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Numero do processo: 10410.001406/2009-88
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 12 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Jan 02 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/01/1995 a 31/12/1995
DECADÊNCIA. PRAZO. TRIBUTO SUJEITO AO LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONSTRUÇÃO JURISPRUDENCIAL. STF E STJ. EFICÁCIA NORMATIVA. DIES A QUO. DATA DA APRESENTAÇÃO DO PEDIDO DE RESTITUIÇÃO ADMINISTRATIVAMENTE.
A jurisprudência do STJ passou a considerar que, relativamente aos pagamentos de tributos sujeitos ao lançamento por homologação efetuados a partir de 09.06.05, o prazo para a repetição do indébito seria de cinco anos a contados da data dos respectivos pagamento. Já quanto aos pagamentos anteriores, a contagem do prazo obedece ao regime previsto no sistema anterior (tese dos cinco mais cinco). Contudo, o STF ao julgar o RE n. 566.621/RS, em 04.08.2011 sob o rito do artigo 543B, §3º, do CPC, alterou parcialmente o entendimento do STJ, fixando como marco para a aplicação do novo regime sobre prazo prescricional a data do pedido de restituição do indébito, e não mais a data do pagamento.
Por sua vez, o STJ se curvou ao citado entendimento do Pretório Excelso, passando a julgar os processos sobre a mesma controvérsia aplicando a ratio do RE 566.621/RS, inclusive por meio do rito dos recursos repetitivos (REsp n. 1.269.570/MG).
Tais decisões devem ser reproduzidas pelos Conselheiros no âmbito do CARF (artigo 62, §2º do Regimento Interno), para a contagem do prazo decadência da a restituição administrativa do indébito.
DECADÊNCIA. PRAZO. DIES A QUO. RESTITUIÇÃO DE INDÉBITO. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. RESOLUÇÃO DO SENADO. INALTERABILIDADE. CONTAGEM DA EXTINÇÃO DO CRÉDITO POR PAGAMENTO.
O prazo decadencial do direito ao pleito da restituição de indébito tributário ocorre em cinco anos contados da extinção do crédito tributário pelo pagamento (artigo 165, inciso I, c/c artigo 168, inciso I, c/c artigo 156, inciso I do CTN), inclusive, na hipótese de o indébito ter origem em declaração de inconstitucionalidade proferida pelo Supremo Tribunal Federal e com a sua execução suspensa por Resolução doSenado Federal, atribuindo efeito erga omnes ao julgamento.
Recurso voluntário negado.
Numero da decisão: 3402-004.779
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(Assinado com certificado digital)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente substituto.
(Assinado com certificado digital)
Thais De Laurentiis Galkowicz - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Larissa Nunes Girard (suplente) e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: THAIS DE LAURENTIIS GALKOWICZ
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PRAZO. TRIBUTO SUJEITO AO LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONSTRUÇÃO JURISPRUDENCIAL. STF E STJ. EFICÁCIA NORMATIVA. DIES A QUO. DATA DA APRESENTAÇÃO DO PEDIDO DE RESTITUIÇÃO ADMINISTRATIVAMENTE. A jurisprudência do STJ passou a considerar que, relativamente aos pagamentos de tributos sujeitos ao lançamento por homologação efetuados a partir de 09.06.05, o prazo para a repetição do indébito seria de cinco anos a contados da data dos respectivos pagamento. Já quanto aos pagamentos anteriores, a contagem do prazo obedece ao regime previsto no sistema anterior (tese dos cinco mais cinco). Contudo, o STF ao julgar o RE n. 566.621/RS, em 04.08.2011 sob o rito do artigo 543B, §3º, do CPC, alterou parcialmente o entendimento do STJ, fixando como marco para a aplicação do novo regime sobre prazo prescricional a data do pedido de restituição do indébito, e não mais a data do pagamento. Por sua vez, o STJ se curvou ao citado entendimento do Pretório Excelso, passando a julgar os processos sobre a mesma controvérsia aplicando a ratio do RE 566.621/RS, inclusive por meio do rito dos recursos repetitivos (REsp n. 1.269.570/MG). Tais decisões devem ser reproduzidas pelos Conselheiros no âmbito do CARF (artigo 62, §2º do Regimento Interno), para a contagem do prazo decadência da a restituição administrativa do indébito. DECADÊNCIA. PRAZO. DIES A QUO. RESTITUIÇÃO DE INDÉBITO. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. RESOLUÇÃO DO SENADO. INALTERABILIDADE. CONTAGEM DA EXTINÇÃO DO CRÉDITO POR PAGAMENTO. O prazo decadencial do direito ao pleito da restituição de indébito tributário ocorre em cinco anos contados da extinção do crédito tributário pelo AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 41 0. 00 14 06 /2 00 9- 88 Fl. 278DF CARF MF 2 pagamento (artigo 165, inciso I, c/c artigo 168, inciso I, c/c artigo 156, inciso I do CTN), inclusive, na hipótese de o indébito ter origem em declaração de inconstitucionalidade proferida pelo Supremo Tribunal Federal e com a sua execução suspensa por Resolução doSenado Federal, atribuindo efeito erga omnes ao julgamento. Recurso voluntário negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (Assinado com certificado digital) Waldir Navarro Bezerra Presidente substituto. (Assinado com certificado digital) Thais De Laurentiis Galkowicz Relatora. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Larissa Nunes Girard (suplente) e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face de decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento ("DRJ") de Recife/PE, que julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pela Contribuinte. Por bem consolidar os fatos ocorridos até a decisão da DRJ, com riqueza de detalhes, colaciono o relatório do Acórdão recorrido in verbis: Trata o presente processo de Pedido de Restituição de Crédito da Contribuição para o PASEP, no valor original de R$ 17.247.967,99, juntamente com a entrega de Declarações de Compensação (DCOMP) nº 25279.42023.180309.1.3.040312, 00354.02351.130409.1.3.049536, 16046.98781.200509.1.3.04 8505, 21287.56636.190609.1.3.049735 e 26025.51562.230709.1.3.048473 (fls. 1130). O sujeito passivo informou no Pedido de Restituição que o valor pleiteado se referia ao pagamento realizado no ano de 1995, atualizado até 1999. 2. A autoridade competente não reconheceu o crédito informado no Pedido de Restituição e não homologou as Declarações de Compensação, ao concordar com os fundamentos expostos no Parecer SaortDRFB/MAC nº 272/2012 (fl. 3134), no qual consta que o direito creditório foi Fl. 279DF CARF MF Processo nº 10410.001406/200988 Acórdão n.º 3402004.779 S3C4T2 Fl. 112 3 fulminado pela decadência, pois o contribuinte teria o prazo de cinco anos a partir do pagamento de cada DARF para pleitear a restituição de eventuais diferenças pagas a maior. 3. Devidamente cientificado da decisão em 20/06/2012 (fl. 38), o contribuinte apresentou em 18/07/2012, por intermédio do ProcuradorChefe da Fazenda Municipal, a manifestação de inconformidade de fls. 3947, a seguir resumida: 3.1. Afirma que o entendimento consagrado no Superior Tribunal de Justiça (STJ), no REsp nº 435.835/SC, era de que o prazo prescricional nas ações de repetição de indébito ou compensação tributária iniciarseia após o decurso dos primeiros cinco anos a contar do fato gerador, acrescidos, no caso de homologação tácita, de mais um qüinqüênio (tese dos cinco mais cinco). 3.2. Assevera que o legislador, por meio da LC nº 118, de 2005, intentou mudar este entendimento, estabelecendo que o inicio do fluxo do prazo prescricional contavase do efetivo pagamento e não de sua homologação. 3.3. Aduz que a regra veiculada detém nítido caráter meramente interpretativo, situação em que apenas poderia irradiar seus efeitos sobre as ações ajuizadas posteriormente à sua vigência, em respeito ao princípio da irretroatividade, vigente em matéria tributária. 3.4. Cita decisões judiciais do STJ (Resp nº 329.892) para afirmar que a Medida Provisória n° 1.523, de 1997, não se cingiu a interpretar preceito anterior, mas veiculou norma restritiva do direito do contribuinte, de forma que "tratandose de norma nova e mais gravosa, não há que se falar em caráter retroativo, o que apenas se poderia supor no caso de ser o conteúdo expressamente interpretativo". 3.5. Sustenta que, no caso, a decadência não pode ter sua esfera majorada em razão da incidência da citada LC nº118, sob pena de ofensa a ditames constitucionais da mais alta relevância, citando decisões do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) para amparar sua assertiva. 3.6. Ao final requer o acolhimento de suas alegações e provas ora apresentadas, para reformar o despacho decisório proferido, no sentido de que seja considerado o entendimento do colendo STF no que tange ao disposto na LC nº 118, de 2005, quanto à fluência do prazo decadencial, prevalecendo a tese decenal na repercussão dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, de modo a que seja declarado o direito do pleiteante para compensar os débitos declarados nas DCOMP. 4. Em sede de análise pela 2a Turma da DRJ/Recife (PE), o processo foi encaminhando para a unidade de origem, na forma da Resolução 1855, em 27/02/2013, para que fosse providenciado o seguinte: Fl. 280DF CARF MF 4 4.1. Intimar o contribuinte para juntar comprovantes do pagamento/retenção na fonte do alegado direito creditório. 4.2. Intimar o contribuinte para apresentar demonstrativo onde conste os valores pagos/retidos, datas de recolhimento/retenção e os períodos de apuração do pretendido direito creditório. 5. Providências efetuadas pela DRF/Maceió (AL), conforme fls. 84249. Vale registrar que o ente municipal interessado, após algumas solicitações de prorrogação de prazo para atendimento à intimação, esclareceu que o crédito foi pago diretamente, parte através de DARF com código de receita 3703, no período de apuração janeiromarço e setembronovembro de 1995, e parte mediante parcelamento realizado em 16/10/1995, para pagamento em 60 parcelas, sendo a primeira parcela em novembro/1995 e a última em outubro/2000. Juntou demonstrativos e comprovantes. O julgamento da manifestação de inconformidade resultou no Acórdão da DRJ de Recife/PE, cuja ementa segue colacionada abaixo: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/1995 a 31/12/1995 Ementa: INDÉBITO. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PRAZO. O prazo para que o contribuinte possa pleitear a restituição de tributo pago indevidamente ou em valor maior que o devido, extinguese após o transcurso do prazo de 5 (cinco) anos, contado da data do pagamento, inclusive para os casos de tributos sujeitos a lançamento por homologação. Ainda irresignada com a negativa do direito ao crédito, a Contribuinte recorre a este Conselho por meio de petição de fls 265 a 275, repisando sua argumentação sobre a aplicação da tese dos "cinco mais cinco anos" para a contagem do seu prazo para a restituição do indébito. Outrossim, aponta que o Acórdão recorrido não se debruçou sobre outra linha de argumentação esposada pela Recorrente: a de que o seu prazo possui como dies a quo a data da publicação da Resolução do Senado n. 10/2005. É o relatório. Voto Conselheira Relatora Thais De Laurentiis Galkowicz Notificado do julgamento a quo em 26 de dezembro de 2013, conforme AR de 260, a Contribuinte apresentou seu recurso voluntário em 23 de janeiro de 2014. Assim, o recurso é tempestivo, com base no que dispõe o artigo 33 do Decreto 70.235, de 06 de março de 1972, bem como atende as demais condições de admissibilidade, razão pela qual dele tomo conhecimento. Fl. 281DF CARF MF Processo nº 10410.001406/200988 Acórdão n.º 3402004.779 S3C4T2 Fl. 113 5 Conforme se depreende do relato acima, a questão a ser aqui solucionada cingese à ocorrência ou não de decadência do direito do contribuinte à restituição do indébito. Sobre o direito, é válido lembrar que a questão do prazo para a restituição de tributos sujeitos a lançamento por homologação passou por algumas reviravoltas jurisprudenciais. Inicialmente a posição que prevalecia no Superior Tribunal de Justiça (STJ) era a interpretação redacional do artigo 156, VII, do Código Tributário Nacional (CTN), segundo a qual somente com a homologação é que se daria a extinção do crédito tributário e, portanto, o início do computo do prazo para a repetição de indébito do artigo 168. Dessa forma, somandose o prazo de cinco anos para a homologação, com mais cinco anos para a repetição, o contribuinte detinha prazo de dez anos para pleitear a restituição de tributos. Tratavase da conhecida tese dos cinco mais cinco. Contudo, o advento da Lei Complementar 118, de 9 de fevereiro de 2005 (LC 118/2005), afirmando que, para efeito de interpretação do inciso I do artigo 168 do CTN, a extinção do crédito tributário ocorre, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, no momento do pagamento antecipado de (artigo 150, § 1º), o STJ reviu a questão. Em seus novos julgamentos (e.g. Recurso Especial 982.985, Relator: Ministro Luiz Fux. Julgamento: 10 jun. 2008. Órgão Julgador: Primeira Turma. Publicação: DJe, 07 ago. 2008), decidiu que não obstante a LC 118/2005 se autointitular interpretativa, evidentemente inovou a ordem jurídica tributária, alterando por completo o entendimento solidificado pelo STJ sobre o prazo prescricional para repetição de indébito de tributos sujeitos ao lançamento por homologação (tese dos cinco mais cinco). Dessa forma, foi deliberado que, a partir de sua entrada, passaram a existir dois regimes jurídicos distintos: i) os recolhimentos indevidos feitos a partir da sua entrada em vigor (9 de junho de 2005) passaram a ter como prazo para sua restituição cinco anos contados a partir do instante em que é feito o pagamento antecipado; ii) já os pagamentos indevidos que ocorreram anteriormente à vigência da Lei Complementar 118/05 permanecem sob a disciplina que imperava à época, vale dizer, que a contagem do prazo de cinco anos para a restituição só se inicia a partir da homologação, expressa ou tácita, feita pelo fisco. Este último entendimento apresentado pelo STJ, entretanto, foi parcialmente modificado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ao analisar a matéria (RE 566.621/RS, Pleno, Relatora Ministra Ellen Gracie. j. 04.08.2011, julgado sob o rito do artigo 543B, §3º, do CPC), 1 que entendeu como relevante não a data dos pagamento indevidos, mas sim a dada da formulação dos pedidos de restituição, para a contagem do prazo dos contribuintes. 1 Ementa: DIREITO TRIBUTÁRIO – LEI INTERPRETATIVA – APLICAÇÃO RETROATIVA DA LEI COMPLEMENTAR Nº 118/2005 – DESCABIMENTO – VIOLAÇÃO À SEGURANÇA JURÍDICA – NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DA VACACIO LEGIS – APLICAÇÃO DO PRAZO REDUZIDO PARA REPETIÇÃO OU COMPENSAÇÃO DE INDÉBITOS AOS PROCESSOS AJUIZADOS A PARTIR DE 9 DE JUNHO DE 2005. Quando do advento da LC 118/05, estava consolidada a orientação da Primeira Seção do STJ no sentido de que, para os tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo para repetição ou compensação de indébito era de 10 anos contados do seu fato gerador, tendo em conta a aplicação combinada dos arts. 150, § 4º, 156, VII, e 168, I, do CTN. A LC 118/05, embora tenha se autoproclamado interpretativa, implicou inovação normativa, tendo reduzido o prazo de 10 anos contados do fato gerador para 5 anos contados do pagamento indevido. Lei supostamente interpretativa que, em verdade, inova no mundo jurídico deve ser considerada como lei nova. Inocorrência de violação à autonomia e independência dos Poderes, porquanto a lei Fl. 282DF CARF MF 6 Por sua vez, o STJ se curvou ao citado entendimento do Pretório Excelso, passando a julgar os processos sobre a mesma controvérsia aplicando a ratio do RE 566.621, inclusive por meio do rito dos recursos repetitivos. Nesse sentido, destaco a ementa do REsp n. 1.269.570/MG: Ementa CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA (ART. 543C, DO CPC). LEI INTERPRETATIVA. PRAZO DE PRESCRIÇÃO PARA A REPETIÇÃO DE INDÉBITO NOS TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. ART. 3º, DA LC 118/2005. POSICIONAMENTO DO STF. ALTERAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA DO STJ. SUPERADO ENTENDIMENTO FIRMADO ANTERIORMENTE TAMBÉM EM SEDE DE RECURSO REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA. 1. O acórdão proveniente da Corte Especial na AI nos Eresp nº 644.736/PE, Relator o Ministro Teori Albino Zavascki, DJ de 27.08.2007, e o recurso representativo da controvérsia REsp. n. 1.002.932/SP, Primeira Seção, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 25.11.2009, firmaram o entendimento no sentido de que o art. 3º da LC 118/2005 somente pode ter eficácia prospectiva, incidindo apenas sobre situações que venham a ocorrer a partir da sua vigência. Sendo assim, a jurisprudência deste STJ passou a considerar que, relativamente aos pagamentos efetuados a partir de 09.06.05, o prazo para a repetição do indébito é de cinco anos a contar da data do pagamento; e relativamente aos pagamentos anteriores, a prescrição obedece ao regime previsto no sistema anterior. 2. No entanto, o mesmo tema recebeu julgamento pelo STF no RE n. 566.621/RS, Plenário, Rel. Min. Ellen Gracie, julgado em 04.08.2011, onde foi fixado marco para a aplicação do regime novo de prazo prescricional levandose em consideração a data do ajuizamento da ação (e não mais a data do pagamento) em confronto com a data da vigência da lei nova (9.6.2005). expressamente interpretativa também se submete, como qualquer outra, ao controle judicial quanto à sua natureza, validade e aplicação. A aplicação retroativa de novo e reduzido prazo para a repetição ou compensação de indébito tributário estipulado por lei nova, fulminando, de imediato, pretensões deduzidas tempestivamente à luz do prazo então aplicável, bem como a aplicação imediata às pretensões pendentes de ajuizamento quando da publicação da lei, sem resguardo de nenhuma regra de transição, implicam ofensa ao princípio da segurança jurídica em seus conteúdos de proteção da confiança e de garantia do acesso à Justiça. Afastandose as aplicações inconstitucionais e resguardandose, no mais, a eficácia da norma, permitese a aplicação do prazo reduzido relativamente às ações ajuizadas após a vacatio legis, conforme entendimento consolidado por esta Corte no enunciado 445 da Súmula do Tribunal. O prazo de vacatio legis de 120 dias permitiu aos contribuintes não apenas que tomassem ciência do novo prazo, mas também que ajuizassem as ações necessárias à tutela dos seus direitos. Inaplicabilidade do art. 2.028 do Código Civil, pois, não havendo lacuna na LC 118/08, que pretendeu a aplicação do novo prazo na maior extensão possível, descabida sua aplicação por analogia. Além disso, não se trata de lei geral, tampouco impede iniciativa legislativa em contrário. Reconhecida a inconstitucionalidade art. 4º, segunda parte, da LC 118/05, considerandose válida a aplicação do novo prazo de 5 anos tãosomente às ações ajuizadas após o decurso da vacatio legis de 120 dias, ou seja, a partir de 9 de junho de 2005. Aplicação do art. 543B, § 3º, do CPC aos recursos sobrestados. Recurso extraordinário desprovido. Fl. 283DF CARF MF Processo nº 10410.001406/200988 Acórdão n.º 3402004.779 S3C4T2 Fl. 114 7 3. Tendo a jurisprudência deste STJ sido construída em interpretação de princípios constitucionais, urge inclinarse esta Casa ao decidido pela Corte Suprema competente para dar a palavra final em temas de tal jaez, notadamente em havendo julgamento de mérito em repercussão geral (arts. 543A e 543B, do CPC). Desse modo, para as ações ajuizadas a partir de 9.6.2005, aplicase o art. 3º, da Lei Complementar n. 118/2005, contandose o prazo prescricional dos tributos sujeitos a lançamento por homologação em cinco anos a partir do pagamento antecipado de que trata o art. 150, §1º, do CTN. 4. Superado o recurso representativo da controvérsia REsp. n. 1.002.932/SP, Primeira Seção, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 25.11.2009. 5. Recurso especial não provido. Acórdão submetido ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 1269570 / MG, Relator Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, PRIMEIRA SEÇÃO, Data do Julgamento 23/05/2012, Data da Publicação/Fonte, DJe 04/06/2012 RT vol. 924 p. 802.) Pois bem. No presente caso, o contribuinte indicou no Pedido de Restituição que o indébito pleiteado era referente a pagamentos efetuados entre os anos de 1995 a 2000. Todavia, o pedido de restituição da Municipalidade somente foi formalizado em 18/03/2009. Uma vez que o artigo 62, §2º do Regimento Interno do CARF, 2 prescreve a necessidade de reprodução, pelos Conselheiros, das decisões definitivas de mérito proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça na sistemática dos recursos repetitivos, concluise que está de fato decaído o direito da Recorrente. Afinal, o pedido de restituição foi formulado em 18/03/2009, vale dizer, em data posterior à março de 09/06/2005, que segundo a jurisprudência acima destacada, é data para a qual já se utiliza o prazo de cinco anos para a contagem do prazo decadencial. Como não há nenhum pagamento posterior a 18/03/2004, todo o montante requerido por meio do presente processo administrativo está decaído. No que tange à argumentação da Recorrente a respeito da utilização da Resolução do Senado como dies a quo do prazo decadencial de seu direito, melhor sorte não lhe assiste. A Resolução do Senado foi positivada no artigo 52, inciso X da atual Constituição, nos seguintes termos: “compete privativamente ao Senado Federal: […] suspender a execução, no todo ou em parte, de lei declarada inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal.” Tal instrumento está presente no direito brasileiro desde a promulgação da Constituição de 1934. Tratase, paralelamente à “súmula vinculante” e à “repercussão geral”, de forma a dar eficácia ampla às decisões proferidas em grau de recurso com caráter definitivo 2 § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Fl. 284DF CARF MF 8 pelo controle de constitucionalidade incidental (difuso e concreto) do STF. Assim, os efeitos que eram somente inter partes passam a ser erga omnes, depois de editada a resolução do Senado. 3 Nesse sentido, a resolução do Senado constitui meio de reconhecimento do indébito tributário, como decorrência da declaração de inconstitucionalidade da lei que institui o tributo, com efeito erga omnes e, por isso, já foi tida pela jurisprudência, tanto judicial (REsp 553.887/RJ; Agravo Regimental no REsp 267.718/DF; REsp 509.897/DF) como administrativa (Acórdão 10246584, Acórdão 201.78172), como marco inicial para a contagem do prazo de do direito à restituição de indébito decorrente da declaração de inconstitucionalidade de lei, nos moldes do artigo 168 do CTN. Contudo, aqui mais uma vez o entendimento das Corte Superiores e do CARF foi alterado. Com efeito, conforme os EmbDiv no Resp 435.835 e Resp 617.536, o STJ passou a entender que a decisão de inconstitucionalidade não tem o condão de renovar prazos extintivos, haja vista que tal efeito geraria enorme insegurança jurídica, contrariando, inclusive, a lógica da própria existência desses tipos de prazo (decadência e prescrição), bem como a literalidade do artigo 168, inciso I do CTN, que fala da "data da extinção do crédito tributário", a qual é justamente o pagamento do tributo (artigo 156, inciso I) e não a sua declaração de inconstitucionalidade. Vejase: RECURSO ESPECIAL. RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO. TRIBUTO DECLARADO INCONSTITUCIONAL PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PRESCRIÇÃO. CINCO ANOS DO FATO GERADOR MAIS CINCO ANOS DA HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. NÃOAPLICAÇÃO DO ART. 3º DA LC N. 118/2005 ÀS AÇÕES AJUIZADAS ANTERIORMENTE AO INÍCIO DA VIGÊNCIA DA MENCIONADA LEI COMPLEMENTAR. ENTENDIMENTO DA COLENDA PRIMEIRA SEÇÃO. EXPURGOS INFLACIONÁRIOS. TAXA SELIC. INCIDÊNCIA. COMPENSAÇÃO COM TRIBUTOS DIVERSOS SOMENTE APÓS O ADVENTO DA LEI N. 10.637/2002. COMPENSAÇÃO COM PARCELAS VENCIDAS E VINCENDAS. CABIMENTO. No entender deste Relator, nas hipóteses de restituição ou compensação de tributos declarados inconstitucionais pelo Excelso Supremo Tribunal Federal, o termo a quo do prazo prescricional é a data do trânsito em julgado da declaração de inconstitucionalidade, em controle concentrado de constitucionalidade, ou a publicação da Resolução do Senado Federal, caso a declaração de inconstitucionalidade tenhase dado em controle difuso de constitucionalidade (vejase, a esse respeito, o REsp 534.986/SC, Relator p/acórdão este Magistrado, DJ 15.3.2004, entre outros). A egrégia Primeira Seção deste colendo Superior Tribunal de Justiça, porém, na assentada de 24 de março de 2004, houve por bem afastar, por maioria, a tese acima esposada, para 3 Com os novos instrumentos para a expansão dos efeitos da decisão proferida em ações individuais julgada pelo Supremo, atualmente é raro o uso resolução do Senado. Todavia, não foi sempre assim. A Resolução n. 10/2005, citada pela Recorrente, é um exemplo do uso desse instrumento. Fl. 285DF CARF MF Processo nº 10410.001406/200988 Acórdão n.º 3402004.779 S3C4T2 Fl. 115 9 adotar o entendimento segundo o qual, para as hipóteses de devolução de tributos sujeitos à homologação declarados inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal, a prescrição do direito de pleitear a restituição se dá após expirado o prazo de cinco anos, contados do fato gerador, acrescido de mais cinco anos, a partir da homologação tácita (EREsp 435.835/SC, Rel. p/acórdão Min. José Delgado – cf. Informativo de Jurisprudência do STJ 203, de 22 a 26 de março de 2004). Salientese, outrossim, que é inaplicável à espécie a previsão do artigo 3º da Lei Complementar n. 118, de 9 de fevereiro de 2005, uma vez que a douta Seção de Direito Público deste Sodalício, na sessão de 27.4.2005, sedimentou o posicionamento segundo o qual o mencionado dispositivo legal se aplica apenas às ações ajuizadas posteriormente ao prazo de cento e vinte dias (vacatio legis) da publicação da referida Lei Complementar (EREsp 327.043/DF, Rel. Min. João Otávio de Noronha). Dessarte, na hipótese em exame, em que a ação foi ajuizada anteriormente ao início da vigência da LC n. 118/2005, deve sermantido o entendimento da Corte de origem, que fixou o prazo prescricional qüinqüenal a partir da homologação tácita ou expressado lançamento. […] Recurso especial provido em parte, a fim de afastar a compensação do FINSOCIAL com tributos de natureza diversa.” (Recurso Especial 741.272/PE. Relator: Ministro Franciulli Netto. Julgamento: 09 ago. 2005. Órgão Julgador: Segunda Turma. Publicação: DJ, 21 mar. 2006, p. 119). O CARF também passou a proferir decisões segundo as quais “o direito à restituição de tributos pagos a maior ou indevidamente, seja qual for o motivo (inconstitucionalidade de lei tributária, pagamento indevido por erro do sujeito passivo, etc.) extinguese o prazo de cinco anos contados da extinção do crédito tributário pelo pagamento, a teor do artigo 168, I do CTN.” (Acórdão 20401422). Inclusive este Colegiado já decidiu por unanimidade nesse sentido, conforme se depreende da ementa do Acórdão a seguir colacionado: Ementa(s) REPETIÇÃO DE INDÉBITO/COMPENSAÇÃO Período de apuração: 01/03/1994 a 31/10/1995 PIS. PEDIDO DE RECONHECIMENTO DE DIREITO CREDITÓRIO. A decadência do direito de pleitear o reconhecimento de direito creditório, para fins de restituição/compensação, ocorre em cinco anos contados da extinção do crédito pelo pagamento, inclusive, na hipótese de ter sido efetuado com base em lei posteriormente declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal e retirada do mundo jurídico por Resolução do Senado Federal. COMPENSAÇÃO REQUISITOS Fl. 286DF CARF MF 10 Só há que se falar em compensação quando os eventuais créditos do contribuinte são certos quanto à sua existência e líquidos quanto ao seu valor. (Processo 10805.000948/200576, Data da Sessão 03/02/2010, Relator(a) Jorge Lock Freire, Acórdão 3402 00.436) Sobre o acerto do citado entendimento, este já foi anteriormente objeto de minha manifestação, a qual reproduzo a seguir4 O dever de o Fisco restituir tributos inconstitucionais está contido no artigo 165, inciso I do Código Tributário, dentre as espécies de “cobrança ou pagamento espontâneo de tributo indevido”, o que torna imperiosa a utilização da regra estampada no artigo 168 inciso I do CTN para a contagem do referido prazo, haja vista que este último expressamente impõe sua utilização para as hipóteses de indébito previstas no artigo 165, inciso I. A leitura conjunta dos dispositivos em comento esclarece o ponto. (...) Em suma: por se tratar de caso de restituição de tributo inconstitucional, constante do artigo 165, inciso I do CTN, imperiosa se faz a utilização do artigo 168, inciso I, do mesmo Codex para a contagem do prazo de prescrição. Por conseguinte, necessariamente há de se contar a partir do extinção do crédito tributário” os cinco anos estabelecidos como limite antes da ocorrência do fenômeno da prescrição. (...) Dentre as causas extintivas do crédito tributário, o “pagamento” foi o marco escolhido pelo sistema jurídico para delimitar o início do prazo prescricional das ações de repetição de indébito, inclusive aquelas advindas de pagamento de exações inconstitucionais. Dessarte, mais uma vez constatase a decadência in casu, uma vez que a existência de Resolução do Senado sobre a matéria não altera o prazo decadencial do contribuinte requerer administrativamente a restituição do indébito tributário decorrente de declaração de inconstitucionalidade proferida pelo STF. Dispositivo Ex positis, voto no sentido negar provimento ao recurso voluntário. Relatora Thais De Laurentiis Galkowicz 4 LAURENTIIS, Thais de. Restituição de Tributo Inconstitucional. São Paulo: Noeses, 2015, p. 263 a 266. Fl. 287DF CARF MF Processo nº 10410.001406/200988 Acórdão n.º 3402004.779 S3C4T2 Fl. 116 11 Fl. 288DF CARF MF
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Numero do processo: 13768.720076/2012-77
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Dec 15 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2012
SIMPLES NACIONAL TERMO DE INDEFERIMENTO DÉBITOS
Não poderá recolher os impostos e contribuições na forma do Simples Nacional a microempresa ou empresa de pequeno porte que possua débitos com a Fazenda Pública Federal, Estadual ou Municipal.
Numero da decisão: 1001-000.151
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(Assinado Digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, José Roberto Adelino da Silva e Eduardo Morgado Rodrigues.
Nome do relator: LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA
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Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (Assinado Digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, José Roberto Adelino da Silva e Eduardo Morgado Rodrigues. Relatório Tratase de Termo de Indeferimento da Opção pelo Simples Nacional (efl. 07) para o ano calendário 2012, tendose em vista a existência de débitos (de números 395287898, 395287944, 395288002 e 395288010) com a Secretaria da Receita Federal do Brasil RFB, de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 76 8. 72 00 76 /2 01 2- 77 Fl. 57DF CARF MF 2 natureza previdenciária, cuja exigibilidade não estava suspensa, nos termos da Lei Complementar nº 123, de 14/12/2006, art. 17, inciso V. Após tomar ciência do contido do Termo de Indeferimento a empresa apresentou Manifestação de Inconformidade. A decisão de primeira instância (efls. 17/19) julgou a manifestação de inconformidade improcedente, por entender: 5. Verificase que as parcelas com vencimento entre 31/01/2011 e 30/01/2012, conforme fls. 12 e 13, foram recolhidas em 10/02/2012, em data posterior à data limite para regularização de suas dívidas junto ao fisco, que foi no dia 31/01/2012. Cientificada da decisão de primeira instância através de intimação em 03/11/2012 (efl. 38) a Interessada interpôs recurso voluntário, protocolado em 04/12/2012 (efl. 22), em que aduz, em resumo, que as parcelas de 31/01/2011 a 31/01/2012 foram pagas de acordo com as datas de liberação, dentro do prazo limite de recolhimento da parcela: (...) NORTFIBRA IND. E COM. LTDA ME, CNPJ n° 02.048.242/000180 com sede à Rua Manoel Luiz Correia, n° 158, Planalto, 29.906510, Linhares ES, vem através do seu representante legal, Nailson dos Santos Graciotti, inscrito no CPF sob o n° 653.331.28715, não se conformando com o comunicado 93/2012, vem, respeitosamente, no prazo legal, apresentar seu recurso, pelos motivos que se seguem. No item 5 do comunicado citado, foi verificado através do relator que: as parcelas com vencimento entre 31/01/2011 e 30/01/2012 conforme fls. 12 e 13 foram recebidas em 10/02/2012, em data posterior à data limite para regularização de suas dividas junto ao fisco, que foi no dia 31/01/2012. Originário do processo N° 13768.720076/201277. Esta conclusão do item 5 não está de acordo com o acontecido, pois as parcelas de 31/01/2011 a 31/01/2012 foram pagas de acordo com as datas de liberação da parcela, dentro do prazo limite de recolhimento, as mesmas parcelas que neste processo estão sendo afirmadas que foram pagas no dia 10/02/2012 conforme relatório tirado junto a Previdência Social. Afirmo que a primeira parcela referente ao vencimento 31/01/2011 recolhida no seguinte dia: 27/01/2011 antes do período de recolhimento, as outras parcelas foram recolhidas de acordo com a liberação do sistema da Receita Federal, sendo este o motivo desta impugnação venho também contestar o item 6 do mesmo comunicado 93/2012. Após todas as argumentações solicito inclusão da empresa no Simples Nacional, não há como deixar a empresa excluída por não constar nenhuma irregularidade. Voto Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa Relator O recurso é tempestivo, portanto dele conheço. Tratase, nestes autos, exclusivamente do Indeferimento da Opção pelo Simples Nacional (efl. 07) para o ano calendário 2011. Cabe verificar o que dispõe o artigo 17 da Lei nº 123/2006, inciso V e XI, e o art. 7o, § 1ºA, da Resolução CGSN nº 4, de 30 de maio de 2007: “Art. 17. Não poderão recolher os impostos e contribuições na forma do Simples Nacional a microempresa ou a empresa de pequeno porte: (...) V que possua débito com o Instituto Nacional do Seguro Social INSS, ou com as Fazendas Públicas Federal, Estadual Fl. 58DF CARF MF Processo nº 13768.720076/201277 Acórdão n.º 1001000.151 S1C0T1 Fl. 58 3 ou Municipal, cuja exigibilidade não esteja suspensa”;(destaquei). (...) A opção pelo Simples Nacional está regulamentada pela Resolução CGSN nº 4, de 30 de maio de 2007: Art. 7º A opção pelo Simples Nacional darseá por meio da internet, sendo irretratável para todo o anocalendário. (...) § 1ºA Enquanto não vencido o prazo para solicitação da opção o contribuinte poderá: (Incluído pela Resolução CGSN nº 56, de 23 de março de 2009) I regularizar eventuais pendências impeditivas ao ingresso no Simples Nacional, sujeitandose ao indeferimento da opção caso não as regularize até o término desse prazo; (Incluído pela Resolução CGSN nº 56, de 23 de março de 2009) Está comprovado que o contribuinte parcelou os débitos de números 395287898, 395287944, 395288002 e 395288010, com data do deferimento do parcelamento em 27/01/2011, conforme extrato do sistema Dataprev datado de 29/02/2012 (efls. 10/11). O mesmo extrato indica que os parcelamentos estavam ativos naquela data (29/02/2012). É suficiente para a adesão ao Simples Nacional, no ano de 2012, que os débitos da requerente estivessem com a exigibilidade suspensa em 31/01/2012 (artigo 17 da Lei nº 123/2006, inciso V da Resolução CGSN nº 4/2007). Desta forma, concluo que não havia impedimento para a adesão. Mas, não havia regularidade nos pagamentos relativos ao parcelamento citado. Pelos extratos (efls. 10/11) as parcelas de 31/01/2011 a 31/01/2012 teriam sido pagas todas em 10/02/2012, enquanto os comprovantes de pagamento juntados pelo contribuinte indicam pagamentos correspondentes aos vencimentos (efls. 35/55). Entendo que eventual irregularidade das datas de pagamento implicava rescisão do parcelamento, conforme disposto no art. 28 da Portaria Conjunta PGFN/RFB 15/2009. Assim, voto para negar provimento ao Recurso Voluntário. (Assinado Digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Fl. 59DF CARF MF 4 Fl. 60DF CARF MF
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Numero do processo: 18186.001523/2010-98
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Oct 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 28 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Ano-calendário: 2009
DIMOB. MULTA POR ATRASO. EXTINÇÃO DA EMPRESA. PRAZO.
A entrega da Declaração de Informações sobre Atividades Imobiliárias - Dimob, após o prazo regulamentar, enseja a aplicação de multa, nos termos da legislação de regência. No caso de extinção da empresa, o prazo para entrega da Dimob é até o último dia útil do mês subseqüente à ocorrência do evento.
MULTA COM EFEITO DE CONFISCO. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 2
Aplicação da Súmula CARF nº. 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. LEGALIDADE. ATO ADMINISTRATIVO.
Em se tratando de obrigação tributária acessória, a lei estabelece as linhas gerais, cabendo ao ato administrativo especificar conteúdo, forma e periodicidade.
RETROATIVIDADE BENIGNA. REDUÇÃO DA MULTA.
Lei nova que comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo de sua prática aplica-se a ato ou fato não definitivamente julgado. Redução da multa em função da nova redação da legislação.
Numero da decisão: 1001-000.031
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Edgar Bragança Bazhuni - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva.
Nome do relator: EDGAR BRAGANCA BAZHUNI
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DECLARAÇÃO DE INFORMAÇÕES SOBRE ATIVIDADES IMOBILIÁRIAS – DIMOB Recorrente BRACOURT EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Anocalendário: 2009 DIMOB. MULTA POR ATRASO. EXTINÇÃO DA EMPRESA. PRAZO. A entrega da Declaração de Informações sobre Atividades Imobiliárias Dimob, após o prazo regulamentar, enseja a aplicação de multa, nos termos da legislação de regência. No caso de extinção da empresa, o prazo para entrega da Dimob é até o último dia útil do mês subseqüente à ocorrência do evento. MULTA COM EFEITO DE CONFISCO. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 2 Aplicação da Súmula CARF nº. 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. LEGALIDADE. ATO ADMINISTRATIVO. Em se tratando de obrigação tributária acessória, a lei estabelece as linhas gerais, cabendo ao ato administrativo especificar conteúdo, forma e periodicidade. RETROATIVIDADE BENIGNA. REDUÇÃO DA MULTA. Lei nova que comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo de sua prática aplicase a ato ou fato não definitivamente julgado. Redução da multa em função da nova redação da legislação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 18 18 6. 00 15 23 /2 01 0- 98 Fl. 67DF CARF MF Processo nº 18186.001523/201098 Acórdão n.º 1001000.031 S1C0T1 Fl. 68 2 (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pela Recorrente em face de decisão proferida pela 2ª Turma da Delegacia Regional de Julgamento em Campo Grande (MS), mediante o Acórdão nº 0429.992, de 13 de novembro de 2012 (efls. 31/34), objetivando a reforma do referido julgado. Em homenagem à economia processual, adotarei parte do Relatório constante no referido Acórdão de primeira instância, pelo que peço vênia para transcrevêlo: A empresa acima qualificada foi autuada a recolher a multa por atraso na entrega da Declaração de Informações sobre Atividades Imobiliárias – Dimob, ano calendário 2009, cujo prazo de entrega era até 30/12/2009 e foi entregue em 25/02/2010, dois meses de atraso, no valor total de R$ 10.000,00, nos termos do art. 16 da Lei nº 9.779, de 19 de janeiro de 1999 e art. 57 da Medida Provisória n° 2.15835, de 24 de agosto de 2001; conforme Notificação de Lançamento de fls. 13 14. Apresentou impugnação em 29/03/2010 (fls. 0212), por meio do seu representante legal, alegando em síntese, que toda e qualquer obrigação tributária deve ser estabelecida em lei, e aqui a aplicação da multa foi baseado no art. 16 da Lei 9.779, art. 57 da MP 2.15835/2001 e art. 4º da IN/SRF 694/2006, arguindo a legalidade da instituição de obrigação tributária por meio de simples instrução normativa, conforme transcreve e cita a legislação, doutrina e jurisprudência favoráveis à sua tese. Entende, que, se a entrega da DIMOB foi feita no dia 25/02/2010, estava, portanto, dentro do prazo previsto na legislação, e, ainda que tenha encerrado suas atividades em 30/11/2009, a entrega da DIMOB dentro do prazo normal concedido as empresas em atividade poderia ser feita sem qualquer incidência de multa, até 26/02/2010. Não há, portanto, razão alguma para que seja punida por tentar cumprir a norma. Por fim destaca que a cobrança de multa de R$ 5.000,00 por mês de atraso se mostra totalmente abusiva, tomando contornos de verdadeiro confisco, conforme doutrina citada. A DRJ analisou a impugnação apresentada pela contribuinte e considerou procedente o lançamento com a seguinte ementa: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Anocalendário: 2009 Fl. 68DF CARF MF Processo nº 18186.001523/201098 Acórdão n.º 1001000.031 S1C0T1 Fl. 69 3 DIMOB. MULTA POR ATRASO. EXTINÇÃO DA EMPRESA. PRAZO. A entrega da Declaração de Informações sobre Atividades Imobiliárias Dimob, após o prazo regulamentar, enseja a aplicação de multa, nos termos da legislação de regência. No caso de extinção da empresa, o prazo para entrega da Dimob é até o último dia útil do mês subseqüente à ocorrência do evento. Ciente da decisão de primeira instância em 07/03/2016, conforme Aviso de Recebimento à efl. 42, a contribuinte apresentou recurso voluntário em 01/04/2016 (efls. 44/56), conforme Termo de Análise de Solicitação de Juntada à efl. 65. É o Relatório. Voto Conselheiro Edgar Bragança Bazhuni Os argumentos da recorrente, a exemplo do que ocorreu em primeira instância, se baseiam na tempestividade da entrega da DIMOB, na abusividade do valor da multa, com natureza confiscatória, algo vedado pela Constituição Federal e na ilegalidade e inconstitucionalidade da multa imposta, pois a obrigação tributária foi instituída por meio de Instrução Normativa. Em complemento, pede a aplicação do princípio da retroatividade benigna, devido a redução nos valores da multa por lei editada após a data da autuação fiscal e cita o acórdão do CARF nº 1803002.588. Tempestividade da entrega da DIMOB Quanto à tempestividade da entrega da DIMOB, este argumento foi fundamentadamente afastado em sede de primeira instância, pelo que peço vênia para transcrever o excerto, a seguir, do voto condutor do acórdão recorrido, adotandoo desde já como razões de decidir, em cumprimento ao disposto no §1º do art. 50 da Lei nº 9.784/1999: Com relação ao prazo de entrega, não procede a alegação da impugnante de que não há razão da aplicação da penalidade porque mesmo encerrando suas atividades em 30/11/2009 poderia entregar a declaração até o final de fevereiro de 2010. Isto porque, no caso de extinção, fusão, incorporação e cisão total da pessoa jurídica, a declaração de Situação Especial deve ser apresentada até o último dia útil do mês subsequente à ocorrência do evento que, no caso, era 30/12/2009, conforme estabelece o § 2º do art. 1º da mencionada INSRF nº 694/2006. Multa Confiscatória Insurgese também a recorrente contra os valores das multas aplicadas, contra a onerosidade excessiva da multa, que por isto estaria ferindo os princípios da razoabilidade, da finalidade, da proporcionalidade e do não confisco tributário. Por sua ótica, esses montantes teriam efeito confiscatório, afrontando assim princípios constitucionais. Assim reza o inciso IV do art. 150 da Constituição Federal: Fl. 69DF CARF MF Processo nº 18186.001523/201098 Acórdão n.º 1001000.031 S1C0T1 Fl. 70 4 Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: [...] IV utilizar tributo com efeito de confisco; [...] Por pertinente, reproduzo abaixo o artigo 3º da Lei nº 5.172/1966 (CTN) (grifo não consta do original): Art. 3º Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada. Ora, desde que tributo não é sanção de ato ilícito, conforme dispõe o CTN, fica patente a distinção entre tributo e multa, esta, sim, de natureza punitiva. E a vedação constitucional invocada se refere tão somente a tributo. Quanto à multa ora em discussão, inaplicável a limitação constitucional do poder de tributar trazida pela recorrente. E para sepultar de vez qualquer discussão sobre esse ponto, deve ser trazida à colação a Súmula nº. 2 deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, pelo que desnecessário se faz qualquer outro comentário: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. A hipótese colocada, sem dúvida alguma, configura aquela a situação prevista na Súmula acima mencionada, desta forma, diante da especificidade da Súmula CARF nº. 2 e conforme Regimento Interno deste Conselho, que prevê a obrigatória observância das Súmulas CARF pelos conselheiros, não havendo que se falar, portanto, em inconstitucionalidade de lei. Ilegalidade da Multa Imposta Quanto à suposta ilegalidade da multa imposta, transcrevo o excerto, a seguir, do voto condutor do acórdão do CARF nº 1803002.588, citado pela recorrente, adotandoo desde já como razões de decidir, em cumprimento ao disposto no §1º do art. 50 da Lei nº 9.784/1999: No que se refere à possibilidade jurídica de aplicação de penalidade pecuniária por falta de cumprimento de obrigação acessória, temse que essa obrigação é um dever de fazer ou não fazer que decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos, e pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária. Essas obrigações formais de emissão de documentos contábeis e fiscais decorrem do dever de colaboração do sujeito passivo para com a fiscalização tributária no controle da arrecadação dos tributos (art. 113 do Código Tributário Nacional). Ademais, a imunidade tributária não afasta a obrigação do ente imune de cumprir as obrigações acessórias previstas na legislação tributária (art. 150 da Fl. 70DF CARF MF Processo nº 18186.001523/201098 Acórdão n.º 1001000.031 S1C0T1 Fl. 71 5 Constituição Federal e art. 9º do Código Tributário Nacional). O Ministro da Fazenda pode instituir obrigações acessórias relativas a tributos federais, cuja competência foi delegada à Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) (art. 5º do DecretoLei nº 2.124, de 13 de junho de 1984, Portaria MF nº 118, de 28 de junho de 1984 e art. 16 da Lei n° 9.779, de 19 de janeiro de 1999). Cabe esclarecer que o obrigação acessória é desvinculada da obrigação principal no sentido de que a obrigação tributária pode ser principal ou acessória. A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária (art. 113 do Código Tributário Nacional). As obrigações acessórias decorrem diretamente da lei, no interesse da administração tributária. É autônoma e sua observância independe da existência de obrigação principal correlata. Os deveres instrumentais previstos na legislação tributária ostentam caráter autônomo em relação à regra matriz de incidência do tributo, uma vez que vinculam inclusive as pessoas jurídicas que gozem de imunidade ou outro benefício fiscal. (art. 175 e art. 194 do Código Tributário Nacional) No exercício de sua competência regulamentar a RFB pode instituir obrigações acessórias, inclusive, forma, tempo, local e condições para o seu cumprimento, o respectivo responsável, bem como a penalidade aplicável no caso de descumprimento. A dosimetria da pena pecuniária prevista na legislação tributária deve ser observada pela autoridade fiscal, sob pena de responsabilidade funcional (parágrafo primeiro do art. 142 do Código Tributário Nacional). Além disso, os atos do processo administrativo dependem de forma determinada quando a lei expressamente a exigir (art. 22 da Lei nº 9.784, de 29 de dezembro de 1999). A Declaração de Informações sobre Atividades Imobiliárias (DIMOB) foi instituída pela Instrução Normativa SRF nº 304, de 21 de fevereiro de 2003 com o objetivo de coletar dados relativos à comercialização e locação de imóveis. Deve ser apresentada obrigatória pelas pessoas jurídicas e equiparadas (a) que comercializarem imóveis que houverem construído, loteado ou incorporado para esse fim, (b) que intermediarem aquisição, alienação ou aluguel de imóveis, (c) que realizarem sublocação de imóveis e (d) e ainda aquelas que foram constituídas para a construção, administração, locação ou alienação do patrimônio próprio, de seus condôminos ou sócios. (Fundamentação legal: Instrução Normativa SRF nº 304, de 21 de fevereiro de 2003, Instrução Normativa SRF nº 576, de 1º de dezembro de 2005, Instrução Normativa SRF nº 694, de 13 de dezembro de 2006 e Instrução Normativa RFB nº 1.115, de 28 de dezembro de 2010.) A Instrução Normativa SRF nº 694, de 13 de dezembro de 2006, prevê: Art. 1º A Declaração de Informações sobre Atividades Imobiliárias (Dimob) é de apresentação obrigatória para as pessoas jurídicas e equiparadas: I que comercializarem imóveis que houverem construído, loteado ou incorporado para esse fim; Fl. 71DF CARF MF Processo nº 18186.001523/201098 Acórdão n.º 1001000.031 S1C0T1 Fl. 72 6 II que intermediarem aquisição, alienação ou aluguel de imóveis; III que realizarem sublocação de imóveis; IV constituídas para a construção, administração, locação ou alienação do patrimônio próprio, de seus condôminos ou sócios. § 1º As pessoas jurídicas e equiparadas de que trata o inciso I apresentarão as informações relativas a todos os imóveis comercializados, ainda que tenha havido a intermediação de terceiros. § 2º Nos casos de extinção, fusão, incorporação e cisão total da pessoa jurídica, a declaração de Situação Especial deve ser apresentada até o último dia útil do mês subseqüente à ocorrência do evento. [...] Art. 3º A Dimob será entregue, até o último dia útil do mês de fevereiro do ano subseqüente ao que se refiram as suas informações, por intermédio do programa Receitanet disponível na Internet, no endereço < http://www.receita.fazenda.gov.br >. Parágrafo único. O Recibo de Entrega será gravado no disquete ou no disco rígido, após a transmissão. Art. 4º A pessoa jurídica que deixar de apresentar a Dimob no prazo estabelecido, ou que apresentála com incorreções ou omissões, sujeitarseá às seguintes multas: I R$ 5.000,00 (cinco mil reais) por mêscalendário, no caso de falta de entrega da Declaração ou de entrega após o prazo; II cinco por cento, não inferior a R$ 100,00 (cem reais), do valor das transações comerciais, no caso de informação omitida, inexata ou incompleta. Parágrafo único. A multa a que se refere o inciso I deste artigo tem, por termo inicial, o primeiro dia subseqüente ao fixado para a entrega da declaração e, por termo final, o dia da apresentação da Dimob. A Instrução Normativa RFB nº 1.115, de 28 de dezembro de 2010, determina: Art. 1º A Declaração de Informações sobre Atividades Imobiliárias (Dimob) é de apresentação obrigatória para as pessoas jurídicas e equiparadas: I que comercializarem imóveis que houverem construído, loteado ou incorporado para esse fim; II que intermediarem aquisição, alienação ou aluguel de imóveis; III que realizarem sublocação de imóveis; Fl. 72DF CARF MF Processo nº 18186.001523/201098 Acórdão n.º 1001000.031 S1C0T1 Fl. 73 7 IV que se constituírem para construção, administração, locação ou alienação de patrimônio próprio, de seus condôminos ou de seus sócios. § 1º As pessoas jurídicas e equiparadas de que trata o inciso I apresentarão as informações relativas a todos os imóveis comercializados, ainda que tenha havido a intermediação de terceiros. § 2º Nos casos de extinção, fusão, incorporação e cisão total da pessoa jurídica, a declaração de Situação Especial deve ser apresentada até o último dia útil do mês subsequente à ocorrência do evento. [...] Art. 3º A Dimob será entregue, até o último dia útil do mês de fevereiro do ano subsequente ao que se refiram as suas informações, por intermédio do programa Receitanet disponível na Internet, no endereço http://www.receita.fazenda.gov.br. § 1º Para a apresentação da Dimob referente aos fatos geradores ocorridos a partir do anocalendário 2010, é obrigatória a assinatura digital da declaração mediante utilização de certificado digital, exceto para as pessoas jurídicas optantes pelo Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Simples Nacional). § 2º O recibo de entrega será gravado no disquete ou no disco rígido, após a transmissão. Art. 4º A pessoa jurídica que deixar de apresentar a Dimob no prazo estabelecido, ou que apresentála com incorreções ou omissões, sujeitarseá às seguintes multas: I R$ 5.000,00 (cinco mil reais) por mêscalendário, no caso de falta de entrega da Declaração ou de entrega após o prazo; II 5% (cinco por cento), não inferior a R$100,00 (cem reais), do valor das transações comerciais, no caso de informação omitida, inexata ou incompleta. Parágrafo único. A multa a que se refere o inciso I do caput tem, por termo inicial, o primeiro dia subsequente ao fixado para a entrega da declaração e, por termo final, o dia da apresentação da Dimob ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração. Sobre a matéria, a Medida Provisória nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001, até 27.12.2012, com alterações introduzidas pela Lei nº 12.766, de 27 de dezembro de 2012 e pela Lei nº 12.873, de 24 de outubro de 2013, assim determina: Art. 57. O sujeito passivo que deixar de cumprir as obrigações acessórias exigidas nos termos do art. 16 da Lei no 9.779, de 19 de janeiro de 1999, ou que as cumprir com incorreções ou omissões será intimado para cumprilas ou para prestar esclarecimentos relativos a elas nos prazos estipulados pela Fl. 73DF CARF MF Processo nº 18186.001523/201098 Acórdão n.º 1001000.031 S1C0T1 Fl. 74 8 Secretaria da Receita Federal do Brasil e sujeitarseá às seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 12.873, de 2013) I por apresentação extemporânea: (Redação dada pela Lei nº 12.766, de 2012) a) R$500,00 (quinhentos reais) por mêscalendário ou fração, relativamente às pessoas jurídicas que estiverem em início de atividade ou que sejam imunes ou isentas ou que, na última declaração apresentada, tenham apurado lucro presumido ou pelo Simples Nacional; (Redação dada pela Lei nº 12.873, de 2013) b) R$1.500,00 (mil e quinhentos reais) por mêscalendário ou fração, relativamente às demais pessoas jurídicas; (Redação dada pela Lei nº 12.873, de 2013) c) R$100,00 (cem reais) por mêscalendário ou fração, relativamente às pessoas físicas; (Incluída pela Lei nº 12.873, de 2013) II por não cumprimento à intimação da Secretaria da Receita Federal do Brasil para cumprir obrigação acessória ou para prestar esclarecimentos nos prazos estipulados pela autoridade fiscal: R$500,00 (quinhentos reais) por mêscalendário; (Redação dada pela Lei nº 12.873, de 2013) III por cumprimento de obrigação acessória com informações inexatas, incompletas ou omitidas: (Redação dada pela Lei nº 12.873, de 2013) a) 3% (três por cento), não inferior a R$ 100,00 (cem reais), do valor das transações comerciais ou das operações financeiras, próprias da pessoa jurídica ou de terceiros em relação aos quais seja responsável tributário, no caso de informação omitida, inexata ou incompleta; (Incluída pela Lei nº 12.873, de 2013) b) 1,5% (um inteiro e cinco décimos por cento), não inferior a R$50,00 (cinquenta reais), do valor das transações comerciais ou das operações financeiras, próprias da pessoa física ou de terceiros em relação aos quais seja responsável tributário, no caso de informação omitida, inexata ou incompleta. (Incluída pela Lei nº 12.873, de 2013) § 1º Na hipótese de pessoa jurídica optante pelo Simples Nacional, os valores e o percentual referidos nos incisos II e III deste artigo serão reduzidos em 70% (setenta por cento). (Incluído pela Lei nº 12.766, de 2012) § 2º Para fins do disposto no inciso I, em relação às pessoas jurídicas que, na última declaração, tenham utilizado mais de uma forma de apuração do lucro, ou tenham realizado algum evento de reorganização societária, deverá ser aplicada a multa de que trata a alínea b do inciso I do caput. (Incluído pela Lei nº 12.766, de 2012) Fl. 74DF CARF MF Processo nº 18186.001523/201098 Acórdão n.º 1001000.031 S1C0T1 Fl. 75 9 § 3º A multa prevista no inciso I do caput será reduzida à metade, quando a obrigação acessória for cumprida antes de qualquer procedimento de ofício. (Redação dada pela Lei nº 12.873, de 2013) § 4º Na hipótese de pessoa jurídica de direito público, serão aplicadas as multas previstas na alínea a do inciso I, no inciso II e na alínea b do inciso III. (Incluído pela Lei nº 12.873, de 2013) Temse que nos estritos termos legais o procedimento fiscal está correto, conforme o princípio da legalidade a que o agente público está vinculado (art. 37 da Constituição Federal, art. 116 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, art. 2º da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999 e art. 26A do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). A proposição afirmada pela defendente, desse modo, não tem cabimento. Retroatividade benigna Quanto à pleiteada retroatividade benigna, transcrevo o excerto, a seguir, do voto condutor do acórdão do CARF nº 1803002.588, citado pela recorrente, adotandoo desde já como razões de decidir, em cumprimento ao disposto no §1º do art. 50 da Lei nº 9.784/1999: Em matéria de penalidade, a legislação tributária adota o princípio da retroatividade benigna, ou seja, a lei aplicase a ato ou fato pretérito tratandose de ato não definitivamente julgado quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática (art. 106 do Código Tributário Nacional). Ademais, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato (art. 136 do Código Tributário Nacional). Esse é o entendimento contido no Parecer Normativo Cosit nº 3, de 10 de junho de 2013 (Disponível em: <http://www.receita.fazenda.gov.br/Legislacao/ PareceresNormativos/2013/parecer032013.htm>. Acesso em 18 out. 2017), que explicita: 6.1. Em relação à Escrituração Contábil Digital (ECD), à Escrituração Fiscal Digital (EFD), ao Livro Eletrônico de Escrituração e Apuração de Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) (eLalur), à declaração de Informações sobre Atividades Imobiliárias (Dimob), à Declaração de Benefícios Fiscais (DBF) e à Declaração de Rendimentos Pagos a Consultores por Organismos Internacionais (Derc), as multas constantes, respectivamente, do art. 10 da Instrução Normativa (IN) RFB nº 787, de 2007, do art. 7º da IN RFB nº 1.052, de 2010, do art. 7º da IN RFB nº 989, de 2009, do art. 4º da IN RFB nº 1.115, de 2010, do art. 5º da IN RFB nº 1.307, de 2012, do art. 5º da IN RFB nº 1.114, de 2010, e do art. 6º da IN RFB nº 985, de 2009, deixaram de ter base legal, motivo pelo qual não podem mais ser cobradas. A sanção pelo descumprimento dessas condutas, entretanto, se amolda ao contido na nova redação do art. 57 da MP nº 2.15835, de 2001.[...] 6.1.3. Os dispositivos das IN devem ser alterados para conterem a sua nova base legal. Fl. 75DF CARF MF Processo nº 18186.001523/201098 Acórdão n.º 1001000.031 S1C0T1 Fl. 76 10 6.1.4. Nas multas anteriormente lançadas que, no caso concreto, sejam mais gravosas que a nova multa, a lei nova mais benéfica deve retroagir, tratandose de ato não definitivamente julgado, conforme art. 106, inciso II, alíneas “a” e “c”, do CTN. [...] (iv) Como ficam as multas envolvendo o Simples? [...] 7.9. Para as pessoas jurídicas inscritas no Simples, a multa do art. 57, incisos II e III (o aspecto quantitativo [valor] do inciso I torna a sua aplicação impossível a elas) está vigente para outras situações que não se tratem de multa por atraso na entrega da declaração (Maed), principalmente quando em procedimento de fiscalização feita pela RFB (nesse caso pode ser feita por lei ordinária por se tratar de atividade federal de competência da União, e não nacional), com a redução constante do § 1º. (grifos acrescentados) Desta forma, por força do disposto no artigo 106, inciso II, letra “c”, do Código Tributário NacionalCTN, como a interessada apresentou, de forma espontânea, a Declaração de Informações sobre Atividades Imobiliárias – Dimob, do anocalendário 2009, com dois meses de atraso, deve a multa objeto do presente processo ser ajustada para o montante de R$ 3.000,00, previsto na alínea “b”, do inciso I, do art. 57 da Medida Provisória 2.15835/ 2001, com a redação dada pela Lei nº 12.766/2012, e com a redução prevista no parágrafo 3º do mesmo artigo, resultando no montante de R$ 1.500,00. Posto isto e tudo mais que consta dos autos, VOTO pela procedência parcial da impugnação, para manter em parte o crédito tributário de multa por atraso na entrega do FCONT, ajustandoa para o valor de R$ 1.500,00. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni, Relator Fl. 76DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.720304/2015-18
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 17 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Nov 20 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010, 2011, 2012, 2013
PRODUÇÃO DE PROVAS. PERÍCIA.
No âmbito do Processo Administrativo Fiscal, as provas documentais devem ser apresentadas na defesa, salvo quando comprovado fato superveniente. A realização de perícia pode ser determinada quando imprescindível à solução da lide. Trata-se de uma faculdade da autoridade julgadora em prol de esclarecimentos que entender necessários.
NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. INOCORRÊNCIA.
Não ocorre a nulidade do auto de infração quando forem observadas as disposições do artigo 142 do Código Tributário Nacional e os requisitos previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal.
CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA.
Não se configura cerceamento do direito de defesa a formulação de cobrança com base em omissão de receita decorrente de operação simulada, notadamente quando o contribuinte demonstra conhecer a imputação e o direito ao contraditório se encontra plenamente assegurado.
ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. ESFERA ADMINISTRATIVA. COMPETÊNCIA.
Incabível a arguição de argumentos de inconstitucionalidade na esfera administrativa, por transbordar os limites de competência deste Conselho (Súmula CARF nº 2).
CONTRATOS DE AFRETAMENTO. SIMULAÇÃO. INTERPOSIÇÃO DE OFFSHORE FRETADORAS. OMISSÃO DE RECEITAS.
A comprovação de que o contribuinte interpôs pessoas jurídicas (Fretadoras Offshore) de forma fictícia caracteriza simulação, razão pela qual a fiscalização é competente para exigir os tributos incidentes sobre as receitas omitidas pelo verdadeiro titular.
REPRESENTAÇÃO FISCAIS PARA FINS PENAIS.
De acordo com a Súmula CARF nº 28, o CARF não é competente para se pronunciar sobre controvérsias referentes a Processo Administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. SIMULAÇÃO FRAUDULENTA. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA.
Caracterizada que as partes conscientemente se valeram de estrutura simulada identificada pela interposição de Offshore Fretadoras, cabível a qualificação da multa de ofício incidente sobre a tributação da receita omitida.
MULTA AGRAVADA. EMBARAÇO À FISCALIZAÇÃO. NÃO CABIMENTO. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO AO FISCO.
A aplicação do agravamento da multa nos termos do artigo 44, § 2º, da Lei 9.430/96 deve ocorrer apenas quando a falta de cumprimento das intimações pelo sujeito passivo impossibilite, total ou parcialmente, o trabalho fiscal, o que não restou configurado.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. INTERESSE COMUM. EXCESSO DE PODERES DE SÓCIOS E ADMINISTRADORES. ARTIGOS 124, I E 135, III DO CTN.
Correta a imputação de responsabilidade aos sócios e administradores que, conscientemente, utilizam uma estrutura simulada mediante interposição de pessoas jurídicas Fretadoras domiciliadas em regime de tributação privilegiada (Paraíso Fiscal).
Ademais, uma vez evidenciada a confusão patrimonial, legítima a responsabilização com base no interesse comum previsto no artigo 124, I, do CTN.
IRPJ. REFLEXOS.
O decidido quanto ao IRPJ deve ser aplicado à tributação reflexa (CSLL, PIS e COFINS) decorrente dos mesmos elementos e fatos.
Numero da decisão: 1201-001.904
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento aos Recursos Voluntários, para reduzir a multa de ofício de 225% para 150%. Vencidos os Conselheiros Eva Maria Lós, José Carlos de Assis Guimarães e Roberto Caparroz de Almeida, que lhes negavam provimento.
(assinado digitalmente)
Roberto Caparroz de Almeida - Presidente.
(assinado digitalmente)
Luis Henrique Marotti Toselli - Relator.
EDITADO EM: 13/11/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Eva Maria Los, Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Jose Carlos de Assis Guimarães e Eduardo Morgado Rodrigues.
Nome do relator: LUIS HENRIQUE MAROTTI TOSELLI
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PERÍCIA. No âmbito do Processo Administrativo Fiscal, as provas documentais devem ser apresentadas na defesa, salvo quando comprovado fato superveniente. A realização de perícia pode ser determinada quando imprescindível à solução da lide. Tratase de uma faculdade da autoridade julgadora em prol de esclarecimentos que entender necessários. NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. INOCORRÊNCIA. Não ocorre a nulidade do auto de infração quando forem observadas as disposições do artigo 142 do Código Tributário Nacional e os requisitos previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não se configura cerceamento do direito de defesa a formulação de cobrança com base em omissão de receita decorrente de operação simulada, notadamente quando o contribuinte demonstra conhecer a imputação e o direito ao contraditório se encontra plenamente assegurado. ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. ESFERA ADMINISTRATIVA. COMPETÊNCIA. Incabível a arguição de argumentos de inconstitucionalidade na esfera administrativa, por transbordar os limites de competência deste Conselho (Súmula CARF nº 2). CONTRATOS DE AFRETAMENTO. SIMULAÇÃO. INTERPOSIÇÃO DE OFFSHORE FRETADORAS. OMISSÃO DE RECEITAS. A comprovação de que o contribuinte interpôs pessoas jurídicas (Fretadoras Offshore) de forma fictícia caracteriza simulação, razão pela qual a AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 72 03 04 /2 01 5- 18 Fl. 4907DF CARF MF 2 fiscalização é competente para exigir os tributos incidentes sobre as receitas omitidas pelo verdadeiro titular. REPRESENTAÇÃO FISCAIS PARA FINS PENAIS. De acordo com a Súmula CARF nº 28, o CARF não é competente para se pronunciar sobre controvérsias referentes a Processo Administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. SIMULAÇÃO FRAUDULENTA. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. Caracterizada que as partes conscientemente se valeram de estrutura simulada identificada pela interposição de Offshore Fretadoras, cabível a qualificação da multa de ofício incidente sobre a tributação da receita omitida. MULTA AGRAVADA. EMBARAÇO À FISCALIZAÇÃO. NÃO CABIMENTO. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO AO FISCO. A aplicação do agravamento da multa nos termos do artigo 44, § 2º, da Lei 9.430/96 deve ocorrer apenas quando a falta de cumprimento das intimações pelo sujeito passivo impossibilite, total ou parcialmente, o trabalho fiscal, o que não restou configurado. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. INTERESSE COMUM. EXCESSO DE PODERES DE SÓCIOS E ADMINISTRADORES. ARTIGOS 124, I E 135, III DO CTN. Correta a imputação de responsabilidade aos sócios e administradores que, conscientemente, utilizam uma estrutura simulada mediante interposição de pessoas jurídicas Fretadoras domiciliadas em regime de tributação privilegiada (Paraíso Fiscal). Ademais, uma vez evidenciada a confusão patrimonial, legítima a responsabilização com base no interesse comum previsto no artigo 124, I, do CTN. IRPJ. REFLEXOS. O decidido quanto ao IRPJ deve ser aplicado à tributação reflexa (CSLL, PIS e COFINS) decorrente dos mesmos elementos e fatos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento aos Recursos Voluntários, para reduzir a multa de ofício de 225% para 150%. Vencidos os Conselheiros Eva Maria Lós, José Carlos de Assis Guimarães e Roberto Caparroz de Almeida, que lhes negavam provimento. (assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida Presidente. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Relator. EDITADO EM: 13/11/2017 Fl. 4908DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 3 3 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Eva Maria Los, Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Jose Carlos de Assis Guimarães e Eduardo Morgado Rodrigues. Relatório Tratase de processo administrativo decorrente de Autos de Infração que exigem IRPJ e Reflexos (fls. 2/119), acrescidos de juros e multa qualificada e agravada (225%), totalizando, em maio de 2015, o montante de R$ 3.000.187.365,98. Esse valor sofreu alterações em face de Auto de Infração complementar, lavrado por ocasião de realização de diligência fiscal. Foram, ainda, lavrados termos de sujeição passiva (fls. 121/559) em face das seguintes pessoas: Milton Taufic Schahin, Salim Taufic Schahin, Carlos Eduardo Taufic Schahin, Fernando Schahin, Kenji Otsuki, Schahin Holding S/A e S2 Participações Ltda. Por bem resumir a matéria em litígio, reproduzo o relato constante da decisão de primeira instância: I LINHAS GERAIS [...] Os autos de infração sob análise são um desdobramento da autuação formalizada junto ao processo 19515.721387/201473, que teve por objeto fatos geradores havidos no anocalendário de 2009. Junto aos presentes autos, temse a exigência fiscal relativa a fatos geradores da mesma espécie, porém pertinentes aos anoscalendário de 2010 a 2013. [...] Com vistas a organizar o enorme contingente de elementos de prova vinculados a cada processo matriz, a fiscalização optou for formalizar processos administrativos autônomos contendo as intimações, constatações, verificações da fiscalização e respostas da contribuinte. Assim, os processos administrativos vinculados ao procedimento fiscal apresentamse organizados da seguinte forma: Processo 19515.721387/201473 Processo 19515.721167/201440 Processo inaugurado com o Termo de Início Fiscal de n° 08.1.90.002014051445, de 01/12/2014. Objeto: Lançamento de ofício de IRPJ e reflexos relativo aos fatos geradores havidos no ano calendário de 2009 Processo inaugurado com a diligência fiscal 08.1.90.002012051445, de 23/11/2012, e em que foram concentrados os elementos de prova relativos ao processo matriz 19515.721387/201473. Processo 19515.720304/201518 (presente processo) Processo 19515.720018/201544 Processo formalizado como desdobramento da fiscalização inaugurada em 01/12/2014, nos autos do processo 19515.721387/201473. Processo em que foram concentrados os elementos de prova relativos ao processo matriz 19515.720304/201518. Fl. 4909DF CARF MF 4 Objeto: Lançamento de ofício de IRPJ e reflexos relativo aos fatos geradores havidos nos anos calendário 2010 a 2013 Em que pese o termo de início de fiscalização (fls. 339/341 do processo 19515.721387/201473) ter sido lavrado em 01/12/2014, a autuação decorreu de ação fiscal iniciada em data pretérita 23/11/2012 , por meio da diligência fiscal de n° 08.1.90.002012051445, realizada no curso de procedimento de auditoria inaugurado junto ao processo 19515.721167/2014 40. Merece destaque o fato de que o processo 19515.720304/2015 18 contém 2.236 folhas e o processo 19515.720018/201544 contém 72.491 folhas. Cumpre registrar que, em 17/04/2015, foi protocolizado na 2a Vara de Falências e Recuperação Judicial da Comarca da capital do estado de São Paulo, petição inicial com o pedido de recuperação judicial da Schahin Engenharia S/A, conjuntamente com as diversas pessoas jurídicas offshore referidas no relatório fiscal. Esse fato ocorreu após a lavratura dos autos de infração relativos ao processo 19515.721387/201473, mas antes da lavratura dos autos de infração que são objeto da presente lide. II DA AUTUAÇÃO A ação fiscal teve por escopo a análise dos contratos apresentados à fiscalização no curso de diligência realizada junto às pessoas jurídicas SCHAHIN ENGENHARIA S/A e SCHAHIN PETRÓLEO E GÁS S/A, bem como as respectivas gênese e execução dessas avenças. Tratamse de contratos coligados de "afretamento"1 e de "prestação de serviços" ou "operação"2 de unidades de exploração e produção de petróleo, realizados ao abrigo do procedimento licitatório simplificado de que trata o Decreto n° 2.745/1998, capitaneados pela pessoa jurídica Petróleo Brasileiro S/A (Petrobrás), conforme quadro apresentado à fl. 119 do relatório fiscal, que reproduzo a seguir: 1 Conforme referido junto ao título IV do relatório fiscal, AFRETAMENTO ou FRETAMENTO é o contrato por meio do qual o FRETADOR cede ao AFRETADOR, por meio de certo período, direitos sobre o emprego da embarcação, podendo transferir ou não a sua posse. A fiscalização evidencia que os termos FRETAMENTO E AFRETAMENTO foram aplicados indistintamente no relatório fiscal. Da mesma maneira, as contratadas estrangeiras estão referidas no relatório fiscal indistintamente como AFRETADORAS OFFSHORE ou FRETADORAS OFFSHORE. 2 Os contratos bipartidos que foram objeto da ação fiscal são denominados “de afretamento” e “de prestação de serviços”, como se vê por exemplo às fls. 1.513 e 2.176 do processo de provas, respectivamente. No relatório de fiscalização, o contrato de “prestação de serviços” é também referido por contrato “de operação”. No presente voto, as duas expressões serão utilizadas indistintamente. Fl. 4910DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 4 5 Em face da aproximação do lapso decadencial, a fiscalização promoveu junto ao processo 19515.721387/201473 a constituição do crédito tributário tãosomente em relação aos fatos geradores atinentes ao anocalendário de 2009. Isso corresponde, no âmbito da fiscalização, aos fatos vinculados aos contratos de 2070.0031358.07.2 (fl. 5351 do processo 19515.721167/201440) e 187.2.122.018 (fl. 957 do processo 19515.721167/201440) pertinentes à unidade autoelevatória NORTH STAR I e ao naviosonda SC LANCER, respectivamente. O raciocínio empreendido pela autoridade fazendária para entender caracterizada a hipótese de incidência que repercutiu nos lançamentos de ofício relativos aos fatos havidos no ano de 2009 levou em consideração a análise dos fatos que circunscreveram todos os contratos relacionados na tabela acima. Assim, é possível afirmar que as premissas adotadas pela fiscalização para a constituição do crédito tributário em relação aos fatos geradores havidos de 2010 a 2013, junto aos presentes autos, são rigorosamente as mesmas que orientaram o lançamento havido no processo precedente, de 19515.721387/201473. O cenário em que inseridos esses contratos, em apertada síntese, é o seguinte: uma empresa nacional (no caso concreto, a Petrobras) contrata, por meio de procedimento licitatório simplificado, o afretamento de unidade operacional (NORTH STAR I, SC LANCER, SS PANTANAL e outras) a uma empresa residente no exterior (MS DRILLING LLC, TURASORIA S/A LLC, SORATU DRILLING LLC e outras) e, simultaneamente, contrata a prestação de serviços de operação dessa mesma unidade a empresa brasileira (Schahin Engenharia S/A). Fl. 4911DF CARF MF 6 Sob o aspecto formal, esses contratos são independentes, de acordo com a figura juntada aos autos pela fiscalização à fl. 52 do relatório fiscal, que reproduzo a seguir: A alocação do preço global dos dois contratos é realizada na ordem de 90% para a atividade de "afretamento" e 10% para a atividade de "prestação de serviços". Tal diretriz é fixada pela Petrobras, já na formalização do edital de contratação. De vez que as empresas fretadoras são domiciliadas no exterior (no caso específico dos autos, majoritariamente no estado americano de Delaware 3), não houve tributação a título de IRPJ e reflexos quanto às receitas vinculadas à atividade de afretamento, que representaram a maior parte dos pagamentos realizados no contexto dos contratos analisados. Tampouco houve retenção de imposto de renda na fonte quanto a esses pagamentos, em face do disposto no art. 691, I, do RIR/99, que atribui alíquota zero em relação aos rendimentos derivados do afretamento de embarcações marítimas. Segundo a fiscalização, a estrutura bipartida adotada no caso concreto é artificial, de vez que a execução material de todo o projeto em todos os contratos analisados no curso da auditoria foi sempre levada a efeito pela Schahin Engenharia S/A (SCHAHIN), inexistindo atuação efetiva por parte das fretadoras offshore. Além da exigência fiscal dos tributos decorrentes da caracterização de omissão de receitas, a fiscalização entendeu caracterizada a hipótese (a) de aplicação de multa qualificada, de que trata o art. 44, I e §1° da Lei n° 9.430/1996, face à ocorrência de sonegação, fraude e conluio, e (b) de multa agravada, de que trata o art. 44, I e §2° da Lei n° 9.430/1996, em face da ausência de apresentação, pela fiscalizada, dos atos constitutivos, documentos comprobatórios da designação de administradores e procurações a representantes legais das 3 As fretadoras AIROSARU, MS DRILLING LLC, SORATU DRILLING LLC, BAERFIELD DRILLING LLC, TURASORIA S/A LLC e DLEIF DRILLING LLC foram constituídas sob a forma de LLC (Limited Liability Company) no estado de Delaware, situado na costa leste dos Estados Unidos. A partir da publicação da IN RFB n° 1.037/2010 (ver art. 2o, VII), havida em 07/06/2010, o regime aplicável a LLCs situadas nos EUA restou associado ao conceito de regime fiscal privilegiado. Fl. 4912DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 5 7 fretadoras offshore, bem como de outros documentos e esclarecimentos requeridos por meio de intimações. A fiscalização entendeu, ainda, que as pessoas físicas MILTON TAUFIC SCHAHIN, SALIM TAUFIC SCHAHIN, KENJI OTSUKI, CARLOS EDUARDO SCHAHIN e FERNANDO SCHAHIN praticaram atos em infração à lei, configurando a hipótese de responsabilização solidária de que trata o art. 135 do CTN, e que as pessoas jurídicas S2 PARTICIPAÇÕES LTDA e SCHAHIN HOLDING mantinham interesse comum na situação que constitui o fato gerador da obrigação principal, de maneira que também foram arrolados como responsáveis, forte no art. 124, I, do CTN. A fiscalização apresentou extensa argumentação, lastreada em amplo manancial probatório, na defesa da tese de simulação. O RF, como referido acima, é composto por 997 páginas, com enfrentamento detalhado da matéria de fato. À vista do índice do RF, é possível distinguir que as razões da autoridade fazendária estão organizadas em dez capítulos centrais (consistindo o décimo primeiro capítulo em resumo dos anteriores), conforme discriminado a seguir. [...] Capítulo 1 do Relatório fiscal Contratos Coligados O capítulo 1 tem por objeto a análise, sob o aspecto formal, dos contratos celebrados entre (i) Petrobras e fretadoras offshore e (ii) Petrobras e operadora SCHAHIN, que, segundo a fiscalização, indicam confusão entre as partes, sócios, domicílio das fretadoras, objeto, obrigações e responsabilidades, como se vê nos excertos seguintes: "(...) todos os contratos apresentados apresentam uma característica em comum, qual seja um padrão de formatação, um modelo que se repete a todos os casos, seja em afretamentos, seja em operação". "Na qualificação das FRETADORAS, uma característica marcante é a presença de uma pessoa jurídica FRETADORA sempre sediada em zona de tributação favorecida". "chama a atenção o fato de que praticamente todas as pessoas jurídicas sediadas no exterior (FRETADORAS) possuírem o mesmo domicilio contratual e legal (...): Corporation Trust Center, 1209, Orange Street, Wilmington, Delaware, 19801, USA". "Também os representantes legais das FRETADORAS são na maioria das vezes as mesmas pessoas: Milton Taufic Schahin e Salim Taufic Schahin". "(...) eventualmente os representantes legais da FRETADORA são prepostos dos sócios da SCHAHIN ou da SCHAHIN". Ou seja: "os representantes legais das FRETADORAS que firmam tais contratos são rigorosamente os mesmos sócios administradores e representantes legais das Fl. 4913DF CARF MF 8 pessoas jurídicas SCHAHIN ENGENHARIA S.A. e SCHAHIN PETRÓLEO E GÁS S.A, pertencentes ao grupo SCHAHIN (OPERADORES)". "há a cláusula de solidariedade através da qual o OPERADOR se solidariza com o AFRETADOR nos contratos desses últimos com a PETROBRAS e, correspondentemente, o FRETADOR se solidariza com o OPERADOR nos contratos desses últimos, conforme amostragem. "Todos os solidários (...) são responsáveis perante a PETROBRAS, pelo todo, independente de ordem de preferência". "(...) a formalidade contratual está totalmente condizente com a alegação da fiscalização de que as FRETADORAS "OFFSHORE" são INOPERANTES em todos os sentidos. O centro emanador de decisões é a SEDE da SCHAHIN EM SÃO PAULO que, inclusive, efetiva todos os atos formais e materiais na consecução do PROJETO SCHAHIN PETROBRAS FRETADORAS 'OFFSHORE'. Tal circunstância é formalmente reconhecida pela contribuinte junto à petição inicial da recuperação judicial formalizada em 17/04/2015, "NA QUAL A SCHAHIN RECONHECE A INOPERABILIDADE EM TODOS OS SENTIDOS DAS FRETADORAS "OFFSHORE". O CENTRO EMANADOR DE DECISÕES É A SEDE DA SCHAHIN EM SÃO PAULO". "Chama a atenção a total desproporcionalidade em desfavor da OPERADORA SCHAHIN, já que as FRETADORAS OFFSHORE (...) não possuem patrimônio a responder contratualmente". "No caso das FRETADORAS, a garantia nunca se dá sobre patrimônio algum (já que elas não detêm patrimônio), mas sempre se resume à cessão condicionada de contratos de AFRETAMENTO, cessão fiduciária destes e conta bancária de recebíveis dos referidos contratos vinculada em poder de agentes administrativos representantes dos credores". "Naturalmente, em caso de inadimplemento contratual, a PETROBRAS acionaria a parte solidária SCHAHIN para reivindicação da pretensão ressarcitória e indenizatória ou da própria execução contratual". "(...) a SCHAHIN é a contratante originária do seguro global das embarcações/plataformas (FRETADORAS inertes como de costume) para posteriores endossos às FRETADORAS OFFSHORE no que se refere ao afretamento. Tal cronologia é incomum, já que as FRETADORAS são as responsáveis por colocar a embarcação/plataforma em posição e em condições de operação (SCHAHIN), ou seja, as FRETADORAS deveriam contratar o seguro originariamente para posterior endosso da parte que cabe à SCHAHIN correspondente ao rateio para a fase de OPERAÇÃO". "(...) a questão da formalidade dos documentos comprobatórios do adimplemento contratual como faturas, notas fiscais, pagamentos e transferências também contém características que denunciam uma unidade administrativa concentrada na figura Fl. 4914DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 6 9 da SCHAHIN ENGENHARIA S.A. em detrimento das FRETADORAS OFFSHORE". "No caso em destaque, a PETROBRAS apresentou as FATURAS emitidas, em tese, pelas FRETADORAS OFFSHORE em contrapartida dos pagamentos realizados pelo CONTRATO DE AFRETAMENTO. Como as FRETADORAS não tem representação no Brasil, em tese, deveriam emitir suas FATURAS na língua inglesa, o que não ocorre já que se apresentam em português. Mas não é esta a principal observação, mas sim o carimbo da SCHAHIN (diretores da SCHAHIN) atestando ou aprovando a FATURA. Ora, como pode ser possível, conforme a alegação da SCHAHIN de mera interveniência nos contratos de AFRETAMENTO, ter acesso na figura de um diretor da SCHAHIN para aprovar a emissão de FATURAS da FRETADORA OFFSHORE!'" Capítulo 2 do Relatório fiscal Confusão patrimonial No capitulo 2, a fiscalização aborda "a sistemática da unidade PATRIMONIAL entre SCHAHIN e FRETADORAS OFFSHORE, na qual o patrimônio da SCHAHIN é o único a responder perante as garantias dos credores financiadores do projeto, construção das embarcações/plataformas, os contratos de AFRETAMENTO e OPERAÇÃO e suas execuções", como se vê nas transcrições seguir: [...] "Pois bem, a SCHAHIN ou o grupo SCHAHIN (mormente SCHAHIN HOLDING, SCHAHIN ENGENHARIA e ENGENHARIA PETRÓLEO E GÁS dentre outros do GRUPO) é a responsável por garantir o funcionamento de todo o sistema através de um sistema interligado de garantias das mais variadas ordens, desde cessão fiduciária de créditos, alienação fiduciária de créditos, garantias reais, fianças, etc. Tal medida se faz necessária, pois as OFFSHORES não têm patrimônio relevante para obter por si, os recursos no mercado para empreendimentos de tamanha envergadura". "Conforme cláusula uniforme e padrão tanto nos contratos de AFRETAMENTO e OPERAÇÃO, há responsabilização solidária total e irrestrita correspectiva da SCHAHIN nos contratos de AFRETAMENTO e da FRETADORA OFFSHORE em contratos de OPERAÇÃO da SCHAHIN". "Chama a atenção a total desproporcionalidade em desfavor da OPERADORA SCHAHIN, já que as FRETADORAS OFFSHORE cujas atas constitutivas foram obtidas possuem capital social de US$5.000,00 (SORATU DRILLING LLC) e US$10.000,00 (AIROSARU DRILLING LLC), ou seja, não possuem lastro patrimonial para se responsabilizar perante a PETROBRAS em contratos milionários ou bilionários". "Incisivamente: é o patrimônio da SCHAHIN a responder pelo contrato alheio PETROBRASFRETADORA (execução e Fl. 4915DF CARF MF 10 possível responsabilização por inadimplemento). Essa a interpretação direta da cláusula contratual de SOLIDARIEDADE". "E mais grave, não há nenhum indício ou comprovação de expertise das FRETADORAS na específica tarefa de afretamento marítimo. A PETROBRAS se recusa a apresentar documentos licitatórios, dentre os quais a qualificação técnica dos vencedores das licitações de AFRETAMENTO. Os sócios das OFFSHORES e também seus representantes também não se manifestaram a respeito". "Não há registro nenhum de atividade material das OFFSHORES em território nacional. Aquelas que possuem CNPJ foram objeto de pesquisa nos sistemas internos e não há indícios de nenhuma movimentação em contratação de trabalhadores, recolhimento tributário, remuneração a pessoa jurídica, movimentação financeira em território nacional, absolutamente nada". "A fiscalização constatou inúmeras ATAS DE ASSEMBLÉIA GERAL EXTRAORDINÁRIA realizadas pelo menos desde 2007 arquivadas na JUCESP comprovando de forma expressa, literal e inequívoca a deliberação por unanimidade de 100% do Capital Social de SCHAHIN ENGENHARIA e SCHAHIN PETRÓLEO E GÁS (sócios e administradores Milton Taufic Schahin e Salim Taufic Schahin) de inúmeras garantias das mais variadas ordens de grandeza e modalidades às pessoas Jurídicas OFFSHORE, também conhecidas por FRETADORAS nos contratos com a PETROBRAS". "Figura IX56 A SCHAHIN outorga GARANTIAS à CASABLANCA e reconhece suas AFILIADAS: DEEP BLACK DRILLING LLC. BAERFIELD, SORATU e TURASORIA". "Figura IX58 SCHAHIN HOLDING S.A. outorga GARANTIAS à MS DRILLING LLC (FRETADORA DA NORTH STAR I)". "A fiscalização também constatou que em Balanços Patrimoniais em Relatórios da Administração publicados pela própria SCHAHIN, constam NOTAS EXPLICATIVAS com expressa e explicita referência às garantias prestadas". "Os RELATÓRIOS DA ADMINISTRAÇÃO naturalmente refletem a realidade pois constituem uma comunicação oficial ao mercado. E não poderia ser diferente na Petição Inicial da RECUPERAÇÃO JUDICIAL protocolada em 17/04/2015, a SCHAHIN assevera que as FRETADORAS 'OFFSHORE', suas HOLDINGS e SUBHOLD1NGS integram o GRUPO SCHAHIN INTERNACIONAL". "Há de se enfatizar que as declarações de SCHAHIN ENGENHARIA S.A. e SCHAHIN PETRÓLEO S.A. em resposta aos Termos de Diligência Fiscal sempre foram no sentido de afirmar a sua mera interveniência nos contratos de AFRETAMENTO, inclusive tratandoos como contrato da PETROBRAS com 'TERCEIROS' dos quais não dispunham qualquer tipo de informações das 'entidades' FRETADORAS, Fl. 4916DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 7 11 embora essas sejam conhecidas de longa data pela SCHAHIN, inclusive para caucionamentos bilionáríos em dólares americanos expressos nos atos arquivados em junta comercial, diário oficial e relatórios da administração". "Antes mesmo da análise das garantias nos processos do REGIME DE ADMISSÃO TEMPORÁRIA prestadas pela SCHAHIN em beneficio das FRETADORAS, merece destaque o ADITIVO CONTRATUAL que estabelece tal procedimento. (...) Aditivo contratual do CONTRATO 2050.0042743.08.2 (AFRETAMENTO PETROBRAS E AIROSARU) no qual a SCHAHIN (OPERAÇÃO) se responsabiliza pelo cadastramento no Regime Aduaneiro especial e importação de bens relacionados ao contrato de AFRETAMENTO, no qual não é, em tese, parte executora". Capítulo 3 do Relatório fiscal Confusão na execução dos contratos de afretamento e operação No presente capítulo a fiscalização cuida da análise do que denomina "unidade operacional" ou "exclusividade executória" dos contratos de afretamento e operação pela SCHAHIN, conforme excertos a seguir: "Foi a SCHAHIN a executora dos contratos de AFRETAMENTO e OPERAÇÃO indistintamente, realidade que só foi reconhecida cerca de 12 meses após o inicio da diligência fiscal pelo contribuinte SCHAHIN após as intimações enumerarem provas irrefutáveis de tal procedimento". "Este o contexto [executora dos contratos de AFRETAMENTO e OPERAÇÃO] no qual o GRUPO SCHAHIN (mormente SCHAHIN ENGENHARIA S.A. e SCHAHIN PETRÓLEO E GÁS S.A.) assume o papel de beneficiário do regime de admissão temporária para usufruir dos benefícios fiscais, atuando diretamente na operacionalização do empreendimento que envolve AFRETAMENTO e OPERAÇÃO conjuntamente de plataformas de perfuração, navios sonda e assemelhados". "Notese que em diversas consultas a processos de requerimento de concessão do regime de admissão temporária relacionadas a embarcações envolvidas nos procedimentos de exploração de petróleo pela PETROBRAS, notadamente: Navio Sonda SC LANCER, (...), não há referência alguma aos FRETADORES (seus propostos ou terceiros contratados pelos mesmos) na identificação do interessado nos requerimentos e assunção de obrigações, responsabilidades ou garantias". "Ou seja, quem efetua, firma o requerimento e assume as obrigações e responsabilidades, inclusive garantias decorrentes do regime especial é sempre o GRUPO SCHAHIN, inclusive, na listagem de materiais com ingresso submetidos ao regime especial é expressa a referência de material destinado ao cumprimento do contrato de AFRETAMENTO (PETROBRAS e FRETADORAS OFFSHORE)". Fl. 4917DF CARF MF 12 "Há de se enfatizar a severa contradição já que, contemporâneo aos fatos, na época dos requerimentos do RAT, as declarações da SCHAHIN são de que importará bens, peças e equipamentos para o contrato de AFRETAMENTO e OPERAÇÃO, indistintamente. Já nas declarações durante o procedimento de diligência fiscal, a SCHAHIN ENGENHARIA S.A. e SCHAHIN PETRÓLEO S.A. sempre foram enfáticas até a resposta ao TIF04 (Termo de Intimação 04 emitido em 25/02/2014 e respondido em 20/06/2014) no sentido de afirmar a sua mera interveniência nos contratos de AFRETAMENTO, jamais assumindo o papel de participação ativa nesses contratos". "A operacionalização de tudo [REGIME DE ADMISSÃO TEMPORÁRIA NA PLATAFORMA SC LANCER (Processo 10730.727258/201127)] é promovida pela SCHAHIN conforme amostragem do processo nas figuras: Figura IX77, Figura IX 78, Figura IX79, Figura IX80 e Figura IX 81. "O TERMO DE RESPONSABILIDADE do Regime Especial de Admissão Temporária é sempre firmado por procuradores do GRUPO SCHAHIN ou pelo próprio representante legal. A declaração do GARANTIDOR é firmada pelos sócios e representantes legais do GRUPO SCHAHIN (Srs. Milton ou Salim Taufic Schahin). Inclusive como modalidade de garantia, normalmente em fiança idônea, é sempre prestado por pessoas jurídicas do GRUPO SCHAHIN". "(... ) a SCHAHIN realiza efetivamente a contratação de estrangeiros, a sua regularização em solo pátrio, desembolsam a remuneração que é paga no exterior, assumem total e irrestrita responsabilidade pelos estrangeiros e que trabalham nos contratos de AFRETAMENTO das OFFSHORES. Contrato este estranho à SCHAHIN, pelo menos formalmente, mas não na prática como podemos perceber com evidencia". Exemplos de elementos de prova estão juntados junto às figuras IX97 e IX 98, cujos títulos estão transcritos a seguir: • "Figura IX97 (...) a SCHAHIN ENGENHARIA S.A. estabelece como JUSTIFICATIVA para a contratação do estrangeiro, o CONTRATO DE AFRETAMENTO, do qual não é parte, mas o são PETROBRAS e TURASORIA S.A. LLC". • "Figura IX98 EXEMPLO DE ESPECIALIDADE E DESCRIÇÃO DE ATIVIDADES RECORRENTES NOS PROCESSOS NO MTE DE TRABALHADORES ESTRANGEIROS. FUNÇÕES DE MONTAGEM, INSTALAÇÃO E MANUTENÇÃO DE RESPONSABILIDADE DO FRETADOR OFFSHORE DONO DA PLATAFORMA OU EMBARCAÇÃO. "Outrossim, a filial de MACAÉ RJ da SCHAHIN é a base de operações ONSHORE que propicia o suporte para todas as plataformas e embarcações no seu raio de alcance. Curiosa é a classificação CBO de empregados alocados nesta filial: há funções típicas de operação (responsabilidade da SCHAHIN ENGENHARIA S.A.), mas também funções CBO típicas de atividades de docagem e manutenção (responsabilidade das FRETADORAS OFFSHORE)'". Fl. 4918DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 8 13 Capítulo 4 do Relatório fiscal Organização global do projeto As considerações pertinentes ao capítulo 4 estão reunidas em 160 páginas e organizadas em 22 itens. As conclusões da fiscalização e os elementos de prova relativos ao presente capítulo foram obtidos, fundamentalmente, mediante diligências a (a) instituições financeiras (mormente o Deutsche Bank S.A.), (b) a GUSTAVO AKIO SHINOHARA (executivo da SCHAHIN PETRÓLEO E GÁS S/A), (c) a KENJI OTSUKI (representante legal de fretadoras offshore), a (d) sócios e administradores da SCHAHIN e a (e) pessoas físicas que atuaram em postos relevantes na construção das embarcações. Em síntese, as conclusões do capítulo são as seguintes: "Logicamente que a SCHAHIN não atua tão somente na prestação de serviços de OPERAÇÃO conforme reiteradas alegações nesse sentido em diversas respostas aos Termos de Intimação, mas também na direção de todo o empreendimento desde a aprovação de garantias aos credores múltiplos, da organização societária das FRETADORAS OFFSHORE, da construção das embarcações/plataformas, das licitações, dos contratos de AFRETAMENTO e OPERAÇÃO, manutenção, recebimentos, pagamentos dos credores, dos custos e despesas no exterior'. "Neste contexto, as empresas OFFSHORE possuem existência meramente formal a fim de possibilitar o recebimento dos numerários do CONTRATO DE AFRETAMENTO em solo livre de tributação ou com tributação favorecida, objetivo final não de planejamento tributário, mas de simulações sucessivas e encadeadas. Mas a bem da verdade, toda esta complexa estrutura foi delineada tendo somente os dois personagens: GRUPO SCHAHIN e PETROBRAS'. Os tópicos de maior relevo que embasam as conclusões da fiscalização são os seguintes: Do financiamento do projeto global "Dado que o DEUTSCHE BANK S.A. BANCO ALEMÃO consta em várias publicações de Atas de Assembléia Geral Extraordinária (JUCESP, DIÁRIO OFICIAL EMPRESARIAL, RELATÓRIOS DA ADMINISTRAÇÃO DO GRUPO SCHAHIN) como agente financiador (CREDOR) de inúmeras operações financeiras estruturadas em benefício do GRUPO SCHAHIN e FRETADORAS "OFFSHORES" e suas HOLDINGS, a instituição financeira foi intimada no âmbito de diligência fiscal a prestar esclarecimentos e apresentar documentos comprobatórios de tais operações". "Com base nas informações obtidas em sede de diligência, observouse que "a SCHAHIN presta GARANTIAS nas operações financeiras estruturadas junto ao DEUTSCHE BANK e outros financiadores ou investidores para levantar recursos não só para viabilizar a construção das Fl. 4919DF CARF MF 14 embarcações/plataformas, testes, comissionamento, transporte, aceitação, operação e manutenção, mas também rolagem de dívidas, refinanciamento de projetos em situação de "default", ou seja, inadimplidos ou com deficiência de caixa e emissão de títulos lastreados nas embarcações já em operação para fomentar outros empreendimentos. Ou seja, a SCHAHIN é sempre garantidora em contratos das FRETADORAS OFFSHORE e o DEUTSCHE BANK tem presença constante na maioria dos contratos identificados seja como agente administrativo (representante dos credores), agende fiduciário ou agente de garantias e também como financiador". Junto à tabela IX12, a descrição de operação financeira estruturada para financiar a construção do navio sonda SC LANCER: [...] Do fluxo financeiro das operações A fiscalização teve notícia de que empresas vinculadas ao grupo SCHAHIN sofreram execução de sentença arbitral junto à Corte Distrital de Nova Iorque. Tal informação, assim como todas as peças processuais pertinentes ao procedimento, são de domínio público4. Com base na análise dessa execução, em particular as declarações prestadas junto à Corte Distrital pelo diretor financeiro da SCHAHIN PETRÓLEO E GÁS S/A AKIO SHINOHARA (que foi posteriormente diligenciado pela fiscalização), o agente fiscal concluiu o que segue: "(...) a SCHAHIN, em sede de execução de sentença arbitral em território norte americano, foi obrigada a se defender de medidas constritivas patrimoniais que lhe atingiam e também às OFFSHORES e holdings dessas últimas, revelando alguns aspectos do funcionamento do financiamento e fluxo financeiro das operações'. "Em síntese, agentes financiadores múltiplos disponibilizavam os recursos financeiros mediante garantias das mais variadas ordens da SCHAHIN, inclusive seus próprios contratos de OPERAÇÃO com a PETROBRAS em alienação fiduciária (...)". "Mas para empreendimentos de tamanha envergadura, garantias nunca se bastam aos credores e também se estendiam às próprias contas bancárias dos mutuários e subsidiárias dos mutuários ("HOLDINGS OFFSHORE" como CASABLANCA, SEA BISCUIT, BLACK GOLD e suas subsidiárias FRETADORAS OFFSHORES como AIROSARU, SORATU, BAERFIELD, DLEIF) de tal sorte que, contratualmente estabelecido, as receitas ingressas não poderiam ser sacadas, transferidas, nem estavam à disposição dos mutuários contratantes com a PETROBRAS, mas em virtude de acordo prévio com credores seniores (originários e principais), deveriam ser direcionadas ao pagamento de principal e juros precipuamente para, "a posteriori", obedecerem a uma seqüência ordenada e prioritária de destinações, as chamadas 4 Ver http://www.plainsite.org/dockets/sn3rsnuw/newyorksoutherndistrictcourt/cimcrafflesoffshoresingapore pteltdetalvschahinholdingsaetal/ Fl. 4920DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 9 15 "waterfalls" ou cachoeiras da conta principal. Ou seja, tudo deveria funcionar em sincronismo total: empréstimos deveriam ser saldados com receitas dos contratos com a PETROBRAS (AFRETAMENTO e OPERAÇÃO) e qualquer atraso no início ou desenvolvimento de qualquer fase poderia ocasionar um efeito cascata e paralisar recebimentos e pagamentos se os credores executassem as garantias". Particularmente em relação ao navio sonda SC LANCER e à fretadora TURASORIA, as conclusões estão evidenciadas junto ao item 4.6 do RF: "Ou seja, a SCHAHIN constitui uma pessoa jurídica de propósito específico em Paraíso Fiscal (Ilhas Virgens Britânicas): LANCER FINANCE COMPANY com a justificativa na matéria de que isso possibilitaria a companhia acessar o mercado internacional de títulos ao invés de levantar fundos no Brasil, como se uma empresa brasileira não pudesse fazêlo sediada em território nacional. A LANCER FINANCE COMPANY é responsável pela emissão dos títulos garantidos pela: SCHAHIN ENGENHARIA S.A., TURASORIA S.A. (sediada no Panamá) e pela TURASORIA S.A. LCC (sediada em Delaware). Os objetos de garantia são: o contrato de AFRETAMENTO entre TURASORIA S.A. LCC e PETROBRAS, apólices de seguro da embarcação e contas bancarias. Não há dúvidas de que a SCHAHIN orquestra toda a estrutura de financiamento do PROJETO GLOBAL, constituindo empresas em Paraíso Fiscal, garantindo financiadores inclusive com ativos próprios". "O relato da agencia MOODYs5 é categórico: a RECEITA da SCHAHIN ENGENHARIA S.A. pela operação da SC LANCER não consegue cobrir 40% dos custos operacionais, ou seja, a SCHAHIN tem prejuízo na operação brasileira, é deficitária para fins de tributação. O restante para cobrir tais despesas operacionais é resultado do saldo das contas "waterfall" no exterior, controlada pelos agentes representantes dos credores, após o direcionamento do principal, juros e demais encargos contratuais aos CREDORES (inclusive de portadores de títulos emitidos para captação de recursos). Este é o motivo da desproporcionalidade entre receitas de contratos de AFRETAMENTO e OPERAÇÃO (9 para 1 aproximadamente): tornar a operação doméstica deficitária e a operação OFFSHORE altamente lucrativa e domiciliada em Paraíso Fiscal". "É notória a unicidade do real beneficiário. Ora, os sócios da SCHAHIN são concomitantemente administradores das pessoas jurídicas TURASORIA S.A. e TURASORIA S.A LLC, além de sócios das mesmas indiretamente, através de suas holdings, ou seja, também proprietários do navio sonda (SC LANCER é de propriedade da TURASORIA S.A. que freta à TURASORIA S.A. Ver https://www.moodys.com/research/MoodysassignsfirsttimeBaa3ratingtotheLancerFinance PR_205588 Fl. 4921DF CARF MF 16 LLC que por sua vez a freta à PETROBRAS). A SCHAHIN ENGENHARIA S.A, como agente garantidor, oferece um contrato de AFRETAMENTO da TURASORIA S.A. LLC (que, em tese e formalmente em nada se relaciona com a sua pessoa no que se refere às receitas decorrentes) em garantia, dispondo também das contas bancárias de recebimento do referido contrato e outras de titularidade da própria SCHAHIN". A fiscalização esmiuça, ainda, as operações estruturadas vinculadas ao financiamento das embarcações PLATAFORMAS SS PANTANAL e SS AMAZÔNIA (item 4.7 do RF), VITÓRIA 10000 (item 4.8 do RF), CERRADO (item 4.9 do RF), SERTÃO (item 4.10 do RF), bem como as operações de "SBLC" (standby letter of credit") e "trade finance" realizadas para fins de prover fundos para "contas reservas" e "compras e aquisições de equipamentos e spare parts", respectivamente, em benefício das embarcações SC LANCER, CERRADO e SERTÃO (item 4.11 do RF). Para todas essas situações, minudentemente detalhadas, a conclusão foi de que "(...) toda a estrutura financeira e o fluxo financeiro foi planejado e executado pela SCHAHIN na figura de seus sócios e administradores MILTON TAUFIC SCHAHIN e SALIM TAUFIC SCHAHIN e FERNANDO TAUFIC SCHAHIN". Diligência ao representante legal de fretadoras offshore Junto ao item 4.13, a fiscalização evidencia o resultado de diligência realizada junto a KENJI OTSUKI, de vez que este "consta em diversos contatos de financiamento declarando e assinando como representante legal ou administrador de algumas FRETADORAS "OFFSHORES" tais como BAERFIELD, SORATU, MS DRILLING, TURASORIA". KENJI OTSUKI também consta em diversas procurações outorgadas pelos administradores da grande maioria das FRETADORAS OFFSHORE, os "managers" MILTON TAUFIC SCHAHIN e SALIM TAUFIC SCHAHIN. Relativamente às respostas providas pelo intimado, a fiscalização evidencia a negativa por parte do intimado em apresentar documentos requeridos pela fiscalização e classifica tal conduta como dolosa, como se vê a seguir: "o Sr. KENJI OTSUKI afirma que já foi empregado do GRUPO SCHAHIN como contador e atualmente presta serviços como pessoa jurídica à SCHAHIN ENGENHARIA S.A, SCHAHIN PETRÓLEO E GÁS SA. e SCHAHIN HOLDING S.A. e TAMBÉM atuou de forma concomitante, ora como ADMINISTRADOR, ora como REPRESENTANTE, das FRETADORAS OFFSHORE MS DRILLING LLC., TURASORIA, BAERFIELD e SORATU, mas que não dispõe de nenhum documento comprovando tais representações". "Também resta caracterizado o conluio com a SCHAHIN, tanto que efetuou a entrega do documento de resposta ao Termo de Intimação de diligência fiscal à pessoa física KENJI OTSUKI por meio de portador da SCHAHIN, com rotulagem de envelope do Departamento Jurídico da SCHAHIN (...)". Fl. 4922DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 10 17 Diligência nos sócios e administradores da Schahin A exemplo do tópico anterior, a fiscalização evidencia a conduta do intimado MILTON TAUFIC SCHAHIN, administrador representante da SCHAHIN ENGENHARIA S/A e sócio indireto das fretadoras de deliberadamente não apresentar os documentos requeridos. Se não, vejamos: "Diante do robusto conteúdo probatório documental e material em destaque nos CAPÍTULOS anteriores, com o propósito de oferecer aos sócios administradores da SCHAHIN o contraditório e a ampla defesa, houve instauração de procedimento de diligência fiscal nos sócios: MILTON TAUFIC SCHAHIN e SALIM TAUFIC SCHAHIN". "Em resposta à diligência fiscal, MILTON TAUFIC SCHAHIN respondeu de forma evasiva e pouco enfática aos questionamentos e afirmações (...)". "MILTON TAUFIC SCHAHIN reconhece que é administrador das FRETADORAS OFFSHORE, as quais celebram contratos da ordem de bilhões de dólares americanos embora "não possua documentação comprobatória". "Questionado sobre o fato do GRUPO SCHAHIN caucionar financiamentos nacionais e internacionais da ordem de bilhões de dólares americanos para o PROJETO GLOBAL das FRETADORAS OFFSHORE (que envolve inclusive a construção de plataformas e embarcações), MILTON TAUFIC SCHAHIN afirma desconhecer informações e documentos das fretadoras". Consultoria nas licitações "A justificativa para a PETROBRAS fazer constar em seus cadastros para convite internacional empresas como AIROSARU, BAERFIELD, DLEIF, SORATU, TURASSORIA com capital social de 10 e 5 mil dólares americanos, sem nenhuma experiência no ramo de embarcações de petróleo, sem patrimônio, corpo de funcionários, nem representação no Brasil ainda é fato obscuro, já que a PETROBRAS não revela a documentação do procedimento administrativo licitatório mesmo após 15 meses de insistentes intimações". "Também é inexplicável que contratos juridicamente e materialmente independentes sob o ponto de vista dos licitantes (já que as licitações não são conjuntas para FRETAMENTO e OPERAÇÃO conforme cartas convite apresentadas pela PETROBRAS, ou seja, não há qualquer tipo de consórcio entre as FRETADORAS e SCHAHIN) tenham sido conquistados justamente aos pares que tanto interessam aos partícipes das licitações: sempre FRETADORA OFFSHORE do GRUPO SCHAHIN (como restará cabalmente demonstrado no CAPITULO 9) e OPERADORA SCHAHIN". Participação decisiva da Schahin no projeto de construção das embarcações e plataformas Fl. 4923DF CARF MF 18 "Conclusões na diligência na LA CONSULTORIA: A SCHAHIN efetivamente contrata pessoas, bens e serviços para aplicar na construção de embarcações da atividade de exploração de petróleo junto aos fabricantes no exterior. A participação não é de mera interveniência para prévio conhecimento de quem somente intenta executar isoladamente a fase de OPERAÇÃO no Brasil conforme as alegações da SCHAHIN em resposta aos Termos de Intimação iniciais". [...] "É também de suma importância a declaração de que a PETROBRAS realizava auditorias na obra no estaleiro asiático, ou seja, tinha perfeito conhecimento de tudo o que se passava cm termos de reais atribuições dos personagens do esquema contratual: PETROBRAS, FRETADORAS e OPERADORAS, estas duas últimas se FUNDINDO na figura exclusiva da SCHAHIN". "Sintetizando: · A PETROBRAS não explica como as FRETADORAS OFFSHORE, vencedoras das licitações por convite internacional demonstraram suas aptidões jurídicas, técnicas, operacionais. · A PETROBRAS estipulou contratos coligados com FRETADORAS e SCHAHIN, ambas com mesmos sócios, representantes legais, responsabilidade solidária total e irrestrita. · A PETROBRAS tem conhecimento que a SCHAHIN é a gestora da construção em solo estrangeiro. · A PETROBRAS conhece os termos do projeto global orquestrado pela SCHAHIN e se alinha aos desígnios dos autores e criadores. "Por fim, nada impede que a SCHAHIN e a PETROBRAS contratem o que bem entendam (dentro do juridicamente permitido) para a fiel realização de suas necessidades negociais, mas se a SCHAHIN é mentora da estrutura financiadora, organiza as propostas vencedoras das licitações das FRETADORAS, gerencia a construção dos navios, testes e configurações, providencia o transporte da embarcação/plataforma, acompanha a homologação pela PETROBRAS no Brasil e promove também a OPERAÇÃO, qual a função da FRETADORA OFFSHORE? Mais uma comprovação de que as FRETADORAS somente emprestam a existência formal para receber a receita majoritária do projeto global em Paraíso Fiscal, livre de tributação". Gestão de mão de obra da Schahin no exterior [...] "Para comprovar a relação diretiva da SCHAHIN na construção de embarcações/plataformas em estaleiros asiáticos foram coletados em diligência fiscal depoimentos dos Fl. 4924DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 11 19 trabalhadores que trabalharam nesta fase de construção como empregados ou prestadores de serviços diretos da SCHAHIN junto aos estaleiros no exterior. Como o período de trabalho foi prolongado e se deu recentemente, muitos diligenciados relataram com riqueza de detalhes e documentação idônea que comprovaram inequivocamente a exclusividade de execução da SCHAHIN também nesta fase de Construção e a "ausência" de ação das FRETADORAS OFFSHORE em qualquer manifestação". "O TRANSPORTE da plataforma até o Brasil (em tese, responsabilidade da FRETADORA (SORATU ou BAERFIELD), que durou 40 dias, foi contratado pela SCHAHIN diretamente com a proprietária de um navio DOCA que efetuou o serviço". "Ainda após a fase de COMISSIONAMENTO, a SCHAHIN se encarregou da fase de ACEITAÇÃO E HOMOLOGAÇÃO (em tese, tarefa do AFRETADOR e da PETROBRAS), já que tal fase antecede também a OPERAÇÃO. A responsabilidade era da SCHAHIN em apresentar a plataforma 100% operacional". "Segundo o depoimento [de funcionário da SCHAHIN que exercia a função de "coordenador da construção naval ", conforme item 4.17.1 do RF], a embarcação SC LANCER pertence à SCHAHIN ENGENHARIA S.A. O funcionário da SCHAHIN afirma que desempenhou serviços de manutenção, reparo e docagem, o que, em tese, deveriam ser desempenhadas pela FRETADORA da SC LANCER, a OFFSHORE TURASORIA". "A SCHAHIN fornecia a mão de obra especializada e toda a infraestrutura para seus colaboradores e a PETROBRAS acompanhava trimestralmente o desenvolvimento da construção, ou seja, possuía conhecimento de tudo o que se passava". "Rigorosamente todos os trabalhadores diligenciados afirmam o corpo diretivo e gerencial da SCHAHIN desempenhando funções de direção e fiscalização com rigor de dono". "A SCHAHIN era responsável por toda a infraestrutura que suporta o trabalhador em solo estrangeiro". "Os contratos de fornecimentos de materiais, equipamentos utilizados na construção das plataformas tinham como parte contratante as FRETADORAS OFFSHORE, mas eram elaboradas pelo departamento jurídico da SCHAHIN e gerenciados pela equipe comercial da mesma no Brasil. Ou seja, demonstra mais uma vez a total inoperabilidade da FRETADORA OFFSHORE. "A SCHAHIN controlava a parte técnica e financeira, em uma fase que, em tese, seria tarefa única e exclusiva da FRETADORA OFFSHORE". "A PETROBRAS efetivamente tinha não só conhecimento dos papéis exatos desempenhados pela SCHAHIN como da Fl. 4925DF CARF MF 20 inoperabilidade das FRETADORAS OFFSHORE, pois acompanhava de perto a fase de construção no exterior e demandava informações diretamente da SCHAHIN no Brasil". "(...) o subordinado da SCHAHIN gerenciou CONTRATOS DE FRETAMENTO DAS OFFSHORE com a PETROBRAS, atestando óbvia confusão entre execução de contratos, inclusive com a confirmação de que a FRETADORA sequer zelou pelo adimplemento de suas obrigações contratuais". "A SCHAHIN foi responsável pela abertura de uma empresa de apoio logístico para compras de material e equipamentos em HOUSTON TEXAS, EUA (região notabilizada pela indústria do petróleo), para atender exclusivamente os projetos de construção de embarcações e plataformas. Com tantas FRETADORAS em solo americano (DELAWARE), a SCHAHIN teve que se mobilizar para tal tarefa porque as OFFSHORE são inoperantes". "A SCHAHIN participava ativamente da fase de ACEITAÇÃO da plataforma/embarcação, zelando pelas correções necessárias. Tarefa do FRETADOR e não do OPERADOR". Gestão de fornecedores da Schahin aos estaleiros no exterior "Uma pessoa jurídica foi constituída no TEXASEUA especialmente para concentrar as compras de bens, produtos e equipamentos necessário às FRETADORAS (que tem sede em DelawareEUA). Esta empresa no TEXAS somente atendia aos contratos de FRETAMENTO da PETROBRAS coligados com a SCHAHIN". "A SCHAHIN provia, ainda, suporte préoperacional junto aos fabricantes de equipamentos, especificações, encomendas e entregas nos estaleiros estrangeiros. Suporte técnico remoto para a fase préoperacional". Na Figura IX203, a fiscalização descreve "os escritórios mantidos pela SCHAHIN e as funções nas diferentes fases PROJETO GLOBAL, inclusive construção, transporte e comissionamento, fases de responsabilidade das FRETADORAS 'OFFSHORE'". Comissionamento "(...) o COMISSIONAMENTO é atividade PRÉ OPERACIONAL por definição, então deveria ser responsabilidade contratual da FRETADORA OFFSHORE, já que é dona e contratante direta do contrato de construção, mas, assim como todo o restante de todas as fases do projeto global, a SCHAHIN é a responsável pela execução também do COMISSIONAMENTO, o que pode ser incontestavelmente comprovado pelas conclusões de diligência fiscal na pessoa jurídica MODU SPEC, prestadora de serviços de comissionamento". [...] Fl. 4926DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 12 21 Capítulo 5 do Relatório fiscal Das alegações contraditórias da Schahin [...] "Questão Casablanca " Aqui, a fiscalização colige elementos de prova no intuito de demonstrar a atuação da SCHAHIN já na fase que antecede a abertura de processo licitatório pela Petrobras: "É fato comprovado que a SCHAHIN ENGENHARIA executa as seguintes fases do projeto com a PETROBRAS: a) A SCHAHIN ENGENHARIA presta consultoria para EMPRESAS OFFSHORE (CASABLANCA e AIROSARU, por exemplo) participarem e vencerem licitações da PETROBRAS para contratar FRETADORES de embarcações/plataformas de exploração de petróleo. b) AIROSARU DRILLING LLC é subsidiária da holding CASABLANCA INTERNATIONAL HOLDINGS LTD conforme resposta de SCHAHIN. c) A CASABLANCA INTERNATIONAL HOLDING LTD. tem relação de CONTROLE COMUM com a SCHAHIN (controladora). d) AIROSARU tem com únicos sócios e acionistas os Srs. Milton Taufic Schahin e Salim Taufic Schahin conforme demonstrado nos ITENS 1.3.6 ao 1.3.8. "Contratos de gestão de construção " Na sequência, a fiscalização evidencia o mecanismo contratual que circunscreve os contratos de gestão de construção. Em que pese tome como exemplo contratos posteriores ao ano de 2009, salienta que o modus operandi é verificável em todas as negociações da espécie: "CONTRATO DE GESTÃO DE CONSTRUÇÃO No contrato de Gestão de Construção (de embarcação/plataforma) firmado em 04/01/2010 com a empresa estrangeira AIROSARU DRILLING LLC, a sociedade SCHAHIN ENGENHARIA S.A. simplesmente assume todo o gerenciamento técnico, financeiro, orçamentário da construção de um navio de perfuração em águas profundas junto ao fabricante SAMSUNG HEAVY INDUSTRIES Co. Ltd. E a SCHAHIN procede assim para todos os demais contratos desta natureza". "Entretanto, o contrato apresentado pelo contribuinte SCHAHIN ENGENHARIA S.A. em resposta ao TIF07 em 12/06/2014 fere a lógica do razoável e a máxima da proporcionalidade. Neste contrato, a SCHAHIN ENGENHARIA S.A. assume a obrigação contratual de promover a gestão de construção de uma embarcação na Coréia do Sul (Figura IX229 e Figura IX230) com o reembolso dos custos e despesas e Fl. 4927DF CARF MF 22 remuneração por uma taxa de administração pelos serviços prestados de USS 1.000.00 por mês (Figura IX231, Figura IX 232). "Repetindo o disparate: USS 1.000,00 mensais; essa é a receita auferida pela SCHAHIN para promover toda a complexa gestão da construção de uma embarcação de exploração de petróleo apesar de todas as obrigações e responsabilidades assumidas pela SCHAHIN no contrato com a OFFSHORE (Figura IX231 e Figura IX232)". "Dado de que a AIROSARU e a SCHAHIN possuem sócios rigorosamente em comum, não há o menor interesse em retirar recursos da AIROSARU em Delaware (sejam eles anteriores ou provenientes dos contratos de AFRETAMENTO com a PETROBRAS) e repassála para a SCHAHIN ("prestadora do serviço" de gestão de construção) como receita tributável no Brasil. Esta é a lógica perversa da receita pífia assumida pela SCHAHIN nos contratos diretos de GESTÃO DE CONSTRUÇÃO com as FRETADORAS 'OFFSHORE'". "Contratos de operação e reembolso " "(...) na OPERAÇÃO de uma embarcação/plataforma de exploração de petróleo, há despesas que são inerentes à OPERAÇÃO (assumidas pela SCHAHIN, como por exemplo bens consumíveis) e há despesas que são de responsabilidade da FRETADORA OFFSHORE, como por exemplo certas manutenções (benfeitorias necessárias)". "Como a FRETADORA OFFSHORE não possui capacidade operacional, suas responsabilidades nesta fase também são assumidas pela SCHAHIN (OPERADORA) mediante contrato com o reembolso e pagamento da módica taxa de administração de 1% sobre os reembolsos". [...] "Manutenção e docagem " "(...) o PROJETO DE DOCAGEM é complexo e exige um trabalho intenso de planejamento e acompanhamento de riscos, o que uma empresa desprovida de capacidade operacional como as FRETADORAS OFFSHORE não teriam condições de executar. Por isso a SCHAHIN promove toda GESTÃO DO PROJETO DE DOCAGEM e as FRETADORAS OFFSHORE sequer são mencionadas na contratação ou gestão envolvendo as prestadoras de serviços de docagem. "Convém ressaltar que o PROJETO de DOCAGEM está sempre atrelado a questões de manutenção e reparos na plataforma/embarcação, mas tudo, em tese, tarefa do FRETADOR ou 'dono do equipamento". "Entretanto, foi confirmado que a SCHAHIN é a responsável pela contratação dos serviços de MANUTENÇÃO, DOCAGEM e REPAROS EM GERAL, além de comandar diretamente as atividades junto às empresas contratadas e também efetua os pagamentos conforme os extratos bancários Fl. 4928DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 13 23 apresentados em diligência fiscal nas referidas prestadoras de serviço". "Ou seja, mais uma constatação de que as FRETADORAS OFFSHORE não emanam qualquer ato de vontade, decisão ou execução propriamente dita". [...] Capítulo 6 do Relatório fiscal Aspectos contábeis e os contratos No capítulo 6, a fiscalização procura demonstrar, fundamentalmente a partir da análise de contratos de "gestão e reembolso" (ver tabela abaixo, extraída do item 6.3.1 do RF) e sua respectiva contabilização, que "SCHAHIN e FRETADORAS se fundem na mesma pessoa no contexto do projeto global". TABELAS Contrato;, OPERADORA SCHAHIN e FEETADORA5 "OFFSHORE" Item do Relatório Fiital Tipu de contra tu Data ldte "OFFSHORE" Item 5.4 GestSo e Reembolsei 17/01/5013 OPERAÇÃO BAERFIELD item s.4 GeStfO e ReembûlSû 17/01/5013 OPERAÇÃO SORATU Item S.4 GeStlO e ReembúlSa 17/01/2013 OPERAÇÃO AIROSARU "De acordo com os contratos apresentados pela SCHAHIN (...), conforme exaustivamente abordado no ITEM 5.4 CONTRATOS DE OPERAÇÃO E REEMBOLSO, durante a OPERAÇÃO, a totalidade de custos e despesas a cargo da FRETADORA são desembolsados pela SCHAHIN, com posterior reembolso e incidência do percentual de 1% dos reembolsos corresponde à receita pela 'prestação de serviços' da SCHAHIN". [...] "O contribuinte SCHAHIN além de não se interessar em receber sua receita de taxa de administração de 1% sobre os reembolsos (o que já denotaria uma anormalidade), muito mais impressionante do que isso, não se prontifica a receber o reembolso, ou seja, assume o custo/despesa de terceiros (FRETADORAS) em montantes elevadíssimos sem exigir o reembolso contratualmente pactuado". [...] "IMPROPRIEDADE TÉCNICA NOS LANÇAMENTOS CONTÁBEIS O contribuinte SCHAHIN ressalta em resposta ao TIF07 em 19/08/2014 que lança todos os custos e despesas indiscriminadamente, sejam referentes à AFRETAMENTO, seja à OPERAÇÃO. "CONFUSOS CONTROLES INTERNOS DA SCHAHIN A SCHAHIN revela ainda que, para o devido REEMBOLSO, credita o custo/despesa (em espécie de estorno) e debita uma conta do ATIVO CONTAS A RECEBER. Não fosse apenas a impropriedade técnica já que não são custos ou despesas da SCHAHIN, ainda há nova confusão nos centros de custos ao não discernir exatamente qual o FRETADOR, misturando diversos em centros de custo iguais conforme se nota nas figuras abaixo Fl. 4929DF CARF MF 24 para SORATU e BAERFIELD conforme tabela de reembolsos anexada em resposta da SCHAHIN na Figura IX281 c Figura IX282". [...] Em resumo: "A SCHAHIN não sabe discriminar CUSTOS e DESPESAS a cargo das FRETADORAS OFFSHORE dos seus custos e despesas". Capítulo 7 do Relatório fiscal Confusão na responsabilidade civil extracontratual No presente capítulo, a fiscalização apresenta análise realizada quanto aos contratos de seguro das embarcações e plataformas, de maneira a evidenciar a atuação direta da Schahin (e nunca das fretadoras offshore) na contratação das apólices, desde a fase préoperacional do projeto. "Foram diligenciadas as seguradoras das embarcações e plataformas com a finalidade de se apurar informações sobre o objeto segurado, condições do contrato e a relação entre FRETADORAS OFFSHORE e OPERADOR (SCHAHIN)". "A SCHAHIN ENGENHARIA S.A. no contexto da contratação da Tabela IX1 acima, efetiva a contratação ORIGINÁRIA perante TOKIO MARINE SEGURADORA de praticamente todas as embarcações/plataformas objeto dos contratos com a PETROBRAS conforme a Coluna Objeto segurado da tabela da apólice 20.34.100032. Seqüencialmente são promovidos os ENDOSSOS às FRETADORAS OFFSHORE pela parte que lhes cabe. supostamente a parte do AFRETAMENTO no rateio durante a OPERAÇÃO". "Não há motivos para a SCHAHIN constar como cossegurada antes da OPERAÇÃO. Durante a CONSTRUÇÃO, COMISSIONAMENTO, TRANSPORTE, ACEITAÇÃO E HOMOLOGAÇÃO da embarcação/plataforma, medidas pré operacionais. O PREMIO do seguro deveria ser obrigação tão somente da FRETADORA OFFSHORE, formalmente dona das plataformas (...)". "Em suma, o ordinário seria o seguro originariamente proposto pelo dono "formal" do navio (FRETADORA OFFSHORE) para que posteriormente sejam feitos os devidos endossos para rateio da parte que cabe ao OPERADOR SCHAHIN em função da própria ordem natural, cronológica do projeto globalmente analisado". "Nem isso a FRETADORA é capaz de promover, comprovando a total iniciativa por parte da SCHAHIN na condução de tudo, até mesmo do seguro da embarcação/plataforma". [...] Capítulo 8 do Relatório fiscal Unidade de interesses de ordem processual O capítulo 8 tem por objeto a apresentação de um litígio decorrente da execução na Corte Distrital de Nova Iorque de sentença arbitral formada e decidida contra os executados, mas Fl. 4930DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 14 25 não cumprida pela SCHAHIN e FRETADORAS OFFSHORE. Os executados são: SCHAHIN HOLDING S.A., SCHAHIN ENGENHARIA S.A., SEA BISCUIT INTERNATIONAL INC., BLACK GOLD DRILLING LLC, BAERFIELD DRILLING LLC E SORATU DRILLING LLC. O exequente é o estaleiro chinês CIMC RAFFLES OFFSHORE LIMITED c YANTAI CIMC RAFFLES OFFSHORE LIMITED. Segundo a fiscalização, as declarações da SCHAHIN no processo jurisdicional na Corte Distrital de Nova Iorque ocorreram independentemente de intimação em diligência fiscal. Assim, "revelam muita informação narrativa dos reais procedimentos adotados e do verdadeiro papel desempenhado pela SCHAHIN, os quais foram omitidos e até dissimulados em respostas às diligências fiscais instauradas para apuração tributária", como se vê a seguir: "Especificamente, na Corte Distrital de Nova Iorque, a SCHAHIN revela detalhes do funcionamento do fluxo financeiro e interligação de contas bancárias que jamais revelaria no âmbito de intimação de diligência fiscal". "São duas as principais revelações que podem ser extraídas do processo litigíoso entre a parte exequenda CIMC RAFFLES (estaleiro construtor da SS PANTANAL e SS AMAZÔNIA) e a parte executada: SCHAHIN HOLDING S.A., SCHAHIN ENGENHARIA S.A., SEA BISCUIT INTERNATIONAL INC (HOLDING das FRETADORAS BAERFIELD e SORATU), BLACK GOLD DRILLING LLC (subsidiária integral da SEA BISCUIT), BAERFIELD DRILLING LLC e SORATU DRILLING LLC (FRETADORAS "OFFSHORE')": • Os fluxos financeiros para as contas do PROJETO GLOBAL são compostos de receitas ONSHORE e OFFSHORE, ou seja, receitas provenientes dos contratos com a PETROBRAS de AFRETAMENTO e OPERAÇÃO. Ou seja. há DECLARADA confusão entre os contratos agora quanto ao resultado, a destinação das receitas. Percebese então que os contratos confundemse na questão meramente formal, na questão patrimonial das garantias, na execução, na destinação do resultado e, posteriormente (CAPITULO 9), encerraremos com a confusão societária. • As contas bancárias que recebem os fluxos financeiros de vários projetos de diferentes plataformas/embarcações também são INDISSOCIÁVEIS, tanto é verídica a informação, que o banco DEUTSCHE BANK acabou por bloquear todas as contas bancárias relacionadas ao GRUPO SCHAHIN, tendo por conseqüência a inviabilização da utilização de outros projetos relacionados a outras embarcações, principalmente SC LANCER, CERRADO, SERTÃO e VITÓRIA 10.000 que também utilizam a mesma sistemática, a da confusão financeira e bancária de mistura de recebimentos e pagamentos provenientes de contratos de FRETADORAS e OPERADORAS das plataformas com a PETROBRAS. Fl. 4931DF CARF MF 26 Capítulo 9 do Relatório fiscal Comprovação da unidade societária da SCHAHIN e fretadoras offshore [...] As conclusões estão sintetizadas no quadro juntado ao item 9.23.4 do RF, que reproduzo a seguir: COMPOSIÇÃO SOCIETÁRIA E SEUS NÍVEIS "OFFSHORE" [...] "O CAPITULO 9 é decisivo na comprovação de que todas as conclusões dos CAPÍTULOS anteriores só podem ser plenamente justificadas com a unidade societária. O destino comum dos recursos expatriados na forma de receita auferida pelas FRETADORAS OFFSHORE de forma desproporcional em relação à OPERAÇÃO é o GRUPO SCHAHIN, na figura última de seus sócios MILTON TAUFIC SCHAHIN e SALIM TAUFIC SCHAHIN". "O CAPITULO 9 é decorrência insuperável de que a unidade é também societária e não só negocial. Não existem diferentes pessoas jurídicas exercendo a livre iniciativa no mercado, todas disputando a contratação digna no regime administrativo da licitação. De fato: · Os serviços de afretamento e operação são efetivamente prestados à PETROBRAS, mas não com a 'roupagem' que se pretende ostentar. · Existem pagamentos, recebimentos e reembolsos simulados. · Existe formalmente a discriminação entre as receitas das FRETADORAS e receitas da SCHAHIN, mas fato é que tudo é desenvolvido pela SCHAHIN e PETROBRAS para que a parte majoritária do faturamento do PROJETO GLOBAL (AFRETAMENTO + OPERAÇÃO) seja expatriada para Paraíso Fiscal, concentrando na operação brasileira (SCHAHIN) os custos e despesas de todo o projeto e a mínima partição de receita Fl. 4932DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 15 27 (aproximadamente 10%), suficiente para operar em prejuízo controlado, sem tributação sobre o resultado no Brasil" (...). Capítulo 10 do Relatório fiscal Do interesse jurídico comum na situação que constitui o fato gerador da obrigação principal "A operação da SCHAHIN com a PETROBRAS, isoladamente, não se justifica. Não há propósito negocial em operar com prejuízo durante 4 anos consecutivos e no acumulado de 6 anos, sendo que nos anos de 2012 e 2013, há a maximização das receitas com a plena operação das plataformas e embarcações operadas pela SCHAHIN ENGENHARIA. Mas o fato é que o GRUPO SCHAHIN opera PREJUÍZOS em solo brasileiro porque a tributação lhe favorece neste cenário, daí a concentração de custos e despesas desembolsados na operação brasileira atrelada à desproporcional receita auferida com a OPERAÇÃO em detrimento do AFRETAMENTO. Mas o FRETAMENTO das OFFSHORE é confortavelmente LUCRATIVA em Paraíso Fiscal, com tributação francamente favorecida. Este o motivo pelo qual é imprescindível que as licitações sejam vencidas e os contratos celebrados justamente aos pares: SCHAHIN E SUA OFFSHORE. Na realidade, o interesse jurídico é uno entre o GRUPO SCHAHIN e OFFSHORE". "A questão da liquidez é resolvida também por meio do PROJETO GLOBAL e seus financiadores brasileiros e internacionais: empréstimos para capital de giro no Brasil são posteriormente 'novados' para contratos entre sujeitos no exterior (bancos brasileiros instalam sucursais em Paraísos Fiscais 'branch' que acabam por inserir seus créditos nos financiamentos estruturados juntamente com sindicato de bancos e o grupo brasileiro cede a dívida para as OFFSHORE) para lá serem saldadas por meio de recursos de pagamentos da PETROBRAS às OFFSHORE". Junto ao item 10.2.3 e seguintes, a fiscalização apresenta a descrição de um caso concreto, em que é evidenciada a participação das pessoas jurídicas SCHAHIN HOLDINGS S/A e S2 PARTICIPAÇÕES LTDA. na 'articulação do movimento financeiro' por meio do qual pessoas jurídicas offshore assumem dívidas do grupo SCHAHIN, originalmente contratadas no Brasil, para suprimento de capital de giro das empresas do grupo, viabilizando a liquidação dos empréstimos no exterior, com recursos destinados às fretadoras offshores. "(...) não obstante o exemplo concreto tenha se dado com o CREDOR ITAÚ BBA S/A NASSAU BRANCH, outros bancos atuaram no mesmo sentido: fomentar operações no Brasil a pessoas jurídicas do GRUPO SCHAHIN, mormente SCHAHIN HOLDING S/A e S2 PARTICIPAÇÕES LTDA, transferir tais CRÉDITOS a filiais em Paraísos Fiscais (Nassau) e aceitar a mutação subjetiva da parte devedora para recebimento proveniente de contas nestes Paraísos". Fl. 4933DF CARF MF 28 Em resumo, temse que "(...) os reais e finais beneficiários do PROJETO GLOBAL são os partícipes sociais que, neste caso, são também os administradores, aqueles que possuem o total poder de gestão, direção, controle e decisão. Este o interesse jurídico considerado o nucleo duro: INTERESSE SOCIETÁRIO E ADMINISTRATIVO". "(...) além da unicidade na questão societária, MILTON TAUFIC SCHAHIN e SALIM TAUFIC SCHAHIN são invariavelmente FIADORES em muitos FINANCIAMENTOS ESTRUTURADOS viabilizadores das atividades de FRETAMENTO das 'OFFSHORE'. Este o interesse jurídico conseqüente do anterior: INTERESSE CONTRATUAL OBRIGACIONAL. A devedora principal apresentou, tempestivamente, impugnação aos Autos de Infração em 14/07/2015 (fls. 1.388/1.744 e complemento às fls. 1.869/1.877). Argumenta, em resumo, que: 1.1) Questões preliminares a autuação configurase como "passível de nulidade em função da atipicidade da conduta atribuída à Impugnante (omissão de receitas) e também pela ausência de diploma legal que a fundamente". Aduz que as receitas que a autoridade fazendária pretende transferir das fretadoras estrangeiras à fiscalizada dizem respeito a locação de embarcações/plataformas, sendo pois equivocada classificálas como "receita de vendas e serviços", tal como levado a efeito na autuação. "não existiu a expedição de nenhum Mandado de Procedimento Fiscal (MPF) visando proceder fiscalização das Fretadoras Estrangeiras com o que seria possível oportunizalas em demonstrar sua existência legal e total regularidade". Tal ofensa ao exercício do contraditório e ampla defesa "eiva a pretensão de nulidade insanável". "o erro na indicação do sujeito passivo é evidente". "(...) "se houve algum planejamento tributário, este não foi arquitetado pela Impugnante, mas sim pelo órgão licitante na elaboração da modelagem contratual imposta por licitação". "(...) considerando o envolvimento da Petrobras diante do quanto enfatizado pelo agente fiscal, necessário se faz oitiva para que o Presidente da Comissão de Licitações Concorrência Internacional, que assim o era na época dos fatos, se faça presente para esclarecer todos os pontos colocados em dúvida pela fiscalização, especialmente no que tange a regularidade daquelas em que a Impugnante sagrouse vencedora nos certames. A negativa da adoção deste procedimento caracterizará cerceamento ao direito de ampla de defesa, contraditório e a busca da verdade material, asseverando aqui que esta oitiva é de suma importância para o deslinde até porque, evidenciará ainda mais toda sistemática e critérios de contratação". a fiscalização juntou as autos documentos em língua estrangeira, sem que tenham sido vertidos para o vernáculo pátrio. "A juntada evidencia claro cerceamento de defesa e impede o exercício da ampla defesa e do contraditório". "(...) a forma como apresentados os documentos evidenciam a intenção de tumultuar o processo e dificultar a defesa, ficando patente que a forma como se apresentam os documentos caracteriza cerceamento de defesa, vez que é praticamente impossível o exercício da ampla defesa e do contraditório porque não se conhece e identifica com precisão Fl. 4934DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 16 29 os documentos que embasaram as indigitadas constituições dos créditos tributários formalizados nos autos de infração". a fiscalização "(...) relaciona documentos emitidos em 2007 e 2008, período já contemplado pela decadência e que sequer deveria ter sido referido no relatório fiscal por não guardar qualquer vinculação com os pretensos créditos tributários exigidos". (... ) "Aqui certamente os I. Julgadores entenderão e determinarão a nulidade dos autos de infração ou, se este não for o entendimento, que se determine então os devidos desentranhamentos dos elementos juntados e estranhos e que não guardam relação com os períodos e nem com os supostos créditos tributários, como é o caso contido neste tópico". houve incorreção no tratamento relativo ao aspecto temporal da obrigação tributária, seja quanto ao IRPJ/CSLL, seja quanto às contribuições para o PIS e COFINS. Conforme disposto no art. 409 do RIR/99 e arts. 2° e 7° da Lei n° 9.718/1998, a tributação das receitas derivadas de contratos formalizados com a Petrobras poderia ocorrer pelo regime de caixa ou competência, a critério da contribuinte. No caso concreto, a fiscalização entendeu que a fiscalizada havia optado por diferir a tributação até a data do pagamento (regime de caixa), o que não ocorreu de fato. Como decorrência, temse que não houve o devido reconhecimento da decadência quanto aos fatos geradores derivados de faturas emitidas de 2007 a 2009, conforme quadro juntado ao item IV.7 da impugnação. o fisco não poderia, por mera presunção, efetuar a transferência apenas de faturamento desconsiderando os custos e de despesas, procedimento este que ofende os mais comezinhos princípios não só de direito, mas também contábeis. a fiscalização "não trouxe aos autos qualquer elemento proveniente de levantamento derivado de cruzamento de despesas registradas versus despesas reembolsadas que identifique com clareza os custos e/ou despesas, que afirma, foram assumidos pela Impugnante e não foram repassados para as Fretadoras". Defende que o ônus da prova da espécie é da autoridade fazendária, de maneira que as considerações firmadas pelo agente fiscal devem ser desconsideradas. que o prazo de 30 dias é insuficiente para o exercício do seu direito defesa, de vez que "o procedimento fiscal precedente à Ação Fiscal teve mais de dois anos duração, possuindo mais de 90.000 (noventa mil) páginas, sendo apenas o relatório fiscal composto de quase 1.000 (mil) páginas". Requer, pois, a realização de (i) perícia independente e (ii) depoimento das pessoas envolvidas (Petrobras, Bancos, aquelas ouvidas em diligência fiscal), pois todas as provas coligidas no Procedimento Fiscal foram unilateral, inquisitivas, tomadas pelo Sr. Fiscal, de forma unilateral, sem o crivo do contraditório e da ampla defesa"; e (iii) a apresentação de "prova pericial, testemunhal e documental durante a fase instrutória, e antes da tomada de decisão, como medida de direito". 1.2) Do mérito Inexistência de planejamento tributário. "a estrutura/modelo operacional adotado pela Impugnante decorre de prática comum às empresas do setor de Óleo e Gás e, principalmente das regras previstas nos convites de licitação internacional da Petrobras, nos termos do Decreto n° 2.745/98 e das condições dos contratos. Ou seja, nem a Impugnante e nem mesmo as empresas estrangeiras (Fretadoras) que corresponderia ao afretamento (e, igualmente, o percentual do valor do Fl. 4935DF CARF MF 30 contrato de prestação de serviços), posto que a estrutura/modelo operacional foi previamente e integralmente definida em edital de licitação da Petrobras. ao impor a segregação do afretamento em dois contratos, a Petrobras ratifica a tese de que afretamento não é prestação de serviço e que o fornecimento de equipamentos/embarcações/unidades, não integra a atividade de prestação de serviços". "(... ) a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis ANP (órgão regulador das atividades que integram a indústria do petróleo e gás natural vinculada ao Ministério de Minas e Energia), no Ofício n° 143/2014/GABANP, em resposta (doc. anexo) ao Requerimento de Informações n° 825/14 da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito CPMI da Petrobras no Senado Federal, instituída para investigar irregularidades envolvendo a Petrobras, atesta a normalidade da estrutura/modelo operacional em questão (...)". "(... ) referidas informações sustentam a possibilidade de os contratos de afretamento serem firmados fora do Brasil, em decorrência de autorização legal, definida em regime aduaneiro especial, especialmente destinado ao setor de Óleo e Gás, nos termos do Decreto n° 6.759/2009 (Regulamento Aduaneiro) e aplicado de acordo com o estabelecido na Instrução Normativa da Receita Federal do Brasil n° 1.415/2013". "Esse modelo de contratação bipartida (contrato de afretamento e contrato de prestação de serviços) foi também chancelado pelo Ministério da Fazenda, por suas Secretarias de Acompanhamento Econômico e Direito Econômico CADE, no Parecer Técnico n° 06711/2010/RJ, ao analisar o Ato de Concentração n° 08012.006690/201063 (...). A modelagem contratual utilizada para segregação das atividades das empresas (afretamento e prestação de serviços) foi também legitimada pela Receita Federal do Brasil na Solução de Consulta COSIT 225/2014 (...)". "(... ) a Lei n° 13.043/14, que alterou o art. 1° da Lei n° 9.481/97, normatizou a possibilidade de contratação segregada e simultânea de afretamento e de prestação de serviços relacionados à prospecção e exploração de petróleo e gás natural, celebrados, inclusive, entre pessoas jurídicas vinculadas (...)". Constituição de SPEs para viabilização do Project Finance Essencialidade do percentual de 90% para as receitas do contrato de afretamento para remuneração da construção das embarcações/unidades e pagamentos dos financiamentos de longo prazo. A impugnante valese de informações prestadas pelo Presidente do BNDES, Luciano Coutinho, à CPMI da Petrobras na Câmara dos Deputados, sobre as operações de afretamento e de project finance, com o intuito de registrar que inexiste no caso concreto as alegadas "operações anormais" mencionadas pelo agente fiscal, "visto que a criação das empresas (Fretadoras) na forma de Sociedade de Propósito Especifico SPE no exterior, não é uma estrutura anormal (mera contas bancárias) e fora da prática de mercado, e sim bastante freqüente no sistema de financiamento internacional, que permite a estruturação financeira na qual o projeto em si garante o financiamento da construção das embarcações/unidades e não o balanço dos empreendedores". Inexistência de artificialidade nos preços dos contratos de afretamento e de prestação de serviços "No que tange à fantasiosa tese do agente fiscal, de que houve artificialidade na determinação dos preços dos contratos de afretamento e de prestação de Fl. 4936DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 17 31 serviços, a mesma não pode prosperar porquanto os percentuais relativos a cada contrato são estipulados no Convite Internacional de licitação, e estabelecidos previamente pela Petrobras, levandose em conta a importância de cada contrato no contexto da operação global (...)". "(...) se verifica a total proporção entre o custo da embarcação e o valor do afretamento, pois o valor da embarcação é excessivamente superior ao preço do serviço de operação da embarcação". "O agente fiscal não prova que os preços atribuídos aos contratos de afretamento não observaram as condições de mercado, pautandose em meras presunções, razão peta qual não se poderia concluir que os valores devidos pela prestação dos serviços estariam sendo dissimuladamente remetidos para Paraísos Fiscais para lesar o Fisco". "Neste sentido, inclusive, há previsão legal no § 22 do art. 106 da Lei n° 13.043/14, definindo, expressamente, os percentuais máximos das parcelas relativas aos contratos de afretamento consoante a natureza da embarcação afretada, legitimando as proporções contratualmente estabelecidas, mesmo quando houver vinculação entre as pessoas jurídicas afretadora estrangeira e prestadora de serviços nacional". Da interpretação sistemática do artigo 77 da lei n° 12.973/2014 "(...) o artigo 77 da Lei 12.973/2014 dispensa a pessoa jurídica domiciliada no Brasil de incluir na base de cálculo do IRPJ e da CSLL a parcela do lucro de controladas ou coligadas no exterior relativa às atividades de afretamento". "Assim, não cabe, ao agente fiscal pretender tributar as receitas relativas as atividades de afretamento por casco nu no Brasil, em assim o fazendo atuou contra legem". Dos contratos coligados "(...) os indícios apontados pelo agente fiscal para concluir que no caso haveria um único contrato de prestação de serviços, que abarcaria o afretamento das embarcações, denota apenas a existência de contratos coligados, união de contratos com dependência recíproca necessária, amplamente conhecido pela doutrina e que nada tem de ilegal como tenta fazer crer o agente fiscal. Mesmo na hipótese de que os dois contratos fossem celebrados com as empresas estrangeiras (Fretadoras Estrangeiras), ainda assim tratarseia de dois contratos distintos formalizados em um único instrumento, ou contratos coligados, sendo um de prestação de serviços e outro de afretamento. "Assim, não é possível a desconsideração pelo agente fiscal da forma e substância dos contratos firmados com a Petrobras, a fim de alterar os respectivos conteúdos materiais previstos no direito privado, transmudando a natureza dos contratos de afretamento em contrato de prestação de serviços, visto que a liberdade do Fisco ao interpretar os fatos é vinculada à lei e sua discricionariedade não pode ultrapassar os alcances dos conceitos de direito privado, interferindo na autonomia privada da Impugnante, conforme previsto nos arts. 170 da CF/88 e 109 e 110 do CTN". Da inconsistência da acusação fiscal quanto à ausência de propósito negocial A autuada defende que o Fisco somente poderá desconsiderar uma operação realizada pelo contribuinte quando não houver comprovação da existência do motivo e da Fl. 4937DF CARF MF 32 finalidade (propósito negocial) para a realização de atos. No caso concreto, "a sintonia das operações realizadas pela Impugnante, é facilmente observada vez que possibilitou (i) a apresentação de proposta com o menor preço na licitação na modalidade Convite Internacional; (ii) a sua classificação no certame licitatório tipo melhor preço; (iii) construção das embarcações com menor custo de financiamento; e, (iv) o fornecimento das embarcações; (v) cumprimento dos contratos firmados com a Petrobras". Da inconsistência da acusação fiscal quanto ao artigo 116 do CTN argumenta que o artigo 116 do CTN é inaplicável ao caso em tela, simplesmente em decorrência da não edição da Lei ordinária regulamentando os procedimentos relativos à desconsideração de negócios ou atos jurídicos, bem como porque o ato de desconsideração não poderia integrar o próprio ato de lavratura dos autos de infração combatidos, por se tratar de prérequisito para a lavratura do auto de infração. 1.2.2 Da estrutura societária das fretadoras estrangeiras e das operadoras nacionais, e demais aspectos legais Considerações iniciais "(... ) tanto a Impugnante quanto as Fretadoras Estrangeiras se constituem em partícipes de um mesmo grupo de sociedades, sem, entretanto, relação de controle ou coligação entre elas". (... ) Importante frisar que tal informação não foi "sonegada" da fiscalização, como infere o relatório fiscal, apenas não foi propriamente requisitada pelo fiscal responsável". "Ainda que ligadas, vez que impossível se prestar os serviços de Operação sem a existência da correspondente embarcação/unidade, tais atividades são distintas entre si, com responsabilidades, obrigações e direitos diferentes, de modo que a sua execução cabe perfeitamente a sociedades próprias e especializadas em cada qual dos casos". (...)Neste sentido, a opção do grupo ao qual pertence a Impugnante foi de confiar a esta as atividades de Operação, dada a sua expertise, recursos materiais e humanos, conhecimentos e demais características, enquanto às Fretadoras Estrangeiras foi determinada a propriedade das embarcações/unidades, com todos os seus ônus e bônus, para a conseqüente atividade de Afretamento para a Petrobras". A própria legislação pátria busca incentivar a prática de afretamento das embarcações/unidades de sociedades estrangeiras, tal como o perpetrado pelo grupo de sociedades ao qual pertence a Impugnante. Da abusiva desconsideração das fretadoras estrangeiras "Adjudicase o agente fiscal o poder de desconstituir e desconsiderar a existência das Fretadoras Estrangeiras, tratandoas por ficção jurídica imaginadas unicamente para fins de receber a contraprestação pelo Afretamento em domicílio distinto daquele da Impugnante, em nome desta, permitindo assim a desoneração tributária sobre tais receitas, pugnando, pois, pela consideração de toda esta receita como receita tributável da Impugnante". Da desconsideração da personalidade jurídica e sua inaplicabilidade "(...) uma vez que há toda uma legislação de suporte da estruturação societária do grupo de sociedades ao qual pertence a Impugnante, não há que se falar em uso errado, excessivo ou injusto da personalidade jurídica das Fretadoras Estrangeiras. Fl. 4938DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 18 33 Da inocorrência de confusão patrimonial "Não há, como quer fazer crer o agente fiscal, qualquer Unidade em nome dos Srs. Milton Taufic Schahin e Salim Taufic Schahin, cabendo às Fretadoras Estrangeiras a integral propriedade das Unidades, tudo dentro da estruturação societária do grupo de sociedades ao qual pertence a Impugnante, de forma legal e legitima. Da inocorrência de confusão na execução do contrato "Uma vez finalizada a construção da Unidade, sendo esta colocada à disposição da Operadora, à Fretadora não cabe qualquer outra atividade técnica ou operacional, restando apenas a administração financeira dos recebimentos pertinentes. E tal administração financeira pode perfeitamente ser realizada por outras sociedades de seu grupo econômico, não restando razão para que a Fretadora disponha de funcionários ou instalações físicas!" "o trabalho técnicooperacional cabe inteiramente à Operadora, no caso, a Impugnante, que sim, deve manter corpo de funcionários aptos a prestarem contínua e diligentemente os serviços para os quais a Operadora foi contratada". "(...) a alegação debochada do agente fiscal, dando conta que as Fretadoras nem sequer são capazes de promover a contratação de seguros, "demonstrando a total necessidade de iniciativa por parte da Schahin (a Impugnante) na condução de tudo, até mesmo do seguro da embarcação/plataforma (a Unidade), de propriedade alheia e antes de qualquer relação de Operação da plataforma" é contraditada pelo próprio, que compila em quadro informativo (Tabela IX32) seguros de vultosa monta cuja contratação se deu, exatamente, por Fretadoras Estrangeiras, nominalmente BAERFIELD DRILLING LLC, AIROSARU DRILLING LLC, DLEIF DRILLING LLC. Coincidentemente, são estas três Fretadoras Estrangeiras que constam como proprietárias de embarcações/unidades nos documentos carreados pelo próprio agente fiscal ao Relatório Fiscal em debate!" 1.2.3 Ilegalidade e nulidade dos lançamentos considerações sobre o REPETRO "Exatamente o que foi desconsiderado por completo pelo agente fiscal autuante, já que esse passa ao largo e não reconhece, não sabemos se de máfé ou por absoluta ignorância, o regime Especial do REPETRO e a Admissão Temporária nele previsto". a fiscalização apoiou sua acusação em presunção, de que as receitas dos contratos de afretamento com a Petrobras são receitas operacionais da SCHAHIN ENGENHARIA, e, por conseqüência, caracterizadoras de omissão de receita, mas sem correlação natural lógica, racional e legal que permita tal conclusão, restam infirmadas todas as ilações e suposições levantadas pela construção fiscal, havendo de ser julgada absolutamente improcedente a ação fiscal, como passaremos a pontuar especificamente". As características do REPETRO convalidam os atos praticados pela impugnante. "[...] para que uma empresa goze e seja outorgada ao REPETRO, deve passar por procedimentos e atendimentos de um sem numero de regras, fiscais, comerciais, civis, aduaneiras, precedido de licitação internacional. Exatamente o que a Impugnante fez, atendendo com rigor a legislação referida, cujo arcabouço desemboca em vários órgãos regulatórios, como, Agência Nacional do Petróleo e Gás, Tribunal de Contas da União, Receita Federal do Brasil com competência para outorga do REPETRO, autoridade aduaneira da Fl. 4939DF CARF MF 34 Receita Federal do Brasil com competência para deferir as Admissões Temporárias no REPETRO". Da correção e legalidade dos atos e negócios jurídicos firmados com a PETROBRAS "(...) sendo as Fretadoras donas dos navios, casco nu, mera locadoras do bem a ser afretado, locação de coisa móvel, não se exige tenha grande estrutura e asseclas de empregados, demandandose apenas sua existência segundo as Leis estrangeiras e ser proprietária das embarcações". "(...) Esse contexto negocial, operacional, societário e contratual permite presunção da prática de fraude? (...) Não. E a explicação é muito simples, pois decorre da Política Fiscal adotada pelo Governo brasileiro. Esse, exercendo sua soberania, criou regras jurídicas capazes de permitir a exploração da atividade de Petróleo e Gás em solo nacional, em ambiente de competitividade concorrencial e comercial frente aos conglomerados estrangeiros, os quais, poderiam afretar as embarcações no REPETRO e ainda usar a isenção da alíquota zero". "Toda engenharia que venha a ser feita pelas Fretadoras Estrangeiras, com garantia de Operadores, dáse com base nas Leis encimadas, em razão da impossibilidade de que se construam e afretem embarcações em solo nacional. Nem mais, nem menos. Qualquer hipótese em contrário, de que tais operações seja prática de fraude, é acusação leviana e mendaz". "Percebese, pois, a total incongruência e deficiência do trabalho fiscal, que pretende fossem as operações de Afretamento em Admissão Temporária do REPETRO, realizadas unicamente em solo brasileiro, ao tentar chancelar a absurda tese da Omissão de Receitas da Impugnante". Incompetência da autoridade lançadora para desconsiderar o REPETRO "O ato de lançamento desta Ação Fiscal é nulo de pleno direito, posto praticado por sujeito incompetente, no que atina à desconsideração do Regime do REPETRO e o Afretamento dos bens em Admissão Temporária". (...) Face às razões alinhavadas, provase a absoluta nulidade do ato de lançamento desconsiderando Regime Aduaneiro próprio, há ser reconhecido ex officio. Desde já requerido. 1.2.4 Inexistência de conduta caracterizadora de crime ou contravenção Inexistência de fraude à licitação "[...] entendeu [a fiscalização] que pelo fato da Fretadora Estrangeira ter vencido o certame, figurando a empresa Schahin Engenharia como prestadora de serviço, em contratos aos pares, teriam incorrido em fraude ao certame. Entretanto, para chegar a tal conclusão, sequer analisa a validade e legalidade no atendimento dos requisitos do certame e dos termos dos contratos dele originado, os quais indubitavelmente foram submetidos aos requisitos da legislação de regência do processo licitatório da Petrobras, mas também amplamente aceitos e validados pela Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Fazenda e pela Agência Nacional do Petróleo (ANP)". "[...] o agente fiscal pressupõe a existência de fraude à licitação internacional, porém não se atenta para o fato de que procedimento se deu em completa conformidade com o que determina o Convite Internacional sendo que tais contratos de prestação de serviço e Fl. 4940DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 19 35 afretamento são elaborados também nas exatas determinações elaboradas pela licitante Petrobras, ou seja, atendem os requisitos impostos pelo próprio convite". Inexistência de conluio "[...] a impugnante atuou sempre no exercício de um direito reconhecido pela Administração Pública, o que afasta cabalmente a incidência em fraude ou fato ilícito. Não obstante, sequer constam nos autos subsídios que indiquem qualquer ajuste, combinação, acordo, concerto entre si ou pacto entre as partes! O que a autoridade fiscal autuante fez, indevidamente, foi desconsiderar todo o emaranhado legal ao qual a Impugnante atendeu, aduzindo a existência de conluio entre os agentes, mas sem qualquer elemento concreto. Deveria, ao menos, ter apontado através de provas idôneas uma verdadeira trama operada entre as partes, o que, de fato, não ocorreu!" Inexistência de organização criminosa e outras figuras penais apontadas no relatório fiscal "É um completo contrassenso a articulação concebida pela autoridade fiscalizadora, dando a entender pela existência de uma organização criminosa ou associação criminosa, sugerindo, ainda, a prática de lavagem de dinheiro. Frisase, primeiramente, que há um descompasso e confusão por parte do fiscal a respeito de figuras completamente distintas, quais sejam organização criminosa e associação criminosa. Em segundo, temse que o mesmo tão somente lança mão de tais entendimentos, completamente ao léu, primeiro falando em associação, depois em organização criminosa, sem o mínimo embasamento e lastro probatório, com nítido intuito de conferir gravidade aos fatos". "No caso em discussão, a origem licita dos valores que se afirma branqueados, implica o reconhecimento da falta de justa causa para a imputação, que não se cerca de seus elementos típicos essenciais: origem ilícita do valor proveniente de crime, a teor do disposto no artigo 1°, da Lei n° 9.613/98". 1.2.5 Da multa qualificada "De posse dos conceitos quanto à relação tributária sancionadora e as condutas infracionais dos artigos 71, 72 e 73 encimados, temse clara prova de que não há qualquer condição de se manter a multa qualificada pela prática de condutas dolosas, fraudulentas, conluiadas e sonegadoras contra os Impugnantes, levando em conta a operação questionada e imputada de fraudulenta, no dizer da romancista ação fiscal. Em verdade, a conduta dos Impugnantes foi uma só, no sentido de cumprir regras e normas cogentes, no que tange à execução de contratos de Óleo e Gás, cujo bastião é erigido e desempenhado pelo próprio Poder Público". "[...] o trabalho fiscal fez muita ilação, mas nada provou. Assim, não basta a mera transcrição dos arts. 71,72 e 73, da Lei 4.502/64, para que se tenha caracterizado sonegação, fraude e/ou conluio. Esses são figuras penais específicas que exigem a prática da conduta infratora imputada. Não se vê no trabalho fiscal qualquer referência às condutas individualizadas e específicas de cada um dos envolvidos, apenas menção genérica, objetiva, escuda na responsabilidade fiscal objetiva (art. 136 do CTN)". 1.2.6 Do embaraço Fl. 4941DF CARF MF 36 Quanto a esse tópico, exigese o cancelamento das penalidades imputadas por "imaginário e inexistente embaraço à fiscalização". Também os solidários apresentaram defesas (fls. 1.747/2.190). 2.1 Dos argumentos em comum As impugnações apresentadas pelas pessoas físicas e jurídicas classificadas como responsáveis solidários pela fiscalização compreendem um núcleo comum de argumentos, a saber: A descrição dos fatos levada a efeito pela fiscalização é extensa e confusa, prejudicando o exercício da defesa dos interessados. A autoridade fazendária é incompetente para formalizar o lançamento em face de eventual responsável tributário. Houve a juntada aos autos de documentos em língua estrangeira sem tradução juramentada. Inexistem provas concretas que justifiquem a inclusão dos interessados no pólo passivo da exigência a título de responsáveis tributários. Em particular, não há elementos que caracterizem atos praticados em "infração à lei" ou mesmo que justifiquem a remissão ao conceito de "interesse comum" de que trata o art. 124 do CTN. O conceito de "interesse comum", previsto no art. 124 do CTN, está associado à realização propriamente dita pelos partícipes da situação que constitui a hipótese de incidência tributária, e não pelo mero "interesse econômico" que tangencia essa situação, tal qual sugerido pela fiscalização. Assim sendo, a participação de uma pessoa jurídica em um grupo de sociedades não repercute, de per si, na hipótese de responsabilização de que trata o art. 124 do CTN. "A responsabilização pessoal dos sócios e administradores etc, é sabido, contudo, em atendimento e homenagem ao primado da segurança jurídica só é admissível após procedimento administrativo em que se comprove: (i) atuação dolosa; (ii) a identificação dos responsáveis pela prática do ilícito e (III) a demonstração cabal, inclusive, de que obtiveram vantagem pessoal com a inadimplência". Todavia, no caso concreto, "(... ) não há prova alguma que justifique a inclusão do Impugnante na condição de responsável solidário. O que há, são cópias de imagens de inúmeros documentos [considerando apenas parte deles, pois a sua enorme maioria sequer pode ser considerada dada sua absoluta nulidade eis que ausentes as inevitáveis e obrigatórias traduções juramentadas, art. 22, § 1°, da Lei 9784/99] que nada mais demonstram que a prática de regulares atos de gestão praticados pelos então sócios e administradores na condução dos negócios reconhecidamente lícitos das pessoas jurídicas. Nada mais!" "Os atos de gestão praticados pelo Impugnantes jamais extrapolaram quaisquer dos poderes que detinham, tampouco infringiram a legislação tributária de regência, eis que ambos atuaram conforme modelo então imposto por ocasião da contratação!" 2.2 Aspectos específicos da impugnação apresentada por Fernando Schahin "O Impugnante, ao contrário do que concluiu apressado e tendenciosamente a fiscalização, não figurou como "... administrador e mentor da estruturação financeira do Fl. 4942DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 20 37 PROJETO GLOBAL da SCHAHIN, enquanto prestou serviços às empresas do Grupo Schahin. (...) O impugnante apesar de atuar como executivo contratado para estruturação dos financiamentos SEMPRE foi subordinado às deliberações dos acionistas controladores. Sempre se apresentou e atuou como tal para execução dos decisões/determinações superiores". "Parece ter impressionado a fiscalização o 'trecho' da afirmação do Sr. Gustavo Shinohara, transcrita às fls. 52, no sentido de que a representação de todas as empresas do grupo Schahin é exercida pelos sócios e diretores estatutários, inclusive aqueles relacionados à área financeira. Com a devida vênia e respeito à nobre função da auditoria fiscal, nesse ponto ela não guarda nenhuma seriedade com a finalidade proposta. Ora, (i) a tal declaração [trecho de] ocorreu em 10/11/2014, muito posterior ao período fiscalizado, em contexto que se desconhece, portanto, de plano, inócua; (ii) é óbvio que qualquer executivo [contratado, estatutário, etc...], seja financeiro, jurídico, administrativo, em algum momento e para algum propósito representa a pessoa jurídica da qual integra". "E mais, a quase totalidade das procurações referidas anteriormente são datadas [sem efeitos retroativos] e, portanto, válidas para períodos posteriores aos dos fatos geradores objeto da fiscalização, ou seja, TODAS datadas de julho de 2014, quando o lançamento se refere aos anos de 2010 a 2013. Imprestáveis para o desiderato fiscal! Apenas a procuração referente à empresa Turasoria antecede o período fiscalizado, sendo que inexiste qualquer indicio sequer que conduza a conclusão fiscal de que teria o Impugnante agido com excesso de poderes tampouco há qualquer apontamento ou descrição fática de conduta infracional à lei devida e expressamente individualizada". 2.3 Aspectos específicos da impugnação apresentada por Carlos Eduardo Schahin "(...) a quase totalidade das procurações que instruem o TSPS n° 05, são datadas de julho de 2014, quando o lançamento se refere aos anos de 2010 a 2013. Imprestáveis para o desiderato fiscal! Com exceção da procuração relativa à empresa Turasoria, outorgada em 2009, única que antecede os fatos geradores, de igual, de parte da fiscalização, não há qualquer indício sequer que o Impugnante agira contrariamente à lei ou com excesso de poderes aos atos constitutivos. Na verdade, o Impugnante nunca atuou como Procurador das empresas". "Sobre a alegação de que o Impugnante foi sócio da DLEIF DRILLING LLC, juntamente com Fernando Schahin, afirmando às fls. 67 que ambos, em 06/01/2006, detinham 100% do capital social, cujo intuito é demonstrar que o Impugnante perpetrava atos decisórios como representante do Grupo SCHAHIN [Engenharia e Petróleo e Gás] e das fretadoras OFFSHORE que operacionalizam o projeto global — importante registrar que, no entanto, omite que o Impugnante há muito não figura como sócio da DLElF, desde abril de 2008, conforme cópia da Ata de assembléia de retirada da sociedade acompanhada da tradução juramentada". 2.4 Aspectos específicos da impugnação apresentada por Kenji Otsuki "(...) o Impugnante jamais fora sócio de quaisquer das empresas do Grupo Schahin, [especialmente e especificamente no período que envolve o lançamento lavrado contra as empresas do Grupo], sempre atuou como diretor contratado cuja atividade sempre foi exercida em caráter de subordinação aos sócios, limitado pelo modelo de negócio praticado pela contratante há décadas e regulamente aceito pelos órgãos de regulação". Fl. 4943DF CARF MF 38 "(...) TODOS os documentos que instruem o TSPS n° 09, nada mais demonstram que o regular exercício do cargo do Impugnante". 2.5 Aspectos específicos das impugnações apresentadas por SCHAHIN HOLDING S/A e S2 PARTICIPAÇÕES LTDA. "A fiscalização (...) aponta que a impugnante teria engendrado um 'estratagema' financeiro para manterse em permanente crise financeira para escapar à tributação diante de bases de cálculo negativas, de tal forma que o inconveniente de crise de liquidez se resolve com financiamento estruturado do projeto global e pagamentos 'expatriados' pela Petrobras às OFFSHORE. (...) nenhuma irregularidade se verifica na prática de cessão de débitos (ainda que oriundo de empréstimos feitos no Brasil), seja para a S2 Participações, seja para a DEEP BLACK e a SOUTH EMPIRE. De igual forma, a cessão de crédito de parte dos bancos então credores da Impugnante. A cessão de débito que por fim é incluído no financiamento estruturado e pago pela empresa estrangeira que recebe o passivo, não revela (... ) interesse jurídico da Impugnante na ocorrência do fato gerador (...). Ora, a transferência do passivo e assunção de parte da cessionária excluem a Impugnante do rol de interessados jurídicos (...)". Tramitado o feito, e considerando os argumentos levantados pela impugnante junto ao tópico "Incorreção no tratamento relativo ao aspecto temporal da obrigação tributária", os autos foram encaminhados em diligência (fls. 2.241/2.242) para manifestação da autoridade autuante. As considerações da fiscalização estão relatadas junto à "Informação fiscal" de fls. 2.245/2.261, a qual (i) ratificou o entendimento de que as receitas do afretamento devem ser apuradas pelo regime de caixa e (ii) certificou a existência de erros materiais na elaboração das planilhas informadas junto à Tabela XI3 do relatório fiscal (fls. 910/918 do RF), erros estes que resultaram na apuração a menor das bases de cálculo originárias. Além disso, com vistas a promover os ajustes cabíveis em relação à exigência fiscal, a autoridade fazendária lavrou autos de infração complementares, com fundamento no art. 18, caput e §3°, do Decreto n° 70.235/1972, dando origem a novo processo administrativo fiscal (n° 19515.721233/201562), que encontrase apenso aos presentes autos. Intimados do lançamento complementar, a contribuinte e os responsáveis solidários apresentaram impugnações que foram juntadas no processo n° 19515.721233/2015 62, alegando basicamente que a fiscalização, ao revisar e realocar as datas dos pagamentos feitos pela Petrobras às empresas estrangeiras (considerados pelo lançamento como receitas da Impugnante), alterou indevidamente o valor da base de cálculo, elevando, portanto, de forma igualmente indevida o suposto crédito tributário. É que ao invés de corrigir suposta inexatidão, o que fez o Agente Fiscal foi, na verdade, proceder a NOVO LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO, instalando novo procedimento fiscalizatório absolutamente extrapolador do quanto contido na abertura decorrente da mencionada decisão". Ao final, a impugnante principal apresenta requerimento de perícia e diligências (fls. 1.779/1.786). Em sessão de 4 de abril de 2016, acordaram os membros da 1a Turma da DRJ/POA, "por unanimidade de votos, (i) desconhecer das impugnações aos autos de embaraço; (ii) desconhecer das contestações pertinentes à representação fiscal para fins penais; (iii) considerar não formulado o pedido de perícia contido nos autos do processo Fl. 4944DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 21 39 19515.720304/201518 e negar provimento ao pedido de perícia contido nos autos do processo 19515.721233/201562; (iv) desconhecer dos pedidos de oitiva e de sustentação oral no julgamento de primeira instância; (v) negar provimento às preliminares de nulidade e decadência e, no mérito, (vi) julgar procedente em parte as impugnações, de maneira a acatar as alegações pertinentes à ocorrência de erro material na apuração dos tributos devidos, o que deve repercutir no ajuste da exigência fiscal para aqueles valores indicados nos demonstrativos em anexo ao presente acórdão". A decisão recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010, 2011, 2012, 2013 SIMULAÇÃO. OMISSÃO DE RECEITAS. A análise dos elementos de prova carreados aos autos pela fiscalização permite concluir que os contratos denominados "de afretamento" e "de prestação de serviços", no caso concreto, revelam uma bipartição artificial, levada a efeito de maneira dolosa. Nesse contexto, é correto o procedimento fiscal que, ao desvelar os fatos dissimulados, tomou os efeitos reais gerados pelos referidos contratos, de maneira a atribuir à autuada a titularidade das receitas deles decorrentes, recalculando os tributos que restaram sonegados à Fazenda Pública. SIMULAÇÃO. MULTA QUALIFICADA. A perpetração de atos simulados com o intuito de impedir o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador de tributos devidos, bem como de excluir ou modificar as características essenciais do fato gerador da obrigação tributária principal, justifica a imposição da multa de ofício qualificada de 150%. AGRAVAMENTO DA PENALIDADE. Justificase a aplicação da multa de ofício agravada quando o contribuinte não fornece, nos prazos definidos, os esclarecimentos exigidos em intimação fiscal. ATOS DOLOSOS PRATICADOS COM EXCESSO DE PODERES OU INFRAÇÃO DE LEI. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. Os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado são pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, respondendo solidariamente com o contribuinte pelo crédito tributário lançado. INTERESSE COMUM. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. Fl. 4945DF CARF MF 40 Comprovado nos autos que as pessoas jurídicas classificadas pela fiscalização como sujeitos passivos solidários atuaram de maneira unitária com a fiscalizada, assumindo reciprocamente direitos e obrigações que circunscreveram os fatos jurídicos que dão essência à obrigação tributária principal, resta configurado o interesse comum dos agentes. Correta, portanto, a responsabilização solidária levada a efeito com suporte no art. 124, inciso I, do CTN. LANÇAMENTO COMPLEMENTAR. Nos casos em que forem verificadas incorreções, omissões ou inexatidões, de que resultem agravamento da exigência inicial, inovação ou alteração da fundamentação legal da exigência, deverá ser efetuado lançamento complementar por meio da lavratura de auto de infração complementar ou de emissão de notificação de lançamento complementar. ERRO MATERIAL. Deve ser ajustado o lançamento de ofício, em vista de erro material havido na apuração do tributo devido. Impugnação Procedente em Parte Após intimados, o sujeito passivo principal (fls. 2.452/2.669) e as pessoas físicas e jurídicas (fls. 4.256/4.787) apresentaram recursos autônomos. Em linhas gerais reiteram os argumentos de defesa; rebatem determinados pontos da decisão de piso; e juntam Parecer de empresa independente (fls. 3.470/3.510) que questiona, dentre outros aspectos, a base de cálculo que se valeu a autoridade responsável pelo lançamento. A PGFN apresentou Contrarrazões (fls. 4.793/4.845), requerendo o não provimento dos recursos em razão da notória ocorrência de operação simulada. Ato contínuo, a Recorrente apresentou petição (fls. 4.855/4.857), esclarecendo que foi informada que as fiscalizações dirigidas ao Grupo Shahin teriam sido originadas de denúncia para a Receita Federal, assinada por determinado advogado, conforme atestaria determinado trecho de oitiva do auditor fiscal constante processo penal de relatoria do Juiz Sérgio Moro. Em razão disso, pede acesso integral e irrestrito à denúncia mencionada, sob pena de cercear seu direito de defesa. É o relatório. Voto Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli Os recursos são tempestivos e atendem os requisitos de admissibilidade. Deles, portanto, conheço. 1) Perícia Fl. 4946DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 22 41 No âmbito do Processo Administrativo Fiscal, a produção de prova pericial deve ser determinada quando imprescindível à solução da lide. Nesses termos dispõe o artigo 18 do Decreto nº 70.235/1972: "Artigo 18 A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis [...]". Como se nota, a realização de perícia constitui um expediente do qual as autoridades julgadoras podem se valer em prol de sua livre convicção acerca da lide. Tratase de pleito que se mostra cabível somente quando o Julgador entender essencial para a compreensão correta dos fatos e provas que compõem a demanda. Na hipótese de inexistir dúvidas ou necessidade de esclarecimentos de questões fáticas e de direito tal como postas na peça acusatória, desnecessária a perícia. O pedido de realização de perícia não deve ser confundido com o cumprimento do ônus da prova no âmbito do processo administrativo fiscal. Digo isso porque não raramente lidamos com situações nas quais fica evidente que o contribuinte opta pelo caminho simplista de requerer uma perícia, condicionando a prova que já lhe competia produzir a evento futuro e incerto. Com efeito, as autoridades julgadoras devem apreciar as provas conforme produzidas pelas partes de acordo com as regras processuais aplicáveis. Como se sabe, a produção de provas documentais deve ser feita, como regra, em sede de impugnação, a não ser que isto seja impraticável, nos termos do art. 16, §§ 4º e 5º, do Decreto nº 70.235/1972. Nesse contexto, entendo que as matérias de fato e direito envolvidas no presente caso são suficientes para a resolução da controvérsia instaurada, não gerando dúvidas ou necessidade que demandem a realização de uma perícia. Indefiro, portanto, o pedido de perícia e não vejo nessa negativa nenhum prejuízo ao contraditório e ampla defesa. 2) Nulidade Do enquadramento da infração Da leitura dos recursos voluntários, notase que os Recorrentes invocam argumentos de nulidade das autuações, sob diversas alegações: motivação confusa e não clara dos fatos, ausência de fundamentação adequada, cerceamento de direito de defesa, erro de apuração da base de cálculo, utilização indevida de prova em língua estrangeira e cobrança complementar ilegal. Do ponto de vista do processo administrativo fiscal federal, o Decreto nº 70.235/72 indica os casos de nulidade nos artigos 10º e 59, in verbis: Fl. 4947DF CARF MF 42 “Artigo 10 O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I a qualificação do autuado; II o local, a data e a hora da lavratura; III a descrição do fato; IV a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V a determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de trinta dias; VI a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula”. “Artigo 59 São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa”. Não verifico, nesse caso concreto, qualquer nulidade formal nos lançamentos, ocasionada pela inobservância do disposto no art. 10º acima. Também não se faz presente nenhuma das nulidades previstas no art. 59. Os Autos de Infração foram emitidos com observância de seus requisitos essenciais, como prescreve o artigo 142 do Código Tributário Nacional, abaixo transcrito. “Artigo 142 Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional”. Tal como determinado nesse dispositivo, os lançamentos têm como motivação um Termo de Constatação Fiscal extenso e detalhado, constante em arquivo apartado (tem 997 páginas), instruído de cerca de 5.000 folhas no processo matriz e 72.491 no processo de provas. Apesar do volume e complexidade das provas, a questão jurídica envolvida é simples e direta: a ocorrência ou não de simulação no âmbito dos pagamentos provenientes dos referidos contratos bipartidos. Mais precisamente, foram objeto de questionamentos os contratos formalizados sob o rótulo de afretamento de plataformas/embarcações de exploração de petróleo, celebrados entre a PETROBRAS com determinadas sociedades estrangeiras fretadoras (MS DRILLING LLC, TURASORIA S/A LLC, SORATU DRILLING LLC, AIROSARU DRILLING, DEEP BLACK DRILLING, DLEIF DRILLING E BAERFIELD Fl. 4948DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 23 43 DRILLING) referentes às unidades NORTH STAR I, LANCER, VITORIA 10000, SERTÃO, SCHAHIN I/SS PANTANAL, SHAHIN III/SS AMAZÔNIA E SCHAHIN TBNI/CERRADO. O contexto em que inserido cada um dos contratos se repetia: a PETROBRAS contratava, por meio de procedimento licitatório simplificado, o afretamento de plataformas (unidades operacionais) com a empresas Offshore Fretadoras, domiciliadas no exterior em mesmo endereço, e, simultaneamente, contratava a Recorrente para prestar os serviços de operação das respectivas unidades. Os contratos, assim, eram sempre firmados "aos pares" com a PETROBRAS: um designado de afretamento de embarcações, na qual figuravam como partes a Petrobras e cada uma das Offshore; e outro denominado de "Operação", na qual figuravam como partes a Petrobras e a Recorrente. A soma das atividades contempladas nos dois contratos tinha por objetivo justamente colocar as unidades em funcionamento. Sob a égide desses contratos, a maior parte da remuneração, estabelecida no Edital e no contrato, foi fixada em 90% a título de afretamento, devendo ser pago pela Petrobras às aludidas Offshore, enquanto o restante, correspondente a 10% dos pagamentos e também previsto no edital e contrato, foi faturado no Brasil pela Recorrente a título de serviços prestados ("Operação"). Ao assim proceder, a parcela correspondente a 90% dos pagamentos pôde se beneficiar da alíquota zero a título de retenção de IR na fonte em relação aos rendimentos derivados de afretamento de embarcações marítimas (Lei no 9.481/97, art. 1o, I), bem como permitiu a concentração dos recursos no exterior sem tributação, pois as Fretadoras eram residentes em país que não tributava a renda (Delaware). Constatou também a fiscalização que parte dos recursos encaminhados ao exterior retornava sob a forma de reembolso de custos/despesas e/ou taxas administrativas com as benesses tributárias conferidas à "exportação de serviço". Nesse contexto, a fiscalização, a partir dos fatos e indícios apurados, criou a convicção de que a operação, tal como estruturada, caracteriza estrutura simulada, simulação esta representada pela interposição de pessoas jurídicas (Fretadoras estrangeiras), a fim de esconder o verdadeiro titular das receitas oriundas de todos os pagamentos provenientes da PETROBRAS, que seria a Recorrente. Nas palavras do auditor fiscal responsável pelos lançamentos: [...] por entender caracterizada a "unicidade societária, volitiva, negocial, operacional, os interesses jurídicos, econômicos e financeiros em comum, a materialidade dos atos efetivamente praticados pelo contribuinte, e o claro e manifesto planejamento voltado a dissimilar a ocorrência do fato gerador, alterar a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária (destacadamente os aspectos: material, espacial e subjetivo) a fiscalização considerou para todos os fins, como sendo RECEITA OPERACIONAL DA SCHAHIN ENGENHARIA S.A. a RECEITA AUFERIDA pelas FRETADORAS "OFFSHORE" em contratos de FRETAMENTO de embarcações e plataformas para a PETROBRÁS envolvendo o GRUPO SCHAHIN em contrato Fl. 4949DF CARF MF 44 coligado para a OPERAÇÃO (SCHAHIN ENGENHARIA S.A.) (...)". [Grifos do original, fl. 906 do RF] Em face desse entendimento favorável à simulação, a operação foi re qualificada, razão pela qual os pagamentos feitos em favor das Offshore estrangeiras sob a roupagem de afretamento foram considerados receitas não tributadas (ou omitidas) pela Recorrente. Percebese, assim, que a fiscalização não realizou a desconstituição de atos ou negócios jurídicos da Recorrente, da PETROBRAS ou mesmo das Fretadoras Offshore com fulcro no parágrafo único no artigo 116 do CTN. Tampouco fundamentou a autuação em institutos como a desconsideração da personalidade jurídica, desvio de finalidade ou abuso de direito, mas, embora tenha feito menção a estes termos para reforçar a tese simulatória, enquadrou o ilícito na figura típica da simulação. É este o mérito da discussão... No que diz respeito à fundamentação legal propriamente dita, destacase a menção expressa ao artigo 288 do RIR, verbis: Art. 288 Verificada a omissão de receita, a autoridade determinará o valor do imposto e do adicional a serem lançados de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica no período de apuração a que corresponder a omissão. Quanto às contribuições, foi indicado como fundamento legal o §2º do art. 24 da Lei nº 9.249/1995, que assim dispõe: § 2º O valor da receita omitida será considerado na determinação da base de cálculo para o lançamento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – COFINS, da Contribuição para o PIS/Pasep e das contribuições previdenciárias incidentes sobre a receita. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) A fiscalização, ademais, cumpriu seu dever de realizar as diligências que julgou necessárias à caracterização da infração por omissão de receita artificialmente transferida para pessoas jurídicas interpostas em paraíso fiscal como Fretadoras. Ato contínuo, foi dada ciência dos Autos de Infração decorrentes do procedimento em questão, para que os sujeitos passivos pudessem exercer seu direito ao contraditório e ampla defesa, o que de fato ocorreu em face da detalhada defesa e do recurso apresentado, os quais demonstram a perfeita compreensão das questões de fato e de direito envolvidas. Especificamente em relação ao pedido de acesso pela Recorrente à denúncia que teria instaurado o procedimento de fiscalização que resultou nos presentes Autos de Infração, entendo que o pleito não tem fundamento e este acesso é desnecessário para o desfecho da controvérsia instaurada. Tratase, segundo penso, de informação que em nada altera a peça de acusação e os elementos que a instruem, sendo irrelevante esta origem na composição e desfecho da lide. Quanto ao argumento de que os valores considerados tributáveis, na verdade, seriam isentos, correta a decisão de piso ao assim se manifestar: Fl. 4950DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 24 45 "a constatação de que todas as atividades operacionais inerentes aos contratos de afretamento e operação foram levadas a efeito pelas empresas nacionais do grupo Schahin elide a correlação dos fatos com a hipótese de isenção prevista no art. 77, §3º, da Lei nº 12.973/2014, aventada pela impugnante à fl. 1485. O dispositivo em questão cuida exclusivamente do tratamento conferido a lucros auferidos por “controlada, direta ou indireta, ou coligada no exterior de pessoa jurídica brasileira”, enquanto o caso dos autos referese a omissão de receitas levada a efeito por pessoa jurídica nacional, mediante a simulação de que os rendimentos auferidos teriam sido produzido por empresas offshore". Não se vislumbra, portanto, nenhum vício de nulidade ou cerceamento de defesa em relação à fundamentação das autuações. Documentos em língua estrangeira A impugnante questiona a validade dos lançamentos em razão da fiscalização ter juntado documentos em língua estrangeira sem que tenham sido vertidos para o português. Não lhe assiste razão. Em primeiro lugar, não há indicação clara e precisa de quais os documentos exatos seriam e nem em que medida exata teriam prejudicado a defesa, o que já compromete o êxito do argumento. Não custa lembrar, aqui, que os autos possuem mais de 80.000 páginas de documentos. De qualquer forma, cabe observar, nesse particular, o que restou decidido pela DRJ: Como se vê, a argumentação da interessada tem por espeque – exclusivamente – a questão formal atinente à ausência de tradução juramentada, o que é insuficiente para o reconhecimento de eventual nulidade, de acordo com a orientação jurisprudencial antes referida. De outro lado, é possível verificar que os documentos em língua estrangeira referidos no relatório fiscal apresentam particularidades que lhes salvaguardam a eficácia, à luz do norteamento sedimentado pelas cortes superiores. Os documentos de fls. 685 e 689 do RF, por exemplo, representam imagens de atos societários das sociedades estrangeiras, juntados pela fiscalização com o intuito de evidenciar o vínculo dessas sociedades com as empresas nacionais do grupo SCHAHIN e seus representantes legais. Se de um lado é desnecessária a tradução do documento para que se possa identificar o liame evidenciado pela fiscalização, de outro, a matéria em questão restou comprovada por outros elementos de prova, com destaque para a petição inicial da recuperação judicial de 17/04/2015, que ratificou na plenitude a tese da fiscalização. Assim, não há qualquer razão para que se reconheça eventual nulidade dos documentos da espécie. Fl. 4951DF CARF MF 46 Situação semelhante ocorre em relação a documentos como o reproduzido à fl. 151 do RF, que identifica a propriedade da embarcação SS AMAZÔNIA. Tratase de documento produzido em espanhol e inglês, com termos de fácil compreensão, a exemplo da expressão “proprietario y domicilio”. Também aqui, não há qualquer razão para que se reconheça eventual prejuízo ao direito de defesa da impugnante. Verificase, ainda, referência a documentos de maior complexidade, como é o caso das sentenças arbitrais e dos processos de execução na corte distrital de Nova Iorque, cujas imagens foram registradas a partir da fl. 292 do RF. De fato, tais documentos não poderiam emanar eficácia probatória de per si, em face da restrição prevista no art. 157 do Código de Processo Civil. Todavia, a fiscalização valeuse do documento em questão fundamentalmente para orientar diligências realizadas na sequência do procedimento fiscal, essas sim formalizadas no idioma pátrio e utilizadas diretamente como meio de prova. Assim, mesmo em relação a esses documentos, não há motivos para que se declare a nulidade requerida pela interessada. Como se vê, os documentos em língua estrangeira presentes aos autos apresentam características distintas, cabendo sua análise, caso a caso, para fins de averiguação de eventual nulidade. Todavia, salvo melhor juízo, mesmo aqueles documentos que encontramse desacompanhados de tradução juramentada e que comportam maior complexidade, não incorporam vício que prejudique a sua validade. Subsidiariamente, cumpre registrar que, mesmo que houvesse a constatação de nulidade relativamente a algum dos elementos de prova juntados pela fiscalização, a repercussão seria o desconhecimento desse documento em particular, e não a nulidade de toda a autuação, como sugere a impugnante. Com efeito, os documentos em língua estrangeira não são determinantes ou imprescindíveis para a valoração do conjunto probatório como um todo e não interferem no julgamento. Tais documentos estrangeiros estão inseridos em um conjunto de provas muito mais amplo e detalhado e, segundo penso, sua própria existência, diante do conjunto de dados e informações, não influencia diretamente o julgamento. Ou seja, mesmo desconsiderando essas provas em língua estrangeira, a apreciação das demais provas é mais do que suficiente para a formação de uma convicção segura acerca da ocorrência ou não de simulação. Afasto, portanto, a ocorrência de cerceamento de direito de defesa ou nulidade em razão das provas apresentadas pela fiscalização. Da base de cálculo Quanto à base de cálculo, a fiscalização aplicou o artigo 249, II, do RIR/99, que reproduzo a seguir: Artigo 249 Na determinação do lucro real, serão adicionados ao lucro líquido do período de apuração: Fl. 4952DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 25 47 II os resultados, rendimentos, receitas e quaisquer outros valores não incluídos na apuração do lucro líquido que, de acordo com este Decreto, devam ser computados na determinação do lucro real. Nesse sentido, e após concluir que os Recorrentes alocaram, de forma consciente e simulada, receitas próprias para Offshore por eles interpostas na forma de Fretadoras, a fiscalização, "a duras penas", teve acesso ao fluxo de pagamentos disponibilizado pela Petrobras a esse título e a partir daí apurou as receitas consideradas omitidas. Digo "a duras penas" porque restou comprovado que os Recorrentes e a Petrobras, ao longo da fiscalização, muitas vezes apresentaram respostas incompletas, imprecisas ou genéricas, o que inclusive ensejou a lavratura de Autos de Embaraço. Os Recorrentes sempre alegaram não possuir informações das Offshore e sempre se basearam na tese de que este ônus caberia ao fisco. Nesses termos, registra a autoridade autuante que "o contribuinte sempre negou veementemente quaisquer relações com as FRETADORAS "OFFSHORE" e não apresentou, em nenhum momento, documentação alguma pertinente à relação jurídica PETROBRAS FRETADORAS "OFFSHORE"" (fls. 2.246). Diante da resposta de que os dados das Offshore não poderiam ser disponibilizados pelos Recorrentes, coube ao fisco diligenciar a fonte pagadora e terceiros. A Petrobras, apesar de realmente ter se omitido em algumas solicitações, acabou fornecendo, ainda que de forma "picada" e com uma resistência pouco comum do que se espera de uma estatal de tal porte, as informações sobre os pagamentos objeto das faturas (invoices) das Offshore. A partir dessa relação, a autoridade autuante calculou mensalmente as receitas omitidas com base no regime de caixa, na linha do que determina o artigo 409 do RIR/996. E após revisão levada a cabo por meio de diligência específica, todos os valores utilizados como parâmetro encontramse identificados no termo de Informação Fiscal de fls. 2.245/2.261 em versões analítica, sintética e comparativa. A fiscalização se certificou, ainda, que os custos e as despesas da operação como um todo sempre foram registrados pela Recorrente (no Brasil, portanto), o que fazia a operação sempre operar com prejuízos em solos brasileiros e com lucro alocado ao exterior. Vejase, a título de exemplo, a seguinte passagem do RF: "O relato da agencia MOODYs7 é categórico: a RECEITA da SCHAHIN ENGENHARIA S.A. pela operação da SC LANCER não consegue cobrir 40% dos custos operacionais, ou seja, a SCHAHIN tem prejuízo na operação brasileira, é deficitária para fins de tributação. O restante para cobrir tais despesas operacionais é resultado do saldo das contas "waterfall" no exterior, controlada pelos agentes representantes dos credores, após o direcionamento do principal, juros e demais encargos 6 Art. 409. No caso de empreitada ou fornecimento contratado, nas condições dos arts. 407 ou 408, com pessoa jurídica de direito público, ou empresa sob seu controle, empresa pública, sociedade de economia mista ou sua subsidiária, o contribuinte poderá diferir a tributação do lucro até sua realização, [...] Ver https://www.moodys.com/research/MoodysassignsfirsttimeBaa3ratingtotheLancerFinance PR_205588 Fl. 4953DF CARF MF 48 contratuais aos CREDORES (inclusive de portadores de títulos emitidos para captação de recursos). Este é o motivo da desproporcionalidade entre receitas de contratos de AFRETAMENTO e OPERAÇÃO (9 para 1 aproximadamente): tornar a operação doméstica deficitária e a operação OFFSHORE altamente lucrativa e domiciliada em Paraíso Fiscal". [...] o FRETAMENTO das OFFSHORE é confortavelmente LUCRATIVA em Paraíso Fiscal, com tributação francamente favorecida. Este o motivo pelo qual é imprescindível que as licitações sejam vencidas e os contratos celebrados justamente aos pares: SCHAHIN E SUA OFFSHORE. Na realidade, o interesse jurídico é uno entre o GRUPO SCHAHIN e OFFSHORE". Já a decisão de piso registra que "a SCHAHIN não sabe discriminar CUSTOS e DESPESAS a cargo das FRETADORAS OFFSHORE dos seus custos e despesas". Nesse estado de coisas, entendo que nenhum reparo cabe à metodologia de apuração da base de cálculo que foi adotada nesses lançamentos. As receitas do afretamento foram apuradas com base em diligências fiscais promovidas diretamente na fonte pagadora (Petrobras), afinal os Recorrentes afirmaram não possuir os dados das Offshore. Ato contínuo, o fisco, fiel à tese de mérito de simulação, imputou essas receitas ao verdadeiro titular, a Recorrente, para fins de apurar os tributos que deixaram de ser recolhidos em face da omissão. Na defesa a contribuinte reclama que a fiscalização desconsiderou, para fins de apuração das bases de cálculo do IRPJ e Reflexos, o efeito dos custos e despesas incorridos pelas empresas estrangeiras desconsideradas (as Offshore), custos e despesas estes que deveriam ter sido apurados pela fiscalização sob pena de macular as autuações por vício de nulidade. Essa nulidade foi afastada pela decisão recorrida com base no seguinte motivo: Em primeiro plano, cumpre registrar a improcedência da alegação de nulidade da exigência fiscal em face de suposta impropriedade na apuração das bases de cálculo lançadas de ofício, de vez que a hipótese cogitada pela impugnante não encontra assento dentre as causas de nulidade previstas no art. 59 do Decreto nº 70.235/1972. De outro lado, deve ser improvido o pedido de diligência para apuração de eventuais custos e despesas incorridos pelas afretadoras offshore, de vez que caberia à contribuinte, no âmbito de sua impugnação, apresentar tais elementos. A fiscalização empreendeu considerável esforço na consolidação de sua tese e identificou com precisão as receitas que restaram sonegadas à Fazenda Pública. Caso a contribuinte tenha identificado parcelas que escaparam à mecânica de apuração da Fl. 4954DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 26 49 base de cálculo tributável dos tributos exigidos de ofício, deveria ter demonstrado, junto à impugnação, a sua devida identificação, com a concomitante apresentação dos elementos de prova correspondentes. A ausência dessa especificação prejudica de maneira insanável, em sede de julgamento, a análise das razões da defesa Esse raciocínio é particularmente aplicável no que se refere à apuração de eventuais créditos de PIS e COFINS. Nesse particular, cumpre registrar que, no curso da fiscalização, a contribuinte sequer logrou apresentar à fiscalização a devida discriminação da titularidade dos custos e despesas que encontravamse registrados em sua contabilidade, o que repercutiu, inclusive, na formalização do auto de embaraço nº 02 (fl. 4894 do processo de provas) contra a fiscalizada. Por ocasião do recurso voluntário, a Recorrente abandona a tese de que o ônus quanto à obtenção de dados das Offshore caberia ao fisco e apresenta Parecer (fls. 3.470/3.510), junto com documentação contábil das Fretadoras, sustentando existir como saldo total de custos e despesas a serem deduzidos da receita a substancial quantia de R$ 2.351.376.000,00. Da análise do referido "Parecer", percebese que: (i) tratase, na verdade, de uma opinião legal de autoria de profissional contratado pela própria Shahin para avaliar a procedência ou não dos Autos de Infração com ênfase nos temas "omissão de receitas", "arbitramento da receita e resultado"; e "não observância dos pressupostos básicos da entidade e competência"; (ii) não possui efeito vinculante; e (iii) anexa Demonstrações Contábeis (fls. 3.512/3.726) em língua estrangeira como a principal fonte do estudo. De plano, cumpre reiterar que no âmbito do Processo Administrativo Fiscal, a produção de provas documentais deve ser feita, como regra, na impugnação, a não ser que isso seja impraticável, nos termos do art. 16, §§ 4º e 5º, do Decreto nº 70.235/1972, in verbis: “Art. 16. A impugnação mencionará: [...] § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos § 5º A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora, mediante petição em que se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior”. Fl. 4955DF CARF MF 50 A juntada de “novos documentos” aos autos é medida, portanto, excepcional e permitida nas situações contempladas nos dispositivos citados. Em razão dos princípios da legalidade e verdade material, entendo que tais dispositivos devem ser interpretados de forma flexível, o que significa dizer que, na prática, o recebimento ou a negativa de provas juntadas apenas por ocasião do recurso é tema que sempre envolve enorme grau de subjetividade por parte do Julgador. Em linhas gerais, penso que provas apresentadas em momento posterior à defesa devem ser aceitas somente se o Julgador se convencer acerca dos motivos de não terem sido produzidas anteriormente (ou seja até a impugnação). Não é essa a situação presente. Pelo contrário, os Recorrentes, somente por ocasião do recurso voluntário, pedem a dedução de custos e despesas que seriam de titularidade das Offshore com base em documentação contábil que foi sucessivamente solicitada pelo fiscal autuante, mas que nunca foi apresentada pelo contribuinte. Isso significa dizer que, em termos processuais, a juntada dessa documentação apenas em sede recursal fere os ditames do art. 16, § 4º acima transcrito. Ademais, a apreciação dessa prova nesse momento processual ainda encontrase óbice diante da inteligência da Súmula do CARF nº 59, que assim dispõe: "a tributação do lucro na sistemática do lucro arbitrado não é invalidada pela apresentação, posterior ao lançamento, de livros e documentos imprescindíveis para a apuração do crédito tributário que, após regular intimação, deixaram de ser exibidos durante o procedimento fiscal". Mas, não é só. Do ponto de vista formal, chama ainda atenção o fato de que as Demonstrações Contábeis estão em língua inglesa, o que, no entendimento amplamente defendido pelo próprio contribuinte, o documentos sequer seria válido como prova. E nem se alegue, no mérito, que a contabilidade, por si só, é suficiente para a dedução pleiteada pelo contribuinte. Isso porque o artigo 9238 do RIR/99 é claro ao prescrever que os fatos registrados na contabilidade somente faz prova se comprovados por documentação hábil. De fato, para fins de apuração do lucro real, são dedutíveis as despesas que, não registradas como custo, sejam necessárias para o desenvolvimento da atividade da pessoa jurídica e para a manutenção da respectiva fonte produtora. Mais precisamente, a regra geral para conferir dedutibilidade a determinado gasto é a de que ele deve ser usual ou normal no tipo de transação ou operação exigida pela atividade da empresa, além de ser passível de comprovação. Das orientações trazidas pelo RIR/99, notadamente o artigo 2999, concluise que não existe uma lista taxativa de despesas que são ou não dedutíveis da base de cálculo do 8 Art. 923. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 9º, § 1º). 9 Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Fl. 4956DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 27 51 IRPJ. Pelo contrário, a exclusão de um determinado gasto do lucro real depende unicamente da sua função no contexto das atividades desempenhadas pela pessoa jurídica. Para ser dedutível, a despesa deve ser usual e normal para a realização das transações exigidas pela atividade da empresa e devem ser comprovadas com documentos hábeis. As pessoas jurídicas tributadas com base lucro real podem comprovar suas despesas dedutíveis por meio de qualquer documentação hábil e idônea, mas desde que fique claramente demonstrada a natureza da despesa, o beneficiário, a efetiva aquisição de bem e/ou serviço e o valor da operação, sob pena de tornar o dispêndio indedutível. Nesse caso concreto, todavia, o contribuinte não comprovou a natureza e a origem efetiva dos dados contábeis que apresenta com nenhuma prova ou documental hábil suporte. Não é possível aferir a exata natureza e composição das rubricas, muito menos confrontar os registros contábeis com a sua respectiva causa, assim como com a contabilidade da Recorrente. Feitas essas considerações, entendo que a documentação apresentada, além de atingida pela preclusão, é insuficiente para reduzir a base de cálculo dos lançamentos. Lançamento complementar Após a realização da diligência solicitada pela DRJ, a fiscalização (fls. 2.245/2.261): (i) atestou e demonstrou que as receitas do afretamento devem ser apuradas pelo regime de caixa; e (ii) certificou a existência de erros na elaboração das planilhas originárias, informadas junto à Tabela XI3 do relatório fiscal (fls. 910/918 do RF), erros estes que resultaram na apuração a menor das bases de cálculo lançadas nesse processo administrativo. Tais erros foram sanados mediante emissão de Autos de Infração Complementares, o que deu origem a novo processo administrativo fiscal (de n° 19515.721233/201562, apenso a este processo), com fundamento no art. 18, caput e §3°, do Decreto n° 70.235/1972, in verbis: Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine. [...] § 3º Quando, em exames posteriores, diligências ou perícias, realizados no curso do processo, forem verificadas incorreções, omissões ou inexatidões de que resultem agravamento da exigência inicial, inovação ou alteração da fundamentação legal da exigência, será lavrado auto de infração ou emitida notificação de lançamento complementar, devolvendose, ao sujeito passivo, prazo para impugnação no concernente à matéria modificada. De acordo com a decisão de primeira instância: [...] é nítido que a fiscalização agiu corretamente ao tomar as informações fornecidas pela Petrobras para quantificar as Fl. 4957DF CARF MF 52 receitas omitidas à fiscalização no curso dos anos de 2010 a 2013. Mas incidiu em erro material na transcrição dos dados para a tabela de fls. 910/917 (ver Tabela XI3 do RF). Assim, o lançamento complementar levado a efeito junto ao processo nº 19515.721233/201562 teve por escopo tãosomente promover os devidos ajustes materiais pertinentes aos erros de transcrição cometidos quando da elaboração da planilha constante da Tabela XI3 do Relatório Fiscal e seus consectários, tendo sido realizado com estrita observância ao disposto nas normas reguladoras do processo administrativo fiscal. Improcedentes, pois, as alegações de que a fiscalização teria promovido “novo lançamento” em relação à matéria, de vez que se trata, como se disse, de mera complementação ao lançamento original. Concordo com esse racional. A autuação complementar foi feita sob amparo do artigo 18, § 3º, do Decreto n. 70.235/72 e dentro do prazo decadencial. Não houve erro de direito ou qualquer outro vício material, mas apenas adequação da base de cálculo aos valores de fato levantados. REPETRO Também não acato o argumento de que o fisco não teria poderes para questionar a operação de afretamento pois esta já teria sido considerada correta no âmbito do REPETRO. Como razões de decidir, adoto o entendimento proferido pela DRJ e que ora trago à baila: As considerações da interessada a respeito das importações realizadas sob o amparo do REPETRO são igualmente insuficientes para elidir a tese da fiscalização. Segundo a impugnante, o fato de que (i) foram realizadas inúmeras importações ao abrigo desse regime aduaneiro especial, somada (ii) à circunstância de que tais operações restaram convalidadas pelas autoridades aduaneiras competentes, deve repercutir na conclusão (iii) de que os atos praticados pelas partes foram lícitos e de que o auditorfiscal responsável pela fiscalização dos tributos internos não seria sequer competente para “desconsiderar ou cancelar os Afretamentos em Regime de Admissão Temporária”. Como se verá a seguir, o raciocínio da interessada incorpora um falso silogismo. O REPETRO consiste em regime aduaneiro especial de importação e exportação de bens destinados às atividades de pesquisa e lavra das jazidas de petróleo e gás natural, sem a incidência dos tributos federais – II, IPI, PIS e COFINS, além do adicional de frete para renovação da marinha mercante – AFRMM. A finalidade do REPETRO é a redução da carga tributária na importação dos bens utilizados na atividade de exploração e Fl. 4958DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 28 53 produção de petróleo e o arquétipo do modelo de habilitação ao regime encontrase presentemente previsto no artigo 4º da IN SRF nº 1.415/2013, que assim dispõe: Art. 4º O Repetro será utilizado exclusivamente por pessoa jurídica habilitada pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB). Parágrafo único. Poderão ser habilitadas ao Repetro: I a operadora, assim entendida, para efeitos desta instrução Normativa, a detentora de concessão, de autorização ou de cessão, ou a contratada sob o regime de partilha de produção, para o exercício, no País, das atividades de que trata o art. 1º; e II as seguintes pessoas jurídicas com sede no País, desde que indicadas por operadora: a) a contratada, em afretamento por tempo ou para a prestação de serviços, para execução das atividades previstas no art. 1o; b) a subcontratada da pessoa jurídica mencionada na alínea "a"; e c) a designada para promover a importação dos bens a serem utilizados nos termos da alínea "a", quando a contratada não for sediada no País. A habilitação ao REPETRO é fundamentalmente franqueada à “operadora” (pessoa jurídica detentora de concessão, de autorização ou de cessão, ou a contratada sob o regime de partilha de produção), admitindose igualmente a habilitação a pessoas jurídicas indicadas pela “operadora”, desde que vinculadas a (i) contrato de afretamento ou (ii) prestação de serviços. Ao analisar a documentação pertinente ao exercício de importações realizadas no âmbito do regime aduaneiro especial – REPETRO – pela fiscalizada, a autoridade fazendária verificou que, embora existindo contratos supostamente autônomos de afretamento e prestação de serviços, a importação de bens vinculados a um e outro contratos era operacionalizada exclusivamente pelas empresas nacionais do grupo SCHAHIN, como se vê nas transcrições a seguir (itens 2.6.3 e 2.6.7 do RF): [...] O mecanismo utilizado pela contribuinte para viabilizar a importação desses bens sob o manto do REPETRO, já que as fretadoras Offshore são inoperantes, foi relatado pelo auditor fiscal junto ao item 2.6.11 do relatório fiscal: Petrobras e a afretadora Offshore formalizam aditivo ao contrato de afretamento, de maneira a substituir a cláusula que originalmente atribuía à fretadora Offshore a responsabilidade exclusiva pela importação dos bens necessários à execução do afretamento. Com o aditivo, a afretadora Offshore designa empresa nacional do grupo Schahin a realizar as importações dos referidos bens. O exemplo trazido pela fiscalização junto ao Fl. 4959DF CARF MF 54 item 2.6.11 do RF diz respeito à cláusula 26.1 do contrato de arrendamento nº 2050.0042742.08.2. Reproduzo a seguir excerto desse item, onde encontrase transcrito o referido aditivo contratual: [...] Por meio do referido aditivo, as partes procuraram construir um liame jurídico entre a empresa nacional e o contrato de afretamento, de maneira a configurar a suposta adequação dessa pessoa jurídica às normas que tratam da habilitação ao REPETRO. [...] Importante destacar que não houve, ao contrário do que alega a impugnante, qualquer ato da fiscalização tendente a “desconsiderar os fatos, atos e negócios jurídicos praticados segundo o regime especial aduaneiro do REPETRO”. Não foi esse o escopo da auditoriafiscal. Tampouco é possível concluir, a exemplo do que sugere a interessada, que o atendimento formal às normas reguladoras do REPETRO confere idoneidade à estrutura de negócios levada a efeito pelo grupo Schahin. Longe disso, os fatos descortinados pela fiscalização evidenciam que as empresas nacionais do grupo Schahin realizaram todo o conjunto de atividades pertinentes aos contratos de afretamento formalizados junto à Petrobras, inclusive e em especial as obrigações derivadas ao regime aduaneiro de admissão temporária, ... [...] Nesse sentido, concordo que os argumento que giram em torno do Repetro são irrelevantes para o presente julgamento. 3) Da simulação Conceito de simulação A simulação realmente permite ao fisco afastar os atos considerados inexistentes e descortinar aqueles efetivamente praticados, não configurando violação ao artigo 110 do CTN ou outro dispositivo legal. Tanto é assim que a simulação constitui, junto com as figuras do dolo e fraude, hipótese de revisão de ofício expressamente prevista no artigo 149, VII, do CTN, verbis: “Artigo 149 – O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: [...] VII – quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação. No contexto dos planejamentos tributários, a figura da simulação cada vez mais merece destaque, afinal ela está inserida como principal limite do que pode e o que não pode fazer nesta seara. É a simulação uma espécie de divisor de águas. Havendo simulação, estaremos de caso de evasão fiscal, ilicitude que deve ser combatida e que permite a re qualificação jurídica dos fatos. Afastada a simulação, estaremos diante de elisão fiscal, isto é, Fl. 4960DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 29 55 planejamento fiscal lícito e assegurado desde que em consonância com os princípios da legalidade e livre iniciativa. O tema, portanto, enseja um percurso sobre os contornos doutrinários e normativos da simulação, para em seguida ponderar se estamos ou não diante de uma estrutura simulada que gerou economia ilícita de tributos, como sustenta a peça acusatória. As teses tradicionais sobre o conceito de simulação desenvolveram seus estudos dentro do âmbito do negócio jurídico, partindo da premissa de que a simulação corresponde a um defeito, um vício do negócio jurídico. Nesses termos, simular é tornar semelhante, dar aparência ao que não é verdadeiro. A simulação pode compararse a um fantasma, a dissimulação a uma máscara. É este o ponto de partida adotado na clássica obra de Francisco Ferrara10, civilista italiano que muito influenciou a doutrina brasileira. Adepto da teoria voluntarista, leciona que o negócio simulado implica a ocorrência de uma aparência diferente da realidade. Assim, a característica marcante do negócio simulado seria a divergência intencional entre a vontade e a declaração, visando iludir terceiros (o que inclui o fisco). A crítica que se costuma fazer dessa teoria diz respeito à ausência da aludida divergência. Precisamente porque os simuladores declaram espontaneamente o que querem, não seria pertinente falar na existência de conflito entre a vontade e a declaração. É certo que não querem os efeitos, mas querem a forma do negócio; a aparência desse negócio é indispensável por razões que as levam a simular11. Diante dessa crítica, a teoria declarativista – que possuiu menor influência que a teoria voluntarista , ainda conferindo enfoque subjetivista à simulação, passa a sustentar que a vontade interna não possui significado enquanto não seja declarada, razão pela qual a simulação deve ser vista como um conflito entre declarações. Desse modo, as partes emitiriam uma declaração dirigida ao público e uma contradeclaração para conhecimento restrito das partes (um “contrato de gaveta”, por exemplo), de modo que o efeito do negócio seria neutralizado. O negócio simulado, então, não seria um negócio inexistente, mas sim um negócio sem resultado jurídico. O principal argumento oposto à teoria declarativista consiste no fato de que o negócio simulado não seria neutralizado por um ato posterior, já que desde sua origem corresponde a um ato aparente. Desta forma, a contradeclaração não teria como revelar caráter modificativo, mas meramente declaratório. Além disso, os críticos esclarecem que a prerrogativa da nulidade advém do ordenamento jurídico, e não da autonomia da vontade12. As críticas às duas teorias subjetivas apontadas ensejaram o exame do instituto da “simulação” por um viés alternativo, o que deu azo às manifestações integradas na dita teoria objetivista (ou teoria causalista), a qual já dá sinais de prevalência na doutrina pátria acerca do tema. 10 A simulação dos negócios jurídicos. Trad. Dr. A. Bossa. São Paulo: Saraiva. 1939. P. 50 11 Cf. Custódio da Piedade Ubaldino Miranda. A simulação no direito civil brasileiro. São Paulo: Saraiva, 1980, P. 37. 12 Cf. Fábio Piovesan Bozza. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo: Quartier Latin. P. 158 Fl. 4961DF CARF MF 56 Francesco Carnelutti13 foi um dos que inaugurou a vertente teórica objetivista no campo de estudo da simulação, a qual para o autor é um incidente relacionado à inadequação da causa e decorrente da circunstância de um ato ser querido para o atendimento de interesse diverso ou incompatível com os seus respectivos efeitos jurídicos. Nesse sentido, todo ato ou negócio jurídico tem uma causa, chamada de “causa jurídica” ou “função típica”, que corresponde aos efeitos jurídicos que se espera do negócio celebrado. Atentese que a causa corresponde às conseqüências jurídicas inerentes a cada tipo negocial. Para Emílio Betti14, expoente da tese objetivista e muito citado pela doutrina brasileira, a simulação é o resultado de um conflito insanável entre o escopo típico e a causa. Ela expressa um abuso da função instrumental do negócio jurídico. Assim, o elemento fático, notadamente o comportamento negocial, deve participar diretamente da valoração dos vícios da causa. Haverá simulação se houver incompatibilidade entre a causa típica do negócio (causa abstrata) e a intenção prática concretamente procurada pelas partes (causa concreta). Finalmente, ainda convém informar que já existem manifestações doutrinárias que pretendem dar autonomia (tipicidade) ao negócio simulado. É o caso da interessante obra de Luiz Carlos de Andrade Júnior, autor este que, após criticar a idéia tradicional de que a simulação consiste em um defeito no negócio jurídico, busca demonstrar, no negócio simulado, uma manifestação de autonomia privada típica pela qual as partes conjugam esforços para, através do engano, perseguirem um determinado resultado, e que é nula porque a lei assim estipula. Ao definir o conceito de simulação, leciona o referido autor que a “simulação é um programa de autonomia privada pelo qual as partes articulam ações e omissões com o objetivo de criar a ilusão negocial, assim entendido o erro coletivo, objetivamente aferível, relativo à interpretação e/ou à qualificação do negócio jurídico” 15. Diante, então, das teorias mais relevantes sobre a matéria, forçoso concluir que, em se tratando de reorganizações societárias ou qualquer outro negócio celebrado no âmbito do Direito Privado, haverá simulação apenas se (i) existir divergência entre a vontade e a declaração ou entre declarações; (ii) as conseqüências jurídicas verificadas na prática (causa concreta) não se prestarem ao seu tipo ou fins jurídicos (causa abstrata) ou (iii) quando as partes se valerem de um negócio simulado típico para criarem uma ilusão negocial aos olhos de quem vê. Pois bem. Dentre as classificações feitas no âmbito da simulação, a mais importante é aquela que se faz em função ao fim a que se presta. Assim, se é a própria simulação a relação jurídica estabelecida entre as partes, falase em simulação absoluta. Caso, porém, se tem por finalidade a celebração de um negócio para esconder outro, o dissimulado, estaremos diante da simulação relativa. Na simulação absoluta as partes criam um ato ou negócio que é meramente aparente, produzindo uma ilusão aos olhos de quem vê. Declaram algo que não ocorreu. Assim, por exemplo, determinada pessoa simula alienar imóvel com o objetivo de fraudar a partilha diante de uma dissolução de união estável. Já na simulação relativa as partes celebram um negócio para encobrir outro. Declaram que ocorreu uma coisa (doação, por exemplo) para encobrir coisa diferente, dissimulada (como uma compra e venda). 13 Sistema del Diritto Processuale Civile, vol II. Pádua: CEDAM. 1938. 14 Teoria Geral do Negócio Jurídico. Campinas: Servanda. 2008. P. 562 e 578. 15 A simulação no Direito Civil. São Paulo: Malheiros. 2016. P. 19. Fl. 4962DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 30 57 Valendose da fértil imaginação de alguns autores, a simulação absoluta já foi chamada de simulação nua, corpo sem alma, ilusão externa, fantasma, negócio vazio e véu enganador; a simulação relativa, por sua vez, não raramente costuma ser referida como simulação vestida, máscara, roupagem, invólucro e túnica. E o intuito enganatório das partes, o acordo simulatório, costuma ser descrito como malícia, artimanha, artifício, astúcia, manha, dentre outros signos16. No direito positivo, o Código Civil de 1916 disciplinava a simulação como causa de anulabilidade do negócio jurídico (art. 147, II). Com o Código Civil de 2002, contudo, a simulação foi inserida no capítulo “Da Invalidade do Negócio Jurídico”, passando a ser causa de nulidade do negócio nos termos do artigo 167: “Artigo 167 É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. §1º Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; II contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III os instrumentos particulares forem antedatados, ou pós datados.” O primeiro inciso, quando se refere aos negócios jurídicos que aparentam conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se transmitem, compreende a simulação subjetiva. Tratase de hipótese de simulação relativa, afinal haverá dois negócios: o negócio simulado (ou aparente), nulo, e o dissimulado (ou real), pelo qual realmente se transmitem os direitos. Nesses casos de interposição de pessoas, cumpre observar que considerase simulada apenas a interposição fictícia, que é diferente da interposição real. Na interposição fictícia, o sujeito não quer aparecer no negócio, razão pela qual interpõe uma pessoa que concorda em substituílo para satisfazer a aparência. Não raramente a ação do interposto fictício limitase a “emprestar” seu nome nos documentos formais da operação negocial, sendo comumente chamado de testa de ferro, laranja, prestanome, dentre outros rótulos. O segundo inciso contempla a simulação objetiva, identificada a partir da existência de declarações falsas (ou, com maior precisão semântica, declarações mentirosas) que buscam iludir terceiros. E a última hipótese (inciso III) – simulação de data – ocorre diante da presença de uma data não verdadeira. O negócio, assim, é simulado porque o aspecto temporal (o momento no qual foi de fato realizado) é aparente, simulandose para o passado (antedatado) ou para o futuro (pós datado). 16 Exemplos extraídos da obra de Alberto Xavier. Tipicidade da tributação, simulação e norma antielisiva. São Paulo: Dialética. 2002. P. 55. Fl. 4963DF CARF MF 58 O ônus de provar a caracterização da simulação é do fisco, nos termos do artigo 142 do CTN, que determina que compete privativamente à autoridade administrativa apurar a ocorrência do fato gerador, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Compete à fiscalização, portanto, a tarefa de reunir elementos probatórios acerca da simulação, podendo se valer, no cumprimento deste ônus, de todos os meios de prova admitidos no Direito. Segundo Fabiana Del Padre Tomé: É corrente a distinção entre indício e prova em função do grau de convicção que o fato provado acarrete no julgador: seria prova quando levar à certeza, e indício se dele decorrer mera possibilidade. Só haverá certeza sobre a veracidade ou não de um fato, porém, se sua ocorrência for necessária ou impossível. Em todas as demais hipóteses, estaremos sempre diante de meras probabilidades, cuja força varia conforme o número de indícios favoráveis e contrários, firmandose, em nome da segurança jurídica, uma “certeza no direito”. A decisão do julgador é que determinará se ocorreu ou não determinado fato e essa será a verdade jurídica. Por tal razão, conclui Francesco Carnelutti que a certeza é também alcançada pelas presunções estabelecidas a partir de indícios: “se com certeza se designa a satisfação do juiz acerca do grau de verossimilitude, não cabe negar que se obtém inclusive com as fontes de presunção, posto que, se não a obtivesse, não poderia jamais considerar provado o juiz um fato por meio de presunções”; Até mesmo porque, como vimos em tópicos antecedentes, toda prova é indiciária, levando ao estabelecimento da verdade por meio de raciocínio presuntivo. (A prova no direito tributário. São Paulo: Noeses. 2005. P. 138) Na prática, nos casos que envolvem dolo, fraude ou simulação, a constituição de prova é tarefa complexa e de árdua produção, afinal as partes buscam intencionalmente esconder a verdadeira causa e finalidade do seu comportamento negocial. É justamente em cenários como esses, porém, que são cabíveis as provas ditas indiretas, figuras estas que, aliás, são admitidas no ordenamento jurídico como meio probatório hábil e idôneo e que cada vez mais ganham espaço no direito tributário brasileiro. Sobre o tema, precisas são as palavras de Fábio Piovesan Bozza17: Por se tratar de prova indireta, a conclusão sobre a existência do fato principal desconhecido, a partir de indício, estará sujeita a diferentes graus de crença. Se o fato desconhecido pode ter multiplicidade de causa, ou ser causa de muitos efeitos, o indício isolado perde a força e impede o emprego da presunção. Por isso, o quadro de indícios deve ser: · preciso: o fato controvertido deve ter ligação direta com o fato conhecido, podendo dele extrair consequências claras e efetivamente possíveis, a ponto de rechaçar outras possíveis soluções; 17 Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo: Quartier Latin. 2015. P. 191/193) Fl. 4964DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 31 59 · grave: resultante de uma forte probabilidade e capacidade de induzir à persuasão. · harmônico: com os indícios concordantes entre si e não contraditórios, os quais convergem para a mesma solução, de modo a aumentar o grau de confirmação lógica sobre uma dada ilação. O que precisa ficar claro, nesse contexto, é que apenas a conjugação de indícios coerentes, precisos e que se convergem para uma presunção que gere confiança para o convencimento é que caracteriza a prova em favor do fisco. Esse também é o entendimento que prevalece na jurisprudência deste E. Conselho, conforme atestam as ementas abaixo: PROVA INDICIÁRIA A prova indiciária para referendar a identificação do sujeito passivo deve ser constituída de indícios que sejam veementes, graves, precisos e convergentes, que examinados em conjunto levem ao convencimento do julgador. (Acórdão nº 10423.293. DOU 30/10/2008). PROVA INDICIÁRIA A prova indiciária é meio idôneo para referendar uma autuação, desde que ela resulte da soma de indícios convergentes. É o caso dos autos em resta patente a interposição de pessoa jurídica inexistente de fato. (Acórdão nº 10709.175. DOU 18/02/2009) ÔNUS DA PROVA INDÍCIOS CONVERGENTES O encargo de trazer prova aos autos é do contribuinte quando o Fisco reúne vários fatos conhecidos que representam indícios, os quais, reunidos e coordenados por processo lógico, resultam no fato até então desconhecido e considerado como omissão de receitas. (Acórdão nº 10807.991. DOU 01/12/2014) Com efeito, não é mais possível negar que a comprovação de situações que envolvem empresas interpostas e/ou sócios “laranjas”, por exemplo, onde o que se busca é justamente a ocultação da verdadeira parte ou operação, possa ser feita por meio de indícios e presunções colhidos em torno do comportamento das partes. A existência ou não de simulação por interposição de pessoas depende de cada situação fática. Não obstante, é possível identificar, a partir da experiência, alguns indícios comuns que podem levar a esta constatação. São eles, sem prejuízos de eventuais outros: a capacidade dos sócios; a coincidência de administradores e/ou procuradores; gestão única do negócio; semelhança de atividades; identidade de endereço; empregados comuns; estrutura operacional dependente; incapacidade econômica; contabilidade centralizada; inexperiência técnica; benefício financeiro; confusão patrimonial; e impacto da carga tributária. Apenas com a reunião de indícios precisos e convergentes, capazes de provar a existência de simulação, é que estaremos no campo do planejamento tributário ilícito. Da análise do caso concreto Fl. 4965DF CARF MF 60 De acordo com o que foi constatado pela fiscalização: (i) os contratos celebrados entre a Petrobras e as fretadoras Offshore e entre a Petrobras e a Recorrente indicam uma confusão entre partes, sócios, domicílio, objeto, obrigações e responsabilidades. Todas as Fretadoras possuem o mesmo domicilio contratual e legal; os representantes legais das Fretadoras são a maioria das vezes as mesmas pessoas (Milton Taufic Schahin e Salim Taufic Shahin, sócios da Recorrente) e "eventualmente os representantes legais das Offshore também são prepostos da Shahin Engenharia". São empresas criadas em local com tributação privilegiada (paraíso fiscal) sem patrimônio suficiente para fazer frente às demandas contratuais assumidas, sem expertise no ramo de petróleo e gás e sem nunca ter atuado em território nacional, ao contrário da vasta reputação da Shahin Engenharia nessa seara; (ii) o patrimônio da Shahin, na verdade, é o único a responder perante as garantias dos credores financiadores do projeto como um todo, englobando afretamento e operação. A Shahin é quem de fato assume os riscos e a responsabilidade de toda a operação através de um sistema de garantias das mais variadas ordens, como cessão fiduciária de créditos, alienações de direitos creditórios, fianças etc., todas levadas a cabo por ela própria e sem a intervenção das Fretadoras. Nesse ponto, destacase que há cláusula de solidariedade, total e irrestrita, através da qual o Operador (Recorrente) se solidariza com o Fretador nos contratos destes com a Petrobras e, correspondentemente, o Fretador se solidariza com o Operador nos contratos desses últimos. Todos os solidários, digase, são responsáveis perante a Petrobras, pelo todo, independente de ordem de preferência. A Shahin, aliás, que figura como contratante originária do seguro global das embarcações/plataformas, ainda que para posterior endosso. (iii) foi a Shahin a executora das atividades inerentes aos dois contratos (Operação e Afretamento) de forma indistinta. Além de propiciar toda a base para a operação, a Shahin assumiu, ainda, o papel de beneficiário do regime de admissão temporária. É o grupo Shahin no Brasil que participa das Licitações na modalidade convite internacional em conluio com a Petrobras e Fretadoras. É a Shahin que atua na busca por Financiadores, na manutenção e desenvolvimento de estaleiros no exterior; no comissionamento e intermediação para atuação em águas brasileiras; na assunção de custos e despesas globais e no controle de pagamentos e recebimento do projeto como um todo. Nesse sentido, o fisco demonstra como se dava o financiamento do projeto global: através de garantias em operações financeiras estruturadas sempre pela Recorrente junto a instituições financeiras, como o Deutsche Bank, para levantar os recursos não só para viabilizar a construção das plataformas (ou embarcações), mas também para utilização em rolagem de dívidas, refinanciamentos de projetos, provimento de fundos para "contas de reserva" e "compras e aquisições de equipamentos". Demonstra também que a Recorrente (Shahin Engenharia) participou de construção de estaleiros como atividade operacional, figurando inclusive como proprietária, "assessorou" as Fretadoras nos processos de construção, gerenciamento e manutenção das embarcações, atuou na liberação das unidades para o transporte em águas brasileiras, na execução de testes e homologação de todas as especificações técnicas e operacionais, na intermediação para entrega e aceite junto à Petrobras, na realização de auditorias nas obras, enfim, praticou todos as funções inerentes aos "dois contratos". Fl. 4966DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 32 61 A fiscalização ainda se certifica de que vários prestadores de serviços atuaram na fase de construção das plataformas como empregados ou contratados pela Shahim, não havendo vinculação desses funcionários com as Offshore; e que há gestão de fornecedores da Shahin em estaleiros no exterior, inclusive em fase pré operacional. (iv) a prática de "gestão e reembolso" e sua respectiva contabilização demonstram, ademais, que a Schahin e as Fretadoras de fato "se fundem numa mesma pessoa no contexto global". Nesse particular, a Shahin tentou justificar que a sua assunção ou absorção das obrigações contratuais imputadas às Fretadoras teria por base relações meramente comerciais, fazendo ela jus às remunerações ínfimas e desproporcionais, quais sejam, de US$1.000,00 mensais no que diz respeito às atividades contempladas nos contratos de gestão e construção; e de 1% de taxa de administração sobre os reembolsos objeto dos contratos de gestão e reembolso. Nem toda a receita objeto do reembolso é contabilizada e efetivamente cobrada, sendo os registros efetuados de forma centralizada e consolidada pela Recorrente, sem correspondência lógica entre datas e operações, fato este que impede aferir de forma clara e precisa a sua origem, composição e natureza. (v) após esmiuçar os atos constitutivos de todas as empresas envolvidas e vinculadas ao grupo Shahin, foi constatada a identidade de controle, representado no topo da cadeia pelos sócios da Recorrente MILTON TAUFIC SCHAHIN e SALIM TAUFIC SCHAHIN. Diante desses fatos e do conjunto probatório acostado aos autos, as autoridades julgadoras de primeira instância chegaram a seguinte conclusão: “[...]após cuidadosa leitura dos argumentos apresentados pelas partes, entendo que a razão está ao lado da autoridade fazendária, que logrou caracterizar não apenas a inoperância das empresas offshore, mas também a atuação dolosa da contribuinte na consecução dos atos simulados. Os elementos de prova apresentados pela fiscalização são muitos e apresentam diferentes graus de relevância. Descrevo, nos tópicos a seguir, aqueles que entendo fundamentais para firmar meu juízo de convicção. [...] Sem embargo do fato de que inexiste qualquer impedimento ou vedação legal para o arranjo societário em questão, tal cadeia de comando permite visualizar a realidade descortinada pela autoridade fazendária junto à autuação: o fato de que as fretadoras Offshore – que são pessoas jurídicas totalmente inoperantes –, nada mais são do que interpostas pessoas dos administradores da SCHAHIN, convenientemente instaladas em paraíso fiscal. Tratase, pois, de hipótese de simulação, prevista no art. 167, §1º, I, do Código Civil de 2002, conforme aprofundado mais adiante. Fl. 4967DF CARF MF 62 [...]As fretadoras offshore não têm corpo técnico; não existem como empresa no plano material. Atuam formalmente nos contratos bipartidos mediante sistemática subcontratação da SCHAHIN. São formalmente constituídas no exterior, de maneira a viabilizar o enquadramento das operações realizadas de fato pela SCHAHIN em normas tributárias mais benéficas, sob o manto da dissimulação. Em que pese a alegação da impugnante de que as fretadoras foram criadas para possuir embarcações, é nítido que todo o processo de financiamento e construção das unidades de exploração de petróleo foi fomentado pela SCHAHIN, conforme descrito com detalhes junto ao item 4 do RF. Não por outro motivo, a SCHAHIN, ou outra empresa nacional do grupo Schahin, atua sempre como responsável solidária e garantidora das operações formalmente pactuadas pelas fretadoras junto a terceiros. Conforme destacado junto ao item 3.2.6 do RF, as fretadoras nunca atuam como executoras e – principalmente – garantidoras das responsabilidades decorrentes do regime especial de importação de bens destinados ao atendimento do contrato de afretamento, como se vê nas transcrições a seguir: [...] É desnecessário avançar quanto a esse tópico, visto que os elementos materiais são inequívocos: as fretadoras offshore são “empresas de papel”, utilizadas como interpostas pessoas pela verdadeira executante dos contratos de afretamento – a Schahin Engenharia S/A. Como se nota, a fiscalização e a decisão de piso concluíram que as Recorrentes, sob a roupagem de "pagamentos por afretamentos devidos a Fretadoras estrangeiras", esconderam, na verdade, receitas próprias da Shahin Enhenharia, receitas estas que deixaram de ser informadas e declaradas ao fisco brasileiro, pois alocadas, de forma simulada, às empresas Offshore interpostas pelos administradores do grupo Shahin. Vale dizer, a fiscalização e a DRJ inclinaramse pela tese da simulação, sob a premissa de que não existiriam diferentes pessoas jurídicas exercendo as atividades de afretamento e operação, mas sim um contrato global, celebrado entre Petrobras e Shahin, razão pela qual esta última é a verdadeira titular da totalidade dos pagamentos, e não de apenas 10%. A meu ver a autuação está embasada em uma fiscalização digna de aplausos e que conseguiu reunir diversos indícios que, uma vez analisados em conjunto, são capazes de provar o acerto quanto à caracterização de simulação. Também a decisão recorrida está amparada na melhor doutrina e alinhada com a jurisprudência do CARF. Os elementos probatórios produzidos pelo fisco, ao contrário do quanto alegam as Recorrentes, não constituem meras presunções simples incapazes de fazer prova. Pelo contrário, foram apurados diversos indícios contundentes que, somados, permitem ao presente Julgador criar uma convicção segura de que os Recorrentes participaram conscientemente de uma estrutura simulada que permitiu desviar receitas da Recorrente à empresas de fachada interpostas em paraíso fiscal sob a forma de Fretadoras. Nessa situação concreta a simulação relativa me parece evidente. Fl. 4968DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 33 63 As Fretadoras Offshore interpostas "emprestaram" apenas seu nome e existência (formal) para possibilitar o recebimento de 90% da receita proveniente dos contratos de exploração de óleo e gás no exterior, simulando que foram contratadas pela Petrobras em contratos de licitações para afretamento e dissimulando a verdadeira empresa contratada, a Schahin Engenharia S/A, que sempre foi a responsável por executar efetiva e materialmente tudo o que foi contratado no projeto global. Num breve resumo, e em sentido oposto ao que previa os editais de licitação, as Fretadoras nunca dispuseram de competência técnica, financeira e gerencial em nenhuma, simplesmente nenhuma atividade ou tarefa que compõem qualquer um dos dois contratos, seja na fase préoperacional, seja na gestão da construção junto aos estaleiros, seja no transporte, no comissionamento, nos registros e controle dos recursos financeiros, custos e despesas. Na participação das licitações curiosamente sempre na modalidade convite internacional lançado pela Petrobras , é a Shahin no Brasil que representa os interesses das Fretadoras, prestandolhes consultoria inclusive para elaborar proposta técnica. Na fase de construção das embarcações/plataformas, as Fretadoras "subcontratam" a Recorrente para gerenciar a construção, assumindo a contratação direta de pessoas, fornecedores, abertura de escritórios internacionais, alem de promover o acompanhamento do projeto juntamente com pessoas designadas pela Petrobras. Todo o processo de construção e financiamento das unidades foi fomentado pelo grupo Shahin no Brasil. A Shahin participava da gestão e direção dos projetos das Fretadoras, atuava na contratação de estrangeiros e era responsável solidária nos contratos de afretamento em tudo. Também nas tarefas inerentes aos contratos bipartidos em afretamento e operações é a Shahin quem reúne as condições técnicas para cumprimento das obrigações e quem de fato as assume e executa. A fiscalização e a DRJ, vale lembrar, citaram vários exemplos de obrigações presentes nos contratos de afretamento, como a realização de testes, medições, manutenção, intermediação financeira, assunção de garantias, aquisição de equipamentos, fornecimento de materiais etc., obrigações estas que foram cumpridas exclusivamente pela Shahin18. Há identidade de controle societário das Fretadoras com a Recorrente, bem como do contador responsável pelas “empresas” Fretadoras e demais empresas do grupo Shahin. A sistemática contábil e financeira, narrada com precisão de detalhes no Relatório Fiscal, revela uma verdadeira confusão entre as partes (Fretadoras e grupo Shahin), demonstrando tratarse de uma única unidade de operação e controle, representada pela Shahin Engenharia. 18 Cabe ressaltar que, segundo penso, a discussão sobre a natureza efetiva do modelo de afretamento, se foi feito ou não "a casco nu", é irrelevante, uma vez que as obrigações das Fretadoras constam nos próprios contratos. De qualquer forma, a argumentação da Recorrente sobre o afretamento na modalidade "casco nu", como forma de se livrar de obrigações, além de contraditória com a peça de defesa, não resiste em face das cláusulas previstas, por exemplo, nos contratos das unidades SC LANCER (fl. 957 do processo final 201440 apenso cláusulas 3.2, 3.10 e 3.11) e NORTH STAR I (fls. 4.032 e seguintes cláusula 3.28), que registram a obrigação das Fretadoras na gestão náutica das embarcações. Fl. 4969DF CARF MF 64 Há diversos exemplos de pagamentos feitos em comum, passíveis de manipulação e sem controle analítico específico ou individualizado. As faturas (invoices) das Offshores possuem, aliás, carimbo da Shahin. Enfim, toda estrutura que sustenta os negócios explorados (segregados em afretamento + operação) foi provida pelo grupo Shahin, cuja sede e estrutura no Brasil sempre serviram de base de apoio e execução. A confusão patrimonial, contudo, operase em todos os seus aspectos: administrativo, financeiro e operacional. Administrativo porque restou comprovado que os sócios e representantes são os mesmos do grupo Shahin. Financeiro porque restou demonstrado que havia um controle financeiro único e comum, exercido pela Shahin no Brasil nas figuras de seus sócios e administradores. E operacional porque tudo o que era necessário e requerido pela Petrobras foi de fato prestado pela Shahin Engenharia. A confortável logística proposta pela Shahin no negócio fazia, cumpre observar, com que as empresas interpostas (Offshore Fretadoras) não precisassem sequer mover uma palha para que tudo ocorresse. Aqui, não se pode perder de vista que mudamse uma ou outra empresa Fretadora, cujo domicílio se mantém o mesmo, mas a Shahin Engenharia permanece presente ativamente na operação, demonstrando ser a única parte contratual junto a Petrobras. Especificamente em relação à habilitação e capacidade técnica das Fretadoras, a decisão de piso teceu os seguintes comentários: Importante destacar que a participação das fretadoras offshore no procedimento licitatório simplificado trazia como pressuposto o atendimento a requisitos em etapa preliminar de pré qualificação e habilitação, onde deveriam restar comprovadas a "habilitação jurídica", "capacidade técnica, genérica, específica e operacional" e "qualificação econômicafinanceira" da pessoa jurídica, à vista do item 4.1.1 do Decreto nº 2.745/1998. Todavia, quando a fiscalização procurou pesquisar os elementos pertinentes à aferição de tais requisitos normativos por parte da Petrobras, deparouse com toda a sorte de empecilhos para a apresentação de documentos, seja por parte da Petrobras, seja por parte da autuada. Destaco, nesse particular, o conteúdo do item 4.20.4 do RF: 4.20.4. Já a Petrobras, se esquiva a todo momento a apresentar documentação licitatória de obrigatoriedade constitucional, legal e regulamentar conforme veremos no item 4.20.21. Foram mais de 15 meses de insistentes intimações para apresentação desse quesito: documentos comprobatórios da qualificação jurídica e capacidade técnica e operacional das FRETADORAS OFFSHORE. É nítido, pois, que tais documentos não foram apresentados, porque seguramente evidenciariam irregularidades cometidas quanto à habilitação dessas pessoas jurídicas. Não por outro motivo, a fiscalização formalizou auto de embaraço e representação fiscal para fins penais contra a Petrobras, conforme descrito no RF, às fls. 434/435. Fl. 4970DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 34 65 Quanto à [ausência de] qualificação técnica das fretadoras estrangeiras, é interessante notar que o enfrentamento da questão pela fiscalizada comportou radical mudança de estratégia, quando da apresentação da nova impugnação. Na impugnação apresentada junto ao processo nº 19515.712387/201473, a contribuinte defendeu categoricamente que cabia às empresas Offshore o exercício de várias atividades inerentes ao afretamento, como se vê da transcrição a seguir (ver fl. 1110 do processo nº 19515.712387/201473): Registrese que não apenas o comando dos serviços de manutenção está a cargo das fretadoras, como é delas também a obrigatoriedade de aquisição e exportação ao País, das partes e peças necessárias à manutenção de suas unidades, cabendo à 1ª Impugnante, na condição de executora destes serviços auxiliares e de apoio local, importar referidas partes e peças e empregálas nas embarcações. As Declarações de Importação de partes e peças analisadas e destacadas pelo autuante (anexadas ao processo em referência) e que acobertaram as exportações/importações temporárias de partes e peças necessárias aos serviços de manutenção e reparo das embarcações NORTH STAR I e SC LANCER comprovam, sem maior e sem dúvidas, a clara e efetiva existência de atividades por parte das fretadoras no exterior, tendo em vista serem elas as responsáveis pela identificação das partes, peças e equipamentos necessários às embarcações, aquisição e exportação e embarque destes mesmos equipamentos para o Brasil figurando a prestadora de serviços (1ª Impugnante) como Importadora temporária pelo REPETRO para serem empregados em suas embarcações . [Grifei] Já agora, na nova impugnação, o argumento é de que todo o trabalho técnicooperacional cabia à operadora [e não às fretadoras], sendo desnecessário às empresas offshore dispor de funcionários ou instalações físicas. Se não, vejamos a transcrição a seguir (ver fl. 1526 dos presentes autos): Uma vez finalizada a construção da Unidade, sendo esta colocada à disposição da Operadora, à Fretadora não cabe qualquer outra atividade técnica ou operacional, restando apenas a administração financeira dos recebimentos pertinentes. E tal administração financeira pode perfeitamente ser realizada por outras sociedades de seu grupo econômico, não restando razão para que a Fretadora disponha de funcionários ou instalações físicas! [Grifei] De fato, em vários momentos a nova impugnação diverge da anterior. A interessada admite expressamente essa circunstância [a apresentação de teses divergentes], que seria derivada – segundo seu entendimento – da adoção de diferentes "técnicas de defesa", como se vê à fl. 1471. Todavia, em relação aos fatos acima, não há como conceber textos impugnatórios do mesmo sujeito passivo com leituras tão diferentes entre si dos mesmos fatos, visto que se trata de mera apreensão e descrição da Fl. 4971DF CARF MF 66 realidade e não de construção de tese jurídica sobre a matéria: ou as fretadoras atuavam operacionalmente, ou não atuavam. A notória divergência entre as teses apresentadas nas duas impugnações somente certifica a tese da fiscalização: as fretadoras obviamente não atuavam e a sua utilização formal foi dolosamente orquestrada. Eram empresas "de papel". Uma simulação. Pois bem. A análise dos elementos de prova carreados aos autos pela fiscalização não deixa dúvidas de que não existe "capacidade técnica, genérica, específica e operacional" por parte das Fretadoras, muito embora esta capacidade fosse requisito para a contratação. E não obstante a contradição que existe entre as defesas apresentadas pelos contribuintes no tocante à capacidade técnica e operacional das Fretadoras, a meu ver é inconteste que os contratos formalizados de afretamento impôs deveres materiais por parte das Fretadoras das embarcações, mas que foram cumpridos pela Shahin. A Recorrente, por meio dos contratos diretos de operação com a Petrobras, e por meio dos contratos de gestão (reembolso/construção) formalizados com as Offshore, simplesmente assume a inteira obrigação e responsabilidade pela execução de tudo o que foi exigido pela Petrobras. Notase, assim, que sem a participação da Recorrente na estrutura que provocou a evasão tributária apontada, a operação tida por afretamento simplesmente ruiria. Já sem a participação das Fretadoras em nada alteraria o cumprimento material do ônus contratual e riscos assumidos, ou seja, o negócio como um todo continuaria da mesma maneira. Nesse diapasão, e sem maiores delongas, vale assinalar que a própria Recorrente acabou reconhecendo, por ocasião do ajuizamento do processo de recuperação judicial, que as empresas estrangeiras Offshore serviram ao propósito de atuarem como veículos para captação de recursos, como exigido pela Petrobras, enquanto os equipamento e pessoal eram todos brasileiros, sendo os serviços de perfuração de poço de petróleo também prestados no Brasil para uma sociedade brasileira. Vejase alguns trechos da petição inicial da recuperação judicial que confirmar essa afirmativa: Fl. 4972DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 35 67 Mais adiante esclarece que: Com efeito, as Fretadoras e a Operadora (Recorrente) formam, junto com os solidários, um único grupo econômico com interesse comum, sendo a Shahin no Brasil a verdadeira representante e executora do projeto global e cujo próprio patrimônio garante o adimplemento contratual integral e os múltiplos financiadores de todo o negócio. É justamente por isso, ou seja, pelo fato da Recorrente já possuir todas as condições necessárias e suficientes para satisfazer integralmente as exigências da Petrobras, que as Fretadoras não possuem capacidade técnica, foram constituídas com capital social ínfimo e nunca possuíram patrimônio algum. As Fretadoras estrangeiras, pois, foram interpostas fraudulentamente na tentativa de simular pagamentos por afretamentos provenientes do exterior. Nesses termos, aquilo que foi declarado pelas partes não foi de fato realizado. Foi a Shahin Enhenharia que figurou como parte de tudo o que foi contratado pela Petrobras, não havendo qualquer participação material das Offshores na estrutura, que apenas "emprestaram" sua qualificação jurídica para praticar o ilícito (simulação relativa). As Offshore foram interpostas e figuraram como Fretadoras somente na aparência. É aqui que está justamente a divergência (ou contradição) entre o que foi acordado – grupo Shahin no Brasil prestando uma gama de serviços para a Petrobras, englobando afretamento, operações e quiçá outros pagamentos e os negócios formalizados e divulgados ao público de que 90% dos valores seriam devidos as Fretadoras interpostas a título de afretamento. Os fatos apurados pelo fisco muito bem revelam que a simulação consistiu justamente na bipartição artificial da contratação, mais precisamente na fixação do percentual de 90% como remuneração das Fretadoras, quando, na verdade, a totalidade dos pagamentos constitui receita da Recorrente. A simulação se torna ainda mais perceptível em face da desproporção entre a dimensão dos serviços formalmente assumidos pela Shahin perante as Fretadoras, bem como da cessão de todas as obrigações das Fretadoras ao grupo Shahin, que ocorreu, a bem da Fl. 4973DF CARF MF 68 verdade, sob a questionável forma de terceirização de atividade fim e sob a fixação de remunerações irrisória em face dos riscos e obrigações assumidos. Analisando o filme (ou seja, o conjunto de atos e comportamentos paralelos relacionados aos contratos de afretamento e operação), e não a foto (operações formalmente consideradas), noto ainda que sequer é possível segregar o "afretamento" das demais obrigações no bojo dos contratos auditados. Não existe e nesse ponto os Recorrentes não tecem nenhum comentário a identificação de nenhum critério capaz de justificar a adoção dos percentuais fixos (90/10). E por que não houve a identificação desse critério? Ora, porque a contratação foi feita de forma global, envolvendo exclusivamente a Petrobras e a Shahin. Ao analisar esse rateio de 90% (afretamento) e 10% (Operação), precisas foram as considerações da DRJ, assim vazadas: Nesse contexto, não há como deixar de concluir que o modelo de repartição de receitas – 90%/10% – adotado nos contratos formalizados pela Petrobras encontra dissonância com a realidade. O relatório da agência de classificação de risco MOODY´s, referido pela fiscalização junto ao item 4.6.4 do RF, certifica a incongruência do modelo em tela – que reserva apenas 10% das receitas totais para a “operadora” – [...] Se de um lado não se revela razoável deduzir a ocorrência de dissimulação tãosomente com foco na disparidade “9/1” em questão, é inegável que tal dissonância, combinada com todo o restante do conjunto probatório coligido pela fiscalização, certifica sim, no caso concreto, o acerto da tese fazendária. Saliento que caso tais afirmações fossem de fato equivocadas, e caso houvesse efetivo substrato material para o rateio de receitas à razão de 9 para 1, bastaria à contribuinte desvelar junto à impugnação a efetiva estrutura de receitas e custos vinculados a um e a outro contrato, que restaria esvaziada a tese da fiscalização. Sendo as fretadoras offshore empresas ligadas ao grupo Schahin a apresentação de elementos da espécie não deveria ser difícil. Mas obviamente que em momento algum a apresentação de provas nesse sentido é intentada pela defesa. Não é difícil depreender as razões de tal omissão. Em primeiro lugar, porque a contabilidade das empresas não permite tal segregação, em face da unicidade de execução dos contratos, como se disse anteriormente. Em segundo, porque mesmo que restasse possível, a exteriorização dos números certamente não viria a favor da tese da impugnante. Finalmente, cumpre ressaltar que os elementos presentes nos autos não permitem certificar se houve efetiva “ingerência” da autuada junto à Petrobras para fins de formação do mecanismo de rateio de receitas à razão de 9/1, conforme repudia a contribuinte junto ao texto impugnatório. Minha convicção é de que de fato não houve propriamente “ingerência” nesse particular, a julgar pelo fato de que a proporção 9/1 foi utilizada Fl. 4974DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 36 69 indistintamente pela Petrobras em inúmeros outros contratos, como por exemplo aqueles listados junto ao Acórdão nº 3403 002702, de 29/01/2014, antes mencionado. Nesse contexto, a interposição das Offshores aparece como o meio escolhido pelas partes para, de forma ilícita, alocar 90% dos pagamentos da Petrobras ao exterior, sem tributação no Brasil. Como bem demonstrou a PGFN, essa forma de contratação fracionada (serviços e afretamento) tornouse verdadeira praxe das prestadoras contratadas com a Petrobras e vem sendo alvo de autuações fiscais nesse mesmo sentido. A título de exemplo, reproduzo abaixo a ementa de um julgado19 sobre a matéria. CONTRIBUIÇÃO DE INTERVENÇÃO NO DOMÍNIO ECONÔMICO CIDE. CONTRATO DE “AFRETAMENTO” DE PLATAFORMAS DE PETRÓLEO. CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE PRODUÇÃO E PROSPECÇÃO DE PETRÓLEO. NATUREZA DOS PAGAMENTOS PARA FINS TRIBUTÁRIOS. A bipartição dos serviços de produção e prospecção marítima de petróleo em contratos de aluguel de unidades de operação (naviossonda, plataformas semissubmersíveis, navios de apoio à estimulação de poços e unidades flutuantes de produção, armazenamento e transferência) e de prestação de serviços propriamente dita é artificial e não retrata a realidade material das suas excuções. O fornecimento dos equipamentos é parte integrante e indissociável aos serviços contratados, razão pela qual os pagamentos efetuados ao amparo dos contratos ditos de “afretamento” sujeitamse à incidência da Contribuição. (Acórdão nº 3403002702, de 29/01/2014) Esse precedente, a meu ver, reforça a convicção de que é manifesta a hipótese de simulação por interposição fictícia das Offshore Fretadoras. Nos recursos voluntários, os Recorrentes gastam páginas e páginas buscando sustentar a autonomia das Fretadoras Offshore. Afirmam trataremse de Sociedades de Propósito Específico SPE, espécie societária esta que seria usual no sistema de financiamento internacional (Project Finance) e que permite que o próprio projeto em si garanta o financiamento da construção das embarcações/unidades, não dependendo do balanço dos empreendedores. Chegam, ainda, a insinuar que "os julgadores de primeira instância demonstrado [sic] ter uma visão "caipira" de negócios transnacionais em mercado de escala mundial e especializado" (fls. 2.556). 19 Observase desse julgado que a Turma concluiu pela existência de artificialismo na contratação apartada de serviços e afretamento, especialmente quando se trata de empresas ligadas. Naquele caso, a situação era a mesma da presente: uma única contratação é desmembrada em dois contratos: um celebrado entre a Petrobras e a sociedade estrangeira fretadora, totalizando 90% da remuneração; e outro firmado entre Petrobras e a prestadora de serviços no Brasil, com direito à percepção do restante (10% dos pagamentos). Com isso, além da alíquota zero de imposto de renda na fonte, também buscouse afastar a incidência de CIDE. Fl. 4975DF CARF MF 70 Apenas para esclarecer, não se trata aqui de nenhum preconceito contra a bipartição contratual entre afretamento e operações20, mas sim da análise de um caso concreto que, simulandose pagamentos a título de afretamentos provenientes de empresas interpostas pelo grupo Shahin no exterior, dissimularam o efetivo titular destes pagamentos, que é a Recorrente (Shahin Engenharia S/A), a verdadeira empresa contratada. Dito de outra forma: admitese, afinal existe base legal para isso, a possibilidade de bipartição contratual entre afretamento e operações, inclusive com utilização de percentuais fixos já previstos no plano normativo (80%/85% para afretamento), mas daí a afirmar que essa estrutura admite o uso de empresas interpostas para sonegar tributos, existe um abismo. Com efeito, a permissão legal para a segregação contratual (afretamento x operação) tem como "pano de fundo" a livre iniciativa econômica e uma bipartição material clara e efetiva e que pressupõe partes com capacidade técnica própria e autonomia patrimonial. Não se trata, porém, de uma presunção absoluta, como parece fazer crer os Recorrentes. O argumento de que os contratos de afretamento foram formalizados no contexto de procedimento licitatório simplificado, realizado perante sociedade de economia mista que representa a União Federal, bem como seguiram uma praxe ou modelo comercial adotada mundialmente, por si só, não tem o condão de legitimar uma segregação que nunca existiu materialmente e validar uma operação simulada por meio de interposição fictícia de Fretadoras constituídas em paraíso fiscal. Tanto é assim que a Solução de Consulta 225/2014, que foi citada pelos contribuintes, dispõe que "as remunerações pactuadas nos contratos de afretamento e operação" devem ser "compatíveis com as atividades e responsabilidades assumidas por cada contratada, de forma a não configurar hipótese de manipulação de contratos". A manipulação referida, nesse caso concreto, é representada justamente pela simulação, isto é, pela interposição fraudulenta das Offshore Fretadoras. 20 A Lei nº 13.043, de 13/11/2014, que alterou o art. 1º da Lei nº 9.481/1997, inserindolhe o §2º, passou a admitir expressamente a alíquota zero de IRRF para remessas para o exterior em contraprestação ao afretamento de embarcações utilizadas na exploração e produção de petróleo, permitindo a segregação das receitas de afretamento dos demais serviços. Vejase: “Art. 1º A alíquota do imposto de renda na fonte incidente sobre os rendimentos auferidos no País, por residentes ou domiciliados no exterior, fica reduzida para zero, nas seguintes hipóteses: I receitas de fretes, afretamentos, aluguéis ou arrendamentos de embarcações marítimas ou fluviais ou de aeronaves estrangeiras ou motores de aeronaves estrangeiros, feitos por empresas, desde que tenham sido aprovados pelas autoridades competentes, bem como os pagamentos de aluguel de contêineres, sobrestadia e outros relativos ao uso de serviços de instalações portuárias;(...) §2º No caso do inciso I do caput deste artigo, quando ocorrer execução simultânea do contrato de afretamento ou aluguel de embarcações marítimas e do contrato de prestação de serviço, relacionados à prospecção e exploração de petróleo ou gás natural, celebrados com pessoas jurídicas vinculadas entre si, do valor total dos contratos a parcela relativa ao afretamento ou aluguel não poderá ser superior a: I 85% (oitenta e cinco por cento), no caso de embarcações com sistemas flutuantes de produção e/ou armazenamento e descarga (Floating Production Systems FPS); II 80% (oitenta por cento), no caso de embarcações com sistema do tipo sonda para perfuração, completação, manutenção de poços (naviossonda); e III 65% (sessenta e cinco por cento), nos demais tipos de embarcações. (...)”.Verificase também que, nos termos da Solução de Consulta nº 225, de 19 de agosto de 2014, decidiuse por admitir a possibilidade jurídica da contratação de navios sonda para operação, mediante a formalização de dois contratos distintos, como se vê da redação do item 16: “(...) em princípio, não se vislumbra nenhum óbice que, na gestão de seus negócios, determinada empresa opte por efetuar dois contratos com empresas distintas, uma para afretamento do bem e outra para sua operação”. Entretanto, a solução de consulta é explícita no sentido de especificar que “a presente consulta também não se presta para verificar se as remunerações pactuadas nos contratos de afretamento e operação dos navios sonda são compatíveis com as atividades e responsabilidades assumidas por cada contratada, de forma a não configurar hipótese de manipulação de contratos” (ver redação do item 20). Fl. 4976DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 37 71 E para que não pairem dúvidas acerca da ocorrência de manipulação (ou melhor, de simulação), merece ainda atenção o contexto de "cartas marcadas" e conluio no qual as contratações aos pares foram firmadas. Essa contextualização da operação investigada foi bem elucidada pela autoridade julgadora. Vejase: À medida que a operação da Polícia Federal avança, vãose tornando evidentes os indícios de envolvimento direto da autuada em esquemas de corrupção envolvendo a Petrobras, como se vê, a título de exemplo, na notícia divulgada junto ao jornal Estadão, veiculada por meio do link http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,onaviovitoria encalhanalavajato,1697497 . Trago à colação tais considerações, de maneira a evidenciar que as investigações acerca do envolvimento da autuada e da Petrobras em irregularidades atinentes à contratação de empresas Offshore por meio da expedição de cartasconvite afasta de plano a presunção de licitude que circunscreve contratações da espécie, em que pese terem sido promovidas por sociedade de economia mista, no âmbito de procedimento licitatório autorizado por lei. Os desdobramentos da operação Lavajato, que apontam para o envolvimento de grandes empresas, bem como de agentes públicos e políticos de relevo nacional, ajudam a compreender as dificuldades enfrentadas pela fiscalização no curso da auditoria realizada junto à SCHAHIN. Dentre essas dificuldades, destacase a negativa da Petrobras em apresentar à fiscalização documentos pertinentes aos contratos de afretamento, conforme evidenciado no item 2.2.6 do relatório fiscal. E o enfrentamento desses obstáculos, ao lado da complexidade que envolve o ambiente operacional em que inseridas as contratações em tela, revelam o porquê do esforço da fiscalização, materializado – como se disse mais acima – em relatório fiscal que contempla nada menos do que 998 páginas, suportado por documentos organizados em processo autônomo com mais de 65.000 folhas que, somadas às 2.236 folhas do processo principal, totalizam um enorme arcabouço probatório. É esse, pois, o cenário em que inserido o litígio. De fato, existem diversas notícias vinculando executivos do grupo Shahin (dentre eles Milton, Salim, Carlos Eduardo e Fernando) aos ilícitos apurados na contratação de naviossonda21, inclusive com menção a fechamento de acordos de delação premiada e condenações. 21 A propósito: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/02/1860515delatoresdaschahinassinamacordocom aoperacaolavajato.shtml 20/02/2017; https://oglobo.globo.com/brasil/condenacaodemorodeixaumsocio dobancoschahinpresooutronoregimeaberto20116023 09/2016; e http://veja.abril.com.br/blog/radar/delacaodemiltonefernandoschahinpodeesclarecerasuspeitadeque bancodafamiliadeu60milhoesaopt/ 08/02/2017 Fl. 4977DF CARF MF 72 A propósito, Milton Taufic Shahin, Salim Taufic Shahin e Fernando Shahin são réus na Ação Penal nº 506157851.2015.4.04.7000/PR, ação esta que foi citada pelos Recorrentes em petição de fls. 4.856 e cujo relato da demanda, disponibilizado no sítio do MPF, aponta que: 5. [...]. Ao final de 2015, foram concedidos pelo Banco Schahin empréstimos de R$18.204.036,81 a AgroCaieras, empresa constituída por José Carlos Bumlai, apenas para quitar o empréstimo a título pessoal. Em 28/03/2007, o Banco Schahin cedeu o crédito, no montante de R$21.267.675,99 à Schahin Securitizadora de Crédito. A dívida, sem que tivesse havido qualquer pagamento até então, foi quitada em 28/12/2009, mediante prévio contrato de transação, liquidação e dação em pagamento de embriões de gado bovino por José Carlos Bumlai a empresas do Grupo Schahin, e que foi celebrado em 27/01/2009. A dação em pagamento teria sido simulada, pois os embriões bovinos nunca foram entregues. 6. Segundo o MPF, a verdadeira causa para a quitação da dívida teria sido a contratação da Schahin pela Petróleo Brasileiros S/A Petrobrás para operação do Navio Sonda Vitoria 10.000, o que ocorreu em 28/01/2009, com memorando de entendimento entre a Petrobrás e a Schahin tendo se iniciado em 2007. 8. Afirma o MPF que houve direcionamento da contratação da Schahin baseado em razões técnicas fraudulentas. 9. Agentes da Petrobrás, o Diretor da Área Internacional Nestor Cuñat Cervero, o sucessor dele Jorge Luiz Zelada e Eduardo Costa Vaz Musa, gerente da Área Internacional da Petrobrás, teriam sofrido influências políticas, por agentes não totalmente identificados, para direcionar, fraudulentamente, o contrato para a Schahin e assim garantir a concessão de vantagem indevida ao Partido dos Trabalhadores (mediante a quitação do empréstimo concedido à referida agremiação política). Ora, os fatos narrados atestam uma "íntima" relação dos administradores do grupo Shahin com a Petrobras, estão sendo amplamente divulgados, são de conhecimento público e servem, segundo a minha avaliação, definitivamente como uma pá de cal aos argumentos contrários à tese de simulação. Esses relatos não correspondem, como quer fazer crer a interessada, de nova prova ou novo argumento, ou de prova inválida por ter sido emprestada, mas os desdobramentos da lava jato apenas ratificam a manipulação consciente dos percentuais adotados nos contratos, bem como o ambiente propício ao uso da estrutura simulada em questão. As regras adotadas pela Petrobras para fins de contratação de embarcações/plataformas de exploração de petróleo por meio de procedimento licitatório simplificado dirigido a Shahin, admitindose uma segregação desproporcional (90 afretamento/10 operação) fixada "aos pares" de antemão, visivelmente não respeitaram os princípios norteadores do direito administrativo e criaram um ambiente favorável para a manipulação/simulação. Fl. 4978DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 38 73 Não há, a bem da verdade, uma autêntica relação comercial entre a Shahin Engenharia, as Offshore e a Petrobras, fundada nos princípios da boa fé objetiva, liberdade contratual, moralidade e livre iniciativa. Essa triangulação é simulada e buscou camuflar a verdadeira causa da operação, qual seja, a prestação de diversos serviços na área de petróleo e gás, e "sabese lá mais o quê", exclusivamente pela Recorrente à Petrobras (ou seja, sem nenhuma intermediação ou participação das Offshore Fretadoras). Posto isso, entendo que os argumentos pontuais e os esclarecimentos contidos nos recursos voluntários não se sustentam diante do trabalho fiscal. Correta, contudo, a caracterização de omissão de receitas que foi imputada por simulação. 4) Inconstitucionalidade Atinente aos princípios e normas constitucionais que a Recorrente entende violados (confisco, capacidade contributiva, direito de propriedade, proporcionalidade e razoabilidade), cumpre frisar que este Conselho é incompetente para se pronunciar sobre inconstitucionalidade de lei tributária, conforme Súmula CARF nº 222. Ademais, o Decreto nº 70.235/72 dispõe em seu art. 26A que: Artigo 26A No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 6o O disposto no caput deste artigo não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo I – que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal II – que fundamente crédito tributário objeto de a) dispensa legal de constituição ou de ato declaratório do ProcuradorGeral da Fazenda Nacional, na forma dos arts. 18 e 19 da Lei no 10.522, de 19 de julho de 2002 b) súmula da AdvocaciaGeral da União, na forma do art. 43 da Lei Complementar no 73, de 10 de fevereiro de 1993; ou c) pareceres do AdvogadoGeral da União aprovados pelo Presidente da República, na forma do art. 40 da Lei Complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993. Verificase, assim, que o afastamento da aplicação de norma legal, sob fundamento de inconstitucionalidade, somente é possível no âmbito do processo administrativo fiscal federal nas hipóteses acima elencadas, o que não é o caso presente. Falece ao presente julgador, portanto, competência para analisar os argumentos de cunho constitucional invocados pelos Recorrentes. 5) Dos efeitos penais 22 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Fl. 4979DF CARF MF 74 Também foge da competência do presente Julgador a análise acerca da procedência ou não do enquadramento da conduta da contribuinte em tipos penais, como é o caso da potencial caracterização de fraude licitatória, lavagem de dinheiro, organização criminosa e falsidade ideológica. A incompetência dos órgãos julgadores administrativos para se pronunciar a respeito da matéria atinente à representação fiscal para fins penais encontrase, aliás, expressamente prevista na Súmula CARF nº 28: O CARF não é competente para se pronunciar sobre controvérsias referentes a Processo Administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais. 6) Da multa qualificada de 150% Restou demonstrado que os Recorrentes se valeram de uma estrutura artificial, criada de forma intencional, para fins de obter vantagens empresariais e fiscais. A interposição de empresas Fretadoras (Offshore domiciliadas em paraíso fiscal) para receber 90% dos pagamentos sob a roupagem de afretamento é fruto de negócio simulado celebrado em conluio entre Petrobras e o grupo Shahin. Tal procedimento, a meu ver, caracteriza conduta dolosa (simulação fraudulenta) de tentar lesar o fisco, razão pela qual correta a qualificação da multa, como prescreve o artigo 44, §1º, da Lei nº 9.430/96. Tal dispositivo determina que o percentual de multa de 75% será duplicado nos casos previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. Os artigos 71, 72 e 73, por sua vez, prescrevem que: Artigo 71 Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Artigo 72 Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Artigo 73 Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. Entendo que o elemento doloso na simulação apurada é passível de enquadramento nos artigos 71, I e II, assim como no artigo 73, razão pela qual considero correta a exigência de multa qualificada. 7) Da multa agravada (de 150% para 225%) Fl. 4980DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 39 75 O agravamento da multa de ofício foi levado a efeito com base no artigo 44, § 2°, inciso I, da Lei n° 9.430/96, que assim prevê: (...) § 2o Os percentuais de multa a que se referem o inciso I do caput e o § 1 o deste artigo serão aumentados de metade, nos casos de não atendimento pelo sujeito passivo, no prazo marcado, de intimação para: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) ´grifei I prestar esclarecimentos; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) A meu ver tal dispositivo deve ser interpretado com cautelas, dirigindose apenas às situações de reiterado não atendimento às intimações feitas ao longo do procedimento fiscalizatório. E, digase, "não atender" não é "sinônimo de "mal atender". O campo de aplicação do agravamento da penalidade não contempla a hipótese de prestação deficitária ou insuficiente de documentos e esclarecimentos por parte dos contribuintes, o que , a meu ver, foi o que ocorreu na presente situação. A fiscalização, convém notar, se valeu de várias respostas fornecidas ao longo do procedimento fiscal para reforçar sua tese. Se valeu, também, das informações prestadas pela Petrobras para apurar os tributos, ainda que não na forma que entendeu que deveria ter sido. Vejamos, a título exemplificativo, algumas passagens que atestam que houve atendimento aos termos: "Há de se enfatizar que as declarações de SCHAHIN ENGENHARIA S.A. e SCHAHIN PETRÓLEO S.A. em resposta aos Termos de Diligência Fiscal sempre foram no sentido de afirmar a sua mera interveniência nos contratos de AFRETAMENTO, inclusive tratandoos como contrato da PETROBRAS com 'TERCEIROS' dos quais não dispunham qualquer tipo de informações das 'entidades' FRETADORAS, [...]" "Logicamente que a SCHAHIN não atua tão somente na prestação de serviços de OPERAÇÃO conforme reiteradas alegações nesse sentido em diversas respostas aos Termos de Intimação, mas também na direção de todo o empreendimento desde a aprovação de garantias aos credores múltiplos, da organização societária das FRETADORAS OFFSHORE, da construção das embarcações/plataformas, das licitações, dos contratos de AFRETAMENTO e OPERAÇÃO, manutenção, recebimentos, pagamentos dos credores, dos custos e despesas no exterior'. "Em resposta à diligência fiscal, MILTON TAUFIC SCHAHIN respondeu de forma evasiva e pouco enfática aos questionamentos e afirmações (...)". "IMPROPRIEDADE TÉCNICA NOS LANÇAMENTOS CONTÁBEIS O contribuinte SCHAHIN ressalta em resposta ao Fl. 4981DF CARF MF 76 TIF07 em 19/08/2014 que lança todos os custos e despesas indiscriminadamente, sejam referentes à AFRETAMENTO, seja à OPERAÇÃO. "CONFUSOS CONTROLES INTERNOS DA SCHAHIN A SCHAHIN revela ainda que, para o devido REEMBOLSO, credita o custo/despesa (em espécie de estorno) e debita uma conta do ATIVO CONTAS A RECEBER. Ora, a falta de apresentação de determinado livro e/ou documentos da escrituração, assim como a falta de determinado esclarecimento pontual, em um universo onde foram apresentados diversos documentos e respostas, por si só, não enseja o agravamento da multa de oficio qualificada. Não vislumbro, nessa situação fática, que a conduta das Recorrentes no sentido de não prestar todos os esclarecimentos na forma pela qual pretendeu o auditor fiscal responsável tenha gerado obstáculos ao levantamento do crédito tributário e a instrução dos Autos de Infração. A Câmara Superior de Recursos Fiscais, aliás, vem afastando o agravamento da multa quando não há prejuízos ao trabalho fiscal, conforme atesta a ementa do seguinte julgado: MULTA AGRAVADA ARTIGO 44, § 2º, LEI 9.430/96 EMBARAÇO À FISCALIZAÇÃO LANÇAMENTO POR PRESUNÇÃO. A aplicação do agravamento da multa nos termos do artigo 44, § 2º, da Lei 9.430/96 deve ocorrer quando a falta de cumprimento das intimações pelo sujeito passivo impossibilite, total ou parcialmente, o trabalho fiscal. Na hipótese em que a fiscalização se vale de regra que admite o lançamento por presunção, a atitude do sujeito passivo tornase irrelevante para o deslinde do trabalho fiscal, de modo a tornar se inaplicável o agravamento da multa. (Acórdão n. 9202 004.290. Data de publicação: 17/08/2016) Invoco, ainda, como argumento contrário ao agravamento da penalidade inteligência da Súmula CARF nº 96: "A falta de apresentação de livros e documentos da escrituração não justifica, por si só, o agravamento da multa de oficio, quando essa omissão motivou o arbitramento dos lucros". Nesse sentido, considero que o agravamento imputado é desproporcional e incabível, razão pela qual deve a multa de ofício ser reduzida de 225% para 150%. 8) Da responsabilidade solidária atribuída às pessoas físicas Artigo 135, III, do CTN A base legal da imputação da solidariedade às pessoas físicas foi o artigo 135, III, do CTN, que assim dispõe: Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I as pessoas referidas no artigo anterior; Fl. 4982DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 40 77 II os mandatários, prepostos e empregados; III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. De uma rápida leitura do artigo 135, III, do CTN acima transcrito, percebese que a responsabilização pessoal de diretores, gerentes ou representantes depende de comprovação de conduta (i) com excesso de poderes ou (ii) infração de lei, contrato social ou estatuto. A responsabilidade de que trata o artigo 135, III, portanto, é composta por 2 (dois) elementos: o elemento pessoal, que diz respeito à pessoa que praticou a conduta, e o elemento fático, que diz respeito ao exercício de ato com excesso de poder ou com infração à lei, contrato social ou estatuto da empresa. Ainda segundo o CTN, a conduta que enseja a responsabilidade de terceiros deve estar intimamente ligada ao fato gerador do tributo, como prescreve o artigo 128 do CTN: Artigo 128 Sem prejuízo do disposto neste capítulo, a lei pode atribuir de modo expresso a responsabilidade pelo crédito tributário a terceira pessoa, vinculada ao fato gerador da respectiva obrigação, excluindo a responsabilidade do contribuinte ou atribuindoa a este em caráter supletivo do cumprimento total ou parcial da referida obrigação. Dessa forma, o TVF deve demonstrar que a pessoa qualificada como responsável pessoal agiu em infração a lei, ou em contrariedade aos limites do desempenho de sua função de sócio administrador, e, mais ainda, que desta conduta é que teria resultado o ilícito. Quer a autoridade fiscal ver prevalecer o Termo de Sujeição Passiva Solidária, mister que ela comprove a participação direta e consciente do administrador na realização dos atos alegadamente simulados ou fraudulentos. Ressaltese, por oportuno, que já foi reconhecido e consolidado pelo STJ, por meio da súmula 430, que o inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sóciogerente. O não pagamento do tributo pela sociedade, contudo, não é causa suficiente para que seus representantes se tornem responsáveis pelos débitos fiscais. Também a mera qualificação de sócio, diretor, gerente ou representante da empresa autuada, por si só, não é suficiente para ensejar a responsabilidade pessoal. Nesse ponto, vale assinalar que o STF julgou inconstitucional o artigo 13 da Lei nº 8.620/93, dispositivo este que pretendeu vincular à simples condição de sócio a obrigação por débitos previdenciários de sociedades limitadas. Transcrevo abaixo o seguinte trecho da ementa do referido julgado: 5. O art. 135, III, do CTN responsabiliza apenas aqueles que estejam na direção, gerência ou representação da pessoa jurídica e tãosomente quando pratiquem atos com excesso de poder ou infração à lei, contrato social ou estatutos. Desse modo, apenas o sócio com poderes de gestão ou representação da sociedade é que pode ser responsabilizado, o que resguarda a pessoalidade entre o ilícito (mal gestão ou representação) e a Fl. 4983DF CARF MF 78 conseqüência de ter de responder pelo tributo devido pela sociedade. 6. O art. 13 da Lei 8.620/93 não se limitou a repetir ou detalhar a regra de responsabilidade constante do art. 135 do CTN, tampouco cuidou de uma nova hipótese específica e distinta. Ao vincular à simples condição de sócio a obrigação de responder solidariamente pelos débitos da sociedade limitada perante a Seguridade Social, tratou a mesma situação genérica regulada pelo art. 135, III, do CTN, mas de modo diverso, incorrendo em inconstitucionalidade por violação ao art. 146, III, da CF. [...] 8. Reconhecida a inconstitucionalidade do art. 13 da Lei 8.620/93 na parte em que determinou que os sócios das empresas por cotas de responsabilidade limitada responderiam solidariamente, com seus bens pessoais, pelos débitos junto à Seguridade Social. (STF. RE 562.276. Plenário, 03/11/2010) A partir dessas decisões dos Tribunais Superiores, percebese que a responsabilização pessoal depende da comprovação (logo, não se presume) de que a pessoa praticou, por meio de ato doloso, conduta diretamente relacionada aos fatos reveladores do fato gerador. É o que se observa de recentes acórdãos do CARF: “Os necessários elementos à caracterização da responsabilidade prevista no art. 135 do CTN são: a figura do administrador da sociedade, com poderes de gestão e as condutas reveladoras de excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto, com a imprescindível demonstração do dolo” (Acórdão n. 3301003.160. Sessão de 25/01/17) “É imprescindível, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa. Porém, o autuante não imputou qualquer ato ilícito a cada um dos sócios, não individualizando as condutas, restando flagrante a ilegitimidade passiva pelo prisma desse dispositivo (135 do CTN)” (Acórdão n. 1401001.785. Sessão de 14/02/17) A atribuição de responsabilidade tributária, portanto, não constitui expediente que possa ser utilizado “por atacado” ou “no modo piloto automático”, uma vez que tal instituto exige a comprovação de que os fatos ou atos que geraram o descumprimento de normas tributárias tenham sido praticados conscientemente (isto é, com dolo) pela pessoa qualificada como responsável. Enquanto ato administrativo vinculado, o enquadramento do caso concreto à hipótese normativa deve ser motivado, permitindo o pleno conhecimento das circunstâncias fáticas e a devida compreensão das razões de direito que nortearam o lançamento por responsabilidade. A mera indicação do dispositivo legal ou alegação genérica sem comprovação fática dos motivos que levaram a inclusão de determinada pessoa no polo passivo não é suficiente para ensejar a responsabilidade tributária em questão. Do caso concreto Fl. 4984DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 41 79 Conforme visto, os contratos denominados “de afretamento” e “de prestação de serviços” (Operação) foram bipartidos de maneira artificial por mera conveniência e conluio entre as partes envolvidas. Ao assim proceder, as partes tinham pleno conhecimento de que grande parte dos pagamentos (correspondente a 90%) passariam a der desviados ao exterior, gerando sonegação tributária no Brasil. E os mentores do esquema de fato foram os Srs. Miltom Taufic Shahin e Salim Taufic Shahin, que notoriamente tinham plenos conhecimentos de todos os detalhes da estrutura simulada. Ademais, o detalhado percurso seguido pela investigação do controle societário do grupo Shahin também revela a participação das demais pessoas físicas consideradas solidárias (Kenji Otsuki, Fernando Schahin e Carlos Eduardo Schahin) como participantes da "linha de frente" da operação. A decisão de piso foi direta ao ponto: O quadro ajuda a visualizar a estrutura societária que deu suporte às "empresas de papel". A administração e o gerenciamento dessa estrutura comportou a inserção de outras pessoas físicas, além dos sócios originários Milton e Salim Taufic Schahin. São elas Kenji Otsuki, Fernando Schahin e Carlos Eduardo Schahin. Se não, vejamos: a) Conforme evidenciado no item 12.12.1, entre outros do mesmo capítulo, vêse que Kenji Otsuki é diretor e presidente da TURASORIA S/A e TURASORIA S/A LLC. Em declaração firmada no curso da auditoria, Kenji Otsuki confirmou ainda (i) o exercício do cargo de "gerente representante das empresas MS Drilling LLC e Turasoria S/A LLC., bem como (ii) a atuação como procurador das empresas Baerfield Drilling LLC e Soratu Drilling LLC (ver figura IX467 do RF). b) Já Fernando e Carlos Eduardo Schahin figuravam como procuradores do grupo SCHAHIN. Destaque para os documentos evidenciados (i) na figura IX433, que identifica Fernando e Carlos Eduardo Schahin como procuradores da Turasoria S/A LLC (documento datado de julho de 2009) e (ii) na figura IX466, que identifica Fernando, Carlos e Kenji Otsuki como procuradores da Casablanca International Holdings Ltd.. Fernando Schahin, vale destacar, é filho de Salim Taufic Schahin e CEO do Grupo Schahin. Carlos Eduardo Schahin é sobrinho de Milton Taufic Schahin. Notese que, como analisado nos tópicos anteriores do presente voto, toda a execução material dos contratos de afretamento ocorreu mediante a atuação efetiva das empresas nacionais do grupo SCHAHIN. Todavia, no plano formal, a atuação da SCHAHIN ocorria por meio das "empresas de papel", que eram representadas, ou pelos próprios MILTON e SALIM SCHAHIN, ou por pessoas por eles designadas. É possível concluir, pois, que os mandatários ou representantes das "empresas de papel" detinham evidente conhecimento a respeito do contexto que Fl. 4985DF CARF MF 80 circunscrevia a simulação descortinada pela fiscalização, de maneira que o dolo de simular está constantemente presente nos atos de administração praticados por esses agentes. Assim, encontrase também aqui caracterizada a hipótese normativa dos artigos 124, I, e 135, III, do CTN. Ocorre, contudo, que o "escopo contratual" de que se trata – qual seja, a execução dos contratos de afretamento – caracteriza precisamente o núcleo da simulação perpetrada pelas partes. Ratifico que, conforme salientado junto ao item 12.12.1, Kenji Otsuki é o administrador e representante da pessoa jurídica TURASORIA S/A LLC. Essa pessoa jurídica é quem formalmente afreta a unidade SC LANCER para a Petrobras, enquanto, sabidamente, a execução do afretamento era levada a termo pelas empresas nacionais do grupo. Da mesma forma, Fernando Schahin e Carlos Eduardo Schahin alegam ter agido sempre mediante relação de subordinação às deliberações dos acionistas controladores. Alegam, também, que a fiscalização teria apresentado procurações datadas de julho de 2014, enquanto os fatos geradores que foram objeto do lançamento de ofício ocorreram em períodos anteriores. Os argumentos, todavia, são insuficientes para elidir a condição de responsabilidade derivada dos artigos 124 e 135 do CTN. O material probatório trazido aos autos, formado precipuamente por (i) instrumentos de procuração, (ii) declarações firmadas por integrantes do grupo Schahin e até mesmo por (iii) publicações na imprensa (ver figura XI21 do relatório fiscal) certificam a condição de Fernando Schahin e Carlos Eduardo Schahin como administradores do grupo Schahin. Ademais, e em que pese o esforço dos impugnantes em tentar diminuir a força probatória das procurações apresentadas pela fiscalização sob o argumento de que são mais recentes do que os fatos lançados, os próprios interessados admitem expressamente a existência de procuração – relativa à pessoa jurídica Turasoria – vigente para o período do lançamento de ofício. Subsidiariamente, vale ressaltar que Fernando e Carlos Eduardo Schahin passaram a integrar, em 2006, a estrutura social da fretadora DLEIF Drilling LLC, conforme evidenciado junto ao tópico 12.12.2 do relatório fiscal. Em que pese a informação prestada pela autuante de que os implicados teria deixado a sociedade em 2008, o fato em si adere aos demais elementos de prova para certificar o envolvimento dos agentes com a alta administração do grupo Schahin. Com efeito, o conjunto probatório trazido aos autos assegura que as pessoas físicas responsabilizadas de fato tinham conhecimento pleno da simulação, bem como que todo o negócio foi implementado com interesse comum do grupo Shahin no Brasil. A participação dos senhores Milton Taufic Shahin e Salim Taufic Shahin, conforme demonstrado nos itens 9.9 e 9.10 do Relatório Fiscal, permite enquadrálos como "manda chuva" na criação e uso das empresas interpostas. A participação de Kenji Otsuki na estrutura simulada também se faz presente, afinal ele figurou como contador, presidente e diretor de pessoas jurídicas detentoras de Fl. 4986DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 42 81 unidades de petróleo e titular de empréstimos e contratos bilionários, figurando como "braço direito" dos sócios principais. Já Fernando Shahin, filho de Salim Taufic Shahin, exerceu cargo de diretor e esteve no comando da parte financeira do grupo Shahin na estrutura simulada. E, finalmente, Carlos Eduardo Shahin consta como procurador da Recorrente, em procuração outorgada por Milton e Salim, para agir no seu interesse. Também agiu na tomada de decisões da Offshore Turasoria S/A LLC e integrou o controle financeiro do grupo Shahin. Diante desses elementos, a minha opinião é a de que os responsáveis solidários pessoas físicas, por darem azo à sonegação, infringiram a lei, razão pela qual realmente devem constar como solidários. 9) Da responsabilidade solidária atribuída às pessoas jurídicas A fundamentação legal para o enquadramento das pessoas jurídicas corresponde ao artigo 124, I do CTN., verbis: “Art. 124 São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal;” Notase, a partir desse dispositivo legal, que a solidariedade da obrigação tributária principal é regida por uma norma própria que tem no núcleo de seu antecedente a existência de interesse comum das partes na situação jurídica que corresponde ao fato gerador tributário. Tendo isso em vista, a análise da procedência ou não do Termo de Sujeição Passiva Solidária depende da precisa delimitação do sentido jurídico da expressão “interesse comum”. Isto é importante porque o referido instituto jurídico não raramente é utilizado genericamente ou como forma de buscar exercer um subjetivo “bom senso”, atropelando seus limites normativos. E como se verifica, a solidariedade foi tratada no Código Tributário Nacional de forma autônoma, ou seja, segregada do capítulo da responsabilidade tributária. No âmbito da responsabilidade tributária, terceiros são chamados a responder pela obrigação tributária, sempre que verificadas as condições postas pela legislação. Já a responsabilidade solidária, fundamentada no artigo 124, I, do CTN, não se dirige a terceiros, isto é, pessoas estranhas à relação jurídica que dá ensejo à obrigação tributária. Pelo contrário, a norma construída a partir do dispositivo legal em questão se dirige às pessoas que efetivamente participam do nascimento da obrigação de cunho tributário. A redação do inciso I do artigo 124 é clara ao prescrever serem solidárias as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. É indispensável, portanto, para fins da correta aplicação da responsabilidade prevista no artigo 124, I, que as pessoas solidárias tenham participação no fato que constitui a hipótese de incidência tributária. Fl. 4987DF CARF MF 82 As partes coobrigadas, contudo, devem participar de uma única relação jurídica, da qual em um dos polos apenas figuram as duas partes. Tratase de um pressuposto normativo que não admite restrições. Como já se posicionou o STJ: [...] 7. Conquanto a expressão "interesse comum" encarte um conceito indeterminado, é mister procederse a uma interpretação sistemática das normas tributárias, de modo a alcançar a ratio essendi do referido dispositivo legal. Nesse diapasão, temse que o interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal implica que as pessoas solidariamente obrigadas sejam sujeitos da relação jurídica que deu azo à ocorrência do fato imponível. Isto porque feriria a lógica jurídicotributária a integração, no pólo passivo da relação jurídica, de alguém que não tenha tido qualquer participação na ocorrência do fato gerador da obrigação (STJ REsp nº 884.845 – SC). A responsabilidade solidária constitui meio de graduar a responsabilidade daqueles sujeitos que compõem o polo passivo desde a origem da obrigação. Assim, por exemplo, ocorre com coproprietários de mercadorias que, vendidas, sujeitamse ao ICMS. Neste caso, existe a solidariedade, pois ambos estão no mesmo polo da relação (são vendedores). Na hipótese, porém, de faltar esta equivalência caso do usuário final que compra mercadoria com preço abaixo do mercado , não há que se falar em interesse jurídico e, conseqüentemente, imputar a responsabilidade por interesse comum. O interesse econômico, reconhecemos, até pode servir de indício para a caracterização de interesse comum, mas, isoladamente considerado, não constitui prova suficiente para aplicar a solidariedade. Também a utilização da responsabilidade solidária como espécie de “sanção” a determinada pessoa que teria “contribuído” com dada operação ou estrutura não é cabível do ponto de vista jurídico. É imprescindível existir, para que seja imputada a responsabilidade solidária, a participação efetiva do sujeito qualificado como solidário na ocorrência do fato gerador. Nesse sentido, o interesse comum de que trata o artigo 124, inciso I, do CTN é sempre jurídico, não devendo ser confundido com “interesse econômico”, “sanção”, “meio de justiça” etc. E também não é suficiente que a pessoa tenha tido participação furtiva como interveniente num negócio jurídico, ou mesmo que seja sócio ou administrador da empresa contribuinte, para que a solidariedade seja validamente estabelecida. Pelo contrário, é imprescindível a comprovação de que o sujeito tido por solidário teve interesse jurídico, o que se faz com a demonstração cabal da relação direta e pessoal dele com a prática do ato ou atos que deram azo à relação jurídico tributária. Compete à fiscalização a tarefa de reunir elementos probatórios acerca do interesse comum, podendo se valer, no cumprimento deste ônus, de todos os meios hábeis de prova. Do ponto de vista da jurisprudência administrativa, destacase a noção correlata entre interesse comum e confusão patrimonial. Nestes termos, quando restar caracterizada a confusão patrimonial entre os dois ou mais sujeitos, cabível a aplicação da responsabilidade solidária. Fl. 4988DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 43 83 A expressão “confusão patrimonial” é inerente a teoria da desconsideração da personalidade jurídica do Direito Privado. Assim dispõe o artigo 50 do Código Civil: “em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica”. Como o próprio nome revela, confundir consiste no ato ou efeito de enganar, de iludir, enfim, aparentar ser. Na prática, ocorre a confusão patrimonial quando não é possível uma segregação clara entre as atividades profissionais ou empresarias exercidas por mais de um sujeito. Tal fenômeno costuma se revelar quando os negócios dos sócios se confundem com os da pessoa jurídica; quando há abuso dentro de um mesmo grupo econômico; quando as partes se valem de pessoas interpostas etc. De acordo com Luiz Carlos de Andrade Júnior23: “a confusão patrimonial caracterizase pela impossibilidade de distinguir se o uso e a disposição de determinados bens dãose pela sociedade ou pelos seus membros; ou, melhor dizendo, se o patrimônio é empregado de modo a satisfazer interesses de uma ou de outros. Configurase, por exemplo, quando a sociedade utiliza imóveis pertencentes aos sócios, emprega veículos destes para o desempenho de suas atividades operacionais ou paga suas contas pessoais. A confusão patrimonial pode, ademais, relacionarse a uma situação de controle, especialmente nos grupos econômicos de subordinação, em que as sociedades controladas perdem grande parte de sua autonomia de gestão empresarial em razão da atuação “soberana” da sociedade holding”. Apenas com a reunião de indícios precisos e convergentes, capazes de caracterizar a confusão patrimonial como um todo, é que estaremos no campo do interesse comum, em seu sentido jurídico e, conseqüentemente, da responsabilidade solidária referida no artigo 124, I do CTN. Do caso concreto As pessoas jurídicas do grupo Shahin, Shahin Holding S/A e S2 Participações Ltda., acionistas da Recorrente Shahin Engenharia S/A respectivamente com 90,15% e 7,85% das ações, foram responsabilizadas solidariamente com base no interesse comum. A manutenção da imputação pela decisão de primeira instância foi assim justificada: Junto ao capítulo 10 do relatório fiscal, a autoridade fiscal descortina o mecanismo de financiamento de capital de giro 23 A simulação no direito civil. São Paulo: Malheiros. 2016. P. 209. Fl. 4989DF CARF MF 84 levado a efeito pelo grupo Schahin, para dar suporte à execução dos contratos de afretamento e operação. A descrição evidencia que, em um primeiro momento, a contratação das operações de crédito era realizada por meio da pessoa jurídica Schahin Holding S/A. Posteriormente, por conta da necessidade de ampliar a garantia das operações de mútuo originalmente contratadas, as dívidas foram reestruturadas e o pólo passivo transferido para as empresas offshore do grupo. Tal mecanismo contemplou a criação de uma pessoa jurídica para esse fim: a S2 Participações Ltda. Essa dinâmica está esmiuçada nos esclarecimentos prestados à fiscalização pelo Banco Bonsucesso S/A, em atendimento à intimação formalizada no curso da auditoria fiscal. Se não, vejamos excertos dessa declaração, contida na figura IX 520 do relatório fiscal: 10/10/2007 INÍCIO DE RELACIONAMENTO COM O BBS com a primeira operação realizada com a Schahin Holding, com recursos direcionados ao capital de giro da empresa/grupo. 26/12/2008 Nova Operação, agora em nome da Schahin Engenharia, com recurso usado para suprir o Capital de Giro da empresa/grupo. Na mesma data foi feita nova Operação em nome da Schahin Holding consolidando o risco das CCB's Nº 2002034 8 e 2003102. Devido á crise internacional que afetou muito a liquidez do mercado que financiava suas atividades no segmento de óleo e gás, a empresa passou a ter dificuldades em refinanciar suas dívidas. Não só no Banco Bonsucesso, como nos demais Bancos Brasileiros com a qual trabalhava. Para o racional de alongamento de sua dívida, as Instituições financeiras de um modo geral exigiam a constituição de garantias reais para viabilizar tal ação. Como a maior parte dos ativos da companhia estavam no exterior exatamente nos navios de prospecção da Petrobrás, a saída encontrada foi fazer uma grande operação sindicalizada entre os Bancos credores e a Schahin onde fossem compartilhadas tais garantias. 23/09/2009 A divida é consolidada em uma operação em nome da Schahin Holding, até a concretização/formatação/estruturação da operação consorciada pelo "pool de bancos com o incremento de garantias adicionais. 23/12/2009 – (...) Como transferiuse a dívida da Schahin Holding para as SPEs ,que são empresas offshore (vide apresentação em anexo): A Schahin abriu uma Holding chamada S2 participações que fez uma assunção da divida da Schahin Holding através de instrumento particular de assunção de dívida.(...) [Grifei] DEEP BLACK e SOUTH EMPIRE nas devidas proporções assumem a divida da S2 perante os bancos regulamentado agora pelo novo contrato de empréstimo sindicalizado (Master Credit Agreement). É nítido, pois, que a dinâmica adotada para a reestruturação dos débitos reflete a inexistência de autonomia negocial entre as Fl. 4990DF CARF MF Processo nº 19515.720304/201518 Acórdão n.º 1201001.904 S1C2T1 Fl. 44 85 partes. A Schahin Holding S/A contrata operações de crédito para dar suporte aos contratos de afretamento e operação. Os débitos são simplesmente repassados à S2 Participações, sem qualquer contrapartida comercial. Ou seja, S2 Participações assume as dívidas originais da Schahin Holding. Na sequência, as dívidas são repassadas às empresas offshore (digase, as fretadoras offshore), que assumem as dívidas da S2. Ora, a única explicação para que pessoas jurídicas supostamente autônomas assumam débitos umas das outras sem qualquer remuneração ou contrapartida pelo ônus assumido é o fato de que se encontram umbilicalmente ligadas. Ou seja, conforme evidencia todo o restante do conjunto probatório presente nos autos, as empresas nacionais do grupo Schahin, assim como as fretadoras offshore, atuam de maneira unitária, em obediência a uma única linha de comando, comprometida com a execução do denominado “projeto global” do grupo. Outra não é a conclusão fiscal, que não aquela sedimentada junto ao item 12.13.12 do relatório fiscal: 12.13.12 A conclusão óbvia é o relevante interesse jurídico da SCHAHIN HOLDING S/A e S2 PARTICIPAÇÕES na situação que constitui o fato gerador do tributo, qual seja, a receita formalmente auferida pela FRETADORA OFFSHORE, mas obtida materialmente pela SCHAHIN e que é direcionada ao pagamento do CAPITAL DE GIRO das subsidiárias SCHAHIN ENGENHARIA S/A e SCHAHIN PETRÓLEO E GÁS S/A, estas sim, operacionais. Verificase, assim que os atos acima narrados, e praticados pelas pessoas jurídicas Shahin Holding S/A e S2 Participações Ltda., eram essenciais para fomentar a operação e "fazer o negócio girar". E, mais ainda, tais atos evidenciam, mais uma vez, a referida confusão patrimonial. O interesse comum, diante desse contexto, é inequívoco e requer a responsabilização de que trata o art. 124, I, do CTN. Dos efeitos dessa decisão ao processo apenso (19515.721233/201562) Finalmente, e apenas para elucidar, o resultado desse julgamento também deve ser aplicado ao processo decorrente da autuação complementar (n° 19515.721233/2015 62), o qual encontrase apenso aos presentes autos. Conclusão Pelo exposto, voto por DAR PROVIMENTO PARCIAL aos RECURSOS VOLUNTÁRIOS, reduzindo a multa de ofício de 225% para 150%. É como voto. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Fl. 4991DF CARF MF 86 Fl. 4992DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10675.720035/2011-41
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Oct 04 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Oct 26 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2006
RENDA VARIÁVEL. GANHO. PREJUÍZOS EM MESES SUBSQUENTES. COMPENSAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE.
O ganho líquido apurado em determinado mês nas operações de renda variável não pode ser compensado com prejuízo apurado em períodos subsequentes.
Numero da decisão: 2201-003.963
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguídas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Carlos Henrique de Oliveira - Presidente.
(assinado digitalmente)
Dione Jesabel Wasilewski - Relatora.
EDITADO EM: 16/10/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: DIONE JESABEL WASILEWSKI
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GANHO. PREJUÍZOS EM MESES SUBSQUENTES. COMPENSAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. O ganho líquido apurado em determinado mês nas operações de renda variável não pode ser compensado com prejuízo apurado em períodos subsequentes. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguídas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Presidente. (assinado digitalmente) Dione Jesabel Wasilewski Relatora. EDITADO EM: 16/10/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 67 5. 72 00 35 /2 01 1- 41 Fl. 1131DF CARF MF 2 Relatório Tratase de recurso voluntário (fls. 1110/1124) apresentado em face do Acórdão nº 0945.105, da 6ª Turma da DRJ/JFA (fls. 1087/1103), que negou provimento à impugnação do auto de infração (fls. 3/9) pelo qual se exige crédito tributário de R$ 27.941,85, relativo a Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF e acréscimos legais, tendo por base de cálculo ganho líquido no mercado de renda variável. Segundo a autoridade fiscal, o contribuinte teria deixado de recolher IRPF incidente sobre operações realizadas na bolsa de valores brasileira (Bovespa). A fiscalização teria tido início pela constatação de "elevadas operações no mercado de renda variável, no ano calendário de 2006" sem a apresentação do "Resumo de Apuração de Ganhos de Renda Variável" na respectiva declaração de IR. Não tendo o contribuinte prestado as informações solicitadas em reiteradas intimações fiscais, foi emitida Requisição do Informações sobre Movimentação Financeira RMF e RMF complementares. As informações obtidas foram consolidadas no Demonstrativo de Apuração de Ganhos Renda Variável (Documento 1). A fiscalização informa também que não houve recolhimento espontâneo sobre os ganhos líquidos, conforme atestaria o Documento 10. O auto de infração identifica um único item "GANHOS LÍQUIDOS NO MERCADO DE RENDA VARIÁVEL. FALTA DE RECOLHIMENTO DO IMPOSTO SOBRE GANHOS LÍQUIDOS DO MERCADO DE RENDA VARIÁVEL", que é assim concluído: Fato Gerador Valor tributável ou imposto Multa (%) 31/01/2006 R$ 12.278,90 75 O sujeito passivo teve ciência do auto de infração em 11/01/2011 (fl. 1051) e impugnou o lançamento, o que deu origem ao Acórdão nº 0945.105, da 6ª Turma da DRJ/JFA, com a seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Exercício: 2007 INSTRUÇÃO DA PEÇA IMPUGNATÓRIA. PROVA. MOMENTO DE APRESENTAÇÃO. A impugnação deve ser instruída com os documentos em que se fundamentar e que comprovem as alegações de defesa, precluindo o direito do impugnante fazêlo em outro momento processual. DILIGÊNCIAS OU PERÍCIAS. A autoridade julgadora de primeira instância somente determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a Fl. 1132DF CARF MF Processo nº 10675.720035/201141 Acórdão n.º 2201003.963 S2C2T1 Fl. 1.132 3 realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 2007 AUTORIDADE ADMINISTRATIVA. CARÁTER VINCULADO. Falece competência à autoridade julgadora de instância administrativa para a apreciação de aspectos relacionados com a constitucionalidade ou legalidade das normas tributárias, tarefa privativa do Poder Judiciário. RESPONSABILIDADE DO CONTRIBUINTE. A responsabilidade por infrações independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2007 SIGILO BANCÁRIO. PRÉVIA AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. A legislação em vigor autoriza o Fisco a solicitar diretamente às instituições financeiras informações referentes à movimentação bancária de seus clientes mediante a emissão de Requisição de Informações sobre Movimentação Financeira, desde que haja procedimento de fiscalização em curso e esta seja precedida de intimação ao sujeito passivo, sendo desnecessária a autorização judicial prévia. OPERAÇÕES EM BOLSA. COMPENSAÇÃO DE PERDAS. OPERAÇÕES COMUNS. As perdas incorridas nas operações comuns somente podem ser compensadas com ganhos auferidos em operações da mesma espécie, em meses subsequentes, no momento de apuração da base de cálculo (ganho líquido) para efeito de pagamento do imposto mensal. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A ciência dessa decisão ocorreu em 15/08/2013 (fl. 1106) e o recurso voluntário foi tempestivamente apresentado em 13/09/2013 (fls. 1110/1124). Em suas razões de recorrer, o sujeito passivo alega, em síntese, que: Fl. 1133DF CARF MF 4 1. As notas de corretagem foram solicitadas pela autoridade fiscal diretamente à corretora sem a necessária autorização judicial, o que implica quebra indevida do sigilo bancário e torna nulo o lançamento. 2. No período de janeiro a dezembro de 2006 o autuado teve um prejuízo acumulado de R$ 305.816,31, de forma que não haveria ganho a ser tributável. 2. O acréscimo patrimonial é requisito necessário para que haja renda a ser tributável, de forma que a obrigação tributária estaria vinculada a riqueza nova afetada ao patrimônio. 3. Não houve disponibilização dos valores resgatados nas operações, uma vez que os valores obtidos nas alienações de janeiro foram utilizados para aquisição de outros papéis e, no final do período base, o resultado foi prejuízo. 4. Da análise da DIRPF de 2006 é possível concluir que, ao fim do período, houve diminuição do patrimônio. 5. O lançamento proposto baseiase em mera presunção, desprovida de comprovantes que lhe assegurem firmeza e robustez. 6. A multa de 75% não é devida, porque o contribuinte procedeu de acordo com a legislação. Com base no exposto, pede que o processo seja extinto sem julgamento de mérito e, sucessivamente, que seja reformada a decisão de piso com o cancelamento integral da exigência constante do auto de infração. É o que havia para ser relatado. Voto Conselheira Dione Jesabel Wasilewski Relatora O recurso voluntário apresentado preenche os requisitos de admissibilidade e dele conheço. Preliminar Nulidade Sigilo Bancário O recorrente inicia seu apelo alegando que as notas de corretagem foram solicitadas pela autoridade fiscal diretamente à instituição financeira, sem a necessária autorização judicial, o que implicaria quebra indevida do sigilo bancário, conduta que macularia o lançamento. Ocorre que essa matéria teve sua repercussão geral reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal STF, que a afetou a julgamento nos termos do art. 543B do Código de Processo Civil de 1973. Julgando o Tema, o pleno do STF fixou as seguintes teses: "O art. 6º da Lei Complementar 105/01 não ofende o direito ao sigilo bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio da capacidade contributiva, bem Fl. 1134DF CARF MF Processo nº 10675.720035/201141 Acórdão n.º 2201003.963 S2C2T1 Fl. 1.133 5 como estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal." "A Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, tendo em vista o caráter instrumental da norma, nos termos do artigo 144, §1º, do CTN." De acordo com o §2º do art. 62 do Regimento Interno deste Conselho, as decisões definitivas de mérito proferidas pelo STF na sistemática do art. 543B do CPC/1973 devem ser obrigatoriamente reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Por outro lado, o art. 6º da Lei Complementar nº 105, de 2001, mencionado pela tese fixada pelo STF, dispõe, in verbis: Art. 6º As autoridades e os agentes fiscais tributários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios somente poderão examinar documentos, livros e registros de instituições financeiras, inclusive os referentes a contas de depósitos e aplicações financeiras, quando houver processo administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso e tais exames sejam considerados indispensáveis pela autoridade administrativa competente. Parágrafo único. O resultado dos exames, as informações e os documentos a que se refere este artigo serão conservados em sigilo, observada a legislação tributária. Disciplinando o acesso às informações bancárias previsto neste dispositivo, o Decreto nº 3.724, de 2001, autorizou o Fisco a solicitar diretamente às instituições financeiras informações referentes à movimentação bancária de seus clientes, mediante a emissão de Requisição de Informações sobre Movimentação Financeira – RMF. Para tanto, exigiuse que houvesse procedimento de fiscalização em curso e esta fosse precedida de intimação ao sujeito passivo. Não há qualquer exigência de prévia autorização judicial. O art. 4º do Decreto 3.724, de 2001, assim dispõe: Art. 4º Poderão requisitar as informações referidas no § 5º do art. 2º as autoridades competentes para expedir o MPF. §1ºA requisição referida neste artigo será formalizada mediante documento denominado Requisição de Informações sobre Movimentação Financeira (RMF) e será dirigida, conforme o caso, ao: (...) §5º A RMF será expedida com base em relatório circunstanciado, elaborado pelo AuditorFiscal da Receita Federal encarregado da execução do MPF ou por seu chefe imediato. §6º No relatório referido no parágrafo anterior, deverá constar a motivação da proposta de expedição da RMF, que demonstre, com precisão e clareza, tratarse de situação enquadrada em Fl. 1135DF CARF MF 6 hipótese de indispensabilidade prevista no artigo anterior, observado o princípio da razoabilidade. (...) §8º A expedição da RMF presume indispensabilidade das informações requisitadas, nos termos deste Decreto. Por sua vez, o art. 3º do Decreto 3.724, de 2001, discrimina as hipóteses em que se considera indispensável a verificação da movimentação bancária. Dele, destacase: Art. 3º Os exames referidos no § 5º do art. 2º somente serão considerados indispensáveis nas seguintes hipóteses: (...) VII previstas no art. 33 da Lei nº 9.430, de 1996; Entre as hipóteses previstas no art. 33 da Lei nº 9.430, de 1996, temse: Art. 33. A Secretaria da Receita Federal pode determinar regime especial para cumprimento de obrigações, pelo sujeito passivo, nas seguintes hipóteses: I embaraço à fiscalização, caracterizado pela negativa não justificada de exibição de livros e documentos em que se assente a escrituração das atividades do sujeito passivo, bem como pelo não fornecimento de informações sobre bens, movimentação financeira, negócio ou atividade, próprios ou de terceiros, quando intimado, e demais hipóteses que autorizam a requisição do auxílio da força pública, nos termos do art. 200 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966; Segundo esse inciso, o embaraço à fiscalização é caracterizado, dentre outras situações, pelo não fornecimento de informações acerca da movimentação financeira própria. Pelo exposto, resta caracterizada a correção da conduta adotada pela autoridade fiscal, em razão do que nego provimento à preliminar de nulidade do auto de infração por quebra do sigilo bancário. Mérito No mérito, alega o recorrente que, no período de janeiro a dezembro de 2006, teria tido um prejuízo acumulado de R$ 305.816,31, de forma que não haveria ganho a ser tributável. Aduz ainda que o acréscimo patrimonial é requisito necessário para que haja renda a ser tributável e que o lançamento foi realizado com base em mera presunção, desprovida de comprovantes que lhe assegurem robustez. Quanto a esses aspectos, registro inicialmente que o lançamento discutido nesse processo identificou como fato gerador 31/01/2006, por isso se refere a resultado positivo apurado nesse mês. Para enfrentar a defesa apresentada quanto ao mérito, adoto como razões de decidir os argumentos expendidos pela decisão recorrida, no que é abaixo transcrito: Fl. 1136DF CARF MF Processo nº 10675.720035/201141 Acórdão n.º 2201003.963 S2C2T1 Fl. 1.134 7 O defendente ressalta que agiu rigorosamente de acordo com o que prevê a legislação, pois sofrera um prejuízo enorme nas operações realizadas na bolsa de valores, e, apesar de ter preenchido e entregue a sua declaração do IRPF de 2006 e ter feito constar nela a sua renda tributável, bem como a diminuição do seu patrimônio, foi surpreendido com o presente lançamento fiscal. No entanto, na Declaração de Ajuste Anual do IRPF/2007, ano calendário 2006, o interessado não apresentou o “Resumo de Apuração de Ganhos de Renda Variável”. E, segundo dispõe a legislação tributária, o contribuinte que realizou em qualquer mês do anocalendário operações em bolsa de valores, de mercadorias, de futuros e assemelhadas, além de estar obrigado à apresentação da Declaração de Ajuste Anual deve preencher também o formulário “Resumo de Apuração de GanhosRenda Variável”, anexo à declaração, ainda que tenha auferido ganhos negativos nas indigitadas operações. O defendente afirma que naquele ano de 2006, conforme apurou o próprio auditor, teve um prejuízo acumulado de janeiro a dezembro de 2006, na ordem de R$ 305.816,31, sendo R$ 224.505,66 nas operações com ações comuns e R$ 81.310,55 nas operações com daytrade, portanto, apresentará razões e provas de que agiu inteiramente de acordo com a legislação vigente, tudo em obediência ao comando legal pertinente, conforme será amplamente demonstrado. De fato, nos meses de fevereiro a dezembro de 2006, o contribuinte teve ganhos líquidos negativos nas operações comuns realizadas na bolsa de valores. Entretanto, no mês de janeiro de 2006, teve resultado positivo de R$ 82.422,63 com as referidas operações comuns, e assim deveria ter pago o imposto correspondente, no valor de R$ 12.278,90, já descontado o imposto de renda retido na fonte, conforme consta do “Demonstrativo de Apuração de Ganhos – Renda Variável”, elaborado pela autoridade lançadora, fls. Xxx. Já nas operações com daytrade o contribuinte teve perdas durante todo o anocalendário de 2006, conforme consta do referido demonstrativo fiscal, e dessa forma nada está sendo exigido do interessado no presente lançamento tributário. Todavia, o interessado insiste na defesa que não há que se falar em tributação, dado o enorme prejuízo ocorrido no período. Infiro, então, que o interessado pretende que o resultado positivo apurado no mês de janeiro de 2006, com as operações comuns realizadas na bolsa de valores sejam compensados com os prejuízos apurados nos períodos seguintes, de fevereiro a dezembro de 2006. Para análise de tal questão, destaco o que dispõe a legislação tributária sobre o assunto. Fl. 1137DF CARF MF 8 O Decreto nº 3.000, de 1999 – RIR/99 –, ao regulamentar a tributação das “Operações em Bolsa ou Fora de Bolsa”, assim determina: “Art. 760. Considerase ganho líquido o resultado positivo auferido nas operações realizadas em cada mês, admitida a dedução dos custos e despesas incorridos, necessários à realização das operações, e a compensação de perdas apuradas nas operações de que tratam os arts. 761, 764, 765 e 766, ressalvado o disposto no art. 767 (Lei nº 7.713, de 1988, art. 40, § 1º, e Lei nº 7.799, de 1989, art. 55, §§ 1º e 7º). § 1º As perdas apuradas nas operações de que trata este Capítulo poderão ser compensadas com os ganhos líquidos auferidos nos meses subseqüentes, em operações da mesma natureza (Lei nº 8.981, de 1995, art. 72, § 4º). § 2º As deduções de despesas, bem como a compensação de perdas previstas neste Capítulo, serão admitidas exclusivamente para as operações realizadas nos mercados organizados, geridos ou sob a responsabilidade de instituição credenciada pelo Poder Executivo e com objetivos semelhantes ao das bolsas de valores, de mercadorias ou de futuros (Lei nº 8.383, de 1991, art. 27).”(grifei) A Instrução Normativa SRF nº 25, de 6 de março de 2001, ao disciplinar o referido dispositivo, assim esclarece: “Art. 30. Para fins de apuração e pagamento do imposto mensal sobre os ganhos líquidos, as perdas incorridas nas operações de que tratam os arts. 25 a 29 poderão ser compensadas com os ganhos líquidos auferidos, no próprio mês ou nos meses subseqüentes, em outras operações realizadas em qualquer das modalidades operacionais previstas naqueles artigos, exceto no caso de perdas em operações de daytrade, que somente serão compensadas com ganhos auferidos em operações da mesma espécie”. Analisando os esclarecimentos contidos no art. 30 da referida instrução normativa (acima transcrito) observo que as perdas apuradas em meses anteriores podem ser compensadas com ganhos auferidos em meses subsequentes, no momento de apuração da base de cálculo (ganho líquido) para efeito de pagamento do imposto mensal. Dessa forma, a despeito das argumentações do interessado, o fato é que para fins fiscais, os prejuízos anteriores só podem ser compensados com ganhos auferidos em meses subsequentes. Logo, as perdas com operações comuns apuradas nos meses de fevereiro a dezembro de 2006 não podem ser compensadas com o ganho obtido no mês de janeiro de 2006. Observo, ainda, que o resultado negativo ou perda apurado em dezembro pode ser compensado com o ganho auferido em qualquer mês do exercício seguinte, não havendo Fl. 1138DF CARF MF Processo nº 10675.720035/201141 Acórdão n.º 2201003.963 S2C2T1 Fl. 1.135 9 restrição quanto ao mês ou ano de sua utilização. Devese atentar que as perdas incorridas em operações iniciadas e encerradas no mesmo dia (day trade) somente são compensáveis com os ganhos líquidos auferidos nessas operações (day trade), em uma ou mais modalidades operacionais. Do mesmo modo, as perdas incorridas em operações comuns somente são compensáveis com os ganhos líquidos auferidos nessas operações. Pelo até aqui exposto, noto, ainda, que o resultado negativo ou perda apurada no final de cada anocalendário (mês de dezembro) pode ser utilizado pelos contribuintes para compensação com os ganhos obtidos no seguinte exercício, a partir de janeiro. Todavia, friso que consoante o disposto na legislação tributária os prejuízos apurados nas operações em bolsa de valores só poderão ser compensados com ganhos líquidos auferidos em meses posteriores, daí porque não tem razão o interessado em seu pleito. Quanto aos demais pontos de discordância da peça impugnatória noto que a legislação relativa aos ganhos apurados nas operações em bolsa ou fora de bolsa, que é a aplicável ao procedimento fiscal em tela, reitero, não exige do autuante, em momento algum, o levantamento de dispêndios realizados pelo autuado no período fiscalizado. Também, não condiciona sua utilização, pela autoridade tributária, somente aos casos em que haja ocorrência de incremento do patrimônio do interessado e/ou de sinais exteriores de riqueza, como tenta fazer crer o interessado. Aliás, destaco que as fiscalizações de acréscimo patrimonial e sinais exteriores de riqueza utilizam procedimentos e dispositivos legais diversos dos adotados no presente processo (falta de recolhimento do imposto sobre ganhos líquidos no mercado de renda variável, obtidos em operações realizadas na bolsa de valores brasileira). Quanto à assertiva do interessado de que o lançamento proposto baseiase em mera presunção desprovida de comprovantes que lhe assegurem firmeza e robustez, noto que a legislação aplicada ao presente lançamento não se trata de presunção de omissão de rendimentos, mas cuida da tributação do ganho líquido auferido nas operações em bolsa de valores, apurado em conformidade com as Notas Diárias de Corretagens referentes às operações realizadas pelo contribuinte em 2006, e a relação do estoque de ativos em 01/01/2006 e 31/12/2006, fornecidas pela instituição financeira. Fl. 1139DF CARF MF 10 Conforme restou evidenciado pelo que foi acima transcrito, o que pretende o contribuinte, compensar o ganho obtido em janeiro de 2006 com os prejuízos apurados nos meses seguintes, contraria frontalmente texto expresso de lei. Com efeito, de acordo com o art. 71, da Lei nº 8.981, de 1995: Art. 72. Os ganhos líquidos auferidos, a partir de 1º de janeiro de 1995, por qualquer beneficiário, inclusive pessoa jurídica isenta, em operações realizadas nas bolsas de valores, de mercadorias, de futuros e assemelhadas, serão tributados pelo Imposto de Renda na forma da Legislação vigente, com as alterações introduzidas por esta lei. § 1º A alíquota do imposto será de dez por cento, aplicável sobre os ganhos líquidos apurados mensalmente. § 2º Os custos de aquisição dos ativos objeto das operações de que trata este artigo serão: a) considerados pela média ponderada dos custos unitários; b) convertidos em Real pelo valor de R$ 0,6767, no caso de ativos existentes em 31 de dezembro de 1994, expressos em quantidade de Ufir. § 3º O disposto neste artigo aplicase também: a) aos ganhos líquidos auferidos por qualquer beneficiário, na alienação de ouro, ativo financeiro, fora de bolsa; b) aos ganhos líquidos auferidos pelas pessoas jurídicas na alienação de participações societárias, fora de bolsa. § 4º As perdas apuradas nas operações de que trata este artigo poderão ser compensadas com os ganhos líquidos auferidos nos meses subseqüentes, em operações da mesma natureza. (...) § 7º O disposto nos §§ 4º e 5º aplicase, inclusive, às perdas existentes em 31 de dezembro de 1994. § 8º Ficam isentos do Imposto de Renda os ganhos líquidos auferidos por pessoa física em operações no mercado à vista de ações nas bolsas de valores e em operações com ouro, ativo financeiro, cujo valor das alienações realizadas em cada mês seja igual ou inferior a 5.000,00 Ufirs, para o conjunto de ações e para o ouro, ativo financeiro, respectivamente.(grifouse) O texto legal permite inferir que a apuração do ganho/perda será feita mensalmente (§ 1º) e que as perdas apuradas poderão ser compensadas com ganhos líquidos auferidos nos meses subseqüentes (§ 4º). Também é improcedente a alegação de que não houve disponibilização dos valores resgatados nas operações, uma vez que as quantias obtidas nas alienações de janeiro foram utilizadas para aquisição de outros papéis e, no fim do período base, o resultado foi prejuízo. Quando efetuou os resgates em janeiro, o contribuinte teve disponibilidade sobre esses recursos e os consumiu, segundo seu livre discernimento, adquirindo novos papéis. Fl. 1140DF CARF MF Processo nº 10675.720035/201141 Acórdão n.º 2201003.963 S2C2T1 Fl. 1.136 11 Poderia têlos consumido de outra forma ou mantidoos em seu poder, contudo, é inevitável afirmar que, ao decidir sobre o destino dos recursos, teve disponibilidade sobre eles. E a renda é medida pela disponibilidade não pelo acúmulo, porque renda consumida também é renda. Por isso, a afirmação de que a análise da DIRPF de 2006 evidencia a diminuição do patrimônio no fim do período considerado é irrelevante para fins de apuração do imposto de renda. Também não é correto afirmar que a multa de 75% não é devida, porque o contribuinte teria procedido de acordo com a legislação. A multa em questão está prevista no art. 44, I, da Lei nº 9.430, de 1996, e se aplica nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e de declaração inexata. As condutas imputadas ao contribuinte estão perfeitamente adequadas a esse tipo legal, já que deixou de prestar as informações que lhe competia na DIRPF e também não pagou o imposto que lhe cabia pagar. Por essas razões, nego provimento ao recurso apresentado pelo contribuinte. Conclusão Com base no exposto, voto por conhecer do recurso voluntário apresentado para, rejeitada a preliminar de nulidade, no mérito, negarlhe provimento. Conselheira Dione Jesabel Wasilewski Relatora Fl. 1141DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.682568/2009-77
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Feb 08 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3001-000.015
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Unidade de Origem, para que a autoridade analise os documentos acostados no Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Orlando Rutigliani Berri - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Cássio Schappo.
Nome do relator: ORLANDO RUTIGLIANI BERRI
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Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Unidade de Origem, para que a autoridade analise os documentos acostados no Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Cássio Schappo. RELATÓRIO Cuidase de recurso voluntário (fls. 108 a 173) interposto contra o Acórdão 10 47.378, da 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre/RS DRJ/POA, em sessão de julgamento realizada em 08.11.2013 (fls. 102 a 104), que julgou improcedente a manifestação de inconformidade, para manter o despacho decisório contestado, nos termos do relatório e voto, exarado em substituição ao Acórdão 1046.705 de 30.09.2013, pelo fato de haver notado a existência de lapso relativo ao último parágrafo do respectivo voto condutor. Da matéria O presente processo trata de pedido de restituição cumulado com compensação de créditos de IPI, relativos ao período de outubro de 2004, com outros débitos administrados pela Receita Federal do Brasil, objeto da PER/DCOMP 21381.74612.180108.1.3.044800, transmitida em 18.01.2008. Dos fatos RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 80 .6 82 56 8/ 20 09 -7 7 Fl. 176DF CARF MF Processo nº 10880.682568/200977 Resolução nº 3001000.015 S3C0T1 Fl. 177 2 Por bem descrever os fatos e com vista a elucidação do caso e em respeito à economia processual, adoto o relatório da decisão recorrida, que transcrevo em seguida: O presente Acórdão destinase à substituição do Acórdão 1046.705, de 30 de setembro de 2013, para fins de correção de lapso relativo ao último parágrafo do Voto, mantendose inalterados os demais termos do referido documento. Tratase de Despacho Decisório (Eletrônico) DDE de fl. 08, da DERAT/SP, emitido em 23/10/2009, que não homologou a compensação declarada no PER/DCOMP nº 21381.74812.180108.1.3.044800, transmitido em 18/01/2008, com crédito decorrente de pagamento considerado indevido de IPI código de arrecadação 1097, efetuado em 12/11/2004, cujo valor original, a título de principal, correspondia a R$ 10.152,59. O motivo para o indeferimento foi a constatação de que o DARF relativo ao pagamento em questão teria sido integralmente utilizado para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação do débito informado no PER/DCOMP. Irresignado, o contribuinte apresentou a manifestação de inconformidade tempestiva das fls. 11 a 13, na qual alega, em síntese, que efetuou o recolhimento em questão, relativo ao período de apuração outubro de 2004, porém naquele período não teria havido saldo devedor de imposto, mas sim saldo credor de R$ 552.965,53, fato que poderia ter sido comprovado se o “AFRF tivesse analisado o Livro de Registro de Apuração do IPI LRAIPI (doc. 04), da ora Peticionária, relativo ao período de outubro de 2004”. Finalizando, solicita o reconhecimento do direito creditório e a homologação da compensação. É o relatório. Da Decisão de 1ª Instância A 3ª Turma da DRJ/POA, ao considerar improcedente a manifestação de inconformidade, exarou citado acórdão, cuja ementa foi vazada nos seguintes termos: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Data do fato gerador: 12/11/2004 CRÉDITO. PAGAMENTO INDEVIDO. NÃO COMPROVAÇÃO. Não comprovado o pagamento indevido, não é de se reconhecer o direito creditório. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Da ciência O contribuinte, segundo o "Termo de Abertura de Documento" de fl. 105, tomou conhecimento do teor do acórdão da DRJ em 20.11.2013, pela abertura dos arquivos correspondentes no link Processo Digital, no Portal eCAC, através da opção "Consulta Comunicados/Intimações". Fl. 177DF CARF MF Processo nº 10880.682568/200977 Resolução nº 3001000.015 S3C0T1 Fl. 178 3 Irresignado com a decisão formalizada no acórdão vergastado, conforme o "Termo de Análise de Solicitação de Juntada" de fl. 174, corroborado pelo carimbo aposto pela DERAT/CAC PAULISTA, o recorrente solicita a juntada do recurso voluntário em 16.12.2013. Logo, das datas acima destacadas, concluise que o recurso voluntário é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade previstos na legislação; de modo que dele conheço. Do recurso voluntário No recurso voluntário (fls. 108 a 173), aduz. Em preliminar, a necessidade de diligência para apurar os fatos que culminaram no não reconhecimento do direito creditório pleiteado e, por conseguinte, na não homologação da compensação declarada no PER/DCOMP 21381.74812.180108.1.3.044800. No mérito, que: 1 os documentos acostados, à época da apresentação da manifestação de inconformidade já demonstravam o direito pleiteado, mas afim de reforçar sua veracidade, costa a cópia autenticada do Livro de Registro de Apuração do IPI RAIPI, cuja análise superficial já é possível constatar que em outubro de 2004, havia apurado um saldo credor de R$ 552.965,53, que, nos termos do parágrafo primeiro do artigo 195 do Decreto 4.544 de 26.12.2002 RIPI, deveria ser transportado para o período subsequente; 2 não se trata de novo documento ou novas alegações, mas, tão somente da apresentação das vias autenticadas dos documentos anteriormente já apresentados; 3 é imprescindível a análise do RAIPI, a fim de se verificar e conformar a liquidez e certeza do crédito tributário discutido; 4 desconsiderar o RAIPI apresentado na manifestação de inconformidade, como prova hábil, por não se tratar de documento original, depõe contra a busca da verdade material, o contraditório e a ampla defesa; 5 as demonstrações contábeis contidas no RAIPI evidenciam que a situação ora enfrentada é somente um erro no preenchimento da DCTF e da DIPJ, não invalidando suas informações (RAIPI), pois é possível identificar a matéria sob exame, convalidando, por conseguinte, o crédito pleiteado no PER/DCOMP 21381.74812.180108.1.3.044800; 6 negar validade às provas apresentadas, por não serem originais e ainda, declarar a extemporaneidade das vias originais, ora acostadas, afronta aos princípios constitucionais, caracterizando o cerceamento de defesa, pois, impossibilita a apresentação de provas que tem por objetivo confirmar o direito creditório pleiteado. Por fim, requer seja o presente recurso voluntário conhecido e provido, homologandose em definitivo a compensação. Do encaminhamento Fl. 178DF CARF MF Processo nº 10880.682568/200977 Resolução nº 3001000.015 S3C0T1 Fl. 179 4 O processo digital, então, foi encaminhado para ser analisado por este CARF na forma regimental. É o relatório. VOTO Conselheiro Orlando Rutigliani Berri, Relator Da Admissibilidade O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido por este Colegiado. Do voto condutor do acórdão recorrido Do voto condutor do acórdão recorrido colhese: No presente caso, a RFB expediu o Despacho Decisório contestado após apurar, diante das informações disponíveis em seus bancos de dados à época do processamento do PER/DCOMP, que o DARF indicado como origem do direito creditório já havia sido apropriado à quitação de débitos do contribuinte, pelo que não restou crédito disponível para a compensação pretendida. Isto porque o crédito pleiteado está totalmente alocado ao débito de igual valor, referente ao mês de outubro de 2004, declarado na Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF relativa ao 4º trimestre de 2004, conforme pesquisa realizada nos citados bancos de dados, nesta data, o que denota não se tratar de pagamento indevido, e, por consequência, não revestido das características de liquidez e certeza necessárias para legitimar a compensação pretendida. A par disso, o contribuinte não trouxe ao processo documentos hábeis e idôneos para demonstrar a veracidade de suas alegações, tendose limitado a apresentar o documento de fls. 42 a 47, “REGISTRO DE APURACAO DO IPI MODELO P8” o qual contém valores diversos do que foi informado na Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica DIPJ/2005 anocalendário 2004. Ressaltase que, de acordo com essa declaração, documento oficial transmitido à RFB, no mês de outubro de 2004 foi apurado saldo devedor de IPI no valor de R$ 10.152,59 , exatamente o valor do pagamento que o contribuinte ora reclama, e que foi corretamente alocado ao débito declarado em DCTF. Ressalto que tanto o referido documento de fls. 42 a 47 quanto a DIPJ apresentam os mesmos valores de créditos e débitos, e a divergência quanto ao saldo ao final do mês se deve ao saldo credor do período anterior, que na DIPJ é de R$ 476,89, e no citado documento seria de R$ 563.595,01. Para elucidar tal divergência, comprovando que existia esse saldo credor expressivo, à época, o contribuinte deveria ter apresentado o Livro Registro de Apuração do IPI RAIPI original, com a devida escrituração, à época, aos moldes do que preceitua o Regulamento do IPI. Da proposta de diligência Fl. 179DF CARF MF Processo nº 10880.682568/200977 Resolução nº 3001000.015 S3C0T1 Fl. 180 5 Conforme observase do voto condutor do acórdão recorrido, ao efetivar sua compensação, por intermédio de DCOMP, o interessado indicou como crédito a compensar, o constante de DARF relativo ao IPI do período de apuração de outubro de 2004, mas que, entretanto, em consulta aos sistemas da Secretaria da Receita Federal do Brasil, constatouse que o valor recolhido, referente ao citado DARF, encontravase inteiramente alocado para a quitação de outros débitos do sujeito passivo, por conseguinte, inexistindo crédito a compensar, o que motivou a não homologação da Dcomp sob apreço, notadamente, em razão de o Colegiado a quo entender que o contribuinte deveria ter apresentado, à época, o RAIPI original, com a devida escrituração, conforme preceitua o RIPI. Ocorre que, não obstante o recorrente, além de reconhecer que equivocouse ao valor informar o valor do débito a compensar, originalmente informado na referida PER/DCOMP, apresentou, juntamente com sua manifestação de inconformidade, cópia simples do RAIPI do período calendário de outubro de 2004, e agora também a respectiva DCTF retificadora, além do já mencionado DARF. Desta forma, entendo que a mencionada retificação levada a efeito pelo recorrente, sinaliza com a possibilidade de acerto quanto ao correto valor do indébito de IPI e, com isto, o reconhecimento da extinção do débito tributário objeto da compensação, nos termos do inciso II do artigo 156 do CTN. É neste sentido que determina o parágrafo 2º do artigo 147 do CTN: Art. 147. O lançamento é efetuado com base na declaração do sujeito passivo ou de terceiro, quando um ou outro, na forma da legislação tributária, presta à autoridade administrativa informações sobre matéria de fato, indispensáveis à sua efetivação. § 1º. A retificação da declaração por iniciativa do próprio contribuinte, quando vise a reduzir ou a excluir tributo, só é admissível mediante comprovação do erro em que se funde, e antes de notificado o lançamento. § 2°. Os erros contidos na declaração e apuráveis pelo seu exame serão retificados de oficio pela autoridade administrativa a que competir a revisão daquela. Da conclusão Em face do exposto, ante a existência de indícios de que o recorrente apresentou DCTF´s (original e retificadora), tendo em vista que teria cometido equívoco na sua escrituração contábil e, por conseguinte, no preenchimento da DCOMP, os quais, ao menos em tese, deveriam ser sanados, de ofício, mediante confirmação da aludida DCTF, mas que não houve manifestação conclusiva por parte da autoridade fiscal competente para se pronunciar sobre a DCTF retificadora e dos demais documentos juntados aos autos, e tendo em vista verossimilhança das alegações do contribuinte e em homenagem aos princípios da formalidade moderada e da verdade real, que, nas circunstâncias observadas nestes autos, devem nortear o processo administrativo fiscal e, ainda, de modo a evitar eventual enriquecimento sem causa por parte do fisco, proponho converter o julgamento do presente recurso em diligência a fim de que a autoridade preparadora da unidade fiscal de origem analise os documentos acostados à manifestação de inconformidade e ao recurso voluntário e, caso entenda necessário, intime o recorrente a comprovar a pertinência e veracidade das alegações Fl. 180DF CARF MF Processo nº 10880.682568/200977 Resolução nº 3001000.015 S3C0T1 Fl. 181 6 mencionadas em suas peças de defesa, de modo a não só confirmar a existência do indébito alegado, mas, sobretudo, para demonstrar o acerto quanto à apresentação da DCTF retificadora. Posteriormente, a autoridade incumbida da diligência deverá elaborar relatório, pormenorizado e conclusivo das análises levadas a efeito e do seu reflexo na PER/DCOMP apresentada. Na sequência o contribuinte deverá ser intimado para que, no prazo regulamentar, caso entenda conveniente, adite seu recurso voluntário, somente quanto à matéria decorrente da diligência. Por fim, devolva os autos para este CARF, para julgamento. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Fl. 181DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10932.000454/2010-01
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 19 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Oct 31 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2005
PROCESSUAL - NULIDADE. INOCORRÊNCIA.
Não procedem as arguições de nulidade quando não se vislumbram nos autos quaisquer das hipóteses previstas no art. 59 do Decreto nº 70.235, de1972.
Numero da decisão: 1302-002.366
Decisão: DECADÊNCIA - FALTA DE DECLARAÇÃO E PAGAMENTOS DE TRIBUTOS - AFASTAMENTO - RESP 973.733/SC JULGADO NO REGIME DE RECURSOS REPETITIVOS - ART. 62 DO RICARF
Não identificados pagamentos pelo contribuinte, nem declaração de valores a pagar, aplica-se a regra decadencial prevista no art. 173, I, do CTN, conforme entendimento sedimentado pelo STJ nos autos do REsp de 973.733/SC, julgado sob o rito dos artigos 543-B e 543-C do CPC.
IRPJ, CSLL, PIS E COFINS - OMISSÃO DE RECEITAS - ART. 42, § 5º, DA LEI 9.430/96 - COMPROVAÇÃO DA NATUREZA, DESTINO E TITULARIDADE DOS VALORES POR DOCUMENTAÇÃO IDÔNEA
Comprovado pelo titular da conta bancária a natureza das operações e a títularidade dos valores creditados, ainda que existente indícios de práticas evasivas pelos destinatários dos recursos, compete a autoridade fiscal proceder o lançamento contra estes últimos, inclusive por força da disposição expressa constante do § 5º do art. 42 da Lei 9.430/96, e não contra a empresa titular das contas, criada exclusivamente para gerenciar os recursos financeiros dos citados destinatários.
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, afastar as preliminares, inclusive a decadência e, no mérito, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa e Edgar Bragança Bazhuni.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Souza - Presidente.
(assinado digitalmente)
Gustavo Guimarães da Fonseca - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Ester Marques Lins de Sousa (Presidente Substituta), Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado), Rogério Aparecido Gil, Edgar Braganca Bazhuni (Suplente Convocado), Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo e Gustavo Guimarães da Fonseca.
Nome do relator: GUSTAVO GUIMARAES DA FONSECA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005 PROCESSUAL NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Não procedem as arguições de nulidade quando não se vislumbram nos autos quaisquer das hipóteses previstas no art. 59 do Decreto nº 70.235, de1972. DECADÊNCIA FALTA DE DECLARAÇÃO E PAGAMENTOS DE TRIBUTOS AFASTAMENTO RESP 973.733/SC JULGADO NO REGIME DE RECURSOS REPETITIVOS ART. 62 DO RICARF Não identificados pagamentos pelo contribuinte, nem declaração de valores a pagar, aplicase a regra decadencial prevista no art. 173, I, do CTN, conforme entendimento sedimentado pelo STJ nos autos do REsp de 973.733/SC, julgado sob o rito dos artigos 543B e 543C do CPC. IRPJ, CSLL, PIS E COFINS OMISSÃO DE RECEITAS ART. 42, § 5º, DA LEI 9.430/96 COMPROVAÇÃO DA NATUREZA, DESTINO E TITULARIDADE DOS VALORES POR DOCUMENTAÇÃO IDÔNEA Comprovado pelo titular da conta bancária a natureza das operações e a títularidade dos valores creditados, ainda que existente indícios de práticas evasivas pelos destinatários dos recursos, compete a autoridade fiscal proceder o lançamento contra estes últimos, inclusive por força da disposição expressa constante do § 5º do art. 42 da Lei 9.430/96, e não contra a empresa titular das contas, criada exclusivamente para gerenciar os recursos financeiros dos citados destinatários. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, afastar as preliminares, inclusive a decadência e, no mérito, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa e Edgar Bragança Bazhuni. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 93 2. 00 04 54 /2 01 0- 01 Fl. 533DF CARF MF Processo nº 10932.000454/201001 Acórdão n.º 1302002.366 S1C3T2 Fl. 535 2 (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Souza Presidente. (assinado digitalmente) Gustavo Guimarães da Fonseca Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Ester Marques Lins de Sousa (Presidente Substituta), Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado), Rogério Aparecido Gil, Edgar Braganca Bazhuni (Suplente Convocado), Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo e Gustavo Guimarães da Fonseca. Relatório Tratase de auto de infração reflexo, lavrado pela DRF de São Bernardo do Campo, em que, por força de diligência determinada pela DRJ de São Paulo, nos autos do PA de nº 10932.000682/200859, e como consequência direta dos fatos ali apurados, constatou a existência de depósitos bancários realizados em contascorrentes de titularidade do Recorrente sem lastro. Em razão disso, e com espeque nos preceitos do art. 42 da Lei 9.430/96, presumiuse a omissão de receitas e se exigiu o recolhimento do Imposto de Renda da Pessoa Juridica IRPJ e, reflexamente, das contribuições sociais pertinentes CSLL, PIS e COFINS. O crédito tributário constituído alçou o montante de R$ 19.241.761,37. Intimado para se defender, o contribuinte apresentou sua impugnação administrativa, através da qual sustentou, em apertada síntese: a) em preliminar, a nulidade da autuação em razão de não se ter sido promovida a "anexação" destes autos ao PA de nº 10932.000682/200859, em especial porque, no citado PA teriam sido juntados diversos documentos e provas que demonstrariam as premissas fáticas de sua defesa (em especial os extratos bancários e livros contábeis); como tais documentos não lhe foram devolvidos, alega cerceamtento de defesa porque não teria tido tempo hábil para verificar se neste procedimento não estariam sendo exigidos documentos em duplicidade; b) ainda, a nulidade do auto de infração por cerceamento de defesa uma vez que os recibos por ele trazidos (recibos emitidos pela empresa PEM Engenharia Ltda., destinatária dos recursos depositados) teriam sido desconsiderados pelo Fisco sem uma justificativa ou a produção de prova que pudesse demonstrar a inidoneidade destes documentos; c) a nulidade do auto de infração por erro quanto ao critério de cálculo utilizado pela fiscalização, aduzindo que os tributos deveriam ser calculados na forma do art. 530 do RIR (arbitramento); Fl. 534DF CARF MF Processo nº 10932.000454/201001 Acórdão n.º 1302002.366 S1C3T2 Fl. 536 3 d) No mérito, aduz, primeiramente, a decadência do direito do fisco de constituir os créditos objetos deste PA, já que os preditos fatos geradores teriam ocorrido em 2005, invocandose, neste particular, os preceitos do art. 150, § 4º, do CTN; e) alega, ainda, que firmou com as empresas PEM ENGENHARIA LTDA. (sua controladora) e com a empresa SETAL (controlada pela PEM) contratos de administração de conta corrente e de gestão e que as movimentações ali realizadas "referirseiam apenas a transferências de valores previamente depositados naquelas contas pela empresa PEM ENGENHARIA LTDA. não representando qualquer acréscimo ao seu patrimônio e que estaria unicamente incumbida de administrar, a título gratuito, os recursos depositados, bem como as transferências ao próprio depositante ou a quem este indicasse"; f) afirma, mais, ser controlada pela PEM Engenharia, justificando, por isso a "nãoonerosidade'' do contrato de administração de contacorrente; g) por fim, aduz que, ainda que houvesse tributo a ser pago, a luz dos preceitos do 42, § 5º da Lei 9.430/96, o efetivos titulares dos valores ali depositados seriam a PEM e a SETAL, hipótese em que caberia à fiscalização exigir delas o respectivo crédito tributário. Instada a se pronunciar sobre a impugnação, a DRJ/SP afastou as preliminares arguidas e negou provimento à impugnação, basicamente, ao argumento de inexistirem documentos hábeis a demonstrar a origem dos recursos que transitaram em conta de titularidade do recorrente (em particular, afastou até mesmo a existência material dos contratos de administração e gestão, mormente por eles não contemplarem obrigações mutuas entre os contratantes). O recorrente foi cientificado do acórdão da DRJ em 12/09/2011 (AR de fl. 493), tendo interposto seu recurso voluntário em 11/10/2011 (fls. 426), reiterando, basicamente, o argumentos de sua impugnação. Este o relatório. Voto Conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca Relator O recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos intrínsecos e extrínsecos, pelo que, dele conheço. I. Preliminares. I.1 Nulidade por falta de anexação deste PA ao processo de nº 10932.000682/200859 A luz dos preceitos do art. 59 do Decreto 70.235/72, são nulos os atos, decisões e despachos que: Fl. 535DF CARF MF Processo nº 10932.000454/201001 Acórdão n.º 1302002.366 S1C3T2 Fl. 537 4 I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. A questão, portanto, cinge a saber se, porventura, a falta anexação dos dois processos teria, de fato, trazido eventual prejuízo à defesa, mormente pela limitação ao seu exercício amplo, lato e irrestrito. Discorrendo sobre o princípio da ampla defesa, Ives Gandra da Silva Martins assim pontificava: A clareza do texto constitucional e a utilização de expressões esclarecedoras como: ‘litigantes’, acrescido de ‘acusados em geral’ e ‘contraditório’, acrescido de ‘ampla defesa’, sobre não distinguir o cabimento de tais meios nos ‘processos administrativos e judiciais’, dá a cristalina, meridiana, exuberante demonstração de que não qualquer ‘defesa protocolar’, mas a defesa ‘ampla’, ‘lata’, ‘larga’, ‘sem obstáculos’ é assegurada pelo constituinte (MARTINS, Ives Gandra da Silva. Processo Administrativo Tributário. 1.ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999, pp. 56). No caso, digase, todas as provas produzidas pelo contribuinte, neste feito e também no PA de nº 10932.000682/200859 foram, de fato, consideradas pela Fiscalização e, também, pela DRJ; o contribuinte sustenta a comprovação do origem dos depósitos realizados e causa das transferências identificadas no TVF, a partir de recibos emitidos pelos destinatários dos valores constantes de sua contacorrente e, também, dos mencionados contratos de administração de contas correntes, firmado pelo recorrente e as empresas tratadas no TVF. Mesmo que desconsiderados pela Fiscalização e pelo acórdão recorrido (por considerálos inidôneos a vista de suas características substanciais), o fato é que em momento algum houve qualquer tipo de obstaculização à defesa ou à produção de provas necessárias ao balizamento de seus argumentos. Pelo contrário, tanto a Fiscalização como a DRJ (até pela conversão, inicial, do julgamento do PA de nº 10932.000682/200859 em diligência) intimaram o contribuinte, vezes sem fim, para apresentar fatos/documentos que pudessem afastar as presunções, decorrentes de lei, digase, assumidas pela auditoria e pelo órgão julgador de primeira instância administrativa. Quanto ao problema dos livros fiscais e demais documentos acostados ao PA de nº 10932.000682/200859, vale destacar o contribuinte sempre acesso ao predito processo e tinha, portanto, meios para os analisar e verificar, de fato, se tais documentos seriam suficientes para demonstrar a suas premissas fáticas nesta demanda (lembrando que, a despeito da falta de anexação, estes processos estão sendo julgados conjuntamente). Em linhas gerais, foi, a meu sentir, disponibilizada oportunidade "ampla, lata, larga e sem obstáculos" para demonstração dos fatos que atenderiam às premissas jurídicas aventadas pelo recorrente; Lembrando que não existe nulidade sem prejuízo, não merece acolhida esta preliminar, pelo que voto por afastála. Fl. 536DF CARF MF Processo nº 10932.000454/201001 Acórdão n.º 1302002.366 S1C3T2 Fl. 538 5 II.2 Da suposta violação à verdade material por desconsideração alegadamente imotivada dos documentos (recibos e contratos de gestão de contas correntes) Além desta questão tangenciar o mérito da querela, vale destacar que tanto a fiscalização como a DRJ (está, inclusive, na parte da análise do mérito feita pelo acórdão recorrido) justificaram e demonstraram os motivos pelos quais consideraram os preditos documentos como insuficientes para comprovar a origem dos depósitos identificados neste feito. Certas ou erradas as motivações apresentadas, houve, de fato, análise dos preditos documentos e foram apresentadas as razões pelas quais estes não se prestariam a comprovar as premissas fáticas da defesa. Afasto, pois, também, esta preliminar. I.3 Do alegado erro de critério para cálculo do imposto. Contribuinte sustenta, ainda, haver nulidade no auto de infração ao argumento de que, uma vez desconsideradas as informações lançadas em sua escrita contábil, não caberia à fiscalização lançar mão da regra inserta no art.528 do RIR, mas, isto sim, aquela contida no art. 530 do mesmo diploma normativo. Ou seja, de acordo com o recorrente, a Fiscalização deveria ter arbitrado o lucro da empresa e não efetuar o cálculo da exigência mediante aplicação da alíquotas pertinentes sobre os valores tidos e havidos como "deposito sem origem comprovada". Todavia, o problema aqui não versa sobre falta de identificação de receitas tidas como aceitas; os extratos e livros fiscais comprovaram os valores depositados em favor do recorrente. Neste particular, a existência de depósitos sem origem comprovada tem regra específica na legislação de regência. Não haveria, portanto, que se falar, neste processo, em arbitramento do lucro porque o objeto deste feito se sujeita a regra específica de cálculo e exigência, in casu, os artigos 24 da Lei 9.249/95e 42 da Lei 9.430/96. Mais que isso, vale destacar, não houve, propriamente desconsideração das informações contábeis apresentadas pelo contribuinte; tratase de valoração de prova,: Neste passo, se os documentos trazidos pelo recorrente eram ou não suficientes para demonstrar a origem dos depósitos realizados é questão de mérito e o acolhimento das alegações do contribuinte encerraria a reforma da decisão recorrida e não a sua anulação, até porque não estão tipificadas, aqui, as já citadas hipóteses do art. 59 do Decreto 70.235. Não se verifica, portanto, erro no critério fático/jurídico eleito pela Fiscalização para se definir o montante do imposto e contribuições devidas pelo que também afasto a preliminar aventada. II. Mérito Fl. 537DF CARF MF Processo nº 10932.000454/201001 Acórdão n.º 1302002.366 S1C3T2 Fl. 539 6 II.1 Decadência. Como alertado no acórdão recorrido, e atestado pela fiscalização, os valores objetos de depósitos ou transferência não foram declarados em DCTF, nem tampouco foram informados na DIPJ/2006. Em linhas gerais, o objeto da autuação não foi objeto de declaração, nem tampouco de pagamento e, nesta esteira, sujeitase a regra de contagem de prazo decadencial encartada no art. 173, I, do CTN, sendo de se aplicar, à espécie, o entendimento encartado no REsp de nº 973.733/SC, julgado sob o regime dos arts. 543b e 543C do antigo CPC, cuja ementa transcrevo a seguir,até atender ao comando inserto no art. 62, § 2º, do RICARF citado acima: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O prazo decadencial quinquenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005). 2. É que a decadência ou caducidade, no âmbito do Direito Tributário, importa no perecimento do direito potestativo de o Fisco constituir o crédito tributário pelo lançamento, e, consoante doutrina abalizada, encontrase regulada por cinco regras jurídicas gerais e abstratas, entre as quais figura a regra da decadência do direito de lançar nos casos de tributos sujeitos ao lançamento de ofício, ou nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado (Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs.. 163/210). 3. O dies a quo do prazo quinquenal da aludida regra decadencial regese pelo disposto no artigo 173, I, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte à Fl. 538DF CARF MF Processo nº 10932.000454/201001 Acórdão n.º 1302002.366 S1C3T2 Fl. 540 7 ocorrência do fato imponível, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelandose inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4º, e 173, do Codex Tributário, ante a configuração de desarrazoado prazo decadencial decenal (Alberto Xavier, "Do Lançamento no Direito Tributário Brasileiro", 3ª ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2005, págs.. 91/104; Luciano Amaro, "Direito Tributário Brasileiro", 10ª ed., Ed. Saraiva, 2004, págs.. 396/400; e Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs.. 183/199). 5. In casu, consoante assente na origem: (i) cuidase de tributo sujeito a lançamento por homologação; (ii) a obrigação ex lege de pagamento antecipado das contribuições previdenciárias não restou adimplida pelo contribuinte, no que concerne aos fatos imponíveis ocorridos no período de janeiro de 1991 a dezembro de 1994; e (iii) a constituição dos créditos tributários respectivos deuse em 26.03.2001. 6. Destarte, revelamse caducos os créditos tributários executados, tendo em vista o decurso do prazo decadencial quinquenal para que o Fisco efetuasse o lançamento de ofício substitutivo. 7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008 (REsp 973733/SC; Relator Ministro Luiz Fux, Primeira Seção, julgado em 12/08/2009 e publicado em no DJe de 18/09/2009, RDTAPET vol. 24 p. 184). Tendo em vista a determinação constante do RICARF (e, por certo, as consequências de sua inobservância), e o posicionamento do C. STJ, verificável na ementa do julgado reproduzida acima (concretizado sob o regime de recursos repetitivos), a despeito do meu entendimento pessoal sobre a matéria (que diverge, em parte, da interpretação sustentada, venia concessa, pela Corte Superior), não há alternativa senão afastar a alegação de decadência e manter, intocada, neste ponto, a decisão de primeira instância. II.2 Omissão de receitas depósitos bancários/informações contábeis sobre movimentações financeiras cuja origem não teria sido comprovada. Coerência ao que decidi em relação ao PA de nº 10932.000682/200859, não há aqui como se chegar outro conclusão que não aquela a que cheguei quando da análise realizada naquele feito: os depósitos realizado tem, sim, origem comprovada. De fato, nunca houve dúvida, aqui, de que os valores tratados neste processo e também no PA de nº 10932.000682/200859, são, efetivamente, oriundos das Empresas Pem Engenharia e Setal (ou, atualmente, SETEC). A própria decisão recorrida assim entendeu quando, instou, inclusive, a autoridade fiscal à intimar as tais empresas para comprovar a origem dos aludidos recursos: Assinalese que a transferência sem causa de recursos entre empresas do mesmo grupo econômico, caracteriza confusão patrimonial, e interesse comum, nos termos do art. 124,1, do Fl. 539DF CARF MF Processo nº 10932.000454/201001 Acórdão n.º 1302002.366 S1C3T2 Fl. 541 8 CTN, constatação que permite que se inclua no pólo passivo dos lançamentos não apenas a titular da conta corrente (PROJETEC), mas também as empresas depositantes dos recursos, não comprovadamente oferecidos à tributação: PEM ENGENHARIA S.A., CNPJ n° 62.458.088/000147, SETAL Eng. Construções e Perfurações S.A., CNPJ n° 61.413.423/000128, e Consórcio SETALTOYO, VCNPJ 05.081.812/000122. Ressaltese, por oportuno, que a movimentação financeira em conta corrente de terceiros caracteriza, como regra, um procedimento fraudulento, adotado para impedir ou retardar o conhecimento das autoridades fiscais acerca da ocorrência dos fatos geradores. Ademais, o presente lançamento de IRRF também poderá ser afetado pelas intimações antes referidas. Se acaso não comprovada a tributação e a causa dos recursos transferidos para a conta corrente da PROJETEC, não apenas a PEM Engenharia S.A., CNPJ n° 62.458.088/000147, mas também as empresas SETAL Eng. Construções e Perfurações S.A., CNPJ n° 61.413.423/000128, e Consórcio SETALTOYO, CNPJ n° 05.081.812/000122, podem vir a ser incluídos no pólo passivo do presente lançamento para responderem pelos pagamentos sem causa. Isto porque, na ausência de causa para a transferência dos recursos para a conta corrente da PROJETEC, os pagamentos dali originados podem ter beneficiado não apenas o titular da conta corrente, mas também os depositantes acima identificados. Vale lembrar, neste passo, que, diferentemente das premissas adotadas para a análise do PA acima, que o objeto deste processo (depósitos bancários não identificados), detem um regramento totalmente distinto, como bem pontuado, inclusive, pelo próprio recorrente. De fato, aplicase, aqui, a regra inserta no art. 42 e §§ da Lei 9.430/96, cujo teor transcrevo a seguir: Art.42.Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. § 1º O valor das receitas ou dos rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. § 2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: Fl. 540DF CARF MF Processo nº 10932.000454/201001 Acórdão n.º 1302002.366 S1C3T2 Fl. 542 9 I os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 1.000,00 (mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano calendário, não ultrapasse o valor de R$ 12.000,00 (doze mil reais). § 4º Tratandose de pessoa física, os rendimentos omitidos serão tributados no mês em que considerados recebidos, com base na tabela progressiva vigente à época em que tenha sido efetuado o crédito pela instituição financeira. § 5o Quando provado que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem a terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento. Notem aqui, que diferentemente da regra afeita a hipótese de "pagamento sem causa", tratada no PA de nº 10932.000682/200859, a existência de contabilização dos valores depositados é, sim, prova da origem destes recurso; mais que isso, trazidos os recibos (mesmo que desconsiderados pela DRJ e pelo fiscal) e, mais, os contratos de gestão de contas correntes, não me parece razoável sustentar a presunção do art. 42, supra (de cujos quais tomo conhecimento, ainda que juntados ao PA retro, seja pela conexão, seja por força do princípio da verdade material não cabe no processo administrativo, ao menos não com a rigidez que se aplica ao processo judicial, o princípio da verdade formal). Como bem anotado pelo próprio recorrente, a escrita contábil faz prova a favor do contribuinte, a luz do art 927 do RIR; se os contratos de administração de contas correntes, isoladamente, não se prestariam para provar a natureza das operações praticadas pela recorrente, (até pelas inconsistências apontadas pela DRJ), a sua análise conjunta com escrituração contábil do contribuinte (e também os recibos) revela, realmente, que Projetec se limitara, durante todo esse tempo, a gerir custos e valores de titularidade da PEM e da Setal. Estes fatos, digase, afastariam, até mesmo, a aplicação da Súmula/CARF 32, invocada pela DRJ já que, não parece haver dúvidas, os valores que transitaram na conta da recorrente, de fato, pertenciam à PEM ou à Setal, fato que, destacase, atrai até mesmo a regra contida no § 5º do art. 42 da Lei 9.430/96, já transcrito anteriormente mas que, peço venia, reproduzo novamente: § 5o Quando provado que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem a terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento. Destacase que a empresa ora recorrente não tinha receitas; não tinha ativos (que não as contascorrentes); não apresentava qualquer tipo de atividade; concordo, neste particular, que contribuinte foi, aparentemente, criado exclusivamente para suportar as transações financeiras das empresas do Grupo Econômico de que faz parte. Fl. 541DF CARF MF Processo nº 10932.000454/201001 Acórdão n.º 1302002.366 S1C3T2 Fl. 543 10 Como frisei no julgamento do PA de nº 10932.000682/200859, não discordo que o uso de conta de terceiros para movimentar valores que, em razão desta estrutura, transitam entre as empresas do mesmo grupo econômico, por certo, traz estranheza; de fato, semelhante conduta pode eventualmente facilitar ou viabilizar a ocultação de valores por parte das empresas que se utilizam deste expediente; tal procedimento poderia permitir a transferência de recursos de uma empresa para outra a fim de viabilizar fraudes, não só, à legislação tributária mas, também, à outros órgãos e normas (como, v.g., a lei de licitações). Mas, se esta era a suspeita da fiscalização, porque não se verteu esforços para efetivamente investigar as empresas que, potencialmente, estariam malferindo as normas tributárias? Porque se insistiu em tentar tipificar a regra inserta no art. 42 da Lei 9.430 quando, por tudo o que foi demonstrado, estava substancialmente claro a origem e titularidade dos recursos, o seu destino e natureza das operações (simples manuseio de recursos em conta corrente de empresa, de fato, criada, exclusivamente, para gerir a aludida contacorrente)? Como já dito, a DRJ se atentou para este fato e emendou os esforços que lhe cabia emendar para tentar ao converter o julgamento em diligência, mormente para instar a fiscalização a verificar se: (...) não comprovada a origem e a causa dos recursos depositados nas contas correntes da PROJETEC, as depositantes (PEM Engenharia S.A., CNPJ nº 62.458.088/000147, SETAL Eng. Construções e Perfurações S.A., CNPJ nº 61.413.423/000128, e Consórcio SETALTOYO, CNPJ nº 05.081.812/000122), podem ser responsabilizadas solidariamente pelo crédito tributário, por interesse comum, nos termos do art. 124, I, do CTN (...) O problema, notem, me parece suficientemente claro; é que a manutenção e manuseio de valores em conta do recorrente indiciou, e trouxe preocupação ao fisco, de que os recursos ali transitados teriam, de fato, origem ilícita ou, quando menos, não teriam sido ofertados à tributação pelas empresas operacionais (PEM e Setal). Nesta hipótese, contudo, e assumindose que a própria criação da empresa ora recorrente objetivava ocultar estes valores não tributados nas empresas operacionais, caberia à Fiscalização desconsiderar a própria empresa titular das contas e exigir da PEM e da Setal os tributos devidos (caso, efetivamente, não lograssem demonstrar que tais recursos teriam sido regularmente tributados). A Auditoria Fiscal, todavia, optou aparentemente pelo caminho que lhe parecia mais simples: autuar a empresa alegadamente não operacional por "omissão presumida de receitas", atingindose, ainda que indiretamente, a sua controladora; e, mais, recusouse a lavrar os competentes termos de solidariedade contra as empresas PEM e Setal, deixando, igualmente, de agravar a multa de ofício, porque, se o fizesse, necessariamente teria que considerar fraudulenta a criação da própria Projetec e, assim, jogar por terra todo o trabalho até então realizado. Se ilicitos tributários foram praticados, o foram pela PEM e pela Setal; quanto ao recorrente, que, não minha opinião são, realmente, as titulares dos valores depositados em contascorrentes da recorrente, fazendo incidir, aqui, a regra encartada no já suscitado § 5º do art. 42 da Lei 9.430. Fl. 542DF CARF MF Processo nº 10932.000454/201001 Acórdão n.º 1302002.366 S1C3T2 Fl. 544 11 IV Conclusão Ante todo o exposto, voto por afastar as preliminares e, no mérito, por dar provimento ao recurso de voluntário para cancelar, na íntegra, o crédito tributário. (assinado digitalmente) Gustavo Guimarães da Fonseca Fl. 543DF CARF MF
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Numero do processo: 10166.720039/2010-98
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Oct 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Nov 20 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-006.156
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício.
(assinado digitalmente)
Patrícia da Silva - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Júnior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
Nome do relator: PATRICIA DA SILVA
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005 APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 10; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1713; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT2 Fl. 908 1 907 CSRFT2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 10166.720039/201098 Recurso nº Especial do Procurador Acórdão nº 9202006.156 – 2ª Turma Sessão de 25 de outubro de 2017 Matéria CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005 APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 72 00 39 /2 01 0- 98 Fl. 908DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Júnior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). Relatório A Fazenda Nacional, inconformada com o decidido no Acórdão n°2301 003.374, proferido pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento do CARF em 12/03/2013, interpôs recurso especial à Câmara Superior de Recursos Fiscais. Segue abaixo a ementa do acórdão recorrido: “ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005 EFEITOS DA CONSULTA. MUDANÇA DO REGIME JURÍDICO. A consulta formulada à administração tributária somente surte efeitos enquanto inalterado o regime jurídico a que se referiu. Alterada a legislação tributária, deve o consulente interpretar o novo comando legal e aplicálo adequadamente ao seu caso. REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS. NATUREZA DE NOTITIA CRIMINIS. INCABÍVEL SUA DISCUSSÃO NA PRESENTE VIA. A Representação Fiscal para Fins Penais tem natureza de notitia criminis e não é objeto de discussão no processo administrativo fiscal. Quando e se esta for enviada ao Ministério Público Federal, a recorrente poderá ser chamada a esclarecer o eventual ilícito na oportunidade do inquérito ou da resposta à denúncia. EQUIDADE E RAZOABILIDADE. APLICAÇÃO EM CASO DE AUSÊNCIA DE DISPOSIÇÃO EXPRESSA. Em conformidade com o art. 108 do CTN, a equidade e a razoabilidade (princípio geral de direito) poderão ser aplicadas pelo intérprete no caso de ausência de disposição expressa e desde que, da primeira, não resulte dispensa de pagamento de tributo devido. LANÇAMENTOS REFERENTES FATOS GERADORES ANTERIORES A MP 449. MULTA MAIS BENÉFICA. APLICAÇÃO DA ALÍNEA “C”, DO INCISO II, DO ARTIGO 106 DO CTN. LIMITAÇÃO DA MULTA MORA APLICADA ATÉ 11/2008. A mudança no regime jurídico das multas no procedimento de ofício de lançamento das contribuições previdenciárias por meio da MP 449 enseja a aplicação da alínea “c”, do inciso II, do artigo 106 do CTN. Fl. 909DF CARF MF Processo nº 10166.720039/201098 Acórdão n.º 9202006.156 CSRFT2 Fl. 909 3 No tocante à multa mora até 11/2008, esta deve ser limitada ao percentual previsto no art. 61 da lei 9.430/96, 20%. Recurso Voluntário Provido em Parte” O Recurso Especial da Fazenda é contra a multa, em face da retroatividade benigna, tomando como paradigmas: Acórdão n.º 240100.120 O processo teve início com o Auto de Infração (AI) nº 37.264.3701, lavrado em 08/01/2010, que constituiu crédito tributário relativo a contribuições de terceiros incidentes sobre remunerações pagas aos trabalhadores da recorrente, no período de 01/2005 a 12/2005, tendo resultado na constituição do crédito tributário de R$ 7.034.248,68, fls. 01. A fiscalização considerou que o enquadramento do FPAS da recorrente estava equivocado e modificouo de 566 para 515, o que gerou diferenças de alíquotas de contribuições de terceiros. Intimada do acórdão, do recurso especial da Fazenda, e do seu despacho de admissibilidade a contribuinte apresentou contrarrazões pugnando pela manutenção do acórdão a quo e ainda apresentou Recurso Especial não conhecido por intempestivo. É o relatório. Voto Conselheira Patrícia da Silva Relatora O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, por isso dele conheço. Em litígio aplicação da retroatividade benigna no cálculo de multas de Contribuições Sociais Previdenciárias: A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) Fl. 910DF CARF MF 4 De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35 A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no auto de infração de obrigação acessória AIOA somado com a multa aplicada na NFLD do auto de infração da obrigação principal AIOP não exceda o percentual de 75%. Fl. 911DF CARF MF Processo nº 10166.720039/201098 Acórdão n.º 9202006.156 CSRFT2 Fl. 910 5 Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. Fl. 912DF CARF MF 6 § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, Fl. 913DF CARF MF Processo nº 10166.720039/201098 Acórdão n.º 9202006.156 CSRFT2 Fl. 911 7 do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: ∙ Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou ∙ Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de Fl. 914DF CARF MF 8 obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Fl. 915DF CARF MF Processo nº 10166.720039/201098 Acórdão n.º 9202006.156 CSRFT2 Fl. 912 9 Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35 A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Conclusão Pelo exposto, conheço do recurso especial da Fazenda Nacional e, no mérito, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Fl. 916DF CARF MF 10 Fl. 917DF CARF MF
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Numero do processo: 10950.001906/2007-41
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Oct 17 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Dec 22 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/03/2004
CRÉDITO. CÁLCULO. RATEIO. RECEITA DE EXPORTAÇÃO. COMERCIAL EXPORTADORA. EXCLUSÃO.
As receitas decorrentes de exportação de mercadorias adquiridas com o fim específico de exportação não integram o total das receitas de exportação da empresa comercial exportadora, para efeito de cálculo do índice de rateio utilizado, na apuração do crédito da contribuição passível de aproveitamento.
CRÉDITOS. COMBUSTÍVEIS. GLOSA.
Mantém-se a glosa dos créditos aproveitados indevidamente sobre os gastos com combustíveis que não foram utilizados na produção industrial dos produtos fabricados e vendidos.
CRÉDITO PRESUMIDO DA AGROINDÚSTRIA. CEREALISTA. APROVEITAMENTO. VEDAÇÃO.
A pessoa jurídica que exerce cumulativamente as atividades de limpeza, padronização, armazenagem e comercialização de produtos agrícolas, soja e milho, não faz jus ao crédito presumido da agroindústria a título de Cofins.
CRÉDITO PRESUMIDO DA AGROINDÚSTRIA. RESSARCIMENTO/ COMPENSAÇÃO. VEDAÇÃO.
Os saldos credores trimestrais de créditos presumidos da agroindústria, a título de Cofins, não são passiveis de ressarcimento/compensação.
SALDO CREDOR TRIMESTRAL. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. VEDAÇÃO.
É expressamente vedado por lei a atualização monetária do ressarcimento do saldo credor trimestral dos créditos da Cofins não cumulativa, pela taxa Selic.
Recurso Especial do Contribuinte Negado.
Numero da decisão: 9303-005.838
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama (relatora), Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. Votou pelas conclusões o conselheiro Demes Brito.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Valcir Gassen e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2004 a 31/03/2004 CRÉDITO. CÁLCULO. RATEIO. RECEITA DE EXPORTAÇÃO. COMERCIAL EXPORTADORA. EXCLUSÃO. As receitas decorrentes de exportação de mercadorias adquiridas com o fim específico de exportação não integram o total das receitas de exportação da empresa comercial exportadora, para efeito de cálculo do índice de rateio utilizado, na apuração do crédito da contribuição passível de aproveitamento. CRÉDITOS. COMBUSTÍVEIS. GLOSA. Mantém-se a glosa dos créditos aproveitados indevidamente sobre os gastos com combustíveis que não foram utilizados na produção industrial dos produtos fabricados e vendidos. CRÉDITO PRESUMIDO DA AGROINDÚSTRIA. CEREALISTA. APROVEITAMENTO. VEDAÇÃO. A pessoa jurídica que exerce cumulativamente as atividades de limpeza, padronização, armazenagem e comercialização de produtos agrícolas, soja e milho, não faz jus ao crédito presumido da agroindústria a título de Cofins. CRÉDITO PRESUMIDO DA AGROINDÚSTRIA. RESSARCIMENTO/ COMPENSAÇÃO. VEDAÇÃO. Os saldos credores trimestrais de créditos presumidos da agroindústria, a título de Cofins, não são passiveis de ressarcimento/compensação. SALDO CREDOR TRIMESTRAL. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. VEDAÇÃO. É expressamente vedado por lei a atualização monetária do ressarcimento do saldo credor trimestral dos créditos da Cofins não cumulativa, pela taxa Selic. Recurso Especial do Contribuinte Negado.
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decisao_txt : Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama (relatora), Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. Votou pelas conclusões o conselheiro Demes Brito. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Valcir Gassen e Vanessa Marini Cecconello.
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DIREITO A CRÉDITOS. Recorrente FERTIMOURAO AGRICOLA EIRELI EM RECUPERACAO JUDICIAL Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2004 a 31/03/2004 CRÉDITO. CÁLCULO. RATEIO. RECEITA DE EXPORTAÇÃO. COMERCIAL EXPORTADORA. EXCLUSÃO. As receitas decorrentes de exportação de mercadorias adquiridas com o fim específico de exportação não integram o total das receitas de exportação da empresa comercial exportadora, para efeito de cálculo do índice de rateio utilizado, na apuração do crédito da contribuição passível de aproveitamento. CRÉDITOS. COMBUSTÍVEIS. GLOSA. Mantémse a glosa dos créditos aproveitados indevidamente sobre os gastos com combustíveis que não foram utilizados na produção industrial dos produtos fabricados e vendidos. CRÉDITO PRESUMIDO DA AGROINDÚSTRIA. CEREALISTA. APROVEITAMENTO. VEDAÇÃO. A pessoa jurídica que exerce cumulativamente as atividades de limpeza, padronização, armazenagem e comercialização de produtos agrícolas, soja e milho, não faz jus ao crédito presumido da agroindústria a título de Cofins. CRÉDITO PRESUMIDO DA AGROINDÚSTRIA. RESSARCIMENTO/ COMPENSAÇÃO. VEDAÇÃO. Os saldos credores trimestrais de créditos presumidos da agroindústria, a título de Cofins, não são passiveis de ressarcimento/compensação. SALDO CREDOR TRIMESTRAL. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. VEDAÇÃO. É expressamente vedado por lei a atualização monetária do ressarcimento do saldo credor trimestral dos créditos da Cofins não cumulativa, pela taxa Selic. Recurso Especial do Contribuinte Negado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 95 0. 00 19 06 /2 00 7- 41 Fl. 617DF CARF MF Processo nº 10950.001906/200741 Acórdão n.º 9303005.838 CSRFT3 Fl. 3 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama (relatora), Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. Votou pelas conclusões o conselheiro Demes Brito. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Valcir Gassen e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo contra o Acórdão nº 3801004.628, da 1ª Turma Especial da 3ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, que negou provimento ao recurso, consignando a seguinte ementa: ASSUNTO: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2004 a 31/03/2004 REGIME DA NÃOCUMULATIVIDADE. MÉTODO DE RATEIO PROPORCIONAL. COMPLEMENTOS DE PREÇO REFERENTES A VARIAÇÕES CAMBIAIS ATIVAS.. No cálculo do rateio proporcional para atribuição de créditos no regime da nãocumulatividade das contribuições sociais, os montantes referentes a complementos de preço devem ser considerados no cálculo do rateio como receitas de exportação. VENDAS MERCADO INTERNO E EXTERNO. CUSTOS, DESPESAS E ENCARGOS COMUNS. RATEIO PROPORCIONAL. A determinação do crédito pelo rateio proporcional, entre receitas de exportação e receitas do mercado interno, aplicase somente aos custos, despesas e encargos que sejam vinculados às receitas de mercado interno e exportação. CRÉDITOS DA NÃOCUMULATIVIDADE. COMBUSTÍVEIS. COMPROVAÇÃO. Os combustíveis utilizados ou consumidos diretamente no processo fabril geram o direito de descontar créditos da contribuição apurada de forma nãocumulativa, todavia o reconhecimento dos créditos está Fl. 618DF CARF MF Processo nº 10950.001906/200741 Acórdão n.º 9303005.838 CSRFT3 Fl. 4 3 condicionado a efetiva comprovação de que as aquisições de combustíveis são utilizadas efetivamente no processo produtivo. CRÉDITO PRESUMIDO. ATIVIDADE AGROINDUSTRIAL. CEREALISTA. REQUISITO. PRODUÇÃO DE MERCADORIAS DE ORIGEM ANIMAL OU VEGETAL. O direito ao crédito presumido está condicionado a comprovação de que a pessoa jurídica produza mercadorias de origem animal ou vegetal. REGIME DA NÃOCUMULATIVIDADE. COMPLEMENTO DE PREÇO REFERENTES A VARIAÇÕES CAMBIAIS ATIVAS. NATUREZA JURÍDICA DE RECEITAS DE EXPORTAÇÃO. O STF pacificou o entendimento de que consideramse receitas decorrentes de exportação as receitas das variações cambiais ativas. Assim, devese ser excluída da base de cálculo da contribuição as saídas identificadas caracterizadas como complementos de preço, uma vez que as variações monetárias ativas são consideradas receitas de exportação. RESSARCIMENTO DE CONTRIBUIÇÃO NÃOCUMULATIVA. CORREÇÃO MONETÁRIA PELA TAXA SELIC. VEDAÇÃO EXPRESSA. É incabível, por expressa vedação legal, a incidência de atualização monetária pela taxa Selic sobre o ressarcimento de créditos de contribuição nãocumulativa. Recurso Voluntário Provido em Parte Irresignado, o sujeito passivo opôs Embargos de Declaração, alegando que a decisão prolatada incorreu em contradição entre a decisão e seus fundamentos. Todavia, os embargos foram rejeitados. O sujeito passivo interpôs, então, Recurso Especial suscitando divergência em relação às seguintes matérias: · Rateio dos créditos apurados; · Glosa das aquisições de combustíveis; · Aproveitamento do crédito presumido da atividade agroindustrial; · Possibilidade de ressarcimento do crédito presumido; · Vendas efetuadas com suspensão; e · Atualização monetária. Mediante Despacho do Presidente da Primeira Câmara da Terceira Seção do CARF foi dado seguimento parcial ao recurso. Foram admitidas as matérias “rateio dos créditos apurados”, “glosa das aquisições de combustíveis”, “aproveitamento do crédito presumido da atividade agroindustrial”, “possibilidade de ressarcimento do crédito”, e “atualização monetária (SELIC)”. Apenas a matéria “vendas efetuadas com suspensão – eficácia do art. 9º da Lei 10.925/04” teve o seguimento negado. Fl. 619DF CARF MF Processo nº 10950.001906/200741 Acórdão n.º 9303005.838 CSRFT3 Fl. 5 4 Contrarrazões ao recurso especial interposto pelo sujeito passivo foram apresentadas pela Fazenda Nacional. É o relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303 005.815, de 17/10/2017, proferido no julgamento do processo 10950.001882/200720, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão, quanto à admissibilidade do recurso e quanto ao mérito (Acórdão 9303005.815): Da Admissibilidade "Depreendendose da análise do Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo, entendo que devo conhecêlo, na parte admitida em Despacho, eis que atendidos os critérios de conhecimento trazidos pelo art. 67 do RICARF/2015 – com alterações posteriores. O que concordo com o despacho de exame de admissibilidade. Ora, em relação à discussão acerca: · Do rateio dos créditos apurados, foi comprovada a divergência, vez que a decisão recorrida entendeu pela exclusão das receitas de exportação decorrentes das aquisições de mercadorias com fim específico de exportação do cálculo do rateio proporcional e o acórdão indicado como paradigma de nº 3202001.618 concluiu pela não exclusão dos valores de receita que se originaram de operações com o fim específico de exportação; · Das aquisições de combustíveis, foi comprovada a divergência, eis que enquanto o aresto recorrido adotou um conceito restritivo de insumo e o indicado como paradigma de nº 203.12.896 reconheceu o direito de aproveitar créditos decorrentes de aquisições de combustíveis e lubrificantes utilizados no processo produtivo e nas operações de vendas e entrega direta da produção; · Do crédito presumido da atividade agroindustrial, foi comprovada a divergência, vez que o aresto recorrido entendeu pela vedação legal ao aproveitamento do crédito presumido por enquadrar o sujeito passivo como cerealista que exerce cumulativamente as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal e o acórdão indicado como paradigma de nº 3202001.618 Fl. 620DF CARF MF Processo nº 10950.001906/200741 Acórdão n.º 9303005.838 CSRFT3 Fl. 6 5 divergiu da interpretação relativa ao processo produtivo de grão e o conceito de agroindústria, sem a restrição ao direito creditório; · Da possibilidade de ressarcimento do crédito presumido, também foi comprovada a divergência, eis que o aresto recorrido não conheceu das alegações em relação à forma de utilização do crédito presumido, divergindo, assim, da interpretação adotada no acórdão paradigma de nº 3803002.336 que, por sua vez não aplicou a restrição prevista na IN SRF 660/06 quanto ao direito a compensação e/ou ressarcimento do Crédito Presumido de PIS e COFINS; · Da atualização monetária, foi comprovada a divergência, vez que o aresto recorrido entendeu não ser cabível a aplicação de correção monetária, com base na taxa Selic, nos casos de pedidos de ressarcimento de contribuição nãocumulativa, por expressa vedação legal, enquanto que o acórdão paradigma de nº 3802001.418 entendeu pela possibilidade de atualização do crédito pela taxa Selic. Em vista do exposto, entendo que devo conhecer o recurso especial em relação às matérias admitidas em Despacho de Exame de Admissibilidade – ou seja, sobre as seguintes matérias: · Rateio dos créditos apurados; · Glosa das aquisições de combustíveis; · Aproveitamento do crédito presumido da atividade agroindustrial; · Possibilidade de ressarcimento do crédito presumido; · Atualização monetária. Contrarrazões devem ser consideradas, eis que tempestivas." Do Mérito "Antes de se adentrar a cada matéria, importante trazer breve histórico do caso vertente: · O sujeito passivo desenvolve atividades agroindustriais e produz as mercadorias de NCM dos capítulos 8 a 12 referidas no art. 8º da Lei 10.925/074, realizando operações no mercado interno e exportações diretas e indiretas; · Observa a sistemática não cumulativa das contribuições, nos termos da Lei 10.833/03 e da Lei 10.637/02, sendo que para a sua atividade, adquire de fornecedores pessoas físicas residentes no país e jurídicas situadas no mercado interno, bens e serviços – insumos – para a produção de mercadorias; · Tendo acumulado créditos por aquisições – custos, despesas e demais encargos, protocolou pedido de ressarcimento do saldo de crédito. Ventiladas tais considerações, passo a discorrer a priori sobre o critério de rateio dos créditos apurados e em seguida sobre as demais matérias conhecidas." Fl. 621DF CARF MF Processo nº 10950.001906/200741 Acórdão n.º 9303005.838 CSRFT3 Fl. 7 6 (...)1 "Com todo respeito ao voto da ilustre relatora, mas discordo de suas conclusões. A discussão gira em torno das seguintes matérias: i) rateio das receitas de exportação; ii) glosa de créditos sobre combustíveis; iii) aproveitamento do crédito presumido da agroindústria; iv) ressarcimento/compensação do crédito presumido da agroindústria; e, v) atualização monetária do ressarcimento do saldo credor. i) rateio das receitas de exportação O contribuinte questionou o critério utilizado pela autoridade administrativa para o rateio das receitas, utilizado para apuração dos créditos da Cofins, passiveis de desconto e/ ou ressarcimento. Conforme demonstrado nos autos e não impugnado pelo contribuinte, as receitas de exportação decorrem de vendas de mercadorias próprias e de mercadorias adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação. A Lei nº 10.833, de 29/12/2003, assim dispõe sobre os créditos da Cofins não cumulativa, vinculados às exportações: "Art. 6º A COFINS não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de: I exportação de mercadorias para o exterior; (...). III vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. § 1º Na hipótese deste artigo, a pessoa jurídica vendedora poderá utilizar o crédito apurado na forma do art. 3º, para fins de: I dedução do valor da contribuição a recolher, decorrente das demais operações no mercado interno; II compensação com débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, observada a legislação específica aplicável à matéria. § 2º A pessoa jurídica que, até o final de cada trimestre do ano civil, não conseguir utilizar o crédito por qualquer das formas previstas no § 1º poderá solicitar o seu ressarcimento em dinheiro, observada a legislação específica aplicável à matéria. § 3º O disposto nos §§ 1º e 2º aplicase somente aos créditos apurados em relação a custos, despesas e encargos vinculados à receita de exportação, observado o disposto nos §§ 8º e 9º do art. 3o. § 4º O direito de utilizar o crédito de acordo com o § 1º não beneficia a empresa comercial exportadora que tenha adquirido mercadorias com o fim previsto no inciso III do caput, ficando vedada, nesta hipótese, a apuração de créditos vinculados à receita de exportação."(destaque não original). Ora, nos termos deste dispositivo, é vedado o aproveitamento (desconto) de créditos vinculados às receitas de exportação de mercadorias adquiridas com o fim 1 Deixouse de transcrever, do voto do paradigma, a parte na qual a relatora enfrentou as questões admitidas no recurso, pois todos os entendimentos foram vencidos na votação, não se aplicando, portanto, na solução do presente litígio (íntegra do voto no acórdão do processo paradigma). Fl. 622DF CARF MF Processo nº 10950.001906/200741 Acórdão n.º 9303005.838 CSRFT3 Fl. 8 7 específico de exportação, por da parte da exportadora (comercial/trading). Assim, se tais receitas não geram créditos para a exportadora, obviamente, que não podem integrar as receitas de exportação, para efeito de cálculo do índice de rateio utilizado para a apuração dos créditos da contribuição a que o contribuinte faz jus. No mês de outubro de 2006, as receitas de exportação do contribuinte decorreram integralmente da exportação de mercadorias adquiridas de terceiros com o fim específico de exportação. Portanto, neste mês, o índice apurado foi de zero, caso contrário, estaria permitindo o aproveitamento com base num índice de 100,0%, em total desacordo com o § 4º do art. 6º da Lei nº 10.833, de 2003, citado e transcrito anteriormente. ii) glosa de créditos sobre combustíveis. A Lei nº 10.833, de 2003, prevê o aproveitamento de créditos sobre custos com combustíveis, desde que utilizados na produção ou fabricação dos bens vendidos, conforme estabelece o art. 3º, inciso II, literalmente: "Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...). II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei nº 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; " (...)." No presente caso, conforme demonstrado nos autos e não impugnado pelo contribuinte as glosas foram efetuadas sobre os gastos com combustíveis que não foram utilizados/consumidos no processo de produção ou fabricação dos produtos vendidos e sim em outros setores da empresa. Comprova esta afirmativa excertos transcritos do relatório produzido pela fiscalização, abaixo transcrito: Fl. 623DF CARF MF Processo nº 10950.001906/200741 Acórdão n.º 9303005.838 CSRFT3 Fl. 9 8 iii) aproveitamento do crédito presumido da agroindústria O contribuinte pleiteia créditos presumidos da Cofins sobre as aquisições de produtos agrícolas (soja e milho) adquiridos de produtores rurais pessoas físicas, beneficiados e vendidos por ele. No entanto, somente faz jus a esse crédito as pessoas jurídicas produtoras de mercadorias de origem animal e vegetal, conforme estabelece a Lei nº 10.925, de 23 de junho de 2004, que assim dispõe: "Art. 8º As pessoas jurídicas, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias de origem animal ou vegetal, classificadas nos capítulos 2, 3, exceto os produtos vivos desse capítulo, e 4, 8 a 12, 15, 16 e 23, e nos códigos 03.02, 03.03, 03.04, 03.05, 0504.00, 0701.90.00, 0702.00.00, 0706.10.00, 07.08, 0709.90, 07.10, 07.12 a 07.14, exceto os códigos 0713.33.19, 0713.33.29 e 0713.33.99, 1701.11.00, 1701.99.00, 1702.90.00, 18.01, 18.03, 1804.00.00, 1805.00.00, 20.09, 2101.11.10 e 2209.00.00, todos da NCM, destinadas à alimentação humana ou animal, poderão deduzir da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, devidas em cada período de apuração, crédito presumido, calculado sobre o valor dos bens referidos no inciso II do caput do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. § 1º O disposto no caput deste artigo aplicase também às aquisições efetuadas de: I cerealista que exerça cumulativamente as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal, classificados nos códigos 09.01, 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, 12.01 e 18.01, todos da NCM; (...); III pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária. § 2º O direito ao crédito presumido de que tratam o caput e o § 1º deste artigo só se aplica aos bens adquiridos ou recebidos, no mesmo período de apuração, de pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no País, observado o disposto no § 4º do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003. (...). § 4º É vedado às pessoas jurídicas de que tratam os incisos I a III do § 1º deste artigo o aproveitamento: I do crédito presumido de que trata o caput deste artigo; (destaques não originais) (...)." No presente caso, do exame da Trigésima Quarta Alteração do Contrato Social às fls. 129/138, constatase que o contribuinte exerce, dentre outras, as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal, bem como a atividade agrícola, o que o enquadra no § 4º, inciso I, do art. 8º, da Lei nº 10.925/2004, que veda o aproveitamento de crédito presumido da agroindústria para tais atividades. Além disto, segundo o disposto no art. 8º, citado e transcrito anteriormente, a pessoa jurídica para ter direito ao crédito presumido da agroindústria deve produzir Fl. 624DF CARF MF Processo nº 10950.001906/200741 Acórdão n.º 9303005.838 CSRFT3 Fl. 10 9 mercadorias classificadas nos capítulos e códigos da Nomenclatura Comum do Mercosul elencados no caput do artigo; as mercadorias devem ser destinadas à alimentação humana ou animal; e as pessoas jurídicas produtoras devem adquirir os insumos (conforme alusão ao inciso II do art. 3o da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e ao inciso II do art. 3o da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003) de pessoas físicas, de cerealista ou de pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária, o que não é o caso em discussão. iv) ressarcimento/compensação do crédito presumido da agroindústria. Embora o julgamento desta matéria tenha ficado prejudicado, em virtude do não reconhecimento do direito de o contribuinte aproveitar os créditos presumidos da agroindústria, ora reclamados, demonstrase, a seguir, a falta de amparo para o ressarcimento/compensação de tais créditos. O crédito presumido da agroindústria referente ao PIS e à Cofins foi inicialmente instituído pela Lei nº 10.833, de 29/12/2003, art. 3º, § 11, foi extinto pela Lei nº 10.925, de 23/07/2004, art. 16, convertida da MP nº 183, de 30/4/2004. Contudo, esta mesma lei o reinstituiu, nos termos do art. 8º, já citado e transcrito anteriormente, e art. 15, que assim dispõe: "Art. 15. As pessoas jurídicas, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias de origem vegetal, classificadas no código 22.04, da NCM, poderão deduzir da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, devidas em cada período de apuração, crédito presumido, calculado sobre o valor dos bens referidos no inciso II do caput do art. 3o das Leis nos 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. (destaque não original) [...]." Ora, segundo o disposto nos art. 8º e 15, citados e transcritos anteriormente, o crédito presumido da agroindústria somente pode ser utilizado para a dedução da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, devidas em cada período de apuração, inexistindo previsão legal para o ressarcimento/compensação. Com efeito, não é despiciendo reiterar que a compensação e o ressarcimento admitidos pelo art. 6º da Lei n° 10.833, de 2003, contemplam unicamente aos créditos apurados na forma do art. 3º daquela lei, assim dispondo: "Art. 6º A COFINS não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de: [...]; § 1º Na hipótese deste artigo, a pessoa jurídica vendedora poderá utilizar o crédito apurado na forma do art 3º, para fins de: (destaque não original) [...]." Neste diapasão, a IN SRF nº 600, de 28 de dezembro de 2005, dispõe em seu art. 21: “Art. 21. Os créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins apurados na forma do art. 3º da Lei nº 10.637. de 30 de dezembro de 2002. e do art. 3º da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003, que não puderem ser utilizados na dedução de débitos das respectivas contribuições, poderão sêlo na compensação de Fl. 625DF CARF MF Processo nº 10950.001906/200741 Acórdão n.º 9303005.838 CSRFT3 Fl. 11 10 débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições de que trata esta Instrução Normativa, se decorrentes de: (destaque não original) [...].” Segundo, estes dispositivos legais, apenas os créditos apurados na forma do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003, podem ser objeto de pedido de restituição/compensação, ou seja, os créditos sobre insumos adquiridos com incidência da contribuição cujo ônus do pagamento efetivo é do adquirente. Os créditos presumidos da agroindústria não são apurados na forma daquele artigo, mas sim nos termos do art. 8º, § 3º da Lei nº 10.925, de 23/07/2004. Já suas utilizações estão previstas no próprio art. 8º e no art. 15, desta mesma lei, citados e transcritos anteriormente, ou seja, podem ser utilizados apenas e tão somente para dedução da contribuição devida em cada período de apuração. v) atualização monetária do ressarcimento do saldo credor. A atualização monetária do ressarcimento de saldo credor da Cofins não cumulativa, calculados à taxa Selic, é expressamente vedado pela própria Lei nº 10.833, de 2003, que instituiu o regime nãocumulativo, assim dispondo: “Art. 13. O aproveitamento de crédito na forma do § 4º do art. 3º, do art. 4º e dos §§ 1º e 2º do art. 6º, bem como do § 2º e inciso II do § 4º e § 5º do art. 12, não ensejará atualização monetária ou incidência de juros sobre os respectivos valores.” Contra disposição expressa da lei não é cabível aplicar analogias com decisões judiciais não aplicáveis ao caso concreto, como pretende a relatora. Diante do exposto, voto por negar provimento ao recurso especial do contribuinte." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial do contribuinte foi conhecido e, no mérito, o colegiado negoulhe provimento. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 626DF CARF MF
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Numero do processo: 10930.002524/2004-20
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Nov 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/07/2003 a 30/09/2003
PIS. REGIME NÃO-CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMOS. CRÉDITO. POSSIBILIDADE
A legislação das Contribuições Sociais não cumulativas - PIS/COFINS - informa de maneira exaustiva todas as possibilidades de aproveitamento de créditos. Não há previsão legal para creditamento sobre a aquisição de uniformes/vestimentas, cuja aplicação não seja em decorrência de exigências legais, além da necessária comprovação de sua utilização diretamente no processo produtivo. Da mesma forma os combustíveis e lubrificantes só dão direito ao crédito se utilizados diretamente no processo produtivo. Acata-se os créditos da aquisição de equipamentos de proteção individual em razão de seu necessário consumo, com o tempo, durante o uso no processo produtivo.
PIS NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO.
No presente caso, as glosas referentes a cesta básica, vale transporte, assistência médica/odontológica, materiais de manutenção/conservação, materiais químicos e de laboratórios, materiais de limpeza, materiais de expediente, outros materiais de consumo, serviço temporário, serviços de segurança e vigilância, serviços de conservação e limpeza, serviços de manutenção e reparos, outros serviços de terceiros, exportação e gastos gerais, não são essenciais ao processo produtivo da Contribuinte.
Recurso Especial do Contribuinte Provido em Parte.
Numero da decisão: 9303-005.912
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento parcial, para reformular o acórdão somente em relação ao equipamento de proteção individual, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito, Valcir Gassen (suplente convocado em substituição à conselheira Érika Costa Camargos Autran) e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento parcial em maior extensão e Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), que lhe negou provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), Valcir Gassen (suplente convocado) e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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CONCEITO DE INSUMO. Recorrente COMPANHIA CACIQUE DE CAFE SOLUVEL Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/07/2003 a 30/09/2003 PIS. REGIME NÃOCUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMOS. CRÉDITO. POSSIBILIDADE A legislação das Contribuições Sociais não cumulativas PIS/COFINS informa de maneira exaustiva todas as possibilidades de aproveitamento de créditos. Não há previsão legal para creditamento sobre a aquisição de uniformes/vestimentas, cuja aplicação não seja em decorrência de exigências legais, além da necessária comprovação de sua utilização diretamente no processo produtivo. Da mesma forma os combustíveis e lubrificantes só dão direito ao crédito se utilizados diretamente no processo produtivo. Acatase os créditos da aquisição de equipamentos de proteção individual em razão de seu necessário consumo, com o tempo, durante o uso no processo produtivo. PIS NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO. No presente caso, as glosas referentes a cesta básica, vale transporte, assistência médica/odontológica, materiais de manutenção/conservação, materiais químicos e de laboratórios, materiais de limpeza, materiais de expediente, outros materiais de consumo, serviço temporário, serviços de segurança e vigilância, serviços de conservação e limpeza, serviços de manutenção e reparos, outros serviços de terceiros, exportação e gastos gerais, não são essenciais ao processo produtivo da Contribuinte. Recurso Especial do Contribuinte Provido em Parte. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento parcial, para reformular o acórdão somente em relação ao equipamento de proteção individual, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito, Valcir Gassen (suplente convocado em substituição à conselheira Érika Costa Camargos Autran) e Vanessa Marini Cecconello, que AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 93 0. 00 25 24 /2 00 4- 20 Fl. 681DF CARF MF Processo nº 10930.002524/200420 Acórdão n.º 9303005.912 CSRFT3 Fl. 3 2 lhe deram provimento parcial em maior extensão e Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), que lhe negou provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), Valcir Gassen (suplente convocado) e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial de divergência interposto pela Contribuinte com fundamento nos artigos 64, inciso II, 67 e seguintes do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256/09, contra o acórdão nº 3302000.855, que negou provimento ao Recurso Voluntário. O acórdão recorrido restou assim ementado: ASSUNTO: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/07/2003 a 30/09/2003 CRÉDITO. INSUMOS EMPREGADOS NA PRODUÇÃO. Somente geram crédito de PIS os dispêndios realizados com bens e serviços utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, observado as ressalvas legais. CRÉDITO. MÃODEOBRA. TRABALHADOR AVULSO. SINDICATO. CONTRATAÇÃO. Não geram crédito de PIS os dispêndios realizados com mãodeobra avulsa, mesmo tendo sido o trabalho contratado com a intermediação de sindicato da categoria profissional, com o pagamento realizado ao sindicato para repasse aos trabalhadores. RESSARCIMENTO. CORREÇÃO MONETÁRIA. Por falta de previsão legal, é incabível a incidência de juros pela taxa Selic sobre os valores recebidos a título de ressarcimento de créditos de PIS na exportação. CONSTITUCIONALIDADE. LEIS. Não cabe à autoridade administrativa julgar os atos legais quanto ao aspecto de sua constitucionalidade por transbordar os limites de sua competência. Á ela cabe dar cumprimento ao ordenamento jurídico vigente. Recurso Voluntário Negado Fl. 682DF CARF MF Processo nº 10930.002524/200420 Acórdão n.º 9303005.912 CSRFT3 Fl. 4 3 Ciente do referido acórdão, e tempestivamente, a Contribuinte ingressou com embargos de declaração alegando a existência de contradição e obscuridade no acórdão embargado. O Presidente da Turma a quo rejeitou os embargos por entender que não houve nenhuma contradição ou obscuridade na decisão embargada. Não conformada com tal decisão, a Contribuinte interpõe o presente Recurso Especial, sustentando que a sistemática de conceito de insumos para o PIS e COFINS não cumulativos "deve ser o mesmo aplicado ao imposto de renda, visto que, para se auferir lucro, é necessário antes se obter receita. A materialidade das contribuições ao PIS e COFINS é bastante mais próxima daquela estabelecida ao IRPJ do que daquela prevista para o IPI". O recurso foi admitido parcialmente mediante despacho de admissibilidade do Presidente da Terceira Câmara da Terceira Seção do CARF. Foi dado seguimento para a matéria conceito de insumo para fins de creditamento das contribuições não cumulativas, e negado seguimento quanto à atualização do ressarcimento pela taxa Selic. Houve reexame de admissibilidade do Recurso Especial. Todavia, o Presidente do CARF manteve, na íntegra, o despacho de admissibilidade do Presidente da Terceira Câmara. Devidamente cientificada, a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões. Sustenta que não há como admitir a adoção do conceito de insumo da legislação do IRPJ para o PIS e a COFINS nãocumulativos. Por fim, requer seja negado provimento ao recurso especial, mantendose incólume a decisão recorrida. É o relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303005.909, de 28/11/2017, proferido no julgamento do processo 10930.002522/200431, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão (Acórdão 9303005.909): Voto Vencido (em parte) "O Recurso foi tempestivamente apresentado e atende os demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. A matéria divergente posta a esta E.Câmara Superior, envolve a interpretação do termo "insumo" previsto na legislação do PIS e da COFINS, de que trata o artigo 3º da Lei nº 10.637, de 2002 e art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003. Fl. 683DF CARF MF Processo nº 10930.002524/200420 Acórdão n.º 9303005.912 CSRFT3 Fl. 5 4 Trata o presente processo de Pedido de Ressarcimento de Créditos da Contribuição para o PIS/PASEP Mercado Externo (II. 01). protocolizado cm 30/07/2004, relativo ao 1° trimestre/2003, apurado no regime de incidência nãocumulativa, com fundamento na Lei n° 10.637, de 30 de dezembro de 2002. Posteriormente, a Contribuinte protocolizou as Declarações de Compensação apensadas entre as fls. 88/163, nas quais são utilizados os créditos acima referidos. A DRF cm Londrina/PR. por meio do Despacho Decisório de fls. 495, em conformidade com a Informação Fiscal de fls. 417/428 e com o Parecer SAORT/DRF/LON n° 199/2007 de fls. 489/494, deferiu parcialmente o Pedido de Ressarcimento, reconhecendo o crédito de PIS, referente a dezembro de 2002 e ao 1º trimestre de 2003, o qual foi utilizado para homologar as Declarações de Compensação objeto de análise do referido processo, restando, ainda, o crédito de R$ 45.850,80. De acordo com as informações (fls. 417/428), a Autoridade Fiscal, em observância à legislação de regência, glosou créditos concernentes aos custos/despesas com serviços relacionados à fl. 420 e aos pagamentos feitos a Sindicato de Trabalhadores, considerou, para efeitos de base de cálculo da contribuição, receitas financeiras não computadas pela contribuinte. Conforme registrado na pág. 5 da Informação Fiscal apensada às fls. 417/428. a Contribuinte aproveitou corretamente os créditos de insumos relativos às matérias primas, embalagens, materiais secundários c combustíveis utilizados na indústria. Já, os créditos decorrentes dos gastos com alimentação, cesta básica, vale transporte, assistência médica/odontológica, uniforme e vestuário, equipamento de proteção individual, materiais de manutenção/conservação, materiais químicos e de laboratórios, materiais de limpeza, materiais de expediente, lubrificantes e combustíveis, outros materiais de consumo, serviço temporário, serviços de segurança e vigilância, serviços de conservação e limpeza, serviços de manutenção e reparos, outros serviços de terceiros, exportação e gastos gerais envolvidos no seu processo produtivo, por não serem considerados aplicados ou consumidos diretamente na produção ou fabricação do produto, foram glosados. Às fls. 301/369. foram anexados por amostragem os documentos que ensejaram o aproveitamento indevido de crédito por parte da Contribuinte. Nada obstante, a Delegacia de Julgamento (DRJ) em Curitiba (PR), não acolheu a manifestação de inconformidade e manteve o direito creditório reconhecido nos termos do Despacho Decisório de fl. 495. Vejamos: "DEFERIR PARCIALMENTE o Pedido de Ressarcimento, RECONHECENDO à interessada, como crédito de PIS referente a dezembro de 2002 e ao 1º trimestre de 2003, o valor de R$ 1.009.366,37 (Um milhão, nove mil, trezentos e sessenta e seis reais e trinta e sete centavos), valor este parcialmente utilizado em compensações pela própria pessoa jurídica, restando à interessada, após a compensação, o direito creditório contra a Fazenda Nacional no valor de R$ 45.850,80 (Quarenta e cinco mil, oitocentos e cinqüenta reais e oitenta centavos). HOMOLOGAR as compensações declaradas pela empresa, discriminadas no relatório do Parecer DRF/LON/Saort n° 199/2007. DETERMINAR o encaminhamento deste processo à Saort desta Delegacia para ciência à interessada dos documentos de fls. 412/416, da Informação Fiscal de fls. 417/428, dos demonstrativos de fls. 447/486, do Parecer DRF/LON/Saort n.° 199/2007 e do presente Despacho Decisório, e adoção das demais providências cabíveis". Fl. 684DF CARF MF Processo nº 10930.002524/200420 Acórdão n.º 9303005.912 CSRFT3 Fl. 6 5 Com efeito, a decisão recorrida negou provimento ao Recurso Voluntário, ao entendimento de que somente os dispêndios realizados com bens e serviços utilizados como insumos na prestação de serviços e na produção de bens geram créditos passíveis de ressarcimento, e gastos com mãodeobra avulsa, ainda que contratada por intermédio de sindicato, não geram direito ao ressarcimento de créditos de PIS, por fim, afastou a possibilidade de correção monetária pela Taxa Selic por ausência de previsão legal. Feito este intróito inicial, passo ao julgamento. Em outras oportunidades, consignei meu entendimento intermediário sobre o conceito de insumo no Sistema de Apuração NãoCumulativo das Contribuições, penso que o conceito adotado não pode ser restritivo quanto o determinado pela Fazenda, mas também não tão amplo como aquele freqüentemente defendido pelos Contribuintes. Sem embargo, a jurisprudência Administrativa e dos Tribunais Superiores vem admitindo o aproveitamento de crédito calculado com base nos gastos incorridos pela sociedade empresária e com produtos ou serviços aplicados na produção ou a ela diretamente vinculados, mesmo que, ao contrario de como alguns pretendem limitar por meio de Instruções Normativas. De fato, salvo melhor juízo, não se vê razão para que conceito de insumo seja determinado pelos mesmos critérios utilizados na apuração do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, contudo, respeito posicionamentos contrários. A legislação que introduziu o Sistema NãoCumulativo de apuração das Contribuições define sua base de cálculo como sendo o faturamento mensal, assim entendido o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil, compreendendo a receita bruta da venda de bens e serviços nas operações em conta própria ou alheia e todas as demais receitas auferidas pela pessoa jurídica. Feitas as exclusões expressamente relacionadas nas Leis, tudo o mais deve ser incluído na base imponível. Levandose em consideração a incumulatividade tributária traz em si a idéia de que a incidência não ocorra ao longo das diversas etapas de um determinado processo sem que o contribuinte possa reduzir de seu encargo aquilo do que foi onerado no momento anterior, ainda que considerássemos todas as particularidades e atipicidades do Sistema não cumulativo próprio das Contribuições, terminaríamos por concluir que, a um débito tributário calculado sobre o total das receitas, haveria de fazer frente um crédito calculado sobre o totaldas despesas. Contudo, ainda que a interpretação teleológica conduza nessa direção, o fato é que os critérios de apuração das Contribuições não foram dessa forma definidos em Lei. Tal como consta no texto legal, o direito ao crédito, em definição genérica, admite apenas que se considerem as despesas com bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, jamais referindose à integralidade dos gastos da pessoa jurídica. Prova disso é que os gastos que não se incluem nesse conceito e dão direito ao crédito são listados um a um nos itens seguintes, de forma exaustiva. Outrossim, se admitíssemos a tese de que insumo denota conceito amplo, abrangendo todos os gastos destinados à obtenção do resultado da pessoa jurídica, nos depararíamos com uma flagrante distorção promovida no amplo reconhecimento ao direito de crédito para o setor industrial ou prestador de serviços, em detrimento ao setor comercial, para o qual o direito teria ficado restrito apenas aos gastos com bens adquiridos para revenda. Fl. 685DF CARF MF Processo nº 10930.002524/200420 Acórdão n.º 9303005.912 CSRFT3 Fl. 7 6 Insumos, tal como definido e para os fins a que se propõe o artigo 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003, são apenas as mercadorias, bens e serviços que, assim como no comércio, estejam diretamente vinculados à operação na qual se realiza o negócio da empresa. Na atividade comercial, sendo o negócio a venda dos bens no mesmo estado em que foram comprados, o direito ao crédito restringese ao gasto na aquisição para revenda. Na indústria, uma vez que a transformação é intrínseca à atividade, o conceito abrange tudo aquilo que é diretamente essencial a produção do produto final, conceito igualmente válido para as empresas que atuam na prestação de serviços. Somente a partir desta lógica é que os créditos admitidos na indústria e na prestação de serviços observarão o mesmo nível de restrição determinado para os créditos admitidos no comércio. In caso, verifico que a Contribuinte industrializa, comercializa no mercado interno e exporta diversos produtos (café solúvel, óleo de café, extrato de café, etc), de industrialização própria. Exporta ainda mercadorias adquiridas de terceiros. Tais valores estão devidamente registrados em seus livros contábeis/fiscais (fls. 30 a 86, 180 a 199, 202 a 218, 234 a 239). A Contribuinte fundamentou seu pedido nos termos do § 1º, II e § 2º, do artigo 5º da Lei nº 10.637/2002, que prevêem que o valor do crédito da contribuição ao Pis não cumulativo resultante de suas operações com o mercado externo no período poderá, após a compensação da contribuição devida no mercado interno, ser utilizado na compensação de outros tributos e contribuições federais e, ao final do trimestre, restando saldo, poderá ser ressarcido em dinheiro. Tal direito se encontrava regulamentado à época pela Instrução Normativa SRF 379 de 30.12.2003. Posteriormente a regulamentação foi feita na Instrução Normativa SRF, 460, de 18 de outubro de 2004, e alterações instituídas pela Instrução Normativa SRF nº 600, de 28 de dezembro de 2005. Sem embargo, ressaltase que a maior parte dos créditos se refere à aquisição de matéria prima (café cru) e de embalagens de pessoas jurídicas domiciliadas no país. Nas aquisições de pessoas físicas foi considerado o crédito presumido previsto no § 10, do artigo 3º da Lei 10.637/2002, introduzido pelo artigo 25 da Lei 10.684/2003, que prevê a aplicação da alíquota de 1,155% (70% de 1,65%) sobre as referidas aquisições. As aquisições estão relacionadas, por divisão, juntamente com amostragem dos documentos, às fls. 373 a 399 e 402 a 411. Os créditos aproveitados pela Contribuinte foram acrescidos do ICMS e diminuídos do IPI (divisão de embalagens). Deste modo, penso que o termo "insumo" utilizado pelo legislador para fins de creditamento do Pis e da COFINS, apresenta um campo maior do que o MP, PI e ME, relacionados ao IPI. Considero que tal abrangência não é tão flexível como no caso do IRPJ, a ponto de abarcar todos os custos de produção e despesas necessárias à atividade da empresa. Por outro lado, entendo para que se mantenha o equilíbrio normativo, os insumos devem estar relacionados diretamente com a produção dos bens ou produtos destinados à venda, ainda que este produto não entre em contato direto com os bens produzidos. Neste sentido, o inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.833/03, permite a utilização do crédito de PIS/COFINS não cumulativa nas seguintes hipóteses: “I bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos a) nos incisos III e IV do § 3o do art. 1o desta Lei; e b) nos §§ 1º e 1ºA do art. 2o desta Lei; Fl. 686DF CARF MF Processo nº 10930.002524/200420 Acórdão n.º 9303005.912 CSRFT3 Fl. 8 7 II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2 da Lei nº 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; III energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica; IV aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa; V valor das contraprestações de operações de arrendamento mercantil de pessoa jurídica, exceto de optante pelo Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte SIMPLES VI máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos ou fabricados para locação a terceiros, ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços; VII edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, utilizados nas atividades da empresa; VIII bens recebidos em devolução cuja receita de venda tenha integrado faturamento do mês ou de mês anterior, e tributada conforme o disposto nesta Lei; IX armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, nos casos dos incisos I e II, quando o ônus for suportado pelo vendedor. X vale transporte, vale refeição ou vale alimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica que explore as atividades de prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção". Como visto, o conteúdo do inciso II supra, que é o mesmo do inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.637/02, que trata do PIS, pode ser interpretado de modo ampliativo, desde que o bem ou serviço seja essencial a atividade empresária, portanto, capaz de gerar créditos de PIS/COFINS, o que se coaduna com o presente caso ( PIS). Destarte, o conteúdo contido no inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.833, de 2003, pode ser interpretado de modo ampliativo, desde que o bem ou serviço seja essencial a atividade empresária, portanto, capaz de gerar créditos de PIS e COFINS. Diferentemente do presente caso, as glosas referentes a cesta básica, vale transporte, assistência médica/odontológica, materiais de manutenção/conservação, materiais químicos e de laboratórios, materiais de limpeza, materiais de expediente, outros materiais de consumo, serviço temporário, serviços de segurança e vigilância, serviços de conservação e limpeza, serviços de manutenção e reparos, outros serviços de terceiros, exportação e gastos gerais envolvidos no seu processo produtivo, entendo não serem essenciais ao processo de produção da Contribuinte. Como se observa, a maior parte dos créditos se refere à aquisição de matéria prima (café cru) e de embalagens de pessoas jurídicas domiciliadas no país. Nas aquisições de pessoas físicas já foi considerado o crédito presumido previsto no § 10, do artigo 3º da Lei 10.637/2002, introduzido pelo artigo 25 da Lei 10.684/2003, que prevê a aplicação da alíquota de 1,155% (70% de 1,65%) sobre as referidas aquisições. Por outro lado, a Contribuinte não teve nenhum interesse em apresentar seu processo produtivo, e fundamentar seu direito, pelo contrario, em sua peça Recursal alega apenas que o direito a crédito " conceito de insumo" deve ser o mesmo aplicado ao imposto de renda, visto que, para se auferir lucro. Esta E. Câmara Superior, atual composição, tem como regra debater "insumo" por "insumo", para verificar se de fato os insumos utilizados no processo produtivo são essenciais Fl. 687DF CARF MF Processo nº 10930.002524/200420 Acórdão n.º 9303005.912 CSRFT3 Fl. 9 8 ao processo de produção, salvo entendimento dos Conselheiros Fazendários que não adotam o critério da essencialidade. Neste sentido, em recente julgamento por esta Turma, os acórdãos de nºs 9303 005.678 e 9303005.679, julgado na sessão de 19 de setembro, de Relatoria da Conselheira Tatiana Midori Migiyama, empreendeu toda fundamentação lastreada em laudos, processo de produção e essencialidade dos insumos utilizados no processo de produção. Como dito, a maior parte dos créditos se refere à aquisição de matéria prima (café cru) e de embalagens de pessoas jurídicas domiciliadas no país. Nas aquisições de pessoas físicas já foi considerado o crédito presumido. Nos termos do inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.833/03, que é o mesmo do inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.637/02, que trata do PIS, como pode ser interpretado de modo ampliativo, desde que o bem ou serviço seja essencial a atividade empresária, entendo ser essencial atividade da Contribuinte, uniforme/vestuário, equipamento de proteção individual, lubrificantes e combustíveis. Para que não se alegue, contrariedade, obscuridade e omissão, utilizo subsidiariamente a regra contida no artigo 489, § 1º, IV, do CPC/2015, para que não reste, dúvida quanto aos fundamentos empregados no decisum. in verbis: "O julgador não está obrigado a responder a todas as questões suscitadas pelas partes, quando já tenha encontrado motivo suficiente para proferir a decisão. O julgador possui o dever de enfrentar apenas as questões capazes de infirmar (enfraquecer) a conclusão adotada na decisão recorrida. Assim, mesmo após a vigência do CPC, não cabem embargos de declaração contra a decisão que não se pronunciou sobre determinado argumento que era incapaz de infirmar a conclusão adotada. STJ. 1ª Seção. EDcl no MS 21.315DF, Rel. Min. Diva Malerbi (Desembargadora convocada do TRF da 3ª Região), julgado em 8/6/2016 (Info 585)". Diante de tudo que foi exposto, voto no sentido de dar parcial provimento ao Recurso da Contribuinte, para reverter as glosas referente a uniforme/vestuário, equipamento de proteção individual, lubrificantes e combustíveis." Voto Vencedor (quanto aos uniformes/vestuário, combustíveis e lubrificantes) "Com todo respeito ao voto do ilustre relator, mas discordo em parte de suas conclusões a respeito da possibilidade de apurar créditos da não cumulatividade relativa ao PIS e à Cofins. A discussão gira em torno do conceito de insumos para fins do creditamento do PIS no regime da nãocumulatividade previsto na Lei 10.637/2002. Como visto o relator aplicou o entendimento, bastante comum no âmbito do CARF, de que para dar direito ao crédito basta que o bem ou o serviço adquirido seja essencial para o exercício da atividade produtiva por parte do contribuinte. É uma interpretação bastante tentadora do ponto de vista lógico, porém, na minha opinião não tem respaldo na legislação que trata do assunto. Confesso que já compartilhei em parte deste entendimento, adotando uma posição intermediária quanto ao conceito de insumos. Porém, refleti melhor, e hoje entendo que a legislação do PIS/Cofins traz uma espécie de numerus clausus em relação aos bens e serviços considerados como insumos para fins de creditamento, ou seja, fora daqueles itens Fl. 688DF CARF MF Processo nº 10930.002524/200420 Acórdão n.º 9303005.912 CSRFT3 Fl. 10 9 expressamente admitidos pela lei, não há possibilidade de aceitálos dentro do conceito de insumo. Concordei com o relator em relação à maioria das glosas mantidas por ele. Nossa discordância é específica em relação a uniforme/vestuário e combustíveis/lubrificantes, tendo em vista que concordo com o afastamento da glosa relativa aos equipamentos de proteção individual na medida em que são consumidos, com o tempo, em aplicação necessária durante o processo de produção e não compõem o ativo imobilizado do contribuinte. A Fazenda Nacional insurgese contra esta possibilidade argumentando em apertada síntese pela falta de previsão legal para a concessão dos créditos nesta hipótese. Nesse sentido, importante transcrever o art. 3º da Lei nº 10.637/2002, que trata das possibilidades de creditamento do PIS: Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: I bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) III (VETADO) IV – aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa; V valor das contraprestações de operações de arrendamento mercantil de pessoa jurídica, exceto de optante pelo Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte SIMPLES; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) VI máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos ou fabricados para locação a terceiros ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) VII edificações e benfeitorias em imóveis de terceiros, quando o custo, inclusive de mãodeobra, tenha sido suportado pela locatária; VIII bens recebidos em devolução, cuja receita de venda tenha integrado faturamento do mês ou de mês anterior, e tributada conforme o disposto nesta Lei. IX energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) X valetransporte, valerefeição ou valealimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica que explore as atividades de prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção. (Incluído pela Lei nº 11.898, de 2009) XI bens incorporados ao ativo intangível, adquiridos para utilização na produção de bens destinados a venda ou na prestação de serviços. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Fl. 689DF CARF MF Processo nº 10930.002524/200420 Acórdão n.º 9303005.912 CSRFT3 Fl. 11 10 (...) § 2o Não dará direito a crédito o valor: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) I de mãodeobra paga a pessoa física; e (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) II da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição. (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) § 3o O direito ao crédito aplicase, exclusivamente, em relação: I aos bens e serviços adquiridos de pessoa jurídica domiciliada no País; II aos custos e despesas incorridos, pagos ou creditados a pessoa jurídica domiciliada no País; III aos bens e serviços adquiridos e aos custos e despesas incorridos a partir do mês em que se iniciar a aplicação do disposto nesta Lei. (...) Ora, segundo este dispositivo legal, somente geram créditos da contribuição custos com bens e serviços utilizados como insumo na fabricação dos bens destinados a venda. Note que o dispositivo legal descreve de forma exaustiva todas as possibilidades de creditamento. Fosse para atingir todos os gastos essenciais à obtenção da receita não necessitaria ter sido elaborado desta forma, bastava um único artigo ou inciso. Não necessitaria ter descido a tantos detalhes. O legislador restringiu a possibilidade de creditamento do PIS e da Cofins aos insumos utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Portanto, antes de iniciado ou após o encerramento do processo produtivo não é possível tal creditamento, a não ser nas hipóteses expressamente previstas na legislação, a exemplo do aproveitamento do crédito do frete na operação de venda (situação excepcionada expressamente pela lei). Ressalto que considero que os uniformes/vestimentas utilizadas na fábrica em razão de exigências de ordem sanitárias em decorrência de normas legais, podem ser apropriados como créditos em face de seu consumo, com o tempo, diretamente no processo produtivo. Porém uniformes/vestimentas adotados por mero interesse do fabricante, sem demonstração de que sejam utilizados no chão da fábrica, não se revestem da previsão legal ao direito ao crédito. Quanto aos combustíveis/lubrificantes observase que há previsão expressa no inciso II do art. 3º, acima transcrito, quanto à possibilidade do creditamento quando utilizados diretamente no processo produtivo do produto destinado a venda. Acontece que estes créditos relativos aos combustíveis/lubrificantes já foram considerados e concedidos quando da análise original do pedido de ressarcimento. Veja trecho do voto do acórdão recorrido: (...) Esclareçase que não foi realizado glosa de gastos com materiais de manutenção de máquinas industriais, com serviços de industrialização prestado por pessoa jurídica, com serviços de manutenção de máquinas industriais prestado por pessoa jurídica e com combustíveis e lubrificantes utilizados no processo produtivo. Portanto, não há que se falar em mudança de entendimento da DRF Londrina. (...) Fl. 690DF CARF MF Processo nº 10930.002524/200420 Acórdão n.º 9303005.912 CSRFT3 Fl. 12 11 Portanto os combustíveis/lubrificantes objetos da presente discussão não referemse ao uso direto no processo produtivo, mas aos usados em períodos anteriores ou posteriores à produção do produto destinado à venda. Assim, efetivamente não há base legal para sua concessão. Assim, diante do exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso especial do contribuinte, somente para acatar o direito à apropriação de créditos com equipamentos de proteção individual." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial do contribuinte foi conhecido e, no mérito, o colegiado deulhe provimento parcial, somente para acatar o direito à apropriação de créditos com equipamentos de proteção individual. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 691DF CARF MF
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