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Numero do processo: 11543.003645/2008-49
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 21 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/2005
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO EM FORMULÁRIO DE PAPEL. INOBSERVÂNCIA DAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS. INDEFERIMENTO DO PEDIDO SUJEITO À MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. RITO DO DECRETO Nº 70.235/1972.
O pedido de restituição entregue em formulário, em descordo com as normas previstas nas instruções normativas para o caso, são passíveis de indeferimento sumário e sujeitos à manifestação de inconformidade.
Numero da decisão: 3302-005.706
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em devolver os autos à DRJ para que se profira nova decisão, a partir do conhecimento das alegações realizadas em manifestação de inconformidade relativas ao pedido de restituição considerado não formulado.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimaraes, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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PEDIDO DE RESTITUIÇÃO EM FORMULÁRIO DE PAPEL. INOBSERVÂNCIA DAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS. INDEFERIMENTO DO PEDIDO SUJEITO À MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. RITO DO DECRETO Nº 70.235/1972. O pedido de restituição entregue em formulário, em descordo com as normas previstas nas instruções normativas para o caso, são passíveis de indeferimento sumário e sujeitos à manifestação de inconformidade. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em devolver os autos à DRJ para que se profira nova decisão, a partir do conhecimento das alegações realizadas em manifestação de inconformidade relativas ao pedido de restituição considerado não formulado. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimaraes, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 54 3. 00 36 45 /2 00 8- 49 Fl. 164DF CARF MF Processo nº 11543.003645/200849 Acórdão n.º 3302005.706 S3C3T2 Fl. 165 2 Trata o presente de pedido de restituição entregue em papel cumulado com declarações de compensação entregues eletronicamente, relativo a pagamentos indevidos ou a maior, em virtude da inconstitucionalidade do alargamento de base de cálculo de que tratou o §1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/1998. A recorrente protocolou em papel alegando exceção prevista no §1º do artigo 3º da IN SRF nº 600/2005, ou seja, impossibilidade de utilização do programa PER/DCOMP. A unidade de origem considerou o pedido de restituição não formulado e, consequentemente, as declarações de compensação não homologadas por ausência de direito creditório, em razão de a recorrente ter se utilizado o formulário em papel, indevidamente, uma vez que a restrição do programa PERDCOMP ocorreu devido ao fato de a recorrente pleitear restituição de tributos em prazo superior a cinco anos da data do pagamento, infringindo o artigo 168 do CTN e que esta situação não configura a impossibilidade de que trata o §1º do artigo 3º da IN SRF nº 600/2005. A unidade informou ainda no despacho decisório (efls. 52/59) que as compensações nãohomologadas ficam sujeitas à manifestação de inconformidade, porém este recurso não se aplicava ao pedido de restituição considerado não formulado. Em manifestação de inconformidade, a recorrente pugnou pela nulidade do despacho decisório por erro de direito, uma vez que não se poderia declarar não formulado se o programa PERDCOMP não aceita a trasmissão de indébitos tributários recolhidos há mais de cinco anos. Continuando, pugnou pela aplicação do prazo decadencial para pleitear a restituição de cinco anos a partir da data de publicação da Resolução do Senado Federal. Por sua vez, a DRJ não conheceu das alegações referentes ao pedido de restituição não formulado e considerou a manifestação de inconformidade improcedente, em razão de o crédito informado nas declarações de compensação terem origem em pedido de restituição considerado não formulado e, portanto, sem direito creditório reconhecido pela RFB, nos termos da ementa abaixo: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005 Não cabe manifestação de inconformidade contra a decisão que considerou não formulado o pedido de restituição. Nesta hipótese, o recurso cabível não é a manifestação de inconformidade, regida processualmente pelos ditames do Decreto nº 70.235/1972, mas pelo recurso administrativo disciplinado pela Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO ELETRÔNICA. CRÉDITO NÃO RECONHECIDO. Considerado não formulado o pedido de restituição efetuado em meio papel, não são homologadas as compensações declaradas eletronicamente, cujos créditos estejam demonstrados naquele pedido. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Fl. 165DF CARF MF Processo nº 11543.003645/200849 Acórdão n.º 3302005.706 S3C3T2 Fl. 166 3 Inconformada, a recorrente interpôs, tempestivamente, recurso voluntário, reiterando as razões aduzidas em manifestação de inconformidade. Na forma regimental, o processo foi distribuído a este relator. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, Relator. O recurso atende aos pressupostos de admissibilidade e dele tomo conhecimento. A recorrente reiterou em recurso voluntário as razões aduzidas em manifestação de inconformidade, mais precisamente que caberia manifestação de inconformidade sobre a consideração de não formulação do pedido de restituição, pugnando neste ponto pela nulidade do despacho decisório, e, no mérito, deduziu pela aplicação do prazo decadencial de cinco anos após a data de publicação da Resolução pelo Senado Federal para apresentação do pedido de restituição. Notase que tais matérias são atinentes ao pedido de restituição, que fora considerado não formulado e, nos termos do despacho decisório, sujeito apenas a recurso administrativo de que trata o artigo 56 da Lei nº 9.784/1999, razão pela qual o colegiado a quo não conheceu das referidas alegações. No caso, o pedido de restituição fora formulado em papel, sob alegação do §1º do artigo 3º da IN SRF nº 600/2005, a seguir transcrito: Art. 3º A restituição a que se refere o art. 2º poderá ser efetuada: [...] § 1º A restituição de que trata o inciso I será requerida pelo sujeito passivo mediante utilização do Programa Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou Restituição e Declaração de Compensação (PER/DCOMP) ou, na impossibilidade de sua utilização, mediante o formulário Pedido de Restituição constante do Anexo I, ao qual deverão ser anexados documentos comprobatórios do direito creditório.. A restrição alegada pela recorrente foi a impossibilidade de se transmitir pedidos de restituição de pagamentos indevidos ou a maior ocorridos há mais de cinco anos da data do pedido, o que não caracterizou impossibilidade nos termos do artigo 761 da IN SRF nº 1 Art. 76. Ficam aprovados os formulários Pedido de Restituição, Pedido de Cancelamento ou de Retificação de Declaração de Importação e Reconhecimento de Direito de Crédito, Pedido de Ressarcimento de IPI Missões Diplomáticas e Repartições Consulares, Declaração de Compensação e Pedido de Habilitação de Crédito Reconhecido por Decisão Judicial Transitada em Julgado constantes, respectivamente, dos Anexos I, II, III, IV e V. Fl. 166DF CARF MF Processo nº 11543.003645/200849 Acórdão n.º 3302005.706 S3C3T2 Fl. 167 4 600/2005, conforme considerado pelo despacho decisório, que considerou, então, o pedido não formulado, conforme o artigo 31 da referida instrução normativa: Art. 31. A autoridade competente da SRF considerará não formulado o pedido de restituição ou de ressarcimento e não declarada a compensação quando o sujeito passivo, em inobservância ao disposto nos §§ 2º a 4º do art. 77, não tenha utilizado o Programa PER/DCOMP para formular pedido de restituição ou de ressarcimento ou para declarar compensação. Tendo sido considerado não formulado, o despacho decisório deixou consignado a não sujeição do indeferimento do pedido de restituição, nesta situação, ao rito do PAF, conforme §2º do artigo 31 e artigo 48, abaixo transcritos: Art. 31. A autoridade competente da SRF considerará não formulado o pedido de restituição ou de ressarcimento e não declarada a compensação quando o sujeito passivo, em inobservância ao disposto nos §§ 2º a 4º do art. 76, não tenha utilizado o Programa PER/DCOMP para formular pedido de restituição ou de ressarcimento ou para declarar compensação [...] § 2º Às hipóteses a que se refere o caput e o § 1º não se aplica o disposto nos §§ 2º e 4º do art. 26 e nos arts. 29, 30 e 48. [...] Art. 48. É facultado ao sujeito passivo, no prazo de trinta dias, contado da data da ciência da decisão que indeferiu seu pedido de restituição ou de ressarcimento ou, ainda, da data da ciência do despacho que nãohomologou a compensação por ele efetuada, apresentar manifestação de inconformidade contra o nãoreconhecimento do direito creditório ou a nãohomologação da compensação. Constatase que a referida instrução normativa dispunha que o pedido de restituição entregue em formulário, em desacordo com as normas do artigo 76, deveria ser considerado não formulado, não se sujeitando à manifestação de inconformidade de que tratava § 1º A SRF disponibilizará, no endereço http://www.receita.fazenda.gov.br, os formulários a que se refere o caput. § 2º Os formulários a que se refere o caput somente poderão ser utilizados pelo sujeito passivo nas hipóteses em que a restituição, o ressarcimento ou a compensação de seu crédito para com a Fazenda Nacional não possa ser requerida ou declarada eletronicamente à SRF mediante utilização do Programa PER/DCOMP. § 3º A SRF caracterizará como impossibilidade de utilização do Programa PER/DCOMP, para fins do disposto no § 2º, no § 1º do art. 3º, no § 3º do art. 16, no § 1º do art. 22 e no § 1º do art. 26, a ausência de previsão da hipótese de restituição, de ressarcimento ou de compensação no aludido Programa, bem como a existência de falha no Programa que impeça a geração do Pedido Eletrônico de Restituição, do Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou da Declaração de Compensação. § 4º A falha a que se refere o § 3º deverá ser demonstrada pelo sujeito passivo à SRF no momento da entrega do formulário, sob pena do enquadramento do documento por ele apresentado no disposto no art. 31. § 5º Aos formulários a que se refere o caput deverá ser anexada documentação comprobatória do direito creditório. Fl. 167DF CARF MF Processo nº 11543.003645/200849 Acórdão n.º 3302005.706 S3C3T2 Fl. 168 5 o artigo 48, silenciando quanto a que recurso administrativo estaria sujeita a decisão. Assim, o pedido não formulado significava um não conhecimento do pedido de restituição e não, propriamente, um indeferimento de um pedido conhecido. Tal consideração de pedido não formulado esteve presente desde a IN SRF nº 360/2003 e constou da IN SRF nº 460/2004 e IN RFB nº 900/2008. Esta distinção, porém, foi afastada na IN RFB nº 1.300/2012, que inseriu este caso de entrega em formulário em desacordo com as condições estabelecidas no próprio ato, como pedido de restituição passível de indeferimento sumário, nos termos dos artigos 77, 111 e 113 da referida instrução normativa: IN RFB nº 1.300/2012: Art. 111. Será indeferido sumariamente o pedido de restituição, de ressarcimento ou de reembolso quando o sujeito passivo, em inobservância ao disposto nos §§ 2º a 5º do art. 113, não tenha utilizado o programa PER/DCOMP para formular o pedido. Art. 113. Ficam aprovados os formulários: [...] § 2º Os formulários a que se refere o caput poderão ser utilizados pelo sujeito passivo somente nas hipóteses em que a restituição, o ressarcimento, o reembolso ou a compensação de seu crédito para com a Fazenda Nacional não possa ser requerido ou declarado eletronicamente à RFB mediante utilização do programa PER/DCOMP. § 3º A RFB caracterizará como impossibilidade de utilização do programa PER/DCOMP, para fins do disposto no § 2º deste artigo, no § 2º do art. 3º, no § 6º do art. 21, no caput do art. 32 e no § 1º do art. 41, a ausência de previsão da hipótese de restituição, de ressarcimento, de reembolso ou de compensação no aludido programa, bem como a existência de falha no programa que impeça a geração do Pedido Eletrônico de Restituição, do Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou da Declaração de Compensação. § 3º A RFB caracterizará como impossibilidade de utilização do programa PER/DCOMP a ausência de previsão da hipótese de restituição, de ressarcimento, de reembolso ou de compensação no aludido programa, bem como a existência de falha no programa que impeça a geração do Pedido Eletrônico de Restituição, do Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou da Declaração de Compensação. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1425, de 19 de dezembro de 2013) § 4º A falha a que se refere o § 3º deverá ser demonstrada pelo sujeito passivo à RFB no momento da entrega do formulário, sob pena do enquadramento do documento por ele apresentado no disposto no § 1º do art. 46 ou no art. 111. Fl. 168DF CARF MF Processo nº 11543.003645/200849 Acórdão n.º 3302005.706 S3C3T2 Fl. 169 6 § 5º Aplicase o disposto no § 1º do art. 46 e no art. 111, quando a impossibilidade de utilização do programa PER/DCOMP decorrer de restrição nele incorporada em cumprimento ao disposto na legislação tributária. Assim, o caso tratado neste processo passou a ser inserido na condição de pedido de restituição passível de indeferimento sumário, afastando a condição de pedido não formulado de que tratavam as instruções anteriores e sujeito, portanto, à manifestação de inconformidade, conforme o artigo 77 da IN RFB nº 1.300/2012: Art. 77. É facultado ao sujeito passivo, no prazo de 30 (trinta) dias, contados da data da ciência da decisão que indeferiu seu pedido de restituição, ressarcimento ou reembolso ou, ainda, da data da ciência do despacho que não homologou a compensação por ele efetuada, apresentar manifestação de inconformidade contra o não reconhecimento do direito creditório ou a não homologação da compensação. [...] Verificase que o § 8º não dispunha sobre o não cabimento da manifestação de inconformidade para o caso aqui tratado, restando esta situação restrita às compensações nãodeclaradas, conforme abaixo: § 8º Não cabe manifestação de inconformidade contra a decisão que considerou não declarada a compensação, sem prejuízo da aplicação do art. 56 da Lei nº 9.784, de 1999. Concluise que o pedido de restituição entregue em formulário, em descordo com as normas previstas no artigo 113 da IN RFB nº 1.300/2012, são passíveis de indeferimento sumário, mas sujeitos à manifestação de inconformidade, de acordo com o artigo 77 da referida instrução. Este rito processual está de acordo com o Parecer PGFN/CAT nº 163/2007 que tratou de situação semelhante nos seguintes termos: 2. A SRF enumera objetivamente as questões surgidas em decisões administrativas de suas projeções, bem como do debate interno entre as superintendências e a unidade central. A primeira questão é a seguinte: “15.1) nos despachos decisórios que apreciam pedidos de compensação, que não se converteram em Dcomp, por não atenderem as condições da Lei nº 9.430, de 1996, devem os pedidos ser considerados como não conhecidos; devese indeferir os pedidos ou devem ter outro resultado?” (grifos não originais) 3. Entendemos que a melhor técnica jurídica aponta que os pedidos devem ser indeferidos. (grifos não originais) 4. Conforme já definido no Parecer PGFN/CAT/CDA nº 1.499/2005, estes expedientes devem ser vistos como Fl. 169DF CARF MF Processo nº 11543.003645/200849 Acórdão n.º 3302005.706 S3C3T2 Fl. 170 7 petições endereçadas ao poder público. Dessa forma, devem ser tratadas sob a proteção do Direito de Petição, presente na Constituição Federal de 1988, dentre os direitos e garantias dos cidadãos – art. 5º, inciso XXXIV, alínea “a”. Segundo José Afonso da Silva “o direito de petição não pode ser destituído de eficácia. Não pode a autoridade a quem é dirigida escusar pronunciarse sobre a petição, quer para acolhêla quer para desacolhêla com a devida motivação”. O “não conhecimento” se aplica, salvo alguma exceção expressa na legislação, aos recursos – uma vez que estes podem ser limitados pela legislação e possuem uma via estreita de cabimento – lembrando que o duplo grau de jurisdição não é direito fundamental expresso na CF. 5. Pelo que noticia a SRF, há projeções buscando no Código de Processo Civil a fundamentação jurídica para julgar estes pedidos ineptos por considerar os pedidos juridicamente impossíveis. Não nos parece necessária tal dilação, primeiro porque a relação processual judicial (partes opostas e juiz imparcial) em muito se difere da relação administrativa (Particular / Poder Público). E em um segundo ponto se o pedido não se encontra adequado a todos os requisitos da própria lei tributária já há fundamentação suficiente para seu indeferimento, atendendo ao princípio da legalidade aplicado à Administração Pública. (...) 12. A seguir, a SRF questiona: “15.3) nos despachos decisórios que apreciam pedidos de restituição de receitas não administradas pela SRF, devese não conhecer do pedido ou indeferir o pedido de restituição?” 13. Seguindo o raciocínio acima exposto, orientamos que se deve indeferir o pedido. Isto porque há a obrigação da Administração Pública emitir decisão nos processos administrativos. Ademais é direito de o administrado ter todos os elementos que fundamentam a recusa do Poder Público em atender um pedido que entende ser razoável. (Grifo original) Tal rito processual se repetiu na vigente IN RFB nº 1.717/2017, em seus artigos 135, 164, 165 e 166 e também está em consonância com o Decreto nº 7.574/2011, que regulamenta os processos administrativos no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil, que nos artigos 119 a 122 tratou dos recursos em face de indeferimentos de pedidos de restituição, decisão de não homologação ou de não declaração de compensações entregues pelos contribuintes, nos seguintes termos: Seção IV Fl. 170DF CARF MF Processo nº 11543.003645/200849 Acórdão n.º 3302005.706 S3C3T2 Fl. 171 8 Dos Recursos Subseção I Dos Recursos Contra a Não Homologação Art. 119. É facultado ao sujeito passivo, no prazo referido no art. 110, apresentar manifestação de inconformidade contra a não homologação da compensação (Lei no 9.430, de 1996, art. 74, § 9o, incluído pela Lei no 10.833, de 2003, art. 17). § 1o Da decisão que julgar improcedente a manifestação de inconformidade caberá recurso ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Lei no 9.430, de 1996, art. 74, § 10, incluído pela Lei no 10.833, de 2003, art. 17; Decreto no 70.235, de 1972, art. 25, inciso II, com a redação dada pela Lei no 11.941, de 2009, art. 25). § 2o A manifestação de inconformidade e o recurso de que tratam o caput e o § 1o obedecerão ao rito processual do Decreto no 70.235, de 1972 (Título II deste Regulamento), e enquadramse no disposto no inciso III do art. 151 da Lei nº 5.172, de 1966 Código Tributário Nacional, relativamente ao débito objeto da compensação (Lei no 9.430, de 1996, art. 74, § 11, incluído pela Lei no 10.833, de 2003, art. 17). Subseção IA (Incluído pelo Decreto nº 8.853, de 2016) Dos Recursos Contra a Decisão que Considerar a Compensação Não Declarada Art. 119A. É facultado ao sujeito passivo, nos termos do art. 56 ao art. 65 da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999, apresentar recurso, no prazo de dez dias, contado da data da ciência, contra a decisão que considerar a compensação não declarada. (Incluído pelo Decreto nº 8.853, de 2016) Parágrafo único. O recurso de que trata o caput: (Incluído pelo Decreto nº 8.853, de 2016) I não terá efeito suspensivo, não se enquadrando no disposto no inciso III do caput do art. 151 da Lei nº 5.172, de 1966 Código Tributário Nacional, relativamente ao débito objeto da compensação; e (Incluído pelo Decreto nº 8.853, de 2016) II será decidido em última instância pelo titular da Superintendência Regional da Receita Federal do Brasil, com jurisdição sobre o domicílio tributário do recorrente. (Incluído pelo Decreto nº 8.853, de 2016) Subseção II Dos Recursos Contra o Indeferimento dos Pedidos de Restituição, Ressarcimento e Reembolso Fl. 171DF CARF MF Processo nº 11543.003645/200849 Acórdão n.º 3302005.706 S3C3T2 Fl. 172 9 Art. 120. É facultado ao sujeito passivo, no prazo de trinta dias, contados da data da ciência da decisão que indeferiu seu pedido de restituição, ressarcimento ou reembolso, apresentar manifestação de inconformidade, junto à Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento competente, contra o não reconhecimento do direito creditório (Lei no 8.748, de 1993, art. 3o, inciso II; Lei no 9.019, de 1995, art. 7o, §§ 1o e 5o). Parágrafo único. Da decisão que julgar improcedente a manifestação de inconformidade, caberá recurso ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Art. 121. Compete ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, observada sua competência por matéria, julgar recurso voluntário de decisão de primeira instância nos processos relativos a restituição, ressarcimento e reembolso de tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (Decreto no 70.235, de 1972, art. 25, inciso II, com a redação dada pela Lei no 11.941, de 2009). Subseção III Disposições Complementares Art. 122. A Secretaria da Receita Federal do Brasil disciplinará o disposto nesta Seção, inclusive quanto à fixação de critérios de prioridade para apreciação de processos de restituição, de ressarcimento e de reembolso (Lei no 9.430, de 1996, art. 74, § 14, com a redação dada pela Lei no 11.051, de 2004, art. 4o). Verificase que o decreto regulamentador não discrimina o tipo de indeferimento de pedido de restituição, inserindo, de forma genérica, os indeferimentos na sujeição à manifestação de inconformidade e ao rito do PAF. Assim, defluise que, sendo as instruções normativas atos infralegais de regulamentação ou normatização de atos legais, é de se reconhecer que os atos posteriores à IN RFB 900/2008, especialmente a IN RFB 1.300/2012 e o Decreto nº 7.574/2011 nada mais fizeram que corrigir a impropriedade da IN RFB 900/2008 e anteriores, que estabeleceram distinção entre indeferimento por não formulação e indeferimento em outros casos, sem suporte legal, uma vez que o artigo 74 da Lei nº 9.430/1996 estabeleceu distinção apenas entre compensação nãohomologada e compensação nãodeclarada, em seus §§ 12 e 13. Diante do exposto, voto por devolver os autos à DRJ para que se profira nova decisão, a partir do conhecimento das alegações realizadas em manifestação de inconformidade relativas ao pedido de restituição considerado não formulado. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 172DF CARF MF Processo nº 11543.003645/200849 Acórdão n.º 3302005.706 S3C3T2 Fl. 173 10 Fl. 173DF CARF MF
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Numero do processo: 12466.003142/2007-15
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed May 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 21 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 02/01/2003 a 04/11/2003
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. PERFUMES (EXTRATOS). ÁGUASDECOLÔNIA. CONCENTRAÇÃO ODORÍFERA. NOTA COANA/COTEC/DINOM nº 253/2002. VIGÊNCIA.
Antes e depois do período ao longo do qual vigeu a Nota Coana/Cotec/Dinom nº 253/2002, identificavam-se e classificavam-se como extratos/perfumes os produtos constituídos pela solução ou dispersão de uma composição aromática em concentração mínima de 10% (dez por cento) e máxima de 30% (trinta por cento).
As mercadorias referidas como águasdecolônia no código 3303.00.20 da NCM, compreendem os produtos com um teor de composição aromática de até 15% (quinze por cento), de acordo com a Nota Coana/Cotec/Dinom nº 253/2002, em vigor até sua reformulação pela Nota Coana/Cotec/Dinom nº 344/2006, de 13/12/2006.
Numero da decisão: 3302-005.483
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir do lançamento os montantes relativos aos produtos importados com concentração odorífera igual ou inferior a 15%, conforme laudos que fundamentaram o lançamento, vencido o Conselheiro Jorge Lima Abud (relator) que dava provimento integral. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
Jorge Lima Abud - Relator.
(assinado digitalmente)
Fenelon Moscoso de Almeida - Redator Designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimaraes, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Paulo Guilherme Déroulède.
Nome do relator: JORGE LIMA ABUD
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PERFUMES (EXTRATOS). ÁGUASDECOLÔNIA. CONCENTRAÇÃO ODORÍFERA. NOTA COANA/COTEC/DINOM nº 253/2002. VIGÊNCIA. Antes e depois do período ao longo do qual vigeu a Nota Coana/Cotec/Dinom nº 253/2002, identificavamse e classificavamse como “extratos/perfumes” os produtos constituídos pela solução ou dispersão de uma composição aromática em concentração mínima de 10% (dez por cento) e máxima de 30% (trinta por cento). As mercadorias referidas como “águasdecolônia” no código 3303.00.20 da NCM, compreendem os produtos com um teor de composição aromática de até 15% (quinze por cento), de acordo com a Nota Coana/Cotec/Dinom nº 253/2002, em vigor até sua reformulação pela Nota Coana/Cotec/Dinom nº 344/2006, de 13/12/2006. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir do lançamento os montantes relativos aos produtos importados com concentração odorífera igual ou inferior a 15%, conforme laudos que fundamentaram o lançamento, vencido o Conselheiro Jorge Lima Abud (relator) que dava provimento integral. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 46 6. 00 31 42 /2 00 7- 15 Fl. 3668DF CARF MF 2 Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) Jorge Lima Abud Relator. (assinado digitalmente) Fenelon Moscoso de Almeida Redator Designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimaraes, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Paulo Guilherme Déroulède. Relatório O presente auto de infração foi lavrado em 21/09/2007, sendo referente à exigência de Imposto sobre Produtos Industrializados acrescido de multa de ofício e juros de mora, além de multa do controle aduaneiro, multa proporcional ao valor aduaneiro (1%) e multa regulamentar, no valor de R$ 3.144.498,16. No exercício das funções do cargo de Auditor Fiscal da Receita Federal, atendendo a determinação do Registro de Procedimento Fiscal Fiscalização Interna n* 07.2.76.002007008024, promoveuse a REVISÃO ADUANEIRA prevista no artigo 570 do Regulamento Aduaneiro, aprovado pelo Decreto n° 4.543/2002, em relação às Declarações de Importação arroladas no corpo do Auto de Infração. Por ocasião da conferência física dessas declarações, foram retiradas amostras dos produtos em questão (ver termos de retenção de amostras junto aos seus respectivos laudos às fls 142 a 461 ). As amostras foram enviadas ao Laboratório Nacional de Análises Luiz Anqerami, e suas análises resultaram em laudos técnicos. Esses laudos concluíram que os produtos citados se tratam de "perfume", constituído de solução HidroAlcoólica e Substâncias Odoríferas, na forma líquida acondicionada em embalagem própria para venda a retalho". Sobre o assunto, foi editado o Decreto n° 79.094, de 05/01/1977, que trata do "Sistema de Vigilância Sanitária dos Medicamentos, Insuraos Farmacêuticos, Drogas, Correlatos, Cosméticos, Produtos de Higiene, Saneantes e Outros". O importador classificou as mercadorias descritas no código NCM 3303.00.20, que é específico para água de colônia, estando tal posição sujeita a alíquota de 10% de IPI, mas através da análise do resultado dos laudos supracitados e da aplicação da Regra Geral para a Interpretação do Sistema Harmonizado n° 1, a fiscalização concluiu que os produtos objeto de tais laudos deveriam ter sido classificados no código NCM 3303.00.10, que é a posição específica para PERFUMES. Face ao exposto foi lavrado o presente auto de infração a fim de exigir os créditos tributários decorrentes da desclassificação fiscal das mercadorias em questão no Fl. 3669DF CARF MF Processo nº 12466.003142/200715 Acórdão n.º 3302005.483 S3C3T2 Fl. 3.641 3 código NCM 3303.00.10, onde tais mercadorias estariam sujeitas à aliquota de 40% de I.P.I. e alíquota de 19,5% de II. O importador depositou administrativamente os valores discutidos, a fim de obter a liberação das mercadorias. Cientificado da lavratura do Auto de Infração, pessoalmente, em 22/10/2007, o autuado apresentou sua impugnação de folhas 1.492 a 1.520. Foi alegado que: ü Da imprecisão dos laudos laboratoriais: nos laudos não foi feita a correta medição do teor de composição aromática, já que o mesmo foi apurado por diferença, ou seja, não houve medição precisa da composição aromática e sim apuração aritmética de um percentual obtido após a exclusão da água e do álcool. Esta imprecisão foi apontada pela DINOM por meio da informação n.° 421/2006 (transcreve às fls. 1498/1499); ü Da necessidade de o Laboratório de Análises indicar as fontes bibliográficas citadas; ü Da duplicidade na cobrança do IPI na importação: a impugnante alega que algumas DI’s já foram objeto de autuação anterior. São os seguintes processos: 12466.003878/200360 (DI’s n.°s 03/07613466 e 03/07706944) e 12466.001156/200371 (Dl n.° 03/01640089); ü Da iliquidez do lançamento: demonstra através dos demonstrativos de folhas 1740/1804 a divergência nos cálculos; ü Da utilização de laudo que não corresponde ao produto importado: o laudo n.° 3023.03 referese ao produto Champs Elysees Eau de Parfum, no entanto o produto importado é um Eau de Toilette, com concentração odorífera menor que aquele, não podendo ser usado como prova emprestada para estas importações. No mérito: ü A ANVISA é órgão competente para classificar os produtos em questão. E Ela classificou água perfumada como água de colônia e não como perfume como pretende a fiscalização. Todos estes produtos foram classificados pela ANVISA como água de colônia. Cita acórdão proferido pelo Conselho de Contribuintes que trata da matéria; ü Deve ser considerada no exame do produto a variação de temperatura no ambiente pois isto acarreta uma majoração na concentração da composição aromática. Outro aspecto é o fato de que a apuração deste percentual de concentração foi feita por diferença, sem critérios precisos; Fl. 3670DF CARF MF 4 ü Nos laudos foi identificada a presença de água, o que implica que os produtos não podem ser classificados como perfumes, pois estes não podem conter água, somente óleo e álcool. Traz uma consulta formulada à ANVISA que trata sobre a classificação de extrato e perfume. Discorre sobre este assunto, afirmando que por isso os produtos, que não sejam, extratos ou essências, devem ser classificados como água de colônia; ü Tendo em vista o acerto da classificação fiscal efetuada pela impugnante as exigências do 1PI e das multas não podem prosperar; ü Alega que as autuações atentam contra a segurança jurídica e ainda ofende ao princípio da moralidade administrativa; Em 12 de setembro de 2008, através do Acórdão n° 0713.951, a 2a Turma da Delegacia Regional de Julgamento de Florianópolis, por maioria de votos, considerou PROCEDENTES EM PARTE os lançamentos consubstanciados nos autos de infração, excluindo os seguintes valores: Ø R$56.059,83 de IPI, juntamente com a multa de ofício no valor de R$42.044,88 e os juros de mora correspondentes, referentes às Declarações de Importação lançadas em duplicidade; Ø R$694.893,30 de multa do controle administrativo (art. 633, II, a, Decreto n.° 4.543/2002); Ø R$2.12434 de multa proporcional por classificação incorreta (art, 84, MP n.° 2.15835/2001) referentes às DI’s lançadas em duplicidade. A impugnante foi cientificada da Decisão da Delegacia Regional de Julgamento (folhas 3.523), pessoalmente, em 04/11/2008. Em 04/12/2008, ingressou com RECURSO VOLUNTÁRIO junto ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, apresentando suas razões de folhas 3.535 a 3.581. O Recorrente alegou basicamente os mesmos pontos levantados na impugnação. Em 11 de dezembro de 2014, a 2a Turma Ordinária, da 1a Câmara, da 3a Seção de Julgamento do CARF, através da Resolução n° 3102000.331, baixou os autos em diligência para que a Unidade Preparadora determinasse a complementação dos Laudos periciais nos quais baseouse a autuação. O Laboratório deverá indicar com precisão qual o teor de substâncias odoríferas das mercadorias acima relacionadas, levando em consideração não somente a água e o álcool, mas também todos os outros elementos não aromáticos presentes no líquido. Em resposta o Instituto de Química da UNICANP esclareceu que: Em resposta à sua solicitação, informamos que as contraprovas das análises realizadas no âmbito do Contrato de Prestação de Fl. 3671DF CARF MF Processo nº 12466.003142/200715 Acórdão n.º 3302005.483 S3C3T2 Fl. 3.642 5 Serviços Técnicos Especializados firmado entre a União Federal/Receita Federal com o IQUNICANP/Funcamp ficaram em posse da própria Receita, quando do encerramento do vínculo contratual, ocorrido há mais de 10 (dez) anos. Sendo assim, considerando os fatos acima narrados, entendemos que, para atendimento da determinação do CARF, compete ao Laboratório atualmente credenciado/contratado a complementação dos laudos elaborados pelo IQ Unicamp/Funcamp. Complementação que dependerá do prévio envio das contraprovas que ficaram em posse da Receita Federal, no entanto, em função do longo tempo (mais de dez anos) as amostras certamente sofreram alterações pelo fato de apresentarem em sua composição substâncias voláteis além de poder sofres decomposição, alterando a composição inicial. Considerando que a composição básica de um perfume/água de colônia seria uma mistura de água, álcool (Etanol), Substâncias odoríferas e Fixadores, portanto ao determinarmos a quantidade de água e álcool (etanol) o restante será composto pelas substâncias odoríferas e fixadores, para totalizar o 100% do conteúdo. Dada a negativa da diligência, a Fiscalização requereu concordância daquele Instituto relativamente à outras respostas dadas a esse E. Colegiado, em outros casos similares: Os mesmos questionamentos sobre o método já foram feitos pelo CARF em outros processos. O gerente do outro laboratório credenciado nos esclareceu pontos importantes que seguem: Só há método de análise por diferença (...) Quanto a realizar novos ensaios/laudos com amostras de perfumes de 2001 a 2003 a que foram analisados neste período, para comparação e confirmação de resultados, acreditamos que não seja viável em função do tempo decorrido. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Jorge Lima Abud Relator. Da admissibilidade. Por conter matéria desta E. Turma da 3a Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e presentes os requisitos de admissibilidade, conheço do Recurso Voluntário tempestivamente interposto pelo contribuinte, considerando que a recorrente teve ciência da decisão de primeira instância, pessoalmente, em 04 de novembro de 2008, quando, então, iniciouse a contagem do prazo de 30 (trinta) dias para apresentação do presente recurso voluntário apresentando a recorrente recurso voluntário em 04 de dezembro de 2008. Da controvérsia. Fl. 3672DF CARF MF 6 A Recorrente submeteu a Despacho Aduaneiro para consumo lote de “águas de colônia", recebendo classificação tributária no código NCM 3303.00.20 “águasdecolônia". É pretendida a alteração da classificação tributária pela fiscaização para o código NCM 3303.00.10 "perfume". Os códigos NCM vigente à época da importação: 3303.00.10 Perfumes (extratos) 3303.00.20 Águasdecolônia Do Mérito. Iniciase a presente análise com a transcrição do seguinte fragmento do Relatório de Procedimento Fiscal, às folhas 7 e 8 do processo digital: (...) Estes laudos concluíram que os produtos citados se tratam de "perfume", constituído de solução HidroAlcoólica e Substâncias Odoríferas, na forma líquida acondicionada em embalagem própria para venda a retalho". Sobre o assunto, foi editado o Decreto n° 79.094, de 05/01/1977, que trata do "Sistema de Vigilância Sanitária dos Medicamentos, Insumos Farmacêuticos, Drogas, Correlatos, Çpsméticos, Produtos de Higiene, Saneantes e Outros". Seu artigo 49, inciso II, que trata dos Perfumes, apresenta as seguintes definições: "II Perfumes: a) Extratos constituídos pela solução ou dispersão de uma composição aromática em concentração mínima de 10% (dez por cento) e máxima de 30% (trinta por cento). b) Águas perfumadas, águas de colônia, loções e similares constituídos pela dissolução até 10% (dez por cento) de composição aromática em álcool de diversas graduações, não podendo ser nas formas sólidas nem na de bastão." Como se observa, o critério de diferenciação entre os "extratos" e as "águas perfumadas, águasdecolônia, loções e similares", encontrase definido de forma objetiva na legislação pátria, atendendo ao desdobramento da posição 3303 efetuado no País, ao nível dos itens relativos aos "Perfumes (extratos)" e às "Águasdecoiônía". (Grifo e negrito nossos) O seguinte fragmento é retirado do Acórdão n° 0713.951, de 12/09/2008, proferido pela 2a Turma da Delegacia Regional de Julgamento de Florianópolis, por maioria de votos, considerou PROCEDENTES EM PARTE os lançamentos consubstanciados nos autos de infração. Há que se ressaltar que a improcedência parcial se deveu à duplicidade de lançamentos (retirado da folha 3.517 do processo digital): Essa observação explica o motivo pelo qual as NESH da posição 3303, embora indique existência de “Perfumes (extratos)” e “Águasdccolônia”, Fl. 3673DF CARF MF Processo nº 12466.003142/200715 Acórdão n.º 3302005.483 S3C3T2 Fl. 3.643 7 não estabeleceram os critérios merceológicos de diferenciação dessas categorias, pois tal desdobramento não existe no Sistema Harmonizado. Nesse contexto, a interpretação sistemática e teleológica da legislação tributária relativa ao comércio exterior leva à conclusão de que, sendo a diferenciação dos itens “Perfumes (extratos)” e “Aguasdecolônia” válida somente para o País, é certo que os critérios de distinção desses conceitos deve ser inferida a partir da legislação nacional específica do setor. Sobre o assunto, foi editado o Decreto n° 79.094, de 05/01/1977, que trata do “Sistema de Vigilância Sanitária dos Medicamentos, Insumos Farmacêuticos, Drogas, Correlatos, Cosméticos, Produtos de Higiene, San cantes e Outros”. Seu artigo 49, inciso II, que trata dos Perfumes, apresenta as seguintes definições: II Perfumes: a) Extratos constituídos pela solução ou dispersão de uma composição aromática em concentração mínima de 10% (dez por cento) e máxima de 30% (trinta por cento). b) Aguas perfumadas, águas de colônia, loções e similares — constituídos pela dissolução até 10% (dez por cento) de composição aromática em álcool de diversas graduações, não podendo ser nas formas sólidas nem na de bastão. Como se observa, o critério de diferenciação entre os “extratos” e as “águas perfumadas, águasdecolônia, loções e similares”, encontrase definido de forma objetiva na legislação pátria, atendendo ao desdobramento da posição 3303 efetuado no País, ao nível dos itens relativos aos “Perfumes (extratos)” e às “Aguasdecolônia”. Diante da exposição acima se depreende que na NCM existem dois desdobramentos apenas para perfumes (extratos) e águas de colônias. Na legislação competente para diferenciar estas mercadorias, o Decreto n" 79.094, de 05/01/1977, foi especificado que águas de colônia e águas perfumadas só poderíam conter até 10% de concentração de composição aromática. Acima deste percentual seriam classificadas como extratos. Correta está a reclassificação feita pela fiscalização, haja vista que todos os produtos analisados tiveram um percentual de concentração odorífera de mais de 10%, excluindoos do código 3303.00.20 (água de colônia) como queria a importadora para localizálos no código 3303,0010 (perfumesextratos). Por esses dois fragmentos, é nítido que tanto a ação fiscal quanto a decisão da Delegacia Regional de Julgamento se pautaram no critério do percentual de concentração odorífera, determinado pelo artigo 49, inciso II, do o Decreto n° 79.094, de 05/01/1977. A própria Ementa do Acórdão n° 0713.951, de 12/09/2008, faz essa referência: Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 02/01/2003 a 04/11/2003 DESCLASSIFICAÇÃO FISCAL. Fl. 3674DF CARF MF 8 COMPROVAÇÃO. Mantémse a desclassificação fiscal realizada com base em Laudo Técnico que contenha elementos suficientes para comprovar que o produto examinado se enquadra, inequivocamente, na classificação fiscal determinada pela autoridade lançadora. CLASSIFICAÇÃO TARIFÁRIA. PERFUMES. Produtos de perfumaria que possuem concentração de substâncias odoríferas entre 10% e 30% são considerados “Perfumes (extratos)”, classificandose no código NCM 3303.00.10. (Grifo e negrito nossos) Da NOTA TÉCNICA N° 74/2013/GGCOS/ANVISA Referente à solicitação do Ministério da Fazenda Subsecretária de Aduana e Relações Internacionais, por meio do Ofício 1057/2013REB/GABIN/SUARI, acerca da Definição de “perfumes (extrato) e água de colônia, foi informado pela NOTA TÉCNICA N° 74/2013/GGCOS/ANVISA (folhas 3.643 do processo digital): Em função dos avanços tecnológicos a cada dia os fabricantes de produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes buscam utilizar fragrâncias que sejam menos alergênicas e/ou irritantes. 2. A RDC n° 03/2012, contempla substâncias utilizadas em fragrâncias que contém limites estabelecidos e se ultrapassarem esses limites deverão informar na rotulagem a indicação do ingrediente. 3. A informação técnica que continha no artigo 49 do Decreto n° 79.094/77 (revogado), atualmente e do ponto de vista técnico não tinha fundamentação científica que respaldasse tal exigência. Talvez, em 1977 quando foram estabelecidas aquelas concentrações existisse alguma literatura técnica que justificasse, e não haviam estudos que comprovassem a alergenicidade causada pelos ingredientes que compõe uma fragrância. Considerando não existir literatura técnicocientifica que justifique e comprove a diferenciação de nomenclatura de perfumes e água de colônia em função da concentração da fragância, do ponto de vista sanitário não há como estabelecer critérios para tais categorias. Concluise, portanto, que para a Anvisa o importante é que o produto seja sempre seguro para o uso e não causar.danos à população independente de ser água de colônia ou perfumes e a concentração dá fragrância. Da reforma do entendimento expresso na Nota Coana/Cotac/Dinom n° 253/2002 Em Despacho de 04 de novembro de 2015, a CoordenaçãoGeral de Administração Aduaneira (Coana) assim se manifestou: O presente processo solicita a esta CoordenaçãoGcral de Administração Aduaneira (Coana) o envio de cópias das Notas Coana/Cotac/Dinom 253/2002 e 344/2006. que a prestaram esclarecimentos quanto à classificação fiscal de “perfumes*" e "águasdecolônia” na Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). Fl. 3675DF CARF MF Processo nº 12466.003142/200715 Acórdão n.º 3302005.483 S3C3T2 Fl. 3.644 9 Destaquese. primeiramente. que o entendimento expresso na Nota Coana/Cotac/Dinom n" 253/2002 foi reformado pela Nota Coana/Cotac/Dinom n° 344/2006. Por sua vez. a Nota Coana/Cotac/Dinom n° 344/2006 invocou, como fundamento, o Decreto n" 79.094/77. art. 49. inciso II. que categorizava os perfumes com base na concentração de sua composição aromática. Ocorre que o citado decreto foi revogado pelo Decreto n° 8.077. de 14 de agosto de 2013. que não faz qualquer menção à definição ou ao alcance dos "perfumes", "águasdecolônia" ou congêneres. Ademais, após consulta efetuada pela RFB. a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) declarou, por meio da Nota Técnica n° 74/2013/CGCOS/AN VISA, "não existir literatura técnicocientífica que justifique e comprove a diferenciação de nomenclatura de perfumes e água de colônia em função da concentração da fragrância". Face ao exposto, informamos que a Nota Coana/Cotac/Dinom n° 344/2006 foi tacitamente revogada quando da publicação do Decreto n° 8.077. de 14 de agosto de 2013. cujo texto pode ser visualizado no seguinte link: http://www.planalto.gov.br/ecivii_03/_Ato20112014/2013/Decreto/D8077.h tm Em que pesem as Notas não estarem mais vigentes, envio, por meio deste processo, as cópias solicitadas. (Grifo e negrito nossos) Cito ainda dois Acórdãos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais que estou divergindo: Acórdão: 3101001.203 Número do Processo: 12466.004376/200607 Data de Publicação: 05/03/2013 Contribuinte: INDUSTRIA E COMERCIO QUIMETAL SA Relator(a): LUIZ ROBERTO DOMINGO Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 04/01/2002 a 23/11/2004 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. PERFUMES. ÁGUAS DE COLONIAS. As mercadorias mencionadas no código 3303.00.20 da NCM, referidas como “águas de colônias” englobam os produtos com teor de concentração de essência de 10 a 15%, nos termos da NOTA COANA/COTEC/DINOM no. 253/2002, em vigor até 13 de dezembro de 2006, quando foi expe Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por maioria, em dar provimento parcial ao recurso para reconhecer como água de colônia os produtos com até 15% de essência odorífera, importados até 13 de dezembro de 2006, e afastar a multa por falta de LI e a multa de ofício para fatos ocorridos até 11 de setembro de 2002. Acórdão: 30335.394 Fl. 3676DF CARF MF 10 Número do Processo: 12466.000604/200238 Data de Publicação: 18/02/2012 Contribuinte: HPRCOMERCIO EXTERIOR LTDA Relator(a): Nanci Gama Ementa: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 28/07/2000 a 14/09/2001 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. IPI. Produtos NOBILE, ACCENTI, ENVY e RUSH devem ser classificados sob código 3303.00.20, eis que se tratam de "águas de colônia" e não de "perfumes (extratos)". A Nota Coana/Cotac/Dinom n.° 253/2002 prevê que, para que as mercadorias sejam consideradas como "perfumes (extratos)", as mesmas devem po Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, afastar a preliminar de diligência suscitada pelo Conselheiro Luis Marcelo Guerra de Castro, vencidos também os Conselheiros Celso Lopes Pereira Neto e Anelise Daudt Prieto. Por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros Luis Marcelo Guerra de Castro e Celso Lopes Pereira Neto, que negaram provimento. Em destaque, as datas de publicação dos dois Acórdãos: 18/02/2012 e 05/03/2013 que são anteriores à NOTA TÉCNICA N° 74/2013/GGCOS/ANVISA e ao Despacho de 04 de novembro de 2015, da Coana. Está aqui se delineando, no entender deste Relator, um autêntico conflito entre o Direito Natural e o Direito Positivado. O artigo 49 do Decreto n° 79.094/77 foi revogado. Isso é um fato! A Administração Pública pode e deve rever seus atos quando maculados pela ausência de fundamentação. Invocarseia, em uma relação jurídico tributária habitual, o artigo 144 do Código Tributário Nacional para explicitar que o lançamento reportase à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e regese pela lei então vigente, ainda que posteriormente modificada ou revogada. Contudo, entendese que não está a se lidar com um conflito de normas tributárias no tempo. A questão a ser enfrentada é de maior amplitude. O órgão federal com competência para tal, emitiu uma nota técnica admitindo que a informação técnica que continha no artigo 49 do Decreto n° 79.094/77 (revogado), atualmente e do ponto de vista técnico não tinha fundamentação científica que respaldasse tal exigência. Mais sensato do que a aplicação do Direito Positivado à época, vem a ser o expresso reconhecimento de que o critério que regeu a exigência que propiciou a subsunção do fato à norma era desprovido de fundamentação. Logo, o critério adotado, que lastreou a ação fiscal, percentual de concentração odorífera é imprestável, portanto reprovável, que só gerou iniquidade. É contra essa iniquidade impor uma exigência tributária injusta, a partir de um critério desprovido de fundamentação que se levanta este Relator para acolher as razões do RECURSO VOLUNTÁRIO. Diante de tudo que foi exposto, VOTO no sentido de dar provimento ao Recurso do Contribuinte. Fl. 3677DF CARF MF Processo nº 12466.003142/200715 Acórdão n.º 3302005.483 S3C3T2 Fl. 3.645 11 É como voto. Jorge Lima Abud Voto Vencedor Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida Redator Designado. Com as vênias de praxe, dissinto do entendimento do eminente Relator no sentido de dar provimento integral ao recurso voluntário apresentado. Nesse ponto, pela perfeita adequação do presente caso, formalizado por meio do PAF nº 12466.003142/200715 (02/01/2003 a 04/11/2003), ao precedente julgado nos autos do PAF nº 12466.001083/200741 (17/04/2002 a 27/12/2002), sobre fatos absolutamente semelhantes, envolvendo o mesmo contribuinte e períodos de apurações imediatamente anteriores, adoto como minhas as razões de decidir no recurso especial do Acórdão nº 9303006.006, de 29/11/2017, in verbis: "No mérito, pela clareza e precisão com que aborda a matéria, adoto, no que couber, o voto do i. Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, acórdão nº 9303005.498, de 15 de agosto de 2017, que a seguir transcrevo. O recurso interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo, tratase de decisão por maioria (nãounânime), proferida antes de 30/06/2009, e foi admitido pelo Presidente da 2ª Câmara da 3ª Seção do CARF. Quanto à alegada contrariedade à lei ou à evidência da prova entendo como procedente. A decisão recorrida, afastou a aplicação do art. 49, II, do Decreto nº 79.094/77, que, ao tratar do sistema de vigilância sanitária a que se submetem medicamentos, insumos farmacêuticos, drogas, correlatos, cosméticos, produtos de higiene, saneantes e outros, diferenciava "extratos" de "águas de colônia". Segundo o referido dispositivo regulamentar, os primeiros eram constituídos pela solução de uma composição aromática em concentração mínima de 10% e máxima de 30%; já as águas de colônia eram constituídas pela dissolução até 10% de composição aromática em álcool de diversas graduações, não podendo ser nas formas sólidas. Na hipótese em análise, verificouse, segundo os laudos periciais presentes nos autos, que os produtos classificados apresentam concentrações de essências em percentuais de 10,4%, 12,7%, 12,3% e 11,3%. Portanto, todas as concentrações de substâncias odoríferas eram superiores a 10%, configurando os produtos como “perfumes (extratos)”. No caso, a, decisão recorrida não considerou o resultado dos laudos periciais presentes nos autos, por não concordar com o método "por diferença" utilizado, bem como não observou o percentual máximo de 10% de substâncias odoríferas, optando por considerar um percentual limite 15%, conforme interpretação advinda da Nota Coana/Cotac/Dinom n°253/2002. Diante da comprovação da contrariedade à evidência da prova, e atendido os demais requisitos de admissibilidade, conheço do recurso. Fl. 3678DF CARF MF 12 Portanto, a matéria devolvida ao Colegiado cingese à questão da classificação fiscal dos produtos relacionados no relatório supra, e do método utilizado para aferir o percentual de substâncias odoríferas com a finalidade de classificar os produtos. A questão em análise já foi apreciada por esta turma julgadora da Câmara Superior de Recursos Fiscais, que concluiu pela validade do método utilizado nos laudos e pela classificação dos produtos no código NCM 3303.00.10 (perfume). Tratase do Acórdão nº 9303001.732, com voto condutor da lavra do Conselheiro Henrique Pinheiro Torres, cujos excertos transcrevo abaixo e adoto seus fundamentos como razão de decidir: “Inicialmente, devese enfrentar os argumentos de defesa contrários ao laudo técnico. Neste ponto, insurgiuse a autuada contra o método utilizado nos Laudos de Análise, mediante a apuração da quantidade de substâncias odoríferas por diferença, sob a alegação de que os produtos analisados possuiriam "outros componentes" que não teriam sido detectados nos exames em questão. Para proceder a reclassificação fiscal das mercadorias ora sob exame, a fiscalização utilizou os Laudos de Análise n° 1383.03 e 1383.09 (fls. 38 a 41), que tratam do exame dos mesmos produtos "Amarige de Givenchy Eau de Toilette" e "Organza de Givenchy Eau de Parfum",mimportados por meio de outra DI, de n° 01/08635311 (fl. 120). De outro lado, ambas as DIs versam sobre importação de produtos originários do mesmo fabricante, com igual denominação, marca e especificação, com isso, como bem asseverou a decisão de primeira instância, é legítima, nesse caso, a utilização da prova emprestada, uma vez comprovado o atendimento dos quesitos estabelecidos no art. 30, § 3°, letra 'a' do Decreto n° 70.235/72. Ressaltese, por oportuno que preditos laudos foram emitidos pelo Laboratório Nacional de Análises Luiz Angerami, órgão público federal que integra o Ministério da Fazenda, e que detém a competência específica para proceder à análise laboratorial dos produtos importados. Assim, nos termos do disposto no caput desse artigo, esses laudos devem ser adotados em seus aspectos técnicos, salvo se demonstrada sua improcedência, o que não é o caso sob exame, vez que recorrente, em momento algum, juntou outro laudo que contrapusesse os resultados constantes do Laudo em discussão. [...] Ressaltese que os Laudos de Análise, ora em exame, indicam que o teor dos componentes dos produtos analisados foi identificado mediante o teste de Cromatografia Gasosa, atendendo, ao disposto, ao disposto no art. 36, inciso I da IN SRF n° 157/1998, acrescido pela IN SRF n° 152/2002. De outro lado, à quantificação por diferença é método cientificamente válido, posto que se os componentes de determinada substância são conhecidos, identificandose a proporção individual de cada um deles temse a do todo. Assim, por exemplo, se uma substância X é composta dos elementos A, B e C, a soma desses elementos vai representar o todo, pois A + B + C = X. Partindose dessa equação, podese Fl. 3679DF CARF MF Processo nº 12466.003142/200715 Acórdão n.º 3302005.483 S3C3T2 Fl. 3.646 13 encontrar a quantidade de qualquer um dos elementos. Se A, B e X são conhecidos, para se encontrar o valor de C, basta armar a equação: C = X – A – B. O 4resultado se obtém com a resolução de uma simples equação de primeiro grau. Aliás, esse método é simples e seguro. No caso dos autos, segundo o Laudo de Análise, fl. 38, o perfume é constituído de solução Hidro Alcoólica e de substâncias odoríficas. Os exames apontaram que o teor de álcool representava 76,8%, e o de água 4,4%. Utilizandose o método da diferença, temse que: Produto (100%) = 76,8 % Álcool + 4,4 % água + X % substância odoríferas. 100% = 76,8% 4,4% + X% => X = 100 – 76,8 – 4,4 => X = 18,8. Como se vê, o método da diferença é simples e matematicamente irrefutável.” Dessa forma, concluo pela plena validade do método utilizado nos laudos técnicos emitidos pelo Laboratório Nacional de Análises Luiz Angerami. Reproduzo, novamente, tabela com os percentuais de substância odorífera em cada produto, aferido pelos laudos, cujos percentuais variaram entre 10,4% a 12,7%: PRODUTO %SUB.O DOR. LAUDO GUCCI NOBILLE 10,4 1481.01 GUCCI ACCENTI 12,7 1481.02 GUCCI ENVY 12,3 1481.03 GUCCI RUSH 11,3 1481.04 Ultrapassada a questão da metodologia adotada no laudo de análise acima aludido, passase, à questão da classificação fiscal os produtos mencionados. A posição NCM/SH 3303 é dividida em 3303.00.10 para perfumes (“extratos”) e 3303.00.20 para águas de colônia. O Sistema Integrado de Designação e Codificação de Mercadorias é formado por posições de quatro dígitos, que são subdivididos em subposições de 1º nível (5º dígito) e subposições de 2º nível (6º dígito). De acordo com a mencionada Convenção, cada parte contratante pode criar, no âmbito de sua nomenclatura, subdivisões para a classificação de mercadorias em nível mais detalhado que o Sistema Harmonizado, utilizando subdivisões ao nível de item (7° digito) e subitem (8º dígito). No caso da posição 3303, resta claro que o desdobramento nas espécies ʺperfumes (extratos)ʺ e ʺáguas de colôniaʺ foi criado ao nível de item (7° digito), o que Fl. 3680DF CARF MF 14 demonstra que se trata de uma abertura válida somente para o Brasil, eis que o 7º dígito não compõe o código do Sistema Harmonizado. Essa observação explica o motivo pelo qual as NESH da posição 3303, embora apontem a existência de ʺPerfumes (extratos)ʺ e ʺÁguas de colôniaʺ, não estabeleceram os critérios merceológicos de diferenciação dessas categorias, pois tal desdobramento não existe no Sistema Harmonizado. Nesse contexto, conforme destacado no Acórdão 9303001.732, “a interpretação sistemática e teleológica da legislação tributária relativa aocomércio exterior leva à conclusão de que, sendo a diferenciação dos itens "Perfumes (extratos)" e "Águas de colónia" válida somente para o País, é certo que os critérios de distinção desses conceitos deve ser inferida a partir da legislação nacional específica do setor”. Sobre o assunto, foi editado o Decreto n° 79.094, de 05/01/1977, que trata do "Sistema de Vigilância Sanitária dos Medicamentos, Insumos Farmacêuticos, Drogas Correlatos, Cosméticos, Produtos de Higiene, Saneantes e Outros". Seu artigo 49, inciso II, que trata dos Perfumes, apresenta as seguintes definições: 11 — Perfumes: a) Extratos — constituídos pela solução ou dispersão de uma composição aromática em concentração mínima de 10% (dez por cento) e máxima de 30% (trinta por cento). b) Águas perfumadas, águas de colônia, loções e similares — constituídos pela dissolução até 10% (dez por cento) de composição aromática em álcool de diversas graduações, não podendo ser nas formas sólidas nem na de bastão. Constatase que o critério de diferenciação entre os "extratos" e as "águas perfumadas, águas de colônia, loções e similares", encontravase definido à época dos fatos, de forma objetiva, na legislação pátria. Partindo da idoneidade dos laudos técnicos e da plena validade do método utilizado, passando pela constatação dos percentuais de concentração aromática que variaram entre 10,4% a 12,7%, concluise que os produtos analisados são considerados "Perfumes (extratos)", já que os percentuais apurados excedem o limite de 10 % definido na legislação específica para classificálos como água de colônia. Uma vez identificado o produto, se perfume ou se água perfumada, e essa identificação é feita de acordo com a concentração estabelecida nesse dispositivo legal, para se proceder a codificação desses produtos na NCM/SH, na TEC ou na TIPI, basta seguir as regras de classificação de mercadorias, como corretamente procedeu a Fiscalização e o órgão julgador de primeira instância, concluindo pelo código NCM 3303.00.10. A decisão recorrida considerou também o disposto na Nota Coana/Cotac/Dinom nº 253, de 1/8/2002, que teria se manifestado acerca dos critérios adotados para classificar uma preparação odorífera como "perfume" ou "extrato", ou como "água de colônia" na Nomenclatura Comum do Mercosul, nestes termos: 7.1 "Essência ou extrato" é o perfume em sua concentração mais alta, sendo que a percentagem varia, conforme a marca, de 15% a Fl. 3681DF CARF MF Processo nº 12466.003142/200715 Acórdão n.º 3302005.483 S3C3T2 Fl. 3.647 15 30% de essência diluída em álcool de 90" GayLussac (GL). É o tipo mais caro de perfume e, por não serem adequados ao clima tropical, são difíceis de serem encontrados em razão da pouca comerciabilidade. O fixador (por exemplo, gordura de origem animal reproduzida em laboratório) tem um poderoso efeito de fixação que pode se prolongar por até 24 horas. 7.2 "Eau de parfum" é um perfume com menor concentração de essência, de 10% a 15%, diluída em álcool etílico de 90° GL, cujo efeito de fixação chega a ultrapassar as 12 horas. 7.3 "Eau de toileite" tem concentração de essência entre 5% e 10%, diluída habitualmente em álcool de 85" GL. Seus índices de fixação não passam das 8 horas em temperaturas mais altas. 7.4 "Águadecolônia" ou "eau de cologne" é a fragrância cuja percentagem de essência varia entre 3% e 5% e seu grau alcoólico fica entre 70° e 80"GL. Sua fixação não é maior do que 5 horas e seria, a priori, o ideal para o nosso clima. 7.5 "Eau fratche"é a "água refrescante", perfumada quase sempre com pouquíssima essência cítrica (limão ou tangerina). Por isto, muitas vezes é chamada de "eau de sport". Tem uma baixa percentagem de essência, de 1% a 3%, e vem quase sempre diluída em álcool de 70° ou 80° GL, havendo poucas variantes de "eau fraiche" que não empregam álcooL Sua taxa de fixação é mínima, de 2 a 4 horas. 8. Tendose em mente o exposto e considerando as NESH pode se afirmar que os "perfumes ou extratos", citados no código 3303.00.10 da NCM, compreendem apenas as essências ou extratos (subitem 7.1). 9. Já as mercadorias mencionadas no código 3303.00.20 da NCM, referidas como "águasdecolônia" englobam as chamadas "eau de patfum", "eau de toilette", "eau de cologne" e "cais fraiche" (subitem 7.2 a 7.5). Desta forma, na vigência da Nota Coana/Cotac/Dinom nº 253, de1º/8/2002, para efeitos de classificação fiscal, consideravase o produto como "água de colônia" quando o teor de essência fosse inferior a 15%. O mesmo órgão reviu seu posicionamento por meio da Nota Coana/Cotac/Dinom nº 344, 13/12/2006, adotando entendimento em consonância com o Decreto n° 79.094, de forma que, a partir dessa alteração, passaram a ser classificadas no código 3303.00.10 da NCM as mercadorias constituídas pela solução ou dispersão de uma composição aromática em concentração superior a 10% e no código 3303.00.20 as mercadorias constituídas pela dissolução de uma composição aromática em concentração inferior ou igual a 10%, em álcool de diversas graduações. (grifei) Constatase, entretanto, que as importações ora tributadas foram formalizadas em período anterior à vigência da NOTA COANA/COTEC/DINOM nº 253/2002, de 1/8/2002 a 13/12/2006. Dessa forma, não há que se considerar o disposto na referida nota, mostrandose correta a classificação determinada pela Autoridade Fiscal, em obediência ao disposto no Decreto n° 79.094, de 5/1/1977. Ainda que o referido Decreto tenha sido posteriormente revogado pelo Decreto n° 8.077/2013, à época dos fatos estava plenamente em vigor. Fl. 3682DF CARF MF 16 Restaurando o lançamento efetuado relativo ao principal, também devem ser restauradas as penalidades incidentes sobre as infrações, conforme decisão de primeira instância. Cumpre destacar que o voto do i. Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas não analisa circunstâncias fáticas idênticas as de que aqui tratamos. Neste, nem todas as importações foram registradas em data anterior à NOTA COANA/COTEC/DINOM nº 253/2002, do que decorre que a constatação do penúltimo parágrafo do voto não se aplica in totum no vertente caso. Inobstante, o dispositivo deste acórdão é claro em prover apenas parcialmente o recurso, decisão que está em perfeita sintonia com os fundamentos do voto proferido no acórdão nº 9303005.498." Com estas considerações, voto por dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir do lançamento os montantes relativos aos produtos importados com concentração odorífera igual ou inferior a 15%, conforme laudos que fundamentaram o lançamento. Fenelon Moscoso de Almeida. Fl. 3683DF CARF MF
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Numero do processo: 10980.724302/2016-18
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue May 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jul 25 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011
DECADÊNCIA.CONTAGEM DO PRAZO.IRPJ.LUCRO REAL TRIMESTRAL.
O prazo para constituir o crédito tributário referente ao IRPJ extingue-se em 5 anos, contados da ocorrência do fato gerador, que no caso do lucro real trimestral é ao final de cada trimestre. Com a ciência da autuação em 12/09/2016, alcançou dentro dos 5 anos os fatos ocorridos em 06/07/2011.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA
Não se vislumbrando excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos, nos termos do art. 135,III, não cabe a imputação da responsabilidade solidária.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011
GANHO DE CAPITAL. DIFERIMENTO.
A possibilidade de diferimento da tributação do ganho de capital na proporção da parcela do preço recebida somente se aplica aos contribuintes sujeitos à tributação com base no lucro real, e no caso de recebimento após o término do ano-calendário seguinte ao da contratação.
PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. GANHO DE CAPITAL. DESLOCAMENTO DO GANHO PARA OS SÓCIOS DA PESSOA JURÍDICA. IMPOSSIBILIDADE.
Não é dado à pessoa jurídica que aliena participação societária fazer deslocar o respectivo ganho de capital auferido no negócio para as pessoas físicas que figuram como sócios da pessoa jurídica.
FRAUDE. MULTA QUALIFICADA.
O resgate de ações com posterior pagamento em ações de outra empresa, já negociadas para venda, de forma a deslocar o ganho de capital para as pessoas físicas que figuram como sócios evidencia a conduta dolosa com objetivo de evitar o pagamento do tributo devido. Por estar caracterizada a fraude, é cabível a aplicação da multa qualificada.
Assunto: Normas de Administração Tributária
Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011
COMPENSAÇÃO. DESCONSIDERAÇÃO DOS ATOS JURÍDICOS. SUJEITO PASSIVO DA OPERAÇÃO.
Ocorrida a desconsideração dos atos jurídicos, cabe o aproveitamento e respectiva compensação do que foi pago na pretensão original dos envolvidos na operação autuada. No caso, o Imposto de Renda sobre o ganho de capital recolhido nas pessoas físicas deve ser compensado com o apurado no auto de infração na pessoa jurídica.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011
CSLL. LANÇAMENTO DECORRENTE.
Em razão da vinculação entre o lançamento principal (IRPJ) e os que lhe são decorrentes, devem as conclusões relativas àquele prevalecer na apreciação destes.
Numero da decisão: 1402-003.121
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, i) por voto de qualidade, negar provimento ao recurso voluntário quanto à infração apontada pelo Fisco e quanto à multa qualificada, divergindo os Conselheiros Caio Cesar Nader Quintella, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca e Demetrius Nichelle Macei, que davam provimento ao voluntário acerca destes dois itens; ii) por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário para determinar à unidade de origem que promova a compensação do Imposto de Renda sobre o ganho de capital recolhido pelas pessoas físicas, devendo ser compensado com o apurado no Auto de Infração, no montante de R$ 16.692.869,72 (comprovantes de arrecadação de fls. 763 a 765). O conselheiro Demetrius Nichele Macei fará declaração de voto em relação à multa qualificada e sua correlação com o artigo 112, do CTN.
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone - Presidente.
(assinado digitalmente)
Marco Rogério Borges - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:
Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Ailton Neves da Silva (suplente convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Paulo Mateus Ciccone.
Nome do relator: MARCO ROGERIO BORGES
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011 DECADÊNCIA.CONTAGEM DO PRAZO.IRPJ.LUCRO REAL TRIMESTRAL. O prazo para constituir o crédito tributário referente ao IRPJ extinguese em 5 anos, contados da ocorrência do fato gerador, que no caso do lucro real trimestral é ao final de cada trimestre. Com a ciência da autuação em 12/09/2016, alcançou dentro dos 5 anos os fatos ocorridos em 06/07/2011. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA Não se vislumbrando excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos, nos termos do art. 135,III, não cabe a imputação da responsabilidade solidária. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011 GANHO DE CAPITAL. DIFERIMENTO. A possibilidade de diferimento da tributação do ganho de capital na proporção da parcela do preço recebida somente se aplica aos contribuintes sujeitos à tributação com base no lucro real, e no caso de recebimento após o término do anocalendário seguinte ao da contratação. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. GANHO DE CAPITAL. DESLOCAMENTO DO GANHO PARA OS SÓCIOS DA PESSOA JURÍDICA. IMPOSSIBILIDADE. Não é dado à pessoa jurídica que aliena participação societária fazer deslocar o respectivo ganho de capital auferido no negócio para as pessoas físicas que figuram como sócios da pessoa jurídica. FRAUDE. MULTA QUALIFICADA. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 72 43 02 /2 01 6- 18 Fl. 1155DF CARF MF 2 O resgate de ações com posterior pagamento em ações de outra empresa, já negociadas para venda, de forma a deslocar o ganho de capital para as pessoas físicas que figuram como sócios evidencia a conduta dolosa com objetivo de evitar o pagamento do tributo devido. Por estar caracterizada a fraude, é cabível a aplicação da multa qualificada. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011 COMPENSAÇÃO. DESCONSIDERAÇÃO DOS ATOS JURÍDICOS. SUJEITO PASSIVO DA OPERAÇÃO. Ocorrida a desconsideração dos atos jurídicos, cabe o aproveitamento e respectiva compensação do que foi pago na pretensão original dos envolvidos na operação autuada. No caso, o Imposto de Renda sobre o ganho de capital recolhido nas pessoas físicas deve ser compensado com o apurado no auto de infração na pessoa jurídica. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011 CSLL. LANÇAMENTO DECORRENTE. Em razão da vinculação entre o lançamento principal (IRPJ) e os que lhe são decorrentes, devem as conclusões relativas àquele prevalecer na apreciação destes. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, i) por voto de qualidade, negar provimento ao recurso voluntário quanto à infração apontada pelo Fisco e quanto à multa qualificada, divergindo os Conselheiros Caio Cesar Nader Quintella, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca e Demetrius Nichelle Macei, que davam provimento ao voluntário acerca destes dois itens; ii) por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário para determinar à unidade de origem que promova a compensação do Imposto de Renda sobre o ganho de capital recolhido pelas pessoas físicas, devendo ser compensado com o apurado no Auto de Infração, no montante de R$ 16.692.869,72 (comprovantes de arrecadação de fls. 763 a 765). O conselheiro Demetrius Nichele Macei fará declaração de voto em relação à multa qualificada e sua correlação com o artigo 112, do CTN. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Presidente. (assinado digitalmente) Marco Rogério Borges Relator. Fl. 1156DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.156 3 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Ailton Neves da Silva (suplente convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Paulo Mateus Ciccone. Fl. 1157DF CARF MF 4 Relatório Trata o presente de Recurso Voluntário interposto em face de decisão proferida pela 12a Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro (RJ) que julgou IMPROCEDENTE, em parte, a impugnação da agora recorrente. Da autuação: O presente processo versa sobre autos de infração de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica IRPJ e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL, referente a fatos geradores ocorridos no anocalendário de 2011. Envolve o montante autuado de R$ 109.819.419,68, corrigidos até setembro/2016, assim discriminado: Tributo Principal Juros Multa (75%) Total IRPJ 26.396.391,07 13.377.690,99 39.594.586,60 79.368.668,66 CSLL 10.127.295,14 5.132.513,17 15.190.942,71 30.450.751,02 Total 36.523.686,21 18.510.204,16 54.785.529,31 109.819.419,68 Em R$ 1,00 (juros corrigidos até dezembro/2016) A fundamentação da autuação envolve a operação de venda de ações da pessoa jurídica TCP Terminal de Contêineres de Paranaguá S/A CNPJ 03.020.098/000137, em que a recorrente figurou como interveniente garantidora, juntamente com a TUC Participações Portuárias S/A. Nesta operação, que gerou ganho de capital para a recorrente, houve uma reorganização societária e transferência das ações para os sócios, objetivando apurar o ganho na pessoa física dos seus sócios, e não na pessoa jurídica, em virtude das diferenças das alíquotas da tributação aplicável. Conforme descrição transcrita abaixo, as quais reproduzo da decisão a quo, para fundamentar a autuação que consta no termo de verificação e constatação fiscal: O Relatório Fiscal (fls. 573/626) apurou que: O Procedimento Fiscal fez uso de informações obtidas do Procedimento Fiscal nº 0900100.2016.000038, instaurado em face de TCP TERMINAL DE CONTÊINERES DE PARANAGUÁ S/A CNPJ 12.919.786/000124. Conforme informações disponibilizadas em atendimento ao TERMO DE INTIMAÇÃO FISCAL Nº 01, no dia 21/12/2010, foi assinado o CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE AÇÕES E OUTRAS AVENÇAS, onde a FISCALIZADA figurou como interveniente garantidora, juntamente com a TUC PARTICIPAÇÕES PORTUÁRIAS S/A. Neste CONTRATO, figuraram como VENDEDORES: · JOSÉ MARIA RIBAS MULLER (CPF 033.210.29987); Fl. 1158DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.157 5 · JOÃO ACHILLES GRENIER GLUCK (CPF 164.295.91972); · SALOMÃO SOIFER (CPF 000.476.51920); · PATTAC EMPRENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES S/A; · GRUP MARTIN TCB SL; e · GALIGRAIN S/A; As pessoas de JOSÉ MARIA e JOÃO AQUILLES foram designadas no CONTRATO como “Vendedores TUC”. As empresas TCB e GALIGRAIN são sediadas na Espanha. No outro polo, como COMPRADORAS da participação societária, constavam as seguintes empresas: ü TERMINAL PORTUÁRIO MOVIMENTAÇÃO E ARMAZENAGEM PARTICIPAÇÕES S/A CNPJ 12.919.786/000124: também referida neste Relatório apenas como TCP 12 (em referência ao início de seu CNPJ, de forma a diferenciálo do TCP 03); ü PARANAGUÁ MOVIMENTAÇÃO DE CONTÊINERES PARTICIPAÇÕES S/A; ü PORTOS E SERVIÇOS LOGÍSTICOS ADJACENTES PARTICIPAÇÕES S/A. Estas 03 empresas eram controladas indiretamente pela ADVENT INTERNATIONAL, fundo de investimento sediado nos EUA. Assim, vemos que para a aquisição de parte das ações do TCP 03, a ADVENT criou estas 03 empresas, o TCP 12, a PARANAGUÁ PARTICIPAÇÕES e a PORTOS E SERVIÇOS PARTICIPAÇÕES. Registrese que, até 29/07/2010, ou seja, cerca de 5 meses antes da assinatura do CONTRATO, a pessoa de SALOMÃO SOIFER não era acionista direto do TCP 03. Até então, a SOIFER detinha 32,5% das ações do TCP 03. Conforme INSTRUMENTO PARTICULAR DE DAÇÃO EM PAGAMENTO, a SOIFER acordou com o acionista SALOMÃO, que do total de dividendos a receber, no valor de R$ 10.262.931,51, quitaria R$ 8.814.274,20 mediante a entrega de 689.940 ações do TCP 03. Ou seja, somente após esta data é que SALOMÃO passou a ser acionista direto do TCP 03, o que viabilizou sua participação formal no CONTRATO (21/12/2010), quando 50% das ações do TCP 03 foram alienadas à ADVENT. Por fim, relativamente a este CONTRATO, cabe destacar que o mesmo previu condições suspensivas para sua implementação. Ou seja, apesar de assinado em 21/12/2010, o CONTRATO somente seria eficaz após o cumprimento das condições, o que se efetivou em 06/07/2011, quando inclusive o pagamento do preço foi realizado pelos COMPRADORES. Citam decisões no sentido de que, existindo condição suspensiva, o fato gerador ocorre somente na data em que as transações estiverem definitivamente constituídas. Fl. 1159DF CARF MF 6 Além disso, o TERMO DE FECHAMENTO E OUTRAS AVENÇAS define 06/07/2011 como a Data de Fechamento referida no CONTRATO, representando o marco temporal do implemento das condições suspensivas ali estipuladas. Somente nesta data é que o CONTRATO se tornou eficaz. A intenção do planejamento foi não apurar ganho na pessoa jurídica e sim na pessoa física, em virtude da diferença das alíquotas para a tributação. SOCIOS QUOTAS VALOR R$ % Simone Soifer 53.331.200 53.331.200,00 33,332 David Soifer 53.331.200 53.331.200,00 33,332 Suzanne Soifer 53.331.200 53.331.200,00 33,332 Salomão Soifer 6.400 6.400,00 0,004 Total 160.000.000 160.000.000,00 100,000 Apesar da diminuta participação, SALOMÃO detinha o usufruto de 93.393.600 quotas dos outros três sócios (34.131.200 de cada), conforme cláusula 6ª do Contrato Social. Um dia antes desta 17ª Alteração, ou seja, no dia 29/07/2010, a SOIFER, como já relatado acima, formalizou com o sócio SALOMÃO uma DAÇÃO EM PAGAMENTO, na qual entregou 689.940 ações do TCP 03 como forma de quitação dos dividendos a receber de SALOMÃO. Do total devido, R$ 10.262.931,51, a SOIFER quitou R$ 8.814.274,20 com estas ações do TCP 03, passando SALOMÃO, desde então, a ser acionista direto do TCP 03. Cumpre lembrar que tudo isto ocorreu 05 meses antes da assinatura do CONTRATO (21/12/2010), quando 50% das ações do TCP 03 foram alienadas à ADVENT. É desnecessário demonstrar que uma negociação do porte como a analisada neste Relatório, acerca da alienação de participação societária envolvendo a cifra de R$ 670.000.000,00, requer um prazo razoável para as tratativas, de forma a fechar todas as condições e especificidades envolvidas. Assim, certo é que a negociação em tela teve início, no mínimo, alguns meses antes do dia 21/12/2010, denotando claramente que foi a pessoa jurídica da FISCALIZADA a efetiva negociadora das ações do TCP 03, objetos da alienação. A participação da pessoa de SALOMÃO nestas tratativas deuse como representantes da SOIFER, e não como alienante direto das ações do TCP 03. Intimados a apresentar contrato preliminar, précontrato, correios eletrônicos, entre outros documentos eventualmente lavrados antes da assinatura do contrato, os vendedores responderam que não possuíam tal documentação e o representante do comprador ADVENT informou que o início das tratativas ocorreu em 09/07/2010, tendo encaminhado, inclusive, a cópia da proposta então formalizada. Acrescenta que a proposta anterior de 10/12/2009 resultou infrutífera. Para o caso em tela, de se destacar que a data indicada pela ADVENT como de início das negociações, 09/07/2010, é anterior à data da assinatura da DAÇÃO EM PAGAMENTO entre a SOIFER e SALOMÃO. O que motivo esta dação em pagamento? Claro está que foi a possibilidade, indevida, de pagar menos tributo, passando este encargo para a pessoa física, com regras menos onerosas. Notícias de 11/2010 informaram sobre a possível mudança societária. Fl. 1160DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.158 7 O subitem 4.2.23 do contrato aborda a condução dos negócios pelo TCP 03, desde 01/07/2010. O que denota a existência, já nesta época, das tratativas para a consecução do acordo. Assim, da mesma forma que a TUC, que também transferiu as ações a serem alienadas para seus sócios JOSÉ MARIA e JOÃO ACHILLES, através da Dação em Pagamento, a SOIFER transferiu a SALOMÃO a eventual responsabilidade de apurar ganho de capital. Mas o que podemos extrair disso para o caso em tela é o fato de que, desde julho de 2010, a negociação com a ADVENT já se desenvolvia, e com alguns aspectos, como a quantidade de ações a negociar já estipulada. E isto se torna relevante no presente caso, uma vez que seria muita coincidência a entrega das ações do TCP 03 aos sócios JOSÉ MARIA e JOÃO ACHILLES, e a imediata alienação, no mesmo dia 21/12/2010, desta mesma quantidade de ações, e da mesma forma, a entrega das ações a SALOMÃO por parte da FISCALIZADA. Vejase que o Grupo ADVENT adquiriu 50% das ações da COMPANHIA, e este percentual exato também não é mera coincidência. Havia um interesse da adquirente em ser o sócio majoritário do TCP 03, e isto somente se confirmaria com a aquisição deste volume de ações. Será que estas ações, as quais foram transferidas pela TUC também no dia 21/12/2010, coincidentemente completaram o percentual de 50%? Claro que não! O volume das ações a serem alienadas e o percentual de cada um dos alienantes já estavam acordados desde julho de 2010. Foi assinado contrato com o Santander, em 31/05/2010, com o objetivo de assessorar na condução das negociações finais com os Potenciais Investidores, dentre outros. O contrato foi assinado pelos controladores do TCP 03 à época, ou seja, TUCUMANN, a SOIFER, a PATTAC, a GALIGRAINS e o TCB. Desde 31/05/2010, os controladores tinham a intenção de alienar o investimento no TCP 03, e dentre estes controladores figuravam apenas as pessoas jurídicas, e não seus sócios. A ADVENT não adquiriu diretamente as ações do TCP 03, tendo se utilizado para tanto, de 03 empresas, quais sejam, o TCP 12, a PORTOS E SERVIÇOS PARTICIPAÇÕES e a PARANAGUÁ MOVIMENTAÇÃO que tinham como controladoras outras 03 e acima delas 03 fundos de investimentos. Estas 06 empresas e mais os 03 fundos tiveram seus atos formalizados antes de 21/12/2010, conforme abaixo: · TCP 12 17/11/2010 · PORTOS E SERVIÇOS PARTICIPAÇÕES 17/11/2010 · PARANAGUÁ PARTICIPAÇÕES 17/11/2010 · REEFERS PARTICIPAÇÕES 17/11/2010 · INFRAESTRUTURA PARTICIPAÇÕES 17/11/2010 · PARANÁ PARTICIPAÇÕES 10/11/2010 · FIP 1 19/08/2010 · FIP 2 26/10/2010 · FIP 3 26/10/2010 Fl. 1161DF CARF MF 8 O que procuramos demonstrar acima é que toda a negociação para a alienação das ações do TCP 03, detidas formalmente pela SOIFER até 29/07/2010, foi desenvolvida por SALOMÃO enquanto administrador da SOIFER, ensejando que a verdadeira alienante das ações foi a SOIFER e não seu acionista. E mais, à época da transferência das ações do TCP 03 para o acionista da FISCALIZADA, as condições da operação de aquisição já estavam perfeitamente alinhavadas. SALOMÃO entrou no negócio apenas para a consecução do objetivo maior, pagar menos tributo. Destaquese que a Clausula 7.4.1 estipula percentuais de indenização em percentuais iguais aquele detido pela SOIFER antes da Dação em Pagamento. Outra cláusula que merece destaque é a 2.3, que aborda questão relativa ao ajuste positivo no preço de aquisição, no caso de ser obtida a extensão do prazo de vigência do Contrato de Arrendamento com o Porto de Paranaguá. Os percentuais de ajuste são os seguintes: SALOMÃO 32,5% JOSE MARIA 14,525% JOÃO ACHILES 2,975% PATTAC 17,50% TCB 21,127 % GALIGRAIN 11,373% Observese que os percentuais representam o quantitativo de ações da TUC e da SOIFER antes da entrega de parte das ações a serem alienadas a seus sócios. Nas clausulas 4.1 e 4.2 do contrato, a SOIFER e a TUC constam como garantidoras em solidariedade com Salomão, Jose Maria e João Achiles. A clausula 6.2.1 assim dispõe: “A Soifer comparece nesse ato como garantidora e principal pagadora de todas as obrigações assumidas por Salomão neste contrato...” Para fins de apuração dos tributos devidos, cumpre inicialmente lembrarmos, conforme já explicitado neste Relatório, que o fato gerador do ganho de capital em questão se deu em 06/07/2011, com o implemento das condições suspensivas do CONTRATO. De outro lado, vimos também que o pagamento do preço foi realizado em 02 etapas, uma no próprio dia 06/07/2011, com valores atinentes às Parcelas à Vista e Adicional, e a segunda etapa em 28/10/2011, relativa ao complemento da Parcela Adicional. O fato gerador do ganho de capital se deu em 06/07/2011, com o implemento das condições suspensivas co contrato. O preço foi realizado em duas etapas, uma no próprio dia 06/07/2011, com valores atinentes às Parcelas à Vista e Adicional, e a segunda etapa em 28/10/2011, relativa ao complemento da Parcela Adicional. A possibilidade de diferimento da tributação somente se aplica quando o pagamento ocorre após o término do anocalendário seguinte ao da contratação, o que não é o caso dos autos. Eventual custo de aquisição apurado pelo sócio SALOMÃO nesta operação deve ser descartado, uma vez que ela inexistiu de fato, tendo servido unicamente para transferir, indevidamente, as ações a serem alienadas para as regras da pessoa física. Fl. 1162DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.159 9 Questão relevante para a apuração reside na necessidade ou não de se efetivar a compensação de ofício de eventual imposto de renda da pessoa física (IRPF) recolhido pelo sócio SALOMÃO. Neste aspecto cumpre registrar que, apesar plausibilidade de tal compensação, de se observar que não há previsão legal para tanto. Explicitando melhor, o ordenamento jurídico não contempla previsão de compensação de ofício por parte desta Fiscalização, entre tributos e contribuintes diferentes. Além disso, eventual compensação com o IRPF pago pelo sócio deveria estar respaldada por expressa autorização por parte do mesmo. Desta forma, considerando a atividade plenamente vinculada a que está submetida esta Fiscalização, não será realizada, no presente lançamento, a compensação em tela, ressalvandose o direito da CONTRIBUINTE, com a devida autorização do sócio, de solicitar esta compensação em desejando quitar o crédito tributário. O contribuinte, ao simular a alienação de participações societária como se tivesse sido realizada por seu sócio, no intuito de fugir da tributação mais onerosa do IRPJ, praticou, de forma inequívoca, uma ação dolosa, ou seja, intencional e consciente, a qual retardou o conhecimento dos fatos por parte do Fisco, além das reais circunstâncias materiais do fato gerador. Ademais, houve a modificação de característica essencial do fato gerador, uma vez que os montantes de IRPJ e CSLL devidos foram reduzidos substancialmente. Considerando que as operações foram conduzidas e avalizadas por alguns de seus dirigentes, foi imputada a responsabilidade tributária solidária relativamente aos valores do art. 135, inciso III, do CTN. A eleição dos responsáveis solidários foi baseada nas atribuições exercidas na empresa quando da ocorrência dos fatos geradores do IRPJ e da CSLL aqui lançados de ofício, o que ensejou a responsabilização do administrador DAVID SOIFER e do sócio SALOMÃO SOIFER. O primeiro porque era o responsável pela FISCALIZADA à época do fato gerador do IRPJ e da CSLL, e o segundo porque participou efetivamente na operação que mascarou o real alienante das ações do TCP 03. É sedimentado o entendimento de que a Fiscalização deve incluir no lançamento de ofício todos os responsáveis, nos termos do art. 135 do CTN, de que tiver condições de comprovar o vínculo, pois o Parecer PGFN CRJ/CAT nº 55/200926 não refuta esse entendimento, tendo em vista que corresponde a uma orientação adotada pela PGFN no sentido da tese utilizada nos Tribunais. Quanto à natureza dessa responsabilidade, nos termos do Parecer acima citado e da jurisprudência do STJ, não há dúvida tratarse de responsabilidade solidária. No que diz respeito ao elemento subjetivo, o item 59 do Parecer afirma que a jurisprudência maciça do STJ caminha no sentido de que é o dolo gênero, e não dolo espécie. Logo, envolve dolo ou culpa. Os precedentes que ensejaram a Súmula 435 do STJ afirmam que compete ao sóciogerente demonstrar que não agiu com dolo, culpa, fraude ou excesso de poderes. Em razão desses argumentos, a Fiscalização pode enquadrar os sujeitos passivos nas hipóteses tratadas pelo artigo ainda que não consiga demonstrar o dolo. Quanto ao fato gerador, este pode ser anterior à infração à lei. A Súmula 435 corrobora este entendimento. Observase assim que, se há multa qualificada, há responsabilidade pelo art. 135 do CTN, trazendo à responsabilidade os sócios do tempo do fato gerador. Passamos então à qualificação de cada um dos administradores sobre os quais deve recair a responsabilidade solidária, com a descrição dos respectivos cargos Fl. 1163DF CARF MF 10 ocupados e das suas participações nas operações e/ou na indevida dedução de despesas: a) DAVID SOIFER CPF 317.844.29953: i) Administrador da SOIFER quando da ocorrência do Fato Gerador do IRPJ e da CSLL objeto do presente lançamento de ofício (30/09/2011 3º trimestre); ii) Signatário e/ou Participante dos seguintes atos (como Administrador da SOIFER): ü CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE AÇÕES E OUTRAS AVENÇAS, instrumento que formalizou a alienação das ações do TCP 03 ao Grupo ADVENT; ü Instrumento de Dação em Pagamento de 29/07/2010, onde foi formalizada transferência ao sócio SALOMÃO das ações do TCP 03; b) SALOMÃO SOIFER CPF 000.476.51920: i) Administrador da SOIFER até 30/07/2010, quando já havia contrato preliminar celebrado com a ADVENT para a consecução da venda de 50% das ações do TCP 03; ii) Signatário e/ou Participante dos seguintes atos (como DiretorPresidente da TUC): ü CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE AÇÕES E OUTRAS AVENÇAS, instrumento que formalizou a alienação das ações do TCP 03 ao Grupo ADVENT; ü Instrumento de Dação em Pagamento de 29/07/2010, onde foi formalizada transferência ao sócio SALOMÃO das ações do TCP 03; ü Contrato com o Banco Santander (Anexo 4.1.7 ao CONTRATO), como representante da SOIFER; Da Impugnação: Por bem descrever os termos da peça impugnatória, transcrevo o relatório pertinente na decisão a quo: O contribuinte foi cientificado em 12/09/2016 (fl. 657) e apresentou impugnação em 11/10/2016 (fls. 666/729) alegando em síntese: 1. Da Nulidade Material: Dos Inúmeros vícios materiais que maculam o auto de infração 1.1 A fundamentação do auto de infração se baseia em condutas de outros contribuintes A autoridade fiscal fundamenta a desconsideração dos negócios jurídicos em condutas praticadas por outras empresas, especialmente a TUC. Fica evidente que a motivação é nula pois totalmente dissociada da SOIFER e seus sócios. Fl. 1164DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.160 11 1.2. Da inexistência de previsão legal que permita à autoridade fiscal a desconsideração de negócios jurídicos. A desconsideração de um negócio jurídico (no caso concreto a DAÇÃO EM PAGAMENTO) somente pode ser adotado pela fiscalização mediante expressa autorização legal. A falta de indicação do embasamento legal que autoriza a fiscalização a desconsiderar a validade de um negocio jurídico macula de nulidade material o auto de infração. 1.3 Erro grosseiro na apuração do tributo: o auto desconsidera o regime trimestral de apuração do IRPJ e do CSLL A fiscalização tributa no 3º trimestre a parte relativa aos valores recebidos no 4º trimestre, o que viola a sistemática de apuração trimestral e torna nula a autuação. 1.4 Erro grosseiro na apuração do tributo: a base de cálculo utilizada para a CSLL não foi o ganho de capital, mas sim o preço total recebido pela venda. O vício material revela que o fiscal elegeu a base de cálculo errada para cálculo da CSLL, erro grosseiro que torna nulo o auto de infração lavrado. 1.5 Nulidade: Os sócios considerados devedores solidários não foram intimados para a fase de fiscalização, nem para apresentar esclarecimentos A autoridade fiscal em momento algum os intimou para que participassem do procedimento de fiscalização, ou apresentassem esclarecimentos. O fiscal deixou de intimar para defesa prévia o real alienante das ações (que praticou o fato gerador do IR) 2. Da Decadência 2.1. Marco inicial: Transferência das açõesDação em pagamento (29/07/2010) Se a autoridade tributária entende que houve infração tributária, essa infração ocorreu no momento da dação em pagamento: ou teria ocorrido subavaliação das ações na dação em pagamento ou teria ocorrido distribuição disfarçada de lucros, e em ambos os casos, a suposta irregularidade teria se configurado na data da dação em pagamento, em 29/07/2010 Se a autoridade tributária considera que foi inválida a dação em pagamento ocorrida em 29/07/2010, logo, é a partir deste fato que teve início a pretensão fiscal de invalidação do negócio jurídico. E, portanto, a decadência se configura independentemente da norma de contagem que se adote. 2.2. Marco inicial: formalização do contrato de venda das ações (21/12/2010) Se é esse o contrato cujos efeitos fiscais a autoridade fiscal pretende aplicar na pessoa jurídica, desconsiderando os seus reais efeitos sobre a pessoa física, só poderia ser ( não fosse o próprio ato da dação em pagamento das ações) a partir daí o início do prazo decadencial para tentar desconstituir os seus efeitos fiscais. Neste caso, a decadência se configura independentemente da norma de contagem que se adote. 2.3. Recebimento do preço pela alienação das ações (06/07/2011) Fl. 1165DF CARF MF 12 Se o fato gerador ocorreu em 06/07/2011, este deve ser o termo inicial do prazo decadencial de cinco anos para a constituição do crédito tributário, de acordo com o art. 150, §4º do CTN. Não se aplica o art. 173, I porque houve antecipação do pagamento pelo Sr. Salomão. Da mesma forma, houve recolhimento antecipado do IRPJ e CSLL por parte da SOIFER. Portanto, estão decaídos os créditos relativos ao fato gerador ocorrido em 06/07/2011. 3. Do mérito: Da improcedência do auto de infração – Da validade dos negócios praticados pela Soifer e seus sócio. 3.1 Da dação em pagamento envolvendo as ações do TCP O Sr. Salomão possuía um crédito perante a empresa de dividendos a receber no valor de R$ 10.262.931,51. A existência dessa dívida não é contestada pela autoridade fiscal. Uma parte foi paga por meio de dação em pagamento em 07/2010 e outra parte em espécie. Os demais acionistas foram notificados para exercer o direito de preferência na compra das ações, conforme clausula 1ª do acordo de acionistas do TCP. Todos manifestaram renúncia ao direito de preferência. As demais acionistas do TCP (PATTAC, TUCUMANN, TCB e GALIGRAIN) não são empresas controladas ou coligadas da SOIFER, e nem pertencem ao mesmo grupo empresarial, se a negociação das ações do TCP ao Sr. Salomão tivesse condições privilegiadas, certamente as demais acionistas exerceriam o direito de compra. Isso só comprova a efetividade e regularidade do negócio. A justificativa econômica para que a operação assim acontecesse foi o objetivo de provocar o menor ônus possível a SOIFER, evitando uma excessiva descapitalização da empresa. O Sr. Salomão participava ativamente da gestão do TCP, não sendo mero possuidor de ações da companhia. 3.2 – Do interesse na venda de participações societárias do TCP contrato de assessoria financeira celebrado com o Banco Santander. Em maio de 2010, as empresas sócias do TCP contrataram o Banco Santander para prospectar potenciais e eventuais investidores em adquirir participações do TCP. O escopo do trabalho do Santander deixa claro que a venda de participações do TCP não estava nem perto de ser confirmada. Havia apenas uma intenção de venda de parte das ações da companhia. A remuneração de sucesso estabelecida foi de 1,272 milhão de Euros, mais um percentual de no mínimo 1,10 % do valor de transação. No contrato se reconhece que há negociações em andamento com alguns investidores, o que demonstra indefinição da operação, já que a venda não foi fechada com nenhum dos interessados. 3.3 Da venda das ações do TCP aos investidores apresentados pela ADVENT DO BRASIL Fl. 1166DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.161 13 Em 09/07/2010, isto é, 40 dias após assinado o Contrato de Assessoria Financeira, o grupo Advent do Brasil encaminhou ao Banco Santander uma “proposta indicativa (não vinculativa) para aquisição de ações do TCP. No momento da dação em pagamento (julho de 2010) a negociação estava apenas no início, o negócio não estava nem próximo de um fechamento. Se é verdade que uma negociação deste porte “requer um prazo razoável para as tratativas”, cai por terra a tese fiscal de que, no intervalo de 20 dias, a venda das ações do TCP para os investidores apresentados pela Advent já estivesse praticamente confirmada. Tanto isso é verdade que, após o envio da proposta indicativa pela Advent, foi necessária longa negociação que se estendeu por seis meses. O contrato de compra e venda das ações só foi firmado em 21/12/2010, e ainda com condições muito diferentes daquelas apresentadas na Proposta Indicativa da Advent em 09/07/2010. Mesmo no momento de formalização do contrato, não se tinha certeza absoluta de venda das ações, pois estava vinculada a “Condições suspensivas”. As condições suspensivas foram atingidas em 06/07/2011, quase um ano após a dação em pagamento. O Sr. Salomão adquiriu as referidas ações do TCP em 29/07/2010, mas só as alienou definitivamente em 06/07/2011, ou seja, o Sr. Salomão foi acionista do TCP por praticamente doze meses. 3.4 Do recolhimento do Imposto de Renda incidente sobre o ganho de capital pelo Sr. Salomão. Da informação do negócio na DIRPF. O Sr. Salomão recolheu o Imposto de Renda incidente sobre o ganho de capital na alienação de suas ações do TCP e informou a operação na Declaração. 3.5 O valor recebido pelo Sr. Salomão, não retornou a SOIFER. O montante recebido na alienação das ações do TCP permaneceu na propriedade do Sr. Salomão, que não praticou qualquer ato de reinvestimento desses valores na SOIFER, o que confirma de modo cabal que o real alienante das ações do TCP foi o Sr. Salomão. Se as ações pertencessem verdadeiramente à SOIFER o mínimo que se deveria provar é que os recursos obtidos com essa venda retornaram aos cofres da SOIFER. 4. Da distorção dos fatos pela autoridade fiscal A TUC é empresa autônoma, sem qualquer relação com a SOIFER, senão o fato que ambas possuem participações acionárias no TCP. A autoridade fiscal não apresenta uma única prova de que a SOIFER e a TUC teriam planejado conjuntamente uma operação de venda das participações do TCP por meio das pessoas físicas de seus sócios visando a economia de tributos. Embora a Advent tenha apresentado uma proposta em 12/2009, ela foi rejeitada pelos acionistas. Depois disso, o Santander foi contatado para prospectar outros investidores. As notícias de imprensa só confirmam o que já está nos documentos. Fl. 1167DF CARF MF 14 A criação das empresas pela Advent somente contradiz as premissas da autoridade fiscal, já que no momento da dação em pagamento (julho), não haveria qualquer possibilidade de venda das ações, já que as empresas adquirentes só foram constituídas em momento posterior ( a partir de agosto). A exigência de uma garantia por uma pessoa jurídica tratase de uma exigência razoável, tendo em vista que a operação tem um valor de R$ 670 milhões. Mesmo assim, Sr. Salomão assumiu risco relevante na operação, obrigandose a arcar eventual indenização aos compradores no valor de R$ 65 milhões. O negócio não foi efêmero, como normalmente ocorre nos planejamentos abusivos ou operações artificiais referidos pela autoridade fiscal. Cita acórdão do CARF Nº 1402002.150. Não há norma que autorize a fiscalização a desconsiderar atos praticados pelos particulares, nem há norma que condicione a validade dos negócios jurídicos à existência de propósito negocial. Cita decisões judiciais e administrativas. Da multa qualificada A Soifer e o Sr. Salomão não praticaram as condutas de sonegação, fraude ou conluio, devendo ser afastada a aplicação da multa agravada no caso concreto. Não houve falseamento de documentos ou declarações e todos os atos praticados foram públicos, lícitos e efetivos, além disso, a impugnante forneceu à autoridade fiscal todos os documentos exigidos. Da apuração Apresenta autorização do sócio para compensação do valor recolhido pela pessoa física com o valor apurado pela pessoa jurídica, caso a decisão administrativa final confirme a exigência do IRPJ e da CSLL pela empresa. A base de cálculo utilizada para a CSLL não foi o ganho de capital, mas sim o preço total recebido pela venda. O valor do custo de aquisição a ser utilizado deveria ser o preço pago na aquisição pelo Sr. Salomão que foi de R$ 8.814.274,20. Deve ser excluída a parcela recebida em 31/10/2011 porque integram o 4º trimestre e não o terceiro. Acrescenta que deve ser afastada a exigência dos juros de mora incidentes sobre as multas. Os responsáveis solidários foram cientificados em 12/09/2016 (fls. 658/659) e apresentaram impugnação conjunta (fls. 895/913) em 11/10/2016 alegando, em síntese: A fim de evitar uma desnecessária repetição, desde já requerse que todos os fundamentos e pedidos deduzidos pela SOIFER em sua impugnação sejam considerados também em favor dos ora impugnantes (pessoas físicas), para todos os efeitos, exatamente como se fossem nesta peça apresentados e requeridos. · Nulidade material do procedimento em virtude da ausência de intimação dos impugnantes para a fase de fiscalização ou para prestar esclarecimentos. · Nulidade material por erro na identificação do sujeito passivo já que o art. 135 do CTN trata de responsabilidade pessoal, assim, tendo sido o Fl. 1168DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.162 15 lançamento realizado em face da SOIFER não caberia a imputação de responsabilidade aos Srs. Salomão e David, o que configura erro na identificação do sujeito passivo, causa de nulidade material do auto de infração, por evidente desrespeito ao artigo 142 do CTN; · A SOIFER apresenta vastos argumentos pela não aplicação da multa qualificada de 150% , se afastada a multa, deve ser afastada a responsabilidade; · Não ocorreram as hipóteses previstas no art. 135 do CTN, já que a dação em pagamento foi uma operação válida, lícita, pública e motivada por propósito econômico; não houve simulação, fraude a lei, excesso de poderes ou qualquer conduta antijurídica. · Não havia um contrato preliminar com a Advent, e sim uma proposta indicativa; · Quando da ocorrência do fato gerador, o Sr. Salomão não era mais diretor, gerente ou representante da SOIFER; · Cita decisão do CARF no sentido de que o art. 135 só encontra aplicação nos casos de infração à lei societária, contrato social ou estatuto cometido pelo administrador for realizado à revelia da sociedade. · O art. 135 somente atinge créditos tributários que sejam resultantes da conduta infracional; · O crédito tributário somente está definitivamente constituído ao final do processo administrativo, portanto o arrolamento deve ficar suspenso. · Como o sujeito passivo é a SOIFER e esta tem patrimônio suficiente, não é necessário o arrolamento das pessoas físicas. · A representação fiscal para fins penais deve ficar suspensa durante a tramitação do processo administrativo; · O Sr. Salomão confirma que autoriza, caso isso seja necessário, a compensação dos valores por ele pagos, e apresenta também uma autorização, anexa a impugnação; Encerra a impugnação, requerendo: 1. a nulidade material do auto de infração, por cerceamento do direito de defesa, ante a ausência de intimação dos impugnantes para que participassem da fiscalização; 2. a nulidade material do ato de infração por erro na identificação do sujeito passivo, em razão da manutenção dos impugnantes na autuação fiscal ao mesmo tempo que a SOIFER; ou ao menos, 3. ilegitimidade passiva dos impugnantes, uma vez que não estão presentes as hipóteses do art. 135 III do CTN; 4. a suspensão do arrolamento e da representação fiscal para fins penais Fl. 1169DF CARF MF 16 5. caso seja mantida a exigência, requer a compensação com o imposto pago pelo Sr. Salvador. Da decisão da DRJ: Ao analisar a impugnação, a DRJ, primeira instância administrativa, houve por bem NEGAR, em parte, a impugnação da recorrente, por unanimidade. A parte exonerada da autuação fiscal envolve o montante (principal + multa) de R$ 1.561.487,85 da CSLL, por erro na sua apuração. O valor autuado foi o de venda, e não o ganho de capital. Com isso, a apuração da CSLL apurada passa de R$ 10.127.295,14 para R$ 9.502.700,79. A ementa da decisão é a seguinte: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011 FATO GERADOR. NEGÓCIO JURÍDICO. CONDIÇÕES SUPENSIVAS. Somente quando a condição suspensiva do negócio jurídico se cumpre o contrato se torna exeqüível. Portanto, considerase ocorrido o fato gerador e existentes os seus efeitos, tratandose de situação jurídica, desde o momento em que esteja definitivamente constituída, nos termos do direito aplicável. DECADÊNCIA. DOLO. FRAUDE OU SIMULAÇÃO. Comprovadas as hipóteses de dolo, fraude ou simulação; contase o prazo decadencial a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. Comprovado que o sócio administrador teve participação direta e incisiva na conduta considerada fraudulenta que resultou em falta de pagamento do tributo, é cabível a imputação de responsabilidade tributária solidária, nos termos do art. 135, III, do CTN. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011 GANHO DE CAPITAL. DIFERIMENTO. A possibilidade de diferimento da tributação do ganho de capital na proporção da parcela do preço recebida somente se aplica aos contribuintes sujeitos à tributação com base no lucro real, e no caso de recebimento após o término do anocalendário seguinte ao da contratação. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. SOCIEDADE DO TIPO HOLDING. ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. GANHO DE CAPITAL. DESLOCAMENTO DO GANHO PARA OS SÓCIOS DA PESSOA JURÍDICA. IMPOSSIBILIDADE. Não é dado à pessoa jurídica que aliena participação societária fazer deslocar o respectivo ganho de capital auferido no negócio para as pessoas físicas que figuram como sócios da pessoa jurídica, mormente porque, in casu, tratase de sociedade do tipo “holding”, cujo precípuo objeto social consiste em fruir Fl. 1170DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.163 17 dos benefícios advindos das participações societárias, neles incluídos os ganhos havidos na sua alienação. FRAUDE. MULTA QUALIFICADA. O pagamento de dividendos por meio de ações de outra empresa, já em negociação para venda, de forma a deslocar o ganho de capital para as pessoas físicas que figuram como sócios evidencia a conduta dolosa com objetivo de evitar o pagamento do tributo devido. Por estar caracterizada a fraude, é cabível a aplicação da multa qualificada. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011 COMPENSAÇÃO. CRÉDITO DE TERCEIROS. VEDAÇÃO LEGAL. Vedada a dedução do imposto de renda recolhido relativo ao ganho de capital da pessoa física com o imposto de renda da pessoa jurídica apurado em procedimento de ofício, por expressa disposição legal que não permite a compensação de créditos de terceiros. JUROS. MULTA DE OFÍCIO. Considerando que entre os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Receita Federal do Brasil, se incluem a multa de lançamento de ofício, esta fica sujeita à incidência de juros moratórios se não for recolhida em seu termo, ou seja, depois de trinta dias da notificação do sujeito passivo do lançamento. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011 PAF. DECISÕES JUDICIAIS E ADMINISTRATIVAS. EFEITOS. Não possuem eficácia normativa as decisões judiciais e administrativas relativas a terceiros, vez que não integrantes da legislação tributária a que se referem os arts. 96 e 100 do CTN. ARROLAMENTO DE BENS. A apreciação do procedimento de arrolamento efetivado pela autoridade lançadora não se insere no âmbito de competência das Delegacias de Julgamento. AÇÃO FISCAL. FASE INVESTIGATÓRIA. Desnecessário intimar o responsável solidário para acompanhar a ação fiscal na fase investigatória por se tratar de fase que antecede a fase contenciosa do procedimento. ERRO. BASE DE CALCULO. Verificado o erro de transcrição na informação do valor da base de cálculo, deve ser efetuada nova apuração, tornando improcedente o valor cobrado indevidamente. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Período de apuração: 01/07/2011 a 30/09/2011 Fl. 1171DF CARF MF 18 CSLL. LANÇAMENTO DECORRENTE. EFEITOS DA DECISÃO RELATIVA AO LANÇAMENTO PRINCIPAL (IRPJ). Em razão da vinculação entre o lançamento principal (IRPJ) e os que lhe são decorrentes, devem as conclusões relativas àquele prevalecer na apreciação destes. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Do voto do relator, que foi acompanhado unanimemente pelo colegiado de primeira instância administrativa, extraise os seguintes excertos e destaques que entendo mais importantes para dar guarida a sua decisão final: das alegações de nulidade, rebateas, dizendo que as condutas foram da recorrente e seus sócios administradores. Alega que inexiste previsão legal para a desconsideração de negócios jurídicos (o contrato de dação em pagamento), mas ocorre que o caso em julgamento é de abuso de direito e de fraude à lei e sua prática, ao configurar um ilícito, contamina o planejamento tributário; quanto a alegação de que foi incluído indevidamente receita do 4º trimestre na autuação do 3º trimestre, não procede, pois a possibilidade de diferimento da tributação do ganho de capital só se aplica à tributação com base no lucro real, conforme art. 421 do RIR/99; houve erro na apuração da CSLL, pois o valor autuado foi o de venda, e não o ganho de capital. Com isso, a apuração da CSLL apurada passa de R$ 10.127.295,14 para R$ 9.502.700,79; alega que os sócios solidários não foram intimados durante o procedimento fiscal, o que é desnecessário do ponto de vista legal, e não houve o cerceamento de defesa, pois houve lavratura e ciência do termo de sujeição passiva, assim como os autos de infração; o momento do fato gerador é do implemento das condições suspensivas do contrato, nos termos do inciso II do art. 116 e art. 117 do CTN, bem como a remissão ao Código Civil, nos seus artigos 121, 122 e 125. Nesta imputação legal, a ocorrência do fato gerador só se deu em 06/07/2011. Destarte, comprovada a caracterização de dolo, fraude e simulação, o prazo decadencial é determinado pelo art. 173, I, do CTN, iniciandose a contagem a partir de 01/01/2012, e encerrase em 31/12/2016, e considerando que a ciência ocorreu em 12/09/2016, não há que se falar em decadência; quanto o mérito, a operação decorreu de abuso de direito. Desde de maio/2010 já havia a intenção de venda das ações da TCP, e a negociação se iniciou em 09/07/2010, sendo a recorrente nesta data a proprietária das ações, ou seja, as negociações se iniciaram pela mesma. Após o início das negociações que as ações foram passadas para o sócio Salomão por meio de dação em pagamento, o que corrobora que não houve propósito negocial; a fraude à lei caracterizouse pela inobservância da norma impositiva que previa a incidência de IRPJ (alíquota de 15% e adicional de 10%) e CSLL (alíquota de 9%) na venda de bem do ativo permanente por pessoa jurídica (norma contornada), tendo os impugnantes montado uma seqüência de operações de modo a enquadrar a operação como venda de bem por pessoa física (norma de contorno); Fl. 1172DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.164 19 quanto a alegação de inaplicabilidade da multa qualificada, não procede, pois houve toda uma comprovação nos autos que a recorrente, mediante a concatenação de atos e eventos societários, deslocou indevidamente o ganho de capital auferido para a pessoa física sócia da pessoa jurídica, o que caracteriza a sonegação e fraude nos termos do art. 71 e 72 da Lei nº 4.502/1964; os valores pagos pelos sócios de IRPFGanho de Capital, não foram compensados na autuação, por conta da vedação em efetuar a compensação de débitos de terceiros, conforme legislação aplicável; da alegação da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício, por falta de previsão legal, não procede, pois se esta decorre de um tributo, caracterizado um crédito tributário, e devendo ser corrigido, nos termos dos art. 43 e 61 da Lei nº 9.430/1996; quanto ao impugnado pela exclusão dos responsáveis solidários, não procede, já que são sócios que atuarem efetivamente e ativamente nas situações ocorridas e aos atos praticados durante sua gestão ou administração. Do Recurso Voluntário: Tomando ciência da decisão a quo em 21/03/2017, a recorrente apresentou recurso voluntário em 17/04/2017, repisando praticamente os mesmos elementos e argumentos da sua peça impugnatória, quais sejam, em apertada síntese: nulidade : as condutas baseadas para autuação fiscal foram praticadas por outras empresas; inexistência de previsão legal que permita à autoridade fiscal a desconsideração de negócios jurídicos; desconsideração do regime trimestral de apuração do IRPJ e da CSLL (lucro real trimestral); a base de cálculo utilizada para a CSLL não foi o ganho de capital, mas sim o preço total recebido pela venda, o que o acórdão reconheceu e deveria ter sido declarado nulo; os sócios considerados devedores solidários não foram intimados para a fase de fiscalização, nem para apresentar esclarecimentos; há decadência do crédito tributário, independente do momento que se defina o marco inicial. Os momentos são os seguintes: 1. Transferência das ações Dação em pagamento (29/07/2010); 2. Formalização do contrato de venda das ações (21/12/2010); 3. Recebimento do preço pela alienação das ações (06/07/2011): se o fato gerador ocorreu em 06/07/2011, este deve ser o termo inicial do prazo decadencial de cinco anos para a constituição do crédito tributário, de acordo com o art. 150, §4º do CTN. Não se aplica o art. 173, I porque houve antecipação do pagamento pelo Sr. Salomão. Da mesma forma, houve recolhimento antecipado do IRPJ e CSLL por parte da SOIFER. Portanto, estão decaídos os créditos relativos ao fato gerador ocorrido em 06/07/2011; Fl. 1173DF CARF MF 20 3. Do mérito: Da improcedência do auto de infração – Da validade dos negócios praticados pela Soifer e seus sócio: . Da dação em pagamento envolvendo as ações do TCP o Sr. Salomão possuía um crédito perante a empresa de dividendos a receber no valor de R$ 10.262.931,51. A existência dessa dívida não é contestada pela autoridade fiscal. Uma parte foi paga por meio de dação em pagamento em 07/2010 e outra parte em espécie. Os demais acionistas foram notificados para exercer o direito de preferência na compra das ações, conforme clausula 1ª do acordo de acionistas do TCP. Todos manifestaram renúncia ao direito de preferência. As demais acionistas do TCP (PATTAC, TUCUMANN, TCB e GALIGRAIN) não são empresas controladas ou coligadas da SOIFER, e nem pertencem ao mesmo grupo empresarial, se a negociação das ações do TCP ao Sr. Salomão tivesse condições privilegiadas, certamente as demais acionistas exerceriam o direito de compra. Isso só comprova a efetividade e regularidade do negócio. A justificativa econômica para que a operação assim acontecesse foi o objetivo de provocar o menor ônus possível a SOIFER, evitando uma excessiva descapitalização da empresa. O Sr. Salomão participava ativamente da gestão do TCP, não sendo mero possuidor de ações da companhia. . Do interesse na venda de participações societárias do TCP contrato de assessoria financeira celebrado com o Banco Santander. Em maio de 2010, as empresas sócias do TCP contrataram o Banco Santander para prospectar potenciais e eventuais investidores em adquirir participações do TCP. O escopo do trabalho do Santander deixa claro que a venda de participações do TCP não estava nem perto de ser confirmada. Havia apenas uma intenção de venda de parte das ações da companhia. A remuneração de sucesso estabelecida foi de 1,272 milhão de Euros, mais um percentual de no mínimo 1,10 % do valor de transação. No contrato se reconhece que há negociações em andamento com alguns investidores, o que demonstra indefinição da operação, já que a venda não foi fechada com nenhum dos interessados. . Da venda das ações do TCP aos investidores apresentados pela ADVENT DO BRASIL Em 09/07/2010, isto é, 40 dias após assinado o Contrato de Assessoria Financeira, o grupo Advent do Brasil encaminhou ao Banco Santander uma “proposta indicativa (não vinculativa)" para aquisição de ações do TCP. No momento da dação em pagamento (julho de 2010) a negociação estava apenas no início, o negócio não estava nem próximo de um fechamento. Se é verdade que uma negociação deste porte “requer um prazo razoável para as tratativas”, cai por terra a tese fiscal de que, no intervalo de 20 dias, a venda das ações do TCP para os investidores apresentados pela Advent já estivesse praticamente confirmada. Tanto isso é verdade que, após o envio da proposta indicativa pela Advent, foi necessária longa negociação que se estendeu por seis meses. O contrato de compra e venda das ações só foi firmado em 21/12/2010, e ainda com condições muito diferentes daquelas apresentadas na Proposta Indicativa da Advent em 09/07/2010. Mesmo no momento de formalização do contrato, não se tinha certeza absoluta de venda das ações, pois estava vinculada a “Condições suspensivas”. As condições suspensivas foram atingidas em 06/07/2011, quase um ano após a dação em pagamento. O Sr. Salomão adquiriu as referidas ações do TCP em 29/07/2010, mas só as alienou definitivamente em 06/07/2011, ou seja, o Sr. Salomão foi acionista do TCP por praticamente doze meses. . Do recolhimento do Imposto de Renda incidente sobre o ganho de capital pelo Sr. Salomão. Da informação do negócio na DIRPF O Sr. Salomão recolheu o Imposto de Renda incidente sobre o ganho de capital na alienação de suas ações do TCP e informou a operação na Declaração. Fl. 1174DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.165 21 . O valor recebido pelo Sr. Salomão, não retornou a SOIFER. O montante recebido na alienação das ações do TCP permaneceu na propriedade do Sr. Salomão, que não praticou qualquer ato de reinvestimento desses valores na SOIFER, o que confirma de modo cabal que o real alienante das ações do TCP foi o Sr. Salomão. Se as ações pertencessem verdadeiramente à SOIFER o mínimo que se deveria provar é que os recursos obtidos com essa venda retornaram aos cofres da SOIFER. houve distorção dos fatos pela autoridade fiscal e pelo v. acórdão recorrido Irrelevância dos fatos envolvendo a empresa TUC e seus sócios; não é verdade que o negócio de venda de ações do TCP teve início em 2009; as notícias de imprensa mencionadas só confirmam o que já está nos documentos apresentados, e contradizem a tese fiscal; o fato da recorrente ser uma holding não altera em nada o caso concreto; há fatos não contestados pelo acórdão recorrido a dação em pagamento teve propósito negocial de saldar dívida com o Sr. Salomão, sem a necessidade de fazer um desembolso de caixa tão expressivo; o Sr. Salomão foi acionista da TCP durante um ano, participando de diversos atos próprios da condição de acionista; a dação em pagamento foi válida, efetiva, lícita e sem a certeza da venda posterior das ações do TCP impossibilidade de desconsideração do negócio jurídico; comprovação da inexistência de simulação, abuso de direito e fraude à lei; afastamento da multa agravada de 150% ausência de dolo, fraude ou simulação; necessária compensação do imposto de renda pago pelo Sr. Salomão; deve ser excluída do cálculo fiscal a parcela recebida em 31/10/2011; não incide juros de mora sobre a multa de ofício; Do pedido: IV DO PEDIDO Diante do exposto, requer a Recorrente dignemse V.Sas, a julgar totalmente procedente o presente Recurso Voluntário, para o fim de reformar o Acórdão recorrido e reconhecer a nulidade material, a decadência ou a total improcedência do Auto de Infração lavrado contra a Recorrente, pelas razões já expostas. Ad argumentandum, na remota hipótese de não serem acolhidos os fundamentos pela nulidade material, decadência ou total improcedência do Auto de Infração, requer dignemse V. Sas. a: a. afastar a aplicação da multa agravada de 150% prevista no art. 44, I, da Lei n° 9.430/96, uma vez que não restam configuradas as hipótese de sonegação, fraude ou conluio no caso concreto; Fl. 1175DF CARF MF 22 b. admitir a compensação do Imposto de Renda pago pelo Sr. SALOMÃO, no valor de R$ 16.692.869,72, o qual deve ser abatido do valor histórico do tributo principal, de modo a produzir o necessário reflexo no cálculo dos juros e da multa aplicada; c. determinar que seja excluída do cálculo fiscal a parcela recebida em 28/10/2011, pois tais valores não integram o 3° trimestre de 2011, que foi o período considerado pela Autoridade Fiscal em seu cálculo; e d. afastar a incidência de juros sobre as multas de ofício aplicadas. . RECURSO VOLUNTÁRIO DOS SOLIDÁRIOS Tomando, ambos, Srs. David Soifer e Salomão Soifer, ciência da decisão a quo no dia 17/03/2017, apresentaram recurso voluntário em conjunto no dia 17/04/2017. Nela expõe os seguintes argumentos, repisando praticamente os mesmos da sua peça impugnatória: requerem que todos os fundamentos e pedidos deduzidos pela SOIFER em sua peça recursal sejam considerados também em favor dos ora recorrentes (pessoas físicas), para todos os efeitos, exatamente como se fossem nesta peça apresentados e requeridos. · Nulidade material do procedimento em virtude da ausência de intimação dos impugnantes para a fase de fiscalização ou para prestar esclarecimentos. · Nulidade material por erro na identificação do sujeito passivo já que o art. 135 do CTN trata de responsabilidade pessoal, assim, tendo sido o lançamento realizado em face da SOIFER não caberia a imputação de responsabilidade aos Srs. Salomão e David, o que configura erro na identificação do sujeito passivo, causa de nulidade material do auto de infração, por evidente desrespeito ao artigo 142 do CTN; · Não ocorreram as hipóteses previstas no art. 135 do CTN, já que a dação em pagamento foi uma operação válida, lícita, pública e motivada por propósito econômico; não houve simulação, fraude a lei, excesso de poderes ou qualquer conduta antijurídica. · Não havia um contrato preliminar com a Advent, e sim uma proposta indicativa; · Quando da ocorrência do fato gerador, o Sr. Salomão não era mais diretor, gerente ou representante da SOIFER; · Cita decisão do CARF no sentido de que o art. 135 só encontra aplicação nos casos de infração à lei societária, contrato social ou estatuto cometido pelo administrador for realizado à revelia da sociedade. Fl. 1176DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.166 23 · O art. 135 somente atinge créditos tributários que sejam resultantes da conduta infracional; A representação fiscal para fins penais deve ficar suspensa durante a tramitação do processo administrativo; · O Sr. Salomão confirma que autoriza, caso isso seja necessário, a compensação dos valores por ele pagos, e apresenta também uma autorização, anexa a impugnação; do pedido: V DO PEDIDO Diante do exposto, caso não sejam acolhidas as razões e pedidos de nulidade material, decadência ou a total improcedência do Auto de Infração apresentados pela SOIFER em seu Recurso Voluntário (razões e pedidos estes que requerse sejam aproveitados inteiramente aos Recorrentes, para todos os efeitos), requer dignemse V.Sas, a reformar o Acórdão recorrido, dando provimento ao presente Recurso Voluntário, para o fim de reconhecer: (a) a nulidade material do auto de infração, por cerceamento do direito de defesa, ante a ausência de intimação dos Recorrentes para que participassem da Fiscalização; (b) a nulidade material do auto de infração, por erro na identificação do sujeito passivo, em razão da manutenção dos Recorrentes na autuação fiscal ao mesmo tempo que a SOIFER; ou, ao menos, (c) a ilegitimidade passiva dos Recorrentes, uma vez que não estão presentes as hipóteses do artigo 135, III, do CTN. Em qualquer hipótese, pugnase também pela suspensão da representação fiscal para fins penais durante a tramitação do presente processo administrativo fiscal. Por fim, caso seja mantida a exigência de eventuais débitos em face da SOIFER (o que definitivamente não se espera), requer seja compensado o Imposto de Renda pago pelo Sr. SALOMÃO, no valor de R$ 16.692.869,72, o qual deve ser abatido do valor histórico do tributo principal, de modo a produzir o necessário reflexo no cálculo dos juros e da multa aplicada. A PGFN apresentou a contrarrazões de folhas 1094 a 1125. É o relatório. Fl. 1177DF CARF MF 24 Voto Conselheiro Marco Rogério Borges Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e dotado dos pressupostos para sua admissibilidade, pelo que o recebo e dele conheço. Da síntese dos fatos A presente autuação fiscal envolve a operação de venda de ações da pessoa jurídica TCP Terminal de Contêineres de Paranaguá S/A CNPJ 03.020.098/000137, em que a recorrente figurou alienante, juntamente com a TUC Participações Portuárias S/A. Apesar de não ter figurado como alienante nesta operação, era a real detentora das ações do TCP, que foram objeto da alienação. Nesta operação, que gerou ganho de capital para a recorrente, houve, nas palavras da autuação fiscal, planejamento tributário abusivo, objetivando apurar o ganho na pessoa física dos seus sócios, e não na pessoa jurídica, em virtude das diferenças das alíquotas da tributação aplicável. Na sua impugnação contesta todos os pontos que entende inválidos da autuação fiscal, contudo, houve manutenção integral da autuação na decisão a quo, excluindo o erro da base de cálculo da CSLL, que foi exonerado, a qual agora a recorrente se insurge. Na sua peça recursal mantém praticamente o mesmo teor e argumentos da sua peça impugnatória. Dos fatos motivadores da autuação fiscal: Antes de adentrar na análise dos elementos suscitados na peça recursal, cabe uma análise dos fatos envolvidos que motivaram a ação fiscal. O ganho de capital é decorrente da venda de 50% das ações da TCP Terminal de Contêneires de Paranaguá S/A. No contrato firmado de compra e venda, datado de 21/12/2010, a recorrente figura como interveniente garantidora, juntamente com a Tuc Participações S/A. Referido contrato previa condições suspensivas para sua implementação, que se aperfeiçoaram apenas em 06/07/2011. Há 3 compradores envolvidos, que foram criados especificamente para esta aquisição e eram controlados indiretamente pela Advent International, fundo de investimento sediado nos Estados Unidos. Há 6 vendedores envolvidos, sendo que dentre eles, a pessoa física do Sr. Salomão Soifer. O Sr. Salomão só passou a figurar como acionista da TCP em 29/07/2010, passando a deter 32% das ações da TCP, que anteriormente eram da recorrente. Esta transferência de ações se deu através de instrumento particular de dação em pagamento, em que a recorrente entregou ao Sr. Salomão 689.940 ações da TCP pelo valor Fl. 1178DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.167 25 de R$ 8.814.274,20, em pagamento de dividendos, cuja montante a ser pago era de R$ 10.262.931,51. A fiscalização alega que as tratativas do negócio celebrado tiveram início meses antes de 21/12/2010, considerando a cifra envolvida na alienação da participação societária total R$ 670.000.000,00, o que deve ter exigido uma preparação prévia antes de formalizar o negócio. A própria Advent informou que o início das tratativas ocorreu em 09/07/2010, através de proposta formalizada. E houve proposta anterior, de 10/12/2009, que restou infrutífera. Dados os eventos acima elencados, restou evidenciado para autoridade fiscal que quando ocorreu a dação em pagamento (29/07/2010), o Sr. Salomão já tinha ciência do negócio que logo seria celebrado, e passou a agir para ter economia tributária na operação de ganho de capital. Passamos à análise dos itens da peça recursal. Preliminares: Alega a recorrente que houve várias nulidade na autuação fiscal: a) as condutas baseadas para autuação fiscal foram praticadas por outras empresas, em especial, a TUC. Analisando todo o contexto apresentado, a TUC é citada regularmente no auto de infração, pois participa da operação também, sendo uma das vendedoras da TCP para o grupo Advent, através de seus sócios, situação que ensejou autuação fiscal também, já analisado por esta colegiado. A descrição dos fatos no relatório fiscal, apesar de citar várias empresas é sobre a recorrente, a Soifer Participações Societárias Ltda., e sobre ela é imputada o auto de infração. Descrever as condutas de outras empresas foi um recurso necessário à autoridade fiscal, dada a quantidade envolvida de vendedores, compradores e intervenientes. Contudo, há clara e substancial fundamentação inerente aos atos da recorrente e seu sócio. O v. acórdão recorrido até se ateve em citar trechos das condutas praticadas pela recorrente, dos quais entendo não ser necessário aqui reproduzir. Dito o acima, entendo improcedente este pleito da recorrente. b) inexistência de previsão legal que permita à autoridade fiscal a desconsideração de negócios jurídicos. Fl. 1179DF CARF MF 26 Alega a recorrente que o auto de infração não menciona em local algum o embasamento legal utilizado pela Fiscalização para desconsiderar o negócio praticado entre as partes e não o menciona pelo simples fato de que não existe embasamento para tanto no ordenamento jurídico brasileiro. Contudo, divirjo da recorrente, pois no auto de infração há o enquadramento legal necessário para enquadrar a situação constatada pela autoridade fiscal. Os demais elementos que analisa os fatos inerentes à operação real ocorrida e pretendida pela recorrida estão na descrição dos fatos, típico do relatório fiscal. O que houve foi um desvirtuamento da operação que culminou na alteração do detentor das ações da TCP, saindo da propriedade da recorrente e indo para a propriedade do seu sócio, a qual foi realizada com o único propósito de economia tributária. Há nisto um desrespeito ao propósito negocial da empresa. Sua autoorganização não pode ser unicamente permeada pela intenção de reduzir a carga tributária. Tal situação fica apurada e demonstrada pela autoridade fiscal no seu relatório fiscal, o que fica nítido pela sua descrição de um abuso de direito e fraude a lei por parte da recorrente, como exposto pelo v. acórdão recorrido. A validade de negócios jurídicos, vistos isoladamente, não lhe dá a virtude jurídica necessária, quando se analisa o contexto e fundamento. Assim, não procede de razão quando a recorrente evoca na sua peça recursal a necessidade de uma expressa autorização legal para desconsiderar um negócio jurídico. A ofensa ao direito pode se dar também por vício na origem de atos jurídicos lícitos, que foram simulados. Nestes casos, procedente e necessário à autoridade fiscal recusar no âmbito tributário os efeitos destes atos jurídicos abusivos, e dar os efeitos tributários reais à situação constatada. De resto, acompanho os fundamentos expostos no v. acórdão recorrido sobre o alegado, que vão ao encontro do que acima discorro a respeito. Dito o acima, entendo improcedente este pleito da recorrente. c) desconsideração do regime trimestral de apuração do IRPJ e da CSLL (lucro real trimestral). Alega a recorrente que houve nulidade no momento da apuração do ganho de capital, no que tange à parcela (segunda e última) do 4º trimestre de 2011, recebida em 28/10/2011. Sua forma de tributação, lucro real trimestral, permitelhe diferir o ganho de capital, conforme leitura que faz do art. 421 do RIR/1999, utilizado pelo v. acórdão para contestar tal pleito. Contudo, como apontado no relatório fiscal que deu suporte à autuação fiscal, há na redação do art. 421 do RIR/1999 uma dúvida quanto à abrangência da expressão "exercício social", já que a recorrente é optante do regime trimestral. Vejamos a redação do art. 421 do RIR/1999: Fl. 1180DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.168 27 Art. 421. Nas vendas de bens do ativo permanente para recebimento do preço, no todo ou em parte, após o término do anocalendário seguinte ao da contratação, o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, reconhecer o lucro na proporção da parcela do preço recebida em cada período de apuração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 31, § 2º). (grifo meu) Ou seja, pela leitura do art. 421 do RIR/1999, o diferimento do ganho de capital só se aplicaria quando recebido após o termo do anocalendário seguinte ao da contratação, o que não seria o caso em foco. Não poderíamos considerar cada trimestre como um exercício social, e mesmo assim, nas palavras do relatório fiscal: E mais, mesmo se considerássemos cada trimestre como sendo um exercício social, não caberia o diferimento no caso da FISCALIZADA, uma vez que a parcela adicional foi recebida no trimestre seguinte (4º trimestre de 2011) ao da contratação (3º trimestre de 2011), e não após o término do trimestre seguinte ao da contratação (1º trimestre de 2012). Ou seja, os pagamentos ocorreram no mesmo anocalendário, não se enquadrando nas hipóteses previstas do art. 421. Dito o acima, entendo improcedente este pleito da recorrente. d) a base de cálculo utilizada para a CSLL não foi o ganho de capital, mas sim o preço total recebido pela venda, o que o acórdão reconheceu e deveria ter sido declarado nulo. Alega a recorrente que a ocorrência do erro material quando da apuração da base de cálculo da CSLL eivaria de nulidade a autuação fiscal. Contudo, analisandose o relatório fiscal sobre este item, fica nítido que a intenção era correta, mas ocorreu um erro de transcrição, que não poderia suscitar a nulidade alegada. Em todo o relatório, há menção do ganho de capital de R$ 113.160.134,96, que seria utilizado como base de cálculo para a apuração do IRPJ e CSLL, mas quando transcreveu o valor da CSLL, não considerou o custo registrado pela recorrente. Ou seja, no relatório fiscal há todo o raciocínio e apuração corretos, mas no auto de infração, que envolvem os cálculos, houve a transcrição do valor erroneamente. No v. acórdão há uma análise pertinente ao caso, e houve a reapuração do valor devido de CSLL, com a exoneração devida de valor do autuado. Com isso, o valor da CSLL apurada passou de R$ 10.127.295,14 para R$ 9.502.700,79 quando identificado este erro no v. acórdão. De qualquer forma, não é caso de nulidade, pois não houve verdadeiro erro na base de cálculo. Esta foi corretamente detalhada e calculada quando exposto o raciocínio Fl. 1181DF CARF MF 28 (no relatório fiscal), mas no momento de gerar seus valores (auto de infração) houve um erro de preenchimento, tanto que foi facilmente identificado pela recorrente já na sua peça impugnatória, e acatada pela instância a quo. Não é motivo de nulidade, e sim de exoneração do valor indevido. Dito o acima, entendo improcedente este pleito da recorrente. e) os sócios considerados devedores solidários não foram intimados para a fase de fiscalização, nem para apresentar esclarecimentos. Alega a recorrente que os devedores solidários, Srs. Salomão e David Soifer não foram intimados para que participassem do procedimento de fiscalização, ou apresentassem esclarecimentos quanto aos fatos que motivaram a autuação fiscal. Como bem destacado no v. acórdão recorrido, não há previsão legal desta intimação. Durante o procedimento fiscal, que envolve a auditoriafiscal, até o momento da autuação fiscal ser cientificada, não há que se falar necessariamente em contraditório ou ampla defesa. O procedimento fiscal envolve a investigação e colheita de informações e elementos de prova para formação da convicção da autoridade fiscal, quando procede a uma análise de provável infração tributária. Tendo a convicção, a autoridade fiscal, que já tem todos os elementos de prova necessários, nada obsta que seja já realizado a autuação fiscal. Eventuais erros de julgamento no procedimento fiscal suscitarão as discordâncias na fase litigiosa. Contudo, não é o que se vislumbra no presente caso. A autoridade fiscal faz toda uma análise no relatório fiscal dos elementos que colheu durante o procedimento fiscal, onde formou convicção da sujeição passiva solidária, inclusive com tópico próprio no seu relatório fiscal. Entendeu não necessário fazer nenhuma intimação aos solidários, pessoas físicas dos Srs. Salomão e David Soifer, e esta decisão não eiva de nulidade a presente autuação fiscal. Dito o acima, entendo improcedente este pleito da recorrente. Por conseguinte, NEGO TODAS AS PRELIMINARES SUSCITADAS PELA RECORRENTE. Da alegada decadência suscitada pela recorrente Entende a recorrente, que independente do momento que se entenda o marco inicial da decadência do operação em foco, a decadência se configuraria em qualquer deles. Partido desta premissa, passa a demonstrar na sua peça recursal, que o crédito tributário estaria decaído, tanto que se considere o momento da dação em pagamento Fl. 1182DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.169 29 (29/07/2010), a formalização do contrato de venda de ações (21/12/2010) ou o recebimento do preço pela alienação das ações (06/07/2011). Em relação ao momento da dação em pagamento, ocorrida em 29/07/2010, não está sendo considerado o fato gerador do ganho de capital pretendida de quando da autuação fiscal. A autuação fiscal foi sobre o ganho de capital. A data do início do alteração da propriedade das ações, eivadas de vício, apenas demonstra o início temporal da intenção de pagar menos tributos da recorrente, não tendo relação direta com o fato gerador em litígio. O contrato assinado em 21/12/2010 (contrato de compra e venda de ações e outras avenças), previu condições suspensivas para sua implementação, conforme cláusulas 2.1, 3.2 e 3.3, onde se destaca que estas estabelecem condições para sua eficácia. Até o cumprimento destas condições, há cláusulas suspendendo o contrato, e inclusive, não houve nenhum pagamento até a sua plena eficácia, o que só ocorreu em 06/07/2011. Ou seja, fica nítido pelas circunstâncias evocadas na autuação fiscal, a qual não há contestação fática da recorrente, que houve sim uma condição suspensiva, e se não se confirmasse, caberia penalidades à recorrente como emanados comumente em contratos privados. No caso, há a nítida aplicação dos arts. 116 e 117, do CTN: Art. 116. Salvo disposição de lei em contrário, considerase ocorrido o fato gerador e existentes os seus efeitos: I tratandose de situação de fato, desde o momento em que o se verifiquem as circunstâncias materiais necessárias a que produza os efeitos que normalmente lhe são próprios; II tratandose de situação jurídica, desde o momento em que esteja definitivamente constituída, nos termos de direito aplicável. Parágrafo único. (...) Art. 117. Para os efeitos do inciso II do artigo anterior e salvo disposição de lei em contrário, os atos ou negócios jurídicos condicionais reputamse perfeitos e acabados: I sendo suspensiva a condição, desde o momento de seu implemento; II sendo resolutória a condição, desde o momento da prática do ato ou da celebração do negócio. As condições suspensivas são assim chamadas por suspender os efeitos jurídicos de determinada circunstância jurídica. Apenas após serem elididas, que termos um contrato eficaz e exequível. E o direito tributário estabelece os efeitos tributários de forma bem clara nestas circunstâncias, conforme supramencionados arts. 116 e 117 do CTN. Fl. 1183DF CARF MF 30 Destarte, o fato gerador é no momento da implementação das condições suspensivas, e estas deixaram de existir, inclusive com a concordância da compradora, pois efetuou o pagamento acordado, ou seja, foi no dia 06/07/2011. A recorrente é optante pelo regime do lucro real trimestral. No caso concreto, a ocorrência dos fatos autuado foi em 06/07/2011, ou seja, o 3º trimestre de 2011, o que levaria seu fato gerador para o último dia do trimestre, dia 30/09/2011. Só se falaria em decadência, independente dos vários aspectos inerentes ao tema, ao final do 3º trimestre de 2016, dia 30/09/2016, 5 anos após o fato gerador. Como a ciência se deu em 12/09/2016, não haveria que se falar em decadência neste momento, independente da caracterização de dolo, fraude e simulação. Destarte, NEGO PROVIMENTO quanto a este ponto. Da validade dos negócios praticadas pela recorrente e seu sócio Alega a recorrente que a dação em pagamento envolvendo as ações da TCP foi regular e legal, pois havia uma dívida anterior que precisava ser quitada. Houve a justificativa econômica para a operação, que seria provocar o menor ônus possível à recorrente, evitando a sua descapitalização. Ademais, o Sr. Salomão participava ativamente da gestão da TCP, não sendo mero possuidor de ações da companhia. Continua na sua peça recursal alegando que quando ocorreu a contratação do Banco Santander, em maio de 2010, a venda de participações na TCP não estava nem perto de ser confirmada. Quando da proposta da Advent em 09/07/2010, abriuse a negociação, então, quando da dação em pagamento, ocorrida em 29/07/2010, as negociações estavam apenas no início, sendo firmado em 21/12/2010, e como condições suspensivas, só atingidas em 06/07/2011. Ou seja, há neste ínterim quase um ano desde a dação em pagamento, sendo o Sr. Salomão acionista da TCP por todo este período de praticamente doze meses. Continua alegando que o Sr. Salomão apurou IRPF da operação, e recolheu, e o valor recebido na operação não retornou à recorrente, permanecendo em sua propriedade. Isto confirmaria que o real alienante das ações da TCP foi o Sr. Salomão. A dação em pagamento foi válida, efetiva, lícita e sem a certeza da venda posterior das ações da TCP. Contudo, analisandose todo o contexto envolvido e trazido aos autos, há nítido encadeamento de ações da recorrente e seu sócio, abusando do direito aplicável. O que fica demonstrado cabalmente nos autos pela autoridade fiscal é que: em 31/05/2010, a recorrente, antes da dação em pagamento, e conjuntamente com outros proprietários da TCP à época, assinaram um contrato com o Santander para assessorar na condução das negociações finais com potenciais investidores; em 09/07/2010, segundo a Advent, que representava o comprador, iniciou se as tratativas de negociação das ações da TCP; em 29/07/2010, ocorreu a dação em pagamento, em que a recorrente entregou ao Sr. Salomão ações da TCP para quitar dividendos a receber. A partir de então, a propriedade destas ações, que antes eram da recorrente, se deslocam para a pessoa física do Sr. Salomão; Fl. 1184DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.170 31 no período de agosto a novembro de 2010, a Advent cria empresas e fundos que forma o grupo que adquire a TCP; em 21/12/2010 foi assinada a venda das ações da TCP. Assim, fica demonstrado, de forma cabal, pelo relato cronológico acima, que desde maio de 2010 já havia a intenção de venda das ações da TCP. Quando da assinatura do contrato com a adquirente, em 09/07/2010, a recorrente era a proprietária das ações. As negociações se iniciaram por ela, e a transferência das ações da ações ocorre para a pessoa física do Sr. Salomão posteriormente. Tudo isso demonstra que estes eventos foram executados sem propósito negocial, ou seja, sem o devido substrato material. Há uma formalidade aos negócios implementados, mas realizados com abuso de direito. No caso concreto, houve operações que cumprem os requisitos formais da sua licitude, mas materialmente, objetivaram modificar a sujeição passiva tributária, e diminuir o quantum dos tributos a pagar. Foram formalmente lícitos, mas materialmente nulos. A operação de deslocamento da propriedade das ações quando já iniciadas tratativas finais de aquisição das mesmas, só objetivou diminuir a incidência tributária do ganho de capital, a qual na pessoa física seria menos onerosa que na pessoa jurídica. Não se vislumbra uma elisão fiscal, legítima, mas sim artimanhas revestidas de atos e contratos formalmente válidos, ou seja, algo dissimulado da realidade. Elementos suscitados pela recorrente como a dívida preexistente de dividendos a pagar, não procede, pois se trocou uma dívida quitada de R$ 8.814.274,20, por ações que foram vendidas poucos meses depois por mais de R$ 100 milhões. Ou seja, isto afasta as condições independentes e regulares do mercado para o negócio. E o fato do dinheiro da venda não ter retornado à recorrente só demonstra o quanto a pessoa física e pessoa jurídica se entrecruzam no processo decisório. No caso, as circunstâncias negociais surgiram com a recorrente, e para modificar isso, para fins tributários, teriam que acontecer outros elementos além da economia tributária envolvida. De qualquer forma, se a recorrente realizasse a operação, o que seria normal, os recursos poderiam recair na propriedade do Sr. Salomão, através de dividendos distribuídos, o que seria o esperado em circunstâncias normais de formalização de negócios. Contudo, ao se ver que haveria uma diminuição do valor total do ganho, por conta da tributação mais onerosa na pessoa jurídica, começase a o processo de transferência da titularidade das ações. Ficar aguardando o pagamento por quase um ano do valor da negociação não traveste a operação de regularidade, pois estava praticamente definida que seria realizada, quando implementadas as condições suspensivas. O importante é o momento inicial, que azo a toda preparação para ocorrer ônus tributário mais benéfico. E o fato do Sr. Salomão ter apurado Imposto de Renda na Pessoa Física do ganho de capital em nenhum momento afasta o vício da operação, pois era normal que quisesse realizar todos os aspectos que dessem ares de normal e com propósito ao negócio. Fl. 1185DF CARF MF 32 Destarte, NEGO PROVIMENTO quanto a este ponto. Das alegações para afastamento da multa qualificada Alega a recorrente que todos os atos praticados foram válidos, públicos, lícitos e efetivos. Que a transação teve propósito econômico relevante. Destarte, seria descabido a aplicação da multa qualificada. Contextualizando, a multa de ofício qualificada estipula a duplicação da multa de mora (de 75%), nos casos previstos nos art. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964, que envolve as figuras da sonegação, fraude e conluio. A autoridade fiscal entendeu que houve a conduta dos arts. 71 e 72 da Lei nº 4.502/19641, ou seja, sonegação e fraude. Preliminarmente, cabe destacar que a multa de ofício simples (75%) tem o seu contexto de aplicação nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata, nos termos do art. 44, I, da Lei nº 9.430/1996 (com alteração dada pela Lei nº 11.488/2007). Notese que não há condições de enquadramento direto em nenhuma destas hipóteses, para os atos da recorrente que objetivaram deslocar, indevidamente, o ganho de capital auferido para a pessoa física do seu sócio. Não haveria, aqui, em se falar em falta de pagamento ou recolhimento, falta de declaração e no de declaração inexata. Há uma conduta da recorrente, nitidamente dolosa, que objetivou o impedimento da real ocorrência do fato gerador, modificandoo. O elemento dolo, um tanto subjetivo, não há de ser extraído da mente do seu autor, mas sim das circunstâncias que envolvem os fatos a serem analisados. No caso concreto, pelo todo o quanto aqui exposto, resta claro que a recorrente conscientemente agiu para distorcer os fatos, com a precípua finalidade de modificar as características do fato gerador, o que levou à redução da base tributável do ganho de capital envolvido na operação. O fato de não ter ocorrido nenhuma ilegalidade nos seus atos, e estarem todos registrados não exclui a modificação pretendida. Os atos formais, individualmente, até podem ser juridicamente válidos, mas não há substrato material, pois não refletem a realidade ocorrida. Os atos formais deveriam espelhar a realidade, o mundo real. 1 Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Fl. 1186DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.171 33 Inevitavelmente, haverá a intenção de dar ares de validade aos atos e contratos ocorridos, escriturando e documentando toda a operação adulterada. Naturalmente, se houver a fiscalização, não deverá ocorrer o acobertamento dos atos, e se tentará deslocar a discussão para o pólo jurídico. Acontece que todo o preparo documental da situação, não tendo amparo material, foi colocado para evitar a fiscalização e tentar demonstrar uma situação válida da modificação pretendida das circunstâncias do fato gerador. Apenas com uma fiscalização, e um aprofundamento da análise documental é que se poderia ver os vícios contidos neste aporte documental. Ou seja, não há condições de se alegar a transparência e licitude dos seus atos, pois estão eivados de vício material, que procuraram demonstrar outra realidade às obrigações para com o erário, só identificáveis após certa investigação. Para concluir, no caso concreto, não haveria em se falar de duas situações lícitas, das quais a recorrente optou pela menos onerosa. Uma das opções foi criada artificialmente pela recorrente, conforme já exposto. Destarte, NEGO PROVIMENTO quanto a este ponto. Da compensação dos valores recolhidos pelas pessoas físicas Alega a recorrente da necessidade da compensação dos valores recolhido pela pessoas física do Sr. Salomão, pois ocorrendo a pretensa reclassificação do fato jurídico tributário em litígio, caberia o aproveitamento dos pagamentos efetuados na situação anterior, ou seja, o IRPF recolhido. De tudo o que já foi relatado neste voto, podese concluir que somente existiu uma única operação, que foi a venda das ações da TCP pela a recorrente, efetivada em 06/07/2011, raciocínio que compartilho. Conforme descrito na sua peça recursal, que remete ao doc. 03 apresentado na peça impugnatória, houve o recolhimento a título de IRPF no montante de R$ 16.692.869,72 (fls. 763 a 765). Envolvem 2 comprovantes de arrecadação efetuados pelos Sr. Salomão Soifer, no código de arrecadação 4600 IRPF Ganho de Capital na Alienação de Bens Duráveis, cujo período de apuração se referem a 06/07/2011. Inafastável se tratarem referente à operação de venda das ações da TCP. Assim, apesar de não haver previsão legal como alegado para autoridade autuante e pelo v. acórdão recorrido, o que acontece com o presente voto é a desconsideração dos atos jurídicos identificados na operação da recorrente, considerando o fato gerador ocorrido perante a recorrente. Neste caso, como apõem a sua anuência nos seus recursos voluntários dos sócios, entendo válido considerar estes pagamentos efetuados para diminuir o montante autuado. Destarte, DOU PROVIMENTO quanto à compensação do o Imposto de Renda sobre o ganho de capital recolhido pelas pessoas físicas, devendo ser compensado com o Fl. 1187DF CARF MF 34 apurado no Auto de Infração, no montante de R$ 16.692.869,72 (comprovantes de arrecadação de fls. 763 a 765). quanto a alegação que não incide juros de mora sobre a multa de ofício O presente tema da incidência de juros sobre a multa de ofício, que não deveria prosperar por falta de previsão legal não é novo no CARF. Ocorre que uma análise mais sistemática do CTN, percebese que os juros são devidos sobre o valor da multa, uma vez que o crédito tributário engloba tanto o tributo quanto a multa. Como dispõe o art. 161 do CTN: Art. 161. O credito não integralmente pago no vencimento e acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1o Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados a taxa de um por cento ao mês. O art. 113, § 1o do CTN preceitua que a obrigação principal tem por objeto o pagamento do tributo ou penalidade pecuniária, donde se observa que o critério utilizado pelo Código Tributário Nacional para distinguir obrigação acessória de obrigação principal e o conteúdo pecuniário. A obrigação acessória consiste em um fazer ou não fazer, enquanto que a obrigação principal implica em obrigação de dar dinheiro. Neste passo, resta evidente que a multa tem natureza de obrigação principal, visto é que incontestável o seu conteúdo pecuniário. O conceito de credito tributário esta esculpido no art. 139 do CTN, nos seguintes termos: o crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. Desta forma, por ser a multa, indubitavelmente obrigação principal, não se pode chegar a outra conclusão senão a de que o credito tributário engloba o tributo e a multa. Logo, tanto sobre o tributo (principal) quanto sobre a multa devem incidir juros, como determina o § 1o do art. 161 do Código Tributário Nacional. Pelos motivos elencados, entendo devam ser mantidas os juros sobre a multa de ofício imposta e NEGO PROVIMENTO ao recurso voluntário neste aspecto. Dos solidários: Ambos os responsáveis solidários arrolados na autuação fiscal, e mantido no v. acórdão recorrido, apresentaram recurso voluntário em conjunto, em que contestam tal condição, pois no seu entender a eleição dos responsáveis solidários com base no art. 135 do CTN somente se aplica em caso de prática de ato com excesso de poderes ou infração à lei, contrato ou estatuto, à revelia da empresa, e essa responsabilidade é pessoal e não solidária. Fl. 1188DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.172 35 Antes de qualquer mérito a respeito, requerem os solidários que seja aplicada a nulidade por constarem indevidamente na sujeição passiva. Contudo, não vislumbro situação de nulidade, e sim de mera exoneração de responsabilidade. Verificando a motivação no relatório fiscal para considerar os Srs. Salomão e David Soifer como solidários, entendo não ter ocorrido os requisitos essenciais e necessários constantes do art. 135, III do CTN. Pela descrição no relatório fiscal, a responsabilidade foi atribuída terem sido administradores e terem assinados contratos, mas não se vislumbrou nenhum excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. O art. 135, III é adequado à responsabilização dos sócios administradores, desde que traga consigo conjunto probatório robusto e preciso para permitir a transposição da personalidade jurídica do contribuinte, penetrando na esfera patrimonial de seu gestor e titular. A aplicação do art. 135 do CTN não pode ser objetiva e automática. O caso concreto aparentou mais como uma mera consequencia de responsabilização com base na qualificação da multa. Destarte, DOU PROVIMENTO ao recurso voluntário neste aspecto. Conclusão: Em face do exposto, REJEITO as preliminares, e VOTO no sentido de ACOLHER EM PARTE as razões de mérito dos recursos voluntários apresentados para: · EXONERAR a parcela do IRPJ autuado no valor de R$ 16.692.869,72, por conta do aproveitamento do IRPF recolhido inerente à operação em discussão; · EXCLUSÃO da responsabilidade solidária os Srs. David Soifer e Salomão Soifer; · NEGAR todas as demais alegações apresentados no recurso voluntário. (assinado digitalmente) Marco Rogério Borges Fl. 1189DF CARF MF 36 Declaração de Voto Conselheiro Demetrius Nichele Macei Com a máxima vênia, registro a presente declaração de voto em relação a manutenção da multa qualificada pelo voto de qualidade. A multa qualificada, prevista no artigo 44, inciso I, e § 1º, da Lei nº 9.430/96, com a redação dada pelo art. 14 da Lei nº 11.488/07, tem natureza sancionadora, ou seja, é penalidade tributária imposta aos casos em que comprovada a fraude, sonegação ou conluio previstos na Lei nº 4.502/64. A comprovação da ocorrência das práticas delituosas acima mencionadas, deve ser, portanto, composta de provas concretas que demonstrem a subsunção perfeita do fato a norma, como por exemplo, a utilização de documentos falsos, não sendo válidas ou eficazes meras alegações sobre a existência de dolo para economia fiscal, sendo que este existe e é necessário até mesmo nos casos de elisão fiscal, posto que intenção/vontade de economizar gastos com tributos é o pressuposto para qualquer planejamento tributário. Destas premissas, portanto, é correto dizer que, diante da análise do caso concreto, uma das duas opções abaixo poderá ocorrer no tocante as penalidades: a qualificação da multa será mantida, por ter se caracterizado indubitavelmente a sonegação, a fraude ou o conluio, no caso concreto; ou a qualificadora da multa de ofício será afastada pela inocorrência comprovada de tais práticas dolosas; Contudo, há ainda outra opção, trazida pelo Código Tributário Nacional, que afeta diretamente a situação do sujeito passivo no tocante as penalidades, inclusive nos casos de qualificação da multa de ofício. Tratase do artigo 112, do CTN, que dispõe o seguinte: Art. 112. A lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades, interpretase da maneira mais favorável ao acusado, em caso de dúvida quanto: I à capitulação legal do fato; II à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos; III à autoria, imputabilidade, ou punibilidade; IV à natureza da penalidade aplicável, ou à sua graduação. (Grifos meus) Da leitura do artigo retromencionado, podese concluir que, em havendo dúvida quanto à aplicação de penalidades tributárias, devese interpretar a lei tributária que Fl. 1190DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.173 37 trata das infrações da maneira mais favorável ao suposto infrator, ou seja, via de regra, devese afastar a imputação da sanção fiscal. É evidentemente instituto derivado do direito sancionador (penal), consistente na máxima do "in dubio pro reo". Entendo que o mesmo se aplica para o caso deste E. Conselho quando uma decisão referente a penalidades resulta em empate. Se a composição da turma envolve oito conselheiros e o empate se configura, significa, em termos práticos, que quatro conselheiros entendem correta a imputação da penalidade e que, os outros quatro entendem a manutenção da penalidade como indevida. Em casos como este, fica cristalino que há dúvida do "colegiado" (pois a certeza individual resta suplantada, em qualquer caso) quanto à matéria relativa as penalidades e, diante do empate, ao ver deste julgador, o voto de qualidade pode ser instrumento hábil para solucionar a controvérsia, se aplicado à luz dos ditames constitucionais. Isto significa, que não se quer impedir a ocorrência do voto de qualidade, todavia, sua aplicação não pode ocorrer nos moldes em que vem sendo utilizado, ou seja, como mera repetição de voto de mérito por parte do presidente de turma, um "voto duplicado". Do contrário, o voto de qualidade se mostra como ferramenta útil se resultar em manifestação de ofício do presidente da Turma para aplicar o artigo 112, do CTN, nos casos de dúvida/empate do colegiado quanto às matérias relativas a penalidades, ou para que, eventualmente, se coloque o assunto em nova votação. Percebase que quando o voto de qualidade representa um voto duplicado, em termos práticos, o que se está permitindo é que um dos conselheiros tenha o poder de voto maior do que dos outros; violase a igualdade quanto ao poder de voto dos conselheiros. Isto é um problema, posto que, tal poder pode se manifestar até o ponto de se modificar completamente o resultado da opinião expressa pelos conselheiros. É por isso que, no caso de empate é razoável que se aplique, mediante o voto de qualidade, o artigo 112, do CTN, ou seja, que seja empregada a interpretação mais favorável ao contribuinte, não devendo haver mera réplica do voto já emitido pelo Presidente. Ressaltese, ainda, a ADI nº 5.731 ajuizada pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil – CFOAB ao STF, em junho de 2017, que questiona justamente a expressão “que, em caso de empate, terão o voto de qualidade”, contida no artigo 25, §9º do Decreto n° 70235, de 1972, com redação conferida pelo art. 25 da Lei n° 11941, de 27 de maio de 2009. Percebase que o posicionamento exarado na ADI corrobora com a visão deste julgador: “Conforme será abordado de forma mais detalhada adiante, o texto legal supracitado confronta princípios constitucionais, como o da isonomia, da razoabilidade e da proporcionalidade, bem como está em franca contrariedade ao artigo 112 do Código Tributário Nacional CTN. Desse modo, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, como legitimado universal para a propositura de Ação Direta de Inconstitucionalidade, no exercício Fl. 1191DF CARF MF 38 de sua competência legal de defensor da cidadania e da Constituição (Artigo 44, inciso I, da Lei 8.906/94), propõe a presente ação, visando a declaração de inconstitucionalidade da expressão contida no § 9º do art. 25 do Decreto n. 70.235/72, “que, em caso de empate, terão o voto de qualidade. (...) Ocorre que, em afronta a princípios constitucionais, como o da isonomia, da razoabilidade, da proporcionalidade e, inclusive, em contrariedade às finalidades institucionais do próprio Conselho, o dispositivo impugnado confere ao Presidente de Turma, por força do já citado artigo 25, § 9º do Decreto n. 70.235/72, a prerrogativa de proferir, além do voto ordinário, o voto de qualidade. Assim, valendose desta prerrogativa, os Presidentes de Turma (necessariamente representantes da Fazenda Nacional) têm proferido voto e, em um segundo momento, revertido o resultado do julgamento com novo voto (outro), quase sempre em desfavor dos contribuintes. Essa afirmação é corroborada pelos dados apresentados em matéria publicada recentemente pelo jornal Valor Econômico2. Segundo a reportagem, dos processos julgados entre janeiro e maio deste ano, 95% dos casos submetidos ao voto de qualidade foram decididos de modo desfavorável aos contribuintes, isto é, dos 110 acórdãos publicados, apenas seis foram desempatados de forma contrária aos interesses do fisco nacional. Ao adotar a sistemática de voto duplo para o não provimento de recurso interposto pelo contribuinte ou provimento de recurso de ofício interposto pela Fazenda Nacional, o tribunal administrativo deixa de atender aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade (art. 5º, LXXVIII, CF/88), na medida em que se utiliza de procedimentos discriminatórios e arbitrários para proferir seu julgamento. Como de conhecimento, a constitucionalização do princípio do devido processo legal (due process of law) tem por finalidade resguardar a garantia fundamental de todo cidadão de que o poder estatal, no exercício de suas funções e manifestações, respeitará, obrigatoriamente, a proporcionalidade e razoabilidade entre os meios adotados e os fins almejados, de maneira a resguardar os direitos e garantias fundamentais. Todavia, não é que se verifica na disposição em apreço. A duplicidade do voto proferido pelo Conselheiro Presidente, sobretudo levandose em conta ser ele representante do Fisco, coloca em xeque a missão da instituição, qual seja, julgar, de forma imparcial e justa, os litígios administrativos fiscais que tenham por objeto a apuração da incidência de tributos administrados pela Receita Federal do Brasil (dentre eles, os autos de infração, os processos de restituição e compensação, os recursos voluntários, de ofício e especiais). Outrossim, resta evidentemente questionável a constitucionalidade dessa previsão, uma vez que o voto duplo do Conselheiro Presidente, representante da Fazenda Nacional, passa a servir aos desígnios de uma das partes, ou seja, o Fisco. (...) (Grifos meus) 2 Valor Econômico, Legislação e Tributos, Justiça cancela julgamentos com voto de qualidade, São Paulo, 15 de julho de 2016. Fl. 1192DF CARF MF Processo nº 10980.724302/201618 Acórdão n.º 1402003.121 S1C4T2 Fl. 1.174 39 Assim, no que pese ainda estar em trâmite a análise da ADI nº 5.731, e tratar do tema sob ponto de vista constitucional, pontuo que sua simples propositura fortalece minha convicção e demonstra que a inconformidade com o modo como se dá o voto de qualidade atualmente dentro deste E. Conselho, não é somente minha. À luz do exposto, registro aqui minha declaração para constar que o voto de qualidade para manter a multa isolada, no presente processo, ao meu entender, é inválido, posto que por haver dúvida no colegiado quanto ao assunto, a penalidade deveria ser afastada, com fulcro no artigo 112, do CTN. É a declaração de voto. (assinado digitalmente) Demetrius Nichele Macei Fl. 1193DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13603.904506/2009-99
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 07 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF
Data do fato gerador: 06/07/2005
DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO - DCOMP. DÉBITO INFORMADO EM DCTF. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO ERRO.
A simples retificação de DCTF para alterar valores originalmente declarados, desacompanhada de documentação hábil e idônea, não pode ser admitida para modificar Despacho Decisório.
COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA.
Constatada a inexistência do direito creditório por meio de informações prestadas pelo interessado à época da transmissão da Declaração de Compensação, cabe a este o ônus de comprovar que o crédito pretendido já existia naquela ocasião.
Numero da decisão: 2401-005.626
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. Declarou-se impedido de votar o conselheiro Matheus Soares Leite.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Rayd Santana Ferreira, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa, José Alfredo Duarte Filho (suplente convocado em substituição ao impedimento do conselheiro Matheus Soares Leite) e Miriam Denise Xavier.
Nome do relator: JOSE LUIS HENTSCH BENJAMIN PINHEIRO
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF Data do fato gerador: 06/07/2005 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO - DCOMP. DÉBITO INFORMADO EM DCTF. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO ERRO. A simples retificação de DCTF para alterar valores originalmente declarados, desacompanhada de documentação hábil e idônea, não pode ser admitida para modificar Despacho Decisório. COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Constatada a inexistência do direito creditório por meio de informações prestadas pelo interessado à época da transmissão da Declaração de Compensação, cabe a este o ônus de comprovar que o crédito pretendido já existia naquela ocasião.
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DÉBITO INFORMADO EM DCTF. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO ERRO. A simples retificação de DCTF para alterar valores originalmente declarados, desacompanhada de documentação hábil e idônea, não pode ser admitida para modificar Despacho Decisório. COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Constatada a inexistência do direito creditório por meio de informações prestadas pelo interessado à época da transmissão da Declaração de Compensação, cabe a este o ônus de comprovar que o crédito pretendido já existia naquela ocasião. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. Declarouse impedido de votar o conselheiro Matheus Soares Leite. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Presidente. (assinado digitalmente) José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Rayd Santana Ferreira, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 60 3. 90 45 06 /2 00 9- 99 Fl. 101DF CARF MF Processo nº 13603.904506/200999 Acórdão n.º 2401005.626 S2C4T1 Fl. 102 2 José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa, José Alfredo Duarte Filho (suplente convocado em substituição ao impedimento do conselheiro Matheus Soares Leite) e Miriam Denise Xavier. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face de decisão da 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belo Horizonte, que, por unanimidade de votos, julgou IMPROCEDENTE Manifestação de Inconformidade apresentada contra Despacho Decisório que NÃO HOMOLOGOU compensação utilizando pretenso "Pagamento Indevido/a Maior" no valor de R$ 1.270,15 (cód 0588, PA 02/07/2005), veiculado na PER/DCOMP 28669.32626.271205.1.3.046174, em razão de o pagamento ter sido utilizado na extinção de débitos declarados em DCTF. A seguir, transcrevo alguns excertos do Acórdão de piso: (...) COMPROVAÇÃO DOCUMENTAL As informações prestadas pelo sujeito passivo, até prova em contrário, são consideradas verdadeiras, e não podem ser desconsideradas mediante simples alegações; para que estas informações sejam alteradas, dando origem a um indébito, deverá o contribuinte comprovar inequivocadamente o alegado. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO Na Declaração de Compensação somente podem ser utilizados os créditos comprovadamente existentes, respeitadas as demais regras determinadas pela legislação vigente para sua utilização. (...) Relatório (...) a manifestação de inconformidade (...) resumidamente alega: 4.1 A tempestividade (...). 4.2 O não reconhecimento do crédito utilizado é decorrente de "mero equivoco nas informações prestadas em DCTF'. Esclarece que para o período de apuração 02/07/2005 a empresa apurou um IRRF no importe de R$ 26.377,41, que foi quitado através de pagamento em DARF e compensação de débitos. Contudo, posteriormente, o contribuinte constatou que o montante recolhido para o período "foi superior àquele efetivamente devido", utilizando o valor recolhido a maior na DCOMP em litígio neste processo. 4.2.1 Acrescenta que o valor efetivamente devido no período em comento importa em R$ 12.613,79, e não R$ 26.377,41, conforme informado em sua DCTF original. A informação Fl. 102DF CARF MF Processo nº 13603.904506/200999 Acórdão n.º 2401005.626 S2C4T1 Fl. 103 3 equivocada foi corrigida mediante a apresentação de DCTF retificadora 4.3 Defende a observância do princípio da verdade material, transcrevendo excertos de James Marins, Alberto Xavier e acórdão do Conselho de Contribuintes. 4.4 Para amparar sua argumentação anexa ao processo o DARF recolhido, a DCTF original e a DCTF retificadora, apresentada em 24/07/2009. 4.5 Por fim, propugna pela homologação da compensação. (...) Voto (...) 14. As informações acerca do IRF02/07/2005 foram prestadas pelo próprio contribuinte, tanto na DCTF original quando na DCTF retificadora. O crédito utilizado na DCOMP não foi reconhecido pela DRF em função das informações prestadas na DCTF original. O contribuinte retifica a informação apresentada somente em 24/07/2009 (fl. 57), após o recebimento do Despacho Decisório emitido pela DRF. 14.1 A IN RFB n° 903, de 30 de dezembro de 2008 vigente na data da apresentação da DCTFRetificadora assim prescreve, acerca da retificação da DCTF: Art. 11. A alteração das informações prestadas em DCTF será efetuada mediante apresentação de DCTF retificadora, elaborada com observância das mesmas normas estabelecidas para a declaração retificada. (...) § 2º A retificação não produzirá efeitos quando tiver por objeto alterar os débitos relativos a impostos e contribuições: (...) III em relação aos quais a pessoa jurídica tenha sido intimada de início de procedimento fiscal. 14.2 Vale dizer, a declaração retificadora apresentada pelo contribuinte não produz os efeitos pretendidos, considerando o inciso III do § 2° do art. 11 acima transcrito. Contudo, ainda que assim seja, os dados constantes do presente documento poderiam ser acatados, desde que acompanhados da comprovação documental da alteração efetuada. Esta comprovação não foi apresentada pelo impugnante. (...) o contribuinte não apresentou qualquer comprovação da alteração efetuada, de modo que não há como validar o pretenso direito de crédito utilizado pelo contribuinte na DCOMP em litígio neste processo. (...)16. Considerando a inexistência de liquidez e certeza do pretenso indébito utilizado pelo contribuinte, a princípio, não há como homologar a compensação em litígio neste processo. Cientificado do Acórdão em 10/09/2010, o contribuinte interpôs recurso voluntário, em 08/10/2010, alegando, em síntese: Fl. 103DF CARF MF Processo nº 13603.904506/200999 Acórdão n.º 2401005.626 S2C4T1 Fl. 104 4 a) Tempestividade. Recepcionada a intimação postal em 09/09/2010 (quinta feira), o prazo para recurso se encerrar em 11/10/2010 (segundafeira) por força do art. 5°, parágrafo único, do Decreto n° 70.235, de 1972. b) No período de apuração 02/07/2005, a Recorrente realizou o pagamento de R$ 26.377,41 a título de IRRF, quando 12.613,79 era devido. Por equívoco, informou na DCTF originária R$ 26.377,41. Contudo, o erro restou sanado por DCTF retificadora (doc. 08 da Manifestação de Inconformidade). c) Nula a decisão que deixar de apreciar demonstrativos documentais relacionados com a matéria em discussão. d) Em face do princípio da verdade material, não há dúvida acerca da liquidez e certeza do direito creditório, devendo o Acórdão da DRJ ser reformado. Pesa sobre a Administração judicante, como conseqüência da legalidade tributária, o dever de busca da verdade material, para cuja estrutura processual é indispensável o princípio inquisitório. A doutrina e a jurisprudência do Conselho de Contribuintes respaldam o imperativo de observância dos princípios da legalidade e da verdade material. e) Rechaça o entendimento constante do Acórdão de a DCTF retificadora apresentada posteriormente ao recebimento do Despacho Decisório não produzir efeitos. Isto porque, independentemente do momento da retificação da mencionada declaração, o direito da Recorrente à repetição do indébito tributário não pode ser comprometido: este, é cediço, nasce do (e no momento do) recolhimento indevido; não depende, para existir, do cumprimento de meras obrigações tributárias acessórias. Logo, devem ser apreciados os fatos e documentos constantes dos autos, a demonstrar a existência do crédito. e) Pedido. Requer o conhecimento e provimento do Recurso Voluntário para a reforma integral do Acórdão atacado, com o consequente reconhecimento do crédito e a homologação integral da compensação. É o Relatório. Voto Conselheiro José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Tempestividade. O contribuinte sustenta a tempestividade do recurso, afirmando a recepção da intimação postal em 09/09/2010 (quintafeira). Devemos ponderar, contudo, que o Aviso de Recebimento constante dos autos atesta o recebimento em 10/09/2010. Logo, o recurso apresentado em 08/10/2010 (sextafeira), é tempestivo (Decreto n° 70.235, de 1972, arts. 5º e 15). Preenchidos os requisitos de admissibilidade, tomo conhecimento do recurso voluntário. Da preliminar. O contribuinte sustenta que a decisão de primeira instância administrativa deixou de apreciar os documentos carreados aos autos com a impugnação (DARF recolhido, DCTF original e DCTF retificadora). A simples leitura do Acórdão atacado Fl. 104DF CARF MF Processo nº 13603.904506/200999 Acórdão n.º 2401005.626 S2C4T1 Fl. 105 5 revela que tais documentos foram considerados, mas não de modo a alicerçar as alegações do contribuinte. Logo, afastase a alegação de nulidade por não apreciação de tais documentos. Do mérito. O contribuinte sustenta que a decisão de primeira instância administrativa não observou os princípios inquisitório e da verdade material, decorrentes do princípio constitucional da legalidade, eis que teria desconsiderado os documentos carreados aos autos com a impugnação, a demonstrar a liquidez e certeza do crédito. Além disso, argumenta ser irrelevante o momento da retificação da DCTF, pois a configuração do recolhimento indevido/a maior não dependeria de obrigação acessória. A DRJ não negou o recolhimento comprovado por DARF e nem a retificação da DCTF após a emissão do Despacho Decisório. Ponderou, contudo, que a simples retificação da DCTF não tem o condão de qualificar o recolhimento como indevido/a maior. Assim, invocando o disposto no art. 11, §2°, III, da IN RFB n° 903, de 2008, considerou que a retificação não produz efeitos quando tem por objetivo alterar débitos em relação ao qual exista procedimento fiscal, no caso a apreciação fiscal veiculada no Despacho Decisório, a demandar prova do cabimento da retificação, ônus do contribuinte. No presente caso, o Despacho Decisório não homologou a compensação em razão de o crédito a ser compensado estar alocado como pagamento de débito confessado na DCTF original. Após a emissão do Despacho Decisório, a DCTF foi retificada para se excluir tal débito e se caracterizar o recolhimento em questão como indevido/a maior. A apresentação de DCTF constituise em obrigação acessória. Entretanto, uma vez apresentada, o contribuinte comunica a existência de crédito tributário, confessando a dívida (DecretoLei n° 2.124, de 1984, art. 5°, § 1°)1. Destarte, o Despacho Decisório foi validamente emitido, eis que havia débito confessado correspondente ao valor recolhido em DARF. Resta perquirir se sua eficácia permanece, em face da posterior retificação da DCTF. Ao apresentar a DCTF retificadora após a emissão do Despacho Decisório, o contribuinte pretende corrigir pretenso erro de preenchimento da DCTF original, conforme expressamente consignado na manifestação de inconformidade e nas razões do recurso. A simples apresentação das DCTFs original e retificadora, ainda que acompanhadas de DARF, não se constitui em prova do alegado erro de fato. A retificação da DCTF é ineficaz, pois cabe ao contribuinte o ônus de comprovar o erro não apurável pelo mero exame das DCTFs (CTN, art. 147; Lei n° 5.869, de 1973, art. 333, II; Lei n° 13.105, 2015, arts. 15 e 373, II2; e IN RFB n° 903, de 2008, art. 11, §2°, III). 1 DecretoLei n° 2.124, de 1984. Art. 5º O Ministro da Fazenda poderá eliminar ou instituir obrigações acessórias relativas a tributos federais administrados pela Secretaria da Receita Federal. § 1º O documento que formalizar o cumprimento de obrigação acessória, comunicando a existência de crédito tributário, constituirá confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência do referido crédito. 2 Lei nº 5.172, de 1966 Código Tributário Nacional Art. 147. O lançamento é efetuado com base na declaração do sujeito passivo ou de terceiro, quando um ou outro, na forma da legislação tributária, presta à autoridade administrativa informações sobre matéria de fato, indispensáveis à sua efetivação. § 1º A retificação da declaração por iniciativa do próprio declarante, quando vise a reduzir ou a excluir tributo, só é admissível mediante comprovação do erro em que se funde, e antes de notificado o lançamento § 2º Os erros contidos na declaração e apuráveis pelo seu exame serão retificados de ofício pela autoridade administrativa a que competir a revisão daquela. Lei n° 5.869, de 1973 Código de Processo Civil REVOGADO Fl. 105DF CARF MF Processo nº 13603.904506/200999 Acórdão n.º 2401005.626 S2C4T1 Fl. 106 6 A jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais adota o entendimento aqui esposado, conforme revelam as seguintes ementas: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Anocalendário: 2003 DÉBITO INFORMADO EM DCTF. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO ERRO A simples retificação de DCTF para alterar valores originalmente declarados, desacompanhada de documentação hábil e idônea, não pode ser admitida para modificar Despacho Decisório. COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Constatada a inexistência do direito creditório por meio de informações prestadas pelo interessado à época da transmissão da Declaração de Compensação, cabe a este o ônus de comprovar que o crédito pretendido já existia naquela ocasião. (Processo n° 15374.903703/200886; Acórdão nº 2201004.420 – 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária; Sessão de 04 de abril de 2018) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Exercício: 2010 MERA ALEGAÇÃO DE ERRO MATERIAL. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO DCOMP. ERRO DE PREENCHIMENTO DA DCTF. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO ERRO. A alegação de que houve erro material no preenchimento da DCTF, mesmo que posteriormente retificada, e que determinado débito de IRRF teria sido pago a maior, não é suficiente para assegurar que tenha sido, de fato, maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, de modo a justificar a existência de direito creditório. É imprescindível a apresentação de prova cabal e inconteste do alegado erro material. (Processo n° 16327.910429/200919; Acórdão nº 2201004.442 – 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária; Sessão de 04 de abril de 2018) Destarte, em procedimento de análise da compensação do crédito, é do contribuinte o ônus de provar a existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo. Não existe nos autos qualquer prova a demonstrar a efetiva ocorrência de erro na apuração que ensejou o pagamento constante de DARF e o preenchimento da DCTF original. A prova da retificação da DCTF após o Despacho Decisório não é indício suficiente para se justificar, com lastro nos princípios inquisitório (inquisitivo ou da majoração dos Art. 333. O ônus da prova incumbe: II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Lei n° 13.105, de 2015 Código de Processo Civil VIGENTE Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente. Art. 373. O ônus da prova incumbe: II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Fl. 106DF CARF MF Processo nº 13603.904506/200999 Acórdão n.º 2401005.626 S2C4T1 Fl. 107 7 poderes do julgador) e da verdade material, a conversão do julgamento em diligência. Os princípios inquisitório e da verdade material não podem ser invocados para se afastar o dever de a empresa instruir a manifestação de inconformidade com provas documentais (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 16, III e §4°; e Lei n° 9.430, art. 74, §11). Impõese, por conseguinte, a aplicação do ônus da prova, sob pena de ofensa aos princípios da legalidade, da colaboração dos contribuintes e da duração razoável do processo. Além disso, o presente colegiado é incompetente para declarar a inconstitucionalidade ou ilegalidade das normas aplicáveis ao caso concreto3 sob a alegação de ofensa a princípios constitucionais ou legais4. A doutrina e jurisprudência invocadas pelo recorrente não têm o condão de influir no presente julgamento, restando, por todo o exposto, não caracterizada a existência de liquidez e certeza do pretenso indébito utilizado pelo contribuinte, não havendo como se homologar a compensação pretendida. Isso posto, voto por conhecer do recurso voluntário e negarlhe provimento. (assinado digitalmente) José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Relator 3 CTN, art. 147; Lei n° 5.869, de 1973, art. 333, II; Lei n° 13.105, 2015, arts. 15 e 373, II; Decreto n° 70.235, de 1972, art. 16, §4°; Lei n° 9.430, art. 74, §11; e IN RFB n° 903, de 2008, art. 11, §2°, III. 4 Decreto n° 70.235, de 1972, art. 32A; Portaria RFB n° 10.875, de 2007, art. 18; e Lei n° 9.430, art. 74, §11. Fl. 107DF CARF MF
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Numero do processo: 10980.914283/2012-88
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jul 19 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/06/2005 a 30/06/2005
RESTITUIÇÃO. REQUISITO.
O direito à restituição pressupõe a existência de créditos líquidos e certos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública (art. 170 do CTN).
Numero da decisão: 3201-003.913
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso. Acompanharam o relator pelas conclusões os conselheiros Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/06/2005 a 30/06/2005 RESTITUIÇÃO. REQUISITO. O direito à restituição pressupõe a existência de créditos líquidos e certos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública (art. 170 do CTN).
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decisao_txt : Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso. Acompanharam o relator pelas conclusões os conselheiros Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/06/2005 a 30/06/2005 RESTITUIÇÃO. REQUISITO. O direito à restituição pressupõe a existência de créditos líquidos e certos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública (art. 170 do CTN). Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso. Acompanharam o relator pelas conclusões os conselheiros Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior. Relatório METROBENS AUTOMÓVEIS LTDA. apresentou pedido eletrônico de restituição de crédito da contribuição (Cofins/PIS), pedido esse que restou indeferido pela repartição de origem em razão do fato de que o pagamento informado pelo pleiteante já havia sido utilizado para quitação de outros débitos de sua titularidade. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 91 42 83 /2 01 2- 88 Fl. 72DF CARF MF Processo nº 10980.914283/201288 Acórdão n.º 3201003.913 S3C2T1 Fl. 3 2 Cientificado, o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade e requereu a reavaliação do despacho decisório, alegando, aqui apresentado de forma sucinta, o seguinte: a) o direito creditório pleiteado se refere a pagamento a maior da contribuição (PIS/Cofins) decorrente da inclusão indevida do ICMS em sua base de cálculo; b) a contribuição (PIS/Cofins) incide sobre o faturamento mensal que corresponde à receita bruta da venda de mercadorias e/ou serviços; c) a Lei nº 9.718/1998 extrapolou a previsão constitucional, instituindo as contribuições sobre a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente do tipo de atividade exercida e/ou da classificação contábil adotada, enquanto que o art. 195, I, "b", da Constituição Federal previa a instituição de contribuições sociais somente sobre o faturamento, o que não abrange o valor pago a título de ICMS, visto que tal valor constitui ônus fiscal e não faturamento. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento, por meio do acórdão nº 12 079.438, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, considerando que a base de cálculo das contribuições (PIS/Cofins) é o faturamento, que corresponde à receita bruta auferida, não havendo previsão legal para exclusão do valor do ICMS que compõe o preço de venda da mercadoria. Irresignado, o contribuinte interpôs, no prazo legal, Recurso Voluntário, repisando os mesmos argumentos de defesa, destacando a inconstitucionalidade da inclusão do ICMS na base de cálculo da contribuição (PIS/Cofins), conforme decisão do Plenário do Supremo Tribunal Federal que reconheceu a repercussão geral da matéria no julgamento do RE nº 574.706. Arguiu, ainda, que o CARF entende, em observância ao princípio da Verdade Material, ser admissível a juntada de documentos que comprovem os fatos alegados pelo contribuinte após a impugnação e até o momento do julgamento. É o relatório. Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015, aplicandose, portanto, ao presente litígio o decidido no Acórdão 3201003.882, de 20/06/2018, proferido no julgamento do processo 10980.914262/201262, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201003.882): O recurso atende a todos os requisitos de admissibilidade previstos em lei, razão pela qual dele se conhece. Fl. 73DF CARF MF Processo nº 10980.914283/201288 Acórdão n.º 3201003.913 S3C2T1 Fl. 4 3 A Recorrente apresentou PER/DCOMP por meio do qual requereu a restituição do PIS apurado em julho de 2005. Indeferido o pleito ao argumento de que o crédito vindicado estava integralmente utilizado para quitação de débitos do próprio contribuinte, a Recorrente apresentou manifestação de inconformidade, por meio da qual alegou, com fundamento em decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal STF, que o direito à restituição decorre do fato do pagamento a maior do PIS/Cofins, em face da inclusão, nas suas respectivas bases de cálculos, do ICMS estadual, argumento repetido no recurso voluntário, ora apreciado. A Recorrente, contudo, não se atentou para o fato – devidamente explicitado no acórdão recorrido – de que a razão para o indeferimento do pedido repousou na utilização integral do crédito para pagamento de débito da mesma contribuição. Noutras palavras, a Recorrente sequer apresentou, antes ou após a ciência do Despacho Decisório (na verdade, nada falou a respeito em suas defesas), DCTF retificadora para permitir a liberação do valor requerido, se fosse o caso, e a sua restituição em pecúnia ou a sua compensação com outros tributos. Ainda que eventualmente seja procedente o argumento que embasa o pedido (isso não significa que concordemos com a tese), a Administração Tributária não podia e não pode restituir valor já alocado para quitação de um tributo. Quem deve fazêlo é o próprio contribuinte, de ordinário antes de apresentar o pedido eletrônico de restituição. É como, aliás, entende a própria RFB, como indica o Parecer Normativo Cosit nº 2, de 28 de agosto de 2015: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. RETIFICAÇÃO DA DCTF DEPOIS DA TRANSMISSÃO DO PER/DCOMP E CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. POSSIBILIDADE. IMPRESCINDIBILIDADE DA RETIFICAÇÃO DA DCTF PARA COMPROVAÇÃO DO PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. As informações declaradas em DCTF – original ou retificadora – que confirmam disponibilidade de direito creditório utilizado em PER/DCOMP, podem tornar o crédito apto a ser objeto de PER/DCOMP desde que não sejam diferentes das informações prestadas à RFB em outras declarações, tais como DIPJ e Dacon, por força do disposto no§ 6º do art. 9º da IN RFB nº 1.110, de 2010, sem prejuízo, no caso concreto, da competência da autoridade fiscal para analisar outras questões ou documentos com o fim de decidir sobre o indébito tributário. Não há impedimento para que a DCTF seja retificada depois de apresentado o PER/DCOMP que utiliza como crédito pagamento inteiramente alocado na DCTF original, ainda que a retificação se dê depois do indeferimento do pedido ou da não homologação da compensação, respeitadas as restrições impostas pela IN RFB nº 1.110, de 2010. Retificada a DCTF depois do despacho decisório, e apresentada manifestação de inconformidade tempestiva contra o indeferimento do PER ou contra a não homologação da DCOMP, a DRJ poderá baixar em diligência à DRF. Caso se refira apenas a erro de fato, e a revisão do despacho decisório implique o deferimento integral daquele crédito (ou homologação integral da DCOMP), cabe à DRF assim proceder. Caso Fl. 74DF CARF MF Processo nº 10980.914283/201288 Acórdão n.º 3201003.913 S3C2T1 Fl. 5 4 haja questão de direito a ser decidida ou a revisão seja parcial, compete ao órgão julgador administrativo decidir a lide, sem prejuízo de renúncia à instância administrativa por parte do sujeito passivo. O procedimento de retificação de DCTF suspenso para análise por parte da RFB, conforme art. 9ºA da IN RFB nº 1.110, de 2010, e que tenha sido objeto de PER/DCOMP, deve ser considerado no julgamento referente ao indeferimento/não homologação do PER/DCOMP. Caso o procedimento de retificação de DCTF se encerre com a sua homologação, o julgamento referente ao direito creditório cuja lide tenha o mesmo objeto fica prejudicado, devendo o processo ser baixado para a revisão do despacho decisório. Caso o procedimento de retificação de DCTF se encerre com a não homologação de sua retificação, o processo do recurso contra tal ato administrativo deve, por continência, ser apensado ao processo administrativo fiscal referente ao direito creditório, cabendo à DRJ analisar toda a lide. Não ocorrendo recurso contra a não homologação da retificação da DCTF, a autoridade administrativa deve comunicar o resultado de sua análise à DRJ para que essa informação seja considerada na análise da manifestação de inconformidade contra o indeferimento/não homologação do PER/DCOMP. A não retificação da DCTF pelo sujeito passivo impedido de fazêla em decorrência de alguma restrição contida na IN RFB nº 1.110, de 2010, não impede que o crédito informado em PER/DCOMP, e ainda não decaído, seja comprovado por outros meios. O valor objeto de PER/DCOMP indeferido/não homologado, que venha a se tornar disponível depois de retificada a DCTF, não poderá ser objeto de nova compensação, por força da vedação contida no inciso VI do § 3º do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996. Retificada a DCTF e sendo intempestiva a manifestação de inconformidade, a análise do pedido de revisão de ofício do PER/DCOMP compete à autoridade administrativa de jurisdição do sujeito passivo, observadas as restrições do Parecer Normativo nº 8, de 3 de setembro de 2014, itens 46 a 53. Dispositivos Legais. arts. 147, 150, 165 170 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN); arts. 348 e 353 da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 – Código de Processo Civil (CPC); art. 5º do Decretolei nº 2.124, de 13 de junho de 1984; art. 18 da MP nº 2.18949, de 23 de agosto de 2001; arts. 73 e 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996; Instrução Normativa RFB nº 1.110, de 24 de dezembro de 2010; Instrução Normativa RFB nº 1.300, de 20 de novembro de 2012; Parecer Normativo RFB nº 8, de 3 de setembro de 2014. eprocesso 11170.720001/201442 Portanto, para que haja a possibilidade de restituição, o crédito respectivo deve estar liberado, mediante a entrega de DCTF retificadora, exceto quanto às hipóteses de impedimento à sua apresentação, não verificadas, aliás, no caso ora em exame, como, por exemplo, quando o saldo a pagar já tenha sido enviado à Procuradoria da Fazenda Nacional PFN para inscrição em Dívida Ativa. Não cabe, ademais, à RFB fazer a retificação de ofício. Como consignado nos fundamentos do referido PN, "enquanto não retificada a DCTF, o débito ali espontaneamente confessado é devido, logo, valor utilizado para quitálo não se constitui formalmente em indébito, sem que a recorrente promova a prévia retificação da Fl. 75DF CARF MF Processo nº 10980.914283/201288 Acórdão n.º 3201003.913 S3C2T1 Fl. 6 5 declaração. (Acórdão nº 1302001.571, Rel. Cons. Alberto Pinto Souza Júnior, 25 de novembro de 2014)". A situação aqui enfrentada é, como se percebe, diferente da que comumente se vê no Contencioso Administrativo, em que o interessado costuma apresentar DCTF retificadora, mas não apresenta, na manifestação de inconformidade, documentos contábeis/fiscais comprovando o erro cometido na original, ou os apresenta neste recurso, mas o só fato de a DCTF retificadora ter sido apresentada após a ciência do Despacho Decisório leva a DRJ a manter, por esse só motivo, o indeferimento do pedido de restituição. Não tendo sido apresentada DCTF retificadora, o crédito reclamado continua vinculado ao pagamento confessado na DCTF enviada à RFB, de modo que, nesse contexto, não há como restituílo. Contudo, não foi este o entendimento dos demais integrantes da Turma, que, muito embora também negando provimento ao recurso, fizeramno ao argumento de que não haveria provas do direito reclamado pela Recorrente (apenas apresentou planilha discriminando os valores pleiteados, mas nenhum documento fiscal ou contábil). Ante o exposto, NEGO PROVIMENTO ao recurso voluntário. Destaquese que, não obstante o processo paradigma se referir unicamente à Contribuição para o PIS, a decisão ali prolatada se aplica nos mesmos termos à Cofins. Importa registrar, ainda, que, nos presentes autos, as situações fática e jurídica encontram correspondência com as verificadas no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Portanto, aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 76DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13603.002966/2003-95
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 17 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jul 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 1998, 1999, 2000
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. SOCIEDADE DE FATO CARACTERIZADA. ART. 124, INC. I DO CTN. IMPUTAÇÃO AOS SÓCIOS DE FATO. CABIMENTO.
Configurada a sociedade de fato, caracterizada pela interposição de pessoas no quadro societário, revela-se correta a indicação dos verdadeiros sócios como coobrigados, pois é inequívoco, no caso, o interesse comum (dos sócios de fato) na situação que constituiu o fato gerador da obrigação principal.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. SOCIEDADE CONSTITUÍDA IRREGULARMENTE MEDIANTE INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS NO QUADRO SOCIETÁRIO. RESPONSABILIDADE DOS SÓCIOS DE FATO. ART. 135, III. INFRAÇÃO À LEI CARACTERIZADA.
A constituição da sociedade de forma irregular, mediante a utilização de interposição de pessoas no quadro societário, tem o mesmo efeito da dissolução irregular, posto que em ambos os casos, o Fisco somente pode concretizar a execução fiscal se redirecioná-la aos verdadeiros sócios, titulares do empreendimento.
Numero da decisão: 1302-002.798
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário do responsável solidário José Marcelino de Araujo, nos termos do relatório e voto do relator. Votou pelas conclusões do relator o conselheiro Gustavo Guimarães Fonseca, que manifestou intenção de apresentar declaração de voto.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Angelo Abrantes Nunes (suplente convocado), Rogerio Aparecido Gil, Maria Lucia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flavio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Ausente justificadamente o conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo.
Nome do relator: LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 1998, 1999, 2000 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. SOCIEDADE DE FATO CARACTERIZADA. ART. 124, INC. I DO CTN. IMPUTAÇÃO AOS SÓCIOS DE FATO. CABIMENTO. Configurada a sociedade de fato, caracterizada pela interposição de pessoas no quadro societário, revela-se correta a indicação dos verdadeiros sócios como coobrigados, pois é inequívoco, no caso, o interesse comum (dos sócios de fato) na situação que constituiu o fato gerador da obrigação principal. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. SOCIEDADE CONSTITUÍDA IRREGULARMENTE MEDIANTE INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS NO QUADRO SOCIETÁRIO. RESPONSABILIDADE DOS SÓCIOS DE FATO. ART. 135, III. INFRAÇÃO À LEI CARACTERIZADA. A constituição da sociedade de forma irregular, mediante a utilização de interposição de pessoas no quadro societário, tem o mesmo efeito da dissolução irregular, posto que em ambos os casos, o Fisco somente pode concretizar a execução fiscal se redirecioná-la aos verdadeiros sócios, titulares do empreendimento.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 1998, 1999, 2000 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. SOCIEDADE DE FATO CARACTERIZADA. ART. 124, INC. I DO CTN. IMPUTAÇÃO AOS SÓCIOS DE FATO. CABIMENTO. Configurada a sociedade de fato, caracterizada pela interposição de pessoas no quadro societário, revelase correta a indicação dos verdadeiros sócios como coobrigados, pois é inequívoco, no caso, o interesse comum (dos sócios de fato) na situação que constituiu o fato gerador da obrigação principal. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. SOCIEDADE CONSTITUÍDA IRREGULARMENTE MEDIANTE INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS NO QUADRO SOCIETÁRIO. RESPONSABILIDADE DOS SÓCIOS DE FATO. ART. 135, III. INFRAÇÃO À LEI CARACTERIZADA. A constituição da sociedade de forma irregular, mediante a utilização de interposição de pessoas no quadro societário, tem o mesmo efeito da dissolução irregular, posto que em ambos os casos, o Fisco somente pode concretizar a execução fiscal se redirecionála aos verdadeiros sócios, titulares do empreendimento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário do responsável solidário José Marcelino de Araujo, nos termos do relatório e voto do relator. Votou pelas conclusões do relator o conselheiro Gustavo Guimarães Fonseca, que manifestou intenção de apresentar declaração de voto. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 60 3. 00 29 66 /2 00 3- 95 Fl. 2433DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.434 2 Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Angelo Abrantes Nunes (suplente convocado), Rogerio Aparecido Gil, Maria Lucia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flavio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Ausente justificadamente o conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo. Fl. 2434DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.435 3 Relatório Trata o presente de exigência de COFINS, formalizada contra a interessada acima identificada e responsáveis solidários arrolados: José Marcelino de Araújo e Clésio Wagner de Araújo. O lançamento da referida contribuição foi realizado no mesmo procedimento fiscal e com base nos mesmos elementos de prova que deram ensejo ao lançamento de IRPJ e CSLL, formalizados por meio do PA nº 13.603.002968/200384. Cientificados o contribuinte principal e responsáveis solidários da decisão de primeiro grau, neste processo, apenas o primeiro apresentou recurso voluntário, tendo o colegiado da Primeira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes acordado em dar provimento parcial ao recurso voluntário, por meio do Acórdão nº 10196.803, de 25/06/2008, que tem a seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1998, 1999, 2000 O Primeiro Conselho de Contribuintes não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 1998 LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DECADÊNCIA. A Fazenda Pública dispõe de 5 (cinco) anos, contados a partir do fato gerador, para promover o lançamento de tributos e contribuições sociais enquadrados na modalidade do art. 150 do Código Tributário Nacional (CTN), a do lançamento por homologação, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, situação em que se aplica a regra do art. 173, I, do Código. Inexistência de pagamento, ou descumprimento do dever de apresentar declarações, não alteram o prazo decadencial nem o termo inicial da sua contagem. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Anocalendário: 1998, 1999, 2000 Fl. 2435DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.436 4 MULTA QUALIFICADA. SONEGAÇÃO. UTILIZAÇÃO DE PESSOAS SEM CAPACIDADE ECONÔMICOFINANCEIRA NA CONDIÇÃO DE SÓCIAS DE PESSOA URÍDICA. A inclusão de pessoas de reconhecida incapacidade econômicofinanceira no quadro societário de pessoa jurídica, em substituição aos verdadeiros sócios, não é suficiente, tãosomente, para caracterizar a intenção de sonegar. Tal expediente pode configurar tentativa de frustrar eventual execução fiscal, não punível com multa qualificada. A sonegação se consuma no esforço de encobrir o fato gerador, segundo o tipo penal descrito no art. 71 da Lei 4.502/1964, e não na tentativa de frustrar a cobrança do crédito tributário. Não obstante os responsáveis solidários não terem apresentado recurso voluntário nestes autos, uma vez cientificados do Acórdão nº 10196.803, aviaram recurso especial contra aquela decisão, tendo sido, num primeiro momento rejeitados, e, posteriormente, parcialmente admitidos pelo Presidente da Primeira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes. A situação foi descrita no Acórdão nº 9101001.936, de 15/05/2014, proferido pela 1ª Turma da CSRF, verbis: [...] Em sessão de 26 de junho de 2008 os membros da extinta Primeira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, por meio do Acórdão n° 10196.803 acordaram em, (i) por unanimidade de votos, REJEITAR as preliminares de nulidade do lançamento, e ACOLHER a decadência quanto aos fatos geradores até o mês de novembro de 1998, inclusive. No mérito, por unanimidade de votos, DAR provimento PARCIAL ao recurso para reduzir a multa de oficio a 75%. [...] Ciente da decisão do Conselho, Garantia Indústria, Comércio e Importação Ltda. ingressou recurso especial nos seguintes termos: “Como razões de Recurso Especial, informa a recorrente que se reporta às razões apresentadas em recurso voluntário e que foi vencida no acórdão recorrido. O presente feito tratase de exigência de COFINS via tributação reflexa, cujos autos principais são o de número 13603.002968/200384 (IRPJ/CSLL), que ainda se encontram em tramitação perante o CARF, conforme movimentação processual em anexo. Informa a empresa recorrente que as razões de Recurso Especial serão ofertadas quando da interposição de Recurso Especial nos autos principais. “ Aviaram embargos de declaração os responsabilizados José Marcelino de Araújo e Clésio Wagner de Araújo, sendo os mesmos rejeitados de acordo com o decidido no Despacho em Embargos n° 110100.009. Fl. 2436DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.437 5 Tais sujeitos passivos também aviaram recursos especiais de divergência, além de contrarrazões, requerendo o improvimento do REsp da Procuradoria da Fazenda Nacional O recurso especial de divergência dos arrolados como sujeitos passivos solidários foi apresentado em conjunto, numa mesma peça, para os três processos (principal, de IRPJ e CSLL, e decorrentes, de PIS e de Cofins), suscitando 4 matérias, cujas interpretações postulam serem levadas à CSRF para uniformização, a saber: . (i) falta de apresentação de recurso voluntário pelo Sr. Clésio Wagner de Araújo; (ii) não conhecimento das razões de recurso do Sr. José Marcelino de Araújo referentes à declaração de nulidade do Termo de Responsabilidade; (iii) apuração do crédito tributário por arbitramento versus glosa de custos; (iv) eleição da base de cálculo do PIS e da Cofins por dispositivo declarado inconstitucional pelo STF. Pelo despacho 110100.042, de 08/07/2011, o Presidente da 1º Câmara da 1ª SEJUL, inicialmente, negou seguimento ao recurso especial das pessoas físicas. Ante o pedido de revisão do despacho, que reclamou de a apreciação dos processos (matriz e decorrentes) ter sido feita de forma independente, o novo Presidente da 1ª Câmara encaminhou os autos ao antigo presidente, prolator do despacho agravado, solicitando sua manifestação a respeito. O autor do despacho agravado proferiu despacho saneador conjunto para os três despachos anteriores, propondo sua anulação, por ter a análise da admissibilidade sido realizada como se autônomos fossem, pois “admitida a decorrência, aplicarseia aos procedimentos reflexivos,no que couber, a mesma decisão dada ao processo matriz.” Afinal, assim se manifestou: “ (...) entendo que o Despacho n° 110100.044, datado de 08/07/2011, deve ser retificado apenas quanto à. constatação de que se trata do processo matriz, cuja decisão, quanto à. admissibilidade do recurso especial, no que couber, deve ser estendida aos processos decorrentes, acima enumerados, permanecendo inalterada a rejeição ao seguimento da 4ª divergência, supra transcrita, por falta de previsão regimental, devendo o novo Despacho dessa Presidência da 1ª Câmara instruir o processo principal e os decorrentes.” Aduziu considerações a respeito da 4ª divergência, pela importância do tema, mesmo sem a matéria ter sido préquestionada (inaplicabilidade do art. 3°, § 1°, da Lei n° 9.718/1998). Pondera que é inquestionável o motivo regimental que impõe a inadmissibilidade, mas que também inquestionável o direito que os recorrentes têm de se ver desonerados de ônus fiscal sabidamente indevido. Sugeriu que as autoridades competentes reflitam sobre a viabilidade da regulamentação desse procedimento, que poderia ser feita através da introdução de dispositivo regimental. E assim concluiu seu despacho: Feitas essas considerações, entendo que à luz do atual Regimento Interno do CARF não deve ser dado seguimento à divergência em causa, mantendose o que foi posto no precitado Despacho n° 110100.044, quanto a esse aspecto. Fl. 2437DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.438 6 O Presidente da 1ª Câmara concordou com o parecer em todos os seus termos, e manteve a decisão exarada no Despacho n° 110100.044, de 08/07/2011, quanto ao seguimento parcial do recurso especial, negando seguimento apenas à 4ª divergência, pela falta de previsão regimental, determinado que o Despacho saneador instruísse os processos decorrentes, aplicandoselhes o mesmo juízo de admissibilidade do processo matriz, no que couber. [...] Em 15 de maio de 2014 foi proferido o Acórdão nº 9101001.936, pela 1ª Turma da CSRF, mediante o qual decidiu, verbis: ACORDAM os membros da 1ª Turma da CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS, Por unanimidade de votos, recurso provido com retorno à Câmara a quo. Recurso do Contribuinte: 1) Quanto ao Conhecimento: a) Por unanimidade de votos, recurso não conhecido quanto à convalidação do recurso voluntário de Clésio Wagner de Araújo. b) Por maioria de votos, recurso conhecido quanto à responsabilidade de José Marcelino de Araújo. Vencidos os Conselheiros João Carlos de Lima Junior e Paulo Roberto Cortez (Suplente Convocado). c) Por maioria de votos, recurso não conhecido quanto à possibilidade de arbitramento. Vencidos os Conselheiros Antonio Lisboa Cardoso (Suplente Convocado) e Paulo Roberto Cortez (Suplente Convocado). d) Por unanimidade de votos, recurso de Clésio não conhecido por preclusão. 2) Quanto ao Mérito: a) Por maioria de votos, o colegiado considerou o CARF competente para apreciar o mérito da responsabilidade. Vencidos os Conselheiros João Carlos de Lima Junior e Paulo Roberto Cortez (Suplente Convocado) que entendiam que no caso concreto não haveria essa possibilidade. b) Por maioria de votos, o colegiado decidiu pelo retorno à Câmara a quo para manifestação sobre a responsabilidade de José Marcelino de Araújo. Vencidos os Conselheiros Antonio Lisboa Cardoso (Suplente Convocado) que votou pela análise da responsabilidade direta pela CSRF e Karem Jureidini Dias que votou pela nulidade completa da decisão. O acórdão da Câmara Superior tem a seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1998, 1999, 2000 NORMAS PROCESSUAIS RECURSO ESPECIAL Decisão parcial de mérito, no sistema processual brasileiro, usado subsidiariamente no processo administrativo fiscal, é nula, devendo ser anulada para julgamento único, ante a unicidade do julgamento. NORMAS PROCESSUAIS RECURSO ESPECIAL A perfeita comprovação do dissídio jurisprudencial é requisito inafastável para legitimar o recurso especial, sem a qual não pode o recurso ser conhecido. DECADÊNCIA TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO TERMO INICIAL. Fl. 2438DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.439 7 Conforme decisão do STJ em Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008, em não havendo pagamento do tributo, o termo inicial para a contagem do prazo decadencial iniciase no primeiro dia do exercício/período seguinte aquele em que o lançamento poderia ter sido iniciado, exvi do disposto no inciso I, art. 173, do CTN. Se os autos indicam a ocorrência de pagamento, o termo inicial a ser considerado é a data do fato gerador. ATRIBUIÇÃO DE RESPONSABILIDADE PELO CRÉDITO TRIBUTÁRIO COMPETÊNCIA DO CARF PARA JULGAMENTO. A identificação de coresponsáveis pelo crédito tributário constituído mediante lançamento de oficio remete o exame da atribuição de responsabilidade para o âmbito do processo administrativo tributário regulado pelo Decreto 70.235/72, cujo julgamento em segunda instância compete ao CARF. Portanto, embora os responsáveis solidários não tenham apresentado recurso voluntário neste processo, a CSRF acolheu o despacho do presidente da Câmara que deu seguimento parcial aos recursos especiais por eles interpostos, tendo em vista a relação de causa e efeito com as matérias discutidas no PA nº 13603.002968/200384, no qual foram formalizadas as exigências de IRPJ e CSLL, e nos quais os ditos responsáveis, entre os quais o ora recorrente, haviam apresentado tanto o recurso voluntário, quanto o recurso especial, estes com o mesmo teor do apresentado nestes autos, no tocante à imputação da responsabilidade que lhe foi atribuída pela fiscalização. O litígio instaurado com relação ao IRPJ e a CSLL, foi apreciado em segunda instância pela 1ª Câmara do extinto 1ª Conselho de Contribuintes, em 25 de junho de 2008, por meio do Acórdão nº 10196.791, mediante o qual acordaram os membros daquele colegiado, "por unanimidade de votos, NÃO CONHECER do recurso interposto por PLR Comércio e Importação Ltda. Por maioria de votos, CONHECER do recurso interposto pela pessoa de José Marcelino de Araújo, arrolado como responsável solidário, para declarar a nulidade do ato de imputação de responsabilidade, por ser matéria de execução fiscal, de competência da Procuradoria da Fazenda Nacional; vencidos os Conselheiros Sandra Maria Faroni e Alexandre Andrade Lima da Fonte Filho que enfrentavam o mérito dessa inclusão. Em primeira votação, por maioria de votos, foi afastada a tese de não conhecimento desses recursos, vencido o Conselheiro Caio Marcos Cândido. No que concerne as demais matérias, por unanimidade de votos, REJEITAR as preliminares de nulidade do lançamento, e ACOLHER a decadência quanto aos fatos geradores até o 3o. trimestre de 1998, inclusive. No mérito, por unanimidade de votos, manter o arbitramento dos lucros e DAR provimento PARCIAL ao recurso para reduzir a multa de oficio a 75%, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado". O conteúdo da decisão acima, no que interessa ao presente processo, está expressa na seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1998, 1999, 2000 Fl. 2439DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.440 8 PESSOAS ARROLADAS COMO RESPONSÁVEIS PELO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. A atribuição de responsabilidade pelo crédito tributário é matéria de execução, da esfera de competência da d. Procuradoria da Fazenda Nacional (PFN), devendose anular os atos de atribuição de responsabilidade lavrados pela fiscalização e desconhecer as razões de recurso vinculadas ao tema. No entanto, o enfrentamento das outras questões suscitadas, diversas da atribuição de responsabilidade, tomase imprescindível como forma de assegurar aos recorrentes o direito à ampla defesa e ao contraditório, no âmbito processual regulado pelo Decreto 70.235/72. Em 26/01/2017 o processo foi sorteado a este conselheiro para relatar o recurso referido. Por meio do despacho de saneamento foi determinado o retorno dos autos à unidade de origem para ciência aos interessados da decisão da CSRF. Na sequência, foram opostos embargos pelos responsáveis solidários em face do acórdão da CSRF, que foram apreciados e rejeitados conforme Despacho de Admissibilidade de Embargos, exarado pela Presidente da 1ª Turma da CSRF, que determinou a devolução dos autos a este relator para julgamento do recurso do responsável solidário José Marcelino de Araújo, nos termos do Acórdão nº 9101001.936 da CSRF. Portanto a discussão que remanesce nos autos referese exclusivamente à apreciação das razões do recurso voluntário do referido responsável solidário, tão somente quanto ao mérito da sujeição imputada pela fiscalização. A 2ª Turma da DRJBelo Horizonte, ao apreciar as razões de impugnação do referido responsável solidário, proferiu o Acórdão nº 0214.551, manteve a imputação de responsabilidade, conforme sintetizado na seguinte ementa sobre a matéria, verbis: RESPONSABILIDADE PELO CREDITO TRIBUTÁRIO As pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador são solidariamente responsáveis pelo crédito tributário apurado. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei os mandatários, prepostos e empregados e os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. O recorrente José Marcelino foi cientificado desta decisão em 12/07/2007 (fls. 1901), porém não apresentou recurso voluntário neste autos, conforme já relatado. Não obstante, o recorrente contestou a responsabilidade solidária atribuída no recurso voluntário interposto no PA nº 13603.002968/200384, no qual foram formalizadas as exigências de IRPJ e CSLL, no qual repete, em linhas gerais, os argumentos trazidos em sua impugnação que foram bem sintetizados no Acórdão nº 10196.791, proferido naquele processo, verbis: Fl. 2440DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.441 9 [...] Prosseguese com o resumo das impugnações, finalmente quanto àquelas apresentadas pelas pessoas físicas implicadas como responsáveis pelo crédito tributário: [...] C) JOSÉ MARCELINO DE ARAÚJO (FLS. 1612/1674) 1. Dos fatos Os auditores da Receita Federal, no uso de suas atribuições, autuaram a sociedade GARANTIA Ind. Com. e Importação Ltda., exigindo suposto crédito tributário referente ao IRPJ, CSLL, PIS e Cofins exercícios de 1998 a 2000. Destarte, os auditoresfiscais incluíram o impugnante como responsável solidário do pretenso crédito, por mera presunção, sem motivação de ordem fático jurídica que dê suporte. Nesta esteira, referida inclusão não merece prosperar, posto que, conforme restará demonstrado e comprovado, o impugnante não possui nenhuma relação com a sociedade autuada, que implique na responsabilização imputada, sendo inequívoco, ainda, a nulidade do lançamento em relação ao impugnante. 2. Do direito 2.1. Das preliminares 2.1.1. Decadência operada fatos geradores ocorridos em 1998 e primeiro trimestre de 1999 art. 150, § 4o do CTN Teceu o impugnante considerações acerca da decadência, concluindo que houve a homologação tácita do crédito tributário, razão pela qual deve ser acolhida a preliminar suscitada, para o fim de extinguir definitivamente a exigência fiscal referente aos anos de 1998 e primeiro trimestre de 1999. 2.1.2. Ilegitimidade passiva Os fatos imputados ao impugnante advém exclusivamente de presunção, pelo fato de, por meio de quebra ilegal de sigilo bancário, ter a instituição financeira apresentado cadastros bancários anteriores à Lei Complementar n° 105, de 10 de janeiro de 2001, constando o impugnante como avalista da empresa Garantia. Além disso, baseiase em declaração de três empregados da mesma empresa, cujas declarações não fazem prova para imputação de responsabilização tributária. Em momento algum se constata nos autos provas que permitam atribuir ao impugnante a condição de sujeito passivo da obrigação tributária. O simples fato de ter avalizado a empresa autuada em cinco contratos no período de dezembro de 1997 a dezembro de 1998 não autoriza a aplicação da responsabilidade solidária que se pretende imputar ao impugnante por fatos geradores ocorridos entre 1998 e 2000. Fl. 2441DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.442 10 A imputação de coobrigação em um crédito tributário de mais de RS 8 milhões, por ter avalizado uma empresa com quem mantinha relações comerciais foge às raias do razoável. Cabia à fiscalização provar que o impugnante realizou operações associadas às razões que culminaram na exigência fiscal. Tece considerações acerca de presunção e indícios, ressaltando que a extensão dos efeitos do A.I. sobre o impugnante somente teve nascedouro porque houve a presunção de que este era "o verdadeiro dono do negócio" e que ele detinha poderes e os efetivamente exercia de forma e modo a decidir acerca dos pagamentos ou sua abstenção, das obrigações tributárias da empresa. Diante disso, partiuse de meras presunções, que não geram direito. Quanto aos indícios, sua utilização como prova necessita de extrema cautela, devendo ser aplicada somente quando houver absoluta certeza de que não existem alternativas razoáveis para o caso concreto. A eleição de um terceiro o impugnante como sujeito passivo carece de fundamento e de provas, estas últimas que a fiscalização não junta em nenhum momento. O auto de infração está embasado em meras presunções e suposições da autoridade lançadora que pensa serem provas as declarações prestadas por três ex funcionários da empresa autuada, que não afirmaram em nenhum momento que o impugnante geria a empresa ou que dele recebiam ordens. Ante a desconstituição da presunção, não há que se falar em sua inclusão como responsável solidário neste procedimento, tampouco em razão dos avais prestados em períodos diversos dos referentes ao crédito tributário exigido. O impugnante, como prestador de serviços de corretagem de mercadorias, confirma sua condição de dependência do cliente, o que inclui a empresa Garantia. E, ao contrário do que argumenta o agente fiscal, não participa financeiramente das empresas clientes e tampouco empenha seu patrimônio pessoal. O que faz é, por vezes se sentir na obrigação de melhor atendêlos, com prestação de favores como é o caso de assinar como avalista em contratos bancários, procedimento imprescindível para a conquista do cliente num mercado competitivo. Entretanto, de um aval prestado em 1997 e 1998 originar a presunção de participação em fato gerador de obrigação tributaria de 1999 e 2000 ultrapassa o limite do razoável. Em conclusão, os avais ocorreram tãosomente em razão das atividades comerciais exercidas pelo impugnante, sendo certo não ter havido nenhum ato de gestão ou administração da empresa por parte deste. Quanto à capacidade financeira dos sócios, esta não pode ser medida pelas declarações de imposto de renda ou pelas evasivas declarações do Sr. Orlando. Salientese que o sócio Orlando é um conhecido empresário no ramo que atua, já tendo sido sócio anteriormente de outras empresas. Da mesma forma o Sr. Pergentino, que já foi sócio de empresas, antes de constituir a Garantia. 2.1.3. Provas insubsistentes declarações de terceiros não são provas lícitas para imputação de sujeição passiva. Fl. 2442DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.443 11 Consoante ressaise do Termo de Constatação, os agentes fiscais presumiram a sujeição passiva e elegeram um responsável tributário com base em declarações prestadas por terceiros. Insta frisar que o Decreto n° 70.235, de 1972, não possui previsão expressa com relação a todos os tipos de provas existentes em direito. A prova testemunhal e o depoimento pessoal não estão regulamentos no referido decreto. Cita os arts. 350 e 368 do CPC e jurisprudência, para afirmar que estas informações só produzem a verdade com relação aos declarantes, jamais contra terceiros, como o caso do impugnante. Não obstante, o agente fiscal tomou como verdade absoluta declarações e informações de terceiros que não se prestam para o fim colimado pelos auditores fiscais. Isso porque, o Sr. Geraldo foi detido em frente à empresa que presta serviços, colocado no carro pelos auditoresfiscais e levado para a Receita Federal, conforme relatam testemunhas. Do seu depoimento, dada a falta de nexo nas afirmações, ressaise que foi coagido e induzido a dar respostas de acordo com a vontade fiscal. Ademais, o Sr. Geraldo é um funcionário carregador braçal que trabalhou aproximadamente por seis meses na empresa e não poderia obter nenhuma informação sobre a gestão. Verificase ainda que em nenhum momento disse receber ordens do impugnante, mas de Marcos Giovani Virgílio e outros, sequer tendo afirmado que conhecia o impugnante. Situação idêntica é o depoimento prestado pelas Sras. Adna Costa Silva e Marly Elena Costa empacotadeiras, tomado a socapa pelos auditores, que certamente confundiram suas idéias e distorceram suas palavras, e por ser de pouca instrução, não sabiam das malícias utilizadas na condução do seu depoimento. Tais depoimentos, em nome da ampla defesa, devem ser colhidos novamente, como diligência, desta feita sem coação e na presença das panes. A fiscalização limitouse a imputar a responsabilização ao impugnante com base nestas informações de terceiros, deixando de considerar as declarações do sócio Orlando e de perquirir sobre a titularidade da empresa ao seu gestor e procurador, Sr. Nilton. Esse último não foi ouvido pela fiscalização nem chamado para prestar esclarecimentos, conquanto conste do TVF que ele não teria capacidade financeira. Os comentários maliciosos e sarcásticos sobre o depoimento do sócio Orlando não servem para desconsiderálo, demonstrando apenas a intenção dos agentes fiscais na imputação de responsabilidade a terceiro. É crível, utilizando vocabulário dos auditoresfiscais, que o sócio da empresa autuada não quisesse, perante a fiscalização, se comprometer e, portanto, foi o mais evasivo possível. As vacilações e falta de consistência das assertivas dos empregados declarantes não foram suficientes para abalar o crédito dado pela fiscalização quanto à veracidade de tudo o que fora declarado. No relatório de diligências, predominam as opiniões pessoais dos encarregados dos trabalhos, que se constituem em prejulgamentos das situações examinadas, lembrando que é indispensável prova material concreta obtida por meios regulares. Fl. 2443DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.444 12 As informações prestadas por clientes da empresa (Carrefour e Indústria Rettore) não receberam valoração dos agentes fiscais. Em nenhum momento fornecedor ou cliente alegaram que faziam tratativas com o impugnante. A existência dos avais constitui indício fraco e insubsistente para atribuir responsabilidade tributária por débitos de terceiros. Além do procurador, Sr. Nilton, também o Sr. Rogério de Souza Jacob não foi chamado para participar da fiscalização e prestar esclarecimentos, malgrado tenha sido citado no TVF como representante da empresa. Depoimentos de funcionários próximos da direção e da gestão da empresa também não receberam valoração por parte da fiscalização. Diante disso, diligências e provas testemunhais de quem efetivamente pode esclarecer os fatos atinentes às pessoas ligadas na direção da empresa devem ser feitas porque, embora sem nenhum vínculo com a empresa Garantia que lhe pudesse atribuir responsabilidade tributária, se vê diante do constrangimento e sofrendo danos morais e patrimoniais advindos desta imputação de coobrigação. Quanto aos demais tópicos da defesa (da ausência de conduta concorrente à supressão de tributos pelo impugnante; da impossibilidade do impugnante figurar como responsável solidário do crédito tributário; da inaplicabilidade da teoria da descaracterização da personalidade jurídica pela autoridade administrativa; nulidade do arbitramento com relação ao impugnante; inocorrência do fato gerador; impossibilidade de agravamento da multa; da irretroatividade da Lei Complementar 105/2001), o arrazoado constitui, em linhas gerais, reprodução das impugnações apresentadas pelos demais implicados no processo, conforme resumo feito anteriormente. [...] No seu recurso voluntário o recorrente mais uma vez questiona o uso da prova testemunhal no âmbito do processo administrativo fiscal, argumentando que, ainda que se admita o seu uso nos termos do art. 332 do CPC, conforme entendeu o acórdão recorrido, tal prova ainda seria nula por descumprimento do rito de oitiva de testemunhas previsto no próprio CPC, notadamente nos arts. 407 e 413 a 417 daquele código. Ao final de seu recurso, requer, verbis: Diante do exposto, requer seja dado provimento ao recurso para que seja, em preliminar, excluída a responsabilidade do Recorrente pelo pagamento do crédito tributário constituído contra a Garantia Indústria, Comércio e Importação Ltda, e no mérito julgar improcedente o lançamento fiscal, tendo em vista a decadência, o arbitramento não justificado e o agravamento indevido da multa. É o relatório. Fl. 2444DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.445 13 Voto Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado Relator O recurso voluntário é tempestivo e atende aos pressupostos legais e regimentais. Assim, dele conheço. A questão devolvida a este colegiado por decisão da 1ª Turma da CSRF no Acórdão nº 9101001.936, referese à imputação da responsabilidade solidária atribuída ao Sr. José Marcelino de Araújo, que deixou de ser apreciada pelo colegiado da Primeira Câmara do extinto Primeiro Conselho de Contribuintes. Tal discussão está direta e estritamente vinculada à discussão travada no PA nº 13603.002968/200384, no qual foram formalizadas as exigências de IRPJ e CSLL, e no qual foram trazidos em recurso voluntário, pelo ora recorrente, as alegações que deve ser enfrentadas por este colegiado, por determinação da 1ª Turma da CSRF. Assim, impõese adotar os mesmos fundamentos do acórdão proferido nesta data, por este colegiado, no âmbito do PA nº 13603.002968/200384, verbis: O Acórdão de primeiro grau ao apreciar as alegações do responsável solidário arrolado, ora recorrente, assim se pronunciou: III. RESPONSABILIDADE PELO CRÉDITO TRIBUTÁRIO III. 1. ASPECTOS PERTINENTES AOS REGISTROS FEITOS NO TERMO DE VERIFICAÇÃO FISCAL E PEDIDO DE DILIGÊNCIA Neste tópico será examinada a questão da responsabilidade pelo crédito tributário discutida na impugnação apresentada pelos interessados. No termo fiscal de fls. 42/72, estão relatados os trabalhos de investigação levados a efeito pela fiscalização que culminaram na caracterização dos responsáveis pelos impostos e contribuições devidos neste processo. Particularmente Clésio Wagner de Araújo, pessoa física implicada como responsável, salientou que nunca compôs o quadro societário da empresa Garantia nem exerceu ato de gestão e que não há prova de ligações entre a autuada e a Mundial Atacadista da qual foi sócio. José Marcelino de Araújo argumentou que a fiscalização partiu de meras presunções, inexistindo prova no processo capaz de atestar a responsabilidade tributária. Em relação aos avais prestados, destacou que estes ocorreram em períodos diversos dos referentes ao crédito tributário exigido e que decorreram apenas das atividades comerciais exercidas pelo impugnante. Procurou ainda desqualificar os depoimentos apresentados pelos autuantes, postulando a realização de diligência e a produção de provas testemunhais em relação a estes mesmos depoentes e a outros que considera relevantes. Também ressaltou que clientes e fornecedores da autuada em nenhum momento alegaram que faziam tratativas com o impugnante. Sustentou ainda que prova testemunhal e depoimentos não estão regulamentados no Decreto n° 70.235, de 1972. Fl. 2445DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.446 14 Sendo extenso o relatório fiscal, procurase em seguida fazer uma exposição resumida dos elementos coletados pela fiscalização, que serviram de base para a caracterização e identificação dos responsáveis pelo crédito tributário: A) Da incapacidade financeira dos sócios conforme contrato social, a empresa Garantia foi constituída em janeiro de 1996 pelos sócios Srs. Orlando Passos Pereira e Pergentino José Freitas; analisando as declarações de rendimentos dos citados sócios, ficou evidenciado que estes não revelaram capacidade financeira para estar à frente de uma empresa com o faturamento da magnitude do apresentado nos anos de 1996 e 1997, além de não informarem nenhum rendimento ou outro benefício auferido da Garantia; o Sr. Pergentino retirouse da sociedade em junho de 1997, tendo, em resposta à intimação fiscal, esclarecido que recebeu os valores em dinheiro, sem contudo apresentar nenhum documento comprobatório da operação; o Sr. Orlando não atendeu à intimação, tendo a fiscalização comparecido a sua residência na cidade de Paraguaçu/MG para contatálo: foram destacados os seguintes registros: apesar da receita líquida da empresa nos anos de 1998, 1999 e 2000 (superior a RS15.000.000,00 em cada ano), o sócio residia em casa modesta, pagando aluguel; possuía um único veículo automóvel popular ano 1998; não tinha conhecimento de financiamentos obtidos pela empresa em 1997 e 1998 junto ao Banco Rural S.A (valor acima de R$1.000.000,00), nem sabia os nomes dos fiadores; desconhecia a existência de conta corrente no Banco Bandeirantes S.A. com quem a empresa mantinha a maior movimentação financeira; desconhecia os faturamentos da empresa; demonstrou desconhecimento dos nomes dos funcionários que trabalhavam no escritório da empresa; informou de forma incorreta o nome da pessoa para a qual deu procuração com plenos poderes para administrar a empresa, pessoa esta que assinou todos os cheques emitidos em 1998 (Sr. Nilton Andrade Santos); o Sr. Nilton Andrade Santos foi intimado pela fiscalização, mas não compareceu para prestar esclarecimentos. concluiu a fiscalização que o Sr. Orlando Passos Pereira não é nem nunca foi o verdadeiro dono da Garantia Indústria Comércio e Importação Ltda., mas apenas parte de um esquema de sonegação fiscal cujo objetivo era ocultar os verdadeiros responsáveis pela empresa. B) Dos efetivos titulares da empresa prestaram esclarecimentos exempregados da empresa Garantia, conforme Termos de Comparecimento lavrados (Srs. Geraldo Pedro Silva, Marly Elena Costa Silva e Adna Costa Silva); nos depoimentos transcritos, verificouse que os depoentes foram unânimes ao declarar que o verdadeiro dono da empresa era o Sr. José Marcelino de Araújo; os exempregados da Garantia, Sr. Elísio Rodrigues Reis e Neuza Fernandes Silva, intimados a comparecer para prestar esclarecimentos, informaram, em correspondência enviada via postal, que não poderiam se ausentar do trabalho; foi registrado que estas pessoas trabalhavam no final de 2002 na empresa Mundial Atacadista Ltda., pertencente ao Sr. José Marcelino de Araújo: foram trazidas aos autos informações acerca da empresa Cerealista Morato Ltda. que corroboram os depoimentos das Sras. Marly e Adna, segundo os quais a Garantia representava a continuação das atividades daquela empresa: a Cerealista funcionava no mesmo endereço onde a Garantia passou a funcionar a partir de 1996 (galpão pertencente ao Sr. Clésio Wagner de Araújo, posteriormente alienado para o Sr. José Marcelino de Araújo); o telefax da Cerealista aparece em nota fiscal da Garantia; o serviço de contabilidade era Fl. 2446DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.447 15 feito no mesmo escritório; de acordo com a Rais da Cerealista, em 30/08/1996, todos os empregados foram demitidos; estes mesmos funcionários, com exceção de dois, foram admitidos em abril e maio de 1997 pela Garantia; com base nas Dapis, verificouse que os valores de saídas da Cerealista Morato foram reduzidos substancialmente até setembro de 1996, tendo sido interrompido em outubro do mesmo ano, enquanto a Garantia passou a faturar a partir de setembro/1996; em relação aos sócios da Cerealista Morato Ltda., verificouse que estes não detinham capacidade financeira nem declararam haver recebido nenhum benefício pago pela empresa; o Sr. André Luiz Orício foi empregado da Mundial Atacadista Ltda, corroborando informação prestada pelas Sras. Marly e Adna; a Indústria Rettore de Plásticos Ltda. informou que o contato comercial com as empresas Cerealista e Garantia era feito por intermédio do Sr. Marcos Giovanni, que pertenceu ao quadro de funcionários da Mundial Atacadista, corroborando informações prestadas nos depoimentos mencionados; de acordo com informações da Rais, dos 55 empregados que estavam em atividade em 31/12/2001 na Garantia, em 2002, 17 foram admitidos pela Ancora Armazéns Ltda. e 12, pela Mundial Atacadista Ltda: Sr. Marcos Giovanni Lopes Cançado e Rogério de Souza Jacob constam como sócios da empresa Ancora; o Sr. Rogério de Souza Jacob apresentouse à fiscalização como gerente administrativofinanceiro da Garantia; concluiu a fiscalização que não resta dúvida de que há forte ligação entre as empresas Cerealista Morato, Garantia, Mundial Atacadista e Ancora; o Sr. José Marcelino de Araújo compareceu à Seção de Fiscalização para prestar esclarecimentos, enquanto o Sr. Clésio Wagner de Araújo, apesar de regularmente intimado, deixou de comparecer; analisando os documentos bancários enviados pelo Banco Bandeirantes SA. e Banco Rural S.A., verificouse a existência de informações que reforçam as declarações prestadas pelos exfuncionários da Garantia de que o verdadeiro dono da empresa é o Sr. José Marcelino de Araújo: na ficha de cadastro enviada pelo Bandeirantes ao Unibanco S.A., o Sr. José Marcelino figura como diretor da Garantia: relativamente ao Banco Rural, constam contratos de abertura de crédito nos quais os irmãos José Marcelino e Clésio aparecem como intervenientes garantidores e devedores solidários; na ficha cadastral, o Sr. José Marcelino é identificado como diretor comercial da Garantia e o Sr. Clésio, como sócio da Mundial Atacadista e proprietário de galpões onde então funcionava a empresa Garantia: o Sr. Clésio recebeu recursos pagos pela empresa Garantia, representados por dois cheques relacionados à fl. 68, além dos valores pagos a título de aluguel do galpão supracitado, não tendo se dignado a apresentar qualquer documento comprobatório da motivação pelos recebimentos, conquanto tenha sido regularmente intimado; na escrituração também não foi possível identificar as operações a que se referem os mencionados cheques; conclui a fiscalização que as pessoas físicas que constaram no quadro societário das empresas Garantia e Cerealista Morato cederem o nome para figurar como sócios nos contratos sociais em proveito dos Srs. Clésio e José Marcelino. Destacados alguns pontos do TVF, cumpre ainda trazer a lume a conceituação do vocábulo PROVA, constante do livro Vocabulário Jurídico de Plácido e Silva Vol. IV 12a edição Editora Forense. Conceitua prova documental como sendo a prova que se estrutura por documento, papel escrito onde o fato alegado se mostra materializado. Prossegue, discorrendo que a Fl. 2447DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.448 16 prova documental pode ser argüida de falsa. Neste caso, devendo ser mostrada a falsidade, para que anule seu valor probatório. Salientese também o conceito de prova contrária extraído da mesma edição. E a prova trazida pela parte contrária para destruir a prova feita ou apresentada pela outra pane, ou para anular a presunção legal avocada por ela. Designa, portanto, a contraprova ou demonstração de fatos que possam ter força para anular a força de outros fatos afirmados e demonstrados, ou simplesmente alegados. Nesta circunstância, as forças das duas provas são medidas, para que se verifique qual a predominante. Ou seja, para que se conclua de que lado está a verdade acerca dos fatos afirmados por uma e outra parte. Por sua vez, indícios são fatos conhecidos, comprovados, que se ligam a outro fato que se tem de provar. São a base objetiva do raciocínio, ou da atividade meneai, por via dos quais se pode chegar ao fato desconhecido. Presentes os caracteres de gravidade, precisão e concordância, prestamse como ponto de partida para as presunções relativas, gerando o efeito de inverter o ônus da prova. Apenas um indício, desde que veemente, pode levar a conclusão da ocorrência de um fato. Da mesma forma, vários indícios em si fracos, quer dizer, com baixo teor de gravidade e precisão, podem, somados, fazer prova do ilícito, desde que todos indiquem a mesma direção. Deve ser ressaltado ainda que vale para o processo fiscal a mesma regra do art. 332 do CPC, segundo a qual "todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não especificados neste Código, são hábeis para provar a verdade dos fatos, em que se funde a ação ou a defesa". O trabalho fiscal assim constituído encontra amparo legal também no Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto n° 3.000, de 26 de março de 1999 RIR/1999. Reza o art. 276 que a determinação do lucro real pelo contribuinte está sujeita a verificação pela autoridade tributária, com base no exame de livros e documentos de sua escrituração, na escrituração de outros contribuintes, em informação ou esclarecimentos do contribuinte ou de terceiros, ou em qualquer outro elemento de prova. De acordo com o art. 845, II do mesmo regulamento, farseá o lançamento de ofício abandonandose as parcelas que não tiverem sido esclarecidas e fixando os rendimentos tributáveis de acordo com as informações de que se dispuser, quando os esclarecimentos deixarem de ser prestados, forem recusados ou não forem satisfatórios. O § Io deste dispositivo legal preceitua ainda que os esclarecimentos prestados só poderão ser impugnados pelos lançadores com elemento seguro de prova ou indício veemente de falsidade ou inexatidão. O art. 911 do RIR/1999 dispõe que os AuditoresFiscais do Tesouro Nacional procederão ao exame dos livros e documentos de contabilidade dos contribuintes e realizarão as diligências e investigações necessárias para apurar a exatidão das declarações, balanços e documentos apresentados, das informações prestadas e verificar o cumprimento das obrigações fiscais. Finalmente, o art. 927 preceitua que todas as pessoas físicas ou jurídicas, contribuintes ou não, são obrigadas a prestar as informações e os esclarecimentos exigidos pelos AuditoresFiscais do Tesouro Nacional no exercício de suas funções, sendo as declarações tomadas por termo e assinadas pelo declarante. Expostos de forma resumida os resultados decorrentes de um trabalho criterioso e amplo de investigação levado a efeito pela fiscalização nos estritos limites de suas atribuições regulamentares, confrontados com as impugnações apresentadas, começa a ficar patente a fragilidade dos argumentos dos defendentes. Assim, no que respeita aos depoimentos e testemunhos colhidos pela fiscalização, o seu uso como prova no processo é legítimo e sua força probante não se desfaz pela mera Fl. 2448DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.449 17 alegação da defesa no sentido de que tais depoimentos seriam frágeis em razão da ocupação dos depoentes ou de sua condição de "pessoas humildes e simples" (sic). Também não há no processo nenhuma prova no sentido de confirmar a alegação do impugnante de que o Sr. Geraldo Pedro Silva teria sido coagido a prestar esclarecimentos, assim como não há resquícios que possam atestar a coação dos demais depoentes (Sras. Marly Elena Costa Silva e Adna Costa Silva) ou a distorção dos fatos relatados, como aduziu o impugnante. Pelo contrário, conforme se viu no TVF, a fiscalização buscou, em outras fontes, dados que corroboraram as informações prestadas pelos exempregados da empresa GARANTIA. Assim, foram trazidas aos autos informações indicando que a Garantia representava a continuação das atividades da Cerealista Morato Ltda, dados confirmando que os sócios dessas empresas não detinham capacidade financeira, informação da Indústria Rettore de Plásticos de que o contato comercial em nome das empresas Cerealista e Garantia era feito pela mesma pessoa (Marcos Giovanni, que pertenceu ao quadro de funcionários da Mundial Atacadista empresa que teve o Sr. Clésio como sócio que, por sua vez, era proprietário dos galpões onde funcionava a Garantia), informações da Rais acerca de empregados que atuaram nas empresas Cerealista Morato, Garantia, Mundial Atacadista e Ancora Armazéns, documentos fornecidos pelo Banco Bandeirantes S.A. e Banco Rural S.A. indicando o Sr. José Marcelino como diretor da Garantia, os Srs. Clésio e José Marcelino como garantidores e devedores solidários da empresa, além de cheques emitidos pela Garantia destinados ao Sr. Clésio que, intimado, não se dignou a esclarecer e justificar os recebimentos. Em relação aos depoimentos prestados pelos exempregados da empresa Garantia, o impugnante postulou ainda, em nome da ampla defesa, que fossem colhidos novamente em diligência, desta feita realizada sem coação e na presença das partes. Também requereu que fossem chamados a se pronunciar especialmente os Srs. Nilton Andrade Santos e o Sr. Rogério de Souza Jacob. Quanto à realização de diligência, cumpre salientar que cabe ao administrador tributário, por força do art. 18 do Decreto n° 70.235, de 1972, com redação dada pelo art. Io da Lei n° 8.748, de 1993, determinar a realização de diligências e perícias quando as entender necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis. No presente caso, conforme foi salientado, os depoimentos dos exempregados constituíram parte do rol de provas formadas pela fiscalização, não se tratando de um elemento isolado. Também foi evidenciado que o impugnante não trouxe ao processo nenhuma prova objetiva que sustente a existência de vício de qualquer ordem que possa invalidar os depoimentos colhidos a termo pela fiscalização, no cumprimento estrito de suas atribuições regulamentares. Quanto à manifestação do Sr. Nilton Andrade Santos, cumpre lembrar que, de acordo com anotação feita no TVF e documentação de fls. 497/498, este foi intimado e não compareceu à Seção de Fiscalização da DRE/Contagem/MG para prestar informações. No tocante ao Sr. Rogério de Souza Jacob, conforme está relatado no TVF, na condição de diretor financeiro da GARANTIA Indústria Comércio e Importação Ltda., recebeu diversas intimações expedidas no curso da ação fiscal e se manifestou no processo (doe. fls. 01/02, 144/145, 160, 167, 171, 180/182, 203), estando ciente dos acontecimentos e, portanto, poderia a qualquer tempo ter apresentado à fiscalização as informações que julgasse relevantes. De qualquer modo, os impugnantes, no exercício pleno de sua defesa representada pela impugnação ora apreciada, poderiam ter trazido aos autos outros documentos ou informações que considerassem de importância para o contencioso instaurado, lembrando que a regra do processo administrativo fiscal é de que são conhecidos todos os documentos que instruírem a impugnação formalizada por escrito tempestivamente. Notese também que é da essência da relação processual que as alegações de parte a parte estejam devidamente Fl. 2449DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.450 18 instruídas com as respectivas provas (arts. 14, 15 e 16, inciso III do Decreto n° 70.235. de 1972, com alterações posteriores). Nestas condições, deve ser indeferido o pedido de diligência para o fim proposto pelo defendente. Em relação aos avais prestados pelos Srs. Clésio e José Marcelino, a documentação apresentada pelas instituições financeiras não indica se tratar de procedimento normal vinculado a supostas transações comerciais destes senhores com a empresa Garantia, cumprindo lembrar mais uma vez, que o Sr. José Marcelino figura como diretor da Garantia nas fichas cadastrais bancárias (doc. fls. 255 e 273) e o Sr. Clésio recebeu numerário representado por cheques emitidos pela Garantia sem que tenha justificado a operação (fls. 938/941 e 1048/1050), além de ser proprietário de galpões onde funcionou a empresa autuada. Quanto ao período dos avais, os contratos foram firmados em 1998 tendo, em alguns casos, vigorado também em 1999, todos estes períodos abrangidos pelo lançamento (fls. 274/290). Fez ressaltar o impugnante, quanto à capacidade financeira do sócio da empresa Garantia, que esta não pode ser medida pelas declarações de imposto de renda ou pelas evasivas informações prestadas pelo Sr. Orlando Passos Pereira. Entretanto, deixou de observar o defendente que a fiscalização, além das declarações do imposto de renda que, por si só, já fornecem importantes informações acerca da vida fiscal dos contribuintes, realizou diligência no domicílio do sócio contratual, em Paraguaçu/MG, oportunidade em que a capacidade financeira foi aferida também materialmente, conforme foi registrado no TVF e destacado neste voto. Ademais, o sócio demonstrou desconhecimento dos fatos pertinentes à empresa Garantia, tendo passado procuração delegando plenos poderes para administrar a empresa ao Sr. Nilton Andrade Santos, entre outras evidências apresentadas no termo fiscal. Portanto, os impugnantes, efetivamente, não rebateram de forma eficaz as evidências expostas no trabalho fiscal, deixando sem respostas os questionamentos que surgiram das provas coletadas pela fiscalização denunciando o envolvimento das pessoas arroladas como responsáveis pelo crédito tributário. Conforme revelam os trechos transcritos abaixo extraídos do TVF, a conclusão da fiscalização a respeito da responsabilidade tributária não está fundada em "meras presunções" ou em opiniões pessoais dos autuantes como quiseram fazer crer os defendentes, e evidencia ainda que a relação entre a empresa GARANTIA Indústria Comércio e Importação Ltda. e os Srs. Clésio Wagner de Araújo e José Marcelino de Araújo vai muito além do que normalmente se pode classificar como meras relações comerciais: Portanto, os documentos aqui analisados revelam a comunhão de interesses, inclusive de bens, entre a pessoa física dos Srs. José Marcelino de Araújo e Clésio Wagner de Araújo e a empresa Garantia Ind. Com. e Importação Ltda., que conjugavam seus esforços, objetivando um fim comum. Os fatos narrados ainda indicam a sucessão entre as empresas que foram constituídas por esses senhores para figurarem à frente de seus negócios, especialmente quanto à empresa Cerealista Morato Ltda., sucedida pela Garantia Ind. Com. e Importação Ltda. Ficaram amplamente demonstrados acima, veementes indícios de que os Srs. José Marcelino de Araújo e Clésio Wagner de Araújo são os verdadeiros donos do negócio que se operou sob a razão social das empresas Garantia Ind. Com. e Importação Ltda. e Cerealista Morato Ltda., além de inequivocamente comprovado que dele se beneficiou diretamente, pelo menos um dos irmãos, o Sr. Clésio Wagner de Araújo. Portanto, são inverídicos os contratos sociais e respectivas alterações onde figuraram como sócios da empresa terceiros que, conforme apuramos, não revelam capacidade de ocupar tal posição. Esses contratos tiveram como objetivo justamente dissimular a identidade dos efetivos titulares dos negócios que foram perpetrados sob a razão social da empresa Garantia Ind. Com. e Importação Ltda. e Cerealista Morato Ltda., visando impedir a satisfação do crédito Fl. 2450DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.451 19 tributário, haja vista a situação de elevado grau de inadimplência das empresas. [..] Avolumamse, no presente caso, indícios de que esses senhores estavam à frente do negócio, bem como provas cabais de que dele se beneficiou o Sr. Clésio Wagner de Araújo, conforme destacamos no presente Termo, dentre outros: a existência de procuração da Garantia Ind. Com. e Importação Ltda. outorgando plenos poderes a terceiros para administração e movimentação financeira; as cópias de Fichas de Cadastro das Pessoas Físicas responsáveis pela movimentação de conta corrente da Garantia Ind. Com. e Importação Ltda em instituição financeira, dentre as quais constava a do Sr. Clésio Wagner de Araújo; a Ficha de Cadastro da Pessoa Jurídica preenchida para a empresa Garantia Ind. Com. e Importação Ltda, das quais constava o Sr. José Marcelino de Araújo como diretor da empresa, além das cópias de Fichas Cadastrais dos avalistas das operações de crédito da Garantia Ind. Com. e Importação Ltda, das quais constavam os Srs. José Marcelino de Araújo e Clésio Wagner de Araújo. Além desses, dos depoimentos dos antigos empregados emergem declarações como a declaração do antigo empregado da empresa Mundial Atacadista Ltda, informando que o Sr. José Marcelino, além de dono da empresa Mundial, era dono da empresa Garantia Ind. Com. e Importação Ltda., ou ainda, a declaração de outro antigo empregados informando ''que a empresa Cerealista Morato Ltda. e a empresa Garantia eram uma empresa só, uma vez que a Cerealista Morato Ltda. encerrou atividade e a Garantia Ind. Com. e Importação Ltda. continuou com a mesma atividade econômica no mesmo local, comercializando os mesmos produtos e, inclusive, com os funcionários que quiseram continuar, sendo que o dono de ambas era o Sr. José Marcelino ". Assim, pelos fatos e documentos analisados neste Termo, ficou demonstrada a prática adotada por JOSÉ MARCELINO DE ARAÚJO E CLÉSIO WAGNER DE ARAÚJO na condução dos negócios de suas empresas, seu modus faciendi, qual seja, a manutenção da mesma atividade mercantil com sucessão das empresas que representam o negócio; o aproveitamento dos mesmos empregados nas empresas inadimplemento constante das empresas em relação aos tributos federais, estando, em regra, omissas de entrega de declarações; encerramento irregular das empresas e, confecção de contratos sociais e alterações contratuais das empresas em nome dos empregados e de terceiros (interposição de pessoas na figura do sócio da pessoa jurídica). O amplo trabalho de fiscalização demonstra, através da documentação anexada a este termo, que as empresas Garantia Ind. Com. e Importação Lida., bem como a sucedida Cerealista Morato Ltda., serviram para a prática de atos negociais em seu nome, mas que na realidade, beneficiaramse dos mesmos, terceiras pessoas, de forma ardilosa, através de artifícios empregados pelos agentes, com vistas à obtenção de lucros sem o devido recolhimento dos tributos federais. Portanto, são atos praticados através de condutas que objetivaram falsear documentos com o fim direto de prejudicar o direito da Fazenda Pública. Dessarte, pela prática regular de todos os atos típicos da sociedade comercial, inclusive com participação financeira e empenho de seu patrimônio pessoal, os Srs. José Marcelino de Araújo e Clésio Wagner de Araújo, demonstram interesse comum nas atividades da empresa, tendo permanecido a ela vinculados de forma irregular, aparentemente como prepostos ou mandatários, por terem simulado a participação de terceiros no capital social da empresa. Fl. 2451DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.452 20 Portanto, não há dúvidas quanto à caracterização da responsabilidade pelo crédito tributário, dada à robustez das provas que a fundamenta, cuja força probante se sustentou diante das impugnações apresentadas. III.2. ASPECTOS LEGAIS RELATIVOS À CARACTERIZAÇÃO DA RESPONSABILIDADE PELO CRÉDITO TRIBUTÁRIO No que tange às considerações da defesa acerca de aspectos legais da imputação de responsabilidade pelo crédito tributário, primeiramente ressaltese que, de acordo com o TVF, o fundamento legal eleito pela fiscalização se prende às disposições do art. 124,1 e art. 135, II e III do CTN, que assim prescrevem: Art. 124. São solidariamente obrigadas; I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I I os mandatários, prepostos e empregados; III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Em conformidade com os fatos relatados neste voto, extraídos do TVF, estáse diante de um caso típico de responsabilidade solidária passiva, fundamentado no art. 124, I do CTN. Ou seja, o que se comprova, no caso vertente, é que os Srs. Clésio Wagner de Araújo e José Marcelino de Araújo tinham interesse comum na situação que constitui o fato gerador dos tributos ora lançados, dado a abundância de evidências de que conjugavam os seus esforços para um mesmo fim. Ora, existe sociedade, na definição do art. 981 do novo Código Civil Brasileiro, quando duas ou mais pessoas combinam a conjugação de seus esforços ou recursos, para obtenção de um fim comum. Ordinariamente a sociedade constituise por escrito. Se não existir contrato escrito, a sociedade denominase irregular ou de fato. O Prof. De Plácido e Silva, em sua obra "Vocabulário Jurídico" (10a edição. Forense, vol. IV, págs. 253 e 257), assim as caracteriza: SOCIEDADE DE FATO E a que se forma do acordo entre duas ou mais pessoas para a exploração de negócios em comum, sem atender às formalidades legais de registro de contrato e de firma. As sociedades de fato podem igualmente resultar da existência de sociedades irregulares, ou de sociedades legais, que tiveram seus prazos terminados e não se revigoraram. SOCIEDADE IRREGULAR E a sociedade que está funcionando em transgressão às leis, ou sem preencher as formalidades estabelecidas em lei. As sociedades de fato, em princípio, são sociedades irregulares, tendo uma existência desconforme à lei. As sociedades de fato podem preexistir sem contrato escrito. Assim, comprovamse por fatos circunstanciais, que atestam sua real, ou efetiva existência e a intenção das pessoas que a compõem em manter uma soma de negócios sob uma comunhão de interesses e bens. Fl. 2452DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.453 21 Em princípio, mesmo que haja um contrato escrito, as sociedades de fato estabelecem entre os sócios uma responsabilidade ilimitada e solidária, de modo que são eles ligados às obrigações assumidas pela sociedade, (grifos acrescentados) A existência da sociedade de fato ou irregular pode ser exteriorizada por meio de múltiplas situações, hábeis a caracterizálas, como, por exemplo: a exploração de negócio comum entre duas ou mais pessoas com a formação de um capital, com objetivo de lucro e participação dos sócios nos resultados, faltando, no entanto, contrato escrito; a existência de instrumento escrito, mas não levado a registro; a existência de contratos simulados, como o de trabalho ou de prestação de serviços, com a participação do empregado ou prestador de serviços nos lucros do empreendimento Washington de Barros Monteiro em sua obra "Curso de Direito Civil", 5° volume, 2o parte, página 300, ao tecer comentários sobre as sociedade de fato leciona: Já nas questões de estranhos contra a sociedade, poderão aqueles provarlhe a existência de qualquer modo (art. 1.366, segunda parte). Aliás, escreveu PEDRO LESSA, reproduzindo VIVANTE, que os credores de uma sociedade de fato se acham na feliz posição jurídica de poderem valerse de sua existência, ou desconhecêla, segundo lhe convier. Se provam a existência da sociedade, podem agir contra ela, como entidade distinta dos sócios, se não dispõem de tal prova, podem volverse contra os sócios individualmente. E, acrescenta: E de admitirse provada sua existência, quando as circunstâncias revelarem ter havido entre os seus componentes uma comunhão de interesses para certo fim comum, (grifos acrescentados) O Código Comercial Brasileiro no art. 304. admite a existência da sociedade de fato, bem como esclarece os meios de prova de sua existência: Art. 304 São, porém, admissíveis, sem dependência da apresentação do dito instrumento (escritura), as ações que terceiros possam intentar contra a sociedade em comum ou contra qualquer dos sócios em particular. A existência da sociedade, quando por parte dos sócios se não apresenta instrumento, pode provarse por todos os gêneros de prova admitidos em comércio (art. 122), e até por presunções fundadas em fatos de que existe ou existiu sociedade. Maria Helena Diniz, em sua obra "Curso de Direito Civil Brasileiro", p. 284. ensina que: As pessoas jurídicas intervirão por seus órgãos, ativa e passivamente, judicial e extrajudicialmente (CC, art. 17). O órgão da pessoa jurídica, pontifica Orlando Gomes, é uma ou conjunto de pessoas naturais que exprime sua vontade. Não há aqui uma representação no sentido rigoroso do termo, pois esta pressupõe a conjugação de duas vontades, a do representante e a do representado, o que não ocorre com a pessoa jurídica, pois o seu órgão manifesta apenas a vontade da entidade, havendo uma compenetração entre o órgão e a pessoa jurídica, não se verificando aquela dissociação entre representante e representado, que conservam a própria vontade e autonomia. Poderseá falar que há ai uma representação imprópria. Verificase, no presente caso, que o órgão da pessoa jurídica, ou seja, o conjunto de pessoas naturais que exprime a sua vontade, não agiu dentro das formas que preconizam as normas tributárias, pois utilizaram a pessoa jurídica com o intuito de obtenção de lucros à margem da incidência tributária. Nesse sentido, a situação que constituiu o fato gerador consubstanciouse nos negócios realizados conjuntamente por um grupo de pessoas físicas e jurídicas, negócios esses que resultaram em disponibilidade de renda, a ser tributada (art. 43 do CTN). Todas Fl. 2453DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.454 22 essas pessoas tinham interesse comum nesses negócios, uma vez que, em maior ou menor grau, deles se beneficiaram. De acordo com a defesa, a atribuição de responsabilidade tributária se deu sem obediência ao princípio da legalidade. Todavia, tal alegação não prospera, haja vista que o art. 124,1, do CTN, dá guarida, "in casu", à atribuição de responsabilidade tributária levada a cabo pela fiscalização. Em contraposição a este entendimento, é oportuno valerse das lições de Luciano Amaro (págs. 294 e 295 da obra "Direito Tributário Brasileiro"'): (...) Áliomar Baleeiro afirmou que os casos de "interesse comum" mencionados no art. 124, I, do Código Tributário Nacional devem ser explicitados pela lei. E viu nos arts. 42 e 66 do Código, situações em que caberia a solidariedade passiva; tratase aí de tributos incidentes sobre certas operações, nas quais a lei pode definir como coniribitinte qualquer das partes; se um deles é eleito contribuinte o outro poderia ser indicado como responsável solidário. (...) Cabem aqui, porém, algumas observações. Anotese, em primeiro lugar, que, se os casos de "interesse comum" precisassem ser explicitados em lei, como disse Áliomar Baleeiro, o item I do art. 124 seria inútil, pois as hipóteses todas já estariam na disciplina posta pelo item II. Nos casos que se enquadrarem no questionado item I a solidariedade passiva decorre desse próprio dispositivo, sendo desnecessário que a lei de incidência o reitere. Situações outras, não abrangidas pelo item I. é que precisarão ser definidas na lei quando esta quiser eleger terceiro como responsável solidário, (grifos acrescentados) Como se depreende do texto destacado acima, identificada a hipótese de incidência prevista no inciso I do art. 124 do CTN existência de pessoas com interesse comum na situação que deu azo ao fato gerador é inadequado aventarse a necessidade de disposição expressa de lei para caracterizála, uma vez que o próprio dispositivo legal citado já a fundamenta. Também está correto o enquadramento no art. 135, II e III do CTN, considerando, conforme foi ressaltado no TVF de fls. 42/72, que, em decorrência dos fatos evidenciados no trabalho fiscal, os Srs. Clésio Wagner de Araújo e José Marcelino de Araújo são pessoalmente responsáveis pelos créditos tributários resultantes de atos praticados com excesso de poderes e infração à lei, uma vez que foram eles que atuaram sob a razão social da GARANTIA Indústria Comércio e Importação Ltda., colocando interpostas pessoas como titulares da sociedade, ficando inequívoca a participação dessas pessoas nas irregularidades anotadas no TVF. Cabe, ainda, discorrer brevemente acerca do que se deve entender da expressão "infração de lei" do caput do art. 135 do CTN. Ora, o CTN não adjetiva a lei que deve ser infringida para que se responsabilize aquelas pessoas elencadas em seu art. 135. E indubitável que a falta de recolhimento do tributo constitui, por si só, uma ilicitude, porquanto configura o descumprimento de um dever jurídico decorrente de leis tributárias. Constitui também infração à lei, conforme foi anotado no TVF, a prática de sonegação fiscal, consubstanciada na tentativa do contribuinte de impedir o conhecimento por parte da autoridade fiscal da identidade dos verdadeiros sócios da Garantia, mediante a interposição fictícia de pessoas na figura do sócio da pessoa jurídica, fatos estes que suscitaram inclusive a qualificação da multa de ofício e a formalização do competente processo de representação fiscal para fins penais, matéria que será analisada em maiores detalhes adiante em tópico específico. Temse ainda que são várias as decisões do Poder Judiciário que reafirmam tal entendimento, tais quais: Fl. 2454DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.455 23 Tributário Execução Fiscal Responsabilidade pessoal dos sócios CTN, art. 135, III. 1. Na sistemática do CTN vigente (art. 135, III), a infração à lei tributária é pressuposto suficiente para determinar a responsabilidade do sóciogerente. 2. O não recolhimento de tributos é infração à lei Tributária, e, como tal, determina a responsabilidade pessoal do gerente da sociedade de capital. 3. Aspectos relacionados ao direito comercial (integralização de capital e origem dos recursos sob constrição) são irrelevantes para o direito tributário, autônomo cientificamente. 4. Apelação impróvida. Sentença confirmada" (TRF, f Região. AC 1374993/MG, rei Juiz Cândido Ribeiro, DJU 19.12.1997, p. 111.547) Tributário Execução Fiscal Embargos de devedor Responsabilidade tributária do sóciogerente CTN/66, art. 135 Lei 8.009/90 Linha telefônica. 1. A omissão no pagamento dos tributos ou contribuições significa, por si só, infração à lei que os instituiu, disto resultando a responsabilidade pessoal dos diretores, gerentes ou representantes da pessoa jurídica. 2. A Lei 8.009/90 protege o bem de família de penhora a título de cobrança de contribuições relativas ao FGTS e retroage, a fim de alcançar constrição feita antes de sua vigência. 3. E penhorável o uso de linha telefônica, visto que a Lei 8.009/90 não impõe vedação genérica (TRF, 4a Região, I a Turma, AC 2756496/RS, rei Juiz Vladimir Passos de Freitas, DJU 08.10.1997, p. 83.279) ...A falta de recolhimento de contribuições sociais constitui, por si só, infração de lei, pelo que o sóciogerente pode responder pessoalmente pelos débitos fiscais da empresa (art. 135, III, do CTN). (TRF, 4a Região, 2a Turma, REO 94.04..454567/RS, rei. Juíza Tânia Escobar) Portanto, seja em razão das disposições do art. 124, I ou do art. 135, II e III do CTN, e diante das evidências expostas no trabalho fiscal, a caracterização da responsabilidade pelo crédito tributário das pessoas arroladas pela fiscalização encontra sólido amparo legal. Alegaram também os impugnantes que a autoridade administrativa não possui competência para descaracterizar a personalidade jurídica da empresa a fim de atribuir a responsabilidade a terceiros ou a outra pessoa jurídica. Argumentou ainda que a aplicação dessa teoria só poderia ocorrer mediante ordem judicial. No caso vertente, não se pode dizer que houve a descaracterização da personalidade jurídica da empresa autuada, mas a atribuição de responsabilidade tributária a pessoas físicas envolvidas no negócio jurídico operado pela autuada, em consonância com o art. 124, I e o art. 135, II e III do CTN. Notese que o sujeito passivo da obrigação tributária é a pessoa jurídica da empresa GARANTIA Indústria Comércio e Importação Ltda. Descaracterizar a personalidade jurídica da empresa autuada para tãosomente atingir aos seus sócios formais (conforme contrato social) não seria uma medida que. por si só. resguardaria o interesse da Fazenda Nacional. Isso porque restou provado nos autos que houve uma tentativa do contribuinte de impedir o conhecimento por parte da autoridade fiscal da identidade dos verdadeiros sócios da Garantia, mediante a utilização de interpostas pessoas nos contratos sociais e alterações, conforme circunstanciado em minúcias no TVF. Em relação ao tema, vale lembrar que a existência das pessoas jurídicas, dentre elas as sociedades comerciais, começa com a inscrição de seus atos constitutivos no registro que lhes é peculiar (para o comércio, tal registro deve ser feito nas Juntas Comercias). Portanto, as sociedades comerciais que arquivam seus contratos ou atos constitutivos no Registro do Comércio adquirem, assim, personalidade jurídica própria, distinta, pois, das pessoas que a constituem. Desse modo, a sociedade transformase em um novo ser, estranho à individualidade das pessoas que participam de sua constituição, dominando um patrimônio próprio e possuindo órgãos que deliberam e executam, fazendo, assim, cumprir sua vontade. Todavia certo é que, ocorrendo abuso de direito ou fraude através da personalidade jurídica, segundo a doutrina da penetração, devese desconsiderar a personalidade jurídica, Fl. 2455DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.456 24 isto é, não considerar os efeitos da personificação, para atingir a responsabilidade dos sócios. Em qualquer caso, focalizase a doutrina da superação da personalidade jurídica com o propósito de demonstrar que a personalidade jurídica não constitui um direito absoluto, mas está sujeita e contida pela teoria da fraude contra credores (inclusive o Fisco) e pela teoria do abuso de direito. No caso concreto, pelas provas carreadas nos autos, ficou demonstrado que a pessoa jurídica sonegou tributos, por artifícios que impediram ou retardaram, total ou parcialmente, o conhecimento pela autoridade fiscal da ocorrência do fato gerador ou das condições pessoais do contribuinte. Então, em defesa do interesse público, é possível que o próprio Fisco, sem necessidade de socorrerse ao Poder Judiciário, aja, promovendo a desconsideração da personalidade jurídica, em processo administrativo, como forma de responsabilizar os verdadeiros sócios do empreendimento comercial. Entretanto, a despeito da discussão que envolve a descaracterização da personalidade jurídica, vale notar que a fiscalização, conforme já salientado, deu enfoque à responsabilidade solidária das pessoas físicas, que formaram uma sociedade de fato (irregular), para explorar negócios em comum. [...] Adoto integralmente os argumentos expendidos no acórdão recorrido para a justificar a manutenção da responsabilidade solidária aos responsáveis arrolados, entre os quais o ora recorrente, com base no art. 124, inc. I. Com efeito, entendo que restou caracterizada e comprovada pela autoridade fiscal a utilização de interpostas pessoas, sem qualquer condição econômica para compor o quadro social da empresa fiscalizada, ocultando os reais detentores do negócio. O Fisco trouxe, também, elementos convincentes e convergentes que apontam que os Sr. José Marcelino (recorrente) e seu irmão Sr. Clésio, são os sócios de fato da empresa, apontando que os mesmos são os proprietários do imóvel no qual a empresa está estabelecida, que os mesmos prestaram aval bancário a empresa em montantes que superam a centena de milhares de reais em operações de empréstimos tomadas pela empresa, que o Sr. Marcelino constava como diretor da empresa em Fichas de Aberturas de contas, situações corroboradas pelos depoimentos de exempregados da empresa que afirmam que, de fato, são eles os proprietários de fato da empresa autuada. Conforme bem destacado nas conclusões do TVF que julgo oportuno transcrever novamente, verbis: Assim, pelos fatos e documentos analisados neste Termo, ficou demonstrada a prática adotada por JOSÉ MARCELINO DE ARAÚJO E CLÉSIO WAGNER DE ARAÚJO na condução dos negócios de suas empresas, seu modus faciendi, qual seja, a manutenção da mesma atividade mercantil com sucessão das empresas que representam o negócio; o aproveitamento dos mesmos empregados nas empresas inadimplemento constante das empresas em relação aos tributos federais, estando, em regra, omissas de entrega de declarações; encerramento irregular das empresas e, confecção de contratos sociais e alterações contratuais das empresas em nome dos empregados e de terceiros (interposição de pessoas na figura do sócio da pessoa jurídica). O amplo trabalho de fiscalização demonstra, através da documentação anexada a este termo, que as empresas Garantia Ind. Com. e Importação Lida., bem como a sucedida Cerealista Morato Ltda., serviram para a prática de atos negociais em seu Fl. 2456DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.457 25 nome, mas que na realidade, beneficiaramse dos mesmos, terceiras pessoas, de forma ardilosa, através de artifícios empregados pelos agentes, com vistas à obtenção de lucros sem o devido recolhimento dos tributos federais. Portanto, são atos praticados através de condutas que objetivaram falsear documentos com o fim direto de prejudicar o direito da Fazenda Pública. Dessarte, pela prática regular de todos os atos típicos da sociedade comercial, inclusive com participação financeira e empenho de seu patrimônio pessoal, os Srs. José Marcelino de Araújo e Clésio Wagner de Araújo, demonstram interesse comum nas atividades da empresa, tendo permanecido a ela vinculados de forma irregular, aparentemente como prepostos ou mandatários, por terem simulado a participação de terceiros no capital social da empresa. O recorrente reclama que se o acórdão recorrido entende válida a prova testemunhal, com base no art. 332 do CPC, deveria também considerar aplicável os demais artigos daquele código que estabelecem o rito para a oitiva de testemunhas, o que não foi observado pela fiscalização, tornando igualmente inválida a prova. Não tem razão a recorrente. O rito estabelecidos nos artigos 407 e 413 a 417 do CPC são claramente destinados ao processo civil judicial. As disposições do CPC aplicamse supletiva e subsidiariamente aos processos administrativos, nos termos do seu art. 15, apenas no que lhes couber. 1 Assim, as normas atinentes à atuação da autoridade judicial na condução dos processos judiciais e aos ritos próprios daqueles processos, por certo, não se aplicam ao processos administrativo fiscal. Por outro lado, como bem destacou o acórdão recorrido, o recorrente não trouxe qualquer elemento de prova que apontasse que os depoimentos prestados pelos ex empregados da fiscalizada contivessem quaisquer vícios. No que concerne ao enquadramento da situação descrita ao art. 124, inc. I do CTN, concordo, também, com a conclusão do acórdão recorrido no sentido de que se configurou uma sociedade de fato dos responsáveis solidários arrolados, na medida em que os sócios formalmente indicados no contrato social não eram os titulares de fato da sociedade, mas sim interpostas pessoas que ocultavam os reais sócios. Agreguese ao fato destacado pela fiscalização de que os referidos responsáveis solidários arrolados adotaram a mesma prática em outros empreendimentos no sentido de utilizar interpostas pessoas no quadro societário de suas empresas e não recolher nenhum dos tributos devidos em face das atividades econômicas por elas desenvolvidas, revelando o claro intuito de frustrar eventuais execuções fiscais. Configurada a sociedade de fato, entendo correta a indicação dos sócios de fato como coobrigados, pois é inequívoco, no caso, o interesse comum (dos sócios de fato) na situação que constituiu o fato gerador da obrigação principal. No que concerne à aplicação do art. 135, incs. II e III do CTN, também indicados pela autoridade fiscal para fundamentar a responsabilização, poderseia cogitar que 1 Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente. Fl. 2457DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.458 26 uma vez afastada a aplicação da multa qualificada pelo colegiado da Primeira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, não se caracterizaria a infração à lei que justificaria a responsabilização por este critério legal. Com efeito, o Acórdão nº 10196.803, afastou a multa qualificada aplicada, nos termos sintetizados na seguinte ementa, verbis: MULTA QUALIFICADA. SONEGAÇÃO. UTILIZAÇÃO DE PESSOAS SEM CAPACIDADE ECONÔMICOFINANCEIRA NA CONDIÇÃO DE SÓCIAS DE PESSOA JURÍDICA. A inclusão de pessoas de reconhecida incapacidade econômicofinanceira no quadro societário de pessoa jurídica, em substituição aos verdadeiros sócios, não é suficiente, tãosomente, para caracterizar a intenção de sonegar. Tal expediente pode configurar tentativa de frustrar eventual execução fiscal, não punível com multa qualificada. A sonegação se consuma no esforço de encobrir o fato gerador, segundo o tipo penal descrito no art. 71 da Lei 4.502/1964, e não na tentativa de frustrar a cobrança do crédito tributário. O STJ, por meio da Sumula nº 430 consolidou entendimento de que "o inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sóciogerente. A jurisprudência do mesmo tribunal admite, no entanto, o redirecionamento da execução fiscal ao sócio em caso de dissolução irregular da sociedade. No presente caso, temse a constituição da sociedade de forma irregular, mediante a utilização de interpostas pessoas, que tem o mesmo efeito da dissolução irregular, posto que em ambos os casos, o Fisco somente pode concretizar a execução fiscal se redirecionála aos sócios de fato. O ilustre desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Luciano Rinaldi, ao discorrer sobre a responsabilidade dos sócios, analisa situação de transferência de quotas de sociedade pelos sócios a interpostas pessoas, destacando a responsabilidade dos verdadeiros sócios pelos tributos não recolhidos, verbis: 2 Há um aspecto que merece atenção especial, concernente a dissolução irregular da empresa quando constatado que o sócio anterior a repassou para outrem de forma artificial, ardilosa, visando ocultação da real titularidade e/ou blindagem patrimonial. Nesses casos, o terceiro, comumente denominado “sóciolaranja”, geralmente desconhece o negócio jurídico, tendo seu nome ilegalmente utilizado para benefício alheio, tornandose sócio (inconsciente) de uma empresa. Essa situação enquadrase juridicamente como dolo, vício de consentimento (artigo 145, Código Civil). Assim, o vício de consentimento decorrente do dolo é anulável (artigo 171, II, CC), tendo como consequência o restabelecimento da situação jurídica anterior (artigo 182, CC). Noutros termos: confirmada a boa fé do terceiro, vítima de um esquema ilícito, o negócio jurídico ilegal fica privado de qualquer efeito no mundo jurídico, retroagindo a data da celebração e restabelecido o status quo ante. Entretanto, se o “sóciolaranja” empresta seu nome em ato de conluio com o sócio verdadeiro, mancomunados, estará caracterizado a 2 A execução fiscal contra sócios e administradores da pessoa jurídica. 12 de junho de 2016. in https://www.conjur.com.br/2016jun12/lucianorinaldiexecucaofiscalsociospessoajuridica. Fl. 2458DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.459 27 simulação, causa de invalidação dos negócios jurídicos (artigo 167, parágrafo 1º, I, CC). Nessa circunstância, levando em consideração que “o negócio jurídico nulo não é suscetível de confirmação, nem convalesce pelo decurso do tempo” (artigo 169, CC) e “as nulidades devem ser pronunciadas pelo juiz... quando as encontrar provadas” (artigo 168, p.único, CC), é certo que, em caso de transferência simulada de participação societária, a responsabilidade tributária atingirá também o sócio primitivo, ainda que haja dissolução irregular anos depois. Assim, no tocante ao redirecionamento da execução fiscal ao sócio/administrador, restando evidenciada a fraude por meio de vício de consentimento(dolo) ou simulação, a responsabilidade tributária alcançará o mentor do ilícito, por infração da lei (artigo 135, CTN), sendo pouco relevante aferir quem ocupava a gerência da empresa no momento da dissolução irregular. Ora, se o sócio que deixa a sociedade ficticiamente, mediante a transferência de suas quotas, é responsável pelos tributos devidos pela sociedade dissolvida irregularmente, o mesmo deve ocorrer com relação ao sócio de fato, dono do empreendimento, que constitui a empresa em nome de terceiro, interposta pessoa, e deixa de recolher todos os tributos devidos, sob pena de se frustrar a execução fiscal pela Fazenda Pública. Além disso, a utilização de interposta pessoa na constituição formal da empresa tipifica, sem dúvida, uma fraude, que caracteriza a infração à lei por parte dos reais proprietário da empresa. Assim, entendo que deve ser mantida a imputação de responsabilidade também com base no art. 135, do CTN. Ante ao exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. Desta feita, tendo em vista que a imputação de responsabilidade atribuída nestes autos ao responsável solidário José Marcelino de Araújo, ora recorrente, decorre dos mesmos fatos apontados no PA. 13603.002968/200384, impõese adotar os mesmos fundamentos e conclusões do voto exarado naquele processo. Ante ao exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Fl. 2459DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.460 28 Declaração de Voto Conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca No caso em análise, não obstante presentes os pressupostos necessários à tipificação da hipótese tratada pelo art. 135, III, do CTN e, assim, neste particular, não haver quaisquer discordâncias de minha parte com o voto condutor, vale destacar que, quanto ao art. 124, I, também invocado para justificar a responsabilização do solidário, meu entendimento diverge, inclusive, em relação à posição adotada pelo restante do Colegiado. É que, a meu ver, a única interpretação possível acerca do aludido art. 124, I, da Lei Complementar Tributária ex ratione materiae, é de que, para justificar a imposição solidária do dever de recolher o tributo, há que se verificar a existência de um interesse jurídico comum, e não econômico ou, de outra sorte, os sócios das empresas sempre, e sempre, seriam responsabilizáveis pelas dívidas havidas pela sociedade (tornando, pois, letra morta, as regras encartadas nos artigos 132, 133, 134 e 135, todos do mesmo diploma legal). Em suma, a meu ver o interesse na percepção de vantagem econômica não estão abarcado pelas disposições do art. 124, I, até porque, o uso de códigos linguísticos estranhos ao direito para qualificar um fato social é contrário à dogmática jurídica (posição que adoto, inclusive, para a validação, do ponto de vista fiscal/tributário, de operações não dotadas de intento negocial). Apenas a existência de uma relação jurídica comum que encerre um objetivo compartilhado, sendo este objetivo a ocorrência do próprio fato gerador, e não da percepção do fruto advindo deste fato jurígeno (auferir renda ou receita, deter a propriedade), é que legitima, pois, a responsabilização com base no citado dispositivo (respeitados, por óbvio, os entendimentos divergentes). Invoco, neste particular, o escólio de Luciano Amaro que, de forma bem objetiva, ratifica as assertivas acima apostas: Sabendo que a eleição de terceiro como responsável supõe que ele seja vinculado ao fato gerador (art. 128), é preciso distinguir, de um lado, as situações em que a responsabilidade do terceiro deriva do fato de ele ter "interesse comum" no fato gerador (o que dispensa previsão na lei instituidora do tributo) e, de outro, as situações com as quais ele tenha algum outro interesse (melhor se diria, as situações com as quais ele tenha algum vínculo) em razão do qual ele possa ser eleito como responsável. Neste segundo caso é que a responsabilidade solidária do terceiro dependerá de a lei expressamente a estabelecer. 3 E tanto Luciano Amaro, como Paulo de Barros (em seu Curso de Direito Tributário4 deixam extreme de dúvidas que o vínculo a ser observado é, efetivamente, o jurídico; vinculo estabelecido diretamente com o fato jurígeno e não com as consequências deste fato; dentre os exemplos destaquese a responsabilidade dos coproprietários do imóvel 3 AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro, 22ª ed., Rio de Janeiro: Saraiva, 2017, p. 345. 4 CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário, 8ª ed., Rio de Janeiro: Saraiva, 1996, p. 220. Fl. 2460DF CARF MF Processo nº 13603.002966/200395 Acórdão n.º 1302002.798 S1C3T2 Fl. 2.461 29 em relação à obrigação relativo ao IPTU ou dos vários vendedores de uma mesma mercadoria, quanto ao ICMS. Outro interesse (econômico), que não o destacado acima, como bem pontuado por Luciano Amaro, somente encerraria a responsabilização solidária do terceiro se e quando determinado, expressamente, por lei (art. 124, II, do CTN). Por tais razões, compartilho do entendimento do D. Relator apenas quanto a responsabilização do terceiro fundada nos preceitos do art. 135, III, como afirmei alhures, e, nesta esteira, voto por negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Gustavo Guimarães da Fonseca Fl. 2461DF CARF MF
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Numero do processo: 10980.940300/2011-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu May 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jul 17 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3301-000.669
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência.
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator
(assinado digitalmente)
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Rodolfo Tsuboi e Valcir Gassen.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator (assinado digitalmente) Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Rodolfo Tsuboi e Valcir Gassen.
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. Winderley Morais Pereira Presidente e Relator (assinado digitalmente) Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Rodolfo Tsuboi e Valcir Gassen. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 09 80 .9 40 30 0/ 20 11 -5 1 Fl. 107DF CARF MF Processo nº 10980.940300/201151 Resolução nº 3301000.669 S3C3T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente processo administrativo de PER/DCOMP para obter reconhecimento de direito creditório de Cofins por suposto pagamento indevido ou a maior e aproveitar esse crédito com débito de outro tributo. A DRF, no despacho decisório, indeferiu o pedido, em razão do recolhimento indicado no PER/DCOMP ter sido integralmente utilizado para quitação de débito confessado pelo contribuinte, não restando crédito disponível para restituição ou compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Assim, diante da inexistência de crédito, o Pedido de Restituição foi indeferido e a compensação declarada não foi homologada, conforme o caso. Cientificada, a interessada apresentou manifestação de inconformidade cuja argumentação é a seguir resumida. Sustenta que é uma instituição de educação sem fins lucrativos e, nos termos do art. 14, X da MP nº 2.15835, de 2001, estaria isenta da Cofins. Argumenta que tal dispositivo estabelece que tal isenção se dá, a partir de 01/02/1999, para as receitas relativas às atividades próprias das entidades a que se refere o art. 13, o qual, por sua vez, referese às “instituições de educação e de assistência social” arroladas no art. 12 da Lei n° 9.532, de 10 de dezembro de 1997. Afirma que se encaixa nos requisitos legais, uma vez que: (a) não remunera, por qualquer forma, seus dirigentes pelos serviços prestados; (b) aplica integralmente seus recursos na manutenção e desenvolvimento dos seus objetivos sociais; e (c) assegura a destinação de seu patrimônio à outra instituição congênere, em caso de extinção. Anexa o seu Estatuto Social para provar o alegado. Relativamente à expressão “atividade própria” (art. 14, X, da MP 2.158/35), argumenta que deve ser entendida como aquela atividade regular e relativa à natureza essencial da entidade. Sustenta que ‘própria’ é toda a atividade prevista em seu estatuto, ou na lei, já que conexa à própria existência da pessoa jurídica. Assim, assevera que “a existência de finalidade lucrativa não devia ser vinculada à gratuidade ou não dos serviços prestados ou à forma de obtenção da receita, nas, sim, à forma como ela é aplicada. Caso constitua objetivo da instituição exercer atividade educacional sem fins lucrativos, ainda que o serviço seja prestado mediante o pagamento de mensalidade ou retribuições, a receita obtida com as mensalidades constitui receita própria de sua atividade e, desta forma, estaria isenta da Cofins.” Afirma, outrossim, que os princípios da legalidade e da legalidade tributária impede o Fisco de exigir tributo que não está previsto em lei, acrescentando que a lei, nesse caso, prevê expressamente uma isenção. Portanto, em seu entendimento, não há “espaço para que atos normativos como, por exemplo, decretos, instruções normativas, atos interpretatórios ou declaratórios criem qualquer redução ou limitação à isenção de Cofins prevista nos artigos 13 e 14 da MP 2.15835/ 01”. Fl. 108DF CARF MF Processo nº 10980.940300/201151 Resolução nº 3301000.669 S3C3T1 Fl. 4 3 No seguimento, tece comentários sobre o instituto da compensação para afirmar que “tendo a instituição recolhido o tributo de forma indevida tem direito à restituição/compensação”. Em razão do alegado, requer a restituição e homologação da compensação pleiteada. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento manteve integralmente o despacho decisório, julgando improcedente a manifestação de inconformidade. Cientificada da decisão da DRJ, foi interposto recurso voluntário repisando os argumentos já apresentados na manifestação de inconformidade. É o Relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução 3301000.653, de 24 de maio de 2018, proferido no julgamento do processo 10980.934785/200920, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Resolução 3301000.653): "A teor do relatado, a discussão no presente processo trata da isenção a ser aplicada as instituições de educação e sem fins lucrativos, previsto no art. 14, X da MP 2.15835/2001. Consultando os autos não é possível identificar quais são as receitas que a Recorrente considerou como isentas para justificar o seu direito creditório. Diante do exposto, voto no sentido de converter o julgamento em diligência, a fim de que a Unidade de Origem intime a Recorrente para que no prazo de 30 (trinta) dias prorrogável uma vez por igual período, detalhar de forma pormenorizada quais são as receitas que aplicou a isenção prevista no art. 14, X da MP 2.15835/2001. A Unidade de Origem, se julgar necessário, poderá manifestarse quanto as informações apresentadas, inclusive fazendo as diligências e intimações que julgar necessárias. Concluída a diligência, os autos deverão ser devolvidos a este Conselho para prosseguimento do julgamento. " Fl. 109DF CARF MF Processo nº 10980.940300/201151 Resolução nº 3301000.669 S3C3T1 Fl. 5 4 Importante frisar que os documentos juntados pela contribuinte no processo paradigma, como prova do direito creditório, encontram correspondência nos autos ora em análise. Desta forma, os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso do paradigma também a justificam no presente caso. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu converter o julgamento em diligência a fim de que a Unidade de Origem intime a Recorrente para que no prazo de 30 (trinta) dias prorrogável uma vez por igual período, detalhar de forma pormenorizada quais são as receitas que aplicou a isenção prevista no art. 14, X da MP 2.158 35/2001. A Unidade de Origem, se julgar necessário, poderá manifestarse quanto as informações apresentadas, inclusive fazendo as diligências e intimações que julgar necessárias. Concluída a diligência, os autos deverão ser devolvidos a este Conselho para prosseguimento do julgamento. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 110DF CARF MF
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Numero do processo: 16561.720088/2016-30
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Aug 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2011, 2012
RENDIMENTOS DE DEBÊNTURES PERPÉTUAS DE PARTICIPAÇÃO DE LUCROS. NATUREZA DE INSTRUMENTO FINANCEIRO PATRIMONIAL. INAPLICABILIDADE DO ART. 58 DO DECRETO-LEI 1598/77.
As debêntures perpétuas de participação de lucros emitidas no presente caso são instrumentos financeiros híbridos de caráter patrimonial, que refletem a participação dos "credores" no sucesso da empresa, e não se sujeitam nem a prazos pré-determinados de pagamento, em razão da possibilidade da diretoria postergar o pagamento, nem a um vencimento da dívida, com retorno do principal. A sua natureza jurídica e contábil tem uma implicação direta sobre a qualificação da remuneração paga, que não tem natureza de juros, mas sim de dividendos, devendo receber o tratamento tributário correspondente. Por se tratar de participação nos lucros decorrente de instrumento patrimonial, e não de dívida, não há que se aplicar o art. 58 do Decreto-Lei nº 1.598/77.
DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS.
Presume-se distribuição disfarçada de lucros o negócio pelo qual a pessoa jurídica realiza com pessoa ligada qualquer negócio em condições de favorecimento, assim entendidas as condições que sejam mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros.
Enquadra-se nesta situação a emissão de debêntures feita exclusivamente em favor dos acionistas da companhia fechada, quando a remuneração é composta unicamente de participação dos lucros, em percentuais estratosféricos para operações desta natureza.
ABATIMENTO DO IRRF.
Afastando-se a natureza de remuneração de debêntures dedutíveis, deixa de ser pertinente IRRF sobre a operação, fazendo-se necessário o abatimento dos valores recolhidos pelo contribuinte a tal título da exigência fiscal.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2011, 2012
LANÇAMENTO REFLEXO.
Aplica-se à CSLL os mesmos fundamentos da decisão relativamente ao IRPJ, por se tratar de lançamento reflexo daquele.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2011, 2012
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. MANUTENÇÃO DA CONDUTA INFRACIONAL APÓS AUTUAÇÕES ANTERIORES, MAS REFERENTE A FATOS GERADORES OCORRIDOS ANTES DA LAVRATURA DO PRIMEIRO AUTO DE INFRAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE.
Constatando-se que o lançamento trata de fatos geradores ocorridos no ano-calendário de 2011 e 2012, e os primeiros lançamentos realizados foram formalizados posteriormente, respectivamente nos anos-calendário de 2012 e 2013, sem o julgamento definitivo dos processos até a dada do presente lançamento, não há como considerar que, somente com base nesses elementos, se qualifique a penalidade, mormente quando, diante dos mesmos fatos, a Fiscalização não qualificou a penalidade nas autuações anteriores referente aos mesmos fatos.
Ausência de demonstração do dolo do Recorrente no sentido de incorrer nas condutas dos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64.
SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE ATRIBUÍDA A ADMINISTRADOR DA PESSOA JURÍDICA. ART. 135, III, DO CTN. SIMPLES INADIMPLEMENTO. IMPOSSIBILIDADE.
A simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa. Precedente do STJ no REsp 1.101.728/SP julgado no rito do art. 543C do CPC/1973. O inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sócio-gerente. Inteligência do Enunciado nº 430 da Súmula do STJ.
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Crédito Tributário Mantido em Parte.
Numero da decisão: 1301-003.295
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado em dar provimento parcial ao recurso voluntário para: (i) por unanimidade de votos, deduzir o IRRF já recolhido na operação; (ii) por maioria de votos, reduzir a multa de ofício para 75% e excluir os coobrigados do polo passivo da obrigação tributária, vencido o Conselheiro Nelso Kichel que negou provimento em relação a esses pontos. Em relação ao mérito da exigência, o Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto acompanhou o voto do relator por suas conclusões.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Augusto Daniel Neto - Relator.
Participaram do presente julgamento os seguintes Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Ausente justificadamente a Conselheira Bianca Felícia Rothschild.
Nome do relator: CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO
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NATUREZA DE INSTRUMENTO FINANCEIRO PATRIMONIAL. INAPLICABILIDADE DO ART. 58 DO DECRETOLEI 1598/77. As debêntures perpétuas de participação de lucros emitidas no presente caso são instrumentos financeiros híbridos de caráter patrimonial, que refletem a participação dos "credores" no sucesso da empresa, e não se sujeitam nem a prazos prédeterminados de pagamento, em razão da possibilidade da diretoria postergar o pagamento, nem a um vencimento da dívida, com retorno do principal. A sua natureza jurídica e contábil tem uma implicação direta sobre a qualificação da remuneração paga, que não tem natureza de juros, mas sim de dividendos, devendo receber o tratamento tributário correspondente. Por se tratar de participação nos lucros decorrente de instrumento patrimonial, e não de dívida, não há que se aplicar o art. 58 do DecretoLei nº 1.598/77. DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS. Presumese distribuição disfarçada de lucros o negócio pelo qual a pessoa jurídica realiza com pessoa ligada qualquer negócio em condições de favorecimento, assim entendidas as condições que sejam mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros. Enquadrase nesta situação a emissão de debêntures feita exclusivamente em favor dos acionistas da companhia fechada, quando a remuneração é composta unicamente de participação dos lucros, em percentuais estratosféricos para operações desta natureza. ABATIMENTO DO IRRF. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 00 88 /2 01 6- 30 Fl. 1450DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 3 2 Afastandose a natureza de remuneração de debêntures dedutíveis, deixa de ser pertinente IRRF sobre a operação, fazendose necessário o abatimento dos valores recolhidos pelo contribuinte a tal título da exigência fiscal. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2011, 2012 LANÇAMENTO REFLEXO. Aplicase à CSLL os mesmos fundamentos da decisão relativamente ao IRPJ, por se tratar de lançamento reflexo daquele. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2011, 2012 MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. MANUTENÇÃO DA CONDUTA INFRACIONAL APÓS AUTUAÇÕES ANTERIORES, MAS REFERENTE A FATOS GERADORES OCORRIDOS ANTES DA LAVRATURA DO PRIMEIRO AUTO DE INFRAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. Constatandose que o lançamento trata de fatos geradores ocorridos no ano calendário de 2011 e 2012, e os primeiros lançamentos realizados foram formalizados posteriormente, respectivamente nos anoscalendário de 2012 e 2013, sem o julgamento definitivo dos processos até a dada do presente lançamento, não há como considerar que, somente com base nesses elementos, se qualifique a penalidade, mormente quando, diante dos mesmos fatos, a Fiscalização não qualificou a penalidade nas autuações anteriores referente aos mesmos fatos. Ausência de demonstração do dolo do Recorrente no sentido de incorrer nas condutas dos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE ATRIBUÍDA A ADMINISTRADOR DA PESSOA JURÍDICA. ART. 135, III, DO CTN. SIMPLES INADIMPLEMENTO. IMPOSSIBILIDADE. A simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa. Precedente do STJ no REsp 1.101.728/SP julgado no rito do art. 543C do CPC/1973. O inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sóciogerente. Inteligência do Enunciado nº 430 da Súmula do STJ. Recurso Voluntário Provido em Parte. Crédito Tributário Mantido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado em dar provimento parcial ao recurso voluntário para: (i) por unanimidade de votos, deduzir o IRRF já recolhido na operação; (ii) por maioria de votos, reduzir a multa de ofício para 75% e excluir os coobrigados do polo passivo Fl. 1451DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 4 3 da obrigação tributária, vencido o Conselheiro Nelso Kichel que negou provimento em relação a esses pontos. Em relação ao mérito da exigência, o Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto acompanhou o voto do relator por suas conclusões. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Relator. Participaram do presente julgamento os seguintes Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Ausente justificadamente a Conselheira Bianca Felícia Rothschild. Relatório Tratase de Autos de Infração de fls. 1015/1034 e do Termo de Verificação Fiscal TVF (fls. 984/1012), relativo aos anoscalendário de 2011 e 2012, para apuração e cobrança de Imposto de Renda Pessoa Jurídica IRPJ e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL, acrescido de multa qualificada de 150%. Da mesma forma, imputouse responsabilidade solidária aos três sócios diretores: Eduardo Rahme Amaro (diretor clínico), Antônio Rhame Amaro (diretor administrativo) e Edma Huespe (diretora secretária), com fundamento no art. 135, III do CTN. A fiscalização aduz também que o mesmo contribuinte foi objeto de autuação pelas mesmas infrações nos seguintes processos: 16561.720.156/201237 (2007); 16643.720.002/201316 (2008 e 2009) e 16561.720.079/201487 (2010). O Contribuinte é sociedade anônima fechada, cujo capital é distribuído entre os três sócios listados acima. Em 1998, em Assembléia Geral Extraordinária AGE, os acionistas decidiram pela emissão de 21.000 (vinte e uma mil) debêntures (série única, subordinadas, nominativas, endossáveis e não conversíveis em ações, com participação nos lucros, sem vencimento préfixado), no valor global de R$ 21.000.000,00 (vinte e um milhões de reais), sendo: a) R$ 5.052.000,00 oriundos da conta “Lucros Acumulados”; b) e R$ 15.948.000,00: “ingressado na sociedade através de recursos provenientes dos sócios”. A única forma prevista de remuneração das debêntures era a participação sobre o lucro antes da provisão para o Imposto de Renda, em 31 de dezembro de cada ano (a partir de 1998), nos seguintes percentuais: a) a partir de 15/04/1998 50% dos lucros; b) a partir de 02/06/1999 65% dos lucros; c) a partir de 07/01/2002 85% dos lucros. Relativamente aos fatos geradores dos anoscalendário de 2007 a 2010, objeto de outros processos administrativos, o TVF traz algumas considerações fáticas. Fl. 1452DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 5 4 Contabilmente, o Contribuinte deduzia a "participação de debêntures" dos resultado (ficha 6A das DIPJs dos exercícios em questão), e os valores deduzidos eram debitados em Contas de Resultado/Despesas Financeiras e creditados a Passivo Exigível de Longo Prazo/Juros e Participações, sendo segregado uma conta para cada sócio. Nesse mesma conta de Passivo Exigível era controlada a provisão de distribuição de lucros, mas cujo débito decorrente do pagamento aos sócios era sempre inferior ao valor provisionado. Por outro lado, eram lançados mensalmente, a crédito, 85% do Lucro Líquido apurado no mês, e a débito, as retiradas dos sócios, em valores e periodicidade que não foram esclarecidos pelo Contribuinte. A fiscalização aponta que apesar dos vultosos créditos nessa conta de Passivo, as retiradas da sócia Edma Huesp eram feitas mensalmente, no valor fixo de R$ 25.000,00 (nos recibos consta a anotação de prólabore), o que se daria em razão de opção da subscritora das debêntures. A fiscalização lavrou a autuação, concluindo que as debêntures “são apenas um artifício para o interessado deduzir parte significativa do lucro, dando uma aparente validade jurídica para o suposto pagamento de remuneração de debêntures, que, na realidade, configura distribuição de lucro, indedutível da base cálculo do IR e da CSLL”. Nas informações relativas ao processo 16561.720.079/201487 (2010), o TVF informou o seguinte: em AGE de 24.01.2013, o interessado aprovou nova alteração na remuneração das debêntures, desta vez para menor, passando a ser de 30% (trinta por cento)”; “a alteração ocorreu após a lavratura do Auto de Infração relativo ao ano calendário de 2007, o que demonstra que a empresa manteve a prática de planejamento tributário por meio de pagamento de remuneração de debêntures aos sócios, mesmo tendo ciência de que tal prática ia de encontro ao posicionamento do Fisco Federal” “somente em 02/01/2014 os acionistas se reuniram em Assembléia Geral Extraordinária, deliberando pelo resgate total das debêntures, ou seja, cessaram, enfim, o planejamento tributário abusivo aqui abordado”; Reproduz a exposição do modus operandi do Contribuinte, com a redução de 85% do Lucro Líquido a título de ajustes de participação dos lucros, através de créditos na conta do Passivo Exigível a Longo Prazo/Juros Passivos, e esses valores são debitados na conta a medida que os sócios fazem as retiradas. Menciona que os recibos das retiradas da sócia Edma Huespe são identificados como "Lucros", indicando a real natureza da remuneração das debêntures. As conclusões da fiscalização são as seguintes: a) que os debenturistas eram os próprios sócios administradores; b) da emissão de debêntures, não houve qualquer injeção de haveres novos e externos para investimento, desvirtuando o intuito maior da operação; Fl. 1453DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 6 5 c) que a operação não se enquadra como emissão de debêntures, pois não há qualquer previsão de se remunerar os recursos obtidos por meio de pagamento de juros; d) a suposta remuneração das debêntures não tem qualquer paralelo com o mundo real; e) no ano seguinte ao da emissão, a empresa já havia remunerado os debenturistas com mais de 100% (cem por cento) do “capital emprestado”, e mesmo assim, continuou remunerando seus debenturistas; f) passados onze anos, a remuneração acumulada paga aos sócios totaliza um retorno de 680,67%; g) a emissão de debêntures pela fiscalizada não tem qualquer racionalidade econômica, a não ser a economia de tributos; h) “qual empresa ofereceria como remuneração por um empréstimo uma participação de 85% de seu lucro anual a pessoas que não fossem os próprios sócios da empresa?; não é crível que tamanha benesse fosse concedida a um terceiro sem ligação ou influência nos negócios da empresa”; i) “a operação engendrada caracterizase como distribuição disfarçada de lucros, já que se trata de negócio realizado em condições de favorecimento com pessoas ligadas (in casu, os seus próprios acionistas), mediante a remuneração das debêntures com 85% dos lucros apurados”; j) se o objetivo da empresa era a captação de recursos para a consecução de seus objetivos, poderiam ter sido adotadas outras formas de transferência de capital, “proporcionando o alcance dos mesmos resultados perseguidos, sem a necessidade de redução de 85% da base de cálculo do IRPJ e da CSLL”; k) “na verdade, tais fatos denotam a utilização indevida da forma da remuneração de debêntures, cujos pagamentos são, a princípio, dedutíveis do lucro real, porque necessários à manutenção do empreendimento”. Prosseguindo, em relação aos anoscalendário de 2011 e 2012, autuados no presente processo, o TVF indicou que o Contribuinte permaneceu distribuindo aos sócios 85% do Lucro Líquido a título de "participação de debêntures", totalizando um retorno acumulado de 880,48% e 1.020,06%, respectivamente. Intimado a demonstrar com clareza os recursos obtidos através da emissão de debêntures, o interessado “somente juntou documentação de compra das ações da empresa Pro Matre Paulista S/A, em 02.02.2000, por R$ 4.752.618,00 (incorporada em 30.06.2000), “valor muito abaixo do obtido com a emissão de debêntures. O interessado informou à autoridade fiscal que, em AGE de 07.06.2013, foi aprovado o estorno das despesas deduzidas a título de remuneração nos anoscalendário de 2012 e 2013, e que foram apuradas novas demonstrações de resultado. Ainda assim, para 2012, “o contribuinte estava sob fiscalização, e não havia recuperado a espontaneidade”. Sob o fundamento de que o interessado agiu com dolo e persistiu na prática de atos que visavam induzir o Fisco a erro, a fiscalização lançou multa qualificada de 150%, com a imputação de responsabilidade aos sócios, com fundamento no art. 135, III do CTN. Notificado, o Contribuinte e os Responsáveis apresentaram impugnação aduzindo: Fl. 1454DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 7 6 a) cerceamento do direito de defesa por não indicar o dispositivo infringido; b) A lei nº 6404/76 não faz ressalvas quanto às condições, qualidades ou natureza dos titulares das debêntures, e aponta que todas as formalidades legais foram atendidas; c) As debêntures fizeram parte de um plano de reestruturação e preparação da empresa para suportar novo ciclo de crescimento: a expansão das operações e a necessidade dos acionistas de reaverem recursos emprestados à empresa. Afirmam que, logo após a emissão das debêntures, a empresa comprou, em 2000, a companhia Pro Matre Paulista S/A. d) Com relação aos valores transferidos de lucros acumulados, não havia e não há qualquer ressalva, condição ou vedação imposta pela legislação societária ou pela legislação fiscal à subscrição de debêntures mediante compensação dos créditos de lucros acumulados mantidos em conta corrente pelos acionistas. e) Ausência de prova de disparidade entre os valores de mercado e os de remuneração das debêntures, e que a autoridade fiscal “não poderia desnaturar uma operação, simplesmente pela elevada remuneração, já que esta decorre da própria característica do instituto”. Subsidiariamente, aduzem que “a base de cálculo deveria ser a diferença entre o valor total e a média constatada no mercado financeiro”. f) Seria inaplicável a presunção do art.464, inciso VI, do RIR/99, cujo pressuposto essencial é a demonstração da “situação vantajosa” em relação ao valor de mercado, e que, sem isso, é impossível afirmar, com a segurança e a certeza necessárias, se, de fato, foi oferecida condição privilegiada a acionistas, e, sobretudo, qual teria sido a medida desse privilégio. g) A desconsideração dos efeitos do negócio jurídico não se pode limitar à glosa, devendose estender aos recolhimentos de IRRF, cujos valores pedem que sejam deduzidos do credito tributário formalizado. h) Afirmam que os sócios deliberaram pelo estorno das despesas deduzidas a título de remuneração de debêntures, e “como consequência, houve a retificação das declarações dos anoscalendário de 2012 e 2013, pelas quais aumentouse o imposto devido”. Alegam que a “confissão do débito pela entrega das declarações revelase como legítima constituição do crédito tributário", de modo que a autuação seria despicienda. Dizem que o fato de não estarem revestidos pelo benefício da espontaneidade, com o que concordam, traz como única consequência a cobrança de multa. i) Sobre a multa qualificada, aduzem que toda a operação foi feita em observância da lei 6.404/76, e que as autuações foram deflagradas em 2012, 2013 e 2014, de modo que a autuação relativa ao fato gerador de 2011 leva em conta fatos anteriores às autuações; j) Afirmam que não há fundamento para a responsabilização, mas o simples inadimplemento do tributo, e que o CARF afastou a responsabilidade em outros casos julgados; A DRJ julgou improcedente o pleito do contribuinte, em acórdão assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Fl. 1455DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 8 7 Anocalendário: 2011, 2012 CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Antes de instaurada a fase litigiosa, não cabe alegação de cerceamento do direito de defesa. PROVA. MOMENTO DE APRESENTAÇÃO. A prova documental deve ser apresentada com a manifestação de inconformidade, precluindo o direito de o interessado fazê lo em outro momento processual. DILIGÊNCIA. INDEFERIMENTO. A autoridade julgadora pode indeferir os pedidos de diligências que considerar prescindíveis ou impraticáveis. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano calendário: 2011, 2012 INÍCIO DA AÇÃO FISCAL. RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÃO. ESPONTANEIDADE. Iniciada a ação fiscal, a retificação de declaração por iniciativa do próprio declarante, quando vise a reduzir ou a excluir tributo, não produz efeitos. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. Mantémse a qualificação da multa se não afastadas as condições previstas em lei para a sua exigência. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDARIEDADE. INFRAÇÃO DE LEI. Os diretores respondem pessoal e solidariamente pelos créditos tributários resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2011, 2012 RENDIMENTOS DE DEBÊNTURES. DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS. CONDIÇÕES DE FAVORECIMENTO. PESSOA LIGADA. LANÇAMENTO MANTIDO. Configura distribuição disfarçada de lucros o negócio com pessoa ligada quando a esta são oferecidas condições mais vantajosas que as prevalentes no mercado ou que as contratadas com terceiros. PARTICIPAÇÕES DE DEBÊNTURES. DESCARACTERIZAÇÃO. DEDUÇÃO DO IRRF. IMPOSSIBILIDADE. Fl. 1456DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 9 8 Não existe lei autorizando que, do IRPJ devido em função da glosa de participações de debêntures, seja deduzido o IRRF correspondente. CSLL. DECORRÊNCIA. O decidido no julgamento do IRPJ se aplica à tributação dele decorrente. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Irresignado, o Contribuinte e os Responsáveis apresentaram Recurso Voluntário, repisando as razões de sua Impugnação, e aduzindo de forma complementar que o crédito tributário relativo ao IRPJ e CSLL do anocalendário de 2012 é objeto de cobrança no Processo nº 16613.720010/201662, em razão da DCTF Retificadora transmitida em 2013 pelo Contribuinte, após as autuações do anocalendário de 2007. É o relatório, em síntese. Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Relator. O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido pelo Colegiado. I) Preliminar Preliminarmente, aduz a Recorrente a nulidade do auto de infração por cerceamento do direito de defesa, em razão da ausência de indicativo dos dispositivos infringidos. Data vênia, parecenos não proceder a alegação, pois não apenas no TVF, como também no corpo do auto de infração, são indicados os dispositivos que entendeu terem sido descumpridos pelo Contribuinte por exemplo, na fl. 1001, o auditor replica integralmente o art. 464 do RIR/99, para justificar a incidência do seu inciso VI ao presente caso, e da mesma forma o faz em fl. 1007, com o art. 44 da Lei 9.430/96, para fins de motivação da multa aplicada. Desse modo, não procede a alegação nesse ponto. Prosseguindo, aduz também nulidade da autuação no tocante ao ano calendário de 2012, em razão da DCTF Retificadora relativa a esse período estar sendo objeto de cobrança no processo nº 16613.720010/201662. Novamente, não merece prosperar o pleito do Recorrente. Fl. 1457DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 10 9 Conforme o art. 33, §2º do Decreto 7574/2011, a ato que determinar o início do procedimento fiscal exclui a espontaneidade do sujeito passivo em relação ao tributo, ao período e à matéria nele expressamente inseridos. O início da presente fiscalização se deu em Fevereiro de 2015, conforme TIPF, ao passo que a retificação ativa da DCTF, atualmente em cobrança por se tratar de crédito tributário incontroverso, se deu apenas em 27/06/2016, após o início da fiscalização e, portanto, fora do alcance da espontaneidade que justificaria a nulidade da autuação com base na DCTF Original. O que se dá, no presente caso, é que após a cobrança relativa ao ano calendário de 2012, eventual crédito pago naquele processo será descontado dos créditos tributários apurados neste, pela unidade de origem, durante os procedimentos oficiosos de cobrança, não havendo que se falar em duplicidade de cobrança, portanto. Assim, não merece acato também esta alegação do Recorrente. II) Mérito a) Da cobrança de IRPJ e CSLL em razão de distribuição disfarçada de lucros. O mérito do presente caso consiste na cobrança de IRPJ e CSLL, bem como os demais consectários legais, decorrentes de imputada distribuição disfarçada de lucros (DDL), com fundamento no art. 464, VI do RIR/99, c/c art. 467, inc. V do mesmo regulamento, reproduzidos abaixo, in totum: Art.464.Presumese distribuição disfarçada de lucros no negócio pelo qual a pessoa jurídica: VI realiza com pessoa ligada1 qualquer outro negócio em condições de favorecimento, assim entendidas condições mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros. Art.467.Para efeito de determinar o lucro real da pessoa jurídica: V no caso do inciso VI do art. 464, as importâncias pagas ou creditadas à pessoa ligada, que caracterizarem as condições de favorecimento, não serão dedutíveis. Ademais, como exaustivamente pontuado no TVF, a matéria objeto deste processo já foi analisada em outros PAFs, que correspondiam a autuações de anoscalendário pretéritos: 16561.720.156/201237 (2007); 16643.720.002/201316 (2008 e 2009) e 16561.720.079/201487 (2010): a) PAF nº 16561.720.156/201237 Acórdão nº 1301001.979, negado por unanimidade; 1 Art. 465. Considerase pessoa ligada à pessoa jurídica (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 60, § 3º, e Decreto Lei nº 2.065, de 1983, art. 20, inciso IV): I o sócio ou acionista desta, mesmo quando outra pessoa jurídica; II o administrador ou o titular da pessoa jurídica; III o cônjuge e os parentes até o terceiro grau, inclusive os afins, do sócio pessoa física de que trata o inciso I e das demais pessoas mencionadas no inciso II. Fl. 1458DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 11 10 b) PAF nº 16643.720.002/201316 Acórdão nº 1201001.412, provimento parcial por maioria, para aproveitamento do IRRF já pago pelo contribuinte; c) PAF nº 16561.720.079/201487 Acórdão nº 1402002.265, provimento parcial por maioria, para aproveitamento do IRRF já pago pelo contribuinte, redução da multa para 75%, e exclusão dos sócios pessoafísica do pólo passivo; Pois bem, o cerne da autuação diz respeito à possibilidade da remuneração dos sócios se dar através de debêntures, da forma como foram estruturadas na prática. É o que será analisado adiante. A emissão de debêntures é regulada minuciosamente pela Lei nº 6.404/76, a partir do seu art. 52, que determina: Art. 52. A companhia poderá emitir debêntures que conferirão aos seus titulares direito de crédito contra ela, nas condições constantes da escritura de emissão e, se houver, do certificado. Elas são, na lição de Martins, Iudicibus et alli, títulos negociáveis, normalmente a longo prazo, que asseguram aos detentores um direito de crédito contra a companhia emitente, podendo ser oferecidos para os investidores, ou de forma aberta, ao mercado, tornando os subscritores credores da empresa2, passando estes a perceberem remuneração até a data do vencimento do título. Essa remuneração deverá atender ao art. 56 da Lei das S/A, que estipula as suas formas possíveis: Art. 56. A debênture poderá assegurar ao seu titular juros, fixos ou variáveis, participação no lucro da companhia e prêmio de reembolso. Tratase, portanto, de um instrumento de financiamento das atividades da empresa, valores mobiliários emitidos pela sociedade por ações, cuja rentabilidade fixa serve de atrativo ao capital a ser investido, com todas as suas características definidas na Escritura de Emissão, como valor nominal; indexador pelo qual o valor é atualizado; prazo; forma de cálculo; rentabilidade proposta pelo emissor; fluxo de pagamento; e covenants que devem ser obedecidos pela companhia emissora ao longo da vida útil do ativo. Sobre a remuneração das debêntures, ensina Modesto Carvalhosa: O caráter facultativo da norma permite a atribuição de outras vantagens remuneratórias complementares, que façam as debêntures atrativas e com melhor colocação no mercado. Fica então reafirmado o principio da onerosidade e comercialidade da debênture, que não poderá deixar de oferecer vantagem pecuniária, compativelmente remuneratória do capital mutuado. Faculta a Lei de 1976 que, além dos juros, poderá a escritura de emissão estabelecer outras vantagens, como a participação nos lucros e prêmios, notadamente de reembolso. A alusão a juros variáveis constitui acessório do juro fixo estabelecido, consubstanciados aqueles na aceitação, pela comunhão de 2 Manual de Contabilidade Societária, 3ªed. São Paulo: Atlas, 2018, p.341. Fl. 1459DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 12 11 debenturistas, de vantagens adicionais aos juros prefixados, quando da colocação de novas séries, ou de debêntures em tesouraria. Assim os juros fixos constituem a remuneração básica e indeclinável das debêntures, sendo as demais modalidades acessórias daqueles, como a participação nos lucros da companhia e/ou o prêmio de reembolso. E, dentre essas vantagens adicionais aos juros fixos, poderá a companhia emissora oferecer preferência aos tomadores na aquisição de bens, na prestação de serviços ou na aquisição de direito, sempre visando tornar mais atrativa e competitiva a colocação das debêntures no mercado. Os juros constituem, como referido, a forma necessária de remuneração dos recursos emprestados pelos debenturistas companhia. Sendo a remuneração própria do capital mutuado, os juros serão sempre devidos. 3 Ao se tratar de financiamento de sociedades, há dois modelos básicos: a) financiamento por instrumentos patrimoniais, nos quais o sujeito investe em patrimônio, sujeitandose integralmente ao sucesso ou insucesso da empresa; e b) os instrumentos financeiros, através dos quais se empresta dinheiro à empresa, com reduzido risco de não obter o retorno do investimento, sendo remunerado, usualmente, pelos juros desse empréstimo. Entre eles, entretanto, há os instrumentos híbridos, que contém elementos típicos de ambos os instrumentos4. Via de regra, a emissão de debêntures é tradicionalmente considerada como uma espécie de instrumento financeiro, em razão dos seus elementos que são foram indicados anteriormente. Tanto é assim, que a legislação tributária reconhece a sua exclusão do lucro líquido do exercício, como juros passivos pagos em razão das participações no lucro derivadas da titularidade das debêntures. Entretanto, no presente caso estamos diante de debêntures perpétuas, isto é, sempre prazo de vencimento, e com remuneração expressivamente composta por participação nos lucros da sociedade, elementos típicos de instrumentos patrimoniais. Na prática internacional, as dívidas perpétuas, sejam elas contraídas por empréstimos, debêntures ou outro meio, são instrumentos de captação de recursos de sociedades que não lograram obtêlos de outro modo. A sua grande dificuldade, explica Ramon Tomazella, consiste no esvaziamento do direito de devolução do capital investido, pois a diferença entre a participação societária e a operação de crédito é justamente o fato de que o credor tem direito de receber o valor mutuado após o prazo fixado, garantia esta que não possui o acionista, quanto ao capital investido5. 3 CARVALHOSA, Modesto. Comentários à Lei das Sociedades Anônimas, v.1. São Paulo: Saraiva, 2002, p.647. 4 É precisa a observação feita pelos professores da FIPECAFI, ao observar que, em rigor, instrumentos híbridos implicam em um arranjo contratual que possua um derivativo embutido e um contrato hospedeiro. Usouse o termo em um sentido mais amplo, que vem se disseminando na prática, mas com a ressalva de que, rigorosamente, está se tratando de Instrumentos Financeiros com Características de Patrimônio (IFCP). (Manual de Contabilidade Societária, 3ªed. São Paulo: Atlas, 2018, p.307310). 5 TOMAZELLA, Ramon. Os instrumentos financeiros híbridos à lus dos acordos de bitributação. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2017, p.476477. Fl. 1460DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 13 12 A utilização de uma debênture perpétua aproximaa de um instrumento patrimonial, pois as condições de seu resgate equivalem, na prática, à própria liquidação da sociedade, afetando todos os riscos e benefícios econômicos derivados de uma operação financeiras típica. Sobre o tema, remetemos novamente à preciosa lição de Tomazella: Anotese que a proximidade entre a dívida perpétua e a participação societária não decorre simplesmente da sua avaliação sob o prisma da substância econômica, em oposição a sua forma jurídica. Ao contrário, são os direitos e obrigações estabelecidos entre as partes no instrumento contratual que definem os riscos e os benefícios da operação, influenciando tanto na definição da sua essência jurídica, quanto na manifestação dos seus efeitos econômicos. Assim, o risco econômico suportado pelo investidor está diretamente relacionado aos direitos e obrigações pactuados entre a sociedade e o investidor na dívida perpétua, que influenciam na avaliação das responsabilidades contratuais que irradiam da relação jurídica6. É preciso frisar, entretanto, que a ausência de vencimento, por si, não basta para que um instrumento possa ter natureza patrimonial da mesma forma que a presença do vencimento não o torna um instrumento de crédito. O relatório da International Fiscal Association IFA sobre os instrumentos financeiros híbridos apresenta algumas características básicas úteis para enquadrálos como dívida ou patrimônio7. Os instrumentos híbridos com natureza de dívida se aproximam dos patrimoniais quando possuem: i) conversibilidade em ações; ii) participação nos lucros como forma de remuneração; iii) ausência de prazo de pagamento dos juros e do principal; iv) subordinação aos demais créditos em caso de liquidação; v) ausência de prazo de vencimento, ou prazo excessivamente longo; vi) previsão de liquidação do seu valor em ações da sociedade. Essa distinção é relevante pois, a depender da sua qualificação jurídica se dívida ou patrimônio ele estará sujeito ao tratamento tributário de juros ou dividendos pagos. Esse ponto é relevante no âmbito brasileiro, como explica Roberto Quiroga Mosquera e Matheus Piconez, pois apesar da existência de normas contábeis e regulatórias que estabeleçam "testes", no Direito Tributário brasileiro não há normas específicas de qualificação do que seriam instrumentos híbridos, razão pela qual é necessário recurso à legislação societária, no que se refere ao conceito de dividendos e juros, de modo que conforme a natureza do pagamento em retorno do investimento, classificase o instrumento8. No mesmo artigo, os autores indicam como características9: Dividendos Juros São rendimentos pagos de forma variável ou fixa, conforme a deliberação da assembleia. São rendimentos pagos em quantia fixa ou percentual fixo. São rendimentos juridicamente incertos quanto à possibilidade de atribuição e pagamento (existência de renda), uma vez que dependem São rendimentos juridicamente certos quanto à possibilidade de atribuição e pagamento (existência de renda), independendo de 6 TOMAZELLA, Ramon. Ob.Cit., p.478. 7 "Tax Treatment of Hybrid Financial Instruments in Cross Border Transactions", Cahiers de Droit Fiscal Internacional, IFA, v. 85, 2000. 8 MOSQUERA, Roberto Quiroga; PICONEZ, Matheus Bertholo. Tratamento Tributário dos Instrumentos Financeiros Híbridos, in Controvérsias JurídicoContábeis (Aproximações e Distanciamentos), v. 2. São paulo: Dialética, 2011, p.240241. 9 Idem, ibidem, p.246 Fl. 1461DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 14 13 da existência de lucros sociais ou reservas de capital. qualquer outro fator aleatório, como a existência de lucros ou reserva de lucros. Decorrem de uma operação de participação societária. Decorrem de uma operação de crédito Ainda que existam reservas de capital previamente ao lançamento das ações ou em data posterior à emissão, a atribuição e pagamento de dividendos ao acionista serão incertos, uma vez que os prejuízos acumulados poderão consumir as respectivas reservas. Independem de qualquer outro fator aleatório. Os instrumentos financeiros, também cabe lembrar, nos termos do CPC 39, podem gerar para a entidade contratante um passivo financeiro (para os presente caso, é a obrigação contratual de entregar caixa ou outro ativo financeiro a uma entidade) ou instrumento patrimonial (qualquer contrato que evidencie uma participação nos ativos de uma entidade após a dedução de todos os seus passivos). Passemos a analisar o caso concreto, para identificar a natureza jurídica dos pagamentos e, assim, identificar a qualificação jurídica do ativo financeiros adquirido pelos sócios através das debêntures. Pois bem, compulsando a Ata da AGE de fls. 98 e seguintes, se verifica que as debêntures emitidas estão sujeitas a remuneração exclusivamente através de participação dos lucros (na época dos fatos geradores, a 85% do lucro líquido apurado antes do IRPJ), podendo a diretoria deliberar sobre outra periodicidade no pagamento dessa remuneração. Além disso, o vencimento somente se dará nos casos de inadimplemento do pagamento das obrigações da escritura (condição esta que fica ao critério da diretoria, que pode livremente alterar a periodicidade do pagamento) e no caso de dissolução da emitente: Fl. 1462DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 15 14 Por outro lado, a emitente pode deliberar o resgate antecipado das debêntures, e no caso de atrasos no pagamento há a previsão de multa moratória. Pela descrição fática, fica claro que a remuneração das debêntures é exclusivamente variável e dependem da existência de lucros, além disso, o pagamento está condicionado à anuência da Diretoria, visto que ela pode livremente alterar a periodicidade dos pagamentos. Da mesma forma, a ausência de vencimento, conjuntamente às demais características apontadas, demonstra que a debênture perpétua em questão se aproxima muito mais de um instrumento híbrido patrimonial, pois ao postergar indefinidamente a devolução do principal, atrelando a sua remuneração ao sucesso financeiro da sociedade (lucro), o credor suporta um risco semelhante ao do sócio, participando do sucesso da empresa no manejo dos seus ativos o que corrobora a natureza de patrimonial. A própria definição de instrumentos de dívida "perpétuos" no item AG6 do CPC 39 aponta o pagamento de juros como elemento definitório desse meio de financiamento: AG6 Instrumentos de dívida “perpétuos” (como debêntures, “capital notes” e títulos “perpétuos”) normalmente fornecem ao detentor o direito contratual de receber pagamentos de juros em datas préestabelecidas se estendendo por um período indeterminado com ou sem o direito de receber o principal sob condições que sejam muito desfavoráveis no futuro. Por exemplo, a entidade pode emitir um instrumento financeiro determinando que sejam feitos pagamentos anuais em perpetuidade iguais à taxa de juros de 8% a.a. aplicada a um valor de referência ou montante principal de $ 1.000. Assumindo 8% como sendo a taxa de mercado para o instrumento quando emitido, o emissor assume a obrigação contratual de fazer um fluxo futuro de pagamentos de juros co m o valor justo (valor presente) de $ 1.000 no reconhecimento inicial. O detentor e o emissor do instrumento possuem um ativo financeiro e um passivo financeiro, respectivamente É dizer, a debênture perpétua exige, pelo menos sob a perspectiva contábil, o pagamento de juros em prazos prédeterminados. No presente caso, não há o pagamento de juros, mas sim de participação nos lucros, e o prazo está sujeito a alteração por deliberação da Diretoria. No Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários julgou o Proc. Administrativo nº RJ 20113316 Caso Energisa S.A. no qual se discutia exatamente a classificação contábil de Senior Perpetual Notes with Interest Deferral Option Notes (notas perpétuas com opção de diferimento de juros), às quais foram reconhecidas como instrumentos de dívida. Sem entrar nas minúcias do caso, parecenos que o entendimento lá esposado não pode ser replicado aqui, apesar de ambos tratarem de instrumentos perpétuos, pois lá a remuneração se dava através de juros que poderiam ser diferidos, mas não evitados, calculados independentemente da apuração de lucros da sociedade, e possuiam também covenants estabelecidos para proteger os interesses dos investidores. É, sem dúvida, um exame que não pode se dar de conceitualmente, mas sim à partir de uma análise dos tipológica, dependendo do caso concreto que se observa. Um exemplo mencionado por Tomazella é o caso "Hoge Raad", julgado pela Suprema Corte da Holanda, no qual a os títulos de dívida perpétua eram remunerados por juros, mas estes juros Fl. 1463DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 16 15 eram pagos apenas quando a sociedade distribuísse dividentes no caso, a Corte entendeu que ainda o pagamento de juros era diferido, mas não se confundia com a contingência da remuneração baseada na apuração de lucros, havia apenas um elemento temporal no seu pagamento10. Portanto, não há que se falar em instrumento financeiro de dívida perpétuo nos casos em que não exista remuneração através de juros. As debêntures emitidas no presente caso são instrumentos financeiros híbridos de caráter patrimonial, que refletem a participação dos "credores" no sucesso da empresa, e não se sujeitam nem a prazos prédeterminados de pagamento (em razão da possibilidade da diretoria postergar o pagamento), nem a um vencimento da dívida, com retorno do principal. A sua natureza jurídica e contábil tem uma implicação direta sobre a qualificação da remuneração paga: ela não tem natureza de juros, mas sim de dividendos, devendo receber o tratamento tributário correspondente. Essas considerações são relevantes por uma questão essencial para o deslinde do feito: não se está aqui a questionar a possibilidade jurídica do financiamento realizado pelo Contribuinte, através das debêntures emitidas todo o procedimento atendeu aos requisitos da Lei nº 6.404/76 e possui, efetivamente materialidade econômica, não se tratando de mero simulacro contábil ou formal. Entretanto, houve um equívoco no reconhecimento contábil dos valores recebidos na subscrição das debêntures, os quais deveriam ter sido na condição de instrumentos financeiros híbridos patrimoniais adicionados ao Patrimônio Líquido, e não reconhecidos como passivo financeiro. Em estando os pagamentos inteiramente sob controle da companhia, não há que se falar em passivo financeiro, na linha que vem sendo adotada internacionalmente pelo IFRS, e replicada nacionalmente no CPC 39. É relevante, pois, o reconhecimento que a classificação contábil das debêntures emitidas está condicionada à primazia da essência sobre a forma (CPC 00), reconhecendo sua efetiva natureza patrimonial, que irá impactar diretamente sobre a sua natureza jurídicosocietária e, sucessivamente, sobre os seus efeitos tributários, mormente quanto à impossibilidade de dedução do lucro líquido, na apuração do lucro real, por não se tratar de instrumento de dívida. O voto da Diretora Norma Jonssen Parente é sobremaneira eloquente, no Caso Energisa S/A: 5. No caso de debêntures perpétuas com participação nos lucros, o investidor participa do risco da empresa, tendo a mesma situação desfrutada pelo acionista da companhia. De modo que o sucesso ou insucesso da sociedade repercute diretamente em seus rendimentos, visto que tal debenturista é quase um acionista. 6. Dessa forma, não se pode afirmar que o emissor de debêntures perpétuas seja detentor de um exigível. O fato de ser facultado à companhia resgatar a debênture não a torna um exigível (visto que esta opção pertence exclusivamente à sociedade); ainda que tal fato ocorra no futuro não justifica, no presente, seu enquadramento no passivo exigível. Portanto, não 10 TOMAZELLA, Ramon. Ob.Cit., p.482483. Fl. 1464DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 17 16 se pode dizer que a exigibilidade é ínsita ao título sendo presumível sua ocorrência. No caso, a exigibilidade por parte dos debenturistas é remota, pois aos mesmos sequer é facultado direito a um rendimento predeterminado, já que sua remuneração restringese à participação nos lucros sociais. (...) 9. A lei não previu a contabilização das debêntures sem vencimento, sendo bastante objetiva ao vincular o exigível a prazos de vencimento, inexistentes no caso das debêntures perpétuas. Repitase: a dívida em questão não vence, pois, sendo a faculdade de adimplir o principal destas debêntures evento futuro e incerto, não há como garantir a ocorrência da eventual exigibilidade do crédito, nem a curto, médio ou longo prazo. Não resta possibilidade de registro no passivo exigível constatada a incerteza da efetividade da exigibilidade relativa ao título. Assim, fazer projeções quanto ao vencimento das debêntures perpétuas pode revelarse tarefa árdua e eventualmente contraditória com o instituto, dado que este permite a emissão de tais títulos justamente com a característica de perpetuidade. Tecnicamente falando, houve uma omissão legal da Lei 6.404/76, ao nada dispor sobre a possibilidade da inclusão das debêntures perpétuas no âmbito do PL, como se vê no art. 178, §2º, III dessa lei. Em razão dessa omissão, tornase necessário interpretar os fatos contábeis à luz das diretrizes dos art. 177 e 178, caput da Lei das S/A: Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. Art. 178. No balanço, as contas serão classificadas segundo os elementos do patrimônio que registrem, e agrupadas de modo a facilitar o conhecimento e a análise da situação financeira da companhia. Diante disso, e após a conclusão de que a debênture perpétua seria uma instrumento financeiro híbrido patrimonial, há que se lhe dar um tratamento conforme na esteira do tratamento dado nos princípios de contabilidade aceitos globalmente , com a sua escrituração no PL. Em razão de sua natureza jurídica, a remuneração paga aos debenturistas possui natureza de dividendos, como já esclarecido anteriormente, submetendose assim ao disposto no art. 201 c/c art. 191 da Lei das S/A: Art. 191. Lucro líquido do exercício é o resultado do exercício que remanescer depois de deduzidas as participações de que trata o artigo 190. Art. 201. A companhia somente pode pagar dividendos à conta de lucro líquido do exercício, de lucros acumulados e de reserva Fl. 1465DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 18 17 de lucros; e à conta de reserva de capital, no caso das ações preferenciais de que trata o § 5º do artigo 17. Portanto, para fins de aplicação do art. 58 do DecretoLei nº 1.598/77 há que ser feita uma dissociação. Assim prescreve o dispositivo mencionado: Art 58 Podem ser excluídas do lucro líquido do exercício, para efeito de determinar o lucro real, as participações nos lucros da pessoa jurídica: I atribuídas a seus empregados segundo normas gerais aplicáveis, sem discriminações, a todos que se encontrem na mesma situação, por dispositivo do estatuto ou contrato social, ou por deliberação da assembléia de acionistas ou sócios quotistas; II asseguradas a debêntures de sua emissão. A exclusão preconizada acima se aplica à participação de lucros decorrente da remuneração das debêntures que têm natureza jurídica de instrumento financeiro de dívida, pois esse pagamento assume natureza de passivo financeiro, tal qual os juros pagos pelo capital disponibilizado pelo debenturista. Em se tratando de debênture com natureza de instrumento híbrido patrimonial, fica evidente que o pagamento desses lucros não fica sujeito à exclusão do lucro líquido, pois os dividendos só serão apurados após o todas as deduções de praxe sobre o resultado do exercício, incluindo também a provisão do IRPJ e CSLL. Por essas mesmas razões, não procede o argumento subsidiário do Recorrente de que "a base de cálculo deveria ser a diferença entre o valor total e a média constatada no mercado financeiro”, com base no art. 467, V do RIR/99 pois não há sequer que se considerar a taxa de remuneração praticada no mercado para debêntures com natureza de dívida, pois se trata de figuras jurídicas e contábeis diferentes da debênture em questão, de natureza patrimonial. Portanto, correta a imputação jurídica da Fiscalização, referente à distribuição disfarçada de lucros, com base no art. 464, VI do RIR/99: as partes ligadas (Recorrente e seus sócios) realizaram um negócio jurídico (emissão e subscrição de debêntures), em condições de favorecimento (condições de acionista, com pretendido efeito redutor do lucro líquido pré IRPJ/CSLL) que não seriam praticáveis em relação a terceiros (elevadíssima taxa de retorno). A despeito da correção da imputação realizada, no entender deste relator, sequer seria necessário o recurso à presunção do art. 464 do RIR/99, pois está cabalmente comprovado que a remuneração paga aos debenturistas seria, em rigor, dividendos hauridos dos lucros apurados na sociedade, qualificando da mesma forma o caso como uma distribuição disfarçada de lucros. Cabem aqui também algumas considerações acerca do Parecer CVM/SJU nº 15/88 e a sua aplicabilidade ao caso, haja vista que sua ementa dispõe o seguinte: "É possível, diante da Lei n. 6.404/76, a existência de debênture perpétua, a que seja atribuída remuneração apenas a título participativo nos lucros sociais". Fl. 1466DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 19 18 Em primeiro lugar, é preciso observar que o contexto legislativo contábil em que o referido parecer foi exarado é completamente distinto do atual, pois a edição da Lei nº 11.638/07 tratou de introduzir, no Brasil, as regras contábeis compatíveis com os padrões internacionais de contabilidade (IFRS). Em razão disso, foi aprovado pela CVM o Pronunciamento Conceitual Básico (CPC 00), consagrando expressamente no âmbito brasileiro a primazia da essência subjacente e da realidade econômica sobre a forma adotada. Disso não se depreende automaticamente que as regras contábeis geram efeitos sobre a interpretação de atos ou negócios jurídicos, por se tratarem de âmbitos distintos. Tampouco se pode afirmar, no sentido contrário, que o Direito é alheio às razões subjacentes dos negócios, especialmente em vista da regra interpretativa do art. 112 do Código Civil: " Art. 112. Nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciada do que ao sentido literal da linguagem.". O que há, entretanto, é uma relação tangente do entre o Direito Contábil e o Direito Societário, por força do art. 177 e 178 da Lei das S/A, que determina expressamente a observância dos princípios contábeis para fins de construção das demonstrações financeiras, incluindo aí todas as etapas do processo contábil reconhecimento, mensuração e evidenciação. A aplicação das regras contábeis para fins de reconhecimento do negócio jurídico realizado envolvendo debêntures deve, portanto, estar alinhado aos preceitos contábeis contemporâneos já desgarrado do formalismo que vicejava à época da emissão do mencionado Parecer. Isso implica no seu reconhecimento como elemento do PL, e não como passivo financeiro, por todas as razões que foram exaustivamente expostas acima. Adentrando no conteúdo do Parecer da CVM, verificase de pronto um equívoco da parecerista, pois faz remissão às debêntures cuja remuneração exclusiva se faz através de participação aos lucros, referindose aos casos de reorganização de empresas ferroviárias nos Estados Unidos, e cita o seguinte trecho: Fl. 1467DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 20 19 Da leitura do texto, resta absolutamente claro que o "income bond" referida no caso nada tem a ver com a debênture perpétua com remuneração exclusiva de participação dos lucros. Na verdade, na income bond ocorre algo semelhante ao caso Hoge Raad, mencionado acima. Tratase de uma debênture remunerada por juros (interests, expressamente mencionado no texto), mas com o pagamento sujeito a diferimento para o anocalendário em que a empresa apure lucro. Não se trata, portanto, de remuneração por participação dos lucros, mas sim por juros, com diferimento previsto o que não descaracteriza a debênture como instrumento de dívida, como já analisado anteriormente. A própria definição de "income bond", obtida no site da NASDAQ, deixa claro que se trata de figura distinta da analisada no caso: A bond whose payment of interest is contingent on sufficient earnings. These bonds are commonly used during the reorganization of a failed or failing business11. Tradução livre: Um título cujo pagamento de juros é contingente em lucros suficientes. Esses títulos são comumente usados durante a reorganização de um negócio com falhas ou falho. Ao citar também o escólio de Luis de Angulo Rodréguez, este autor menciona que não há, entre o debênturista e os sócios da sociedade, uma affectio societatis para que o título possa ter esse efeito associativo entretanto, no presente caso esse argumento não é válido, pois os debênturistas são, ao mesmo tempo, os únicos sócios da Recorrente. Por fim, ao final, a própria parecerista reconhece que a debênture perpétua com participação nos lucros se enquadra como uma aplicação de risco, e como como forma de 11 https://www.nasdaq.com/investing/glossary/i/incomebond Fl. 1468DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 21 20 crédito, nos termos da Resolução CMN nº 1.460/88, evidenciando a sua natureza de instrumento híbrido patrimonial. Pelas razões expostas acima, entendo que o referido parecer não tem aplicabilidade ao caso em questão. Sobre o argumento do "propósito negocial" da operação, aderimos às considerações feitas pelo Ilustre Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, no Acórdão nº 1402002.265: No que diz respeito aos argumentos dos Recorrentes de que a operação teria sido usual e o montante empregado na capitalização da empresa, especialmente para a aquisição da Pro Matre Paulista S.A., outra sorte não lhes se socorre. Isso porque tal aquisição ocorreu logo após a emissão das debêntures e, ainda assim, uma década após isso, remanesceu a obrigação de remunerar os sócios. Caso o objetivo dos Recorrentes realmente fosse o de capitalizar a empresa para essa aquisição específica, o resgate dos títulos já deveria ter sido feito, até porque restou comprovado que o capital dos sócios foi remunerado, em uma década, em mais de 780%, o que não parece razoável, tampouco se encontra dentro dos parâmetros de mercado. Em relação ao erudito voto do relator supramencionado, aderimos às conclusões esposadas, mas pelas razões que aduzimos anteriormente: não se trata de desconsiderar a operação efetuada visto que ela atendeu aos requisitos legais para tanto mas sim em darlhe o tratamento contábil, jurídicosocietário e jurídico tributário correto, como feito pela fiscalização. O Recorrente pleiteia, também, a possibilidade de aproveitamento do IRRF efetivamente pago, uma vez que tal imposto não será devido na distribuição de lucros. Tem razão o Contribuinte, em seu argumento subsidiário, com acolhida recente inclusive no âmbito da 1ª Câmara Superior de Recursos Fiscais, no Acórdão nº 9101 002.535, cujas razões, de lavra do I. Conselheiro Luís Flávio Neto, reproduzo abaixo: Por restar vencido quanto ao mérito principal deste recurso, a decisão deste Colegiado foi desconsiderar os efeitos jurídicos das operações realizadas pelo contribuinte, de tal forma que as despesas incorridas pela contribuinte não ostentariam a natureza jurídica de debêntures e, assim, não seria aplicável a regra de de dedutibilidade que lhes seria inerente. Por coerência, em face da decisão deste Colegiado de recusar a natureza jurídica de debêntures, também deixa de ser aplicável aos pagamentos em questão a regra que determina a retenção de IRRF sobre a remuneração de debêntures. Dessa forma, os recolhimentos realizados a tal título pela recorrente também deixaram de assumir essa roupagem. Destaco a parte final do voto que orientou o acórdão nº 101 94.986, indicado pela recorrente como paradigma de Fl. 1469DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 22 21 divergência para a interposição do recurso especial ora sob julgamento: “Entendo, todavia, que por uma questão de razoabilidade, deve ser deduzida da exigência o valor pago a título de imposto de renda retido na fonte. É que, ao se considerar como indedutíveis as despesas correspondentes aos rendimentos de debêntures, na realidade estáse tratando os valores contabilizados a título de remuneração de debêntures como lucros distribuídos. Nesse caso, não cabe o imposto de renda retido na fonte, e uma vez que se trata de incidência exclusiva, não compensável na declaração dos beneficiários, deve o respectivo valor ser deduzido da presente exigência.” Do mesmo modo, compreendo assistir razão à (...) quando pleiteia, de forma subsidiária, seja aproveitado o IRRF por ela recolhido na operação, para a compensação dos correspondentes valores exigidos nestes autos. Não há falarse em ausência de expressa disposição legal para tanto, pois se trata de decorrência lógica e necessária da desconsideração das operações de remuneração de debêntures. Pelas razões supradescritas, voto por negar provimento ao Recurso nessa parte, reconhecendo a impossibilidade de dedução do Lucro Líquido dos valores relativos à remuneração das debêntures, mas acolhendo o pedido subsidiário para o abatimento dos valores exigidos nestes autos com o IRRF por ele recolhido na mesma operação. b) Da multa qualificada Em primeiro lugar, há que se afastar a argumentação fiscal no sentido de que o contribuinte "insistiu na conduta equivocada". Sobre isto, precisas são as considerações do Conselheiro Fernando Pinto: Em primeiro lugar porque a presente exigência trata de fatos geradores ocorridos no anocalendário de 2010, sendo que os lançamentos realizados anteriormente (processos 16561.720156/201237 e 16643.720002/201316) foram formalizados posteriormente, respectivamente nos anoscalendário de 2012 e 2013. E ainda que a data da ocorrência do fato gerador que ensejou o lançamento já houvessem sido lavrados autos de infração relativos a períodos anteriores, sobre o mesmo tema, entendo que o cenário não se alteraria, a menos que já houvesse decisão administrativa definitiva e irreformável em relação às exigências anteriores, nos moldes tratados no art. 560 do Decreto nº 7.212/2010 – Regulamento do IPI, que determina que caracteriza “reincidência específica a prática de nova infração de um mesmo dispositivo [...] dentro de cinco anos da data em que houver passado em julgado, administrativamente, a decisão condenatória referente à infração anterior.” (Lei nº 4.502, de 1964, art. 70). Dito isso, é importante ressaltar que, diante dos mesmos fatos, a Fiscalização não qualificou a penalidade nas autuações anteriores. Não havia, até o anocalendário de 2012, decisão administrativa definitiva que servisse como orientação segura para o Contribuinte pelo contrário, a matéria estava em Fl. 1470DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 23 22 franca discussão no âmbito administrativo, não havendo razões para o contribuinte aderir imediatamente aos fundamentos da autuação, ainda passível de revisão. Além disso, aduziu o Conselheiro já citado que a conduta da Recorrente seria uma forma de planejamento tributário conduta elisiva , e não uma forma de evasão, por meio de fraude ou sonegação, razão pela qual afastou a qualificadora da multa baseada na inocorrência de elementos que permitam enquadrar a conduta da autuada nos conceitos dos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. Novamente, concordamos com as assunções feitas por ele que de resto estão absolutamente coerentes com o restante do Acórdão mencionado. De fato, não há nos autos prova de dolo específico de fraude ou simulação da Recorrente o que é apontado pela fiscalização, em rigor, é a intenção de utilizar um mecanismo legal, posto que artificial, para a redução substancial do lucro tributável. Entretanto, entendemos que a intenção negocial na emissão das debêntures não se encontra viciada, tampouco o negócio jurídico, visto que atendeu a todos os requisitos legais. O que há, na verdade, é uma aplicação prática da conhecida citação de Pablo Neruda "somos senhores de nossas escolhas, mas escravos das consequências delas": o negócio jurídico foi realizado de acordo com a vontade da Recorrente, mas a qualificação jurídica e contábil é decorrência das regras societárias e de Direito Contábil, não tendo o agente controle sobre a natureza jurídica do negócio feito, uma vez completa a sua realização. Ainda nessa linha, não há, portanto, qualquer dolo de sonegação, mas sim vício na classificação contábil e jurídica das debêntures, cabendo apenas a multa de ofício de 75%. Desse modo, voto por afastar a qualificadora da multa de ofício, mantendo apenas a multa de 75%, por falta de recolhimento do tributo devido. c) Da responsabilidade dos sócios Sobre a responsabilidade dos sócios, adiro integralmente às considerações do Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, no Acórdão nº 1402002.265, às quais reproduzo abaixo e as tomo como razão de decidir: Para a caracterização da responsabilidade a que alude o art. 135, III, do CTN, fazse necessário a presença dois elementos: Elemento pessoal: diz respeito ao sujeito que deu azo à ocorrência da infração, ou seja, o executor, partícipe ou mandante da infração. Tratase, na realidade, do administrador da sociedade, independentemente de ser ou não sócio. Assim sendo, não poderão ser incluídos como responsáveis quaisquer sujeitos que não possuam poder de decisão; Elemento fático: necessidade de conduta que implique excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto.38 Desse modo, “não basta ser sócio da empresa (pessoa jurídica), é indispensável que exerça função de administração no período contemporâneo aos fatos geradores”. Fl. 1471DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 24 23 Conforme já salientado, o art. 135, III, do CTN possibilita responsabilizar os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado desde que sejam os responsáveis pela ocorrência do elemento fático que ensejou o nascimento da obrigação tributária. O conceito de diretor é dado pelo art. 144 da Lei nº 6.404/76 – Lei das Sociedades Anônimas: o sócio ou administrador de uma organização é o que possui poderes para representála, inclusive em juízo, bem como para praticar todos os atos necessários ao seu regular funcionamento. Já a definição de gerente é trazida pelo Código Civil (art. 1.172 e seguintes): considerase gerente o preposto permanente no exercício da empresa, na sede desta, ou em sucursal, filial ou agência. Notese que na hipótese de lei não determinar poderes especiais, considerase o gerente autorizado a praticar todos os atos necessários ao exercício dos poderes que lhe foram outorgados.41 Maria Rita Ferragut assim conceitua representante: é a pessoa física ou jurídica que, em função de um contrato mercantil, obrigase a obter pedidos de compra e venda de mercadorias fabricadas ou comercializadas pelo representado, não tendo poderes para concluir a negociação em nome do representado. Não possui vínculo empregatício, e sua subordinação tem caráter empresarial, cingindose à organização do exercício da atividade econômica. Percebese que, para a caracterização da responsabilidade de que trata o dispositivo legal em questão, fazse necessária a coexistência de dois elementos essenciais em relação a um fato: que seja praticado por um representante legal de empresa e que denote excesso de poder ou infração à lei ou atos constitutivos da pessoa jurídica. Passo à análise do caso concreto. A autoridade fiscal, ao cominar a penalidade qualificada de 150%, entendeu restar caracterizado o conjunto fáticojurídico a ensejar a responsabilidade tributária dos sócios, todos com poder de gerência. Entendo não lhe assistir razão. Isso porque, ao restar descaracterizada a operação dita como fraudulenta, incide o entendimento já consolidado no âmbito do Superior Tribunal de justiça que pode ser resumida com a transcrição do Enunciado nº 430 da Súmula do STJ: O inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sóciogerente Mais recentemente, julgouse a matéria sob a égide do disposto no art. 543C do CPC/1973 (“recurso repetitivo”), sendo que a Primeira Seção do STJ, no julgamento do REsp 1.101.728/SP, de Relatoria do Ministro Teori Albino Zavascki, consolidou entendimento segundo o qual “a simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa”. Saliento que o simples inadimplemento da obrigação não pode gerar, de per si, a responsabilidade do administrador da pessoa jurídica. Ao assim dispor, por Fl. 1472DF CARF MF Processo nº 16561.720088/201630 Acórdão n.º 1301003.295 S1C3T1 Fl. 25 24 outro lado, o STJ deixou transparecer que em hipóteses de um inadimplemento, digamos, “qualificado”, podese sim atribuir a responsabilidade de que tratar o art. 135 do CTN, conforme venho me pronunciando em diversos julgados. Com efeito, não comungo do entendimento daqueles que limitam a aplicação do caput do art. 135 do CTN às hipóteses de cometimento de infração à lei societária, excluindo às infrações às leis tributárias. Não me parece ser crível que, em se tratando de uma norma tributária, excluase do rol de infrações, aptas a ensejar a corresponsabilidade, justamente as próprias leis aplicáveis aos tributos. Ocorre que, no presente caso, estamos diante de um simples inadimplemento de tributo, tanto que votei pela desqualificação da penalidade, reduzindoa ao patamar de 75%. Nesta esteira, em não havendo comprovação do dolo essencial à imputação de responsabilidade com fulcro no art. 135, III do CTN, mas mero inadimplemento, voto pela exclusão dos sócios do pólo passivo da autuação. III) Conclusão Ante o exposto, voto por dar PARCIAL PROVIMENTO ao Recurso Voluntário para reduzir a multa ao patamar de 75% e excluir os sócios do pólo passivo da autuação, acolhendo o pedido subsidiário para o abatimento dos valores exigidos nestes autos com o IRRF por ele recolhido na mesma operação. É como voto. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Fl. 1473DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.915389/2009-93
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue May 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jul 05 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2006
RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ADMISSIBILIDADE.
A admissibilidade do recurso especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido.
Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria.
Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigmas só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação.
Numero da decisão: 9303-006.813
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencida a conselheira Vanessa Marini Cecconello, que conheceu do recurso. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Tatiana Midori Migiyama, substituída pela conselheira Semíramis de Oliveira Duro.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Andrada Márcio Canuto Natal, Semíramis de Oliveira Duro, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício).
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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PER/DCOMP. RETIFICAÇÃO. Recorrente ITAÚ UNIBANCO S.A. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2006 RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ADMISSIBILIDADE. A admissibilidade do recurso especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido. Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria. Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigmas só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencida a conselheira Vanessa Marini Cecconello, que conheceu do recurso. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Tatiana Midori Migiyama, substituída pela conselheira Semíramis de Oliveira Duro. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Andrada Márcio Canuto Natal, Semíramis de Oliveira Duro, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 91 53 89 /2 00 9- 93 Fl. 2630DF CARF MF Processo nº 16327.915389/200993 Acórdão n.º 9303006.813 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pelo Sujeito Passivo ao amparo do art. 67, Anexo II, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 22 de junho de 2009, em face do Acórdão CARF nº 3802.003.653, que negou provimento ao recurso voluntário. O acórdão recorrido possui a seguinte ementa, transcrita na parte de interesse: CPMF. PER/DCOMP. MODIFICAÇÃO DO OBJETO DO PLEITO. INADMISSIBILIDADE. O pedido de compensação delimita a amplitude de exame do direito creditório alegado pelo sujeito passivo quanto ao preenchimento dos requisitos de liquidez e de certeza necessários à extinção de créditos tributários. Instaurado o contencioso, não se admite que o contribuinte altere o pedido mediante a modificação do direito creditório aduzido na declaração de compensação. (...) Cientificada do referido acórdão a Contribuinte interpõe Recurso Especial apontando dissídio interpretativo em relação aos acórdãos nºs 1102001.125 e 10808.805. Em seguida, o então Presidente da Segunda Câmara da Terceira Seção do CARF deu seguimento ao recurso. A Fazenda Nacional apresentou contrarrazões. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303006.827, de 17/05/2018, proferido no julgamento do processo 16327.915399/200929, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303006.827): Fl. 2631DF CARF MF Processo nº 16327.915389/200993 Acórdão n.º 9303006.813 CSRFT3 Fl. 4 3 "O Recurso foi apresentado com observância do prazo previsto, restando contudo investigar adequadamente o atendimento aos demais pressupostos de admissibilidade, prerrogativa, em última análise, da composição plenária da Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, a qual tem competência para não conhecer de recurso especiais nos quais não estejam presentes os pressupostos de admissibilidade respectivos. Primeiramente, se faz necessário relembrar e reiterar que a interposição de Recurso Especial junto à Câmara Superior de Recursos Fiscais, ao contrário do Recurso Voluntário, é de cognição restrita, limitada à demonstração de divergência jurisprudencial, além da necessidade de atendimento a diversos outros pressupostos, estabelecidos no artigo 67 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. Por isso mesmo, essa modalidade de apelo é chamado de Recurso Especial de Divergência e tem como objetivo a uniformização de eventual dissídio jurisprudencial, verificado entre as diversas Turmas do CARF. Neste passo, ao julgar o Recurso Especial de Divergência, a Câmara Superior de Recursos Fiscais não constitui uma Terceira Instância, mas sim a Instância Especial, responsável pela pacificação dos conflitos interpretativos e, conseqüentemente, pela garantia da segurança jurídica dos conflitos, não tendo espaço para questões fáticas, que já ficaram devidamente julgadas no Recurso Voluntário. Após essa breve introdução, passemos, então, ao exame do caso em espécie. Passo ao julgamento. A controvérsia suscitada pela Contribuinte referese a ocorrência de erro de preenchimento de PER/COMP e a possibilidade de retificação do direito creditório pleiteado em razão das provas trazidas aos autos. In caso, a decisão recorrida decidiu por negar provimento ao recurso voluntário, sob o entendimento de que a declaração de compensação só poderia ser retificada até a data da expedição do respectivo despacho decisório que decidiu acerca da homologação ou não da compensação. Vejamos fragmentos do aresto: Consta dos autos que em 14/10/2009 fora transmitida pela internet DCTF retificadora, portanto em data posterior à emissão do Despacho Decisório, ocorrido em 07/10/2009. Na mencionada retificadora foi declarado débito no valor total de R$ 10.467.312,78, constando como créditos o pagamento através de DARF no valor de R$ 3.386.779,85 e, como compensação de pagamento indevido ou a maior R$ 7.080.532,93. Analisando todo o acima exposto, o CARF deu provimento parcial ao recurso voluntário apresentado, decidindo no sentido de que a compensação fosse novamente apreciada, havendo entendido que a apresentação da DCTF retificadora, alterando o valor do débito ao qual fora vinculado o pagamento indicado como feito a maior, desconstituiria a causa original da não homologação, impondose o novo exame do feito. Nesse contexto, assim se posicionou a decisão a quo, a respeito da compensação tratada na DCOMP nº 42618.66449.240608.1.3.040833: (...) Como relatado, os autos retornam a esta Delegacia de Julgamento por força de acórdão prolatado pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais que determinou novo exame da compensação declarada pela contribuinte. Entendeu aquele colegiado que a apresentação de DCTF retificadora teria alterado a situação jurídica na qual se baseara o despacho decisório de não homologação, devendose reexaminar a existência do direito creditório. Fl. 2632DF CARF MF Processo nº 16327.915389/200993 Acórdão n.º 9303006.813 CSRFT3 Fl. 5 4 Em novo despacho decisório, a unidade de origem reconheceu a existência de pagamento a maior. Porém, não haveria como homologar a presente declaração de compensação já que o direito de crédito estaria integralmente comprometido na absorção de débito declarado em outra DCOMP. Ressaltese que no recurso apresentado pelo Recorrente na época, bem como no Acórdão proferido pelo CARF, em nenhum momento foi noticiado a questão do alegado equívoco no preenchimento do PER/DECOMP. Naquela oportunidade, restringiase ao erro no preenchimento da DCTF e da retificadora. O Recorrente, em seu recurso, reafirma a existência de pagamento a maior e admite equívoco no preenchimento do PER/DCOMP nº 18652.39612.120406.1.7.04.3183 e da DCTF, havendo erro na indicação nas características do documento de arrecadação pelo qual teria sido feito o pagamento a maior. Notese que o pedido de compensação foi analisado pela autoridade administrativa concernente ao reclamado pagamento a maior ou indevido indicado na DCOMP, com respeito ao qual referida autoridade concluiu inexistir o direito alegado. Instaurado o litígio, não pode a recorrente afirmar que seu crédito seria outro, referente a uma outra compensação, questão completamente alheia ao objeto do litígio, cuja aceitação representaria, também, violação aos princípios do contraditório e da estabilidade da demanda. Com efeito, como é cediço, a compensação que, nos termos do art. 170 do CTN, pressupõe liquidez e certeza dos créditos, é levada a efeito por meio de declaração capaz de extinguir o débito tributário sob condição da sua ulterior homologação, nos termos dos parágrafos 1º e 2º do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996, conforme a redação que lhes foi fornecida pela Lei nº 10.637, de 2002. Portanto, cabe ao Fisco analisar se cabe ou não homologar uma compensação declarada. Noutro giro, os parágrafos sétimo a nono do mesmo art. 74 da mesma Lei nº 9.430, de 1996, incluídos pela Lei nº 10.833, de 20033, indicam as conseqüências da não homologação da DCOMP, bem assim o objeto do litígio instaurado em razão da apresentação de manifestação de inconformidade. Focado nesses parâmetros, entendo que o pleito do sujeito passivo não merece acolhida, pois não cabe a este Colegiado ir além da análise do ato de não homologação da Declaração de Compensação e tal ato, como decidido pelo acórdão recorrido, não merece reparo. Observase vários julgados desta Corte que no caso do preenchimento dos dados do PER/DCOMP, cuja finalidade é a comunicação à administração tributária de um crédito e de um débito, os quais se extinguirão mutuamente, o erro na discriminação de qualquer um dos dois é claramente substancial, não podendo ser considerado simples erro material. Para comprovar a divergência jurisprudencial, a Contribuinte apresentou os acórdãos paradigmas de nºs 1102001.125 e 10808.805. Transcrevese parte do trecho da parte que interessa do Acórdão nº 1102001.125: Anocalendário: 2010 COMPENSAÇÃO. ERRO NO PREENCHIMENTO DA DCOMP. INDICAÇÃO DE SALDO NEGATIVO NO LUGAR DE PAGAMENTO A MAIOR. POSSIBILIDADE DE RETIFICAÇÃO DE OFÍCIO. Quando, em sede de recurso, o contribuinte demonstra ter preenchido a DCOMP de forma incorreta, indicando como crédito saldo negativo quando o correto seria pagamento a maior do imposto referente ao mesmo período, é possível a retificação de ofício pela Fl. 2633DF CARF MF Processo nº 16327.915389/200993 Acórdão n.º 9303006.813 CSRFT3 Fl. 6 5 autoridade julgadora, que determinará a análise do pedido com base no crédito efetivamente existente. DIREITO CREDITÓRIO NÃO ANALISADO. NECESSIDADE DE ANÁLISE DA EXISTÊNCIA DO CRÉDITO. RETORNO DOS AUTOS COM DIREITO A NOVO CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO. Em situações em que não se admitiu a compensação preliminarmente com base em argumento de direito, caso superado o fundamento da decisão, a unidade de origem deve proceder à análise do mérito do pedido, verificando a existência, suficiência e disponibilidade do crédito pleiteado, permanecendo os débitos compensados com a exigibilidade suspensa até a prolação de nova decisão, e concedendose ao sujeito passivo direito a novo contencioso administrativo, em caso de não homologação total. Pelo confronto entre a ementa do acórdão recorrido e a ementa e excerto do voto condutor do primeiro paradigma, não se comprova divergência. Como visto, os autos foram remetidos a unidade de jurisdição da Contribuinte, em comprimento ao Acórdão nº 330201.504 (fls. 58/63), o qual foi emitido um novo despacho decisório onde relata: "o interessado não comprovou crédito de pagamento indevido ou a maior [...]mas transmitiu, utilizando este crédito, declarações de compensação em um valor original total de R$ 109.726,28 [...]Na PER/DCOMP nº 28883.84622.220206.1.3.049350, com informação do crédito relativo a PER/DCOMP nº 42618.66449.240608.1.3.040833, objeto deste processo, foi informado um crédito de R$ 18,08, totalmente utilizado na própria PER/DCOMP. Não havendo crédito disponível, propomos a não homologação da PER/DCOMP nº 42618.66449.240608.1.3.040833". Do retorno dos autos, sobreveio o acórdão nº 3802003.658, ora guerreado, com a negativa de provimento ao Recurso, no esteio de que o pedido de compensação foi analisado pela autoridade administrativa concernente ao reclamado pagamento a maior ou indevido indicado na DCOMP, ao qual referida autoridade concluiu inexistir o direito alegado. Por sua vez, o acórdão paradigma entendeu que em situações em que não se admitiu a compensação preliminarmente com base em argumento de direito, caso superado o fundamento da decisão, a unidade de origem deve proceder à análise do mérito do pedido verificando a existência, suficiência e disponibilidade do crédito pleiteado. Não existe qualquer divergência, a decisão recorrida remeteu os autos para análise do direito creditório, emitindo um novo despacho decisório, o qual restou comprovado a inexistência de crédito, por sua vez, o acórdão paradigma firmou entendimento do retorno dos autos para que abertura de um novo contencioso administrativo. A Contribuinte não pretende a uniformização de teses jurídicas, objetivo primordial do Recurso Especial. A ampla defesa foi exercida em sua plenitude. Nestes autos, não existe direito creditório Neste sentido, não tomo conhecimento do Recurso Interposto, esta E. Câmara Superior não há espaço para rediscussão de matéria fáticoprobatória, exaustivamente discutida na 1º Instância Administrativa. Fl. 2634DF CARF MF Processo nº 16327.915389/200993 Acórdão n.º 9303006.813 CSRFT3 Fl. 7 6 Quanto ao acórdão nº 10808.805, pelo confronto entre a ementa do acórdão recorrido e a ementa e excerto do voto condutor, também não se comprova divergência. Transcrevo fragmentos do aresto: Exercício: 1998 Ementa: IRPJ – PREJUÍZO FISCAL – COMPENSAÇÃO – ERRO DE FATO NO PREENCHIMENTO DE DECLARAÇÃO. Compensação de IRPJ recolhido por estimativa em exercício cujo resultado foi prejuízo fiscal, deve ser admitida, não obstante erro de fato no preenchimento da declaração, que não invalida o procedimento, desde que comprovada a existência dos créditos. Prevalência do princípio da verdade material. Recurso Voluntário Provido. Com efeito, a decisão recorrida consignou que: "o pedido de compensação foi analisado pela autoridade administrativa concernente ao reclamado pagamento a maior ou indevido indicado na DCOMP, com respeito ao qual referida autoridade concluiu inexistir o direito alegado. Instaurado o litígio, não pode a recorrente afirmar que seu crédito seria outro, referente a uma outra compensação, questão completamente alheia ao objeto do litígio, cuja aceitação representaria, também, violação aos princípios do contraditório e da estabilidade da demanda". Por sua vez, o acórdão paradigma fixou o seguinte entendimento: "não obstante erro de fato no preenchimento da declaração, que não invalida o procedimento, desde que comprovada a existência dos créditos. Prevalência do princípio da verdade material". Como se vê, a Contribuinte insiste na rediscussão fática, o acórdão paradigma entende que caso ocorra erro no preenchimento da declaração, não invalida o procedimento, desde que comprovada a existência dos créditos. Ora, o Contencioso foi estendido a Contribuinte, não foi invalidado o procedimento de um suposto erro, foi proferido um novo despacho decisório, o qual foi confirmada a inexistência de crédito. Deste modo, as dessemelhanças fáticas e normativas impedem o estabelecimento de base de comparação para fins de dedução da divergência jurisprudencial. Em se tratando de espécies díspares nos fatos embasadores da questão jurídica, não há como se estabelecer comparação e deduzir divergência. Neste sentido, reportome ao Acórdão no CSRF/010.956: “Caracterizase a divergência de julgados, e justificase o apelo extremo, quando o recorrente apresenta as circunstâncias que assemelhem ou identifiquem os casos confrontados. Se a circunstância, fundamental na apreciação da divergência a nível do juízo de admissibilidade do recurso, é “tudo que modifica um fato em seu conceito sem lhe alterar a essência” ou que se “agrega a um fato sem alterálo substancialmente” (Magalhães Noronha, in Direito Penal, Saraiva, 1o vol., 1973, p. 248), não se toma conhecimento de recurso de divergência, quando no núcleo, a base, o centro nevrálgico da questão, dos acórdãos paradigmas, são díspares. Não se pode ter como acórdão paradigma enunciado geral, que somente confirma a legislação de regência, e assente em fatos que não coincidem com os do acórdão inquinado.” Diante de tudo que foi exposto, em razão das dessemelhanças fáticas e normativas que impedem o estabelecimento de base de comparação para fins de dedução da divergência jurisprudencial, não tomo conhecimento do Recurso interposto pela Contribuinte." Fl. 2635DF CARF MF Processo nº 16327.915389/200993 Acórdão n.º 9303006.813 CSRFT3 Fl. 8 7 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial do contribuinte não foi conhecido. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 2636DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10825.900300/2008-14
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Aug 06 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1001-000.662
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa- Presidente.
(assinado digitalmente)
José Roberto Adelino da Silva - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa e José Roberto Adelino da Silva
Nome do relator: JOSE ROBERTO ADELINO DA SILVA
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Se esta não ocorrer, prevalece o lançamento original. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) José Roberto Adelino da Silva Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa e José Roberto Adelino da Silva Relatório Tratase Recurso Voluntário contra o acórdão, número 0340.428, da 2ª Turma da DRJ/BSB, o qual indeferiu a Manifestação de Inconformidade contra o despacho decisório que não homologou a Declaração de Compensação, transmitida pelo Programa AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 82 5. 90 03 00 /2 00 8- 14 Fl. 106DF CARF MF 2 PER/DCOMP, n°15534.26499.200906.1.7.04I111, em 20/09/2006, de crédito relativo a pagamento a maior de IRPJ (Código de Receita 0220) referente ao F.G. 31/12/2003, no montante de R$6.755,65, visando compensar débitos tributários no total de R$5.519,36, em valores originais, cujo voto, reproduzo, a seguir: Voto A manifestação de inconformidade interposta atende aos pressupostos de admissibilidade. Assim sendo, dela conheço. Despacho Decisório da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Bauru não reconheceu qualquer direito creditório a favor da contribuinte e. por conseguinte, não homologou a compensação declarada nos autos, ao fundamento de que o pagamento informado como origem do credito foi integralmente utilizado para quitação de débitos da contribuinte, não restando crédito disponível para compensação do débito informado na PER/DCOMP de n° 40858.84088.300404.1.3.045145. Com efeito, no que diz respeito ao crédito de IRPJ (código: 5993). relativo ao mês de maio de 2003, no valor de R$ 14.864.44. observo que o mesmo foi utilizado integralmente para pagamento de um débito de IRPJ (código: 5993). do próprio mês de maio de 2003. no valor de R$ 14.864.44. Contudo, a recorrente vem. em sua defesa, alegar que a natureza do crédito em questão é de saldo negativo de IRPJ, e não pagamento indevido ou a maior de IRPJ. Dessa forma, cabe perquirir, à luz do disposto na legislação de regência, se a declaração de compensação ora em exame encontrase devidamente instruída, especialmente no que concerne à comprovação de liquidez e certeza do crédito pleiteado. Nesse sentido, o Código Tributário Nacional (CTN). em seu artigo 170. dispõe: "a lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir ei autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos liquidas e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda ". A respeito do tema, cumpre transcrever o disposto no Regulamento do Imposto de Renda RIR/99, mais exatamente os artigos 221 a 232. verbis: "Apuração Anual do Imposto Ari. 221. A pessoa jurídica que optar pelo pagamento do imposto na forma desta Seção deverá apurar o lucro real em 31 de dezembro de cada ano (Lei 9.430, de 1996, art. 2° e §3° Pagamento por Estimativa Art. 222. A pessoa jurídica sujeita ci tributação com base no lucro real poderei optar pelo pagamento do imposto e adicional, em cada mês, determinados sobre base de cálculo estimada (Lei 9.430, de 1996, art. 2). Parágrafo único. A opção será manifestada com o pagamento do imposto correspondente ao mês de janeiro ou de inicio de atividade, observado o disposto no art. 232 (Lei n 9.430, de 1996, art. 3, parágrafo único). Base de Cálculo Fl. 107DF CARF MF Processo nº 10825.900300/200814 Acórdão n.º 1001000.662 S1C0T1 Fl. 3 3 Art. 223. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de oito por cento sobre a receita bruta auferida mensalmente, observadas as disposições desta Subseção (Lei n? 9.249, de 1995, art. 15, e Lei n? 9.430, de 1996, art. 2?). ﴾....﴿ Suspensão, Redução e Dispensa do Imposto Mensal Art. 230. A pessoa jurídica poderá suspender ou reduzir o pagamento do imposto devido em cada mês, desde que demonstre, através de balanços ou balancetes mensais, que o valor acumulado já pago excede o valor do imposto, inclusive adicional, calculado com base no lucro real do período em curso (Lei n 8.981, de 1995, art. 35, e Lei 9.430, de 1996, art. 2?). ﴾....﴿ Deduções do Imposto Anual Art. 231. Para efeito de determinação do saldo de imposto a pagar ou a ser compensado, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor (Lei n°9.430, de 1996, art. 2o, § 4o): ... III do imposto pago ou retido na fonte, incidente sobre receitas computadas na determinação do lucro real; IV do imposto pago na forma dos ar/s. 222 a 230 ". Conforme legislação acima, a interessada está obrigada, considerando que é optante pelo lucro real, apuração anual, pagar mensalmente o imposto de renda devido por estimativa com base na receita bruta, com a aplicação de um percentual determinado. Pode também suspender o pagamento desde que proceda aos balancetes mensais, demonstrando que o valor acumulado já pago excede o valor do imposto, inclusive adicional, calculado com base no lucro real do período em curso. No final do ano, o imposto apurado deve ser deduzido dos pagamentos recolhidos sob esta sistemática. Assim, somente o saldo negativo de IRPJ a pagar, calculado ao final do período de apuração, é que se mostra passível de restituição e/ou compensação posterior, nos termos da legislação vigente. No entanto, a apuração da liquidez e certeza do crédito pleiteado, no caso, está na dependência da efetiva demonstração, pela requerente, do saldo negativo de IRPJ apurado no final de cada período, uma vez que os valores recolhidos a titulo de estimativa são considerados pela lei como antecipações do imposto de renda devido. Diante dessas considerações, esta Turma de Julgamento tem reiteradamente consignado que em tema de restituição e compensação de saldo negativo de IRPJ com outros tributos, ou com o próprio, cabe o atendimento de quatro premissas: la) a constatação dos pagamentos ou das retenções; 2') a oferta A tributação das receitas que ensejaram as retenções; 3") a apuração do indébito, fruto do confronto acima delineado e, 4") a observância do eventual indébito não ter sido liquidado em autocompensações. Fl. 108DF CARF MF 4 Portanto, não basta A interessada alegar o pagamento a maior ou indevido do tributo, mas também deve trazer, Por ocasião do presente contencioso, provas, lastreadas em lançamentos contábeis, que identifiquem, inequivocamente, a base de cálculo do IRPJ. Inclusive, por se tratar de contribuinte sujeita ao regime de apuração do imposto com base no lucro real, esta deveria, ao fim de cada período base de incidência do imposto. apurar o lucro liquido do exercício mediante a elaboração, com observância das disposições da lei comercial, do balanço patrimonial, da demonstração do resultado do exercício e da demonstração de lucros ou prejuízos acumulados, que serão transcritos no Livro de Apuração de Lucro Real (LALUR), nos termos dos artigos 7° e seu § 4°, e 8°, inciso I, ambos do Decreto Lei n° 1.598, de 1977, in verbis: "Art 7° O lucro real será determinado com base na escrituração que O contribuinte deve manter, com observância das leis comerciais e fiscais. § 4° Ao fim de cada períodobase de incidência do imposto o contribuinte deverá apurar o lucro liquido do exercício mediante elaboração, com observância das disposições c/a lei comercial, do balanço patrimonial, da demonstração do resultado do exercício e da demonstração de lucros ou prejuízos acumulados. Art. 8° O contribuinte deverá escriturar, além dos demais registros requeridos pelas leis comerciais e pela legislação tributária, os seguintes livros: I de apuração de lucro real, no qual: a) serão lançados os ajustes do lucro líquido do exercício, de que tratam os §§ 2°c 3° do artigo 6'; será transcrita a demonstração do lucro real (§ 10); Neste contexto, a contribuinte deveria trazer provas, lastreadas em lançamentos contábeis, dentre estas, destacamse: os registros contábeis de conta no ativo do IRPJ a recuperar, a expressão deste direito em balanços ou balancetes, os Livros Diário e Razão. etc., tudo de forma a ratificar o indébito pleiteado. Consoante noção cediça. a escrituração contábil e fiscal mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais, conforme dispõe o artigo 923 do RIR11999: "Art. 923. A escritura cão mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (DecretoLei n 2 1.598, de 1977, art. 92, § 12). No presente caso, a recorrente , em sua peça impugnatória. traz como prova desse crédito cópia da declaração de rendimentos de fls. 36/48, retificada em 03/06/2008, informando a existência de saldo negativo de IRPJ, no valor de R$ 107.434,19, bem como RAZÃO ANALÍTICO EM REAL DE 01/01/03 ATE 31/12/04 (fl. 53), informando saldo de IRPJ a recuperar no montante de R$ 108.176,01. Dos documentos apresentados pela contribuinte, cabem as seguintes observações: a) na DIPJ original, apresentada em 30/06/2004. não há informação de saldo negativo de IRPJ, ou seja, o imposto a pagar informado foi R$ 0,00 (zero); b) em 03/06/2008, a contribuinte apresentou DIPJ retificadora, informando saldo negativo de IRPJ no valor de R$ 107.434,19; c) não há comprovação do imposto de renda retido na fonte (informe de rendimentos), no valor de R$ 38.506,80. deduzido pela interessada, na linha 13 da ficha 12A da DIPJ/2004, na apuração do saldo Fl. 109DF CARF MF Processo nº 10825.900300/200814 Acórdão n.º 1001000.662 S1C0T1 Fl. 4 5 negativo do IRPJ (fl. 43); b) o formulário denominado "RAZÃO ANALÍTICO EM REAL DE 01/01/03 ATE 31/12/04", de fls. 53/54, não apresenta Termo de Abertura, nem Termo de Encerramento. Desta feita, passase à análise dos itens acima expostos. Quanto à DIPJ retificadora, externando saldo negativo de IRPJ, cabe observar que esta tãosomente indicia que a contribuinte teria efetuado pagamento a maior que o devido. Todavia, resumese à esfera do indicio, vez que a declaração desacompanhada da escrita, não produz o efeito desejado. Quanto ao IRRF, no valor de R$ 38.506,80, ressaltese que a contribuinte não comprova que os rendimentos sobre os quais incidiu o referido IRRF foram oferecidos à tributação, condição essencial para que este possa ser aproveitado na compensação do imposto apurado no final do período, originando, se for o caso, o saldo negativo de IRPJ. Quanto ao formulário de fls. 53/54, denominado "RAZÃO ANALÍTICO EM REAL DE 01/01/03 ATE 31/12/04", não consta Termo de Abertura, nem Termo de Encerramento. Neste contexto, cumpre observar que a legislação dispensa a autenticação do Livro Razão no caso de regularidade na autenticação do Livro Diário (art. 259, parágrafo 3° do RIR199). Assim, a ausência do Livro Diário implica na inabilidade do Livro Razão. Por fim, registrese que a contribuinte além de não juntar cópias do livro Diário, devidamente registrado, não apresentou LALUR, dos quais poderia se verificar os balanços/balancetes de re üção e demonstrativos da apuração do Lucro Real da empresa para o anocalendário de 2003. Ora, tal qual o pagamento de tributos e contribuições, que necessita, para convalidar o recolhimento efetuado, de urna série de atos do sujeito passivo, como manter escrituração contábil, baseada em documentos hábeis e idôneos, e a partir desta documentação determinar o tributo devido e recolher o correspondente valor, o pagamento a maior ou indevido também almeja, para materializar o indébito, atividade semelhante. Por tais razões, a contribuinte, quando apresenta uma Declaração de Compensação, deve, necessariamente, provar um crédito tributário a seu favor para ter o direito de extinguir um débito tributário constituído em seu nome, de forma que o reconhecimento do indébito tributário seja o fundamento fático e jurídico de qualquer declaração de compensação. No que diz respeito ao pedido final da contribuinte de apensamento dos processos n° 10825.900220/200851. 10825.900257/200889. 10825.900692/2008 11, 10825.900753/200832, 10825.9d0722/200881, 10825.900771/200814 e do presente processo, por se tratar de PER/Dcomps vinculados ao mesmo indébito, impende observar que em nada prejudicou a análise do direito credit6rio pleiteado, tendo inclusive referidos processos sido julgados nessa mesma Sessão de Julgamento. Nesse sentido, na declaração de compensação apresentada, o indébito não contém os atributos necessários de liquidez e certeza, os quais são imprescindíveis para reconhecimento pela autoridade administrativa de crédito junto à Fazenda Fl. 110DF CARF MF 6 Pública, sob pena de haver reconhecimento de direito creditório incerto, contrário, portanto, ao disposto no artigo 170 do Código Tributário Nacional (CTN). Diante do exposto, VOTO pela improcedência da manifestação de inconformidade. Voto Conselheiro José Roberto Adelino da Silva Relator Inconformada, a recorrente apresentou o Recurso Voluntário, tempestivo, que apresenta os pressupostos de admissibilidade, previstos no Decreto 70.235/72, e, portanto, dele eu conheço. Em seu recurso, a recorrente alega, basicamente, que: · o crédito realmente existe; como pode ser comprovado pela DIPJ; · todas as compensações efetuadas com crédito oriundo de saldo negativo de IRPJ, gerado no anocalendário 2003, não foram homologadas sob argumento de inexistência de crédito, vez que o crédito informado nas mesmas, já se encontravam vinculados A quitações de débitos da Requerente. Cabe esclarecer que no ano calendário 2003, consoante demonstrado em sua DIPJ, foi gerado um saldo negativo de IRPJ no montante de R$ 107.434,19 (cento e sete mil, quatrocentos e trinta e quatro reais e dezenove centavos), passível de compensação com débitos de tributos federais, a partir do anocalendário subseqüente ao de que foi apurado. · a Requerente ao preencher a Per/Dcomp ocorreuse em equivoco, quando ao completar a ficha de origem do crédito, informou crédito de pagamento indevido ou a maior de IRPJ, vinculando o Darf recolhido a titulo de estimativa de IRPJ devido em maio de 2003, com vencimento em 30/06/2003, ao invés de informar saldo negativo total de IRPJ do anocalendário 2003. · Em decorrência do preenchimento, equivocado, do crédito, descrevendo pagamento indevido ou a maior, o crédito foi atualizado como tal, gerando assim, um saldo de compensação a descoberto no montante total de R$ 5.381,75 (cinco mil, trezentos e oitenta e um mil e setenta e cinco centavos), · Isto posto, é importante ressaltar que a Requerente, agindo sempre com a boafé que lhe é peculiar, reconhece que parte dos débitos foram indevidamente compensados. Insta mencionar, desde já, que todos os pedidos de compensação existentes tendo como base o crédito do exercício de 2003, estão vinculados a este processo administrativo, vez que todos decorrem do Fl. 111DF CARF MF Processo nº 10825.900300/200814 Acórdão n.º 1001000.662 S1C0T1 Fl. 5 7 mesmo crédito, o saldo negativo de IRPJ gerado no respectivo exercício, fato este que deveria acarretar no apensamento dos autos originados pelas Per/Dcomp's onde foi compensado crédito de IRPJ do ano de 2003. · A decisão ora combatida partiu da presunção de que o crédito de IRPJ não existe em face da Requerente, equivocadamente, Por ter sido informado crédito de pagamento indevido ou a maior ao invés de · saldo negativo de IRPJ, decisão esta que não pode prosperar, visto que a requerente possui tal crédito, ocorrendose apenas de um erro nos preenchimentos das Per/Dcomp's. · Ainda, vale mencionar que a Requerente comprovou por todos os meios possíveis que faz jus ao pleito de compensação, pois possui junto a Requerida um crédito, o qual restou devidamente comprovado pelos documentos ¡untados na Manifestação de Inconformidade, bem com os que acompanham o presente recurso; · Insta mencionar ainda, que os documentos não apresentados com a Manifestação de Inconformidade, e frisese a falta foi base para o indeferimento, estão sendo devidamente juntados com o presente. Sendo assim, resta evidente que ocorreu um mero equivoco. Isto posto, requer: · Diante de todo o exposto, requerse respeitosamente que seja concedido TOTAL PROVIMENTO ao presente Recurso Voluntário, a fim de se anular o r. Despacho Decisório que não homologou a compensação declarada na Per/Dcomp n° 40858.84088.300404.1.3.045145, retificandoa de oficio, a fim de regularizar a origem do crédito ali apontado, sendo assim homologada, extinguindose o saldo devedor objeto da compensação. · Desta feita, requerse, ainda, o apensamento dos processos em razão de todos decorrerem do mesmo crédito, ou seja, de compensação utilizando o saldo negativo de IRPJ originado no anocalendário 2003. Inicialmente, cabe ressaltar, que entendo que a recorrente deveria ter sido intimada a apresentar a documentação requerida pela DRJ, se entendido como necessárias e/ou que a autoridade determinasse a correspondente diligência, se fosse o caso, proporcionandolhe o direito à ampla defesa. Apenas negar provimento afirmando que a recorrente deveria ter apresentado toda a documentação contábil para justificar seu pleito, não é exigido em nenhuma norma legal. As normas da RFB, relativamente à retificação de obrigações acessórias, não exigem a apresentação de provas para que sejam aceitas. Ao contrário, dispõem que a retificadora substitui a originalmente entregue em seu todo. Fl. 112DF CARF MF 8 A DRF, no caso, tem o direito de intimar o contribuinte a apresentálas ou de efetuar as competentes diligências, se assim o entender. Essa documentação foi apresentada em sede de recurso voluntário, consoante a documentação anexada aos autos. Entretanto, apesar de todos os esforços realizados pela recorrente, o fato de não ter havido a retificação da PER/DCOMP, originalmente, entregue, não permite a que os lançamentos sejam considerados nulos, posto que, desde a sua instituição através da Instrução Normativa SRF 120/89, a referida obrigação acessória constitui, na verdade, em confissão de dívida. Veja o que diz o Parecer Normativo COSIT 2/2015: Assim, a PER/DCOMP constitui confissão de dívida e, no caso da recorrente, deveria ter sido objeto de retificação. Em não havendo, prevalece o que confessado na originalmente entregue. Veja o que diz o Parecer Normativo COSIT 2/2015: 14.2. Via de regra, objetivando dar maior celeridade ao processo, a análise deste PER/DCOMP é feita eletronicamente, de forma automática, mediante “batimento” das informações contidas no PER/DCOMP com os dados dos sistemas da RFB, inclusive os declarados em DCTF. 14.3. Após a análise preliminar do PER/DCOMP, encontrada alguma inconsistência entre essas informações, é dada ao sujeito passivo a oportunidade de verificar as informações prestadas à RFB e corrigilas, se for o caso – tratase do serviço denominado Autorregularização. De acordo com a Nota Corec nº 30, de 2013, o acompanhamento do processamento eletrônico do PER/DCOMP motivou a disponibilização desse serviço, tendo em vista a observação de que uma parte das decisões proferidas de forma automática, e posteriormente levada ao contencioso, era decorrente de erros cometidos pelos contribuintes no preenchimento do próprio PER/DCOMP ou das declarações que embasavam as informações nele contidas. 14.4. Com a disponibilização do serviço de Autorregularização, dáse ao contribuinte, nos casos por ela contemplados, a possibilidade de, previamente à emissão do despacho decisório, tomar conhecimento da análise completa do direito creditório, que pode ser por ele consultada pelo eCAC durante o prazo improrrogável concedido para autorregularização (45 dias a partir da data de envio da mensagem para sua caixa postal). 14.5. A partir dessa análise preliminar, caso se identifiquem erros nas informações prestadas no PER/DCOMP ou em outras declarações (como a DCTF), o contribuinte terá oportunidade de corrigilos pela sua retificação ou, ainda, pelo cancelamento do PER/DCOMP. 14.6. Findo o prazo concedido para autorregularização, a análise automática do direito creditório será novamente realizada, considerando os elementos atualizados que a embasam. Mantidos o reconhecimento parcial ou não reconhecimento do direito creditório ou constatada a Fl. 113DF CARF MF Processo nº 10825.900300/200814 Acórdão n.º 1001000.662 S1C0T1 Fl. 6 9 insuficiência para homologação da compensação, será emitido despacho decisório. 14.7. Caso não seja detectada nenhuma inconsistência ou esta tenha sido sanada por ocasião da autorregularização, o sistema homologa automaticamente o PER/DCOMP. 14.8. A análise eletrônica do PER/DCOMP equivale àquela executada manualmente pela Delegacia da Receita Federal do Brasil (DRF) de jurisdição do sujeito passivo; inclusive o despacho decisório emitido eletronicamente apresenta a assinatura eletrônica do titular da DRF. 14.9. Com isso, o despacho decisório, sendo eletrônico ou não, é conclusivo quanto ao reconhecimento do direito creditório e finaliza a etapa de análise do processo de reconhecimento do crédito fiscal do sujeito passivo, de competência da DRF de sua jurisdição. (grifei) A própria recorrente afirma ter cometido o equívoco no preenchimento da PER/DCOMP, sem retificála, posteriormente. Portanto, com base em tudo que acima exposto, nego provimento ao presente recurso, crédito tributário negado. É como voto. (assinado digitalmente) José Roberto Adelino da Silva Fl. 114DF CARF MF
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