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Numero do processo: 10640.001478/2007-50
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 08 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2002, 2003
DEDUÇÕES. DESPESAS MÉDICAS.
Para se gozar do abatimento pleiteado com base em despesas médicas, não basta a disponibilidade de um simples recibo, sem a vinculação do pagamento e da efetiva prestação de serviços, mormente quando foi declarada a inidoneidade dos recibos apontados pela Fiscalização. Impede a utilização dos recibos médicos, que deram origem a tal Súmula, como elementos de prova de serviços prestados, quando apresentados isoladamente, sem apoio em outros documentos probatórios complementares. Aplicação ao caso da Súmula n º 40 do CARF.
Numero da decisão: 2201-004.365
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Carlos Henrique de Oliveira - Presidente.
(assinado digitalmente)
Marcelo Milton da Silva Risso - Relator.
EDITADO EM: 06/04/2018
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, José Alfredo Duarte Filho, Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Dione Jesabel Wasilewski, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: MARCELO MILTON DA SILVA RISSO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2002, 2003 DEDUÇÕES. DESPESAS MÉDICAS. Para se gozar do abatimento pleiteado com base em despesas médicas, não basta a disponibilidade de um simples recibo, sem a vinculação do pagamento e da efetiva prestação de serviços, mormente quando foi declarada a inidoneidade dos recibos apontados pela Fiscalização. Impede a utilização dos recibos médicos, que deram origem a tal Súmula, como elementos de prova de serviços prestados, quando apresentados isoladamente, sem apoio em outros documentos probatórios complementares. Aplicação ao caso da Súmula n º 40 do CARF.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira - Presidente. (assinado digitalmente) Marcelo Milton da Silva Risso - Relator. EDITADO EM: 06/04/2018 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, José Alfredo Duarte Filho, Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Dione Jesabel Wasilewski, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
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DESPESAS MÉDICAS. Para se gozar do abatimento pleiteado com base em despesas médicas, não basta a disponibilidade de um simples recibo, sem a vinculação do pagamento e da efetiva prestação de serviços, mormente quando foi declarada a inidoneidade dos recibos apontados pela Fiscalização. Impede a utilização dos recibos médicos, que deram origem a tal Súmula, como elementos de prova de serviços prestados, quando apresentados isoladamente, sem apoio em outros documentos probatórios complementares. Aplicação ao caso da Súmula n º 40 do CARF. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Presidente. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 64 0. 00 14 78 /2 00 7- 50 Fl. 214DF CARF MF 2 Marcelo Milton da Silva Risso Relator. EDITADO EM: 06/04/2018 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, José Alfredo Duarte Filho, Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Dione Jesabel Wasilewski, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Relatório 1 Adoto inicialmente como relatório a narrativa constante do Acórdão da DRJ de fls. 184/193: “Para EVARISTO CELINO, já qualificado(a) nos autos, foi lavrado em 23/5/2007 o Auto de Infração de fls. 2/7, que lhe exige, conforme demonstrativos em anexo, o recolhimento de um crédito tributário no valor de R$ 10.169,29, sendo R$ 3.132,56 de imposto de renda pessoa física, R$ 4.698,84 de multa proporcional (passível de redução) e R$ 2.337,89 de juros de mora calculados até abril/2007. Decorreu o citado lançamento da fiscalização levada a efeito junto ao(à) contribuinte, relativa aos exercícios financeiros de 2002 e 2003, anoscalendário de 2001 e 2002, quando foi apurada a seguinte infração, minuciosamente relatada na Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal de fls. 4/7: dedução indevida de despesas médicopsicológicas – recibos inidôneos emitidos por Sérgio Luis de Campos nos anos fiscalizados. Sobre o imposto decorrente dessa infração aplicouse a multa de ofício qualificada (150%) e formalizouse o processo administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais nº 10640.001479/200702, que se encontra apensado ao presente, visto ter ficado demonstrada a ocorrência de fatos que, em tese, configurariam crime contra a Ordem Tributária, consoante definido pelo art. 1º da Lei nº 8.137, de 1990. Fl. 215DF CARF MF Processo nº 10640.001478/200750 Acórdão n.º 2201004.365 S2C2T1 Fl. 215 3 O(A) contribuinte apresenta a impugnação de fls. 106/112, argumentando, em resumo, que: No caso em tela há ausência do contraditório, garantia constitucional (art. 5º, LV, da CF) a todos os litigantes, o que não foi observado. Durante os anos de 2001 e 2002 contratou os serviços do psicólogo Sérgio Luis de Campos, os quais foram efetivamente prestados e pagos em dinheiro. Ao contrário do que constou do auto de infração, aquele psicólogo jamais vendeu recibos para este(a) impugnante, posto que todos os pagamentos, comprovados mediante apresentação de fotocópias dos respectivos recibos, ocorreram após a contraprestação dos serviços por parte do profissional. Ademais, se o Sr. Sérgio vendeu recibos, em momento algum de seu depoimento consta a venda para este(a) contribuinte. O Sr. Fiscal agiu discricionariamente, pois, lavrou um auto de infração com lastro em deduções, o que é vedado por lei. Eventual fato típico cometido pelo fraudador não pode ser atribuído a este(a) impugnante, mesmo porque prevê a CF, no art. LVII, que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. A dedução que pleiteou em suas declarações de rendimentos encontra amparo no art. 80 do RIR/1999. Nada mais legítimo e compreensível que a autoridade fiscal intimasse o(a) contribuinte para apresentar os recibos e demais documentos que sustentaram tais pagamentos, haja vista o disposto no art. 149, III, do CTN. Entende este(a) autuado(a) que atendeu in totum às solicitações fiscais, dentro do que era possível, pois enviou todos recibos comprovando os pagamentos efetuados. Não poderia provar, jamais, por meio de documentação bancária (cheques ou extratos bancários), visto que efetuou ditos pagamentos em dinheiro. Ademais, Fl. 216DF CARF MF 4 não é obrigado(a) o(a) contribuinte a manter conta bancária e através dela efetuar pagamentos ou qualquer tipo de transação. Como adimplemento e extinção das obrigações privadas, o pagamento, quando feito, exige do credor o termo de quitação, o Recibo propriamente dito. E, no presente caso, os recibos apresentados contêm todos os requisitos exigidos em lei, não se podendo duvidar de seu teor por simples desejo da auditoria fiscal da RFB, principalmente porque a legislação tributária não exige forma diferente para a comprovação do pagamento de despesas médicas. Nesse sentido, já apresentou os recibos comprobatórios dessas despesas.” 2 – A DRJ às fls. 184/193 através do Acórdão ementado abaixo decidiu pela manutenção do lançamento: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2002, 2003 DEDUÇÕES. DESPESAS MÉDICAS. Para se gozar do abatimento pleiteado com base em despesas médicas, não basta a disponibilidade de um simples recibo, sem a vinculação do pagamento e da efetiva prestação de serviços, mormente quando foi declarada a inidoneidade dos recibos apontados pela Fiscalização. A existência de Súmula de Documentação Tributariamente Ineficaz impede a utilização dos recibos médicos, que deram origem a tal Súmula, como elementos de prova de serviços prestados, quando apresentados isoladamente, sem apoio em outros documentos probatórios complementares. 3 – O contribuinte apresentou recurso voluntário fls. 200/210 pedindo o cancelamento da autuação. Importante informar que houve a necessidade de reconstituição dos Fl. 217DF CARF MF Processo nº 10640.001478/200750 Acórdão n.º 2201004.365 S2C2T1 Fl. 216 5 autos, (fls. 53 e 178) sendo que diversas peças não estão presentes no referido processo. É o relatório do necessário. Voto Conselheiro Marcelo Milton da Silva Risso Relator 4 O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, dele conheço. 5 – A fiscalização considerou como inidôneos os recibos de fls. 23/32, dos anocalendário de 2001 e 2002, relativo ao pagamento feitos ao profissional psicólogo chamado Sergio Luis de Campos, entregues pelo contribuinte durante a fiscalização, unicamente com base na Súmula n°10640.001697/200658, que resultou no Ato Declaratório ExecutivoADE de n°22, de 07/08/2006 que: 6 – Os recibos de fls. 23/32 possuem o nome do psicólogo e o nome da pessoa atendida que no caso é um dependente do contribuinte Breno de Oliveira Celino, contendo o valor pago (R$ 350,00 e R$ 300,00), CPF e registro no órgão fiscalizador da profissão no caso o CRP. 7 – Aduz o contribuinte em seu recurso que foram efetuados os pagamentos em dinheiro e que não há provas de que agiu com dolo em conjunto com o profissional declarado como inidôneo os recibos, sendo que nos depoimentos o profissional jamais fez menção ao nome do contribuinte. Fl. 218DF CARF MF 6 8 – Em seu depoimento para a RFB o contribuinte apresentou a seguinte versão a respeito dos recibos: 9 – Às Fls. 125 da súmula administrativa existe as seguintes informações quanto a pessoa do profissional Sergio Luis de Campos. 10 – Ocorre que pelo conjunto probatório aduzido pelo contribuinte, por mais que tenha declarado que tenha efetuado o pagamento em dinheiro, sendo plenamente possível, não há outros elementos de prova tais como prontuário médico de atendimento ou receituário para o dependente ou outro tipo de informação que indique a necessidade no atendimento ao dependente Breno de Oliveira Celino. Fl. 219DF CARF MF Processo nº 10640.001478/200750 Acórdão n.º 2201004.365 S2C2T1 Fl. 217 7 11 No caso de comprovação de despesas médicas através de recibos, tanto estes podem se mostrar suficientes ao convencimento do julgador, como não, pois, em alguns casos, as informações neles contidas podem estar deficitárias em relação aos requisitos formais exigidos na legislação como também podem conter informações que os fragilizem bastante, a ponto de que não estando, os recibos, acompanhados de outros documentos que comprovem a realização dos serviços, tais como, requisições médicas, laudos médicos, exames, fichas de tratamento ou internamento, notas fiscais de hospitais, de próteses e de tratamentos, entre outros, a depender do caso, e nem de documentos que comprovem a efetiva transferência do numerário referido no recibo, tais como extratos bancários, com indicação dos cheques compensados ou saques efetuados, guias de transferência bancária ou outros documentos bancários, com coincidência de datas e valores em relação aos recibos estes, por si sós, não permitem o convencimento do julgador no sentido do acatamento dos mesmos para comprovação das despesas médicas. 12 – Ocorre que no presente caso, havendo a Súmula Administrativa de Documentação Tributariamente Ineficaz, sem contudo haver outros elementos de prova, há a necessidade de aplicação da Súmula nº 40 do CARF que diz: Súmula CARF nº 40: A apresentação de recibo emitido por profissional para o qual haja Súmula Administrativa de Documentação Tributariamente Ineficaz, desacompanhado de elementos de prova da efetividade dos serviços e do correspondente pagamento, impede a dedução a título de despesas médicas e enseja a qualificação da multa de ofício. 13 – Portanto, no presente caso deve ser negado provimento ao recurso do contribuinte. Conclusão Fl. 220DF CARF MF 8 14 Diante do exposto, conheço do recurso e no mérito NEGO PROVIMENTO na forma da fundamentação. (assinado digitalmente) Marcelo Milton da Silva Risso Relator Fl. 221DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15165.720804/2013-46
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Mar 14 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Período de apuração: 03/06/2008 a 31/03/2010
DANO AO ERÁRIO. INFRAÇÃO. PENA DE PERDIMENTO. CONVERSÃO EM MULTA. VALOR DA MERCADORIA. LEI 10.637/02. CESSÃO DE NOME. INFRAÇÃO. MULTA. DEZ POR CENTO DO VALOR DA OPERAÇÃO. LEI 11.488/07. RETROATIVIDADE BENIGNA. IMPOSSIBILIDADE.
Na hipótese de aplicação da multa de dez por cento do valor da operação, pela cessão do nome, nos termos do art. 33 da Lei nº 11.488/2007, não será declarada a inaptidão da pessoa jurídica prevista no art. 81 da Lei 9.430/96. A imposição da multa não prejudica a aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, pela conversão da pena de perdimento dos bens, prevista no art. 23, inciso V, do Decreto-Lei nº 1.455/76.
Descartada hipótese de aplicação do instituto da retroatividade benigna para penalidades distintas.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. CONFIGURAÇÃO.
São solidariamente responsáveis as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, respondendo pela infração, conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie.
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Numero da decisão: 9303-006.480
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício
(Assinado digitalmente)
Tatiana Midori Migiyama Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: TATIANA MIDORI MIGIYAMA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Importação - II Período de apuração: 03/06/2008 a 31/03/2010 DANO AO ERÁRIO. INFRAÇÃO. PENA DE PERDIMENTO. CONVERSÃO EM MULTA. VALOR DA MERCADORIA. LEI 10.637/02. CESSÃO DE NOME. INFRAÇÃO. MULTA. DEZ POR CENTO DO VALOR DA OPERAÇÃO. LEI 11.488/07. RETROATIVIDADE BENIGNA. IMPOSSIBILIDADE. Na hipótese de aplicação da multa de dez por cento do valor da operação, pela cessão do nome, nos termos do art. 33 da Lei nº 11.488/2007, não será declarada a inaptidão da pessoa jurídica prevista no art. 81 da Lei 9.430/96. A imposição da multa não prejudica a aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, pela conversão da pena de perdimento dos bens, prevista no art. 23, inciso V, do Decreto-Lei nº 1.455/76. Descartada hipótese de aplicação do instituto da retroatividade benigna para penalidades distintas. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. CONFIGURAÇÃO. São solidariamente responsáveis as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, respondendo pela infração, conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
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INFRAÇÃO. PENA DE PERDIMENTO. CONVERSÃO EM MULTA. VALOR DA MERCADORIA. LEI 10.637/02. CESSÃO DE NOME. INFRAÇÃO. MULTA. DEZ POR CENTO DO VALOR DA OPERAÇÃO. LEI 11.488/07. RETROATIVIDADE BENIGNA. IMPOSSIBILIDADE. Na hipótese de aplicação da multa de dez por cento do valor da operação, pela cessão do nome, nos termos do art. 33 da Lei nº 11.488/2007, não será declarada a inaptidão da pessoa jurídica prevista no art. 81 da Lei 9.430/96. A imposição da multa não prejudica a aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, pela conversão da pena de perdimento dos bens, prevista no art. 23, inciso V, do DecretoLei nº 1.455/76. Descartada hipótese de aplicação do instituto da retroatividade benigna para penalidades distintas. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. CONFIGURAÇÃO. São solidariamente responsáveis as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, respondendo pela infração, conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 16 5. 72 08 04 /2 01 3- 46 Fl. 1643DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas – Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama – Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo contra o Acórdão nº 3301002.641, da 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais que, por voto de qualidade, negou provimento ao recurso voluntário, consignando a seguinte ementa: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Período de apuração: 03/06/2008 a 31/03/2010 QUEBRA DO SIGILO BANCÁRIO E DE DADOS. INEXISTÊNCIA QUANDO HOUVER ENTREGA ESPONTÂNEA DA INFORMAÇÃO Não há que se falar na violação do sigilo bancário ou de dados da contribuinte, quando devidamente intimada a entregar as informações bancárias ou de dados, ela o faz de maneira espontânea. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. MULTA DE 10% DO VALOR DA OPERAÇÃO. ART. 33 DA LEI Nº 11.488/2007. MULTA SUBSTITUTIVA DA PENA DE PERDIMENTO. ART. 23 DO DECRETOLEI Nº 1.455/1976. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. POSSIBILIDADE. Fl. 1644DF CARF MF Processo nº 15165.720804/201346 Acórdão n.º 9303006.480 CSRFT3 Fl. 1.644 3 A multa de 10% prevista no art. 33 da Lei nº 11.488/2007 é aplicável a quem cedeu o nome na interposição fraudulenta, em operações de comércio exterior. Ela é cabível tanto na interposição fraudulenta presumida ou comprovada. Este dispositivo legal não alterou em nada as regras vigentes a respeito da responsabilidade solidária aplicável aos que de alguma forma colaboraram com a prática do dano ao erário previsto no art. 23 do DecretoLei nº 1.455/1976. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. CONFIGURAÇÃO. São solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, respondendo pela infração, conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie. ” Insatisfeito, o sujeito passivo interpôs Recurso Especial contra o r. acórdão, trazendo, entre outros, que: · Segundo a fiscalização, o sujeito passivo havia cedido seu nome para que terceira empresa cumprisse seu objetivo de importar mercadorias e disponibilizála no mercado nacional; · A fiscalização indicou a empresa Denal Max como a real adquirente das mercadorias e o sujeito passivo como interposta pessoa na operação, imputandolhe a pena de perdimento; · A pena de perdimento somente poderia ser aplicada ao real adquirente, cabendo à pessoa interposta a penalidade prevista no art. 33 da Lei 11.488/07; · O colegiado a quo entendeu ser aplicável a pena de perdimento à pessoa interposta, enquanto o sujeito passivo entende que em face de sua atuação somente lhe seria imputada a multa capitulada no art. 33 da Lei 11.488/07; · Com a superveniência do art. 33 da Lei 11.488/07, o legislador determinou que àquele que cede o nome para terceiros realizarem importações, estaria sujeito à multa de 10% do valor da operação, enquanto ao real adquirente a penalidade aplicável seria a pena de perdimento; Fl. 1645DF CARF MF 4 · Constatando a fiscalização de que Franklin é sócio do sujeito passivo e Arnaldo foi sócio, logrou responsabilizar ambos solidariamente com alicerce no art. 95 do DecretoLei 37/66 e art. 124, inciso I, do CTN; · Há equívoco na construção normativa dos dispositivos, haja vista que o interesse comum ou a concorrência para prática de ato ilícito não pode ser estendido aos sócios, mas à sociedade que tenha praticado tais atos. A responsabilização dos sócios depende, em qualquer hipótese, de enquadramento nos arts. 135 e 137 do CTN. Requer, assim, o sujeito passivo: · O reconhecimento da existência de erro de direito, haja vista que para a conduta praticada – cessão de nome para a prática de importações de terceiros – a penalidade cominada é a do art. 33 da Lei 1.488, e não a pena de perdimento; · A exclusão dos responsáveis solidários – Franklin e Arnaldo – do polo passivo, como responsáveis solidários. Em Despacho às fls. 1604 a 1607, foi dado seguimento ao Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo. Contrarrazões foram apresentadas pela Fazenda Nacional, requerendo o não provimento ao recurso interposto pelo sujeito passivo. É o relatório. Voto Conselheira Tatiana Midori Migiyama, Relatora. Depreendendose da análise do Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo, entendo que o recurso atende aos pressupostos de admissibilidade, pois tempestivo e comprovada a divergência suscitada. O que concordo com o Despacho de admissibilidade do recurso. Eis o que traz o Despacho (Grifos meus): Fl. 1646DF CARF MF Processo nº 15165.720804/201346 Acórdão n.º 9303006.480 CSRFT3 Fl. 1.645 5 “Cuidase de Recurso Especial interposto, tempestivamente, pelo contribuinte supra identificado, com fulcro no art. 67 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, em face do acórdão nº 3301002.641, de 18 de março de 2015, prolatado pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção do CARF, ementado da seguinte forma: [...] Acordaram os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao recurso, considerando que "o art. 727 do Decreto nº 6759, de 05/02/2009, atual Regulamento Aduaneiro, vigente à época dos fatos, deixou expresso que a aplicação da multa de 10% não afasta a aplicação da multa de perdimento" ou da multa substitutiva do perdimento, mantendose a responsabilidade solidária aos verdadeiros artífices das operações realizadas pela autuada, quais sejam, "as pessoas físicas Franklin Mendes Freiberger e Arnaldo Simões Júnior a quem deve ser aplicada a obrigação solidária decorrente dos art. 124, inc. I do CTN e art. 95 do DecretoLei nº 37/1966." Em seu Recurso Especial, o contribuinte alega a ocorrência, no acórdão recorrido, de divergências na interpretação da lei tributária em relação à interpretação dada por outras turmas do CARF, conforme destacado na sequência. Primeiramente, alega o Recorrente a ocorrência de erro na sujeição passiva da autuação, pois, segundo ele, à pessoa que cede o nome para terceiros realizarem importações se aplica apenas a multa de 10% do valor das mercadorias, nos termos do art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007, e não a multa de 100% do valor da mercadoria prevista no art. 23 do Decretolei nº 1.455, de 1976, esta aplicável somente ao real adquirente ou encomendante das mercadorias. Para comprovar o dissenso, foi colacionado como paradigma o acórdão nº 340202.362, de 23 de abril de 2014, proferido pela 2ª Fl. 1647DF CARF MF 6 Turma Ordinária da 4ª Câmara da 3ª Seção do CARF, ementado, na parte de interesse desta análise, da seguinte forma: IMPORTAÇÃO INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA – MULTA APLICÁVEL AO IMPORTADOR OSTENSIVO CESSÃO DE NOME PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE DA SANÇÃO IMPOSSIBILIDADE DE CUMULAÇÃO. Com o advento da multa de 10% instituída pelo art. 33 da Lei nº 11.488/07, em face do princípio da especialidade da sanção, não mais se justifica a aplicação ao importador ostensivo da multa de 100% prevista no art. 33, inc. V, do Decretolei nº 1.455/76, sob pena de ilegal bis in idem. Do simples cotejo entre as ementas dos acórdãos recorrido e paradigma, bem como da análise dos resultados dos julgamentos, constatase a ocorrência de interpretação divergente quanto à(s) multa(s) aplicável(eis) na situação sob comento, tendose por configurado, portanto, o requisito exigido pelo art. 67, §§ 1º e 8º, do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF). Alega, também, o Recorrente a necessidade de exclusão dos responsáveis indicados no polo passivo, em razão da inexistência de responsabilidade solidária. Segundo ele, o interesse comum preconizado pelo art. 124, inciso I, do Código Tributário Nacional (CTN), para fins de atribuição de responsabilidade, não se presta a atribuir responsabilidade aos sócios, mas a estender a sujeição passiva àqueles que praticam o fato gerador em conjunto. Aos sócios, segundo o Recorrente, poderseiam aplicar os arts. 134, 135 e 137 do CTN, com base na responsabilização pessoal do agente (sócio ou gestor), e não no interesse comum, pois o interesse comum não se revela pelo interesse econômico no resultado ou no proveito da situação que constitui o fato gerador da obrigação, mas no interesse jurídico, que diz respeito à realização comum ou conjunta da situação que constitui o fato gerador. Para comprovar o dissenso, foi colacionado como paradigma o acórdão nº 140201.643, de 9 de abril de 2014, proferido pela 2ª Fl. 1648DF CARF MF Processo nº 15165.720804/201346 Acórdão n.º 9303006.480 CSRFT3 Fl. 1.646 7 Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção do CARF, ementado, na parte de interesse desta análise, da seguinte forma: SOLIDARIEDADE E RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. NECESSIDADE DE DISTINÇÃO. A solidariedade tributária de que trata as situações previstas no artigo 124, I, do CTN, pressupõe a existência de dois sujeitos passivos praticando conduta lícita, descrita na regramatriz de incidência tributária. Do fato gerador, nestas situações, decorre a possibilidade do sujeito ativo exigir o pagamento de tributos de qualquer um dos sujeitos que integrou a relação jurídico tributária. A responsabilidade tributária decorrente das situações previstas no artigo 135 do CTN, está ligada à prática de atos com excesso de poderes, infração de lei, contrato social ou estatutos, por quem não integra a relação jurídico tributária, mas é chamado a responder pelo crédito tributário em virtude do ilícito praticado. A situação prevista no artigo 124, I, não pode ser confundida com as situações de que trata o artigo 135 do CTN. Nas hipóteses contidas no artigo 135 vamos encontrar duas normas autônomas, uma aplicável em relação ao contribuinte, aquele que pratica o fato gerador (art. 121, I) e outra em relação ao terceiro que não participa da relação jurídicotributária, mas que, por violação de determinados deveres, pode vir a ser chamado a responder pela obrigação) (RE 562.726/PR, j. 03/11/2010, sob a forma do artigo 543B do CPC). Também aqui, do simples cotejo entre as ementas dos acórdãos recorrido e paradigma, bem como da análise dos resultados dos julgamentos, constatase a ocorrência de interpretação divergente em relação ao dispositivo do CTN aplicável à responsabilização dos sócios, tendose por configurado, portanto, o requisito exigido pelo art. 67, §§ 1º e 8º, do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF). Fl. 1649DF CARF MF 8 Ressaltese que ambos os processos dos acórdãos paradigmas encontramse ainda em tramitação no CARF, o primeiro pendente de julgamento de recurso especial e o segundo de embargos de declaração. Tratase de matérias prequestionadas, com comprovação da divergência jurisprudencial. Procedida à análise com fundamento na Portaria CARF nº 24, de 25 de maio de 2015, submeto este exame de admissibilidade ao Presidente da 3ª Câmara da 3a Seção de Julgamento do CARF. [...]” Nesse ínterim, conheço o Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo. Antes de se adentrar à primeira discussão, importante recordar que o sujeito passivo é pessoa jurídica que atuou na importação e comércio de mercadorias em geral, especificamente no ramo de importação e comércio de mobílias para residências e escritórios. No desenvolvimento das suas atividades operacionais, pelo que narra a fiscalização, acabou por realizar procedimentos de importações por conta e ordem de terceiros, sem informar a circunstância ao Fisco, motivo pelo qual foi objeto de fiscalizações que culminaram com o perdimento de inúmeras cargas, além da inaptidão do seu CNPJ. Os Srs. Arnaldo Simões e Franklin Freiberger – inicialmente imputados como responsáveis solidários da relação jurídica veiculada. Conforme a fiscalização, o sujeito passivo realizou diversas operações de importação por intermédio de terceiros e sem comprovar a origem dos recursos empregados no comércio exterior e, por este fato, lhe foram impostas as consequências jurídicas aplicáveis – perdimento de mercadorias e inaptidão de CNPJ. Fl. 1650DF CARF MF Processo nº 15165.720804/201346 Acórdão n.º 9303006.480 CSRFT3 Fl. 1.647 9 Passadas tais considerações, passo a discorrer sobre a 1ª matéria trazida em recurso – qual seja, penalidade aplicável ao sujeito passivo. Em relação à essa discussão, vêse que esse Colegiado, por unanimidade de votos, já firmou o entendimento consignado no acórdão 9303 006.001 da lavra do ilustre conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal. Para melhor elucidar, trago a ementa consignada nesse acórdão: “ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 30/01/2006 a 23/06/2006 DANO AO ERÁRIO. INFRAÇÃO. PENA DE PERDIMENTO. CONVERSÃO EM MULTA. VALOR DA MERCADORIA. LEI 10.637/02. CESSÃO DE NOME. INFRAÇÃO. MULTA. DEZ POR CENTO DO VALOR DA OPERAÇÃO. LEI 11.488/07. RETROATIVIDADE BENIGNA. IMPOSSIBILIDADE. Na hipótese de aplicação da multa de dez por cento do valor da operação, pela cessão do nome, nos termos do art. 33 da Lei nº 11.488/2007, não será declarada a inaptidão da pessoa jurídica prevista no art. 81 da Lei 9.430/96. A imposição da multa não prejudica a aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, pela conversão da pena de perdimento dos bens, prevista no art. 23, inciso V, do DecretoLei nº 1.455/76. Descartada hipótese de aplicação do instituto da retroatividade benigna para penalidades distintas.” Para melhor elucidar o entendimento exposto pelo ilustre conselheiro, transcrevo parte de seu voto: “Inicio pelo art. 33 da Lei 11.488/2007. Art. 33. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Fl. 1651DF CARF MF 10 Parágrafo único. À hipótese prevista no caput deste artigo não se aplica o disposto no art. 81 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996. (grifos acrescidos) O Regulamento Aduaneiro hoje vigente assim dispõe a respeito do assunto – Decreto 6.759/09: Art. 727. Aplicase a multa de dez por cento do valor da operação à pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários (Lei nº 11.488, de 2007, art. 33, caput). (...) § 3o A multa de que trata este artigo não prejudica a aplicação da pena de perdimento às mercadorias importadas ou exportadas. É de clareza singular. A Lei trata do efeito imediato da aplicação da multa, qual seja, afastar a declaração de inaptidão da pessoa jurídica (art. 81 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996). A meu ver, já seria suficiente, uma vez que apenas essa consequência foi prevista para os casos de imposição da multa por cessão de nome. Mas o Decreto deu o passo seguinte. O parágrafo 3º do art. 727 confirma com todas as letras o entendimento de que a imposição de multa por cessão de nome não prejudica a aplicação da pena de perdimento às mercadorias importadas ou exportadas2, afastando qualquer possibilidade de que prospere a interpretação de que aquela retroaja na forma do art. 106 do Código Tributário Nacional. E orientam no mesmo sentido as demais disposições infralegais acerca do assunto Até a promulgação da Lei nº 11.488/2007, a cessão do nome para o acobertamento do real beneficiário da operação trazia como consequência (i) a pena de perdimento da mercadoria ou conversão em multa e (ii) proposição de inaptidão do CNPJ (IN SRF 568/2005). O artigo 343, inciso III, da IN SRF 568/2005 dispunha sobre a inaptidão da inscrição do CNPJ de entidade considerada inexistente de fato. O artigo 414, inciso III, considerava inexistente de fato a pessoa jurídica que "tenha cedido seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de terceiros, com vistas ao acobertamento de seus reais beneficiários;". Fl. 1652DF CARF MF Processo nº 15165.720804/201346 Acórdão n.º 9303006.480 CSRFT3 Fl. 1.648 11 Treze dias após a edição da Lei nº 11.488/2007, foi publicada a IN RFB nº 748/2007, revogando a IN RFB 568/2005. O artigo 41 da nova IN suprimiu a hipótese de cessão de nome com vistas ao acobertamento dos reais beneficiários em operações no exterior, como causa de declaração da inexistência de fato da PJ. Ou seja, também os atos normativos editados pela Secretaria da Receita Federal confirmam que a penalidade prevista no artigo 33 da Lei nº 11.488/2007 foi introduzida no ordenamento jurídico com propósito substituir a declaração de inaptidão pelo simples ato de ceder o nome. Todas as premissas até aqui adotadas e as conclusões a que remetem são, ainda, reforçadas pelo Parecer de encaminhamento do projeto de lei de Conversão da MP nº 351/2007 na Lei nº 11.488/2007, com a seguinte observação: “Já no art. 35, juntamente com a modificação da redação do art. 81 da Lei no 9.430, de 1996, contida no art. 15 do PLV, sugerimos a adequação dos critérios legais para se declarar a inaptidão de inscrição das pessoas jurídicas e da multa aplicável no caso de cessão de nome da empresa para realização de operações de comércio exterior de terceiros.” A derradeira conclusão é a de que o ato de ceder o nome com vistas ao acobertamento do real beneficiário acarreta duas infrações, cujos bens jurídicos tutelados são distintos: o próprio erário e o controle aduaneiro como um todo, e a integridade do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica. Enquanto o artigo 33 da Lei nº 11.488/2007 resguarda a higidez do CNPJ, coibindo seu uso indevido, em substituição da declaração de inaptidão, o inciso V do artigo 23 do Decretolei nº 1.455/1976 protege o Erário e o próprio controle aduaneiro. Finalmente, descartase a hipótese de violação do princípio non bis in idem. As disposições legais de que aqui tratamos foram, desde o início, concebidas à luz da interpretação dada pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional às abstrações normativas presentes na legislação tributária que regulamenta as operações de comércio exterior. Foi com base no Parecer PGFN CAT 1.316/01 que forjaramse os instrumentos capazes de alcançar todas as pessoas envolvidas nas atividades Fl. 1653DF CARF MF 12 irregulares, principalmente, o proprietário das mercadorias importadas de forma irregular. Como se sabe, o artigo 31 do DecretoLei nº 37/66, considera contribuinte do Imposto de Importação aquele que promove a entrada de mercadoria estrangeira no território nacional5. Um dos pontos de partida de todo empreendimento que deu origem às alterações na legislação havidas ao longo do ano de 2001 foi a interpretação veiculada no Parecer PGFN CAT 1.316/01, segundo a qual o contribuinte do Imposto de Importação é a pessoa cujo nome aparece no conhecimento de carga como sendo o proprietário da mercadorias importada, independentemente de quem esteja efetivamente interessado na aquisição ou fizer as negociações prévias. Como consequência da manifestação do Órgão, as autuações da Fiscalização Federal passaram, obrigatoriamente, a indicar, como importador, a pessoa informada com tal nas declarações de importação, mesmo que um terceiro fosse quem, verdadeiramente, promovesse o ingresso das mercadorias em território nacional. Por conta disso, nos casos de infração por interposição fraudulenta, o sujeito passivo da obrigação principal anotado no auto de infração será sempre a pessoa que registrou a declaração de importação, embora, o mais das vezes, pretendase alcançar o verdadeiro proprietário das mercadorias, que, por força da legislação superveniente ao Parecer supra citado, figura como solidário pelo imposto e, em regra geral, também pelas infrações cometidas. Portanto, ainda que pareçam duas penalidades decorrentes de um mesmo evento e exigidas de uma mesma pessoa jurídica, tratamse, na verdade, de uma multa (10%) destinada a apenar o importador e de outra (100%) destinada àquele que, informalmente, se costuma chamar o "verdadeiro importador", identificado nas disposições legais como sendo o adquirente por conta e ordem ou encomendante das mercadorias. [...]” Sendo assim, voto, nessa parte, por negar provimento ao Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo. No que tange à outra discussão posta em recurso – qual seja, a exclusão ou não dos responsáveis solidários – Franklin e Arnaldo – do polo passivo, como responsáveis solidários, depreendendose da análise dos autos do processo, entendo da mesma forma exposta pelo redator designado do acórdão recorrido, Fl. 1654DF CARF MF Processo nº 15165.720804/201346 Acórdão n.º 9303006.480 CSRFT3 Fl. 1.649 13 considerando o entendimento exposto acima. O que transcrevo parte de seu voto (Grifos meus): “Portanto a existência desta multa, aplicada pela cessão de nome, não prejudica a responsabilidade solidária aplicada nas infrações caracterizadas como dano ao erário. No presente caso, diante das provas produzidas no curso de fiscalização e de sua fundamentação, não há dúvidas de que houve ocultação do real adquirente. Da mesma forma devese manter a responsabilidade solidária aos verdadeiros artífices das operações realizadas pela autuada. No caso as pessoas físicas Franklin Mendes Freiberger e Arnaldo Simões Júnior a quem deve ser aplicada a obrigação solidária decorrente dos art. 124, inc. I do CTN e art. 95 do DecretoLei nº 37/1966. Somente a título de informação, entendo incabível a alegação de que quem deveria figurar no pólo passivo do auto de infração deveria ser a pessoa jurídica Denal Max. Conforme consta dos autos esta empresa teve declarada a sua inaptidão no CNPJ. Nesta condição seria juridicamente inapropriado alguém, que a própria Receita Federal, declara a sua inaptidão para ser representada no cadastro nacional da pessoa jurídica, ou seja, que passa a inexistir no universo das pessoas jurídicas, figurar no pólo passivo da obrigação tributária. No mínimo deveriam ser os seus sócios de fato, os quais já estão respondendo solidariamente a presente exigência.” Recordase que a auditoria relata e comprova que ARNALDO SIMÕES JUNIOR foi sócio da empresa autuada e se retirou da sociedade formalmente para a entrada do sócio FRANKLIN MENDES FREIBERGER. Entretanto, demonstra que ambos permaneceram responsáveis pela administração da empresa PRIME MOBILE bem como pelas operações de comércio exterior realizadas por ela. Fl. 1655DF CARF MF 14 Ambos detinham a participação direta nas operações em que foram constatadas as infrações apuradas, o que demonstra interesse comum nas citadas operações. Em vista de todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso especial interposto pelo sujeito passivo. É como voto. (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Fl. 1656DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.011332/2006-81
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 17 00:00:00 UTC 2012
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ
Ano calendário:2004
RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVIDADE. À luz do art. 33 do
Decreto 70.235/1972, o recurso voluntário deve ser interposto no prazo de 30 dias contados da ciência da Decisão de 1a. instância. Na situação versada nos autos o contribuinte perdeu o prazo por 50 dias, sem trazer qualquer justificativa na peça recursal.
Recurso Voluntário Não Conhecido em face da intempestividade.
Numero da decisão: 1402-000.862
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário, em face de sua intempestividade, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
Matéria: IRPJ - glosa de compensação de prejuízos fiscais
Nome do relator: Moisés Giacomelli Nunes da Silva
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AUTO DE INFRAÇÃO Recorrente COMPANHIA DE SANEAMENTO DO PARANA SANEPAR Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2004 RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVIDADE. À luz do art. 33 do Decreto 70.235/1972, o recurso voluntário deve ser interposto no prazo de 30 dias contados da ciência da Decisão de 1a. instância. Na situação versada nos autos o contribuinte perdeu o prazo por 50 dias, sem trazer qualquer justificativa na peça recursal. Recurso Voluntário Não Conhecido em face da intempestividade. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário, em face de sua intempestividade, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. . . (assinado digitalmente) Albertina Silva Santos de Lima Presidente (assinado digitalmente) Moisés Giacomelli Nunes da Silva Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Antônio José Praga de Souza, Carlos Pelá, Frederico Augusto Gomes de Alencar, Moisés Giacomelli Nunes da Silva e Fl. 317DF CARF MF Impresso em 23/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/02/2012 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL, Assinado digitalmente em 23/02/2012 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL, Assinado digitalmente em 23/02/2012 por ALBERTINA SIL VA SANTOS DE LIMA Processo nº 10980.011332/200681 Acórdão n.º 140200.862 S1C4T2 Fl. 0 2 Albertina Silva Santos de Lima. Ausente, justificadamente, o Conselheiro Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira. Fl. 318DF CARF MF Impresso em 23/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/02/2012 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL, Assinado digitalmente em 23/02/2012 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL, Assinado digitalmente em 23/02/2012 por ALBERTINA SIL VA SANTOS DE LIMA Processo nº 10980.011332/200681 Acórdão n.º 140200.862 S1C4T2 Fl. 0 3 Relatório COMPANHIA DE SANEAMENTO DO PARANÁ SANEPAR, já qualificada nos autos, recorre da decisão de primeira instância, que julgou procedente em procedente a exigência de que trata este processo. Consta da decisão recorrida o seguinte relato: Tratase de lançamento de Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ), referente a fato gerador ocorrido no ano de 2002, no valor consolidado de" R$1.375.789,22, com imposição de multa de oficio de 75%. A autuação decorreu da compensação indevida de prejuízo fiscal, em vista da inexistência de saldo suficiente para a compensação informada na DIPJ. No curso da ação fiscal, o contribuinte informara que o sistema de controle do saldo de prejuízo fiscal utilizado pela RFB (Sapli) apresentava inconsistências, ao que a fiscalização observou que as divergências verificadas devemse a lançamentos suplementares relativos aos anos de 1989, 1990 e 1991 (fls. 28 a 64), que reduziram o saldo de prejuízo fiscal acumulado nos períodos e repercutiram no saldo disponível em 31.12.2002 para compensação. Em 25.9.2006, o sujeito passivo foi cientificado do lançamento (fl. 125) e, em 24.10.2006, apresentou impugnação de fls. 127 a 129, pela qual aduz, em síntese: a) que a análise em seus registros indica que havia saldo de prejuízo suficiente para suportar a compensação informada; b) que o Sapli tem inconsistências, pois as copias dos Manuais de Orientação para preenchimento das D1RPJ's dos anos de 1989 a 1990 atestam a exatidão da realização mínima dos saldos de lucro inflacionário naqueles periodos; c) que deve ser cancelada a exigência fiscal. A decisão recorrida está assim ementada: COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZO. INSUFICIÊNCIA DE SALDO. Demonstrado nos autos que o sujeito passivo não possuía saldo de prejuízo fiscal suficiente para amparar a compensação do lucro, procedente a glosa. LANÇAMENTO DE OFICIO. REDUÇÃO DO SALDO NEGATIVO DE IRPJ. JUROS E MULTA DE OFÍCIO NÃO EXIGÍVEIS. O imposto apurado de oficio deve abater o saldo de imposto negativo informado na DIPJ. Se este saldo é o suficiente para extinguir o tributo apurado em lançamento de oficio. descabe a aplicação de multa de oficio e juros. Lançamento Procedente em Parte. Fl. 319DF CARF MF Impresso em 23/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/02/2012 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL, Assinado digitalmente em 23/02/2012 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL, Assinado digitalmente em 23/02/2012 por ALBERTINA SIL VA SANTOS DE LIMA Processo nº 10980.011332/200681 Acórdão n.º 140200.862 S1C4T2 Fl. 0 4 Cientificada da aludida decisão em 19/02/2009 (fl. 192), a contribuinte apresentou não apresentou recurso voluntário no prazo de 30 dias, sendo que em 7/04/2009 a contribuinte apresentou a petição de fls. 195 e seguintes afirmando que a base de cálculo de que trata esse processo está sendo cobrada em duplicidade no processo 10980.903127/200643. O pleito foi dirigido a DRJ Curitiba, mas a DRF de Origem entendeu que a competência seria deste Conselho e mediante despacho de fl. 258 encaminhou os autos ao CARF registrando a intempestividade. É o relatório. Fl. 320DF CARF MF Impresso em 23/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/02/2012 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL, Assinado digitalmente em 23/02/2012 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL, Assinado digitalmente em 23/02/2012 por ALBERTINA SIL VA SANTOS DE LIMA Processo nº 10980.011332/200681 Acórdão n.º 140200.862 S1C4T2 Fl. 0 5 Voto Conselheiro Moisés Giacomelli Nunes da Silva, Relator. Inicio verificando os pressuposto de admissibilidade do recurso voluntário. Conforme relatado, a decisão de 1a. instância foi no sentido de julgar a impugnação procedente em parte pelo que toda a exigência foi cancelada, mediante redução do direito creditório relativo ao saldo negativo de recolhimentos do IRPJ apurado pela contribuinte. Tanto na decisão da DRJ, quanto na intimação da DRF de origem, está expressa a possibilidade de o contribuinte apresentar recurso voluntário no prazo de 30 dias, sendo esse o único recurso possível em face da decisão parcialmente favorável. Ocorre que o contribuinte não fez uso dessa prerrogativa no prazo hábil. Pois bem, o artigo 33 do Decreto 70.235 de 1972, estabelece: Art. 33. Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão. Segundo as regras contidas no artigo 210 do CTN, artigo 66 da Lei n° 9.784, de 2001 e artigo 5° do Decreto 70.235, de 6 de março de 1972, abaixo transcritos, os prazos são contados segundo a sistemática “dies a quo non computator in término”, ou seja, desconsiderase o “dies a quo”, contase o “dies ad quem”, sendo que nenhum deles pode iniciar ou acabar em dia não útil ou sem expediente normal. A contagem dos prazos fixados no CTN. “Art. 210. Os prazos fixados nesta Lei ou na legislação tributária serão contínuos, excluindose na sua contagem o dia de início e incluindose o de vencimento. Parágrafo único. Os prazos só se iniciam ou vencem em dia de expediente normal na repartição em que corra o processo ou deva ser praticado o ato.” A contagem dos prazos disciplinados na Lei n° 9.784, de 2001. “Art. 66. Os prazos começam a correr a partir da data da cientificação oficial, excluindose da contagem o dia do começo e incluindose o do vencimento. § 1º. Considerase prorrogado o prazo até o primeiro dia útil seguinte se o vencimento cair em dia em que não houver expediente ou este for encerrado antes da hora normal. § 2º. Os prazos expressos em dias contamse de modo contínuo. Fl. 321DF CARF MF Impresso em 23/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/02/2012 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL, Assinado digitalmente em 23/02/2012 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL, Assinado digitalmente em 23/02/2012 por ALBERTINA SIL VA SANTOS DE LIMA Processo nº 10980.011332/200681 Acórdão n.º 140200.862 S1C4T2 Fl. 0 6 § 3º. Os prazos fixados em meses ou anos contamse de data a data. Se no mês do vencimento não houver o dia equivalente àquele do início do prazo, temse como termo o último dia do mês.” A contagem dos prazos disciplinados no Decreto n° 70.235, de 1972. “Art. 5°. Os prazos serão contínuos, excluindose na sua contagem o dia do início e incluindose o do vencimento. Parágrafo único. Os prazos só se iniciam ou vencem no dia de expediente normal no órgão em que corra o processo ou deva ser praticado o ato.” O artigo 210 do CTN, diferentemente de diversos outros dispositivos do Código Tributário Nacional (por exemplo, os arts. 116, 120, 161, § 1°), não admite disposição em contrário. Ou seja, não se trata de mera norma de aplicação subsidiária, a ser utilizada na falta de dispositivo específico nas legislações federais, estaduais e municipais. Obriga a todos, de modo que a legislação – qualquer que seja – que dispuser em sentido contrário não terá validade. Por sua vez, o artigo 5º do Decreto 70.235, de 6 de março de 1972, que dispõe sobre o processo administrativo fiscal, estabelece que “os prazos serão contínuos, excluindose na sua contagem o dia do início e incluindose o do vencimento”. A expressão “prazos contínuos” prevista no artigo 5° do Decreto 70.235, de 6 de março de 1972, quer dizer em dias corridos, sem interrupção pelos domingos e feriados. Em síntese, o prazo recursal de trinta dias previsto no artigo 33 do Decreto nº 70.235, de 1972 começa a fluir no primeiro dia útil subsequente a intimação do interessado, sendo que esta pode ser pessoal, via postal ou por meio eletrônico. No caso dos autos, a recorrente, tomou ciência do acórdão de primeira instancia em 19/02/2009, via postal (fl. 192). E protocolou sua manifestação, tomada como recurso voluntário, em 7/4/2009, fl.195 e seguintes, ou seja, quase dois meses após o termino do prazo, quando já havia precluído seu direito de recorrer. ISSO POSTO, voto por não conhecer do recurso voluntário, em face de sua intempestividade. (assinado digitalmente) Moisés Giacomelli Nunes da Silva Fl. 322DF CARF MF Impresso em 23/02/2012 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/02/2012 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL, Assinado digitalmente em 23/02/2012 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SIL, Assinado digitalmente em 23/02/2012 por ALBERTINA SIL VA SANTOS DE LIMA
score : 1.0
Numero do processo: 16327.721542/2013-08
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Apr 12 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3302-000.702
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em sobrestar o julgamento até a decisão definitiva do processo nº 16327.720993/2012-39.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Fernandes do Nascimento - Relator.
Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Raphael Madeira Abad, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior e José Renato Pereira de Deus.
Nome do relator: JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em sobrestar o julgamento até a decisão definitiva do processo nº 16327.720993/2012-39. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède - Presidente. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento - Relator. Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Raphael Madeira Abad, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior e José Renato Pereira de Deus.
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ARREDAMENTO MERCANTIL Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em sobrestar o julgamento até a decisão definitiva do processo nº 16327.720993/201239. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Relator. Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Raphael Madeira Abad, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior e José Renato Pereira de Deus. Relatório Por bem descrever os fatos adotase o relatório contido no acórdão recorrido, que seque transcrito: Trata o presente processo de “Declarações de Compensação” de alegado crédito da COFINS recolhida sobre a receita bruta, conforme definido pela Lei nº 9.718/98, e a maior do que o devido nos termos da Lei Complementar nº 70/91, períodos de apuração Fev/01 a Set/04, assunto esse objeto de discussão judicial na ação nº 2006.61.00.0034220. Foi lançada multa de ofício isolada de 50% no processo 16327.721542/201308, apenso ao presente. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 63 27 .7 21 54 2/ 20 13 -0 8 Fl. 529DF CARF MF Processo nº 16327.721542/201308 Resolução nº 3302000.702 S3C3T2 Fl. 529 2 O Despacho Decisório fls. 212/232 relata que: a interessada pleiteou a declaração de inexistência de relação jurídica pertinente à exigência da COFINS nos moldes do §1ª do art. 3º da Lei nº 9.718/98, com o reconhecimento do direito de compensar ou restituir os valores excedentes ao devido com base no faturamento, este entendido como a receita bruta conforme definido pelo art. 2º da LC nº 70/91, acrescentando que neste conceito não se enquadram quaisquer outras receitas de natureza diversa, tais como as provenientes de locação de imóveis, receitas financeiras, etc. a União apresentou a competente Contestação, nela esgrimindo, com fulcro nas alíneas b e c do § 1º do art. 1º do DL nº 1.940/82 que instituiu o FINSOCIAL, com a redação dada pelo art. 22 do DL nº 2.397/87, a constitucionalidade da exigência da COFINS nos moldes da Lei nº 9.718/98, particularmente, a incidência sobre as receitas financeiras da autora, posto que integrantes da sua receita operacional (PAF nº 16327.720740/201184). em 13/07/06 o juízo singular a julgou procedente, declarando a inexistência relação jurídica no tocante à ampliação da base de cálculo da COFINS prevista na Lei nº 9.718/98 e o direito à compensação do indébito com quaisquer outros tributos administrados pela RFB; a interessada embargou requerendo ao juízo “a quo” esclarecimentos quanto (i) à exclusão das receitas financeiras da base de cálculo, como formulada no item “a” do pedido contido na inicial, com o reconhecimento do indébito da COFINS dos períodos Fev/01 a Set/05, e (ii) ao direito, por sua opção, à restituição do indébito em espécie, como referido no item “b” do pedido; em 14/08/06, o juízo singular os acolheu parcialmente, “tão somente para explicitar que a procedência da ação implicou o acolhimento dos pedidos formulados”. da apelação, extraise ter a Fazenda Nacional repisado os mesmos argumentos expendidos na contestação oferecida à inicial, mormente no que diz respeito à equivalência, para efeitos fiscais, dos conceitos Receita Bruta e Faturamento, consoante o já decidido pelo STF, e à constitucionalidade da exigência da COFINS com base na Lei nº 9.718/98, a qual estaria, inclusive, respaldada pela edição da EC nº 20/98; Por outro lado, em face da apelação interposta pela União, o interessado apresentou ContraRazões, nela então combatendo a identidade dos conceitos “faturamento” e “receita bruta”, esta última entendida como a soma das receitas decorrentes das atividades típicas das instituições financeiras, e a suposta legalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 por força da EC nº 20/98, como defendidas pela Fazenda Nacional, bem como reiterando o direito à devolução do indébito mediante compensação ou restituição, acrescidos dos juros SELIC; No julgamento da apelação, Em sessão realizada em 29/08/07, houve por bem a Terceira Turma do 3º TRF, por unanimidade, dar parcial Fl. 530DF CARF MF Processo nº 16327.721542/201308 Resolução nº 3302000.702 S3C3T2 Fl. 530 3 provimento à apelação e à remessa oficial, cujo acórdão foi assim ementado, verbis: “EMENTA TRIBUTÁRIO. COFINS. LEI 9.718/98. ALTERAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. ART. 3º, § 1º, DA LEI 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. COMPENSAÇÃO. CRITÉRIOS. 1. A matéria posta em discussão já mereceu apreciação pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal, por ocasião do julgamento dos Recursos Extraordinários 357.590/RS, 390.840/MG e 358.273/RS, nos quais foi declarada a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei 9.718/98. 2. A prescrição para restituição de indébitos é quinquenal. 3. As parcelas podem ser compensadas, por iniciativa do contribuinte, somente com débitos da própria COFINS, nos termos da Lei 8.383/91. 4. Esta Turma não aplica à espécie a Lei 9.430/96, inclusive com a alteração promovida pela Lei 10.637/2002, sob o fundamento (i) da inaplicabilidade do direito superveniente e (ii) tendo em vista que a opção pelo pedido de compensação na via judicial exclui o direito previsto na Lei 9.430/96 restrito à via administrativa. 5. Incidirá a taxa SELIC, por força do art. 39, § 4º, da Lei 9.250/95, que determina sua aplicação à compensação tributária e que é, conforme jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, ao mesmo tempo, índice de correção monetária e de juros de mora. 6. Apelação e remessa oficial providas em parte.” Compulsando o voto condutor do acórdão, constatase ter o relator reconhecido, em consonância com os precedentes do STF que declararam a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, o direito do interessado, no tocante à base de calculo, de recolher a COFINS de acordo com a LC nº 70/91, ou seja, sobre o faturamento, assim considerado a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e de serviços de qualquer natureza, silenciando, porém, quanto às exclusões indicadas no item a do pedido contido na inicial, este, relembrese, integralmente provido nos embargos opostos à sentença monocrática; No tocante ao direito à compensação ou restituição do indébito, por opção das autoras, o relator expressamente reformou a sentença monocrática, limitandoo ao primeiro pedido e alcançando tão somente os pagamentos efetuados a partir de 15/02/01, bem como, a teor do disciplinado pelo art. 66 da Lei nº 8.383/91, com débitos da própria COFINS, afastando, ao menos no âmbito da esfera judicial, a aplicação da legislação superveniente, a saber, Lei nº 9.430/96 e Lei nº 10.637/02, resguardando, contudo, o direito do interessado de efetuar, por conta e risco, a compensação com outros tributos na via administrativa; Sob a alegação da existência de omissão e obscuridade no aresto, na parte relativa às restrições à compensação do indébito da COFINS e, na hipótese de optarem pela restituição em espécie, aos critérios de Fl. 531DF CARF MF Processo nº 16327.721542/201308 Resolução nº 3302000.702 S3C3T2 Fl. 531 4 atualização monetária aplicáveis, o interessado opôs Embargos de Declaração; Ainda dos Embargos de Declaração, vale ressaltar ter o interessado requerido esclarecimentos acerca da realização da compensação do indébito da COFINS com outros tributos na via administrativa, conforme previsto pela Lei nº 9.340/96, por sua conta e risco, exceto quanto à existência do crédito, ou seja, em nada podendo prejudicar o pedido formulado no item “ a ” da inicial e acolhido pela r. sentença de 1ª instância, sendo esta última a obscuridade a ser aclarada; Em julgamento ocorrido em 14/11/07, o 3º TRF acolheu parcialmente os embargos, mantendo o entendimento de que a compensação a que se refere a Lei nº 9.430/96 só se aplica a procedimento realizado na via administrativa e esclarecendo que no acórdão embargado restou reconhecida a existência do indébito (quanto à alteração promovida pela Lei 9.718/98 na base de cálculo da COFINS) a partir de 16 de fevereiro de 2001, restando para a Administração apenas a análise da possibilidade da compensação com outros tributos que não da COFINS, cuja ementa foi assim vazada, verbis: “PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. HIPÓTESE AFASTADA. OBSCURIDADE. ESCLARECIMNTO NECESSÁRIO. 1. Por meio do acórdão embargado, foi reconhecido um indébito (quanto à alteração promovida pela Lei 9.718/98 na base de cálculo da COFINS) a partir de 16 fevereiro de 2001 – já que, antes dessa data, houve prescrição – que deve ser atualizado pela taxa SELIC (que já é índice de correção monetária e de juros de mora), restando para apreciação da Administração apenas a análise da possibilidade de o indébito ser compensado como outros tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal, diversos da COFINS. 2. Em relação às demais questões, as embargantes pretendem atribuir efeitos infringentes aos embargos de declaração, o que é inadmissível, devendo a parte valerse do recurso cabível para lograr tal intento. 3. Embargos de declaração conhecidos e parcialmente acolhidos.” Irresignadas com as decisões proferidas pelo tribunal “a quo” na apelação e nos embargos, porém, as partes recorreram às instâncias superiores. A União por meio de Recurso Extraordinário e o interessado, de Recurso Especial, além da apresentação de Contra Razões àquele; No Recurso Extraordinário, não admitido, a Fazenda Nacional cingiuse a defender a constitucionalidade das alterações perpetradas pela Lei nº 9.718/98, em especial que o conceito tributário de receita bruta não discrepa do de faturamento, e que abrange todas as receitas da pessoa jurídica; No Recurso Especial, admitido e autuado junto ao STJ sob nº 1.083.122, houve por bem o interessado, sustentando ter o v. acórdão recorrido confirmado a existência do indébito, conforme formulado na inicial, e acolhido integralmente pela sentença monocrática, restando, Fl. 532DF CARF MF Processo nº 16327.721542/201308 Resolução nº 3302000.702 S3C3T2 Fl. 532 5 portanto, para apreciação da Administração apenas a análise da possibilidade de sua compensação com outros tributos diversos da COFINS, atacou a contagem do prazo prescricional nele consignada e o não reconhecimento do seu direito à opção, incluindo também os juros SELIC, pela restituição em espécie ; Antes da manifestação do STJ, porém, o interessado formalizou pedido de desistência do Recurso Especial interposto, o qual foi homologado por meio de despacho proferido em 15/10/08. A decisão transitou em julgado em 12/11/08, com a baixa dos autos à origem; Posteriormente, em 13/05/11, atendendo exigência contida no art. 70, § 2º, da Instrução Normativa da RFB nº 900/08 e alterações, o interessado renunciou à execução do título judicial, pedido este deferido pelo juiz singular por meio de despacho proferido em 13/06/11; Com efeito, em respeito ao disciplinado pelo art. 71 da mesma IN RFB nº 900/08, o interessado protocolizou junto à DEINF/SPO “Pedido de Habilitação de Crédito Reconhecido por Decisão Judicial”, o qual foi formalizado no PAF nº 16327.720740/201184, já apensado, e onde se encontram acostadas as peças judiciais acima citadas; Tendo em vista, então, que o “Pedido de Habilitação” cumpriu os requisitos prescritos pelo § 4º do retro citado dispositivo, houve por bem a autoridade administrativa deferilo, tendo na decisão proferida, contudo, à luz do estabelecido pelo § 6º do mesmo art. 71, consignado que isso não implicava na homologação de nenhuma compensação efetuada pelo interessado, muito menos no reconhecimento da certeza e liquidez do direito creditório nele informado; Em face, portanto, do deferimento do “Pedido de Habilitação”, o interessado, em absoluto respeito ao disciplinado pelo art. 74 da Lei nº 9.430/96, apresentou à RFB “Pedido de Restituição”, protocolizado sob nº 15246.60987.310811.1.2.579470, assunto tratado no PAF nº 16327.720993/201239, nele informando como crédito o montante de R$ 65.065.811,91, em valor atualizado até Ago/11, e “Declarações de Compensação” eletrônicas, as quais foram baixadas para tratamento manual neste processo (folhas 03 a 17); Por outro lado, embora não cabendo disceptação acerca do objeto discutido na Ação Ordinária nº 2006.61.00.0034220, repitase, o afastamento do alargamento da base de cálculo da COFINS instituído pelo § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, particularmente das receitas financeiras auferidas pelo interessado, e a apuração da COFINS sobre o faturamento, este correspondente à receita bruta da venda de mercadorias e/ou de serviços de qualquer natureza, consoante previsto na LC nº 70/91, houve por bem esta DEINF/SPO, em face da incerteza quanto aos limites e efeitos da coisa julgada material formada nos autos da Ação Ordinária nº 2006.61.00.0034220, formular Consulta à D. Procuradoria Regional da Fazenda Nacional (folhas 128 a 140); Fl. 533DF CARF MF Processo nº 16327.721542/201308 Resolução nº 3302000.702 S3C3T2 Fl. 533 6 Sobrevindo a Solução de Consulta, a D. PRFN concluiu não ter a sentença vertida pelo 3º TRF nos embargos de declaração opostos pelo interessado, que restou transitada em julgado, afastado a incidência da COFINS sobre as receitas financeiras, cabendo, portanto, no caso concreto, a aplicação do entendimento já enunciado no Parecer PGFN/CAT/Nº 2.773/2007, ou seja, a exclusão da base de cálculo da indigitada contribuição, por força da inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, tão somente das receitas não operacionais (folhas 141 a 160); Inicialmente, vale lembrar que, tendo em vista tratarse o interessado de instituição financeira, cujas receitas operacionais, inclusive as estritamente financeiras, decorrem em sua quase totalidade das atividades típicas da pessoa jurídica, a consulta formulada pela DEINF/SPO à PRFN/SPO teve por escopo a solução de duas questões fundamentais: (a) a da definição dos limites e efeitos da coisa julgada material formada na Ação Ordinária nº 2006.61.00.0034220 e (b) a da própria conceituação do termo “ receitas financeiras ” constante da lide ; Por outro lado, antes de prosseguir, é de extrema importância aqui esclarecer que a Solução de Consulta, ainda que encaminhada em atendimento a caso concreto, qual seja, o objeto da Ação Ordinária nº 2006.61.00.0034220, a resposta elaborada pela PRFN/SPO não tem o condão de vincular a autoridade administrativa preparadora, visto não se enquadrar no disposto pelo art. 42 da Lei Complementar nº 73/93, servindo, pois, para efeito do presente despacho, tão somente como orientação; Com efeito, como bem asseverou a PRFN/SPO no item 7 da Solução de Consulta, no recurso de apelação manejado pela Fazenda Nacional foi pleiteada a reforma integral da decisão monocrática, então favorável ao interessado, razão pela qual, a teor do disposto pelo art. 515, caput, do Código de Processo Civil, o seu efeito devolutivo operouse plenamente; Ademais, à luz do disciplinado pelo art. 512 do CPC, o julgamento proferido pelo 3º TRF na referida apelação, e que lhe deu parcial provimento, substituiu, na íntegra, a r. sentença, passando a ter eficácia plena, tornando, portanto, despicienda qualquer consideração acerca dos termos em que julgada aquela decisão monocrática; E vale lembrar que o v. acórdão exarado pelo 3º TRF em 29/08/07, já transcrito no item 11 do relatório e por meio do qual restou reconhecida a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 conforme declarada pelo STF, não assegurou, ao menos nos termos em que formulado no pedido consignado na inicial, a certeza e liquidez do pretendido indébito da COFINS; E nem se queira agora, o que aqui se menciona por apego à argumentação, sustentar o contrário, visto ter o próprio interessado, sob alegação de existência de obscuridade no aresto, conforme descrito no item 15 do relatório, oposto Embargos de Declaração para fins de esclarecimento quanto ao reconhecimento, como acolhido pela sentença monocrática, do direito creditório nos exatos termos do item a do pedido; Fl. 534DF CARF MF Processo nº 16327.721542/201308 Resolução nº 3302000.702 S3C3T2 Fl. 534 7 Com efeito, tendo em vista o efeito substitutivo do provimento de mérito proferido pelo E. 3º TRF no recurso de apelação, cujo v. acórdão transitou em julgado na parte não reformada nos Embargos de Declaração, houve por bem a D. PRFN/SPO, para o deslinde do caso vertente, recorrer àquele decisum, nele buscando a relação jurídica acertada entre as partes, lembrando, ainda, ao amparo de doutrina colacionada na Solução de Consulta, que essa relação não se esgotaria na parte “dispositiva da sentença”, mas alcançando também os fundamentos de fato e de direito que lhe deram causa; Assim agindo, concluiu a D. PRFN/SPO, consoante expresso no item 26 da Solução de Consulta, ter a tutela judicial assegurado ao interessado o direito à apuração da COFINS com base na receita bruta, como definida pela LC nº 70/91, nela incluindose, conforme entendimento já firmado no Parecer PGFN/CAT/Nº 2773/2007, as receitas decorrentes das atividades de intermediação financeira e de aplicação de recursos próprios e de terceiros, posto que pertinentes às atividades típicas da pessoa jurídica; Relativamente aos Embargos de Declaração opostos pelo interessado na apelação, do voto condutor do v. acórdão exarado pelo 3º TRF, bem como de sua ementa reproduzida no item 16 do relatório, sobressai que a relação jurídica material dele deduzida em nada elucidou a obscuridade suscitada pelo interessado, concernente ao reconhecimento do indébito da COFINS nos termos do pedido formulado no item “ a ” da inicial e acolhido pela r. sentença de 1ª instância; Por conseguinte, pelos mesmos fundamentos de fato e de direito aludidos nos itens 4 a 8 acima, mais o consubstanciado no item 25 da Solução de Consulta, dúvida não remanesce para esta autoridade administrativa de que, nos exatos termos em que proferida a decisão nos Embargos de Declaração retro e que transitou em julgado, no tocante à apuração do indébito como formulado na exordial o v. acórdão foi desfavorável ao interessado, como, deveras, confirmado pela PRFN/SPO em resposta ao quesito “a” da Consulta formulada pela DEINF/SPO, verbis: “Em face do exposto, concluise que a relação jurídica de direito material entre as parte está regrada inteiramente pelo v. acórdão do C. Tribunal Federal, o qual estabeleceu como base de cálculo da COFINS aquela prevista na Lei Complementar 70/91, de forma que não há fundamento para a pretendida exclusão da base de cálculo da COFINS, períodos de apuração Fev/2001 a Dez/2005, das receitas financeiras;” Considerando que nos embargos não restou resolvida a obscuridade nele suscitada pelo interessado, indiscutível a conclusão vazada na Solução de Consulta, de que, na parte relativa à materialidade do indébito da COFINS, a decisão embargada não sofreu nenhuma alteração, permanecendo incólume o r. acórdão, o qual tão somente autorizou o interessado a apurar a indigitada contribuição com base na “receita bruta” conforme definida pela LC nº 70/91 e, em decorrência, da aplicação ao presente caso do preconizado pelo Parecer PGFN/CAT/ Nº 2773/2007; Fl. 535DF CARF MF Processo nº 16327.721542/201308 Resolução nº 3302000.702 S3C3T2 Fl. 535 8 E nem poderia ser diferente, pois a exclusão da base de cálculo da COFINS, para as instituições financeiras, das receitas decorrentes de intermediação financeira e/ou da aplicação de recursos próprios e de terceiros, como suplicada pelo interessado na presente lide, encontra se pendente de apreciação pelo Supremo Tribunal Federal, em caráter de repercussão geral, no RE 609.096/RS; E para corroborar tal assertiva, bastaria aqui mencionar o fato de ter o interessado, com o mesmo propósito de afastar a incidência da COFINS sobre as discutidas rendas de intermediação e aplicações financeiras dos períodos de apuração Out/05 e subsequentes, ajuizado Mandado de Segurança, autuado sob nº 2005.61.00.0260148, ora com Recurso Extraordinário sobrestado por força do sobredito paradigma (folhas ) ; Da simples leitura do voto condutor do v. acórdão então exarado pelo 3º TRF na apelação interposta pela Fazenda Nacional, sobressai ter a E. Sexta Turma se debruçado sobre a definição de receita bruta a que alude o art. 3º, caput, da Lei nº 9.718/98, concluindo ser ela “aquela advinda das operações que constituem o objeto da empresa e, adaptandose este conceito às instituições financeiras, não podese outra ilação senão a que considera a receita de intermediação financeira como integrante da base de cálculo destas sociedades empresariais, vez que fazem parte de seu objeto social, expressamente delineado no art. 17 da Lei nº 4.595/64”; E para corroborar essa posição e fulminar qualquer dúvida acerca da interpretação dada por esta autoridade administrativa à sentença transitada em julgado na AO nº 2006.61.00.0034220, vale citar decisão administrativa proferida pela DEINF/SPO em caso análogo, a qual ensejou a interposição, por iniciativa da parte contrariada, do Agravo de Instrumento autuado sob nº 2009.03.00.0315036, cujo relator do voto indeferiu a tutela antecipada; Se por um lado, é indiscutível que o § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 alargou o conceito de faturamento, equiparandoo ao conjunto das receitas auferidas pela pessoa jurídica e tributando outras receitas, além daquelas provenientes da venda de mercadorias e de serviços, como os rendimentos de aplicações financeiras e as receitas não operacionais, de outro, a decisão vazada na AO nº 2006.61.00.003422 0, que afastou o referido dispositivo, deixou de analisar a extensão do termo “receitas financeiras” aplicável ao caso concreto; Nesse ponto, portanto, caberia discordar da afirmação de D. PRFN/SPO, de que o conceito de receitas financeiras alcança as receitas de intermediação ( spread ), bem como as receitas de aplicação de recursos próprios e de terceiros, como inserto na conclusão da Solução de Consulta; E a definição exata de cada um desses termos, e sua inclusão, para fins de exigência da COFINS, no conceito mais amplo de “receita bruta” das instituições financeiras, é de fundamental importância, não só para o presente caso, mas para todas as pessoas jurídicas assim enquadradas, o que certamente caberá ao STF esclarecer por ocasião do julgamento do RE 609.096; Fl. 536DF CARF MF Processo nº 16327.721542/201308 Resolução nº 3302000.702 S3C3T2 Fl. 536 9 Nesse sentido, ainda, vale lembrar o sustentado pelo festejado profº Geraldo Ataliba (in Revista de Direito Tributário, n. 35, jan/mar de 1986) acerca da apuração da base de cálculo do PIS, ou seja, o “faturamento”, para quem “o cerne ou consistência do fato traduzido financeiramente nestes faturamentos não pode deixar de ser o conjunto de negócios ou operações que a eles dá ensejo”; Ora, das palavras do insigne tributarista, podese deduzir que, embora todo faturamento (receita bruta) se traduz em receita financeira, para efeito de apuração da contribuição para o PIS, ou da COFINS, devida pela pessoa jurídica, importa à autoridade fiscal não se subsumir à simples classificação contábil que se dê às receitas da pessoa jurídica, mas sim identificar o negócio ou operação que lhe deu origem, e se ele(a) se enquadrada ou não na sua atividade típica; citando extensa discussão relativa à interpretação e equivalência dos conceitos de “receita bruta” e de “faturamento”, o parecer, ao delimitar o alcance da declaração de inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 proferida pelo STF, consagrou o entendimento de que a base de cálculo da COFINS/PIS é a receita bruta decorrente das atividades empresariais típicas desenvolvidas pela pessoa jurídica, Com efeito, com base nas informações prestadas pelo interessado a partir do “Termo de Intimação” de apuração do eventual indébito da COFINS do período Fev/01 a Set/04, deveria esta autoridade administrativa, após a exclusão da base de cálculo da COFINS tão somente das receitas não operacionais, conforme apontado no demonstrativo elaborados por esta DIORT/DEINF/SPO, deferir parcialmente o “Pedido de Restituição” nº 15246.60987.310811.1.2.579470, reconhecendo como direito creditório, visto atendido o que dispõe os art. 168, I, 156, I e X, do CTN, o montante de R$ 386.892,82, em valor original (folhas 195 a 197); A compensação foi homologada parcialmente e tendo vista o disposto no §1º, inciso I do art. 38 da IN RFB nº 900/08 foi lançada multa de ofício isolada de 50% no processo 16327.721542/201308, apenso ao presente. A interessada apresentou manifestação de inconformidade contra o despacho decisório alegando que: Ajuizou ação ordinária para o fim de: a) declarar a inexistência de relação jurídica que tenha por objeto o direito da Ré de exigir das Autoras e/ou suas incorporadas, o recolhimento da COFINS relativamente aos meses de competência de janeiro de 2001 a dezembro de 2005, de acordo com a base de cálculo instituída pela Lei nº 9.718/98, e por consequência reconhecer como indevidos os pagamentos realizados a este título, naquilo que excederem ao que seria devido sobre seu efetivo faturamento ("receita bruta de venda de mercadoria e de prestação de serviços", conforme artigo 2º da Lei Complementar nº 70/91, à qual se reportam os arts. 1º e 2º da Lei nº, 9.718/98), neste conceito portanto não se enquadrando quaisquer outra receitas de natureza diversa, tais como as provenientes de locação de imóveis, receitas financeiras, etc; Fl. 537DF CARF MF Processo nº 16327.721542/201308 Resolução nº 3302000.702 S3C3T2 Fl. 537 10 A Fazenda contestou alegando que as receitas financeiras integram a receita operacional da pessoa jurídica; A sentença julgou procedente a ação; Foram opostos embargos alegando que não houve manifestação específica quanto a base de cálculo; Os embargos foram acolhidos para explicitar que a procedência da ação implicou o acolhimento dos pedidos formulados; Na apelação a Fazenda alegou que as receitas financeiras integram a receita operacional da pessoa jurídica. O Tribunal deu provimento à apelação para restringir a compensação a parcelas da COFINS e para reduzir o percentual de condenação imposta ao pagamento de honorários advocatícios para 1%; A decisão transitou em julgado em 14/07/2008; As autoras desistiram do Recurso Especial; Na consulta a PFN, o Delegado da DEINF; entendeu ser inquestionável o direito das autoras à exclusão da base de cálculo da COFINS das receitas financeiras; contudo que tal decisão contraria o Parecer nº 2.773/2007; O parecer entendeu que o acórdão tem efeito substitutivo, portanto, regula inteiramente a relação anteriormente controvertida, que a parte dispositiva deve ser depreendida de todos os provimentos e que a motivação é imprescindível à correta exegese do julgado e cita o entendimento de Nelson Nery Junior e Humberto Theodoro Jr. O Parecer conclui que o acórdão ao seguir o entendimento do Pretório Excelso no tocante à declaração de inconstitucionalidade apenas do §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 e ao informar a base de cálculo da LC 70/91 quis efetivamente dispor que a COFINS deve incidir também sobre as receitas de prestação de serviços, tal como estabelecido naquela lei complementar; Em caso de decisão que não aprecie todos os pedidos, cumpre ao interessado interpor embargos; Somente transita em julgado a parcela do pedido efetivamente julgada pela decisão, nos termos da Nota PGFN/CRJ/Nº 178/2009; A decisão da Procuradoria leva a conclusões opostas às previstas na doutrina invocada, como de resto esclarecido pelos próprios Prof. Humberto Theodoro Jr. e Nelson Nery Jr. citados naquela consulta, em pareceres proferidos especificamente para o caso concreto; A distinção que pretendeu fazer o despacho decisório entre as diversas espécies de receitas financeiras afigurase irrelevante na medida em que o pedido formulado na ação ajuizada, acolhido pela decisão judicial proferida, fez referência apenas ao gênero “receitas financeiras”, abrangendo, portanto, todas elas. Fl. 538DF CARF MF Processo nº 16327.721542/201308 Resolução nº 3302000.702 S3C3T2 Fl. 538 11 O efeito substitutivo no campo material se dá com a ratificação da decisão recorrida naquilo em que não modificada e sua alteração ocorre apenas nos limites em que provido o recurso interposto. Considerando que a sentença deu provimento ao pedido da interessada, o fato do acórdão não ter se pronunciado quanto a inclusão das receitas financeiras na base de cálculo, ratificou o decidido na sentença, portanto, somente a Fazenda teria interesse em opor embargos. Quanto aos embargos do acórdão, o objeto foi a possibilidade de compensação do indébito com outros tributos e o critério de atualização. Quanto ao fato do impugnante ter ajuizado outra medida judicial questionando a mesma exigência, relativamente a período distinto, (MS nº 2005.61.00.026014 8) em que o TRF apreciou a questão e entendeu estarem incluídas as receitas financeiras na base de cálculo da COFINS não corrobora os argumentos do despacho apenas evidencia que no caso caberia a Fazenda Nacional ter sido diligente e oposto embargos de declaração ou os recursos cabíveis visando a que decisão de teor semelhante fosse proferida também nos autos da ação ordinária nº 2006.61.00.00342200. O despacho decisório entendeu que a sentença quando acolheu o pedido do impugnante, afastou a incidência sobre a receita financeira proveniente da aplicação de recursos próprios e/ou de terceiros, mas não incluiu a receita de intermediação financeira. Encerra a manifestação pleiteando a reforma do despacho decisório, com a consequente homologação de todas as declarações de compensação apresentadas. No processo 16327721542/201308,apenso a este, de acordo com o Termo de Verificação Fiscal (fls. 74/77) foi lançada multa isolada de 50%, totalizando R$ 32.203.651,06, por compensação não homologada com base no art. 74, §17 da Lei nº 9.430/96 na redação do art. 62 da Lei nº 12.249/2010 tendo como base de cálculo do valor do crédito objeto da declaração de compensação não homologada. A interessada foi cientificada em 11/12/2013 e apresentou impugnação (fls. 90/141) em 10/01/2014 alegando em síntese: 1) a multa não se aplica ao caso em que as compensações foram efetuadas com base em decisão transitada em julgado, não tendo o impugnante praticado qualquer ilicitude que pudesse ensejar a aplicação da multa; 2) a razão de ser da norma era a punição dos contribuintes que intencionalmente compensassem créditos sabidamente inexistentes para obter certidão negativa ou não pagar o crédito tributário devido, conforme é possível depreender da exposição de motivos e do Parecer de Plenário a respeito do texto da MP 472; 3) por ser multa punitiva somente pode ser imposta em razão da ocorrência de um ilícito; Fl. 539DF CARF MF Processo nº 16327.721542/201308 Resolução nº 3302000.702 S3C3T2 Fl. 539 12 4) não houve ilicitude já que a interessada demonstrou sua boafé no pedido de habilitação; 5) Para caracterizar o ilícito deve estar presente o elemento subjetivo do tipo, ou seja, a consciência da ilicitude e a intenção de praticála; 6) A própria autoridade teve dúvidas sobre a legitimidade da compensação efetuada pelo impugnante, dúvida objetiva formalmente apresentada à PGFN, razão pela qual a multa não poderia ser aplicada ao caso concreto quando menos em decorrência do art. 112, inciso II do CTN; 7) Não é possível a imposição de multa antes da decisão administrativa definitiva que confirme a nãohomologação da compensação; 8) A exigibilidade da multa deve ficar suspensa até o julgamento final do processo de compensação, nos termos do §18 do art. 74 da Lei nº 9.430/96; A interessada reitera todas as alegações efetuadas no processo de compensação. Encerra a impugnação requerendo que os processos de compensação e o de multa sejam reunidos para julgamento simultâneo, ou quando menos sobrestado o feito até o final do julgamento do processo de compensação e que seja julgada procedente a impugnação para o fim de cancelar o lançamento da multa isolada imposta. Sobreveio a decisão de primeira instância (fls. 693/715), em que, por unanimidade de votos, a manifestação de inconformidade foi julgada improcedente, com base nos fundamentos resumidos nos enunciados das ementas que seguem transcritos: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/02/2001 a 30/09/2004 EFEITO SUBSTITUTIVO. ACORDÃO. COISA JULGADA. Por força do efeito substitutivo (art. 512 CPC) o julgamento do acórdão substituirá a decisão da sentença. Somente a parcela efetivamente julgada na decisão forma coisa julgada. INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. BASE DE CALCULO. RECEITA BRUTA. RECEITA DA ATIVIDADE. A partir da entrada em vigor da Lei nº 9.718, de 1998, as instituições financeiras e as seguradoras passaram a ser tributadas com base no art. 2º da citada Lei, o qual estabelece como base de cálculo dessas contribuições o faturamento, conceituado pelo caput do art. 3º como sendo “a receita bruta da pessoa jurídica”. Para a COFINS o conceito de receita bruta é o contido no art. 2º da LC nº 70, de1991, isto é, as receitas advindas da venda de mercadorias e da prestação de serviços. A base de cálculo da COFINS/PIS é a receita bruta decorrente das atividades empresariais típicas desenvolvidas pela pessoa jurídica. MULTA. COMPENSAÇÃO NÃOHOMOLOGADA. Fl. 540DF CARF MF Processo nº 16327.721542/201308 Resolução nº 3302000.702 S3C3T2 Fl. 540 13 Aplicase a multa de 50% sobre o valor do crédito objeto de declaração de compensação não homologada, salvo no caso de falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo quando a multa a ser aplicada é a de 150% prevista no art. 18 da Lei nº 10.833/2003. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/02/2001 a 30/09/2004 MULTA. SUSPENSÃO EXIGIBILIDADE. Ocorrendo a não homologação, a multa deve ser lançada, contudo, sua exigibilidade deve ficar suspensa ainda que não impugnada, no caso de apresentação de manifestação de inconformidade contra a não homologação da compensação. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Em 09/10/2014, a recorrente foi cientificada da decisão primeira. Inconformada, em 21/10/2014, protocolou o recurso voluntário de fls. 452/470, em que reafirmou as razões de defesa, suscitadas na peça impugnatória. Em aditamento, no mérito, a recorrente alegou, alternativamente, que a multa lançada era manifestamente improcedente, tendo em vista a efetiva existência do crédito pleiteado e o claro e inequívoco direito da recorrente à homologação das compensações efetuadas, conforme demonstrado na peça recursal apresentada nos autos do processo nº 16327.720993/201239 (doc. 2), que deve ser considerada como se transcrita estivesse no presente recurso. É o relatório. Voto Conselheiro José Fernandes do Nascimento Relator. Segundo o delineado no relatório precedente, os presentes autos tratam de cobrança da multa isolada de 50% (cinquenta por cento) calculada sobre o valor do crédito informado nas Declarações de Compensação (DComp) não homologadas. O referenciado procedimento compensatório, que motivou a presente autuação, encontrase sob julgamento no âmbito do processo principal de nº 16327.720993/201239, ainda pendente de decisão definitiva na esfera administrativa. Assim, uma vez configurada dependência do julgamento deste processo do desfecho final e definitivo do julgamento do processo principal, com respaldo no art. 6º, § 1º, II, do Regimento Interno deste Conselho (RICARF/2015), propõe o sobrestamento do julgamento dos presentes autos perante à 3ª Câmara desta Seção. E uma vez o concluído o julgamento do processo principal, com a prolação da decisão definitiva, a Câmara deverá providenciar o retorno dos presentes autos a este Colegiado, para o prosseguimento do julgamento. (assinado digitalmente) Fl. 541DF CARF MF Processo nº 16327.721542/201308 Resolução nº 3302000.702 S3C3T2 Fl. 541 14 José Fernandes do Nascimento Fl. 542DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11080.723119/2009-74
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Mar 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2008
CRÉDITOS DE ICMS CONCEDIDOS POR INCENTIVOS FISCAIS.
CONCOMITÂNCIA DE AÇÃO JUDICIAL. A propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda, de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou posteriormente à autuação/despacho decisório, com o mesmo objeto, importa a renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso interposto.
MULTA DE OFÍCIO. PERCENTUAL. CABIMENTO. A multa de ofício é uma penalidade pecuniária aplicada pela infração cometida, cabendo a sua incidência no percentual expressamente previsto em lei.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2008
CONCOMITÂNCIA DE AÇÃO JUDICIAL. A propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda, de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou posteriormente à autuação/despacho decisório, com o mesmo objeto, importa a renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso interposto.
MULTA DE OFÍCIO. PERCENTUAL. CABIMENTO. A multa de ofício é uma penalidade pecuniária aplicada pela infração cometida, cabendo a sua incidência no percentual expressamente previsto em lei.
Recurso não conhecido.
Numero da decisão: 3402-004.936
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, em afastar a proposta de diligência suscitada pela Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula para trazer cópia da inicial do Mandado de Segurança aos autos. Vencidos os Conselheiros Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Carlos Augusto Daniel Neto. No mérito, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Maria Aparecida Martins de Paula e Carlos Augusto Daniel Neto, que conheciam do mérito do Recurso.
(Assinado com certificado digital)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: JORGE OLMIRO LOCK FREIRE
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2008 CRÉDITOS DE ICMS CONCEDIDOS POR INCENTIVOS FISCAIS. CONCOMITÂNCIA DE AÇÃO JUDICIAL. A propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda, de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou posteriormente à autuação/despacho decisório, com o mesmo objeto, importa a renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso interposto. MULTA DE OFÍCIO. PERCENTUAL. CABIMENTO. A multa de ofício é uma penalidade pecuniária aplicada pela infração cometida, cabendo a sua incidência no percentual expressamente previsto em lei. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2008 CONCOMITÂNCIA DE AÇÃO JUDICIAL. A propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda, de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou posteriormente à autuação/despacho decisório, com o mesmo objeto, importa a renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso interposto. MULTA DE OFÍCIO. PERCENTUAL. CABIMENTO. A multa de ofício é uma penalidade pecuniária aplicada pela infração cometida, cabendo a sua incidência no percentual expressamente previsto em lei. Recurso não conhecido.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2008 CRÉDITOS DE ICMS CONCEDIDOS POR INCENTIVOS FISCAIS. CONCOMITÂNCIA DE AÇÃO JUDICIAL. A propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda, de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou posteriormente à autuação/despacho decisório, com o mesmo objeto, importa a renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso interposto. MULTA DE OFÍCIO. PERCENTUAL. CABIMENTO. A multa de ofício é uma penalidade pecuniária aplicada pela infração cometida, cabendo a sua incidência no percentual expressamente previsto em lei. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2008 CONCOMITÂNCIA DE AÇÃO JUDICIAL. A propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda, de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou posteriormente à autuação/despacho decisório, com o mesmo objeto, importa a renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso interposto. MULTA DE OFÍCIO. PERCENTUAL. CABIMENTO. A multa de ofício é uma penalidade pecuniária aplicada pela infração cometida, cabendo a sua incidência no percentual expressamente previsto em lei. Recurso não conhecido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 72 31 19 /2 00 9- 74 Fl. 374DF CARF MF Processo nº 11080.723119/200974 Acórdão n.º 3402004.936 S3C4T2 Fl. 375 2 Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, em afastar a proposta de diligência suscitada pela Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula para trazer cópia da inicial do Mandado de Segurança aos autos. Vencidos os Conselheiros Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Carlos Augusto Daniel Neto. No mérito, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Maria Aparecida Martins de Paula e Carlos Augusto Daniel Neto, que conheciam do mérito do Recurso. (Assinado com certificado digital) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Foram lavrados autos de infração de PIS e COFINS (fls. 85/114) sobre o valor de crédito presumido de ICMS "oriundo de incentivo fiscal estadual concedido pelo governo do estado de Pernambuco denominado Prodepe", uma vez constatado que a empresa não oferecia tais valores (arrolados em tabelas nos autos de infração) à tributação daquelas contribuições. Informa a fiscalização que a autuada "atua no setor alimentício tendo como principal fonte de suas receitas a industrialização de arroz". Impugnado o lançamento (fls. 120/154 e 180/214 PIS), a DRJ/POA não conheceu da mesma quanto à questão de fundo, uma vez a empresa ter levado mérito idêntico à apreciação do Poder Judiciário, mantendo o lançamento em relação à multa de ofício aplicada, e determinando que a cobrança do crédito tributário deveria se adequar ao decidido pelo Judiciário nos autos do Mandado de Segurança nº 2008.71.00.0323140. Não resignada a empresa interpôs recurso voluntário (fls. 271/305), no qual, em resumo, alega: 1 que não há identidade entre o mérito travado nestes autos administrativos e aquele objeto do referido mandamus. Alega que neste o pedido é para que seja decretada a nulidade das decisões administrativas nos processos administrativos que cita (fl. 275), "a fim de que sejam afastadas as suas glosas e, por conseguinte, sejam determinados os referidos ressarcimentos das quantias glosadas acrescidas da correção monetária pela taxa SELIC". Contudo, afirma que o MS "tem como causa de pedir a inexigibilidade das contribuições sociais sobre os valores referentes ao crédito presumido de ICMS decorrente da comercialização do arroz em operação interestadual, como incentivo fiscal dos Estados de Pernambuco (PRODEPE) e do Mato Grosso (PROARROZ) pela inadequação dos referidos créditos ao conceito de receita". Na sequência, discorre longamente sobre a não incidência das vergastadas contribuições sobre créditos presumidos de ICMS e pugna pela boafé de sua conduta; Fl. 375DF CARF MF Processo nº 11080.723119/200974 Acórdão n.º 3402004.936 S3C4T2 Fl. 376 3 2 ser a indevida aplicação da multa de ofício "ante a boafé do contribuinte em ter baseado a sua conduta em decisões do Segundo Conselho de Contribuintes", assim como em precedentes jurisprudenciais. Pede "a desclassificação da multa de ofício ...por outra menos gravosa". É o relatório. Voto Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire Com a devida vênia, alegar que a matéria objeto do lançamento não é idêntica à levada ao conhecimento do Judiciário não merece guarida. O auto de infração contestado é mera decorrência lógica do entendimento do Fisco controvertido pela recorrente na supracitada ação judicial que reclamava contra decisões administrativas proferidas em processos envolvendo pedidos de ressarcimento cujas glosas parciais foram motivadas, dentre outras razões, pelo mesmo fundamento da necessidade da tributação de créditos de ICMS oriundos de incentivos fiscais estaduais, dentre os quais o Prodepe. O Mandado de Segurança impetrado objetivava o reconhecimento da inexigibilidade das contribuições PIS e COFINS sobre o crédito presumido de ICMS decorrente da comercialização de arroz em operação interestadual, como incentivo fiscal dos Estados de Pernambuco (PRODEPE Decreto n.º 23.504/01) e do Mato Grosso (PROARROZ Decreto n.º 4.336/02). Como não há identidade entre o mérito deste processo com o judicial? Cotejandose os argumentos levados ao crivo do Poder Judiciário e aqueles constantes das impugnações apresentadas pela empresa, constatamos a existência de identidade de objeto entre eles. As questões trazidas à discussão no recurso administrativo em exame já foram levadas ao Poder Judiciário por intermédio do citado Mandado de Segurança, n.º 2008.71.00.0323140, encontrandose sob a tutela autônoma daquele Poder. Esta identidade de objetos torna inútil qualquer pronunciamento da esfera administrativa quanto ao mérito das alegações da empresa sobre esta matéria, mesmo que se tratem de exigências que abarcaram períodos diversos. Pois o mérito da questão em debate permanece idêntico, sendo que não houve qualquer alteração legal relevante entre os períodos de apuração, que tivesse modificado a forma de determinação da base de cálculo das contribuições em comento. Resumindo, face à supremacia hierárquica da esfera judicial, tornouse prejudicada a lide administrativa quanto ao mérito da questão relativa à tributação pelo PIS e a Cofins dos créditos de ICMS recebidos como incentivos fiscais estaduais (“PRODEPE”PE e “PROARROZ”MT). Conforme o teor do § 2º, art. 1º do Decretolei n.º 1.737, de 20/12/1979, do § único do art. 38 da Lei n.º 6.830, de 22/09/1980, pelo ADN 03, de 1996, e do art. 26 da Portaria MF 258 de 24/08/2001, a propositura de ação judicial pelo contribuinte importa em renúncia ou desistência da via administrativa quanto ao referido tema. Assim, não conheço do recurso no mérito face à identidade de mérito entre este processo administrativo e aquele inserto nos autos do MS nº 2008.71.00.0323140, o qual já tem decisão em segunda instância, conforme se constata da decisão acostada às fls. 252/258, inclusive favorável à empresa. Fl. 376DF CARF MF Processo nº 11080.723119/200974 Acórdão n.º 3402004.936 S3C4T2 Fl. 377 4 Quanto à multa, há de ser mantida, pois ela foi levada a efeito com substrato legal válido, vigente e eficaz (art. 44, I, da Lei 9.430/96). Demais disso, mesmo que eventualmente se levasse em conta que a recorrente agiu de boafé, isso não seria suficiente para afastála, quanto mais reduzíla para percentual discricionário, como postula a recorrente. A responsabilidade por infrações no âmbito tributário, a teor do art. 136 do CTN, independe da intenção do agente ou responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. Assim, em que pese a alegação de que o contribuinte teria agido de boafé, a multa de ofício e os juros de mora aplicados sobre o valor das contribuições que deixaram de ser recolhidas, de acordo com a legislação de regência, não podem, em âmbito administrativo, serem reduzidos ou alterados por critérios meramente subjetivos, contrários ao princípio da legalidade. Portanto, deve ser mantida a multa e os acréscimos legais. CONCLUSÃO Forte em todo exposto, não conheço do recurso quanto ao mérito sob apreciação do Poder Judiciário, mantendo a multa e os acréscimos legais. Deve a autoridade administrativa, quando do trânsito em julgado do referido mandado de segurança, fazer a adequação da presente exação com o que restar decidido pelo Judiciário. É como voto. assinado digitalmente Jorge Olmiro Lock Freire Relator Fl. 377DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15885.002293/2008-94
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Dec 07 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Mar 15 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/04/2002 a 31/01/2007
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. CONSTRUÇÃO CIVIL. PROPRIETÁRIO DA OBRA. EMPREITADA TOTAL. PROGRAMA DE ARRENDAMENTO RESIDENCIAL. PROPRIEDADE FIDUCIÁRIA. TITULARIDADE.
O proprietário de obra de construção civil, quando contrata a execução de obra de construção civil mediante contratos de empreitada total, tem responsabilidade solidária com a empresa construtora, pelas contribuições devidas à Seguridade Social incidentes sobre a mão-de-obra utilizada, mormente quando não se comprova nenhuma das condições para a elisão da referida responsabilidade.
A condição de proprietária fiduciária de obras de construção civil, competente para realizar operações de aquisição, arrendamento e venda de imóveis destinados às pessoas físicas arrendatárias, implica a titularidade da mesma para todos os efeitos, como demonstram os contratos de compra e venda de imóvel e de produção de empreendimento habitacional e as averbações no Registro Imobiliário.
OBRA DE CONSTRUÇÃO CIVIL. PESSOA JURÍDICA. CONTABILIDADE. OMISSÕES DE FATOS GERADORES. AFERIÇÃO INDIRETA. ÁREA CONSTRUÍDA E PADRÃO DA OBRA.
É devida a contribuição previdenciária sobre a remuneração paga pela mão-de-obra utilizada na execução de obra de responsabilidade de pessoa jurídica, obtida através de aferição indireta, com base na área construída, e no padrão da obra, em razão da falta do registro do real movimento das remunerações pagas pela execução da obra.
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. IMPUGNAÇÃO. PRAZO LEGAL. TERMO DE INÍCIO. ARGÜIÇÃO DE TEMPESTIVIDADE. EFEITOS.
A impugnação deve ser apresentada ao órgão preparador no prazo de trinta dias, contados da data da ciência do procedimento a ser impugnado.
Numero da decisão: 2401-005.180
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer dos recursos voluntários interpostos pelo devedor principal e solidário e, no mérito, negar-lhes provimento.
(assinado digitalmente)
Cleberson Alex Friess Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Virgilio Cansino Gil e Rayd Santana Ferreira. Ausentes os Conselheiros Miriam Denise Xavier e Francisco Ricardo Gouveia Coutinho.
Nome do relator: LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/04/2002 a 31/01/2007 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. CONSTRUÇÃO CIVIL. PROPRIETÁRIO DA OBRA. EMPREITADA TOTAL. PROGRAMA DE ARRENDAMENTO RESIDENCIAL. PROPRIEDADE FIDUCIÁRIA. TITULARIDADE. O proprietário de obra de construção civil, quando contrata a execução de obra de construção civil mediante contratos de empreitada total, tem responsabilidade solidária com a empresa construtora, pelas contribuições devidas à Seguridade Social incidentes sobre a mão-de-obra utilizada, mormente quando não se comprova nenhuma das condições para a elisão da referida responsabilidade. A condição de proprietária fiduciária de obras de construção civil, competente para realizar operações de aquisição, arrendamento e venda de imóveis destinados às pessoas físicas arrendatárias, implica a titularidade da mesma para todos os efeitos, como demonstram os contratos de compra e venda de imóvel e de produção de empreendimento habitacional e as averbações no Registro Imobiliário. OBRA DE CONSTRUÇÃO CIVIL. PESSOA JURÍDICA. CONTABILIDADE. OMISSÕES DE FATOS GERADORES. AFERIÇÃO INDIRETA. ÁREA CONSTRUÍDA E PADRÃO DA OBRA. É devida a contribuição previdenciária sobre a remuneração paga pela mão-de-obra utilizada na execução de obra de responsabilidade de pessoa jurídica, obtida através de aferição indireta, com base na área construída, e no padrão da obra, em razão da falta do registro do real movimento das remunerações pagas pela execução da obra. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. IMPUGNAÇÃO. PRAZO LEGAL. TERMO DE INÍCIO. ARGÜIÇÃO DE TEMPESTIVIDADE. EFEITOS. A impugnação deve ser apresentada ao órgão preparador no prazo de trinta dias, contados da data da ciência do procedimento a ser impugnado.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer dos recursos voluntários interpostos pelo devedor principal e solidário e, no mérito, negar-lhes provimento. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Virgilio Cansino Gil e Rayd Santana Ferreira. Ausentes os Conselheiros Miriam Denise Xavier e Francisco Ricardo Gouveia Coutinho.
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E OUTRO Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/04/2002 a 31/01/2007 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. CONSTRUÇÃO CIVIL. PROPRIETÁRIO DA OBRA. EMPREITADA TOTAL. PROGRAMA DE ARRENDAMENTO RESIDENCIAL. PROPRIEDADE FIDUCIÁRIA. TITULARIDADE. O proprietário de obra de construção civil, quando contrata a execução de obra de construção civil mediante contratos de empreitada total, tem responsabilidade solidária com a empresa construtora, pelas contribuições devidas à Seguridade Social incidentes sobre a mãodeobra utilizada, mormente quando não se comprova nenhuma das condições para a elisão da referida responsabilidade. A condição de proprietária fiduciária de obras de construção civil, competente para realizar operações de aquisição, arrendamento e venda de imóveis destinados às pessoas físicas arrendatárias, implica a titularidade da mesma para todos os efeitos, como demonstram os contratos de compra e venda de imóvel e de produção de empreendimento habitacional e as averbações no Registro Imobiliário. OBRA DE CONSTRUÇÃO CIVIL. PESSOA JURÍDICA. CONTABILIDADE. OMISSÕES DE FATOS GERADORES. AFERIÇÃO INDIRETA. ÁREA CONSTRUÍDA E PADRÃO DA OBRA. É devida a contribuição previdenciária sobre a remuneração paga pela mão deobra utilizada na execução de obra de responsabilidade de pessoa jurídica, obtida através de aferição indireta, com base na área construída, e no padrão da obra, em razão da falta do registro do real movimento das remunerações pagas pela execução da obra. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. IMPUGNAÇÃO. PRAZO LEGAL. TERMO DE INÍCIO. ARGÜIÇÃO DE TEMPESTIVIDADE. EFEITOS. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 88 5. 00 22 93 /2 00 8- 94 Fl. 382DF CARF MF 2 A impugnação deve ser apresentada ao órgão preparador no prazo de trinta dias, contados da data da ciência do procedimento a ser impugnado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer dos recursos voluntários interpostos pelo devedor principal e solidário e, no mérito, negarlhes provimento. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess – Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Virgilio Cansino Gil e Rayd Santana Ferreira. Ausentes os Conselheiros Miriam Denise Xavier e Francisco Ricardo Gouveia Coutinho. Fl. 383DF CARF MF Processo nº 15885.002293/200894 Acórdão n.º 2401005.180 S2C4T1 Fl. 3 3 Relatório Tratase de Notificação Fiscal de Lançamento de Débito (NFLD) debcad n.º 37.080.8967, que constitui o crédito de contribuições sociais relativas ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho (SAT/RAT), incidentes sobre remunerações pagas a segurados caracterizados como empregados, e ainda sobre saláriodecontribuição aferido na construção civil (CUB – Custo Unitário Básico), perfazendo, inicialmente, o montante de R$ 208.325,93 (incluindo multa e juros vide fls. 02), abrangendo o período de 06/2000 a 01/2007. A referência à numeração de folhas passa a ser efetuada, presentemente, a partir do processo digitalizado (eprocesso). Consoante o Relatório Fiscal (fls. 30/35), apuraramse os fatos geradores a partir de remunerações da mãodeobra empregada na execução de obras de construção civil, contratadas pela Caixa Econômica Federal (CEF) com a autuada SAT Engenharia e Comércio Ltda, sob a forma de empreitada total. Analisaramse recibos de pagamento, notas fiscais, relatórios financeiros, folhas de pagamento de obras, rescisões trabalhistas, Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), contratos de empreitada, dentre outros. Tratase, especificamente, da rubrica SAT/RAT, declarada inconstitucional– à época – pelo mandado de segurança (MS) n.º 2003.61.080081498, que tramitava na 2.ª Vara Federal de BauruSP, apuradas em folhas de pagamento, rescisões, notas fiscais e outros documentos, diversos deles não contabilizados, e aferidas indiretamente, além de ter havido caracterização de segurados a partir da constatação dos requisitos legais. Lavrouse a NFLD em separado, haja vista a suspensão da exigibilidade, em razão da ação judicial supramencionada, Foi adotado o expediente da aferição indireta da mãodeobra, com base na área construída e padrão com as deduções regularmente previstas, convertidas em área regularizada , em razão de a contabilidade não registrar o real movimento das remunerações e dos faturamentos, conforme relatório de análise contábil anexo, evidenciando se diversos fatos geradores omitidos da contabilidade, Imputouse responsabilidade solidária à CEF – proprietária da obra –com fundamento no art. 30, VI da Lei nº 8.212/91, art. 220 do Decreto nº 3.048/99 Regulamento da Previdência Social (RPS) e art. 181, I da Instrução Normativa SRP n.º 03/2005 (DOU de 15/07/2005). Foram ainda analisados documentos apreendidos judicialmente, conforme autos do processo nº 2003.61.08.0126184 da 3ª Vara Federal de BauruSP. Os valores apurados estão demonstrados, por estabelecimento, em diversos relatórios, conforme recibo de arquivos entregues ao contribuinte (fls. 28/29), fazendose referência ainda ao relatório Fundamentos Legais do Débito (FLD). Foram anexadas cópias de: planilhas de cálculo de saláriodecontribuição e avisos para regularização de obras (ARO). Fl. 384DF CARF MF 4 Cientificada da NFLD em 07/05/2007 (vide Aviso de Recebimento –AR de fl. 47), a responsável solidária Caixa Econômica Federal (CEF) protocolizou IMPUGNAÇÃO em 22/05/2007, com as alegações que seguem. Da ausência de responsabilidade solidária que a condição de devedora solidária para com a SAT Engenharia imputada à CEF não procede, pela razão de que esta não é a proprietária das obras, e sim o FAR – Fundo de Arrendamento Residencial. que a lei nº 10.188/2001 instituiu o Programa de Arrendamento Residencial, visando a atender à necessidade de moradia da população de baixa renda, autorizando a CEF a criar um fundo financeiro dotado de segregação patrimonial e contábil, destinado ao programa. O parágrafo 3° do artigo 2.º da lei estabelece que "os bens e direitos integrantes do patrimônio do fundo a que se refere o caput, em especial os bens imóveis mantidos sob a propriedade fiduciária da CEF, bem como seus frutos e rendimentos, não se comunicam com o patrimônio desta". Reforça ainda que tais bens "não integram o ativo da CEF", pertencendo de fato ao fundo, o qual, por não ter personalidade jurídica, tem a CEF como seu agente operacional (fiduciário). que a SAT Engenharia foi contratada pelo FAR, por intermédio da CEF, para a construção de empreendimentos residenciais; não se podendo falar em solidariedade da CEF com a construtora, já que o fundo (FAR) é o verdadeiro proprietário e que deveria ser notificado como solidário. Como estipulado nos contratos de compra e venda, "C.4 — OS IMÓVEIS DO EMPREENDIMENTO ANTES MENCIONADO INTEGRARÃO O PATRIMÔNIO DO FUNDO FINANCEIRO DO PROGRAMA DE ARRENDAMENTO RESIDENCIAL — PAR, INSTITUÍDO PELA MEDIDA PROVISÓRIA NO 1823/99 E SERÃO OBJETO DE ARRENDAMENTO DESTINADO A POPULAÇÃO ALVO DEFINIDA EM LEI."(grifos nossos) que a CEF é apenas gestora do patrimônio do FAR, não podendo ser responsabilizada solidariamente pelo crédito discutido, pelo que se pede o cancelamento da presente NFLD em nome da CEF. Do cerceamento de defesa – dilação do prazo para defesa administrativa que no contexto das ações judiciais (processos n.º 2003.61.08.0126184 e 2007.61.08.0042401) movidas pela SAT Engenharia, cujo objeto é a restituição de documentos necessários à defesa administrativa, pede que a dilação de prazo ali concedida seja estendida ao devedor solidário (o FAR ou a CEF, caso não seja reconhecida a exclusão da responsabilidade desta última), sob pena de cerceamento de defesa. Junta a impugnante cópias de: procuração, contratos de compra e venda de imóvel e de produção residencial, folhas de registro de imóveis (fls. 54/99), dentre outros. A autuada (devedora principal) foi cientificada em 27/04/2007. Foram juntadas, pela Unidade de Origem, cópias de atos processuais judiciais, especialmente decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3) em apelação (fls. 182/184) no processo nº 2007.61.08.0042401, datada de 11/03/2011 que trata de Medida Cautelar cujo objeto era a devolução de todos os documentos apreendidos e ainda retidos pela fiscalização , procuração, contrato social e alterações, dentre outros. Pelo despacho de fl. 185, foi o processo encaminhado ao setor de Fiscalização, a fim de esclarecer acerca da devolução da documentação retida, seguida de Fl. 385DF CARF MF Processo nº 15885.002293/200894 Acórdão n.º 2401005.180 S2C4T1 Fl. 4 5 comprovação da ciência do procedimento de devolução, tanto à autuada como ao Juízo Federal (fls. 186/190). Às fls. 196/197, consta despacho de 22/08/2011, da SACAT da Delegacia da Receita Federal do Brasil (DRF) em BauruSP, dando notícia de que: (i) na apelação, o Tribunal decidiu que o prazo para interposição de defesa administrativa tivesse início a partir da data de conclusão do procedimento de devolução do material apreendido ou da data da intimação daquela decisão, o que ocorresse por último; (ii) a fiscalização informou que os documentos foram devolvidos totalmente; (iii) a data de da intimação da decisão do TRF3 nos autos n.º 2007.61.08.0042401 ocorreu em 28/03/2011, não havendo registro, no sistema de protocolo de documentos e processos (Cdoc e Comprot), de interposição de recurso administrativo até a presente data; e por fim (iv) sugeriu a aplicação da Súmula Vinculante n.º 8 do Supremo Tribunal Federal (STF), com posterior cobrança do crédito remanescente. Consta às fls. 200/202 Despacho Decisório (DD) nº 489/2011 reconhecendo parcialmente a decadência, nos termos da Súmula Vinculante nº 8 do STF e Parecer PGFN/CAT nº 1617/2008, pelo que, com base no art. 150 e § 4º do CTN, foram excluídas as competências de 06/2000 a 03/2002. De acordo com o DD e o Discriminativo Analítico do Débito Retificado (DADR), às fls. 203/204, remanesce o crédito em R$198.049,47 (cento e noventa e oito mil e quarenta e nove reais e quarenta e sete centavos principal, juros e multa), a valores de 19/04/2007. Ressalta o despacho que houve defesa administrativa tempestiva apresentada pelo responsável solidário (CEF), tendo sido tanto a empresa como a responsável solidária devidamente intimadas do conteúdo do DD (vide fls. 207, 211 e 216). Juntou a autuada (contribuinte), então, peça de IMPUGNAÇÃO, protocolizada em 22/12/2011 (fls. 228/274), com o seguinte teor: Preliminar – da tempestividade da defesa administrativa que, nos termos do acórdão na ação judicial n.º 2007.61.08.0042401, o prazo para interposição da defesa iniciase a partir da efetiva entrega da documentação apreendida ou da data da intimação da decisão prolatada. Como não foram devolvidos todos os documentos apreendidos – em especial as DISO –, as quais seriam imprescindíveis para a defesa do contribuinte, alega que não iniciou o prazo para defesa. que a presente impugnação/manifestação é feita por cautela, para não se ver imputada de omissa ou inerte em sua defesa administrativa, apesar da não entrega das DISO à impugnante. Outras matérias alegadas que a contribuição do SAT/RAT está com a exigibilidade suspensa. que os embargos de declaração na ação judicial n.º 2007.61.08.0042401 impõem efeito suspensivo em sua decisão. que a fiscalização realizada foi irregular e precária, devendo ser anulada. que não foram devolvidas as DISO à empresa, impossibilitando a verificação dos dados apurados e lançados pela fiscalização. Fl. 386DF CARF MF 6 que foi irregular o procedimento e critérios de cálculo dos valores devidos por aferição indireta, para as obras que relaciona. que é indevida a inclusão dos sócios da empresa como solidários, no pólo passivo da execução fiscal. que é indevida a imposição de multa superior a 20%. que deve ser cancelada a NFLD. que deve ser permitida a juntada posterior de documentos. Assim, às fls. 306/307 consta despacho da DRF/BAURU/SACAT, de 29/12/2011, informando que em relação ao Acórdão proferido pelo TRF3 no processo nº 2007.61.08.0042401, entende que: a) o procedimento de devolução dos documentos apreendidos foi concluído em 23/09/2009, tendo o sujeito passivo recebido em 07/10/2009 a comunicação da devolução mencionada; e b) a data de intimação dessa decisão ocorreu o dia 28/03/2011. Ato contínuo, os presentes autos são encaminhados ao setor de fiscalização, para apreciação das alegações da autuada, e para ratificar ou retificar as informações quanto à devolução dos documentos apreendidos. Em resposta, consta a Informação Fiscal de fls. 310/311, de 29/02/2012, informando que as alegações acerca da não devolução de todos os documentos já haviam sido feitas no processo judicial, e ali respondidas, atendendo ao ofício da Procuradoria (PRFN). Em síntese, transcreve a Informação Fiscal da época (05/11/2009), segundo a qual “não consta relacionadas nas atas de abertura de todas as caixas objeto de apreensão judicial a descrição DISO’S de obras”. Em anexo, consta o Ofício 75/2009 PRFN/SP, a Informação Fiscal da época e todos os elementos comprobatórios relativos à apreensão e à devolução dos documentos (vide fls.312/491). Por fim, consta despacho de encaminhamento do processo à DRJ, ante as alegações do sujeito passivo quanto à tempestividade da impugnação, pela suposta falta de devolução das DISO. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto/SP lavrou Decisão Administrativa textualizada no Acórdão nº 1444.533 7ª Turma da DRJ/RPO, às fls. 497/503, não conhecendo da Impugnação oposta, em face de sua intempestividade. Recordese: O contribuinte foi intimado do resultado do julgamento em 13/12/2013, conforme AR de fls. 510/511 e inconformado com a decisão exarada pelo órgão julgadora quo, o Recorrente interpôs Recurso Voluntário tempestivo às fls. 513/565, em 10/01/2014, reprisando os mesmos argumentos já lançados em sua peça de impugnação, inclusive no mérito, e reiterando a preliminar de tempestividade aos argumentos a seguir expostos: Após, ratifica toda a alegação de mérito, embora, ressaltese, a matéria submetida para análise perante este E. CARF, referese somente à preliminar de arguição da tempestividade. Repisa ainda a necessidade de aplicação da Súmula nº 8 do STF, para ver reconhecida a total improcedência de todos os lançamentos das contribuições realizadas anteriormente a março de 2002, ou seja, anterior a cinco anos, conforme descrito no CTN, uma Fl. 387DF CARF MF Processo nº 15885.002293/200894 Acórdão n.º 2401005.180 S2C4T1 Fl. 5 7 vez que ocorreu nas presente competências pagamento de valores à Secretaria Previdenciária, podendo ser facilmente constatado pela NFLD e pelo sistema. É o relatório. Fl. 388DF CARF MF 8 Voto Conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa – Relatora 1.DOS PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE O Recorrente foi cientificado da r. decisão em debate, no dia 13/12/2013, conforme AR de fl. 510/511, e apresentou seu recurso voluntário em 10/01/2014. Assim, CONHEÇO DO RECURSO já que presentes os requisitos de admissibilidade. 1.DAS PRELIMINARES Inicialmente, cabe destacar que foram apresentadas em momentos distintos, e com conteúdos diversos impugnações à NFLD, tanto pela responsável solidária (CEF), como pela notificada principal ou contribuinte (SAT Engenharia). Serão tratadas de maneira específica, como segue. Da impugnação da responsável solidária A CEF apresentou – na qualidade de responsável solidária – defesa tempestiva, alegando, em síntese, que não pode ser devedora solidária da SAT Engenharia, pela razão de que não era proprietária das obras, e sim o FAR – Fundo de Arrendamento Residencial. Continua o raciocínio mostrando que a lei nº 10.188/2001 instituiu o Programa de Arrendamento Residencial, visando a atender à necessidade de moradia da população de baixa renda, autorizando a CEF a criar um fundo financeiro dotado de segregação patrimonial e contábil, destinado ao referido programa. O parágrafo 3° do artigo 2.º da lei estabelece que "os bens e direitos integrantes do patrimônio do fundo a que se refere o caput, em especial os bens imóveis mantidos sob a propriedade fiduciária da CEF, bem como seus frutos e rendimentos, não se comunicam com o patrimônio desta". Reforça ainda que tais bens "não integram o ativo da CEF", pertencendo de fato ao fundo, o qual, por não ter personalidade jurídica, tem a CEF como seu agente operacional (fiduciário). Tais alegações não servem para descaracterizar a condição de proprietária das obras em questão atribuída à CEF. Explicase. A citada lei nº 10.188/2001, que instituiu o Programa de Arrendamento Residencial (PAR), é oriunda das Medidas Provisórias (MP) n.º 1.823/1999, 1.864/99, 1.944/99, e 2.135/2000, após as sucessivas e infindáveis reedições e convalidações de atos, e traz os conceitos e prescrições aplicáveis ao caso em tela. Dispõe, em síntese, que a CEF era o gestor operacional do programa (art. 1º e § único); que integram o patrimônio do fundo os bens imóveis adquiridos e mantidos sob a propriedade fiduciária da CEF, não se comunicando com o patrimônio desta (art. 2º e § 3º); que a alienação dos imóveis pertencentes ao patrimônio do fundo será efetivada diretamente pela CEF (art. 2º e § 7º); que compete à CEF realizar as operações de aquisição, arrendamento e venda de imóveis (art. 4º e § único); que o arrendamento residencial tem por objeto o arrendamento com opção de compra de bens imóveis adquiridos para esse fim específico, Fl. 389DF CARF MF Processo nº 15885.002293/200894 Acórdão n.º 2401005.180 S2C4T1 Fl. 6 9 sendo arrendatária a pessoa física habilitada mediante contrato com a CEF (art. 6º, caput e § único); que o contrato de aquisição de imóveis pelo arrendador [CEF], bem como o de transferência do direito de propriedade ao arrendatário (pessoa física arrendatária), serão celebrados por instrumento particular com força de escritura pública (art. 8º); em caso de inadimplemento no arrendamento, sem pagamento dos encargos em atraso, configurase o esbulho possessório que autoriza o arrendador [CEF] a propor a competente ação de reintegração de posse (art. 9º); aplicase, no que couber, a legislação do arrendamento mercantil (art. 10). Ora, os conceitos de propriedade fiduciária, propriedade resolúvel e arrendamento mercantil estão interligados e postos há muito tempo, pela legislação brasileira. Como exemplo, em se tratando de financiamento imobiliário, a lei nº 9.514/97 regula a “alienação fiduciária de coisa imóvel”, dispondo, em seu art. 22, que “A alienação fiduciária regulada por esta Lei é o negócio jurídico pelo qual o devedor, ou fiduciante, com o escopo de garantia, contrata a transferência ao credor, ou fiduciário, da propriedade resolúvel de coisa imóvel” (grifouse). Complementase tal conceito com o explicitado no art. 23: Constituise a propriedade fiduciária de coisa imóvel mediante registro, no competente Registro de Imóveis, do contrato que lhe serve de título. Parágrafo único. Com a constituição da propriedade fiduciária, dáse o desdobramento da posse, tornandose o fiduciante possuidor direto e o fiduciário possuidor indireto da coisa imóvel. (grifos nossos) Depreendese, assim, que os elementos contratuais e fáticos sob análise estão todos aí presentes. De fato, a SAT Engenharia foi contratada – no âmbito do programa (PAR) – pela CEF, para a construção dos empreendimentos residenciais em tela. Analisandose os autos, especialmente os contratos de compra e venda (fls. 54/99), incluindo os respectivos registros imobiliários, não se pode concordar com a alegação da impugnante de que o verdadeiro proprietário de cada obra seria o fundo financeiro (FAR), e que este é quem deveria ser notificado como solidário. O objeto do contrato é a operação de compra e venda de imóvel e de produção de empreendimento residencial, no qual figuram como vendedora e construtora a SAT Engenharia, e como compradora e contratante a CEF. A CEF, além de compradora do imóvel, qualificase como gestora do programa (PAR), nos moldes do disposto na MP nº 1.823/99 (depois lei nº 10.188/2001), atuando operacionalmente em nome do fundo financeiro instituído, mesmo porque este não era dotado de personalidade jurídica. Na cláusula contratual que descreve cada imóvel adquirido, mencionase que os imóveis do empreendimento antes mencionado integrarão o patrimônio do fundo financeiro do programa de arrendamento residencial — PAR, destinado à população alvo. Fl. 390DF CARF MF 10 Isso não significa que a propriedade da obra teria como titular o próprio fundo financeiro. Definitivamente, não. Apenas a insere no contexto de segregação patrimonial e contábil em relação ao patrimônio da CEF, que é o arrendador ou credor imobiliário, em relação às pessoas que iriam adquirir as unidades residenciais. Tratase do conceito de “afetação patrimonial”, o qual, a pretexto de modernizar e conferir maior grau de segurança ao sistema de financiamento imobiliário, estipula que os bens afetados ao desenvolvimento de um empreendimento ou incorporação imobiliária não se confundem com o patrimônio do empreendedor ou incorporador. É mecanismo de proteção ao mutuário ou pessoa física adquirente do imóvel, na medida em que se vê protegido de riscos externos à sua relação jurídica específica, vale dizer, entre a pessoa física e o empreendedor imobiliário. Explicando melhor. Os imóveis adquiridos pela CEF – e destinados ao arrendamento residencial – não se comunicam com seu patrimônio geral, por força de lei. Não são passíveis de eventual execução por quaisquer credores da Caixa Econômica Federal, por mais privilégios que possam ser. Eles estão afetados à finalidade do programa residencial. O que não significa que estariam sem titularidade; ao contrário, embora tenham autonomia jurídica em relação ao patrimônio restante, prevenindose riscos patrimoniais estranhos ao arrendamento residencial, permanecem sob a titularidade da CEF, ainda que desdobrada no âmbito da propriedade fiduciária (resolúvel com o adimplemento integral do contrato), lembrando denominarse fiduciante o possuidor direto e fiduciário o possuidor indireto do imóvel, que é dado em garantia. Assim está disposto ao final dos contratos de compra/venda e produção, na cláusula 13.ª, em que figura a CEF como compradora do imóvel, gestora do PAR e detentora da propriedade fiduciária do empreendimento residencial a ser construído. Vêse que a aquisição de cada imóvel foi feita pela CEF, visando ao empreendimento residencial, composto de unidades a serem arrendadas a pessoas físicas mediante contratos destas com aquela. Essa foi a condição fática e jurídica existente durante toda a execução do empreendimento. O que denota sua condição de proprietária das obras, tal como consta inclusive nas averbações do registro imobiliário. Bem assim a contratação, pela própria CEF, da SAT Engenharia para a execução da obra, conforme cláusula 2.ª e parágrafo único dos contratos supra mencionados: a produção (ou recuperação) do empreendimento será de inteira responsabilidade da construtora, sendo sua obrigação arcar com todos os custos da obra, tais como: a compra dos materiais, contratação da mãodeobra e recolhimento de encargos sociais trabalhistas, previdenciários e tributos incidentes. Denotase aqui a contratação sob regime de empreitada total. Inequívoco, pois, o enquadramento da CEF como proprietária das obras em questão, por deter sua titularidade e tal como definido na legislação ao longo do período da presente notificação. Da mesma forma, inequívoca a contratação da empresa construtora sob o regime de empreitada total. Vejamse: Lei nº 8.212/91: Art. 30. [omitido] (...) VI o proprietário, o incorporador definido na Lei nº 4.591, de 16 de dezembro de 1964, o dono da obra ou condômino da Fl. 391DF CARF MF Processo nº 15885.002293/200894 Acórdão n.º 2401005.180 S2C4T1 Fl. 7 11 unidade imobiliária, qualquer que seja a forma de contratação da construção, reforma ou acréscimo, são solidários com o construtor, e estes com a subempreiteira, pelo cumprimento das obrigações para com a Seguridade Social, ressalvado o seu direito regressivo contra o executor ou contratante da obra e admitida a retenção de importância a este devida para garantia do cumprimento dessas obrigações, não se aplicando, em qualquer hipótese, o benefício de ordem; (Redação dada pela Lei 9.528, de 10.12.97) Decreto n.º 3.048/99: Art.220. O proprietário, o incorporador definido na Lei nº 4.591, de 1964, o dono da obra ou condômino da unidade imobiliária cuja contratação da construção, reforma ou acréscimo não envolva cessão de mãodeobra, são solidários com o construtor, e este e aqueles com a subempreiteira, pelo cumprimento das obrigações para com a seguridade social, ressalvado o seu direito regressivo contra o executor ou contratante da obra e admitida a retenção de importância a este devida para garantia do cumprimento dessas obrigações, não se aplicando, em qualquer hipótese, o benefício de ordem. §1º Não se considera cessão de mãodeobra, para os fins deste artigo, a contratação de construção civil em que a empresa construtora assuma a responsabilidade direta e total pela obra ou repasse o contrato integralmente. §2º O executor da obra deverá elaborar, distintamente para cada estabelecimento ou obra de construção civil da empresa contratante, folha de pagamento, Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social e Guia da Previdência Social, cujas cópias deverão ser exigidas pela empresa contratante quando da quitação da nota fiscal ou fatura, juntamente com o comprovante de entrega daquela Guia. §3º A responsabilidade solidária de que trata o caput será elidida: I pela comprovação, na forma do parágrafo anterior, do recolhimento das contribuições incidentes sobre a remuneração dos segurados, incluída em nota fiscal ou fatura correspondente aos serviços executados, quando corroborada por escrituração contábil; e II pela comprovação do recolhimento das contribuições incidentes sobre a remuneração dos segurados, aferidas indiretamente nos termos, forma e percentuais previstos pelo Instituto Nacional do Seguro Social. III pela comprovação do recolhimento da retenção permitida no caput deste artigo, efetivada nos termos do art. 219.(Incluído pelo Decreto nº 4.032, de 2001) (grifos nossos) Fl. 392DF CARF MF 12 Vejamse ainda as disposições e definições de algumas das instruções normativas relativas ao período em tela e à época do lançamento: Instrução Normativa INSS/DC n° 69/2002 – (DOU de 15/05/2002) Art. 2º Para os efeitos desta Instrução Normativa, considerase: (...) XXIII contrato de empreitada o contrato celebrado entre o proprietário, o incorporador, o dono da obra ou o condômino e uma empresa, para execução de obra de construção civil, podendo ser: a) total, quando celebrado exclusivamente com empresa construtora que assume a responsabilidade direta pela execução de todos os serviços necessários à realização da obra, compreendidos em todos os projetos a ela inerentes, com ou sem fornecimento de material; (...) XLVIII proprietário a pessoa física ou jurídica detentora da titularidade do imóvel; (...) Art. 27. Aplicase a responsabilidade solidária de que trata o inciso VI do art. 30 daLei nº 8.212, de 1991, nos seguintes casos: I na contratação de empreitada total; Instrução Normativa SRP nº 03/2005 (DOU de 15/07/2005) Art. 181. São responsáveis solidários pelo cumprimento da obrigação previdenciária principal na construção civil: I o proprietário do imóvel, o dono da obra, o incorporador, o condômino de unidade imobiliária, pessoa jurídica ou física, quando contratar a execução da obra mediante empreitada total com empresa construtora, definida no inciso XX do art. 413, observado o disposto no § 3º deste artigo, ressalvado o disposto no inciso IV do § 2º do art. 178; (...) Art. 413. Considerase: (...) XXVIII contrato de construção civil ou contrato de empreitada (também conhecido como contrato de execução de obra, contrato de obra ou contrato de edificação), aquele celebrado entre o proprietário do imóvel, o incorporador, o dono da obra ou o condômino e uma empresa, para a execução de obra ou serviço de construção civil, no todo ou em parte, podendo ser: Fl. 393DF CARF MF Processo nº 15885.002293/200894 Acórdão n.º 2401005.180 S2C4T1 Fl. 8 13 a) total, quando celebrado exclusivamente com empresa construtora, definida no inciso XX, que assume a responsabilidade direta pela execução de todos os serviços necessários à realização da obra, compreendidos em todos os projetos a ela inerentes, com ou sem fornecimento de material; (...) XXXIII proprietário do imóvel, a pessoa física ou jurídica detentora legal da titularidade do imóvel; De todo o exposto, podese concluir pela correta responsabilização solidária da CEF em relação aos créditos ora constituídos, incidentes sobre a execução das obras de construção civil relacionadas, nos termos da legislação supracitada. Não se encontrando nos autos nenhuma comprovação quanto à elisão dessa solidariedade imputada, é improcedente o pedido de cancelamento da presente NFLD em nome da CEF. Do cerceamento de defesa – dilação do prazo para defesa administrativa A solidária alega que no contexto das ações judiciais (processos n.º 2003.61.08.0126184 e 2007.61.08.0042401) movidas pela SAT Engenharia, cujo objeto era a restituição de documentos necessários à defesa administrativa, teria também direito à dilação de prazo concedida ao devedor principal, sob pena de cerceamento de defesa. Sua assertiva está, em tese, correta. A dilação do prazo para defesa administrativa foi efetivamente concedida pela Justiça Federal, e logicamente encerrado, conforme disposições legais. Notase que a CEF tomou conhecimento de todo o andamento do processo administrativo, sendo inclusive intimada – junto com o contribuinte – de despachos que referenciavam a data estabelecida pela Justiça Federal (isto é, a intimação do acórdão do TRF 3) para o início do prazo para impugnação. No seu caso, de uma nova impugnação, uma vez que já havia apresentado sua defesa administrativa, dentro do prazo legal, e que foi devidamente apreciada, como abordado em tópico acima. Teve vista dos autos, a qualquer tempo, tendo até mesmo solicitado cópias de todo o processo, conforme comprova documento de fl. 212. Ocorre que não há nos autos, qualquer apresentação ulterior de defesa, por parte da CEF, além da impugnação tempestiva em que questiona sua condição de solidária, e que já foi apreciada neste voto, pelo que fica prejudicado esse pedido, diante de sua total inércia processual, não se podendo falar em cerceamento de defesa. Da petição da devedora principal argüição de tempestividade e seus efeitos preliminar A autuada aduz que a impugnação é tempestiva, isto é, teria sido apresentada para afastar alegação de omissão ou inércia em apresentar defesa administrativa. Isto porque, de acordo com o Acórdão do processo judicial n.º 2007.61.08.0042401, o início do prazo para interposição da defesa contarseia a partir da efetiva entrega da documentação apreendida ou da data da intimação da decisão prolatada. Fl. 394DF CARF MF 14 Como não teriam sido devolvidos todos os documentos apreendidos – em especial as DISO –,reputadas imprescindíveis para a defesa do contribuinte, não teria se encerrado, ainda, o prazo para impugnação. Pois bem. Como foi argüida a tempestividade, cabe analisar suas circunstâncias e os seus efeitos. A primeira questão a ser definida é o termo inicial para apresentação da defesa administrativa. Apesar da ciência da NFLD em 27/04/2007, o desdobramento do processo n.º 2007.61.08.0042401 – Medida Cautelar visando à devolução dos documentos apreendidos pela fiscalização – postergou tal início. Este ficou definido, conforme decisão do Tribunal (TRF3), como sendo a data de conclusão do procedimento de devolução do material apreendido ou a data da intimação daquela decisão, o que ocorresse por último. O procedimento de devolução dos documentos apreendidos foi encerrado em 23/09/2009, com ciência à interessada em 07/10/2009. É o que comprova o expediente enviado à empresa e Aviso de Recebimento (AR) de fls. 186/187. Também foi informado desse encerramento o Juízo pertinente, em 05/01/2010, conforme Ofício de fls. 189/190. A seu turno, a data de intimação da decisão do TRF3 nos autos n.º 2007.61.08.0042401 ocorreu em 28/03/2011, conforme atestado às fls. 196/197. Assim, este foi considerado o marco inicial para a interposição de defesa administrativa relativa à NFLD lavrada. A segunda questão a ser apreciada – diante das alegações da autuada –aborda a devolução ou não da totalidade dos documentos apreendidos, em especial as DISO, para fins de validar ou não aquele procedimento de devolução. Pelo despacho de fl. 185, encaminhouse o processo à Fiscalização, a fim de esclarecer acerca da devolução da documentação anteriormente retida. No despacho às fls. 196/197, da SACAT da Delegacia da Receita Federal do Brasil (DRF) em BauruSP, dentre outras, consta a informação de que todos os documentos apreendidos foram devolvidos totalmente (cópia de fls. 58/62). Importa destacar – neste momento – que o presente processo nº 15885.002293/200894 é conexo com o de nº 15885.002296/200828. Na verdade, podese até dizer que há relação de continência entre os processos, pois há identidade quanto às partes e à causa de pedir, mas o objeto de um, por ser mais amplo, abrange ou contém o do outro. Ambos tratam da lavratura de contribuições incidentes sobre obras de construção civil, trazendo como sujeitos passivos a autuada (contribuinte) e a CEF (responsável solidária). As circunstâncias fáticas são exatamente as mesmas (incluindo as basesdecálculo), com a parte patronal lançada no primeiro; e a parte do financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho (SAT/RAT) lançada no segundo, por haver ação judicial questionando sua constitucionalidade. Nesse contexto, e tãosomente a título de reforçar e esclarecer acerca da efetiva devolução da documentação apreendida judicialmente à empresa autuada, vaise buscar, nos autos do processo mencionado (nº 15885.002296/200828) que foi apreciado e julgado na sessão de julgamento anterior, de 19/09/2013, desta mesma 7ª turma da DRJ em Ribeirão Preto/SP, Acórdão nº 1444.816 – a Informação Fiscal de fls. 286/287, anotando que alegações acerca da não devolução de todos os documentos já haviam sido feitas no processo judicial, e ali respondidas, atendendo a ofício da Procuradoria (PRFN). Em síntese, ali consta a transcrição de Informação Fiscal da época (05/11/2009), segundo a qual “não consta Fl. 395DF CARF MF Processo nº 15885.002293/200894 Acórdão n.º 2401005.180 S2C4T1 Fl. 9 15 relacionadas nas atas de abertura de todas as caixas objeto de apreensão judicial a descrição DISO’S de obras”. E mais. Em anexo, na seqüência (vide fls. 288/467), consta o Ofício nº 75/2009 PRFN/SP, a Informação Fiscal original da época, na íntegra, e todos os elementos comprobatórios relativos à apreensão e à devolução dos documentos. Ainda de acordo com tais expedientes e anexos comprobatórios, não constava a descrição de DISOs nas atas de aberturas de todas as caixas de documentos apreendidos. Em outras palavras, não se registram DISOs nos "termos de comparecimento e abertura de volumes” ou em “atas de devolução e retenção de volumes”, os quais discriminam o conteúdo das caixas. Destacase que os trabalhos de abertura, triagem e posterior devolução do material apreendido foram notificados à empresa e acompanhados por seus representantes, devidamente habilitados (mediante procurações) para tanto, quando lhe convinha. É o que se depreende do contido nesses autos, incluindo “listas de comparecimento para a retirada da documentação apreendida”, e planilhas de “controles da retirada das caixas e documentos apreendidos”, todas rubricadas por representantes da empresa. E mais. Naquela Informação Fiscal já era consignada a improcedência das alegações de cerceamento de defesa, haja vista não constar no material relacionado nenhuma DISO de obra; além do registro de que todos os documentos foram devolvidos à empresa, sejam os originais, sejam as cópias daqueles que ficaram retidos. Fica ressaltado, mais uma vez, que tais elementos de convicção ora indicados foram todos colhidos com a ciência e participação do sujeito passivo, constam de vários outros processos oriundos da mesma ação fiscal, os quais são conexos entre si, possuem identidade de partes e objetos, e foram contestados em conjunto, como se depreende de suas peças de defesa. Daí a razão por que foram reunidos – todos os processos da autuada – para receber julgamento uniforme, de maneira a atender aos princípios da economia processual e celeridade, sem qualquer prejuízo aos do devido processo legal, contraditório e ampla defesa. Em síntese, quanto ao aspecto da devolução (ou não) da documentação anteriormente apreendida, a partir do que consta nos mencionados autos, não há comprovação da veracidade das alegações da autuada. Ao contrário, tudo indica que foram efetivamente devolvidos todos os documentos da empresa, com regular finalização do procedimento de devolução, e que não havia DISOs ali relacionados, afastandose qualquer possibilidade de prejuízo procedimental ou cerceamento de defesa. Voltase, então, à contagem do prazo para a defesa administrativa. Nos termos dos artigos 14 e 15 do Decreto nº 70.235/72 (DOU de 07/03/1972), a impugnação deve ser apresentada ao órgão preparador no prazo de 30 (trinta) dias da data de intimação da exigência, instaurando a fase litigiosa do procedimento: Art. 14. A impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento. Art. 15 – A impugnação, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, será apresentada ao órgão preparador no prazo de trinta dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência. Fl. 396DF CARF MF 16 (sem grifos no original) Por seu turno, o artigo 23 do mesmo Decreto nº 70.235/72 disciplina a intimação e define que se considera feita na data da ciência do intimado: Art. 23. Farseá a intimação: I pessoal, pelo autor do procedimento ou por agente do órgão preparador, na repartição ou fora dela, provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) II por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ou via, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (...) § 2° Considerase feita a intimação: I na data da ciência do intimado ou da declaração de quem fizer a intimação, se pessoal; II no caso do inciso II do caput deste artigo, na data do recebimento ou, se omitida, quinze dias após a data da expedição da intimação;(Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (sem grifos no original) Como se verifica nos autos, especificamente no despacho de 22/08/2011 (fls. 196/197), não houve interposição de recurso administrativo até aquela data; relembrando que a data de início do prazo para defesa – estipulado pela Justiça Federal – era 28/03/2011. A petição apresentada pela empresa, a pretexto de IMPUGNAÇÃO, foi protocolizada somente em 22/12/2011, ou seja, nitidamente fora do prazo legal supracitado; concluindose – de forma inequívoca – pela sua intempestividade. Conforme explicita o Decreto nº 7.574/2011, que regulamenta o processo administrativo tributário, em seu art. 56 e § 2º, a impugnação intempestiva não instaura a fase litigiosa do procedimento, exceto se a preliminar de tempestividade for suscitada, situação em que será cabível o julgamento da tempestividade da impugnação argüida pelo Impugnante.Cita se: Art.56. (omissis) (...) §2o Eventual petição, apresentada fora do prazo, não caracteriza impugnação, não instaura a fase litigiosa do procedimento, não suspende a exigibilidade do crédito tributário nem comporta julgamento de primeira instância, salvo se caracterizada ou suscitada a tempestividade, como preliminar. (grifos nossos) No presente caso, conforme já exposto, para a devedora principal, esta decisão limitarseá a julgar a preliminar de tempestividade da impugnação apresentada, a Fl. 397DF CARF MF Processo nº 15885.002293/200894 Acórdão n.º 2401005.180 S2C4T1 Fl. 10 17 qual deve ser rejeitada, haja vista a indubitável protocolização da defesa após o transcurso do prazo legal. Em conseqüência, deixase de apreciar as demais matérias tratadas no recurso voluntário, para as quais não se instaurou a fase litigiosa do procedimento. CONCLUSÃO Diante do exposto, voto para conhecer de ambos os recursos e no mérito NEGARLHES PROVIMENTO, mantendo incólume o v. Acórdão recorrido. É como voto. (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa. Fl. 398DF CARF MF
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Numero do processo: 10825.721247/2015-16
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Apr 06 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1201-000.326
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em sobrestar o julgamento do presente processo; retornando os autos à DRF de origem para aguardar a decisão definitiva quanto ao processo nº 16561.720070/2014-76, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente
(assinado digitalmente)
Paulo Cezar Fernandes de Aguiar - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli e Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado). Ausentes, justificadamente, os conselheiros José Carlos de Assis Guimarães, Rafael Gasparello Lima e Gisele Barra Bossa.
Nome do relator: PAULO CEZAR FERNANDES DE AGUIAR
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em sobrestar o julgamento do presente processo; retornando os autos à DRF de origem para aguardar a decisão definitiva quanto ao processo nº 16561.720070/201476, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente (assinado digitalmente) Paulo Cezar Fernandes de Aguiar Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli e Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado). Ausentes, justificadamente, os conselheiros José Carlos de Assis Guimarães, Rafael Gasparello Lima e Gisele Barra Bossa. Relatório Adotase o relatório da decisão de primeira instância, com os complementos necessários: RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 25 .7 21 24 7/ 20 15 -1 6 Fl. 2150DF CARF MF Processo nº 10825.721247/201516 Resolução nº 1201000.326 S1C2T1 Fl. 3 2 Tratase da manifestação de inconformidade interposta contra o despacho decisório da DRF Bauru (SP) que indeferiu o pedido de restituição do saldo negativo de IRPJ do anocalendário 2012 e não homologou as compensações relacionadas ao crédito. O pedido de restituição foi formulado no PER/DCOMP 06864.66471.230713.1.2.022402, pelo valor de R$ 18.172.741,28. O saldo negativo foi obtido a partir de retenções de imposto de renda na fonte, porquanto não houve imposto de renda apurado no período. O crédito foi formado basicamente a partir de retenção de imposto no valor de R$ 18.093.544,44, incidente sobre remuneração de debêntures emitidas por Açucareira Zillo Lorenzetti e adquiridas originalmente pela sociedade empresária incorporada Companhia Agrícola Zillo Lorenzetti. Todas as empresas citadas – inclusive a interessada – eram ou foram integrantes do mesmo grupo econômico. A DRF Bauru não reconheceu o saldo negativo em face de as retenções na fonte terem sido realizadas sobre operações inoponíveis ao fisco. A decisão sofreu reflexo dos autos de infração de Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), lavrados contra as emissoras das debêntures, visando a retirar os efeitos tributários dos títulos. As autuações são conduzidas no processo administrativo 16561.720147/201416 (sic). A fiscalização reputou que as operações com debêntures seriam desprovidas de substrato negocial e objetivariam a redução drástica do pagamento de tributos. No entender fiscal, somente o fato de emitentes e subscritoras serem empresas pertencentes aos mesmos sócios justificaria a emissão das debêntures, uma vez que não houve captação de recursos novos, os acertos de direitos e obrigações entre as partes ocorreram sem transferência de recursos (por mero encontro de contas) e a remuneração dos títulos se deu, além dos juros de 12% a.a., pela elevada participação nos lucros no percentual de 50%. Segundo a unidade fiscal, a vantagem tributária para as emissoras dos títulos dar seia pela redução das bases de cálculo de IRPJ e CSLL, decorrentes de despesas registradas com a remuneração dos títulos, bem como pela não tributação dos prêmio na emissão dos títulos (art. 442, III, do RIR/99); e, para a sucessora das debenturistas, pelo impacto tributário nulo representado pelas remunerações, uma vez que habitualmente apresenta resultado negativo em suas atividades e tem prejuízo ou base de cálculo negativa a compensar (atividade rural não se submete à trava dos 30%), e pela possibilidade de amortizar prêmio pago na aquisição das debêntures. A DRJ Belo Horizonte indeferiu as impugnações apresentadas pela emitente (contribuinte) e adquirente (responsável, sucedida pela interessada) para cancelar os lançamentos. As autuadas impetraram recursos voluntários ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). Tais recursos encontramse pendentes de julgamento. Nos termos do despacho decisório recorrido, a glosa do imposto de renda retido na fonte deduzido do IRPJ pela contribuinte na declaração do anocalendário 2012 foi consequência lógica da desconsideração das operações com debêntures. Ademais, a unidade fiscal alertou para possível duplicidade na utilização dos valores recolhidos, tendo em conta que as empresas autuadas (emissoras das debêntures) pleitearam o expurgo das quantias retidas nas impugnações aos autos de infração. Assim, as compensações não foram homologadas em razão do descumprimento dos requisitos do art. 170 do CTN (liquidez e certeza do crédito). Fl. 2151DF CARF MF Processo nº 10825.721247/201516 Resolução nº 1201000.326 S1C2T1 Fl. 4 3 A interessada foi intimada do despacho decisório em 27/5/16 e apresentou manifestação de inconformidade em 27/6/16. A contribuinte pede o reconhecimento da integralidade do crédito pleiteado e a homologação das compensações. Supletivamente, requer o desmembramento do processo e posterior reunião ao de número 16561.720070/201476, de forma a possibilitar o julgamento conjunto das demandas, porque discutiriam o tratamento a ser dado às mesmas operações com debêntures da qual participou pessoa por ela incorporada. Quanto ao menos, requer o sobrestamento deste processo até o julgamento definitivo daquele outro. As razões da inconformidade são, basicamente, estas: a) o saldo negativo apurado é regular e independe da desconsideração dos efeitos fiscais das debêntures; b) a decisão deste litígio é reflexo do resultado consignado para os autos de infração; c) a regularidade dos efeitos fiscais das transações com debêntures só poderia ser questionada até 2007, uma vez que os títulos foram emitidos no ano de 2002 (decadência, conforme art. 150, § 4º, do CTN); d) as justificativas para o indeferimento da restituição e compensações não demonstram a prática de operações abusivas, uma vez que não foi avaliado se as debêntures serviram ao financiamento das atividades produtivas da emissora e se o prêmio pago e percentual de participação nos lucros não se justificavam economicamente, considerando o retorno esperado com o montante recebido, além de não ter sido comparada a redução da carga tributária mediante financiamento via debêntures com participação no lucro (DPL) face a obtenção de empréstimo bancário ou pagamento de juros sobre o capital próprio; e) a transação praticada tem fundamentos econômicos, pois os parâmetros definidos na emissão das debêntures e os valores pagos em resgate à debenturista são explicáveis, comutativos e inferiores aos custos de um financiamento perante instituição independente ou por pagamento de juros sobre o capital próprio, ao passo que a transação também foi lucrativa para a requerente; f) as autoridades fiscais são incompetentes para qualificarem atos jurídicos como abusivos ante a ausência da regulamentação do art. 116, parágrafo único, do CTN; e g) transcorreu o prazo fixado no direito civil para anulação de atos considerados abusivos. Pela referida decisão, a manifestação de inconformidade foi considerada improcedente, conforme ementa abaixo transcrita: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Anocalendário: 2012 REUNIÃO DE PROCESSOS. AUTOS DE INFRAÇÃO DE IRPJ E CSLL E RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO DE SALDO NEGATIVO DE IRPJ. TITULARES DIFERENTES. QUESTÕES DE FUNDO SIMILARES. A legislação pertinente ao processo administrativo fiscal não prevê a reunião de processo de exigência tributária de IRPJ com de restituição/compensação de saldo devedor de IRPJ, sobretudo quando são distintos os titulares e porque já houve julgamento em primeira instância. Fl. 2152DF CARF MF Processo nº 10825.721247/201516 Resolução nº 1201000.326 S1C2T1 Fl. 5 4 SOBRESTAMENTO DE PROCESSO. Não há autorização legislativa para o sobrestamento do processo administrativo. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Ano calendário: 2012 DECADÊNCIA. FATOS COM REPERCUSSÃO EM PERÍODOS FUTUROS. É legítimo o exame de fatos ocorridos há mais de cinco anos do procedimento fiscal para deles extrair a repercussão tributária em períodos ainda não atingidos pela caducidade. JURISPRUDÊNCIA ADMINISTRATIVA. EFEITOS. Os efeitos da jurisprudência administrativa no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil somente se aplicam às partes envolvidas, não possuindo caráter normativo, exceto nos casos previstos em lei. DEBÊNTURES. ATOS CONSIDERADOS ABUSIVOS. DESCARACTERIZAÇÃO DE OPERAÇÕES. São inoponíveis ao fisco as operações com debêntures realizadas apenas entre empresas do mesmo grupo, sem captação efetiva de recursos novos, dissociada de realidade negocial efetiva e levada a efeito em condições anormais e não usuais, com o objetivo de eliminar a incidência dos tributos incidentes sobre o lucro. RESTITUIÇÃO. RETENÇÃO BASEADA EM REMUNERAÇÃO CUJA CAUSA FOI DESCONSIDERADA. PAGAMENTO SEM CAUSA. TITULARIDADE SOBRE EVENTUAL CRÉDITO. Com a descaracterização dos efeitos da operação sobre a qual se baseou a retenção de imposto de renda na fonte, o pagamento deve ser considerado sem causa, passível de tributação por alíquota diferenciada, tributação exclusiva na fonte e base de cálculo reajustada. Na hipótese de existir eventual indébito, o titular para reivindicálo seria a fonte pagadora. Protocolado o competente Recurso Voluntário, foi alegado, em apertada síntese: Regularidade do saldo negativo apurado independentemente da desconsideração dos efeitos fiscais das debêntures. Admitindose, somente para argumentar, que as debêntures em exame deveriam ter o seu tratamento fiscal afastado a partir dos elementos expostos, mesmo assim é inafastável o direito ao saldo negativo. Afinal, a Recorrente recebeu rendimentos tributados na fonte como antecipação do devido e no encerramento do período não tinha IRPJ a recolher em razão de o lucro apurado ser compensável com prejuízo fiscal sem o limite de 30%, como faculta a própria legislação. Decadência. Impossibilidade de o Fisco impugnar as operações mais de 5 anos após terem sido realizadas, nos termos do art. 150, §4º, do CTN. As debêntures resgatadas em 2012 foram emitidas em 2002. Logo a regularidade dos efeitos fiscais da transação só poderia ser questionada até 2007 e não como feito em 2016 por meio do despacho decisório inicialmente recebido. Fl. 2153DF CARF MF Processo nº 10825.721247/201516 Resolução nº 1201000.326 S1C2T1 Fl. 6 5 Reunião do presente feito ao processo originário dos autos de infração em que glosadas as despesas com as debêntures. Na eventualidade de os argumentos anteriores não serem acatados, requerse a reunião do presente feito com o PA 16561.720070/201476 – decorrente dos AIs com as glosas das despesas com as debêntures pois ambos tratam da mesma transação e, se decididas separadamente, correse o risco de se ter conclusões diversas, o que é injustificável. Quando menos, deve ser sobrestada a solução do presente litígio até que sejam encerrados o PA 16561.720070/201476, na medida em que esse constitui feito principal, enquanto o presente qualificase como reflexo. A solução que vier a ser dada no processo principal vinculará o resultado do presente, que trata de um reflexo (saldo negativo fruto de IRRF) da transação lá impugnada. Inexistência de operação abusiva. Ausência de demonstração da prática de operação abusiva. Os elementos levantados não se mostram hábeis e suficientes a autorizar a conclusão adotada, no sentido de que teria se dado a prática de operações abusivas. Para que pudesse realizar tal avaliação, seria necessário verificar/avaliar: (1) se as debêntures serviram ao financiamento das atividades produtivas da emissora; (2) se o prêmio pago e o percentual de participação nos lucros não se justificavam economicamente, bem como confrontar o retorno esperado com o montante recebido; e (3) se houve redução de carga tributária, a partir de demonstração comparativa, com a opção pelo financiamento via DPLs, ao invés de obtenção de empréstimo bancário ou JCPs. Nenhuma das medidas descritas foi adotada no caso concreto, o que era imprescindível. A título de homologar o saldo negativo, o despacho e a DRJ se apressaram em concluir pela existência de operação abusiva tão só em razão de a emissora e emitente serem controladas pelas mesmas pessoas, as debêntures preverem remuneração parcial em lucros e a Recorrente, sucessora por incorporação da subscritora original, possuir resultados fiscais negativos passíveis de compensação sem a necessidade de observância da trava de 30%, circunstâncias insuficientes para servirem de motivação à glosa realizada; e A transação praticada tem fundamentos econômicos. Os parâmetros definidos na emissão das debêntures e os valores pagos à debenturista em resgate são explicáveis, comutativos e inferiores aos custos que seriam incorridos caso houvesse a opção pela obtenção de financiamento junto à instituição independente ou pelo pagamento de juros sobre o capital próprio. Do lado da Recorrente, a transação foi igualmente lucrativa. Logo, o tratamento tributário aplicado configura exercício regular de direito. Impossibilidade de desconsideração dos efeitos fiscais ao argumento da ocorrência de abuso de direito. Incompetência das autoridades fiscais para qualificarem atos jurídicos como abusivos ante a ausência da edição de lei regulamentando o artigo 116, parágrafo único, do CTN. Ainda que representassem abuso de direito, assunção aceita unicamente a título de argumentação, as operações não poderiam ser impugnadas sob tal fundamento, na medida em que a Lei Complementar 104/01, que introduziu o parágrafo único ao artigo 116 do CTN justamente com o Fl. 2154DF CARF MF Processo nº 10825.721247/201516 Resolução nº 1201000.326 S1C2T1 Fl. 7 6 objetivo de afastar os efeitos fiscais de operações abusivas, é norma de eficácia limitada, dependente de regulamentação por lei ordinária inexistente até o presente. Impossibilidade de qualificação das operações como abusivas com fundamento na legislação de direito privado. Transcurso do prazo prescricional fixado. Mesmo que pudessem ser classificadas como abuso de direito, tal como disciplinado no direito privado, ilação admitida tão só para argumentar, as operações avaliadas não permitiriam a glosa dos créditos realizada, haja vista o transcurso do prazo, igualmente fixado no direito civil, para a anulação de atos abusivos. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Cezar Fernandes de Aguiar Relator. Admissibilidade. O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, dele devendose conhecer. Preliminar. Conexão. Informa a recorrente que existe processo em face de Açucareira Zillo Lorenzetti S.A, nº 16561.720070/201476, decorrente de Autos de Infração relativos às glosas das despesas com as debêntures. Nesse processo, inclusive, a recorrente foi arrolada com responsável solidária. Argumenta que aquele, assim como este processo, "tratam da mesma transação e, se decididas separadamente, correse o risco de se ter conclusões diversas, o que é injustificável". Pugna pela reunião dos feitos ou, "quando menos, deve ser sobrestada a solução do presente litígio até que seja encerrado o PA 16561.720070/201476, na medida em que esse constitui feito principal, enquanto o presente qualificase como reflexo. A solução que vier a ser dada no processo principal vinculará o resultado do presente, que trata de um reflexo (saldo negativo fruto de IRRF) da transação lá impugnada". Na decisão de primeira instância, com base na Súmula nº 235 do Superior Tribunal de Justiça, no artigo 11 da Lei nº 9.784 e nos artigos 1º e 2º da IN RFB 666/2008, substituída pela IN RFB nº 356/2016, assim se pronunciou o relator: O Código de Processo Civil (CPC) expressa que duas ou mais ações são entendidas como conexas quando o pedido ou a causa de pedir lhes forem comuns (art. 55). Assim, a conexão permitiria deslocar a competência relativa originária de um juízo para outro, desde que não haja julgamento prévio de um deles, como orienta súmula do STJ: Fl. 2155DF CARF MF Processo nº 10825.721247/201516 Resolução nº 1201000.326 S1C2T1 Fl. 8 7 Súmula 235. A conexão não determina a reunião dos processos, se um deles já foi julgado. Os dois autos de infração já foram julgados pelas DRJ Rio de Janeiro e Belo Horizonte e aguardam decisão do Carf, em sede de recurso voluntário. Dessa forma, não seria possível realizar a reunião dos processos, sob o prisma do CPC. As regras do CPC somente são aplicáveis supletivamente aos processo administrativo fiscal quando nenhuma norma disponha explicitamente sobre o tema. Para o caso, no entanto, há normas específicas contempladas no processo administrativo fiscal. A Lei 9.784/99, que regulamenta o processo administrativo da administração pública federal, assim dispõe: Art. 11. A competência é irrenunciável e se exerce pelos órgãos administrativos a que foi atribuída como própria, salvo os casos de delegação e avocação legalmente admitidos. Por sua vez, a Portaria RFB 666/08 estabeleceu: Art. 1º Serão objeto de um único processo administrativo: I as exigências de crédito tributário do mesmo sujeito passivo, formalizadas com base nos mesmos elementos de prova, referentes: [...]II a suspensão de imunidade ou de isenção ou a não homologação de compensação e o lançamento de ofício de crédito tributário delas decorrentes; III as exigências de crédito tributário relativo a infrações apuradas no Simples que tiverem dado origem à exclusão do sujeito passivo dessa forma de pagamento simplificada, a exclusão do Simples e o lançamento de ofício de crédito tributário dela decorrente; IV os Pedidos de Restituição ou de Ressarcimento e as Declarações de Compensação (Dcomp) que tenham por base o mesmo crédito, ainda que apresentados em datas distintas; V as multas isoladas aplicadas em decorrência de compensação considerada não declarada. [...]Art. 2º Os autos serão apensados nos seguintes casos: I recurso hierárquico relativo à compensação considerada não declarada e ao lançamento de ofício de crédito tributário dela decorrente; ou (Redação dada pela Portaria 2.324/10.) II recurso hierárquico relativo ao indeferimento de pedido de retificação, cancelamento ou desistência de Pedido de Restituição ou Ressarcimento e de Declaração de Compensação e à manifestação de inconformidade contra indeferimento do Pedido de Restituição ou Ressarcimento ou a não homologação da Declaração de Compensação originais."(NR) (Redação dada pela Portaria 2.324/10.) Fl. 2156DF CARF MF Processo nº 10825.721247/201516 Resolução nº 1201000.326 S1C2T1 Fl. 9 8 III de exigências de crédito tributário do mesmo sujeito passivo, formalizadas com base nos mesmos elementos de prova, referentes às Contribuições Previdenciárias e àquelas relativas a terceiros. [...]A Portaria RFB 354/16 substituiu a Portaria RFB 666/08 a partir de 14/3/16, sem promover alterações substanciais a influenciar no presente caso. Como visto, a legislação do processo administrativo fiscal não determinou a reunião dos processos tal como pleiteado pela recorrente. Por outro lado, não há vinculação desta decisão em relação aos acórdãos proferidos pelas DRJ Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Ainda que a peticionária tenha figurado com responsável solidária naqueles processos e as causas sejam relacionadas (insubsistência das debêntures), as partes são distintas e os objetos também. Igualmente não há autorização legislativa para o sobrestamento do processo administrativo. Quanto à reunião destes autos com os do outro processo, nenhum reparo, merece a decisão de piso, haja vista eles terem como sujeitos passivos pessoas jurídicas diversas (muito embora o arrolamento da recorrente como responsável solidária neste último). Contudo, em que pese o brilhante voto do i. relator da decisão de piso, não há como não se reconhecer a questão da prejudicialidade. Se nos processos em que glosadas as despesas com as debêntures houver decisão em favor dos sujeitos passivos, o IRRF que compôs o saldo negativo considerado como crédito no presente processo há de ser reconhecido e homologadas as compensações até o limite do crédito. Se, noutro rumo, a decisão for contrária aos sujeitos passivos, a discussão se instaura em torno das alegações do recurso voluntário que não restarem prejudicadas. Cabe a citação da declaração de voto emitida pelo julgador Leomar Wayerbacher relativamente ao julgamento do presente processo na DRJ/POA: Esta declaração de voto destinase a registrar divergência em relação ao entendimento adotado no voto do relator de que (i) a autonomia de escopo havida entre o presente litígio e aqueles que foram objeto de apreciação pretérita pelas DRJ Belo Horizonte e Rio de Janeiro (ii) autoriza a apreciação, pela 1ª Turma da DRJ/POA, dos argumentos apresentados pela interessada em defesa da regularidade das operações de resgate de debêntures, que teriam originado o crédito tributário de Imposto de Renda Retido na Fonte – IRRF em discussão nos presentes autos. Salvo melhor juízo, entendo que a discussão atinente à desconsideração de efeitos, para fins tributários, das operações de emissão e resgate de debêntures formalizadas pelas empresas Usina Barra Grande de Lençóis e Açucareira Zillo Lorenzetti (i) representam um antecedente lógico (uma questão prejudicial) em relação à discussão sobre a origem do crédito de IRRF reclamado nos presentes autos, (ii) cuja solução, no âmbito da primeira instância administrativa, já ocorreu no contexto do julgamento das impugnações apresentadas contra os lançamentos de ofício realizados contra as empresas emissoras das debêntures, (iii) sendo portanto insuscetível de nova apreciação na primeira instância administrativa. Conforme orientação recentemente introduzida pelo art. 503 do novo Código de Processo Civil (Lei nº 13.105, de 16/03/2015) – que é aplicável subsidiariamente no Fl. 2157DF CARF MF Processo nº 10825.721247/201516 Resolução nº 1201000.326 S1C2T1 Fl. 10 9 âmbito do processo administrativo fiscal –, a eficácia da coisa julgada passa a abarcar não apenas os limites “da questão principal expressamente decidida” (ver texto do art. 503, transcrito abaixo), mas também “à resolução de questão prejudicial, decidida expressa e incidentalmente no processo”, se “dessa resolução depender o julgamento do mérito”. Senão, vejamos o inteiro teor do citado art. 503: Art. 503. A decisão que julgar total ou parcialmente o mérito tem força de lei nos limites da questão principal expressamente decidida. § 1º O disposto no caput aplicase à resolução de questão prejudicial, decidida expressa e incidentemente no processo, se: I dessa resolução depender o julgamento do mérito; II a seu respeito tiver havido contraditório prévio e efetivo, não se aplicando no caso de revelia; III o juízo tiver competência em razão da matéria e da pessoa para resolvêla como questão principal. Entendo que a situação ora enfrentada subsumese, precisamente, a essa hipótese normativa, como fica flagrante no seguinte encadeamento: (i) os lançamentos de ofício pretéritos tiveram por objeto a análise da validade e eficácia de negócios jurídicos formalizados em torno da suposta emissão de debêntures por parte das pessoas jurídicas Usina Barra Grande de Lençóis e Açucareira Zillo Lorenzetti; (ii) a autoridade lançadora concluiu pela ocorrência de planejamento tributário abusivo, desconsiderou os efeitos dessas operações para fins tributários, constituiu o crédito tributário em relação às pessoas jurídicas Usina Barra Grande de Lençóis e Açucareira Zillo Lorenzetti (emitentes das debêntures), aplicou multa de ofício qualificada e classificou a pessoa jurídica Companhia Agrícola Quatá como responsável tributário, em face do interesse comum havido em relação aos fatos (hipótese do art. 124, I, do CTN); (iii) os autos de infração foram contestados pelas interessadas, que alegaram a regularidade dos negócios jurídicos; (iv) no julgamento do mérito, as DRJ Belo Horizonte e Rio de Janeiro acataram a tese da fiscalização e concluíram pela desconsideração de efeitos dos atos praticados pelos respectivos sujeitos passivos, mantendo a aplicação da multa qualificada, em face da constatação de dolo; (v) as conclusões firmadas naqueles processos repercutem diretamente no julgamento do presente feito, visto que o crédito de Imposto de Renda Retido na Fonte – IRRF reclamado pela Companhia Agrícola Quatá é derivado de retenções de imposto de renda levadas a efeito pelas pessoas jurídicas Usina Barra Grande de Lençóis e Açucareira Zillo Lorenzetti, cuja causa estaria pretensamente atrelada ao suposto resgate das debêntures. Nesse contexto, e à luz do referido art. 503 do CPC, entendo que não é possível à DRJ/POA concluir em sentido diverso das DRJ congêneres, no que se refere à desconsideração dos efeitos, para fins tributários, dos negócios jurídicos envolvendo a emissão de debêntures pelas pessoas jurídicas Usina Barra Grande de Lençóis e Fl. 2158DF CARF MF Processo nº 10825.721247/201516 Resolução nº 1201000.326 S1C2T1 Fl. 11 10 Açucareira Zillo Lorenzetti. Essa matéria já foi objeto de decisão anterior na primeira instância administrativa, sendo suscetível de reforma somente no âmbito do CARF, a quem cabe a apreciação do recurso voluntário apresentado pelas partes, nos respectivos processos. Assim sendo, e em que pese concordar integralmente com as conclusões adotadas pelo relator quanto à apreciação do tópico “Operações com debêntures” – que, aliás, estão inteiramente alinhadas com o decidido anteriormente pelas DRJs Belo Horizonte e Rio de Janeiro –, entendo que cumpre à DRJ/POA – especificamente quanto a esse tópico – manifestar que a resolução da questão prejudicial já foi exaurida na primeira instância administrativa, cabendo tãosomente prosseguir no julgamento das demais questões levantadas pela interessada. Além de todo o arrazoado supra, temse que, na impugnação relativa aos autos de infração (processo nº 16561.720070/201476) foi pedida a compensação do IRRF com o IRPJ e a CSLL lançados de ofício. Vejase: Processo nº 16561.720070/201476. Relatório do acórdão de impugnação juntado às fls. 2.956 a 2.975: 4.6. Incongruência da requalificação feita pela Fiscalização. Impossibilidade de ser dado o tratamento de distribuição de lucros. Ao menos, deveria haver a compensação do IRPJ e da CSLL lançadas de ofício com IRRF recolhido sobre as remunerações pagas ao debenturista. (Grifo acrescido) É muito provável (praticamente certo) que esses pedidos também tenham sido veiculados no recurso voluntário. Conclusão. Em face do exposto, voto pelo sobrestamento do presente feito, retornando os autos à DRF da circunscrição do sujeito passivo para que seja aguardada a decisão definitiva quanto ao processo nº 16561.720070/201476. Não mais cabendo recurso administrativo relativamente ao citado processo, os acórdãos relativos aos recursos ali interpostos deverão ser juntados aos presentes autos, com o retorno ao CARF para julgamento. (assinado digitalmente) Paulo Cezar Fernandes de Aguiar Fl. 2159DF CARF MF
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Numero do processo: 15578.000804/2009-98
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Apr 02 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/10/2006 a 31/12/2006
NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. PESSOA INTERPOSTA. COMPROVAÇÃO DE MÁ-FÉ. OPERAÇÕES TEMPO DE COLHEITA E BROCA.
Restou comprovado nos autos que, no momento da aquisição do café, o Contribuinte encontrava-se ciente da abertura de pessoas jurídicas de fachada, criadas com o fim exclusivo de legitimar a tomada de créditos integrais de PIS e Cofins, caracterizando, assim, a má-fé e tornando legítima a glosa dos créditos.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/10/2006 a 31/12/2006
DESPACHO DECISÓRIO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA.
Legítimo o Despacho Decisório que motiva e fundamenta a negativa de provimento em vícios existentes nos documentos apresentados pelo contribuinte, vícios esses impeditivos da análise de mérito do pedido.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3201-003.427
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto ao mérito e, quanto à preliminar, pelo voto de qualidade, em afastar a decadência parcial, vencidos os Conselheiros Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldo Lima de Oliveira e Leonardo Vinicius Toledo de Andrade.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente Substituto e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente Substituto), Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Leonardo Vinicius Toledo de Andrade.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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CRÉDITOS. PESSOA INTERPOSTA. COMPROVAÇÃO DE MÁFÉ. OPERAÇÕES TEMPO DE COLHEITA E BROCA. Restou comprovado nos autos que, no momento da aquisição do café, o Contribuinte encontravase ciente da abertura de pessoas jurídicas de fachada, criadas com o fim exclusivo de legitimar a tomada de créditos integrais de PIS e Cofins, caracterizando, assim, a máfé e tornando legítima a glosa dos créditos. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/10/2006 a 31/12/2006 DESPACHO DECISÓRIO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Legítimo o Despacho Decisório que motiva e fundamenta a negativa de provimento em vícios existentes nos documentos apresentados pelo contribuinte, vícios esses impeditivos da análise de mérito do pedido. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário quanto ao mérito e, quanto à preliminar, pelo voto de qualidade, em afastar a decadência parcial, vencidos os Conselheiros Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldo Lima de Oliveira e Leonardo Vinicius Toledo de Andrade. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente Substituto e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente Substituto), Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 57 8. 00 08 04 /2 00 9- 98 Fl. 1484DF CARF MF Processo nº 15578.000804/200998 Acórdão n.º 3201003.427 S3C2T1 Fl. 3 2 Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Leonardo Vinicius Toledo de Andrade. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face do acórdão nº 12059.876 da DRJ Rio de Janeiro I/RJ, que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade manejada pelo Contribuinte para se contrapor ao despacho decisório da repartição de origem que, inicialmente, indeferira o pedido de ressarcimento da contribuição não cumulativa (PIS ou Cofins). Anteriormente, o contribuinte havia impetrado mandado de segurança e obtido liminar determinando que a repartição de origem procedesse à análise e proferisse decisão, no prazo de 30 dias, quanto aos pedidos de ressarcimento de créditos das contribuições não cumulativas (PIS/Cofins) por ele formulados. Quando da análise do pedido de ressarcimento, a autoridade administrativa intimou o contribuinte a comprovar o crédito pleiteado, tendo sido constatadas diversas discrepâncias e inconsistências nos documentos apresentados, decorrendo daí a decisão denegatória do pleito, prolatada no prazo de 30 dias fixado pela decisão judicial. A decisão da Delegacia de Julgamento foi no sentido de não conhecer em parte a Manifestação de Inconformidade, em virtude da opção do contribuinte pela via judicial (relativamente à preliminar de nulidade e ao pedido de reexame dos autos pela repartição de origem), e, na parte conhecida, indeferir o pedido de diligência requerido. Cientificado da decisão de primeira instância, o Contribuinte interpôs Recurso Voluntário. Enquanto isso, na esfera judicial, o Contribuinte interpôs agravo de instrumento, em razão do seu entendimento de que o indeferimento dos pedidos de ressarcimento, sem exame do mérito, deturpara a determinação judicial transitada em julgado, agravo esse provido, com a determinação de que o processo administrativo fosse devidamente instruído. Em atendimento à ordem judicial, a repartição de origem procedeu à realização de diligência, tendo solicitado ao interessado a apresentação de livros, planilhas e outros documentos necessários à análise e, ao final, decidido por reconhecer em parte o direito creditório pleiteado. No Parecer da autoridade fiscal, registrouse o seguinte: a) em 2009, a repartição de origem analisara diversos processos de ressarcimento, no prazo de 30 dias estabelecido em decisão judicial, análise essa ocorrida anteriormente à conclusão da operação fiscal denominada "Tempo de Colheita" (robustecida, posteriormente, pela “Operação Broca”), quando se detectou o uso de empresas laranjas para fins de geração de créditos fictícios, créditos esses utilizados pelo Contribuinte com base em notas fiscais emitidas por essas empresas, usadas como intermediárias na compra de café junto a produtores/maquinistas; Fl. 1485DF CARF MF Processo nº 15578.000804/200998 Acórdão n.º 3201003.427 S3C2T1 Fl. 4 3 b) dentre os supostos fornecedores de café, Relacafé e Triscafé eram controladas pelo Contribuinte; c) a motivação da Operação "Tempo de Colheita" foi o flagrante descompasso entre as movimentações financeiras e os valores insignificantes das receitas declaradas pelos envolvidos, tendo sido detectado que a imensa maioria das pessoas jurídicas diligenciadas encontravase omissa na apresentação da DIPJ ou, mais comumente, inativa; d) ao contrário dos tradicionais atacadistas, tais empresas ocupavam salas pequenas e acanhadas, sem qualquer estrutura física ou logística, nem dispunham de funcionários para operar como atacadistas; e) os documentos apreendidos junto ao Contribuinte, bem como na outra empresa do Grupo (Realcafé), durante a aludida Operação, não deixavam a menor dúvida de que os dirigentes da empresa tinham total conhecimento da existência do esquema fraudulento, que proporcionava vantagens tributárias de créditos ilícitos do PIS/Cofins; f) algumas da empresas diligenciadas demonstraram o modus operandi do esquema; g) declarações prestadas por corretores e documentos apreendidos demonstraram a participação do Contribuinte na prática fraudulenta; h) os produtores ouvidos mostraram total desconhecimento acerca das pseudoempresas atacadistas usadas para guiar o café, pois negociavam com pessoas conhecidas, de sua confiança (corretores, maquinistas e empresas da sua região), sendo que, no momento da retirada do café, surgiam nomes de “empresas” desconhecidas; i) a fraude e o seu modus operandi foram corroboradas nas oitivas colhidas no curso das investigações perante os produtores/maquinistas e corretores, juntamente com a vasta documentação apresentada por eles, inclusive documentos apreendidos durante a “Operação Broca” no próprio estabelecimento do Contribuinte e de outra empresa do grupo; j) o controle eletrônico do Contribuinte, intitulado “folha de compra”, extraído da mídia eletrônica apreendida durante a "Operação Broca", comprovava que ele tinha total controle e domínio do que compravam de cada produtor/maquinista e por qual empresa de fachada a negociação era falsamente documentada; k) as confirmações de pedidos anexadas identificam o maquinista por meio de anotação manuscrita em venda para o Contribuinte por meio de empresas laranjas. A Tristão exigia que os produtores/maquinistas, verdadeiros vendedores do café, assinassem as confirmações dos corretores, conforme comprovam os emails extraídos das mídias apreendidas na Tristão e reproduzidos; l) anexa tabela “Relatório de Vendas para Entrega Futura – TRISTÃO Cia de Comércio Exterior”, onde constam os dados das confirmações de pedidos e os dados das notas fiscais; m) são citados diversos depoimentos de corretores de café confirmando que as empresas do Grupo Tristão tinham conhecimento de que nas suas compras de café havia a interposição fictícia de empresa laranja; Fl. 1486DF CARF MF Processo nº 15578.000804/200998 Acórdão n.º 3201003.427 S3C2T1 Fl. 5 4 n) no mesmo sentido foram citados depoimentos de produtores rurais contendo esclarecimentos sobre o esquema de troca de notas fiscais e outros detalhes da operação; o) Ricardo Schneider, comprador da Tristão, comunicava por email as compras diárias de café para os diversos setores do GRUPO TRISTÃO. Para cada pedido de compra, indicava, entre outros dados, o nome da empresa laranja seguido do nome do produtor/maquinista e o corretor. Foram dezenas de emails extraídos das mídias apreendidas, com data desde 2004. Alguns exemplos foram reproduzidos no parecer; p) os representantes da Colúmbia, Acádia, L&L e Do Grão, respondendo às indagações dos AuditoresFiscais, asseguraram que exportadoras e indústrias tinham pleno conhecimento da venda de notas e que era prática adotada em todo o país. Acrescentaram que muitas dessas empresas laranjas eram operadas por exfuncionário das próprias exportadoras e corretores, fato devidamente comprovado nas investigações realizadas no ES e, posteriormente, nas diligências efetuadas em MG; q) foram efetuadas diligências nas cidades de Manhuaçu, Manhumirim, Divino e Espera Feliz, de MG. Repetindo o quadro constatado no ES, o que se viu foram hipotéticas empresas ocupando espaços acanhados situadas uma ao lado da outra, desprovidas de patrimônio e capacidade operacional necessários ao seu objeto, tentando transparecer atacadistas de café, só que próximas, às vezes lado a lado, dos escritórios de compras das grandes exportadoras e torrefadoras, o que tornou a moldura mais emblemática; r) o mesmo modus operandi foi constatado em diligências efetuadas em Varginha e outros municípios no sul de MG; s) a prática rotineira que consiste em guiar café do produtor para o comprador utilizando uma empresa fictícia é corroborada nos emails trocados pela direção da própria TRISTÃO, reproduzidos em parte no Parecer, demonstrando a verdade irrefutável de que era também de conhecimento da alta direção da empresa o esquema fraudulento de intermediação fictícia de empresa laranja na compra de café de produtor; t) os emails transcritos comprovam de forma incontestável o esquema montado no mercado de café que foi a inserção de empresas laranjas como intermediárias fictícias entre o produtor e o exportador; u) a verdade é que o modus operandi era sempre o mesmo, qualquer que fosse a região do país. TRISTÃO, portanto, tinha pleno conhecimento do esquema fraudulento, como dele se beneficiou, apropriandose de créditos fictícios sobre notas fiscais ideologicamente falsas, gerados por empresas atacadistas de fachada, o que afastava por completo a alegação de adquirente de “boafé” ; v) os AuditoresFiscais constataram, na escrituração contábil da TRISTÃO, infração tributária relacionada à apropriação indevida de créditos integrais das contribuições sociais não cumulativas PIS (1,65%) e Cofins (7,6%), calculados sobre os valores das notas fiscais de aquisição de café em grãos; quando o correto seria a apropriação de créditos presumidos pelas aquisições diretamente de pessoas físicas, produtores rurais, ou cerealistas; Fl. 1487DF CARF MF Processo nº 15578.000804/200998 Acórdão n.º 3201003.427 S3C2T1 Fl. 6 5 w) foram elaboradas tabelas a partir das planilhas de memória de cálculo apresentadas pela TRISTÃO, consolidando as tais aquisições, cujos valores compõem a base de cálculo mensal para a glosa dos créditos integrais indevidamente apropriados; x) a TRISTÃO preenchia os requisitos para a aplicação da suspensão nas compras de café efetuadas com as cooperativas. Portanto, efetuouse a glosa dos créditos integrais sobre tais aquisições e apurouse o crédito presumido previsto no art. 8° da Lei n° 10.925/2004; y) em sua resposta, a TRISTÃO reconheceu ter se apropriado indevidamente, por equívoco, de crédito presumido sobre operações de aquisições com fim específico de exportação (CFOP 1501), bem como notas fiscais de simples faturamento (CFOP 1922), conforme tabela no Parecer. Em relação às notas fiscais da Exprinsul Comércio Exterior e da Cocamar – Cooperativa agroindustrial, referentes a 12/2006 e 03/2008, tais valores deviam ser excluídos da base de cálculo do crédito integral, conforme memória de cálculo; z) analisando a Memória de Cálculo apresentada pela TRISTÃO, verificouse que a empresa incluiu indevidamente na base de cálculo do crédito presumido operações de venda com fim específico de exportação; aa) após análise da cópia das notas fiscais, constatouse que havia outras operações de venda com fim específico de exportação para as quais a empresa apropriara indevidamente de crédito integral, conforme citada Memória de Cálculo apresentada pela TRISTÃO. Foram relacionados os valores levantados pela fiscalização; bb) foi elaborado o Demonstrativo de Cálculo do PIS e da Cofins não cumulativos, anexo ao Parecer; cc) foram efetuadas as seguintes glosas de crtéditos: a) NF de empresas de fachada; b) aquisições de café de cooperativa com direito ao crédito presumido; c) apropriação indevida de crédito sobre NF emitida sem incidência de PIS/Cofins – fim específico de exportação; dd) o rateio dos créditos a descontar foi efetuado com base na proporção da receita de vendas de bens e serviços: receita mercado interno (tributada) e receita de exportação; ee) demonstrouse que o Saldo de Crédito de Meses Anteriores sobre aquisições no mercado interno vinculado à receita de exportação era zero tanto para o PIS quanto para a Cofins; ff) a fiscalização limitou o valor do pedido de ressarcimento ao valor do saldo do crédito a descontar referente à parcela do mercado externo (crédito passível de ressarcimento); gg) conforme mostrado no demonstrativo de cálculo do PIS e da Cofins não cumulativos, a recomposição dos créditos a descontar resultou no reconhecimento parcial do valor dos créditos pleiteados no pedido de ressarcimento. Cientificado do Parecer Fiscal e do despacho decisório, o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade, alegando, em síntese, o seguinte: Fl. 1488DF CARF MF Processo nº 15578.000804/200998 Acórdão n.º 3201003.427 S3C2T1 Fl. 7 6 1) o direito creditório objeto das DComps somente foi analisado em virtude da decisão proferida pela egrégia Turma do TRF da 2ª Região, no Agravo de Instrumento 2012.02.01.0070963. A ciência do Impugnante se dera em 05/07/2013, quando já decorridos mais de cinco anos, resultando na homologação tácita de parte dos créditos compensados; 2) não fora indiciado na denominada “Operação Broca”, o que retificava que as investigações realizadas não alcançaram suas operações, uma vez que não traduziam os atos comerciais praticados por ele rotineiramente; 3) na qualidade de adquirente de boafé, era exclusivamente o destinatário das mercadorias, não sendo provada a sua participação na prática de introdução de pseudo pessoas jurídicas na cadeia de comercialização; 4) em nenhum momento foi citado nos depoimentos colhidos na Operação Broca como estando envolvido na criação ou manutenção das pseudo pessoas jurídicas, mas apenas como destinatária do café, o que ratificava a sua boafé; 5) inexiste prova robusta e inequívoca nos autos, mas apenas meras alegações e conjecturas difusas e contraditórias entre si; 6) a conduta da fiscalização revelou a busca pelo acesso irrestrito às informações internas e gerenciais do impugnante, sem amparo em nenhuma autorização judicial para tal procedimento, o que transgride o direito fundamental ao sigilo de dados, insculpido no art. 5º, X e XII, da CF/88; 7) também não se verifica a aptidão das provas testemunhais juntadas aos autos, pois referidos testemunhos não comprovam qualquer vínculo do Impugnante, seus diretores, ou mesmo funcionários, nas práticas ilícitas imputadas às empresas consideradas como de fachada; 8) o art. 112 do CTN faz eco ao princípio universal do in dubio pro reo; 9) trouxe os seguintes elementos de prova que atestam a sua boafé: certidões que atestam a ausência de indiciamento em decorrência da Operação Broca; ação de cobrança por parte da W.G. Azevedo – Brazil Coffee; emails que comprovam a preocupação em realizar operações apenas com empresas em situação regular perante o Fisco; 10) cabe ao fisco o ônus da prova do fato tributário como também o da suposta conduta ilícita; 11) em momento algum a autoridade administrativa outorgou ao impugnante o direito de participar da coleta dos depoimentos prestados pelos supostos profissionais do mercado de café, como legítimo exercício do direito ao contraditório e à ampla defesa; 12) o conhecimento acerca da origem do café não é indício de que o Impugnante tenha agido de comum acordo com as empresas de fachada, mas sim a necessidade de que se tenha ciência do produtor rural e da região em que foi colhido o grão, para se atestar a qualidade do café adquirido; 13) o Impugnante sempre adotou todas as providencias legalmente exigidas para proceder aos créditos de PIS e Cofins decorrentes das aquisições de café; Fl. 1489DF CARF MF Processo nº 15578.000804/200998 Acórdão n.º 3201003.427 S3C2T1 Fl. 8 7 14) devia ser considerado o que dispõe o parágrafo único do art. 82 da Lei 9.430/96. No caso, não restou qualquer dúvida quanto ao recebimento e pagamento das mercadorias por parte da Recorrente; 15) a boafé foi demonstrada pelo zelo de se fazerem consultas ao Sintegra e ao próprio banco de dados da RFB, com o objetivo de comprovar a regularidade jurídica das empresas fornecedoras; 16) nesse sentido, a 5ª Turma da DRJ/RJOII já se pronunciou em situação idêntica, no processo 13771.000356/200315, Acórdão 1324.918, de 25/05/2009; 17) os atos que declararam as empresas como inapta, baixada ou nula ocorreram posteriormente às compras realizadas pelo Impugnante, sendo que para algumas das empresas sequer foi localizado qualquer procedimento neste sentido; 18) os lançamentos contábeis das operações também fazem prova em favor do Impugnante; 19) a atuação do fisco é contraditória, em afronta à segurança jurídica, uma vez que num primeiro momento assumiu a existência das agora “pseudo” empresas interpostas, inclusive cobrandoas, através da instauração de procedimentos administrativos fiscais e, agora, inovando sua ótica, questiona os seus documentos fiscais de venda de café para terceiros; 20) trechos extraídos de inquéritos policiais, ou mesmo a existência de referidos procedimentos, não representam prova de suposta obtenção fraudulenta de créditos. O direito fundamental do estado de inocência proíbe a antecipação dos resultados finais do processo criminal; 21) os mesmos auditores fiscais que prolataram o despacho decisório também lavraram o Termo de Encerramento da Ação Fiscal, processo 15586.000956/201025, em face de outra empresa do Grupo Tristão, no caso a Realcafé Soluvel do Brasil, no qual afirmaram a possibilidade de crédito integral do PIS e da Cofins nas aquisições de cooperativas. Ao examinarem a mesma hipótese no presente pleito, adotaram posicionamento completamente oposto; 22) o Impugnante revende o insumo café cru em grão no mercado externo e, em alguns casos, também realiza o processo de rebeneficiamento. A atividade de revenda é preponderante; 23) em se tratando de compras para posterior revenda, o Recorrente apurou créditos integrais do PIS e da Cofins; 24) o impugnante sempre adquiriu o insumo de sociedade cooperativa que exercia a produção agroindustrial e a compra foi sempre feita com a incidência do PIS e Cofins; 25) nas aquisições de café cru em grão pelo Impugnante não há a suspensão obrigatória do PIS e Cofins, visto que as sociedades cooperativas fornecedoras exerceram atividade agroindustrial, na forma do § 6º do art. 8º da Lei 10.925/2004 e, portanto, estas é que possuem o direito ao crédito presumido, relativo à compra de café in natura; Fl. 1490DF CARF MF Processo nº 15578.000804/200998 Acórdão n.º 3201003.427 S3C2T1 Fl. 9 8 26) não se pode admitir a hipótese de aproveitamento do crédito presumido da contribuição em duas etapas da cadeia produtiva do café; 27) por fim, requereu fosse reconhecida a homologação tácita de parte das compensações e, se superada a preliminar, requereu fosse reconhecido o direito creditório de modo integral com a homologação das compensações formalizadas nos autos. Em sua decisão, a DRJ Rio de Janeiro I/RF fundamentou o não reconhecimento do direito creditório (i) na desconsideração dos negócios fraudulentos, em decorrência da comprovação da ocorrência de fraude e dissimulação por meio de interpostas pessoas, (ii) na inocorrência de desqualificação do regime de suspensão da exigibilidade do crédito tributário nas vendas da cooperativa agropecuária para a agroindústria, beneficiadas com o crédito presumido, (iii) na inocorrência de homologação tácita da compensação e (iv) na preclusão das matérias não contestadas. No Recurso Voluntário, o Contribuinte reiterou os argumentos de defesa. É o relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015, aplicandose, portanto, ao presente litígio o decidido no Acórdão 3201003.414, de 26/02/2018, proferido no julgamento do processo 15578.000805/200932, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201003.4141): O Recurso é próprio e tempestivo e dele tomo conhecimento. (...) Inicialmente, cumpre pontuar que o presente feito tem por objeto 3 (três) grupos de glosas: a) NF de empresas de fachada. Os valores consolidados mensalmente pela fiscalização constam das tabelas mostradas no item II.7.1; b) Aquisições de café de cooperativa com direito ao crédito presumido, conforme listado no item II.7.2; c) Apropriação indevida de crédito sobre NF emitida sem incidência de PIS/COFINS – fim específico de exportação. Valores consolidados no item II.7.3; 1 A decisão do acórdão paradigma reproduzida na sequência é composta da parte do voto da relatora originária que restou mantida, por unanimidade, no julgamento do Recurso Voluntário e do voto elaborado pelo redator designado, que se restringe à preliminar suscitada pelo Recorrente, afastada pelo voto de qualidade. Fl. 1491DF CARF MF Processo nº 15578.000804/200998 Acórdão n.º 3201003.427 S3C2T1 Fl. 10 9 O Recurso apresentado é bastante extenso e dividido em diversos tópicos. Tendo em vista que as razões expostas em cada tópico repetemse e confundemse, passo a analisálos de acordo com a correlação existente entre estes, e não necessariamente na ordem apresentada pela recorrente. (...) "DA AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO POR PARTE DA FISCALIZAÇÃO, ACERCA DAS AVENTADAS OPERAÇÕES QUE ALEGA TEREM SIDO "AUSPICIADAS" PELA RECORRENTE" "DA ILEGÍTIMA INOVAÇÃO AOS FUNDAMENTOS DA GLOSA CONSUBSTANCIADA ATRAVÉS DA DECISÃO ORA RECORRIDA" "DA INSUBSISTÊNCIA DAS PROVAS APRESENTADAS PELA FISCALIZAÇÃO" "DA AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO ACERCA DA PARTICIPAÇÃO CONJUNTA DA RECORRENTE COM AS DENOMINADAS "EMPRESAS DE FACHADA"." "DOS FUNDAMENTOS JURÍDICOS DE VALIDADE E CORREÇÃO DOS CRÉDITOS DE PIS E COFINS NÃO CUMULATIVOS AUFERIDOS PELA RECORRENTE" "A CONTABILIDADE (AQUISIÇÕES DEVIDAMENTE REGISTRADAS) COMO MEIO DE PROVA EM FAVOR DA RECORRENTE A ESSÊNCIA SOBRE A FORMA" "DAS DILIGÊNCIAS REALIZADAS SOB A "OPERAÇÃO TEMPO DE COLHEITA". DA AUSÊNCIA DE NEXO DE CAUSALIDADE PARA COM AS OPERAÇÕES REALIZADAS PELA RECORRENTE" "DA IMPOSSIBILIDADE DE EXTENSÃO EM FACE DA RECORRENTE DOS EFEITOS DOS ATOS PRATICADOS NO ÂMBITO DA DENOMINADA "OPERAÇÃO BROCA"." Como relatado, a questão dos autos se refere à possibilidade de tomada de créditos integrais de PIS e COFINS sobre as aquisições de pessoas jurídicas tidas por fictícias, conforme operações Tempo de Colheita e Broca, realizadas de forma conjunta pelo Ministério Público Federal, Polícia Federal e Receita Federal. Assim resume a DRJ: A autoridade fiscal efetuou a glosa de créditos integrais calculados pelo contribuinte em relação a aquisições de café de pessoas jurídicas. O cerne da controvérsia, com base no que os auditores afirmam pode ser resumido em dois pontos: (1) existência de um esquema fraudulento de constituição de empresas visando vantagens tributárias indevidas, consistentes em creditamento ilícito de PIS e Cofins; (2) participação da contribuinte, ora manifestante, nesse esquema. Preliminarmente a interessada contesta os elementos de prova trazidos aos autos junto ao Parecer Fiscal. Argumenta que as provas são ilícitas porque as interceptações telefônicas e de dados só podem ser realizadas com autorização judicial, que as provas Fl. 1492DF CARF MF Processo nº 15578.000804/200998 Acórdão n.º 3201003.427 S3C2T1 Fl. 11 10 testemunhais não são aptas e não comprovam vínculo da empresa interessada com o suposto esquema. Assim, a controvérsia se resume, efetivamente, à existência ou não de provas nos autos acerca da participação da Recorrente na criação das pessoas jurídicas fictícias vendedoras de café. Em diversas oportunidades já me manifestei acerca de situações bastante similares à presente, sempre no sentido de que, para que o contribuinte possa ser penalizado em razão das supostas fraudes identificadas, é necessária a comprovação de que esta participou das operações tidas por fraudulenta. Com base em jurisprudência já pacificada no âmbito do STJ, não vejo como imputar a terceiros quaisquer consequências advindas de operações fraudulentas das quais não participou. Até porque, é princípio básico constitucional que a pena jamais poderá ultrapassar a pessoa do condenado. O entendimento supra já foi por mim formalizado em sede de Declaração de Voto Vencido (Acórdão nº 3201.002.083, de 25/02/2016), em Voto Vencedor por unanimidade (Acórdão 3201003.038, de 25/07/207) e, mais recentemente, na condição de Relatora Designada para o Voto Vencedor (Acórdãos 3201003.202, 3201003.203 e 3201003.204, todos de 24 de outubro de 2017). Neste último, a mim incumbiu apresentar o entendimento vencedor da Turma quanto à questão: Não obstante o bem fundamentado voto do i. Relator, fui designada para a redação do voto vencedor quanto às glosas dos créditos correspondentes às aquisições efetuadas de pessoas jurídicas inaptas, baixadas ou suspensas. Como já salientado pelo Relator, é sabido que, comprovada a efetividade das operações, o contribuinte, agindo de boafé faz jus a manutenção dos créditos fiscais. E como já decidiu o Superior Tribunal de Justiça por meio da Súmula nº 509. Em outras palavras, a boa fé é sempre presumida, cabendo àquele que alega a existência de má fé a comprovação nesse sentido. Na hipótese dos autos a divergência se instaurou quanto à afirmação fiscal de que não teria sido comprovada a efetividade das operações realizadas junto às pessoas jurídicas tidas como inaptas, baixadas ou suspensas, em face das alegações e documentos trazidos aos autos pela Recorrente no intuito de comprovar as aquisições realizadas Entendeu a Turma Julgadora, por sua maioria, que, em fato, na logrou a Fiscalização demonstrar que a Recorrente teria qualquer participação nos atos que levaram às declarações de inidoneidade das Pessoas Jurídicas vendedoras das mercadorias passíveis de geração de crédito no regime não cumulativo do PIS e da COFINS. Desse modo, não se pode manter as glosas efetuadas pela Fiscalização, na hipótese específica dos autos, uma vez que ausente demonstração fiscal quanto à participação da Recorrente em qualquer ato ensejador da pretendida descaracterização das aquisições realizadas, devendo se manter a presunção de boa fé do adquirente. Assim, entendo que, para que a glosa pretendida pela Fiscalização tenha suporte, é necessário não apenas comprovar a existência de fraude na criação das empresas vendedoras de café o que efetivamente foi realizado por meio das Operações Tempo de Colheita e Broca. Se faz imprescindível que se comprove a ciência da Recorrente acerca desses fatos e a sua participação no dito "esquema". Fl. 1493DF CARF MF Processo nº 15578.000804/200998 Acórdão n.º 3201003.427 S3C2T1 Fl. 12 11 Isso porque, não obstante a aparência de legalidade das operações, como alega a Recorrente, em razão de que (1) todas as empresas citadas como fictícias possuíam CNPJ válidos no momento da aquisição do café; (2) fora verificada a regularidade dessas empresas no CNPJ e no SINTEGRA, e nenhuma tinha sido declarada inapta; (3) as mercadorias adquiridas entraram no estoque da recorrente e foram pagas diretamente aos emitentes das notas fiscais, uma vez comprovada a máfé na realização desses negócios jurídicos, é plenamente válida a sua desconstituição. É o que dispõe o parágrafo único do art. 116 do CTN: Art. 116. Salvo disposição de lei em contrário, considerase ocorrido o fato gerador e existentes os seus efeitos: I tratandose de situação de fato, desde o momento em que o se verifiquem as circunstâncias materiais necessárias a que produza os efeitos que normalmente lhe são próprios; II tratandose de situação jurídica, desde o momento em que esteja definitivamente constituída, nos termos de direito aplicável. Parágrafo único. A autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária.(Incluído pela Lcp nº 104, de 2001) E, não obstante o Relatório Fiscal não tenha mencionado expressamente o referido dispositivo legal, citado apenas no Acórdão da DRJ, não há falar em inovação. Os fundamentos de fato e de direito que levaram à desconsideração dos negócios jurídicos são os mesmos e deles decorre logicamente a aplicação do referido dispositivo legal. Não houve qualquer tentativa de alteração quanto à fundamentação legal do lançamento. Ademais, não compete a este CARF afastar a aplicação de disposição expressa de lei. Não obstante, entendo que a ausência de regulamentação do referido dispositivo legal não impede a sua aplicação. O dispositivo legal é autoaplicável, embora passível de regulamentação pela legislação ordinária. E, nesse sentido, tenho que a legislação processual tributária vigente no âmbito federal cumpre a necessária regulação do tema. Em conclusão desse aspecto, manifesto minha integral concordância com a tese defendida pela Recorrente no sentido de que, uma vez comprovada a ocorrência da operação de compra e venda, sendo que essas revestiamse da aparência de legalidade, o adquirente de boafé não pode ser penalizado pela posterior desconsideração do negócio jurídico. Todavia, a hipótese dos autos, como se verá, afasta a presunção de boafé da Recorrente. Não basta que a operação tenha a aparência de legalidade para que seja válida. Uma vez comprovado nos autos que a Contribuinte possuía ciência do fato de que as pessoas jurídicas eram criadas de modo fraudulento tão somente para legitimar a geração do crédito de PIS e COFINS, resta caracterizada a máfé do adquirente. Quanto ao argumento de que os emails que comprovam que a Tristão questionava a origem do café apenas para fins de averiguar a qualidade do produto, tenho que não prospera. Existem emails e mensagens trocadas que demonstram claramente a exigência de que as pessoas jurídicas estivessem regulares tão somente em razão da possibilidade de geração de crédito. Tanto é assim que em determinado momento, o comprador da Tristão se Fl. 1494DF CARF MF Processo nº 15578.000804/200998 Acórdão n.º 3201003.427 S3C2T1 Fl. 13 12 nega a efetuar o pagamento de determinada compra exclusivamente em razão da irregularidade do CNPJ da empresa vendedora. Adentrando, portanto, ao cerne da controvérsia instaurada, entendo ser desnecessário tecer maiores comentários acerca da existência e funcionamento dos chamados esquemas de triangulação, criação dos "maquinistas". Nesse sentido, me reporto ao bem detalhado relatório fiscal e ao próprio acórdão proferido pela DRJ, que demonstram o funcionamento de tais empresas de fachada com o fito exclusivo de garantir ao adquirente a tomada de créditos de PIS e COFINS em valor integral, ao substituição ao crédito presumido que seria gerado na aquisição direta da pessoa física. É imprescindível, outrossim, analisar de forma detida as provas apresentadas de modo a averiguar a efetiva ciência e participação da Recorrente. Para tanto, remetome ao extenso Parecer Fiscal (...). Como de costume, o Parecer Fiscal relata de forma detalhada a criação e operacionalização dos esquemas, trazendo diversas informações e provas relativas aos Maquinistas, comprovando a existência do esquema. O Parecer Fiscal, ainda, cuidou de demonstrar diversos dados extraídos da operação e que tem ligação direta com a Recorrente, tais como: depoimentos de maquinistas que alegam ter vendido o café à Tristão com a ciência desta; registros de mensagens trocadas com dirigentes da Tristão; cópias de emails trocados com sócios, diretores e empregados da Tristão; Pedidos de Compra da Tristão com o nome das pessoas físicas produtoras, embora com notas fiscais emitidas pelas Pessoas Jurídicas fraudulentas, dentre outros. Ademais, a Tristão, na condição de adquirente, foi uma das empresas fiscalizadas durante a Operação Tempo de Colheita. Assim, grande parte dos elementos colhidos durante a operação, o foram diretamente obtidos da Recorrente. Logo, vêse que, na hipótese dos autos, há, efetivamente, robusta prova documental que comprova a participação, ou, quando menos, a plena ciência da Recorrente quando ao fato de que o café era adquirido de pessoas jurídicas inexistente de fato, criadas com o fim exclusivo de geração de crédito de PIS e COFINS. Nesse aspecto, pontuo, quanto às alegação da Recorrente no sentido de que não haveria prova da sua participação na Operação Broca, sendo que não foi indicada criminalmente no âmbito da referida, o que tornaria insubsistente toda a autuação fiscal. Com efeito, a maior robusteza probatória é relativa à Operação Tempo de Colheita. E, quanto à esta, a Recorrente não trouxe qualquer alegação. Não obstante, consta, sim, nos autos, provas de que a Recorrente estava ciente que nas operações descortinadas por meio da Operação Broca, o modus operandi era exatamente o mesmo daquelas objeto da Operação Tempo de Colheita. Existe nos autos cópia de nota fiscal guiada e emails trocados por funcionários da Tristão com corretores sabidamente operadores do esquema fraudulento, inclusive com a expressão "Como sabemos os cafés são guiados com nota de firma" (fl. 1251), dentre outros elementos. Fl. 1495DF CARF MF Processo nº 15578.000804/200998 Acórdão n.º 3201003.427 S3C2T1 Fl. 14 13 Ademais, é cediço que a instrução criminal se dá de forma diversa da investigação tributária. Ainda que ambas devam se pautar no princípio da legalidade estrita, seus escopos são bastante distintos. E, nesse seara, cabe averiguar se os elementos apresentados pela Fiscalização são suficientes para fundamentar o lançamento tributário, o que, a meu ver, logrouse. Se, no âmbito criminal, entendeuse não haver elementos caracterizados de ilícito penal, não há influência direta no lançamento tributário. Os elementos do tipo penal são distintos dos elementos do tipo tributário. Ainda assim, as decisões judiciais trazidas aos autos como justificativa de invalidar o lançamento dizem respeito à ilegitimidade de colheita de prova testemunhal, e quando esta é o único meio de prova admitido na denúncia. Na hipótese dos autos, as provas testemunhais são apenas indiciárias. Há outros elementos que comprovam a ciência da Recorrente acerca das operações fraudulentas. E, quanto à alegação de que tais provas documentais foram obtidas com base em colheita ilegal, com a devida vênia às razões esposadas, compete ao Poder Judiciário a eventual declaração de ilegalidade na obtenção das provas. Inexistindo tal declaração, falece competência a este órgão administrativo para tal. Assim, o fato de a Recorrente não ter participado do processo investigativo realizado no âmbito das Operações Tempo de Colheita e Broca não contaminam o devido processo legal tributário, com o pleno exercício da ampla defesa. Com efeito, a ampla defesa no processo administrativo tributário é exercida a partir da apresentação da defesa (Impugnação ou Manifestação de Inconformidade), Recurso Voluntário e Recurso Especial. Ressalto, ainda, que, na hipótese dos autos, a ampla defesa foi inclusive assegurada por decisão judicial que determinou o refazimento do lançamento tributário original, que deixou de fundamentar a glosa de créditos. Quanto à alegação de que a Fiscalização não poderia ter equiparado as compras realizadas de cooperativas às compras procedentes de pessoas físicas, também não assiste razão à Recorrente. Não houve uma alteração acerca da forma de se apropriar os créditos oriundos de compras realizadas de cooperativas. Ou ainda, não houve a glosa dos créditos pelo fato de as vendedoras serem cooperativas. O que efetivamente ocorreu, e valido nesse voto, foi a exclusão da figura do "atravessador", seja este constituído na forma de sociedade comercial ou cooperativa, uma vez que se comprovou que sua criação se deu com o fim exclusivo de simular um negócio jurídico. A Recorrente ainda alega violação ao princípio da segurança jurídica pelo fato de a Fiscalização, alegadamente, ter pronunciado entendimento diverso em processos decorrentes da mesma operação, contudo em face de pessoas jurídicas distintas. Tal fato, a meu ver, apenas corrobora todo o exposto com relação à existência de prova efetiva em face da Recorrente. Não há como se pretender vincular esta decisão à processo formalizado em face de pessoa jurídica diversa, notadamente quando este é decorrente essencialmente de material probatório. Fl. 1496DF CARF MF Processo nº 15578.000804/200998 Acórdão n.º 3201003.427 S3C2T1 Fl. 15 14 "DA INOCORRÊNCIA DA PRECLUSÃO APONTADA PELA DECISÃO RECORRIDA. DO RESTABELECIMENTO INTEGRAL DOS CRÉDITOS INFORMADOS PELA RECORRENTE" Nesse tópico aduz a Recorrente que a decisão recorrida teria declarado uma preclusão inexistente. Contudo, nesse mesmo tópico, reconhece que deixou de impugnar determinadas glosas visando dar celeridade ao procedimento. Desse modo, não vejo como prover qualquer alteração no acórdão recorrido nesse sentido. (...) Voto Vencedor O Presidente da Turma designoume para redigir o voto vencedor quanto ao afastamento da preliminar suscitada pela recorrente, relativa à homologação tácita de parte da compensação. A Conselheira Relatora entendeu que o primeiro Despacho Decisório restara nulo, porque o Poder Judiciário determinara a prolação de novo Despacho Decisório, e também, porque não haveria a devida motivação e fundamentação. E porque o primeiro seria nulo, o segundo Despacho Decisório seria posterior ao prazo hábil, de 5 anos, tendo como consequência a homologação tácita dos pedidos de compensação anteriores. Todavia, não se vislumbra a nulidade do primeiro Despacho Decisório. Com efeito, tratase de ato administrativo com todas os requisitos de validade, inclusive a motivação, a qual foi a falta de apresentação de arquivos digitais corretos, que fossem coerentes com as informações do Dacon e com as notas fiscais físicas. Vejase excerto do referido documento (...): De posse da mesma [documentação intimada], a primeira providência foi aferir a correção e consistência dos arquivos magnéticos e planilhas de apuração em confronto com os Demonstrativos de Apuração de Contribuições Sociais (DACON) e livros fiscais. Desta verificação constatouse que as diferenças existentes entre eles são enormes, inviabilizando por completo o estabelecimento de um parâmetro de conferência. Observouse em cotejo perfunctório que os arquivos magnéticos também possuem inconsistências frente aos documentos fiscais que os maculam indelevelmente, ou seja, o arquivo eletrônico contendo rol de notas fiscais de aquisição não reflete com correção os dados constantes dos documentos físicos. Como exemplo, citemse as notas fiscais de venda com o fim específico de exportação, que não geram crédito da não cumulatividade, registradas como aquisição para revenda/insumo; aquisições de cooperativas, que tem tratamento tributário diferenciado a partir de abril/2006, registradas como efetuadas de pessoas jurídicas comuns; o arquivo eletrônico exigido pelo termo de intimação impunha a entrega da relação de toda as notas fiscais de entrada, independente de gerar crédito ou não, com a marcação daquelas aproveitadas no cálculo, todavia o arquivo apresentado não trouxe a integralidade de tais documentos; há casos em que constam aquisições no arquivo magnético e não foram apresentadas as notas fiscais, como exigido no termo; grande quantidade de notas fiscais de cerealistas e pessoas jurídicas agropecuárias com informação, em seu corpo, de saída com suspensão, entretanto, arroladas na relação eletrônica como garantidoras de crédito com cômputo integral; notas fiscais de Fl. 1497DF CARF MF Processo nº 15578.000804/200998 Acórdão n.º 3201003.427 S3C2T1 Fl. 16 15 retorno de mercadoria computadas como aquisição de produtos; o arquivo apresentado não trouxe a indicação da filial onde ocorreu a operação. Ressalte se que todos os vícios detectados e acima apontados impedem a validação das informações perante os livros fiscais e o próprio DACON. Portanto, os arquivos digitais diferiam em grande medida das informações do Dacon, e assim, impedido de analisar o detalhamento dos créditos, e ainda, impedido de conceder prazo maior para que o contribuinte corrigisse tais arquivos, em vista da comando judicial no âmbito do Mandado de Segurança 2009.50.01.0049781, o qual determinara o prazo de 30 dias para conclusão da decisão, o Fisco, corretamente, não homologou as compensações. Verifico que essa decisão foi revista pelo Poder Judiciário, que determinou o aprofundamento da análise de mérito dos créditos. Não há, desse modo, a anulação do primeiro Despacho Decisório, mas o retorno do processo para sua correção. Tal procedimento é assaz comum em decisões do Carf, quando se ultrapassam questões preliminares e se determina a análise do mérito. Com esses fundamentos, afastei a preliminar suscitada, tese que restou vencedora por voto de qualidade. Registrese que os fatos apurados no processo paradigma correspondem aos mesmos fatos constantes dos processos dos recursos repetitivos, fato esse que possibilita o julgamento em conjunto. Além disso, destaquese que, não obstante o processo paradigma se referir unicamente à contribuição para o PIS, a decisão ali prolatada se aplica nos mesmos termos à Cofins. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu afastar a preliminar de decadência parcial, relativamente à homologação tácita de parte da compensação declarada, e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 1498DF CARF MF
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Numero do processo: 13971.005209/2010-12
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Nov 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Mar 05 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009
ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE.
A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na mais valia do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição.
Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienantes e adquirentes integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidencia-se a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar.
ÁGIO ORIUNDO DE AQUISIÇÃO COM USO DE RECURSOS FINANCEIROS DE OUTREM. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE.
A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da confusão patrimonial a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição.
Não é possível o aproveitamento tributário do ágio se a confusão patrimonial, advinda do processo de incorporação, não envolve a pessoa jurídica que efetivamente desembolsou os valores que propiciaram o surgimento do ágio, ainda que a operação que o originou tenha sido celebrada entre terceiros independentes e com efetivo pagamento do preço.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009
INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE.
Sobre o crédito tributário não pago no vencimento incidem juros de mora à taxa SELIC. Compõem o crédito tributário o tributo e a multa de ofício proporcional.
Numero da decisão: 9101-003.222
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial. No mérito, (i) quanto à primeira operação de ágio, por maioria de votos, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator) e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe deram provimento; (ii) quanto à terceira operação de ágio, por voto de qualidade, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Demetrius Nichele Macei, que lhe deram provimento e (iii) quanto à incidência de juros de mora sobre multa de ofício, por maioria de votos, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Cristiane Silva Costa e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Cristiane Silva Costa. Entretanto, findo o prazo regimental, a Conselheira não apresentou a declaração de voto, que deve ser tida como não formulada, nos termos do § 7º, do art. 63, do Anexo II, da Portaria MF nº 343/2015 (RICARF). Declarou-se impedido de participar do julgamento o conselheiro Gerson Macedo Guerra, substituído pelo conselheiro Demetrius Nichele Macei.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Luís Flávio Neto Relator
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Demetrius Nichele Macei (suplente convocado em substituição aos impedimentos de conselheiros) e Adriana Gomes Rêgo (Presidente em exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: LUIS FLAVIO NETO
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na “mais valia” do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição. Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienantes e adquirentes integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidenciase a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar. ÁGIO ORIUNDO DE AQUISIÇÃO COM USO DE RECURSOS FINANCEIROS DE OUTREM. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da “confusão patrimonial” a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na “mais valia” do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição. Não é possível o aproveitamento tributário do ágio se a “confusão patrimonial”, advinda do processo de incorporação, não envolve a pessoa jurídica que efetivamente desembolsou os valores que propiciaram o surgimento do ágio, ainda que a operação que o originou tenha sido celebrada entre terceiros independentes e com efetivo pagamento do preço. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 97 1. 00 52 09 /2 01 0- 12 Fl. 3480DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.481 2 INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. Sobre o crédito tributário não pago no vencimento incidem juros de mora à taxa SELIC. Compõem o crédito tributário o tributo e a multa de ofício proporcional. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial. No mérito, (i) quanto à primeira operação de ágio, por maioria de votos, acordam em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator) e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe deram provimento; (ii) quanto à terceira operação de ágio, por voto de qualidade, acordam em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Demetrius Nichele Macei, que lhe deram provimento e (iii) quanto à incidência de juros de mora sobre multa de ofício, por maioria de votos, acordam em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Cristiane Silva Costa e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Cristiane Silva Costa. Entretanto, findo o prazo regimental, a Conselheira não apresentou a declaração de voto, que deve ser tida como não formulada, nos termos do § 7º, do art. 63, do Anexo II, da Portaria MF nº 343/2015 (RICARF). Declarouse impedido de participar do julgamento o conselheiro Gerson Macedo Guerra, substituído pelo conselheiro Demetrius Nichele Macei. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo – Presidente em exercício (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto – Relator (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo – Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Demetrius Nichele Macei (suplente convocado em substituição aos impedimentos de conselheiros) e Adriana Gomes Rêgo (Presidente em exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto. Fl. 3481DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.482 3 Relatório Tratase de recurso especial interposto por CREMER S/A (doravante “contribuinte” ou “recorrente”), em face do acórdão n. 1102001.006 (doravante “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”), proferido pela então 2a Turma Ordinária, 1a Câmara, desta 1a Seção (doravante “Turma a quo”). As matérias ora trazidas à análise deste Colegiado versam sobre a legitimidade da amortização de ágio em uma operação realizada entre partes relacionadas, sobre a legitimidade da amortização de ágio em uma outra operação na qual houve participação de “empresa veículo” e, por fim, quanto à incidência de juros sobre multa de ofício. Conforme se colhe dos autos, especialmente quanto às matérias que ora são submetidas a este Colegiado da CSRF, o contribuinte teria sido autuado em face do seguinte contexto: “A recorrente foi autuada por ter excluído da base de cálculo do lucro real do anocalendário de 2006 prejuízos fiscais (atendido o limite de 30%) obtidos em 3. DAS INFRAÇÕES 3.1. DA GLOSA DE DESPESAS COM ÁGIO 3.1.1. DA DESCRIÇÃO DA OPERAÇÃO GERADORA DO ÁGIO O ágio aqui referido teve origem em operação de aquisição dos papéis da contribuinte fiscalizada, CREMER S/A (doravante denominada CREMER ou FISCALIZADA), pela CREMER PARTICIPAÇÕES S/A (doravante denominada CREMERPAR). Tal operação está inserida em operação mais complexa, que envolveu a alteração do controle acionário da CREMER. Abaixo, transcrevemos trecho da página 26 do DOC. 30 RELATÓRIO DA ADMINISTRAÇÃO CREMER MAIO/2006 (referente ao ano de 2005), com grifos nossos: “O ágio foi gerado na CREMERPAR quando da aquisição da participação majoritária da Companhia. O seu fundamento econômico é a rentabilidade futura da Companhia e é amortizado pelo método linear em 5 anos, registrado como despesa administrativa, ou baixado caso as condicõ̧es que fundamentaram essa rentabilidade futura não se confirmarem de forma permanente.” Assim, verificase de imediato que o ágio em questão está lastreado em rentabilidade futura da CREMER, tendo sido apresentado pela CREMER o laudo de avaliaçaõ da TERCO AUDITORES INDEPENDENTES, conforme DOC. 4 LAUDO DE AVALIAÇÃO TERCO ANEXO I. De se ressaltar esta Fiscalização verificou a existência de outro laudo de avaliação, emitido pela BRASILPAR [...]. Fl. 3482DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.483 4 Questionada sobre a base legal que se utilizou para justificar a amortização do ágio em questão, a CREMER informou estar lastreada no art. 386 do R1R/99. [...] 3.1.2. DA ESTRUTURA SOCIETÁRIA DA CREMER [...] A CREMER era empresa de capital aberto com ações negociadas em Bolsa, com o controle acionário detido por grupos familiares. Em Fato Relevante de maio de 2003 (DOC. 31 FATO RELEVANTE 09/05/2003), a CREMER formalizou a intencã̧o de grupo estrangeiro (MERRILL LYNCH GLOBAL PARTNERS MLGP) em adquirir o controle acionário da empresa, conforme seguinte trecho, com grifos nossos: “A CREMER S/A (“Companhia”) comunica aos seus acionistas e ao público em geral que firmou, nesta data de 09 de maio de 2003, em conjunto com seus acionistas controladores, [...] e J. R Fagundes & Associados Ltda. (a “Applied”), uma Letter of Intent (Carta de Intencã̧o) com a Merril Lynch Global Partners, Inc. (“MLGP”), pela qual a MLGP, por si ou por uma ou mais de suas afiliadas ou co investidores, manifestou a intenção, sem efeito vinculativo, de subscrever ações em um montante entre R$ 90 milhões e R$ 100 milhões do capital de uma sociedade holding a ser formada pelos Controladores e a Applied para deter o controle da Companhia (a “Newco”).” Veja que já nesta data, 09 de maio de 2003, houve a manifestação de se criar uma nova companhia, a NEWCO, que passaria a controlar a CREMER. Ao final, este mesmo Fato Relevante demonstra o real propósito de criacã̧o desta NEWCO: “Após a realização da OPA, pretendese que o processo do ajuste da estrutura de capital da Companhia seja concluído mediante a capitalização dos recursos aportados pela Newco, bem como a incorporação da Newco pela Companhia, a fim de que a Companhia possa aproveitar o beneficio fiscal a ser gerado na transacã̧o. [...]” De se esclarecer que esta NEWCO viria a ser a CREMERPAR, já citada anteriormente. A esta época, maio de 2003, a CREMERPAR sequer existia, mas já se sabia que seria criada para ser incorporada, por outra companhia, no caso a sua futura controlada, a CREMER. De se destacar também que, já na Carta de Intenções, foi externado o intuito de aproveitamento do ágio a ser formado na operação. Para tanto, de acordo com a legislaca̧õ (art. 386 do RIR/99), teria que haver alguma reorganização societária (fusão, cisão ou incorporação) para viabilizar o aproveitamento deste ágio a ser formado, o que justificou a criação de uma empresa, a CREMERPAR, que nasceu com data certa para ser extinta, mediante sua incorporação pela CREMER, sua controlada Continuando na evolucã̧o da estrutura societária, recorreremos agora a alguns trechos das INFORMAÇÕES ANUAIS (IAN) de 2005 emitidas pela CREMER [...] Fl. 3483DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.484 5 “Na mesma data de 19 de dezembro de 2003, os então acionistas controladores da Cremer S/A transferiram a totalidade de suas 205.429.897 ações de emissão da Cremer S/A, além de 14.592.000 ações de emissão da subsidiária Plásticos Cremer S/A, via contribuica̧õ em aumento de capital, para as sociedades F. I. Participacõ̧es Ltda. (Fipar) e SZS Participações Ltda. (Szspar). Assim, a Fipar e a Szspar passaram a ser controladoras diretas da Cremer, na medida em que, conjuntamente, passaram a deter 65,36% das acõ̧es ordinárias e 40,04% do capital total da Cremer.” [...] “Em 02 e 10 de março de 2004, a Fipar, a Szspar e a acionista J. R. Fagundes e Associados Ltda. (Applied), que aderiu ao bloco de controle, transferiram conjuntamente à Cremer Participações S/A, via contribuicõ̧es em aumento de capital, [...] totalizando 275.979.347 ações de emissão da Cremer (53,80% do capital total) [...]. Nesse momento, a Cremer Participações S/A passou a ser a controladora direta da Cremer S/A.” [...] {Comentário deste Relator no CARF para melhor compreensão, convém reproduzir o diagrama da estrutura societária antes da OPA que não havia sido incluído no relato da decisão recorrida: (...) “Com o sucesso da OPA e o fechamento do capital da Cremer S/A, a Fipar, a Szspar e a Applied, então controladoras diretas das Cremer Participacõ̧es S/A e controladoras indiretas da Cremer S/A, transferiram conjuntamente, via contribuição em aumento de capital, a totalidade das ações de emissão da Cremer Participacõ̧es S/A para a Cremer Holdings LLC (Cremer Holdings), sociedade formada nos Estados Unidos [...].” [...] {Comentário deste Relator no CARF para melhor compreensão, convém também reproduzir o diagrama da estrutura societária depois da OPA que não havia sido incluído no relato da decisão recorrida: [...] 3.1.3 DA VALORAÇÃO DO ÁGIO [...] {Comentário deste Relator no CARF para melhor compreensão, convém também reproduzir o seguinte trecho contido no Termo de Verificação Fiscal que não havia sido incluído no relato da decisão recorrida: a) A formação do ágio teve como origem aquisições de ações da CREMER pela CREMERPAR, aquisições estas que se deram, ou por aumento de capital na CREMER (no valor total de R$ 60.395.852,04), ou por aquisição das ações de terceiros (num total de R$ 20.273.692,60), perfazendo o pretenso ágio no montante de R$ 80.669.544,04; b) Considerando que o Patrimônio Liquido da CREMER era negativo em 28/04/2004, houve o entendimento por parte da Fl. 3484DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.485 6 CREMERPAR de que todos os valores que fossem capitalizados na CREMER acarretariam ágio, até que o PL da investida se tornasse nulo. Assim, apesar de ter havido, ao longo de 2004, um amento de capital na CREMER no total de R$ 87.775.953.46 (= 23.500.000,00 + 18.913.793,46 + 45.362.160,00), apenas R$ 60.395.852,04 foram considerados ágio. Na última capitalização, ocorrida em 22/11/2004, no valor de R$ 45.362.160,00, apenas R$ 17.982.058,58 foram considerados ágio, sendo o restante, R$ 27.380.101,42, escriturados na conta de investimentos de nome CREMER S/A (tal entendimento foi confirmado pela CREMER em sua resposta ao TERMO DE INTIMAÇÃO FISCAL N° 01). A tabela abaixo resume a situação anteriormente exposta: c) Da mesma forma, os R$ 20.273.692,60 “pagos” a terceiros (bloco de controle e minoritários) na aquisição dos papéis da CREMER foram levados à conta de ágio, uma vez que, teoricamente, representaram mais valia em relação ao PL da empresa que era negativo no momento destas aquisições; d) Com a incorporação da CREMERPAR pela CREMER, o valor total do ágio (R$ 80.669.544,64) foi transferido para a CREMER, e amortizado nos anos seguintes à razão de 20% ao ano, perfazendo uma amortização anual de R$ 16.133.908,92; } [...] De forma a entendermos melhor o ocorrido nesta operação complexa que formou o ágio, convém dividila em 03 partes, conforme abaixo, em relação as quais passaremos a discorrer detalhadamente: • Aquisição das ações do bloco que detinha o controle acionário da CREMER (Grupo Familiar e a J R FAGUNDES & ASSOCIADOS APPLIED); • Aquisição das ações dos minoritários; • Aquisição das ações através de aumentos de capital efetivados na CREMER. AQUISIÇÃO DO BLOCO DE CONTROLE Esta parte da operação envolveu o montante de R$ 9.307.341,21, conforme lançamentos abaixo reproduzidos, extraídos da conta 13101090 – Ágio CREMER da contabilidade da CREMERPAR: (...) Analisando esta parcela do ágio de forma isolada, vemos que os fatos se sucederam da seguinte forma: • De acordo com a Ata da Assembléia Geral de Constituição (DOC. 3 ATOS CONSTITUTIVOS CREMERPAR ANEXO I), a CREMERPAR foi criada em 03/10/2003 (capital social de R$ 100,00), tendo como sócios as pessoas de JOSÉ ROBERTO ROHNELT FAGUNDES (sócio da JR FAGUNDES & ASSOCIADOS APPLIED) e Artur Fouquet Junior (que viria a ser sócio da empresa FI PARTICIPAÇÕES FIPAR); • Em dezembro de 2003, o grupo que detinha o controle da CREMER era representado pelas empresas FI PARTICIPAÇÕES (FIPAR), SZS PARTICIPAÇÕES (SZSPAR) e JR FAGUNDES & ASSOCIADOS (APPLIED) [...] Fl. 3485DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.486 7 • Em 02 e 10 de março de 2004, a FIPAR, SZSPAR e a APPLIED transferiram, conjuntamente, para a CREMERPAR, via aumento de capital, suas ações da CREMER, [...] Com isso, a CREMERPAR passou a controlar a CREMER [...]. • Nesta “aquisição” das ações da CREMER por parte da CREMERPAR, houve geração de ágio na CREMERPAR, no montante de R$ 9.307.341,21, conforme já detalhado. Este ágio teve por razão o fato do Patrimônio Liquido da CREMER estar negativo, ensejando que qualquer valor “pago” na aquisição de papéis desta empresa consistiria inteiramente em ágio (o valor patrimonial da ação adquirida era nulo); {Comentário deste Relator no CARF para melhor compreensão, convém também reproduzir o seguinte trecho contido no Termo de Verificação Fiscal que não havia sido incluído no relato da decisão recorrida: • Constatase que o “pagamento” aos controladores, para a aquisição destas ações da CREMER, deuse com papéis de emissão da CREMERPAR,, que a esta altura já era controlada pela FIPAR e SZSPAR. Assim, por exemplo, a FIPAR, detentora de papéis da CREMER, deu estes papéis para a subscrição das novas ações emitidas pela CREMERPAR. Da mesma forma se sucedeu com a SZSPAR e APPLIED; } [...] • Em 31/12/2004, houve a incorporação da CREMERPAR pela CREMER, passando esta a deter o direito de amortizar o ágio advindo da incorporada, nos termos do art. 386 do RIR/99. [...] De se ressaltar que esta análise se faz sem a interferência das outras partes da operação, que envolveram outras personagens (MLGP e CREMER HOLDINGS), que não participaram efetivamente desta fase da operação. [...] • Ou seja, a estrutura retornou à sociedade original. De se esclarecer que a esta altura, em 31/12/2004, a FIPAR, a SZSPAR e a APPLIED não detinham mais o controle direto da CREMER, mas sim faziam parte do quadro societário da CREMER HOLDINGS, controlada pela MLGP [...] Porém, como dito, avaliando a operação de forma isolada, esta parcela do ágio de R$ 9.307.341,21 resultou da sucessão dos fatos acima descritos, sendo a CREMER HOLDINGS e a MLGP apenas figurantes para efeitos da geração desta parte do ágio. Em resumo, esta parte do ágio só teve a participação da CREMER, da CREMERPAR, da FIPAR, da SZSPAR e da APPLIED. • Ademais, verificase que nesta parte da operação, não houve nenhum tipo de desembolso de recursos para a formação do ágio. Houve apenas troca de papéis intragrupo, sendo que o ágio pago seria justificado pelo Laudo da Avaliação da BRASILPAR dando conta do valor de mercado da CREMER. [...] Fl. 3486DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.487 8 Da cronologia acima exposta, verificase que estamos diante de um ágio sem substância econômica, intragrupo, formado em uma negociação carente da independência entre os agentes. A CVM se posicionou sobre a questão em seu OFÍCIO CIRCULAR CVM SNC SEP 01/2007, conforme trecho abaixo [...]: A CVM observa que a mera observância das formalidades previstas na lei societária não é condição suficiente para reconhecer o ágio surgido em uma determinada operação, sendo necessário observar, também, requisitos materiais, como a independência entre a partes, pagamento e um efetivo ambiente concorrencial. Portanto, se o ágio intragrupo não é reconhecido pela lei societária e pela contabilidade, também não o será pela lei tributária, por força do disposto nos artigos 247 do RIR/99 e 274 da Lei 6.404/1976. De se concluir então que esta parcela do ágio, de valor igual a R$ 9.307.341,21, mostrase indevida para fins da amortização permitida pelo art. 386 do RIR/99, devendo, pois ser objeto de glosa. AQUISIÇÃO DOS MINORITÁRIOS Esta parte da operação perfaz um valor de R$ 10.966.351,39, conforme lançamentos abaixo reproduzidos: [...] Estes valores representaram desembolsos efetivos realizados pela CREMERPAR para a aquisição de ações da CREMER detidas pelos Minoritários. Envolve, assim, aquisição de terceiros independentes. Como explicitado nos relatórios da empresa, houve uma Oferta Pública de Aquisição de Ações (OPA) que regulou a forma em que os papéis detidos por acionistas minoritários seriam adquiridos pela CREMERPAR. AQUISIÇÃO VIA AUMENTO DE CAPITAL Esta última parte da operação evolveu o montante de R$ 60.395.852,04, detalhado nos lançamentos abaixo: (...) Como já visto, esta parcela do ágio se justificou, no entendimento da CREMERPAR, pelo fato destes aportes de recursos na CREMER terem sido efetivados com seu Patrimônio Liquido ainda negativo. Assim, enquanto o PL da empresa permaneceu negativo, todos os aportes efetuados tiveram o tratamento de ágio pago, até que seu PL ficou positivo [....] Sobre esta parcela do ágio, cumpre abordarmos duas questões relevantes, quais sejam, a possibilidade de geração de ágio nos processos de subscrição de ações e o tratamento a ser dado aos aportes de recursos em uma investida com PL negativo. a) Do ágio gerado em subscrições de ações: Em relação a esta primeira questão, devemos verificar se meras subscrições para aumento de capital em uma empresa deficitária (PL negativo) dão ensejo a considerar os aportes como ágio. Devemos ressaltar que por ocasião do primeiro aumento de capital, em 31/05/2004, a CREMER, já pertencia, formal e Fl. 3487DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.488 9 materialmente, à CREMERPAR, esta controlada pela CREMER HOLDINGS, que, por sua vez, estava sob o controle da MLGP. Assim, nestes aportes de capital, a CREMERPAR nada adquiriu, apenas injetou recursos na controlada de forma a sanear suas dividas. Para a formação de ágio há que se ter uma aquisição perante terceiros, que no caso em tela, foi concretizada em momento anterior, na aquisição dos papéis dos minoritários, e não nos aportes de capital efetivados posteriormente. O MANUAL DE CONTABILIDADE da FIPECAFI aborda a questão da seguinte forma: “Nos itens anteriores vimos que: [...] b) por outro lado, vimos nos itens anteriores ao 11.7 que surge ágio ou deságio somente quando uma empresa adquire ações ou quotas de uma empresa já existente, pela diferença entre o valor pago a terceiros e o valor patrimonial de tais ações ou quotas adquiridas dos antigos acionistas ou quotistas. Poderíamos concluir, então, que não caberia registrar um ágio ou deságio na subscricã̧o de ações. Entendemos, todavia, que quando da subscrição de novas ações, em que há diferença entre o valor de custo do investimento e o valor patrimonial contábil, o ágio deve ser registrado pela investidora. Essa situaçaõ pode ocorrer quando acionistas atuais (empresa A) de uma empresa B resolvem admitir novo acionista (Empresa X) não pela venda de ações já existentes, mas pela emissão de novas ações a serem subscritas pelo novo acionista. Ou quando um acionista subscreva aumento de capital no lugar de outro.” Ora, o exposto pelo citado Manual coaduna com a situação sob análise, senão vejamos. As subscrições havidas pela CREMERPAR não alteraram seu percentual de participação na CREMER, uma vez que já era de praticamente 100%. Além disso, a CREMERPAR não era uma nova acionista, não se amoldando, assim, na exceção prevista pelos autores da FIPECAFI. Esta parcela de ágio pretendido pela empresa não passou de meros aumentos de capital em uma investida que apresentava PL negativo. [...] Em nosso caso, como já dito, não houve nenhum tipo de alteração no percentual de participação com estas subscrições havidas, não ensejando a geração de ágio algum. [...] De se atentar ainda que a situação aqui debatida é bem diferente de uma aquisição, com efetivos pagamentos (desembolsos), de uma empresa com PL negativo. Num caso em que envolva efetivo desembolso e partes independentes, o ágio eventualmente pago seria legitimo, limitado, é claro, ao valor efetivamente desembolsado. Porem, quando uma empresa já detém o controle de outra, e passa a fazer aportes de recursos, ainda que aportes Fl. 3488DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.489 10 efetivos, isto não dá ensejo à formação de ágio. Como dito, no momento em que a CREMERPAR passou a injetar recursos na CREMER, via aumento de capital, ela já era “dona” da CREMER, não estando, pois, a adquirir nada! [...] Mas então qual seria o tratamento a ser dado aos aportes de capitais realizados em uma investida com PL negativo? Passemos então a abordar [...] b) Do aumento de capital em investida com PL negativo: Acerca do tema, os autores da FIPECAFI entendem que a natureza da subscrição de capital efetuada em empresa investida, com patrimônio liquido negativo, tem natureza de perda, prejuízo, e não ágio como pretendido e escriturado pela CREMERPAR. [...] Verificase assim que o tratamento dado pela CREMERPAR nas integralizações realizadas na CREMER está equivocado. Deveria ter reconhecido estes valores injetados na investida como perda, afetando diretamente seu resultado em 2004. Desta forma, verificase indevida a consideração como ágio o valor de R$ 60.395.852,04, devendo ser objeto de glosa. 3.1.4. DO VALOR DO PL NEGATIVO Nota: Neste tópico, a Fiscalização tece considerações acerca do valor do PL Negativo, procurando mostrar que tal valor teria sido majorado, que em verdade seria negativo, mas por um valor bem menor, conforme Tabela 7 Ajustes ao Patrimônio Liquido (fl. 447) que se reproduz abaixo, entretanto, a autoridade autuante glosou integralmente o valor equivalente ao PL Negativo, o que nos leva a crer que tal digressão não teve influência na matéria tributável apurada, conforme depreendese do relato a seguir: (...) Desta forma, a parcela do pretenso ágio almejado com as integralizações realizadas estaria limitada pelo valor do Patrimônio Liquido Ajustado acima. Vale, poreḿ, repisar que esta parcela do ágio, no valor de R$ 60.395.852,04, foi glosada integralmente, conforme razões expostas no item 3.3 deste termo {Comentário deste Relator do CARF: as razões estão expostas no item 3.1.3}, tendo o presente tópico apenas demonstrado que o valor do PL da empresa estava incorreto, o que acarretou uma valoração indevida do ágio por parte da FISCALIZADA. 3.1.5. DOS LAUDOS DE AVALIAÇAÕ Considerando ser requisito legal para possibilitar a amortização de ágio por rentabilidade futura, convém analisarmos os laudos de avaliação da TERCO AUDITORES INDEPENDENTES e da BRASILPAR. [...] Assim, de se concluir que houve um processo de avaliação (Laudo da BRASILPAR) para balizar a aquisiçaõ das ações do bloco de controle e dos minoritários, enquanto outro laudo Fl. 3489DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.490 11 (TERCO) serviu de parâmetro para justificar o aǵio no processo de aquisição das ações da CREMER pela CREMERPAR, via aumentos de capital. Ocorre que este laudo da TERCO não pode balizar um processo de geração de ágio, pois como dito, as subscricõ̧es para aumento de capital havidas na CREMER pela CREMERPAR não dão ensejo à geração de ágio algum. Deveriam ter sido contabilizadas como perda, e não como ágio. [...] 3.1.6. DA APURAÇAÕ DOS VALORES Em relaçaõ aos fatos acima relatados, relacionados a amortização de ágio indevido, verificase que a FISCALIZADA incorreu em contabilização de despesas desnecessárias para a sua atividade, nos termos do art. 299 do RIR/99. Do valor total do ágio apurado, R$ 80.669.544,64, deve ser objeto de glosa R$ 69.709.163,25, conforme abaixo discriminado: (...) Como a amortização se daria em 05 anos, a parcela dedutível em cada ano deveria ser de R$ 2.193.270,27. Considerando que a FISCALIZADA amortizou R$ 16.133.908,92, deve ser objeto de glosa, por ano, o montante de R$ 13.940.638,64. (...)” A Turma a quo decidiu dar parcial provimento ao recurso voluntário para cancelar os lançamentos relativos à glosa das despesas financeiras e às multas isoladas por falta de recolhimento das estimativas. (efls. 1742 e seg.). O acórdão recorrido restou assim ementado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 ELEMENTOS FORMADORES DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. COMPROVAÇÃO. Nada impede que o Fisco perscrute, a qualquer tempo, os elementos formadores de um crédito tributário ainda não alcanca̧do pela decadência. O limite temporal está fixado no prazo para o Fisco homologar o correspondente pagamento. Desde que dentro deste último prazo, o Fisco pode exigir a comprovação daqueles elementos. JUROS SOBRE MULTA. POSSIBILIDADE. Os juros moratórios são devidos à taxa SELIC e sobre o “crédito tributário. Este decorre da obrigaca̧õ principal que, por sua vez, inclui também a penalidade pecuniária. PLANEJAMENTOS TRIBUTÁRIOS. OPONIBILIDADE AO FISCO. Os planejamentos tributários são inoponíveis ao Fisco quando formados por negócios jurídicos de propósito preponderantemente marcado pela economia tributária. Fl. 3490DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.491 12 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 AMORTIZAÇAÕ DE ÁGIOS. DECADÊNCIA. O prazo decadencial para o lançamento de ofício dos tributos sujeitos à sistemática dos chamados “lançamentos por homologação”, nos termos do artigo 150, § 4o, do CTN, é de cinco anos contados da ocorrência do fato gerador desses tributos. Na hipótese de amortização de ágios, uma nova contagem inicia na data de encerramento de cada período de apuração em que houve a referida amortização e não na data da formação dos ágios. AMORTIZAÇAÕ DE ÁGIOS. REORGANIZAÇÕES SOCIETÁRIAS. INTERPRETAÇAÕ EXTENSIVA. IMPOSSIBILIDADE. É impossível promover uma interpretação extensiva das hipóteses expressamente previstas em lei para a amortização do ágio por se tratar de um benefício fiscal caracterizado como isenção. AMORTIZAÇAÕ DE ÁGIOS. SUBSTITUIÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. EMPRESA VEÍCULO. PLANEJAMENTO INOPONÍVEL. A operação de substituição de participação societária, gerando ágio numa empresa veículo, é suficiente para macular o planejamento, mesmo que anteriormente tivesse sido gerado ágio, em aquisição pretérita, realizada mediante efetivo pagamento. AMORTIZAÇAÕ DE ÁGIOS. SUBSCRIÇÃO DE AÇOẼS. EMPRESA VEÍCULO. PLANEJAMENTO INOPONÍVEL. A operação de subscrição de ações, gerando ágio numa empresa veículo, é suficiente para macular o planejamento, mesmo que anteriormente tivesse sido gerado ágio, em aquisição pretérita, realizada mediante efetivo pagamento. AMORTIZAÇAÕ DE ÁGIOS. REORGANIZAÇÕES SOCIETÁRIAS. INEXISTÊNCIA DE IDENTIDADE COM AQUISIÇÕES PRETÉRITAS. A amortização de ágios decorrentes de reorganizações societárias não alcança aqueles surgidos em aquisições pretéritas. A lei prevê que o ágio a ser amortizado é o que surgiu na aquisicã̧o da participação societária detida por uma das pessoas envolvidas na incorporação. Inexiste identidade de “aquisições”. DESPESAS FINANCEIRAS. EMPRÉSTIMOS. NECESSIDADE. RAZÕES ECONÔMICAS. É inquestionável a “necessidade” de uma decisão administrativa da empresa quando existem razões econômicas que podem apontar para a sua convenien̂cia. IRPJ. CSLL. AMORTIZAÇÕES EM GERAL. INDEDUTIBILIDADE. Fl. 3491DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.492 13 Afastadas as amortizações de ágios autorizadas conforme os artigos 7o e 8o da Lei no 9.532/97, há que se aplicar a vedação de caráter geral expressa tanto para a base de cálculo do IRPJ quanto para a da CSLL no inciso III do artigo 13 da Lei no 9.249/95. IRPJ. CSLL. ESTIMATIVAS. MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA PROPORCIONAL. Incabível a aplicação simultânea da multa isolada pelo naõ pagamento de estimativas apuradas no curso do anocalendário e da multa proporcional concernente à falta de pagamento do tributo devido apurado no balanço final do mesmo anocalendário. Isso porque o não pagamento das estimativas é apenas uma etapa preparatória da execuçaõ da infraca̧õ. Como as estimativas caracterizam meras antecipações dos tributos devidos, a concomitância significaria dupla imposição de penalidade sobre a mesma infração, qual seja, o descumprimento de uma obrigaca̧õ principal de pagar tributo. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 CSLL. DESPESAS NECESSÁRIAS, USUAIS E NORMAIS. Os conceitos de despesas “necessárias”, “usuais” e “normais” contidos no artigo 47 da Lei no 4.506/64 são aplicáveis também à CSLL porque o comando que consolidou a questão da dedutibilidade em matéria de apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, o artigo 13 da Lei no 9.249/95, foi categórico ao ressalvar aquele dispositivo legal. A PFN opôs embargos de declaração (efls. 2815 seg.), os quais foram rejeitados por despacho (efls. 2825 seg.). Não foi interposto recurso especial pela PFN. O contribuinte, por sua vez, interpôs recurso especial (efls. 2925 seg.). O referido recurso foi admitido apenas parcialmente por despacho, nos seguintes termos (efls. 3365 e seg): “Com fundamento nas razões acima expendidas, nos termos dos arts. 18, inciso III, c/c 68, § 1o (Anexo II) do RI/CARF, aprovado pela Portaria MF no 343, de 2015, ADMITO, EM PARTE, o Recurso Especial interposto, quanto às matérias (3) “improcedência da decisão recorrida por ter mantido a glosa de ágio exclusivamente em razão da utilização de ‘empresa veículo’”, na parte relativa à subscrição de ações – aportes de capital na Cremerpar; (4) “improcedência da decisão recorrida em relação ao ‘Ágio 1’, ainda que se considere tal ágio como ‘interno’”; e (7) “improcedência da decisão recorrida quanto à manutenção da aplicação de juros sobre a multa de ofício”, NÃO CONHECENDO o Recurso Especial interposto, em relação às matérias (1) “nulidade da decisão recorrida por aperfeico̧ar o lanca̧mento, ao trazer fundamentação diversa daquela constante no Auto de Infração” e (2) “nulidade da decisão recorrida por falta de apreciação dos argumentos e das provas trazidos aos autos”, e NÃO ADMITINDO o Recurso Especial interposto, quanto às matérias (5) “improcedência da decisaõ recorrida em Fl. 3492DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.493 14 razão de não ter acolhido a preliminar de decaden̂cia” e (6) “improcedência da decisão recorrida quanto à repercussão da glosa de amortização do ágio na base de cálculo da CSLL”. O aludido despacho foi confirmado em sede de reexame de admissibilidade (efls. 3375 seg.) A PFN apresentou contrarrazões (efls. 3403 e seg.), nas quais não se opõe ao conhecimento do recurso especial, mas requer lhe seja negado provimento. Concluise, com isso, o relatório. Voto Vencido Conselheiro Luís Flávio Neto, Relator Compreendo que o despacho de admissibilidade bem analisou o cumprimento dos requisitos para a interposição do recurso especial de divergência interposto, razão pela qual não merecem reparos, adotandose neste voto os seus fundamentos. 1. A amortização fiscal das despesas de ágio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura. A palavra “ágio” conduz à ideia de um sobrepreço que se paga por algo, um valor superior a determinado parâmetro. O ágio analisado no presente processo administrativo se refere à aquisição de participação societária relevante em empresas (investidas) por outras empresas (investidoras). No período atinente ao caso ora sob julgamento, como se verá a seguir, o legislador reconhecia como justificativa negocial para o pagamento de ágio (ou deságio) a expectativa de rentabilidade futura da empresa investida, o valor de mercado de bens do ativo da empresa investida superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade, o fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. 1.2. A identificação do ágio pelo Método de Equivalência Patrimonial (“MEP) Quando uma pessoa jurídica possui participação societária relevante em outra pessoa jurídica (controlada ou coligada), deve refletir em sua contabilidade tal investimento avaliandoo conforme o método da equivalência patrimonial (doravante “MEP”). Por sua vez, “ágios” e “deságios” são itens evidenciados nas demonstrações contábeis pelo MEP: a companhia deve evidenciar que parte do investimento mantido em sua controlada ou coligada não se justifica pelo valor patrimonial desta, mas sim por uma ágio despendido quando de sua aquisição, considerando o fundamento pelo pagamento deste1. Nos idos de 1976, a Lei 6.404 (“Lei das SAs”) regulou a adoção do MEP, especialmente em seu art. 248: Art. 248. No balanço patrimonial da companhia, os investimentos relevantes (artigo 247, parágrafo único) em sociedades coligadas sobre cuja administração tenha influência, ou de que participe com 20% (vinte por cento) ou mais do capital social, e em sociedades controladas, serão avaliados pelo valor de patrimônio líquido, de acordo com as seguintes normas: (…) 1 Após a Lei 12.943/2014, que se aplica a período posterior ao dos presentes autos, o ágio por expectativa de rentabilidade futura se tornou residual ao valor justo dos ativos da investida. Fl. 3493DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.494 15 A legislação brasileira passou a prever que as pessoas jurídicas que detenham investimentos em controladas ou coligadas devem, ao realizar sua escrituração pelo MEP, desdobrar o custo destas (i) no valor do patrimônio líquido existente no momento da aquisição da respectiva empresa investida e (ii) no ágio ou deságio eventualmente suportado para a aludida aquisição: Decretolei n. 1.598/77 Art. 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Avaliação do Investimento no Balanço Art 21 Em cada balanço o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no artigo 248 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e as seguintes normas: I o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até 2 meses, no máximo, antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda. II se os critérios contábeis adotados pela coligada ou controlada e pelo contribuinte não forem uniformes, o contribuinte deverá fazer no balanço ou balancete da coligada ou controlada os ajustes necessários para eliminar as diferenças relevantes decorrentes da diversidade de critérios; III o balanço ou balancete da coligada ou controlada levantado em data anterior à do balanço do contribuinte deverá ser ajustado para registrar os efeitos relevantes de fatos extraordinários ocorridos no período; Fl. 3494DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.495 16 IV o prazo de 2 meses de que trata o item I aplicase aos balanços ou balancetes de verificação das sociedades, de que trata o § 4º do artigo 20, de que a coligada ou controlada participe, direta ou indiretamente. V o valor do investimento do contribuinte será determinado mediante a aplicação, sobre o valor de patrimônio líquido ajustado de acordo com os números anteriores, da porcentagem da participação do contribuinte na coligada ou controlada. Notese que, para fins meramente contábeis e sem consequências tributárias, na empresa investidora, o ágio (ou deságio) lançado no ativo permanente, na conta de investimento, como ativo diferido, devendo ser deverá ser amortizado mediante débito ou crédito ao seu lucro líquido. Na empresa investida, por sua vez, o ágio componente do preço de emissão de ações, lançado como reserva de capital, não está sujeito à amortização e não afeta de modo algum o resultado.2 Ainda sob a perspectiva contábil, vale observar que, contabilmente, o desdobramento do referido ágio também pode ser observado sob a perspectiva da pessoa jurídica investida, embora tais registros contábeis não apresentem qualquer importância para a questão em análise. Supondose que uma pessoa jurídica (investidora) realize aumento de capital com sobrepreço em uma outra empresa (investida), referido ágio seria escriturado em conta do ativo, de investimento. Já as demonstrações financeiras da investida, em tese, deveriam evidenciar o ágio em questão em conta de reserva de capital3. A referida escrituração de ágio pela investida não possui relevância para a análise em tela, pois não há comunicação necessária com os lançamentos contábeis realizados pela empresa investidora. Por essa razão, em nenhum momento a legislação que rege a matéria se volta aos valores contabilizados como ágio pela empresa investida, sendo relevante, apenas, a conta de investimento presente nas demonstrações financeiras da empresa investidora. A apuração ou mesmo amortização contábil do aludido ágio por expectativa de rentabilidade futura, escriturados pela empresa investidora em função do MEP, sempre permaneceram neutros para fins tributários nas diversas alterações legislativas atinentes à matéria. No que é mais relevante ao presente caso, prescreve o Decretolei 1.598/77: Art. 25 As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o artigo 20 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no artigo 33. Conforme será evidenciado nos tópicos “2” e “3” e “4” a seguir, as consequências tributárias apenas surgiriam com a realização do investimento, com a apuração do ganho (ou perda) de capital prescrita pelo art. 33 do Decretolei 1.598/77, ou com a amortização do ágio à fração 1/60 decorrente da implementação da fórmula operacional básica prescrita pelo art. 7o da Lei n. 9.532/97. 2. A evolução da legislação e do tratamento jurídicotributário do “ágio”. No período que antecedeu a Lei n. 12.973/2014, vigorou no sistema jurídico brasileiro dois regimes distintos relacionados ao ágio, dedicados a funções bastante distintas: 2 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 461. 3 Podese supor, ainda, a hipótese em que uma pessoa jurídica investidora adquira os investimentos em uma outra pessoa jurídica, adquirindo as suas ações diretamente das mãos de seus antigos detentores. Caso seja pago ágio nessa operação, tais valores sequer viriam a ser escriturados pela empresa investida. Fl. 3495DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.496 17 um regime contábil e outro regime tributário.4 Embora possuíssem pontos em comum, eram evidentes os seus distanciamentos. Sob a perspectiva do Direito tributário, as três grandes reformas atinentes ao ágio se deram em 1977, 1997 e 2014, como será brevemente explicitado abaixo. Já sob a ótica do Direito contábil, é possível identificar apenas dois períodos, um anterior e outro posterior à Lei n. 11.638/2007. Notese que essa lei introduziu alterações marcantes à matéria contábil, com a convergência das normas brasileiras aos padrões internacionais, mas não afetou em nada a apuração do ágio para fins fiscais.5 Tais alterações de métodos contábeis, contudo, permaneceram neutras para fins fiscais até a edição da Lei n. 12.973/2014. Nos subtópicos a seguir, com a necessária ênfase ao que importa para a solução do caso concreto, o tratamento tributário do ágio nos marcos temporais de 1977, 1997 e 2014 serão analisados com paralelos à contabilidade, de forma a evidenciar a comunicação e os distanciamentos dessas searas. 2.1. A legislação do período pré1997. Conforme se expôs acima, a apuração do ágio conforme os arts. 20 e 21 do Decretolei 1.598/77 jamais apresentou consequências tributárias imediatas. É realmente possível dizer que a amortização contábil das despesas de ágio sempre permaneceu neutra para fins tributários nas diversas alterações legislativas atinentes à matéria. Até 1997, a única consequência tributária para o ágio por expectativa de rentabilidade futura, apurado na contabilidade da empresa investidora pela adoção MEP, se daria apenas em caso de futura realização do investimento (por exemplo, futura venda da empresa investida), no momento da apuração do ganho ou perda de capital então apurado. Foi o que prescreveu o art. 33 do Decretolei 1.598/77: Investimento Avaliado pelo Valor de Patrimônio Líquido Art. 33 O valor contábil, para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 20), será a soma algébrica dos seguintes valores: I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados, nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real. III ágio ou deságio na aquisição do investimento com fundamento nas letras b e c do § 2º do artigo 20, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte IV provisão para perdas (art. 32) que tiver sido computada na determinação do lucro real. § 1º Os valores de que tratam os itens II a IV serão corrigidos 4 Nesse sentido, vide: SCHOUERI, Luís Eduardo; PEREIRA, Roberto Codorniz Leite. O ágio interno na jurisprudência do CARF e a (des)proporcionalidade do art. 22 da Lei n. 12.973/2014, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 355. 5 Nesse sentido, vide: DIAS, Karem Jureidini; LAVEZ, Raphael Assef. “Ágio interno” e “empresaveículo” na jurisprudência do CARF: um estudo acerca da importância dos padrões legais na realização da igualdade tributária, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 328. Fl. 3496DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.497 18 monetariamente. § 2º Serão computados na determinação do lucro real: a) como ganho de capital, o acréscimo do valor de patrimônio líquido decorrente de aumento na porcentagem de participação do contribuinte no capital social da coligada ou controlada, resultante de modificação do capital social desta com diluição da participação dos demais sócios; b) como perda de capital, a diminuição do valor de patrimônio líquido decorrente de redução na porcentagem da participação do contribuinte no capital social da coligada ou controlada, em virtude de modificação no capital social desta com diluição da participação do contribuinte. Dessa forma, desde a década de 70 até 1997, o ágio suportado pela investidora com fundamento em expectativa de rentabilidade futura teria relevância para fins tributários apenas no momento de eventual e posterior realização do investimento, com a redução proporcional da base de cálculo do ganho de capital então apurado. Em tal momento, tais despesas poderiam ser aproveitadas integralmente na apuração do ganho (ou perda) de capital, sem qualquer fracionamento. Essa possibilidade de aproveitamento fiscal integral do ágio pago conduziu a debates em torno de situações consideradas abusivas, à certa insegurança jurídica e, finalmente, à alteração de sua sistemática pela edição da Lei n. 9.532, de 10.12.1997 2.2. A legislação que perdurou de 1997 a 2014, aplicável ao caso dos autos. Com edição da Lei n. 9.532/97, o legislador ordinário alterou sensivelmente as consequências fiscais do ágio por expectativa de rentabilidade futura. A partir de então, passou a ser possível o aproveitamento do ágio à fração 1/60 ao mês, desde o momento em que o ágio escriturado pela investidora viesse a ser confrontado, em um mesmo acervo patrimonial, com os lucros advindos da empresa investida que justificaram o pagamento desse sobrepreço por expectativa de rentabilidade futura. A possibilidade de amortização das despesas de ágio por expectativa de rentabilidade futura, da forma prescrita pela Lei n. 9.532/97, depende do cumprimento de uma fórmula operacional básica, que pressupõe o fenômeno societário da absorção patrimonial, com a reunião (por incorporação, fusão ou cisão) do patrimônio da pessoa jurídica investidora com a pessoa jurídica investida, a fim de que o aludido ágio registrado naquela seja emparelhado com os lucros gerados por esta. Concretizada a absorção patrimonial exigida pelo legislador, o ágio apurado em aquisição precedente pode ser amortizado, com a redução da base de cálculo do IRPJ e da CSL, no mínimo em 60 meses, nos balanços levantados após a ocorrência de um desses eventos, ainda que a incorporada ou cindida seja a investidora (incorporação reversa). É o que se observa dos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97: Art. 7º. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea “a” do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; Fl. 3497DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.498 19 II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea “c” do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea “b” do § 2° do art. 20 do Decretolei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração6; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea “b” do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados durante os cinco anoscalendários subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no mínimo, para cada mês do período de apuração. § 1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão. § 2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar: a) o ágio, em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; b) o deságio, em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. § 3º O valor registrado na forma do inciso II do caput: a) será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; b) poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. § 4º Na hipótese da alínea “b” do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos e contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente. § 5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito. Art. 8º. O disposto no artigo anterior aplicase, inclusive, quando: a) o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor de patrimônio líquido; 6 Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998. Fl. 3498DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.499 20 b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. Há quem aponte que os arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97 veiculariam beneficio fiscal7. Para LUCIANO AMARO, tratarseia de “estímulo a investimento na aquisição de empresas privadas com perspectivas de crescimento de rentabilidade, como incentivo à geração de riqueza, de empregos e, como consequência, de incrementar a própria arrecadação tributária”. Ainda que tais efeitos indutores possam ser observados em alguns casos, parece mais correto compreender que os arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97 enunciam mera norma de dedutibilidade para apuração do IRPJ e da CSL, que inclusive limita quantitativamente a amortização do ágio em questão à fração 1/60 ao mês (ao contrário de “ampliar”, ao que seria um benefício), antes consumada em um único ato8. De benefício fiscal não se trata. O legislador simplesmente impõe que o sobrepreço em questão seja processado contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. Tratase de norma que regula a amortização fiscal de despesas com ágio por meio de uma fórmula operacional básica, bem como limita quantitativamente o exercício de tal direito à fração 1/60 ao mês. Ainda que não seja determinante para a interpretação da norma em apreço, a exposição de motivos da Lei n. 9.532/97 é ilustrativa, in verbis9: “11. O art. 8o estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já conhecidos ‘planejamentos tributários’, vêm utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo”. A exposição de motivos reafirma algo que está claro no texto legislado: o legislador não pretendeu restringir o legítimo aproveitamento do ágio por expectativa de rentabilidade futura, mas sim regular a sua fruição aos casos em que realmente ocorra aquisição de investimento relevante em pessoa jurídica com efetivo sobrepreço. A decisão do legislador foi segregar situações em que há correta apuração do ágio por expectativa de rentabilidade futura de outras que, por corresponderem a operações fictícias, realmente não poderiam ser tratadas da mesma forma. 7 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 714. 8 No mesmo sentido, vide: FAJERSZTAJN, Bruno; COVIELLO FILHO, Paulo. “Transferência” de ágio por meio da chamada empresaveículo. Reflexões sobre o tema à luz da lógica e da finalidade dos arts. 7 e 8 da Lei n. 9.532/1997, in Revista Dialética de Direito Tributário n. 231. São Paulo : Dialética, 2014, p. 25 e seg. 9 Notese apenas que, no projeto de lei, o dispositivo era numerado como “8o”, mas na redação aprovada foi veiculado pelo art. “7o”. Fl. 3499DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.500 21 Se algum “benefício” foi pretendido em 1997 pelo legislador ordinário, este consistiu no estabelecimento de ambiente de segurança jurídica para a realização de aquisições de empresas privadas brasileiras. Em franco plano econômico de desestatização aclamado pelo governo, seguido de período de intenso movimento econômico e investimentos em empresas privadas brasileiras (“M&A”), seria relevante aos investidores ter ambiente jurídico seguro, com uma objetiva fórmula operacional básica a ser seguida. As discussões existentes sobre o ágio até 1997 poderiam fragilizar o ambiente de confiança jurídica e econômica com inevitável inibição de investimentos, o que foi remediado pelo legislador ordinário com a edição da Lei n. 9.532/97. No entanto, o presente julgamento, ocorrido aproximadamente 20 anos após a enunciação da Lei n. 9.532/97, demonstra que a sua aplicação tem gerado uma série de outras incertezas. E, permissa vênia, a interpretação adotada pela fiscalização na lavratura do auto de infração em tela demonstra que uma enorme insegurança jurídica – justamente o contrário do pretendido com a Lei n. 9.532/97 – está sendo imposta à contribuinte, ora Recorrente, o que não deve prosperar. 2.3. Período pós 2014: alterações trazidas pela Lei n. 12.973 ao reconhecimento e aproveitamento fiscal do ágio. Desde a edição da Lei n. 12.973/2014, o tratamento fiscal do ágio sofreu algumas modificações, mas mantevese em boa medida incólume. Notese que, em 2014, o legislador mais uma vez manifestou a sua decisão sobre a apuração e o aproveitamento do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura. O legislador teve a oportunidade para aprimorar o sistema jurídico de forma a reduzir o contencioso com nova regulamentação quanto às exigências para a amortização do ágio. Tal decisão legislativa restou bastante aclarada em relação a discussões como a demonstração do valor do ágio por expectativa de rentabilidade futura (agora a lei exige a elaboração de um laudo específico e em determinado prazo, o que não existia anteriormente)10 e a validade do “ágio interno” (agora a lei veda a apuração de ágio na aquisição de investimento relevante realizada entre partes dependentes, o que não existia anteriormente)11. O silêncio do legislador, na reforma de 2014, em relação a temas igualmente contenciosos, como o da transferência de investimento com ágio analisado nos presentes autos, pode ser compreendido como inexistência de oposição às possíveis restruturações societárias que o participar venha a sofrer. Referido silêncio pode ser considerado como reconhecimento do direito de autoorganização garantido ao particular pelo princípio da livre iniciativa, de forma que não haverá nenhuma sanção a isso no que concerne ao aproveitamento do ágio legitimamente apurado na operação originária de aquisição de investimento relevante. Tratase de um silêncio eloquente. 3. A norma de dedutibilidade fiscal das despesas de amortização de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura. 10 Com as alterações introduzidas pela Lei n. 12.973/2014, o art. 20 do Decretolei 1.598/76 passou a contar com o seguinte dispositivo: “§ 3o O valor de que trata o inciso II do caput deverá ser baseado em laudo elaborado por perito independente que deverá ser protocolado na Secretaria da Receita Federal do Brasil ou cujo sumário deverá ser registrado em Cartório de Registro de Títulos e Documentos, até o último dia útil do 13o (décimo terceiro) mês subsequente ao da aquisição da participação”. 11 Vide Lei n. 12.973/2014 prevê, art. 22: “Art. 22. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detinha participação societária adquirida com ágio por rentabilidade futura (goodwill) decorrente da aquisição de participação societária entre partes não dependentes, apurado segundo o disposto no inciso III do caput do art. 20 do DecretoLei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977, poderá excluir para fins de apuração do lucro real dos períodos de apuração subsequentes o saldo do referido ágio existente na contabilidade na data da aquisição da participação societária, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no máximo, para cada mês do período de apuração.”. Fl. 3500DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.501 22 A norma em questão prescreve que, na hipótese de aquisição de investimento relevante com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, com a correta adoção do MEP para apuração pela investidora do patrimônio líquido da investida e do correspondente ágio, acompanhada da fórmula operacional básica estipulada em lei para a absorção, pela pessoa jurídica investidora, do acervo patrimonial da controlada ou coligada que justificou o ágio incorrido em sua aquisição (ou vice versa), então a consequência jurídicotributária deverá ser a amortização da fração de 1/60 por mês do ágio por expectativa de rentabilidade futura contra as receitas da empresa investida (cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição). 4. Evidenciação analítica dos elementos componentes da norma de dedutibilidade fiscal das despesas de amortização de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura Este tópico se dedica à exposição analítica da norma de amortização do ágio, com o isolamento de elementos essenciais à sua aplicação. Também serão suscitados fatores que, embora não sejam determinantes, corroboram para o reconhecimento da legitimidade das operações envolvidas, bem como outros que são indiferentes e não devem interferir na fruição da amortização das despesas com ágio. A doutrina do Direito tributário há muito evidencia que, para que se desencadeiem as consequências jurídicas da norma, devem ser verificadas no mundo fenomênico todas as notas previstas em sua hipótese de incidência pelo legislador. O princípio da legalidade, explicado por essa formulação, se consubstancia na exigência de lei em sentido estrito para a eleição dos elementos essenciais tanto da hipótese de incidência do tributo quando do seu consequente normativo (obrigação tributária). A norma de amortização do ágio está sujeita a tais exigências, pois interfere diretamente na apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSL. Desse modo, no subtópico “4.1” a seguir, serão identificados quais elementos são requisitos essenciais para a amortização fiscal do ágio por expectativa de rentabilidade futura. A jurisprudência do CARF, por sua vez, passou a consagrar fatores que corroborariam para que a estrutura jurídica adotada pelo contribuinte seja considerada “real”. Tais elementos não são requisitos essenciais, por não terem sido erigidos de tal forma pelo legislador, mas tem corroborado para a formação do convencimento em algumas decisões proferidas no âmbito do CARF, como uma espécie de safe harbour. Em homenagem a essa jurisprudência administrativa e à função de uniformização da CSRF, os aludidos fatores serão analisados adiante. Por fim, não se pode deixar de sublinhar alguns elementos cuja ocorrência é completamente indiferente para que o contribuinte possa ou não amortizar do ágio na forma prescrita pelos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97, os quais serão analisados no subtópico “4.3”. 4.1. Elementos que são requisitos essenciais para a amortização fiscal do ágio. A hipótese de incidência da norma que atribui consequências tributárias ao ágio incorrido por expectativa de rentabilidade futura apresenta elementos cuja presença é essencial, como: Aquisição de investimento relevante com contraprestação de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura; Fluxo financeiro ou sacrifícios econômicos envolvidos na operação de aquisição; Desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial da investida e ágio ou deságio incorrido; Fl. 3501DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.502 23 A amortização do ágio deve se processar contra os lucros da empresa investida (cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição); Absorção da pessoa jurídica a que se refira o ágio ou deságio (investida) pela pessoa jurídica investidora (ou viceversa). 4.1.1. Demonstração da aquisição de investimento relevante com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura; O art. 7o da Lei n. 9.532/97 estabelece um marco originário para a apuração do ágio potencialmente dedutível da base de cálculo do IRPJ e da CSL: o momento da aquisição de investimento com sobrepreço fundado em expectativa de rentabilidade futura. Essa operação é que será determinante para a apuração do ágio que, caso cumprida fórmula operacional básica prescrita pelo legislador, dará ensejo à amortização fiscal. O art. 20, § 3º, do Decretolei 1.598/77 (redação anterior à Lei 12.973.2014), prescreve que o ágio desdobrado por ocasião da aquisição de participação, com justificativa no valor de mercado dos bens do ativo ou na expectativa de rentabilidade futura da investida, “deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração”. Quando se investiga o Decretolei 1.598/77, a Lei 6.404, a Lei 9.532/97 e o Decreto 3.000/99 (antes das alterações introduzidas pela Lei n. 12.973), há uma constatação comum: nenhum desses enunciados prescritivos requer qualquer forma específica de demonstração do ágio apurado pela pessoa jurídica investidora, no momento da aquisição, por expectativa de rentabilidade futura da pessoa jurídica investida. O meio de prova a ser adotado pelo contribuinte, então, deve estar circunscritos àqueles permitidos ou não vedados pelo Direito, mas ao seu critério e conveniência.12 A investigação pelas normas jurídicas brasileiras que tutelam em geral a questão da prova conduz ao menos aos seguintes enunciados prescritivos: Código Civil Art. 107. A validade da declaração de vontade não dependerá de forma especial, senão quando a lei expressamente a exigir. Art. 212. Salvo o negócio a que se impõe forma especial, o fato jurídico pode ser provado mediante: I confissão; II documento; III testemunha; IV presunção; V perícia. Art. 226. Os livros e fichas dos empresários e sociedades provam contra as pessoas a que pertencem, e, em seu favor, quando, escriturados sem vício extrínseco ou intrínseco, forem confirmados por outros subsídios. Parágrafo único. A prova resultante dos livros e fichas não é bastante nos casos em que a lei exige escritura pública, ou escrito 12 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 465. Fl. 3502DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.503 24 particular revestido de requisitos especiais, e pode ser ilidida pela comprovação da falsidade ou inexatidão dos lançamentos. Código de Processo Civil (“antigo”, Lei n. 5.869, de 11.01.1973) Art. 332. Todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não especificados neste Código, são hábeis para provar a verdade dos fatos, em que se funda a ação ou a defesa. A conclusão inevitável é que a “demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração” não possuem forma e conteúdo prédeterminados pelo legislador, que conferiu ao contribuinte liberdade para a adoção dos meio jurídico probatório que lhe convier, observadas as normas gerais do Direito quanto às provas em geral que não demandam forma específica.13 Assim, é requisito essencial da norma analisada que seja realizada, por pessoa jurídica, uma operação (real, obviamente) de aquisição de investimento em outra pessoa jurídica, na qual haja contraprestação pela investidora de um sobrepreço fundado em expectativa de rentabilidade futura por parte da investida, devidamente demonstrada por todas as formas em Direito admitidas. 4.1.2. Fluxo financeiro ou sacrifícios econômicos envolvidos na operação de aquisição. A Lei n. 9.532/97, em seu art. 7º, apenas faz referência à “participação societária adquirida com ágio ou deságio”, sem especificar a forma como deve ser implementada tal aquisição. A maneira mais obvia de aquisição seria o pagamento em moeda, embora seja muito comum que aquisições desse tipo ocorram, por exemplo, por meio de integralização de ações. O legislador não restringiu qualquer dessas possibilidades. Pelo contrário, o legislador utilizou de termos amplos o suficiente para abarcar aquisições realizadas por quaisquer formas de contraprestação: o pressuposto de aplicação da norma é a aquisição, por qualquer forma jurídica, na qual exista contraprestação com ágio, o que pressupõe a existência de fluxo financeiro ou quaisquer outras formas de sacrifícios econômicos envolvidos na operação. Do legado do Conselheiro MARCOS SHIGUEO TAKATA14, observase que “esse preço, repitase, pode darse em ‘moeda’ diversa a dinheiro, como ações emitidas pela companhia incorporadora de ações, como já descrito, no caso de incorporação de ações”. 4.1.3. Desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial e ágio por expectativa de rentabilidade futura. A legislação brasileira dispõe sobre pessoas jurídicas obrigadas à adoção do MEP para refletir em suas demonstrações contábeis o valor do investimento mantido em sociedades coligadas ou controladas pelo valor do patrimônio liquido destas. Por sua vez, também há pessoas jurídicas que, embora não possuam a priori tal obrigação, tornamse igualmente obrigadas a adotar o MEP em situações específicas. 13 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 465. 14 TAKATA, Marcos Shigueo. Ágio Interno sem Causa ou “Artificial” e Ágio Interno com Causa ou Real – Distinções necessárias, in Controvérsias jurídicocontábeis (aproximações e distanciamentos), vol. 3 (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo : Dialética, 2012, p. 211212. Fl. 3503DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.504 25 No caso, a norma obtida dos arts. 7o e art. 8o da Lei n. 9.532/97 e art. 20 do Decretolei n. 1.598/77 , torna obrigatória a avaliação do investimento pelo MEP a toda pessoa jurídica que realizar aquisição, por qualquer forma jurídica, na qual exista contraprestação com ágio. O contribuinte que realizar a referida aquisição de investimento deverá, por ocasião desse evento, desdobrar o custo de aquisição em: (i) valor do patrimônio líquido da empresa investida verificado no momento de sua aquisição e; (ii) ágio por expectativa de rentabilidade futura incorrido na referida aquisição. O art. 20 do Decretolei n. 1.598/77 prevê que o ágio por expectativa de rentabilidade futura “deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração”. Há, assim, determinação para que o contribuinte realize tal segregação e a demonstração dos fundamentos adotados, de tal forma que não lhe é dado seguir por outro caminho caso pretenda amortizar as fiscalmente tais despesas.15 A decomposição do investimento nesses dois elementos é mandatória, apenas sendo facultativa a amortização do ágio para fins fiscais (IRPJ e CSL) na proporção máxima de 1/60 ao mês. Tratandose de deságio, por sua vez, as suas consequências fiscais são naturalmente cogentes. 16 4.1.4. A amortização do ágio deve se processar contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. A regra de amortização do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura não traz ao contribuinte um benefício fiscal pela criação de “créditos presumidos” ou “fictícios”. O legislador simplesmente recorresse um sobrepreço efetivamente incorrido e impõe que este seja processado contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. Ao conceber a amortização do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura como mera norma de dedutibilidade em conformidade com o conceito de renda tributável, o legislador, então, prescreveu o necessário emparelhamento dos lucros efetivamente gerados pela empresa adquirida com o ágio incorrido pela sua aquisição. O legislador se baseou no “princípio do emparelhamento das receitas e despesas”, que é decorrência princípio da competência, aplicável como regra geral para a apuração do IRPJ e da CSL17. Mais do que ter se baseado, é possível afirmar que o legislador tributário, ao tutelar a amortização fiscal do ágio, se manteve coerente com o regime de competência e com as normas que o regulam no Direito societário. Notese o que prescreve o art. 177 da Lei n. 6.404/76: Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações 15 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 4578. 16 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 4578. 17 Há exceções ao princípio da competência, cabendo ao legislador ordinário optar entre este e o regime de caixa. Mas, aqui, aplicase a regra geral do regime de competencia. Fl. 3504DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.505 26 patrimoniais segundo o regime de competência. (grifos acrescidos) O legislador foi enfático, pois entre os “princípios de contabilidade geralmente aceitos” ou “princípios fundamentais da de contabilidade”18 está justamente o princípio da competência, do qual decorre o “princípio do emparelhamento das receitas e despesas”. A adoção de tais princípios contábeis como regra geral para a apuração do resultado das companhias também foi prescrita de forma expressa no art. 187 da Lei n. 6.404/76: Art. 187. A demonstração do resultado do exercício discriminará: (...) § 1º Na determinação do resultado do exercício serão computados: a) as receitas e os rendimentos ganhos no período, independentemente da sua realização em moeda; e b) os custos, despesas, encargos e perdas, pagos ou incorridos, correspondentes a essas receitas e rendimentos. A Resolução CFC n. 750/93 também exprimiu ser decorrência necessária do princípio da competência a adoção do método (ou “princípio”) do confronto das receitas e despesas, como se observa do art. 9o da aludida norma contábil: Art. 9º. As receitas e as despesas devem ser incluídas na apuração do resultado do período em que ocorrerem, sempre simultaneamente quando se correlacionarem, independentemente de recebimento ou pagamento. § 1º O Princípio da COMPETÊNCIA determina quando as alterações no ativo ou no passivo resultam em aumento ou diminuição no patrimônio líquido, estabelecendo diretrizes para classificação das mutações patrimoniais, resultantes da observância do Princípio da OPORTUNIDADE. § 2º O reconhecimento simultâneo das receitas e despesas, quando correlatas, é conseqüência natural do respeito ao período em que ocorrer sua geração. Com as alterações introduzidas pela Resolução CFC n. 1.282/10, o aludido dispositivo passou a constar com outra redação, sem alterar em nada o princípio do emparelhamento das receitas e despesas. Como nem poderia ser diferente, a norma contábil reafirma o método do emparelhamento de receitas e despesas como pressuposto para a concretização do princípio da competência: Art. 9º. O Princípio da Competência determina que os efeitos das transações e outros eventos sejam reconhecidos nos períodos a que se referem, independentemente do recebimento ou pagamento. Parágrafo único. O Princípio da Competência pressupõe a simultaneidade da confrontação de receitas e de despesas correlatas. No caso da amortização fiscal das despesas de ágio por expectativa de rentabilidade futura, o referido método (ou princípio) contábil é vivificado sob a premissa de que “despesas antecipadas devem ser ‘guardadas’ (ativadas) até que se verifiquem as receitas que lhe são correspondentes.”19, o que condiz com a observância do princípio da competência e 18 Vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Fundamentos do imposto de renda. São Paulo : Quartier Latin, 2008, p. 1038 e seg. 19 POLIZELLI, Victor Borges. Caso ALE Combustíveis: distinção entre ágio com fundamento em “fundo de comércio” ou “rentabilidade futura” e a utilização de empresa veículo e propósito negocial, in Planejamento Tributário: Análise de Casos, volume 2 (Coord.: CASTRO, Leonardo Freitas de Moraes e). São Paulo : MP Editora, 2014, p. 1501. Fl. 3505DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.506 27 do emparelhamento de receitas e despesas: a amortização do ágio deve se processar contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. A questão técnica imediatamente surgida ao legislador foi identificar, nas normas societárias e contábeis brasileiras, formas possíveis para operar o aludido emparelhamento dos lucros efetivamente gerados pela empresa investida com o ágio apurado pela investidora quando de sua aquisição. Afinal, a despesa com o ágio por expectativa de rentabilidade futura se encontraria em um entidade (empresa investidora), enquanto que as receitas que ocasionariam a geração dos lucros futuros seriam gerados por outra entidade (empresa investida). Em alguns países, a exemplo dos Estados Unidos, em que o princípio da entidade é tratado de forma diversa e há a consolidação dos demonstrativos financeiras da controladora e de suas subsidiárias, é comum verificarse o que se chama de “push down accounting”. Por meio desse, em hipótese, com a consolidação dos balanços da controladora e de suas subsidiárias, as despesas de ágio apuradas por aquela seriam trazidos para baixo e confrontados com lucros gerados por esta. Se o legislador tributário brasileiro estivesse imerso em tal tradição jurídica, certamente não teria qualquer desafio para implementar um permissivo legal à amortização do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura: em razão da consolidação dos balanços e do “push down accounting”, haveria comunicação natural das despesas com o ágio e as receitas cuja expectativa de geração futura justificou a sua assunção. No Brasil, no entanto, não há correspondente ao chamado “push down accounting”, com uma tradição societária e contábil firme no princípio da da entidade. O problema se mostrou evidente: como possibilitar que a empresa investidora amortize o ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, deduzindoo dos aludidos lucros quando se concretizarem, se estes (ágio e lucro) se encontram em entidades distintas (controladora e controlada)? Assim, com base nas normas societárias e contábeis brasileiras, coube ao legislador tributário estabelecer uma fórmula operacional básica apta a emparelhar o ágio escriturado pela investidora com os efetivos lucros gerados pela empresa investida, cuja expectativa tenha dado causa ao ágio apurado quando de sua aquisição. 4.1.5. Fórmula operacional básica: absorção da pessoa jurídica a que se refira o ágio ou deságio (investida) pela pessoa jurídica investidora (ou viceversa). Caso se adote o sentido estrito da expressão “planejamento tributário” 20, a questão do ágio estará fora de sua matéria. Ocorre que a regra expressa pelos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97 situa a amortização do ágio por expectativa de rentabilidade futura, em termos estritos, entre as “economias de opção” ou “opções fiscais”21. 20 Em meio às muitas divergências que o tema suscita na doutrina nacional, alguns autores incluem no conceito de planejamento tributário a utilização de opções fiscais e de normas tributárias indutoras, já que o contribuinte, ao praticar os referidos atos, certamente teria realizado prévio estudo, planejandoos. Nesse sentido, vide: ANDRADE FILHO, Edmar Oliveira. Planejamento tributário. São Paulo : Saraiva, 2009, p. 02. Outros, por sua vez, as excluem “do âmbito do planejamento, pois correspondem a escolhas que o ordenamento positivo coloca à disposição do contribuinte, abrindo expressamente a possibilidade de escolha” Nesse sentido, vide: GRECO, Marco Aurélio. Planejamento tributário. São Paulo : Dialética, 2008, p. 100. BARRETO, Paulo Ayres. Elisão tributária limites normativos. Tese apresentada ao concurso de livre docência do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2008, p. 240. 21 No mesmo sentido, vide: FAJERSZTAJN, Bruno; COVIELLO FILHO, Paulo. “Transferência” de ágio por meio da chamada empresaveículo. Reflexões sobre o tema à luz da lógica e da finalidade dos arts. 7 e 8 da Lei n. 9.532/1997, in Revista Dialética de Direito Tributário n. 231. São Paulo : Dialética, 2014, p. 25 e seg. Fl. 3506DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.507 28 Nas chamadas opções fiscais, o sistema jurídico tributário oferece ao contribuinte mais de uma sistemática para que submeta os seus signos de riqueza à tributação: é garantida ao contribuinte a liberdade para optar pelo caminho que lhe parecer mais adequado, seja por praticidade ou por lhe proporcionar menor ônus tributário. Explorando o exemplo da DIRPF22, com opção pela sistemática simplificada ou completa, verificase que o legislador prescreveu ao contribuinte uma fórmula procedimental básica a ser seguida pela pessoa física: no programa de computador fornecido pela Receita Federal, o contribuinte deve pura e simplesmente optar pelo modelo simplificado ou completo. O programa de computador calcula para o contribuinte qual opção lhe trará o menor custo de IRPF e, caso se opte pelo modelo mais oneroso, o sistema não prossegue até que o contribuinte confirme estar certo de que realmente irá optar por pagar mais (mensagem semelhante não aparece caso o contribuinte opte pelo caminho mais natural de poupar despesas tributárias). Neste exemplo, não estaria o contribuinte realizando um “planejamento tributário”, mas algo não apenas tolerado como regulado e incentivado pelo legislador: “opções fiscais” ou “economias de opção”. Por sua vez, com o objetivo de permitir expressamente a amortização fiscal (IRPJ e CSL) do ágio por expectativa de rentabilidade futura, o legislador tributário também forneceu a fórmula operacional básica a ser seguida: os lucros gerados pela pessoa jurídica investida devem ser confrontados com a fração de amortização do ágio apurado pela empresa (coerência do legislador com tradicional método do emparelhamento de receitas e despesas para a apuração do IRPJ e CSL). como não há no sistema jurídico brasileiro norma de consolidação de balanços que conduza ao “push down accounting”, o legislador tributário prescreveu ao contribuinte a necessidade de reunião das pessoas jurídicas investidora e investida (absorção patrimonial), por meio de incorporação, fusão ou cisão. É necessário deixar claro que o legislador não buscou induzir a concentração de empresas por meio das normas do art. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97. Não há vestígios de discussões legislativas nesse sentido, não há indicações de tal jaez no texto legislação e também não se concebe plausividade em indução de concentração econômica das empresas. O legislador não buscou induzir a concentração de empresas pura e simplesmente, como se isso fosse algum valor a ser alcançado pela sociedade. Caso a tradição jurídica brasileira consagrasse norma geral consolidação de balanços, o referido “push down accounting” tornaria prescindível o fenômeno da absorção para a reunião patrimonial das empresas investida e investidora, pois a adoção deste método faria com que a empresa investida trouxesse para si (“para baixo”) as despesas de ágio apurado pela empresa investidora. A exigência normativa, portanto, reside simplesmente em uma necessidade técnica de reunião (i) do acervo patrimonial cuja rentabilidade futura justificou o ágio com (ii) o acervo patrimonial em que estão registrados os sacrifícios do investimento realizado, com a 22 DIRPF Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Física. Fl. 3507DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.508 29 segregação, pelo MEP, dos valores atinentes ao ágio e ao valor patrimonial da investida identificado quando de sua aquisição. A exigência do legislador consiste simplesmente no emparelhamento de receitas e despesas, o que se dá com “‘a realização’ do investimento, mediante operação que integre, numa mesma entidade, a investidora e o acervo objeto do investimento”23. Essa fórmula operacional básica é bem descrita por LUCIANO AMARO24, quando identifica que “o que autorizará a amortização do ágio é a operação de incorporação (ou fusão ou cisão) que implique a “confusão” na mesma entidade (investidora ou investida, ou terceira empresa resultante de fusão de ambas) do investimento societário e do acervo da investida que justificou o ágio pago na aquisição desse investimento”. Conclui esse professor, acertadamente, que “A lei não criou obstáculos. Pelo contrário, afastouos expressamente” 25. Para que a junção em uma mesma entidade do fluxo futuro de renda (gerado pelo acervo da investida) com as despesas de ágio para a aquisição do investimento (contabilizado na empresa investidora), a norma prevê amplas formas jurídicas, contemplando incorporações, fusões ou mesmo cisões. Assim, considerando que uma empresa (“X”) adquire investimento relevante de outra empresa (“Y”), com o pagamento de sobre preço (ágio) justificado por expectativa de rentabilidade futura, a norma conduz a situações como: se a empresa investidora (“X”) incorporar a empresa investida (“Y”), esta deixaria de existir, passando a existir apenas aquela (“X”) com a sucessão universal de todos os direitos e obrigações desta (“Y”). Assim, das receitas da então empresa investida (“Y”) poderiam ser deduzidas, no limite de 1/60 mensais, as despesas de amortização de ágio apuradas pela investidora (“X”). O mesmo se daria com a incorporação reversa, na hipótese da empresa investida (“Y”) incorporar a investidora (“X”), por permissivo expresso do art. 8o, “b” da Lei n. 9.532/97. se a empresa investidora (“X”) for cindida, resultando na criação de nova empresa (“X2”) com o investimento detido na investida (“Y”) e, posteriormente, incorporar esta, a empresa investida (“Y”) deixará de existir, passando a existir apenas cindida (“X2”). Devido à sucessão universal de todos os direitos e obrigações, as receitas da então empresa investida (“Y”) poderão ser amortizadas, no limite de 1/60 mensais, com as despesas de ágio apuradas pela investidora (“X2”). A cisão parcial seguida da incorporação reversa também seria possível, por permissivo expresso do art. 8o, “b” da Lei n. 9.532/97. se a empresa investidora (“X”) e a investida (“Y”) forem fusionadas, deixando de existir para dar lugar ao nascimento da empresa fundida (“Z”), a qual receberá por sucessão universal todos os direitos e obrigações daquelas (“X” e “Y”), as receitas da então empresa investida (“Y”) poderão ser 23 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 715. 24 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 719. 25 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 718. Fl. 3508DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.509 30 amortizadas, no limite de 1/60 mensais, com as despesas de ágio apuradas pela investidora (“X”). Nesse seguir, a mens legis ou ratio legis das regras em análise se torna evidente: o ágio decorrente da aquisição deverá ser amortizado do lucro obtida pela empresa adquirida, o que demanda comunicação entre ambas ou seja, “absorção”. É dizer: para que o objetivo da norma seja alcançado (qual seja, a amortização do ágio), o meio selecionado como requisito essencial foi a reunião, “absorção” das pessoas jurídicas investidora e investida. Permitamme a transcrição das acertadas ponderações de RICARDO MARIZ DE OLIVEIRA26, emitidas em âmbito acadêmico: “Destarte, para que esse objetivo legal seja atingido, é necessário trazer o lucro para dentro da pessoa jurídica que tenha adquirido a participação societária com a expectativa de rentabilidade da mesma, ou levar o ágio ou deságio para dentro da pessoa jurídica produtora do resultado esperado, o que se faz por incorporação ou cisão de uma delas e absorção pela outra. Ou, ainda, o mesmo objetivo pode ser alcançado levandose o ágio ou deságio e o lucro para dentro de uma nova pessoa jurídica, o que se faz por fusão das duas pessoas jurídicas, que ficam absorvidas pela nova. Em suma, no contexto dos arts. 7o e 8o é essencial que haja absorção de patrimônio por via de incorporação, fusão ou cisão, de maneira a reunir ágio ou deságio e lucro numa única pessoa jurídica. É por isso mesmo – por ser acontecimento inerente ao tratamento objetivado pela lei – que a reunião das pessoas jurídicas é coisa natural e não deve ser vista com a desconfiança que tem caracterizado alguns procedimento fiscais, a qual é totalmente descabida quando efetivamente tenha ocorrido uma aquisição com ágio, eis que o passo subsequente inevitável, previsto na lei, é a incorporação, fusão ou cisão das pessoas jurídicas investidora e investida.” É importante observar que as operações referidas nos arts. 7o e 8o da Lei 9.532/97 não devem ser consideradas fora de seu contexto. Assim, se uma empresa (“X”) adquire investimento relevante de outra empresa (“Y”), com o pagamento de ágio justificado por expectativa de rentabilidade futura, a norma fiscal não autoriza a amortização do referido ágio, por exemplo, se a empresa investidora (“X”) for incorporada por uma terceira empresa (“Z”). Nesse caso, a referida empresa incorporadora (“Z”), por sucessão universal de todos os direitos e obrigações, passaria a deter o investimento da empresa cuja expectativa de rentabilidade futura justificou o pagamento de ágio (“Y”). Ocorre a transferência do investimento e do respectivo ágio, o que é indiferente sob a perspectiva tributária, isto é, nem é vedado e nem gera o direito à amortização, conforme será melhor analisado no tópico “4.3.2”. Apenas se a aludida incorporadora (“Z”), por exemplo, incorporar, ser incorporada ou realizar fusão com a empresa investida (“Y”), é que estaria autorizada a amortização fiscal do ágio em questão.27 É correta, então, a afirmação de RICARDO MARIZ DE OLIVEIRA28, de que “a condição legal de reunião das pessoas jurídicas não é simplesmente formal, vazia de conteúdo 26 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Revista Direito tributário atual Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 4590. 27 Nesse sentido, vide: AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 715720. 28 OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 4590. Fl. 3509DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.510 31 racional, pois a absorção, seja por via de fusão ou de incorporação ou de cisão, é verdadeiramente necessária para que se possa dar a reunião do ágio ou deságio e do lucro numa única pessoa jurídica.” A precisão dessa assertiva é confirmada com o requisito analisado no subtópico anterior, qual seja: o legislador impõe que o ágio em questão seja processado contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. 4.2. Elementos que não são requisitos essenciais, mas que corroboram para reconhecimento dos elementos da hipótese de incidência e, assim, com o desencadeamento da consequência tributária (amortização fiscal do ágio). Desde a edição da Lei n. 9.532/97, uma série de questionamentos passaram a ser suscitados diante de casos concretos. Em uma era farta de restruturações societárias (“M&A”) impulsionadas por ambiente econômico favorável ao investimento doméstico e estrangeiro, os contribuintes e seus consultores jurídicos precisaram analisar a aplicação das regras de amortização de ágio às peculiaridades dos mais variados negócios jurídicos. A administração tributária, por sua vez, passou a acompanhar e a identificar casos de possível “abuso” no aproveitamento do ágio fiscal. A jurisprudência administrativa, por sua vez, empiricamente gravou situações como indicativas de “abuso”, o que viciaria de tal modo as operações que lhe destituiriam o direito à amortização de “ágio” referido nos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97. Ao mesmo tempo, a pragmática do CARF também resultou em progressiva indicação de safe harbours, fatores que, quando presentes, evidenciariam à administração fiscal a legitimidade fiscal dos negócios praticados pelo contribuinte, colocandoo em um porto seguro. Muitas vezes, a presença de algum desses fatores resulta na consideração de uma operação como a priori legítima. Há um limite que deve ser observado em relação a tais critérios de análise colhidos da experiência e de julgados do CARF. Embora sejam importantes para a sistematização da forma como os casos são julgados em vista de elementos em comum, não podem descarrilhar para uma legislativa imprópria desse Tribunal, com enunciação de critérios não previstos nos enunciados legislativos vigentes à época dos fatos geradores. Não se trata de lista exaustiva, pois tem como propósito a análise do caso concreto dos presentes autos, de forma que está sujeita a atualização e consideração de especificidades. 4.2.1. Aquisição de investimento de partes não relacionadas. Até a edição da Lei n. 12.973/2014, não havia, na legislação, vedação expressa ou mesmo qualquer referência à figura do “ágio interno”. Tal rótulo surgiu da experiência e do manejo de situações concretas e passou a ser regulada expressamente pelo legislador a partir produção da aludida lei. Por se tratar de um rótulo, é preciso compreender a sua extensão e as consequência jurídicas que emanam da qualificação de uma operação como “ágio interno”. Em termos muito gerais, o chamado “ágio interno” consiste em situações nas quais não se encontram presentes partes independentes, com a transmissão do investimento em uma pessoa jurídica para outra, pertencente ao mesmo grupo empresarial. Dizse, então, que o ágio foi constituído “internamente”, sem a participação de nenhum participante externo. Fl. 3510DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.511 32 Em face de uma série de casos considerados abusivos, em que particulares constituiriam ágios internamente, sem qualquer causa, com o propósito exclusivo de reduzir a base de cálculo do IRPJ e da CSL, passouse a considerar que a presença de um terceiro independente na operação originária de aquisição representaria um safe harbour ao contribuinte. Nesse contexto, as aquisições de investimento entre partes não relacionadas passaram a ser consideradas a priori legítimas para fins fiscais. Para KAREM JUREIDINI DIAS e RAPHAEL ASSEF LAVEZ29, nas situações em que operações são realizadas entre partes relacionadas, a fiscalização poderia contestar a apuração de ágio “se, e somente se, identificaremse elementos com base nos quais o laudo ou demonstrativo do ágio possa ser questionado pela administração tributária – à parte disso, reputase arm’s length o ágio realizado entre partes dependentes, na condição de que amparado em laudo ou demonstrativo condizente com a legislação fiscal”. Tal fator, embora possa ter elevada capacidade de influenciar a decisão do intérprete, não é, por si só, decisivo (ao menos até a edição da Lei n. 12.973). Ocorre que outros fatores devem ser verificados, como, por exemplo, o requisito fundamental da existência de fluxo financeiro ou sacrifícios econômicos envolvidos na operação de aquisição. Além disso, quando se está diante de operações rotuladas de “ágio interno”, é necessário investigar as suas peculiaridades, a fim de atribuirlhes a qualificante “válido” ou “inválido”. Enquanto o primeiro, válido, mantém incólume a possibilidade de amortização fiscal, este, inválido, não. Ocorre que, sob a perspectiva fiscal, as modalidades de ágios internos podem ser agrupadas em dois grupos: válidos ou inválidos. Nas palavras de MARCOS SHIGUEO TAKATA30, “há ágios internos e ‘ágios internos’”. 4.2.1.1. O “ágio interno” inválido perante o Direito tributário brasileiro. Os casos rotulados de “ágio interno inválido”, “ágio em si mesmo”, são operações societárias realizadas exclusivamente dentro dos muros do grupo econômico, consideradas sem causa legítima ou mesmo simuladas. Sua característica distintiva não se esgota apenas na realização de operações entre partes dependentes, também na ausência de fluxo financeiro ou de sacrifícios econômicos na aquisição do investimento, sendo comum que não haja alteração de controle ou, ainda, efetiva diluição de um dos sócios. A notória contribuição de MARCOS SHIGUEO TAKATA à evolução da jurisprudência do CARF ficou registrada em votos de sua lavra e em trabalhos por ele publicados. Em um destes, TAKATA31 expõe: “Daí dizermos: é quando inexiste pagamento de preço e minoritários ou terceiros que se põe a condenação ao reconhecimento contábil do ágio interno, com ausência de geração de riqueza nova – à luz do Direito Contábil anterior à convergência às normas internacionais de contabilidade. É nesse contexto que se coloca o chamado ágio ‘de si mesmo’ ou ágio ‘consigo mesmo’. (...) O pagamento de preço com existência de minoritários, em regra. Conclusão que parece simples, mas que demandou caminhar o 29 DIAS, Karem Jureidini; LAVEZ, Raphael Assef. “Ágio interno” e “empresaveículo” na jurisprudência do CARF: um estudo acerca da importância dos padrões legais na realização da igualdade tributária, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 331. 30 TAKATA, Marcos Shigueo. Ágio Interno sem Causa ou “Artificial” e Ágio Interno com Causa ou Real – Distinções necessárias, in Controvérsias jurídicocontábeis (aproximações e distanciamentos), vol. 3 (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo : Dialética, 2012, p. 194. 31 TAKATA, Marcos Shigueo. Ágio Interno sem Causa ou “Artificial” e Ágio Interno com Causa ou Real – Distinções necessárias, in Controvérsias jurídicocontábeis (aproximações e distanciamentos), vol. 3 (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo : Dialética, 2012, p. 198211. Fl. 3511DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.512 33 percurso de base em seus devidos termos, expurgando as ‘bordas’ ou arestas conceituais dessa base.” Nesse seguir, uma série de casos julgados pelo CARF vem considerando como ilegítimas algumas operações, em vista da inexistência de transação financeira entre as partes relacionadas, ausência de preço realmente estabelecido acompanhado de seu pagamento ou, ainda, troca efetiva de titularidade do investimento. O elemento da simulação também está presente em tais decisões. Vale observar os seguintes precedentes: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006 ACÓRDÃO RECORRIDO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. Sendo a decisão devidamente motivada e fundamentada, não há que se falar em nulidade. O fato dela não ter rebatido ponto a ponto as razões da defesa não implica vício. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006 CUSTOS E DESPESAS OPERACIONAIS. SERVIÇOS. COMPROVAÇÃO DOS VALORES. Despesas operacionais são aquelas necessárias a atividade operacional da empresa e, no caso de prestação de serviços, devem ser comprovadas mediante documentos que permitam identificar os prestadores, sem o que procede a glosa fiscal. CUSTOS E DESPESAS OPERACIONAIS. OPERAÇÕES SOCIETÁRIAS. ENCARGO DE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO GERADO COM UTILIZAÇÃO DE SOCIEDADE VEÍCULO. ÁGIO DE SI MESMO. ABUSO DE DIREITO. O ágio gerado em operações societárias, para ser eficaz perante o Fisco, deve decorrer de atos econômicos efetivamente existentes. A geração de ágio de forma interna, ou seja, dentro do mesmo grupo econômico, sem a alteração do controle das sociedades envolvidas, sem qualquer desembolso e com a utilização de empresa inativa ou de curta duração (sociedade veículo) constitui prova da artificialidade do ágio e torna inválida sua amortização. A utilização dos formalismos inerentes ao registro público de comércio engendrando afeiçoar a legitimidade destes atos caracteriza abuso de direito. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 02/01/2009 JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, após o seu vencimento, está prevista pelos artigos 43 e 61, § 3º, da Lei 9.430/96. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Subsistindo o lançamento principal, na seara do Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica, igual sorte colhe o lançamento que tenha sido formalizado em legislação que toma por empréstimo a sistemática de apuração daquele. (CENTER AUTOMOVEIS LTDA. Acórdão n. 1103000.501. Processo 10980.017128/200835) Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anoscalendário: 2001 e 2002 Ementas: NULIDADE REEXAME DE FATOS JÁ VALIDADOS EM FISCALIZAÇÃO ANTERIOR A Secretaria da Receita Federal não valida ou invalida fatos, mas analisa sua repercussão frente à legislação tributária e exige o tributo porventura deles decorrentes. No caso, a repercussão tributária dos fatos só surgiu com a amortização do suposto ágio. ATOS SIMULADOS. PRESCRIÇÃO PARA SUA DESCONSTITUIÇÃO. No campo do direito tributário, sem prejuízo da anulabilidade (que opera no plano da validade), a simulação nocente tem outro efeito, que se dá plano da Fl. 3512DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.513 34 eficácia: os atos simulados não têm eficácia contra o fisco, que não necessita, portanto, demandar judicialmente sua anulação. INCORPORAÇÃO DE SOCIEDADE. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO NA AQUISIÇÃO DE AÇÕES.. SIMULAÇÃO. A reorganização societária, para ser legítima, deve decorrer de atos efetivamente existentes, e não apenas artificial e formalmente revelados em documentação ou na escrituração mercantil ou fiscal. A caracterização dos atos como simulados, e não reais, autoriza a glosa da amortização do ágio contabilziado. MULTA QUALIFICADA A simulação justifica a aplicação da multa qualificada. COMPARTILHAMENTO DE DESPESAS DEDUTIBILIDADE. Para que sejam dedutíveis as despesas com comprovante em nome de uma outra empresa do mesmo grupo, por terem sido as mesmas rateadas, é imprescindível que, além de atenderem os requisitos previstos no Regulamento do Imposto de Renda, fique justificado e comprovado o critério de rateio. BENS DE NATUREZA PERMANENTE DEDUZIDO COMO DESPESA. Não caracterizada a infração pelo fisco, não prospera a glosa das despesas contabilizadas. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Se nenhuma razão específica justificar o contrário, aplicase ao lançamento tido como reflexo as mesmas razões de decidir do lançamento matriz. Recurso voluntário e de ofício negados. (LIBRA TERMINAL 35 S/A. Acórdão n. 159.490. Processo n. 18471.000947/200633) 4.2.1.2. O “ágio interno” válido perante o Direito tributário brasileiro. Como se viu, “há ágios internos e ‘ágios internos’” 32, sendo necessário reconhecer que alguns deles foram apurados legitimamente, de forma a não apresentar maiores distinções no que concerne a possibilidade de seu aproveitamento fiscal.33 A análise dos precedentes do CARF demonstra que há casos de ágio interno reputado de válido, como se observa das ementas a seguir: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano calendário: 2005, 2006, 2007, 2008 ÁGIO. REQUISITOS DO ÁGIO. O art. 20 do DecretoLei n° 1.598, de 1997, retratado no art. 385 do RIR/1999, estabelece a definição de ágio e os requisitos do ágio, para fins fiscais. 0 ágio é a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor patrimonial das ações adquiridas. Os requisitos são a aquisição de participação societária e o fundamento econômico do valor de aquisição. Fundamento econômico do ágio é a razão de ser da mais valia sobre o valor patrimonial. A legislação fiscal prevê as formas como este fundamento econômico pode ser expresso (valor de mercado, rentabilidade futura, e outras razões) e como deve ser determinado e documentado. ÁGIO INTERNO. A circunstância da operação ser praticada por empresas do mesmo grupo econômico não descaracteriza o ágio, 32 TAKATA, Marcos Shigueo. Ágio Interno sem Causa ou “Artificial” e Ágio Interno com Causa ou Real – Distinções necessárias, in Controvérsias jurídicocontábeis (aproximações e distanciamentos), vol. 3 (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo : Dialética, 2012, p. 194. 33 Vide, nesse sentido: SCHOUERI, Luís Eduardo; PEREIRA, Roberto Codorniz Leite. O ágio interno na jurisprudência do CARF e a (des)proporcionalidade do art. 22 da Lei n. 12.973/2014, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 3590. Fl. 3513DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.514 35 cujos efeitos fiscais decorrem da legislação fiscal. A distinção entre ágio surgido em operação entre empresas do grupo (denominado de ágio interno) e aquele surgido em operações entre empresas sem vinculo, não é relevante para fins fiscais. ÁGIO INTERNO. INCORPORAÇÃO REVERSA. AMORTIZAÇÃO. Para fins fiscais, o ágio decorrente de operações com empresas do mesmo grupo (dito ágio interno), não difere em nada do ágio que surge em operações entre empresas sem vinculo. Ocorrendo a incorporação reversa, o ágio poderá ser amortizado nos termos previstos nos arts. 7° e 8° da Lei n° 9.532, de 1997. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano calendário: 2005, 2006, 2007, 2008 ART. 109 CTN. ÁGIO. ÁGIO INTERNO. É a legislação tributária que define os efeitos fiscais. As distinções de natureza contábil (feitas apenas para fins contábeis) não produzem efeitos fiscais. O fato de não ser considerado adequada a contabilização de ágio, surgido em operação com empresas do mesmo grupo, não afeta o registro do ágio para fins fiscais. DIREITO TRIBUTÁRIO. ABUSO DE DIREITO. LANÇAMENTO. Não há base no sistema jurídico brasileiro para o Fisco afastar a incidência legal, sob a alegação de entender estar havendo abuso de direito. 0 conceito de abuso de direito é louvável e aplicado pela Justiça para solução de alguns litígios. Não existe previsão do Fisco utilizar tal conceito para efetuar lançamentos de ofício, ao menos até os dias atuais. O lançamento é vinculado a lei, que não pode ser afastada sob alegações subjetivas de abuso de direito. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. ELISÃO. EVASÃO. Em direito tributário não existe o menor problema em a pessoa agir para reduzir sua carga tributária, desde que atue por meios lícitos (elisão). A grande infração em tributação é agir intencionalmente para esconder do credor os fatos tributáveis (sonegação). ELISÃO. Desde que o contribuinte atue conforme a lei, ele pode fazer seu planejamento tributário para reduzir sua carga tributária. O fato de sua conduta ser intencional (artificial), não traz qualquer vicio. Estranho seria supor que as pessoas só pudessem buscar economia tributária licita se agissem de modo casual, ou que o efeito tributário fosse acidental. SEGURANÇA JURÍDICA. A previsibilidade da tributação é um dos seus aspectos fundamentais. (GERDAU ACOMINAS S/A. Acórdão n. 1101000.708 Processo n. 10680.724392/201028) Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 DECADÊNCIA. NÃO HOMOLOGAÇÃO DAS DECLARAÇÕES APRESENTADAS. Verificado que o lançamento tributário versou nãohomologação às declarações apresentadas, cujas bases de cálculo foram impactadas pela despesa considerada indedutível, verificase que a insurgência fiscal não se dá no tocante à contabilização da despesa, mas, quanto à sua utilização. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE. ERRO OU DEFICÊNCIA NO ENQUADRAMENTO LEGAL. NÃO OCORRÊNCIA. Tendo em vista que a Fiscalização discriminou detidamente os fatos imputados, permitindo à Recorrente exercitar, com plenitude e suficiência, sua defesa técnica e bem Fl. 3514DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.515 36 fundamentada, verificase a total ausência de prejuízo ao contribuinte, bem como de pecha capaz de inquinar de nulidade o feito. INCORPORAÇÃO DE SOCIEDADE. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. ARTIGOS 7º E 8º DA LEI Nº 9.532/97. PLANEJAMENTO FISCAL INOPONÍVEL AO FISCO. INOCORRÊNCIA. A efetivação da reorganização societária, mediante a utilização de empresa veículo, não resulta economia de tributos diferente da que seria obtida sem a utilização da empresa veículo e, por conseguinte, não pode ser qualificada de planejamento fiscal inoponível ao fisco. O “abuso de direito” pressupõe que o exercício do direito tenha se dado em prejuízo do direito de terceiros, não podendo ser invocada se a utilização da empresa veículo, exposta e aprovada pelo órgão regulador, teve por objetivo proteger direitos (os acionistas minoritários), e não violálos. Não se materializando excesso frente ao direito tributário, pois o resultado tributário alcançado seria o mesmo se não houvesse sido utilizada a empresa veículo, nem frente ao direito societário, pois a utilização da empresa veículo deuse, exatamente, para a proteção dos acionistas minoritários, descabe considerar os atos praticados e glosar as amortizações do ágio. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. LANÇAMENTO DECORRENTE Repousando o lançamento da CSLL nos mesmos fatos e mesmo fundamento jurídico do lançamento do IRPJ, as decisões quanto a ambos devem ser a mesma. (BANCO GMAC S.A. Acórdão n. 1301001.224. Processo n. 16327.001482/201052) Por fim, é curioso notar que ELISEU MARTINS e SÉRGIO DE IUDÍCIBUS34 suscitam que a máxima contábil, de que “só se ativa o ágio por rentabilidade futura quando fruto de uma transação, jamais quando ele é criado pela própria entidade”, demanda a questão do que seja “entidade”. Enquanto países como EUA adotam como tradição a elaboração de balanços consolidados, como se viu acima, no Brasil e em uma série de outros países o balanço consolidado é exceção, sendo a regra o balanço individual. Como conclusão, então, seria possível o reconhecimento de ágio gerado em operação entre entidades distintas, ainda que pertencentes ao mesmo grupo econômico. O argumento contábil, então, pode restringir substancialmente a extensão de situações abrangidas pelo rótulo “ágio interno”. É a partir de tal constatação que LUÍS EDUARDO SCHOUERI e ROBERTO CODORNIZ LEITE PEREIRA35 suscitam que “o substantivo ‘ágio’, para receber o adjetivo ‘interno’, teria que ser necessariamente gerado nas estritas fronteiras de uma entidade contábil o que, no Brasil, só ocorreria nas hipóteses de ágio interno artificial, desde que, evidentemente, resta caracterizada a simulação da operação, pois, neste caso, não mais haverá duas pessoas distintas participando da operação, mas, tão somente, uma”. De todo modo, é necessário concluir que nem todas as operações em que não existam terceiros envolvidos são necessariamente inaptas para a apuração de ágio por expectativa de rentabilidade futura. Quando se está diante de operações rotuladas de “ágio interno”, antes de se assumir o estigma que esse rótulo tem suscitado, é necessário investigar as 34 MARTINS, Eliseu; IUDÍCIBUS, Sérgio de. Ágio interno é um mito?, in Controvérsias jurídicocontábeis: aproximações e distanciamentos (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo : Dialética, 2013. 35 SCHOUERI, Luís Eduardo; PEREIRA, Roberto Codorniz Leite. O ágio interno na jurisprudência do CARF e a (des)proporcionalidade do art. 22 da Lei n. 12.973/2014, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 363. Fl. 3515DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.516 37 peculiaridades do caso concreto, a fim de lhe atribuir o correto qualificante “válido” ou “inválido”. 4.2.2. Existência de minoritários que demandem medidas societárias de proteção. A jurisprudência do CARF também tem considerado como fator relevante, ou mesmo um safe harbour em casos de amortização de ágio por expectativa de rentabilidade futura, a existência de sócios minoritários que demandem proteção e que justifiquem restruturações societárias. Assim vocacionadas, situações que seriam consideradas suspeitas pela fiscalização, como muitas vezes é o caso da utilização de empresasveículo, passariam a ser aceitas como legítimas quando encontrassem justificativa na proteção de minoritários. É o que se observa do seguinte precedente deste Tribunal: “O ‘abuso de direito’ pressupõe que o exercício do direito tenha se dado em prejuízo do direito de terceiros, não podendo ser invocada se a utilização da empresa veículo, exposta e aprovada pelo órgão regulador, teve por objetivo proteger direitos (os acionistas minoritários), e não violálos. Não se materializando excesso frente ao direito tributário, pois o resultado tributário alcançado seria o mesmo se não houvesse sido utilizada a empresa veículo, nem frente ao direito societário, pois a utilização da empresa veículo deuse, exatamente, para a proteção dos acionistas minoritários, descabe considerar os atos praticados e glosar as amortizações do ágio”. (BANCO GMAC S.A. Acórdão n. 1301001.224. Processo n. 16327.001482/201052) Nesse sentido, é conhecido o entendimento de MARCOS TAKATA36, de que “é quando inexiste pagamento de preço e minoritários ou terceiros que se põe a condenação ao reconhecimento contábil do ágio interno”. Em declaração de voto no acórdão 1103000.50137, tal questão foi muito bem colocada, in verbis: “Para fins jurídicotributários, o ágio interno, formado dentro do grupo societário, para ser real ou com causa, deve ter uma efetividade econômica ou um significado econômico. Suponhase que haja aumento de capital de uma sociedade e um dos sócios ou acionistas não a subscreva, sendo integralmente subscrito pelo outro sócio ou acionista (por ex., o controlador). Como a empresa em que se organiza a sociedade vale mais que seu valor contábil, o sócio ou acionista que subscrever o aumento de capital daquela irá apurar ágio no aumento de sua participação societária, para que não haja diluição injustificada do outro sócio ou acionista. É um exemplo de ágio interno real ou com causa. Há efetividade ou significado econômico nesse ágio. Imaginese que uma pessoa jurídica resolva incorporar as ações de uma controlada sua que possui minoritários. Aqui, também, se a investida vale mais que seu valor contábil, a relação de substituição de ações pode se dar com base no valor econômico da investida (e da investidora) e a incorporação de ações pode vir a ser feita por esse valor de econômico (um critério de avaliação) da investida. Haverá um ágio no investimento, pago pela incorporadora de ações, através da emissão de ações entregues aos acionistas da incorporadora de 36 TAKATA, Marcos Shigueo. Ágio Interno sem Causa ou “Artificial” e Ágio Interno com Causa ou Real – Distinções necessárias, in Controvérsias jurídicocontábeis (aproximações e distanciamentos), vol. 3 (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo : Dialética, 2012, p. 198211. 37 CENTER AUTOMOVEIS LTDA. Acórdão n. 1103000.501. Processo 10980.017128/200835. Fl. 3516DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.517 38 ações. Outro exemplo de ágio interno real ou com causa. Há significado econômico nesse ágio. Há pagamento pela aquisição de ações (entrega de ações da incorporadora de ações): sua contrapartida é aumento do investimento com ágio”. Tratase de elemento relevante e persuasivo, que corrobora para o reconhecimento da lisura das operações realizadas pelo contribuinte. No entanto, não se trata de um requisito essencial, de forma que a sua ausência não conduziria à inoponibilidade fiscal de tais operações. 4.2.3. Inexistência de “prejuízos” à Fazenda Pública decorrente das restruturações societárias realizadas. A crescente complexidade dos negócios é naturalmente refletida na organização societária das empresas. Por isso, não se pode atribuir à complexidade de operações realizadas pelo contribuinte qualquer préconceito que resvale em “ilegitimidade a priori” para fins fiscais, bem como não se pode esperar ser possível enquadrar todas as inumeráveis variáveis dos mais diversos negócios jurídicos em apenas algumas poucas caixas hermeticamente fechadas a revisões conceituais. Na verdade, há na Constituição Federal garantia à liberdade autoorganização. Como o particular possui liberdade de autoorganização, decorrente imediatamente do princípio da livre iniciativa, restruturações societárias realizadas no âmbito da empresa investidora ou em suas controladas/coligadas (investida) são plenamente possíveis. Se uma restruturação societária não conduzir à minoração de ônus tributário em comparação com aquele que seria suportado com a mais simples e direta absorção da empresa adquirida pela adquirente e, inclusive, não multiplicar ou de alguma forma ampliar o ágio, então a administração fiscal sequer teria interesse de agir. A inexistência de “prejuízos” à Fazenda Pública decorrente das restruturações societárias realizadas passou, então, a ser considerada como um safe harbour em acórdãos do CARF. Como exemplo, é possível observar a decisão a seguir, a qual confirmou a legitimidade da amortização fiscal do ágio: “A efetivação da reorganização societária, mediante a utilização de empresa veículo, não resulta economia de tributos diferente da que seria obtida sem a utilização da empresa veículo e, por conseguinte, não pode ser qualificada de planejamento fiscal inoponível ao fisco. O “abuso de direito” pressupõe que o exercício do direito tenha se dado em prejuízo do direito de terceiros, não podendo ser invocada se a utilização da empresa veículo, exposta e aprovada pelo órgão regulador, teve por objetivo proteger direitos (os acionistas minoritários), e não violálos. Não se materializando excesso frente ao direito tributário, pois o resultado tributário alcançado seria o mesmo se não houvesse sido utilizada a empresa veículo, nem frente ao direito societário, pois a utilização da empresa veículo deuse, exatamente, para a proteção dos acionistas minoritários, descabe considerar os atos praticados e glosar as amortizações do ágio” (BANCO GMAC S.A. Acórdão n. 1301001.224. Processo n. 16327.001482/201052) Como inflexão imediata desse safe harbour, é necessário reconhecer que também não é lícito à Fazenda Nacional tributar mais a renda em questão do que seria tributado em comparação com o ônus que seria suportado com a mais simples absorção da empresa adquirida pela adquirente. A máxima jurídica de que é preciso dar a cada um o que lhe pertence Fl. 3517DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.518 39 (“Suum Cuique Tribuere”) também se aplica ao Direito público e vale tanto para o contribuinte quanto para a fisco. É, então, defeso à administração fiscal sancionar o contribuinte pelo exercício de sua liberdade de autoorganização, apenas possuindo interesse de agir na hipótese das restruturações societárias implementadas de alguma forma majorarem a amortização das despesas de ágio que seria possível com a mais simples absorção da empresa adquirida pela adquirente. 4.2.4. A apuração de ganho de capital pelo alienante da empresa adquirida com sobrepreço fundado em expectativa de rentabilidade futura. A jurisprudência do CARF, com contribuição digna de nota de MARCOS SHIGUEO TAKATA, caminhou para o estabelecimento de safe harbours em restruturações societárias que, embora não tivessem a participação de terceiros estranhos ao grupo econômico, poderiam apurar ágio potencialmente amortizável para fins de IRPJ e CSL. Surgiu a proposta para a apuração de ganho de capital por parte da empresa alienante do investimento seja tomada como uma salvaguarda, que influenciaria para a validação de ágio apurado em operações com partes relacionadas (“ágio interno”). Em declaração de voto no acórdão 1103 000.50138, tal questão foi muito bem colocada, in verbis: “Mais um exemplo. Uma investida pode se encontrar com passivo a descoberto (PL negativo). Não obstante, sua controladora acredita na capacidade de recuperação e de rentabilidade da empresa. Para tanto, a controladora injeta dinheiro na empresa, por aumento de capital, revertendo o passivo a descoberto da investida (PL positivo), para a capacitar à sua recuperação e à geração de rentabilidade. O novo valor de investimento da controladora é o custo de aquisição no aumento de capital (valor em dinheiro aportado): a diferença entre o valor patrimonial da investida segundo o percentual de participação da controladora (equivalência patrimonial) e o custo de aquisição e ́ágio. Há efetividade econômica nesse ágio. Há pagamento em dinheiro pelo aumento de capital feito: sua contrapartida é aumento do investimento com ágio. O ágio interno é real ou efetivo”. Duas considerações são necessárias quanto à referida salvaguarda. Primeiro, não se descarta que a apuração de ganho de capital pela empresa alienante possa influenciar o julgador quanto à legitimidade das operações realizadas, tratandose ou não de casos de ágio interno. Segundo, embora este possa ser um elemento relevante e persuasivo, que corrobora para o reconhecimento da lisura das operações realizadas pelo contribuinte, não se trata de um requisito essencial, de forma que a sua ausência não conduziria à inoponibilidade fiscal das operações. 4.3. Elementos que são indiferentes e não interferem na amortização fiscal do ágio. Na mesma marcha para a interpretação e aplicação das regras da Lei 9.532/97 relacionadas à amortização do ágio fundado na expectativa de rentabilidade futura, alguns fatores passaram a ganhar atenção da jurisprudência administrativa. No entanto, “permissa maxima venia”, conforme explicitado nos subtópicos seguintes, tais fatores não apresentam qualquer relevância para a aplicação ou não da norma dos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97. 38 CENTER AUTOMOVEIS LTDA. Acórdão n. 1103000.501. Processo 10980.017128/200835. Fl. 3518DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.519 40 Devese repetir a advertência de que os elementos a seguir não compõem uma lista exaustiva. Tratase apenas de coleção de fatores corriqueiros no debate sobre o tema em análise e que estão presentes no caso concreto ora sob julgamento. 4.3.1. Aspectos temporais da norma de aproveitamento do ágio e as “entidades efêmeras”. Como se viu, buscando racionalidade no sistema jurídico brasileiro – que tem como premissa fundamental o emparelhamento de receitas e despesas, mas não possui regra geral e automática de consolidação de balanços que possibilite o chamado “push down accounting”, o legislador prescreveu como condição para a amortização do ágio a reunião do patrimônio da empresa investida com o da investidora, de forma que os lucros daquela possam ser amortizados com as despesas de ágio escriturados por esta. Em nenhum momento o legislador exigiu que o contribuinte aguardasse algum lapso temporal mínimo para levar a cabo as operações necessárias para o aproveitamento do ágio em questão. A fórmula operacional básica prescrita para viabilizar o aproveitamento fiscal do ágio simplesmente não estabelece exigências temporais: não consta qualquer prazo nos enunciados prescritivos da Lei n. 9.532/97, tal como não há prazos nas normas societárias que regulam aquisições, fusões e cisões societárias. Nessa mesma linha, RICARDO MARIZ DE OLIVEIRA39 apresenta ponderações relevantes não apenas em âmbito acadêmico, mas de grande valia para a adequada compreensão de casos concretos: “É ainda por isso que, nestes casos, se torna irrelevante como se processa a reunião das duas pessoas jurídicas, para o que a lei abre inúmeras alternativas, e nem mesmo é prejudicial aos efeitos da lei que essa reunião se tenha realizado em curto ou em largo prazo, podendo mesmo efetivarse no próprio dia da aquisição investimento”. Dessa forma, não possui qualquer relevância para a análise do presente caso argumentos que demonstrem o decurso de longo lapso temporal entre as operações realizadas pelo contribuinte ou, ainda, que tenham sido utilizadas estruturas por curso espaço de tempo (“efêmeras”). 4.3.2. Operações periféricas, adjacentes, intermediárias à restruturação societária para absorção patrimonial requerida pela Lei n. 9.532/97. A Lei n. 9.532/97 estabeleceu uma fórmula operacional básica, segundo a qual, por meio de determinados atos societários, deverá haver a reunião do acervo patrimonial cuja rentabilidade futura justificou o ágio com o acervo patrimonial em que se localiza o investimento realizado com o respectivo ágio: receitas e despesas devem ser emparelhadas, com “‘a realização’ do investimento, mediante operação que integre, numa mesma entidade, a investidora e o acervo objeto do investimento”40. Ocorre que muitas outras operações podem ser realizadas na órbita restruturação societária requerida pela Lei n. 9.532/97, antes ou após a aquisição da pessoa jurídica com ágio, como por exemplo: 39 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Revista Direito tributário atual Vol. 23. São Paulo: IBDT/Dialética, 2009, p. 460. 40 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 715. Fl. 3519DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.520 41 constituição de pessoa jurídica com aporte de capital necessário à aquisição de investimentos, com diversificação ou não de suas atividades. Após a aquisição de um investimento em outra pessoa jurídica com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, a chamada “empresaveículo” poderia executar a fórmula operacional básica prescrita pelo legislador, com a incorporação, cisão ou fusão que dá ensejo ao direito de amortização das despesas de ágio contra os lucros da empresa adquirira. nos casos rotulados de “transferência de ágio”, ocorre uma operação de aquisição precedente, entre partes independentes, com a posterior transferência do investimento adquirido para outra empresa do grupo. Em outras palavras, após a aquisição de investimento em outra pessoa jurídica com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, este investimento é transferido para outra pessoa dentro do mesmo grupo econômico, previamente à operação de incorporação, cisão ou fusão que dá ensejo ao direito de amortização das despesas de ágio contra os lucros da empresa adquirira.41 Para o caso em exame nos presentes autos, interessa analisar com mais detalhes a questão da “empresaveículo”. Com paralelo nas “conduit companies”, a expressão acolhida na pragmática do CARF pode, em si, dar ensejo a confusões, pois pode abarcar situações distintas e encontrar justificativa por razões variadas, atinentes a fatores de mercado, regulatórios, societários ou mesmo exclusivamente tributários. Salvo hipótese de fraude, a utilização de “empresaveículo” não gera qualquer efeito tributário, isto é, não altera o potencial de amortização deste em caso de posterior operação de fusão, incorporação ou cisão que ocasione o encontro patrimonial requerido pelo legislador. Por isso é correto afirmar que tais operações são neutras, não alterando a esfera de direitos dos contribuintes ou do fisco no que concerne a efetiva amortização do ágio. A Lei n. 9.532/97 não veda, expressa ou implicitamente, a prática de tais operações intermediárias, que são indiferentes ao legislador, gozando daquilo que TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JR.42 classifica de “permissão fraca”. Ensina o Professor que: 41 A referida transferência do investimento com ágio pode se dar por diversas maneiras e por variados motivos. Assim, é comum que, por razões de mercado, regulatórias ou societárias, a pessoa jurídica que originalmente tenha adquirido investimento (investidora) em outra pessoa jurídica (investida) efetue subscrição de capital em outra sociedade do mesmo grupo econômico, mediante conferência das ações adquiridas a valor de custo, transferindo, além do investimento, o respectivo ágio. Exemplificando, se uma empresa (“A”) adquire investimento relevante de outra empresa (“B”), com o pagamento de ágio justificado por expectativa de rentabilidade futura, a norma fiscal não autoriza a amortização do referido ágio, por exemplo, se a empresa investidora for incorporada por uma terceira empresa (“C”). Essa operação será periférica neutra, indiferente para a norma prescrita pelo art. 7o da Lei n. 9.532/97. A referida empresa incorporadora (“C”), por sucessão universal de todos os direitos e obrigações, passaria a deter o investimento da empresa cuja expectativa de rentabilidade futura justificou o pagamento de ágio (“B”). Ocorre a transferência do investimento e do respectivo ágio, o que é indiferente sob a perspectiva tributária, isto é, nem é vedado e nem gera o direito à amortização fiscal do ágio. Apenas se a aludida incorporadora (“C”) vier, por exemplo, a incorporar, ser incorporada ou realizar fusão com a empresa investida (“B”), é que se daria se a absorção patrimonial exigida e seria autorizada a amortização fiscal do ágio em questão. Nesse sentido, vide: AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 715720. 42 FERRAZ JUNIOR, Tercio Sampaio. Da compensação de prejuízos fiscais ou da trava de 30%, in Revista Fórum de Direito Tributário ‑ RFDT, ano 10, n. 60. Belo Horizonte, 2012. Fl. 3520DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.521 42 “Permissões, no entanto, não resultam apenas de um preceito expresso, mas também da ausência de norma, do que decorre a chamada liberdade negativa. A permissão por ausência de norma (livre por não estar proibido nem ser obrigado) chamase permissão fraca. Já a permissão que resulta da norma se chama permissão forte, que aponta para a liberdade no sentido positivo.” De fato, não há disposição expressa na Lei n. 9.532/97 que vede expressamente a realização de reorganizações societárias periféricas e intermediárias ao evento de absorção eleito para ensejar a amortização do ágio por expectativa de rentabilidade futura, a exemplo da constituição de empresaveículo. O que há é uma tese sobre uma “interpretação” da Lei n. 9.532/97, pela qual a PFN sustenta a perda da possibilidade de amortização do ágio em face de reorganizações societárias com empresasveículo. Como não há disposição expressa nesse sentido que dê ensejo a argumentos contundentes apoiados em interpretação literal, é necessário investigar se uma interpretação sistemática, teleológica ou mesmo histórica apoiariam tal tese. De início, não se pode jamais perder de vista que, na receita procedimental básica prescrita pelo legislador para que o contribuinte opte (economia de opção) pela amortização fiscal do ágio em aquisição oneroso de investimento, a chamada empresa veículo funciona como instrumento para o emparelhamento das receitas (da empresa investida) com as despesas da amortização do ágio (apurados pela empresa investidora), o que, afinal, pressupõe alguma forma de “push down accounting”. Daí a assertiva de VICTOR BORGES POLIZELLI43: “Enfatizase: a ‘empresa veículo’ foi legalmente criada pela Lei n. 9.532/1997 como condição para o carregamento do ágio para baixo, para a empresa investida”. Além disso, parece fora de dúvida que, ausente manifestação clara e expressa do legislador para a limitação de liberdades fundamentais, qualquer interpretação que conduza a tal limitação deverá ser avaliada a partir das normas constitucionais que tutelam a liberdade que se pretende restringir. Na ausência de tal manifestação expressa de forma clara pelo legislador, a análise sistemática do ordenamento demanda, antes de tudo, verificar se a interpretação em questão contraria liberdade constitucional de empresa, de investimento, de organização e de contratação, me parece ser dever do julgador administrativo evitála. A razoabilidade dessa tese deve enfrentar esse teste fatal. A tese em questão evidencia duas interpretações antagônicas do art. 25 da Lei n. 9.532/97: 1a) A utilização de empresaveículo é indiferente ou mesmo goza de permissão do sistema jurídico: por esta, não há ampliação ou redução de qualquer direito à amortização de ágio por parte do contribuinte e nem o Estado amplia ou reduz a sua esfera de direitos em relação à amortização de tais despesas; 2a) A utilização de empresaveículo faz com que pereça o direito à amortização de ágio por expectativa de rentabilidade futura, ainda que este tenha sido legitimamente apurado: por esta, há restrição ao direito do contribuinte à amortização de 43 POLIZELLI, Victor Borges. Caso ALE Combustíveis: distinção entre ágio com fundamento em “fundo de comércio” ou “rentabilidade futura” e a utilização de empresa veículo e propósito negocial, in Planejamento Tributário: Análise de Casos, volume 2 (Coord.: CASTRO, Leonardo Freitas de Moraes e). São Paulo : MP Editora, 2014, p. 1578. Fl. 3521DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.522 43 despesas com ágio, com a consequente ampliação da participação do Estado no patrimônio privado. É premissa inafastável que a atividade arrecadatória do Estado deve observar todo o repertório de direitos assegurados às pessoas físicas e jurídicas, o que evidentemente inclui as liberdades econômicas. Desrespeitado esse limite, a tributação perde legitimidade. E, no Brasil, a Ordem Econômica é amparada por normas constitucionais44 geralmente suscitadas para fundamentar o direito do contribuinte à autoorganização de suas atividades sem a interferência do fisco: a garantia à livre iniciativa e à livre concorrência. A livre iniciativa foi erigida como fundamento da ordem econômica pelo caput do art. 170 da Constituição Federal45. Como observa EROS ROBERTO GRAU46, a livre iniciativa assume uma dupla feição, protegendo ao capital e ao trabalho. Na explicação de TERCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR47, tratase de mandamento para que o Estado atue de forma negativa, no sentido de não interferir na expansão da criatividade do indivíduo e, ainda, positiva, de atuação para a valorização do trabalho humano. A esse propósito, leciona esse professor: “Não há, pois, propriamente, um sentido absoluto e ilimitado na livre iniciativa, que por isso não exclui a atividade normativa e reguladora do Estado. Mas há ilimitação no sentido de principiar a atividade econômica, de espontaneidade humana na produção de algo novo, de começar algo que não estava antes. Esta espontaneidade, base da produção da riqueza, é o fator estrutural que não pode ser negado pelo Estado. Se, ao fazêlo, o Estado a bloqueia e impede, não está 44 EROS ROBERTO GRAU apresenta longo repertório de princípios econômicos prestigiados pela Constituição Federal: “Cumpre neles identificar, pois, os princípios que conformam a interpretação de que se cuida. Assim, enunciandoos, teremos: — a dignidade da pessoa humana como fundamento da República Federativa do Brasil (art. 1a, III) e como fim da ordem econômica (mundo do ser) (art. 170, caput); — os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa como fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1º, IV) e — valorização do trabalho humano e livre iniciativa — como fundamentos da ordem econômica (mundo do ser) (art. 170, caput); — a construção de uma sociedade livre, justa e solidária como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (art. 3º, I); — o garantir o desenvolvimento nacional como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (art. 3º, II); — a erradicação da pobreza e da marginalização e a redução das desigualdades sociais e regionais como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (art. 3º, III) — a redução das desigualdades regionais e sociais também como princípio da ordem econômica (art. 170, VII); — a liberdade de associação profissional ou sindical (art. 8º); — a garantia do direito de greve (art. 9º); — a sujeição da ordem econômica (mundo do ser) aos ditames da justiça social (art. 170, caput); — a soberania nacional, a propriedade e a função social da propriedade, a livre concorrência, a defesa do consumidor, a defesa do meio ambiente, a redução das desigualdades regionais e sociais, a busca do pleno emprego e o tratamento favorecido para as empresas brasileiras de capital nacional de pequeno porte, todos princípios enunciados nos incisos do art. 170; Além desses, outros, definidos como princípios gerais não positivados — isto é, não expressamente enunciados em normas constitucionais explícitas — são descobertos na ordem econômica da Constituição de 1988. Aí, particularmente, aqueles aos quais dão concreção as regras contidas nos arts. 7º e 201 e 202 do texto constitucional. (GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 194) 45 BRASIL, CF/88, Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: I soberania nacional; II propriedade privada; III função social da propriedade; IV livre concorrência; V defesa do consumidor; VI defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação; VII redução das desigualdades regionais e sociais; VIII busca do pleno emprego; IX tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País. Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei. 46 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 212213. Conforme o autor: “não pode ser reduzida, meramente, à feição que assume como liberdade econômica, empresarial (isto é, da empresa, expressão do dinamismo dos bens de produção); pela mesma razão não se pode nela, livre iniciativa, visualizar tãosomente, apenas, uma afirmação do capitalismo”. 47 APUD GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 206207. Fl. 3522DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.523 44 intervindo, no sentido de normar e regular, mas está dirigindo e, com isso, substituindose a ela na estrutura fundamental do mercado”. A autonomia privada decorre do princípio da livre iniciativa, atribuindo aos particulares o direito à liberdade contratual, isto é, de livremente celebrar ou não um contrato (liberdade de celebração), bem como de eleger o tipo contratual mais adequado (liberdade de seleção do tipo contratual) e de preencher o seu conteúdo de acordo com os seus interesses (liberdade de fixação do conteúdo do contrato ou de estipulação).48 Garantese, por esse princípio, a liberdade de empresa, de investimento, de organização e de contratação49. A liberdade contratual, que garante ao particular a faculdade de contratar ou não contratar, de escolher como e com quem estabelecer uma relação contratual e, por óbvio, de decidir qual o conteúdo dos contratos, decorre da autonomia privada.50 TULIO ROSEMBUJ51 observa que a liberdade da empresa não se esgota no exercício da liberdade contratual, no exercício do direito de propriedade ou na atividade de produção de bens de terceiros no mercado livre: tratase da garantia de se poder combinar fatores de produção e de utilizar de riqueza para produzir nova riqueza. Já o princípio da livre concorrência pode ser compreendido como garantia de oportunidades iguais a todos os agentes do mercado, de tal forma que o particular possui a faculdade de conquistar a clientela por seus próprios méritos e na expectativa de que sejam premiados os eficientes e excluídos os ineficientes, embora seja vedada a detenção do mercado e a prática de concorrência desleal. A livre concorrência tem como pressuposto a livre iniciativa e induz à distribuição de recursos a preços mais baixos ao consumidor. Não se exige, contudo, identidade de condições entre os partícipes do mercado, que, respeitados os limites prescritos pelo Direito econômico, podem se valer de todas as suas forças para conquistar a clientela52. Notese que nenhuma dessas liberdades é absoluta. As liberdades econômicas, segundo EROS GRAU53, nem mesmo em sua formulação original (Édito de Turgot, de 1776) pretendiam a omissão total do Estado. Em trabalho publicado em 1969, LUIGI FERRI54 já apontava que: “El problema de la autonomia es ante de todo um problema de limites, y de limites que son siempre el reflejo de normas juridicas, a falta de las cuales el mismo problema no podría siquiera plantearse a menos que se quiera identificar la autonomia com la liberdad natural o moral del hombre”. O que se coloca em questão é a necessidade de manifestação expressa e clara do legislador para a restrição de tal liberdade ou, ao menos, a existência de razoabilidade na interpretação conduzida pela administração fiscal que conduza à tal restrição. Afinal, como 48 Cf. BOULOS, Daniel M. Abuso do Direito no novo Código Civil. São Paulo: Editora Método 2006, p. 226240. No mesmo sentido, TÔRRES, Heleno Taveira. O conceito constitucional de autonomia privada como poder normativo dos particulares e os limites da intervenção estatal, in Direito e poder: nas instituições e nos valores do público e do privado contemporâneos. Heleno Taveira Torres (coordenador). Barueri : Manole, 2005, p. 567. 49 Cf. BARRETO, Paulo Ayres. Elisão tributária limites normativos. Tese apresentada ao concurso à livre docência do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2008, p. 128129. 50 Tais figuras, inclusive, podem inclusive com vir a confundirse. Conforme BOULOS, Daniel M. Abuso do Direito no novo Código Civil. São Paulo: Editora Método 2006, p. 226227. 51 ROSEMBUJ, Tulio. El fraude de lei, la simulación y el abuso de las formas em el derecho tributario. Barcelona : Marcial Pons. 1999, p. 57. 52 Cf. GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 210. 53 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 203. 54 FERRI, Luigi. La autonomia privada. Madri : Editora Revista de Derecho Privado, 1969, p. 45. Fl. 3523DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.524 45 ensina TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR55, a “intervenção que possa afetar a liberdade deve, antes de tudo, estar pautada por regras claras e públicas, que permitam ao indivíduo planejar seu curso de vida, ciente das consequências jurídicas de seus atos.” Resta evidenciado, então, que, a ausência de decisão clara do agente competente (Poder Legislativo) é realmente fator suficiente afastar restrição à liberdade de autoorganização consubstanciada na penalização de operações societárias intermediárias, como é o caso da constituição de empresasveículo. Por maior que seja o esforço dialético, uma investigação sistemática, com o cotejo analítico das aludidas normas constitucionais, torna evidente não ser razoável a interpretação que, à revelia de lei em sentido estrito nesse sentido, conclua que as reorganizações societárias intermediárias ao encontro patrimonial da entidade investida com o investimento faz que pereça o direito à amortização de ágio por expectativa de rentabilidade futura legitimamente apurado. Se há limites ao exercício da liberdade, também há limites à sua restrição, pois “a liberdade pode ser disciplinada, mas não pode ser eliminada” 56. A exigência de congelamento completo da estrutura societária do grupo empresarial, sob pena de perda do direito à potencial amortização do ágio legitimamente apurado, sem dúvida consiste em uma liberdade de empresa, de investimento, de organização e de contratação. Em linha com o quanto exposto acima, se uma liberdade econômica é bloqueada, ainda que por via obtusa, o Estado deixa de “normar e regular, mas está dirigindo e, com isso, substituindose a ela na estrutura fundamental do mercado”, o que é consentâneo com a Constituição. Ocorre que a liberdade de empresa, que pressupõe a livre contratação e autoorganização colocam em xeque a tese ora em análise, pela qual uma operação válida perante o Direito privado e que não traz qualquer “prejuízo” ao erário, seria sancionada com o perecimento do direito à amortização fiscal das despesas de ágio garantida pela Lei n. 9.532/97. Afinal, porque seria válida interpretação que conduz à manifesta desigualdade tributária, autorizando a amortização do ágio a algumas empresas, mas negandoa para outras? O exemplo dos fundos de previdência é muito ilustrativo, pois geralmente há normas regulatórias que não permitem a absorção das empresas investidas ou, ainda, que sejam absorvidas por estas. Porque seria legítimo restringir o direito à livre iniciativa e de contratar de tais entidades, com a vedação à utilização de empresas veículo que pudesse adquirir o investimento e após realizar os procedimentos societários necessários à amortização do ágio? Ou, com olhos ao princípio da livre concorrência, porque tais fundos deveriam ser submetidos a condições desiguais, com o cerceamento de seu direito à amortização do ágio? Tal consideração não se aplica apenas quando empresa adquirente do investimento seja um fundo de previdência, instituição bancaria ou outras entidades com normas regulatórias próprias. A interpretação proposta pela PFN imputaria à mais comum das empresas desigualdade em relação a outras que se encontrem em situação semelhante, o que redundaria em inevitável vilipendio do princípio da livre concorrência. Para que reste evidenciada a seriedade de tal constatação, suponhase que três grupos empresariais do mesmo seguimento econômico concorram por uma mesma fatia do mercado e todos realizaram recentes aquisições de participação relevante em controladas e coligadas: 55 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito Constitucional: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos fundamentais e outros temas. – Barueri, SP : Manole, 2007, p. 195. 56 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito Constitucional: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos fundamentais e outros temas. – Barueri, SP : Manole, 2007, p. 195. Fl. 3524DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.525 46 “Empresa A”: Nacional. Adquire os investimentos em outras pessoas jurídicas nacionais e posteriormente os incorpora; “Empresa B”: Nacional. Por motivos gerenciais, decide constituir uma empresa veículo para a aquisição de investimento e a posterior incorporação da investida (ou ser incorporada por esta); “Empresa C”: Estrangeira. Por motivos gerenciais e também para viabilizar a posterior amortização fiscal do ágio, decide constituir uma empresa veículo para a aquisição de investimento e a posterior incorporação da investida (ou ser incorporada por esta); Se a interpretação sustentada pela PFN for levada a termo, apenas a “Empresa A” estaria livre para se valer da opção fiscal outorgada pela Lei n. 9.532/97 e amortizar o ágio à fração de 1/60 ao mês. Tanto a “Empresa B” quanto a empresa “C” seriam privadas da possibilidade de se valer da economia de opção em questão. O tratamento desigual e o desiquilíbrio concorrencial evidenciados nesse exemplo hipotético denunciam a desproporcionalidade e ausência de razoabilidade dessa interpretação que restringe direitos à revelia de lei que lhe dê suporte. A desigualdade perpetrada por essa interpretação se mostra mais discriminatória, no exemplo acima, em relação à “Empresa C”. Tratandose de empresa estrangeira, não se poderia cogitar que incorporasse diretamente a empresa brasileira investida ou, ainda, que fosse incorporada por esta. A isonomia entre esta empresa e as demais concorrentes de mercado apenas se verificaria se, por exemplo, a “Empresa C” constituísse uma pessoa jurídica no Brasil (empresaveículo), na qual pudesse integralizar capital suficiente para a aquisição do investimento para, após, executar a fórmula prescrita pelo legislador. A restrição ao direito do contribuinte à amortização de despesas com ágio, com a consequente ampliação da maior participação do Estado no patrimônio privado, encontra como obstáculo a liberdade de empresa, de investimento, de organização e de contratação, torna defesa à administração fiscal ingerências às lícitas decisões empresariais. Ausente lei em sentido estrito, sob pena de arbitrariedade, não pode a administração fiscal se opor às aludidas reorganizações societárias, especialmente quando tal ato conduza, por si só, à maior tributação do patrimônio privado. 4.3.3. Propósitos negociais e extratributários nas operações fiscalizadas. A existência de propósitos unicamente fiscais como locomotiva para o exercício de liberdades econômicas tem polarizado a doutrina brasileira. De um lado, por exemplo, PAULO AYRES BARRETO57, leciona que o contribuinte possui o direito de gerir as suas atividades com o menor ônus fiscal possível, desde que aja de forma lícita, ou seja, sem a prática de atos qualificados como ilícitos, simulados ou fraudulentos. Para esse professor, a tese que defende a desqualificação dos negócios realizados exclusivamente para a redução da carga tributária conduziria à obrigação de o contribuinte sempre ter de escolher a forma mais onerosa em termos fiscais para a sua atividade.58 Em outra direção, por exemplo, MARCO AURÉLIO GRECO59 sustenta que “a atitude do Fisco no sentido de desqualificar e requalificar os negócios privados somente poderá ocorrer se puder demonstrar de forma inequívoca que o ato 57 BARRETO, Paulo Ayres. Elisão tributária limites normativos. Tese apresentada ao concurso à livre docência do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2008, p. 128129. 58 BARRETO, Paulo Ayres. Imposto sobre a renda e preços de transferência. São Paulo : Dialética, 2001, p. 127. 59 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento tributário. São Paulo : Dialética, 2008, p. 200. Fl. 3525DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.526 47 foi abusivo porque sua única ou principal finalidade foi conduzir a um menor pagamento de imposto”. No caso dos autos, a discussão ganha novas cores. Afinal, o legislador tributário prescreveu, por meio dos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97, uma receita operacional básica que deve ser seguida pelo contribuinte, que exige basicamente que seja realizada operação de absorção patrimonial (incorporação, fusão ou cisão) por razões exclusivamente tributárias: a amortização do ágio. Tratandose de opção fiscal (ou economia de opção, conforme exposto adiante), o legislador abre caminhos diversos ao contribuinte, entre os quais este poderá escolher aquele que melhor lhe aprouver e assumidamente interessado na carga fiscal que lhe seja menos onerosa. Assim como uma pessoa física não precisa demonstrar por quais razões deseja adotar o modelo “simplificado” ou “completo” para sua DIRPF, a investidora e investida não precisam demonstrar quaisquer razões extratributárias para que procedam a absorção patrimonial necessária à operacionalizar a amortização fiscal do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura. Uma operação realizada por determinado partilhar, que trilhe um caminho aberto por lei que prescreve opções fiscais, encontrase legitimada imediatamente pelo legislador ordinário. Nesse caso, é impróprio inquirir do particular qualquer outra justificativa, sob pena subjugarse a competência do Poder Legislativo. Se o legislador outorgou uma economia de opção às empresas que adquiram investimento em controladas ou coligadas com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, prescrevendo uma fórmula operacional básica para a implementação dessa opção fiscal, então aqueles que estiverem dispostos a implementar uma incorporação, fusão ou cisão (absorção patrimonial) estarão suficientemente legitimados pelo agente competente (Poder Legislativo) a fazêlo ainda que exclusivamente para a implementação dessa condição. Se por qualquer motivo determinada empresa (investidora), que tenha adquirido investimento relevante em outra pessoa jurídica (investida) com sobrepreço fundado em expectativa de rentabilidade futura, restar impossibilitada ou encontrar obstáculos para absorver o patrimônio da empresa investida (ou viceversa), poderá, ainda que imbuída única e exclusivamente no propósito de se valer da economia de opção e aproveitar a amortização fiscal do ágio, realizar as restruturações societárias necessárias para desobstruir o seu caminho. Se a constituição de uma outra subsidiária para lhe transferir o investimento for a solução, a operação estará suficientemente justificada pelo propósito de viabilizar a fórmula operacional básica prescrita pelos arts. 7o e 8o da Lei 9.532/97, não lhe sendo exigida a demonstração de qualquer outro propósito extratributário. Não há, nessa hipótese, qualquer óbice no Direito privado ou no Direito tributária para a realização da referida restruturação societária e transferência do investimento com ágio. De fato, o legislador tributário estabeleceu uma fórmula operacional básica para que fossem emparelhados o ágio escriturado pela investidora com os efetivos lucros gerados pela empresa investida, cuja expectativa tenha dado causa ao ágio apurado quando de sua aquisição. O propósito da realização das operações de absorção patrimonial é justamente cumprir com a necessidade técnica do emparelhamento de receitas e despesas observada pelo legislador para possibilitar a amortização do ágio. Nesse cenário, por ser impróprio inquirir do particular propósitos extratributários para a implementação de opção fiscal prescrita pelo legislador competente, o chamado “propósito negocial” nas operações para a implementação da fórmula operacional básica prescrita nos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97 é indiferente e não interfere na legitimidade da amortização fiscal do ágio. Fl. 3526DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.527 48 1.7. Aplicação das normas jurídicas ao caso concreto. É relevante repisar o contexto fático das reestruturações societárias realizadas no bojo do contribuinte, tal como descrito no acórdão recorrido (efls. 1749 e seg.), in verbis: “AQUISIÇÃO DO BLOCO DE CONTROLE Esta parte da operaçaõ envolveu o montante de R$ 9.307.341,21, conforme lançamentos abaixo reproduzidos, extraídos da conta 13101090 – Ágio CREMER da contabilidade da CREMERPAR: (...) Analisando esta parcela do ágio de forma isolada, vemos que os fatos se sucederam da seguinte forma: • De acordo com a Ata da Assembléia Geral de Constituição (DOC. 3 ATOS CONSTITUTIVOS CREMERPAR ANEXO I), a CREMERPAR foi criada em 03/10/2003 (capital social de R$ 100,00), tendo como sócios as pessoas de JOSÉ ROBERTO ROHNELT FAGUNDES (sócio da JR FAGUNDES & ASSOCIADOS APPLIED) e Artur Fouquet Junior (que viria a ser sócio da empresa FI PARTICIPAÇÕES FIPAR); • Em dezembro de 2003, o grupo que detinha o controle da CREMER era representado pelas empresas FI PARTICIPAÇOẼS (FIPAR), SZS PARTICIPAÇÕES (SZSPAR) e JR FAGUNDES & ASSOCIADOS (APPLIED) [...] • Em 02 e 10 de março de 2004, a FIPAR, SZSPAR e a APPLIED transferiram, conjuntamente, para a CREMERPAR, via aumento de capital, suas ações da CREMER, [...] Com isso, a CREMERPAR passou a controlar a CREMER [...]. • Nesta “aquisição” das ações da CREMER por parte da CREMERPAR, houve geraçaõ de ágio na CREMERPAR, no montante de R$ 9.307.341,21, conforme já detalhado. Este ágio teve por razão o fato do Patrimônio Liquido da CREMER estar negativo, ensejando que qualquer valor “pago” na aquisição de papéis desta empresa consistiria inteiramente em ágio (o valor patrimonial da ação adquirida era nulo); {Comentário deste Relator no CARF para melhor compreensão, convém também reproduzir o seguinte trecho contido no Termo de Verificação Fiscal que não havia sido incluído no relato da decisão recorrida: • Constatase que o “pagamento” aos controladores, para a aquisição destas ações da CREMER, deuse com papéis de emissão da CREMERPAR,, que a esta altura já era controlada pela FIPAR e SZSPAR. Assim, por exemplo, a FIPAR, detentora de papéis da CREMER, deu estes papéis para a subscrição das novas ações emitidas pela CREMERPAR. Da mesma forma se sucedeu com a SZSPAR e APPLIED; } [...] • Em 31/12/2004, houve a incorporação da CREMERPAR pela CREMER, passando esta a deter o direito de amortizar o ágio advindo da incorporada, nos termos do art. 386 do RIR/99. Fl. 3527DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.528 49 [...] De se ressaltar que esta análise se faz sem a interferência das outras partes da operaçaõ, que envolveram outras personagens (MLGP e CREMER HOLDINGS), que não participaram efetivamente desta fase da operação. [...] • Ou seja, a estrutura retornou à sociedade original. De se esclarecer que a esta altura, em 31/12/2004, a FIPAR, a SZSPAR e a APPLIED não detinham mais o controle direto da CREMER, mas sim faziam parte do quadro societário da CREMER HOLDINGS, controlada pela MLGP [...] Porém, como dito, avaliando a operação de forma isolada, esta parcela do ágio de R$ 9.307.341,21 resultou da sucessão dos fatos acima descritos, sendo a CREMER HOLDINGS e a MLGP apenas figurantes para efeitos da geração desta parte do ágio. Em resumo, esta parte do ágio só teve a participação da CREMER, da CREMERPAR, da FIPAR, da SZSPAR e da APPLIED. • Ademais, verificase que nesta parte da operação, não houve nenhum tipo de desembolso de recursos para a formação do ágio. Houve apenas troca de papéis intragrupo, sendo que o ágio pago seria justificado pelo Laudo da Avaliação da BRASILPAR dando conta do valor de mercado da CREMER. [...] Da cronologia acima exposta, verificase que estamos diante de um ágio sem substância econômica, intragrupo, formado em uma negociacã̧o carente da independência entre os agentes. (...) AQUISIÇÃO DOS MINORITÁRIOS Esta parte da operaca̧õ perfaz um valor de R$ 10.966.351,39, conforme lançamentos abaixo reproduzidos: [...] Estes valores representaram desembolsos efetivos realizados pela CREMERPAR para a aquisição de ações da CREMER detidas pelos Minoritários. Envolve, assim, aquisição de terceiros independentes. Como explicitado nos relatórios da empresa, houve uma Oferta Pública de Aquisicã̧o de Ações (OPA) que regulou a forma em que os papéis detidos por acionistas minoritários seriam adquiridos pela CREMERPAR. AQUISIÇÃO VIA AUMENTO DE CAPITAL Esta última parte da operaca̧õ evolveu o montante de R$ 60.395.852,04, detalhado nos lançamentos abaixo: (...) Como já visto, esta parcela do ágio se justificou, no entendimento da CREMERPAR, pelo fato destes aportes de recursos na CREMER terem sido efetivados com seu Patrimônio Liquido ainda negativo. Assim, enquanto o PL da empresa permaneceu negativo, todos os aportes efetuados tiveram o tratamento de ágio pago, até que seu PL ficou positivo [....] Sobre esta parcela do ágio, cumpre abordarmos duas questões relevantes, quais sejam, a possibilidade de geração de ágio nos Fl. 3528DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.529 50 processos de subscrição de ações e o tratamento a ser dado aos aportes de recursos em uma investida com PL negativo. a) Do ágio gerado em subscricõ̧es de ações: Em relação a esta primeira questão, devemos verificar se meras subscricõ̧es para aumento de capital em uma empresa deficitária (PL negativo) dão ensejo a considerar os aportes como ágio. Devemos ressaltar que por ocasião do primeiro aumento de capital, em 31/05/2004, a CREMER, já pertencia, formal e materialmente, à CREMERPAR, esta controlada pela CREMER HOLDINGS, que, por sua vez, estava sob o controle da MLGP. Assim, nestes aportes de capital, a CREMERPAR nada adquiriu, apenas injetou recursos na controlada de forma a sanear suas dividas. Para a formação de ágio há que se ter uma aquisição perante terceiros, que no caso em tela, foi concretizada em momento anterior, na aquisição dos papéis dos minoritários, e não nos aportes de capital efetivados posteriormente. O MANUAL DE CONTABILIDADE da FIPECAFI aborda a questão da seguinte forma: “Nos itens anteriores vimos que: [...] b) por outro lado, vimos nos itens anteriores ao 11.7 que surge ágio ou deságio somente quando uma empresa adquire ações ou quotas de uma empresa já existente, pela diferença entre o valor pago a terceiros e o valor patrimonial de tais ações ou quotas adquiridas dos antigos acionistas ou quotistas. Poderíamos concluir, então, que não caberia registrar um ágio ou deságio na subscricã̧o de ações. Entendemos, todavia, que quando da subscrica̧õ de novas ações, em que há diferença entre o valor de custo do investimento e o valor patrimonial contábil, o ágio deve ser registrado pela investidora. Essa situação pode ocorrer quando acionistas atuais (empresa A) de uma empresa B resolvem admitir novo acionista (Empresa X) não pela venda de ações já existentes, mas pela emissão de novas ações a serem subscritas pelo novo acionista. Ou quando um acionista subscreva aumento de capital no lugar de outro.” Ora, o exposto pelo citado Manual coaduna com a situação sob análise, senão vejamos. As subscrições havidas pela CREMERPAR não alteraram seu percentual de participação na CREMER, uma vez que já era de praticamente 100%. Além disso, a CREMERPAR não era uma nova acionista, não se amoldando, assim, na excecã̧o prevista pelos autores da FIPECAFI. Esta parcela de ágio pretendido pela empresa não passou de meros aumentos de capital em uma investida que apresentava PL negativo. [...] Em nosso caso, como já dito, não houve nenhum tipo de alteraçaõ no percentual de participaca̧õ com estas subscrições havidas, não ensejando a geraçaõ de ágio algum. [...] De se atentar ainda que a situaca̧õ aqui debatida é bem diferente de uma aquisição, com efetivos pagamentos (desembolsos), de uma Fl. 3529DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.530 51 empresa com PL negativo. Num caso em que envolva efetivo desembolso e partes independentes, o ágio eventualmente pago seria legitimo, limitado, é claro, ao valor efetivamente desembolsado. Porem, quando uma empresa já detém o controle de outra, e passa a fazer aportes de recursos, ainda que aportes efetivos, isto não dá ensejo à formação de ágio. Como dito, no momento em que a CREMERPAR passou a injetar recursos na CREMER, via aumento de capital, ela já era “dona” da CREMER, não estando, pois, a adquirir nada! [...] Mas então qual seria o tratamento a ser dado aos aportes de capitais realizados em uma investida com PL negativo? Passemos então a abordar [...] b) Do aumento de capital em investida com PL negativo: Acerca do tema, os autores da FIPECAFI entendem que a natureza da subscrica̧õ de capital efetuada em empresa investida, com patrimônio liquido negativo, tem natureza de perda, prejuízo, e não ágio como pretendido e escriturado pela CREMERPAR. [...] Verificase assim que o tratamento dado pela CREMERPAR nas integralizações realizadas na CREMER está equivocado. Deveria ter reconhecido estes valores injetados na investida como perda, afetando diretamente seu resultado em 2004. Desta forma, verificase indevida a consideração como ágio o valor de R$ 60.395.852,04, devendo ser objeto de glosa. 3.1.4. DO VALOR DO PL NEGATIVO Nota: Neste tópico, a Fiscalização tece consideracõ̧es acerca do valor do PL Negativo, procurando mostrar que tal valor teria sido majorado, que em verdade seria negativo, mas por um valor bem menor, conforme Tabela 7 Ajustes ao Patrimônio Liquido (fl. 447) que se reproduz abaixo, entretanto, a autoridade autuante glosou integralmente o valor equivalente ao PL Negativo, o que nos leva a crer que tal digressão não teve influen̂cia na mateŕia tributável apurada, conforme depreendese do relato a seguir: (...) Desta forma, a parcela do pretenso ágio almejado com as integralizações realizadas estaria limitada pelo valor do Patrimônio Liquido Ajustado acima. Vale, porém, repisar que esta parcela do ágio, no valor de R$ 60.395.852,04, foi glosada integralmente, conforme razões expostas no item 3.3 deste termo {Comentário deste Relator do CARF: as razões estão expostas no item 3.1.3}, tendo o presente tópico apenas demonstrado que o valor do PL da empresa estava incorreto, o que acarretou uma valoraca̧õ indevida do ágio por parte da FISCALIZADA. 3.1.5. DOS LAUDOS DE AVALIAÇAÕ Considerando ser requisito legal para possibilitar a amortização de ágio por rentabilidade futura, convém analisarmos os laudos de avaliação da TERCO AUDITORES INDEPENDENTES e da BRASILPAR. [...] Fl. 3530DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.531 52 Assim, de se concluir que houve um processo de avaliaca̧õ (Laudo da BRASILPAR) para balizar a aquisição das acõ̧es do bloco de controle e dos minoritários, enquanto outro laudo (TERCO) serviu de parâmetro para justificar o ágio no processo de aquisição das ações da CREMER pela CREMERPAR, via aumentos de capital. Ocorre que este laudo da TERCO não pode balizar um processo de geração de ágio, pois como dito, as subscricõ̧es para aumento de capital havidas na CREMER pela CREMERPAR não dão ensejo à geração de ágio algum. Deveriam ter sido contabilizadas como perda, e não como ágio.” 1.7.1. A primeira operação e o ágio resultante: ágio entre partes relacionadas. Quanto à primeira etapa do processo de reestruturação societária narrado nos autos, o acórdão recorrido restou assim fundamentado para considerar indedutível o correspondente ágio apurado pelo contribuinte, in verbis: “Quanto ao ágio referente à aquisição do bloco de controle, importa identificar como se deu a formação do ágio que foi amortizado. Relata a fiscalização que os acionistas controladores do grupo empresarial, num primeiro momento, transferiram suas participacõ̧es societárias na CREMER S/A (que incluía também a Plásticos Cremer S/A) para três empresas (FI Par, SZS Par e Applied) que passaram a constituir o chamado bloco de controle. Num segundo momento, foi o bloco de controle quem transferiu as mesmas participações societárias para a empresa CREMERPAR e, em substituica̧õ, recebeu participações nesta última. Ocorreu uma mudança na titularidade da participação na CREMER S/A: saiu do bloco de controle e foi para a CREMERPAR. Ato contínuo, foi gerado o ágio de R$ 9.307.341,21 na CREMERPAR pela aquisição da participaca̧õ na CREMER S/A. Nesse ponto, é de se recordar a questão fundamental que orienta a oponibilidade dos planejamentos tributários ao Fisco: o propósito do negócio jurídico é preponderantemente marcado pela economia tributária? Para que fique claro, o negócio jurídico em análise é a operação de substituição da participacã̧o societária no grupo de controle. Então, reformulando a questão, perguntase: essa operação teve o propósito preponderante de gerar o ágio para futuro aproveitamento? O que se constata das provas trazidas aos autos é que a CREMERPAR, antes mesmo de nascer, já tinha um destino final traçado: ser incorporada pela CREMER S/A para que essa pudesse aproveitar os supostos benefícios fiscais da futura reestruturação. Neste sentido, vale a pena novamente reproduzir o trecho do “Fato Relevante” transcrito pela fiscalização: “Após a realização da OPA, pretendese que o processo do ajuste da estrutura de capital da Companhia seja concluído mediante a capitalização dos recursos aportados pela Newco, bem como a incorporação da Newco pela Companhia, a fim de que a Companhia possa aproveitar o beneficio fiscal a ser gerado na transação. [...]” Não se discute aqui, como fez a fiscalização, a existência de uma justificativa para a criaçaõ da CREMERPAR (a referida “Newco”). Afinal, a recorrente deixou bem claro seu importante papel na viabilização da OPA. O que se questiona é a sua utilização como Fl. 3531DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.532 53 veículo para a geraca̧õ de um ágio mediante a mera substituição de ações no bloco de controle. Nem há que se invocar que havia a exigen̂cia, para a consecução do negócio por parte da MLGP, de que as empresas que anteriormente detinham o bloco de controle compartilhassem com ela sua participação no grupo CREMER em uma só empresa. Se isso é verdade, ao final, tal empresa acabou se revelando a Cremer Holdings LLC, residente nos Estados Unidos. Não há razão preponderante para que a substituica̧õ da participação societária do bloco de controle na CREMER S/A envolvesse a CREMERPAR se poderia ser feita diretamente com a Cremer Holdings LLC, a não ser a geração do ágio em empresa residente no País, o qual se pensava, evitando a necessidade de uma incorporação internacional, que poderia ser posteriormente aproveitado. A recorrente alega que não se trata de ágio interno, que não houve artificialidade na reestruturação societária e que houve efetiva aquisição do controle por parte da MLGP. Não importa! A operaçaõ de substituição da participaca̧õ societária, gerando o ágio na CREMERPAR, é suficiente para macular o planejamento, mesmo que anteriormente tivesse sido gerado um ágio, numa aquisição pretérita, realizada mediante efetivo pagamento (o que poderia ter acontecido quando a MLGP adquiriu sua participação societária na CREMERPAR, via Cremer Holdings LLC, gerando ágio nesta última, contudo, se isso aconteceu, nem consta dos autos). Alguém replicaria que só se está focando numa parte do planejamento. Esse, aliás, mais um argumento trazido pela recorrente. E que Marco Aurélio Greco, em sua obra de referência sobre o tema, manda olhar o “filme” como um todo25. Nada obstante, poucas linhas atrás dissemos que em matéria de isenção, como é o caso da amortização do ágio, não há espaço para alargamento das situações expressamente previstas em lei. Por oportuno, repitase a transcrição do artigo 7o, caput, e do artigo 8o, alínea “b”, da Lei no 9.532/97: Art. 7 A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977: (grifei) (...) Art. 8 O disposto no artigo anterior aplicase, inclusive, quando: (...) b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. (grifei) Se a lei falou que o ágio a ser amortizado é aquele surgido na aquisição da participaca̧õ societária detida por uma das pessoas envolvidas na incorporacã̧o, não se poderá querer estender a interpretação do comando legal para o ágio surgido numa aquisição pretérita à expressamente mencionada sob pretexto de que se trata do mesmo ágio. Tanto são diferentes que teriam sido gerados em “aquisicõ̧es” diferentes. Na pretérita, a aquisição das ações da CREMERPAR em troca de pagamento, na posterior, a aquisiçaõ das Fl. 3532DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.533 54 ações da CREMER S/A em troca da emissão de ações pela CREMERPAR. E isso é importante. Não se trata de transferência do ágio. Cada “aquisicã̧o” gera um novo ágio. A transferência ocorre quando, numa operação de reorganização societária, o investimento adquirido com ágio é vertido para outra empresa. O investimento e o ágio são absorvidos pelo patrimônio desta outra empresa e o fundamento econômico do ágio se mantém intacto no patrimônio da investida que não participou da reorganização. Outrossim, ocorre transferen̂cia, mas não do ágio, e, sim, do item do ativo diferido passível de amortizaçaõ, quando a reorganização societária resulta na versão deste item do ativo para o patrimônio de outra empresa. Assim, não foi transferência o que ocorreu, mas, a geração de um novo ágio. Portanto, sou pela manutenção da autuação na parte que glosou a amortização do ágio referente à aquisição do bloco de controle.” Tendo em vista que houve divergência quanto aos fundamentos da decisão recorrida e as regras regimentais então vigentes, foi apresentada declaração de voto para retratar o entendimento dos demais Conselheiros, in verbis: “Na sessão de julgamento deste processo, acompanhei o relator pelas conclusões quanto à glosa das despesas com amortização do ágio relativo (i) à aquisição do bloco de controle e (ii) aos aportes de capital na Cremerpar. Quanto ao item “i”, meu entendimento foi acompanhado por mais três conselheiros, e por isso fui designado a redigir declaraçaõ de voto para expor o entendimento do colegiado. Quanto ao item “ii”, por ocasião da conclusão do julgamento, apesar de minha opinião não ter sido acompanhada pelos demais conselheiros, manifestei a intençaõ de também expor, em declaração de voto, minha visão sobre o tema. Contudo, após melhor refletir, resolvi não me alongar sobre os fundamentos que me levaram a manter a glosa do ágio formado pela subscrica̧õ do capital social, por serem irrelevantes para a continuação da lide, e simplesmente acompanhar os argumentos da acusação fiscal. Desse modo, restringirei minha manifestaçaõ aos motivos que levaram a maioria dos julgadores a não admitirem a amortização do ágio relativo à aquisição do bloco de controle. O cerne da divergência de entendimento com o relator reside na compreensão de que o aproveitamento do ágio somente poderia se dar em incorporações diretas da investida pela investidora, ou viceversa, sendo que o uso de empresa veículo para aproveitamento do ágio em outra parte da organização societária, por si só, denotaria o propósito eminentemente tributário e inviabilizaria o benefício fiscal. Segundo o relator, pouco importa se houve ágio efetivamente pago em etapa anterior, pois a operaca̧õ de substituicã̧o da participaçaõ societária seria suficiente para macular o planejamento. Contudo, penso que, caso exista um propósito negocial válido, é plenamente aceitável que o grupo econômico “transfira” o ágio para uma de suas controladas por meio de operaçaõ de conferen̂cia de capital com ações da investida. Fl. 3533DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.534 55 Como assentado no Acórdão no 1102001.018, de 12 de fevereiro de 2014, de minha relatoria, regra geral, o que importa para se garantir o direito à deduçaõ fiscal do ágio em outra empresa do grupo é o atendimento dos seguintes requisitos (i) tratarse de ágio pago, decorrente de transação entre parte independentes; (ii) o direito à amortização poder se dar por incorporaca̧õ direta em outra parte da estrutura societária; (iii) existir propósito negocial. No caso concreto, o ágio de R$ 9.307.341,21 surgiu da transferen̂cia do bloco de controle dos antigos acionistas da Cremer S. A. (antes passando por treŝ pessoas jurídicas) para a Cremer Participações S.A., nos dias 2 e 10 de março de 2004. Contudo, somente em 26 de abril de 2004 ocorreu o aporte de capital pela Merrill Lynch Global Partners – MLGP de R$ 102.000.000,00. Ora, a discrepan̂cia de datas mostra ser impossível que o ágio surgido em março de 2004 possa se embasar no valor pago apenas no mês seguinte. Ademais, a simples conferência de capital com ações da investida pelo valor contábil não gera ágio o que nos leva à verdadeira natureza do sobrepreço em discussaõ, que decorre da integralização das ações da Cremer pelo valor do mercado, com o diferimento do ganho de capital nos termos do malfadado art. 36 da Lei no 10.637, de 30 de dezembro de 2002, que ainda vigia por ocasião do planejamento tributário (fato não constante dos autos mas confirmado pelo patrono na tribuna, por ocasião do julgamento). Tal situaca̧õ já foi analisada por esta Turma Julgadora, que considerou o ágio dela decorrente como artificial e sem fundamento econômico, cuja dedutibilidade é inoponível ao Fisco. Transcrevo a ementa do Acórdão no 1102000.933, de 8 de outubro de 2013, de relatoria do Conselheiro João Otávio Oppermann Thomé, na parte de interesse à discussão: INCORPORAÇAÕ DE SOCIEDADE. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO NA AQUISIÇÃO DE AÇÕES. SIMULAÇÃO. O ágio gerado em operações societárias, para ser eficaz perante o Fisco, deve decorrer de atos econômicos efetivamente existentes. A geração de ágio de forma interna, ou seja, dentro do mesmo grupo econômico, sem a alteração do controle das sociedades envolvidas, sem qualquer desembolso e com a utilização de empresa inativa ou de curta duraca̧õ (sociedade veículo) constitui prova da artificialidade do ágio e torna inválida sua amortização, sem que seja necessário demandar a nulidade das operações societárias praticadas. Mais recentemente, a Turma confirmou seu entendimento no Acórdão: 1102 001.016, julgado na sessão de 12 de fevereiro de 2014, também de relatoria do Conselheiro João Otávio Oppermann Thomé (decisão ainda não formalizada quando da redaca̧õ desta declaracã̧o de voto). Dessa forma, o ágio em discussão não atende a um dos requisitos que considero primordiais para permitir sua dedutibilidade, pois não se trata de ágio pago, decorrente de transaca̧õ entre parte independentes. Foram essas as razões pelas quais a maioria da Turma não admitiu a amortização do ágio relativo à aquisição de bloco de controle.” Fl. 3534DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.535 56 Permissa vênia, não concordo com premissas jurídicas adotadas pela decisão recorrida, conforme fundamentos acima expostos. Compreendo assistir razão ao contribuinte: há, no caso, aquisição de investimento em pessoa jurídica, com sacrifícios econômicos suportados (correspondentes às ações integralizadas), bem como sobrepreço (ágio) incorrido, fundado em expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida, devidamente demonstrada. Foi cumprida a exigência do efetivo desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial e o ágio por expectativa de rentabilidade futura. Foi cumprido o requisito da demonstração a expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. Não se verifica impugnação aos critérios adotados ou mesmo à efetiva expectativa de rentabilidade futura presente no caso. Igualmente foi cumprida a exigência do art. 8o, “b”, da Lei 9.532/97, com a absorção patrimonial da pessoa jurídica que detinha o investimento adquirido com ágio. Também foi cumprida a exigência de que a amortização do ágio apurado pela investidora se processasse contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição: a absorção da CREMEPAR pela CREMER possibilitou o emparelhamento de receitas e despesas tecnicamente requerido pelo legislador. É fundamental repisar que, até a edição da Lei n. 12.973/2014, o legislador passou a vedar a apuração de ágio na aquisição de investimento relevante realizada entre partes dependentes. Contudo, tal vedação não existia anteriormente, período em que o legislador apenas combatia operações artificiais, simuladas e, no caso concreto, não restou comprovada a prática de atos atos viciados. Também é importante observar que as operações em questão ocorreram sob a égide da Lei n. 10.637/2002. Conforme se constata do acordão recorrido, houve a adequada apuração de ganho de capital na operação, o que corrobora, com elevada força persuasiva, para a solução do presente caso. O referido ganho de capital foi apurado e diferido, nos termos da Lei n. 10.637/2002. Notese que é irrelevante, para fins de decisão, se houve o recolhimento de uma guia DARF deste ganho de capital apurado, pois se trata de elemento financeiro que não integra a relação jurídica sob julgamento. 1.7.2. A terceira operação e o ágio resultante: “empresa veículo”. Quanto à terceira etapa do processo de reestruturação societária narrado nos autos, o acórdão recorrido restou assim fundamentado para considerar indedutível o correspondente ágio apurado pelo contribuinte, in verbis: “Com relação ao ágio referente às integralizações para aumento de capital, cumpre novamente iniciar por perquirir como se deu a sua formação. Relata a fiscalização que o equivalente a R$ 60.395.852,04 do total de recursos aportados pela MLGP e direcionados para a CREMER S/A, via CREMERPAR, a titulo de subscricã̧o de ações, foi contabilizado como ágio porque o patrimônio líquido da empresa investida (a CREMER S/A) encontravase negativo exatamente nesse montante. Para as autoridades fiscais, quando uma empresa já detém o controle da outra (como era o caso da CREMERPAR em relação à CREMER S/A), e passa a fazer aporte de recursos, ainda que efetivos, isto não dá ensejo à formação de ágio. Ademais, afirma que a natureza da subscrica̧õ de capital efetuada em empresa investida com patrimônio líquido negativo é de perda, prejuízo, e não de ágio. Para corroborar Fl. 3535DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.536 57 ambos os entendimentos cita trechos do Manual de Contabilidade da FIPECAFI. A recorrente, por sua vez, alega que, pelo fato de a mecânica do MEP não admitir registro de investimento negativo, toda a quantia entregue pelo acionista tem natureza de ágio na aquisição de ações. Percebase que esta situação é diferente daquela em que uma empresa gera ágio na subscrição de ações adquiridas por valor superior ao seu nominal. Esta hipótese só seria permitida se a subscrição pelo valor nominal não fosse autorizada devido ao efeito da diluição que causaria nas participacõ̧es dos acionistas não subscritores. Como à época da subscrição a CREMERPAR já detinha o total controle da CREMER S/A, não haveria possibilidade de que tal efeito fosse verificado e, portanto, o ágio teria sido indevidamente formado. Tal hipótese foi levantada pela fiscalização, mas, como dito, a situação aqui é outra. Em sede de memoriais, a recorrente apresenta parecer do Professor Eliseu Martins que bem esclarece a questão. O ilustre coautor do Manual da FIPECAFI explica que as autoridades fiscais se equivocaram no entendimento acerca dos trechos do referido Manual que sustentaram sua opinião. É que a natureza de perda adotada pela fiscalização se aplica quando a empresa investidora já era, ela própria, detentora da participacã̧o societária na investida na época da obtenção dos prejuízos. Neste caso, a investidora reconhece o prejuízo da investida até zerar a sua conta da equivalen̂cia patrimonial. Depois desse ponto, dependendo da obrigação ou intenção da investidora em se responsabilizar perante terceiros pelo patrimônio líquido negativo da investida, ela poderá ou não continuar reconhecendo o prejuízo da investida. Se não continuar, ela pára de reconhecer a equivalen̂cia patrimonial porque ninguém perde mais do que investiu nessas circunstancias. Mas, se ela continuar reconhecendo o prejuízo da investida, o fará como perda consubstanciada no resultado mediante provisão para futuros desembolsos. Entretanto, como no presente caso os prejuízos da investida foram obtidos numa época em que a participação societária era detida por outras investidoras, a perda poderia ter sido reconhecida por estas e não pela nova investidora. Se não foi assim, se essa nova investidora (a CREMERPAR) apenas efetuou investimentos na própria investida (a CREMER S/A) para lhe recuperar o patrimônio líquido, terá incorrido num ágio por conta de resultados futuros em que acreditou. Assim, foi correta a contabilização do ágio na CREMERPAR até o limite em que o patrimônio líquido da CREMER S/A passou a ser positivo, quando, a partir de então, o aporte que o excedeu passou a ser contabilizado como investimento. O que pode ser invocado em favor da autuação é a utilização da CREMERPAR como veículo para a geração do ágio uma vez que ela seria posteriormente incorporada. Volta, então, a questão fundamental: o propósito do negócio jurídico é preponderantemente marcado pela economia tributária? O negócio jurídico em análise, agora, é a operação de subscrição de ações pela CREMERPAR. Novamente, reformulando a questão, perguntase: essa operaca̧õ teve o propósito preponderante de gerar o ágio para futuro aproveitamento? Fl. 3536DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.537 58 É o que parece! Mais uma vez, repisamos que a CREMERPAR já tinha seu destino final traçado, qual seja, ser incorporada pela CREMER S/A. Não se discute a justificativa da sua criação, mas sua utilizaçaõ como veículo para a geraçaõ do ágio. Não há razão preponderante para que a subscriçaõ de ações na CREMER S/A envolvesse a CREMERPAR se poderia ser feita diretamente pela Cremer Holdings LLC, a não ser a geraca̧õ do ágio em empresa residente no País, o qual se pensava, evitando a necessidade de uma incorporaca̧õ internacional, que poderia ser posteriormente aproveitado. Isso, de maneira nenhuma, pode ser contradito pelas razões negociais alegadas pela recorrente para que tenha havido o aporte de recursos pela MLGP na CREMER HOLDINGS e não diretamente na CREMERPAR, quais sejam, facilitar a execuçaõ de garantias exigidas pela MLGP e por instituicõ̧es financeiras intermediárias, bem como facilitar os trâmites exigidos pelo BACEN. É que tais razões poderiam até se mostrar preponderantes para a canalização dos recursos por intermédio da CREMER HOLDINS, mas, não, pela CREMERPAR. Diferentemente do que ocorreu com os investimentos envolvidos no âmbito do Programa Nacional de Desestatização da década de 90, que motivou a criaca̧õ do benefício fiscal da amortização do ágio, não se vislumbra aqui a necessidade de canalização dos investimentos numa empresa ou consórcio de empresas nacional que tem a incumbência de fazer a aquisição da participação societária através de leilões de privatização de empresas públicas. Outrossim, não se vislumbra, como ocorreu no caso do ágio cuja amortizaçaõ foi aceita pela fiscalização, a necessidade de canalizaçaõ dos investimentos numa empresa que tem a incumbência de fazer a aquisição da participação societária dos acionistas minoritários num leilão de oferta pública de aquisição de ações. A operação de subscricã̧o de ações, gerando o ágio na CREMERPAR, é suficiente para macular o planejamento, mesmo que anteriormente tivesse sido gerado um ágio, numa aquisição pretérita, realizada mediante efetivo pagamento (o que poderia ter acontecido quando a MLGP subscreveu acõ̧es na CREMERPAR, via Cremer Holdings LLC, gerando ágio nesta última, contudo, se isso aconteceu, também não consta dos autos). Novamente, não se trata de ver apenas uma parte do “filme”. Se a lei falou que o ágio a ser amortizado é aquele surgido na aquisiçaõ da participação societária detida por uma das pessoas envolvidas na incorporação, não se poderá querer estender a interpretação do comando legal para o ágio surgido numa aquisição pretérita à expressamente mencionada sob pretexto de que se trata do mesmo ágio. Tanto são diferentes que foram gerados em “aquisições” diferentes. Na pretérita, a aquisiçaõ das ações da CREMERPAR em troca de pagamento, na posterior, a aquisição das ações da CREMER S/A em troca de pagamento. Portanto, mantenho também a autuaçaõ na parte que glosou a amortização do ágio referente às integralizações para aumento de capital.” Fl. 3537DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.538 59 Como se pode observar, não obstante a controvérsia se operações de aumento de capital, na hipótese em que a pessoa jurídica controlada possuía patrimônio líquido negativo, configurariam a “participação societária adquirida com ágio” referida pela Lei n. 9.532/97, a Turma a quo compreendeu que haveria uma questão precedente, atinente à presença de uma “empresa veículo” na operação. Por essa razão, essa é a matéria devolvida a esta CSRF. O contribuinte requer a reforma do acórdão recorrido, para que o acórdão a quo seja reformado, reconhecendose a legitimidade do ágio em questão. Sustenta que a CREMEPAR possuiria propósitos negociais que nada tem a ver com questões tributárias, como a participação em processo de aquisição de ações de acionistas. Ademais, sustenta não haver qualquer vício que impeça a oponibilidade fiscal das operações praticadas, com a legitimidade da amortização fiscal do ágio mesmo com a utilização da CREMEPAR na reestruturação societária implementada. Pugnando pela manutenção da decisão recorrida, a PFN sustenta, in verbis: “Diferentemente do que ocorreu com os investimentos envolvidos no âmbito do Programa Nacional de Desestatização da década de 90, que motivou a criação do benefício fiscal da amortização do ágio, não se vislumbra aqui a necessidade de canalização dos investimentos numa empresa ou consórcio de empresas nacional que tem a incumbência de fazer a aquisição da participação societária através de leilões de privatização de empresas públicas. Outrossim, não se vislumbra, como ocorreu no caso do ágio cuja amortização foi aceita pela fiscalização, a necessidade de canalização dos investimentos numa empresa que tem a incumbência de fazer a aquisição da participação societária dos acionistas minoritários num leilão de oferta pública de aquisição de ações. A operação de subscrição de ações, gerando o ágio na CREMERPAR, é suficiente para macular o planejamento, mesmo que anteriormente tivesse sido gerado um ágio, numa aquisição pretérita, realizada mediante efetivo pagamento (o que poderia ter acontecido quando a MLGP subscreveu ações na CREMERPAR, via Cremer Holdings LLC, gerando ágio nesta última, contudo, se isso aconteceu, também não consta dos autos).” Conforme os fundamentos explicitados acima, compreendo assistir razão ao contribuinte também em relação a essa operação: a regular constituição e utilização da CREMEPAR, além de se prestar para a operacionalização de relevantes questões negociais, em nada interfere na apuração e amortização fiscal do ágio. O legislador prescreveu normas que tornaram a adoção de “empresas veículo” (com propósito específico de atuar na reestruturações societária ou não) é indiferente para a apuração do ágio ou, em muitas situações, necessária. Afinal, não se pode esquecer que a edição da Lei n. 9.532/97 foi impulsionada diante das privatizações pretendidas como plano de governo à época, as quais, inclusive por questões regulatórias, exigiriam a utilização de “empresa veículo”. Salvo hipótese de dolo para evasão de tributos (o que não restou demonstrado nos autos), é oponível ao fisco a aquisição de investimento relevante por empresaveículo, com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, na qual todas as exigências da legislação tributária, contábil e societária tenham sido cumpridas. 2. A incidência de juros de mora sobre multa de ofício. Fl. 3538DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.539 60 Por restar vencido quanto às matérias precedentes, deve ser analisado o terceiro ponto do recurso especial interposto pelo contribuinte e admitido. No caso, a controvérsia interpretativa não se refere necessariamente à norma dos arts. 113 ou 139 do CTN. No âmbito do CTN, a questão reside mais precisamente na norma que se constrói a partir de seu art. 161. O art. 161 do CTN, cumprindo o papel previsto no art. 146 da Constituição Federal, estabelece norma geral, aplicável a todos os entes da federação, quanto à incidência de juros de mora, no percentual de 1%, sobre o crédito não integralmente pago no vencimento. Expressamente, contudo, o seu § 1° resguarda a cada um dos entes federados a competência para estabelecer regramento próprio. Cada ente federado, por meio de seu respectivo Poder Legislativo, poderá prescrever regramento próprio, com taxa de juros diferente daquela prevista na norma geral (1%) ou, por exemplo, prever a incidência de juros de mora tanto sobre o débito principal quanto sobre as multas ou, ainda, estabelecer que os juros incidam apenas sobre o valor do débito principal, mas não sobre o das multas. A União, no caso, é exemplo de unidade federativa que, de longa data, produz regramentos próprios quanto à incidência de juros de mora sobre o crédito não integralmente pago no vencimento. Assim o fazendo, a União encontra resguardo jurídico no art. 161 do CTN, mas afasta a eficácia da norma geral veiculada neste dispositivo. Portanto, para a solução do caso concreto, a questão não se esgota com a compreensão da norma geral veiculada pelo CTN. É necessário saber qual o tratamento foi atribuído pelo legislador ordinário à materia, o que obriga que se considere o teor da Lei nº 9.430/1996, que dispõe: Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Como se pode observar, valendose de sua competência, o legislador ordinário decidiu: Fl. 3539DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.540 61 prever a incidência de juros de mora sobre multas isoladas pagos em atraso (Lei n. 9.430/96, art. 43); prever a incidência de juros de mora sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições pagos em atraso (Lei n. 9.430/96, art. 61); não prever nada quanto à incidência de juros de mora sobre multas de ofício. A evolução legislativa demonstra que não se trata de um silêncio insignificante, mas expressão de decisão consciente do legislador. As leis que se sucederam, em especial, o Decretolei n. 2.232/87, a Lei n. 7.691/88, a Lei n. 7.738/89, a Lei n. 7.799/89, a Lei n. 8.218/91, a Lei n. 8.383/91, a Lei n. 8.981/95, a Lei n. 9.430/96, a Lei n. 10.522/02, demonstram que a decisão do legislador variou no tempo, por vezes determinando a incidência de juros sobre a multa de ofício, por vezes a excluindo. Há uma diferenciação relevante: o dispositivo não estabelece, por si, a incidência de alguma taxa de juros sobre a multa, mas possibilita que leis específicas a estabeleça.60 Essa retrospectiva é relevante para constatar que o legislador competente não agiu ao acaso: tratase de silêncio eloquente do legislador que, ao tutelar a matéria, deixou conscientemente de prever a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Embora o entendimento ora exposto tenha restado vencido no julgamento do presente caso, este já foi o entendimento adotado por este Tribunal administrativo, inclusive no âmbito da 1ª Turma da CSRF, como se observa dos seguintes exemplos: RECURSO ESPECIAL – CONHECIMENTO. Não deve ser conhecido o Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional quando inexiste similitude fática entre o acórdão paradigma e o acórdão recorrido. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO INAPLICABILIDADE Os juros de mora só incidem sobre o valor do tributo, não alcançando o valor da multa ofício aplicada. (Processo nº 10680.002472/200723. Acórdão n. 9101000.722. CSRF, 15.12.2010.) JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO INAPLICABILIDADE Os juros de mora só incidem sobre o valor do tributo, não alcançando o valor da multa aplicada. (Processo nº 16327.004079/200275. Acórdão n. 10196.008. TO, 01.03.2007) INCIDÊNCIA DE JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO INAPLICABILIDADE Não incidem os juros com base na taxa Selic sobre a multa de ofício, vez que o artigo 61 da Lei n.° 9.430/96 apenas impõe sua incidência sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições. Igualmente não incidem os juros previstos no artigo 161 do CTN sobre a multa de ofício. (Processo nº 10980.013431/200605. Acórdão nº 10196.607, TO, 06.03.2008) JUROS DE MORA. CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TAXA SELIC. — É cabível, no lançamento de ofício, a cobrança de juros de mora sobre o tributo ou contribuição, calculados com base na variação acumulada 60 Nesse sentido, vide, por exemplo: FAJERSZTAJN, Bruno. Exigência de juros de mora sobre as multas de ofício no âmbito da Secretaria da Receita Federal, in Revista Dialética de Direito Tributário v. 132. São Paulo : Dialética, 2006, p. 27 e seg. Fl. 3540DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.541 62 da Taxa Selic. Referidos juros não incidem sobre a multa de ofício lançada juntamente com o tributo ou contribuição, decorrente de fatos geradores ocorridos a partir de 1/01/1997, por absoluta falta de previsão legal. (Processo nº 16327.004252/200235. Acórdão nº 20216.397, TO, data da publicação 14.06.2005) (grifo nosso) Nesse seguir, voto no sentido de CONHECER as matérias anteriormente admitidas por despacho, para DARLHES PROVIMENTO. (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto Fl. 3541DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.542 63 Voto Vencedor Conselheiro Rafael Vidal de Araújo, Redator Designado Em que pesem as razões de decidir do eminente relator, peço vênia para dele divergir quanto ao mérito. As matérias postas à apreciação desta Câmara Superior referemse à: a) ágio – operações com partes relacionadas; b) ágio – empresa veículo; e c) incidência de juros de mora sobre multa de ofício. a) ágio generalidades A respeito da figura do ágio, há que se dizer que seu conceito tributário foi introduzido no ordenamento brasileiro pelo DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977. À época dos fatos discutidos nestes autos, dispunha o art. 20 do DecretoLei, antes de ter sua redação alterada pela Lei nº 12.973, de 13 de maio de 2014: Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras “a” e “b” do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. O art. 385 do RIR/1999 é basicamente uma cópia do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977. Em ambos os dispositivos, encontrase a determinação de que contribuintes que avaliam investimentos em sociedade controlada ou coligada pelo valor do patrimônio líquido registrem o ágio apurado na aquisição de participação societária em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Fl. 3542DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.543 64 Além disso, os dispositivos também prevêem que tal ágio deve ser fundamentado em pelo menos um dos três fatores: a) valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; b) expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros ou; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Quando o art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977 e o art. 385 do RIR/1999 afirmam que o destinatário das regras ali expostas é o contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido, estão se referindo ao método da equivalência patrimonial. Segundo tal método, as variações observadas nos patrimônios líquidos da sociedades coligadas ou controladas provocam reflexos nos valores dos investimentos registrados na investidora. Observese o que dispõem os arts. 387 a 389 do RIR/1999, a respeito do método de equivalência patrimonial: Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): I o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até dois meses, no máximo, antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda; [...]. Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). [...]. Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). [...]. O art. 389 do RIR/1999 é explícito ao determinar que os resultados auferidos pelas empresas coligadas ou controladas não devem ser computados na determinação do resultado da investidora. Assim, lucros apurados em uma investida devem ser objeto de tributação somente no âmbito daquela empresa. Embora tenham o reflexo de majorar o valor do investimento registrado na investidora, os lucros da investida não devem integrar a base tributável da pessoa jurídica que nela detém participação societária, sob pena de configurarse hipótese de dupla tributação. Caso a investidora tenha registrado, em sua contabilidade, ágio decorrente da expectativa de rentabilidade futura da investida, concluise que a causa do pagamento a maior efetivamente se concretizou, mas foi tributada somente na coligada ou controlada. Sendo assim, não há que se cogitar de amortização do ágio na investidora, uma vez que não ocorre, nesta pessoa jurídica, tributação do resultado positivo da investida. Fl. 3543DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.544 65 Somente seria lógico falar em amortização daquele ágio caso a concretização do motivo que lhe deu causa, qual seja, a lucratividade futura da investida, tivesse reflexos tributários na pessoa jurídica que pagou a “mais valia”. Dessa forma, o dispêndio a maior poderia ser gradativamente recuperado sob a forma de despesas dedutíveis, se os lucros que o motivaram provocassem um maior recolhimento de tributos nos períodos posteriores à aquisição do investimento. Como, por determinação legal, não é esta a hipótese que se verifica no método de equivalência patrimonial, podese concluir que a regra geral é a da impossibilidade de utilização fiscal do ágio registrado na investidora. É o que reza expressamente o art. 391 do RIR/1999: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). Existem, contudo, duas exceções a tal regra. A primeira delas é indicada pelo próprio art. 391, quando ressalva o disposto no art. 426 do mesmo RIR/1999: Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. A primeira exceção à regra da impossibilidade de aproveitamento tributário do ágio tratado pelo art. 385 do RIR/1999 diz respeito, portanto, à apuração de ganho ou perda de capital. Se o investimento que deu causa à “mais valia” for alienado ou liquidado, o ágio ou deságio registrados na contabilidade da controladora devem compor o custo de aquisição considerado no cálculo do resultado tributável da operação, sobre o qual incidirão IRPJ e CSLL. Já a segunda exceção, que interessa mais diretamente à discussão desenvolvida nos presentes autos, referese às transformações societárias envolvendo investidoras, investidas e o ágio associado aos investimentos. A respeito da evolução histórica das previsões legais que contemplaram a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio em hipóteses de transformações societárias, Fl. 3544DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.545 66 remetome ao irretocável apanhado feito pelo nobre Conselheiro André Mendes de Moura, no recente Acórdão nº 9101002.301: Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art. 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada períodobase a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de mercado, e tal situação se mostraria viável, Fl. 3545DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.546 67 especialmente, quando, imediatamente após à aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão. Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale transcrever a Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 199761, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos “planejamentos tributários”, vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI62 ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. [...]. Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. 61 Cf. Exposição de Motivos publicada no Diário do Congresso Nacional nº 26, de 02/12/1997, pg. 18021 e segs. Disponível em: <http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2>. Acesso em: 9 nov. 2017. 62 Cf. SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo: Dialética, 2012. p. 66 e segs. Fl. 3546DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.547 68 Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista63 que trabalhou na edição da MP 1.609, de 199764: O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anos calendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. [...]. Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegouse a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.607, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização. Depreendese da retrospectiva transcrita que os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997 (produto da conversão da Medida Provisória nº 1.602, de 1997) foram erigidos pelo legislador com a específica finalidade de coibir a prática de planejamentos tributários abusivos em que empresas superavitárias adquiriam com ágio empresas deficitárias para serem, em seguida, incorporadas por elas. Tal incorporação reversa, também denominada de incorporação “às avessas”, não tinha nenhum propósito negocial que não fosse a simples geração de ganhos de natureza tributária. 63 Relatório da Comissão Mista publicado no Diário do Congresso Nacional nº 27, de 03/12/1997, pg. 18494. Disponível em: <http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2>. Acesso em: 9 nov. 2017. 64 Na realidade, o número da Medida Provisória abordada é 1.602. Fl. 3547DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.548 69 Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, foram integralmente incorporados ao RIR/1999 por meio de seu art. 386. Como este artigo faz referência expressa a dispositivos do art. 385 (cópia do já reproduzido art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977), transcrevemse ambos a seguir: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (Decreto Lei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do § 2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do § 2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão Fl. 3548DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.549 70 de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração. § 1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 1º). § 2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 2º): I o ágio em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; II o deságio em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. § 3º O valor registrado na forma do inciso II (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 3º): I será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; II poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. § 4º Na hipótese do inciso II do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos ou contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 4º). § 5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 5º). § 6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. § 7º Sem prejuízo do disposto nos incisos III e IV, a pessoa jurídica sucessora poderá classificar, no patrimônio líquido, alternativamente ao disposto no § 2º deste artigo, a conta que registrar o ágio ou deságio nele mencionado (Lei nº 9.718, de 1998, art. 11). Verificase que os arts. 385 e 386 do RIR/1999 guardam uma relação indissociável entre si, uma vez que requisitos à aplicação do segundo artigo são extraídos diretamente da redação do primeiro. O art. 385, conforme já mencionado, estabelece duas regras principais. A primeira determina que o ágio apurado em uma aquisição de participação societária em sociedade controlada ou coligada seja registrado em subconta separada daquela que registra o Fl. 3549DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.550 71 valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Já a segunda fixa os possíveis fundamentos econômicos do ágio pago na aquisição da participação societária (valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros; fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas). Por fim, o artigo ainda prevê que o ágio fundamentado em valor de mercado dos bens do ativo da investida ou na expectativa de resultados futuros deve ser baseado em documentação comprobatória, devidamente arquivada. Já o art. 386 trata, entre outras coisas, da possibilidade de aproveitamento tributário do ágio decorrente do fundamento econômico previsto no inciso II do § 2º do artigo anterior (valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros). O caput do art. 386 traz o primeiro requisito que deve ser cumprido para que seja possível o aproveitamento do ágio: uma pessoa jurídica deve absorver o patrimônio de uma segunda, em que detenha participação societária adquirida com ágio. A respeito deste primeiro requisito exigido pela norma, recorro novamente ao Acórdão nº 9101002.301, pela assertividade da análise ali desenvolvida: Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA 65. Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio 65 Cf. ATALIBA, Geraldo. Hipótese de incidência tributária. 6. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2010. p. 51 e segs. Fl. 3550DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.551 72 contabilizado na pessoa jurídica A (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado “transferido” para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoase o encontro de contas entre investidor e investida, e a amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI66, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual 66 Cf. SCHOUERI, 2012, p. 62. Fl. 3551DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.552 73 acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que, para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Considerandose o regime de tributação adotado pelo sujeito passivo, aperfeiçoase o lançamento fiscal e o termo inicial para contagem do prazo decadencial. Concluise, portanto, que o art. 386 do RIR/1999, sob o aspecto pessoal, se dirige à investidora que vier a incorporar sua investida (ou por ela ser incorporada), após ter, efetivamente, acreditado na mais valia do investimento, feito os estudos de rentabilidade futura e desembolsado os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço, pago em momento anterior pela investidora em razão da confiança na rentabilidade futura da investida. Destaquese que a regra se aplica tanto à incorporação da investida pela investidora quanto, no sentido inverso, à hipótese em que a investidora é que é incorporada por sua investida. Em ambos os casos, a lei exige que a investidora envolvida na incorporação seja a “original” ou stricto sensu (no sentido de que a originalidade está indissociavelmente ligada à pessoa jurídica que paga o ágio e, por isso mesmo, tem confiança na rentabilidade futura, pois é quem assume o risco). A situação em que a investida incorpora sua investidora é denominada de incorporação reversa, ou ainda de incorporação “às avessas”. A previsão da possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio nesta hipótese é trazida pelo § 6º, inciso II, do art. 386 do RIR/1999. O dispositivo faz uso de uma técnica legislativa transitiva, indicando assim que o que vale para o caput do art. 386 do RIR/1999 vale também para o seu § 6º. As premissas de exegese da norma não são afetadas, sendo necessárias apenas as devidas adaptações para contemplar a situação prevista. Fl. 3552DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.553 74 De forma correlata ao que se analisou quanto ao aspecto pessoal, a confusão de patrimônios, principal item do aspecto material para fins de enquadramento no art. 386 do RIR/1999, consumase quando, na sociedade incorporadora, o lucro futuro e o investimento original com expectativa desse lucro (aquele que foi sobreavaliado) passam a se comunicar diretamente (os riscos se fundem: o risco do investimento assim entendidos os recursos aportados e o risco do empreendimento). Compartilhando o mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolidase cenário no qual a pessoa jurídica detentora da “mais valia” (ágio) do investimento baseado na expectativa de rentabilidade futura passa a ser responsável também por honrar tal rentabilidade. Assim, a legislação permite que o contribuinte considere perdido o capital que foi investido com o ágio e deduza a despesa relativa à “mais valia”. Configuração semelhante ocorre na incorporação reversa, na medida em que a pessoa jurídica responsável por gerar a rentabilidade esperada para o futuro passa a ser a detentora do ágio baseado na expectativa de tal rentabilidade. Sendo assim, pressupõese que a “mais valia” porventura contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participam da “confusão patrimonial”. Para fins de acesso à dedutibilidade estabelecida pelo art. 386 do RIR/1999, a pessoa jurídica que efetivamente suportou o ágio pago na aquisição de um investimento deve incorporar tal investimento (incorporação da investida pela investidora) ou ser incorporada pela empresa onde investiu (incorporação “às avessas”). Em síntese, a subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/1999, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material das hipóteses ali previstas. Na atual redação destes dispositivos, exclusivamente no caso em que houver o efetivo desembolso de valores (ou sacrifício de outros ativos) a título de investimento da investidora (futura incorporadora ou, no caso da incorporação reversa, incorporada) na investida (futura incorporada ou, no caso da incorporação reversa, incorporadora), é que haverá o atendimento aos aspectos pessoal e material. Se o ágio não foi de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da “confusão patrimonial”, não há sentido em clamarse pela dedutibilidade das despesas decorrentes de amortização de ágio instituída pelo art. 386 do RIR/1999. Ainda que se analise a situação debatida nos autos sob outro enfoque, a conclusão alcançada continua sendo pela impossibilidade de utilização tributária do ágio pelo recorrido. Tal aproveitamento tributário do ágio consiste, como já foi dito por diversas vezes, na dedução de despesas decorrentes de sua amortização na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Fazse relevante, portanto, analisar o caso sob a perspectiva da teoria atinente às despesas que têm relevância fiscal. Uma vez mais, pedese vênia para transcreverse excerto extraído do Acórdão nº 9101002.301, por sua concisão e clareza: Definido que o aproveitamento do ágio pode darse por meio de despesa de amortização, mostrase pertinente apreciar do que trata tal dispêndio. No RIR/99 (DecretoLei nº 3.000, de 26/03/1999), o conceito de amortização encontrase no Subtítulo II (Lucro Real), Capítulo V (Lucro Operacional), Seção III (Custos, Despesas Operacionais e Encargos). O artigo 299 do diploma em análise trata, no art. 299, na Subseção I, das Disposições Gerais sobre as despesas: Fl. 3553DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.554 75 Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). § 3º O disposto neste artigo aplicase também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Para serem dedutíveis, devem as despesas serem necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, e serem usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Por sua vez, logo após as Subseções II (Depreciação de Bens do Ativo Imobilizado) e III (Depreciação Acelerada Incentivada), encontra previsão legal a amortização, no art. 324, na Subseção IV do RIR/99. Percebese que a amortização constituise em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99. Despesa Diante de Fatos Construídos Artificialmente No mundo real os fatos nascem e morrem, decorrentes de eventos naturais ou da vontade humana. O direito elege, para si, fatos com relevância para regular o convívio social. No que concerne ao direito tributário, são escolhidos fatos decorrentes da atividade econômica, financeira, operacional, que nascem espontaneamente, precisamente em razão de atividades normais, que são eleitos porque guardam repercussão com a renda ou o patrimônio. São condutas relevantes de pessoas físicas ou jurídicas, de ordem econômica ou social, ocorridas no mundo dos fatos, que são colhidas pelo legislador que lhes confere uma qualificação jurídica. Por exemplo, o fato de auferir lucro, mediante operações espontâneas, das atividades operacionais da pessoa jurídica, amoldase à hipótese de incidência prevista pela norma, razão pela qual nasce a obrigação do contribuinte recolher os tributos. Da mesma maneira, a pessoa jurídica, no contexto de suas atividades operacionais, incorre em dispêndios para a realização de suas tarefas. Contratase um prestador de serviços, comprase uma mercadoria, operações necessárias à consecução das atividades da empresa, que surgem naturalmente. Ocorre que, em relação aos casos tratados relativos à amortização do ágio, proliferaramse situações no qual se busca, especificamente, o enquadramento da norma permissiva de despesa. Tratamse de operações especificamente construídas, mediante inclusive utilização de empresas de papel, de curtíssima duração, sem funcionários ou quadro funcional incompatível, com capital social mínimo, além de outras características completamente atípicas no contexto empresarial, que recebem aportes de milhões e, em questão de dias ou meses, são objeto de operações de transformação societária. Tais eventos podem receber qualificação jurídica e surtir efeitos nos ramos empresarial, cível, contábil, dentre outros. Fl. 3554DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.555 76 Situação completamente diferente ocorre no ramo tributário. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Impossível estender atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas, independente sua espécie, derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. Admitindose uma construção artificial, consumarseia um tratamento desigual, desarrazoado e desproporcional, que afronta o princípio da capacidade contributiva e da isonomia, vez que seria conferida a uma determinada categoria de despesa uma premissa completamente diferente, uma liberalidade não aplicável à grande maioria dos contribuintes. b) ágio – operações com partes relacionadas No caso analisado nos presentes autos, é incontroverso que o ágio, cujas despesas de amortização a recorrente pretende dedutíveis, teve origem em três momentos distintos, do qual destacamos, aqui, o primeiro deles (“aquisição do bloco de controle”) (efls. 1.749 e 1.750 da decisão recorrida): • Em 02 e 10 de março de 2004, a FIPAR, SZSPAR e a APPLIED transferiram, conjuntamente, para a CREMERPAR, via aumento de capital, suas ações da CREMER, [...] Com isso, a CREMERPAR passou a controlar a CREMER [...]. • Nesta “aquisição” das ações da CREMER por parte da CREMERPAR, houve geração de ágio na CREMERPAR, no montante de R$ 9.307.341,21, conforme já detalhado. Este ágio teve por razão o fato do Patrimônio Líquido da CREMER estar negativo, ensejando que qualquer valor “pago” na aquisição de papéis desta empresa consistiria inteiramente em ágio (o valor patrimonial da ação adquirida era nulo); [...]. • Constatase que o “pagamento” aos controladores, para a aquisição destas ações da CREMER, deuse com papéis de emissão da CREMERPAR, que a esta altura já era controlada pela FIPAR e SZSPAR. Assim, por exemplo, a FIPAR, detentora de papéis da CREMER, deu estes papéis para a subscrição das novas ações emitidas pela CREMERPAR. Da mesma forma se sucedeu com a SZSPAR e APPLIED; [...]. • Em 31/12/2004, houve a incorporação da CREMERPAR pela CREMER, passando esta a deter o direito de amortizar o ágio advindo da incorporada, nos termos do art. 386 do RIR/99. Ou seja, em 2004, a FIPAR, SZSPAR e a APPLIED (o chamado “bloco de controle”) utilizaram ações reavaliadas da contribuinte CREMER para fins de integralização de aumento de capital da empresa CREMEPAR. Os valores pelos quais as ações foram recepcionadas na nova controladora tiveram por razão o fato de o Patrimônio Líquido da CREMER estar negativo, ensejando que qualquer valor “pago” na aquisição de papéis desta empresa consistiria inteiramente em ágio (o valor patrimonial da ação adquirida era nulo) (R$ 9.307.341,21). Ainda naquele ano, a CREMER incorporou a CREMEPAR, trazendo o referido ágio para sua contabilidade e passando a deduzir de seu lucro líquido as despesas Fl. 3555DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.556 77 decorrentes da sua amortização, sob o argumento de que sua situação amoldavase à previsão legal abrigada pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e pelos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Ocorre que o entendimento defendido pela recorrente não tem amparo nos mencionados dispositivos legais ou em quaisquer outros. Interpretandose o conteúdo do art. 386 do RIR/1999 sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, verificase que não restaram observados, no caso concreto, os aspectos pessoal e material necessários à subsunção da situação fática à previsão normativa. A configuração do aspecto pessoal da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999 requer, como foi visto, que a pessoa jurídica que vier a absorver o patrimônio da outra em que detenha participação societária (ou a ser absorvida por ela, no caso da incorporação “às avessas”) tenha acreditado na “mais valia”, feito estudos de rentabilidade futura e efetivamente desembolsado os recursos para a aquisição do investimento. Analisando as operações societárias levadas a efeito em 2004, não resta dúvidas de que não houve desembolso algum, por qualquer das partes envolvidas, no processo de aumento de capital da CREMEPAR que originou o ágio de R$ 9.307.341,21. Este número adveio simplesmente das reavaliações encomendadas pelos controladores da recorrente já que o Patrimônio Líquido da CREMER estava negativo. Sendo assim, não há que se falar na existência de uma investidora real, que faria jus à possibilidade de aproveitamento tributário do ágio nos moldes delineados no art. 386 do RIR/1999. Além disso, também o aspecto material da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999 não restou caracterizado no caso concreto. Para que o ágio possa ser objeto de aproveitamento fiscal, é necessária a ocorrência de “confusão patrimonial” entre investidora e investida porque assim passam a coexistir dentro da mesma pessoa jurídica a “mais valia” paga com base na expectativa de rentabilidade futura e o próprio investimento de que se espera tal rentabilidade. É justamente por conta deste encontro que a legislação permite que os contribuintes dêem por perdido o capital investido na “mais valia” e passem a utilizar as despesas de sua amortização como deduções da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Se não existiu o efetivo dispêndio da investidora por tal “mais valia”, não há valor pago a maior que possa ser considerado perdido por ocasião de seu encontro, na contabilidade da mesma pessoa jurídica, com o investimento de que se esperava a produção futura de resultados positivos. Logo, perde o sentido a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio. Assim, a amortização operada pela recorrente não teve amparo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 ou dos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Conforme se viu, a possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio só tem sentido em situações em que a investidora de fato, responsável por arcar com o dispêndio que faz nascer o ágio, incorpora a pessoa jurídica em que possua participação societária (investimento) ou é por ela incorporada. No caso dos autos, não existiu a figura da investidora originária porque não houve dispêndio apto a amparar a criação do ágio que se pretendeu amortizável. O ágio contabilizado decorreu de reavaliações dos valores de mercado da empresa CREMER, cujas ações foram utilizadas na integralização do capital social da CREMEPAR, não tendo sido verificado nenhum dispêndio que viesse a satisfazer os aspectos pessoal e material da hipótese de incidência da benesse estabelecida no art. 386 do RIR/1999. Sem a realização de investimento efetivo que justifique o nascimento do ágio, não há que se falar na ocorrência de confusão patrimonial que possibilite a dedutibilidade prevista no art. 386 do RIR/1999. Fl. 3556DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.557 78 Importante ressaltar que, quando se estabelece a necessidade de que a investidora arque com a aquisição do investimento com ágio, não se restringe tal operação a uma compra e venda com o desembolso de valores monetários. O dispêndio a que se refere diz respeito a qualquer operação que gere ganhos para o alienante e gastos para o adquirente. Mais do que um pagamento em dinheiro, o que se espera como resultado desta operação é que haja variações patrimoniais para os envolvidos em valores proporcionais ao negócio celebrado. O ágio inicialmente contabilizado pela CREMEPAR e posteriormente incorporado pela recorrente foi criado sem esta troca de riquezas entre adquirente e alienantes. A criação de tal ágio foi um fenômeno puramente contábil. Ninguém sacrificou valores ou direitos que justificassem sua criação. Isso só foi possível porque todas as empresas envolvidas pertenciam ao mesmo grupo econômico, estando submetidas ao controle dos mesmos acionistas. No momento da operação de aumento do capital da CREMEPAR, tanto esta empresa quanto a recorrente CREMER eram diretamente controladas pela FIPAR, SZSPAR e APPLIED. Assim, o negócio celebrado entre estas empresas não aconteceu em um ambiente de livre concorrência, em que os atos negociais visam a atender aos interesses de ambos os contratantes, que assumem direitos e deveres proporcionais. O fato de as empresas integrarem o mesmo grupo econômico adiciona novos elementos e interesses maiores ao negócio. Não necessariamente os atos celebrados têm como objetivo beneficiar todas as partes envolvidas. A circulação de riquezas requerida pelo art. 386 do RIR/1999, para fins de caracterização do aspecto pessoal da hipótese de incidência, requer obrigatoriamente a participação de um terceiro, externo ao grupo econômico que negocia a participação societária. Somente desta forma é possível garantir que o valor praticado na alienação é verossímil e pode ser utilizado como base de cálculo de um ágio que será posteriormente convertido em vantagens tributárias para o adquirente da participação societária. No caso concreto, as controladoras FIPAR, SZSPAR e APPLIED poderiam determinar, em última instância, qualquer valor de alienação para as quotas da CREMER, já que nem a participação societária nem os valores transferidos chegariam a deixar efetivamente seu patrimônio: haveria simples movimentação entre os patrimônios de suas várias controladas, diretas ou indiretas. Não ocorreria, qualquer que fosse o valor estipulado para a celebração da alienação, a efetiva e necessária mudança de titularidade da participação societária negociada: o controle indireto permaneceria com a FIPAR, SZSPAR e APPLIED. Não há sentido em se cogitar da existência de ágio com base em reavaliação promovida unilateralmente por uma empresa controladora, sem que o valor estipulado para a “mais valia” passe pelo crivo de razoabilidade do mercado, por meio da aceitação, por um terceiro nãorelacionado, em arcar com o correspondente ônus (não necessariamente por meio de pagamento, mas de algum sacrifício patrimonial proporcional). O entendimento aqui exposto é corroborado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que já se pronunciou de forma contrária à possibilidade de geração de ágio em operações societárias envolvendo apenas empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico, por meio do OfícioCircular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007, de onde se transcreve o seguinte trecho: Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômicocontábil é preciso esclarecer que Fl. 3557DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.558 79 o ágio surge, única e exclusivamente, quando o preço (custo) pago pela aquisição ou subscrição de um investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial, supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de aquisição somente surge quando há o dispêndio para se obter algo de terceiros. Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal e, portanto, inadmissível. Não é concebível, econômica e contabilmente, o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma transação dos acionistas com eles próprios. Ainda que, do ponto de vista formal, os atos societários tenham atendido à legislação aplicável (não se questiona aqui esse aspecto), do ponto de vista econômico, o registro de ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de pressões ou outros interesses que não a essência da transação, condições essas denominadas na literatura internacional como “arm’s length”. Portanto, é nosso entendimento que essas transações não se revestem de substância econômica e da indispensável independência entre as partes, para que seja passível de registro, mensuração e evidenciação pela contabilidade. (Grifouse) Assim, verificase que a CVM não chancela a existência contábil do ágio gerado dentro de um mesmo grupo econômico, sem dispêndio algum. Também o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) já se manifestou de maneira semelhante, por meio da Orientação Técnica OCPC nº 02/2008: É importante lembrar que só pode ser reconhecido o ativo intangível ágio por expectativa de rentabilidade futura se adquirido de terceiros, nunca o gerado pela própria entidade (ou mesmo conjunto de empresas sob controle comum). E o adquirido de terceiros só pode ser reconhecido, no Brasil, pelo custo, vedada completamente sua reavaliação. Por fim, relevante ainda mencionar que o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) tampouco reconhece a legitimidade do ágio gerado intragrupo, como foi expresso nas seguintes Resoluções: Resolução CFC nº 1.110/2007 O reconhecimento de ágio decorrente de rentabilidade futura gerado internamente (goodwill interno) é vedado pelas normas nacionais e internacionais. Assim, qualquer ágio dessa natureza anteriormente registrado precisa ser baixado. Resolução CFC nº 1.303/2010 48. O ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente não deve ser reconhecido como ativo. 49. Em alguns casos incorrese em gastos para gerar benefícios econômicos futuros, mas que não resultam na criação de ativo intangível que se enquadre nos critérios de reconhecimento estabelecidos na presente Norma. Esses gastos costumam ser descritos como contribuições para o ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente, o qual não é reconhecido como ativo porque não é um recurso identificável (ou seja, não é separável nem advém de direitos contratuais ou outros direitos legais) controlado pela entidade que pode ser mensurado com confiabilidade ao custo. Os atos administrativos mencionados e parcialmente transcritos foram todos exarados de 2007 em diante, posteriormente, portanto, ao um dos períodos em que o grupo Fl. 3558DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.559 80 econômico a que pertence a recorrente praticou operações societárias que pretensamente originaram ágio passível de aproveitamento tributário (2004). Isto não significa, entretanto, que o entendimento exposto nos atos administrativos daqueles órgãos fosse novo. A este respeito, observese a manifestação da própria CVM por ocasião do julgamento de recurso constante do Processo Administrativo CVM RJ 2007/3480: RELATÓRIO No caso concreto, as demonstrações financeiras da Companhia do exercício de 2006 continham uma informação que a SEP e a SNC consideraram errada: o valor de um ativo (a participação acionária na CPM USA) foi contabilizado por um valor apurado em laudo de avaliação, mas esse bem estava, antes, contabilizado em companhia do mesmo grupo por valor mais baixo, e o aumento de seu valor se deu por incorporação entre partes relacionadas. A Companhia não recorreu quanto ao mérito desse entendimento, mas entende que ele somente foi manifestado pela CVM ao mercado através do Ofício Circular de 2007, divulgado em 14.02.2007, [...]. SEP e SNC confirmam que essa dicção somente constou a partir do OfícioCircular 01/2007, mas sustentam que o entendimento já era este desde sempre, porque ele decorre dos princípios contábeis geralmente são aplicáveis à escrituração contábil das companhias brasileiras por força do art. 177 da Lei 6.404/76. [...]. O recurso apresentado pela Companhia sustenta que a introdução desse entendimento pela CVM constituiria mudança de critério contábil de que trata o art. 186, § 1º, da Lei 6.404/76, e, por isso, a determinação de baixa do ágio poderia ser feita mediante ajuste de exercícios anteriores, na primeira ITR, como já teria sido aceito pela CVM em outros precedentes. Quanto ao primeiro ponto, entendo ter razão a área técnica. Não se pode afirmar que seja novo o entendimento da CVM quanto à impossibilidade contábil de aproveitamento do ágio interno (assim entendido como aquele gerado em operações entre partes relacionadas). Como lembra a SNC, essa impossibilidade está ligada ao Principio do Custo como Base de Valor — segundo os especialistas “o mais antigo e discutido principio de contabilidade” — que considera o valor de entrada como o que deve servir de base para registro de qualquer ativo, ressalvada a hipótese restrita (e mesmo inexistente em alguns países, como nos Estados Unidos) de reavaliação e, ainda, observandose o valor de recuperação, sempre que menor. Como destacam as áreas técnicas, esse princípio foi expressamente reconhecido na “Estrutura Conceitual Básica de Contabilidade” desde a Deliberação 29/86, além de estar à base da Deliberação 183/95. Portanto, ainda que o OfícioCircular 01/2007 tenha vindo a dar maior destaque à questão especifica do ágio interno, o entendimento da CVM sempre existiu, com fundamento do Principio do Custo como Base de Valor, e era público. Assim, não vejo como sustentar, portanto, que se possa falar em “mudança de critério contábil” (grifouse). Diante de todo o exposto, concluise que as próprias Ciências Contábeis têm restrições em relação à existência do ágio gerado internamente, por meio de operações societárias realizadas no interior de um grupo econômico e sem o lastro de efetiva circulação de riquezas. Com base nisso e na inexistência de lei que estabeleça tratamento tributário Fl. 3559DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.560 81 diferenciado para este instituto, forçoso se faz concluir pela inutilidade do denominado “ágio interno” para os fins tributários pretendidos pela recorrente. Acrescentese à análise reproduzida que os pronunciamentos da CVM, CPC e CFC, transcritos alhures, deixam claro que as Ciências Contábeis não reconhecem o ágio gerado dentro de um mesmo grupo econômico. Assim, do ponto de vista contábil, são inexistentes tanto este ágio quanto as despesas decorrentes de sua amortização. Sendo inexistentes as despesas de amortização do “ágio interno”, não podem afetar a apuração do lucro líquido e, consequentemente, do lucro real e da base de cálculo da CSLL (que decorrem do lucro líquido calculado nos termos da legislação comercial). Concluise, assim, que as despesas de amortização de ágio criado em operações como as analisadas nos presentes autos, internas, atípicas e integrantes de um processo de planejamento tributário que tem a finalidade específica de criar artificialmente hipótese próxima à requerida pelo art. 386 do RIR/1999, não se revestem das características de necessidade, usualidade e normalidade requeridas para sua dedutibilidade. Nego provimento ao recurso. c) ágio – empresa veículo No caso analisado nos presentes autos, é incontroverso que o ágio, cujas despesas de amortização a recorrente pretende dedutíveis, teve origem em três momentos distintos, do qual destacamos, aqui, o terceiro deles (“aquisição via aumento de capital”) (efls. 1.752 da decisão recorrida): Esta última parte da operação evolveu o montante de R$ 60.395.852,04, detalhado nos lançamentos abaixo: [...]. Como já visto, esta parcela do ágio se justificou, no entendimento da CREMERPAR, pelo fato destes aportes de recursos na CREMER terem sido efetivados com seu Patrimônio Líquido ainda negativo. Assim, enquanto o PL da empresa permaneceu negativo, todos os aportes efetuados tiveram o tratamento de ágio pago, até que seu PL ficou positivo [....]. No caso analisado nos presentes autos, é incontroverso que houve desembolso de valores por ocasião da aquisição, pela MLGP, por intermédio da CREMEPAR, das ações da CREMER. Destas operações, resultou o registro de ágio no valor de R$ 60.395.852,04. Ocorre que tal ágio foi registrado na contabilidade da empresa americana. Fosse a MLGP uma pessoa jurídica sediada no Brasil, submetida à legislação tributária brasileira, ela poderia fazer jus à dedutibilidade das despesas de amortização do ágio de R$ 60.395.852,04 se viesse a incorporar a CREMER e atendesse também às demais condições exigidas legalmente. Como não havia essa possibilidade, promoveuse a “internalização” do ágio em território brasileiro, por meio da integralização de aumento do capital social da CREMER pela CREMEPAR. Assim, a CREMEPAR passou a possuir, em sua contabilidade, o ágio de R$ 60.395.852,04 associado às ações da CREMER. Conforme já foi narrado, a CREMEPAR foi incorporada pela CREMER. Julgando fazer jus ao direito de deduzir as despesas decorrentes da amortização do ágio com Fl. 3560DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.561 82 base nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997 (e nos arts. 385 e 386 do RIR/1999), a CREMER passou a reduzir seu lucro líquido. Ocorre que nem a CREMEPAR nem o recorrido poderiam ter utilizado o ágio registrado originalmente na MLGP para fins de deduzir as despesas decorrentes de sua amortização. Interpretandose o conteúdo do art. 386 do RIR/1999 sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, verificase que não restaram observados, no caso concreto, os aspectos pessoal e material necessários à subsunção da situação fática à previsão normativa. Como não foi a CREMEPAR que desembolsou o valor que deu origem ao ágio contábil, restou desatendido o aspecto pessoal da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999. Como o próprio recorrido reconhece, o numerário que foi pago, indiretamente, pela aquisição das ações da CREMER, saiu dos cofres da MLGP. A CREMEPAR foi incorporada pela CREMER. Esta, julgando que estaria configurada a “confusão patrimonial” entre o ágio e o investimento que lhe deu causa, passou a aproveitar as despesas da amortização do ágio para fins tributários. Ocorre que tal “confusão patrimonial”, principal manifestação do aspecto material necessário à efetiva incidência da norma tributária prevista no art. 386 do RIR/1999, deve obrigatoriamente se dar entre a investida e a investidora originária, real. Por investidora originária, entendese aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição da participação societária. Ou seja, no caso sob análise, só existe uma real investidora: a MLGP. Importante ressaltar que, quando se estabelece a necessidade de que a empresa participante da “confusão patrimonial” tenha arcado com a aquisição do investimento com ágio, não se restringe tal operação a uma compra e venda com o desembolso de valores monetários. O dispêndio que se exige diz respeito a qualquer operação que gere ganhos para o alienante e gastos para o adquirente. Mais do que um pagamento em dinheiro, o que se espera como resultado desta operação é que haja variações patrimoniais para os envolvidos em valores proporcionais ao negócio celebrado. No caso dos presentes autos, não se verificou a prática de tal “sacrifício patrimonial” pela CREMEPAR ou pelo recorrido. Sendo assim, a amortização operada pelo recorrido não teve amparo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, ou dos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Conforme se viu, a possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, só tem sentido em situações em que a investidora de fato, responsável por arcar com o dispêndio que faz nascer o ágio, incorpora a pessoa jurídica em que possua participação societária (investimento) ou seja por ela incorporada. No caso dos autos, a investidora originária não participou de “confusão patrimonial” alguma. Além disso, o ágio registrado na CREMEPAR foi realizada entre empresas que integram um mesmo grupo econômico. Concluise, assim, que as despesas de amortização de ágio criado em operações como a encontrada nos presentes autos, atípicas e integrantes de um processo de planejamento tributário que tem a finalidade específica de criar artificialmente hipótese próxima à requerida pelo art. 386 do RIR/1999, não se revestem das características de necessidade, usualidade e normalidade requeridas para sua dedutibilidade. Nego provimento ao recurso. d) incidência de juros de mora sobre multa de ofício Fl. 3561DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.562 83 A cobrança de juros de mora sobre os créditos não pagos até a data de vencimento é prevista no art. 161 do CTN, nos seguintes termos: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. § 2º O disposto neste artigo não se aplica na pendência de consulta formulada pelo devedor dentro do prazo legal para pagamento do crédito. A expressão “crédito”, utilizada no caput do artigo reproduzido, obviamente se refere ao crédito tributário, pela própria natureza do diploma legal que habita. Para se definir o alcance de tal expressão, recorrese a outro dispositivo do CTN: Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. Já a definição de “obrigação principal”, mencionada no art. 139 do CTN, é trazida pelo § 1º do art. 113 do mesmo Código. Tal obrigação tem por objeto o pagamento de tributo ou de penalidade pecuniária. In verbis: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária. O critério utilizado pelo CTN para enquadrar determinada obrigação tributária como principal é, portanto, seu conteúdo pecuniário. Uma vez que a multa de ofício tem a característica de penalidade pecuniária, fica claro que ela integra a obrigação principal, ao lado dos tributos. Interpretando em conjunto os dispositivos reproduzidos, concluise que incidem juros de mora sobre os créditos tributários não integralmente pagos no vencimento (art. 161) e que tais créditos decorrem da obrigação principal (art. 139), englobando o tributo e a multa de ofício (art. 113, § 1º). Assim, a conclusão construída é a de que o CTN prevê a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício proporcional. Os defensores da tese da ilegalidade da cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício argumentam que a interpretação literal do caput do art. 161 do CTN impossibilitaria tal incidência em razão da presença da expressão “sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis”. Se a penalidade referente à multa de ofício já estiver contemplada Fl. 3562DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.563 84 na expressão “crédito não integralmente pago no vencimento”, a que outras penalidades cabíveis estaria se referindo o legislador? — indagam. Ocorre que, frequentemente, a interpretação de uma norma tributária demanda a consideração da realidade jurídica e fática a que se aplica. Mais do que isso, a norma deve ser interpretada sistematicamente, levandose em conta todo o sistema tributário pátrio. A este respeito, examinese a interessante argumentação da Ilustre Conselheira Viviane Vidal Wagner, designada para redigir o voto vencedor do Acórdão CSRF nº 910100.539, de 11/03/2010: Contudo, uma norma não deve ser interpretada isoladamente, especialmente dentro do sistema tributário nacional. No dizer do jurista Juarez Freitas (2002, p. 70), “interpretar uma norma é interpretar o sistema inteiro: qualquer exegese comete, direta ou obliquamente, uma aplicação da totalidade do direito.” Merece transcrição a continuidade do seu raciocínio: Não se deve considerar a interpretação sistemática como simples instrumento de interpretação jurídica. É a interpretação sistemática, quando entendida em profundidade, o processo hermenêutico por excelência, de tal maneira que, ou se compreendem os enunciados prescritivos nos plexos dos demais enunciados, ou não se alcançará compreendêlos sem perdas substanciais. Nesta medida, mister afirmar, com os devidos temperamentos, que a interpretação jurídica é sistemática ou não é interpretação.” (A interpretação sistemática do direito, 3. ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 74). Daí, por certo, decorrerá uma conclusão lógica, já que interpretar sistematicamente implica excluir qualquer solução interpretativa que resulte logicamente contraditória com alguma norma do sistema. Sendo assim, a melhor interpretação a ser dada ao art. 161 do CTN é, sem dúvida, aquela que guarda harmonia com os demais dispositivos daquele Código que tratam do tema sob análise, quais sejam, os arts. 113 e 139. Além do CTN, a Lei nº 9.430, de 1996, em seu art. 61, caput e § 3º, também dispõe sobre o cabimento de juros de mora sobre multa de ofício: Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. [...]. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subsequente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Depreendese do artigo reproduzido que incidem juros de mora sobre os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria Fl. 3563DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.564 85 da Receita Federal, não pagos nos prazos previstos pela legislação específica. A multa de ofício se amolda perfeitamente a tal definição, já que sua cobrança decorre, entre outras hipóteses, da falta de pagamento de imposto ou contribuição, nos termos do inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996. Sendo assim, a exemplo do que ocorre com o art. 161 do CTN, também o art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, fundamenta a possibilidade de incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Corrobora ainda tal entendimento o art. 43 da Lei nº 9.430, de 1996, que, em seu parágrafo único, prevê expressamente a incidência de juros de mora sobre a multa exigida isoladamente. Assim, vêse que a legislação não enxerga incompatibilidade entre os juros de mora e uma multa pecuniária de caráter punitivo: Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. O Egrégio Superior Tribunal de Justiça (STJ) já se pronunciou a respeito da legalidade da cobrança de juros de mora nos moldes praticados no presente processo: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: ‘É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário.’ (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. 2. Agravo regimental não provido. (STJ, 1ª T., AgRg no REsp 1335688/PR, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, dez/2012) Por fim, tanto o § 3º do art. 61 quanto o parágrafo único do art. 43, ambos da Lei nº 9.430, de 1996, fazem alusão à taxa aplicável a título de juros de mora: taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, para títulos federais. Quanto a este ponto, a matéria já foi inclusive pacificada por meio da edição da Súmula CARF nº 4: Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Nego provimento ao recurso. Fl. 3564DF CARF MF Processo nº 13971.005209/201012 Acórdão n.º 9101003.222 CSRFT1 Fl. 3.565 86 Do exposto, voto por conhecer do Recurso Especial do sujeito passivo, na parte admitida, e, no mérito, por negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo – Redator Designado Fl. 3565DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.721661/2011-91
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Oct 04 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 23 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2006
AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA. IMPOSSIBILIDADE DE DIVERGÊNCIA NA INTERPRETAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA.
Diante de falta de comunicação entre o suporte fático tratado pela decisão recorrida e paradigma, impossível atendimento do requisito de admissibilidade concernente à divergência na interpretação da legislação tributária previsto no artigo 67 do Anexo II do RICARF.
PERMUTA DE PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS. RECEBIMENTO DE VALOR SUPERIOR AO ENTREGUE. APURAÇÃO DE GANHO DE CAPITAL TRIBUTÁVEL. CABIMENTO.
Na hipótese de permuta de participações societárias, entre pessoas jurídicas, em que ocorre recebimento de valor superior ao entregue, é cabível a apuração de ganho de capital tributável, salvo nas hipóteses expressamente previstas em lei. Precedente Acórdãos nº 9101-002.172 e 9101-002.445.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA.
A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, e 61, § 3º, da Lei 9.430/96.
Numero da decisão: 9101-003.137
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, (i) por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte, apenas quanto à tributação de ganho de capital na permuta sem a ocorrência de torna, vencidos os conselheiros Rafael Vidal de Araújo e Flávio Franco Corrêa, que não conheceram do recurso e (ii) por maioria de votos, em não conhecer do recurso quanto à matéria relacionada à necessidade de propósito negocial, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra (relator) e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que conheceram também dessa parte. No mérito, por voto de qualidade, acordam em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado), que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro André Mendes de Moura. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Cristiane Silva Costa, substituída pelo conselheiro Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Gerson Macedo Guerra - Relator
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado em substituição aos impedimentos da conselheira Cristiane Silva Costa), Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo (Presidente em exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: GERSON MACEDO GUERRA
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E FAZENDA NACIONAL Interessado NEON HOLDINGS LTDA. E FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006 AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA. IMPOSSIBILIDADE DE DIVERGÊNCIA NA INTERPRETAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. Diante de falta de comunicação entre o suporte fático tratado pela decisão recorrida e paradigma, impossível atendimento do requisito de admissibilidade concernente à divergência na interpretação da legislação tributária previsto no artigo 67 do Anexo II do RICARF. PERMUTA DE PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS. RECEBIMENTO DE VALOR SUPERIOR AO ENTREGUE. APURAÇÃO DE GANHO DE CAPITAL TRIBUTÁVEL. CABIMENTO. Na hipótese de permuta de participações societárias, entre pessoas jurídicas, em que ocorre recebimento de valor superior ao entregue, é cabível a apuração de ganho de capital tributável, salvo nas hipóteses expressamente previstas em lei. Precedente Acórdãos nº 9101002.172 e 9101002.445. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, e 61, § 3º, da Lei 9.430/96. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, (i) por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte, apenas quanto à tributação de ganho de capital na permuta sem a ocorrência de torna, vencidos os conselheiros Rafael Vidal de Araújo e Flávio Franco AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 16 61 /2 01 1- 91 Fl. 1087DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.088 2 Corrêa, que não conheceram do recurso e (ii) por maioria de votos, em não conhecer do recurso quanto à matéria relacionada à necessidade de propósito negocial, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra (relator) e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que conheceram também dessa parte. No mérito, por voto de qualidade, acordam em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado), que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra, Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro André Mendes de Moura. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Cristiane Silva Costa, substituída pelo conselheiro Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Presidente em exercício (assinado digitalmente) Gerson Macedo Guerra Relator (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado em substituição aos impedimentos da conselheira Cristiane Silva Costa), Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo (Presidente em exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto. Relatório Tratase de Recurso Especial de divergência interposto pelo Contribuinte em epígrafe e pela Fazenda Nacional, contra o Acórdão nº 1202 001.075, por meio do qual o colegiado deu parcial provimento ao recurso voluntário, para afastar a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício e manter a cobrança de IRPJ e CSLL sobre ganho de capital, ao fundamento de que, ausente o propósito negocial, operações societárias estruturadas em sequência, realizadas em curto prazo, constituíram simulação relativa, para encobrir a alienação das ações, com único propósito evitar a incidência de ganho de capital. Fl. 1088DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.089 3 O trabalho fiscal que originou o lançamento iniciouse com o objetivo de verificar o ganho de capital de empresa do conglomerado Bradesco, denominada Columbus, obtido no IPO da Visanet. Segundo a fiscalização, a empresa Columbus recebeu de outras empresas do grupo, via aumento de capital, ora sem ágio, ora com ágio as ações da Visanet que foram objeto do IPO. Ainda conforme a fiscalização o ágio contabilizado como parte integrante do valor contábil das ações da Visanet reduziu significativamente o ganho de capital apurado no IPO. Nesse contexto, diante do valor do ágio e da disparidade entre os valores unitários das ações da Visanet que foram entregues pelas empresas pertencentes ao grupo Bradesco à Columbus, cujo valor unitário máximo foi de R$ 12,01 e o mínimo de R$ 0,38, a fiscalização aprofundou sua pesquisa na origem das ações no conglomerado. Interessa ao presente caso a busca da origem realizada pela fiscalização nas ações da Visanet entregues pela Elba Holdings Ltda à Columbus, via aumento de capital, com ágio. A Elba foi intimada a explicar a diferença entre os valores de aquisição e de alienação das ações da Visanet, respondendo que uma das operações que contribuíram para tanto foi o aumento de capital da Selenium (outra empresa do grupo), através da emissão de ações subscritas pela Elba em 30/06/2006. Nesse contexto, a fiscalização aprofunda nas operações societárias realizadas no quadro social da Selenium, que antes de 30/06/2006 detinha investimento na Visanet e Usiminas e possuía como sócias a Contribuinte em questão e outra empresa do grupo, denominada Nova Paiol. A fiscalização demonstra que no dia 29/06/2006 a Contribuinte em questão participava dos quadros sociais da Selenium na seguinte proporção: Em 30/06/2006, através de aumento de capital, Elba entra nos quadros sociais da Selenium, através da subscrição de ações com ágio de terceira empresa. Esse ágio teve fundamento nas ações da Visanet e Usiminas mantidas pela Selenium Nesse momento, os quadros sociais da Selenium passam à seguinte composição: Fl. 1089DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.090 4 Constata a fiscalização que essa reorganização gerou um ganho de capital de R$ 167.349.100,93 para o Contribuinte em questão (NEON), relativo à diferença entre as ações da Selenium antes e depois da subscrição realizada pela Elba. Este ganho não foi tributado, com arrimo do artigo 428, do RIR/99. Avança a fiscalização demonstrando que em 28/07/2006 a Elba incorpora a Selenium, passando a deter diretamente as ações da Visanet que foram entregues à Columbus. Com essa operação o contribuinte em questão trocou sua participação na Selenium pela participação em Elba. Diante de todo esse contexto a fiscalização concluiu que o objetivo das operações era atribuir mais valia às ações da Visanet mantidas pelo grupo , o que ocorreu com a estruturação de reorganizações societárias em sequência envolvendo as empresas Selenium e Elba, que eram controladas, respectivamente, pela Contribuinte em questão e a Nova Paiol, e pelo Banco Bradesco. Alega a fiscalização que caso a NEON aumentasse diretamente o capital da Elba com a participação mantida em Selenium, sem que houvesse ocorrido o aumento de capital do dia 30/06, incidiria tributação sobre o ganho de capital sobre essa troca de ações, pois o valor patrimonial das ações da Selenium seria bem inferior ao valor patrimonial das ações de Elba recebidas em troca. Diz a fiscalização que para contornar a tributação o Grupo Bradesco utilizou uma reorganização societária intermediária, em que Elba adquiriu com ágio participação em Selenium. Conclui a fiscalização que esta operação, estruturada em sequência, sem fundamentação econômica e com o único objetivo de contornar a norma tributária, não pode ser oponível ao fisco, devendo ser afastada na determinação dos efeitos fiscais do aumento do capital da Elba. Assim, lavouse o Auto de infração para cobrança do IRPJ e da CSLL, com multa de 75%, sob o entendimento de que a operação pretendida seria a permuta de participações societárias. Impugnado o auto, a DRJ lhe negou provimento. Da decisão da DRJ o Contribuinte interpôs Recurso Voluntário. No julgamento a 2ª Turma, da 2ª Câmara, deu parcial provimento ao Voluntário, para afastar os juros SELIC da multa de ofício, mantendo a cobrança dos tributos e multas aplicadas, conforme ementa abaixo: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2006 PRELIMINAR DE NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO POR ERRO NA IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO INOCORRÊNCIA É imperiosa a análise das operações societárias realizadas em sequência para que se verifique a ocorrência ou não do fato Fl. 1090DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.091 5 gerador e a real intenção da contribuinte. A responsabilidade de cada empresa envolvida deve ser apurada quando configurada a hipótese de incidência tributária. PRELIMINAR DE DECADÊNCIA INOCORRÊNCIA. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. Em havendo pagamento, o prazo decadencial iniciase na data da ocorrência do fato gerador, conforme § 4º do art.150 do CTN. Já nos casos em que não constar pagamento, o prazo decadencial para a constituição do crédito tributário é de cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito poderia ter sido constituído, conforme disposto no art. 173, inciso I do CTN. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO CRITÉRIOS. O que determina a incidência ou não de tributo para caracterização de planejamento tributário legítimo é a função a que se destina a operação dentro do empreendimento econômico (causa objetiva propósito negocial), não bastando a existência do conteúdo formal do negócio jurídico, consubstanciado na declaração de vontade. As operações estruturadas em sequência, realizadas em curto prazo, constituem simulação relativa, cujo ato verdadeiro dissimulado foi a alienação das ações, que teve como único propósito evitar a incidência de ganho de capital. FATO GERADOR DO IRPJ E DA CSLL LUCRO NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. GANHO DE CAPITAL. TRIBUTAÇÃO. Restando comprovado o lucro na alienação de ações, é de se efetuar a sua tributação, a título de ganho de capital. INCIDÊNCIA DE JUROS PELA TAXA SELIC SOBRE MULTA DE OFÍCIO. Jurisprudência pacificada deste Conselho Administrativo no sentido de afastar a incidência de juros de mora sobre multa de ofício, devendo incidir somente o valor do tributo devido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares de nulidade por erro na identificação do sujeito passivo e de decadência e, no mérito, por maioria de votos, dar provimento parcial ao Recurso Voluntário apenas para afastar a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício, vencidos os Conselheiros Viviane Vidal Wagner e Carlos Alberto Donassolo, que negavam provimento ao recurso integralmente. O Conselheiro Plínio Rodrigues Lima acompanhou pelas conclusões o mérito julgado. Além da questão do planejamento tributário, o acórdão recorrido também analisou a tributação do ganho de capital na operação de permuta sem torna, decidindo que Fl. 1091DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.092 6 para fins de apuração de ganho de capital, devem ser consideradas todas as operações que impliquem alienação a qualquer título, inclusive a permuta. Se a pessoa jurídica auferiu ganho ou lucro na alienação de ações, quer esta se opere mediante compra e venda, incorporação ou permuta por outras ações, será o ganho ou lucro submetido à tributação, sendo a base tributável, na hipótese dos autos, o resultado entre a diferença do valor de aquisição das ações da Selenium entregues e o valor das ações da Elba recebidas pela Recorrente. Intimada dessa decisão, a Fazenda Nacional apresenta Recurso Especial, objetivando discutir a matéria juros sobre multa. Conforme despacho, o Recurso da Fazenda Nacional foi admitido. Intimado da decisão e do Recurso da Fazenda o Contribuinte apresentou contrarrazões e Embargos de Declaração. Os embargos foram admitidos, mas rejeitados pela Turma. Ato seguinte o Contribuinte novamente apresenta Embargos de Declaração, que não foram admitidos. Nesse contexto, o Contribuinte apresenta, tempestivamente, Recurso Especial, objetivando discutir duas matérias, a saber: ü Necessidade de propósito negocial para que, mesmos lícitas e providas dos aspectos formais, as operações societárias possam ser oponíveis ao Fisco; ü Tributação de ganho de capital na permuta sem a ocorrência de torna. Conforme despacho, o Recurso do Contribuinte também foi admitido. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Gerson Macedo Guerra, Relator. A admissibilidade do Recurso do Contribuinte não foi questionada pela Fazenda Nacional. Tampouco a Fazenda Nacional questiona a admissibilidade do Recurso do Contribuinte. A par disso, entendo não haver há reparos a se fazer nas análises realizadas pelo então Presidente da Câmara. Especificamente sobre o planejamento tributário concordo com o despacho em sua conclusão no sentido de que no caso do recorrido tratase de incidência de imposto de renda sobre ganho de capital apurados em operações em cadeia de reorganizações societárias que o Fisco entendeu simuladas, e atribuiu efeito ao conjunto de operações como uma alienação de participações por permuta de participações societárias. Tal atribuição foi rechaçada pelo acórdão paradigma, que entendeu que os atos praticados eram lícitos e não foram questionados quaisquer aspectos formais. Logo, as eventuais conseqüências contrárias ao Fisco seriam legítimas. Importante destacar a ementa do paradigma: Fl. 1092DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.093 7 "IRPF GANHOS DE CAPITAL SIMULAÇÃO Para que se possa caracterizar a simulação, em atos jurídicos, é indispensável que os atos praticados não pudessem ser realizados, fosse por vedação legal ou por qualquer outra razão. Se não existia impedimento para a realização de aumentos de capital, a efetivação de Incorporação e de cisões, tal como realizadas e cada um dos atos praticados não é de natureza diversa daquele que de fato aparenta, isto é, se de fato e de direito não ocorreram atos diversos dos realizados, não há como qualificarse a operação de simulada. Os objetivos visados com a prática dos atos não interferem na qualificação dos atos praticados, portanto, se os atos praticados eram lícitos, as eventuais conseqüências contrárias ao fisco devem ser qualificadas como casos de elisão fiscal e não de evasão ilícita. Assim voto pelo conhecimento de ambos Recursos. Sobre o mérito, abaixo trato da parte conhecida pela Turma. GANHO DE CAPITAL NA PERMUTA Sobre esse tema já entendo que não incide ganho de capital na permuta de bens, seja qual for a natureza desses (terrenos, participações societárias, veículos, etc.), quando ausente a torna. Entendo que na operação de permuta não há acréscimo patrimonial do contribuinte; logo, a não incidência do ganho de capital não poderia ser restrita às operações entre imóveis mediante escritura pública de permuta, conforme previsto expressamente na IN 107/88. Nessa linha de raciocínio, o valor atribuído à participação na operação passa a ser irrelevante à medida que não há incidência do ganho de capital sobre aquela parcela do negócio. O reflexo do valor ao bem permutado darseá numa eventual alienação desse bem. Explico: ao atribuir um valor menor ao bem recebido como parte do pagamento, a tributação incidente sobre o ganho de capital apurado quando esse bem vier a ser alienado será aumentando Essa foi a posição vencida, adotada pelo Conselheiro Luis Flávio Neto, no julgamento do acórdão 9101002.172, da qual compartilho e peço vênia para transcrever determinados trechos: 1.3. As normas jurídicas que situam as permutas sem torna no campo da não incidência tributária. O enquadramento da permuta de ações sem torna entre as hipóteses de não incidência do IRPJ e da CSL, por não representar acréscimo patrimonial, pode ser verificada ao menos sob dois ângulos, analisados nos tópicos subsequentes deste voto: A equivalência jurídica das prestações mútuas no negócio jurídico típico da permuta, tal como prescrito pelo Direito privado, e as consequências tributárias daí decorrentes: ausência de base imponível para o IRPJ e a CSL; Fl. 1093DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.094 8 A tradicional concepção de permuta como hipótese de não incidência tributária do Direito tributário brasileiro: instruções normativas e soluções de consulta da Receita Federal, pareceres normativos da PGFN, jurisprudência do CARF e do Poder Judiciário. 2. A equivalência jurídica das prestações mútuas no negócio jurídico típico da permuta, tal como prescrito pelo Direito privado, e as consequências tributárias daí decorrentes: ausência de base imponível para o IRPJ e a CSL. (...) É essencial destacar que, no negócio jurídico de permuta sem torna, os contratantes concordam em trocar um bem ou direito por outro, assumindo que ambas as partes possuem considerações particulares que os fazem legitimamente desejar mais o bem/direito recebido do que o bem/direito entregue na permuta. Tais considerações subjetivas, muitas vezes de foro intimo, podem não ser economicamente aferíveis ou, ainda, apenas encontrar justificativa econômica a partir de eventos futuros, como com a destinação do bem em uma operação mais complexa, mostrandose essencial ao conjunto. Juridicamente, as prestações das partes permutantes são equivalentes. 2.2. Consequências para IRPJ e CSL da operação típica de permuta sem torna tal como tutelada pelo Direito privado: como são juridicamente equivalentes, na sistemática do lucro real, a receita decorrente da entrada do bem ou direito recebido é necessariamente neutralizada pelo sacrifício (custo ou despesa) correspondente ao bem ou direito dado em permuta. (...) É decisivo observar que o legislador ordinário tenha se mantido silente, sem jamais ter atribuído à operação típica de permuta sem torna (em geral, independentemente do bem ou direito permutado) consequências diversas àquelas que defluem do Direito privado. É inclusive desnecessário cogitar da aplicação do art. 110 do CTN18 ao presente caso, justamente por não ter o legislador tributário excepcionado qualquer conceito de Direito privado. Para fins tributários, mantémse incólumes a definição, o conteúdo e o alcance do instituto da permuta estabelecidos pelo Direito privado. (...) Se no Direito privado o contrato de permuta não requer a precificação ou atribuição de valor ao negócio jurídico realizado (os bens trocados compensamse, pois são juridicamente equivalentes), tampouco há no Direito tributário exigência para que o contribuinte inclua em seus contratos de permuta sem torna o valor dos bens dados e dos bens recebidos (como o de mercado, por exemplo). Fl. 1094DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.095 9 Assim, ao submeter a permuta sem torna à sistemática do lucro real, em que as receitas devem ser confrontadas com os sacrifícios necessários à sua obtenção (custos e as despesas), emerge como característica essencial desse negócio jurídico típico a ausência de base imponível de IRPJ e CSL. Como são juridicamente equivalentes, na sistemática do lucro real, a receita decorrente da entrada do bem ou direito recebido é necessariamente neutralizada pelo sacrifício (custo ou despesa) correspondente ao bem ou direito dado em permuta. Não há, assim, como se cogitar a existência de base de cálculo para o IRPJ ou a CSL em operações de permuta sem torna. É também por essa razão que a permuta sem torna está alocada nas hipóteses de não incidência do IRPJ e da CSL: conceitualmente, a base imponível será sempre “zero”. E, por óbvio, “zero” corresponde à ausência de “acréscimo patrimonial”, restando, portanto, impossibilitada o exercício de qualquer poder tributante da União para a cobrança de IRPJ e CSL, conforme se expos no tópico “2” deste voto. Em termos estritamente técnicos, é correto dizer que, com a concretização da permuta sem torna, a renda, enquanto acréscimo patrimonial, ainda não foi realizada. Não há realização do investimento com a permuta sem torna praticada pela ora Recorrente. Há, tão somente, troca patrimonial. A realização do investimento e a consequente tributação da renda se dará em momento posterior, conforme prescreve o Decretolei n. 1.598/77 (analisado mais detidamente no tópico “5”, abaixo). Por tais razões, dou provimento ao Recurso do Contribuinte também no presente ponto. RECURSO DA FAZENDA INAPLICABILIDADE DE JUROS SOBRE MULTA De acordo com o artigo 139 do CTN, o crédito tributário decorre da obrigação principal e, nos termos do artigo 113, parágrafo 1º do CTN, esta somente surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto o pagamento de tributo. Não há que se falar que, de acordo com o artigo 113, parágrafo 1º do CTN, a multa de ofício também faria parte da obrigação principal, uma vez que, primeiro, (i) referida norma trata das obrigações acessórias, ou seja, as decorrentes do não cumprimento de obrigações de fazer e (ii) já é unânime na doutrina e jurisprudência pátria que a penalidade pecuniária não se confunde com a obrigação principal, pois é decorrente de uma sanção pelo não pagamento do tributo (vide artigo 3º do CTN). Por outro lado, o artigo 161 do CTN prevê que o crédito não pago é acrescido de juros de mora, in verbis: “Artigo 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e Fl. 1095DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.096 10 da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária” É evidente que a palavra “crédito” sobre o qual incidem os juros de mora previstos no artigo 161 do CTN se refere apenas aos tributos devidos, caso contrário, não haveria razão alguma para a ressalva final constante do mesmo dispositivo, no sentido de que esta incidência de juros se dá “sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis”. Por seu turno, a Lei nº 9.430/96 igualmente prevê a incidência dos juros de mora apenas sobre o valor dos tributos, contribuições e multas isoladas, e não sobre as multas de ofício exigidas como acessório juntamente com o tributo eventualmente exigido, verbis: “Art. 61 – Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subsequente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do artigo 5º, a partir do primeiro dia do mês subsequente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento.” Se for entendido que a palavra “débitos” constante do caput do artigo 61 inclui principal e multa de ofício, terseia que admitir que as multas de ofício, quando não pagas no vencimento, sofreriam também o acréscimo de multa de mora. Mas quando o legislador intencionou que incidisse juros sobre a multa o fez expressamente. O art. 43 da mesma Lei 9.430/96 vem a reforçar a interpretação acima ao prever a incidência de juros de mora sobre as multas isoladas, verbis: “Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora isolada ou conjuntamente. Parágrafo único – Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subsequente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento”. Ora, se a expressão “débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições” constante no “caput” do artigo 61 contemplasse também multas, não haveria Fl. 1096DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.097 11 necessidade alguma da previsão do parágrafo único do artigo 43, uma vez que a incidência dos juros sobre a multa isolada, assim como a de ofício, já decorreria diretamente do artigo 61. Concluise, portanto, que, fora a hipótese dos juros serem cobrados a fim de indenizar o credor pelo não pagamento do tributo no prazo estipulado, qualquer outra incidência de juros seria abusiva e arbitrária, por ausência e, digase, contrariedade ao pressuposto legal vigente (CTN, artigos 3º, 113, 139, parágrafo 1º, e 161 do CTN). Admitirse tal cobrança implicaria enriquecimento ilícito do Erário, o qual estaria aplicando a incidência dos juros de mora à obrigação principal e à multa de ofício. Nesse contexto, voto por negar provimento ao Recurso da Fazenda Nacional e dar provimento ao Recurso do Contribuinte. (assinado digitalmente) Gerson Macedo Guerra Fl. 1097DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.098 12 Voto Vencedor Conselheiro André Mendes de Moura, Redator designado. Não obstante o substancioso voto o I. Relator, peço vênia para manifestar entendimento contrário em relação aos pontos: conhecimento da matéria "propósito negocial" do recurso especial da Contribuinte; mérito da matéria "ganho de capital na permuta sem torna entre bens de valores diferentes" do recurso especial da Contribuinte; e mérito da matéria "juros sobre mora" do recurso especial da PGFN. Passo ao exame. Admissibilidade da matéria "Propósito Negocial" do Recurso Especial da Contribuinte. Inicialmente, cumpre esclarecer que a autuação inserese no contexto de uma série de operações no qual se buscou o enquadramento da norma prevista no art. 428 do RIR/99: Não será computado na determinação do lucro real o acréscimo ou a diminuição do valor de patrimônio líquido de investimento, decorrente de ganho ou perda de capital por variação na percentagem de participação do contribuinte no capital social da coligada ou controlada (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, § 2º, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso V). Parágrafo único. Os resultados da avaliação dos investimentos no exterior, pelo método da equivalência patrimonial, decorrentes da variação no percentual de participação, no capital da investida, terão o tratamento previsto no art. 394 (Lei nº 9.249, de 1995, art. 25, § 6º). Tal dispositivo predica que, em caso de aumento de capital no investimento por parte de apenas um dos acionistas, não haja tributação dos resultados via Método de Equivalência Patrimonial (MEP). Isso porque, com o aumento de capital, por consequência ocorre o aumento do PL do investimento, e o aumento do PL do investimento repercute no MEP do investidor. Nesse sentido, estabelece a norma que tal acréscimo no MEP do investidor seja ajustado no Lucro Real, de modo a neutralizar o ganho: não será computado na determinação do lucro real o acréscimo (...) do valor de patrimônio líquido de investimento. Fl. 1098DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.099 13 Assim, em condições regulares no qual há um aporte de capital por parte de um dos investidores no investimento avaliado via MEP, a repercussão do aumento do PL do investimento no investidor será neutralizado mediante ajuste no Lucro Real. No caso concreto, o ponto de partida era o seguinte: A Contribuinte valeuse de uma terceira empresa (ELBA) para aumentar o capital do investimento, promovendo também uma reavaliação das ações. Com o aumento do capital, a participação dos investidores sofreu uma majoração. Na sequência, a ELBA incorporou a SELENIUM, promovendo a "realização" da reavaliação das ações. E as ações "reavaliadas" foram colocadas à venda no IPO, reduzindo o ganho de capital tributável. A acusação fiscal foi no sentido de que, na realidade, o que ocorreu foi uma "troca" das ações da SELENIUM pelas ações da ELBA. As ações da SELENIUM foram NP Neon Elba Selenium Visanet NP Neon Selenium Visanet NP Neon Elba Visanet Fl. 1099DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.100 14 "reavaliadas" (e como tal realização foi feita mediante interpretação da Contribuinte do art. 428 do RIR/99 não haveria ganho tributável), e posteriormente utilizadas para adquirir a ELBA. O negócio entabulado foi a aquisição de 18,93% da participação acionária da ELBA pelas empresas NP (Nova Paiol) e NEON (Contribuinte), por meio da alienação das ações da SELENIUM. E o ganho de capital apurado consiste na diferença entre o valor contábil das ações da SELENIUM e o valor pelo qual foram alienadas (ou utilizadas para adquirir a participação da ELBA, em uma permuta com torna). Por outro lado, aduziu a Contribuinte que a reavaliação das ações da SELENIUM enquadrarseia no contexto do art. 428 do RIR/99, e, por isso, quando ocorreu a permuta entre as ações da SELENIUM pelas ações da ELBA, tal fato teria ocorrido entre ações do mesmo valor, razão pela qual não haveria que se falar em ganho de capital. Tratase da situação analisada pela autuação fiscal. Ocorre que o paradigma apresentado (nº 10609.343) pela Contribuinte versa sobre eventos completamente diferentes. Em nenhum momento versa sobre a hipótese de incidência prevista no art.428 do RIR/99. Para ilustrar as operações societárias, em brevíssima síntese, tomase como referência o organograma na sequência. No caso, C (pessoas físicas) detinham participação societária. A IKPCPAR adquiriu quotas da CELUBA com ágio (registro em conta de Reserva de Capital), tendo o ágio NP Neon Selenium Visanet NP Neon Elba Visanet AS AÇÕES DA SELENIUM FORAM REAVALIADAS E UTILIZADAS PARA ADQUIRIR A ELBA ANTES DEPOIS CELPA CELUBA Cia Celulose C Fl. 1100DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.101 15 permanecido na CELUBA. Na CELPA, alguns dos sócios alienaram sua participação para a IKPCPAR. Seis dias depois, a CELPA incorporou a CELUBA. Posteriormente, ocorreu a cisão da CELPA, tendo parte do patrimônio sido vertido em dois destinos: os ativos da CELPA permaneceram com os sócios majoritários (IKPC PAR); para PARTICIPAÇÕES SÃO NICOLAU, no qual os sócios eram apenas os minoritários da CELPA, dentre os quais o autuado, que receberam uma contrapartida em moeda corrente. A acusação fiscal foi no sentido de que a retirada dos sócios minoritários, com o produto da venda das ações da CIA CELULOSE, prestouse a ocultar o ganho de capital. Ou seja, teria sido dissimulada a venda de quotas da CELUBA e CELPA e a venda de ações da CIA CELULOSE para a IKPCPAR. Transcrevo excerto do relatório do paradigma: Segundo o agente fiscais notificante, a alienação em causa decorre de evidente simulação de atos negociais, em que o ora RECORRENTE, como um dos participantes das sociedades CELPA PARTICIPAÇÕES LTDA. e CELUBA PARTICIPAÇÕES LTDA., que por sua vez tinham investimentos na CIA. DE CELULOSE DA BANIA, através de sucessivas alterações contratuais, junto com os demais sócios, promoveu aumentos de capital, incorporação da CELUBA pela CELPA e cisões das empresas, findando com a destinação de uma empresa para quotista fundador, com capital representado apenas por moeda corrente. Como se pode observar, em nenhum momento, o fundamento principal da autuação fiscal dos presentes autos, aduzido pela Contribuinte, de que teria ocorrido uma "reavaliação das ações" no contexto do art. 428 do RIR/99 e por isso a permuta entre ações teria sido do mesmo valor, não foi discutido no paradigma. Diante de situações que não se comunicam, tornase impossível efetuar o cotejo previsto no art. 67 do Anexo II do RICARF, entre o acórdão recorrido e o paradigma, para verificar se restou demonstrada divergência na interpretação da legislação tributária. Nesse sentido, voto para não conhecer do recurso especial da Contribuinte em relação à matéria "propósito negocial". Mérito da matéria "Ganho de Capital na Permuta sem Torna entre Bens com Valores Diferentes" do Recurso Especial da Contribuinte. Sobre o assunto, ganho de capital na permuta sem torna entre bens de valores diferentes, o presente Colegiado já se manifestou em outras ocasiões, nos Acórdãos nº 9101 002.172 e 9101002.445. Fl. 1101DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.102 16 Nesse contexto, peço vênia para adotar o voto do Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão (Acórdão nº 9101002.172), com profunda fundamentação, objetivo, claro, a seguir transcrito e que enfrenta com precisão os mesmos argumentos aduzidos pela recorrente nos presentes autos. A matéria posta à apreciação desta Câmara Superior referese à existência, ou não, de ganho de capital tributável, na hipótese de permuta de participações societárias em que o custo de aquisição do investimento recebido é o valor do investimento dado em troca; e o custo original do investimento dado (avaliado pelo MEP) é inferior ao valor do investimento recebido em troca. Sopesados todos os argumentos do Ac. recorrido, do r. especial e das contrarrazões, passo a decidir sobre o tema. Destaco, de início, que a decisão recorrida reconheceu, expressamente, que a operação em exame se tratou de permuta de participações societárias e não de compra e venda, como alternativamente defendia a fiscalização entendendo, porém, que, a essa permuta, se aplicaria a regra geral de tributação do ganho de capital eventualmente apurado na alienação. Friso, ainda, que a decisão recorrida também reconheceu, expressamente, que, na operação em exame, a recorrente recebeu valor superior ao entregue, questão, essa, que, por envolver matéria de prova, não é passível de reexame nos estreitos limites do recurso especial de divergência (efls. 3.056, grifei): Uma vez afastado o tratamento da permuta estabelecido na IN 107/88 ao presente caso, temos que observar a operação de alienação do investimento em LA como qualquer outra alienação. Ora, alienação é gênero do qual compra e venda, doação, permuta etc. são espécies. Logo, observase do dispositivo acima transcrito que o custo será o valor contabilizado do investimento em LA (R$ 1.004.999.278,39), logo, tendo a recorrente recebido em permuta o investimento em Chamflora, contabilizado por R$ 2.850.838.707,48, resultou em um ganho de capital no montante de R$ 1.845.839.429,09. Assim, não se trata, apenas, de ser cabível, ou não, a apuração de ganho de capital tributável na hipótese de permuta de participações societárias, mas de ser cabível, ou não, essa apuração, quando ocorre recebimento de valor superior ao entregue – o que evidentemente enseja a tributação pelo ganho de capital. Porém, mesmo se assim não fosse, há que se apurar ganho de capital quando há alienação na permuta pura e simples, se as condições próprias ocorrerem, pois a permuta é uma forma de alienação do bem permutado e quando o bem recebido em troca tem um valor a ser contabilizado maior que o valor registrado do bem permutado, há que ser reconhecido o ganho de capital e devidamente tributado, conforme se demonstra a seguir. O tratamento legal da matéria corresponde à incidência da legislação que impõe apuração de ganho de capital tributável na alienação de ativos, e a base do ganho é a diferença entre o valor da alienação (o quanto de fato representa o bem alienado que corresponde ao valor do bem recebido) e o seu custo de aquisição (há diversos dispositivos que tratam da forma como se apura a base de cálculo, não citados). Ou seja, a variação patrimonial na forma prevista no art. 43 do CTN deve ser quantificada e deve ser pago o correspondente imposto de renda. Não Fl. 1102DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.103 17 há dúvida que na permuta há alienação do bem que está na propriedade do permutante – o que traz a incidência das normas de regência. Vejase que nesses casos a base da tributação é, grosso modo, a diferença entre o valor registrado do bem objeto de alienação e o custo de aquisição do investimento recebido. Para demonstrar que essa é a mens legis genérica da legislação do Imposto de Renda, transcrevese abaixo os dispositivos do RIR/1999 (que tem por fundamento diversos dispositivos legais) que tratam do tema aplicáveis às alienações e ganho de capital de pessoas físicas ou jurídicas (negritouse o dispositivo aplicável ao caso concreto em exame): Art. 117. Está sujeita ao pagamento do imposto de que trata este Título a pessoa física que auferir ganhos de capital na alienação de bens ou direitos de qualquer natureza (Lei nº 7.713, de 1988, arts. 2º e 3º, § 2º, e Lei nº 8.981, de 1995, art. 21). § 1º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, ao ganho de capital auferido em operações com ouro não considerado ativo financeiro (Lei nº 7.766, de 1989, art. 13, parágrafo único). § 2º Os ganhos serão apurados no mês em que forem auferidos e tributados em separado, não integrando a base de cálculo do imposto na declaração de rendimentos, e o valor do imposto pago não poderá ser deduzido do devido na declaração (Lei nº 8.134, de 1990, art. 18, § 2º, e Lei nº 8.981, de 1995, art. 21, § 2º). § 3º O ganho de capital auferido por residente ou domiciliado no exterior será apurado e tributado de acordo com as regras aplicáveis aos residentes no País (Lei nº 9.249, de 1995, art. 18). § 4º Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua aquisição, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins (Lei nº 7.713, de 1988, art. 3º, § 3º). (Negritouse) ... Apuração do Ganho de Capital Art. 138. O ganho de capital será determinado pela diferença positiva, entre o valor de alienação e o custo de aquisição, apurado nos termos dos arts. 123 a 137 (Lei nº 7.713, de 1988, art. 3º, § 2º, Lei nº 8.383, de 1991, art. 2º, § 7º, e Lei nº 9.249, de 1995, art. 17). Parágrafo único. No caso de permuta com recebimento de torna em dinheiro, o ganho de capital será obtido da seguinte forma: (Negritouse) [...] Fl. 1103DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.104 18 Vejase que o parágrafo único do art. 138 acima traz os detalhes no caso de permuta com recebimento de torna em dinheiro. Mas vejase, a tributação continua sendo a diferença valor de alienação e o custo de aquisição, no caso de torna há apenas um tratamento diferenciado. E: Art. 225. Os ganhos de capital, demais receitas e os resultados positivos decorrentes de receitas não abrangidas pelo artigo anterior, serão acrescidos à base de cálculo de que trata esta Subseção, para efeito de incidência do imposto (Lei nº 8.981, de 1995, art. 32, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 2º). § 1º O disposto neste artigo não se aplica aos rendimentos tributados pertinentes às aplicações financeiras de renda fixa e renda variável, bem como aos lucros, dividendos ou resultado positivo decorrente da avaliação de investimento pela equivalência patrimonial (Lei nº 8.981, de 1995, art. 32, § 1º, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 2º). § 2º O ganho de capital, nas alienações de bens do ativo permanente e de aplicações em ouro não tributadas como renda variável, corresponderá à diferença positiva verificada entre o valor da alienação e o respectivo valor contábil (Lei nº 8.981, de 1995, art. 32, § 2º, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 2º). ... Art. 418. Serão classificados como ganhos ou perdas de capital, e computados na determinação do lucro real, os resultados na alienação, na desapropriação, na baixa por perecimento, extinção, desgaste, obsolescência ou exaustão, ou na liquidação de bens do ativo permanente (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 31). § 1º Ressalvadas as disposições especiais, a determinação do ganho ou perda de capital terá por base o valor contábil do bem, assim entendido o que estiver registrado na escrituração do contribuinte e diminuído, se for o caso, da depreciação, amortização ou exaustão acumulada (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 31, § 1º). (Negritouse dispositivo citado do TFV) [...] Art. 521. Os ganhos de capital, os rendimentos e ganhos líquidos auferidos em aplicações financeiras, as demais receitas e os resultados positivos decorrentes de receitas não abrangidas pelo art. 519, serão acrescidos à base de cálculo de que trata este Subtítulo, para efeito de incidência do imposto e do adicional, observado o disposto nos arts. 239 e 240 e no § 3º do art. 243, quando for o caso (Lei nº 9.430, de 1996, art. 25, inciso II). § 1º O ganho de capital nas alienações de bens do ativo permanente e de aplicações em ouro não tributadas como renda variável corresponderá à diferença positiva verificada entre o valor da alienação e o respectivo valor contábil. Fl. 1104DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.105 19 Assim, a regra geral é a tributação nos casos de permuta, espécie do gênero alienação. Porém há casos que não se tributa. E por que não tributa? Por que a legislação entendeu que se trata de não incidência, ou criou uma ficção jurídica que implica este efeito (além dos casos de isenção, onde há incidência mas não há tributação). Vejase que, conforme consolidado nos § 1º do art. 137 e os §§ 1º, 2º e 4º do art. 431 do RIR (aplicáveis às pessoas físicas e às jurídicas respectivamente, no âmbito do PND) – não se tributa porque há uma ficção jurídica no sentido de que os bens permutados (os dados e os recebidos), nos casos ali previstos, têm idêntico custo ou valor (ainda que contabilmente não os tenha) – o que, por óbvio, não gera ganho de capital. A Lei aqui criou uma exceção e não pode ser de forma alguma ser entendida como norma interpretativa, como alega a recorrente. Como reforço do argumento, as normas referentes às exceções à tributação na permuta sem torna, tidas como não incidência (não incluídas as isenções), seguem transcritas abaixo (incluem os casos de permuta em sede do PND e os casos de permuta de bens imóveis): Art. 121. Na determinação do ganho de capital, serão excluídas (Lei nº 7.713, de 1988, art. 22, inciso III): I as transferências causa mortis e as doações em adiantamento da legítima, observado o disposto no art. 119; II a permuta exclusivamente de unidades imobiliárias, objeto de escritura pública, sem recebimento de parcela complementar em dinheiro, denominada torna, exceto no caso de imóvel rural com benfeitorias. (Negritouse) § 1º Equiparamse a permuta as operações quitadas de compra e venda de terreno, seguidas de confissão de dívida e escritura pública de dação em pagamento de unidades imobiliárias construídas ou a construir. (Negritouse) ... Art. 137. Terá o tratamento de permuta a entrega, pelo licitante vencedor, de títulos da dívida pública federal ou de outros créditos contra a União, como contrapartida à aquisição das ações ou quotas leiloadas no âmbito do Programa Nacional de Desestatização (Lei nº 8.383, de 1991, art. 65). (Negritouse) § 1º Será considerado como custo de aquisição das ações ou quotas da empresa privatizável o custo de aquisição dos direitos contra a União, atualizado monetariamente até 31 de dezembro de 1995 (Lei nº 8.383, de 1991, art. 65, § 1º, e Lei nº 9.249, de 1995, art. 17, inciso I). § 2º O disposto neste artigo aplicase, também, nos casos de entrega, pelo licitante vencedor, de títulos da dívida pública do Estado, do Distrito Federal ou do Município, como contrapartida à aquisição de ações ou quotas de empresa sob controle direto ou indireto das referidas pessoas jurídicas de direito público, nos casos de desestatização por elas promovidas (Medida Provisória nº 1.74937, de 1999, art. 2º). ... Fl. 1105DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.106 20 Art. 431. Terá o tratamento de permuta a entrega, pelo licitante vencedor, de títulos da dívida pública federal ou de outros créditos contra a União, como contrapartida à aquisição das ações ou quotas leiloadas no âmbito do Programa Nacional de Desestatização (Lei nº 8.383, de 1991, art. 65). (Negritouse) § 1º O custo de aquisição das ações ou quotas leiloadas será igual ao valor contábil dos títulos ou créditos entregues pelo adquirente na data da operação (Lei nº 8.383, de 1991, art. 65, § 3º). Art. 763. Terá o tratamento de permuta a entrega, pelo licitante vencedor, de títulos da dívida pública federal ou de outros créditos contra a União, como contrapartida à aquisição das ações ou quotas leiloadas no âmbito do Programa Nacional de Desestatização PND (Lei nº 8.383, de 1991, art. 65). (Negritouse) § 1º Considerase como custo de aquisição das ações ou quotas da empresa privatizável o custo de aquisição dos direitos contra a União, no caso de pessoa física ou jurídica não tributada com base no lucro real, inclusive isenta, atualizado até 31 de dezembro de 1995, quando for o caso (Lei nº 8.383, de 1991, art. 65, §§ 1º e 2º, e Lei nº 9.249, de 1995, art. 17, inciso II). § 2º No caso de pessoa jurídica tributada com base no lucro real, o custo de aquisição das ações ou quotas leiloadas será igual ao valor contábil dos títulos ou créditos entregues pelo adquirente na data da operação (Lei nº 8.383, de 1991, art. 65, § 3º). § 3º O disposto no parágrafo anterior aplicase, também, a fundo ou sociedade de investimento. As normas do RIR/1999 transcritas imediatamente acima são exceções à regra geral de tributação na permuta – incabível no bom uso da técnica hermenêutica entenderse de modo diverso. Assim, da mera leitura e análise dos dispositivos legais acima reproduzidos transparece de forma cristalina que havendo alienação de ativo, e no caso presente houve, pois a empresa se desfez do ativo (via permuta), há que se apurar o ganho de capital correspondente à diferença entre o valor contábil do ativo que foi transferido e o valor do novo ativo que foi adquirido por permuta. Porém, cumpre trazer à tona e discutir os diversos argumentos trazidos pela recorrente e nas contrarrazões da Fazenda. Como segue. Sustenta a recorrente, em suma, “que o negócio jurídico de permuta não acarreta acréscimo patrimonial aos permutantes, ou, em outras palavras, não implica a realização da renda que autorize a exigência fiscal, tendo em vista tratarse de mera troca (substituição) de um bem por outro bem, não havendo que se falar, portanto, em ganho de capital” (efls. 3.107). Afirma, ainda, que se estaria diante de um princípio geral do direito tributário, e um específico ao imposto de renda, e que as permutas (res por Fl. 1106DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.107 21 res, e não res por pretium), em qualquer situação, estariam fora do campo de incidência do imposto de renda, não dependendo de expressa disposição legal. Temse que a operação de compra e venda corresponde à de permuta, dela se diferenciando apenas pelo fato de que se troca um bem por moeda (que não deixa de ser também um bem), e não por outro bem. Da mesma forma, a operação de permuta equivale a duas operações de compra e venda, nas quais a quantia em moeda, obtida na primeira operação, é convertida em bens na segunda, ambas com o mesmo contratante. Não por outro motivo, a Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Novo Código Civil), em seu art. 533, ao tratar da “troca ou permuta”, assim dispõe: Da Troca ou Permuta Art. 533. Aplicamse à troca as disposições referentes à compra e venda, com as seguintes modificações: I salvo disposição em contrário, cada um dos contratantes pagará por metade as despesas com o instrumento da troca; II é anulável a troca de valores desiguais entre ascendentes e descendentes, sem consentimento dos outros descendentes e do cônjuge do alienante. Por esse dispositivo legal fica clara a possibilidade de a “troca ou permuta” ter por objeto bens de valores desiguais, o que, por si só, não a descaracteriza como tal. Vejase que, no caso de permuta de um bem por pessoa jurídica que recebe, em troca, outro bem do mesmo valor, não há diferença de valores a registrar: o novo bem ingressa no patrimônio da empresa com valor igual ao do bem substituído (o valor contábil do bem que transferido é exatamente é igual ao valor do bem adquirido). Portanto, nessa situação, não ocorre, na permuta, nenhum ganho patrimonial a ser tributado. Mas este não é o caso dos autos. Assim, não é correto dizer — como a recorrente — que “não há qualquer alteração na situação patrimonial do contribuinte que troca um bem por outro” (efls. 3.115). Tal assertiva somente é verdadeira — como bem afirmado pelo Acórdão nº 10808.358, de 2005, por ela mesma transcrito e destacado (efls. 3.114 e 3.115) — quando houver “a mera troca de bens de valor equivalente” (o valor contábil do bem que transferido é exatamente é igual ao valor do bem adquirido), o que não é o presente caso. Cumpre, nesse ponto, ressaltar que, em se tratando de contribuinte pessoa física, o tratamento tributário pode ser diverso do contribuinte pessoa jurídica, já que, para a pessoa física é aplicado o regime de caixa — “à medida que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos” (art. 2º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988) —, e, para pessoa jurídica este, o de competência — “à medida em que os rendimentos, ganhos e lucros forem sendo auferidos” (art. 25 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995). Ou seja, àquele, exige se, para efeito de tributação, a realização financeira do rendimento ou ganho de capital e, a este, não – embora haja exceções a esses regimes. Fl. 1107DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.108 22 Assim, não procede a transcrição e a juntada, pela recorrente, de arestos do CARF e da CSRF que se limitam a analisar a questão unicamente sob o enfoque da pessoa física ou, ainda, a citação de legislação apenas a ela — pessoa física — pertinente. É o caso, por exemplo, dos arts. 121, inciso II, e §§ 1º e 2º; 123, § 3º; 128, §§ 4º e 5º; e 138, parágrafo único; todos do Regulamento do Imposto de Renda RIR/1999 (Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999), específicos às pessoas físicas, e que no caso do inciso II, remete à situações especificas de não incidência. Mas vejase que, no nosso entendimento, mesmo as pessoas físicas estão sujeitas à tributação no ganho de capital nestes casos, exceto se houver previsão legal específica desonerando a tributação. É caso, por exemplo, da transmissão causa mortis em que o herdeiro após o encerramento da sucessão coloca em sua Declaração do Imposto de Renda Pessoa Física o valor do imóvel herdado pelo valor de mercado (base de cálculo do ITCD, de competência estadual), superior ao custo histórico que consta na última declaração do de cujus (ou do espólio conforme o caso) – em que há tributação pelo ganho de capital, embora o herdeiro não esteja realizando o bem recebido. É o que dispõe a Instrução Normativa SRF nº 84, de 11 de outubro de 2001, em seu art. 3º, inciso I, in verbis: Art. 3o Estão sujeitas à apuração de ganho de capital as operações que importem: ... II transferência a herdeiros e legatários na sucessão causa mortis, a donatários na doação, inclusive em adiantamento da legítima, ou atribuição a excônjuge ou exconvivente, na dissolução da sociedade conjugal ou união estável, de direito de propriedade de bens e direitos adquiridos por valor superior àquele pelo qual constavam na Declaração de Ajuste Anual do de cujus, do doador, do excônjuge ou exconvivente que os tenha transferido. Prosseguindo, não só no âmbito civil, mas também no tributário, há estreita correlação entre a “alienação” e a “permuta”. Que a “permuta” é uma modalidade de “alienação”, aliás, tratase de fato incontroverso, admitido explicitamente pelos próprios acórdãos paradigmas apontados pela recorrente (efls. 3.113). Observase, por outro lado, que, em se tratando especificamente de pessoa jurídica, mesmo em situações em que o acréscimo ou ganho patrimonial não é considerado efetivamente realizado, há necessidade de expressa disposição legal para que se possa excluir da incidência do imposto de renda esse acréscimo ou ganho patrimonial. É o que se nota, por exemplo, no caso da equivalência patrimonial, da reavaliação de bens, do lucro inflacionário acumulado até 31/12/1995 (quando vigente), etc. A própria recorrente reconhece esse fato, ao afirmar que (efls. 3.131, grifos do original): [...], além do art. 65 da Lei nº 8.383, existem na legislação ordinária do imposto de renda diversas disposições legais que disciplinam a neutralização de efeitos de lançamentos contábeis que refletem rendas meramente potenciais, não realizadas, como as pertinentes às reavaliações de ativos, a deságios no método da equivalência patrimonial (aplicável ao caso dos autos), a Fl. 1108DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.109 23 mais valia na conferência de bens para integralização de capital subscrito por uma pessoa jurídica, os ajustes a valor justo, e outras. Nessa linha de raciocínio, somente se poderia considerar, como não tributável pelo imposto de renda, o acréscimo ou ganho patrimonial oriundo de operação de permuta se, também, houvesse, da mesma forma, expressa disposição legal excluindo a incidência daquele imposto, atento, ainda, ao fato de que essa incidência se dá independentemente da origem e da forma de percepção da receita ou do rendimento (pretium ou res) [art. 43, § 1º, do Código Tributário Nacional – CTN (Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966)]. E, no caso, até existem disposições legais e normativas nesse sentido, mas que regulam situações muito específicas — permuta de unidades imobiliárias e permuta de títulos ou créditos contra a União por ações ou quotas leiloadas no âmbito do Programa Nacional de Desestatização —, não alcançando o caso objeto deste processo (participações societárias), como segue: Instrução Normativa SRF nº 107, de 14 de julho de 1988: Operações de Permuta 2. Permuta Entre Pessoas Jurídicas: 2.1 – Na permuta entre pessoas jurídicas, tendo por objeto unidades imobiliárias prontas, serão observadas as normas constantes das divisões do presente subitem. 2.1.1 – No caso de permuta sem pagamento de torna, as permutantes não terão resultado a apurar, uma vez que cada pessoa jurídica atribuirá ao bem que receber o mesmo valor contábil do bem baixado em sua escrituração. (Negritouse). [...]. RIR/1999: Art. 431. Terá o tratamento de permuta a entrega, pelo licitante vencedor, de títulos da dívida pública federal ou de outros créditos contra a União, como contrapartida à aquisição das ações ou quotas leiloadas no âmbito do Programa Nacional de Desestatização (Lei nº 8.383, de 1991, art. 65). § 1º O custo de aquisição das ações ou quotas leiloadas será igual ao valor contábil dos títulos ou créditos entregues pelo adquirente na data da operação (Lei nº 8.383, de 1991, art. 65, § 3º). (Negritouse). Afora essas situações taxativamente previstas — às quais, se não existissem, obviamente obrigariam à apuração de ganho de capital tributável também nesses casos —, não é admissível que se pretenda imputar ao valor das participações societárias recebidas (R$ 2,85 bilhões, no presente caso) o mesmo valor das participações societárias entregues em permuta (R$ 1 bilhão, no presente caso). Fl. 1109DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.110 24 Por outro lado, temse que a referida IN SRF nº 107/88, na parte que trata das pessoas jurídicas, só se aplica a permuta com bens imóveis – sendo, portanto, inaplicável ao presente caso, e da mesma forma o art. 431 do RIR, que remete às operações no âmbito do PND (voltaremos a este tema adiante). Quaisquer questionamentos em contrário teriam caráter meramente teórico e acadêmico, em face da imprevisão legislativa, não podendo, portanto, ser admitidos como válidos. Reportandome ao Acórdão recorrido, faço adesão aos seus argumentos no que respeita à tributação do ganho de capital, exceto no que respeita à ilegalidade da IN SRF 107/88 e à questão do cálculo do deságio (conforme também alegado pelo recorrente), que entendo serem questões despiciendas no presente estado do processo e cuja discussão não afetaria os argumentos que estou a expor. Em seu recurso a recorrente insiste que ao art. 65 da Lei nº 8.383/1991 embora seja específico para o PND seria uma espécie de norma “didática”. Porém entendo que ela não se presta a isto, simplesmente porque o caput do art. 65 só tem aplicação no sentido de desonerar as permutas (ou os atos equiparados pelo caput) por conta de que cria uma ficção de equivalência de custo e valor de aquisição, o que importa em inexistência de ganho de capital, a teor do §§ do art. 65 – sendo neste sentido, norma excepcionalíssima. Outro argumento trazido no recurso é que “na permuta sem torna não há sacrifício do ativo” concluindo que “o custo do bem adquirido na permuta é tão somente o custo do bem que foi dado no negócio.” (fl. 11 do recurso). Com a devida vênia, tratase de uma confusão de conceitos. Primeiramente, há sim sacrifício do ativo, pois o ativo (real) é alienado – e há que se fazer os competentes ajustes contábeis – que podem ter, sim, repercussão tributária (sacrifício não é perda do ativo). O que se tem é o custo contábil do ativo alienado, conforme regulado na contabilidade, em confrontação com o valor do ativo adquirido (seu custo de aquisição), e disto resulta uma diferença – é sobre esta diferença que se está a discutir. Adiante, à fl. 13 do recurso, o recorrente invoca o argumento da realização da renda, e da capacidade contributiva, sustentando que a renda “antes de esta estar disponível, não ocorre o fato gerador porque o possível contribuinte ainda não tem capacidade contributiva.” E conclui: “ Em outras palavras, o fisco não pode receber sua parte da renda, representada pelo tributo sobre esta, antes de haver a renda e esta estar na disponibilidade do contribuinte.” Ora, também não se pode aceitar esse argumento, isto porque capacidade contributiva não se confunde com disponibilidade financeira. Assim ocorrendo o fato gerador (o ganho de capital) o tributo passa ser devido pelo lançamento, não fosse assim, em outra situação, e.g., vendas a prazo se não recebidas à época do fechamento do período de apuração, não poderiam ser computadas na base de cálculo – a questão é de regime de competência de não de capacidade contributiva – pois esta surge em decorrência do ganho de capital apurado. O recorrente cita consistemente os Pareceres PGFN/PGA nº 970/1991 e PGFN/PGA nº 454/1992, buscando neles os fundamentos de seu recurso. Acerca dessa matéria, urge mencionar o Parecer PGFN/CAT nº 1.722, de 9 de setembro de 2013, do qual transcrevo os seguintes excertos: PARECER/PGFN/CAT/Nº 1722 /2013 Fl. 1110DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.111 25 Ausência de hipóteses que justifiquem sigilo – LAI – art. 6º, inciso I, e arts. 23 e 24 da Lei nº 12.527, de 18.11.2011. Decreto nº 7.724, de 16.5.2012. Imposto Sobre a Renda. Permuta. Tributação do ganho de capital existente em operação de permuta de ativos mobiliários. Abrangência do Parecer PGFN/PGA nº 970/91. Consulta Interna nº 1, de julho de 2013. I Tratase de consulta Interna, na qual foi solicitado tratamento prioritário nos termos do art. 34, caput e § 2º da Portaria PGFN nº 1.267, de 6 de dezembro de 2010, proveniente da Divisão Nacional de Acompanhamento Especial Judicial e Estratégia de Defesa (DIAEJ) da Coordenação de Consultoria Judicial (COJUD) da CoordenaçãoGeral da Representação Judicial da Fazenda Nacional, acerca da tributação do ganho de capital existente em operação de permuta de ativos mobiliários, bem como da abrangência do Parecer PGFN/PGA/Nº 970/91. [...]. 7. Ainda observase na consulta a fundamentação legal e item concernente à solução proposta pela consulente. Essa última parte será abordada ao longo do presente parecer, eis que a bem lançada argumentação1 da referida solução foi considerada a mais adequada ao caso de que se cuida. É o relatório. II 8. Prefacialmente devese perquirir o contexto e o alcance do quanto defendido no Parecer PGFN/PGA/Nº 970/91 para, então, passarse à análise da legislação que rege as operações objeto da consulta. [...]. [...]. 16. Abarcamos a proposta da DIAEJ na sua totalidade. O Parecer PGFN/PGA/Nº 970/91 se prestou especificamente para as finalidades delineadas no PND e não pode servir como substrato para quaisquer operações que não as precisamente realizadas naquele âmbito. III 17. Uma vez delineado o alcance do Parecer PGFN/PGA/Nº 970/91, passamos a analisar a legislação atinente à permuta e suas consequências tributárias. Desde logo, ressaltamos que a permuta a ser examinada é referente a bens móveis, visto que à 1 A consulta e a bem argumentada solução que aqui se faz menção foram elaboradas pela Procuradora da Fazenda Nacional Dra. Renata Fernandes Barroso. Fl. 1111DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.112 26 troca2 de imóveis é dispensado tratamento específico3, mas não se pode dizer o mesmo no que concerne à permuta de valores mobiliários. (Negritos no original). [...]. 30. E prossegue a solução de consulta da DIAEJ: “Assim, não parece haver diferença, em especial diante do que determina o art. 3º, § 3º, da Lei nº 7.713/88, entre uma alienação feita por meio de compra e venda e aquela feita por meio de permuta, pois em ambos os casos X alienou ‘Alfa’, mas na compra e venda recebeu em pagamento R$ 100,00 (valor que X poderia em seguida usar para comprar o bem ‘Beta’, fato que não lhe retiraria a obrigatoriedade de apurar o ganho de capital decorrente da alienação), e na permuta recebeu em pagamento diretamente o bem ‘Beta’, que vale os mesmos R$ 100,00, valor igualmente superior ao valor de aquisição do bem alienado, mas que X já quis darlhe destinação específica. A destinação dada ao valor recebido pelo bem alienado não retira a natureza de alienação da operação, conforme o próprio conceito amplo utilizado pelo art. 3º, § 3º, da Lei nº 7.713/88. Há alienação (X deixa de possuir ‘Alfa’), há disponibilidade econômica ou jurídica (conforme exige o art. 43 do CTN) e há ganho de capital nas duas situações, a única diferença é que, na permuta, o alienante já usa a sua disponibilidade para adquirir outro bem dentro da mesma operação.” (Destaques no original). 31. Não restam dúvidas de que a operação de permuta de bens mobiliários está sujeita a apuração do ganho de capital. No caso concreto relatado na consulta de permuta realizada por meio de OPA de cancelamento de registro, uma ação da empresa que estava sendo cancelada foi avaliada como correspondendo a 0,9 do BDR da outra empresa. Logo, se o valor da ação que foi alienada é superior ao valor pelo qual ela foi adquirida há evidente ganho de capital, correspondente à diferença entre o valor da transação e o custo de aquisição. O 2 O Código Civil usa a palavra troca em vez de permuta, muito embora o título do capítulo correspondente faça referência a “troca ou permuta”, como se pode verificar nos termos do art. 533, verbis: “Art. 533. Aplicamse à troca as disposições referentes à compra e venda, com as seguintes modificações: I salvo disposição em contrário, cada um dos contratantes pagará por metade as despesas com o instrumento da troca; II é anulável a troca de valores desiguais entre ascendentes e descendentes, sem consentimento dos outros descendentes e do cônjuge do alienante.” 3 De acordo com a pergunta nº 582, do documento “Perguntas e Respostas”, disponível no site da Secretaria da Receita Federal do Brasil (www.receita.fazenda.gov.br), “para efeitos tributários, considerase permuta toda e qualquer operação que tenha por objeto a troca de uma ou mais unidades imobiliárias, prontas ou a construir, por outra ou outras unidades imobiliárias, ainda que ocorra, por parte de um dos proprietárioscontratantes, o pagamento de parcela complementar, em dinheiro, comumente denominada torna. A expressão ‘unidade imobiliária ou unidades imobiliárias prontas ou a construir’, compreende: a) o terreno adquirido para venda, com ou sem construção; b) cada lote oriundo de desmembramento de terreno; c) cada terreno decorrente de loteamento; d) cada unidade distinta resultante de incorporação imobiliária; e) o prédio construído para venda como unidade isolada ou autônoma; f) cada casa ou apartamento construído ou a construir. É necessário que a escritura, quando lavrada, seja de permuta. (...).” (destacamos) Fl. 1112DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.113 27 mesmo ocorrendo se em lugar de permuta as ações fossem leiloadas na OPA em troca de numerário e esse numerário fosse aplicado na aquisição dos BDRs da outra empresa. (Negritouse e sublinhouse). [...]. IV 39. Em conclusão, e respondendo objetivamente aos quesitos formulados na presente consulta, temos que: 39.1. o entendimento consubstanciado no Parecer PGFN/PGA/Nº 970/91 restringese ao âmbito do PND, não podendo ser estendido a situações outras que não aquelas especificamente tratadas no referido opinativo: 39.1.1. é possível tributar pelo imposto sobre a renda a diferença positiva, via ganho de capital, existente entre o custo de aquisição e o valor dos bens mobiliários permutados no momento em que é feita tal operação, independentemente da existência de torna; 39.1.2. é correto o entendimento de que a permuta, por encontrarse no conceito de alienação, previsto no art. 3º da Lei nº 7.713, de 1988, via de regra é tributada, não tendo as desonerações previstas na legislação, como a tratada no art. 121, II, do RIR/99 (permuta de imóveis), o condão de serem aplicadas para situações diversas daquelas especificamente ali disciplinadas; 39.1.3. a determinação de que a apuração do ganho de capital recairá apenas sobre a torna, nos termos do § 2º do art. 121, do § 3º do art. 123 e do inciso III do parágrafo único do art. 138, todos os RIR/99, aplicase exclusivamente às permutas de ativos imobiliários. O mencionado Parecer PGFN/CAT nº 1.722, de 2013, foi devidamente aprovado por despacho do Ministro da Fazenda de 29/05/2015, publicado no DOU de 01/06/2015, S. 1, p. 24, e vincula o CARF, sendo de observância obrigatória por parte de seus Conselheiros, conforme disposto nos arts. 13 e 42 da Lei Complementar nº 73 de 10 de fevereiro de 1993. O despacho de aprovação tem o seguinte teor: Processo: Registro PGFN Nº 4724/2013 Assunto: Imposto Sobre a Renda. Permuta. Tributação do ganho de capital existente em operações de permuta de ativos mobiliários. Abrangência do Parecer PGFN/PGA nº 970/1991. Despacho: Aprovo o Parecer PGFN/CAT/Nº 1722/2013, de 09 de setembro de 2013, que versa sobre a tributação do ganho de Fl. 1113DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.114 28 capital existente em operações de permuta de ativos mobiliários, e sobre a abrangência do Parecer PGFN/PGA/Nº 970/1991. JOAQUIM VIEIRA FERREIRA LEVY Isto é importante porque a linha dos argumentos do recorrente é centrada nos pareceres PGFN/PGA/ nº 970/1991 e PGFN/PGA/ nº 454/1992 (especialmente este último), sendo que o Parecer PGFN/PGA/ nº 970/1991 trata de “alienações, mediante permuta de ações no âmbito do Programa nacional de desestatizações” e o Parecer PGFN/PGA/ nº454/1992, posterior, veio esclarecer os efeitos decorrentes do art. 65 da Lei nº 8.383, de 30/12/1991, posterior ao 1º Parecer, que deu “tratamento de permuta a entrega, pelo licitante vencedor, de títulos da dívida pública federal ou outros créditos contra a União”, ou seja o segundo Parecer apenas esclareceu a aplicação do primeiro em relação a uma situação específica, já regulada por Lei. Assim, em que pesem os argumentos expendidos nos pareceres 970/1991 e 454/1992, eles têm aplicação restritas às matérias que analisaram (concluindo pela não tributação naqueles casos específicos no âmbito do PND). Por outro lado, o Parecer PGFN/CAT nº 1.722, de 2013, utiliza fartamente argumentos contrários aos utilizados nos pareceres PGFN/PGA/ nº 970/1991 e PGFN/PGA/ nº454/1992. Em resumo, o Parecer PGFN/CAT nº 1.722, de 2013, afasta a extensão daqueles dois aos demais casos, em geral, e fixa outro entendimento – o de que há sim tributação na permuta de ativos quando há ganho de capital (permutas no âmbito do programa de desestatização e permuta de imóveis, são casos especiais de não tributação expressamente previstos na legislação). Contudo de sua leitura não fica claro se se refere a operações específicas relacionadas a investidores estrangeiros e a pessoas físicas no caso do âmbito interno, em virtude da legislação que lhe dá supedâneo, ou se se suas conclusões são extensíveis a pessoas jurídicas (que constam da fundamentação), e por este motivo deixo de utilizálo como fundamento obrigatório de minha decisão, o que poria fim de forma irrefutável à questão. Embora, devase ressaltar, minhas conclusões se alinham perfeitamente com aquelas do PGFN/CAT nº 1.722/2013, que, pela forma como trata do assunto indubitavelmente reforma os fundamentos do entendimento dos PGFN/PGA/ nº 970/1991 e PGFN/PGA/ nº 454/1992 (uma das bases principais do argumento do recorrente), sendo que esses permanecem válidos única e exclusivamente aos casos a que expressamente se referem. Rememoro ainda o entendimento expendido pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, que, de há bastante tempo, assim se pronunciou a esse respeito, por meio do Parecer Normativo CST nº 504, de 3 de agosto de 1971 (DOU de 27/8/1971), referenciado pela própria recorrente (efls. 3.139): 1. Sociedade mercantil formula consulta, igualmente subscrita por pessoas naturais, acerca da tributação incidente na permuta que entre si pretendem realizar, envolvendo ações representativas do capital de empresas outras, tomadas pelo seu valor nominal. [...]. 3. Também a pessoa jurídica que permutar ações por outras de valor equivalente ao de aquisição das cedidas, por consequência, não alterando quantitativamente o patrimônio social, não estará sujeita à imposição de tributo. Fl. 1114DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.115 29 4. Todavia, se resultar lucro para a pessoa jurídica na alienação de ações, quer esta se faça sob a forma de venda, troca por bens de outra natureza ou permuta por outras ações, será ele necessariamente computado no resultado do exercício para fins de tributação. 5. Ressaltese, ainda, quanto à incidência na pessoa jurídica, não ser o valor nominal das ações negociadas a base de apuração do resultado na transação, e sim o valor da aquisição das por ela cedidas, em confronto com o atribuído às que receba na permuta, observandose, em qualquer caso, as disposições das alíneas “a” e “b” do art. 251 [incisos I e II do art. 464], e, na hipótese de prejuízo, as normas dos arts. 192 e 193 [art. 393] do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto nº 58.400, de 10/05/66) [(Decreto nº 3.000, de 26/03/99)]. Portanto, voto no sentido de negar provimento ao recurso especial da Contribuinte em relação à matéria. Mérito da matéria "Juros sobre Multa" do Recurso Especial da PGFN. Sobre o assunto, juros de mora sobre multa de oficio, vale transcrever, inicialmente, o artigo 113, do CTN, que predica que o objeto da obrigação tributária principal é o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. (grifei) § 2º (...) Por sua vez, o crédito tributário decorre da obrigação principal, conforme o artigo 139 do CTN: Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. A penalidade pecuniária tem base no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, materializada na multa de ofício aplicada sobre o tributo. E, como se pode observar a penalidade pecuniária, decorrente da infração, compõe a obrigação tributária principal e, por conseguinte, integra o crédito tributário. Por sua vez, o CTN, ao discorrer sobre o pagamento, informa que devem incidir juros sobre o crédito tributário não integralmente adimplido no vencimento, verbis: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. (grifei) Fl. 1115DF CARF MF Processo nº 16327.721661/201191 Acórdão n.º 9101003.137 CSRFT1 Fl. 1.116 30 § 1º (...) E a correção estipulada pelo mencionado art. 161, a partir da Lei nº 9.065, de 1995, segue a taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais, questão já pacificada pela Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Verificase, assim que tanto tributo quanto a multa de ofício estão sujeitos à atualização prevista no art. 161 do CTN, mediante aplicação da taxa SELIC. Portanto, voto no sentido de dar provimento ao recurso da PGFN em relação à matéria. Conclusão. Diante do exposto, voto no sentido de não conhecer do recurso especial da Contribuinte em relação à matéria "propósito negocial", de negar provimento ao recurso especial da Contribuinte em relação à matéria "ganho de capital na permuta sem torna entre bens de valores diferentes" e dar provimento ao recurso especial da PGFN (assinatura digital) André Mendes de Moura Fl. 1116DF CARF MF
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