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Numero do processo: 10580.729192/2011-71
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 15 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Mar 14 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2006, 2007, 2008, 2009, 2010
DECADÊNCIA.
Na hipótese de fato que produza efeito em períodos diversos daquele em que ocorreu, a decadência não tem por referência a data do evento registrado na contabilidade, mas sim, a data de ocorrência dos fatos geradores em que esse evento produziu o efeito de reduzir o tributo devido.
INCORPORAÇÃO DE SOCIEDADE. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. INOCORRÊNCIA DE SIMULAÇÃO, ABUSO DE DIREITO OU ABUSO DE FORMA.
No contexto do programa de privatização, a efetivação da reorganização de que tratam os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/97, mediante a utilização de empresa veículo, desde que dessa utilização não tenha resultado aparecimento de novo ágio, não resulta economia de tributos diferente da que seria obtida sem a utilização da empresa veículo e, por conseguinte, não pode ser qualificada de planejamento fiscal inoponível ao fisco.
COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZO FISCAL. MANUTENÇÃO PARCIAL DA INFRAÇÃO.
Havendo saldo insuficiente para a compensação de prejuízo fiscal, mantém-se a autuação até o limite apurado.
MULTA ISOLADA.
Do ano-calendário 2007 em diante, se não efetuado o pagamento da estimativa mensal, cabe a imputação de multa isolada, sobre a totalidade ou diferença entre o valor que deveria ter sido pago e o efetivamente pago, apurado a cada mês do ano-calendário, mesmo que lançada a multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurados no ajuste anual, não se aplicando a referida multa em anos-calendário anteriores nos termos da Súmula CARF nº 105.
JUROS. TAXA SELIC.
A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL.
A decisão prolatada no lançamento matriz estende-se ao lançamento decorrente, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula.
Numero da decisão: 1201-001.559
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, para reconhecer a dedutibilidade do ágio nos períodos autuados e para manter parte da autuação n. 0002 dos Autos de Infração, relativa a saldo insuficiente na compensação de prejuízo fiscal e base negativa e eventual reflexo, caso apurado, no que tange à multa isolada de 2007. Vencidos os Conselheiros José Carlos, que dava parcial provimento ao recurso voluntário, em menor extensão, apenas para afastar a multa isolada relativa a 2006, mantendo as demais autuações, e o Conselheiro Luiz Henrique, que dava lhe parcial provimento, para reconhecer o ágio e afastar integralmente as multas isoladas. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Paulo Cezar.
(documento assinado digitalmente)
ROBERTO CAPARROZ DE ALMEIDA - Presidente.
(documento assinado digitalmente)
JOSÉ CARLOS DE ASSIS GUIMARÃES - Relator.
(documento assinado digitalmente)
PAULO CEZAR FERNANDES DE AGUIAR - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida (Presidente), Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, Luiz Paulo Jorge Gomes e José Carlos de Assis Guimarães. Declarou-se impedido o Conselheiro José Roberto Adelino. Ausente o Conselheiro Luis Fabiano Alves Penteado.
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Nome do relator: JOSE CARLOS DE ASSIS GUIMARAES
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Na hipótese de fato que produza efeito em períodos diversos daquele em que ocorreu, a decadência não tem por referência a data do evento registrado na contabilidade, mas sim, a data de ocorrência dos fatos geradores em que esse evento produziu o efeito de reduzir o tributo devido. INCORPORAÇÃO DE SOCIEDADE. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. INOCORRÊNCIA DE SIMULAÇÃO, ABUSO DE DIREITO OU ABUSO DE FORMA. No contexto do programa de privatização, a efetivação da reorganização de que tratam os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/97, mediante a utilização de empresa veículo, desde que dessa utilização não tenha resultado aparecimento de novo ágio, não resulta economia de tributos diferente da que seria obtida sem a utilização da empresa veículo e, por conseguinte, não pode ser qualificada de planejamento fiscal inoponível ao fisco. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZO FISCAL. MANUTENÇÃO PARCIAL DA INFRAÇÃO. Havendo saldo insuficiente para a compensação de prejuízo fiscal, mantém se a autuação até o limite apurado. MULTA ISOLADA. Do anocalendário 2007 em diante, se não efetuado o pagamento da estimativa mensal, cabe a imputação de multa isolada, sobre a totalidade ou diferença entre o valor que deveria ter sido pago e o efetivamente pago, apurado a cada mês do anocalendário, mesmo que lançada a multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurados no ajuste anual, não se aplicando a referida multa em anoscalendário anteriores nos termos da Súmula CARF nº 105. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 91 92 /2 01 1- 71 Fl. 8708DF CARF MF 2 JUROS. TAXA SELIC. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. A decisão prolatada no lançamento matriz estendese ao lançamento decorrente, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, para reconhecer a dedutibilidade do ágio nos períodos autuados e para manter parte da autuação n. 0002 dos Autos de Infração, relativa a saldo insuficiente na compensação de prejuízo fiscal e base negativa e eventual reflexo, caso apurado, no que tange à multa isolada de 2007. Vencidos os Conselheiros José Carlos, que dava parcial provimento ao recurso voluntário, em menor extensão, apenas para afastar a multa isolada relativa a 2006, mantendo as demais autuações, e o Conselheiro Luiz Henrique, que dava lhe parcial provimento, para reconhecer o ágio e afastar integralmente as multas isoladas. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Paulo Cezar. (documento assinado digitalmente) ROBERTO CAPARROZ DE ALMEIDA Presidente. (documento assinado digitalmente) JOSÉ CARLOS DE ASSIS GUIMARÃES Relator. (documento assinado digitalmente) PAULO CEZAR FERNANDES DE AGUIAR Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida (Presidente), Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, Luiz Paulo Jorge Gomes e José Carlos de Assis Guimarães. Declarouse impedido o Conselheiro José Roberto Adelino. Ausente o Conselheiro Luis Fabiano Alves Penteado. . Relatório Como os fatos e a matéria jurídica foram bem relatados pela decisão de primeira instância, reproduzoa a seguir: Trata o presente processo dos Autos de Infrações de folhas n°s. 03 a 62, lavrados contra a Contribuinte acima identificada, para a exigência de crédito tributário no montante de R$ 316.422.294,92 (trezentos e dezesseis milhões, quatrocentos e vinte e dois mil, duzentos e noventa e quatro reais e noventa e dois centavos), estando assim distribuído: Fl. 8709DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.709 3 Imposto de Renda Pessoa Jurídica..............................................R$ 74.596.977,51; Juros de Mora (calculados até 09/2011)......................................R$ 20.455.258,53; Multa Proporcional (Passível de Redução).................................R$ 103.238.343,61; Multa Exigida Isoladamente (Passível de Redução)...................R$ 26.792.954,32; Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL...................R$ 27.591.347,74; Juros de Mora (calculados até 09/2011)......................................R$ 8.188.281,08; Multa Proporcional (Passível de Redução).................................R$ 38.730.776,70; e, Multa Exigida Isoladamente (Passível de Redução)...................R$ 16.828.355,43. 2. De acordo com o Auto de Infração do Imposto sobre a Renda Pessoa Jurídica e o “Termo de Verificação Fiscal” (docs. de fls. n°s. 03 a 34 e 63 a 102), o crédito tributário ali lançado foi constituído em razão de a Fiscalização indicar que a Contribuinte, no decorrer dos anoscalendário de 2006, 2007, 2008, 2009 e de 2010, teria cometido diversas infrações, cujos fundamentos e consequências podem ser assim resumidos, como segue: a) “0001 – AJUSTES DO LUCRO LÍQUIDO DO EXERCÍCIO – ADIÇÕES NÃO COMPUTADAS NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL (DESPESA INDEDUTÍVEL COM AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO)”, nos valores de R$ 50.007.215,28, R$ 47.128.647,60, R$ 55.348.603,20, R$ 59.161.078,08 e R$ 55.573.209,60, correspondentes aos anoscalendário de 2006 a 2010, respectivamente, conforme discriminado no “Termo de Verificação Fiscal” de fls. n° 63 a 102, tendo como enquadramento legal o artigo 3º, da Lei n° 9.249, de 26 de dezembro de 1995 e os artigos 247; 249; 385 e 391, do Regulamento do Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza, aprovado pelo Decreto n° 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR/1999), observandose que, no referido Termo, a Fiscalização aponta como motivação para a glosa das despesas, principalmente: a.1) a falta de demonstração tempestiva arquivada (Laudo de avaliação econômica) na empresa Guaraniana S/A, indicando o pressuposto econômico para a amortização do ágio (fl. n° 83), pois: “Em 31 de julho de 1997 a empresa Guaraniana S/A adquiriu controle acionário da COELBA com expressivo ágio a amortizar que ao final do referido ano equivalia a R$ 1.213.019.937,14. Fl. 8710DF CARF MF 4 Ainda de acordo com as DFPs, Atas de AGE, Atas do Conselho de Administração, entre outros, constatase que em 06 de outubro de 1999, aquela adquiriu ações desta com ágio no valor de R$ 40.692.244,64. O parágrafo 2º, do artigo 20, do Decreto Lei 1.598/77, dispõe que o lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico, que poderá ser: a) Valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) Valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) Fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. O parágrafo 3º, do artigo 20, do citado regramento dispõe que o lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Regularmente intimado para apresentar a devida comprovação do fundamento econômico do ágio oriundo do leilão de privatização e leilão especial, o contribuinte apresentou Laudo de Avaliação Econômica da COELBA, realizado em 23 de dezembro de 1999, portanto, extemporaneamente ao surgimento do citado ágio. O artigo 25 do citado DecretoLei dispõe que as contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o artigo 20 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no artigo 33. O artigo 33, acima citado, trata do valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento, em coligada ou controlada, avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 20). Da análise dos dispositivos legais acima citados, constatase que o ágio é indedutível sob qualquer fundamento econômico, porém, comporá a base de cálculo para fins de ganho de capital. Resta claro, pela falta de apresentação de laudo tempestivo comprovando os pressupostos econômicos do citado ágio, que este, corresponde a Fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas, indicados na alínea V do parágrafo 2°, artigo 20, do Decretolei 1.598/77. Posteriormente, o artigo 7°, da Lei 9.532 de 10 de dezembro de 1997, dispôs que a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo 20 do Decreto Lei 1.598/77, deverá proceder da seguinte forma: I – deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "a" do § 2° do art. 20 do DecretoLei n° 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; Fl. 8711DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.710 5 II – deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea “c” do § 2º do art., 20 do DecretoLei n° 1.598, de 1977, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III – poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2º do art. 20 do Decretolei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (Redação dada pela Lei n° 9.718, de 1998) (...) Após esta alteração significativa da legislação vigente observa se que o ágio oriundo dos leilões acima citados continua não sujeito a amortização conforme diploma legal vigente. Conforme comprovado pelos documentos trazidos aos autos (DFP's, Atas de AGE e do Conselho de Administração, Pareceres de Auditoria independente, entre outros), as empresas Guaraniana S/A e COELBA, demonstraram interesse em transferir o ágio daquela para esta, mediante reorganização societária com único interesse de se aproximar dos ditames do artigo 7°, inciso III e artigo 8º da Lei 9.532/1997. Constatase que caso houvesse reorganização societária envolvendo diretamente as empresas acima citadas o ágio remanescente não seria dedutível, porquanto, seu fundamento econômico não permitia. Assim, em 31 de março de 2000, com data de referência para mensuração da participação no PL da COELBA em 28 de fevereiro de 2000, a Guaraniana S/A transfere ações que detinha daquela, para a empresa Nordeste Participações S/A. Esta operação foi contabilizada na última desdobrandose o Ativo Permanente em "investimento1' mais "ágio", ressaltandose que este é remanescente dos leilões de privatização e especial. Em 07 de junho de 2000, a COELBA incorpora a Nordeste Participações S/A, com data de referência para mensuração do PL em 30 de abril de 2000. Observase que aquela desdobrou a operação no Ativo Permanente em "investimento" mais "ágio", e, que este não é adicionado ao Lucro Real. Percebese que a COELBA considera que tal ágio tem pressuposto econômico na rentabilidade futura de si mesma, sendo por isso, dedutível. Constatase claramente que o ágio remanescente contabilizado pela COELBA, oriundo dos leilões citados, originouse na empresa Guaraniana S/A. cujo fundamento econômico é o fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas, que de acordo com legislação vigente é indedutível. Abaixo demonstro sinteticamente a trajetória do ágio. Trajetória do ágio adquirido do leilão de privatização no investimento realizado na Coelba: Fl. 8712DF CARF MF 6 Após o surgimento do ágio na empresa Guaraniana S/A, cujo fundamento econômico é o fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas, observase a transferência de ações que detinha da COELBA, para Nordeste Participações S/A, com consequente passagem do citado ágio e posterior incorporação reversa desta por aquela. É possível constatar que nenhuma destas operações tem o condão de afastar os pressupostos econômicos do ágio oriundo dos leilões citados. O fato de a dedução da despesa com a amortização do ágio vir a ocorrer em momento vindouro não posterga a data em que se deva cumprir a demonstração do fundamento do ágio, pois esse surge é com a aquisição da participação e é então que se deve classificálo segundo seu fundamento econômico. Fl. 8713DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.711 7 É possível perceber que antes da transferência de ações da empresa Guaraniana S/A para a Nordeste Participações S/A foi gerado um laudo de avaliação econômica da COELBA, com escopo de alterar as características fundamentais dos pressupostos econômicos do ágio contabilizado pela primeira em virtude das aquisições realizadas em leilões supracitados. Conforme se depreende da leitura minuciosa deste laudo, observase que o objetivo buscado é a fundamentação do ágio por rentabilidade futura da controlada, gerado a partir da transferência de ações da Guaraniana S/A para a Nordeste Participações S/A. Não resta qualquer dúvida que o ágio transferido nesta operação é o remanescente das aquisições de ações realizadas por aquela junto a COELBA, conforme demonstrado nas planilhas 1 e 2, acima descritas, que tem pressuposto econômico no fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Esta afirmação se consolida quando analisamos a foto antes de iniciadas as operações intragrupo, que demonstra a empresa Guaraniana S/A com participação societária de 87,84% do capital da COELBA, contabilizado no Ativo Permanente, subdividido em investimento mais ágio, e, ao final das operações acima mencionadas indicando a permanência apenas do investimento representado pelos mesmos 87,84%. Abaixo demonstro, através de diagrama, o encadeamento destes fatos. Fl. 8714DF CARF MF 8 Constatase que as operações de transferência de ações e incorporação reversa respeitaram o formalismo jurídico, todavia, só ocorreram no papel. Logo não é cabível que operações apenas formais, sem qualquer substância econômica ou propósito negocial, tenham o condão de alterar o fundamento econômico do ágio gerado nas aquisições das ações da COELBA. Concluise, que o pagamento do ágio, ocorrido em 31 de julho de 1997, e, em 06 de outubro de 1999, não foi baseado em nenhum documento que comprovasse, no momento de sua ocorrência, sua fundamentação econômica. Portanto, por não se enquadrar nas disposições do artigo 7º, incisos I e II, da Lei n° 9.532, de 1997, ele não é amortizável/dedutível.” a.2) A “impossibilidade de dedução do ágio ainda que se considerasse o fundamento econômico da rentabilidade futura da controlada COELBA: Ainda que se considerem as consequências desejadas pelo grupo econômico, referente às operações de transferência de ações e posterior reorganização societária, cujos efeitos tributários seriam a avaliação do fundamento econômico do ágio como de rentabilidade futura da controlada COELBA, mesmo assim, este seria indedutível, senão vejamos. Entre os anos de 97 e 99, constatouse que a Guaraniana S/A, contabiliza despesa com ágio, porém, adicionao ao LALUR, em face de legislação vigente. Até este momento a citada empresa só teria algum ganho com o ágio no momento da alienação do investimento para fins de apuração do ganho de capital, já que, este comporia o custo correspondente. Ainda neste ínterim ficou demonstrado que o grupo econômico, detentor do controle da COELBA, liderado pela empresa Iberdrola S/A, PREVI, Banco do Brasil e 521 Participações S/A, constituiu a empresa Nordeste Participações S/A. Resta claro que esta empresa (Nordeste Participações S/A), cujo sócio Fl. 8715DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.712 9 majoritário é a 521 Participações S/A, não apresentou qualquer operação comercial desde a sua constituição demonstrando ser uma empresa veículo com finalidade específica dentro da organização. Em 10 de dezembro de 1997, foi publicada lei n° 9.532, que em seu artigo 7º, dispunha, entre outros, que a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei n° 1.598, de 26 de dezembro de 1977, registraria e amortizaria de determinadas formas o ágio contabilizado. Ressaltase que este artigo produziu efeitos no mundo jurídico a partir de janeiro de 1998. O artigo 20 do DecretoLei acima citado dispõe que o contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição da seguinte forma: i) valor de patrimônio líquido na época da aquisição; ii) ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número i. De acordo com laudo elaborado extemporaneamente pela empresa Arthur Andersen, constatase que o fundamento econômico do ágio oriundo dos leilões supramencionados é perspectiva de rentabilidade futura da COELBA. O inciso III, do artigo 7º, da Lei 9.532/97, com redação alterada pela Lei 9.718 de 27 de novembro de 1998, dispunha que a companhia poderia amortizar o valor do ágio cujo fundamento fosse o de que trata a alínea "b" do § 2º do art. 20 do Decretolei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração. O parágrafo 2º, do artigo 20, do referido decreto dispõe que o lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico. A alínea "b" do citado regramento dispunha como fundamento econômico o valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros. Em 10 de fevereiro de 1999, a Secretaria da Receita Federal – SRF, publicou a Instrução Normativa SRF n° 11, cujo artigo 1º dispõe que a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do Decretolei n° 1.598, de 26 de dezembro de 1977, deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento econômico seja valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros, em contrapartida a conta do ativo Fl. 8716DF CARF MF 10 diferido, se ágio, ou do passivo, como receita diferida, se deságio. O parágrafo 5º, do artigo 1º, desta Instrução Normativa assevera que a amortização do citado ágio poderá ser efetuada em período maior que sessenta meses, inclusive pelo prazo de duração da empresa, se determinado, ou da permissão ou concessão, no caso de empresa permissionária ou concessionária de serviço público. Observase que, após estas significativas alterações legislativas, inclusive do artigo 8º, alínea "b", da Lei 9.532/97, nasce no mundo tributário a possibilidade de amortizar o ágio surgido na aquisição de participação societária, desde que o ágio tenha por fundamento econômico a expectativa de resultados futuros. Ocorre que, conforme explicado anteriormente, o ágio escriturado na Guaraniana não atendeu este requisito, vez que teve por fundamento econômico fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Assim, a empresa não poderia utilizar o permissivo legal para amortizar o ágio decorrente da aquisição da participação acionária na Coelba. Tal ágio, conforme dispõe o inciso II do artigo 7° da Lei 9.532/97, deveria ser registrado em conta de Ativo permanente, compondo o custo de aquisição para redução de ganho de capital em futura alienação do investimento. Porém, conforme mostra a ata de reunião citada na página 8, a Guaraniana S/A tinha interesse em aproveitar o benefício previsto na Lei 9.532/97. Para isso, teria que promover uma reorganização societária de forma a tentar se adequar à exigência do inciso III do artigo 7º da Lei. A estratégia que a empresa Guaraniana S/A adotou foi transferir as ações emitidas pela COELBA, nos leilões citados, que detinha, para a empresa Nordeste Participações S/A, que era controlada pela 521 Participações S/A, que por sua vez, mantinha participação societária na COELBA. Abaixo reproduzo diagrama em bloco que racionaliza a questão. (...) Após a transferência das ações emitidas pela COELBA, que detinha, para a Nordeste Participações S/A, a Guaraniana S/A, mantémse controladora direta desta (99,99%) e indireta daquela através da participação obtida. Abaixo reproduzo diagrama ilustrativo que representa as operações citadas. (...) O passo seguinte para consecução do objetivo traçado (transferência do ágio gerado em si mesma) foi a incorporação reversa da Nordeste Participações S/A pela COELBA. Observa se que o ágio remanescente após incorporação vem sendo deduzido do lucro real. Ressaltase que a participação societária que a Guaraniana S/A mantinha antes da transferência de ações (87,84% 16.529.952.532 ações nominativas) para Nordeste Participações S/A é exatamente a mesma após a sequência de operações Fl. 8717DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.713 11 formais realizadas, ou seja, não houve qualquer liquidação/extinção de investimento adquirido com ágio por meio dos institutos da fusão, cisão ou incorporação, como pressupõe e exige a lei para permitir a dedutibilidade da amortização do ágio. De todo acima exposto é possível constatar que a operação realizada, como um todo, não se enquadra nos permissivos legais, conforme descrição abaixo. A empresa Guaraniana S/A resolve investir na Nordeste Participações S/A, empresa ligada, mediante aporte de capital subscrito por ações, que já detinha, da própria COELBA. Ora, os dispositivos legais supracitados, autorizam a amortização do ágio se, e somente se, a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, detiver participação societária adquirida com ágio ou deságio. Nesta primeira operação o que se vislumbra é que a Guaraniana S/A adquiriu participação com ágio, porém, o transferiu para a Nordeste Participações S/A através de aporte de capital. Assim, constatase claramente que esta não adquiriu qualquer participação com ágio, desvirtuando os dispositivos legais vigentes. É bom registrar que, conforme vasta jurisprudência administrativa, não é possível reconhecer uma mais valia de um investimento quando originado de transação dos sócios com eles mesmos, haja vista a ausência de substância econômica daquela operação e de não resultar de um processo imparcial de valoração, num ambiente de livre mercado e de independência entre as companhias envolvidas. No mesmo sentido, a CVM, através do ofício Circular CVM/SNC/SEP n° 01, de 14 de fevereiro de 2007, tratou do ágio entre empresas ligadas: ‘Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômicocontábil é preciso esclarecer que o ágio surge, única e exclusivamente, quando o preço (custo) pago pela aquisição ou subscrição de um investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial, supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de aquisição somente surge quando há o dispêndio para se obter algo de terceiros. Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal e, portanto, inadmissível. Não é concebível econômica e contabilmente, o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma transação dos acionistas com eles próprios. Ainda que, do ponto de vista formal, os atos societários tenham atendido à legislação aplicável (não se questiona aqui esse aspecto), do ponto de vista econômico, o registro de ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de Fl. 8718DF CARF MF 12 pressões ou outros interesses que não a essência da transação, condições essas denominadas na literatura internacional como arm's length’ (grifo nosso). Assim, fica claro que o ágio que atende todos os requisitos legais, jurisprudenciais e doutrinários, e que pode ser reconhecido, é o que foi originado na aquisição, pela Guaraniana, das ações da Coelba. Os ágios escriturados posteriormente são meras transferências desse, independente da forma com que se apresentem. De outra forma, e, não menos importante, concluise claramente que a incorporação reversa da Nordeste Participações S/A, pela Coelba, só existiu no papel, senão vejamos. A empresa Nordeste Participações S/A foi constituída formalmente em 1997, por empresas do grupo econômico detentor do controle da COELBA, e, não apresentou qualquer movimentação econômico/financeira típica até o início da operação de transferência do ágio citado (ano 2000). Ora, todos os documentos trazidos aos autos demonstram a vontade do grupo econômico em transferir o ágio e a função que cada partícipe teria nesta estratégia. Resta claro que coube a Nordeste Participações S/A, apenas intermediar a passagem do ágio de uma empresa deficitária e sem possibilidade legal de amortizálo para uma companhia lucrativa com permissivo legal aparente. Percebese que as operações quando analisadas individualmente trazem a falsa impressão de respeito à licitude, porém, quando observadas no contexto que estão inseridas denotam completo desalinho aos diplomas legais vigentes. De todo acima exposto, concluise que as despesas contabilizadas com ágio, gerado de si mesma, pela COELBA, oriundo dos leilões supracitados, nos anos calendário 2006 a 2010, seriam indedutíveis pela ausência de norma que a autorize.” Obs.: alguns dos destaques não constam no original. b) “0002 – SALDO INSUFICIENTE – COMPENSAÇÃO INDEVIDA DE PREJUÍZO OPERACIONAL COM RESULTADO DA ATIVIDADE GERAL”: no valor de R$ 46.171.320,89, fato gerador 31/12/2007 (fl. n° 5), onde a Fiscalização aponta que a Contribuinte teria compensado “prejuízos operacionais em montante superior ao saldo desse prejuízo, conforme detalhamento nos demonstrativos de apuração e no Termo de Verificação Fiscal n° 0001 anexo, parte integrante deste Auto de Infração”, observandose que as glosas das compensações de prejuízos são resultantes das recomposições das bases tributáveis (lucro real) com a adição da compensação realizada de ofício no processo n° 10580.720370/200801, no valor de R$ 4.312.134,29, relativa ao anocalendário de 2003, como também, das referidas despesas de ágio consideradas indedutíveis pela Fiscalização nas apurações de lucro real dos períodos (fls. de nºs. 93 a 95), tendo como enquadramento legal o artigo 3º, da Lei n° 9.249, de 1995, os artigos 247; 250, inciso III; 251; 509 e 510, do RIR/1999; e, Fl. 8719DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.714 13 c) “0003 – MULTAS OU JUROS ISOLADOS – FALTA DE RECOLHIMENTO DO IRPJ SOBRE BASE DE CÁLCULO ESTIMADA”, calculado com base em balanço/balancete de suspensão, compreendendo quase a totalidade dos meses dos anoscalendário de 2006 a 2010 (fls. de n°s. 6 e 7), em razão de recomposição das bases tributáveis advindas das infrações acima apontadas, conforme discriminado no “Termo de Verificação Fiscal n° 0001 anexo, parte integrante deste Auto de Infração” (fls. de n°s. 99 a 101), tendo como enquadramento legal o artigo 44, inciso II, alínea “b”, da Lei n° 9.430, de 27 de dezembro de 1996, com a redação dada pelo artigo 14, da MP n° 341, de 2007 e pelo artigo 14, da Lei n° 11.488, de 15 de junho de 2007, c/c os artigos 222 e 843, do RIR/1999. d) MULTA QUALIFICADA DE 150% (CENTO E CINQUENTA POR CENTO), tendo em vista que a incorporação às avessas de sua controladora Nordeste Participações S/A, empresa veículo, realizada pela Autuada, juntamente com a contabilização do ágio remanescente dos leilões de suas próprias ações, caracterizaria em “conduta intencional de criar operações sem qualquer substância econômica ou propósito negocial, a não ser o de elidir tributos, aumentou as despesas operacionais da COELBA, reduzindo sensivelmente o valor tributo a recolher, mediante alteração das características fundamentais do fato gerador, qual seja, o lucro tributável” (destaquei), e, por isso, tal conduta se enquadraria no conceito de fraude previsto no artigo 72, da Lei n° 4.502, de 30 de novembro de 1964, tendo por consequência a referida multa prevista no artigo 44, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996, com a redação da Lei n° 11.488, de 2007. 3. Em decorrência dos mesmos fatos foi apontada a falta de recolhimento da CSLL e das Estimativas, compreendendo os mesmos períodos de apuração, que, resumidamente seriam: a) “0001–USTOS/DESPESAS.OPERACIONAIS/ENCARGOS NÃO DEDUTÍVEIS” (DESPESA INDEDUTÍVEL COM AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO), nos mesmos valores de R$ 50.007.215,28, R$ 47.128.647,60, R$ 55.348.603,20, R$ 59.161.078,08 e R$ 55.573.209,60, correspondentes aos anos calendário de 2006 a 2010, respectivamente (fl. de n° 37), conforme discriminado no item 2, precedente, tendo como enquadramento legal os artigos 2º, §§ e o 3º, da Lei n° 7.689, de 1988, com a redação dada pelo artigo 17, da Lei n° 11.727, de 2008; artigo 1º, da Lei n° 9.316, de 1996, artigo 28, da Lei nº 9.430, de 1996 e o art. 37, da Lei n° 10.637, de 2002; b) “0002 – SALDO INSUFICIENTE – COMPENSAÇÃO INDEVIDA DE BASE DE CÁLCULO NEGATIVA DA ATIVIDADE GERAL COM RESULTADO DA ATIVIDADE GERAL”: no valor de R$ 39.351.776,68, fato gerador 31/12/2006 (fl. de n° 38), onde a Fiscalização aponta que a Contribuinte teria compensado “base de cálculo negativa de períodos anteriores em montante superior ao saldo existente, conforme detalhamento nos demonstrativos de apuração e no Fl. 8720DF CARF MF 14 Termo de Verificação Fiscal n° 0001 anexo, parte integrante deste Auto de Infração”, observandose que as glosas das compensações de prejuízos são resultantes das recomposições das bases tributáveis (lucro líquido ajustado) com a adição da compensação realizada de ofício no processo n° 10580.720370/200801, no valor de R$ 17.875.624,51, relativa ao anocalendário de 2003, como também, das referidas despesas de ágio consideradas indedutíveis pela Fiscalização nas apurações de lucro real dos períodos, tendo como enquadramento legal o artigo 2º, da Lei n° 7.689, de 1988, e alterações posteriores; c) “0003 – MULTAS OU JUROS ISOLADOS – FALTA DE RECOLHIMENTO DA CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE A BASE ESTIMADA”, calculado com base em balanço/balancete de suspensão (fls. de n°s. 38 a 40), compreendendo quase a totalidade dos meses dos anoscalendário de 2006 a 2010, em razão de recomposição das bases tributáveis advindas das infrações acima apontadas, conforme discriminado no “Termo de Verificação Fiscal n° 0001 anexo, parte integrante deste Auto de Infração”, tendo como enquadramento legal o artigo 44, inciso II, alínea “b”, da Lei n° 9.430, de 27 de dezembro de 1996, com a redação dada pelo artigo 14, da MP n° 341, de 2007 e pelo artigo 14, da Lei n° 11.488, de 15 de junho de 2007; d) MULTA QUALIFICADA DE 150% (CENTO E CINQUENTA POR CENTO), tendo em vista que a incorporação às avessas de sua controladora Nordeste Participações S/A, empresa veículo, realizada pela Autuada, juntamente com a contabilização do ágio remanescente dos leilões de suas próprias ações, caracterizaria em “conduta intencional de criar operações sem qualquer substância econômica ou propósito negocial, a não ser o de elidir tributos, aumentou as despesas operacionais da COELBA, reduzindo sensivelmente o valor tributo a recolher, mediante alteração das características fundamentais do fato gerador, qual seja, o lucro tributável” (destaquei), e, por isso, tal conduta se enquadraria no conceito de fraude previsto no artigo 72, da Lei n° 4.502, de 30 de novembro de 1964, sendo aplicada a referida multa prevista no artigo 44, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996, com a redação da Lei n° 11.488, de 2007. 4. Ciente da autuação em 29/09/2011, no dia 27/10/2011, a Interessada, citando doutrina e jurisprudência, impugna os lançamentos, alegando em síntese que (fls. n°s. 7.761 a 7.818): a) “PRECLUSÃO DA POSSIBILIDADE DO FISCO QUESTIONAR A LEGALIDADE DOS ATOS SOCIETÁRIOS QUE DERAM ORIGEM AO ÁGIO”, pois, “em 31/07/1997 o grupo GUARANIANA S.A, atualmente denominado NEOENERGIA S/A, formado naquela ocasião pelas empresas IBERDROLA ENERGIA, PREVI e BANCO DO BRASIL, arrematou, em leilão de privatização, as ações da ora Impugnante, COELBA”; b) “em 06/10/1999, através de leilão especial realizado na Bolsa de Valores de São Paulo BOVESPA, a GUARANIANA S/A adquiriu nova participação societária da Impugnante, que se deu Fl. 8721DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.715 15 com o pagamento de ágio ao Estado da BAHIA (antigo titular de suas ações), em razão da expectativa de rentabilidade estimada com base em resultado de exercícios futuros”; c) “posteriormente, em 31/03/2000, a empresa GUARANIANA S.A, atualmente denominada NEOENERGIA S/A, subscreveu aumento de capital na empresa NORDESTE PARTICIPAÇÕES S.A, mediante a transferência das ações da COELBA, transformando a NORDESTE PARTICIPAÇÕES S.A em controladora da COELBA”; d) “em 30/05/2000, a COELBA aprovou o protocolo de incorporação da NORDESTE PARTICIPAÇÕES S.A, nos termos da Ata da Assembléia Geral Extraordinária”; e) “dessa forma, é fato inconteste que o ágio como elemento contábil e societário surgiu em 30/05/2000, com a incorporação daquela sociedade e a partir daí passou a produzir efeitos tributários”, ou seja, “muito embora o ágio tenha sido amortizado nos anosbase de 2006 a 2010, conforme informado pelo Sr. Auditor Fiscal, o fato contábilsocietário, que deu origem ao referido ágio, ocorreu no anobase de 2000”; f) “assim, não poderia o Sr. Auditor Fiscal questionar a legalidade dos atos que originaram o direito ao aproveitamento do ágio, que surgiu, repitase, em 2000, eis que transcorreu o prazo decadencial de cinco anos entre os fatos que propiciaram o surgimento do ágio em 2000 e a lavratura do auto de infração em questão (29/09/2011)”; g) “dessa forma, não poderia o Fisco efetuar os lançamentos de ofício sobre fatos pretéritos, já consumados no tempo em razão do decurso do prazo decadencial (fatos societários que geraram o direito à utilização do ágio, que ocorreram em 2000) para alcançar os efeitos decorrentes, desses fatos, em períodos subseqüentes”; h) “o Conselho de Contribuintes já se manifestou reiteradas vezes sobre o tema, reconhecendo a impossibilidade de o Fisco questionar a legalidade dos fatos, ocorridos após o transcurso do prazo decadencial de cinco anos, que tenham gerado efeitos em anos subseqüentes, como ocorre no presente caso”; i) sobre o tema vide a ementa e trecho do voto proferidos no acórdão n° 10706.572, de lavra do I. Conselheiro Relator Luiz Martins Valero, como segue (fls. 7.765 e 7.766): "CSLL – BASE NEGATIVA – AJUSTES NO PASSADO COM REPERCUSSÃO FUTURA – DECADÊNCIA – Adicionar valores tidos como indedutíveis em um determinado período, provocando a diminuição do saldo de base negativa, embora resultando em efeitos futuros, na prática, equivale a efetuar um lançamento de ofício naquele período já atingido pela decadência." – do Voto: Fl. 8722DF CARF MF 16 "No caso presente, o auto de infração foi lavrado em 24/06/99, portanto, em princípio o último período passível de ser alcançado por lançamento de ofício seria o períodobase encerrado em 31/05/94. Embora as exigências refiramse a fatos geradores a partir de outubro de 1994, tiveram origem em despesas indedutíveis de empresa incorporada, relatadas pelo fisco como falta de adição à base de cálculo da CSLL nos meses de fevereiro a novembro de 1993 de depósitos judiciais da COFINS, nos termos do art. 8º da Lei n° 8.541/92. A redução indevida, ou falta de adição do lucro líquido, no dizer do fisco, não originou exigências tributárias nos períodos em que ocorridas, por ter a empresa, até setembro de 1994, saldo anterior de bases negativas da CSLL que foram aproveitadas de ofício. Sobre esse tema – fatos que nascem ou se formam em um período e repercutem em períodos subseqüentes – já expressei minha opinião em voto que proferi nesta Câmara que deu origem ao Acórdão 10706061. Lá como aqui, é preciso terse presente que adicionar valores tidos como indedutíveis em um determinado período, provocando a diminuição do saldo de base negativa, embora resultando em efeitos futuros, na prática, equivale a efetuar um lançamento de ofício naquele período já atingido pela decadência. Com efeito, a redução do resultado negativo de um período, ou o aumento do resultado positivo, pela adição de despesa, se vinculada à formação de juízo sobre a dedutibilidade ou não do dispêndio apropriado, inserindose, portanto, no campo de lançamento de ofício. (...) Portanto, deve ser acolhida a preliminar de decadência em relação às adições ao lucro líquido efetuadas pelo Fisco na Veículos e Serviços Marumbi S/A, de 02/93 a 11/93." j) no mesmo sentido vide os acórdãos do então 1º Conselho de Contribuintes cujas ementas estão transcritas às fls. de n°s. 7.767 a 7.769, destacandose, ainda, “a recente decisão proferida pelo Primeiro Conselho de Contribuintes, em 17/12/08, nos autos do processo administrativo n° 16327.002113/200510, em que foi ‘acolhida a preliminar de preclusão do direito do Fisco auditar fatos ocorridos após o prazo decadencial’, verbis: Decisão: 1) Por maioria de votos acolher a preliminar de preclusão do direito de Fisco auditar fatos ocorridos após o prazo decadencial, para fins de apuração dos efeitos desses em períodos de apuração não decaídos, vencido os conselheiros Jose Sergio Gomes e Antonio Praga, que rejeitam essa preliminar, sendo que Antonio Praga apresenta declaração de voto. 2) Por unanimidade de votos, não conhecer do recurso de oficio pela perda do objeto, acompanham pelas conclusões os Fl. 8723DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.716 17 conselheiros Jose Sérgio Gomes e Antonio Praga, que conheciam e negava provimento.” k) “ante o exposto, com base na jurisprudência pacífica dos Conselhos de Contribuintes, não se pode olvidar que ocorreu, no presente caso, a decadência do direito do Fisco questionar a legalidade dos atos societários que originaram o ágio e, como conseqüência, o direito ao seu aproveitamento que surgiu em 2000, ainda que os seus efeitos tenham ocorrido em momento subseqüente (amortização realizada nos anosbase de 2006 a 2010)”; l) “a razão é simples: o ágio contabilizado em 2000 é dado contábil e societário e representa, na verdade, parte do custo de aquisição do ativo respectivo. No caso, por disposição legal específica, autorizase a ‘antecipação’ do aproveitamento desse ‘custo’ em data anterior a uma eventual alienação do ativo, por intermédio de amortização, desde que a motivação do referido ágio seja a rentabilidade futura da companhia. Como se sabe, se não existisse a norma hoje prevista na Lei n°. 9.532/97, autorizando a amortização do ágio em prazos determinados, tais valores seriam redutores de lucros futuros, quando da alienação do respectivo ativo que o gerou, uma vez que tais valores constituemse como custo de aquisição (redutor do preço de venda)”; m) “assim, apenas para efeito de raciocínio e demonstração do afirmado acima, imaginese a hipótese de não existência da Lei n°. 9.532/97 que autoriza a amortização do valor do ágio na aquisição de ativos, após atos de subscrição e aumento de capital: o Fisco não poderia glosar o custo de um ativo adquirido em 1990, por exemplo, no cálculo de um ganho de capital decorrente de uma venda do aludido ativo ocorrida em 2010, uma vez que o direito à impugnação ou desconsideração daquele ato pretérito (aquisição do ativo em 1990), que gerou um determinado custo e que produzirá efeitos tributários quando da alienação (exercícios subseqüentes), DECAIU ou ‘PRECLUIU’ (como algumas jurisprudências do Conselho acima citadas se manifestam). Insistase que: mesmo o efeito tributário dessa alienação se efetivando apenas em 2010, não há como desconsiderar o custo do ativo adquirido em 1990”; n) “outro exemplo ilustra bem o exposto acima: seria o mesmo que o Fisco Federal pretendesse glosar em 2010 todos os encargos de depreciação (de 1990 a 2010) de determinados ativos adquiridos em 1990 por uma empresa, por entender que o custo de aquisição dos referidos ativos não estava correto ou foi contabilizado de forma equivocada, tendo em vista operação de aquisição supostamente simulada ou fraudulenta”; o) “no caso ora em exame, aplicase o mesmo raciocínio. Em 2000 houve a contabilização de um ágio decorrente de uma operação societária legítima. Não pode a autoridade fiscal em 2011 pretender desconsiderar tal fato jurídicocontábil e societário e querer desconsiderar os efeitos tributários ocorridos Fl. 8724DF CARF MF 18 em anos subseqüentes. Isto porque, para glosar os efeitos fiscais ocorridos de 2006 a 2010, decorrentes daquele ato pretérito ocorrido em 2000 (contabilização do ágio), mister seria que o lançamento tributário ocorresse até 2006 e não em 2011”; p) “como acima ressaltado, o ágio gerado no presente caso decorre da aquisição do controle da Impugnante, em processo licitatório de privatização. De fato, após o leilão público especial realizado em 31 de julho de 1997, a GUARANIANA S/A passou a ser o novo grupo de controle da Impugnante, formado pelas” empresas IBERDROLA Investimentos Sociedade Unipessoal, Banco do Brasil e PREVI; q) “conforme ressaltado pelo Sr. Agente Fiscal, a aquisição da participação societária da Impugnante se deu com o pagamento de ágio ao Estado da BAHIA (antigo titular de suas ações), em razão da expectativa de rentabilidade estimada com base em resultado de exercícios futuros”, aquisição esta que foi efetivada em 31/07/1997 (“Privatização da COELBA”); r) “em 6 de outubro de 1999, através de leilão especial realizado na Bolsa de Valores de São Paulo BOVESPA, a GUARANIANA S/A adquiriu nova participação societária da Impugnante, que se deu com o pagamento de ágio ao Estado da BAHIA (antigo titular de suas ações), em razão da expectativa de rentabilidade estimada com base em resultado de exercícios futuros”; s) “posteriormente, e como não poderia deixar de ser, os adquirentes manifestaram seu interesse em aproveitar o benefício fiscal de dedutibilidade da despesa com a amortização do ágio gerado na aquisição das participações societárias, conforme lhes era expressamente autorizado pelo artigo 386 do RIR/99”; t) “dessa forma, para que fosse possível o aproveitamento do benefício fiscal previsto no artigo 386 do RIR/99, os adquirentes resolveram subscrever e integralizar capital na empresa NORDESTE PARTICIPAÇÕES S.A, mediante entrega das ações da Impugnante acrescidas do ágio”; u) a referida operação societária “foi previamente submetida à aprovação do órgão regulador do setor elétrico Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL, conforme exigência prevista no artigo 27 da Lei n° 8.987/95”, a qual, “no exercício de sua competência regulatória, autorizou a transferência do bloco de controle acionário da Impugnante para a NORDESTE PARTICIPAÇÕES S.A, conforme se depreende da Resolução n° 195, de 7 de junho de 2000 e Resolução n° 19, de janeiro de 2000 (DOC. 03)”; v) “com a transferência do controle acionário da Impugnante à NORDESTE PARTICIPAÇÕES S.A, criouse o ambiente necessário para que a Impugnante incorporasse sua controladora e, assim, aproveitasse o benefício fiscal previsto no artigo 386 do RIR/99, razão pela qual não pode prosperar a glosa das despesas pretendida pela D. Fiscalização”; w) “a autorização da ANEEL foi concedida com base nas seguintes considerações: Fl. 8725DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.717 19 (i) a análise levou em conta a preservação do equilíbrio econômicofinanceiro do contrato de concessão, bem como a qualidade e continuidade da prestação do serviço público de energia elétrica; (ii) a incorporação não incluía as dívidas oriundas do processo de aquisição da Impugnante; (iii) a incorporação estava em conformidade com os artigos 223 a 229 da Lei n° 6.404/76 e com a Instrução CVM n° 319/99, com as alterações promovidas pela Instrução CVM n° 349/01.” x) “para a realização da incorporação foram estipulados diversos requisitos na própria Resolução ANEEL n° 195, de 7 de junho de 2000, dentre os quais a obrigação de que o ágio fosse amortizado segundo a curva baseada em resultados de exercícios futuros e no prazo remanescente da concessão, sendo que o controle do aproveitamento do ágio seria feito pela Superintendência de Fiscalização Econômica e Financeira da ANEEL”; y) “novamente, devese destacar que o valor do ágio transferido à Impugnante em razão da incorporação da sua controladora (NORDESTE PARTICIPAÇÕES S/A) estava devidamente contabilizado, nos termos do artigo 385 do RIR/99 (desmembrandose valor do investimento e ágio), bem como estava devidamente amparado por novo laudo de avaliação de ações fornecido pela Ernst & Young, data base de 30 de abril de 2000 (documento 05 do TEAF e Doc. 04 anexado à presente impugnação)”; z) “tal Laudo de Avaliação, bem como o Protocolo de Incorporação (Doc. 05) datado de 30 de maio de 2000, Justificação da Operação elaborado pela diretoria da Impugnante (Doc. 06), e o Parecer do Conselho Fiscal da Impugnante (Doc. 07) de 30 de maio de 2000, foram todos aprovados pela Ata da Assembléia Geral Extraordinária da Impugnante, de 30 de maio de 2000 (... – . documentos 05 do TEAF)”; aa) “até este momento, notese, apenas a título argumentativo, que não há qualquer indício ou comprovação de que os atos praticados foram realizados de modo a encobrir, enganar ou impedir o conhecimento, pelo Fisco e por quaisquer de seus credores ou terceiros, de qualquer operação ou até mesmo da intenção de realizar o aproveitamento do ágio na Impugnante”; bb) “ao contrário, todos os atos praticados pela Impugnante foram públicos (divulgados em jornais de grande circulação) e foram todos previamente submetidos à agência reguladora do setor de energia elétrica, a qual aprovou todas as operações pretendidas (Resolução ANEEL n° 195/00)”; cc) uma das formalidades previstas na legislação societária é a publicação do fato relevante da reestruturação societária ao mercado (art. 164, §4º, da Lei n° 6.404, de 1996). “Conforme se Fl. 8726DF CARF MF 20 pode verificar dos documentos acostados aos autos, foi publicado o Fato Relevante em jornal de grande circulação, tratando da incorporação da NORDESTE pela Impugnante, bem como descrevendo todas as operações acima relatadas (Doc. 09). Ou seja, nada foi omitido de ninguém, muito menos do Fisco”; dd) “inicialmente, cumpre ressaltar que o ágio ou deságio gerado em operações como as ocorridas no presente caso decorre da diferença entre o valor da efetiva aquisição e o valor patrimonial das ações, quando se adota o registro da participação societária pelo método da equivalência patrimonial. Caso o valor pago seja maior que o valor patrimonial, haverá ágio. Caso contrário, deságio”; ee) “após a incorporação, a Impugnante passou a deduzir o ágio da base de cálculo do IRPJ e da CSLL nos termos do artigo 386, § 6º, inciso II, do RIR/99. Essa decisão, conforme exposto, encontrase fundamentada, em síntese: (i) na necessidade de aproveitamento do benefício fiscal concedido à Impugnante por determinação expressa de lei; (ii) na observância de todos os dispositivos normativos e regulatórios para a realização das operações societárias (total legalidade das operações); e (iii) no fato de a estrutura societária adotada ser a mais simples e coerente do ponto de vista econômico para o aproveitamento do ágio.” ff) “tecidos esses breves comentários sobre a estrutura da operação, pelos quais restou evidente que a NORDESTE PARTICIPAÇÕES S/A (empresa incorporada pela Impugnante) passou a ser a legítima detentora das ações da COELBA, escrituradas contabilmente na forma do artigo 385 do RIR/99, a Impugnante passará a abordar, a seguir, as razões pelas quais não poderá prosperar a cobrança dos créditos tributários em questão”; gg) a Lei das S/A não abordou, especificamente, o tema: ágio na aquisição de ações de empresas, mas ele está de acordo com as técnicas contábeis e encontrase previsto na instrução CVM n° 247, de 1996 e no artigo 385 do RIR/1999; hh) “a amortização do ágio (ou deságio) é feita com o lançamento despesas (ou receitas) operacionais. O critério de amortização,contudo, dependerá do fundamento econômico para o pagamento dessa diferença”; ii) “segundo o artigo 385 do RIR/99, o lançamento do ágio deverá indicar algum dos seguintes fundamentos econômicos: (i) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade;(ii) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; ou (iii) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas”; Fl. 8727DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.718 21 jj) “especificamente para os casos em que a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado com fundamento econômico no valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros, estabeleceu a legislação que será possível amortizar o valor do ágio nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração (inciso III do artigo 386 do RIR/99)”; kk) “registrese que o benefício fiscal de dedutibilidade do ágio pago na aquisição de sociedades tem como objetivo incentivar a prática de fusões e aquisições, especialmente quando se tratasse de estatais em processos de privatização. No presente caso, como já mencionado, tratase da aquisição de companhia estatal em processo licitatório de privatização. O processo de privatização foi completamente regular e todos os atos praticados estão de acordo com as normas de concessão do serviço público”; ll) “também é de conhecimento público que uma das ferramentas utilizadas pelo Governo Federal, como forma de incentivar as privatizações, foi a concessão do benefício fiscal de dedução do ágio pago na aquisição dessas empresas, facilitando e incentivando, assim, as operações”; mm) “quando da privatização das companhias estatais, as participações societárias eram adquiridas com ágio e registradas na forma do artigo 385 do RIR/99: "Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei n° 1.598, de 1977, art. 20): I – valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II – ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I – valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II – valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; Fl. 8728DF CARF MF 22 III – fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas." (g.n.) nn) “a legislação autoriza, assim, a dedução do ágio registrado nessas aquisições quando fundamentado no valor de rentabilidade com base em resultados dos exercícios futuros. A possibilidade de amortização do ágio pago era uma forma de incentivar a venda das companhias estatais, configurando, dentre outros motivos, benefício fiscal para fomento às privatizações”; oo) “ressaltese que, no caso em questão, o fundamento econômico para o pagamento do ágio foi o valor de rentabilidade futura da Impugnante, o qual está devidamente comprovado pelo Laudo de avaliação econômica da COELBA de 23 de dezembro de 1999, elaborado pela Arthur Andersen Business Consulting S/C Ltda., e o Laudo de avaliação elaborado pela Ernst & Young Auditores Independentes S/C de 31 de março de 2000, que apurou o ágio remanescente em 29 de fevereiro de 2000 (DOC. 10). pp) “todo o procedimento é de conhecimento público por se tratar de processo licitatório de privatização, pois, a operação encontrase inserida no âmbito do Programa Nacional de Desestatização ("PND"), por meio do qual o Estado pretendia transferir para a iniciativa privada a prestação de diversos serviços públicos, que até então eram prestados pelo próprio Estado”; qq) “o objetivo era aumentar a eficiência da prestação dos serviços e, com isso, obter uma redução das tarifas. As empresas privadas, por sua vez, adquiriam as empresas públicas com o pagamento de um ágio em função do potencial de lucratividade do segmento econômico em que começariam a atuar”; rr) “O fundamento econômico para o aproveitamento do ágio, segundo o Manual de Contabilidade das Sociedades por Ações, é o seguinte: "o ágio pago por expectativa de lucros futuros da coligada ou controlada deve ser amortizado por tais futuros lucros, ou seja, contra os resultados dos exercícios considerados na projeção dos lucros estimados que justifiquem o ágio. O fundamento aqui é o de que, na verdade, as receitas equivalentes aos lucros da coligada ou controlada não representam um lucro efetivo, já que a investidora pagou por eles antecipadamente, devendo, portanto, baixar o ágio contra essas receitas”; ss) “na esfera fiscal, confirase o benefício concedido por meio do artigo 386 do RIR/99: ‘Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei n° 9.718, de 1998, art. 10): (...) III – poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2° do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um Fl. 8729DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.719 23 sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (...) § 6ª O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I – o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; II – a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária.’(g.n.)” tt) “o benefício fiscal previsto no artigo 386 do RIR/99 de aproveitamento do ágio como uma despesa dedutível tinha como objetivo beneficiar situações como a da Impugnante, pois tornava mais atraente a realização dos vultosos investimentos necessários para as privatizações”; uu) “ademais, também era muito comum que o ágio gerado em operações de privatização fosse aproveitado nas próprias empresas privatizadas, com o lucro por elas gerado. Nesse sentido, verificase que há autorização expressa do artigo 386, § 6º, inciso II, do RIR/99 para aplicação do benefício fiscal quando a empresa incorporada fosse aquela que detinha a propriedade da participação societária”; vv) “neste sentido, verificase que a revogação do inciso III do artigo 7º da Lei n° 9.532/97 (fundamento para o artigo 386 do RIR/99) foi proposta por meio do Projeto de Lei n° 2.922, de 2000, o qual se encontra arquivado. Não obstante, essa revogação foi contestada na proposta de emenda do Deputado Luiz Antonio Fleury (PTBSP), com a seguinte justificativa: ‘Propomos a supressão do dispositivo, tendo em vista afetar negativamente o tratamento contábil relativo às operações de reorganização societária e, conseqüentemente, o desenvolvimento da economia nacional. Como se sabe, os processos de privatização de empresas estatais e concessão dos serviços públicos têm justamente o objetivo de fortalecer a economia, transferindo aos particulares o controle e a administração de companhias estatais. Desta forma, andou bem o Estado ao promover a privatização de suas empresas, visando justamente incrementar a situação financeiraeconômica do país. Inclusive, a forma de contabilização atualmente prevista no inciso III do art. 7º da Lei n.° 9.532, de 10 de dezembro de 1997, representou um incentivo para que as empresas privadas participassem dos programas de desestatizacão. Neste sentido, podemos até dizer que um dos principais incentivos apresentados pelos processos de privatização está inserido na seara fiscal, eis a razão pela qual o benefício fiscal do inciso III do Art. 7º da Lei n° 9.532, de 1997, se faz necessário. Fl. 8730DF CARF MF 24 A amortização do ágio efetivamente pago, com o fundamento na rentabilidade futura da empresa adquirida, é perfeitamente justa. O ágio consiste num 'plus' no valor da empresa negociada, podendo ser bastante subjetivo, devendo, portanto, ser amortizado ao longo do tempo. O ágio, muitas vezes, representa um substancial valor no preço total de negociação de uma empresa. A amortização a longo prazo permite que a empresa adquirente consiga 'digerir' o investimento efetuado de uma forma equilibrada, o que incentiva as reorganizações societárias. As demonstrações financeiras da empresa adquirida, por meio de privatização ou não, registram apenas o valor contábil da própria empresa. O eventual ágio a ser pago, que pode ser bastante relevante, não integra o patrimônio líquido da empresa adquirida; na verdade, podemos dizer que representa uma despesa necessária (do ponto de vista da empresa adquirente) para a aquisição ou reorganização. Na categoria de despesa, deve ter o tratamento apropriado para tanto. Importantíssimo ressaltar que a amortização do ágio não traz qualquer lesão ao patrimônio público, até porque o assunto faz parte das normas contábeis e dos princípios geralmente aceitos. Ora, não se pode dizer que a aplicação de um princípio contábil, qual seja, amortização do ágio, traz lesão ao poder público, pois muitos desses princípios são legalmente previstos. Além disso, não há que se falar em prejuízo, porque prejuízo pressupõe a necessária apuração de perda, o que não é o caso. A amortização de ágio é uma tradição contábil e fiscal e representa a verdadeira harmonização entre as normas contábeis e o tratamento tributário. A supressão do referido inciso III do art. 7º da Lei n.° 9.532, de 10 de dezembro de 1997 representará um desastroso descasamento com relação a esses aspectos e terá conseqüências negativas, porque a proposta representa um desincentivo às reorganizações societárias (inclusive às privatizações), o que culminará com o enfraquecimento da economia nacional e, aí sim, o patrimônio público será lesado. Também é importante lembrar que a aprovação do dispositivo prejudica enormemente todas as reorganizações societárias praticadas por empresas privadas, e não só as vencedoras dos leilões de privatização. A aprovação do dispositivo seria um retrocesso na tentativa de reerguer o país, já que representa a imposição de mais um ônus injusto e desnecessário às empresas, e por conseqüência, à população em geral. O Brasil precisa de medidas construtivas, bem estudadas, para que finalmente consiga atingir o desejado equilíbrio econômico. Ante a todo o exposto, o mais correto é suprimir o referido art. 1º do Projeto de Lei n° 2.922, de 2000, que revoga o inciso III do art. 7º da Lei n.° 9.532, de 10 de dezembro de 1997, fazendo justiça ao próprio projeto de desenvolvimento econômico do país.’ (g.n.)” ww) foi exatamente esse o mesmo benefício fiscal que pretendeu usufruir Contudo, a forma como foi realizado o processo de privatização não permitia o aproveitamento de forma Fl. 8731DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.720 25 automática, uma vez que não poderia incorporar automaticamente sua controladora, “pois não é razoável a incorporação de empresas como a GUARANIANA S/A, que detém investimentos em diversas companhias de geração e de transmissão de energia elétrica por uma concessionária de energia elétrica”; xx) “dessa forma, foi necessário criar legalmente uma estrutura societária que permitisse a segregação desse investimento em uma sociedade que não tivesse outros ativos/atividades sociais que tornasse incompatível, economicamente, a incorporação da controladora pela controlada e, com isso, se transferisse o ágio para a controlada”; yy) assim, “verificase que única forma jurídica possível para tornar viável economicamente a aquisição da Impugnante no processo de privatização, com o aproveitamento do benefício fiscal de dedutibilidade do ágio, foi a forma adotada no caso concreto: reestruturação societária legal, de forma que a participação acionária adquirida com ágio pela empresa NORDESTE PARTICIPAÇÕES S/A (gerado com fundamento econômico na privatização) fosse absorvida pelo patrimônio da Impugnante”; zz) o presente caso trata “de mera fruição de um benefício fiscal previsto em lei, que possui todos os requisitos legais, motivação econômica e coerência das estruturas adotadas com a finalidade pretendida”; aaa) “o ganho econômico da Impugnante, decorrente do aproveitamento do ágio, reflete um benefício fiscal já considerado no momento do pagamento do preço no processo licitatório de privatização (benefício este considerado por todos os participantes do leilão público). Não poderia agora o próprio Fisco pretender cercear a fruição desse benefício fiscal sob a alegação de que a Impugnante o teria prejudicado”; – “Motivo, Finalidade Congruência do Negócio Jurídico”: bbb) não prospera a afirmativa da Fiscalização de que “as operações praticadas no presente caso não teriam propósito negocial, ou seja, não teriam um substrato econômico para a sua realização, já que, no seu entender, teriam sido realizadas apenas com o intuito de economizar tributos”; ccc) “é necessário destacar que parte da doutrina e da jurisprudência administrativa, realmente, vem adotando limites positivos ao ‘planejamento tributário’ (que como já afirmado não é o caso dos autos), ou seja, a teoria do propósito negocial. O primeiro desses limites positivos, reconhecido como aplicável em nosso sistema jurídico por Marco Aurélio Greco, corresponde ao motivo, à finalidade e à congruência do negócio jurídico”; ddd) “para este autor, o motivo e a finalidade do negócio jurídico não podem ser predominantemente tributários. Com Fl. 8732DF CARF MF 26 efeito, o motivo das partes (o que chamamos de intenção) de obter uma economia tributária não seria suficiente para a realização do negócio. Seria necessário demonstrar que houve outros motivos para sua realização”; eee) “além de existir o motivo e a finalidade predominantemente não tributários, seria necessário que eles fossem congruentes entre si. Portanto, deve ser possível demonstrar que o motivo não predominantemente tributário é compatível com a finalidade pretendida com a realização do negócio jurídico”; fff) “no presente caso, admitindose os pressupostos dessa doutrina mais restrita, ainda assim, encontramse presentes o motivo, a finalidade e congruência dos atos, pelo que não se pode admitir o entendimento do Sr. Agente Fiscal: – todos os atos praticados tiveram por motivo a aquisição da COELBA em processo de privatização, para o conseqüente aproveitamento do benefício fiscal de dedução do ágio gerado nessa aquisição nos estritos termos da Lei. Inclusive, ao longo desta defesa, demonstrouse os motivos pelos quais foram adotadas outras estruturas ou outros caminhos quando da realização de todas as operações, tendo em vista as peculiaridades do caso; – a finalidade da operação era a aquisição de uma concessionária de energia elétrica de grande porte e participação no mercado brasileiro, como forma de consolidar as atividades do grupo de empresas controlados pela GUARANIANA S/A, atualmente denominada NEOENERGIA S.A., e – todos os atos societários praticados inseremse congruentemente neste contexto da aquisição de uma concessionária de energia por um grupo detentor de grandes empresas concessionárias de energia elétrica (geradoras e transmissoras): (i) a forma de participação no leilão; (ii) os fluxos de caixa ocorridos; (iii) a necessidade da constituição de todas as sociedades envolvidas; e (iv) todas as operações realizadas para reduzir estruturas desnecessárias e obter uma sinergia no grupo NEOENERGIA S/A.” ggg) “todos os atos praticados, analisados como um ‘filme’, demonstram claramente a congruência do motivo e da finalidade da operação realizada pelo grupo NEOENERGIA S/A, os quais não eram predominantemente tributários. Dessa forma, não há que se falar em falta de propósito negocial ou ausência de pressuposto econômico, como afirmou o Sr. Agente Fiscal, estando presentes todos os requisitos exigidos pela nova corrente doutrinária”; hhh) “conforme mencionado, destaquese que os atos e operações objeto do presente processo possuem particularidades e características que os diferem dos demais casos já julgados na esfera administrativa nos quais se discute a dedutibilidade do ágio em aquisição de participações societárias”; iii) “o presente caso é completamente distinto dos outros casos já julgados pelo Conselho de Contribuintes, especialmente Fl. 8733DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.721 27 distinto das operações conhecidas como ‘casasepara’ e ‘operação ágio’”; jjj) “após analise de um conjunto de 24 acórdãos do Conselho de Contribuintes disponíveis para pesquisa pela internet que versam sobre diferentes casos discutindo a dedutibilidade do ágio em aquisição de participações societárias , constatouse que a maior parte dos casos analisados pelo Conselho de Contribuintes trata de operações em que a empresa realiza uma série de operações estruturadas de aporte de capital com ágio, capitalizando uma terceira empresa para posteriormente cindi la. Nestes casos, discutese se o real propósito destas operações consiste em evitar a incidência do ganho de capital ou não”; kkk) de forma diferente daquelas situações, “o presente caso trata de ágio gerado na integralização das ações da COELBA. Assim, conforme já destacado, a operação deve ser analisada como um filme, no qual se percebe todos os atos que foram executados no contexto de aquisição da COELBA no processo de privatização”; lll) “no presente caso está evidente que o propósito ou finalidade não é evitar a incidência do ganho de capital. De fato, se há algum ganho na venda da COELBA neste processo de privatização, este ganho é da União e não da Impugnante ou do grupo que participou no leilão”; mmm) “ante o exposto, tornase evidente a total insubsistência dos argumentos levantados pelo Sr. Agente Fiscal para a lavratura do presente auto de infração, uma vez que a presente operação é totalmente legítima, válida e em conformidade com o ordenamento jurídico brasileiro e com a atual doutrina e jurisprudência acerca do propósito negocial, motivo pelo qual deverão ser cancelados por esta E. Delegacia de Julgamento, com a conseqüente desconstituição dos créditos tributários”; “III.1.4 – Legitimidade Da Operação Como Planejamento Tributário” nnn) “antes de adentrar na análise dos vícios apontados pelo Sr. Agente Fiscal para desconsiderar as operações societárias praticadas pela Impugnante para o aproveitamento do ágio gerado no processo de privatização, é importante que se demonstre o total equívoco cometido na qualificação dos atos praticados como sendo parte das seguintes operações: i) ‘(...) o objetivo exclusivo da operação de reorganização societária era elidir o pagamento de tributos’ (...)" “Afirma o Sr. Agente Fiscal no TEAF que: ‘Da análise da Ata de Reunião do Conselho Fiscal e do Parecer do Conselho Fiscal da COELBA, emitidos em 30 de maio de 2000, resta claro e transparente o objetivo exclusivo da operação de reorganização societária de elidir o pagamento de tributos. Assim, em 07 de junho de 2000, após expedição a Fl. 8734DF CARF MF 28 Resolução ANEEL n° 195/2000, e, de acordo com Atas de AGE, realizadas nas empresas Nordeste Participações S/A e COELBA, foi aprovada a incorporação às avessas supracitada.’ (TEAF)” “Ora, conforme exaustivamente demonstrado, a Impugnante sempre apresentou à fiscalização todas as etapas que pretendia realizar, inclusive o objetivo final pretendido de aproveitamento do ágio na Impugnante. Conforme mencionado, essa situação final já era vislumbrada desde a realização do processo licitatório de privatização e decorre de benefício fiscal previsto em lei”; “Demais, todos os atos praticados cumpriram as formalidades exigidas em lei e foram devidamente aprovados pela agencia regulatória do setor elétrico ANEEL, como, inclusive, ressaltado pelo Sr. Agente Fiscal, e já foi exaustivamente demonstrado nestes autos.” (ii) ‘(–) que a transferência de ações promovida pela empresa Guaraniana S/A a Nordeste Participações S/A, não passou de formalismo jurídico’ (...) " “Com efeito, em que pesem as infundadas ilações da D. Autoridade Lançadora, verificase que não há qualquer irregularidade na transferência da despesa de amortização do ágio para a Impugnante, pois se trata de benefício fiscal concedido por lei, inclusive com previsão expressa. Confirase novamente o disposto no artigo 386 do RIR/99: Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 70, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): (...) III – poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2° do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (...) § 6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I – o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; II – a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. (g.n.)” “Com efeito, não assiste razão à D. Fiscalização, pois a alegada transferência da base tributável está expressamente prevista no artigo 386 do RIR/99, como já mencionado, configurandose, pois, situação privilegiada por lei para incentivar determinadas práticas, dentre elas a valorização de empresas estatais em processo de privatização.” Fl. 8735DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.722 29 “(iii) ‘que a Guaraniana S/A criou artificialmente um negócio jurídico, sem substância econômica’ (...)” “Novamente equivocase o Sr. Agente Fiscal ao dizer que a Guaraniana teria criado artificialmente um negócio jurídico, sem substância econômica, que evidenciaria divergência entre a forma apresentada e a vontade fática demonstrada. Na verdade, tratase novamente de situação de benefício fiscal expressamente autorizada por lei, pois a dedutibilidade do ágio também é extensivo à aquisição de participação societária com ágio quando ‘a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária’ (§ 6° do artigo 386 do RIR/99).” “Não obstante a previsão expressa em lei para a realização dessa operação societária, limitase a fiscalização a afirmar que ‘Não se percebe substância econômica ou razoabilidade nesta operação da forma como foi realizada.’ (TEAF).” “Ocorre que, a despeito das afirmações acima mencionadas, sem qualquer referência a fatos concretos, a operação realizada pela Impugnante não foi realizada sem nenhum propósito negocial. Ao contrário, foi amplamente utilizada nos processos licitatórios de privatização ocorridos no Brasil e encontra previsão legal no §4º do artigo 264 da Lei das S/A e no mencionado §6º do artigo 386 do RIR/99.” “Em que pesem os argumentos do Sr. Agente Fiscal, não há qualquer irregularidade ou anormalidade em se integralizar ações de uma sociedade em outra para que esta passe a ser sua controladora. O fato de a NORDESTE PARTICIPAÇÕES haver sido constituída em 30/09/1997 (com a denominação DOC2 Participações S/A) e não ter apresentado movimentação operacional até 1999 não torna a operação irregular.” “Novamente, é importante ressaltar que todos os atos praticados pela Impugnante foram públicos e previamente submetidos à agencia reguladora do setor de energia elétrica, a qual aprovou todas as operações pretendidas sem ressalvas, de forma que não poderá prevalecer qualquer dúvida sobre a legitimidade das operações.” “De fato, conforme mencionado pela própria fiscalização, a empresa NORDESTE PARTICIPAÇÕES S/A adquiriu as ações da Impugnante com o ágio pago no processo licitatório de privatização e, assim, passou a ser sua controladora.” “Verificase que todos os atos praticados foram devidamente autorizados pelo órgão regulador do setor de energia elétrica (Resolução ANEEL n° 195/00).” “Dessa forma, é possível afirmar que a Instrução CVM n° 349/01 foi instituída com a finalidade adaptar a regulamentação existente de forma que refletisse adequadamente as operações realizadas com ágio nas demonstrações financeiras, como a realizada pela Impugnante, a qual foi praticada em Fl. 8736DF CARF MF 30 conformidade com o disposto as regras da CVM, inclusive a própria Instrução CVM n° 349/01.” “Também causa estranheza ao Sr. Agente Fiscal o fato de a Impugnante ter aproveitado o ‘ágio de si mesma’. Ocorre que não há qualquer motivo para se estranhar uma operação para o aproveitamento do ágio que tenha expressa previsão em lei tributária. “Afirma a fiscalização que "Depois da citada incorporação reversa, a COELBA registrou em conta de ativo diferido o ágio, de si mesma". Contudo, apesar de reconhecer que a Impugnante incorporou a sua controladora (NORDESTE), entendeu que tal operação seria questionável do ponto de vista fiscal.” “Na verdade, tal questionamento não se justifica quando se percebe que a operação caracteriza hipótese de benefício fiscal expressamente previsto em lei (conforme mencionado, o § 6º do artigo 386 do RIR/99).” “(v) ‘Operações Intra Grupo’” “Confirase, o que afirma a fiscalização acerca da realização da operação entre partes relacionadas: ‘Esta afirmação se consolida quando analisamos a foto antes de iniciadas as operações intragrupo, que demonstra a empresa Guaraniana S/A com participação societária de 87,84% do capital da COELBA, contabilizado no Ativo Permanente, subdividido em investimento mais ágio, e, ao final das operações acima mencionadas indicando a permanência apenas do investimento representado pelos mesmos 87,84%." Mais adiante afirma: "Diante deste efeito indesejável, foi necessária a utilização da Nordeste Participações S/A, empresa veículo, com objetivo de intermediar a passagem do ágio para a COELBA. Frisase que aquela é controlada direta pela empresa 521 Participações S/A que por sua vez, é acionista da Guaraniana S/A, demonstrando indubitavelmente que se trata de operação intragrupo’(TEAF).” “Novamente, percebese o equivocado raciocínio da Fiscalização ao entender que o Fisco teria saído prejudicado com as operações. Em primeiro lugar, o ágio é antes um ganho ao Estado, pois se está recebendo um valor maior do que o valor patrimonial contábil de sua empresa (com base numa expectativa de rentabilidade futura que pode não ocorrer). Em segundo lugar, a Impugnante incorreu em uma despesa expressamente prevista em lei, motivo pelo qual não há prejuízo ao Fisco, mas sim o pagamento do exato montante previsto em lei.” “Contudo, mais uma vez é importante ressaltar que o benefício fiscal ora analisado, por sua própria natureza, só existe em operações societárias que envolvam empresas do mesmo grupo. O próprio § 6º do artigo 386 do RIR/99 deixa clara a sua aplicação para incorporação da controladora pela controlada: ‘6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando: II – a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária.’” Fl. 8737DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.723 31 “Portanto, mais uma vez se percebe o equívoco da fiscalização ao qualificar as operações realizadas pela Impugnante ao entender que teriam ocorrido apenas no papel. Todos os atos praticados obedeceram estritamente a legalidade e ainda apresentam motivos econômicos congruentes com a finalidade a que se destinam.” “Ademais, a tentativa de caracterização como ágio interno deve derivar do fato de que a COELBA, ao incorporar sua controladora, a Nordeste Participações S/A, que por sua vez era controlada pela 521 Participações, acionista da Guaraniana S/A, antiga denominação da Neoenergia S/A, acabou trazendo o ágio para dentro do seu próprio patrimônio. E esse processo de incorporação é que está sendo interpretado como operação interna. Essa incorporação é operação entre entidades sob controle comum, mas ela em nenhum momento gerou qualquer tipo de ágio; tudo foi feito a valor de livros.” “O ágio que acaba aparecendo na COELBA era o mesmíssimo que estava na Nordeste e anteriormente na Guaraniana e que, exatamente por causa da incorporação, vai para a COELBA. Nenhum ágio novo. Logo, de forma alguma existe qualquer geração de ágio derivado de operações internas.” “Logo, inadmissível denominarse o ágio em discussão de ágio gerado em operações internas.” “(vi) ‘Laudo apresentado extemporaneamente pela empresa Guaraniana S/A’ ” “Ressaltese, ainda, o que alega a fiscalização acerca do laudo de avaliação econômica da COELBA ‘Resta claro, pela falta de apresentação de laudo tempestivo comprovando os pressupostos econômicos do citado ágio, que este, corresponde a Fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas, indicados na alínea "c"do parágrafo 2º, artigo 20, do DecretoLei 1.598/77’” “Alega o fiscal que inexistiria laudo que sustentasse a expectativa de rentabilidade futura, na medida em que o Laudo foi elaborado em data posterior.” “Não obstante, reconhece o próprio fiscal a existência de dois laudos de avaliação, o Laudo de avaliação econômica da COELBA de 23 de dezembro de 1999, elaborado pela Arthur Andersen Business Consulting S/C Ltda., e o Laudo de avaliação elaborado pela Ernst & Young Auditores Independentes S/C de 31 de março de 2000, que apurou o ágio remanescente em 29 de fevereiro de 2000 (DOC. 10).” “Com efeito, não obstante a Impugnante tenha contratado empresas de auditoria externa renomadas para a elaboração de laudos de avaliação do ágio, verificase que não há qualquer obrigação de que esse suporte tenha que ser dado por meio de laudo de terceiro especialista em avaliação de empresas. O DecretoLei n° 1.598/77 menciona, no par. 3º do art. 20 (reproduzido no art. 385 do RIR/99): Fl. 8738DF CARF MF 32 ‘O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do §2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração.’” “É também de se notar que, após o leilão de privatização e a aquisição de ações da Impugnante na BOVESPA, e até que houvesse as incorporações mencionadas, as amortizações do ágio se fizeram sem que se tomasse sua dedutibilidade. Mas essa não dedutibilidade se deu pela falta do processo de incorporação (ou fusão ou cisão), como exigido pelo RIR/99, art. 386; e não pela falta de documentação que evidenciasse tratar se o ágio de expectativa de rentabilidade futura. Assim, considero que havia, sim, a documentação que justificava, à data da aquisição do controle da COELBA, a classificação do ágio nascido na operação. E mais, quando se iniciaram as dedutibilidades dos ágios amortizados, estavam em poder da empresa dois laudos de avaliação. Para registro: em nenhum momento o valor do ágio e a sua natureza de ágio são contestados pela Fiscalização. Pelo contrário, são totalmente reconhecidos. A glosa se deu única e exclusivamente pela hipótese que se vê incorreta da inexistência de demonstração que justificasse.” “III.1.5 – Da inexistência de abuso de direito " ooo) “a aplicação do instituto do abuso do direito para fins de controle do planejamento tributário é muito questionada atualmente. Grande parte dos autores encontram dificuldade de aplicação desse instituto para fins tributários”; ppp) “Luis Eduardo Schoueri, por exemplo, ao analisar o caso específico da distribuição disfarçada de lucros, afirma que ‘É certo que, com a atitude do contribuinte, o fisco poderá ter sua arrecadação prejudicada (e por isso mesmo é que os diversos legisladores contemplam a distribuição disfarçada de lucros), mas por certo não foi o contribuinte movido pelo desejo de prejudicar seu País, mas de ampliar seus próprios lucros’”; qqq) “de fato é muito difícil verificar no planejamento tributário a intenção de prejudicar o Fisco. O interesse do contribuinte é sempre o de maximizar seus lucros, nem que seja por meio da economia tributária”; rrr) “até mesmo a existência do direito do Fisco de obter uma maior arrecadação é questionável. Em razão do princípio da legalidade, não é possível a cobrança de um tributo não previsto em lei”; sss) “ademais, também é relevante a conclusão de Heleno Taveira Torres no sentido de que é difícil pensar em abuso do direito em matéria tributária. Isto porque, o direito de que o contribuinte abusaria seria o de autoorganização. Este, contudo, não é um direito, mas sim um poder de auto regramento das condutas”; Fl. 8739DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.724 33 ttt) “por fim, segundo este autor, as normas tributárias são normas cogentes e não meramente dispositivas. Assim, qualquer abuso que contrarie essas normas configura uma afronta direta de lei e não um abuso do direito. No presente caso, não houve qualquer afronta direta de lei”; uuu) “com efeito, não há como se afirmar que houve um abuso do direito no presente caso. De fato, para que se verificasse referida distorção no equilíbrio do relacionamento entre as partes, seria necessária a utilização de um direito em finalidade diversa daquela para qual o ordenamento assegura sua existência”; vvv) “no entanto, o direito à fruição do benefício fiscal de dedução do ágio previsto no artigo 386 do RIR/99 é conferido especialmente para casos de aquisição de participação societária pagando uma diferença a maior entre o custo de aquisição do investimento e o valor do patrimônio líquido na época da aquisição, especialmente quando tiver como fundamento econômico o valor de rentabilidade da controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros (artigo 385 do RIR/99)”; www) “ressaltese que esse benefício fiscal foi previsto especialmente para o incentivo às privatizações, pois os adquirentes estariam dispostos a pagar um ágio maior quando fossem adquirir as empresas estatais. Esse aumento de valor beneficiaria o próprio Estado e, portanto, não haveria perda nem prejuízo com a sua dedutibilidade para fins de apuração da CSLL e do IRPJ”; xxx) “conforme mencionado, o fundamento econômico para o aproveitamento do ágio ‘é o de que, na verdade, as receitas equivalentes aos lucros da coligada ou controlada não representam um lucro efetivo, já que a investidora pagou por eles antecipadamente, devendo, portanto, baixar o ágio contra essas receitas.’ (...)” yyy) “dessa forma, conforme já explicitado nos presentes autos, o que também é reconhecido pela fiscalização, o fundamento econômico do ágio com base em expectativa futura de lucros futuros está evidente, até mesmo porque o ágio foi pago em processo licitatório de privatização (leilão público). Portanto, descabida a afirmação da fiscalização de que a legislação societária foi usada apenas como instrumento para alcançar ganhos na esfera da legislação tributária (‘formalismo jurídico’)”; zzz) “não obstante a demonstração de inocorrência de abuso do direito no presente caso, também é importante que se desfaça o equívoco da fiscalização ao afirmar que não passaria de formalismo jurídico, sem substância econômica ou razoabilidade. Aparentemente, a inferência de simulação foi utilizada de forma despropositada pela fiscalização, pois em nenhum momento traz elementos para afirmar a existência desse vício do negócio jurídico”; Fl. 8740DF CARF MF 34 aaaa) “contudo, apenas para ficar claro que as operações não apresentam qualquer indício de simulação, passase a demonstrar a regularidade dos atos praticados”; “III.1.6 – Da Inexistência de Simulação " bbbb) “inicialmente, é importante reforçar que os negócios jurídicos praticados no presente caso gozam de plena validade jurídica e, por essa razão, não poderiam ser pretensamente desconsiderados a pretexto de uma suposta simulação”; cccc) “para Pontes de Miranda , o instituto da simulação ‘vem de simul, advérbio, com o sentido de fingir ser, ou de se aparentar o que não se é, ao passo que assemelhar, semelhança, assimilar, derivam de similis, adjetivo. Alguém, que se assemelha a outrem, nada faz para isso: a relação entre os dois é objetiva. Quem simula, ou quem dissimula, faz por aparentar, ou por encobrir’”; dddd) “a simulação é um instituto de Direito Civil, cuja definição, à época dos fatos ora analisados, estava prevista nos artigos 102 e 103, do Código Civil: ‘Art. 102 Haverá simulação nos atos jurídicos em geral: I – Quando aparentarem conferir ou transmitir a pessoas diversas das quem realmente se conferem, ou transmitem. II – Quando contiverem declaração, confissão, condição, ou cláusula não verdadeira. III – Quando os instrumentos particulares forem antedatados, ou pósdatados. (...) Art. 103. A simulação não se considerará defeito em qualquer dos casos do artigo antecedente, quando não houver intenção de prejudicar a terceiros, ou de violar disposição de lei.’ (g.n.)” eeee) “assim, em regra, podese afirmar que haverá simulação sempre que um ato apresenta vontade diferente da aparentemente manifestada. Ressaltese, porém, que este ato somente será considerado defeituoso quando houver o intuito de prejudicar terceiros, ou ainda, violar dispositivo de lei”; ffff) “no caso concreto, não se pode alegar a existência de eventual simulação. Isto porque, além do fato de que as operações pactuadas entre as partes não aparentarem direito diverso daquele que foi realmente contratado, também não contém quaisquer declarações ou cláusulas não verdadeiras, caracterizada pelo inciso II, do artigo 102 do Código Civil Brasileiro vigente à época”; gggg) “conforme já mencionado, não foi realizada qualquer operação com o intuito de prejudicar terceiros, muito menos o Fisco, não podendo, por isso, prevalecer o entendimento do Sr. Agente Fiscal que afirma equivocadamente que o Fisco teria sido prejudicado com a dedução do ágio pela Impugnante”; Fl. 8741DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.725 35 hhhh) “assim, não se pode admitir que houve simulação de quaisquer atos praticados na reestruturação societária questionada no presente caso, sobretudo porque as operações realizadas não se subsumem, nem com muita elucubração, às disposições dos artigos 102 e 103 do antigo Código Civil”; iiii) “ademais, cumpre ressaltar, com efeito, que simulação não se presume e não se prova por meio de indícios. No presente caso, o Sr. Agente da Fiscalização não conseguiu comprovar a ocorrência da simulação. Muito antes pelo contrário. O que se pode depreender dos documentos anexos ao presente processo administrativo, é que de fato as operações societárias em comento ocorreram. E mais, que a Impugnante nunca quis demonstrar operação diversa da que foi efetivamente realizada, lastreada em laudos de empresa de auditoria de renome”; jjjj) “importante notar ainda que, à época em que as operações foram realizadas, os atos societários e quaisquer outras declarações e confissões que envolveram as partes do negócio foram realizados antes da ocorrência do fato gerador do tributo. Ao tratar de simulação, o que se pretende, com a manifestação mentirosa, é de alguma forma encobrir o que de fato está acontecendo, o que no presente caso não ocorreu. Portanto, inadmissível a alegação de que todos os atos praticados foram simulados”; kkkk) “sobre o tema, relevante trazer à colação o entendimento do Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda, expresso em parte do brilhante voto proferido pelo Conselheiro Relator Dicler de Assunção, nos autos do processo administrativo n.° 11080/006.232/8987, da Terceira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes (Acórdão n.° 10311.865): ‘(...) Alguns 'indícios' teriam levado a autoridade a concluir que a operação em geral fora feita após o advento do DL 2.065/83, sendo os contratos portanto antedatados com ofensa expressa ao art. 102, III, do Código Civil. Porém, para começo de abordagem, é sabido que indícios, data vênia, apenas não são suficientes para demonstrar a ocorrência concreta de figuras como a simulação, a fraude a sonegação. (...) Em direito, à guisa de princípio maior, temse assente que a simulação, a fraude, o conluio, etc, não se presumem. Devem ficar sobejamente comprovados, estreme de qualquer dúvida, a nível de princípio geral, tanto que há a regra maior do in dúbio do CTN, art. 112. (...) Quanto não bastasse, o gênero de transação ou negócio sob exame, é o da alienação de investimentos, que, rigorosamente, poderseia dar por diversas espécies de contratos, como v.q.: Fl. 8742DF CARF MF 36 venda pura e simples, a doação, a troca, a permuta, etc., sem desnaturar o objetivo visado, atingindo, e – como não poderia deixar de ser reconhecido pela própria autoridade – : que foi o objetivo de alienar os investimentos. A Impugnante poderia (claro que arcando com todas as conseqüências incidentes) inclusive ter alienado ditos investimentos sob a forma de doação. Vale dizer, conforme dito, sem preço nenhum, zero realmente, e nem por isso o seu negócio poderia ser desfeito ou inquinado de simulado, dado que, o objetivo visado o de alienar estava claro desde o início, e o negócio doação era juridicamente possível e não proibido pela lei, e assim sucessivamente. A autoridade concluiu que o único objetivo seria o de escapar da tributação receita de correção monetária: porém, têloia sido mesmo? Como provar e/ou demonstrar que essa não teria sido apenas uma conseqüência ou decorrência do negócio feito? (...) Tenho que não houve abuso de forma jurídica para o objetivo contratualmente perseguido e que se consegue provar com segurança: a transferência dos investimentos, por motivações e/ou razões variadas, alegadas, etc, de conveniência administrativa, operacional, financeira, prática, etc, unidade de ação no mercado interno e/ou externo, construção de uma imagem empresarial única, e/ou até mesmo (por que não?) a de economia (dentro da lei) tributária, etc. Desde que não sejam causas ou motivações contrárias às leis e aos bons costumes, não há, juridicamente, como questionar e/ou impugnar as mesmas, muito menos no pressuposto de que estariam à base de uma simulação e de evidente intuito de fraudar o fisco. (...) O pressuposto de que tudo teria sido feito "apenas para lesar a Fazenda Nacional" além de ser muito forte, não se sustenta diante dos fatos, principalmente o decurso do tempo e o comportamento das empresas envolvidas após o contratado. As explicações (justificações) da contribuinte igualmente são convincentes e nem um pouco absurdas. E a prova, no caso, dessa circunstância, apresentase como de absoluta necessidade, pois o art. 102 do Código Civil não se encontra no particular isolado. (...) Não há no caso, prova contundente, convincente, e ou excludente de outra circunstância, igualmente plausível, de que houve tão somente ou principalmente ou exclusivamente interesse em lesar (prejudicar) o Fisco. Há muita argumentação, interpretação e construções mentais de interpretação; mas prova, fatos, documentos, não. Nesse contexto, pretender, p. ex., economizar tributos, dentro dos parâmetros legais jamais poderá ter o mesmo significado de querer em contrapartida lesar o Fisco, pois que o âmbito de validade da pretensão deste, também está Fl. 8743DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.726 37 circunscrito no âmbito da lei ou legalidade, e, uma coisa não pode ser e não ser ou ser uma e outra ao mesmo tempo, sob pena de ferir o princípio maior da identidade. (...) Depois, como saber realmente qual teria sido a causa principal a real motivação do negócio perpetrado? Saindo do campo da psicologia para o direito, essa questão não pode ser satisfatoriamente resolvida sem o concurso da relevância ou importância da causa do ato jurídico para a sua avaliação. Porém, bem ou mal, e, sabidamente, nosso sistema jurídico positivo não acolheu a chamada teoria da relevância da causa como elemento para a definição da regularidade ou irregularidade do ato jurídico: basta nesse particular, que seu objeto seja lícito e possível (Cod. Civ., art. 145, II, a contrario sensu). (...) De outro enfoque, não há proibição de organização dos negócios de forma a pagar a menor carga tributária possível, dentro da lei, princípio geral esse que repousa no desejo do Estado de Direito. 0 Estado de Direito, ao contrário, estimula seus cidadãos a cumprir com os seus deveres dentro dos estritos limites da legislação, com o uso da liberdade e da criatividade, bases de qualquer sociedade saudável, competitiva, moderna, econômica. Tratase de princípio geral de economia, segundo alguns, que é próprio não somente da sociedade humana, mas está presente em outras formas de organização, sendose supôlo (consoante outros) como parte de uma inteligência ou princípio maior superior e universal. (...) O ser humano é livre por natureza e para tudo. Só não lhe é permitido fazer, aquilo que estiver expressamente previsto como não permitido ou proibido. (...) Não houve simulação, nem, mesmo que esta, de fato, tivesse ocorrido, não restou, na espécie, comprovada, demonstrada ou evidenciada. Logo, independentemente de qualquer outra digressão, a tributação (pretensão) que a tomou como causa ou pressuposto fundamental, não pode subsistir. (...) E mesmo que se pudesse, total ou parcialmente, considerar a alienação de se tratou como não ocorrida, dissimulatória Fl. 8744DF CARF MF 38 relativa que seria de verdadeira doação, de qualquer forma, não se poderia cogitar para casos tais, da multa qualificada de 150% por evidente intuito de fraude. (...) Ante a tudo o que foi exposto, voto no sentido de conhecer do recurso, por tempestivo, para, no mérito, darlhe provimento.’ (g.n.)” llll) “a Egrégia Câmara Superior de Recursos Fiscais ("CSRF") do Ministério da Fazenda já pacificou o entendimento de que para que se possa materializar a simulação, é necessário que o ato praticado não pudesse ser realizado, seja por vedação legal ou por outras circunstâncias fáticas, sendo que os objetivos visados com a prática do ato não interferem na qualificação do mesmo, ou seja, se o ato era lícito, as conseqüências contrárias ao Fisco devem ser qualificadas como casos de elisão fiscal: ‘Acórdão n.° CSRF/0101.874 da Câmara Superior de Recursos Fiscais IRPJ SIMULAÇÃO na Incorporação Para que se possa materializar é indispensável que o ato praticado não pudesse ser realizado, fosse por vedação legal ou por qualquer outra razão. Se não existia impedimento para a realização da incorporação tal como realizada e o ato praticado não é de natureza diversa daquele que de fato e de direito não ocorreu ato diverso da incorporação: não há como qualificarse a operação simulada. Os objetivos visados com a prática do ato não interferem na qualificação do ato praticado, portanto, se o ato era lícito, as eventuais conseqüências contrárias ao fisco devem ser qualificadas como casos de elisão fiscal e não de evasão ilícita.’ (g.n.)” mmmm) “essas decisões, embora tratem de hipóteses diferentes, trazem a indicação dos elementos essenciais que caracterizam a simulação. Na ausência de alguns deles, não ocorre simulação”; nnnn) “diante de tudo o que foi exposto, resta comprovado que as operações societárias celebradas pela Impugnante foram todas lícitas, permitidas legalmente, feitas de modo a produzir os efeitos que realmente expressavam, pelo que, não foram operações simuladas”; pppp) “conforme já devidamente apontado e reforçado, as operações societárias realizadas pela Impugnante (i) condizem com a vontade de cada uma das partes envolvidas, (ii) estão regulares à luz do ordenamento jurídico vigente à época das operações, (iii) foram praticadas sem o intuito de prejudicar ninguém, tampouco o Fisco, (iv) encontramse em consonância com a maioria dos entendimentos emanados para operações semelhantes pelo Conselho de Contribuintes; e (v) operaramse antes da ocorrência de qualquer fato gerador da CSLL e do IRPJ”; “III.1.5 – Da inexistência de Fraude Á Lei " qqqq) “a fraude à lei pressupõe a existência de uma norma cogente que obriga o sujeito a realizar determinada conduta. Para que ocorra a fraude à lei, deve o sujeito realizar um planejamento tributário com a finalidade de contornar essa norma cogente”; Fl. 8745DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.727 39 rrrr) “contudo, na fraude à lei, o contribuinte realiza um negócio jurídico que está sujeito a determinada norma de incidência tributária menos onerosa. Ele não realiza o negócio jurídico previsto na norma de incidência mais onerosa”; ssss) “neste sentido, são importantes as palavras de Heleno Taveira Torres, para quem não há espaço para a ‘fraude à lei’ por contorno a normas de incidência tributárias. Para ele, ‘Fraude à lei que importa para o direito tributário é o afastamento de regime mais gravoso ou tributável por descumprímento indireto de regra imperativa de direito privado, na composição do próprio ato ou negócio jurídico. E nesse caso, justificase o agir do Estado na preservação dessas regras, inclusive quando a burla tenha como fundamento evitar a incidência de regras tributárias.’ (g.n.)”; tttt) “no presente caso, não há qualquer descumprimento indireto de uma regra imperativa de direito privado. Ao contrário, todas as regras de direito privado foram observadas e cumpridas pela Impugnante, o que foi exaustivamente demonstrado na presente impugnação e foi reconhecido pelas Resoluções da ANEEL”; uuuu) “portanto, não há que se falar em fraude à lei no presente caso, motivo pelo qual as operações praticadas pela Impugnante são legítimas e o aproveitamento do ágio encontrase plenamente justificado perante o nosso ordenamento jurídico”; “III. 1.8 – Desnecessidade de pagamento” vvvv) “com relação às formas de aquisição da participação societária, o artigo 20 do DL n° 1.598/77, não traz qualquer referência a um negócio jurídico específico para que esta aquisição seja realizada. Conforme já se demonstrou, o direito privado traz diversas formas jurídicas possíveis de aquisição e qualquer uma delas será válida para fins do Direito Contábil Fiscal/Tributário”; wwww) “no mesmo sentido, confirase o entendimento de Ricardo Mariz de Oliveira: ‘Outra observação importante é que a lei não limita o ato ou negócio jurídico pelo qual a aquisição tenha ocorrido, podendo ele ter sido uma compra e venda, uma permuta, uma dação em pagamento, uma conferência de bem para inteqralizacão de capital, ou qualquer outro. Conseqüentemente, também é irrelevante a contraprestação da aquisição, até porque, em qualquer caso, há um custo, e neste pode estar o ágio ou deságio.’” xxxx) “acerca do conceito do vocábulo aquisição, citese também o entendimento de Andrade Filho: ‘o termo aquisição possui grande espectro significativo e abrange todas as formas pelas quais um bem ou direito passa a integrar o patrimônio de alguém. A aquisição da participação Fl. 8746DF CARF MF 40 societária (ações ou quotas) a que se refere preceptivo legal sob análise abrange as operações de compra, de permuta, de recebimento de dação em pagamento, doação, de subscrição e integralização de capital etc. (...)’ (g. n.)” yyyy) a aquisição pode se dar por diversas formas, sem que seja necessária a existência de pagamento (v.g. permuta, dação em pagamento, doação, como no presente caso conferência de bens para integralização de capital e incorporação de ações). zzzz) destaquese, porém, que, apesar de não ser necessário o "pagamento" para configurar a aquisição de um bem/direito, haverá sempre um custo a ser suportado pelas partes (que poderá dar origem ao ágio previsto no inciso II do artigo 385 do RIR/99). Ou seja, não se pode confundir, "pagamento" com "custo". No caso em questão, o custo das ações está devidamente suportado por ter havido, como visto, uma efetiva aquisição em ambas as acepções do Direito Contábil Societário como do Direito Contábil Fiscal/Tributário, bem como por laudo elaborado por renomada empresa de auditoria, conforme já mencionado, pelo que correta está a apuração do ágio independentemente da existência de pagamento. aaaaa) “a necessidade de haver pagamento somente faria sentido caso a legislação tributária dissesse que ‘deverá, por ocasião da aquisição da participação [por meio de venda e compra], desdobrar o custo de aquisição em (...)", pois, conforme demonstrado, o pagamento é a contraprestação de uma ‘venda e compra’. Contudo, não é esta a redação do artigo 20 do DL n° 1.598/77”; “III. 1.9 – Isonomia com Tratamento Fiscal do Deságio” bbbbb) “finalmente, é importante ressaltar o entendimento da Receita Federal no que tange à tributação do deságio gerado em operações societárias dentro do mesmo grupo, como as ocorridas no presente caso”; ccccc) “de fato, caso a aquisição da participação societária tivesse se dado por valor inferior ao valor de patrimônio líquido, teria sido reconhecido um deságio, nos termos do RIR/99: ‘Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei n° 1.598, de 1977, art. 20): I – valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II – ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior.’” ddddd) “este deságio (quando fundamentado na expectativa de rentabilidade futura – inciso II do §2º do artigo 386 do RIR/99) deveria ser amortizado e tributado durante os 5 anos subseqüentes à incorporação: Fl. 8747DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.728 41 ‘Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei n° 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei n° 9.718, de 1998, art. 10): (...) IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração.’” eeeee) “verificase que o deságio deverá ser amortizado, com a consequente tributação dessas receitas. Ressaltese, neste sentido, que a Receita Federal já manifestou entendimento de que este deságio deveria ser tributado mesmo que fosse gerado em uma operação interna, dentro do mesmo grupo, como ocorreu no presente caso. Este foi o objeto do Acórdão 108 07.684: ‘É fato inconteste que a recorrente controlava a empresa incorporada. Outrossim, que a mesma adquiriu participações de sua controlada abaixo do valor patrimonial. Com esses atributos o seu investimento estava sujeito à avaliação pelo regime de equivalência patrimonial, sendolhe também exigido a segregação contábil dos valores de patrimônio líquido e do ágio ou deságio, tudo conforme os artigos 384 e 385 do RIR/99. (...) Existindo o deságio a questão é saber o momento de sua amortização e do reconhecimento do ganho quando há extinção do investimento por incorporação. Devese consignar que a legislação pertinente aos atos de absorção de patrimônio mediante incorporação, fusão ou cisão de uma sociedade investida, sofreu profunda alteração com a edição da Lei 9.532/97, posteriormente modificada pela Lei 9.718/99. As novas regras aplicamse aos casos de absorção de patrimônio de empresa investida por incorporação, fusão ou cisão, na qual a participação societária tenha sido adquirida com ágio ou deságio, e seja qual for o método de avaliação do investimento; equivalência patrimonial ou custo de aquisição. Estabeleceramse então critérios de amortização do ágio ou deságio, dependendo do seu fundamento econômico, que pode ser por: a) valor de mercado de bens da investida maior ou menor do que o contábil; b) rentabilidade futura da investida; e c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Para cada um dos possíveis fundamentos a lei veio a determinar o momento no qual o ágio poderia ser reconhecido como Fl. 8748DF CARF MF 42 despesa/perda e o deságio deveria ser reconhecido como receita/ganho.’ (Acórdão 10807.684) (g.n.)” fffff) “conforme se percebe na manifestação da Receita Federal em casos análogos ao presente (aquisição de participação societária dentro do mesmo grupo), é entendimento do Fisco de que a aquisição de participação societária por valor inferior ao patrimônio líquido (deságio) é suficiente para que esse valor seja configurado como receita tributável, após um evento de incorporação”; ggggg) “contudo, a Receita Federal pretende, no presente caso, não admitir a dedutibilidade do ágio gerado dentro do mesmo grupo econômico, por entender que não haveria motivo econômico para uma aquisição que não fosse a valor de patrimônio líquido. Tratase de evidente tratamento desigual para situações idênticas aquisição de participação societária a valor de mercado (‘dois pesos, duas medidas’). Ora, e se o valor de mercado das ações da COELBA fosse inferior ao valor do seu patrimônio líquido contábil, seria apurado um deságio na operação de incorporação de ações sob análise, a mesma Receita Federal do Brasil se preocuparia em isentar a tributação do referido deságio por parte da Impugnante após o processo de incorporação da COELBA ?” “IV. DA IMPOSSIBILIDADE DA COBRANÇA DA MULTA ISOLADA EM RAZÃO DA FALTA DE RECOLHIMENTO DA CSLL E DO IRPJ POR ESTIMATIVA" “IV.1. DA INAPLICABILIDADE DA MULTA ISOLADA EM RAZÃO DO ENCERRAMENTO DO ANOBASE QUANDO DA LAVRATURA DO AUTO DE INFRAÇÃO” hhhhh) sendo os recolhimentos efetuados com base na estimativa nada mais do que uma antecipação do tributo que será devido no encerramento do períodobase, ou seja, uma apuração provisória, não poderia tal multa ser aplicada após a apuração o encerramento do anocalendário de sua apuração; iiiii) nesse sentido, vale transcrever as lições de Marco Aurélio Greco, no artigo “In ‘Multa Agravada e em Duplicidade’, Revista Dialética de Direito Tributário n° 76, p. 159”, que assim se manifestou: “Mensalmente, o que se dá é apenas o "pagamento do imposto determinado sobre base de cálculo estimada" (art. 2º, caput), mas a materialidade tributada é o lucro real apurado em 31 de dezembro de cada ano (§3° do art. 2º). Portanto, imposto e contribuição verdadeiramente devidos, são apenas apurados ao final do ano. O recolhimento mensal não resulta de outro fato gerador distinto do relativo ao período de apuração anual; ao contrário, corresponde a mera antecipação provisória de um recolhimento, em complementação de fato gerador e uma base de cálculo positiva que se estima venha ou possa vir a ocorrer no final do período. Tanto é provisória e em complementação de evento futuro que se reputa em formação – e que dele não pode se distanciar – que, mesmo durante o período de apuração, o contribuinte pode suspender o recolhimento se o valor acumulado pago exceder o valor calculado com base no lucro Fl. 8749DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.729 43 real do período em curso (art. 35 da Lei n° 8.981/95). E mais, o valor do recolhimento por estimativa é deduzido do valor do imposto e da contribuição devida ao final do período (art. 2º, §4°, IV da Lei n° 9.430/96)". jjjjj) “firmadas essas premissas, verificase que a multa isolada, prevista atualmente no inciso III, alínea ‘a’ do artigo 44 da Lei n° 9.430/96 (antigo inciso IV, do parágrafo 1º, do artigo mencionado), somente pode ser exigida caso o Fisco verifique a falta de recolhimento dos tributos, ou recolhimento insuficiente, com base em estimativas mensais, antes do término do ano base” kkkkk) “sendo lavrado o auto de infração após o encerramento do anobase, como ocorreu no caso do auto de infração que versa sobre a indedutibilidade das despesas de amortização do ágio, eventuais insuficiências de recolhimento da CSLL e do IRPJ serão punidas somente com a aplicação da multa de ofício prevista no inciso I do artigo 44, da Lei n° 9.430/96, não mais pela exigência da multa isolada, conforme já decidiu reiteradas vezes o Conselho de Contribuintes, verbis: ‘IRPJ MULTA ISOLADA Encerrado o período de apuração do imposto de renda, a exigência de recolhimentos por estimativa deixa de ter sua eficácia, uma vez que prevalece a exigência do imposto efetivamente devido apurado, com base no lucro real, em declaração de rendimentos apresentada tempestivamente. O mesmo ocorre, no caso de ocorrência de prejuízo fiscal no exercício. Revelase, portanto, improcedente a cominação de multa.’ (Ac. 10321.253;g.n.) ‘PENALIDADE. MULTA ISOLADA LANÇAMENTO DE OFÍCIO FALTA DE RECOLHIMENTO PAGAMENTO POR ESTIMATIVA Não comporta a cobrança de multa isolada em lançamento de ofício, por falta de recolhimento da Contribuição Social Sobre o Lucro Liquido devido por estimativa em ajustes efetuados pela fiscalização após o encerramento do ano calendário. Recurso Provido.’ (Acórdão 10707047;g.n.)” lllll) “ante o exposto, não pode prosperar a cobrança da multa isolada exigida no valor de R$ 26.792.954,32 com relação a IRPJ, e R$ 16.828.355,43 com relação a CSLL, pois como já estavam encerrados os anosbase de 2006 a 2010, quando da lavratura do auto de infração em comento (29/09/2011), não poderia a fiscalização, no presente caso, apurar a CSLL e o IRPJ devidos por estimativa para aplicação dessa penalidade, nos termos da jurisprudência firmada pelo E. Conselho de Contribuintes, motivo pelo qual a Impugnante aguarda que esta E. Delegacia de Julgamento exonere as multas em apreço”; “IV.2. DA INEXISTÊNCIA DE BASE DE CÁLCULO PARA A APLICAÇÃO DA MULTA ISOLADA” mmmmm) “ainda que o argumento acima exposto não fosse suficiente para a exoneração das multas isoladas em apreço, e caso estivesse correto o procedimento adotado pela fiscalização, Fl. 8750DF CARF MF 44 o que se alega a título meramente argumentativo, ressaltese que a impossibilidade de manutenção dessa penalidade decorre também do fato de que os valores de CSLL e do IRPJ apurados por estimativa nos anosbase de 2006 a 2010 pela fiscalização superam os valores apurados pela Impugnante ao final desses anoscalendário, conforme se depreende da análise dos quadros ilustrativos abaixo reproduzidos:” nnnnn) “assim, como os valores de IRPJ e CSLL/estimativa apurados pela fiscalização superam os montantes de IRPJ e CSLL apurados no final dos exercícios, não há a base de cálculo para a aplicação da multa isolada, caso entenda esta E. Delegacia ser devida a cobrança da multa isolada após o encerramento dos anosbase”; ooooo) “de acordo com a jurisprudência firmada pelo Conselho de Contribuintes, a multa isolada somente será aplicável se o valor recolhido por estimativa for superior ao montante apurado anualmente. Sobre essa diferença, incidiria a penalidade, verbis: ‘CSLL MULTA ISOLADA FALTA DE PAGAMENTO DO CSLL COM BASE NO LUCRO ESTIMADO A regra é o pagamento com base no lucro real apurado no trimestre, a exceção é a opção feita pelo contribuinte de recolhimento do imposto/contribuição e adicional determinados sobre base de cálculo estimada. A Pessoa Jurídica somente poderá suspender ou reduzir o imposto/contribuição devidos a partir do segundo mês do ano calendário, desde que demonstre, através de balanços ou balancetes mensais, que o valor acumulado já pago excede o valor do imposto, inclusive adicional, calculados com base no lucro real do período em curso. (Lei n° 8.981/95, art. 35 c/c art. 2º Lei n° 9.430/96) A falta de recolhimento está sujeita às multas de 75% ou 150%, quando o contribuinte não demonstra ser indevido o valor do IRPJ do mês em virtude de recolhimento excedentes em períodos anteriores. (Lei n° 9.430/96 44 § 1º inciso IV c/c art. 2º) A base de cálculo da multa é o valor do imposto calculado sobre lucro estimado não recolhido ou diferença entre a devido e o recolhido até a apuração do lucro real anual. A partir da apuração do lucro real anual, o limite para a base de cálculo da sanção é a diferença entre o imposto anual devido e a estimativa obrigatória, se menor. (Lei n° 9.430/96 art. 44 caput c/c § 1º inciso IV e Lei 8.981/95 art. 35 § 1º letra "b"). A multa pode ser aplicada tanto dentro do ano calendário a que se referem os fatos geradores, como nos anos subseqüentes dentro do período decadencial contado dos fatos geradores. Se aplicada depois do levantamento do balanço a base de cálculo da multa isolada é a diferença entre o lucro real anual apurado e a estimativa obrigatória recolhida.’(Acórdão 10515035; g.n) ‘IRPJ MULTA ISOLADA FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA O artigo 44 da Lei n/ 9.430/96 precisa que a multa de ofício deve ser calculada sobre a totalidade ou diferença de tributo, materialidade que não se confunde com o valor calculado sob base estimada ao longo do ano. O tributo devido pelo contribuinte surge quando é o lucro real apurado em 31 de dezembro de cada ano. Improcede a aplicação da penalidade isolada quando a base estimada exceder ao montante Fl. 8751DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.730 45 do imposto e contribuição devidos apurados ao final do exercício’ (Ac n° 10708.154; g.n.)” “IV.2. DA AUSÊNCIA DE PROVA DE EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE E CONSEQUENTE IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DA MULTA AGRAVADA” ppppp) “caso não sejam acolhidos os argumentos anteriormente expostos, suficientes para o cancelamento integral da autuação em questão, o que se alega apenas a título de argumentação, cumpre destacar o não cabimento da multa agravada aplicada pela D. Autoridade Fiscalizadora, em face da inexistência de provas e da imaterialidade dos indícios acerca da suposta existência de fraude praticada pela IMPUGNANTE”; qqqqq) “e, para que a multa agravada possa ser exigida é necessário, diferentemente do ocorrido, que a Fiscalização demonstre, por intermédio da apresentação de provas inequívocas, que as operações foram feitas com evidente intuito de fraude”; rrrrr) “no presente caso, ao contrário, a autuação encontrase alicerçada em supostos indícios que comprovam sua imaterialidade e insubsistência. Ocorre que, a fraude não pode ser presumida”; sssss) “de fato, a comprovação da intenção dolosa não foi efetivada pela Fiscalização. Muito pelo contrário. Notese, apenas a título argumentativo, que não há qualquer indício ou comprovação de que os atos praticados foram realizados de modo a encobrir, enganar ou impedir o conhecimento, pelo Fisco e por quaisquer de seus credores ou terceiros, de qualquer operação ou até mesmo da intenção de realizar o aproveitamento do ágio na Impugnante”; ttttt) “ao contrário, todos os atos praticados pela Impugnante foram públicos (divulgados em jornais de grande circulação) e foram todos previamente submetidos à agência reguladora do setor de energia elétrica, a qual aprovou todas as operações pretendidas (Resolução ANEEL n° 195/00 e Resolução ANEEL n° 19). uuuuu) uma das formalidades previstas na legislação societária é a publicação do fato relevante da reestruturação societária ao mercado (art. 157, §4º, da Lei nº 6.404, de 15/12/1976 – Lei das Sociedades por Ações). “Conforme se pode verificar dos documentos acostados aos autos, foi publicado o Fato Relevante em jornal de grande circulação, tratando da incorporação da NORDESTE pela Impugnante, bem como descrevendo todas as operações acima relatadas (DOC. 09). Ou seja, nada foi omitido de ninguém, muito menos do Fisco. vvvvv) “ademais, para a realização da incorporação foram estipulados diversos requisitos na própria Resolução ANEEL n° 195, de 7 de junho de 2000, dentre os quais a obrigação de que o ágio fosse amortizado segundo a curva baseada em resultados Fl. 8752DF CARF MF 46 de exercícios futuros (transcrita no Termo de Encerramento da Ação Fiscal pelo próprio fiscal) e no prazo remanescente da concessão, sendo que o controle do aproveitamento do ágio seria feito pela Superintendência de Fiscalização Econômica e Financeira da ANEEL”; wwwww) “todos os atos praticados pela Impugnante foram precedidos da devida publicização – os atos societários foram devidamente registrados na Junta Comercial e houve publicação do fato relevante em Jornal de grande circulação –, bem como foram devidamente aprovados pelos órgãos da Administração Pública, por meio de ofícios da CVM e Resoluções do órgão Regulador – ANEEL”; xxxxx) “verificase, com base no acima esposado, que a afirmação do fiscal no sentido de que teria ocorrido fraude somente poderia prevalecer caso se entendesse que a Impugnante, a Aneel e a CVM estavam em conluio para reduzir o montante de imposto devido pela Impugnante, o que configura rematado absurdo”; yyyyy) “não tendo restado comprovada a intenção dolosa da Impugnante verificase o descabimento da multa agravada aplicada”, tendo o Conselho de contribuintes se manifestado “no sentido da necessidade de provas irrefutáveis para a caracterização de fraude: ‘MULTA AGRAVADA – não havendo nos autos elementos de prova suficientes que autorizem o convencimento de prática de fraude ou qualquer outro procedimento no qual o dolo específico seja elementar não prospera a multa agravada.’ (Acórdão 10319619 – data da sessão 23/09/1998 – Relator Edson Vianna de Brito)” ‘MULTA QUALIFICADA – DESCABIMENTO – A fraude não pode ser presumida ou alicerçada em indícios. A penalidade qualificada somente é admissível quando factualmente constatada a hipótese de fraude, dolo ou simulação.’ (Acórdão 10809471 –data da sessão 07/11/2007 – relatora Karem Jureidini Dias)” ‘EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE – MULTA QUALIFICADA –Indícios não conferem a necessária certeza do intuito de fraudar o fisco imposta pelo art. 44, II da Lei 9.430 de 1996, para aplicação da multa qualificada.’ (Acórdão 10248053 – data da sessão 09/11/2006 – relatora Silvana Mancini Karam)” zzzzz) “reiterese, para que se fique caracterizado o dolo, é necessário que se comprove a intenção de fraude, ou seja, o dolo não pode ser presumido, precisa ser provado”; aaaaaa) “verificase que a multa agravada deve ser cancelada uma vez que para que esta possa ser exigida é necessário que a fiscalização demonstre, por intermédio da apresentação de provas inequívocas, que as operações foram feitas com evidente intuito de fraude, conforme definido nos artigos 71, 72 e 73, da Lei n° 4.502/64, os quais para que possam ser aplicados exigem que se comprove que existiu a intenção de se praticar o ato para Fl. 8753DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.731 47 que fosse retardado ou impedido o surgimento da obrigação tributária, o que não ocorre nesses autos”; “IV.4. DA DUPLICIDADE DE COBRANÇA – IMPOSSIBILIDADE DE CUMULAÇÃO DA MULTA ISOLADA COM A MULTA DE OFÍCIO” bbbbbb) ainda que “tivesse recolhido valor a menor de CSLL e IRPJ por estimativa, o que se alega a título de argumentação, não pode haver, sobre a mesma base de cálculo, a cumulação da multa isolada com qualquer outra penalidade, como ocorreu no presente caso”; cccccc) “analisandose o Demonstrativo Consolidado do Crédito Tributário, verificase que há a cobrança cumulativa da multa isolada com a multa de ofício. Confirase;” dddddd) “nesse sentido, o Conselho de Contribuintes já se posicionou reiteradas vezes, verbis: ‘PENALIDADE – MULTA ISOLADA – LANÇAMENTO DE OFÍCIO FALTA DE RECOLHIMENTO – PAGAMENTO POR ESTIMATIVA. Não comporta a cobrança de multa isolada por falta de recolhimento de tributo por estimativa concomitante com a multa de lançamento de ofício, ambas calculadas sobre os mesmos valores apurados em procedimento fiscal.’ (Ac. N° 10194.155; g.n.)” ‘AUSÊNCIA DE RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA – MULTA ISOLADA – A multa isolada por falta de recolhimento da estimativa não pode ser aplicada cumulativamente com a multa de lançamento de ofício sobre os mesmos valores apurados em procedimento fiscal.’(Ac n° Acórdão 10321275; g.n.)” Fl. 8754DF CARF MF 48 “V – DA ILEGALIDADE DA COBRANÇA DE JUROS SOBRE A MULTA” eeeeee) “não pode também prosperar a cobrança dos juros de mora sobre a multa de ofício isolada, por absoluta ausência de previsão legal”, isto porque, o artigo 13 da Lei n° 9.065, de 1995, combinado com o artigo 84, da Lei n° 8.981, de 1995, estabelecem que a cobrança de tais acréscimos apenas sobre tributos, e multa não é tributo, conforme definido no artigo 3º, do Código Tributário Nacional (CTN); ffffff) “a atividade administrativa é subalterna à lei, ou seja, a Autoridade Fiscal não poderá fazer qualquer exigência, salvo se embasada em expressa disposição legal. A função da Administração é concretizar os comandos existentes no ordenamento jurídico pátrio, dando efetividade aos textos legais, sendolhe vedado extrapolar os limites delineados pelo legislador”; gggggg) “estando a atividade funcional do administrador sujeita aos mandamentos da lei e às exigências do bem comum, deles não se pode afastar ou desviar, sob pena de praticar ato inválido”; hhhhhh) “o lustre professor Celso Antonio Bandeira de Mello explicita com muita propriedade o dever da administração de respeito ao princípio da legalidade: ‘Assim, o princípio da legalidade é o da completa submissão da Administração às leis. Esta deve tãosomente obedecêlas, cumprilas, pôlas em prática. Daí que a atividade de todos os seus agentes, desde o que lhe ocupa a cúspide, isto é, o Presidente da República, até o mais modesto dos servidores, só pode ser a de dóceis, reverentes, obsequiosos cumpridores das disposições gerais fixadas pelo Poder Legislativo, pois esta é a posição que lhes compete no direito brasileiro. Michel Stassinopoulos, em fórmula sintética e feliz, esclarece que, além de não poder atuar contra legem ou praeter legem, a administração só pode agir secundum legem. Aliás, no mesmo sentido é a observação de Alessi, ao averbar que a função administrativa se subordina à legislativa não apenas porque a lei pode estabelecer proibições e vedações à Administração, mas também porque esta só pode fazer aquilo que a lei antecipadamente autoriza. Afonso Rodrigues Queira afirma que a Administração "é a longa manus do legislador" e que "a atividade administrativa é a atividade de subsunção dos fatos da vida real às categorias legais’.” iiiiii) “ao exigir os juros calculados à taxa Selic sobre a multa de ofício no presente processo, a Autoridade Fiscal agiu em evidente afronta ao princípio constitucional da legalidade, o que não pode ser admitido”. Nesse sentido, vide a seguinte jurisprudência do então Conselho de Contribuintes, atual CARF: ‘INCIDÊNCIA DE JUROS SOBRE A MULTA DE OFICIO – INAPLICABLIDADE – Não incidem os juros com base na taxa Selic sobre a multa de ofício, vez que o artigo 61 da Lei n.° 9.430/96 apenas impõe sua incidência sobre débitos decorrentes Fl. 8755DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.732 49 de tributos e contribuições. Igualmente, não incidem os juros previstos no artigo 161 do CTN sobre a multa de ofício.’ (Acórdão n.° 10196.523, g.n.) ‘MULTA DE OFÍCIO – JUROS MORATÓRIOS – Na execução das decisões administrativas, os juros de mora à taxa selic só incidem sobre o valor do tributo, não alcançando o valor da multa aplicada. Sobre a multa podem incidir juros de mora à taxa de 1% ao mês, contados a partir do vencimento do prazo para impugnação.’ (Acórdão 10516754) ‘NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. A exigência dos juros de mora, incidente sobre o valor do tributo ou contribuição não pago no vencimento, com base na taxa Selic, tem autorização legal no Código Tributário Nacional.’ (Ac. 20178.718, g.n.)” jjjjjj) “citese, por oportuno, trecho do voto proferido no Acórdão n° 20178.718, acima transcrito, que deixa claro o entendimento manifestado pela então denominada Primeira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes: ‘No tocante à incidência da Selic sobre a multa, embora seja questão que não tenha sido objeto do lançamento, tratandose de matéria superveniente, que surgiu no curso do processo, é possível sua análise no âmbito do recurso. A portaria n° 379, de 23 de dezembro de 1988, tinha por pressuposto outra legislação já revogada. No caso da Selic, não há previsão legal para incidência de juros sobre a multa, mas apenas sobre o tributo. O artigo 84 da Lei n° 8.981, de 1995, dispõe expressamente que o tributo ou contribuição não pago no vencimento sujeitase à incidência dos juros. Ao instituir a Selic, a Medida Provisória n° 947, de 1995, reportouse ao referido artigo, não prevendo incidência de juros sobre a multa. As republicações da referida MP e a Lei n° 9.065, de 1995, que resultou da conversão das medidas provisórias, dispuseram da mesma forma.’ (g.n.)” kkkkkk) “a Câmara Superior de Recursos Fiscais já pacificou o entendimento quanto à não incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício (acórdão CSRF/0203.133 ainda não formalizado), conforme se extrai do resultado do julgamento do processo n° 18471.001680/200430, verbis: ‘Por maioria de votos, NÃO CONHECER da preliminar de perda de objeto do recurso em face do trânsito em julgado da decisão judicial quanto ao mérito, suscitada pela Conselheira Maria Teresa Martinez Lopez. Vencidos os Conselheiros Maria Teresa Martinez Lopez e Manoel Coelho Arruda Júnior (Substituto convocado); 2) Por maioria de votos, ACOLHER a preliminar de decadência até os fatos geradores do mês de outubro de 1999, vencidos os Conselheiros Josefa Maria Coelho Marques, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Júlio César Vieira Gomes e Elias Sampaio Freire que não acolhiam; 3) por maioria de votos CONHECER do recurso quanto a incidência sobre a Fl. 8756DF CARF MF 50 multa de ofício dos juros à taxa SELIC, vencidos os Conselheiros Henrique Pinheiro Torres (Relator), Gilson Macedo Rosenburg Filho e Leonardo Siade Manzan, e por maioria de votos DAR provimento nessa parte, vencidos s conselheiros Henrique Pinheiro Torres (Relator) e Antonio Praga, que mantinham essa incidência. Designada para redigir o voto vencedor a Conselheira Maria Teresa Martinez Lopez. Fez sustentação oral o advogado da Impugnante Dr. Ricardo Krakowiak, OAB/SP 138.192.’" llllll) “nem se alegue, ainda, que a cobrança dos juros sobre a multa, no presente caso, estaria amparada pelo artigo 43 da Lei n° 9.430/96 , já que referido dispositivo autoriza a cobrança apenas em relação à multa exigida isoladamente, o que não é a hipótese dos autos”, conforme assim já se manifestou a 3ª Câmara do antigo Primeiro Conselho de Contribuintes, no acórdão n° 10323.566, com a seguinte ementa: “JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. DESCABIMENTO – Por não se tratar da hipótese de penalidade aplicada na forma isolada, a multa de ofício não integra o principal e sobre ela não incidem os juros de mora." “V – DA INEXISTÊNCIA DE SALDO DE PREJUÍZO FISCAL INSUFICIENTE PARA COMPENSAÇÃO” mmmmmm) “afirma a fiscalização que "Da análise destes valores é possível perceber que o saldo final do ano de 2000 não coincide com inicial de 2001, e, que não se observou o lançamento de ofício realizado no ano calendário 2003, cujo processo administrativo foi protocolizado sob n° 10580.720370/200801" nnnnnn) “no entendimento da fiscalização, tendo havido a indevida amortização do ágio, no seu particular entendimento, deveria a Impugnante recalcular os saldos de prejuízo fiscal e base negativa e efetuar os ajustes no LALUR conforme os valores apurados pela fiscalização”; oooooo) “do exame da diferença apontada pelo Fiscal entre o saldo final do ano 2000 e o saldo inicial do ano de 2001, verificase que a glosa existente é porque em 2001 o Fiscal adicionou o valor da despesa com ágio reduzindo o prejuízo fiscal". pppppp) “ocorre, contudo, que a amortização foi realizada em estrita consonância com a legislação, conforme acima amplamente demonstrado, razão pela qual não há que se falar em recálculo do saldo de prejuízo fiscal e tampouco na necessidade de apresentação do LALUR retificado.” 5. Finalizando, requer “o recebimento, o conhecimento e o provimento da presente Impugnação, seja em razão das preliminares, seja em razão do mérito, com a conseqüente desconstituição do crédito tributário exigido e o cancelamento do auto de infração. Em sessão de 22 de março de 2013, a Turma de Delegacia de Julgamento em Salvador (BA), por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação para rejeitar a Fl. 8757DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.733 51 preliminar de decadência, e, no mérito, manter integralmente o crédito tributário de que tratam os Autos de Infrações relativos ao Imposto sobre a Renda Pessoa Jurídica e à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, juntamente com os acréscimos legais correspondentes, inclusive a aplicação da Multa Qualificada de 150% (cento e cinquenta por cento). Com a ciência da decisão, a autuada (COELBA) apresentou Recurso Voluntário, que, após a narrativa dos fatos, alega, preliminarmente, a preclusão da possibilidade do Fisco questionar a legalidade dos atos societários que deram origem ao ágio, contesta as conclusões do acórdão recorrido, repisa as alegações da peça impugnatória e, ao final, requer o provimento integral. Por seu turno, a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões de fls. 8.622 e seguintes. Os autos foram encaminhados a este Conselho para apreciação e julgamento. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro José Carlos de Assis Guimarães, Relator. O recurso é tempestivo e atende aos pressupostos legais, razão pela qual dele conheço. Como a matéria foi objeto de diversas alegações pela defesa, faremos, a seguir, a análise tópica dos principais pontos controvertidos: 1. Da preliminar de preclusão do Fisco questionar a legalidade dos atos societários que deram origem ao ágio A recorrente arguiu em preliminar a preclusão de o direito do Fisco auditar a formação do ágio que ocorreu em 2000, haja vista que o lançamento foi formalizado no ano de 2011. Essa matéria já foi enfrentada recentemente por esta Turma na Sessão de 11 de agosto de 2016, no Acórdão nº 1201001.474, que, por maioria de votos, negou provimento ao recurso voluntário, relativamente à essa preliminar arguida pela recorrente. Mantenho o entendimento de que é legítimo o exame de fatos ocorridos há mais de cinco anos do início do procedimento fiscal, para deles extrair a repercussão tributária em períodos não atingidos pela caducidade. A seguir, trago a colação o voto condutor daquele Acórdão da lavra do Ilustre Conselheiro e Presidente da Turma, Roberto Caparroz de Almeida: (...) A matéria é bastante conhecida e tem posição firme neste Conselho, no sentido de que não se submete ao prazo decadencial ou a limitação objetiva a análise, pela fiscalização, de fatos ocorridos há mais de cinco anos quando deles se extrai a repercussão tributária de períodos ainda não fulminados pela caducidade. Fl. 8758DF CARF MF 52 Como se sabe, a decadência impede apenas o lançamento do crédito tributário relativo a períodos fora do alcance legal, mas isso em nada se confunde com a possibilidade (em verdade, com o dever) de a fiscalização analisar fatos, livros e documentos cuja repercussão ainda possa ser objeto de autuação. Se não fosse assim, de nada serviria o comando previsto, por exemplo, no artigo 195 do Código Tributário Nacional: Art. 195. Para os efeitos da legislação tributária, não têm aplicação quaisquer disposições legais excludentes ou limitativas do direito de examinar mercadorias, livros, arquivos, documentos, papéis e efeitos comerciais ou fiscais, dos comerciantes industriais ou produtores, ou da obrigação destes de exibilos. Parágrafo único. Os livros obrigatórios de escrituração comercial e fiscal e os comprovantes dos lançamentos neles efetuados serão conservados até que ocorra a prescrição dos créditos tributários decorrentes das operações a que se refiram. (grifamos) O dever da fiscalização é o de apurar matéria tributável (dentro dos limites legais) e não o de verificar continuamente os registros do contribuinte. É evidente que o prazo previsto pelo CTN cuida de prescrição, sendo certo que, na hipótese dos autos, este prazo sequer se iniciou. Isso porque é forte o entendimento de que o prazo prescricional só pode ter início quando possível a cobrança do crédito, inclusive na esfera judicial. Com a interposição de recurso no âmbito administrativo, o prazo prescricional de cinco anos, nos termos do artigo 174 do CTN, só pode ter início com a constituição definitiva do crédito, que ocorre quando prolatada decisão administrativa irrecorrível e contrária ao sujeito passivo. Já o prazo decadencial tem como marco inicial a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado (nas hipóteses do art. 173, I, do mesmo diploma legal). No caso em análise o lançamento se deu em dezembro de 2013 e não se encontra prejudicado por qualquer fenômeno relativo à decadência. Também não se vislumbra, na hipótese, a existência de qualquer preclusão ou limitação do direito de a fiscalização analisar operações e negócios jurídicos relativos a 2007, posto que a autuação recaiu sobre os efeitos da amortização indevida dos ágios, em períodos posteriores e não atingidos pela decadência. Ressaltese que o simples registro do ágio na contabilidade (ou da operação que o ensejou) não implica redução do crédito tributário ou qualquer outra circunstância passível de autuação pela autoridade competente. Fl. 8759DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.734 53 Não se trata de fato gerador da obrigação tributária nem produz qualquer efeito sobre a apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Apenas as hipóteses que alteram a base de cálculo dos referidos tributos encontramse sujeitas a controle e auditoria pelas autoridades fiscais e o Estado tem a prerrogativa de analisar todo e qualquer documento ou registro contábil relacionado à redução dos montantes devidos em cada anocalendário. Como as glosas dizem respeito a deduções efetuadas a partir de 2008 e os lançamentos efetuados tiveram ciência do contribuinte em dezembro de 2013, inexiste qualquer vício ou mácula na atividade fiscal, assim como não havia, na espécie, transcorrido o prazo decadencial. É o que se depreende da determinação contida no artigo 37 da Lei n. 9.430/96: Os comprovantes da escrituração da pessoa jurídica, relativos a fatos que repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros, serão conservados até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios. A lei ordinária não trata do prazo decadencial e nem poderia fazêlo, mas expressamente autoriza a possibilidade de auditoria de lançamentos que repercutirão em outros exercícios. Esse entendimento é pacífico no caso de operações ou fatos com repercussão em exercícios futuros, até porque não seria lógico ou razoável opor ao Fisco a ocorrência de qualquer preclusão cronológica que impossibilitasse a análise dos documentos e operações, posto que o único limite temporal para a verificação da escrituração comercial e fiscal encontrase previsto no artigo 195, parágrafo único, ao norte reproduzido. Diversas decisões deste Conselho consagram a tese aqui defendida. Citamos, a título de exemplo, recente Acórdão da 2ª Turma da 4ª Câmara: Acórdão nº 1402002.152 – 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 06 de abril de 2016 Matéria AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO Recorrente BANCO CITICARD S/A Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2006, 2007, 2008 DECADÊNCIA. FORMAÇÃO DE ÁGIO EM PERÍODOS ANTERIORES AO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. INOCORRÊNCIA. Fl. 8760DF CARF MF 54 É legítimo o exame de fatos ocorridos há mais de cinco anos do procedimento fiscal, para deles extrair a repercussão tributária em períodos ainda não atingidos pela caducidade. A restrição decadencial, no caso, voltase apenas à impossibilidade de lançamento de crédito tributário no período em que se deu o fato. O prazo decadencial somente tem início após a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou após o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado nas hipóteses do art. 173, I, do CTN. FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO – Relator Afasto, portanto, a preliminar suscitada pela Recorrente. Por todo o exposto, voto no sentido de não acolher a preliminar de decadência. 2. Quanto ao mérito: análise sobre a possibilidade de amortização do ágio Defende a Recorrente que: (...) a única forma jurídica possível para tornar viável economicamente a aquisição da COELBA no processo de privatização, com o aproveitamento do benefício fiscal de dedutibilidade do ágio, foi a forma adotada no caso concreto: reestruturação societária legal, de forma que a participação acionária adquirida com ágio pela empresa NORDESTE PARTICIPAÇÕES S/A (gerado com fundamento econômico na privatização) fosse absorvida pelo patrimônio da Recorrente. Em sentido oposto, a autoridade fiscal glosou as deduções do ágio por entender que houve planejamento tributário ilícito nas condutas da Recorrente, conforme Termo de Verificação Fiscal às fls. 89: : A empresa Nordeste Participações S/A foi constituída formalmente em 1997, por empresas do grupo econômico detentor do controle da COELBA, e, não apresentou qualquer movimentação econômico/financeira típica até o início da operação de transferência do ágio citado (ano 2000).Ora, todos os documentos trazidos aos autos demonstram a vontade do grupo econômico em transferir o ágio e a função que cada partícipe teria nesta estratégia. Resta claro que coube a Nordeste Participações S/A, apenas intermediar a passagem do ágio de uma empresa deficitária e sem possibilidade legal de amortizála para uma companhia lucrativa como permissivo legal aparente. Percebese que as operações quando analisadas individualmente trazem a falsa impressão de respeito à licitude, porém, quando observadas no contexto que estão inseridas denotam completo desalinho aos diplomas legais vigentes. De todo acima exposto, concluise que as despesas contabilizadas com ágio, gerado de si mesma, pela COELBA, oriundo dos leilões supracitados, nos anos calendário 2006 a Fl. 8761DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.735 55 2010, seriam indedutíveis pela ausência de norma que a autorize. Sustenta ainda a recorrente que este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais já analisou casos idênticos ao presente, tendo reconhecido o direito de as empresas de proceder à amortização do ágio pago, quando da análise de operações idênticas envolvendo a NEOENERGIA (antiga Guaraniana) e a Companhia Energética de Pernambuco CELPE , bem como a Companhia Energética do Rio Grande do Norte COSERN. No entanto, em recentes julgados, a Câmara Superior de Recursos Fiscais deu provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional e decidiu restabelecer a autuação fiscal relativa à glosa de despesa de amortização de ágio, por meio dos Acórdãos nºs 9101002.186 1ª Turma, na Sessão de 20 de janeiro de 2016 e 9101002.304 1ª Turma, na Sessão de 06 de abril de 2016, nos casos citados pela recorrente, ou seja, da Companhia Energética de Pernambuco CELPE e da Companhia Energética do Rio Grande do Norte COSERN. O voto condutor do citado Acórdão nº 9101002.186 da lavra do Ilustre Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, cujo trecho trago a colação, esclarece a questão: Por ser a questão mais importante desse processo e por já têla iniciado ao afastar a preliminar de não conhecimento, passo a tratar da discussão a respeito da despesa de amortização de ágio e seus reflexos tributários. 4. Nessa questão, adoto a recente jurisprudência do CARF que considero mais adequada e que restou cinzelada no Acórdão nº 1103001.170, de 04/02/2015, da relatoria do nobre Conselheiro André Mendes de Moura. Seguem trechos do voto condutor: "Para se tratar em ágio, há que se, inicialmente, falar do investimento em sociedades coligadas e controladas avaliado pelo método de equivalência patrimonial (MEP), conforme previsto no art. 384 do RIR/99. A principal característica do método é de se permitir uma atualização dos valores dos investimentos em coligadas ou controladas com base na variação do patrimônio líquido das investidas. Esclarece o art. 385 do RIR/99 que se a pessoa jurídica adquirir um investimento avaliado pelo MEP por valor superior ou inferior ao contabilizado no patrimônio líquido, deverá desdobrar o custo da aquisição em (1) valor do patrimônio líquido na época da aquisição e (2) ágio ou deságio. Para a devida transparência na mais valia (ou menor valia) do investimento, o registro contábil deve ocorrer em contas diferentes: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e Fl. 8762DF CARF MF 56 II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Como se pode observar, a formação do ágio não ocorre espontaneamente. Pelo contrário, deve ser motivado, e indicado o seu fundamento econômico, que deve se amparar em pelo menos um dos três critérios estabelecidos no § 2º do art. 385 do RIR/99, (1) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade, (2) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros (3) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Dentre os três critérios, assume relevância, para o caso concreto, aquele que consiste no fundamento econômico com base em expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. Tratase precisamente de lucros esperados a serem auferidos pela controlada ou coligada, em um futuro determinado. Por isso o adquirente (futuro controlador) se propõe a desembolsar pelo investimento um valor superior ao daquele contabilizado no patrimônio líquido da vendedora. Por sua vez, tal expectativa deve ser lastreada em demonstração devidamente arquivada como comprovante de escrituração, conforme previsto no § 3º do art. 385 do RIR/99. As variações no patrimônio líquido da investida passam a ser refletidas na investidora pelo MEP. Contudo, os aumentos no valor do patrimônio líquido da sociedade investida não são computados na determinação do lucro real da investidora. Vale transcrever os dispositivos dos arts. 387, 388 e 389 do RIR/99 que discorrem sobre o procedimento de contabilização a ser adotado pela controladora. Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº Fl. 8763DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.736 57 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): (...) Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (...) Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (...) É por isso que a investidora, ao registrar o ágio em conta de ativo, não promove a sua amortização para fins fiscais. Não poderia ser diferente, vez que a “mais valia”, decorrente da expectativa de rentabilidade futura, foi paga em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, e que serão tributados na própria investida. Por sua vez, a repercussão de tais lucros na investidora darseá pelo MEP, que não é objeto de tributação. Dessa maneira, como os lucros não são tributados na investidora, não há que se falar em amortização do ágio na investidora. Não faria sentido tributar os lucros na investida, e em seguida tributar o aumento do patrimônio líquido na investidora, que ocorreu precisamente por conta dos lucros auferidos pela investida. Portanto, percebese que, na regra geral, para fins fiscais, o ágio não é dedutível na apuração do lucro real. Contudo, tal cenário está sujeito a mudanças. O investimento adquirido com ágio pode ser alienado, liquidado, ou mesmo ser objeto de uma transformação societária. Passam a ser tratadas as situações específicas, como se pode verificar nos arts. 391 e 426 do RIR/99: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de Fl. 8764DF CARF MF 58 determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). (...) Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. (...) (grifei) Verificase que o aproveitamento do ágio ocorre no momento em que o investimento que lhe deu causa for objeto de alienação ou liquidação, oportunidade em que o ágio irá compor a apuração do custo de aquisição a ser considerado no ganho de capital auferido pelo alienante. Por sua vez, em eventos de transformação societária, quando investidora absorve o patrimônio da investida (ou vice versa), adquirido com ágio ou deságio, em razão de cisão, fusão ou incorporação, resolveu o legislador disciplinar a situação no art. 386 do RIR/99: Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do § 2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do § 2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços Fl. 8765DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.737 59 correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração.(...) (grifei) Fica evidente que os arts. 385 e 386 do RIR/99 guardam conexão indissociável, constituindose em norma tributária permissiva do aproveitamento do ágio nos casos de incorporação, fusão ou cisão envolvendo o investimento objeto da mais valia. A norma em debate tem repercussão direta na base de cálculo do tributo, o que permite a sua análise sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina (Geraldo Ataliba, Hipótese de Incidência Tributária). Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em debate se dirige à investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, sendo ela, e apenas ela a destinatária da prerrogativa de amortização do sobrepreço. A partir do momento em que o ágio é transferido ou repassado para outras pessoas (de A para B, de B para C, de C para D e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora, a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. A respeito do aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Sobre o aspecto material, há que se observar que apenas o ágio com fundamento econômico no valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros é que tem a amortização autorizada em sessenta parcelas. Ainda, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio.), ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Fl. 8766DF CARF MF 60 Compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento." 5. Naquela assentada, tratavase de caso em que a incorporação se deu conforme o caput do art. 386 do RIR/99. Já no caso dos autos, tratase de incorporação nos moldes do §6º do art. 386 do RIR/99 (que é comumente conhecida como incorporação "às avessas"). Embora isso não vá impactar nas premissas de exegese da norma, fazse necessário tecer comentários adicionais quantos aos aspectos pessoal e material, de forma a adequálos a esse modelo de incorporação. § 6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. 5.1. O §6º do art. 386 do RIR/99, na realidade o art. 8º da Lei nº 9.532/97 (do qual este é mera cópia), se utilizou de uma técnica legislativa que faz uso da propriedade transitiva, assim o que vale para o caput do art. 386 do RIR/99 vale para o §6º do mesmo artigo, fazendose apenas a adaptação para contemplar a situação prevista. 5.2. Portanto, o §6º do art. 386 do RIR/99, sob o significado pessoal, se dirige à investida que incorporar a investidora que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o valor do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação, pela investida, da investidora "original" ou investidora stricto sensu (no sentido de que a originalidade está indissociavelmente ligada a pessoa jurídica que paga o ágio e, por isso mesmo, tem confiança na rentabilidade futura, pois é quem assume o risco) é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço. 5.3. Analisando as situações possíveis, sob a ótica dos dois tipos de incorporações, a partir do momento em que o ágio é transferido ou repassado para outras pessoas (de A para B, de B para C, de C para D e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora original (para, ao fim, incorporar a investida ou ser incorporada pela investida), a subsunção ao caput do art. 386 do RIR/99 ou ao §6º do mesmo artigo tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal (seja no caso de a investidora que tiver incorporado a investida seja outra investidora que não a original, seja no caso de a investida estar incorporando uma investidora que não a original). Fl. 8767DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.738 61 5.4. Da mesma forma que no aspecto pessoal, a confusão de patrimônios, principal item do aspecto material, para fins de enquadramento no §6º do art. 386 do RIR/99, consumase quando, na investida, o lucro futuro e o investimento original com expectativa desse lucro (aquele que foi sobreavaliado) passam a se comunicar diretamente (os riscos se fundem: o risco do investimento assim entendido os recursos aportados e o risco do empreendimento). 5.5. Compartilhando o mesmo patrimônio a investida e a investidora original,consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que honrará a rentabilidade futura passa a ser detentora da mais valia (ágio) do investimento baseado na expectativa dessa rentabilidade. Por bem adequadas, transcrevo palavras da recorrente: "Dentre os aspectos que impedem o ágio registrado de ser dedutível, citase aquele que fora ressaltado pelo Termo de Verificação Fiscal, qual seja: ausência do encontro num mesmo patrimônio do ágio com o investimento que lhe deu origem. Por certo, tal como fora ressaltado nas premissas teóricas apresentadas neste recurso, a dedução autorizada pelo artigo 386 do RIR/99 decorre de o encontro num mesmo patrimônio da participação societária adquirida com o ágio com esse mesmo ágio. Em face dessa “confusão patrimonial”, a legislação admite que o contribuinte considere perdido o seu capital investido com o ágio e, assim, deduza a despesa que teve com a “mais valia”. Todavia, para que haja esse encontro num mesmo patrimônio do ágio com o investimento que lhe deu origem, é imprescindível que a “mais valia” contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participa da “confusão patrimonial”. O investidor deve se confundir com o seu investimento. Assim, em outras palavras, no caso de uma incorporação, para que o ágio registrado seja dedutível nos termos do artigo 386 do RIR/99, deve a pessoa jurídica que efetivamente suportou o ágio pago na aquisição de um investimento incorporar esse investimento, ou ser incorporada por ele. O ágio deve ser de fato pago por alguma das pessoas jurídicas que participam da incorporação, fusão ou cisão societária. Se assim não for, será impossível o ágio ir de encontro com o investimento que lhe deu causa. De acordo com a previsão legal, qualquer situação diferente da hipótese aqui ventilada não admite a dedução da despesa com amortização do ágio. Uma incorporação, fusão ou cisão societária que envolva um ágio que não foi de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da operação societária não permitirá a aplicação do benefício fiscal instituído pelo artigo 386 do RIR/99. O ágio pode até existir contabilmente, mas não será dedutível na apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Fl. 8768DF CARF MF 62 Na situação estudada, nenhuma das duas empresas participantes da operação societária arcou de fato com o ágio pago na aquisição das referidas quotas. Não houve “confusão patrimonial” da “mais valia” com o investimento que lhe deu causa." 6. Em síntese, a subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/99, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material. Na atual redação destes dispositivos e para o caso de incorporação "às avessas", exclusivamente no caso em que a investida adquire a investidora original (ou adquire diretamente a investidora, nessa linha de raciocínio as intermediárias não seriam investidoras de fato, apenas de direito) é que haverá o atendimento a esses aspectos, tendo em vista a ausência de normatização própria que amplie os aspectos pessoal e material a outras pessoas jurídicas ou que preveja a possibilidade de intermediação ou de interposição por meio de outras pessoas jurídicas. No caso dos autos, esses aspectos não foram satisfeitos, em especial dos aspectos pessoal e material, vejamos: 6.1. A utilização de uma pessoa jurídica interposta (Leicester Comercial S.A) para transferência do ágio, que veio a ser adquirida pela investida (CELPE), mas que não era a investidora original (investidora de fato, a que pagou o ágio), implica no desatendimento dos aspectos pessoal e material e, conseqüentemente, na descaracterização da aplicação dos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e dos artigos 385 e 386 do RIR/99, que resulta na impossibilidade da amortização do ágio. 6.2. A amortização do ágio seria devida apenas se a empresa investida (CELPE) tivesse incorporado a investidora original (investidora strico sensu), pois somente essa se enquadra nos aspectos pessoal e material. Pouco importa terem havido motivos de ordem societária, técnica ou mercadológica que impediam a CELPE de incorporar a real investidora: são as situações que devem se moldar à lei, para fins de aplicação da norma, e não a lei que tem que se moldar às situações, o que implicaria em substituir a coercitividade da regra pela conveniência dos regrados. 7. Portanto, relativamente a despesa de amortização de ágio, voto por DAR provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional. Feitas as considerações, passo a analisar o caso concreto. Vale apreciar a sequência dos fatos, na visão da própria recorrente (fls. 8102 e seguintes do recurso voluntário): 1º) 31/07/1997: o grupo GUARANIANA S/A, atualmente denominado NEOENERGIA S/A, formado naquela ocasião pelas empresas IBERDROLA ENERGIA, PREVI e BANCO DO BRASIL, arrematou, em leilão de privatização, as ações da COELBA; 2º) 06/10/1999: a GUARANIANA, adquiriu, através de leilão especial realizado na Bolsa de Valores de São Paulo BOVESPA, nova participação societária da COELBA, que se deu com o pagamento de ágio ao Estado da Bahia (antigo titular de suas Fl. 8769DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.739 63 ações), em razão da expectativa de rentabilidade estimada com base em resultado de exercícios futuros; 3º) 31/03/2000: a GUARANIANA subscreveu aumento de capital na empresa NORDESTE PARTICIPAÇÕES S/A, mediante a transferência das ações da COELBA, transformando a NORDESTE em controladora da COELBA; 4º) 30/05/2000: a COELBA aprovou o protocolo de incorporação da NORDESTE , nos termos da Ata da Assembléia Geral Extraordinária. Notase que a pessoa jurídica investidora GUARANIANA integralizou o capital da NORDESTE mediante a transferência das ações da COELBA (pessoa jurídica investida). Em seguida, a COELBA incorpora a NORDESTE. Diante desse cenário, notase a construção artificial empreendida pelo sujeito passivo para se enquadrar na hipótese de incidência permissiva do aproveitamento do ágio. A utilização de empresa sem nenhuma substância (NORDESTE) e sua capitalização para adquirir investimento com ágio, não lhe confere a condição de pessoa jurídica investidora. Somandose ainda o fato de que a confusão patrimonial não se consumou entre a NORDESTE e a COELBA, não restou aperfeiçoada a hipótese de incidência prevista na norma, que exige, com clareza, a absorção do patrimônio compreendida entre pessoa jurídica investidora e pessoa jurídica investida, ou vice versa, o que não ocorreu no caso em análise. As conclusões da autoridade tributária foram precisas. Sobre a NORDESTE, relata o seguinte (efl. 77): Sobre as reorganizações societárias e a interpretação dos permissivos legais discorre (efls. 88): Fl. 8770DF CARF MF 64 Do exposto, demonstrase que a sequência de "reestruturações societárias" simplesmente deságua na transferência para a COELBA do ágio com que a empresa investidora GUARANIANA adquiriu os seus investimentos nela, sem que, com isso, desaparecesse essa empresa ou sequer os seus investimentos na COELBA; ou seja, ao final do enredo, tudo está como era antes, apenas que a COELBA "restou" na história com o seu Ativo e Patrimônio Líquido majorados do exato valor do ágio que as sua investidora pagou para Fl. 8771DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.740 65 adquirir os investimentos; passando (então) a registrar uma despesa de amortização de ágio, reduzindo assim consideravelmente os seus resultados tributáveis do IRPJ e CSLL. Assim, ante todo o exposto, mantenho a glosa da dedutibilidade do ágio. 3. Da qualificação da multa A qualificação da multa e a existência de dolo, fraude ou simulação precisa ser analisado à luz dos fatos, da acusação fiscal e das provas trazidas aos autos. Nesse contexto, entendo pertinente reproduzir na íntegra o trecho que fundamenta a qualificação da multa, conforme Termo de Verificação Fiscal: “Da qualificação da multa de ofício pela prática de fraude: A COELBA apura seu resultado fundamentado no Lucro Real Anual com pagamento de estimativas mensais calculadas com base em Balanços de redução/suspensão. Este resultado é composto por contas de resultado representado por receitas, despesas e custos, cujo confronto ajustado concebe o fato gerador do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. As condutas supracitadas do contribuinte tiveram a finalidade, de excluir ou modificar as características essenciais do fato gerador, de modo a reduzir o montante do imposto devido, a evitar ou diferir o seu pagamento, conforme descrição abaixo. A empresa Guaraniana S/A adquiriu participação societária da COELBA com expressivo ágio, cujo fundamento econômico é o fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Ressaltase que este ágio é indedutível de acordo com regramento legal. Os artigos 7º e 8º, da Lei 9.532 de 10 de dezembro de 1997, inovaram o mundo jurídico com a possibilidade de dedução do ágio cujo fundamento fosse o valor rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros. Diante desta novação, as empresas Guaraniana S/A e COELBA estabeleceram que deveriam criar uma situação jurídica para se inserir neste universo legal. Ressaltase que caso as empresas optassem pela incorporação direta o ágio remanescente não seria dedutível, mormente, seu fundamento econômico ser o fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Diante deste efeito indesejável, foi necessária a utilização da Nordeste Participações S/A, empresa veículo, com objetivo de intermediar a passagem do ágio para a COELBA. Frisase que aquela é controlada direta pela empresa 521 Participações S/A, que por sua vez, é acionista da Guaraniana S/A, demonstrando Fl. 8772DF CARF MF 66 indubitavelmente que se trata de operação intragrupo, conforme diagrama abaixo. (...) Em 31 de março de 2000 a Guaraniana S/A transfere ações, que detinha da COELBA, para Nordeste Participações S/A, que por sua vez, contabiliza a operação no Ativo Permanente subdividindoo como investimento mais ágio. Observase que em 23 de dezembro de 1999 a empresa Arthur Andersen produziu laudo de avaliação econômica da COELBA com objetivo de assessorar Guaraniana S/A no processo de fundamentação do ágio gerado na alienação da participação acionária detida por esta. Como já mencionado anteriormente registrase que, conforme vasta jurisprudência administrativa, não é possível reconhecer uma mais valia (ágio) de um investimento quando originado de transação intragrupo, mormente inexistir substância econômica. No mesmo sentido, a CVM, através do ofício Circular CVM/SNC/SEP n° 01, de 14 de fevereiro de 2007, delibera pela impossibilidade de contabilização do ágio quando as operações ocorrem entre empresas ligadas. Observase que o grupo econômico tentou alterar as características do ágio através de Laudo de avaliação econômica, mediante operação intragrupo de transferência do mesmo. Restou comprovado que este ágio transferido pela Guaraniana S/A para Nordeste Participações S/A é remanescente das aquisições realizadas nos leilões supracitados, cujo fundamento econômico é o fundo de comércio, intangíveis, e outras razões. Para consecução da vontade explicitada pelos partícipes desta transação, qual seja, transferência do ágio para empresa rentável do grupo, foi necessária mais uma etapa de operações intragrupo a qual detalharemos abaixo. Em 07 de junho de 2000, após anuência da ANEEL, a COELBA realiza incorporação da sua controladora Nordeste Participações S/A, empresa veículo, contabilizando ágio remanescente dos leilões de suas próprias ações. Ressaltese que o grupo econômico após esta série de operações formais entende que o ágio que outrora tinha fundamento econômico em fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas, passou a ser dedutível. Após a leitura deste Termo de Verificação Fiscal não resta qualquer dúvida que esta incorporação às avessas não ocorreu de fato, porquanto, se prestou apenas para validar a transferência do ágio entre empresas do mesmo grupo econômico. Esta conduta intencional de criar operações sem qualquer substância econômica ou propósito negocial, a não ser o de elidir tributos, aumentou as despesas operacionais da COELBA, Fl. 8773DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.741 67 reduzindo sensivelmente o valor tributo a recolher, mediante alteração das características fundamentais do fato gerador, qual seja, o lucro tributável. O artigo 72, da Lei 4.502 de 30 de novembro de 1964, dispõe o seguinte, in verbis: 'Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento.’ Entende esta Auditoria consoante arrazoado elaborado neste item e, em todo o trabalho fiscal realizado, que a conduta intencional adotada pela COELBA para reduzir seu lucro tributável encaixase com perfeição no conceito de Fraude. Assim, concluise que de acordo com artigo 44, inciso II, da lei 9.430 de 27 de dezembro de 1996, com nova redação dada pela lei 11.488, de 15 de junho de 2007, a multa de ofício será duplicada, mormente ter havido Fraude praticada pelas empresas COELBA, Guaraniana S/A e Nordeste Participações S/A.” Obs.: alguns destaques não constam no original. A recorrente por sua vez pugna pelo cancelamento da multa qualificada "uma vez que para esta possa ser exigida é necessário que a fiscalização demonstre, por intermédio da apresentação de provas inequívocas, que as operações foram feitas com evidente intuito de fraude, conforme definido nos artigos 71, 72 e 73 da Lei 4.502/64, os quais para que possam ser aplicados exigem que se comprove que existiu a intenção de se praticar o ato para que fosse retardado ou impedido o surgimento da obrigação tributária, o que não ocorre nesses autos." Entendo que no caso concreto, restou demonstrada a presença de dois elementos inerentes ao dolo: o cognitivo, que é o conhecimento do fato constitutivo da ação típica, e o volitivo, a vontade de realizar a conduta. Cezar Roberto Bitencourt esclarece, com clareza peculiar, in verbis: Para a configuração do dolo exigese a consciência daquilo que esse pretende praticar. Essa consciência deve ser atual, isto é, deve estar presente no momento da ação, quando ela está sendo realizada (...) A vontade, incondicionada, deve abranger a ação ou omissão (conduta), o resultado e o nexo causal. A vontade pressupõe a previsão, isto é, a representação, na medida em que é impossível querer algo conscientemente senão aquilo que se previu ou representou na nossa mente, pelo menos, parcialmente (...) É indispensável uma determinada relação de vontade entre o resultado e o agente e é exatamente esse elemento volitivo que distingue o dolo da culpa. Restou evidente a falta de propósito negocial e consequente simulação das operações que envolveram a produção dos ágios. A Recorrente não conseguiu comprovar a substância econômica que poderia justificar as diversas reorganizações societárias, cujo único Fl. 8774DF CARF MF 68 objetivo realmente foi o de conferir uma aparência de normalidade, que permitisse a amortização dos supostos ágios. Como bem destacado pela decisão de primeira instância:: 77. No tocante à tese de que o ágio pago, originalmente, pela Guaraniana S/A, teria sido em decorrência da transferência do fundo de comércio, tal matéria já foi aqui apreciada e rejeitada no presente voto, sendo aceita a tese de que, na referida aquisição de ações feita pela Guaraniana S/A, tal ágio foi pago com base na expectativa de rentabilidade futura. Contudo, é mantida a glosa das despesas de ágio realizadas pela Impugnante, conforme fundamentos já expostos no presente voto. 78. Quanto as demais situações apontadas no Auto de Infração que, além de justificarem a glosa das despesas de ágio, justificariam, também, a apontada ocorrência de fraude, tais como: a apontada impossibilidade de contabilização do ágio quando as operações ocorrem entre empresas ligadas e a apontada inocorrência de fato da incorporação as avessas, que caracterizariam a conduta intencional de criar operações sem qualquer substância econômica ou propósito negocial, a não ser o de elidir tributos, conforme já relatado, a Impugnante contesta tais imputações, alegando, essencialmente, a “ausência de prova de evidente intuito de fraude” e, por consequência, a impossibilidade de aplicação da referida multa de 150% (cento e cinquenta por cento). 79. Além de afirmar a licitude de suas operações e de que elas teriam sido ratificadas pela Aneel e pela CVM, a Impugnante alega, também, que “o ágio que acaba aparecendo na COELBA era o mesmíssimo que estava na Nordeste e anteriormente na Guaraniana e que, exatamente por causa da incorporação, vai para a COELBA. Nenhum ágio novo” (destaquei). 80. Ora, se não é nenhum ágio novo, como a própria Impugnante afirma, ela não poderia deduzilo como despesa, pois, conforme já aqui explanado, a referida legislação não permite que ele possa ser amortizado como despesa dedutível, enquanto permanecerem as figuras de investidora e investida, nem tampouco dá guarida à transferência do ágio pela forma adotada pela Impugnante, pois, conforme já aqui abordado, caso a operação fosse efetivada de acordo com as normas vigentes, a Guaraniana S/A não poderia transferir o ágio para a Nordeste S/A e esta, por sua vez, para a Impugnante, porquanto, caso as operações fossem efetivadas nos termos da legislação societária, ele deveria ter sido totalmente baixado no ato da alienação, sendo o resultado daquela alienação absorvido e incorporado ao patrimônio líquido da alienante, no caso, a Guaraniana S/A, fosse ele positivo ou negativo. 81. Por isso, tais operações não poderiam gerar ágio remanescente a ser transferido à Impugnante, quando da incorporação reversa, ou, muito menos terem gerado despesas de ágio na Investida (Impugnante), ressaltese, em duplicidade, uma vez que a Investidora continuou com os mesmos valores de investimento e de ágio registrados em sua contabilidade, Fl. 8775DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.742 69 demonstrando, com isso, a falta de substância material das operações (...) 83. Como visto e ressaltado pela Fiscalização, a Guaraniana S/A utilizou a Nordeste Participações S/A como empresa veículo para transferir o ágio pago por aquela quando das aquisições das ações da COELBA S/A (a Impugnante), utilizandose do mesmo “modus operandi” já analisado no transcrito acórdão, vejase, mais uma vez, o resumo das operações: a) embora fundada em 1997, até 30 de março de 2000, a Nordeste Participações S/A permaneceu inativa, a não ser pela ocorrência de pequenos aumentos de capital com vistas a suprir suas pequenas despesas, não auferindo nenhuma receita e sem ter qualquer atividade operacional, ou seja ela não realizou qualquer investimento (participação em empresas); b) em 31 de março de 2000, “a Nordeste Participações S/A, aprovou aumento de Capital Social no montante de R$ 2.105.024.344,00 (dois bilhões cento e cinco milhões e vinte e quatro mil, trezentos e quarenta e quatro reais), mediante emissão particular de 2.105.024.344 (dois bilhões cento e cinco milhões e vinte e quatro mil e trezentas e quarenta e quatro) ações ordinárias ao preço unitário de R$ 1,00 (um) real, para integralização a vista através de bens; c) nessa mesma data, a empresa Guaraniana S/A subscreveu a totalidade das ações integralizando no ato a quantia mediante conferência de 13.716.702.215 (treze bilhões setecentas e dezesseis milhões setecentas e duas mil duzentos e quinze) ações ordinárias e 2.811.250.317 (dois bilhões oitocentas e onze milhões duzentas e cinquenta mil e trezentas e dezessete) ações preferenciais de emissão da empresa COELBA, da qual era titular, atribuindo valor para as ações vertidas de R$ 2.105.024.344,00 (dois bilhões cento e cinco milhões e vinte e quatro mil e trezentos e quarenta e quatro reais); d) em contrapartida a Guaraniana S/A recebeu da Nordeste Participações S/A os 2.105.024.344 (dois bilhões cento e cinco milhões e vinte e quatro mil e trezentas e quarenta e quatro) de ações ordinárias ao preço unitário de R$ 1,00 (um) real, que, à época, correspondia a R$ 2.105.024.344,00; e) posteriormente, ainda no dia 7 de junho de 2000, a Nordeste Participações S/A, “investidora”, em uma operação denominada “incorporação reversa”, é incorporada pela sua “investida”, no caso a Impugnante (COELBA S/A), a qual, por sua vez, emite ações em substituição às emitidas pela Nordeste S/A quando do aumento de capital, e as entrega à Guaraniana S/A (atual Neonergia S/A), retornando ao “status quo” anterior às operações descritas nas alíneas precedentes, qual seja: a participação direta da Guaraniana S/A junto à Impugnante (COELBA S/A). Fl. 8776DF CARF MF 70 84. Notese que apesar das operações de aumento de capital, conferência com ações, incorporação às avessas, o valor pago, originariamente, pela Guaraniana S/A pela aquisição das ações da Impugnante, contabilizado nas contas de investimento e de ágio pela aquisição, não sofreu qualquer alteração além da equivalência patrimonial e a amortização do ágio, sendo mantida, sempre, o mesmo controle societário e com idêntica participação societária, o que por si só afasta a alegada hipótese de reorganização societária e demonstra a falta de propósito negocial, apontando para a existência de simulação, pois, se abstrairmos as referidas operações formais, a visão que se tem é de que o investimento originariamente feito pela Guaraniana S/A para a aquisição do controle da Impugnante, não sofreu qualquer solução de continuidade, porquanto ele manteve, desde a origem (as primeiras aquisições das ações), o mesmo controle societário, inclusive fazendo os registros de amortização de ágio e de equivalência patrimonial em sua contabilidade como se não houvesse qualquer alienação. 85. Na conhecidíssima obra “Vocabulário Jurídico” de “De Plácido e Silva”, Editora Forense, 1994, fl. n° 235, constam as seguintes definições de simulação, verbis: "Do latim simulatio, de simulare (usar fingimento, usar artifício) a simulação é o artifício ou fingimento na prática ou na execução de um ato, ou contrato, com a intenção de enganar ou de mostrar o irreal como verdadeiro, ou lhe dando aparência que não possui. Simulação, pois, é o disfarce, o simulacro, a imitação, a aparência, o arremedo, ou qualquer prática que se afasta da realidade ou da verdade, no desejo de mostrar ou de fazer crer coisa diversa. (...) A simulação resulta do fingimento para aparentar a realidade de uma intenção que não é verdadeira, e que se disfarça por esse fingimento. (...) Simulação. No sentido jurídico, sem fugir ao sentido normal, é o ato jurídico aparentado enganosamente com fingimento para esconder a real intenção ou para subversão da verdade. Na simulação, pois, visam sempre os simuladores fins ocultos para engano e prejuízo de terceiros. " Obs.: destaquei. 86. Os juristas e doutrinadores, Ives Gandra da Silva Martins e Paulo Lucena de Menezes, em Parecer sobre a “Elisão Fiscal”, publicado na Revista Dialética de Direito Tributário (RDDT) de n° 63, de dezembro de 2000, ao tratarem da simulação na esfera tributária, fazem diversas ponderações, que transcrevo e adoto as por pertinente, como segue: “III. Simulação Fl. 8777DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.743 71 (...) Como dito acima, para que haja a simulação, tem que haver, pelo menos, 2 (duas) realidades distintas que concorrem na simulação. No presente caso temos as operações de aumento de capital, conferência com a entrega das ações, incorporação às avessas e os registros das operações formais nos órgãos competentes, que foi “uma verdade aparente (jurídica)”, que se exteriorizou para o mundo (destaquei); e, a transferência das despesas de amortização de ágio, realizada contrariamente à hipótese legal (como já aqui visto), que é a “outra verdade (real), que não é perceptível, ao menos à primeira vista”, pois só se percebe com o exame das referidas operações como se fosse um todo, envolvendo, por consequência, as operações realizadas por todos os participantes: a Guaraniana S/A, a Nordeste Participações S/A e a Impugnante (Coelba S/A), e não considerandoas de forma isolada. 88. Portanto, ao contrário do que afirma a Impugnante, embora documentação relativa às operações de aumento de capital, entrega das ações, extinção da companhia com a incorporação reversa tenham sido submetidas aos órgãos competentes, e aprovadas em sua forma, verificase que, apesar de formalmente preencherem os requisitos legais, materialmente tais operações não ocorreram, ficando configurando, assim, a simulação dos negócios jurídicos entre a Impugnante e suas controladoras, a Nordeste Participações S/A e a Guaraniana S/A, cuja consequência, nos termos do antigo Código Civil, arts. 102 e 105, e no art. 167, § 1º, do atual Código Civil, é a nulidade de tais operações, com o restabelecimento da verdade material em substituição à aparente verdade formal, uma vez que por trás da aparente verdade jurídica que os atos societários formalizados visaram demonstrar, existia outra verdade, qual seja, a de se reduzir, indevidamente, a carga tributária do IRPJ com a utilização de despesas de ágio inexistentes, gerando grande prejuízo para a União, e não a de reorganização societária como a Impugnante quis fazer crer quando de sua defesa (...) 90. Assim é que, conforme demonstrado pela Fiscalização, com a utilização de operações simuladas, ficou caracterizada a intenção dolosa, e por consequência, a situação de Fraude que foi consubstanciada na conduta intencional da Impugnante e de suas controladoras de criarem operações sem qualquer substância econômica ou propósito negocial, a não ser o de elidir tributos, mediante a alteração das características essenciais do fato gerador, com a criação indevida de despesas operacionais, modificando, indevidamente, o lucro tributável, conduta esta prevista no já transcrito artigo 72, da Lei 4.502 de 30 de novembro de 1964 (...): Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Fl. 8778DF CARF MF 72 91. Diante do exposto, mantenho a multa qualificada de 150% (cento e cinquenta por cento), eis que restou evidenciada a intenção livre e consciente da Impugnante, em criar despesa inexistente de amortização de ágio com o intuito de reduzir, indevidamente, a carga tributária devida, deixando recolher o correspondente Imposto sobre a Renda devido, caracterizando se, tal conduta, em fraude. (grifos acrescentados do original). Nesse contexto, é de rigor a aplicação do disposto no artigo 44, inciso I, § 1º, da Lei n. 9.430/96, com a redação dada pela Lei n. 11.488/2007, em vigor ao tempos dos fatos: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) (...) § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Correta, portanto, a qualificação da multa, conforme autuada e mantida pela decisão de piso. 4. Da cobrança da multa isolada em razão da falta de recolhimento da CSLL e do IRPJ por estimativa: A recorrente se insurge contra a aplicação da multa isolada tendo em vista que: a) já estavam encerrados os anosbase de 2006 a 2010 quando da lavratura do auto de infração (29/09/2011); b) os valores de CSLL e IRPJ supostamente devidos por estimativas superam os valores desses tributos apurados no encerramento dos anosbase e. c) ainda que houvesse recolhimento a menor de CSLL e IRPJ por estimativa, não há possibilidade de cumulação da multa isolada, incidente sobre eventual diferença de recolhimento de estimativa, com a multa de ofício, conforme jurisprudência pacífica do Conselho de Contribuintes. Para o período de 2006, aplicase indubitavelmente a Súmula nº 105 do CARF: Súmula CARF nº 105 : A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas , lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Fl. 8779DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.744 73 Em relação ao lançamento de multa isolada sobre insuficiência de estimativa mensal para o anocalendário de 2007 em diante aplicase o artigo 44, inciso I, alínea "b" da Lei nº 9.430/96 (redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007), verbis: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (...) b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (grifei). A sanção imposta pelo sistema é claríssima: caso descumprido o pagamento da estimativa mensal, cabe imputação de multa isolada, sobre a totalidade (caso em que não se pagou nada a título de estimativa mensal) ou diferença entre o valor que deveria ter sido pago e o efetivamente pago, apurado a cada mês do anocalendário. A sanção tem base legal. A sanção expressamente dispõe que é cabível ainda que a pessoa jurídica tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa de CSLL. E a nova redação, aplicável aos fatos geradores ocorridos a partir de 22/01/2007 (o caso em debate), afastou qualquer dúvida sobre a possibilidade de aplicação concomitante das multas de ofício e das multas isoladas por insuficiência de estimativa mensal. As hipóteses de incidência que ensejam a imposição das penalidades da multa de ofício e da multa isolada em razão da falta de pagamento da estimativa são distintas, cada qual tratada em inciso próprio no art. 44 da Lei nº. 9.430, de 1996. Observase que os incisos I e II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, tratam de suportes fáticos distintos e autônomos, com diferenças claras na temporalidade da apuração que tem por consequência a aplicação das penalidades sobre bases de cálculo diferentes. A multa de ofício aplicase sobre o resultado apurado anualmente, cujo fato gerador aperfeiçoase ao final do anocalendário. Por sua vez, a multa isolada é apurada conforme balancetes elaborados mês a mês ou, ainda, mediante receita bruta acumulada mensalmente. Ou seja, são materialidades independentes, não havendo que se falar em concomitância. Assim, voto no sentido de afastar a incidência da multa isolada do IRPJ no valor de R$ 5.365.431,01 e da CSLL no valor de R$ 3.284.566,20 para o anocalendário de Fl. 8780DF CARF MF 74 2006 e com relação à multa isolada sobre estimativa mensal do anocalendário de 2007 em diante, não há reparos ao procedimento adotado pela autoridade tributária. 5. Da utilização da Taxa SELIC como juros de mora: Alega a recorrente que não deve prosperar a cobrança dos juros de mora com base na Taxa SELIC, por estar em desconformidade com diversos dispositivos constitucionais. No que diz respeito à utilização da SELIC, a posição deste Conselho encontrase sumulada: Súmula CARF nº 04: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência , à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. 6. Da tributação Decorrente CSLL No tocante á tributação reflexa, não apresentou a recorrente razões de defesa específicas distintas daquelas já apreciadas e afastadas. Assim tratandose de exigências decorrentes dos mesmos fatos que ensejaram o lançamento principal de IRPJ, mantémse a mesma orientação decisória. 7. Conclusão: Ante o exposto, CONHEÇO do Recurso Voluntário e, no mérito, voto por DARLHE parcial provimento, para afastar a incidência da multa isolada do IRPJ no valor de R$ 5.365.431,01 e da CSLL no valor de R$ 3.284.566,20 para o anocalendário de 2006. É como voto. (documento assinado digitalmente) JOSÉ CARLOS DE ASSIS GUIMARÃES Relator Fl. 8781DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.745 75 Voto Vencedor Conselheiro Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Redator designado. Peço vênia para discordar do nobre relator com relação aos termos do seu voto, no que tange à dedução da amortização do ágio. Por elucidativo relativamente à matéria, transcrevo parte do voto condutor do Acórdão nº 1301000.999, da 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara desta 1ª Seção de Julgamento, proferido na sessão de 7 de agosto de 2012, relator o i. Conselheiro Valmir Sandri, cujos fundamentos adoto como razões de decidir: ... a questão gira em torno da dedução da amortização do ágio com base nos artigos 7º, inciso III, e 8º, da Lei nº 9.532, de 1997. A norma foi editada no bojo do Programa Nacional de Desestatização, implementado na década de 90, e teve por objetivo tornar mais atrativos os leilões para alienação das empresas estatais para obter um melhor preço, com inegável característica de benefício fiscal indutor de um comportamento. Efetivamente, antes da edição da Lei nº 9.532/1997, o ágio na aquisição de investimento somente tinha efeitos fiscais na tributação do ganho ou perda de capital quando de sua alienação (DL nº 1.598/77, art. 33), sendo sua amortização fiscalmente neutra (era adicionada no LALUR). Entretanto, essa situação foi alterada pela Lei nº 9.532, de 1997, que dispôs: Art. 7º A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do Decretolei n.º 1.598, de 26 de dezembro de 1977: (...) III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b” do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998) Art. 8º O disposto no artigo anterior aplicase, inclusive, quando: a) o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor de patrimônio líquido; b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. A motivação que levou o legislador a editar esta norma reguladora do agir no contexto do PND foi aumentar as ofertas dos participantes do leilão das empresas Fl. 8782DF CARF MF 76 desestatizadas, mediante a garantia aos investidores da dedutibilidade do ágio pago na aquisição das empresas. Porém, especialmente na privatização das concessionárias de serviços públicos, a norma não alcançaria seu objetivo se não houvesse a permissão para a utilização de incorporação invertida e de empresas veículo. A possibilidade de dedução da amortização é condicionada à junção dos patrimônios. Como os licitantes, na quase totalidade dos casos, são grupos de empresas dos mais diversos setores da economia (grandes construtoras, seguradoras, fundos de previdência, bancos de investimentos, etc.), a junção patrimonial direta, para utilização do benefício, seria impossível. É curial que não era objetivo do PND extinguir as empresas concessionárias de serviços públicos. Por isso, a previsão expressa da possibilidade de operação invertida (a investida absorvendo a investidora). Por seu turno, as investidoras também não têm interesse em serem extintas, e mais, podem ter limitações regulatórias específicas, que impeçam a junção patrimonial. Assim, a única forma de viabilizar a utilização do benefício é concentrar a participação societária adquirida (com ágio) no leilão numa empresa veículo (sociedade com propósito específico), a qual seria incorporada pela investida. Por isso, no contexto do PND, além de prever expressamente a possibilidade de operações invertidas (art. 8º da Lei nº 9.532/97), a Lei nº 9.491/97, que alterou os procedimentos relativos ao Programa Nacional de Desestatização PND, em seu art. 4º, permitiu a utilização de várias estruturas societárias possíveis para a implementação da política, inclusive por meio de empresas veículos, como as subsidiárias integrais. A conferir: Lei nº 9.491/97 Art. 4º As desestatizações serão executadas mediante as seguintes modalidades operacionais: I alienação de participação societária, inclusive de controle acionário, preferencialmente mediante a pulverização de ações; II abertura de capital; III aumento de capital, com renúncia ou cessão, total ou parcial, de direitos de subscrição; IV alienação, arrendamento, locação, comodato ou cessão de bens e instalações; V dissolução de sociedades ou desativação parcial de seus empreendimentos, com a conseqüente alienação de seus ativos; VI concessão, permissão ou autorização de serviços públicos; VII aforamento, remição de foro, permuta, cessão, concessão de direito real de uso resolúvel e alienação mediante venda de bens imóveis de domínio da União. (Incluído pela Medida Provisória nº 2.16135, de 2001) §1º A transformação, a incorporação, a fusão ou a cisão de sociedades e a criação de subsidiárias integrais poderão ser Fl. 8783DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.746 77 utilizadas a fim de viabilizar a implementação da modalidade operacional escolhida. (destaquei) Portanto, operações como as ora submetidas a julgamento nada têm de planejamento ilícito ou inoponível ao fisco, sendo, ao contrário atuações induzidas pelo Poder Público. Além de a possibilidade de dedução do ágio permitido pelo artigo 7º da Lei nº 9.532/97 ter sido uma forma encontrada pelo Governo de incrementar os preços das ofertas nos leilões de privatização (conduta induzida), o normativo deixou ao inteiro talante dos contribuintes o momento de obter o aproveitamento fiscal do sobrepreço pago (opção fiscal), ao vincular a dedutibilidade do ágio a partir do evento incorporação, fusão ou cisão. A criação de empresas veículos para se alcançar determinado efeito é bastante comum em direito societário. A operação societária objeto do presente estudo, envolvendo as empresas que fizeram parte da privatização, foi amplamente analisada e regulada pela CVM, por intermédio da Instrução CVM nº 349/01, que alterou a Instrução CVM 319/00, inclusive sob o aspecto do uso de uma empresa veículo. A exposição de motivos da Instrução CVM nº 349/01, demonstra que a CVM regulou toda a operação em tela, de modo a ajustar eventuais distorções não pelo aspecto da incorporação em si, mas sim pela previsão legal quanto à dedutibilidade do ágio, a saber: "... a criação da empresa veículo e a transferência, para esta, do investimento original e, também, do ágio permitiram que, através desse modelo de incorporação, houvesse a possibilidade do seu aproveitamento fiscal, fazendo surgir, contabilmente, uma espécie de crédito tributário fundamentado na diminuição futura do imposto de renda e da contribuição social, em virtude da possibilidade da amortização desse ágio. Portanto, esse benefício fiscal é a única parcela do ágio que poderá ser aproveitada na controlada e que tem substância econômica. Essa é também a parcela do ágio que a CVM vem entendendo, conforme estabelecido na Instrução CVM nº 319, que pode ser capitalizada em proveito exclusivo do controlador. É, portanto, somente essa parcela com substância econômica que pode ser considerada um ativo e que poderia vir a ser capitalizada. (...) Em decorrência, o art. 1º da nova Instrução veio preencher essa lacuna ao determinar, em última análise, que o ágio na incorporação da controladora, cujo fundamento tenha sido perspectiva de rentabilidade futura ou mesmo direitos de concessão, seja reconhecido nas demonstrações contábeis da incorporadora apenas pelo montante do benefício fiscal esperado. O referido artigo permite também que, para fins de divulgação, esse benefício fiscal seja classificado, de acordo com a sua natureza e prazo de realização, em conta específica do ativo circulante e do realizável a longo prazo. Essa forma de classificação, como crédito tributário, visa registrar a essência econômica do direito realizável, qual seja, a Fl. 8784DF CARF MF 78 possibilidade da sua transformação em fluxo positivo de caixa em decorrência da dedutibilidade fiscal. Deve ter, portanto, o tratamento de um Ativo Fiscal Diferido sujeito às regras de reconhecimento e divulgação previstas na Deliberação CVM nº 273/98." Esta norma da CVM vem apenas corroborar o fato de que, na situação concreta em análise, estamos diante da figura das condutas "desejadas ou induzidas" pelo ordenamento e de condutas "positivamente autorizadas" pelo ordenamento. [...] Realmente, não há qualquer abusividade ou ilicitude no caso de o contribuinte realizar determinado negócio jurídico motivado por vantagens fiscais instituídas pela legislação. O que é ilícito, por ser abusivo, seria a causa de o negócio jurídico ser a vantagem fiscal. Não há ilícito no fato de a motivação ser fiscal. Este é o ponto fundamental, pois causa e motivo são coisas distintas. A causa é de natureza objetiva, enquanto que o motivo é subjetivo. O motivo constitui a causa impulsiva, a causa, a causa final. 14 MOREIRA ALVES, resume bem a questão, quando ensina que: “a causa de um negócio jurídico difere dos motivos que levaram as partes a realizálo. Com efeito, a causa se determina objetivamente (é a função econômicosocial que o direito objetivo atribui a determinado negócio jurídico); já o motivo se apura subjetivamente (diz respeito aos fatos que induzem as partes a realizar o negócio jurídico). No contrato de compra e venda, a causa é a permuta entre a coisa e preço (essa é a função econômicosocial que lhe atribui o direito objetivo; essa é a finalidade prática a que visam, necessária e objetivamente, quaisquer que sejam os vendedores e quaisquer que sejam os compradores); os motivos podem ser infinitos (assim, por exemplo, alguém pode comprar uma coisa para presentear com ela um amigo). (...) A distinção entre causa e motivo é importante porque, em regra, a ordem jurídica não leva em consideração o último.” Assim, a título de síntese, enquanto a causa é a função típica de determinado negócio jurídico, o motivo é a razão metajurídica que levou a pessoa a realização do mesmo, que só influenciará na órbita jurídica se esta motivação for ilícita (art. 166 do CCv.). O problema da reorganização societária “ilícita” do ponto de vista tributário está quando a causa, isto é, a função econômicosocial que o direito objetivo atribui a determinado negócio jurídico, é distorcida para criar, instituir ou estabelecer uma vantagem fiscal. Seria o caso (não presente neste processo) de “ágio fabricado internamente”, quando a operação societária cria um ágio artificialmente, para assim obter a vantagem fiscal. O vício está na formação do ágio e não no seu aproveitamento posterior, quando da incorporação. Entretanto, é óbvio que o vício do ágio macula o seu próprio aproveitamento. Mas se o ágio é legítimo como no caso em tela, o seu aproveitamento deve seguir a causa típica estipulada no ordenamento para a incorporação de empresas. Se na compra e venda a causa é a permuta entre a coisa e preço, como asseverou 1 4 cf. W. Barros Monteiro, p29 Fl. 8785DF CARF MF Processo nº 10580.729192/201171 Acórdão n.º 1201001.559 S1C2T1 Fl. 8.747 79 Moreira Alves, na incorporação a causa típica é a absorção de uma ou mais sociedades por outra; esta é a função econômicosocial que lhe atribui o direito objetivo, como deixa patente o art. 227 da Lei nº 6.404/76, verbis: “Art. 227. A incorporação é a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações.” A absorção do patrimônio de uma empresa por outra é a finalidade prática a que visam, necessária e objetivamente, quaisquer que sejam as empresas incorporadoras e incorporadas, constituindo, esta, por conseguinte, a sua causa típica. E foi exatamente esta causa típica, a pessoa jurídica absorver o patrimônio de outra, estipulada pelo artigo 7º, III, da Lei nº 9.532/97, como condição para o contribuinte usufruir da regra do benefício fiscal oneroso. Neste caso, a lei concede o benefício fiscal, e condiciona o seu aproveitamento, isto é, a vantagem fiscal estipulada em lei, à pessoa jurídica absorver o patrimônio de outra. Tratase de indução da norma fiscal à realização de absorção de patrimônio de empresa por intermédio de incorporação, cisão ou fusão, o que não passou despercebido do Poder Legiferante, que corroborou isso ao vetar o projeto de lei que pretendia revogar a norma isencional em tela5. Assim, por tudo que foi dito acima, entendo, sem nenhuma dúvida, não ter ocorrido, quer simulação, quer abuso de direito e/ou planejamento tributário em desacordo com a lei, mas tão somente a prática de conduta abarcada e induzida pelo ordenamento jurídico, por intermédio das regras estipuladas nos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/97, sem qualquer prejuízo para Fazenda Pública que pudesse caracterizar economia ilícita de imposto, pois a escolha de outras soluções legais e diretas produziria idêntica conseqüência tributária com relação à amortização de ágio feita por intermédio da empresa veículo. Em face do contido na transcrição acima, não há que se cogitar de que a falta de efetivo pagamento na operação envolvendo a empresa veículo Nordeste Participações pudesse impossibilitar a dedutibilidade da amortização do ágio. No que tange à questão relativa à duplicidade de amortização, conforme foi aventado nas contrarrazões ao Recurso Voluntário, ela não pode ser levada em consideração neste processo. Se de fato ocorre, deve ser objeto de fiscalização e lançamento de ofício, tendo como sujeito passivo a Guaraniana S/A. Assim, deve ser reconhecida a dedutibilidade da amortização do ágio, nos anoscalendário em questão, não prevalecendo as exigências relativas às infrações identificadas como falta de adição, na apuração do lucro real, de despesas não dedutíveis (amortização do ágio) e, no que for consequência, como falta de recolhimento das estimativas mensais (exigência de multas isoladas). Em face disso, quanto à infração relativa a saldo insuficiente na compensação de prejuízo fiscal e base negativa, esta restou mantida, em parte, de acordo com nova apuração a ser efetuada, assim como ficou também mantido eventual reflexo, caso apurado, no que tange à multa isolada de 2007. Fl. 8786DF CARF MF 80 Por todo o exposto, voto por dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para: a) afastar, em sua totalidade, as exigências relativas às infrações identificadas como falta de adição ao lucro líquido, para a determinação do lucro real, de despesas de amortização do ágio e, no que for consequência, como falta de recolhimento das estimativas mensais (exigência de multas isoladas); b) manter, em parte, a exigência contida no Auto de Infração, relativamente à compensação indevida de prejuízo fiscal, conforme nova apuração a ser efetuada, assim como também manter eventual reflexo, caso apurado, no que tange à multa isolada de 2007; c) aplicar os entendimentos consubstanciados acima nas letras "a" e "b", para o lançamento de CSLL, no que couber. (documento assinado digitalmente) Paulo Cezar Fernandes de Aguiar – Redator designado Fl. 8787DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10314.726517/2014-56
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 23 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Apr 25 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009
IRPJ. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. ERRO DE CÁLCULO.
A aplicação errônea da fórmula de cálculo para a apuração do preço básico na operação realizada entre partes relacionadas (preços de transferência), deve ser objeto de correção pela autoridade julgadora.
Numero da decisão: 1402-002.436
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Ausente justificadamente o Conselheiro Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto - Presidente
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Leonardo de Andrade Couto (Presidente), Caio Cesar Nader Quintella, Demetrius Nichele Macei, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Luiz Augusto de Souza Gonçalves e Paulo Mateus Ciccone.
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. ERRO DE CÁLCULO. A aplicação errônea da fórmula de cálculo para a apuração do preço básico na operação realizada entre partes relacionadas (preços de transferência), deve ser objeto de correção pela autoridade julgadora. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Ausente justificadamente o Conselheiro Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Presidente (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Leonardo de Andrade Couto (Presidente), Caio Cesar Nader Quintella, Demetrius Nichele Macei, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Luiz Augusto de Souza Gonçalves e Paulo Mateus Ciccone. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 31 4. 72 65 17 /2 01 4- 56 Fl. 1680DF CARF MF 2 Relatório Trata o presente processo de Auto de Infração de IRPJ e CSLL relativo ao período de apuração 2009. A matéria tributável tem origem na glosa de custos e despesas consideradas excessivas por parte da Fiscalização. A autuada, a empresa QANTAS AIRWAYS LIMITED, é uma filial de empresa australiana, devidamente autorizada a funcionar no Brasil, atuando no ramo de transporte aéreo de passageiros e carga. Opera na modalidade "offline" (sendo autorizada a vender passagens no Brasil, mas não de operar vôos dentro do território nacional), transportando passageiros por intermédio da empresa LANCHILE, de São Paulo até Santiago do Chile, onde é feita a conexão dos vôos com destino final à Austrália, através de aviões próprios e/ou da LANCHILE. Os custos de operação, relativos ao transporte aéreo dos passageiros e cargas (custos de combustíveis, tripulação, manutenção das aeronaves, custo de compartilhamento da LANCHILE, etc), e objeto da glosa, são contratados com fornecedores localizados no exterior e lá pagos pela sua matriz, de forma rateada, proporcionalmente à participação do mercado brasileiro nas vendas da América do Sul. O percentual de rateio é de 45% do custo total de operação na América do Sul. O total desses custos, no ano calendário de 2009, importou em R$81.843.789,65, pagos pela matriz australiana. A Fiscalização, tendo considerado tais custos como excessivos em relação à receita da atividade auferida no Brasil (R$34.402.507,27), glosou os custos contabilizados e aplicou o conceito de preços de transferência, por considerar tratarse de transação com pessoas vinculadas, de acordo com a Instrução Normativa SRF nº 243, de 11 de novembro de 2002. Assim, ao aplicar a legislação que trata dos preços de transferência, reduziu substancialmente os custos apropriados pela autuada, fazendo com que o resultado auferido por ela passasse de prejuízo para lucro tributável. O método adotado pela Fiscalização para calcular os custos passíveis de apropriação foi o Preço de Revenda menos Lucro de 20% PRL20. Abaixo reproduzo o demonstrativo elaborado pela Fiscalização para apurar o valor tributável mediante a aplicação do método PRL20: Método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL) Receita Liquida das Atividades 34.402.507,27 PRL 20% Custo Preço de Transf, Método PRL 6.880.501,45 Custos operacionais pagos pela filial brasileira no Brasil 3.844.865,96 Serv. Prestados por Pessoa Jurídica 10.075,25 Lucro bruto 23.667.064,61 Outras receitas financeiras 80,90 () Despesas Operacionais 2.566.862,34 () outras despesas financeiras 1 148 998,28 Lucro Operacional 19.951.284,89 BASE DO AUTO DE INFRAÇÃO IRPJ e CSLL 19.951.284,89 Fl. 1681DF CARF MF Processo nº 10314.726517/201456 Acórdão n.º 1402002.436 S1C4T2 Fl. 1.681 3 Impugnada a exigência, a DRJ/SP, ao analisar o mérito das alegações da autuada (v. efls. 1.628/1.647), chegou à conclusão de que o cálculo realizado pela Fiscalização ao aplicar o método de preço de transferência estava completamente equivocado, razão pela qual considerou o recurso procedente em parte para exonerar o crédito tributário e ajustar o saldo de prejuízos fiscais da autuada. Por esse motivo, e de acordo com o disposto no artigo 34 do Decreto nº 70.235/72, com as alterações introduzidas pela Lei nº 9.532/1997, e nos termos do artigo 1º da Portaria MF nº 3, de 03/01/2008 (DOU de 07/01/2008), recorreu de ofício a este CARF. Não consta dos autos recurso voluntário por parte da autuada relativamente à decisão que lhe foi desfavorável (in casu, redução do prejuízo fiscal). Regularmente cientificada, a Fazenda Nacional não apresentou contrarrazões ao recurso de ofício (v. efls. 1.678). É o relatório. Fl. 1682DF CARF MF 4 Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Relator. Como vimos no Relatório, tratase de analisar recurso de ofício proposto pela DRJ/SPO, que exonerou por completo a exigência contida no Auto de Infração, determinando, apenas, que se efetivasse o acerto no saldo de prejuízos fiscais da autuada após a aplicação correta do método de preços de transferência ao caso concreto. A DRJ/SPO chegou à conclusão de que seria aplicável ao caso a metodologia de preços de transferência para ajustar os custos passíveis de apropriação na apuração do resultado tributável da autuada. Entretanto, apesar de considerar correta a abordagem adotada pela Fiscalização, verificou que os cálculos por ela realizados estariam totalmente equivocados, não restando outra alternativa senão exonerar a exigência tributária após a correta aplicação do método PRL20. Abaixo reproduzo excertos da decisão recorrida em que restou reconhecida a carência do procedimento fiscal: 22. No presente caso, o contribuinte “QantasBrasil”, vende passagens aéreas com destino para a Austrália. Ocorre que o vôo não parte do Brasil, sendo necessário, assim, levar os passageiros e cargas (conexão) ao aeroporto no qual a “QantasAustrália” possui aeronave própria ou de terceiros com destino para a Austrália. 23. Esse translado, conforme relatado, é feito pela Lanchile. Porém, apesar de vender a passagem, não é a “Qantas – Brasil” quem contrata a Lanchile para a prestação do serviço de transporte, mas sim a sua Matriz, a qual, portanto, presta esse serviço para a sua controlada (filial) através da empresa aérea subcontratada. 24. Dessa forma, uma vez que o contribuinte e a sua controladora no exterior são empresas vinculadas, uma vez que a segunda prestou serviço a sua controlada (através da Lanchile), aplicase ao caso a legislação relativa aos preços de transferência. 25. Ressaltase que é irrelevante se houve venda ou não de serviços, pois, o fundamental no caso, como se trata de custos relacionados à atividade fim da “QuantasBrasil”, esta relação entre as empresas vinculadas se enquadra na legislação de preços de transferência, conforme a legislação abaixo reproduzida. 26. O artigo 18, da Lei nº 9.430/96, que instituiu o critério dos preços de transferência, prevê a sua aplicação nos casos de operações com bens e serviços entre empresas relacionadas, in verbis: Lei nº 9.430/96. Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (...............). 27. A própria IN da SRF nº 243/2002, que foi alterada pela IN nº 1.132/2012, mantendo o reproduzido abaixo, traz no seu preâmbulo o seguinte: Fl. 1683DF CARF MF Processo nº 10314.726517/201456 Acórdão n.º 1402002.436 S1C4T2 Fl. 1.682 5 Dispõe sobre os preços a serem praticados nas operações de compra e de venda de bens, serviços ou direitos efetuadas por pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no Brasil, com pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no exterior, consideradas vinculadas. Art. 1º Para efeito de legislação do imposto e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), a dedutibilidade de custos de bens, serviços e direitos importados e o reconhecimento de receitas e rendimentos derivados de exportação, em operações praticadas por pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no Brasil, com pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no exterior, consideradas vinculadas, será efetuada de conformidade com o disposto nesta Instrução Normativa(........). 29. No caso da Quantas, tanto a matriz como a Impugnante, a atividade fim se refere ao transporte de passageiros e cargas. Deve, também ser ressaltado que tal consulta tem validade especificamente para o contribuinte requerente, não tendo repercussão geral. 30. Quanto ao método aplicado pela fiscalização para apuração do preço padrão, foi considerado corretamente o “Preço de Revenda menos Lucro de 20% – PRL”, visto que houve a receita da Impugnante em decorrência da venda das passagens aéreas (São Paulo/Austrália ou São Paulo/Chile). 31. Porém, a fórmula de preço de transferência não foi corretamente aplicada: foi utilizada a fórmula “preço de revenda, menos lucro de 80%”, que resultou em um custo de 20%. O correto é o inverso: preço de revenda menos lucro de 20%, custo de 80%. 32. Com respeito à afirmação de que a fiscalização não obedeceu ao previsto no § 4º, do artigo 18 da Lei nº 9.430/96, para que fosse aplicado o método mais favorável, não pode ser aceita. A norma prevê que o contribuinte é que deveria apresentar os cálculos e a documentação do método escolhido. Conforme previa o artigo 40, da IN SRF nº 243/2002, não ocorrendo esta situação a fiscalização poderia com base na documentação disponível determinar o método a ser aplicado. 33. Como mencionado pela Impugnante corrigindo o cálculo realizado pela fiscalização a glosa dos custos não seria insuficiente para resultar em resultado tributável e crédito tributário a ser lançado, conforme abaixo demonstrado: Método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL lucro de 20%) Receita Liquida das Atividades 34.402.507,27 PRL, com lucro de 20% = custo de 80% 27.522.005,82 Custos operacionais pagos pela filial brasileira no Brasil 3.844.865,96 Serv. Prestados por Pessoa Jurídica 10.075,25 Lucro Bruto 3.025.560,24 Outras receitas financeiras 80,9 () Despesas Operacionais 2.566.862,34 () outras despesas financeiras 1.148 998,28 Prejuízo Operacional 690.219,48 Fl. 1684DF CARF MF 6 34. Em decorrência da aplicação erroneamente da fórmula do método para apuração do preço básico na operação realizada entre partes relacionadas, os Autos de Infração devem ser desconsiderados. 35. Contudo, deve ser corrigido nos controles da Impugnante o Prejuízo Fiscal apurado no anocalendário de 2009, demonstrado na sua DIPJ/2010, no valor de R$(55.012.003,31) para R$(690.219,48). Como foi apurada a mesma quantia de saldo negativo da CSLL neste ano, deve ser também corrigido este saldo. Estes valores serão corrigidos nos controles da RFB. 36. Com referência aos Autos Reflexos, o decidido no mérito do IRPJ repercute na tributação reflexa. 37. Diante do exposto, voto no sentido de julgar a IMPUGNAÇÃO PROCEDENTE EM PARTE, EXONERANDO O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. Perfeito o raciocínio exposado no voto condutor da decisão recorrida. Resta claro o erro cometido pela autoridade fiscal ao calcular os custos apropriáveis em valor muito aquém daquele que seria cabível após a aplicação do método de preço de transferência PRL20. Assim, adoto suas conclusões como razão de decidir para negar provimento ao recurso de ofício, mantendo a decisão recorrida em sua integralidade. Em 23 de março de 2017. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Relator Fl. 1685DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.003168/2005-18
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Mar 15 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed May 03 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 1999, 2000
ARBITRAMENTO DO LUCRO.
A falta de apresentação dos livros da escrita comercial e fiscal de pessoa tributada pelas regras do lucro real autoriza o arbitramento do lucro.
Numero da decisão: 9101-002.597
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado a quo para análise das demais questões postas no recurso voluntário, nos termos do voto do relator.
(documento assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente.
(documento assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araujo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente).
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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IND. ELETRONICA S/A ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 1999, 2000 ARBITRAMENTO DO LUCRO. A falta de apresentação dos livros da escrita comercial e fiscal de pessoa tributada pelas regras do lucro real autoriza o arbitramento do lucro. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado a quo para análise das demais questões postas no recurso voluntário, nos termos do voto do relator. (documento assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente. (documento assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 31 68 /2 00 5- 18 Fl. 1084DF CARF MF 2 Tratase de recurso especial de divergência interposto pela Fazenda Nacional com fundamento no art. 7º, inciso II, do Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais CARF, aprovado pela Portaria MF nº 147/2007. Alega a recorrente que no âmbito do acórdão nº 10196.469 a Primeira Câmara do extinto Primeiro Conselho de Contribuintes emprestou à legislação tributária interpretação distinta daquela contida nos acórdãos paradigmas nos 10320.331 e 10516.301 (efl. 1051 e ss), ao entender que a falta de apresentação do Lalur, por si só, não autoriza o arbitramento do lucro. O especial foi admitido por despacho exarado pela Presidente da Primeira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes (efl. 1066 e ss.). Intimado para tanto, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões ao especial (fls. 1073/1074). É o relatório. Fl. 1085DF CARF MF Processo nº 19515.003168/200518 Acórdão n.º 9101002.597 CSRFT1 Fl. 3 3 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator. Em relação à possibilidade, ou não, de conhecimento do especial, importante transcreverse a ementa do acórdão recorrido e a do acórdão paradigma nº 10516.301. O acórdão nº 10320.331, também indicado como paradigma da divergência, não chegou a ser examinado pela autoridade que realizou o exame da admissibilidade do recurso. Acórdão nº 10196.469 (Recorrido): IRPJ ARBITRAMENTO DE LUCRO FALTA DE ESCIRUTAÇÃO DO LALUR Reiterada e incontroversa é a jurisprudência administrativa no sentido de que o arbitramento do lucro, em razão das conseqüências tributáveis a que conduz, é medida excepcional, somente aplicável quando no exame de escrita a Fiscalização comprova que as falhas apontadas se constituem em fatos que, camuflando expressivos fatos tributáveis, indiscutivelmente, impedem a quantificação do resultado do exercício. A simples falta de escrituração do LALUR, sem demonstrar a ocorrência do efetivo prejuízo para o Fisco, não é suficiente para sustentar a desclassificação da escrituração contábil e o conseqüente arbitramento dos lucros. Acórdão nº 10516.301 (Paradigma): IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ EXERCÍCIO: 2003, 2004 ARBITRAMENTO DO LUCRO Será arbitrado o lucro da pessoa jurídica quando esta deixar de apresentar ao Fisco os Livros Contábeis e Fiscais necessários à apuração do imposto com base no lucro real ou presumido, devendo ser abatido deste o valor do imposto devidamente declarado. (...) Passo à revista da admissibilidade. A leitura das ementas reproduzidas revela a existência da divergência interpretativa suscitada pela Fazenda Nacional, pois, enquanto o recorrido entende que cabe ao Fisco comprovar a existência de falhas na escrituração que impeçam a apuração do lucro real, sendo insuficiente para justificar a imposição da medida extrema a alegação de falta de apresentação do Lalur, o paradigma assevera que a falta de apresentação de livros comerciais e fiscais é, por si só, suficiente para autorizar o arbitramento. Dito de outro modo, enquanto o recorrido se socorre do princípio de que o arbitramento é uma medida extrema para, no caso concreto, afirmar que a falta de apresentação do Lalur é insuficiente para a adoção daquela medida, o paradigma não trata do referido principio, daí porque entende que a simples falta de apresentação dos livros exigidos na legislação é suficiente para autorizar o arbitramento. Comprovada a divergência interpretativa quanto ao paradigma admitido no despacho, conheço do recurso. Fl. 1086DF CARF MF 4 Em relação ao mérito, e como bem registrado pela Turma recorrida, é certo que existe neste Conselho jurisprudência firme segundo à qual o arbitramento do lucro é medida extrema, não podendo por isso ser banalizada. Então, por exemplo, não se admite o arbitramento quando a autoridade tributária deixar de demonstrar, de forma segura, que os vícios, erros ou deficiências verificados na escrita do sujeito passivo realmente a tornaram imprestável para apuração do lucro real. Veja que o conceito de imprestabilidade é vago. Nesse sentido, em cada caso concreto poderá haver: (i) uma zona de certeza negativa, em que não há dúvida de que as falhas verificadas na escrita não a tornam imprestável para apuração do lucro real; (ii) do lado oposto, um zona de certeza positiva, em que não há dúvida de que as referidas falhas tornam a escrita imprestável para apuração do lucro real; e (iii) uma zona intermediária, onde não haja segurança de que as falhas verificadas tornam a escrita imprestável para apuração do lucro real. Assim, uma aplicação do princípio de que o arbitramento é uma medida extrema é afastar a possibilidade de a autoridade utilizar essa forma de tributação na zona intermediária, onde de não há plena segurança de imprestabilidade da escrita. Outro exemplo de aplicação desse mesmo princípio é evitarse o açodamento da autoridade tributária em arbitrar o lucro do sujeito passivo. Por isso este Conselho vem afastando o arbitramento realizado após uma única intimação para apresentação de livros e documentos, mormente quando indeferido pedido de dilação de prazo para sua apresentação. O princípio, todavia, não se presta para afastar o arbitramento fundado em norma que, com clareza, determine aquela medida, e nem a casos em que a autoridade tenha agido com a devida cautela. Esse é exatamente os caso dos presentes autos. Aqui a autoridade tributária, em razão da falta de apresentação do Lalur, realizou o arbitramento do lucro com fundamento no art. 260 c/c art. 530, I e III, ambos do RIR/99, que assim estabelecem (vide TVF à efl. 76): Seção III Livros Fiscais Art. 260. A pessoa jurídica, além dos livros de contabilidade previstos em leis e regulamentos, deverá possuir os seguintes livros (Lei nº 154, de 1947, art. 2º, e Lei nº 8.383, de 1991, art. 48, e DecretoLei nº 1.598, de 1977, arts. 8º e 27): (...) III de Apuração do Lucro Real LALUR; (...) Art. 530. O imposto, devido trimestralmente, no decorrer do anocalendário, será determinado com base nos critérios do lucro arbitrado, quando (Lei nº 8.981, de 1995, art. 47, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 1º): I o contribuinte, obrigado à tributação com base no lucro real, não mantiver escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, ou deixar de elaborar as demonstrações financeiras exigidas pela legislação fiscal; Fl. 1087DF CARF MF Processo nº 19515.003168/200518 Acórdão n.º 9101002.597 CSRFT1 Fl. 4 5 (...) III o contribuinte deixar de apresentar à autoridade tributária os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, ou o Livro Caixa, na hipótese do parágrafo único do art. 527; (...) Ora, não há dúvida de que o art. 260, III, do RIR/99 elenca o Lalur entre os livros fiscais de escrituração obrigatória para os contribuintes que apurem lucro real. Da mesma forma, não há dúvida de que os incisos I e III do art. 530 do mesmo RIR/99 determinam o arbitramento do lucro em caso de falta de apresentação de livros fiscais, exceto quando o sujeito passivo opte pela apuração de lucro presumido (o que não é o caso dos presentes autos), hipótese em que ficará dispensado de escrituração comercial e fiscal acaso escriture livro caixa. Ademais, no caso a autoridade tributária não agiu açodadamente. De fato, a primeira intimação para apresentação do Lalur se deu logo no termo de início de ação fiscal, lavrado em 01/04/2004. Após, seguiramse outras intimações para apresentação desse livro e, por derradeiro, em 11/10/2005 foi lavrado o termo de intimação nº 5 por meio do qual a contribuinte foi instada a apresentar o Lalur, e expressamente cientificada de que, em caso de não atendimento, seu lucro seria arbitrado. Isso posto, em que pese reconhecer que este Conselho vem, corretamente, acolhendo o princípio de que o arbitramento é uma medida extrema, entendo que no presente caso o arbitramento se fez necessário. Dito isso, resta o exame das demais matérias suscitadas pelo sujeito passivo em seu recurso voluntário, e que não chegaram a ser apreciadas pela Turma recorrida em razão do julgamento do mérito. Tal exame, entretanto, é melhor que não seja levado a efeito por esta Primeira Turma, sob pena de supressão de instância. Tendo em vista o exposto voto por conhecer do recurso especial interposto pela Fazenda Nacional e, no mérito, por darlhe provimento, devendo contudo os autos retornarem à Turma de origem a fim de que sejam apreciados as demais matérias suscitadas no recurso voluntário, em especial: a) a preliminar de decadência dos créditos tributários lançados; b) a preliminar de nulidade do lançamento por cerceamento do direito de defesa; e c) a ilegalidade do emprego da taxa Selic no cálculos dos juros de mora. (documento assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 1088DF CARF MF 6 Fl. 1089DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 36084.000671/2002-13
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 19 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Feb 16 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/03/1999 a 31/03/1999
CESSÃO DE MÃO-DE-OBRA. RETENÇÃO.
O contratante de serviços mediante cessão de mão-de-obra, inclusive em regime de trabalho temporário, deverá reter onze por cento do valor bruto da nota fiscal ou fatura e recolher a importância em nome da prestadora.
INCONSTITUCIONALIDADE.
É vedado ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais afastar dispositivo de lei vigente sob fundamento de inconstitucionalidade.
Recurso Voluntário Provido em Parte
Numero da decisão: 2301-004.881
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recuso voluntário, para dar-lhe parcial provimento, para que sejam considerados os recolhimentos comprovados nos autos.
Andrea Brose Adolfo - Presidente
Julio Cesar Vieira Gomes - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: ANDREA BROSE ADOLFO, JULIO CESAR VIEIRA GOMES, FABIO PIOVESAN BOZZA, JORGE HENRIQUE BACKES, ALEXANDRE EVARISTO PINTO e MARIA ANSELMA COSCRATO DOS SANTOS.
Nome do relator: JULIO CESAR VIEIRA GOMES
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/03/1999 a 31/03/1999 CESSÃO DE MÃO-DE-OBRA. RETENÇÃO. O contratante de serviços mediante cessão de mão-de-obra, inclusive em regime de trabalho temporário, deverá reter onze por cento do valor bruto da nota fiscal ou fatura e recolher a importância em nome da prestadora. INCONSTITUCIONALIDADE. É vedado ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais afastar dispositivo de lei vigente sob fundamento de inconstitucionalidade. Recurso Voluntário Provido em Parte
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recuso voluntário, para dar-lhe parcial provimento, para que sejam considerados os recolhimentos comprovados nos autos. Andrea Brose Adolfo - Presidente Julio Cesar Vieira Gomes - Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: ANDREA BROSE ADOLFO, JULIO CESAR VIEIRA GOMES, FABIO PIOVESAN BOZZA, JORGE HENRIQUE BACKES, ALEXANDRE EVARISTO PINTO e MARIA ANSELMA COSCRATO DOS SANTOS.
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RETENÇÃO. O contratante de serviços mediante cessão de mãodeobra, inclusive em regime de trabalho temporário, deverá reter onze por cento do valor bruto da nota fiscal ou fatura e recolher a importância em nome da prestadora. INCONSTITUCIONALIDADE. É vedado ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais afastar dispositivo de lei vigente sob fundamento de inconstitucionalidade. Recurso Voluntário Provido em Parte Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recuso voluntário, para darlhe parcial provimento, para que sejam considerados os recolhimentos comprovados nos autos. Andrea Brose Adolfo Presidente Julio Cesar Vieira Gomes Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 36 08 4. 00 06 71 /2 00 2- 13 Fl. 287DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os conselheiros: ANDREA BROSE ADOLFO, JULIO CESAR VIEIRA GOMES, FABIO PIOVESAN BOZZA, JORGE HENRIQUE BACKES, ALEXANDRE EVARISTO PINTO e MARIA ANSELMA COSCRATO DOS SANTOS. Fl. 288DF CARF MF Processo nº 36084.000671/200213 Acórdão n.º 2301004.881 S2C3T1 Fl. 288 3 Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou procedente a autuação fiscal lavrada em 14/10/2002 pela falta de retenção dos 11% incidentes sobre o valor dos serviços prestados mediante cessão de mão de obra no período de 01/03/1999 a 31/03/1999. Seguem transcrições de alguns trechos do relatório fiscal que melhor sintetizam os fatos: 2. Período de lançamento discriminado por CNPJ das prestadoras de serviços: Ação Social Arquidiocesana 06.870.091/000100 : 03/99; Diocese de campo Maior 06.986.459/000192 : 03/99: Diocese de Oeiras/Floriano 06.577.100/000116 : 03/99; Diocese de Picos 06.782.957/000113 : O3/99. 3. Tratase de lançamento de crédito previdenciário contra a empresa acima identificada, no montante R$ 2.562,74 (Dois mil quinhentos e sessenta e dois reais e setenta e quatro centavos), consolidado em 14 de outubro de 2002. 4. A Notificação Fiscal de Lançamento de Débito NFLD corresponde às contribuições sociais incidentes sobre as remunerações decorrentes da prestação de serviços através de cessão de mão de obra, no período de 03/1999. 5. Conforme Relatório Fiscal (fls. 23/26) a empresa contratou serviços executados mediante cessão de mão de obra, entretanto, não reteve 11% (onze por cento) do valor bruto dos serviços contidos em notas fiscais, faturas ou recibos de prestação de serviços, assim como não recolheu o devido valor à luz do art.31 da Lei n° 8.212/91 e art.219 do Regulamento da Previdência Social aprovado pelo Decreto 3.048/99. As faturas foram juntadas aos autos, fls. 56 e s., onde se constata que foram disponibilizados pelas dioceses ao recorrente menores carentes para execução dos serviços, inclusive com o destaque dos 11% para a previdência social. Também constam nos autos guias de recolhimento, fls. 63 e 64, 70, 71, 78, 84, 85, 89. Após a decisão de primeira instância o contribuinte interpôs recurso voluntário ao CRPS, com contrarazões da fiscalização às fls. 158, que antes do julgamento converteuo em diligência e oportunizou manifestação sobre o resultado da diligência. O contribuinte apresentou suas razões contra o relatório da diligência e o CRPS manteve a decisão de primeira instância, nos seguintes termos: Fl. 289DF CARF MF 4 Em resposta, a Seção de Fiscalização informa que as empresas contratadas realizavam as seguintes atividades: datilografia, arquivamento, conferência e encaminhamento de documentos internos, atendimento de telefone, emissão de cópias, fax, trabalhos de digitação em microcomputadores, distribuição domiciliária, distribuição de telegramas, distribuição de contas de água, IPTU, telefone, luz, etc. ... A empresa contratante de serviços executados mediante cessão de mãodeobra deverá, por determinação expressa da lei, efetuar a retenção de 11% (onze por cento) do valor bruto da nota fiscal ou fatura de prestação de serviços e recolher a importância retida em nome da empresa prestadora de serviços. A Notificação Fiscal em análise foi lavrada com discriminação clara e precisa dos fatos geradores e das contribuições devidas, de acordo com o que dispõe a legislação previdenciária, mais precisamente o artigo 37 da Lei n° 8.212/91, não havendo que se falar, portanto, cancelamento do lançamento. UTILIZAÇAO DA TAXA SELIC. POSSIBILIDADE. ARTIGO 34 DA LEI N° 8.212/91. Nos termos do artigo 34 da Lei de Custeio, as contribuições sociais ficam sujeitas aos juros equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia SELIC. RECURSO CONHECIDO E IMPROVIDO. ... Importa salientar que a modificação inaugurada pela Lei n° 9.711/98 não criou qualquer nova contribuição sobre o faturamento, nem alterou a alíquota, nem a base de cálculo da contribuição previdenciária" como faz crer a recorrente. Pelo contrário, tão somente criou uma nova sistemática de arrecadação, colocando as empresas tomadoras de serviço como responsáveis tributários pela forma de substituição tributária. Ademais, é oportuno registrar que os entes da administração pública estão submetidos às disposições previstas na legislação previdenciária, porquanto são equiparados às empresas, nos termos do artigo 15, inciso I, da Lei de Custeio, verbis: “Art. 15. Considerase: I empresa a firma individual ou sociedade que assume o risco de atividade econômica urbana ou rural, com fins lucrativos ou não, bem como os órgãos e entidades da administração pública direta, indireta e fundacional;" Destacase que os serviços prestados se subsumem perfeitamente à descrição abstrata do conceito de mãodeobra constante do § 3° do artigo 31 da Lei 8.212/91, restando comprovada, desta forma, a procedência do lançamento fiscal. Nesse sentido, ao constatar atraso no recolhimento das contribuições previdenciárias, é dever da autoridade fiscal Fl. 290DF CARF MF Processo nº 36084.000671/200213 Acórdão n.º 2301004.881 S2C3T1 Fl. 289 5 lavrar notificação de débito, sob pena de responsabilidade pessoal, com a discriminação clara e precisa dos fatos geradores, das contribuições devidas e dos períodos a que se referem, conforme preceitua o artigo 37 da Lei de Custeio, verbis: “Art. 37. Constatado o atraso total ou parcial no recolhimento de contribuições tratadas nesta Lei, ou em caso de falta de pagamento de beneficio reembolsado, a fiscalização Iavrará notificação de débito, com discriminação clara e precisa dos fatos geradores, das contribuições devidas e dos períodos a que se referem, conforme dispuser o reguIamento". Por fim, as contribuições sociais e demais importâncias arrecadadas pelo INSS estão sujeitas à taxa referencial do SELIC Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, nos termos do disposto no artigo 34 da Lei n° 8.212/91, não havendo que se falar, portanto, em impossibilidade de utilização para a fixação de juros de mora. No recurso voluntário o recorrente alegou: Afirma que a Seção de Análise de Defesa e Recursos extrapolou o prazo para a conclusão do processo e, por este motivo, todo o argüido pela recorrente deve ser considerado como verdadeiro. Argumenta que o INSS não trouxe aos autos provas suficientes que demonstrassem o seu direito de constituição do crédito previdenciário. Ademais, alega que o INSS deveria ter comprovado que as empresas cedentes de mãodeobra não adimpliram com o seu recolhimento para somente neste caso poder notificar a recorrente como responsável subsidiária. Por outro lado, aduz que a substituição tributária prevista pela Lei n° 9.711/98, que alterou a redação do artigo 31 da Lei n° 8.212/91 é totalmente inconstitucional, porquanto não existe coincidência entre o tributo recolhido antecipadamente (substituição tributária) e o efetivamente devido no futuro (ocorrência do fato gerador). Além disso, afirma que somente poderá haver a transferência da responsabilidade pelo recolhimento do tributo a uma terceira pessoa quando restar verificada sua vinculação com o fato gerador da respectiva obrigação, o que não ocorre no caso vertente. Alega, ainda, que a redação do artigo 31 da Lei de Custeio dada pela Lei n° 9.711/98 prevê uma nova contribuição incidente sobre o faturamento da empresa e, por esta razão, deveria ter sido instituída por meio de Lei Complementar. Argumenta que o tributo exigido tem natureza confiscatória e requer seja conhecido e provido o recurso para o fim de julgar improcedente a notificação fiscal em análise. Fl. 291DF CARF MF 6 Em razão do despacho da PGFN às fls. 242: Entendemos, então, que houve julgamento do recurso sem a apreciação da manifestação apresentada pelo sujeito passivo através do processo 35226005981/200615, por isso, proponho o encaminhamento deste processo ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, para que verifiquem a situação apresentada e se for o caso, procedam uma nova análise. Caso aquele Conselho entenda que não há mais nada a ser apreciado, solicitamos a devolução deste processo a esta DRF, para podermos reativar a inscrição da dívida na PGFN, evitando a sua prescrição. Esta turma converteu o julgamento em diligência. A razão, conforme apontou a PGFN, é que foi reaberto prazo para manifestação do recorrente após a diligência solicitada pelo CRPS e antes do término do prazo os autos retornaram para julgamento, no que resultou em acórdão negando provimento ao recurso: Conforme despacho às fls. 232 e seguintes, o CRPS teria proferido acórdão negando provimento ao recurso voluntário do recorrente sem, contudo, observar a contrarazões do contribuinte sobre o resultado da diligência. A ciência da decisão definitiva ocorreu em 18/04/2007, fls. 176. O processo foi encaminhado para inscrição em dívida ativa e o retorno ao processo administrativo fiscal se deu por iniciativa da administração tributária. Considerando o tempo transcorrido, o estágio avançado que se encontrava o processo, as alterações na legislação que rege o processo administrativo fiscal e, especialmente, o supracitado despacho, entendo que melhor atenderia o princípio da ampla defesa e do contraditório que seja cientificado o recorrente de todos os atos processuais após o acórdão do CRPS e oportunizado o direito de apresentar novas alegações no prazo de 30 dias. Diante do exposto, voto no sentido de converter o julgamento em diligência e após retorne os autos a este Conselho para julgamento. Após o cumprimento da diligência solicitada por esta segunda turma ordinária do CARF, em resposta o recorrente reitera suas alegações anteriores, fls. 250 e s. É o Relatório. Fl. 292DF CARF MF Processo nº 36084.000671/200213 Acórdão n.º 2301004.881 S2C3T1 Fl. 290 7 Voto Conselheiro Julio Cesar Vieira Gomes, Relator Verifico o cumprimento dos pressupostos de admissibilidade e passo ao exame. Conforme apontado pela PGFN, foi julgado pelo CRPS o recurso voluntário sem observar que ainda estava em curso o prazo para manifestação do recorrente sobre o resultado da diligência. Assim, com efeito, houve prejuízo do direito de ampla defesa e do contraditório, nos termos do artigo 59 do Decreto nº 70.235/72. Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Entendo que o acórdão proferido pelo CRPS é nulo e passo ao reexame do recurso voluntário e de seu aditamento. Conforme já relatado, tratase de um programa de inclusão social de adolescentes carentes através de serviços prestados aos Correios por intermédio de dioceses. As faturas emitidas destacaram a retenção de 11% e também constam dos autos recolhimentos de retenções efetuados pelo recorrente. Assim, o recorrente, no exercício do seu direito ao contraditório, não se insurgiu quanto à presença de elementos que caracterizam a cessão de mão de obra, mas somente alega a improcedência da exação, principalmente sob fundamentos de ilegalidade e inconstitucionalidade. Nesse aspecto, é vedado a este CARF negar aplicação a dispositivos legais vigentes: Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. ... Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Contudo, não se pode ignorar que houve recolhimentos sobre os serviços objeto do lançamento. Como exemplo, na fatura às fls. 56 constam R$ 268,87 de retenção e às fls. 63 e 64 foi juntada uma guia de recolhimento relativa à retenção no mesmo valor. Assim, os valores comprovadamente recolhidos sobre os serviços prestados por cessão de mão de obra e objeto do lançamento devem ser deduzidos. Fl. 293DF CARF MF 8 Por tudo, voto por conhecer em parte do recurso voluntário para, na parte conhecida, dar provimento parcial para que se considerem os recolhimentos comprovados nos autos. É como voto. Julio Cesar Vieira Gomes Fl. 294DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13971.005198/2009-29
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 22 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Mar 20 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/07/2007 a 31/07/2007
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. COMPROVADA A EXISTÊNCIA DO ALEGADO VÍCIO DE CONTRADIÇÃO. RETIFICAÇÃO DO ACÓRDÃO EMBARGADO. ADMITIDA.
Uma vez demonstrada a existência do vício de contradição entre o enunciado da ementa e teor do dispositivo e do voto condutor do acórdão, acolhe-se os embargos de declaração, para eliminar a contradição e, sem efeitos infringentes, rerratificar o acórdão embargado.
Embargos Acolhidos.
Numero da decisão: 3302-003.709
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos de declaração para rerratificar o acórdão embargado, nos termos do voto do Relator.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Fernandes do Nascimento - Relator.
Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Domingos de Sá Filho, Lenisa Rodrigues Prado, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Orlando Rutigliani Berri, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araújo.
Nome do relator: JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO
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camara_s : Terceira Câmara
ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/07/2007 a 31/07/2007 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. COMPROVADA A EXISTÊNCIA DO ALEGADO VÍCIO DE CONTRADIÇÃO. RETIFICAÇÃO DO ACÓRDÃO EMBARGADO. ADMITIDA. Uma vez demonstrada a existência do vício de contradição entre o enunciado da ementa e teor do dispositivo e do voto condutor do acórdão, acolhe-se os embargos de declaração, para eliminar a contradição e, sem efeitos infringentes, rerratificar o acórdão embargado. Embargos Acolhidos.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos de declaração para rerratificar o acórdão embargado, nos termos do voto do Relator. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède - Presidente. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento - Relator. Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Domingos de Sá Filho, Lenisa Rodrigues Prado, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Orlando Rutigliani Berri, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araújo.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 6; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1565; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C3T2 Fl. 1.225 1 1.224 S3C3T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 13971.005198/200929 Recurso nº Embargos Acórdão nº 3302003.709 – 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 22 de fevereiro de 2017 Matéria PIS RESTITUIÇÃO Embargante FAZENDA NACIONAL Interessado BUNGE ALIMENTOS S/A. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/07/2007 a 31/07/2007 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. COMPROVADA A EXISTÊNCIA DO ALEGADO VÍCIO DE CONTRADIÇÃO. RETIFICAÇÃO DO ACÓRDÃO EMBARGADO. ADMITIDA. Uma vez demonstrada a existência do vício de contradição entre o enunciado da ementa e teor do dispositivo e do voto condutor do acórdão, acolhese os embargos de declaração, para eliminar a contradição e, sem efeitos infringentes, rerratificar o acórdão embargado. Embargos Acolhidos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos de declaração para rerratificar o acórdão embargado, nos termos do voto do Relator. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Relator. Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Domingos de Sá Filho, Lenisa Rodrigues Prado, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Orlando Rutigliani Berri, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e Walker Araújo. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 97 1. 00 51 98 /2 00 9- 29 Fl. 1225DF CARF MF 2 Relatório Tratase de embargos de declaração tempestivamente opostos pela Fazenda Naiconal, com o objetivo de suprir suposto vício de contradição no acórdão nº 3302003.215, de 19 de maio de 2016, em que, por unanimidade de votos, foram rejeitadas as preliminares e o pedido de realização de diligência e, no mérito, foi dado parcial provimento ao Recurso Voluntário, para reverter a glosa correspondente aos gastos com fretes no transporte de insumos e produtos em elaboração transferidos entre estabelecimentos ou remetidos para depósitos fechados ou armazéns gerais, com base nos fundamentos que se encontram resumidos nos enunciados das ementas, que seguem transcritos: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/07/2007 a 31/07/2007 PRODUTO SEM DIREITO A CRÉDITO. GASTOS COM FRETE. CUSTO DE AQUISIÇÃO. DIREITO DE APROPRIAÇÃO DE CRÉDITO. IMPOSSIBILIDADE. Se para o produto transportado (mercadorias adquiridas de pessoas físicas, mercadorias adquiridas com o fim específico de exportação etc) é vedado o direito de dedução do crédito da Contribuição para o PIS/Pasep, pelo mesmo motivo, tal vedação também se estende aos gastos como frete relativos à operação de transporte dos referidos produtos, que a eles se agregam como custo de produção. REGIME NÃO CUMULATIVO. GASTOS COM FRETE INTERNO NO TRANSPORTE DE PRODUTO IMPORTADO DIREITO DE APROPRIAÇÃO DE CRÉDITO. IMPOSSIBILIDADE. Os gastos com frete interno relativos ao transporte de bens destinados à revenda ou utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, ainda que pagos a pessoa jurídica domiciliada no País, não geram direito a crédito da Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep, pois sobre tais gastos não há pagamento da CofinsImportação e da Contribuição para o PIS/PasepImportação, por não integrarem a base de cálculo destas contribuições (valor aduaneiro, segundo art. 7º, I, da Lei 10.865/2004), nem se enquadrarem nas demais hipóteses de dedução de crédito previstas nos incisos III a XI do art. 3º da Lei 10.833/2003. TRANSPORTE DE PRODUTOS ACABADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS DO CONTRIBUINTE E REMESSA PARA ARMAZÉM GERAL. GASTOS COM FRETE. DIREITO DE APROPRIAÇÃO DE CRÉDITO. IMPOSSIBILIDADE. No âmbito do regime não cumulativo, por falta de previsão legal, não é admitido o direito de apropriação de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep sobre os gastos com frete Fl. 1226DF CARF MF Processo nº 13971.005198/200929 Acórdão n.º 3302003.709 S3C3T2 Fl. 1.226 3 relativos à operação de transporte entre estabelecimentos do contribuinte ou nas remessas para armazéns gerais. TRANSPORTE DE INSUMOS ENTRE ESTABELECIMENTOS DO CONTRIBUINTE. GASTOS COM FRETE. CUSTO DE PRODUÇÃO. DIREITO DE APROPRIAÇÃO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Na sistemática de apuração não cumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep, os gastos com frete relativo à operação de transporte de insumos, incluindo os produtos inacabados, entre estabelecimentos do próprio contribuinte propicia o direito ao crédito da contribuição como custo de produção dos produtos destinados à venda. DEVOLUÇÃO DE MERCADORIA VENDIDA. GASTO COM FRETE. CUSTO DE AQUISIÇÃO. DEDUÇÃO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. No âmbito do regime não cumulativo, por compor o custo do bem devolvido, é passível de apropriação os créditos da Contribuição para o PIS/Pasep calculados sobre os gastos com frete pagos na operação de devolução de produto/mercadoria vendido, cuja receita tenha integrado faturamento do mês ou de mês anterior e submetido à prévia tributação segundo o regime não cumulativo. GASTOS COM FRETE. FALTA DE COMPROVAÇÃO. GLOSA DOS CRÉDITOS APROPRIADOS. CABIMENTO. No âmbito do regime não cumulativo, ainda que haja previsão legal da dedução, a glosa dos créditos da Contribuição para o PIS/Pasep deve ser integralmente mantida se o contribuinte não comprova a realização do pagamento dos gastos com frete à pessoa jurídica domiciliada no País com documento hábil e idôneo. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/07/2007 a 31/07/2007 DESPACHO DECISÓRIO. MOTIVAÇÃO ADEQUADA E SUFICIENTE. INEXISTÊNCIA DE CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. DECLARAÇÃO DE NULIDADE. IMPOSSIBILIDADE. No âmbito do processo administrativo fiscal, não configura cerceamento do direito de defesa a decisão que apresenta fundamentação adequada e suficiente para o indeferimento do pleito de restituição formulado pela contribuinte, que foi devidamente cientificada e exerceu em toda sua plenitude o seu direito de defesa nos prazos e na forma na legislação de regência. Fl. 1227DF CARF MF 4 DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU. INOCORRÊNCIA CERCEAMENTO DIREITO DEFESA. DECLARAÇÃO DE NULIDADE. IMPOSSIBILIDADE. Não é passível de nulidade, por cerceamento ao direito de defesa, a decisão de primeiro grau em que houve pronunciamento claro e suficiente sobre todas as razões de defesa suscitadas na peça impugnatória e cujas conclusões foram apresentadas de forma congruente e devidamente fundamentada. PEDIDO DE PERÍCIA/DILIGÊNCIA. NÃO DEMONSTRADA A IMPRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO. POSSIBILIDADE. Se nos autos há todos os elementos probatórios necessários e suficientes à formação da convicção do julgador quanto às questões de fato objeto da lide, indeferese, por prescindível, o pedido de diligência e perícia formulado. Recurso Voluntário Provido em Parte. A embargante alegou que, apesar de constar no enunciado da ementa a possibilidade de apropriação dos créditos da Contribuição para o PIS/Pasep calculados sobre os gastos com frete pagos na operação de devolução de produto/mercadoria vendido, a glosa foi mantida pela Turma, conforme constava na parte dispositiva e se inferia do voto condutor do julgado. Com base no despacho de fls. 1220/1224, que confirmou a existência do alegado vício de contradição, com fundamento no art. 65, § 7º, do Anexo II do Regimento Interno deste Conselho, aprovado pela Portaria MF 343/2015 (RICARF/2015), o presidente desta Turma reconheceu a procedência do alegado vício de contradição e determinou que este Conselheiro colocasse os autos em pauta de julgamento, para prolação de novo acórdão. É o relatório. Voto Conselheiro José Fernandes do Nascimento, Relator. Uma vez cumprido os requisitos de admissibilidade, tomase conhecimento dos presentes embargos de declaração, para de eliminar o alegado vício de contradição suscitado pela recorrente. A alegação da recorrente procede, haja vista que, do simples cotejo entre o enunciado da ementa, que trata da apropriação de crédito sobre os gastos com frete na devolução de vendas, e a redação do dispositivo do acórdão e do fundamento do voto condutor do julgado embargado, verificase a existência da alegada contradição. Senão veja: ENUNCIADO DA EMENTA: DEVOLUÇÃO DE MERCADORIA VENDIDA. GASTO COM FRETE. CUSTO DE AQUISIÇÃO. DEDUÇÃO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Fl. 1228DF CARF MF Processo nº 13971.005198/200929 Acórdão n.º 3302003.709 S3C3T2 Fl. 1.227 5 No âmbito do regime não cumulativo, por compor o custo do bem devolvido, é passível de apropriação os créditos da Contribuição para o PIS/Pasep calculados sobre os gastos com frete pagos na operação de devolução de produto/mercadoria vendido, cuja receita tenha integrado faturamento do mês ou de mês anterior e submetido à prévia tributação segundo o regime não cumulativo. (grifos não originais) DISPOSITIVO ACÓRDÃO: ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguidas e o pedido de realização de diligência e, no mérito, dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, para reverter a glosa correspondente aos gastos com fretes no transporte de insumos e produtos em elaboração transferidos entre estabelecimentos ou remetidos para depósitos fechados ou armazéns gerais. Os Conselheiros Walker Araújo e Domingos de Sá e a Conselheira Lenisa Prado votaram pelas conclusões em relação à manutenção da glosa sobre dos gastos com fretes vinculados às operações de devolução de venda. FUNDAMENTO DO VOTO: Em relação à operação de devolução de venda, há permissão apenas para o estorno do valor do débito da contribuição calculado sobre o valor da receita da venda do bem devolvido, conforme se extrai do disposto no art. 3º, VIII, e § 1º, IV, da Lei 10.637/2002, a seguir transcrito: [...] Assim, independentemente do tipo de operação de devolução, não existe amparo legal para a apropriação de crédito da contribuição calculado sobre os gastos com frete no transporte de bens devolvidos tanto nas operações de devolução de vendas quanto nas operações de devolução de compras. Com base nessas considerações, deve ser integralmente mantida a presente glosa determinada pela fiscalização. (grifos não originais) Do simples cotejo dos textos transcritos, fica evidenciada a existência do alegado vício de contradição, pois, enquanto o enunciado da ementa admite a apropriação dos créditos da contribuição apurados sobre os gastos com frete na devolução de vendas, contrariamente, o dispositivo da decisão e o fundamento do voto não admitem. E como, comprovadamente, o equívoco ocorreu na redação do enunciado da ementa, para eliminar a alegada contradição, o enunciado da ementa do julgado passa a ter o seguinte teor: REGIME NÃO CUMULATIVO. OPERAÇÕES DE DEVOLUÇÃO DE COMPRA E DE VENDA. DESPESA COM FRETE NO TRANSPORTE DO BEM DEVOLVIDO. Fl. 1229DF CARF MF 6 DIREITO DE DEDUÇÃO DE CRÉDITO. IMPOSSIBILIDADE. No âmbito do regime não cumulativo, por falta de previsão legal, não é passível de apropriação os créditos da Contribuição para o PIS/Pasep calculados sobre as despesas com frete incorridas na operação de devolução de bem vendido ou comprado, ainda que tais despesas tenha sido suportadas pelo contribuinte. Por todo o exposto, votase pelo conhecimento e acolhimento dos embargos de declaração, para eliminar a alegada contradição e, sem efeitos infringentes, rerratificar o acórdão embargado. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Fl. 1230DF CARF MF
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Numero do processo: 11080.922000/2009-82
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Dec 07 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Mar 21 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/07/2005 a 31/07/2005
CONTRATOS. PREÇO PREDETERMINADO. ÍNDICE DE REAJUSTE. DESCARACTERIZAÇÃO.
Incumbe à empresa postulante à manutenção na sistemática cumulativa da contribuição a demonstração de que o índice empregado cumpre os requisitos legais, expressamente a de que a variação dos custos efetivamente ocorrida seria igual ou superior à praticada com base no índice contratualmente definido.
Recurso Especial do Procurador Provido.
Numero da decisão: 9303-004.490
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama, Erika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado) e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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PREÇO PREDETERMINADO. CORREÇÃO. IGPM. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado COMPANHIA ESTADUAL DE GERAÇÃO E TRANSMISSÃO DE ENERGIA ELÉTRICA CEEEGT ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/07/2005 a 31/07/2005 CONTRATOS. PREÇO PREDETERMINADO. ÍNDICE DE REAJUSTE. DESCARACTERIZAÇÃO. Incumbe à empresa postulante à manutenção na sistemática cumulativa da contribuição a demonstração de que o índice empregado cumpre os requisitos legais, expressamente a de que a variação dos custos efetivamente ocorrida seria igual ou superior à praticada com base no índice contratualmente definido. Recurso Especial do Procurador Provido. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama, Erika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado) e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza e Vanessa Marini Cecconello. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 92 20 00 /2 00 9- 82 Fl. 832DF CARF MF Processo nº 11080.922000/200982 Acórdão n.º 9303004.490 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Especial apresentado pela Fazenda Nacional contra o Acórdão nº 3803005.935, que julgou o recurso voluntário interposto pela contribuinte contra a não homologação de compensação declarada (PER/DCOMP). A compensação está lastreada em crédito oriundo de pagamento de contribuição supostamente efetuado a maior, em razão de apuração efetuada na sistemática nãocumulativa. O colegiado a quo entendeu, em síntese, que a correção dos preços pelo IGP M não descaracteriza a natureza de preço predeterminado para os efeitos da tributação pelas contribuições cumulativas, incidentes sobre contratos de longo prazo firmados antes de 31 de outubro de 2003, conforme previsão contida no inciso XI, b, do artigo 10 e inciso V do artigo 15 da Lei nº10.833/2003. Com esse entendimento, ficou caracterizado o pagamento a maior em razão da apuração da contribuição na sistemática não cumulativa. Para comprovar a divergência de interpretação necessária ao conhecimento do seu recurso, a Fazenda Nacional aponta decisões que enfrentaram exatamente a mesma situação mesmo setor econômico, mesmo índice em discussão e concluíram de modo antagônico. Após, sobrevieram contrarrazões em que o sujeito passivo defende o acerto da decisão questionada e pugna pela sua manutenção. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303004.467, de 07/12/2016, proferido no julgamento do processo 11080.909061/201179, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303004.467): O recurso cumpre os requisitos regimentais para que seja apreciado; dele conheço. Começo com o registro de que concordo com quase todos os fundamentos da decisão recorrida, da lavra do douto e coerente ex Fl. 833DF CARF MF Processo nº 11080.922000/200982 Acórdão n.º 9303004.490 CSRFT3 Fl. 4 3 membro desta casa, o dr. Belchior Melo de Souza. De fato, apenas discordo dele quando vislumbra diferença semântica relevante entre as locuções presentes na lei ("reajuste em função de ...") e no ato normativo que buscou regulamentar o assunto ("reajuste em percentual ... "). Para mim, nenhuma diferença há aí: reajuste "em função de" quer dizer exatamente "aplicando o percentual previsto no" índice. O que se tem de ver é se o índice cumpre os requisitos da lei, isto é, refletir "a variação ponderada dos custos dos insumos utilizados, nos termos do inciso II do §1º do art. 27 da Lei nº 9.069, de 29 de junho de 1995". É que, como já reiteradamente transcrito, a norma que temos de aplicar autoriza a adoção de dois critérios alternativos e mutuamente excludentes para fixação do reajuste do preço: pode ele expressar a variação dos custos ou se basear em índice que reflita a variação ponderada dos custos dos insumos utilizados. Por "variação dos custos", entendo eu, quer o ato legal se referir à variação efetivamente ocorrida e devidamente apurada pela empresa em sua escrita contábil. Já o índice que se empregue pode, em princípio, ser qualquer um objeto do acordo celebrado com o cliente, mas não pode superar a efetiva variação dos custos. A meu sentir, a norma sob análise decorre das especificidades do setor em discussão. Como é bem sabido, tratase de uma atividade essencialmente monopolizada, na qual prestador e tomador acordam condições que prevalecerão por períodos de tempo bastante longos. Nesses casos, inexistente um "mercado fixador", o preço é contratualmente definido, especificando o contrato também a forma de reajuste que o preserve dos efeitos inflacionários. Outra especificidade do setor diz com o elevado aporte de capital necessário a sua exploração, o que o fez, até há duas décadas, exclusivamente estatal. A privatização do setor, ocorrida nos idos dos anos 90 do século passado, exigia, por isso, que se garantisse (até onde possível) uma remuneração ao capital privado suficiente a estimular o seu ingresso. E na fixação desse percentual, obviamente, um fator essencial é a "margem de contribuição", no dizer dos contabilistas, ou o markup, na dos economistas: em ambos as acepções, a diferença entre o preço e o custo (unitário, na primeira; marginal, na segunda). E tal diferença, sabidamente, é influenciada pela tributação que incida sobre o setor. É por isso que o legislador, a meu ver acertadamente, previu que o reajuste do preço em percentual "compatível" com a variação efetiva dos custos, por si só, não afetaria a forma de tributação pelas contribuições PIS e COFINS que vigia quando os contratos foram assinados. A rigor, tal regra limitaria a correção dos preços à efetiva variação ocorrida nos custos, mas o legislador a ampliou ao deferir que fosse usado índice, desde que ele refletisse a variação ponderada dos custos dos insumos utilizados. É importante aqui considerar, como minudentemente feito no voto do dr. Belchior, a diferença entre reajuste, recomposição e repactuação. Citoo: Fl. 834DF CARF MF Processo nº 11080.922000/200982 Acórdão n.º 9303004.490 CSRFT3 Fl. 5 4 Nesse passo, importa identificar três formas de fixação de preços nos contratos em andamento: a repactuação ou revisão, a recomposição e o reajuste. A autorizada doutrina de Marçal Justen Filho1 define o que vêm a ser recomposição e reajuste. “A recomposição é o procedimento destinado a avaliar a ocorrência de evento que afeta a equação econômico financeira do contrato e promove adequação das cláusulas contratuais aos parâmetros necessários para recompor o equilíbrio original. Já o reajuste é procedimento automático, em que a recomposição se produz sempre que ocorra a variação de certos índices, independentemente de averiguação efetiva do desequilíbrio” A recomposição, também chamada de revisão, decorre de fatos imprevisíveis: caso de força maior, caso fortuito, fato do príncipe ou álea econômica extraordinária. O reajuste objetiva reconstituir os preços praticados no contrato em razão de fatos previsíveis, é dizer, álea econômica ordinária, no momento da contratação, ante a realidade existente, como a variação inflacionária. Por decorrência, o reajuste deve retratar a alteração dos custos de produção a fim de manter as condições efetivas da proposta contratual, embora muitas vezes não alcance este desiderato relativamente a certo segmento ou agente econômico. A repactuação visa à adequação dos preços contratuais aos novos preços de mercado e, no âmbito da Administração Pública Federal, encontrase regulamentada no art. 5º do Decreto nº 2.271, de 7 de julho de 19972. A possibilidade de repactuação prevista neste decreto não se faz acompanhar de disciplina acerca dos seus efeitos tributários, valendo a citação apenas para destacar a definição do signo repactuação. Novamente, em nada posso divergir dessa conceituação, mas tampouco posso concordar com a conclusão que dela extrai meu celebrado colega: para mim, a possibilidade de o contrato estabelecer cláusula de alteração em consequência de mudança tributária que venha a afetar o preço, implementada posteriormente à assinatura do contrato, está exatamente a validar o meu entendimento. É que ela seria totalmente desnecessária (ao menos no tocante às contribuições em tela) se fosse possível mantêlo no regime cumulativo pela aplicação de qualquer índice contratual, pois, nesse caso, nunca haveria impacto tributário do reajuste. Penso que, ao contrário, ela pode se dar (caso a correção pelo índice leve à tributação não cumulativa) o que atrai o procedimento de recomposição. Divirjo, portanto, dos que entendem (como parece ser a conclusão da decisão recorrida) que a autorização legal esteja a permitir que a 1 Filho, Marçal Justen. Comentários à lei de licitações e contratos administrativos. São Paulo: Dialética, 10. ed., 2004, p. 389. 2 Art. 5º Os contratos de que trata este Decreto, que tenham por objeto a prestação de serviços executados de forma contínua poderão, desde que previsto no edital, admitir repactuação visando à adequação aos novos preços de mercado, observados o interregno mínimo de um ano e a demonstração analítica da variação dos componentes dos custos do contrato, devidamente justificada. Fl. 835DF CARF MF Processo nº 11080.922000/200982 Acórdão n.º 9303004.490 CSRFT3 Fl. 6 5 empresa adote um determinado índice e não mais precise averiguar se ele é inferior ou superior à efetiva variação dos seus custos. É óbvio que se for inferior, não estará autorizada a deixar de aplicar o índice contratualmente previsto para reajuste. Aplicamse, nesse caso, as disposições contratuais relativas à recomposição e/ou repactuação, conforme didaticamente exposto pelo dr. Belchior em seu voto. O que isso não implica, porém, é que, em qualquer caso, mantém se o regime cumulativo, pois não é isso o que diz o ato legal. Necessário, pois, provar. Quando se trata de lançamento de ofício, essa prova, a meu sentir, há de ser exigida e desconstituída fundamentadamente pela fiscalização para que possa ser mantido o lançamento. Já nos casos, como o presente, em que é a própria empresa quem postula administrativamente a sistemática cumulativa, ela deve ser a primeira peça a instruir o seu pleito. No presente caso, do relatório da decisão recorrida e da leitura da íntegra do processo, não encontro qualquer prova, no entanto, ainda que a empresa tenha afirmado em seu recurso voluntário que: "(...) em nenhum momento foram aferidos os custos de produção do contribuinte no período fiscalizado. Nesse caso, mesmo considerando que o IGPM desfigura o conceito normativo de preço predeterminado, não poderia ter sido ignorada outra prerrogativa legal, a qual estabelece um percentual não superior ao acréscimo do custo de produção". Como já repetidamente afirmado, tal prova competia a ela, postulante, e não à fiscalização. Fora isso, a defesa da empresa lastreiase essencialmente no ato da ANEEL, que efetivamente afirma que o IGPM cumpre o requisito legal relativo à tributação aqui discutida. Isso não obstante, rejeito o argumento, pois a competência da ANEEL não alcança matéria tributária. Com efeito, entre as atribuições daquela agência reguladora, exaustivamente elencadas na própria lei que a criou3, nada há acerca da tributação incidente sobre o setor. Assim, as Notas Técnicas e as Resoluções daquela agência reguladora aplicamse às questões inerentes à geração e à distribuição de energia elétrica e às atividades correlatas. Sua competência, pois, restringese à seara dos contratos, dos preços da energia e da remuneração das concessionárias e permissionárias desses serviços públicos. Por óbvio, entre tais atribuições está dizer que possa ser contratualmente previsto o IGPM. O que não pode é dizer que isso implica tal ou qual consequência tributária. No presente caso, como já afirmado, embora postule a compensação, nada trouxe a empresa que comprovasse a adequação do índice aos ditames legais. Voto, pois, por dar provimento ao recurso da Fazenda Nacional. 3 Lei 9.427/96, arts. 3º e 4º Fl. 836DF CARF MF Processo nº 11080.922000/200982 Acórdão n.º 9303004.490 CSRFT3 Fl. 7 6 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, conheço do recurso especial da Fazenda Nacional, e, no mérito, doulhe provimento. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 837DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13784.720023/2014-10
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 14 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Apr 24 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2010
RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. REGIME DE COMPETÊNCIA. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF). RECURSO EXTRAORDINÁRIO (RE) Nº 614.406/RS. REPERCUSSÃO GERAL. APLICAÇÃO OBRIGATÓRIA.
A decisão definitiva de mérito no RE nº 614.406/RS, proferida pelo STF na sistemática da repercussão geral, deve ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais.
O imposto sobre a renda incidente sobre os rendimentos acumulados percebidos no ano-calendário 2010, porém antes de 27 de julho de 2010, na hipótese de o contribuinte não haver efetuado, na respectiva Declaração de Ajuste Anual, a opção pela tributação exclusiva na fonte de que trata o art. 12-A da Lei nº 7.713, de 1988, deve ser apurado com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram tais rendimentos tributáveis, calculado de forma mensal, e não pelo montante global pago extemporaneamente.
PENSÃO ALIMENTÍCIA. DÉCIMO TERCEIRO SALÁRIO. TRIBUTAÇÃO EXCLUSIVA NA FONTE.
A parcela da pensão alimentícia judicial descontada do décimo terceiro salário constitui dedução específica desse rendimento, sujeito à tributação exclusiva na fonte, vedando-se a utilização para reduzir a base de cálculo do imposto sobre a renda devido pelo alimentante submetido à tabela progressiva na Declaração de Ajuste Anual.
Recurso Voluntário Provido em Parte
Numero da decisão: 2401-004.638
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso, e, no mérito, dar-lhe provimento parcial, devendo ser recalculado o IRPF relativo ao rendimento recebido acumuladamente com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram tais rendimentos tributáveis, observando a renda auferida mês a mês pelo contribuinte (regime de competência).
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Lazarini - Presidente
(assinado digitalmente)
Cleberson Alex Friess - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Rayd Santana Ferreira, Márcio de Lacerda Martins, Andréa Viana Arrais Egypto e Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocado).
Nome do relator: CLEBERSON ALEX FRIESS
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2010 RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. REGIME DE COMPETÊNCIA. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF). RECURSO EXTRAORDINÁRIO (RE) Nº 614.406/RS. REPERCUSSÃO GERAL. APLICAÇÃO OBRIGATÓRIA. A decisão definitiva de mérito no RE nº 614.406/RS, proferida pelo STF na sistemática da repercussão geral, deve ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. O imposto sobre a renda incidente sobre os rendimentos acumulados percebidos no ano-calendário 2010, porém antes de 27 de julho de 2010, na hipótese de o contribuinte não haver efetuado, na respectiva Declaração de Ajuste Anual, a opção pela tributação exclusiva na fonte de que trata o art. 12-A da Lei nº 7.713, de 1988, deve ser apurado com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram tais rendimentos tributáveis, calculado de forma mensal, e não pelo montante global pago extemporaneamente. PENSÃO ALIMENTÍCIA. DÉCIMO TERCEIRO SALÁRIO. TRIBUTAÇÃO EXCLUSIVA NA FONTE. A parcela da pensão alimentícia judicial descontada do décimo terceiro salário constitui dedução específica desse rendimento, sujeito à tributação exclusiva na fonte, vedando-se a utilização para reduzir a base de cálculo do imposto sobre a renda devido pelo alimentante submetido à tabela progressiva na Declaração de Ajuste Anual. Recurso Voluntário Provido em Parte
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OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE (RRA). Recorrente MARCO ANTÔNIO RODRIGUES Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2010 RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. REGIME DE COMPETÊNCIA. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF). RECURSO EXTRAORDINÁRIO (RE) Nº 614.406/RS. REPERCUSSÃO GERAL. APLICAÇÃO OBRIGATÓRIA. A decisão definitiva de mérito no RE nº 614.406/RS, proferida pelo STF na sistemática da repercussão geral, deve ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. O imposto sobre a renda incidente sobre os rendimentos acumulados percebidos no anocalendário 2010, porém antes de 27 de julho de 2010, na hipótese de o contribuinte não haver efetuado, na respectiva Declaração de Ajuste Anual, a opção pela tributação exclusiva na fonte de que trata o art. 12A da Lei nº 7.713, de 1988, deve ser apurado com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram tais rendimentos tributáveis, calculado de forma mensal, e não pelo montante global pago extemporaneamente. PENSÃO ALIMENTÍCIA. DÉCIMO TERCEIRO SALÁRIO. TRIBUTAÇÃO EXCLUSIVA NA FONTE. A parcela da pensão alimentícia judicial descontada do décimo terceiro salário constitui dedução específica desse rendimento, sujeito à tributação exclusiva na fonte, vedandose a utilização para reduzir a base de cálculo do imposto sobre a renda devido pelo alimentante submetido à tabela progressiva na Declaração de Ajuste Anual. Recurso Voluntário Provido em Parte AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 78 4. 72 00 23 /2 01 4- 10 Fl. 85DF CARF MF Processo nº 13784.720023/201410 Acórdão n.º 2401004.638 S2C4T1 Fl. 86 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso, e, no mérito, darlhe provimento parcial, devendo ser recalculado o IRPF relativo ao rendimento recebido acumuladamente com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram tais rendimentos tributáveis, observando a renda auferida mês a mês pelo contribuinte (regime de competência). (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Lazarini Presidente (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Rayd Santana Ferreira, Márcio de Lacerda Martins, Andréa Viana Arrais Egypto e Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocado). Fl. 86DF CARF MF Processo nº 13784.720023/201410 Acórdão n.º 2401004.638 S2C4T1 Fl. 87 3 Relatório Cuidase de recurso voluntário interposto em face da decisão da 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Campo Grande (DRJ/CGE), cujo dispositivo tratou de considerar procedente em parte a impugnação, mantendo parcialmente o crédito tributário exigido. Transcrevo a ementa do Acórdão nº 0435.157 (fls. 55/62): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2011 DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. REVISÃO. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. GLOSA DE DEDUÇÕES. Sujeitamse à tributação através de lançamento de ofício rendimentos não oferecidos espontaneamente à tributação pelo beneficiário. É permitida a dedução a título de pensão alimentícia de importâncias comprovadamente pagas em cumprimento de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente. Somente são dedutíveis a título de incentivo pagamentos feitos diretamente a fundo controlado pelos conselhos municipais, estaduais e nacional dos direitos da criança e do adolescente. É permitida a dedução na declaração anual de despesas médicas relativas ao tratamento do contribuinte e de seus dependentes para fins tributários, desde que devidamente comprovadas. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte 2. Em face do contribuinte foi emitida a Notificação de Lançamento nº 2011/961279544956867, relativa ao anocalendário 2010, decorrente de procedimento de revisão de Declaração de Imposto sobre a Renda da Pessoa Física (DIRPF), em que foram apuradas as seguintes infrações (fls. 30/37): (i) omissão de rendimentos decorrentes de ação na Justiça Federal; (ii) dedução indevida de pensão alimentícia judicial; (iii) dedução indevida de despesas médicas; e (iv) dedução indevida de incentivo fiscal. Fl. 87DF CARF MF Processo nº 13784.720023/201410 Acórdão n.º 2401004.638 S2C4T1 Fl. 88 4 2.1 A Notificação de Lançamento alterou o resultado de sua Declaração de Ajuste Anual (DAA), exigindo o Fisco imposto suplementar, acrescido de juros de mora e multa de ofício. 3. Cientificado da notificação por via postal em 26/12/2013, às fls. 51, o contribuinte impugnou a exigência fiscal (fls. 2/5). 4. Intimado em 3/4/2014, por via postal, da decisão do colegiado de primeira instância, às fls. 64/66, o recorrente apresentou recurso voluntário no dia 29/4/2014 (fls. 67/68). 4.1 Expõe, em síntese, os seguintes argumentos de fato e de direito: (i) que os valores recebidos, em 14/7/2010, são decorrentes da ação judicial sob o nº 2006.51.54.0.004455, com tramitação no Juizado Especial Federal de Volta Redonda, referente à revisão de benefício em face do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Os pagamentos realizados são rendimentos sujeitos à tributação exclusiva/definitiva; (ii) quanto às pessoas alimentadas, o contribuinte pagou a Leonor Delgado Rodrigues o valor de R$ 10.666,66, CPF 082.023.78761, e a Mariza Gertrudes de Jesus, a importância de R$ 2.637,12, CPF 718.582.61791, conforme comprovantes em anexo; (iii) com relação ao plano de saúde Bradesco, foi pago o valor de R$ 480,41; e (iv) que os valores recebidos das pessoas jurídicas equivalem a R$ 110.463,11, e não a base de cálculo apurada de R$ 125.756,02. É o relatório. Fl. 88DF CARF MF Processo nº 13784.720023/201410 Acórdão n.º 2401004.638 S2C4T1 Fl. 89 5 Voto Conselheiro Cleberson Alex Friess Relator Juízo de admissibilidade 5. Uma vez realizado o juízo de validade do procedimento, verifico que estão satisfeitos os requisitos de admissibilidade do recurso voluntário e, por conseguinte, dele tomo conhecimento. Mérito a) Rendimentos Recebidos Acumuladamente 6. De acordo com o nosso ordenamento jurídico, a lei tributária tem efeitos prospectivos. Nesse sentido, os arts. 105 e 144 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, que veicula o Código Tributário Nacional (CTN): Art. 105. A legislação tributária aplicase imediatamente aos fatos geradores futuros e aos pendentes, assim entendidos aqueles cuja ocorrência tenha tido início mas não esteja completa nos termos do artigo 116. (...) Art. 144. O lançamento reportase à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e regese pela lei então vigente, ainda que posteriormente modificada ou revogada. § 1º Aplicase ao lançamento a legislação que, posteriormente à ocorrência do fato gerador da obrigação, tenha instituído novos critérios de apuração ou processos de fiscalização, ampliado os poderes de investigação das autoridades administrativas, ou outorgado ao crédito maiores garantias ou privilégios, exceto, neste último caso, para o efeito de atribuir responsabilidade tributária a terceiros. (...) (GRIFOUSE) 7. De maneira excepcional é admitida a retroatividade nas hipóteses de lei expressamente interpretativa e de lei tributária penal mais benéfica ao infrator. Eis o art. 106 do CTN: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; Fl. 89DF CARF MF Processo nº 13784.720023/201410 Acórdão n.º 2401004.638 S2C4T1 Fl. 90 6 II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. 8. O art. 12A da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, acrescido pela Medida Provisória (MP) nº 497, de 27 de julho de 2010, posteriormente convertida na Lei nº 12.350, de 20 de dezembro de 2010, alterou a sistemática de tributação dos rendimentos recebidos acumuladamente correspondentes a anoscalendário anteriores ao do recebimento. 8.1 Tais rendimentos passaram a serem tributados exclusivamente na fonte, no mês do recebimento ou crédito, em separado dos demais rendimentos recebidos no mês, submetidos à tabela progressiva do imposto sobre a renda. A redação atual do preceptivo de lei, com a alteração promovida pela Lei nº 13.149, de 21 de julho de 2015, está assim escrita: Art. 12A. Os rendimentos recebidos acumuladamente e submetidos à incidência do imposto sobre a renda com base na tabela progressiva, quando correspondentes a anoscalendário anteriores ao do recebimento, serão tributados exclusivamente na fonte, no mês do recebimento ou crédito, em separado dos demais rendimentos recebidos no mês. § 1º O imposto será retido pela pessoa física ou jurídica obrigada ao pagamento ou pela instituição financeira depositária do crédito e calculado sobre o montante dos rendimentos pagos, mediante a utilização de tabela progressiva resultante da multiplicação da quantidade de meses a que se refiram os rendimentos pelos valores constantes da tabela progressiva mensal correspondente ao mês do recebimento ou crédito. (...) § 7º Os rendimentos de que trata o caput, recebidos entre 1º de janeiro de 2010 e o dia anterior ao de publicação da Lei resultante da conversão da Medida Provisória nº 497, de 27 de julho de 2010, poderão ser tributados na forma deste artigo, devendo ser informados na Declaração de Ajuste Anual referente ao anocalendário de 2010. (...) §9º A Secretaria da Receita Federal do Brasil disciplinará o disposto neste artigo. 8.2 A mudança no regime de tributação, exclusivamente na fonte, implicou alterações nos elementos componentes da regramatriz de incidência tributária do imposto sobre a renda. Longe de um caráter meramente elucidativo, explicitador ou procedimental, tratouse de inovação da legislação tributária. Fl. 90DF CARF MF Processo nº 13784.720023/201410 Acórdão n.º 2401004.638 S2C4T1 Fl. 91 7 8.3 Por isso, em consonância com as prescrições contidas no CTN, a aplicabilidade do art. 12A da Lei nº 7.713, de 1988, restringese aos rendimentos recebidos acumuladamente a partir da publicação da MP nº 497, de 2010. 9. Excepcionalmente, contudo, conforme § 7º do art. 12A da Lei nº 7.713, de 1988, a lei autorizou a tributação exclusivamente na fonte, por opção do contribuinte, relativamente aos rendimentos relativos ao anocalendário 2010, recebidos até 20 de dezembro de 2010, dia anterior ao da publicação da Lei nº 12.350, de 2010, observadas as regras disciplinadas pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (§ 9º). 9.1 A regulamentação do órgão fazendário constou do art. 13 da Instrução Normativa RFB nº 1.127, de 7 de fevereiro de 2011, abaixo copiada na redação vigente à data da entrega da DAA 2011/2010 pelo contribuinte: Art. 13. Os RRA a que se referem os arts. 2º a 6º quando recebidos no período compreendido de 1º de janeiro a 20 de dezembro de 2010, poderão ser tributados na forma do previsto naqueles artigos, desde que efetuado ajuste específico na apuração do imposto relativo àqueles rendimentos na DAA referente ao anocalendário de 2010, do seguinte modo:: I a apuração do imposto darseá: a) em ficha própria; b) separadamente por fonte pagadora e para cada mês calendário, com exceção da hipótese em que a mesma fonte pagadora tenha realizado mais de um pagamento referente aos rendimentos de um mesmo mêscalendário, sendo, neste caso, o cálculo realizado de modo unificado; II o imposto resultante da apuração de que trata o inciso I será adicionado ao imposto apurado na DAA, sujeitandose aos mesmos prazos de pagamento e condições deste. Parágrafo único. A opção de que trata o caput deverá abranger a totalidade dos RRA no anocalendário de 2010. 10. De acordo com a DAA entregue pelo contribuinte em 17/4/2011, relativa ao anocalendário 2010, os valores recebidos pelo contribuinte em 14/7/2010, segundo comprovante bancário às fls. 15, embora declarados, não foram informados na ficha própria "Rendimentos Tributáveis de Pessoa Jurídica Recebidos Acumuladamente pelo Titular" (fls. 39/44). 10.1 A falta de inclusão dos rendimentos em ficha própria da declaração importa em considerar inexistente a opção do contribuinte pela tributação exclusiva na fonte, em separado dos demais rendimentos recebidos no mês, nos termos do art. 12A da Lei nº 7.713, de 1988. 11. De maneira tal que com relação a esses pagamentos, a tributação continuou a regerse pelo art. 12 da Lei nº 7.713, de 1988, que previa a incidência do imposto no mês do recebimento dos valores acumulados, no chamado "regime de caixa". Fl. 91DF CARF MF Processo nº 13784.720023/201410 Acórdão n.º 2401004.638 S2C4T1 Fl. 92 8 11.1 Ainda que revogado recentemente pela Lei nº 13.149, de 2015, o art. 12 da Lei nº 7.713, de 1988, é aplicável aos rendimentos acumulados percebidos pelo recorrente no ano de 2010. Copio a redação do art. 12: Art. 12. No caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o imposto incidirá, no mês do recebimento ou crédito, sobre o total dos rendimentos, diminuídos do valor das despesas com ação judicial necessárias ao seu recebimento, inclusive de advogados, se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização. 11.2 Como se vê, o art. 12 da Lei nº 7.713, de 1988, prescreve que o imposto incidirá no mês da percepção dos valores acumulados, utilizandose as tabelas e alíquotas vigentes na época do recebimento dessas parcelas, quando auferida a renda, independentemente do período que deveriam ter sido adimplidos, adotandose como parâmetro o montante global pago a destempo. 12. Acontece que em sessão do STF realizada no dia 23/10/2014, no julgamento do Recurso Extraordinário (RE) nº 614.406/RS, com repercussão geral reconhecida, redator para o acórdão Ministro Marco Aurélio, o Plenário da Corte admitiu a invalidade do art. 12 da Lei nº 7.713, de 1988, no que tange à sistemática de cálculo para a incidência do imposto sobre os rendimentos recebidos acumuladamente, por violar os princípios da isonomia e da capacidade contributiva, previstos na Carta Política de 1988. 12.1 Com efeito, afastando o regime de caixa, o Tribunal acolheu o regime de competência para o cálculo mensal do imposto sobre a renda devido pela pessoa física, com a utilização das tabelas progressivas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos. Eis a ementa desse julgado: IMPOSTO DE RENDA – PERCEPÇÃO CUMULATIVA DE VALORES – ALÍQUOTA. A percepção cumulativa de valores há de ser considerada, para efeito de fixação de alíquotas, presentes, individualmente, os exercícios envolvidos. 12.2 Em 9/12/2014, o Recurso Extraordinário nº 614.406/RS transitou em julgado. 13. Diante desse contexto fático, o § 2º do art. 62 do Anexo II do Regimento Interno deste Conselho RICARF , aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, com a redação dada pela Portaria MF nº 152, de 3 de maio de 2016, assim estabelece: Art. 62. (...) § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. 14. Como visto, a exigência de que o imposto incidirá no mês da percepção dos valores, sobre o total de rendimentos acumulados, aplicandose a tabela progressiva vigente no mês desse recebimento, foi considerada em descompasso com o texto constitucional, em decisão definitiva de mérito proferida pelo STF, na sistemática do art. 543B do Código de Fl. 92DF CARF MF Processo nº 13784.720023/201410 Acórdão n.º 2401004.638 S2C4T1 Fl. 93 9 Processo Civil. Esse entendimento da Corte Suprema deverá ser reproduzido no âmbito deste Conselho. 15. Desse modo, no tocante aos rendimentos tributáveis recebidos acumuladamente pela recorrente em 14/7/2010, relativos ao anocalendário de 2010, a incidência do imposto sobre a renda ocorre no mês de recebimento ou crédito, porém o cálculo deve considerar as tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram tais rendimentos, realizandose o cálculo de forma mensal, e não pelo montante global pago extemporaneamente. b) Pensão alimentícia 16. Na DAA 2011/2010, a qual foi objeto de revisão fiscal, o recorrente deduziu, a título de pensão alimentícia judicial, o valor de R$ 10.666,66 pago a Leonor Delgado Rodrigues, e o valor de R$ 2.637,02, pago a Mariza Gertrudes de Jesus. 16.1 No trabalho de malha fiscal dessa declaração, a autoridade lançadora desconsiderou integralmente os valores pagos a Leonor Delgado Rodrigues, por falta de apresentação da homologação do acordo judicial. 16.2 Por outro lado, quanto à Mariza Gertrudes de Jesus, aceitou um valor menor que o declarado, tendo em conta os comprovantes de pagamento, excluindo tão somente a parcela relativa ao décimo terceiro salário, no importe de R$ 41,23. 16.3 Conforme fls. 32, a glosa total realizada pela fiscalização equivaleu a R$ 10.707,89. 17. Quando do julgamento pelo colegiado de primeira instância, foi reconhecido o direito à dedução da pensão alimentícia paga a Leonor Delgado Rodrigues, no valor de R$ 10.266,66, mantido o restante da glosa. 18. Com acerto a decisão de piso, porque as diferenças pleiteadas pelo contribuinte dizem respeito a pagamentos a título de décimo terceiro salário, cuja tributação é exclusiva na fonte, não podendo utilizálas para reduzir a base de cálculo do imposto sobre a renda submetido à tabela progressiva no ajuste anual. 19. Logo, devem ser mantidas as glosas de R$ 400,00 (10.666,66 10.266,66), em nome de Leonor Delgado Rodrigues, bem como o valor de R$ 41,23, pago a Mariza Gertrudes de Jesus. c) Plano de Saúde Bradesco 20. No tocante ao valor de R$ 480,41, pago ao Plano de Saúde do Bradesco, não foi objeto de glosa pela fiscalização (fls. 33). 20.1 O montante de despesas médicas considerado indevido pela autoridade lançadora, totalizando a quantia de R$ 14.150,32, foi integralmente restabelecido pela decisão recorrida (fls. 61). Fl. 93DF CARF MF Processo nº 13784.720023/201410 Acórdão n.º 2401004.638 S2C4T1 Fl. 94 10 d) Base de cálculo apurada 21. O valor transcrito pela decisão de piso no demonstrativo às fls. 61, no importe de R$ 125.756,02, é equivalente a base de cálculo do imposto de renda inicialmente apurada pela autoridade lançadora, e não aos rendimentos recebidos pelo contribuinte das pessoas jurídicas (fls. 36). 21.1 De fato, segundo o quadro "Demonstrativo de Apuração do Imposto Devido", a fiscalização considerou como rendimentos tributáveis o valor declarado de R$ 110.463,11, informado na DAA 2011/2010, acrescido da importância de R$ 24.766,98, a título de omissão de rendimentos decorrentes da ação revisional de benefício previdenciário na Justiça Federal. 21.2 Do montante de rendimentos, diminuiu o valor das deduções declaradas, igual a R$ 34.332,28, ajustado pela glosa de deduções indevidas, no importe de R$ 24.858,21, chegando, ao final, a base de cálculo do imposto de R$ 125.756,02. 22. Na análise em primeira instância, foi mantida a omissão de rendimentos tributáveis recebidos em virtude da ação judicial, no valor de R$ 24.766,98, já deduzido o montante pago com relação aos honorários advocatícios, assim como deixou de restabelecer a glosa relativa ao pagamento a titulo de doação destinada à entidade Associação Beneficente Nhá Chica, correspondente a R$ 280,00. Por outra parte, a decisão "a quo" contestada restabeleceu a dedução de pensão alimentícia no valor de R$ 10.266,66 e a dedução de despesas médicas no montante de R$ 14.150,32.. 23. Portanto, considerando o raciocínio desenvolvido pela decisão de piso, o demonstrativo de fls. 61, ao contrário do que alega o recorrente, não contém inconsistências de valores. Conclusão Ante o exposto, CONHEÇO do recurso voluntário e, no mérito, DOULHE PROVIMENTO PARCIAL para determinar o recálculo do imposto sobre a renda devido quanto aos rendimentos recebidos acumuladamente, no importe de R$ 24.766,98, com base nas tabelas e alíquotas das épocas próprias a que se refiram tais rendimentos, observando a renda auferida mês a mês pelo contribuinte (regime de competência). É como voto. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Fl. 94DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12457.735126/2013-42
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 20 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Mar 23 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Período de apuração: 27/02/2012 a 14/06/2012
Ementa:
OCULTAÇÃO. SIMULAÇÃO. DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MULTA EQUIVALENTE.
Em consonância com a doutrina e a jurisprudência administrativa, que considera plenamente aceitável o uso da prova indireta em direito tributário, inclusive em atos fraudulentos, a fiscalização apurou um quadro indiciário que, por presunção simples, conduz ao cometimento da infração.
Os elementos indiciários apurados devem ser analisados conjuntamente. Embora a eventual existência de somente um só deles pudesse não ser suficiente para a configuração da infração, o que importa é que o conjunto probatório, considerado como um todo, convirja ao cometimento da infração veiculada pelo art. 23, inciso V e §1º e 3º do Decreto-lei n° 1.455/76.
Caracteriza dano ao Erário a importação de mercadoria com ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros.
Aplica-se a multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria na importação, quando essa não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, por ocasião da apuração da infração por dano ao Erário.
Recurso voluntário negado
Numero da decisão: 3402-003.829
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não tomar conhecimento do recurso da empresa PONTUAL COMÉRCIO E IMPORTAÇÃO e, pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso da PÃO DA HORA COMÉRCIO. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Designada a Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula.
(Assinado com certificado digital)
Antonio Carlos Atulim - Presidente
(Assinado com certificado digital)
Thais De Laurentiis Galkowicz - Relatora
(Assinado com certificado digital)
Maria Aparecida Martins de Paula - Redatora designada
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: THAIS DE LAURENTIIS GALKOWICZ
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SIMULAÇÃO. DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MULTA EQUIVALENTE. Em consonância com a doutrina e a jurisprudência administrativa, que considera plenamente aceitável o uso da prova indireta em direito tributário, inclusive em atos fraudulentos, a fiscalização apurou um quadro indiciário que, por presunção simples, conduz ao cometimento da infração. Os elementos indiciários apurados devem ser analisados conjuntamente. Embora a eventual existência de somente um só deles pudesse não ser suficiente para a configuração da infração, o que importa é que o conjunto probatório, considerado como um todo, convirja ao cometimento da infração veiculada pelo art. 23, inciso V e §1º e 3º do Decretolei n° 1.455/76. Caracteriza dano ao Erário a importação de mercadoria com ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. Aplicase a multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria na importação, quando essa não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, por ocasião da apuração da infração por dano ao Erário. Recurso voluntário negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 45 7. 73 51 26 /2 01 3- 42 Fl. 612DF CARF MF 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não tomar conhecimento do recurso da empresa PONTUAL COMÉRCIO E IMPORTAÇÃO e, pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso da PÃO DA HORA COMÉRCIO. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Designada a Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula. (Assinado com certificado digital) Antonio Carlos Atulim Presidente (Assinado com certificado digital) Thais De Laurentiis Galkowicz Relatora (Assinado com certificado digital) Maria Aparecida Martins de Paula Redatora designada Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Tratase de recursos voluntários interpostos em face da decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento (“DRJ”) de São Paulo/SP, que declarou improcedente a impugnação apresentada pelo contribuinte sobre a cobrança pena de perdimento comutada em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, consubstanciada nos autos de infração em questão (fls 10 – 37), no valor de R$ 146.608,83. Por bem consolidar os mais importantes fatos que deram ensejo ao lançamento tributário em questão, bem como os argumentos trazidos pelo contribuinte em sede de impugnação, com riqueza de detalhes, colaciono os trechos mais importantes do relatório do Acórdão da DRJ: As Declarações de Importação n° 12/03527774 e 12/10910952 constituem o objeto do presente trabalho, sendo que, ao final, restou caracterizada a ocultação do real sujeito passivo. A parte que pretendia se manter recôndita é a encomendante e provedora dos recursos necessários à importação das mercadorias, a empresa PÃO DA HORA COMÉRCIO E INDÚSTRIA DE ALIMENTOS LTDA, CNPJ 05.790.070/0001 04. Face ao que determina o art. 23, inciso V, c/c o §3º, do Decreto Lei n° 1.455, de 07 de abril de 1976, foi lavrado o presente Auto de Infração para a aplicação de multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias importadas pela impossibilidade de apreensão de tais mercadorias. Fl. 613DF CARF MF Processo nº 12457.735126/201342 Acórdão n.º 3402003.829 S3C4T2 Fl. 613 3 Cientificado do auto de infração, pessoalmente, em 04/10/2013 (fls. 174), o contribuinte PONTUAL COMERCIO, IMPORTACAO E EXPORTACAO DE PECAS AUTOMOTIVAS LTDA protocolizou impugnação, tempestivamente em 04/11/2013, na forma do artigo 56 do Decreto nº 7.574/2011, de fls. 183 à 202, instaurando assim a fase litigiosa do procedimento. O impugnante alegou que: A autoridade lançadora constituiu contra a impugnante crédito tributário referente à multa de 100% do valor aduaneiro das mercadorias importadas, por entender que houve ocultação do real sujeito passivo, mediante interposição fraudulenta, tendo como fundamento os artigos 23, do Decreto Lei 1.455/76 e 81, da Lei 10.833/2003. O lucro de uma empresa depende de diversos fatores, entre eles a oferta e demanda, lei de mercado. A impugnante prefere ganhar na quantidade, vendendo sua mercadoria com preço mais competitivo. Ademais, não há nenhuma lei que estabeleça o percentual de lucro que determinada empresa deverá ter com cada um dos produtos que vende. Mesmo assim a autoridade fiscal considerou pouco 10% (dez por cento) de lucro em operações que totalizaram R$ 3,1 milhões em 2007, R$ 4,6 milhões em 2008, R$ 7 milhões em 2010, R$ 13 milhões em 2011 e R$ 25 milhões em 2012. Junta textos da jurisprudência do STJ: (AgRg no REsp 1327809 / PR). O segundo argumento “de que a autuada possui poucos mp sgados (sic) registrados” também não tem maior relevância pois, na maioria das vezes, o que de fato acontece é que, assim que as mercadorias chegam ao Brasil e, naturalmente, após o desembaraço aduaneiro, são de imediato enviadas ao depósito em São Paulo ou aos depósitos da transportadora até que seja efetivada a venda e, então, encaminhadas, também imediatamente, aos compradores. Não há, portanto, necessidade de muitos empregados registrados para fazer a retirada e depois a entrega das mercadorias, pois esta tarefa é desempenhada pelos empregados da transportadora. No seu estabelecimento, a impugnante precisa apenas do número suficiente para tratar da compra com o vendedor/exportador estrangeiro e encontrar compradores no mercado interno. Em terceiro lugar, quanto à proximidade das datas de chegada e saída das mercadorias importadas, cabe ressaltar que, após serem negociadas com o vendedor/exportador estrangeiro, estas demoram mais de 30 dias para chegar ao Brasil, tempo suficiente, na maioria das vezes, para se encontrar compradores no território nacional. Fl. 614DF CARF MF 4 Em quarto lugar, as declarações prestadas pela Sócia Janice devem ser avaliadas levando em consideração que foram prestadas por pessoa leiga em relação aos exatos conceitos jurídicos das expressões utilizadas pelo (s) interrogante (s). Quando a representante da importadora falou que “60% ou 70% das vendas são casadas”, quis na realidade dizer que em 60% ou 70% das vendas encontra o cliente/comprador antes da nacionalização das mercadorias, ou seja, antes da emissão da Dl, mas sempre após a compra do fornecedor estrangeiro e que, no restante (40% ou 30% das vezes), encontra o cliente/comprador posteriormente à nacionalização. Ademais, quando a sócia se referiu à forma de pagamento e disse que “alguns pagamentos (eram) antecipados e outros a prazo”, quis dizer que alguns clientes/adquirentes das mercadorias importadas faziam o pagamento antes da entrega das mesmas (pois, naturalmente, a transportadora precisa de um certo tempo para entregálas), enquanto que outros compradores faziam o pagamento a prazo, ou seja, após a data de entrega, pois as mercadorias saíam de Foz do Iguaçu/PR ou São Paulo/SP e demoravam alguns dias para chegar ao destinatário. A declaração de que atuou por conta e ordem de terceiros (fl. 19), também deve ser devidamente contextualizada, pois a própria auditora fiscal consignou que isso “foi feito apenas no início para alavancar o negócio”, ou seja, no ano de 2006 quando a empresa iniciou suas atividades. Divergências de informações entre a data de pagamento indicada pelo comprador e a data de recebimento indicada pela autuada divergem por causa do sistema bancário de compensação que leva de dois a três dias úteis para creditar na conta da impugnante os valores pagos. Também, quanto a data de escrituração, não há nada de ilícito. Vejamos na fl. 20 que foi escriturado o recebimento na data da emissão da nota fiscal (15/06/2013) enquanto que o comprador/adquirente indicou a data de 25/06/2013 como efetivo pagamento. A diferença de 10 dias não se reveste em ilicitude. Diante da infundada citação do fisco, a impugnante se dispõe a provar em juízo ou fora dele, por todos os meios de provas admitidas em direito, inclusiva a pericial, que a sua escrituração contábil e fiscal dos exercícios fiscalizados em questão, atende plenamente aos princípios contábeis geralmente aceitos, a rigor o princípio da competência dos exercícios, aplicado regularmente em seus registros contábeis, pelo qual, as citadas vendas à vistas (denominadas de receitas), recebidas e contabilizadas a prazo, por acordos com seus clientes, em nada alterou o resultado o, Balanço Patrimonial nos exercícios em questão. É importante observar nas citações do próprio auto de infração, o curtíssimo espaço de tempo entre as datas das referidas vendas (venda á vista) e os seus recebimentos (venda á prazo), evidenciando a irrelevância deste fato no contesto geral da Fl. 615DF CARF MF Processo nº 12457.735126/201342 Acórdão n.º 3402003.829 S3C4T2 Fl. 614 5 escrituração contábil da impugnante, deixando claro que nenhum dano pôde ser observado por essas ocorrências a entidade fiscalizada nem ao erário público, circunstâncias que por si só dão plena validade as peças contábeis apresentada ao fisco, diante da irrelevância dos fatos alegados e pela inalterabilidade dos resultados dos exercícios em questão, motivo pelo qual, não houve por parte da impugnante a necessidade de inserir nos Balanços Contábeis apresentado ao fisco, as costumeiras “notas explicativas”. Com relação ao item VII. do referido auto, onde o fisco cita: DA AUDITORIA DA DECLARAÇÃO DE IMPORTAÇÃO, oras, se a impugnante de fato tivesse importado seus produtos por encomendas ou por conta e ordem de terceiros, como quer forçosamente enquadrála o fisco, em regra não teria ocorrido em seus registros contábeis, dois fatores de inegável reconhecimento prático, relacionados a seguir: ∙ A manutenção de relevantes valores em “estoques” dos seus produtos importados, em cada exercício contábil social (apresentado); ∙ Endividamentos financeiro originados pelos inúmeros empréstimos realizados junto ás instituições financeiras, para suportar partes relevantes de suas importações. Se a impugnante houvesse atuado em suas relações comerciais por “interveniências de terceiros”, adquirindo produtos por encomendas ou por conta e ordem, como alega o fisco, não haveria a necessidade de manter os níveis de “estoques” de seus produtos, que manteve no período fiscalizado, pois quem opera nessa prática as entregas seriam realizadas diretamente dos fornecedores estrangeiros aos seus clientes sem haver estocagens, nem mesmo teria suportado partes de suas importações através de empréstimos bancários, como o fez, pois as vendas realizadas por encomendas, em regra são pagas de forma antecipadas? Diante dessas ocorrências fáticas, não se pode negar que está mais que evidenciado que a impugnante sempre atuou por “conta e risco próprio” e não por quaisquer interveniências de terceiros como alega o fisco. Como podem observar através das planilhas demonstrativas dos “estoques” mantidos e dos empréstimos financeiros realizados a seguir apresentados, que demonstra a transparência e regularidades de seus atos e fatos operacionais, não restando dúvidas quanto à legalidade de suas operações. Diante de todo exposto, é importante ainda citar com relação v s \ 3ndas (sic) repetidas aos mesmos clientes, alegadas pelo fisco como se fosse sinônimo de atos ilícitos ou ilegais, quando na prática esses atos são regras normais e licitas de qualquer empresa comercial que pretenda se manter no mercado, aliás, a fidelização de clientes (vendas repetidas) é uma das práticas mais almejadas de todo comercio nacional e internacional pelo mundo globalizado, representando a satisfação plena dos Fl. 616DF CARF MF 6 clientes, pela qualidades dos produtos adquiridos complementado pelo bom atendimento, e, portanto, não havendo qualquer vedação pelos Códigos civil e Comercial, logo, não podendo o fisco contradizer essa prática prevista em lei, sem o devido fundamento legal, ou tentar alterar o alcance da legislação que rege os fatos e atos realizado pela impugnante, invadindo competências que são exclusivas do poder Legislativo, conforme prevê os artigos 110 e 112, do Código Tributário Nacional. ∙ DI 12/03527774 Referente a DI 12/03527774, do dia 27/02/2012, ressaltase que foi efetuada a compra da mercadoria em 13/12/2011 conforme fatura proforma em anexo (doc.5), e também Licenciamento de Importação(LI) solicitado em 14/12/2011 com prazo de 15 dias para deferimento (doc.6), muito antes, portanto, do contrato com o cliente, do recebimento do preço contratado e da data do desembaraço aduaneiro, não se podendo falar, assim, em “importação por encomenda”. A mercadoria foi nacionalizada em 27/02/2013 e o fechamento do câmbio foi efetuado em 01/03/2013, conforme comprovam os documentos em anexo: contrato de câmbio (doc. 7), extrato bancário (doc. 8) e o boleto bancário (doc.9). No dia em que a impugnante recebeu, via boleto bancário, o preço ajustado com a empresa PÃO DA HORA, já havia saldo credor de R$ 99.928,03 no banco BRADESCO, desde 29/02/2012. O boleto foi creditado no dia 01/03/2012, tendo ficado um saldo bancário de R$ 175.985,80 que permaneceu positivo e com o mesmo volume nos dias seguintes. O fato do câmbio ter sido fechado em 01/03/2012 no BANCO ITAU mostra que a empresa não utilizou o valor recebido c empresa PÃO DA HORA, via boleto, para pagamento da operação de câmbio. Convém ressaltar que não há nos extratos da empresa nenhum tipo de DOC ou TED saindo da conta BRADESCO e indo para a conta do Banco ITAU nessas datas. Os valores referentes ao boleto conferem com o valor das notas fiscais emitidas NFe 2633 em 02/03/2012, NFe 2657 em 09/03/2012, e NFe 2660 em 09.03.2012. Cabe esclarecer, ainda, que a empresa (PÃO DA HORA) adquirente da mercadoria importada através da referida Dl, não efetuou o pagamento em 09/02/2012 (como referido no auto de infração) mas sim em 29/02/2012. havendo o valor correspondente sido creditado em 01/03/2012. O pagamento feito em 25/01/2012, referente ao boleto com vencimento em 09/02/2012 referiase a outra NF (fl. 26). ∙ DI 12/10910952 No que concerne à DI 12/10910952, emitida em 14/06/2012, em primeiro lugar, cabe sustentar que o “boleto” a que a autoridade fiscal se refere no auto de infração não diz respeito à mencionada DI. Fl. 617DF CARF MF Processo nº 12457.735126/201342 Acórdão n.º 3402003.829 S3C4T2 Fl. 615 7 O cliente (PÃO DA HORA) pagou a mercadoria na data de 22/06/2012, mediante crédito em conta dia 25/06/2012 via boleto bancário emitido no valor de R$ 91.004,94 (Doc. 13) e não no dia 14/06/2012, mencionado no auto de infração. O valor de R$ 91.898,24 no dia 14/06/2012 referese a outra operação, bem anterior. Cabe ressaltar que o valor efetivamente pago de R$ 91.004,94 difere dos valores consignados nas notas fiscais de venda porque ocorreu um problema de umidade, constatado apenas na entrega, em aproximadamente 300 bolsas de farinha e por isso a impugnante teve que conceder um desconto no preço para não perder o cliente. Cumpre, ainda, destacar que, naturalmente, a empresa PÃO DA HORA compra outras marcas e tipos de farinhas, de diversos fornecedores, não sendo um cliente exclusivo da postulante, ou seja, a empresa impugnante não trabalha “por encomenda” nem com a referida empresa nem com nenhum outro cliente. As notas de venda referentes à negociação em causa são as NFe 3005, emitida em 22/06/2012, NFe 3053, emitida em 02/07/2012, e NFe 2989, emitida em 15/06/2012, num total de R$ 107.270,00. Ademais, a farinha vendida para a empresa Pão da Hora foi negociada pela impugnante diretamente com o Moinho/fornecedor em 11/05/2012 e requerida a licença de importação em 14/05/2012, conforme documento em anexo (does. 11 e 12). Quanto à acusação de uso do dinheiro do comprador para fechamento do câmbio, não há a menor procedência, pois a impugnante tem todo o seu capital devidamente integralizado e possui carta de crédito com o Moinho/exportador no valor de U$450.000,00 (quatrocentos e cinquenta mil dólares), e financiamento bancário. Também cabe ressaltar que a presunção constante do art. 27, da Lei 10.637/2002 admite prova em contrário, cumprindo nesse sentido afirmar que: (1) para fechamento do contrato de câmbio a impuganante não se utilizou de recursos de terceiros e sim de importâncias recebidas de diversos clientes (entre os quais a empresa PÃO DA HORA), em pagamento de legítimas operações; e (2) os anexos extratos bancários demonstram a existência, em nome da impugnante, de saldo bancário suficiente para a efetivação das operações questionadas pelo fisco (doc. 10). Ademais, e apenas a título de argumentação, o fato de ter havido eventual pagamento adiantado não faz prova de que a operação de comércio exterior tenha sido feita na modalidade por “conta e ordem de terceiro”, pois é mais do que sabido que as empresas, justamente para minimizar imobilização de capital, custos e perdas de estoque, trabalham com o sistema ‘justin time’. Tratase, com efeito, de uma condição de sobrevivência no mercado moderno e “globalizado”. Fl. 618DF CARF MF 8 Além da inconstitucionalidade da multa pelo confisco, há que se ressaltar ainda a dupla punição aplicada à empresa, que é proibido, pois além da multa de 100% sobre o valor aduaneiro (discutida neste Al), também houve por parte da fiscalização aplicação da multa de 10% da operação por “cessão do uso do nome”, previsto no art. 33 da Lei 11.488/2007, conforme Al 12457.735118/201304, em que se cobra referente a data de 27/02/2013 e 14/06/2013 o valor de R$14.660, 89 (respectivamente R$ 6.563,81 + R$ 8.097,08). De acordo com a LINGDB, a regra nova e especial revoga a norma antiga e geral. Junta textos da jurisprudência do STJ: (Processo REsp 1144751 / DF). Diante do exposto, a impugnante requer seja acolhida a presente e tornada insubsistente a multa proposta na peça básica. ∙ por não ter ocorrido importação por conta e ordem; ∙ por ser a multa inconstitucional em conformidade com o Principio do não confisco. Na eventualidade, que seja aplicada apenas a multa de 10% por ser mais benéfica. Cientificado do auto de infração, via Aviso de Recebimento, em 10/10/2013 (fls. 180), o contribuinte PÃO DA HORA COMÉRCIO E INDÚSTRIA DE ALIMENTOS LTDA protocolizou impugnação, tempestivamente em 25/10/2013, na forma do artigo 56 do Decreto nº 7.574/2011, de fls. 464 à 469. O impugnante alegou que: DA INEXISTÊNCIA DE RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DA IMPUGNANTE POR FALTA DE "INTERESSE COMUM NO FATO GERADOR". O art. 124 do CTN dispõe que são solidariamente obrigadas "as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal". Ocorre, porém, que na operação apontada pela ilustre autoridade fazendária, não há que se falar em interesse comum. A impugnante sequer participou da referida operação. Vejase que a "situação" que constitui fato gerador da obrigação é a importação, ou seja, a entrada da mercadoria em Território Nacional. A impugnante, conforme se verifica da documentação acostada no processo administrativo, não realizou qualquer ato de importação, apenas adquiriu insumo para a consecução dos seus objetivos sociais fabricação de pães a preços mais competitivos. Tal operação, por óbvio, é interna interestadual. Não há que se falar em transação externa. Fl. 619DF CARF MF Processo nº 12457.735126/201342 Acórdão n.º 3402003.829 S3C4T2 Fl. 616 9 A busca por preços mais competitivos, além de direito da autuada, é medida indispensável para a sobrevivência da empresa no mercado altamente competitivo de hoje. Embora a autoridade fazendária tente trazer as coisas para a esfera da ilicitude, o fato é que, até então, a empresa importadora (PONTUAL) tinha referência no mercado, sendo, presumidamente, empresa idônea. Convém destacar, também, que a impugnante não possui qualquer ingerência na administração da empresa PONTUAL, nem laços familiares com seus administradores. Não pode, por isso, responder pelos procedimentos de comercialização adotados pela PONTUAL, suas respectivas margens de lucro, ou qualquer outro ato de gestão praticado por seus dirigentes. Da mesma forma, a impugnante não tem conhecimento ou qualquer ingerência sobre a contabilidade da PONTUAL, nem tampouco sobre datas que esta empresa realizou o fechamento do câmbio. Tratase de operação interna da empresa, que não diz respeito à impugnante. Com efeito, para que se configure a responsabilidade solidária estampada no art. 124, inciso I, do CTN, fazse imprescindível que as empresas tenham interesse comum na "importação", de maneira direta. A empresa impugnante não tem interesse direto na importação tem interesse na farinha a custo mais competitivo, o que não é o bastante para configurar a hipótese legal, devendo ser afastada a intenção do Fisco. DA INEXISTÊNCIA DE SOLIDARIEDADE DA IMPUGNADA POR NÃO RESTAREM CONFIGURADAS AS HIPÓTESES PREVISTAS NO ART. 95, DO DECRETOLEI N. 37/66. AFASTAMENTO DA INCIDÊNCIA DO ART. 124, INCISO II, DO CTN. Por alegada infração, sustenta que a impugnante deveria responder, solidariamente, na forma do art. 95, I, V e VI, do Decretolei n. 37/66. Ademais, tal solidariedade teria respaldo nas disposições do art. 124, II, do CTN por "designação legal". Ocorre, porém, que as hipóteses aventadas para a configuração da responsabilidade sugerida, em especial a de ter havido aquisição de mercadoria estrangeira por interposta pessoa, não se fazem presentes, merecendo repúdio a autuação levada a cabo em face da PÃO DA HORA. Pelos mesmos motivos já sustentados anteriormente, podese dizer que não houve qualquer ato de importação "por conta e ordem" da PÃO DA HORA. A operação mercantil deuse na forma de compra e venda entre empresas nacionais, que tem autorização para operar no mercado interno, dentro das Leis vigentes no país e, em que pese as ponderações levantadas no auto de infração, as leis foram devidamente respeitadas. Inicialmente, cumpre esclarecer que ao optar pela aquisição de mercadoria da empresa PONTUAL, a impugnante o fez em razão das condições competitivas de seu preço. Fl. 620DF CARF MF 10 As razões para tanto se é por importar mais barato, se é por diminuir sua margem de lucro, etc não dizem respeito à impugnante. Tendo conhecimento de que a PONTUAL consegue farinha a preços competitivos no mercado interno, a impugnante tem o mais amplo direito de adquirir dela o produto, afinal, no Estado Democrático de Direito brasileiro vige a "livre iniciativa" e a "livre concorrência" (art. 170, CF/88). De onde ela adquiriu o produto que vendeu pouco importa, desde que mantenha a condição de preço e tempo que foram pactuadas no negócio entabulado. O fato de ter havido eventual pagamento adiantado não faz prova de que a operação de comércio exterior tenha sido feita na modalidade por "conta e ordem de terceiro", pois é mais do que sabido que as empresas, justamente para minimizar imobilização de capital, e perdas de estoque, trabalham com o sistema 'just intime'. Observese, aliás, que tal operação é perfeitamente permitida pela Lei n. 11.281/2006, que dispõe expressamente: Assim, se a PONTUAL adquiriu a farinha somente após ter efetuado a revenda efetuada à impugnante, não há que se falar em infração à lei fiscal, por configurar "ocultação do real adquirente" ou "interposição fraudulenta". A impugnante não operou no mercado externo. Ao realizar uma compra de mercadoria de determinada empresa, seja ou não pessoa jurídica importadora, o adquirente não está obrigado a perguntar se a mesma "possui saldo em conta", condicionando o pagamento adiantado à resposta afirmativa. Redunda em absurdo! A movimentação bancária e a administração do caixa da empresa para pagamentos operacionais da PONTUAL dizem respeito tão somente a ela e sua gestão administrativa e contábil. A impugnante adquiriu uma mercadoria, enquanto que a PONTUAL a vendeu e se prontificou de entregála. Frente ao exposto, concluise que a autuação fiscal não encontra a menor razão de ser, devendo ser julgada improcedente, especialmente quanto à responsabilização da impugnante. DO PEDIDO: DIANTE DO EXPOSTO, requerse seja a presente autuação julgada totalmente improcedente, por não restar configurada qualquer modalidade de operação fraudulenta envolvendo a impugnante, restando afastada, portanto, sua responsabilidade por eventual crédito fiscal apurado. Em julgamento datado de 29 de outubro de 2014, a DRJ São Paulo/SP negou provimento à impugnação do Contribuinte (Acórdão 1662.742), nos termos da ementa a seguir colacionada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Fl. 621DF CARF MF Processo nº 12457.735126/201342 Acórdão n.º 3402003.829 S3C4T2 Fl. 617 11 Data do fato gerador: 27/02/2012 Dano ao Erário por infração de ocultação do verdadeiro interessado nas importações, mediante o uso de interposta pessoa. Pena de perdimento das mercadorias, comutada em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria. O objetivo pretendido pelos interessados atentou contra a legislação do comércio exterior por ocultar o real adquirente das mercadorias estrangeiras e consequentemente afastálo de toda e qualquer obrigação cível ou penal decorrente do ingresso de tais mercadorias no país. A atuação da empresa interposta em importação tem regramento próprio, devendo observar os ditames da legislação sob o risco de configuração de prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros. A aplicação da pena de perdimento não deriva da sonegação de tributos, muito embora tal fato possa se constatar como efeito subsidiário, mas da burla aos controles aduaneiros, já que é o objetivo traçado pela Receita Federal do Brasil possuir controle absoluto sobre o destino de todos os bens importados por empresas nacionais. Irresignados os contribuintes Pontual Comércio, Importação e Exportação de Peças Automotivas (doravante designado simplesmente como “Pontual”) e Pão da Hora Com. E Ind. De Alimentos Ltda (doravante denominada como “Pão da Hora Com.”), recorrem a este Conselho (fls. 574 a 608 e 553 a 562, respectivamente), repisando os argumentos trazidos em suas impugnações ao auto de infração. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Relatora Thais De Laurentiis Galkowicz A Pão da Hora Com tomou ciência do Acórdão da DRJ em 17/11/2014, conforme AR de fls 550, tendo apresentado seu recurso voluntário em 27/11/2014. Por sua vez, a Pontual teve ciência da decisão da DRJ em 04/11/2014 (fls 551) e protocolou seu recurso voluntário em 05/01/2015. Assim, tão somente o recurso voluntário da Pão da Hora Com. é tempestivo, com base no que dispõe o artigo 33 do Decreto 70.235, de 06 de março de 1972, e preenche os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, tomo conhecimento tão somente dar razões recursais da sociedade Pão da Hora Com. Passo então à análise do caso. Sobre o mérito, em síntese, o presente litígio se resume à aferição da existência ou não ocultação do real importador, inclusive por interposição fraudulenta, nas operações de comércio exterior, apta a culminar na multa equivalente ao valor aduaneiro em razão da pena de perdimento da mercadoria, com fundamento no artigo 23, inciso V e parágrafo 2º, do Decretolei nº 1.455, de 1976, in verbis: Fl. 622DF CARF MF 12 Art 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: ... V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. § 1 O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias. § 2 Presumese interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a nãocomprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. § 3 As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972. (grifei) Pois bem. Nas fls 34 e 35 do TVF encontramos as conclusões da Fiscalização a respeito da infração aduaneira, constatada pela auditoria das DI’s sob análise no presente processo: Com fulcro na análise técnica supra, nas provas coligidas e na legislação vigente, constatase a ocorrência da infração tipificada como ocultação do sujeito passivo, do real comprador ou responsável pelas operações de importação, mediante fraude ou simulação, inclusive interposição fraudulenta de terceiros, em virtude da não comprovação da origem lícita, disponibilidade e efetiva transferência dos recursos que foram utilizados para amparar as DIs nos 12/03527774 e 12/10910952, registradas pela PONTUAL COMÉRCIO, IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO DE PEÇAS AUTOMOTIVAS LTDA, infração considerada dano ao Erário, conforme expresso no artigo 23, inciso V, do Decreto lei nº 1.455/1976. Já o parágrafo 1º do mesmo artigo determina que essa infração deverá ser punida com a pena de perdimento das mercadorias (...) ENQUADRAMENTO LEGAL: artigo 23, inciso V, parágrafo 3º, do Decretolei nº 1.455/1976, com redação dada pelo artigo 59, da Lei nº 10.637/2002, regulamentado pelos artigos 675, inciso IV, e 689, parágrafo 1º, ambos do Decreto nº 6.759/2009. (grifei) Não há dúvidas de que nas acusações de ocultação do real sujeito passivo da operação de importação, com fulcro no artigo 23, inciso V do Decretolei n. 1.455/75, incumbe à Autoridade lançadora o ônus da prova da ocorrência da citada infração, diferentemente do que ocorre no caso de presunção de interposição fraudulenta por nãocomprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados (§2º do mesmo dispositivo legal). Sobre tal ônus probatório, ressalto desde já que os cinco fundamentos elencados pela Fiscalização para a instauração de procedimento especial para a auditoria da Fl. 623DF CARF MF Processo nº 12457.735126/201342 Acórdão n.º 3402003.829 S3C4T2 Fl. 618 13 Pontual (1. baixa margem de lucro com as operações; 2. poucos empregados registrados na empresa; 3. datas de saída muito próximas das datas de chegada das mercadorias; 4. as declarações prestadas pela sócia; 1 5. aparentes incongruências da contabilidade), 2 são meros indícios (fatos conhecidos e demonstrados diferentes daquele se quer provar, mas que se conectam a ele, podendo gerar uma probabilidade ou suspeita de sua ocorrência), e não provas diretas do ilícito aduaneiro em questão, pois nenhum deles permite uma conclusão direta e objetiva sobre a existência de ocultação do real importador. Justamente por esse motivo é que a Fiscalização motivou o ato administrativo de imposição de penalidade não somente na prova de ocultação do real importador (primeira parte do inciso V do artigo 23, do Decretolei n. 1.455/75), mas também na presunção de importação por conta e ordem, calcada no artigo 27 da Lei nº 10.637/2002. É o que se constata do Tópico VII.3 do Termo de Verificação Fiscal (fls 33 e seguintes), nomeado como D AS CONCLUSÕES SOBRE A AUDITORIA DAS DECLARAÇÕES DE IMPORTAÇÃO N. 12/03527774 E 12/10910952, do qual destaco os seguintes excertos, que trazem informações importantes para o convencimento da autoridade fiscal: A empresa adquirente das mercadorias importadas admitiu que negociara e pagara por tais mercadorias antes mesmo de elas haverem saído do país exportador (DI nº 12/03527774) e antes das quitações dos respectivos contratos de câmbio (no caso das duas DIs auditadas). Comprovantes das transferências bancárias atestam a provisão dos recursos para a realização da importação em questão. Ora, claro está que as importações auditadas ocorreram por conta e ordem da PÃO DA HORA. A PONTUAL registrou as Declarações de Importação como importações “diretas”, ou “por conta própria”, quando deveria têlas consignado como “por conta e ordem de terceiro”, identificando a PÃO DA HORA como adquirente junto ao SISCOMEX. Todavia, a fiscalizada optou por omitir tais informações durante o respectivo despacho aduaneiro – as quais foram descortinadas durante o curso da presente fiscalização – mantendo a interveniente e provedora dos recursos indevidamente afastada de eventual responsabilização tributária. Mais adiante, no item VIII.2 (fls 36) consta que: Inferese dos dispositivos legais supratranscritos que responderão, conjunta ou isoladamente, todos aqueles que 1 Segundo a Pontual, “quando a representante da importadora falou que “60% ou 70% das vendas são casadas”, quis na realidade dizer que em 60% ou 70% das vendas encontra o cliente/comprador antes da nacionalização das mercadorias, ou seja, antes da emissão da Dl, mas sempre após a compra do fornecedor estrangeiro e que, no restante (40% ou 30% das vezes), encontra o cliente/comprador posteriormente à nacionalização. “ Ademais, verifico pelas declarações constantes no autos que a sócia Janice foi indagada de maneira geral sobre os procedimentos adotados pela Pontual nas operações de importação. Com relação às específicas DIs e as transações com a Pão da Hora Com não há informações, o que dificulta enormemente a valoração desta prova para o específico e concreto auto de infração sob análise. 2 Ressalto que, segundo o FIPECAFI (2010), a contabilização das vendas pode ser efetuada pelas notas fiscais de vendas, pois a entrega dos produtos é praticamente efetuada junto com a emissão das notas fiscais. Quando este processo não ocorrer, ou seja, a data da emissão da nota fiscal for diferente a da entrega dos produtos, e a entrega se fará na empresa do comprador, o registro deverá ser feito somente na entrega dos produtos, quando a empresa já estiver de posse das mercadorias compradas. Fl. 624DF CARF MF 14 concorreram para a prática da infração. Observese que as infrações a que se refere o Decretolei nº 37/1966 são aquelas relacionadas ao comércio exterior. Já o artigo 27 da Lei nº 10.637/2002 coloca o provedor dos recursos na condição de adquirente por conta e ordem: Daí já confirmamos que a fiscalização se utilizou, para reforçar a tipificação do evento da ocultação do real importador pelas provas colacionadas aos autos (artigo 23, inciso V do Decretolei n. 1.455/76), da norma que estabelece a importação por conta e ordem presumida, for força da verificação da utilização de recursos de terceiros para a operação de comércio exterior. Transcrevo abaixo o dispositivo que fundamenta tal presunção: Art. 27. A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste, para fins de aplicação do disposto nos arts. 77 a 81 da Medida Provisória no 2.15835, de 24 de agosto de 2001. Diante desta situação, passa ao contribuinte à necessidade de comprovar que havia recursos suficientes e que estes foram utilizados para promover a importação em questão, para que faça cair por terra a presunção criada pelo dispositivo supratranscrito. Nos presentes autos, entendo que foi tranquilamente demonstrado pela Pontual que as importações, lembrese, foram efetuadas com recursos próprios, decorrente de vendas de mercadorias já de sua propriedade3 (facturas invoice fls 255), havendo saldo suficiente para tanto em sua conta corrente (doc. 10 da impugnação, fls 262), inclusive a empresa operando mediante cartas de crédito rotativo concedida pela Cooperativa Ganadera de Justiniano Posso Ltda e pela Molino Victoria S.A. (doc. 4 da impugnação, fls 247 249) e estando seu capital social devidamente integralizado. Com relação à “antecipação” de parcela dos pagamentos único dado apresentado pela fiscalização capaz de, potencialmente, sustentar a autuação fiscal , a qual supostamente seria utilizada para o fechamento do câmbio, entendo tratarse de prova incapaz de qualificar o evento como “operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro”. A própria fiscalização nem mesmo coloca que: “seu saldo bancário no dia do fechamento deste câmbio ficou negativo (considerando o balanço de todas as contas correntes bancárias apresentadas pela PONTUAL ao Fisco), mesmo com o pagamento antecipado por parte do adquirente.” (fls 30) O auto de infração foi constituído com base em elemento frágil, uma vez que os pagamentos efetuados pela Pão da Hora Com à Pontual pela importação das mercadorias, para as quais o importador comprovou haver capacidade financeira para efetuar a operação internacional, não traz em si e logicamente, a aptidão de demonstrar a que recursos de terceiros foram utilizados para tanto. É certo que, uma vez demonstrado pela fiscalização que determinada importação ocorreu por meio de subsídio de terceiros, acarretando na necessidade de procedimento de nacionalização mediante a declaração “por conta e ordem de terceiro” (regulamentada pela Receita Federal do Brasil mediante a edição da IN SRF 225/2002, conforme autorizado pelo art. 80 da MP nº 2.15835/20015), e não por “importação direta”, o ônus da prova sobre sua capacidade financeira passa a ser do importador, nos termos do já citado artigo 27 da Lei n. 10.637/2002. Contudo, não se pode perder de vista que tal presunção não faz com que desapareça o quantum mínimo probatório que é atribuído à Fiscalização para Fl. 625DF CARF MF Processo nº 12457.735126/201342 Acórdão n.º 3402003.829 S3C4T2 Fl. 619 15 tais situações: trazer provas contundentes, convergentes e conclusivas sobre a efetiva utilização de recursos de terceiro na operação de comércio exterior. Poderia haver, quando muito, a caracterização das importações como “por encomenda”, o que tornaria igualmente insubsistente o auto de infração, que qualificou como “por conta e ordem” as operações. 3 Afinal, impossível a alteração de critério jurídico para manter o trabalho fiscal. Em outras palavras, o indício apresentado pela fiscalização (antecipação parcial de valores referentes à compra e venda das mercadorias importadas, para fechamento do contrato de câmbio) não é capaz de, na convicção dessa relatora, culminar na conclusão de existência de “operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro”, a qual, por sua vez, constitui presunção de importação por conta e ordem de terceiro. Nesse sentido, é válido reavivar a lição de Paulo Celso B. Bonilha4 sobre o tema: lndício é o fato conhecido (factum probatum do qual se parte para o desconhecido (factum probadum) e que assim é definido por Moacyr Amaral Santos: ‘Assim, indício, sob o aspecto jurídico, consiste no fato conhecido que, por via do raciocínio, sugere o fato probando, do qual é causa ou efeito '. Evidenciase, portanto, que o indício é a base objetiva do raciocínio ou atividade mental por via do qual poderseá chegar ao fato conhecido. Se positivo o resultado, tratase de uma presunção. A presunção é, assim, o resultado do raciocínio do julgador, que 3 � Em matéria de comércio exterior, há três modalidades de importação: direta, por encomenda, e por conta e ordem. “A importação por conta própria é a tradicional modalidade de importação. É aquela modalidade de importação em que o importador adquire a mercadoria do exportador no exterior, fecha o câmbio em nome próprio, com recursos próprios, paga os tributos e a utiliza ou a vende no mercado interno para diversos compradores. Notese que nessa modalidade de importação tradicional o importador deverá fechar o câmbio e proceder ao pagamento diretamente ao exportador, recolhendo os tributos com recursos próprios...” (...) A importação por conta e ordem de terceiros é a operação pela qual uma empresa contratada, geralmente uma importadora, promove em seu nome o despacho aduaneiro de importação de mercadoria adquirida por outra empresa em razão de contrato previamente firmado entre as partes e registrado na Receita Federal do Brasil – RFB. O regramento da importação por conta e ordem foi dado pelos artigos 86 e 87 da IN n. 247 e ADI n. 07/02, os quais exigem determinados procedimentos e requisitos para sua caracterização. (...) As operações por conta e ordem são aplicáveis tão somente nas hipóteses em que a importadora atua como prestadora de serviços, isto é, uma intermediária nas importações. Em decorrência desta condição, a importadora que atua por conta e ordem não pode, em qualquer situação, adquirir a propriedade das mercadorias importadas, possuindo somente a posse até a transferência para a empresa adquirente. Sendo assim, na importação por conta e ordem de terceiros, a remessa da mercadoria da importadora para seus clientes não configura uma operação de venda, mas sim uma operação de remessa de mercadorias. (...) A importação por encomenda é aquela em que a empresa importadora adquire no exterior com recursos próprios e promove o seu despacho aduaneiro de importação, a fim de revendelas, posteriormente, a uma empresa encomendante previamente determinada, em razão de contrato entre elas, cujo objeto deve compreender, pelo menos, o prazo ou as operações pactuadas (art. 2°, § 1°, da IN SRF n. 634/06). Assim, o importador deverá fazer a negociação com o exportador no exterior, adquirir a mercadoria junto ao exportador no exterior, providenciar sua nacionalização e a revender ao encomendante. Importante salientar que tal operação tem, para o importador contratado, os mesmos efeitos fiscais de uma importação própria. (...) Ressaltese ainda que, diferentemente da importação por conta e ordem, no caso de importação por encomenda, a operação cambial para pagamento da importação deve ser realizada exclusivamente em nome do importador, conforme determina o Regulamento do Mercado de Câmbio e Capitais Internacionais (RMCCI – Título 1, Capítulo 12, Seção 2) do Banco Central do Brasil (Bacen). (...)” (SARTORI, Ângela, DOMINGO, Luiz Roberto. Div. Autores. Tributação Aduaneira à luz da jurisprudência do CARF. São Paulo: MP Editora, 2013, pgs. 53 e ss). 4 Da Prova no Processo Administrativo Tributário, São Paulo: Dialética, 1997, p. 92. Fl. 626DF CARF MF 16 se guia nos conhecimentos gerais universalmente aceitos e por aquilo que ordinariamente acontece para chegar ao conhecimento do fato probando. É inegável, portanto, que a estrutura desse raciocínio é a do silogismo, no qual o fato conhecido situase na premissa menor e o conhecimento mais geral da expectativa constitui a premissa maior. A conseqüência positiva do resultado do raciocínio do julgador ' é a presunção. " Em um exercício de comparação de casos a respeito do mesmo tema, vejase por exemplo as constatações do Conselheiro Marcos Tranchesi Ortiz, no Acórdão n. 3403002.593, no qual diversos elementos foram trazidos pela Fiscalização, formando conjunto probatório que claramente demonstrava a existência de financiamento das importações por terceiro: “Não se sustenta a alegação de que os pagamentos feitos pela recorrente à Plásticos Itajaí adimpliam preço de compra e venda de mercadoria já previamente nacionalizada pela vendedora. Não. A Gabiplast repassava previamente à Itajaí recursos com o propósito inequívoco de viabilizar a importação da mercadoria por essa empresa. A Gabiplast tinha plena consciência de que as mercadorias que estava “adquirindo” da Itajaí ainda não estavam no estoque da vendedora, e que seriam ato contínuo adquiridas por esta mediante importação, precisamente com os recursos financeiros fornecidos por ela, Gabiplast. A Gabiplast era, pois, protagonista da operação “prévia” de importação das mercadorias que a Itajaí lhe iria “vender”. Amostra inconteste do financiamento das importações pela Cajovil colhesse dos documentos trazidos pela própria recorrente (fls. 517 e ss.). A cada importação, o despachante aduaneiro da Itajaí (“Comissária Paulista S.C. Ltda.”) emitialhe uma “Solicitação de Numerário Importação”, para recolher os supostos tributos incidentes na importação; e, na mesma data, a Gabiplast fazia à Itajaí uma transferência bancária neste mesmo valor. Ou seja, é evidente que a Gabiplast sabia – e pretendia – que seus recursos financiassem as importações. São, ainda, inúmeras as faturas emitidas pelos exportadores indicando como cliente a Gabiplast, e até ordens de compra enviadas pela Itajaí ao exportador, em papel timbrado da Cajovil/Gabiplast. Tudo isso a revelar que as importações eram financiadas pela Gabiplast. E, a teor do art. 27 da Lei nº 10.637/02, essa constatação faz presumir que as importações foram realizadas por conta e ordem da Gabiplast. Percebese a diferença entre o caso supracitado para o presente. Neste primeiro foram elencados diversos indícios que de forma contundente e conclusiva demonstram o financiamento da operação de importação: pela participação do despachante aduaneiro, a sistematicidade que ocorriam as operações, as datas das transações em contas bancárias, o conhecimento da fraude pelo ocultado, a solicitação de montantes para o recolhimento de tributos, e até mesmo o timbre dos papéis utilizados pelas empresas. Já no presente, a Fiscalização se se limitou na auditoria das DIs a afirmar que a antecipação de montantes seria capaz de cobrir os contratos de câmbio firmados pela Pontual. Dessa forma, pela análise dos autos, entendo que a que a Fiscalização não comprovou o financiamento das importações em questão, não existindo prova cabal da infração Fl. 627DF CARF MF Processo nº 12457.735126/201342 Acórdão n.º 3402003.829 S3C4T2 Fl. 620 17 apontada (operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro). Os demais indícios, genéricos por não se debruçarem especificamente sobre as importações objeto dessa autuação , tampouco são suficientes para concluir pela ocultação do sujeito passivo, mediante fraude ou simulação. Sobre esse último ponto, cumpre recordar o que exatamente é necessário ser objeto de prova pela fiscalização em processos desse jaez. O artigo 23, inciso V do Decretolei n. 1.455/76 fala em “ocultação (...) mediante fraude ou simulação”. As definições de “fraude” e “simulação” encontramse, respectivamente, no artigo 72 da Lei nº 4.502/64 e no § 1o, do artigo 167, do Código Civil, a seguir transcritos: Art.72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Artigo 167. § 1o Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; II contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III os instrumentos particulares forem antedatados, ou pós datados. Com efeito, a existência de fraude ou simulação é condição para a ocorrência da interposição fraudulenta. 5 Nas palavras do Desembargador federal Antonio Albino Ramos de Oliveira, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, “O que se reprime, através da drástica pena de perdimento, é a fraude, o artifício malicioso para a ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, ‘inclusive a interposição fraudulenta de terceiros’. Evidente que a infração deve ser grave em sua substância, e não sob o aspecto meramente formal” (AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 2005.04.01.0462051/PR). Lembrese que o próprio 673 do Decreto n. 6.759/2009, em seu parágrafo único, determina que “salvo disposição expressa em contrário, a responsabilidade por infração independe da intenção do agente...”. Desse modo, a própria legislação aduaneira coloca que a responsabilidade pelas infrações é objetiva, a não ser que a própria lei trouxer regra em sentido diverso. Tendo sido qualificada pelo artigo 23, inciso V a conduta como dolosa, através da configuração de fraude ou simulação, para a tipificação da ocultação de terceiros e consequente pena de perdimento, estas não podem ser afastadas do tipo infracional em questão. 5 Gilberto de Castro Moreira Junior. Interposição Fraudulenta de Terceiros nas Operações de Comércio Exterior. Disponível em: www.iuscomex.com.br/site/files.php?id=546. Acesso em 09/06/2016. Fl. 628DF CARF MF 18 No que tange à fraude, apesar do fato de, como já destacado alhures, o (não) pagamento de tributos na operação de importação não ser o único fator determinante para a ocorrência de dano ao erário, ele, pela própria redação do artigo 23, é um dos elementos a ser avaliado para, conjuntamente com eventuais outras demais provas de abuso por parte do sujeito passivo (como omissão de informações relevantes dos importadores para acobertar irregularidades nas operações de comércio internacional), caracterizar a ocultação do real importador da mercadoria. In casu, a fiscalização não apontou concretamente eventual “ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento.” Com relação à simulação, lembrese que se trata de é um dos motivos de invalidade dos negócios jurídicos, em que há a conluio de ambas as partes visando desviar de obrigações legais e enganar terceiros ao criar uma aparência de negócio que não se coaduna com a vontade real dos sujeitos. No caso da controvérsia aduaneira em questão, “ocultador” e “ocultado” devem conjuntamente trabalhar na prestação de informações falsas às autoridades aduaneiras. Como já foi sobejamente demonstrado por Conselheiros desta Casa, Luiz Roberto Domingo e Ângela Sartori, em artigo inserido no livro “Tributação Aduaneira à luz da jurisprudência do CARF”: 6 Percebese que tanto a fraude como a simulação dependem da existência da intenção deliberada do agente de praticar o ato criminoso, pois não comporta a figura culposa (negligência, imprudência, imperícia). A demonstração de que a produção do ato criminoso (fraude ou simulação) era desejada é o indicativo do dolo. Portanto, a peça acusatória do dano ao Erário depende de três elementos de fato, aos quais a fiscalização aduaneira não pode negligenciar: i) a prova da ocultação; ii) a prova da fraude ou da simulação; iii) a prova do dolo, cuja demonstração de que a operação foi assim intentada com o propósito de ‘lesa pátria’, é indicativa. Não foi apontada pela fiscalização a ocorrência de qualquer “ocultação” “mediante simulação” que tivesse por fim prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato relevante para o controle aduaneiro ou para a arrecadação tributária, que justificasse a aplicação da pretendida pena de perdimento. Insisto que a lei descreve uma conduta cujo pressuposto é a comprovação da “ocultação” de quaisquer dos intervenientes na importação expressamente mencionados, “mediante fraude ou simulação”, como ressaltou a antiga composição desse Colegiado: “não basta a ‘ocultação pura e simples’, essa ocultação deve ser qualificada pela fraude ou pela simulação, para que se qualifique como dano ao erário para os fins do art. 23, V, do DL nº 1.455/76” (cf. Acórdão nº 3402002.2275, da 2ª Turma da 4ª Câm. da 3ª Seção do CARF no Proc. nº 10983.721008/201292, em sessão de 28/01/2014, Rel. Cons. Des. João Carlos Cassuli Jr). Nesse mesmo sentido, destaco a ementa do seguinte julgado: 6 DOMINGO, Luiz Roberto e SARTORI, Ângela. Dano ao Erário pela Ocultação Mediante Fraude – a interposição fraudulenta de terceiros nas operações de comércio exterior. in “A tributação Aduaneira à luz do CARF”, Ed. MP, 2013, p. 61 e53 a 68) Fl. 629DF CARF MF Processo nº 12457.735126/201342 Acórdão n.º 3402003.829 S3C4T2 Fl. 621 19 MERCADORIA NACIONAL OU IMPORTADA CONSUMIDA OU DADA A CONSUMO, COM IRREGULARIDADE, FRAUDE OU FALSIFICAÇÃO. Inexistindo demonstração dessas ocorrências dolosas no procedimento do contribuinte, descabe a aplicação de qualquer penalidade. RECURSO PROVIDO.(Acórdão n° 30332.025 da 3ª Câm. do 3º CC, Rec. nº 130.041, Proc. nº 10921.000045/200216, em sessão de 18/05/05, Rel. Cons. SÉRGIO DE CASTRO NEVES). Portanto, no presente caso a Fiscalização não demonstrou a ocorrência do dolo na conduta das partes, apta a acarretar na perda de perdimento das mercadorias. Não se caracteriza, portanto, a ocultação do real importador das mercadorias, com todos os elementos necessários para tanto, a ensejar a pena de perdimento convertida em multa, nos moldes do artigo 23, inciso V e §3º do Decretolei n. 1.455/76, o que impõe a necessidade de cancelamento do auto de infração. CONCLUSÃO Diante do exposto, voto por não conhecer do recurso voluntário da Pontual e por dar provimento ao recurso voluntário da Pão da Hora Com, para cancelar a multa do artigo 23, inciso V e §3º do Decretolei n. 1.455/76 aplicada pelo presente auto de infração. Thais De Laurentiis Galkowicz Relatora Fl. 630DF CARF MF 20 Voto Vencedor Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula, Redatora designada Na sessão de julgamento deste processo ousei divergir do Voto da Ilustre Conselheira Relatora quanto à análise do mérito do recurso voluntário conhecido. A prova indireta é aquela que não tem por objeto o fato probando, mas outros a ele relacionados, de modo que, pelo raciocínio, chegase ao fato que se quer provar, in casu, a "ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros" na importação. A presunção simples é o resultado do processo lógico, mediante o qual, da existência de um fato reconhecido como certo (provas indiciárias), inferese outro fato cuja existência é provável. Com efeito, em consonância com a doutrina e a jurisprudência administrativa, que considera plenamente aceitável o uso da prova indireta em direito tributário, inclusive em atos fraudulentos, a fiscalização, no presente caso, apurou todo um quadro indiciário que, por presunção simples, conduz ao cometimento da infração. Os elementos indiciários apurados devem ser analisados conjuntamente. Embora a eventual existência de somente um só deles pudesse não ser suficiente para a configuração da infração, o que importa é que o conjunto probatório, considerado como um todo, convirja ao cometimento da infração veiculada pelo art. 23, inciso V e §§1º e 3º do Decretolei n° 1.455/76. Conforme se verifica no relatório fiscal, inicialmente a fiscalização apurou um quadro indiciário convergente no sentido de que a importadora PONTUAL realizava importações terceirizadas, declarandoas como se fossem importações diretas, e depois, concentrandose especificamente nas importações ora autuadas, concluiu que a PONTUAL importou por conta e ordem da empresa PÃO DA HORA COMÉRCIO E INDÚSTRIA DE ALIMENTOS LTDA, sem cumprir nenhum dos requisitos previstos na legislação para a importação nessa modalidade, ocultando, mediante simulação, a identificação dessa empresa na importação. Com relação ao contexto geral das operações realizadas pela PONTUAL no período fiscalizado, constatou a fiscalização que: a) A fiscalizada declarou receitas brutas de vendas decorrentes da comercialização das mercadorias importadas no mercado interno que pouco superam os dispêndios na importação, menores que 10% (com exceção de 2009, quando chegou perto de 20%), indicando uma margem de lucro pequena para uma empresa que comercializa produtos importados por conta própria. A ínfima margem de lucro é incompatível com o objeto social de uma empresa que pretenda importar mercadorias em seu nome e comercializálas posteriormente no mercado interno. b) A PONTUAL possui poucos empregados registrados desde a sua constituição, o que tornaria difícil a operacionalização e logística de uma empresa que importa toneladas de mercadorias como grãos e peças de carros, entre outros, por conta própria, para depois revendêlas no mercado interno. c) Nas sua operações, a PONTUAL emitia notas fiscais de saída de mercadorias importadas em numerações em datas próximas ou idênticas às notas fiscais de entrada destas mercadorias, com mesmas quantidades e várias vezes mesmos transportadores em ambas as notas. Fl. 631DF CARF MF Processo nº 12457.735126/201342 Acórdão n.º 3402003.829 S3C4T2 Fl. 622 21 d) A sócia da autuada, Sra. JANICE ELAINE GRINGS, prestou informação à fiscalização no sentido de que: a) a PONTUAL opera com "vendas casadas", negociando primeiro com clientes nacionais para depois contatar os fornecedores, em aproximadamente 60 a 70% das vendas; b) Houve casos em que realmente prestou serviços, atuando como importadora por conta e ordem de terceiros, mas apenas no início para conseguir uma alavancagem financeira; c) Era ela que negociava com o exportador chinês, mas eventualmente já possuía algum produto encomendado antes da importação. e) A contabilidade da PONTUAL está eivada de vícios. Várias vendas no mercado interno escrituradas na contabilidade como “à vista” (com débito da conta “Caixa” ou “Bancos”), na verdade foram pagas a prazo, segundo informações prestadas pela própria PONTUAL em atendimento às intimações feitas pelo Fisco para demonstrar alguns recebimentos de operações específicas. Essa inconsistência repetiuse nas respostas enviadas pelos adquirentes quando circularizados pela equipe de fiscalização, muitas vezes com formas e datas de pagamentos divergentes tanto em relação à escrituração contábil quanto às respostas enviadas ao Fisco pela fiscalizada. Com relação às importações autuadas no presente processo, apurou a fiscalização que: i) Relativamente à DI nº 12/03527774, a empresa PÃO DA HORA admitiu ter pago pelas mercadorias importadas em data anterior ao registro da DI, diversamente do alegado pela fiscalizada (tendo enviado comprovantes anexos). Mais que isso, o pagamento deuse em 09/02/2012, antes mesmo do próprio embarque das mercadorias no exterior, que ocorreu em 17/02/2012, conforme informação constante no extrato da DI auditada e no conhecimento de transporte que acobertou a vinda destas mercadorias para o Brasil (Anexo 36). ii) Em relação à DI nº 12/10910952, o pagamento do adquirente quatro dias antes da quitação do contrato de câmbio que acobertou a importação, informado pela própria importadora PONTUAL, foi em valor acima do necessário para o pagamento do referido contrato, ou seja, a PONTUAL dispôs de recursos do adquirente para pagar pela importação – o que caracteriza a operação de importação na modalidade “por conta e ordem de terceiros” (conforme legislação apresentada na sequência), e não por conta própria, como registrara. Tanto é que nem saldo bancário para este pagamento a fiscalizada possuía; seu saldo bancário no dia do fechamento deste câmbio ficou negativo (considerando o balanço de todas as contascorrentes bancárias apresentadas pela PONTUAL ao Fisco), mesmo com o pagamento antecipado por parte do adquirente. A empresa PÃO DA HORA informou ter pago pelas mercadorias importadas em datas anteriores ao pagamento do contrato de câmbio vinculado à DI auditada, da mesma forma que relatou a fiscalizada, mas em dias diversos, 14/06/2012 e 22/06/2012 (tendo enviado comprovantes anexos). iii) Desse modo, ao prover os recursos necessários à quitação do respectivo contrato de câmbio, a PÃO DA HORA tornouse interveniente na operação, sendo que sua participação foi imprescindível para a realização da importação. Mais que isso: enquadrouse na figura de adquirente por conta e ordem, pois, de acordo com o artigo 27 da Lei nº 10.637/2002, a operação de comércio exterior realizada com recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste. Assim, ao intervir nessas operações, a PÃO DA HORA passou a ser responsável solidária relativamente às irregularidades identificadas. iv) Além disso, verificouse inconsistência na escrituração contábil nas vendas dessas mercadorias, como, por exemplo, em relação à DI nº 12/10910952, as quais foram escrituradas contabilmente como “à vista” (notas fiscais emitidas entre 15/06 e 02/07/2012), mas a própria fiscalizada, em resposta ao Fisco, disse ter recebido tal pagamento a prazo, em 25/06/2012. Dessa forma entendo que os elementos que constam nos autos, acima enumerados, tanto relativos ao contexto geral das importações da PONTUAL em determinado Fl. 632DF CARF MF 22 período, como às importações específicas objeto de autuação, são suficientes para a conclusão da fiscalização de que: (...) A empresa adquirente das mercadorias importadas admitiu que negociara e pagara por tais mercadorias antes mesmo de elas haverem saído do país exportador (DI nº 12/03527774) e antes das quitações dos respectivos contratos de câmbio (no caso das duas DIs auditadas). Comprovantes das transferências bancárias atestam a provisão dos recursos para a realização da importação em questão. Ora, claro está que as importações auditadas ocorreram por conta e ordem da PÃO DA HORA. A PONTUAL registrou as Declarações de Importação como importações “diretas”, ou “por conta própria”, quando deveria têlas consignado como “por conta e ordem de terceiro”, identificando a PÃO DA HORA como adquirente junto ao SISCOMEX. Todavia, a fiscalizada optou por omitir tais informações durante o respectivo despacho aduaneiro – as quais foram descortinadas durante o curso da presente fiscalização – mantendo a interveniente e provedora dos recursos indevidamente afastada de eventual responsabilização tributária. Tal conduta ajustouse à infração tipificada no artigo 23, inciso V, do DecretoLei: Decretolei nº 1.455/1976 Art. 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: (...) V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. (Incluído pela Lei nº 10.637/2002) A empresa PÃO DA HORA concorreu para a efetivação das importações ao prover os recursos utilizados para a quitação dos respectivos contratos de câmbio. (...) As hipóteses de "dano ao Erário", definidas pelo legislador ordinário no art. 23 do Decretolei n° 1.455/76, tratamse de autênticas presunções legais de dano ao Erário, não se fazendo necessária qualquer comprovação adicional de efetivo prejuízo financeiro ao Erário ou à atividade fiscalizatória. Quando ocorrem, no mundo concreto, as infrações tipificadas nos incisos desse dispositivo legal, está presumido o dano ao Erário. Dessa forma, como a subtração de tributos não integra o tipo infracional sob análise, a eventual não incidência, alíquota zero ou a isenção de tributos nas importações não é relevante ao caso. Tendo ocorrido o cometimento da infração de ocultação, mediante fraude ou simulação, do comprador ou adquirente na importação, veiculada pelo art. 23, V do Decretolei nº 1.455/76, está caracterizado o "dano ao Erário". Nessa esteira, a fraude a que se refere o dispositivo deve ser entendida no sentido amplo, e não na acepção restrita do art. 72 da Lei nº 4.502/64, associada ao não pagamento ou diferimento do tributo. Fl. 633DF CARF MF Processo nº 12457.735126/201342 Acórdão n.º 3402003.829 S3C4T2 Fl. 623 23 Também há de se esclarecer que as questões relativas à "quebra da cadeia do IPI" ou à "lavagem de dinheiro" dizem respeito às justificativas originais do legislador ordinário para coibir a interposição fraudulenta nas operações de comércio exterior, entretanto, esses temas, in concreto, não integram o tipo infracional. Dessa forma, mesmo que, no presente caso, não ocorra a quebra da cadeia do IPI ou não seja o caso de lavagem de dinheiro, esse fato, por si só, não tem o condão de afastar a infração cometida em conformidade com o disposto no art. 23, V do Decretolei nº 1.455/76. Também o fato de eventualmente a empresa importadora ter recursos suficientes para realizar as operações, não a exime da presente infração, vez que não se trata de situação de presunção legal de interposição fraudulenta na importação a que se refere o §2° do art. 23 do Decretolei nº 1.455/76, mas o seu inciso V. Embora a falta de recursos próprios para realizar as importações possa conduzir à conclusão de que as operações foram realizadas no interesse de outrem, pode acontecer, em tese, de a importadora ter recursos próprios para efetuar as importações, mas as realize para outros, acobertandoos por qualquer motivo, situação que também caracterizaria o cometimento da infração prevista no inciso V do art. 23 do Decretolei nº 1.455/76. Embora a PÃO DA HORA COMÉRCIO E INDÚSTRIA DE ALIMENTOS LTDA tenha até colaborado com o procedimento fiscal, os documentos apresentados só vieram aos autos por solicitação da fiscalização, após a perda da espontaneidade, nos termos do art. 102 do Decretolei nº 37/66. A PÃO DA HORA COMÉRCIO E INDÚSTRIA DE ALIMENTOS LTDA contribuiu para a realização da importação com a sua ocultação, solicitando previamente os produtos a serem importados e adiantando os valores para as importações, mas sem atender ao disposto na legislação para a realização de uma operação terceirizada, que determina, dentre outras exigências, a necessidade de habilitação da empresa adquirente/encomendante para operar no comércio exterior e de apresentação à Aduana do contrato com a importadora. Dessa forma, ela responde pela infração seja porque concorreu para a sua prática, nos termos do inciso I do art. 95 do Decretolei nº 37/66, seja porque é considerada a adquirente numa operação por conta e ordem, nos termos do inciso V desse artigo. Houve a realização de operações por conta e ordem pela importadora PONTUAL com a ocultação, mediante simulação, da identificação da adquirente nas declarações de importação, em desacordo com o disposto na legislação. Também na escrituração contábil da PONTUAL, os adiantamentos para a importação não foram contabilizados corretamente, no intuito de ocultar do Fisco o fato de que se tratavam de operações terceirizadas. Em outra situação semelhante ao presente caso neste CARF, bem consignou, em seu Voto, o Relator Rodrigo Mineiro Fernandes, no Acórdão nº 3101001.789 – 3ª Seção do CARF/ 1ª Câmara / 1ª Turma Ordinária (vide trecho abaixo), de 11 de dezembro de 2014, que a "simulação ocorre quando o importador ostensivo declara a operação como sendo por conta própria, mas, na realidade, é por conta e ordem de terceiros ou por encomenda": (...) Já a simulação, dentro da definição de Alberto Xavier como “um caso de divergência entre a vontade (vontade real) e a declaração (vontade declarada), procedente de acordo entre o declarante e o declaratório e determinada pelo intuito de Fl. 634DF CARF MF 24 enganar terceiros”, está claramente caracterizada na ocultação do sujeito passivo. Recorro também ao conceito civilista de simulação, previsto no §1º do art. 167 da Lei nº 10.406, de 2002 (Código Civil): (...) A simulação ocorre quando o importador ostensivo declara a operação como sendo por conta própria, mas, na realidade, é por conta e ordem de terceiros ou por encomenda. A natureza da operação declarada é uma (importação por conta própria) e na realidade é outra (importação por conta e ordem de terceiros ou por encomenda). Também é encontrado no direito aduaneiro a previsão de simulação, dada pela IN SRF Nº 228/2002 (grifo nosso): Art. 13. A prestação de informação ou a apresentação de documentos que não traduzam a realidade das operações comerciais ou dos verdadeiros vínculos das pessoas com a empresa caracteriza simulação e falsidade ideológica ou material dos documentos de instrução das declarações aduaneiras, sujeitando os responsáveis às sanções penais cabíveis, nos termos do Código Penal (Decretolei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940) ou da Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de 1990, além da aplicação da pena de perdimento das mercadorias, nos termos do art. 105 do Decretolei nº 37, de 18 de novembro de 1966. (...) Da mesma forma, a omissão da informação do real importador ou responsável pela operação na Declaração de Importação, evadindose do devido controle aduaneiro na importação, caracterizase como simulação, visto que ocorre a divergência entre a vontade e a declaração, procedente de acordo entre o declarante e o declaratório e determinada pelo intuito de enganar terceiros, no caso a fiscalização aduaneira. Na ocultação fraudulenta ou simulatória, o sujeito passivo fica a margem da relações obrigacional tributária e do devido controle aduaneiro. (...) Por fim, entendo que não há qualquer irregularidade na exigência da multa veiculada pelo artigo 23, inciso V e §3º do Decretolei n. 1.455/76 da importadora ostensiva. Quem primeiro responde por uma infração é o seu próprio agente, assim considerado a pessoa física ou jurídica que incorre na omissão ou ação, voluntária ou involuntária, que importe inobservância de norma legal estabelecida, nos termos do art. 94 do Decretolei nº 37/66. Além desse agente direto podem responder pela infração aduaneira as demais pessoas referidas no art. 95 do Decretolei nº 37/66 na condição de "responsáveis pela infração". Com efeito, na infração por ocultação do sujeito passivo na importação mediante fraude ou simulação, o agente direto da infração deve ser deduzido da própria conduta coibida pelo art. 23, V do Decretolei nº 1.455/76, qual seja, a ocultação fraudulenta do sujeito passivo, daí se concluindo que ele é o importador ostensivo, que é quem efetivamente pratica a ação de "ocultar fraudulentamente" o verdadeiro sujeito passivo na importação, sem prejuízo de outras pessoas também responderem por essa infração com fundamento do art. 95 do Decretolei nº 37/66, em especial, o adquirente da mercadoria na importação por conta e ordem (inciso V) e o encomendante predeterminado (inciso VI), conforme seja o caso. Fl. 635DF CARF MF Processo nº 12457.735126/201342 Acórdão n.º 3402003.829 S3C4T2 Fl. 624 25 Assim, in casu, configurada a materialidade da infração aduaneira veiculada pelo art. 23, V, §§1º e 3º do Decretolei nº 1.455/76, não há como se afastar a aplicação da penalidade respectiva ao "responsável pela infração", nos termos do art. 95 do Decretolei nº 37/66, muito menos ao seu agente direto, qual seja, a importadora ostensiva (PONTUAL). De outra parte, não se configura a retroatividade benigna em favor da importadora ostensiva, vez que a multa por cessão de nome foi criada pelo legislador ordinário para conviver com a pena de perdimento das mercadorias e, em consequência, também com a multa que lhe substitui. Quando não havia previsão da multa de cessão de nome no ordenamento, ocorria que, na hipótese da aplicação (física) da pena de perdimento às mercadorias, não obstante o agente direto da infração prevista no art. 23, V do Decretolei nº 1.455/76 fosse mesmo o importador ostensivo, como se disse acima, sendo a ele aplicada a penalidade respectiva, quem poderia acabar suportando o efeito dessa penalidade era o importador oculto real adquirente da mercadoria no exterior, que seria efetivamente privado do seu uso e gozo. Nessa esteira, é que o legislador ordinário optou por inserir no ordenamento jurídico a multa prevista no art. 33 da Lei 11.488/2007 com intuito de penalizar concretamente a conduta irregular do importador ostensivo, que cedeu seu nome a outrem, eis que ele poderia restar sem punição na hipótese de aplicação da pena de perdimento às mercadorias. Esse entendimento se confirma com a interpretação veiculada posteriormente pelo art. 727, §3o do Regulamento Aduaneiro/2009: Art.727. Aplicase a multa de dez por cento do valor da operação à pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários (Lei nº 11.488, de 2007, art. 33, caput). §1oA multa de que trata o caput não poderá ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais)(Lei nº 11.488, de 2007, art. 33, caput). §2oEntendese por valor da operação aquele utilizado como base de cálculo do imposto de importação ou do imposto de exportação, de acordo com a legislação específica, para a operação em que tenha ocorrido o acobertamento. §3oA multa de que trata o caput não prejudica a aplicação da pena de perdimento às mercadorias na importação ou na exportação. (Redação dada pelo Decreto nº 7.213, de 2010). No que concerne à multa por cessão de nome, o seu agente direto está definido expressamente no tipo como "a pessoa jurídica que ceder seu nome (...) para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus intevenientes ou beneficiários", qual seja, a importadora ostensiva, sem prejuízo também da eventual responsabilização de outra pessoa física ou jurídica com base no art. 95 do Decretolei nº 37/66. Nesse ponto cabe salientar que o fato de o agente direto da infração estar expresso no tipo dessa infração não é suficiente para afastar a responsabilização de outras pessoas em face da determinação contida em outro dispositivo de lei (art. 95 do Decretolei nº 37/66). Dessa Fl. 636DF CARF MF 26 forma, entendo não ser aplicável a retroatividade benigna à importadora ostensiva ou a penalidade mais benéfica. No Acórdão n° 310100.431 1ª Camara / 1ª Turma Ordinária, de 25 de maio de 2010, Redator designadoTarásio Campelo Borges, foi decidido que "O dano ao erário nas infrações enumeradas no caput do artigo 23 do Decretolei 1.455, de 1976, com as modificações introduzidas pela Lei 10.637, de 2002, não é fato típico para a exigência da multa cominada no artigo 33 da Lei 11.488, de 2007". Também este Colegiado já decidiu por unanimidade, no Acórdão nº 3402 003.008 – 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária, de 26 de abril de 2016, Relator: Antonio Carlos Atulim, no sentido de que a multa por cessão de nome não prejudica a aplicação da pena de perdimento ou a multa substitutiva. Assim, pelo exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. (assinatura digital) Maria Aparecida Martins de Paula Fl. 637DF CARF MF
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Numero do processo: 10850.909836/2011-85
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Mar 02 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 3402-000.893
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o presente julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto que integram a presente Resolução.
(assinado digitalmente)
Antonio Carlos Atulim - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Augusto Daniel Neto - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Antônio Carlos Atulim (Presidente), Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
Nome do relator: CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o presente julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto que integram a presente Resolução. (assinado digitalmente) Antonio Carlos Atulim - Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto - Relator. Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Antônio Carlos Atulim (Presidente), Jorge Olmiro Lock Freire, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
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Numero do processo: 11065.002647/2010-18
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Mar 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Apr 18 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2008 a 28/02/2010
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. TERCEIROS. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-005.287
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencido o conselheiro Fábio Piovesan Bozza (suplente convocado), que lhe negou provimento e solicitou apresentar declaração de voto.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Fábio Piovesan Bozza (suplente convocado) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA
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OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. TERCEIROS. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencido o conselheiro Fábio Piovesan Bozza (suplente convocado), que lhe negou provimento e solicitou apresentar declaração de voto. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 5. 00 26 47 /2 01 0- 18 Fl. 2849DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira – Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Fábio Piovesan Bozza (suplente convocado) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório Tratase de auto de infração, DEBCAD: 37.267.3260, consolidado em 14/09/2010, no valor total de R$ 643.277,52, já acrescidos de juros e multa de mora, lavrado contra o contribuinte identificado acima, por ter deixado de recolher contribuições previdenciárias para outras entidades ou fundos (terceiros), no caso: Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação – FNDE (salárioeducação), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, Serviço Social do Comércio – SESC, Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial – SENAC e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE, incidentes sobre a remuneração dos segurados empregados que lhe prestaram serviço, nas competências de 01/2008 a 02/2010. A autuada apresentou impugnação, tendo a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre/RS julgado a impugnação improcedente, mantendo integralmente o crédito tributário apurado. Apresentado Recurso Voluntário pela autuada, os autos foram encaminhados ao CARF para julgamento do mesmo. Em sessão plenária de 14/08/2012, foi dado provimento parcial ao Recurso Voluntário, prolatandose o Acórdão nº 2403001.549, com o seguinte resultado: "Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso para determinar o recálculo da multa de mora, de acordo com o disposto no art. 35, caput, da Lei 8.212/91, na redação dada pela Lei 11.941/2009 (art. 61, da Lei nº 9.430/96), prevalecendo o valor mais benéfico ao contribuinte. Vencido o conselheiro Paulo Maurício Monteiro na questão da multa de mora”. O acórdão encontrase assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2008 a 28/02/2010 PREVIDENCIÁRIO. NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO FACE ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. Não há que se falar em anulação de NFLD ou insubsistência do crédito tributário quando não houver qualquer tipo de vício. MATÉRIA CONSTITUCIONAL. Fl. 2850DF CARF MF Processo nº 11065.002647/201018 Acórdão n.º 9202005.287 CSRFT2 Fl. 3 3 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária, nos termos da Súmula nº 2 do CARF. VERBAS INDENIZATÓRIAS. As verbas que não integram o saláriodecontribuição estão elencadas no art. 28, §9º da Lei nº 8.212/91, devendo, contudo, serem comprovados os seus pagamentos. TAXA SELIC. Previsão quando não realizado o pagamento no prazo previsto. MULTA DE MORA. Recálculo da multa de mora para que seja aplicada a mais benéfica ao contribuinte por força do art. 106, II, “c” do CTN. Recurso Voluntário Provido em parte. O processo foi encaminhado para ciência da Fazenda Nacional, em 27/09/2012 para cientificação em até 30 dias, nos termos da Portaria MF nº 527/2010. A Fazenda Nacional opôs, em 25/10/2012, portanto, tempestivamente, Embargos de Declaração alegando obscuridade, com a seguinte redação: “Esse eg. Colegiado deu provimento parcial ao recurso voluntário para determinar o recálculo da multa de mora, de acordo com o disposto no art. 35, caput, da Lei nº 8.212/91, na redação dada pela Lei nº 11.941/2009 (at. 61 da Lei nº 9.430/96), a fim de que prevaleça o valor mais benéfico ao contribuinte. A partir da leitura do voto condutor do acórdão constatase que o Colegiado concluiu ser aplicável o novel art. 35, caput, da Lei nº 8.212/91 tanto para os fatos geradores anteriores ao advento da MP nº 449/2008 (convertida na Lei nº 11.941/2009) quanto para os fatos geradores posteriores à sua edição. Ocorre que não restaram claras as razões pela qual o Colegiado determinou o recálculo da multa de mora também para o período posterior ao advento da MP nº 449/2008”. Tais Embargos de Declaração opostos foram conhecidos, e consequentemente, colocados em pauta de julgamento, para deliberação do colegiado a fim de sanar a obscuridade apontada, restando o Acórdão 2403002.160, assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2008 a 28/02/2010 MULTA. RECÁLCULO. FATOS GERADORES POSTERIORES À MP 449/08. LEI 11.941/09. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. Para as competências até 11/2008, no caso de descumprimento de obrigação principal, impõese o cálculo da multa com base Fl. 2851DF CARF MF 4 no artigo 61 da Lei n. 9.430/96, que estabelece multa de 0,33% ao dia, limitada a 20%, em comparativo com a multa aplicada com base na redação anterior do artigo 35 da Lei 8.212/91, para determinação da prevalência da multa mais benéfica, no momento do pagamento. Apenas a partir de 12/2008, incide multa de ofício, aplicandose o art. 35A da Lei 8.212/91. Embargos Acolhidos. O processo foi encaminhado, novamente, para ciência da Fazenda Nacional, em 24/09/2013 para cientificação em até 30 dias, nos termos da Portaria MF nº 527/2010. A Fazenda Nacional interpôs, em 25/09/2013, portanto, tempestivamente, o presente Recurso Especial. Em seu recurso visa a reforma do acórdão recorrido em relação ao cálculo da multa mais benéfica ao contribuinte retroatividade benigna. Ao Recurso Especial da Fazenda Nacional foi dado seguimento, conforme o Despacho nº 24001097/2013, da 4ª Câmara, de 01/11/2013. O recorrente, em suas alegações, requer seja dado total provimento ao presente recurso, para reformar o acórdão recorrido no ponto em que determinou a aplicação do art. 32A, da Lei nº 8.212/91, em detrimento do art. 35A, do mesmo diploma legal, para que seja esposada a tese de que a autoridade preparadora deve verificar, na execução do julgado, qual norma mais benéfica: se a soma das duas multas anteriores (art. 35, II, e 32, IV, da norma revogada) ou a do art. 35A da MP nº 449/2008. Cientificado dos Acórdãos 2403001.549 e 2403002.160, do Recurso Especial da Fazenda Nacional e do Despacho de Admissibilidade admitindo o Resp da PGFN, em 29/07/2014, o contribuinte não apresentou contrarrazões. É o relatório. Fl. 2852DF CARF MF Processo nº 11065.002647/201018 Acórdão n.º 9202005.287 CSRFT2 Fl. 4 5 Voto Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Relatora Pressupostos de Admissibilidade O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, conforme Despacho de Exame de Admissibilidade de Recurso Especial, fls. 2834. Assim, não havendo qualquer questionamento acerca do conhecimento e concordando com os termos do despacho proferido, passo a apreciar o mérito da questão. Do mérito Aplicação da multa retroatividade benigna Quanto ao questionamento sobre a multa aplicada, a qual deseja o recorrente ver reformado o acórdão recorrido no ponto: determinar o recálculo da multa de mora, de acordo com o disposto no art. 35, caput, da Lei 8.212/91, na redação dada pela Lei 11.941/2009 (art. 61, da Lei nº 9.430/96), prevalecendo o valor mais benéfico ao contribuinte. Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É Fl. 2853DF CARF MF 6 necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35 A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de Fl. 2854DF CARF MF Processo nº 11065.002647/201018 Acórdão n.º 9202005.287 CSRFT2 Fl. 5 7 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. Fl. 2855DF CARF MF 8 § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, Fl. 2856DF CARF MF Processo nº 11065.002647/201018 Acórdão n.º 9202005.287 CSRFT2 Fl. 6 9 inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: ∙ Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou ∙ Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº Fl. 2857DF CARF MF 10 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de Fl. 2858DF CARF MF Processo nº 11065.002647/201018 Acórdão n.º 9202005.287 CSRFT2 Fl. 7 11 obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35 A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Conclusão Face o exposto, voto no sentido de CONHECER do recurso ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL, para, no mérito, DARLHE PROVIMENTO, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. É como voto. (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Fl. 2859DF CARF MF 12 Declaração de Voto Conselheiro Fábio Piovesan Bozza Não obstante o judicioso voto da conselheira relatora, peço vênia para apresentar breves considerações sobre a aplicação da retroatividade benigna às multas por descumprimento de obrigações principal e acessória (art. 35, II e art. 32, IV e § 5o, todas Lei n° 8.212/91), lançadas anteriormente à vigência da Lei nº 11.941/2009. Multa e Retroatividade Benigna Previamente à edição da Lei nº 11.941/2009, o sistema de penalidades da legislação previdenciária de custeio apresentava diversas particularidades. A redação do antigo art. 35 previa a exigência de penalidade sobre as contribuições previdenciárias em atraso – denominada como multa de mora – com percentuais que aumentavam progressivamente, de acordo com a ocorrência de determinados atos administrativos e também com o passar do tempo. O fato de o contribuinte ter apresentado declaração (GFIP) à autoridade previdenciária não influenciava a evolução percentual da multa, o qual somente seria fixada no instante do efetivo pagamento. Vale lembrar que a falta de apresentação ou a apresentação com alguma incorreção da GFIP sujeitava o contribuinte à imposição de multa específica severa, por descumprimento de obrigação acessória, constante do art. 32 da Lei nº 8.212/91. Com a unificação da Secretaria da Receita Federal e da Secretaria da Receita Previdenciária, iniciada em 2007, uma série de modificações legislativas foi introduzida, a fim de harmonizar com o tratamento dado aos demais tributos federais. A fiscalização, ao lançar a multa por descumprimento de obrigação acessória, baseouse na seguinte redação do art. 32, IV e §5º da Lei nº 8.212/91, na redação dada pela Lei nº 9.528/97: Art. 32. A empresa é também obrigada a: (...) IV – informar mensalmente ao Instituto Nacional do Seguro SocialINSS, por intermédio de documento a ser definido em regulamento, dados relacionados aos fatos geradores de contribuição previdenciária e outras informações de interesse do INSS. (Inciso acrescentado pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). (...) § 5º A apresentação do documento com dados não correspondentes aos fatos geradores sujeitará o infrator à pena administrativa correspondente à multa de cem por cento do valor devido relativo à contribuição não declarada, limitada aos valores previstos no parágrafo anterior. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). No entanto, referido dispositivo foi revogado, dando lugar ao art. 32A, cuja redação é a seguinte: Fl. 2860DF CARF MF Processo nº 11065.002647/201018 Acórdão n.º 9202005.287 CSRFT2 Fl. 8 13 Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitar seá às seguintes multas: (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009). I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3º deste artigo. Com relação à multa sobre a falta de recolhimento de contribuição previdenciária, o antigo art. 35 da Lei nº 8.212/91 prescrevia o seguinte: Art. 35. Sobre as contribuições sociais em atraso, arrecadadas pelo INSS, incidirá multa de mora, que não poderá ser relevada, nos seguintes termos: (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). I – para pagamento, após o vencimento de obrigação não incluída em notificação fiscal de lançamento: a) oito por cento, dentro do mês de vencimento da obrigação; b) quatorze por cento, no mês seguinte; c) vinte por cento, a partir do segundo mês seguinte ao do vencimento da obrigação; II – para pagamento de créditos incluídos em notificação fiscal de lançamento: a) vinte e quatro por cento, em até quinze dias do recebimento da notificação; b) trinta por cento, após o décimo quinto dia do recebimento da notificação; c) quarenta por cento, após apresentação de recurso desde que antecedido de defesa, sendo ambos tempestivos, até quinze dias da ciência da decisão do Conselho de Recursos da Previdência Social CRPS; d) cinqüenta por cento, após o décimo quinto dia da ciência da decisão do Conselho de Recursos da Previdência Social CRPS, enquanto não inscrito em Dívida Ativa; III – para pagamento do crédito inscrito em Dívida Ativa: a) sessenta por cento, quando não tenha sido objeto de parcelamento; b) setenta por cento, se houve parcelamento; Fl. 2861DF CARF MF 14 c) oitenta por cento, após o ajuizamento da execução fiscal, mesmo que o devedor ainda não tenha sido citado, se o crédito não foi objeto de parcelamento; d) cem por cento, após o ajuizamento da execução fiscal, mesmo que o devedor ainda não tenha sido citado, se o crédito foi objeto de parcelamento. Com a edição da Medida Provisória nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, o art. 35 da Lei nº 8.212/91 passou a tratar da multa de mora e o novel art. 35A cuidou de dispor sobre a multa de ofício: Art. 35. Os débitos com a União decorrentes das contribuições sociais previstas nas alíneas a, b e c do parágrafo único do art. 11 desta Lei, das contribuições instituídas a título de substituição e das contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, não pagos nos prazos previstos em legislação, serão acrescidos de multa de mora e juros de mora, nos termos do art. 61 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009). O art. 44 da Lei nº 9.430/96, mencionado no art. 35A supra, possui a seguinte redação: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I – de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Vide Lei nº 10.892, de 2004) (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Pois bem. Feita esta breve digressão sobre a evolução legislativa, há dois pontos que gostaria de examinar, com vistas à aplicação da retroatividade benigna, quais sejam, o emprego da chamada “cesta de multas” (Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14/2009) e o limite do percentual da multa. Com o intuito de facilitar a compreensão do posicionamento ora esposado, as matérias foram separadas em dois tópicos. Conflito entre Multa por Descumprimento de Obrigação Acessória e Multa por Falta de Pagamento de Tributo – A Questão da “Cesta de Multas” O primeiro ponto a ser destacado, quando se analisa os regimes das penalidades constantes da Lei nº 8.212/91 – antes e depois da edição da Medida Provisória nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009 –, referese à identificação do comportamento sancionado. Tal providência afigurase importante para se aplicar adequadamente a retroatividade benigna aludida pelo art. 106, II do CTN, em virtude de alteração legislativa. A posição encampada pela Administração Tributária Federal, quando há lançamento de multas por falta de recolhimento de contribuição previdenciária e também de multas por descumprimento de obrigação acessória (GFIP), é convencionalmente denominada Fl. 2862DF CARF MF Processo nº 11065.002647/201018 Acórdão n.º 9202005.287 CSRFT2 Fl. 9 15 de “cesta de multas” e sua regulamentação encontrase detalhada na Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14/2009, nos seguintes termos: Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Ou seja, na “cesta de multas”, a aplicação da retroatividade benigna é condicionada à comparação entre: (i) o somatório entre as multas por descumprimento de obrigações acessórias (art. 32 da Lei nº 8.212/91, na redação anterior às alterações da Lei nº 11.941/2009) e as multas por falta de pagamento de contribuições previdenciárias (art. 35, nas mesmas condições); e (ii) o art. 35A da Lei nº 8.212/91, na redação dada pela Lei nº 11.941/2009, o qual introduziu à legislação previdenciária a multa de ofício de 75% sobre o valor da contribuição previdenciária devida. A redução da penalidade, em função da retroatividade benigna, terá lugar somente se o valor resultante da aplicação do critério (i) for superior ao resultado da aplicação do critério (ii). Nesse caso, a multa lançada deverá ser reduzida ao patamar do valor encontrado pelo critério (ii). A fundamentação do raciocínio que permitiu à Administração Tributária Federal alcançar tais conclusões não é explicitada pela Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14/2009. Contudo, ao analisar a jurisprudência administrativa sobre o tema, é possível tecer conjecturas sobre os motivos que conduziram à elaboração do mencionado normativo. Nesse sentido, por ocasião da prolação do acórdão nº 9202003.795, de 17/02/2016, a eminente Fl. 2863DF CARF MF 16 conselheira relatora Maria Helena Cotta Cardozo fez constar do seu voto o seguinte trecho esclarecedor (grifos nossos): Destarte, resta claro que, com o advento da Lei nº 11.941, de 2009, o lançamento de ofício envolvendo a exigência de contribuições previdenciárias, bem como a verificação de falta de declaração do respectivo fato gerador em GFIP, sujeita o Contribuinte a uma única multa, no percentual de 75%, sobre a totalidade ou diferença da contribuição, prevista no art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430, de 1996. Com efeito, a interpretação sistemática da legislação tributária não admite a instituição, em um mesmo ordenamento jurídico, de duas penalidades para a mesma conduta, o que autoriza a interpretação no sentido de que as penalidades previstas no art. 32A não são aplicáveis às situações em que se verifica a falta de declaração/declaração inexata, combinada com a falta de recolhimento da contribuição previdenciária, eis que tal conduta está claramente tipificada no art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430, de 1996. A minha leitura sobre o entendimento preconizado pelo acórdão nº 9202003.795 foi o de que: – antes da edição da Lei nº 11.941/2009, a falta de declaração ou a declaração inexata (descumprimento de obrigação acessória), bem como a falta de recolhimento do tributo (descumprimento da obrigação principal) configuravam infrações autônomas, com sanções independentes e cumuláveis, sendo a primeira apenada pelo art. 32 e a segunda apenada pelo art. 35 da Lei nº 8.212/91; – depois da edição da Lei nº 11.941/2009, a falta de declaração ou a declaração inexata juntamente com a falta de recolhimento do tributo passaram a tipificar, de acordo com o mencionado julgado, condutas necessárias para a tipificação de uma única sanção, em função da redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, ao qual o art. 35A da Lei nº 8.212/91 faz remissão. No final, saber se a Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14/2009 atuou ou não dentro dos preceitos legais depende, em essência, da interpretação a ser dada à expressão “nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata”, contida no art. 44, inc. I da Lei nº 9.430/96. Não obstante a clareza do acórdão nº 920203.795, penso que tal exegese merece aprofundamento. De início, é possível afirmar que o legislador ordinário não está impedido de impor uma única sanção para mais de uma infração. Em tese, portanto, a finalidade do art. 44, I da Lei nº 9.430/96 poderia ser sancionar o contribuinte que não efetuou pagamento e não declarou ou declarou de forma inexata, sendo tais infrações identificadas pela autoridade fiscal, mediante lançamento de ofício. Não abrangeria a falta de recolhimento de tributo já declarado, cuja infração estaria sujeita apenas à multa de mora prevista no novo art. 35, nem o descumprimento isolado de obrigação acessória, passível de multa prevista no art. 32A, todos da Lei nº 8.212/91, na redação dada pela Lei nº 11.941/2009. Fl. 2864DF CARF MF Processo nº 11065.002647/201018 Acórdão n.º 9202005.287 CSRFT2 Fl. 10 17 O problema é que o art. 44, inc. I da Lei nº 9.430/96 possui redação truncada quando faz alusão “nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata”. Na literalidade do dispositivo, se a multa de 75% fosse aplicável quando houvesse cumulativamente falta de pagamento, falta de declaração e declaração inexata, isso consistiria um paradoxo, porque não seria possível, ao mesmo tempo, não existir declaração e existir declaração com inexatidão. Se, em outra leitura possível, a multa de 75% fosse aplicável quando houvesse alternativamente falta de pagamento ou falta de declaração ou declaração inexata seria criada uma antinomia em relação ao disposto no art. 32A, que igualmente cuida de penalizar a falta de declaração ou a declaração inexata. Diante da dúvida sobre a aplicação de sanções tributárias, o art. 112 do CTN prioriza a interpretação mais favorável ao acusado. Retrata a adoção do princípio “in dubio pro reo” em matéria de interpretação e deixa transparecer a vontade (vinculante) do legislador de favorecer o infrator com a aplicação da penalidade mais branda. Art. 112. A lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades, interpretase da maneira mais favorável ao acusado, em caso de dúvida quanto: I – à capitulação legal do fato; II – à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos; III – à autoria, imputabilidade, ou punibilidade; IV – à natureza da penalidade aplicável, ou à sua graduação. A norma protege o acusado de injustiça na punição, quando houver incerteza a respeito do fato ou do direito aplicável. Assim, nas palavras de Hugo de Brito Machado (“Teoria das Sanções Tributárias”, in Sanções Administrativas Tributárias, Ed. Dialética, p. 177): Se o princípio de Direito Penal do in dubio pro reo exige certeza quanto ao fato, pela mesma razão deve exigir certeza quanto ao direito, pois a verificação da incidência da norma penal depende não apenas da constatação da ocorrência do fato, mas da delimitação do alcance da norma que é indispensável para que se saiba se está aquele fato abrangido, ou não, pela hipótese de incidência, vale dizer, pelo tipo penal. No caso concreto, pareceme que a interpretação mais favorável ao acusado é considerar que as infrações (i) de falta de declaração ou de declaração inexata e (ii) de falta de recolhimento da contribuição previdenciária devam ser sancionadas globalmente pelo art. 35A da Lei nº 8.212/91. Conflito entre o Antigo Art. 35 e os Novos Art. 35 e Art. 35A, todos da Lei nº 8.212/91 – A Questão do Percentual da Multa Fl. 2865DF CARF MF 18 O segundo ponto a ser tratado e que tem gerado controvérsia na jurisprudência referese ao limite do percentual da multa a ser observado, para fins de aplicação da retroatividade benigna. Sobre o tema, há essencialmente duas linhas de interpretação. A primeira linha de interpretação sustenta que somente o novo art. 35 poderá retroagir com o objetivo de limitar a 20% o percentual da multa constante do antigo art. 35. Por seu turno, o art. 35A, por inovar a legislação previdenciária de custeio, seria aplicável aos lançamentos de ofício realizados a partir da vigência da Lei nº 11.941/2009. Esta é a posição sustentada de maneira reiterada pelo Superior Tribunal de Justiça. Citese, a esse respeito, o seguinte enxerto do voto do Min. Humberto Martins (os grifos são nossos): A jurisprudência desta Corte é dominante no sentido de que se aplica o disposto no art. 106, inciso II, alínea "c", do CTN na execução fiscal não julgada definitivamente na esfera judicial, independentemente da natureza da multa, sem descaracterizar a liquidez e certeza da Certidão de Dívida Ativa, pois tal normativo estabelece que a lei aplicase a ato ou a fato pretérito quando lhe comina punição menos severa que a prevista por lei vigente ao tempo de sua prática. Verificase que o art. 35 da Lei n. 8.212∕91 foi alterado pela Lei n. 11.941∕09, devendo o novo percentual aplicável à multa moratória seguir o patamar de 20%, que, sendo mais benéfico ao contribuinte, deve lhe ser aplicado, por se tratar de lei mais benéfica, cuja retroação é autorizada com base no art. 106, II, do CTN. (...) Cumpre destacar que o art. 35 da Lei n. 8.212∕91, com a redação anterior à Lei n. 11.940∕09, não distinguia a aplicação da multa em decorrência da sua forma de constituição (de ofício ou por homologação), mas levando em consideração, essencialmente, o momento em que constatado o atraso no pagamento: antes da notificação fiscal, durante a notificação e existência de recurso administrativo, e após a inscrição em dívida ativa. (...) Com efeito, a nova redação do art. 35 da Lei n. 8.212∕91, dada pela Lei n. 11.941∕09, ao prever que as multas aplicadas obedecerão os parâmetros estabelecidos no art. 61 da Lei n. 9.430∕96, possibilitou a aplicação da multa reduzida aos processos ainda não definitivamente julgados. (...) A distinção quanto à forma de lançamento para fixação de multa somente foi prevista com o advento da Lei n. 11.940∕09, que introduziu o art. 35A à Lei n. 8.212∕91 (...) Com efeito, sua aplicação restringese aos lançamentos de ofício existentes após sua vigência, sob pena de retroação. Fl. 2866DF CARF MF Processo nº 11065.002647/201018 Acórdão n.º 9202005.287 CSRFT2 Fl. 11 19 STJ, 2ª Turma, EDcl no AgRg no RESP nº 1.275.297/SC, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 03/12/2013 No mesmo sentido, citese também o seguinte trecho do voto da Min. Regina Helena Costa (os grifos são nossos): Controvertese acerca do percentual de multa moratória aplicável ao lançamento de ofício após a alteração do art. 35 da Lei n. 8.212∕91 pela Lei n. 11.941∕09 que, ao incluir o art. 35A naquele diploma normativo, determinou a observância do parâmetro mais gravoso do art. 44 da Lei n. 9.430∕96, qual seja, de 75% (setenta e cinco por cento). Com efeito, esta Corte possui entendimento segundo o qual deve ser observado o percentual original da multa moratória previsto no art. 35 da Lei n. 8.212∕91, porquanto as ulteriores disposições do art. 35A cominam penalidade mais severa, autorizando a aplicação do preceito anterior, mais benéfico, a teor do disposto no art. 106, II, c, do CTN. (...) Isto posto, DOU PROVIMENTO ao Recurso Especial para fixar o percentual da multa moratória em 20% (vinte por cento). STJ, 1ª Turma, RESP nº 1.585.929/SP, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em 19/04/2016 A segunda linha de interpretação, por seu turno, considera que o antigo art. 35 da Lei nº 8.212/91 já previa em seu bojo tanto a multa moratória, para os recolhimentos espontâneos, quanto a multa de ofício, em decorrência de autuação da fiscalização (emissão de notificação fiscal de lançamento), não obstante o “caput” do dispositivo faça referência à “multa de mora”. Afinal, não será o “nomen iuris” que determinará o regime jurídico da multa. No fundo, a natureza jurídica dessas multas – moratória ou de ofício – seria a mesma, possuindo caráter sancionador, punitivo e nãoindenizatório. Em consequência, o lançamento de multa relativa a fatos geradores das contribuições previdenciárias ocorridos até 03/12/2008 deverá observar, por essa vertente interpretativa, os percentuais do antigo art. 35 (em respeito ao art. 144 do CTN), ficando limitado ao disposto (i) no novo art. 35 (20%), no caso de declaração entregue pelo contribuinte, ou (ii) no art. 35A (75%), no caso de ausência da mencionada declaração e existência de lançamento de ofício. Esta é a posição que tem prevalecido no CARF, pelo voto de qualidade ou, quando menos, por maioria de votos. De forma exemplificativa, vale citar os seguintes julgados: ac. 9202003.713, de 28/01/2016; ac. 9202004.344, de 24/08/2016; ac. 2202 003.445, de 14/06/2016; ac. 2301004.388, de 09/12/2015; ac. 2401004.286, de 13/04/2016). É indubitável a relevância dos fundamentos jurídicos apresentados pelas duas linhas de interpretação. Fl. 2867DF CARF MF 20 Mas a existência dessa divergência jurisprudencial introduz, a meu ver, uma dúvida no sistema, de caráter objetivo, quanto à solução do conflito a respeito da retroatividade benigna da lei nova que define infrações, atraindo a aplicação do art. 112 do CTN, já reproduzido acima. Nesse cenário de incerteza normativa quando à natureza da penalidade aplicável ou à graduação da multa originalmente lançada (inc. IV), novamente o art. 112 do CTN é invocado para a solução do caso concreto. Tratase de corolário que não pode ser ignorado pelo intérprete, ainda que ele particularmente não apresente dúvida acerca do relacionamento entre o antigo art. 35, o novo art. 35 e o art. 35A. Isso porque a referida dúvida, pressuposto para aplicação do art. 112 do CTN, é objetiva e advém das decisões divergentes entre os membros da mesma turma, entre turmas diversas do mesmo tribunal ou entre tribunais diferentes. A jurisprudência judicial não destoa a esse respeito (grifamos): Além disso, o art. 35 da Lei nº 8.212/91, na redação anterior à Lei nº 11.941/2009, estabelece somente multas de mora, inclusive quando houver lançamento de ofício. O legislador considerou irrelevante, para efeito de aplicação da multa de mora, o fato de haver ou não informação a respeito do débito na GFIP. Isso porque as hipóteses de falta de declaração ou declaração inexata eram penalizadas com as multas previstas no art. 32, §§ 4º e seguintes, da Lei nº 8.212/91, que foram revogadas pela Lei nº 11.941/2009. De qualquer sorte, mesmo que haja dúvida quanto à natureza da penalidade aplicável (se é multa de mora ou de ofício), a lei deve ser interpretada da maneira mais favorável ao contribuinte, nos termos do art. 112 do CTN. TRF da 4ª Região, 1ª Turma, Apelação Cível nº 2005.71.11.0045302/RS, Rel. Des. Federal Joel Ilan Paciornik, julgado em 24/02/2010 Em vista de todo o exposto, para fins de aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN, voto por comparar a multa por descumprimento de obrigação acessória e a multa por falta de pagamento de contribuição previdenciária impostas ao contribuinte de forma englobada, limitandoas ao percentual de 20% constante do novo art. 35 da Lei nº 8.212/91 (já com as alterações promovidas pela Lei nº 11.941/2009), por força interpretação mais favorável ao acusado, conforme determina o art. 112 do CTN. É como voto. (assinado digitalmente) Fábio Piovesan Bozza Fl. 2868DF CARF MF
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