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Numero do processo: 10183.721768/2009-10
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Sep 12 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Ano-calendário: 2004
ITR. CONDOMÍNIO. EXTINÇÃO COMPROVADA.
Comprovada a extinção do condomínio tendo em vista que um dos co-proprietários adquiriu do outro o domínio útil e a posse em data anterior ao fato gerador o Recorrente não seria contribuinte do ITR em 2004
Numero da decisão: 2202-004.679
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso.
(Assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson- Presidente.
(Assinado digitalmente)
Junia Roberta Gouveia Sampaio - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson (Presidente).
Nome do relator: JUNIA ROBERTA GOUVEIA SAMPAIO
1.0 = *:*
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CONDOMÍNIO. EXTINÇÃO COMPROVADA. Comprovada a extinção do condomínio tendo em vista que um dos co proprietários adquiriu do outro o domínio útil e a posse em data anterior ao fato gerador o Recorrente não seria contribuinte do ITR em 2004 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Presidente. (Assinado digitalmente) Junia Roberta Gouveia Sampaio Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 18 3. 72 17 68 /2 00 9- 10 Fl. 149DF CARF MF 2 Relatório Por bem descrever os fatos, adoto o relatório do então Conselheiro Relator Marcio Henrique Sales Parada quando da proposta de conversão do julgamento em diligência formalizada na Resolução nº 2202000.709, de 16 de agosto de 2016: Contra os contribuintes José William Gonçalves e outro (João Gonçalves, CPF: 036.593.30825) foi lavrada Notificação de Lançamento relativa ao Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR, para o exercício de 2004, sobre o imóvel denominado Fazenda Majuvi I, localizado no Município de São José do Rio Claro/MT, com cadastro na RFB nº 6.749.5621. Está em exigência o valor de R$ 853.017,11, acrescido de multa proporcional de 75% e juros de mora, com base na taxa Selic. Na descrição dos fatos, narra a Autoridade Fiscal competente que: 1 A DITR/2004 que foi revisada de ofício fora entregue em nome de ARMANDO SANTOS DE ALMEIDA que, intimado pela fiscalização, alegou que o domínio útil e a posse do imóvel haviam sido passados, em 1992, a JOÃO GONÇALVES e JOSÉ WILLIAN GONÇALVES. Apresentou declaração firmada pelos dois (fl. 20). Esclareceu ainda ARMANDO que a propriedade do imóvel fora transferida às filhas de JOÃO GONÇALVES por escritura pública lavrada em 03/05/2006 (fl. 22); 2 Argumentou o Auditor Fiscal que a propriedade só se transfere com o registro do título translativo no Cartório competente. Entretanto, considerando que JOÃO GONÇALVES e JOSÉ WILLIAN GONÇALVES firmaram declaração afirmando ter a posse e o domínio útil desde 1992, ambos são contribuintes do ITR. 3.Intimados os contribuintes assim identificados a comprovar o Valor da Terra Nua (VTN) declarado, e não apresentando qualquer documento, o valor foi arbitrado com base no sistema SIPT (sistema de preços de terras da Receita Federal), cuja tela informativa encontrase acostada aos autos (fl. 07) e contém as informações por aptidão agrícola para tipos diferentes de terra, com base em dados oriundos da Prefeitura Municipal de São José do Rio Claro/MT. Os enquadramentos legais, cálculos e valores estão indicados na Notificação. Apenas o contribuinte JOSÉ WILLIAM GONÇALVES manifestouse, em impugnação, alegando em suma que desde 1993 havia transferido a posse e o domínio de sua parte do imóvel a seu irmão, JOÃO GONÇALVES (declaração na fl. 45). Ao analisar a manifestação de inconformidade, a DRJ em Campo Grande/MS entendeu, em resumo, pela existência de um "condomínio" entre os dois irmãos, e que o lançamento estava correto, podendo ser exigido o imposto de qualquer um deles, pelo princípio da solidariedade. Disse que a intimação de um Fl. 150DF CARF MF Processo nº 10183.721768/200910 Acórdão n.º 2202004.679 S2C2T2 Fl. 143 3 dos condôminos alcança os demais. Disse ainda que o arbitramento do VTN fora matéria não impugnada. Decidiuse manter o lançamento efetuado. Intimado dessa decisão em 24/02/2012 (AR na folha 69), o contribuinte JOSÉ WILLIAM GONÇALVES apresentou recurso voluntário em 16/03/2012, com protocolo na folha 71. Em sede de recurso, questiona mais uma vez a legitimidade passiva. Diz que nos autos constam duas declarações, uma de interesse de ARMANDO, onde JOSÉ WILLIAM e JOÃO GONÇALVES dizem que adquiriram a posse e o domínio útil do imóvel em 1992 e que foi aceita pela Autoridade Fiscal; outra de interesse dele, JOSÉ WILLIAM, onde seu irmão, JOÃO GONÇALVES disse que adquiriu sua parte em 1993, passando a ser o único senhor do imóvel. Questiona por que a primeira foi considerada e a segunda não, para fins de definir o sujeito passivo da obrigação tributária. Destaca ainda que o fato de as filhas de JOÃO GONÇALVES terem sido outorgadas como proprietárias por escritura pública, em 2006, comprova que aquele era o real detentor do domínio desde 1993. PEDE que seja provido seu recurso para que seja excluído da relação tributária. Posteriormente, com base no estatuto do idoso, pediu prioridade na tramitação de seu recurso. Diante dos fatos acima descritos, essa turma entendeu por bem converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Conselheiro Relator para que: a) a Unidade preparadora verifique se houve a antecipação do tributo devido, conforme declarado, para o exercício de 2004, a fim de se estabelecer a contagem do prazo decadencial, nos termos aqui especificados; b) Seja intimado o sujeito passivo João Gonçalves, CPF: 036.593.30825 sobre a declaração de folha 46 (enviar cópia) para, querendo, manifestarse sobre os termos da mesma. c) A Unidade preparadora se manifeste em relação ao resultado da diligência, elaborando relatório conclusivo. d) Seja intimado o contribuinte José William Gonçalves, CPF: 036.593.48872, dos termos desta Resolução e do resultado da diligência para, querendo, manifestarse no prazo legal. O contribuinte João Gonçalves foi intimado (AR fls. 123) para se manifestar sobre a declaração de que era o único proprietário do imóvel desde 1993. Em resposta, apresentou a manifestção de fls. 127/128, com o seguinte teor: A DECLARAÇÃO datada de 25/05/2009 por mim assinada e juntada no processo administrativo supra epigrafado é verdadeira em todo o seu teor Fl. 151DF CARF MF 4 Em maio de 2009 fui procurado pelo Sr. Armando Santos de Almeida, ocasição em que me solicitou que eu assinasse, juntamente com meu irmão José William Gonçalves, uma declaração de que havíamos adquirido dele (Armando), no ano de 1992, a propriedade rural chamada Fazenda Majuvi I, formada pelos imóveis objetos das matrículas nºs 16.963, 26.254, 26.255,26.257, 26.256 do 1º OFÍCIO DA COMARCA DE DIAMANTINO/MT, uma vez que estava sendo fiscalizado pela Receita Federal relativamente ao ITR dessa propriedade. Na ocasião eu disse ao Sr. Armando que assinaria sozinho a dita declaração, pois, na verdade, esse imóvel rural pertencia apenas à minha pessoa em sua integralidade, posto qeu havia adquirido do meu irmão, no ano de 1993, a parte que lhe pertencia do referido imóvel. O Sr. Armando não aceitou e nos disse que havia vendido essa propriedade rural para mim e para meu irmão e queria a declaração assinada por nós dois. Em conversa então com meu irmão, José Wiliam Gonçalves este me disse qeu assinaria a declaração exigida pelo Sr. Armando, desde que eu lhe desse também uma declaração relatando a verdade dos fatos, ou seja, que eu havia comprado dele (José Wiliam), no ano de 1993, a parte que lhe cabia na referida propriedade rural. Para ajeitar a situação e deixar claro a verdade dos fatos, firmei a declaração fornecida ao Sr. Armando, em conjunto com meu irmão, José Wiliam, e posteriormente firmei para o meu irmão. Dita declaração espelha a verdade dos fatos ocorridos, tanto que, se não me engano, foi no ano de 2006, que o Sr. Armando outorgou a escritura definitiva da Fazenda Majovi I diretamente para minhas filhas sob minha orientação. (grifos no original) O Recorrente e a unidade preparadora não apresentaram manifestação. ´ É o relatório. Voto Conselheira Júnia Roberta Gouveia Sampaio Relatora O recurso preenche os pressupostos legais de admissibilidade devendo, portanto, ser conhecido. Fl. 152DF CARF MF Processo nº 10183.721768/200910 Acórdão n.º 2202004.679 S2C2T2 Fl. 144 5 Entendo que assiste razão ao Recorrente quando questiona porque uma declaração em favor de Armando Santos de Almeida fora aceita para "caracterizar o condomínio" e outra, em favor de José William, com o mesmo teor, não foi aceita para excluí lo do pólo passivo, mantendo apenas seu irmão João Gonçalves. Conforme exposto no voto do então Conselheiro Relator Marcio Henrique Sales Parada: No direito tributário toda dívida será solidária desde que alcance interesse comum; presumese a solidariedade, caso a lei silencie. Interesse comum, entretanto, é quando há mais de uma pessoa ocupando o mesmo pólo de uma relação jurídica. É o que ocorre na copropriedade quando houver mais de um proprietário, haverá interesse comum. Não constituem "interesse comum", de outro lado, as posições antagônicas em um contrato, por exemplo, entre vendedor e comprador ou alienante e adquirente. Aqui, a declaração de folha 45, que entendo possuir as mesmas características daquela de folha 20, não pode ser desconsiderada, afirma que João Gonçalves adquiriu de José Gonçalves a integralidade do domínio útil e posse dos imóveis rurais que descreve, que são o objeto desta lide, desde 1993. Ora, se o primeiro adquiriu do segundo o domínio útil e a posse em 1993, pelos mesmos motivos declinados pela Autoridade Fiscal na Notificação de Lançamento, não seria contribuinte do ITR em 2006. Observo que, de fato, ao ser escriturada a transferência da propriedade, somente em 2006, foi feito diretamente de Armando Santos de Almeida às filhas de João Gonçalves, em nada, aparentemente, beneficiandose José William Gonçalves (fl. 17). Ressalto que o lançamento foi efetuado sobre José William Gonçalves e outro, e que o artigo 124 do CTN, ao tratar de solidariedade, diz que nesse caso não existe benefício de ordem e que o Fisco pode exigir a obrigação in totum de qualquer um dos coobrigados. Destaco, de outro lado, que a existência dessa declaração entre os irmãos não era de conhecimento da Autoridade Fiscal ao efetuar a Notificação de Lançamento, sendo a mesma apresentada somente por ocasião da Impugnação. Enfim, não se pode afirmar que existe um "vício" no lançamento, mas que informações trazidas pelo sujeito passivo, após a formalização do mesmo, indicam pelo redirecionamento da exigência para pessoa diversa. Tal sujeito passivo, entretanto, não foi cientificado do Termo de Intimação Fiscal, muito menos da Notificação de Lançamento. Cientificado da Resolução que converteu o julgamento em diligência o contribuinte João Gonçalves ratificou a declaração no sentido de que era o único proprietário Fl. 153DF CARF MF 6 do imóvel desde 1993. Sendo assim, não há que se falar na solidariedade de fato (art. 124, I do CTN) apontada pela decisão recorrida. Em face de todo o exposto, dou provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Junia Roberta Gouveia Sampaio. Fl. 154DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.693176/2009-33
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 16 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2002
LUCRO PRESUMIDO. PERCENTUAL. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE CONSTRUÇÃO COM EMPREGO DE MATERIAIS.
Demonstrada a legitimidade das retificações implementadas na DIPJ e DCTF para reduzir o percentual utilizado no cálculo do lucro presumido de 32% para 8%, uma vez que há nos autos elementos de prova, que permitiram verificar que efetivamente havia o emprego de materiais na atividade de construção civil.
Numero da decisão: 1401-002.856
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos dar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Lívia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente).
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2002 LUCRO PRESUMIDO. PERCENTUAL. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE CONSTRUÇÃO COM EMPREGO DE MATERIAIS. Demonstrada a legitimidade das retificações implementadas na DIPJ e DCTF para reduzir o percentual utilizado no cálculo do lucro presumido de 32% para 8%, uma vez que há nos autos elementos de prova, que permitiram verificar que efetivamente havia o emprego de materiais na atividade de construção civil.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 5; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1619; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S1C4T1 Fl. 2 1 11 SS11CC44TT11 MMIINNIISSTTÉÉRRIIOO DDAA FFAAZZEENNDDAA CCOONNSSEELLHHOO AADDMMIINNIISSTTRRAATTIIVVOO DDEE RREECCUURRSSOOSS FFIISSCCAAIISS PPRRIIMMEEIIRRAA SSEEÇÇÃÃOO DDEE JJUULLGGAAMMEENNTTOO PPrroocceessssoo nnºº 10880.693176/200933 RReeccuurrssoo nnºº 1 Voluntário AAccóórrddããoo nnºº 1401002.856 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária SSeessssããoo ddee 16 de agosto de 2018 MMaattéérriiaa IRPJ RReeccoorrrreennttee CASTEGGIO CONSTRUTORA LTDA RReeccoorrrriiddaa FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2002 LUCRO PRESUMIDO. PERCENTUAL. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE CONSTRUÇÃO COM EMPREGO DE MATERIAIS. Demonstrada a legitimidade das retificações implementadas na DIPJ e DCTF para reduzir o percentual utilizado no cálculo do lucro presumido de 32% para 8%, uma vez que há nos autos elementos de prova, que permitiram verificar que efetivamente havia o emprego de materiais na atividade de construção civil. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos dar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Lívia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente). AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 69 31 76 /2 00 9- 33 Fl. 114DF CARF MF Processo nº 10880.693176/200933 Acórdão n.º 1401002.856 S1C4T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra o Acórdão da DRJ/SP1 que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a manifestação de inconformidade, por considerar não comprovado o valor confessado na DCTF não é o correto, mediante prova material da existência do direito pleiteado. Conforme despacho decisório mantido DERAT/DIORT/EQPIR/SPO não reconheceu o direito creditório pleiteado no valor de R$ 2.440,47 e, conseqüentemente, não homologou nesses autos o PER/DCOMP n° 41221.48873.310706.1.3.043260,, uma vez que o pagamento discriminado como indébito, de Imposto de Renda sobre Lucro Presumido, no valor de R$ 3.597,89, código 2089, recolhido em 29/11/2002, encontravase integralmente utilizado para quitação de débito correspondente. Mesmo após a Manifestação de Inconformidade, restou mantido integralmente o Despacho Decisório. Inconformada, interpôs Recurso Voluntário reiterando os argumentos da manifestação de inconformidade com o objetivo de ver convalidadas as compensações realizadas. É o relatório do essencial. Fl. 115DF CARF MF Processo nº 10880.693176/200933 Acórdão n.º 1401002.856 S1C4T1 Fl. 4 3 Tabela do plano Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1401002.851, de 16/08/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10880.693171/2009 19, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1401002.851): "O recurso é tempestivo e apresenta os demais requisitos de admissibilidade, por isso, dele conheço. Temos que o acórdão recorrido indeferiu o pleito da recorrente considerando que ela não apresentou esclarecimento ou justificativa para a retificação da DIPJ, porém analisando as declarações entregues, constatouse a retificação da DIPJ e DCTF para reduzir o percentual utilizado no cálculo do lucro presumido de 32% para 8%. De acordo com as declarações originais, a receita bruta da contribuinte auferida no período em questão seria oriunda unicamente de prestação de serviços, sem o emprego de materiais. A retificação implementada, assim, demonstra que a contribuinte passou a entender que aquelas mesmas atividades teriam incluído o emprego de materiais, visto que o percentual de 8% que passou a utilizar é aplicável para a prestação de serviços de construção com emprego de materiais. Na decisão de piso foi considerado que tão somente a discriminação do objeto social constante do Contrato Social da empresa construtora ("ramo da construção civil, reformas, execução de projetos e atividades afins") não é suficiente para identificar a(s) atividade(s) que originara auferidas no período alcançado pelas declarações retificadoras, posto que era necessária apresentação de documentos que pudessem demonstrar a natureza das atividades a que se referiram os rendimentos declarados e que poderia esclarecer qual(is) o(s) correto(s) percentual(is) aplicável(is), se de 8%, tal como pretendido, se de 32%, ou mesmo de percentuais diversificados, conforme § 2° do artigo 15 da Lei n° 9.249/95. Em sede de Voluntário, a Recorrente aduz ser sua faculdade a compensar crédito que possuía junto ao Fisco decorrente de pagamento a maior com débitos a recolher que autorizavam nos moldes previstos no art. 170 do CTN e que a necessidade de reforma do Despacho Decisório está justamente no fato de que não homologação da compensação se deu por conta da análise pela Secretaria da Receita Federal do Brasil das informações constantes da DIPJ e DCTF ORIGINAIS e não Fl. 116DF CARF MF Processo nº 10880.693176/200933 Acórdão n.º 1401002.856 S1C4T1 Fl. 5 4 das informações constantes nas declarações RETIFICADORAS, tendo o breve entendimento de que o sistema do referido órgão não havia processado as informações retificadas. Esclarece a Recorrente que preocupouse em relatar que as informações relativas ao cálculo do IRPJ em questão foram retificadas, sem detalhar com precisão o cálculo utilizado por entender que não era o objeto questionado no Despacho Decisório, que digase de passagem foi processado de modo eletrônico. A DRJ, reconheceu que a justificativa da alteração do cálculo foi a verificação de que foi utilizado percentual INCORRETO de presunção de lucro, visto que, como a Recorrente emprega materiais em TODAS as obras que realiza, o percentual correto de presunção de lucro é de 8% em conformidade com o Ato Declaratório Normativo Cosit n.° 6 de 13 de janeiro de 1997 e não de 32% como efetuado anteriormente por contabilista que prestava serviços Recorrente na época, contudo indeferiu o crédito pleiteado, dada a ausência de comprovação por parte da Recorrente de que fazia jus ao percentual de presunção de lucro de 8%. Notase que a Recorrente só foi possível saber o real motivo do indeferimento da compensação do crédito pleiteado, após ciência do resultado do julgamento da DRJ, tendo apresentado Recurso Voluntário precisamente para demonstrar a legitimidade das retificações implementadas na DIPJ e DCTF para reduzir o percentual utilizado no cálculo do lucro presumido de 32% para 8%, trazendo para os autos os seguintes elementos de prova, que permitiram verifica que efetivamente havia o emprego de materiais na atividade de construção civil. Com base na análise dos documentos juntados, resta demonstrado que a Recorrente, atendeu ao critérios para que pudesse ter sua base de cálculo para o imposto de renda determinada pela aplicação do percentual de 8% sobre sua receita bruta, especificamente em relação ao ramo da construção civil, atendeu ao Ato Declaratório Normativo Cosit n° 6, de 13 de janeiro de 1997 e seus critérios: "I Na atividade de construção por empreitada, o percentual a ser aplicado sobre a receita bruta para determinação da base de cálculo do imposto de renda mensal será: a) 8% (oito por cento) quando houver emprego de materiais, em qualquer quantidade; b) 32% (trinta e dois por cento) quando houver emprego unicamente de mãodeobra, ou seja, sem o emprego de materiais." A retificação implementada, assim, demonstra que a contribuinte passou a entender que aquelas mesmas atividades teriam incluído o emprego de materiais, visto que o percentual de 8% que passou a utilizar é aplicável para a prestação de serviços de construção com emprego de materiais, razão pela qual lhe era possível refazer o cálculo do IRPJ levando em Fl. 117DF CARF MF Processo nº 10880.693176/200933 Acórdão n.º 1401002.856 S1C4T1 Fl. 6 5 consideração a base de cálculo de presunção de 8%, bem como de compensar o valor do tributo recolhido a maior, adotando os procedimentos legais de retificação das obrigações acessórias e apresentação de PER/DCOMP. Por estas razões, dou provimento ao Recurso Voluntário. É como voto." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto acima transcrito. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Fl. 118DF CARF MF
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Numero do processo: 10480.721667/2015-32
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 02 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3201-001.389
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento do Recurso em diligência.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente.
(assinado digitalmente)
Tatiana Josefovicz Belisário - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior.
Nome do relator: TATIANA JOSEFOVICZ BELISARIO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento do Recurso em diligência. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza - Presidente. (assinado digitalmente) Tatiana Josefovicz Belisário - Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento do Recurso em diligência. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente. (assinado digitalmente) Tatiana Josefovicz Belisário Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face do Acórdão nº 0958.648 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Juiz de Fora (MG) (fls. 662/697), que assim relatou o feito: RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 04 80 .7 21 66 7/ 20 15 -3 2 Fl. 34493DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.494 2 Trata o presente processo do auto de infração de fls. 4.514 a 4.548 no qual consta a exigência do IPI, cód. 2945, no valor de R$ 17.845.126,47, multa de ofício de 75% no valor de R$ 6.034.144,75, multa referente a IPI não lançado com cobertura de crédito no valor de R$ 194.875,24 e juros moratórios no valor de R$ 6.034.144,75. O procedimento fiscal do qual resultou a autuação acima referida abrangeu o período de julho de 2010 a dezembro de 2013. De acordo com o Termo de Constatação Fiscal de fls. 4.549 a 4.587, o lançamento decorre de: Glosa de créditos indevidos relativos a materiais para uso ou consumo: Haveria uma série de produtos em relação aos quais foram apropriados créditos de IPI relativos à aquisição de matériasprimas (MP), produtos intermediários (PI) e material de embalagem (ME). Entretanto, não teriam sido observados os requisitos para tal creditamento. Tais produtos seriam, na verdade, materiais de uso e consumo. E, por essa razão, os créditos foram glosados e, em consequencia, foi reconstituída a escrita fiscal do IPI. Glosa de créditos básicos indevidos e estorno de débitos: A AMBEV é optante do Regime Especial de Tributação de Bebidas Frias (Refri), regime através do qual a incidência do IPI se dá uma única vez na saída do industrial, sendo vedada a incidência do imposto em qualquer outro momento da cadeia de circulação além da saída do estabelecimento industrial. Assim, o IPI destacado nas notas fiscais de aquisição ou de transferência de bebidas tributadas em acordo com o referido regime especial não pode ser apropriado como crédito pelo adquirente. A AMBEV não teria observado tal regra, creditandose indevidamente das aquisições/transferências recebidas de outros estabelecimentos da mesma pessoa jurídica. Portanto, foram glosados todos os créditos decorrentes das aquisições/transferências recebidas de produtos para revenda, assim como estornados os débitos referentes às saídas dos mesmos produtos. Anulação de créditos de IPI decorrente da venda de insumos para a Zona Franca de Manaus: A venda de produtos para a Zona Franca de Manaus (ZFM) dáse com isenção do IPI, por força do disposto no inciso III do art 81 c/c art. 84, ambos do RIPI/2010. Tal isenção aplicase também a produtos importados revendidos para ZFM quando originados de países signatários do GATT/OMC. Ocorre que a AMBEV vendeu produtos para a ZFM, sem destaque do IPI (a título de isenção) e manteve na escrita fiscal os créditos do IPI relativos à entrada de referidos produtos em seu estabelecimento, com base na regra prevista no art. 4º da Lei nº 8.387, de 30 de dezembro de 1991: Fl. 34494DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.495 3 Art. 4° Será mantido na escrita do contribuinte, o crédito do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), incidente sobre matériasprimas, produtos intermediários, material de embalagem e equipamentos adquiridos para emprego na industrialização de produtos que venham a ser remetidos para a Zona Franca de Manaus. É importante frisar que nesta operação de mera compra e venda de insumos, a AMBEV enquadrase na condição de estabelecimento equiparado a industrial, conforme disposto no § 6º do Art. 9º do RIPI/2010. Por isso, tal operação de revenda de produtos para a ZFM não se subsume à norma inscrita no referido art. 4º da Lei nº 8.387, de 1991, porque referido dispositivo legal, ao tratar das remessas para a ZFM, somente assegurou a manutenção do crédito do IPI relativo MP, PI e ME empregados na industrialização dos produtos isentos, não prevendo a manutenção de insumos revendidos ainda que para estabelecimento industrial localizado na ZFM. Neste último caso, deveriam ser aplicadas as regras do art. 25 da Lei nº 4.502/64 e, assim, estando a saída agraciada com a suspensão/isenção, inexistiria direito ao crédito relativo à entrada dos produtos (importados ou nacionais). saída de produtos sem lançamento do IPI – revenda sem destaque do IPI e bonificação: A AMBEV vendeu insumos adquiridos de terceiros (CFOP 5.102 e 6.102) sem destaque do imposto, bem como deu saída a insumos, também sem destaque do imposto, a título de “remessa em bonificação” (CFOP 5.910), a exemplo de Filme Stretch e Filme contráctil. Na operação de mera compra e venda de insumos (CFOP 5.102 e 6.102), a AMBEV enquadrase na condição de estabelecimento equiparado a industrial, conforme disposto no § 6º do Art. 9º do RIPI/2010, sendo devido o IPI. Quanto às saídas em bonificação (CFOP 5.910), estas são tributadas normalmente pelo imposto, cujo fato gerador é a saída das mercadorias. crédito incentivado indevido:materiais de embalagem e concentrado para elaboração de bebidas adquiridos da ZFM Os produtos industrializados na ZFM, destinados à comercialização em qualquer ponto do Território Nacional, saem daquela região com a isenção prevista no inciso II do art. 81 do RIPI/2010, desde que atendidos os requisitos ali previstos. Por outro lado, os produtos elaborados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, por estabelecimentos industriais localizados na Amazônia Ocidental (estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima), cujos projetos tenham sido aprovados pelo Conselho de Administração da SUFRAMA, podem sair com a isenção prevista no inciso III do art. 95 do RIPI/2010. Segundo a Fiscalização, há uma diferença entre as hipóteses de isenção acima referidas: os produtos adquiridos da ZFM com a Fl. 34495DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.496 4 isenção de que trata inciso II do art. 81 do RIPI/2010 não dão direito a crédito do IPI por falta de previsão legal. Já os produtos adquiridos com a isenção prevista no inciso III do art. 95 do RIPI/2010 permitem ao contribuinte adquirente creditarse do IPI, calculado como se devido fosse, por força do disposto no artigo 237 do RIPI/2010. Ou seja: este último dispositivo caracteriza uma exceção à regra geral do IPI, vez que permite o crédito do imposto sobre uma aquisição isenta daquele tributo. Nesse contexto, a AMBEV adquiriu materiais de embalagem: rolhas plásticas e filme stretch. A Fiscalização considerou incentivados os créditos calculados sobre o valor de aquisição do material de embalagem “filme stretch”, por se adequar ao incentivo previsto inciso III do art. 95 c/c art. 237, do RIPI/2010. Quanto aos demais materiais de embalagem, ROLHAS PLÁSTICAS, todos saíram da ZFM com a isenção do inciso II do artigo 81 do RIPI 2010, insusceptíveis de gerar créditos para o adquirente. Por isso, foi promovida a glosa dos créditos de IPI calculados pela AMBEV sobre os produtos de embalagem (rolhas plásticas) que saíram da ZFM exclusivamente com a isenção do inciso II do artigo 81 do RIPI 2010. Além disso, a AMBEV adquiriu preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado, classificadas no código TIPI 2106.9010 Ex 01. Os referidos “concentrados” foram adquiridos das empresas AROSUCO AROMAS E SUCOS LTDA e PEPSICOLA INDUSTRIAL DA AMAZÔNIA LTDA, ambas localizadas na ZFM. No caso dos “concentrados” fornecidos pela AROSUCO e, segundo informações prestadas pela própria pessoa jurídica, até janeiro de 2013 os produtos conc nat s uva br kit, conc nat limao fe1403 kit, conc nat s tonica fe 1401 kit e conc nat s laranja rm kit não continham matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção da Amazônia Ocidental. Portanto, os concentrados acima, de julho de 2010 a janeiro de 2013, saíram da ZFM exclusivamente com a isenção do artigo 81, inciso II, do RIPI/2010, insusceptíveis de gerar créditos para o adquirente, o que ocasionou a glosa dos créditos de IPI calculados sobre aqueles insumos. No caso dos “concentrados” fornecidos pela PEPSICOLA INDUSTRIAL, o direito ao crédito do IPI (art. 95, III, c/c art 237 do RIPI/2010) estaria respaldado no “corante caramelo”, produzido por DD WILLIAMSON que, por sua vez, utiliza o açúcar produzido pela Usina Itamarati, de Mato Grosso e, residualmente, pela Cooperativa Agroextrativista da Vila União, no Amazonas. Este procedimento, segundo a Fiscalização, estaria equivocado, tendo acarretado glosas dos créditos relativos a esses concentrados (fornecidos por PEPSICOLA INDUSTRIAL). Fl. 34496DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.497 5 Finalmente, a Fiscalização reconstituiu a escrita fiscal do período analisado utilizando o saldo resultante da reconstituição da escrita do IPI até 30/06/2010, realizada em procedimento fiscal anterior (Processo nº 10480.721571/201311). A AMBEV S.A apresentou Impugnação em que discute vários aspectos da exigência fiscal, como será visto ao longo do voto. É o relatório. A DRJ julgou improcedente a impugnação da Contribuinte, tendo sido o acórdão assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/07/2010 a 31/12/2013 CRÉDITOS RELATIVOS A MATERIAIS PARA USO OU CONSUMO. NÃO CABIMENTO. Fogem da alçada do julgamento administrativo as questões atinentes à ilegalidade de norma tributária. Em sede administrativa, devese observância aos dispositivos normativos que compõem a legislação tributária de regência. A aplicação do conceito de produto intermediário, segundo disposto no Parecer CST 65/79, afasta a possibilidade de escrituração de créditos de IPI relativos a materiais de uso e consumo. PRODUTOS SUJEITOS AO REGIME ESPECIAL DE TRIBUTAÇÃO DE BEBIDAS FRIAS (REFRI). INCIDÊNCIA ÚNICA. ESTORNO DE CRÉDITOS E DE DÉBITOS. DESNECESSIDADE DE PERÍCIA. Como o IPI incide uma única vez sobre o produto na saída do estabelecimento industrial, não cabe o destaque do imposto em saídas subseqüentes para outros estabelecimentos, da mesma firma ou de terceiros, assim como o creditamento pelo estabelecimento adquirente. Desnecessária perícia para a verificação do correto estorno dos créditos e dos débitos em saídas subseqüentes à do estabelecimento industrial. SAÍDA DE PRODUTOS SEM LANÇAMENTO DO IPI INSUMOS ADQUIRIDOS DE TERCEIROS REVENDIDOS PELO ESTABELECIMENTO INDUSTRIAL (BONIFICAÇÃO) Decisão tomada pelo pleno do STF, em âmbito de controle de constitucionalidade em via incidental, aplicase inter partes, até que o Senado Federal edite Resolução por intermédio da qual a norma declarada inconstitucional tenha sua execução suspensa. No caso concreto, não ficou caracterizada a ocorrência de descontos incondicionais porque não foi demonstrado que houve diminuição no preço do produto ou entrega de quantidade maior do que a estipulada, ajustes estes que deveriam constar da Nota Fiscal de venda, sem depender de evento posterior à emissão desse documento. CRÉDITO INCENTIVADO INDEVIDO: MATERIAIS DE EMBALAGEM E CONCENTRADO PARA ELABORAÇÃO DE Fl. 34497DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.498 6 BEBIDAS ADQUIRIDOS DA ZFM Segundo o at. 6º do Decretolei nº 1.435/75, o produto que poderá gozar da isenção (e, também, proporcionar o direito de crédito de IPI para o adquirente) deve ser elaborado a partir de insumos regionais e não apenas contêlos. Assim, a etapa fabril em foco, para o mencionado efeito, é aquela que ocorre na Amazônia Ocidental o que obriga que a matériaprima utilizada nesta etapa cumpra os requisitos legais, não bastando que o produto contenha insumos de caráter regional como elemento constitutivo remoto. Em se tratando de concessão de benefício/incentivo fiscal, a legislação tributária deverá ser interpretada literalmente, na forma do art. 111 do CTN, não admitindo a extensão a situações não contempladas pela lei. E a lei, no caso, menciona expressamente produto elaborado com matériaprima agrícola e extrativa vegetal. O fato de a Impugnante adquirir produtos fabricados por estabelecimento localizado na ZFM, com projeto aprovado pela SUFRAMA, isentos por força do inciso II do art. 81 do RIPI/2010, não lhe garante o direito ao crédito incentivado do IPI, ainda que permitida a saída dos mencionados bens com isenção do IPI para qualquer parte do território nacional para comercialização. O termo "regional", contido no art. 6º do decretolei nº 1.435/75, referese às matérias primas agrícolas e extrativas vegetais produzidas na Amazônia Ocidental, tal como definida no art. 1º, § 4º, do decreto lei nº 291/67 e não na Amazônia Legal, que é um conceito criado exclusivamente para os fins da Lei nº 5.173/66. SOBRESTAMENTO DO ANDAMENTO DE PROCESSO NO QUAL SE UTILIZOU SALDO RESULTANTE DA RECONSTITUIÇÃO DA ESCRITA EM PROCESSO FISCAL ANTERIOR. IMPOSSIBILIDADE. Não há previsão para o sobrestamento do processo nos casos em que há a utilização de saldo credor obtido em procedimento fiscal relativo a períodos de apuração anteriores. O processo administrativofiscal é regido por princípios, dentre os quais, o da oficialidade, que obriga a administração a impulsionar o processo até sua decisão final. Assim sendo, não pode a autoridade administrativa proceder ao sobrestamento de processo com litígio regularmente instaurado. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Inconformado, a Contribuinte interpôs Recurso Voluntário de fls. 5.135/5.160, reforçando os argumentos de defesa apresentados em sede de Impugnação. Após, foram os autos remetidos à este CARF e distribuídos, por sorteio, à minha relatoria. A Procuradoria da Fazenda Nacional apresentou Contrarrazões ao Recurso. Em sessão realizada em 23 de maio de 2017 esta Turma resolveu converter o feito em diligência por meio da Resolução nº 3201000.894, nos seguintes termos: 1. Que a Autoridade Preparadora intime o contribuinte para informar / comprovar os valores de IPI apurados / lançados nas etapas Fl. 34498DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.499 7 subsequentes, relativamente aos produtos cuja saída do estabelecimento autuado se deu com a suspensão do IPI considerada indevida pela Fiscalização (Prazo de 60 dias, prorrogável por mais 30); 2. Que a Autoridade Preparadora efetue o abatimento dos valores comprovadamente apurados / lançados pela Recorrente relativamente àqueles lançados no presente Auto de Infração. Tal levantamento (itens 1 e 2) deverá considerar os valores lançados na presente autuação e os valores efetivamente apurados / lançados pelos estabelecimentos recebedores das mercadorias saídas com suspensão, considerando, ainda, eventual ajuste de correção monetária em face das datas de apuração e efetivo recolhimento. 3. Que a Autoridade Preparadora, relativamente ao período de apuração em análise no presente processo, esclareça qual o efetivo emprego dos seguintes materiais glosados. pochets marca Pepsi detergente para limpeza aditivo p soda caustica mola aço tração p/ braço transferência mangueira NBR 70 da bomba peristaltica refletor prismático p/ prensor formato ret placa p/ inspeção da inspetora garrafas Poderá a Autoridade Preparadora prestar demais informações que entenda pertinente, bem como solicitar documentos e esclarecimentos ao contribuinte, devendo, ao final, apresentar relatório conclusivo. Após, seja concedida vista à Recorrente para se manifestar acerca do resultado da diligência, no prazo de 30 dias, prorrogável por mais 30. Após, vista à PFN, por igual período. Concluído, retornem os autos para julgamento. A diligência realizada retornou com o Termo de Intimação Fiscal de fls. 34.447 e seguintes. Relativamente às saídas de mercadorias realizadas com suspensão do IPI, a conclusão fiscal foi vazada nos seguintes termos: Assim, em atendimento ao Egrégio CARF, no que concerne ao item 1, esta Autoridade Fiscal informa que a recorrente, embora intimada, não demonstrou/comprovou qualquer saída de produto albergado pela suspensão do IPI, dentre aqueles que tenha sido adquirido para revenda, ficando patente a intenção meramente procrastinatória por parte da infratora. No que diz respeito aos insumos, inicialmente esclareceu a fiscalização que os itens glosados a tal título são diversos daqueles indicados na Resolução. Contudo, esclarece que "buscando a celeridade processual, deliberamos por identificar quais foram os produtos objetos de glosas do IPI", quais sejam: Fl. 34499DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.500 8 A conclusão obtida quanto a este aspecto foi assim apresentada pela Fiscalização: Analisando as citadas fichas técnicas apresentadas, fls. 34362/34446, observamos que não houve manifestação acerca dos produtos “conexão” e “pochetes marca Pepsi”, donde se depreende que a recorrente não vislumbrou, quanto a esses, qualquer argumento capaz de defender o imaginário crédito de IPI. Quanto aos demais produtos, cujos créditos foram glosados, cuidamse de lubrificantes, detergentes e desinfectantes. Em relação a esses, ratificamos todos os argumentos da Receita Federal, reproduzidos no relatório fiscal do auto de infração, acatados pela Delegacia de Julgamento quando do julgamento primário, e aquiescidos reiteradamente pelo CARF, a exemplo dos Acórdãos 20180.925 e 203 11.155, abaixo apresentados, respectivamente. Não são suscetíveis de aproveitamento como crédito básico de IPI os gastos com produtos de limpeza, pois, embora sendo utilizados pelo estabelecimento industrial, não se revestem da condição de matéria prima, produto intermediário ou material de embalagem, uma vez que sequer entram em contato direto com o produto fabricado. IPI. INSUMOS. Produtos outros, não classificados como insumos segundo o Parecer Normativo CST nº 65/79, incluindo produtos para limpeza de vasilhames e produtos destinados à manutenção de equipamentos, não podem ser considerados como matériaprima ou produto intermediário para os fins de créditos do IPI. Fl. 34500DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.501 9 Nesse passo, relativamente ao item 2 da nossa intimação fiscal, a recorrente nada trouxe de novo que pudesse defender eventual direito aos alegados créditos de IPI, não havendo qualquer reparo a ser feito no trabalho fiscal. Intimado, o Recorrente, no que diz respeito à apuração do IPI nas saídas realizadas com suspensão, contesta a afirmação fiscal de que teria ratificado o trabalho fiscal, esclarecendo que "refez integralmente [a apuração], com o objetivo de verificar eventuais equívocos nos valores que, segundo a fiscalização, deveriam ser glosados (créditos indevidos) ou estornados (débitos indevidos)" e que tal demonstrativo foi realizado por empresa de auditoria fiscal, conforme "manifestação complementar" apresentada. Assim defende que "como a Fiscalização não teceu nenhum comentário acerca dos pontos indicados no Termo de Constatação apresentado, devem ser adotados os valores nele apurados para reescrever a escrita fiscal da Requerente, cancelandose a exigência excedente". No que toca aos insumos glosados, a Recorrente aduz que "apresentou as Fichas Técnicas dos insumos cujo crédito foi glosado, as quais compreendem descritivo técnico acerca da efetiva utilização de cada insumo no processo produtivo", concluindo que a Fiscalização não refutou a aplicação de tais materiais no seu processo produtivo, devendo, portanto, ser acatado o crédito correspondente. Intimada, a PGFN apresentou manifestação defendendo o lançamento fiscal. Quanto às saídas realizadas com suspensão para estabelecimentos da mesma empresa, defende a impossibilidade de tal procedimento no âmbito do REFRI. Quanto aos insumos glosados, pugna pela manutenção da glosa, uma vez "NÃO se incorporam ao produto final da cadeia produtiva, assim como não podem ser considerados material para embalagem dada a natureza desses materiais e, tampouco, produto intermediário", nos termos do Parecer Normativo nº 65/79 e Pareceres COSIT nº 214/95 e nº 170/96. Os autos, então, retornaram para julgamento. É o relatório. Voto Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário Relatora II.2 CRÉDITOS INDEVIDOS – BEBIDAS CRÉDITO BÁSICO INDEVIDO (ART 58N, I DA LEI Nº 10.833/2003) e DESTAQUE INDEVIDO DO IPI NAS SAÍDAS: A) CRÉDITOS INDEVIDOS CRÉDITO BÁSICO INDEVIDO COMPRA DE BEBIDA PARA COMÉRCIO, TRIBUTADA NO FORNECEDOR, EM ACORDO COM ART 58N, I DA LEI Nº 10.833/2003. Fl. 34501DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.502 10 B) DESTAQUE INDEVIDO DO IPI – ESTORNO DO DÉBITO. A contribuinte é optante pelo REFRI, regime monofásico de apuração do IPI para fabricantes de bebida que impõe a tributação exclusiva no estabelecimento industrial. O estabelecimento autuado, embora seja industrial, também adquire mercadorias prontas de outros estabelecimentos da mesma pessoa jurídica ("terceiros"). A Fiscalização identificou que o autuado estaria se apropriando indevidamente de crédito de IPI na entrada de tais mercadorias. O trabalho fiscal foi feito da seguinte forma: Para os "produtos adquiridos de terceiros que não são industrializados pelo contribuinte", a Fiscalização, além de glosar os créditos na entrada, também estornou o débito correspondente na saída desses itens. Para os "produtos adquiridos de terceiros que também são industrializados pelo contribuinte", como não seria possível distinguir quais produtos foram fabricados pelo próprio estabelecimento e quais a Fiscalização efetuou a comparação entre os valores dos créditos e débitos correspondentes e precisou utilizar duas sistemáticas. Nos anos de 2010 a 2012, na comparação, os débitos eram superiores aos créditos. Assim, os débitos foram estornados em valor igual aos créditos. Já no ano de 2013, os débitos eram inferiores aos créditos apropriados. Os estornos dos débitos foram então limitadas às saídas dos produtos com mesmo código de identificação dos produtos cujo crédito fora glosado, mas limitados às quantidades que efetivamente deram saída. Ou seja, se houve crédito de 100 e débito de 80, o estorno foi limitado a 80, ainda que o crédito glosado tenha sido de 100. Embora a Fiscalização não tenha um criado um subtópico específico, esclareceu que relativamente às mercadorias recebidas em devolução, com a consequente apropriação de crédito, efetuou a glosa sobre as devoluções daquelas mesmas mercadorias que haviam sido indevidamente creditadas na entrada. Logo, na hipótese dos autos, a Recorrente deu entrada em mercadorias prontas recebidas de outras filiais e creditouse do IPI devido. Contudo, entendeu a Fiscalização que, como essas mercadorias estão sujeitas à incidência monofásica, a tributação pelo IPI ocorre exclusivamente no estabelecimento industrial (remetente), encerrandose ali a cadeia do IPI. Logo, é vedado o crédito para o estabelecimento destinatário (autuado). A Fiscalização, então, afirma que efetuou a glosa dos créditos apropriados na entrada e, também, o estorno dos débitos respectivos registrados no Livro de Apuração do IPI. A Recorrente, além de questionar a afirmação fiscal quanto à vedação legal de creditamento na hipótese dos autos, afirma que houve erro nos cálculos fiscais, que este teria deixado de efetuar o estorno de parte das saídas realizadas: Fl. 34502DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.503 11 Nesse aspecto, a DRJ afirmou que: Ou seja, como afirmou a Fiscalização, foram efetuados os estornos de todos os débitos indevidos e não apenas de parte deles, o que infirma a tese de defesa da Impugnante. Como as informações trazidas no Auto de Infração (e anexos) foram regularmente cientificadas à Impugnante, é certo que poderia perfeitamente contraditálas na Impugnação, não sendo suficiente a mera alegação de que os estornos dos débitos não foram corretamente efetuados. Caberia à Impugnante apontar os erros que, na sua visão, teriam sido cometidos no procedimento fiscal, o que poderia ser feito contraditando ou, até mesmo, complementando as informações constantes das planilhas anexas ao Auto de Infração. Tudo isso poderia ser feito prescindindose de procedimento de diligência/perícia. Diante da dúvida instaurada, foi solicitada diligência fiscal nos seguintes termos: 1. Que a Autoridade Preparadora intime o contribuinte para informar / comprovar os valores de IPI apurados / lançados nas etapas subsequentes, relativamente aos produtos cuja saída do estabelecimento autuado se deu com a suspensão do IPI considerada indevida pela Fiscalização (Prazo de 60 dias, prorrogável por mais 30); 2. Que a Autoridade Preparadora efetue o abatimento dos valores comprovadamente apurados / lançados pela Recorrente relativamente àqueles lançados no presente Auto de Infração. Tal levantamento (itens 1 e 2) deverá considerar os valores lançados na presente autuação e os valores efetivamente apurados / lançados pelos estabelecimentos recebedores das mercadorias saídas com suspensão, considerando, ainda, eventual ajuste de correção monetária em face das datas de apuração e efetivo recolhimento. Em resposta à diligência, a Fiscalização alega que solicitou à Recorrente o cumprimento do que restou determinado no item 1, mas que, no entanto, esta teria se limitado "a ratificar o trabalho efetuado pela fiscalização, "jogando por terra sua anterior alegação de que 'a assertiva contida no acórdão recorrido ignora que parte sensível das mercadorias transferidas a outros estabelecimentos da ora impugnante o são com suspensão do IPI (i.e., sem o destaque do imposto)'." Fl. 34503DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.504 12 A conclusão obtida foi: Ou seja, ao invés de demonstrar as hipotéticas saídas com suspensão do IPI (i.e, sem destaque do imposto), a recorrente ratificou o trabalho realizado pela auditoria fiscal, demonstrando que as saídas de produtos adquiridos de terceiros para revenda se deram com destaque do IPI, Com efeito, neste ponto, nada há a ser reparado no trabalho fiscal, vez que, como se sabe, esses destaques de IPI, a bem do contribuinte, foram todos estornados pela fiscalização, posto que indevidos. Intimado, o Recorrente contesta a afirmação fiscal de que teria ratificado o trabalho fiscal, esclarecendo que "refez integralmente [a apuração], com o objetivo de verificar eventuais equívocos nos valores que, segundo a fiscalização, deveriam ser glosados (créditos indevidos) ou estornados (débitos indevidos)" e que tal demonstrativo foi realizado por empresa de auditoria fiscal, conforme "manifestação complementar" apresentada. O Contribuinte apresentou "“Termo de Constatação”, elaborado por KPMG Tax Advisers Ltda., e seus respectivos anexos, que comprova que houve o recolhimento de IPI na saída em transferência dos produtos do estabelecimento autuado para os demais estabelecimentos da empresa" (fls. 5.232 e seguintes). Quanto ao Laudo, a Fiscalização apontou "que não olvidamos [sic]o “Termo de Constatação”, emitido pela KPMG Tax Advisers Ltda., anexado à resposta da recorrente, o qual constatou que 99,56% das saídas efetuadas pela recorrente sofreram tributação do IPI", mesm assim, entende que a Recorrente "não demonstrou/comprovou qualquer saída de produto albergado pela suspensão do IPI, dentre aqueles que tenha sido adquirido para revenda, ficando patente a intenção meramente procrastinatória por parte da infratora". Conforme consta do referido laudo elaborado pela KPMG, este dedicouse à análise da seguinte infração identificada pela Fiscalização: (ii) Glosa de créditos oriundos da aquisição de bebida para o comércio, sujeita à sistemática monofásica de apuração e recolhimento do imposto e seu destaque indevido na saída; Trago aos autos os aspectos do Laudo julgados relevantes. Inicialmente, o Laudo KPMG traz a seguinte observação: Constatamos que as informações apresentadas no AIIM (Anexo Geral I, pág. 6) estão de acordo com as informações constantes da documentação fiscal examinada, qual seja: (i) Livro de Registro de Entradas, (ii) Livro de Registro de Apuração do IPI, constantes do Anexo Geral II.a ao II.c e (iii) Quadro de controle interno denominado “Demonstrativo de entrada” (Anexo 1.1), todos correspondentes ao período de 1º de julho de 2010 a 31 de dezembro de 2013. Não obstante, comparando as informações constantes na documentação suporte elaborada pela Companhia (“Demonstrativo de Entrada”, “Livro de Registro de Entradas” e “Apuração do IPI”) com as informações extraídas do AIIM (Anexo Geral I), constatamos as seguintes divergências: Fl. 34504DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.505 13 (...) (fl. 5243) Dessa afirmação extraio que se está diante de situação na qual a fiscalização se pautou nos livros fiscais apresentados pela Recorrente e que a auditoria privada, com base em documentos extra contábeis (documentação suporte), identificou divergências. A princípio, tenho que, em se tratando de Auto de Infração, o cometimento de erros pelo contribuinte na prestação de informações fiscais são passíveis de retificação durante o procedimento fiscal, mormente quando tais equívocos são suscitados ainda na Impugnação. Não obstante, sendo incontroverso que o lançamento fiscal se pautou nos livros ficais obrigatórios do contribuinte, é deste o ônus de comprovar o erro incorrido. Pois bem. O Laudo, então, passa a demonstrar as divergências verificadas entre os livros fiscais e a chamada documentação suporte. Inicialmente, contudo, o Laudo aponta alguns equívocos identificados nos cálculos e levantamentos realizados pela Fiscalização em comparação ao próprio Livro de Entrada do contribuinte. Tratamse de erros eventualmente incorridos na elaboração de cálculos e planilhas. (i) Com relação ao relatório fiscal "Detalhamento do Crédito Indevido", informa que o montante não condiz com aquele identificado na documentação apresentada pelo contribuinte e apresenta planilha denominada "Produtos Autuados Equívoco de Digitação" (fl. 5244): (ii) Que foram autuados (glosados) itens relativos a "entrada por devolução de mercadoria adquirida ou recebida de terceiros" e "entrada de bonificação, doação ou brinde", no montante de R$96.264,44, que não deveriam ser glosados: Fl. 34505DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.506 14 (iii) Que ao comparar o documento fiscal "Detalhamento do Crédito Indevido" com as entradas vinculadas às notas relacionadas, foi identificado que uma das Notas Fiscais glosadas não teria sido escriturada pelo Contribuinte: Apontados tais equívocos, o Laudo indica que o valor total do crédito glosado não é de R$5.148.133,06 como lançado pela Fiscalização, mas, sim, de R$5.003.998,35, ou seja, há uma diferença de R$144.134,71: Ultrapassados tais equívocos, o Laudo indica alguns "erros" quanto aos critérios utilizados pela Fiscalização no levantamento do valor lançado. O Laudo passa a discorrer acerca das saídas efetuadas relativamente às entradas glosadas pela Fiscalização com o objetivo de comprovar que, embora tenha se creditado "indevidamente" na entrada das mercadorias, 99,56% destas mercadorias teve a saída devidamente tributada pelo estabelecimento autuado. Ou seja, demonstra a inexistência de impacto financeiro quanto ao IPI devido. A tabela resumo apresentada à fl. 5.253: Fl. 34506DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.507 15 Observo que esse levantamento teve por base o valor de glosa de R$5.003.998,35 apurado no Laudo e não o valor de R$5.148.133,06 apontado pela Fiscalização como entradas glosadas. Assim, se considerarmos a diferença de R$144.134,71, haverá uma pequena diminuição nesse percentual em face do valor das glosas apontados pela Fiscalização. Nesse segundo aspecto observado pelo Laudo KPMG, é necessário recordar que, de acordo com a Fiscalização, todos os débitos gerados em decorrência das saídas dos produtos cujo crédito foi glosado, foram devidamente estornados. Assim, ainda que as glosas efetuadas tenham somado patamar superior a 5 milhões de reais, o estorno dos débitos respectivos teria sido realizada a fim de anular os respectivos efeitos. Afirma a Fiscalização textualmente no Relatório Fiscal: Resumidamente, no período fiscalizado, de julho/2010 a dezembro/2013, glosamos créditos no valor de R$ 5.148.133,06, e estornamos débitos no valor de R$ 4.954.522,04. Notase que, de fato, parece existir uma divergência no valor dos estornos realizados pela Fiscalização e aqueles que foram apontados pela auditoria como correto. Em números: GLOSA ESTORNO PERCENTUAL FISCO 5.148.133,06 4.954.522,04 96,24% KPMG 5.003.998,35 4.981.980,76 99,56% * Os números em negrito foram calculados a partir dos dados extraídos do Relatório Fiscal e do Laudo KPMG Todavia, pela leitura do Relatório Fiscal e do Laudo KPMG, depreendese que tal divergência muito provavelmente se deu em razão da forma de cálculo utilizada. É de se recordar que a Fiscalização esclareceu que no ano de 2013, as saídas ocorreram em montante inferior às entradas glosadas. Logo, haveria (como de fato houve) um estorno de débitos em montante inferior ao de créditos. Isso porque não haveria como se efetuar o estorno de um débito não registrado. Ocorre que o Laudo KPMG se muniu de maiores informações relativamente ao prazo de circulação do estoque da Recorrente. Isso significa que, se, por um lado, a Fiscalização considerou um mesmo prazo de entrada e saída (por exemplo, mês a mês ou ano a ano), o Laudo KPMG fez tal encontro considerando o prazo médio de permanência de estoque Fl. 34507DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.508 16 dos produtos que circularam pelo estabelecimento autuado, que seria de 87 dias, sendo este o prazo considerado como "giro de estoque dos produtos autuados". Logo, identificamse 2 (duas) divergências entre os números apresentados pela Fiscalização e aqueles apurados em procedimento de auditoria, resultando numa diferença, a maior, no valor do IPI lançado: GLOSAS ESTORNOS IPI RESIDUAL FISCO 5.148.133,06 4.954.522,04 193.611,02 KPMG 5.003.998,35 4.981.980,76 22.017,59 DIFERENÇA 144.134,71 27.458,72 171.593,43 Vejase que esta Relatora efetuou de forma objetiva a comparação entre o Relatório Fiscal e o Laudo apresentado pelo Contribuinte, compreendendo as diferenças existentes e as razões pelas quais elas foram apuradas. Não obstante, a Fiscalização, quando da realização da Diligência Fiscal, parece não ter se dedicado a fazer tal análise. Embora afirme que não olvida que a Recorrente "constatou que 99,56% das saídas efetuadas pela recorrente sofreram tributação do IPI", exatamente como demonstrado na análise supra, limitase a afirmar, como já dito, que "a recorrente, embora intimada, não demonstrou/comprovou qualquer saída de produto albergado pela suspensão do IPI, dentre aqueles que tenha sido adquirido para revenda, ficando patente a intenção meramente procrastinatória por parte da infratora". Com a devida vênia, tenho que esta demonstração foi, sim, realizada de forma detida pela Recorrente, conforme Laudo elaborado. Tanto é assim, que esta Relatora, sem qualquer formação fiscal e nem mesmo contábil, foi capaz de compreender e identificar quais foram os equívocos / divergência apontados relativamente ao trabalho fiscal. Com efeito, nesse ponto da autuação, a diligência solicitada foi composta de 2 (dois) itens. O primeiro deles, consistente na demonstração numérica das alegações apresentadas em Impugnação e Recurso Voluntário, era, de fato, destinado à contribuinte e foi cumprido por meio do Laudo apresentado: 1. Que a Autoridade Preparadora intime o contribuinte para informar / comprovar os valores de IPI apurados / lançados nas etapas subsequentes, relativamente aos produtos cuja saída do estabelecimento autuado se deu com a suspensão do IPI considerada indevida pela Fiscalização (Prazo de 60 dias, prorrogável por mais 30); Todavia, competia ao próprio agente autuante a validação desses dados e valores a partir do que veio apresentado pela Recorrente. E, esse aspecto, não foi atendido em sede de diligência, por se considerar que a Contribuinte não teria feito a efetiva demonstração dos equívocos alegados. É preciso admitir que, quando da elaboração do segundo quesito, esta Relatora mencionou que o valor final devido a partir da comparação entre glosas e estornos deveria considerar os valores efetivamente apurados ou lançados pelos estabelecimentos recebedores. Fl. 34508DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.509 17 Contudo, tal verificação, de fato, não se faz necessária para se chegar ao que se pretende na presente controvérsia, uma vez que, na hipótese dos autos, as saídas foram devidamente lançadas a débito (não foram lançadas como suspensão). Assim, o estorno dos débitos realizada anula qualquer efeito que a tributação das saídas possa ter gerado nas cadeias posteriores. Logo, a verificação deve ficar restrita ao estabelecimento autuado. Não obstante, a constatação de tal equívoco não elide o dever fiscal de examinar os cálculos e levantamentos trazidos pelo contribuinte por meio de Laudo infirmando os cálculos fiscais, ou seja, examinar as razões pelas a Contribuinte chegou às divergências de valores tanto no somatório dos créditos glosados, como dos débitos estornados. No caso das glosas, devese esclarecer (i) os erros de digitação apontados (variação de R$47.532,95); e (iii) a nota fiscal glosada que não teria sido escriturada no livro de entrada (diferença de IPI no valor de R337,32). Especificamente quanto ao item (ii) também é necessário registrar que, de acordo com o Relatório Fiscal, teriam sido estornados todos os créditos de IPI relativos à devolução de mercadorias ao argumento de que, uma vez estornado o débito gerado, devese cancelar também o crédito. Exemplificativamente, teríamos a seguinte situação: Crédito indevido sobre produto acabado R$ 100,00 Glosa do crédito indevido R$ 100,00 Débito indevido na saída R$ 100,00 Estorno de débito indevido R$ 100,00 Credito na devolução de mercadorias R$ 100,00 Estorno de crédito de devolução R$ 100,00 Assim, a princípio, correto o procedimento fiscal. Todavia, de acordo com a alegação constante do Laudo KPMG, a fiscalização teria efetuado a glosa do crédito apurado na entrada de mercadorias recebidas em devolução. Assim, é preciso esclarecer se, relativamente às devoluções, em se tratando especificamente das mercadorias prontas recebidas (e não as industrializadas pela Recorrente), o ajuste foi feito apenas pelo "estorno de crédito na devolução" ou se, eventualmente, foi feito também a glosa do "credito na devolução de mercadorias". Caso a correção tenha se dado das duas formas estorno do crédito e glosa do crédito será necessário efetuar o correspondente ajuste. Quanto às mercadorias entradas em bonificação, alega o Laudo KPMG que, dentre a listagem das notas glosadas, existiriam notas relativas a tais a entradas de bonificação, doação ou brinde. Necessário diferenciar que, em tópico distinto, a Fiscalização tratou das saídas a título de bonificação, doação ou brinde, entendendo que estas estão sujeitas ao IPI. Contudo, neste tópico, estáse falando das entradas a título de bonificação. Fl. 34509DF CARF MF Processo nº 10480.721667/201532 Resolução nº 3201001.389 S3C2T1 Fl. 34.510 18 E, de fato, se existem créditos apropriados na entrada, pela Contribuinte, em decorrência de mercadorias recebidas em bonificação e, se entende a fiscalização que esta operação é tributada, não existe justificativa para que tais entradas tenham sido glosadas. Até porque o Relatório Fiscal nada menciona acerca dessas supostas entradas. Por todo o exposto, entendo que, em face das alegações apresentadas pela Contribuinte e do resultado obtido em diligência fiscal, ainda remanescem aspectos a serem melhor elucidados, como forma de garantir o adequado julgamento do feito. Logo, proponho a realização de nova diligência fiscal, para que, desta feita, se manifeste a Autoridade Preparadora acerca de todos os aspectos objetivamente demonstrados no Laudo KPMG, observando: Quanto às glosas, deve a Fiscalização se manifestar quanto: (i) os erros de digitação apontados no Laudo KPMG (variação de R$47.532,95); (ii) as glosas de itens relativos a "entrada por devolução de mercadoria adquirida ou recebida de terceiros" e "entrada de bonificação, doação ou brinde" (no montante de R$96.264,44) e (iii) a nota fiscal glosada que não teria sido escriturada no livro de entrada (diferença de IPI no valor de R337,32). Já no que se refere aos estornos de débitos realizados, a Fiscalização deverá: (iv) esclarecer qual o critério utilizado na vinculação entre entrada e saída para fins de estorno de débitos (mês a mês, ano a ano, ou qualquer outro); (v) se manifestar acerca do critério utilizado no Laudo KPMG considerando o giro de estoque de 87 dias (se entende válido ou não e, eventualmente, questionar ou validar o cálculo apresentado) Pedese, ainda, que considere os questionamentos apresentados por esta Relatora no curso da presente Resolução, para fins de elaboração da manifestação fiscal. Após, concedase prazo de 30 (trinta) dias para manifestação da Contribuinte. Posteriormente, conceda também o prazo de 30 (trinta) dias para a Procuradoria da Fazenda Nacional. Concluído, retornemse os autos para julgamento. É como voto. Tatiana Josefovicz Belisário Relatora Fl. 34510DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11128.008282/2008-39
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 01 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Data do fato gerador: 14/01/2004
RECLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIA. FALTA DE LICENÇA DE IMPORTAÇÃO. DESCRIÇÃO CORRETA/SUFICIENTE. ATO DECLARATÓRIO COSIT 12/1997.
Conforme ADN COSIT no 12/1997, não constitui infração administrativa ao controle das importações a declaração de importação de mercadoria objeto de licenciamento no SISCOMEX cuja classificação tarifária errônea exija novo licenciamento, automático ou não, desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante.
Numero da decisão: 3401-005.288
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso, para afastar do lançamento a multa por falta de licença de importação.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan Presidente e Relator.
Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Marcos Roberto da Silva (suplente), Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Lázaro Antonio Souza Soares, Cássio Schappo, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso, para afastar do lançamento a multa por falta de licença de importação. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Relator. Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Marcos Roberto da Silva (suplente), Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Lázaro Antonio Souza Soares, Cássio Schappo, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
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FALTA DE LICENÇA DE IMPORTAÇÃO. DESCRIÇÃO CORRETA/SUFICIENTE. ATO DECLARATÓRIO COSIT 12/1997. Conforme ADN COSIT no 12/1997, não constitui infração administrativa ao controle das importações a declaração de importação de mercadoria objeto de licenciamento no SISCOMEX cuja classificação tarifária errônea exija novo licenciamento, automático ou não, desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso, para afastar do lançamento a multa por falta de licença de importação. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan – Presidente e Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 12 8. 00 82 82 /2 00 8- 39 Fl. 178DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Marcos Roberto da Silva (suplente), Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Lázaro Antonio Souza Soares, Cássio Schappo, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). Relatório Versa o presente sobre o Auto de Infração de fls. 2 a 231, lavrado em 21/10/2008, para exigência de imposto de importação, acrescido de multa de ofício e juros de mora, multa por erro de classificação fiscal, e multa por falta de licença de importação, totalizando R$ 149.311,94. Narrase na autuação que: (a) o importador, por meio da declaração de importação (DI) no 04/00375227 (fls. 29 a 31), registrada em 14/01/2004, submeteu a despacho cinco produtos químicos, por ele classificados no código NCM 2942.00.910 (referente a “outros componentes orgânicos”), com alíquota 0% prevista para o imposto de importação e o IPI, assim descritos: (1) aditivo fungistático para alimentação animal – FYLAX – DRY SP – rótulo registrado no Ministério da Agricultura sob número SP09239 000082; (2) aditivo acidificante para alimentação animal – SELACID – BALANCE DRY – rótulo registrado no Ministério da Agricultura sob número SP09239 000074; (3) aditivo antioxidante para alimentação animal – SELDOX – M DRY – rótulo registrado no Ministério da Agricultura sob número SP09239 000066; (4) aditivo antioxidante para alimentação animal – SELDOX – HT LIQUID – rótulo registrado no Ministério da Agricultura sob número SP09239 000146; e (5) aditivo antioxidante para alimentação animal – SELDOX – M LIQUID – rótulo registrado no Ministério da Agricultura sob número SP09239 000058; (b) foi solicitado laudo técnico, com retirada de amostras pelo Laboratório de Análises FUNCAMP (Pedido no 0192/04GCOF – fls. 32/33), sendo a declaração de importação desembaraçada em 27/01/2004, com base no art. 47 da Instrução Normativa SRF no 206/2002, que autoriza a entrega antecipada da mercadoria na pendência de exame laboratorial, com registro no SISCOMEX; (c) os resultados dos exames laboratoriais, consubstanciados no Laudo de Análises FUNCAMP no 0893, de 15/04/2004 (fls. 34 a 49), e que fundamentam a autuação, atestam que as mercadorias se tratavam de preparações especificamente elaboradas para serem adicionadas a rações animais (detalhamento à fl. 8), que são, por sua vez, classificadas no código NCM 2309.90.90, com alíquotas de imposto de importação de 8% e de IPI de 0%; (d) a classificação foi efetuada com base nas RegrasGerais 1 e 6 do Sistema Harmonizado, da Regra Geral Complementar 1, das notas do capítulo 29, e de notas explicativas referentes às posições em análise (2492 e 2309); (e) em função do erro de classificação, e de ser incompleta a descrição detalhada da mercadoria, foram exigidas as diferenças de tributos com multa de ofício (75%), e a multa por erro de classificação (prevista no art. 84, I da Medida Provisória no 2.15835/2001); (f) em função de haver licenciamento nãoautomático para a mercadoria reclassificada (cf. consulta ao Tratamento Administrativo do SISCOMEX, com anuência do Ministério da Agricultura), e da descrição incompleta, foi ainda exigida a multa por falta de licença de importação, prevista no art. 169, I “b” do DecretoLei no 37/1966). Ciente da autuação em 17/11/2008 (fl. 62), a empresa apresentou impugnação parcial em 12/12/2008 (fls. 63 a 78), sustentando, basicamente, que: (a) não 1 Todos os números de folhas indicados nesta decisão são baseados na numeração eletrônica da versão digital do processo (eprocessos). Fl. 179DF CARF MF Processo nº 11128.008282/200839 Acórdão n.º 3401005.288 S3C4T1 Fl. 179 3 concorda com a autuação no que diz respeito à multa por falta de licença, e que efetuaria pedido de parcelamento de parte do valor exigido, com o benefício da redução da multa de ofício lançada, dentro do prazo legal para impugnação, pedindo “autorização para o parcelamento”; (b) que a pretensa adesão a parcelamento não implica nenhuma concordância com a reclassificação fiscal imposta, mas simples falta de interesse econômico no prosseguimento da discussão, mas que a impugnação restringese à multa por falta de licença; (c) não houve descrição “descrição inexata” das mercadorias pela empresa nas declarações de importação, sempre constando o nome comercial do produto, acompanhado dos respectivos registros de rótulos no Ministério da Agricultura (MAPA); (d) se houve concessão de licença pelo referido ministério para as importações, o simples erro de classificação não autoriza a imposição da multa por falta de licença; (e) ao final de todos os Laudos de Análises, a FUNCAMP indica o MAPA como órgão competente para prestar esclarecimentos sobre as indicações e modo de uso dos produtos importados pela Impugnante, pois destinadas a serem adicionadas à ração animal; (f) o Ato Declaratório (Normativo) COSIT no 12/1997 e precedente do CARF endossam o argumento da empresa; e (g) em nenhum momento se questiona se os produtos importados correspondem aos declarados, restringindose a questão à sua classificação. Em 31/08/2016 ocorre o julgamento de primeira instância (fls. 118 a 124), no qual se decide unanimemente pela improcedência da impugnação, sob o fundamento de que para afastar a imputação da multa por falta de licença de importação (único tema que resta contencioso no processo), decorrente de reclassificação da mercadoria, é imprescindível que o produto importado tenha sido corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, desde que o contribuinte já detivesse um licenciamento anterior para os produtos que foram classificados erroneamente, como estabelece o Ato Declaratório (Normativo) COSIT no 12/1997, aplicandose ao caso o art. 111 do CTN. Após a ciência da decisão de piso, em 14/09/2016 (fl. 130), a empresa apresentou recurso voluntário em 10/10/2016 (fls. 132 a 145), suscitando: (a) que a DRJ inovou ao criar requisito para afastar a aplicação do Ato Declaratório (Normativo) COSIT no 12/1997 sequer levantado pelo autuante, que deixou de aplicar o ato simplesmente porque haveria suposta “descrição inexata” da mercadoria, imputação afastada pelo julgador da DRJ; e (b) que todas as importações brasileiras estão sujeitas a licenciamento, conforme art. 490 do Regulamento Aduaneiro de 2002 (Decreto no 4.543/2002), e eventual dúvida enseja a aplicação do art. 112 do CTN. O processo foi encaminhado ao CARF pelo despacho de fl. 176, de 11/10/2016, que atesta a tempestividade do recurso apresentado, sendo a mim distribuído, por sorteio, em abril de 2018. É o relatório. Voto Fl. 180DF CARF MF 4 Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator O recurso voluntário atende os requisitos de admissibilidade, dele se tomando conhecimento. Resta, nesta fase processual, um tema contencioso: a aplicação da multa por falta de licença de importação, prevista no art. 169, I “b” do DecretoLei no 37/1966, na redação dada pela Lei no 6.562/1978. No entanto, antes de ingressar na matéria contenciosa, alguns esclarecimentos se fazem necessários. O primeiro deles se refere à natureza a multa aplicada, que não é tributária, mas afeta ao controle (tratamento) administrativo das importações, como resta claro no próprio texto legal: “Art. 169. Constituem infrações administrativas ao controle das importações: I importar mercadorias do exterior: (...) b) sem Guia de Importação ou documento equivalente, que não implique a falta de depósito ou a falta de pagamento de quaisquer ônus financeiros ou cambiais: Pena: multa de 30% (trinta por cento) do valor da mercadoria.” (grifo nosso) Assim, equivocadas as menções, tanto pelo julgador de piso, ao art. 111 do Código Tributário Nacional, quanto pela defesa, ao art. 112 da mesma codificação. Não se está aqui, esclareçase veementemente, a julgar multa tributária. É absolutamente irrelevante para a tributação das importações ser uma mercadoria sujeita ou não a licença, ou estar ou não amparada por licença, a menos que a licença esteja vedada pela legislação, o que culmina na pena de perdimento e na consequente impossibilidade de importação das mercadoria (art. 23, I do DecretoLei no 1.455/1976). Quando o legislador, em 1978, tratou de “Guia de importação ou documento equivalente”, estava a se referir a documento que autoriza a importação. Daí ser elevado o percentual da multa (30%) para quem importasse mercadoria sem a “autorização”. Estamos a tratar de tempos em que a “autorização” tinha aplicação ampla, e os controles se davam em papel, e não em sistemas informatizados. O sistema informatizado de controle do comércio exterior brasileiro, SISCOMEX, surge em 1992 (restrito, na prática, à exportação, tardando em 5 anos a se alastrar à importação), e a norma que lhe deu amparo foi o Decreto no 660, de 25/09/1992, que dispôs, em seu art. 6o, § 1o: “Art. 6o As informações relativas às operações de comércio exterior, necessárias ao exercício das atividades referidas no art. 2o, serão processadas exclusivamente por intermédio do SISCOMEX, a partir da data de sua implantação. § 1o Para todos os fins e efeitos legais, os registros informatizados das operações de exportação ou de Fl. 181DF CARF MF Processo nº 11128.008282/200839 Acórdão n.º 3401005.288 S3C4T1 Fl. 180 5 importação no SISCOMEX, equivalem à Guia de Exportação, à Declaração de Exportação, ao Documento Especial de Exportação, à Guia de Importação e à Declaração de Importação.” (grifo nosso) O sistema informatizado de controle do comércio exterior brasileiro, SISCOMEX, surge em 1992 (restrito, na prática, à exportação, tardando em 5 anos a se alastrar à importação), e a norma que lhe deu amparo foi o Decreto no 660, de 25/09/1992, que dispôs, em seu art. 6o, § 1o: A expressão “licença de importação” já era bem conhecida mundialmente, a ponto de figurar em um dos códigos celebrados na Rodada Tóquio do GATT, em 1979, e restou consagrada, já na rodada multilateral de negociações do GATT (Uruguai), que deu origem à OMC, e cuja ata final foi aprovada, no Brasil, pelo Decreto Legislativo no 30/1994, e promulgada pelo Decreto no 1.355/1994), e contém um “Acordo sobre Procedimentos para o Licenciamento de Importações” (nos três idiomas autênticos do acordo, inglês, francês e espanhol, respectivamente, “Agreement on Import Licensing Procedures”, “Accord sur les Procédures de Licences d'Importation”, e “Acuerdo sobre Procedimientos para el Trámite de Licencias de Importación”). Em tal acordo, que está em vigor no Brasil, e em mais 163 países que compõem, atualmente, a OMC, definese “licenciamento das importações” (Artigo 1o) como: “...os procedimentos administrativos utilizados na operação de regimes de licenciamento de importações que envolvem a apresentação de um pedido ou de outra documentação (diferente daquela necessária para fins aduaneiros) ao órgão administrativo competente, como condição prévia para a autorização de importações para o território aduaneiro do Membro importador”.(grifo nosso) O acordo define ainda (Artigos 2o e 3o), “licenciamento automático” e “licenciamento nãoautomático” (este, por exclusão): “Artigo 2o. O licenciamento automático de importações será definido como o licenciamento de importações cujo pedido de licença é aprovado em todos os casos e de acordo com o disposto no parágrafo 2 (a). 2. (...) (a) os procedimentos para o licenciamento automático de importações não serão administrados de modo a ter efeitos restritivos sobre importações sujeitas a licenciamento automático. Considerarseá que os procedimentos para o licenciamento automático terão efeitos comerciais restritivos, a menos que(...)” (grifo nosso) “Os procedimentos nãoautomáticos para licenciamento de importações serão definidos como o licenciamento de importações que não se enquadre na definição prevista no parágrafo 1 do Artigo 2o”. (grifo nosso) Fl. 182DF CARF MF 6 No início da década de 90, no século passado, o Brasil ainda tratava de “Guias de Importação”, obtidas em agências bancárias (vide art. 6o da Portaria DECEX 8/1991), e disciplinadas pelo Departamento de Comércio Exterior (DECEX), que fazia parte da estrutura do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento (MEPF), passando ao Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo em 1992 (Lei no 8.490/1992), como uma Secretaria (SECEX). Em 1997, após a Rodada Uruguai, a incorporação do “Acordo sobre Procedimentos para o Licenciamento de Importações”, e com o advento do SISCOMEX Importação, a SECEX, por meio de Portarias, passa a regulamentar o tratamento administrativo das importações, no Brasil, de forma absolutamente desvinculada da tributação (digase, em ministério diverso). À época, o “licenciamento nãoautomático” era aquele que resultava em um número de licença de importação, que figuraria posteriormente na declaração importação, atestando que a mercadoria tinha “autorização” para ser importada. E o licenciamento automático era aquele no qual sequer era exigida providência do importador, não figurando qualquer número de licença na DI correspondente. Tanto que a Portaria MF/MICT no 291/1996, que dispõe sobre o processamento das importações, no SISCOMEX, estabelece, em seu art. 4o, § 1o, que “...no caso de licenciamento automático, as informações serão prestadas por ocasião da formulação da declaração para fins do despacho aduaneiro da mercadoria”. A mesma subdivisão (em licenciamento automático e nãoautomático) é assentada na Portaria SECEX no 21/1996. Todo o universo de importações brasileiras, então, era considerado como submetido a licenciamento automático ou não automático. No ano de 1997, a COSIT, buscando adaptarse ao entendimento então predominante no então Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda, publica uma série de Atos Declaratórios Normativos dispondo sobre a não aplicação de penalidades, entre os quais o multicitado ADN COSIT no 12, que dispõe: “não constitui infração administrativa ao controle das importações, nos termos do inciso II do art. 526 do Regulamento Aduaneiro, a declaração de importação de mercadoria objeto de licenciamento no Sistema Integrado de Comércio Exterior SISCOMEX, cuja classificação tarifária errônea ou indicação indevida de destaque "ex" exija novo licenciamento, automático ou não, desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante”. (grifo nosso) O Regulamento Aduaneiro de 2002 (Decreto no 4.543/2002), em respeito à terminologia já adotada no acordo internacional e nas normas infralegais então vigentes, estabeleceu, em seu art. 490, que a “...importação de mercadoria está sujeita, na forma da legislação específica, a licenciamento, que ocorrerá de forma automática ou nãoautomática, por meio do Siscomex”. Em 2003 a SECEX passa a consolidar as normas sobre tratamento administrativo das importações, na Portaria no 17, estabelecendo, em seu art. 6o, classificação tripartida: “Art. 6o O sistema administrativo das importações brasileiras compreende as seguintes modalidades: Fl. 183DF CARF MF Processo nº 11128.008282/200839 Acórdão n.º 3401005.288 S3C4T1 Fl. 181 7 I – importações dispensadas de Licenciamento; II – importações sujeitas a Licenciamento Automático; e III – importações sujeitas a Licenciamento Não Automático.” (grifo nosso) Vejamse os textos das normas que tratam das classificações bipartida e tripartida: Portaria MF/MICT no 291/1996 Portaria SECEX no 17/2003 Art. 4o Para efeito de licenciamento da importação, na forma estabelecida pela Secex, o importador deverá prestar as informações específicas constantes do Anexo II. § 1º No caso de licenciamento automático, as informações serão prestadas por ocasião da formulação da declaração para fins do despacho aduaneiro da mercadoria. § 2º Tratandose de licenciamento não automático, as informações a que se refere este artigo devem ser prestadas antes do embarque da mercadoria no exterior ou do despacho aduaneiro, conforme estabelecido pela Secex. Art. 7o Como regra geral, as importações brasileiras estão dispensadas de licenciamento, devendo os importadores tãosomente providenciar o registro da Declaração de Importação – DI no Siscomex, com o objetivo de dar início aos procedimentos de Despacho Aduaneiro junto à unidade local da Secretaria da Receita Federal – SRF. Art. 10. Nas importações sujeitas aos licenciamentos automático e não automático, o importador deverá prestar, no Siscomex, as informações a que se refere o Anexo II da Portaria Interministerial MF/Mict no 291, de 12 de dezembro de 1996, previamente ao embarque da mercadoria no exterior. A diferença é sutil, e a nova classificação, a nosso ver, é adequada ao “Acordo sobre Procedimentos para o Licenciamento de Importações”. Só há que se falar em licenciamento se houver “pedido”, e o licenciamento será “automático” se o pedido é aprovado em todos os casos, com as ressalvas previstas no acordo, e será “não automático” se depender de análise, observandose também a disciplina do acordo. Mas, na prática, revelese que o que acontece, no Brasil, é que passam a ser chamados de “dispensados” os licenciamentos que antes eram denominados de “automáticos” (ou, ao menos, a maioria deles). Vejase que só culminam, hoje, em um número de licença a constar na DI os licenciamentos “automáticos” e “nãoautomáticos”. Antes de 2003, só culminavam em um número de licença a constar na DI os licenciamentos “nãoautomáticos”. Tal distinção é relevante, a nosso ver, pois não se pode imputar falta de licença a quem sequer deveria obter licença, ou seja, a quem sequer deveria passar por um procedimento de licenciamento que culminaria em um número de licença. Esses esclarecimentos aplicamse à análise da jurisprudência. Por óbvio, quando se falava em “licenciamento automático” em 1997, tratavase de algo distinto daquilo que se passou a entender como “licenciamento automático” após 2003. Feitas essas observações preliminares, é preciso retomar a narrativa dos fatos do presente processo, no qual, destaquese, já não se discute a classificação das mercadorias. A imputação fiscal para aplicação da multa por falta de licença, já à luz da Portaria SECEX no 17/2003, transcrita à fl. 15. É incontroversa ainda a informação constante ao início da fl. 16 da autuação, de que a mercadoria estava sujeita a licenciamento nãoautomático. A defesa não questiona tal Fl. 184DF CARF MF 8 informação, mas confunde registro no órgão competente (MAPA) com licença de importação, documentos distintos apresentados junto a diferentes órgãos da administração, com diferentes finalidades, atendendo a requisitos diferenciados. Destaquese que o fato de o laudo técnico em relação à mercadoria remeter alguns tópicos ao MAPA não significa que o registro do produto possa suprir a licença de importação, que, como exposto, é documento nitidamente sujeito a regras e requisitos distintos. Relevante ainda destacar que a declaração de importação (DI) foi registrada em 14/01/2004, ou seja, já na classificação tripartida, sendo igualmente incontroverso que a empresa não possuía licença de importação para a mercadoria submetida a despacho, como se vê no extrato da DI (fl. 31): Caso houvesse licença, seu número deveria aparecer logo abaixo da “adição”, no SISCOMEX. De qualquer modo, o raciocínio externado pelo julgador de piso no sentido de que “novo” licenciamento, automático ou não, quer dizer “nova” licença, é incoerente com a evolução dos textos no tempo, aqui demonstrada. À época da edição do ADN COSIT no 12/1997 a expressão “licenciamento, automático ou não” abrangia tanto as mercadorias com licença de importação (LI) quanto as sem licença, sendo a distinção efetuada somente em 2003, como exposto. Entendo, assim, que a argumentação da DRJ, além de inovadora em relação à autuação, faz leitura em descompasso com a evolução terminológica na legislação, e seu impacto no ADN COSIT no 12/1997, devendo ser afastada. Até concordo com a linha de raciocínio do julgador, com algumas aparas, se esquecido o texto do ADN, que fala em “licenciamento”. Por certo que uma mercadoria que sequer tenha licença de importação, reclassificada para código NCM que exija a referida licença, está, em regra, cometendo grave infração, a culminar a referida multa. Mas uma mercadoria, v.g., que tenha licença de importação, e reclassificada para código NCM que exija outra licença, atrelada a anuente distinto, não estaria em situação idêntica? Ou seja, o simples fato de ter ou não licença para a classificação incorreta é pouco relevante diante do fato de não ter licença para a classificação correta. Daí o texto do ADN privilegiar circunstâncias outras que não a mera existência de “licença” na classificação incorretamente adotada. Voltando à autuação, vejase que a razão para a manutenção da multa, mesmo diante do ADN COSIT no 12/1997, foi a seguinte (fl. 16): Fl. 185DF CARF MF Processo nº 11128.008282/200839 Acórdão n.º 3401005.288 S3C4T1 Fl. 182 9 A defesa sustenta, em relação ao tema, que a descrição da mercadoria não foi “inexata”, e que conteve todos os elementos necessários ao enquadramento pleiteado. E adiciona que teria o julgador de piso concordado com isso. O único excerto do voto do julgador de piso em que vejo vestígios de tal concordância se encontra à fl. 123: “Voltando ao caso em tela, ainda que se possa considerar que a descrição dos produtos, constantes dos itens 01 a 05 da adição 001 da Declaração de Importação (DI) nº 04/0.037.5227, seja suficiente para a sua classificação, verificase que a contribuinte não obteve nenhum licenciamento de importação anterior que lhe permita, então, passar à análise do cabimento do ADN Cosit nº 12/97. Isto porque a classificação por ela eleita – 2942.00.90 – não exigia nenhum licenciamento.” (grifo nosso) Nada mas fala o julgador de piso sobre a descrição dos produtos (se exata ou inexata), limitandose a adicionar ainda à autuação dúvidas em relação à boafé do autuado (também ausentes no lançamento), ainda à fl. 123: “Aliás, é de se indagar a respeito da alegada boafé da contribuinte ao escolher a classificação fiscal indevida, a qual não exigiu licenciamento na importação, uma vez que demonstra ter plena ciência de que os ingredientes e aditivos para alimentação animal devem ser registrados no MAPA e observar a legislação vigente.” Caso o julgador de piso tenha, de fato, entendido como exata e suficiente a descrição da mercadoria (é o que também nos parece do excerto transcrito), na prática, o que fez foi afastar as razões de autuação e a elas adicionar as suas, em uma espécie de lançamento complementar, que escapa à competência de julgador. Caso o julgador de piso tenha também entendido como inexata/insuficiente a descrição da mercadoria, teria faltado tal fundamentação à decisão, o que ensejaria nulidade da decisão por cerceamento do direito de defesa (art. 59, I do Decreto no 70.235/1972). De qualquer forma, seguindo o comando do art. 59, § 3o, do Decreto no 70.235/1972, “quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta”. Fl. 186DF CARF MF 10 Analiso, assim, se as mercadorias estavam, como prescreve o ADN COSIT no 12/1997, corretamente descritas, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado. Eis o único tema que resta a discutir, pois imputado na autuação. Na DI, as mercadorias foram descritas da seguinte forma (fl. 31): Vejase que em todas as descrições resta claro que a mercadoria se destina a alimentação animal, e em todas há o nome comercial do produto e o registro no Ministério competente, que permitem, inclusive, classificação sem necessidade de exame das mercadorias (vejase que a própria perícia utiliza, para a classificação, a literatura técnica – fichas técnicas dos produtos pelo nome comercial), a menos que se suspeite que o produto importado não é o declarado (o que não ocorre no presente processo). Observese, ainda, pelos quesitos formulados, que o laudo não afirma estar inexata nenhuma afirmação constante na descrição aqui transcrita (fl. 32): Em nenhuma das respostas do perito (fls. 34 a 49) se informa que a mercadoria não corresponde a aditivo antioxidante, fungistático ou acidificante, limitandose a perícia a atestar que “não se trata de composto orgânico de constituição química definida”, mas de “preparação do tipo utilizada na alimentação animal”. Ou seja, a perícia não afasta a descrição, mas apenas a classificação adotada. A descrição, a nosso ver, é correta e suficiente, pois permite o enquadramento do produto. Aliás, a resposta ao enquadramento, por parte do perito, invocou exatamente sua ficha técnica, obtida pelo nome comercial (fls. 35, 38, 41, 44 e 48): Fl. 187DF CARF MF Processo nº 11128.008282/200839 Acórdão n.º 3401005.288 S3C4T1 Fl. 183 11 Assim, é improcedente a autuação, no que se refere à aplicação da multa por falta de licença de importação, pois seu fundamento jurídico (descrição inexata/insuficiente, impedindo a aplicação do ADN COSIT no 12/1997) não encontra respaldo nos documentos acostados ao processo. Em relação aos demais itens da autuação, sequer questionados pela defesa, permanece hígido o lançamento. Como não há, nos autos, registro de que tenha sido pago ou apartado do presente contencioso o montante referente a tais rubricas, registrese que o provimento que aqui se dá é parcial, restrito à multa por falta de licença de importação. Pelo exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso, para afastar do lançamento a multa por falta de licença de importação. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 188DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12644.000155/2008-15
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 22 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 04/02/1999
CARGAS MANIFESTADAS E NÃO LOCALIZADAS.
São consideradas extraviadas as cargas manifestadas e não localizadas, sobre elas sendo lícito aplicar os tributos, bem como eventuais juros de mora e multas.
RESPONSABILIDADE DO TRANSPORTADOR PELOS TRIBUTOS DEVIDOS SOBRE OS PRODUTOS EXTRAVIADOS.
Para efeitos fiscais o transportador é responsável pelo extravio de volumes constantes em manifesto de carga.
MATÉRIAS NÃO ALEGADAS NA IMPUGNAÇÃO. PRECLUSÃO.
É vedado inovar na postulação recursal para incluir matérias diversas daquelas anteriormente deduzidas quando da impugnação do lançamento fiscal. À exceção de matérias de ordem pública, estão preclusas as questões arguidas somente na fase recursal.
Numero da decisão: 3302-006.024
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer, parcialmente, do recurso voluntário e, na parte conhecida, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Deroulede - Presidente
(assinado digitalmente)
José Renato Pereira de Deus - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Deroulede (Presidente), Vinicius Guimarães (Suplente Convocado), Walker Araujo, Orlando Rutigliani Berri (Suplente Convocado), Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad.
Nome do relator: JOSE RENATO PEREIRA DE DEUS
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São consideradas extraviadas as cargas manifestadas e não localizadas, sobre elas sendo lícito aplicar os tributos, bem como eventuais juros de mora e multas. RESPONSABILIDADE DO TRANSPORTADOR PELOS TRIBUTOS DEVIDOS SOBRE OS PRODUTOS EXTRAVIADOS. Para efeitos fiscais o transportador é responsável pelo extravio de volumes constantes em manifesto de carga. MATÉRIAS NÃO ALEGADAS NA IMPUGNAÇÃO. PRECLUSÃO. É vedado inovar na postulação recursal para incluir matérias diversas daquelas anteriormente deduzidas quando da impugnação do lançamento fiscal. À exceção de matérias de ordem pública, estão preclusas as questões arguidas somente na fase recursal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer, parcialmente, do recurso voluntário e, na parte conhecida, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Deroulede Presidente (assinado digitalmente) José Renato Pereira de Deus Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 64 4. 00 01 55 /2 00 8- 15 Fl. 152DF CARF MF Processo nº 12644.000155/200815 Acórdão n.º 3302006.024 S3C3T2 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Deroulede (Presidente), Vinicius Guimarães (Suplente Convocado), Walker Araujo, Orlando Rutigliani Berri (Suplente Convocado), Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad. Relatório Por bem descrever os fatos, transcrevo e adoto o relatório do acórdão nº 16 060.599, da 11ª Turma da DRJ/SPO, proferido na sessão de 21 de agosto de 2014: Tratam os autos de notificação de lançamento (fl. 2 e ss), no valor de R$ 12.164,30, decorrente de procedimento de vistoria aduaneira que resultou na cobrança dos tributos incidentes sobre a importação e multa prevista pelo art. 628, III, “d”, do Regulamento Aduaneiro (Decreto nº 4.543/2002), em razão do extravio de mercadorias amparadas pelo conhecimento aéreo AWB 549 1207 2605. Conforme consta do Relatório do Termo de Vistoria (fls. 8 e ss), à vista dos documentos juntados ao processo, constatase que a carga chegou ao Aeroporto Internacional de Viracopos em 21/09/2007, termo de entrada 070041997, sendo informado no sistema MANTRA pela transportadora, a quantidade de 194 (cento e noventa e quatro) volumes, pesando 1.887,00 kgs, com tratamento de carga 2 — TC2 (conexão imediata nacional). A DTA registrada 07/03849018, com número da Invoice 101262, foi parametrizada para o canal vermelho e em verificação física constatouse que a fatura descrevia 102 videogames WII system Nintendo, e na realidade havia 90 WII system Nintendo e 794 playstation II não descritos na fatura. Posteriormente foi apresentada a Invoice 10788B, relacionando 800 unidades do vídeo game playstation II. Tal fatura não estava descrita no conhecimento aéreo. Indeferiuse a DTA 07/03849018 pela perda da espontaneidade e fatura em desacordo com o conteúdo da carga. A vistoria aos 189 volumes apresentados, resultou na falta de 10 PLAYSTATION II e de 09 WII SYSTEM NINTENDO, sendo atribuída responsabilidade pelo extravio ao transportador aéreo, empresa ABSA. Cientificada da notificação de lançamento em 05/092008 (fls. 2), a autuada apresentou impugnação em 12/09/2006 (fls. 38 e ss), alegando em síntese que: Em 21.09.2007 desembarcou no ALF/Viracopos a mercadoria amparada pelo conhecimento aéreo AWB 549 1207 2605, através de vôo TUS 843; Fl. 153DF CARF MF Processo nº 12644.000155/200815 Acórdão n.º 3302006.024 S3C3T2 Fl. 4 3 A carga estava consolidada em um total de 194 volumes com 1887,00 quilos, contendo unidades de vídeo game PLAYSTATION II e WII SYSTEM NINTENDO. Conforme consta no sistema MANTRA a mercadoria estava sob tratamento de carga 2 TC2, ou seja, conexão imediata nacional, sendo a mesma, tão pronto desembarcada, encaminhada ao Terminal de Cargas da INFRAERO para sua armazenagem. Inexplicavelmente 5 volumes de carga simplesmente desapareceram. Atribui responsabilidade pelo extravio à infraero, uma vez que esta opera com monopólio absoluto da administração dos aeroportos brasileiros, inclusive nos Terminais de Cargas Aéreas. Ressalta que a INFRAERO não disponibiliza espaço seguro ou fechado no interior do seu armazém, tampouco permite que as transportadoras coloquem câmeras particulares de segurança ou que contratem pessoal de segurança terceirizado, que não seja da própria INFRAERO. Uma vez demonstrado que a negligência da INFRAERO em relação à segurança do TECA viola frontalmente o principio constitucional da "eficiência", merece a mesma ser responsabilizada no caso em debate. Entende que se a mercadoria deu entrada no Terminal de Cargas, conforme consta no TECAPLUS e ali desapareceu, tal fato devese única e exclusivamente a INFRAERO, posto restar evidente que esta transportadora em nada contribuiu para com a ocorrência do evento danoso. Avoca o artigo 20 da Convenção de Varsóvia, legislação aplicável ao transporte aéreo internacional, prevê que “o transportador não será responsável se provar que tomou e tomaram os seus prepostos todas as medidas necessárias para que não produzisse o dano, ou que lhes não foi possível tomá las”. Junta jurisprudência Ao final requer a improcedência da ação É o relatório No acórdão do qual foi retirado o relatório acima, por unanimidade de votos, foi julgada improcedente a impugnação realizada pela contribuinte, mantendose o crédito tributário apurado, sendo traduzido na seguinte emenda: Assunto: Imposto sobre a Importação II Data do fato gerador: 21/09/2007 VISTORIA ADUANEIRA. EXTRAVIO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA Fl. 154DF CARF MF Processo nº 12644.000155/200815 Acórdão n.º 3302006.024 S3C3T2 Fl. 5 4 Atribuise ao transportador a responsabilidade pelos tributos e multa incidentes sobre o extravio de mercadoria desembarcada não destinada a armazenamento, conforme os registros do sistema MANTRA. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Inconformada com a r. decisão acima transcrita a contribuinte interpôs recurso voluntário onde inova em suas razões sem qualquer justificativa, trazendo tópicos não tratados em sua impugnação, repetindo alguns argumentos trazidos na peça de defesa, requerendo ao final, novamente, a total procedência de seu apelo. É o relatório. Voto Conselheiro José Renato Pereira de Deus, Relator: I Da Preclusão Matérias não alegadas na impugnação Conforme relatado acima a recorrente, sem apresentar qualquer razão que pudesse dar guarida a sua pretensão, inovou em seu recurso voluntário, trazendo para a discussão matérias que não foram objeto de impugnação. Alega que estaria evidenciada a nulidade do procedimento fiscal por não ter ocorrido a apuração do extravio da carga, ilegalidade na imposição tributária, nulidade na apuração do foto gerador da obrigação tributária, entrega dos volumes ao depositário e presunção de boafé que afastariam a multa. No entanto, referida alegação não figura da peça impugnatória, sendo certo que essa é a primeira oportunidade que a recorrente trata do assunto. No mesmo sentido encontramse as alegações relacionadas à suposta ausência de prova quanto ao extravio, que sequer são acompanhadas de documentos ou mesmo apontamento de fatos concretos que poderiam em tese comprovar a mencionada nulidade. Analisando o caderno processual, pude apurar que as alegações trazidas pelo recorrente não podem prosperar, em primeiro lugar porque não traz prova nenhuma quanto as suas alegações e, em segundo lugar, porque entendo como preclusas essas alegações, pois, como dito anteriormente, não foram objeto, oportunamente, da impugnação ao lançamento. Visando delimitar a matéria objeto do julgamento, observese que a interposição de recurso voluntário transfere ao órgão ad quem, o reexame da matéria impugnada. Assim, o recurso não devolve a instancia superior o conhecimento da matéria não contestada quando da impugnação do lançamento. É exatamente esse o sentido o disposto no art. 17 do Decreto 70.235/72, vejamos: "Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante." Fl. 155DF CARF MF Processo nº 12644.000155/200815 Acórdão n.º 3302006.024 S3C3T2 Fl. 6 5 Desta forma, podemos concluir que a norma quer nos trazer a disposição de que não é permitido inovar na postulação recursal para incluir matérias diversas daquelas anteriormente deduzidas. No caso, por hipótese, de ser permitida tal postulação estaríamos diante de afronta do princípio do duplo grau de jurisdição, havendo por conseguinte a supressão de instância o que não é permitido pela legislação que rege a matéria. Desta feita, considerando a inovação realizada pela recorrente, que trouxe na peça recursal matérias outrora não levadas ao debate na oportunidade da impugnação, fato esse que nos leva a afirmar que houve preclusão quanto a tais matérias, delas não tomo conhecimento. II Da suposta Responsabilidade da INFRAERO Segundo o entendimento da recorrente, a responsabilidade relacionada ao extravio das mercadorias deveria ser imputada à INFRAERO, pois a carga logo que desembargada teria sido entregue ao depositário. No entanto, em que pese seus argumentos, não houve a juntada de qualquer prova que pudessem embasar suas alegações. Pois bem. Ferramenta de controle aduaneiro, o MANTRA, é um sistema informatizado, onde, dentre outras previsões, encontramos a disciplina dos procedimentos de controle de cargas aéreas procedentes do exterior. A alimentação do MANTRA com as informações das cargas provenientes do exterior é de responsabilidade do importador, devendo ser feita previamente à chegada do veículo em que é realizado o transporte e dirigida à unidade da RFB responsável pela jurisdição do local do desembarque. Ressaltase que em casos específicos, previsto no regulamento do MANTRA, é garantido ao importador promover informações complementares, na hipótese de se verificar a necessidade de correções quanto a quantidade dos produtos importados, por exemplo. No caso em apreço não houve qualquer informação de incorreção ou inexatidão dos produtos por parte da recorrente, que repitase, segundo a legislação pertinente é a responsável pela alimentação do MANTRA com as informações da importação. Contradizendo as alegações da recorrente, os documentos carreados aos autos dão conta de que a carga importada destinavase a trânsito imediato, não sendo objeto de armazenamento e, por conseguinte, impossível a tentativa de responsabilização da INFRAERO pelo extravio das mercadorias. O fato de a averiguação de extravio ter ocorrido somente 1 (um) ano após da descarga dos volumes, não serve como razão para a responsabilização da INFRAERO pelo desaparecimento das mercadorias. Vale ressaltar que a INFRAERO, conforme se depreende do relato de fls 36/37, armazenou 189 volumes, como o peso total de 1801kg. Tal informação não foi Fl. 156DF CARF MF Processo nº 12644.000155/200815 Acórdão n.º 3302006.024 S3C3T2 Fl. 7 6 questionada pela recorrente e evidencia que quando do extravio dos volumes, os produtos estavam sob sua responsabilidade. Assim, inadmissível é a tentativa de responsabilização do depositário na presente demanda, simplesmente pelo fato que os volumes extraviados não terem permanecido sob sua responsabilidade. Vale lembrar que há a previsão expressa de sua responsabilidade na Norma (art. 593, Decreto nº 4.543/2002), quando determina que o depositário responde por avaria ou por extravio de mercadoria sob sua custódia. Por todo o exposto pelos documentos trazidos ao presente caderno processual, e digase de passagem, não contraditados pela recorrente, a mercadoria devidamente manifestada e informada junto ao MANTRA, não foi encontrada quando da realização da descarga, sendo certo que nesses casos a responsabilidade fica carg do transportador. Vejamos o que dispõe o Decreto nº 4.543/2002, quando trata do assunto em análise: “Art. 591. A responsabilidade pelo extravio ou pela avaria de mercadoria será de quem lhe deu causa, cabendo ao responsável, assim reconhecido pela autoridade aduaneira, indenizar a Fazenda Nacional do valor do imposto de importação que, em conseqüência, deixar de ser recolhido, ressalvado o disposto no art. 586 (Decretolei no 37, de 1966, art. 60, parágrafo único). Art. 592. Para efeitos fiscais, é responsável o transportador quando houver (Decretolei no 37, de 1966, art. 41): (...) VI extravio, constatado na descarga, de volume ou de mercadoria a granel, manifestados. Art. 595. A autoridade aduaneira, ao reconhecer a responsabilidade nos termos do art. 591, verificará se os elementos apresentados pelo indicado como responsável demonstram a ocorrência de caso fortuito ou força maior que possa excluir a sua responsabilidade.” Desta forma, por todo o acima exposto, em conjunto com a análise de todo o conjunto probatório, podemos verificar não haver guarida às alegações trazidas pela recorrente, permanecendo sob a sua responsabilidade o extravio da carga transportada. III Conclusão Por todo o exposto, voto no seguinte sentido, conhecer em parte do recurso voluntário, no entanto, na parte conhecida negarlhe provimento. É como voto. (assinado digitalmente) José Renato Pereira de Deus Relator. Fl. 157DF CARF MF Processo nº 12644.000155/200815 Acórdão n.º 3302006.024 S3C3T2 Fl. 8 7 Fl. 158DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16643.720021/2011-81
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jul 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 27 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2006, 2007
ACORDO DE BITRIBUTAÇÃO. ART. 7º. LUCROS NO EXTERIOR. IMPOSSIBILIDADE DE INOVAÇÃO DO LANÇAMENTO.
No caso de a autoridade fiscal ter reconhecido a incidência do acordo de bitributação, a sua aplicação deve ser realizada de forma consistente. Impossibilidade de inovação de lançamento pelo afastamento do tratado.
TRIBUTAÇÃO DE LUCROS NO EXTERIOR. EXERCÍCIO FISCAL DA EMPRESA ESTRANGEIRA.
Sendo distintos os exercícios fiscais, devem ser adicionados à base de cálculo do IRPJ e CSLL, em 31/12 de um determinado exercício, os lucros apurados conforme o exercício fiscal disciplinado pela legislação estrangeira.
Numero da decisão: 9101-003.664
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no me´rito, em negar-lhe provimento. Votaram pelas concluso~es os conselheiros Fla´vio Franco Corre^a, Viviane Vidal Wagner, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado), Demetrius Nichele Macei e Rafael Vidal de Arau´jo. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no me´rito, (i) por unanimidade de votos, em dar-lhe provimento em relac¸a~o ao ano-calenda´rio 2006 e, (ii) por maioria de votos, em dar-lhe provimento parcial em relac¸a~o ao ano-calenda´rio 2007, para excluir o lucro auferido no quarto trimestre deste ano, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa e Gerson Macedo Guerra. Manifestou intenc¸a~o de apresentar declarac¸a~o de voto a conselheira Cristiane Silva Costa. Entretanto, findo o prazo regimental, a Conselheira não apresentou a declaração de voto, que deve ser tida como não formulada, nos termos do §7, do art. 63, do Anexo II, da Portaria MF n. 343/2015 (RICARF). Nos termos do Art. 58, §5, Anexo II do RICARF, o conselheiro Demetrius Nichele Macei na~o votou quanto ao conhecimento dos recursos, por se tratar de questa~o ja´ votada pelo conselheiro Jose´ Eduardo Dornelas Souza na reunia~o anterior.
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Arau´jo - Presidente em exercício.
(assinado digitalmente)
Luís Flávio Neto - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Fla´vio Franco Corre^a, Cristiane Silva Costa, Viviane Vidal Wagner, Luis Fla´vio Neto, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado), Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei, Rafael Vidal de Arau´jo (Presidente em Exerci´cio). Ausente, justificadamente, o conselheiro Andre´ Mendes Moura, substitui´do pelo conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto.
Nome do relator: LUIS FLAVIO NETO
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camara_s : 1ª SEÇÃO
ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2006, 2007 ACORDO DE BITRIBUTAÇÃO. ART. 7º. LUCROS NO EXTERIOR. IMPOSSIBILIDADE DE INOVAÇÃO DO LANÇAMENTO. No caso de a autoridade fiscal ter reconhecido a incidência do acordo de bitributação, a sua aplicação deve ser realizada de forma consistente. Impossibilidade de inovação de lançamento pelo afastamento do tratado. TRIBUTAÇÃO DE LUCROS NO EXTERIOR. EXERCÍCIO FISCAL DA EMPRESA ESTRANGEIRA. Sendo distintos os exercícios fiscais, devem ser adicionados à base de cálculo do IRPJ e CSLL, em 31/12 de um determinado exercício, os lucros apurados conforme o exercício fiscal disciplinado pela legislação estrangeira.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no me´rito, em negar-lhe provimento. Votaram pelas concluso~es os conselheiros Fla´vio Franco Corre^a, Viviane Vidal Wagner, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado), Demetrius Nichele Macei e Rafael Vidal de Arau´jo. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no me´rito, (i) por unanimidade de votos, em dar-lhe provimento em relac¸a~o ao ano-calenda´rio 2006 e, (ii) por maioria de votos, em dar-lhe provimento parcial em relac¸a~o ao ano-calenda´rio 2007, para excluir o lucro auferido no quarto trimestre deste ano, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa e Gerson Macedo Guerra. Manifestou intenc¸a~o de apresentar declarac¸a~o de voto a conselheira Cristiane Silva Costa. Entretanto, findo o prazo regimental, a Conselheira não apresentou a declaração de voto, que deve ser tida como não formulada, nos termos do §7, do art. 63, do Anexo II, da Portaria MF n. 343/2015 (RICARF). Nos termos do Art. 58, §5, Anexo II do RICARF, o conselheiro Demetrius Nichele Macei na~o votou quanto ao conhecimento dos recursos, por se tratar de questa~o ja´ votada pelo conselheiro Jose´ Eduardo Dornelas Souza na reunia~o anterior. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Arau´jo - Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Fla´vio Franco Corre^a, Cristiane Silva Costa, Viviane Vidal Wagner, Luis Fla´vio Neto, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado), Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei, Rafael Vidal de Arau´jo (Presidente em Exerci´cio). Ausente, justificadamente, o conselheiro Andre´ Mendes Moura, substitui´do pelo conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto.
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Recorrentes MARFRIG GLOBAL FOODS S.A. FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006, 2007 ACORDO DE BITRIBUTAÇÃO. ART. 7º. LUCROS NO EXTERIOR. IMPOSSIBILIDADE DE INOVAÇÃO DO LANÇAMENTO. No caso de a autoridade fiscal ter reconhecido a incidência do acordo de bitributação, a sua aplicação deve ser realizada de forma consistente. Impossibilidade de inovação de lançamento pelo afastamento do tratado. TRIBUTAÇÃO DE LUCROS NO EXTERIOR. EXERCÍCIO FISCAL DA EMPRESA ESTRANGEIRA. Sendo distintos os exercícios fiscais, devem ser adicionados à base de cálculo do IRPJ e CSLL, em 31/12 de um determinado exercício, os lucros apurados conforme o exercício fiscal disciplinado pela legislação estrangeira. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negarlhe provimento. Votaram pelas conclusões os conselheiros Flávio Franco Corrêa, Viviane Vidal Wagner, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado), Demetrius Nichele Macei e Rafael Vidal de Araújo. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, (i) por unanimidade de votos, em darlhe provimento em relacã̧o ao anocalendário 2006 e, (ii) por maioria de votos, em darlhe provimento parcial em relação ao anocalendário 2007, para excluir o lucro auferido no quarto trimestre deste ano, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa e Gerson Macedo Guerra. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Cristiane Silva Costa. Entretanto, findo o prazo regimental, a Conselheira não apresentou a declaração de voto, que deve ser tida como não formulada, nos termos do §7, do art. 63, do Anexo II, da Portaria MF n. 343/2015 (RICARF). Nos termos do Art. 58, §5, Anexo II do RICARF, o conselheiro Demetrius Nichele Macei não votou quanto AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 64 3. 72 00 21 /2 01 1- 81 Fl. 2573DF CARF MF 2 ao conhecimento dos recursos, por se tratar de questão já votada pelo conselheiro José Eduardo Dornelas Souza na reunião anterior. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Flávio Franco Corrêa, Cristiane Silva Costa, Viviane Vidal Wagner, Luis Flávio Neto, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado), Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei, Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro André Mendes Moura, substituído pelo conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Relatório Tratase de recurso especial interposto por MARFRIG GLOBAL FOODS S.A., bem como pela Procuradoria da Fazenda Nacional, em face do acórdão n. 1402 002.388 (doravante “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”), proferido pela então 2a Turma Ordinária, 4a Câmara, 1a Seção (doravante “Turma a quo”). O caso trazido a esta e. CSRF diz respeito à suposta falta de adição à base de cálculo do IRPJ e da CSLL de lucros auferidas por empresas controladas pela recorrente residentes no exterior, em face da aplicação do art. 74 da MP 2.158. Em relação à tributação dos lucro auferidos pela empresas controladas direta “Argentine, Breeders & Packers (AB&P)”, bem como pela controlada indireta “Quick Food”, ambas residentes na Argentina, discutese a aplicação do acordo de bitributação celebrado entre o Brasil e a Argentina (Decreto n. 87.976/82). O voto vencedor do acórdão recorrido, do i. Conselheiro Caio Cesar Nader Quintella, assim decidiu sobre a questão: “Especificamente em relação aos lucros da empresa QUICK FOODS, temos que o procedimento de desconsideração da companhia controladora interposta (holding), a HORIZON, localizada Delaware (EUA), considerandoa ente totalmente translúcido, não pode afetar as relações jurídicas remanescentes após essa manobra excepcional, vez que, per si, estão livres e desvinculadas das características utilizadas para fundamentar o afastamento daquela outra pessoa jurídica. Assim, retirando a HORIZON (Delaware) da cadeia societária internacional, o que temos sob análise é uma legítima relação societária direta, entre a empresa brasileira, ora Recorrente, e sua controlada situada na Argentina. Em relação à empresa AB & P, não há necessidade qualquer ponderação ou consideração especial, vez que tratase simplesmente de controlada direta, situada na Argentina.” Em relação à tributação dos lucro auferidos pelas empresas controladas diretas “Tacuarembo” e “Inaler”, ambas residentes no Uruguai, a discussão é diversa, pois não há acordo de bitributação celebrado entre o Brasil e o Uruguai. Fl. 2574DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 752 3 A DRJ julgou parcialmente procedente a impugnação apresentada pelo contribuinte procedente, com o consequente cancelamento do auto de infração. No entanto, a Turma a quo decidiu dar provimento parcial ao recurso de ofício, proferindo acórdão assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006, 2007 LUCROS OBTIDOS POR CONTROLADA NO EXTERIOR. DISPONIBILIZAÇÃO PARA CONTROLADORA NO BRASIL. MEDIDA PROVISÓRIA No 2.15835/01. EMPRESAS NO URUGUAI. Para fim de determinação da base de cálculo do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica IRPJ e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL, os lucros auferidos por controlada no exterior são considerados disponibilizados para a controladora no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados. Disciplina conferida pelo art. 25, da Lei no 9.249/95, c/c art. 74 da MP no 2.15835/01. COMPENSAÇÃO DE TRIBUTOS PAGOS NO EXTERIOR. Os comprovantes dos tributos pagos no exterior devem estar à disposição da fiscalização imediatamente após o encerramento dos respectivos exercícios a que se referem. Em não havendo nos autos nenhuma razão que justifique, a teor do art. 16, § 4o, do Decreto no 70.235/72, a impossibilidade de sua apresentaçaõ no tempo devido, cumulada com a ausência de fumus boni juris de que os mesmos seriam capazes de comprovar o alegado recolhimento do imposto, para efeito de compensaca̧õ, impõese a sua rejeica̧õ para tal desiderato. Acresçase a exigência do necessário reconhecimento do respectivo órgão arrecadador no exterior, sua consularizaçaõ na reparticã̧o brasileira, cumulada com a traduçaõ por tradutor juramentado. LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR POR INTERMÉDIO DE SOCIEDADE CONTROLADA. ADIÇAÕ DOS RESULTADOS NA INVESTIDORA BRASILEIRA. No julgamento da ADI 2.588/DF, em relação à constitucionalidade da aplicacã̧o do art. 74 da MP no 2.158/01 aos lucros auferidos por empresa controlada, situada fora de paraísos fiscais ou de países com tributaçaõ favorecida, não houve a apreciaçaõ necessária da matéria para promover o resultado típico dessa Ação, capaz de produzir efeitos erga omnes. LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR POR INTERMÉDIO DE SOCIEDADE CONTROLADA LOCALIZADA NA ARGENTINA. EXISTÊNCIA DE CONVENÇÃO DESTINADA A EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇAÕ. IDENTIDADE. APLICAÇAÕ DO ART.7. O art. 74 da MP no 2.158/01 tem efeito de norma CFC por considerar transparente as controladas e coligadas no exterior, mas não possui a sua finalidade típica, antiabusiva, específica e excepcional, o que permitiria sua aplicação em harmonia com as disposições das normas internacionais, firmadas com o intuito de se evitar a dupla tributacã̧o. A hipótese de tributação delineada pelo art. 25 da Lei no 9.249/95, em comunhão com a disposicã̧o do art. 74 da MP no 2.158/01, atrai e confirma a inciden̂cia do art. 7o da Convenção firmada entre Brasil e Argentina, sendo norma de bloqueio, afastando a legislaçaõ doméstica, prevalecendo o disposto no pacto internacional, como previsto no comando do art. 98 do CTN, reiteradamente confirmado pelo E. STJ. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2006, 2007 Fl. 2575DF CARF MF 4 TRATADO BRASILARGENTINA PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇAÕ. APLICAÇÃO À CSLL. DISPOSIÇÃO NORMATIVA EXPRESSA. A norma interpretativa contida no art. 11 da Lei no 13.202/15 (modalidade que guarda eficácia retroativa) expressamente estende à referida Contribuição Social as disposições dos Acordos e Convenções internacionais para se evitar a dupla tributacã̧o. A PFN interpôs recurso especial, no qual requer a reforma do acórdão na parte em que lhe foi desfavorável. Alega a PFN que o acórdão a quo teria reconhecido a incidência do acordo BrasilArgentina para afastar a incidência do art. 74 da MP 2.158, o que divergiria do entendimento adotado por outras Turmas deste Tribunal (efls. 2179 e seg.). O referido recurso foi integralmente admitido por despacho (efls. 2274 e seg.). O contribuinte apresentou contrarrazões, em que requer não seja conhecido o recurso especial interposto pela PFN e, se admitido, requer o seu não provimento (efls. 2297 e seg.). Por sua vez, o contribuinte também interpôs recurso especial, especialmente no que diz respeito ao tema do exercício fiscal das empresas sediadas no Uruguai. A Turma a quo teria entendido que haveria dois critérios distintos para tratar da apuração e demonstração do lucro auferido por empresa sediada no exterior: (i) se empresas coligadas, estas deveriam observar o exercício fiscal da empresa estrangeira; (ii) se empresas controladas, estas deveriam observar o exercício fiscal brasileiro. No entanto, alega o contribuinte que esse entendimento diverge do que vem sendo decidido por outras Turmas deste Tribunal (efls. 2380 e seg.). O referido recurso foi integralmente admitido por despacho (efls. 2557 e seg.). A PFN apresentou contrarrazões ao recurso especial, nas quais, embora não se oponha ao conhecimento do recurso especial do contribuinte, requer lhe seja negado provimento. Concluise, com isso, o relatório. Voto Conselheiro Luís Flávio Neto, Relator Conhecimento Em sede de contrarrazões, o contribuinte se opõe ao conhecimento do recurso especial interposto pela PFN, nos seguintes termos: “Inicialmente, é preciso consignar que o inconformismo fazendário é claramente incognoscível, eis que não preenche os requisitos de admissibilidade. Deveras, apesar de o citado Acórdão Paradigma (Acórdão n. 1301002.158) ter sido formado em Processo de interesse da própria ora Recorrida, o fato é que os lanca̧mentos discutidos nos dois feitos são manifestamente diversos, razão pela qual os Colegiados – que em verdade têm o mesmo entendimento quanto ao tema de fundo – chegaram a tais conclusões aparentemente conflitantes. Com efeito, é absolutamente estreme de dúvidas que tanto a Turma a qua (2a Turma da 4a Câmara da 1a Seção) quanto a Turma prolatora do Paradigma (1a Turma da 3a Câmara da 1a Seção) têm uníssono posicionamento segundo o qual o Tratado BrasilArgentina para Evitar Dupla Tributacã̧o não tem o condão Fl. 2576DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 753 5 de afastar exigências de IRPJ e CSLL sobre os lucros auferidos por controladas argentinas. A única razão pela qual a r. Turma Recorrida houve por bem afastar as exigências de IRPJ e CSLL sobre os lucros auferidos por investidas argentinas reside no fato de que, no caso concreto, a PLENA APLICABILIDADE DA CONVENÇÃO FOI ADMITIDA COMO PREMISSA PELA PRÓPRIA AUTORIDADE AUTUANTE, não sendo dado a órgãos julgadores modificar os critérios do lançamento formalizado por autoridade competente. Noutros termos, não há que se falar em legislaca̧õ tributária interpretada de forma divergente por dois colegiados do CARF, muito pelo contrário. Realmente, caso o processo em epígrafe encerrasse típicas autuações de IRPJ e CSLL sobre lucros auferidos por controladas argentinas, então não há dúvidas de que o Colegiado Recorrido teria mantido os lançamentos fiscais, sendo certo que o argumento do Tratado seria insuficiente para o cancelamento das exigências fiscais. Nada obstante, em razão de aspectos particularíssimos dos lanca̧mentos encerrados neste processo, a Colenda Turma acabou por afastar as exigências sobre os lucros auferidos pelas empresas argentinas, conclusão que se mostrou necessária a despeito do sedimentado entendimento do Colegiado quanto à possibilidade de exigências de IRPJ e CSLL sobre lucros auferidos por investidas sitas em países com os quais o Brasil mantém Acordos para evitar a bitributação (Modelo OCDE). (...)” Compulsando os acórdãos paradigmas e recorrido, não é possível alcançar a conclusão exposta pelo contribuinte. Ocorre que o acórdão recorrido despendeu toda a sua argumentação no sentido de que a Convenção BrasilArgentina impediria a aplicação do art. 74 da MP 2158, em sentido justamente oposto do quanto decidido no acórdão paradigma. É certo que a declaração de voto apresentada nos presentes autos, em face do julgamento a quo, faz referência a peculiaridades do caso concreto que, em tese, poderiam distinguilo do caso analisado no acórdão indicado como paradigma. Contudo, é forçoso reconhecer que a divergência ensejadora do recurso especial deve ser aferida entre o voto vencedor (e não a declaração de voto) e o acórdão indicado como paradigma. Assim, compreendo que o despacho de admissibilidade bem analisou os requisitos de admissibilidade do recurso especial da PFN, concluindo corretamente quanto à legitimidade de seu integral conhecimento. Com relação ao recurso especial interposto pelo contribuinte, com relação ao qual não há oposição ao seu conhecimento, compreendo que o despacho de admissibilidade bem analisou os requisitos de admissibilidade, concluindo corretamente quanto à legitimidade de seu integral conhecimento. Mérito 1. RECURSO ESPECIAL DA PFN: Aplicação do acordo de bitributação celebrado pelo Brasil com a Argentina. Fl. 2577DF CARF MF 6 Para que bem se delimite a matéria em análise, é necessário observar que os tratados de dupla tributação são vocacionados a cobrir o sistema jurídico de dois diferentes Estados contratantes. As normas do acordo internacional se sobrepõem total ou parcialmente às normas brasileiras de incidência tributária, levandoas, nessa parcela de contato, à sombra (ou melhor, à não aplicação). As normas domésticas de incidência tributária que permanecerem iluminadas serão aplicadas normalmente, tal como acordado entre ambos os Estados contratantes por meio do tratado de bitributação. 1 A análise para a aplicação dos acordos de bitributação pode exigir, portanto, dois estágios: um atinente ao Direito doméstico dos Estados contratantes (hipóteses de incidência tributária estabelecidas pelas legislações nacionais) e, outro, atinente ao respectivo acordo internacional (norma que irá se sobrepor à norma brasileira e delimitar a sua eficácia desta). Esses dois estágios, nucleares para a solução do presente caso, estão bem delimitados nos autos: i) Norma brasileira de incidência tributária: nesse estágio, é preciso decidir se os rendimentos tributados pelo art. 25 da Lei n. 9.249/95 c/c a MP n. 2.15835/2001 devem ser qualificados como “lucros” ou como “dividendos pagos”. ii) Norma do acordo de dupla tributação: nesse estágio, é preciso reconhecer a norma do acordo BrasilArgentina, que deve se se sobrepor à norma brasileira e delimitar a sua eficácia (CTN, art. 98). Entre os dispositivos que devem ser analisados nesses acordos, destacamse o art. 7o (“lucros de pessoas jurídicas”), art. 10 (“dividendos pagos”) e o art. 23 (Métodos para evitar dupla tributação). Em geral, a doutrina do Direito tributário internacional há tempos admite ser infrutífera a antiga disputa quanto à “melhor” ordem de análise desses estágios, pois em nada prejudica o resultado interpretativo.2 Neste voto, em particular, primeiro será analisada a legislação brasileira de tributação dos lucros no exterior e, na sequência, os aludidos acordos internacionais celebrados pelo Brasil, a fim de verificar se restou (ou não) reservado ao Brasil competência para exercer a tributação levada a termo no AIIM sob julgamento. Contudo, antes de prosseguir com a análise, por força do que dispõe o art. 62 do RICARF, é preciso observar que ADI n. 2588, julgado pelo STF, não possui abrangência sobre todos os pontos discutidos no presente processo administrativo3, não vinculando ou mesmo orientando esta CSRF para a solução do litígio. Em 10.04.2013, o Plenário do STF prolatou decisão na ADI 2588, de forma a declarar: 1 VOGEL, Klaus. Klaus Vogel on Double Taxation Conventions. Kluwer : London, 1999, p. 31‐32. “Illustratively expressed: the treaty acts like a stencil that is placed over the pattern of domestic law and covers over certain parts”. 2 Vide, nesse sentido: LANG, Michael. Introduction to the law of double taxation conventions. Vienna : Linde, 2013, p. 36 e seg (embora o professor apresente preferência por iniciar pela análise do Direito doméstico); SCHOUERI, Luís Eduardo. Preços de transferência no direito tributário brasileiro. São Paulo: Dialética, 2013, p. 414. (“Da autonomia dos momentos de exame do direito interno e do acordo de bitributação decorre, de um lado, a possibilidade de se examinarem um acordo ou o outro, sem qualquer ordem de preferência e, como corolário, a independência na aplicação de conceitos e categorias de direito tributário.”). 3 Por essa ação judicial, questionouse, sobretudo, a incidência do IRPJ e da CSLL na data do balanço no qual tiverem sido apurados, com base no argumento central de que a incidência deveria ocorrer apenas no momento em que há a efetiva distribuição dos resultados, pois a antecipação do critério temporal da hipótese de incidência desses tributos constituía presunção absoluta da disponibilidade dos resultados auferidos pelas sociedades controladas no exterior, a ferir o conceito constitucional de renda. Fl. 2578DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 754 7 A inconstitucionalidade do art. 74 da MP n. 2.15835/01 às empresas nacionais coligadas a pessoas jurídicas sediadas em países sem tributação favorecida, ou que não sejam “paraísos fiscais”; A inconstitucionalidade do parágrafo único do art. 74 da MP 2.15835/01, de modo que o texto impugnado não pode ser aplicado em relação aos lucros apurados até 31 de dezembro de 2001, por força do princípio da irretroatividade; A constitucionalidade do art. 74 da MP n. 2.15835/01 às empresas nacionais controladoras de pessoas jurídicas sediadas em países de tributação favorecida ou não, ou desprovidos de controles societários e fiscais adequados (“paraísos fiscais”, assim definidos em lei). A referida decisão seria decisiva para o presente julgamento caso a MP 2.15835/01 houvesse sido declarada integralmente inconstitucional, o que obrigaria o cancelamento do lançamento tributário sob análise. Contudo, a declaração de constitucionalidade em questão em nada altera o julgamento do presente caso. Ocorre que, caso não houvesse nenhuma decisão do STF confirmando a validade da MP 2.15835/01, o julgamento conduzido no âmbito do CARF deveria adotar, de qualquer forma, a premissa de sua constitucionalidade (RICARF, art. 62). É de extrema importância observar que, na aludida ADIN, em momento algum o STF afirmou que aludida a tributação brasileira incidiria sobre dividendos fictamente considerados pagos pela controlada estrangeira. A propósito, a decisão proferida pelo STF não tratou da hipótese em que há a incidência de acordo de bitributação. 1.1. A legislação brasileira de tributação dos lucros de controladas e coligadas no exterior e os rendimentos tributados no auto de infração. Até janeiro de 1996, as empresas residentes no Brasil sofriam a incidência de IRPJ apenas sobre as rendas derivadas de fontes nacionais (princípio da territorialidade formal). Apenas com Lei n. 9.249, de 26.12.1995, foi introduzida no ordenamento pátrio a regra da tributação da renda em bases mundiais (princípio da universalidade ou territorialidade material)4: Art. 25. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano. § 1º Os rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na apuração do lucro líquido das pessoas jurídicas com observância do seguinte: I os rendimentos e ganhos de capital serão convertidos em Reais de acordo com a taxa de câmbio, para venda, na data em que forem contabilizados no Brasil; II caso a moeda em que for auferido o rendimento ou ganho de capital não tiver cotação no Brasil, será ela convertida em dólares norteamericanos e, em seguida, em Reais; 4 Sobre tal concepção de territorialidade formal e material, vide: TIPKE, Klaus; LANG, Joachim. Direito tributário (Steuerrecht). Volume 1. Tradução da 18a edição alemã, totalmente refeita, de Luíz Dória Furquim. Porto Alegre : Sergio Antonio Fabris Editor, 2008, p. 103104; SCHOUERI, Luís Eduardo. Tratados e Convenções Internacionais sobre Tributação, in Revista de Direito Tributário Atual n. 17. São Paulo : IBDT/Dialética, 2003, p. 2050. Fl. 2579DF CARF MF 8 § 2º Os lucros auferidos por filiais, sucursais ou controladas, no exterior, de pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil serão computados na apuração do lucro real com observância do seguinte: I as filiais, sucursais e controladas deverão demonstrar a apuração dos lucros que auferirem em cada um de seus exercícios fiscais, segundo as normas da legislação brasileira; II os lucros a que se refere o inciso I serão adicionados ao lucro líquido da matriz ou controladora, na proporção de sua participação acionária, para apuração do lucro real; III se a pessoa jurídica se extinguir no curso do exercício, deverá adicionar ao seu lucro líquido os lucros auferidos por filiais, sucursais ou controladas, até a data do balanço de encerramento; IV as demonstrações financeiras das filiais, sucursais e controladas que embasarem as demonstrações em Reais deverão ser mantidas no Brasil pelo prazo previsto no art. 173 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966. § 3º Os lucros auferidos no exterior por coligadas de pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil serão computados na apuração do lucro real com observância do seguinte: I os lucros realizados pela coligada serão adicionados ao lucro líquido, na proporção da participação da pessoa jurídica no capital da coligada; II os lucros a serem computados na apuração do lucro real são os apurados no balanço ou balanços levantados pela coligada no curso do períodobase da pessoa jurídica; III se a pessoa jurídica se extinguir no curso do exercício, deverá adicionar ao seu lucro líquido, para apuração do lucro real, sua participação nos lucros da coligada apurados por esta em balanços levantados até a data do balanço de encerramento da pessoa jurídica; IV a pessoa jurídica deverá conservar em seu poder cópia das demonstrações financeiras da coligada. § 4º Os lucros a que se referem os §§ 2º e 3º serão convertidos em Reais pela taxa de câmbio, para venda, do dia das demonstrações financeiras em que tenham sido apurados os lucros da filial, sucursal, controlada ou coligada. § 5º Os prejuízos e perdas decorrentes das operações referidas neste artigo não serão compensados com lucros auferidos no Brasil. § 6º Os resultados da avaliação dos investimentos no exterior, pelo método da equivalência patrimonial, continuarão a ter o tratamento previsto na legislação vigente, sem prejuízo do disposto nos §§ 1º, 2º e 3º. Em 27.06.1996, foi publicada a IN/SRF n. 38 que, entre outras coisas, tratou do critério temporal dessa tributação, ao dispor que os lucros de coligadas ou controladas no exterior seriam tributadas no momento de sua transferência via pagamento, crédito, remessa, entrega ou emprego. Em 10.12.1997, foi publicada a Lei n. 9.532/97 que, em seu art. 1o, § 1º, “b”, elegeu esse mesmo critério temporal para a incidência do tributo: Art. 1º Os lucros auferidos no exterior, por intermédio de filiais, sucursais, controladas ou coligadas serão adicionados ao lucro líquido, para determinação do lucro real correspondente ao balanço levantado no dia 31 de dezembro do anocalendário em que tiverem sido disponibilizados para a pessoa jurídica domiciliada no Brasil. § 1º Para efeito do disposto neste artigo, os lucros serão considerados disponibilizados para a empresa no Brasil: (…) b) no caso de controlada ou coligada, na data do pagamento ou do crédito em conta representativa de obrigação da empresa no exterior. Fl. 2580DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 755 9 Em 29.06.1999, com o advento da MP n. 1.8586, os lucros auferidos pelas sociedades brasileiras por meio de suas controladas ou coligadas estrangeiras passaram a ser tributadas também pela CSLL: Art. 19. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior sujeitamse à incidência da CSLL, observadas as normas de tributação universal de que tratam os arts. 25 a 27 da Lei no 9.249, de 26 de dezembro de 1995, os arts. 15 a 17 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, e o art. 1o da Lei no 9.532, de 1997. Em 10.01.2001, a Lei Complementar n. 104 alterou o art. 43 do CTN, introduzindo os parágrafos 1º e 2º : Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. § 1. A incidência do imposto independe da denominação da receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem e da forma de percepção. § 2. Na hipótese de receita ou de rendimento oriundos do exterior, a lei estabelecerá as condições e o momento em que se dará sua disponibilidade, para fins de incidência do imposto referido neste artigo. Em 24.08.2001, foi editada a Medida Provisória nº 2.15835, cujo art. 74 alterou o critério temporal da hipótese de incidência do IRPJ e da CSL previsto no art. 25 da Lei n. 9.249/95: Art. 74. Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, nos termos do art. 25 da Lei n. 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Provisória, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento. Parágrafo único. Os lucros apurados por controlada ou coligada no exterior até 31 de dezembro de 2001 serão considerados disponibilizados em 31 de dezembro de 2002, salvo se ocorrida, antes desta data, qualquer das hipóteses de disponibilização previstas na legislação em vigor. Por meio da IN n. 213, de 07.10.2002, a Secretaria da Receita Federal dispôs sobre a aplicação da legislação CFC a partir desse novo marco jurídico estabelecido pela MP n. 2.15835/2001. Destacase o seu art. 1o: Art. 1º Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, por pessoa jurídica domiciliada no Brasil, estão sujeitos à incidência do imposto de renda das pessoas jurídicas (IRPJ) e da contribuição social sobre o lucro líquido (CSLL), na forma da legislação específica, observadas as disposições desta Instrução Normativa. § 1º Os lucros referidos neste artigo são os apurados por filiais e sucursais da pessoa jurídica domiciliada no Brasil e os decorrentes de participações societárias, inclusive em controladas e coligadas. Fl. 2581DF CARF MF 10 § 2º Os rendimentos e ganhos de capital a que se refere este artigo são os auferidos no exterior diretamente pela pessoa jurídica domiciliada no Brasil. § 3º A pessoa jurídica domiciliada no Brasil que auferir lucros, rendimentos e ganhos de capital oriundos do exterior, objeto das normas desta Instrução Normativa, está obrigada ao regime de tributação com base no lucro real. § 4º Os lucros de que trata este artigo serão adicionados ao lucro líquido, para determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da pessoa jurídica no Brasil, integralmente, quando se tratar de filial ou sucursal, ou proporcionalmente à sua participação no capital social, quando se tratar de controlada ou coligada. § 5º Para efeito de tributação no Brasil, os lucros serão computados na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, de forma individualizada, por filial, sucursal, controlada ou coligada, vedada a consolidação dos valores, ainda que todas as entidades estejam localizadas em um mesmo país, sendo admitida a compensação de lucros e prejuízos conforme disposto no § 5º do art. 4º desta Instrução Normativa. § 6º Os resultados auferidos por intermédio de outra pessoa jurídica, na qual a filial, sucursal, controlada ou coligada, no exterior, mantenha qualquer tipo de participação societária, ainda que indiretamente, serão consolidados no balanço da filial, sucursal, controlada ou coligada para efeito de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da beneficiária no Brasil. § 7º Os lucros, rendimentos e ganhos de capital de que trata este artigo a serem computados na determinação do lucro real e da base de cálculo de CSLL, serão considerados pelos seus valores antes de descontado o tributo pago no país de origem. § 8º Os rendimentos e os ganhos de capital, decorrentes de aplicações ou operações efetuadas no exterior, integrarão os resultados da pessoa jurídica domiciliada no Brasil, e as perdas reconhecidas nesses resultados são indedutíveis e devem ser adicionadas para determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL. No caso dos autos, o período de apuração se deu sob a égide do art. 25 da Lei n. 9.249/95 e do o art. 74 da MP n. 2.15835/2001 e, ainda, as disposições da IN n. 213/2002. Nesse ambiente normativo: haveria a incidência de IRPJ e CSL sobre os “lucros auferidos por filiais, sucursais ou controladas, no exterior” (§ 2º, art. 25, Lei n. 9.249/95, art. 19 da MP n. 1858 6/99); o critério temporal da incidência desses tributos seria a “data do balanço no qual tiverem sido apurados” “os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior” (MP 2.15835/2001); a administração fazendária, por meio de norma que vinculou os seus agentes fiscais, dispôs, entre outras coisas, que o critério material da hipótese de incidência tributária seria o auferimento de “lucros” por “controladas e coligadas”, considerados pelos seus valores antes de descontado o tributo pago no país de origem (IN 213/02, art. 1o, §§ 1º e 7º). Notese que, embora não esteja mais em vigor a antiga sistemática da “tributação cedular”, ainda hoje o imposto de renda leva em consideração categorias de rendimentos, para as quais a legislação atribui tratamentos diversificado quanto ao IRPJ e à CSL. “Lucro” e “dividendo”, por exemplo, são categorias de rendimentos para as quais a legislação atribui consequências diversas. Fl. 2582DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 756 11 Com base nessa legislação adotada para a lavratura do auto de infração, a base de cálculo do tributo exigido no presente processo administrativo deve corresponder ao “lucro” obtido por sua empresa controlada no exterior. No art. 25, Lei n. 9.249/95, bem como no art. 19 da MP n. 18586/99, a categoria selecionada pelo legislador para o exercício de sua competência tributária foi o “lucro”, o que representou a escolha por uma base tributável substancialmente maior do que aquela que seria possível caso houvesse optado por outras categorias, como a dos “dividendos”. A representação gráfica abaixo ilustra como são díspares as bases de cálculo próprias dos “lucros das empresas” e dos “dividendos”: Lucro Lucro após o IR IR Dividendo após o IR IR Auferimento do lucro Tributação do lucro Distribuição tributada dos dividendos No caso, a base tributável própria à categoria lucros auferidos por controlada no exterior é necessariamente superior àquela que corresponderia à categoria dividendos pagos por controlada no exterior, o que representa significativa distinção entre elas. A legislação brasileira em questão torna relevante o fato “auferimento do lucro” pela controlada no exterior, na data do encerramento do balanço. O “lucro” em questão, antes de qualquer tributação no outro Estado, deverá ser adicionados na base de cálculo do IRPJ e da CSL (IN 213/02, art. 1o, §§ 1º e 7º). Conforme a sistemática de tributação brasileira, o imposto pago no outro Estado contratante (no caso, na Holanda), apenas terá relevância em momento posterior, podendo ser utilizado como crédito para o pagamento do tributo brasileiro. É preciso também observar que em momento algum a lei brasileira tributa dividendos fictos. Sequer consta o termo “dividendos” no texto legal ou, ainda, há sinais de uma clara decisão do legislador para estabelecer uma ficção desse jaez. Notese que MISABEL DERZI e SACHA CALMON NAVARRO COELHO5, alinhandose à doutrina tradicional, repudiam a possibilidade da adoção de ficção quanto à prática do fato gerador do tributo, in verbis: “Digase desde logo que os fatos geradores dos tributos são fatos reais que ocorrem ou não no mundo fenomênico, aos quais o Direito empresta efeitos jurígenos, geradores de obrigações tributárias. (...) A cinco, pretende tributar por ficção, retroativamente, parcela significativa dos contribuintes do imposto de renda. O suposto básico da disponibilização 5 COÊLHO, Sacha Calmon Navarro; DERZI, Misabel Abreu Machado. Tributação pelo IRPJ e pela CSLL de lucros auferidos por empresas controladas ou coligadas no exterior inconstitucionalidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.158 35/01. Revista Dialética de Direito Tributário, São Paulo: Dialética, n.130, p. 135149, 2006, p. 138142. Fl. 2583DF CARF MF 12 tributável (afastemse, por ora, disponibilidade jurídica e disponibilidade econômica) tem uma contrapartida assaz desprezada: a redução do patrimônio da pessoa jurídica que promove a disponibilização.” Caso o legislador houvesse prescrito uma expressamente uma ficção dessa natureza, certamente não poderíamos nós, julgadores administrativos, afastar a aludida norma, tendo em vista ser competência privativa do Poder Judiciário a decretação de inconstitucionalidades (Súmula n. 1 do CARF). No entanto, na ausência de previsão expressa quanto à aludida ficção, também não deve o julgador administrativo presumir que o legislador tenha agido de tal maneira que culminaria justamente com a invalidade da norma, especialmente quando a lei utilizar expressões bastante claras para expressar que a tributação incidiria diretamente sobre a categoria de rendimentos “lucros de pessoas jurídicas” e não sobre supostos dividendos fictos. Diante de duas interpretações propostas, deve o aplicador do Direito optar por aquela que não culmine na invalidade da norma construída. 1.2. O acordo de bitributação celebado pelo Brasil com a Argentina. Em termos gerais, o compromisso assumido por Estados que celebram acordos conforme a “Convenção modelo de acordos de bitributação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico” (doravante “CMOCDE”) pode ser reduzido a três aspectos fundamentais: i) cada Estado permanece legitimado à tributação da renda derivada de atividades desenvolvidas em seu território; ii) cada Estado permanece legitimado à tributação da renda de seus residentes; iii) diante da possibilidade de cumulação dos dois itens antecedentes, cabe ao Estado da fonte restringir a tributação em algumas hipóteses, bem como deverá o Estado da residência isentar rendimentos ou conceder crédito em relação ao imposto pago àquele primeiro, nas hipóteses em que também lhe couber a tributação. Tal como concebida, a estrutura da CMOCDE privilegia o Estado da residência, importador de capitais: (i) a renda do trabalho ou de serviços pode ser tributado no Estado em que estes são executados; (ii) a renda passiva, como juros e dividendos, podem ser tributados pelo Estado da fonte até um determinado limite; (iii) o lucro das atividades empresariais serão tributadas no Estado da residência, salvo no que se refere aos lucros atribuíveis a um estabelecimento permanente no Estado da fonte.6 No coração dos acordos de bitributação celebrados pelo Brasil, nos moldes da CMOCDE, consta a regra de que os lucros de empresas são tributáveis exclusivamente no Estado de residência da pessoa jurídica que os aufere. É o que se dá com a regra de distribuição de competência para a tributação dos “lucros das empresas”, prevista no tratado Brasil Argentina, em seu art. 7o: ARTIGO VII Lucros das empresas Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado. Se a empresa exercer sua atividade na forma indicada, seus lucros são tributáveis no outro Estado, mas unicamente à medida em que sejam atribuíveis a esse estabelecimento permanente. 2. Com ressalva das disposições do parágrafo 3, quando uma empresa de um Estado Contratante exercer sua atividade no outro Estado Contratante por meio 6 VASCONCELLOS, Roberto França. Aspectos Econômicos dos Tratados Internacionais em Matéria Tributária, in Revista de Direito Tributário Internacional n. 1. São Paulo: Quartier Latin, 2005, p. 155156. Fl. 2584DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 757 13 de um estabelecimento permanente aí situado, serão atribuídos, em cada Estado Contratante, a esse estabelecimento permanente, os lucros que obteria se constituísse uma empresa distinta e separada, exercendo atividades idênticas ou similares em condições idênticas ou similares, e transacionando com absoluta independência com a empresa de que é um estabelecimento permanente. 3. No cálculo dos lucros de um estabelecimento permanente, é permitido deduzir as despesas que tiverem sido feitas para a consecução dos objetivos do estabelecimento permanente, incluindo as despesas de direção e os encargos gerais de administração assim realizados. 4. Nenhum lucro será atribuído a um estabelecimento permanente pelo simples fato de comprar bens ou mercadorias para a empresa. 5. Quando os lucros compreenderem elementos de rendimentos tratados separadamente nos outros artigos da presente Convenção, as disposições desses artigos não serão afetadas pelas disposições deste Artigo. Tendo em vista a excepcionalidade da tributação dos rendimentos atribuíveis a estabelecimento localizado no Estado da fonte, tornase relevante também observar o disposto no art. 5 (6) do acordo BrasilArgentina, que assim dispõe: ARTIGO 5O –Estabelecimento Permanente (...) 6. O fato de uma sociedade residente de um Estado Contratante controlar ou ser controlada por uma sociedade que seja residente do outro Estado Contratante, ou que exerça sua atividade nesse outro Estado (quer por meio de um estabelecimento permanente quer de outro modo), não será, por si só, bastante para fazer de qualquer dessas sociedades estabelecimento permanente da outra. Por sua vez, os acordos de dupla tributação celebrados pelo Brasil geralmente preveem que rendimentos como dividendos possam ser tributados pelo Estado da fonte até um determinado limite, restando ao Estado de residência exigir apenas o percentual previsto em sua legislação doméstica que exceder tal montante. O acordo BrasilArgentina, no entanto, apresenta norma distinta, afastando a possibilidade do Estado de residência (no caso, o Brasil) exercer qualquer tributação sobre os dividendos pagos por empresa residente no Argentina (Estado da fonte) caso o recipiente dos dividendos possuir mais de 10% de participação acionária na empresa que os distribui. É o que se verifica dos art. 10 e 23(2) do acordo BrasilArgentina: ARTIGO X Dividendos 1. Os dividendos pagos por uma sociedade residente de um Estado Contratante a um residente do outro Estado Contratante são tributáveis nesse outro Estado. 2. Todavia, esses dividendos podem ser tributados no Estado Contratante onde reside a sociedade que os paga e de acordo com a legislação desse Estado. 3. O disposto nos parágrafos 1 e 2 não se aplica se o beneficiarão dos dividendos, residente de um Estado Contratante, tiver, no outro Estado Contratante de que é residente a sociedade que paga os dividendos, um estabelecimento permanente ou uma base fixa a que estiver efetivamente ligada à participação geradora dos dividendos. Nesse caso, serão aplicáveis as disposições dos Artigos VII ou XIV, conforme o caso. 4. O termo "dividendos", usado no presente Artigo, designa os rendimentos provenientes de ações, ações ou direitos de fruição, ações de empresas mineradoras, partes de fundador ou outros direitos de participação em lucros, com exceção de créditos, bem como rendimentos de outras participações de Fl. 2585DF CARF MF 14 capital assemelhados aos rendimentos de ações pela legislação tributária do Estado Contratante em que a sociedade que os distribuir seja residente. 5. Quando uma sociedade residente da Argentina tiver um estabelecimento permanente no Brasil, esse estabelecimento permanente poderá aí estar sujeito a um imposto retido na fonte de acordo com a legislação brasileira. 6. Quando uma sociedade residente de um Estado Contratante receber lucros ou rendimentos do outro Estado Contratante, esse outro Estado Contratante não poderá cobrar qualquer imposto sobre os dividendos pagos pela sociedade, exceto à medida em que esses dividendos forem pagos a um residente desse outro Estado ou à medida em que a participação geradora dos dividendos estiver efetivamente ligada a um estabelecimento permanente ou a uma base fixa situados nesse outro Estado, nem sujeitar os lucros não distribuídos da sociedade a um imposto sobre lucros não distribuídos, mesmo se os dividendos pagos ou os lucros distribuídos consistirem total ou parcialmente de lucros ou rendimentos provenientes desse outro Estado. ARTIGO XXIII Métodos para evitar a dupla tributação 1. Quando um residente do Brasil receber rendimentos que, de acordo com as disposições da presente Convenção, sejam tributáveis na Argentina, o Brasil, ressalvado o disposto no parágrafo 2, permitirá que seja deduzido do imposto que cobrar sobre os rendimentos desse residente um montante igual ao imposto sobre a renda pago na Argentina. Todavia, o montante deduzido não poderá exceder à fração do imposto sobre a renda, calculado antes da dedução, correspondente aos rendimentos tributáveis na Argentina. 2. Os dividendos pagos por uma sociedade residente da Argentina a uma sociedade residente do Brasil detentora de mais de 10 por cento do capital da sociedade pagadora, que sejam tributáveis na Argentina de acordo com as disposições da presente Convenção, estarão isentos do imposto no Brasil. 3. Quando um residente da Argentina receber rendimentos que, de acordo com as disposições da presente Convenção, sejam tributáveis no Brasil, a Argentina isentará de imposto esses rendimentos, a menos que sejam considerados provenientes da Argentina. 1.3. A aplicação dos acordos de bitributação e a incompetência do Brasil para exercer a tributação levada a termo no AIIM sob julgamento. A interpretação e aplicação dos acordos de dupla tributação demanda atenção para algumas peculiaridades, em especial: Primeiro, quando um acordo de dupla tributação consignar expressamente a definição de um termo nele utilizado, esse sentido acordado por ambos os Estados contratantes deverá – para fins de aplicação da referida convenção – ser adotado independentemente dos conceitos e categorias do Direito interno de seus respectivos sistemas jurídicos domésticos. Essa é a norma prescrita pelo art. 3 (1) da generalidade dos acordos de dupla tributação celebrados pelo Brasil, à semelhança da CMOCDE. Referida norma consta expressamente no art. 3 (1) do acordo BrasilArgentina; Segundo, quando o acordo de bitributação não definir expressamente um termo utilizado em seu texto, deverá ser verificado se há evidências em seu “contexto” (intrínseco e extrínseco) quanto aos sentidos consentidos pelos Estados e, subsidiariamente, também será possível o recurso ao Direito doméstico dos Estados Fl. 2586DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 758 15 contratantes. Essa é a norma prescrita pelo art. 3 (2) da generalidade dos acordos de dupla tributação celebrados pelo Brasil, à semelhança da CMOCDE, a qual consta também no acordo BrasilArgentina; Terceiro, na interpretação dos acordos de bitributação, inclusive na seleção de evidências sobre o sentido de um termo não definido pelo acordo internacional, devem ser respeitadas as normas prescritas pela Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (Decreto n. 7.030, de 14.12.2009, doravante “CVDT”). Não se trata se trata a CVDT de mera recomendação, mas de norma cuja observância é mandatória. Quarto, inclusive diante das normas da CVDT, os sentidos mutuamente atribuídos pelos Estados contratantes aos termos de um acordo de bitributação não podem ser desvirtuados ou alterados unilateralmente pelas partes. No presente caso, em que são relevantes especialmente as normas de distribuição de competências dos arts. 7o (“lucros de empresas”) e 10o (“dividendos pagos”) do acordo BrasilArgentina, fazse necessário verificar quais de seus termos foram definidos no respectivo texto do tratado e, ainda, quais não o foram. O art. 10 (3), do acordo BrasilArgentina, define o termo “dividendos” como “rendimentos provenientes de ações ou direitos de fruição; ações de empresas mineradoras; partes de fundador ou outros direitos de participação em lucros, com exceção de créditos, bem como rendimentos de outras participações de capital assemelhados aos rendimentos de ações pela legislação tributária do Estado em que reside a sociedade que realiza a distribuição”. O dispositivo segue a tradição dos acordos de bitributação celebrados pelo Brasil. O sentido de dividendos estabelecido nesses tratados internacionais geralmente é mais amplo que no Direito doméstico brasileiro, de forma a abranger aquilo que em nossa legislação interna possui sentidos diversos, como rendimentos de “partes beneficiárias” (Lei 6.404/76, arts. 46 a 51) e distribuição lucros em razão de debêntures (Lei 6.404/76, arts. 52 a 74).7 Para fins de aplicação do acordo internacional, devem ser adotados esses conceitos mais amplos, expressos em seu texto. Embora o termo “dividendos” esteja definido expressamente no art. 10 (3) do acordo BrasilArgentina, o seu complemento “pagos” está entre os termos não definidos em seu texto, de forma que deve ser interpretado conforme o seu “contexto” e, caso este não forneça um sentido plausível, uma definição razoável deverá ser investigada no Direito doméstico dos Estados contratantes. O art. 3 (2) do tratado internacional em questão assim estabelece: 2. Para a aplicação desta Convenção por um Estado Contratante, qualquer expressão que nela não esteja definida terá o significado que lhe é atribuído pela legislação desse Estado, relativamente aos impostos aos quais se aplica a Convenção, a não ser que o contexto imponha interpretação diversa. Prevê o acordo BrasilArgentina, então, nosso dever de investigar um sentido ao termo “pagos” (ou, em última análise, à expressão “dividendos pagos”), no contexto do próprio acordo internacional. Apenas se esse “contexto” não prover um sentido plausível ao termo do acordo, este deverá ser investigado no Direito doméstico. 7 Vide, nesse sentido: CASELLA, Paulo Borba. Direito internacional tributário brasileiro. São Paulo : LTR, 1995, p. 3640; XAVIER, Alberto. Direito Tributário Internacional do Brasil. Rio de Janeiro: Forense, 2010, p. 588 e seg. Fl. 2587DF CARF MF 16 Repitase que o julgador administrativo – assim como qualquer aplicador do Direito tributário internacional – tem o dever de se valer de evidências presentes no “contexto” dos tratados de bitributação para a interpretação de seus termos. Não se trata de atitude discricionária, mas de medida essencial para que o acordo bilateral seja coerentemente aplicado por ambos os Estados contratantes, em conformidade com a CVDT e as demais normas do Direito internacional. Para levar a termo essa interpretação conforme o “contexto” dos acordos de bitributação, ao menos três fontes provedoras de evidências quanto aos sentido de seus termos devem ser consultadas. contexto intrínseco: deve ser investigado o texto do acordo de bitributação, seu preâmbulo e anexos, documentos elaborados em conexão com o tratado, protocolos e acordos posteriores celebrados pelos Estados contratantes. Para tanto, podem ser adotadas expedientes tais como métodos de análise sintática e semântica, a interpretação do texto do acordo como um todo, testes comparativos da função e do sentido dos termos no acordo de dupla tributação como um todo, a identificação dos objetivos e propósitos do acordo a partir de detalhes de cada uma de suas partes; contexto extrínseco primário: deve ser investigada a existência de procedimentos amigáveis, dos chamados parallel treaties e, ainda, de práticas adotas pelos Estados por meio de suas autoridades administrativas, judiciárias e legislativas; contexto extrínseco secundário: deve ser investigada a existência de decisões de Cortes nacionais de terceiros Estados, doutrina dos publicistas mais qualificados das diferentes Nações, Convenção Modelo da OCDE e os seus respectivos Comentários, trabalhos preparatórios, atos unilaterais quanto à intenção dos Estados contratantes e circunstâncias relacionadas à conclusão da convenção fiscal. No presente caso, há evidências presentes tanto no contexto intrínseco quanto no contexto extrínseco do acordo BrasilArgentina, as quais fornecem um claro e plausível sentido ao termo “pagos” (ou mesmo à expressão “dividendos pagos”) 1.3.1. O contexto intrínseco e o sentido do termo “pagos” (ou mesmo da expressão “dividendos pagos”) O contexto intrínseco compreende o próprio signo linguístico sob interpretação ou outros presentes no texto do tratado, no preâmbulo, nos anexos, bem como em qualquer acordo ou instrumento celebrado pelas partes relativos ao tratado ou em conexão com a sua conclusão. A sua investigação, além de instintiva, decorre de prescrição expressa no art. 31 (1) e (2) da CVDT. Fl. 2588DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 759 17 A análise gramatical do trecho do art. 10 (1) do acordo BrasilArgentina, na oração “Os dividendos pagos por uma sociedade (...)”, evidencia o emprego do sujeito paciente (da passiva) “dividendos” acompanhado do particípio “pago”. Importante ressaltar que o particípio consiste em uma forma nominal do verbo que expressa o resultado do “fato verbal”, isto é, indica uma ação já realizada, já finalizada, sobre o objeto da oração que ele qualifica, in casu, “os dividendos”. O termo “pago”, assim, atua como um reforço incisivo para delimitar a aplicação do dispositivo àquelas situação em que o rendimento por ele tutelado (“dividendos”) tenham sido efetivamente “pagos”. Sob a perspectiva sintática, o termo “dividendo”, empregado na cláusula sob exame, encontrase qualificado como “pago”, o que impõe, necessariamente, que esta ação (pagar) já tenha sido concretizada (pela “sociedade”, agente da passiva na oração). A CVDT também determina que se investigue se e como o termo “pago” é empregado em outras passagens do acordo BrasilArgentina. Assim, por por exemplo, é importante observar o seu emprego nas seguintes passagens: Art. 10 (2). (...) O disposto neste parágrafo não prejudica a tributação da sociedade, no que diz respeito aos lucros dos quais se originaram os dividendos pagos.”; Art. 10 (4) “(...) e se a participação, em virtude da qual os dividendos são pagos, se relaciona efetivamente ao estabelecimento permanente.” Art. 10 (6): “Quando uma sociedade residente em um Estado Contratante recebe lucros ou rendimentos do outro Estado Contratante, esse outro Estado Contratante não poderá cobrar qualquer imposto sobre os dividendos pagos pela sociedade, exceto se tais dividendos forem pagos a residente desse outro Estado, ou se a participação em virtude da qual os dividendos são pagos, relacionarse efetivamente a um estabelecimento permanente situado nesse outro Estado; nem poderá sujeitar os lucros não distribuídos da sociedade a imposto sobre lucros não distribuídos, ainda que os dividendos pagos ou os lucros não distribuídos consistam, no total ou parcialmente, de lucros ou rendimentos provenientes desse outro Estado.” Art. 10 (7): “(...)As limitações de alíquota do imposto previstas nos parágrafos 2 e 5 não se aplicam aos dividendos ou lucros pagos antes do final do primeiro ano calendário seguinte ao ano de assinatura desta Convenção.” Art. 11 (1): “Os juros provenientes de um Estado Contratante e pagos a um residente do outro Estado Contratante podem ser tributados nesse outro Estado.” Art. 11 (3): “Não obstante o que dispõem os parágrafos 1 e 2, os juros provenientes de um Estado Contratante e pagos ao Governo do outro Estado Contratante (...)” Art. 11 (5): "(...) e se a dívida, em virtude da qual os juros são pagos, se relacionar efetivamente ao estabelecimento permanente. Nesse caso, aplicase o disposto no Artigo 7.” Fl. 2589DF CARF MF 18 Art. 11 (6): “A limitação de alíquota do imposto prevista no parágrafo 2 não se aplica aos juros provenientes de um Estado Contratante, pagos a estabelecimento permanente de empresa do outro Estado Contratante, situado em terceiro Estado.” Art. 11 (7): Consideramse provenientes de um Estado Contratante os juros pagos por esse próprio Estado, uma sua subdivisão política, uma autoridade local ou um residente desse Estado. Todavia, se o devedor dos juros, residente em um Estado Contratante ou não, tiver num Estado Contratante estabelecimento permanente pelo qual tenha sido contraída a obrigação que dá origem aos juros, e estes são pagos por esse estabelecimento permanente, tais juros consideramse provenientes do Estado em que o estabelecimento permanente estiver situado.” Art. 11 (8): “Se, em conseqüência de relações especiais existentes entre o devedor e o beneficiário efetivo, ou entre ambos e terceiros, o montante dos juros, tendo em conta o crédito pelo qual são pagos (...)” Art. 12 (1): “Os "royalties" provenientes de um Estado Contratante e pagos a um residente no outro Estado Contratante podem ser tributados nesse outro Estado.” Art. 12 (4): “(...) a cujo respeito os "royalties" são pagos, se relacionar efetivamente ao estabelecimento permanente.” Art. 12 (5): “Consideramse provenientes de um Estado Contratante os "royalties" pagos por esse próprio Estado, (...)” Art. 12 (6): “(...) ou entre ambos e terceiros, o montante dos "royalties", relativo ao uso, direito ou informação em razão dos quais são pagos, (...)” Art. 12 (7): “A limitação de alíquotas do imposto prevista no subparágrafo b do parágrafo 2, deste Artigo, não se aplica aos ‘royalties’ pagos antes do final do primeiro ano calendário, seguinte ao ano da assinatura desta Convenção, quando pagos a um residente de um Estado Contratante que detenha, direta ou indiretamente, no mínimo cinqüenta por cento do capital votante da sociedade que efetua o pagamento dos ‘royalties’.” Como se pode observar, o termo “pago” é reiteradamente empregado no acordo, assumindo a função a função de delimitar um marco de transferência efetiva de recursos, seja em relação a juros, royalties ou dividendos. De forma consistente, portanto, apenas se pode qualificar como dividendos pagos valores efetivamente transferidos de uma parte a outra. 1.3.2. O contexto extrínseco secundário e o sentido do termo “pagos” (ou mesmo da expressão “dividendos pagos”) Fl. 2590DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 760 19 Sob o escopo do art. 31 (3) “c” da CVDT, cumulado com o art. 38 (1) “c” do ECIJ ou, ainda, do art. 32 da CVDT, há uma série de evidências que podem ser utilizadas para confirmar ou mesmo infirmar o sentido construído a partir de evidências intrínsecas ou de evidências extrínsecas primárias. Para LUC DE BROE8, o intérprete poderia sempre recorrer às evidências do art. 32 da CVDT, seja para confirmar o sentido provido por outros meios ou, quando esses conduzissem à ambiguidade, obscuridade, manifesto absurdo ou ausência de razoabilidade, para lhe determinar tal sentido. Observa o professor belga que tais situações não seriam excepcionais, mas corriqueiras, já que as questões encaminhadas aos tribunais têm como causa justamente a existência de obscuridades ou ambiguidades no texto do acordo. Pondera o autor, contudo, que sentidos providos por evidências do art. 32 da CVDT apenas prevaleceriam em casos de ambiguidade, obscuridade, manifesto absurdo ou ausência de razoabilidade. Entre as evidências desse contexto extrínseco secundário, é necessário analisar os Comentários à CMOCDE. 1.3.2.1. Os Comentários à CMOCDE e a confirmação das conclusões expostas. Os Comentários à CMOCDE, editados pelo Comitê de Assuntos Fiscais da OCDE, podem ser equiparados à doutrina dos publicistas mais qualificados das diferentes nações, a qual, conforme albergada pelo art. 31 (3) “c” da CVDT cumulado com o art. 38 (1) “c” do Corte Internacional de Justiça. A obrigatoriedade de sua observância se dá nesses termos. É geralmente aceito9 que os Comentários à CMOCDE são menos importantes no caso de convenções fiscais envolvendo um Estado não membro da OCDE. Para KLAUS VOGEL10, a intenção de tais Estados em adotar os sentidos contidos nos Comentários não poderia ser afirmada de forma genérica e apenas poderia ser presumida se o texto do dispositivo coincidir com o adotado na CMOCDE e não houver outra interpretação fornecida pelo “contexto”. Essa observação é necessária por não ser o Brasil um Estado membro da OCDE, o que coloca em dúvida a importância dos referidos Comentários para o julgamento do caso em análise. De todo modo, desde a sua versão de 1977, os Comentários à CMOCDE apresentam as seguintes disposições quanto à interpretação do art. 10 (dividendos), especialmente quanto aos termos “dividendos pagos”, in verbis: “7. Por este motivo, o parágrafo 1 simplesmente estabelece que dividendos poderão ser tributados no Estado de residência do beneficiário. O termo “pago” apresenta significado bastante amplo, já que o conceito de pagamento significa o cumprimento da obrigação de colocar recursos à disposição do acionista da maneira exigida por contrato ou pelo costume.” 8 BROE, Luc De. International tax planning and prevention of abuse (doctoral series n. 14). Amsterdã : IBFD, 2007, 252259. 9 Nesse sentido, vide: BROE, Luc De. International tax planning and prevention of abuse (doctoral series n. 14). Amsterdã : IBFD, 2007, p. 294; HOFBAUER, Ines. Tax treaty interpretation in Austria, in Tax treaty interpretation. LANG, Michael (ed). LINDE : Vienna, 2001, p. 25. 10 VOGEL, Klaus. Klaus Vogel on Double Taxation Conventions. Kluwer : London, 1999, p. 44. Fl. 2591DF CARF MF 20 O termo “pago”, conforme essa evidência do contexto extrínseco secundário dos acordos de bitributação, abrange apenas situações em que há efetivo “cumprimento da obrigação de colocar recursos à disposição do acionista da maneira exigida por contrato ou pelo costume”. Desse modo, ainda que se possa atribuir maior ou menor importância aos Comentários à CMOCDE existentes à época em que o acordo BrasilArgentina foi celebrado, é contundente constatar que o parágrafo 7o dos Comentários ao art. 10o da CMOCDE, acima transcrito, converge com as demais evidências analisadas neste voto: para que os “dividendos” sejam considerados “pagos”, exigese a efetiva transferência de titularidade dos recursos da sociedade ao acionista. 1.3.2.2. Os Comentários à CMOCDE editados após a celebração do acordo Brasil Argentina. Há uma cautela que deve ser adotada em relação aos Comentários: alguns deles podem ter sido editados após a celebração do tratado de bitributação sob análise, o que torna muito contestável a sua utilidade. Ocorre que, se ao celebrar o tratado os Estados não conheciam uma determinada posição do Comitê de Assuntos Fiscais da OCDE que sequer havia sido publicada ao tempo da assinatura do acordo, não há como sustentar a existência de consentimento em relação aos Comentários supervenientes. No caso dos autos, o Brasil celebrou acordo a Argentina em 1980, de forma que os Comentários à CMOCDE introduzidos após essa data apresentam reduzida ou mesmo nenhuma relevância. Afinal, aceitar a consideração dinâmica dos Comentários à CMOCDE seria atribuir Poder Legislativo ao Comitê de Assuntos Fiscais da OCDE, órgão do qual o Brasil sequer é membro. É o que ocorre com a posição hoje presente nos parágrafos 37 e 38 dos Comentários à CMOCDE, editados após a celebração do acordo BrasilArgentina, in verbis: “37. Podese argumentar que, caso o país de residência do contribuinte, de acordo com sua legislação de controladas estrangeiras ou outras normas com efeito similar, busque tributar lucros que não foram distribuídos, estará agindo de forma contrária às disposições do parágrafo 5. Contudo, devese observar que o parágrafo é limitado à tributação na fonte e, assim, não lhe cabe tributar na residência nos termos dessa legislação ou normas. Além disso, o parágrafo diz respeito apenas à tributação da sociedade e não do acionista.” “38. A aplicação dessa legislação ou normas poderá, contudo, complicar a aplicação do Artigo 23. Caso rendimento tenha sido atribuído ao contribuinte, cada item do rendimento teria de ser tratado nos termos das disposições pertinentes da Convenção (lucros de empresa, juros, royalties). Se o montante for tratado como dividendo presumido, então será claramente proveniente da sociedadebase, constituindo, assim, rendimento do país da sociedade. Mesmo assim, não está claro se o montante tributável será considerado dividendo, no âmbito do significado do Artigo 10, ou “outro rendimento”, no âmbito do significado do Artigo 21. Nos termos de algumas dessas legislações ou normas, o montante tributável é tratado como dividendo, sendo a isenção prevista por convenção fiscal, por exemplo, isenção de afiliação, também estendida a ele. Há dúvidas acerca de se a Convenção exige ou não que isso seja feito. Se o país de residência julgar que não é este o caso, poderá enfrentar a alegação de estar obstruindo a operação normal da isenção de afiliação ao tributar com antecedência o dividendo (sob a forma de dividendo presumido).” Fl. 2592DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 761 21 Os referidos parágrafos “37” e “38” foram acrescidos aos Comentários à CM OCDE 1992, não encontrando paralelo na versão mantida quando o acordo BrasilArgentina foi celebrado. Notese que, em tese, a consideração dinâmica de revisões meramente amplificadoras encontra alguma aceitação doutrinária11. As chamadas revisões amplificadoras seriam alterações nos Comentários à CMOCDE que apenas tornariam mais claras interpretações que desde sempre seriam possíveis em face da CMOCDE. A enorme dificuldade desse argumento consiste em saber quando uma revisão seria puramente esclarecedora, amplificadora. Nesse seguir, MAARTEN J. ELLIS12 adverte que uma alteração no texto dos Comentários nunca seria realmente neutra: qualquer alteração, ainda que na ordem das palavras ou nas vírgulas utilizadas, pode, mais cedo ou mais tarde, ter consequências práticas. Seria artificial a distinção de alterações meramente estilísticas, explicativas do que já existiria. Contudo, os parágrafos “37” e “38”, acrescidos aos Comentários do art. 10 da CMOCDE, sem dúvida modificaram a posição então adotada por seu Comitê de Assuntos Fiscais, o que apenas pode surtir efeitos aos acordos já celebrados pelo Brasil mediante expressa aquiescência do Poder Legislativo. 1.3.2.3. A aplicação das novas posições assumidas pelos Comentários à CMOCDE exclusivamente em casos de abuso. Especialmente com as alterações introduzidas nos Comentários à CMOCDE em 2003, o Comitê de Assuntos Fiscais daquela organização passou a expressar a possibilidade de normas nacionais dos Estados contratantes afastarem os benefícios dos tratados na hipótese de abuso. Nesse sentido, em 2003, foram adicionados, por exemplo, os parágrafos 9.2 e 22.1 aos Comentários quanto ao art. 1o da CMOCDE, in verbis: “9.1. Esse fato suscita duas questões fundamentais discutidas nos parágrafos seguintes: se os benefícios de convenções tributárias devem ou não ser conferidos a transações que constituem um abuso das disposições dessas convenções (vide parágrafos 9.2 e seguintes abaixo); e se as disposições e normas jurisprudenciais específicas da legislação interna de Estado Contratante destinadas a prevenir o abuso fiscal entram ou não em conflito com convenções tributárias (vide parágrafos 22 e seguintes abaixo). 9.2. Para muitos Estados, a resposta à primeira questão se baseia na sua resposta à segunda questão. Esses Estados levam em consideração o fato de que os tributos incidem, em última análise, segundo o disposto na legislação interna, assim como não restritos (e em alguns raros casos, ampliados) pelas disposições de convenções tributárias. Dessa forma, qualquer abuso do disposto em convenção tributária também poderia ser caracterizado como um abuso do disposto em legislação interna nos termos da qual o imposto será exigido. Com relação a esses Estados, a questão passa a ser, então, se o disposto em convenções tributárias pode impedir ou não a aplicação de disposições anti 11 Nesse sentido, vide: VOGEL, Klaus. Klaus Vogel on Double Taxation Conventions. Kluwer : London, 1999, p. 4347. 12 MAARTEN J. Ellis. The influence of the OECD Commentaries on Treaty Interpretation – Response to Prof. Dr. Klaus Vogel, in Bulletin – Tax Treaty Monitor – December 2000. IBFD : Amsterdã, 2000, p. 617618. Fl. 2593DF CARF MF 22 elisivas previstas na legislação interna, que é a segunda questão acima. Como estabelece o parágrafo 22.1 abaixo, a resposta a essa segunda questão é que, na medida em que essas normas antielisivas são parte das normas básicas que dão origem a obrigação tributária, não serão abrangidas pelos tratados tributários, o sendo, assim, atingidas por eles. Portanto, como regra geral, não haverá nenhum conflito entre essas normas e as disposições de convenções tributárias.” “22. Outras formas de abuso de tratados tributários (por exemplo, o uso de sociedadebase – “base company”) e possíveis maneiras possíveis de lidar com elas, inclusive normas de “substancia sobre a forma”, “substância econômica” e normas gerais antiabusivas também têm sido analisadas, em particular, no que tange à questão de tais normas estarem ou não em conflito com tratados tributários, conforme dispõe a segunda questão mencionada no parágrafo 9.1 acima. 22.1 Essas normas fazem parte das normas internas básicas estabelecidas no direito tributário interno para determinação de quais fatos que dão origem a obrigação tributária; essas normas não são discutidas em tratados tributários e, dessa forma, não são abrangidas por eles. Assim, como regra geral e levando em consideração o parágrafo 9.5, não haverá conflitos. Por exemplo, na medida em que a aplicação das normas mencionadas no parágrafo 22 resulte em recaracterização de rendimento ou nova determinação do contribuinte havido por auferir o rendimento, serão aplicadas as disposições da Convenção levando em conta essas alterações. 22.2 Embora essas normas não estejam em conflito com convenções tributárias, o consenso é que os países membros deverão observar cuidadosamente as obrigações específicas consagradas em tratados tributários contra a dupla tributação, desde que não exista indicação clara de abuso dos tratados.” Assim, ainda que se atribua alguma relevância aos Comentários à CMOCDE editados após a celebração do acordo BrasilArgentina, é preciso ter claro que muitos deles se voltam a situações em que se averigue a existência de “abuso” praticado pelo contribuinte. Tal constatação é relevante pois, no caso dos autos, não há imputação de práticas abusivas praticadas pelo contribuinte. Nem sequer a legislação utilizada como suporte para a autuação se volta contra situações abusivas, tendo a MP 2.158 vocação para alcançar situações independentemente da prática de atos abusivos. Dada a distinção entre as regras brasileiras discutidas neste recurso especial e as normas de reação ao abuso, típicas das legislações CFC adotadas por uma enorme variedade de sistemas jurídicos estrangeiros consideradas nos Comentários da CMOCDE, é razoável compreender que estes sequer podem ser aplicadas ao caso dos autos. Assim concluíram PAULO AYRES BARRETO e CAIO TAKANO13 em trabalho acadêmico sobre o tema, in verbis: “Não há, na nova dicção legal, uma clara e precisa distinção entre situações normais, em que há genuíno exercício da atividade empresarial, e aquelas excepcionais que, mundo afora, ensejam a aplicação de normas CFC, por conterem o elemento abusivo. Pelo contrário, mantevese como regra a tributação automática das controladoras brasileiras no dia 31 de dezembro do ano em que houver a mera apuração do lucro pelas empresas controladas direta 13 BARRETO, Paulo Ayres; TAKANO, Caio Augusto. Regime tributário dos resultados de coligadas e controladas no exterior. In: Instituto Brasileiro de Estudos Tributários, et al. (Org.). PRODIREITO: Direito Tributário: Programa de Atualização em Direito: Ciclo 1. Porto Alegre: Artmed Panamericana; 2015. p. 3638. Grifos do original. Fl. 2594DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 762 23 ou indiretamente pela empresa brasileira, independentemente de sua efetiva disponibilização, que, por vezes, poderá nunca vir a acontecer. (...) a nova sistemática da tributação dos lucros auferidos no exterior não deve ser confundida com aquela própria das normas CFC, tão conhecidas pelos estudiosos do Direito tributário internacional, não havendo razão para que a interpretação de suas regras não obedeça rigorosamente aos limites constitucionais e postos em Lei Complementar.” 1.3.3. O reenvio ao direito doméstico como alterativa ao art. 3 (2) do acordo Brasil Argentina. Caso se compreenda necessário o reenvio ao Direito doméstico brasileiro para a construção de sentido do termo “pago”, que acompanha “dividendos” no art. 10 do acordo BrasilArgentina, igualmente se concluirá que este designa situação de efetiva transferência de titularidade dos recursos da sociedade aos acionistas. Assim, a título de exemplo, o art. 150, §1º, do CTN, por utilizar o termo “pagamento”, é interpretado pelo STJ como exigência de efetiva de transferência de titularidade do contribuinte ao fisco, de quitação concreta, não bastando simples retenção: “III. De acordo com o entendimento firmado no STJ, a retenção do Imposto de Renda, pela fonte pagadora, não se assimila ao pagamento antecipado, aludido no § 1º do art. 150 do CTN. Assim, a quantia retida, pela fonte pagadora, não tem o efeito de pagamento, até porque toda ou parte dela poderá ser objeto de restituição, dependendo da declaração de ajuste anual. Assim, a prescrição da Ação de Repetição de Indébito Tributário flui a partir do pagamento realizado após a declaração anual de ajuste do Imposto de Renda”. (STJ, AgRg no AREsp 193.400/MA, Rel. Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, SEGUNDA TURMA, julgado em 10/03/2016, DJe 17/03/2016) Outro exemplo pode ser colhido do art. 138 do CTN. A denúncia espontânea exige o pagamento, que deve efetivamente concretizarse com a transferência de recursos, de quitação concreta, antes mesmo do lançamento tributário. Nesse sentido, é a jurisprudência do STJ: “A jurisprudência da egrégia Primeira Seção, por meio de inúmeras decisões proferidas, dentre as quais o REsp nº 284189/SP (Rel. Min. Franciulli Netto, DJ de 26/05/2003), uniformizou entendimento no sentido de que, nos casos em que há parcelamento do débito tributário, ou a sua quitação total, mas com atraso, não deve ser aplicado o benefício da denúncia espontânea da infração, visto que o cumprimento da obrigação foi desmembrado, e esta só será quitada quando satisfeito integralmente o crédito.” (STJ, AgRg no REsp 727.181/RJ, Rel. Ministro JOSÉ DELGADO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 14/06/2005, DJ 01/08/2005) Nesse cenário, não há no sistema jurídico brasileiro sentido diverso ao termo “pago” (ou melhor, dividendos pagos) daquele construído a partir do contexto em que o acordo BrasilArgentina está inserido, qual seja: efetiva transferência de titularidade dos recursos da sociedade ao acionista. Fl. 2595DF CARF MF 24 1.4. A jurisprudência judicial e administrativa a respeito da matéria É importante consignar que o STJ, em julgamento sobre a matéria, alcançou a mesma conclusão, como se observa da ementa a seguir: RECURSO ESPECIAL TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA DENEGADO NA ORIGEM. APELAÇÃO. EFEITO APENAS DEVOLUTIVO. PRECEDENTE. NULIDADE DOS ACÓRDÃOS RECORRIDOS POR IRREGULARIDADE NA CONVOCAÇÃO DE JUIZ FEDERAL. NÃO PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS 282 E 356/STF. IRPJ E CSLL. LUCROS OBTIDOS POR EMPRESAS CONTROLADAS NACIONAIS SEDIADAS EM PAÍSES COM TRIBUTAÇÃO REGULADA. PREVALÊNCIA DOS TRATADOS SOBRE BITRIBUTAÇÃO ASSINADOS PELO BRASIL COM A BÉLGICA (DECRETO 72.542/73), A DINAMARCA (DECRETO 75.106/74) E O PRINCIPADO DE LUXEMBURGO (DECRETO 85.051/80). EMPRESA CONTROLADA SEDIADA NAS BERMUDAS. ART. 74, CAPUT DA MP 2.15735/2001. DISPONIBILIZAÇÃO DOS LUCROS PARA A EMPRESA CONTROLADORA NA DATA DO BALANÇO NO QUAL TIVEREM SIDO APURADOS, EXCLUÍDO O RESULTADO DA CONTRAPARTIDA DO AJUSTE DO VALOR DO INVESTIMENTO PELO MÉTODO DA EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO, PARA CONCEDER A SEGURANÇA, EM PARTE. 1. Afastase a alegação de nulidade dos acórdãos regionais ora recorridos, por suposta irregularidade na convocação de Juiz Federal que funcionou naqueles julgamentos, ou na composição da Turma Julgadora; inocorrência de ofensa ao Juiz Natural, além de ausência de prequestionamento. Súmulas 282 e 356/STF. Precedentes desta Corte. 2. Salvo em casos excepcionais de flagrante ilegalidade ou abusividade, ou de dano irreparável ou de difícil reparação, o Recurso de Apelação contra sentença denegatória de Mandado de Segurança possui apenas o efeito devolutivo. Precedente: AgRg no AREsp. 113.207/SP, Rel. Min. CASTRO MEIRA, DJe 03/08/2012. 3. A interpretação das normas de Direito Tributário não se orienta e nem se condiciona pela expressão econômica dos fatos, por mais avultada que seja, do valor atribuído à demanda, ou por outro elemento extrajurídico; a especificidade exegética do Direito Tributário não deriva apenas das peculiaridades evidentes da matéria jurídica por ele regulada, mas sobretudo da singularidade dos seus princípios, sem cuja perfeita absorção e efetivação, o afazer judicial se confundiria com as atividades administrativas fiscais. 4. O poder estatal de arrecadar tributos tem por fonte exclusiva o sistema tributário, que abarca não apenas a norma regulatória editada pelo órgão competente, mas também todos os demais elementos normativos do ordenamento, inclusive os ideológicos, os sociais, os históricos e os operacionais; ainda que uma norma seja editada, a sua efetividade dependerá de harmonizarse com as demais concepções do sistema: a compatibilidade com a hierarquia internormativa, os princípios jurídicos gerais e constitucionais, as ilustrações doutrinárias e as lições da jurisprudência dos Tribunais, dentre outras. 5. A jurisprudência desta Corte Superior orienta que as disposições dos Tratados Internacionais Tributários prevalecem sobre as normas de Direito Interno, em razão da sua especificidade. Inteligência do art. 98 do CTN. Precedente: (RESP 1.161.467RS, Rel. Min. CASTRO MEIRA, DJe 01.06.2012). 6. O art. VII do Modelo de Acordo Tributário sobre a Renda e o Capital da OCDE utilizado pela maioria dos Países ocidentais, inclusive pelo Brasil, Fl. 2596DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 763 25 conforme Tratados Internacionais Tributários celebrados com a Bélgica (Decreto 72.542/73), a Dinamarca (Decreto 75.106/74) e o Principado de Luxemburgo (Decreto 85.051/80), disciplina que os lucros de uma empresa de um Estado contratante só são tributáveis nesse mesmo Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante, por meio de um estabelecimento permanente ali situado (dependência, sucursal ou filial); ademais, impõe a Convenção de Viena que uma parte não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado (art. 27), em reverência ao princípio basilar da boafé. 7. No caso de empresa controlada, dotada de personalidade jurídica própria e distinta da controladora, nos termos dos Tratados Internacionais, os lucros por ela auferidos são lucros próprios e assim tributados somente no País do seu domicílio; a sistemática adotada pela legislação fiscal nacional de adicionálos ao lucro da empresa controladora brasileira termina por ferir os Pactos Internacionais Tributários e infringir o princípio da boafé na relações exteriores, a que o Direito Internacional não confere abono. 8. Tendo em vista que o STF considerou constitucional o caput do art. 74 da MP 2.15835/2001, aderese a esse entendimento, para considerar que os lucros auferidos pela controlada sediada nas Bermudas, País com o qual o Brasil não possui acordo internacional nos moldes da OCDE, devem ser considerados disponibilizados para a controladora na data do balanço no qual tiverem sido apurados. 9. O art. 7o, § 1o. da IN/SRF 213/02 extrapolou os limites impostos pela própria Lei Federal (art. 25 da Lei 9.249/95 e 74 da MP 2.15835/01) a qual objetivou regular; com efeito, analisandose a legislação complementar ao art. 74 da MP 2.15835/01, constatase que o regime fiscal vigorante é o do art. 23 do DL 1.598/77, que em nada foi alterado quanto à não inclusão, na determinação do lucro real, dos métodos resultantes de avaliação dos investimentos no Exterior, pelo método da equivalência patrimonial, isto é, das contrapartidas de ajuste do valor do investimento em sociedades estrangeiras controladas. 10. Ante o exposto, conheço do recurso e doulhe parcial provimento, concedendo em parte a ordem de segurança postulada, para afirmar que os lucros auferidos nos Países em que instaladas as empresas controladas sediadas na Bélgica, Dinamarca e Luxemburgo, sejam tributados apenas nos seus territórios, em respeito ao art. 98 do CTN e aos Tratados Internacionais em causa; os lucros apurados por Brasamerican Limited, domiciliada nas Bermudas, estão sujeitos ao art. 74, caput da MP 2.15835/2001, deles não fazendo parte o resultado da contrapartida do ajuste do valor do investimento pelo método da equivalência patrimonial. (STJ, REsp 1.325.709/RJ, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 24/04/2014, DJe 20/05/2014) Igual entendimento foi adotado pelo Tribunal Regional Federal da 4a Região, ao julgar o recurso de Apelação da União Federal e a Remessa Necessária nos autos do processo n. 2003.72.01.0000144/SC14: TRIBUTÁRIO. IRPJ. CSLL. LUCROS AUFERIDOS POR EMPRESAS CONTROLADAS SEDIADAS NO EXTERIOR. TRATADOS INTERNACIONAIS PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO. CONFLITO DE NORMAS. ART. 74, CAPUT, DA MP Nº 2.15835/2001. 14 Vide: http://www.netinternacional.org/web/TabId/64/NoticiaId/229/pdf.aspx. Fl. 2597DF CARF MF 26 PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE. PREVALÊNCIA DA NORMA VEICULADA NOS TRATADOS. TRIBUTAÇÃO EXCLUSIVA DOS LUCROS NO PAÍS DE DOMICÍLIO. REAVALIAÇÃO POSITIVA DOS INVESTIMENTOS EM CONTROLADAS SITUADAS NO EXTERIOR. NEUTRALIDADE DO MÉTODO DA EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL PARA FINS FISCAIS. ART. 23, PARÁGRAFO ÚNICO, DO DL Nº 1.598/1977. 1. Em matéria tributária, dispõe o art. 98 do CTN que os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha. A doutrina adverte quanto à imprecisão técnica do dispositivo, porquanto não se trata, a rigor, de revogação da legislação interna, mas de suspensão da eficácia da norma tributária nacional, que readquirirá a sua aptidão para produzir efeitos se e quando o tratado for denunciado (Ricardo Lobo Torres). 2. A despeito da controvérsia no STF sobre a hierarquia normativa entre tratados em matéria tributária e lei interna, a questão se resolve no plano infraconstitucional. As disposições veiculadas nos tratados e convenções internacionais em matéria tributária, após se submeterem ao procedimento previsto no art. 49, inciso I, da CF, passam a integrar o ordenamento jurídico nacional. Eventual antinomia, assim, resolvese pelo princípio da especialidade, prevalecendo o regramento internacional naquilo que conflitar com a norma interna de tributação. A norma interna deixa de ser aplicada na hipótese específica regulada pelo tratado, mas continua válida e aplicável a todas as situações que não envolvem os sujeitos e os elementos de estraneidade definidos no tratado. Ocorre, dessa forma, a suspensão da eficácia da norma interna e não propriamente revogação ou modificação. 3. Entender que a superveniência de norma interna conflitante com o tratado internacional modificaria o regramento a ser aplicado implica denúncia implícita do acordo, sem a adoção dos procedimentos constitucionais e legais para tanto, desprezando, ademais, os princípios da boafé, da segurança e da cooperação que norteiam as relações internacionais. Em favor da prevalência dos tratados, cabe invocar não somente o art. 98 do CTN, mas também o art. 5º, § 2º, da Constituição Federal e o art. 27 do Decreto nº 7.030/2009, que promulga a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados. 4. O Brasil firmou acordos visando a evitar a dupla tributação e a prevenir a evasão fiscal, em matéria de imposto de renda, com a China (Decreto nº 762/1993) e a Itália (Decreto nº 85.985/1981). Ambos oferecem tratamento uniforme à matéria, seguindo o Modelo de Acordo Tributário sobre Renda e Capital da OCDE. O art. 7º dos Tratados adota o princípio da residência no tocante à tributação dos lucros das empresas, estabelecendo a competência exclusiva do país de domicílio da empresa para a tributação de seus lucros. 5. O ponto nodal da controvérsia decorre do disposto no art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001, que considera disponibilizados os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, independente de sua efetiva distribuição. 6. Equivocase a Fazenda Nacional ao sustentar que a tributação incide sobre os lucros obtidos por empresa sediada no Brasil, provenientes de fonte situada no exterior, na medida em que refletem positivamente no patrimônio da controladora, valorizando suas ações e demais ativos, pois a reavaliação positiva dos investimentos realizados em empresas controladas situadas no exterior não constitui renda tributável, conforme o disposto no parágrafo único do art. 23 do DL nº 1.598/1977 (na redação vigente até a Lei nº 12.973/2014). A norma do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001 em nada alterou o regime fiscal vigorante desde o art. 23 do DL nº 1.598/1977, que estabelece a neutralidade do método da equivalência patrimonial para efeitos fiscais, porque seu resultado positivo, relevante para a contabilidade, não é tributado. Fl. 2598DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 764 27 7. Diante do evidente conflito do disposto no art. 74 da MP nº 2.15835, que determina a adição dos lucros obtidos pela empresa controlada no exterior, para o cômputo do lucro real da empresa controladora, na data do balanço no qual tiverem sido apurados, deve prevalecer a norma do art. 7º dos Decretos nº 762/1993 e nº 85.985/1981, a fim de evitar a tributação dos lucros das empresas controladas pela impetrante na China e na Itália”. Esse mesmo entendimento tem sido adotado em outros julgados do CARF, por exemplo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005, 2006 IRPJ LUCROS DE CONTROLADAS NA HOLANDA DIVIDENDOS FICTOS LUCROS TRATADO ART. 10 OU ART. 7º 1 A tributação do art. 74 da MP 2.158/01 não recai sobre dividendos fictos. Não se pode empregar ficção legal para alcançar materialidade ou se antecipar seu aspecto temporal quando a Constituição Federal usa essa materialidade na definição de competência tributária dos entes políticos. Ademais, o art. 10 do Tratado BrasilHolanda trata dos dividendos pagos, não permitindo que se considerem como dividendos os distribuídos fictamente. O problema da qualificação de dividendos é resolvido pelo próprio art. 10 do Tratado BrasilHolanda. Inaplicabilidade do art. 10 do tratado. 2 O regime de CFC do Brasil do art. 74 da MP 2.158/01 considera transparente as controladas no exterior (entidade transparente ou passthrough entity): considera como auferidos pela investidora no País os lucros da investida no exterior; são os lucros em dissídio. Isso é considerar auferidos os lucros no exterior pela investidora no País, por intermédio de suas controladas no exterior. Não é o mesmo que ficção legal: é parecença com a consideração do lucro de grupo societário (tax group regime). O art. 7º do Tratado Brasil Holanda é norma de bloqueio: define competência exclusiva para tributação dos lucros da sociedade residente num Estado contratante a este Estado. Regra específica em face de regra geral. A não aplicação da norma de bloqueio do art. 7º aos lucros em dissídio seria simplesmente desconsiderar, no âmbito de tratado, a personalidade jurídica da sociedade residente na Holanda. No mesmo sentido, bastaria um dos Estados contratantes proceder a uma qualificação a seu talante do que (não) sejam lucros de controlada residente noutro Estado contratante, para frustrar norma de tratado que as partes honraram respeitar. Intributabilidade com o IRPJ dos lucros em discussão, pela aplicação do art. 7º do Tratado BrasilHolanda. IRPJ, CSLL LUCROS DE COLIGADA NA ARGENTINA ADI 2.588. DF. No julgamento da ADI 2.588DF, com trânsito em julgado em 17/2/14, Reconheceuse a inconstitucionalidade do art. 74 da MP 2.158/01 em relação a lucros de coligadas não situadas em “paraíso fiscal”. Efeitos do julgamento da ADI 2.588DF sobre os lucros da coligada residente na Argentina. Intributabilidade, no País, desses lucros. CSLL LUCROS DE CONTROLADAS NA HOLANDA TRATADO. Sofrem incidência da CSLL os lucros das pessoas jurídicas controladas sediadas na Holanda. MULTA ISOLADA CONCOMITÂNCIA MULTA PROPORCIONAL Apenado o continente, incabível apenar o conteúdo. Penalizar pelo todo e ao mesmo tempo pela parte do todo seria uma contradição de termos lógicos e Fl. 2599DF CARF MF 28 axiológicos. Princípio da consunção em matéria apenatória. A aplicação da multa de ofício de 75% sobre a CSLL exigida exclui a aplicação da multa de ofício de 50% sobre CSLL por estimativa dos mesmos anoscalendário. (Acórdão 1103001.122 – 1ª Câmara / 3ª Turma Ordinária , sessão de 21/10/2014). 1.5. O escopo do acordo BrasilArgentina e a abrangência da CSLL. É importante observar que a PFN não apresenta fundamentação quanto à possibilidade de aplicação do Tratado apenas em relação ao IRPJ e não quanto à CSLL. Essa questão, então, sequer necessita ser enfrentada. Ainda que assim não fosse, a Lei n. 13.202, de 8.12.2015, prescreve: Art. 11. Para efeito de interpretação, os acordos e convenções internacionais celebrados pelo Governo da República Federativa do Brasil para evitar dupla tributação da renda abrangem a CSLL. Parágrafo único. O disposto no caput alcança igualmente os acordos em forma simplificada firmados com base no disposto no art. 30 do DecretoLei no 5.844, de 23 de setembro de 1943. Aplicase ao referido enunciado legal o art. 106 do CTN, que assim dispõe: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; Desse modo, é necessário reconhecer que a CSLL encontrase indubitavelmente incluída no escopo dos acordos de dupla tributação celebrados pelo Brasil, independentemente do período em que houver sido celebrado o acordo, tendo em vista a eficácia retroativa do art. 11 da Lei n. 13.202/2015. 1.6. Peculiaridades do caso concreto. Por fidelidade do debate ocorrido no Colegiado quando da prolação do presente acórdão, cumpre observar peculiaridades do caso concreto, especialmente quanto ao reconhecimento, pela autoridade fiscal que lavrou o auto de infração, da incidência do tratado internacional ao caso concreto. Nesse sentido, transcrevese a declaração de voto apresentada Conselheiro Demetrius Nichele Macei no julgamento do recurso voluntário e que também integrou o Colegiado no julgamento deste recurso especial, in verbis: “Tratase de auto de infracã̧o lavrado contra a empresa MARFRIG ALIMENTOS S/A, ("MARFRIG" "autuada") através do qual foi constituído crédito tributário relativo ao IRPJ e à CSLL, relativo aos períodos de apuração de 2006 e 2007. Mais detalhadamente, os tributos foram exigidos em razão de lucros auferidos pelas controladas diretas da autuada, as empresas TACUAREMBÓ e INALTER, com sede no Uruguai, bem como as empresas AB&P e QUICK FOODS ("QUICK"), com sede na Argentina. Especificamente em relaca̧õ às empresas na Argentina, a fiscalizaçaõ entendeu aplicável o Tratado para evitar a bitributaçaõ firmado entre o Brasil e a Argentina para deixar de lanca̧r créditos de IRPJ em relação a AB&P, mantendo apenas a cobrança da CSLL pois, segundo a autoridade autuante, o tratado não teria alcance sobre esta contribuição social, considerando que, ao tempo da celebraçaõ do tratado, este tributo não havia sido criado. Fl. 2600DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 765 29 Partindo da premissa de que o entendimento desta turma é de que Tratados dessa natureza NÃO servem como norma de bloqueio para a cobrança, nem do IRPJ nem da CSLL entendimento que pessoalmente não me filio a rigor, se houvesse lanca̧mento sob este fundamento, esta turma teria mantido a cobrança. Ocorre que, neste caso concreto, a fiscalização sequer chegou a lançar o IRPJ e este Conselho não tem competência de efetuar novo lançamento, apenas rever. Em relação à CSLL a situação é sui generis pois o lançamento se deu, mas com fundamento do nãoalcance do tratado em relação ao tributo em si, e não com o fundamento de que o Tratado (mesmo hipoteticamente mencionada a "CSLL" em seu texto) não seria eficaz para bloquear a cobrança em relação aos lucros provenientes do exterior e reconhecidos no Brasil. Diante disso, este Conselho a meu ver acertadamente revendo o fundamento do lanca̧mento no caso concreto, resolveu cancelar a cobrança da CSLL pois o fato da contribuição não estar prevista expressamente no tratado se deu em virtude de que a lei que criou o tributo (Lei 7689/89) não existia ao momento da celebração do acordo internacional. Nesta linha de entendimento, sendo a CSLL tributo incidente sobre o lucro das empresas, o tratado passa a ser eficaz também em relaca̧õ ao "novo" tributo. Esta tese se reforça na medida em que todos os tratados firmados posteriormente a 1989 contemplaram expressamente a CSLL em seus termos. Mas não é só. Vejase que para a outra empresa sediada na Argentina, denominada QUICK, a fiscalização não deu a mesma solução. Diferentemente da AB&P, a QUICK tratavase de controlada indireta da autuada, ao menos sob o aspecto formal, pois entre a autuada e aquela havia um empresa sediada no Estado norteamericano de Delaware, denominada BLUE HORIZON LLC. ("BLUE"). Diante desse fato, ao examinar a estrutura societária dessas empresas a fiscalização entendeu que a empresa norteamericana se tratava de entidade "translúcida", isto é, uma mera empresa de passagem, sem substância, cujo único objetivo seria de obter economia tributária. A consequência lógica desta postura da autoridade autuante foi considerar a QUICK controlada direta da autuada, lançando os lucros auferidos com base nessa mesma lógica. Diante desse cenário, este julgador, seguido pelo i. presidente da turma julgadora, entenderam que não houve a devida coerência da fiscalização ao deixar de aplicar o tratado BrasilArgentina para o caso da QUICK. Explico: Se os fundamentos para a autuação das demais empresas foram no sentido de que o tratado internacional mencionado serve sim como norma de bloqueio, a desconsideração da empresa BLUE e a visualização da ligação direta entre a MARFRIG (autuada) e a QUICK não poderia desconsiderar o mesmo tratado. Em outras palavras: Se a empresa norteamericana fosse considerada válida, apenas eventuais tratados ou regras brasileiras aplicáveis (compensaca̧õ, por exemplo) entre o Brasil e os EUA (na relaca̧õ MARFRIGBLUE) e de outro lado, entre os EUA e a Argentina (na relação BLUE QUICK) seriam aplicáveis. A contrario sensu, desconsiderada com foi a existen̂cia, para fins tributários, da empresa BLUE, é imperioso reconhecer a eficácia do tratado BrasilArgentina no caso concreto. Se o fisco entendeu que a relação entre a autuada e a empresa Argentina é direta, também deveria reconhecer o tratado existente entre os dois únicos países envolvidos, e não o fez. Repitase: o entendimento majoritário desta Turma é que o tratado Brasil Argentina não impediria em tese, em nenhuma das hipóteses desses autos, o Fl. 2601DF CARF MF 30 lanca̧mento. Mas é preciso reiterar também que o fundamento da autuaçaõ foi diametralmente oposto. Pois bem. Se o fundamento da autuaçaõ foi este, por uma questão de coeren̂cia e lógica, deveria ter sido reconhecido o mesmo bloqueio da tributação na relação (de fato) reconhecida e considerada pela mesma fiscalização, entre a empresa brasileira (autuada) e a Argentina, tal qual foi feito em relaçaõ à empresa AB&P no mesmo procedimento fiscalizatório. Diante do exposto, apresento a presente declaração para justificar o voto que proferi no sentido de seguir o entendimento da maioria dos integrantes da turma no caso concreto, porém, "pelas conclusões", aqui devidamente esclarecidas.” Vale observar que os Conselheiros Flávio Franco Corrêa, Viviane Vidal Wagner, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Demetrius Nichele Macei e Rafael Vidal de Araújo acompanharam este relator apenas em relação a este fundamento, atinente às peculiaridades do caso concreto. 2. RECURSO ESPECIAL DO CONTRIBUINTE: exercício fiscal das empresas sediadas no exterior. O contribuinte também interpôs recurso especial, especialmente no que diz respeito ao tema do exercício fiscal das empresas sediadas no Uruguai. A Turma a quo teria entendido que haveria dois critérios distintos para tratar da apuração e demonstração do lucro auferido por empresa sediada no exterior: (i) se empresas coligadas, estas deveriam observar o exercício fiscal da empresa estrangeira; (ii) se empresas controladas, estas deveriam observar o exercício fiscal brasileiro. Destacase o seguinte trecho do acórdão recorrido, in verbis: São duas as empresas sediadas no Uruguai e que contribuíram para o resultado da recorrente no Brasil. São elas as empresas TACUAREMBÓ e INALER. Alega a recorrente, em primeiro lugar, que o exercício social das referidas empresas, de acordo com a legislação local, estaria compreendido entre 01 de outubro e 30 de setembro de cada ano. Assim, o lançamento relativo ao ano calendário de 2006 seria inválido, haja vista que ambas as empresas foram adquiridas após o encerramento do exercício fiscal no Uruguai. A TACUAREMBÓ foi adquirida em 20/10/2006 e a INALER em 08/12/2006. Além disso, o lançamento teria considerado o balanço levantado pelas respectivas empresas, elaborado conforme a legislação brasileira, compreendendo o período de 01 de janeiro a 31 de dezembro de 2006. Não assiste razão à recorrente. Vejamos o que dispõe a Lei n 9.249/95, em seu art. 25: (...) Verificase que o legislador adotou dois critérios distintos para tratar da apuração e demonstração do lucro auferido pela empresa no exterior: o primeiro, inscrito no § 2o do art. 25, diz respeito às empresas controladas; já o segundo, dado pelo § 3o do mesmo artigo, versa sobre as empresas coligadas. No caso das coligadas, a norma determinou que os lucros a serem computados na apuração do lucro real devem ser aqueles apurados nos balanços levantados pela coligada no curso do períodobase da pessoa jurídica (neste caso, da própria coligada no exterior). Já no que se refere às controladas, determina o art. 25, § 2o, inc. I, que estas deverão demonstrar a apuração dos lucros, segundo as normas da legislação brasileira. E foi exatamente o que fez a recorrente, ao apresentar os balanços de efls. 424/429 e 470/475, onde apresenta os resultados auferidos em 31 de dezembro de 2006 e 2007, e que foram utilizados pela fiscalização para fundamentar o lançamento. A diferença de tratamento é inequívoca. E isso se explica porque, no caso das filiais, sucursais e controladas, a empresa controladora no Brasil tem todas as Fl. 2602DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 766 31 condições, devido ao seu poder e influência sobre elas, de determinar que os resultados auferidos pela empresa alienígena sejam demonstrados segundo as normas brasileiras, para efeito de tributação da empresa nacional. Sim, porque é disso que se trata; não estamos a falar de tributação da empresa estrangeira, mas sim da empresa com sede no Brasil, que tem o seu resultado influenciado pelo lucro auferido por sua controlada no exterior. O mesmo não acontece em relação às coligadas, por razões óbvias. Em relação ao momento em que devem ser considerados como disponibilizados os lucros apurados pelas empresas no exterior, determina o art. 74 da MP 2.15835/2001 o seguinte: Art. 74 Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL , nos termos do art. 25 da Lei no 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Provisória, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento . O art. 74 da MP no 2.15835/2001 uniformizou o conceito a respeito do momento da disponibilização dos lucros apurados no exterior para coligadas e controladas; considerouos como disponibilizados para a empresa brasileira na data do balanço no qual forem apurados, seguindo o modelo previsto na Lei no 9.532, de 10 de dezembro de 1997, para as filiais e sucursais. Portanto, in casu e, para pontuar, a data de 31/12/2006 é que deve ser considerada como marco para a definição do fato gerador do IRPJ e da CSLL. Assim, não merece guarida a alegação de que o lançamento efetuado relativo ao ano de 2006 seria indevido pelo fato de as empresas TACUAREMBÓ e INALER terem sido adquiridas somente após o encerramento do ano fiscal uruguaio, haja vista que, na data em que levantados os balanços das mesmas (31/12), segundo a legislação brasileira, elas já se encontravam sob o controle da recorrida. O mesmo raciocínio pode ser aplicado para o ano calendário de 2007. Os balanços apresentados pela recorrente referemse ao período de 01 de janeiro a 31 de dezembro de 2007 (v. efls. 424/426 e 470/472), onde são apontados os lucros apurados pelas empresas controladas durante o respectivo período. Por todo o exposto, não merece reparo o lançamento nem a decisão de piso, em relação às empresas sediadas no Uruguai. O contribuinte, por sua vez, se opõe à decisão recorrida, com base nos seguintes fundamentos: “(...) Considerando que as datas de aquisições das empresas uruguaias pela Recorrente foram posteriores ao fechamento do anocalendário uruguaio, que se deu 30.09.2006 (TACUAREMBÓ em 20.10.2006 e INALER em 08.12.2006), não há que se falar em tributação no Brasil do resultado auferido por elas de janeiro a setembro de 2006, que denota vício insanável do lançamento perpetrado, o qual deve ser anulado por este órgão de julgamento. Nesse contexto, o resultado auferido pelas controladas uruguaias no exercício fiscal daquele país compreendido entre Out/2006 e Set/2007, somente poderia ser reconhecido pela controladora brasileira em seu resultado para fins de tributação pelo IRPJ/CSLL no fechamento do anocalendário de 2007, já que em 31.12.2006 o resultado das investidas uruguaias vinculados a Recorrente, nos termos aqui descritos, não se encontrava concluído. O mesmo raciocínio devese estender para o período compreendido entre Out/2007 e Set/2008, cujo resultado somente poderia ser reconhecido pela controladora brasileira em 31.12.2008. Fl. 2603DF CARF MF 32 Desta feita, para o anocalendário de 2006 não existiriam resultados das empresas uruguaias a serem tributados no Brasil, enquanto que para o ano calendário de 2007 seria passível de tributação no Brasil somente o resultado auferido pelas controladas no exercício fiscal uruguaio compreendido entre 01.10.2006 e 30.09.2007. De forma equânime, não se pode considerar a movimentação ocorrida nas empresas uruguaias entre 01.10.2007 e 31.12.2007 para fins de tributação no Brasil no ano calendário de 2007, sendo tal parcela somente passível de tributação pela Recorrente no fechamento do anocalendário de 2008.” Compreendo assistir razão ao contribuinte, devendo ser reformado o acórdão recorrido. É muito didática a doutrina de Ricardo Mariz de Oliveira quanto à matéria em questão. "Em outras palavras, ser ou não tributável a renda ou provento obtido no exterior é matéria da competência exclusiva da lei brasileira, mas haver ou não haver a renda ou o provento é coisa que somente pode ser dita pela lei do país onde ocorre ou pode ocorrer a respectiva relação jurídica. No detalhe, a lei brasileira pode definir ser tributável a renda proveniente de participação em sociedade coligada ou controlada no exterior, e para tanto pode também definir as características em que exista a situação de coligação e de controle para fins dessa tributação. Mas a existência da relação jurídica de sociedade, e depois a existência da relação jurídica de que provém a renda que essa sociedade pode gerar, são matérias que somente a lei do respectivo país pode disciplinar, juntamente com o estatuto social da pessoa jurídica lá estabelecida, estatuto este também regrado por aquela lei. (“O Imposto de Renda e os Lucros Auferidos no Exterior”, In: Grandes Questões Atuais do Direito Tributário, 7º vol., Dialética, p. 357). É relevante ainda observar o disposto na Súmula CARF n. 94: Súmula CARF nº 94: Os lucros auferidos no exterior por filial, sucursal, controlada ou coligada serão convertidos em reais pela taxa de câmbio, para venda, do dia das demonstrações financeiras em que tenham sido apurados tais lucros, inclusive a partir da vigência da MP nº 2.15835, de 2001 Nesse sentido é o acórdão nº 110200.060 , trazido pelo contribuinte como paradigma de divergência, quando conclui que "inciso I do §2º do art. 25 da Lei n. 9.249/95 – “não determinou que as pessoas nele mencionadas (filiais, sucursais ou controladas) apurassem o lucro segundo as normas da legislação brasileira, mas sim, que o lucro por elas auferido (e que devem ser adicionados ao lucro líquido da matriz ou controladora) deve ser demonstrado segundo as normas da legislação brasileira (ou seja, deve observar a discriminação prevista no art. 187 da Lei nº 6.404, de 1976)”. Notese que o resultado a ser adicionado à base de cálculo do tributo brasileiro, apurado em 31/12, é o lucro apurado pela empresa estrangeira (residente no exterior) conforme a legislação societária de seu país de residência. Em outros termos, a legislação brasileira tributa o lucro da empresa estrangeira (o que, conforme o meu entendimento, atrairia, na presença de acordo de bitributação, o art. 7º), apurado conforme a legislação daquele país, adicionandoo à base de cálculo do imposto brasileiro em 31/12 do respectivo ano. Tendo em vista que a contribuinte adquiriu participação na empresa uruguaia após o término do exercício fiscal uruguaio de 2006, o resultado daquele ano não poderia ter sido adicionado à sua base de cálculo de IRPJ e CSLL apurado em 31/12/2006. É preciso, portanto, dar provimento ao recurso especial do contribuinte quanto a esse período. Fl. 2604DF CARF MF Processo nº 16643.720021/201181 Acórdão n.º 9101003.664 CSRFT1 Fl. 767 33 Por sua vez, a autoridade fiscal incluiu na base de cálculo do tributo o resultado apurado pelo contribuinte no quarto trimestre deste ano de 2007, período que não integraria o exercício fiscal da companhia conforme a legislação uruguaia. Em relação ao ano calendário 2007, portanto, é necessário dar provimento parcial ao recurso especial do contribuinte, para excluir o lucro auferido no quarto trimestre deste ano. Voto, portanto, por CONHECER o recurso especial interposto pela PFN, para NEGARLHE PROVIMENTO, bem como por CONHECER o recurso especial interposto pela CONTRIBUINTE para DARLHE PARCIAL PROVIMENTO, a fim de afastar a exigência fiscal atinente ao anocalendário 2006, bem como para, em relaçaõ ao anocalendário 2007, excluir o lucro auferido no quarto trimestre deste ano. (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto Fl. 2605DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 18470.720362/2012-91
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Oct 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 18 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 2401-000.710
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Relatora e Presidente.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Rayd Santana Ferreira, José Luiz Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa e Matheus Soares Leite.
Nome do relator: MIRIAM DENISE XAVIER
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Numero do processo: 10855.903051/2009-34
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Sep 26 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Data do fato gerador: 22/03/2006
SALDO NEGATIVO DE CSLL. DCOMP. NÃO COMPROVAÇÃO.
Constatado que não houve a comprovação da existência de saldo negativo de CSLL para fins de compensar débitos da Contribuinte, de se considerar não homologada a compensação pleiteada no Per/Dcomp.
Numero da decisão: 1401-002.782
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Livia de Carli Germano (Vice-Presidente), Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano (Relator), Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga.
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Data do fato gerador: 22/03/2006 SALDO NEGATIVO DE CSLL. DCOMP. NÃO COMPROVAÇÃO. Constatado que não houve a comprovação da existência de saldo negativo de CSLL para fins de compensar débitos da Contribuinte, de se considerar não homologada a compensação pleiteada no Per/Dcomp.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Livia de Carli Germano (Vice-Presidente), Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano (Relator), Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Data do fato gerador: 22/03/2006 SALDO NEGATIVO DE CSLL. DCOMP. NÃO COMPROVAÇÃO. Constatado que não houve a comprovação da existência de saldo negativo de CSLL para fins de compensar débitos da Contribuinte, de se considerar não homologada a compensação pleiteada no Per/Dcomp. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Livia de Carli Germano (VicePresidente), Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano (Relator), Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 5. 90 30 51 /2 00 9- 34 Fl. 59DF CARF MF Processo nº 10855.903051/200934 Acórdão n.º 1401002.782 S1C4T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente processo de Recurso Voluntário ao Acórdão 1439.111 proferido pela Sexta Turma da DRJ/RPO em que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada pela Contribuinte, ocasião em que não reconheceu o alegado direito creditório. A seguir, transcrevo os termos e fundamentos da decisão recorrida: Tratase de Manifestação de Inconformidade interposta em face do Despacho Decisório, em que foi apreciada a Declaração de Compensação (PER/DCOMP) [...], por intermédio da qual a contribuinte pretende compensar débitos (CSLL – código de receita: 2484) de sua responsabilidade com crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior de tributo (CSLL – código de receita: 2484). Por intermédio do despacho decisório[...], não foi reconhecido qualquer direito creditório a favor da contribuinte e, por conseguinte, nãohomologada a compensação declarada no presente processo, ao fundamento de que o pagamento informado como origem do crédito foi integralmente utilizado para quitação de débitos da contribuinte, “não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP”. Irresignada, [...} interpôs a contribuinte manifestação de inconformidade [...], na qual alega, em síntese, que: "(...) 2 A requerente recolheu durante o ano de 2005 a Contribuição Social Sobre o Lucro Liquido, na forma de estimado com recolhimentos mensais, no valor de R$ 356.049,60 (trezentos e cinqüenta e seis mil, quarenta e nove reais e sessenta centavos), conforme demonstrada na ficha 17, Calculo da Contribuição Social, da Declaração de Imposto de Renda Pessoa Jurídica. 3 Ao encerrar o seu balanço, no final do ano optou pela Apuração pelo Lucro Real, levantando balanço onde apurou o valor devido de R$ 238.600,74 (duzentos e trinta e oito mil, seiscentos reais e setenta e quatro centavos), conforme ficha 17 (Calculo da Contribuição Social), da Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica. 4 Conseqüentemente houve um recolhimento a maior no valor de R$ 117.448,86 (cento e dezessete mil, quatrocentos e quarenta reais e oitenta e seis centavos), conforme ficha 17, da DECLARAÇÃO DE IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICA. Fl. 60DF CARF MF Processo nº 10855.903051/200934 Acórdão n.º 1401002.782 S1C4T1 Fl. 4 3 5 Conforme a DECLARAÇÃO PER/DCOMP, [...] a mesma tinha um saldo suficiente para fazer a compensação do Valor de R$ 16.108,25 (dezesseis mil, cento e oito reais e vinte cinco centavos). Diante do exposto é que vem requerer de V.Sria, para que seja mantido o seu credito para a devida compensação solicitada em PER/DCOMP". É o relatório VOTO A manifestação de inconformidade interposta atende aos pressupostos de admissibilidade. Assim sendo, dela conheço. O Despacho Decisório da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Sorocaba não reconheceu qualquer direito creditório a favor da contribuinte e, por conseguinte, não homologou a compensação declarada nos autos, ao fundamento de que o pagamento informado como origem do crédito foi integralmente utilizado para quitação de débitos da contribuinte, não restando crédito disponível para compensação do débito informado na PER/DCOMP[...]. Com efeito, no que diz respeito ao crédito de CSLL (código: 2484), relativo ao mês de novembro de 2005, no valor de R$ 25.647,48, observo que o mesmo foi utilizado integralmente para pagamento de um débito de CSLL (código: 2484), do próprio mês de novembro de 2005, no valor de R$ 25.647,48, assim declarado na DCTF de novembro de 2005 , conforme cópia de tela de sistema de controle anexada aos autos. Contudo, a recorrente vem, em sua defesa, alegar que a natureza do crédito em questão é de saldo negativo de CSLL, e não pagamento indevido ou a maior de CSLL. Dessa forma, cabe perquirir, à luz do disposto na legislação de regência, se a declaração de compensação ora em exame encontrase devidamente instruída, especialmente no que concerne à comprovação de liquidez e certeza do crédito pleiteado. Nesse sentido, o Código Tributário Nacional (CTN), em seu artigo 170, dispõe: “a lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda”. A respeito do tema, cumpre transcrever o disposto no Regulamento do Imposto de Renda RIR/99, aplicável também à CSLL, mais exatamente os artigos 221 a 232, verbis: [...] Fl. 61DF CARF MF Processo nº 10855.903051/200934 Acórdão n.º 1401002.782 S1C4T1 Fl. 5 4 Assim, somente o saldo negativo de CSLL a pagar, calculado ao final do período de apuração, é que se mostra passível de restituição e/ou compensação posterior, nos termos da legislação vigente. No entanto, a apuração da liquidez e certeza do crédito pleiteado, no caso, está na dependência da efetiva demonstração, pela requerente, do saldo negativo de CSLL apurado no final de cada período, uma vez que os valores recolhidos a título de estimativa são considerados pela lei como antecipações da contribuição social devido. Diante dessas considerações, esta Turma de Julgamento tem reiteradamente consignado que em tema de restituição e compensação de saldo negativo de IRPJ e de CSLL com outros tributos, ou com o próprio, cabe o atendimento de quatro premissas: 1ª) a constatação dos pagamentos ou das retenções; 2ª) a oferta à tributação das receitas que ensejaram as retenções; 3ª) a apuração do indébito, fruto do confronto acima delineado e, 4ª) a observância do eventual indébito não ter sido liquidado em autocompensações. Portanto, não basta à interessada alegar o pagamento a maior ou indevido do tributo, mas também deve trazer, por ocasião do presente contencioso, provas, lastreadas em lançamentos contábeis, que identifiquem, inequivocamente, a base de cálculo da CSLL, o saldo negativo de CSLL apurado e, por conseguinte, os registros contábeis relativos às compensações da CSLL devida nos períodos subseqüentes à apuração do indigitado saldo negativo de CSLL. [...] Neste contexto, a contribuinte deveria trazer provas, lastreadas em lançamentos contábeis, dentre estas, destacamse: os registros contábeis de conta no ativo da CSLL a recuperar, a expressão deste direito em balanços ou balancetes, os Livros Diário, Razão e Lalur, etc., tudo de forma a ratificar o indébito pleiteado além da comprovação da contabilização com lastro em documentação hábil, das retenções na fonte e o oferecimento à tributação das receitas que deram origem a tais retenções. Diante dessas premissas, forçoso concluir que a pretensão da Recorrente não logra êxito, vez que a informação prestada na Declaração de Imposto de Renda (DIPJ), por si só, não dá lastro à pretensão repetitória, pois dito documento prova a declaração, não o fato. Noutras palavras: a certeza e liquidez de crédito da contribuinte, a título de saldo negativo de CSLL, não se exterioriza em razão do quantum do tributo declarado como devido no ano calendário, mas sim em relação ao quantum mostrado pela contabilidade. Consoante noção cediça, a escrituração contábil e fiscal mantida com observância das disposições legais faz prova a Fl. 62DF CARF MF Processo nº 10855.903051/200934 Acórdão n.º 1401002.782 S1C4T1 Fl. 6 5 favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais, conforme dispõe o artigo 923 do RIR/1999: [...] No caso presente, a recorrente, com o recurso a esta instância julgadora, nada apresentou, além de cópias do Balanço Patrimonial apurado em 31/12/2005, de um demonstrativo denominado de Resultado do Exercício que compreenderia o período de 01/01/2005 a 31/12/2005, DARF relativo ao mês de novembro de 2005 e da própria DIPJ/2006, ficha 17. Ora, tal qual o pagamento de tributos e contribuições, que necessita, para convalidar o recolhimento efetuado, de uma série de atos do sujeito passivo, como manter escrituração contábil, baseada em documentos hábeis e idôneos, e a partir desta documentação determinar o tributo devido e recolher o correspondente valor, a restituição também almeja, para materializar o indébito, atividade semelhante. Por tais razões, a contribuinte, quando apresenta uma Declaração de Compensação, deve, necessariamente, provar um crédito tributário a seu favor para ter o direito de extinguir um débito tributário constituído em seu nome, de forma que o reconhecimento do indébito tributário seja o fundamento fático e jurídico de qualquer declaração de compensação. A propósito do tema, cumpre destacar o informativo de jurisprudência do STJ de nº 320, de 14 a 18 de maio de 2007, que trouxe o seguinte julgado: RESTITUIÇÃO. INDÉBITO. PROVA. RECOLHIMENTOS. A recorrente aduz que a eventual restituição, se cabível, haveria de ser respaldada em prova documental, acostada na inicial, dos valores efetivamente pagos com as devidas comprovações de recolhimento, e ante tal incerteza não pode ser a União condenada à restituição dos valores postulados (pela via da compensação), sob pena de infração ao princípio do enriquecimento sem causa. Isso posto, a Turma deu provimento ao recurso ao argumento de que o pressuposto fático do direito de compensar é a existência do indébito. Sem prova desse pressuposto, a sentença teria caráter apenas normativo, condicionada à futura comprovação de um fato. REsp 924.550SC, Rel. Min.Teori Albino Zavascki, julgado em 15/5/2007. (gn) Nesse sentido, na declaração de compensação apresentada, o indébito não contém os atributos necessários de liquidez e certeza, os quais são imprescindíveis para reconhecimento pela autoridade administrativa de crédito junto à Fazenda Pública, sob pena de haver reconhecimento de direito creditório incerto, Fl. 63DF CARF MF Processo nº 10855.903051/200934 Acórdão n.º 1401002.782 S1C4T1 Fl. 7 6 contrário, portanto, ao disposto no artigo 170 do Código Tributário Nacional (CTN). Diante do exposto, VOTO pela improcedência da manifestação de inconformidade. Cientificada da decisão do referido acórdão, a Contribuinte interpõe Recurso Voluntário, onde após um breve relato do indeferimento ao seu direito alegado, entende que a documentação acostada é suficiente ao seu pleito. A documentação a que se refere seria a ficha 17 da DIPJ (CSLL) do ano de 2005, DARF, Balanço Patrimonial e Per/Dcomp, além das "Fichas de cálculo da CSLL por estimativa referente a todos os meses de 2005 (JAN a DEZ)." É o relatório. Fl. 64DF CARF MF Processo nº 10855.903051/200934 Acórdão n.º 1401002.782 S1C4T1 Fl. 8 7 Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1401002.780, de 26/07/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10855.903033/2009 52, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1401002.780): Preenchidos os requisitos de admissibilidade do Recurso Voluntário apresentado, dele conheço. Conforme relatoriado, a Recorrente informou como crédito no Perd/Dcomp um valor pago a título de estimativa mensal de CSLL, e posteriormente, por ocasião do indeferimento de seu pleito, alegou que a natureza do crédito em questão seria de saldo negativo de CSLL. A Recorrente, quando recebeu o Despacho Decisório, apresentou sua Manifestação de Inconformidade onde limitouse a afirmar que detinha saldo negativo de CSLL suficiente para a compensação pleiteada, apresentando o balanço e demonstração de resultado. A Decisão de piso não homologou a compensação pleiteada porque entendeu que os documentos trazidos pela Interessada não eram hábeis à comprovação da existência real de saldo negativo de CSLL de 2005. Neste sentido, a DRJ indicou o caminho que a Interessada deveria percorrer, era quase que como dissesse para apresentar tais documentos à segunda instância: Neste contexto, a contribuinte deveria trazer provas, lastreadas em lançamentos contábeis, dentre estas, destacamse: os registros contábeis de conta no ativo da CSLL a recuperar, a expressão deste direito em balanços ou balancetes, os Livros Diário, Razão e Lalur, etc., tudo de forma a ratificar o indébito pleiteado além da comprovação da contabilização com lastro em documentação hábil, das retenções na fonte e o oferecimento à tributação das receitas que deram origem a tais retenções. Fl. 65DF CARF MF Processo nº 10855.903051/200934 Acórdão n.º 1401002.782 S1C4T1 Fl. 9 8 Entretanto, somente consta nos autos uma DCTF e relativa ao pagamento da CSLL citada no Per/dcomp, acostada pela Unidade de Origem, sendo que as demais, se é que existem, a Contribuinte não se pronunciou a respeito. Em fase recursal, a Recorrente trouxe, conforme relatoriado, a ficha 17 da DIPJ (CSLL) do ano de 2005, DARF, Balanço Patrimonial e Per/Dcomp, além das "Fichas de cálculo da CSLL por estimativa referente a todos os meses de 2005 (JAN a DEZ)," documentos estes que não tem o condão de validar um eventual saldo negativo de CSLL. Apesar das oportunidades, a Recorrente não as aproveitou, e, portanto, não sendo trazida aos autos a documentação mencionada pela DRJ, que pudesse permitir a este colegiado aferir que, efetivamente, o contribuinte apresenta saldo negativo de CSLL no anocalendário 2005, só me resta concordar com o decidido pela DRJ. E nem se trata aqui de se buscar a verdade material, uma vez que este princípio não é absoluto, ou seja, a Recorrente nada apresentou que fosse diretamente vinculado ao que consta em determinadas fichas da DIPJ, de forma que nem se poderia aventar a busca pela verdade material, pois tal princípio tem estreita ligação com o que foi impugnado, e, no caso, entendo que a Recorrente nada de novo trouxe aos autos que permitisse a este Relator o mínimo necessário a um exame de averiguação do alegado saldo negativo de CSLL. Na apreciação da questão, o acórdão recorrido mostrou se correto em suas conclusões e encontrase adequadamente fundamentado. Portanto, nego provimento ao Recurso Voluntário, não reconhecendo o alegado direito creditório. É como voto. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto acima transcrito. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Fl. 66DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13656.720857/2016-52
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2011
PENSÃO ALIMENTÍCIA JUDICIAL.
O direito de deduzir dos rendimentos tributáveis os valores pagos a título de pensão alimentícia está vinculado aos termos determinados na sentença judicial ou acordo homologado judicialmente. Requerida a comprovação dos pagamentos efetuados aos beneficiários em atendimento à legislação vigente. Reconhecimento do direito à dedução quando cumpridos os requisitos.
Numero da decisão: 2001-000.623
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente
(assinado digitalmente)
Jose Alfredo Duarte Filho - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e José Ricardo Moreira.
Nome do relator: JOSE ALFREDO DUARTE FILHO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2011 PENSÃO ALIMENTÍCIA JUDICIAL. O direito de deduzir dos rendimentos tributáveis os valores pagos a título de pensão alimentícia está vinculado aos termos determinados na sentença judicial ou acordo homologado judicialmente. Requerida a comprovação dos pagamentos efetuados aos beneficiários em atendimento à legislação vigente. Reconhecimento do direito à dedução quando cumpridos os requisitos.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 7; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1377; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2C0T1 Fl. 138 1 137 S2C0T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 13656.720857/201652 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2001000.623 – Turma Extraordinária / 1ª Turma Sessão de 28 de agosto de 2018 Matéria IRPF DEDUÇÃO PENSÃO ALIMENTÍCIA Recorrente MARIA BEATRIZ JUNQUEIRA DA GAMA CRUZ Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2011 PENSÃO ALIMENTÍCIA JUDICIAL. O direito de deduzir dos rendimentos tributáveis os valores pagos a título de pensão alimentícia está vinculado aos termos determinados na sentença judicial ou acordo homologado judicialmente. Requerida a comprovação dos pagamentos efetuados aos beneficiários em atendimento à legislação vigente. Reconhecimento do direito à dedução quando cumpridos os requisitos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Presidente (assinado digitalmente) Jose Alfredo Duarte Filho Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e José Ricardo Moreira. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 65 6. 72 08 57 /2 01 6- 52 Fl. 138DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a impugnação do contribuinte, em razão da lavratura de Auto de Infração de Imposto sobre a Renda de Pessoa Física – IRPF, por glosa de dedução de pensão alimentícia judicial. O lançamento da Fazenda Nacional exige do contribuinte a importância de R$ 6.311,41, a título de imposto de renda pessoa física suplementar, acrescida da multa de ofício de 75% e juros moratórios, referente ao anocalendário de 2011. O fundamento básico do lançamento, conforme consta da decisão de primeira instância, aponta como elemento da decisão da lavratura do lançamento, o fato de que o Recorrente não teria comprovado o pagamento da pensão alimentícia à beneficiária, embora tivesse apresentado comprovação dos depósitos em nome de sua mãe. A constituição do acórdão recorrido segue na linha do procedimento adotado na feitura do lançamento, notadamente no que se refere à falta de comprovação nos moldes que entende legalmente apropriado, nos termos que segue: Contra o contribuinte em epígrafe foi emitida Notificação de Lançamento do Imposto de Renda da Pessoa Física – IRPF (fls. 85/90), referente ao exercício 2012, anocalendário 2011. Após a revisão da Declaração foram apurados os seguintes valores: Imposto de Renda Pessoa Física – Suplementar (Sujeito à Multa de Ofício) 6.311,41. Omissão de Rendimentos de Aluguéis ou Royalties Recebidos de Pessoa jurídica – omissão de rendimentos de aluguéis ou Roayalties recebidos de pessoa jurídica, relativos ao exercício 2012, ano calendário 2011. Fonte Pagadora: Município de Caxambu (CNPJ: 18.008.870/0001 72). Valor: R$ 4.730,70. IRRF: R$ 0,00. Fonte Pagadora: Farmácia Drogaminas de Caxambu Ltda – EPP (CNPJ: 23.167.927/000116). Valor: R$ 2.125,92. IRRF: R$ 0,00. Fonte Pagadora: Boutique 180 Graus Ltda ME (CNPJ: 23.354.020/000166). Valor: R$ 1.645,57. IRRF: R$ 0,00. Dedução Indevida de Pensão Alimentícia Judicial – glosa de dedução de pensão alimentícia judicial, pleiteada indevidamente pelo contribuinte na Declaração do Imposto de Renda Pessoa Física do exercício 2012, anocalendário 2011. Valor: R$ 17.565,00. Motivo da glosa: Não foram considerados os depósitos feitos em conta em nome de Maria Clara V Toledo. (...) O contribuinte em sua defesa afirma que o valor considerado omitido referese a taxa de comissão pela administração dos imóveis locados. Dessa forma, tendo o contribuinte comprovado nos autos que os valores considerados omitidos referemse a taxa de administração, é de se cancelar a omissão de rendimentos no valor de R$ 8.502,19. Fl. 139DF CARF MF Processo nº 13656.720857/201652 Acórdão n.º 2001000.623 S2C0T1 Fl. 139 3 O contribuinte em sua defesa afirma que pagou pensão alimentícia nos termos que determina a legislação. Vejamos o que dispõe o inciso II do artigo 4º da Lei n.º 9.250 de 26/12/1995 e o artigo 78 do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto 3.000 de 1999: (...) A legislação do Imposto de Renda é bem clara ao permitir somente a dedução das importâncias efetivamente pagas a título de pensão em cumprimento de decisão judicial, acordo homologado judicialmente, ou escritura pública. O contribuinte anexa aos autos termo de audiência, onde consta que foi homologado acordo em que a contribuinte encontrase obrigada a pagar pensão no valor de 03 (três) salários mínimos a Luiza de Toledo da Gama Cruz por meio de depósito em conta em que já haviam sendo efetuados os pagamentos. A Autoridade Fiscal considerou apenas os valores de pensão pagos na conta da Sra Luiza de Toledo da Gama Cruz, que, no ano em questão, tinha 22 anos. Os demais valores pagos na conta da Sra Maria Clara V Toledo não foram considerados como pagamento de pensão. Em sua defesa, o contribuinte anexa os mesmos comprovantes de depósitos apresentados a Autoridade Fiscal. Dessa forma, não tendo sido feitos os depósitos na conta da Sra Luiza de Toledo, conforme decisão homologada pelo Poder Judiciário, é de se manter a glosa da pensão. O lançamento será revisto para excluir dos rendimentos tributáveis o valor de R$ 8.502,19. Pelo exposto, voto pela procedência parcial da impugnação, para excluir dos rendimentos tributáveis o valor de R$ 8.502,19, e, por conseguinte, apurar imposto suplementar no valor de R$ 3.973,30 mais multa de oficio e juros de mora, nos termos da legislação. Assim, conclui o acórdão vergastado pela procedência parcial da impugnação para manter a exigência do Lançamento, com a redução determinada na decisão de primeiro grau administrativo para R$ 3.973,30, como imposto suplementar, mais acréscimos legais. Por sua vez, com a decisão do Acórdão da DRJ, o Recorrente apresenta recurso voluntário com as considerações e argumentações que entende justificável ao seu procedimento, nos termos que segue: (...) A autoridade Fiscal, referente ao acórdão 0373.874 da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) considerou apenas os valores de pensão pagos na conta de Luiza de Toledo da Gama Cruz e Fl. 140DF CARF MF 4 não considerou os valores pagos na conta de Maria Clara Veronesi de Toledo como pagamento de pensão alimentícia. Dos Fatos: Luiza de Toledo da Gama Cruz, neta de Maria Beatriz Junqueira da Gama Cruz é filha de Maria Clara Veronesi de Toledo, nasceu em 22 de dezembro de 1989 conforme certidão de nascimento em anexo. Em setembro de 2004, conforme relatório de andamento processual em anexo, Luiza Toledo da Gama Cruz entrou com o processo Nº 051804674617 solicitando alimentos à sua avó Maria Beatriz Junqueira da Gama Cruz. Por ser menor, foi representada legalmente por sua mãe, Maria Clara Veronesi de Toledo, como determina o próprio Direito de Família. Em janeiro de 2005, fui informada pelo meu advogado, Dr. José Roberto Sterse de que deveria realizar um depósito a título de pensão alimentícia em nome de Maria Clara Veronesi de Toleto, representante legal da autora, Luiza de Toledo da Gama Cruz, a ser realizado no Banco do Brasil, Ag. 42714; c/c 61395. Também fui informada que foi solicitada a abertura desta conta ao próprio juiz, pela representante legal d autora, que expediu ofício ao Banco do Brasil em 29.12.2004 como consta da página 2 do andamento processual do TJMG. Quando do termo de audiência realizado em 06 de junho de 2005, conforme documento em anexo, ficou determinado pelo juiz que “1) A ré pagará a título de alimentos, a sua neta, 03 (três) salários mínimos ao mês, a serem pagos até o dia 10 de cada mês, e depositados na mesma conta em que os depósitos já vem sendo feitos, vencendose a primeira, neste patamar, no dia 10 de junho de 2005. Não existe nova decisão judicial, os depósitos foram sendo feitos, por todos os anos seguintes, até a autora da ação, Luiza de Toledo da Gama Cruz, completar 24 anos, quando cessou, na conta determinada pelo Juiz Dr. Carlos Alberto Pereira da Silva, ou seja, na conta do Banco do Brasil, Ag. 42714; 61395 em nome de Maria Clara Veronesi de Toledo. Sei que realizei um depósito na conta de Luiza de Toledo da Gama Cruz em janeiro de 2011 a pedido da minha própria neta, porque neste mês, sua mãe, Maria Clara Veronesi de Toledo, que é portadora de ICC se encontrava internada no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto pra tratamento. Isto foi necessário, para cumprir com a minha obrigação de assegurar a subsistência e as necessidades (em especial o plano de saúde e a mensalidade da faculdade) da minha neta, como determina a própria lei. Nos meses que se seguiram (fevereiro a dezembro do ano de 2011, os depósitos continuaram sendo feitos na conta determinada pelo Juiz que homologou o acordo em 06 de junho de 2005, enquanto a autora era menor de idade e representada legalmente por sua mãe, ou seja, em nome de Maria Clara Veronesi de Toledo. Cumpri a minha obrigação diante da justiça ao realizar os depósitos em nome de Maria Clara Veronesi de Toledo, que tina a conta Fl. 141DF CARF MF Processo nº 13656.720857/201652 Acórdão n.º 2001000.623 S2C0T1 Fl. 140 5 determinada pelo Juiz para o cumprimento da obrigação e que nunca foi alterada. Garanti o meu direito de dedução estabelecido pelo Regualmento do Imposto de Renda, em que a legislação é bem clara ao permitir somente a dedução das importâncias efetivamente pagas a título de pensão em cumprimento de decisão judicial, acordo homologado judicialmente, ou escritura pública. O “Termo de Audiência” me obrigou ao pagamento na conta determinada pelo Juiz da causa, depósitos realizados na conta do Banco do Brasil em nome da mãe de Luiza de Toledo da Gama Cruz. Em momento algum, foi determinado judicialmente que se modificasse a conta do depósito mensal.` À vista de todo o exposto, demonstrada a insubsistência e improcedência da ação fiscal, espera e requer a recorrente seja acolhido o presente recurso para o fim de assim ser decidido, cancelandose o débito fiscal reclamado. É o relatório. Voto Conselheiro Jose Alfredo Duarte Filho Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. O Acórdão da DRJ destaca a aceitação da comprovação referente comissão de administração de imóveis locados, cancelando a parte do Lançamento que se referia a omissão de rendimentos de aluguéis. Assim, a divergência se restringe aos valores referentes à pensão alimentícia paga. PENSÃO ALIMENTÍCIA A contenda é que de um lado há o rigor na interpretação restritiva da legislação pela Autoridade Fiscalizadora, e de outro, a busca do direito, pelo Contribuinte, de ver reconhecido o que entende plenamente comprovado mediante documentação apresentada. O texto base que define o direito da dedução do imposto e a correspondente comprovação para efeito da obtenção do benefício está contido no inciso II, art. 4º e alínea “f” inciso II, do art. 8º, da Lei nº 9.250/95, regulamentados no art. 78 do Decreto nº 3.000/99 – RIR/99, como segue: Lei nº 9.250/95. Art. 4º. Na determinação da base de cálculo sujeita à incidência mensal do imposto de renda poderão ser deduzidas: Fl. 142DF CARF MF 6 (...) II – as importâncias pagas a título de pensão alimentícia em face das normas do Direito de Família, quando em cumprimento de decisão judicial, inclusive a prestação de alimentos provisionais, de acordo homologado judicialmente, ou de escritura pública a que se refere o art. 1.124A da Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973 Código de Processo Civil; (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008). (...) Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: (...) f) às importâncias pagas a título de pensão alimentícia em face das normas do Direito de Família, quando em cumprimento de decisão judicial, inclusive a prestação de alimentos provisionais, de acordo homologado judicialmente, ou de escritura pública a que se refere o art. 1.124A da Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973 Código de Processo Civil; (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008). (...) Decreto nº 3.000/99 Art. 78. Na determinação da base de cálculo sujeita à incidência mensal do imposto, poderá ser deduzida a importância paga a título de pensão alimentícia em face das normas do Direito de Família, quando em cumprimento de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente, inclusive a prestação de alimentos provisionais (Lei nº 9.250, de 1995, art. 4º, inciso II). § 1º A partir do mês em que se iniciar esse pagamento é vedada a dedução, relativa ao mesmo beneficiário, do valor correspondente a dependente. A autoridade fiscal fundamentou a recusa da dedução do valor da pensão alimentícia da neta em razão de que os depósitos foram feitos em nome da mãe da alimentada e não diretamente à beneficiária da prestação alimentar. Tratase de pensão alimentícia paga em benefício de Luiza de Toledo da Gama Cruz, através da conta corrente no Banco do Brasil, destinada a este fim, em nome de sua mãe Maria Clara Veronesi de Toledo, por decisão homologada judicialmente. Tratase neste caso do direito à dedução do imposto de renda por pagamentos de pensão alimentícia em que a exigência fica condicionada a ter sido objeto de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente, conforme inciso II, art. 4º, da Lei nº 9.250/95 e art. 78 do Decreto nº 3.000/99, e prova do efetivo pagamento do valor declarado como pago em favor da pensionista. Fl. 143DF CARF MF Processo nº 13656.720857/201652 Acórdão n.º 2001000.623 S2C0T1 Fl. 141 7 Com efeito, constatase que foram realmente acostadas ao processo cópia dos acordos judiciais homologados, certidões de nascimentos, e comprovação dos depósitos a título de pagamentos da pensão alimentícia diretamente na conta corrente da mãe da beneficiária, em atendimento da decisão judicial que homologou o acordo. A Súmula CARF nº 98 determina que seja permitida a dedução de pensão alimentícia da base de cálculo do imposto de renda pessoa física, na condição de que tenha decorrido de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente e quando comprovado seu efetivo pagamento. Súmula CARF nº 98: A dedução de pensão alimentícia da base de cálculo do Imposto de Renda Pessoa Física é permitida, em face das normas do Direito de Família, quando comprovado o seu efetivo pagamento e a obrigação decorra de decisão judicial, de acordo homologado judicialmente, bem como, a partir de 28 de março de 2008, de escritura pública que especifique o valor da obrigação ou discrimine os deveres em prol do beneficiário. (grifei) Cabe destacar que o dispositivo que mais se aproxima de uma definição dos condicionantes para obtenção do benefício da dedução diz que o segundo elemento se fará presente “quando comprovado o seu efetivo pagamento”, sem lhe especificar a forma. O fato de ter sido pago através de uma conta corrente em nome da mãe da beneficiária em nada contraria a legislação tributária, ao mesmo tempo que obedece decisão judicial, por ser a progenitora da pensionista a representante legal na demanda da prestação alimentar no judiciário, vez que na oportunidade a beneficiária demandante era de menor idade e, nesses termos se deu a decisão judicial que homologou o acordo. Assim que, no exame da documentação acostada ao processo, verificase que a Recorrente apresentou a documentação comprobatória do acordo judicial e a comprovação do pagamento da pensão a que se comprometeu judicialmente, podendo assim se beneficiar da utilização da dedução do imposto a esse título, fazendose imperioso que se conceda o direito pleiteado pela Contribuinte, dando provimento ao recurso no que se refere ao restabelecimento da dedução no anocalendário de 2011. Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário, e no mérito DAR PROVIMENTO, para exclusão do crédito tributário na sua integralidade. (assinado digitalmente) Jose Alfredo Duarte Filho Fl. 144DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.674260/2011-72
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Oct 03 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do fato gerador: 15/10/2002
PIS. BASE DE CÁLCULO. ICMS. EXCLUSÃO.
O Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e a Prestação de Serviços (ICMS) não compõe a base de incidência do PIS e da Cofins.
O Supremo Tribunal Federal (STF), por ocasião do julgamento do Recurso Extraordinário autuado sob o nº 574.706, em sede de repercussão geral, decidiu pela exclusão do ICMS da base de cálculo das contribuições do PIS e da Cofins, o que afasta, de imediato, o anterior entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no Resp 1.144.469/PR, no regime de recursos repetitivos.
Recurso Voluntário Provido
Numero da decisão: 3201-004.137
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso. Vencidos os conselheiros Paulo Roberto Duarte Moreira, Marcelo Giovani Vieira e Charles Mayer de Castro Souza, que lhe negavam provimento.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisario, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do fato gerador: 15/10/2002 PIS. BASE DE CÁLCULO. ICMS. EXCLUSÃO. O Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e a Prestação de Serviços (ICMS) não compõe a base de incidência do PIS e da Cofins. O Supremo Tribunal Federal (STF), por ocasião do julgamento do Recurso Extraordinário autuado sob o nº 574.706, em sede de repercussão geral, decidiu pela exclusão do ICMS da base de cálculo das contribuições do PIS e da Cofins, o que afasta, de imediato, o anterior entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no Resp 1.144.469/PR, no regime de recursos repetitivos. Recurso Voluntário Provido Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso. Vencidos os conselheiros Paulo Roberto Duarte Moreira, Marcelo Giovani Vieira e Charles Mayer de Castro Souza, que lhe negavam provimento. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisario, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 67 42 60 /2 01 1- 72 Fl. 168DF CARF MF Processo nº 10880.674260/201172 Acórdão n.º 3201004.137 S3C2T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada, mantendo a decisão da repartição de origem de indeferir o Pedido de Restituição de créditos da contribuição para o PIS, decisão essa lastreada na ausência de direito creditório disponível, uma vez que os pagamentos declarados já haviam sido integralmente utilizados na quitação de débitos do contribuinte. Em sua Manifestação de Inconformidade, o contribuinte havia alegado que o crédito pleiteado decorrera da inclusão indevida do ICMS na base de cálculo da contribuição, uma vez que referido imposto não se consubstancia em receita própria, tratandose de valor alheio aos limites constitucionais da incidência da contribuição, já tendo o Supremo Tribunal Federal (STF) sinalizado exatamente nesse sentido, conforme se verifica no julgamento do RE 240.7852/MG. Solicitou, ainda, a realização de perícia capaz de atestar que os valores devidos a título de ICMS compuseram indevidamente a base de cálculo das contribuições, bem como a exatidão do montante a ser restituído. A Delegacia de Julgamento (DRJ), por meio do acórdão nº 0651.830, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, por ser, segundo ela, incabível a exclusão do valor devido a título de ICMS da base de cálculo da contribuição, valor esse integrante do preço das mercadorias e dos serviços prestados. Em seu Recurso Voluntário, o contribuinte requereu o reconhecimento do direito creditório, arguindo o seguinte: (i) a base de cálculo da contribuição é a receita bruta, sendo que apenas os valores correspondentes ao resultado das atividades devem integrála, não alcançando, portanto, o ICMS; (ii) nem sempre o ingresso de capitais ou recursos financeiros na sociedade representa a entrada de receitas, mormente quando apartadas da aquisição do direito patrimonial sobre eles, como ocorre no caso do ICMS, haja vista sua absoluta incapacidade de alterar o patrimônio líquido da sociedade, dado constituirse de um direito do Estado; (iii) o conceito de receita, qualquer que seja a sua fonte de origem (de venda de bens ou serviços, financeiras, etc.), decorre sempre e necessariamente do exercício da atividade empresarial, representando, também, sempre e necessariamente, riqueza nova ingressando ao patrimônio da sociedade empresarial; (iv) o ICMS destacado nas notas fiscais de venda de mercadorias pela Recorrente não consubstancia receita própria, razão pela qual se trata de valor alheio aos Fl. 169DF CARF MF Processo nº 10880.674260/201172 Acórdão n.º 3201004.137 S3C2T1 Fl. 4 3 limites constitucionais da incidência da Contribuição ao PIS e da Cofins, seja de seu critério material, seja de seu critério subjetivo; (v) o Supremo Tribunal Federal, por ocasião do julgamento do Recurso Extraordinário nº 240.7852/MG, decidiu que o ICMS não integra a base de cálculo da Cofins; (vi) ao caso se aplica o contido no art. 26A do Decreto 70.235/1972; (vii) a inconstitucionalidade arguida pode ser enfrentada em âmbito administrativo, em razão da decisão definitiva plenária proferida pelo Supremo Tribunal Federal; (viii) cita jurisprudência dos Tribunais Regionais Federais em seu favor; (ix) a Lei 9.718/1998 e as que lhe sucederam jamais determinaram a inclusão do ICMS na base de cálculo da contribuição ao PIS e da Cofins; (x) uma vez demonstrado ser indevida a inclusão dos valores do ICMS na base de cálculo da Contribuição ao PIS e da Cofins, temse o direito de pleitear a restituição do quantum recolhido indevidamente a este título, respeitado o prazo de 5 (cinco) anos; (xi) necessidade de realização de prova pericial. É o relatório. Fl. 170DF CARF MF Processo nº 10880.674260/201172 Acórdão n.º 3201004.137 S3C2T1 Fl. 5 4 Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015, aplicandose, portanto, ao presente litígio o decidido no Acórdão 3201004.124, de 25/07/2018, proferido no julgamento do processo nº 10880.674237/201188, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201004.124): Assiste razão à Recorrente. O Supremo Tribunal Federal STF por ocasião do julgamento do Recurso Extraordinário autuado sob o nº 574.706, em sede de repercussão geral, decidiu pela exclusão do ICMS da base de cálculo das contribuições do PIS e da COFINS. Referida decisão possui a seguinte ementa: "RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM REPERCUSSÃO GERAL. EXCLUSÃO DO ICMS NA BASE DE CÁLCULO DO PIS E COFINS. DEFINIÇÃO DE FATURAMENTO. APURAÇÃO ESCRITURAL DO ICMS E REGIME DE NÃO CUMULATIVIDADE. RECURSO PROVIDO. 1. Inviável a apuração do ICMS tomandose cada mercadoria ou serviço e a correspondente cadeia, adotase o sistema de apuração contábil. O montante de ICMS a recolher é apurado mês a mês, considerandose o total de créditos decorrentes de aquisições e o total de débitos gerados nas saídas de mercadorias ou serviços: análise contábil ou escritural do ICMS. 2. A análise jurídica do princípio da não cumulatividade aplicado ao ICMS há de atentar ao disposto no art. 155, § 2º, inc. I, da Constituição da República, cumprindose o princípio da não cumulatividade a cada operação. 3. O regime da não cumulatividade impõe concluir, conquanto se tenha a escrituração da parcela ainda a se compensar do ICMS, não se incluir todo ele na definição de faturamento aproveitado por este Supremo Tribunal Federal. O ICMS não compõe a base de cálculo para incidência do PIS e da COFINS. 3. Se o art. 3º, § 2º, inc. I, in fine, da Lei n. 9.718/1998 excluiu da base de cálculo daquelas contribuições sociais o ICMS transferido integralmente para os Estados, deve ser enfatizado que não há como se excluir a transferência parcial decorrente do regime de não cumulatividade em determinado momento da dinâmica das operações. 4. Recurso provido para excluir o ICMS da base de cálculo da contribuição ao PIS e da COFINS. (RE 574706, Relator(a): Min. CÁRMEN LÚCIA, Tribunal Pleno, julgado em 15/03/2017, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe223 DIVULG 29092017 PUBLIC 02102017) O Supremo Tribunal Federal STF já está a aplicar o entendimento firmado em outros processos, conforme se depreende do julgado adiante colacionado: Fl. 171DF CARF MF Processo nº 10880.674260/201172 Acórdão n.º 3201004.137 S3C2T1 Fl. 6 5 "COFINS E PIS – BASE DE CÁLCULO – ICMS – EXCLUSÃO. O Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e a Prestação de Serviços – ICMS não compõe a base de incidência do PIS e da COFINS. Precedentes: recurso extraordinário nº 240.785/MG, relator ministro Marco Aurélio, Pleno, acórdão publicado no Diário da Justiça de 8 de outubro de 2014 e recurso extraordinário nº 574.706/PR, julgado sob o ângulo da repercussão geral, relatora ministra Cármen Lúcia, Pleno, acórdão veiculado no Diário da Justiça de 2 de outubro de 2017. REPERCUSSÃO GERAL – ACÓRDÃO – PUBLICAÇÃO – EFEITOS – ARTIGO 1.040 DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. A sistemática prevista no artigo 1.040 do Código de Processo Civil sinaliza, a partir da publicação do acórdão paradigma, a observância do entendimento do Plenário, formalizado sob o ângulo da repercussão geral. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. Descabe a fixação dos honorários recursais previstos no artigo 85, § 11, do Código de Processo Civil de 2015, quando se tratar de recurso formalizado em processo cujo rito os exclua. AGRAVO – MULTA – ARTIGO 1.021, § 4º, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015. Se o agravo é manifestamente inadmissível ou improcedente, impõese a aplicação da multa prevista no § 4º do artigo 1.021 do Código de Processo Civil de 2015, arcando a parte com o ônus decorrente da litigância protelatória."(RE 440787 AgRsegundo, Relator(a):Min. MARCO AURÉLIO, Primeira Turma, julgado em 03/04/2018, PROCESSO ELETRÔNICO DJe098 DIVULG 18052018 PUBLIC 21052018) Com a decisão proferida pela Corte Suprema, não mais prevalece o contido no REsp 1.144.469/PR do Superior Tribunal de Justiça STJ. O entendimento ora esposado encontra amparo no fato de o próprio Superior Tribunal de Justiça STJ não mais estar aplicando o seu antigo posicionamento. A Corte Superior de Justiça, de modo reiterado, está decidindo de acordo com o julgado no RE 574.706. A título ilustrativo, colacionase recentes decisões em tal sentido, verbis: "PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. JUÍZO DE RETRATAÇÃO. ART. 1.040, II, DO CPC/2015. PIS E COFINS. BASE DE CÁLCULO. EXCLUSÃO DO ICMS. RECENTE POSICIONAMENTO DO STF EM REPERCUSSÃO GERAL (RE 574.706/PR). 1. O recurso especial foi interposto na vigência do CPC/1973. Dessa forma, sujeitamse aos requisitos de admissibilidade nele previstos, conforme diretriz contida no Enunciado Administrativo n. 2 do Plenário do STJ. 2. O Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao julgar o RE 574.706/PR, em repercussão geral, Relatora Ministra Cármen Lúcia, entendeu que o valor arrecadado a título de ICMS não se incorpora ao patrimônio do contribuinte e, dessa forma, não pode integrar a base de cálculo dessas contribuições, que são destinadas ao financiamento da Seguridade Social. 3. Embargos de declaração acolhidos, com efeitos infringentes, para realizar a adequação prevista no art. 1.030, II do CPC/2015." (EDcl no AgRg no REsp 1276424/MG, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA, julgado em 15/05/2018, DJe 21/05/2018) "TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. ICMS NA BASE DE CÁLCULO DO PIS E DA COFINS. JULGAMENTO DO TEMA PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL EM REPERCUSSÃO GERAL. JUÍZO DE RETRATAÇÃO PELO PRÓPRIO STJ. ADEQUAÇÃO AO DECIDIDO PELO STF. Fl. 172DF CARF MF Processo nº 10880.674260/201172 Acórdão n.º 3201004.137 S3C2T1 Fl. 7 6 1. A Jurisprudência pacífica desta Corte de Justiça possuía o entendimento de considerar legal a inclusão do ICMS na base de cálculo do PIS e da COFINS, nos termos das Súmulas 68 e 94 do STJ. Posicionamento este ratificado pela Primeira Seção do STJ no julgamento do Resp 1.144.469/PR, processado e julgado como representativo de controvérsia. 2. Ocorre que o Supremo Tribunal Federal, por ocasião da apreciação do RE 574.706RG/PR, com repercussão geral reconhecida, firmou tese contrária à fixada pela Primeira Seção do STJ. 3. Juízo de retratação exercido nestes autos (art. 1.040, II, do CPC/2015), para negar provimento ao apelo nobre da Fazenda Nacional." (REsp 1496603/MG, Rel. Ministro OG FERNANDES, SEGUNDA TURMA, julgado em 19/04/2018, DJe 25/04/2018) "TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. INCIDÊNCIA DO ICMS NA BASE DE CÁLCULO DA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA SUBSTITUTIVA, PREVISTA NA LEI 12.546/2011. JULGAMENTO PELO STF, EM REGIME DE REPERCUSSÃO GERAL. RE 574.706/PR. JUÍZO DE RETRATAÇÃO. ART. 1.040, II, DO CPC/2015. AGRAVO INTERNO PROVIDO, EM JUÍZO DE RETRATAÇÃO, PARA NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL, QUANTO AO TEMA OBJETO DA REPERCUSSÃO GERAL. I. Agravo interno aviado contra decisão que deu provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, contra acórdão que, negando provimento à Apelação e à Remessa Oficial, havia mantido a sentença que concedera o Mandado de Segurança. II. A Segunda Turma do STJ, considerando a jurisprudência pacífica da Corte, quando do julgamento do Recurso Especial interposto, no sentido da incidência do ICMS na base de cálculo da contribuição previdenciária substitutiva, prevista na Lei 12.546/2011, negou provimento ao Agravo interno do contribuinte. III. Entretanto, posteriormente, o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE 574.706/PR, sob o regime da repercussão geral, firmou a tese de que "o ICMS não compõe a base de cálculo para a incidência do PIS e da COFINS" (STF, RE 574.706/PR, Rel. Ministra CÁRMEN LÚCIA, TRIBUNAL PLENO, DJe de 02/10/2017), porquanto o valor arrecadado, a título de ICMS, não se incorpora ao patrimônio do contribuinte, e, dessa forma, não pode integrar a base de cálculo do PIS e da COFINS, contribuições destinadas ao financiamento da Seguridade Social. Diante da nova orientação da Suprema Corte, o STJ realinhou o seu posicionamento (STJ, REsp 1.100.739/DF, Rel. Ministro SÉRGIO KUKINA, PRIMEIRA TURMA, DJe de 08/03/2018; AgInt no AgInt no AgRg no AREsp 392.924/SP, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA, DJe de 06/03/2018). Mutatis mutandis, a mesma lógica deve ser aplicada para a contribuição previdenciária substitutiva, prevista nos arts. 7º e 8º da Lei 12.546/2011, em razão da identidade do fato gerador (receita bruta). Com efeito, "os valores relativos ao ICMS não integram a base de cálculo da Contribuição Previdenciária sobre a Receita Bruta CPRB, prevista na Lei n. 12.546/11, porquanto não se incorporam ao patrimônio do contribuinte, é dizer, não caracterizam receita bruta, em observância à axiologia das razões de decidir do RE n. 574.706/PR, julgado em repercussão geral pelo STF, no qual foi proclamada a inconstitucionalidade do ICMS na base de cálculo do PIS e da COFINS" Fl. 173DF CARF MF Processo nº 10880.674260/201172 Acórdão n.º 3201004.137 S3C2T1 Fl. 8 7 (STJ, REsp 1.568.493/RS, Rel. Ministra REGINA HELENA COSTA, PRIMEIRA TURMA, DJe de 23/03/2018). Em igual sentido: STJ, REsp 1.694.357/CE, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA, DJe de 01/12/2017. IV. Nesse contexto, retornaram os autos por determinação da Vice Presidência do STJ, para fins do disposto no art. 1.040, II, do CPC/2015 , em face do aludido julgado do Supremo Tribunal Federal, em regime de repercussão geral. V. Agravo interno provido, para, em juízo de retratação, previsto no art. 1.040, II, do CPC/2015, negar provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional." (AgInt no REsp 1592338/SC, Rel. Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, SEGUNDA TURMA, julgado em 17/04/2018, DJe 23/04/2018) Neste contexto, não há como negar plena efetividade ao decidido pelo Supremo Tribunal Federal STF, já que o próprio Superior Tribunal de Justiça STJ não mais aplica o entendimento firmado no REsp 1.144.469/PR. O mesmo posicionamento tem sido adotado pelos Tribunais Regionais Federais. Neste sentido: "EXECUÇÃO FISCAL. EMBARGOS. BASE DE CÁLCULO DO PIS E DA COFINS. EXCLUSÃO DO ICMS. ENTENDIMENTO DO STF. RE 574.706/PR, SOB O RITO DA REPERCUSSÃO GERAL. TEMA 69 STF. Conforme estabelecido pelo STF, no Tema 69, "O ICMS não compõe a base de cálculo para fins de incidência do PIS e da Cofins" (Recurso Extraordinário com repercussão geral nº 574.706)." (TRF4, AC 5004059 55.2015.4.04.7215, SEGUNDA TURMA, Relatora LUCIANE AMARAL CORRÊA MÜNCH, juntado aos autos em 09/07/2018) "TRIBUTÁRIO. EMBARGOS INFRINGENTES. RETRATAÇÃO. BASE DE CÁLCULO DO PIS E DA COFINS. EXCLUSÃO DO ICMS. ENTENDIMENTO DO STF. RE 574706/PR. TEMA 69 STF. Conforme estabelecido pelo STF, no Tema 69, "O ICMS não compõe a base de cálculo para fins de incidência do PIS e da Cofins" (Recurso Extraordinário com repercussão geral nº 574.706)." (TRF4, EINF 2006.70.00.0284961, PRIMEIRA SEÇÃO, Relator ROGER RAUPP RIOS, D.E. 10/07/2018) "TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO. ICMS. EXCLUSÃO BASE CÁLCULO. PIS E COFINS. SUSPENSÃO. RE 574.706. VINCULAÇÃO. AGRAVO IMPROVIDO. No caso, foram abordadas todas as questões debatidas pela Agravante, tendo sido apreciada a tese de repercussão geral, julgada em definitivo pelo Plenário do STF, que decidiu que "O ICMS não compõe a base de cálculo para fins de incidência do PIS e da COFINS". Cabe destacar que foi reconhecida a repercussão geral do RE 574.706/PR, e julgado o mérito do recurso pelo Plenário do STF, devendo os tribunais decidir no mesmo sentido do entendimento adotado, nos termos do art. 1.040, II do CPC, e incumbindo ao Relator decidir de forma monocrática, como prevê o art. 932 do CPC. Anotese que a diretriz jurisprudencial firmada deve ser observada pelos demais Tribunais, como tem reiteradamente decidido o próprio STF, que, inclusive, tem aplicado a orientação firmada a casos similares. Precedentes. Fl. 174DF CARF MF Processo nº 10880.674260/201172 Acórdão n.º 3201004.137 S3C2T1 Fl. 9 8 Quanto à alegação de que o feito deve ser sobrestado até a publicação do acordão, resultante do julgamento dos embargos de declaração a serem opostos pela Fazenda Nacional, cabe salientar o que restou consignado na r. decisão combatida de que a decisão proferida pelo STF no RE 574.706, independentemente da pendência de julgamento dos aclaratórios, já tem o condão de refletir sobre as demais ações com fundamento na mesma controvérsia, como no presente caso, devendo, portanto, prevalecer a orientação firmada pela Suprema Corte. Ademais, quanto à eventual insurgência relativa à possibilidade de modulação dos efeitos do julgado, ressaltase não ser possível, nesta fase processual, interromper o curso do feito apenas com base numa expectativa que até o momento não deu sinais de confirmação, dada a longevidade da ação e os efeitos impactantes que o paradigma ocasiona. A regra geral relativa aos recursos extraordinários, julgados com repercussão geral, é a de vinculação dos demais casos ao julgado, sendo que a inobservância da regra deve ser pautada em razões concretas. A tese de repercussão geral fixada foi a de que "O ICMS não compõe a base de cálculo para fins de incidência do PIS e da COFINS". A motivação dos embargos de declaração, embora não tenha sido acolhida, não permite a conclusão de que foram opostos em litigância de máfé ou com manifesto caráter protelatório. As razões recursais não contrapõem os fundamentos do r. decisum a ponto de demonstrar qualquer desacerto, limitandose a reproduzir argumentos os quais visam à rediscussão da matéria nele contida. Negado provimento ao agravo interno." (TRF 3ª Região, QUARTA TURMA, Ap APELAÇÃO CÍVEL 369987 000198616.2017.4.03.6000, Rel. DESEMBARGADORA FEDERAL MÔNICA NOBRE, julgado em 04/07/2018, eDJF3 Judicial 1 DATA:20/07/2018 ) "CONSTITUCIONAL E TRIBUTÁRIO. ICMS. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA COFINS E DO PIS. ILEGALIDADE. STF. RE 574.706/PR. REPERCUSSÃO GERAL. TEMA 069. COMPENSAÇÃO. SÚMULA Nº 213 DO STJ. SUFICIÊNCIA DA PROVA DA CONDIÇÃO DE CREDORA TRIBUTÁRIA. 1. Ao apreciar o tema no âmbito do RE 574.706/PRRG (Rel. Min. Cármen Lúcia), o E. STF firmou a seguinte tese: "O ICMS não compõe a base de cálculo para a incidência do PIS e da COFINS." 2. Quanto à análise da compensação tributária em sede mandamental, o próprio C. STJ tem reiterado a aplicação do seu Enunciado 213, limitando, in casu, a prova à simples condição de credora tributária, por não se confundir com os fundamentos adotados no REsp 1.111.164/BA. 3. Apelação a que se dá parcial provimento, concedendose a segurança para determinar a exclusão, relativa à base de cálculo da COFINS e do PIS, da parcela relativa ao ICMS, autorizando a respectiva compensação, observado, contudo, o lustro prescricional (RE 566.621/RS, Rel. Min. Ellen Gracie), na forma da legislação de regência, notadamente com respeito ao disposto no artigo 74 da Lei nº 9.430/96, com a redação que lhe conferiu a Lei nº 10.637/02, artigo 170A do CTN e correção monetária com a incidência da Taxa SELIC, considerando que a presente ação mandamental foi ajuizada em 08/07/2008. 4. Acresçase, por oportuno, que a pendência de análise de modulação dos efeitos, pelo eventual acolhimento dos aclaratórios opostos no referido RE Fl. 175DF CARF MF Processo nº 10880.674260/201172 Acórdão n.º 3201004.137 S3C2T1 Fl. 10 9 574.706/PR, não tem o condão de atrair o efeito suspensivo aqui perseguido, não merecendo, nesse viés, prosperar o argumento alinhavado pela União Federal nesse exato sentido, AC 2015.61.10.0085860/SP, Relator Desembargador Federal ANDRÉ NABARRETE, decisão de 08/03/2018, D.E. 23/03/2018; EDcl na AMS 2007.61.12.0077639/SP, Relator Desembargador Federal MARCELO SARAIVA, decisão de 26/03/2018, D.E. 05/04/2018, e AMS 2014.61.05.0105413/SP, Relatora Desembargadora Federal MÔNICA NOBRE, Quarta Turma, j. 21/02/2018, D.E. 22/03/2018. 5. Matéria reapreciada, em sede de juízo de retratação, por força do artigo 543B, § 3º, do CPC/73, aplicável à espécie." (TRF 3ª Região, QUARTA TURMA, Ap APELAÇÃO CÍVEL 333152 001626088.2008.4.03.6100, Rel. DESEMBARGADORA FEDERAL MARLI FERREIRA, julgado em 20/06/2018, eDJF3 Judicial 1 DATA:20/07/2018 ) Pertinentes são as palavras da Conselheira Semíramis de Oliveira Duro, em voto proferido no processo 10580.721226/200701 (Acórdão 3301004.355): "Venho sustentando que, para fins de interpretação do § 2° do art. 62 do RICARF, negar a aplicação da decisão do RE n° 574.706 RG, com base no REsp n° 1.144.469/PR (julgado como recurso repetitivo e já transitado em julgado), é uma falácia. É uma falácia, porquanto o próprio STJ já alterou seu posicionamento para reconhecer que o ICMS não integra a base de cálculo da contribuição para o PIS e COFINS, afastando a aplicação do REsp 1.144.469/PR, em virtude da decisão do STF, como se observa nas decisões citadas abaixo: (...) Por conseguinte, estando o acórdão do RE n° 574.706 RG desprovido de causa suspensiva, deve ser imediatamente aplicado. Defendo que tal situação se coaduna com a condição de “decisão definitiva de mérito”, para fins de aplicação do art. 62, § 2° do RICARF." Cito, ainda: "Os órgãos do Estado são entes sem vida, sem inteligência e sem sentimento; são dirigidos por gestores que assumem o compromisso constitucional de respeitar os princípios democráticos, dentre os quais o efetivo cumprimento das decisões judiciais. De outra forma, não faz sentido o próprio governo, integrante do sistema, desrespeitar as leis. A Fazenda Pública e os órgãos públicos de maneira geral, por não terem vida, não se sensibilizam com os fatos que ocorrem em seu derredor, diferentemente do que acontece com seus agentes políticos ou administrativos." (CARDOSO, Antonio Pessoa. Cumprimento das leis Estado deve ser referência de valores do Direito. Revista Consultor Jurídico, 25 de junho de 2011, 7h41) Um órgão administrativo de julgamento não aplicar o decidido em sede de repercussão geral pelo Supremo Tribunal Federal STF quando até mesmo o Superior Tribunal de Justiça STJ já não mais aplica o seu entendimento em sentido diverso é verdadeira afronta ao julgado pela mais Alta Corte do país. Fl. 176DF CARF MF Processo nº 10880.674260/201172 Acórdão n.º 3201004.137 S3C2T1 Fl. 11 10 Sobre a inteira e imediata aplicação do decidido pelo Supremo Tribunal Federal STF, o Superior Tribunal de Justiça STJ assim decidiu: "TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PIS E COFINS. BASE DE CÁLCULO. EXCLUSÃO DO ICMS. RECENTE POSICIONAMENTO DO STF EM REPERCUSSÃO GERAL (RE 574.706/PR). AGRAVO INTERNO DA FAZENDA NACIONAL DESPROVIDO. 1. O Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao julgar o RE 574.706/PR, em repercussão geral, Relatora Ministra CÁRMEN LÚCIA, entendeu que o valor arrecadado a título de ICMS não se incorpora ao patrimônio do Contribuinte e, dessa forma, não pode integrar a base de cálculo dessas contribuições, que são destinadas ao financiamento da Seguridade Social. 2. A existência de precedente firmado sob o regime de repercussão geral pelo Plenário do STF autoriza o imediato julgamento dos processos com o mesmo objeto, independentemente do trânsito em julgado do paradigma. Precedentes: RE 1.006.958 AgREDED, Rel. Min. DIAS TOFFOLI, Dje 18.9/2017; ARE 909.527/RSAgR, Rel Min. LUIZ FUX, DJe de 30.5.2016. 3. Agravo Interno da Fazenda Nacional desprovido." (AgInt no AREsp 282.685/CE, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 08/02/2018, DJe 27/02/2018) (nosso destaque) Do voto, destaco: "3. No mais, o Supremo Tribunal Federal fixou entendimento de que a existência de precedente sob o regime de repercussão geral firmado pelo Plenário daquela Corte autoriza o imediato julgamento dos processos com o mesmo objeto, independentemente do trânsito em julgado do paradigma (RE 1.006.958 AgREDED, Rel. Min. DIAS TOFFOLI, Dje 18.9/2017; ARE 909.527/RSAgR, Rel Min. LUIZ FUX, DJe de 30.5.2016.)" Por fim, ressalto que esta Turma, em sua atual composição, decidiu por maioria de votos, em dar provimento a recurso do contribuinte, em processo no qual este relator foi designado para redigir o voto vencedor. Aludida decisão apresenta a seguinte ementa: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2005 a 28/02/2005, 01/06/2005 a 30/11/2005, 01/03/2006 a 30/11/2006 MPF. AUSÊNCIA DE NULIDADE. Rejeitase a preliminar de nulidade quando nos autos está comprovado que a fiscalização cumpriu todos os requisitos legais pertinentes ao MPF, não tendo o contribuinte demonstrado nenhuma irregularidade capaz de invalidar o lançamento. O Mandado de Procedimento Fiscal MPF é instrumento de controle administrativo e de informação ao contribuinte. Eventuais omissões ou incorreções do MPF não são causa de nulidade do auto de infração. APROPRIAÇÃO INDEVIDA DE CRÉDITOS. GLOSA. Fl. 177DF CARF MF Processo nº 10880.674260/201172 Acórdão n.º 3201004.137 S3C2T1 Fl. 12 11 Correta a glosa de valores indevidamente incluídos no cômputo da base de cálculo dos créditos da nãocumulatividade, ressalvandose os valores glosados não comprovados pela fiscalização e os lançados com evidente lapso material. CRÉDITOS DA NÃO CUMULATIVIDADE. DEPRECIAÇÃO ACELERADA. OPÇÃO A apropriação de crédito das contribuições mediante despesas com depreciação de bens calculadas de forma acelerada, na razão 1/48, nos termos do § 14, art. 3º da Lei 10.637/02 é opcional, o que significava impossibilidade de apropriação concomitante à regra do inciso III, do § 1ª do indigitado artigo. CRÉDITOS DA NÃO CUMULATIVIDADE. DEPRECIAÇÃO ACELERADA. LEI Nº 11.051/2004 Imprescindível a comprovação do atendimento aos requisitos legais para o benefício fiscal da apuração da depreciação acelerada de que trata da Lei nº 11.051/2004. COFINS E PIS BASE DE CÁLCULO ICMS EXCLUSÃO. O Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e a Prestação de Serviços ICMS não compõe a base de incidência do PIS e da COFINS. O Supremo Tribunal Federal STF por ocasião do julgamento do Recurso Extraordinário autuado sob o nº 574.706, em sede de repercussão geral, decidiu pela exclusão do ICMS da base de cálculo das contribuições do PIS e da COFINS, o que afasta, de imediato, o anterior entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça STJ no Resp 1.144.469/PR, no regime de recursos repetitivos. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2005 a 2 COFINS. LANÇAMENTO DECORRENTE DA MESMA MATÉRIA FÁTICA. Aplicase ao lançamento da Contribuição para a Cofins o decidido em relação ao PIS lançado a partir da mesma matéria fática." (Processo nº 10530.004513/200811; Acórdão nº 3201003.725; Relator Conselheiro Paulo Roberto Duarte Moreira; sessão de 24/05/2018) Cito, ainda, decisão proferida por voto de desempate, que acolheu o pedido de restituição formulado pelo contribuinte: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/08/2010 a 31/08/2010 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. EXCLUSÃO DO ICMS DA BASE DE CÁLCULO DO PIS E COFINS. DEFINIÇÃO DE FATURAMENTO. APURAÇÃO ESCRITURAL DO ICMS E REGIME DE NÃO CUMULATIVIDADE. Comprovado tratarse de crédito tributário restrito ao PIS/Pasep apurado e recolhido sobre base de cálculo sem a exclusão do ICMS é de se reconhecer o direito à restituição do crédito pleiteado." (Processo nº Fl. 178DF CARF MF Processo nº 10880.674260/201172 Acórdão n.º 3201004.137 S3C2T1 Fl. 13 12 10935.906300/201259; Acórdão nº 3001000.113; Relator Conselheiro Cássio Schappo; sessão de 24/01/2018) Diante do exposto, voto por dar provimento ao Recurso Voluntário para excluir o ICMS da base de cálculo do PIS, em plena consonância ao decidido pelo Supremo Tribunal Federal STF, no Recurso Extraordinário nº 574.706 e em conformidade com o que tem adotado o Superior Tribunal de Justiça STJ, devendo a unidade de origem verificar a correção dos valores apresentados pela Recorrente em seus pedidos. Importa registrar que, nos presentes autos, as situações fática e jurídica encontram correspondência com as verificadas no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Portanto, aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu dar provimento ao Recurso Voluntário para excluir o ICMS da base de cálculo da contribuição para o PIS, em plena consonância ao decidido pelo Supremo Tribunal Federal STF, no Recurso Extraordinário nº 574.706, e em conformidade com o que tem adotado o Superior Tribunal de Justiça STJ, devendo a unidade de origem verificar a correção dos valores apresentados pela Recorrente em seus pedidos. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 179DF CARF MF
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