo "gratuito", vale dizer, não onerou, até o encerramento da ação fiscal, em nada os seus sócios, apenas revelando, inequivocamente, um sinal exterior de favorecimento incomum em operações desse jaez no mercado imobiliário. Também tratou de outra situação, no qual ocorreu um pagamento de R$500.000,00 a pessoa física ligada "em condições de favorecimento". Assim se manifestou o voto: Quanto a outra presunção de distribuição disfarçada de lucros pelo pagamento de R$ 500.000,00 a sócia, Adair Bueno Leão, também a Recorrente reproduz mesma argumentação já exposta na peça impugnatória, nada trazendo de novo, como elemento probatório a elidir a presunção fiscal como lançada na autuação, pelo que, adotando as razões de decidir a fls. 14.061 nestes autos, mantenho a decisão de primeira instância, para a exigência da infração indigitada. Fl. 1574DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.575 14 Ora, como se observa, a situação tratada é precisamente a hipótese de incidência da DDL, transação entre a pessoa jurídica e o sócio, pessoa ligada. Em nenhum momento se discutiu sobre qual seria a hipótese de incidência delineada para a DDL. Como visto, nos presentes autos, a alienação das ações dos sócios pessoa física para a CSSA foi considerado evento apto a consumar ganho de capital e, se a Fiscalização fosse tributar DDL, caberia ter delineado como suporte fático a alienação das ações da Contribuinte para os sócios pessoas físicas. Não há comunicação entre os fatos da decisão recorrida e da decisão paradigma, o que torna impossível, por consequência, efetuar o cotejo da interpretação da legislação tributária entre os acórdãos para verificar se haveria alguma divergência na leitura da norma. O segundo paradigma, nº 1101000.868, trata de alienação de pessoa jurídica a pessoa ligada de ações da Bovespa Holding e da BM&F. Transcrevo excerto do relatório da decisão: Isto porque Unibanco Corretora de Valores Mobiliários e Cambio S/A (Unibanco Investshop) alienou a Unicard Banco Múltiplo, em outubro e novembro de 2007, 13.189.918 ações da Bovespa Holding e 9.869.625 ações da BM&F, considerando o valor unitário de R$ 2,23 e R$ 1,42, respectivamente. A justificativa para o negócio seria a melhor administração dos investimentos do conglomerado, mediante concentração das ações na Unicard, porém, contradizendo este objetivo, dentro dos mesmos meses de aquisição, a Unicard alienou as ações auferindo ganho superior em mais de 100 vezes o valor do ganho apurado pelo Unibanco Investshop. A autoridade fiscal concluiu pela inexistência de mercado ativo para os bens negociados, e valendose da previsão legal contida no §3 ° do art. 465 do RIR/99, determinou o valor de mercado das ações da Bovespa a partir de negociações contemporâneas de bens semelhantes, apontando leilão de títulos patrimoniais realizado em 29/05/2007 e noticiado na imprensa em 30/05/2007, no qual o valor efetivo de mercado para cada ação, em maio de 2007, era de R$ 10,80, inferior aquele adotado para alienação pela Unicard (R$ 17,00), mas significativamente superior ao considerado na alienação pela Unibanco Investshop (R$ 2,23). Quanto as ações da BM&F, afirmando também inexistir mercado ativo para os bens negociados, a Fiscalização valeuse de negociações anteriores e recentes do mesmo bem, representadas pelo compromisso firmado em 20/09/2007 entre General Atlantic e a BM&F, para aquisição de 10% das ações dos acionistas da BM&F pelo valor mínimo de R$ 9,98, inferior aquele adotado para alienação pela Unicard (R$ 15,50), mas significativamente superior ao considerado na alienação pela Unibanco Investshop (R$ 1,4205). O que se observa é que não se discute nenhuma operação de triangulação como a dos presentes autos (Contribuinte aliena ações para sócios pessoa física que alienam as mesmas ações para a CSSA). No paradigma, tendo em vista a inexistência de mercado ativo Fl. 1575DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.576 15 para os bens negociados, valeuse a autoridade fiscal de negociações anteriores e recentes do mesmo bem para determinar o valor de mercado e apurar a base de cálculo da DDL. Ora, não há qualquer semelhança com a situação da decisão recorrida, tendo sido a autuação fiscal sobre negociação empreendida especificamente entre a pessoa jurídica e a pessoa ligada. Na realidade, na decisão paradigma não se contesta o fato de a operação ter ocorrido entre pessoas ligadas, mas sim sobre os critérios de comparação adotados pela Fiscalização para determinar o valor de mercado das ações. Transcrevo excerto do voto: Não há contestação acerca de a operação ter sido realizada entre pessoas ligadas, bem como não há qualquer objeção quanto A descrição da alienação ocorrida entre a autuada e a Unicard. O debate cingese às comparações utilizadas pela Fiscalização para precificar as ações, mas a contribuinte reconhece que não havia mercado ativo para os títulos época em que negociados. Assim, cabe aferir a validade dos parâmetros adotados pela Fiscalização para concluir que a alienação se deu por valor notoriamente inferior ao de mercado. Dessa maneira, também para o paradigma em análise não há comunicação entre os fatos da decisão recorrida e da decisão paradigma, o que torna impossível verificar a ocorrência da divergência na interpretação da legislação tributária. Portanto, voto no sentido de não conhecer do recurso especial da PGFN em relação à matéria (1) alienação de ações aos sócios pessoas físicas qualificada pela autoridade fiscal como distribuição disfarçada de lucros (DDL). Passo ao exame da admissibilidade da matéria concomitância de multa de ofício e multa isolada por insuficiência de recolhimento de estimativa mensal. A autuação diz respeito ao anocalendário de 2008, e pugna a Contribuinte pela aplicação da Súmula CARF nº 105. Ocorre que não cabe a aplicação do entendimento sumular, vez que foi sedimentada com precedentes que tomam como base a redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, anterior às alterações introduzidas MP nº 351, de 22/01/2007, convertida na Lei nº 11.489, de 15/07/2007. Ou seja, aplicase o entendimento sumular apenas a fatos geradores ocorridos até o anocalendário de 2006. A nova redação da norma a partir do anocalendário de 2007 não foi objeto de apreciação dos precedentes que balizaram a construção da Súmula CARF nº 105. Nesse contexto, em relação à matéria concomitância de multa de ofício e multa isolada por insuficiência de recolhimento de estimativa mensal, adoto as razões do despacho de exame de admissibilidade de efls. 1451/1456, com fulcro no art. 50, § 1º da Lei nº 9.784, de 1999, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, para conhecer do recurso especial da PGFN. Passo ao exame do mérito. A matéria devolvida para apreciação é possibilidade de se aplicar a multa isolada por insuficiência de estimativa mensal ao lado da multa de ofício, para fatos geradores posteriores a 2006. Fl. 1576DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.577 16 A princípio, vale discorrer sobre o lucro real, um dos regimes de tributação existentes no sistema tributário, atualmente regido pela Lei nº 9.430, de 1996, aplicado a partir do anocalendário de 1997: Capítulo I IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICA Seção I Apuração da Base de Cálculo Período de Apuração Trimestral Art. 1º A partir do anocalendário de 1997, o imposto de renda das pessoas jurídicas será determinado com base no lucro real, presumido, ou arbitrado, por períodos de apuração trimestrais, encerrados nos dias 31 de março, 30 de junho, 30 de setembro e 31 de dezembro de cada anocalendário, observada a legislação vigente, com as alterações desta Lei. (grifei) No lucro real, podese optar pelo regime de apuração trimestral ou anual. Vale reforçar que é uma opção do contribuinte aderir ao regime anual ou trimestral. E, no caso do regime anual, a lei é expressa ao dispor sobre a apuração de estimativas mensais. Transcrevo redação vigente à época dos fatos geradores objeto da autuação: Lei nº 9.430, de 1996 Art. 2º A pessoa jurídica sujeita a tributação com base no lucro real poderá optar pelo pagamento do imposto, em cada mês, determinado sobre base de cálculo estimada, mediante a aplicação, sobre a receita bruta auferida mensalmente, dos percentuais de que trata o art. 15 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, observado o disposto nos §§ 1º e 2º do art. 29 e nos arts. 30 a 32, 34 e 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, com as alterações da Lei nº 9.065, de 20 de junho de 1995. ................................................................................ Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995 Art. 35. A pessoa jurídica poderá suspender ou reduzir o pagamento do imposto devido em cada mês, desde que demonstre, através de balanços ou balancetes mensais, que o valor acumulado já pago excede o valor do imposto, inclusive adicional, calculado com base no lucro real do período em curso. § 1º Os balanços ou balancetes de que trata este artigo: a) deverão ser levantados com observância das leis comerciais e fiscais e transcritos no livro Diário; Fl. 1577DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.578 17 b) somente produzirão efeitos para determinação da parcela do Imposto de Renda e da contribuição social sobre o lucro devidos no decorrer do anocalendário. § 2º Estão dispensadas do pagamento de que tratam os arts. 28 e 29 as pessoas jurídicas que, através de balanço ou balancetes mensais, demonstrem a existência de prejuízos fiscais apurados a partir do mês de janeiro do anocalendário. Observase, portanto, com base em lei, a obrigatoriedade de a contribuinte optante pelo regime de lucro real anual, apurar, mensalmente, imposto devido, a partir de base de cálculo estimada com base na receita bruta, ou por balanço ou balancete mensal, esta que, inclusive, prevê a suspensão ou redução do pagamento do imposto na hipótese em que o valor acumulado já pago excede o valor de imposto apurado ao final do mês. Contudo, a hipótese de não pagamento de estimativa deve atender aos comandos legais, no sentido de que os balanços ou balancetes deverão ser levantados com observância das leis comerciais e fiscais e transcritos no livro Diário. Tratase de obrigação imposta ao contribuinte que optar pelo regime do lucro real anual. E o legislador, com o objetivo de tutelar a conduta legal, dispôs penalidade para o seu descumprimento. No caso, a prevista no art. 44 da mesma Lei nº 9.430, de 1996 (redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007): Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (...) b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (grifei) A sanção imposta pelo sistema é claríssima: caso descumprido o pagamento da estimativa mensal, cabe imputação de multa isolada, sobre a totalidade (caso em que não se pagou nada a título de estimativa mensal) ou diferença entre o valor que deveria ter sido pago e o efetivamente pago, apurado a cada mês do anocalendário. A sanção tem base legal. A sanção expressamente dispõe que é cabível ainda que a pessoa jurídica tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa de CSLL. Fl. 1578DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.579 18 E a nova redação, aplicável aos fatos geradores ocorridos a partir de 22/01/2007 (o caso em debate), afastou qualquer dúvida sobre a possibilidade de aplicação concomitante das multas de ofício e das multas isoladas por insuficiência de estimativa mensal. As hipóteses de incidência que ensejam a imposição das penalidades da multa de ofício e da multa isolada em razão da falta de pagamento da estimativa são distintas, cada qual tratada em inciso próprio no art. 44 da Lei nº. 9.430, de 1996. Observase que os incisos I e II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, tratam de suportes fáticos distintos e autônomos, com diferenças claras na temporalidade da apuração, que tem por consequência a aplicação das penalidades sobre bases de cálculo diferentes. A multa de ofício aplicase sobre o resultado apurado anualmente, cujo fato gerador aperfeiçoa se ao final do anocalendário. Por sua vez, a multa isolada é apurada conforme balancetes elaborados mês a mês ou, ainda, mediante receita bruta acumulada mensalmente. Ou seja, são materialidades independentes, não havendo que se falar em concomitância. Não há que se falar, portanto, em confisco ou duplicidade de incidência, conforme aduzido pela Contribuinte. A matéria foi tratada exaustivamente no mencionado Acórdão nº 9101 002.438. de relatoria da Conselheira Adriana Gomes Rêgo, que de maneira precisa e objetiva, apresentou uma interpretação histórica, teleológica e sistêmica do dispositivo normativo. Transcrevo excerto no qual trata da não aplicação do princípio da consunção, no qual menciona entendimento da exConselheira Karem Jureidini Dias. Há argumentos no sentido de que o princípio da consunção veda a cumulação das penalidades. Dizem seus adeptos que o não recolhimento da estimativa mensal seria etapa preparatória da infração cometida no ajuste anual e, em tais circunstâncias o princípio da consunção autorizaria a subsistência, apenas, da penalidade aplicada sobre o tributo devido ao final do ano calendário, prestigiando o bem jurídico mais relevante, no caso, a arrecadação tributária, em confronto com a antecipação de fluxo de caixa assegurada pelas estimativas. Ademais, como a base fática para imposição das penalidades seria a mesma, a exigência concomitante das multas representaria bis in idem, até porque, embora a lei tenha previsto ambas penalidades, não determinou a sua aplicação simultânea. E acrescentam que, em se tratando de matéria de penalidades, seria aplicável o art. 112 do CTN. Entretanto, com a devida vênia, discordo desse entendimento. Para tanto, aproveitome, inicialmente do voto proferido pela Conselheira Karem Jureidini Dias na condução do Acórdão nº 9101001.135, para trazer sua abordagem conceitual acerca das sanções em matéria tributária: [...] A sanção de natureza tributária decorre do descumprimento de obrigação tributária – qual seja, obrigação de pagar tributo. A sanção de natureza tributária pode sofrer agravamento ou qualificação, esta última em razão de o ilícito também possuir natureza penal, como nos casos de existência de dolo, fraude ou Fl. 1579DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.580 19 simulação. O mesmo auto de infração pode veicular, também, norma impositiva de multa em razão de descumprimento de uma obrigação acessória obrigação de fazer – pois, ainda que a obrigação acessória sempre se relacione a uma obrigação tributária principal, revestese de natureza administrativa. Sobre as obrigações acessórias e principais em matéria tributária, vale destacar o que dispõe o artigo 113 do Código Tributário Nacional: “Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária.” Fica evidente da leitura do dispositivo em comento que a obrigação principal, em direito tributário, é pagar tributo, e a obrigação acessória é aquela que possui características administrativas, na medida em que as respectivas normas comportamentais servem ao interesse da administração tributária, em especial, quando do exercício da atividade fiscalizatória. O dispositivo transcrito determina, ainda, que em relação à obrigação acessória, ocorrendo seu descumprimento pelo contribuinte e imposta multa, o valor devido convertese em conversão, a natureza da sanção aplicada permanece sendo administrativa, já que não há cobrança de tributo envolvida, mas sim a aplicação de uma penalidade em razão da inobservância de uma norma que visava proteger os interesses fiscalizatórios da administração tributária. Assim, as sanções em matéria tributária podem ter natureza (i) tributária principal quando se referem a descumprimento da obrigação principal, ou seja, falta de recolhimento de tributo; (ii) administrativa – quando se referem à mero descumprimento de obrigação acessória que, em verdade, tem por objetivo auxiliar os agentes públicos que se encarregam da fiscalização; ou, ainda (iii) penal – quando qualquer dos ilícitos antes mencionados representar, também, ilícito penal. Significa dizer que, para definir a natureza da sanção aplicada, necessário se faz verificar o antecedente da norma sancionatória, identificando a relação jurídica desobedecida. Aplicamse às sanções o princípio da proporcionalidade, que deve ser observado quando da aplicação do critério quantitativo. Neste ponto destacamos a lição de Helenilson Cunha Pontes a Fl. 1580DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.581 20 respeito do princípio da proporcionalidade em matéria de sanções tributárias, verbis: “As sanções tributárias são instrumentos de que se vale o legislador para buscar o atingimento de uma finalidade desejada pelo ordenamento jurídico. A análise da constitucionalidade de uma sanção deve sempre ser realizada considerando o objetivo visado com sua criação legislativa. De forma geral, como lembra Régis Fernandes de Oliveira, “a sanção deve guardar proporção com o objetivo de sua imposição”. O princípio da proporcionalidade constitui um instrumento normativo constitucional através do qual podese concretizar o controle dos excessos do legislador e das autoridades estatais em geral na definição abstrata e concreta das sanções”. O primeiro passo para o controle da constitucionalidade de uma sanção, através do princípio da proporcionalidade, consiste na perquirição dos objetivos imediatos visados com a previsão abstrata e/ou com a imposição concreta da sanção. Vale dizer, na perquirição do interesse público que valida a previsão e a imposição de sanção”. (in “O Princípio da Proporcionalidade e o Direito Tributário”, ed. Dialética, São Paulo, 2000, pg.135) Assim, em respeito a referido princípio, é possível afirmar que: se a multa é de natureza tributária, terá por base apropriada, via de regra, o montante do tributo não recolhido. Se a multa é de natureza administrativa, a base de cálculo terá por grandeza montante proporcional ao ilícito que se pretende proibir. Em ambos os casos as sanções podem ser agravadas ou qualificadas. Agravada, se além do descumprimento de obrigação acessória ou principal, houver embaraço à fiscalização, e, qualificada se ao ilícito somarse outro de cunho penal – existência de dolo, fraude ou simulação. A MULTA ISOLADA POR NÃO RECOLHIMENTO DAS ANTECIPAÇÕES A multa isolada, aplicada por ausência de recolhimento de antecipações, é regulada pelo artigo 44, inciso II, alínea “b”, da Lei nº 9.430/96, verbis: [...] A norma prevê, portanto, a imposição da referida penalidade quando o contribuinte do IRPJ e da CSLL, sujeito ao Lucro Real Anual, deixar de promover as antecipações devidas em razão da disposição contida no artigo 2º da Lei nº 9.430/96, verbis: [...] A natureza das antecipações, por sua vez, já foi objeto de análise do Superior Tribunal de Justiça, que manifestou entendimento no sentido de considerar que as antecipações se referem ao pagamento de tributo, conforme se depreende dos seguintes julgados: Fl. 1581DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.582 21 “TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. IMPOSTO DE RENDA. CSSL. RECOLHIMENTO ANTECIPADO. ESTIMATIVA. TAXA SELIC. INAPLICABILIDADE. 1. "É firme o entendimento deste Tribunal no sentido de que o regime de antecipação mensal é opção do contribuinte, que pode apurar o lucro real, base de cálculo do IRPJ e da CSSL, por estimativa, e antecipar o pagamento dos tributos, segundo a faculdade prevista no art. 2° da Lei n. 9430/96" (AgRg no REsp 694278RJ, relator Ministro Humberto Martins, DJ de 3/8/2006). 2. A antecipação do pagamento dos tributos não configura pagamento indevido à Fazenda Pública que justifique a incidência da taxa Selic. 3. Recurso especial improvido.” (Recurso Especial 529570 / SC Relator Ministro João Otávio de Noronha Segunda Turma Data do Julgamento 19/09/2006 DJ 26.10.2006 p. 277) “AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL TRIBUTÁRIO IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICA IRPJ E CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO CSSL APURAÇÃO POR ESTIMATIVA PAGAMENTO ANTECIPADO OPÇÃO DO CONTRIBUINTE LEI N. 9430/96. É firme o entendimento deste Tribunal no sentido de que o regime de antecipação mensal é opção do contribuinte, que pode apurar o lucro real, base de cálculo do IRPJ e da CSSL, por estimativa, e antecipar o pagamento dos tributos, segundo a faculdade prevista no art. 2° da Lei n. 9430/96. Precedentes: REsp 492.865/RS, Rel. Min. Franciulli Netto, DJ25.4.2005 e REsp 574347/SC, Rel. Min. José Delgado, DJ 27.9.2004.Agravo regimental improvido.” (Agravo Regimental No Recurso Especial 2004/01397180 Relator Ministro Humberto Martins Segunda Turma DJ 17.08.2006 p. 341) Do exposto, inferese que a multa em questão tem natureza tributária, pois aplicada em razão do descumprimento de obrigação principal, qual seja, falta de pagamento de tributo, ainda que por antecipação prevista em lei. Debates instalaramse no âmbito desse Conselho Administrativo sobre a natureza da multa isolada. Inicialmente me filiei à corrente que entendia que a multa isolada não poderia prosperar porque penalizava conduta que não se configurava obrigação principal, tampouco obrigação acessória. Ou seja, mantinha o entendimento de que a multa em questão não se referia a qualquer obrigação prevista no artigo 113 do Código Tributário Nacional, na medida em que penalizava conduta que, a meu ver à época, não podia ser considerada obrigação principal, já que o tributo não estava definitivamente apurado, tampouco poderia ser considerada obrigação acessória, pois evidentemente não Fl. 1582DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.583 22 configura uma obrigação de caráter meramente administrativo, uma vez que a relação jurídica prevista na norma primária dispositiva é o “pagamento” de antecipação. Nada obstante, modifiquei meu entendimento, mormente por concluir que tratase, em verdade, de multa pelo não pagamento do tributo que deve ser antecipado. Ainda que tenha o contribuinte declarado e recolhido o montante devido de IRPJ e CSLL ao final do exercício, fato é que caberá multa isolada quando o contribuinte não efetua a antecipação deste tributo. Tanto assim que, até a alteração promovida pela Lei nº 11.488/07, o caput do artigo 44 da Lei nº 9.430/96, previa que o cálculo das multas ali estabelecidas seria realizado “sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição”. Frente a estas considerações, releva destacar que a penalidade em debate é exigida isoladamente, sem qualquer hipótese de agravamento ou qualificação e, embora seu cálculo tenha por referência a antecipação não realizada, sua exigência não se dá por falta de "pagamento de tributo", dado o fato gerador do tributo sequer ter ocorrido. De forma semelhante, outras penalidades reconhecidas como decorrentes do descumprimento de obrigações acessórias são calculadas em razão do valor dos tributos devidos e exigidas de forma isolada. Enfim, transcrevo parte de conclusão do didático voto: A alteração legislativa promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, portanto, claramente fixou a possibilidade de aplicação de duas penalidades em caso de lançamento de ofício frente a sujeito passivo optante pela apuração anual do lucro tributável. Somente desconsiderandose todo o histórico de aplicação das penalidades previstas na redação original do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, seria possível interpretar que a redação original não determinou a aplicação simultânea das penalidades. A redação alterada é direta e impositiva ao firmar que "serão aplicadas as seguintes multas". Ademais, quando o legislador estipula na alínea "b" do inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, a exigência isolada da multa sobre o valor do pagamento mensal ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa no anocalendário correspondente, claramente afirma a aplicação da penalidade mesmo se apurado lucro tributável e, por conseqüência, tributo devido sujeito à multa prevista no inciso I do seu art. 44. Acrescentese que não se pode falar, no caso, de bis in idem sob o pressuposto de que a imposição das penalidades teria a mesma base fática. Basta observar que as infrações ocorrem em diferentes momentos, o primeiro correspondente à apuração da estimativa com a finalidade de cumprir o requisito de antecipação do recolhimento imposto aos optantes pela apuração anual do lucro, e o segundo apenas na apuração do lucro tributável ao final do anocalendário. A análise, assim, não pode ficar limitada, por exemplo, à omissão de receitas ou ao Fl. 1583DF CARF MF Processo nº 10480.725955/201213 Acórdão n.º 9101003.052 CSRFT1 Fl. 1.584 23 registro de despesas indedutíveis, especialmente porque, para fins tributários, estas ocorrências devem, necessariamente, repercutir no cumprimento da obrigação acessória de antecipar ou na constituição, pelo sujeito passivo, da obrigação tributária principal. A base fática, portanto, é constituída pelo registro contábil ou fiscal, ou mesmo sua supressão, e pela repercussão conferida pelo sujeito passivo àquela ocorrência no cumprimento das obrigações tributárias. Como esta conduta se dá em momentos distintos e com finalidades distintas, duas penalidades são aplicáveis, sem se cogitar de bis in idem. Portanto, em relação à multa isolada sobre estimativa mensal, não há reparos ao procedimento adotado pela autoridade fiscal, razão pela qual dou provimento ao recurso da PGFN em relação à matéria. Enfim, aduz em contrarrazões a Contribuinte sobre a obrigatória compensação do tributo pago, no qual os valores pagos pelos sócios pessoas físicas a título de ganho de capital deveriam ser aproveitado para abater o lançamento de ofício aplicado sobre a pessoa jurídica. Sobre o assunto, primeiro, tratase de matéria que não foi devolvida para apreciação do Colegiado, vez que não foi interposto recurso especial pela parte. Ademais, diante do encaminhamento do presente voto, no sentido de não conhecer do recurso especial da PGFN, a matéria perde o objeto. Diante do exposto, voto no sentido de rejeitar a arguição de impedimento suscitada pela Contribuinte; conhecer parcialmente ao recurso especial da PGFN em relação à matéria concomitância de multa de ofício e multa isolada por insuficiência de recolhimento de estimativa mensal, e, no mérito, na parte devolvida, darlhe provimento. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Fl. 1584DF CARF MF
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Numero do processo: 13016.000231/2005-17
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Sep 29 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/06/2005 a 30/06/2005
NÃO-CUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL.
Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da não-incidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições.
Recurso Especial do Procurador Negado.
Numero da decisão: 9303-005.377
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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INCIDÊNCIA. CESSÃO ONEROSA DE CRÉDITOS DO ICMS. EXPORTAÇÃO. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado MADEM SA INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE MADEIRAS E EMBALAGENS ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/06/2005 a 30/06/2005 NÃOCUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL. Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da nãoincidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições. Recurso Especial do Procurador Negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 01 6. 00 02 31 /2 00 5- 17 Fl. 185DF CARF MF Processo nº 13016.000231/200517 Acórdão n.º 9303005.377 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto pela Fazenda Nacional contra o Acórdão 380300.858. Na parte de interesse ao presente litígio, o colegiado a quo decidiu que a cessão onerosa de créditos do ICMS não compõe a base de cálculo das contribuições do PIS e da COFINS. A Fazenda Nacional requer a reforma do acórdão argumentando, em síntese, que a cessão onerosa de créditos de ICMS é uma operação que equiparase a verdadeira alienação de direitos a titulo oneroso, originando receita tributável, devendo compor a base de cálculo da PIS/ COFINS, conforme dispõe o art. 1° §§ 1º e 2º da Lei nº 10.637/2002, bem como o art. 1° da Lei nº 10.833/2003. Mediante Despacho do Presidente da Câmara competente, foi dado seguimento ao recurso interposto. O contribuinte apresentou contrarrazões. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303005.319, de 25/07/2017, proferido no julgamento do processo 13016.000004/200401, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303005.319): "Os requisitos para se admitir o Recurso Especial foram cumpridos e foram respeitadas as formalidades regimentalmente previstas. A matéria tratada no presente litígio restringese ao fato de se as receitas decorrentes da transferência onerosa de créditos de ICMS, acumulados em razão de exportação para o exterior, devem, ou não, ser excluídas da base de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins. O tema não é mais passível de discussão no CARF, haja vista que o Supremo Tribunal Federal já decidiu a questão posta, com a devida declaração de repercussão geral, nos termos do artigo 543B da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, antigo Código de Processo Civil. Fl. 186DF CARF MF Processo nº 13016.000231/200517 Acórdão n.º 9303005.377 CSRFT3 Fl. 4 3 O Recurso Extraordinário nº 606.107/RS, que trata da matéria, foi interposto pela Fazenda Nacional, contra decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que considerou inconstitucional a inclusão, na base de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins não cumulativas, dos valores dos créditos do ICMS provenientes de exportação que fossem cedidos onerosamente a terceiros. Em julgamento realizado pelo pleno do STF, em 22/05/2013, sob a relatoria da Ministra Rosa Weber, foi julgado o mérito, cuja decisão possui a seguinte ementa: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. IMUNIDADE. HERMENÊUTICA. CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO INCIDÊNCIA. TELEOLOGIA DA NORMA. EMPRESA EXPORTADORA. CRÉDITOS DE ICMS TRANSFERIDOS A TERCEIROS. I Esta Suprema Corte, nas inúmeras oportunidades em que debatida a questão da hermenêutica constitucional aplicada ao tema das imunidades, adotou a interpretação teleológica do instituto, a emprestarlhe abrangência maior, com escopo de assegurar à norma supralegal máxima efetividade. (...) VI O aproveitamento dos créditos de ICMS por ocasião da saída imune para o exterior não gera receita tributável. Cuidase de mera recuperação do ônus econômico advindo do ICMS, assegurada expressamente pelo art. 155, § 2º, X, “a”, da Constituição Federal. VII Adquirida a mercadoria, a empresa exportadora pode creditarse do ICMS anteriormente pago, mas somente poderá transferir a terceiros o saldo credor acumulado após a saída da mercadoria com destino ao exterior (art. 25, § 1º, da LC 87/1996). Porquanto só se viabiliza a cessão do crédito em função da exportação, além de vocacionada a desonerar as empresas exportadoras do ônus econômico do ICMS, as verbas respectivas qualificamse como decorrentes da exportação para efeito da imunidade do art. 149, § 2º, I, da Constituição Federal. VIII Assenta esta Suprema Corte a tese da inconstitucionalidade da incidência da contribuição ao PIS e da COFINS não cumulativas sobre os valores auferidos por empresa exportadora em razão da transferência a terceiros de créditos de ICMS. (...) Recurso extraordinário conhecido e não provido, aplicandose aos recursos sobrestados, que versem sobre o tema decidido, o art. 543B, § 3º, do CPC. O acórdão foi publicado em 25/11/2013 e o trânsito em julgado deu se em 05/12/2013. Fl. 187DF CARF MF Processo nº 13016.000231/200517 Acórdão n.º 9303005.377 CSRFT3 Fl. 5 4 Por força da disposição, a seguir transcrita, do § 2º do art. 62 do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, a mencionada decisão do STF deve ser reproduzida por este relator: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (...) § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 – Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Registrese ainda, a título de observação, que, na forma da Lei nº 10.522/2002, art. 19, § 5º, com a redação dada pelo art. 21 da Lei nº 12.844/2013, também estão vinculadas a este entendimento as Delegacias de Julgamento e as Unidades de Origem da RFB, com a manifestação da PGFN na Nota transcrita parcialmente a seguir, no que interessa a esta discussão: NOTA /PGFN/CRJ/Nº 1.486/2013 (...) 2. Em razão de os referidos julgados terem repercussão na esfera administrativa e requerer atuação efetiva da RFB, e em observância do que foi definido na Nota PGFN/CRJ nº 1114/2012, que cumpre o disposto no Parecer PGFN/CDA nº 2025/2011, estas CRJ examina, infra, os itens referidos no parágrafo anterior, realizando a delimitação do tema ali tratado, nos seguintes termos: (...) 98 – RE 606.107/RS (...) Resumo: não incide PIS e COFINS sobre a cessão a terceiros do crédito presumido do ICMS decorrente de exportação. Data da inclusão:13/12/2013 DELIMITAÇÃO DA MATÉRIA DECIDIDA: as verbas referentes à cessão a terceiro de crédito presumido do ICMS decorrente de exportação não constituem base para incidência do PIS e da COFINS. Pelo exposto, voto por dar provimento ao Recurso Especial interposto pelo contribuinte." Fl. 188DF CARF MF Processo nº 13016.000231/200517 Acórdão n.º 9303005.377 CSRFT3 Fl. 6 5 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 189DF CARF MF
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Numero do processo: 13830.903144/2012-31
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Oct 17 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do fato gerador: 31/05/2009
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. INDÉBITO. PERD/COMP. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. INSUFICIÊNCIA.
As alegações constantes da manifestação de inconformidade devem ser acompanhadas de provas suficientes que as confirmem a liquidez e certeza do crédito pleiteado.
Não tendo sido apresentada qualquer documentação apta a embasar a existência e suficiência crédito alegado pela Recorrente, não é possível o reconhecimento do direito apto a acarretar em qualquer imprecisão do trabalho fiscal na não homologação da compensação requerida.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3402-004.417
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Olmiro Lock Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: JORGE OLMIRO LOCK FREIRE
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INDÉBITO. PERD/COMP. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. INSUFICIÊNCIA. As alegações constantes da manifestação de inconformidade devem ser acompanhadas de provas suficientes que as confirmem a liquidez e certeza do crédito pleiteado. Não tendo sido apresentada qualquer documentação apta a embasar a existência e suficiência crédito alegado pela Recorrente, não é possível o reconhecimento do direito apto a acarretar em qualquer imprecisão do trabalho fiscal na não homologação da compensação requerida. Recurso Voluntário Negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Olmiro Lock Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo e Carlos Augusto Daniel Neto. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 0. 90 31 44 /2 01 2- 31 Fl. 55DF CARF MF Processo nº 13830.903144/201231 Acórdão n.º 3402004.417 S3C4T2 Fl. 3 2 Relatório Tratase de recurso voluntário interposto em face da decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento (“DRJ”) de Belo Horizonte, que julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pela Contribuinte sobre pedido de restituição de créditos de PIS. O despacho decisório indeferiu o pedido de restituição por inexistência do crédito pleiteado face a vinculação do DARF nele informado com a quitação de débitos do contribuinte. Em sua manifestação de inconformidade, a recorrente alega em síntese que: (...) a empresa tem seus produtos tributados à alíquota zero de PIS e Cofins, conforme determina o art. 1º, inciso XII, da Lei nº 10.925, de 2004. Faz ainda referência à legislação que autoriza o contribuinte a solicitar o ressarcimento ou restituição dos valores que resultarem em crédito acumulado ou recolhimento que se revelou indevido ou a maior. Destaca que revisou suas apurações de PIS e Cofins e constatou que apurou erroneamente os valores ao tributar receitas sujeitas à alíquota zero, tendo efetuado os pedidos de restituição, via PER/DCOMP. Diante disso, foram retificados os Dacon, revelando saldo credor das referidas contribuições. Afirma ainda que, em data posterior ao protocolo dos pedidos, efetuou também as retificações das DCTF, cujo recibo segue anexo. Diante disso, o recorrente não pode ter seu pedido de restituição indeferido sem que se analise o crédito que lhe deu origem, demonstrado no Dacon retificador que se encontra no banco de dados da Receita Federal. Também é necessário que se verifiquem as DCTF retificadoras apresentadas. Defendeu ainda o direito à incidência da taxa Selic sobre o crédito em debate. Ao final, requer: 1. seja recebida e processada a manifestação de inconformidade; 2. seja determinada nova verificação do Dacon retificador e da DCTF retificadora relativa ao período em debate, para o fim de identificar o crédito objeto deste processo; 3. seja reformado o Despacho Decisório, para o fim de reconhecer integralmente o crédito objeto do PER/DCOMP nº 19327.90131.170910.1.2.043613, que tem origem em pagamento indevido ou a maior demonstrado em Dacon e DCTF; 4. que seja determinada a atualização do crédito pela taxa Selic, nos termos fixados no § 4º do art. 39 da Lei nº 9.250, de 1995; Fl. 56DF CARF MF Processo nº 13830.903144/201231 Acórdão n.º 3402004.417 S3C4T2 Fl. 4 3 5. que seja determinado o depósito do valor solicitado e atualizado em conta corrente especificada. Sobreveio então o Acórdão 02060.680, da 2ª Turma da DRJ/BHE, negando provimento à manifestação de inconformidade da Contribuinte, devido a ausência de comprovação do pagamento indevido ou a maior. Irresignada, a Contribuinte interpôs Recurso Voluntário a este Conselho, no qual repisa os argumentos trazidos em sua manifestação de inconformidade. É o relatório. Voto Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3402004.394, de 26 de setembro de 2017, proferido no julgamento do processo 13830.903129/201292, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3402004.394): "Como se depreende do relato acima, a lide resumese à comprovação da existência e suficiência do crédito objeto da compensação. Pois bem. A Lei n. 5.172/66 (Código Tributário Nacional), em seu art. 165, assegura o direito à restituição de tributos por recolhimento ou pagamento indevido ou a maior que o devido e estabelece os casos que configuram tal recolhimento ou pagamento, como a Recorrente afirma possuir, nos seguintes termos: Art. 165. O sujeito passivo tem direito, independentemente de prévio protesto, à restituição total ou parcial do tributo, seja qual for a modalidade do seu pagamento, ressalvado o disposto no § 4º do artigo 162, nos seguintes casos I Cobrança ou pagamento espontâneo de tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido; II erro na edificação do sujeito passivo, na determinação da alíquota aplicável, no cálculo do montante do débito ou na elaboração ou conferência de qualquer documento relativo ao pagamento; III reforma, anulação, revogação ou rescisão de decisão condenatória Fl. 57DF CARF MF Processo nº 13830.903144/201231 Acórdão n.º 3402004.417 S3C4T2 Fl. 5 4 Por sua vez, o instituto da compensação de créditos tributários está previsto no artigo 170 do Código Tributário Nacional (CTN): Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. (...) Com o advento da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, a compensação passou a ser tratada especificamente em seu artigo 74, tendo a citada Lei disciplinado a compensação de débitos tributários com créditos do sujeito passivo decorrentes de restituição ou ressarcimento de tributos ou contribuições, âmbito da Secretaria da Receita Federal (SRF). Ainda, o §1º do art. 74 da Lei nº 9.430/96 (incluído pelo art. 49 da Lei nº 10.637/02) 1 determina que a compensação será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados (PER/DCOMP), como pretende a Recorrente in casu. Nesse sentido, a Recorrente processou pedido de compensação, afirmando possuir créditos relativos à COFINS, decorrente de pagamentos indevidos (receita da venda de seus produtos, queijos, que é reduzida a zero pela legislação da Contribuição). Entretanto, a partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP, foram localizados um ou mais pagamentos, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte. Assim, concluiu a Fiscalização que não restava crédito disponível para restituição, e, por conseguinte, a compensação não foi homologada. Muito embora a falta de prova sobre a existência e suficiência do crédito tenha sido o motivo tanto da não homologação da compensação por despacho decisório, como da negativa de provimento à manifestação de inconformidade, a Recorrente permanece sem se desincumbir do seu ônus probatório, insistindo que efetuou a retificação do Dacon, o que demonstraria seu direito ao crédito. Ocorre que o Dacon constitui demonstrativo por meio do qual a empresa apura as contribuições devidas. Com efeito, o Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais (DACON), instituído pela Instrução Normativa SRF nº 387, de 20 de janeiro de 2004, é uma declaração acessória obrigatória em que as pessoas jurídicas informavam a Receita Federal do Brasil sobre a apuração da Contribuição ao PIS e da 1 A referida legislação recebeu ainda algumas alterações promovidas pelas Leis nºs 10.833/2003 e 11.051/2004. Atualmente, os procedimentos respectivos encontramse regidos pela IN RFB nº 1.300/2012 e alterações posteriores Fl. 58DF CARF MF Processo nº 13830.903144/201231 Acórdão n.º 3402004.417 S3C4T2 Fl. 6 5 COFINS. Em outros termos, sua função é de refletir a situação do recolhimento das contribuições da empresa, sendo os créditos autorizados por lei e com substrato nos documentos contábeis da empresa, basicamente notas fiscais os livros fiscais onde estão registradas as referidas notas, além da própria DCTF. Assim, são esses últimos documentos que possuem aptidão para comprovar o crédito. Ademais, a Instrução Normativa n. 1.015, de 05 de março de 2010, vigente à época dos fatos, estabelece que Art. 10. A alteração das informações prestadas em Dacon, nas hipóteses em que admitida, será efetuada mediante apresentação de demonstrativo retificador, elaborado com observância das mesmas normas estabelecidas para o demonstrativo retificado. § 1º O Dacon retificador terá a mesma natureza do demonstrativo originariamente apresentado, substituindoo integralmente, e servirá para declarar novos débitos, aumentar ou reduzir os valores de débitos já informados ou efetivar alteração nos créditos e retenções na fonte informados. § 2º A retificação não produzirá efeitos quando tiver por objeto: I reduzir débitos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins: a) cujos saldos a pagar já tenham sido enviados à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) para inscrição em Dívida Ativa da União (DAU), nos casos em que importe alteração desses saldos; b) cujos valores apurados em procedimentos de auditoria interna, relativos às informações indevidas ou não comprovadas prestadas no demonstrativo original, já tenham sido enviados à PGFN para inscrição em DAU; ou c) que tenham sido objeto de exame em procedimento de fiscalização; e II alterar débitos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins em relação aos quais a pessoa jurídica tenha sido intimada de início de procedimento fiscal. (...) § 5º A pessoa jurídica que entregar Dacon retificador, alterando valores que tenham sido informados na Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), deverá apresentar, também, DCTF retificadora. Conforme mencionado anteriormente, a Contribuinte não apresentou nenhum documento que comprovasse o crédito alegado. Fl. 59DF CARF MF Processo nº 13830.903144/201231 Acórdão n.º 3402004.417 S3C4T2 Fl. 7 6 Ressalto que com relação à alegação em manifestação de inconformidade que haveria DCTF retificadora, a decisão recorrida bem coloca que os valores constantes desse documento foram aqueles utilizados pela Fiscalização para a análise do PER/DCOMP, bem como que, com o exame do DACON retificador, fica evidenciada a utilização do crédito em questão. Nesse sentido, destaco o seguinte trecho do acórdão da DRJ: Quanto à alegada retificação da DCTF, registrese que o documento retificador constante dos sistemas mantidos pela Receita Federal, entregue em 28/09/2012 (conf. recibo de entrega), revela a existência do débito no valor que foi considerado no Despacho Decisório e indicado no quadro “UTILIZAÇÃO DOS PAGAMENTOS ENCONTRADOS PARA O DARF DISCRIMINADO NO PER/DCOMP. (...) Nestas condições, fica convalidado em todos os seus termos o Despacho Decisório contestado, que evidencia que o crédito postulado pelo contribuinte foi utilizado conforme especificado no demonstrativo de utilização do pagamento, não restando crédito passível de restituição. Ao não apresentar documentos indispensáveis à apreciação do alegado crédito, o interessado prejudicou a análise por parte da Administração, visto que restou impossibilitada a comprovação de certeza e liquidez do crédito solicitado, conforme preceitua o artigo 170 do CTN. Com relação a prova dos fatos e o ônus da prova, dispõem o artigo 36, caput, da Lei nº 9.784/99 e o artigo 373, inciso I, do Código de Processo Civil, abaixo transcritos, que caberia à Recorrente, autora do presente processo administrativo, o ônus de demonstrar o direito que pleiteia: Art. 36 da Lei nº 9.784/99. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no art. 37 desta Lei. Art. 373 do Código de Processo Civil. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; Peço vênia para destacar as palavras do Conselheiro relator Antonio Carlos Atulim, plenamente aplicáveis ao caso sub judice: “É certo que a distribuição do ônus da prova no âmbito do processo administrativo deve ser efetuada levandose em conta a iniciativa do processo. Em processos de repetição de indébito ou de ressarcimento, onde a iniciativa do pedido cabe ao contribuinte, é óbvio que o ônus de Fl. 60DF CARF MF Processo nº 13830.903144/201231 Acórdão n.º 3402004.417 S3C4T2 Fl. 8 7 provar o direito de crédito oposto à Administração cabe ao contribuinte. Já nos processos que versam sobre a determinação e exigência de créditos tributários (autos de infração), tratandose de processos de iniciativa do fisco, o ônus da prova dos fatos jurígenos da pretensão fazendária cabe à fiscalização (art. 142 do CTN e art. 9º do PAF). Assim, realmente andou mal a turma de julgamento da DRJ, pois o ônus da prova incumbe a quem alega o fato probando. Se a fiscalização não provar os fatos alegados, a consequência jurídica disso será a improcedência do lançamento em relação ao que não tiver sido provado e não a sua nulidade. A jurisprudência do CARF é pacífica sobre o tema, como se depreende das ementas abaixo colacionadas: Ementa(s) Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/06/2006 a 30/06/2006 CRÉDITO TRIBUTÁRIO. ÔNUS DA PROVA. ERRO EM DECLARAÇÃO. A DCTF retificadora apresentada após o despacho decisório que não homologa a compensação e a DACON não têm o condão de provar suposto erro de fato que aponta para a inexistência do débito declarado. O contribuinte possui o ônus de prova do direito invocado mediante a apresentação de escrituração contábil e fiscal, lastreada em documentação idônea que dê suporte aos seus lançamentos (Acórdão 3803 006.915, Relator Conselheiro Corintho Oliveira Machado) Ementa(s) NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano calendário: 2009 PIS/COFINS. DCOMP. CRÉDITOS DECORRENTES DE DCTF NÃO RETIFICADA POR DECURSO DE PRAZO (5 ANOS). PER/DCOMP NÃO HOMOLOGADO. INADMISSIBILIDADE DA COMPENSAÇÃO EM VISTA DA NÃO DEMONSTRAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO ADUZIDO. A compensação, hipótese expressa de extinção do crédito tributário (art. 156 do CTN), só poderá ser autorizada se os créditos do contribuinte em relação à Fazenda Pública, vencidos ou vincendos, se revestirem dos atributos de liquidez e certeza, a teor do disposto no caput do artigo 170 do CTN. A interessada somente poderá reduzir débito declarado em DCTF se apresentar prova inequívoca da ocorrência de erro de fato no seu preenchimento. A não comprovação da certeza e da liquidez do crédito alegado impossibilita a extinção de débitos para com a Fazenda Pública mediante compensação. PIS/COFINS. DCOMP. DACON RETIFICADOR Embora o DACON seja uma fonte válida de informações Fl. 61DF CARF MF Processo nº 13830.903144/201231 Acórdão n.º 3402004.417 S3C4T2 Fl. 9 8 para o Fisco, tomado isoladamente, ele não é prova suficiente do erro alegado, sendo incapaz de elidir o valor inicialmente declarado em DCTF (Acórdão 3802003.316, Relator Conselheiro Waldir Navarro Bezerra) Ementa(s) Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Data do fato gerador: 31/01/2005 RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE DCTF RETIFICADORA. A informação dos valores devidos a título de PIS prestada na DACON não enseja o direito creditório, uma vez que o crédito tributário constituise pela DCTF. No caso de divergência entre os valores declarados em DCTF e DACON, prevalece o montante constituído em DCTF. A DCTF é o instrumento hábil e suficiente para constituição do crédito tributário, por consequência lógica, que o indébito tributário pelo pagamento a maior deve ser apurado pelo confronto com os valores constituídos em DCTF e os valores recolhidos. A desconstituição da confissão depende de robusta prova e detalhada demonstração de materialidade diversa da declara. RECURSO VOLUNTÁRIO NEGADO (Acórdão 3101001.259, Conselheiro Relator Luis Roberto Domingo). Dessarte, não tendo sido em momento algum comprovada pela Recorrente a liquidez e certeza do crédito pleiteado, de acordo com toda a disciplina jurídica supra mencionada, não há reparos a serem feitos quanto ao Acórdão recorrido. Quanto a correção monetária do crédito, hodiernamente não restam mais dúvidas sobre a necessidade de correção monetária do indébito, desde a data em que o pagamento foi feito ao Estado. É o que consta tanto da jurisprudência do Supremo, da Súmula nº 46 do extinto Tribunal Federal de Recursos, quanto da Súmula n. 162 do Superior Tribunal de Justiça, vazada nos seguinte dizeres: “na repetição de indébito tributário, a correção monetária incide a partir do pagamento indevido.” Inclusive, merece destaque o Parecer AGU/MF01/96 da AdvocaciaGeral da União, publicado no Diário Oficial de 18.01.96, que claramente sintetizou as soluções adotadas pelos legítimos intérpretes da lei, além de enfatizar o papel da correção monetária nas ações de repetição de indébito. 2 2 Mesmo na inexistência de expressa previsão legal, é devida correção monetária de repetição de quantia indevidamente recolhida ou cobrada a título de tributo. A restituição tardia e sem atualização é restituição incompleta e representa enriquecimento ilícito do Fisco. Correção monetária não constitui um plus a exigir expressa previsão legal. É, apenas, recomposição do crédito corroído pela inflação. O dever de restituir o que se recebeu indevidamente inclui o dever de restituir o valor atualizado. Se a letra fria da lei não cobre tudo o que no seu espírito se contém, a interpretação integrativa se impõe como medida de Justiça. Disposições legais anteriores Fl. 62DF CARF MF Processo nº 13830.903144/201231 Acórdão n.º 3402004.417 S3C4T2 Fl. 10 9 Ademais, fato é que a Lei n° 8.383, de 30 de dezembro de 1991 (artigo 66, § 3º) trouxe a disciplina de forma expressa ao âmbito tributário, especificamente sobre a restituição e compensação de tributos federais. Desde então, diferentes índices foram usados para fins de atualização monetária dos indébitos fiscais, terminando com a taxa de juros Selic aplicada atualmente. Contudo, como destacado alhures, não houve a comprovação de crédito a ser utilizado pela Recorrente, de modo que resta prejudicado seu pedido acerca da correção monetária do mesmo. Dispositivo Por essas razões, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire à Lei n° 8.383191 e princípios superiores do Direito brasileiro autorizam a conclusão no sentido de ser devida a correção na hipótese em exame. A jurisprudência unânime dos Tribunais reconhece, nesse caso, o direito a ̀ atualização do valor reclamado. O Poder Judiciário não cria, mas, tãosomente aplica o direito vigente. Se tem reconhecido esse direito é porque ele existe. Fl. 63DF CARF MF
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Numero do processo: 10166.007875/2003-54
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 30 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Aug 03 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/1999 a 30/11/2002
TRATADO BRASIL-PARAGUAI. ISENÇAO. RECEITAS FINANCEIRAS. DESCABIMENTO
As receitas financeiras decorrentes de financiamentos, empréstimos e repasses, e correspondentes variações cambiais, resultantes de operações de créditos concedidos à Itaipu Binacional, não serão alcançadas pela isenção prevista no art. XII, alínea "b" do Tratado entre a República Federativa do Brasil e a República do Paraguai para o aproveitamento Hidroelétrico dos Recursos Hídricos do Rio Paraná.
Recurso Voluntário Negado
Crédito Tributário Mantido
Numero da decisão: 3301-003.269
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
ACORDAM os membros da 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária da TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO, Por maioria de votos, Negar Provimento ao recurso voluntário, para considerar que há incidência da Cofins nas receitas financeiras auferidas pela recorrente no caso em tela, sendo vencido o relator, Conselheiro Marcelo Costa. Foi designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro José Henrique Mauri. Fez Sustentação oral pela Procuradoria da Fazenda Nacional o Dr. Fabricio Sarmanho de Albuquerque.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto do Couto Chagas - Presidente
(assinado digitalmente)
Marcelo Costa Marques d'Oliveira - Relator.
(assinado digitalmente)
José Henrique Mauri - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto do Couto Chagas, José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
Nome do relator: MARCELO COSTA MARQUES D OLIVEIRA
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ISENÇAO. RECEITAS FINANCEIRAS. DESCABIMENTO As receitas financeiras decorrentes de financiamentos, empréstimos e repasses, e correspondentes variações cambiais, resultantes de operações de créditos concedidos à Itaipu Binacional, não serão alcançadas pela isenção prevista no art. XII, alínea "b" do Tratado entre a República Federativa do Brasil e a República do Paraguai para o aproveitamento Hidroelétrico dos Recursos Hídricos do Rio Paraná. Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 00 78 75 /2 00 3- 54 Fl. 1478DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 16 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros da 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária da TERCEIRA SSEEÇÇÃÃOO DDEE JJUULLGGAAMMEENNTTOO, Por maioria de votos, Negar Provimento ao recurso voluntário, para considerar que há incidência da Cofins nas receitas financeiras auferidas pela recorrente no caso em tela, sendo vencido o relator, Conselheiro Marcelo Costa. Foi designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro José Henrique Mauri. Fez Sustentação oral pela Procuradoria da Fazenda Nacional o Dr. Fabricio Sarmanho de Albuquerque. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas Presidente (assinado digitalmente) Marcelo Costa Marques d'Oliveira Relator. (assinado digitalmente) José Henrique Mauri Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto do Couto Chagas, José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. Fl. 1479DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 17 3 Relatório Foi lavrado auto de infração (fls. 9 a 19) contra a Centrais Elétricas Brasileiras S/A ELETROBRAS, no montante total de R$ 281.701.917,33, em razão de não ter sido recolhida a COFINS sobre as "receitas de financiamento, empréstimo e repasses à Itaipu e receitas de variação cambial ItaipuBinacional", registradas no período de fevereiro de 1999 a novembro de 2002. O lançamento foi fundamentado no art. 3° da Lei n° 9.718/98. O contribuinte impugnou (fls. 73 a 90) o lançamento. Seus argumentos encontramse assim resumidos no relatório de primeira instância (fls. 429 e 430): "1. Excluiu da base de cálculo as receitas originárias dos contratos financeiros celebrados com Itaipu Binacional com respaldo na Cláusula XII, alínea "b" do Tratado BrasilParaguai, objeto do Decreto Legislativo n° 23, de 30.05.73, que veda a cobrança de impostos, taxas, empréstimos compulsórios e contribuições sobre as aquisições de materiais e equipamentos destinados ao empreendimento, e também veda a cobrança de tributos e contribuições sobre as "operações" referentes aos referidos materiais e equipamentos. E dentre as referidas "operações", que não podem ser tributadas, figuram, sem dúvida, as operações de financiamento destinadas à implantação do empreendimento; 2. O Parecer FC27 do Consultor Geral da República, DOU de 411 13.03.90, página 5.020/1; o Ato Declaratório CGST n° 147/94 e o Ato Declaratório SRF n° 74/99, reconhecem a nãoincidência das contribuições à Cofins e ao PIS/Pasep sobre o faturamento correspondente a vendas de materiais e equipamentos, bem assim de prestação de serviços decorrentes dessas operações, efetivadas diretamente à Itaipu; 3. É evidente, assim, a não incidência do Pis/Pasep e da Cofins sobre as receitas originárias das indispensáveis operações financeiras contratadas por Itaipu, porquanto tais contribuições, se exigidas, atingirão diretamente a entidade binacional, onerandoa através do fenômeno da repercussão dos ônus financeiros dessas contribuições, o que a Cláusula XII do Tratado objetiva evitar, pois é notório que, nas operações de crédito, as instituições financeiras e demais pessoas jurídicas que emprestam seu capital a terceiros transferem para os tomadores dos empréstimos todos os gravames incidg es sobre os juros e as comissões recebidos. 4. As variações monetárias ativas (variações cambiais) decorrentes dos aludidos contratos não podem ser tributadas pela Cofins, pois aplicase o princípio "o acessório segue o principal". A DRJ em Brasília (DF) julgou procedente o lançamento e o o Acórdão n° 7.838, de 10/10/2003, foi assim ementado: "Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 28/02/1999 a 30/11/2002 Ementa: Base de Cálculo Fl. 1480DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 18 4 A base de cálculo da contribuição é o faturamento correspondente à receita bruta da pessoa jurídica, entendida como a totalidade das receitas auferidas, sendo irrelevante o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas. Isenção Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre a outorga de isenção. No caso, tanto o Tratado Brasil Paraguai, quanto o Decreto Legislativo, não especificaram a contribuição social em referência como vedada à tributação. Lançamento Procedente" Irresignado, o contribuinte interpôs recurso voluntário, em que, basicamente, repete os argumentos contidos na impugnação e traz dois pareceres favoráveis à tese que defende, sendo, o primeiro, dos juristas Sacha Calmon de Sá e Mizabel A. M. Derzi e, o segundo, do João Cordeiro Guerra. Em 12/05/2005, por meio da Resolução n° 20200802, os membros da Segunda Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes converteram o julgamento em diligência. Como o argumento do contribuinte é o de que as "receitas de financiamento, empréstimo e repasses à Itaipu e receitas de variação cambial Itaipu Binacional" derivaram de operações de crédito realizadas para financiamento do empreendimento, aquela turma requereu que a unidade de origem validasse essa informação, por meio dos quesitos que abaixo transcrevo da fl. 571: "(i) os numerários repassados, pela recorrente — com a necessária análise de sua escrita fiscal , em face dos contratos financeiros firmados (contratos de mútuo de moeda — empréstimos ou financiamentos), efetivamente foram destinados de forma exclusiva para a construção, implantação e incorporação do empreendimento denominado Usina Hidrelétrica de Itaipu; e, (ii) em caso afirmativo, para que se recalcule o montante supostamente devido a titulo de COFINS, em face da necessária desoneração que deve ser observada a essas 'receitas' (isenção), o que também deverá se estender às respectivas variações cambiais delas provenientes." O relatório consta nas fls. 623 a 625. Não foram apresentados os documentos, o que impediu que o trabalho fosse realizado. Por intermédio da Resolução n° 20000.946, de 20/02/2006, nova diligência foi requerida, para responder os quesitos acima transcritos. Desta feita, houve diligência e o relatório encontrase nas fls. 646 a 654. Os quesitos foram assim respondidos (fl. 653): "Os numerários repassados pela recorrente não foram destinados de forma exclusiva para a construção, implantação e incorporação do empreendimento denominado Usina Hidrelétrica de Itaipu, pois, parte dos • Fl. 1481DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 19 5 mesmos foi utilizada para o pagamento de despesas não prevista no Tratado de ltaipu (no qual estão consideradas eventuais isenções da COFINS). Desta forma, fica prejudicado o atendimento ao item b da solicitação citada:" (g.n.) Nas fls.650 a 652, o agente fiscal indica quais os dispêndios que não estariam contemplados no projeto amparado pelo Tratado: A Recorrente, por sua vez, nas fls. 667 a 685, apresentou não menos minuciosa manifestação, em que contesta a exclusão de cada um dos tipos de aplicação de recursos que o agente fiscal indicou como não pertencente ao projeto. Conclui, alegando que, na verdade, a totalidade dos recursos teria sido utilizada para a realização do projeto previsto no Tratado Itaipu. O processo retornou ao CARF. Em 5/08/2008, foi proferida a decisão, por meio do Acórdão n° 20219.201, que foi assim ementado: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/02/1999 a 30/11/1999, 01/01/2000 a 31/01/2000, 01/03/2000 a 30/09/2000, 01/11/2000 a 30/06/2001, 01/09/2001 a 31/10/2001, 01/12/2001 a 30/11/2002 BASE DE CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE DA AMPLIAÇÃO. ART. 32, § 1 2, DA LEI N2 9.718/98. RECEITAS DECORRENTES DE CONTRATOS DE EMPRÉSTIMOS, FINANCIAMENTOS E VARIAÇÕES CAMBIAIS. Nos termos do art. 42, parágrafo único, do Decreto n2 2.346/97, devem os órgãos julgadores, singulares ou coletivos, da Administração Fazendária, afastar a aplicação da lei, tratado ou ato normativo federal, declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Em decorrência, descabe a tributação das receitas decorrentes de empréstimos, financiamentos e variações cambiais, incluídas na base de cálculo pelo § 1 2 do art. 32 da Lei n° 9.718/98, declarado inconstitucional pelo STF. Recurso provido." Verificase que a conclusão da diligência perdera relevância, diante do argumento de que tratavase de receitas financeiras, excluídas do campo de incidência da COFINS, por força de reiteradas decisões do Supremo tribunal Federal (STF). A Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) interpôs recurso especial à Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), com as seguintes alegações: a) Não se poderia afastar a aplicação do § 1° do art. 3° da Lei n° 9.718/98, pois as decisões até então prolatadas não tinham efeito erga omnes. Citou acórdãos do CARF, em que este foi posicionamento adotado. Fl. 1482DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 20 6 b) Ainda que fosse aplicado o teor das decisões do STF, as mesmas não haviam estabelecido o conceito de receita bruta, para fins de incidência do PIS e da COFINS. E a tendência que estava se delineando era a de que o conceito fosse amplo, abrangendo as receitas de todas as atividades presentes em seu objeto social, e não restrito a vendas de mercadorias e serviços. b1) De acordo com o art. 4° do Estatuto Social da Recorrente, integra seu objeto social a concessão de financiamentos para a concessionárias de serviço público de energia elétrica (fl. 100). Portanto, também por este motivo, era inapropriada a exoneração do PIS sobre as "receitas de financiamento, empréstimo e repasses à Itaipu e receitas de variação cambial ItaipuBinacional". c) Por fim, requereu o exame dos efeitos do Tratado BrasilParaguai sobre a exação. Em 31/05/11, a CSRF negou provimento ao recurso especial interposto pela PGFN e o Acórdão n° 9303001490 foi assim emetado: "Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: fevereiro de 1999 a novembro de 2002 BASE DE CÁLCULO ALARGAMENTO APLICAÇÃO DE DECISÃO INEQUÍVOCA DO STF POSSIBILIDADE. Nos termos regimentais, devese afastar aplicação de dispositivo de lei que tenha sido declarado inconstitucional por decisão plenária do Supremo Tribunal Federal. Afastado o disposto no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 por sentença proferida pelo plenário do Supremo Tribunal Federal, com trânsito em julgado, a base de cálculo da contribuição para a Cofins, até a vigência da Lei 10.833/2003, voltou a ser o faturamento, assim compreendido a receita bruta da venda de mercadorias, de serviços e de mercadorias e de serviços. Recurso Especial do Procurador Negado" Inconformada, a PGFN opôs embargos de declaração, sob as seguintes alegaçãoes: "(. . .) a Turma deixou de analisar questão suscitada no âmbito do recurso e relevante para o deslinde do feito. Tratase do argumento segundo o qual a declaração de inconstitucionalidade do § 1° do art. 3' da Lei n° 9.718/98 no alterou o critério definidor da base de incidência da COFINS como o resultado econômico da atividade empresarial vinculada aos seus objetivos sociais. (. . .) Diante do exposto e considerando que o Colegiado não se manifestou sobre suscitada questão da incidência de COFINS sobre todas as receitas empresarias típicas da empresa, matéria que já foi submetida ao STF e que encontra reflexos no presente feito, fazse mister que se pronuncie sobre o tema, bem como analise a natureza das receitas incluídas na base de cálculo do tributo pela fiscalização." Fl. 1483DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 21 7 Os embargos declaratórios foram acolhidos, nos termos do voto do relator, do qual extraio o seguinte excerto (fl. 1481): "Pelo exposto, acolho os embargos opostos pela PGFN, com efeitos infringentes, porém determino a devolução dos autos à instância a quo, para que as receitas sejam analisadas e especificadas, inclusive quanto à suposta isenção contida no Tratado BrasilParaguai, objeto do decreto Legislativo nº 23, de 30/05/1973, para que não haja supressão de instância, já que o acórdão da Câmara baixa não chegou a analisar essa matéria, que ficou prejudicada por terem sido consideradas todas as receitas financeiras estando fora do campo de incidência da Cofins, assim como no acórdão ora embargado." (g.n.) O Acórdão n° 9303003.374, de 25/01/16, foi assim ementado: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/1999 a 30/11/2002 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. Presentes os pressupostos regimentais, devem ser acolhidos os embargos de declaração. Embargos de Declaração Acolhidos" O processo então retornou à câmara baixa, para julgamento. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Relator A Fiscalização lavrou auto de infração (fls. 9 a 19), no montante total de R$ 281.701.917,33 (valor em 30/06/2003), em razão de a Recorrente não ter recolhido a COFINS sobre "receitas de financiamento, empréstimo e repasses à Itaipu Binacional" e correspondentes "receitas de variação cambial", auferidas pela Recorrente no período de fevereiro de 1999 a novembro de 2002. Não acatou o argumento na ocasião apresentado pelo contribuinte de que tais receitas estariam isentas da COFINS, por força do art. XII do Tratado BrasilParaguai. A DRJ (fls. 427 a 432), por sua vez, ratificando o posicionamento da fiscalização, aduziu que o benefício fiscal previsto no Tratado deveria ser interpretado literalmente, nos termos do art. 111 do Código Tributário Nacional (Lei n° 5.172/66), Fl. 1484DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 22 8 isto é, abrangeria exclusivamente as espécies tributárias nele expressamente previstas "impostos, taxas e empréstimos compulsórios". Não obstante, contraditoriamente, mencionou o AD CGST n° 147/94 e o AD SRF n° 74/99 e a extensão às contribuições para o PIS e à COFINS, impondo contudo, a seguinte restrição: somente às incidentes sobre vendas de materiais e equipamentos, efetuadas diretamente à Itaipu Binacional, não comportando "interpretação extensiva", no sentido de abranger as receitas derivadas de operações de créditos concedidos à Itaipu Binacional. Em seu entendimento, a isenção fiscal beneficia a Itaipu Binacional e não as pessoas físicas e jurídicas que dela recebam pagamentos. O contribuinte, por sua vez, na impugnação e no recurso, alegou que o objetivo central do Tratado BrasilParaguai era o de desonerar de tributos, inclusive da COFINS, o projeto de construção da usina hidrelétrica de Itaipu. Por conseguinte, devese interpretar a alínea "b" do art. XII do Tratado "(. . .) não aplicarão impostos, taxas e empréstimos compulsórios, de qualquer natureza, que incidam sobre as operações relativas a esses materiais e equipamentos, nas quais a ITAIPU seja parte (. . .)” como instrumento de desoneração fiscal do empreendimento. Para robustecer suas alegações, carreou aos autos pereceres dos ilustres juristas João Dodsworth Cordeiro Guerra (fls. 526 a 563) e Mizabel Abreu Machado Derzi e Sacha Calmon Navarro Coêlho (fls. 497 a 521). O processo chegou ao CARF. Por meio da Resolução n° 20200802 (fls. 567 a 570), o colegiado consignou que não havia nos autos evidências de que os numerários mutuados haviam sido exclusivamente aplicados na construção da usina hidrelétrica e, por conseguinte, que as receitas deles resultantes poderiam gozar da isenção fiscal prevista no Tratado BrasilParaguai. Assim sendo, requereram a realização de diligência, para dirimir tal questionamento. A diligência foi efetuada na Itaipu Binacional, porém não trouxe o resultado esperado. Foi determinada a realização de nova diligência (Resolução n° 20200.946, fls. 629 a 633), cuja conclusão (fls. 646 a 654) foi a de que os recursos emprestados à Itaipu Binacional não foram integralmente aplicados na construção da usina hidrelétrica (fl. 653). Identificaram projetos supostamente não abrangidos pelo Tratado, nos quais parte dos recursos teria sido aplicada. Contudo, o montante correspondente não foi quantificado, sob a alegação de que não foi possível extrair tal informação dos registros contábeis da Itaipu Binacional. O contribuinte apresentou manifestação, em que contesta tal conclusão, alegando que os projetos indicados no relatório da diligência teriam sim amparo no Tratado. Fl. 1485DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 23 9 O processo retornou para o CARF. A respectiva Turma, com outra composição, decidiu exonerar o contribuinte do lançamento, porém com fundamento na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) acerca da inconstitucionalidade do § 1° do art. 3° da Lei n° 9.718/98 (Acórdão n° 20219.201, fls. 693 a 697). Esta decisão foi ratificada pela CSRF (Acórdão n° 9303001490, fls. 772 a 779), no julgamento do recurso especial interposto pela PGFN (fls. 702 a 711). Contudo, o posicionamento favorável ao contribuinte foi revertido, após a oposição de embargos de declaração pela PGFN (fls. 793 a 797), que resultou no Acórdão n° 9303003.374 (fls. 1.481 a 1.484). A respectiva Turma concluiu não ser adequada a exoneração, com base na citada decisão do STF, uma vez que as receitas financeiras sobre as quais a fiscalização calculou o lançamento da COFINS estão compreendidas em seu objeto social, de acordo com o art. 4° do Estatuto Social da Itaipu (fl. 100), e, consequentemente, na sua receita bruta, sujeita à incidência da COFINS, nos termos dos artigos 1° ao 3° da Lei n° 9.718/98. Concluiu a questão determinando o retorno do processo à instância a quo, nos seguintes termos (fl. 1.481): "Pelo exposto, acolho os embargos opostos pela PGFN, com efeitos infringentes, porém determino a devolução dos autos à instância a quo, para que as receitas sejam analisadas e especificadas, inclusive quanto à suposta isenção contida no Tratado Brasil Paraguai, objeto do decreto Legislativo nº 23, de 30/05/1973, para que não haja supressão de instância, já que o acórdão da Câmara baixa não chegou a analisar essa matéria, que ficou prejudicada por terem sido consideradas todas as receitas financeiras estando fora do campo de incidência da Cofins, assim como no acórdão ora embargado." (g.n.) Desta forma, esta turma terá de decidir sobre as seguintes questões: I) Se os financiamentos concedidos pela Recorrente à Itaipu Binacional, dos quais produziram as receitas financiamento, empréstimo e repasses à Itaipu Binacional e correspondentes variações cambiais, computadas pela fiscalização nas bases de cálculo da COFINS do período de fevereiro de 1999 a novembro de 2002, foram integralmente aplicados na construção da "central elétrica, seus acessórios e obras complementares" (alínea "b" do art XII do tratado BrasilParaguai, que trata da isenção fiscal). II) Caso a conclusão do item "I" seja positiva, se a isenção fiscal prevista no art. XII do Tratado BrasilParaguai afasta da incidência da COFINS tais receitas. I) Aplicação dos financiamentos concedidos à Itaipu Binacional exclusivamente na construção da usina hidrelétrica O primeira turma do CARF que examinou o presente processo suscitou a questão em epígrafe e requereu a realização de diligência Resoluções n° 20200.802 (fls. 567 a 570) e 20200.946 (fls. 629 a 633). Fl. 1486DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 24 10 Na segunda tentativa, o trabalho foi realizado e o relatório encontra se nos autos (fls. 646 a 659), bem como a manifestação do contribuinte (fls. 667 a 685). O agente fiscal responsável pela diligência teve como ponto de partida o disposto na alínea "b" do art. XII do Tratado BrasilParaguai: "ARTIGO XII As Altas Partes Contratantes adotarão, quanto à tributação, as seguintes normas: (. . .) b) não aplicarão impostos, taxas e empréstimos compulsórios, de qualquer natureza, sobre os materiais e equipamentos que a ITAIPU adquira em qualquer dos dois países ou importe de um terceiro país, para utilizálos nos trabalhos de construção da central elétrica, seus acessórios e obras complementares, ou para incorporálo à central elétrica, seus acessórios e obras complementares. Da mesma forma, não aplicarão impostos, taxas e empréstimos compulsórios, de qualquer natureza, que incidam sobre as operações relativas a esses materiais e equipamentos, nas quais a ITAIPU seja parte; (. . .)" Na fl. 650, item 6, descreve o trabalho realizado e, no 7, importante limitação do escopo, face às particularidades da escrita contábil de Itaipu: "6. Por amostragem, foram verificados, nos arquivos da Itaipu Binacional, documentos comprobatórios dos lançamentos contábeis da mesma, não sendo encontrados, dentre a documentação verificada, documentos de despesas que não tenham sido contabilizados pela Itaipu, nem lançamentos contabilizados pela mesma Itaipu que não fossem embasados por documentação comprobatória. Ainda na amostra verificada, todos os documentos de despesas ocorridas antes da entrada em operação da Usina estavam vinculados a um contrato de financiamento." Em seguida, identificou no Tratado os projetos em que os recursos deveriam ser aplicados, para que pudessem ser considerados como amparados pela isenção fiscal (fls. 647 e 648): "(. . .) 6. Cabe ressaltar que a isenção constante da alínea b do Artigo XII do Tratado de ltaipu evidentemente está vinculada à descrição geral das instalações destinadas à produção de energia elétrica e das obras auxiliares, constantes de seu Anexo B, conforme seu Artigo VI. 7. O Anexo B ao Tratado de Itaipu (Anexo II: fls. 20 a 24) define: a) A localização do projeto e das obras envolvidas no Tratado: "sobre o rio Paraná" (Item 1. do Inciso II do Anexo). Fl. 1487DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 25 11 b) A disposição geral das obras do projeto que considera constituído por "uma barragem principal de gravidade, ... uma casa de força, ... barragens laterais de enrocamento, ... diques de terra, ... estrutura do vertedouro e respectivas comportas". 8. O Inciso III do Anexo B ao Tratado de ltaipu descreve os componentes principais do projeto, conforme transcrito a seguir: a) Dique lateral direito; b) Vertedor; c) Barragem lateral direita; d) Barragem principal e tomada d'água; e) Casa de força; f) Barragem na margem esquerda; g) Barragem lateral esquerda; h) Dique lateral esquerdo; i) Dique complementar de Hernandárias; j) Subestações seccionadoras k) Obras para navegação 9. Cabe frisar que não existem outros itens de obras constantes do Anexo B ao Tratado de Itaipu. (. . .)" Como fruto da inspeção realizada, identificou e listou obras realizadas com os recursos mutuados, que não estavam previstas no Anexo B do Tratado (fls. 650 a 652): "(. . .) 3. Não estão elencadas dentre as obras e/ou serviços citados no Tratado de Raiou: 3.1. execução de projetos e/ou obras de conjuntos residências e/ou manutenção de condomínios residenciais, residências de empregados, varrimento de ruas externas à área da Usina Hidrelétrica, etc., pagas (parcial ou totalmente) com recursos decorrentes dos contratos de financiamento ECR64175, ECR102178, ECR108/79, ECR113/80 (que financiaram, exclusivamente os projetos e/ou obras citados); 3.2. pagamento de taxas de abertura e/ou de administração de contratos de financiamento, que oneraram pelo menos 2% do valor financiado dos contratos ECR64/75, ECR102/78, ECR108/79, ECR 113/80, ECF392/75, ECF620/78, ECF631/78, ECF675179, ECF 759/80, ECF760/80, ECF776181, ECF777/81, ECF831/82, ECF 832/82, ECF901/83, ECF902183, ECF925183, ECF978/84, ECF 957184, e ECF958184; Fl. 1488DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 26 12 3.3. pagamento de taxas de fiscalização de contrato de financiamento, que oneraram pelo menos o valor financiado dos contratos ECF392175, ECF620/78, ECF631/78, ECF675179, ECF759/80, ECF 760/80, ECF776181, ECF777/81, ECF831182, ECF832182, ECF 901/83, ECF902/83, ECF925/83, ECF978184, ECF957/84, ECF 958/84, ECR224184, ECR225184, ECR226184 e ECR227184; 3.4. considerandose que os contratos citados nos itens 3.1., 3.2. e 3.3., supra, foram renegociados resultando então os contratos ECF 1218191 e ECF1219/91, por conseqüência, estes contratos de financiamento também incluem obras e/ou serviços que não estão elencados no Tratado de ltaipu; 3.5. da mesma maneira, o contrato ECF1480/97, que é resultante de uma renegociação de dívidas entre ltaipu e Eletrobrás, por incluir os débitos dos contratos ECF1218/91 e ECF1219/91, traz em seu escopo o financiamento de dívidas decorrentes de pagamento de obras e/ou serviços que não estão elencados no Tratado de Itaipu; 3.6. os itens 3.2. e 3.3., na renegociação que gerou os contratos ECF 1218/91 e ECF1219/91, bem como na renegociação que gerou o contrato ECF 1480/97, representam mais de 15% dos valores contratados (ou financiados), conforme verificase na planilha "Cálculo Estimado de Pagamentos não Dirigidos à Obra" (fls. 625); 3.7. caso sejam abstraídos os efeitos do item 3.1., os itens 3.2. e 3.3., na renegociação que gerou os contratos ECF 1218/91 e ECF1219/91, bem como na renegociação que gerou o contrato ECF 1480/97, representam mais de 12% dos valores contratados (ou financiados), conforme verifica se na planilha "Cálculo Estimado de Pagamentos não Dirigidos à Obra" (fls. 626); 3.8. foram pagos com os recursos oriundos do contrato de financiamento ECF1.627/97 — Plano de Conclusão de Obras — PCO, dentre outros (fls. 627 a 631), os seguintes • serviços e/ou obras: a) execução de trabalhos de reabilitação e pavimentação da rodovia de Hernandarias a Salto Del Guairá, no Paraguai (fls. 627); b) execução de trabalhos de reabilitação e pavimentação da rodovia de Hernandarias a Salto Del Guairá, Trecho Katuete — Salto Del Guairá, no Paraguai (fls. 627); c) pagamento de gratificação especial aos funcionários Ramon Herreta e Eugênio Benitez (fls. 628); d) serviços de pavimentação poliédrica e drenagem no Refúgio Biológico Bela Vista (fls. 628 e 629); e) serviços de consultoria no projeto de revitalização do Refúgio Biológico Bela Vista (fls. 629); f) serviços de implantação do Sistema de Som e Iluminação Monumental (fls. 630); g) criação, projeto e desenvolvimento de espetáculo "som e luz na usina hidrelétrica" (fls. 630); Fl. 1489DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 27 13 h) obras de revitalização do Refúgio Biológico Bela Vista da ltaipu Binacional (fls. 630); i) fornecimento de equipamentos destinados ao sistema de som e luz da usina de Itaipu (fls. 631); j) obras de revitalização do Ecomuseu em Foz do Iguaçu (fls. 631); k) obras de ampliação e reforma do Centro de Recepção de Visitantes (fls. 631); 1) serviços de confecção e montagem de onze cenários para o Projeto Museológico (fls. 631); m) estufa agrícola para implantação de uma casa de vegetação no Refúgio Biológico Bela Vista (fls. 631). (. . .)" Por fim, conclui (fl. 653), apresentando as respostas aos quesitos formulados pelo colegiado do CARF: "'a) os numerários repassados, pela recorrente (Eletrobrás) — com a necessária análise de sua escrita fiscal , em face dos contratos financeiros firmados (contratos de mútuo de moeda — empréstimos ou financiamentos), efetivamente foram destinados de forma exclusiva para a construção, implantação e incorporação do empreendimento denominado Usina Hidrelétrica de Itaipu;' apurouse que: Os numerários repassados pela recorrente não foram destinados de forma exclusiva para a construção, implantação e incorporação do empreendimento denominado Usina Hidrelétrica de Itaipu, pois, parte dos mesmos foi utilizada para o pagamento de despesas não prevista no Tratado de ltaipu (no qual estão consideradas eventuais isenções da COFINS). Desta forma, fica prejudicado o atendimento ao item b da solicitação citada: b) "em caso afirmativo, para que se recalcule o montante supostamente devido a título de COFINS, em face da necessária desoneração que deve ser observada a essas "receitas" (isenção), o que também deverá se estender às respectivas variações cambiais delas provenientes."(g.n.) O agente fiscal apurou que parte dos recursos teriam sido empregados em obras não previstas no Anexo B do Tratado. Todavia, por outro lado, não informou, do montante total emprestado à Itaipu, quanto não teria sido empregado em obras indicadas no Tratado. E a justificativa para tal limitação encontrase na fl. 650, a saber: "7. Cabe esclarecer que, pelos motivos que serão expostos a seguir, a verificação citada no item 6., supra, não é suficiente para o atendimento das solicitações do Conselho de Contribuintes, pois, como não se aplicam Fl. 1490DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 28 14 à ITAIPU as normas de direito interno dos países contratantes, também não se lhe aplicam as normas de contabilidade vigentes no Brasil. A contabilidade de ITAIPU considera "custo da obra" todos os pagamentos efetuados e/ou despesas havidas pela entidade antes do início de operação da mesma, independentemente da natureza dos mesmos, cabendo a fiscalização de sua contabilidade apenas à Ande e à Eletrobrás. Por exemplo, se ITAIPU considerar conveniente o projeto, construção, implantação e manutenção de um Museu, todas as despesas serão consideradas como 'custo da obra'." Desta forma, caso esta Turma concorde a conclusão do trabalho de diligência, teremos de converter este julgamento em uma nova diligência, para que seja apurado o valor das receitas financeiras derivadas de recursos aplicados exclusivamente em obras expressamente previstas no Tratado. Na manifestação acerca do relatório da diligência, a Recorrente contesta a conclusão do agente fiscal, com as seguintes alegações: a) A alínea "b" do art. XII do Tratado acima transcrito dispõe que gozarão de isenção as aquisições de materiais e equipamentos e as respectivas operações, utilizados "nos trabalhos de construção da central elétrica, seus acessórios e obras complementares" (g.n.). O Tratado não definiu o que são acessórios e obras complementares. b) A lista de obras e serviços contida item II do Anexo B do Tratado, na qual o agente fiscal responsável pela diligência baseouse, não é exaustiva, pois, inclusive, o foi titulada "Obras Principais do Projeto" (g.n.). c) No item I do Anexo B do Tratado, consignouse que o objetivo daquele Anexo B é o de "descrever e identificar, em suas partes principais, o Projeto do Aproveitamento Hidroelétrico do rio Paraná ". E, nos parágrafos seguintes, que " foi redigido com base no 'Relatório Preliminar'" e que "as obras descritas no presente anexo poderão sofrer modificações e adições inclusive nas suas cotas e medidas, por exigências técnicas que se verificarem durante sua execução (g.n.)." d) Carreou aos autos correspondência da Diretora Financeira Executiva de Itaipu Binacional (fls. 688 a 690), em que constam argumentos que comprovariam a indispensabilidade da construção da vila residencial para os técnicos que trabalharam na construção da usina. Informam que, em dado momento, havia mais de 40 mil trabalhadores em atividade na obra, não havendo, nas cidades vizinhas, condições para acomodação de tão grande número de profissionais. e) As taxas de abertura de crédito ou de administração e de fiscalização são inerentes à celebração de qualquer contrato de empréstimo e, portanto, indispensáveis para a obtenção dos recursos que foram necessários à construção do empreendimento. f) Nas fls. 688 a 690 dos autos, onde consta a correspondência da Diretora Financeira Executiva de Itaipu Binacional, há explicações acerca de cada uma das obras do chamado "Plano de Conclusão de Obras", que, segundo o agente fiscal, seria composto de itens não integrantes do empreendimento. De uma forma geral, foram realizadas para preservação do meioambiente, recriação de infra Fl. 1491DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 29 15 estrutura para proporcionar condições de acesso e deslocamento para a população local e criação de complexo turístico, para preservação da memória histórica do projeto e material arqueológico encontrado durante a obra. Meu voto é no sentido de considerar como integrantes do projeto a totalidade dos recursos mutuados, pelos motivos que exponho abaixo. Em primeiro lugar, destaco como o mais importante de meus argumentos. A fiscalização comparou bases de cálculo da COFINS apresentadas em Declarações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ) com os respectivos lançamentos contábeis (fl. 17). Questionou valores lançados como isentos e exclusões da base de cálculo. Obteve como resposta que se tratava de "receita de financiamentos, empréstimos e repasses" e correspondente "variação cambial", resultantes de operações de crédito contratadas com a Itaipu Binacional. E que não foram submetidas à tributação pela COFINS, por força da isenção prevista no art. XII do tratado BrasilParaguai. Portanto, o contribuinte alegou deter um direito e apresentou elementos comprobatórios (DIPJ e escrita contábil suporte). O Fisco, contudo, efetuou o lançamento (fls. 9 a 19), porque concluiu que o dispositivo legal não isentava da COFINS as referidas receitas financeiras. O agente fiscal não adentrou na questão relacionada à aplicação ou não dos recursos em obras supostamente não previstas no Anexo B do Tratado. Esta não foi a motivação do lançamento. Também não foi mencionada pelo colegiado de primeira instância. Na verdade, foi suscitada tão somente pela primeira turma do CARF que examinou o processo, que entendeu ser necessário confirmar que os recursos haviam sido aplicados de forma exclusiva para a construção da usina (fls. 567 a 572). Assim sendo, entendo que afastar, total ou parcialmente, a aplicação da isenção fiscal, em razão de as receitas terem sido originadas por empréstimos de recursos utilizados em obras não expressamente previstas no Tratado, corresponderia a promover uma mudança do critério jurídico adotado pela fiscalização para a realização do lançamento, o que é vedado pelo art. 146 do Código tributário Nacional CTN (Lei n° 5.172/66). Contudo, caso tal argumento não convença esta Turma, de qualquer forma refutaria a conclusão do relatório de diligência, em razão da combinação dos seguintes elementos: a plausibilidade dos argumentos apresentados pela Recorrente da leitura explicações providas, pareceme que as obras indicadas pelo agente fiscal como não integrantes do empreendimento eram absolutamente necessárias e de forma alguma estranhas aos objetivos do projeto previstos no Tratado; e Fl. 1492DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 30 16 os fatos de o Tratado não ter definido o que são "obras complementares" (expressão contida na alínea "b" do art. XII do Tratado), e de, no Anexo B ("Descrição Geral das Instalações Destinadas à Produção de Energia Elétrica e das Obras Auxiliares") constar que fora redigido com base em um "Relatório Preliminar" e que poderia "sofrer modificações ou adições (. . .) por exigências técnicas que se verificarem durante sua execução"). Portanto, voto no sentido de considerar que a totalidade dos recursos emprestados pela Recorrente à Itaipu Binacional foram empregados nas obras de construção do empreendimento usina hidrelétrica de Itaipu. II) Abrangência da isenção fiscal prevista no art. XII do Tratado BrasilParaguai II a)Supremacia e interpretação dos tratados internacionais Os preceitos dos tratados internacionais prevalecem sobre os da legislação tributária interna, nos termos do art. 98 do CTN: "Art. 98. Os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha." A doutrina dominante desfere críticas à redação do art. 98 do CTN. Segundo Ricardo Lobo Torres "(. . .) não se trata, a rigor, de revogação da legislação interna, mas de suspensão da eficácia da norma tributária nacional, que readquirirá sua aptidão para produzir efeitos se e quando o tratado for denunciado" (Curso de Direito Financeiro e Tributário, 16° ed. Renovar, 2009, p.49). Desta supremacia dos tratados sobre a legislação tributária interna, inferese que, para sua aplicação, há que se recorrer à Convenção de Viena, da qual o Brasil é signatário, que versa, em seus artigos 31 e 32, sobre a interpretação de tratados, à luz das normas de direito internacional. Segundo Alberto Xavier ("Direito Tributário Internacional do Brasil", 6° ed., 2003, p.184) "(. . .) os tratados internacionais que versam matéria fiscal devem ser interpretados de acordo com a doutrina geral da interpretação dos tratados e das normas tributárias, tendo particular atenção o disposto nos artigos 31 e 32 da Convenção de Viena, Convenção essa que é geralmente considerada como declaratória de direito internacional consuetudinário". Nesta mesma linha, posicionouse o ilustre jurista João Dodsworth Cordeiro Guerra, cujo parecer (fls. 526 a 563) foi carreado aos autos pela Recorrente. Impõem assim afastar as regras de interpretação previstas na legislação nacional e a adoção da Convenção de Viena. II b) Isenção Fiscal Fl. 1493DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 31 17 Assim dispõe o art. XII do Tratado BrasilParaguai: "ARTIGO XII As Altas Partes Contratantes adotarão, quanto à tributação, as seguintes normas: a) não aplicarão impostos, taxas e empréstimos compulsórios, de qualquer natureza, à ITAIPU e aos serviços de eletricidade por ela prestados; b) não aplicarão impostos, taxas e empréstimos compulsórios, de qualquer natureza, sobre os materiais e equipamentos que a ITAIPU adquira em qualquer dos dois países ou importe de um terceiro país, para utilizálos nos trabalhos de construção da central elétrica, seus acessórios e obras complementares, ou para incorporálo à central elétrica, seus acessórios e obras complementares. Da mesma forma, não aplicarão impostos, taxas e empréstimos compulsórios, de qualquer natureza, que incidam sobre as operações relativas a esses materiais e equipamentos, nas quais a ITAIPU seja parte; c) não aplicarão impostos, taxas e empréstimos compulsórios, de qualquer natureza, sobre os lucros da ITAIPU e sobre os pagamentos e remessas por ela efetuados a qualquer pessoas física ou jurídica, sempre que os pagamentos de tais impostos, taxas e empréstimos compulsórios sejam de responsabilidade legal da ITAIPU; d) não porão nenhum entrave e não aplicarão nenhuma imposição fiscal ao movimento de fundos da ITAIPU que resultar da execução do presente Tratado; e) não aplicarão restrições de qualquer natureza ao trânsito ou depósito dos materiais e equipamentos aludidos no item b deste Artigo; f) serão admitidos nos territórios dos dois países os materiais e equipamentos aludidos no item b deste Artigo." (g.n.) A primeira questão a ser enfrentada é a relacionada à inclusão ou não da COFINS no rol das espécies tributárias das quais as operações realizadas com a Itaipu Binacional não sofrem incidência. E a segunda é a de interpretar a segunda parte do art. XII: "Da mesma forma, não aplicarão impostos, taxas e empréstimos compulsórios, de qualquer natureza, sobre operações relativas a esses materiais e equipamentos" (g.n.). Também estariam desoneradas de "impostos, taxas e empréstimos compulsórios, de qualquer natureza" as receitas de financiamentos, empréstimos e Fl. 1494DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 32 18 repasses e respectivas variações cambiais derivadas dos créditos concedidos pela Recorrente à Itaipu Binacional? Conforme expus anteriormente, os tratados internacionais devem ser interpretados à luz dos art. 31 e 32 da Convenção de Viena. Transcrevo o art. 31: "Interpretação de Tratados Artigo 31 Regra Geral de Interpretação 1. Um tratado deve ser interpretado de boa fé segundo o sentido comum atribuível aos termos do tratado em seu contexto e à luz de seu objetivo e finalidade." Da leitura do tratado BrasilParaguai, verificase, nitidamente, que o "objetivo e finalidade" das partes contratantes foi o de desonerar de todo e qualquer ônus tributário os custos da construção do empreendimento Itaipu Binacional, dada sua importância estratégica para ambos os países, bem como de diversas dificuldades práticas que o contrário poderia ocasionar, visto que qualquer tributo, brasileiro ou paraguaio, acabaria por onerar, direta ou indiretamente, o custo da energia elétrica que seria consumida pelo outro Estado. Minha interpretação é a de que, ao empregar a expressão "de qualquer natureza", logo após a "impostos, taxas e empréstimos compulsórios", as partes contratantes referiramse a todos os tributos (dentre eles a COFINS, objeto da contenda). E não cabe invocar o art. 111 do Código Tributário Nacional CTN (Lei n° 5.172/66), que determina que legislações sobre isenções sejam interpretadas literalmente, tal qual aduziu o colegiado de primeira instância. Como vimos anteriormente, a supremacia dos tratados sobre a legislação interna e a obrigatória adoção das normas previstas na Convenção de Viena afastam do caso em tela a aplicação do art. 111 do CTN. E o art. XII do Tratado, ao acrescentar que não somente as vendas, porém também, de uma forma muito mais ampla, "as operações relativas a esses materiais e equipamentos", visou afastar qualquer exação que pudesse impactar os gastos com os materiais e equipamentos empregados na obra. Em suma, isentar de qualquer tipo de tributo todas as operações relacionadas à construção da usina, isto é, tanto aquelas em que a Itaipu figurasse como contribuinte de direito, quanto as que fosse contribuinte de fato, abrangendo, desta forma, todas as circunstâncias em que o ônus tributário direta ou indiretamente fosse por ela suportado. Admitir a incidência da COFINS sobre as receitas de financiamentos, empréstimos e repasses `Itaipu Binacional e correspondentes variações cambiais, contraídos justamente para financiar a construção da usina hidrelétrica, seria, em última análise, contrariar o que foi acordado pelas partes que concluíram o Tratado BrasilParaguai, posto que os valores devidos da COFINS seriam naturalmente embutidos pela Recorrente nas prestações dos empréstimos e o correspondente ônus assumido pela Itaipu Binacional. Fl. 1495DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 33 19 Para ilustrar o "espírito" do Tratado, imprescindível mencionar trecho do Parecer FC27 (fls. 165 a 168), da Consultoria Geral da União (CGU), datado de 09/03/1990, exarado por Clóvis Ferro Costa e aprovado pelo Exmo. Sr. Presidente da República: "O Tratado de Itaipu foi firmado entre o Brasil e o Paraguai no dia 26.4.73 e incorporouse ao direito positivo brasileiro pelo Decreto Legislativo n'? 23, de 30.5.73 e pelo Decreto n? 72.707. de 28.8.73. Desse tratado, de extrema importância continental, resultou a monumental obra de Itaipu, no momento, a maior hidrelétrica do mundo. Para aliviar os dispêndios, as altas partes contratantes consignaram de maneira categórica que não aplicariam impostos. taxas e empréstimos compulsórios de qualquer natureza a Itaipu e aos serviços de eletricidade por ela prestados." (g.n.) Vale lembrar que, nos termos do art. 41 da Lei Complementar n° 73/93, os pareceres da CGU, que forem aprovados pelo Presidente da República, vinculam os órgãos e entidades da Administração Federal, incluindo a Receita Federal do Brasil (RFB) e as delegacias Regionais de Julgamento (DRJ). Neste sentido, também o i. jurista João Dodsworth Cordeiro Guerra, cujo parecer (fls. 526 a 563) foi carreado aos autos pela Recorrente, interpretou o Tratado e seus efeitos fiscais da seguinte forma: "4.3 A desoneração de ITAIPU é, pois, tratada em toda a sua extensão possível, tanto no prisma subjetivo quanto objetivo, e no tempo, pois se projeta para o futuro, sem restrições: como contribuinte (possa ou não transferir o ônus tributário a terceiros); como mera responsável (sofra ou não o ônus financeiro da exação, ou seja seu contribuinte dito de fato); como contribuinte, responsável ou contribuinte de fato em qualquer operação de que seja parte e diga respeito aos materiais e equipamentos destinados ao seu empreendimento; com relação aos seus lucros e serviços, bem como aos seus fundos e ao trânsito e depósito de bens seus ou destinados ao seu empreendimento. 4.4. A expressão "impostos, taxas e empréstimos compulsórios" é explicitada no mesmo artigo por duas outras, a saber, "de qualquer natureza" e "nenhuma imposição fiscal", de forma a tornar ainda mais claro o já evidente objetivo de desoneração tributária total e perene do empreendimento levado a cabo por dois entes soberanos e prevenir que qualquer deles, de forma direta ou indireta, mediata ou imediata, possa a qualquer tempo onerar a implantação e a operação da hidrelétrica de Itaipu, ou criarlhe entraves de qualquer natureza. (. . .) 4.8. O Tratado não se limitou a desonerar a aquisição de equipamentos e materiais, o que consta na primeira parte da norma da letra b) do art. XII, pois foi além, para prevenir a oneração de outras operações, relativas a esses bens, nas quais Itaipu seja parte. A referência do texto a Fl. 1496DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 34 20 operações e parte somente pode ser entendida como negócio jurídico entre Itaipu, como uma parte, e terceiro, como outra parte, o que abrange serviços de qualquer natureza, inclusive técnicos, de assistência técnica, montagem, instalação e manutenção desses mesmos bens, a cessão do uso de direitos de propriedade industrial, e também as operações financeiras (financiamentos e empréstimos) relativas a esses mesmos equipamentos e materiais. 4.9. No caso, houve operações financeiras entre empresas mercantis, a Consulente, mutuante credora, e Itaipu, mutuária devedora, de cuja essência faz parte o juro (. . .). 4.10. Portanto, à operação empréstimo, com as características de destinação dos seus recursos previstas no art. XII, b), do Tratado, aplicamse as normas de desoneração ali previstas quer quanto ao principal quer quanto ao elemento inerente à sua essência e contraprestação, que são os respectivos encargos financeiros, caso contrário terseia oneração indireta (por repercussão ou translação) do custo dos materiais e equipamentos, exatamente o que o art. XII do Tratado quis evitar. 4.11. Essa interpretação do art. XII em questão decorre diretamente do seu texto e tem amparo na Convenção sobre Direito dos Tratados, a chamada Convenção de Viena de 1969 (. . .)." Fazse mister mencionar que a inclusão das contribuições sociais para o PIS e COFINS dentre os tributos abrangidos pelo benefício fiscal já fora há tempos reconhecida pela Consultoria Geral da União, por meio do anteriormente citado Parecer FC27/1990, que vincula os órgãos e entidades da Administração Federal, e pela própria Receita Federal do Brasil, com a publicação do AD CGST n° 147/94 e o AD SRF n° 74/99, como segue: "Parecer FC27, da CGR, de 09/03/1990 (. . .) O deliberado uso da expressão qualquer natureza teve o evidente objetivo de caracterizar a relação como simplesmente enunciativa e não taxativa. Assim, a palavra contribuição. que não está no texto, está abrangida na intenção do legislador diplomático e se inseriria na genérica declaração de taxa de qualquer natureza. (. . .) Assim, esta Consultoria Geral da República, conclui pela remessa deste parecer ao Ministério das Relaç0es Exteriores, para que este comunique ao Ministério da Fazenda a isenção da Itaipu Binacional das contribuições do PIS/PASEP. sobre o seu faturamento." (g.n.) "AD CGST n° 147/94 Fl. 1497DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 35 21 (. . .) 2 — Não incide a Contribuição para Financiamento da Seguridade Social — COFINS, instituída pela Lei Complementar n° 70, de 30 de dezembro de 1991, sobre o faturamento proveniente da venda de materiais e equipamentos, bem como da prestação de serviços decorrentes dessas operações, desde que efetuadas diretamente à ltaipu Binacional." (g.n.) "AD SRF n° 74/99 (. . .) Artigo Único. Não incidem as contribuições de que trata o art. 2° da Lei n° 9.718, de 27 de novembro de 1998, sobre o faturamento correspondente a vendas de materiais e equipamentos, bem assim da prestação de serviços decorrentes dessas operações, efetuadas diretamente a Itaipu Binacional." (g.n.) Portanto, dou provimento às alegações apresentadas pela Recorrente, no sentido de que a isenção fiscal prevista no art. XII do Tratado Brasil Paraguai afasta da incidência da COFINS as receitas de financiamentos, empréstimos e repasses e correspondentes variações cambiais, derivados das operações de crédito contratadas para financiar a compra de materiais e equipamentos para o empreendimento usina hidrelétrica de Itaipu. Conclusão Voto por dar provimento ao recurso voluntário, cancelando o lançamento de ofício da COFINS (principal, juros Selic e multa de ofício), calculado sobre as receitas de financiamentos, empréstimos e repasses `Itaipu Binacional e correspondentes variações cambiais, contraídos para financiar a compra de materiais e equipamentos para a construção da usina hidrelétrica. É como voto. Conselheiro Relator Marcelo Costa Marques d'Oliveira Fl. 1498DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 36 22 Voto Vencedor Conselheiro José Henrique Mauri Redator designado Entendeu o Conselheiro Relator em dar Provimento ao Recurso Voluntário por entender, essencialmente, que (i) a totalidade dos recursos emprestados pela Recorrente à Itaipu Binacional foi empregada nas obras de construção do empreendimento usina hidrelétrica de Itaipu e (ii) a isenção fiscal prevista no art. XII do Tratado BrasilParaguai afasta a incidência da sobre as receitas financeiras auferidas pela recorrente, matéria do presente processo, da incidência da COFINS. Em que pese o bem elaborado e fundamentado voto emanado pelo nobre Relator, ouso divergir de suas conclusões, especialmente em relação ao alcance da isenção fiscal prevista no “Tratado entre a República Federativa do Brasil e a República do Paraguai para o aproveitamento Hidroelétrico dos Recursos Hídricos do Rio Paraná, pertencentes em Condomínio aos dois Países, desde e inclusive o Salto Grande de Sete Quedas ou Salto de Guaira até a Foz Do Rio Iguaçu” (fls 60/65). Inicialmente, colaciono o artigo XII do referido Tratado, que prevê a desoneração tributária em comento: ARTIGO XII As altas Partes Contratantes adotarão, quanto á tributação, as seguintes normas: a) não aplicarão impostos, taxas e empréstimos compulsórios, de qualquer natureza, á ITAIPU e aos serviços de eletricidade por ela prestado; b) não aplicarão impostos, taxas e empréstimos compulsórios,de qualquer natureza, sobre os materiais e equipamentos que a ITAIPU adquira em qualquer dos dois países ou importe de um terceiro país, para utilizálos nos trabalhos de construção da central elétrica, seus acessórios e obras complementares, ou para incorporálo á central elétrica, seus acessórios e obras complementares, ou para incorporálos à central elétrica, seus acessórios e obras complementares. Da mesma forma, não aplicarão impostos, taxas e empréstimos compulsorios, de qualquer natureza, que incidam sobre as operações relativas a esses materiais e equipamentos, nas quais a ITAIPU seja parte; c) não aplicarão impostos, taxas e empréstimos compulsórios, de qualquer natureza, sobre os lucros da ITAIPU e sobre os pagamentos e remessas por ela efetuados a qualquer pessoas física ou jurídica, sempre que os pagamentos de tais impostos, taxas e empréstimos compulsórios sejam de responsabilidade legal da ITAIPU; d) não porão nenhum entrave e não aplicarão nenhuma imposição fiscal ao movimento de fundos da ITAIPU que resultar da execução do presente Tratado; e) não aplicarão restrições de qualquer natureza ao trânsito ou depósito dos materiais e equipamentos aludidos no item b deste artigo; f) serão admitidos nos territórios dos dois países os materiais e equipamentos aludidos no item b deste artigo. (Destaquei) Fl. 1499DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 37 23 Não me alio ao voto do ilustre relator pelos seguintes motivos: 1 Da aplicabilidade dos recursos emprestados pela Recorrente à Itaipu Binacional Em seu voto o relator concluiu por considerar que a totalidade dos recursos emprestados pela Recorrente à Itaipu Binacional foram empregados nas obras de construção do empreendimento usina hidrelétrica de Itaipu. A meu ver, caso se entendesse que o referido tratado desonera receitas financeiras, o que não entendo, ainda assim a isenção alcançaria essas receitas somente se os recursos financeiros fossem empregados integralmente no escopo do Tratado, e não é o caso, conforme lista constante da Informação Fiscal, às fls. 651/652: 3.8 foram pagos com os recursos oriundos do contrato de financiamento ECF1.627/97 — Plano de Conclusão de Obras — PCO, dentre outros (fls. 627 a 631), os seguintes • serviços e/ou obras: a) execução de trabalhos de reabilitação e pavimentação da rodovia de Hernandarias a Salto Del Guairá, no Paraguai (fls. 627); b) execução de trabalhos de reabilitação e pavimentação da rodovia de Hernandarias a Salto Del Guairá, Trecho Katuete — Salto Del Guairá, no Paraguai (fls. 627); c) pagamento de gratificação especial aos funcionários Ramon Herreta e Eugênio Benitez (fls. 628); d) serviços de pavimentação poliédrica e drenagem no Refúgio Biológico Bela Vista (fls. 628 e 629); e) serviços de consultoria no projeto de revitalização do Refúgio Biológico Bela Vista (fls. 629); f) serviços de implantação do Sistema de Som e Iluminação Monumental (fls. 630); g) criação, projeto e desenvolvimento de espetáculo "som e luz na usina hidrelétrica" (fls. 630); h) obras de revitalização do Refúgio Biológico Bela Vista da ltaipu Binacional (fls. 630); i) fornecimento de equipamentos destinados ao sistema de som e luz da usina de Itaipu (fls. 631); j) obras de revitalização do Ecomuseu em Foz do Iguaçu (fls. 631); k) obras de ampliação e reforma do Centro de Recepção de Visitantes (fls. 631); 1) serviços de confecção e montagem de onze cenários para o Projeto Museológico (fls. 631); m) estufa agrícola para implantação de uma casa de vegetação no Refúgio Biológico Bela Vista (fls. 631). Portanto, não me parece verossímil que a desoneração prevista no Tratado alcance as receitas financeiras em pauta porque os recursos não foram utilizados integralmente na finalidade prevista no Tratado, a saber, nas obras de construção do empreendimento usina hidrelétrica de Itaipu. Fl. 1500DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 38 24 2 Do alcance da isenção fiscal prevista no art. XII do Tratado BrasilParaguai Nesse pormenor, entendeu o Relator Original que a isenção fiscal prevista no art. XII do Tratado BrasilParaguai afasta da incidência da COFINS as receitas financeiras auferidas pela recorrente, matéria do presente processo. Fundamentase que a interpretação do Tratado deve ser feita à luz da Convenção de Viena, afastandose a literalidade determinada pelo art. 111 do Código Tributário Nacional CTN1. Quanto a força do Tratado internacional em matéria tributária, na forma disposta no art. 98 do CTN2, Há teses que reputam relatividade na supremacia daquele em relação às normas internas quando a sobreposição refirase ao próprio CTN, que lhe atribui esse status supralegal. Todavia essa relatividade não foi suficientemente debatida no colegiado, não sendo considerada relevante no voto divergente que ora se lavra. Portanto, ainda que se considere a supremacia das disposições da Convenção de Viena3, para fins de interpretação, entendo que as receitas financeiras auferidas pela recorrente não serão alcançadas pela isenção prevista no art. XII, alínea "b" do Tratado Brasil Paraguai. Frisese que as receitas financeiras de que cuidam os autos abrangem receitas de financiamentos, empréstimos e repasses" e correspondentes "variações cambiais", resultantes de operações de créditos concedidos pela recorrente à Itaipu Binacional. Eis excerto do disposto no art. XII do Tratado BrasilParaguai, em comento: "ARTIGO XII As Altas Partes Contratantes adotarão, quanto à tributação, as seguintes normas: [...] b) não aplicarão impostos, taxas e empréstimos compulsórios, de qualquer natureza, sobre os materiais e equipamentos que a ITAIPU adquira em qualquer dos dois países ou importe de um terceiro país, para utilizálos nos trabalhos de construção da central elétrica, seus acessórios e obras complementares, ou para incorpor álo à central elétrica, seus acessórios e obras complementares. Da mesma forma, não aplicarão impostos, taxas e empréstimos compulsórios, de qualquer natureza, que incidam sobre as operações relativas a esses materiais e equipamentos, nas quais a ITAIPU seja parte; [...] [ Destaquei] 1 Art. 111. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre: I suspensão ou exclusão do crédito tributário; II outorga de isenção; III dispensa do cumprimento de obrigações tributárias acessórias. 2 Art. 98. Os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha. 3 Interpretação de Tratados: Artigo 31 Regra Geral de Interpretação 1. Um tratado deve ser interpretado de boa fé segundo o sentido comum atribuível aos termos do tratado em seu contexto e à luz de seu objetivo e finalidade. Fl. 1501DF CARF MF Processo nº 10166.007875/200354 Acórdão n.º 3301003.269 S3C3T1 Fl. 39 25 Vêse que o Tratado teve como objeto a desoneração dos tributos sobre os serviços prestados; sobre os materiais e equipamentos, sobre os lucros e sobre o movimento de fundos. Nada foi mencionado a respeito de financeiras e já se sabia que seria necessário levantar recursos mediante empréstimos para a construção da usina hidrelétrica de Itaipu. Dessarte, por entender que a isenção não pode ser dilatada analogicamente para alcançar de isenção as receitas auferidas por terceiros, relativamente a fato concreto não previsto na norma isentiva, concluo que as receitas financeiras devem ser tributadas, ainda que se verificasse que os recursos "originais" tenham sido utilizados na consecução do objeto do Tratado. Ademais, a incidência da Cofins sobre as receitas financeiras, nesse momento da cadeia, não impactará nos valores desembolsados por Itaipú, quem efetivamente é titular do benefício. No demais acompanho o Conselheiro Relator. Conclusão Diante do exposto, voto por Negar Provimento ao Recurso Voluntário para considerar as receitas financeiras auferidas pela recorrente não serão alcançadas pela isenção prevista no art. XII, alínea "b" do Tratado BrasilParaguai, incidindose, sobre essas receitas, a Cofins. É como voto. Conselheiro José Henrique Mauri designado para redigir voto vencedor Fl. 1502DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.911029/2010-66
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Oct 02 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/09/2002 a 30/09/2002
ICMS. BASE DE CÁLCULO. PIS/COFINS. COMPOSIÇÃO.
O ICMS compõe a base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, integrante, portanto, do conceito de receita bruta.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3302-004.529
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros Lenisa Prado, Charles Pereira Nunes e José Renato Pereira de Deus.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, Walker Araujo, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, José Renato Pereira de Deus, Charles Pereira Nunes e Lenisa Rodrigues Prado.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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PIS/COFINS. INCLUSÃO DO ICMS NA BASE DE CÁLCULO DAS CONTRIBUIÇÕES. Recorrente SANPLAST INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE PLÁSTICOS LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/09/2002 a 30/09/2002 ICMS. BASE DE CÁLCULO. PIS/COFINS. COMPOSIÇÃO. O ICMS compõe a base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, integrante, portanto, do conceito de receita bruta. Recurso Voluntário Negado. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros Lenisa Prado, Charles Pereira Nunes e José Renato Pereira de Deus. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, Walker Araujo, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, José Renato Pereira de Deus, Charles Pereira Nunes e Lenisa Rodrigues Prado. Relatório Trata o presente processo de Pedido de Restituição/Declaração de Compensação (PERDCOMP) eletrônico por meio da qual a contribuinte objetivava quitar débitos tributários/solicitar restituição de valor utilizandose de créditos de COFINS, que teria sido indevidamente recolhido. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 91 10 29 /2 01 0- 66 Fl. 48DF CARF MF Processo nº 10980.911029/201066 Acórdão n.º 3302004.529 S3C3T2 Fl. 3 2 A justificativa apresentada pela autoridade fiscal para não homologar a compensação/indeferir o pedido de restituição foi que o DARF discriminado na PERDCOMP havia sido integralmente utilizado para quitação de débitos da contribuinte. Cientificada sobre o teor do despacho decisório, a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, na qual alega que o pedido de compensação/restituição referese a créditos decorrentes de pagamentos a maior de PIS/Pasep e Cofins, em razão da inclusão do ICMS na base de cálculo das contribuições. A manifestação de inconformidade foi julgada improcedente pela instância de origem, nos termos do Acórdão 06040.420. Irresignada a contribuinte interpôs recurso voluntário, o que motivou a subida dos autos a este Conselho. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3302004.500, de 25 de julho de 2017, proferido no julgamento do processo 10980.900996/201183, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3302004.500) 1: "Em que pese as razões arroladas pela ilustre Relatora, peço licença para divergir dos fundamentos e do resultado dado ao presente o processo administrativo. Conforme relatado anteriormente, alega a Recorrente que os créditos são decorrentes de pagamentos a maior da Cofins, em razão da inclusão do ICMS na base de cálculo das contribuições. Cita e pede aplicação dos RE´s 240.7852/MS e 574.706. Para dirimir a controvérsia sobre a inclusão ou não do ICMS na base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS e, afastar a aplicação da decisão proferida pela Suprema Corte ao presente caso, empresto e adoto como fundamento as razões de decidir da i. Conselheira Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, nos autos do processo administrativo nº 10283.902818/201235 (acórdão 3302004.158): 1 Deixo de transcrever o voto vencido, que pode ser facilmente consultado no Acórdão paradigma, mantendo apenas o entendimento predominante da Turma expresso no voto vencedor. Fl. 49DF CARF MF Processo nº 10980.911029/201066 Acórdão n.º 3302004.529 S3C3T2 Fl. 4 3 A controvérsia cingese sobre a inclusão ou não do ICMS na base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS. A situação que permeia os tribunais na atualidade é de dois posicionamentos conflitantes quanto à inclusão ou não do tributo na base de cálculo do PIS e da COFINS. O Superior Tribunal de Justiça no REsp 1144469/PR, em sistema de recursos repetitivos assim decidiu: RECURSO ESPECIAL DO PARTICULAR: TRIBUTÁRIO. RECURSO REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA. ART. 543C, DO CPC. PIS/PASEP E COFINS. BASE DE CÁLCULO. RECEITA OU FATURAMENTO. INCLUSÃO DO ICMS. 1. A Constituição Federal de 1988 somente veda expressamente a inclusão de um imposto na base de cálculo de um outro no art. 155, §2º, XI, ao tratar do ICMS, quanto estabelece que este tributo: "XI não compreenderá, em sua base de cálculo, o montante do imposto sobre produtos industrializados, quando a operação, realizada entre contribuintes e relativa a produto destinado à industrialização ou à comercialização, configure fato gerador dos dois impostos". 2. A contrario sensu é permitida a incidência de tributo sobre tributo nos casos diversos daquele estabelecido na exceção, já tendo sido reconhecida jurisprudencialmente, entre outros casos, a incidência: 2.1. Do ICMS sobre o próprio ICMS: repercussão geral no RE n. 582.461 / SP, STF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 18.05.2011. 2.2. Das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS sobre as próprias contribuições ao PIS/PASEP e COFINS: recurso representativo da controvérsia REsp. n. 976.836 RS, STJ, Primeira Seção, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 25.8.2010. 2.3. Do IRPJ e da CSLL sobre a própria CSLL: recurso representativo da controvérsia REsp. n. 1.113.159 AM, STJ, Primeira Seção, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 11.11.2009. 2.4. Do IPI sobre o ICMS: REsp. n. 675.663 PR, STJ, Segunda Turma, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 24.08.2010; REsp. Nº 610.908 PR, STJ, Segunda Turma, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 20.9.2005, AgRg no REsp.Nº 462.262 SC, STJ, Segunda Turma, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 20.11.2007. 2.5. Das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS sobre o ISSQN: recurso representativo da controvérsia REsp. n. 1.330.737 SP, Primeira Seção, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 10.06.2015. 3. Desse modo, o ordenamento jurídico pátrio comporta, em regra, a incidência de tributos sobre o valor a ser pago a título de outros tributos ou do mesmo tributo. Ou seja, é legítima a incidência de tributo sobre tributo ou imposto sobre imposto, Fl. 50DF CARF MF Processo nº 10980.911029/201066 Acórdão n.º 3302004.529 S3C3T2 Fl. 5 4 salvo determinação constitucional ou legal expressa em sentido contrário, não havendo aí qualquer violação, a priori, ao princípio da capacidade contributiva. 4. Consoante o disposto no art. 12 e §1º, do DecretoLei n. 1.598/77, o ISSQN e o ICMS devidos pela empresa prestadora de serviços na condição de contribuinte de direito fazem parte de sua receita bruta e, quando dela excluídos, a nova rubrica que se tem é a receita líquida. 5. Situação que não pode ser confundida com aquela outra decorrente da retenção e recolhimento do ISSQN e do ICMS pela empresa a título de substituição tributária (ISSQNST e ICMSST). Nesse outro caso, a empresa não é a contribuinte, o contribuinte é o próximo na cadeia, o substituído. Quando é assim, a própria legislação tributária prevê que tais valores são meros ingressos na contabilidade da empresa que se torna apenas depositária de tributo que será entregue ao Fisco, consoante o art. 279 do RIR/99. 6. Na tributação sobre as vendas, o fato de haver ou não discriminação na fatura do valor suportado pelo vendedor a título de tributação decorre apenas da necessidade de se informar ou não ao Fisco, ou ao adquirente, o valor do tributo embutido no preço pago. Essa necessidade somente surgiu quando os diversos ordenamentos jurídicos passaram a adotar o lançamento por homologação (informação ao Fisco) e/ou o princípio da não cumulatividade (informação ao Fisco e ao adquirente), sob a técnica específica de dedução de imposto sobre imposto (imposto pago sobre imposto devido ou "tax on tax"). 7. Tal é o que acontece com o ICMS, onde autolançamento pelo contribuinte na nota fiscal existe apenas para permitir ao Fisco efetivar a fiscalização a posteriori, dentro da sistemática do lançamento por homologação e permitir ao contribuinte contabilizar o crédito de imposto que irá utilizar para calcular o saldo do tributo devido dentro do princípio da não cumulatividade sob a técnica de dedução de imposto sobre imposto. Não se trata em momento algum de exclusão do valor do tributo do preço da mercadoria ou serviço. 8. Desse modo, firmase para efeito de recurso repetitivo a tese de que: "O valor do ICMS, destacado na nota, devido e recolhido pela empresa compõe seu faturamento, submetendo se à tributação pelas contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, sendo integrante também do conceito maior de receita bruta, base de cálculo das referidas exações". 9. Tema que já foi objeto de quatro súmulas produzidas pelo extinto Tribunal Federal de Recursos TFR e por este Superior Tribunal de Justiça STJ: Súmula n. 191/TFR: "É compatível a exigência da contribuição para o PIS com o imposto único sobre combustíveis e lubrificantes". Súmula n. 258/TFR: "Incluise na Fl. 51DF CARF MF Processo nº 10980.911029/201066 Acórdão n.º 3302004.529 S3C3T2 Fl. 6 5 base de cálculo do PIS a parcela relativa ao ICM". Súmula n. 68/STJ: "A parcela relativa ao ICM incluise na base de cálculo do PIS". Súmula n. 94/STJ: "A parcela relativa ao ICMS inclui se na base de cálculo do FINSOCIAL". 10. Tema que já foi objeto também do recurso representativo da controvérsia REsp. n. 1.330.737 SP (Primeira Seção, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 10.06.2015) que decidiu matéria idêntica para o ISSQN e cujos fundamentos determinantes devem ser respeitados por esta Seção por dever de coerência na prestação jurisdicional previsto no art. 926, do CPC/2015. 11. Ante o exposto, DIVIRJO do relator para NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial do PARTICULAR e reconhecer a legalidade da inclusão do ICMS na base de cálculo das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS. RECURSO ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL: TRIBUTÁRIO. RECURSO REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA. ART. 543C, DO CPC. PIS/PASEP E COFINS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO DOS VALORES COMPUTADOS COMO RECEITAS QUE TENHAM SIDO TRANSFERIDOS PARA OUTRAS PESSOAS JURÍDICAS. ART. 3º, § 2º, III, DA LEI Nº 9.718/98. NORMA DE EFICÁCIA LIMITADA. NÃO APLICABILIDADE. 12. A Corte Especial deste STJ já firmou o entendimento de que a restrição legislativa do artigo 3º, § 2º, III, da Lei n.º 9.718/98 ao conceito de faturamento (exclusão dos valores computados como receitas que tenham sido transferidos para outras pessoas jurídicas) não teve eficácia no mundo jurídico já que dependia de regulamentação administrativa e, antes da publicação dessa regulamentação, foi revogado pela Medida Provisória n. 2.158 35, de 2001. Precedentes: AgRg nos EREsp. n. 529.034/RS, Corte Especial, Rel. Min. José Delgado, julgado em 07.06.2006; AgRg no Ag 596.818/PR, Primeira Turma, Rel. Min. Luiz Fux, DJ de 28/02/2005; EDcl no AREsp 797544 / SP, Primeira Turma, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 14.12.2015, AgRg no Ag 544.104/PR, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, DJ 28.8.2006; AgRg nos EDcl no Ag 706.635/RS, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Turma, DJ 28.8.2006; AgRg no Ag 727.679/SC, Rel. Min. José Delgado, Primeira Turma, DJ 8.6.2006; AgRg no Ag 544.118/TO, Rel. Min. Franciulli Netto, Segunda Turma, DJ 2.5.2005; REsp 438.797/RS, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, DJ 3.5.2004; e REsp 445.452/RS, Rel. Min. José Delgado, Primeira Turma, DJ 10.3.2003. 13. Tese firmada para efeito de recurso representativo da controvérsia: "O artigo 3º, § 2º, III, da Lei n.º 9718/98 não teve eficácia jurídica, de modo que integram o faturamento e também o conceito maior de receita bruta, base de cálculo das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, os valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para outra pessoa jurídica". Fl. 52DF CARF MF Processo nº 10980.911029/201066 Acórdão n.º 3302004.529 S3C3T2 Fl. 7 6 14. Ante o exposto, ACOMPANHO o relator para DAR PROVIMENTO ao recurso especial da FAZENDA NACIONAL. (REsp 1144469/PR; Relator: Napoleão Nunes Maia Filho; Relator para o acórdão: Mauro Campbell Maques) (grifos não constam no original) Já o Supremo Tribunal Federal, no RE 574.706RG/PR, julgou, no dia 15.03.2017, no sentido de que: O Tribunal, por maioria e nos termos do voto da Relatora, Ministra Cármen Lúcia (Presidente), apreciando o tema 69 da repercussão geral, deu provimento ao recurso extraordinário e fixou a seguinte tese: "O ICMS não compõe a base de cálculo para a incidência do PIS e da Cofins". Vencidos os Ministros Edson Fachin, Roberto Barroso, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Nesta assentada o Ministro Dias Toffoli aditou seu voto. Plenário, 15.3.2017. (grifos não constam do original) No âmbito do regimento interno deste Egrégio Tribunal Administrativo, existe previsão normativa em seu artigo 62, anexo II, sobre a obrigatoriedade de se observar os precedentes em sistema de repetitivos e/ou repercussão geral na análise dos casos: RICARF Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: (...) II que fundamente crédito tributário objeto de: (...) b) Decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei n º 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, na forma disciplinada pela Administração Tributária; (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) O RICARF prevê o requisito da decisão definitiva para a obrigatoriedade da aplicação do precedente, no caso em análise, o REsp 1.144.469/PR transitou em julgado em 10.03.2017 e o RE 574.706RG/PR ainda espera a modulação de seus efeitos, não havendo, portanto, trânsito em julgado. Logo, devese Fl. 53DF CARF MF Processo nº 10980.911029/201066 Acórdão n.º 3302004.529 S3C3T2 Fl. 8 7 observar a decisão, já transitada em julgado, do Superior Tribunal de Justiça. Em razão da obrigatoriedade por parte do conselheiro em aplicar o RICARF, acima exposto, os argumentos da Recorrente de desnecessidade de previsão legal para a exclusão do ICMS por respeito ao princípio da capacidade contributiva e da impossibilidade de considerar o ICMS como parte integrante do faturamento ficam, desde já, encontramse fundamentados com a aplicação do precedente obrigatório. Portanto, em conformidade com o REsp 1.144.469/PR, que firmou para efeito de recurso repetitivo a tese de que: "O valor do ICMS, destacado na nota, devido e recolhido pela empresa compõe seu faturamento, submetendose à tributação pelas contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, sendo integrante também do conceito maior de receita bruta, base de cálculo das referidas exações", é negado provimento ao recurso voluntário. Diante do exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário." Da mesma forma que ocorreu no caso do paradigma, no presente processo o litígio resumese ao direito a créditos decorrente de pagamentos a maior de PIS/Pasep e Cofins, em razão da inclusão do ICMS na base de cálculo das contribuições. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 54DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10925.002470/2006-33
Turma: Primeira Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 10 00:00:00 UTC 2010
Ementa: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS
Data do fato gerador: 31/12/2002, 31/12/2003, 31/12/2004, 31/12/2005
MULTA ISOLADA. ESTIMATIVAS.
A aplicação da multa preceituada no artigo 44, inciso I, c/c o §1º, inciso IV, da Lei nº 9.436/96, decorre do inadimplemento da obrigação do contribuinte em recolher os valores dos tributos estimados, uma vez ser sua a opção por proceder dessa forma e não apurar o IRPJ e tributos reflexos na forma regular, trimestralmente. A penalidade está prevista em norma tributária
vigente, artigo 2º da Lei nº 9.430/96, e independe de haver ou não saldo de tributo devido ao final do período, não cabendo à autoridade administrativa de julgamento retirar a eficácia de norma tributária.
Numero da decisão: 1801-000.403
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso nos termos do voto do relator. Vencidos os conselheiros André Ricardo Lemes da Silva, Marcos Vinícius Barros Ottoni e Rogério Garcia Peres
Matéria: IRPJ - AF- omissão receitas - demais presunções legais
Nome do relator: Ana de Barros Fernandes
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ESTIMATIVAS. A aplicação da multa preceituada no artigo 44, inciso I, c/c o §1º, inciso IV, da Lei nº 9.436/96, decorre do inadimplemento da obrigação do contribuinte em recolher os valores dos tributos estimados, uma vez ser sua a opção por proceder dessa forma e não apurar o IRPJ e tributos reflexos na forma regular, trimestralmente. A penalidade está prevista em norma tributária vigente, artigo 2º da Lei nº 9.430/96, e independe de haver ou não saldo de tributo devido ao final do período, não cabendo à autoridade administrativa de julgamento retirar a eficácia de norma tributária. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso nos termos do voto do relator. Vencidos os conselheiros André Ricardo Lemes da Silva, Marcos Vinícius Barros Ottoni e Rogério Garcia Peres. (assinado digitalmente) ANA DE BARROS FERNANDES – Presidente e Relatora EDITADO EM: 16/11/2010 Participaram da sessão de julgamento, os Conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva, André Ricardo Lemes da Silva, Maria de Lourdes Ramirez, Marcos Vinícius Barros Ottoni, Rogério Garcia Peres e Ana de Barros Fernandes. Fl. 610DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES 2 Relatório A empresa foi autuada por não haver recolhido as estimativas de IRPJ relativas aos meses de dezembro dos anos calendários de 2002, 2003, 2004 e 2005, no percentual de 50% dos débitos de IRPJ escriturados, consoante planilhas anexas ao Auto de Infração, fls. 03 a 12, com fulcro nos artigos 2º, 28 e 44 da Lei nº 9.430/96. As DIPJ juntadas no curso do procedimento fiscal, relativas aos anos- calendários em questão, demonstram que a cooperativa fez a opção pela apuração anual do Lucro Real e calculou as estimativas mensais por meio de balanços ou balancetes de suspensão ou redução. A empresa apresenta a impugnação ao feito fiscal às fls. 75 a 85 e argumenta, preliminarmente, que os Mandados de Procedimento Fiscal emitidos para a fiscalização da empresa somente contemplavam os tributos CSLL e PIS, e períodos diferentes, padecendo pois a autuação de nulidade por vício formal. Quanto ao mérito da questão, repriso, por oportuno os trechos já transcritos no acórdão vergastado pela recorrente, por ser suficiente para a apreciação do litígio ora instaurado: No item 2.2. DA INEXIGIBILIDADE DA MULTA ISOLADA EM RAZÃO DE QUE NÃO HOUVE FALTA DE PAGAMENTO MENSAL OU PAGAMENTO DO IMPOSTO A DESTEMPO, SEM ACRÉSCIMO DA MULTA DE MORA, a autuada apresenta sua argumentação contrária à imposição das multas isoladas exigidas no auto de infração. Depois de discorrer sobre o dispositivo legal que contém a previsão da multa imposta pela fiscalização, a cooperativa se volta ao caso em tela, para concluir que: " (..) a cobrança da multa isolada é indevida e ilegal, uma vez que a mesma, como visto acima, somente se torna aplicável, de forma isolada, se for o caso, sob o argumento do não pagamento do imposto mensal, ou quando o tributo ou contribuição houver sido pago após o vencimento do prazo previsto, mas sem o acréscimo de multa de mora que não é o caso presente." O que ocorreu, de fato, no caso presente, não foi a falta de recolhimento do imposto mensal, nem pagamento a destempo, sem o acréscimo de multa de mora e sim equívoco por parte da requerente no preenchimento da DIRJ [sie] e no código de recolhimento do DARF relativamente ao mês de dezembro de cada ano. Senão vejamos: O primeiro equívoco da requerente foi o de deixar de informar na FICHA II da DIRPJ (anexo I), o valor do imposto de renda retido na fonte utilizado para compensação do período. Todavia, tal lapso foi corrigido através da retificação da DIPJ, conforme se vê nos documentos acostados (anexo II). O segundo equívoco consistiu em recolher o valor apurado no mês de dezembro de cada ano, com o código 2340, quando deveria ser um dos seguintes códigos, 2319, 2362, 5993. O valor recolhido com o código 2430, referente ao mês de dezembro de cada ano, foi desconsiderado pela autoridade fiscal, o que ocasionou a falta de recolhimento do imposto de renda pessoa jurídica Todavia, conforme provam os Fl. 611DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 10925.002470/2006-33 Acórdão n.º 1801-00.403 S1-TE01 Fl. 611 3 documentos acostados, bem assim o REDARF, o imposto devido ao final de cada ano, foi devidamente recolhido. Prova a assertiva, os documentos acostados, anexo III. Analisadas as razões de defesa, a Terceira Turma de Julgamento da DRJ em Florianópolis exarou o Acórdão nº 07-16.850/09, fls. 588 a 591, mantendo na íntegra o lançamento tributário, afastando a nulidade suscitadas, e no mérito da seguinte forma enfrentando a questão, in verbis: [...] Em essência, mensalmente são devidos pagamentos a título de antecipação do imposto que será apurado ao final do ano-calendário. Eventuais diferenças entre os valores recolhidos ao longo do ano, e o valor apurado ao final do ano-calendário segundo as regras do Lucro Real, são tratadas na declaração de ajuste, apresentada no ano-calendário seguinte. Como forma de dar efetividade à obrigação imposta ao contribuinte, de recolher mensalmente as estimativas, a lei prevê a imposição de penalidade quando de seu inadimplemento. Por sinal, se não houvesse previsão para imposição de multa isolada, a exigência dos recolhimentos por estimativa estaria ameaçada, ou não seria cumprida. A norma legal que determina a antecipação mensal por estimativa tornar-se-ia letra morta, pois seria sempre mais vantajoso aos contribuintes optantes pela apuração anual esperar até o encerramento do período, para levantar o montante do tributo definitivamente devido e só então recolhê-lo. Obviamente, a Fazenda Pública seria financeiramente lesada, e sofreriam concorrência desleal os contribuintes que cumprissem rigorosamente as prescrições legais. É justamente esse o cerne da discussão que está posta: a cooperativa deixou de recolher valores a título de estimativa do IRPJ nos meses de dezembro de 2002, dezembro de 2003, dezembro de 2004 e dezembro de 2005? Caso fique demonstrado que, de fato, deixou de recolher as estimativas nesses meses, cabíveis são as multas. Do contrário, há que se reconhecer a procedência do pedido da impugnante. Em seguida, a turma julgadora a quo demonstra da análise das DIPJ acostadas aos autos que a contribuinte, apesar de informar as estimativas relativas aos meses de dezembro, não considera estes valores na apuração do IRPJ relativo ao Lucro Real, restringindo-se a compensar com o imposto devido, anual, as estimativas recolhidas até novembro e as retenções de fonte – para os anos de 2002 e 2003. Para os anos de 2004 e 2005 explica que a cooperativa apurou as estimativas de dezembro em valores iguais ao imposto devido no ajuste anual. Exemplifico: Ano-calendário de 2002 Analisando os dados relativos ao ano-calendário de 2002, constata-se que, até o mês de novembro de 2002 (inclusive), era devido o valor de R$ 19.952,92 como resultado das estimativas. No mês de dezembro de 2002, foi apurada estimativa de R$ 41.070,28. Todos esses, dados da Ficha 11 da DIPJ 2003 (fls. 26 a 29). No Cálculo do IR sobre o Lucro Real do ano-calendário de 2002 (ficha 12A da DIPJ 2003 - fl. 30), a impug,nante apura o imposto anual de R$ 61.023,20. Informa retenção de R$ 5.736,05, e deduz R$ 19.952,92 a titulo de Imposto de Renda pago por estimativa. Trata-se, essa última dedução, justamente do valor Fl. 612DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES 4 devido até o mês de novembro de 2002. É de se concluir, portanto, que a estimativa do mês de dezembro não foi considerada paga nem mesmo pelo próprio declarante. [...] Ano-calendário de 2004 Com base nos dados relativos ao ano-calendário de 2004, constata-se que, até o mês de novembro de 2004 (inclusive), nenhum valor era devido a título de estimativa. No mês de dezembro de 2004, foi apurada estimativa de R$ 43.512,82. Todos esses, dados da Ficha 11 da DIPJ 2005 (fls. 251 a 254). No Cálculo do IR sobre o Lucro Real do ano-calendário de 2004 (ficha 12A da DIPJ 2005 - fl. 255), a impugnante apura o imposto anual de R$ 43 512 82 Nada deduz a titulo de retenção ou Imposto de Renda pago por estimativa. Como resultado a pagar no ajuste, resta o próprio valor de R$ 43.512,82, exatamente o valor da estimativa de dezembro de 2004. É de se concluir, portanto, que a estimativa do mês de dezembro não foi considerada paga nem mesmo pelo próprio declarante, pois corresponde ao próprio valor a pagar resultante da apuração anual. No que respeita à alegação de erros cometidos pela cooperativa ao preencher os DARF em questão – código e valores – a turma julgadora de primeira instância verificou que os DARF de fato correspondem aos impostos devidos anualmente e, à exceção de um, todos foram recolhidos fora do prazo legal para os recolhimentos das estimativas, cujas multas ora são exigidas, sem acréscimos legais. Irresignada, a cooperativa interpôs, tempestivamente, o Recurso Voluntário de fls. 595 a 606, pretendendo a reforma do acórdão ora guerreado, pelas seguintes razões: I) Da preliminar de nulidade formal I.a) Preliminarmente, reitera que a fiscalização agiu sem o Mandado de Procedimento Fiscal – MPF devido o que causa vício de forma insanável ao lançamento tributário devendo ser anulado; I.b) Reitera, ainda, que a portaria que instituiu o MPF veicula pressupostos de validade para o procedimento fiscal e assegura os princípios da segurança jurídica, interesse público, finalidade, imparcialidade, impessoalidade, dentre outros; I.c) Analisa a portaria administrativa em seus diversos aspectos e regramentos; I.d) Aponta as divergências entre os tributos e períodos assinalados no MPF no lançamento tributário – CSLL e PIS contra IRPJ, 01/2001 a 12/2004, contra 01/2001 a 12/2005; I.e) cita doutrina sobre a validade dos atos e ementas de acórdãos administrativos; II) No mérito: II.a) insiste a cooperativa que a multa cominada em 50% do imposto de renda apurado nos meses de dezembro dos diversos anos-calendários foi aplicada em virtude de “...falta de pagamento do saldo apurado ao final do ano a título de IRPJ ou pagamento a destempo, sem acréscimo de multa de mora, relativo aos anos de 2002, 2003, 2004 e 2005” ; Fl. 613DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 10925.002470/2006-33 Acórdão n.º 1801-00.403 S1-TE01 Fl. 612 5 II.b) “Em razão disso, a autoridade fiscal está a exigir ‘multa isolada’ de 50% (...) sobre as sobras apuradas, capitulada no art. 44, §1º, inciso IV, da Lei nº 9.430/96, com a redação dada pela MP nº 303/06, calculada sobre o valor integral dos resultados apurados em 31/12 de cada ano.” II.c) argumenta que a hipótese de incidência para a cominação da multa in casu não aconteceu, pois o preceito da norma é a falta de pagamento ou recolhimento e falta de pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória; II.d) refere-se a duas hipóteses contempladas pela norma jurídica: a primeira torna a multa devida porque após o encerramento do período constata-se o não recolhimento do estimativa mensal e o contribuinte apura prejuízo fiscal; a segunda refere-se à fiscalização dentro do ano, que não se encerrou e o contribuinte não recolheu as estimativas; II.e) na esteira deste raciocínio, conclui que o contribuinte que apura imposto a pagar no final do período, não está obrigado a recolher a estimativa de dezembro, pois esta só é exigível após o encerramento do ano-calendário, quando está obrigado a pagar o imposto devido apurado no ajuste; II.f) cita ementas de acórdãos administrativos sobre a impossibilidade da concomitância da multa isolada e da multa de ofício; e um sobre a aplicação de multa de ofício devido ao não recolhimento do tributo; III) passa a discorrer sobre os erros cometidos; diz que não houve falta de recolhimento de imposto mensal, nem pagamento a destempo, sem multa moratória, mas sim equívocos de preenchimento de DIPJ e códigos de Darf relativos a dezembro de cada ano; IV) também alega erro em não haver informado o valor de IRRF utilizado para compensação no período; diz que a retificação da DIPJ soluciona este erro; V) os Darf recolhidos sob código 2430, relativos a dezembro de cada ano, foram desconsiderados pelo auditor fiscal, mas são retificáveis – Re-Darf. É o relatório. Passo a analisar as razões recursais. Voto Conselheira ANA DE BARROS FERNANDES, relatora. Conheço do recurso interposto, por tempestivo. I) Da preliminar de nulidade do lançamento fiscal por vício formal – ausência de MPF específico para a aplicação de multa isolada pelo não recolhimento das estimativas de IRPJ e acobertando o ano-calendário de 2005 Fl. 614DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES 6 Acolho a jurisprudência dominante deste CARF ao entender que o Mandado de Procedimento Fiscal é norma de natureza interna corporis e não possui o condão de levar à nulidade o lançamento fiscal pautado na norma tributária vigente, sendo suprido pelos outros termos lavrados pela autoridade fiscal revestida da competência natural de sua função. Assim tem se manifestado reiteradamente a jurisprudência administrativa, que acompanho: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MPF. NULIDADE. Descabe a argüição de nulidade quando se verifica que o Auto de Infração foi lavrado por pessoa competente para fazê-lo e em consonância com a legislacão vigente. O MPF é mero instrumento de controle da atividade de fiscalizacão no âmbito da Secretaria da Receita Federal, de modo que eventual irregularidade na sua expedição, ou nas renovações que se seguem, não acarreta a nulidade do lançamento. (CSRF 2" Turma, Recurso n° 203-126775, Sessão de 22/01/07, Relatora Maria Tereza Martinez Lopes, Acórdão n° CSRF/02-02. 543) Quando mais em relação ao presente processo, em que a recorrente se insurge contra a não entrega de MPF – C, complementar, para inclusão de verificação de IRPJ. Na realidade fática, o MPF de fl. 01 deste processo registra: VERIFICAÇÕES OBRIGATÓRIAS: correspondência entre os valores declarados e os valores apurados pelo sujeito passivo em sua escrituração contábil e fiscal, em relação aos tributos e contribuições administrados pela SRF, nos últimos cinco anos e no período de execução deste Procedimento Fiscal. (grifos não pertencem ao original) Deve restar claro e explícito à recorrente que a presente autuação não fugiu ao escopo do mandado acima. A autoridade fiscal foi demandada, pelo MPF de fl. 01: 1º) a verificar o cumprimento das obrigações tributárias da cooperativa; 2º) constatou, com fulcro nas suas DIPJ – que, por força de lei, devem retratar assentamentos contábeis – o não recolhimento de um dos tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil – RFB, no caso, as estimativas de IRPJ relativas ao último mês dos últimos cinco anos, observando-se que o procedimento fiscal ocorreu durante o ano-calendário de 2006; 3º) o ilícito tributário não impôs a cobrança do IRPJ devidos nos meses de dezembro dos últimos cinco anos, mas sim a imposição de uma multa isolada, que, a seguir discorrer-se-á, não se confunde com a multa de ofício aplicada pelo não recolhimento de tributo, mas sim penalidade exigida isoladamente pelo não cumprimento de obrigação do contribuinte. Destarte, entendo que não houve qualquer nulidade no procedimento fiscal ora debatido, pelo contrário, cumprimento integral do MPF emitido e estrita observância às normas legais vigentes. Fl. 615DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 10925.002470/2006-33 Acórdão n.º 1801-00.403 S1-TE01 Fl. 613 7 Assim, concordo com a turma julgadora de primeira instância e não vejo qualquer falha na emissão do MPF, que, ao meu ver, contempla e exige da autoridade fiscal a verificação obrigatória do cumprimento das obrigações tributárias da fiscalizada; por isso, nem tampouco, detecto qualquer ofensa aos preceitos constitucionais invocados pela recorrente. Afasto a preliminar suscitada. II) Do mérito A recorrente equivoca-se no motivo determinante da aplicação da multa isolada em determinados momentos do recurso apresentado. De plano, esclareço que a multa cominada na presente autuação não foi aplicada por recolhimento de tributo em traso, sem juros moratórios, nem pela falta de pagamento do IRPJ apurado ao final do período. Cumpre esclarecer sobre a natureza jurídica da multa isolada nos casos de falta de pagamento das estimativas mensais de tributos, durante o curso do ano-calendário ou ainda que este esteja encerrado, sem importar o resultado final apurado no ajuste. As multas previstas no artigo 44 da Lei nº 9.430/96, no inciso I (multa de ofício por ausência de recolhimento de imposto anual) e no parágrafo 1º, inciso IV (multa isolada pelo não recolhimento das estimativas mensais) não se confundem. A penalidade ora debatida – multa pela ausência dos recolhimentos das estimativas – é imposta porque o contribuinte “não-fez” os adiantamentos de caixa ao Tesouro, conforme se comprometera. Não entendo as estimativas como meras antecipações de tributo, que caso não se confirmem ao final do período, não geram sanção ao contribuinte faltoso. Dispõe o artigo 44, inciso I, c/c o §1º, inciso IV, da Lei nº 9.436/96, vigente e aplicada à época da ocorrência dos fatos: Lei n° 9.430, de 27 de dezembro de 1996 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I - de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; (...) 1º As multas de que trata este artigo serão exigidas: [...] IV - isoladamente, no caso de pessoa jurídica sujeita ao pagamento do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido, na forma do art. 2º, que deixar de fazê-lo, ainda que tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa Fl. 616DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES 8 para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano- calendário correspondente; (grifos não pertencem ao original) Posteriormente, a redação desse artigo foi explicitada da seguinte forma, grifando-se o trecho concernente à matéria: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) [...] II - de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) [...] b) na forma do art. 2o desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano-calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (Incluída pela Lei nº 11.488, de 2007) Indiscutível que o legislador reduziu o percentual de 75% para 50%, mas a infração tributária continua sendo penalizada e, data venia, as teses que vêm sendo tecidas sobre o assunto, não se trata de ocorrência de fato gerador de obrigação tributária principal, mas medida coercitiva para que a norma tributária preceituada o artigo 2º da mesma lei não se torne inócua (como bem assinalado pela turma julgadora de primeira instância): Pagamento por Estimativa Art. 2º - A pessoa juridica sujeita a tributacao com base no lucro real podera optar pelo pagamento do imposto, em cada mes, determinado sobre base de calculo estimada, mediante a aplicacao, sobre a receita bruta auferida mensalmente, dos percentuais de que trata o art. 15 da Lei nº 9249, de 1995, observado o disposto nos paragrafos 1º e 2º do art. 29 e nos arts. 30 a 32, 34 e 35 da Lei nº 8981, de 20 de janeiro de 1995, com as alterações da Lei nº 9065, de 20 de junho de 1995. Paragrafo 1º - O imposto a ser pago mensalmente na forma deste artigo sera determinado mediante a aplicacao, sobre a base de calculo, da alíquota de quinze por cento. (grifos não pertencem ao original) E estabelece o artigo 3º, caput: Art. 3º - A adocao da forma de pagamento do imposto prevista no art. 1º, pelas pessoas juridicas sujeitas ao regime do lucro real, ou a opcao pela forma do art. 2º sera irretratavel para todo o ano-calendario. (grifos não pertencem ao original) Fl. 617DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 10925.002470/2006-33 Acórdão n.º 1801-00.403 S1-TE01 Fl. 614 9 Pois se os contribuintes optam pelo regime de apuração de IRPJ e CSLL na forma anual, não recolhem as estimativas mensais apuradas e ao final do período, apuram o real IRPJ e CSLL a pagar, ou mesmo prejuízo, e não há qualquer sanção para as estimativas não recolhidas, porque existir a norma que obriga aos recolhimentos dessas? E, parênteses aqui, denomina-se estimativas porque, de antemão, preferem estimar o lucro e apurar o IRPJ/CSLL no ajuste anual, porque a partir da edição da Lei nº 9.430/96 as pessoas jurídicas deveriam apurar a base de cálculo do IRPJ e CSLL em períodos trimestrais: IMPOSTO DE RENDA - PESSOA JURIDICA Secao I Apuracao da Base de Calculo Periodo de Apuracao Trimestral Art. 1º - A partir do ano-calendario de 1997, o imposto de renda das pessoas juridicas sera determinado com base no lucro real, presumido ou arbitrado, por periodos de apuracao trimestrais, encerrados nos dias 31 de marco, 30 de junho, 30 de setembro e 31 de dezembro de cada ano-calendario, observada a legislacao vigente, com as alteracoes desta Lei. A tese desenvolvida in contrario sensu defende que a multa incide apenas sobre a diferença entre o saldo de tributo a pagar e o valor das estimativas, quando o valor do imposto anual for maior do que a soma do valor estimado, mês a mês. Não vislumbro casos em que, pela tese antagônica, aplicar-se-ia a multa preceituada no sentido de coibir os contribuintes a recolherem as estimativas mensais que se propuseram, por livre e espontânea vontade, fazê-lo, o que torna o dispositivo legal totalmente inócuo, repito. Para a aplicação da referida multa isolada não há que se falar em ocorrência de fato gerador, visto que não se está a cobrar tributo, que ao final do ano-calendário, pode ou não ser devido, em face ao ajuste anual. O valor do tributo, estimado, repita-se, serve unicamente como base de cálculo e não interessa, ao legislador, se o tributo, em si, é devido ou não, ao final do período no ajuste anual. E a base de cálculo poderia ser outra, mas o legislador quis colocar um vínculo entre a obrigatoriedade estabelecida em norma tributária – do contribuinte que opta, excepcionalmente, pelo regime anual de apuração do lucro real e assume recolher as estimativas – e a penalidade que sanciona o descumprimento dessa norma. A exigência ora discutida é a penalidade por descumprimento de norma legal e, nesse caso, não há que se debater ser razoável ou não, sob pena de as autoridades julgadoras administrativas discutirem a legalidade das normas. Similarmente, recordo da discussão eterna do cabimento do juros à taxa Selic e da multa moratória. Se é razoável a cobrança de ambos encargos, nunca se discutiu no âmbito Fl. 618DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES 10 administrativo, sendo posicionamento manso e pacífico, retratado em súmula editada pelo 1º Conselho de Contribuintes (recepcionada por este CARF) que administrativamente não se adentra em discussões que envolvam a legalidade ou constitucionalidade das leis. E o princípio da razoabilidade, que fundamenta tese em contrário a qual insta em exonerar os contribuintes da cobrança da multa isolada, é princípio constitucional aplicado às normas legais, que somente o Poder Judiciário, no exercício de suas funções privativas, pode aplicar, data venia máxima. A razoabilidade que se poderia aqui aventar, o legislador tributário já entendeu aplicar quando reduziu o percentual de 75% para percentual mais razoável de 50%. Mas, definitivamente, não vejo nada de razoável em se deixar de aplicar penalidade, preceituada em lei, no caso do descumprimento de outra norma tributária. Analogamente a essas considerações em contrário à aplicação da multa ora debatida, exemplifico com as multas de trânsito. Se os cidadãos, no lugar de contribuintes, passassem o sinal vermelho e fossem autuados, ou dirigissem acima do limite de velocidade previsto, e fossem autuados, pelo mesmo raciocínio, poderiam se eximir da multa aplicada porque não colidiram ou não atropelaram ninguém. Não houve resultado danoso, portanto não há razão (ou não é razoável) ser penalizado. Na analogia, não havendo tributo ao final do ano, não há porque ser penalizado pelo descumprimento da norma que exigia o pagamento mensal. Lembremos que tanto o direito tributário quanto o direito penal têm em comum a tipicidade cerrada e, no presente caso, a norma é clara: a conduta do contribuinte que opta pelos recolhimentos de estimativas, não o fazendo, sujeita-se à penalidade. Conhecendo tese contrária defendida por esse órgão colegiado, adianto-me um pouco mais, afastando, de plano, a que seja invocado o artigo 112 do Código Tributário Nacional – CTN, pois não há qualquer dúvida no texto legal quanto à base para o cálculo para se exigir a penalidade. É o montante que deveria ter sido recolhido e não foi. Simples assim, voltando a destacar que não se está a tratar de exigência de tributo que, ao final do período, o contribuinte pode demonstrar não ser devido, mas sim mera sanção pelo não-ato do contribuinte estipulado em norma, cujo cálculo tem como parâmetro o valor mensal não recolhido. Desta forma, prestigio a norma tributária, que define a sanção pelos não recolhimentos dos valores estimados durante o período, declarados pela contribuinte, mantendo a sua aplicação, por vigente e não declarada ilegal ou inconstitucional, defendendo que não fere qualquer princípio constitucional, sob pena de torná-la, administrativamente, inócua. Saliento, por fim, que, checado por amostragem, os valores registrados no ano-calendário de 2002, a título de estimativa devida relativa ao mês de dezembro, na DIPJ e no balancete de suspensão/redução apresentado à fiscalização, estes valores não são coincidentes, bem como nenhum dos dois valores reproduz-se naquele informado como saldo de IRPJ a pagar no ajuste. E não cabe à autoridade julgadora administrativa arguição sobre a inconstitucionalidade, ou ilegalidade, das normas tributárias vigentes, sendo essa matéria de competência exclusiva da Suprema Corte Judicial. Neste sentido preceituou a Medida Provisória nº 449/08, transformada na Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009: Fl. 619DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 10925.002470/2006-33 Acórdão n.º 1801-00.403 S1-TE01 Fl. 615 11 Art. 23. O Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972, passa a vigorar com as seguintes alterações: “Art. 26-A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade.” No caso em questão, a cooperativa efetivamente não recolheu as estimativas devidas relativas aos meses de dezembro de cada ano já assinalado (2002, 2003, 2004 e 2005) – o fato de haver recolhido o IRPJ apurado ao final do período (calculado no ajuste), conforme exposto, não é excludente da obrigação assumida de pagar as estimativas (ainda que relativa ao último mês do ano-calendário) e por esta razão foi devidamente penalizado. Ressalto, mais uma vez, que a autuação não está a exigir diferença de IRPJ ou IRPJ recolhido em atraso sem multa moratória. A base de cálculo utilizada pela auditoria fiscal está correta, pois é o valor das estimativas não recolhidas em dezembro de cada ano. O fato de não ter incorrido em prejuízo fiscal tampouco exonera a recorrente da multa, pois a norma é clara ao expressar “ainda” que haja prejuízo, de forma não excludente, mas inclusiva, além das hipóteses em que restou tributo a recolher no ajuste. Os pedidos de REDarf juntados às fls. 345 a 349 nada comprovam ou favorecem à recorrente porque, como já também analisados no acórdão recorrido, não são coincidentes em datas ou valores das estimativas devidas e não recolhidas em apreço. A retificação de DIPJ após o início do procedimento fiscal não surte efeito – fls. 351 a 559. Este assunto está inclusive sumulado neste órgão, em vista da jurisprudência administrativa ser mansa e pacífica neste concernente: Súmula CARF nº 33: A declaração entregue após o início do procedimento fiscal não produz quaisquer efeitos sobre o lançamento de ofício. Por derradeiro, os acórdãos citados pela recorrente não se aplicam ao caso em concreto porque não há concomitância de exigência de multa de ofício (não recolhimento de IRPJ anual) com a multa isolada (devido pelo não pagamento das estimativas de dezembro) e, ainda, a cooperativa não obteve prejuízo fiscal, mas saldo de IRPJ anual a pagar nos anos verificados. Estando, pelo exposto, o lançamento tributário pautado nas normas tributárias vigentes, há que ser mantido na sua integralidade, sendo meu voto para negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) ANA DE BARROS FERNANDES - Relatora Fl. 620DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES 12 Fl. 621DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 16/11/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES
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Numero do processo: 10935.723535/2014-79
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Sep 04 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010
PRELIMINAR. NULIDADE. INOCORRÊNCIA.
Não há que se falar em nulidade do lançamento se observa todos os requisitos previstos no artigo 142 do CTN e no artigo 59 do Decreto nº 70.235/72, tampouco da decisão recorrida quando todos os pontos atacados em impugnação foram abordados.
JUROS SOBRE JCP A PAGAR. CÁLCULO EQUIVOCADO. GLOSA DE DESPESAS. LANÇAMENTO. CABIMENTO.
O cálculo dos Juros sobre JCP a pagar deve levar em consideração os valores retirados pelos sócios durante o mês, que reduzem o saldo da conta do Passivo JCP a pagar. Assim, é dever da autoridade fiscal apurar corretamente os Juros sobre JCP a pagar, sendo procedente o lançamento para glosa das despesas a esse título que exceder o valor correto.
JUROS SOBRE O EXCESSO DE JCP A PAGAR. GLOSA DE DESPESAS. LANÇAMENTO. CABIMENTO
Se a distribuição do JCP ultrapassou o limite previsto na legislação, o excesso não tem natureza de despesa operacional. Da mesma forma, não se pode reduzir o lucro real com despesas de juros incidentes sobre esse excesso de JCP pagos/creditados, já que acessório segue o principal.
IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE SOBRE OS JCP PAGOS. COMPENSAÇÃO COM CRÉDITO TRIBUTÁRIO LANÇADO. IMPOSSIBILIDADE.
A pessoa jurídica não tem legitimidade para pedir a compensação dos créditos tributários lançados, em razão do excesso de despesas incorridas com Juros sobre o Capital Próprio, com o imposto de renda retido na fonte incidente sobre estes valores. O sócio/acionista que recebeu o JCP é o sujeito passivo do IRRF, sendo o titular do direito de pedir a repetição no caso de ocorrer indébito.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa SELIC. Precedentes das três turmas da Câmara Superior - Acórdãos 9101-001.863, 9202-003.150 e 9303-002.400. Precedentes do STJ - AgRg no REsp 1.335.688-PR, REsp 1.492.246-RS e REsp 1.510.603-CE.
LANÇAMENTO DECORRENTE. CSLL.
Aplica-se ao lançamento reflexo o mesmo tratamento dispensado ao lançamento matriz, em razão da relação de causa e efeito que os vincula.
Numero da decisão: 1301-002.531
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares de nulidade do lançamento e da decisão de primeira instância. No mérito, por voto de qualidade, negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Bianca Felicia Rothschild e Amélia Wakako Morishita Yamamoto que votaram por dar provimento parcial ao recurso para cancelar a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Flávio Franco Correa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Bianca Felicia Rothschild, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Fernando Brasil de Oliveira Pinto.
Nome do relator: FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2010 PRELIMINAR. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Não há que se falar em nulidade do lançamento se observa todos os requisitos previstos no artigo 142 do CTN e no artigo 59 do Decreto nº 70.235/72, tampouco da decisão recorrida quando todos os pontos atacados em impugnação foram abordados. JUROS SOBRE JCP A PAGAR. CÁLCULO EQUIVOCADO. GLOSA DE DESPESAS. LANÇAMENTO. CABIMENTO. O cálculo dos Juros sobre JCP a pagar deve levar em consideração os valores retirados pelos sócios durante o mês, que reduzem o saldo da conta do Passivo JCP a pagar. Assim, é dever da autoridade fiscal apurar corretamente os Juros sobre JCP a pagar, sendo procedente o lançamento para glosa das despesas a esse título que exceder o valor correto. JUROS SOBRE O EXCESSO DE JCP A PAGAR. GLOSA DE DESPESAS. LANÇAMENTO. CABIMENTO Se a distribuição do JCP ultrapassou o limite previsto na legislação, o excesso não tem natureza de despesa operacional. Da mesma forma, não se pode reduzir o lucro real com despesas de juros incidentes sobre esse excesso de JCP pagos/creditados, já que acessório segue o principal. IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE SOBRE OS JCP PAGOS. COMPENSAÇÃO COM CRÉDITO TRIBUTÁRIO LANÇADO. IMPOSSIBILIDADE. A pessoa jurídica não tem legitimidade para pedir a compensação dos créditos tributários lançados, em razão do excesso de despesas incorridas com Juros sobre o Capital Próprio, com o imposto de renda retido na fonte incidente sobre estes valores. O sócio/acionista que recebeu o JCP é o sujeito passivo do IRRF, sendo o titular do direito de pedir a repetição no caso de ocorrer indébito. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa SELIC. Precedentes das três turmas da Câmara Superior - Acórdãos 9101-001.863, 9202-003.150 e 9303-002.400. Precedentes do STJ - AgRg no REsp 1.335.688-PR, REsp 1.492.246-RS e REsp 1.510.603-CE. LANÇAMENTO DECORRENTE. CSLL. Aplica-se ao lançamento reflexo o mesmo tratamento dispensado ao lançamento matriz, em razão da relação de causa e efeito que os vincula.
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NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Não há que se falar em nulidade do lançamento se observa todos os requisitos previstos no artigo 142 do CTN e no artigo 59 do Decreto nº 70.235/72, tampouco da decisão recorrida quando todos os pontos atacados em impugnação foram abordados. JUROS SOBRE JCP A PAGAR. CÁLCULO EQUIVOCADO. GLOSA DE DESPESAS. LANÇAMENTO. CABIMENTO. O cálculo dos Juros sobre JCP a pagar deve levar em consideração os valores retirados pelos sócios durante o mês, que reduzem o saldo da conta do Passivo “JCP a pagar”. Assim, é dever da autoridade fiscal apurar corretamente os Juros sobre JCP a pagar, sendo procedente o lançamento para glosa das despesas a esse título que exceder o valor correto. JUROS SOBRE O EXCESSO DE JCP A PAGAR. GLOSA DE DESPESAS. LANÇAMENTO. CABIMENTO Se a distribuição do JCP ultrapassou o limite previsto na legislação, o excesso não tem natureza de despesa operacional. Da mesma forma, não se pode reduzir o lucro real com despesas de juros incidentes sobre esse excesso de JCP pagos/creditados, já que acessório segue o principal. IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE SOBRE OS JCP PAGOS. COMPENSAÇÃO COM CRÉDITO TRIBUTÁRIO LANÇADO. IMPOSSIBILIDADE. A pessoa jurídica não tem legitimidade para pedir a compensação dos créditos tributários lançados, em razão do excesso de despesas incorridas com Juros sobre o Capital Próprio, com o imposto de renda retido na fonte AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 93 5. 72 35 35 /2 01 4- 79 Fl. 1913DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.914 2 incidente sobre estes valores. O sócio/acionista que recebeu o JCP é o sujeito passivo do IRRF, sendo o titular do direito de pedir a repetição no caso de ocorrer indébito. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa SELIC. Precedentes das três turmas da Câmara Superior Acórdãos 9101001.863, 9202003.150 e 9303 002.400. Precedentes do STJ AgRg no REsp 1.335.688PR, REsp 1.492.246RS e REsp 1.510.603CE. LANÇAMENTO DECORRENTE. CSLL. Aplicase ao lançamento reflexo o mesmo tratamento dispensado ao lançamento matriz, em razão da relação de causa e efeito que os vincula. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares de nulidade do lançamento e da decisão de primeira instância. No mérito, por voto de qualidade, negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Bianca Felicia Rothschild e Amélia Wakako Morishita Yamamoto que votaram por dar provimento parcial ao recurso para cancelar a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Flávio Franco Correa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Bianca Felicia Rothschild, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Fl. 1914DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.915 3 Relatório IRMAOS MUFFATO CIA LTDA recorre a este Conselho, com fulcro no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, objetivando a reforma do acórdão nº 1281.373 da 5ª Turma da Delegacia de Julgamento no Rio de Janeiro que julgou improcedente a impugnação apresentada. Por bem refletir o litígio até aquela fase, adoto o relatório da decisão recorrida, complementandoo ao final: Trata o processo do auto de infração, com ciência em 24/09/2014 (AR – fls. 1013), referente aos 2º e 3º trimestres de 2010, através do qual é exigido o imposto de renda da pessoa jurídica, IRPJ, no valor de R$ 928.798,04, e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, no valor de R$ 334.367,29, acrescidos da multa de ofício de 75% e juros de mora. De acordo com o Termo de Constatação Fiscal, fls. 2/4, o presente lançamento decorre de glosa de juros sobre JCP a pagar, que foi verificado conforme relatado a seguir: a) Durante a ação fiscal que resultou no auto de infração lavrado em 29/11/2013, por meio do processo administrativo nº 10935.724787/201334, foram constatadas as seguintes infrações: (1) glosa de despesas com Juros sobre o Capital Próprio – JCP e (2) glosa de despesas com Juros sobre o JCP a pagar. b) No entanto, naquele processo, foi lavrado auto de infração apenas com relação ao item (1) glosa de despesas com Juros sobre o Capital Próprio. Verificado o equívoco, o presente processo foi formalizado para constituição do crédito tributário em decorrência do item (2) glosa de despesas com Juros sobre o JCP a pagar. c) De acordo com o Termo de Constatação Fiscal do processo administrativo nº 10935.724787/201334, fls. 924/950, itens 79 a 92, os juros sobre o JCP a pagar foram calculados com base nos valores do JCP calculados e creditados aos sócios, mas ainda não pagos. d) Foi demonstrado que, se fossem aceitos como corretos os Juros sobre o Capital Próprio contabilizados pelo contribuinte, o valor dos Juros sobre o JCP estaria superestimados, cabendo a glosa no valor de R$ 496.646,63, contabilizado nos 2º e 3º trimestres de 2010, conforme esclarecimentos a seguir: a fiscalização aceitou o critério utilizado pela autuada para determinação dos juros, de 120% sobre as taxas do CDI. no entanto, foram constatadas discrepâncias nos cálculos apresentados, para os quais a autuada foi intimada a esclarecer os pontos nebulosos na apuração do Juros sobre JCP, e a relação entre estas contas e aquela do Ativo, de Empréstimos para Pessoas Ligadas. Fl. 1915DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.916 4 a autuada concordou que os demonstrativos dos Juros sobre JCP a Pagar continham inconsistências, e ainda esclareceu que a conta Empréstimos para Pessoas Ligadas “na sua essência reflete apenas e unicamente valores retirados dos saldos a receber pelos sócios, dos juros sobre o capital próprio, e não de empréstimos efetuados a pessoa ligadas (sócios)”. para o cálculo dos juros devidos, em dezembro de 2009, a autuada deduziu do “saldo anterior” os pagamentos de JCP contabilizados em 30/12/2009, no valor de R$ 3.446.405,22. no entanto, tais pagamentos não foram efetuados naquela data, e sim entre os dias 02 e 09/12/2009, com lançamento a débito na conta de Ativo Empréstimos para Pessoas Ligadas. somente no encerramento do exercício o saldo da conta do Ativo foi transferido para a conta do Passivo – Juros sobre JCP a pagar, mas sem que qualquer receita fosse computada, como reconheceu a autuada. a mesma distorção ocorreu com os pagamentos de JCP no valor total de R$ 4.208.000,00, efetuados entre os dias 16/07 e 11/10/2010, debitados na conta do Ativo, e transferidos para conta do Passivo em 31/12/2010. autuada também ignorou o pagamento em 02/01/2010, no valor de R$ 3.400.000,00, gerando uma diferença no mesmo valor no meses de janeiro e fevereiro/2010, que aumenta para R$ 3.735.470,20 a partir de março, trazendo como conseqüência um aumento indevido no valor dos juros calculados. assim, de um lado existe conta do Passivo (JCP a pagar) gerando despesa de juros, e de outro, conta do Ativo (Empréstimos para Pessoas Ligadas), com origem semelhante, sem gerar receita de juros, motivo pelo qual a fiscalização procedeu a um recálculo dos Juros devidos sobre os JCP a pagar, partindo do princípio que todos os valores contabilizados pelo contribuinte a esse título estão corretos. abaixo, tabela com os valores de despesas com Juros sobre JCP a pagar apurados pelo Fisco, confrontado com os valores informados pelo contribuinte e os valores contabilizados, resultando em glosa no valor de R$ 496.646,63: e) Além disso, considerando a glosa aplicada sobre os valores dos JCP contabilizados, objeto de lançamento do processo 10935.724787/201334, caberia uma glosa adicional das despesas com Juros sobre JCP no valor de R$ 3.218.545,48, como veremos a seguir: foi constatado que os valores de JCP contabilizados pelo contribuinte, efetivamente pagos ou contabilizados, foram feitos acima do limite permitido pelo artigo 9º da Lei nº 9.249/95, deixando de se caracterizar como despesa Fl. 1916DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.917 5 financeira decorrente de cálculo de JCP para se constituir num pagamento feito por mera liberalidade. assim, todos os lançamentos a crédito na conta do Passivo – JCP a pagar, que são objeto de glosa por excederem os limites, devem ser excluído para fins de cálculo dos Juros sobre o JCP a pagar. foi elaborado novo demonstrativo da conta JCP a pagar, considerando apenas os créditos dos valores de JCP efetuados na conta do Passivo que não foram glosados, e sobre o saldo desta conta foi feito novo cálculo dos Juros sobre JCP a pagar, demonstrando, assim, uma despesa que poderia ter sido contabilizada no valor de R$ 932.730,10. em decorrência, foram glosadas as despesas de Juros sobre JCP a Pagar correspondentes à diferença entre este valor e aquele contabilizado pelo contribuinte, de R$ 4.647.922,21, totalizando tal glosa o valor de R$ 3.3.218.545,48. Abaixo, os valores glosados por trimestre de 2010: Em função das glosas das despesas com Juros sobre o JCP a pagar, foram lançados IRPJ no valor de R$ 928.798,04, e CSLL, no valor de R$ 334.367,29, acrescidos da multa de ofício de 75% e juros de mora. Enquadramento Legal: artigo 3º da Lei nº 9.249/95, artigos 247 e 249 do RIR/99, art. 2º da Lei nº 7.689/88 com as alterações introduzidas pelo art. 2º da Lei nº 8.034/90, art. 57 da Lei nº 8.981/95, com as alterações do art. 1º da Lei nº 9.065/95, art. 2º da Lei nº 9.249/95, art. 1º da Lei nº 9.316/96; art. 28 da Lei nº 9.430/96, art. 3º da Lei nº 7.689/88, com redação dada pelo art. 17 da Lei nº 11.727/08 Inconformada, a autuada apresentou impugnação em 20/10/2014, fls. 1023/1062, com as seguintes alegações: em preliminar, alega a nulidade por ausência na fundamentação legal, pois somente há menção ao artigo 9º, §1º do Decreto nº 70.235/72, com redação dada pelo artigo 113 da Lei nº 11.196/2005, nada mencionando sobre a possibilidade de rever ou revisar de ofício um lançamento de crédito tributário já realizado. as possibilidade de revisão do lançamento estão expressas nos artigos 145 e 149 do CTN, que sequer foram mencionados, assim como não há a devida capitulação no corpo do Termo de Ciência de Lançamento e Encerramento do Procedimento Fiscal. não estamos diante de qualquer caso que permita a revisão do lançamento, até mesmo porque o auditor fiscal tinha conhecimento dos fatos, nos levando a Fl. 1917DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.918 6 crer que, se não foram lançados, é porque não eram devidos, ou por falha funcional de omissão. é indispensável capitular o novo lançamento em alguma das hipóteses previstas do artigo 149 do CTN, sob pena de incorrer em cerceamento ao direito de defesa, bem como da insegurança jurídica. afirma que o lançamento está imperfeito, o que afronta os Princípios do Contraditório e da Ampla Defesa. ainda em preliminar, nos termos dos artigos 145, 146, 149 e 196 do CTN, a refiscalização de determinados períodos somente poderá ocorrer se fundamentada e necessária, além da prévia e especial autorização do Delegado da Receita Federal. já houve fiscalização encerrada com lançamento tributário, sobre o mesmo objeto desta nova fiscalização, e que naquela ocasião nenhum crédito suplementar foi apurado, sendo o presente lançamento uma refiscalização, mas que só seria válida se capitulada ou justificada nos termos do artigo 149 do CTN. também alega a nulidade material pois o lançamento tem fundamento em fato ainda não constituído definitivamente, pois apresentou recurso voluntário nos autos do processo administrativo nº 10935.724787/201334, ainda não julgado. é clara a necessidade de reunião deste processo administrativo àquele de nº 10935.724787/201334, já que o mérito a ser decidido naquele é determinante na manutenção dos lançamentos efetuados neste, devendo ser analisados em conjunto. quanto ao mérito, é necessário que se remonte ao mérito da própria contabilização dos Juros sobre o Capital Próprio, objeto do processo administrativo nº 10935.724787/201334. o cerne da questão reside na divergência da interpretação dada ao artigo 9º da Lei nº 9.249/96, pois entende que o "período de competência" para o registro e dedutibilidade dos JCP é aquele em que há a "deliberação" pela "Reunião de Sócios", no sentido de se efetivar o crédito ou pagamento dos JCP, e não aquele da "formação" dos lucros ou "cálculo" dos juros, não havendo que se falar em decadência (ou renúncia tácita) do direito ao crédito dos JCP, e nem malferimento ao "regime de competência". a "segregação" feita pelo Fiscal (entre JCP de períodos decaídos e de períodos fora do regime de competência), seria o mesmo que admitir o efetivo pagamento/créditos dos JCP mediante "retificação" das DIPJ 's dos últimos 05 anos, ferindo o "regime de competência", pois permite que uma Ata de Reunião de Sócios pósdatada, desse azo a retificar DIPJ's dos últimos 05 anos. a Lei em momento algum reflete a interpretação do Fisco, pois impôs limite "quantitativo" a ser observado no período em que houver a deliberação pelo pagamento/crédito dos JCP; e um "limite temporal", como sendo aquele da deliberação societária pelo pagamento/crédito dos JSCP. ressalta que observou corretamente os limites quantitativos, enquanto que o Fisco se equivocou, argumento já suscitado na preliminar de nulidade. Fl. 1918DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.919 7 também não há limitação na legislação societária, do que se observa do artigo 132 da Lei nº 6.404/76, pois é apenas e tão somente previsão para que a assembleia delibere acerca da destinação dos lucros e a distribuição dos dividendos. traz jurisprudência administrativa e do STJ, demonstrando amparo ao procedimento adotado como correto. estando demonstrado o correto creditamento de JCP, o saldo de Juros sobre JCP a pagar deve contemplar os valores provenientes de todo o crédito de juros remuneratórios do Capital Próprio, sobre o qual é lícito incidir Juros sobre JCP. assim, como reflexo do principal, os saldos de JCP a pagar, pendentes de pagamento, igualmente rendem juros aos seus sócios, que como uma aplicação financeira, sujeita inclusive a IRRF a alíquota de 22,5%, efetivamente aplicada, também é dedutível, impondo a necessidade do cancelamento da presente autuação. a autoridade aponta irregularidade na falta de “baixa” de um pagamento no valor de R$ 3.400.000,00 do saldo de JCP, o que acarreta valor maior de Juros sobre o JCP. no entanto, o próprio auditor afirma que ocorreram eventos desfavoráveis, o que redundariam em valores a maior de Juros sobre JCP a pagar, fato que compensa o excesso inicialmente verificado. a “glosa 1” não se limitou ao valor de R$ 496.646,63 decorrente de falta de baixa de pagamento de R$ 3.400.000,00 pagos em janeiro de 2010. o fiscal procedeu à glosa sucessiva, ou seja, procedeu a uma glosa de valores para o caso desta “glosa 1” não prevalecer. a referida “glosa 2", efetivada pelo Fiscal, decorre do procedimento unilateral do Fiscal em proceder ao cálculo dos Juros sobre os Empréstimos a Pessoas Ligadas, ao longo do anocalendário. Ou seja, considerando que havia uma conta corrente dos sócios, ao longo do ano, em que a empresa era credora dos sócios, o Fiscal, unilateralmente, calculou juros pelo mesmo critério que o contribuinte o fez para os juros sobre os JCP, e efetivou a "compensação" entre os juros devidos aos sócios (decorrentes de JCP a pagar), no Passivo, e os juros decorrentes de "empréstimos pessoa ligada", do Ativo. o Fiscal sponte sua, "cobrou" um crédito que a pessoa jurídica teoricamente teria junto aos sócios, e abateu esse "crédito" dos "Juros sobre os JCP" devidos aos sócios, sem apontar nenhum fundamento legal para esse procedimento, agindo por pura presunção, e indeferindo a dedutibilidade do que rotulou de "glosa 2", no valor de R$ 3.218.545,48. faltou motivação ou fundamentação legal, além do que a autoridade não poderia presumir uma taxa de juros (CDI), e imputar um crédito que não era dele e sim da pessoal jurídica, e que, acima de tudo, foi quitada sempre antes do final do ano. não houve demonstração do cálculo, redundando em cerceamento do direito de defesa. Fl. 1919DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.920 8 seja porque falta fundamento legal para a glosa 2, seja porque a glosa 1 deveria ser objeto de compensação com os créditos de juros que deveriam ser adequadamente formulados em favor do contribuinte, o lançamento deve ser cancelado. contesta a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício. requer que seja abatido de eventual saldo remanescente o valor recolhido a título de IRRF, no percentual de 22,5%, calculado com alíquota superior à devida para alguns períodos, sobre todo o valor glosado, mantendo a exigência de valores que efetivamente estejam em aberto. requer produção de prova pericial e conversão do julgamento em diligência no caso de restarem dúvidas ao julgador. Analisando a impugnação apresentada o colegiado a quo julgoua improcedente. A Recorrente foi intimada da decisão em 19 de maio de 2016 (fl. 1853) apresentando em 14 de junho de 2016 (fl. 1.854) recurso voluntário de fls. 1.8551893, reafirmando, em resumo, os termos de sua de sua impugnação, arguindo ainda a nulidade da decisão de primeira instância por suposta ausência das arguições de nulidade sucitadas em sede de impugnação. É o relatório. Fl. 1920DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.921 9 Voto Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Relator. 1 ADMISSIBILIDADE O recurso voluntário apresentado é tempestivo e assinado por procurador devidamente habilitado. Preenchidos os demais pressupostos admissibilidade, dele, portanto, tomo conhecimento. 2 PRELIMINARES DE NULIDADE Segundo a recorrente a decisão recorrida seria nula em razão de o voto condutor do aresto não ter enfrentado todas as matérias de defesa apresentadas. Aduz que o acórdão recorrido não teria enfrentado em um único parágrafo sequer as nulidades de procedimento suscitadas em impugnação. Não assiste razão a recorrente. Há um tópico na decisão recorrida que trata exclusivamente das preliminares arguidas em impugnação. Vejase: A autuada requer a nulidade do lançamento, alegando (1) ausência de fundamentação legal para revisão de lançamento; (2) impossibilidade de refiscalização do mesmo período sem a devida motivação prévia e (3) utilização de fundamento em fato ainda não constituído definitivamente, pendente de decisão definitiva do processo administrativo nº 10935.724787/201334. Não merece acolhida as alegações de nulidade. Primeiro, porque não houve revisão de lançamento levado a termo no processo administrativo nº 10935.724787/201334. Naquele processo, houve glosa de despesas a título de Juros sobre o Capital Próprio. O presente processo trata de glosa de despesas a título de Juros sobre o JCP a pagar. É outra infração, que foi apurada durante o mesmo procedimento fiscal para verificação do cumprimento das obrigações tributárias nos anoscalendário de 2008, 2009 e 2010, amparada pelo Mandado de Procedimento Fiscal nº 0910300.2013.007210. Como relatado, em que pese constar no Termo de Verificação Fiscal do processo administrativo nº 10935.724787/201334 a infração em decorrência da glosa de Juros sobre JCP a pagar, por equívoco, ele deixou de ser lançado. O próprio Acórdão nº 1264.930, desta 5ª Turma da DRJ/RJO, de 17/04/2014, cuidou de ressaltar a necessidade do lançamento relativo a esta infração. Neste contexto, e tendo por base legal o artigo 41, §1º, inciso I, alínea “b” do Decreto nº 7.574/2011, foi lavrado o presente auto de infração complementar para cobrança da matéria já perfeitamente identificada no procedimento, fato que não caracteriza uma refiscalização, ou revisão de lançamento. Quanto à alegação de que o lançamento seria nulo, já que estaria fundamentado em fato que dependeria da decisão definitiva do processo Fl. 1921DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.922 10 administrativo nº 10935.724787/201334, também deixo de acatar pois se trata de questão de mérito. No entanto, concordo com o pedido que os processos devem caminhar juntos, já que possuem os mesmos elementos de prova, devendo ocorrer a juntada por anexação, nos termos do artigo 5º da Portaria RFB nº 354, de 11/03/2016. Por fim, também discordo com o argumento da autuada, trazido quando atacou o mérito, de que a autoridade fiscal não teria elaborado tabelas com os valores apurados, dificultando a defesa. Esclareço que a base de cálculo do lançamento está devidamente demonstrada nos Anexos às fls. 958/973. Logo, não há ofensa ao direito de defesa. Poderia a autuada ter demonstrado onde estaria o equívoco na determinação da base de cálculo, fato que não ocorreu. Ademais, verifico que o lançamento respeitou todos os requisitos previstos no artigo 142 do CTN, motivo pelo qual rejeito a preliminar de nulidade. Em relação à suposta necessidade de se refutar todos os argumentos de defesa, nem mesmo o § 1º do art. 489 do CPC/2015 agasalha tal entendimento. Tal exegese foi confirmada por unanimidade por todos os Ministros da Primeira Seção do STJ no julgamento dos Embargos de Declaração no Mandado de Segurança nº 21.315DF, cuja parte de interesse da ementa reproduzse a seguir: PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO EM MANDADO DE SEGURANÇA ORIGINÁRIO. INDEFERIMENTO DA INICIAL. OMISSÃO, CONTRADIÇÃO, OBSCURIDADE, ERRO MATERIAL. AUSÊNCIA. 1. Os embargos de declaração, conforme dispõe o art. 1.022 do CPC, destinamse a suprir omissão, afastar obscuridade, eliminar contradição ou corrigir erro material existente no julgado, o que não ocorre na hipótese em apreço. 2. O julgador não está obrigado a responder a todas as questões suscitadas pelas partes, quando já tenha encontrado motivo suficiente para proferir a decisão. A prescrição trazida pelo art. 489 do CPC/2015 veio confirmar a jurisprudência já sedimentada pelo Colendo Superior Tribunal de Justiça, sendo dever do julgador apenas enfrentar as questões capazes de infirmar a conclusão adotada na decisão recorrida. [...] 4. Percebese, pois, que o embargante maneja os presentes aclaratórios em virtude, tão somente, de seu inconformismo com a decisão ora atacada, não se divisando, na hipótese, quaisquer dos vícios previstos no art. 1.022 do Código de Processo Civil, a inquinar tal decisum. 5. Embargos de declaração rejeitados. Por essas razões, rejeito a preliminar de nulidade da decisão de primeira instância. No que diz respeito à renovação dos argumentos de nulidade do lançamento, entendo corretas as conclusões da decisão recorrida. Fl. 1922DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.923 11 Conforme já abordado as razões elencadas pelo recorrente a respeito da suposta nulidade do lançamento são: (i) ausência de fundamentação legal para revisão de lançamento; (ii) impossibilidade de refiscalização do mesmo período sem a devida motivação prévia e (iii) utilização de fundamento em fato ainda não constituído definitivamente, pendente de decisão definitiva do processo administrativo nº 10935.724787/201334. Conforme muito bem acordado pela decisão recorrida, o fundamento legal para novo lançamento foi o disposto no artigo 41, §1º, inciso I, alínea “b” do Decreto nº 7.574, de 2011, assim vazado: Art. 41. Quando, em exames posteriores, diligências ou perícias realizados no curso do processo, forem verificadas incorreções, omissões ou inexatidões, de que resultem agravamento da exigência inicial, inovação ou alteração da fundamentação legal da exigência, será efetuado lançamento complementar por meio da lavratura de auto de infração complementar ou de emissão de notificação de lançamento complementar, específicos em relação à matéria modificada (Decreto no 70.235, de 1972, art. 18, § 3o, com a redação dada pela Lei no 8.748, de 1993, art. 1º). § 1º O lançamento complementar será formalizado nos casos: I em que seja aferível, a partir da descrição dos fatos e dos demais documentos produzidos na ação fiscal, que o autuante, no momento da formalização da exigência: a) apurou incorretamente a base de cálculo do crédito tributário; ou b) não incluiu na determinação do crédito tributário matéria devidamente identificada; ou [...] Tratase, pois, do chamado lançamento complementar (cuja base legal é o § 3º do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972), hipótese distinta da revisão de lançamento abordada pela recorrente tanto em sua impugnação quanto no recurso voluntário. O que se fez no lançamento ora contestado não foi rever o lançamento anterior, tampouco alterar seus fundamentos jurídicos, não havendo que se falar em afronta ao disposto nos artigos 145, 146 e 149 do CTN no que diz respeito às hipóteses de alteração de lançamento já formalizado. O que ocorreu, a toda evidência, foi exatamente a hipótese prevista no art, 41, §1º, inciso I, alínea “b” do Decreto nº 7.574, de 2011: a não inclusão na determinação do crédito tributário matéria devidamente identificada e descrita na autuação original (processo nº 10935.724787/201334). Além de o procedimento fiscal estar revestido de expressa autorização do Delegado da Receita Federal (Mandado de Procedimento Fiscal nº 0910300.2013.007210), a motivação para o lançamento explicase por seu próprio fundamento: a não inclusão na determinação do crédito tributário matéria devidamente identificada e descrita na autuação original, implicando a necessidade de lançamento complementar. No que diz respeito à suposta utilização de fundamento em fato ainda não constituído definitivamente, pendente de decisão definitiva do processo administrativo nº 10935.724787/201334, mais uma vez não procede a irresignação da recorrente. Em primeiro Fl. 1923DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.924 12 lugar que não há que se falar em “fundamento em fato ainda não constituído definitivamente”, pois o raciocínio levado a efeito pela autoridade fiscal já poderia ensejar o lançamento de imediato, no lançamento original. No máximo, o que se poderia alegar era lançamento baseado em processo antecedente sem constituição definitiva, e ainda assim não haveria qualquer óbice para o lançamento. Isso porque não haveria necessidade de se aguardar decisão definitiva no processo prejudicial para que o lançamento pudesse ser realizado, ou ainda o julgamento da presente lide fosse levada a efeito. O que deve ser respeitado é que o lançamento referente à exigência prejudicial deve ser realizado antes ou até mesmo concomitantemente aos lançamentos decorrentes. O mesmo é válido para o julgamento dos respectivos recursos: o julgamento do processo principal em cada uma das instâncias administrativas tem que ser feito antes do julgamento dos processos decorrentes nessas mesmas instâncias. Assim, se já realizado o lançamento considerado prejudicial, os decorrentes podem ser formalizados de imediato, não necessitando se aguardar o término do processo principal, sob pena, inclusive, da impossibilidade futura de constituição do crédito tributário em razão de decadência. Por consequência, rejeito também as preliminares de nulidade do lançamento. 3 MÉRITO No mérito, o litígio é bastante simples: segundo a autoridade fiscal autuante, a recorrente teria deduzido juros (calculados com base em 120% do CDI, taxa não contestada pelo Fisco) incidentes sobre o JCP creditado em conta de passiva, mas não pago aos sócios da pessoa jurídica. Haveria dois problemas independentes nesse cálculo, a saber: mesmo considerandose que o JCP calculado pela recorrente estivesse correto, os juros sobre o JCP não distribuído teriam sido calculados equivocadamente, quer pela ausência de baixa, na conta do passivo, de valores efetivamente já pagos aos sócios antes do encerramento do ano calendário (mediante controle dos valores pagos em conta do ativo, encerrada em contrapartida à conta de JCP a distribuir somente no encerramento do ano), denominada de “glosa 1” pela autoridade fiscal, quer pelo cálculo dos juros incidindo sobre JCP a distribuir calculado a maior, objeto do lançamento principal e controlado no processo nº 10935.724787/201334 (“glosa 2”). Os fatos são incontroversos, pois, em relação à “glosa 1” a recorrente reconhece que os pagamentos efetuados durante o ano, que reduziriam o saldo do JCP a pagar e, por decorrência, os juros sobre o JCP a pagar, eram lançados a débito em conta de Ativo – Empréstimos para Pessoas Ligadas, sendo que somente no encerramento do exercício os valores eram lançados a débito na conta do Passivo – JCP a pagar, reduzindose somente nesse período o saldo dessa conta, calculandose, assim, o juros incidentes sobre JCP a pagar sobre saldo maior que os valores ainda a distribuir. O argumento específico da recorrente de que a autoridade fiscal autuante teria aplicado o mesmo índice de juros sobre a conta do ativo demonstra que não houve entendimento correto sobre o fato levado a efeito na autuação: a fiscalização tão somente argumentou que se tivessem sido reconhecidas receitas sobre os valores já pagos, e contabilizados no ativo (equivocadamente como “Empréstimos para Pessoas Ligadas”, fato reconhecido pela recorrente), não haveria que se efetuar a glosa em questão, pois os valores de receitas e despesas sobre tais parcelas se anulariam. Não houve, portanto, aplicação de índice algum sobre tais valores, acatandose exatamente os registros efetuados pela recorrente, tomandose como indedutível somente a parcela de juros calculada sobre JCP já distribuído. Fl. 1924DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.925 13 No que diz respeito à “glosa 2”, tratandose de glosa de juros incidente sobre o excesso de JCP objeto de glosa no lançamento principal (10935.724787/201334), há de se ter certeza que a exigência principal tenha sido também mantida. Pois bem, em consulta ao andamento processual constatei que o recurso voluntário referente a tal processo foi julgado, tendose sido negado provimento ao recurso por meio do acórdão 1401001.742 (sessão de 05 de outubro de 2016). A ementa do julgado recebeu a seguinte redação: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008, 2009, 2010, 201 JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. É vedada a dedução de juros sobre o capital próprio de determinado ano calendário em períodos posteriores, estranhos ao da sua competência. REGIME DE COMPETÊNCIA. Ainda que os juros sobre o capital próprio pudessem ser pagos/creditados ao titular, sócios ou acionistas da pessoa jurídica em um determinado período base, relativamente ao patrimônio líquido de períodos base anteriores, a respectiva despesa com esses juros deverá ser atribuída aos períodos anteriores, em observância ao regime de competência. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. LIMITES QUANTITATIVOS. INOBSERVÂNCIA. GLOSA. O pagamento de JCP fica condicionado à existência de lucros, computados antes da redução dos juros, ou de lucros acumulados e reserva de lucros, em montante igual ou superior ao valor de duas vezes o juros a serem pagos ou creditados. Não há previsão legal para que a conta Reserva para Aumento de Capital seja utilizada para verificar se os limites quantitativos foram observados. IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE SOBRE OS JCP PAGOS. COMPENSAÇÃO COM CRÉDITO TRIBUTÁRIO LANÇADO. IMPOSSIBILIDADE. A autuada não tem legitimidade para pedir a compensação dos créditos tributários lançados, em razão do excesso de despesas incorridas com juros sobre o capital próprio, com o imposto de renda retido na fonte incidente sobre estes valores. O sócio/acionista que recebeu o JCP é o sujeito passivo do IRRF, sendo o titular do direito de pedir a repetição no caso de ocorrer indébito. EXCESSO DE COMPENSAÇÃO COM PREJUÍZO ACUMULADO DOS ANOS ANTERIORES. GLOSA. CABIMENTO. É procedente o lançamento quando constatase que houve excesso de compensação com prejuízo fiscal acumulado dos anos anteriores. JUROS DE MORA INCIDENTE SOBRE MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. Fl. 1925DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.926 14 É procedente a cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício quando o crédito tributário apurado não é pago no seu vencimento. LANÇAMENTO DECORRENTE. CSLL. Aplicase ao lançamento reflexo o mesmo tratamento dispensado ao lançamento matriz, em razão da relação de causa e efeito que os vincula. Observase ainda que foi interposto recurso especial pela interessada, não havendo ainda apreciação sobre o seu mérito. É importante salientar que não haveria necessidade de se aguardar decisão definitiva no processo prejudicial para que o lançamento pudesse ser realizado, ou ainda o julgamento da presente lide fosse levada a efeito. O que deve ser respeitado é que o lançamento referente à exigência prejudicial deve ser realizado antes ou até mesmo concomitantemente aos lançamentos decorrentes. O mesmo é válido para o julgamento dos respectivos recursos: o julgamento do processo principal em cada uma das instâncias administrativas tem que ser feito antes do julgamento dos processos decorrentes nessas mesmas instâncias. Assim, conforme já abordado em preliminar, já tendo sido julgado o recurso voluntário do processo prejudicial, não há que se falar em cerceamento do direito de defesa. O mesmo argumento é válido em relação ao lançamento: se já realizado o lançamento considerado prejudicial, os decorrentes podem ser formalizados de imediato, não necessitando se aguardar o término do processo principal, sob pena, inclusive, da impossibilidade futura de constituição do crédito tributário em razão de decadência Vejase que a respeito do julgamento de processos principal e decorrente, o próprio Regimento Interno do CARF condiciona o julgamento do recurso voluntário do processo decorrente ao julgamento do recurso voluntário do processo principal (prejudicial), exigindo que para análise do processo decorrente o processo prejudicial esteja ao menos na mesma fase processual, sob pena de sobrestamento do julgamento do recurso do processo decorrente: Art. 6º Os processos vinculados poderão ser distribuídos e julgados observandose a seguinte disciplina: §1º Os processos podem ser vinculados por: [...] II decorrência, constatada a partir de processos formalizados em razão de procedimento fiscal anterior ou de atos do sujeito passivo acerca de direito creditório ou de benefício fiscal, ainda que veiculem outras matérias autônomas; e [...] § 2º Observada a competência da Seção, os processos poderão ser distribuídos ao conselheiro que primeiro recebeu o processo conexo, ou o principal, salvo se para esses já houver sido prolatada decisão. [...] § 5º Se o processo principal e os decorrentes e os reflexos estiverem localizados em Seções diversas do CARF, o colegiado deverá converter o julgamento em diligência para determinar a vinculação dos autos e o sobrestamento do julgamento do processo na Câmara, de forma a aguardar a decisão de mesma instância relativa ao processo principal. [grifos nossos] Fl. 1926DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.927 15 Frisase ainda que não há que se falar em cerceamento de direito de defesa no presente processo em razão da ausência do exame de argumentos que, em tese, somente poderiam ser acatados no julgamento do processo principal. Por essa razão, não há como adentrarse no mérito daquele lançamento nos presentes autos, como quis fazer crer a recorrente em sua peça recursal. No mais, ausentes argumentos novos em sede de recurso que possam alterar as demais conclusões da decisão recorrida, confirmo a decisão pelos seus próprios termos, a seguir reproduzidos: O presente lançamento tem como base de cálculo duas infrações distintas, a saber: 1) GLOSA 1 ainda que fosse considerado correto o valor do JCP a pagar contabilizado pela autuada, as despesas com pagamento de Juros sobre JCP a pagar estariam incorretos, em função das seguintes constatações: a) Não foram considerados os pagamentos dos JCP efetuados durante o ano, que reduziriam o saldo do JCP a pagar e, por consequência, o Juros sobre o JCP a pagar. Esses pagamentos eram lançados a débito em conta de Ativo – Empréstimos para Pessoas Ligadas, e apenas no encerramento do exercício os valores eram transferidos para conta do Passivo – JCP a pagar, com a redução efetiva do saldo. Conforme afirmou a autuada, sobre a conta do Ativo não foi computada nenhuma receita de juros. b) A autuada ignorou um pagamento de JCP no valor de R$ 3.400.000,00 em 02/01/2010, gerando uma diferença, nos meses de janeiro e fevereiro de 2010, no mesmo valor. A partir de março/2010, a diferença sobe para R$ 3.735.470,20, sem que fosse possível identificar a origem deste acréscimo. Em função dessas irregularidades, a autoridade fiscal recalculou os valores devidos com Juros sobre JCP a pagar, e constatou a necessidade de glosa no valor de R$ 496.646,63. 2) GLOSA 2 houve revisão pela fiscalização do valor dos Juros sobre o Capital Próprio pago ou creditado, dando origem ao lançamento para glosa de despesas a esse título, formalizado no processo administrativo nº 10935.724787/201334. Por consequência, também houve glosa dos Juros sobre JCP a pagar em função desta redução das despesas com JCP, no valor de R$ 3.218.545,48. A autuada inicia sua defesa se reportando aos mesmos argumentos trazidos nos autos do processo administrativo nº 10935.724787/201334, uma vez que afirma ter observado a legislação vigente acerca da determinação do JCP a pagar. Ou seja, a defesa é no sentido de que não houve pagamento de JCP acima do limite permitido em lei, e que todo o valor pago seria despesa operacional. Primeiro, destaco que essas alegações são pertinentes à GLOSA 2, no valor de R$ 3.218.545,48, conforme esclarecido no item 2 deste voto. Segundo, todas essas alegações acerca da dedutibilidade do JCP pago/creditado já foram tratadas naquele processo administrativo nº 10935.724787/201334, por meio do Fl. 1927DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.928 16 Acórdão nº 1264.930 da 5º Turma/DRJ/RJO, da sessão de 17/04/2014, da lavra desta julgadora. Naquele julgamento, os argumentos foram rechaçados, concluindose pela procedência do lançamento, sendo correta a glosa de despesas com Juros sobre Capital Próprio. Portanto, se esta autoridade julgadora concluiu que a autuada pagou/creditou Juros sobre o Capital Próprio acima dos limites permitidos pelo artigo 9º da Lei nº 9.249/95, pelos mesmos motivos não poderá permitir que o lucro real seja reduzido com despesas de Juros incidentes sobre este valor excedente de JCP. Já que o principal não tem natureza de despesa operacional, o mesmo ocorre com os juros incidentes sobre o JCP pago/creditado acima do limite permitido. Neste sentido, e por consequência lógica, forçoso concluir que o crédito tributário lançado em função da glosa de despesas com Juros sobre o JCP pago/creditado no valor de R$ 3.218.545,48 (GLOSA 2), também é procedente. Em seguida, a autuada passa a contestar a suposta irregularidade quanto à baixa do pagamento de JCP no valor de R$ 3.400.000,00, alegando que os efeitos poderiam ser compensados com os eventos desfavoráveis que o próprio auditor fiscal apontou, o que tornaria improcedente a glosa de R$ 496.646,63. Além disso, em procedimento unilateral e sem fundamento legal, o fiscal fez glosa sucessiva no valor de R$ 3.218.545,48, cobrando um crédito que teoricamente a pessoa jurídica teria junto aos sócios, e abatendo este crédito com as despesas com Juros sobre JCP devidos. Afirma, ainda, que a falta de demonstrativos redundou em cerceamento ao direito de defesa. Antes de adentrar nas alegações trazidas, esclareço que não houve glosa sucessiva. Na verdade, são glosas independentes como relatado no início do voto. A GLOSA 1 de R$ 496.646,63 parte do princípio que os valores apurados pela autuada de JCP pagos/creditados estariam corretos, mas demonstrouse que foram calculados com procedimento equivocado. Já a GLOSA 2, de R$ 3.218.545,48, seria consequência da glosa do valor de JCP pago/creditado, acima do limite permitido pela legislação. Ou seja, os valores glosados são independentes, assim como o seu julgamento. Além disso, o lançamento em função da GLOSA 2 de R$ 3.218.545,48 foi considerado procedente, conforme já explanado neste voto. Ou seja, os argumentos a serem analisados são pertinentes à GLOSA 1, e que serão rechaçados conforme voto a seguir. Da análise dos fatos apontados, concordo com procedimento adotado pela fiscalização para determinação dos Juros incidentes sobre o JCP pago/creditado. Isto porque a própria autuada esclareceu que a conta contábil do Ativo “Empréstimo Pessoa Ligada” teria sido utilizada para registrar os valores retirados dos saldos a receber pelos sócios, dos Juros sobre o Capital Próprio. Ou seja, originalmente, esses valores retirados pelos sócios a titulo de JCP deveriam ser lançados a débito na conta de Passivo – JCP a pagar, reduzindo o saldo da conta na data da retirada. No entanto, a autuada registrou essas retiradas com lançamentos a débito em conta de Ativo Empréstimo Pessoa Ligada. Apenas no final do exercício que o saldo desta conta do Ativo era transferido para a conta do Passivo. O procedimento adotado pela autuada fez com que o saldo mensal da conta do Passivo – JCP a pagar, fossem superiores Fl. 1928DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.929 17 aos valores de fato devidos. Como consequência, os Juros incidentes sobre esses saldos também foram majorados. Logo, a correta apuração dos Juros sobre JCP a pagar deve necessariamente ser efetuada considerando as retiradas, como bem fez o auditor fiscal, que assim esclareceu a metodologia aplicada: e) Coluna 08 – juros calculados. No caso de mais de um movimento no mesmo mês como, por exemplo, em novembro/2008, os juros foram calculados inicialmente para 17 dias e depois para 13 dias, uma vez que houve um movimento no dia 17 e outro no dia 30. Nos dois casos foi considerada a aplicação de juros compostos, de modo que a capitalização intermediária, no decorrer do mês, não distorcesse a taxa mensal demonstrada pelo contribuinte; Do exposto, fica claro que não se trata de “cobrar” um crédito que a pessoa jurídica teria teoricamente frente aos sócios, mas sim considerar os valores retirados a título de JCP, e que efetivamente reduzem o saldo da conta do Passivo. Com esta redução, forçosamente os Juros sobre estes saldos mensais são inferiores aqueles apurados pela autuada. Cumpre registrar que, como bem apontado pelo auditor fiscal, os valores lançados na conta do Ativo eram transferidos para a conta do Passivo sem qualquer registro de receita. Na hipótese de que a autuada tivesse adicionado a receita com juros sobre os valores pagos com o mesmo percentual (120% do CDI), o lançamento a débito dos valores retirados pelos sócios na conta do Ativo não afetaria a correta apuração das despesas com Juros sobre o JCP. Quanto ao aproveitamento dos eventos desfavoráveis para compensação da falta do registro do pagamento de R$ 3.400.000,00, verifico que os cálculos para determinação dos Juros sobre o JCP já o fizeram. De acordo com a planilha de fls. 967/969, até o mês de dezembro/2008, todos os valores apurados a título de juros sobre o JCP a pagar pelo auditor fiscal são superiores aqueles informados pela autuada. Por todo acima exposto, concluo que não há reparo a ser feito no lançamento, sendo corretas as glosas das despesas com Juros sobre JCP a pagar, no valor total de R$ 3.715.192,11 (GLOSA 1 + GLOSA 2). A autuada ainda requer que sejam levados em consideração os valores de IRRF recolhidos sobre o total dos Juros sobre JCP, no percentual de 22,5%, para abaterse de eventual saldo devedor. Não é possível acatar este pedido, pois o sujeito passivo do IRRF é o sócio/acionista que auferiu rendimentos decorrentes dos Juros sobre JCP a pagar, ainda que os tenha recebido em valor superior ao que seria permitido caso a autuada tivesse observado a lei. E, a teor do artigo 165 do CTN, somente o sujeito passivo tem legitimidade de pleitear a restituição do imposto de renda retido na fonte. No caso, a autuada recolheu o IRRF como responsável, e não como sujeito passivo deste tributo, motivo pelo qual não tem cabimento compensar estes valores com os créditos tributários apurados neste auto de infração. Fl. 1929DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.930 18 4. DA INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO Por fim, alegou a recorrente que a cobrança de juros sobre a multa de ofício seria ilegal. Observase, inicialmente, que a questão tem sido objeto intenso debate pela Câmara Superior, haja vista que, num lapso de poucos meses, ocorreram votações em sentidos opostos, ambos decididos por maioria apertada de votos, como se verifica dos acórdãos n° 910100539, de 11/03/2010, e n° 910100.722, de 08/11/2010. Abstraindose de argumentos finalísticos, como o enriquecimento ilícito do Estado, os quais fogem à alçada deste tribunal administrativo, conforme determina a Súmula CARF n° 2, expõese os fundamentos considerados suficientes para justificar a cobrança nos presentes autos, com espelho no acórdão n° 910100539, de 11/03/2010, de lavra da Conselheira Viviane Vidal Wagner: O conceito de crédito tributário, nos termos do art. 139 do CTN, comporta tanto tributo quanto penalidade pecuniária. Uma interpretação literal e restritiva do caput do art. 61 da Lei n° 9.430/96, que regula os acréscimos moratórios sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, pode levar à equivocada conclusão de que estaria excluída desses débitos a multa de ofício. Contudo, uma norma não deve ser interpretada isoladamente, especialmente dentro do sistema tributário nacional. No dizer do jurista Juarez Freitas (2002, p.70), "interpretar uma norma é interpretar o sistema inteiro: qualquer exegese comete, direta ou obliquamente, uma aplicação da totalidade do direito". Merece transcrição a continuidade do seu raciocínio: "Não se deve considerar a interpretação sistemática como simples instrumento de interpretação jurídica. É a interpretação sistemática, quando entendida em profundidade, o processo hermenêutico por excelência, de tal maneira que ou se compreendem os enunciados prescritivos nos plexos dos demais enunciados ou não se alcançará compreendêlos sem perdas substanciais. Nesta medida, mister afirmar, com os devidos temperamentos, que a interpretação jurídica é sistemática ou não é interpretação." (A interpretação sistemática do direito, 3.ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 74). Daí, por certo, decorrerá uma conclusão lógica, já que interpretar sistematicamente implica excluir qualquer solução interpretativa que resulte logicamente contraditória com alguma norma do sistema. Fl. 1930DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.931 19 O art. 161 do CTN não distingue a natureza do crédito tributário sobre o qual deve incidir os juros de mora, ao dispor que o crédito tributário não pago integralmente no seu vencimento é acrescido de juros de mora, independentemente dos motivos do inadimplemento. Nesse sentido, no sistema tributário nacional, a definição de crédito tributário há de ser uniforme. De acordo com a definição de Hugo de Brito Machado (2009, p.172), o crédito tributário "é o vínculo jurídico, de natureza obrigacional, por força do qual o Estado (sujeito ativo) pode exigir do particular, o contribuinte ou responsável (sujeito passivo), o pagamento do tributo ou da penalidade pecuniária (objeto da relação obrigacional)." A obrigação tributária principal referente à multa de ofício, a partir do lançamento, convertese em crédito tributário, consoante previsão do art. 113, §1°, do CTN: Art. 113 A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1° A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito tributário dela decorrente. (destacouse) A obrigação principal surge, assim, com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, o que inclui a multa de ofício proporcional. A multa de ofício é prevista no art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996, e é exigida "juntamente com o imposto, quando não houver sido anteriormente pago''" (§1°). Assim, no momento do lançamento, ao tributo agregase a multa de ofício, tornandose ambos obrigação de natureza pecuniária, ou seja, principal. A penalidade pecuniária, representada no presente caso pela multa de ofício, tem natureza punitiva, incidindo sobre o montante não pago do tributo devido, constatado após ação fiscalizatória do Estado. Os juros moratórios, por sua vez, não se tratam de penalidade e têm natureza indenizatória, , compensarem o atraso na entrada dos recursos que seriam de direito da União. A própria lei em comento traz expressa regra sobre a incidência de juros sobre a multa isolada. Eventual alegação de incompatibilidade entre os institutos é de ser afastada pela previsão contida na própria Lei n° 9.430/96 quanto à incidência de juros de mora sobre a multa exigida isoladamente. O parágrafo único do art. 43 da Lei n° 9.430/96 estabeleceu expressamente que sobre o crédito tributário constituído na forma do caput incidem juros de mora a partir do primeiro dia Fl. 1931DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.932 20 do mês subsequente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. O art. 61 da Lei n° 9.430, de 1996, ao se referir a débitos decorrentes de tributos e contribuições, alcança os débitos em geral relacionados com esses tributos e contribuições e não apenas os relativos ao principal, entendimento, dizia então, reforçado pelo fato de o art. 43 da mesma lei prescrever expressamente a incidência de juros sobre a multa exigida isoladamente. Nesse sentido, o disposto no §3° do art. 950 do Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto n° 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR/99) exclui a equivocada interpretação de que a multa de mora prevista no caput do art. 61 da Lei n° 9.430/96 poderia ser aplicada concomitantemente com a multa de ofício. Art.950. Os débitos não pagos nos prazos previstos na legislação específica serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento por dia de atraso (Lei n° 9.430, de 1996, art. 61). §1°A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do imposto até o dia em que ocorrer o seu pagamento (Lei n° 9.430, de 1996, art. 61, §1°). §2°O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento (Lei n°9.430, de 1996, art. 61, §2°). §3°A multa de mora prevista neste artigo não será aplicada quando o valor do imposto já tenha servido de base para a aplicação da multa decorrente de lançamento de ofício. A partir do trigésimo primeiro dia do lançamento, caso não pago, o montante do crédito tributário constituído pelo tributo mais a multa de ofício passa a ser acrescido dos juros de mora devidos em razão do atraso da entrada dos recursos nos cofres da União. No mesmo sentido já se manifestou a Câmara Superior de Recursos Fiscais quando do julgamento do Acórdão n° CSRF/0400.651, julgado em 18/09/2007, com a seguinte ementa: JUROS DE MORA MULTA DE OFÍCIO OBRIGAÇÃO PRINICIPAL A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de ofício proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a Fl. 1932DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.933 21 multa de oficio proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. Cabe referir, ainda, a Súmula Carf n° 5: "São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral." Diante da previsão contida no parágrafo único do art. 161 do CTN, buscase na legislação ordinária a norma complementar que preveja a correção dos débitos para com a União. Para esse fim, a partir de abril de 1995, temse a taxa Selic, instituída pela Lei n° 9.065, de 1995. No âmbito do Poder Judiciário, a jurisprudência é forte no sentido da aplicação da taxa de juros Selic na cobrança do crédito tributário, como se vê no exemplo abaixo: REsp 1098052 / SP RECURSO ESPECIAL2008/02395728 Relator(a) Ministro CASTRO MEIRA (1125) Órgão Julgador T2 SEGUNDA TURMA Data do Julgamento 04/12/2008 Data da Publicação/Fonte DJe 19/12/2008 Ementa PROCESSUAL CIVIL. OMISSÃO. NÃOOCORRÊNCIA. LANÇAMENTO. DÉBITO DECLARADO E NÃO PAGO. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. DESNECESSIDADE. TAXA SELIC. LEGALIDADE. 1. É infundada a alegação de nulidade por maltrato ao art. 535 do Código de Processo Civil, quanto o recorrente busca tãosomente rediscutir as razões do julgado. 2. Em se tratando de tributos lançados por homologação, ocorrendo a declaração do contribuinte e na falta de pagamento da exação no vencimento, a inscrição em dívida ativa independe de procedimento administrativo. 3. É legítima a utilização da taxa SELIC como índice de correção monetária e de juros de mora, na atualização dos créditos tributários (Precedentes: AgRg nos EREsp 579.565/SC, Primeira Seção, Rel. Min. Humberto Martins, DJU de 11.09.06 e AgRg nos EREsp 831.564/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Eliana Calmon, DJU de 12.02.07). No âmbito administrativo, a incidência da taxa de juros Selic sobre os débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal foi pacificada com a edição da Súmula CARF n° 4, de observância obrigatória pelo colegiado, por força de norma regimental (art. 72 do RICARF), nos seguintes termos: Fl. 1933DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.934 22 Súmula CARF n° 4: A partir de 1° de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. No que se refere ao período de 01/01/1995 a 31/12/1996, sustentam alguns que o Parecer MF/SRF/Cosit nº 28/98 teria deixado claro não ser exigível a incidência de juros sobre a multa de ofício tendo em vista as disposições do inciso I, do art. 84, da Lei nº 8.981/95. O mencionado Parecer, ainda que conclua pela incidência dos juros sobre a multa de ofício para fatos geradores ocorridos a partir de 01/01/1997, de fato manifestase nos termos dessa tese. Entretanto, constatase que o referido Ato Administrativo não levou em consideração a alteração legislativa trazida pela MP nº 1.110, de 30/08/95, que acrescentou o § 8º ao art. 84, da Lei 8.981/95, e que estendeu os efeitos do disposto no caput aos demais créditos da Fazenda Nacional cuja inscrição e cobrança como Dívida Ativa da União seja de competência da Procuradoria da Fazenda Nacional. Cumpre esclarecer ainda que as três turmas da Câmara Superior, em decisões recentes, vêm confirmando a incidência de juros moratórios sobre a multa de ofício (Acórdãos 9101001.863, 9202003.150 e 9303002.400). Por fim, corroborando o aqui exposto, o STJ vem firmando entendimento no mesmo sentido, entendendo que os juros moratórios incidem sobre a multa de ofício, conforme se observa na ementa a seguir reproduzida: DIREITO TRIBUTÁRIO. INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE MULTA FISCAL PUNITIVA. É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário. Precedentes citados: REsp 1.129.990 PR, DJe 14/9/2009, e REsp 834.681MG, DJe 2/6/2010. AgRg no REsp 1.335.688PR, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 4/12/2012. Ressaltase ainda que, em recentes julgados o STJ decidiu que, no âmbito do parcelamento especial previsto na Lei nº 11.941/2009, as remissões previstas em tal dispositivo legal para as multas de mora e de ofício não autorizam aplicações de reduções superiores às fixadas na mesma lei (45%) para os juros de mora incidentes sobre tais penalidades, ou seja, visto sob outro enfoque, reafirmouse o entendimento de que incidem juros moratórios sobre as multas de mora e de ofício. Tal exegese pode ser observada no REsp 1.492.246/RS (Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, segunda turma, julgado em 02/06/2015, DJe 10/06/2015) e no REsp 1.510.603–CE (Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 20/08/2015), em relação ao qual transcrevese a seguir sua ementa: TRIBUTÁRIO. PARCELAMENTO. 11.941/2009. REMISSÃO DE MULTA EM 100%. DESINFLUÊNCIA NA APURAÇÃO DOS JUROS DE MORA. PARCELAS DISTINTAS. PRECEDENTE. 1. "Em se tratando de remissão, não há qualquer indicativo na Lei n. 11.941/2009 que permita concluir que a redução de 100% (cem por cento) das multas Fl. 1934DF CARF MF Processo nº 10935.723535/201479 Acórdão n.º 1301002.531 S1C3T1 Fl. 1.935 23 de mora e de ofício estabelecida no art. 1º, §3º, I, da referida lei implique uma redução superior à de 45% (quarenta e cinco por cento) dos juros de mora estabelecida nos mesmo inciso, para atingir uma remissão completa da rubrica de juros (remissão de 100% de juros de mora), como quer o contribuinte " (REsp 1.492.246/RS, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 02/06/2015, DJe 10/06/2015.). 2. Consequentemente, a Lei n. 11.941/2009 tratou cada parcela componente do crédito tributário (principal, multas, juros de mora e encargos) de forma distinta, de modo que a redução percentual dos juros moratórios incide sobre as multas tão somente após a apuração atualizada desta rubrica (multa). Recurso especial provido. REsp 1.510.603–CE, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 20/08/2015. Assim sendo, voto por manter tal exigência. 5 CONCLUSÃO Isso posto, voto por rejeitar as preliminares de nulidade do lançamento e da decisão de primeira instância, e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Fl. 1935DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12448.726295/2014-81
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 09 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Sep 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2010, 2011
IRPF. GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE DIREITOS. TERMO INICIAL DO PRAZO DECADENCIAL.
Em se tratando de pessoas físicas, caso em que se aplica o regime de caixa, antes do efetivo recebimento dos valores decorrentes de alienação com pagamento diferido (a prazo), não há falar em acréscimo patrimonial a justificar a apuração do ganho de capital. O imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos, sendo esse recebimento o marco para a contagem do prazo decadencial.
OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. LUCROS SOCIETÁRIOS ORIGINÁRIOS DA APLICAÇÃO DO MÉTODO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL EM HOLDINGS. INCORPORAÇÃO REVERSA. AUMENTO DO CUSTO DE AQUISIÇÃO EM DESCOMPASSO COM O PARÁGRAFO ÚNICO DO ART. 10 DA LEI 9.249, de 1995 (ART. 135 DO RIR 99).
A capitalização de lucros societários, não tributados, sem substrato econômico e meros reflexos da aplicação do método de equivalência patrimonial em holdings puras, seguidas de correspondentes incorporações reversas, não se subsume ao parágrafo único do art. 10 da Lei 9.249, de 1995 (art. 135 do RIR 99), para fins de majoração do custo da aquisição de ações a serem alienadas e consequente apuração de ganho de capital.
BENEFÍCIOS FISCAIS INSTITUÍDOS PELO ART. 10 DA LEI 9.249, de 1995. DISTRIBUIÇÃO OU CAPITALIZAÇÃO DOS LUCROS.
O lucro que foi distribuído ao sócio/acionista, passando a integrar o patrimônio econômico deste como rendimento isento não pode ser utilizado, concomitantemente, para a capitalização de lucros na sociedade que o distribuiu.
DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS EM SOCIEDADES QUE APURAM O LUCRO REAL. LIMITES AOS BENEFÍCIOS FISCAIS QUE VERSAM SOBRE O LUCRO.
No caso de sociedades que apurem o lucro real, o montante do lucro que pode ser distribuído encontra limite no lucro real, somente o qual, por ser elemento da hipótese de incidência do imposto sobre a renda, pode ser objeto de benefícios fiscais, como isenção do imposto em caso de sua distribuição aos sócios/acionistas ou majoração do custo de aquisição de ações.
MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. SUJEITO PASSIVO SEM CONTROLE DOS ATOS QUE DERAM ORIGEM À ATUAÇÃO.
Não tendo o sujeito passivo poder para determinar ou impedir os atos que deram origem ao auto de infração, descabe a aplicação da multa qualificada.
JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC.
A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre a qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic.
PERDA DE ESPONTANEIDADE. EFEITOS. PAGAMENTOS.
1. O procedimento fiscal tem início com o primeiro ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, cientificado o sujeito passivo da obrigação tributária ou seu preposto.
2. O início do procedimento exclui a espontaneidade do sujeito passivo em relação aos atos anteriores e, independentemente de intimação, a dos demais envolvidos nas infrações verificadas.
3. Os pagamentos efetuados fora do regime jurídico da espontaneidade não possuem o condão de elidir a incidência da multa de ofício; no entanto, podem ser aproveitados no procedimento de cobrança, sendo imputados ao crédito tributário constituído pelo lançamento.
Numero da decisão: 2301-005.106
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado: (a) por unanimidade de votos reduzir a multa qualificada ao percentual de 75%; (b) por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário em relação à matéria juros sobre a multa; vencidos os conselheiros Fábio Piovesan Bozza, Alexandre Evaristo Pinto e Wesley Rocha; (c) por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário nas demais questões; vencido o conselheiro Alexandre Evaristo Pinto, que votou por cancelar integralmente o lançamento; acompanhou pelas conclusões o conselheiro Fábio Piovesan Bozza.
Solicitaram apresentar declaração de votos os conselheiros Fábio Piovesan Bozza e Alexandre Evaristo Pinto.
Fez sustentação o Dr. Luis Claudio Pinto, OAB/RJ 88.704.
JOÃO BELLINI JÚNIOR Presidente e Relator.
EDITADO EM: 25/08/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrea Brose Adolfo, Fabio Piovesan Bozza, João Maurício Vital, Alexandre Evaristo Pinto, Denny Medeiros Silveira, Wesley Rocha, Thiago Duca Amoni e João Bellini Júnior (Presidente).
Nome do relator: JOAO BELLINI JUNIOR
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 79; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2134; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2C3T1 Fl. 2 1 1 S2C3T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 12448.726295/201481 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2301005.106 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 5 de julho de 2017 Matéria IMPOSTO SOBRE A RENDA DA PESSOA FÍSICA Recorrente ANDRE SCHWARTZ Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2010, 2011 IRPF. GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE DIREITOS. TERMO INICIAL DO PRAZO DECADENCIAL. Em se tratando de pessoas físicas, caso em que se aplica o regime de caixa, antes do efetivo recebimento dos valores decorrentes de alienação com pagamento diferido (a prazo), não há falar em acréscimo patrimonial a justificar a apuração do ganho de capital. O imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos, sendo esse recebimento o marco para a contagem do prazo decadencial. OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. LUCROS SOCIETÁRIOS ORIGINÁRIOS DA APLICAÇÃO DO MÉTODO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL EM HOLDINGS. INCORPORAÇÃO REVERSA. AUMENTO DO CUSTO DE AQUISIÇÃO EM DESCOMPASSO COM O PARÁGRAFO ÚNICO DO ART. 10 DA LEI 9.249, de 1995 (ART. 135 DO RIR 99). A capitalização de lucros societários, não tributados, sem substrato econômico e meros reflexos da aplicação do método de equivalência patrimonial em holdings puras, seguidas de correspondentes incorporações reversas, não se subsume ao parágrafo único do art. 10 da Lei 9.249, de 1995 (art. 135 do RIR 99), para fins de majoração do custo da aquisição de ações a serem alienadas e consequente apuração de ganho de capital. BENEFÍCIOS FISCAIS INSTITUÍDOS PELO ART. 10 DA LEI 9.249, de 1995. DISTRIBUIÇÃO OU CAPITALIZAÇÃO DOS LUCROS. O lucro que foi distribuído ao sócio/acionista, passando a integrar o patrimônio econômico deste como rendimento isento não pode ser utilizado, concomitantemente, para a capitalização de lucros na sociedade que o distribuiu. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 44 8. 72 62 95 /2 01 4- 81 Fl. 1467DF CARF MF 2 DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS EM SOCIEDADES QUE APURAM O LUCRO REAL. LIMITES AOS BENEFÍCIOS FISCAIS QUE VERSAM SOBRE O LUCRO. No caso de sociedades que apurem o lucro real, o montante do lucro que pode ser distribuído encontra limite no lucro real, somente o qual, por ser elemento da hipótese de incidência do imposto sobre a renda, pode ser objeto de benefícios fiscais, como isenção do imposto em caso de sua distribuição aos sócios/acionistas ou majoração do custo de aquisição de ações. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. SUJEITO PASSIVO SEM CONTROLE DOS ATOS QUE DERAM ORIGEM À ATUAÇÃO. Não tendo o sujeito passivo poder para determinar ou impedir os atos que deram origem ao auto de infração, descabe a aplicação da multa qualificada. JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC. A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre a qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. PERDA DE ESPONTANEIDADE. EFEITOS. PAGAMENTOS. 1. O procedimento fiscal tem início com o primeiro ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, cientificado o sujeito passivo da obrigação tributária ou seu preposto. 2. O início do procedimento exclui a espontaneidade do sujeito passivo em relação aos atos anteriores e, independentemente de intimação, a dos demais envolvidos nas infrações verificadas. 3. Os pagamentos efetuados fora do regime jurídico da espontaneidade não possuem o condão de elidir a incidência da multa de ofício; no entanto, podem ser aproveitados no procedimento de cobrança, sendo imputados ao crédito tributário constituído pelo lançamento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado: (a) por unanimidade de votos reduzir a multa qualificada ao percentual de 75%; (b) por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário em relação à matéria juros sobre a multa; vencidos os conselheiros Fábio Piovesan Bozza, Alexandre Evaristo Pinto e Wesley Rocha; (c) por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário nas demais questões; vencido o conselheiro Alexandre Evaristo Pinto, que votou por cancelar integralmente o lançamento; acompanhou pelas conclusões o conselheiro Fábio Piovesan Bozza. Solicitaram apresentar declaração de votos os conselheiros Fábio Piovesan Bozza e Alexandre Evaristo Pinto. Fez sustentação o Dr. Luis Claudio Pinto, OAB/RJ 88.704. JOÃO BELLINI JÚNIOR – Presidente e Relator. EDITADO EM: 25/08/2017 Fl. 1468DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 3 3 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrea Brose Adolfo, Fabio Piovesan Bozza, João Maurício Vital, Alexandre Evaristo Pinto, Denny Medeiros Silveira, Wesley Rocha, Thiago Duca Amoni e João Bellini Júnior (Presidente). Relatório Tratase de recurso voluntário em face do Acórdão 0439.0888, exarado pela 3ª Turma da DRJ em Campo Grande (efls. 1357 a 1381 – numeração dos autos eletrônicos). DO LANÇAMENTO O auto de infração (efls. 362 a 367) é referente ao imposto sobre a renda da pessoa física (IRPF), e diz respeito à omissão de ganho de capital na alienação de ações/quotas não negociadas em Bolsa, atinente aos anos de 2010 e 2011, pelo qual é exigido crédito tributário de R$4.404.229,46, sendo R$1.559.405,68, de imposto, R$505.715,26 de juros de mora e R$2.339.108,52 de multa proporcional. As operações que deram azo ao presente lançamento originaramse da alienação das ações do Banco Pactual S/A (doravante, Banco Pactual), CNPJ 30.306.294/000145, ao grupo UBS Brasil (doravante, UBS) em 2006 pelo preço total de RS91.763.361,16, do qual R$35.663.954,40 foram recebidos em 2006, R$39.334.605,14 em 2009 e o saldo restante foi pago em quatro parcelas, recebidas nos anoscalendário de 2010 e 2011, nas seguintes datas e valores: Período de apuração Valor do imposto (R$) Total do crédito tributário (R$) 18/03/2010 2.599.009,45 3.207.666,63; 20/09/2010 2.599.009,45 3.390.285,90; 18/03/2011 2.599.009,45 3.566.294,33 01/07/2011 2.599.009,45 3.682.308,13 O contribuinte informou que recolheu o imposto de renda sobre o ganho de capital no valor de R$239.098,61 mais acréscimos legais, para cada parcela recebida. O auto de infração referese à apuração do ganho de capital (e lançamento das diferenças apuradas) decorrente do recebimento em março/2010, setembro/2010, março/2011 e julho/2011 das parcelas remanescentes da alienação de ações de sua propriedade do Banco Pactual S/A, ocorrida no ano de 2006. O custo de aquisição das ações alienadas pelo contribuinte, bem como o ganho de capital, já foram apurados no processo 12448.736590/201101, no qual houve o lançamento referente às parcelas recebidas em 2006 e 2009, cujo lançamento, fundamentado na mesma situação fática, teve como objeto a glosa do custo de aquisição das ações do Banco Pactual, de propriedade do contribuinte, precedida por reorganização societária ocorrida entre sociedades holdings, as quais detinham todas as ações do Banco Pactual. Nesse processo, o recurso voluntário foi julgado em 02/07/2013 pela 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara (Acórdão Fl. 1469DF CARF MF 4 2202002.260) e em 12/02/2016 a CSRF julgou recursos especiais do contribuinte e da PGFN, prolatando o Acórdão 9202003.701, que recebeu as seguintes ementas: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2006, 2009 OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. DUPLICIDADE DE CAPITALIZAÇÃO DE LUCROS E RESERVAS. Constatada a majoração artificial do custo de aquisição da participação societária alienada, mediante a capitalização de lucros e reservas oriundos de ganhos avaliados por equivalência patrimonial nas sociedades investidoras, seguida de incorporação reversa e nova capitalização, em inobservância à correta interpretação a ser dada ao art. 135 do Decreto no 3.000, de 1999, devem ser expurgados os acréscimos indevidos, com a conseqüente tributação do novo ganho de capital apurado. JUROS DE MORA INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC. É cabível a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, com base na Taxa Selic, tendo em vista que o crédito tributário compreende o tributo e a multa de oficio proporcional. Recurso Especial do Contribuinte negado Recurso Especial do Procurador provido Passo a descrever a ação fiscal empreendida no citado processo 12448.736590/201101, conforme relatada às efls. 311 a 335. A ação fiscal teve como escopo a análise da operação de alienação das AÇÕES DO BANCO PACTUAL S/A (Banco Pactual), CNPJ n° 30.306.294/000145, ocorrida no anocalendário de 2006, das quais o sujeito passivo detinha parte minoritária. A operação de alienação das ações do Banco Pactual pelos acionistas pessoas físicas, ocorrida em dezembro de 2006, foi precedida por reorganização societária de sociedades holdings, as quais detinham todas as ações do Banco Pactual. Essa reorganização societária teve como finalidade transferir a propriedade das mencionadas ações diretamente às pessoas físicas alienantes (que antes da reorganização detinham a propriedade indireta sobre as ações do Banco Pactual, em atendimento ao Contrato de Compra e Venda das Ações do Banco Pactual S/A, firmado em 09/05/2006 com a adquirente UBS AG. As informações a seguir evidenciadas foram extraídas das DIPJs das referidas empresas referentes ao período mencionado, bem como das atas registradas na Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro. GRUPO PACTUAL O Grupo Pactual, antes da reorganização societária, era formado pelas seguintes pessoas jurídicas: NOME EMPRESARIAL CNPJ BANCO PACTUAL S/A 30.306.294/000145 Fl. 1470DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 4 5 PACTUAL S/A 02.220.758/000160 PACTUAL HOLDINGS S/A 02,220.757/000116 NOVA PACTUAL PARTICIPAÇÕES LTDA (PACTUAL PARTICIPAÇÕES S/A) 02.220.756/000171 PACTUAL PARTICIPAÇÕES LTDA 02.244.808/000140 As pessoas jurídicas integrantes do Grupo Pactual apresentaram a seguinte evolução patrimonial, no período de 2005/2006: NOME EMPRESARIAL Patrimônio Líquido 31/12/2005 Patrimônio Líquido 2006 BANCO PACTUAL S/A 625.223.115,04 1.200.480.531,05 PACTUAL S/A 535.103.542,23 1.149.597.660,18 PACTUAL HOLDING S/A 147.009.935,61 248.464.012,98 PACTUAL PARTICIPAÇÃO S/A / NOVA PACTUAL PART. LTDA. 471.521.906,90 817.026.864,44 A REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA A estrutura societária antes da reorganização societária era a seguinte: De acordo com a fiscalização, a referida reorganização consistiu na extinção das holdings que detinham participação societária no Banco Pactual, por meio de sucessivas incorporações às avessas, culminando com a alienação das ações do Banco Pactual diretamente pelos acionistas pessoas físicas da instituição; nessa reorganização societária se verificou a majoração ilícita do custo das ações alienadas, gerando, como consequência, a redução indevida do ganho de capital tributável obtido pelo acionista pessoa física. Ao final da reorganização, a estrutura societária pode ser assim representada: Mediante contrato celebrado em 09/05/2006 entre a pessoa jurídica UBS AG, a pessoa jurídica Pactual S.A. (controladora direta do Banco Pactual, doravante nominada de Fl. 1471DF CARF MF 6 PSA) e as pessoas físicas que possuíam participação indireta sobre o patrimônio do Banco Pactual, ficou definido, entre outras cláusulas, que as holdings detentoras de todas as ações do Banco Pactual seriam extintas por meio de reorganização societária, para que os sócios pessoas físicas assumissem a condição de proprietários diretos das ações negociadas. O pagamento pela compra das ações do Banco Pactual foi dividido em parcelas, sendo a primeira paga na data de “Fechamento” da compra e venda das ações, ocorrido em dezembro de 2006 e a segunda em data posterior denominada de “Pagamento Diferido”. Além desses pagamentos, os alienantes das ações receberiam ainda outros valores denominados “Pagamentos Especiais; Usufruto”. DO PROCESSO DE INCORPORAÇÃO DAS HOLDINGS Os atos de reorganização societária compreenderam: (a) Na Pactual Participações Ltda. • em 28/12/2004 – aumento do capital social da Pactual Participações Ltda. (de agora em diante denominada Pactual Participações) de R$210.000.000,66 (de R$125.000.321,05 para R$335.000.321,71), mediante capitalização de parte dos lucros retidos na conta lucros acumulados da sociedade; • em 31/12/2005 – aumento do capital social da Pactual Participações de R$130.000.000,00 (de R$335.000.321,71 para RS465.000.320,61), mediante capitalização dos lucros detidos na reserva de lucros da sociedade; • na mesma data houve a incorporação da Pactual Participações pela investida Pactual Participações S.A. (que em 13/01/2006 passou a denominarse Nova Pactual Participações Ltda., doravante nominada de Nova Pactual); de acordo com o laudo de avaliação, o valor contábil do patrimônio líquido da incorporada (Pactual Participações) em 31/12/2005 era R$471.518.034,89 e a parcela incorporada estava avaliada em R$53.828.392,27; • em 10/02/2006, o capital social da incorporadora, já denominada Nova Pactual, foi aumentado em R$43.149.272,40 (de R$26.969.514,00 para R$70.118.786,40) mediante a emissão de 431.500.224 ações, sem valor nominal; R$10.679.119,87 foram alocados à reserva de capital; seu capital social (R$ 70.118.786,40) foi dividido em 539.375.280 ações, sendo 179.795.097 quotas com direito a voto (quotas A) e 359.580.183 quotas sem direito a voto (quotas B), no valor de R$ 0,13 cada uma. (b) Na Pactual Participações S.A.: • em 31/12/2005, como visto, a Pactual Participações S.A. incorporou a Pactual Participações Ltda; • em 13/01/2006, a Pactual Participações S.A. transformouse na Nova Pactual Participações; • em 10/02/2006, o capital social da Nova Pactual foi aumentado em R$43.149.272,40 (de R$26.969.514,00 para R$70.118.786,40); Fl. 1472DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 5 7 • em 13/10/2006, a Nova Pactual aumentou seu capital social (4ª Alteração do Contrato Social) em R$686.000.000,00 (de R$70.118.786,40 para R$756.118.786,40), mediante capitalização dos créditos detidos pelos sócios quotistas contra a sociedade; • na mesma data, a Nova Pactual foi incorporada por Pactual S.A.; o valor contábil do patrimônio líquido da incorporada (Nova Pactual) a ser vertido para a incorporadora (PSA), já deduzido do investimento da incorporada (Nova Pactual) na incorporadora (PSA), foi de R$33.593.148,46; o capital social da PSA foi aumentado em R$33.593.148,46, com a emissão de 15.881.552 novas ações ordinárias e 91.992.505 novas ações preferenciais, todas nominativas e sem valor nominal, com preço de emissão de aproximadamente R$0,31 por ação, a serem atribuídas aos quotistas da incorporada, em substituição das quotas por eles detidas de emissão da incorporada, que foram extintas (com base no art. 226, § 1º, da Lei n° 6.404, de 1976); o capital social da incorporadora PSA passou de R$64.248.147,47 para R$97.841.295,93, o qual ficou dividido em 137.989.757 ações, sendo 45.997.252 ações ordinárias e 91.992.505 ações preferenciais, todas nominativas e sem valor nominal. 3 na Pactual Holdings S.A.: • em 13/10/2006, a Pactual Holdings S.A. (Pactual Holdings) aumentou seu capital social em R$202.500.000,00 (R$ 31.299.033,50 para R$ 233.799.033,50), sendo R$200.000.000,00, mediante a capitalização de créditos detidos contra a sociedade, e R$ 2.000.000,00 mediante a capitalização da reserva legal; foram emitidas 202.500.000 ações ordinárias, todas nominativas e sem valor nominal, pelo preço de emissão de R$1,00 por ação, todas subscritas pelos acionistas da companhia, na proporção de 50% para cada um; • na mesma data, a Pactual Holdings foi incorporada por PSA; o montante global do acervo líquido da sociedade, já deduzido de seu investimento na PSA a valor contábil, em 31/08/2006 foi de R$29.749.957,22; seus acionistas receberam novas ações de emissão da PSA em substituição às ações que detinham na Pactual Holdings, observada a mesma proporção de suas respectivas participações no capital social desta última; • o capital social da incorporadora PSA passou de R$34.498.190,25 para R$64.248.147,47, o qual ficou dividido em 137.989.757 ações, sendo 45.997.252 ações ordinárias e 91.992.505 ações preferenciais, todas nominativas e sem valor nominal. 4 na PSA: • em 13/10/2006, como já visto, a PSA incorporou a Pactual Holdings; o capital social da PSA, aumentou R$29.749.957,22, (de R$34.498.190,25 para R$64.248.147,47), o qual ficou dividido em 137.989.757 ações, sendo 45.997.252 ações ordinárias e 91.992.505 ações preferenciais, todas nominativas e sem valor nominal. • em 13/10/2006, a PSA incorporou a Nova Pactual, com aumento do capital social em R$33.593.148,46 (de R$64.248.147,47 para R$97.841.295,93), o qual ficou dividido em 137.989.757 ações, sendo 45.997.252 ações ordinárias e 91.992.505 ações preferenciais, todas nominativas e sem valor nominal. • em 1º/11/2006, a PSA aumentou seu capital social em R$3.862.542,92 (de R$97.841.295,93 para R$101.703.838,85), com a emissão de duas ações preferenciais, ambas nominativas e sem valor nominal, pelo preço de emissão de R$1.931.271,46 por ação, Fl. 1473DF CARF MF 8 subscritas pelos acionistas André Santos Esteves e Gilberto Sayão da Silva, na proporção de uma ação para cada um, e integralizadas mediante a capitalização de créditos por eles detidos contra a sociedade. Com o aumento, o capital ficou dividido em 137.989.759 ações, sendo 45.997.252 ações ordinárias e 91.992.507 ações preferenciais; • em 03/11/2006, a PSA aumentou seu capital social em R$996.087.876,00, passando este de (R$101.698.838,85 para R$ 1.097.786.714,85), com a emissão de 996.087.876 ações, das quais 332.034,116 ordinárias e 664.053.760 preferenciais, todas nominativas sem valor nominal, pelo preço de emissão de R$1,00 por ação, totalmente subscritas pelos acionistas da companhia e integralizadas, no mesmo ato, mediante a capitalização de créditos detidos pelos acionistas contra esta, no mesmo valor do aumento de capital ora deliberado; • em 1º/12/2006, a PSA foi incorporada pelo Banco Pactual; o montante global do patrimônio líquido da PSA, a valor contábil, em 10/11/2006, foi de R$1.149.597.660,18, não havendo modificação do capital social do Banco Pactual; restou consignado em ata o cancelamento das ações de emissão do Banco Pactual de titularidade de PSA, sendo atribuídas novas ações ordinárias do Banco Pactual aos acionistas da companhia, pessoas físicas descritas na ata, nas exatas proporções de suas respectivas participações no capital social de PSA, dentre as quais o acionista fiscalizado. A partir do último evento societário, os acionistas pessoas físicas passaram a ter participação direta no Banco Pactual, detendo as ações que, posteriormente, foram alienadas. Observase um padrão nos eventos societários descritos: após o incremento dos respectivos patrimônios líquidos das companhias em decorrência dos ajustes de equivalência patrimonial originados pelo lucro do Banco Pactual (que em 2006 praticamente dobrou seu patrimônio líquido), todas as companhias investidoras (Pactual Participações Ltda, Nova Pactual e PSA) tiveram seus lucros e reservas capitalizados e posteriormente foram incorporadas pelas suas investidas. Esse fato acarretou um incremento indevido no custo das ações do sócio em questão no montante de R$ 29.698.260,24. A análise, partindo do início das operações, com foco nas empresas que foram incorporadas, chega a mesma conclusão: a) a Pactual Participações Ltda., com capital social, em 31/12/2003, de R$125.000.321,05, aumentou seu capital social em R$210.000.000,00 e R$130.000.000,00, respectivamente nos anos de 2004 e 2005; antes de ser incorporada, em 31/12/2005, pela Pactual Participações S.A., possuía patrimônio líquido de R$471.518.034,89, sendo composto de capital social de R$465.000.321,71 e de lucros acumulados R$6.517.713,18; assim, o que ainda poderia ser capitalizado seria o valor dos lucros acumulados. Na data da incorporação, o patrimônio líquido da incorporadora Pactual Participações S/A era de R$416.693.514,93; todo esse valor referiase ao investimento feito pela Pactual Participações Ltda, que naquela data, era de R$417.689.642,62. Fl. 1474DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 6 9 Com o patrimônio da incorporada (Pactual Participações Ltda.) vertido para a incorporadora (Pactual Participações S.A.), no valor de R$53.828.392,27, o patrimônio líquido desta passou a ser de R$471.521.034,89, praticamente o mesmo valor do patrimônio da incorporada naquela data, de R$471.518.034,89. Somente a parcela de R$6.517.713,18 poderia ser capitalizada ou distribuída a título de dividendos. No anocalendário de 2006, já com a nova denominação, a Nova Pactual Participações Ltda. teve lucro de R$420.217.358,87, que somado à parcela de R$6.517.713,18, chegase ao valor de R$426.735.072,05, que poderia ser distribuído ou capitalizado. Os dividendos distribuídos no período totalizaram R$760.712.401,33, todavia parte, R$686.000.000,00, foi utilizada para o aumento de capital, e a outra parte, R$74.712.401,33, foi efetivamente distribuída aos quotistas. Assim, a Nova Pactual Participações Ltda poderia ter capitalizado apenas R$352.022.670,72, que representa a diferença entre os valores de R$426.735.072,05 e R$ 74.712.401,33. Dessa forma, o patrimônio líquido da Nova Pactual, antes de ser incorporado, corresponderia a R$817.026.864,44 (R$ 471.521.034,89 + R$ 352.022.670,72 6.517.713,18), justamente o valor que consta em sua DIPJ. b) a Pactual Holdings S/A com capital social, em 31/12/2005, de R$31.299.033,50, aumentou seu capital social, no ano de 2006, em R$202.500.000. Antes de ser incorporada, em 13/10/2006, pela Pactual S.A., possuía patrimônio líquido de R$248.464.012,98, sendo composto de capital social no valor de R$233.799.033,50, reserva de capital no valor de R$9.034.410,30, reserva de lucros no valor de R$576.166,80, e lucros acumulados no valor de R$5.054.402,38; assim, o que ainda poderia ser capitalizado seria o valor total dos lucros acumulados e das reservas, no montante de R$14.664.979,48. c) em 13/10/2006, Pactual S.A. incorporou suas investidoras Nova Pactual Participações Ltda. e Pactual Holdings S.A. Nessa data, o patrimônio dessas duas sociedades representa o patrimônio da incorporadora/investida. No evento, as investidoras são extintas. até ser incorporada pelo Banco Pactual, em 01/12/2006, a PSA continuou a auferir receitas por conta de sua participação no Banco Pactual (resultado de equivalência patrimonial); no ano de 2006, seu resultado de participação societária foi de R$618.152.606,54; isso significa que caso as investidoras tivessem operado até a data de 01/12/2006, o seu resultado de participação societária seria o mesmo da investida. todavia, a Nova Pactual e a Pactual Holdings operaram até 13/10/2006 e tiveram como resultado de participação societária, respectivamente, R$420.241.324,40 e R$117.326.018,02, totalizando R$537.567.342,42. Assim, a diferença de R$80.585.264,12 (R$618.152.606,54 R$537.567.342,42) corresponde à parcela que poderia ser capitalizada pela PSA. Fl. 1475DF CARF MF 10 Dessa forma, o custo das ações alienadas, em 01/12/2006, eqüivaleria a R$ 1.146.076.141,54, que representa a soma das seguintes parcelas: • O Patrimônio Líquido da Nova Pactual Participações Ltda em 13/10/2006, no valor de R$ 817.026.864,44, conforme item "a"; • O Patrimônio Líquido da Pactual Holdings S/A em 13/10/2006, no valor de R$248.464.012,98, conforme item "b"; • O valor de R$80.585.264,12, parcela que poderia ser incorporada pela PSA, conforme item "c". Essas três parcelas, que totalizam R$1.146.076.141,54, mais ajustes no resultado, representam o patrimônio líquido da PSA, que correspondeu, em 01/12/2006, ao montante de R$1.149.610.206,41. Portanto, nos processos de incorporação houve majoração irregular no custo das ações alienadas, e o custo total dessas ações equivalem ao montante de R$1.149.610.206,41, que representa o patrimônio líquido da Pactual S/A em 01/12/2006, que detinha 100% das ações do Banco Pactual. Os fatos apresentados definem o princípio de que as ações/quotas recebidas pelo sócio/acionista, em decorrência do aumento de capital subscrito pela sociedade fundida, incorporada ou cindida, continuam sendo basicamente as mesmas de antes, ainda que qualitativamente tenha sofrido alteração. Pelo o exposto, concluise que o custo da ação alienada por cada acionista terá como base a participação de cada um deles no capital social da Pactual S/A em 01/12/2006. Todavia, o contrato de compra e venda do Banco Pactual, na cláusula 6.13, determinava que entre a data da celebração do negócio, 09/05/2006, e a data de sua efetivação, os lucros auferidos seriam objeto de distribuição aos antigos proprietários, de tal forma que em 22/02/2007 os acionistas alienantes, àquela época exacionistas, receberam de dividendos o montante de R$290.754.000,06, correspondente aos lucros auferidos no período compreendido entre 09/05/2006 e 01/12/2006. Porém, para que pudessem ser distribuídos estes R$290.754.000,06: (a) deveriam estar incluídos no patrimônio líquido da PSA e (b) não poderia jamais haver a capitalização desses mesmos recursos financeiros. É evidente, portanto, que os R$290.754.000,06, que foram objeto de distribuição, não poderiam integrar o custo de aquisição das ações vendidas. Mesmo assim tais dividendos (R$290.754.000,06) foram distribuídos aos alienantes em 22/02/2007, proporcionalmente as suas participações individuais na PSA, conforme Ata da Reunião da Diretoria do Banco UBS Pactual S/A, de 05/02/2007, e declarações apresentadas pela empresa e pelas pessoas físicas alienantes. Essa parcela deve ser deduzida do custo de aquisição apurado, com o que se chega ao custo individualizado do alienante: NOME Nº AÇÕES PERCENTUAL DO CAPITAL SOCIAL CUSTO DAS AÇÕES ANDRÉ SCHWARTZ 19.846.361 1,75% 14.962.740,96 Fl. 1476DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 7 11 TOTAL 1.134.077.635 100,00% 858.876.206,35 Assim, em decorrência dessa reorganização, no período compreendido dezembro de 2005 a dezembro de 2006 (alienação do Banco Pactual), verificouse discrepância entre a evolução da riqueza da instituição financeira alienada, que aumentou 89% (de R$635.223.115,04 para R$1.200.480.531,05), e o acréscimo patrimonial do custo das respectivas ações pertencentes ao recorrente, que cresceu 336% (de R$14.962.740,96 para R$ 44.661.001,20). O aumento do custo de 89% está plenamente justificado e fundamentado no artigo 135 do Decreto 3.000, de 1999 (RIR 99). O que se contesta é o acréscimo excedente. A explicação para o aumento excedente é que, como veremos a seguir, o custo das ações alienadas do Banco Pactual na DAAS do contribuinte foi aumentado tanto na capitalização dos lucros obtidos por ganho de equivalência patrimonial da holding Nova Pactual, no valor de R$15.350.517,00, quanto na capitalização dos dividendos da sucessora e incorporadora PSA, no montante de R$17.431.540,00. O sujeito passivo (a) recebeu novas ações em troca das extintas, por ocasião da extinção da Nova Pactual, mantendo assim, em sua propriedade a mesma parcela que detinha indiretamente do Banco Pactual, entidade que concentrava a riqueza econômica e financeira do grupo empresarial, como também (b) aumentou o custo de aquisição de tais ações por meio de dividendos não distribuídos. Ocorre que os dividendos capitalizados são os mesmos, na medida em que as reservas e lucros capitalizados por Nova Pactual e PSA nada mais são do que o resultado da equivalência patrimonial do Banco Pactual. Optando por capitalizar os dividendos nas sociedades em que possuía participação, caberia ao Acionista Pessoa Física tão somente o recebimento das novas ações emitidas por Pactual S/A em substituição das quotas extintas de sua propriedade emitidas por Nova Pactual Participações Ltda, não sendo admissível a comutatividade entre recebimento de novas ações e incremento nos respectivos custos de aquisição. INFORMAÇÕES PRESTADAS PELO CONTRIBUINTE As repostas do contribuinte ao termo de início de fiscalização foram consolidados na seguinte planilha: Fl. 1477DF CARF MF 12 De acordo com o contribuinte, o custo das ações alienadas apresentou a seguinte composição: A DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL SIMPLIFICADA DA PESSOA FÍSICA Na declaração de ajuste anual simplificada (DAA) de 2007, anocalendário 2006 (efls. 1266 a 1282), o recorrente declarou a tributação exclusiva na fonte do ganho de capital apurado em razão da venda de suas ações do Banco Pactual em 2006, bem como os dividendos recebidos das pessoas jurídicas extintas na reorganização societária, utilizados na composição do custo das referidas ações vendidas: 31.12.2006 ﴾em R$﴿ Rendimentos isentos e não tributáveis 36.080.822,51 Rendimentos sujeitos à tributação exclusiva definitiva 15.560.348,41 Lucros e dividendos recebidos Fonte pagadora NOVA PACTUAL PARTICIPAÇÕES LTDA PACTUAL S.A 18.642.608,30 17.431.540,00 Consta do demonstrativo da apuração dos ganhos de capital dessa DAAS a venda de 19.846.361 ações do Banco Pactual, ao custo médio ponderado/unitário de R$2,2604 por ação, cujo imposto de renda devido sobre o ganho de capital realizado foi apurado do seguinte modo: Fl. 1478DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 8 13 Valores em R$ Valor da Alienação 91.763.361,16 ﴾﴿ Custo da Aquisição 44.661.001,20 = Ganho de Capital Total 47.102.359.,96 Parcela recebida em 01/12/2006 35.663.954.,40 Ganho de Capital Realizado em 2006 18.306.307,79 Imposto de Renda Recolhido em DARF ﴾15% do Ganho de Capital Realizado﴿ 2.745.959,38 Assim, em 2006 o contribuinte, cumulativamente: (a) aumentou o custo das ações do Banco Pactual, mediante capitalização de lucros nas holdings a serem incorporadas, montante de R$32.782.057,00, sendo R$18.642.608,30 na Nova Pactual e R$17.431.540,00 na PSA e (b) recebeu rendimentos isentos decorrentes do recebimento de lucros/dividendos destas mesmas sociedades, no valor de R$32.782.057,00, sendo R$15.350.517,00 na Nova Pactual e R$17.431.540,00 na PSA. A GLOSA DE CUSTOS DAS AÇÕES DO BANCO PACTUAL Em vista desses fatos, foi recalculado o custo de aquisição das ações; foi apurado custo total custo total das ações de R$858.876.206.35, ao qual se chegou diminuindo os R$290.734.000,06, distribuídos a título de dividendos, do valor do patrimônio líquido da PSA, R$1.149.610.206,41. Destes, o contribuinte possuía 0,75%, ou seja, R$6.412.601,55, custo de aquisição de suas ações no Banco Pactual. Com base no exposto, foi considerado indevido o acréscimo no custo das ações do Banco Pactual alienadas, no valor de R$29.698.260,24, sendo o valor do custo das ações reduzido de R$44.661.001,20 para R$14.962.740,96. Dessa forma, visto que o valor de venda das ações foi de R$91.763.361,16, o ganho de capital total correspondeu a R$76.800.620,20 (R$91.763.361,16 R$76.800.620,20). Eis o demonstrativo do ganho de capital: Tabela 3 DEMONSTRATIVO DO GANHO DE CAPITAL Data da alienação 01.12.06 Quantidade de ações ordinárias nominativas alienadas. 19.846.361 Valor da alienação R$91.763.361,16 Custo de aquisição das ações do Banco Pactual S/A. R$14.962.740,96 Ganho de capital (total) R$76.800.620,20 Valor recebido pela venda em 2006 (38,8651% ) R$ 35.663.954,40 Custo das ações correspondente à parcela recebida (38,8651% x R$ 14.962.740,96 ) R$5.815.284,23 Ganho de capital correspondente à parcela recebida em 2006 R$29.848.670,17 Valor do IR devido (15% x R$ 29.848.670,17) R$4.477.300,52 Valor do IR apurado pelo sujeito passivo de acordo com o programa de ganho de capital da Receita Federal. R$ 2.731.141,03 Diferença sobre o IR devido em 2006 RS1.746.159,49 Valor parcela recebida pela venda em 09/2009 (42,8652%) R$39.334.605,14 Custo das ações correspondente à parcela recebida em 2009 (42,8652% x R$ 14.962.740,96) R$6.413.808,83 Ganho de capital correspondente à parcela recebida em 2009 R$32.920.796,31 Valor do IR devido (15% x R$ 32.920.796,31) R$4.938.119,44 Valor do IR apurado pelo sujeito passivo de acordo com o programa de ganho de capital da Receita Federal. R$3.028.567,92 Diferença sobre o IR devido em 2009 R$1.909.551,52 Fl. 1479DF CARF MF 14 FINAL DA TRANSCRIÇÃO DO PROCESSO 12448.736590/201101. INFRAÇÕES APURADAS NO PRESENTE PROCEDIMENTO FISCAL OMISSÃO DE GANHOS DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES Relata a fiscalização que, conforme estabelecido no art. 117 do Decreto n° 3.000, de 26/3/99, RIR/99, está sujeita ao pagamento de imposto a pessoa que auferir ganhos de capital na alienação de bens ou direitos de qualquer natureza. De acordo com o art. 138 do RIR/99 e o art. 2º da IN SRF 84/2001, o ganho de capital é determinado pela diferença positiva entre o valor de alienação e o custo de aquisição. De acordo com a legislação, a apuração do ganho de capital diferido se dá na data da alienação. Calculase o percentual do ganho de capital em relação ao valor total de alienação. Este percentual é aplicado a cada recebimento, para se encontrar o ganho de capital existente em cada parcela, que será a base para o cálculo do imposto de renda incidente sobre a parcela, conforme previsto no artigo 31 da Instrução Normativa SRF n° 84/2001. A alienação das 19.846.361 ações do Banco Pactual SA, de propriedade do contribuinte se deu em dezembro de 2006 pelo valor total de R$91.763.361,16, com recebimento de parcelas em dezembro de 2006, julho de 2009 (períodos já fiscalizados), março de 2010, setembro de 2010, março de 2011 e julho de 2011. Foi considerada na apuração e lançamento do ganho de capital auferido nas parcelas recebidas em 2010 e 2011 a mesma sistemática adotada no procedimento fiscal anterior, referente ao MPF n° 07108002010002591, no qual foi lançado o ganho de capital relativo às parcelas recebidas nos AC 2006 e 2009, que resultou no Auto de Infração correspondente ao processo administrativo n° 12448.736590/201101. Nesse, foi verificado que as 19.846.361 ações do Banco Pactual alienadas pelo contribuinte tinham custo de aquisição de R$14.962.740,96, tendo sido apurado ganho de capital total de R$76.800.620,20, chegandose a um percentual de diferimento do ganho de capital de 83,69421% (R$76.800.620,20 divididos por R$91.763.361,16) a ser aplicado em cada parcela recebida. O contribuinte não apresentou o Demonstrativo de Apuração dos Ganhos de Capital do anocalendário 2010, o qual deveria constar como anexo em sua Declaração de Ajuste do Ex 2011/AC 2010 (ND 07/36.892.656). Até o início do presente procedimento fiscal, ocorrido em 20/12/2012, o contribuinte também não havia apresentado o Demonstrativo de Apuração de Ganhos de Capital na Alienação de Participação Societária Fora da Bolsa de Valores em sua Declaração de Ajuste Anual do Ex 2012, ND 07/36.946.252, entregue a RFB em 20/06/2012. Também não havia recolhido o imposto sobre o ganho de capital auferido nas quatro parcelas recebidas nos AC 2010 e 2011, objeto do presente procedimento fiscal. Em 15/03/2013, após o início do procedimento fiscal, o contribuinte apresentou Declaração de Ajuste Anual retificadora para o Ex 2012/AC 2011 (ND 07/37.043.980), cuja única alteração em relação à anterior foi a apresentação do Demonstrativo de Apuração de Ganhos de Capital na Alienação de Participação Societária Fora da Bolsa de Valores, referente as parcelas recebidas em março e julho de 2011, indicando a apuração por parte do contribuinte de imposto sobre o ganho de capital de R$239.098,61 para cada uma das duas parcelas recebidas em 2011. Fl. 1480DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 9 15 Também após o início do procedimento fiscal, o contribuinte efetuou quatro recolhimentos de imposto de renda sobre ganho de capital (código 4600) com multa e juros, tendo R$239.098,61 como valor "principal", conforme informado pelo contribuinte em sua resposta recebida pela fiscalização em 07/07/2014. Constam nos Sistemas da RFB três pagamentos neste valor em 22/02/2013 e outro em 11/03/2013. A seguir são indicados os cálculos da fiscalização para apuração do ganho de capital e do respectivo Imposto de Renda sobre o ganho de capital incidente sobre as parcelas recebidas nos anos calendário 2010 e 2011. Nestes cálculos foram utilizados o valor do custo de aquisição e o percentual de diferimento do ganho de capital de 83,69421% apurados na ação fiscal anterior relativa aos anoscalendário 2006 e 2009, referente ao MPF n° 07108002010 002591 e Processo Administrativo n° 12448.736590/201101: Os valores da planilha acima, coluna "Ganho de Capital da Parcela", foram transportados para o auto de infração. Como a ação fiscal se iniciou em 20/12/2012, com a ciência por parte do contribuinte do Termo de Início de Fiscalização, ao qual seguiramse o Termo n° 02 em 07/02/2013 e o Termo n° 03 em 27/03/2013, quando o contribuinte efetuou os pagamentos através de Darf não se encontrava espontâneo para tal, e, conseqüentemente, tais pagamentos não foram incluídos neste auto de infração. QUALIFICAÇÃO DA MULTA A multa foi qualificada por entender a fiscalização que a falta de apresentação à RFB dos Demonstrativos de Apuração de Ganhos de Capital na Alienação de Participação Societária Fora da Bolsa de Valores dos AC 2010 e 2011 até a data de início do procedimento fiscal e a falta de recolhimento do respectivo imposto de renda incidente sobre as quatro parcelas recebidas nos AC 2010 e 2011 até a data de início do procedimento fiscal, demonstram a intenção do contribuinte em omitir da autoridade tributária a informação do recebimento das quatro parcelas a fim de eximirse do pagamento do respectivo imposto sobre o ganho de capital auferido sobre estas quatro parcelas. A retificação após o início da presente ação fiscal da Declaração de Ajuste Anual do Exercício 2012/AnoCalendário 2011, tendo como única alteração em relação à anterior a apresentação do Demonstrativo de Apuração de Ganhos de Capital na Alienação de Participação Societária Fora da Bolsa de Valores, referente as parcelas recebidas em março e julho de 2011, e os quatro recolhimentos, também APÓS O INÍCIO DA PRESENTE AÇÃO Fl. 1481DF CARF MF 16 FISCAL, nos valores de R$239.098,61, com código de arrecadação 4600, demonstram que o contribuinte sabia de suas obrigações com o fisco. IMPUGNAÇÃO Na impugnação, foram alegadas, em síntese (efls. 1190 a 1247) as razões a seguir descritas (assumo como meu, neste tópico, o relatório do acórdão recorrido): 1. o Auto de Infração indica, como enquadramento legal, uma série de dispositivos que apenas contém regras gerais relativas à apuração e tributação do ganho de capital e nenhum deles foi infringido pelo contribuinte, ou seja, não indica o dispositivo legal que teria sido infringido; 2. Ocorreu a decadência. No caso de tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo para efetuar o lançamento é de 5 anos contados do fato gerador. O fato gerador do ganho de capital é a alienação do bem ou direito. A alienação ocorreu em 01/12/2006, logo, em 29/07/2014, o crédito lançado estava extinto por decadência. A data do pagamento do preço é irrelevante para fins de contagem de decadência; 3. O Grupo Pactual era composto por diversas holdings existentes há mais de 10 anos e constituídas em uma época que os acionistas sequer cogitavam alienar seus investimentos. Havia algumas opções para a realização do negócio diretamente pelos acionistas, como desejava a UBS BRASIL, porém, a mais conveniente do ponto de vista prático, operacional, negocial e fiscal foi a incorporação reversa das holdings pelo Banco Pactual. Esta escolha deuse em razão da simplicidade e não pelas vantagens fiscais; 4. As incorporações inversas são perfeitamente lícitas, e a REESTRUTURAÇÃO refletiu a variante jurídica mais lógica e funcional para viabilizar a venda do BANCO para o UBS BRASIL. Ela foi totalmente transparente inclusive para o Banco Central do Brasil; 5. Conforme exemplo apresentado em sua impugnação, as incorporações não aumentam o custo dos investimentos do Impugnante, pois, se ocorresse a liquidação da controladora, o custo dos investimentos dos acionistas aumentariam da mesma forma; 6. DOS EFEITOS DAS INCORPORAÇÕES REVERSAS 7. Nas incorporações reversas, a investida (o Banco) sucede as investidoras (as holdings) em todos os seus bens, direitos e obrigações, dentre os quais figuram os investimentos da investidora/incorporada na investida/incorporadora. Em contrapartida do recebimento do acervo líquido da investidora/incorporada, cabe à investida aumentar seu capital e entregar as ações representativas desse aumento aos acionistas da investidora; Fl. 1482DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 10 17 8. Nas incorporações reversas, ocorre um aumento de capital (para emissão de ações destinadas aos acionistas da investidora/incorporada) e uma subseqüente redução de capital, para cancelamento das ações representativas do próprio capital da investida/incorporadora, caso a mesma não possa ou não queira mantêlas em tesouraria; 9. As contas que refletem o patrimônio líquido da incorporada são, ressalvadas exceções, integralmente convertidas em capital da incorporadora. Por esta razão, é indiferente que, antes da incorporação, os lucros da incorporada sejam ou não capitalizados; 10. É inquestionável o fato de os lucros e reservas da incorporada, suscetíveis de capitalização, passarem a integrar o capital social da incorporadora; 11. A opção pela capitalização de lucros antes das incorporações é irrelevante em termos fiscais; 12. A razão pela qual houve a capitalização de lucros antes de incorporações é o fato de que a NOVA PACTUAL distribuiu lucros de forma desproporcional. Os lucros de PARTICIPAÇÕES foram distribuídos em bases desproporcionais e reaplicados na empresa, acertando as participações dos acionistas no patrimônio líquido antes da incorporação. Esse fato evidencia que a capitalização de lucros teve objetivos outros, que não fiscais; 13. DO AUMENTO DO CUSTO RESULTANTE DA REESTRUTURAÇÃO (fl. 1.214) 14. A legislação do IRPF determina que o custo de aquisição corresponde ao custo original do investimento acrescido do montante dos lucros ou reservas de lucros capitalizados; 15. A fiscalização afirmou que a majoração de custo decorrente da reestruturação foi indevida e constituiu artifício resultante de aplicação incorreta do art. 135 do RIR/99; 16. Na verdade, o auto de infração baseiase no inconformismo da fiscalização quanto ás conseqüências que a aplicação da lei trouxe ao caso concreto; 17. O impugnante não contesta a lógica dos quadros demonstrativos apresentados no TVF, mas as distorções então apresentadas decorrem do texto da lei; 18. Como regra, os ganhos de equivalência podem ser distribuídos. Como correspondem a lucros não realizados, a LSA faculta às companhias, para preservar a sua "saúde financeira", a manutenção desses lucros em uma reserva específica; 19. Se a controladora fosse extinta, ocorreria a mesma distorção, conforme exemplo na impugnação; Fl. 1483DF CARF MF 18 20. Diz que a situação é análoga ao caso concreto. Ambas decorrem do fato de a legislação em vigor prever que a capitalização de lucros gera aumento para o investidor, sem fazer qualquer restrição. É possível que o legislador não se tenha dado conta de que, em determinados casos, a capitalização de ganhos de MEP é capaz de favorecer o contribuinte; 21. Não cabe à fiscalização deixar de aplicar a lei por considerar que ela gera distorções injustificáveis; 22. O Conselho já decidiu por diversas vezes que "a existência de falhas na legislação" não pode ser suprimida pelo legislador; 23. Os efeitos da aplicação do art. 135 do RIR/99 ao caso concreto não podem ser neutralizados por meio de sua mera interpretação; uma alteração legislativa se impõe; 24. Alem do impugnante, quase todos os acionistas foram autuados e o auto lavrado contra um deles foi julgado improcedente pela 1a Turma Ordinária da Segunda Seção do CARF (processo 12898.002335/200931); 25. NULIDADE DO AUTO POR TER ARBITRADO O GANHO DE CAPITAL 26. Os lucros capitalizados por PARTICIPAÇÕES, assim como o custo original de seus investimentos foram simplesmente desconsiderados na determinação de seu ganho de capital; 27. O auto não pode ser mantido em razão de o método utilizado pela autoridade fiscal para apurar o custo dos investimentos do impugnante no banco configurar verdadeiro arbitramento na apuração de seu ganho de capital; 28. A metodologia adotada pela autoridade fiscal inovou ao arbitrar o custo de aquisição do impugnante ignorando completamente o art. 135 do RIR/99; 29. A fiscalização tratou como custo de investimento o valor decorrente da aplicação do percentual de participação indireta do Impugnante no banco no patrimônio líquido ajustado de PACTUAL. A fiscalização arbitra o custo de aquisição dos investimentos do IMPUGNANTE, observandose um critério sem qualquer base legal; 30. DA INEXISTÊNCIA DE FRAUDE E ABUSO DE DIREITO (fl. 1.229) 31. As fraudes, simulações, abusos de forma e figuras semelhantes pressupõem a prática de atos que, de forma irregular, acarretem a redução, postergação ou eliminação do pagamento de tributos; 32. A reestruturação não foi realizada com propósito específico de reduzir o ganho de capital e seria levada a efeito, independentemente da economia fiscal que dela decorreu; 33. Não há que se falar em fraude à lei, abuso de forma ou ilícito semelhante, mas sim em aplicação inadequada das normas Fl. 1484DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 11 19 legais que versam sobre a determinação do custo de investimentos; 34. A Reestruturação teve motivação própria e os atos que consubstanciaram, sejam eles analisados de forma isolada ou conjunta, jamais poderiam ser encarados como tendo sido praticados com abuso de direito; 35. Os efeitos dos atos praticados com observância da lei, mas com abuso de direito: (i) não podem ser rejeitados pela fiscalização, na medida em que a norma que lhe atribuiria este poder (art. 116 do CTN) carece de regulamentação; (ii) ou, pelo menos, não representam fraude ou simulação; 36. A REESTRUTURAÇÃO foi feita às claras, com o intuito de viabilizar a negociação das ações do Banco diretamente pelo acionistas; 37. Se prevalecer o entendimento de que o art. 135 do RIR/99 não engloba a capitalização de lucros derivados da aplicação do MEP, o custo dos investimentos da impugnante no banco foi superdimensionado, mas apenas por equívoco na interpretação da lei; 38. O núcleo do tipo correspondente à fraude fiscal é a falsidade. E não se alegue que aa mera intenção do sujeito passivo de obter economia tributária caracterizaria dolo capaz de deflagrar a multa qualificada; 39. Destaquese que a participação societária do Impugnante era extremamente reduzida; 40. DA INAPLICABILIDADE DA MULTA QUALIFICADA (fl. 1238) 41. A fiscalização não comprovou e nem sequer apontou um único ato praticado pelo Impugnante que pudesse configurar a alegada fraude; 42. Ao afirmar que o contribuinte realizou a estruturação acreditando que haveria norma prevendo a majoração desses custos, o TVF desloca a matéria para o campo da interpretação da lei; 43. Vários acionistas foram autuados e a fiscalização utilizou critérios diferentes para a determinação do custo de aquisição, o que demonstra que a situação não é tão clara e incontestável; 44. Existem casos em que foi cancelado o lançamento fiscal e, mesmo nos que foram contrários ao contribuinte, foi desqualificada a multa; 45. É totalmente improcedente a acusação de que o Impugnante teria intencionalmente omitido da autoridade fiscal informações com relação à venda de suas ações do Banco. O que ocorreu foi um lapso do contribuinte; Fl. 1485DF CARF MF 20 46. Não é razoável concluir que o impugnante, tendo preenchido o demonstrativo do ganho de capital dos anoscalendário anteriores, deixaria de fazelo nos anoscalendário 2010 e2011 com o intuito de não pagar imposto; 47. DA RETIFICAÇÃO DO VALOR DO AUTO (fl. 1246) 48. A fiscalização não aceitou o pagamento do IR efetuado pelo impugnante por entender que ele não se encontrava espontâneo no momento do recolhimento, e conseqüentemente, lançou integralmente o imposto; 49. Assim, no mínimo, o auto de infração deve ser retificado para que seja descontado o valor já recolhido pelo impugnante. 50. DOS JUROS SOBRE A MULTA (fl. 1247) 51. Não é cabível juros sobre a multa, pois isso implica em majoração da própria penalidade; (Grifouse.) O pedido consistiu em julgar improcedente o auto de infração, com a extinção do crédito tributário dele decorrente. DECISÃO RECORRIDA A DRJ julgou a impugnação improcedente em acórdão que recebeu as seguintes ementas: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2010, 2011 ENQUADRAMENTO LEGAL GENÉRICO O fato de constarem do auto de infração vários dispositivos legais concernentes a aspectos gerais relativos à tributação dos rendimentos de ganho de capital não macula o lançamento, quando restar caracterizado que não houve prejuízo ao contribuinte, seja porque a descrição da infração lhe possibilita ampla defesa, seja porque a impugnação apresentada revela pleno conhecimento da infração imputada. CAPITALIZAÇÃO DE LUCROS. MÉTODO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. IMPOSSIBILIDADE DE MÚLTIPLO PROVEITO DO MESMO LUCRO. OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES Os princípios contábeis e a correta escrituração não permitem que haja o reconhecimento do aumento do custo das ações em duplicidade em razão de dupla capitalização dos mesmos lucros na empresa Controladora e Controlada. Constatada a majoração artificial do custo de aquisição da participação societária alienada, mediante a capitalização indevida de lucros oriundos de ganhos avaliados por equivalência patrimonial nas sociedades investidoras, devem ser expurgados os acréscimos indevidos com a consequente tributação da diferença de ganho de capital apurada. Fl. 1486DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 12 21 CAPITALIZAÇÃO DE LUCROS. INCORPORAÇÃO REVERSA. REDUÇÃO DE CAPITAL. EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. PRINCÍPIOS CONTÁBEIS Tendo o contribuinte apurado lucro contábil na empresa CONTROLADA e reconhecido tal lucro na empresa CONTROLADORA pelo método da equivalência patrimonial, a incorporação reversa não possibilita que haja o reconhecimento do mesmo lucro no custo das ações em duplicidade pelos sócios da empresa controlada se os lançamentos contábeis são efetuados corretamente. Na hipótese de redução de capital, os sócios devem reduzir o custo das ações em seu estoque. DECADÊNCIA O fato gerador do IRPF incidente sobre o ganho de capital, no caso de alienação a prazo, somente se completa quando do efetivo recebimento do valor referente à venda do bem ou direito, momento a partir do qual se inicia a contagem do prazo decadencial para o lançamento do crédito tributário, exceto no caso de dolo, fraude ou simulação, em que a contagem do prazo decadencial tem início no primeiro dia do exercício subsequente àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. MULTA QUALIFICADA. EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE. SONEGAÇÃO É aplicável a multa qualificada quando restar caracterizado o intuito de fraude do contribuinte no sentido de impedir ou retardar, total ou parcialmente a ocorrência do fato gerador do Imposto de Renda, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais ou a sonegação tendente a impedir ou retardar o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais. JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE MULTA DE OFÍCIO Considerando que a multa de ofício é classificada como débito para com a União, decorrente de tributos e contribuições administrados pela Receita Federal do Brasil, é correta a incidência dos juros de mora sobre os valores da multa de ofício não pagos, a partir de seu vencimento. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A ciência dessa decisão ocorreu em 10/04/2015 (termo de vista de processo, fl. 1384). Fl. 1487DF CARF MF 22 RECURSO VOLUNTÁRIO Em 08/05/2015, foi apresentado recurso voluntário (efls. 1401 a 1459), sendo reiterados, em síntese, os termos da impugnação, e, ainda, que: (a) a venda das ações do Banco Pactual ao UBS acarretou a lavratura de auto de infração contra mais de 60 acionistas, sob a mesma alegação de que o custo de aquisição de seus investimentos havia sido quantificado a maior; entretanto, não há a menor convergência da Receita Federal do Brasil (RFB) quanto ao critério para apuração correta do custo de aquisição dos investimentos; (b) assim, (i) no auto de infração, a RFB afirma que o custo deveria ser equivalente ao valor da participação indireta dos acionistas no capital de PSA em 01.12.2006, após deduzido o montante dos dividendos distribuídos pelo Banco Pactual com base em instrumento de usufruto; (ii) em outros autos de infração, a RFB afirma que caberia ao recorrente reduzir o custo de seus investimentos quando ocorresse a incorporação da NPP pela PSA e, com base nesse entendimento, desconsiderou o aumento de custo dos investimentos do recorrente resultante da capitalização de lucros de Pactual Participações; (iii) nos processos 1448.735961/201120; 12448.735957/201161; 12448.735950/201140; 12448735952/201139; e 12448735954/201128, a RFB afirma que o custo de aquisição dos investimentos dos acionistas corresponderia ao custo médio ponderado das ações (art. 16, § 5º da IN SRF n° 84, de 11.10.2001), multiplicado pelo número de ações alienadas ao UBS, sem levar em consideração os efeitos das capitalizações de lucros ocorridas em 31.12.2005 e em 2006; e, finalmente, (iv) no processo 15504.724125/201196, a RFB considera legítimo apenas o acréscimo de custo decorrente da capitalização de lucros da NPP; essa diversidade de critérios na quantificação do ganho de capital dos acionistas evidencia que o lançamento baseouse exclusivamente no efeito econômico gerado pela reestruturação e não na lei, o que é inaceitável. O pedido consiste em que seja reformada a decisão para que o auto de infração seja julgado improcedente e seja extinto ao crédito tributário. É o relatório. Voto Conselheiro Relator João Bellini Júnior O recurso voluntário é tempestivo e aborda matéria de competência desta Turma. Portanto, dele tomo conhecimento. DA DECADÊNCIA O recorrente afirma ter ocorrido a decadência do poderdever de lançar, uma vez que, no caso de tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo para efetuar o lançamento é de 5 anos contados do fato gerador. O fato gerador do ganho de capital é a alienação do bem ou direito. A alienação ocorreu em 01/12/2006; logo, em 29/07/2014, o crédito lançado estaria extinto por decadência, uma vez que a data do pagamento do preço é irrelevante para fins de contagem de decadência. Fiscalizar o ganho de capital ocorrido em 2010 e 2011 corresponde a revisão de lançamento,o que é vedado no direito tributário. Não lhe assiste razão. Fl. 1488DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 13 23 O caso em questão trata de alienação com data de pagamento diferida (a prazo), com pagamento parcial. Quanto à regra decadencial a ser aplicada ao caso concreto, o art. 62A do Ricarf obriga a utilização da regra do REsp nº 973.733 – SC, decidido na sistemática do art. 543C do Código de Processo Civil de 1973, o que faz com que as regras estabelecidas no art. 150, §4º, do CTN, somente devam ser adotadas: (a) nos casos em que o sujeito passivo antecipar o pagamento e, cumulativamente, (b) não for comprovada a existência de dolo, fraude ou simulação; nas demais situações prevalece os ditames do art. 173. Os rendimentos que compõem o ganho de capital estão sujeitos à tributação exclusiva/definitiva (art. 117 do Decreto 3.000, de 1999 – RIR 99) e não integram os rendimentos sujeitos ao ajuste anual. Decorrentemente, os pagamentos vinculados a rendimentos a serem computados no ajuste anual (como carnêleão, IRRF etc) não são antecipação do pagamento do ganho de capital e, portanto, não atraem a aplicação da regra decadencial prevista no art. 150, §4º, do CTN. Somente se subsumem ao art. 150, § 4º, pagamentos respeitantes ao pagamento do próprio ganho de capital, considerado individualmente, pois a sua tributação, como já ressaltado, é exclusiva e definitiva. Assim, em regra, na tributação do ganho de capital não há falar em ocorrência de pagamento antecipado. Nesse sentido: IRPF. DECADÊNCIA. TRIBUTOS LANÇADOS POR HOMOLOGAÇÃO. MATÉRIA DECIDIDA NO STJ NA SISTEMÁTICA DO ART. 543C DO CPC. GANHO DE CAPITAL. REGRA DO ART. 150, §4o, DO CTN, APENAS QUANDO EXISTIR PAGAMENTO PARCIAL. O art. 62A do RICARF obriga a utilização da regra do REsp nº 973.733 SC, decidido na sistemática do art. 543C do Código de Processo Civil, o que faz com a ordem do art. 150, §4º, do CTN, só deva ser adotada nos casos em que o sujeito passivo antecipar o pagamento e não for comprovada a existência de dolo, fraude ou simulação, prevalecendo os ditames do art. 173, nas demais situações. Em regra, no ganho de capital, não há que se falar em ocorrência de pagamento antecipado, pois sua tributação se dá em separado, não integrando o ajuste anual, sendo que os pagamentos que podem ser computados no ajuste anual não se aproveitam para trazer a regra de decadência para o art. 150, §4o, do CTN. (...) Recurso especial provido. (Ac. 9202003.003, Relator Luiz Eduardo de Oliveira Santos.) (Grifouse.) No caso concreto, antes do procedimento fiscal NÃO houve pagamento parcial do imposto referente ao ganho de capital devido em 2010 e 2011. Assim, aplicável a regra do art. 173, I, do CTN. Porém, mesmo que fosse aplicada a regra do art. 150, § 4º, também não teria ocorrido a decadência, como veremos a seguir. Fl. 1489DF CARF MF 24 Quanto ao termo inicial para a contagem do prazo decadencial, como visto, tratase de alienação com data de pagamento diferida (a prazo); em tais casos, a jurisprudência deste CARF se assentou no sentido de o fato gerador do imposto sobre a renda de pessoa física (IRPF) se realiza com o efetivo pagamento da parcela acordada pelas partes, devendo este ser o momento para contagem do prazo decadencial. Isso porque ao imposto sobre a renda (inclusive o ganho de capital) devido pela pessoa física é aplicável o regime de caixa; o imposto é devido à medida em que os rendimentos e ganhos foram percebidos, pelo que, antes do efetivo recebimento dos valores não há falar em acréscimo patrimonial a justificar a incidência do imposto de renda ou do ganho de capital; por estrita decorrência lógica, não há fato gerador do ganho de capital enquanto não auferido o efetivo valor da parcela prometida, uma vez que a promessa de receber valores, que é evento futuro e incerto, não é fato gerador do IRPF. São claras as disposições dos arts. 2º e 21 da Lei 7.713, de 1988 nesse sentido: Art. 2º. O imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos. (Grifouse.) Art. 21. Nas alienações a prazo, o ganho de capital será tributado na proporção das parcelas recebidas em cada mês, considerandose a respectiva atualização monetária, se houver. (Grifouse.) Como o fato gerador do ganho de capital ocorre com o efetivo recebimento do rendimento (regime de caixa), o fisco não possui o poder de constituir o crédito tributário antes disso, motivo pelo qual a fluência do prazo decadencial somente se inicia com o recebimento dos valores pela pessoa física. Nesse sentido, os seguintes acórdãos da CSRF: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2005, 2006, 2007, 2008 IRPF GANHO DE CAPITAL ALIENAÇÃO DE AÇÕES A PRAZO. FATO GERADOR APURAÇÃO DA DECADÊNCIA Nas vendas a prazo o fato gerador do Imposto de Renda se realiza com o efetivo pagamento da parcela acordada pelas partes, devendo este ser o momento para contagem do prazo decadencial. (Ac. 9202003.820, 08 de março de 2016) (Grifou se.) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2007, 2008, 2009, 2010 IRPF GANHO DE CAPITAL VENDA DE IMÓVEL A PRAZO. COMPROVANTE DE PAGAMENTO DE PARTE DO IMPOSTO. APLICAÇÃO DO ART. 150, §4º DO CTN. Nas vendas a prazo o fato gerador do Imposto de Renda se realiza com o efetivo pagamento da parcela acordada pelas partes, devendo este ser o momento para contagem do prazo Fl. 1490DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 14 25 decadencial. Havendo comprovação nos autos da ocorrência do pagamento do imposto, ainda que parcial, devese aplicar o art. 150, §4º do CTN, tomandose como termo inicial para o prazo decadencial a data da ocorrência dos fatos geradores. (Ac. 9202003.771, de 16/02/2016, relatora Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri) (Grifouse.) A consequência de se considerar ocorrido o fato gerador do ganho de capital no momento da efetivação do negócio e não no recebimento dos valores, atenta contra o texto expresso dos arts. 2º e 21 da Lei 7.713, de 1988 e implicaria na perversa situação de a pessoa física ser obrigada a pagar imposto sobre o ganho de capital antecipadamente ao recebimento dos pagamentos, e mesmo que não os recebesse jamais. Por outro lado, não configura a revisão do lançamento o procedimento fiscal destinado a apurar o ganho de capital ocorrido em 2010 e 2011, uma vez que o procedimento anterior destinouse a apurar o ganho de capital em anos anteriores, 2006 e 2009. Assim, como o primeiro pagamento objeto do auto de infração foi recebido em 18/03/2010 e tendo a ciência ocorrido em 29/07/2014, não há falar em decadência do poderdever de lançar o crédito tributário. DO LANÇAMENTO A matéria não é nova neste CARF. Vários foram os julgados que analisaram as operações que culminaram na alienação de participações societárias do Banco Pactual à UBS. Cito, como exemplo, os acórdãos 210201.938, 2202002.164, 2202002.165, 2202 002.166, 2202002.167, 2202002.258, 2202002.260, 2202002.262, 2202002.263, 2202 002.428 e 2802003.285. Desses, apenas o primeiro dos acórdãos citados (referido pelo recorrente em seu recurso) considerou totalmente indevido o lançamento; os demais deram parcial provimento ao recurso voluntário apenas para cancelar a qualificadora da multa. Em 27/01/2016, a Câmara Superior de Recursos Fiscais julgou Recurso Especial no processo 12448.736590/201101, já citado no citado no relatório fiscal, do qual o próprio contribuinte é sujeito passivo, relativo à mesma operação de venda de ações, porém concernente aos pagamentos recebidos em 2006 e 2009, emitindo o Acórdão nº 9202003.701 (Relatora Maria Helena Cotta Cardozo), que decidiu: I – por unanimidade, negar provimento ao recurso especial do contribuinte (matéria: omissão de ganho de capital) e, II – pelo voto de qualidade, dar provimento do recurso especial da União (representada pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional) (matéria: juros de mora incidentes sobre a multa de ofício). A jurisprudência da CSRF foi reafirmada em outros acórdãos, quais sejam: ACÓRDÃO DATA RELATOR/REDATOR 9202003.698 16/02/2016 LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS 9202003.699 16/02/2016 LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS 9202003.700 16/02/2016 LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS 9202003.767 12/04/2016 ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA 9202003.768 12/04/2016 ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA Fl. 1491DF CARF MF 26 9202003.764 13/04/2016 ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA 9202003.766 13/04/2016 ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA 9202003.765 13/04/2016 ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA 9202003.821 13/04/2016 ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA 9202003.959 10/05/2016 HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Redatordesignado. 9202003.960 04/08/2016 HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Redatordesignado. 9202003.961 04/08/2016 HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Redatordesignado. 9202005.239 22/02/2017 RITA ELIZA REIS DA COSTA BACCHIERI 9202005.237 22/02/2017 HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Redatordesignado 9202005.236 22/02/2017 HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Redatordesignado 9202005.235 22/02/2017 HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Redatordesignado 9202005.235 22/02/2017 HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Redatordesignado 9202005.240 22/02/2017 ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA Esta 1ª Turma da 3ª Câmara também já analisou a questão diversas vezes, nos acórdãos 2301004.475, 2301004.476, 2301004.477, 2301004.478, 2301004.479, 2301 004.480, 2301004.481, 2301004.482 e 2301004.483, decidindo, por unanimidade, tão somente cancelar a qualificadora da multa. Cito como exemplo: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Anocalendário: 2006, 2009 OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. LUCROS SOCIETÁRIOS ORIGINÁRIOS DA APLICAÇÃO DO MÉTODO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL EM HOLDINGS. INCORPORAÇÃO REVERSA. AUMENTO DO CUSTO DE AQUISIÇÃO EM DESCOMPASSO COM O PARÁGRAFO ÚNICO DO ART. 10 DA LEI 9.249, de 1995 (ART. 135 DO RIR 99). A capitalização de lucros societários, não tributados, sem substrato econômico e meros reflexos da aplicação do método de equivalência patrimonial em holdings puras, seguidas de correspondentes incorporações reversas, não ampara a aplicação do parágrafo único do art. 10 da Lei 9.249, de 1995 (art. 135 do RIR 99), para fins de majoração do custo da aquisição de ações a serem alienadas e consequente apuração de ganho de capital. O lucro que é tributado, e, por decorrência, pode ser objeto de benefícios fiscais, como isenção ou majoração do custo de aquisição de ações é o lucro fiscal, e não o lucro societário. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. SUJEITO PASSIVO SEM CONTROLE DOS ATOS QUE DERAM ORIGEM À ATUAÇÃO. Não tendo o sujeito passivo poder para determinar ou impedir os atos que deram origem ao auto de infração, descabe a aplicação da multa qualificada. JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO.TAXA SELIC. A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre a qual, assim,devem incidir Fl. 1492DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 15 27 os juros de mora à taxa Selic. (Ac. 2301004.476, relator João Bellini Júnior) Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Anocalendário: 2006, 2009 GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. LUCROS ORIGINÁRIOS DA APLICAÇÃO DO MÉTODO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL EM HOLDINGS. INCORPORAÇÃO REVERSA. AUMENTO DO CUSTO DE AQUISIÇÃO. O fato de cada uma das transações dentro do grupo societário, isoladamente e do ponto de vista formal, ostentar legalidade, não garante a legitimidade do conjunto de operações, quando restar comprovada que o aumento do custo das ações de acionistas pessoas físicas se deu através de planejamento tributário que capitalizou dividendos em duplicidade, pois são meros reflexos da aplicação do método de equivalência patrimonial nas holdings, seguidas de correspondentes incorporações reversas, com o fim de majoração do custo da aquisição de ações a serem alienadas e consequente apuração de ganho de capital, por configurar conduta abusiva e dissociada dos fins visados pela legislação pertinente. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. MULTA QUALIFICADA. AUSÊNCIA DE DOLO ESPECÍFICO. No planejamento tributário, quando identificada a convicção do contribuinte de estar agindo segundo o permissivo legal, sem ocultação da prática e da intenção final dos seus negócios, não há como ser reconhecido o dolo necessário à qualificação da multa, elemento este constante do caput dos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/64. JUROS DE MORA COM BASE NA TAXA SELIC SOBRE A MULTA DE OFÍCIO APLICABILIDADE O art. 161 do Código Tributário Nacional CTN autoriza a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, isto porque a multa de ofício integra o "crédito" a que se refere o caput do artigo. É legitima a incidência de juros sobre a multa de ofício, sendo que tais juros devem ser calculados pela variação da SELIC. (Ac. 2301004.480, relatora Alice Grecchi) Feitas essas breves considerações, passo à análise do caso concreto. DO TRIBUTO LANÇADO Quanto às demais questões de mérito, o recurso voluntário deve ser provido parcialmente, apenas para afastar a qualificadora da multa, pelos mesmos fundamentos já colacionados por ocasião do julgamento já realizado pela CSRF a respeito dos pagamentos Fl. 1493DF CARF MF 28 recebidos pelo recorrente nos anos de 2006 e 2009, complementados pelas razões que passo a expor. SÍNTESE DOS FATOS O contribuinte possuía ações da Nova Pactual, holding que detinha 78,17% de participação societária na PSA, a qual era detentora de 99,9991% das ações do Banco Pactual (o restante pertencia à Pactual Holdings). A sociedade Pactual Holdings S.A. detinha os restantes 21,83% de participação societária na PSA, e o recorrente não era seu acionista. Pelo contrato de compra e venda celebrado entre o Banco Pactual e a UBS, ficou acertado que a compra e venda se daria diretamente entre as pessoas físicas, sócios e/ou acionistas das sociedades controladoras do Banco Pactual e a UBS. Para tanto, foi promovida uma série de reestruturações societárias, nas quais a sociedade controlada incorporou a sociedade controladora (operação nominada de “incorporação reversa” ou “incorporação às avessas”). Previamente a cada incorporação reversa ocorreu, na incorporada/ controladora, aumento de capital social, por meio da capitalização de créditos que os sócios detinham perante a sociedade, decorrentes do direito a receber dividendos. Em 2006, o recorrente alienou suas ações do Banco Pactual, apurando ganho de capital nos anoscalendário em que recebeu pagamentos atinentes à operação: 2006 e 2009. Nos anos 2010 e 2011 o ganho de capital não foi apurado, como já referido. Como relatado, o recorrente declarou ter, cumulativamente: (a) recebido rendimentos isentos correspondentes aos lucros/dividendos da Nova Pactual e da PSA e (b) utilizado valor correspondente a tais lucros/dividendos para aumentar o capital social dessas sociedades, diminuindo o ganho de capital incidente na venda de sua participação social. Como decorrência, sua variação patrimonial, em 2006, espelha a dupla utilização dos lucros (efl. 326): A questão controversa é o valor do custo de aquisição das ações vendidas; de acordo com o autuado, como visto, o custo de aquisição é de R$44.661.001,20; pelo lançamento, o valor é R$14.962.740,96. ENTENDIMENTO DA CSRF Transcrevo, assumindo como razões de decidir, as razões do conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos, relator, na CSRF, Acórdão nº 9202003.698, julgado em 27/01/2016: Fl. 1494DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 16 29 a.I Delimitação do Problema Vejamos aqui o dispositivo central da discussão: o parágrafo único do art. 10 da Lei n° 9.249, de 26 de dezembro 1995, base legal do art. 135 do Decreto n° 3.000, de 1999, expressamente referido no auto de infração, in verbis: Art. 10. ... Parágrafo único. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista. Com base nesse dispositivo, o aumento de capital, realizado por uma pessoa jurídica, por incorporação de lucros, implica o aumento proporcional do custo de aquisição da participação societária de seus proprietários. Para exemplificar essa determinação, considere uma participação societária correspondente a 100% do capital de uma pessoa jurídica (detida por dois sócios, pessoas físicas), adquirida por R$ 1.000,00. Considere, também, que essa pessoa jurídica, em seguida, tenha auferido um lucro de R$ 100,00 e o tenha capitalizado. Considere, por fim, que os sócios tenham alienado essa participação societária a terceiros por R$ 1.500,00. Nesse caso, em que pese os sócios terem adquirido a participação societária por R$ 1.000,00 e, posteriormente, a alienado por R$ 1.500,00, o ganho de capital apurado não seria de R$ 500,00, mas apenas de R$ 400,00. Isso porque os lucros de R$ 100,00, capitalizados, têm o condão de aumentar o custo de aquisição da participação societária e, consequentemente, de diminuir o ganho de capital. Dessa forma, de uma maneira simples e apressada, poderseia concluir que qualquer capitalização de lucros implicaria um aumento do custo da correspondente participação societária. Ocorre que essa interpretação, no entender deste conselheiro, é literal e, considerando exclusivamente o parágrafo único do art. 10 da Lei n° 9.249, de 1995, gera incoerências no sistema jurídico e disfuncionalidades na tributação de operações. Para ilustrar a questão, vejamos uma situação, em tudo semelhante à anterior, porém em que os sócios tenham decidido criar uma holding controladora da pessoa jurídica operacional, que por sua vez, passaria a ser subsidiária integral da holding. Nesse caso: inicialmente, teríamos os sócios, como proprietários da Holding, e esta reconhecendo em seu ativo uma participação societária na pessoa jurídica operacional, avaliada em R$ 1.000,00 por equivalência patrimonial; Fl. 1495DF CARF MF 30 em seguida, com a pessoa jurídica operacional auferindo lucros de R$ 100,00, a Holding (por equivalência patrimonial) iria refletir esse lucro no valor de sua participação societária, o que resultaria no reconhecimento de lucros, também no valor de R$ 100,00; prosseguindo, a holding capitalizaria o lucro por ela reconhecido por equivalência patrimonial e, consequentemente, os proprietários atualizariam o valor da participação societária, para R$ 1.100,00; em momento posterior, a pessoa jurídica operacional incorporaria a holding, mantendo porém os lucros, de R$ 100,00, em seu patrimônio líquido e, somente então, capitalizaria esses lucros, permitindo que os proprietários atualizassem, mais uma vez, o valor da participação societária, agora para R$ 1.200,00; por fim, com os proprietários alienando sua participação societária por R$ 1.500,00, seria apurado um ganho de capital de apenas R$ 300,00. Repare que, em que pese os sócios terem adquirido a participação societária por R$ 1.000,00 e, posteriormente, alienado essa participação societária por R$ 1.500,00, o ganho de capital apurado não foi de R$ 500,00, nem de R$ 400,00, mas de apenas R$ 300,00. Isso ocorreu porque os lucros de R$ 100,00, reconhecidos na Holding por equivalência patrimonial foram capitalizados, aumentando o custo de aquisição da participação societária e, posteriormente, os mesmos lucros de R$ 100,00, auferidos pela pessoa jurídica operacional, em função de suas atividades, também foram capitalizados, aumentando mais uma vez o custo de aquisição da participação societária. Consequentemente, vemos aqui o ganho de capital reduzido duas vezes. Ora, essa situação é em essência igual à anterior: (a) uma participação societária adquirida por mil reais, (b) a correspondente empresa operacional que aufere 100 de lucro e (c) a venda dessa participação societária por mil e 500 reais. Mas apenas pela interposição de uma holding na estrutura societária do grupo econômico, o ganho de capital ficaria reduzido. E o pior, se ao invés de uma holding existissem duas ou mais, o ganho de capital seria mais reduzido ainda. Portanto, essa aplicação direta do parágrafo único a qualquer incorporação de lucros leva à inerente conclusão de que, em se existindo várias holdings interpostas entre os proprietários e a pessoa jurídica, o ganho de capital pode ficar artificialmente reduzido, até a zero ou ainda a valores negativos. E adicionalmente, com essa interpretação, a capitalização de lucros apenas nas Holdings, além de permitir que o ganho de capital fosse reduzido, permitiria que o lucro registrado na pessoa jurídica fosse, posteriormente, distribuído isento, aos proprietários ou então aos futuros adquirentes. Fl. 1496DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 17 31 O que se discute aqui é o efeito da aplicação da legislação tributária em situações como essa, de capitalização de lucros em uma pessoa jurídica que detenha participação em outras pessoas jurídicas, para fins de cálculo do custo das ações ou cotas dessa primeira pessoa jurídica. Delimitados os problemas a serem enfrentados, passo agora à análise da legislação de regência. a.II Interpretação da Legislação Com efeito, a capitalização de lucros nada mais é do que uma operação que substitui o seguinte procedimento: (i) a distribuição do lucro, pela pessoa jurídica a seus proprietários, (ii) o imediato aumento de capital da pessoa jurídica, no valor do lucro distribuído e (iii) a subscrição e integralização do aumento de capital, por esses mesmos proprietários, com os recursos antes recebidos a título de distribuição de lucro. Por outro lado, o método da equivalência patrimonial tem por objetivo refletir no patrimônio de uma pessoa jurídica controladora (ou coligada) de outra, o patrimônio e consequentemente o resultado da investida. Com efeito, ele serve para refletir a situação da investida no patrimônio da investidora. Esclarecendo a questão, Modesto Carvalhosa, em Comentário à Lei de Sociedades Anônimas (Saraiva São Paulo, 1998) ensina que: de início todos os investimentos (inclusive de empresas controladas) eram registrados pelo custo e os respectivos lucros somente eram reconhecidos quando da distribuição de lucros ou dividendos, já no caso de prejuízos, no máximo era aceito o reconhecimento de uma provisão para perdas no investimento; com influência anglosaxã, surgiu a figura da consolidação de balanços e, consequentemente, de reconhecimento do lucro de pessoas jurídicas controladas no patrimônio da controladora; estendendose esse raciocínio a todos os investimentos relevantes, surgiu a equivalência patrimonial, para dar o mesmo efeito da consolidação, trazendose para uma linha do ativo da investidora, uma parte do patrimônio (e do resultado) da investida. Nesse mesmo sentido, no dizer de Eliseu Martins, em Iniciação à Equivalência Patrimonial Considerando Algumas Regras Novas da CVM (IOB São Paulo 1997) o Método da Equivalência Patrimonial é a consolidação de patrimônios em uma linha. A propósito, lembramos que, no procedimento de consolidação, para apresentação da efetiva situação patrimonial, os lucros refletidos por equivalência patrimonial no patrimônio das investidoras devem ser eliminados. Fl. 1497DF CARF MF 32 Realizaremos, agora, a análise jurídica da legislação, sem perder de vista essas características ontológicas (a) da operação de capitalização de lucros e (b) do método da equivalência patrimonial. Para fins de contextualização histórica da questão, cumpre referir que, nos termos da legislação anteriormente vigente, a capitalização de lucros, assim como a distribuição de ações bonificadas, não tinha qualquer efeito na determinação do custo de aquisição da participação societária dos proprietários da pessoa jurídica. Com efeito, naquele período: o lucro distribuído era passível de tributação; e consequentemente, o custo de aquisição das participações societárias não era alterado quando da capitalização de lucros pela pessoa jurídica, inclusive no caso de distribuição de ações bonificadas, cujo valor de aquisição devia ser considerado como igual a zero. Nesse sentido, cabe referência aos arts. 727 e 810 do Decreto 1.041, de 1994. (a) Art. 727 lucros distribuídos até 1988 eram tributados: Art. 727. Os dividendos, bonificações em dinheiro, lucros e outros interesses, apurados em balanço de períodobase encerrado até 31 de dezembro de 1988, pagos por pessoa jurídica, inclusive sociedade em conta de participação, a pessoa física residente ou domiciliada no País, estão sujeitos à incidência de imposto exclusivamente na fonte, à alíquota de (DecretosLeis n°s 1.790/80, art. 1°, 2.065/83, art. 1°, I, a, e 2.303/86, art. 7° parágrafo único): (b) Art. 810 o custo de participações societárias resultantes de aumento de capital por incorporação de lucro era igual a zero: Art. 810. O custo de aquisição de títulos e valores mobiliários, de quotas de capital ... § 2° O custo é considerado igual a zero (Lei n° 7.713/88, art. 16, § 4°): a) no caso de participações societárias resultantes de aumento de capital por incorporação de lucros ou reservas, apurados até 31 de dezembro de 1988; Reparase aqui a coerência dos dispositivos acima referidos. Como, na época, a distribuição de lucros era tributada, a capitalização do lucro não alterava o custo de aquisição da participação societária. Assim, quando a participação societária fosse alienada, o valor do lucro capitalizado seria alcançado pelo ganho de capital. Ora, a partir de 1996, temos uma clara mudança de tratamento na distribuição de lucro, que passou a não ser tributada, nem na fonte, nem na declaração de ajuste, nos termos do disposto no art. 10, da Lei n° 9.249, de 1995. Assim: o lucro distribuído deixou de ser tributado; e Fl. 1498DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 18 33 consequentemente, o custo de aquisição das participações societárias passou a ser alterado quando da capitalização de lucros distribuíveis pela pessoa jurídica, inclusive no caso de distribuição de ações bonificadas, cujo valor de aquisição devia ser considerado igual ao desse lucro capitalizado. A seguir, encontrase reproduzido o caput do art. 10 da Lei n° 9.249, de 1995, e seu respectivo parágrafo. Art. 10. Os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, presumido ou arbitrado, não ficarão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte, nem integrarão a base de cálculo do imposto de renda do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior. Parágrafo único. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista. Reparase, da mesma forma que no sistema vigente anteriormente, a coerência dos dispositivos acima referidos. Como a distribuição de lucros deixou de ser tributada, a capitalização do lucro distribuível passou a alterar o custo de aquisição da participação societária. Assim, quando a participação societária fosse alienada, o valor do lucro (distribuível isento e capitalizado) não seria alcançado pelo ganho de capital. Portanto, conhecendo a razão histórica do surgimento da legislação, (que foi a alteração de tributação para não tributação da distribuição de lucros), para compreensão da legislação, (a) afastamos a aplicação da interpretação literal e (b) entendemos como mandatória a aplicação da interpretação histórico/teleológica (acima discutida) e, sobretudo, da interpretação sistemática dos dispositivos relativos ao método da equivalência patrimonial, à distribuição e à capitalização de lucros. Ressaltese aqui que todos esses métodos de interpretação convergem. Especificamente quanto à interpretação sistemática é muito fácil perceber que não se deve considerar somente a leitura do parágrafo, mas também (e sobretudo) a leitura do caput do próprio artigo 10 da Lei n° 9.249, de 1995. Aliás, essa é uma regra hermenêutica básica, o parágrafo deve sempre se referir ao caput, sendo que sua consideração em separado gera problemas de contexto e, o que é pior, gera a famosa falácia de ênfase em que, se acentuando um aspecto da realidade, acabase por negar a própria realidade. Ora, no caput, é referido que os lucros ou dividendos pagos ou creditados é que não estarão sujeitos à incidência do imposto de renda. Portanto, interpretando o parágrafo nos limites do que dispõe o caput, Fl. 1499DF CARF MF 34 concluímos facilmente que a capitalização de lucros que tem o condão de alterar o custo de aquisição de participações societárias é aquela referente a lucros passíveis de efetiva distribuição aos sócios ou acionistas sem tributação. Por seu turno, conforme já colocado no início desse voto, temos que o método da equivalência patrimonial teve por objetivo o reconhecimento de lucros de investidas, mesmo antes de sua distribuição. Não se está aqui negando a existência de um lucro decorrente do ajuste de equivalência patrimonial, mas não podemos deixar de levar em conta o fato de o lucro não é efetivamente distribuído mais de uma vez. Com efeito, o lucro decorrente do ajuste por equivalência patrimonial, é somente o reflexo do lucro auferido pela pessoa jurídica operacional (investida), esse último sim, passível de efetiva distribuição. Comprovando a conclusão acima, sabemos que a distribuição de lucro, registrado em decorrência do ajuste de equivalência patrimonial implica a necessidade de contratação de empréstimos ou distribuição de recursos aportados a título de capital. Pois bem, devemos nos lembrar de que a própria operação de capitalização de lucros foi concebida como um atalho para substituição do complexo procedimento de (i) a distribuição do lucro, pela pessoa jurídica a seus proprietários, (ii) o imediato aumento de capital da pessoa jurídica, no valor do lucro distribuído e (iii) a subscrição e integralização do aumento de capital, por esses mesmos proprietários, com os recursos antes recebidos a título de distribuição de lucro. Agora, a partir do que se encontra acima colocado, é possível chegarmos a uma conclusão quanto ao procedimento de aplicação da legislação, no tocante à atualização do custo da participação societária, em função da capitalização de lucros pela pessoa jurídica. Considerando que a efetiva distribuição de lucros deve se dar a partir da pessoa jurídica operacional, essa distribuição, seguida de subscrição de aumento de capital nas empresas componentes de um grupo econômico (a pessoa jurídica operacional e suas holdings) deve ter por efeito patrimonial o aumento de capital em toda a cadeia de entidades relacionadas societariamente. Por óbvio não é possível distribuir mais de uma vez o mesmo lucro (o lucro e seus reflexos por equivalência patrimonial), portanto também não deve ser aceitável, pelo menos para fins fiscais, capitalizálo mais de uma vez. A conclusão acima é inevitável, porque: as disponibilidades passíveis de distribuição estão no patrimônio da pessoa jurídica operacional, que somente pode distribuir o lucro para sua proprietária direta, a holding; já, a holding, somente pode distribuir o lucro aos acionistas, pessoas físicas, após o recebimento dos recursos da pessoa jurídica operacional; Fl. 1500DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 19 35 os acionistas, por sua vez, somente podem aumentar capital na holding, em que possuem participação direta; e por fim, a holding, com os recursos recebidos, poderá aumentar capital da pessoa jurídica operacional. Ora, consequentemente, somente haverá capitalização de lucros efetivamente distribuíveis caso todas as pessoas jurídicas da cadeia societária (holdings e empresa operacional) realizem a capitalização. Ao contrário, caso ocorra apenas a capitalização dos lucros de holdings, o parágrafo único do art. 10 da Lei n° 9.249, de 1995, não incide, devendo ser mantido o valor da participação societária pelos proprietários, até mesmo porque os efetivos lucros da pessoa jurídica operacional ainda poderão ser distribuídos sem tributação (para os próprios sócios) ou para futuros adquirentes. E, ainda, quando houver holdings mistas, com operações próprias, a capitalização de seus lucros, sem que tenha ocorrido a correspondente capitalização dos lucros das investidas, somente poderá ter efeito parcial na atualização do custo da participação societária de seus sócios. Isso é facilmente calculado com base na memória de cálculo abaixo: ( ) Lucro Existente no Patrimônio Líquido da Holding () Lucro/Reservas Existentes na Investida (*) % de participação (=) Lucro passível de distribuição pela Holding (/) Lucro Existente no Patrimônio Líquido da Holding (=) Percentual aceitável para aumento do custo da participação (*) Valor do aumento de custo considerando o total do lucro capitalizado pela Holding (=) Valor aceitável para aumento do custo Reparase que a memória de cálculo acima é simples, utilizando somente as quatro operações matemáticas e os dados constantes dos balancetes da holding e da correspondente investida, na data da capitalização de lucros. Ela atende a aplicação do disposto no Art. 10 da Lei n° 9.249, de 1995, tanto no caso de holdings mistas (com operações próprias), como no caso de distribuição diferenciada de lucros (em percentual diferente daquele da participação societária do acionista). a.III Aplicação da Legislação ao Caso dos Autos Verifico que, no caso dos autos, somente houve capitalização de lucros nas holdings, tendo sido mantido sem capitalização todo o lucro da pessoa jurídica operacional. Com efeito, no caso dos autos: ocorreram duas capitalizações seguidas de lucros, ambos reconhecidos em decorrência da aplicação do método de equivalência patrimonial às participações societárias de duas Fl. 1501DF CARF MF 36 holdings (a NOVA PACTUAL e a PACTUAL) e não houve a capitalização dos lucros auferidos pela pessoa jurídica operacional (o BANCO PACTUAL); somente houve glosa da atualização do custo de participação societária, para uma das capitalizações de lucro, mais especificamente, para a capitalização ocorrida em NOVA PACTUAL em 13.10.2006, no valor de R$ 30.233.762,00. Portanto, a autoridade autuante entendeu indevida apenas a atualização de custo da participação em decorrência de uma das capitalizações de lucro, em razão da aplicação a ela, pelo autuado, do disposto no art. 135 do Decreto no 3.000, de 26 de março de 1999. Porém, de acordo com a interpretação já apresentada por este conselheiro, entendese que ambas deveriam ter sido glosadas. Isso porque o lucro da pessoa jurídica operacional (ou seja, o lucro efetivamente auferido pelo BANCO PACTUAL) continuou mantido em seu patrimônio líquido, após as incorporações reversas, e consequentemente permaneceu passível de distribuição isenta aos adquirentes, ou terceiros (até mesmos os próprios alienantes), conforme acordo entre as partes. De fato, os alienantes venderam aos adquirentes do Banco o direito de receber os lucros isentos de tributação ou de repasse desse valor a terceiros. Ora, como, (a) em primeiro lugar, a capitalização de lucros que tem o condão de alterar o custo da participação societária é somente aquela relativa aos lucros efetivamente distribuíveis isentos de tributação e como, (b) em segundo lugar, a distribuição de lucros com isenção de tributação foi, no caso, efetivamente transferida (aos adquirentes do banco, ou terceiros por eles determinados), (c) podemos concluir que as capitalizações de lucros realizadas não podem ter qualquer efeito no custo da participação alienada. Portanto, como não foram glosados os dois aumentos de custo, que no entender deste conselheiro seria indevidos, resta desnecessária a aplicação da memória de cálculo de segregação de eventuais operações próprias das Holdings, que são apenas residuais, conforme afirmado por ambas as partes e assim, não teriam o condão de reduzir o valor lançado. Pelo contrário, caso fosse aplicado o procedimento de cálculo defendido por este conselheiro, o valor do tributo devido seria maior do que o originalmente lançado. Por conta das discussões travadas em plenário sobre o tema, penso ser necessário aqui fazer um esclarecimento quanto à dúvidas sobre a eventual ocorrência de alteração do critério jurídico do lançamento por esta decisão. Tenho plena convicção de que não se está aqui alterando critério jurídico, porque no lançamento e na respectiva impugnação encontramse claramente fixados os limites da lide e não foram alterados. Com efeito, o fato e a acusação em debate estão perfeitamente descritos no termo de verificação fiscal e, na decisão, é precisamente esse fato que se analisa: Fl. 1502DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 20 37 i. o fato é a alienação de participações societárias, ii. a acusação é de insuficiência do recolhimento do tributo por erro na apuração do ganho de capital, por se entender que a capitalização de lucros refletidos em sociedades investidoras, pelo método da equivalência patrimonial, não teria o condão de alterar o custo da participação societária alienada. iii. o que se apresenta aqui, sem qualquer inovação quanto ao fato analisado e a acusação originalmente feita, é o fundamento que este conselheiro entende ser suficiente para julgamento da acusação, em face das alegações do sujeito passivo. Diferente seria o caso em que há uma acusação verificada insubsistente mas, por conta de outra infração, fosse mantido o tributo lançado, situação que não ocorre aqui. Cumpre lembrar que o julgador não está vinculado ao fundamento das partes, somente não pode exarar uma decisão extrapetita, o que, conforme acima esclarecido, não ocorreu. Finalmente, quanto ao pedido subsidiário da recorrente de não aplicação de penalidade e juros de mora, a partir do disposto no parágrafo único do art. 100 do Código Tributário Nacional e da observância à Instrução Normativa SRF no 84, de 11 de outubro de 2001, é de se ressaltar que, em nenhum momento, tal normativo dá suporte à interpretação do art. 135 do RIR/99 defendida pela autuada, a qual, na forma acima disposta, se entende aqui como totalmente equivocada. Assim, é de se manter a multa de ofício aplicada pela autoridade lançadora, bem como os juros de mora incidentes sobre o principal e sobre a multa de ofício, neste último caso em linha com o explicitado seguir, quando da análise do recurso especial de iniciativa da Fazenda Nacional. a.i Conclusão Como a exigência original foi apenas de parte do valor que este conselheiro, nos termos da fundamentação deste voto, entende devido, e considerando a impossibilidade de reformatio in pejus voto por NEGAR provimento ao recurso especial de iniciativa do contribuinte, para manter o crédito tributário reconhecido como devido pela decisão a quo, inclusive a multa de ofício no patamar mantido pelo acórdão recorrido, bem como a incidência de juros de mora sobre o principal e sobre a mencionada multa. EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA NORMA ISENTIVA DE LUCROS DA PESSOA FISICA Embora já abordada no Acórdão nº 9202003.698, retrotranscrito, convém resgatar, em maiores detalhes, a evolução histórica da norma isentiva de lucros, para que fique clara a interpretação finalística e históricosistemática que fundamenta meu voto. Utilizome das palavras do conselheiro Ronnie Soares Anderson, relator do acórdão 2802003.285: Fl. 1503DF CARF MF 38 Previamente à edição desse diploma (art. 10 da Lei 9.249, de 1995), a regra era tributar os lucros e os dividendos exclusivamente na fonte ou oferecer tais rendimentos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste. Com vistas a evitar que houvesse dupla tributação sobre os mesmos rendimentos, ou seja, para que os lucros fossem tributados tão somente quando de sua apuração pela pessoa jurídica, e não quando de sua distribuição para os beneficiários dos dividendos, adveio no ordenamento o dispositivo legal acima transcrito. O Ministro da Fazenda apresentou no item 12 do Projeto de Lei n° 913/05, que resultou na edição da Lei n° 9.249/95, a seguinte justificativa no que concerne ao art.10: 12. Com relação à tributação dos lucros e dividendos, estabelecese a completa integração entre a pessoa física e a pessoa jurídica, tributandose esses rendimentos exclusivamente na empresa e isentandoos quando do recebimento pelos beneficiários. Além de simplificar os controles e inibir a evasão, esse procedimento estimula, em razão da equiparação de tratamento e das alíquotas aplicáveis, o investimento nas atividades produtivas. A partir de então os dividendos passaram a ser isentos, o que poderia ensejar a preferência pela sua distribuição frente à sua retenção e reinvestimento, dando azo à descapitalização das empresas. Para evitar tal situação, e estimular a retenção dos lucros de modo a possibilitar a realização de investimentos e formação bruta de capital sem endividamento perante terceiros, com o consequente crescimento da economia e geração de empregos, o regramento do parágrafo único do art. 10 da Lei n° 9.249/95 previu uma “compensação” para que os sócios não decidissem priorizar a distribuição de lucros. Com efeito, para que os lucros não fossem distribuídos como dividendos aos sócios mas sim incorporados mediante aumento de capital da empresa, foi possibilitado o ajuste no custo de aquisição das participações societárias dos acionistas, na proporção em que fossem aqueles capitalizados, balizandose assim o alcance do benefício legal da isenção dos dividendos. (Grifouse.) DESTINAÇÃO DOS LUCROS: ISENÇÃO NA DISTRIBUIÇÃO E AUMENTO DO CUSTO DE AQUISIÇÃO NA CAPITALIZAÇÃO A regra questionada, o art. 135 do RIR 99, tem seu fundamento legal no parágrafo único do art. 10 da Lei 9.249, de 1995, o qual deve ser lido em conjunto com o seu caput (art. 654 do RIR 99), para a adequada compreensão do contexto no qual tal disposição veio à baila. Reproduzo os artigos: Lei 9.249, de 1995 RIR 99 Art. 10. Os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, presumido ou arbitrado, não ficarão sujeitos Art. 654. Os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, não estão sujeitos à incidência do Fl. 1504DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 21 39 à incidência do imposto de renda na fonte, nem integrarão a base de cálculo do imposto de renda do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior. (Grifouse.) imposto na fonte, nem integram a base de cálculo do imposto do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior (Lei nº 9.249, de 1995, art. 10). (Grifouse.) Parágrafo único. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista. (Grifouse.) Art. 135. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital ou incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista (Lei nº 9.249, de 1995, art.10, parágrafo único). (Grifouse.) Verificase a simetria entre os textos, sendo suas únicas diferenças: (a) o art. 654 do RIR 99 não cita as pessoas jurídicas tributadas com base no lucro presumido ou arbitrado e (b) para o RIR 99, a regra do art. 135 se aplica a qualquer aumento de capital, e não somente ao aumento de capital por incorporação de lucros, como previsto no parágrafo único do art. 10 da Lei 9.249, de 1995. Tais diferenças são irrelevantes no caso concreto, pois tratase de caso envolvendo distribuição e capitalização de lucros de pessoas jurídicas tributadas pelo lucro real e os aumentos de capital ocorreram por incorporação de lucros; ambas as hipóteses estão previstas tanto no art. 10 da Lei 9.249, de 1995 quanto nos arts. 654 e 135 do RIR 99. Passando à análise da norma, friso ser evidente que não se pode interpretar a regulação da norma isentiva, procedida pelo RIR 99, arts. 654 e 135, em descompasso com a própria norma legal que lhe deu origem, carreada pelo art. 10 da Lei 9.249, de 1995. O texto normativo versa sobre o tratamento tributário a ser dado aos lucros (ou dividendos), em razão de sua destinação; assim, os lucros podem, alternativamente: (a) ou serão distribuídos; nesse caso, incide a regra isencional (art. 10 da Lei 9.249, de 1995 e art. 654 do RIR 99); da distribuição dos lucros decorre, necessariamente, a proporcional redução no patrimônio líquido da sociedade, o que irá gerar, por ocasião da alienação das ações, um maior ganho de capital; (b) ou serão incorporados ao capital social (capitalizados); nesse caso, incide a regra pela qual o custo de aquisição das quotas ou ações que couberem ao sócio/acionista será igual à parcela do lucros ou reserva capitalizado (art. 10, parágrafo único da Lei 9.249, de 1995 e art. 135 do RIR 99); do acréscimo no custo de aquisição das ações decorre, necessariamente, a redução do ganho de capital, por ocasião da alienação das ações. A redução no ganho de capital é conseqüência lógica do não exercício do direito de receber dividendos isentos de imposto de renda. Se por um lado uma sociedade não pode distribuir lucros em montantes superiores à sua efetiva riqueza, também o sócio/acionista não pode aumentar o custo de aquisição de suas ações em valores superiores aos relativos ao incremento do patrimônio Fl. 1505DF CARF MF 40 líquido da sociedade. E de modo algum pode, com base nos mesmos lucros efetivos (o que exclui, em sua conceituação, lucros sem representação econômica, reflexos, fictícios) cumulativamente, (a) capitalizar os lucros e (b) recebêlos, de modo a justificar rendimentos isentos. EVOLUÇÃO PATROMONIAL Durante o procedimento de fiscalização, essa registrou: (Pergunta da fiscalização) 10. Todos os valores recebidos a título de distribuição de lucros, dividendos e juros sobre o capital próprio auferidos durante o anocalendário de 2006, especificando as respectivas sociedades que efetuaram as distribuições com a indicação dos percentuais de participação correspondentes, segregando os valores que foram efetivamente recebidos dos que representaram créditos contra as sociedades que tenham sido capitalizados. Resposta: O quadro a seguir resume os eventos corridos no ano calendário de 2006. Empresa Pagadora % de participação Valor pago ou distribuído Natureza Destinação dos recursos Nova Pactual Participações Ltda 2,2385% R$ 18.642.608,30 Lucros crédito capitalizado na NPP de R$ 15.350.517,00 Pactuai S/A (PSA) 1,7500% R$ 17.431.540,00 Dividendos crédito capiitalizado na PSA Banco Pactual S/A 1,7500% R$ 597.905,07 JCP (valor bruto) efetivo recebimento Porém, como visto o recorrente ao menos em duas ocasiões, cumulativamente, recebeu rendimentos isentos a título de lucros/dividendos e capitalizou tais lucros (ou parte destes), fato este que motivou o presente lançamento: 31.12.2006 ﴾em R$﴿ Rendimentos isentos e não tributáveis 36.080.822,51 Rendimentos sujeitos à tributação exclusiva definitiva 15.560.348,41 Lucros e dividendos recebidos Fonte pagadora NOVA PACTUAL PARTICIPAÇÕES LTDA PACTUAL S.A 18.642.608,30 17.431.540,00 Como decorrência sua evolução patrimonial expressa a dupla utilização dos lucros: Vejamos em detalhes os lucros e dividendos que foram recebidos e capitalizados: 1. INCORPORAÇÃO DA NOVA PACTUAL PELA PSA, em 13/10/2006, com o recebimento de ações na mesma proporção que detinha na holding extinta; essa operação foi precedida, na mesma data, pela distribuição desproporcional dos lucros apurados pela Nova Pactual e pela capitalização desses mesmos lucros com a integralização de novas quotas da Nova Pactual – primeira majoração do custo de aquisição de sua participação societária, baseada no art. 135 do RIR 99: Fl. 1506DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 22 41 RECEBIMENTO DOS LUCROS ASSEMBLÉIA DOS SÓCIOS QUOTISTAS DA NPP, EM 13/06/2006 Fl. 1507DF CARF MF 42 CAPITALIZAÇÃO DOS LUCROS 4ª ALTERAÇÃO DO CONTRATO SOCIAL DA NPP, EM 13/10/2006 2. DISTRIBUIÇÃO E CAPITALIZAÇÃO DOS LUCROS PELA PSA, em 03/11/2006 – segunda majoração do custo de aquisição de sua participação societária, baseada no art. 135 do RIR 99, evento preparatório da incorporação da PSA pelo Banco Pactual, em 1º/12/2006, com o recebimento, nesta ocasião, pelas pessoas físicas, de participação na mesma proporção que detinham na holding extinta: Fl. 1508DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 23 43 REUNIÃO DE DIRETORIA DA PSA, EM 03/11/2006 Fl. 1509DF CARF MF 44 ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DA PSA, EM 03/11/2006 INFORMAÇÕES PRESTADAS À FISCALIZAÇÃO: A evolução do custo das ações do Banco Pactual, obtida a partir das informações prestadas na DAAS e nas respostas às intimações fiscais é a seguinte: A evolução do custo das ações do Banco Pactual, obtida a partir das informações prestadas na DAA e nas respostas às intimações fiscais é a seguinte: SOCIEDADES Custo das quotas/ações em 31.12.2005 (R$) Lucros/dividendos capitalizados em 2006 (R$) Custo das quotas/ações acumulado em 1º.12.2006 (R$) Nova Pactual 11.879.031,70 15.350.517,00 27.229.548,70 Pactual S/A 17.431.540,00 17.431.540,00 TOTAL 32.782.057,00 44.661.088,70 Ora, como visto, não é possível distribuir e capitalizar os mesmos lucros. Uma vez distribuídos os lucros e utilizados para justificar acréscimo patrimonial pelo recebimento do rendimentos isentos, devem ser estornados os efeitos de sua incorporação ao capital social das respectivas sociedades. No caso concreto, esse dupla utilização dos lucros serviu para fomentar um acréscimo no custo das ações alienadas pertencentes ao recorrente o da ordem de 336% (de R$14.962.740,96 para R$ 44.661.001,20), enquanto que o aumento do patrimônio líquido do Banco Pactual, entidade que concentrava toda a riqueza efetiva do grupo, foi de 89%. Ou seja, tal procedimento levou a uma total discrepância entre a evolução da riqueza da instituição Fl. 1510DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 24 45 financeira alienada com o acréscimo patrimonial do custo das respectivas ações pertencentes aos seus acionistas. Tal dúplice utilização dos lucros não encontra suporte legal. Tais razões, por si só, são suficientes para o desprovimento do recurso voluntário; porém, a seguir passo a analisar as operações do ponto de vista do grupo empresarial, demonstrando que os lucros e reservas só podem ter impacto no custo das ações e, portanto, na tributação da operação de alienação, quando corresponderem à efetiva riqueza gerada e acumulada pelo grupo societário. No caso em tela, tal riqueza encontravase concentrada no Banco Pactual. DAS REGRAS CONTÁBEIS APLICÁVEIS A GRUPOS DE SOCIEDADES Estabelecido o contexto no qual o art. 10 da Lei 9.249, de 1995, deve ser entendido e aplicado, passo a demonstrar que a interpretação do recorrente não se ampara sequer nas regras contábeis que estabelecem a apuração dos resultados societários de grupo econômico, pois está em desacordo com os pronunciamentos técnicoscontábeis emitidos pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis, bem como com os Princípios de Contabilidade, aprovados pelo Conselho Federal de Contabilidade. Como já referido, o Banco Pactual era controlado por uma holding, a Pactual S.A (PSA), que, por sua vez, era controlada por ouras duas holdings, a Nova Pactual e a Pactual Holdings.. Na definição de Houaiss, holding é uma “empresa que detém a posse majoritária de ações de outras empresas, ger. denominadas subsidiárias, centralizando o controle sobre elas. De modo geral a holding não produz bens e serviços, destinandose apenas ao controle de suas subsidiárias.” (Dicionário Houaiss Eletrônico, versão monousuário 2009.3). Essa definição é condizente com a afirmação do recorrente de que “Os objetivos das holdings eram exclusivamente os de organizar o exercício do controle do Banco (Pactual) e propiciar uma distribuição adequada de seus resultados” (item 3.3 do recurso voluntário) e de que “As holdings não tinham outra função que não as acima mencionadas e sua existência esteve sempre vinculada à participação do Grupo Pactual no BANCO” (item 3.4 do recurso voluntário). O esclarecimento de que as holdings não produzem bens e serviços demonstra a impossibilidade dessas, por si só, gerarem lucro econômico, material, distribuível e/ou capitalizável, passível de aumentar o custo de aquisição das cotas/ações de seus sócios/acionistas. Quanto ao método da equivalência patrimonial, esse nada mais é do que modo de avaliação do investimento de determinada sociedade. De acordo com Sérgio de Iudícibus, “o conceito básico do método da equivalência patrimonial é fundamentado no fato de que os resultados e quaisquer outras variações patrimoniais da investida sejam reconhecidos (contabilizados) na investidora no momento de sua geração na investida, independentemente de serem ou não distribuídos por esta” (Manual de contabilidade societária. Sérgio de Iudícibus et. al. São Paulo: Atlas, 2010, p. 170) (Grifouse.) Fl. 1511DF CARF MF 46 Por esse critério, “as empresas reconhecem os seus resultados de seus investimentos nessas entidades no momento em que tais resultados são gerados naquelas empresas, e não somente quando são distribuídos na forma de dividendos, como ocorre no método de custo”. (Idem, p. 170.) Como já referido, o MEP é de uso obrigatório na avaliação de investimentos de controladas (art. 248 da Lei 6.404, de 1976). Desse modo, os resultados auferidos pelo Banco Pactual se refletiam em suas controladoras pela aplicação do método de equivalência patrimonial (MEP) (e não pelo método do custo), por força do disposto no art. 248 da Lei 6.404, de 1976, que possuía, à época dos fatos (2006), a seguinte redação: Art. 248. No balanço patrimonial da companhia, os investimentos relevantes (artigo 247, parágrafo único) em sociedades coligadas sobre cuja administração tenha influência, ou de que participe com 20% (vinte por cento) ou mais do capital social, e em sociedades controladas, serão avaliados pelo valor de patrimônio líquido, de acordo com as seguintes normas: I o valor do patrimônio líquido da coligada ou da controlada será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação levantado, com observância das normas desta Lei, na mesma data, ou até 60 (sessenta) dias, no máximo, antes da data do balanço da companhia; no valor de patrimônio líquido não serão computados os resultados não realizados decorrentes de negócios com a companhia, ou com outras sociedades coligadas à companhia, ou por ela controladas; II o valor do investimento será determinado mediante a aplicação, sobre o valor de patrimônio líquido referido no número anterior, da porcentagem de participação no capital da coligada ou controlada; III a diferença entre o valor do investimento, de acordo com o número II, e o custo de aquisição corrigido monetariamente, somente será registrada como resultado do exercício: a) se decorrer de lucro ou prejuízo apurado na coligada ou controlada; b) se corresponder, comprovadamente, a ganhos ou perdas efetivos; c) no caso de companhia aberta, com observância das normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários. (Grifouse.) Percebase que a regra societária é cristalina: o resultado em controladas somente será registrado como resultado do exercício (na controladora) se corresponder, comprovadamente, a ganhos ou perdas efetivos. Ora, no grupo Pactual o “ganho efetivo” era proporcionado somente pelo Banco Pactual; portanto, havia vedação legal para que seu resultado fosse refletido em toda a cadeia societária. Isso porque as normas contáveis prestigiam o Primazia da essência sobre a forma. O que não observa a realidade é fictício, e deve ter seus efeitos expurgados da contabilidade, que deve refletir a realidade econômica das sociedades, e não deve refletir ficção econômica (lucros ou prejuízos fictícios). Passo a discorrer sobre o assunto. Fl. 1512DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 25 47 As normas contábeis, outrora regidos pela Deliberação 29, de 1986, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), conjuntamente com os Princípios da Contabilidade, aprovados pelas Resoluções nº 750, de 1993, nº 774, de 1994 e nº 785, de 1995, do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), atualmente são elaboradas pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC). O CPC adotou integralmente o documento do International Accouting Standards Board (IASB), denominado Framework for the Preparation and Presentation of Financial Statements e emitiu seu Pronunciamento Conceitual Básico – Estrutura Conceitual para a Elaboração e Apresentação das Demonstrações Contábeis (CPC 00). De acordo com Iudícibus (idem, p. 31) esse pronunciamento possui “maior aderência ao conceito da Primazia da Essência Sobre a Forma”, “bandeira essa levada praticamente ao extremo pelo IASB (...) representado no Brasil pelo Pronunciamento Técnico CPC 26 – Apresentação das Demonstrações Contábeis”. (Grifouse.) Convém ressaltar que, mesmo antes da entrada em vigor dos pronunciamentos técnicos do CPC, a Resolução nº 750, de 1993 do Conselho Federal de Contabilidade já previa a prevalência da essência sobre a forma (art. 1º, § 2º): Art. 1º Constituem PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE CONTABILIDADE (PFC) os enunciados por esta Resolução. §1º A observância dos Princípios Fundamentais de Contabilidade é obrigatória no exercício da profissão e constitui condição de legitimidade das Normas Brasileiras de Contabilidade (NBC). §2º Na aplicação dos Princípios Fundamentais de Contabilidade há situações concretas e a essência das transações deve prevalecer sobre seus aspectos formais. (Grifouse.) É disso que se trata. Primazia da essência sobre a forma. O lucro distribuível e capitalizável é o lucro já tributado, portanto econômico, com poder de compra, e não o lucro escritural, que existe somente em face da existência de holdings controladas e controladoras, mas que não produzem riqueza. Pretender que lucro escritural, sem substrato econômico, não tributado previamente, seja distribuível e/ou capitalizável fere não somente o sentido finalístico e históricosistemático do art. 10 da Lei 9.249, de 1995, mas também as normas técnicas contábeis do CPC. No presente caso, é fato incontroverso, estamos diante de um grupo econômico: o próprio recorrente se refere ao “Grupo Pactual”. Os grupos econômicos são definidos pelo CPC 36 como constituído pela “controladora e todas as suas controladas” e isso, de acordo com Iudícibus (idem, p. 649) “independe de o grupo estar ou não constituído formalmente, nos termos do Capítulo XXI da Lei 6.404, de 1976”. Em grupos econômicos, como no caso em apreço, a particularidade da situação de uma sociedade exercer controle sobre outra(s) faz com que o balanço consolidado seja considerado mais fidedigno que cada balanço individual. Em razão disso, há “países que exigem, e o IASB (International Accouting Standards Board), exige assim também, que quando há investimento em controlada, o balanço individual nem seja apresentado, e sim Fl. 1513DF CARF MF 48 diretamente o balanço consolidado, e a equivalência vai aparecer no consolidado apenas para os investimentos em não controladas”. (Idem, p. 171.) (Grifouse.) Mais uma vez a busca pela primazia da realidade. Se uma sociedade produz lucro, como no caso em questão, as holdings controladoras serão lucrativas, mas o lucro é somente um, gerado pela sociedade geradora de riqueza. A questão é elementar: se o lucro escritural pudesse gerar efeitos de aumentar riqueza, bastaria criar mais e mais holdings controladoras, e viver da pujança do lucro infinito. Como lembra Iudícibus, “efetivamente, a análise individual das diversas demonstrações contábeis faz perder a visão do conjunto, do desempenho global do grupo. As inúmeras transações realizadas entre empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico necessitam ser eliminadas nas demonstrações consolidadas, obtendose, assim, apenas os valores apurados em função de operações efetuadas com terceiros alheios ao grupo”. (Idem, p. 649.) Os investimentos em controladas devem ser consolidados. (Idem, p. 650). (Grifouse.) Ainda de acordo com o Professo Emérito da FEA/USP, mesmo nos casos em que a legislação brasileira ainda não obrigue a apresentação da consolidação das demonstrações contábeis em grupos econômicos, tais “demonstrações contábeis consolidadas são as únicas que refletem a real posição financeira, a formação de seu resultado operacional e a origem e aplicações de seus recursos financeiros”. (Idem, p. 651.) (Grifouse.) No entender de Iudícibus, as demonstrações contábeis individuais da controladora, mais do que limitadas, “são muitas vezes enganosas, e não atendem ao objetivo primordial de bem informar da contabilidade nem atendem aos princípios fundamentais as contabilidade”. (Idem, p. 652.) (Grifouse.) Por isso, “com a emissão do CPC 36, há um enorme avanço, porque todas as sociedades por ações, mesmo as fechadas, agora estão obrigadas à publicação das demonstrações consolidadas (...) quando tiverem investimentos em controladas. Até as limitadas, se divulgarem informações, terão que fazêlo, já que esse Pronunciamento foi aprovado pelo Conselho Federal de Contabilidade, que tem poderes sobre os profissionais contábeis brasileiros”. (Idem, p. 652.) Nesse sentido, o CPC 36 exige que os seguintes procedimentos sejam adotados: B86. Demonstrações consolidadas devem: (a) combinar itens similares de ativos, passivos, patrimônio líquido, receitas, despesas e fluxos de caixa da controladora com os de suas controladas; (b) compensar (eliminar) o valor contábil do investimento da controladora em cada controlada e a parcela da controladora no patrimônio líquido de cada controlada (o Pronunciamento Técnico CPC 15 explica como contabilizar qualquer ágio correspondente); (c) eliminar integralmente ativos e passivos, patrimônio líquido, receitas, despesas e fluxos de caixa intragrupo relacionados a transações entre entidades do grupo (resultados decorrentes de transações intragrupo que sejam reconhecidos em ativos, tais Fl. 1514DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 26 49 como estoques e ativos fixos, são eliminados integralmente). Os prejuízos intragrupo podem indicar uma redução no valor recuperável de ativos, que exige o seu reconhecimento nas demonstrações consolidadas. O Pronunciamento Técnico CPC 32 – Tributos sobre o Lucro se aplica a diferenças temporárias, que surgem da eliminação de lucros e prejuízos resultantes de transações intragrupo. (Grifouse.) É de se registrar que os lucros ou dividendos recebidos pela controladora não constituem receita, mas sim redução do da conta do investimento: Como o investimento em controlada é avaliado pelo método da equivalência patrimonial, os dividendos recebidos não estarão contabilizados em receita, mas sim como redução da conta do investimento, e, portanto, não haverá eliminação a fazer na Demonstração do Resultado do Exercício. (Idem, p. 659.) (Grifouse.) Do mesmo modo, o Pronunciamento Técnico CPC 18 (R2), o qual regulamenta “Investimento em Coligada, em Controlada e em Empreendimento Controlado em Conjunto Correlação às Normas Internacionais de Contabilidade – IAS 28 (IASB – BV 2012)”, determina que, avaliados pelo MEP, o investimento em controlada (neste caso, no balanço individual) deve ser inicialmente reconhecido pelo custo e o seu valor contábil será aumentado ou diminuído pelo reconhecimento da participação do investidor nos lucros ou prejuízos do período, gerados pela investida após a aquisição. A participação do investidor no lucro ou prejuízo do período da investida deve ser reconhecida no resultado do período do investidor. As distribuições recebidas da investida reduzem o valor contábil do investimento (item 10). (Grifouse.) A participação de grupo econômico em empreendimento controlado em conjunto é dada pela soma das participações mantidas pela controladora e suas outras controladas no investimento, sendo que “quando empreendimento controlado em conjunto tiver investimentos em controladas, o lucro, deve ser aqueles reconhecidos nas demonstrações contábeis do empreendimento controlado em conjunto (incluindo a participação detida pelo empreendimento controlado em conjunto no lucro, após a realização dos ajustes necessários para uniformizar as práticas contábeis”, e que “esse mesmo procedimento deve ser aplicado à figura da controlada no caso das demonstrações contábeis individuais” (item 27). É reafirmado o princípio da primazia da realidade, cuja observância leva à eliminação dos resultados entre sociedades controladoras e controladas (item 27) e que a participação do investidor nos resultados resultantes das transações intragrupo deve ser eliminada (item 28). Convém notar que, embora com as resoluções CPC as demonstrações contábeis consolidadas tenham alcançado estado ímpar de importância, essas já eram previstas pela Resolução CFC nº 784, de 1995, a seguir transcrita: 2.1.2 Da soma ou da agregação de patrimônios O Patrimônio da Entidade corolário de notável importância, notadamente pelas suas repercussões de natureza prática: as somas e agregações de patrimônios de diferentes Entidades não resultam em nova Entidade. Tal fato assume especial relevo por Fl. 1515DF CARF MF 50 abranger as demonstrações contábeis consolidadas de Entidades pertencentes a um mesmo grupo econômico, isto é, de um conjunto de Entidades sob controle único. A razão básica é a de que as Entidades cujas demonstrações contábeis são consolidadas mantém sua autonomia patrimonial, pois seus Patrimônios permanecem de sua propriedade. Como não há transferência de propriedade, não pode haver formação de novo patrimônio, condição primeira da existência jurídica de uma Entidade. O segundo ponto a ser considerado é o de que a consolidação se refere às demonstrações contábeis, mantendo se a observância dos Princípios Fundamentais de Contabilidade no âmbito das Entidades consolidadas, resultando em uma unidade de natureza econômicocontábil, em que os qualificativos ressaltam os dois aspectos de maior relevo: o atributo de controle econômico e a fundamentação contábil da sua estruturação. (Grifouse.) Quanto à afirmação do recorrente de que capitalização dos lucros (societários) em bases desproporcionais, promovida pela Nova Pactual, era necessária para a distribuição dos resultados, volto a lembrar que para distribuir ou capitalizar lucros (societários), proporcionalmente ou não, é necessário que tais lucros sejam efetivos, tenham substrato econômico, não sejam meramente escriturais/fictícios (Princípio da Primazia da Realidade). Isso posto, entendo que houve aumento indevido do custo de aquisição das ações do Banco Pactual, por meio de prática de reconhecimentos de lucros escriturais, sem substrato econômico, advindos de contabilização manifestamente abusiva e contrária aos princípios da contabilidade e aos pronunciamentos técnicos do Comitê de Pronunciamentos Contábeis, e utilizandose de interpretação do art. 10 da Lei 9.249, de 1995 (art. 135 do RIR 99), que desborda de sua interpretação finalística e históricosistemática. DETERMINAÇÃO DO LUCRO REAL No caso de pessoas jurídicas, “a determinação do lucro real será precedida da apuração do lucro líquido de cada período de apuração com observância das disposições das leis comerciais que apuram lucro real” (art. 247, § 1º, do RIR) (Grifouse.). Assim, há intensa comunicação entre o lucro real (fiscal) e o lucro líquido (societário); porém, lucro real e lucro societário são institutos diversos. O lucro real é o lucro líquido (societário) do período de apuração ajustado pelas adições, exclusões ou compensações prescritas ou autorizadas (art. 247 do RIR). Quando se trata de tributação ou de sua exclusão, no caso, a isenção (art. 176 do CTN), as regras aplicáveis são as fiscais, de apuração ou exclusão de tributos, e não as regras societárias. Já vimos que a legislação societária é contundente, no sentido de expurgar do lucros societário os investimentos apurados pelo método da equivalência patrimonial que não correspondam a ganhos (ou perdas) efetivos (art. 248, III, “b”, da Lei 6.404, de 1976). Vimos também que, de acordo com as regras societárias, “os lucros ou dividendos recebidos pela controladora não constituem receita, mas sim redução do da conta do investimento”. A legislação fiscal também é específica neste sentido, determinando que os lucros ou dividendos distribuídos pela controlada deverão ser registrados pelo Fl. 1516DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 27 51 contribuinte como diminuição do valor de patrimônio líquido do investimento, e não influenciarão as contas de resultado (receitas e despesas) (RIR 99, art. 388, §1º). Ademais, de acordo com o art. 399 do RIR 99, a contrapartida do ajuste do valor do investimento (de que trata o art. 388), por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real. RIR 99: Ajuste do Valor Contábil do Investimento Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (Grifou se.) § 1º Os lucros ou dividendos distribuídos pela coligada ou controlada deverão ser registrados pelo contribuinte como diminuição do valor de patrimônio líquido do investimento, e não influenciarão as contas de resultado (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22, parágrafo único). (Grifouse.) (...) Contrapartida do Ajuste do Valor do Patrimônio Líquido Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (Grifouse.) § 1º Não serão computadas na determinação do lucro real as contrapartidas de ajuste do valor do investimento ou da amortização do ágio ou deságio na aquisição de investimentos em sociedades estrangeiras coligadas ou controladas que não funcionem no País (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, parágrafo único, e DecretoLei 1.648, de 1978, art. 1º, IV). Ou seja, caso se optasse por distribuir os lucros da sociedade operacional (Banco Pactual), os lucros ou dividendos distribuídos por este seriam registrados como diminuição do valor de patrimônio líquido do investimento na PSA, e não influenciariam as contas de resultado (receitas e despesas) nem seriam computados na determinação do lucro real. DO LUCRO REAL COMO LIMITE À ISENÇÃO AOS LUCROS DISTRIBUÍDOS OU CAPITALIZADOS É princípio basilar no direito tributário que o poder de isentar, que é modo de exclusão do crédito tributário (CTN, art. 175, I) deriva do poder de tributar; somente que pode constituir legitimamente o crédito tributário pode prever as hipóteses de isenção. Como meio de exclusão do crédito tributário, a isenção somente pode incidir, por óbvio, nas situações em que o crédito tributário poderia ser constituído (se não incidissem Fl. 1517DF CARF MF 52 as regras isencionais); assim, presentes os aspectos do fato gerador (material, temporal, espacial, pessoal), o crédito tributário não será constituído em razão e por incidência das regras de isenção; por conseguinte, as regras de isenção não incidem se ausentes um ou alguns dos aspectos do fato gerador, uma vez que, se o tributo não pode ser constituído por não se encontrarem presentes elementos essenciais do fato gerador, o caso é simplesmente de ausência de incidência tributária, e não de isenção. No caso das pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, o lucro societário (também chamado de lucro líquido do exercício) não é elemento material do fato gerador, mas, tão somente, apenas um antecedente lógico do lucro real (Lei nº 8.981, de 1995, art. 37, § 1º). Assim, não existe regra isencional que incida sobre o lucro líquido, mas somente sobre o lucro real. Se muitos não se apercebem da relevância jurídica dessa questão é porque, de regra, em termos práticos, o lucro real é maior, em termos quantitativos, do que o lucro líquido. Tal realidade se deve a que, no cálculo do lucro real, são adicionados ao lucro líquido diversos custos, despesas, encargos, perdas, provisões, participações (RIR 99, art. 249, I) e resultados, rendimentos, receitas e quaisquer outros valores não incluídos na apuração do lucro líquido (RIR 99, art. 249, II). As exclusões do lucro líquido permitidas pela legislação fiscal (art. 250 do RIR 99), de regra são inferiores do que as adições. Tal fato foi demonstrado pelo Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil, Antonio Jose Praga de Souza, ex conselheiro deste CARF, em sua dissertação de mestrado intitulada “Imposto de Renda no Brasil: estudo de distorções, em especial algumas relacionadas à distribuição de lucros das empresas (http://www.mestradoprofissional.gov.br/ sites/images/mestrado/turma2/antoniojosepragadesouza.pdf, p. 23), o qual, ao analisar a questão da Isenção do Imposto de Renda na distribuição de lucro contábil (não tributado) concluiu: O resultado obtido em relação ao Lucro Real foi um indicador negativo, revelando que os lucros distribuídos [contabilmente] são sempre inferiores aos efetivamente tributados. Isso já era esperado, pois, a legislação do IRPJ estabelece uma série de adições a serem feitas do lucro líquido contábil da empresa para determinação do lucro real. (Grifouse.) Pois bem, ser o lucro societário, utilizado para a distribuição, de regra, inferior ao lucro real, não o torna passível de sofrer a incidência da regra isencional, pois, como visto, tal lucro não é aspecto material da hipótese de incidência do imposto sobre a renda. Como que (a) tanto o lucro líquido quanto o lucro real possuem expressão econômica, e (b) é passível de isenção apenas o lucro real, podese afirmar que, em termos monetários a “isenção aos lucros societários” distribuídos se limita ao montante do lucro real. No cálculo do lucro real, mesmo que tenham sido desobedecidas as diversas regras societárias que determinam, em grupos societários, o expurgo, nas demonstrações financeiras, dos efeitos enganosos decorrentes do cálculo do valor do investimento pelo método da equivalência patrimonial, a legislação fiscal art. 389 do RIR 99 determina a exclusão do resultado positivo da investida (no caso, Banco Pactual) na apuração do lucro real, o que anula, por completo, o efeito que essas receitas poderiam ter. Decorrentemente, não há: (a) lucro real derivado de tais resultados positivos a ser distribuído ou capitalizado pelos sócios, nem, decorrentemente, (b) Fl. 1518DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 28 53 elevação do custo de aquisição das ações derivada desse resultado positivo. Não há falar, portanto, de subsunção à regra isentiva carreada pelo art. 10 da Lei 9.249, de 1995. Verifiquese, nesse sentido, a exposição de motivos da Lei 9.249, de 1995, item 12: 12. Com relação à tributação dos lucros e dividendos, estabelecese a completa integração entre a pessoa física e a pessoa jurídica, tributandose esses rendimentos exclusivamente na empresa e isentandoos quando do recebimento pelos beneficiários. Além de simplificar os controles e inibir a evasão, esse procedimento estimula, em razão da equiparação de tratamento e das alíquotas aplicáveis, o investimento nas atividades produtivas. (Grifouse.) Assim, também sob o ângulo da distribuição de lucros é procedente a glosa no aumento do custo de aquisição das ações. Esse entendimento está de acordo com a jurisprudência firmada pelo STF na ADI 2588 (referida indiretamente pelo recorrente), que trata da tributação de lucros no exterior (art. 74 da MP 215835, de 2001, referida diretamente pelo recorrente): caso o lucro real auferido no exterior por uma controlada seja oferecido à tributação na controladora sediada no Brasil (caso, por exemplo, de lucros auferidos por sociedades sediadas em paraísos fiscais), ele é apto a se subsumir à isenção do art. 10 da Lei 9249, de 1995; caso o lucro real auferido no exterior não seja oferecido à tributação no Brasil (caso, por exemplo, de lucros auferidos no exterior por coligadas não sediadas em paraísos fiscais), o montante deste lucro não é apto a se subsumir à isenção do art. 10 da Lei 9249, de 1995. DETERMINAÇÃO DO LUCRO REAL No caso de pessoas jurídicas, “a determinação do lucro real será precedida da apuração do lucro líquido de cada período de apuração com observância das disposições das leis comerciais que apuram lucro real” (art. 247, § 1º, do RIR) (Grifouse.). Assim, há intensa comunicação entre o lucro real (fiscal) e o lucro líquido (societário); porém, lucro real e lucro societário são institutos diversos. O lucro real é o lucro líquido (societário) do período de apuração ajustado pelas adições, exclusões ou compensações prescritas ou autorizadas (art. 247 do RIR). Quando se trata de tributação ou de sua exclusão, no caso, a isenção (art. 176 do CTN), as regras aplicáveis são as fiscais, de apuração ou exclusão de tributos, e não as regras societárias. Já vimos que a legislação societária é contundente, no sentido de expurgar do lucros societário os investimentos apurados pelo método da equivalência patrimonial que não correspondam a ganhos (ou perdas) efetivos (art. 248, III, “b”, da Lei 6.404, de 1976). Vimos também que, de acordo com as regras societárias, “os lucros ou dividendos recebidos pela controladora não constituem receita, mas sim redução do da conta do investimento”. A legislação fiscal também é específica neste sentido, determinando que os lucros ou dividendos distribuídos pela controlada deverão ser registrados pelo contribuinte como diminuição do valor de patrimônio líquido do investimento, e não influenciarão as contas de resultado (receitas e despesas) (RIR 99, art. 388, §1º). Fl. 1519DF CARF MF 54 Ademais, de acordo com o art. 399 do RIR 99, a contrapartida do ajuste do valor do investimento (de que trata o art. 388), por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real. RIR 99: Ajuste do Valor Contábil do Investimento Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (Grifou se.) § 1º Os lucros ou dividendos distribuídos pela coligada ou controlada deverão ser registrados pelo contribuinte como diminuição do valor de patrimônio líquido do investimento, e não influenciarão as contas de resultado (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22, parágrafo único). (Grifouse.) (...) Contrapartida do Ajuste do Valor do Patrimônio Líquido Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (Grifouse.) § 1º Não serão computadas na determinação do lucro real as contrapartidas de ajuste do valor do investimento ou da amortização do ágio ou deságio na aquisição de investimentos em sociedades estrangeiras coligadas ou controladas que não funcionem no País (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, parágrafo único, e DecretoLei 1.648, de 1978, art. 1º, IV). Ou seja, caso se optasse por distribuir os lucros da sociedade operacional (Banco Pactual), os lucros ou dividendos distribuídos por este seriam registrados como diminuição do valor de patrimônio líquido do investimento na PSA, e não influenciariam as contas de resultado (receitas e despesas) nem seriam computados na determinação do lucro real. DO LUCRO REAL COMO LIMITE À ISENÇÃO AOS LUCROS DISTRIBUÍDOS OU CAPITALIZADOS É princípio basilar no direito tributário que o poder de isentar, que é modo de exclusão do crédito tributário (CTN, art. 175, I) deriva do poder de tributar; somente que pode constituir legitimamente o crédito tributário pode prever as hipóteses de isenção. Como meio de exclusão do crédito tributário, a isenção somente pode incidir, por óbvio, nas situações em que o crédito tributário poderia ser constituído (se não incidissem as regras isencionais); assim, presentes os aspectos do fato gerador (material, temporal, espacial, pessoal), o crédito tributário não será constituído em razão e por incidência das regras de isenção; por conseguinte, as regras de isenção não incidem se ausentes um ou alguns dos aspectos do fato gerador, uma vez que, se o tributo não pode ser constituído por não se Fl. 1520DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 29 55 encontrarem presentes elementos essenciais do fato gerador, o caso é simplesmente de ausência de incidência tributária, e não de isenção. No caso das pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, o lucro societário (também chamado de lucro líquido do exercício) não é elemento material do fato gerador, mas, tão somente, apenas um antecedente lógico do lucro real (Lei nº 8.981, de 1995, art. 37, § 1º). Assim, não existe regra isencional que incida sobre o lucro líquido, mas somente sobre o lucro real. Se muitos não se apercebem da relevância jurídica dessa questão é porque, de regra, em termos práticos, o lucro real é maior, em termos quantitativos, do que o lucro líquido. Tal realidade se deve a que, no cálculo do lucro real, são adicionados ao lucro líquido diversos custos, despesas, encargos, perdas, provisões, participações (RIR 99, art. 249, I) e resultados, rendimentos, receitas e quaisquer outros valores não incluídos na apuração do lucro líquido (RIR 99, art. 249, II). As exclusões do lucro líquido permitidas pela legislação fiscal (art. 250 do RIR 99), de regra são inferiores do que as adições. Tal fato foi demonstrado pelo Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil, Antonio Jose Praga de Souza, ex conselheiro deste CARF, em sua dissertação de mestrado intitulada “Imposto de Renda no Brasil: estudo de distorções, em especial algumas relacionadas à distribuição de lucros das empresas (http://www.mestradoprofissional.gov.br/ sites/images/mestrado/turma2/antoniojosepragadesouza.pdf, p. 23), o qual, ao analisar a questão da Isenção do Imposto de Renda na distribuição de lucro contábil (não tributado) concluiu: O resultado obtido em relação ao Lucro Real foi um indicador negativo, revelando que os lucros distribuídos [contabilmente] são sempre inferiores aos efetivamente tributados. Isso já era esperado, pois, a legislação do IRPJ estabelece uma série de adições a serem feitas do lucro líquido contábil da empresa para determinação do lucro real. (Grifouse.) Pois bem, ser o lucro societário, utilizado para a distribuição, de regra, inferior ao lucro real, não o torna passível de sofrer a incidência da regra isencional, pois, como visto, tal lucro não é aspecto material da hipótese de incidência do imposto sobre a renda. Também nesse sentido, o Parecer/PGFN/CAT/Nº 202/2013 (disponível em http://dados.pgfn.fazenda.gov.br/dataset/pareceres/resource/2022013): (...) 29. A Lei nº 11.638, de 2007, em conjunto com a Lei nº 11.941, de 2009, provocam impacto no art. 10 da Lei nº 9.245, de 1995, porque cindiram o conceito, até então coincidente, entre lucro tributável e lucro distribuível. (...) (...) 30. É verdade que antes dessa dicotomia de escriturações, poderia haver caso de distribuição de parcela que não foi considerada na tributação e que, portanto, não estava ao abrigo da isenção do art. 10, porém apenas no caso de distribuição de Fl. 1521DF CARF MF 56 valor não escriturado. Tanto assim o é que a IN SRF nº 93, de 24 de dezembro de 1997, prescreve:(...) (Grifouse.) Como que (a) tanto o lucro líquido quanto o lucro real possuem expressão econômica, e (b) é passível de isenção apenas o lucro real, podese afirmar que, em termos monetários a “isenção aos lucros societários” distribuídos se limita ao montante do lucro real. No cálculo do lucro real, mesmo que tenham sido desobedecidas as diversas regras societárias que determinam, em grupos societários, o expurgo, nas demonstrações financeiras, dos efeitos enganosos decorrentes do cálculo do valor do investimento pelo método da equivalência patrimonial, a legislação fiscal art. 389 do RIR 99 determina a exclusão do resultado positivo da investida (no caso, Banco Pactual) na apuração do lucro real, o que anula, por completo, o efeito que essas receitas poderiam ter. Decorrentemente, não há: (a) lucro real derivado de tais resultados positivos a ser distribuído ou capitalizado pelos sócios, nem, decorrentemente, (b) elevação do custo de aquisição das ações derivada desse resultado positivo. Não há falar, portanto, de subsunção à regra isentiva carreada pelo art. 10 da Lei 9.249, de 1995. Verifiquese, nesse sentido, a exposição de motivos da Lei 9.249, de 1995, item 12: 12. Com relação à tributação dos lucros e dividendos, estabelecese a completa integração entre a pessoa física e a pessoa jurídica, tributandose esses rendimentos exclusivamente na empresa e isentandoos quando do recebimento pelos beneficiários. Além de simplificar os controles e inibir a evasão, esse procedimento estimula, em razão da equiparação de tratamento e das alíquotas aplicáveis, o investimento nas atividades produtivas. (Grifouse.) Assim, também sob o ângulo da distribuição de lucros é procedente a glosa no aumento do custo de aquisição das ações. Esse entendimento está de acordo com a jurisprudência firmada pelo STF na ADI 2588 (referida indiretamente pelo recorrente), que trata da tributação de lucros no exterior (art. 74 da MP 215835, de 2001, referida diretamente pelo recorrente): caso o lucro real auferido no exterior por uma controlada seja oferecido à tributação na controladora sediada no Brasil (caso, por exemplo, de lucros auferidos por sociedades sediadas em paraísos fiscais), ele é apto a se subsumir à isenção do art. 10 da Lei 9249, de 1995; caso o lucro real auferido no exterior não seja oferecido à tributação no Brasil (caso, por exemplo, de lucros auferidos no exterior por coligadas não sediadas em paraísos fiscais), o montante deste lucro não é apto a se subsumir à isenção do art. 10 da Lei 9249, de 1995. DA ALEGAÇÃO DE ARBITRAMENTO DO CUSTO DAS AÇÕES O recorrente afirma que foram utilizados diferentes critérios nos lançamentos dos diversos acionistas do Banco Pactual. Tais critérios seriam os adotados: (1) expurgo dos efeitos da capitalização na Nova Pactual ou PSA; (2) expurgo dos efeitos da capitalização na Nova Pactual e na PSA; (3) o cálculo do custo médio ponderado das ações. Fl. 1522DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 30 57 Como amplamente exposto no meu voto, considero correto o expurgo dos efeitos da capitalização na Nova Pactual e na PSA no custo de aquisição das ações do contribuinte, como realizado no presente caso. Nos casos (1) e (2), citados pelo recorrente como exemplos de critérios diversos, houve sim, e, a meu juízo, por equívoco, a utilização de critérios mais benéficos para os respectivos contribuintes, uma vez que apenas foram expurgados os efeitos da capitalização na Nova Pactual ou na PSA. A utilização de expurgos em montante insuficiente em alguns processos, estranhos à presente lide, em nada favorece o contribuinte, já que, no presente caso, foi utilizado o critério correto. Quanto ao critério (3), cálculo do custo médio ponderado das ações, nada tem a ver com critério de fiscalização no lançamento, mas diz respeito ao cálculo do custo das ações, determinado pela legislação tributária (art. 16 da Lei 7713, de 1988 e do art. 16 da IN SRF 84, de 2001) em toda e qualquer aquisição de ações. De acordo com tais textos, “O custo de aquisição de títulos e valores mobiliários, de quotas de capital e dos bens fungíveis será a média ponderada dos custos unitários, por espécie, desses bens” (§ 2º do art. 16 da Lei 7.713, de 1988). Ademais, a necessidade de os lucros serem tributados (bancos devem obrigatoriamente apurar o lucro real, por disposição do art. 14, II, da Lei 9718, de 1998) emerge mais uma vez do texto do § 3º do art. 16 da Lei 7.713, de 1988, que refere “No caso de participação societária resultantes de aumento de capital por incorporação de lucros e reservas, que tenham sido tributados na forma do art. 36 desta Lei, o custo de aquisição é igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista beneficiário”. (Grifouse.) Vejamos o texto de tais normas. Lei 7.713, de 1988 Art. 16. O custo de aquisição dos bens e direitos será o preço ou valor pago, e, na ausência deste, conforme o caso: I o valor atribuído para efeito de pagamento do imposto de transmissão; II o valor que tenha servido de base para o cálculo do Imposto de Importação acrescido do valor dos tributos e das despesas de desembaraço aduaneiro; III o valor da avaliação do inventário ou arrolamento; IV o valor de transmissão, utilizado na aquisição, para cálculo do ganho de capital do alienante; V seu valor corrente, na data da aquisição. § 1º O valor da contribuição de melhoria integra o custo do imóvel. Fl. 1523DF CARF MF 58 § 2º O custo de aquisição de títulos e valores mobiliários, de quotas de capital e dos bens fungíveis será a média ponderada dos custos unitários, por espécie, desses bens. § 3º No caso de participação societária resultantes de aumento de capital por incorporação de lucros e reservas, que tenham sido tributados na forma do art. 36 desta Lei, o custo de aquisição é igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista beneficiário. § 4º O custo é considerado igual a zero no caso das participações societárias resultantes de aumento de capital por incorporação de lucros e reservas, no caso de partes beneficiárias adquiridas gratuitamente, assim como de qualquer bem cujo valor não possa ser determinado nos termos previsto neste artigo. (Grifouse.) IN SRF 84, de 2001 Participações societárias Art. 16. Na hipótese de integralização de capital mediante a entrega de bens ou direitos, considerase custo de aquisição da participação adquirida o valor dos bens ou direitos transferidos, constante na Declaração de Ajuste Anual ou o seu valor de mercado. § 1o Se a transferência não se fizer pelo valor constante na Declaração de Ajuste Anual, a diferença a maior é tributável como ganho de capital. § 2o No caso de ações ou quotas recebidas em bonificação, em virtude de incorporação de lucros ou reservas ao capital social da pessoa jurídica, considerase custo de aquisição da participação o valor do lucro ou reserva capitalizado que corresponder ao acionista ou sócio, independentemente da forma de tributação adotada pela empresa. § 3o Para efeito de apuração de ganho de capital na alienação de participações societárias, o custo de aquisição das ações ou quotas é apurado pela média ponderada dos custos unitários, por espécie, desses títulos. § 4o O custo médio ponderado de cada ação ou quota: I é igual ao resultado da divisão do valor total de aquisição das ações ou quotas em estoque pela quantidade total de ações ou quotas em estoque, inclusive bonificadas; II multiplicado pela quantidade de ações ou quotas alienadas, constitui o custo de aquisição para efeito da apuração do ganho de capital; III multiplicado pelo número de ações ou quotas remanescente, constitui o valor do estoque desses títulos. § 5o A cada aquisição ou baixa devem ser ajustadas as quantidades em estoque e os custos total e médio ponderado, por espécie, das ações ou quotas. (Grifouse.) Fl. 1524DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 31 59 Sublinho que a apuração do custo médio das ações com base em seu valor corrente, na data de apuração, na forma dos dispositivos citados (art. 16 da Lei 7.713, de 1988 e art. 16 da IN SRF 84, de 2001) é determinação legal e constante no Decreto 3.000, de 1999 (RIR 99), arts. 129 e 130 (citado no auto de infração), e, decorrentemente, utilizado pelo programa da Declaração de Ajuste Anual para o cálculo do ganho de capital (ver, por exemplo, efl. 1281). Gizo que, na forma do art. 16, § 4º, da Lei 7713, de 1988, é imprescindível quantificar o valor das ações recebidas pelos contribuintes, sob pena de ser igual a zero o valor do custo de aquisição a ser considerado. DEMAIS ALEGAÇÕES DO RECORRENTE Por sua vez, o Acórdão CARF 10196.570, citado pelo recorrente, trata de uma situação específica e diferente, no qual não foi obedecida a regra do art. 388, § 1º (já transcrita), que determina, em caso de reavaliação de bens do ativo, a baixa da reserva mediante redução do investimento, como se verifica à leitura de sua ementa: RESERVA DE REAVALIAÇÃO DE INVESTIMENTO EM CONTROLADA — ALIENAÇÃO DE INVESTIMENTO — NECESSIDADE DE REALIZAÇÃO DA RESERVA — A reavaliação de bens do ativo gera o aumento de seu valor contábil e, por conseguinte, diminui o ganho de capital apurado na sua alienação. Com o intuito de que haja a compensação contábil e fiscal, o valor da reserva deverá ser computado na determinação do lucro real do períodobase em que o contribuinte alienar ou liquidar o investimento. Se o Contribuinte, na alienação de seu investimento, computou em seu custo de aquisição o valor da reavaliação, o fato da investida ter realizado sua reserva no mesmo anocalendário não afasta a tributação no Contribuinte. A realização da reserva pela investida apenas autorizaria a baixa da reserva, mediante a redução do valor do investimento. Se o investimento foi alienado sem o ajuste e redução em seu valor, a reserva, no Contribuinte, deve de fato ser realizada, considerando os efeitos no resultado fiscal da alienação do investimento, com o aumento da perda ou redução do ganho. Ademais, em se tratando de isenção ou redução de base de cálculo, a Constituição Federal, art. 150, § 6º, exige que a matéria seja regulada por lei específica, que não existe no caso de capitalização de lucros societários: Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: (...) § 6º Qualquer subsídio ou isenção, redução de base de cálculo, concessão de crédito presumido, anistia ou remissão, relativos a impostos, taxas ou contribuições, só poderá ser concedido Fl. 1525DF CARF MF 60 mediante lei específica, federal, estadual ou municipal, que regule exclusivamente as matérias acima enumeradas ou o correspondente tributo ou contribuição, sem prejuízo do disposto no art. 155, § 2.º, XII, g. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 3, de 1993). Em resumo, a prática do recorrente não encontra amparo em qualquer ato legal ou infralegal por ele citado. Passo a analisar a legislação citada pelo recorrente. O art. 8º da Lei 9.532, de 1997, trata de situação diversa, ou seja, a incorporação, fusão ou cisão, na qual haja participação societária adquirida com ágio ou deságio. Inaplicável ao presente caso também a Instrução Normativa 77, de 1986, que “expede normas para efeitos de adaptação de legislação do imposto de renda em vigor ao regime de tributação das pessoas jurídicas estabelecido na Lei nº 7.450/85”. O seu subitem 5.9, citado pelo recorrente, refere que “ao aumento do capital da sucessora com a incorporação de lucros e reservas da sucedida, aplicamse as normas dos artigos 376 e 377 do RIR/80”; tais arts. 376 e 377 do RIR/80 regulamentavam, por sua vez, o art. 63, §§ 3º e 4º, do DecretoLei 1598, de 1977, dispondo, nas palavras do recorrente, que “se a pessoa jurídica restituísse capital aos sócios nos cinco anos subsequentes à capitalização de lucros, o montante do capital restituído seria tratado como dividendo”. O item 5 da IN 77, de 1986 (no qual se insere o já analisado subitem 5.9) trata das normas a serem observadas nos “casos de incorporação, fusão e cisão de que trata o artigo 33 da Lei nº 7.450/85”. É matéria estranha ao caso em análise. Igualmente inaplicável ao presente caso é o art. 33 da Lei 7.450, de 1985, que trata do balanço a ser levantado pela pessoa jurídica a ser incorporada, fusionada ou cindida, para determinar o lucro real na data da incorporação, fusão ou cisão; porém, percebase que (re)afirmase a regra de que é o lucro real (e não o societário) que deve ser levado em conta para fins dos efeitos tributários da distribuição ou da capitalização de lucros, inclusive no caso de uma incorporação: Art. 33. A pessoa jurídica incorporada, fusionada ou cindida deve levantar balanço e demonstração de resultados e determinar o lucro real na data da incorporação, fusão ou cisão, observado o seguinte: (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.323, de 1987) (Grifouse.) I o lucro real apurado será convertido em número de OTN pelo valor desta na data da incorporação, fusão ou cisão; (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.323, de 1987) II a declaração de rendimentos deverá ser apresentada até o último dia útil do mês subseqüente à ocorrência do evento; (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.323, de 1987) Também desbordam do caso concreto o art. 22 da Lei n° 9.249/95 e o art. 29, III, da Instrução Normativa SRF 84, de 2001. O primeiro, ao referir que “os bens e direitos do ativo da pessoa jurídica, que forem entregues ao titular ou a sócio ou acionista a título de devolução de sua participação no capital social, poderão ser avaliados pelo valor contábil ou de mercado”; o segundo, que determina a exclusão, para fins da determinação do ganho de capital da pessoa física dos ganhos de capital decorrentes de “restituição de participação no capital Fl. 1526DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 32 61 social mediante a entrega à pessoa física, pela pessoa jurídica, de bens e direitos de seu ativo, avaliados pelo valor contábil ou de mercado”. No caso em exame, não houve “restituição de participação no capital social mediante a entrega à pessoa física, pela pessoa jurídica, de bens e direitos de seu ativo”, mas recebimento de participação no capital social da incorporadora (controlada) em substituição à participação que o recorrente detinha na incorporada (controladora) e posterior ganho de capital na alienação das ações. É evidente a diferença entre os institutos jurídicos da “restituição de participação no capital social” e do recebimento de participação no capital em substituição a outro, que deixa de existir em face de incorporação; ademais, no respeitante à isenção (matéria tratada neste processo), o art. 111, “II”, da Lei 5.172, de 1966 (CTN), exige o uso da interpretação literal: Art. 111. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre: (...) II outorga de isenção; O entendimento professado até este momento está em consonância com o vem reiteradamente decidindo a CSRF. O capítulo seguinte trata de razões outras pelas quais o lançamento deve ser mantido, ressaltando que: (a) as razões até aqui expostas são suficientes para negar provimento ao recurso voluntário na questão do ganho de capital; (b) as razões a seguir expostas, por si só, são suficientes para se chegar à mesma conclusão. CONCLUSÕES Com base nas considerações retro, considero correto o procedimento adotado de se expurgar os efeitos da capitalização nas sociedades do Grupo Pactual no custo de aquisição das ações do contribuinte. DA MULTA QUALIFICADA No tangente à multa qualificada, sua imposição é dependente da existência, por parte do contribuinte, do dolo de praticar a sonegação ou a fraude, nos termos dos arts. 71 a 73 da Lei 4.502, de 1964, em face da remissão efetuada pelo art. 44 da Lei 9.430, de 1996: Lei 9.430, de 1996 Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Vide Lei nº 10.892, de 2004) (...) II cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de Fl. 1527DF CARF MF 62 novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. Lei 4.502, de 1964 Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. Ora, independentemente da configuração, ou não, de simulação na cadeia de operações de compra e venda do Banco Pactual à UBS AG, o contribuinte, detendo tão somente 1,75% das ações do Banco Pactual (termo de verificação fiscal, efls. 328), não poderia influenciar o modo como foi procedido o negócio. Se dolo houve, a justificar a imposição de multa qualificada, foi por parte de quem detinha o controle do Banco Pactual, e não por parte dos acionistas minoritários, que não podem decidir como se fará o negócio. Da mesmo forma, não é razoável a alegação da tentativa de impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária se as operações que deram origem às parcelas lançadas especialmente o contrato no qual eram previstos os pagamentos – já eram de conhecimento da fiscalização, em razão de procedimento fiscal anterior. Por esses motivos, entendo que a multa deve ser desqualificada, reduzida ao percentual de 75%. DA INCIDÊNCIA DOS JUROS SOBRE A MULTA O recorrente alega que é descabida a incidência de juros sobre a multa porque isso implicaria numa indireta majoração da própria penalidade e não se pode falar em mora na exigência de multa. Não assiste razão ao recorrente. Para o deslinde da questão, devese discernir os conceitos de tributo e de crédito tributário veiculados no Código Tributário Nacional (CTN). Tributo é definido em seu art. 3°: Art. 3°. Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua Fl. 1528DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 33 63 sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada. Por sua vez, os artigos 113, § 1°, 139 e 142 do CTN dispõem sobre o crédito tributário: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1° A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. (Grifouse.) Assim, a multa, apesar de não ser tributo, integra o crédito tributário e, em vista desse fato, se subsume ao tratamento dispensado ao crédito tributário pelo CTN. O art. 161 do CTN estabelece que, ao crédito tributário não pago no vencimento, devem ser acrescidos os juros moratórios à taxa disposta em lei ou, em sua falta, à taxa de um por cento ao mês:: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. (Grifouse.) Assim, ao contrário do que alega o interessado, o CTN determina a incidência de juros de mora sobre a multa lançada de ofício. A expressão “sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis” esclarece que a imposição de juros e de multa não são excludentes entre si. A previsão legal da incidência de juros sobre as multas de ofício constou nas Leis 9.430, de 1996 e 10.522, de 2002, que disciplinaram o assunto de maneira diversa ao que acontecia até então. Vejamos, inicialmente, o que diz o § 3° do art. 61 da Lei 9.430, de 1996: Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1° de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. Fl. 1529DF CARF MF 64 (...) §3° Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3° do art. 5°, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Por sua vez, os arts. 29 e 30 da Lei 10.522, de 2002, resultante da conversão da Medida Provisória 162131, de 1998 (reedição da Medida Provisória 154217, de 18 de dezembro de 1996, arts. 25 e 26), dispõem: Art. 29. Os débitos de qualquer natureza para com a Fazenda Nacional e os decorrentes de contribuições arrecadadas pela União, constituídos ou não, cujos fatos geradores tenham ocorrido até 31 de dezembro de 1994, que não hajam sido objeto de parcelamento requerido até 31 de agosto de 1995, expressos em quantidade de Ufir, serão reconvertidos para real, com base no valor daquela fixado para 1° de janeiro de 1997. (...) Art. 30. Em relação aos débitos referidos no art. 29, bem como aos inscritos em Dívida Ativa da União, passam a incidir, a partir de 1° de janeiro de 1997, juros de mora equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia Selic para títulos federais, acumulada mensalmente, até o último dia do mês anterior ao do pagamento, e de 1% (um por cento) no mês de pagamento. A multa de ofício proporcional, lançada em função de infração à legislação tributária de que resulta falta de pagamento de tributo, é débito decorrente de tributos e contribuições, estando a eles vinculada. Logo, as expressões “débitos decorrentes de tributos e contribuições” e “débitos de qualquer natureza”, utilizadas, respectivamente, nas Leis 9.430/1996 e 10.522/2002, incluem a multa de ofício. Também tratam especificadamente do assunto, determinando a cobrança de juros sobre a multa, os pareceres MF/SRF/COSIT/COOPE/SENOG n° 28, de 1998 e PGFN/CAT nº 1834, de 2013: Parecer MF/SRF/COSIT/COOPE/SENOG n° 28 3. (...). Assim, desde 01.01.97, as multas de ofício que não forem recolhidas dentro dos prazos legais previstos estão sujeitas à incidência de juros de mora equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais, acumulada mensalmente, até o último dia do mês anterior ao do pagamento, e de um por cento no mês de pagamento, desde que estejam associadas a: a) fatos geradores ocorridos a partir de 01.01.97; b) fatos geradores que tenham ocorrido até 31.12.94, se não tiverem sido objeto de pedido de parcelamento até 31.08.95. Parecer PGFN/CAT nº 1834, de 2013 Fl. 1530DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 34 65 21.Por todo o exposto, respondendo à consulta apresentada pela ProcuradoriaRegional da Fazenda Nacional da 3ª Região, por meio da Consulta Interna identificada pelo nº. 20138000CI00002, que veicula questionamentos a respeito da incidência de juros de mora sobre créditos tributários resultantes de multa de ofício aplicada pela RFB, referentes a fatos geradores ocorridos em 1995 e 1996, entendemos, salvo melhor juízo, que há incidência dos mencionados juros de mora sobre as multas de ofício, seja por aplicação do § 1º do artigo 161 do CTN, seja por determinação de norma legal específica, o que se resume nas seguintes situações: a) para a hipótese de haver créditos ainda não inscritos em dívida ativa (sob administração da RFB), decorrentes de fatos geradores ocorridos em 1995 e 1996, em razão da ausência de lei específica, incidirá a norma geral prevista no § 1º do artigo 161 do CTN, aplicandose o índice de 1% ao mês; b) para os créditos inscritos em dívida ativa da União (sob administração da PGFN), aplicase a taxa SELIC a partir de 31 de agosto de 1995, data de início da vigência do § 8º, inserido no artigo 84 da Lei nº. 8.981, de 1995, por determinação do artigo 16 da MP nº. 1.110, de 1995, objeto de sucessivas reedições e confirmado pelo artigo 17 da Lei nº. 10.522, de 2002; e c) para os créditos inscritos em dívida ativa da União, referentes a fatos geradores ocorridos entre 1 de janeiro e 30 de agosto de 1995, por ausência de norma legal específica, aplicase o índice de 1% ao mês, com base no § 1º do artigo 161 do CTN. Também nesse sentido a jurisprudência da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF): JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC. A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre a qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. (Acórdão 9202003.700) JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Recurso da Fazenda Nacional Provido. Recurso da Contribuinte Improvido. (Nº Acórdão 9101000.539) Fl. 1531DF CARF MF 66 DOS PAGAMENTOS APÓS O INÍCIO DO PROCEDIMENTO FISCAL Os pagamentos realizados após o início do procedimento fiscal não podem ser considerados espontâneos, a teor do art. 7º, § 1º do Decreto nº 70.235, de 1972: Art. 7º O procedimento fiscal tem início com: (Vide Decreto nº 3.724, de 2001) I o primeiro ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, cientificado o sujeito passivo da obrigação tributária ou seu preposto; (...) § 1° O início do procedimento exclui a espontaneidade do sujeito passivo em relação aos atos anteriores e, independentemente de intimação a dos demais envolvidos nas infrações verificadas. Correto, portanto, o procedimento de constituir o crédito tributário pelo lançamento pelo seu valor integral, sem considerar os pagamentos e as declarações apresentadas após o início do procedimento fiscal. Os pagamentos efetuados fora do regime jurídico da espontaneidade não possuem o condão de elidir a incidência da multa de ofício, e podem ser aproveitados no procedimento de cobrança, sendo imputados ao crédito tributário constituído pelo lançamento Conclusão Voto, portanto, por (a) considerar não ocorrida a decadência do poderdever de lançar o crédito tributário e (b) DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso, reduzindo a multa qualificada ao percentual de 75% e mantendo o lançamento nas demais questões. (assinado digitalmente) João Bellini Júnior Relator Fl. 1532DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 35 67 Declaração de Voto Conselheiro Fábio Piovesan Bozza Peço vênia para apresentar algumas breves considerações sobre a fundamentação de alguns tópicos, em razão do caráter controvertido da matéria e da recorrência desses casos no colegiado. Destaco que a presente declaração de voto foi preparada tendo em vista processo com o maior número de intercorrências, a exemplo das alegações de decadência e de insubsistência da multa qualificada. Portanto, a declaração de voto deverá ser ajustada, “mutatis mutandis”, à matéria controvertida nos presentes autos. Decadência A verificação do eventual transcurso do prazo decadencial para a constituição do crédito tributário por parte da fiscalização depende de alguns fatores, a saber: (i) a determinação do momento em que ocorre o fato gerador do IR sobre o ganho de capital das pessoas físicas nas alienações a prazo; (ii) a existência ou não de dolo, fraude ou simulação nas operações realizadas pelo Recorrente; e (iii) a existência ou não de pagamento antecipado. Aspecto temporal da hipótese de incidência do IRPF sobre o ganho de capital nas alienações a prazo Tratase de questão controvertida, com escassa manifestação doutrinária e com divergência jurisprudencial. De um lado, advogase que o fato gerador do imposto nessas circunstâncias ocorre por ocasião da alienação do bem, havendo somente um diferimento do pagamento do tributo para o momento do recebimento da parcela do preço pelo alienante. De outro lado, defendese que o fato gerador do IRPF continua a seguir a regra geral do regime de caixa, o qual somente ocorre com o efetivo recebimento de cada parcela do preço. A diferença entre uma e outra posição é significativa e não se restringe à decadência, podendo afetar também a determinação da lei tributária vigente no tempo (art. 144 do CTN). No caso ora analisado, contudo, a questão limitase à decadência. As principais normas relacionadas com o tema são as seguintes (grifamos): Lei nº 7.713/88 Art. 2º O imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos. (...) Art. 21. Nas alienações a prazo, o ganho de capital será tributado na proporção das parcelas recebidas em cada mês, considerandose a respectiva atualização monetária, se houver. Fl. 1533DF CARF MF 68 Lei nº 8.981/95 Art. 21. O ganho de capital percebido por pessoa física em decorrência da alienação de bens e direitos de qualquer natureza sujeitase à incidência do Imposto de Renda, à alíquota de quinze por cento. § 1º O imposto de que trata este artigo deverá ser pago até o último dia útil do mês subseqüente ao da percepção dos ganhos. § 2º Os ganhos a que se refere este artigo serão apurados e tributados em separado e não integrarão a base de cálculo do Imposto de Renda na declaração de ajuste anual, e o imposto pago não poderá ser deduzido do devido na declaração. RIR/99 Art. 140. Nas alienações a prazo, o ganho de capital deverá ser apurado como venda à vista e tributado na proporção das parcelas recebidas em cada mês, considerandose a respectiva atualização monetária, se houver (Lei nº 7.713, de 1988, art. 21). § 1º Para efeito do disposto no caput, deverá ser calculada a relação percentual do ganho de capital sobre o valor de alienação que será aplicada sobre cada parcela recebida. § 2º O valor pago a título de corretagem poderá ser deduzido do valor da parcela recebida no mês do seu pagamento. Instrução Normativa SRF nº 84/2001 Art. 31. Nas alienações a prazo, o ganho de capital é apurado como se a venda fosse efetuada à vista e o imposto é pago periodicamente, na proporção da parcela do preço recebida, até o último dia útil do mês subseqüente ao do recebimento. Parágrafo único. O imposto devido, relativo a cada parcela recebida, é apurado aplicandose: I – o percentual resultante da relação entre o ganho de capital total e valor total da alienação sobre o valor da parcela recebida; II – a alíquota de quinze por cento sobre o valor apurado na forma do inciso I. A aquisição de disponibilidade jurídica ou econômica da renda ou dos proventos de qualquer natureza, aludida pelo art. 43 do CTN, não representa um instante unívoco. Ao contrário, ela encontrase inserida em um espectro de possibilidades, demandando definição por parte do legislador ordinário. A realização dessa riqueza pode ocorrer em diversos momentos, como a celebração do negócio jurídico, a tradição do bem, o recebimento do preço etc. Compete, Fl. 1534DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 36 69 assim, ao legislador ordinário definir tal instante, observados os limites estabelecidas pela Constituição Federal e pelo CTN. E assim o fez o legislador ordinário ao editar a Lei nº 7.713/88, conformandose com tais balizas. O art. 21 da Lei nº 7.713/88, ao tratar da tributação do ganho de capital sobre alienações a prazo, afirma que a tributação ocorre “na proporção das parcelas recebidas”. Considero que tal prescrição não excepciona a regra geral do regime de caixa, consagrada pelo art. 2º da Lei nº 7.713/88 e ratificada pelo art. 21 da Lei nº 8.981/95. A regulamentação infralegal (art. 140 do RIR/99 e art. 31 da IN 84/2004) não destoa da lei – e nem poderia – ao estabelecer, respectivamente, a forma de apuração da base de cálculo e o momento da ocorrência do fato gerador do imposto: “o ganho de capital deverá ser apurado como venda à vista e tributado na proporção das parcelas recebidas em cada mês”. O fato de a base de cálculo reportarse a evento (alienação) ocorrido em momento distinto do aspecto temporal da obrigação tributária (recebimento da parcela) não é um impedimento, sequer uma novidade na legislação brasileira. Dois exemplos ilustram esse fato. Primeiro, a contribuição ao PIS, cujo fato gerador ocorria no momento em que auferido o faturamento do mês, mas a base de cálculo reportavase ao faturamento do sexto mês anterior (art. 6º, parágrafo único da Lei Complementar nº 7/70). Segundo, o IRPF no ajuste anual, cujo fato gerador ocorre em 31 de dezembro, mas a base de cálculo abarca os rendimentos percebidos e as despesas dedutíveis pagas durante todo o anocalendário (art. 7º, 8º e 25 da Lei nº 9.250/95) Na verdade, a técnica empregada pelo art. 21 da Lei nº 7.713/88 busca delimitar a composição do ganho de capital ao valor de venda do bem, ao respectivo custo de aquisição e à eventual correção monetária existente no momento da alienação, não abarcando outras verbas porventura acordadas, como eventuais juros incidentes sobre a parcela, que ficam sujeitos à tributação específica. Por outro lado, a tese do diferimento (ocorrência do fato gerador no momento da alienação) não se afigura adequada, justamente porque deriva de uma interpretação do conteúdo da lei feita às avessas, a partir das disposições do seu decreto regulamentador (“o ganho de capital deverá ser apurado como venda à vista”) 1. Em suma, o aspecto temporal da hipótese de incidência do IRPF sobre o ganho de capital nas alienações a prazo continua a ser o recebimento do preço (percepção da renda), e não o negócio jurídico da alienação (celebração do contrato de compra e venda). A existência ou não de dolo, fraude ou simulação nas operações 1 Além disso, a tese do diferimento cria situações, no mínimo, inusitadas. Se o fato gerador do IR sobre o ganho de capital nas alienações de bens a prazo ocorre no momento da alienação (de modo simplificado, na celebração do contrato), então restaria ao “recebimento do preço” o papel de mero vencimento da obrigação tributária, o qual poderia nunca ocorrer, frustrando a participação do Estado sobre riqueza já auferida pelo contribuinte. Isso porque, diferentes de outros tributos, a Lei nº 7.713/89 não indicou momento em que o diferimento estaria automaticamente interrompido. Fl. 1535DF CARF MF 70 Tal como o conselheiro relator, não vislumbro a existência de dolo, fraude ou simulação nas operações de reorganização societária promovidas. E diversas são as razões: (a) a estrutura societária com as empresas “holdings” já era preexistente, não havendo interposição fraudulenta de pessoas; (b) a extinção dessas empresas “holdings”, por meio de sucessivas incorporações reversas, refletiu o poder de escolha assegurada constitucionalmente aos particulares pela autonomia privada, observou o ordenamento jurídico e atendeu com eficiência ao compromisso assumido pelos vendedores com o comprador, demonstrando a existência de propósito negocial, quer na sua vertente de causa jurídica (a qual adoto2), quer na acepção de motivação extratributária; (c) todas as operações foram devidamente escrituradas e arquivadas no registro público, não havendo ocultação de atos; (d) o tempo na realização da reorganização societária foi adequado para alcançar a estrutura requerida pelo comprador no fechamento do negócio (“closing”), com a observância das autorizações governamentais necessárias à validade e à eficácia da operação; (e) não houve desfazimento de nenhuma etapa do procedimento de reorganização societária, nem neutralização dos respectivos efeitos, circunstância que afasta alegações de existência de pacto simulatório prévio entre as partes; (f) a conduta do Recorrente, mesmo diante de uma interpretação a meu ver equivocada sobre o alcance do art. 135 do RIR/99, pode ser qualificada como erro de direito, mas não como ato doloso, fraudulento ou simulado. Afasto, portanto, a acusação de simulação. A existência ou não de pagamento antecipado Não houve propriamente antecipação do pagamento do tributo (porque o IRPF incidente sobre o ganho de capital não está sujeito ao ajuste anual), mas sim pagamento a menor. Em conclusão, aplicandose a regra disposta no art. 150, § 4º do CTN, constatase que o lançamento do IRPF sobre a parcela do preço recebida em 01/12/2006 encontrase extinto pelos efeitos da decadência, uma vez que a ciência do auto de infração aconteceu em 14/12/2011. O lançamento sobre a outra parcela do preço, recebida em dezembro/2009, não se encontra decaída. Art. 135 do RIR/99 O mérito da autuação envolve a atualização do custo de aquisição de participações societárias detida por pessoa física, em decorrência da capitalização de lucros e reservas na pessoa jurídica investida, conforme o disposto no art. 135 do Regulamento do Imposto de Renda (RIR/99): Art. 135. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital ou incorporação de lucros 2 BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo: Quartier Latin. 2015. Fl. 1536DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 37 71 apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista (Lei nº 9.249, de 1995, art.10, parágrafo único) O Recorrente defende que a capitalização de lucros reconhecidos pelas empresas “holdings” de acordo com o método de equivalência patrimonial (MEP) é mera consequência das operações de reestruturação societária realizadas. E a legislação fiscal prevê que a capitalização de lucros e reservas gera acréscimo de custo para o acionista pessoa física, sem cogitar da natureza do lucro. Realmente, pelo MEP, os lucros (ou prejuízos) deverão ser registrados como receita (ou despesa) da empresa investidora no momento da sua geração, independentemente da formalização do ato de distribuição, afetando o valor contábil do investimento constante do ativo, na subconta de equivalência patrimonial; posteriormente, o registro contábil dos dividendos distribuídos não deverá transitar pelas contas de resultado da investidora, havendo mero lançamento permutativo entre contas do balanço patrimonial (geralmente debitandose a conta caixa ou bancos e creditandose a subconta de equivalência patrimonial). Referida sistemática de mensuração, portanto, não se esgota no fluxo financeiro de recursos, nem se limita aos efeitos dos atos jurídicos da pessoa jurídica investida. Busca, ademais, controlar e monitorar a performance das diversas entidades envolvidas, antecipando fluxos de caixa futuros ou oportunidades de negócio. O viés econômico do resultado de equivalência patrimonial, todavia, não lhe retira o efeito de interferir no resultado contábil da investidora, de forma positiva (receita) ou negativa (despesa). Consequentemente, o lucro contábil oriundo da aplicação do MEP não é meramente gráfico, nem se reduzia a uma informação econômica para os interessados, podendo ser objeto de distribuição de dividendos pela sociedade investidora. Os resultados positivos de equivalência integram o lucro da pessoa jurídica investidora e são passíveis de distribuição. Tanto assim que a Lei das S/A criou um mecanismo para evitar a incompatibilidade entre a distribuição do dividendo obrigatório e o reconhecimento do lucro pelo MEP. Por meio da reserva de lucros a realizar (art. 197)3, é possível excluir da base dos dividendos a parcela do lucro ainda não realizada financeiramente. 3 Art. 197. No exercício em que o montante do dividendo obrigatório, calculado nos termos do estatuto ou do art. 202, ultrapassar a parcela realizada do lucro líquido do exercício, a assembléiageral poderá, por proposta dos órgãos de administração, destinar o excesso à constituição de reserva de lucros a realizar. (Redação dada pela Lei nº 10.303, de 2001) § 1º Para os efeitos deste artigo, considerase realizada a parcela do lucro líquido do exercício que exceder da soma dos seguintes valores: I – o resultado líquido positivo da equivalência patrimonial (art. 248); e II – o lucro, rendimento ou ganho líquidos em operações ou contabilização de ativo e passivo pelo valor de mercado, cujo prazo de realização financeira ocorra após o término do exercício social seguinte. (Redação dada pela Lei nº 11.638,de 2007) § 2º A reserva de lucros a realizar somente poderá ser utilizada para pagamento do dividendo obrigatório e, para efeito do inciso III do art. 202, serão considerados como integrantes da reserva os lucros a realizar de cada exercício que forem os primeiros a serem realizados em dinheiro. Fl. 1537DF CARF MF 72 Para fins fiscais, todavia, os efeitos do MEP deveriam ser diferentes, conforme já tive oportunidade de manifestar opinião a respeito4: Para ser considerada constitucionalmente válida e eficaz, a incidência tributária deve recair sobre um fatosigno presuntivo de riqueza, de natureza econômica ou jurídica, que traduza a manifestação de capacidade contributiva, com razoável margem de segurança e não configure confisco. Em sua essência, o resultado de equivalência patrimonial, embora evidencie um fato econômico, não representa a aquisição de um direito ou a assunção de uma obrigação por parte da sociedade investidora, de maneira definitiva e incondicional. Não revela a aquisição de disponibilidade econômica ou jurídica de renda, exigida pelo art. 43 do CTN para permitir a incidência do imposto de renda. Traduz, isto sim, mero ajuste contábil, provisório e aproximado de potencial renda, ainda não realizada. Aliás, é importante enfatizar que o MEP revela exatamente os lucros não distribuídos pela investida. O resultado de equivalência patrimonial, portanto, não reúne os requisitos suficientes e necessários à tributação (resultado positivo) ou à dedução fiscal (resultado negativo). Por essa razão, o legislador brasileiro conferiu, corretamente, tratamento fiscal neutro aos resultados de equivalência patrimonial pelos tributos incidentes sobre a renda e sobre a receita. Há quem defenda que estas previsões legislativas apenas declaram ou reconhecem hipóteses de nãoincidência tributária, e não introduzem propriamente normas de isenção. Contudo, o artigo doutrinário denunciava que a desejada neutralidade fiscal já não era integral no âmbito legal, justamente no tema ora em debate: Em eventual alienação ou baixa do investimento, as oscilações patrimoniais da sociedade investida, desde o momento da aquisição, estarão refletidas no valor contábil do investimento em decorrência da aplicação do MEP, o qual constitui referência para apuração de ganho ou perda de capital (art. 33 do Decretolei n. 1.598/77). Quer dizer, no momento em que a sociedade investidora efetuar a alienação ou a liquidação das participações societárias, o montante que servirá de base para se definir a existência de ganho ou perda de capital será o valor contábil do investimento atualizado pelas variações do MEP, e não o custo de aquisição incorrido na data da aquisição das ações ou quotas. Posteriormente, a desejada neutralidade fiscal do MEP sofreu novo revés, agora no âmbito judicial. Por ocasião do julgamento da ADI nº 2.588, o plenário do Supremo Tribunal Federal decidiu, por maioria apertada, que o resultado positivo da avaliação dos investimentos brasileiros no exterior pelo MEP corresponde ao acréscimo patrimonial exigido pelo art. 43 do CTN e que sua disponibilidade seria econômica, resultante da contabilização pelo regime de competência. 4 BOZZA, Fábio Piovesan. “Tratamento fiscal do ágio na aquisição de investimento”. Revista Dialética de Direito Tributário nº 178. São Paulo: Dialética. 2010. Fl. 1538DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 38 73 De qualquer modo, considero que a questão envolvendo a interpretação do art. 135 do RIR/99 não está limitada à determinação da natureza do resultado positivo de equivalência patrimonial. A sistemática do MEP não justifica como o custo de aquisição das ações do Recorrente, depois de algumas operações de reestruturação societária, possa superar o montante dos próprios lucros gerados pelo banco. Não justifica, porque não pode. Se pudesse, seria um benefício fiscal, redutor do ganho de capital na eventual alienação. Mas esse não é o caso. O fato é que o art. 135 do RIR/99 encontrase na confluência de dois regimes distintos de reconhecimento de resultados: o regime de competência, no caso das pessoas jurídicas, e o regime de caixa, no caso das pessoas físicas. Cada um deles exerce influência sobre o alcance do dispositivo. A mera literalidade não basta. É preciso também compreender a sua finalidade. E a finalidade do art. 135 do RIR/99, a meu ver, foi possibilitar o aumento do custo de aquisição das participações societárias sem o necessário fluxo financeiro entre a pessoa jurídica investida e a pessoa física investidora, representado pelo pagamento de dividendos e pelo subsequente aumento de capital social. Ausente o art. 135, o aumento do referido custo de aquisição estaria condicionado a tal périplo. E esse pareceme ser o parâmetro adequado para se elucidar a função do dispositivo. Por isso, ao se interpretar o art. 135 do RIR/99 não apenas literalmente, mas também sistemática e finalisticamente, concluo que o aumento do custo de aquisição das participações societárias dependeria da capitalização dos lucros em toda a cadeia de empresas, desde o banco até as empresas “holdings”, de modo equivalente ao que aconteceria se tivesse havido o mencionado périplo financeiro entre as empresas investidas e a pessoa física investidora. Adicionalmente, vale enfatizar que os lucros sequer foram capitalizados no banco, o que justificaria, a meu ver, toda e qualquer glosa de aumento do custo de aquisição das participações da pessoa física investidora vinculado ao MEP (respeitado os limites do lançamento fiscal). No caso concreto, o dispositivo parece ter sido interpretado apenas em sua literalidade, sem considerar os aspectos sistemático e finalístico acima elencados, redundando em uma diminuição indevida do ganho de capital tributável. Em vista do exposto, acompanho o voto do eminente conselheiro relator, pelas suas conclusões. Multa de Ofício Qualificada Por não vislumbrar a ocorrência de dolo, fraude ou simulação nas operações conduzidas pelo Recorrente, nos termos já antecipados no tópico relativo à decadência, acompanho o voto do conselheiro relator também nessa parte. Juros de Mora sobre Multa de Ofício A regra veiculada pelo art. 61 da Lei nº 9.430/96 referese à incidência de acréscimos moratórios sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições. A multa de ofício não decorre de tributo ou contribuição, mas do descumprimento do dever legal de declarálo e Fl. 1539DF CARF MF 74 de pagálo. Consequentemente, afigurase inaplicável a cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício lançada. Nesse ponto, divirjo do voto do conselheiro relator. Fábio Piovesan Bozza Fl. 1540DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 39 75 Declaração de Voto Conselheiro Alexandre Evaristo Pinto Com o devido respeito, divirjo do voto do ilustre relator, uma vez que entendo que inexiste proibição legal ao aumento do custo de aquisição das ações da pessoa física objeto do presente processo. O imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza é de competência da União Federal conforme artigo 153, III, da Constituição Federal, sendo que as normas gerais do referido imposto foram estabelecidas pelos artigos 43 a 45 do Código Tributário Nacional. Segundo o artigo 45 do Código Tributário Nacional, o contribuinte do imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza é o titular da disponibilidade econômica ou jurídica da renda ou proventos adquiridos, sem prejuízo de atribuir a lei essa condição ao possuidor, a qualquer título, dos bens produtores de renda ou dos proventos tributáveis. Nessa linha, há diversas leis federais que determinam casos de titularidade de renda ou proventos por pessoas físicas residentes no Brasil ou não, configurandoas como contribuintes do imposto de renda, assim como há diversas outras leis federais que determinam casos de titularidade renda ou proventos por pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil ou não, também as configurando como contribuintes do imposto de renda. Diante de tal cenário, o imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza irá abranger tanto contribuintes pessoas físicas quanto contribuintes pessoas jurídicas. Em estudo pioneiro no Direito Brasileiro sobre as implicações tributárias da tributação pelo imposto de renda tanto das pessoas jurídicas quanto das pessoas físicas, Henry Tilbery destacava a importância de que os governos instituíssem mecanismos para extirpar ou mitigar os efeitos do “bis in idem” decorrente da possibilidade teórica da tributação pelo mesmo ente tributante de uma mesma renda tanto no âmbito da pessoa jurídica quanto no âmbito da pessoa física, conforme pode ser observado no trecho abaixo: “Independentemente da questão da justificativa teórica da tributação dos lucros em nível das pessoas jurídicas, surge o problema crucial de que esses lucros, quando já tributados na pessoa jurídica, sofrem novamente a incidência do imposto de renda nas pessoas físicas dos sócios, quando distribuídos. Não se trata de bitributação, no sentido jurídico correto da palavra, mas de “bis in idem”, isto é, o mesmo poder tributante, dentro dos limites de sua competência, grava duas vezes a mesma matéria”. (TILBERY, Henry. Imposto de Renda – Pessoas Jurídicas – Integração entre Sociedade e Sócios. São Paulo: Atlas, 1985. p. 40) Nessa linha, Henry Tilbery irá analisar à luz das finanças públicas e do direito comparado diferentes métodos de integração entre a renda das pessoas jurídicas e das pessoas físicas, sendo que destacamos que os dois principais métodos são os seguintes: (i) método de integração parcial de exclusão dos dividendos recebidos (“dividend received exclusion”), pelo qual os dividendos recebidos na pessoa física não seriam incluídos nos Fl. 1541DF CARF MF 76 rendimentos tributáveis da pessoa física sócia ou acionista da pessoa jurídica que distribuiu aqueles dividendos; e (ii) método da integração parcial pelo método da retenção (“withholding method”), pelo qual o imposto pago na pessoa jurídica seria considerado uma retenção que seria feita pela pessoa jurídica em nome das pessoas físicas sócias ou acionistas, que incluiriam os dividendos brutos como rendimentos tributáveis, podendo descontar o montante retido na fonte do imposto por elas devidos. A Lei nº 9.249/95 adotou claramente o método de integração parcial de exclusão dos dividendos recebidos, isto é, o método de isenção na distribuição e recebimento dos dividendos, conforme pode ser observado em seu artigo 10: “Art. 10. Os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, presumido ou arbitrado, não ficarão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte, nem integrarão a base de cálculo do imposto de renda do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior. Parágrafo único. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista”. Vale ressaltar que a Lei nº 12.973/14 revogou o parágrafo único do artigo 10 da Lei nº 9.249/95, acrescentando os parágrafos 1º a 3º ao referido artigo, no entanto, considerando que o período do referido processo abrange os exercícios 2010 e 2011, o parágrafo único era o dispositivo normativo válido para o momento. Com relação ao caput do artigo 10 da Lei nº 9.249/95, é possível observar que (i) os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, (ii) pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas (iii) tributadas com base no lucro real, presumido ou arbitrado, (iv) não ficarão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte, (v) nem integrarão a base de cálculo do imposto de renda do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior. Ao dispor sobre lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, verificase que a isenção pretendida irá abranger os resultados apurados a partir de janeiro de 1996. Inexiste qualquer vinculação de que os referidos lucros ou dividendos tenham sido efetivamente tributados, bastando que eles tenham sido apurados de acordo com a legislação comercial e contábil. Não poderia ser diferente, uma vez que a determinação e apuração do lucro contábil é matéria de direito privado e não de direito tributário, sendo que a legislação tributária pode sim determinar ajuste ao lucro contábil para determinação da base de cálculo do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido, nos termos do artigo 6º do DecretoLei nº 1.598/77. Nesse sentido, já lecionava Bulhões Pedreira à luz de legislação anterior do imposto de renda, conforme pode ser observado abaixo: “Lucro distribuído pressupõe, por conseguinte, lucro realizado pela pessoa jurídica que o distribui. Ou, como diz o DL 5.844, art. 8º, lucro distribuído é Fl. 1542DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 40 77 rendimento que, antes de pertencer a essa categoria já constitui lucro sujeito a tributação proporcional em poder da pessoa jurídica que o distribui. Não é necessário que tenha sido efetivamente tributado. Basta que, por sua natureza, se caracteriza como tributável na pessoa jurídica. Por exemplo: se a pessoa jurídica goza de isenção de imposto proporcional e esta isenção não aproveita aos seus sócios, os seus lucros embora não tenham sido efetivamente tributados, quando distribuídos integram a categoria comentada”. (BULHÕES PEDREIRA, José Luiz. Imposto de Renda. Rio de Janeiro: APEC Editora, 1969. Seção 7 – 2) Embora o referido comentário tenha sido feito à luz de legislação anterior, concordamos com o referido entendimento para a legislação vigente, uma vez que não há disposição determinando que somente o lucro tributado será distribuído com isenção do imposto de renda e será considerado rendimento isento pelo beneficiário. Aliás, se tal dispositivo fosse assim interpretado, teríamos a situação de que todos os lucros distribuídos por uma sociedade “holding” pura seriam tributados quando da sua distribuição e recebimento pelos sócios, uma vez que uma “holding” pura somente teria rendimentos de dividendos ou de equivalência patrimonial, que não são, a princípio, tributáveis. O artigo 10 da Lei nº 9.249/95 também dispõe que a isenção alcança os lucros ou dividendos pagos ou creditados por pessoas jurídicas. Em outras palavras, a isenção alcança não só o pagamento, mas também o crédito do lucro ou dividendo, na situação em que a distribuição do lucro ou dividendo é deliberada e aprovada em reunião de sócios ou assembleia de acionistas. A isenção também alcança os lucros e dividendos pagos ou creditados por pessoa jurídica, independentemente do regime tributário de imposto de renda, alcançando os regimes do lucro real, presumido ou arbitrado. Por fim, a isenção alcança tanto a distribuição dos lucros ou dividendos, isto é, não haverá recolhimento de imposto de renda na fonte sobre tal distribuição, assim como alcança o recebimento de tais lucros ou dividendos pelo beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior. Passando ao então vigente parágrafo único do artigo 10 da Lei nº 9.249/95, cumpre destacar que ele determinada que “no caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista”. Em outras palavras, o referido dispositivo permite que haja aumento do custo de aquisição de quotas ou ações detidas pela pessoa físicas mediante aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir de janeiro de 1996. Tal dispositivo vem a facilitar o aumento do custo de aquisição das quotas ou ações por incorporação de lucros, sem que haja necessidade de pagamento dos dividendos para que as pessoas físicas integralizem o montante relativo aos dividendos recebidos em aumento de capital da pessoa jurídica que lhes pagou os referidos dividendos. Fl. 1543DF CARF MF 78 Ocorre que no caso concreto não houve aumento de capital por incorporação dos lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, tal qual previsto no parágrafo único do artigo 10 da Lei nº 9.249/95, mas houve crédito do lucro ou dividendo nos termos do caput do parágrafo único do artigo 10 da Lei nº 9.249/95, que prevê a isenção dos lucros ou dividendos “pagos ou creditados”. Assim, houve deliberação e aprovação da distribuição dos lucros ou dividendos, ainda que eles não tenham sido efetivamente pagos, mas eles foram creditados aos acionistas. Logo, não há que se falar em cumulativo (i) recebimento dos dividendos lucros nos termos do artigo 10 da Lei nº 9.249/95e (ii) capitalização dos lucros nos termos do parágrafo único do artigo 10 da Lei nº 9.249/95. A deliberação e aprovação dos lucros ou dividendos pelos sócios fazem com que aqueles lucros apurados sejam realocados do Patrimônio Líquido para o Passivo, uma vez que se constituem em Obrigações líquidas e certas a serem pagas aos sócios. Nessa linha, como passo subsequente, os sócios e acionistas das empresas envolvidas decidem converter o Ativo (Dividendos a Receber, que integram os Bens e Direitos daquelas pessoas físicas em contrapartida aos Rendimentos Isentos de tais dividendos creditados) que eles detêm contra a sociedade, integralizandoo ao capital social de tais empresas. Sob a ótica das pessoas jurídicas, elas tiveram a conversão de um Passivo (Dividendos a Pagar, já deliberados e aprovados, portanto, uma obrigação líquida e certa) em Capital Social. Nesse sentido, houve para as pessoas físicas tanto rendimentos isentos decorrentes do crédito de Dividendos a Receber quanto uma subsequente integralização de capital mediante entrega do Ativo “Dividendos a Receber” ao capital social das pessoas jurídicas que anteriormente haviam creditado tais dividendos, sendo que a entrega de tal Ativo “líquido e certo” configura causa sim de aumento do custo de aquisição das ações e quotas. A título ilustrativo, ninguém duvidaria de que a conversão de um empréstimo bancário ao capital social de uma pessoa jurídica não configuraria custo de aquisição para a instituição financeira que decidiu realizar tal conversão e trocou o Ativo “Empréstimo a Receber” pelo Ativo “Investimento na Pessoa Jurídica”. Vale lembrar ainda que toda a capitalização de tais créditos de Dividendos a Receber (sob a ótica dos sócios e acionistas pessoas física) está fartamente documentada conforme pode ser observada nas próprias atas de Assembleias e Reuniões apresentadas no próprio vencedor. Também entendo não ser relevante analisar o caso à luz das regras contábeis aplicáveis a grupos de sociedades. Em que pese haja um farto regramento contábil para as demonstrações consolidadas, nas quais inclusive são retirados os efeitos de muitas transações efetivas realizadas entre partes relacionadas, não há dúvida de que as normas tributárias relativas ao imposto de renda adotaram a tributação com base nas demonstrações individuais. Houve até tentativa de tributação em conjunto das sociedades de um grupo no artigo 30 do DecretoLei nº 1.598/77, no entanto, o referido dispositivo foi revogado expressamente pelo DecretoLei nº 1.648/77 sem que tivesse entrado sequer em vigência. Fl. 1544DF CARF MF Processo nº 12448.726295/201481 Acórdão n.º 2301005.106 S2C3T1 Fl. 41 79 Diante de tal cenário, entendo que o contribuinte não infringiu nenhuma lei tributária ao praticar os atos que foram objeto do presente auto de infração, mas apenas se valeu de lacunas existentes nas normas brasileiras que tratam da integração entre a tributação do imposto de renda da pessoa jurídica e o imposto de renda da pessoa física. Voto, portanto, por (a) considerar não ocorrida a decadência do poderdever de lançar o crédito tributário e (b) dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Alexandre Evaristo Pinto Fl. 1545DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10830.912125/2012-15
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 15 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 31/10/2011
RESTITUIÇÃO. IMUNIDADE. AUSÊNCIA DE CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO PLEITEADO.
Para fins de concessão de pedido de restituição e/ou compensação de indébito fiscal, é imprescindível que o crédito tributário pleiteado esteja munido de certeza e liquidez. No presente caso, não logrou o contribuinte comprovar que faria jus à imunidade alegada, em razão da ausência da Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (CEBAS), requisito este essencial ao gozo da imunidade, nos termos do que determina o art. 29 da Lei 12.101/2009.
Recurso Voluntário negado.
Numero da decisão: 3301-003.839
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto do Couto Chagas - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d´Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antônio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Luiz Augusto do Couto Chagas.
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DO COUTO CHAGAS
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Ausência de certeza e liquidez do crédito pleiteado. Recorrente FUNDAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO DA UNICAMP FUNCAMP Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 31/10/2011 RESTITUIÇÃO. IMUNIDADE. AUSÊNCIA DE CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO PLEITEADO. Para fins de concessão de pedido de restituição e/ou compensação de indébito fiscal, é imprescindível que o crédito tributário pleiteado esteja munido de certeza e liquidez. No presente caso, não logrou o contribuinte comprovar que faria jus à imunidade alegada, em razão da ausência da Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (CEBAS), requisito este essencial ao gozo da imunidade, nos termos do que determina o art. 29 da Lei 12.101/2009. Recurso Voluntário negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d´Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antônio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Luiz Augusto do Couto Chagas. Relatório Tratase de manifestação de inconformidade contra Despacho Decisório eletrônico que indeferiu Pedido de Restituição Eletrônico PER referente a alegado crédito de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 91 21 25 /2 01 2- 15 Fl. 190DF CARF MF Processo nº 10830.912125/201215 Acórdão n.º 3301003.839 S3C3T1 Fl. 3 2 pagamento indevido ou a maior efetuado por meio do DARF, código de receita 8301 (PIS – Folha de Pagamento). Segundo o Despacho Decisório, o DARF informado no PER foi integralmente utilizado na quitação do respectivo débito, não restando crédito disponível para restituição. Em sua manifestação de inconformidade a interessada argumentou, em resumo, que o pagamento indevido decorre de sua condição de imune às contribuições sociais, nos termos dos art. 150, inciso VI, alínea “c”, art. 195, § 7º, c/c art. 205, art. 6º, art. 203, inciso III, art. 145, § 1º, art. 146, II, todos da Constituição Federal, e do art. 14 do CTN. Discorre sobre sua condição de imune. Requer que seja declarada como Entidade Beneficente de Assistência Social. Ao analisar o caso, a DRJ em Juiz de Fora (MG), entendeu por julgar improcedente a manifestação de inconformidade, nos termos do Acórdão 09051.866, com base primordialmente nos seguintes fundamentos: (i) a imunidade das contribuições sociais está sujeita às exigências estabelecidas pela Lei 12.101/2009; (ii) a Recorrente não possui CEBAS (Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social); (iii) o PIS não está abrangido pela imunidade estabelecida no art. 195, § 7º da Constituição Federal; e (iv) a Recorrente está sujeita ao PIS sobre a Folha de Salários e não sobre o Faturamento. Intimado da decisão e insatisfeito com o seu conteúdo, o contribuinte interpôs, tempestivamente, Recurso Voluntário através do qual alegou, resumidamente: (i) que o STF já teria pacificado seu entendimento quanto à submissão do PIS à imunidade tributária das contribuições previdenciárias fixada pelo art. 195, parágrafo 7º da Constituição Federal, conforme acórdão proferido no RE 636.941/RS, que teve repercussão geral reconhecida; (ii) que a Recorrente atende a todos os requisitos da Lei 12.101/2009 para fins de usufruto da imunidade, conforme comprovado no pedido de emissão do CEBAS protocolizado (trata sobre cada um dos requisitos); (iii) que a emissão do CEBAS é um ato administrativo vinculado, constituindo obrigação legal uma vez constatado o atendimento dos requisitos legais para gozo da imunidade; (iv) que a emissão do CEBAS tem caráter declaratório, sendolhe conferidos efeitos retroativos. Requer, ao final, que seja dado provimento ao seu recurso, para fins de deferir o pedido de restituição, por se tratar de instituição imune às contribuições previdenciárias. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Augusto do Couto Chagas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3301003.674, de 27 de junho de 2017, proferido no julgamento do processo 10830.900254/201333, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3301003.674): Fl. 191DF CARF MF Processo nº 10830.912125/201215 Acórdão n.º 3301003.839 S3C3T1 Fl. 4 3 "O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Consoante acima narrado, tratase de Pedido de Restituição Eletrônico PER nº 23871.62072.130912.1.2.040241 referente a alegado crédito de pagamento indevido ou a maior da contribuição previdenciária sobre a folha de salários a cargo do empregador, efetuado por meio do DARF no valor original de R$ 42.011,75. Como é cediço, para fins de concessão de pedido de restituição e/ou compensação de indébito fiscal, é imprescindível que o crédito tributário pleiteado esteja munido de certeza e liquidez, cuja comprovação deve ser efetuada pelo contribuinte. No caso concreto ora analisado, portanto, há de se verificar se o crédito tributário alegado pelo contribuinte encontrase revestido de tais características, sem as quais o pleito não pode ser deferido. Alega o contribuinte que o seu pleito decorre do seu direito seria líquido e certo ao gozo da imunidade. A DRJ, por seu turno, entendeu de forma diversa, conforme se extrai da passagem do voto a seguir transcrita: A imunidade relativa às pessoas jurídicas que prestam assistência social está prevista nos seguintes dispositivos constitucionais: Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: [...] VI instituir impostos sobre:(Vide Emenda Constitucional nº 3, de 1993) a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros; b) templos de qualquer culto; c) patrimônio, renda ou serviços dos partidos políticos, inclusive suas fundações, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, atendidos os requisitos da lei; d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão. [...] Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: [...] § 7º São isentas de contribuição para a seguridade social as entidades beneficentes de assistência social que atendam às exigências estabelecidas em lei. A imunidade prevista no artigo 150 acima transcrito é especifica para impostos não abrangendo às contribuições sociais. Portanto, não alcança o PIS/PASEP –Folha de Salários. A imunidade prevista no artigo 195, § 7º, é específica para contribuições para seguridade social e depende da caracterização da entidade como beneficente Fl. 192DF CARF MF Processo nº 10830.912125/201215 Acórdão n.º 3301003.839 S3C3T1 Fl. 5 4 de assistência social que atenda às exigências estabelecidas em lei, entre elas a certificação de que trata a Lei 12.101/2009, conforme dispositivos transcritos a seguir: Art. 1o A certificação das entidades beneficentes de assistência social e a isenção de contribuições para a seguridade social serão concedidas às pessoas III do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, quanto às entidades de assistência social. (...) Art. 29. A entidade beneficente certificada na forma do Capítulo II fará jus à isenção do pagamento das contribuições de que tratam os arts. 22 e 23 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, desde que atenda, cumulativamente, aos seguintes requisitos (grifo não original) Com base nos atos acima transcritos, que vinculam este colegiado de 1ª instância administrativa, a contribuinte, por não ser detentora do certificado de entidade beneficente de assistência social, não faz jus à imunidade prevista no artigo 195, § 7º, da CF/88, por descumprir exigência contida em lei. Com lastro no artigo 21 supra, não compete à RFB decidir sobre a concessão de certificados de entidade beneficente de assistência social, não tendo força vinculante as decisões judiciais e o posicionamento da doutrina mencionados pela defesa. De modo que, o pedido, para que seja declarada como Entidade Beneficente da Assistência Social, com força substitutiva do registro e da certificação de que trata o art. 21 da Lei nº 12.101/2009, não pode ser atendido no âmbito desse colegiado. A contribuinte impetrou o mandado de segurança nº 2007.61.05.0129681, junto à 2ª Vara Federal de Campinas, que atualmente tramita no TRF 3º Região, com sentença proferida reconhecendo o direito à imunidade prevista no art. 195, 7º, da CF/88, no tocante à Cofins, desde que cumpridos os requisitos do art. 14 do CTN e os deveres instrumentais acessórios estabelecidos pela legislação fiscal. Portanto, mantida a exigência do certificado de entidade beneficente de assistência social para gozo da imunidade prevista no artigo 195, 7º, da CF/88. Concordo com a conclusão a que chegou a DRJ no trecho acima, por entender que não restou comprovada a certeza e liquidez do crédito pleiteado pelo contribuinte. Embora a Recorrente tenha protocolizado pedido de emissão do CEBAS (Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social) desde 18/12/2013, é certo que este pedido ainda não foi deferido, encontrandose atualmente na situação de "encaminhado". E sendo esta emissão um requisito essencial ao gozo da imunidade pleiteada, nos termos do que determina a Lei nº 12.101/2009, não há como se entender que o crédito tributário objeto da presente demanda seja líquido e certo. Notese que o art. 29 da referida lei dispõe que fará jus à isenção a entidade beneficente certificada. Ademais, como bem destacou a DRJ em sua decisão, a análise quanto ao atendimento dos requisitos dispostos na Lei n. 12.101/2009 e a consequente concessão do Fl. 193DF CARF MF Processo nº 10830.912125/201215 Acórdão n.º 3301003.839 S3C3T1 Fl. 6 5 CEBAS não é de competência da Receita Federal do Brasil, ou mesmo deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Nesse contexto, ainda que o ato administrativo de concessão do CEBAS seja plenamente vinculado, e que os seus efeitos sejam declaratórios, conferindolhe aplicação retroativa, tais fatores não afastam a necessidade de que haja a análise quanto a tal pleito por parte da autoridade competente. Sendo assim, não há como se deferir o pleito do contribuinte de restituição apresentado, por faltarlhe certeza e liquidez. De outro norte, importante ainda que se analise o segundo fundamento da decisão recorrida, que assim dispôs: Ainda que a contribuinte fosse detentora de tal certificado, o entendimento da administração tributária é que o PIS/PASEP não está abrangido pelo artigo 195 da Carta Magna, sendo devido o seu recolhimento na forma da lei. No caso vertente, o crédito pretendido decorre de pagamento de PIS/PASEP – Folha de Salários. Cabe, então, observar o disposto no art. 13 da Medida Provisória nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001: Art. 13. A contribuição para o PIS/PASEP será determinada com base na folha de salários, à alíquota de um por cento, pelas seguintes entidades: I templos de qualquer culto; II partidos políticos; III instituições de educação e de assistência social a que se refere o art. 12 da Lei no 9.532, de 10 de dezembro de 1997; IV instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural, científico e as associações, a que se refere o art. 15 da Lei no 9.532, de 1997; V sindicatos, federações e confederações; VI serviços sociais autônomos, criados ou autorizados por lei; VII conselhos de fiscalização de profissões regulamentadas; jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, reconhecidas como entidades beneficentes de assistência social com a finalidade de prestação de serviços nas áreas de assistência social, saúde ou educação, e que atendam ao disposto nesta Lei. (...) Art. 21. A análise e decisão dos requerimentos de concessão ou de renovação dos certificados das entidades beneficentes de assistência social serão apreciadas no âmbito dos seguintes Ministérios: I da Saúde, quanto às entidades da área de saúde; II da Educação, quanto às entidades educacionais; e VIII fundações de direito privado e fundações públicas instituídas ou mantidas pelo Poder Público; IX condomínios de proprietários de imóveis residenciais ou comerciais; e Fl. 194DF CARF MF Processo nº 10830.912125/201215 Acórdão n.º 3301003.839 S3C3T1 Fl. 7 6 X a Organização das Cooperativas Brasileiras OCB e as Organizações Estaduais de Cooperativas previstas no art. 105 e seu § 1o da Lei no 5.764, de 16 de dezembro de 1971. [...].” [Grifei]. Por sua vez, os mencionados arts. 12 e 15 da Lei nº 9.532, de 1997, assim dispõem1: Art. 12. Para efeito do disposto no art. 150, inciso VI, alínea "c", da Constituição, considerase imune a instituição de educação ou de assistência social que preste os serviços para os quais houver sido instituída e os coloque à disposição da população em geral, em caráter complementar às atividades do Estado, sem fins lucrativos. (Vide artigos 1º e 2º da Mpv 2.18949, de 2001) (Vide Medida Provisória nº 215835, de 2001) § 1º Não estão abrangidos pela imunidade os rendimentos e ganhos de capital auferidos em aplicações financeiras de renda fixa ou de renda variável. § 2º Para o gozo da imunidade, as instituições a que se refere este artigo, estão obrigadas a atender aos seguintes requisitos: [...] Art. 15. Consideramse isentas as instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural e científico e as associações civis que prestem os serviços para os quais houverem sido instituídas e os coloquem à disposição do grupo de pessoas a que se destinam, sem fins lucrativos. (Vide Medida Provisória nº 215835, de 2001) § 1º A isenção a que se refere este artigo aplicase, exclusivamente, em relação ao imposto de renda da pessoa jurídica e à contribuição social sobre o lucro líquido, observado o disposto no parágrafo subseqüente. [...] § 3º Às instituições isentas aplicamse as disposições do art. 12, § 2°, alíneas "a" a "e" e § 3° e dos arts. 13 e 14. Nesse sentido, o Decreto nº 4.527, de 17 de dezembro de 2002, ao regulamentar a Contribuição para o PIS/Pasep e a Cofins, devidas pelas pessoas jurídicas de direito privado em geral, assim dispõe: Art. 9º São contribuintes do PIS/Pasep incidente sobre a folha de salários as seguintes entidades (Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 13): [...] III instituições de educação e de assistência social que preencham as condições e requisitos do art. 12 da Lei nº 9.532, de 1997; IV instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural, científico e as associações, que preencham as condições e requisitos do art. 15 da Lei nº 9.532, de 1997; [...] Fl. 195DF CARF MF Processo nº 10830.912125/201215 Acórdão n.º 3301003.839 S3C3T1 Fl. 8 7 Art. 46. As entidades relacionadas no art. 9º deste Decreto (Constituição Federal, art. 195, § 7º , e Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 13, art. 14, inciso X, e art. 17): I não contribuem para o PIS/Pasep incidente sobre o faturamento; e [...] Art. 50. A base de cálculo do PIS/Pasep incidente sobre a folha de salários mensal, das entidades relacionadas no art. 9º, corresponde à remuneração paga, devida ou creditada a empregados. [...].” [Grifei]. Portanto, considerando as normas legais supracitadas e que a contribuinte se declara imune em razão da atividade por ela exercida (atividades de apoio à educação – exceto caixas escolares), não há incidência da contribuição para o PIS/Pasep sobre o faturamento. Entretanto, é devida a contribuição para o PIS/Pasep calculada sobre a folha de salários, conforme definido no art. 13 da MP nº 2.15835, de 2001, independentemente de sua imunidade decorrer do disposto no artigo 150 ou 195 da CF/88. Assim, diante da ausência de certeza do crédito pleiteado, voto por considerar improcedente a manifestação de inconformidade, ratificando o Despacho Decisório que indeferiu a restituição pretendida. Sobre este ponto, o contribuinte alegou em seu recurso voluntário que o STF já pacificou seu entendimento quanto à submissão do PIS à imunidade tributária das contribuições previdenciárias fixada pelo art. 195, parágrafo 7º da Constituição Federal, conforme acórdão proferido no RE 636.941/RS, publicado em 04/04/2014, que teve repercussão geral reconhecida. Da análise do referido julgado, extraise que o STF chegou à seguinte conclusão: A pessoa jurídica para fazer jus à imunidade do art. 195, § 7º, CF/88, com relação às contribuições sociais, deve atender aos requisitos previstos nos artigos 9º e 14, do CTN, bem como no art. 55, da Lei nº 8.212/91, alterada pelas Lei nº 9.732/98 e Lei nº 12.101/2009, nos pontos onde não tiveram sua vigência suspensa liminarmente pelo STF nos autos da ADIN 2.2085. As entidades beneficentes de assistência social, como consequência, não se submetem ao regime tributário disposto no art. 2º, II, da Lei nº 9.715/98, e no art. 13, IV, da MP nº 2.15835/2001, aplicáveis somente àquelas outras entidades (instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural e científico e as associações civis que prestem os serviços para os quais houverem sido instituídas e os coloquem à disposição do grupo de pessoas a que se destinam, sem fins lucrativos) que não preencherem os requisitos do art. 55, da Lei nº 8.212/91, ou da legislação superveniente sobre a matéria, posto não abarcadas pela imunidade constitucional. A inaplicabilidade do art. 2º, II, da Lei nº 9.715/98, e do art. 13, IV, da MP º 2.15835/2001, às entidades que preenchem os requisitos do art. 55 da Lei nº 8.212/91, e legislação superveniente, não decorre do vício da inconstitucionalidade desses dispositivos legais, mas da imunidade em relação à contribuição ao PIS como técnica de interpretação conforme à Constituição. Fl. 196DF CARF MF Processo nº 10830.912125/201215 Acórdão n.º 3301003.839 S3C3T1 Fl. 9 8 Ou seja, o STF concluiu que as entidades beneficentes de assistência social não se submetem ao regime tributário disposto no art. 13, IV da MP n. 2.15835/2001, por fazerem jus à imunidade do art. 150, § 7º, da CF/88. E como restou conferida à tese ali assentada repercussão geral e eficácia erga omnes e ex tunc, tal entendimento deverá ser observado por este Conselho, por força do que dispõe o Regimento Interno deste Conselho, in verbis: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; (Redação dada pela Portaria MF nº 39, de 2016) II que fundamente crédito tributário objeto de: a) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 103A da Constituição Federal; b) Decisão do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos do art. 543B ou 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), na forma disciplinada pela Administração Tributária; b) Decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, na forma disciplinada pela Administração Tributária; (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) (...). § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverãoser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Com base no entendimento do STF expresso no RE 636.941/RS, há de se reconhecer, portanto, a insubsistência da conclusão constante da decisão recorrida no sentido de seria "devida a contribuição para o PIS/Pasep calculada sobre a folha de salários, conforme definido no art. 13 da MP nº 2.15835, de 2001, independentemente de sua imunidade decorrer do disposto no artigo 150 ou 195 da CF/88". Contudo, para que se possa concluir pela aplicação do julgado do STF ao caso vertente, seria necessário verificar se a Recorrente se enquadra como entidade beneficente de assistência social e se atende os requisitos legais dispostos na legislação pertinente. Ocorre que, consoante anteriormente apontado, o pedido de concessão da CEBAS (Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social), um dos requisitos para o gozo da imunidade, ainda não foi deferido pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, a Fl. 197DF CARF MF Processo nº 10830.912125/201215 Acórdão n.º 3301003.839 S3C3T1 Fl. 10 9 quem compete analisar o atendimento dos requisitos dispostos na legislação pertinente (art. 14 do CTN, art. 55, da Lei nº 8.212/91, alterada pelas Lei nº 9.732/98, e Lei nº 12.101/2009). É válido destacar, inclusive, que o STF, ao julgar o RE 636.941/RS tratou expressamente desta certificação, concluindo que "a definição dos limites objetivos ou materiais, bem como dos aspectos subjetivos ou formais, atende aos princípios da proporcionalidade e razoabilidade". É o que se infere da passagem a seguir transcrita, extraída do voto do Ministro Luiz Fux, relator do mencionado RE: Pela análise da legislação, percebese que se tem consagrado requisitos específicos mais rígidos para o reconhecimento da imunidade das entidades de assistência social (art. 195, § 7º, CF/88), se comparados com os critérios para a fruição da imunidade dos impostos (art. 150, VI, c, CF/88). Ilustrativamente, menciono aqueles exigidos para a emissão do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social – CEBAS, veiculados originariamente pelo art. 55 da Lei nº 8.212/91, ora regulados pela Lei nº 12. 101/2009. A definição dos limites objetivos ou materiais, bem como dos aspectos subjetivos ou formais, atende aos princípios da proporcionalidade e razoabilidade, não implicando significativa restrição do alcance do dispositivo interpretado, qual seja, o conceito de imunidade, e de redução das garantias dos contribuintes. Com efeito, a jurisprudência da Suprema Corte indicia a possibilidade de lei ordinária regulamentar os requisitos e normas sobre a constituição e o funcionamento das entidades de educação ou assistência (aspectos subjetivos ou formais). Diante do acima exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte, mantendo o indeferimento do pedido de restituição, conforme fundamentos acima expostos, em razão da não comprovação da certeza e liquidez do crédito pleiteado." Da mesma forma que ocorreu no caso do paradigma, no presente processo não logrou o contribuinte comprovar que faria jus à imunidade alegada, em razão da ausência da Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (CEBAS), requisito este essencial ao gozo da imunidade, nos termos do que determina o art. 29 da Lei 12.101/2009. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário, mantendo o indeferimento do pedido de restituição, conforme fundamentos acima expostos, em razão da não comprovação da certeza e liquidez do crédito pleiteado. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas Fl. 198DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10166.903846/2008-20
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 16 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Oct 16 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Data do fato gerador: 30/09/2003
SALDO NEGATIVO. RETENÇÃO NA FONTE JÁ CONSIDERADA. IMPOSSIBILIDADE DE APROVEITAMENTO EM DUPLICIDADE.
Aperfeiçoando-se o fato gerador, para a pessoa jurídica submetida ao regime de lucro real trimestral, na apuração do tributo, ao final de cada trimestre, devem ser consideradas exclusões previstas em lei, dentre elas as antecipações do imposto, efetuadas na forma de retenção na fonte. Contudo, deve-se atentar para que as tais retenções não sejam utilizadas em duplicidade.
Numero da decisão: 1402-002.738
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto- Presidente.
(assinado digitalmente)
Leonardo Luis Pagano Gonçalves - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Leonardo de Andrade Couto, Demetrius Nichele Macei, Leonardo Luis Pagano Goncalves, Paulo Mateus Ciccone, Marco Rogerio Borges, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Evandro Correa Dias. Ausente justificadamente o Conselheiro Caio Cesar Nader Quintella.
Nome do relator: LEONARDO LUIS PAGANO GONCALVES
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Data do fato gerador: 30/09/2003 SALDO NEGATIVO. RETENÇÃO NA FONTE JÁ CONSIDERADA. IMPOSSIBILIDADE DE APROVEITAMENTO EM DUPLICIDADE. Aperfeiçoando-se o fato gerador, para a pessoa jurídica submetida ao regime de lucro real trimestral, na apuração do tributo, ao final de cada trimestre, devem ser consideradas exclusões previstas em lei, dentre elas as antecipações do imposto, efetuadas na forma de retenção na fonte. Contudo, deve-se atentar para que as tais retenções não sejam utilizadas em duplicidade.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto- Presidente. (assinado digitalmente) Leonardo Luis Pagano Gonçalves - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Leonardo de Andrade Couto, Demetrius Nichele Macei, Leonardo Luis Pagano Goncalves, Paulo Mateus Ciccone, Marco Rogerio Borges, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Evandro Correa Dias. Ausente justificadamente o Conselheiro Caio Cesar Nader Quintella.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Data do fato gerador: 30/09/2003 SALDO NEGATIVO. RETENÇÃO NA FONTE JÁ CONSIDERADA. IMPOSSIBILIDADE DE APROVEITAMENTO EM DUPLICIDADE. Aperfeiçoandose o fato gerador, para a pessoa jurídica submetida ao regime de lucro real trimestral, na apuração do tributo, ao final de cada trimestre, devem ser consideradas exclusões previstas em lei, dentre elas as antecipações do imposto, efetuadas na forma de retenção na fonte. Contudo, devese atentar para que as tais retenções não sejam utilizadas em duplicidade. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Presidente. (assinado digitalmente) Leonardo Luis Pagano Gonçalves Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Leonardo de Andrade Couto, Demetrius Nichele Macei, Leonardo Luis Pagano Goncalves, Paulo Mateus Ciccone, Marco Rogerio Borges, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Evandro Correa Dias. Ausente justificadamente o Conselheiro Caio Cesar Nader Quintella. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 90 38 46 /2 00 8- 20 Fl. 271DF CARF MF Processo nº 10166.903846/200820 Acórdão n.º 1402002.738 S1C4T2 Fl. 271 2 Fl. 272DF CARF MF Processo nº 10166.903846/200820 Acórdão n.º 1402002.738 S1C4T2 Fl. 272 3 Relatório Para evitar repetições, colaciono o relatório do v. acórdão recorrido. Tratase de Declaração de Compensação, transmitida pelo Programa Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou Restituição e Declaração de Compensação PER/DCOMP, nº27151.66144.281103.1.7.029920, em 28/11/2003, de crédito relativo a saldo negativo de IRPJ referente ao 3º trimestre de 2003, no montante de R$27.601,08, visando compensar débitos tributários de PIS/Pasep do mês de outubro de 2003. No Despacho Decisório de fl. 23 emitido em 26/04/2008, a autoridade tributária não homologou a compensação declarada, sob a alegação de que não foi apurado saldo negativo, uma vez que, na Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ), correspondente ao período de apuração do crédito informado no PER/DCOMP, consta imposto a pagar. Ou seja, para o IRPJ do 3º trimestre de 2003, do qual informa a PER/DCOMP ter sido apurado saldo negativo de R$27.601,08, encontrase dissonante do informado pela contribuinte na DIPJ, onde consta a valor de IRPJ a pagar de R$119.579,96. Cientificada da decisão proferida pela DRF/Brasília, em 01/09/2008 (fl.81), a interessada apresentou a manifestação de inconformidade de fls. 01/02, em 16/09/2008 (carimbo de recepção à fl. 01), discorrendo, em síntese, que no 3º trimestre teria apurado saldo negativo, conforme demonstrativo a seguir: Ficha 12A – DIPJ Imposto sobre o Lucro Real 1) Alíquota 15% R$ 103.086,96 3) Adicional R$ 62.724,64 Deduções 5) Programa Alimentação do Trabalhador R$ 4.123,48 13) Imposto de Renda Retido na Fonte R$ 14.507,08 19) Imposto de Renda a Pagar R$ 147.181,04 Saldo Negativo Imposto de Renda a Pagar R$ 147.181,04 ( ) Imposto de Renda Retido restante no trimestre R$ 27.601,08 ( ) Pagto DARF 31/10/2003 R$ 97.664,61 ( ) Pagto DARF 13/11/2003 R$ 39.695,26 ( ) Pagto DARF 11/12/2003 R$ 643,25 ( ) Compensação PER/DCOMP 24875.43294.311003.1.3.045622 9.177,92 Fl. 273DF CARF MF Processo nº 10166.903846/200820 Acórdão n.º 1402002.738 S1C4T2 Fl. 273 4 SALDO NEGATIVO DO TRIMESTRE 27.601,08 Assim, tendo em vista o demonstrativo, e a apuração do saldo negativo de R$27.601,08 para o trimestre, requer pela homologação dos créditos. O despacho de fl. 27 desta DRJ/Brasília foi encaminhado à unidade preparadora, em 23/01/2009, no sentido de regularizar a instrução processual, demanda que foi prontamente atendida. [...] Em seguida, foi preferida decisão nos seguintes termos: A manifestação de inconformidade é tempestiva e atende aos demais requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235/1972 (PAF). Assim, dela tomase conhecimento. No caso em tela, pretende a requerente a homologação de crédito tributário, cuja origem seria pretenso saldo negativo de IRPJ apurado no 3º trimestre de 2003. A princípio, mostrase pertinente verificar a Ficha 12A da DIPJ, cujo extrato foi acostado aos autos, fls. 92/93, em consulta aos sistemas internos: Ficha 12A – DIPJ Imposto sobre o Lucro Real 1) Alíquota 15% R$ 103.086,96 3) Adicional R$ 62.724,64 Deduções 5) Programa Alimentação do Trabalhador R$ 4.123,48 13) Imposto de Renda Retido na Fonte R$ 42.108,16 19) Imposto de Renda a Pagar R$ 119.579,96 Ou seja, no item 13) IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE, a DIPJ da requerente informa o montante de R$42.108,16, e não o de R$14.507,08, transcrito na peça de defesa e constante da cópia da tela de DIPJ acostada aos autos pela contribuinte às fls. 11. Deve ter se confundido a defesa, ao acostar aos autos tela de DIPJ com inexatidão. O extrato da Ficha 12A de fls. 11 acostado pela impugnante, que informa para o 3º trimestre de 2003 o valor de IRRF de R$14.507,08, não tem lastro nos registros do sistema da Receita Federal. Observese que, a diferença entre R$42.108,16, valor correto que consta na DIPJ, e R$14.507,08, é precisamente o montante Fl. 274DF CARF MF Processo nº 10166.903846/200820 Acórdão n.º 1402002.738 S1C4T2 Fl. 274 5 de R$27.601,08, ou seja, o suposto crédito de saldo negativo de IRPJ pelo qual protesta a requerente. Ocorre que, já por ocasião da primeira decisão administrativa, Despacho Decisório de fls. 23, o valor de imposto de renda retido na fonte de R$42.108,16 foi acatado pela autoridade tributária. Tanto que, a fundamentação da citada decisão informa que o valor do imposto a pagar na DIPJ é de R$119.579,96. Dessa maneira, resta demonstrado que se equivoca a defesa ao requerer a utilização do valor de R$27.601,08 em duplicidade. A consulta da Ficha 12A da DIPJ e a motivação da não homologação do Despacho Decisório não deixam dúvidas de que, na apuração do IRPJ do 3º trimestre de 2003, foi deduzido a título de imposto de renda retido na fonte o valor de R$42.108,16, e não apenas R$14.507,08, como quer fazer crer a defesa. Por consequência, o pedido da manifestante, para que seja homologado o crédito de R$27.601,08, perde completamente o objeto, vez que tal valor já foi considerado como imposto retido na fonte na apuração do saldo negativo pela DRFBrasília. Assim sendo, pelo exposto, oriento meu voto pela improcedência da manifestação de inconformidade e pelo não reconhecimento do direito creditório pleiteado. Inconformada com o v. acórdão, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário reiterando os mesmos argumentos da impugnação e refutando o principal motivo o r. julgado "a quo" para não homologação do pedido de compensação de que o valor de R$ 42.108,16 é que foi deduzido a titulo de IRRF e não apenas R$ 14.507,08 como alega a Recorrente. A Recorrente acosta ao Recurso Voluntário os mesmo documentos já acostados aos autos em sede de manifestação de inconformidade e do pedido de compensação. É o relatório. Voto Fl. 275DF CARF MF Processo nº 10166.903846/200820 Acórdão n.º 1402002.738 S1C4T2 Fl. 275 6 Conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche todos os requisitos previstos na legislação, motivo pelo qual deve ser admitido. Ao analisar os argumentos postos no Recurso Voluntário e os documentos a ele acostados, entendo que o v. acórdão recorrido não deve ser alterado. Como muito bem apontado no julgado "a quo", consta na Ficha 12A da DIPJ, item 13 o valor de R$ 42.108,16, e não o de R$14.507,08, transcrito na manifestação de inconformidade e constante da cópia da tela de DIPJ acostada aos autos pela contribuinte às fls. 11 e repetido no Recurso Voluntário. O extrato acostado pela Recorrente da Ficha 12A (fls. 11) onde aponta para o 3 trimestre de 2003 o valor de IRRF de R$ 14.507,08 não condiz com os documentos acostados aos autos. Tal valor constante na DIPJ foi escriturado por equivoco da Recorrente. Sendo assim entendo que não assiste razão a Recorrente ao alegar que a somatória dos DARFs relativos ao recolhimento do IRPJ, mais as retenções do IRRF e a PER/DCOMP relativa a compensação com a estimativa do terceiro trimestre de 2003, restaria o saldo negativo de R$ 27.601,08 a ser compensado com o débito previsto no pedido de compensação do processo em epígrafe. De resto, utilizo os argumentos do v. acórdão recorrido para fundamentar meu voto. No caso em tela, pretende a requerente a homologação de crédito tributário, cuja origem seria pretenso saldo negativo de IRPJ apurado no 3º trimestre de 2003. A princípio, mostrase pertinente verificar a Ficha 12A da DIPJ, cujo extrato foi acostado aos autos, fls. 92/93, em consulta aos sistemas internos: Ficha 12A – DIPJ Imposto sobre o Lucro Real 1) Alíquota 15% R$ 103.086,96 3) Adicional R$ 62.724,64 Deduções 5) Programa Alimentação do Trabalhador R$ 4.123,48 13) Imposto de Renda Retido na Fonte R$ 42.108,16 19) Imposto de Renda a Pagar R$ 119.579,96 Ou seja, no item 13) IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE, a DIPJ da requerente informa o montante de R$42.108,16, e não o de R$14.507,08, transcrito na peça de defesa e constante da cópia da tela de DIPJ acostada aos autos pela contribuinte às fls. 11. Fl. 276DF CARF MF Processo nº 10166.903846/200820 Acórdão n.º 1402002.738 S1C4T2 Fl. 276 7 Deve ter se confundido a defesa, ao acostar aos autos tela de DIPJ com inexatidão. O extrato da Ficha 12A de fls. 11 acostado pela impugnante, que informa para o 3º trimestre de 2003 o valor de IRRF de R$14.507,08, não tem lastro nos registros do sistema da Receita Federal. Observese que, a diferença entre R$42.108,16, valor correto que consta na DIPJ, e R$14.507,08, é precisamente o montante de R$27.601,08, ou seja, o suposto crédito de saldo negativo de IRPJ pelo qual protesta a requerente. Ocorre que, já por ocasião da primeira decisão administrativa, Despacho Decisório de fls. 23, o valor de imposto de renda retido na fonte de R$42.108,16 foi acatado pela autoridade tributária. Tanto que, a fundamentação da citada decisão informa que o valor do imposto a pagar na DIPJ é de R$119.579,96. Dessa maneira, resta demonstrado que se equivoca a defesa ao requerer a utilização do valor de R$27.601,08 em duplicidade. A consulta da Ficha 12A da DIPJ e a motivação da não homologação do Despacho Decisório não deixam dúvidas de que, na apuração do IRPJ do 3º trimestre de 2003, foi deduzido a título de imposto de renda retido na fonte o valor de R$42.108,16, e não apenas R$14.507,08, como quer fazer crer a defesa. Por consequência, o pedido da manifestante, para que seja homologado o crédito de R$27.601,08, perde completamente o objeto, vez que tal valor já foi considerado como imposto retido na fonte na apuração do saldo negativo pela DRFBrasília. Assim sendo, pelo exposto, oriento meu voto pela improcedência da manifestação de inconformidade e pelo não reconhecimento do direito creditório pleiteado. Pelo exposto e por tudo que consta processado nos autos, conheço do Recurso Voluntário e nego provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Leonardo Luis Pagano Gonçalves Fl. 277DF CARF MF
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