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Numero do processo: 16045.000734/2008-78
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Aug 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte - Simples
Ano-calendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007
SIMPLES FEDERAL. EXCLUSÃO DE OFÍCIO. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO DO MÉRITO.
Constatado pela fiscalização a realização de atividade vedada, cujo robusto corpo probatório amealhado não foi ilidido pela empresa, acertada a exclusão do regime tributário diferenciado e favorecido do Simples Federal.
Numero da decisão: 1003-000.094
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Carmen Ferreira Saraiva Presidente
(assinado digitalmente)
Bárbara Santos Guedes - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Sérgio Abelson, Bárbara Santos Guedes e Carmen Ferreira Saraiva (Presidente).
Nome do relator: BARBARA SANTOS GUEDES
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EXCLUSÃO DE OFÍCIO. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO DO MÉRITO. Constatado pela fiscalização a realização de atividade vedada, cujo robusto corpo probatório amealhado não foi ilidido pela empresa, acertada a exclusão do regime tributário diferenciado e favorecido do Simples Federal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva – Presidente (assinado digitalmente) Bárbara Santos Guedes Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Sérgio Abelson, Bárbara Santos Guedes e Carmen Ferreira Saraiva (Presidente). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 04 5. 00 07 34 /2 00 8- 78 Fl. 140DF CARF MF Processo nº 16045.000734/200878 Acórdão n.º 1003000.094 S1C0T3 Fl. 3 2 Tratase de recurso voluntário contra acórdão de nº 0528.411, de 25 de março de 2010, da 1ª Turma da DRJ/CPS, que indeferiu a solicitação de abertura de prazo apresentada pela contribuinte. Por economia processual e por bem descrever os fatos, adoto como parte deste, o relatório constante da decisão de primeira instância: Tratase de insurgência, protocolada em 02/02/2009 (fls. 85/88), contra Ato Declaratório Executivo n° 28, de 18 de dezembro de 2008, publicado no Diário Oficial da União, seção I, n° 248, pág.162, de 22 de dezembro de 2008 (fls. 75, 78), e dado à ciência do Contribuinte em 16/01/2009 (fls. 80/81), e que o excluía do Simples Federal (Lei n° 9.317, de 05 de dezembro de 1996) no período compreendido entre 17/09/20/03 a 30/06/20.07, isso à conta do tanto quanto apurado em procedimento de ofício, é dizer, a “prestação de serviço de... locação de mãodeobra” (art. 9°, inciso XII, alínea “Í”, da Lei n° 9.317, de l996), bem como a "constituição da pessoa jurídica por interpostas pessoas que não sejam os verdadeiros socios ou acionistas..." (art. 14, inciso IV, da Lei nº 9.317, de 1996), tudo como consta às fls. 01/06. Argumenta o Contribuinte que somente fora cientificado do ato em pauta no dia 15/01/2009, oportunidade em que “sua preposto compareceu à ARF/CRUZEIRO...para tratar de outras questões e foi inesperadamente informada...sobre a tramitação do processo supra e sobre sua exclusão” (fl. 86). (...) Conclui, enfim, que tal situação haveria de descaracterizar o dia 22/12/2008 data de publicação do ADE antes referido, como termo inicial para a contagem do respectivo prazo de impugnação, à vista do quê, requer “A DE_\/OLUÇAO DO PRAZO PARA APRESENTAÇAO DE SUA IMPUGNAÇAO A EXCLUSAO DO SIMPLES” (fls. 87/88, destaques do original). Por unanimidade de votos, através do acórdão de nº 0528.411, 25 de março de 2010, a solicitação apresentada pela contribuinte foi indeferida, nos moldes da ementa abaixo: Assunto: SISTEMA INTEGRADO DE PAGAMENTO DE IMPOSTOS E CONTR1BUIÇÔES DAS M1CROEMPRESAS E DAS EMPRESAS DE PEQUENO POETE SIMPLES Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. I PRINCIPIO DA EVENTUALIDADE E DA IMPUGNAÇÃO ESPECIFICA DOS FATOS. É ônus que incumbe ao Contribuinte, desde logo, trazer aos autos todas as suas razões de insurgência, acompanhadas estas da instrução probatória que se julga necessária. Ciência/intimação válida, passado o prazo para apresentar a Fl. 141DF CARF MF Processo nº 16045.000734/200878 Acórdão n.º 1003000.094 S1C0T3 Fl. 4 3 competente irresignação, não cabe mais falar em abertura de novo prazo instrutório, consolidandose os efeitos do que se deixou de oportunamente recorrer. Manifestação de Inconforrnidade Improcedente. Sem Crédito em Litígio. Inconformada com o julgamento, a Recorrente apresentou recurso voluntário defendendo, em síntese o se segue: (i) Preliminarmente, aduz que o recurso voluntário apresentando é, de fato, a impugnação da empresa, na qual irá contestar os fatos e o mérito, devendo ser, por conseguinte, devidamente recebida e julgada; (ii) Em relação aos fatos, a Recorrente aduz que não foi regularmente intimada do Ato de Exclusão, para que pudesse exercer seu direito de defesa, porque o Ato Declaratório Executivo de exclusão foi fundamentado em Lei Ordinária revogada pela Lei Complementar nº 123/2006; (iii) Que requereu a devolução do prazo, mas o pedido não foi apreciado, porque os julgadores trataram o requerimento como sendo uma impugnação administrativa sem defesa de mérito, com flagrante cerceamento de defesa; (iv) No mérito, A Recorrente destaca a ilegalidade do Ato declaratório Executivo, que foi proferido sem o conhecimento da mesma e com base em lei revogada, como também a retroatividade dos efeitos da exclusão à data de início das atividades da empresa; (v) Que, considerando a data de publicação do Ato Declaratório, alegado termo inicial do prazo, teria sido concedido ao contribuinte apenas 6 (seis) dias de prazo para oferecer recurso a sua exclusão, contudo sua ciência formal ocorreu aos 15/01/2009; (vi) Defende que a o princípio da fungibilidade dos recursos não pode ser utilizado para prejudicar a empresa, como ocorreu com a decisão ora combatida, que consignou ter a impugnação não apresentado defesa de mérito; (vii) Requereu, por fim, que seja a impugnação provida para decretar a nulidade total do acórdão e do Ato Declaratório. E que, caso mantido o acórdão, que sejam os efeitos da exclusão considerados somente a partir da data do decurso de prazo da contribuinte para impugnação ou a partir da data da ciência da contribuinte sobre sua exclusão. É o Relatório Voto Conselheira Bárbara Santos Guedes, Relatora Fl. 142DF CARF MF Processo nº 16045.000734/200878 Acórdão n.º 1003000.094 S1C0T3 Fl. 5 4 O Recurso Voluntário é tempestivo, visto que atende o prazo regulamentar estabelecido pelo Decreto 70.235/1972, art. 33. Portanto, o mesmo atende aos requisitos de admissibilidade, pelo que, conheço do recurso. Considerando a preliminar ventilada, a presente peça de obstáculo é recebida como recurso voluntário, visto que se insurge contra acórdão da DRJ em primeira instância administrativa. Todos os requisitos de admissibilidade como recurso voluntário, foram atendidos. O cerne do litígio é a exclusão da ETECON do Simples Federal por supostamente ter incorrido em situação excludente prevista no art. 13, inciso II, alínea "a", do art. 14, inciso I, e do art. 15, inciso IV, todos da Lei nº 9.317/1996, no período compreendido entre 17/09/2003 a 30/06/2007, nos termos do ADE nº 28, de 18/12/2008. Aduz a Recorrente que não teria sido regularmente intimada, visto que a suposta intimação teria sido realizada através da publicação do ADE ocorrida aos 22/12/2008 e a mesma só tomou conhecimento do mesmo aos 15/01/2009. Após a ciência, em 02/02/2009, a Recorrente requereu a devolução do prazo sob o argumento de não ter sido regularmente intimada. Compulsando os autos, verifico que, conforme demonstrado no documento de fls.80, bem como das próprias alegações da Recorrente, a mesma foi notificada do ADE através de intimação pessoal ocorrida 16/01/2009. Equivocadamente, a Recorrente entendeu que seu prazo já estava em curso, em razão da publicação do ADE no Diário Oficial, contudo, para fins de contagem do prazo de defesa, esse se iniciou a partir da ciência pessoal do ato. O Acórdão combatido esclareceu a questão e considerou a ciência da Recorrente a partir do momento de ciência pessoal, conforme abaixo: Existem 4 (quatro) formas de ciência/intimação do Contribuinte: pessoal, via postal por meio eletrônico e, quando infrutíferas estas, por edital. E o que dispõe o art. 23, incisos I II III, c/c seu § 1°, do Decreto n° 70.235, de 06 de março de 1972. Com a publicação do Ato Declaratório Executivo n° 28, de 18 de dezembro de 2008, no Diário Oficial da União, seção I, n° 248, pâg.162, de 22 de dezembro de 2008 (fls 75 78), não se deu, por evidente, uma ciência/intimação pessoal, ou por via postal, muito mesmo por meio eletrônico. Nem se diga que naquela publicação pudessese vislumbrar a ciência/intimação editalícia. De modo algum, mesmo porque nada consta, ali, tratarse aquele excerto do Diário Oficial da União d'um edital. A intimação por meio postal ou por edital é subsidiária, apenas permitida quando inviável a intimação pessoal. Ocorre que, mesmo cientificada pessoalmente, na primeira oportunidade de se manifestar no processo, a Recorrente não apresenta defesa, limitandose a requerer devolução de prazo. Fl. 143DF CARF MF Processo nº 16045.000734/200878 Acórdão n.º 1003000.094 S1C0T3 Fl. 6 5 Ora, como poderia a DRJ devolver algo que não foi retirado? No caso vertente, o julgamento indeferiu a solicitação, pois a mesma foi apresentada no prazo da defesa. O que ocorreu nos presentes autos foi uma interpretação equivocada por parte do contribuinte. Ainda que houvesse a possibilidade de perda de prazo, o que se cogita por amor ao debate, ainda assim deveria a Recorrente ter apresentando suas considerações e defesas quanto aos fatos e mérito na primeira oportunidade, juntamente com o pedido de devolução de prazo, porém a mesma não tomou a cautela necessária para o caso em análise. Registrese que não se trata de uso para prejudicar a Recorrente do princípio de fungibilidade dos recursos, visto que a mesma estava no prazo de apresentação da defesa administrativa. É pelo princípio da fungibilidade que se objetiva priorizar a vista do recurso em detrimento da sua forma. Ou seja, em determinados casos relevando certas condições como a ausência de erro grosseiro ou má fé; presença de dúvida objetiva na interposição desde que escusável e proposta em prazo adequado. Respeitada estas condições, o recurso mesmo errôneo poderá amparar a pretensão do recorrente. Em outras palavras, o princípio em discussão explica que um recurso, mesmo sendo incabível para atacar determinado tipo de decisão, poderá ser considerado válido, desde que exista dúvida, quanto ao recurso viável a ser interposto naquela ocasião. Sendo assim, a Recorrente deveria ter se utilizado do Requerimento para já apresentar sua defesa, haja vista a sua dúvida em relação ao início do prazo. DA ALEGAÇÃO DE ILEGALIDADE DO ATO EM RAZÃO DE ESTAR ALICERÇADO EM LEI REVOGADA A Recorrente destaca que, sem fazer referência à evolução legislativa, a mesma foi excluída do Simples Federal. Aduz que a Lei nº 9.317/1996 foi revogada pela Lei complementar nº 123/2006 e que, por conseguinte, a Recorrente não poderia ser excluída com base em lei revogada. De fato, antes da alteração efetivada pela Lei complementar, vigorava o Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte, conhecida como Simples Federal, com fulcro na Lei nº 9.317/1996 Essa legislação foi revogada a partir de 1º de julho de 2007, quando entrou em vigor a Lei Complementar nº 123/2006. É certo, porém, que, embora revogada a partir de 1º de julho de 2007, a lei anterior possuía força normativa e não foi considerada inconstitucional e, portanto, é a legislação pertinente para quaisquer fatos ocorridos no período de vigência da mesma. O período de discussão desses autos está relacionado aos fatos ocorridos entre 01/01/2000 até a data de 01/07/2007. Este processo, assim, possui prazo delimitado de análise e não avalia ocorrências efetivadas a partir de 01/07/2007. Sendo assim, não há ilegalidade na exclusão do período compreendido entre 17/09/2003 a 30/06/2007, visto que são fatos ocorridos durante a vigência da Lei nº Fl. 144DF CARF MF Processo nº 16045.000734/200878 Acórdão n.º 1003000.094 S1C0T3 Fl. 7 6 9.317/1996. Os fatos ocorridos a partir da Lei Complementar deverão ser analisados em autos próprios. Logo, considerando a limitação temporal constante no ADE, não há como reconhecer ilegalidade quanto à utilização da Lei nº. 9.317/1996, visto ser essa a legislação vigente ao período analisado nestes autos. No que tange a alegação de que a empresa foi excluída sem que houvesse um processo administrativo não procede, visto que este processo serve exatamente para analisar a exclusão da Recorrente do Simples Federal. Uma vez cientificada da exclusão, a empresa deve apresentar sua manifestação de inconformidade, a qual dará início ao processo administrativo para análise das alegações da auditoria fiscal realizada, como também da defesa da Recorrente para, de acordo com as provas constantes no processo, poder definir o melhor resultado para o caso concreto. No processo administrativo fiscal, é a impugnação que instaura a fase litigiosa, logo não procede a alegação de cerceamento de defesa seja na fase processual seja durante o procedimento de fiscalização, cujo caráter é meramente inquisitório. Ademais, em obediência à determinação legal, a exclusão para casos como o dos autos pode ser realizada de ofício, tão logo constatada a vedação legal (arts. 12, 14, IV da Lei nº 9.317/1996). No caso, a conclusão do processo administrativo foi exatamente neste sentido, não se eximindo a Recorrente de desconstituir a prova produzida. DA ALEGAÇÃO DE IRRETROATIVIDADE DOS EFEITOS DA EXCLUSÃO Sabese que o Simples Nacional, instituído pela Lei Complementar nº 123/2006, concede tratamento diferenciado e, no mais das vezes, privilegiado às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte, conforme determinam dispositivos da Constituição Federal, a saber: Art. 146. Cabe à lei complementar: (...) III estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária, especialmente sobre: (...) d) definição de tratamento diferenciado e favorecido para as microempresas e para as empresas de pequeno porte, inclusive regimes especiais ou simplificados no caso do imposto previsto no art. 155, II, das contribuições previstas no art. 195, I e §§ 12 e 13, e da contribuição a que se refere o art. 239. Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: (...) IX tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País. A apuração de tributos por meio do Simples Nacional proporciona às microempresas e as empresas de pequeno porte tratamento diferenciado, tais como redução da base de cálculo e de alíquotas e isenções e benefícios fiscais. Fl. 145DF CARF MF Processo nº 16045.000734/200878 Acórdão n.º 1003000.094 S1C0T3 Fl. 8 7 Na legislação especial que regulamenta o regime tributário do Simples Nacional, o legislador entendeu por bem estabelecer todas as regras para a constituição das microempresas e empresas de pequeno porte, dentre as quais os requisitos que os sócios deverão preencher e o regime societário que será adotado, bem como determinou as atividades que poderiam se beneficiar do sistema e estabeleceu as vedações à adesão. Tanto a Lei nº 9.317/1996, como a Lei Complementar nº 123/2006, estabelecem vedações em relação à determinadas atividades, dentre elas existia a vedação em relação à atividade de locação de mãodeobra, bem como a constituição de pessoa jurídica por interpostas pessoas. Outrossim, conforme se depreende das provas colacionadas aos autos, a Recorrente foi constituída em 17/09/2003 (fls. 07) e, desde a sua constituição a mesma possuía como atividade a locação de mão de obra, conforme demonstrado nos documentos colacionados na Representação fiscal (fls. 01 a 70). Importante do prazo, registrar, desde já, que a empresa, seja no pedido de devolução de prazo seja no recurso voluntário, não nega a realização da atividade mencionada. Ainda, segundo informações constantes no processo, a empresa estava enquadrada no Simples desde 17/09/2003. Dessa forma, no caso em tela, a Recorrente excluída do SIMPLES nunca poderia ter optado por entrar neste, visto que a atividade de locação de mão de obra, bem como a identificação de pessoa jurídica constituída por interpostas pessoas, enquadramse na exceção imposta pelo incisos I e IV, do art. 14°, da Lei n°. 9.317/96. Ademais, o ato de exclusão é considerando como meramente declaratório, e, portanto, tem efeito retroativo à data em que se enquadrou nas hipóteses de incompatibilidade com o sistema, e isto, além de previsão expressa em lei, é abalizado em acórdão proferido pelo Superior Tribunal de Justiça sob o efeito de recurso repetitivo: DIREITO PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO DOS ARTIGOS 535 e 468 DO CPC. ALEGAÇÕES GENÉRICAS. SÚMULA 284/STF. LEI 9.317/96. SIMPLES. EXCLUSÃO. ATO DECLARATÓRIO. EFEITOS RETROATIVOS. POSSIBILIDADE. INTELIGÊNCIA DO ART. 15, INCISO II, DA LEI 9.317/96. RECURSO SUBMETIDO AO REGIME PREVISTO NO ARTIGO 543C DO CPC. 1. Controvérsia envolvendo a averiguação acerca da data em que começam a ser produzidos os efeitos do ato de exclusão do contribuinte do regime tributário denominado SIMPLES. Discutese se o ato de exclusão tem caráter meramente declaratório, de modo que seus efeitos retroagiriam à data da efetiva ocorrência da situação excludente; ou desconstitutivo, com efeitos gerados apenas após a notificação ao contribuinte a respeito da exclusão. 2. Não merece conhecimento o apelo especial quanto às alegações de contrariedade aos artigos 458 e 535 do CPC, porquanto a recorrente apresentou argumentação de cunho genérico, sem apontar quais seriam os vícios do acórdão recorrido, que justificariam sua anulação. Incidência da Súmula 284/STF. 3. No caso concreto, foi vedada a permanência da recorrida no SIMPLES ao fundamento de que Fl. 146DF CARF MF Processo nº 16045.000734/200878 Acórdão n.º 1003000.094 S1C0T3 Fl. 9 8 um de seus sócios é titular de outra empresa, com mais de 10% de participação, cuja receita bruta global ultrapassou o limite legal no anocalendário de 2002 (hipótese prevista no artigo 9º, inciso IX, da Lei 9.317/96), tendo o Ato Declaratório Executivo n. 505.126, de 2/4/2004, da Secretaria da Receita Federal, produzido efeitos a partir de 1º/1/2003. 4. Em se tratando de ato que impede a permanência da pessoa jurídica no SIMPLES em decorrência da superveniência de situação impeditiva prevista no artigo 9º, incisos III a XIV e XVII a XIX, da Lei 9.317/96, seus efeitos são produzidos a partir do mês subsequente à data da ocorrência da circunstância excludente, nos exatos termos do artigo 15, inciso II, da mesma lei. Precedentes. 5. O ato de exclusão de ofício, nas hipóteses previstas pela lei como impeditivas de ingresso ou permanência no sistema SIMPLES, em verdade, substitui obrigação do próprio contribuinte de comunicar ao fisco a superveniência de Agravo de Instrumento Turma Espec. II Tributário Nº CNJ : 0008415 18.2016.4.02.0000 (2016.00.00.0084152) RELATOR : Desembargador Federal LUIZ ANTONIO SOARES AGRAVANTE : E.M.P LANDIM GOMES SERVIÇOS DE LIMPEZA LTDA EPP ADVOGADO : CARLOS ALEXANDRE DE AZEVEDO CAMPOS E OUTROS AGRAVADO : UNIAO FEDERAL/FAZENDA NACIONAL PROCURADOR : Procurador da Fazenda Nacional ORIGEM : 01ª Vara Federal de Campos (00864466920164025103) 1 uma das situações excludentes. 6. Por se tratar de situação excludente, que já era ou deveria ser de conhecimento do contribuinte, é que a lei tratou o ato de exclusão como meramente declaratório, permitindo a retroação de seus efeitos à data de um mês após a ocorrência da circunstância ensejadora da exclusão. 7. No momento em que opta pela adesão ao sistema de recolhimento de tributos diferenciado pressupõese que o contribuinte tenha conhecimento das situações que impedem sua adesão ou permanência nesse regime. Assim, admitirse que o ato de exclusão em razão da ocorrência de uma das hipóteses que poderia ter sido comunicada ao fisco pelo próprio contribuinte apenas produza efeitos após a notificação da pessoa jurídica seria permitir que ela se beneficie da própria torpeza, mormente porque em nosso ordenamento jurídico não se admite descumprir o comando legal com base em alegação de seu desconhecimento. 8. Recurso afetado à Seção, por ser representativo de controvérsia, submetido ao regime do artigo 543C do CPC e da Resolução 8/STJ. 9. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa extensão, provido. (REsp 1124507/MG, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 28/04/2010, DJe 06/05/2010) Outrossim, a constitucionalidade das exclusões legais já foi reconhecida no julgamento da ADIN 16431, onde se estabeleceu que tais exclusões não afrontam o disposto no art.179, da Constituição da República, nem ao princípio constitucional da isonomia, ou qualquer outra de suas normas. Em razão disso, está correta a irretroatividade dos efeitos da exclusão para o início das atividades da empresa. Fl. 147DF CARF MF Processo nº 16045.000734/200878 Acórdão n.º 1003000.094 S1C0T3 Fl. 10 9 DA AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO DOS FATOS A Recorrente em sua peça de defesa, limitase a questionar o prazo da impugnação, alega ilegalidade do Ato Declaratório Executivo, contudo não contesta um único ponto dos motivos que levaram a sua exclusão do Simples Federal. Na peça ora em análise, a Recorrente textualmente classifica a mesma como sendo, de fato, a impugnação da empresa, na qual iria contestar os fatos e o mérito, e, por esse motivo, a peça deveria ser recebida. A impugnação em destaque foi conhecida e, portanto, está sendo devidamente analisada, contudo a impugnação não apresenta nenhuma defesa em relação aos fatos ventilados na Representação Fiscal. Considerando que a mesma não apresentou seus obstáculos à Representação Fiscal e, conseqüentemente, aos motivos que levaram a sua exclusão do Simples Federal, seja na fase de defesa ou neste momento processual, resta precluso o direito da Recorrente de discutir os fatos. Isto posto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Bárbara Santos Guedes Fl. 148DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.919589/2009-15
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue May 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jul 05 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2006
RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ADMISSIBILIDADE.
A admissibilidade do recurso especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido.
Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria.
Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigmas só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação.
Numero da decisão: 9303-006.824
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencida a conselheira Vanessa Marini Cecconello, que conheceu do recurso. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Tatiana Midori Migiyama, substituída pela conselheira Semíramis de Oliveira Duro.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Andrada Márcio Canuto Natal, Semíramis de Oliveira Duro, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício).
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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PER/DCOMP. RETIFICAÇÃO. Recorrente ITAÚ UNIBANCO S.A. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2006 RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ADMISSIBILIDADE. A admissibilidade do recurso especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido. Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria. Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigmas só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencida a conselheira Vanessa Marini Cecconello, que conheceu do recurso. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Tatiana Midori Migiyama, substituída pela conselheira Semíramis de Oliveira Duro. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Andrada Márcio Canuto Natal, Semíramis de Oliveira Duro, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 91 95 89 /2 00 9- 15 Fl. 2271DF CARF MF Processo nº 16327.919589/200915 Acórdão n.º 9303006.824 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pelo Sujeito Passivo ao amparo do art. 67, Anexo II, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 22 de junho de 2009, em face do Acórdão CARF nº 3802003.699, que negou provimento ao recurso voluntário. O acórdão recorrido possui a seguinte ementa, transcrita na parte de interesse: CPMF. PER/DCOMP. MODIFICAÇÃO DO OBJETO DO PLEITO. INADMISSIBILIDADE. O pedido de compensação delimita a amplitude de exame do direito creditório alegado pelo sujeito passivo quanto ao preenchimento dos requisitos de liquidez e de certeza necessários à extinção de créditos tributários. Instaurado o contencioso, não se admite que o contribuinte altere o pedido mediante a modificação do direito creditório aduzido na declaração de compensação. (...) Cientificada do referido acórdão a Contribuinte interpõe Recurso Especial apontando dissídio interpretativo em relação aos acórdãos nºs 1102001.125 e 10808.805. Em seguida, o então Presidente da Segunda Câmara da Terceira Seção do CARF deu seguimento ao recurso. A Fazenda Nacional apresentou contrarrazões. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303006.827, de 17/05/2018, proferido no julgamento do processo 16327.915399/200929, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Fl. 2272DF CARF MF Processo nº 16327.919589/200915 Acórdão n.º 9303006.824 CSRFT3 Fl. 4 3 Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303006.827): "O Recurso foi apresentado com observância do prazo previsto, restando contudo investigar adequadamente o atendimento aos demais pressupostos de admissibilidade, prerrogativa, em última análise, da composição plenária da Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, a qual tem competência para não conhecer de recurso especiais nos quais não estejam presentes os pressupostos de admissibilidade respectivos. Primeiramente, se faz necessário relembrar e reiterar que a interposição de Recurso Especial junto à Câmara Superior de Recursos Fiscais, ao contrário do Recurso Voluntário, é de cognição restrita, limitada à demonstração de divergência jurisprudencial, além da necessidade de atendimento a diversos outros pressupostos, estabelecidos no artigo 67 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. Por isso mesmo, essa modalidade de apelo é chamado de Recurso Especial de Divergência e tem como objetivo a uniformização de eventual dissídio jurisprudencial, verificado entre as diversas Turmas do CARF. Neste passo, ao julgar o Recurso Especial de Divergência, a Câmara Superior de Recursos Fiscais não constitui uma Terceira Instância, mas sim a Instância Especial, responsável pela pacificação dos conflitos interpretativos e, conseqüentemente, pela garantia da segurança jurídica dos conflitos, não tendo espaço para questões fáticas, que já ficaram devidamente julgadas no Recurso Voluntário. Após essa breve introdução, passemos, então, ao exame do caso em espécie. Passo ao julgamento. A controvérsia suscitada pela Contribuinte referese a ocorrência de erro de preenchimento de PER/COMP e a possibilidade de retificação do direito creditório pleiteado em razão das provas trazidas aos autos. In caso, a decisão recorrida decidiu por negar provimento ao recurso voluntário, sob o entendimento de que a declaração de compensação só poderia ser retificada até a data da expedição do respectivo despacho decisório que decidiu acerca da homologação ou não da compensação. Vejamos fragmentos do aresto: Consta dos autos que em 14/10/2009 fora transmitida pela internet DCTF retificadora, portanto em data posterior à emissão do Despacho Decisório, ocorrido em 07/10/2009. Na mencionada retificadora foi declarado débito no valor total de R$ 10.467.312,78, constando como créditos o pagamento através de DARF no valor de R$ 3.386.779,85 e, como compensação de pagamento indevido ou a maior R$ 7.080.532,93. Analisando todo o acima exposto, o CARF deu provimento parcial ao recurso voluntário apresentado, decidindo no sentido de que a compensação fosse novamente apreciada, havendo entendido que a apresentação da DCTF retificadora, alterando o valor do débito ao qual fora vinculado o pagamento indicado como feito a maior, desconstituiria a causa original da não homologação, impondose o novo exame do feito. Nesse contexto, assim se posicionou a decisão a quo, a respeito da compensação tratada na DCOMP nº 42618.66449.240608.1.3.040833: (...) Como relatado, os autos retornam a esta Delegacia de Julgamento por força de acórdão prolatado pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais que determinou novo exame da compensação declarada pela contribuinte. Entendeu aquele colegiado que a apresentação de DCTF retificadora teria alterado a situação jurídica na qual se baseara o Fl. 2273DF CARF MF Processo nº 16327.919589/200915 Acórdão n.º 9303006.824 CSRFT3 Fl. 5 4 despacho decisório de não homologação, devendose reexaminar a existência do direito creditório. Em novo despacho decisório, a unidade de origem reconheceu a existência de pagamento a maior. Porém, não haveria como homologar a presente declaração de compensação já que o direito de crédito estaria integralmente comprometido na absorção de débito declarado em outra DCOMP. Ressaltese que no recurso apresentado pelo Recorrente na época, bem como no Acórdão proferido pelo CARF, em nenhum momento foi noticiado a questão do alegado equívoco no preenchimento do PER/DECOMP. Naquela oportunidade, restringiase ao erro no preenchimento da DCTF e da retificadora. O Recorrente, em seu recurso, reafirma a existência de pagamento a maior e admite equívoco no preenchimento do PER/DCOMP nº 18652.39612.120406.1.7.04.3183 e da DCTF, havendo erro na indicação nas características do documento de arrecadação pelo qual teria sido feito o pagamento a maior. Notese que o pedido de compensação foi analisado pela autoridade administrativa concernente ao reclamado pagamento a maior ou indevido indicado na DCOMP, com respeito ao qual referida autoridade concluiu inexistir o direito alegado. Instaurado o litígio, não pode a recorrente afirmar que seu crédito seria outro, referente a uma outra compensação, questão completamente alheia ao objeto do litígio, cuja aceitação representaria, também, violação aos princípios do contraditório e da estabilidade da demanda. Com efeito, como é cediço, a compensação que, nos termos do art. 170 do CTN, pressupõe liquidez e certeza dos créditos, é levada a efeito por meio de declaração capaz de extinguir o débito tributário sob condição da sua ulterior homologação, nos termos dos parágrafos 1º e 2º do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996, conforme a redação que lhes foi fornecida pela Lei nº 10.637, de 2002. Portanto, cabe ao Fisco analisar se cabe ou não homologar uma compensação declarada. Noutro giro, os parágrafos sétimo a nono do mesmo art. 74 da mesma Lei nº 9.430, de 1996, incluídos pela Lei nº 10.833, de 20033, indicam as conseqüências da não homologação da DCOMP, bem assim o objeto do litígio instaurado em razão da apresentação de manifestação de inconformidade. Focado nesses parâmetros, entendo que o pleito do sujeito passivo não merece acolhida, pois não cabe a este Colegiado ir além da análise do ato de não homologação da Declaração de Compensação e tal ato, como decidido pelo acórdão recorrido, não merece reparo. Observase vários julgados desta Corte que no caso do preenchimento dos dados do PER/DCOMP, cuja finalidade é a comunicação à administração tributária de um crédito e de um débito, os quais se extinguirão mutuamente, o erro na discriminação de qualquer um dos dois é claramente substancial, não podendo ser considerado simples erro material. Para comprovar a divergência jurisprudencial, a Contribuinte apresentou os acórdãos paradigmas de nºs 1102001.125 e 10808.805. Transcrevese parte do trecho da parte que interessa do Acórdão nº 1102001.125: Anocalendário: 2010 COMPENSAÇÃO. ERRO NO PREENCHIMENTO DA DCOMP. INDICAÇÃO DE SALDO NEGATIVO NO LUGAR DE PAGAMENTO A MAIOR. POSSIBILIDADE DE RETIFICAÇÃO DE OFÍCIO. Fl. 2274DF CARF MF Processo nº 16327.919589/200915 Acórdão n.º 9303006.824 CSRFT3 Fl. 6 5 Quando, em sede de recurso, o contribuinte demonstra ter preenchido a DCOMP de forma incorreta, indicando como crédito saldo negativo quando o correto seria pagamento a maior do imposto referente ao mesmo período, é possível a retificação de ofício pela autoridade julgadora, que determinará a análise do pedido com base no crédito efetivamente existente. DIREITO CREDITÓRIO NÃO ANALISADO. NECESSIDADE DE ANÁLISE DA EXISTÊNCIA DO CRÉDITO. RETORNO DOS AUTOS COM DIREITO A NOVO CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO. Em situações em que não se admitiu a compensação preliminarmente com base em argumento de direito, caso superado o fundamento da decisão, a unidade de origem deve proceder à análise do mérito do pedido, verificando a existência, suficiência e disponibilidade do crédito pleiteado, permanecendo os débitos compensados com a exigibilidade suspensa até a prolação de nova decisão, e concedendose ao sujeito passivo direito a novo contencioso administrativo, em caso de não homologação total. Pelo confronto entre a ementa do acórdão recorrido e a ementa e excerto do voto condutor do primeiro paradigma, não se comprova divergência. Como visto, os autos foram remetidos a unidade de jurisdição da Contribuinte, em comprimento ao Acórdão nº 330201.504 (fls. 58/63), o qual foi emitido um novo despacho decisório onde relata: "o interessado não comprovou crédito de pagamento indevido ou a maior [...]mas transmitiu, utilizando este crédito, declarações de compensação em um valor original total de R$ 109.726,28 [...]Na PER/DCOMP nº 28883.84622.220206.1.3.049350, com informação do crédito relativo a PER/DCOMP nº 42618.66449.240608.1.3.040833, objeto deste processo, foi informado um crédito de R$ 18,08, totalmente utilizado na própria PER/DCOMP. Não havendo crédito disponível, propomos a não homologação da PER/DCOMP nº 42618.66449.240608.1.3.040833". Do retorno dos autos, sobreveio o acórdão nº 3802003.658, ora guerreado, com a negativa de provimento ao Recurso, no esteio de que o pedido de compensação foi analisado pela autoridade administrativa concernente ao reclamado pagamento a maior ou indevido indicado na DCOMP, ao qual referida autoridade concluiu inexistir o direito alegado. Por sua vez, o acórdão paradigma entendeu que em situações em que não se admitiu a compensação preliminarmente com base em argumento de direito, caso superado o fundamento da decisão, a unidade de origem deve proceder à análise do mérito do pedido verificando a existência, suficiência e disponibilidade do crédito pleiteado. Não existe qualquer divergência, a decisão recorrida remeteu os autos para análise do direito creditório, emitindo um novo despacho decisório, o qual restou comprovado a inexistência de crédito, por sua vez, o acórdão paradigma firmou entendimento do retorno dos autos para que abertura de um novo contencioso administrativo. A Contribuinte não pretende a uniformização de teses jurídicas, objetivo primordial do Recurso Especial. A ampla defesa foi exercida em sua plenitude. Nestes autos, não existe direito creditório Neste sentido, não tomo conhecimento do Recurso Interposto, esta E. Câmara Superior não há espaço para rediscussão de matéria fáticoprobatória, exaustivamente discutida na 1º Instância Administrativa. Fl. 2275DF CARF MF Processo nº 16327.919589/200915 Acórdão n.º 9303006.824 CSRFT3 Fl. 7 6 Quanto ao acórdão nº 10808.805, pelo confronto entre a ementa do acórdão recorrido e a ementa e excerto do voto condutor, também não se comprova divergência. Transcrevo fragmentos do aresto: Exercício: 1998 Ementa: IRPJ – PREJUÍZO FISCAL – COMPENSAÇÃO – ERRO DE FATO NO PREENCHIMENTO DE DECLARAÇÃO. Compensação de IRPJ recolhido por estimativa em exercício cujo resultado foi prejuízo fiscal, deve ser admitida, não obstante erro de fato no preenchimento da declaração, que não invalida o procedimento, desde que comprovada a existência dos créditos. Prevalência do princípio da verdade material. Recurso Voluntário Provido. Com efeito, a decisão recorrida consignou que: "o pedido de compensação foi analisado pela autoridade administrativa concernente ao reclamado pagamento a maior ou indevido indicado na DCOMP, com respeito ao qual referida autoridade concluiu inexistir o direito alegado. Instaurado o litígio, não pode a recorrente afirmar que seu crédito seria outro, referente a uma outra compensação, questão completamente alheia ao objeto do litígio, cuja aceitação representaria, também, violação aos princípios do contraditório e da estabilidade da demanda". Por sua vez, o acórdão paradigma fixou o seguinte entendimento: "não obstante erro de fato no preenchimento da declaração, que não invalida o procedimento, desde que comprovada a existência dos créditos. Prevalência do princípio da verdade material". Como se vê, a Contribuinte insiste na rediscussão fática, o acórdão paradigma entende que caso ocorra erro no preenchimento da declaração, não invalida o procedimento, desde que comprovada a existência dos créditos. Ora, o Contencioso foi estendido a Contribuinte, não foi invalidado o procedimento de um suposto erro, foi proferido um novo despacho decisório, o qual foi confirmada a inexistência de crédito. Deste modo, as dessemelhanças fáticas e normativas impedem o estabelecimento de base de comparação para fins de dedução da divergência jurisprudencial. Em se tratando de espécies díspares nos fatos embasadores da questão jurídica, não há como se estabelecer comparação e deduzir divergência. Neste sentido, reportome ao Acórdão no CSRF/010.956: “Caracterizase a divergência de julgados, e justificase o apelo extremo, quando o recorrente apresenta as circunstâncias que assemelhem ou identifiquem os casos confrontados. Se a circunstância, fundamental na apreciação da divergência a nível do juízo de admissibilidade do recurso, é “tudo que modifica um fato em seu conceito sem lhe alterar a essência” ou que se “agrega a um fato sem alterálo substancialmente” (Magalhães Noronha, in Direito Penal, Saraiva, 1o vol., 1973, p. 248), não se toma conhecimento de recurso de divergência, quando no núcleo, a base, o centro nevrálgico da questão, dos acórdãos paradigmas, são díspares. Não se pode ter como acórdão paradigma enunciado geral, que somente confirma a legislação de regência, e assente em fatos que não coincidem com os do acórdão inquinado.” Diante de tudo que foi exposto, em razão das dessemelhanças fáticas e normativas que impedem o estabelecimento de base de comparação para fins de dedução da divergência jurisprudencial, não tomo conhecimento do Recurso interposto pela Contribuinte." Fl. 2276DF CARF MF Processo nº 16327.919589/200915 Acórdão n.º 9303006.824 CSRFT3 Fl. 8 7 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial do contribuinte não foi conhecido. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 2277DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10825.900105/2006-14
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Aug 27 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 30/09/2001
JULGAMENTO STJ. SISTEMÁTICA DE RECURSO REPETITIVO. VINCULAÇÃO.
A decisão do STJ na sistemática do recurso repetitivo é de observância obrigatória dos Conselheiro do CARF.
DELIMITAÇÃO DA LIDE
Restringindo-se os fundamentos do não-reconhecimento do direito creditório ao conceito de "serviços hospitalares", nada sendo tratado em relação à segregação as receitas, no caso de haver atividade distintas, não cabe, em sede de julgamento de Recurso Voluntário, inovar sobre a causa.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Data do fato gerador: 30/09/2001
Ementa:LUCRO PRESUMIDO. COEFICIENTE DE DETERMINAÇÃO. SERVIÇOS HOSPITALARES.
Enquadrando-se a Recorrente no conceito legal de "serviços hospitalares", conforme tese firmada no julgamento do leading case do tema/repetitivo 217, deve ser corrigido o coeficiente de determinação do lucro presumido para o percentual de 8%.
Numero da decisão: 1302-002.984
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu matosinho Machado - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente).
Nome do relator: LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu matosinho Machado - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente).
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INSTITUTO BAURUENSE DE RESSONANCIA MAGNETICA LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 30/09/2001 JULGAMENTO STJ. SISTEMÁTICA DE RECURSO REPETITIVO. VINCULAÇÃO. A decisão do STJ na sistemática do recurso repetitivo é de observância obrigatória dos Conselheiro do CARF. DELIMITAÇÃO DA LIDE Restringindose os fundamentos do nãoreconhecimento do direito creditório ao conceito de "serviços hospitalares", nada sendo tratado em relação à segregação as receitas, no caso de haver atividade distintas, não cabe, em sede de julgamento de Recurso Voluntário, inovar sobre a causa. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Data do fato gerador: 30/09/2001 Ementa:LUCRO PRESUMIDO. COEFICIENTE DE DETERMINAÇÃO. SERVIÇOS HOSPITALARES. Enquadrandose a Recorrente no conceito legal de "serviços hospitalares", conforme tese firmada no julgamento do leading case do tema/repetitivo 217, deve ser corrigido o coeficiente de determinação do lucro presumido para o percentual de 8%. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 82 5. 90 01 05 /2 00 6- 14 Fl. 136DF CARF MF Processo nº 10825.900105/200614 Acórdão n.º 1302002.984 S1C3T2 Fl. 3 2 (assinado digitalmente) Luiz Tadeu matosinho Machado Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Relatório A Empresa apresentou DComp eletrônica pleiteando a compensação de crédito pagamento a maior ou indevido de IRPJ. O fundamento seria a errada utilização do percentual de presunção de 32%, aplicada aos serviços em geral, quando devia ter aplicado o percentual de 8%, uma vez que se considera no rol dos prestadores de "serviços hospitalares". Despacho Decisório (DD) da autoridade competente negou o direito creditório sob a alegação de que a atividade exercida não se enquadrava em "serviços hospitalares", estando correta a aplicação do percentual de lucro presumido de 32% sobre a receita bruta. É de se destacar que a discussão sobre o conceito de atividade hospitalar é empreendida em tese, não sendo discutidos outros temas que não a aplicação ou não do percentual de presunção reduzido, ou, mesmo, perquiridas outras provas ou peculiaridades inerentes à Sociedade. A Empresa apresentou manifestação de inconformidade alegando que sua atividade é sim hospitalar e que deve aplicar o percentual de 8%, fazendo citação a decisões do CARF e da justiça que assim entenderam, além de vários atos normativos da Receita Federal. A Delegacia de Julgamento considerou improcedente a manifestação de inconformidade, enfatizando a necessidade de o prestador do serviço atender aos requisitos do artigo 27 da Instrução Normativa 480, de 2004, com a alteração introduzida pela Instrução Normativa nº 539, de 2005, quais sejam: a) desempenhar uma ou mais das atribuições do inciso I, do art. 27 da IN SRF nº 480, de 2004, com a alteração introduzida pelo art. 12 da IN SRF nº 539, de 2005, ou, no caso da atribuição "Prestação de Atendimento de Apoio ao Diagnóstico e Terapia", exercer uma ou mais das atividades descritas nos itens 4.1 a 4.14, da RDC n2 50, de 2002, da Anvisa; Fl. 137DF CARF MF Processo nº 10825.900105/200614 Acórdão n.º 1302002.984 S1C3T2 Fl. 4 3 b) prestar os serviços em ambientes desenvolvidos de acordo com a Parte II Programação Físico Funcional dos Estabelecimentos de Saúde, item 3 Dimensionamento, Quantificação e Instalações Prediais dos Ambientes, da RDC n2 50, de 2002, da Anvisa, com a alteração introduzida pela RDC n2 307, de 14 de novembro de 2002, e pela RDC n2 189, de 18 de julho de 2003, cuja comprovação deve ser feita por meio de documento competente expedido pela vigilância sanitária estadual ou municipal; c) ser empresário ou pessoa jurídica constituída sob a forma de sociedade empresária, nos termos do Ato Declaratório Interpretativo (ADI) SRF n2 18, de 23 de outubro de 2003, e do Novo Código Civil; d) que os estabelecimentos hospitalares (em regime de atendimento de urgência ou não), sigam os dispositivos emanados no ADI n° 19 de 10/12/2007, aqui para efeito de cálculo do percentual reduzido de IRPJ, a ser utilizado por empresas prestadoras de tais serviços, nas condições previstas nas leis e dispositivos sobre o assunto. Assim, considerou que a empresa não comprovou o atendimento aos requisitos apontados. Insatisfeita com a decisão daquela Turma, a Sociedade apresentou Recurso Voluntário renovando os argumentos apresentados em sede de manifestação de inconformidade e acrescentando que o Superior Tribunal de Justiça já pacificou o conceito de "serviço hospitalar" para fins tributários, privilegiando o aspecto objetivo (que tipo de serviço é prestado), em detrimento do subjetivo (quem presta o serviço). Assim, em sede de recursos repetitivos, decidiu favoravelmente ao entendimento da Recorrente, pelo que requer o reconhecimento do direito creditório e a homologação da compensação pleiteada. É o Relatório. Voto Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1302002.978, de 26/07/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10825.900104/2006 70, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1302002.978): Fl. 138DF CARF MF Processo nº 10825.900105/200614 Acórdão n.º 1302002.984 S1C3T2 Fl. 5 4 "O Recurso é tempestivo e a representação é regular, pelo que conheço do Recurso Voluntário. A lide é imitada à discussão em tese do conceito de "serviços hospitalares" constante do artigo 15, § 1º, inciso III alínea "a", da Lei nº 9.249, de 1995, vigente à época, abaixo transcrito: Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de oito por cento sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto nos arts. 30 a 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995. § 1º Nas seguintes atividades, o percentual de que trata este artigo será de: (...) III trinta e dois por cento, para as atividades de: a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares; Nesta seara, discutese: a atividade desenvolvida pela Recorrente é "serviço hospitalar" nos termos da lei vigente à época? O Contrato Social da Empresa informa que o objeto social é a prestação de serviços em ressonância magnética, tomografia computadorizada e raio x. Mesmo com a riqueza de argumentação e ainda que este Relator entenda que a interpretação envolve abordagem subjetiva, em função dos custos envolvidos nos serviços de internação de pacientes, fato é que Superior Tribunal de Justiça, ao julgar o REsp 1116399 Bahia, na sistemática do artigo 543C do CPC, atual artigo 1.041 no NOVO CPC, com trânsito em julgado em 3 de novembro de 2010, formulou a seguinte tese: Para fins do pagamento dos tributos com as alíquotas reduzidas, a expressão 'serviços hospitalares', constante do artigo 15, § 1º, inciso III, da Lei 9.249/95, deve ser interpretada de forma objetiva (ou seja, sob a perspectiva da atividade realizada pelo contribuinte), devendo ser considerados serviços hospitalares 'aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde', de sorte que, 'em regra, mas não necessariamente, são prestados no interior do estabelecimento hospitalar, excluindose as simples consultas médicas, atividade que não se identifica com as prestadas no âmbito hospitalar, mas nos consultórios médicos'. Na ação, em resposta a embargos de declaração interpostos pela Fazenda Nacional, assim se manifestou o colegiado: Fl. 139DF CARF MF Processo nº 10825.900105/200614 Acórdão n.º 1302002.984 S1C3T2 Fl. 6 5 3. No caso dos autos, o Colegiado foi claro e preciso ao afirmar que são excluídas dos benefícios tendentes à redução das alíquotas ora pleiteadas as atividades destinadas unicamente à realização de consultas médicas, de sorte que a conclusão ora buscada pela embargante decorre da simples leitura do acórdão embargado. 4. Não obstante, a fim de dirimir quaisquer dúvidas sobre o que foi efetivamente decidido pelo colegiado, prevenir interpretações errôneas do julgado, bem como o manejo de novos aclaratórios, devese esclarecer que a redução da base de cálculo de IRPJ na hipótese de prestação de serviços hospitalares prevista no artigo 15, § 1º, III, "a", da Lei 9.249/95, efetivamente, não abrange as simples atividades de consulta médica realizada por profissional liberal, ainda que no interior do estabelecimento hospitalar. Por conseguinte, também é certo que o benefício em questão não se aplica aos consultórios médicos situados dentro dos hospitais que só prestem consultas médicas. Cumpre destacar que a referida alínea "a" acima transcrita sofreu alargamento do conceito de "serviço hospitalar", com a alteração promovida pela Lei nº 11.727, de 2008: Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de oito por cento sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto nos arts. 30 a 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995. § 1º Nas seguintes atividades, o percentual de que trata este artigo será de: a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares e de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que a prestadora destes serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa; (...) Fato é que a interpretação dada pelo julgado tem uma abordagem objetiva da norma, referente ao tipo de atividade desenvolvida e não ao sujeito da ação. A tese classifica como "serviços hospitalares" aqueles se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde. Quanto ao local de prestação afirma que são prestados dentro dos hospitais, em regra, mas não necessariamente. Fl. 140DF CARF MF Processo nº 10825.900105/200614 Acórdão n.º 1302002.984 S1C3T2 Fl. 7 6 Sob a ótica da tese, de observância obrigatória pelos Conselheiros do CARF, como se vê do artigo 62 § 2º do Anexo II do RICARF, não há como negar que a atividade desenvolvida pela recorrente enquadrase no conceito de "serviços hospitalares". Como nenhum outro aspecto do direito creditório foi alvo de questionamento no Despacho Decisório, nada há que impeça o seu reconhecimento. Feitas a considerações pertinentes, dou provimento ao Recurso Voluntário, reconhecendo o direito creditório pleiteado e homologando a compensação até o limite do crédito reconhecido. É como voto. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto no sentido de dar provimento ao recurso voluntário, reconhecendo o direito creditório pleiteado e homologando a compensação até o limite do crédito reconhecido, nos termos do relatório e voto acima transcrito. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Fl. 141DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.937655/2011-91
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jun 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Aug 24 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1201-000.503
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente e Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Bárbara Santos Guedes (suplente convocada em substituição à ausência do conselheiro Rafael Gasparello Lima) e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro Rafael Gasparello Lima.
Nome do relator: ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Bárbara Santos Guedes (suplente convocada em substituição à ausência do conselheiro Rafael Gasparello Lima) e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro Rafael Gasparello Lima. RELATÓRIO Trata o presente processo de Declaração de Compensação cujo crédito é decorrente de pagamento de CSLL a maior que o devido. Pelo Despacho Decisório, o crédito não foi reconhecido e a compensação não foi homologada em face de o crédito informado decorrer de "pagamento a título de estimativa RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 80 .9 37 65 5/ 20 11 -9 1 Fl. 167DF CARF MF Processo nº 10880.937655/201191 Resolução nº 1201000.503 S1C2T1 Fl. 3 2 mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período". Protocolada a Manifestação de Inconformidade, foi julgada improcedente. A decisão de Primeira Instância apresenta a seguinte ementa: ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Anocalendário: 2005 DCOMP. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. ESTIMATIVA MENSAL. MODIFICAÇÃO DA NATUREZA JURÍDICA DO CRÉDITO PARA SALDO NEGATIVO. NOVO PER/DCOMP. A modificação da natureza jurídica do crédito não configura inexatidão material (erro de preenchimento ou de digitação), mas, sim, erro no critério jurídico, de forma que para alterála impõese cancelar o PER/DCOMP errado e apresentar outro com a informação correta. PAGAMENTO MAIOR QUE O DEVIDO.DIREITO. Não restou demonstrado o erro que teria provocado o pagamento maior que o devido, razão pela qual não se reconhece o direito creditório pleiteado e nem se extingue por compensação o débito informado. Foi manejado o Recurso Voluntário em que é alegado: a) a nulidade do Acórdão recorrido que modificou a fundamentação do Despacho Decisório; b) O Despacho Decisório havia consignado não ser possível reconhecer o crédito da recorrente ante o erro material verificado no PER/DCOMP. O Acórdão recorrido, por seu turno, mantém a não homologação do crédito, todavia, por fundamentação diversa, consignando que o mesmo não foi devidamente comprovado; c) O Acórdão recorrido não poderia ter simplesmente ignorado a apuração do crédito do imposto procedida pela recorrente. Bastaria comparar o valor lançado mensalmente com os recolhimentos feitos para concluir a existência do crédito; d) Afastada a nulidade, deveria a autoridade " a quo" ter diligenciado ou intimado a parte para a comprovação do crédito compensado, sob pena de nova nulidade por cerceamento do direito de defesa administrativa. É o relatório. Fl. 168DF CARF MF Processo nº 10880.937655/201191 Resolução nº 1201000.503 S1C2T1 Fl. 4 3 VOTO Conselheira Ester Marques Lins de Sousa, Relatora. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução nº 1201000.500, de 11/06/2018, proferida no julgamento do Processo nº 10880.937651/201111, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. No processo paradigma o contribuinte solicitou a compensação de débitos com crédito relativo a pagamento indevido ou a maior de IRPJ, recolhido em 30/05/2005 e, nos presentes autos, o contribuinte solicita a compensação de débitos com crédito oriundo de pagamento indevido ou a maior que o devido de CSLL recolhido em 30/08/2005. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Resolução nº 1201000.500): "Por presentes os pressupostos de admissibilidade recursal, dele tomo conhecimento. O crédito indicado é relativo a pagamento indevido ou a maior de IRPJ. Consultandose a DIPJ retificadora correspondente ao anocalendário em questão, verificase que, dentre as estimativas de IRPJ a pagar declaradas, não se vê nenhum valor igual ao do crédito pleiteado. Nessa mesma declaração foi apurado saldo negativo de IRPJ, em face da dedução de estimativas pagas durante o anocalendário. Ocorre que o total das estimativas a pagar apuradas mensalmente nas fichas próprias da DIPJ é menor que o indicado para fins de apuração do saldo negativo. Também, o total do IRRF aproveitado para fins de dedução das estimativas mensais devidas tem valor maior que aquele declarado na ficha da apuração anual (saldo negativo). Vêse, assim, que não há certeza quanto ao valor do saldo negativo apurado. Em face do exposto, voto pela conversão do presente julgamento em diligência, para que a unidade da Receita Federal da circunscrição da contribuinte: a) verifique qual é o real montante do saldo negativo do período, em face das estimativas efetivamente pagas, compensadas e do IRRF; b) relacione todas as Dcomps relativas a pagamento a maior de IRPJ do anocalendário em questão, discriminando todos os créditos e débitos indicados para compensação, procedendo à valoração para Fl. 169DF CARF MF Processo nº 10880.937655/201191 Resolução nº 1201000.503 S1C2T1 Fl. 5 4 fins de verificação de suficiência do saldo negativo apurado, considerandose, inclusive, alguma Dcomp porventura já homologada. Para fins dessa verificação, a contribuinte poderá ser intimada a apresentar livros e documentos. Encerrada a diligência, a contribuinte deverá ser intimada para que, querendo, manifestese num prazo de trinta dias. Havendo ou não manifestação da contribuinte, após esgotado o prazo a ela concedido os autos devem retornar ao CARF para julgamento. É como voto." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, converto o julgamento em diligência, nos termos do voto acima transcrito. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Fl. 170DF CARF MF
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Numero do processo: 10882.723724/2016-76
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Aug 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2012
PRELIMINAR. CERCEAMENTO DE DEFESA.
Não sendo comprovado o prejuízo, quando o contribuinte não consegue acessar os autos, via sistema digital da Receita Federal do Brasil, mas apresenta Impugnação administrativa combatendo todos os pontos da autuação, não há que se falar em cerceamento de defesa.
LUCRO ARBITRADO. MEDIDA EXCEPCIONAL.
O arbitramento do lucro é medida excepcional e só se aplica nas restritas hipóteses elencadas na legislação. Como regra, deve-se apurar eventuais tributos devidos de acordo com a opção do contribuinte de tributação para o referido ano-calendário. Contudo, sendo declaradas como imprestáveis as demonstrações contábeis da entidade, a lei impõe à fiscalização que a apuração seja feita pelo lucro arbitrado.
PRESUNÇÃO LEGAL DE OMISSÃO DE RECEITAS. MOVIMENTAÇÃO BANCÁRIA SEM COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS RECURSOS.
O art. 42 da Lei n° 9.430/1996 presume como omissão de receitas a falta de comprovação da origem dos depósitos bancários. Por se tratar de uma presunção relativa, caso comprovada a origem, pelo contribuinte, aquela presunção é afastada. É dever do contribuinte, contudo, essa comprovação, que deve ser feita através de documentação hábil e idônea. Correto o lançamento fundado na insuficiência de comprovação da origem dos depósitos bancários.
MULTA AGRAVADA E ARBITRAMENTO
Sendo demonstrado que o motivo para o agravamento da multa de ofício não se confunde com a motivação para o arbitramento do lucro, admite-se a aplicação da multa agravada em concomitância com o arbitramento.
MULTA AGRAVADA
Tendo em vista o disposto no artigo 44, § 2°, inciso I da Lei n° 9.430/1996, admite-se o agravamento da multa quando o contribuinte deixar de atender as intimações da fiscalização de forma reiterada.
MULTA QUALIFICADA.
Sendo comprovadas condutas e omissões dolosas do contribuinte no sentido que preconiza o artigo 71, da Lei 4.502/64, no intuito de impedir o conhecimento, pela autoridade fazendária, do nascimento da obrigação tributária, deve ser mantida a qualificação da multa de ofício, nos termos definidos pela legislação.
DO CARÁTER CONFISCATÓRIO E IRRAZOÁVEL DA PENALIDADE APLICADA.
Nos termos da súmula nº 02 do CARF, este colegiado não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária, inclusive aquelas que tratam de penalidades.
DA RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA - ARTIGO 124, INCISO I DO CTN.
Para imputação de responsabilidade com base no artigo 124, inciso I do CTN, cabe à fiscalização demonstrar que as pessoas jurídicas, sócias do contribuinte principal, participaram do nascimento da obrigação tributária constituída no Auto de Infração e tinha interesse em comum.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SUJEIÇÃO PASSIVA. SÓCIOS ADMINISTRADORES.
Constatada a prática de atos praticados pelos administradores com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, nos termos definidos no artigo 135 do Código Tributário Nacional, que dão origem ao nascimento de obrigação tributária, àqueles administradores deve ser imputada a responsabilidade pessoal pelo pagamento do crédito tributário.
RESPONSABILIDADE. VÍCIO AUTUAÇÃO.
A errônea indicação dos dispositivos legais infringidos é defeito grave que configura vício material do lançamento por falta de motivação.
Numero da decisão: 1302-002.932
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário do contribuinte; por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário das responsáveis solidárias Ecco Mais Empreendimentos e Participações Ltda. e Efikanove Empreendimentos e Participações Ltda, votando pelas conclusões os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Paulo Henrique Silva Figueiredo e Luiz Tadeu Matosinho Machado; por unanimidade de votos, em negar provimento do recurso voluntário do responsável solidário Flávio Teixeira da Costa e; por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário do responsável solidário Wilson Roberto Bigarella, vencida a conselheira Maria Lucia Miceli, tendo votado pelas conclusões do relator, quanto a este último ponto, os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil e Luiz Tadeu Matosinho Machado.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente.
(assinado digitalmente)
Flávio Machado Vilhena Dias - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lucia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias, Luiz Tadeu Matosinho Machado.
Nome do relator: FLAVIO MACHADO VILHENA DIAS
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CERCEAMENTO DE DEFESA. Não sendo comprovado o prejuízo, quando o contribuinte não consegue acessar os autos, via sistema digital da Receita Federal do Brasil, mas apresenta Impugnação administrativa combatendo todos os pontos da autuação, não há que se falar em cerceamento de defesa. LUCRO ARBITRADO. MEDIDA EXCEPCIONAL. O arbitramento do lucro é medida excepcional e só se aplica nas restritas hipóteses elencadas na legislação. Como regra, devese apurar eventuais tributos devidos de acordo com a opção do contribuinte de tributação para o referido anocalendário. Contudo, sendo declaradas como imprestáveis as demonstrações contábeis da entidade, a lei impõe à fiscalização que a apuração seja feita pelo lucro arbitrado. PRESUNÇÃO LEGAL DE OMISSÃO DE RECEITAS. MOVIMENTAÇÃO BANCÁRIA SEM COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS RECURSOS. O art. 42 da Lei n° 9.430/1996 presume como omissão de receitas a falta de comprovação da origem dos depósitos bancários. Por se tratar de uma presunção relativa, caso comprovada a origem, pelo contribuinte, aquela presunção é afastada. É dever do contribuinte, contudo, essa comprovação, que deve ser feita através de documentação hábil e idônea. Correto o lançamento fundado na insuficiência de comprovação da origem dos depósitos bancários. MULTA AGRAVADA E ARBITRAMENTO AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 2. 72 37 24 /2 01 6- 76 Fl. 1369DF CARF MF 2 Sendo demonstrado que o motivo para o agravamento da multa de ofício não se confunde com a motivação para o arbitramento do lucro, admitese a aplicação da multa agravada em concomitância com o arbitramento. MULTA AGRAVADA Tendo em vista o disposto no artigo 44, § 2°, inciso I da Lei n° 9.430/1996, admitese o agravamento da multa quando o contribuinte deixar de atender as intimações da fiscalização de forma reiterada. MULTA QUALIFICADA. Sendo comprovadas condutas e omissões dolosas do contribuinte no sentido que preconiza o artigo 71, da Lei 4.502/64, no intuito de impedir o conhecimento, pela autoridade fazendária, do nascimento da obrigação tributária, deve ser mantida a qualificação da multa de ofício, nos termos definidos pela legislação. DO CARÁTER CONFISCATÓRIO E IRRAZOÁVEL DA PENALIDADE APLICADA. Nos termos da súmula nº 02 do CARF, este colegiado não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária, inclusive aquelas que tratam de penalidades. DA RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA ARTIGO 124, INCISO I DO CTN. Para imputação de responsabilidade com base no artigo 124, inciso I do CTN, cabe à fiscalização demonstrar que as pessoas jurídicas, sócias do contribuinte principal, participaram do nascimento da obrigação tributária constituída no Auto de Infração e tinha interesse em comum. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SUJEIÇÃO PASSIVA. SÓCIOS ADMINISTRADORES. Constatada a prática de atos praticados pelos administradores com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, nos termos definidos no artigo 135 do Código Tributário Nacional, que dão origem ao nascimento de obrigação tributária, àqueles administradores deve ser imputada a responsabilidade pessoal pelo pagamento do crédito tributário. RESPONSABILIDADE. VÍCIO AUTUAÇÃO. A errônea indicação dos dispositivos legais infringidos é defeito grave que configura vício material do lançamento por falta de motivação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário do contribuinte; por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário das responsáveis solidárias Ecco Mais Empreendimentos e Participações Ltda. e Efikanove Empreendimentos e Participações Ltda, votando pelas conclusões os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Paulo Henrique Silva Figueiredo e Luiz Tadeu Matosinho Machado; por unanimidade de votos, em negar provimento do recurso voluntário do responsável solidário Flávio Teixeira da Costa e; por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário do responsável solidário Wilson Roberto Bigarella, vencida a conselheira Maria Lucia Miceli, Fl. 1370DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.370 3 tendo votado pelas conclusões do relator, quanto a este último ponto, os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil e Luiz Tadeu Matosinho Machado. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente. (assinado digitalmente) Flávio Machado Vilhena Dias Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lucia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias, Luiz Tadeu Matosinho Machado. Relatório Tratase de Auto de Infração lavrado em face do contribuinte principal PG Mundi Paulistana Logística de Produtos de Higiene e Limpeza Ltda., ora Recorrente, que, no período autuado (ano calendário de 2012) era optante pelo regime de tributação pelo lucro real. No referido Auto de Infração, após declarar as demonstrações contábeis como imprestáveis, a fiscalização constituiu créditos tributários, pelo lucro arbitrado, tendo em vista a constatação de que (i) houve falta ou insuficiência de recolhimento dos tributos e (ii) que houve omissão de receitas com base na análise dos depósitos bancários de titularidade do contribuinte. Além da constituição de ofício do IRPJ e tributos reflexos (CSLL, contribuição ao PIS e COFINS), a fiscalização também apontou a responsabilidade tributária para pagamento dos débitos das PJ's sócias do contribuinte (Ecoo Mais Empreendimentos e Participações Ltda. e Efikanove Empreendimentos e Participações Ltda.), de seu administrador (Flávio Teixeira da Costa) e do contador responsável pelas demonstrações contábeis da empresa no período (Wilson Roberto Bigarella). Quando do recebimento do Auto de Infração, os sujeitos passivos indicados na autuação apresentaram Impugnação Administrativa conjunta, cujos argumentos foram bem sintetizados no acórdão recorrido proferido pela DRJ de Ribeirão Preto, in verbis: 3.A. PRELIMINAR DE MÉRITO: NULIDADE EM RAZÃO DO CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. Inicialmente, afirmam as impugnantes que os documentos utilizados pela Fiscalização para amparar a autuação não foram anexados ao Termo de Verificação Fiscal encaminhado aos Impugnantes. Explicam que acessou seu domicílio tributário eletrônico (portal eCAC), selecionando o processo administrativo em epígrafe no rol de processos eletrônicos dos quais é parte interessada. Contudo, houve surpresa ao notar que estava impossibilitada a consulta dos documentos relativos a esse processo administrativo, já que os botões “obter cópia para Fl. 1371DF CARF MF 4 impressão do documento” e “obter cópia integral do processo” não estavam disponíveis para seleção. Acrescentam (fls. 1092/1093): 3.A.3. [...]Vale dizer, de que modo podem os Impugnantes oferecer contraprovas aos depósitos apontados pela Fiscalização como indícios de omissão de rendimentos, revelando sua origem, se aos Impugnantes é vedado acessar a íntegra do processo administrativo e os documentos a ele anexados?! 3.A.4 Igualmente, como podem os Impugnantes se certificarem da certeza e relevância das NFe utilizadas pelos agentes fiscais para fixarem a chamada “receita conhecida”, para fins de arbitramento do lucro da PG Mundi, se o acervo probatório produzido pela Fiscalização não lhes foi disponibilizado para consulta? 3.A.5. Fica nítido que a RFB não respeitou os direitos dos Impugnantes à ampla defesa, ao devido processo legal e à publicidade dos atos processuais, constitucionalmente assegurados no âmbito do processo administrativo. [...]Concluem então que estou demonstrado que a RFB impediu o acesso da PG Mundi à íntegra deste processo administrativo, como comprovam as imagens colacionadas. 3.B. O ARBITRAMENTO INDEVIDO DO LUCRO AUFERIDO PELA PG MUNDI E A SUFICIÊNCIA DE SUA CONTABILIDADE. Explicam que a Autoridade Fiscal considerou imprestável a contabilidade, lançando os tributos a partir do arbitramento do lucro. Reconhecem a existência de erros na contabilidade da PG MUNDI, porém defende que estes erros não tornam a escrita contábil integralmente imprestável, tampouco justificam a adoção do arbitramento como única forma possível de se apurar suas receitas, seu lucro e os tributos devidos no curso do ano calendário 2012. Realçam que todas as informações relativas aos custos e despesas incorridas foram devidamente prestadas ao Fisco em seu SPED. Por ser empresa optante pelo Lucro Real, as despesas e custos suportados no curso do anocalendário 2012 não poderiam ter sido desconsiderados, até mesmo quando todos esses números estavam disponíveis à Fiscalização quando da lavratura do auto de infração. Acrescentam que os erros cometidos na escrituração fiscal não a tornam imprestável. Vale dizer, se os custos e despesas foram informados pela empresa e se suas receitas e compras (entradas) também eram de conhecimento da Fiscalização, era dever dos agentes fiscais fazer uma nova apuração do Lucro Real, notadamente quando a perseguição da verdade real é princípio que norteia a atuação da Administração Pública e o processo administrativo fiscal. Enfatizam ainda que o arbitramento é procedimento que deve ser adotado pela Administração Pública em última hipótese, apenas Fl. 1372DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.371 5 quando a Fiscalização não dispuser de outros meios e opções para apurar a base de cálculo dos tributos incidentes sobre as receitas e lucro. Entretanto, esta não é a hipótese destes autos, já que todas as informações relativas às receitas, custos e despesas estiveram disponíveis à RFB ou foram por esta obtida no curso do procedimento de Fiscalização pelo SPED e DIPJ (retificada). Apontam jurisprudência do CARF, sublinhando (fl. 1095); [...] Se a receita considerada omitida em decorrência da presunção por não comprovação da origem de depósitos bancários representar parte significativa da receita total, seguramente a adoção do arbitramento do lucro (com coeficiente agravado em 20%), podese afirmar que penaliza o contribuinte. Afirmam que é o caso dos autos: “[...] a receita supostamente omitida pela PG Mundi foi apurada no curso da Fiscalização após a análise de (i) NFe emitidas pela empresa e (ii) depósitos bancários não contabilizados, [...]”. Argumentam ainda que, conforme tabelas colacionadas pela Fiscalização no auto de infração, a receita total apurada pela RFB com base nas NFe emitidas pela PG Mundi montou em R$ 460.316.113,08. Por sua vez, o saldo relativo a depósitos bancários de origem não comprovada totalizou R$ 437.951.871,00. Ou seja, a receita total apurada com base nas NFe é maior do que o total de movimentação bancária, e ainda assim a RFB enxergou omissão de receitas com base na movimentação bancária. Flagrantemente predatório o arbitramento adotado pela RFB, ainda mais quando o valor movimentado é literalmente quase o mesmo do total das notas fiscais de vendas da PG Mundi. Concluem então (fl. 1096): 3.B.12. No caso em julgamento, todavia, não houve atividade fiscalizatória rigorosa. O que se teve, na realidade, foi uma análise sumária de toda a realidade da empresa, baseada quase que exclusivamente nas NFe emitidas e nas informações prestadas pelas instituições financeiras. Os agentes fiscais não se debruçaram sobre os documentos contábeis e fiscais da PG Mundi, tendo, na realidade, ignorado por completo as informações disponíveis no SPED da companhia, que revelava valiosas informações sobre custos e despesas incorridas no ano calendário 2012 para fins de apuração do Lucro Real e demonstrava a ocorrência de prejuízo em 2012, o que eliminaria a tributação de IRPJ e CSLL lançados. 3.C. OS ERROS NA APURAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO DOS TRIBUTOS LANÇADOS POR ARBITRAMENTO E A MÁFÉ DE QUE SE IMBUÍRAM OS AGENTES FISCAIS Expõem que a Fiscalização alegou ter excluído as vendas canceladas, as devoluções de mercadorias e o ICMS Substituição Tributária das receitas operacionais (apuradas conforme NFe identificadas pela própria RFB). Contudo, houve surpresa ao cotejarem os números apontados pela RFB na autuação com a contabilidade Fl. 1373DF CARF MF 6 (que não era imprestável) da PG Mundi. Excluindose as vendas canceladas, as devoluções de mercadorias e o ICMS Substituição Tributária da receita operacional da PG Mundi, chegase a um total tributável de R$ 409.087.406,29, conforme demonstrado no quadro abaixo: (...) Afirmam que se a Fiscalização tivesse excluído, a receita bruta total jamais chegaria aos R$ 460 milhões, isso sem mencionar as bonificações, que montaram em R$15.972.671,95 no ano calendário 2012 e que, se consideradas, reduziriam substancialmente a base de cálculo do PIS e da COFINS lançados no auto de infração. Salientam que outro erro crasso guarda relação com os depósitos de origem não comprovada e sua “agregação” à base equivocadamente arbitrada. Explicam que o total de depósitos de origem não comprovada identificado pela RFB montou em R$ 437.951.871,00, ao passo que o total de receitas informado em NFe totalizou R$ 460.316.113,08. Realçam que essa diferença de pouco mais de R$ 22 milhões se transformou em mais de R$ 26 milhões de reais. Argumentam que esse ilusionismo é fruto da adoção de um critério equivocado, facilmente identificável a partir da análise da planilha colacionada pela RFB às fls. 35 do auto de infração. Explicam que a RFB decidiu fazer uma conciliação “mês a mês” dos depósitos de origem não comprovada com as NFe. Defendem que esse critério (equivocado) se mostrou mais conveniente à RFB, já que “saldos credores” de depósitos de um mês não compensariam “saldos devedores” de meses seguintes, aumentando ficticiamente a receita presumidamente omitida decorrente dos depósitos de origem não comprovada. Arrematam: 3.C.10. Isso porque, como visto, é matematicamente impossível que um saldo de pouco mais de R$ 22 milhões se transforme em uma diferença de mais de R$ 26 milhões quando a esse saldo não foi somado nenhum valor adicional. Além do mais, nada mais corriqueiro e comum que uma empresa que explore a atividade de revenda de produtos contrate com seus clientes para receber o preço de venda parceladamente ou a prazo, levando a algum descasamento entre as datas de emissão da nota fiscal e a entrada do dinheiro no caixa (banco), seja por vendas a prazo ou mesmo uma eventual inadimplência. Logo, inadmissível que prevaleça a matemática “criativa” adotada pelos agentes fiscais para criar uma omissão de receitas baseada na movimentação bancária. 3.C.11. É indiscutível que esse erro de critério demanda a anulação do auto de infração. 3.D. DA CORRETA APURAÇÃO DOS IMPOSTOS SEM O ARBRITAMENTO INDEVIDO Explicam os interessados que considerando as receitas, compras e despesas constantes do Fl. 1374DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.372 7 SPED e DIPJ Retificadora, de forma bastante grosseira, teríamos como bases de cálculos para os tributos lançados nesse Auto de Infração os valores conforme tabelas apresentadas nas fls. 1098/1100. Afiançam que as diferenças entre os tributos lançados pela Fiscalização com base no arbitramento indevido das bases de cálculo da PG Mundi e os valores efetivamente apurados pela empresa a partir de suas receitas, despesas e custos incorridos no anocalendário 2012 são enormes: (i) no caso do PIS e COFINS as diferenças são de quase duas vezes e meia o valor autuado contra o valor devido e (ii) no caso do IRPJ e CSLL são totais, já que a PG Mundi apurou prejuízo e não lucro nesse exercício, sendo indevidos quaisquer valores à RFB. 4. IMPOSSIBILIDADE DE SE RESPONSABILIZAR SOLIDARIAMENTE AS SÓCIAS ECCO E EFIKANOVE E O SR. FLAVIO PELOS SUPOSTOS DÉBITOS LANÇADOS CONTRA A PG MUNDI. Ponderam que ao tratar dos fundamentos pelos quais estendeu a responsabilidade a esses terceiros, a Fiscalização não foi clara sobre qual seria o dispositivo legal que fundamentaria sua pretensão. Explicam que iniciando a análise do tópico pela extensão da responsabilidade ao Sr. Flávio, destacamos que os agentes fiscais procuraram enquadrálo no polo passivo do auto de infração com base nos artigos 124, I e 135, do CTN. Especificamente no tocante à invocação do artigo 124, I, do CTN, registram que a interpretação que a Fiscalização atribui ao dispositivo é equivocada, já que o suposto interesse do Sr. Flávio nas condutas praticadas pela PG Mundi jamais poderia se equiparar ao “interesse comum na situação que constitua fato gerador da obrigação tributária”. Argumentam que o artigo 124, I, do CTN, não trata de qualquer “interesse comum”, e sim apenas do interesse daquele que é titular dos direitos e deveres adquiridos diretamente na “situação que constitui fato gerador da obrigação”, sem que, para tanto, tenha ocorrido qualquer transferência jurídica inter partes desses direitos e deveres. Apontam doutrina de MARCOS VINICÍUS NEDER, no sentido que para haver interesse comum, há de se identificar direitos e deveres comuns que se irradiam dessa relação jurídica. Na mesma linha de raciocínio, destacam o entendimento de Fábio Pallaretti Calcini que ensina que interesse comum na ocorrência do fato gerador tributário da obrigação principal demanda basicamente um interesse jurídico e não meramente fático, econômico, social, além de necessitar que as pessoas participem do fato jurídico tributário não estejam em situação oposta no ato. Fl. 1375DF CARF MF 8 Apresentou jurisprudência do STJ, grifando que “deve ocorrer interesse comum das pessoas que participam da situação que origina o fato gerador”. Acrescentam que o STJ pacificou o entendimento de que o mero “interesse econômico” em uma relação jurídica é insuficiente para caracterizar o “interesse comum”, previsto no artigo 124, I, do CTN, sublinhando “é imprescindível que ambas realizem conjuntamente a situação configuradora do fato gerador, sendo irrelevante a mera participação no resultado dos eventuais lucros auferidos pela outra empresa coligada ou do mesmo grupo econômico”. Acentuam que a Fiscalização se restringiu a fazer meras ilações sobre a ocorrência de sonegação, fraude e simulação nas condutas da PG Mundi, sem, contudo, demonstrar qual teria sido o interesse jurídico do Sr. Flávio nessa fictícia fraude, tampouco sua participação direta (ou indireta) nas condutas supostamente ilegais. Desse modo, alegam que os agentes fiscais sustentaram toda sua tese no suposto interesse econômico do Sr. Flávio na pseudofraude narrada na autuação, tese já rechaçada pelo STJ em repetidos julgados sobre a matéria. Quanto à responsabilização pessoal, feita com base no artigo 135, do CTN, argumentam que somente se admite a responsabilização dos sócios e administradores na hipótese de restar comprovado que estes praticaram atos com excesso de poderes ou em violação à lei ou contrato social. Frisam que a comprovação exigida pelo artigo 135, do CTN não admite presunção, sendo necessário que a Fiscalização demonstre e comprove a existência de nexo causal entre as condutas da PG Mundi e de seu administrador na prática da infração supostamente identificada – o que, inclusive, não se afigura, já que, quando questionada no curso do procedimento de fiscalização, a PG Mundi tratou de apresentar todos os documentos e informações que foram solicitados, tendo, inclusive, retificado sua DIPJ, a pedido da fiscalização, para que sua situação fiscal efetiva fosse devidamente demonstrada à RFB espelhasse as informações do SPED. Realçam “erro é algo bem diverso de fraude”. Ao retificar a DIPJ, sustentam que a PG Mundi corrigiu a única informação destoante da realidade contábil, suprimindo assim o elemento omisso nas suas informações fiscais, e demonstrando a toda evidência a sua total boa fé e intenção de corrigir os erros existentes. Expõem jurisprudência da Corte Superior, no sentido que a responsabilidade pessoa dos sócios e administradores das pessoas jurídicas exige a prévia comprovação, pelo Fisco, da prática dolosa de atos em violação à lei ou com excesso de poderes fixados em contrato social. Enfatizam que no presente caso nada disso foi realizado pela Fiscalização, que se restringiu a fazer meras ilações sobre a ocorrência de sonegação, fraude e simulação nas condutas da PG Mundi, sem, contudo, demonstrar qual teria sido o ato de seu administrador passível de responsabilizálo. Além disso, em nenhum momento do AIIM a Fiscalização traçou uma linha sequer sobre qual teria sido o papel do Sr. Flávio em toda a sua narrativa. Fl. 1376DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.373 9 5. IMPOSSIBILIDADE DE SE RESPONSABILIZAR SOLIDARIAMENTE O SR. WILSON PELOS SUPOSTOS DÉBITOS LANÇADOS CONTRA A PG MUNDI. Explicam que o contador Wilson, por ser terceirizado, preenchia e entregava as declarações contábeis e fiscais com base nas informações que lhe eram fornecidas, não sendo razoável que se admita possa a Fiscalização incluílo como partícipe de uma dita fraude sem que haja elementos concretos de sua participação na suposta fraude, com fundamento no art. 124, I do CTN. Ou seja, para os agentes fiscais, haveria provas ou elementos indiciários suficientes para se presumir a existência de um interesse jurídico comum entre o contador terceirizado da PG Mundi e a empresa na situação que constitui o fato gerador da obrigação tributária. Indagam : de que forma um contador terceirizado poderia possuir interesse jurídico comum com a pessoa jurídica no não recolhimento, ou no recolhimento a menor, de tributos? Não há provas ou indícios de que o contador possuiu interesse jurídico comum com a PG Mundi nas condutas. Argumentam: 5.5. Nas palavras dos agentes fiscais, o Sr. Wilson teria realizado “manobras contábeis que acabaram por tornar imprestável a contabilidade do contribuinte”, tendo viabilizado “esquema fraudulento que culminou por fraudar o fisco federal em milhões de reais”. Não fosse o suficiente, arrematam os agentes fiscais: “seu conhecimento técnico contábil foi condição sine qua non para execução da manobra que veio desfigurar a contabilização da movimentação financeira da empresa, numa tentativa de elidir o fisco”. [...] 5.7. Ao contrário do que alega a Fiscalização, não houve desfiguração da contabilidade da PG Mundi, tampouco manobras contábeis ou esquema fraudulento. Houve, quando muito, erros de preenchimento de declarações contábeis e fiscais que, quando identificados, foram prontamente retificados pela PG Mundi em DIPJ e comunicados aos agentes fiscais no curso do procedimento de fiscalização. Novamente: erro não se confunde com fraude, sendo que quem frauda não colabora com a fiscalização, mas dela se esquiva. [...]5.9. [...] a Fiscalização não conseguiu demonstrar que o Sr. Wilson teria enriquecido com as condutas supostamente ilícitas praticadas pela PG Mundi. 5.10. De rigor, portanto, que seja afastada a responsabilidade solidária do Sr. Wilson, já que ausentes os requisitos necessários à sua responsabilização com fulcro no artigo 124, I, do CTN. Fl. 1377DF CARF MF 10 6. MULTA 6.A. IMPOSSIBILIDADE DE SE APLICAR CUMULATIVAMENTE O ARBITRAMENTO DO LUCRO E A MULTA QUALIFICADA E AGRAVADA. Citam jurisprudência do CARF no sentido que nos autos no qual o fundamento para a qualificação da multa de ofício aplicada é o mesmo utilizado para a aplicação do arbitramento da base de cálculo, inviável se verifica a sua manutenção (da multa de ofício), evitandose, assim, a aplicação da dupla penalidade pelas mesmas razões. Grifa trecho do voto condutor, conforme transcrito abaixo: [...] a autoridade fiscal adotou o procedimento específico de arbitramento da base de cálculo, o que, só por si, já representa efetivo agravamento na apuração do montante, nos termos até então aqui admitidos. Ocorre que, sendo esse o fundamento para a aplicação do arbitramento pretendido, efetivamente, não pode, também por essa razão, ser mantida a qualificação da multa aplicada, sob pena de se estar a admitir, aqui, a aplicação de dupla penalidade pela mesma falta. [...]Apontam diversos outros julgados quanto ao Agravamento da Multa: MULTA AGRAVADA RECUSA NA APRESENTAÇÃO DE LIVROS E DOCUMENTOS ARBITRAMENTO DO LUCRO IMPOSSIBILIDADE DE SUA CUMULAÇÃO. O agravamento da multa de ofício de 75% para 112,5%, com fundamento na falta de apresentação de livros e documentos não pode prosperar, apesar do arbitramento do lucro justificado na falta de apresentação dos livros e documentos. A recusa do contribuinte justificada na ausência dos documentos enseja o arbitramento, mas não a majoração da penalidade. (CARF; Acórdão nº 9101001.943; Câmara Superior de Recursos Fiscais; Rel. Valmar Fonseca de Menezes; publicado em 23.04.2015) (...) MULTA AGRAVADA DE 225%. IMPROCEDÊNCIA. Ainda que o contribuinte não tenha apresentado os documentos solicitados pela fiscalização, devese afastar a multa agravada quando constatado que tal circunstância não obstaculizou, de forma direta, a definição da base de cálculo dos tributos lançados, notadamente quando houve arbitramento do lucro e não se encontra, nos autos, intimação específica para prestar esclarecimentos” (CARF; Acórdão nº 1201001.437; Primeira Seção, Segunda Câmara, Primeira Turma; Rel. Roberto Caparroz de Almeida; publicado em 20.06.2016) “MULTA AGRAVADA POR FALTA DE ENTREGA DE DOCUMENTOS. LUCRO ARBITRADO PELA NÃO APRESENTAÇÃO DOS REGISTROS CONTÁBEIS. NORMAS QUE DEVEM SER INTERPRETADAS DE FORMA CONJUGADAS. A não apresentação de documentos necessários à demonstração do lucro real tem como consequência o arbitramento nos termos do artigo 148 do CTN e artigo 47 da Lei nº 8.981, de 1995. Contudo, uma vez arbitrado o lucro pela falta de apresentação Fl. 1378DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.374 11 dos documentos exigidos, não cabe o agravamento da multa. A mesma circunstância que caracteriza um fato típico não pode ser, ao mesmo tempo, causa de aumento da reprimenda prevista para o próprio fato típico. Para a não apresentação dos livros e demais documentos necessários à apuração do lucro real a consequência é a exigência dos tributos de forma arbitrada, não cabendo exigir, concomitantemente, o agravamento da multa pela não apresentação de documentos. Ademais, o agravamento da multa só é cabível quando a autoridade fiscal não dispõe de meios para obter as informações de que necessita e o contribuinte negase em fornecêlas. Nos casos de omissão de receitas constatadas a partir das GIAS do ICMS, que caracterizam informações hábeis para lastrear lançamento de crédito tributário, à semelhança dos depósitos bancários de origem não comprovada, a autoridade fiscal já dispõe dos meios para efetuar o lançamento. A omissão quanto ao esclarecimento da origem dos valores tem como consequência a presunção de omissão de receita e não o agravamento da multa”. (CARF; Acórdão nº 1402001.416; Rel. Moisés Giacomelli Nunes da Silva; julgamento em 10.07.2013) [...]Desse modo defendem que como se extrai dos arestos indicados acima, é defeso à Fiscalização adotar o procedimento de arbitramento das bases de cálculo dos tributos lançados e, concomitantemente, aplicar multa agravada contra o contribuinte. Pelo contrário. A cumulação da multa agravada com o arbitramento somente é admissível nos casos em que restar comprovado o efetivo embaraço à Fiscalização, algo que nitidamente não ocorreu no caso sub judice, já que as intimações expedidas contra a PG Mundi foram devidamente atendidas. Acrescentam que o procedimento de arbitramento já é uma penalidade imposta ao contribuinte sempre que sua contabilidade for imprestável e incapaz de trazer à Fiscalização os elementos mínimos necessários à apuração do quantum debeatur tributário. Daí a razão pela qual os tribunais pátrios rechaçam a cumulação da penalidade de multa agravada com o arbitramento nos casos em que as autoridades fiscais não demonstrarem a ocorrência de embaraço à fiscalização; tratase de uma forma de vedação ao bis in idem. Concluem então ser imperioso que se afaste a aplicação da multa agravada no caso em tela, já que, além de desproporcional e confiscatória (como será exposto mais adiante), sua aplicação em conjunto com o arbitramento é inadmissível neste caso, dada a carência de provas ou indícios mínimos da ocorrência de embaraço à fiscalização pelos Impugnantes. 6.B. A FALTA DE FUNDAMENTO PARA APLICAÇÃO DA MULTA QUALIFICADA E AGRAVADA: A PG MUNDI ATENDEU ÀS INTIMAÇÕES, PRESTOU ESCLARECIMENTOS E FORNECEU DOCUMENTOS À FISCALIZAÇÃO. Fl. 1379DF CARF MF 12 Sustentam que a PG Mundi atendeu às intimações que lhe foram expedidas no curso do procedimento fiscalizatório, o que impede o agravamento da multa. Desse modo, há a falta de fundamento para o agravamento da multa feito pela RFB com base no artigo 44, §§ 2º, da Lei nº 9.430/96. Não atender à fiscalização não se confunde com não a convencer das suas razões. Em outras palavras, não se pode admitir o agravamento da multa unicamente porque a PG Mundi não trouxe documentos e informações capazes de convencer os agentes fiscais de que não teria ocorrido infrações tributárias. Apontam jurisprudência do CARF no sentido que ainda que o contribuinte não tenha apresentado todos os dados solicitados pela fiscalização, devese afastar a multa agravada quando constatado que o Contribuinte não deixou de atender a intimação específica para prestar esclarecimentos, que deve ser expressamente formulada durante os trabalhos de auditoria. Argumentam, outrossim, de acordo com a jurisprudência do CARF, a qualificação da multa somente é admitida mediante comprovação clara e congruente do intuito de fraude, revelado em condutas dolosas praticadas pelo contribuinte com o ímpeto de reduzir ou mitigar ilegalmente a carga tributária à qual está sujeito. Alegam: 6.B.8. Como visto, a RFB lavrou este auto de infração a partir da constatação da existência de erros no preenchimento das declarações contábeis e fiscais da PG Mundi e, em razão disso, presumiram os agentes fiscais que os Impugnantes teriam praticado atos fraudulentos, com vistas à sonegação tributária. 6.B.9. Deixando de lado todas as incongruências dessa ficção tributária aventada pela Fiscalização, fato é que nenhuma prova ou elementos indiciários foram trazidos aos autos pelos agentes fiscais suficientes para, no mínimo, fazer nascer uma simples presunção verossímil da dita fraude ou sonegação. Inclusive, a entrega de DIPJs zeradas pelos contribuintes não é fato suficiente a ensejar a qualificação da multa, consoante jurisprudência dominante do CARF, exemplificada pela ementa transcrita a seguir: “(...) A mera ausência de apresentação de documentos pela contribuinte, postura essa que motivou o próprio arbitramento, não é suficiente para demonstrar a prática de ato doloso que configure sonegação, fraude ou conluio. A apresentação de DIPJ com campos “zerados” também não é suficiente para justificar a aplicação da gravosa multa de ofício qualificada, pois não comprova a intenção de reduzir ou evitar o recolhimento dos tributos. (CARF; Acórdão nº 1103001.063; Primeira Seção, Primeira Câmara, Terceira Turma Ordinária; rel. Bruno Ferreira Martins Vasconcelos; julgamento em 03.06.2014). [...]6.B.11. Aliás, outra prova da absoluta postura enviesada da RFB reside na exigência de multa qualificada e agravada, mesmo tendo concedido à PG Mundi prazo para retificar sua DIPJ no curso do procedimento fiscalizatório (o que foi prontamente atendido pela empresa). O procedimento de Fl. 1380DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.375 13 fiscalização não pode ser tratado pela Administração Pública como se um jogo fosse; os agentes fiscais não podem abrir mão da lisura unicamente para brincar de “gato e rato” com a empresa, concedendolhe prazo para retificar suas declarações para, ato imediatamente contínuo, desconsiderar as retificações, apontalas como irrelevantes para elidir uma suposta (e inexistente) máfé e, finalmente, aplicar multa qualificada e agravada contra a empresa. [...]6.B.13. Por fim, mister destacar que, na disciplina do artigo 50, § 1º, da Lei nº 9.784/99, os atos administrativos devem ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos que o sustentam, sendo imperioso que a motivação seja “explícita, clara e congruente”. No caso ora em julgamento, não se nota a clareza nem a congruência entre a dita motivação do ato e seu resultado. O AIIM não permite ao intérprete visualizar, com clareza, quais teriam sido as condutas praticadas pelos Impugnantes capazes de revelar meros indícios de um dolo específico para a fraude aventada. 6.B.14. Por derradeiro, há de se ter em mente que carece de juridicidade a transposição de penalidade em matéria tributária. Ainda que a lei possa eventualmente transferir a obrigação tributária de uma pessoa a outra, a infração tributária é uma obrigação pessoal do infrator e que se não pode ser transportada de uma pessoa a outra, ante a pessoalidade das multas punitivas. 6.B.15. Destarte, revelase inapropriada a pretensão do Fisco de estender a responsabilidade pela multa também aos sócios da PG Mundi, empresas Ecco e Efikanove, e ao seu administrador e contador terceirizado, Srs. Flávio e Wilson, especialmente quando feita com base nos artigos 124,I, e 135, do CTN. 6.B.16. Isso porque o CTN possui uma seção reservada especificamente para as hipóteses de responsabilidade por infrações, da qual não fazem parte os artigos 124, I, e 135. Por outro lado, o artigo 137 assevera que a responsabilidade é pessoal do agente, dentre outras, quanto às infrações em cuja definição o dolo específico do agente seja elementar. Por inexistir prova de dolo específico dos Impugnantes na prática dos atos contestados pela Fiscalização, imperioso o afastamento das multas que lhe são cobradas, ante a absoluta falta de fundamento jurídico para tanto. 6.B.17. Logo, igualmente importante que seja afastada a aplicação da multa qualificada contra os Impugnantes, reduzindoa, quando muito (caso não sejam acolhidas as razões de mérito e suas preliminares trazidas alhures), ao patamar de 75%. 6.C. A DESPROPORCIONALIDADE E CONFISCATORIEDADE DA MULTA Destacam também o fato de que a multa aplicada no patamar de 225% dos tributos exigidos na autuação está eivada de evidente caráter confiscatório do patrimônio dos Impugnantes, na medida em que Fl. 1381DF CARF MF 14 obviamente desproporcional ao valor total do gravame supostamente devido e às condutas praticadas. Sobre o assunto, o Supremo Tribunal Federal (“STF”) já decidiu serem desproporcionais (e abusivas) as multas fixadas em valores que superem o montante do principal exigido nas respectivas autuações. Ademais, quando do julgamento do RE nº 582.461, de relatoria do Ministro GILMAR MENDES, o Plenário do STF pacificou seu entendimento no sentido de que às multas também se aplica a vedação ao confisco em matéria tributária. Isto posto, acrescentam que, além de carecer de fundamento ante os fatos que revestem esta lide, a multa qualificada e agravada de 225% aplicada contra os Impugnantes é flagrantemente desproporcional e confiscatória de seu patrimônio, devendo ser prontamente afastada. 7. PEDIDOS Por todo o exposto, os Impugnantes pedem e esperam que seja julgada inteiramente procedente a impugnação, cancelandose o auto de infração lavrado. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto (SP), em análise à impugnação apresentada, entendeu por bem manter o lançamento tributário na integralidade. O acórdão proferido recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2012 NULIDADE EM RAZÃO DO CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. IMPOSSIBILIDADE DE TER ACESSO AO PROCESSO. Não há o cerceamento de defesa quando o interessado não tiver acesso aos autos pelo Portal eCac, visto ser apenas uma facilidade, considerando que os autos ficam à disposição do interessado na respectiva repartição de seu domicílio tributário. ARBITRAMENTO DO LUCRO. ESCRITURAÇÃO COMERCIAL IMPRESTÁVEL PARA DETERMINAÇÃO DO LUCRO REAL. Cabe arbitramento do lucro quando a escrituração comercial mantida pela contribuinte contém vícios, erros ou deficiências que a tornaram imprestável para determinar o lucro real. LUCRO ARBITRADO. BASE DE CÁLCULO. O valor final da base de cálculo do lucro a ser arbitrado é aquele representado pela soma, em cada mês de apuração e nos termos do art. 537 do RIR, dos valores de receita conhecida oriundos das Notas Fiscais de venda emitidas pelo contribuinte e dos valores de receita omitida oriundos de depósitos bancários de origem não comprovada. Fl. 1382DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.376 15 SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. PRESENÇA DE INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO FÁTICA. Há sujeição passiva solidária se estiver configurado que as pessoas, jurídica e física, no caso, possuam interesse comum na situação que consubstancie o fato gerador da obrigação tributária principal. CONTADOR. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. O contabilista é responsável perante terceiros, solidariamente com a empresa, quando agindo como preposto, pratica ato ilícito. POSSIBILIDADE DE SE APLICAR CUMULATIVAMENTE O ARBITRAMENTO DO LUCRO E A MULTA QUALIFICADA E AGRAVADA. O arbitramento do lucro não se relaciona com a qualificação da multa, visto este decorrer da conduta ilícita, visando à evasão fiscal, tampouco tem liame com o não atendimento à intimação da Autoridade no curso do procedimento fiscal. MULTA AGRAVADA. Não cumprindo com seu dever de colaboração, deixando de atender as intimações da autoridade fiscal, inevitavelmente incidirá a multa agravada. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Devidamente intimados do acórdão proferido por aquela DRJ, os sujeitos passivos apresentaram, desta vez, Recursos Voluntários apartados, repisando, em síntese, os argumentos lançados na impugnação administrativa. Os Recorrentes PG Mundi Paulistana Logística de Produtos de Higiene e Limpeza Ltda. e suas sócias (Ecoo Mais Empreendimentos e Participações Ltda. e Efikanove Empreendimentos e Participações Ltda.), após fazer um breve relato dos fatos, argumentaram (i) pela nulidade da autuação, tendo em vista o cerceamento de defesa, uma vez que não tiveram acesso aos autos eletrônicos; (ii) a impossibilidade de arbitramento do lucro, uma vez que a sua contabilidade não seria imprestável; (iii) erro na apuração da base de cálculo dos tributos; (iv) impossibilidade de imputação da responsabilidade às sócias da PJ, do seu administrador e do seu contador; (v) impossibilidade de se agravar e qualificar a multa de ofício, quando do arbitramento do lucro; (vi) falta de fundamento para aplicação da multa qualificada e, por fim, (vii) o caráter desproporcional e confiscatório das penalidades aplicadas. Os responsáveis, Flávio Teixeira da Costa e Wilson Roberto Bigarella, em recursos apartados, após tecerem comentários acerca da ausência de fundamento para figurarem no pólo passivo do Auto de Infração, repisam os argumentos lançados pela devedora principal e suas sócias, argumentos estes indicados acima. Este é o relatório. Fl. 1383DF CARF MF 16 Voto Conselheiro Flávio Machado Vilhena Dias Relator DA TEMPESTIVIDADE. Como se denota dos autos, o Recorrente PG Mundi Paulistana teve ciência do acórdão recorrido, via AR (fl. 1255), no dia 12/07/17. Os demais tiveram ciência posteriormente, seja por AR (fl. 1247 e 1248), seja por Edital (1253 e 1254), mas todos apresentaram os Recursos Voluntários na mesma data, qual seja: 07/08/2017 (comprovante de juntada constante na fl. 1265). Ou seja, todos os Recursos foram apresentados dentro do prazo de 30 dias, nos termos do que determina o artigo 33 do Decreto nº 70.235/72. Portanto, sem maiores delongas, são tempestivos os Recursos Voluntários apresentados, e, por cumprirem os pressupostos para o manejo, esses devem ser analisados por este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Devese pontuar que, em que pese terem sido apresentados Recursos Voluntários apartados, como demonstrado acima, os argumentos lançados pelos Recorrentes se repetem, inclusive quando combatem a imputação de responsabilidade; Por isso, não se vê como necessária a análise separada de cada um deles no presente acórdão. DA PRELIMINAR DE CERCEAMENTO DE DEFESA. Os Recorrente, após tecerem comentários acerca dos motivos que levaram à autuação, argumentaram que houve o cerceamento do direito de defesa, uma vez que, quando do recebimento do Auto de Infração, tentaram acessar cópia integral do processo pelo sistema da Receita Federal do Brasil, mas que a contribuinte PG Mundi se viu "impossibilitada de consultar os documentos relativos a esse processo administrativo, já que os botões 'obter cópia para impressão do documento' e 'obter cópia integral do processo' não estavam disponíveis para seleção". Cumpre ressaltar que, com o argumento de que não teve acesso ao autos eletrônicos, os Recorrentes alegam que não puderam fazer "contraprovas aos depósitos apontados pela Fiscalização como indícios de omissão de rendimentos, revelando sua origem" e não puderam se "certificarem da certeza e relevância das NFe utilizadas pelos agentes fiscais para fixarem a chamada 'receita conhecida', para fins de arbitramento do lucro da PG Mundi, (...)". Assim, argumentam que a falta de acesso ao processo eletrônico, os impediu de exercer na plenitude o seu direito de defesa, em flagrante cerceamento perpetrado pela Receita Federal do Brasil. Não assiste razão aos Recorrente neste ponto. De pronto, como se depreende dos autos, quando da lavratura do Auto de Infração, foi enviado aos contribuintes o documento intitulado "Orientações ao Sujeito Passivo" (fls. 1058 e 1059), no qual a administração tributária orienta o contribuinte a obter cópia do processo via Portal do eCAC ou através de atendimento presencial, quando um representante dos autuados poderia obter cópia integral do processo administrativo em uma unidade da Receita Federal do Brasil. Fl. 1384DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.377 17 Pelo o que se depreende do documento, não houve nenhuma atitude da administração fazendária para impedir os contribuintes de terem acesso aos autos. E não há no processo qualquer prova de que houve o impedimento, por parte da Receita Federal, de extração das cópias presencialmente. Por outro lado, é incontestável que os contribuintes não tiveram nenhum prejuízo no manejo das suas defesas, apresentando Impugnação administrativa tempestiva, na qual rebatem, na integralidade, os argumentos lançados pelo agente fiscal no Auto de Infração. Devese destacar, ainda, como consignando no acórdão recorrido, que "as NFes utilizadas foram as emitidas pela própria interessada, conforme consulta realizada pela Autoridade junto ao Sistema Público de Escrituração Digital SPED." Ou seja, se a fiscalização se valeu, para constituir o crédito tributário, de Notas Fiscais emitidas pelo próprio contribuinte, não há que se falar em desconhecimento destes documentos. No que tange aos depósitos bancários de origem não identificada, a Recorrente PG Mundi, antes da lavratura do Auto de Infração, foi intimada para esclarecer e comprovar a origem individualizada de cada depósito, mas não se manifestou. Contudo, quando do recebimento daquela intimação, já tinha conhecimento de quais contas e de quais créditos eram objeto de investigação pelo agente fiscal, não se podendo falar em desconhecimento no momento do recebimento do Auto de Infração. Neste mesmo sentido, inclusive, tem decido este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, como se depreende de julgado cuja ementa segue parcialmente transcrita. Vejase: NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. IMPROCEDÊNCIA. Não se configura cerceamento do direito de defesa se o conhecimento dos atos processuais pelo acusado e o seu direito de resposta ou de reação se encontraram plenamente assegurados. Ademais, não há que se falar em cerceamento de defesa quando o contribuinte tem acesso a todas as informações necessárias à compreensão das razões que levaram à autuação, tendo apresentado impugnação e recurso voluntário em que combate todos os fundamentos do auto de infração e foi devidamente intimado a providenciar documentos. Considerando a extensa e detalhada Impugnação bem como o Recurso apresentado pela recorrente, restou comprovado o exercício do contraditório e da ampla defesa sendo, portanto, improcedentes as alegações de cerceamento do direito de defesa e de nulidade do procedimento fiscal. (...) (CARF Acordão nº 2401005.401 Processo nº 12269.002051/200951 Data da sessão 03/04/2018) Portanto, não se pode admitir o argumento de cerceamento de defesa quando, da análise dos documentos, impugnações e Recursos juntados aos autos, verificase que os contribuintes puderam exercer, na plenitude, todos os atos processuais, sem que houvesse, por Fl. 1385DF CARF MF 18 parte da administração, qualquer ato, omissivo ou comissivo, que pudesse ensejar no alegado cerceamento. REJEITO, assim, a preliminar de nulidade arguida nos Recursos Voluntários ora analisados. DO ARBITRAMENTO DO LUCRO. Nos Recursos Voluntários apresentados, os Recorrente alegam que o agente fiscal se equivocou ao arbitrar o lucro da empresa PG Mundi, uma vez que sua contabilidade não seria imprestável no ano calendário de 2012. Admitindo que existiam vícios na contabilidade (sem indicar quais seriam), argumentam que esses vícios não impediriam a apuração do lucro real da entidade, uma vez que esta era a sua opção de tributação para o ano calendário autuado. Eis o argumento lançado nos Recursos Voluntários neste sentido: Certamente existem erros na contabilidade da PG Mundi. Esse fato, inclusive, foi reconhecido expressamente pela empresa no curso do procedimento de fiscalização. Todavia, ao contrário do que pretendem fazer crer os agentes fiscais, estes erros não tornam a escrita contábil da PG Mundi integralmente imprestável, tampouco justificam a adoção do arbitramento como única forma possível de se apurar suas receitas, seu lucro e os tributos devidos no curso do anocalendário 2012. (...) Igualmente, o arbitramento é procedimento que deve ser adotado pela Administração Pública em ultima hipótese, apenas quando a Fiscalização não dispuser de outros meios e opções para apurar a base de cálculo dos tributos incidentes sobre as receitas e lucro. Entretanto, esta não é a hipótese destes autos, já que todas as informações relativas as receitas, custos e despesas estiveram disponíveis à RFB ou foram por esta obtida no curso do procedimento de Fiscalização pelo SPED e DIPJ (retiÍicada). Pois bem. O Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas, como sabido, admite três formas distintas de apuração: lucro real, lucro presumido e lucro arbitrado, nos termos do artigo 44, do Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172/66): Art. 44. A base de cálculo do imposto é o montante, real, arbitrado ou presumido, da renda ou dos proventos tributáveis. Na apuração pelo lucro real, em alguns casos, há imposição de sua adoção na legislação em vigor, como preceitua o artigo 14, da Lei nº 9.718/98, mas também a adoção da apuração pelo lucro real pode resultar da opção do próprio contribuinte. E a adoção pelo lucro real, independentemente se for por imposição legal ou por opção do contribuinte, obriga este a manter escrituração fiscal regular, sob pena de ter arbitrado o seu lucro pela autoridade fiscalizadora. É o que determina o artigo 47, da 8.981/95. Confirase: Art. 47. O lucro da pessoa jurídica será arbitrado quando: Fl. 1386DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.378 19 I o contribuinte, obrigado à tributação com base no lucro real ou submetido ao regime de tributação de que trata o DecretoLei nº 2.397, de 1987, não mantiver escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, ou deixar de elaborar as demonstrações financeiras exigidas pela legislação fiscal; II a escrituração a que estiver obrigado o contribuinte revelar evidentes indícios de fraude ou contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para: a) identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária; ou b) determinar o lucro real. III o contribuinte deixar de apresentar à autoridade tributária os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, ou o livro Caixa, na hipótese de que trata o art. 45, parágrafo único; IV o contribuinte optar indevidamente pela tributação com base no lucro presumido; V o comissário ou representante da pessoa jurídica estrangeira deixar de cumprir o disposto no § 1º do art. 76 da Lei nº 3.470, de 28 de novembro de 1958; VI o contribuinte não apresentar os arquivos ou sistemas na forma e prazo previstos nos arts. 11 a 13 da Lei nº 8.218, de 29 de agosto de 1991, com as alterações introduzidas pelo art. 62 da Lei nº 8.383, de 30 de dezembro de 1991; (Revogado pela Lei nº 9.718, de 1998) VII o contribuinte não mantiver, em boa ordem e segundo as normas contábeis recomendadas, livro Razão ou fichas utilizados para resumir e totalizar, por conta ou subconta, os lançamentos efetuados no Diário. VIII – o contribuinte não escriturar ou deixar de apresentar à autoridade tributária os livros ou registros auxiliares de que trata o § 2o do art. 177 da Lei no 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e § 2o do art. 8o do DecretoLei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 1º Quando conhecida a receita bruta, o contribuinte poderá efetuar o pagamento do Imposto de Renda correspondente com base nas regras previstas nesta seção. § 2º Na hipótese do parágrafo anterior: a) a apuração do Imposto de Renda com base no lucro arbitrado abrangerá todo o anocalendário, assegurada a tributação com base no lucro real relativa aos meses não submetidos ao arbitramento, se a pessoa jurídica dispuser de escrituração exigida pela legislação comercial e fiscal que demonstre o lucro real dos períodos não abrangido por aquela modalidade de tributação, observado o disposto no § 5º do art. 37; Fl. 1387DF CARF MF 20 b) o imposto apurado com base no lucro real, na forma da alínea anterior, terá por vencimento o último dia útil do mês subseqüente ao de encerramento do referido período. (destacou se) Desta forma, podese afirmar e concluir que o arbitramento é medida excepcional e só deve ser utilizado pelo fisco quando ocorrer umas das hipóteses elencadas no dispositivo legal acima transcrito, em especial, porque interessa ao presente caso, quando houver indícios de fraude ou vícios, que impeçam a autoridade fazendária de aferir a realidade das operações financeiras (inclusive bancária) ou de determinar o lucro real do contribuinte no período fiscalizado. No presente caso, não há que se falar em impossibilidade de arbitramento, uma vez que, como se depreende do longo e minucioso trabalho feito pela fiscalização, foram identificadas várias irregularidades nos livros contábeis e fiscais e nas declarações da PG Mundi. Primeiramente, não se pode perder de vista que, como relatou o agente fiscal (fl. 13 do TVF), o SPED, relativo ao ano de 2012, só foi transmitido, com as informações que o contribuinte julga suficientes para a aferição do lucro real da entidade, em 30/01/2015, ou seja, após iniciado o procedimento de fiscalização. As DCTF's, que deveriam constituir o crédito tributário no ano calendário de 2012, foram transmitidas "zeradas" e as DACON's só apuraram tributo devido entre Janeiro e Julho de 2012. Nos demais meses, não foram apurados tributos como devidos. Transcrevese, neste sentido, trecho do TVF (fls. 10 e 11) com algumas constatações a que chegou o agente fiscal e que não foram rebatidas pelos Recorrentes: (...) ii. Junta Comercial do Estado de São Paulo JUCESP Dentre outras coisas, informa que Flávio Teixeira da Costa é representante das empresas ECCO MAIS EMPREENDIMENTOS E PARTICIPACOES LTDA e EFIKANOVE EMPREENDIMENTOS E PARTICIPACOES LTDA. iii. Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica DIPJ Ano Calendário 2011: Declaração enviada em 29/03/2012 informando que a empresa se encontrou inativa desde sua constituição até 31/12/20122 (sic). Ano Calendário 2012: Declaração original enviada em 26/06/2013 informando que a empresa se encontrou em atividade e que adotou regime de tributação do LUCRO REAL. Exceto pelas fichas 01, 02 e 03, que trazem dados cadastrais da empresa, todas as demais trazem apenas valores zerados (R$ 0,00). O responsável pelo preenchimento, de acordo com a ficha 03, foi o Sr. Flávio Teixeira da Costa. Fl. 1388DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.379 21 Declaração retificadora enviada em 31/01/2015, portanto após o início da presente Ação Fiscal, retificando as informações constantes das fichas 03 em diante. Informa como responsável pelo preenchimento o Sr. Wilson Roberto Bigarella, contator e representente da empresa. Declara ainda, em breve síntese, Receita Bruta de R$ 444.974.963,51 e Prejuízo Líquido de R$ 13.805.180,70, no período. iv. Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF Para o ano calendário 2012 foi enviada pelo contribuinte apenas a DCTF relativa ao período de Dezembro/2012, na qual nenhum débito é confessado. v. Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais DACON O contribuinte informa em DACON os valores de PIS e COFINS apurados entre janeiro e julho de 2016. Neste intervalo, o único mês em que há apuração de tributo efetivamente devido é julho/2012. Entre janeiro e junho há o apontamento de créditos suficientes para compensar todo o valor de tributo apurado. Entre agosto e dezembro de 2012 o contribuinte entregou a DCTF ‘zerada’, ou seja, informando o valor R$ 0,00 em todos os campos de valor da declaração, inclusive no campo de ‘tributo apurado’. Não se pode perder de vista, ainda, que a fiscalização identificou várias inconsistências na escrituração contábil da empresa em especial nas contas denominadas "conta caixa", "bancos conta movimento", "fornecedores nacional diversos", "adiantamento de clientes" e "adiantamento de fornecedores". No TVF foram detalhadas cada uma dessas inconsistências, chegando, a fiscalização, à seguinte conclusão: A análise da escrituração contábil do contribuinte evidenciou claramente a presença, em diversas contas de grande importância no contexto geral da escrituração, de um conjunto insuperável de vícios, erros, deficiências e até mesmo indícios de fraude que a tornam, para todos os efeitos – contábeis, tributários, fiscais – efetivamente imprestável. Evidenciase, ainda, pelos mesmo motivos apontados nos itens 1 a 5 acima, que a escrituração contábil ora analisada não logra atender a diversas disposições da legislação pertinente, em especial ao Regulamento do Imposto de Renda – RIR, positivado no Decreto 3000/1999. Senão, vejamos: “Regulamento do Imposto de Renda (Decreto 3000/1999) Art. 251. A pessoa jurídica sujeita à tributação com base no lucro real deve manter escrituração com observância das leis comerciais e fiscais (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 7º). Fl. 1389DF CARF MF 22 Parágrafo único. A escrituração deverá abranger todas as operações do contribuinte, os resultados apurados em suas atividades no território nacional, bem como os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior (Lei nº2.354, de 29 de novembro de 1954, art. 2º, e Lei nº 9.249, de 1995, art. 25). (...) Art. 269. A escrituração será completa, em idioma e moeda corrente nacionais, em forma mercantil, com individuação e clareza, por ordem cronológica de dia, mês e ano, sem intervalos em branco, nem entrelinhas, borraduras, rasuras, emendas e transportes para as margens (DecretoLei nº 486, de 1969, art. 2º).” (meus grifos) Conforme relato detalhado acima, restou evidenciado, em diversos casos distintos, que a escrituração contábil apresentada pelo contribuinte – o qual se sujeita à apuração do lucro real, é incompleta e nebulosa, para não dizer de pleno incoerente. Tais qualidades a colocam em direta oposição – e, portanto, pleno desatendimento tanto ao parágrafo único do artigo 251 do RIR quanto ao caput do artigo 269 do mesmo diploma legal, ambos acima reproduzidos. Não posso deixar de notar, ainda, que a seletividade das contas que apresentam as maiores margens de erro, como as contas representativas de movimentação bancária e aquelas representativas de outros fluxos financeiros (adiantamentos), não permite conclusão que não a de uma premeditação e execução dolosa de tais fatos por parte do contribuinte, visando fraudar o fisco federal. Não se pode deixar de consignar que, em todos os casos, após identificar inconsistências nas escriturações e fazer "testes" com os valores mais expressivos, a fiscalização deu oportunidade ao contribuinte para justificar aquelas inconsistências e apresentar documentos capazes de comprovar a exatidão das escriturações, em total transparência com o objeto fiscalizado e em consonância com os princípios do contraditório e da ampla defesa. Contudo, mesmo tendo, em diversas oportunidades, requerido e sendo deferido um prazo maior para apresentação das respostas, o contribuinte se manteve inerte, deixando de responder as intimações recebidas. Nem mesmo na impugnação apresentada, tentouse demonstrar que as inconsistências apontadas pela fiscalização estavam equivocadas e que as escriturações refletiam a realidade dos negócios da entidade. Argumentouse, apenas, com o intuito de desqualificar o arbitramento, que "as informações relativas as receitas, custos e despesas estiveram disponíveis à RFB ou foram por esta obtida no curso do procedimento de Fiscalização pelo SPED e DIPJ (retificada)". Em nenhum momento, data venia, tentouse demonstrar que a contabilidade, ao contrário do que foi afirmado pela fiscalização, não seria imprestável e que as informações nela lançadas estavam corretas. Fl. 1390DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.380 23 Por outro lado, não se pode perder de vista que as instituições financeiras apresentaram à fiscalização extratos bancários das contas mantidas pelo contribuinte PG Mundi, em que se constatou uma discrepância em alguns meses entre os valores das NFe emitidas e aqueles creditados nas contas. Nem neste caso, entretanto, o contribuinte apresentou resposta às intimações, como manda a legislação, com documentação hábil e idônea, para comprovar a origem daqueles créditos que superavam o valor das NFe emitidas. Assim, sendo imprestável a escritura contábil e fiscal para a devida apuração do lucro real do contribuinte, a fiscalização está obrigada a arbitrar o lucro, ainda mais quando se dá oportunidade à entidade para esclarecer as inconsistências identificadas e esta se mostra inerte, não respondendo a nenhuma das indagações feitas agente fiscal, através de termos de intimação devidamente recebidos. DA POSSIBILIDADE DE PRESUNÇÃO DE RECEITAS COM BASE NOS DEPÓSITOS BANCÁRIOS CUJA ORIGEM NÃO RESTOU COMPROVADA. Como se depreende do Auto de Infração, a autuação considerou duas espécies de receitas omitidas pela empresa PG Mundi, quais sejam: (i) Notas Fiscais eletrônicas emitidas pela própria empresa e (ii) depósitos bancários não contabilizados, nos termos das informações prestadas pelas instituições financeiras que possuíam contas correntes e de investimentos de titularidade da PG Mundi. Quanto ao primeiro ponto, os Recorrentes não se insurgiram quanto à base dos valores das Notas Fiscais emitidas de forma eletrônica, uma vez que foram obtida através dos lançamentos feitos pelo próprio contribuinte. Houve apenas a argumentação no que se refere a (im)possibilidade de se arbitrar o lucro, já que a fiscalização supostamente teria elementos para apurar o lucro real da entidade. Quanto ao segundo ponto, no Recurso Voluntário apresentado, os Recorrentes alegam, citando doutrina, que caberia à fiscalização trazer outros indícios para comprovar a origem das supostas receitas omitidas e que foram identificadas em suas contas bancárias. Ou seja, em síntese, alegam que o simples depósito bancário não pode gerar uma presunção de receita por parte da fiscalização, sendo obrigação desta trazer outras provas que corroborem com a presunção de omissão. Neste ponto, importante destacar que a Lei nº 9.430/96 presume que a existência de depósito bancários, sem que haja a comprovação da origem dos recursos por parte do contribuinte, pode ser considerada como omissão de receita pela fiscalização. É o que determina, expressamente, o artigo 42 da citada lei. Vejase: Art.42.Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. A adequação deste dispositivo aos comandos da Constituição Federal de 1988, notadamente aos princípios que balizam e limitam o poder de tributar dos entes competentes para instituir e cobrar tributos, dentre eles o da Capacidade Contributiva, é questionável. Tanto que o Supremo Tribunal Federal reconheceu, em 2015, a repercussão geral da discussão nos autos do RE 855.649, nos termos da ementa a seguir transcrita: Fl. 1391DF CARF MF 24 IMPOSTO DE RENDA – DEPÓSITOS BANCÁRIOS – ORIGEM DOS RECURSOS NÃO COMPROVADA – OMISSÃO DE RENDIMENTOS CARACTERIZADA – INCIDÊNCIA – ARTIGO 42 DA LEI Nº 9.430, DE 1996 – ARTIGOS 145, § 1º, 146, INCISO III, ALÍNEA “A”, E 153, INCISO III, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL – RECURSO EXTRAORDINÁRIO – REPERCUSSÃO GERAL CONFIGURADA. Possui repercussão geral a controvérsia acerca da constitucionalidade do artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996, a autorizar a constituição de créditos tributários do Imposto de Renda tendo por base, exclusivamente, valores de depósitos bancários cuja origem não seja comprovada pelo contribuinte no âmbito de procedimento fiscalizatório. (RE 855.649 RG, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, julgado em 27/08/2015, PROCESSO ELETRÔNICO DJe188 DIVULG 21092015 PUBLIC 22092015 ) Contudo, não havendo, até o presente momento, nenhuma declaração de inconstitucionalidade, tampouco a suspensão liminar da eficácia do disposto no artigo 42 da Lei nº 9.430/96, cabe a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais aplicálo, desde que estejam presentes os requisitos para se imputar a presunção de renda, com base nos valores creditados em conta de depósito ou investimento do contribuinte. Ressaltese, ainda, que, pela leitura do dispositivo legal transcrito, podese observar que não há uma presunção absoluta na caracterização de omissão de receita pelo simples crédito de valores nas contas do contribuinte. Pelo contrário: a presunção é relativa, na medida em que o contribuinte, após ser intimado para tanto, pode demonstrar através de documentação hábil e idônea a origem e o lastro dos recursos identificados e que transitaram em contas correntes e de investimentos mantidos junto às instituições financeiras. Entretanto, não fazendo prova cabal da origem daqueles recursos, é dever da fiscalização caracterizar a omissão de receita e, se for o caso, lavrar a autuação, constituindo, assim, o crédito tributário em desfavor do contribuinte. Por outro lado, no que tange especificamente ao IRPJ, também devese deixar claro que, uma vez caracterizada a omissão das receitas, não há que se falar em necessidade de comprovação, por parte do fisco, do acréscimo patrimonial a ensejar a incidência do referido tributo. Neste sentido, já se pronunciou este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJExercícios: 2004 e 2005 OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. ORIGEM NÃO COMPROVADA.Com a edição da Lei n° 9.430/96, a partir de 01/01/1997, passaram a ser caracterizados como omissão de rendimentos, sujeitos o lançamento de oficio, os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais a pessoa física ou jurídica deixe de comprovar a origem dos recursos utilizados nessas operações. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS E ACRÉSCIMO PATRIMONIAL NÃO JUSTIFICADO. ESPÉCIES DISTINTAS.A disposição legal acerca da omissão de rendimentos, em face de valores creditados em conta sem a comprovação de suas origens, prescinde para a sua aplicação de que haja a ocorrência de acréscimo patrimonial, mormente o fato de a interessada consistirse em pessoa jurídica, quando a ausência de escrituração e dos documentos que a amparam enseja o Fl. 1392DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.381 25 arbitramento do lucro, com base na receita tida por omitida. MULTA DE OFICIO.Na ausência de descrição dos fatos que ensejaram a qualificação da multa de 150%, deve a mesma ser reduzida ao percentual de 75%.LANÇAMENTOS REFLEXOS. CSLL, PIS E COFINS.Os lançamentos reflexos, uma vez que nada específico a esses foi contraditado, seguem a sorte do lançamento principal (IRPJ).Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. (Número do Processo 12963.000069/200719 Contribuinte MANHATTAN FACTORING FOMENTO MERCANTIL LTDA Tipo do Recurso RECURSO VOLUNTARIO Data da Sessão 12/11/2010 Relator(a) Paulo Jakson da Silva Lucas Nº Acórdão 1301000.446) Este entendimento é, inclusive, o objeto da súmula 26 do CARF, não podendo ser interpretado de outra forma por este colegiado administrativo. Confirase: Súmula CARF nº 26: A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. Fixadas essas premissas, será legítimo a autuação pela fiscalização com base nos valores creditados em conta corrente ou de investimento do contribuinte, desde que reste comprovado (i) os valores que circularam nas contas de depósito ou de investimentos do contribuinte e (ii) que seja dada oportunidade a este de demonstrar a origem dos recursos e que estes não são, efetivamente, renda tributável ou que já foram levados à tributação. No presente caso, não há maiores dúvidas no que se refere aos valores que circularam nas contas da empresa PG Mundi, até mesmo porque, além de os valores terem sido informados pelas instituições financeiras, não houve qualquer contestação dos Recorrentes quanto a isso. De outro lado, o contribuinte foi intimado para comprovar, individualmente e com documentação hábil e idônea, qual a origem e vinculação dos créditos indicados em suas contas correntes, mas, mais uma vez, se mostrou silente, não respondendo as intimações recebidas. Não se pode perder de vista, neste ponto, que a fiscalização, só considerou como omissão de receitas por depósitos bancários as diferenças mensais entre as NFe emitidas pelo contribuinte e os valores identificados como créditos nas contas bancárias. Vejase trecho do TVF neste sentido: Apesar de vislumbrar que a leitura pura e simples da Lei, em especial dos dispositivos legais aqui reproduzidos, possibilite interpretação no sentido de considerar o total dos depósitos de origem não comprovada como receita omitida, optarei, com o único e exclusivo objetivo de aplicar rigorosamente o princípio da prudência em minhas determinações, por adotar a interpretação mais benéfica possível ao fiscalizado, conforme explicarei a seguir. A despeito da aparente incapacidade – ou indisposição do contribuinte em explicar a origem de quaisquer dos créditos Fl. 1393DF CARF MF 26 apontados em nossas intimações, considerarei como receita omitida, pela presunção legal positivada pelo art. 42 da Lei 9.430/96, apenas aqueles valores que, no mês de apuração, excederem os valores de receita bruta determinados pelas notas fiscais de venda emitidas pelo contribuinte, (...) E, na Impugnação e nos Recursos Voluntários apresentados, os Recorrentes, fiados apenas no suposto erro da fiscalização quanto à "opção" pelo arbitramento, não trouxeram qualquer prova para comprovar a origem das diferenças entre os depósitos bancários e as NFe emitidas. Argumentam e não comprovam, ressaltese, no seguinte sentido: (...) não houve atividade fiscalizatória rigorosa. O que se teve, na realidade, foi uma análise sumária de toda a realidade da empresa, baseada quase que exclusivamente nas NFe emitidas e nas informações prestadas pelas instituições financeiras. Os agentes fiscais não se debruçaram sobre os documentos contábeis e fiscais da PG Mundi, tendo, na realidade, ignorado por completo as informações disponíveis no SPED da companhia, que revelava valiosas informações sobre custos e despesas incorridas no anocalendário 20I2 para fins de apuração do Lucro Real e demonstrava a ocorrência de prejuízo em 20I2, o que eliminaria a tributação de IRPJ e CSLL lançados. Portanto, sendo obrigação do contribuinte desconstruir, com documentação hábil e idônea, as ilações a que chegou o agente fiscal no processo de fiscalização, não o fazendo, nem em sede recursal, não há reparos a se fazer no Auto de Infração combatido, neste ponto. Assim, no mérito, NEGO PROVIMENTO AO RECURSO VOLUNTÁRIO. DOS SUPOSTOS ERROS NA APURAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO DOS TRIBUTOS Em tópico específico dos Recursos Voluntários, os Recorrentes alegam que houve diversos erros por parte da fiscalização na apuração da base de cálculo dos tributos, o que levaria à necessidade de se refazer o trabalho fiscal. Esta mesma argumentação foi apresentada em sede de Impugnação e enfrentada no acórdão ora recorrido. Basicamente, os Recorrentes alegam que a fiscalização incorreu em erro quando da quantificação da receita bruta auferida pelo contribuinte no ano de 2012, uma vez que haveria uma discrepância com o que foi declarado em DIPJ e contabilizado no balancete. Alegam, ainda, que o agente fiscal, apesar de ter reiteradamente dito que excluiu as vendas canceladas, as devoluções de mercadorias e o ICMS Substituição Tributária das receitas operacionais, não o fez, uma vez que chegou a um valor de receita bruta não condizente com a realidade. Apontando mais dois supostos erros da fiscalização, os Recorrentes afirmam que a fiscalização ignorou as bonificações no ano calendário de 2012, que poderiam reduzir de forma substancial as bases de cálculo da contribuição ao PIS e da COFINS e que houve erro no cálculo das omissões de receitas. Contudo, os Recorrentes não trouxeram qualquer comprovação para os pontos levantados como sendo de erros supostamente cometido pela fiscalização. Todas as Fl. 1394DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.382 27 argumentações ficaram apenas como argumentos, sem que houvesse o apontamento e a comprovação precisa daqueles erros. Neste ponto, aderese ao que restou apontado no acórdão recorrido, cujas razões de decidir se transcreve, in verbis: Os autos foram lavrados em virtude da omissão de receitas caracterizada pela ocorrência de depósitos bancários de origem não comprovada e receita bruta de revenda de mercadorias. Reiterese que, quando o contribuinte for optante pelo Lucro Real e apresentar a escrituração com irregularidades, não atendendo determinação das leis comerciais e fiscais, a Autoridade fiscal se encontra vinculada ao arbitramento do lucro, conforme comando do art. 142, parágrafo único do CTN c/c o art. 47 da Lei nº 8.981/1995. Os interessados alegaram genericamente que se excluindo as vendas canceladas, as devoluções de mercadorias e o ICMS Substituição Tributária da receita operacional da PG Mundi, chegarseia a um total tributável de R$ 409.087.406,29. Não apontaram, no entanto, quais documentos não foram excluídos, visto que todo o trabalho fiscal foi realizado com base nas NFes emitidas pela própria interessada. Em relação às alegadas bonificações, as quais perfazem um total de R$15.972.671,95 no ano calendário 2012 e que, se consideradas, reduziriam substancialmente a base de cálculo do PIS, e da COFINS lançados nos respectivos autos de infração, destaquese que também não foi discriminada na defesa ao menos a relação das NFes (com as referidas bonificações) que deveriam ter sido estornadas. Em regra, é preciso demonstrar que as bonificações constam da nota fiscal e não dependem de evento posterior à emissão do documento, afigurandose um desconto incondicional (desconto comercial), para só então, eximiremse da incidência dessas contribuições. Alegar genericamente não justifica a descaracterização de todo o trabalho fiscal. Quanto aos Depósitos Bancários, considerese, outrossim, que a autuação amparase em presunção legal, com supedâneo no art. 42 da Lei 9.430/96. Esclareçase que, quando o legislador se utiliza da técnica presuntiva, há a suposição da existência de um fato desconhecido que é tido como verdadeiro quando da ocorrência de um fato conhecido, delineado pela norma. Verificada a existência de créditos em conta de origem não comprovada (fato conhecido), com fulcro na presunção legal, há a omissão de receita (fato desconhecido). Porém, quando a presunção é relativa, é possível a descaracterização do preceito legal mediante a apresentação de provas demonstrando a inocorrência do fato deduzido (fato desconhecido). Forçoso é convir que, por se tratar de movimentação financeira, não há outra maneira de se demonstrar a origem de recursos senão por meio de documentação que seja coincidente em data e valor com o respectivo montante a ser desvelado. A comprovação deve ser de “cada operação”. A interessada não trouxe aos autos documentos hábeis, ou seja, “capaz” de demonstrar a Fl. 1395DF CARF MF 28 vinculação das vendas com os respectivos depósitos bancários, o que seria possível apenas se o fizesse individualizadamente, e não de forma consolidada, para que só desta maneira houvesse a desqualificação da autuação fiscal. Devese ressaltar, no que tange aos depósitos identificados nas contas do contribuinte, como demonstrado no tópico acima, que este, mesmo sendo intimado a comprovar a origem daqueles depósitos, como determina o dispositivo legal que trata da presunção relativa nestes casos, não se manifestou. De outro turno, a fiscalização demonstrou com planilhas, inclusive bem didáticas, como chegou nos valores omitidos. Para o agente fiscal, não teria sentido não subtrair dos créditos identificados nas contas, os valores das NFe, que também foram considerados como omissão de receita. Assim, no trabalho realizado, só naqueles meses em que houve uma diferença a maior (entre Notas Fiscais e os depósitos bancários), que se considerou a omissão de receitas. E o contribuinte, mesmo tendo a oportunidade de comprovar que aqueles créditos não seriam receitas tributáveis, se ateve a levantar um suposto erro da fiscalização, sem trazer qualquer prova que pudesse ao menos corroborar com as suas alegações. Portanto, também neste ponto, NEGO provimento aos Recursos Voluntários. DA MULTA QUALIFICADA E AGRAVADA CUMULADA NO ARBITRAMENTO. Neste ponto, invertendo a ordem dos argumentos apresentados nos Recursos Voluntários, que tratam da responsabilidade dos demais coobrigados antes da imposição das multas, analisarseá a irresignação quanto à possibilidade de aplicação da multa agravada, quando há o arbitramento do lucro por pare da fiscalização. Cumpre registrar que, nos Recursos Voluntários apresentados, os Recorrente intitulam o tópico ora em análise como sendo a "IMPOSSIBILIDADE DE SE APLICAR CUMULATIVAMENTE O ARBITRAMENTO DO LUCRO E A MULTA QUALIFICADA E AGRAVADA". Contudo, nas argumentações e nos julgados colacionados para embasar os seus argumentos, defendem apenas a impossibilidade de aplicação da multa agravada, sem mencionar, em nenhum momento, a questão da multa qualificada. Portanto, entendese que, apesar do título do tópico, não houve insurgência dos Recorrentes quanto à aplicação da multa qualificada de forma cumulativa ao arbitramento do lucro. Pois bem. Nos Recursos Voluntários, após citar julgados proferidos pelo CARF, os Recorrentes afirmam que não se pode admitir a aplicação de multa agravada no presente caso, já que houve o arbitramento do lucro. Alegam, assim, que a "cumulação da multa agravada com o arbitramento somente é admissível nos casos em que restar comprovado o efetivo embaraço à Fiscalização, algo que nitidamente não ocorreu no caso sub judice, já que as intimações expedidas contra a PG Mundi foram devidamente atendidas." Por sua vez, o agente fiscal que lavrou o Auto de Infração combatido, argumenta que o contribuinte descumpriu, de forma reiterada, as intimações enviadas pelas fiscalização, não respondendo às indagações que lhe foram formuladas. Neste sentido, citasse trecho do TVF (fl. 47): Fl. 1396DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.383 29 No presente caso, conforme detalhadamente relatado no capítulo ‘II’ deste Termo de Verificação Fiscal, o contribuinte descumpriu reiteradamente os prazos impostos por esta fiscalização para atendimento às diversas intimações a ele feitas. Descumpriu, inclusive, os prazos concedidos a seu próprio pedido, oriundos do deferimento de infindáveis pedidos de dilação de prazo por ele formalizado junto à autoridade fiscal. Houvessem as respostas às intimações sido eventualmente forncecidas, poderia a autoridade fiscal, até mesmo, a despeito do que seria ainda uma aparente atitude protelatória – em especial dada a natureza de simples esclarecimento de algumas de nossas solicitações, relevar os atrasos do ponto de vista do dispositivo legal que ora se analisa. Ocorre, no entanto, que mesmo após o deferimento de todos os seus pedidos de dilação de prazo junto a nós protocolados, e do decurso de um intervalo de tempo que ultrapassa qualquer margem de razoabilidade para a o cumprimento das obrigações impostas, não forneceu o contribuinte, a esta fiscalização, respostas a nossas intimações. Assim, para análise do argumento apresentado pelos Recorrentes, entendese que deve ser respondido o seguinte questionamento: o lucro arbitrado é uma penalidade e, por isso, quando da sua aplicação, não se admite o agravamento da multa, por se configurar uma dupla penalidade? Entendese que não. Como demonstrado acima, o lucro arbitrado é uma forma de apuração do IRPJ e será aplicado quando presentes uma das causas previstas no já citado artigo o artigo 47 da Lei nº 8.981/95. A apuração pelo lucro arbitrado não é uma penalidade. Os ensinamentos de Hiromi Higuchi são neste sentido. Confirase: O art. 538 do RIR/99 dispõe que o arbitramento do lucro não exclui a aplicação de penalidades cabíveis. Isso significa que o arbitramento de lucro é uma forma ou regime de tributação, não constituindo penalidade. (HIGUCHI, Hiromi. Imposto de Rendas das Empresas. Interpretação e Prática. Atualizado até 1502 2017. Versão digital). E o citado artigo 538 do RIR/99 não deixa margens para interpretações diversas, quando diz que " O arbitramento do lucro não exclui a aplicação das penalidades cabíveis." Assim, temse o posicionamento firme de que, havendo a prática de condutas tipificadas na legislação para aplicação da penalidade agravada, esta não deve ser afastada, sob o argumento de que o lucro foi arbitrado. É claro que "o motivo do arbitramento do lucro não enseja per si e não se confunde com o motivo para o agravamento da penalidade". Neste sentido, inclusive, já houve decisão da Câmara Superior de Recursos Fiscais do CARF (vejase o teor do acórdão nº 9101001.943, de 17 de Julho de 2014). Há que se perquirir, assim, se o contribuinte adotou condutas tipificadas, que ensejariam o agravamento da multa. E, no presente caso, como se verifica do trecho do TVF acima transcrito, o motivo que ensejou o arbitramento (imprestabilidade da contabilidade) não se confunde com o Fl. 1397DF CARF MF 30 motivo que justificou a majoração da multa, qual seja: o não atendimento, pelo sujeito passivo, no prazo marcado, de intimações para prestar esclarecimentos. Como se depreende do TVF, em que pese ter sido concedida a dilação de prazo, sempre que esta foi requerida, o contribuinte deixou de prestar os esclarecimentos necessários à fiscalização, que, ao final, acabou por entender como imprestável a contabilidade da empresa. Assim, o motivo para o agravamento em nada se confunde com o arbitramento, e, por isso, deve ser rejeitado o argumento dos Recorrentes, que insistem em dizer que o arbitramento impõe o afastamento da multa agravada. Por tudo, neste ponto, também NEGO provimento aos Recursos Voluntários. DA MULTA QUALIFICADA E AGRAVADA. Em tópico específico, os Recorrentes se insurgem quanto à aplicação da multa qualificada e agravada, requerendo, ao final, o provimento dos Recurso Voluntários, para que reste afastada a aplicação dessas penalidades. No que tange à multa agravada, como demonstrado acima, esta foi aplicada com base no artigo 44, § 2°, inciso I da Lei n° 9.430/1996, tendo em vista a constatação de que o Recorrente PG Mundi deixou de atender as intimações da fiscalização de forma reiterada. No TVF, constam as intimações enviadas ao contribuinte e a demonstração de que o Recorrente, em mais de uma oportunidade, não atendeu os pedidos de esclarecimentos formalizados pela fiscalização, mesmo lhe tendo sido concedidas dilações de prazos, sempre que requerido. São precisas as colocações do acórdão recorrido, quando fala em dever de colaboração dos contribuintes com a fiscalização, in verbis: Realcese que o dever de colaboração do contribuinte exerce papel fundamental na atividade administrativa de lançamento. Quando regularmente intimado, o sujeito passivo é obrigado a apresentar à Administração Tributária os documentos solicitados. Não se trata de simples faculdade, mas sim de um dever legal de demonstrar sua situação regular perante a Fazenda Pública. Por isso há a sanção, caso não cumpra com sua obrigação tributária conforme prescreve a legislação. E, nos autos, ao contrário do que alegam os Recorrentes, há provas de que as intimações não foram atendidas. O próprio Recorrente PG Mundi, em contradição ao que defende em tópico específico, quando da narração dos fatos, após mencionar que pediu 03 dilações de prazo, argumenta que "impaciente, a Fiscalização decidiu lavrar o auto de infração controlado neste processo administrativo (...)". Ora, será que foi a fiscalização impaciente ou teve que lavrar o Auto de Infração, mesmo sem ver respondidos os seus questionamentos? Acreditase, data venia, que a resposta positiva é mais salutar para a segunda parte do questionamento. Ou seja, a fiscalização, vendo que as suas intimações não seriam respondidas, lavrou o Auto de Infração com os elementos que possuía. Fl. 1398DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.384 31 Assim, sendo incontroverso nos autos que o contribuinte deixou, de forma reiterada, de atender as intimações formalizadas pela fiscalização, correta a aplicação da multa agravada, como autoriza o artigo 44, § 2°, inciso I da Lei n° 9.430/1996. No que tange à aplicação da multa qualificada, nos Recursos Voluntários, os Recorrentes alegam que "nenhuma prova ou elementos indiciários foram trazidos aos autos pelos agentes fiscais suficientes para, no mínimo, fazer nascer uma simples presunção verossímil da dita fraude ou sonegação". De pronto, devese esclarecer que, como já pacificado por este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, a simples omissão de receitas não é suficiente para se fundamentar a qualificação da multa. Há, inclusive, súmula neste sentido: Súmula CARF nº 14: A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo. Assim, para a qualificação da multa, cabe ao agente autuante comprovar a prática, pelo contribuinte, das condutas descritas na legislação. No presente caso, como se denota termo de verificação fiscal, foram esses os motivos que levaram o agente a entender pela qualificação da multa: Ao tipificar os crimes contra a ordem tributária, a Lei n° 8.137/90 evidencia em seu art. 1°, inciso I, que a omissão de rendimentos, bens ou fatos, e em seu inciso II, que a inserção de elementos inexatos e a omissão de operação de qualquer natureza em documento ou livro exigido pela lei fiscal inserem se, ambos, no contexto de fraude à fiscalização tributária, sendo o tipo doloso. O art. 2°, inciso I, identifica como crime igualmente doloso “fazer declaração falsa ou omitir declaração sobre rendas, bens ou fatos, ou empregar outra fraude, para eximirse, total ou parcialmente, de pagamento de tributo“. Fato é que o contribuinte, no período analisado, agiu de forma a enquadrarse em todos os tipo aqui descritos. Senão, vejamos: i. O contribuinte omitiu das autoridades fazendárias, voluntária e conscientemente, informação relativa a rendimentos tributáveis decorrentes dos depósitos efetivados em conta corrente e, quando regularmente intimado a fazêlo, furtouse de comprovar a origem de tais depósitos, suprimindo assim imposto e contribuições sociais federais previstas na legislação federal, e, portanto, incorrendo em omissão criminosa dolosa tipificada pelo art. 1°, inciso I, da Lei n° 8.137/90; ii. O contribuinte fraudou a fiscalização tributária, inserindo elementos inexatos e omitindo diversas operações financeiras e comerciais em sua escrituração fiscal, que é documento/livro exigido pela lei fiscal, suprimindo assim tributo e contribuições sociais federais previstas na legislação federal, e, portanto, incorrendo em ação criminosa dolosa tipificada pelo art. 1°, inciso II, da Lei n° 8.137/90; Fl. 1399DF CARF MF 32 iii. Igualmente doloso foi o fato de, a despeito da completa falsidade da informação, haver o administrador da empresa, Sr. Flávio Teixeira da Costa, declarado originalmente por meio da Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica – DIPJ que no ano calendário sob escrutínio o faturamento da empresa teria sido zero. Lembro que a retificação da referida declaração, ocorrida anos depois, a pedido desta fiscalização e após o início da mesma, ainda que regularize a situação da declaração em si, não tem o condão de eliminar o dolo do ato anteriormente cometido, que se tipifica nos arts. 1° e 2° da Lei n° 8.137/90; iv. O contribuinte omitiu, ainda, em sua escrituração e quando de seu silêncio frente às indagações das autoridades tributárias, informações sobre rendas e fatos com o único objetivo vislumbrável de eximirse, total ou parcialmente, de pagamento de tributo, e, portanto, incorrendo em ação criminosa dolosa tipificada pelo art. 2°, inciso I, da Lei n° 8.137/90. Pelo o que se percebe do trecho transcrito e de toda a documentação carreada nos autos, houve, por parte da fiscalização, imputação e comprovação de condutas dolosas praticadas pelo contribuinte a ensejar a qualificação da multa. Como se observa, a omissão de receitas se deu pela conduta reiterada do contribuinte, que fraudou as demonstrações contábeis, entregou declarações zeradas. Como sabido, o parágrafo 1º do artigo 44, da Lei nº 9.430/96, determina a aplicação da penalidade em dobro quando constatada a prática de alguma das condutas previstas no artigos 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964. Citase: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Vide Lei nº 10.892, de 2004) (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Vide Lei nº 10.892, de 2004) (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) (...) § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Por sua vez, os dispositivos da Lei nº 4.502/64 que autorizam a qualificação da multa são os seguintes: Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; Fl. 1400DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.385 33 II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72 Repisese: consta dos autos a comprovação de condutas dolosas praticadas de acordo com os dispositivos acima transcritos. É fato nos autos que o contribuinte deixou de levar à tributação receitas que seriam tributáveis, utilizando de vários meios para impedir ou retardar a o conhecimento do fato gerador. Neste ponto, portanto, NEGO PROVIMENTO aos Recursos Voluntários, mantendo a aplicação das multas qualificada e agravada. DO CARÁTER CONFISCATÓRIO Em tópico específico, os Recorrentes alegam o caráter confiscatório e desproporcional da penalidade aplicada, argumentando que a "multa qualificada e agravada de 225% aplicada contra os Impugnantes é flagrantemente desproporcional e confiscatória de seu patrimônio, devendo ser prontamente afastada". Qualquer análise dos percentuais das multas aplicadas, nos termos da legislação, perpassaria pela análise da adequação dos dispositivos legais ao Texto Constitucional. Contudo, é importante ressaltar que esse Conselho Administrativo de Recurso Fiscais não tem competência para analisar eventual inconstitucionalidade da legislação. Inclusive, essa impossibilidade já foi sumulada. Confirase: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Portanto, sem maiores delongas, deve ser superada a alegação do suposto caráter confiscatório e desproporcional do percentual da multa aplicada. DAS RESPONSABILIDADES Por fim, passase a analisar os argumentos lançados nos Recursos Voluntários quanto a ausência de responsabilidade dos coobrigados indicados no Auto de Infração combatido. Farseá essa análise por partes, tendo em vista que os fundamentos para imputação das responsabilidades são distintos. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DAS SÓCIAS ECCO E EFIKANOVE ARTIGO 124, INCISO I DO CTN. Como se verifica do TVF, após fazer longa explanação sobre a pessoa e atos praticados pelo Sr. Flávio Teixeira da Costa (cuja responsabilidade será analisada em seguida), Fl. 1401DF CARF MF 34 o agente fiscal, em um parágrafo, impõe às Pessoas Jurídicas sócias da PG Mundi a responsabilidade pelo pagamento do crédito tributário constituído. Vejase, neste sentido, trecho do TVF com essa imputação: Pela sua condição de sócias da PGMUNDI PAULISTANA, e portanto beneficiárias diretas do excedente gerado pela sonegação praticada, e por sua participação na administração da empresa por intermédio de seu administrador e representante na sociedade em comento FLÁVIO TEIXEIRA DA COSTA, conforme contrato social registrado na Junta Comercial do Estado de São Paulo, cujos atos foram amplamente explanados neste capítulo do presente Termo de Verificação Fiscal, solidarizo as empresas ECCO MAIS EMPREENDIMENTOS E PARTICIPACOES LTDA, CNPJ 10.361.956/000172 e EFIKANOVE EMPREENDIMENTOS E PARTICIPACOES LTDA, CNPJ 10.757.049/000147, à autuada, na condição de responsáveis tributários, nos termos do art. 124, I da Lei 5.172/66. Como se observa do trecho transcrito, a responsabilidade das sócias foi imputada com base no artigo 124, I do Código Tributário Nacional, que tem a seguinte redação: Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; A leitura deste dispositivo, leva o intérprete à conclusão de que o "interesse comum" está atrelado ao fato gerador da obrigação tributária. Assim, para ser responsável solidária pelos créditos tributários, a pessoa (seja ela física ou jurídica) tem que ter tido participação no fato que constitui a hipótese de incidência tributária. Ou seja, a expressão "interesse comum" se dirige às pessoas que, de alguma forma, participaram do fato (critério material) descrito no antecedente da regra matriz. Esse entendimento já foi exarado por este colendo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Vejase: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Data do fato gerador: 31/03/2011 ALIENAÇÃO. PESSOA FÍSICA. SÓCIO, SIMULAÇÃO. As transformações societárias realizadas pelas sócias da autuada e que foram o foco da presente autuação, visaram desmembrar parte do acervo operacional da Autuada (incluído o atribuído pela sócia que permaneceu), para ser vendida a outra empresa, pela pessoa física do sócio; o processo de transferência para a pessoa física do sócio envolveu o valor contábil do acervo e a venda pela pessoa física se deu pelo valor de mercado, incidindo a tributação à alíquota de 15% , caracterizando que as operações foram simuladas, dado que o objetivo foi a venda de parte do acervo pela pessoa jurídica. Assunto: Normas de Administração Tributária Data do fato gerador: 31/03/2011 AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. Fl. 1402DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.386 35 Somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. IR RECOLHIDO. DEDUÇÃO. Procede o pleito da autuada e da pessoa física que efetuou os recolhimentos, de que os valores de Imposto de Renda recolhidos pela pessoa física, em relação à mesma transação autuada na pessoa jurídica, sejam deduzidos dos valores de IRPJ exigidos da autuação, antes da aplicação da multa de ofício e dos juros de mora, uma vez que aquela operação foi descaracterizada, porém o imposto foi recolhido espontaneamente. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 31/03/2011 JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. A multa de ofício é parte integrante da obrigação ou crédito tributário e, quando não extinta na data de seu vencimento, está sujeita à incidência de juros. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM. CABIMENTO. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão do interesse comum na situação que constitui fato gerador da obrigação principal, nos termos do art. 124, I, do CTN, quando demonstrado que os responsabilizados não apenas ostentavam a condição de sócios de fato da autuada, como foram os responsáveis pelas operações societárias que resultaram na autuação. VOTO DE QUALIDADE. ART. 112, CTN. Descabe aplicação do art. 112 do CTN, no caso de empate de votação no CARF. (Acórdão nº 1201001.778 Processo nº 16561.720079/201568 Sessão de 21/06/2017) (destacouse) O Superior Tribunal de Justiça também tem entendimento fixado neste sentido, como se observa do julgado, cuja ementa segue citada abaixo: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO FISCAL. ISS. SUJEIÇÃO PASSIVA. ARRENDAMENTO MERCANTIL. GRUPO ECONÔMICO. SOLIDARIEDADE. VERIFICAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7/STJ. 1. "'Na responsabilidade solidária de que cuida o art. 124, I, do CTN, não basta o fato de as empresas pertencerem ao mesmo grupo econômico, o que por si só, não tem o condão de provocar a solidariedade no pagamento de tributo devido por uma das empresas' (HARADA, Kiyoshi. 'Responsabilidade tributária solidária por interesse comum na situação que constitua o fato Fl. 1403DF CARF MF 36 gerador')" (AgRg no Ag 1.055.860/RS, Rel. Min. Denise Arruda, Primeira Turma, julgado em 17.2.2009, DJe 26.3.2009). 2. "Para se concluir sobre a alegada solidariedade entre o banco e a empresa de arrendamento para fins de tributação do ISS, seria necessária a reapreciação do contexto fáticoprobatório, providência inadmissível em sede de recurso especial, consoante a Súmula 7/STJ" (AgRg no AREsp 94.238/RS, Rel. Ministro Arnaldo Esteves Lima, Primeira Turma, DJe 16/10/2012). No mesmo sentido: AgRg no Ag 1.415.293/RS, Rel. Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, DJe 21/09/2012. 3. Agravo regimental não provido. (AgRg no AREsp 603.177/RS, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA, julgado em 19/03/2015, DJe 27/03/2015) (destacouse) Assim, na imputação de responsabilidade com base no artigo 124, inciso I do CTN, é dever do agente que promove a autuação comprovar que os eventuais responsáveis, de alguma forma, tenham "interesse comum na situação que constitua fato gerador da obrigação principal". Neste sentido, entendese, com Andréa M. Darzé, que as hipóteses que autorizam a imputação de responsabilidade com base no artigo 124, inciso I do CTN, são bem restritas. Confirase os ensinamentos daquela professora: "Em estreita síntese, entendemos que o artigo 124, I do CTN, serve como fundamento para imputação de obrigação solidária apenas nos casos em que, i. consistindo o suporte factual do tributo em situação jurídica, exista mais de uma pessoa realizando a sua materialidade, como ocorre, por exemplo, na incidência do IPTU ou do IPVA, em que dois ou mais sujeitos são proprietários do mesmo imóvel ou veículo automotor, respectivamente; ii. nos casos em que o suporte de fato da tributação configura negócio bilateral, caracterizado pela presença de sujeitos em posições adversas e, por isso mesmo, com o objetivos diferentes, a solidariedade poderá instalarse apenas entre as pessoas que integrarem o mesmo polo da relação e tãosomente se estiverem efetivamente praticando o verbo tomado pelo legislador como critério material do gravame. É o que se verifica, por exemplo, 'no ITBI, quando dois ou mais são compradores; no ICMS, sempre que dois ou mais forem os comerciantes vendedores; no ISS, toda vez que dois ou mais sujeitos prestarem um único serviço ao mesmo tomador". (DARZÉ, Andréa M. Responsabilidade Tributária: solidariedade e subsidiariedade. São Paulo: Noeses, 2010. pág. 239) Contudo, pelo que se observa do trecho do TVF acima transcrito (e só ele fala dessa responsabilidade), a imputação da responsabilidade das sócias se deu tãosomente porque as empresas eram sócias da PG Mundi, nada mais. Não houve, por parte da fiscalização, qualquer ilação e/ou apontamento, no que tange à participação daquelas pessoas jurídicas nos fatos que deram origem ao nascimento da obrigação tributária e que estas tinha algum interesse comum. Fl. 1404DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.387 37 Desta forma, DOU PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, para excluir do pólo passivo do Auto de Infração combatido as empresas Ecco Mais Empreendimentos e Participações Ltda. e Efikanove Empreendimentos e Participações Ltda. RESPONSABILIDADE DO SR. FLÁVIO TEIXEIRA DA COSTA O Recorrente, Flávio Teixeira da Costa, em recurso apartado, insurgese com relação à imputação de responsabilidade, na condição de administrador de fato da empresa PG Mundi, com base nos artigo 124, inciso I e 135, inciso III do CTN. Neste ponto, ao contrário do que foi alegado no Recurso Voluntário, pela leitura do TVF, fica claro que a imputação da responsabilidade se deu com base nos dois dispositivos legais e estribado nestes que se analisará a responsabilidade imputada ao Sr. Flávio Teixeira da Costa. Inicialmente, devese pontuar que, pela leitura dos artigos do Código Tributário Nacional, a sujeição passiva (um dos critérios que compõe a Regra Matriz de Incidência Tributária) pode ser divida entre o contribuinte e o responsável. Neste sentido, é a redação do artigo 121 do CTN: Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz se: I contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; II responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. No caso do representante da sociedade, dentre eles os administradores, a responsabilidade pessoal pelo pagamento do crédito tributário se dará quando houver atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. Esta é a inteligência do artigo 135, inciso III do CTN. Confirase: Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: (...) III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Este julgador tem convicção de que, quando o dispositivo legal fala em responsabilidade "pessoal" do agente, uma vez identificadas alguma das condutas elencadas no citado dispositivo, a responsabilidade pelo pagamento do tributo passa a ser apenas daquele agente, excluindose a responsabilidade da pessoa jurídica contribuinte, que, em última análise, é lesada pela conduta dolosa de quem a representa. Fl. 1405DF CARF MF 38 Assim, não estaria correto em se falar em responsabilidade solidária e, sim, em responsabilidade pessoal, como a interpretação, não só literal, mas sistemática do ordenamento jurídico impõe. Independentemente dessa posição, que, digase, não prevalece nas decisões do Poder Judiciário, no presente caso, não há dúvidas quanto a imputação de responsabilidade ao administrador Flávio Teixeira da Costa pelo pagamento do crédito tributário constituído pela fiscalização. Como se depreende dos autos, a fiscalização demonstrou que o Sr. Flávio era o real administrador do grupo de empresas na época da ocorrência dos fatos geradores, grupo este da qual faz parte a empresa PG Mundi. Trancrevese, neste sentido, trecho do TVF: FLÁVIO é o administrador de fato de todo o GRUPO PAULISTANA. Dentre as diversas evidências que apontam para isto, algumas são especialmente dignas de nota. FLÁVIO, ao que tudo indica, nunca envidou esforços no sentido de esconder de seus pares e clientes que controla o grande grupo de distribuição. Tanto o é, que assim se apresenta em entrevista concedida a revista especializada da área de distribuição, publicada em julho de 2013, da qual dei maiores detalhes no capítulo I deste TVF (CONTEXTO). Na verdade, na referida entrevista, FLÁVIO não apenas se apresenta como administrador e controlador do grupo, mas fornece detalhes da operação e, especialmente, da estratégia de negócio do grupo. O fato de possuir e, especialmente, dispor destas informações – que certamente subordinado nenhum teria autonomia para divulgar à imprensa, evidenciam que ele de fato exerce no grupo o papel de absoluta liderança. A publicação em comento é, ainda, ilustrada como diversas fotografias, muitas das quais trazem a imagem de FLÁVIO nas dependências da empresa e em reunião com o que seriam demais colaboradores e representantes de vendas do grupo. (...) Restou claro que FLÁVIO é o administrador e real beneficiário do GRUPO PAULISTANA, auferindo não apenas renda direta da empresa PGMUNDI, ora fiscalizada, mas também indireta, por meio da utilização de bens que se encontram formalmente em nome de empresas do GRUPO PAULISTANA. Como diretor presidente e sócio, ainda que indiretamente, da PGMUNDI e do GRUPO PAULISTANA, FLÁVIO aufere renda proveniente ao menos em parte da sonegação de tributos, caracterizando a hipótese delineada pelo art. 124 do CTN, acima mencionado, que considera solidariamente obrigadas “as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal”. Evidenciamos, incluive, que FLÁVIO recebe, da PGMUNDI, recursos financeiros que não são contabilizados pela empresa e nem por ele declarados ao fisco. Pelo o que se denota do trecho transcrito acima, além de ser o real administrador da empresa autuada PG Mundi o Sr. Flávio se beneficiou diretamente dos recursos financeiros desta empresa, na medida que teve créditos feitos em suas contas. Mesmo não os tendo declarados à Receita Federal, a fiscalização conseguiu demonstrar que, de alguma Fl. 1406DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.388 39 forma, ele se beneficiou e agiu de forma ilícita, contribuindo para o nascimento da obrigação tributária constituída via Auto de Infração. Por outro lado, não se pode perder de vista que no ano de 2012, que é o objeto da autuação, o Sr. Flávio foi o responsável pelo envio da DIPJ que, ao arrepio das reais operações realizadas pela empresa naquele ano, foi entregue zerada, como se não houvesse operações e receitas tributáveis no período. Ademais, no Recurso Voluntário apresentado, as alegações do Recorrente foram apresentadas de forma genérica. Em nenhum momento, o Sr. Flávio tentou desqualificar a construção do agente fiscal e demonstrar que não era, à época dos fatos geradores, responsável pela administração da empresa autuada. Assim, correta a imputação da responsabilidade com base no artigo 135, inciso III do CTN, ao Sr. Flávio Teixeira da Costa atacada através do Recurso Voluntário ora analisado. Portanto, NEGO PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, mantendo a responsabilidade do Sr. Flávio Teixeira da Costa. RESPONSABILIDADE DO SR. WILSON ROBERTO BIGARELLA Por fim, cumpre analisar a imputação de responsabilidade do Sr. Wilson Roberto Bigarella, na condição de contador da empresa autuada. Como se depreende do TVF, após longa explanação dos supostos atos ilícitos praticados pelo contador da empresa, que teriam o condão de suprimir ou reduzir o pagamento do crédito tributário, o agente fiscal imputou a sua responsabilidade com base no artigo 135, inciso III, do CTN. Vejase: Pelo exposto, resta evidente a responsabilidade pessoal de BIGARELLA pelo crédito tributário que ora se constitui, decorrente dos atos por ele praticados, como contador responsável e representante da empresa junto ao fisco federal, com infração de lei. Por tal, solidarizo WILSON ROBERTO BIGARELLA3, CPF 638.226.01853, à autuada, na condição de responsável tributário, nos termos do art. 135, III da Lei 5.172/66 (CTN). (grifouse) Contudo, entendese que há um vício nessa imputação de responsabilidade, que não pode ser sanado no âmbito deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Explicase. Pela construção feita no TVF, inclusive dos julgados do CARF que foram citados pelo agente fiscal, a posição do contador perante a entidade era de mandatário, preposto e, na pior das hipóteses, de empregado da empresa PG Mundi. Assim, sua responsabilidade, caso apuradas as condutas ilícitas, que fizessem nascer a obrigação tributária, deveria ser imputada com base no artigo 135, inciso II do CTN e nunca com base no inciso III desse dispositivo legal. Fl. 1407DF CARF MF 40 Não há nos autos qualquer indício de que o contador figurava como diretor, gerente ou representante de pessoa jurídica e que tivesse exercido atos de gestão da entidade. Pelo contrário, como mencionado, toda a construção do TVF foi no sentido de que o Sr. Wilson era apenas responsável pelas escriturações contábeis, na condição de contador da empresa. Figurando, assim, na condição de um mandatário ou preposto, nunca de administrador. Há de se ressaltar, inclusive, que no Auto de Infração (fls. 999 e seguintes) a capitulação para se imputar a responsabilidade do Sr. Wilson está genérica, tendo em vista que só foi citado o artigo 135 do CTN, sem que houvesse a indicação de qual inciso estaria enquadrado. Contudo, pelo trecho do TVF acima transcrito, não restam dúvidas de que a capitulação se deu com base no inciso III, o que não se pode admitir. Como se denota da ementa do julgado abaixo, este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais já se manifestou no sentido de que o equívoco na capitulação por parte do agente fiscal, é um vício material e insanável da autuação. Vejase: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2004 QUALIFICAÇÃO DO VÍCIO DE NULIDADE. AUSÊNCIA OU INSUFICIÊNCIA DOS PRESSUPOSTOS DE FATO E DE DIREITO DO ATO DE LANÇAMENTO. VÍCIO MATERIAL. CABIMENTO.Se o ato de lançamento não contém ou contém a indicação da capitulação legal equivocada (pressuposto de direito) e/ou se a descrição dos fatos é omitida ou deficiente (pressuposto de fato) temse por configurado vício material por defeito de motivação.NULIDADE DO LANÇAMENTO. ENQUADRAMENTO LEGAL INCORRETO E DEFICIENTE DESCRIÇÃO DOS FATOS. AUSÊNCIA DE SUBSUNÇÃO DOS FATOS À NORMA. VÍCIO MATERIAL. OCORRÊNCIA.1. A errônea indicação dos dispositivos legais infringidos conjugado com a deficiente descrição dos fatos acarreta ausência de subsunção dos fatos à norma jurídica, defeito grave que configura vício material do lançamento por falta de motivação.2. Se não constatada uma clara subsunção entre os fatos imputados ao sujeito passivo com a norma legal infringida, o auto de infração é nulo por vício material, por ferir requisito essencial na constituição do lançamento.Recurso de Ofício Negado. (Acórdão nº 3302003.017 Processo nº 11817.000438/200522 Sessão de 26/01/2016) Assim, tendo em vista a capitulação equivocada do Auto de Infração, DOU PROVIMENTO neste ponto ao Recurso Voluntário, para afastar a responsabilidade do contador da empresa, Wilson Roberto Bigarella, pelo pagamento dos créditos tributários. Não obstante o entendimento de que houve erro na capitulação, a maioria da Turma entendeu que não há nos autos elementos que comprovem as condutas praticadas pelo contador Wilson Roberto Bigarella a ensejar a sua responsabilização pelo inciso artigo 135, II do CTN. Por isso, foi dado provimento ao Recurso Voluntário para afastar a imputação de responsabilidade. CONCLUSÃO Por todo o exposto, voto por Fl. 1408DF CARF MF Processo nº 10882.723724/201676 Acórdão n.º 1302002.932 S1C3T2 Fl. 1.389 41 REJEITAR A PRELIMINAR de cerceamento de defesa; no mérito, NEGAR PROVIMENTO aos Recursos Voluntários. No que tange às imputações de responsabilidades, voto por: DAR PROVIMENTO, ao Recurso Voluntário, para afastar a responsabilidade das empresas Ecco Mais Empreendimentos e Participações Ltda. e Efikanove Empreendimentos e Participações Ltda. NEGAR PROVIMENTO, ao Recurso Voluntário apresentado do Sr. Flávio Teixeira da Costa, mantendo a imputação da sua responsabilidade; DAR PROVIMENTO, ao Recurso Voluntário apresentado pelo Sr. Wilson Roberto Bigarella, para afastar a sua responsabilidade pelo pagamento dos créditos tributários. (assinado digitalmente) Flávio Machado Vilhena Dias Relator Fl. 1409DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11020.003115/2006-38
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jun 13 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jul 05 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006
CESSÃO ONEROSA DE CRÉDITO DE ICMS A TERCEIRO. BASE DE CÁLCULO DO PIS E DA COFINS. NÃO INCIDÊNCIA
Nos termos do art. 62, §2º do Anexo II do RICARF/2015, em obediência à decisão plenária do STF, no julgamento do RE 606.107, não há que se falar em incidência de PIS e Cofins sobre os valores recebidos a título de cessão onerosa a terceiros de créditos de ICMS provenientes de exportação.
Numero da decisão: 9303-006.909
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luis Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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CESSÃO ONEROSA DE CRÉDITOS DO ICMS. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado PENASUL ALIMENTOS LTDA ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 CESSÃO ONEROSA DE CRÉDITO DE ICMS A TERCEIRO. BASE DE CÁLCULO DO PIS E DA COFINS. NÃO INCIDÊNCIA Nos termos do art. 62, §2º do Anexo II do RICARF/2015, em obediência à decisão plenária do STF, no julgamento do RE 606.107, não há que se falar em incidência de PIS e Cofins sobre os valores recebidos a título de cessão onerosa a terceiros de créditos de ICMS provenientes de exportação. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luis Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 02 0. 00 31 15 /2 00 6- 38 Fl. 276DF CARF MF Processo nº 11020.003115/200638 Acórdão n.º 9303006.909 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional contra o Acórdão nº 220100.165, que, na parte de interesse, decidiu que os valores oriundos da cessão onerosa de créditos do ICMS não compõe a base de cálculo das contribuições. A Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial requerendo a reforma da decisão a quo. Argumenta, em síntese, que os valores recebidos pela transferência de créditos do ICMS a terceiros constituem receita da empresa, tributável pelas contribuições. Mediante despacho de admissibilidade do Presidente da Câmara competente da Terceira Seção do CARF foi dado seguimento ao recurso especial interposto pela Fazenda. Na sequência, o contribuinte apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303006.890, de 13/06/2018, proferido no julgamento do processo 11080.101559/200542, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303006.890): "Depreendendose da análise do Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo, entendo que devo conhecêlo, em respeito ao art. 67 do RICARF/2015, vez que comprovada a divergência. Quanto ao cerne da lide, especificamente à discussão acerca da incidência de PIS sobre as receitas decorrentes da cessão onerosa de créditos de ICMS, vêse que deve ser reconhecida a ilegitimidade da inclusão na base de cálculo do PIS das r. receitas referentes à transferência de créditos de ICMS a terceiros. Ora, já houve decisão proferida no Recurso Extraordinário n° 606.107/RS que restou assim ementado: “IMUNIDADE. HERMENÊUTICA. CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO INCIDÊNCIA. TELEOLOGIA DA NORMA. EMPRESA EXPORTADORA. CRÉDITOS DE ICMS TRANSFERIDOS A TERCEIROS. Fl. 277DF CARF MF Processo nº 11020.003115/200638 Acórdão n.º 9303006.909 CSRFT3 Fl. 4 3 I Esta Suprema Corte, nas inúmeras oportunidades em que debatida a questão da hermenêutica constitucional aplicada ao tema das imunidades, adotou a interpretação teleológica do instituto, a emprestar lhe abrangência maior, com escopo de assegurar à norma supralegal máxima efetividade. II A interpretação dos conceitos utilizados pela Carta da República para outorgar competências impositivas (entre os quais se insere o conceito de “receita” constante do seu art. 195, I, “b”) não está sujeita, por óbvio, à prévia edição de lei. Tampouco está condicionada à lei a exegese dos dispositivos que estabelecem imunidades tributárias, como aqueles que fundamentaram o acórdão de origem (arts. 149, § 2º, I, e 155, § 2º, X, “a”, da CF). Em ambos os casos, tratase de interpretação da Lei Maior voltada a desvelar o alcance de regras tipicamente constitucionais, com absoluta independência da atuação do legislador tributário. III A apropriação de créditos de ICMS na aquisição de mercadorias tem suporte na técnica da não cumulatividade, imposta para tal tributo pelo art. 155, § 2º, I, da Lei Maior, a fim de evitar que a sua incidência em cascata onere demasiadamente a atividade econômica e gere distorções concorrenciais. IV O art. 155, § 2º, X, “a”, da CF – cuja finalidade é o incentivo às exportações, desonerando as mercadorias nacionais do seu ônus econômico, de modo a permitir que as empresas brasileiras exportem produtos, e não tributos, imuniza as operações de exportação e assegura “a manutenção e o aproveitamento do montante do imposto cobrado nas operações e prestações anteriores”. Não incidem, pois, a COFINS e a contribuição ao PIS sobre os créditos de ICMS cedidos a terceiros, sob pena de frontal violação do preceito constitucional. V O conceito de receita, acolhido pelo art. 195, I, “b”, da Constituição Federal, não se confunde com o conceito contábil. Entendimento, aliás, expresso nas Leis 10.637/02 (art. 1º) e Lei 10.833/03 (art. 1º), que determinam a incidência da contribuição ao PIS/PASEP e da COFINS não cumulativas sobre o total das receitas, “independentemente de sua denominação ou classificação contábil”. Ainda que a contabilidade elaborada para fins de informação ao mercado, gestão e planejamento das empresas possa ser tomada pela lei como ponto de partida para a determinação das bases de cálculo de diversos tributos, de modo algum subordina a tributação. A contabilidade constitui ferramenta utilizada também para fins tributários, mas moldada nesta seara pelos princípios e regras próprios do Direito Tributário. Sob o específico prisma constitucional, receita bruta pode ser definida como o ingresso financeiro que se integra no patrimônio na condição de elemento novo e positivo, sem reservas ou condições. VI O aproveitamento dos créditos de ICMS por ocasião da saída imune para o exterior não gera receita tributável. Cuidase de mera recuperação do ônus econômico advindo do ICMS, assegurada expressamente pelo art. 155, § 2º, X, “a”, da Constituição Federal. VII Adquirida a mercadoria, a empresa exportadora pode creditarse do ICMS anteriormente pago, mas somente poderá transferir a terceiros o saldo credor acumulado após a saída da mercadoria com destino ao Fl. 278DF CARF MF Processo nº 11020.003115/200638 Acórdão n.º 9303006.909 CSRFT3 Fl. 5 4 exterior (art. 25, § 1º, da LC 87/1996). Porquanto só se viabiliza a cessão do crédito em função da exportação, além de vocacionada a desonerar as empresas exportadoras do ônus econômico do ICMS, as verbas respectivas qualificamse como decorrentes da exportação para efeito da imunidade do art. 149, § 2º, I, da Constituição Federal. VIII Assenta esta Suprema Corte a tese da inconstitucionalidade da incidência da contribuição ao PIS e da COFINS não cumulativas sobre os valores auferidos por empresa exportadora em razão da transferência a terceiros de créditos de ICMS. IX Ausência de afronta aos arts. 155, § 2º, X, 149, § 2º, I, 150, § 6º, e 195, caput e inciso I, “b”, da Constituição Federal. Recurso extraordinário conhecido e não provido, aplicandose aos recursos sobrestados, que versem sobre o tema decidido, o art. 543B, § 3º, do CPC. Constatase que a decisão proferida no RE 606.107/RS, em sede de repercussão geral, deve ser aplicada de acordo com o disposto no RICARF: “Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF.” Em vista de todo o exposto, dou provimento ao recurso especial interposto pelo sujeito passivo." Importante ressalvar que, da mesma forma que ocorreu no caso do paradigma, no presente processo o acúmulo de créditos do ICMS também foi decorrente de exportações para o exterior. Todavia, neste processo a Recorrente foi a Fazenda, de sorte que a aplicação do decidido no paradigma quanto à matéria em foco implica a negativa de provimento ao especial fazendário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial da Fazenda Nacional foi conhecido e, no mérito, o colegiado negoulhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 279DF CARF MF
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Numero do processo: 10950.006333/2008-22
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Apr 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jul 23 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-006.754
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 11242.000598/2009-57, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício e Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo.
Nome do relator: MARIA HELENA COTTA CARDOZO
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito em darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 11242.000598/200957, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício e Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 95 0. 00 63 33 /2 00 8- 22 Fl. 330DF CARF MF Processo nº 10950.006333/200822 Acórdão n.º 9202006.754 CSRFT2 Fl. 3 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo. Relatório Contra o contribuinte foi lavrado o presente auto de infração para cobrança de contribuições previdenciárias destinadas à Seguridade Social. Após o trâmite processual, a turma a quo deu provimento parcial ao recurso voluntário do Contribuinte para determinar o recálculo da multa aplicada haja vista alterações promovidas na redação da Lei nº 8.212/1991. Inconformada com o resultado do julgamento, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial cujo objeto é a discussão acerca da aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo Relatora Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202006.733, de 19/04/2018, proferido no julgamento do processo 11242.000598/200957, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202006.733): "O recurso preenche os pressuposto de admissibilidade razão pela qual deve ser conhecido. A controvérsia levantada pela Fazenda Nacional é relativa às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: Fl. 331DF CARF MF Processo nº 10950.006333/200822 Acórdão n.º 9202006.754 CSRFT2 Fl. 4 3 I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão n. 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35 A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento Fl. 332DF CARF MF Processo nº 10950.006333/200822 Acórdão n.º 9202006.754 CSRFT2 Fl. 5 4 e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499: Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da Fl. 333DF CARF MF Processo nº 10950.006333/200822 Acórdão n.º 9202006.754 CSRFT2 Fl. 6 5 declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para Fl. 334DF CARF MF Processo nº 10950.006333/200822 Acórdão n.º 9202006.754 CSRFT2 Fl. 7 6 as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas Fl. 335DF CARF MF Processo nº 10950.006333/200822 Acórdão n.º 9202006.754 CSRFT2 Fl. 8 7 competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou Fl. 336DF CARF MF Processo nº 10950.006333/200822 Acórdão n.º 9202006.754 CSRFT2 Fl. 9 8 II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Diante do exposto, voto por dar provimento ao recurso da Fazenda Nacional para determinar que a multa seja aplicada nos termos em que fixado pela Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009." Fl. 337DF CARF MF Processo nº 10950.006333/200822 Acórdão n.º 9202006.754 CSRFT2 Fl. 10 9 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, voto em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Fl. 338DF CARF MF
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Numero do processo: 10280.723590/2012-49
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Aug 10 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Aug 29 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2008, 2009, 2010, 2011
NATUREZA INDENIZATÓRIA NÃO COMPROVADA. TRIBUTAÇÃO.
Não logrando o contribuinte comprovar a natureza indenizatória/reparatória dos rendimentos recebidos a título de ajuda de custo paga com habitualidade, constituem eles acréscimo patrimonial incluído no âmbito de incidência do Imposto de Renda.
Numero da decisão: 2402-006.532
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencido o conselheiro Gregorio Rechmann Junior. Votou pelas conclusões o conselheiro João Victor Ribeiro Aldinucci.
(assinado digitalmente)
Mario Pereira de Pinho Filho - Presidente
(assinado digitalmente)
Mauricio Nogueira Righetti - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mario Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior.
Nome do relator: MAURICIO NOGUEIRA RIGHETTI
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TRIBUTAÇÃO. Não logrando o contribuinte comprovar a natureza indenizatória/reparatória dos rendimentos recebidos a título de ajuda de custo paga com habitualidade, constituem eles acréscimo patrimonial incluído no âmbito de incidência do Imposto de Renda. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencido o conselheiro Gregorio Rechmann Junior. Votou pelas conclusões o conselheiro João Victor Ribeiro Aldinucci. (assinado digitalmente) Mario Pereira de Pinho Filho Presidente (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mario Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 0. 72 35 90 /2 01 2- 49 Fl. 195DF CARF MF Processo nº 10280.723590/201249 Acórdão n.º 2402006.532 S2C4T2 Fl. 196 2 Cuida o presente de Recurso Voluntário em face do Acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento, julgou procedente em parte a Impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Contra a contribuinte foi lavrado Auto de Infração para cobrança do IRPF, relativo aos exercícios 2008, 2009, 2010 e 2011, no importe de R$ 35.283,78, acrescido de multa de oficio (75%) e juros legais Selic. Como infração, foi apontada a omissão de rendimentos do trabalho com vínculo empregatício, caracterizada pelo não tributação dos valores de "ajuda de custo" recebidos duas vezes por ano no referido período. Regulamente intimado do lançamento, apresentou Impugnação, que, como dito, foi julgada procedente em parte pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento DRJ, com a seguinte ementa: SUJEITO PASSIVO. CONTRIBUINTE. APURAÇÃO DEFINITIVA. BENEFICIÁRIO DO RENDIMENTO. O sujeito passivo da relação jurídicotributária é o contribuinte, obrigado a informar todos os rendimentos quando da apuração definitiva do imposto de renda na declaração de ajuste anual, independentemente de ter havido a retenção do imposto por antecipação, cuja responsabilidade é da fonte pagadora. OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA. GANHOS HABITUAIS. NATUREZA INDENIZATÓRIA NÃO COMPROVADA. TRIBUTAÇÃO. Os ganhos habituais cuja natureza indenizatória não seja comprovada integram os rendimentos tributáveis independente da denominação dada pela fonte. Artigo 3º, §4º da Lei 7.713/88. O contribuinte deve informar todos os rendimentos auferidos durante o na calendário para apurar o imposto sobre a renda na Declaração de Ajuste do exercício correspondente. Art. 7º da Lei 9.250/95. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. EFEITOS. As decisões administrativas e as decisões judiciais, excetuandose as proferidas pelo STF sobre a inconstitucionalidade das normas legais, não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se aproveitam em relação a qualquer outra ocorrência, senão àquela objeto da decisão. MULTA DE OFÍCIO. Incabível a aplicação da multa de ofício quando comprovado que a causa da omissão de rendimentos na Declaração de Ajuste Anual foi a prestação de informações incorretas pela fonte pagadora, conforme expresso na Súmula CARF nº 73, aprovada em sessão de 10/12/2012. JUROS DE MORA. Em relação a fatos geradores ocorridos a partir de 1º de abril de 1995, os créditos tributários da União não pagos até a data do vencimento serão Fl. 196DF CARF MF Processo nº 10280.723590/201249 Acórdão n.º 2402006.532 S2C4T2 Fl. 197 3 acrescidos de juros de mora equivalentes à variação da taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais, acumulada mensalmente, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo, até o mês anterior ao do pagamento e, no mês em que o débito for pago, os juros de mora serão de um por cento. Irresignado, apresentou Recurso Voluntário às fls. 130/152, aduzindo em resumo: Que por meio do Ato da Comissão Diretora do Senado nº 14/2012, determinouse à administração senatorial o recolhimento do imposto, respeitada a prescrição qüinqüenal. E mais, por meio da Resolução do Senado nº 58/2012, ratificouse referido ato, bem como a natureza indenizatória da parcela ajuda de custo. Que o não oferecimento à tributação deveuse a parecer jurídico plausível, chancelado pela RFB, por intermédio da súmula nº 87/2012, do CARF. Que não foi observada a Súmula CARF nº 87/2012 e traz à baila o julgamento do processo 11516.001485/200740 em 16.07.2013 por este Colegiado, do processo Que os valores foram pagos a título de ajuda de custo a que alude o inciso I do artigo 39 do RIR/99. Que a Resolução do Senado Federal nº 58/2012 alterou a natureza jurídica da ajuda de custo, com eficácia ex nunc, ressaltandose a natureza indenizatória da parcela nos anos anteriores. Que o retorno do parlamentar ao Estado de origem no período de recesso consiste em etapa da representação popular, por meio da aproximação e do diálogo com os eleitores, fazendo com a que a verba paga para custear tais despesa relacionese inegavelmente ao exercício do mandato. Que é irrelevante a exigência da respectiva prestação de contas para fins de definição da natureza indenizatória da verba. Que seria uma espécie de correspondência presumida entre a parcela e as respectivas despesas. Que os valores recebidos a titulo de compensação são imunes ao IR, em decorrência do regime jurídico do tributo, que tem matriz constitucional. Que as decisões dos tribunais confirmam o entendimento no sentido de afastar a tributação de tais recursos indenizatórios quando, comprovadamente, gastos pelos parlamentares, no exercício de seus mandatos. É o relatório. Voto Conselheiro Mauricio Nogueira Righetti, Relator Fl. 197DF CARF MF Processo nº 10280.723590/201249 Acórdão n.º 2402006.532 S2C4T2 Fl. 198 4 O contribuinte tomou ciência do acórdão recorrido em 29.03.2017 e apresentou tempestivamente seu Recurso Voluntário no dia 28.04.2017 (fls. 129). Preenchido os demais requisitos de admissibilidade, dele passo a conhecer. O caso em concreto cuida de verba paga a Senadores, com fulcro no artigo 3º do Decreto Legislativo nº 7/1995, do Congresso Nacional, atualizado pelo Decreto Legislativo nº 1, de 2006, a seguir reproduzidos: Notese que o amparo legislativo que vigia à época dos fatos geradores previa o pagamento do que se denominou "ajuda de custo" no início e no final previstos para a Sessão Legislativa Ordinária, equivalente ao valor da remuneração, sem, expressamente, atrelar tal recebimento a qualquer despesa, presumida ou efetiva, relacionada ao exercício do trabalho parlamentar. E mais, aquele último Decreto Legislativo acabou por revogar o parágrafo 1º do artigo 3º daquele de 1995, que procurava relacionar a verba à compensação de despesas com transporte, dentre outras. Com isso passouse a ter o que se vulgarizou chamar de 14º e 15º salários, condicionado, apenas a parcela final, ao simples comparecimento de no mínimo 2/3 da sessão legislativa. Cumpre destacar que, nesse tema, a própria fonte pagadora, o Senado Federal, por meio da Resolução nº 58, de 20 de novembro de 2012, publicada no DOU de 22 de novembro do mesmo ano, após a autuação realizada pela fiscalização da DRF/Brasília, reconheceu que a “ajuda de custo”, paga aos senadores no início e no final das sessões legislativas, possui natureza tributável, tanto que assim passou a classificála. Fl. 198DF CARF MF Processo nº 10280.723590/201249 Acórdão n.º 2402006.532 S2C4T2 Fl. 199 5 Antes porém, por meio do Projeto de Decreto Legislativo nº 569/2012, apresentado em 16.05.2012, transformado no Decreto Legislativo 210/2013, estabeleceuse que a ajuda de custo seria devida aos Membros do Congresso Nacional no início e no final do mandato, e não mais anualmente, revogandose, desta feita, dispositivo do Decreto Legislativo nº 7, de 1995 e o Decreto Legislativo nº 1, de 2006. Assim, essa novel "ajuda de custo" é que seria não tributável, segundo aquele normativo. Por sua vez, pesquisas realizadas em julgamentos de primeira instância noticiaram a existência de várias verbas a que tem direito os Senadores, para gastar com despesas relacionadas ao exercício da função de parlamentar, como, por exemplo, a Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar dos Senadores – CEAPS (inclui passagens aéreas, aluguel de veículos ou equipamentos, material de expediente, locomoção), o Auxílio de Gabinete e Hospedagem. 1 Perceba que essas últimas duas verbas acima foram contempladas pela Súmula CARF nº 87/2012, nos seguintes termos: Súmula CARF nº 87: O imposto de renda não incide sobre as verbas recebidas regularmente por parlamentares a título de auxílio de gabinete e hospedagem, exceto quando a fiscalização apurar a utilização dos recursos em benefício próprio não relacionado à atividade legislativa. Ao meu ver, verbas tratadas pela súmula CARF nº 87, além de não serem exatamente a mesma aqui abordada, aparentam estar inseridas em uma sistemática de controle interno exercido pela fonte pagadora. Vale dizer, imaginase que há a necessidade de se comprovar antes ou depois do recebimento da verba o efetivo desembolso das despesas a que destinavam ressarcir tais verbas. É o mínimo que se espera da administração na gestão dos recursos públicos, sob pena de se propiciar ou o desvirtuamento da natureza da verba ou o enriquecimento sem causa do beneficiário. Daí ser imprescindível que a fiscalização, no contexto acima, demonstre a utilização dos recursos em benefício do próprio parlamentar, não relacionado à atividade legislativa. Consoante se nota do inciso I do artigo 39 do RIR/99, a ajuda de custo tida como não tributada é aquela destinada a atender às despesas com transporte, frete e locomoção do beneficiado e seus familiares, em caso de remoção de um município para outro, sujeita à comprovação posterior pelo contribuinte. Cuidou o legislador de garantir fosse observado o aspecto indenizatório/compensatório que se propõe da verba. Com isso, quando se fala em ajuda de custo não pretendeu a lei presumir a efetiva ocorrência daquelas despesas. 1 Ademais, informações registradas no sitio do Senado Federal na Internet (http://www.senado.gov.br/blog/assessoria_imprensa/conteudo/senadores.asp) informa que os Senadores tem direito a várias verbas para gastar com despesas relacionadas ao exercício da função de parlamentar, como, por exemplo, a Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar dos Senadores – CEAPS (inclui passagens aéreas, aluguel de veículos ou equipamentos, material de expediente, locomoção), o Auxílio de Gabinete e Hospedagem. Estas sim, desde que não recebidas como parcela integrante da remuneração e comprovada a realização das respectivas despesas/gastos, mediante documentação hábil e idônea, não constituem acréscimo patrimonial do beneficiário. Fl. 199DF CARF MF Processo nº 10280.723590/201249 Acórdão n.º 2402006.532 S2C4T2 Fl. 200 6 Já com relação às diárias previstas no inciso XIII do mesmo dispositivo e destinadas, exclusivamente, ao pagamento de despesas de alimentação e pousada, por serviço eventual realizado em município diferente do da sede de trabalho, inclusive no exterior, não obstante inexistir a expressa necessidade de sua comprovação, são valores rigorosamente observados pelas fontes pagadoras e relacionados a despesas com eventos imprescindíveis à a própria subsistência humana (comer e dormir). Por mais que não haja a necessidade de se comprovar o gasto, há de se comprovar, outrossim, o serviço eventual realizado fora da sede de trabalho, pois tal circunstância é o fato que dará ensejo ao direito à percepção da parcela. Nada diferente do que se tem para aquelas verbas previstas em seus incisos IV2 e XVII3. Em especial, no que tange a recebida como indenização por acidente de trabalho, além de se exigir do trabalhador a comprovação do fato que a ensejara, a não incidência está limitada ao valor pago pela previdência oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Município, ainda que pagos pelo empregador por força de convênios com órgãos previdenciários. Percebase que quando a norma não exige, expressamente, que seja comprovada a despesa que se pretende indenizar, procura, de outra forma, propiciar uma espécie de limite do valor para fins de não incidência, por meio da análise de determinadas circunstâncias, como por exemplo, o valor pago pela previdência oficial, o custo médio de alimentação e pernoite (no caso da administração pública), a razoabilidade na fixação desse valor, a depender dos preços vigentes na localidade para a qual se deslocará o beneficiário ou sua posição hierárquica na organização (no caso da iniciativa privada). Certamente os valores, a rigor, não tomam como parâmetro a remuneração do beneficiário, mas sim aquela despesa que predispôs indenizar. A idéia aqui, com relação a exclusão dessas parcelas, é a de não tributar aquelas que não tenham se revertido em proveito do próprio beneficiário e/ou daqueles à sua ordem, mas sim destinadas ao seu desempenho laboral. É o que se costuma chamar de "valor recebido para o trabalho", que embora transite pelo patrimônio de quem o recebe, lhe servirá como ressarcimento pelo que já desembolsou ou como fonte para o pagamento daquelas que lhe competirão. Com isso é que se faz, prima facie, necessária a demonstração do desembolso dessas despesas antes (como ressarcimento) ou depois (fonte para o pagamento) do recebimento dessa verba que se pretendeu fosse indenizatória. Como já mencionado, essa necessidade de comprovação junto ao procedimento fiscal foi relativizada pela Súmula CARF nº 87/2012 pelo motivo, imagino, de que a legislação que previu o pagamento daquelas verbas e em determinado caso específico trazer, ainda que implicitamente, a evidência da necessidade dessa comprovação junto à própria fonte pagadora, enquanto gestora de recursos públicos. Todavia, de forma mais rigorosa, o Parecer consubstanciado na Nota PGFN/CRJ/Nº 849/2016, de 31.08.2016, após fazer uma apanhado da jurisprudência sobre o assunto, concluiu pela necessidade de o parlamentar comprovar a reposição dos gastos. 2 IV a alimentação, o transporte e os uniformes ou vestimentas especiais de trabalho, fornecidos gratuitamente pelo empregador a seus empregados, ou a diferença entre o preço cobrado e o valor de mercado 3 XVII a indenização por acidente de trabalh Fl. 200DF CARF MF Processo nº 10280.723590/201249 Acórdão n.º 2402006.532 S2C4T2 Fl. 201 7 Vejase a ementa da Nota: Documento público. Ajuda de custo de gabinete recebida por parlamentar. Natureza indenizatória. Necessidade de comprovação da reposição dos gastos. Supressão do Item 1.22 – Imposto de Renda (IR), alínea “q” – ajuda de custo de gabinete recebida por parlamentar, da lista de dispensa de contestação e recursos. A natureza indenizatória da verba fica condicionada à comprovação, pelo parlamentar, da efetiva prestação de contas. Não tenho dúvidas que o valor percebido, no caso dos autos, não se afigura como indenizatório. Como é cediço, não é o nomen iuris que se deu à verba que determinará a incidência ou não do IR, consoante orienta o princípio da realidade, extraído do que prescreve o § 1º do artigo 43 do CTN. O inciso I do § 2º do artigo 153 da Lei Maior, estabelece que o IR deve ser informado pelos critérios da generalidade, da universalidade e da progressividade, na forma da lei. Disso decorre que o IR, a rigor, deverá incidir sobre todas as espécies de rendas e proventos (universalidade), auferidas por qualquer espécies de pessoas (generalidade) e quanto maior o acréscimo de patrimônio, maior deverá ser a alíquota aplicável (progressividade). 4 Por sua vez, o artigo 43 do CTN define como fato gerador do IR a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos ou de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. No mesmo sentido, o artigo 37 do RIR/99 é bem abrangente ao especificar o que constitui rendimento bruto para fins de incidência do imposto. Destacamse, aqui, o produto do trabalho, os proventos de qualquer natureza e os acréscimos patrimoniais. Com isso, as exceções a essa vasta regra estão enumeradas nos 47 incisos do artigo 39 do mesmo diploma, que devem ser tomadas de forma literal, a teor do artigo 111 do CTN. Daí não assistir razão ao contribuinte no sentido de que não havia determinação objetiva na lei quanto à tributação dessas parcelas. Por fim, no que diz respeito à ementa colacionada do processo 11516.001485/200740, relativa ao julgamento de 16.07.2013, vale destacar que não tem o condão de vincular as decisões desta Turma. Forte no acima exposto, voto por CONHECER do recurso apresentado para NEGARLHE PROVIMENTO. 4 Artigo no endereço https://www.conjur.com.br/2000jan24/principios_fundamentais Fl. 201DF CARF MF Processo nº 10280.723590/201249 Acórdão n.º 2402006.532 S2C4T2 Fl. 202 8 (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti Fl. 202DF CARF MF
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Numero do processo: 10980.910374/2009-49
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 14 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Aug 27 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2005
ESTIMATIVAS. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. COMPENSAÇÃO. ADMISSIBILIDADE.
Somente são dedutíveis do IRPJ apurado no ajuste anual as estimativas pagas em conformidade com a lei. O pagamento a maior de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento e, com o acréscimo de juros à taxa SELIC, acumulados a partir do mês subseqüente ao do recolhimento indevido, pode ser compensado, mediante apresentação de DCOMP. Eficácia retroativa da Instrução Normativa RFB n° 900/2008.
RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. ANÁLISE INTERROMPIDA EM ASPECTOS PRELIMINARES.
Inexiste reconhecimento implícito de direito creditório quando a apreciação da restituição/compensação restringe-se a aspectos preliminares, como a possibilidade do pedido. A homologação da compensação ou deferimento do pedido de restituição, uma vez superada esta preliminar, depende da análise da existência, suficiência e disponibilidade do crédito pela autoridade administrativa que jurisdiciona a contribuinte.
Numero da decisão: 1402-003.226
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial para reconhecer o indébito formado pelas estimativas recolhidas e determinar que a unidade de origem emita novo despacho decisório considerando os valores existentes e confirmados. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos.
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Sergio Abelson (Suplente Convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado) e Paulo Mateus Ciccone (Presidente Substituto).
Nome do relator: PAULO MATEUS CICCONE
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2005 ESTIMATIVAS. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. COMPENSAÇÃO. ADMISSIBILIDADE. Somente são dedutíveis do IRPJ apurado no ajuste anual as estimativas pagas em conformidade com a lei. O pagamento a maior de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento e, com o acréscimo de juros à taxa SELIC, acumulados a partir do mês subseqüente ao do recolhimento indevido, pode ser compensado, mediante apresentação de DCOMP. Eficácia retroativa da Instrução Normativa RFB n° 900/2008. RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. ANÁLISE INTERROMPIDA EM ASPECTOS PRELIMINARES. Inexiste reconhecimento implícito de direito creditório quando a apreciação da restituição/compensação restringe-se a aspectos preliminares, como a possibilidade do pedido. A homologação da compensação ou deferimento do pedido de restituição, uma vez superada esta preliminar, depende da análise da existência, suficiência e disponibilidade do crédito pela autoridade administrativa que jurisdiciona a contribuinte.
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PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. COMPENSAÇÃO. ADMISSIBILIDADE. Somente são dedutíveis do IRPJ apurado no ajuste anual as estimativas pagas em conformidade com a lei. O pagamento a maior de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento e, com o acréscimo de juros à taxa SELIC, acumulados a partir do mês subseqüente ao do recolhimento indevido, pode ser compensado, mediante apresentação de DCOMP. Eficácia retroativa da Instrução Normativa RFB n° 900/2008. RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. ANÁLISE INTERROMPIDA EM ASPECTOS PRELIMINARES. Inexiste reconhecimento implícito de direito creditório quando a apreciação da restituição/compensação restringese a aspectos preliminares, como a possibilidade do pedido. A homologação da compensação ou deferimento do pedido de restituição, uma vez superada esta preliminar, depende da análise da existência, suficiência e disponibilidade do crédito pela autoridade administrativa que jurisdiciona a contribuinte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial para reconhecer o indébito formado pelas estimativas recolhidas e determinar que a unidade de origem emita novo despacho decisório considerando os valores existentes e confirmados. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 91 03 74 /2 00 9- 49 Fl. 250DF CARF MF Processo nº 10980.910374/200949 Acórdão n.º 1402003.226 S1C4T2 Fl. 3 2 (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Sergio Abelson (Suplente Convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado) e Paulo Mateus Ciccone (Presidente Substituto). Fl. 251DF CARF MF Processo nº 10980.910374/200949 Acórdão n.º 1402003.226 S1C4T2 Fl. 4 3 Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Curitiba (PR) assim ementado: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005 PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. ESTIMATIVA DE IRPJ. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO APRESENTADA NA VIGÊNCIA DA IN SRF Nº 460, DE 2004. OBRIGATORIEDADE DE UTILIZAÇÃO NA DEDUÇÃO DO IMPOSTO ANUAL OU PARA COMPOR O SALDO NEGATIVO DE IRPJ. Aplicase à declaração de compensação apresentada na vigência da IN SRF nº 460, de 2004, a obrigatoriedade de utilização da estimativa de IRPJ paga indevidamente ou a maior na dedução do imposto devido ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ do período. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. ESTIMATIVA DE IRPJ. VEDAÇÃO À UTILIZAÇÃO COMO DIREITO CREDITÓRIO. Havendo vedação à utilização de estimativa de IRPJ como direito creditório oriundo de pagamento indevido ou a maior, é de se confirmar a não homologação da compensação declarada nos autos. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido" O caso foi assim relatado pela instância a quo, nos seguintes termos: "Trata o presente processo da compensação declarada por meio do PER/DCOMP [...], relativa à compensação do débito de R$ 50.640,58 de IRPJ devido por estimativa (código de receita 2362) no mês de novembro/2005, com utilização do direito creditório de R$ 44.231,44 oriundo do pagamento indevido ou a maior, em 28/02/2005, da estimativa de IRPJ de janeiro/2005 (R$ 399.742,17). 2. A DRF/Curitiba, por meio do Despacho Decisório proferido em 20/04/2009 [...], não homologou a compensação declarada em 22/12/2005 em face da improcedência do crédito indicado, haja vista o recolhimento indevido ou a maior de estimativa mensal somente poder ser utilizado na dedução do imposto anual ou para compor o saldo negativo de IRPJ do período, conforme previsto no art. 10 da IN SRF nº 600, de 28 de dezembro de 2005. 3. Regularmente cientificada em 04/05/2009 [...], a reclamante apresentou, em 02/06/2009, a tempestiva manifestação de inconformidade [...], instruída com os documentos [...], cujo teor é sintetizado a seguir: a) argúi que os contribuintes devem pagar tributos sobre suas operações ou atividades nos termos exatos da lei, e que os valores pagos acima do exigido devem ser a eles repetidos; Fl. 252DF CARF MF Processo nº 10980.910374/200949 Acórdão n.º 1402003.226 S1C4T2 Fl. 5 4 b) que, tendo optado pela tributação com base no lucro real anual, recolheu antecipações do imposto calculadas por estimativa, com base na receita bruta, conforme determina o art. 2° da Lei nº 9.430, de 1996; que aplicou corretamente a legislação vigente e o valor compensado referese sim a recolhimento a maior que o devido e exigido; c) que a Lei nº 8.981, de 1995, permite a suspensão ou redução do pagamento do imposto devido, em cada mês, desde que se demonstre, por meio de balanços ou balancetes, que o valor acumulado já pago excede o valor do imposto devido no período em curso; d) que, da mesma forma que o imposto apurado por estimativa, os recolhimentos a maior ou indevidos são passíveis de compensação, pois a obrigação principal, calculada nos termos da lei, também já foi satisfeita; que a não homologação da compensação do valor pago a maior contraria a lei e acarreta exigência de tributo indevido; e) que o pagamento a maior, mesmo no caso de estimativas mensais, onde os valores recolhidos serão deduzidos do devido ao final do exercício, não deve ser considerado como antecipação; f) que o art. 66 da Lei nº 8.383, de 1991, permite a compensação, nos meses subseqüentes, de valores de tributos pagos a maior, como no presente caso; que o art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996, determina que o sujeito passivo que apurar crédito passível de restituição ou ressarcimento poderá utilizálo na compensação de débitos relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal; g) que o pagamento a maior de estimativa não consta do rol dos créditos elencados no § 3º do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996, que não poderão ser objeto de declaração de compensação; cita julgados do Conselho de Contribuintes; h) ao final requer a revisão da decisão exarada por meio do despacho decisório da DRFCuritiba, e que seja suspenso o débito exigido, nos termos do art. 151 do CTN. 4. É o relatório." Inconformada com a decisão da Instância a quo, a recorrente interpôs recurso voluntário, no qual repisa os fundamentos trazidos em sua manifestação de inconformidade. É o relatório. Fl. 253DF CARF MF Processo nº 10980.910374/200949 Acórdão n.º 1402003.226 S1C4T2 Fl. 6 5 Voto Conselheiro Paulo Mateus Ciccone Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1402003.221, de 14/06/2018, proferida no julgamento do Processo nº 10980.910369/200936 paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1402003.221): "O recurso voluntário atende aos pressuposto de admissibilidade, pelo que dele se toma conhecimento. DOS FATOS A recorrente protocolou manifestação de inconformidade contra a decisão que indeferiu o pedido de compensação no processo administrativo em questão a qual entendeu que a contribuinte somente poderia utilizar o crédito na dedução do Imposto de Renda ou Contribuição Social sobre o Lucro Líquido ao final do período de apuração. A instância a quo manteve a decisão impugnada sob o argumento de que prevalece o disposto no artigo 10 da Instrução Normativa SRF nº. 460 de outubro de 2004, sendo que a mesma determinação permaneceu na IN SRF 600 de dezembro de 2005. Tal entendimento somente veio a ser modificado através da IN SRF 900 de dezembro de 2008, contudo esse diploma legal somente produziu efeitos a partir de 01/01/2009, sob o que não cabe a aplicação do preceito do artigo 106 do CTN para fazer retroagir a norma mais favorável ao contribuinte, pois não se trata de norma estritamente interpretativa, pois, por se tratar de dispositivo que regula a compensação seria norma de natureza material, motivo pelo qual devem ser aplicadas as que estavam vigentes à época do encontro de contas. Declara ainda que o descumprimento do artigo 10 da IN 460 de 2004 caracterizaria violação ao preceito do artigo 170 do CTN o qual estabelece que o direito à compensação fica sujeito à condição e garantia que a lei estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribua à autoridade administrativa, tendo o §14 do artigo 74 da Lei 9430/96 estabelecido que a Secretaria da Receita Federal disciplinará a compensação de que trata esse artigo. Fl. 254DF CARF MF Processo nº 10980.910374/200949 Acórdão n.º 1402003.226 S1C4T2 Fl. 7 6 Diz também que a autoridade julgadora não pode descumprir o entendimento da própria Receita Federal. A recorrente inconformada com a decisão, apresenta recurso voluntário, requerendo a reforma decisão recorrida, haja vista que não é este o entendimento do Primeiro Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda (CARF), conforme reiteradas decisões colacionadas ao recurso. DO MÉRITO A discussão em relação à restituição ou compensação de pagamento indevido ou a maior a título de estimativa, tratase de matéria sobre a qual o CARF vem reiteradamente se posicionando pela sua possibilidade. Havendo inclusive a edição da Súmula CARF n 84, transcrita a seguir. Súmula CARF nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Citase nesse sentido, os acórdãos paradigmas: Acórdão nº 120100.404, de 23/2/2011 Acórdão nº 120200.458, de 24/1/2011 Acórdão nº 110100.330, de 09/7/2010 Acórdão nº 910100.406, de 02/10/2009 Acórdão nº 10515.943, de 17/8/2006. O Acórdão n° 110100.329, da lavra da conselheira Edeli Pereira Bessa, segue a jurisprudência consolidada no âmbito do Carf, cujos argumentos, adotados na presente decisão, são transcritos a seguir: "É certo que a legislação consolidada no Regulamento do Imposto de Renda RIR/ 99 (art 895) autoriza a Receita Federal a expedir instruções necessárias à efetivação de compensação pelos contribuintes. No mesmo sentido veio também redigido o §5° incluído no art. 74 da Lei n° 9.430/96 pela Medida Provisória n° 66/2002, atualmente transportado para o § 1 4 desde a edição da Lei n° 11.051/2004: Art 74 O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão (Redação dada pela Lei n" 10 637, de 2002) [...] § 1 4 A Secretaria da Receita Federa SRF disciplinará o disposto neste artigo, inclusive quanto à fixação de critérios de prioridade para apreciação de processos de restituição, de ressarcimento e de compensação. (Incluído pela Lei n° 11.051, de 2004) E este poder normativo pode se materializar tanto no âmbito da definição de procedimentos operacionais, como na fixação de Fl. 255DF CARF MF Processo nº 10980.910374/200949 Acórdão n.º 1402003.226 S1C4T2 Fl. 8 7 restrições materiais já presentes na lei que estabelece a incidência tributária ou concede benefícios fiscais, Contudo, ao operar sob este segundo direcionamento, tem se a dita eficácia retroativa da norma interpretativa, que entendo se verificar ainda que a Administração Tributária assim não a declare expressamente. Relativamente aos indébitos de estimativas, não vejo como tratar a restrição inserta a partir da instrução Normativa SRF n° 460/2004 como procedimental. Não vislumbro espaço para a Administração Tributária definir, para além das normas que estabelecem a incidência do IRPJ ou da CSLL, em qual momento é possível pleitear a restituição ou compensar um recolhimento indevido decorrente de erro na determinação ou recolhimento de estimativas. Até cogito que tal seria possível em razão destes recolhimentos não se constituírem, propriamente, em pagamentos, na medida em que não extinguem uma obrigação tributária principal, aproximandose, mais, de obrigações acessórias impostas aos contribuintes que optam pela apuração anual do lucro real e da base de cálculo da CSLL, para não se sujeitar à regra geral de apuração trimestral destas bases de cálculo. Esta interpretação, porém, exigiria que a Administração Tributária se posicionasse contrariamente à formação de indébitos de estimativas a qualquer tempo, e não apenas na vigência das Instruções Normativas que veicularam a dita proibição, como já verificado em outros litígios que relatei perante esta Turma. Concordo que há questões de ordem operacional que merecem a atenção da Administração Tributária, especialmente quanto a eventuais abusos na alegação de indébitos desta natureza, com vistas a antecipar a utilização de saldo negativo que somente se formaria ao final do anocalendário. Todavia, como já conclui em voto anterior apresentado a esta Turma, confrontando as disposições normativas e o conteúdo da Lei n° 9.430/96, tenho que a supressão da vedação veiculada com a Instrução Normativa RFB n° 900/2008 melhor se adequou à sistemática de apuração anual do IRPJ e da CSLL. Transcrevo, a seguir, minha manifestação acerca da matéria: Relevante notar que durante a vigência das Instruções Normativas SRF n° 460/2004 e 600/2005, ou seja, no período de 29/10/2004 a 30/12/2008 (até ser publicada a Instrução Normativa RFB n° 900/2008), a Receita Federal buscou coibir a utilização imediata de indébitos provenientes de estimativas recolhidas a maior, assim dispondo: (Omissis) As antecipações recolhidas deveriam ser, primeiro, confrontadas com o tributo determinado na apuração anual, e só então, se evidenciada a existência de saldo negativo, seria possível a utilização do indébito. E este crédito, na forma da interpretação veiculada no Ato Declaratório Normativo SRF n° 03/2000, seria atualizado com juros à taxa SELIC a partir do mês subseqüente ao do encerramento do anocalendário. Fl. 256DF CARF MF Processo nº 10980.910374/200949 Acórdão n.º 1402003.226 S1C4T2 Fl. 9 8 De outro lado, porém, é possível interpretar que a Lei n° 9.430/96, ao autorizar a dedução das antecipações recolhidas, admite somente aquelas recolhidas em conformidade com caput de seu art 2°: (Omissis) Diante deste contexto, temse por formalmente correto o procedimento adotado pela recorrente: as estimativas recolhidas a maior não poderiam ser deduzidas na apuração anual do IRPJ, e o crédito dali decorrente, atualizado com juros à taxa SELIC a partir do recolhimento indevido, poderia ser utilizado em compensação, mediante apresentação de DCOMP, inclusive para liquidação do próprio IRPJ apurado no ajuste do mesmo anocalendário, mas, evidentemente sem a dedução daquelas parcelas excedentes. Eventualmente a contribuinte pode, por facilidade operacional, computar estimativas recolhidas indevidamente na formação do saldo negativo, mas este procedimento em nada prejudica o Fisco, na medida em que desloca para momento futuro a data de formação do indébito e assim reduz os juros de mora sobre ele aplicáveis.Por outro lado, se a contribuinte erra ao calcular ou recolher a estimativa mensal, não vejo, ante o contexto que expus, obstáculo legal ao pedido de restituição ou a compensação deste indébito antes de seu prévio cômputo na apuração ao final do anocalendário. Comprovado o erro e, por conseqüência, o indébito, o pedido de restituição ou a declaração de compensação já podem ser apresentados, incorrendo juros de mora contra a Fazenda a partir do mês subseqüente ao do pagamento a maior, na forma do art. 39, § 4° da Lei 9.250/95 c/c art. 73 da Lei n° 9.532/97. Em conseqüência, por ocasião do ajuste anual, o contribuinte deve confrontar, apenas, as estimativas que considerou devidas, sob pena de duplo aproveitamento do mesmo crédito. Ainda, ao interpretar que somente as estimativas devidas na forma da Lei n° 9.430/96 são passíveis de dedução na apuração anual do IRPJ ou da CSLL, concluo que, mesmo após o encerramento do anocalendário, se o contribuinte identificar um erro em sua apuração e ele repercutir não só em sua apuração final, mas também no resultado de seus balancetes de suspensão/redução, tem ele o direito de pleitear o indébito na data do recolhimento da estimativa correspondente, ao invés de apenas reconstituir a apuração anual do IRPJ ou da CSLL. Esta interpretação, friso, tem por pressuposto a ocorrência de erro no cálculo ou no recolhimento da estimativa. Não está aqui abarcada a mudança de opção quanto à sistemática de cálculo das estimativas, formalizada definitivamente quando o contribuinte determina o valor inicialmente recolhido com base na receita bruta e acréscimos ou em balancetes de suspensão/redução. Logo, não admito que o contribuinte, após apurar e recolher estimativa com base em balancete de suspensão/redução, sem o prévio confronto com o valor devido com base na receita bruta e acréscimos, pretenda como indébito o excedente que se verificaria caso tivesse adotado esta segunda sistemática para cálculo da estimativa. Da mesma forma, não lhe cabe, após efetuar recolhimentos com base na receita bruta e acréscimos, Fl. 257DF CARF MF Processo nº 10980.910374/200949 Acórdão n.º 1402003.226 S1C4T2 Fl. 10 9 apurar estimativas mensais com base em balancetes de suspensão/redução, para pleitear a diferença como se indébitos fossem. A legislação tributária está erigida no sentido da definitividade daquela opção de cálculo ao exigir, por exemplo, que os balancetes de suspensão/redução estejam escriturados até a data fixada para o seu pagamento. (Omissis) E, com maior detalhamento, a Instrução Normativa SRF n° 51, de 31 de outubro de 1995 especificou a forma a ser observada no levantamento dos referidos balanços ou balancetes de suspensão ou redução: (Omissis) No presente caso, a contribuinte alega que errou ao apurar a estimativa em balancete de suspensão/redução de dezembro/2004, e assim apontou o indébito constituído em 31/01/2005 para compensações com outros tributos, posteriormente, inclusive, à apuração do ajuste anual em 31/12/2004. Destaco que a DIPJ originalmente apresentada em 2005 já apontava a apuração da estimativa de dezembro/2004 com base em balancete de suspensão/redução. Imperioso, portanto, para homologação da compensação, a confirmação da existência, suficiência e disponibilidade do indébito alegado. Ou seja, a homologação expressa exige que a contribuinte comprove, perante a autoridade administrativa que a jurisdiciona, o erro cometido no balancete de suspensão/redução de dezembro/2004, a sua adequação para a formação do indébito de RS 86.729.499,25, e a correspondente disponibilidade, mediante prova que não se valeu desta antecipação para liquidação do IRPJ devido no ajuste anual, ou para formação do correspondente saldo negativo. E isto porque, ao contrário do que parece pretender a recorrente, o fato de o fundamento da decisão ser a impossibilidade de aproveitamento de indébitos decorrentes de recolhimentos estimados, não permite concluir pela integridade da formação do crédito. A autoridade administrativa centrou sua decisão em aspecto preliminar, qual seja, a possibilidade do pedido, e assim não analisou a efetiva existência do crédito. Superada esta preliminar, necessário se faz a apreciação do mérito pela autoridade administrativa competente, quanto aos demais requisitos para homologação da compensação. Registro, inclusive, o entendimento expresso pela maioria desta Turma Ordinária, no sentido de que, enquanto a contribuinte não for cientificada de uma nova decisão quanto ao mérito de sua compensação, os débitos compensados permanecem com a exigibilidade suspensa, por não se verificar decisão definitiva acerca de seus procedimentos. E, caso tal decisão não resulte na homologação total das compensações promovidas, develhe ser facultada nova manifestação de inconformidade, possibilitandolhe a discussão do mérito da compensação nas duas instâncias administrativas de julgamento. Fl. 258DF CARF MF Processo nº 10980.910374/200949 Acórdão n.º 1402003.226 S1C4T2 Fl. 11 10 Por todo o exposto, voto no sentido de DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso voluntário, para reconhecer a possibilidade de formação de indébitos em recolhimentos por estimativa, mas sem homologar a compensação por ausência de análise do mérito pela autoridade preparadora, com o conseqüente retorno dos autos à jurisdição da contribuinte, para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do crédito pretendido em compensação." No uso da competência dada pelo § 14 do artigo 74 da Lei n° 9.430/96, e por meio das INs SRF n° 460/2004 e 600/2005, cuja vigência ocorreu de 29/10/2004 a 30/12/2008, a Receita Federal do Brasil não admitiu a compensação imediata de recolhimentos indevidos de estimativas. Já com a IN RFB n° 900/2008, o Fisco alterou o entendimento e excluiu essa limitação de seu texto. A evolução da legislação administrativa a respeito do assunto foi a seguinte: O artigo 10 da Instrução Normativa n° 460/2004 não permitiu que indébitos oriundos de recolhimentos por estimativa fossem compensados de imediato, devendo compor o saldo de IRPJ e CSLL apurado ao final do período: "Art. 10. A pessoa jurídica tributada pelo lucro real, presumido ou arbitrado que sofrer retenção indevida ou a maior de imposto de renda ou de CSLL sobre rendimentos que integram a base de cálculo do imposto ou da contribuição, bem assim a pessoa jurídica tributada pelo lucro real anual que efetuar pagamento indevido ou a maior de imposto de renda ou de CSLL a título de estimativa mensal, somente poderá utilizar o valor pago ou retido na dedução do IRPJ ou da CSLL devida ao final do período de apuração em que houve a retenção ou pagamento indevido ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou de CSLL do período." A mesma redação foi mantida no artigo 10 da IN SRF n° 600/2005, in verbis: "Art. 10 A pessoa jurídica tributada pelo lucro real, presumido ou arbitrado que sofrer retenção indevida ou a maior de imposto de renda ou de CSLL sobre rendimentos que integram a base de cálculo do imposto ou da contribuição, bem assim a pessoa jurídica tributada pelo lucro real anual que efetuar pagamento indevido ou a maior de imposto de renda ou de CSLL a título de estimativa mensal, somente poderá utilizar o valor pago ou retido na dedução do IRPJ ou da CSLL devida ao final do período de apuração em que houve a retenção ou pagamento indevido ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou de CSLL do período." Já com a edição da Instrução Normativa RFB n° 900/2008, no seu artigo 11, o Fisco deixou de coibir a imediata compensação de recolhimentos indevidos de estimativas. "Art 11. A pessoa jurídica tributada pelo lucro real, presumido ou arbitrado que sofrer retenção indevida ou a maior de imposto de renda ou de CSLL sobre rendimentos que integram Fl. 259DF CARF MF Processo nº 10980.910374/200949 Acórdão n.º 1402003.226 S1C4T2 Fl. 12 11 a base de cálculo do imposto ou da contribuição somente poderá utilizar o valor retido na dedução do IRPJ ou da CSLL devida ao final do período de apuração em que houve a retenção ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou de CSLL do período." Assiste, assim, razão à recorrente quando afirma que as regras contidas na IN RFB n° 900/2008 são perfeitamente aplicáveis ao caso em voga, pois alteraram o entendimento anteriormente expresso pelas INs 460/2004 e 600/2005, podendo ser computado como crédito o montante de estimativa recolhido indevidamente. A própria Receita Federal do Brasil já se posicionou no sentido de admitir o procedimento adotado pela recorrente, por meio da Solução de Consulta 285 SRRF/9ª RF/Disit de 17/07/2009, assim ementada: "Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ SALDO NEGATIVO. PAGAMENTO A MAIOR. COMPENSAÇÃO. Em regra, o saldo negativo de IRPJ apurado anualmente poderá ser restituído ou compensado com o imposto de renda devido a partir do mês de janeiro do anocalendário subseqüente ao do encerramento do período de apuração, mediante a entrega do PER/Dcomp. A diferença a maior, decorrente de erro do contribuinte, entre o valor efetivamente recolhido e o apurado com base na receita bruta ou em balancetes de suspensão/redução, está sujeita à restituição ou compensação mediante entrega do PER/Dcomp. Dispositivos Legais: Lei n° 9.430, de 1996, arts. 2° e 6°; Lei n° 8.981, de 1995, art. 35; ADN SRF n° 3, de 2000; IN RFB n° 900, de 2008, arts. 2°a 4° e 34. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL SALDO NEGATIVO. PAGAMENTO A MAIOR. COMPENSAÇÃO. Em regra, o saldo negativo de CSLL apurado anualmente poderá ser restituído ou compensado com a contribuição devida a partir do mês de janeiro do anocalendário subseqüente ao do encerramento do período de apuração, mediante a entrega do PER/Dcomp; A diferença a maior, decorrente de erro do contribuinte, entre o valor efetivamente recolhido e o apurado com base na receita bruta ou em balancetes de suspensão/redução, está sujeita à restituição ou compensação mediante entrega do PER/Dcomp. Dispositivos Legais: Lei n° 9.430, de 1996, arts. 2° e 6°; Lei n° 8.981, de 1995, art. 35; ADN SRF n° 3, de 2000; IN RFB n° 900, de 2008, arts. 2°a 4° e 34." Fl. 260DF CARF MF Processo nº 10980.910374/200949 Acórdão n.º 1402003.226 S1C4T2 Fl. 13 12 Porém, apenas em tese assiste razão à recorrente em suas alegações, haja vista que a análise efetivada pelo Despacho Decisório, que não homologou a compensação realizada, se restringiu apenas à preliminar da possibilidade do pedido, não abordando o mérito da veracidade do crédito apresentado para compensação, a sua existência, suficiência e disponibilidade, dando certeza e liquidez ao direito pretendido, devendo esse montante ser confirmado pela autoridade administrativa de origem. CONCLUSÃO Ante todo o exposto, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário para admitir a possibilidade de formação de indébito em recolhimento por estimativa, não homologando de plano a compensação pretendida, em virtude da ausência de análise do mérito do pedido pelo Despacho Decisório, devendo ser verificada pela autoridade local da Receita Federal do Brasil a existência, a suficiência e a disponibilidade do crédito objeto da compensação. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por dar provimento parcial para reconhecer o indébito formado pelas estimativas recolhidas e determinar que a unidade de origem emita novo despacho decisório considerando os valores existentes e confirmados. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Fl. 261DF CARF MF
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Numero do processo: 13964.000254/2009-28
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jul 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2008
SIMPLES NACIONAL. INÍCIO DE ATIVIDADE. INCLUSÃO RETROATIVA. PRAZO.
O §6º do art. 7º da Resolução CGSN nº 4/2007 determina prazo limite de 180 dias para pedido de inclusão no Simples Nacional para estabelecimentos em início de atividade. .
Numero da decisão: 1003-000.003
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da Relatora.
(assinado digitalmente)
Carmen Ferreira Saraiva Presidente
(assinado digitalmente)
Bárbara Santos Guedes - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Sérgio Abelson, Bárbara Santos Guedes e Carmen Ferreira Saraiva (Presidente).
Nome do relator: BARBARA SANTOS GUEDES
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INÍCIO DE ATIVIDADE. INCLUSÃO RETROATIVA. PRAZO. O §6º do art. 7º da Resolução CGSN nº 4/2007 determina prazo limite de 180 dias para pedido de inclusão no Simples Nacional para estabelecimentos em início de atividade. . Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da Relatora. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva – Presidente (assinado digitalmente) Bárbara Santos Guedes Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Sérgio Abelson, Bárbara Santos Guedes e Carmen Ferreira Saraiva (Presidente). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 96 4. 00 02 54 /2 00 9- 28 Fl. 45DF CARF MF Processo nº 13964.000254/200928 Acórdão n.º 1003000.003 S1C0T3 Fl. 3 2 Tratase o presente processo de recurso voluntário contra acórdão de nº 07 28.476 da 4ª Turma da DRJ/FNS que manteve o indeferimento do pedido de inclusão retroativa ao Simples Nacional, com efeitos a contar de 21/10/2008, por terem transcorrido mais de 180 (cento e oitenta) dias do prazo para a opção na qualidade de empresa em início de atividade. Na manifestação, a contribuinte alega, em síntese, que o atraso ocorreu em razão da morosidade do órgão municipal responsável pela liberação e efetivo cadastramento da empresa no município de Laguna/SC. Destaca que foram realizados três pedidos de cadastros nos dias 21/11/2008; 14/05/2009 e 30/04/2009. O contribuinte colaciona aos autos a tela de Solicitação de Opção pelo Simples Nacional, datada de 24/04/2009, destacando a invalidade do período. O acórdão recorrido considerou improcedente a manifestação de inconformidade sob o fundamento de que a data de abertura da empresa foi em 21/10/2008, conforme consta das informações cadastrais do seu CNPJ, contudo solicitou a sua inscrição no Simples Nacional apenas em 24/04/2008, ultrapassando o prazo de 180 (cento e oitenta) dias constantes nos dispositivos legais aplicáveis. Destacou que eventuais atrasos na concessão da inscrição municipal, em que pese representarem um contratempo à contribuinte por contingências do respectivo órgão, não permite que seja desconsiderado o prazo previsto no §6º do artigo 7º da Resolução CGSN nº 4, de 30/05/2007. Inconformada com o acórdão, a Recorrente apresentou recurso voluntário destacando, em síntese, que a resolução do Comitê Gestor em vigência à época era o de nº 4 de 2007 e que, para a solicitação de inclusão no Simples, bastaria observar o § 3º, inciso I, do art. 7º da citada norma, a qual concedia prazo de 30 (trinta) dias contados do último deferimento da inscrição para solicitar a inclusão no Simples. Aduz que, devido à burocracia do ente público, todos os documentos necessários para a inclusão no Simples apenas foi recebido em .06/05/2009 e que efetuou o protocolo do pedido de inclusão 14 (quatorze) dias depois, porém dentro dos 30 (trinta) dias determinados na legislação aplicável. Por fim, declara que o contribuinte está sendo prejudicado por fato alheio a sua vontade, visto que a demora se deu em razão da burocracia do município. É o Relatório. Voto Conselheira Bárbara Santos Guedes, Relatora O Recurso Voluntário é tempestivo, visto que atende o prazo regulamentar estabelecido pelo Decreto 70.235/1972, art. 33. Fl. 46DF CARF MF Processo nº 13964.000254/200928 Acórdão n.º 1003000.003 S1C0T3 Fl. 4 3 O acórdão recorrido destacou que a Lei Complementar nº 123, de 14/12/2006, revogou a Lei nº 9.317/96 (Simples Federal), e instituiu o Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte Simples Nacional, assim dispondo em seu artigo 16, caput Art. 16. A opção pelo Simples Nacional da pessoa jurídica enquadrada na condição de microempresa e empresa de pequeno porte darseá na forma a ser estabelecida em ato do Comitê Gestor, sendo irretratável para todo o ano calendário Na época da solicitação do pedido de inclusão no Simples, qual seja em maio de 2009, vigorava a Resolução CGSN nº 4, de 30/05/2007, que, em seu art. 7º, estabelecia o seguinte: Art. 7º A opção pelo Simples Nacional darseá por meio da internet, sendo irretratável para todo o anocalendário. § 1º A opção de que trata o caput deverá ser realizada no mês de janeiro, até seu último dia útil, produzindo efeitos a partir do primeiro dia do ano calendário da, opção, ressalvado o disposto no § 3º deste artigo e observado o disposto no § 3º do art. 21. § 3º No caso de início de atividade da ME ou EPP no ano calendário da opção, deverá ser observado o seguinte: I a ME ou a EPP, após efetuar a inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), bem como obter a sua inscrição municipal e estadual, caso exigíveis, terá o prazo de até 30 (trinta) dias, contados do último deferimento de inscrição, para efetuar a opção pelo Simples Nacional. (Alterado pela Resolução CGSN nº 41, de 01.09.2008, DOU 03.09.2008, com efeitos a partir de 01.01.2009, altera o inciso I do § 3º acima com a seguinte redação) § 6° A ME ou a EPP não poderá efetuar a opção pelo Simples Nacional na condição de empresa em início de atividade depois de decorridos 180 (cento e oitenta) dias da data de abertura constante do CNPJ, observados os demais requisitos previstos no inciso I do § 3° deste artigo. Segundo se depreende do artigo acima transcrito, a opção pelo Simples Nacional deverá ser realizada até o último dia do mês de janeiro, contudo, para empresas em início de atividade, para não ser aplicada essa limitação temporal, a legislação determina que elas terão 30 (trinta) dias, contados do último deferimento para realizar sua inscrição, a qual terá efeitos a partir do cadastro no CNPJ , desde que observado o prazo de 180 (cento e oitenta) dias da data da abertura. Entendo ser esses os limites temporais para empresa no início da atividade. O prazo de 180 (cento e oitenta) concedidos é o prazo máximo para o pedido de inclusão no Simples Nacional, desde que respeitados os prazos do § 3º, inciso I. Ou seja, a legislação não prevê aumento do prazo, mas apenas a redução dele. No presente caso, o contribuinte obteve a inscrição municipal no dia 22/04/2009 e efetuou o protocolo do pedido de inclusão no Simples Nacional no dia Fl. 47DF CARF MF Processo nº 13964.000254/200928 Acórdão n.º 1003000.003 S1C0T3 Fl. 5 4 06/05/2009, após ultrapassado o prazo limite de que trata o § 6º, art. 7º, da Resolução CGSN nº 004/2007. Em que pese a alegação de que a demora se deu em razão da burocracia do município, a legislação a qual as autoridades administrativas estão vinculadas não prevê exceções e, por conseguinte, deve ser respeitada, haja vista o dever de estar vinculado à legalidade estrita, conforme art. 41, inciso IV, do Anexo II do atual Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015. Dessa forma, a autoridade administrativa não poderá expressar juízo de valor em relação aos fatos ocorridos, mas sim deverá pautar sua decisão de forma vinculada à legalidade estrita, obedecendo à determinação legal e não podendo efetuar interpretação diferente daquela determinada pela legislação. Essa é a posição de julgamentos anteriores realizados pelo CARF, conforme acórdãos abaixo: Acórdão: 1001000.411 Número do Processo: 10855.002768/200967 Data de Publicação: 23/04/2018 Relator(a): EDUARDO MORGADO RODRIGUES Ementa: Assunto: Simples Nacional Anocalendário: 2009 SIMPLES NACIONAL. INÍCIO DE ATIVIDADE. OPÇÃO. PRAZO. É incabível a inclusão no Simples Nacional desde a data de abertura constante do cadastro CNPJ, na condição de empresa em início de atividades, quando comprovado que a opção não foi efetuada de acordo com o previsto no artigo 7º, § 6º da Resolução CGSN nº 04/2007. Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado. Acórdão: 1001000.259 Número do Processo: 10640.001434/200819 Data de Publicação: 27/02/2018 Relator(a): EDUARDO MORGADO RODRIGUES Ementa: Assunto: Simples Nacional Período de apuração: 19/12/2007 a 31/12/2007 INCLUSÃO RETROATIVA. SIMPLES NACIONAL O prazo para efetuar opção pelo SN era de 10 dias contados do último deferimento de inscrição estadual ou municipal, respeitado o prazo de 180 dias da data de abertura constante do CNPJ. Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado. Em razão do decurso de prazo de 180 dias após a inscrição no CNPJ, estabelecido pelo § 6º do art. 7º da Resolução CGSN nº 4/2007, para fazer a solicitação de opção pelo Simples Nacional, deve ser mantido o acórdão da DRJ, mantendose, por conseguinte, o indeferimento retroativo da opção pelo Simples Nacional. Fl. 48DF CARF MF Processo nº 13964.000254/200928 Acórdão n.º 1003000.003 S1C0T3 Fl. 6 5 Por todo o exposto, conheço do recurso e, no mérito, NEGO PROVIMENTO ao Recurso voluntário. (assinado digitalmente) Bárbara Santos Guedes Fl. 49DF CARF MF
score : 1.0
