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Numero do processo: 10835.901959/2009-41
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Apr 02 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2000
SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO
À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão serviços hospitalares para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas por outras pessoas, como clínicas.
Numero da decisão: 1401-002.211
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito da recorrente de tributar suas receitas em relação ao IRPJ e à CSLL, pelas alíquotas reduzidas de 8% e 12% respectivamente, na forma Lei nº 9.249/95, art. 15, III, "a" e art. 20.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente.
(assinado digitalmente)
Abel Nunes de Oliveira Neto- Relator.
Participaram do presente Julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Lívia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Daniel Ribeiro Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Letícia Domingues Costa Braga, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
Nome do relator: ABEL NUNES DE OLIVEIRA NETO
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2000 SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão serviços hospitalares para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas por outras pessoas, como clínicas.
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Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito da recorrente de tributar suas receitas em relação ao IRPJ e à CSLL, pelas alíquotas reduzidas de 8% e 12% respectivamente, na forma Lei nº 9.249/95, art. 15, III, "a" e art. 20. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente. (assinado digitalmente) Abel Nunes de Oliveira Neto Relator. Participaram do presente Julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Lívia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 5. 90 19 59 /2 00 9- 41 Fl. 177DF CARF MF 2 Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Daniel Ribeiro Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Letícia Domingues Costa Braga, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa. Relatório Trata o presente processo de PER/DCOMP apresentado pela empresa no qual solicita a compensação de pretensos créditos relativos a pagamento a maior de IRPJ/CSLL. A origem dos créditos, consoante informado pelo recorrente desde sua impugnação, baseiamse no entendimento que, sendo empresa prestadora de serviços de radiologia, estes seriam equivalentes aos serviços hospitalares prestados e, assim, ao invés de estar sujeito às alíquotas de lucro presumido no percentual de 32%, estaria submetida às alíquotas de 8% para o IRPJ e 12% para a CSLL. A compensação não foi homologada pela Delegacia de Origem com base na seguinte alegação: Ou seja, os serviços prestados pela recorrente não seriam caracterizados como serviços hospitalares em função de a empresa não possuir estrutura permanente e de funcionamento ininterrupto para atendimento de casos de internação de pacientes para tratamento de saúde. Assim, os serviços por ela prestados não poderiam se submeter aos percentuais estabelecidos para os serviços hospitalares. Inconformada com a nãohomologação das compensações a empresa apresentou manifestação de inconformidade na qual argumenta que realizou consulta à SRRF, formulada sob o nº 10835.001313/200610, com vistas a esclarecer o seu enquadramento como prestadora de serviços hospitalares e argumentou que realizou a retificação de suas DIPJ, DCTF para que pudesse usufruir dos créditos. A delegacia de julgamento considerou improcedente a manifestação de inconformidade emitindo a seguinte decisão: Fl. 178DF CARF MF Processo nº 10835.901959/200941 Acórdão n.º 1401002.211 S1C4T1 Fl. 178 3 Ou seja, a Delegacia de Julgamento entendeu que os créditos da empresa não estariam devidamente comprovados com a documentação apresentada pela recorrente. Inconformada com a decisão a empresa apresentou recurso voluntário no qual apresenta as seguintes alegações: Da apresentação de novos documentos. Alega que a decisão recorrida considerou que não foi comprovado que os serviços prestados referiamse apenas a serviços de radiologia e radiodiagnóstico inseridos em seu objeto social. Mas que a documentação apresentada comprovaria o exercício destas atividades e, ainda, apresenta cópia do razão e declaração do contador da empresa, pelo que suscita que seja aceita a referida documentação como suficiente para caracterização dos serviços da empresa; Da realização de diligência. Entende que tendo em vista a apresentação dos novos documentos e que essa apresentação é possível em sede de recurso voluntário, haja vista que essa alegação somente foi trazida pela decisão da DRJ e, mais ainda, conforme farta jurisprudência que admite esta apresentação posterior. Do ônus da apresentação de prova impossível. Entende a empresa que a Delegacia de Julgamento pretende a formação de prova impossível visto que, mesmo que apresentasse todas as notas fiscais da empresa ainda assim não seria possível comprovar que somente realizou serviços indicados no seu objeto social. Nulidade por vícios formais. Entende que a decisão que considerou não homologadas as compensações padece de vícios, vez que indicou apenas o dispositivos que tratam da não homologação das compensações sem que exista dispositivo legal que constitua o crédito tributário. Do fato de a empresa não ser sociedade empresária e dos serviços realizados. Neste ponto apresenta farta jurisprudência deste CARF e do STJ, nos quais encontrase o entendimento de que a redução de alíquota decorre da efetiva prestação de serviços de natureza hospitalar e não do local em que se realizam, com exceção da realização de consultas. Com relação à natureza da sociedade entende que a decisão do STJ, relativa a Fl. 179DF CARF MF 4 sociedade simples e que este fato não foi impeditivo do direito, visto que a base para a sua concessão foi a natureza objetiva dos serviços realizados. Traz colações da doutrina no sentido de que a empresa se define mais pela verificação das atividades que desenvolve do que pelo seu simples registro formal. Assim eventual irregularidade seria apenas formal e não impeditiva do exercício do direito. Da natureza dos serviços prestados. Repisa os argumentos já trazidos para indicar que os serviços prestados pela sociedade são, efetivamente de radiologia e radiodiagnóstico. Voto Conselheiro Abel Nunes de Oliveira Neto Relator A análise do presente processo prendese, em síntese, à verificação acerca de, em face de solução de consulta que reconheceu a possibilidade de a empresa tributar seus lucros pelas alíquotas equivalentes a 8%, poder a Receita Federal desconsiderar este direito em razão de alegar a não comprovação da inscrição da empresa como sociedade empresária e do exercício de atividades que possam ser consideradas como hospitalares. Vejamos o que determina a norma relativa à aplicação das alíquotas de serviços hospitalares: Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de 8% (oito por cento) sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto no art. 12 do DecretoLei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977, deduzida das devoluções, vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos, sem prejuízo do disposto nos arts. 30, 32, 34 e 35 da Lei no 8.981, de 20 de janeiro de 1995. (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º Nas seguintes atividades, o percentual de que trata este artigo será de: ................... III trinta e dois por cento, para as atividades de: (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares; a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares e de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, Fl. 180DF CARF MF Processo nº 10835.901959/200941 Acórdão n.º 1401002.211 S1C4T1 Fl. 179 5 desde que a prestadora destes serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa; (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008) ......... Art. 20. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal a que se referem os arts. 27 e 29 a 34 da Lei no 8.981, de 20 de janeiro de 1995, e pelas pessoas jurídicas desobrigadas de escrituração contábil, corresponderá a doze por cento da receita bruta, na forma definida na legislação vigente, auferida em cada mês do anocalendário, exceto para as pessoas jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do § 1o do art. 15, cujo percentual corresponderá a trinta e dois por cento. (Redação dada Lei nº 10.684, de 2003) (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) (Vide Lei nº 11.119, de 205) Base de cálculo da CSLL Estimativa e Presumido Art. 20. A base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal ou trimestral a que se referem os arts. 2º, 25 e 27 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, corresponderá a 12% (doze por cento) sobre a receita bruta definida pelo art. 12 do DecretoLei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977, auferida no período, deduzida das devoluções, vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos, exceto para as pessoas jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do § 1o do art. 15, cujo percentual corresponderá a 32% (trinta e dois por cento). (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Pelo que se depreende da norma acima, a redação da norma ao tempo dos fatos geradores dos pagamentos a maior realizados apenas estabelecia a aplicação da alíquota reduzida àqueles que realizassem o exercício de serviços hospitalares. A solução de consulta em que se baseou a empresa para a apuração dos seus créditos assim dispôs sobre os requisitos a serem atendidos para fins de fruição dos benefícios da alíquota reduzida. Fl. 181DF CARF MF 6 Em contraparida, verificase a existência de Recurso Repetitivo nº 217, do STJ que, tratando do assunto, assim dispôs sobre os serviços hospitalares sujeitos à alíquota reduzida do lucro presumido. Vejase que o critério apresentado pelo STJ, seguindo o critério da Lei nº 9.249/95, é simples e objetivo. São enquadrados como serviços hospitalares os serviços de atendimento à saúde independentemente do local de prestação, excluindose, apenas, os serviços de simples consulta que não se identificam com as atividades prestadas em âmbito hospitalar. Inobstante, a Delegacia de Julgamento, ao analisar o caso do contribuinte baseou sua decisão nas diversas instruções normativas e atosdeclaratórios existentes a respeito Fl. 182DF CARF MF Processo nº 10835.901959/200941 Acórdão n.º 1401002.211 S1C4T1 Fl. 180 7 da definição de serviços hospitalares para fins de aplicação da alíquota de presunção. Desta forma, fundamentou a improcedência na necessidade de o contribuinte atender a três requisitos, conforme abaixo apresentados: Ocorre, no entanto que não comungo do entendimento exposado pelo referido órgão julgador. A decisão proferida pelo STJ, aplicável ao caso dos autos, trata a norma redutora da alíquota de forma objetiva. Assim, o serviço que tenha natureza hospitalar, qual seja, diagnóstico, tratamento, internação, quer seja desenvolvido nos hospitais ou fora deles, com exceção apenas das simples consultas, devem ser considerados serviços hospitalares e, assim, estão sujeitos à alíquota reduzida estabelecida pela Lei nº 9.249/95, art. 15, III, "a" e art. 20. Comungam deste entendimento os seguintes julgados, inclusive desta mesma câmara em época anterior à entrada deste relator no colegiado. Acórdão nº 1401001.434 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 09 de dezembro de 2015 Matéria Imposto de Renda Pessoa Jurídica Recorrente Instituto Guaçuano de Orrino laringologia S/S Recorrida Fazenda Nacional ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2006 SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão “serviços hospitalares” para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser Fl. 183DF CARF MF 8 objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas por outras pessoas, como clínicas. Acórdão nº 1401001.433 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 09 de dezembro de 2015 Matéria Imposto de Renda Pessoa Jurídica Recorrentes Hemoclínica Serviços de Hemoterapia Ltda Fazenda Nacional ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário:2006, 2007, 2008, 2009 SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão “serviços hospitalares” para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas em ambientes externos ou por outras pessoas, como hemoclínicas. Acórdão nº 9101001.559 – 1ª Turma Sessão de 23 de janeiro de 2013 Matéria IRPJ Exercícios 1999 a 2001 Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado CAMP IMAGEM NUCLEAR S/C LTDA ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 1998, 1999, 2000 SERVIÇOS HOSPITALARES. SERVIÇOS DE DIAGNÓSTICOS POR IMAGEM MEDICINA NUCLEAR. LUCRO PRESUMIDO. DETERMINAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. COEFICIENTE DE 8%. No julgamento do Recurso Especial nº 1.116.399/BA (2009/00064810), na sistemática dos recursos especiais repetitivos, o STJ decidiu que a expressão "serviços hospitalares", constante do artigo 15, § 1º, inciso III, da Lei nº 9.249/95, deve ser interpretada de forma objetiva (ou seja, sob a perspectiva da atividade realizada pelo contribuinte), porquanto a lei, ao conceder o benefício fiscal, não considerou a característica ou a estrutura do contribuinte em si (critério subjetivo), mas a natureza do próprio serviço prestado (assistência à saúde). Do exposto, comungando do entendimento exposado pelo STJ no sentido de que a redução de alíquota tem caráter objetivo em razão do tipo de serviços prestados pela empresa. No caso dos autos, inobstante a argumentação da Decisão atacada de que não restou comprovado a prestação de serviços relacionados a hospitalares pelo contribuinte, havemos de Fl. 184DF CARF MF Processo nº 10835.901959/200941 Acórdão n.º 1401002.211 S1C4T1 Fl. 181 9 esclarecer que a Decisão da DRJ não pode inovar nos fundamentos utilizados pela Delegacia de Origem para o não reconhecimento dos créditos. Vejase que na decisão original o não reconhecimento dos créditos deveuse ao fato de a autoridade administrativa entender que a recorrente não possuía estrutura hospitalar para internação e tratamento e não pelo fato de não ter comprovado as atividades, até mesmo porque sequer foi intimada para tanto. Mais ainda, a decisão emitida na solução de consulta, corroborada pela Decisão da Delegacia de Julgamento corroborou o entendimento de que o requisito de estrutura estaria suprido pela apresentação de laudo da vigilância sanitária da jurisdição da recorrente. Assim, verificandose que o contribuinte, exercer atividades exclusivamente de radiologia e diagnóstico por imagem, atividades essas que estão incluídas no conceito de serviços de atendimento à saúde, voto no sentido de dar provimento ao recurso para reconhecer o direito da recorrente de tributar suas receitas em relação ao IRPJ e à CSLL, pelas alíquotas reduzidas de 8% e 12% respectivamente, na forma Lei nº 9.249/95, art. 15, III, "a" e art. 20. Abel Nunes de Oliveira Neto Relator Fl. 185DF CARF MF
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Numero do processo: 11065.001589/2004-67
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Nov 07 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 1999
INTEGRALIZAÇÃO DE CAPITAL SEGUIDA DE CISÃO. ÁGIO.
A situação autuada contém elementos que, malgrado não constituam ilícitos, reunidos, são capazes de demonstrar não se haver atendido a referida causa do negócio jurídico declarado, como de aumento de capital com a itenção de associação entre as empresas Nacional Administração e Participações S.A. e a SONAE, como o exíguo prazo de um dia entre o aumento de capital, a incorporação da reserva de ágio e a cisão, em que esta sociedade assumiu, ao afinal, praticamente a integralidade do negócio pretendido; a expressividade do valor do ágio de R$ 296.331.177,00 no total de R$ 300.000.000,00; o pagamento pela SONAE deste valor da totalidade do negócio, segundo o laudo de avaliação, por uma participação de cerca de 9%; para enumerar alguns fatores.
Revelam, assim, a possibilidade de requalificação dos fatos como efetiva integralização e incorporação da reserva de ágio para aumento do valor patrimonial, seguida de cisão, que corresponderiam a uma efetiva alienação de participações, sem tributação do ganho de capital que haveria, se realizada a compra e venda efetiva, razão pela qual considera-se prodecente a autuação fiscal quanto ao principal.
LEGALIDADE. APRECIAÇÃO INTEGRADA. PLUS NA CONDUTA. DOLO. SIMULAÇÃO. MULTA QUALIFICADA
1 - Não há que se tolerar o desvirtuamento dos institutos jurídicos. Legalidade não é dizer que se o negócio jurídico é legal para um ramo do direito (civil, empresarial, dentre outros) encontra-se intocável para todo o ordenamento jurídico. Legalidade é verificar se o negócio jurídico é legal sob o âmbito de todo o direito. Princípio da liberdade negocial não se encontra no topo da pirâmide constitucional, mas caminha ao lado do princípio da legalidade (que predica a apreciação do ordenamento jurídico de maneira integrada), e dos princípios que zelam pela manutenção do Estado, com a capacidade contribuinte e isonomia entre contribuintes.
2 - Transação de alienação de investimento escamoteada. Adquirente aumenta capital social do investimento, investimento é cindido no dia seguinte, a participação societária do investimento é vertida para a adquirente, e o caixa do investimento é vertido para a alienante, esquivando-se da tributação do ganho de capital.
2 - Afronta à legislação tributária, nos temos dos art. 149, inciso VII do CTN, art. 44, § 1º da Lei nº 9.430, de 1996 e arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964. Caracterizada a ocorrência do dolo (presença dos elementos cognitivo e volitivo), simulação, fraude e conluio, ensejando a qualificação da multa de ofício para 150%.
Numero da decisão: 9101-003.168
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luis Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora), Cristiane Silva Costa, Luis Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor, quanto ao mérito do Recurso Especial da Fazenda Nacional, o conselheiro André Mendes de Moura.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Daniele Souto Rodrigues Amadio - Relatora
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rêgo, André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra. Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: DANIELE SOUTO RODRIGUES AMADIO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 1999 INTEGRALIZAÇÃO DE CAPITAL SEGUIDA DE CISÃO. ÁGIO. A situação autuada contém elementos que, malgrado não constituam ilícitos, reunidos, são capazes de demonstrar não se haver atendido a referida causa do negócio jurídico declarado, como de aumento de capital com a itenção de associação entre as empresas Nacional Administração e Participações S.A. e a SONAE, como o exíguo prazo de um dia entre o aumento de capital, a incorporação da reserva de ágio e a cisão, em que esta sociedade assumiu, ao afinal, praticamente a integralidade do negócio pretendido; a expressividade do valor do ágio de R$ 296.331.177,00 no total de R$ 300.000.000,00; o pagamento pela SONAE deste valor da totalidade do negócio, segundo o laudo de avaliação, por uma participação de cerca de 9%; para enumerar alguns fatores. Revelam, assim, a possibilidade de requalificação dos fatos como efetiva integralização e incorporação da reserva de ágio para aumento do valor patrimonial, seguida de cisão, que corresponderiam a uma efetiva alienação de participações, sem tributação do ganho de capital que haveria, se realizada a compra e venda efetiva, razão pela qual considera-se prodecente a autuação fiscal quanto ao principal. LEGALIDADE. APRECIAÇÃO INTEGRADA. PLUS NA CONDUTA. DOLO. SIMULAÇÃO. MULTA QUALIFICADA 1 - Não há que se tolerar o desvirtuamento dos institutos jurídicos. Legalidade não é dizer que se o negócio jurídico é legal para um ramo do direito (civil, empresarial, dentre outros) encontra-se intocável para todo o ordenamento jurídico. Legalidade é verificar se o negócio jurídico é legal sob o âmbito de todo o direito. Princípio da liberdade negocial não se encontra no topo da pirâmide constitucional, mas caminha ao lado do princípio da legalidade (que predica a apreciação do ordenamento jurídico de maneira integrada), e dos princípios que zelam pela manutenção do Estado, com a capacidade contribuinte e isonomia entre contribuintes. 2 - Transação de alienação de investimento escamoteada. Adquirente aumenta capital social do investimento, investimento é cindido no dia seguinte, a participação societária do investimento é vertida para a adquirente, e o caixa do investimento é vertido para a alienante, esquivando-se da tributação do ganho de capital. 2 - Afronta à legislação tributária, nos temos dos art. 149, inciso VII do CTN, art. 44, § 1º da Lei nº 9.430, de 1996 e arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964. Caracterizada a ocorrência do dolo (presença dos elementos cognitivo e volitivo), simulação, fraude e conluio, ensejando a qualificação da multa de ofício para 150%.
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MULTA QUALIFICADA. Recorrentes NACIONAL ADMINISTRAÇÃO E PARTICIPAÇÕES S.A. FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 1999 INTEGRALIZAÇÃO DE CAPITAL SEGUIDA DE CISÃO. ÁGIO. A situação autuada contém elementos que, malgrado não constituam ilícitos, reunidos, são capazes de demonstrar não se haver atendido a referida causa do negócio jurídico declarado, como de aumento de capital com a itenção de associação entre as empresas Nacional Administração e Participações S.A. e a SONAE, como o exíguo prazo de um dia entre o aumento de capital, a incorporação da reserva de ágio e a cisão, em que esta sociedade assumiu, ao afinal, praticamente a integralidade do negócio pretendido; a expressividade do valor do ágio de R$ 296.331.177,00 no total de R$ 300.000.000,00; o pagamento pela SONAE deste valor da totalidade do negócio, segundo o laudo de avaliação, por uma participação de cerca de 9%; para enumerar alguns fatores. Revelam, assim, a possibilidade de requalificação dos fatos como efetiva integralização e incorporação da reserva de ágio para aumento do valor patrimonial, seguida de cisão, que corresponderiam a uma efetiva alienação de participações, sem tributação do ganho de capital que haveria, se realizada a compra e venda efetiva, razão pela qual considerase prodecente a autuação fiscal quanto ao principal. LEGALIDADE. APRECIAÇÃO INTEGRADA. PLUS NA CONDUTA. DOLO. SIMULAÇÃO. MULTA QUALIFICADA 1 Não há que se tolerar o desvirtuamento dos institutos jurídicos. Legalidade não é dizer que se o negócio jurídico é legal para um ramo do direito (civil, empresarial, dentre outros) encontrase intocável para todo o ordenamento jurídico. Legalidade é verificar se o negócio jurídico é legal sob o âmbito de todo o direito. Princípio da liberdade negocial não se encontra no topo da pirâmide constitucional, mas caminha ao lado do princípio da legalidade (que predica a apreciação do ordenamento jurídico de maneira AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 5. 00 15 89 /2 00 4- 67 Fl. 1242DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.243 2 integrada), e dos princípios que zelam pela manutenção do Estado, com a capacidade contribuinte e isonomia entre contribuintes. 2 Transação de alienação de investimento escamoteada. Adquirente aumenta capital social do investimento, investimento é cindido no dia seguinte, a participação societária do investimento é vertida para a adquirente, e o caixa do investimento é vertido para a alienante, esquivando se da tributação do ganho de capital. 2 Afronta à legislação tributária, nos temos dos art. 149, inciso VII do CTN, art. 44, § 1º da Lei nº 9.430, de 1996 e arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964. Caracterizada a ocorrência do dolo (presença dos elementos cognitivo e volitivo), simulação, fraude e conluio, ensejando a qualificação da multa de ofício para 150%. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Luis Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora), Cristiane Silva Costa, Luis Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor, quanto ao mérito do Recurso Especial da Fazenda Nacional, o conselheiro André Mendes de Moura. 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Fl. 1243DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.244 3 Relatório Tratamse de Autos de Infração (Efls. 496 ss.) cientificados à contribuinte em 25.05.2004 para a exigência de IRPJ e CSLL relativos ao ano calendário 1999, juntamente com juros de mora e multa qualificada de 150%, em razão da acusação fiscal de redução indevida do lucro sujeito à tributação, em decorrência da falta de contabilização do ganho de capital apurado na alienação de investimento avaliado pelo valor do patrimônio líquido. Uma leitura mais detalhada dos fatos que originaram a autuação, sob a óptica administrativa, pode ser realizada a partir do Relatório do Trabalho Fiscal (Efls. 474 ss.), do qual se pede licença para transcrever trecho mais longo, a fim de facilitar essa compreensão. Vejase: “I. DO CONTRATO DE ASSOCIAÇÃO COM O GRUPO SONAEITA (…) a fiscalizada apresentou cópia do contrato de associação celebrado com o grupo SONAEITA, em 29/01/99 (folhas 87 a 202). Em conformidade com item 1.1 do referido contrato, o objetivo do mesmo seria disciplinar a associação da NAP com o Grupo SONAEITA visando à operação conjunta da rede de supermercados e hipermercados pertencentes aos dois grupos econômicos, a ser implementada a partir de 01/04/99. De acordo com as cláusulas 2.1 e 2.13 do contrato (folhas 91 e 96), para implementação da associação, NAP transferiria a totalidade das ações que detinha na empresa NACIONAL SUPERMERCADOS S/A, doravante denominada de NACIONAL SUPERMERCADOS, para a empresa Sonae Distribuição Brasil S.A, doravante denominada de SONAE. Em decorrência desta transferência o SONAE pagaria R$ 300.000.000,00 a NAP. Por outro lado, a partir da implementação da associação, a NAP passa a ter participação no capital do SONAE equivalente a 17,56%. Por esta participação, NAP pagaria R$ 120.000.000,00 ao SONAE. Ainda em relação ao contrato de associação (folhas 87 a 202), as cláusulas 2.1 e 2.2 indicam os critérios utilizados pelas partes para avaliação das participações transacionadas. Os valores acima referenciados (R$ 300.000.000,00 e R$ 120.000.000,00) foram fixados a partir das vendas brutas das lojas no ano anterior (1998) e em valores do ativo circulante e do passivo total de balanços projetados para 31/03/1999 (balanços de referência) de cada uma das empresas, conforme constante dos Anexos 2.1 (a), 2.1(b) e 2.1(c) (folhas 187 a 189). Considerando que o Contrato de Associação foi firmado em 29/01/1999 e que foi utilizado o balanço projetado de 31/03/1999 para avaliação das participações, as cláusulas 2.4 a 2.6 do Contrato de Associação (folhas 93) prevêem critérios de ajuste de preço caso os valores projetados do ativo circulante e do passivo total das empresas não se confirmassem. Cabe ainda destacar que a cláusula 2.13 do Contrato de Associação (folhas 96 a 98) estabelece o mecanismo de constituição da associação a ser utilizado para garantir a eficiência financeira e fiscal para ambas as partes. As etapas e Fl. 1244DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.245 4 procedimentos que levariam a esta eficiência financeira e fiscal a serem implementadas são: a) Transferência para NACIONAL SUPERMERCADOS, por NAP e Nacional Central de Distribuição de Alimentos Ltda. (doravante denominada de CDA), de todos os equipamentos necessários para a atividade de exploração do comércio varejista; Ou seja, para fins tributários, o vendedor (NAP) deveria apurar o resultado decorrente da alienação e, verificado ganho de capital na operação, computar tal resultado na apuração das bases de calculo do IRPJ e da CSLL. b) Cessão por CDA para NACIONAL SUPERMERCADOS, da efetividade da exploração de comércio varejista, através da transferência da totalidade dos estoques e de todos os empregados registrados na CDA; c) Aumento de capital de NACIONAL SUPERMERCADOS, no valor total de R$ 300.000.000,00, a ser subscrito e integralizado pelo SONAE; d) Cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS, imediatamente após o aumento de capital referido no item anterior, com versão do Caixa para NAP, permanecendo o SONAE com 100% da sociedade cindida; e) Aumento de capital no SONAE, no valor total de R$ 120.000.000,00, a ser subscrito e integralizado por NAP que assim passará a deter 17.56% das ações ordinárias do SONAE. Portanto, de acordo com o Contrato de Associação firmado em 29/01/1999, NAP venderia, em 01/04/1999, ao SONAE, por R$ 300.000.000,00, sua participação na empresa NACIONAL SUPERMERCADOS e, na mesma data, adquiriria 17,56% do capital do SONAE por R$ 120.000.000,00. Todavia, para garantir eficiência financeira e fiscal para ambas as partes, foram previstas diversos procedimentos e operações de reestruturações societárias para implementação do negócio. Para fins do presente trabalho e considerando que a empresa fiscalizada é a NAP, a operação que sera analisada é exclusivamente a operação relativa à venda da participação societária de NAP em NACIONAL SUPERMERCADOS por R$ 300.000.000,00. II. REFLEXO TRIBUTÁRIO DE OPERAÇÃO DE VENDA DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA Analisando a operação descrita no capitulo anterior sob o aspecto tributário verificamos, especificamente em relação à venda da participação societária na empresa NACIONAL SUPERMERCADOS, que seria aplicável o disposto no artigo 31 do DecretoLei n° 1.598/77 (art. 418 do RIR/99). Todavia, não foram estes os procedimentos adotados pela NAP. Ao contrário, para operacionalização do contrato de associação firmado com o grupo SONAE foram utilizadas operações de reestruturações societárias (aumento de capital social com ágio, incorporação da reserva de ágio ao capital e cisão parcial), para garantir a eficiência financeira e fiscal para ambas partes. Como teremos oportunidade de demonstrar na seqüência, o objetivo de NAP ao utilizer este "planejamento" foi evitar a incidência tributária a que nos referimos anteriormente (IRPJ e CSLL incidentes sobre o ganho de capital). A seguir, passaremos a descrição pormenorizada do "planejamento" adotado e dos seus reflexos tributários. III. DA SISTEMÁTICA UTILIZADA PARA IMPLEMENTAÇÃO DA NEGOCIAÇÃO E SEUS REFLEXOS TRIBUTÁRIOS Inicialmente, é importante apresentar um rápido histórico relativamente à constituição e posteriores alterações da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS. Fl. 1245DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.246 5 Em conformidade com o contrato social constante das folhas 277 a 280, a empresa Nacional Supermercados Ltda., doravante denominada de NACIONAL SUPERMERCADOS, CNPJ 02.701.7051000161, foi constituída em 01/07/98, com capital social de R$ 1.000,00, tendo como sócios Neri Carlos Dal Pozzo (90% do capital social) e Sandra Solange Kerecki Dal Pozzo (10% do capital social) e tendo como objetivo social o ramo de supermercados. A empresa teve os seus atos constitutivos arquivados na Junta Comercial do Rio Grande do Sul em 14/07/98. Em 01/09/98 foi firmado instrumento de alteração do contrato social de NACIONAL SUPERMERCADOS. Neste ato (folhas 281 e 282), retira se da sociedade a sócia Sandra Solange Kerecki Dal Pozzo que cede e transfere as suas cotas, no valor de R$ 100,00, para o sócio Neri Carlos Dal Pozzo. Também através desta alteração contratual é aumentando o capital social da empresa para R$ 100.000,00 e admitida como sócia a empresa Nacional Central de Distribuição de Alimentos Ltda. (CDA), a qual integraliza capital no valor de R$ 99.000,00. A alteração contratual foi arquivada na Junta Comercial em 01/10/98. Também em 01/09/98 a empresa NACIONAL SUPERMERCADOS passa por transformação do tipo jurídico, passando de sociedade por cotas de responsabilidade limitada para sociedade anônima e passando a ser denominada de Nacional Supermercados SA. A ata relativamente a este evento (folhas 283 a 288) foi arquivada na Junta Comercial em 01/í0/98. Posteriormente, em 30/10/1998, conforme Ata de Assembléia Geral Extraordinária (folhas 292 e 293) arquivada na Junta Comercial em 19/11/98, foi alterado e ampliado o objetivo social de NACIONAL SUPERMERCADOS. Na mesma data (30/10/1998), conforme Ata de Reunião de Diretoria (folhas 289 a 291) arquivada na Junta Comercial em 19/11/98, foi aprovada a abertura de 95 (noventa e cinco) filiais, nos mesmos endereços em que funcionavam lojas de sua controladora (CDA). Em 28/12/1998, conforme contrato de compra e venda de ações (folhas 230 a 232), CDA vendeu a sua participação para NAP por R$ 99.000,00. Em 30/01/1999, em conformidade com a Ata da Assembléia Geral Extraordinária arquivada na Junta Comercial em 23/02/1999 (folhas 217 a 229), o capital social de NACIONAL SUPERMERCADOS foi aumentado em R$ 33.076.000,00, passando de R$ 100.000,00 para R$ 33.176.000,00. As novas ações foram subscritas por CDA (R$ 13.500.000,00) e pela NAP (R$ 19.576.000,00), tendo a integralização se dado através da conferência de bens móveis e imóveis. Em 01/02/1999, conforme contrato de compra e venda de ações (folhas 233 a 235) Neri Carlos Dal Pozzo vendeu a sua participação para NAP por R$ 1.000,00. Também na mesma data (01/02/1999), conforme contrato de compra e venda de ações (folhas 236 a 239), CDA vendeu a sua participação para a NAP por R$ 13.500.000,00. Portanto, a partir de 01/02/1999, a totalidade do capital social da NACIONAL SUPERMERCADOS, num montante de R$ 33.176.000,00, passa a ser de propriedade de NAP. Em 31/03/99, as 9:00 horas, conforme Ata de Assembléia Geral Extraordinária (folhas 73 a 78), houve um aumento do capital de NACIONAL SUPERMERCADOS de R$ 33.176.000,00 para R$ 36.844.823,00. As novas ações foram integralmente subscritas pelo SONAE, tendo sido adquiridas por R$ 300.000.000,00, com ágio de R$ 296.331.177,00. Ainda em 31/03/99, as 10:00 horas, conforme Ata de Assembléia Geral Extraordinária, foi aumentando o capital social da empresa para R$ Fl. 1246DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.247 6 333.176.000,00 através da incorporação da Reserva de Ágio (R$ 296.331.177,00). Passemos a análise dos reflexos tributários destas duas operações para a empresa NACIONAL SUPERMERCADOS. No aumento de capital com ágio, aplicase o disposto no art. 38 do DecretoLei n° 1.598/77 (art. 442 do RIR/99). De acordo com este dispositivo legal, não serão computadas na apuração do Lucro Real as importâncias, creditadas a reservas de capital, recebidas dos subscritores de valores mobiliários a titulo de ágio na emissão de ações por prego superior ao valor nominal. Portanto, em 31/03/99, quando do recebimento do ágio e constituição de reserva de capital (reserva de ágio) no valor de R$ 296.331.177,00, não houve qualquer tributação. De igual forma, o aumento de capital com a incorporação da Reserva de Ágio também não tem reflexos tributários. Contabilmente, a empresa NACIONAL SUPERMERCADOS efetuou a transferência de uma conta patrimonial (Reserva de Ágio) para outra conta patrimonial (Capital Social), não afetando o lucro contábil do período. Sob o aspecto tributário, não existe previsão para tributação da Reserva de Ágio quando utilizada para aumentar o capital social. Assim, para a empresa NACIONAL SUPERMERCADOS as operações efetivadas no dia 31/03/99 não tiveram qualquer repercussão do ponto de vista tributário. Para a NAP, que detinha participação societária avaliada pela equivalência patrimonial, o aumento do Patrimônio Liquido de NACIONAL SUPERMERCADOS ocorrido em 31/03/1999, resultou em aumento no valor de sua participação societária. Antes do aumento de capital, a NAP era proprietária da totalidade do capital social de NACIONAL SUPERMERCADOS, sendo que o capital social da investida era de R$ 33.176.000,00. Após o aumento do capital social, a participação foi reduzida para 90,04%, mas o capital social da investida (NACIONAL SUPERMERCADOS) foi aumentado em R$ 300.000.000,00, passando para R$ 333.176.000,00. Portanto, mesmo com a redução da participação de NAP na investida de 100% para 90,04%, após o aumento do capital social da investida, o valor do investimento de NAP em NACIONAL SUPERMERCADOS passa a ser de R$ 300.000.000,00. Contabilmente, NAP registra esta mais valia do seu investimento a débito da conta de investimento (conta patrimonial) e a crédito de conta de resultado (Resultado Positivo da Equivalência Patrimonial). Todavia, para fins tributários, em conformidade com o art. 389 do RI R/99, não serão computadas na determinação do lucro real as contrapartidas de ajuste no valor do investimento. Ou seja, também para NAP, apesar de ter havido aumento no valor do investimento em NACIONAL SUPERMERCADOS para R$ 300.000.000,00, não houve qualquer tributação em 31/03/1999. Por fim, em 01/04/99, as 9:30 horas, conforme Ata das Assembléias Gerais Ordinária e Extraordinária (folhas 294 a 297) a empresa NACIONAL SUPERMERCADOS foi cindida parcialmente, com versão de parcela do seu patrimônio, no valor de R$ 300.000.000,00, para NAP. Com isto, o capital remanescente da NACIONAL SUPERMERCADOS, no valor de R$ 33.176.000,00, passa a pertencer integralmente ao SONAE. Do ponto de vista tributário, a cisão parcial resultou na retirada de NAP da sociedade. Fl. 1247DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.248 7 Como o investimento de NAP em NACIONAL SUPERMERCADOS já estava avaliado por R$ 300.000.000,00, não foi apurado qualquer ganho de capital tributável, tendo em vista que o valor recebido por NAP foi exatamente R$ 300.000.000,00. Assim, o resultado de todo este "planejamento" na busca da eficiência financeira e fiscal é que, em 01/04/1999, o SONAE passa a ser o único proprietário de NACIONAL SUPERMERCADOS e NAP se retira da sociedade recebendo os R$ 300.000.000,00 que haviam sido pagos pelo SONAE. E isto sem que NAP ou NACIONAL SUPERMERCADOS tenham sofrido qualquer tributação! Entretanto, a partir da análise dos documentos e informações que foram apresentadas pelo SONAE e pela própria fiscalizada, foi possível formar convicção de que as reestruturações societárias não passam de mera simulação para encobrir o negócio que estava sendo efetivamente realizado, qual seja, a aquisição total de NACIONAL SUPERMERCADOS por parte do SONAE. Apresentaremos, a seguir, de forma detalhada, os fatos e documentos que nos levaram a formar tal convicção. IV. AUMENTO DO CAPITAL SOCIAL DE NACIONAL SUPERMERCADOS Em 31/03/1999, as 9:00 horas, em conformidade com a Ata de Assembléia Geral Extraordinária (AGE) (folhas 73 a 78), foi deliberado o aumento de capital da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS no valor de R$ 3.668.823,00, com a emissão de 3.668.823 ações ordinárias nominativas. Referidas ações foram, na sua totalidade, subscritas pelo SONAE, por R$ 300.000.000,00. De acordo com a Ata da AGE, a integralização do capital subscrito se daria em moeda corrente nacional (folhas 75) tendo havido a integralização do capital subscrito no momento da assembléia (folhas 75). Em atendimento ao item 6 do Termo de Solicitação de Informações e Documentos n° 01, de 22/12/03, o SONAE informou que a integralização se deu da seguinte forma: a) DOC através do Banco Boavista no valor de R$ 88.500.000,00 para a conta corrente n° 1233.9 mantida por NACIONAL SUPERMERCADOS junto ao Banco ABN AMRO S.A. (folhas 272); b) DOC através do Banco Bandeirantes no valor de R$ 91.500.000,00 para a conta corrente n° 1233.9 mantida por NACIONAL SUPERMERCADOS junto ao Banco ABN AMR° S.A. (folhas 272); c) Nota Promissória, no valor de R$ 120.000.000,00, emitida pelo SONAE em 31/03/99 e com vencimento em 01/04/1999 (folhas 271). Portanto, a partir das informações e documentos apresentados pelo SONAE pode ser apontada uma inconsistência entre o ocorrido e o que consta da Ata da AGE. Na realidade, parcela dos recursos integralizados (R$ 120.000.000,00) não foi em moeda corrente nacional, mas sim através de uma Nota Promissória. Entretanto, o que mais chama a atenção é o expressivo ágio pago pelo SONAE quando da integralização de capital. Através da operação, o SONAE adquiriu 9,96% do capital social de NACIONAL SUPERMERCADOS por R$ 300.000.000,00, com ágio total de R$ 296.331.177,00. De acordo com a Ata da AGE (folhas 75) o ágio foi pago por perspectivas de rentabilidade futura da companhia. Para justificar o expressivo ágio pago quando da aquisição da participação societária (R$ 296.331.177,00), o SONAE apresentou Laudo de Avaliação Econômica (folhas 306 a 380) elaborado pela empresa Arthur Andersen Business Consulting S/C Ltda., doravante denominada de Arthur Andersen. Fl. 1248DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.249 8 Inicialmente cabe destacar o objetivo da elaboração do referido Laudo. Conforme consta da correspondência de encaminhamento do mesmo (folhas 307) e do seu item 1.1 (folhas 311), o objetivo do trabalho foi elaborar laudo de avaliação econômica de NACIONAL SUPERMERCADOS para ser usado na identificação do fundamento econômico do ágio pago pelo SONAE quando da aquisição de 100% das ações do NACIONAL SUPERMERCADOS. O laudo em tela aponta R$ 310.555.000,00 como sendo o valor econômico total do NACIONAL SUPERMERCADOS. Considerando que de acordo com a Ata da AGE o SONAE teria adquirido somente 9,96% do capital social de NACIONAL SUPERMERCADOS, com base no Laudo de Avaliação o valor da participação adquirida corresponderia a R$ 30.913.278,00 e não aos R$ 300.000.000,00 pagos pelo SONAE. Portanto, a partir do próprio Laudo de Avaliação fica absolutamente claro que o SONAE adquiriu a totalidade da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS e não apenas 9,96% como quer fazer crer a Ata da AGE. Cabe ainda salientar que o referido Laudo foi elaborado após a operação de aquisição da participação societária (31/03/1999). O que nos permite chegar a tal conclusão são dois fatos: a) A data da correspondência (folhas 307) que encaminhou o Laudo (21/06/1999); b) Da Tabela 1 do Laudo (folhas 325) constam informações a respeito de fusões e aquisições do setor supermercadista no Brasil ocorridas em maio de 1999, portanto após 31/03/1999, como, por exemplo, a aquisição por parte do Carrefour de 90% da rede de supermercados PlanaItão (DF). Na realidade, conforme destacado anteriormente, a partir da leitura do contrato de associação firmado entre NAP e o grupo SONAEITA, em 29/01/1999, (folhas 87 a 202), percebese que os critérios de valorização da participação societária adquirida pelo SONAE foram os seguintes: a) Total das vendas das lojas do NACIONAL SUPERMERCADOS no ano de 1998; e b) Os valores do ativo circulante e do passivo total constante de balanços de referência elaborados por ocasião da assinatura do contrato. A partir destes critérios é que houve a definição de que seriam pagos R$ 300.000.000,00 pelo SONAE a NAP, sendo que este valor se referia à aquisição total da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS e não somente de 9,96% da empresa como quer fazer supor a Ata da AGE. Outro aspecto totalmente atípico em operações de integralização de capital e que merece ser analisando diz respeito ao ajuste de prego. Um dos critérios utilizados em janeiro de 1999 para avaliação da participação societária foi o ativo circulante e o passivo total constante de balanços de referência que projetavam a situação da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS para março de 1999. As cláusulas 2.4 a 2.6 do contrato de associação (folhas 93) firmado em 29/01/1999 estabelecem mecanismos para identificar eventuais diferenças entre estes balanços projetados e os balanços levantados em março de 1999, especificando que eventuais diferenças seriam objeto de ajuste de prego. Ou seja, como a avaliação do NACIONAL SUPERMERCADOS para fins da negociação (R$ 300.000.000,00) foi estabelecida em janeiro de 1999 com a utilização de valores do ativo circulante e do passivo total projetados para março de 1999, caso as projeções não se confirmassem haveria a necessidade de um ajuste do preço. Em atendimento ao item 5 do Termo de Solicitação de Informações e Documentos n° 05, de 08/01/2004 (folhas 387 a 392), NAP reconhece ter Fl. 1249DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.250 9 efetuado pagamentos a titulo de ajuste do preço em 30/10/1999 (folhas 398). Fosse verdadeira a operação registrada na Ata da AGE de 31/03/1999 (folhas 73 a 78), a negociação entre o SONAE, NAP e NACIONAL SUPERMERCADOS teria se encerrado naquele mesmo dia, com a subscrição e integralização de capital no valor de R$ 300.000.000,00, não existindo a figura de futuro ajuste do preço. Mais uma vez, o que está registrado na Ata da AGE de 31/03/1999 é incompativel com os fatos efetivamente ocorridos. V. DA CISÃO PARCIAL DE NACIONAL SUPERMERCADOS De acordo com Ata das Assembléias Gerais Ordinária e Extraordinária (folhas 294 a 297), Protocolo de Cisão Parcial (folhas 79 a 81) e Justificação (folhas 82 e 83), em 01/04/1999, as 9:30 horas, NACIONAL SUPERMERCADOS foi cindida parcialmente. Através da reestruturação societária, o capital social de NACIONAL SUPERMERCADOS foi reduzido em R$ 300.000.000,00, com a versão de parcela de seu patrimônio para NAP. Com a cisão parcial, NAP, que detinha 90,04% do capital social de NACIONAL SUPERMERCADOS, se retira da sociedade. De acordo com o item V do Protocolo de cisão parcial (folhas 80), em função da cisão, NAP recebeu de NACIONAL SUPERMERCADOS os seguintes ativos: a) Circulante — Disponível: R$ 180.000.000,00; b) Circulante — Créditos: R$ 120.000.000,00. Ainda em conformidade com o protocolo de cisão parcial (folhas 80), a parcela do patrimônio de NACIONAL SUPERMERCADOS vertida para NAP seria avaliada por peritos à respeito da mesma inconsistência (transferência dos recursos de NACIONAL SUPERMERCADOS para NAP em data anterior à cisão parcial) também foi intimado a prestart esclarecimentos o Sr. Fernando Steigleder, profissional que assinou o Laudo de Avaliação efetuado por LSM. Em atendimento a intimação, o Sr. Fernando informa que os R$ 180.000.000,00 transferidos para NAP se referem a depósitos bancários à vista que constavam do Balanço Patrimonial de NACIONAL SUPERMERCADOS em 31/03/1999 (folhas 429 a 445). Examinando o Balanço Patrimonial de NACIONAL SUPERMERCADOS levantado em 31/03/1999 (folhas 66) constatamos que isto não corresponde à realidade, tendo em vista que o saldo da conta "Caixa e Bancos" em 31/03/1999 é de R$ 3.437.765,62, bastante inferior, portanto, aos R$ 180.000.000,00 alegados pelo perito. Além disso, o extrato bancário (folhas 305) da conta n° 12339, de titularidade de NACIONAL SUPERMERCADOS no ABN AMRO BANK, indica que ao final do dia 31/03/1999, o saldo desta conta estava zerado. Portanto, o que podemos concluir é que o Laudo de Avaliação utilizado para justificar as parcelas do patrimônio de NACIONAL SUPERMERCADOS, supostamente transferidas para NAP em 01/04/1999, não merece fé por não refletir a realidade. Todavia, consideramos que toda a documentação bancária examinada (folhas 305) permite concluir que, sem qualquer dúvida, NAP recebeu em 31/03/1999 os R$ 180.000.000,00 que haviam sido pagos pelo SONAE e não em 01/04/1999 como consta dos documentos relativos cisão parcial. Assim, os documentos relativos à cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS (folhas 294 a 297), não refletem a realidade, tendo em vista que de acordo com tais documentos, a cisão parcial, com a versão de parcela de ativos de NACIONAL SUPERMERCADOS para NAP, teria ocorrido somente em 01/04/1999. Fl. 1250DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.251 10 VI. DA SIMULAÇÃO DE ATOS JURÍDICOS COM O INTUITO DE BURLAR O FISCO A partir de todos os fatos relatados anteriormente e dos documentos examinados formamos a convicção de que as operações de aumento de capital social com ágio e a posterior cisão parcial não passaram de meras simulações para disfarçar a essência do negócio. O verdadeiro negócio entre as partes encontrase perfeitamente identificado no Contrato de Associação firmado em 29/01/1999: o SONAE adquire por R$ 300.000.000,00 a totalidade da participação que a NAP tinha em NACIONAL SUPERMERCADOS. Para encobrir o negócio que estava sendo efetivamente realizado e fugir do pagamento dos tributos incidentes foram simulados atos de natureza diversa daquela que aparentam. A respeito da conceituação de simulação, (…) A simulação pressupõe, portanto, que se procure fingir, disfarçar, mostrar o irreal como verdadeiro, dissimular a verdade. Entendemos que foi exatamente isto que aconteceu no presente caso. O aumento de capital social com ágio e a cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS foram atos simulados cujo objetivo foi encobrir a efetiva venda da NAP para o SONAE da totalidade da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS. Os fatos relatados e os documentos citados nos capítulos anteriores deste Relatório nos permitiram formar tal convicção. Cabe, neste momento, resgatar alguns destes fatos. A Ata da AGE de 31/03/1999 (folhas 73 a 78) quer fazer crer que o SONAE pagou F21 300.000.000,00 para adquirir 9,96% da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS, quando o contrato de associação (folhas 87 a 202) firmado em 29/01/1999 e o Laudo de Avaliação Econômico (folhas 306 a 380) produzido por Artur Andersen apontam este como sendo este o valor de 100% da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS. O que levaria o SONAE a pagar o valor correspondente a 100% de uma companhia por apenas 9,96% do seu capital social? Consideramos que tal procedimento somente foi adotado pelo SONAE pela certeza de estar adquirindo por este valor (R$ 300.000.000,00) a totalidade da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS. E esta certeza decorre do contrato de associação firmado com a NAP em 29/01/1999 que lhe garantia que, após a integralização de capital com ágio, a empresa NACIONAL SUPERMERCADOS seria cindida parcialmente, cabendo ao SONAE o controle acionário integral de NACIONAL SUPERMERCADOS. E isto de fato ocorreu. No dia seguinte (01/04/1999), houve a cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS. Em decorrência desta cisão, NAP se retira da sociedade, recebendo os R$ 300.000.000,00 pagos pelo SONAE e o SONAE passa a ser o único proprietário de NACIONAL SUPERMERCADOS. De que forma aceitar como verdadeiro instrumento representativo de ato jurídico que estabelece que NAP receberia, em 01/04/1999, R$ 300.000.000,00 em decorrência da cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS, quando está documentalmente comprovado que parte deste valor (R$ 180.000.000,00) já havia sido repassada para NAP em 31/03/1999? Portanto, consideramos que fica inquestionavelmente demonstrado que o objetivo do negócio foi à aquisição, pelo SONAE, das atividades de varejo do NACIONAL SUPERMERCADOS, incluindo suas instalações, estoques e créditos, deduzidos as dívidas e obrigações relacionadas com estas atividades, como está definido no contrato de associação, firmado em 29/01/1999. Fl. 1251DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.252 11 O aumento de capital social com ágio e a posterior cisão parcial do NACIONAL SUPERMERCADOS foram meros instrumentos utilizados para implementar o verdadeiro negócio com o intuito de iludir um terceiro (no caso o Fisco) e evitar o pagamento de tributos, caracterizando a simulação. VII. QUANTIFICAÇÃO DO GANHO DE CAPITAL TRIBUTÁVEL Para fins tributários, em decorrência da venda da participação societária que detinha junto ao NACIONAL SUPERMERCADOS, a fiscalizada (NAP) deveria apurar e oferecer à tributação do IRPJ e CSLL, o ganho de capital nesta operação Nos termos do §1° do art.418 do Decreto n° 3.000/99 (RIR199), o ganho de capital é apurado a partir do confronto entre o valor recebido quando da alienação do bem ou direito e o seu valor contábil. No caso da fiscalização em tela, desconsiderando as operações simuladas (aumento do capital social com ágio, incorporação da reserva de ágio ao capital social e cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS), o valor da alienação da participação societária corresponde ao valor pago pelo SONAE e recebido pela NAP em 31/03/1999: R$ 300.000.000,00. Em relação ao valor contábil da participação societária alienada, a NAP, em atendimento ao item 1 do Termo de Solicitação de Informações e Documentos n° 04, de 08/01/2004 (folhas 383), informa que este valor era de R$ 33.176.000,00. Todavia, examinando o Balanço Patrimonial levantado por NACIONAL SUPERMERCADOS em 31/03/99 (folhas 66 a 68) e desconsiderando as operações simuladas, constatamos que o Patrimônio Liquido da empresa era de R$ 33.234.184,75. Considerando que a NAP detinha a integralidade do capital social de NACIONAL SUPERMERCADOS e tratarse de investimento sujeito à equivalência patrimonial, optamos por considerar como valor contábil do investimento o valor de R$ 33.234.184,75. Portanto, o ganho de capital na operação foi de R$ 266.765.815,25 (R$ 300.000.000,00 R$ 33.234.184,75). Este ganho de capital estará sujeito à incidência de IRPJ e CSLL nos termos da legislação vigente. VIII. DA CSLL INCIDENTE SOBRE 0 GANHO DE CAPITAL (…) Assim, diante da opção de apuração da CSLL devida relativamente ao ano calendário 1999 adotada pela NAP e considerando que o ganho de capital a ser tributado ocorreu anteriormente a 01/05/1999, concluímos que não cabe a incidência do adicional de 4% para apuração da CSLL incidente sobre o ganho de capital. Outra particularidade a ser considerada no caso em tela diz respeito à possibilidade da compensação, a partir de fevereiro de 1999, de 1/3 da COFINS efetivamente paga com a CSLL devida, nos termos do disposto no art.8° da Lei n° 9.718/98. (…) Considerando que o §1° do art. 8° da Lei n° 9.718/98 estabelece que somente poderá ser objeto de compensação o valor da COFINS efetivamente paga e que os valores depositados judicialmente não caracterizam pagamento, apresentamos, na tabela abaixo, o demonstrativo da compensação a que a NAP faz jus. (…) Portanto, da CSLL devida sobre a infração objeto da presente autuação será deduzido o montante de R$ 21.842,97 referente a 1/3 da COFINS efetivamente paga. IX. DA QUALIFICAÇÃO DA MULTA Fl. 1252DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.253 12 Quanto á muita a ser aplicada no lançamento de oficio, o art. 44 da Lei 9.430/96, incorporada ao art. 957 do RIR/99, estabelece: (…) Os artigos citados da Lei 4.502/64, por sua vez, determinam: "Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou (…) Como já ficou amplamente demonstrado, a forma como o negócio entre a NAP e o SONAE foi formalizado demonstra de forma inequívoca a intenção de "impedir (...) o conhecimento por parte da autoridade fazendário da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária", configurandose assim a sonegação definida no art. 71 da Lei 4.502/64. Além disto, a forma dada ao negócio teve ainda o objetivo de "modificar as suas características essenciais (do fato gerador) de modo a reduzir o montante do imposto devido ou a evitar ou diferir o seu pagamento", caracterizando assim a fraude definida no art. 72 da mesma Lei. Finalmente, o conluio definido no art. 73 fica caracterizado pelo fato de todos os atos simulados terem envolvido duas empresas e seus diretores — a NAP e o SONAE. Isto sem falar nos fortes indícios de conluio também em relação aos peritos contratados para elaboração de laudos encomendados, de forma a tentar revestir a operação das formalidades legais necessárias. Fica, então, caracterizada a pratica de sonegação, fraude e conluio, aplicando se a multa qualificada determinada pelo art. 44, inciso II da Lei 9.430196, situação esta amparada por ampla jurisprudência do Conselho de Contribuintes, conforme alguns acórdãos a seguir transcritos (…) X. DE OPERAÇÕES SEMELHANTES ENVOLVENDO O GRUPO SONAE (…)” (destacouse) A contribuinte apresentou Impugnação às Efls. 510 ss. Na sequência, a Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Porto Alegre (Efl. 701 ss.) proferiu decisão mantendo integralmente o lançamento tributário, com a seguinte ementa: “Ementa: SIMULAÇÃO. CARACTERÍSTICAS. A simulação se caracteriza simplesmente pela divergência entre a exteriorização e a volição, isto é, exteriormente, formalmente, são praticados determinados atos, enquanto internamente, subjetivamente, os que se praticam são outros. Assim, na simulação, os atos exteriorizados são sempre desejados pelas partes; mas apenas formalmente, pois materialmente o ato praticado é outro. Portanto, para fins de caracterizar, ou não, simulação, é irrelevante terem as partes verdadeiramente manifestado publicamente vontade de formalizar determinados atos por natureza lícitos, pois tal fato em nada influi sobre o cerne da definição de simulação, que é a divergência entre exteriorização e vontade. Para que não se configure simulação, é necessário mais que isso, é necessário que as partes queiram praticar esses atos não apenas formalmente mas também materialmente. SIMULAÇÃO. MEIOS DE PROVA. Por se tratar de subjetividade, é difícil, quando não impossível, comprovála diretamente, pelo que se admite que seja provada por todos os meios admitidos em Direito, inclusive indícios e Fl. 1253DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.254 13 presunções. Os principais indícios admitidos com prova da simulação são a existência de motivo sério, a falta de execução material da vontade exteriorizada, a discrepância entre esses atos e a conduta das partes e a divergência entre a natureza e a quantidade dos bens e direitos e o preço pelo qual são negociados. LANÇAMENTO DECORRENTE. CSLL. A decisão, dada ao tributo principal aplicase aos demais lançamentos decorrentes das mesmas infrações. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 1999 Ementa: IRPJ. AUMENTO DE CAPITAL COM ÁGIO. REFLEXO NO CUSTO DA PARTICIPAÇÃO. GANHO DE CAPITAL. Para que produza efeitos é indispensável que a vontade a integralização de capital com ágio seja válida e manifestada nesse ato esteja em conformidade com a vontade real das partes; demostrado, tanto por prova direta como por indícios, o descasamento entre a vontade expressa e a vontade real, há apenas simulação de aumento de capital, o que torna o ato ineficaz perante terceiros; a ineficácia do aumento de capital impede a ocorrência de resultado de equivalência patrimonial e faz aflorar um ganho de capital tributável. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 1999 Ementa: MULTA. AGRAVAMENTO. Caracterizada a ocorrência de simulação, cabível o agravamento da multa. Lançamento Procedente” O recurso voluntário (Efls. 733 ss.) interposto pela contribuinte em face desta decisão foi julgado pela Primeira Câmara do antigo Primeiro Conselho de Contribuintes, que decidiu no Acórdão n. 10195537 (Efls. 820 ss.) darlhe parcial provimento, mantendose a exigência principal em razão do entendimento de que atos dissimulados não seriam oponíveis ao fisco, mas se reduzindo o percentual da multa qualificada em função da existência de divergentes correntes jurisprudenciais à época dos fatos acerca da validade dessa espécie de operação, configurando erro de proibição, como revela a sua ementa: “OPERAÇÃO ÁGIO — SUBSCRIÇÃO DE PARTICIPAÇÃO COM ÁGIO E SUBSEQÜENTE CISÃO — VERDADEIRA ALIENÇÃO DE PARTICIPAÇÃO — Se os atos formalmente praticados, analisados pelo seu todo, demonstram não terem as partes outro objetivo que não se livrar de uma tributação específica, e seus substratos estão alheios às finalidades dos institutos utilizados ou não correspondem a uma verdadeira vivência dos riscos envolvidos no negócio escolhido, tais atos não são oponíveis ao fisco, devendo merecer o tratamento tributário que o verdadeiro ato dissimulado produz. Subscrição de participação com ágio, seguida de imediata cisão e entrega dos valores monetários referentes ao ágio, traduz verdadeira alienação de participação societária. PENALIDADE QUALIFICADA — INOCORRÊNCIA DE VERDADEIRO INTUITO DE FRAUDE — ERRO DE PROIBIÇÃO — ARTIGO 112 DO CTN — SIMULAÇÃO RELATIVA FRAUDE À LEI — Independentemente da patologia presente no negócio jurídico analisado em um planejamento tributário, se Fl. 1254DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.255 14 simulação relativa ou fraude à lei, a existência de conflitantes e respeitáveis correntes doutrinárias, bem como de precedentes jurisprudenciais contrários à nova interpretação dos fatos pelo seu verdadeiro conteúdo, e não pelo aspecto meramente formal, implica em escusável desconhecimento da ilicitude do conjunto de atos praticados, ocorrendo na espécie o erro de proibição. Pelo mesmo motivo, bem como por ter o contribuinte registrado todos os atos formais em sua escrituração, cumprindo todas as obrigações acessórias cabíveis, inclusive a entrega de declarações quando da cisão, e assim permitindo ao fisco plena possibilidade de fiscalização e qualificação dos fatos, aplicáveis as determinações do artigo 112 do CTN. Fraude à lei não se confunde com fraude criminal. Recurso provido parcialmente.” Como indica a referida ementa, a decisão dividiuse basicamente em dois pontos, primeiramente prevalecendo o voto da relatora, iniciado com a demarcação da questão no sentido de se definir a oponibilidade ou não do planejamento levado a efeito ao fisco, tendo como ponto de discrímen a artificialidade da redução da carga tributária. Destacou a relatora a proximidade temporal dos atos (uma hora entre a integralização de capital com ágio de cerca de 98% e sua incorporação ao capital, e cisão no dia subseqüente); ausência de causa econômica além da economia fiscal para o aumento de capital, que teria sido usado apenas como degrau para a objetivada alienação de participação societária e desfazimento de seus efeitos com a cisão. Adicionalmente, valendose da decisão de primeira instância, enumerou a falta de motivo sério, o descompasso entre preço e participação pretensamente adquirida e falta de execução material do contrato, concluindose que a vontade de integralizar capital não teria sido real, o conteúdo dos atos jurídicos praticados não corresponderia ao indicado nos instrumentos em que eles se formalizaram, havendo simulação, portanto. Consequentemente, desconsiderado o aumento de capital simulado, não haveria ganho de equivalência patrimonial, tampouco acréscimo no custo da participação societária, aflorando um ganho de capital tributável. O segundo ponto objeto do acórdão disse respeito à qualificação da multa, prevalecendo neste caso o voto vencedor do Conselheiro Mário Junqueira Franco Júnior, que depois de trazer farta digressão sobre o devido enquadramento jurídico da operação autuada como simulação relativa, afastou a qualificação da multa por não perceber configurado o evidente intuito fraudulento e a própria dificuldade de caracterização do ilícito em virtude da existência de jurisprudência e posições doutrinárias em sentido favorável à contribuinte à época dos fatos, como típico erro de proibição. Em face do referido acórdão, primeiramente, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial (Efls. 854 ss.) por contrariedade às provas dos autos e ao artigo 44, I, parágrafo primeiro da Lei n. 9.430/96, com redação da Lei n. 11.488/2007, combinado com Fl. 1255DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.256 15 o artigo 71 da Lei n. 4.502/64, tendo como objetivo restabelecer a multa qualificada, uma vez que a contribuinte teria praticado atos simulados para acobertar uma compra e venda, não havendo que se falar assim em erro de tipo ou de proibição, sabendose que estava impedindo o conhecimento do fato gerador, o que representaria um ato ilícito. Ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional foi dado seguimento por Despacho de Admissibilidade (Efls. 865 ss.), que compreendeu haver contrariedade à lei ou evidência de prova, no que se referia à redução da multa qualificada. Por seu turno, a contribuinte opôs Embargos de Declaração (Efl. 1017 ss.) arguindo omissão quanto à (i) inexistência de norma geral antielisiva, com a ausência de regulamentação do artigo 116 do Código Tributário Nacional, (ii) não aplicação dos artigos 167 e 168 do Código Civil, que atribuiriam a desconsideração do negócio jurídico ao Judiciário, bem como diante da (iii) ausência de manifestação sobre as alegações de efetiva associação entre as empresas envolvidas na autuação. A contribuinte também ofereceu contrarrazões (Efl. 1017 ss.) ao recurso fazendário requerendo fosse mantida a redução da multa qualificada, em face da inexistência do evidente intuito fraudulento pressuposto para a sua aplicação, reiterando a questão da real associação entre as mencionadas companhias. A admissibilidade dos embargos (Efl. 1017 ss.) foi realizada pela Ilustre Conselheira Sandra Maria Faroni, relatora do acórdão recorrido, que entendeu não ser o caso de submetêlos à apreciação do colegiado, com as seguintes razões, cujo trecho se transcreve porque elucidativas para a definição do alcance do recurso interposto adiante: “Como sintetizado por V.Sa., a embargante alega omissão no acórdão em relação a três pontos: (a) aplicação ou não do art. 116 do CTN; (b) falta de regulamentação do art. 116 do CTN e (c) desconsideração de associação entre a embargante e o Grupo SonaeIta. Os principais argumentos do recurso foram: (a) que o negócio, levado a efeito a partir do contrato de associação, foi verdadeiro; (b) que ocorreu negócio jurídico indireto, e não simulação; (c) que a tributação negócio jurídico indireto só seria possível se houvesse uma cláusula geral antielisiva; (c) que inexiste cláusula geral ou especial antielisiva. Naquele recurso, de que fui relatora, analisei o negócio e entendi caracterizada a simulação. Por conseguinte, descabida qualquer consideração em relação ao art. 116 do C1N, que teve por escopo criar uma possibilidade de descaracterizar negócios lícitos, praticados com o objetivo de economizar tributos, a fim de submetêlos à tributação que adviria caso os negócios tivessem sido outros, aqueles preteridos em face do planejamento tributário. O voto condutor do acórdão que orientou a decisão da maioria, de relatoria do brilhante Conselheiro Mário Junqueira Franco Júnior, divergiu apenas quanto à qualificação da multa. Apontou a existência, no caso concreto, de todos os elementos caracterizadores dos institutos da simulação relativa e da fraude à Fl. 1256DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.257 16 lei, inclinouse pela caracterização como simulação relativa, entendeu que a penalidade só seria aplicável em caso de simulação absoluta e divergiu do voto vencedor apenas quanto à qualificação da multa. Não houve omissão na análise da associação Grupo SonaeIta Ambos os votos analisaram o negócio praticado (a partir da associação): O voto vencido concluiu peremptoriamente pela caracterização de simulação. O voto vencedor, embora tenha expressado dificuldade em se manifestar peremptoriamente pela simulação relativa ou pela fraude à lei, posto que o negócio apresenta todos os elementos de ambos os institutos, inclinouse pela simulação relativa. Não acolhida a tese de negócio jurídico indireto, descabia qualquer análise quanto à aplicação ou não do art. 116 do CFN e a falta de sua regulamentação. Finalmente, é de se atentar para a jurisprudência pacífica dos tribunais, no sentido de que o julgador não tem necessidade de enfrentar todos os argumentos trazidos pela parte, desde que sua decisão esteja suficientemente fundamentada. (…) Não, vejo, salvo melhor juízo, motivos para submeter os embargos ao Colegiado.” Em face do referido acórdão, a contribuinte também interpôs Recurso Especial (Efls. 1043 ss.) buscando demonstrar divergência com relação (i) ao conceito de simulação, indicando como paradigmas “prioritários” os acórdãos n. 10609343 e 106 14483, e sustentando que estes trariam a ilicitude como elemento indispensável à configuração da simulação, diversamente do acórdão recorrido, bem como (ii) à necessidade de existência de norma geral ou especial antielisiva para que fosse possível ao fisco a desconsideração de atos tidos como simulados, como se apreogaria nos acórdãos n. 20215948 e 20177174. Na sequência, a contribuinte buscou demonstrar “o caráter real, verdadeiro e efetivo da operação praticada pela Recorrente com vistas à sua associação com o Grupo SONAE no Brasil no negócio de supermercados que, inegavelmente, teve como um dos motivos de sua escolha a menor onerosidade fiscal”, reconhecendo ser “evidente que a prática coligada de todos e cada um dos atos e negócios jurídicos acima identificados é que proporcionou ao contribuinte obter uma economia de tributos, uma vez que, se alienasse diretamente o investimento em questão à SONAE, a Recorrente teria apurado um ganho de capital tributável.” Para manterse fiel ao entendimento defendido pela contribuinte, transcrevese alguns trechos de seu recurso, observandose que não têm necessariamente continuidade de texto: · Não obstante entender a Recorrente que o recurso a tal estrutura negocial configura, no máximo, um negócio indireto (lícito e eficaz perante terceiros, inclusive o Fisco), a fiscalização insiste em retorcer o conceito de simulação (ilícita e ineficaz perante o Fisco), para fazer nele recair a operação autuada e, com isso, tributar um ganho de capital que apenas teria ocorrido caso a operação praticada pela Recorrente tivesse sido outra que não a que efetivamente se praticou. O uso da analogia é vedado pelo Código Tributário Nacional (art. 108, § 1°). · Assim, sob a imprópria alegação de simulação, o Fisco quer, na verdade, Fl. 1257DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.258 17 fazer valer a figura (inexistente no Direito brasileiro) de uma norma geral antielisiva que, caso existente (o que se admite apenas para argumentar), lhe permitiria desconsiderar atos ou negócios válidos que, muito embora realmente praticados pelos contribuintes, pudessem, isoladamente ou coligados com outros atos, proporcionar economia de tributos. · 48. É, pois, o direito da Recorrente de livre escolha dos comportamentos a adotar com vistas a perseguir uma economia lícita de tributos que lhe está sendo tolhido (...) · (i) a operação autuada é verdadeira, revestindose da natureza de uma associação pública, real e duradoura; (ii) a operação autuada é, no máximo, um negócio indireto, não tributável por inexistir cláusula geral ou especial antielisiva; (iii) o conceito de simulação consagrado pela jurisprudência do E. Conselho de Contribuintes é estrito e não permite interpretações amplas que conduzam a enquadrar no mesmo o negócio indireto; e (iv) não há sequer indícios de simulação na operação autuada. · Do todo que atrás se expôs pode concluirse que: (i) os eventos acontecidos no mundo real efetivamente guardam inteira consonância com a intenção e desejo querido e realizado pelas partes (Recorrente e SONAE), bem assim, os fatos ocorridos foram os efetivamente concretizados, sem que se vislumbre qualquer simulação; (ii) não se detectam artifícios ou operações subjacentes acobertadas pelas transações efetivamente realizadas; (iii) todas as operações e transações encontramse registradas e escrituradas na escrituração comercial e fiscal, não se vislumbrando qualquer hipótese de resistência ou ocultação de qualquer fato, pois tudo foi realizado às claras e foi com base nelas que a autoridade fiscal formou as suas conclusões subjetivas; (iv) existem e foram cumpridas, junto à Secretaria da Receita Federal e aos demais órgãos públicos e privados, todas as formalidades próprias dos atos e operações praticados; (v) os fatos encontramse devidamente respaldados nas leis civis e comerciais, tendo sido atendidos todos os requisitos necessários para que eles se realizassem, pois tratase, na verdade, de operações comerciais e societárias perfeitamente legítimas e regulares; (vi) a fiscalização não conseguiu produzir qualquer prova irrefutável de que houve manipulação de fatos ou provas, utilização de interposta pessoa ou adulteração de qualquer documento que justificasse a desconsideração dos atos jurídicos praticados pela Recorrente; (vii) inexiste qualquer vedação ou óbice à realização das operações expressas nas leis fiscais, tendo em vista que os procedimentos adotados encontram fundamento legal; (viii) os supostos indícios, sobre os quais laborou a fiscalização, não se prestam para efeitos probatórios, pois não conseguem infirmar a veracidade das operações, constituindose, apenas, em juízos subjetivos das autoridades fiscais, sem que haja qualquer disposição de lei que lhes dê guarida; (ix) o Direito Tributário e nosso ordenamento jurídico não acolhem acusações sem provas e baseadas em meros indícios, pois, além de afrontar a legalidade, violaria a própria certeza do direito e a segurança jurídica; (x) não tendo restado provada e caracterizada a declaração enganosa de vontade, Fl. 1258DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.259 18 essencial à simulação, não há como subsistir a exigência do tributo e a imposição de penalidade agravada sob o argumento de que ocorreu, in casu, negócio simulado; (xi) não basta a simples suspeita de fraude para que o negócio jurídico seja desconsiderado pela autoridade lançadora, por simulação, mister se faz provar efetivamente que o ato negociai deuse em direção contrária à norma legal, com o intuito doloso de excluir ou modificar as características essenciais do fato gerador da obrigação tributária, porquanto a simulação não se presume, precisa ser, necessariamente, provada (art. 149, do CTN). · 4.2. Procedência quanto ao mérito do Recurso Especial: 4.2.1. a operação efetuada pela Recorrente não tinha como objetivo a economia de tributos; em verdade, conforme comprovado nos autos, tratavase de operação visando a associação entre a Recorrente e o Grupo SONAE, tanto que, após os negócios realizados, a Recorrente permaneceu com considerável participação acionária na empresa SONAE DISTRIBUIÇÃO BRASIL S.A. detendo, assim, de forma indireta, participação acionária em 4.2.2. a operação realizada pela Recorrente foi um negócio verdadeiro e representou efetivamente a vontade das partes, não podendo ser classificada como simulação; 4.2.3. os alegados indícios de simulação não se sustentam diante dos argumentos apresentados; 4.2.4. o ato de integralização de capital com ágio, erroneamente considerado como simulado, não foi sequer praticado pela Recorrente; e 4.2.5. no máximo, para fins de argumentação, a operação poderia ser classificada como negócio jurídico indireto, não tributável ante a inexistência de norma (geral ou especial) antielisiva; Por fim, requer a contribuinte seja, no mínimo, parcialmente provido o presente recurso para excluir dos autos de lançamento os valores referentes à participação acionária indireta que a Recorrente passou a ter em Nacional Supermercados S.A. após a realização das operações erradamente classificadas como simuladas. O Recurso Especial da contribuinte foi recepcionado por Despacho de Admissibilidade (Efls. 1224 ss.) que iniciou demarcando que este traria como matérias “conceito de simulação e necessidade de existência de norma (geral ou específica) antielisiva para possibilitar a tributação de negócio jurídico dito indireto”, registrou que seria inviável o reexame de fatos e provas em recurso especial e assim concluiu: “Pois bem; do confronto entre o acórdão recorrido e os paradigmas formei convencimento de que há divergência de entendimento entre o acórdão recorrido e os paradigmas apresentados, especialmente quanto ao primeiro paradigma, de n°. 10614.483, que não foi objeto de recurso à CSRF.” Por fim, a Fazenda Nacional ofereceu contrarrazões (Efls. 1219 ss.), sustentando que teria sido caracterizada a simulação, devendose manter a tributação do negócio realizado, não havendo que se falar em ausência de fundamentação legal. Fl. 1259DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.260 19 Passase, então, à apreciação do recurso. Voto Vencido Conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio Relatora. Conhecimento do Recurso Especial O conhecimento do Recurso Especial condicionase ao preenchimento de requisitos enumerados pelo artigo 67 do Regimento Interno deste Conselho, que exigem analiticamente a demonstração, no prazo regulamentar do recurso de 15 dias, de (1) existência de interpretação divergente dada à legislação tributária por diferentes câmaras, turma de câmaras, turma especial ou a própria CSRF; (2) legislação interpretada de forma divergente; (3) prequestionamento da matéria, com indicação precisa das peças processuais; (4) duas decisões divergentes por matéria, sendo considerados apenas os dois primeiros paradigmas no caso de apresentação de um número maior, descartandose os demais; (5) pontos específicos dos paradigmas que divirjam daqueles presentes no acórdão recorrido; além da (6) juntada de cópia do inteiro teor dos acórdãos indicados como paradigmas, da publicação em que tenha sido divulgado ou de publicação de até 2 ementas, impressas diretamente do sítio do CARF ou do Diário Oficial da União quando retirados da internet, podendo tais ementas, alternativamente, serem reproduzidas no corpo do recurso, desde que na sua integralidade. Observase que a norma ainda determina a imprestabilidade do acórdão utilizado como paradigma que, (1) na data da admissibilidade do recurso especial, contrarie (i) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal (art. 103A da Constituição Federal); (ii) decisão judicial transitada em julgado (arts. 543B e 543C do Código de Processo Civil; (iii) Súmula ou Resolução do Pleno do CARF; ou (2) de sua interposição, tenha sido reformado na matéria que aproveitaria ao recorrente. Voltandose ao caso concreto, consideramse preenchidos os requisitos acima, nos termos dos despachos de admissibilidade, vontandose por CONHECER os dois recursos em questão. Mérito Fl. 1260DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.261 20 Ultrapassado o conhecimento dos recursos especiais, devolvese ao julgamento (i) a manutenção da exigência principal baseda na questão do conceito de simulação e necessidade de norma antielisiva e (ii) a qualificação da multa. Já me posiciono, desde já, por adoção integral do voto vencedor proferido pelo Ilustre Conselheiro Mário Junqueira Frando Junior no acórdão recorrido, que embora se referisse somente à redução da penalidade, trouxe digressão farta e subsanciosa esclarecendo a qualificação dos mesmos fatos ora analisados como simulação relativa, antes que se concluísse sobre a inexitência de intuito fraudulento. Se verificado o início do acórdão recorrido, observase que a Ilustre Conselheira Sandra Faroni fez questão de pontuar, desde o príncípio, que não estaria em questão a licitude ou ilicitude dos atos particados, mas a sua oponibilidade ao Fisco. Muito embora eu possua o entendimento de que ao administrador é dado organizar a pessoa jurídica buscando economia financeira e, assim, fiscal, não penso que esse direito – ou mesmo dever – seja ilimitado para fins de oponibilidade ao Estado, quando não se respeita a causa do negócio jurídico diante de outras normas presentes no ordenamento jurídico brasileiro que traduzem vetores nesse sentido. Vejo a presente situação contendo elementos que, malgrado não constituam ilícitos, reunidos, são capazes de demonstrar não se haver atendido a referida causa do negócio jurídico declarado, como de aumento de capital com a itenção de associação entre as empresas Nacional Administração e Participações S.A. e a SONAE, como o exíguo prazo de um dia entre o aumento de capital, a incorporação da reserva de ágio e a cisão, em que esta sociedade assumiu, ao afinal, praticamente a integralidade do negócio pretendido; a expressividade do valor do ágio de R$ 296.331.177,00 no total de R$ 300.000.000,00; o pagamento pela SONAE deste valor da totalidade do negócio, segundo o laudo de avaliação, por uma participação de cerca de 9%; para enumerar alguns fatores. Revelam, sim, ao meu ver, a possibilidade de requalificação dos fatos como efetiva integralização e incorporação da reserva de ágio para aumento do valor patrimonial, seguida de cisão, que corresponderiam a uma efetiva alienação de participações, sem tributação do ganho de capital que haveria, se realizada a compra e venda efetiva, razão pela qual, posicionandome no que tange à primeira divergência, considerase prodecente a autuação fiscal quanto ao principal. Por outro lado, agora adentrandose no recurso especial da Fazenda Nacional, também não vislumbro a possibilidade de se imputar penalidade qualificada pela operação praticada, justamente porque a própria Conselheira relatora aduz não estar trabalhando no campo da ilicitude, o que ensejou a dicussão colocada na divergência apresentada pela contribuinte. Fl. 1261DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.262 21 Mais do que isso, o Relatório de Trabalho Fiscal tratou os atos como simulação, mas não logrou demonstrar o evidente intiuito fraudulento necessário à qualificação da penalidade, cujo dolo de fazêlo é essencial. Ao meu ver, afora a insuficiência da demonstração fiscal, também não identifico dolo de fraudar ou sonegar, entendo, sim, ter havido a escolha de um caminho fiscal menos oneroso, mas que por fugir à causa do negócio jurídico, tornase inoponível ao Fisco. Dizse isso, aliás, por se tratar de operação praticada em 1999, quando a doutrina e a própria jurisprudência desse colegiado era controversa sobre a validade de operações da espécie. Como, então, imputar ilicitude à conduta da contribuinte, se nem este órgão se posicionava assim em todos os casos? Penso que não se pode imputar, desse modo, essa consciência do ilícito e dolo à contribuinte. Nesse sentido, adotase, como dito, as razões de decidir do voto vencedor do acórdão recorrido, transcrito abaixo: “VOTO VENCEDOR Conselheiro MÁRIO JUNQUEIRA FRANCO JÚNIOR, Redator Designado A questão do planejamento tributário, ou melhor, da elisão fiscal, tem provocado acirrados debates nos Conselhos de Contribuintes. Há poucos anos, o conceito conferido ao contribuinte de se autoregular era considerado como absoluto, derivado do que se convencionou chamar de princípio da legalidade estrita, o que levava à interpretação dos fatos muito mais pelo seu formalismo do que pelo seu conteúdo. Também era comum adotarse hermenêutica em face do sentido literal da norma, sem maiores avaliações do seu intuito, desprestigiandose o seu conteúdo finalístico ou teleológico. Tudo isso em prol da almejada segurança jurídica. Não são raros os pronunciamentos doutrinários e jurisprudenciais a esse respeito: (…) Hoje em dia, no entanto, mais e mais se forma a consciência da responsabilidade social do contribuinte, mormente após o advento das modificações radicais introduzidas pela Constituição Federal de 1988. O assunto tem forte matiz ideológico, porém pode e deve ser ancorado nos princípios constitucionais, que nos servem de guia na conformação dos atos praticados pelos contribuintes, vis a vis a sua liberdade de agir. A Carta Magna de 1988 traz como norte principal a vontade de contrabalançar direitos e deveres, raramente conferindo um conteúdo absoluto a qualquer direito, salvo o direito à vida. Assim é que, como exemplos, o direito à propriedade está jungido ao seu uso conforme a sua função social, enquanto o direito ao sigilo de dados e comunicações pode ser temperado pelo interesse público de investigação, desde que devidamente autorizado pelo Poder Judiciário. No campo tributário, o princípio que norteia tanto a instituição de tributos quanto a prática de atos pelo contribuinte é o da capacidade contributiva, pois Fl. 1262DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.263 22 embute aspectos de isonomia e solidariedade, dispostos nos artigos iniciais de nossa constituição. (…) Assim é que a liberdade vem de mãos dadas com a justiça e a solidariedade, impondo a todos os cidadãos e aos seus representantes, agir com responsabilidade social, fator limitador da liberdade. Por isso é que no Direito Tributário a legalidade não pode ser considerada estrita, pelo menos quando tal adjetivo vier com a acepção de que tudo é possível, desde que formalmente lícito o ato praticado. A legalidade existe e deve ser respeitada, mas no sentido da definição dos fatos geradores, pois não se vai exigir prestação pecuniária sem existir lei que tenha instituído certo tributo. Legalidade estrita não pode ter o condão de permitir atos que, embora formalmente lícitos, sejam desprovidos de propósito negociai efetivo, transgredindo o ordenamento mediante formas vazias de conteúdo, cujo único desiderato seja contornar norma impositiva tributária, fulminando o princípio da capacidade contributiva. (…) O segundo ponto a considerar é a profunda mudança no desenho do próprio texto constitucional. Esta mudança de perfil do Estado repercute, também, no âmbito da tributação, que deixa de ser vista da perspectiva do confronto entre contribuinte e Fisco — a partir do que as respectivas normas constitucionais assumem o papel de instrumentos de limitação do poder do Estado e proteções ao patrimônio do indivíduo — para ser vista como instrumento de viabilização da solidariedade no custeio do próprio Estado. Daí a necessidade contributiva ser guindada à condição de princípio geral do sistema tributário, a teor do § 1°do artigo 145 da CF. Portanto, a compreensão e a interpretação do ordenamento tributário começam, a rigor, no preâmbulo da CF/88 e desdobramse pelos princípios fundamentais, direitos e deveres individuais e coletivos até chegar ao Capítulo tributário. O sistema tributário não é o bastante em si, não existe isolado do contexto, não é o núcleo da Constituição. É parte inegavelmente relevante que encontra seu significado quando visto de fora (à luz do conjunto dos valores constitucionais) e da repercussão que a Constituição como um todo traz para este campo específico. Daí não ser absoluto o direito do contribuinte de se autoregular. Deve fazêlo tendo como contorno a capacidade contributiva, bem como o conteúdo material dos atos, e não o meramente formal. Essa linha de entendimento chega forte ao Direito Tributário, na esteira do que estabelecido nas relações privadas com a edição do novo Código Civil, pois princípios basilares do convívio em sociedade devem ser observados em nossas condutas, como o da eticidade e o da boafé objetiva, bem como privilegiando a função social do contrato. Já defendi esta posição no Acórdão 10194.741, no qual destaquei: O ordenamento jurídico tem suas bases muito mais ligadas a interpretações sistemáticas e finalísticas, a ensejar um conjunto sustentado em certa axiologia, ainda que mutável no tempo, do que a restritivas interpretações literais, que insistem em produzir a falácia de que tudo deve estar minuciosamente escrito, como se a tanto o ser humano fosse capaz. Tais interpretações restritivas, que se apóiam, indevidamente, no dito princípio da legalidade estrita e da segurança jurídica, levando ambos ao extremo e deturpando seu conteúdo, apenas fazem Fl. 1263DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.264 23 sucumbir, como num passe de mágica, a verdadeira capacidade contributiva, e eliminam, com ares de juridicidade, um dever de contribuir, inerente ao convívio em sociedade'. Para que seja lícita a economia fiscal decorrente de um conjunto de atos os mesmos devem possuir conteúdo próprio, com riscos assumidos inerente aos institutos adotados, e propósito diverso de simplesmente driblar a aplicação de norma tributária impositiva, conforme nos ensina ONOFRE ALVES BATISTA JÚNIOR, in O Planejamento Fiscal e a Interpretação no Direito Tributário, ed. Mandamentos, p.69: Para nós, em primeiro lugar, para que tivéssemos 'poupança fiscal", tornaria necessário que a hipótese resultasse de atos ou negócios lícitos, nos quais as partes, de boafé, obtivessem, racionalmente, utilidades recíprocas, sendo que o resultado não poderia ser contrário ao ordenamento jurídico tributário. A 'economia de opção', dessa forma, resultaria explicitamente da própria lei, sem atentar contra o espírito e a finalidade da norma de incidência tributária, mesmo estando fragilizada pelas deficiências da técnica legislativa. Se os atos formalmente praticados, analisados pelo seu todo, demonstram não terem as partes outro objetivo que não se livrar de uma tributação específica, e seus substratos estão alheios às finalidades dos institutos utilizados ou não correspondem a uma verdadeira vivência dos riscos envolvidos no negócio escolhido, tais atos não são oponíveis ao fisco, devendo merecer o tratamento tributário que o verdadeiro ato dissimulado produz. No caso dos autos isso é patente. Tratase de conhecido planejamento de venda de participação societária, visando afastar tributação sobre ganho de capital. Ao invés de alienação direta, recebese um novo sócio, com investimento acima do valor patrimonial, ou seja, com ágio, retirandose da sociedade incontinente o sócio mais antigo, levando consigo os valores monetários, enquanto o novo sócio permanece com as ações que originalmente pretendia adquirir. Pode ser o total da participação ou apenas parte dela, mas sempre visando escapar do ganho de capital que seda gerado na parte das ações que se pretendia alienar. Há várias formas de se implementar tal objetivo. Quando, por exemplo, as ações pertencem a pessoas físicas, normalmente conferemse as cotas em empresa de passagem (conduit company), a fim de que o ágio possa repercutir em equivalência patrimonial no novo patrimônio dos sócios. A empresa que recebe investimento com ágio, se anteriormente de responsabilidade limitada, é transformada em companhia, para que a reserva não seja tributada. Existem casos também nos quais se procede a uma "cisão branca", conferindo se ativos em uma outra empresa (drop down), sendo esta última a receptora do ágio, com subseqüente cisão. Há ainda as "cash companies", nas quais o adquirente constitui uma empresa cujo único ativo é dinheiro em caixa, permutando ações com os antigos sócios, normalmente após uma operação de separação de ativos em empresa específica, conforme antes destacado. Em todos esses exemplos, inclusive o caso dos autos, o interesse é exclusivamente de escapar à manifestação patente de capacidade contributiva, excluindo a necessária imposição da norma tributária. Não há qualquer desejo de associação verdadeira. Ou se existir, pela remanescente participação, de fato o que se quer é conferir participação maior ao adquirente daquela que ele mesmo conferiu inicialmente, em percentual sempre ínfimo, pois o restante de sua inversão se faz através de ágio, não tributável, cuja contabilização no patrimônio líquido, em conta diversa da do Fl. 1264DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.265 24 capital, beneficia a todos os antigos proprietários da empresa. Há sempre abuso na utilização do ágio como instrumental, haja vista que a não tributação dessa parcela tem como raiz a continuidade da sociedade, fomentando os negócios que lhes são próprios. No entanto, a parcela do dinheiro entregue à sociedade é sempre ato contínuo transferida ao antigo sócio, mediante cisão ou outra forma de retirada da sociedade. Toda norma tem um caráter positivo de acordo com as suas finalidades. A do ágio vem da necessidade de fomento da sociedade, pelos futuros rendimentos que esta proporcionará ao novo sócio, por isso que o valor em dinheiro entregue à empresa supera o valor patrimonial da ação adquirida. Ora, desprovido de sentido o ato de adquirir participação ínfima, com concomitante acentuado ágio, para que este valor seja retirado da empresa logo em seguida. Outro aspecto sempre presente nessas operações são as cláusulas de segurança, que evitam acabem quaisquer das partes em situação não desejada. Um primeiro sintoma dessas disposições é o fator tempo. A integralização de capital e o ágio são executados em espaço de tempo curtíssimo, senão instantaneamente, com a retirada dos antigos sócios, por cisão, permuta ou outra forma qualquer. É claro que o adquirente da companhia não quer permitir que os alienantes mantenham controle da companhia com os valores já entregues. Muitas das vezes, como no presente caso, há contratos prévios, determinando a cada uma das partes o que se irá fazer, impondolhe restrições incontornáveis à manutenção de uma verdadeira associação. Por todos esses aspectos é que considero não oponível ao fisco a forma de apresentação adotada pela contribuinte, devendo ser cobrado o tributo correspondente ao ganho de capital efetivamente existente, que traduz a verdadeira capacidade contributiva existente nos fatos apresentados. Cabe ressaltar que não se está a utilizar de analogias ou interpretações de cunho econômico. Para que essas formas de interpretações sejam aplicadas é necessário que os fatos cotejados possuam substrato econômico efetivo, com efeitos semelhantes ou idênticos. No caso, o que se está a fazer é perquirir qual o verdadeiro fato, já que não há conteúdo material pela forma apresentada, pois, como visto acima, todos os efeitos derivados da associação e do ágio conferido nunca puderam ser produzidos, seja por força contratual ou pelo mecanismo adotado na realização do negócio. Mas concluirse pela manutenção do lançamento não me parece suficiente para a qualificação da penalidade, matéria que reconheço, sujeita a sinceras controvérsias. Ocorre que podemos qualificar os atos de planejamento como os dos autos em duas figuras que implicam em dissimulação: Simulação relativa ou fraude à lei. Não havendo atos antedatados ou pósdatados, ou falsidade material nos documentos apresentados, afasto de antemão a figura da simulação absoluta, à luz do que dispunha o Código Civil de 1916, vigente à época dos fatos apontados na autuação, bem como pelos contornos das novas regras do Código Civil de 2002. A questão fica vinculada ou à dissociação da vontade externada com dissimulação, ou ao interesse restrito na obtenção do benefício tributário através do negócio jurídico querido e formalizado, porém para mero contorno de norma imperativa. A simulação relativa representa a dissimulação pura e simples de um fato. Não existe mais nada além do ato dissimulado. Fl. 1265DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.266 25 O MINISTRO MOREIRA ALVES assim define a simulação relativa, in Anais do Seminário Internacional sobre Elisão Fiscal, ESAF, Brasília, 2002, p. 64: (…) A fraude à lei, por seu turno, é um drible na norma imperativa. Exemplo clássico é citado por MARCO AURÉLIO GRECO na obra supracitada, no qual um contribuinte, impossibilitado de importar um veículo por expressa vedação legal, importa todas as peças para produzilo, pois havia permissão para importação de peças visando reposição dos veículos importados antes da vedação. O objetivo era importar um carro, e foi alcançado através de um drible no ordenamento, utilizandose de uma norma que tinha fins diversos ao pretendido pelo contribuinte, o qual era em verdade expressamente vedado. É a burla ao ordenamento; aos seus fins. (…) Também nesses casos se trata de ato ou negocio jurídico querido ou de complexo de atos ou negócios jurídicos queridos, havendo coincidência entre a vontade e a sua manifestação, ao contrário do que ocorre na simulação. Tenho dificuldades em afirmar, de forma peremptória, em qual categoria estaria um planejamento como o do caso em tela, embora me incline para a simulação relativa, pois o negócio jurídico praticado não foi desejado pelas partes. Não houve interesse na associação. Houve interesse de alienação das ações. Nos exemplos acima de fraude à lei o negócio é sempre desejado: importar peças para fazer um carro ou doar dinheiro. Entretanto, foram realizados de maneira a burlar a norma. No entanto, percebo no caso desse processo todos os elementos que compõem os institutos. Há dissimulação, falta de substância na forma escolhida, cláusulas de segurança quanto à produção de efeitos diversos dos verdadeiramente pretendidos etc. O drible na imposição tributária também está presente. Ou seja, em matéria tributária, tirante a simulação absoluta, que se externa pela falsidade material ou ideológica dos atos praticados, os vícios das patologias de fraude à lei e simulação relativa muita das vezes se confundem, podendose vislumbrar, igualmente, abuso na utilização dos institutos, pois em dissonância com as suas inerentes finalidades. Por esse motivo, devo analisar a imposição da penalidade qualificada em cada um dos vícios supramencionados, já que, no meu entender, está só seria aplicável, no momento atual, em casos de simulação absoluta. Faço uso da expressão "no momento atual", pois não posso conceber que diante de tanta divergência doutrinária e jurisprudencial acerca do ato praticado pelo contribuinte, possamos, vários anos após a sua execução, eleválo a status de crime de sonegação fiscal. Vale ressaltar que, até mesmo nos dias atuais, há correntes a defender tratarse meramente de um negócio jurídico indireto, cuja licitude é avaliada tão somente pela forma de apresentação dos atos, sem análise da existência de qualquer conteúdo ou finalidade. Cito como exemplo o Acórdão 10614.483, do ano passado: "GANHO DE CAPITAL. SIMULAÇÃO. PROVA. A ação do contribuinte de procurar reduzir a carga tributária por meio de procedimentos lícitos, legítimos e admitidos por lei releva o planejamento tributário. Para a invalidação dos atos ou negócios jurídicos realizados, cabe à autoridade fiscal a ocorrência do fato gerador ou que o contribuinte tenha usado de estratagema para revestilo Fl. 1266DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.267 26 de outra forma. Não havendo impedimento legal para a realização das doações, ainda que delas tenha resultado a redução de ganho de capital produzido pela alienação das ações recebidas, não há como qualificar a operação de simulada. A reduzida permanência das ações no patrimônio dos donatários/doadores e doadores/donatários, por si só, não autoriza a conclusão de que os atos e negócios jurídicos foram simulados. No anocalendário de 1997 não havia a incidência de imposto sobre ganho de capital produzido pela diferença entre o custo de aquisição pelo qual o bem foi doado e o valor de mercado atribuído no retorno do mesmo bem." Tratavase de doação feito pelo filho ao pai, com imediata antecipação de legítima feita pelo pai, esta por valor de mercado, possibilitando a alienação sem posterior ganho de capital. A análise feita pela colenda Sexta Câmara indica forte entendimento no sentido dos aspectos formais, pois norma antielisiva específica só foi editada posteriormente, demonstrando convicção de que o planejamento pode existir se não houver expressa vedação legal, mesmo que o imediatismo das operações pudesse extemar o intuito meramente tributário das doações realizadas. Assim, nesse ambiente de conflito doutrinário, não há dificuldades a um contribuinte em ancorar seu procedimento em precedentes jurisprudenciais, nem tampouco de obter pareceres de juristas de escol a fundamentar sua pretensão. Alicerçar o lançamento na nova doutrina da interpretação dos fatos, privilegiando a verificação da verdadeira capacidade contributiva, não pode enveredar a ação fiscal para conclamar a aplicação da penalidade qualificada. Aplicase à espécie, sem pretensões de maiores conhecimentos no campo de Direito Penal, o denominado erro de proibição, a afastar, pela razoabilidade do desconhecimento da ilicitude do ato praticado, punibilidade diversa daquela do simples retardar no recolhimento do tributo, ou seja, a multa de lançamento de ofício de 75%. O erro de proibição está assim definido por LUIZ REGIS PRADO, in Elementos de Direito Penal, vol. 1, Ed. RT, 2005, p.132: Erro sobre a ilicitude do fato (erro de proibição). "O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminuíIa de um sexto a um terço art. 21, CPC). Tratase de erro que tem por objeto a proibição jurídica do fato. É dizer: o agente perde, em decorrência de erro de proibição, a compreensão da ilicitude do fato. Constitui o lado oposto da consciência do injusto: supõe erroneamente que atua de forma lícita, conforme a norma, v.g., o agente acredita que ter em depósito cocaína não é vedado. A diferença decisiva entre erro sobre os elementos do tipo e erro sobre a ilicitude do fato "não se refere à oposição fatoconceito jurídico, mas sim à diferença tooilicitude". Assim, quem se apodera de coisa alheia, que erroneamente considera sua, encontrase em erro de tipo, pois não sabe que subtrai coisa alheia; mas quem acredita ter direito de fazer justiça pelas próprias mãos e se apodera de coisa alheia (caso do credor/devedor insolvente), encontrase em erro de proibição, sobre a ilicitude de sua conduta... Percebase a justificativa que tem um contribuinte, ao pesquisar a jurisprudência vacilante e a doutrina divergente, em considerar que estava agindo licitamente. Há pouco tempo, inclusive, prevalecia o entendimento de que a adoção de formas lícitas era suficiente para garantir a economia tributária visada com a seqüência de atos, independentemente do seu tempo ou ausência de qualquer outro propósito negocial. Inaceitável a qualificação da multa, principalmente para atos praticados há Fl. 1267DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.268 27 muitos anos, quando ainda incipientes as discussões a respeito das patologias que tomam não oponível ao fisco determinado planejamento tributário. Talvez não tenha sido outra a razão da edição dos artigos 13 a 19 da MP 66/2002, que exigia apenas a penalidade moratória, após a requalificação dos fatos, conforme abaixo: (…) Tal dispositivo, infelizmente, deixou de ser convertido em regra procedimental específica para lançamentos desse tipo, o que poderia ter em muito beneficiado o relacionamento do fisco com o contribuinte, estabelecendo contraditório antecipado das razões do ato, e oportunizando o recolhimento do tributo com apenas acréscimos moratórios. Para aqueles que entendem existir fraude à lei, vale destacar que esta não se confunde com a fraude criminal, conforme novamente nos ensina MARCO AURÉLI GRECO, op. cit., pp. 223 e 230: ...podem ser identificadas duas situações distintas às quais a palavra "fraude pode se referir: 1) a fraude à lei, em que há atos lícitos e violação indireta ao ordenamento como um todo e frustração da sua imperatividade; e 2) a fraude contra o Fisco em que a conduta agride diretamente uma norma que assegura um direito ou crédito do Fisco — existente ou em curso de formação — de modo a escondêlo ou impedir seu surgimento. Se não houve intuito de enganar, esconder, iludir, mas se, pelo contrário, o contribuinte agiu de forma clara, deixando explícitos seus atos e negócios, de modo a permitir a ampla fiscalização pela autoridade fazendária, e se agiu na convicção e certeza de que seus atos tinham determinado perfil legalmente protegido — que levava ao enquadramento em regime ou previsão legal tributariamente mais favorável — não se trata de caso regulado pelo inciso II do artigo 44, mas sim de divergência de qualificação jurídica dos fatos; hipótese completamente distinta da fraude a que se refere o dispositivo. Ora, todas as operações realizadas foram devidamente informadas pelo contribuinte, com as devidas declarações e registros contábeis, inclusive a declaração da cisão realizada. O Fisco não teve qualquer dificuldade em apurar os elementos do negócio realizado, e devidamente qualificálo, para exigir o tributo devido. Esse mesmo entendimento foi esposado pela colenda Terceira Câmara, em caso do planejamento denominado "incorporação às avessas", conforme excerto do voto condutor do Acórdão 10321047/2002: Verificada a impropriedade, para efeitos fiscais, da incorporação realizada, pois contaminada por vício de simulação, fica obstada a compensação de prejuízos oriundos da empresa SUPREMA S/A, tornandose inócua a preliminar suscitada que, por isso, deve ser rejeitada. No que concerne à penalidade imposta, esta foi a cominada no art. 992, inc. II, do RIR/94, aplicável "nos casos de evidente intuito de fraude, definidos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4502, de 30 de novembro de 1964", os quais, expressamente, contemplam hipóteses de intenção dolosa do agente, a saber: "Art. 71 Soneqação é toda ação ou omissão dolosa." "Art. 72 Fraude é toda ação ou omissão dolosa.." "Art. 73 Conluio é o ajuste doloso." O comando legal que remete aos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4502/64, delimita a aplicação da multa agravada aos casos de evidente intuito de fraude. A "evidência" indicada na lei exige que o intuito de fraude aflore com tal clareza que não se possa pôr em dúvida ter havido máfé nos atos praticados, com inequívoco propósito de violar disposição legal. Fl. 1268DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.269 28 A matéria objeto destes autos compreende caso de "simulação relativa" ou "dissimulação", e a doutrina maciçamente alerta para a dificuldade de definir, com precisão, a linha fronteiriça que separa o ato elisivo do negócio dissimulado. Também é comum recomendação de cautela, por parte do intérprete e aplicador da lei, pelas dificuldades práticas de se concluir por hipótese de evasão ou elisão, pois é insuficiente o elemento temporal (antes ou depois de ocorrência do fato gerador), especialmente em casos de simulação relativa, cuja determinação vinculase, via de regra, a fatos, indícios e presunções, por isso que cada situação deve ser analisada isoladamente. Em face de tais circunstâncias, vejome diante de muitas dificuldades para caracterizar a "evidência" exigida pela lei, cumulada com o "intuito de fraude" (este de caráter manifestamente subjetivo), pelas seguintes razões: as empresas envolvidas nas operações acoimadas de simulatórias são todas sociedades anônimas, em razão do que os atos praticados impõem divulgação e registro nos órgãos públicos, o que foi feito; todas as operações estavam devidamente lançadas na escrituração comercial e fiscal, não se vislumbrando qualquer hipótese de ocultação ou resistência a fornecimento de informações ou documentos solicitados pela Fiscalização; foram cumpridas, junto à Receita Federal e demais órgãos públicos, as formalidades próprias aos atos de incorporação. O que não padece de dúvidas é a intenção do contribuinte em economizar imposto, tendo ele praticado todos os atos que entendeu válidos, na forma da lei. Se conseguiu o "desideratum" é outro aspecto da questão, mas dai a afirmarse estar configurado um "evidente" intuito de fraude há, no meu juízo, um considerável distanciamento. Em assim sendo, não se pode olvidar que o Código Tributário Nacional, em seu Livro II Normas Gerais de Direito Tributário, no capítulo IV que trata da Interpretação e Integração da Legislação Tributária, achase incluído no art. 112, que dispõe: (…) Em face das diretrizes estabelecidas pelo art. 112 do CTN, acima transcrito, e ante as circunstâncias apontadas, entendo não estar configurada a evidência do intuito de fraude, exigência legal para agravamento da penalidade, a recomendar a aplicação da multa destinada às infrações. Brilhante o raciocínio desenvolvido pelo nobre Relator do aresto apontado. De fato, em circunstância envolvendo planejamento tributário, na qual o contribuinte registra todos os seus atos, cumpre todas as obrigações acessórias, dando pleno conhecimento ao fisco de sua atividade, impertinente a aplicação da pena qualificada, pois a regra de interpretação da imposição da multa há de se amoldar ao inciso IV do artigo 112 do CTN, mormente quando existam conflitantes e respeitáveis correntes doutrinárias e precedentes jurisprudenciais. Pelo exposto, peço vênias à Conselheira Relatora, para divergir do seu brilhante voto, mas apenas quanto à qualificação da penalidade, a qual reduzo para o percentual de 75%. É como voto.” (grifouse) Por essas razões, votase por NEGAR PROVIMENTO aos recursos da contribuinte e Fazenda Nacional, mantendose a autuação quanto ao principal e a desqualificação da multa, como feito pelo acórdão recorrido. Fl. 1269DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.270 29 (assinado digitalmente) Daniele Souto Rodrigues Amadio Voto Vencedor Conselheiro André Mendes de Moura, Redator Designado. Não obstante o substancioso voto da I. Relatora, manifesto minha divergência em relação ao mérito do recurso especial da PGFN, que versa sobre a qualificação da multa de ofício. A situação versa sobre a alienação de 100% das ações da NACIONAL SUPERMERCADOS (NSA), detidas pela NACIONAL ADMINISTRAÇÃO E PARTICIPAÇÕES (NAP), para ao grupo SONAE. Contudo, a operacionalização do negócio não se deu mediante operação regular entre adquirente e alienante, no qual o primeiro pago o preço para o segundo. Pelo contrário, ocorreu mediantes eventos permeados de particularidades. Vale transcrever excerto do Termo de Verificação Fiscal: Em conformidade com item 1.1 do referido contrato, o objetivo do mesmo seria disciplinar a associação da NAP com o Grupo SONAEITA visando á operação conjunta da rede de supermercados e hipermercados pertencentes aos dois grupos econômicos, a ser implementada a partir de 01/04/99. De acordo com as cláusulas 2.1 e 2.13 do contrato (folhas 91 e 96), para implementação da associação, NAP transferiria a totalidade das ações que detinha na empresa NACIONAL SUPERMERCADOS S/A, doravante denominada de NACIONAL SUPERMERCADOS, para a empresa Sonae Distribuição Brasil S.A, doravante denominada de SONAE. Em decorrência desta transferência o SONAE pagaria R$ 300.000.000,00 a NAP. Por outro lado, a partir da implementação da associação, a NAP passa a ter participação no capital do SONAE equivalente a 17,56%. Por esta participação, NAP pagaria R$ 120.000.000,00 ao SONAE. (...) Cabe ainda destacar que a cláusula 2.13 do Contrato de Associação (folhas 96 a 98) estabelece o mecanismo de constituição da associação a ser utilizado para garantir a eficiência financeira e fiscal para ambas as partes. As etapas e Fl. 1270DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.271 30 procedimentos que levariam a esta eficiência financeira e fiscal a serem implementadas são: (...) c) Aumento de capital de NACIONAL SUPERMERCADOS, no valor total de R$300.000.000,00, a ser subscrito e integralizado pelo SONAE; d) Cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS, imediatamente após o aumento de capital referido no item anterior, com versão do Caixa para NAP, permanecendo o SONAE com 100% da sociedade cindida; e) Aumento de capital no SONAE, no valor total de R$ 120.000.000,00, a ser subscrito e integralizado por NAP que assim passará a deter 17.56% das ações ordinárias do SONAE. Vale verificar os contornos que foram assumidos na transação de compra e venda (NAP alienante, NSA investimento e SONAE adquirente), tudo para afastar a tributação de ganho de capital. O que se observa é que o adquirente (SONAE) aumentou o capital do investimento para R$300 milhões, na sequência houve uma cisão do investimento, no qual precisamente o caixa foi vertido para o alienante (NAP) e a participação societária foi vertida para a adquirente (NSA). Como dizer que os negócios entabulados não foram efetuados com plena consciência das partes? Transcrevo mais um excerto do Termo de Verificação Fiscal: A Ata da AGE de 31/03/1999 (folhas 73 a 78) quer fazer crer que o SONAE pagou R$300.000.000,00 para adquirir 9,96% da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS, quando o contrato de associação (folhas 87 a 202) firmado em 29/0111999 e o Laudo de Avaliação Econômico (folhas 306 a 380) produzido por Artur Andersen apontam este como sendo este o valor de 100% da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS. O que levaria o SONAE a pagar o valor correspondente a 100% de uma companhia por apenas 9,96% do seu capital social? Consideramos que tal procedimento somente foi adotado pelo SONAE pela certeza de estar adquirindo por este valor (R$ 300.000.000,00) a totalidade da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS. E esta certeza decorre do contrato de associação firmado com a NAP em 29/01/1999 que lhe garantia que, após a integralização de capital com ágio, a empresa NACIONAL SUPERMERCADOS seria cindida parcialmente, cabendo ao SONAE o controle acionário integral de NACIONAL SUPERMERCADOS. E isto de fato ocorreu. No dia seguinte (01/04/1999), houve a cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS. Em Fl. 1271DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.272 31 decorrência desta cisão, NAP se retira da sociedade, recebendo os R$300.000.000,00 pagos pelo SONAE e o SONAE passa a ser o único proprietário de NACIONAL SUPERMERCADOS. De que forma aceitar como verdadeiro instrumento representativo de ato jurídico que estabelece que NAP receberia, em 01/04/1999, R$ 300.000.000,00 em decorrência da cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS, quando está documentalmente comprovado que parte deste valor (R$ 180.000.000,00) já havia sido repassada para NAP em 31/03/1999? Portanto, consideramos que fica inquestionavelmente demonstrado que o objetivo do negócio foi à aquisição, pelo SONAE, das atividades de varejo do NACIONAL SUPERMERCADOS, incluindo suas instalações, estoques e créditos, deduzidos as dividas e obrigações relacionadas com estas atividades, como está definido no contrato de associação, firmado em 29/01/1999. O aumento de capital social com ágio e a posterior cisão parcial do NACIONAL SUPERMERCADOS foram meros instrumentos utilizados para implementar o verdadeiro negócio com o intuito de iludir um terceiro (no caso o Fisco) e evitar o pagamento de tributos, caracterizando a simulação. Resta ainda mais evidente a tentativa de ser mascarar a real intenção do negócio ao verificar que a SONAE pagou o valor correspondente a 100% do investimento (NSA) por apenas 9,96% do seu capital social. Mas tal percentual era fictício, tendo em vista que no dia seguinte a NSA foi cindida, 100% da sua participação foi vertida para a SONAE, e para a alienante (NAP) foi vertido o caixa. A fratura é exposta. Já me manifestei sobre o assunto no Acõrdão nº 9101002.953, da sessão de 03 de julho de 2017. A interpretação de que as operações foram legais, transparentes, e por isso não poderiam ser opostas ao Fisco, reflete uma visão ultrapassada do ordenamento jurídico como um todo. Ora, não é porque a operação foi legal no âmbito civil, empresarial, que se reveste de uma blindagem que a torna insuscetível de análise por outros ramos do direito. Se passa a ser apreciada sob a perspectiva tributária, para ser legal, também deve atender à norma tributária. E colocar princípios como a livre liberdade negocial no topo da pirâmide dos princípios constitucionais tampouco socorre a Contribuinte. A Lei Maior tem vários princípios, que devem ser ponderados. De fato a liberdade negocial é princípio a ser respeitado, mas deve caminhar ao lado de outros princípios da Lei Maior, que zelam pela existência e manutenção do Estado. O princípio de legalidade não implica que, se o negócio foi celebrado em consonância com a lei civil e empresarial encontrase blindado dos outro ramos normativos. Fl. 1272DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.273 32 Pelo contrário, o princípio da legalidade abrange o ordenamento jurídico em sua integralidade. Para ser legal, o negócio jurídico tem que ser legal sob a ótica de todos os ramos do direito. Nessa perspectiva, a legislação tributária é clara ao contestar a ocorrência de negócios eivados de dolo, fraude ou simulação. É dispositivo positivado no art. 149, inciso VII do CTN 1. Da mesma maneira, é expressa na legislação que negócios envolvendo ocorrência de dolo ensejam qualificação da multa de ofício 2, na forma da sonegação, fraude ou conluio 3. Apreciandose o caso concreto, impossível não se deparar com o plus na conduta. Não se trata de mero descumprimento da norma. Verificase a presença dos elementos cognitivo e volitivo4, consumandose o dolo. Ora, o plus na conduta é evidente, ultrapassando o tipo objetivo da norma tributária. Não se trata de mero descumprimento do dispositivo legal. Verificase a presença dos elementos cognitivo e volitivo, consumandose o dolo, cuja definição é apresentada com clareza por CEZAR ROBERTO BITENCOURT5. Não há que se tolerar o desvirtuamento dos institutos jurídicos. Legalidade não é dizer que se o negócio jurídico é legal para um ramo do direito encontrase intocável para todo o ordenamento jurídico. Legalidade é verificar se o negócio jurídico é legal sob o âmbito 1 Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: (...) VII quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; 2 Vide Lei nº 9.430, de 1996: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (...) § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) 3 Vide Lei nº 4.502, de 1964: Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. 4 Ver BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal : parte geral, volume 1, 11ª ed. São Paulo : Saraiva, 2007, p. 269: Para a configuração do dolo exigese a consciência daquilo que esse pretende praticar. Essa consciência deve ser atual, isto é, deve estar presente no momento da ação, quando ela está sendo realizada. (...)A vontade, incondicionada, deve abranger a ação ou omissão (conduta), o resultado e o nexo causal. A vontade pressupõe a previsão, isto é, a representação, na medida em que é impossível querer algo conscientemente senão aquilo que se previu ou representou na nossa mente, pelo menos, parcialmente. 5 Fl. 1273DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.274 33 de todo o direito. Princípio da liberdade negocial não se encontra no topo da pirâmide constitucional, mas caminha ao lado do princípio da legalidade (que predica a apreciação do ordenamento jurídico de maneira integrada), e dos princípios que zelam pela manutenção do Estado, com a capacidade contribuinte e isonomia entre contribuintes. Não há reparos a fazer, portanto, no entendimento da Fiscalização, quando decidiu pela qualificação da multa de ofício, com base nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964, conforme Termo de Verificação Fiscal: Como já ficou amplamente demonstrado, a forma como o negócio entre a NAP e o SONAE foi formalizado demonstra de forma inequívoca a intenção de "impedir (...) o conhecimento por parte da autoridade fazendário da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária", configurandose assim a sonegação definida no art. 71 da Lei 4.502/64. Além disto, a forma dada ao negócio teve ainda o objetivo de "modificar as suas características essenciais (do fato gerador) de modo a reduzir o montante do imposto devido ou a evitar ou diferir o seu pagamento", caracterizando assim a fraude definida no art. 72 da mesma Lei. Finalmente, o conluio definido no art. 73 fica caracterizado pelo fato de todos os atos simulados terem envolvido duas empresas e seus diretores — a NAP e o SONAE. Isto sem falar nos fortes indícios de conluio também em relação aos peritos contratados para elaboração de laudos encomendados, de forma a tentar revestir a operação das formalidades legais necessárias. Deve, nesse contexto, ser reformada a decisão recorrida, para se restabelecer a qualificação da multa de ofício (150%). Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso especial da PGFN. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Fl. 1274DF CARF MF
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Numero do processo: 10945.007148/2007-43
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Apr 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Período de apuração: 01/01/2002 a 30/06/2004
DCTF. ATRASO NA ENTREGA. COMPROVAÇÃO DA ENTREGA DAS DECLARAÇÕES. APLICAÇÃO DA PENALIDADE.
Adimplida a entrega tempestiva das Declarações, após intimação do SECAT, torna-se cabível a exoneração das multas atinentes aos períodos solicitados pelo Fisco. Noutro giro, comprovada a sujeição do contribuinte à obrigação, o descumprimento desta ou seu cumprimento em atraso enseja a aplicação das penalidades previstas na legislação de regência.
DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. RESPONSABILIDADE OBJETIVA
O caráter punitivo da reprimenda obedece a natureza objetiva. Ou seja, queda-se alheia à intenção do contribuinte ou ao eventual prejuízo derivado de inobservância às regras formais.
Recurso Voluntário Provido em Parte
Crédito Tributário Mantido em Parte
Numero da decisão: 1002-000.110
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para excluir as multas dos anos-calendário 2002, 2003 e 1º e 2º Trimestres de 2004, vencido o conselheiro Júlio Lima Souza Martins, que lhe negou provimento.
Julio Lima Souza Martins - Presidente.
Breno do Carmo Moreira Vieira - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Julio Lima Souza Martins (presidente da turma), Breno do Carmo Moreira Vieira, Ailton Neves da Silva e Leonam Rocha de Medeiros
Nome do relator: BRENO DO CARMO MOREIRA VIEIRA
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ementa_s : Assunto: Obrigações Acessórias Período de apuração: 01/01/2002 a 30/06/2004 DCTF. ATRASO NA ENTREGA. COMPROVAÇÃO DA ENTREGA DAS DECLARAÇÕES. APLICAÇÃO DA PENALIDADE. Adimplida a entrega tempestiva das Declarações, após intimação do SECAT, torna-se cabível a exoneração das multas atinentes aos períodos solicitados pelo Fisco. Noutro giro, comprovada a sujeição do contribuinte à obrigação, o descumprimento desta ou seu cumprimento em atraso enseja a aplicação das penalidades previstas na legislação de regência. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. RESPONSABILIDADE OBJETIVA O caráter punitivo da reprimenda obedece a natureza objetiva. Ou seja, queda-se alheia à intenção do contribuinte ou ao eventual prejuízo derivado de inobservância às regras formais. Recurso Voluntário Provido em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte
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DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. EXCLUSÃO DO SIMPLES Recorrente FRONTEIRA OUTDOOR LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 01/01/2002 a 30/06/2004 DCTF. ATRASO NA ENTREGA. COMPROVAÇÃO DA ENTREGA DAS DECLARAÇÕES. APLICAÇÃO DA PENALIDADE. Adimplida a entrega tempestiva das Declarações, após intimação do SECAT, tornase cabível a exoneração das multas atinentes aos períodos solicitados pelo Fisco. Noutro giro, comprovada a sujeição do contribuinte à obrigação, o descumprimento desta ou seu cumprimento em atraso enseja a aplicação das penalidades previstas na legislação de regência. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. RESPONSABILIDADE OBJETIVA O caráter punitivo da reprimenda obedece a natureza objetiva. Ou seja, quedase alheia à intenção do contribuinte ou ao eventual prejuízo derivado de inobservância às regras formais. Recurso Voluntário Provido em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para excluir as multas dos anoscalendário 2002, 2003 e 1º e 2º AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 94 5. 00 71 48 /2 00 7- 43 Fl. 66DF CARF MF 2 Trimestres de 2004, vencido o conselheiro Júlio Lima Souza Martins, que lhe negou provimento. Julio Lima Souza Martins Presidente. Breno do Carmo Moreira Vieira Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Julio Lima Souza Martins (presidente da turma), Breno do Carmo Moreira Vieira, Ailton Neves da Silva e Leonam Rocha de Medeiros Relatório Tratase de Recurso Voluntário (efls. 60 à 62) interposto contra o Acórdão n° 0626.850, proferido pela 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Curitiba/PR (efls. 53 à 55), que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação apresentada pela ora Recorrente. Decisão essa ementada nos seguintes termos: Período de apuração: 01/01/2002 a 30/06/2004 SIMPLES. EXCLUSÃO. DCTF. APRESENTAÇÃO. OBRIGATORIEDADE. Os efeitos da exclusão do Simples são produzidos a partir da data fixada na lei para cada uma das hipóteses cuja ocorrência obriga a exclusão, sujeitando o contribuinte ao cumprimento das obrigações daí provenientes. DECLARAÇÃO DE DÉBITOS E CRÉDITOS TRIBUTÁRIos FEDERAIS DCTF. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA. A pessoa jurídica que, obrigada à entrega da DCTF, a apresenta fora do prazo legal, está sujeita à multa estabelecida na legislação de regência. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Os argumentos apresentados na Impugnação são reiterados em sede de Recurso Voluntário, de modo que pretende a Contribuinte o afastamento da multa por descumprimento de obrigação acessória (decorrente do atraso na entrega da DCTF). Entende que, estando enquadrada no SIMPLES, o adimplemento de suas obrigações se prenderia estritamente àquelas demandas previstas em lei. Para melhor acurácia, valhome da transcrição dos principais trechos do indigitado Recurso: DOS FATOS Tornandose definitiva a exclusão da empresa do Regime de Tributação Simplificado SIMPLES FEDERAL em 02 de agosto de 2004, com efeito retroativo a data de 01/01/2002, a Fl. 67DF CARF MF Processo nº 10945.007148/200743 Acórdão n.º 1002000.110 S1C0T2 Fl. 3 3 empresa foi INTIMADA em 09/01/2007 através da INTIMAÇÃO SECAT n°. 001/2007 a entregar dentre outras declarações as DCTFs devidas a partir de 01/01/2002 até 30/06/2004, sob pena de lançamentos de oficio, como dispõe o art. 841 do Decreto 3000/99, bem como na aplicação de outras sanções previstas na legislação em especial nos art. 964 e 968, do dispositivo legal anteriormente citado e no art. 1° inciso I, no art. 2°, inciso I da lei 8.137/90. Em 05/11/2007 a empresa deparouse com outra situação inesperada, foi autuada através dos Autos de Infração n°. 720771387, 720771395, 720771400, pela entrega em atraso da DCTF dos mesmos períodos citados no parágrafo anterior, perfazendose um total de R$18.883,44 (dezoito mil, oitocentos e oitenta e três reais e quarenta e quatro centavos). DO DIREITO O mérito ora discutido não é referente a uma situação de descumprimento de uma obrigação acessória rotineira, por esquecimento ou por falhas técnicas e sim um desenquadramento de uma sistemática de tributação, notificada dois anos após os fatos ocorridos. Enquanto optante pela forma de tributação simplificada, tinha respaldo no art. 3° da Instrução Normativa da SRF n°. 126 de 30/10/1998 in verbis “Art. 39 Estão dispensadas da apresentação da DCTF, ressalvado o disposto no parágrafo único deste artigo: I as microempresas e empresas de pequeno porte enquadradas no regime do Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte SIMPLES” É descabível a idéia de que devemos entregar declarações apenas por precaução, sem previsão legal, no intuito de resguardarnos no caso de uma situação de obrigação futura, porque da forma como esta autuação está sendo tratada, nos leva a concluir que as pessoas jurídicas optantes pela tributação simplificada, deverão tomar este tipo de precaução. A empresa foi penalizada através da exclusão do regime simplificado, e todas as obrigações impostas pela nova sistemática foi totalmente cumprida, inclusive foi notificada a recolher as diferenças apresentadas pela nova sistemática, e não lhe restou outra alternativa a não ser assumir um parcelamento dos tributos para assim não comprometer os ativos destinados a subsistência diária e de obrigações com terceiros. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante dos fatos aqui apresentados concluise que a empresa cumpriu rigorosamente a exigência da Lei quanto a Fl. 68DF CARF MF 4 apresentação das Declarações obrigatórias à época, mesmo sendo fato imposto com retroatividade, não contestou se deveria entregar as declarações, apenas cumpriu a intimação. Em estando enquadrada no Regime Simplificado não tinha obrigação de apresentar outras declarações se não aquelas exigidas ao seu regime de tributação, e que portanto não pode ser penalizada ao pagamento de multas, uma vez cumpriu suas obrigações. A multa ora questionada tratase de um fato oriundo da exclusão do Simples Federal, e não em um descumprimento de obrigação acessória sendo humanamente impossível atender uma intimação do fisco sem incorrer em outra infração. Quando atendeu intimação para entrega das declarações em tempo hábil, teve o intuito de ficar regular com suas novas obrigações, porém, esta sendo penalizada pela sua regularização. Concluise então que em face desta situação, o fisco não dá opções ao contribuinte, atendendo ou não a legislação ele é penalizado e que neste momento não estamos pedindo aos agentes do fisco e aos julgadores nenhuma desobediência ao dispositivo legal, e sim a aplicação dos princípios racionais do direito, levando em conta que a todo momento a intenção do contribuinte é atender ao fisco sem ser penalizado. Grifo nosso. É o relatório. Voto Conselheiro Breno do Carmo Moreira Relator .O presente Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Passo à análise dos pontos suscitados no Recurso. Das DCTFs entregues à autoridade fiscal Conforme intimação SECAT n° 001/2007 (efls. 28), recebida em 09/01/2007, a autoridade fiscal solicitou a apresentação dos recibos de entrega das Declarações (DCTF e DIPJ), relativa aos exercícios de 2003 à 2006 (anoscalendário de 2002 à 2005), no prazo de 30 (trinta) dias. Parte das indigitadas DCTFs foram tempestivamente apresentadas em 09/02/2007, segundo demonstra protocolo online descrito como "declaração recebida via internet pelo Agente Receptor SERPRO" (efls. 16 à 25), a exemplo: Fl. 69DF CARF MF Processo nº 10945.007148/200743 Acórdão n.º 1002000.110 S1C0T2 Fl. 4 5 Impende destacar, portanto, que toda documentação apresentada até 09/02/2007 merece ser considerada válida e tempestiva, devendo o valor da multa a ela inerente ser afastado, conforme exponho abaixo: Anocalendário 2002 (1°, 2°, 3° e 4° Trimestres) Apresentou em 09/02/2007 Anocalendário 2003 (1°, 2°, 3° e 4° Trimestres) Apresentou em 09/02/2007 Anocalendário 2004 (1° e 2° Trimestres) Apresentou em 09/02/2007 Noutro giro, devem ser mantidas as multas inerentes às DCTFs apresentadas posteriormente à data de 09/02/2007. Nesse espeque, duas normas administrativas (IN SRF 126/98; IN SRF 255/02) mantiveram a obrigatoriedade da apresentação da DCTF àquelas empresas excluídas do SIMPLES, dentre outras diversas situações. IN SRF 126/98 Art. 2° A partir do anocalendário de 1999, as pessoas jurídicas, inclusive as equiparadas, deverão apresentar, trimestralmente, a DCTF, de forma centralizada, pela matriz. (...) Art. 3° Estão dispensadas da apresentação da DCTF, ressalvado o disposto no parágrafo único deste artigo: Parágrafo único. Não está dispensada da apresentação da DCTF, a pessoa jurídica: I excluída do SIMPLES, a partir do 1o trimestre do ano subseqüente ao da exclusão; IN SRF 255/02 Art. 3º Estão dispensadas da apresentação da DCTF: I as microempresas e empresas de pequeno porte enquadradas no regime do Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Simples), relativamente aos trimestres abrangidos por esse sistema; II as pessoas jurídicas imunes e isentas, cujo valor mensal de impostos e contribuições a declarar na DCTF seja inferior a R$ 10.000,00 (dez mil reais); § 1º Não está dispensada da apresentação da DCTF, a pessoa jurídica: Fl. 70DF CARF MF 6 I excluída do Simples, a partir, inclusive, do trimestre que compreender o mês em que a exclusão surtir seus efeitos; Rememorase que, tanto na instituição, quanto na aplicação da multa pelo não cumprimento da obrigação acessória, a base legal do lançamento consta no referido artigo 7º da Lei nº 10.426, de 2002, o qual criou uma regra específica de sanção para o descumprimento da obrigação relativa às declarações DIPJ, DCTF, DIRF e DACON. Por fim, assevero que a própria natureza da obrigação acessória representa um viés autônomo do tributo cobrado. Nessa trilha, quando se descumpre a indigitada obrigação, nasce um direito autônomo à cobrança, pois pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal, relativamente à penalidade pecuniária (art. 113, § 3°, do CTN). Conclusão Com tudo o que foi exposto nos tópicos anteriores, resta claro que os argumentos esposados pela Recorrente não merecem ser acolhidos. Portanto, VOTO pelo PARCIAL PROVIMENTO do Recurso Voluntário, com a consequente exclusão da multa aplicada aos anoscalendários de 2002 e 2003, e 1° e 2° Trimestres do anocalendário de 2004. Breno do Carmo Moreira Vieira Relator Fl. 71DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13984.000390/00-15
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Feb 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Ano-calendário: 1995
IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. LEI Nº 9.363/96. AQUISIÇÃO A PESSOAS FÍSICAS E COOPERATIVAS.
O Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento, sob a sistemática do recurso repetitivo previsto no art. 543-C do CPC, de que o condicionamento do incentivo fiscal aos insumos adquiridos de fornecedores sujeitos à tributação pelo PIS e pela Cofins criado via instrução normativa exorbita os limites impostos pela lei ordinária.
CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. INCIDÊNCIA DA TAXA SELIC.
É devida a correção monetária ao creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco (Súmula nº 411/STJ). Em tais casos, a correção monetária, pela taxa SELIC, deve ser contada a partir do fim do prazo de que dispõe a administração para apreciar o pedido do contribuinte, que é de 360 dias (art.24 da Lei nº11.457/07), nos termos do REsp 1.138.206/RS, submetido ao rito do art. 543-C do CPC e da Resolução 8/STJ.
Numero da decisão: 9303-006.375
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento parcial, para aplicar a taxa Selic a partir do 360º dia do pedido, exceto sobre o valor já deferido da unidade preparadora, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento integral.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Ano-calendário: 1995 IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. LEI Nº 9.363/96. AQUISIÇÃO A PESSOAS FÍSICAS E COOPERATIVAS. O Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento, sob a sistemática do recurso repetitivo previsto no art. 543-C do CPC, de que o condicionamento do incentivo fiscal aos insumos adquiridos de fornecedores sujeitos à tributação pelo PIS e pela Cofins criado via instrução normativa exorbita os limites impostos pela lei ordinária. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. INCIDÊNCIA DA TAXA SELIC. É devida a correção monetária ao creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco (Súmula nº 411/STJ). Em tais casos, a correção monetária, pela taxa SELIC, deve ser contada a partir do fim do prazo de que dispõe a administração para apreciar o pedido do contribuinte, que é de 360 dias (art.24 da Lei nº11.457/07), nos termos do REsp 1.138.206/RS, submetido ao rito do art. 543-C do CPC e da Resolução 8/STJ.
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CRÉDITO PRESUMIDO. Recorrente MADEIREIRA BROCARDO LTDA. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Anocalendário: 1995 IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. LEI Nº 9.363/96. AQUISIÇÃO A PESSOAS FÍSICAS E COOPERATIVAS. O Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento, sob a sistemática do recurso repetitivo previsto no art. 543C do CPC, de que o condicionamento do incentivo fiscal aos insumos adquiridos de fornecedores sujeitos à tributação pelo PIS e pela Cofins criado via instrução normativa exorbita os limites impostos pela lei ordinária. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. INCIDÊNCIA DA TAXA SELIC. É devida a correção monetária ao creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco (Súmula nº 411/STJ). Em tais casos, a correção monetária, pela taxa SELIC, deve ser contada a partir do fim do prazo de que dispõe a administração para apreciar o pedido do contribuinte, que é de 360 dias (art.24 da Lei nº11.457/07), nos termos do REsp 1.138.206/RS, submetido ao rito do art. 543C do CPC e da Resolução 8/STJ. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento parcial, para aplicar a taxa Selic a partir do 360º dia do pedido, exceto sobre o valor já deferido da unidade preparadora, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento integral. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 98 4. 00 03 90 /0 0- 15 Fl. 439DF CARF MF 2 Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto tempestivamente pela contribuinte contra o Acórdão nº 380300.514, de 26/07/2010, proferido pela 3ª Turma Especial da Terceira Seção do CARF, que fora assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Períodos de apuração: 1995 RESSARCIMENTO DE CRÉDITO PRESUMIDO DO IPI. NÃO OCORRÊNCIA DE PRESCRIÇÃO/ DECADÊNCIA Crédito presumido calculado com base nos dados do balanço encerrados em 31 de dezembro de cada ano. AQUISIÇÃO DE PRODUTOS INTERMEDIÁRIOS E MATÉRIAS DE EMBALAGEM DE PESSOAS FÍSICAS A Lei 9.963/96 tem por escopo estimular e incentivar a atividade de exportação. SÚMULA 19 DO CARF. Aquisição de energia elétrica não integra a base cálculo do crédito presumido da lei n° 9.363/96 JUROS MORATÓRIOS DEVIDOS Taxa Referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC Recurso Voluntário Negado. Irresignada, a Recorrente se insurgiu contra à exclusão, no cálculo do crédito presumido do IPI de que trata a Lei nº 9.363, de 1996, das aquisições realizadas a pessoas físicas e contra a não atualização do valor a ser ressarcido pela taxa Selic. Alega divergência com relação ao que decidido nos Acórdãos nº CSRF/0201.160 e nº CSRF/0201.191 (primeiro tema) e CSRF/0201.160 e nº CSRF/0201.774 (segundo tema). O exame de admissibilidade do recurso encontrase às fls. 416/418. Intimada, a PFN apresentou contrarrazões ao recurso (fls. 421/437). É o Relatório. Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator Fl. 440DF CARF MF Processo nº 13984.000390/0015 Acórdão n.º 9303006.375 CSRFT3 Fl. 440 3 Presentes os demais requisitos de admissibilidade, entendemos que o recurso especial interposto pela contribuinte deve ser conhecido. Conforme assentado no exame de sua admissibilidade, o acórdão recorrido afastou a inclusão, no cálculo do mesmo crédito presumido de que trata a Lei nº 9.363, de 1996, das aquisições de insumos a pessoas físicas e entendeu inexistir previsão legal para abonar a incidência da taxa Selic sobre os valores ressarcidos. Os acórdãos paradigmas, todavia, em flagrante dissídio jurisprudencial, concluíram justamente o contrário. No mérito, vemos assistir razão à contribuinte. Sabese, ambos os temas já se encontram pacificados no Poder Judiciário, conforme indica a seguinte ementa de acórdão proferido pelo Superior Tribunal de Justiça – STJ, em decisão submetida ao rito dos recurso repetitivos: RECURSO ESPECIAL Nº 993.164 MG (2007/02311873) PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO PARA RESSARCIMENTO DO VALOR DO PIS/PASEP E DA COFINS. EMPRESAS PRODUTORAS E EXPORTADORAS DE MERCADORIAS NACIONAIS. LEI 9.363/96. INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF 23/97. Condicionamento do incentivo fiscal aos insumos adquiridos de fornecedores sujeitos à tributação pelo PIS e pela COFINS. Exorbitância dos limites impostos pela lei ordinária. Súmula Vinculante 10/STF. Observância. Instrução Normativa (ato normativo secundário). Correção monetária. Incidência. Exercício do direito de crédito postergado pelo fisco. Não caracterização de crédito escritural. Taxa SELIC. Aplicação. violação do artigo 535, do CPC inocorrência. Notese que, no mesmo aresto, os dois temas foram tratados: além de considerar ilegal o ato normativo que vinculou, para o efeito do benefício, as aquisições de insumos àquelas tributadas pelo PIS/Cofins, também permitiu a correção, pela taxa Selic, dos valores ressarcidos que, em face do óbice normativo, não foram oportunamente aproveitados. A taxa Selic, contudo, deve incidir a partir de findo o prazo de que dispõe a Administração para apreciar o pedido do contribuinte, que é de 360 (trezentos e sessenta) dias a contar de sua apresentação (art. 24 da Lei nº 11.457, de 2007), conforme decidiu o mesmo STJ, também sob a sistemática dos recurso repetitivos: ESPECIAL Nº 1.467.934/RS (2014∕01707525) RELATOR : MINISTRO SÉRGIO KUKINA AGRAVANTE : REICHERT CALÇADOS LTDA ADVOGADOS : CRISTOV BECKER PABLO EDUARDO Fl. 441DF CARF MF 4 CAMUSSO E OUTRO(S) AGRAVADO : FAZENDA NACIONAL ADVOGADO : PROCURADORIAGERAL DA FAZENDA NACIONAL. RELATÓRIO O SENHOR MINISTRO SÉRGIO KUKINA: Tratase de agravo regimental interposto por REICHERT CALÇADOS LTDA., desafiando a decisão pela qual se deu parcial provimento ao recurso especial da FAZENDA NACIONAL, ao fundamento de que o aproveitamento de créditos escriturais, em regra, não dá ensejo à correção monetária, exceto quanto obstaculizado injustamente o creditamento pelo fisco, caracterizada a mora administrativa (REsp 1.035.847∕RS, julgado sob o rito do art. 543C do CPC, e Súmula 411∕STJ). Está também justificada a imposição de correção monetária, pela taxa SELIC, a contar do fim do prazo que a administração tinha para apreciar o pedido, que é de 360 dias, independentemente da época do requerimento (art. 24 da Lei 11.457∕07), conforme decidiu esta Corte Superior ao apreciar o REsp. 1.138.206∕RS, submetido ao rito do art. 543C do CPC e da Resolução 8∕STJ". TRIBUTÁRIO. CRÉDITOS DE PIS/COFINS. REGIME NÃO CUMULATIVO. RESSARCIMENTO. APRECIAÇÃO DO PEDIDO ADMINISTRATIVO PELO FISCO. ESCOAMENTO DO PRAZO DE 360 DIAS PREVISTO NO ART. 24 DA LEI 11.457/07. RESISTÊNCIA ILEGÍTIMA CONFIGURADA. SÚMULA 411/STJ. CORREÇÃO MONETÁRIA DEVIDA. TERMO INICIAL. TAXA SELIC. 1. A Primeira Seção desta Corte Superior, no julgamento do REsp 1.035.847/RS, sob o rito do art. 543C do CPC, firmou entendimento no sentido de que o aproveitamento de créditos escriturais, em regra, não dá ensejo à correção monetária, exceto quanto obstaculizado injustamente o creditamento pelo fisco. 2. "É devida a correção monetária ao creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco" (Súmula 411/STJ). 3. Em tais casos, a correção monetária, pela taxa SELIC, deve ser contada a partir do fim do prazo de que dispõe a administração para apreciar o pedido do contribuinte, que é de 360 dias (art. 24 da Lei 11.457/07). Nesse sentido: REsp 1.138.206/RS, submetido ao rito do art. 543C do CPC e da Resolução 8/STJ. 4. Agravo regimental a que se nega provimento. Ante o exposto, conheço e dou parcial provimento ao recurso especial da contribuinte, para que, no cálculo do crédito presumido, consideremse as aquisições a pessoas físicas, bem como que o valor a ser ressarcido, unicamente em face desta decisão (excluindo se, portanto, o valor originariamente já ressarcido pela autoridade preparadora), seja corrigido Fl. 442DF CARF MF Processo nº 13984.000390/0015 Acórdão n.º 9303006.375 CSRFT3 Fl. 441 5 pela taxa Selic a partir do fim do prazo que a administração tinha para apreciar o pedido (360 dias), independentemente da época de sua apresentação. É como voto. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 443DF CARF MF
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Numero do processo: 12457.732731/2012-81
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Mar 14 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Data do fato gerador: 05/06/2012, 12/06/2012, 14/06/2012, 25/06/2012, 05/07/2012, 06/07/2012, 10/07/2012
DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MERCADORIA CONSUMIDA OU NÃO LOCALIZADA. MULTA IGUAL AO VALOR DA MERCADORIA.
Considera-se dano ao Erário a ocultação do real sujeito passivo na operação de importação, mediante fraude ou simulação, infração punível com a pena de perdimento. Caso a mercadoria tenha sido entregue a consumo, não seja localizada ou tenha sido revendida, esta infração é punida com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação.
DANO AO ERÁRIO. INFRAÇÃO. PENA DE PERDIMENTO. CONVERSÃO EM MULTA. VALOR DA MERCADORIA. LEI 10.637/02. CESSÃO DE NOME. INFRAÇÃO. MULTA. DEZ POR CENTO DO VALOR DA OPERAÇÃO. LEI 11.488/07. RETROATIVIDADE BENIGNA. IMPOSSIBILIDADE.
Na hipótese de aplicação da multa de 10% (dez por cento) do valor da operação, pela cessão do nome, nos termos do art. 33 da Lei nº 11.488/2007, não será declarada a inaptidão da pessoa jurídica prevista no art. 81 da Lei 9.430/96. A imposição da multa não prejudica a aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, pela conversão da pena de perdimento dos bens, prevista no art. 23, inciso V, do Decreto-Lei nº 1.455/76.
Descartada hipótese de aplicação do instituto da retroatividade benigna para penalidades distintas.
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Numero da decisão: 9303-006.510
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício
(Assinado digitalmente)
Tatiana Midori Migiyama Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: TATIANA MIDORI MIGIYAMA
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 05/06/2012, 12/06/2012, 14/06/2012, 25/06/2012, 05/07/2012, 06/07/2012, 10/07/2012 DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MERCADORIA CONSUMIDA OU NÃO LOCALIZADA. MULTA IGUAL AO VALOR DA MERCADORIA. Considerase dano ao Erário a ocultação do real sujeito passivo na operação de importação, mediante fraude ou simulação, infração punível com a pena de perdimento. Caso a mercadoria tenha sido entregue a consumo, não seja localizada ou tenha sido revendida, esta infração é punida com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação. DANO AO ERÁRIO. INFRAÇÃO. PENA DE PERDIMENTO. CONVERSÃO EM MULTA. VALOR DA MERCADORIA. LEI 10.637/02. CESSÃO DE NOME. INFRAÇÃO. MULTA. DEZ POR CENTO DO VALOR DA OPERAÇÃO. LEI 11.488/07. RETROATIVIDADE BENIGNA. IMPOSSIBILIDADE. Na hipótese de aplicação da multa de 10% (dez por cento) do valor da operação, pela cessão do nome, nos termos do art. 33 da Lei nº 11.488/2007, não será declarada a inaptidão da pessoa jurídica prevista no art. 81 da Lei 9.430/96. A imposição da multa não prejudica a aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, pela conversão da pena de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 45 7. 73 27 31 /2 01 2- 81 Fl. 774DF CARF MF 2 perdimento dos bens, prevista no art. 23, inciso V, do DecretoLei nº 1.455/76. Descartada hipótese de aplicação do instituto da retroatividade benigna para penalidades distintas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas – Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama – Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo contra o Acórdão nº 3101001.814, da 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais que, por maioria de votos, negou provimento ao recurso voluntário, consignando a seguinte ementa: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 05/06/2012, 12/06/2012, 14/06/2012, 25/06/2012, 05/07/2012, 06/07/2012, 10/07/2012 DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MERCADORIA CONSUMIDA OU NÃO LOCALIZADA. MULTA IGUAL AO VALOR DA MERCADORIA. Fl. 775DF CARF MF Processo nº 12457.732731/201281 Acórdão n.º 9303006.510 CSRFT3 Fl. 775 3 Considerase dano ao Erário a ocultação do real sujeito passivo na operação de importação, mediante fraude ou simulação, infração punível com a pena de perdimento. Caso a mercadoria tenha sido entregue a consumo, não seja localizada ou tenha sido revendida, esta infração é punida com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação. ” Irresignada, a Pan Asia Trading Importação e Exportação Ltda, apontada como responsável solidária no auto de infração, interpôs Recurso Especial contra o r. acórdão, requerendo a reforma do acórdão recorrido, declarandose a insubsistência do auto de infração, tendo em vista que: · O sujeito passivo financiou, com recursos próprios, todas as operações de importação, sendo a real adquirente da mercadoria, mão se podendo discutir a opção logística utilizada pela empresa; · O ilícito de interposição fraudulenta de terceiros possui natureza penal administrativa, devendo estar diretamente ligado a prática de crimes antecedentes, o que não ocorreu nos autos; · No caso dos autos inexiste dolo em fraudar ou dano material ao erário, uma vez que todos os tributos foram recolhidos devidamente; e · O princípio da especialidade quanto à incidência do art. 33 da Lei 11.488/07, que demonstra a inaplicabilidade, convertida em multa, à empresa acusada de ceder seu nome. Insatisfeita, a Falls Trigo Importadora e Exportadora Ltda opôs Embargos de Declaração, alegando contradição entre a decisão e seus fundamentos. Em Despacho às fls. 726 a 729, os embargos de declaração opostos foram rejeitados. Em Despacho às fls. 743 a 747, foi dado seguimento parcial em relação às seguintes matérias: Fl. 776DF CARF MF 4 · Necessidade de comprovação do dano ao erário; · Multa conversão pena de perdimento e multa por cessão de nome, bis in idem. Em Despacho às fls. 748 a 749, o ilustre ex Presidente da Câmara Superior de Recursos Fiscais Carlos Alberto Freitas Barreto decidiu por manter, na íntegra, o despacho do Presidente da Câmara. Contrarrazões ao recurso foram apresentadas pela Fazenda Nacional, que trouxe, entre outros, que: · A prova dos autos demonstra que a operação apontada como importação direta não corresponde ao propósito negocial, posto que a real adquirente da mercadoria fora a Falls Trigo, e como tal, foi quem dá causa à importação; · Caracterizado, portanto, o prejuízo ao controle aduaneiro, tendo em vista a ocultação de sujeito passivo da operação, justificada está a autuação; · Restaram plenamente demonstradas nos autos as infrações cometidas pelas empresas autuadas, tanto no pertinente ao tipo previsto no art. 23, V do Decretolei nº 1.455/1976, e parágrafo terceiro, quanto aquela prevista no art. 33 da Lei n. 11.488/2007; · Em sendo penalidades distintas, não há que se falar em princípio da retroatividade da lei mais benigna. É o relatório. Voto Conselheira Tatiana Midori Migiyama, Relatora. Depreendendose da análise do Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo, entendo que o recurso atende aos pressupostos de admissibilidade na parte já admitida, pois tempestivo e comprovada a divergência suscitada. O que concordo com o Despacho de Admissibilidade do recurso. Eis o que traz o Despacho (Grifos meus): Fl. 777DF CARF MF Processo nº 12457.732731/201281 Acórdão n.º 9303006.510 CSRFT3 Fl. 776 5 “[...] A divergência suscitada pelo sujeito passivo foi quanto a suposta interpretação divergente conferida ao disposto no art. 23, V do DL nº 1.455/76 e art. 33 da Lei nº 11.488/07. Gravita a controvérsia essencialmente sobre dois eixos principais, sendo um deles subdividido, por sua vez, em duas vertentes. O primeiro diz respeito a definição e interpretação do conceito de interposição fraudulenta, e de suas características essenciais. Defende o recorrente que, para a caracterização de interposição fraudulenta é necessária a concomitância da ocorrência de dois eventos: o dolo/simulação e o efetivo dano ao erário, mensurável. O segundo eixo defende que à empresa não pode ser imposta dupla penalidade, no caso a multa substitutiva da pena de perdimento e a multa pela cessão do nome, vinculadas a um mesmo episódio. Os paradigmas se prestam a análise conjunta de ambas matérias, razão pela qual serão inicialmente transcritos, para ao fim serem analisados separadamente. Para comprovar o dissenso foram colacionados, como paradigmas, os Acórdãos nº 3402002.362 e 3402002.277. Vejamos suas ementas, transcritas na parte de interesse ao presente exame: Acórdão nº 3402002362 Assunto: Regimes Aduaneiros Período de apuração: 11/09/2007 a 18/04/2012 IMPORTAÇÃO INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA PRINCÍPIO DA TIPICIDADE ATIPICIDADE DA CONDUTA. O Princípio da Tipicidade exige, não só que as condutas tributáveis e as respectivas obrigações e sanções tributárias delas decorrentes, sejam prévia e exaustivamente tipificadas pela lei, mas que a tributabilidade e responsabilidade de uma conduta somente se dêem quando ocorra sua exata Fl. 778DF CARF MF 6 adequação ao tipo legal, sendo incabível o emprego de analogia ou interpretação extensiva, para a instituição ou imputação de obrigação tributária (arts. 108, § 1º e 111, inc. III do CTN), não prevista expressamente na descrição da lei tributária especifica. Para a configuração das infrações previstas no art. 105, inc. XI do Decretolei nº 37/66 e art. 23, inc. V do Decretolei 1.455/76, que autorizam a aplicação da severa pena de perdimento ou da multa alternativa (art. 23, § 3º do DecretoLei nº 1.455/76), é imprescindível a comprovação do efetivo dano ao erário consubstanciado na falta de pagamento parcial dos tributos aduaneiros em razão de “artifício doloso”, bem como da “ocultação” “mediante fraude ou simulação”, de quaisquer dos intervenientes na importação ou exportação expressamente mencionados, sob pena de atipicidade da conduta. IMPORTAÇÃO INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA RESPONSABILIDADE SUBJETIVA PRINCÍPIO DA INTRANSCENDÊNCIA DA SANÇÃO. Tratandose de infrações dolosas legalmente conceituadas como crimes (arts. 334, § 3º e 299 do CP), a responsabilidade pela sanção administrativa é pessoal do agente (art. 137 do CTN), não podendo a sanção passar da pessoa do infrator (art. 5º, XLV da CF/88), nem transmitirse a pessoas alheias à infração (“nemo punitur pro alieno delicto”), sequer pela via transversa de suposta solidariedade em penalidade aplicada a outro infrator (art. 100 do Dec.lei nº 37/66). IMPORTAÇÃO INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA MULTA APLICÁVEL AO IMPORTADOR OSTENSIVO CESSÃO DE NOME PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE DA SANÇÃO IMPOSSIBILIDADE DE CUMULAÇÃO. Com o advento da multa de 10% instituída pelo art. 33 da Lei nº 11.488/07, em face do princípio da especialidade da sanção, não mais se justifica a aplicação ao importador ostensivo da multa de 100% prevista no art. 23, inc. V do Decretolei nº 1455/76, sob pena de ilegal bis in idem. Acórdão nº 3402002.277 Fl. 779DF CARF MF Processo nº 12457.732731/201281 Acórdão n.º 9303006.510 CSRFT3 Fl. 777 7 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Período de apuração: 10/07/2007 a 07/12/2007 VÍCIO NO ATO ADMINISTRATIVO. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA NÃO CARACTERIZADA. IMPORTAÇÃO POR ENCOMENDA. INEXISTENCIA DE ATO DISSIMULADO E DE SIMULAÇÃO. CANCELAMENTO. A caracterização da interposição fraudulenta se justifica pela ocorrência de fraude ou simulação no ato de importar ou exportar, não bastado, para fins da capitulação de dano ao erário contida no art. 23, V do DL 1.455/76 a acusação de ocultação pura e simples. Restou verificado nos autos que as operações fiscalizadas não se tratam de importação por conta e ordem, cujo ato dissimulado seria a prestação do serviço, mas sim, eram de importação por encomenda, de modo que por não haver ato dissimulado não há simulação, devendo ser cancelado o lançamento fiscal nela lastreado. Recurso Voluntário Provido. [...] Da interposição fraudulenta. Necessidade de comprovação do dano ao Erário Melhor sorte assiste a recorrente neste ponto. O acórdão recorrido entende que "A ocultação do sujeito passivo mediante fraude ou simulação, inclusive interposição fraudulenta de terceiros consiste em uma infração tipificada como dano ao Erário, conforme previsto no art. 23, inciso V, do DecretoLei 1.455/1976, independentemente de se identificar qual a vantagem (financeira ou não) efetivamente obtida com as operações." Em sentido diverso, o primeiro paradigma evidencia que, para a tipificação do dano ao Erário "...é imprescindível a comprovação do efetivo dano ao erário consubstanciado na falta de pagamento parcial dos tributos aduaneiros..." Evidente o dissenso suscitado. Fl. 780DF CARF MF 8 Multa art. §3º, art. 23 do DL 1.455/76 X multa do art. 33 da Lei nº 11.488/07. Inaplicabilidade. Bis in iden Informa a recorrente que figura no pólo passivo de outro processo administrativo fiscal (nº 12457.721235/201382), no qual se discute o lançamento de crédito relativo a aplicação da multa de 10% do valor aduaneiro das importações (art. 33, Lei 11.488/07). O acórdão recorrido, ao tratar deste tema, entendeu serem cumulativas e independentes as sanções aplicadas, conforme se constata do seguinte fragmento do voto: Mesmo após o advento da Lei nº 11.488/2007, o importador ostensivo deve responder pela multa substitutiva do perdimento de mercadoria prevista no art. 23, inciso V, parágrafos 1º e 3º do DecretoLei nº 1.455/1976. Não houve derrogação deste dispositivo legal, sendo certo que tal regra convive harmonicamente com a disposição do art. 33 da Lei nº 11.488/2007. Não há que se falar no presente caso na aplicação do princípio da retroatividade benigna, quanto à aplicação da multa prevista no art. 33 da Lei n° 11.488/2007 em substituição à multa de conversão do perdimento. Esse dispositivo legal não derrogou aquele (perdimento, por dano ao erário). Por sua vez, o acórdão paradigma entende inaplicável a multa de conversão do perdimento ao importador ostensivo, sendo cabível apenas a multa por cessão de nome, conforme explicita a ementa do primeiro paradigma. Com essas considerações, concluise que a divergência jurisprudencial foi comprovada em parte, apenas em relação às matérias a) necessidade de comprovação do dano ao Erário e, b) multa conversão pena de perdimento e multa por cessão de nome, bis in idem. Procedida à análise com fundamento na Portaria RFB/CARF nº 1.715, de 08 de dezembro de 2015, submeto este exame de admissibilidade ao Presidente da 1a Câmara da 3a Seção de Julgamento do CARF. Nesse ínterim, conheço o Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo.” Fl. 781DF CARF MF Processo nº 12457.732731/201281 Acórdão n.º 9303006.510 CSRFT3 Fl. 778 9 Passadas tais considerações, passo a discorrer sobre a 1ª matéria trazida em recurso – qual seja, necessidade de comprovação de dano ao erário. Para tanto, depreendendose dos autos do processo, peço vênia ao ilustre ex conselheiro Rodrigo Mineiro para transcrever parte de seu irretocável voto – eis que manifesto minha concordância em relação à essa matéria (Grifos meus): [...] Dos fatos apurados no procedimento fiscal O ponto fundamental do recurso voluntário apresentado referese a origem dos recursos utilizados na operação de importação, que teria sido comprovado como sendo da própria importadora, caracterizando as operações como por conta própria. Ocorre que a autoridade fiscal não fundamenta o auto de infração nesse ponto. Segundo sua argumentação, formalmente, a PAN ASIA importa, fecha o câmbio com seus próprios recursos, emite nota fiscal de revenda e aguarda o pagamento desta nota fiscal. Porém, materialmente, ela cede seu nome na importação, adianta seu capital para fechamento do cambio e recebe a devolução deste montante alguns dias depois, revestido na forma de operação de compra e venda no mercado interno. Segundo o entendimento fiscal, a formatação adotada para a operação analisada, apresentada como “importação direta”, não corresponde à verdadeira intenção negocial, por ter verificado que as mercadorias importadas foram destinadas a outras empresas (os reais adquirentes das mercadorias), no presente caso, a FALLS TRIGO. A PAN ASIA ao pretender aparentar ser, além de importadora, a real adquirente das mercadorias, serviu de interposta pessoa aos verdadeiros responsáveis pela operação. Apreciando a alegação fiscal, as provas colacionadas e as razões de defesa, entendo que ficou comprovada a ocultação da empresa FALLS TRIGO nas operações de importação objeto das Fl. 782DF CARF MF 10 DI’s 12/10236690, 12/10700591, 12/10845697, 12/11501622, 12/12284412, 12/12360232, 12/12399422 e 12/12523107, e o evidente o intuito doloso da empresa PAN ASIA quando não registrou nas declarações de importação os responsáveis pelas operações, ocultandoos. A autoridade fiscal demonstra e comprova, através dos elementos de prova abaixo especificados, que a empresa FALLS TRIGO era responsável por contratar o moinho de sua preferência, contratar o despachante de sua preferência, contratar o transportador internacional de sua preferência e somente tomar emprestado o nome da PAN ASIA para o registro formal da operação. A PAN ASIA não possuía qualquer ingerência sobre as escolhas dos intervenientes no comércio exterior, apesar de ser ela, documentalmente, o importador e adquirente por conta própria das mercadorias. Encontramse nos autos as seguintes constatações fiscais, acompanhadas de seus elementos de prova, cujo conteúdo fundamenta a alegação fiscal de ocultação da empresa FALLS TRIGO nas referidas operações de importação declaradas como sendo da empresa PAN ÁSIA: (I) Negociação com o fornecedor estrangeiro Arquivos magnéticos/digitais retidos durante a ação de diligência fiscal, modelos de faturas próforma (facturas proforma), faturas comerciais (facturas de exportación) e contratos de câmbio celebrados entre a importadora PAN ASIA e os exportadores argentinos, inerentes às negociações internacionais entre exportador e importador, que não diziam respeito a terceira empresa que não a real importadora; Planilha de controle de recebimento das oito importações em tela, controle este feito justamente pelo número das faturas internacionais vinculadas às respectivas DI's; (II) Negociação com o despachante aduaneiro Trocas de mensagens eletrônicas entre os sócios da empresa FALLS TRIGO e o senhor LEONÇO LUIS PEREIRA, despachante aduaneiro, representante legal da PAN ÁSIA, identificadas nos Fl. 783DF CARF MF Processo nº 12457.732731/201281 Acórdão n.º 9303006.510 CSRFT3 Fl. 779 11 computadores da empresa FALLS TRIGO, caracterizando a participação daquela empresa nas operações de importação em questão; (III) Utilização da PAN ASIA como empresa interposta Documento apreendido na sede da empresa PAN ASIA em ITAJAI/SC, referente a orientação passada pelo Sr. Nilo Simas Jr. (PAN ASIA) a terceira empresa acerca dos procedimentos que deveriam ser adotados nas próximas importações de farinha de trigo, agora em nome de PAN ASIA, descrevendo detalhadamente o fluxo negocial das operações de importação de farinha de trigo via Foz do Iguaçu/PR, que configuraria a cessão de nome nas operações de comércio exterior; Email apreendido na sede da PAN ASIA relativo ao valor cobrado (por caminhão) para que empresas de Foz do Iguaçu importem farinha de trigo utilizando seu nome, de forma a caracterizar a sua prestação de serviço, não operação por sua conta própria; (IV) Fluxo físico das mercadorias A autoridade fiscal apresenta ainda a patente falta de logística no que se refere ao fluxo das cargas importadas e declaradas: a importadora PAN ASIA desembaraça suas cargas de farinha de origem/procedência argentina no Porto Seco de Foz Iguaçu/PR, com destino a sua sede em Itajaí/AC, distante cerca de 839 quilômetros do ponto de desembaraço aduaneiro, para depois remetêla a empresa FALLS TRIGO em Foz do Iguaçu novamente. [...] A fiscalização aduaneira apontou ainda os seguintes elementos motivadores à ocultação processada pelas interessadas: (i) Violação ao Controle Aduaneiro, com a não submissão das empresas aos procedimentos de habilitação no SISCOMEX, e interferência na avaliação de risco nas operações; e (ii) busca de benefício fiscal do Estado de Santa Catarina, que resultou numa alíquota efetiva de importação de farinha de trigo de apenas 4%. Fl. 784DF CARF MF 12 Além do exposto, destacase a intenção da empresa PAN ÁSIA na prática do ilícito, tendo em vista a divulgação em seu próprio sítio na internet do “serviço” de cessão de nome de forma quase explícita, expondo inclusive apresentando as vantagens de importar com a PAN ASIA: “reduzem de forma matemática financeira o imposto mais importante e significativo, ou seja, o ICMS”. Não restam dúvidas quanto à adequação da situação fática com o tipo previsto no inciso V do artigo 23 do Decretolei nº 1.455/1976, e parágrafo terceiro: as empresas autuadas ocultaram, mediante simulação, o sujeito passivo, real comprador e responsável pela operação, caracterizando o dano ao Erário, sujeito à aplicação da pena de perdimento das mercadorias importadas, ou da multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, quando não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida.[...] Em vista do exposto e analisando os autos do processo, compartilho do mesmo entendimento esposado pelo relator do acórdão recorrido. O que, por conseguinte, nego provimento ao recurso especial interposto pelo sujeito passivo. Em relação à discussão acerca das penalidades “b) multa conversão pena de perdimento e multa por cessão de nome, bis in idem”, vêse que esse Colegiado, por unanimidade de votos, já firmou o entendimento consignado no acórdão 9303006.001 da lavra do ilustre conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal. Para melhor elucidar, trago a ementa consignada nesse acórdão: “ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 30/01/2006 a 23/06/2006 DANO AO ERÁRIO. INFRAÇÃO. PENA DE PERDIMENTO. CONVERSÃO EM MULTA. VALOR DA MERCADORIA. LEI 10.637/02. CESSÃO DE NOME. INFRAÇÃO. MULTA. DEZ POR CENTO DO VALOR DA OPERAÇÃO. LEI 11.488/07. RETROATIVIDADE BENIGNA. IMPOSSIBILIDADE. Fl. 785DF CARF MF Processo nº 12457.732731/201281 Acórdão n.º 9303006.510 CSRFT3 Fl. 780 13 Na hipótese de aplicação da multa de dez por cento do valor da operação, pela cessão do nome, nos termos do art. 33 da Lei nº 11.488/2007, não será declarada a inaptidão da pessoa jurídica prevista no art. 81 da Lei 9.430/96. A imposição da multa não prejudica a aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, pela conversão da pena de perdimento dos bens, prevista no art. 23, inciso V, do DecretoLei nº 1.455/76. Descartada hipótese de aplicação do instituto da retroatividade benigna para penalidades distintas.” Para melhor elucidar o entendimento exposto pelo ilustre conselheiro, transcrevo parte de seu voto: “Inicio pelo art. 33 da Lei 11.488/2007. Art. 33. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Parágrafo único. À hipótese prevista no caput deste artigo não se aplica o disposto no art. 81 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996. (grifos acrescidos) O Regulamento Aduaneiro hoje vigente assim dispõe a respeito do assunto – Decreto 6.759/09: Art. 727. Aplicase a multa de dez por cento do valor da operação à pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários (Lei nº 11.488, de 2007, art. 33, caput). (...) Fl. 786DF CARF MF 14 § 3o A multa de que trata este artigo não prejudica a aplicação da pena de perdimento às mercadorias importadas ou exportadas. É de clareza singular. A Lei trata do efeito imediato da aplicação da multa, qual seja, afastar a declaração de inaptidão da pessoa jurídica (art. 81 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996). A meu ver, já seria suficiente, uma vez que apenas essa consequência foi prevista para os casos de imposição da multa por cessão de nome. Mas o Decreto deu o passo seguinte. O parágrafo 3º do art. 727 confirma com todas as letras o entendimento de que a imposição de multa por cessão de nome não prejudica a aplicação da pena de perdimento às mercadorias importadas ou exportadas2, afastando qualquer possibilidade de que prospere a interpretação de que aquela retroaja na forma do art. 106 do Código Tributário Nacional. E orientam no mesmo sentido as demais disposições infralegais acerca do assunto Até a promulgação da Lei nº 11.488/2007, a cessão do nome para o acobertamento do real beneficiário da operação trazia como consequência (i) a pena de perdimento da mercadoria ou conversão em multa e (ii) proposição de inaptidão do CNPJ (IN SRF 568/2005). O artigo 343, inciso III, da IN SRF 568/2005 dispunha sobre a inaptidão da inscrição do CNPJ de entidade considerada inexistente de fato. O artigo 414, inciso III, considerava inexistente de fato a pessoa jurídica que "tenha cedido seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de terceiros, com vistas ao acobertamento de seus reais beneficiários;". Treze dias após a edição da Lei nº 11.488/2007, foi publicada a IN RFB nº 748/2007, revogando a IN RFB 568/2005. O artigo 41 da nova IN suprimiu a hipótese de cessão de nome com vistas ao acobertamento dos reais beneficiários em operações no exterior, como causa de declaração da inexistência de fato da PJ. Ou seja, também os atos normativos editados pela Secretaria da Receita Federal confirmam que a penalidade prevista no artigo Fl. 787DF CARF MF Processo nº 12457.732731/201281 Acórdão n.º 9303006.510 CSRFT3 Fl. 781 15 33 da Lei nº 11.488/2007 foi introduzida no ordenamento jurídico com propósito substituir a declaração de inaptidão pelo simples ato de ceder o nome. Todas as premissas até aqui adotadas e as conclusões a que remetem são, ainda, reforçadas pelo Parecer de encaminhamento do projeto de lei de Conversão da MP nº 351/2007 na Lei nº 11.488/2007, com a seguinte observação: “Já no art. 35, juntamente com a modificação da redação do art. 81 da Lei no 9.430, de 1996, contida no art. 15 do PLV, sugerimos a adequação dos critérios legais para se declarar a inaptidão de inscrição das pessoas jurídicas e da multa aplicável no caso de cessão de nome da empresa para realização de operações de comércio exterior de terceiros.” A derradeira conclusão é a de que o ato de ceder o nome com vistas ao acobertamento do real beneficiário acarreta duas infrações, cujos bens jurídicos tutelados são distintos: o próprio erário e o controle aduaneiro como um todo, e a integridade do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica. Enquanto o artigo 33 da Lei nº 11.488/2007 resguarda a higidez do CNPJ, coibindo seu uso indevido, em substituição da declaração de inaptidão, o inciso V do artigo 23 do Decretolei nº 1.455/1976 protege o Erário e o próprio controle aduaneiro. Finalmente, descartase a hipótese de violação do princípio non bis in idem. As disposições legais de que aqui tratamos foram, desde o início, concebidas à luz da interpretação dada pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional às abstrações normativas presentes na legislação tributária que regulamenta as operações de comércio exterior. Foi com base no Parecer PGFN CAT 1.316/01 que forjaramse os instrumentos capazes de alcançar todas as pessoas envolvidas nas atividades irregulares, principalmente, o proprietário das mercadorias importadas de forma irregular. Fl. 788DF CARF MF 16 Como se sabe, o artigo 31 do DecretoLei nº 37/66, considera contribuinte do Imposto de Importação aquele que promove a entrada de mercadoria estrangeira no território nacional5. Um dos pontos de partida de todo empreendimento que deu origem às alterações na legislação havidas ao longo do ano de 2001 foi a interpretação veiculada no Parecer PGFN CAT 1.316/01, segundo a qual o contribuinte do Imposto de Importação é a pessoa cujo nome aparece no conhecimento de carga como sendo o proprietário da mercadorias importada, independentemente de quem esteja efetivamente interessado na aquisição ou fizer as negociações prévias. Como consequência da manifestação do Órgão, as autuações da Fiscalização Federal passaram, obrigatoriamente, a indicar, como importador, a pessoa informada com tal nas declarações de importação, mesmo que um terceiro fosse quem, verdadeiramente, promovesse o ingresso das mercadorias em território nacional. Por conta disso, nos casos de infração por interposição fraudulenta, o sujeito passivo da obrigação principal anotado no auto de infração será sempre a pessoa que registrou a declaração de importação, embora, o mais das vezes, pretendase alcançar o verdadeiro proprietário das mercadorias, que, por força da legislação superveniente ao Parecer supra citado, figura como solidário pelo imposto e, em regra geral, também pelas infrações cometidas. Portanto, ainda que pareçam duas penalidades decorrentes de um mesmo evento e exigidas de uma mesma pessoa jurídica, tratamse, na verdade, de uma multa (10%) destinada a apenar o importador e de outra (100%) destinada àquele que, informalmente, se costuma chamar o "verdadeiro importador", identificado nas disposições legais como sendo o adquirente por conta e ordem ou encomendante das mercadorias. [...]” Sendo assim, voto, nessa parte, por negar provimento ao Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo. Fl. 789DF CARF MF Processo nº 12457.732731/201281 Acórdão n.º 9303006.510 CSRFT3 Fl. 782 17 Isto posto, voto por negar provimento ao recurso especial interposto pelo sujeito passivo. É como voto. (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Fl. 790DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15375.000576/2009-32
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Mar 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Apr 20 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/1999
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-006.641
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Patrícia da Silva - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Miriam Denise Xavier (suplente convocada), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício).
Nome do relator: PATRICIA DA SILVA
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 37 5. 00 05 76 /2 00 9- 32 Fl. 257DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Miriam Denise Xavier (suplente convocada), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência, previsto nos arts. 67 e seguintes do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, interposto pela Fazenda Nacional em face da decisão da 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 2ª Seção, consubstanciada no Acórdão n° 2301003.268 que: I) Por maioria de votos: a) deu provimento parcial ao Recurso, no mérito, para que seja aplicada a multa prevista no Art. 61, da Lei nº 9.430/1996, se mais benéfica à Recorrente; e II) Por unanimidade de votos: a) deu provimento parcial ao recurso, para deixar claro que a Relação de CoResponsáveis CORESP", o "Relatório de Representantes Legais –“RepLeg” e a Relação de Vínculos – “VÍNCULOS”, anexos ao lançamento lavrado unicamente contra pessoa jurídica, não atribuem responsabilidade tributária às pessoas ali indicadas nem comportam discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, tendo finalidade meramente informativa; b) negou provimento às demais alegações apresentadas pela Recorrente. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/1999 a 31/01/1999 MULTA MORATÓRIA. PENALIDADE MAIS BENÉFICA. O não pagamento de contribuição previdenciária constituía, antes do advento da Lei nº 11.941/2009, descumprimento de obrigação tributária punida com a multa de mora do art. 35 da Lei nº 8.212/1991. Revogado o referido dispositivo e introduzida nova disciplina pela Lei 11.941/2009, devem ser comparadas as penalidades anteriormente prevista com a da novel legislação (art. 35 da Lei nº 8.212/1991 c/c o art. 61 da Lei nº 9.430/1996), de modo que esta seja aplicada retroativamente, caso seja mais benéfica ao contribuinte (art. 106, II, “c” do CTN). Não há que se falar na aplicação do art. 35A da Lei nº 8.212/1991 combinado com o art. 44, I da Lei nº 9.430/1996, já que estes disciplinam a multa de ofício, penalidade inexistente na sistemática anterior à edição da MP 449/2008, somente sendo possível a comparação com multas de mesma natureza. Interposto então, o presente Recurso Especial, requerendo: Diante do exposto, requer a União (Fazenda Nacional) seja admitido e provido o presente recurso para, na parte objeto de inconformismo, reformar o acórdão recorrido, aplicando quanto ao cálculo da multa, a disciplina do art. 35‑ A da Lei nº 8.212/91, se mais benéfico. Trouxe como paradigmas o Acórdão 240100.453. Fl. 258DF CARF MF Processo nº 15375.000576/200932 Acórdão n.º 9202006.641 CSRFT2 Fl. 258 3 O Contribuinte, intimado, quedouse silente Na origem, tratase de Notificação Fiscal de Lançamento de Débito NFLD lavrado em face do HOSPITAL E MATERNIDADE SANTA RITA S/A, pertinente às contribuições previdenciárias pertinentes a parte do segurado, a cota patronal, bem como as designadas para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho GIILRAT, devidas pela empresa em epígrafe, na qualidade de responsável solidário, conforme se infere do Relatório Fiscal às fls. 38/43. É o relatório. Voto Conselheira Patrícia da Silva Relatora Entendo presentes todos os requisitos de tempestividade e divergência fática suficiente para conhecimento do presente. No mérito, a discussão cingese à controvérsia relativa às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. Fl. 259DF CARF MF 4 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35 A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser Fl. 260DF CARF MF Processo nº 15375.000576/200932 Acórdão n.º 9202006.641 CSRFT2 Fl. 259 5 comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499: Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: Fl. 261DF CARF MF 6 I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da Fl. 262DF CARF MF Processo nº 15375.000576/200932 Acórdão n.º 9202006.641 CSRFT2 Fl. 260 7 contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº Fl. 263DF CARF MF 8 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de Fl. 264DF CARF MF Processo nº 15375.000576/200932 Acórdão n.º 9202006.641 CSRFT2 Fl. 261 9 obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35 A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Diante de todo o exposto, conheço e dou provimento ao recurso para determinar que a multa seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Fl. 265DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13896.721615/2014-91
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2009, 2010
LANÇAMENTO. NULIDADE. REQUISITOS LEGAIS PRESENTES.
Não é nulo o auto de infração lavrado por autoridade competente quando se verificam presentes no lançamento os requisitos exigidos pela legislação tributária e não restar caracterizado o cerceamento do direito de defesa.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009, 2010
DEPÓSITOS BANCÁRIOS. TRANSFERÊNCIAS ENTRE CONTAS.
Incabível a exclusão de depósitos bancários que se alega serem provenientes de transferências entre contas de mesma titularidade quando não comprovadas com documentação hábil e idônea.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2008, 2009, 2010
DECADÊNCIA.
O direito de a Fazenda Pública rever lançamento por homologação extingue-se no prazo de 5 (cinco) anos, contados da ocorrência do fato gerador, exceto quando o sujeito passivo tenha se utilizado de dolo, fraude ou simulação, ou quando ausente o pagamento antecipado, hipóteses em que o prazo é contado do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado.
INCONSTITUCIONALIDADE. ARGÜIÇÃO.
Às instâncias administrativas não compete apreciar vícios de ilegalidade ou de inconstitucionalidade das normas tributárias, cabendo-lhes apenas dar fiel cumprimento à legislação vigente.
PROVA. EXTRATOS BANCÁRIOS. OBTENÇÃO.
Válida é a prova consistente em informações bancárias requisitadas em absoluta observância das normas de regência e ao amparo da lei, sendo desnecessária prévia autorização judicial.
MULTA QUALIFICADA. PRESUNÇÃO LEGAL. SIMPLES OMISSÃO DE RECEITA. IMPOSSIBILIDADE
Omissão de receita baseada em presunção legal, sem qualquer outra circunstância ligada à ocorrência do fato gerador não pode ensejar a qualificação da penalidade. O fato de a pessoa jurídica estar constituída em nome de interpostas pessoas não altera qualquer característica atinente à ocorrência do fato gerador, inclusive no que toca à identificação de movimentação financeira incompatível com a renda, uma vez que as contas bancárias em questão estavam todas em nome da pessoa jurídica autuada, não se aplicando o disposto na Súmula CARF nº 34, mas sim os enunciados das Súmulas CARF nº 14 e nº 25.
MULTA AGRAVADA. REDUÇÃO.
Incabível a aplicação da multa de ofício majorada em 50%, quando não se encontram materializados nos autos, de forma inequívoca, os pressupostos previstos na legislação tributária para sua majoração.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM. CABIMENTO.
Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão do interesse comum na situação que constitui fato gerador da obrigação principal, nos termos do art. 124, I, do CTN, quando demonstrado, mediante conjunto deelementos fáticos convergentes, que os responsabilizados não apenas ostentavam a condição de sócios de fato da autuada, como estabeleceram entre ela e outras empresas de sua titularidade atuação negocial conjunta.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135, III, DO CTN.ADMINISTRADOR DE FATO. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DEPESSOAS. CABIMENTO.
Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão da prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, nos termos do art. 135, III, do CTN, quando demonstrado, mediante conjunto de elementos fáticos convergentes, que os responsabilizados ostentavam a condição de administradores de fato da autuada, bem como que houve interposição fraudulenta de pessoa em seu quadro societário.
Numero da decisão: 1301-002.749
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado: (I) por unanimidade de votos negar provimento ao recurso de ofício e aos recursos voluntários dos coobrigados. Os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro e Bianca Felícia Rothschild acompanharam pelas conclusões o voto do Relator em relação aos recursos dos coobrigados. II) No que se refere à exigência do crédito tributário da pessoa jurídica: (i) por unanimidade de votos rejeitar as arguições de nulidade; (ii) em relação à infração 0001 (depósitos bancários de origem não comprovada), por maioria de votos acolher a arguição de decadência para exonerar o crédito tributário de IRPJ e de CSLL da infração relativa a relativo ao 1º trimestre do ano-calendário de 2009, e, no mérito, dar provimento parcial aos recursos para reduzir a multa de ofício para o percentual de 75%, vencida a Conselheira Milene de Araújo Macedo que votou por negar provimento aos recursos voluntários, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Bianca Felícia Rothschild e Fernando Brasil de Oliveira Pinto.
Nome do relator: FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO
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camara_s : Terceira Câmara
ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2009, 2010 LANÇAMENTO. NULIDADE. REQUISITOS LEGAIS PRESENTES. Não é nulo o auto de infração lavrado por autoridade competente quando se verificam presentes no lançamento os requisitos exigidos pela legislação tributária e não restar caracterizado o cerceamento do direito de defesa. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2009, 2010 DEPÓSITOS BANCÁRIOS. TRANSFERÊNCIAS ENTRE CONTAS. Incabível a exclusão de depósitos bancários que se alega serem provenientes de transferências entre contas de mesma titularidade quando não comprovadas com documentação hábil e idônea. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2008, 2009, 2010 DECADÊNCIA. O direito de a Fazenda Pública rever lançamento por homologação extingue-se no prazo de 5 (cinco) anos, contados da ocorrência do fato gerador, exceto quando o sujeito passivo tenha se utilizado de dolo, fraude ou simulação, ou quando ausente o pagamento antecipado, hipóteses em que o prazo é contado do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. INCONSTITUCIONALIDADE. ARGÜIÇÃO. Às instâncias administrativas não compete apreciar vícios de ilegalidade ou de inconstitucionalidade das normas tributárias, cabendo-lhes apenas dar fiel cumprimento à legislação vigente. PROVA. EXTRATOS BANCÁRIOS. OBTENÇÃO. Válida é a prova consistente em informações bancárias requisitadas em absoluta observância das normas de regência e ao amparo da lei, sendo desnecessária prévia autorização judicial. MULTA QUALIFICADA. PRESUNÇÃO LEGAL. SIMPLES OMISSÃO DE RECEITA. IMPOSSIBILIDADE Omissão de receita baseada em presunção legal, sem qualquer outra circunstância ligada à ocorrência do fato gerador não pode ensejar a qualificação da penalidade. O fato de a pessoa jurídica estar constituída em nome de interpostas pessoas não altera qualquer característica atinente à ocorrência do fato gerador, inclusive no que toca à identificação de movimentação financeira incompatível com a renda, uma vez que as contas bancárias em questão estavam todas em nome da pessoa jurídica autuada, não se aplicando o disposto na Súmula CARF nº 34, mas sim os enunciados das Súmulas CARF nº 14 e nº 25. MULTA AGRAVADA. REDUÇÃO. Incabível a aplicação da multa de ofício majorada em 50%, quando não se encontram materializados nos autos, de forma inequívoca, os pressupostos previstos na legislação tributária para sua majoração. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM. CABIMENTO. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão do interesse comum na situação que constitui fato gerador da obrigação principal, nos termos do art. 124, I, do CTN, quando demonstrado, mediante conjunto deelementos fáticos convergentes, que os responsabilizados não apenas ostentavam a condição de sócios de fato da autuada, como estabeleceram entre ela e outras empresas de sua titularidade atuação negocial conjunta. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135, III, DO CTN.ADMINISTRADOR DE FATO. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DEPESSOAS. CABIMENTO. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão da prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, nos termos do art. 135, III, do CTN, quando demonstrado, mediante conjunto de elementos fáticos convergentes, que os responsabilizados ostentavam a condição de administradores de fato da autuada, bem como que houve interposição fraudulenta de pessoa em seu quadro societário.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado: (I) por unanimidade de votos negar provimento ao recurso de ofício e aos recursos voluntários dos coobrigados. Os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro e Bianca Felícia Rothschild acompanharam pelas conclusões o voto do Relator em relação aos recursos dos coobrigados. II) No que se refere à exigência do crédito tributário da pessoa jurídica: (i) por unanimidade de votos rejeitar as arguições de nulidade; (ii) em relação à infração 0001 (depósitos bancários de origem não comprovada), por maioria de votos acolher a arguição de decadência para exonerar o crédito tributário de IRPJ e de CSLL da infração relativa a relativo ao 1º trimestre do ano-calendário de 2009, e, no mérito, dar provimento parcial aos recursos para reduzir a multa de ofício para o percentual de 75%, vencida a Conselheira Milene de Araújo Macedo que votou por negar provimento aos recursos voluntários, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Bianca Felícia Rothschild e Fernando Brasil de Oliveira Pinto.
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NULIDADE. REQUISITOS LEGAIS PRESENTES. Não é nulo o auto de infração lavrado por autoridade competente quando se verificam presentes no lançamento os requisitos exigidos pela legislação tributária e não restar caracterizado o cerceamento do direito de defesa. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010 DEPÓSITOS BANCÁRIOS. TRANSFERÊNCIAS ENTRE CONTAS. Incabível a exclusão de depósitos bancários que se alega serem provenientes de transferências entre contas de mesma titularidade quando não comprovadas com documentação hábil e idônea. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2008, 2009, 2010 DECADÊNCIA. O direito de a Fazenda Pública rever lançamento por homologação extingue se no prazo de 5 (cinco) anos, contados da ocorrência do fato gerador, exceto quando o sujeito passivo tenha se utilizado de dolo, fraude ou simulação, ou quando ausente o pagamento antecipado, hipóteses em que o prazo é contado do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. INCONSTITUCIONALIDADE. ARGÜIÇÃO. Às instâncias administrativas não compete apreciar vícios de ilegalidade ou de inconstitucionalidade das normas tributárias, cabendolhes apenas dar fiel cumprimento à legislação vigente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 89 6. 72 16 15 /2 01 4- 91 Fl. 1636DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.637 2 PROVA. EXTRATOS BANCÁRIOS. OBTENÇÃO. Válida é a prova consistente em informações bancárias requisitadas em absoluta observância das normas de regência e ao amparo da lei, sendo desnecessária prévia autorização judicial. MULTA QUALIFICADA. PRESUNÇÃO LEGAL. SIMPLES OMISSÃO DE RECEITA. IMPOSSIBILIDADE Omissão de receita baseada em presunção legal, sem qualquer outra circunstância ligada à ocorrência do fato gerador não pode ensejar a qualificação da penalidade. O fato de a pessoa jurídica estar constituída em nome de interpostas pessoas não altera qualquer característica atinente à ocorrência do fato gerador, inclusive no que toca à identificação de movimentação financeira incompatível com a renda, uma vez que as contas bancárias em questão estavam todas em nome da pessoa jurídica autuada, não se aplicando o disposto na Súmula CARF nº 34, mas sim os enunciados das Súmulas CARF nº 14 e nº 25. MULTA AGRAVADA. REDUÇÃO. Incabível a aplicação da multa de ofício majorada em 50%, quando não se encontram materializados nos autos, de forma inequívoca, os pressupostos previstos na legislação tributária para sua majoração. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM. CABIMENTO. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão do interesse comum na situação que constitui fato gerador da obrigação principal, nos termos do art. 124, I, do CTN, quando demonstrado, mediante conjunto deelementos fáticos convergentes, que os responsabilizados não apenas ostentavam a condição de sócios de fato da autuada, como estabeleceram entre ela e outras empresas de sua titularidade atuação negocial conjunta. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135, III, DO CTN.ADMINISTRADOR DE FATO. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DEPESSOAS. CABIMENTO. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão da prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, nos termos do art. 135, III, do CTN, quando demonstrado, mediante conjunto de elementos fáticos convergentes, que os responsabilizados ostentavam a condição de administradores de fato da autuada, bem como que houve interposição fraudulenta de pessoa em seu quadro societário. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado: (I) por unanimidade de votos negar provimento ao recurso de ofício e aos recursos voluntários dos coobrigados. Os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro e Bianca Felícia Rothschild acompanharam pelas conclusões o voto do Relator em relação aos recursos dos coobrigados. II) No que se refere à exigência do crédito tributário da pessoa jurídica: (i) por unanimidade de votos rejeitar as arguições de nulidade; (ii) em relação à infração 0001 (depósitos bancários de Fl. 1637DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.638 3 origem não comprovada), por maioria de votos acolher a arguição de decadência para exonerar o crédito tributário de IRPJ e de CSLL da infração relativa a relativo ao 1º trimestre do ano calendário de 2009, e, no mérito, dar provimento parcial aos recursos para reduzir a multa de ofício para o percentual de 75%, vencida a Conselheira Milene de Araújo Macedo que votou por negar provimento aos recursos voluntários, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Bianca Felícia Rothschild e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Fl. 1638DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.639 4 Relatório ROCK STAR MARKETING PROMOÇÕES E EVENTOS LTDA ME e coobrigados recorrem a este Conselho contra a decisão proferida pela DRJ em primeira instância (Acórdão 1460.099) que julgou parcialmente procedentes as impugnações apresentadas, pleiteando sua reforma, com fulcro no artigo 33 do Decreto nº 70.235, de 1972 (PAF). Em razão do montante de tributos e juros exonerados, o Presidente do colegiado a quo recorre de ofício a este Conselho, com fulcro no art. 34 do Decreto nº 70.235, de 1972, c/c , art. 1º da Portaria MF nº 03, 03 de janeiro de 2008, haja vista o acórdão de origem ter exonerado o sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa em valor total superior a R$ 1.000.000,00. Ressaltese que mesmo com o advento da Portaria MF nº 63, de 9 de fevereiro de 2017, que elevou o limite para interposição de recurso de ofício para R$ 2.500.000,00, o montante exonerado ainda exige novo pronunciamente desta Corte Administrativa. Por bem retratar o litígio, adoto o relatório da decisão recorrida, complementandoo ao final: Em procedimento de verificação do cumprimento das obrigações tributárias pelo sujeito passivo supracitado, foram constatadas, nos anoscalendário de 2009 e 2010, as seguintes infrações: 1) Omissão de receitas, nos anoscalendário de 2009 e 2010, provenientes de depósitos bancários de origem não comprovada. 2) Arbitramento do lucro nos anoscalendário de 2009 e 2010; 3) Omissão de receitas de prestação de serviços em geral, no anocalendário de 2010, constatada por meio das notas fiscais emitidas e não declaradas pela contribuinte. Foi arbitrado o lucro da pessoa jurídica, com fundamento no art. 530, III, do RIR/1999, tendo em vista que a contribuinte, sendo intimada, não apresentou os livros e documentos de sua escrituração. Foram lavrados os autos de infração exigindo os seguintes valores: TRIBUTO VALOR DO TRIBUTO R$ VALOR DOS JUROS DE MORA R$ VALOR DA MULTA R$ VALOR TOTAL R$ IRPJ 2.306.333,04 822.505,38 4.876.212,54 8.005.050,96 PIS 157.339,88 57.210,14 334.702,96 549.252,98 CSLL 697.136,72 248.800,54 1.482.991,39 2.428.928,65 COFINS 726.184,08 264.046,64 1.544.782,71 2.535.013,43 Fl. 1639DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.640 5 O enquadramento legal para o lançamento dos tributos encontrase descrito nos autos de infração. Consta no processo que, em 02/10/2012, foi lavrado o Termo de Inicio de Procedimento Fiscal, com ciência da contribuinte em 05/10/2012, solicitando a apresentação dos livros Diário, Caixa, Registro de Entradas de Mercadorias, Registro de Saídas de Mercadorias, Registro de Apuração de ICMS, notas fiscais de saídas de mercadorias e/ou serviços, arquivos digitais de notas fiscais de entrada e saída e extratos bancários de contas em instituições financeiras. Também foram enviados Termos de Ciência para o domicilio tributário da sócia cadastrada nos sistemas da Receita Federal do Brasil, Honorina Catarina Lopes da Silva, CPF: 094.300.95889, cuja ciência ocorreu em 23/10/2012. Em 15/01/2013 foi lavrado o Termo de Constatação e Reintimação Fiscal, com ciência da contribuinte em 18/01/2013, reintimandoa a apresentar os documentos solicitados no Termo de Início de Procedimento Fiscal. A contribuinte não atendeu a nenhuma dessas intimações. Em 07/03/2013 compareceu à delegacia o Sr Adalberto Palhinha Martins, procurador e contador da contribuinte informando que a empresa não possuía os documentos solicitados, inclusive os Livros Contábeis e Fiscais, e nesse mesmo dia a contribuinte tomou ciência do Termo de Continuidade de Procedimento Fiscal. Como a contribuinte não apresentou a documentação solicitada, foram expedidas RMF para o Banco HSBC, Banco Citibank S/A (2010), Banco Santander/Real. Em seguida a contribuinte foi intimada a comprovar, com documentação hábil e idônea, a origem dos depósitos efetuados nas contas correntes existentes nos bancos antes relacionados. Em diligência ao local identificado como sendo o domicilio tributário do sujeito passivo nos sistemas da Receita Federal do Brasil e no cadastro da JUCESPJunta Comercial do Estado de São Paulo, no endereço Estrada dos Romeiros, 6388, Centro, Santana de Parnaíba SP, CEP: 06.501001 foi encontrada uma placa que informava se tratar de um escritório de advocacia de Sidney Aparecido Alcassa. No imóvel constava uma placa informando que o endereço antigo deste local é Avenida Marginal, n° 36, sobreloja, Santana de Parnaíba / SP CEP: 06501075. De acordo com o sistema CNPJ/Parâmetros existem 84 empresas domiciliadas no endereço Estrada dos Romeiros 6388, e 68 matrizes e 09 filiais no endereço Av. Marginal, 36. Em diligência nesse último endereço, constatouse tratar de escritório de advocacia que também é utilizado para sublocações para empresas interessadas em ter domicílio tributário em Santana de Parnaíba, funcionando como “endereço virtual”, concluindose que a contribuinte nunca se estabeleceu nesse local ou teve a presença de qualquer funcionário. Em que pese todos os esforços e tentativas no sentido de localizar a empresa ou seus responsáveis não foi possível identificar onde realmente estava localizada. A empresa apesar de cientificada da lavratura da Representação para Inaptidão, processo n° 13896.721785/201395, não apresentou quaisquer esclarecimentos e nem adotou qualquer Fl. 1640DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.641 6 providência no sentido de regularizar sua situação cadastral que se encontra na situação cadastral de INAPTA desde o dia 28/08/2013, nos cadastros da Receita Federal do Brasil. No Ofício n° 684/2013GP, de 24 de Maio de 2013, a Prefeitura do Município de Santana de Parnaíba, em resposta ao Ofício SEFIS/DRF/Barueri n° 23/2013 informa que "a empresa ROCK STAR MARKETING PROMOÇÕES E EVENTOS LTDA., CNPJ N° 10.354.248/000104, possui cadastro neste Município sob o CCM n° 63.346, encontrase bloqueada, até que, apresente os documentos conforme solicitado, de acordo com a Lei n° 1.826, de dezembro de 1996" Foi lavrado em 10/09/2013 o Termo de Reintimação e Intimação Fiscal, com ciência pelo contribuinte através do Edital SEFIS/DRF/BRE n° 108/2013 em 25/09/2013, reintimandoo a apresentar todos os documentos e esclarecimentos solicitados nos seguintes Termos: Termo de Início de Procedimento Fiscal, Termo de Constatação e Reintimação Fiscal, Termo de Constatação e Reintimação Fiscal nº 2 e Termo de Intimação Fiscal n° 1. Em 01/10/2013 a Polícia Federal deflagrou uma ampla operação baseada nas investigações primárias da CPMI do Cachoeira, com ampla cobertura da mídia nacional, chamada "Operação Saqueador", com busca e apreensão nas empresas de fachada controladas pelo Sr Adir Assad em São Paulo, entre elas a Rock Star Marketing Promoções e Eventos Ltda. As empresas controladas pelo Sr Adir Assad, e investigadas por esta operação são todas registradas em nome de interpostas pessoas (laranjas), todas com vínculos profissionais e pessoais com este senhor e as provas serão exaustivamente relatadas neste relatório. No dia 27/11/2013 através do despacho do Departamento da Polícia Federal Superintendência Regional do Estado do Rio de Janeiro foi entregue a esta fiscalização um CD com toda a documentação apreendida no cumprimento do mandado de busca e apreensão acima relatado. Dentre a documentação apreendida constava Notas Fiscais emitidas pelo contribuinte, de prestação de serviços, compreendendo o ano calendário de 2010, e que estão demonstrados no Anexo 1 Notas Fiscais Rock Star Promoções Polícia Federal. Em 12/05/2014 compareceu a esta Delegacia da Receita Federal do Brasil em Barueri o Sr Adalberto Palhinha Martins CPF: 024.570.67804, procurador e contador deste contribuinte informando que "a empresa e o Sr ADIR ASSAD não poderiam atender a fiscalização devido ao fato de todos os documentos terem sido apreendidos pela Polícia Federal no seu escritório, e que a mesma estaria de posse desta documentação até a presente data". Cumpre esclarecer que do primeiro Termo lavrado nesta fiscalização, o Termo de Início de Procedimento Fiscal, de 02/10/2012, com ciência do contribuinte através do AR RQ884829119BR, em 05/10/2012, até o dia da apreensão dos documentos pela Polícia Federal na Rua Capitão Otávio Machado, 491 casa, Chácara Santo Antônio São Paulo / SP, conforme Mandado de Busca e Apreensão e Auto Circunstanciado de Busca e Arrecadação, de 01/10/2013, em anexo a este, passaramse 361 (trezentos e sessenta e um) dias sem que a empresa apresentasse os Livros Contábeis e Fiscais. O próprio contador Sr Adalberto Palhinha Martins já havia comunicado a esta fiscalização da inexistência destes Livros. Esta fiscalização, de acordo com o compartilhamento autorizado pela Justiça, recebeu todos os documentos apreendidos pela Polícia Federal, e ainda, utilizou cópia das Notas Fiscais neste procedimento, mas não havia qualquer Livro Contábil ou Fiscal entre os documentos apreendidos. Foi arbitrado o lucro da contribuinte com base no art. 530, III, do RIR/1999, e foi constatada omissão de receitas de prestação de serviços com base nas notas fiscais Fl. 1641DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.642 7 apresentadas pela contribuinte e aquelas apresentadas pela Polícia Federal. Apurouse, também, omissão de receitas correspondente aos depósitos bancários cuja origem não foi comprovada pela contribuinte. Foi aplicada a multa de ofício qualificada (150%), tendo em vista a constatação de sonegação fiscal caracterizada pela omissão de vultosas quantias de receita auferida nos anoscalendário de 2009 e 2010. Foi constatado que a fiscalizada utilizouse de "laranjas" ou "testas de ferro" como já amplamente conhecido no jargão popular, que se tratam de interpostas pessoas do verdadeiro sócio da sociedade. É a situação em que a identidade do real sujeito passivo ou do seu responsável é encoberta pela figura de terceiro(s), de forma a prejudicar os interesses da Fazenda Pública, quando da realização financeira do crédito tributário devido, caracterizandose, portanto, numa interposição fraudulenta. Os sócios de direito dessas empresas, geralmente, são de baixa capacidade econômica, não possuindo bens para garantir o crédito tributário numa eventual execução fiscal. Em troca de favores ou mediante pagamento, emprestam seus nomes para utilização escusa por parte de terceiros. Este expediente foi amplamente utilizado por esta sociedade e seus sócios de fato e de direito caracterizando as ações dispostas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502, de 30/11/1964. Sendo identificada a ocorrência de fatos que, em tese, configuram o CRIME CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA, previsto no artigo 1o, inciso I, e II, e artigo 2o, inciso I, da Lei 8.137/90, foi lavrada a REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS RFFP, com comunicação à autoridade competente para providências cabíveis. E, pelo fato de a contribuinte não ter apresentado justificativa ou esclarecimento para a falta de atendimento às intimações fiscais, houve o agravamento da multa de lançamento de ofício, aumentado pela metade, conforme § 2° do art. 44 da Lei n° 9.430, de 27/12/1996. Foi imputada responsabilidade solidária pelo crédito tributário exigido no presente processo a: Adir Assad, Sonia Mariza Branco, Sibely Coelho, Soiany Coelho, Four’s Empreendimentos Imobiliários Ltda., Santa Sonia Empreendimentos Imobiliários Ltda. Sendo notificada da autuação, a contribuinte ingressou com a impugnação de fls.919 a 935 e 953 a 982, na qual alega: ● Nulidade do lançamento. Todas as nulidades que afligem o auto de infração, como será evidenciado, resultam das próprias premissas adotadas pela autoridade fiscal, que são contraditórias entre si. ● Erro na identificação do sujeito passivo. A autoridade fiscal defende que a contribuinte é "empresa de fachada" e teria sido utilizada por terceiros (embora ela também diga que ela teria se valido de "laranjas") para a movimentação de recursos financeiros. Assim, se os valores dos depósitos bancários pertencem, em última análise, somente a Adir Assad ou ainda que pertencessem a este e a Sônia, Sibely e Soiany, o que excluiria a possibilidade de as últimas serem "laranjas" do primeiro , não podem pertencer, por imperativo da lógica, à pessoa jurídica. Seria, sob tais circunstâncias, imperiosa a aplicação do § 5º do artigo 42 da Lei n° 9.430/96, por força do qual os interponentes da pessoa jurídica deveriam reputarse contribuintes, não responsáveis tributários. Fl. 1642DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.643 8 Nem se cogite da possibilidade de equiparar a identificação dos supostos interponentes como responsáveis tributários ao que seria correto, isto é, a identificação destes como contribuinte. A uma, porque, diante das contradições encontradas no decorrer do auto de infração, nem mesmo é possível saber quais seriam os interponentes efetivamente tachados como tal pela autoridade fiscal; Sônia, Sibely e Soiany, por exemplo, são consideradas, ao mesmo tempo, como interponentes e como "laranjas". A duas, porque o regime tributário dos contribuintes é aquele que deve ser levado em conta para a válida constituição do crédito tributário fundamentado no artigo 42 da Lei n° 9.430/96, mas a inclusão dos supostos interponentes no rol de responsáveis em nada influencia a definição da matéria tributável, da base de cálculo e da alíquota dos tributos exigidos. E, por fim, a três, porque a própria titularidade dos recursos depositados (fator que determina a aplicação do § 5o do artigo 42 da Lei n° 9.430/96) é descrita de maneira ilógica no auto de infração, pois a tentativa de incluir outras pessoas jurídicas supostamente relacionadas às pessoas físicas no rol de responsáveis tributários (Santa Sônia Empreendimentos Imobiliários Ltda. ME e Four's Empreendimentos Imobiliários Ltda. ME) leva a autoridade fiscal a defender que, no final das contas, o dinheiro movimentado pela "empresa de fachada" lhes pertenceria. ● Nulidade por falta de intimação dos titulares da conta de depósito. A autoridade fiscal não poupou esforços para buscar demonstrar que a Rock Star seria uma "empresa de fachada" de Adir Assad e/ou das pessoas físicas (ninguém sabe ao certo), um simulacro, uma mentira, mas, ao mesmo tempo, deuse por satisfeita com a intimação das administradoras "de direito" desta ("laranjas", dentre outros) para a apresentação de provas sobre a origem dos montantes depositados, em atendimento ao que exige o caput do artigo 42 da Lei n° 9.430/96. Mas, se a empresa é "de fachada", que sentido faria intimála para dizer algo sobre o dinheiro que, em última instância, não lhe pertence? A falta de intimação do titular da conta bancária no procedimento de aplicação do artigo 42 da Lei n° 9.430/96 é causa de nulidade material do auto de infração. ● Nulidade por erro na identificação da base de cálculo e do aspecto temporal do fato gerador. A autoridade fiscal fez algo inexplicável: escreveu páginas e páginas sobre a tal "empresa de fachada", sobre o esquema de interposição fraudulenta supostamente adotado pelos seus "sócios de direito", ou apenas por Adir Assad (as afirmações são contraditórias quanto a este particular), e, mesmo assim, calculou o IRPJ e a CSLL com base no lucro arbitrado da "empresa fantasma" (termo utilizado em um dos documentos da investigação aludida pela autoridade fiscal). Dessa forma, a eleição do lucro arbitrado com base de cálculo do auto de infração é absolutamente ilegal, por contrariar gritantemente o § 5º do artigo 42 da Lei n° 9.430/96. A falha do auto de infração atinente à correta identificação do sujeito passivo, em consonância com o § 5º do artigo 42 da Lei n° 9.430/96, também infirma a determinação do aspecto temporal do fato gerador realizada no trabalho fiscal. Como já foi dito, o auto de infração impõe exigências a título de IRPJ/CSLL calculadas com base no lucro arbitrado. A incidência do IRPJ/CSLL sujeito ao lucro arbitrado, como se sabe, tem aspecto temporal trimestral. Tal aspecto temporal, porém, é completamente diferente daquele que haveria de ser levado em consideração acaso fosse aplicado o § 5º do artigo 42 da Lei n° 9.430/96: o imposto Fl. 1643DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.644 9 de renda seria calculado, neste caso, em periodicidade anual (considerandose os valores depositados auferidos e tributáveis na data do depósito, consoante dispõe o § 4º do artigo 42 da Lei n° 9.430/96). Pelo exposto, vêse que o § 5º do artigo 42 da Lei n° 9.430/96 acarreta erro quanto à identificação do aspecto temporal do fato gerador. ● Nulidade por erro na identificação da alíquota. As alíquotas do IRPJ aplicadas pela autoridade fiscal (15% mais o adicional de 10%) somente seriam corretas se a "empresa de fachada" pudesse ser considerada "efetiva titular" dos depósitos bancários autuados. Tal premissa, porém, é negada à exaustão pela autoridade fiscal. Assim sendo, deveria, se fosse o caso, ter aplicado as alíquotas adequadas aos "efetivos titulares" – repetindose, aqui, a problemática acerca da precisa identificação do(s) suposto(s) interponentes, derivada da contraditória linha de argumentação desenvolvida no auto de infração. ● Nulidade por erro na identificação da matéria tributável e do fato gerador. A Incorreta identificação do sujeito passivo (contribuinte) atestada a partir das próprias premissas do auto de infração, como visto acima fez a autoridade fiscal cobrar tributos errados todos eles , incorrendo, assim, em grave erro relativo à identificação matéria tributável. Omissão de receitas é matéria tributável errada, uma vez que não seria possível nomear qualquer "efetivo titular" do dinheiro movimentado pela "empresa de fachada" que fosse pessoa jurídica; poderseia, no máximo, cogitar de "omissão de rendimentos", mas a autoridade fiscal não se deu conta disso. Não há como se falar, diante dos próprios fundamentos do auto de infração, em "renda da pessoa jurídica" ou "receitas da pessoa jurídica". ● Nulidade por vício de motivação (notas fiscais emitidas pela “empresa de fachada”). Se a empresa é tida como "fantasma", desprovida de substância econômica própria (e isto é defendido de maneira recorrente pela autoridade fiscal, sobretudo para a defesa da caracterização do alegado evidente intuito de fraude), ela não deveria ser considerada como sujeito tributário autônomo para fins de atribuição da titularidade de valores tributáveis. Em vista disso, ainda que se pudesse ter como tributáveis os montantes indicados em notas fiscais "formalmente" emitidas pela "empresa de fachada", tais valores deveriam (fosse o caso) ser tributados como rendimentos dos sujeitos interpostos, não da própria empresa de fachada. ● Nulidade por inconsistência lógica do auto de infração. As contradições a seguir relacionadas maculam a motivação da autuação: 1) "empresa de fachada": a pessoa jurídica nomeada como contribuinte é, ao mesmo tempo, "empresa de fachada" e dona do dinheiro que por sua conta bancária circulou; como seria possível ser "empresa fantasma" e "efetiva titular" da conta de depósitos ao mesmo tempo? Além disso, afirmase que ela teria utilizado "laranjas" para mascarar a identidade de seus "sócios de fato"; como se isto fosse possível (aqui valeria, à autoridade fiscal, uma revisão Fl. 1644DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.645 10 das noções fundamentais do direito societário), e como se não fosse insólita a afirmação de que uma "empresa fantasma" pudesse ela própria estar por detrás de outras "fantasmas"; 2) Adir Assad: é apontado como o único interponente (o mentor de todo o suposto esquema de sonegação), mas, ao mesmo tempo, é tido como apenas um dos "sócios de direito" da "empresa de fachada"; 3) Sônia, Sibely e Soiany: são tidas como interponentes dos "sócios de direito", mas, concomitantemente, são descritas como "laranjas" de Adir Assad; como poderia um "laranja" usar outros "laranjas"? Mas as contradições do Auto de Infração não param por aí. Quando tenta, com notável esforço, atribuir "responsabilidade" a quem, se fosse o caso, deveria ser contribuinte, na realidade a autoridade fiscal invoca, indistintamente, as hipóteses do artigo 124 e 135 do CTN. Não se dá conta, porém, do fato de que o artigo 124 disciplina a obrigação solidária, e o artigo 135 trata da responsabilidade pessoal. A motivação do auto de infração (requisito material, à luz do artigo 142 do CTN e do artigo 50 da Lei n° 9.784/99) não se pode dizer ausente, mas é sem dúvida, imprestável. Daí a nulidade material do lançamento ora combatido. ● Indevido uso de informações bancárias obtidas sem autorização judicial. Os extratos bancários utilizados pela D. Autoridade Fiscal para fundamentar a presente autuação foram obtidos diretamente das instituições bancárias mediante mera Requisição de Movimentação Financeira (RMF), sem qualquer autorização judicial para a quebra do sigilo bancário da Impugnante. Assim, o presente lançamento demonstrase nulo de pleno direito, tendo em vista que efetuado com base em prova ilícita decorrente da ilegal quebra de sigilo bancário não autorizada por ordem judicial específica. As Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento reconhecem a possibilidade da discussão da constitucionalidade de lei e decreto em âmbito administrativo nos casos em que tenham sidos declarados inconstitucionais pelo plenário do STF. O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), em julgamento do Recurso Extraordinário n° 389.808/PR realizado em 15/12/2010, colocou fim à discussão quanto à quebra do sigilo bancário dos contribuintes para fins fiscais, afastando a possibilidade de a Receita Federal ter acesso direto aos dados bancários sem ordem emanada do Poder Judiciário. Dessa forma, uma vez que o Tribunal Pleno do STF considerou inconstitucional a legislação que daria suporte ao indevido acesso obtido pela fiscalização a informações e documentos protegidos por sigilo bancário Lei complementar n° 105/01, regulamentada pelo decreto n° 3.724/01 deverão igualmente os órgãos julgadores administrativos reconhecer a nulidade do lançamento que embasou o presente auto de infração, uma vez que, como se verá, fora fundado em provas ilícitas. Como se verá a seguir, entretanto, à luz do acórdão de julgamento do Recurso Extraordinário n° 389.808/PR proferido pelo Tribunal Pleno do STF, o artigo que autorizou a quebra do sigilo bancário da Impugnante encontrase eivado de inconstitucionalidade, sendo Fl. 1645DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.646 11 nulo o presente auto de infração, uma vez que lastreado em informações obtidas de forma ilegal junto às instituições financeiras. ● A inconstitucionalidade da Lei Complementar n° 105/01 e do Decreto n° 3.724/01 face ao art. 5°, "caput" e inciso X, da Constituição Federal ● A violação do art. 5o, XII, da Constituição Federal pela Lei Complementar n° 105/01 O artigo 5o da Constituição Federal prevê em seu inciso XII a inviolabilidade do sigilo de dados, inclusive os bancários, de qualquer cidadão, sigilo esse passível de flexibilização somente em casos excepcionais, autorizados por ordem judicial. ● A violação do art. 145, § 1°, da Constituição Federal pelo art. 6° da Lei Complementar n° 105/01 Conforme destacado qualquer Poder da República, qualquer órgão do Estado, submetese, no exercício de suas prerrogativas constitucionais, às limitações impostas pela autoridade suprema da Constituição Federal. ● Nulidade do lançamento tributário fundamentado em provas ilícitas. Inconstitucionalidade da quebra de sigilo bancário sem autorização judicial prévia Diante das inconstitucionalidades acima apontadas, o presente auto de infração demonstrase nulo de pleno direito, visto estar fundamentado em provas obtidas ilicitamente, por meio da quebra de sigilo bancário desacompanhada de autorização judicial específica. ● INCORRETA APLICAÇÃO DA PRESUNÇÃO NECESSIDADE DE DESCONSIDERAÇÃO DAS TRANSFERÊNCIAS ENTRE CONTAS DO MESMO TITULAR A autoridade fiscal afirma que teria já desconsiderado as transferências provenientes de contas do mesmo titular quando da aplicação da presunção. Tal afirmação, porém, não resiste a uma análise mais detida, à luz do estatuto lógico que a própria autoridade fiscal impôs à dedução das acusações que formulou. Com efeito, não fosse este um caso que envolvesse a acusação de interposição fraudulenta, não mereceria reparos o trabalho fiscal. Como se pode ver no auto de infração, houve o cuidado de se desconsiderar as transferências eventualmente provenientes de outras contas de titularidade da própria pessoa jurídica autuada. Nada obstante, a autoridade fiscal não se limitou a aplicar, de maneira simples e direta, a presunção do artigo 42 da Lei n° 9.430/96. Mais que isto, fez um grande esforço para tentar demonstrar que a pessoa jurídica autuada seria "empresa de fachada", "sociedade fantasma", e, portanto, não seria titular "efetiva" dos valores movimentados nas contas que, apenas formalmente, seriam mantidas em seu nome. O esforço da autoridade fiscal, à evidência, deveuse à preocupação em alguns momentos, excessiva de oferecer subsídios para a eventual responsabilização das pessoas físicas que seriam os "sócios de fato" da pessoa jurídica autuada. Não está explícito no auto de infração, mas é possível compreender, com considerável plausibilidade, que a autoridade fiscal foi tomada pelo temor de que o lançamento tributário poderia resultar inócuo Fl. 1646DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.647 12 se lavrado apenas contra a pessoa jurídica autuada; deveras a autoridade fiscal deixa transparecer , ela acreditava que a capacidade econômica supostamente manifestada pelos depósitos bancários identificados não pertenceria à própria pessoa jurídica autuada, mas a terceiros os seus "sócios de fato". Estes os "sócios de fato" seriam os verdadeiros "donos do dinheiro", logo, efetivos titulares das contas bancárias mantidas (repitase o que afirma a autoridade fiscal) apenas formalmente em nome da pessoa jurídica autuada. Embora a pessoa jurídica autuada tenha sido expressamente e consistentemente tratada como "empresa de fachada", no momento em que foi aplicar o inciso I do § 3o do artigo 42 da Lei n° 9.430/96, a autoridade fiscal "fez de conta" de que ela seria verdadeira e efetiva titular das contas bancárias mantidas "apenas formalmente" em seu nome, bem como dos valores que por ela transitaram. Se tivesse sido bem sucedida no lavor hermenêutico, assumindo a responsabilidade pelo que disse, a autoridade fiscal teria constado que: (i) muitos dos depósitos autuados provieram de outras empresas que, segundo o auto de infração, seriam "empresas de fachada" dos mesmos sócios de fato que os da empresa autuada; (ii) segundo o auto de infração, o dinheiro movimentado por estas empresas não lhes pertenceria, mas aos sujeitos interponentes, que delas se utilizariam para manter na penumbra grandes somas de dinheiro; e (iii) logicamente, à luz das duas afirmações anteriores, os depósitos provenientes de todas as outras "empresas de fachadas" proviriam de contas cujos "efetivos titulares" os únicos que interessam para a aplicação da lei, nos termos do já citado § 5o do artigo 42 da Lei n° 9.430/96 são os mesmos "efetivos titulares" que os das contas mantidas "apenas formalmente" em nome da empresa autuada. Insistase neste ponto. Ao adotar a tese da rede de "empresas de fachada", a autoridade fiscal assume que os "sócios de fato" da empresa autuada seria o "efetivo titular": (i) das contas bancárias mantidas apenas formalmente em nome da empresa autuada; (ii) das contas bancárias mantidas apenas formalmente em nome das demais "empresas de fachada"; e (iü) consectariamente, dos valores movimentados em todas estas contas bancárias. Assim sendo, seria impossível não concluir que estarseia diante, na espécie, de valores de mesma titularidade (efetiva) circulando entre contas bancárias mantidas, apenas formalmente, pelas "empresas de fachada". Mas a titularidade formal é desprezada pela autoridade fiscal. Se o que interessa para o auto de infração é a titularidade efetiva, então não se poderia dizer algo diverso do seguinte: tratavase (o dinheiro transferido entre as "empresas de fachadas") de montantes saindo de "um bolso", e entrando em "outro bolso", mas sempre do(s) mesmo(s) efetivo(s) titular(s). Fl. 1647DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.648 13 ● NECESSIDADE DE EXCLUIR OS VALORES JÁ TRIBUTADOS DA BASE DE CÁLCULO DO AUTO DE INFRAÇÃO. Na remota hipótese de não se ter concluído, já com base nas razões anteriormente aduzidas, no sentido da necessidade de cancelarse o auto de infração hipótese que se cogita apenas a título argumentativo então, ao menos, deverão ser excluídos da base de cálculo dos lançamentos os montantes espontaneamente declarados e tributados pela empresa autuada. A autoridade fiscal reconhece que houve montantes declarados como receitas nas DIPJs da empresa autuada, e que sobre estes montantes foram calculados os tributos pertinentes, conforme consta das DCTFs correspondentes aos períodos autuados. Nada obstante, afirma a autoridade fiscal que não seria possível excluir tais montantes da base de cálculo do lançamento porque, não tendo a empresa autuada apresentado condições de disponibilizar os seus livros contábeis e fiscais, teria se tornado impossível realizar o cotejo entre as receitas supostamente omitidas, e aquelas espontaneamente declaradas. Como se extrai do auto de infração, a autoridade fiscal optou por sujeitar a empresa autuada ao lucro arbitrado. O lucro arbitrado é, em si, uma ficção legal, consistente na aferição arbitrária de uma margem de lucros a partir de certos dados conhecidos. Insta salientar, nesta ordem de idéias, que o lucro arbitrado não é uma grandeza que pode ser adicionada a outra forma de apuração do lucro tributável, nomeadamente o lucro real ou o lucro presumido. A legislação não permite, com efeito, que um mesmo contribuinte apure, ao mesmo tempo, o lucro arbitrado e o lucro real, ou o lucro arbitrado e a o lucro presumido. Nestes termos, não faz sentido a autoridade fiscal cobrar tributos com base no lucro arbitrado, e, ao mesmo tempo, fechar os olhos para o que já foi declarado e submetido ao regime do lucro presumido. Devem, portanto, os valores declarados e tributados espontaneamente pelo contribuinte ser excluídos do lançamento, como reconhecimento de que a adoção do lucro arbitrado possui um efeito substitutivo com relação ao lucro real ou presumido, e, uma vez realizada, dá origem a um único lucro tributável. VI DESCABIMENTO DA APLICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA E MAJORADA ● Ausência de Comprovação do "Evidente Intuito de Fraude". Em primeiro lugar, cabe notar que a simples omissão de receitas não é suficiente para concluir ter havido evidente intuito de fraude. Nesse sentido, confirase a Súmula CARF 14. Registrese, neste passo, que não há, no auto de infração, nem a afirmação, e muito menos a prova, de que a omissão de receitas teria sido prática reiteradamente adotada pela empresa autuada. Fl. 1648DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.649 14 Quanto à suposta utilização de “laranjas”, o que se tem é a descrição de suposta fraude cometida pelo suposto "sócio de fato", o qual, no presente caso, figura como "responsável tributário". A bem se ver, não há, no auto de infração, a demonstração de qualquer conduta dolosa da própria "empresa de fachada". Tudo o que se diz que foi fraudulento, em última instância, teria sido, supostamente, cometido pelos responsáveis, não pela "empresa de fachada". Segundo a autoridade fiscal, a utilização de "laranjas" não teria sido feita para impedir o conhecimento ou a ocorrência do fato gerador, nem ocultar quaisquer condições pessoais do contribuinte. A utilização de "laranjas" teria se prestado a ocultar o responsável tributário, e o artigo 73 da Lei n° 4.502/64 (assim como os artigo 71 e 72, aos quais ele remete) não fazem qualquer menção ao conhecimento da responsabilidade ou às condições pessoais do responsável. ● Ausência de embaraço à fiscalização. Deve, ainda, ser cancelada a majoração da penalidade (aumento de 50% da penalidade imposta) em razão da ausência do alegado embaraço à fiscalização. No caso presente, a autoridade fiscal afirma que a Impugnante noticiou, no curso da ação fiscal, que os livros fiscais e comerciais solicitados não existiriam, e que todos os demais documentos de que se poderia dispor houveram sido apreendidos pela Polícia Federal. Não houve, assim, ausência de resposta embaraço à fiscalização em sentido próprio. Ocorreu, simplesmente, que a autoridade fiscal não gostou da resposta que recebeu, desaprovou o conteúdo do que lhe foi reportado. Mas não há, nisto, o elemento do embaraço, que permite o agravamento da penalidade. Até porque eis o segundo dos aspectos antes mencionados diante da informação recebida, não poderia, jamais, a autoridade fiscal vislumbrar embaraço, mas um caminho certo para prosseguir com a ação fiscal: a via do arbitramento. Pelo exposto, deve ser cancelado o agravamento da penalidade, diante da ausência do seu pressuposto, qual seja, o embaraço à fiscalização. ● Ausência de Dolo e Embaraço no caso das Notas Fiscais emitidas O simples fato de ter havido a emissão de notas fiscais seria, em tal contexto, suficiente para descaracterizar o evidente intuito de fraude. Em casos como este, em que a prestação de serviços, e as receitas correspondentes, são documentadas, posto que não sejam declaradas, há, quando muito, pura omissão de receitas. Tanto assim que, em tais casos, nem mesmo carece, a autoridade fiscal, de valerse de qualquer presunção legal. Conclusão diversa, registrese, tornaria completamente vazia a expressão "simples apuração de omissão de receita", constante da Súmula CARF 14. Do mesmo modo, no caso das notas fiscais, não como se cogitar de embaraço à fiscalização, pois os documentos estavam em poder de terceiros, e, no final das contas, a autoridade fiscal conseguir reunir todos os elementos de que necessitava para autuar. Fl. 1649DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.650 15 Deve, assim, ser cancelada a parcela da qualificação, assim como a parcela do agravamento da multa incidente sobre as receitas objeto das notas fiscais emitidas pela empresa autuada, diante da ausência dos pressupostos da qualificação e do agravamento. ● Diante do exposto, a Impugnante requer seja declarada a nulidade material da presente autuação. Caso assim não entenda, seja reconhecida a decadência; a ilegitimidade da quebra do sigilo bancário da Impugnante e, subsidiariamente, a exclusão das multas aplicadas. ● Requer, outrossim, que todas as intimações e notificações a serem feitas, relativamente às decisões proferidas neste processo sejam encaminhadas aos seus procuradores, todos com escritório na Capital do Estado de São Paulo, na Avenida Angélica, n° 2.163, conjunto 61, em atenção a RAFAEL PINHEIRO LUCAS RISTOW, bem como sejam enviadas cópias à Impugnante, no endereço constante dos autos. ● Finalmente, a Impugnante protesta por todos os meios de prova em Direito admitidas, notadamente pela juntada de novos documentos. Adir Assad ingressou com a impugnação de fls. 985 a 1009, alegando: ● Impossibilidade de responsabilização solidária. Como exposto no termo de verificação fiscal, o Impugnante foi considerado responsável solidário pelos débitos lançados contra a pessoa jurídica autuada, com arrimo nos artigos 124, inciso I, e 135, inciso III, ambos do Código Tributário Nacional. O que se vê quando da apuração do interesse comum, em se tratando de crédito tributário, ele existe quando o agente (i) atuar em conjunto com o sujeito passivo e (ii) com o mesmo intuito específico em relação ao fato gerador. Temse responsabilidade pessoal quando o agente (i) praticar atos com excesso de poderes ou infração à lei e (ii) for diretor, gerente ou representante do sujeito passivo principal. Como se verifica do termo de verificação fiscal, os supostos fatos geradores foram praticados em 2009 e 2010, todavia, das "provas" apresentadas, notase que a maior parte delas se refere a períodos entre 2004 e 2008 e entre 2011 e 2013. Frisese: não há prova no tocante aos anoscalendário de 2009 e 2010. Notese: (i) O Linkedin e o Twitter são redes sociais criadas em anos anteriores a 2008; (ii) os emails são de 2008; (iii) as faturas de passagens aéreas são de 2008; (iv) a suposta intermediação com a "Vivo Rio" é de 2008; (v) as correspondências bancárias e DARFs são de 2008,2011,2012 e 2013; Fl. 1650DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.651 16 (vi) as guias da Previdência Social são de 2012; (vii) a lista de documentos enviada ao contador é de 2012, e (viii) os recortes da revista Veja são de 2012 e 2013. Além de as "provas" expostas no termo de verificação fiscal não se referirem aos anoscalendário de 2009 e 2010 e, portanto, não demonstrarem nada em relação a tais períodos, devese ter em mente que grande parte delas somente trata da empresa Rock Star Marketing Ltda. E nem se confunda o nome da empresa acima referida com a empresa autuada, pois esta Rock Star Marketing Promoções e Eventos Ltda. difere inclusive quanto ao CNPJ. Ora, o presente caso se tornou um poço de presunções simples e de má qualidade, mas permitir que sejam utilizadas "provas" de outra empresa para auto de infração lavrado contra a pessoa jurídica em comento já é demais. É ainda mais manifesta a ausência de elo entre o Impugnante e a Rock Star Marketing Promoções e Eventos Ltda. quando se nota que a Fiscalização não foi capaz de trazer uma prova sequer de um contato entre ambos. Desse modo, por não haver qualquer evidência específica que atrele o Impugnante à Rock Star Marketing Promoções e Eventos Ltda., mas, tão somente, provas banais uma suposta ligação com a Rock Star Marketing Ltda., por mais essa razão não pode ser mantido o Impugnante no pólo passivo deste processo. ● Efetiva ausência de provas da responsabilidade pessoal e solidária: O TVF traz assertivas e evidências imprestáveis a demonstrar qualquer fraude Irrelevância das "evidências" trazidas no TVF A análise das "provas" trazidas no termo de verificação fiscal não deve apenas vincular o Impugnante à pessoa jurídica autuada, mas, sim, e principalmente, demonstrar de forma cabal os atos de gestão ou atos em comum praticados por ele que teriam levado diretamente à fraude imputada à pessoa jurídica autuada. Analisase a seguir, uma a uma, as "provas" trazidas no termo de verificação fiscal de que o Impugnante teria alguma responsabilidade sobre a pretensa fraude imputada à pessoa jurídica autuada. Linkedin. Twitter e Cartão de Visitas Como adiantado nos parágrafos anteriores, a banalidade das "provas" e "evidências" trazidas no termo de verificação fiscal assustariam até mesmo os maiores defensores do Fisco Federal. Exemplo disso são as contas do Linkedin e do Twitter e o cartão de visitas do Impugnante, que comprovariam sua ingerência sobre a pessoa jurídica autuada. Em primeiro lugar, devese atentar ao fato de que o Impugnante já foi sócio da Rock Star Marketing Ltda., e as ocorrências no Twitter e no Linkedin, bem como seu cartão visitas, são meros resquícios de sua antiga relação com a empresa. Fl. 1651DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.652 17 Também não é possível saber, pelo termo de verificação fiscal, desde quando essas contas estão abertas, e nem quando esses dados referentes à Rock Star Marketing Ltda. foram inseridos na internet. Da mesma forma, impossível saber quando firam prensados os tais cartões de visita, pois não datados. Mas o bom senso é capaz de responder a essa pergunta, pois, tendo sido o Impugnante sócio dessa empresa até 29/08/2007, é notório que essas informações constantes no Twitter e no Linkedin são antigas, e não foram retiradas da internet por mera desídia. Quanto ao cartão de visitas, notese que ele sequer aponta qual seria a função do Impugnante na empresa, de modo que não há como saber se esse "documento" se refere à época em que foi sócio da Rock Star Marketing Ltda, ou se foi um cartão preparado para que o Impugnante prestasse serviços à empresa. Notase, mais uma vez, amplas possibilidades, e nenhuma certeza. Mais que isso, não há como vincular essas contas em redes sociais e o cartão de visitas a qualquer ato com excesso de poderes, ou mesmo alçar o Impugnante à condição de interessado na suposta fraude imputada à pessoa jurídica autuada. Essa "prova", portanto, não atrai a aplicação dos artigos 124, inciso I, e 135, inciso III, ambos do Código Tributário Nacional. Emails Mencionese novamente que os emails recortados e colados no termo de verificação fiscal, (i) não se referem aos anos de 2009 e 2010, (ii) boa parte sequer envolve o nome do Impugnante e (ii) o domínio envolvido é "@rstar". Ora, emails que não se referem ao período autuado, como dito, não podem comprovar absolutamente nada. Da mesma forma, os emails que não se referem ao Impugnante não podem gerar consequências a ele. O primeiro email trazido tem título "confirmação de agendamento", e nele não há referência ao nome do Impugnante, nem a qualquer ato referente à fraude imputada à pessoa jurídica. Este email foi encaminhado, provavelmente, para uma agência de turismo. O segundo email, sob título "valor para depósito", menciona de passagem o nome do Impugnante em uma aquisição de duas motocicletas uma Sundown Motard e uma Sundown Future. É notório que o valor dessas duas motocicletas, somados, não chegam a R$ 20.000,00. Ora, a troca de emails entre pessoas que pertencem ao círculo de convivência do Impugnante, referentes aos mais diversos assuntos, tais como a compra de duas motocicletas não podem gerar a presunção de que o Impugnante é gestor da empresa. Além disso, impossível aferir dessa comunicação algum ato praticado com excesso de poderes ou contra a lei frisese, as pessoas do email estão combinando a compra de duas motos! Não menos importante, e como já dito, o valor das motocicletas não chega a R$ 20.000,00, ou seja, montante completamente desconexo com a vultosa quantia exigida por meio do auto de infração. Quando muito, esse email serviria para responsabilizar o Impugnante por R$ 20.000,00 do total de milhões exigidos no auto de infração. Fl. 1652DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.653 18 O terceiro email, sob título "doido", foi enviado pelo Impugnante para Sônia Branco e se refere a um depósito de R$ 1.000,00, aparentemente sobre uma aquisição de um "capacete do Heman". As considerações feitas em relação às motocicletas também são válidas para este email, pois essa troca de mensagens não demonstra^ mais do que aparenta, ou seja, que o Impugnante tem contato informal com os atuais sócios da empresa Rock Star Marketing Ltda. \s Por fim, o quarto email constante do termo de verificação fiscal, sob título "conta do Bradesco Jesus", referese a uma palestra provavelmente ministrada por um professor da Faculdade Getúlio Vargas, em algum evento que tenha sido organizado pela Rock Star Marketing Ltda. Nesse email, é solicitado ao Sr. Adir e à Sra. Sibely o depósito do valor referente à palestra, todavia, tendo o Impugnante sido sócio da empresa em questão em anos anteriores, e mantendo uma boa relação com os sócios atuais da empresa indicando clientes, muitas vezes nada mais natural que o próprio cliente se refira também a ele na comunicação. Mesmo assim, é impraticável entender que esse quarto email demonstre que o Impugnante fosse gestor da empresa. Mas ainda que essa comunicação desse ensejo a alguma dúvida quanto à participação do Impugnante na gestão da empresa, falta a demonstração do dolo, do ato ilícito, com excesso de poderes, isto é, justamente aquele que ensejaria a responsabilidade. Ainda nessa esteira, devese dizer da completa falta de demonstração de interesse comum do Impugnante em relação aos atos ilícitos. Compra de Passagens Aéreas Apesar de repetitivo, é inevitável frisar que as faturas de passagens aéreas apresentadas no termo de verificação fiscal (i) não se referem aos anos de 2009 e 2010 e (ii) foram emitidas pela Rock Star Marketing Ltda, pessoa jurídica diversa daquela autuada neste processo. Mas a realidade é que, mesmo se fosse necessário analisar o seu conteúdo, elas de nada serviriam à vinculação do Impugnante à pessoa jurídica autuada. Em primeiro lugar, dentre os beneficiários das passagens emitidas pela Rock Star Marketing Ltda., constam também a Sra. Sibely Coelho e o Sr. Rómulo Paperono. Ora, o Sr. Rómulo Paperono não foi acusado de chefiar uma quadrilha de estelionatários simplesmente por constar em uma fatura de passagem aérea, assim como a Sra. Sibely foi acusada de ser "laranja" desse pretenso esquema, mas passou ao longe da acusação principal. Indagase, essa evidência serve apenas para incriminar o Impugnante? Isto é, tratase de uma prova sob medida para ele? A resposta é notória: essas faturas nada demonstram. E a incerteza é latente neste caso, pois estas passagens podem ter sido emitidas pelos mais variados motivos, pois (i) o Sr. Adir pode ter sido chamado a prestar serviços para a Rock Star Marketing Ltda. ou (ii) a empresa pode ter feito cortesia ao seu exsócio etc. i Fl. 1653DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.654 19 Sendo a Rock Star Marketing Ltda. uma empresa que tem como principal ativo os contatos com produtores e artistas, não é demais supor que, muitas vezes, seja de bom grado enviar um antigo contato, no caso o Impugnante, para tratativas sobre novos negócios. Isso não denota fraude alguma, mas, sim, um "modus operandi" comum nesse nicho negocial. Quando muito, poderia a Fiscalização questionar se não haveria contribuição previdenciária sobre alguma comissão recebida pelo Impugnante (pois seria salário ou remuneração indireta), algo que sequer se questionou até o presente momento. Em segundo lugar, além de não haver qualquer demonstração de ingerência por parte do Impugnante pelo simples fato de ter se beneficiado de algumas passagens aéreas, a emissão destas passagens jamais seria capaz de vincular o Impugnante ao ato ilícito de que se acusa a pessoa jurídica autuada. Correspondências bancárias. Darf e Guias da Previdência Social Toda a documentação referida neste título também segue o padrão das demais "provas" trazidas no termo de verificação fiscal, ou seja, (i) não se referem aos anos de 2009 e 2010 e (ii) não tem qualquer relação com a pessoa jurídica autuada. Quanto às correspondências bancárias recebidas em nome do Impugnante no mesmo endereço da Rock Star Marketing Ltda., vale lembrar que ele foi sócio dessas empresas em períodos anteriores.j Enfim, é de se indagar por mais essa vez como os endereços dessas correspondências vinculam o Impugnante à pessoa jurídica autuada, vez que não demonstram qualquer ato de gestão, e muito menos ato com excesso de poderes ou contra a lei. Aliás, sequer se trata de conduta. E qual seria o interesse comum emanado pelo endereço constante da correspondência bancária do Impugnante? Nenhum. Quando muito, a correspondência em questão poderia servir como ponto de partida para outras verificações, tais como um vínculo empregatício, a prestação de serviços ou, quem sabe, até mesmo uma sociedade oculta. Mas tudo isso não poderia ser presumido. A sequência de Darf e GPS aponta para existência de pagamentos de tributos da Rock Star Marketing Ltda. por uma empresa denominada Legend Eng Associados Ltda., e para pagamento de tributos do Impugnante por essa mesma empresa denominada Legend. A uma, onde é que a empresa autuada entraria nessa estória e qual com o Impugnante demonstrado por esses DARFs e GPS? A duas, a constatação de que a empresa Legend pagou tributos em favor do Impugnante e da Rock Star Marketing Ltda., quando muito, serviria para vincular o Impugnante à Legend, e não à empresa autuada. Por fim, a verificação de que alguns tributos das pessoas referidas acima pela empresa Legend nada tem a ver com a fraude imputada à pessoa jurídica, e muito menos com a suposta gestão com excesso de poderes dela pelo Impugnante. Lista de documentos enviada ao contador Fl. 1654DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.655 20 Segundo a Fiscalização, a lista de documentos enviada ao contador, Sr. Adalberto Palhinha, revelaria que o Impugnante seria o responsável pelo termo de verificação fiscal. Não se fala sobre quem enviou a lista, mas apenas que ela foi "enviada ao contador". Simples assim. Como se isso não fizesse diferença. Além disso, como exaustivamente referido, a documentação enviada ao contador, não se sabe por quem, tem aparentemente Darf, guias da Previdência e do INSS com vencimento em 2012, ou seja, completamente fora do período autuado. Segundo a Fiscalização, "os documentos abaixo demonstram mais uma vez o relacionamento existente" entre diversas pessoas jurídicas e o Impugnante, todavia, esqueceuse a Fiscalização de justificar seu raciocínio. Aparentemente, as empresas e o Impugnante seriam relacionados simplesmente por supostamente terem o mesmo contador. Este ponto merece uma pausa, pois se essa assertiva é verdadeira, todas as empresas do país que contratam contabilidade externa deverão, antes de fazêlo, proceder a uma auditoria para saber quais são os demais clientes do contador a ser contratado. Caso contrário, todas essas empresas poderão ser colocadas no mesmo "cesto" de eventuais fraudadores, ou, mesmo, terão de responder a autos de infração com os quais não têm qualquer relação. Recortes da Revista Veja A utilização, como "prova", de um recorte de revista é talvez a prova mais emblemática de um auto de infração sem conteúdo. Como dito de início, se fosse mesmo verdade que existe uma fraude latente praticada pelo Impugnante, certamente não seria necessário colacionar nos autos um recorte de revista. Não é possível que, mesmo se utilizando de provas emprestadas de um processo criminal (não concluído), resultante de uma operação com quebra de todos os sigilos possíveis e imagináveis de todos os suspeitos, a Fiscalização só conseguiu uma meia dúzia de recortes de correspondências bancárias, emails sobre assuntos triviais e algumas reportagens da Revista Veja. Apenas por boa vontade, e não mais do que isso, o Impugnante analisa a seguir se (i) realmente as reportagens se referem ao que menciona a Fiscalização e (ii) se, por ela, demonstrase qualquer relação do Impugnante com atos fraudulentos. As datas das reportagens foram mencionadas pela própria Fiscalização no termo de verificação fiscal (2012 e 2013), o que leva o Impugnante a novamente mencionar que nada há em relação aos anos de 2009 e 2010. Notese, também, que o início do parágrafo dá a entender que a mídia em geral publicou reportagens sobre o tema, mas, na realidade, a única fonte da Fiscalização é revelada ao final a Revista Veja. No que se refere ao conteúdo das reportagens, afirma a Fiscalização que o Impugnante admite que as empresas são suas, todavia, nas referidas reportagens não há assertiva alguma nesse sentido. Diferente disso, em uma delas consta que o Impugnante "não quis dar entrevista". Fl. 1655DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.656 21 Refutase, também, de toda a fonte utilizada como prova, pois a Revista Veja é o veículo de comunicação que já condenou à forca o expresidente Luis Ignácio Lula da Silva, a Presidente Dilma Roussef, metade do Congresso Nacional, boa parte dos Governadores e Prefeitos do país, e todo e qualquer cidadão que tenha alguma tendência que não seja a extrema direita. Não se condena que a Revista exponha seu ponto de vista com a parcialidade que lhe é peculiar, pois isso faz parte do "jogo democrático", mas há um grande salto entre ler e compartilhar dessas idéias e utilizar essa pregação ideológica como prova em um processo administrativo fiscal. Ao final, devese realizar o juízo que vem sendo exercido desde o início da presente defesa, com o intuito de verificar se a "prova" colacionada serve para demonstrar (i) interesse comum, (ii) ato de gestão e (ii) conduta com excesso de poderes. O Impugnante deixa ao intérprete que tire suas próprias conclusões quanto ao conteúdo das reportagens, mas não é possível aduzir do texto algo que forneça ao Impugnante a condição de gestor da pessoa jurídica autuada. Se nem isso é possível, que se pode dizer, então, da demonstração do ato com excesso de poderes e do interesse comum? Síntese sobre as "provas'' constantes do TVF Os recortes trazidos pela Fiscalização que tinham o intuito de vincular o Impugnante à pessoa jurídica autuada não cumprem o seu papel. Da maior parte das "provas" não se extrai nem mesmo um vínculo entre o Impugnante e a pessoa jurídica autuada. E daquelas "evidências" que, de alguma forma, atrelam o Impugnante a uma ou outra pessoa jurídica, nenhuma delas é capaz de comprovar um ato de gestão sequer praticado pelo Impugnante. Por consequência, se não há demonstração de condutas do Impugnante junto à pessoa jurídica autuada, impossível que se verifique o interesse comum na fraude e a conduta com excesso de poderes ou contrária à lei. Há, evidentemente, uma gradação das provas em que o degrau mais baixo seria a vinculação do Impugnante à pessoa jurídica autuada, o degrau do meio seria a demonstração de que ele é o efetivo gestor da empresa, e, por último, haveria o patamar referente a atos de gestão com interesse comum e com excesso de poderes ou contra a lei. Evidente que a Fiscalização teria de alcançar esse último degrau para que pudesse responsabilizar pessoal e solidariamente o Impugnante pelos débitos lançados contra a pessoa jurídica autuada. Contudo, o termo de verificação fiscal mal passa do primeiro degrau, pois a maior parte das provas sequer se refere ao Impugnante, e naquelas situações em que se verifica algum contato entre o Impugnante e a pessoa jurídica, não há sequer indícios de algum ato de gestão para os períodos autuados. Diante disso, e constatandose com toda certeza que o auto de infração é falho no que tange à produção de provas, não merece prosperar a responsabilização pessoal e solidária do Impugnante no presente caso. Fl. 1656DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.657 22 ● Ausência de fundamentação da responsabilidade solidária e pessoal. O fisco no TVF simplesmente diz qual documento trará a seguir e afirma que esse documento comprovaria que a impugnante seria gestora da pessoa jurídica autuada. Não se trata de fundamentação, mas de mera afirmação sem supedâneo algum. A Fiscalização afirma que há emails, e que estes provam algo, mas esquecese de explicar como e por quê. O fisco afirma que o suposto Grupo Rockstar, que já não foi provado, seria composto por diversas empresas controladas pelo Impugnante. Pronto! Magicamente se chegou a um grupo econômico controlado pelo Impugnante. Tratase, efetivamente, de uma conclusão sem comprovação das premissas, um verdadeiro salto indutivo. Prosseguese com a transcrição do termo de verificação fiscal: "Outras provas de que a empresa (...) é administrada pelo Impugnante, verdadeiro sócio administrador deste contribuinte, são os comprovantes de compra de passagens aéreas para o impugnante (...) Outro documento que comprova o vinculo do Impugnante com a empresa é a intermediação que este fez com a empresa de telefonia VIVO RIO, onde o contato da empresa era ADIR ASSAD, e foi usado o nome e o email institucional da empresa." Indagase: por que a emissão de passagens aéreas em favor de alguém. comprovaria que essa pessoa seria gestora de uma empresa? Segundo o termo de verificação fiscal, porque sim. Indagase também: por que um suposto comprovante de intermediação comprovaria que alguém seria gestor de uma empresa? Segundo o termo de verificação fiscal, mais uma vez, porque sim. Foi demonstrado acima que a Fiscalização não se deu ao trabalho de explicar como os recortes trazidos no termo de verificação fiscal seriam capazes de vincular o Impugnante à pessoa jurídica autuada, ou mesmo a qualquer outra referida no termo de verificação fiscal. Mas isso não é o mais grave. Como dito de início, não bastaria que o termo de verificação fiscal demonstrasse que o Impugnante tem algum contato com as pessoas jurídicas em questão, mas, sim, que agiu em conluio, com interesse comum, como gestor, com excesso de poderes ou contra a lei. Essas acusações seriam o centro da discussão sobre a responsabilidade solidária. Ocorre que o termo de verificação fiscal, talvez por ato falho, traz as provas e menciona apenas um suposto poder de gerência do Impugnante na pessoa jurídica, esquecendo se de citar sequer mencionou — o interesse comum, e qual seria o ato com excesso de poderes ou contra a lei praticado pelo Impugnante. Poderia a Fiscalização afirmar que, ao final do termo de verificação fiscal, afirmou a existência de prática contrária à lei, todavia, notese o que consta ao final do termo de verificação fiscal no que tange ao Impugnante: "Prática de sonegação fiscal (por omissão de receitas em declaração de informações fiscais à RFB e escrituração de livros contábeis). Esta é uma prática que Fl. 1657DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.658 23 contraria a lei, e, conforme dispõem o artigo 124,1 e artigo 135, III, da Lei n° 5.172, de 1966 (Código Tributário Nacional), enseja responsabilização pessoal do agente. Pelo excerto acima, somado à ausência de menção do interesse comum em todo o restante do termo de verificação fiscal, já se poderia afastar a possibilidade de responsabilização solidária do Impugnante. Ora, o artigo 124, inciso I, do CTN, nada menciona sobre ato contra a lei, mas, sim, falar sobre interesse comum do agente. Já no que tange à acusação de responsabilidade pessoal, a Fiscalização simplesmente repete a acusação feita contra a pessoa jurídica autuada, mas não explica qual teria sido o ato de gestão com excesso de poderes ou contra a lei que teria sido praticado pelo Impugnante. Notase, mais uma vez, um verdadeiro salto indutivo feito no termo de verificação fiscal. Ante o exposto, resta demonstrado também que a Fiscalização deixou de vincular as "provas" do termo de verificação fiscal ao Impugnante. Pior que isso, sequer menciona o interesse comum no termo de verificação fiscal, bem como deixa de explicitar qual teria sido o ato de gestão com excesso de poderes ou contra a lei efetivamente praticado pelo Impugnante, e que tenha relação com os fatos geradores em comento. ● Inaplicabilidade da multa qualificada. De acordo com a Fiscalização, "há evidência nos autos deste preciso de que a autuada ocultou a maior parte das suas receitas, furtando ao conhecimento do fisco a ocorrência do fato gerador do imposto" (destacamos). Em outras palavras, a Fiscalização afirma que deveria ser aplicada no presente caso a multa qualificada uma vez que a pessoa jurídica autuada teria omitido suas receitas. Ocorre que tal argumentação não pode ser mantida, haja vista o disposto na Súmula 14 do CARF, a qual atesta que "a simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só. não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo". Analisando a referida súmula também é possível verificarse que a multa qualificada somente é cabível quando a Fiscalização demonstrar adequadamente o seu elemento subjetivo, qual seja, o dolo específico. Segundo a doutrina, e, em especial, a jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, devese entender por dolo a vontade ou intenção do agente de praticar o ato previsto como crime; a plena consciência de que o ato praticado irá ocasionar o resultado delituoso. Compreende o dolo, portanto, dois elementos: um elemento cognitivo (conhecimento do fato que constitui a ação típica sonegação, no caso) e outro volitivo (vontade de realizála). No caso em tela, em momento algum foi demonstrado dolo específico por parte do Impugnante. Na realidade, como acima referido, a Fiscalização alegou apenas que "há evidência nos autos deste processo de que a autuada ocultou a maior parte das suas receitas". Fl. 1658DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.659 24 Ora, como se vê, o Fisco afirma que a empresa autuada teria agido com o intuito de ocultar suas receitas, mas em momento algum aduz que tal conduta foi tomada pelo Impugnante. Percebese, assim, que é de rigor o afastamento da multa majorada de 150% no caso em tela, devendo a multa de ofício, no caso de manutenção do crédito tributário, ser reduzida a 75%. ● Inaplicabilidade da multa agravada. Segundo o Fisco, a referida multa seria devida uma vez que a empresa autuada não teria apresentado informações solicitadas durante o trâmite da fiscalização. Ocorre que tal imputação de falta de prestação de informações não pode transcender a pessoa jurídica autuada. Isso porque as intimações supostamente não respondidas foram encaminhadas somente à pessoa jurídica autuada. Como se verifica da simples leitura do termo de verificação fiscal, as intimações em questão não foram enviadas ao Impugnante, mas tão somente ao contribuinte (pessoa jurídica autuada). É evidente que eventual falta de resposta às intimações em questão não pode ser imputada ao Impugnante, haja vista que este não recebeu qualquer notificação para que prestasse as informações requeridas pelo Fisco. ● Diante de todo o acima exposto, é a presente para requerer a exclusão do Impugnante do rol dos responsáveis solidários pelo débito em testilha. ● Protestase pela juntada de novos documentos, em especial aqueles comprobatórios das razões pelas quais não seria cabível a exigência em questão, além da produção de quaisquer provas adicionais que se façam necessárias ao bom deslinde do feito. ● Por fim, requer que as intimações relativas ao presente processo administrativo sejam endereçadas ao Impugnante na Rua Armando Petrella, 431, torre 8, unidade 9, Jardim Panorama, São Paulo/SP. Sonia Mariza Branco, Sibely Coelho, Soiany Coelho e Four’s Empreendimentos Imobiliários Ltda. ingressaram com a impugnação de fls. 1014 a 1061, na qual alegam: ● Nulidade do auto de infração, por erro na identificação do sujeito passivo. De acordo com o § 5º do art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, o contribuinte dos tributos exigidos com fundamento na constatação de depósitos bancários sem origem comprovada é o "efetivo titular da conta de depósitos", ou seja, o suposto interponente. Este, por conseguinte, não é responsável tributário, mas o próprio contribuinte, sujeito passivo principal da obrigação tributária. Segundo o art. 42 da Lei nº 9.430/1996, é necessário saber, com exatidão, se o contribuinte (o "efetivo titular da conta de depósito ou de investimento", no caso de alegada interposição de pessoa) é pessoa jurídica ou pessoa física. Isto, pois, como bem assinala o § 4o do artigo 42 da Lei n° 9.430/96, "tratandose de pessoa física, os rendimentos omitidos serão Fl. 1659DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.660 25 tributados no mês em que considerados recebidos, com base na tabela progressiva vigente à época em que tenha sido efetuado o crédito pela instituição financeira". Deve ser feita intimação para o titular da conta de depósito demonstrar a origem dos montantes depositados. Segundo a autoridade fiscal, o contribuinte (aquele que fato gerador da suposta omissão de receitas) é a pessoa jurídica Rock Star. Tanto assim que o IRPJ e a CSLL foram calculados com base no lucro arbitrado, sob a alegação que a pessoa jurídica não teria apresentado os livros contábeis nem apresentado declarações fiscais referentes ao período autuado. Apesar de tudo isso, a tese condutora do auto de infração é a de que a pessoa jurídica bem como as Impugnantes, arroladas como responsáveis tributárias teriam servido de interpostas pessoas. Falase, a torto e à direita, de "empresas de fachada", "laranjas", "testas de ferro", dentre outras expressões com carga retórica pejorativa. De um lado afirmase que: a impugnante seria a titular dos montantes depositados, e, por conseguinte, a contribuinte dos tributos devidos sobre as receitas supostamente omitidas (tributos, repitase, calculados sobre bases de cálculo e mediante a aplicação de alíquotas às quais se sujeitam as pessoas jurídicas); De outro lado: a) a Rock Star seria "empresa de fachada" de Adir Assad; b)a Rock Star, embora fosse "empresa de fachada", seria ela própria a interponente, utilizado os seus sócios (de direito) como "laranjas" para ocultar os seus "sócios de fato", c) os sócios (de direito) da Rock Star seriam "laranjas" de Sônia, Sibely, Soiany e Adir Assad; d) os sócios (de direito) da Rock Star seriam "laranjas" de Adir Assad; e e) Sônia e Sibely e Soiany, inicialmente tidas como interponentes, seriam também "laranjas" de Adir Assad. O que a autoridade fiscal defende é que a "empresa de fachada" teria sido utilizada por terceiros (embora ela também diga que ela teria se valido de "laranjas") para a movimentação de recursos financeiros. Em um caso tal no qual a autoridade fiscal dá sinais de acreditar, piamente, ter comprovado as suas alegações não se justifica, em absoluto, a desconsideração do § 5o do artigo 42 da Lei n° 9.430/96. Ora, se os valores dos depósitos bancários pertencem, em última análise, somente a Adir Assad ou ainda que pertencessem a este e a Sônia, Sibely e Soiany, o que excluiria a possibilidade de as últimas serem "laranjas" do primeiro , não podem pertencer, por imperativo da lógica, à pessoa jurídica. Seria, sob tais circunstâncias, imperiosa a aplicação do Fl. 1660DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.661 26 § 5o do artigo 42 da Lei n° 9.430/96, por força do qual os interponentes da pessoa jurídica deveriam reputarse contribuintes, não responsáveis tributários. O equívoco da autoridade fiscal é injustificável. É longa e fatigante a tentativa de caracterizar a pessoa jurídica como "empresa de fachada", ou seja, sociedade desprovida de substância econômica que nada mais faz que assumir a titularidade "formal" de dinheiro pertencente a terceiros. Por isso mesmo, não é compreensível a decisão de simplesmente ignorarse o § 5o do artigo 42 da Lei n° 9.430/96. Curiosamente, a autoridade fiscal colaciona acórdãos da jurisprudência administrativa que tratam da aplicação da presunção de omissão de receitas, lastreada em depósitos bancários, em casos envolvendo a interposição de pessoas. Casos em que, como não poderia deixar de ser, foi aplicado o § 5o do artigo 42 da Lei n° 9.430/96. Por qual motivo, então, seria admissível a desconsideração de tal comando normativo no caso vertente? O deslize que se acaba de denunciar implica a nulidade do auto de infração em razão do erro na identificação do sujeito passivo. ● Nulidade por falta de intimação do(s) titular(es) da conta de depósito. A autoridade fiscal não poupou esforços para buscar demonstrar que a Rock Star seria uma "empresa de fachada" de Adir Assad e/ou das pessoas físicas (ninguém sabe ao certo), mas, ao mesmo tempo, deuse por satisfeita com a intimação das administradoras "de direito" desta ("laranjas", dentre outros) para a apresentação de provas sobre a origem dos montantes depositados, em atendimento ao que exige o caput do artigo 42 da Lei n° 9.430/96. Contudo, embora tenha adotado esta linha de acusação, a autoridade fiscal jamais intimou o Sr. Adir Assad, por exemplo, para, especificamente, demonstrar ou comprovar a origem dos montantes depositados em conta bancária mantida pela "empresa de fachada", e cuja titularidade lhe estava sendo imputada, diante da suspeita de ter ocorrido interposição fraudulenta. ● Nulidade por erro na identificação da base de cálculo e do aspecto temporal do fato gerador. A autoridade fiscal escreveu páginas e páginas sobre a tal "empresa de fachada", sobre o esquema de interposição fraudulenta supostamente adotado pelos seus "sócios de direito", ou apenas por Adir Assad (as afirmações são contraditórias quanto a este particular), e, mesmo assim, calculou o IRPJ e a CSLL com base no lucro arbitrado da "empresa fantasma" (termo utilizado em um dos documentos da investigação aludida pela autoridade fiscal). Não é possível saber muito bem a quem o dinheiro pertenceria, segundo a autoridade fiscal: às vezes ela diz que seria de Adir Assad, outras vezes ela assevera que seria de titularidade de Adir Assad, Sônia, Sibely e Soiany; mas, em outra passagem, Sônia, Sibely e Soiany são descritas como "laranjas" de Adir Assad. Enfim, a confusão é generalizada, mas uma coisa fica clara no auto de infração: a autoridade fiscal não admite que os valores depositados na conta da "empresa de fachada" seriam, efetivamente, de sua titularidade. Em tal cenário, algo pode ser dito com certeza: a eleição do lucro arbitrado com base de cálculo do auto de infração é absolutamente ilegal, por contrariar gritantemente o § 5o do artigo 42 da Lei n° 9.430/96. Fl. 1661DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.662 27 A falha do auto de infração atinente à correta identificação do sujeito passivo, em consonância com o § 5o do artigo 42 da Lei n° 9.430/96, também infirma a determinação do aspecto temporal do fato gerador realizada no trabalho fiscal. Como já foi dito, o auto de infração impõe exigências a título de IRPJ/CSLL calculadas com base no lucro arbitrado. A incidência do IRPJ/CSLL sujeito ao lucro arbitrado, como se sabe, tem aspecto temporal trimestral. Tal aspecto temporal, porém, é completamente diferente daquele que haveria de ser levado em consideração acaso fosse aplicado o § 5o do artigo 42 da Lei n° 9.430/96: o imposto de renda seria calculado, neste caso, em periodicidade anual (considerandose os valores depositados auferidos e tributáveis na data do depósito, consoante dispõe o § 4o do artigo 42 da Lei n° 9.430/96). Pelo exposto, vêse que o § 5o do artigo 42 da Lei n° 9.430/96 acarreta erro quanto à identificação do aspecto temporal do fato gerador. ● Nulidade por erro na identificação da alíquota. As alíquotas do IRPJ aplicadas pela autoridade fiscal (15% mais o adicional de 10%) somente seriam corretas se a "empresa de fachada" pudesse ser considerada "efetiva titular" dos depósitos bancários autuados. Tal premissa, porém, é negada à exaustão pela autoridade fiscal. Assim sendo, deverseia, se fosse o caso, ter aplicado as alíquotas adequadas aos "efetivos titulares" – repetindose, aqui, a problemática acerca da precisa identificação do(s) suposto(s) interponentes, derivada da contraditória linha de argumentação desenvolvida no auto de infração. ● Nulidade por erro na identificação da matéria tributável e do fato gerador. A Incorreta identificação do sujeito passivo (contribuinte) atestada a partir das próprias premissas do auto de infração, como visto acima fez a autoridade fiscal cobrar tributos errados todos eles , incorrendo, assim, em grave erro relativo à identificação matéria tributável. Omissão de receitas é matéria tributável errada, uma vez que não seria possível nomear qualquer "efetivo titular" do dinheiro movimentado pela "empresa de fachada" que fosse pessoa jurídica; poderseia, no máximo, cogitar de "omissão de rendimentos", mas a autoridade fiscal não se deu conta disso. Não há como se falar, diante dos próprios fundamentos do auto de infração, em "renda da pessoa jurídica" ou "receitas da pessoa jurídica". ● Nulidade por vício de motivação (notas fiscais emitidas pela “empresa de fachada”). Se a empresa é tida como "fantasma", desprovida de substância econômica própria (e isto é defendido de maneira recorrente pela autoridade fiscal, sobretudo para a defesa da caracterização do alegado evidente intuito de fraude), ela não deveria ser considerada como sujeito tributário autônomo para fins de atribuição da titularidade de valores tributáveis. Em vista disso, ainda que se pudesse ter como tributáveis os montantes indicados em notas fiscais "formalmente" emitidas pela "empresa de fachada", tais valores deveriam (fosse o caso) ser tributados como rendimentos dos sujeitos interpostos, não da própria empresa de fachada. ● Nulidade por inconsistência lógica do auto de infração. Fl. 1662DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.663 28 As contradições a seguir relacionadas maculam a motivação da autuação: 1) "empresa de fachada": a pessoa jurídica nomeada como contribuinte é, ao mesmo tempo, "empresa de fachada" e dona do dinheiro que por sua conta bancária circulou; como seria possível ser "empresa fantasma" e "efetiva titular" da conta de depósitos ao mesmo tempo? Além disso, afirmase que ela teria utilizado "laranjas" para mascarar a identidade de seus "sócios de fato"; como se isto fosse possível (aqui valeria, à autoridade fiscal, uma revisão das noções fundamentais do direito societário), e como se não fosse insólita a afirmação de que uma "empresa fantasma" pudesse ela própria estar por detrás de outras "fantasmas"; 2) Adir Assad: é apontado como o único interponente (o mentor de todo o suposto esquema de sonegação), mas, ao mesmo tempo, é tido como apenas um dos "sócios de direito" da "empresa de fachada"; 3) Sônia, Sibely e Soiany: são tidas como interponentes dos "sócios de direito", mas, concomitantemente, são descritas como "laranjas" de Adir Assad; como poderia um "laranja" usar outros "laranjas"? Mas as contradições do Auto de Infração não param por aí. Quando tenta, com notável esforço, atribuir "responsabilidade" a quem, se fosse o caso, deveria ser contribuinte, na realidade a autoridade fiscal invoca, indistintamente, as hipóteses do artigo 124 e 135 do CTN. Não se dá conta, porém, do fato de que o artigo 124 disciplina a obrigação solidária, e o artigo 135 trata da responsabilidade pessoal. A motivação do auto de infração (requisito material, à luz do artigo 142 do CTN e do artigo 50 da Lei n° 9.784/99) não se pode dizer ausente, mas é sem dúvida, imprestável. Daí a nulidade material do lançamento ora combatido. ● Ausência de responsabilidade solidária ou pessoal das pessoas físicas e da empresa Four’s. Inaplicabilidade do art. 124, I, do CTN: Conforme leciona Paulo de Barros Carvalho, o interesse comum não se verifica pela condição de proximidade das partes do fato gerador, mas, sim, da condição de estarem as partes no mesmo pólo da relação jurídica. O "interesse comum" sempre será o "interesse jurídico", e este, por consequência, a existência de direitos e deveres iguais entre as partes solidárias. Repisese: direito iguais. Assim, afastase a solidariedade quando o interesse do agente for meramente econômico, no sentido de receber, de alguma forma, e sem ter colaborado para tanto, vencimentos ou dividendos oriundos, no todo ou em parte, de uma ação fraudulenta. E ainda, exigese das partes solidariamente obrigadas que tenham agido em conjunto com o devedor principal naquele ato que deu ensejo ao lançamento essa leitura é a que se coaduna com o afastamento da solidariedade de diretores, gerentes etc. quando em seu exercício regular da função ou quando obedecendo ordem expressa (CTN, art. 137, inciso I, segunda parte). Fl. 1663DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.664 29 Por fim, foi estabelecido recentemente que a solidariedade somente se confirma quando a fiscalização trouxer provas de que houve confusão patrimonial entre responsável e empresa contribuinte, pois esse seria o elemento caracterizador máximo do interesse comum. Depois de demonstrados os requisitos para a consideração da responsabilidade solidária nos termos do artigo 124, inciso I, do CTN, a contribuinte passou a esclarecer individualmente a carência desses pressupostos para a responsabilização de Sônia, Sandra e da empresa Four’s. Sra._ Sônia A autoridade Fiscal afirma que a Sra. Sônia é responsável solidária pelo débito em discussão porque (i) tem procuração pára a prática de atos de administração da Rock Star, (ii) assinou cheques pela empresa e (iii) é sócia de outras empresas do grupo. E é só. A questão é que nenhuma dessas demonstrações leva ao "interesse comum" exigido no artigo 124, inciso I, do CTN, pois, como amplamente mencionado, não se trata de interesse genérico, mas, sim, interesse específico na prática dos atos que levaram ao fato gerador em comento. Não há qualquer indício de confusão patrimonial entre a Sra. Sônia e a Rockstar ou o Sr. Adir Assad. Por fim, também não foi demonstrado qualquer benefício que a Sra. Sônia teria recebido oriundo da fraude imputada à Rockstar, o que serve a corroborar o quanto exposto até o momento no sentido de que, se houve fraude, ela passou longe da Impugnante. Sras. Sibely e Soiany: As alegações são de que (i) não teriam patrimônio suficiente para adentrar à sociedade, (ii) recebem prólabore da empresa Rockstar, (ii¡) constam da lista do plano de saúde pago pela empresa e (iv) já tiveram passagens aéreas compradas pela Rockstar em seu nome. Tais "provas" trazidas pelo TVF configuram, ao contrário de sua intenção, que as Sras. Sibely e Soiany poderiam não deter tanta influência na sociedade quanto deveriam como sócias, mas jamais poderiam tornálas solidárias em relação a qualquer ato fraudulento perpetrado pela Rockstar ou pelo suposto sócio de fato. Para encerrar, devese dizer que, também em relação às Sras. Sibely e Soiany, naufragou a acusação fiscal em demonstrar que elas teriam se beneficiado de qualquer valor oriundo do pretenso esquema engendrado, pois não há uma prova, um saque, uma transferência sequer que a empresa Rockstar tenha feito em nome da Impugnantes que representem um indício de sua participação na falcatrua imaginada pela D. Autoridade Fiscal. Pessoa Jurídica Four's As acusações contra a empresa Four's são (i) ter sido constituída em endereço coincidente com a da empresa Rockstar menos de dois anos depois, mudouse para a Vila Guarani, também na cidade de São Paulo, (ii) ter recebido todo o patrimônio da Sra. Sônia, (iii) suas quotas foram doadas pelas Sras. Sônia e Sibely para a filha da Sra. Sibely e para a sua irmã, (iv) as sócias de direito são diferentes das sócias de Fl. 1664DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.665 30 fato que seriam a Sra. Sônia e a Sra. Sibely, (iv) esses expedientes teriam o intuito de blindar o patrimônio das pessoas físicas contra a fiscalização da Receita Federal do Brasil. Em primeiro lugar, o fato de a empresa ter sido constituída no mesmo endereço da Rockstar não denota qualquer espécie de fraude, pois nos casos de holdings patrimoniais familiares, é bastante comum que a empresa não seja "operacional", que se estabeleça em endereços de utilização mútua da família inclusive no local de trabalho de alguns dos membros , e que seus bens sirvam como passo inicial para a realização de outros negócios. Além disso, a empresa logo mudou de endereço. Em segundo lugar, o fato de a Sra. Sônia ter doado o seu patrimônio para a Four's não caracteriza a ligação entre esta e a Rockstar. Como dito acima, a constituição de empresas por famílias que administrarão seu patrimônio em conjunto é muito comum e representa uma redução de diversos custos. Para que se pudesse mencionar o vínculo entre a Four's e a Rockstar, deveria a D. Autoridade Fiscal ter comprovado (i) que o resultado da suposta fraude teria gerado ganho à Sra. Sônia (algo que até agora não fez) e, (ii) posteriormente, que o patrimônio da Sra. Sônia transferido à Four's decorre, todo ele, de pagamentos fraudulentos recebidos pela Sra. Sônia da Rockstar. Em terceiro lugar, a doação de quotas entre familiares é extremamente comum. Em quarto lugar, a administração da empresa cujas quotas foram doadas aos filhos do antigo sócio geralmente resta ao doador, pois as holdings familiares são constituídas pelos mais diversos motivos, tais como adiantamento de herança, economia nos custos de administração etc., e faz sentido que o sócio constituidor, ainda que não conste formalmente da sociedade, permaneça com influência sobre seus familiares. Por fim, em quinto lugar, não procede a acusação de que a Four's foi engendrada para blindagem patrimonial das pessoas físicas, pois ela foi constituída em 2008, e a última operação com bens é datada de 24/02/2012. Ora, constatandose que a presente fiscalização se iniciou em 02/10/2012, a Four's somente poderia ter sido concebida para blindagem patrimonial se algum dos seus sócios tivesse a virtude de prever o futuro. Enfim, não se pode admitir que uma série de ilações e constatações banais justifiquem a conclusão positiva acerca da caracterização da solidariedade de terceiro que não tem qualquer vínculo com a pessoa jurídica autuada ou mesmo com o Sr. Adir Assad. ● Inaplicabilidade do art. 135, III, do CTN: No tocante à responsabilização das pessoas físicas, a D. Autoridade Fiscal, de forma completamente contraditória com o quanto afirmado no TVF, fundamentou legalmente o seu entendimento também no artigo 135, inciso III, do CTN. As acusações de obrigação solidária e de responsabilidade pessoal são incompatíveis entre si, e ensejam o cancelamento do lançamento no caso de ter havido erro na identificação do sujeito passivo principal. Fl. 1665DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.666 31 Mas mesmo na remota hipótese de se aceitar que a responsabilidade pessoal e a solidariedade podem subsistir, o auto de infração não poderia ser mantido. Isso porque os trechos do auto de infração em que há responsabilização solidária e pessoal são os mesmos, isto é, a estória desenvolvida pela D. Autoridade Fiscal chega a essas duas conclusões, sem que tenha sido realizada qualquer delimitação de quais condutas levaram à responsabilização pessoal e quais levaram à responsabilização solidária. Não tendo sido segregadas as condutas em questão, e as respectivas responsabilizações, deve ser cancelado o auto de infração no que se refere à solidariedade e à responsabilidade pessoal das Impugnantes. Evidente que a conduta com excesso de poderes ou fraude à lei que teria de ter sido demonstrada pela D. Autoridade Fiscal deve estar intimamente relacionada ao fato gerador, ou seja, deveria constar do TVF a prova de ações das Pessoas Físicas que tivessem relação com a ausência de declaração de notas fiscais ou com os depósitos recebidos supostamente como omissão de receitas. Nessa esteira, devese verificar que as Pessoas Físicas (Sras. Sônia, Sibely e Soiany) foram apontadas como interpostas pessoas pela D. Autoridade Fiscal, o que, apenas por isso, seria suficiente à demonstração de que não poderiam responder pessoalmente pelos tributos lançados neste caso. Além disso, as poucas "provas" trazidas pela D. Autoridade Fiscal se referem a atos de gestão absolutamente comuns por parte de um sócio de uma empresa, tais como (i) assinatura de cheques em valor compatível com a atividade, (ii) compra de passagens aéreas, (iii) recebimento de benefícios como plano de saúde e até mesmo prólabore, enfim, uma série de imputações que não detêm mínima relação com a acusação de fraude. Notase claramente que a prova da conduta dolosa jamais existiu, e muito menos de algum ato de gestão que tenha resultado na obrigação tributária em comento. Diante disso, a única alternativa restante neste caso é o afastamento da responsabilidade pessoal das Pessoas Físicas, a exemplo da solidariedade. ● Ainda que fosse mantida a solidariedade das Impugnantes, o que se admite por cautela, apenas, devese mencionar que elas não podem arcar com as penalidades aplicadas, muito menos com as quantias referentes ao agravamento e à qualificação por embaraço. Devese recordar que o artigo 124, inciso I, do CTN, diz respeito somente à responsabilidade pela obrigação principal, vale dizer, pelo tributo, mas nunca poderia autorizar a responsabilização solidária das Impugnantes pela multa, que segue uma lógica própria estabelecida pelo artigo 5o, inciso XLV da Constituição Federal, que determina que as multas punitivas, na qualidade de penalidades, não podem atingir pessoa diversa daquela que cometeu a infração e foi por tal ato condenada, de maneira que nenhuma multa poderia ser objeto de responsabilização solidária das Impugnantes. Em consonância com o dispositivo constitucional, verdadeiro princípio expresso, o artigo 137 do CTN também regula a matéria, esclarecendo que a responsabilidade pelas infrações é pessoal do agente que as comete. Fl. 1666DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.667 32 Da análise desse dispositivo, podese concluir que, embora a responsabilidade pela obrigação principal possa comportar a solidariedade, a responsabilidade pelas penalidades decorrentes de infrações será apenas do agente que as praticar quando as infrações em questão constituam crime, ou ainda quando dependam de dolo específico. Rememorese, neste ponto, que o TVF traz inscrito um suposto esquema fraudulento de omissão de receitas, o que o enquadra tanto no inciso I como no inciso II, do artigo 137 do CTN. Considerandose, ainda, que o próprio TVF é contraditório ao definir quem seria o pretenso agente (as qualificações de interponente e "laranja" são caóticamente atribuídas às pessoas ali citadas, inclusive à própria empresa), evidente que existe uma dificuldade para a aplicação (correta) da norma inserta no artigo 137. ● Ainda que seja mantida a responsabilidade pela penalidade aplicada, as impugnantes não podem responder pelo agravamento. A multa exigida, ainda que se tratasse daquela de 75%, jamais poderia ultrapassar a figura do agente. No presente caso, a multa de ofício foi qualificada nos termos dos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64, que descrevem condutas tipificadas como crimes tributários (Lei nº 8.137/90), de maneira que, em conformidade com o inciso I do art. 137 do CTN, a penalidade gerada por qualquer dessas infrações não poderia passar da pessoa do agente que a cometeu e, portanto, não poderia ser objeto de responsabilização solidária das impugnantes. De qualquer maneira, ainda que essas condutas não estivessem tipificadas como crimes, é essencial notar que, ainda assim, elas não permitiriam a responsabilização das Impugnantes, pois também dependem do dolo específico de que trata o inciso II, do artigo 137 do CTN. Extraise da leitura sistemática dos dispositivos acima transcritos que: (i) somente se aplica a multa de oficio agravada quando presente uma das hipóteses de que tratam os artigos 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/64; e (ii) as hipóteses de que tratam os artigos 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/64 requerem, para sua caracterização, a comprovação cabal do dolo específico. Dessa maneira, tendo em vista que a qualificação da multa depende do dolo específico do agente, bem como que tal dolo não foi demonstrado com relação às Impugnantes, ao menos a penalidade agravada deve ser afastada, com base no artigo 137, incisos I e II, do CTN. ● Impossibilidade de qualificação da multa por embaraço, mesmo contra a Rockstar. No presente caso, a D. Autoridade Fiscal alega que não foram atendidas as notificações para entrega de documentos exigidos e, por conta disso, utilizouse de (i) arbitramento e (ii) presunção de omissão de receitas. Fl. 1667DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.668 33 Ocorre que quando a ausência de entrega de documentos já acarretar, por si, uma penalização ao contribuinte, não poderá haver bis in idem com o agravamento por embaraço. De acordo com a jurisprudência do Carf, toda vez que a inércia do contribuinte tiver alguma consequência agravante prevista na legislação, seja ela o arbitramento ou a presunção de omissão de receitas, a multa não poderá ser agravada por embaraço, pois a conduta não gera prejuízo ao Fisco. Por essa razão, requerse a redução da multa aplicada no que tange ao percentual equivalente ao embaraço (art. 44, §2°, da Lei nº 9.430/96). ● Impossibilidade de as impugnantes serem responsabilizadas pela qualificação da multa por embaraço. Observandose o § 2o do artigo 44 da Lei n° 9.430/96, concluise que o embaraço à fiscalização também depende do dolo especifico de que trata o inciso II, do artigo 137, do CTN. Por conta da necessidade de dolo específico prevista nos dispositivos citados, devese dizer que a referida multa qualificada por embaraço é inoponível às Impugnantes por três razões. A primeira delas é consequência da própria narrativa do TVF, pois, se é verdade que as Impugnantes não são administradoras de fato da Rockstar, não poderiam embaraçar a fiscalização. A segunda razão para que tal agravamento não seja oponível às Impugnantes é que, quando do início da fiscalização em 10/2012, nenhuma das Impugnantes constava como sócia da Rockstar. Por fim, e principalmente, a terceira razão para que a multa qualificada não seja oponível as Impugnantes é o fato de que elas jamais receberam qualquer notificação para apresentação de documentos referentes à fiscalização da Rockstar, o que demonstra a completa impossibilidade de não terem atendido a um chamado do Fisco, pois tal chamado não foi feito. Ante o exposto, ainda que se pudesse manter a qualificação da multa pelo não atendimento de intimação do Fisco, tal penalidade não poderia ser imputada às Impugnantes. ● Diante do exposto, as impugnantes requerem seja declarada a nulidade material da presente autuação. Caso assim não entenda, seja reconhecida a decadência; excluída a responsabilização das pessoas arroladas como responsáveis solidárias e, subsidiariamente, a exclusão das multas aplicadas. Requerem, outrossim, que todas as intimações e notificações a serem feitas, relativamente às decisões proferidas neste processo sejam encaminhadas aos seus procuradores, todos com escritório na Capital do Estado de São Paulo, na Avenida Angélica, n° 2.163, conjunto 61, em atenção a RAFAEL PINHEIRO LUCAS RISTOW, bem como sejam enviadas cópias à Impugnante, no endereço constante dos autos. Fl. 1668DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.669 34 ● Protestaram por todos os meios de prova em Direito admitidas, notadamente pela juntada de novos documentos. Santa Sônia Empreendimentos Imobiliários Ltda. ingressou com a impugnação de fls. 1077 a 1091, na qual alega: ● A indevida inclusão como responsável tributária, de forma vertical e indireta foi equivocadamente baseada por presunção de que o pai das sócias da Impugnante, Sr. Adir Assad, houvera supostamente exercido cargo de gerência em uma das empresas fiscalizadas, e que teria constituído a sociedade Impugnante para blindar seu patrimônio, o que de plano já é um erro, posto que a constituição da empresa Santa Sônia se deu há quase 30 (TRINTA) anos (Doc. 01), e seus bens constituídos antes mesmo da ação fiscal, o que foi confessado pelo próprio relatório fiscal. Outra razão apontada foi a frágil informação trazida nos autos processo constante do relatório contábil de outra pessoa jurídica, a Rock Star Produções, do pagamento de uma conta de telefone no valor de R$309,39, o que resultaria a sujeição passivo do auto. Ora, o pagamento de uma conta telefônica, ressaltase de outro contribuinte narrado na ação fiscal caracterizase como uma reles e pontual relação econômica que em nada se vincula ao uma relação jurídica que possa configurar responsabilização pelo pagamento de tributos para os quais de forma alguma tenha concorrido. A sociedade Impugnante não participou fática ou juridicamente do fato gerador constante do auto, requisito básico e essencial para caracterizar sua responsabilização tributária. Com efeito, a Impugnante não prestou qualquer serviço, venda mercantil, ou beneficiouse de qualquer espécie das operações narradas pelo auto de infração, o que torna incompatível com sua inclusão no auto combatido. Não bastasse isto a Impugnante não se beneficiou de ativo em seu patrimônio, posto ter sido este constituído anteriormente com origem completamente distinta e dissociada das atividades da contribuinte autuada. Logo, o que constou do histórico lavrado pelo auto de infração não tem o condão em caracterizar qualquer espécie de vínculo ou interesse entre a impugnante e a contribuinte autuada do auto, posto que responsabilidade não se presume simplesmente, tornando inexistente e insubsistente a justificativa trazida para ensejar a sujeição passiva tributária combatida. ● Inexistência de relação jurídica tributária da impugnante com o fato gerador objeto da ação fiscal. A empresa Santa Sônia, ora impugnante, constituída há quase 30 ANOS, teve sua existência e constituição oriunda de patrimônio anterior constituído, sendo totalmente independente de relação comercial com a empresa fiscalizada. Não há razão, portanto, que justifique a responsabilidade tributária no auto de infração combatido à sociedade impugnante, o fato isolado de o pai das sócias da Santa Sônia Empreendimentos Imobiliários Ltda ter sido funcionário ou exercido suposta gerência sobre Fl. 1669DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.670 35 uma das empresas fiscalizadas não apresenta base legal para extensão vertical indireta da sujeição passiva do auto ora impugnado. Portanto, inexiste qualquer vínculo ou relação capaz de subsumir a sujeição passiva indevidamente imposta, haja vista que a lavratura do auto se dá sobre débitos constituídos por fatos geradores totalmente dissociados das atividades e patrimônio das empresas fiscalizadas. ● Insubsistência e ausência de razoabilidade na inclusão da impugnante na condição de sujeito passivo. A indevida inclusão no pólo passivo do débito resultou na constrição de bens da sociedade, bens estes adquiridos pelos frutos dos sócios e da sociedade Impugnante, isto anterior a própria constituição o que demonstra a desproporcionalidade e arbitrariedade do ação fiscal. Ressaltase, que a Impugnante é administrada de fato e de direito unicamente por suas sócias, inexistindo qualquer nexo, vínculo ou relação negocial com as empresas referidas, devendo ser excluída e cancelada a condição de sujeito passivo no auto em questão. O equivocado argumento de que haveria usufruto na doação das cotas pelos pais é inexistente, posto que o próprio instrumento contratual anexo (Doc. 01) comprova a inexistência da condição de usufruto narrado no Termo Fiscal. Podese extrair do próprio Termo de Vistoria Fiscal: "Em 20/04/2010 foi alterado o objeto social da sociedade para "incorporação de empreendimentos imobiliários e construções de edifícios". Em 01.08.2012 aconteceu a última alteração cadastral retirandose da sociedade o Sr. ADIR ASSAD e sua esposa SÔNIA REGINA ASSAD e sendo admitidas como sócias administradoras as filhas do casal Nicole Ferreira Assad CPF 408.981.96876 E Natalie Ferreira Assad CPF 371.171.47814. importante frisar, que a grande maioria dos bens do casal Adir Assad e Sônia Regina Assad encontrase registrado nesta empresa, e todos eles, a exceção de um automóvel BMW, foram adquiridos antes desta última alteração cadastral. Os fatos narrados no relatório fiscal não guardam relação com a empresa Impugnante cujo objeto é patrimonial e sua atividade voltada única e exclusivamente para a administração de seus próprios bens. A extensão da solidariedade em face da empresa Impugnante é medida demasiada exacerbada e ilegal, pois realizada por presunção não cabente ao caso, posto que a Impugnante tratase de pessoa jurídica autônoma, com atividade patrimonial independente, com origem que não guarda qualquer relação jurídica direta ou indireta com as demais empresas fiscalizadas ou seus administradores, nem tampouco qualquer responsabilidade por atos praticados por terceiros a caracterizar solidariedade ou subsidiariedade no cumprimento de obrigações. ● Ilegitimidade Passiva da impugnante ao presente processo administrativo inocorrência de hipótese de responsabilidade solidária. Conforme já explanado, a sujeição passiva da sociedade Impugnante em relação ao suposto crédito tributário lavrado com base no inciso I, do artigo 124 do Código Tributário Nacional, não se aplica, posto que nunca houve o compartilhamento ou benefício de Fl. 1670DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.671 36 qualquer espécie da empresa objeto da fiscalização para aquisição dos bens imóveis da empresa Impugnante. Não se aplica, contudo o disposto legal acima referido, pois os bens imóveis de propriedade da Impugnante foram adquiridos e pagos antes da ocorrência do fato gerador, e antes da ação fiscal, conforme relação anexa, (Doc. 03), além de inexistir vínculo entre as empresas e a Impugnante, não podendo se falar em "interesse comum". Para que se configure o interesse comum é necessária de presença de condições que não se encontram presentes no caso em tela, a primeira delas seria a participação da Impugnante no mesmo grupo econômico das demais empresas com relações jurídicas comuns, interesse jurídico comum, benefícios de qualquer ordem e coligados de forma habitual entre si, a outra seria a prática de conluio ou fraude, ambas munidas de dolo, o que também não se evidencia por inexistir qualquer nexo patrimonial ou negocial entre as empresas. Com efeito, o relatório fiscal traz como fundamento para caracterização da sujeição passiva o pagamento de uma conta telefônica, ou fatos e matérias jornalísticas falaciosas que nada se relacionam com o real histórico da Impugnante. A comprovação do vínculo ou da solidariedade, sobretudo em sede de direito tributário não se presume, mas depende efetiva comprovação da coordenação dos entes empresariais, o que não ocorreu no caso em tela. ● Inexistência de relação jurídica entre a impugnante e a contribuinte autuada. Por outro lado, temse que a origem lícita do patrimônio da empresa Impugnante é inquestionável, cujo a sociedade foi constituída com função meramente patrimonial, inexistindo qualquer elemento subjetivo que possa configurar a prática de ato ilícito doloso que faça incidir o dispositivo de solidariedade e interesse comum. A condição de sujeito passivo da obrigação principal, não na qualidade de contribuinte, mas de terceiro responsável não se configura no caso, pois a obrigação imposta não decorre expressamente de um dispositivo de lei, bem como não demonstrado e não produzido prova necessária a sua condição, e para caracterização do elemento solidariedade há de ser demonstrada a concorrência para se sujeitar a dívida. ● Ilegalidade das provas colhidas – inexistência de intimação no processo administrativo. A ação fiscal se baseou em documentos e informações colhidas por meios ilegítimos, da qual não teve ciência a Impugnante, bem como todo o processo administrativo afrontou os princípios constitucionais consignados no disposto artigo 5º Inciso LV da CF. Concluise portanto, que a inclusão da impugnante é desprovida de fundamentação e legalidade, e deve ser excluída do pólo passivo do auto ora combatido. ● A Jurisprudência é pacífica no sentido de restrição da solidariedade tributária quando não comprovado o interesse comum ou a inexistência de participação da pessoa jurídica nas atividades da contribuinte autuada. Fl. 1671DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.672 37 In casu, faz se necessária a revisão do procedimento fiscal, para que a autoridade fiscal demonstre e motive de forma cabal e necessária o seu relatório fiscal, permitindo que a Impugnante exerça seu direito de defesa no processo administrativo o que não ocorreu. ● Em razão de todo exposto, requer seja provida a presente Impugnação, expondo para tanto, os seguintes pedidos: "a" seja excluída a Impugnante na qualidade de responsável solidária da obrigação tributária; "b" seja reconhecida a nulidade do processo administrativo em razão da inocorrência de intimação da Impugnante para exercício de pleno direito de defesa e afronta aos princípios constitucionais, determinandose o retorno dos autos à autoridade fiscal a fim de que reabra o prazo para o contraditório. Analisando a impugnação apresentada, a decisão recorrida julgoua parcialmente procedente reduzindo a multa de ofício de 225% para 150% por entender não caracterizado embaraço à fiscalização necessário ao agravamento da penalidade em 50%. Houve interposição de recurso de ofício. Contribuinte e coobrigados foram cientificados da decisão de primeira instância e apresentaram recursos voluntários, conforme discriminado a seguir: Contribuinte / Coobrigado Data Ciência Data de Interposição de Recurso Voluntário Fls. do Recurso Voluntário ROCK STAR MARKETIG, PROMOÇÕES E EVENTOS LTDA – ME 20/05/2016 (fl. 1255) 31/05/2016 (fl. 1313) fl. 13131365 FOURS EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA 10/05/2016 (fl. 1256) 06/06/2016 (fl. 1369) 13711409 SIBELY COELHO 10/05/2016 (fl. 1258) 16/05/2016 (fl. 1265) 12651309 ADIR ASSAD 17/06/2016 (fl. 1262) 08/07/2016 (fl. 1710) 17101732 SOIANY COELHO 03/06/2016 (fl. 1528) 16/05/2016 (fl. 1265) 12651309 SÔNIA MARIZA BRANCO 10/05/2016 (fl. 1257) 16/05/2016 (fl. 1265) 12651309 SANTA SONIA EMPREENDIMENTOS IMOBILIARIOS LTDA ME 17/06/2016 (fl. 1263) 06/07/2016 (fl. 1421) 14231436 Em resumo, reafirmaram os termos de suas impugnações. Após o processo ser incluído em pauta de julgamentos a recorrente anexou aos autos cópias de inúmeros documentos, em especial a respeito de delações premiadas homologadas envolvendo os responsáveis pela pessoa jurídica autuada, em que, em resumo, assumese que somente um percentual da movimentação financeira em questão teria ficado a disposição dos delatores, sendo o restante repassado a diversos outros beneficiários do esquema narrado em suas delações. É o relatório. Fl. 1672DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.673 38 Voto Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Relator. 1 ADMISSIBILIDADE O recurso de ofício deve ser conhecido, uma vez que exonerada parcela de crédito tributário superior a R$ 2.500.000,00. De igual forma, devem ser conhecidos também os recursos voluntários, posto que tempestivos e dotados dos demais pressupostos legais de admissibilidade. 2 RECURSO DE OFÍCIO A turma de julgamento a quo recorreu de ofício a este Colegiado em razão da exoneração de crédito tributário superior a R$ 2.500.000,00. O provimento parcial à impugnação acatando o pedido de redução da multa de ofício do percentual de 225% para 150%, haja vista o entendimento da turma julgadora de que não houve embaraço à fiscalização. Mostrase correta a decisão recorrida. No que diz respeito ao agravamento da penalidade em 50%, nos termos do § 2o do art. 44 da Lei n° 9.430, de 27/12/1996, correta a conclusão da decisão recorrida de que a previsão para o agravamento é a falta de prestação de esclarecimentos, o que não ocorreu no caso concreto, onde o contribuinte prestou os esclarecimentos, informando não possuir os livros contábeis e fiscais solicitados. Especificamente em relação ao agravamento da penalidade na hipótese em que houve ausência de apresentação de livros e documentos, e tal omissão implicou o arbitramento de lucros, a impossibilidade de agravamento da penalidade é pacífica, a ponto de ser alvo de enunciado de Súmula1, nos termos a seguir reproduzidos: Súmula CARF nº 96: A falta de apresentação de livros e documentos da escrituração não justifica, por si só, o agravamento da multa de oficio, quando essa omissão motivou o arbitramento dos lucros. Desse modo, voto por negar provimento ao recurso de ofício. 1 A observância do entendimento firmado em súmulas do CARF é obrigatória aos membros do CARF, nos termos do art. 72 do Anexo II do Regimento Interno do CARF. Fl. 1673DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.674 39 3 RECURSO VOLUNTÁRIO 3.1 PRELIMINARES 3.1.1 SIGILO BANCÁRIO. INCONSTITUCIONALIDADE. NULIDADE. Em seu recurso voluntário, aduz a recorrente que o lançamento seria nulo em razão da quebra de seu sigilo bancário sem autorização judicial, procedimento que entende ser inconstitucional. Entre os direitos e garantias fundamentais, a Constituição Federal de 1988, no artigo 5º, XII, assegura que “é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal.” Entre os dados cuja a inviolabilidade está assegurada, nos dizeres da recorrente, encontrase o sigilo bancário, somente sendo admitido seu acesso, com ordem judicial, para fins criminais. Da leitura da norma constitucional acima transcrita depreendese que o legislador constituinte estabeleceu limites ao legislador ordinário, isto é, somente permitiu a edição de lei regulando o acesso ao sigilo bancário mediante duas condições: a) para fins de investigação criminal; b) mediante ordem judicial. Da leitura da norma constitucional acima transcrita depreendese que o legislador constituinte estabeleceu limites ao legislador ordinário, isto é, somente permitiu a edição de lei regulando o acesso ao sigilo bancário mediante duas condições: a) para fins de investigação criminal; b) mediante ordem judicial. O ponto principal do recurso em que se baseia o recurso é se o legislador ordinário poderia ter editado a Lei Complementar nº 105, de 2001 e a Lei nº 10.147, de 2001, outorgando poderes à Administração para requisitar a movimentação financeira dos contribuintes. Mais, além desta indagação há que se verificar se o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão da Administração que é, tem competência para conhecer e julgar questões afetas à constitucionalidade das leis. Inicialmente, observo que sancionada determinada lei ela entra no sistema jurídico e presumese constitucional até que seja declarada sua inconstitucionalidade, retirandoa do sistema ou impedindo sua aplicação em relação ao caso concreto, isto é “inter partes”. Por outro lado, o Judiciário pode deixar de aplicar lei que a considere inconstitucional, contudo, o mesmo não se aplica em relação à Administração. A razão desta lógica é que o EstadoAdministração não pode avocar para si a prerrogativa de julgar a constitucionalidade ou não de lei. Tal prerrogativa, por força das previsões contidas nos artigos 97, 102, I, compete ao Poder Judiciário. À luz do artigo 103, I, da Constituição Federal, o chefe do Poder Executivo, no caso o Presidente da República, tem legitimidade para propor ação direta de inconstitucionalidade sustentando que determinada lei viola da Constituição. Contudo, nem o Presidência da República e tampouco os demais órgãos da Administração podem deixar de cumprir lei sob o pretexto de que esta viola norma Constitucional. Neste sentido, à luz do artigo 26A, § 6º, I, do Decreto nº 70.235, de 1972, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de Fl. 1674DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.675 40 2009, a seguir transcrito, os Conselheiros do Carf somente podem deixar de aplicar lei sob o fundamento de inconstitucionalidade após o Supremo Tribunal Federal, por seu Plenário, em controle concentrado ou difuso, por decisão definitiva, ter reconhecido a inconstitucionalidade da norma. Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). .... § 6o O disposto no caput deste artigo não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) I – que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) Sobre a matéria este Conselho já pacificou seu entendimento por meio da Súmula nº 2, cujo teor é o seguinte: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. De todo modo, analisando o tema, o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 601314, e nas Ações Diretas de Inconstitucionalidade – ADIs 2390, 2386, 2397 e 2859 garantiu ao Fisco o acesso a dados bancários dos contribuintes sem necessidade de autorização judicial, nos termos da Lei Complementar nº 105 e do Decreto nº 3.724, de 2001. Quanto ao procedimento para acesso às informações bancárias diretamente pela Receita Federal, convém tecer alguns comentários adicionais. A respeito da suposta quebra de sigilo bancário, convém reforçar que o parágrafo único do art. 6º da Lei Complementar nº 105, de 2001, estabelece que as informações e documentos obtidos pela RFB junto às instituições financeiras serão conservados em sigilo. No mesmo sentido, o mesmo diploma legal estabelece em seu art. 1º, § 3º, VI, que não constitui violação do dever de sigilo a prestação de informações nos termos e condições estabelecidos nos seus arts. 2º, 3º, 4º, 5º, 6º, 7º e 10. Para preservar a inviolabilidade do direito constitucional que as pessoas têm à intimidade e à privacidade, preceitua o § 5º do art. 5º da precitada LC que: "As informações a que refere este artigo serão conservadas sob sigilo fiscal, na forma da legislação em vigor". Relativamente ao sigilo fiscal, vigora o art. 198 do Código Tributário Nacional, lei materialmente complementar, que, no seu caput, de acordo com a nova redação atribuída pela Lei Complementar nº 104, de 10 de janeiro de 2001, assim dispõe: "Sem prejuízo do disposto na legislação criminal, é vedada a divulgação, por parte da Fazenda Pública ou de seus servidores, de informação obtida em razão do ofício sobre a situação econômica ou financeira do sujeito passivo ou de terceiros e sobre a natureza e o estado de seus negócios ou atividades". Portanto, as informações bancárias sigilosas são transferidas à administração tributária da União sem perderem a proteção do sigilo. Desse modo, voto por não conhecer do recurso no que atine às arguições de inconstitucionalidade. Fl. 1675DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.676 41 Passo a tratar das nulidades suscitadas nos recursos voluntários. Os pressupostos legais para a validade do auto de infração são determinados pelo art. 10 do Decreto nº 70.235, de 1972, que trata do Processo Administrativo Fiscal, a seguir transcrito: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I a qualificação do autuado; II o local, a data e a hora da lavratura; III a descrição do fato; IV a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V a determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de 30 (trinta) dias; VI a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. A respeito da nulidade, o mesmo diploma legal assim dispõe: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1.º. A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2.º. Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3.º. Quando puder decidir o mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta. (Acrescido pelo art. 1.º da Lei n.º 8.748/1993) Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. (grifo nosso) Art. 61. A nulidade será declarada pela autoridade competente para praticar o ato ou julgar a sua legitimidade. Compulsando o processo, constatase que os autos de infração lavrados preenchem os requisitos elencados pelo art. 10 do Decreto nº 70.235, de 1972. Fl. 1676DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.677 42 A despeito do já exposto, no caso concreto não há qualquer dúvida quanto à ausência de prejuízo dos recorrentes. Compulsando os autos constatase que nenhuma das hipóteses legais de nulidade ocorreu. Salientese que não há que se falar em preterição do direito de defesa, uma vez o contribuinte, as sócias e todos os coobrigados foram intimados, desde o início do procedimento fiscal, a comprovar a origem dos créditos bancários efetuados nas contas correntes da pessoa jurídica autuada. De igual forma, contribuinte e coobrigados foram cientificados da autuação e da sujeição passiva solidária que lhes foi imputada, sendolhes aberto prazo para apresenta impugnação. Apresentadas suas defesas, todas foram apreciadas pela DRJ e, cientificados individualmente dessa decisão, apresentaram recurso voluntários ora em análise. Foilhes concedido o prazo legal para impugnação, direito que foi exercido plenamente pela contribuinte e pelos responsáveis solidários, com apresentação de defesa, ora em análise. Tanto nas impugnações apresentadas, quanto nos recursos voluntários, alegouse que, se a pessoa jurídica autuada é "empresa de fachada" que teria sido utilizada por terceiros para a movimentação de recursos financeiros, os valores dos depósitos bancários não pertenceriam à pessoa jurídica, mas sim aos interponentes. Ante a esses fatos, argumentouse que deveria ser aplicado o disposto no § 5º do artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996, uma vez que os interponentes da pessoa jurídica deveriam ser considerados contribuintes, e não responsáveis tributários. Entendo que esse argumento não se sustenta. A esse respeito, assim concluiu a decisão recorrida: Tal argumento não procede. Em momento algum se afirmou que os depósitos bancários não pertenciam à contribuinte, a qual estava constituída perante os órgãos de registro e Receita Federal, teve uma vultosa movimentação financeira incompatível com os valores declarados à Receita Federal e, sendo intimada a comprovar a origem de tal movimentação, não logrou fazêlo. Cabe enfatizar que o citado art. 42, “caput”, da Lei nº 9.430/1996, consigna que se caracterizam também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto à instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. No presente caso a Rock Star Marketing Promoções e Eventos Ltda. figura como efetiva titular das constas bancárias investigadas no procedimento fiscal, cabendo a ela o ônus de esclarecer que os recursos não lhe pertenciam, situação que não se caracterizou nos autos. Quanto à aplicação do § 5º, do art. 42, da Lei nº 9.430/1996, devese ressaltar que ele dispõe que quando provado que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem a terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento. Fl. 1677DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.678 43 No caso dos autos, a fiscalização não menciona que os valores não pertencem à contribuinte, nem esta agrega prova de que os recursos efetivamente pertencem a terceiras pessoas. Assinalese, ainda, que todos os responsáveis tributários arrolados foram intimados (fls. 507, 554, 601, 647) a se manifestarem acerca dos créditos bancários apurados, sem que nenhum deles tenha se pronunciado a respeito. Portanto, não há erro na identificação do sujeito passivo e não há que se falar em erro na determinação da base de cálculo, da alíquota ou que houve vício na motivação. Consta claramente nos autos a indicação dos dispositivos legais aplicados no lançamento e os motivos de fato que ensejaram a lavratura dos autos de infração, ou seja, a apuração, em investigação realizada pela Polícia Federal, da existência de empresas controladas por Adir Assad, entre elas a Rock Star Marketing Promoções e Eventos Ltda., as quais omitiram receitas provenientes de prestação de serviços (constatada por meio das notas fiscais emitidas e não declaradas) e de depósitos bancários de origem não comprovada. O que se observa, na realidade, é que, longe de haver erro na identificação do sujeito passivo, há, sim, uma constatação clara de que a pessoa jurídica autuada foi utilizada como instrumento de fraude, não havendo que se falar em sua desconsideração para fins de aplicação do que dispõe o art. 42 da lei nº 9.430, de 1996. Argui ainda a pessoa jurídica recorrente que haveria ofensa ao art. 4º do Decreto nº 3.724, de 2001, pois os extratos bancários em que se basearam o lançamento teriam sido obtidos sem a intimação prévia a que alude o dispositivo regulamentar em questão. Não assiste razão à recorrente. Basta observarse o Termo de Início do Procedimento Fiscal que se constata que já no primeiro termo lavrado solicitouse à recorrente a apresentação de seus extratos. Desse modo, voto por rejeitar as preliminares suscitadas. A respeito da arguição de decadência, deixarei para apreciála após análise da exigência da multa qualificada. 3.2 INCORRETA APLICAÇÃO DA PRESUNÇÃO – NECESSIDADE DE DESCONSIDERAÇÃO DAS TRANSFERÊNCIAS ENTRE CONTAS DO MESMO TITULAR A pessoa jurídica autuada, em seu recurso voluntário, aduz que a autoridade fiscal deveria ter excluído da tributação as transferências feitas entre as contas bancárias das empresas integrantes do grupo Rock Star. A autuada é acusada de omissão de receita, caracterizada pela falta de comprovação da origem dos depósitos/créditos efetuados em suas contas bancária, tendo por base legal o art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, que assim dispõe: Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente Fl. 1678DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.679 44 intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Tal dispositivo legal estabeleceu uma presunção de omissão de receitas, autorizando a exigência de imposto de renda e de contribuições correspondentes, sempre que o titular da conta bancária, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta de depósito ou de investimento. A inversão legal do ônus da prova é perfeitamente aceita por nosso ordenamento jurídico, estando regulada também no artigo 374, inciso IV, do Código de Processo Civil – CPC/2015 – equivalente ao art. 334, inciso IV, do CPC/1973), aplicado subsidiariamente ao Decreto nº 70.235/1972 no Processo Administrativo Fiscal: Art. 374. Não dependem de prova os fatos: (...) IV – em cujo favor milita presunção legal de existência ou de veracidade. A Lei nº 5.172, de 1966 (Código Tributário Nacional CTN), recepcionada pela nova Constituição, consoante artigo 34, § 5º, do Ato das Disposições Transitórias, define, em seus artigos 43, 44 e 45, o fato gerador, a base de cálculo e os contribuintes do imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza. De acordo com o artigo 44, a tributação do imposto de renda não se dá só sobre rendimentos reais, mas, também, sobre rendimentos arbitrados ou presumidos por sinais indicativos de sua existência e montantes. Esses artigos assim dispõem: Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. Art. 44. A base de cálculo do imposto é o montante real, arbitrado ou presumido, da renda ou dos proventos tributáveis. Art. 45. Contribuinte do imposto é o titular da disponibilidade a que se refere o artigo 43, sem prejuízo de atribuir a lei essa condição ao possuidor, a qualquer título, dos bens produtores de renda ou dos proventos tributáveis. Parágrafo único. A lei pode atribuir à fonte pagadora da renda ou dos proventos tributáveis a condição de responsável pelo imposto cuja retenção e recolhimento lhe caibam. A presunção em favor do Fisco transfere ao contribuinte o ônus de elidir a imputação, mediante a comprovação, no caso, da origem dos recursos utilizados para efetuar os depósitos bancários. Tratase, afinal, de presunção relativa, passível de prova em contrário. Fl. 1679DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.680 45 É função do Fisco, entre outras, comprovar o crédito dos valores em contas de depósito ou de investimento e intimar o titular da conta bancária a apresentar os documentos, informações e esclarecimentos, com vistas à verificação da ocorrência de omissão de receitas de que trata o artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996. Contudo, a comprovação da origem dos recursos utilizados nessas operações é obrigação do contribuinte. Não comprovada a origem dos recursos, tem a autoridade fiscal o poder e o dever de considerar os valores depositados em conta bancária como receita, efetuando o lançamento do imposto e contribuições correspondentes. Nem poderia ser de outro modo, ante a vinculação legal decorrente do princípio da legalidade que rege a Administração Pública, cabendo ao agente seguir a legislação. Dessa forma, detectadas irregularidades que conduzem à presunção de omissão de receita, por imposição legal e por ser a atividade de lançamento vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional, conforme parágrafo único do art. 142 do Código Tributário Nacional, cabe à fiscalização efetuar o lançamento de acordo com a legislação aplicável ao caso. A autuada, e também todos os coobrigados, foram intimados a comprovar, com documentação hábil e idônea, a origem dos valores depositados/creditados nas suas contas corrente não o fazendo nem durante o procedimento fiscal, tampouco nas impugnações e recursos voluntários apresentados. É importante ressaltar que a autoridade fiscal autuante intimou a empresa a esclarecer e comprovar a origem dos recursos depositados em suas contas correntes e a contribuinte não logrou fazêlo. Ficou bastante claro no processo que não restou comprovada a origem de todos os depósitos durante a ação fiscal. Portanto, a materialidade do fato gerador ficou evidenciada. Para que a comprovação da origem dos valores creditados em contas bancárias seja aceita, há de se comprovar que tais valores já foram oferecidos à tributação ou se referem a valores não tributáveis. Nesse contexto, perfeita a conclusão da decisão de primeira instância ao concluir que, “se existem depósitos não tributáveis provenientes de contas bancárias de outras empresas (ainda que do mesmo grupo), é ônus da contribuinte a comprovação de tal ocorrência, o que não foi feito até o momento”. Assim sendo, mostrase improcedente o argumento de defesa a respeito de suposta impossibilidade de utilização dos valores dos depósitos como base de cálculo dos tributos lançados, assim como a arguição de nulidade do lançamento, devendo ser mantida a exigência. 3.3 NECESSIDADE DE EXCLUIR OS VALORES TRIBUTADOS DA BASE DE CÁLCULO DO AUTO DE INFRAÇÃO. A contribuinte questiona o fato de a fiscalização não ter excluído os valores declarados da base de cálculo do lançamento, argumentando que como não foram apresentados os livros contábeis e fiscais, teria se tornado impossível realizar o cotejo entre as receitas omitidas e as declaradas. Fl. 1680DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.681 46 Aduz que ao se realizar o lançamento com base no lucro arbitrado, a autoridade tributária teria assumido que aquelas receitas lançadas de ofício equivaleriam ao total das receitas auferidas pela autuada. Nesse contexto, requer que os valores declarados e tributados espontaneamente pela autuada sejam excluídos da base de cálculo do lançamento. Mais uma vez, não assiste razão à contribuinte. Uma vez arbitrado o lucro, toda a receita auferida deve ser tributada com base nesse regime, não havendo que se falar em tributação somente das receitas omitidas. Para se excluir as receitas declaradas da omissão de receitas apontadas, deveria a contribuinte demonstrar quais depósitos referirseiam às receitas já declaradas, o que não foi realizado até esse momento, conforme já discorrido no tópico anterior deste voto. Problema haveria se a autoridade fiscal não tivesse excluído do lançamento os valores de tributos já declarados/pagos pela contribuinte, o que, efetivamente, não ocorreu, pois, após computar as receitas omitidas às já declaradas, apurouse o montante global de tributo devido pelo contribuinte, excluindose os valores já confessados em DCTF. Com esse procedimento determinouse efetivamente os tributos devidos pela contribuinte, incidindo sobre esse montante a penalidade aplicada e os juros moratórios correspondentes. Correto, portanto, o procedimento adotado pela autoridade fiscal. 3.4 MULTA DE OFÍCIO DE 150% Para melhor entendimento, transcrevese, a seguir, a redação do art. 44 da Lei nº 9.430 de 1996, com a redação vigente à época da ocorrência dos fatos geradores: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; II cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. [...] É importante ressaltar que qualquer questionamento a respeito da constitucionalidade de tais normas é tema que foge da competência desta Corte Administrativa, nos termos da Súmula CARF nº 22. Conforme se observa, nos termos do § 1º do artigo 44 da Lei nº 9.430, de 1996, só é admitida a aplicação da multa no percentual de 150%, nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964, que assim dispõem: 2 Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Fl. 1681DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.682 47 Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente; Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos artigos 71 e 72. Desse modo, a multa de 150% de que trata o inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, em sua redação original, terá aplicação sempre que em procedimento fiscal constatarse a ocorrência de sonegação, fraude ou conluio. Vêse que, para enquadrar determinado ilícito fiscal nos dispositivos dessa lei, há necessidade que esteja caracterizado o dolo. O dolo, que se relaciona com a consciência e a vontade de agir, é elemento de todos os tipos penais de que trata a Lei nº 4.502, de 1964, ou seja, a vontade de praticar a conduta, para a subsequente obtenção do resultado. Deve ficar demonstrada que a conduta praticada teve o intuito consciente voltado a suprimir ou reduzir o pagamento do tributo ou contribuições devidos. No caso concreto, em primeiro lugar, há três infrações, a saber: a primeira referente à diferença de imposto em razão do arbitramento, lançada com multa de 75%; a segunda, referese a R$ 3.961.400,00 de notas fiscais emitidas no período de março a dezembro de 2010 e não oferecidas à tributação, lançada com multa de 150% e a terceira referente a omissão de receitas com base em depósitos bancários de origem não comprovada, ou seja, baseada em presunção legal, com multa de 225%. As recorrentes questionam somente a qualificação da penalidade para a infração referente a depósitos bancários. Como não houve questionamento da infração referente a omissão de receitas baseadas nas notas fiscais não escrituradas, desde a impugnação, sua exigência tornouse definitiva desde então, conforme já evidenciado pela decisão de primeira instância. Retornando à parte litigiosa referente à qualificação de multa, há de se analisar a possibilidade, ou não, de exasperação da penalidade tratandose de lançamentos baseados em presunção legal de omissão de receitas. A esse respeito foram editadas as Súmulas CARF nº 14 e 25, assim vazadas: Súmula CARF nº 14: A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da Fl. 1682DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.683 48 multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo. Súmula CARF nº 25: A presunção legal de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação de uma das hipóteses dos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/64. Analisando os argumentos da autoridade fiscal que lavrou a exigência, bem como da decisão recorrida, entendo que a exigência de penalidade qualificada não deve prosperar. A meu ver, os elementos apontados pela autoridade fiscal, e corroborados pela decisão de primeira instância não permitem concluir ter o contribuinte tenha agido com dolo, de modo a caracterizar a sonegação a que alude o artigo 71 da Lei nº 4.502/1964. Em primeiro lugar porque a autuação baseiase única e exclusivamente em presunção legal de omissão de receitas baseada em depósitos bancários sem comprovação de origem. Nesse contexto, não havendo qualquer outra circunstância ligada à ocorrência do fato gerador, não se pode dar ensejo à qualificação da penalidade. Não se desconhece o teor da Súmula CARF nº 343. Contudo, o fato de a pessoa jurídica estar constituída em nome de interpostas pessoas não caracteriza ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais, hipótese que caracteriza a fraude a que alude o art. 71 da Lei nº 4.502, de 1964. Frisese que tal hipótese inclusive não gera qualquer dificuldade por parte do Fisco no que toca à identificação de movimentação financeira incompatível com a renda, uma vez que as contas bancárias em questão estavam todas em nome da pessoa jurídica autuada, não se aplicando o disposto na Súmula CARF nº 34, mas sim os enunciado das Súmulas CARF nº 14 e nº 25, que trata da simples omissão de receita, ou de omissão de receitas baseadas em presunção legal. Vejase que o fato de a empresa estar em nome de terceiros em nada dificultou a seleção da pessoa jurídica para procedimento fiscal, ou seja, não impediu, dificultou ou retardou tanto o conhecimento da ocorrência do fato gerador por parte da autoridade fiscal (sonegação) quanto a própria ocorrência do fato gerador (fraude), uma vez que as contas bancárias a partir das quais se apurou a omissão de receita estavam em nome da própria pessoa jurídica autuada. Portanto, o fato de a fiscalização acusar o contribuinte de possuir interpostas pessoas, embora possa surtir efeitos no que atine à responsabilidade tributária de terceiros, em nada altera as características da ocorrência do fato gerador, este sim, elemento a ser levado em consideração para fins de dosimetria da penalidade a ser cominada. Neste mesmo sentido, já decidi que nos lançamentos em que reste configurado que a pessoa jurídica autuada encontrase em nome de interpostas pessoas, mas o fato gerador correspondente não tenha qualquer correlação com tal interposição (por exemplo, 3 Súmula CARF nº 34: Nos lançamentos em que se apura omissão de receita ou rendimentos, decorrente de depósitos bancários de origem não comprovada, é cabível a qualificação da multa de ofício, quando constatada a movimentação de recursos em contas bancárias de interpostas pessoas. Fl. 1683DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.684 49 depósitos bancários, sem comprovação de origem, nas próprias contas da pessoa jurídica autuada – art. 42 da Lei nº 9.430/96), não há incidência de multa qualificada, mas os reais proprietários de tal pessoa jurídica devem responder pelo crédito tributário correspondente, quer por força do art. 124, I, do CTN, quer pelo disposto no art. 135, III, do CTN quando demonstrados que administravam tal pessoa jurídica.4 Assim, concluo que a fraude detectada tem a ver com a cobrança do crédito tributário, e não com sua constituição. A respeito da pretensa prática reiterada justificar a exasperação da penalidade, saliento que de nenhuma maneira alterouse o panorama inicial: o lançamento continuou a estar embasado em mera presunção legal. Portanto, entendo que não há que se falar em qualificação da multa. Desse modo, voto por reduzir ao percentual de 75% a penalidade aplicada à infração 0001 (omissão de receita por presunção legal – depósitos bancários de origem não comprovada). 3.5 ARGUIÇÃO DE DECADÊNCIA Em relação à contagem do prazo decadencial, não se pode ignorar que o STJ entendeu em caráter definitivo (julgamento de recurso representativo de controvérsia, nos termos do art. 543C, do CPC/1973) que, para os tributos sujeitos a lançamento por homologação, a questão do pagamento antecipado é relevante para definição do prazo, assim como a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, conforme se observa na ementa do REsp 973.733/SC, 1ª Seção, Dje 18/09/2009, de relatoria do Ministro Luiz Fux: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA.ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, 4 A esse respeito, vejase o Acórdão 1402002.120, por mim relatado e julgado por esta turma na sessão de 01 de março de 2016, cujo o seguinte excerto do voto condutor do aresto é elucidativo: “[...]A meu ver, os elementos apontados pela autoridade fiscal não permitem concluir ter o contribuinte tenha agido com dolo, de modo a caracterizar a fraude a que alude o artigo 72 da Lei nº 4.502/1964. Em primeiro lugar porque a autuação baseiase única e exclusivamente em presunção legal de omissão de receitas, sendo que as contas bancárias em que se apoia o lançamento estavam em nome da própria empresa. No mais, o fato de a fiscalização acusar o contribuinte de possuir interpostas pessoas, embora possa surtir efeitos no que atine à responsabilidade tributária de terceiros, em nada altera as características da ocorrência do fato gerador, este sim, elemento a ser levado em consideração para fins de dosimetria da penalidade a ser cominada. Vejase que o fato de a empresa estar em nome de terceiros em nada dificultou a seleção da pessoa jurídica para procedimento fiscal, ou seja, não impediu, dificultou ou retardou tanto o conhecimento da ocorrência do fato gerador por parte da autoridade fiscal (sonegação) quanto a própria ocorrência do fato gerador (fraude), uma vez que as contas bancárias a partir das quais se apurou a omissão de receita estavam em nome da própria RECORRENTE. Assim, concluo que a fraude detectada tem a ver com a cobrança do crédito tributário, e não com sua constituição.” Fl. 1684DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.685 50 DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre,sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005). 2. É que a decadência ou caducidade, no âmbito do Direito Tributário, importa no perecimento do direito potestativo de o Fisco constituir o crédito tributário pelo lançamento, e, consoante doutrina abalizada, encontrase regulada por cinco regras jurídicas gerais e abstratas, entre as quais figura a regra da decadência do direito de lançar nos casos de tributos sujeitos ao lançamento de ofício, ou nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado (Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. 163/210). 3. O dies a quo do prazo qüinqüenal da aludida regra decadencial regese pelo disposto no artigo 173, I, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato imponível, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelandose inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4º, e 173, do Codex Tributário, antea configuração de desarrazoado prazo decadencial decenal (Alberto Xavier, "Do Lançamento no Direito Tributário Brasileiro", 3ª ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2005, págs. 91/104; Luciano Amaro, "Direito Tributário Brasileiro", 10ª ed., Ed. Saraiva, 2004, págs. 396/400; e Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. 183/199). 5. In casu, consoante assente na origem: (i) cuidase de tributo sujeito a lançamento por homologação; (ii) a obrigação ex lege de pagamento antecipado das contribuições previdenciárias não restou adimplida pelo contribuinte, no que concerne aos fatos imponíveis ocorridos no período de janeiro de 1991 a dezembro de 1994; e (iii)a constituição dos créditos tributários respectivos deuse em26.03.2001. Fl. 1685DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.686 51 6. Destarte, revelamse caducos os créditos tributários executados, tendo em vista o decurso do prazo decadencial qüinqüenal para que o Fisco efetuasse o lançamento de ofício substitutivo. 7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. No caso concreto, há penalidade aplicada de 150% que se tornou definitiva na esfera administrativa, há de se considerar ocorrida a hipótese de dolo, fraude ou simulação. Contudo, tal infração diria respeito tão somente a fatos geradores ocorridos no anocalendário de 2010, não podendo gerar consequências em relação à contagem do prazo decadencial referente aos fatos geradores ocorridos no anocalendário de 2009. No que tange ao IRPJ e à CSLL, à fl. 1811 do Termo de Verificação Fiscal a autoridade tributária autuante informa ter ocorrido retenções na fonte de imposto de renda e de CSLL, utilizandose tais valores como dedução dos tributos exigidos de ofício. Portanto, havendo comprovação de pagamento antecipado em relação ao 1º trimestre de 2009, e tendo o auto de infração sido formalizado em junho de 2014, há de se reconhecer a decadência do crédito tributário de IRPJ e de CSLL do 1º trimestre de 2009, uma vez que o lançamento foi realizado após 5 anos contados da data da ocorrência do fato gerador, nos termos do art. 150, § 4º, do CTN. No que diz respeito à exigência de PIS e de Cofins, independentemente da configuração de prática dolosa por parte da contribuinte, não há nos autos qualquer prova de pagamento antecipado. Desse modo, em relação a essas contribuições, a contagem do prazo decadencial há de ser feita com base no disposto no art. 173, I, do CTN. Com efeito, considerandose os fatos geradores mais longínquos objeto de lançamento, a saber, PIS e Cofins referentes ao mês de janeiro de 2009, o lançamento poderia já ser realizado no ano de 2009, e o início da contagem do prazo se deu, portanto, no primeiro dia do exercício seguinte (01/01/2010), extinguindose o direito de constituição do crédito tributário em 31/12/2014. Portanto, tendo sido o lançamento constituído no mês de junho de 2014, não há que se falar em decadência de PIS e de Cofins. Isso posto, a arguição de decadência suscitada pelas recorrentes deve ser parcialmente acolhida, extinguindose o crédito tributário de IRPJ e de CSLL relativo ao 1º trimestre do anocalendário de 2009. 3.6 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. Conforme já me manifestei quando da análise da multa qualificada, nos lançamentos em que reste configurado que a pessoa jurídica autuada encontrase em nome de interpostas pessoas, mas o fato gerador correspondente não tem qualquer correlação com tal interposição (por exemplo, depósitos bancários, sem comprovação de origem, nas próprias contas da pessoa jurídica autuada – art. 42 da Lei nº 9.430/96), não há incidência de multa qualificada, mas os reais proprietários de tal pessoa jurídica devem responder pelo crédito Fl. 1686DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.687 52 tributário correspondente, quer por força do art. 124, I, do CTN, quer pelo disposto no art. 135, III, do CTN quando demonstrados que administravam tal pessoa jurídica.5 Nesse mesmo sentido, assim decidiu a 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais no acórdão 9101002.349, na sessão de 14 de junho de 2016: RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM. CABIMENTO. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão do interesse comum na situação que constitui fato gerador da obrigação principal, nos termos do art. 124, I, do CTN, quando demonstrado, mediante conjunto de elementos fáticos convergentes, que os responsabilizados não apenas ostentavam a condição de sócios de fato da autuada, como estabeleceram entre ela e outras empresas de sua titularidade atuação negocial conjunta. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135, III, DO CTN. ADMINISTRADOR DE FATO. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE PESSOAS. CABIMENTO. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão da prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, nos termos do art. 135, III, do CTN, quando demonstrado, mediante conjunto de elementos fáticos convergentes, que os responsabilizados ostentavam a condição de administradores de fato da autuada, bem como que houve interposição fraudulenta de pessoa em seu quadro societário. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. APLICAÇÃO CONCORRENTE DOS ARTS. 124, I, E 135, III, DO CTN. POSSIBILIDADE. Não se vislumbra qualquer óbice à imputação de responsabilidade tributária aplicandose, de forma concorrente os arts. 124, I, e 135, III, do CTN. (Acórdão 9101002.349, Relatora Conselheira Adriana Gomes Rêgo) [...] No caso concreto, há imputação de responsabilidade tributária tanto em relação aos sócios que constavam como efetivos administradores – e que, comprovadamente, se não eram sócios, ao menos administravam as operações levadas a efeito pela pessoa jurídica autuada – como por pessoas físicas que seriam as proprietárias de fato da autuada. Há ainda imputação de responsabilidade a empresas, da mesma titularidade dos sócios e/ou cobrigados 5 A esse respeito, vejase o Acórdão 1402002.120, por mim relatado e julgado por esta turma na sessão de 01 de março de 2016, cujo o seguinte excerto do voto condutor do aresto é elucidativo: “[...]A meu ver, os elementos apontados pela autoridade fiscal não permitem concluir ter o contribuinte tenha agido com dolo, de modo a caracterizar a fraude a que alude o artigo 72 da Lei nº 4.502/1964. Em primeiro lugar porque a autuação baseiase única e exclusivamente em presunção legal de omissão de receitas, sendo que as contas bancárias em que se apoia o lançamento estavam em nome da própria empresa. No mais, o fato de a fiscalização acusar o contribuinte de possuir interpostas pessoas, embora possa surtir efeitos no que atine à responsabilidade tributária de terceiros, em nada altera as características da ocorrência do fato gerador, este sim, elemento a ser levado em consideração para fins de dosimetria da penalidade a ser cominada. Vejase que o fato de a empresa estar em nome de terceiros em nada dificultou a seleção da pessoa jurídica para procedimento fiscal, ou seja, não impediu, dificultou ou retardou tanto o conhecimento da ocorrência do fato gerador por parte da autoridade fiscal (sonegação) quanto a própria ocorrência do fato gerador (fraude), uma vez que as contas bancárias a partir das quais se apurou a omissão de receita estavam em nome da própria RECORRENTE. Assim, concluo que a fraude detectada tem a ver com a cobrança do crédito tributário, e não com sua constituição.” Fl. 1687DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.688 53 em que se constatou atuação negocial conjunta ou ainda que teriam servido tão somente para tentar blindar o patrimônio dos sócios e coobrigados. Em relação a esse último ponto, peço vênia para destacar novamente a parte inicial da ementa do acórdão 9101002.349: RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124, I, DO CTN. INTERESSE COMUM. CABIMENTO. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão do interesse comum na situação que constitui fato gerador da obrigação principal, nos termos do art. 124, I, do CTN, quando demonstrado, mediante conjunto de elementos fáticos convergentes, que os responsabilizados não apenas ostentavam a condição de sócios de fato da autuada, como estabeleceram entre ela e outras empresas de sua titularidade atuação negocial conjunta. Além das conclusões da denominada “CPMI do Cachoeira”, e dos resultados da “Operação Saqueador”, “Operação Monte Carlo” e “Operação Vegas” levadas a efeito pela Polícia Federal quanto à condição de controle do senhor Adir Assad e Sônia Mariza Branco em relação a diversas empresas do denominado “Grupo Rock Star”, em relação a esses pesa ainda robusta acusação de envolvimento na “Operação Lava Jato”, como se pode observar da sentença proferida pelo Excelentíssimo Dr. Juiz Federal Sérgio Fernando Moro, disponível no link https://www.conjur.com.br/dl/sentencacaixapartido.pdf. Destaco as conclusões da sentença que levaram ambos a iniciarem o cumprimento da pena fixada em regime fechado desde então: 15. Para alguns repasses, no montante de R$ 38.402.541,40, foi utilizado grupo criminoso dirigido por Adir Assad. Para tanto, seguiuse inicialmente similar caminho ao já relatado acima quanto à Diretoria de Abastecimento. Foram, primeiro e como já visto, simulados contratos entre o Consórcio Interpar e a empresa Setal, no montante de R$ 111.700.000, 00, esta última dirigida por Augusto (fls. 115 116 da denúncia). Os valores respectivos foram repassados para outras empresas controladas por Augusto Mendonça, como a SETEC (antiga Setal Engenharia), Tipuana Participações, Projetec Projetos e Tecnolocia e PEM Engenharia. Os valores foram então repassados mediante celebração de contratos simulados com as empresas Legend Engenheiros Associados, a Power To Ten Engenharia Ltda., a Rock Star Marketing Ltda., a Soterra Terraplanagem e Locação de Equipamentos, a SM Terraplanagem Ltda. e a JSM Engenharia e Terraplanagem. Essas empresas foram indicadas a Augusto por Dario Teixeira e Sueli Mavali. Dario e Sueli, em realidade Sueli Maria Branco, já falecida, faziam parte, juntamente com Sonia Mariza Branco, de grupo dirigido por Adir Assad, que atuou no caso como intermediador financeiro da propina e da lavagem de dinheiro. O grupo dirigido por Adir Assad encarregouse então de realizar os repasses à Diretoria de Serviços mediante pagamentos em espécie e remessas ao exterior, entre março de 2009 a março de 2012. Nas fls. 154 172, há descrição detalhadas das operações efetuadas. [grifos nossos] [...] 423. Já Adir Assad, em seu álibi (evento 1.025), alegou, em síntese, que se afastou das empresas antes dos fatos delitivos, passando a se dedicar somente aos esportes. 424. O álibi não é, porém, consistente com os documentos. Fl. 1688DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.689 54 425. Adir afastouse da Legend e da Power To Ten somente em 23/03/2009, como visto acima, mas o contrato entre a Setal Engenharia e a Legend Engenheiros Associados é de 05/08/2008, ou seja, anterior. [grifos nossos] 426. A quebra judicial de sigilo fiscal e bancário (decisão judicial de 16/03/2015, evento 3, processo 501170922.2015.404.7000) ainda revelou que o afastamento foi meramente formal. Adir recebeu R$ 3.616.885,63 da Legend Engenheiros Associados, sendo que R$ 2.227.227,59 entre 07/04/2009 a 26/04/2013, conforme resumo constante no Relatório de Análise 068/2015, do MPF (evento 927, out2, fl. 5). Também identificados, em menor volume, transferências da Rock Star e da Power To Ten após a saída formal de Adir Assad do quadro social e ainda transferências em seu favor da SM Terraplanagem, mesmo sem ter ele feito parte do quadro social dessa empresa (evento 927, out2, fl. 6). Apesar de ser relatório elaborado pelo MPF, ele apenas resume os dados constantes nos extratos bancários enviados por sistema eletrônico pelas instituições financeiras decorrentes da quebra de sigilo bancário. As transações específicas podem ser visualizadas nos próprios extratos no evento 927. Assim, por exemplo, em 26/02/2010, Adir Assad recebeu R$ 30.000,00 da Legend Engenheiros, em 02/03/2010 mais R$ 25.000,00 e em 05/03/2010 mais R$ 50.000,00 da mesma empresa (evento 927, out4, p. 164165). [grifos nossos] 427. Não há justificativa para o recebimento de valores milionários por Adir Assad após o seu afastamento formal das empresas, isso não só da Rock Star, mas também da Legend, Power to Ten e SM Terraplanagem, máxime quando as últimas são empresas de fachada, sem atividade real. O fato, para o qual não foi prestada explicação pelo acusado ou sua Defesa, infirma o álibi e confirma que ele permaneceu no comando de fato das empresas. Deve ser tido como responsável pelos crimes. [...] 667. Adir Assad Para os crimes de lavagem: Adir Assad não tem antecedentes registrados no processo. As provas colacionadas neste mesmo feito, pelo volume de operações das empresas de fachada com as empreiteiras envolvidas no esquema criminoso da Petrobrás e de outros indicam que se trata de profissional da lavagem de dinheiro, o que deve ser valorado negativamente a título de personalidade. Culpabilidade, conduta social, motivos, comportamento da vítima são elementos neutros. Circunstâncias devem ser valoradas negativamente. A lavagem, no presente caso, envolveu especial sofisticação, com a realização de diversas transações subreptícias, simulação de prestação de serviços, contratos e notas fiscais falsas, com o emprego de pelo menos quatro empresas de fachada e uma outra, de existência real, mas com ocultação dos recursos criminosos por contratos de prestação de serviços fraudulentos. Tal grau de sofisticação não é inerente ao crime de lavagem e deve ser valorado negativamente a título de circunstâncias (a complexidade não é inerente ao crime de lavagem, conforme precedente do RHC 80.816/SP, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, 1ª Turma do STF, un., j. 10/04/2001). Consequências devem ser valoradas negativamente. A lavagem envolve a quantia substancial de cerca de dezoito milhões de reais. Mesmo considerando as operações individualmente, os valores são elevados, tendo só uma delas envolvido cerca de catorze milhões de reais. A lavagem de grande quantidade de dinheiro merece reprovação especial a título de consequências. Considerando três vetoriais negativas, fixo, para o crime de lavagem de dinheiro, pena de cinco anos de reclusão. [grifos nossos] Fl. 1689DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.690 55 A operação de lavagem, tendo por antecedentes crimes de cartel e de ajuste fraudulento de licitações (art. 4º, I, da Lei nº 8.137/1990, e art. 90 da Lei nº 8.666/1993), tinha por finalidade propiciar o pagamento de vantagem indevida, ou seja, viabilizar a prática de crime de corrupção, devendo ser reconhecida a agravante do art. 61, II, "b", do CP. Entretanto, não há prova de que o condenado tinha ciência desta destinação específica, não sendo aplicável, para ele, essa agravante. Não há também atenuantes, ficando a pena inalterada nessa fase. Fixo multa proporcional para a lavagem em cento e dez dias multa. Entre todos os crimes de lavagem, reconheço continuidade delitiva. Considerando a quantidade de crimes, pelo menos seis vezes vezes, elevo a pena do crime mais grave em 2/3, chegando ela a oito anos e quatro meses de reclusão e e cento e oitenta e dois dias multa. Considerando a dimensão dos crimes que leva à presunção da elevada capacidade econômica de Adir Assad, fixo o dia multa em cinco salários mínimos vigentes ao tempo do último fato delitivo (03/2012). Para o crime de associação criminosa: Adir Assad não tem antecedentes criminais informados no processo. As provas colacionadas neste mesmo feito, pelo volume de operações das empresas de fachada com as empreiteiras envolvidas no esquema criminoso da Petrobrás e de outros indicam que se trata de profissional da lavagem de dinheiro, o que deve ser valorado negativamente a título de personalidade. Considerando que não se trata de associação criminosa complexa, circunstâncias e consequências não devem ser valoradas negativamente. As demais vetoriais, culpabilidade, conduta social, motivos e comportamento das vítimas são neutras. Motivos de lucro são normais em associações criminosas, não cabendo reprovação especial. Fixo pena pouco acima do mínimo, de um ano e seis meses de reclusão. Não há atenuantes ou agravantes. Não há causas de aumento ou de diminuição, sendo esta pena definitiva. Entende este Juízo que a associação criminosa em questão perdurou pelo menos até a saída de Renato Duque da Diretoria de Serviços da Petrobrás, em abril de 2012, tendo havido pagamento de propina no mês imediatamente anterior. Entre os crimes de corrupção, de lavagem e de associação criminosa, há concurso material, motivo pelo qual as penas somadas chegam a nove anos e dez meses de reclusão, que reputo definitivas para Adir Assad. Quanto às multas deverão ser convertidas em valor e somadas. Considerando as regras do art. 33 do Código Penal, fixo o regime fechado para o início de cumprimento da pena. Na mesma sentença, assim consta em relação a Sônia Mariza Branco: 417. "Sueli Mavali" é Sueli Maria Branco, irmã falecida de Sonia Mariza Branco. 418. Em Juízo, Sonia Mariza Branco (evento 1.025) admitiu que trabalhava na Rock Star, mas negou que realizasse atividades para as outras empresas, atribuindo toda a responsabilidade à irmã falecida. Fl. 1690DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.691 56 419. Ocorre que a alegação não é consistente com a documentação acima referida, que revela que ela, além de ser a representante legal das empresas Rock Star, Legend Engenheiros Associados, Power to Ten Engenharia Ltda., Soterra Terraplanagem e SM Terraplanagem, assinou todos os contratos, de valores milionários, delas com as empresas de Augusto Mendonça. 420. Além disso, quebra judicial de sigilo fiscal e bancário (decisão judicial de 16/03/2015, evento 3, processo 501170922.2015.404.7000) revela que Sonia Branco recebeu no período dos fatos recursos vultosos desssas empresas, não só da Rock Star, R$ 960.617,58, mas também da Legend Engenheiros (R$ 883.967,38) e da SM Terraplanagem (R$ 246.451,57), conforme resumo constante no Relatório de Análise 068/2015, do MPF (evento 927, out2, fl. 19). Apesar de ser relatório elaborado pelo MPF, ele apenas resume os dados constantes nos extratos bancários enviados pelas instituições financeiras decorrentes da quebra de sigilo bancário. As transações específicas podem ser visualizadas nos próprios extratos no evento 927. 421. Não é minimamente crível a alegada ignorância de Sonia Branco, já que assina os contratos milionários e é beneficiária de valores vultosos repassados por pelo menos duas das empresas de fachada. [grifos nossos] 422. Sonia Branco foi, portanto, responsável por esses fatos. [grifos nossos] [...] 668. Sônia Mariza Branco Para os crimes de lavagem: Sônia Mariza Branco não tem antecedentes registrados no processo. As provas colacionadas neste mesmo feito, pelo volume de operações das empresas de fachada com as empreiteiras envolvidas no esquema criminoso da Petrobrás e de outros indicam que se trata de profissional da lavagem de dinheiro, o que deve ser valorado negativamente a título de personalidade. Culpabilidade, conduta social, motivos, comportamento da vítima são elementos neutros. Circunstâncias devem ser valoradas negativamente. A lavagem, no presente caso, envolveu especial sofisticação, com a realização de diversas transações subreptícias, simulação de prestação de serviços, contratos e notas fiscais falsas, com o emprego de pelo menos quatro empresas de fachada e uma outra, de existência real, mas com ocultação dos recursos criminosos por contratos de prestação de serviços fraudulentos. Tal grau de sofisticação não é inerente ao crime de lavagem e deve ser valorado negativamente a título de circunstâncias (a complexidade não é inerente ao crime de lavagem, conforme precedente do RHC 80.816/SP, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, 1ª Turma do STF, un., j. 10/04/2001). Consequências devem ser valoradas negativamente. A lavagem envolve a quantia substancial de cerca de dezoito milhões de reais, considerando apenas as operações em reais. Mesmo considerando as operações individualmente, os valores são elevados, tendo só uma delas envolvido cerca de catorze milhões de reais. A lavagem de grande quantidade de dinheiro merece reprovação especial a título de consequências. Considerando três vetoriais negativas, fixo, para o crime de lavagem de dinheiro, pena de cinco anos de reclusão. A operação de lavagem, tendo por antecedentes crimes de cartel e de ajuste fraudulento de licitações (art. 4º, I, da Lei nº 8.137/1990, e art. 90 da Lei nº 8.666/1993), tinha por finalidade propiciar o pagamento de vantagem indevida, ou seja, viabilizar a prática de crime de corrupção, devendo ser reconhecida a agravante do art. 61, II, "b", do CP. Entretanto, não há prova de que o condenado Fl. 1691DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.692 57 tinha ciência desta destinação específica, não sendo aplicável, para ela, essa agravante. Não há também atenuantes, ficando a pena inalterada nessa fase. Fixo multa proporcional para a lavagem em cento e dez dias multa. Entre todos os crimes de lavagem, reconheço continuidade delitiva. Considerando a quantidade de crimes, pelo menos seis vezes vezes, elevo a pena do crime mais grave em 2/3, chegando ela a oito anos e quatro meses de reclusão e e cento e oitenta e dois dias multa. Considerando a dimensão dos crimes que leva à presunção da elevada capacidade econômica de Sônia Mariza Branco, fixo o dia multa em cinco salários mínimos vigentes ao tempo do último fato delitivo (03/2012). Para o crime de associação criminosa: Sônia Mariza Branco não tem antecedentes criminais informados no processo. As provas colacionadas neste mesmo feito, pelo volume de operações das empresas de fachada com as empreiteiras envolvidas no esquema criminoso da Petrobrás e de outros indicam que se trata de profissional da lavagem de dinheiro, o que deve ser valorado negativamente a título de personalidade. Considerando que não se trata de associação criminosa complexa, circunstâncias e consequências não devem ser valoradas negativamente. As demais vetoriais, culpabilidade, conduta social, motivos e comportamento das vítimas são neutras. Motivos de lucro são normais em associações criminosas, não cabendo reprovação especial. Fixo pena pouco acima do mínimo, de um ano e seis meses de reclusão. Não há atenuantes ou agravantes. Não há causas de aumento ou de diminuição, sendo esta pena definitiva. Entende este Juízo que a associação criminosa em questão perdurou pelo menos até a saída de Renato Duque da Diretoria de Serviços da Petrobrás, em abril de 2012, tendo havido pagamento de propina no mês imediatamente anterior. Entre os crimes de corrupção, de lavagem e de associação criminosa, há concurso material, motivo pelo qual as penas somadas chegam a nove anos e dez meses de reclusão, que reputo definitivas para Sônia Mariza Branco. Quanto às multas deverão ser convertidas em valor e somadas. Considerando as regras do art. 33 do Código Penal, fixo o regime fechado para o início de cumprimento da pena. Evidentemente, tratandose de processo criminal em relação ao qual ainda não há trânsito em julgado, há de analisar com certas ressalvas as conclusões da sentença em questão. Contudo, essa narrativa pode facilitar a compreensão dos fatos que levaram a autoridade fiscal a incluir coobrigados no polo passivo da obrigação tributária, inclusive pessoas jurídicas utilizadas para tentar blindar o patrimônio de muitos dos coobrigados. No que diz respeito aos debates sobre individualização de conduta para fins de qualificação da multa, há de se ressaltar que o Superior Tribunal de Justiça vem entendo, de fato, ser necessária identificação da conduta dos acusados dos chamados “crimes societários”. Contudo, há reiteradas decisões no sentido de que mostrase suficiente para tal Fl. 1692DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.693 58 individualização de conduta a comprovação de que o acusado detinha poderes de administração da pessoa jurídica. Vejase, por exemplo, o decidido no AgRg no REsp 1.551.783/SP: [...] Nos termos da jurisprudência desta Corte Superior de Justiça, não há como reconhecer a inépcia da denúncia se a descrição da pretensa conduta delituosa foi feita de forma suficiente ao exercício do direito de defesa, com a narrativa de todas as circunstâncias relevantes, permitindo a leitura da peça acusatória a compreensão da acusação, com base no artigo 41 do Código de Processo Penal (RHC 46.570/SP, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, Sexta Turma, julgado em 20/11/2014, DJe 12/12/2014). Não se desconhece que esta Corte Superior tem reiteradamente decidido ser inepta a denúncia que, mesmo em crimes societários e de autoria coletiva, atribui responsabilidade penal à pessoa física, levando em consideração apenas a qualidade dela dentro da empresa, deixando de demonstrar o vínculo desta com a conduta delituosa, por configurar, além de ofensa à ampla defesa, ao contraditório e ao devido processo legal, responsabilidade penal objetiva, repudiada pelo ordenamento jurídico pátrio (RHC 35.687/SP, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 18/09/2014, DJe 07/10/2014). Assim, nos chamados crimes societários, embora a vestibular acusatória não possa ser de todo genérica, é válida quando, apesar de não descrever minuciosamente as atuações individuais dos acusados, demonstra um liame entre o seu agir e a suposta prática delituosa, estabelecendo a plausibilidade da imputação e possibilitando o exercício da ampla defesa, caso em que se consideram preenchidos os requisitos do artigo 41 do Código de Processo Penal (RHC 77.050/PE, Rel. Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 06/12/2016, DJe 01/02/2017). Nessa linha, os seguintes julgados: PROCESSO PENAL. RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. CRIME CONTRA A ECONOMIA POPULAR. ADULTERAÇÃO DE COMBUSTÍVEIS. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. EXCEPCIONALIDADE. CARÊNCIA DE JUSTA CAUSA NÃO EVIDENCIADA. INDEPENDÊNCIA DAS ESFERAS PENAL E ADMINISTRATIVA. INÉPCIA DA DENÚNCIA. REQUISITOS DO ART. 41 DO CPP ATENDIDOS. RECURSO DESPROVIDO. [...] 4. A alegação de inépcia da denúncia deve ser analisada de acordo com os requisitos exigidos pelos arts. 41 do CPP e 5º, LV, da CF/1988. Portanto, a peça acusatória deve conter a exposição do fato delituoso em toda a sua essência e com todas as suas circunstâncias, de maneira a individualizar, o quanto possível, a conduta imputada, bem como sua tipificação, com vistas a viabilizar a persecução penal e o exercício da Fl. 1693DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.694 59 ampla defesa e do contraditório pelo réu. Na hipótese em apreço, por certo, a inicial acusatória preenche os requisitos exigidos pelo art. 41 do CPP, porquanto descreve a conduta atribuída ao ora recorrente, permitindolhe rechaçar os fundamentos acusatórios. 5. Malgrado seja imprescindível explicitar o liame do fato descrito com a pessoa do denunciado, importa reconhecer a desnecessidade da pormenorização das condutas, até pelas comuns limitações de elementos de informações angariados nos crimes societários, por ocasião do oferecimento da denúncia, sob pena de inviabilizar a persecução penal. A acusação deve correlacionar com o mínimo de concretude os fatos delituosos com a atividade do acusado, não sendo suficiente a condição de sócio da sociedade, sob pena de responsabilização objetiva. 6. Narra a denúncia que o recorrente seria o administrador da empresa varejista e responsável imediato por todos os contratos de compra e venda celebrados, não podendo tal conclusão, lastreada em elementos probatórios amealhados aos autos, ser infirmada em sede de writ. 7. Recurso desprovido. (RHC 34.684/MG, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 01/12/2016, DJe 07/12/2016). RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. CRIME CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. EXCEPCIONALIDADE. INÉPCIA DA DENÚNCIA. NÃO OCORRÊNCIA. PEÇA EM CONFORMIDADE COM O DISPOSTO NO ART. 41 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL CPP. CRIME SOCIETÁRIO. POSSIBILIDADE DE DENÚNCIA GERAL. INEXISTÊNCIA DE RESPONSABILIDADE PENAL OBJETIVA. AUSÊNCIA DE FLAGRANTE ILEGALIDADE. RECURSO DESPROVIDO. [...] 3. Nos crimes societários, não se exige a descrição individualizada das condutas de cada acusado, bastando para se assegurar o direito à ampla defesa a descrição do fato delituoso e a indicação da participação de cada autor na empreitada criminosa. Assim, no caso dos autos, não há falar em responsabilidade penal objetiva, tendo em vista que ficou demonstrado na denúncia o liame subjetivo na conduta imputada ao recorrente, que, como sócio e administrador da pessoa jurídica, supostamente teria sonegado tributo mediante a omissão de informação às autoridades fazendárias e fraude na fiscalização tributária. Recurso ordinário em habeas corpus desprovido. (RHC 70.805/SP, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em 09/08/2016, DJe 19/08/2016) [grifos nossos] RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. CRIME CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA. DELITO SOCIETÁRIO. FALTA DE INDIVIDUALIZAÇÃO DA CONDUTA DOS RECORRENTES. PEÇA INAUGURAL QUE ATENDE AOS REQUISITOS LEGAIS EXIGIDOS E DESCREVE CRIME EM TESE. AMPLA DEFESA GARANTIDA. INÉPCIA NÃO EVIDENCIADA. CONSTRANGIMENTO AFASTADO. [...] 4. Não pode ser acoimada de inepta a denúncia formulada em obediência aos requisitos traçados no artigo 41 do Código de Processo Penal, descrevendo perfeitamente a conduta típica, cuja Fl. 1694DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.695 60 autoria é atribuída aos recorrentes devidamente qualificados, circunstâncias que permitem o exercício da ampla defesa no seio da persecução penal, na qual se observará o devido processo legal. 5. Nos chamados crimes societários, embora a vestibular acusatória não possa ser de todo genérica, é válida quando, apesar de não descrever minuciosamente as atuações individuais dos acusados, demonstra um liame entre o seu agir e a suposta prática delituosa, estabelecendo a plausibilidade da imputação e possibilitando o exercício da ampla defesa, caso em que se consideram preenchidos os requisitos do artigo 41 do Código de Processo Penal. 6. No caso dos autos, de acordo com a peça vestibular, os recorrentes, na qualidade de administradores da Drogaria Principal do Bairro Ltda., teriam fraudado a fiscalização tributária, omitindo receita relativa a saídas de mercadorias tributadas em documento exigido pela lei fiscal, creditandose, indevidamente, do ICMS incidente sobre tais operações, o que teria resultado em prejuízo à Fazenda Estadual superior a 2 (dois) milhões de reais, descrição que atende de forma satisfatória as exigências legais para que se garanta ao réu o exercício da ampla defesa e do contraditório. [...] 2. Recurso desprovido. (RHC 67.183/RJ, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 9/8/2016, DJe 24/08/2016). PROCESSO PENAL. RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. CRIME SOCIETÁRIO. LEI 8.137/90, ART. 1º, II E V. IMPOSSIBILIDADE DA SUSPENSÃO DA PRETENSÃO PUNITIVA ESTATAL SE A ADESÃO AO PROGRAMA DE PARCELAMENTO OCORRE APÓS O RECEBIMENTO DA DENÚNCIA. COAÇÃO INEXISTENTE. PEÇA INAUGURAL QUE ATENDE AOS REQUISITOS DO ART. 41 DO CPP. AMPLA DEFESA GARANTIDA. INÉPCIA NÃO EVIDENCIADA. RECURSO DESPROVIDO. [...] II A exordial acusatória cumpriu todos os requisitos previstos no art. 41 do Código de Processo Penal, sem que a peça incorresse em qualquer violação do que disposto no art. 395 do mesmo diploma legal. Cuidase, in casu, de denúncia geral, aceita pela jurisprudência pátria. (Precedentes). III Nos delitos societários, a peça acusatória (ainda que não possa ser de toda genérica) é válida quando demonstra um liame entre a atuação dos denunciados e a conduta delituosa (mesmo que não individualize as condutas de cada um), a revelar a plausibilidade da imputação deduzida e permitindo o exercício da ampla defesa com todos os recursos a ela inerentes. IV Na hipótese em análise, a peça inaugural da acusação revela que os denunciados, por meio da empresa CPI Engenharia Ltda, teriam suprimido valores realtivos ao ICMS, através da inserção de elementos inexatos em documentos fiscais e utilização de documentos inexatos, conforme auto de infração e outros documentos do processo criminal. V Quanto à autoria, o liame entre o agir do denunciado e o crime imputado está estabelecido em face da condição de responsável que ostenta perante a sociedade. Por isso, no caso, ao contrário do que se alega na peça recursal, verificase a possibilidade de plena defesa do acusado a partir da imputação do Ministério Público. Recurso Fl. 1695DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.696 61 ordinário desprovido. (RHC 67.089/SP, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 04/08/2016, DJe 17/08/2016) Com efeito, se tal interpretação é dada pelo próprio STJ no julgamento de recursos no âmbito criminal derivados de procedimentos fiscais, não há como se distanciar, em relação aos mesmos fatos, no que diz respeito à individualização de conduta para fins de apuração de responsabilidade tributária. Não havendo novos argumentos trazidos pelos recorrentes, valhome de excertos da decisão recorrida para manter integralmente a imputação de responsabilidade tributária a todos os coobrigados6: Foi imputada responsabilidade solidária a Adir Assad, Sônia Mariza Branco, Sibely Coelho e Soiany Coelho, com fundamento nos arts. 124, I, e 135, III, ambos do CTN, e a Santa Sônia Empreendimentos Imobiliários Ltda. e Four’s Empreendimentos Imobiliários Ltda. com base no art. 124, I, daquele Código. A respeito da atribuição de responsabilidade com base no artigo 124, I, do CTN, expõe Rubens Gomes de Souza (Compêndio de Legislação Tributária, Edições Financeiras, 3.ª ed, p. 67): [...] É solidária a pessoa que realiza conjuntamente com outra, ou outras pessoas, a situação que constitui fato gerador, ou que, e comum com outras, esteja em relação econômica com o ato, fato ou negócio que dá origem à tributação; (sublinhei) E Marcos Vinicius Neder aduz o seguinte (ensaio publicado na Revista sobre Responsabilidade Tributária: Dialética. São Paulo: 2007. p.42.): “(...) Concluise, portanto, que o fato jurídico suficiente à constituição da solidariedade não é o mero interesse de fato, mas sim o interesse jurídico que surge a partir da existência de direitos e deveres comuns entre as pessoas situadas do mesmo lado de uma relação jurídica privada que constitua o fato jurídico tributário.” (sublinhei) Segundo Luciano Amaro (Direito Tributário Brasileiro, 12ª ed., Saraiva, p. 314), há a solidariedade passiva quando duas ou mais pessoas podem apresentarse na condição de sujeito passivo da obrigação tributária, cada um obrigandose por toda a dívida, o que dá ao sujeito ativo a prerrogativa de exigila de qualquer um dos devedores até realização integral da obrigação. Relativamente ao art. 135, inciso III, do CTN, ele estabelece a responsabilidade tributária dos diretores, gerentes e administradores de pessoas jurídicas de direito privado, pelos créditos decorrentes de obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração à lei. É preciso esclarecer, que a imputação de responsabilidade pelo crédito tributário a terceira pessoa não exclui a responsabilidade da contribuinte, salvo quando a lei assim prescrever, na dicção do art. 128 do CTN. No caso do art. 135 do CTN, não há exclusão expressa da responsabilidade da contribuinte, de modo que permanece ele respondendo pelo crédito tributário lançado. 6 Com a ressalva de que meu entendimento a respeito da aplicação do art. 124, I, do CTN, no sentido de que o interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal não se refere a interesses de fato ou econômicos, mas sim a interesse jurídico. No caso concreto, a tese de inclusão de outras pessoas jurídicas no polo passivo da obrigação tributária devese ao intuito doloso dos coobrigados que transferirem seus bens a essas pessoas jurídicas com o intuito de evadirse ao pagamento dos tributos. Fl. 1696DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.697 62 Nesse sentido, é a lição de Hugo de Brito Machado: A lei diz que são pessoalmente responsáveis, mas não diz que sejam as únicas. A exclusão da responsabilidade, a nosso ver, teria de ser expressa. Com efeito, a responsabilidade do contribuinte decorre de sua condição de sujeito passivo direto da relação obrigacional tributária. Independe de disposição legal que expressamente a estabeleça. Assim, em se tratando de responsabilidade inerente à própria condição de contribuinte, não é razoável admitirse que desapareça sem que a lei o diga expressamente. Isto, aliás, é o que se depreende do disposto no art. 128 do Código Tributário Nacional...” (Curso de Direito Tributário. 21ª ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 142) Esse entendimento é compartilhado por Luís Eduardo Schoueri, conforme se observa do seguinte excerto: Descartada a possibilidade de o contribuinte afastarse do debitum, cabe ver se lhe resta a responsabilidade. A leitura do artigo 128 indica a situação do contribuinte: de regra, uma vez apontada, de modo expresso, a responsabilidade pelo crédito a terceira pessoa, pode a lei, também de modo expresso: Excluir a responsabilidade do contribuinte, ou Atribuir a responsabilidade ao contribuinte em caráter supletivo do cumprimento total ou parcial da referida obrigação. Ocorre que o art. 135 silencia acerca da responsabilidade do contribuinte. Não a exclui nem a atribui em caráter supletivo. Ora, se o referido artigo 128 dispõe dever a lei regular o assunto de modo expresso, não há como concluir pela exclusão ou subsidiariedade da responsabilidade do contribuinte. (Direito Tributário. São Paulo: Saraiva, 2011. p. 511) Como se vê nos citados artigos do CTN, há a atribuição de responsabilidade solidária pelo crédito tributário e não apenas pelos tributos exigidos. Dessa forma, é improcedente a alegação de que os responsáveis solidários não podem arcar com as penalidades aplicadas, uma vez que os arts. 113, § 1º e art. 139 do CTN, determinam que a multa faz parte do crédito tributário. Quanto à comprovação da responsabilidade solidária pela fiscalização, cabe registrar que, na busca pela verdade material – princípio esse informador do processo administrativo fiscal –, a comprovação de uma dada situação fática pode ser feita, em regra, por prova única, direta, concludente por si só, ou por um conjunto de elementos/indícios que, se isoladamente nada atestam, agrupados têm o condão de estabelecer a certeza daquela matéria de fato. Não há, em sede de processo administrativo, uma préestabelecida hierarquização dos meios de prova, sendo perfeitamente regular a formação da convicção a partir do cotejo de elementos de variada ordem. É a consagração da chamada prova indiciária, de largo uso no direito. A comprovação fática do ilícito raramente é passível de ser produzida por uma prova única, isolada, a qual, aliás, só seria possível, praticamente, a partir de uma confissão expressa do(s) infrator(es), coisa que, como se infere, dificilmente se terá, por mais evidentes que sejam os fatos. Fl. 1697DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.698 63 Ao indício, isoladamente, pouca eficácia probatória é dada, ganhando ele relevo apenas quando, olhado conjuntamente com outros indícios, dá azo à convicção de que apenas um resultado fático seria verossímil; se do cruzamento de vários indícios se chega não a um resultado único, mas a mais de um, não se pode ter por comprovado o que quer que seja. No presente caso, foi criada a CPMI destinada a investigar práticas criminosas do senhor Carlos Augusto Ramos, conhecido vulgarmente como Carlinhos Cachoeira, desvendadas pelas operações "Vegas" e "Monte Carlo", da Polícia Federal. Esta Comissão apurou a existência de uma série de "empresas (dentre elas a Rock Star Marketing Promoções e Eventos Ltda.) controladas por interpostas pessoas", colaboradores, todas com vínculos profissionais ou pessoais com ADIR ASSAD, verdadeiro responsável por estas sociedades. Foram identificadas várias empresas vinculadas a Adir Assad, que receberam vultosas quantias de recursos de diversas grandes empresas. Foi levantado um conjunto de provas, quais sejam, compra de passagens aéreas para o Sr Adir Assad e para a sua esposa Sra Sonia Regina Assad feita e paga pela sociedade Rock Star Marketing Ltda, cuja sócia é SÔNIA MARIZA BRANCO (mãe de SIBELY COELHO, a outra sócia desta empresa). Outro documento que comprova o vínculo do Sr ADIR ASSAD com a empresa é a intermediação que este fez com a empresa de telefonia VIVO RIO, onde o contato da empresa era ADIR ASSAD, e foi usado o nome e o email institucional da empresa, e esta negociação se deu em 11/12/2008. Existem no processo: email nos quais Adir Assad, Sonia Mariza e Sibely utilizam a extensão “@rstar” em suas caixas de mensagem (indicativo do Grupo Rock Star, composto por várias empresas controladas pelo Sr. Adir Assad) e que comprovam de forma clara o poder de gerência de Adir Assad; Darf e GPS de pagamentos de tributos da Rock Star Marketing Ltda. pela empresa Legend Eng Associados Ltda.(também controlada por Adir Assad); a apresentação de Adir Assad como representante da Rock Star em diversas reportagens; os depoimentos de Sônia Mariza Branco e Sandra Maria Branco Malago que comprovam a participação e gerência de Adir Assad na condução dos negócios comerciais e financeiros das sociedades em que estas senhoras figuram como sóciasadministradoras. E mais, constatouse que Adir Assad constituiu em conjunto com Marcello Jose Abbud, em 18/01/2006 a sociedade Legend Engenheiros Associados Ltda CNPJ: 07.794.669/000141, mantendo como sócio administrador até 23/03/2009, sendo mais uma vez substituído por uma de suas colaboradoras a Sra Sonia Mariza Branco, sócia da sociedade Rock Star Marketing Ltda. e Rock Star Marketing Promoções e Eventos Ltda..Importante salientar que. mesmo depois de sua saída formal da empresa Legend Engenheiros Associados Ltda., Adir Assad continuou sendo o real administrador desta empresa, conforme provas colhidas na CPMI do Cachoeira e nas investigações da Polícia Federal. Outra constatação feita foi que o Sr Adir Assad é o administrador da empresa Legend Engenheiros Associados Ltda. até os dias de hoje e utiliza deste seu poder de gerência para efetuar pagamentos para a sociedade Rock Star Marketing Ltda. e Rock Star Marketing Promoções e Eventos Ltda., comprovando o seu vínculo com esta sociedade, pagamentos inclusive de tributos, e pagamentos de contas pessoais. Apurouse, também, que a contribuinte Rock Star Marketing Promoções e Eventos Ltda. utiliza o endereço da sociedade Legend Engenheiros Associados Ltda., Rua Fl. 1698DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.699 64 Irai, 1.292 Planalto Paulista São Paulo /SP CEP: 04082003, para o recebimento de correspondências e o próprio ADIR ASSAD, sua esposa SÔNIA REGINA ASSAD e as sócias SÔNIA MARIZA BRANCO e SIBELY COELHO também utilizam este endereço com o mesmo fim. A própria Polícia Federal considera este endereço como o centro de operações do Grupo Rock Star. Consta, ainda, o email, de 05/04/2010, apreendido pela Polícia Federal, em que Sandra Maria Branco, sócia administradora da Rock Star Marketing Ltda., encaminha ao Sr Amauri Pontalti (contador das empresas administradas de fato por ADIR ASSAD), informações relativas às Notas Fiscais das empresas Rock Star Produções Comércio e Serviços Ltda., Rock Star Marketing Ltda., Legend Engenheiros Associados Ltda., Rock Star Marketing Promoções e Eventos Ltda. e SM Terraplanagem Ltda. , nos seguintes termos: ■ Rock Star Prod. NF 483 cancelada esta nota eu mandei o jogo todo para a gráfica ela vai ser cancelada. ■ Rock Star Marketing NF1468 foi emitida p/ Inst. Tomie Ohtake valor 6300,00 e a nota 1482 p/ BMG 1.300,00 a Sueli vai tirar um Xerox e trazer as originais. O Marcello deve ter comido as copias ou.....................e a 1470 e cancelada foi também um jogo completo da nota para gráfica que ela vai me mandar. ■ Rock Star Promoções e Eventos as notas que você passou a relação estão todas canceladas a Sueli vai trazer. ■ SM essas notas quando nos separamos os talões esse joguinho de notas sumiram não sei aonde foi parar não achamos revirei tudo e não encontramos. ■ LEGEND 1232/1233/1235 canceladas a Sueli vai trazer. Todas essas constatações demonstram o modo de agir de Adir Assad na realização da fraude com a participação de um grupo de pessoas e empresas, todos agindo em conjunto com o objetivo de sonegar tributos. Constatouse, em todo o procedimento levado a efeito nas empresas investigadas, a existência do interesse jurídico antes mencionado, caracterizado pela existência de direitos e deveres comuns aos participantes do esquema de sonegação. O conjunto de provas (já citadas) reunidas na investigação policial e no procedimento fiscal levam à conclusão de que Adir Assad é o controlador, sócio de fato da contribuinte. Quanto à alegação de que não há provas relativas aos anoscalendário de 2009 e 2010, cabe registrar que a ação fiscal englobou os anoscalendário de 2008 a 2010 e as ações praticadas em 2008 foram perpetradas nos anos seguintes, nos quais Adir Assad figurava como sócio de fato da contribuinte. Sonia Mariza Branco, Sibely Coelho e Soiany Coelho tinham interesse jurídico a que se refere o art. 124, I, do CTN, pois tinham conhecimento dos fatos e Fl. 1699DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.700 65 participaram da realização, conjuntamente com outras pessoas, da situação que constituiu o fato gerador. Além disso, participaram como sócias administradoras de várias empresas controladas por Adir Assad, que foram alvo de investigação pela Polícia Federal, quais sejam, SM Terraplenagem Ltda., Soterra Terraplenagem e Locação de Equipamentos Ltda. SP Terraplenagem Ltda. (Sonia) e Rock Star Marketing, Promoções e Eventos Ltda., Rock Star Produções, Comércio e Serviços Ltda.(Sibely Coelho e Sonia Mariza) e Solu Terraplenagem Ltda. (Sônia), como se vê a seguir: Fl. 1700DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.701 66 Sendo sócias administradoras são responsáveis solidárias pelo crédito tributário por se enquadrarem na hipótese prevista no art. 135, III, daquele Código, uma vez que exerciam a gerência da sociedade e, no julgamento do mérito do lançamento, restou demonstrada a ocorrência de fraude, nos termos da Lei nº 4.502, de 1964, art. 72, portanto a ocorrência do dolo e a infração à lei. Não há que se aplicar o art. 137, do CTN, que diz respeito somente às penalidades, uma vez que no presente caso há a solidariedade pelo crédito tributário total, pois foi constatado que as sócias de direito (Sônia, Soiany e Sibely) e o sócio de fato (Adir Assad), todos com poder de gerência, agiram em conjunto com a pessoa jurídica para a realização do fato gerador com o propósito de sonegar tributos. Com relação à responsabilidade solidária atribuída à empresa Santa Sônia Empreendimentos Imobiliários Ltda., é fato comprovado no processo que, no período fiscalizado, era mais uma das empresas controladas por Adir Assad (nesse caso era sócio de fato e de direito), sendo nela registrado a maioria dos bens do casal (Adir e Sônia Regina Assad) adquiridos no período de 2007 a agosto de 2012, época em que houve a transferência, mediante doação (inclusive, constando inicialmente, reserva de usufruto para o citado casal) das quotas da empresa para as suas filhas. Constatouse, também, que, depois, da referida “doação” das quotas de capital da Santa Sônia foi outorgada uma procuração concedendo amplos poderes para que Adir Assad e sua esposa Sônia Regina Assad pudessem exercer todos os atos de gerência da citada empresa. Fl. 1701DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.702 67 Não há dúvida de que, apesar de as duas filhas do mencionado casal aparecerem como sócias de direito desta sociedade, o real sócio de fato, administrador e gerente dos negócios é Adir Assad que continua com poderes totais de gestão financeira e patrimonial da sociedade Santa Sônia Empreendimentos Imobiliários Ltda. Dessa forma, restou clara a configuração do interesse comum (econômico e jurídico) tipificado no art. 124, I, do CTN, uma vez que era empresa controlada por Adir Assad, responsável pelo planejamento do esquema de sonegação, para a qual se destinou o produto da sonegação de tributos, ou seja, o patrimônio construído em beneficio de Adir Assad, que por meio dos fatos antes narrados tentou blindar este patrimônio. A empresa Four’s Empreendimentos Imobiliários Ltda. foi constituída em 29/07/2008, tendo como sócias as filhas da Sônia Mariza Branco, Sibely Coelho e Soiany Coelho, e tendo o mesmo endereço que foi domicílio tributário de várias empresas do grupo Rock Star. Ressaltese que a totalidade dos bens de Sônia Mariza Branco foi doada para a empresa. Em dezembro de 2012, as citadas sócias retiraramse da sociedade e foram admitidas como sócias administradoras Nathaly Coelho Adesso (filha de Sibely Coelho) e Simone Coelho Adesso (filha de Sonia Mariza Branco). Em 09/02/2012 foi lavrada no 12° Tabelião de Notas de São Paulo/SP uma procuração tendo como outorgante Simone Coelho Guimarães, constituindo sua bastante procuradora a Sra SÔNIA MARIZA BRANCO, sua mãe, com amplos poderes para gerir seu patrimônio, representála perante órgãos e repartições públicas, receber e movimentar contas bancárias, representála perante juízo, instância ou tribunal. Em 04/01/2013 foi lavrada outra procuração no 12° Tabelião de Notas de São Paulo/SP, constituindo como sua procuradora Sibely Coelho, tendo como outorgantes a sua irmã Sra Simone Coelho Guimarães CPF: 246.278 76823 e a sua filha Nathaly Coelho Adesso CPF: 387.642.92851, concedendo amplos Fl. 1702DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.703 68 poderes para que esta pudesse exercer todos os atos de gerência da sociedade Four's Empreendimentos Imobiliários Ltda.. Ou seja, apesar de sua irmã e filha aparecerem como sócias de direito da sociedade, as reais sócias de fato, administradoras e gerente dos negócios são a Sra SÔNIA MARIZA BRANCO (que disponibilizou a totalidade de seu patrimônio através de doação para esta sociedade) e da sua filha Sra SIBELY COELHO que continua com poderes totais de gestão financeira e patrimonial da sociedade Four's Empreendimentos Imobiliários Ltda.. Dessa forma, restou clara a configuração do interesse comum (econômico e jurídico) tipificado no art. 124, I, do CTN, uma vez que era empresa controlada por Sônia Mariza Branco, que era sóciaadministradora de várias empresas participantes do esquema de sonegação, cujo patrimônio adquirido com o produto da referida sonegação de tributos foi destinado à empresa em questão. Foi imputada responsabilidade solidária a Adir Assad, Sonia Mariza Branco, Sandra Maria Branco Málago, Mauro José Abbud e Marcello José Abbud, com fundamento nos arts. 124, I, e 135, III, ambos do CTN, e a Santa Sônia Empreendimentos Imobiliários Ltda. e Four’s Empreendimentos Imobiliários Ltda. com base no art. 124, I, daquele Código. A respeito da atribuição de responsabilidade com base no artigo 124, I, do CTN, expõe Rubens Gomes de Souza (Compêndio de Legislação Tributária, Edições Financeiras, 3.ª ed, p. 67): [...] É solidária a pessoa que realiza conjuntamente com outra, ou outras pessoas, a situação que constitui fato gerador, ou que, e comum com outras, esteja em relação econômica com o ato, fato ou negócio que dá origem à tributação; (sublinhei) E Marcos Vinicius Neder aduz o seguinte (ensaio publicado na Revista sobre Responsabilidade Tributária: Dialética. São Paulo: 2007. p.42.): “(...) Concluise, portanto, que o fato jurídico suficiente à constituição da solidariedade não é o mero interesse de fato, mas sim o interesse jurídico que surge a partir da existência de direitos e deveres comuns entre as pessoas situadas do mesmo lado de uma relação jurídica privada que constitua o fato jurídico tributário.” (sublinhei) Segundo Luciano Amaro (Direito Tributário Brasileiro, 12ª ed., Saraiva, p. 314), há a solidariedade passiva quando duas ou mais pessoas podem apresentarse na condição de sujeito passivo da obrigação tributária, cada um obrigandose por toda a dívida, o que dá ao sujeito ativo a prerrogativa de exigila de qualquer um dos devedores até realização integral da obrigação (sublinhei). Relativamente ao art. 135, inciso III, do CTN, ele estabelece a responsabilidade tributária dos diretores, gerentes e administradores de pessoas jurídicas de direito privado, pelos créditos decorrentes de obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração à lei. Fl. 1703DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.704 69 É preciso esclarecer, que a imputação de responsabilidade pelo crédito tributário a terceira pessoa não exclui a responsabilidade do contribuinte, salvo quando a lei assim prescrever, na dicção do art. 128 do CTN. No caso do art. 135 do CTN, não há exclusão expressa da responsabilidade do contribuinte, de modo que permanece ele respondendo pelo crédito tributário lançado. Nesse sentido, é a lição de Hugo de Brito Machado: A lei diz que são pessoalmente responsáveis, mas não diz que sejam as únicas. A exclusão da responsabilidade, a nosso ver, teria de ser expressa. Com efeito, a responsabilidade do contribuinte decorre de sua condição de sujeito passivo direto da relação obrigacional tributária. Independe de disposição legal que expressamente a estabeleça. Assim, em se tratando de responsabilidade inerente à própria condição de contribuinte, não é razoável admitirse que desapareça sem que a lei o diga expressamente. Isto, aliás, é o que se depreende do disposto no art. 128 do Código Tributário Nacional...” (Curso de Direito Tributário. 21ª ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 142) Esse entendimento é compartilhado por Luís Eduardo Schoueri, conforme se observa do seguinte excerto: Descartada a possibilidade de o contribuinte afastar se do debitum, cabe ver se lhe resta a responsabilidade. A leitura do artigo 128 indica a situação do contribuinte: de regra, uma vez apontada, de modo expresso, a responsabilidade pelo crédito a terceira pessoa, pode a lei, também de modo expresso: Excluir a responsabilidade do contribuinte, ou Atribuir a responsabilidade ao contribuinte em caráter supletivo do cumprimento total ou parcial da referida obrigação. Ocorre que o art. 135 silencia acerca da responsabilidade do contribuinte. Não a exclui nem a atribui em caráter supletivo. Ora, se o referido artigo 128 dispõe dever a lei regular o assunto de modo expresso, não há como concluir pela exclusão ou subsidiariedade da responsabilidade do contribuinte. (Direito Tributário. São Paulo: Saraiva, 2011. p. 511) Como se vê, a responsabilidade solidária obriga os responsáveis pelo crédito tributário total, obrigandose cada um pela dívida toda e não apenas pelos tributos exigidos. Dessa forma, é improcedente a alegação de que os responsáveis solidários não podem arcar com as penalidades aplicadas, uma vez que os arts. 113, § 1º e art. 139 do CTN, determinam que a multa faz parte do crédito tributário. Quanto à comprovação da responsabilidade solidária pela fiscalização, cabe registrar que, na busca pela verdade material – princípio esse informador do processo administrativo fiscal –, a comprovação de uma dada situação fática pode ser feita, em regra, por prova única, direta, concludente por si só, ou por um conjunto de elementos/indícios que, se isoladamente nada atestam, agrupados têm o condão de Fl. 1704DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.705 70 estabelecer a certeza daquela matéria de fato. Não há, em sede de processo administrativo, uma préestabelecida hierarquização dos meios de prova, sendo perfeitamente regular a formação da convicção a partir do cotejo de elementos de variada ordem. É a consagração da chamada prova indiciária, de largo uso no direito. A comprovação fática do ilícito raramente é passível de ser produzida por uma prova única, isolada, a qual, aliás, só seria possível, praticamente, a partir de uma confissão expressa do(s) infrator(es), coisa que, como se infere, dificilmente se terá, por mais evidentes que sejam os fatos. Ao indício, isoladamente, pouca eficácia probatória é dada, ganhando ele relevo apenas quando, olhado conjuntamente com outros indícios, dá azo à convicção de que apenas um resultado fático seria verossímil; se do cruzamento de vários indícios se chega não a um resultado único, mas a mais de um, não se pode ter por comprovado o que quer que seja. No presente caso, foi criada a CPMI destinada a investigar práticas criminosas do senhor Carlos Augusto Ramos, conhecido vulgarmente como Carlinhos Cachoeira, desvendadas pela operação "Saqueador" da Polícia Federal. Essa Comissão apurou a existência de uma série de "empresas (dentre elas a JSM ENGENHARIA E TERRAPLENAGEM LTDA. – ME.) controladas por interpostas pessoas", colaboradores, todas com vínculos profissionais ou pessoais com o Marcello José Abbud, Adir Assad e Mauro José Abbud, verdadeiros responsáveis por essas sociedades. Constatouse que todas essas empresas têm sócios em comum. O Sr. Marcello José Abbud é exsócio da J.S.M. e da Legend (além da Power to Ten). A Sra. Sônia Mariza Branco atualmente é sócia da Rock Star e da Soterra (além da S.M.). Já a Sra. Sandra Maria Branco é sócia, atualmente, da Rock Star e da S.P.Terraplenagem, e exsócia da JSM e da Soterra. Vêse, portanto, a estreita interligação entre todas essas empresas. Tais empresas fizeram parte do esquema montado por estes empresários, os quais, posteriormente e paulatinamente, foram sendo sucedidos, ou mesmo constituíram novas empresas, cujos quadros societários são constituídos por pessoas que lhe são próximas, caso das irmãs Sonia Mariza Branco e Sandra Maria Branco Malago. Como exemplo, temos a Legend Engenheiros Associados que foi aberta pelos sócios Adir Assad e Marcello José Abbud e já sofreu sucessivas mudanças societárias. Uma que chamou a atenção foi a da Sra. Sônia Mariza Branco, que além de ser proprietária de uma série de empresas "laranjas" já figurou como sócia desta empresa e, também, da LEGEND ASSESSORIA E CONSULTORIA DE PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO DE MARKETING LTDA. Esta última alterou seu nome empresarial para S.M. TERRAPLENAGEM LTDA. Segundo a fiscalização, a contribuinte utiliza o endereço da sociedade Legend Engenheiros Associados Ltda – CNPJ: 07.794.669/000141, Rua Iraí, 1.292 – Planalto Paulista – São Paulo /SP – CEP: 04082003, para o recebimento de correspondências e o próprio Adir Assad, sua esposa Sonia Regina Assad e as sócias Sonia Mariza Branco e Sandra Maria Branco Malago também utilizam este endereço com o mesmo fim. A própria Polícia Federal considera este endereço como o centro de operações das empresas controladas pelos empresários Adir Assad e Marcello José Abbud. Da leitura das conclusões do Relatório Final da CPMI do Cachoeira, temse que não restaram dúvidas ao trabalho investigativo promovido pelo Congresso Nacional, do vínculo societário e profissional das pessoas físicas aqui citadas, e que todas elas Fl. 1705DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.706 71 direta ou indiretamente participaram ativamente da administração dos negócios da JSM Engenharia e Terraplenagem Ltda. ME, sob a orientação e direção dos senhores Marcello José Abbud e Adir Assad. Constatouse que os contadores destas sociedades (todas ligadas a Adir Assad) são sempre os mesmos: i) ADALBERTO PALHINHA MARTINS; e ii) AMAURY PONTALTI. Boa parte dessas sociedades encontramse "sediadas" em endereços coincidentes, todos invariavelmente incompatíveis com as atividades prestadas e com as receitas milionárias que foram auferidas e que hoje se encontram na situação cadastral de BAIXADAS DE OFÍCIO (motivação: inexistente de fato). Além disso, foi levantado um conjunto de provas, quais sejam, compra de passagens aéreas para o Sr Adir Assad e para a sua esposa Sra Sonia Regina Assad feita e paga pela sociedade Rock Star Marketing Ltda, cuja sócia é SÔNIA MARIZA BRANCO; e mail nos quais Adir Assad, Sonia Mariza e Sibely utilizam a extensão “@rstar” em suas caixas de mensagem (indicativo do Grupo Rock Star, composto por várias empresas controladas pelo Sr. Adir Assad) e que comprovam de forma clara o poder de gerência de Adir Assad; Darf de pagamentos de tributos de Adir Assad pela empresa JSM; a apresentação de Adir Assad como representante da Rock Star; os depoimentos constantes no processo (de Sônia Mariza Branco e Sandra Maria Branco Malago), etc. Tais provas, isoladamente, têm pouca força probante, mas ganham relevo quando tomadas conjuntamente, levandose à comprovação do vínculo existente entre as empresas e à constatação feita na investigação policial de que Adir Assad, apesar de não ter participado formalmente do quadro societário da contribuinte, exercia o controle sobre ela por meio de pessoas que lhe são próximas (Sônia Mariza Branco, Sandra, Mauro José e Marcello). Foi apreendida pela Polícia Federal uma relação de documentos enviada ao contador comum das empresas (Adalberto Palhinha Martins), na qual são remetidos, além dos documentos da Legend Engenheiros Associados Ltda., da JSM Engenharia e Terraplenagem Ltda. ME, da Power To Ten Engenharia Ltda. ME, da SM Terraplenagem Ltda. ME, da Soterra Terraplenagem e Locação de Equipamentos Ltda. ME e da SP Terraplenagem Ltda. – ME, documentos pessoais de Adir Assad e de outra empresa de Marcello José Abbud (Marcello José Abbud Planejamento Est.). Foi apreendido, também, o email, de 05/04/2010, em que Sandra Maria Branco, sócia administradora da Rock Star Marketing Ltda., encaminha ao Sr Amauri Pontalti (contador das empresas administradas de fato por Adir Assad), informações relativas às Notas Fiscais das empresas Rock Star Produções Comércio e Serviços Ltda., Rock Star Marketing Ltda., Legend Engenheiros Associados Ltda., Rock Star Marketing Promoções e Eventos Ltda. e SM Terraplanagem Ltda. , nos seguintes termos: ■ Rock Star Prod. NF 483 cancelada esta nota eu mandei o jogo todo para a gráfica ela vai ser cancelada. ■ Rock Star Marketing NF1468 foi emitida p/ Inst. Tomie Ohtake valor 6300,00 e a nota 1482 p/ BMG 1.300,00 a Sueli vai tirar um Xerox e trazer as originais. O Marcello deve ter comido as copias ou.....................e a 1470 e cancelada foi também um jogo completo da nota para gráfica que ela vai me mandar. Fl. 1706DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.707 72 ■ Rock Star Promoções e Eventos as notas que você passou a relação estão todas canceladas a Sueli vai trazer. ■ SM essas notas quando nos separamos os talões esse joguinho de notas sumiram não sei aonde foi parar não achamos revirei tudo e não encontramos. ■ LEGEND 1232/1233/1235 canceladas a Sueli vai trazer. E mais, nos depoimentos prestados pela sócia Sandra Maria Branco Malago e por Sonia Mariza Branco, em 13/06/2012, não resta a menor dúvida da participação e gerência do Sr Adir Assad na condução dos negócios comerciais e financeiros das sociedades em que estas senhoras configuram como sócias. Outro documento que comprova o vínculo societário e a subordinação de Sônia Mariza Branco e Sandra Maria Branco Malago ao Sr. Adir Assad são as procurações por elas concedidas a ele, que, apesar de relacionadas a outras sociedades, demonstram que elas são interpostas pessoas daquele senhor, que as utiliza de forma freqüente, tentando se ocultar da responsabilidade dos atos praticados pelas citadas empresas. Todas essas constatações demonstram o modo de agir de Adir Assad na realização da fraude com a participação de um grupo de pessoas e empresas, todos agindo em conjunto com o objetivo de sonegar tributos. Constatouse, em todo o procedimento levado a efeito nas empresas investigadas, a existência do interesse jurídico antes mencionado, caracterizado pela existência de direitos e deveres comuns aos participantes do esquema de sonegação. O conjunto de provas (já citadas) reunidas na investigação policial e no procedimento fiscal levam à conclusão de que Adir Assad participa e é gerente na condução dos negócios comerciais e financeiros das sociedades. Quanto à alegação feita por Adir Assad de que não há provas relativas aos anos calendário de 2009 e 2010, cabe registrar que a ação fiscal englobou os anos calendário de 2008 a 2010 e as ações praticadas em 2008 foram perpetradas nos anos seguintes, nos quais referida pessoa figurava como sócio de fato da contribuinte. Marcello José Abbud foi sócio administrador da contribuinte de 11/09/2008 até 26/02/2010 e depois retornou como sócio administrador em 05/02/2013. Entretanto, de acordo com documentos constantes no processo, continuou a exercer a gerência da empresa, pois, em 2011, assinou como representante da contribuinte em contrato de prestação de serviço. Além disso, participou da gerência de outras empresas (Power To Tem, Legend Engenheiros Associados Ltda.) integrantes do grupo de pessoas jurídicas constituídas para sonegar tributos. Sonia Mariza Branco e Sandra Maria Branco Malaga tinham interesse jurídico a que se refere o art. 124, I, do CTN, pois tinham conhecimento dos fatos e participaram da realização, conjuntamente com outras pessoas, da situação que constituiu o fato gerador. Participaram como sócias administradoras de várias empresas controladas por Adir Assad, que foram alvo de investigação pela Polícia Federal, quais sejam, SM Fl. 1707DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.708 73 Terraplenagem Ltda., Soterra Terraplenagem e Locação de Equipamentos Ltda., SP Terraplenagem Ltda. (Sandra e Sonia), Rock Star Marketing Ltda., Rock Star Marketing, Promoções e Eventos Ltda., Rock Star Produções, Comércio e Serviços Ltda. e Solu Terraplenagem Ltda.. Essas empresas foram alvo de investigações pela “Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, criada pelo requerimento nº 1, de 2012CN, destinada a investigar práticas criminosas do Sr. Carlos Augusto Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira, desvendadas pelas operações “Vegas” e “Monte Carlo” da Polícia Federal”, que concluiu que todas as empresas acima citadas são controladas pelo Sr Adir Assad. E, ainda, Sonia Mariza Branco, apesar de não integrar formalmente o quadro societário da JSM, assinava cheques desta empresa, demonstrando que administrava e participava da gestão financeira da contribuinte. Mauro José Abbud é sócio administrador da contribuinte desde 26/02/2010 e é apontado pela CPMI do Cachoeira, Operação Monte Carlo e Saqueador da Polícia Federal, relatos da mídia em geral e também em fiscalizações abertas na da DRF/Barueri, como interposta pessoa do Sr ADIR ASSAD e MARCELLO JOSÉ ABBUD nas seguintes empresas: JSM Engenharia e Terraplenagem Ltda. ME, Legend Engenheiros Associados Ltda e Power To Ten Engenharia Ltda. – ME. Assim, tinha interesse jurídico a que se refere o art. 124, I, do CTN, pois tinha conhecimento dos fatos e participou da realização, conjuntamente com outras pessoas, da situação que constituiu o fato gerador. Todas essas pessoas citadas, sendo sócias administradoras, são responsáveis solidárias pelo crédito tributário por se enquadrarem na hipótese prevista no art. 135, III, daquele Código, uma vez que exerciam a gerência da sociedade e, no julgamento do mérito do lançamento, restou demonstrada a ocorrência de fraude, nos termos da Lei nº 4.502, de 1964, art. 72, portanto a ocorrência do dolo e a infração à lei. Com relação à responsabilidade solidária atribuída à empresa Santa Sônia Empreendimentos Imobiliários Ltda., é fato comprovado no processo que, no período fiscalizado, era mais uma das empresas controladas por Adir Assad (nesse caso era sócio de fato e de direito), sendo nela registrado a maioria dos bens do casal (Adir e Sônia Regina Assad) adquiridos no período de 2007 a agosto de 2012, época em que houve a transferência, mediante doação (inclusive, constando inicialmente, reserva de usufruto para o citado casal) das quotas da empresa para as suas filhas. Fl. 1708DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.709 74 Constatouse, também, que, depois, da referida “doação” das quotas de capital da Santa Sônia foi outorgada uma procuração concedendo amplos poderes para que Adir Assad e sua esposa Sônia Regina Assad pudessem exercer todos os atos de gerência da citada empresa. Não há dúvida de que, apesar de as duas filhas do mencionado casal aparecerem como sócias de direito desta sociedade, o real sócio de fato, administrador e gerente dos negócios é Adir Assad que continua com poderes totais de gestão financeira e patrimonial da sociedade Santa Sônia Empreendimentos Imobiliários Ltda. Dessa forma, restou clara a configuração do interesse comum (econômico e jurídico) tipificado no art. 124, I, do CTN, uma vez que era empresa controlada por Adir Assad, responsável pelo planejamento do esquema de sonegação, para a qual se destinou o produto da sonegação de tributos, ou seja, o patrimônio construído em beneficio de Adir Assad, que por meio dos fatos antes narrados tentou blindar este patrimônio. A empresa Four’s Empreendimentos Imobiliários Ltda. foi constituída em 29/07/2008, tendo como sócias as filhas da Sônia Mariza Branco, Sibely Coelho e Soiany Coelho, e tendo o mesmo endereço que foi domicílio tributário de várias empresas do grupo Rock Star. Ressaltese que a totalidade dos bens de Sônia Mariza Branco foi doada para a empresa. Fl. 1709DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.710 75 Em dezembro de 2012, as citadas sócias retiraramse da sociedade e foram admitidas como sócias administradoras Nathaly Coelho Adesso (filha de Sibely Coelho) e Simone Coelho Adesso (filha de Sonia Mariza Branco). Em 09/02/2012 foi lavrada no 12° Tabelião de Notas de São Paulo/SP uma procuração tendo como outorgante Simone Coelho Guimarães, constituindo sua bastante procuradora a Sra Sonia Mariza Branco, sua mãe, com amplos poderes para gerir seu patrimônio, representála perante órgãos e repartições públicas, receber e movimentar contas bancárias, representála perante juízo, instância ou tribunal. Em 04/01/2013 foi lavrada outra procuração no 12° Tabelião de Notas de São Paulo/SP, constituindo como sua procuradora Sibely Coelho, tendo como outorgantes a sua irmã Sra Simone Coelho Guimarães CPF: 246.278 76823 e a sua filha Nathaly Coelho Adesso CPF: 387.642.92851, concedendo amplos poderes para que esta pudesse exercer todos os atos de gerência da sociedade Four's Empreendimentos Imobiliários Ltda.. Ou seja, apesar de sua irmã e filha aparecerem como sócias de direito da sociedade, as reais sócias de fato, administradoras e gerente dos negócios são a Sra SÔNIA MARIZA BRANCO (que disponibilizou a totalidade de seu patrimônio através de doação para esta sociedade) e da sua filha Sra SIBELY COELHO que continua com poderes totais de gestão financeira e patrimonial da sociedade Four's Empreendimentos Imobiliários Ltda.. Dessa forma, restou clara a configuração do interesse comum (econômico e jurídico) tipificado no art. 124, I, do CTN, uma vez que era empresa controlada por Sônia Mariza Branco, que era sóciaadministradora de várias empresas participantes do esquema de sonegação, cujo patrimônio adquirido com o produto da referida sonegação de tributos foi destinado à empresa em questão. 4 CONCLUSÃO Fl. 1710DF CARF MF Processo nº 13896.721615/201491 Acórdão n.º 1301002.749 S1C3T1 Fl. 1.711 76 Isso posto, voto por: (I) negar provimento ao recurso de ofício e aos recursos dos coobrigados; (II) no que se refere à exigência do crédito tributário da pessoa jurídica: (i) rejeitar as arguições de nulidade; (ii) em relação à infração 0001 (depósitos bancários de origem não comprovada), acolher parcialmente a arguição de decadência para extinguir o crédito tributário de IRPJ e de CSLL relativo ao 1º trimestre do anocalendário de 2009, e, no mérito, dar provimento parcial aos recursos para reduzir a multa de ofício para o percentual de 75%. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Fl. 1711DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10120.907622/2009-02
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 24 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Feb 21 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2005
Ementa:
CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS. COMPENSAÇÃO. REQUISITO. COMPROVAÇÃO DA EXISTÊNCIA E DA LIQUIDEZ DO CRÉDITO.
A comprovação da existência e da liquidez do crédito são requisitos essenciais à acolhida de pedidos de compensação.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3401-004.076
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário apresentado.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rosaldo Trevisan, Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2005 Ementa: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS. COMPENSAÇÃO. REQUISITO. COMPROVAÇÃO DA EXISTÊNCIA E DA LIQUIDEZ DO CRÉDITO. A comprovação da existência e da liquidez do crédito são requisitos essenciais à acolhida de pedidos de compensação. Recurso Voluntário Negado
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decisao_txt : Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário apresentado. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rosaldo Trevisan, Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
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conteudo_txt : Metadados => date: 2018-02-19T17:14:07Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: pdfsam-console (Ver. 2.4.0e); access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; dcterms:created: 2018-02-19T17:14:07Z; Last-Modified: 2018-02-19T17:14:07Z; dcterms:modified: 2018-02-19T17:14:07Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2018-02-19T17:14:07Z; pdf:docinfo:creator_tool: pdfsam-console (Ver. 2.4.0e); access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2018-02-19T17:14:07Z; meta:save-date: 2018-02-19T17:14:07Z; pdf:encrypted: true; modified: 2018-02-19T17:14:07Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; meta:creation-date: 2018-02-19T17:14:07Z; created: 2018-02-19T17:14:07Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 3; Creation-Date: 2018-02-19T17:14:07Z; pdf:charsPerPage: 1447; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2018-02-19T17:14:07Z | Conteúdo => S3C4T1 Fl. 2 1 1 S3C4T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10120.907622/200902 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3401004.076 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 24 de outubro de 2017 Matéria DCOMP COFINS ELETRÔNICO Recorrente UNIDROGAS INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE MEDICAMENTOS LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2005 Ementa: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS. COMPENSAÇÃO. REQUISITO. COMPROVAÇÃO DA EXISTÊNCIA E DA LIQUIDEZ DO CRÉDITO. A comprovação da existência e da liquidez do crédito são requisitos essenciais à acolhida de pedidos de compensação. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário apresentado. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rosaldo Trevisan, Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Relatório Versa o presente sobre PER/DCOMP invocando créditos referentes a pagamento indevido ou maior de CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 90 76 22 /2 00 9- 02 Fl. 70DF CARF MF Processo nº 10120.907622/200902 Acórdão n.º 3401004.076 S3C4T1 Fl. 3 2 Não tendo sido localizado tal pagamento nos sistemas da RFB, a empresa foi intimada a se manifestar, e, diante de seu silêncio, o crédito foi indeferido e a compensação não homologada, por Despacho Decisório Eletrônico, tendo a empresa apresentado Manifestação de Inconformidade, na qual alegou, em síntese, que: (a) é inconstitucional a majoração de alíquota promovida pelos Decretos no 2.445/1988 e no 2.449/1998, já reconhecida pelo Poder Judiciário e declarada por ato do Senado (Resolução no 49, de 9/10/1995), e a aplicação retroativa (sistemática da semestralidade) do art. 18 da Lei no 9.715/1998 (conforme ADIn no 1.4170, publicada em 23/03/2011 e também reconhecida por ato do Senado – Resolução no 10, de 08/06/2005); e (b) o prazo para pedir a restituição é fixado a partir da data em que se tornar definitiva a decisão administrativa / judicial / Resolução do Senado. A decisão de primeira instância foi, unanimemente, pela improcedência da manifestação de inconformidade, sob os seguintes fundamentos. (a) a empresa não alegou nem comprovou o suposto pagamento a maior ou indevido que teria efetuado, a despeito de ter sido intimada para tanto; (b) em pesquisa aos sistemas da RFB, verificouse a existência de DARF de recolhimento com a data de arrecadação diversa da indicada no pedido, parecendo a empresa buscar com a data incorreta em seu pedido frustrar eventual extinção de prazo para pedir restituição, que ocorre após cinco anos do pagamento indevido, com vem decidindo o STJ na sistemática dos recursos repetitivos (REsp no 1.110.578/SP) e o CARF. Ciente da decisão de piso, a empresa interpôs Recurso Voluntário, basicamente repisando o argumento de que não poderia o artigo 18 da norma legal (hoje Lei no 9.715/1998) ter retroagido, como decidiu o STF na ADIn no 1.417 (e Resolução no 10/2005), e reconheceu a própria Receita Federal, na IN SRF no 6/2000; e acrescentando que a Lei no 9.715/1998 revogou a Lei Complementar no 7/70, e que a cobrança também estaria com prazo decaído. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3401004.025, de 24 de outubro de 2017, proferido no julgamento do processo 10120.901000/200962, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3401004.025): "O recurso voluntário apresentado preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele se toma conhecimento. Diante da imputação fiscal e das defesas apresentadas, há pouco a discutir no presente processo. Isso porque em nenhuma das peças de defesa a empresa informa, objetivamente, aquilo que foi intimada a esclarecer desde antes do início do contencioso: qual Fl. 71DF CARF MF Processo nº 10120.907622/200902 Acórdão n.º 3401004.076 S3C4T1 Fl. 4 3 foi exatamente o recolhimento indevido e qual o motivo para que especificamente essa quantia seja considerada de fato indevida. Enquanto a defesa se alonga em discussões de direito que, em geral, já estão pacificadas administrativa e judicialmente, não dedica uma linha sequer a informar como os valores que entende indevidos o são pela ocorrência, no caso concreto, de tais situações jurídicas genericamente descritas. Como bem destacou a instância de piso, a empresa jamais comprovou o suposto pagamento a maior ou indevido, mesmo tendo sido intimada a tanto, na fase précontenciosa. Persiste, assim, a ausência de liquidez e certeza sobre o débito, ainda antes de se iniciar a discussão jurídica, que deixa de ser relevante, por não se saber, de forma peremptória, se é relacionada ao caso concreto aqui narrado. Não se desincumbe, assim, a postulante ao crédito, de seu ônus probatório, acreditando que as alegações de direito genéricas socorrem sua demanda, sem realizar qualquer esforço para vincular tais discussões jurídicas ao caso em análise, dotando de certeza e de liquidez o crédito. Em relação a alegação de decadência para cobrança, cabe destacar que não se está aqui a analisar lançamento, mas pedido de restituição, cumulado com compensação. E, como destacou a DRJ, a existência de Resolução do Senado reconhecendo eventual inconstitucionalidade é despicienda para fins de contagem do prazo prescricional (REsp no 1.110.578SP, julgado na sistemática dos recursos repetitivos). Poderseia agregar aos argumentos de defesa, de ofício, o tratamento reconhecido aos pedidos administrativos pelo STF (RE no 566.621/RS) e pelo CARF (Súmula CARF no 91). No entanto, como destacado de início, a discussão sobre haver ou não expirado o prazo para pedir restituição se afigura secundária, diante da ausência de liquidez e certeza do crédito. E a comprovação da existência e da liquidez do crédito são requisitos essenciais à acolhida de pedidos de compensação. Pelo exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário apresentado." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o colegiado negou provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 72DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.027056/99-65
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Nov 06 00:00:00 UTC 2003
Ementa: FINSOCIAL RESTITUIÇÃO
INCONSTITUCIONALIDADE DAS. MAJORAÇÕES DE ALÍQUOTAS - reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal no bojo de solução jurídica conflituosa em controle difuso de constitucionalidade de que não foi parte o contribuinte - Extensão dos efeitos pela aplicação do princípio da isonomia.
DECADÊNCIA DO DIREITO . À RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO - não ocorrência ao caso face a não aplicação da norma expressa no art. 168 do CTN. Não aplicação também do Decreto nº 92.698/86 e Decreto-lei nº 2.049/83 por incompatíveis com os ditames constitucionais. Aplicação dos princípios da moralidade administrativa, da vedação ao enriquecimento sem causa, da prevalência do interesse público sobre o interesse meramente fazendário, da Medida Provisória n° 1110/95 e suas reedições, especificamente a Medida Provisória nº 1621-36, de 10.06/98 (DOU de 12/06/98), artigo 18,§ 2°, culminando na Lei n° 10.522/02, do art. 77 da Lei nº 9.430/96, do Decreto nº2.194/97 e da IN SRF nº 31/97, do Decreto nº 20.910/32, art. 1°, dos precedentes jurisprudenciais judiciais e administrativos e das teses doutrinárias predominantes.
COMPETÊNCIA DOS CONSELHOS DE CONTRIBUINTES -
Ressalvada a competência exclusiva da Advocacia Geral da União e
das Consultorias Jurídicas dos Ministérios para fixar a interpretação das normas jurídicas vinculando a sua aplicação uniforme pelos órgãos subordinados, compete aos Conselhos de Contribuintes a aplicação aos casos sob julgamento do preconizado nos princípios constitucionais, nas leis que regem os processos administrativos e no Direito como integração da doutrina, jurisprudência e da norma posta, consagrados nos comandos da Lei nº 8.429/92, art. 4° e Lei n° 9.784/99, art. 2°, caput e parágrafo único).
ANÁLISE DO MÉRITO - Afastada a preliminar de ocorrência da
decadência, devolve-se o processo à Delegacia da Receita Federal
de Julgamento para a análise da matéria de mérito no tocante aos
acréscimos legais, comprovantes de recolhimento, planilhas de
cálculo, etc.
Numero da decisão: 301-30.852
Decisão: ACORDAM os Membros da Primeira Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes, por maioria de votos, dar provimento ao recurso para afastar a decadência e devolver o processo à DRJ para julgamento do mérito, vencida a Conselheira Roberta Maria Ribeiro Aragão, na forma do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Os Conselheiros José Luiz Novo Rossari e Luiz Sérgio
Fonseca Soares votaram pela conclusão.
Nome do relator: Jose Adão Vitorino de Morais
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DRJ/SÃO PAULO/SP FINSOCIAL RESTITUIÇÃO ~ INCONSTITUCIONALIDADE DAS. MAJORAÇÕES DE ALÍQUOTAS - reconhecida pelo Supremo Tribunal.~.Federal no bojo de solução jurídica conflituosa em controle difuso de constitucionalidade de que não foi parte o contribuinte - Extensão dos efeitos pela aplicação do princípio da isonomia. . DECADÊNCIA DO DIREITO ,". À RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO - não ocorrência ao' caso face a não aplicação da norma expressa no art. 168 do CTN . Não aplicação também do Decreto nO92.698/86 e Decreto-lei nO2.049/83 por incompativeis com os ditames constitucionais. 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COMPETÊNCIA DOS CONSELHOS DE CONTRIBUINTES - Ressalvada a competência exclusiva da Advocacia Geral da União e das Consultorias Jurídicas dos Ministérios para fixar a interpretação das normas jurídicas vinculando a sua aplicação unifórme pelos órgãos subordinados, compete aos Conselhos de Contribuintes a aplicação aos casos sob julgamento do preconizado nos princípios constitucionais, nas leis que regem os processos administrativos e no Direito como integração da doutrina, jurisprudência e da norma posta, consagrados nos comandos da Lei nO8.429/92, art. 4° e Lei n° 9.784/99, art. 2°, caput e parágrafo único). ANÁLISE DO MÉRITO - Afastada a preliminar de o~orrência da decadência, devolve-se o processo à Delegacia da Rec~ita Federal de Julgamento para a análise da matéria de mérito no tocante aos acréscimos legais, comprovantes de recolhimento, planilhas de cálculo, etc. MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA •• ""I RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os Membros da Primeira Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes, por maioria de votos, dar provimento ao recurso para afastar a decadência e devolver o processo à DRJ para julgamento do mérito, vencida a Conselheira Roberta Maria Ribeiro Aragão, na forma do reJatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Os Conselheiros José Luiz Novo'Rossari e Luiz Sérgio Fonseca Soares votaram pela conclusão. Brasília-DF, em 06 de novembro de 2003 MO ELOY DE MEDEIROS Presidente OS M~R 7004 JOSÉ LENCE CARLUCI Relator Participaram, ainda, do presente julgamento, os seguintes Conselheiros: CARLOS HENRIQUE KLASER FILHO, MÁRCIA REGINA MACHADO MELARÉ e ROOSEVELT BALDOMIR SOSA. MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° RECORRENTE RECORRIDA RELATOR(A) 126.551 301-30.852 TECIDOS SALIM &DANIEL LTDA. DRJ/SÃO PAULO/SP JOSÉ LENCE CARLUCI RELATÓRIO • A empresa acima identificada apresentou manifestação de inconformidade (fls. 102 a 110) contra o despacho da DISIT/DRF/SPO n0837/2000 (fl. 99), que indeferiu seu pedido de restituição das parcelas da contribuição para o Fundo de Investimento Social - FINSOCIAL, recolhidas a alíquotas superiores a 0,5% (meio por cento), dos períodos de setembrol1989 a dezembro/1991 (fls. 01,73,76,79,84,88,89 e 92), cumulado com pedido de compensação das parcelas de COFINS, PIS/ Faturamento, IRPJ/Presumido e CSLL (fls. 02,74,77,80,82,85,90 e 93). O despacho decisório da DISIT/DRF/SPO N°83712000indeferiu a solicitação da contribuinte, em síntese, com base no decurso do prazo 'decadencial previsto no artigo 168 do Código Tributário Nacional (lei n° 5.172, de 25/1 011966) e no Ato Declaratório SRF n° 96, de 26111/1999. . 2 O interessado contesta o despacho decisório que indeferiu seu pleito argumentando em síntese que: 2.1 Conforme se depreende da decisão nO 837/2000, o pedido de restituição do contribuinte foi indeferido, exclusivamente com base no item I do Ato Declaratório da SRF n° 96/1999. Contudo, forçoso recordar que, por variados ângulos, tal decadência ou prescrição não se operou em espécie. 2.2 Isto porque o Superior Tribunal de Justiça já manifestou o seu entendimento de que nos tributos cujo lançamento ocorre por homologação, apenas com a referida extinção do crédito (e não com a mera antecipação do pagamento referida no "caput" do art. 150 do CTN) é que principia a fluir o prazo referido no art. 168, inciso I , do CTN, pois somente então ocorrerá a extinção .do crédito tributário ali referida. 2.3 Se assim é, toma o contribuinte a iniciativa de apurar o quantum debeatur e recolhe o gravame, aguardando o tral1$curso do qüinqüênio em que dito autolançamento poderá ser revisto pela autoridade fiscal. Uma vez transposto o dito qüinqüênio sem objeção fiscal, tem-se a homologação tácita do lançamento e, apenas 2 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 então, ocorre a definitiva extinção do crédito tributário (art. 150, S 4°, do CTN). 2.4 Por isso o prazo decadencial a que se refere o art. 168, para 2.4 recuperação de valores pagos indevidamente no campo tributário, não começa a fluir do pagamento, mas sim da extinção do crédito tributário, que, como sói ocorrer, dá-se tão somente de forma tácita, cinco anos após o fato gerador. 2.5 A partir de então principia o prazo decadencial referido no art. 168, inciso I, combinado com o art. 165, inciso I. Observe-se que o "caput" do art. 168 refere-se ao vocábulo restituição, cujo alcance é genérico, aludindo à reposição do "status quo ante",",. prévio ao pagamento indevido. Essa reposição pode ocorrer pela restituição em espécie (repetição), como também pela compensação do crédito frente a débito, cujos pólos obrigacionais têm sentido inverso. 2.6 Portanto, no vertente, caso, e tendo-se presente que os fatos geradores em relação aos quais, pede-se a compensação ocorreram no período de setembro de 1989 a março de 1992 e que a homologação tácita dos respectivos fatos geradores ocorreu entre o período de setembro de 1994 a março de 1997, o prazo decadencial, que começou a fluir respectivamente a partir de cada homologação tácita, somente teria começado a expirar a contar de 30 de setembro de 1999. . 2.7 Em subsídio aos argumentos impugnatórios, a c'ontribuinte apresenta um acórdão do Segundo Conselho de Contribuintes e algumas decisões do Superior Tribunal de Justiça e d~ Supremo Tribunal Federal referentes à mesma matéria. A DRJ/SPO indeferiu a solicitação da contribuinte alegando que : " O direito de pleitear restituição, seguida de compensação, de tributo ou contribuição pago a maior ou indevidamente extingue-se com o decurso do prazo de (5) .cinco anos contados da data de extinção do crédito tributário." Inconformada com a decisão da DRJ/SPO, a cdntribuinte, tempestivamente interpôs recurso ao Conselho de Contribuintes em que reitera os argumentos expostos na sua manifestação de inconformidade anterior :e junta aos mesmos a cópia de inúmeros julgados recentemente publicados no DOU, proferidos pelo Conselho de Contribuintes, que demonstram o entendimento pacificado desta Corte quanto ao direto do contribuinte proceder à compensação do indébito de FINSOCIAL observado o prazo decadencial decenal. 3 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 Afirma que, da mesma forma, os referidos julgados comprovam o entendimento desta Corte de que o prazo prescricional para o pleito compensatório tem seu termo a partir do momento em que a administração reconheceu o direito do contribuinte, o que se deu através da publicação da Medida Provisória n° 1.110/95, tornando, assim, legítimo o pedido de compensação formulado nestes autos, vez que protocolizado o mesmo antes do qüinqüênio, ou seja, em 1999. É o relatório. ..... 4 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 VOTO A matéria aqui tratada é por demais polêmica, haja vista a pletora de normas, decisões judiciais e administrativas e vasta elaboração doutrinária nem sempre convergentes, exigindo uma análise aprofundada sob a ótica global do ordenamento jurídico vigente e num enfoque sistêmico desse mesmo ordenamento. Em última análise, o problema cinge-se em fixar juridicamente o dies a quo da contagem do prazo decadencial, para se pleitear a restituição das quantias pagas a título de tributo considerado inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal. Superada que seja essa questão que coloco em sede de preliminar cabe examinar ou não nesta instância a questão de mérito em face da legislação substantiva e adjetiva específica da restituição/compensação de indébitos tributários à vista da documentação acostada aos autos. " Assim colocado o problema, apresentarei nos tópicos a seguir os embasamentos jurídicos que, penso, irão orientar meu convencimento e dar sustentabilidade ao meu voto. I - ALGUMAS CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS ACERCA DOS ARTS. 165 E 168 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL (re~tituição de tributos) O Anteprojeto do Código Tributário Nacional elaborado pelo professor Rubens Gomes de Souza nos trabalhos da Comissão Espeetal do CTN dispunha sobre a matéria em seus arts. 201 e 204, da seguinte forma: "Art. 201. Observado o disposto no art. 209, o contribuinte terá direito, independentemente de prévio protesto, à restituição total ou parcial do tributo pago, seja qual for a sua natureza ou a modalidade do seu pagamento, nos seguintes casos: I. Inconstitucionalidade da legislação tributária ou. do ato administrativo em que se tenha fundado a cobrança, declarada por decisão judicial definitiva e passada em julgado: .ainda que posterior ao pagamento; 11. Cobrança ou pagamento de tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável e da natureza 5 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido; IH. Erro da autoridade administrativa na identificação do contribuinte, no cálculo da alíquota ou da verba, ou na extração ou conferência da guia de pagamento; IV. Cobrança de crédito tributário prescrito; V. Reforma, anulação, revogação ou rescisão da decisão administrativa ou judicial condenatória; VI. Na hipótese prevista nos arts. 136 e 137, parágrafo único, observado o disposto no art. 209. Art. 204. O direito de pleitear a restituição prescreve '1).0 prazo de cinco anos contados: : I. Na hipótese prevista no inciso I do art. 201, da data em que passar em julgado a decisão nela referida; 11. Nas hipóteses previstas nos incisos 11, 111e IV do art. 201, da data da extinção do crédito; 1II. Na hipótese prevista no inciso V do art. 201, da data em que se tornar definitiva a decisão administrativa, ou passar em julgado a decisão judicial, que tenha reformado, anulado ou rescindido a decisão condenatória;• IV. Na hipótese prevista no mCiSO VI do art. 201, da data dacelebração do ato jurídico novo, referido no art. 136." Ao caso interessa-nos o inciso I de ambos os artigos. A Comissão analisou o Anteprojeto e, com referência aos artigos acima, apresentou a sugestão 446, a seguir: "446. (A) Idem. (B) No art. 201, suprimir o inciso I. (C) A primeira hipótese de restituição, prevista no Anteprojeto (art. 201, item I), parece assentar no pressuposto de que a decisão judicial, declaratória da inconstitucionalidade, prevalece não apenas "inter partes", senão também erga omnes, sendo.oponivel à Fazenda por todos os possíveis interessados, ainda que "estranhos à demanda. Sim, porque a restituição, postulada por quem tenha sido parte no 6 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 feito, isto é, por quem haja ingressado em juizo está assegurada no item V, do artigo em referência, de sorte que o citado item I, assegura, positivamente, o direito de todos os contribuintes, por força de uma perigosa generalização dos efeitos da "coisa julgada". O assunto, como se vê, afiora um delicado tema de Direito Constitucional, tão proficientemente versado por juristas da estirpe de Pontes de Miranda, Castro Nunes, Francisco Campos, Lucio Bittencourt e outros. Não nos abalançamos a discutir tão magna questão, reservada ao debate dos mais doutos, sendo nosso propósito, tão-somente, tecer rápidas considerações derredor do assunto, tendo em vista certas conseqüências de ordem prática. Discorrendo sobre o assunto, eis como se manifesta o provecto Lucio Bittencourt: "É justamente por força da "eficácia natural" da sentença declaratória da inconstitucionalidade, que esta passa a atuar em relação a "todos", sem distinção, tenham ou não sid9::partes do processo, atingindo em cheio o ato visado, que se torna pela força do decreto judiciário, irrito, insubsistente, inoperante, ineficàz para todos os efeitos. É como se não fosse lei, - diz Black - não confere direitos; não impõe deveres; não fornece proteção - it confers no rights; it imposes no duties; it affords no protection" (O CONTROLE JURISDICIONAL DA CONSTITUCIONALIDADE DAS LEIS - Edição Revista Forense - 1949 p. 42): Não nos convencem, data venia, as razões aduzidas pelo festejado jurista, tanto mais que é o próprio Autor que, linhas atrás, ao falar dos efeitos indiretos da sentença, reconhece não terem os. tratadistas americanos, assim como os brasileiros, "conseguido apresentar fundamento técnico, razoavelmente aceitável, para justificar essa extensão", sendo mister, prossegue o Autor, para explicar esse fenômeno de repercussão indireta da sentença - "partir de um conceito de coisa julgada diverso do dominante". As ponderações do insigne Professor, aliadas ao fato de, entre nós, incumbir ao Senado Federal "suspender a execução, no todo ou em parte, da lei ou decreto considerados inconstitucionais por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal" (Constituição Federal, art. 64)~ bastam a convencer de que os efeitos da "coisa julgada", em matéria de inconstitucionalidade, são os regulares, alcançados apenas os litigantes, reservada que está a outro Poder a incumbência de, suspendendo a execução da lei fulminada pela Suprema Corte, generalizar os efeitos da decisão declaratória da inconstitucionalidade. Este é, com efeito, o mais robusto argumento que se pode opor à perigosa tese da generalização dos efeitos da coisa julgada, pelo só fato da prolação da sentença, argumento que é tanto mais procedente quanto é certo que, se a simples decisão judicial bastasse a invalidar a lei, suspendendo-lhe a execução, 7 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 redundante ou inútil seria a provlsao do art. 64, da Constituição Federal, entendimento que se pode admitir, máxime em se tratando de preceito constitucional, visto como é princípio assente que "verba cum effectu sunt accipienda". Concludente a este respeito, é o raciocínio do Dr. Othon Sidou, o qual, em bem elaborada monografia, recentemente dada à estampa, assim se externa: "Entendemos que se o Constituinte adotou (e já em duas Cartas políticas) a expressão "SUSPENDER A EXECUÇÃO", quis deixar expresso que, só a partir de então, o ato que vinha sendo adotado deixaria de o ser. A menos que incidíssemos no contra-senso de admitir que algum ato suspendesse o que já estivesse suspenso". (INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI E REPARAÇÃO DE DANO POR MANDADO DE SEGURANÇA Editora "CÂMBIO" - 1953 - p. 45 ) Acresce que o ato senatorial não é irretratável, definitivo, sabido que, em face de novo pronunciamento do Pretório Excelso, poderá o Senado levantar a suspensão da execução da lei malsinada, que, assim, voltará a figurar no elenco dos diplomas legais sadios, tal como admite o eminente Pontes de Miranda, em seus lúcidos "Comentários à Constituição de 1946" - VoI. II - p. 58. Tal circunstância assaz relevante, é de molde a desaconselhar a adoção do dispositivo do art. 201, item I, o Anteprojeto, tendente a compelir a Fazenda a restituir tributos arrecadados com fundamento em lei acaso declarada . inconstitucional, mas que, por força de novo pronunciamento, poderá convalescer. (D) Aprovada (111)." Em resultado da análise do Anteprojeto a Comissão aprovou a Sugestão 446 acima, culminando no texto do Projeto do Código Tributário Nacional cujos artigos correspondentes passaram a ser os números 130 e 134, respectivamente, no seguinte teor: "Art. 130. O contribuinte tem direito, independentemente de prévio protesto, à restituição total ou parcial do tributo, seja qual for a modalidade de seu pagamento nos seguintes casos: I. Cobrança ou pagamento espontâneo de tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido; II. Erro na identificação da contribuinte, na determinação da alíquota aplicável, no cálculo do montante do tributo, ou na elaboração ou conferência de qualquer documento relativo ao pagamento; 8 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 111. Reforma, anulação, revogação ou rescisão de decisão condenatória; IV. Ulterior desaparecimento, modificação ou redução dos resultados efetivos do negócio ou ato jurídico que constitua o fato gerador da obrigação tributária principal, em conseqüência: a) De nulidade declarada por decisão judicial definitiva; b) Do inadimplemento de condição suspensiva; c) Do implemento da condição resolutória. Art. 134. O direito de pleitear a restituição extingue-se com o decurso do prazo de seis meses quando o pedido se baseie em simples erro de cálculo, ou três anos nos demais casos, con~ados: I. Nas hipóteses previstas nas alíneas I e 11 do art. 130, da data da extinção do crédito tributário; 11.Na hipótese prevista na alínea 111 do art. 130, da data em que se tornar definitiva a decisão administrativa, ou passar em julgado a decisão judicial que tenha reformado, anulado, revogado ou rescindido a decisão condenatória; 111.Nas hipóteses previstas na alínea IV do artigo 130,da data em que transitar em julgado a sentença anulatória, ou em que se verificar o inadimplemento da condição suspensiva ou o implemento da condição resolutória." Vê-se, então, que pela aprovação da Sugestão 446, a Comissão elaborou o texto definitivo do Projeto, excluindo a hipótese dos incisos I, dos arts. 201 e 204 do Anteprojeto que dispunham sobre a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo, declarada por decisão judicial. O Relatório da Comissão esclarece as razões da exclusão e aceitação da Sugestão 446, conforme exposto a seguir: "As hipóteses de restituição enumeradas nas alíneas I a IV do art. 130, correspondem às das alíneas I a VI do art. 201 do Anteprojeto, com as seguintes modificações: A referência expressa ao tributo inconstitucional (art. 201 nOI) foi reputada desnecessária, porque, sendo aquele indevido, a hipótese é 9 -' MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 abrangida pela da alínea 11 do mesmo artigo (art. 130 nOI). Ficou, assim, implicitamente atendida a sugestão 446. (grifos não são do original). Nos arts. 134 e 135, a Comissão modificou o sistema do correspondente art. 204 do Anteprojeto. Este, em concordância com o regime processual que instituía nos Livros VIII e IX, unificava os prazos de caducidade do direito à restituição e de prescrição da ação correspondente aquele direito. Em conseqüência do destaque da matéria processual (supra: 8), a Comissão restabeleceu o sistema do vigente decreto nO 20.910 de 1932, fixando, respectivamente nos arts. 134 e 135, o prazo de caducidade do exercício do direito à restituição, e da prescrição da ação destinada a efetivar aquele direito, quando exercido em tempo hábil. (grifei) No cômputo dos prazos, entretanto, a Comissão, tendo em vista a tendência moderna do direito para o encurtamento dos. prazos extintivos, consagrou uma duração total de cinco anos, dividindo assim o prazo atualmente previsto no art. 1Ó do Decreto nO20.910 citado, à razão de três anos para a caducidade do direito, e de dois anos para a propositura da ação que o efetive. Distinguiu-se ainda, quanto ao primeiro desses prazos, as hipóteses em que a restituição decorra de simples erro de cálculo, a exemplo do que faz o art. 666 da Consolidação das Leis das Alfândegas (interpretado pelo decreto nO20.230 de 1931), reduzido porém o prazo, em tais hipóteses, para seis meses, o que é suficiente por se tratar de matéria .facilmente apurável." (grifei) o Projeto foi encaminhado ao Congresso Nacional resultando na Lei n° 5.172/66, que materializa o Código Tributário Nacional vigente. Como sabemos, a Lei ao ser editada, adentra o mundo jurídico e desvincula-se dos fatos e condições que lhe deram origem, passando a regrar fatos concretos ex nunc. A mens legislatori dá lugar à mens legis. As considerações acima auxiliam a compreensão do texto da lei posta, cuja interpretação será então conforme os ditames do Direito, no magistério dos sempre festejados mestres Carlos Maximiliano e Alípio Silveira. Dessas considerações acima conclui-se que: 10 ..., MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° • • • • • 126.551 301-30.852 a Comissão do Código Tributário Nacional reconhece que a referência expressa ao tributo inconstitucional, prevista no art. 201, inciso I, do Anteprojeto foi reputada desnecessária, porque, sendo aquele indevido, a hipótese é abrangida pela do inciso 11do mesmo artigo, que corresponde ao art. 130, I, do Projeto e ao art. 165, I do Código Tributário Nacional; inseriu no Código Tributário Nacional o sistema do vigente Decreto nO 20.910/32, fixando o prazo de 5 anos, quando exercido em tempo hábil; o tempo hábil para o exercício desse direito começa a fluir da data em que se originou o direito, conforme prescreve o art. 1° do referido Decreto, ou seja, que todo e qualquer direito contra a Fazenda Nacional Pública, seja quaJ for a sua natureza, bem assim as dívidas passivas, prescrevem em 2 anos da data do ato ou fato, do qual se originaram. Esse direito, in casu se originou da declaração de inconstituci onalidade. o Código Tributário Nacional vigente, passou então, a albergar a hipótese de restituição de tributos declarados inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal. fi - PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS Preambularmente cabe destacar o comando do art. 4°. da Lei nO 8.429, de 02/06/92 (DOU de 03/06/92), in verbis: "art. 4° Os agentes públicos de qualquer nível ou hierarquia são obrigados a velar pela estrita observância dos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, e publicidade no trato dos assuntos que lhe são afetos." (grifei) E reafirmado no art. 2° da Lei nO9.784/99, aplicável aos processos adminístrativos de qualquer natureza, in verbis: "Art. 2° A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência." (grifei). 11 .-{:'..., MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA .~ RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 A matéria encontra-se com abundante elaboração doutrinária em face da Constituição Federal pelos juristas de escol de nosso País, pelo que me permito transcrever alguns excertos para deles extrair as conclusões para os casos concretos submetidos ao julgamento desta Câmara, a seguir. Quanto à aplicação dos princípios constitucionais pelos Conselhos de Contribuintes assim decidiu a Câmara Superior de Recursos Ficais, no Acórdão nO CSRF/ 01 - 03.620: "MATÉRIA CONSTITUCIONAL - A jurisprudência dos Tribunais Superiores e a Doutrina reconhecem que o Poder Executivo pode deixar de aplicar a lei que contrarie a Constituição do País. Os Conselhos de Contribuintes como órgãos judicantes do Poder Executivo encarregados da realização da justiça administrativa nos litígios fiscais, têm o dever de assegurar ao contribuinte o contraditório e a ampla defesa, analisando e avaliando a aplicação de norma que implique em violação de princípios constitucionais estabelecidos na Lei Maior, afastando a exigência fiscal báseada em dispositivo constitucional". (grifei). 1- CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE Lenta e gradualmente o Supremo Tribunal Federal cbnsolida-se como autêntica corte constitucional, que não somente possui o monopólio da censura em relação aos atos normativos federais ou estaduais em face da Constituição Federal no âmbito do controle abstrato de normas como também detém a última palavra sobre a constitucionalidade das leis na sistemática do controle incidental, pelo menos em última instância, através de recurso extraordinário. Se se admite que a declaração de inconstitucionalidade proferida no processo de controle abstrato de normas tem eficácia erga onmes, como justificar razoavelmente que a decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal, no caso concreto, deva ter eficácia limitada às partes? Por que condicionar a eficácia geral dessa decisão a um ato do Senado Federal se se admite hoje, até com certa naturalidade, que o Supremo Tribunal Federal pode suspender liminarmente a eficácia de qualquer ato normativo, inclusive de uma emenda constitucional, no processo de controle abstrato de normas? Os atos praticados com base na lei inconstitucional que não mais se afigurem suscetíveis de revisão ou de impugnação não são afetados pela declaração de inconstitucionalidade, (Gilmar Ferreira Mendes - Revista Trimestral de Direito Público nO2/93, pp. 267/276). 12 ,,-------------------------------------------- I I - MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 • Pode o poder executivo deixar de cumprir a lei por considerá-Ia inconstitucional? o problema não é novo e há muito se tem discutido. o eminente Min. Themistocles Brandão Cavalcanti, ex-Procurador-Geral e ex-Consultor-Geral da República, com a sua autoridade em Direito Público, nos ministra, desde 1964, a seguinte lição: "O que se tem admitido é permitir aos responsáveis pela política administrativa, a não aplicação de leis inconstitucionais, usando do processo usual de interpretação, que consiste na aplicação da lei hierarquicamente superior que exclui, desde logo, a aplicação da lei menor que com ela vem colidir. (Do Controle da Constitucionalidade, ed. Forense, Rio, 1966, p. 180) E mais adiante: "Os funcionários de categoria superior, responsáveis pela decisão podem e devem considerar a aplicação das normas, em função de sua categoria hierárquica." E acrescenta: "Nada justifica a aplicação de l,1ma lei inconstitucional. Mesmo em caso de dúvida fundada, esta deve ser afastada por um exame judicial da controvérsia, desde que os interessados se insurjam contra a recusa do Executivo." . '.; Decidiu o STF que: "É lícito aos Poderes Legislativo e Executivo anularem os próprios atos, quando inconstitucionais" (recurso extraordinário n° 61.342. relator Min. Eloy da Rocha, in RDA 93/191). Sendo lícita ao Executivo a anulação de atos inconstitucionais, mais lícita será a recusa de praticá-los quando previamente constatada a inconstitucionalidade. (Orlando Miranda Aragão - Revista de Direito Público n° 26, pp.70/72) 2- PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS A doutrina, sobretudo do direito administrativo e do direito tributário, acentua a distinção entre princípio e norma. O princípio é mais importante que a norma. Donde: violar princípio é algo muito mais grave que violar 'norma. O princípio é descrito por linguagem figurada ou metafórica: norte, vetor, alicerce do sistema constitucional, é dizer: disposição capital diante da qual a exegese das outras normas insertas no sistema há - de conformar-se. (José Souto Maior Borges - Revista Trimestral de Direito Público n° 1/93 - p. 143) , Ao prefaciar seu admirável Tratado de Direito Privado, averbou Pontes de Miranda que: "os sistemas jurídicos são sistemas lógicos, compostos de proposições que se referem a situações da vida, criadas pelos interesses mais 13 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 • diversos". A função social do Direito é dar valores a estas situações, interesses e bens, e regular-lhes a distribuição entre os homens. Na fecunda formulação de sua teoria tridimensional 90 Direito, demonstrou Miguel Reale que a norma jurídica é a síntese, resultanté. de fatos ordenados segundo distintos valores. Com efeito, leciona ele. Onde quer que haja um fenômeno jurídico, há, sempre e necessariamente, um fato subjaçente (fato econômico, geográfico, demográfico, de ordem técnica, etc.); um valor qu~ confere determinada significação a este fato; e finalmente uma regra ou norma que representa a relação ou medida que integra um daqueles elementos ao outro, o fato ao valor. Pois os princípios constitucionais são precisamente a síntese dos valores principais da ordem jurídica. A Constituição, como já vimos, é um sistema de normas jurídicas. Ela não é um simples agrupamento de regras que se justapõem ou que se superpõem. A idéia de sistema funda-se na harmonia de partes que convivem sem atritos. Em passagem que já se tornou clássica,. escreveu Celso Antonio Bandeira de Mello: "Princípio é, por definição, mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que. se irradia sobre diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para a exata compreensão e inteligência, exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo,' no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico (. ..)". (grifei) "Violar um princípio é muito mais grave do que transgredir uma norma. A desatenção ao princípio implica ofensa não apenas a um específico mandamento obrigatório, mas a todo o si~tema de comandos. É a mais grave forma de ilegalidade ou inconstitucionalidade, conforme o escalão do princípio atingido, porque representa insurgência contra todo o sistema, subversão de seus valores fundamentais ..." (Luís Roberto Barroso - Revista Trimestral de Direito Público n° 1/93 pp. 171/172). 3 - PRINCÍPIO DA MORALIDADE ADMINISTRA TIVA A moralidade tem a função de limitar a atividade da administração. Exige-se com base nos postulados, que a forma, que o atuar dos agent~s públicos atenda a uma dupla necessidade: a de justiça para os cidadãos e de eficiência para a própria administração, a fim de que consagrem os efeitos-fins do ato administrativo consagrados no alcance da imposição do bem comum. (grifei) . 14 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA • RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 • Não satisfaz às aspirações da Nação a atuação do Estado de modo compatível só com a mera ordem legal. Exige-se muito mais. Necessário se torna que a administração da coisa pública obedeça a determinados princípios que conduzam à valorização da dignidade humana, ao respeito à cidadania e à construção de uma sociedade justa e solidária. Está, portanto, o administrador obrigado a se exercitar de forma que sejam atendidos os padrões normais de conduta que são considerados relevantes pela comunidade e que sustentam a própria existência social. Nesse contexto, o cumprimento da moralidade além de se constituir num dever que deve cumprir, apresenta-se como um direito subjetivo de cada administrado. (grifei). o que se afirma é que, tanto em situação de normalidade como em » estado de anormalidade, o administrador não pode, sob qualquer pretexto:"deixar de exercer as suas atribuições longe do princípio da moralidade. Nada justifica a violação desse dogma, por mais iminente que seja a necessidade da entrega da prestação da atividade administrativa. (grifei). Dificuldade maior se apresenta para o administrador, pois, terá que, com base em conceitos axiológicos, examinar qual a posição que deve prevalecer. em face do interesse público. O que é certo é a impossibilidade de praticar o ato com ruptura dos laços que envolvem o princípio da moralidade. (grifei). O valor jurídico do ato administrativo não pode ser afastado do valor moral. Isso implica um policiamento ético na aplicação das leis, o que não é proibido, porque o defendido é a lisura nas práticas administrativas, fim, também contido na norma legal. A administração pública não está somente sujeita à lei. O seu atuar encontra-se subordinado aos motivos e aos modos de agir, pelo que inexiste liberdade de agir. Deve, assim, vincular a gestão administrativa aos anseios e necessidades do administrado, mesmo que atue, por autorização legal, como senhor da conveniência e da oportunidade. Qualquer excesso a tais limites implica adentrar na violação do princípio da moralidade administrativa sempre exigindo uma correta atividade. A moralidade é um atributo, ao lado da licitude, da possibilidade e da certeza, que deve presidir o nascimento e posterior desenvolvimento de qualquer ato administrativo. Este, conseqüentemente, não deve contrariar nenhum princípio de ordem ética que impere em determinado organismo social, sob pena de não lhe ser reconhecida validade. A função da moralidade administrativa é de aperfeiçoar a atividade pública e de fazer crescer no administrado a confiança nos dirigentes da Nação. Ela visa o homem como administrado, em suas relações com o Estado, contribuindo para o fortalecimento das instituições públicas. 15 • MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 • • A Constituição, sensível aos vícios identificados pela Nação na prática da administração pública, não deixou sem solução satisfatória tão grave problema de ajuste do atuar do agente público com a finalidade pública da ação produzida, fazendo com que o direito seja o reflexo de uma nova concepçã~ de justiça compatível com a realidade social a que se destina. O amplo controle da atividade administrativa se exerce, assim, na atualidade, não só pelos administrados diretamente, como, também, pelo Poder Judiciário, em todos os atributos do ato administrativo. A Constituição de 1988, em vários de seus artigos, quer de modo explícito, quer de modo implícito, faz referência ao princípio da moralidade administrativa, sem confundi-lo com o da legalidade . Como idéia de dever para o administrador público e como um direito subjetivo da Nação é que o princípio da moralidade administrativa se impõe no caput do art. 37, da Carta Magna, da forma seguinte: "A administração pública direta, indireta ou fundacional, de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e, taml)ém, ao seguinte: ...." A moralidade se apresenta no texto da Carta Magna, conforme visto, com força de princípio imperativo. Pressupõe, conseqüentemente, que o administrador há de pautar, de modo obrigatório e permanente, a sua atuação pela' ética da Administração Pública, que visa sempre o bem comum. (grifei). A obediência ao princípio da moralidade administrativa impõe ao agente público que revista todos os seus atos das características de boa fé, veracidade, dignidade, sinceridade, respeito, ausência de emulação, de fraude e de dolo. São qualidades que devem aparecer, de modo explícito, em todos os atos administrativos praticados, sob pena de serem considerados viciados e sujeitos aos efeitos da nulidade. É certo que a Constituição de 1988 percebeu, em atendimento ao coro da Nação, que a administração pública necessita ter a base nuclear dos seus atos na moralidade. Isso significa a negação de apoio para os atos praticados com violação a esse princípio. (grifei). Há, assim, de reconhecer as fronteiras não só do lícito e ilícito, mas, também, do justo e do injusto, tudo visando a que o ato praticado, quer legislativo, quer administrativo, não seja atacado de não-moralidade. (grifei). 16 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 • • o exame sistemático dos dispositivos da Constituição Federal que tratam da aplicação do princípio da moralidade administrativa estão a determinar que é necessário que impere na administração pública o referido postulado, exigindo-se de todos os agentes públicos, independentemente do grau hierárquico exercido, de se vincularem a um dever geral de ótima administração, como conseqüência da sujeição ao interesse público. (grifei). A jurisprudência resulta do exame da lei e dos fatos. Indispensável se torna que tudo seja feito de modo que o Juiz faça sua opção pela solução .mais justa e consentânea com os valores reclamados pela Nação. Embora não seja a na medida em que fixa entendimento sobre a relação existente entre o fato e a norma. (grifei) . No Direito Brasileiro, há de se considerar como relevante a contribuição da jurisprudência para a construção do conceito de moralidade administrativa. Através dos pronunciamentos reiterados dos juízes vêm se formando conceitos que expandem a abrangência dos efeitos do referido princípio, por vir detectando, em determinados dispositivos da Constituição Federal e de legislação hierarquicamente inferior, mesmo implicitamente, a obrigatoriedade do agente público ser fiel ao princípio da moralidade administrativa. o reconhecimento do cidadão ter direito subjetivo a ser exigido do administrador público para que se comporte com sustentáculo no princípio da moralidade administrativa, foi feito pelo então Tribunal Federal de Recursos, em voto da lavra do eminente Ministro Washington Bolívar de Brito, ao julgar o Àgravo de Instrumento 44790, DF: "Se é certo que a Constituição assegura a todo cidadão o direito subjetivo ao governo honesto, não menos certo é que os governantes, cujos atos são atacados, em nome da moralidade administrativa, onde e quando essa moralidade for posta em dúvida, que a sua atuação foi inspirada no bem comum e tem amparo legal. além de trazer beneficios, e não lesões à comunidade" Constatada essa realidade constitucional. resta que se torne eficaz e efetivo o princípio da moralidade administrativa, se exercendo o controle dos atos que o violarem sem quaisquer peias ou amarras. (grifei). (José Augusto Delgado - Revista Trimestral de Direito Público nO1/93 pp. 209/222) 4 - PRINCÍPIO DA MORALIDADE PÚBLICA A tese envolve reconhecimento de que o ordenamento jurídico impõe a compatibilidade da conduta do agente público com determinados parâmetros éticos. A existência de um princípio jurídico da moralidade significa que algumas valorações morais do grupo são recepcionadas pelo Direito Público. .•.. 17 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 • A existência de um principio jurídico da moralidade pública não significa a incorporação da Moral pelo Direito. Os preceitos morais têm existência autônoma frente ao Direito, verificando-se apenas uma juridicização parcial deles. Quando se alude a. um princípio jurídico da moralidade quer -se afirmar que a qualificação jurídica das condutas externas subordina-se aos parâmetros não só da lei jurídica como também da moralidade. Mas, há peculiaridade que diferencia o prinCipiO da moralidade pública frente à quase totalidade dos demais princípios jurídicos. Trata-se da referência às vivências éticas predominantes na sociedade. o princípio da moralidade pública contempla a determinação jurídica da observância de preceitos éticos produzidos pela sociedad6,. variáveis segundo as circunstâncias de cada caso. A apuração do conteúdo jurídico do princípio da moralidade pública envolve, por isso, uma aproximação e uma dinâmica. Há um núcleo axiológico que produz desdobramentos mais ou menos indefinidos. A essência do princípio da moralidade pública consiste na invalidade de todos os atos praticados pelo Estado incompatíveis com a interpretação ética do sistema e das normas jurídicas (constitucionais ou não) Essa pluralidade de significados potenciais da norma jurídica encontra limites no sistema jurídico. Entre nós, o sistema jurídico - constitucional incorporou o princípio jurídico da moralidade pública. Por decorrência, o aplicador do Direito está obrigado a considerar também o fator ético - a moralidade pública - ao definir a interpretação cabível para determinado dispositivo normativo. Entre diversas interpretações possíveis - ou mais precisamente, entre diversas condutas possíveis de ser validadas frente à Constituição - , o aplicador deverá optar por aquela conforme aos princípios jurídicos (inclusive ao princípio da moralidade pública). Enfim, não se concebe, frente à CF/88, uma solução eticamente reprovável, cuja adoção se fundasse em argumentos de técnica jurídica. (grifei). o conteúdo jurídico da princípio da moralidade pública resulta da conjugação de dois conceitos básicos, que são a supremacia do interesse público e a boa-fé. A partir desse núcleo, agregam-se outras vivências consagradas eticamente. Não se confunde interesse público com interesse do aparato estatal. O Estado, como sujeito de direito, pode adquirir certas conveniências, de modo similar ao que se passa com qualquer sujeito de direito. Não significa, porém que tais circunstâncias se caracterizem como interesses públicos, para os fins da aplicação dos princípios ora examinados. Configura-se aqui a diferença apontada por Renato Alessi 18 ••...•.. MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 • • entre interesse público primário e interesse secundário, difundida entre nós por Celso Antonio Bandeira de Mello. Enfim, como afirmou Gordillo, "o interesse público não é o interesse da Administração Pública. Deve-se ter em vista que nenhum interesse público se configura como conveniência egoística da Administração Pública. O chamado interesse secundário (Alessi) ou interesse da Administração Pública não são públicos. Aliás, nem ao menos são interesses na acepção jurídica do termo. São meras circunstâncias, alheias ao Direito. Ou seja, o Estado não possui interesses qualitativamente similares. O Estado não se encontra no mesmo plano dos particulares, mas não simplesmente por essa qualidade pessoal. É que a natureza dos interesses que titulariza é diversa dos interesses individuais, particulares, egoísticos. Quando atua na tutela desses interesses, não se pode cogitar de fenômeno similar ao que ocorre com os interesses particulares. Ao aludir-se a moralidade pública, nesse terceiro aspecto, cogita-se da perfeição ética do relacionamento entre o Estado e os cidadãos. A moralidade significa que o Estado é instrumento de realização do bem público e, não de opressão social. A concentração de poderes e a superiori.dade do interesse público retratam, por assim dizer, a servidão do Estado em face da comunidade. (grifei). Como ensina Bandeira de Mello, o Estado "poderia portanto ter o interesse secundário de resistir ao pagamento de indenizações, ainda que procedentes, ou de denegar pretensões bem fundadas que os administrados lhe fizessem, ou de cobrar tributos ou tarifas por valores exagerados. Estaria, por tal modo, defendendo interesses apenas "seus", enquanto pessoa, enquanto entidade animada do propósito de despender o mínimo de recursos e abarrotar-se deles ao máximo. Não estaria, entretanto, atendendo ao interesse público, ao interesse primário, isto é, àquele que a lei aponta como sendo o interesse da coletividade: o da observância da ordem jurídica estabelecida a título de bem curar o interessé de todos" (Curso de Direito Administrativo, 63 ed., Malheiros, 1995, p. 22). (grifei) . O Estado de Direito Democrático tal como aquele consagrado pela CF/88, reconhece que a supremacia do interesse público não significa supressão de interesses privados. Um dos mais graves atentados à moralidade pública consiste no sacrificio prepotente, desnecessário ou desarrazoado de interesse privado. O Estado não existe contra o particular, mas para o particular. Mas, além disso, a supremacia do interesse público não conduz à supressão da pluralidade de interesses. jurídicos tuteláveis. (grifei). A moralidade pública exclui não apenas os beneficios e vantagens indevidos para os particulares ocupantes da função pública. Exclui, também, a obtenção de vantagens reprováveis ou abusivas pelo Estado para si próprio. Não se toma válida a espoliação dos particulares como instrumento de enriquecimento público. O Estado não existe para buscar satisfações similares às que norteiam a vida dos particulares. A tentativa de obter a maior vantagem possível é válida e lícita, observados os limites do Direito, mas apenas para os sujeitos privados. Não é conduta 19 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 • admissível para o Estado, que somente está legitimado a atuar para realizar o bem comum e a satisfação geral. O Estado não pode ludibriar, espoliar ou prevalecer-se da fraqueza ou da ignorância alheia. O princípio da moralidade indica sob esse ângulo, lealdade do Estado frente aos cidadãos. A ação e a omissão do Estado devem ser, cristalinas, inequívocas e destituídas de reservas, ressalvas ou segundas- intenções. Não se legitima o ardil sob argumento de que se destina a abarrotar de recursos os cofres públicos. "A moralidade pública é compatível com a duplicidade de intentos normativos. Não se concilia com a moralidade que a lei tenha duplo conteúdo: um texto aparente e formalmente compatível com a Constituição e uma efetiva e real mens legis inconciliável c~m ela. Como asseverou José Eduardo Soares de Melo "A trIbutação implica intromissão do governo nas atividades dos particulares, mediante substanciais desfalques em seus patrimônios. Assim, compreende-se que a participação financeira - pela via tributária - há que ser certa, precisa, previamente conhecida, como corolário dos princípios da boa-fé e lealdade, que devem presidir a atividade administrativa" (ICMS - Teoria e Prática, Dialética, 1995, p. 98). A moralidade se relaciona, ademais, com a segurança jurídica. Ambos os princípios asseguram a previsibilidade da conduta estatal e a certeza sobre a disciplina normativa. Mas a moralidade representa algo mais, por envolver um conteúdo ético para a disciplina jurídica. Ou seja, não é necessária apenas a segurança jurídica, mas se impõe que a disciplina jurídica (segura porque estável e previsível) seja também compatível com a moralidade . O Estado ao produzir a norma tributária ou ao aplicá-la não pode olvidar os princípios jurídicos nem atender apenas às palavras do texto legaL buscando respaldo em prodígios de raciocínio para justificar desvios éticos. Nesse ponto preciso é que se avoluma a relevância do princípio da moralidade pública. Não permite o Estado condutas viciadas por defeitos éticos. O Estado não está legitimado a produzir leis imorais nem a aplicar. de modo imoraL uma lei. (grifei). (Marçal Justen Filho - Revista trimestral de Direito Público n° 11/95 pp. 45/58) 5- PRINCÍPIO DO ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA É um princípio constitucional implícito que, ao lado do princípio da moralidade administrativa, também se aplica ao caso, impondo à União que o cumpra, restituindo ou compensando o que indevidamente se apropriou do contribuinte a título 20 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 • e tributo posteriormente desconstituído pela Suprema Corte, institucionalmente a competente para dizer a última palavra em matéria constitucional. Cria-se por lei um tributo sob a forma de contribuição, o contribuinte paga espontaneamente sob a presunção de ser a mesma constitucional. Via de regra entre o pagamento e a decisão do Supremo o lapso temporal ultrapassa cinco anos. Fixar-se o dies a quo, como a data do pagamento (crédito tribútário) e não a data da publicação de decisão judicial no mais das vezes impossibilita o contribuinte credor de reaver o que legitimamente lhe pertence, revelando-se um enriquecimento ilícito do Poder Público além de afrontar o princípio da moralidade administrativa, traindo a sua boa-fé. Esse fato pode conduzir ao seguinte quadro. Da mesma forma como pode o Fisco lançar o tributo suspenso por uma das hipóteses legais, visando a prevenção da decadência, o contribuinte, em clima de desconfiança gerado, "recolhe os tributos, pede a restituição dentro dos 5 (cinco) anos e judicialmente argüi a inconstitucionalidade m FAZENDÁRIO INTERESSE PÚBLICO VERSUS INTERESSE • o interesse fazendário não se confunde muito menos sobrepaira o interesse público. Perante o Texto Constitucional, subordina-se ao interesse público e, por isso mesmo, só poderá prevalecer quando em perfeita sintonia com ele. Oportuna, a respeito, a preleção, sempre preciosa, de Celso' Bandeira de Mello: "Interesse público ou primário é o pertinente à sociedade como um todo e só ele pode ser validamente objetivado, pois este é o interesse que a lei consagra e entrega à compita do Estado como representante do corpo social. Interesse secundário é aquele que atina tão só ao aparelho estatal enquanto entidade personalizada e que por isso mesmo pode lhe ser referido e nele encarnar-se pelo simples fato de ser pessoa". Estribados em tão sólidas lições doutrinárias, podemos proclamar, com toda a convicção, que o mero interesse arrecadatório - interesse secundário que - não pode fazer tábua rasa à legalidade, à isonomia e aos direitos constitucionais dos contribuintes. No mesmo sentido, Alberto Xavier pontifica: 21 -oi ", MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 .. • • " ...num sistema econômico que tenha como principios ordenadores a livre iniciativa, a concorrência e a propriedade privada torna-se indispensável eliminar, no maior grau possível, todos os fatores que possam traduzir-se em incertezas econômicas suscetíveis de prejudicar a expansão livre da empresa designadamente a insegurança jurídica". Segue-se, pois, que nenhuma justificativa extrajurídica (v.g., o aumento das receitas) poderá validamente subverter os principios básicos do sistema constitucional brasileiro, iluminados, todos eles, pelo principio da segurança jurídica. As garantias constitucionais, limitam o poder de tributar e sancionar. O propósito de abastecer de dinheiro os cofres públicos não pode chegar, num Estado de Direito como o nosso, ao ponto de lesar direitos subjetivos das empresas e dos particulares que delas participam. Afinal, predominância do interesse público não é sinônimo de lesão de direitos. Não podemos invocar o interesse fazendário (ou seja qual for o nome que lhe queiramos atribuir) para justificar qualquer iniciativa, quer no plano fático, que não se contenha estritamente nos lindes do texto constitucional. É que não há interesse maior do que o representado pelo respeito às exigências sistemáticas da ordem constitucional. (Roque Antônio Carrazza - Revista Trimestral de Direito Público nO13/96, p. 16) O interesse público, no caso, é a realização do Direito e da justiça através da satisfação plena dos principios constitucionais atrás expostos. O interesse fazendário por certo restará satisfeito, pois, os recursos eventualmente restituídos ao contribuinte certamente retornarão ao erário indiretamente sob a forma de outros tributos, após terem gerado novos investimentos, empregos, etc. . Em abono a esta tese vem a própria PGFN em lúcido :{>àrecern° 877/03, aprovado e publicado no D.O.V. de 02/09/03, in verbis: "Por conseguinte, se, por força da lei, a prescrição fulmina, elimina ou extingue o crédito tributário, vale dizer a "relação tributária", cabe ao administrador, por dever de perseguir o interesse público primário, mesmo atritando com o interesse público secundário, meramente patrimonial do Estado, reconhecer a prescrição no caso concreto posto às suas vistas". (grifei). IV- NASCIMENTO DO DIREITO À RESTITUICÃO /COMPENSACÃO DECORRENTE DE LEI INCONSTITUCIONAL 22 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 • o direito à restituição nasce com a declaração de inconstitucionalidade que faz as vezes de lei (norma individual) - não se aplicando, portanto, a norma do art. 165 C/C art. 168 do CTN. O renomado tributarista Hugo de Brito Machado citado no Parecer PGFN n° 1238/99 leciona: "O direito de pleitear a restituição, perante a autoridade administrativa de tributo pago em virtude de lei que se tenha por inconstitucional, somente nasce com a declaração de inconstitucionalidade pelo STF em ação direta. Ou com a suspensão pelo Senado Federal, da lei declarada inconstitucional, na via indireta. Esta é a lição de Ricardo Lobo Torres, que ensina: "Na declaração de inconstitucionalidade da lei a decadência ocorre depois de cinco anos da data do trânsito em julgado da decisão do STF proferida em ação direta ou da publicação da Resolução do Senado que suspendeu a lei com base em decisão proferida incidenter tantum pelo STF" (Restituição de Tributos, Forense, Rio de Janeiro, 1983, p 169). Neste sentido é o Acórdão nO 1999.03.99.074347, 'êl~ TRF 33 Região 63 T. e o Acórdão nOAMS 95.03.056070-5, da 43 T. do TRF 33 Região, no seguinte teor, que, apesar de se referir ao FINSOCIAL é aplicável pelos seus fundamentos jurídicos: "Quando fundado o pedido em inconstitucionalidade. de norma reconhecida incidentalmente pela Corte Suprema, o termo inicial do prazo para fins de determinação do lapso prescricional deverá ser a data de publicação de primeira decisão proferida, posto ser fato inovador da ordem jurídica, suprimindo norma tributária até então válida e cogente, pois com força de lei. No caso, o primeiro aresto do Colendo Supremo Tribunal Federal foi publicado no Dm de 02/04/93, devendo a partir desta data ter inicio o cômputo do lapso prescricional, pois não se pode considerar inerte o contribuinte que até então, em razão da presunção da constitucionalidade da lei, obedecera a norma indevidamente exigida, já que a inércia é elemento indispensável para configuração do instituto da prescrição. (Acórdão nO 1999.03.074347-5-SP-TRF 33 Região- 63 T. - FINSOCIAL - Compensação tributária - Precedentes do STJ)" "I - Tributário. Finsocial. Majorações da alíquota. Compensação. Espécies tributárias. Cofins. PIS e CSL. 11 - Correção monetária. Critérios utilizados. IPC, INPC, UFIR e Selic. Limitação ao pedido. Aplicação do IPC, BTN e UFIR. 111 - Prescrição. Dies a quo. Reconhecimento jurídico do pedido (Decreto n° 1601, de 23 de 23 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 • • agosto de 1995 e da Medida Provisória nO1110, de 30 de agosto de 1995 e suas reedições). 1. - É irrecusável a inconstitucionalidade da cobrança do Finsocial tal como reconhecida pelo STF (RE i50.764- 1 PE) e pela própria Administração Pública (Dec. 1.601/95), quanto a majorações da alíquota da contribuição. 2 - A aplicação dos juros, tomando-se por base a taxa Selic, a partir de 10 de janeiro de 1997, nos termos do art. 39 da Lei 9.250/95, afasta a cumulação de qualquer índice de correção monetária ou de outros já que estes fatores de atualização de moeda já se encontram considerados nos cálculos fixadores da referida taxa. 3 - O exercício da compensação deve ser restrito a parcelas de Cofins, PIS E CSL. 4 - O dies a quo do prazo prescricional é a data do reconhecimento jurídico do pedido, manifestado pelo Senhor Chefe do poder Executivo, por meio do Decreto 1601 de 23 de agosto de 1995 e da Medida Provisória 1110, de 30 agosto de 1995 e suas reedições, com o que dispensa seus procuradores de atuarem, nas matérias ali -apontadas, extraindo -se para o presente caso que ausente quàlquer ato senatorial principia-se a contar um novo qüinqüênio prescricional para aferir o limite temporal em que a pretensão à repetição do indébito permanece acionável com fulc10 no art. 174, inc. IV, do mesmo CTN, tal como aconteceria se houvesse sido editado o ato senatorial. 5. - Matéria preliminar argüida pela impetrante _acolhida. Apelação da impetrante parcialmente provida. Apelação da União e remessa oficial às quais se dá parcial provimento." Ac un da 40 T do TRF da 38 R- AMS 95.03.056070-5 - ReI. Des. Fedi Andrade Martins - j 14.03.01 - Aptes: Trancham S/A Ind. e Com. E União Federal/Fazenda Nacional; Apdos.: os mesmos Dm 02110/01 p. 159 - ementa oficial" Além disso, houve pagamento indevido de algo que pela declaração de inconstitucionalidade perdeu a natureza de tributo passando a ser um crédito, uma dívida passiva contra a União, passando a se reger pelas normas do CTN que se referem a restituição de créditos tributários por força da inserção nele do sistema do Decreto nO20.910/32 atrás explicitado. Assim, a norma a ser aplicável é a do Dec. nO 20.910, de 06/01/32, vigente há mais de 60 anos, que reza em seu art. 10 que todo e qualquer direito contra a Fazenda Nacional Pública, seja qual for a sua natureza, bem assim as dívidas passivas prescrevem em 5 anos da data do ato ou fato do qual (direito) se originaram. Esse direito in casu se originou da decl'aração de inconstitucionalidade (o ato). O art. 146, inciso IH, alínea "b", daC.F. estabelece que.'cabe à lei complementar estabelecer normas gerais sobre "prescrição e decadência" tiibutárias e o CTN, com status de lei complementar dispõe a respeito nos arts. 165/168. Aplicável, portanto, ao caso, pelas razões acima expostas, apesar de o montante 24 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 indevidamente pago com a declaração de inconstitucionalidade passar a configurar um crédito financeiro do contribuinte. Tratando-se do FINSOCIAL, comungo com a linha adotada nos inumeráveis arestos do Segundo Conselho de Contribuintes no sentido de que inexistindo Resolução do Senado Federal suspendendo a execução da lei declarada inconstitucional na via indireta há de se fixar o termo inicial como a data da Medida Provisória n° 1110/95 (31/08/95), data essa em que o contribuinte viu seu direito reconhecido pela Administração Tributária, linha essa também adotada pelo TRF da 38 Região, nos Acórdãos acima transcritos. Porém, há ainda um fato a ser considerado, tendo em vista que as Medidas Provisórias mantinham sua eficácia, ou seja, capacidade de produzir efeitos jurídicos durante 30 (trinta) dias a partir de sua edição, perdendo-a se não fossem convertidas em Lei nesse período. Daí, a necessidade de suas constantes reedições, com o mesmo ou outro texto, nesse prazo, até a edição da Lei formal pelo Congresso, concretizada na Lei nO 10.522, de 19/07/02, cujo texto em relação ao FINSOCIAL repete. Ocorre que a MP. n° 1.110/95 e suas reedições posteriores até a MP. 1621 - 35, de 12/05/98 prescreviam que "o disposto neste artigo não implicará restituição de quantias pagas. A partir da edição da MP. nO 1621 -36, de 10/06/98, publicada no DOU de 12/06/98 o parágrafo 2° do artigo 18 passou a ser assim redigido: "9 2° - O disposto neste artigo não implicará restituição "ex officio" de quantias pagas. Ou seja, a Administração passou a reconhecer o direito ao pedido de restituição, formulado pelo contribuinte. A jurisprudência administrativa também tem se conduzido por essa linha jurisprudencial perfilhada pelo Judiciário, conforme se aqlli:1ata pelos inumeráveis Acórdãos das Câmaras dos três Conselhos de Contribuintes e da Câmara Superior de Recursos Fiscais, como por exemplo os Acórdãos nOs201. 76383, 76291, 76382,76363,76258, 76337, 202-14121, 14304, 14337, 13973, 14442,14140, 107- 07031, CSRF/01-03754, entre outros. Já, tratando-se da restituição/compensação da Cota de Contribuição na Exportação do Café, instituída pelo Decreto-lei n° 2.295/86 a situação diverge dos tributos declarados inconstitucionais pela Corte Suprema, no que tange ao dies a quo para contagem do prazo decadencial do direito de pleitear a restituição. 25 :... MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 , É que neste caso, não houve declaração de inconstitucionalidade do referido Decreto - lei pelo STF, eis que o mesmo não foi recepcionado pela vigente Constituição Federal, porque, com ela incompatível, face ao seu artigo 146. A declaração de inconstitucionalidade poderia ter evidentemente ocorrido, face à Constituição anterior, se pleiteada. Restou, portanto, revogado o referido dispositivo legal, não adentrando o mundo jurídico a partir da vigente Constituição, razão porque, o STF se absteve de declarar inconstitucional um Decreto-lei que passou à condição de inexistente. Porém, reconheceu o STF sua revogação a partir desta Constituição. Assim, conclui-se que: os efeitos desse reconhecimento retroagem, até a data da entrada em vigor da nova Constituição e não até a data da edição do Decreto-lei nO2295/86, porque, o mesmo não foi declarado inconstitucional; e, por força do art. 34 do ADCT, a retro ação produzirá efeitos a partir de 01/03/89 (primeiro dia do quinto mês seguinte a da : promulgação da Constituição). o dies a quo para a contagem do prazo decadencial é o da decisão do STF que reconheceu a não recepção do Decreto-lei 2295/86 pela atual Constituição. v- COMPETÊNCIA PARA INTERPRETAR A LEGISLAÇÃO NO ÂMBITO DOS MINISTÉRIOS A Lei Complementar nO73, de 10102/93, em seu art. 2° inciso 11, alínea "b", incluiu entre os órgãos de execução da Advocacia-Geral da União, as Consultorias Jurídicas dos Ministérios. No art. 11 da mesma lei foram estabelecidas as competências das Consultorias Jurídicas, em seis incisos dos quais destaca-se o de nO111,"verbis": "In - fixar a interpretação da Constituição, das leis, dos tratados e demais atos normativos a ser uniformemente seguida em suas áreas de atuação e coordenação quando não houver orientação normativa do Advogado - Geral da União." Cabe assinalar que as competências da AGU e das Consultorias Jurídicas dos Ministérios, já foi objeto do Parecer AGU/ MP -06/98, adotado pelo Advogado Geral da União, aprovado pelo Presidente da República em 15109/98 e publicado no D.O.V. de 24/09/98. 26 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 07/05/99). 126.551 301-30.852 '. Há também o Parecer AGU nO02/99, no mesmo sentido (D.O.V. de I Pela mesma legislação tais Pareceres, uma vez aprovados pelo Presidente da República ou pelos Ministros são normativos, vinculativos ecogentes para os administrados. VI- ANÁLISE DOS PARECERES DA PROCURADORIA- GERAL DA FAZENDA NACIONAL QUE TRATAM DA MATÉRIA A validade jurídica dos Pareceres, seu alcance e vinculatividade aos órgãos e entidades da Administração Pública encontra amparo na Lei Complementar nO73, de 10/02/93, que institui a Lei Orgânica da Advocacia-Geral da União, da qual participa a Procuradoria - Geral da Fazenda Nacional como órgão de direção superior. Neste sentido dispõem os artigos 4° incisos X e XI, 11, inciso IH é arts. 39 a 44 da referida Lei. Os pareceres sob análise são os a seguir enumerados: 1- Parecer PGFN/CAT n° 1538/99, que mantém o Parecer PGFN/CAT n° 678/99. • Parecer PGFN/CAT n° 550/99 - termo "a quo" nos casos de leis declaradas inconstitucionais, nos controles difuso e concentrado é a data do pagamento indevido (art. 165, I C/C art. 168 do CTN) divergindo dos entendimentos consagrados no STJ e TRF la Região que é a da publicação do Acórdão do STF em ADIN e a da publicação da Resolução do Senado Federal na via incidental. • Quanto ao item 43, do Parecer, observe-se que há lei dispondo a respeito (Lei nO20910/32). • Conclui pela atenuação ex tune de leis declaradas inconstitucionais pelo STF para os casos de decisões judiciais já consolidadas. 2- Parecer PGFN/CRE nO 948/98, que se refere ao PGFN/CRF439/96 • Confirma o entendimento do Parecer PGFN/CRF nO 439/96, incluindo também as DRJ, além dos c.c., na obrigação de afastar a aplicação de normas declaradas inconstituci.onais. 27 j MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA 3 - Parecer PGFN/CRJ/ n° 3401102 - FINSOCIALI c RECURSO N° ACÓRDÃO N° • 1) 2) 3) 126.551 301-30.852 Esclarece o alcance da expressão "as decisões do STF"que fixem de forma inequívoca e definitiva". constante do art. 1° do Dec. 2346/97, no seguinte sentido: decisão do STF, ainda que única, em ADIN; idem, se a execução for suspensa por Resolução do SENADO; a decisão plenária, transitado em julgado, ainda que única e por maioria de votos, se nele foi expressamente conhecido e julgado o mérito da questão em tela. • Trata dos efeitos da declaração de inconstitucionalidade de lei em sede de controle difuso e não suspensa a execução pelo Senado Federal. • As sentenças transitadas em julgado favoráveis à Fazenda Nacional relativamente ao pedido de restituição/compensação de créditos do FINSOCIAL (majoração de alíquotas) são irreversíveis. • Efeitos da posterior declaração de inconstitucionalidade da norma em outras ações decididas pelo STF, não alcança os casos já definitivamente julgados (com trânsito em julgado de sentença favorável à União). • A coisa julgada é imutável, intangível (salvo em caso de ação rescisória) . \ -- • • • O Senado não conferiu a eficácia erga omnes à decisão do STF proferida no RE 150.764/PE. O Senado não baixou Resolução suspensiva da aplicação de Lei inconstitucional conforme relator em decisão política (repercussão na economia nacional) e também tendo em vista que o acórdão do STF embora do pleno, ocorreu pelo voto de 6 contra 5 de seus membros. Os efeitos erga omnes no caso, só fazem coisa julgada em relação às partes no processo, observada a coisa julgada , que deve ser cumprida favorável ou desfavorável às partes envolvidas. 28 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA 3 - Parecer PGFN/CRJ/ n° 3401/02 - FINSOCIALI RECl)RSON° ACÓRDÃO N° • 1) 2) 3) 126.551 301-30.852 Esclarece o alcance da expressão "as decisões do STF que fixem de forma inequívoca e definitiva". constante do art. 1° do Dec. 2346/97, no seguinte sentido: decisão do STF, ainda que única, em ADIN; idem, se a execução for suspensa por Resolução do SENADO; a decisão plenária, transitado em julgado, ainda que única e por maioria de votos, se nele foi expressamente conhecido e julgado o mérito da questão em tela. • Trata dos efeitos da declaração de inconstitucionalidade de lei em sede de controle difuso e não suspensa a execução pelo Senado Federal.. • As sentenças transitadas em julgado favoráveis à Fazenda Nacional relativamente ao pedido de restituição/compensação de créditos do FINSOCIAL (majoração de alíquotas) são irreversíveis. • Efeitos da posterior declaração de inconstitucionalidade da norma em outras ações decididas pelo STF, não alcança os casos já definitivamente julgados (com trânsito em julgado de sentença favorável à União). • A coisa julgada é imutável, intangível (salvo em caso de ação rescisória) . • O Senado não conferiu a eficácia erga omnes à decisão do STF proferida no RE 150.764/PE. • O Senado não baixou Resolução suspensiva da aplicação de Lei inconstitucional conforme relator em decisão política (repercussão na economia nacional) e também tendo em vista que o acórdão do STF embora do pleno, ocorreu pelo voto de 6 contra 5 de seus membros. • Os efeitos erga omnes no caso, só fazem coisa julgada em relação às partes no processo, observada a coisa julgada, que deve ser cumprida favorável ou desfavorável às partes envolvidas. 29 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 I. não sejam constituídos ou que sejam retificados ou cancelados; 11. não sejam efetivadas inscrições de débitos em dívida ativa da União; 111. sejam revistos os valores já inscritos, para retificação ou cancelamento da respectiva inscrição; • IV. sejam formuladas desistências de ações de execução fiscal" Ora, o mencionado dispositivo é mandamental, uma Ordem do Chefe do Poder Executivo às autoridades nele mencionadas - Secretário da Receita Federal e Procurador-Geral da Fazenda Nacional - para que cumpram o determinado em seus incisos I a IV cujos lindes se comportam dentro de dois marcos: 1- âmbito de suas competências; 2- base em decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal. Penso que o dispositivo acima não comporta discric;Wnariedade, sendo portanto, vinculativo para as autoridades a que se destinam. As competências da Secretaria da Receita Federal como órgão, e do Secretário da Receita Federal como dirigente estão previstas no Regimento Interno da SRF aprovado pela Portaria MF n° 227/98 (revogada), artigos 1° e J 90, e pela Portaria MF nO259/01, artigos 1° e 209. Por elas, vê-se que, no tocante aos procedimentos de determinação e exigências de créditos tributários sua competência fica adstrita ao comando das DRJs, órgãos afetos à sua estrutura administrativa (artigo 1°, inciso V e artigo 209, incisos XXVII e XXVIII, da Portaria MF 259/01), não alcançando a atuação dos órgãos judicantes de Segunda Instância, cuja competência e desvinculação ao SRF foi preservada em homenagem ao princípio de ampla defesa, do artigo 5°, inciso LV, da Constituição Federal, que estabelece o conhecido "tripé"(acusado, acusador e julgador), um dos pilares do Estado Democrático de Direito. Mormente no tocante à restituição de indébitos tributários, que, no rol das competências, a portaria rÍlinisterial silencia. ., No Regimento Interno dos Conselhos de Contribuintes, que não se confunde com o da SRF, ambos expedidos pela mesma autoridade hierárquica, a matéria consta em artigos específicos cujos textos determinam a "apreciação de direitos creditórios relativos a tributos e contribuições" de suas competências recurSaIs. 30 MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 ... • Ainda na análise das competências, penso que a decisão da DRJ nesses casos está correta em seu entendimento no sentido de sua "incompetência para atender o pedido ou mesmo analisá-lo sob qualquer outra ótica que não seja aquela preconizada pelo Parecer COSIT nO58/98", e AD SRF n086/99, uma vez que tal órgão está vinculado aos atos emanados dentro de sua linha hierárquica, revelada através da Portaria SRF nO 3608/94, item IV e do seu Regimento Interno. Isso não impede, entretanto, que os Conselhos possam analisar o problema à luz de todo o ordenamento jurídico, razão de sua existência institucional. VIII- DECLARACÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI NO CONTROLE DIFUSO Uma última palavra acerca dos efeitos das decisões judiciais proferidas incidentalmente pelo Supremo Tribunal Federal e não objeto de Resolução do Senado Federal reconhecendo o efeito erga omnes dessas decisões. A Constituição é um todo orgânico, coerente e consistente, não se admitindo contradições entre seus diversos dispositivos. Assim, quando ela consagra o princípio da igualdade com todos os seus desdobramentos, neles incluída a isonomia, ele é vetor para quaisquer outras normas constitucionais não erigidas à categoria de princípios. . . Assim, quando o art. 52 da C. F. prescreve que compete privativamente ao Senado Federal suspender a execução de lei declarada inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal, isto não significa que a omissão dessa formalidade irá ter o efeito de negar a aplicação do princípio para dar legitimidade a contribuintes que se encontrem na mesma situação daquele que provocou a manifestação do Supremo pela inconstitucionalidade da lei, conforme preceitua o artigo 150, inciso II, da Constituição Federal. A lei, uma vez declarada inconstitucional pelo órgão que detém a competência exclusiva para tanto, não pode ser inconstitucional para uns e constitucional para outros que se encontrem na mesma situação fática mormente porque as justificativas para a omissão do Senado não se lastreiam em considerações jurídicas, como por exemplo, o fato de em plenário do Supremo a decisão não ter sido tomada por unanimidade e que, portanto, outra decisão em outro caso concreto poderá ser divergente. Enquanto isso não ocorrer a decisão é válida erga omnes em homenagem ao princípio da isonomia. (artigo 150, II, da c.F.) Ademais, o efeito erga omnes das decisões proferidas peto Supremo Tribunal Federal nas ações em que se argúi a inconstitucionalidade ..de lei foi confirmado pela Lei n° 9882, de 03/12/99 que conferiu eficácia ao preceito do S 1° do art. 102 da Constituição Federal. Senão vejamos. 31 .. • MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 A ação direta de inconstitucionalidade de lei ou ato normativo federal ou estadual e a ação declaratória de constitucionalidade de lei ou ato normativo federal são processadas e julgadas originariamente pelo Supremo Tribunal Federal na forma da Lei nO9868, de 10/11/99. As causas decididas em única ou última instância quando a decisão recorrida declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal, serão julgadas pelo Supremo Tribunal Federal mediante recurso extraordinário, e, na forma,"da Lei n° 9882, de 03/12/99, quando for relevante o fundamento da controvérsia con"stitucional sobre lei ou ato normativo federal, estadual ou municipal, incluídos os anteriores à Constituição. o S 30 do art. 10, da Lei nO9.882/99 prescreve que a decisão do STF exarada no processo e julgamento da argüição de descumprimento de preceito fundamental nos termos do S lOdo art. 102 da c.F. terá eficácia contra todos e efeito vinculante relativamente aos demais órgãos do Poder Público. No caso concreto, a inconstitucionalidade da lei declarada pelo STF decorre de argüição, embora incidental, de lesão ou descumprimento de preceito fundamental da c.F. quais sejam os princípios da legalidade, igualdade, moralidade administrativa e vedação ao enriquecimento sem causa. • IX - CONSIDERAÇÕES COMPLEMENTARES RELATIVAS ÀFINSOCIAL I -Tributos Lançados por homologação No caso dos tributos lançados por homologação a tese prevalecente tanto no âmbito administrativo, quanto no judiciário é a de que, decorridos. 5 (cinco) anos da data da ocorrência do fato gerador decai o direito de o FISCO lança~ ou rever o lançamento, tendo em vista ter ocorrido a homologação tácita e a condição resolutória inerente a essa modalidade, extinguindo-se o crédito tributário, com o pagamento antecipado. Aplica-se, portanto, ao pleito de restituição, o prescrito no art. 156, inciso VII, do Código Tributário Nacional, combinado com o artigo 10 do Decreto nO20.910/32, ainda vigente e incorporado ao CTN, segundo o qual, todo e qualquer direito contra a Fazenda Nacional Pública, seja qual for a sua natureza, bem assim as dívidas passivas, prescrevem em 5 (cinco) anos da data do ato ou fato, do qual se originaram, quando não se tratar de pleito fundado em lei declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. 11- Necessidade de Lei Complementar 32 I '~ MINIsTÉRIO DA FAZENDA TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES PRIMEIRA cÂMARA RECURSO N° ACÓRDÃO N° 126.551 301-30.852 Após o advento da Constituição Federal de 1988, as normas sobre prescnçao e decadências tributárias passaram a ser definidas por lei complementar (art. 146, 111, "b"). A Carta Constitucional vigente, em seu art. 149 atribui competência à União instituir contribuições sociais, observado o disposto no seu artigo 146, inciso 111. o FINSOCIAL, instituído pelo Decreto-lei n° 2.049/83, regulamentado pelo Decreto n° 92.698/96, que estabelecia o prazo de 10 (dez) anos para o exercício do direito de pleitear a restituição de indébito, a partir da vigência da Constituição Federal passou a se amoldar aos ditames do Código Tributário Nacional, que tem o "status"de lei complementar, cujo prazo estabelecido é de 5 (cinco) anos para a prescrição e a decadência. Inaplicável, portanto à referida contribuição o prazo decadenciaVprescricional de 10 (dez) anos previsto no Decreto-lei nO 2.049/83 e Decreto nO92.698/86. 111 - Lei Declarada Inconstitucional Por sua vez, a inconstitucionalidade da majoração de alíquota do FINSOCIAL superior a 0,5%, para as empresas comerciais e mistas, foi declarado, ainda que em controle difuso, pelo STF e reconhecida pela Administração na edição da MP nO1110/95, publicada a 31/08/95, considerando-se que a Administração passou a reconhecer o direito ao pedido de restituição formulado pelo contribuinte, a partir da edição da MP. nO1621 - 36, de 10/06/98, publicada no DOU de 12/06/98 . CONCLUSÃO À vista do acima exposto, cujos fundamentos entendo solidamente lastreados nos princípios constitucionais, nas leis que determinam sua fiel observância, na jurisprudência e nas correntes doutrinárias, voto pelo pró~imento do recurso voluntário relativo à FINSOCIAL, no sentido de ser acolhida a preliminar de não ocorrência da decadência do pedido de restituição e conseqüente devolução do processo ao órgão prolator da Decisão de Primeira Instância, afastada que está a preliminar de decadência pelos seus fundamentos, devendo a mesma 'autoridade analisar o mérito quanto aos demais aspectos do pedido (pagamentos efetuados, documentos acostados, acréscimos legais, planilhas de cálculo, períodos de apuração, idoneidade dos documentos, certificação dos recolhimentos, DARFs originais ou não autenticados, créditos já compensados com outros tributos, etc. É como voto. Sala das Sessões, em 06 de novembro de 2003 SE LENCE CARLUCI - Relator 33 00000001 00000002 00000003 00000004 00000005 00000006 00000007 00000008 00000009 00000010 00000011 00000012 00000013 00000014 00000015 00000016 00000017 00000018 00000019 00000020 00000021 00000022 00000023 00000024 00000025 00000026 00000027 00000028 00000029 00000030 00000031 00000032 00000033 00000034
score : 1.0
Numero do processo: 13898.720087/2013-52
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Jan 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Feb 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2013
SIMPLES NACIONAL. DÉBITOS TRIBUTÁRIOS. IMPOSSIBILIDADE DE OPÇÃO.
Se no prazo limite para a opção a empresa possuir débitos sem exigibilidade suspensa perante a Fazenda Pública, não poderá ingressar no Simples Nacional.
Numero da decisão: 1001-000.313
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Edgar Bragança Bazhuni - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva.
Nome do relator: EDGAR BRAGANCA BAZHUNI
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DÉBITOS TRIBUTÁRIOS. IMPOSSIBILIDADE DE OPÇÃO. Se no prazo limite para a opção a empresa possuir débitos sem exigibilidade suspensa perante a Fazenda Pública, não poderá ingressar no Simples Nacional. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 89 8. 72 00 87 /2 01 3- 52 Fl. 44DF CARF MF Processo nº 13898.720087/201352 Acórdão n.º 1001000.313 S1C0T1 Fl. 45 2 Tratase de Recurso Voluntário interposto pela Recorrente em face de decisão proferida pela 4ª Turma da Delegacia Regional de Julgamento em Brasília (DF), mediante o Acórdão nº 0361.938, de 24/06/2014 (efls. 23/25), objetivando a reforma do referido julgado. Em 12/01/2013, a empresa fez a opção pelo Simples Nacional, que foi indeferida, mediante o “Termo de Indeferimento da Opção pelo Simples Nacional”, em 20/03/2013 (efl. 4), sob o fundamento de que a pessoa jurídica incorreu, naquele momento, na(s) seguinte(s) situação(ões) impeditiva(s): Débito previdenciário com a Secretaria da Receita Federal do Brasil, cuja exigibilidade não está suspensa. Lista de Débitos 1) Competência 02/2011 Valor: R$215,04 A interessada apresentou manifestação de inconformidade contra o indeferimento da sua opção, argumentando que regularizou os seus débitos tempestivamente. A DRJ considerou improcedente a manifestação de inconformidade pois constatou o "comprovante de pagamento do débito motivador do indeferimento (fl. 6) com data de autenticação 25/03/2013" e publicou acórdão com a seguinte ementa: ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Anocalendário: 2013 SIMPLES NACIONAL DECISÃO INDEFERITÓRIA DA OPÇÃO DE INGRESSO NÃO REGULARIZAÇÃO DAS PENDÊNCIAS NO PRAZO REGULAMENTAR A REGULARIZAÇÃO DE EVENTUAIS PENDÊNCIAS IMPEDITIVAS AO INGRESSO NO SIMPLES NACIONAL DEVE SER FEITA ENQUANTO NÃO VENCIDO O PRAZO PARA A SOLICITAÇÃO. Manifestação de Inconformidade Improcedente Sem Crédito em Litígio Ciente da decisão de primeira instância em 28/08/2014, conforme Aviso de Recebimento à efl. 32, a recorrente apresentou recurso voluntário em 17/09/2014 (efls. 34/39), conforme carimbo aposto à efl. 34. É o Relatório. Voto Conselheiro Edgar Bragança Bazhuni, Relator Fl. 45DF CARF MF Processo nº 13898.720087/201352 Acórdão n.º 1001000.313 S1C0T1 Fl. 46 3 O recurso apresentado atende aos requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, que regula o processo administrativofiscal (PAF). Dele conheço. Gira a lide sobre o indeferimento do pedido de inclusão no Simples Nacional, em virtude de os referidos débitos não estarem com a exigibilidade suspensa. A base legal do indeferimento foi o art. 17, inciso V, da Lei Complementar 123/2006, verbis: Das Vedações ao Ingresso no Simples Nacional Art. 17. Não poderão recolher os impostos e contribuições na forma do Simples Nacional a microempresa ou a empresa de pequeno porte: V que possua débito com o Instituto Nacional do Seguro Social INSS, ou com as Fazendas Públicas Federal, Estadual ou Municipal, cuja exigibilidade não esteja suspensa; (grifo não consta do original) Nesse particular, mediante o art 6º, §§1º e 2º, da Resolução CGSN nº 94/2011, o Comitê Gestor de Tributação das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (CGSN), assim dispôs sobre a forma de ingresso no regime especial: DA OPÇÃO PELO SIMPLES NACIONAL Art. 6º A opção pelo Simples Nacional darseá por meio do Portal do Simples Nacional na internet, sendo irretratável para todo o anocalendário. (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 16, caput) § 1º A opção de que trata o caput deverá ser realizada no mês de janeiro, até seu último dia útil, produzindo efeitos a partir do primeiro dia do anocalendário da opção, ressalvado o disposto no § 5º. (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 16, § 2º) § 2º Enquanto não vencido o prazo para solicitação da opção o contribuinte poderá: (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 16, caput) I regularizar eventuais pendências impeditivas ao ingresso no Simples Nacional, sujeitandose ao indeferimento da opção caso não as regularize até o término desse prazo; (grifos não pertencem ao original) No recurso interposto, a recorrente apresentou os seguintes argumentos: A regularização da referida GPS só se deu em 25/03/2013 pois a empresa tomou ciência da inadimplência do INSS período 11/2011 no dia 20/03/2013, diante da ciência do termo de indeferimento N°: 00.05.43.96.44. Até o dia 31/01/2013, data limite para regularização de pendências, a referida inadimplência não era apontada nas consultas permitidas aos Contribuintes. Fl. 46DF CARF MF Processo nº 13898.720087/201352 Acórdão n.º 1001000.313 S1C0T1 Fl. 47 4 Não merece reparo o pronunciamento da Turma Julgadora de Primeira Instância em declarar que o recolhimento do débito motivador do indeferimento foi efetuado em 25/03/2013, conforme mostra a cópia do comprovante de pagamento anexado à efl. 6. A própria recorrente anexou o documento e confirma em seu recurso que o pagamento foi efetuado em 25/03/2013, ou seja, efetuou o pagamento a destempo. Cabe salientar que a recorrente não apresentou nenhuma prova do que afirmou em seu recurso, ou seja, que no dia 31/01/2013 a referida inadimplência não era apontada nas "consultas permitidas aos Contribuintes". A interessada, em tempo hábil, deveria ter solicitado na Unidade da RFB a relação de pendências para a regularização dos eventuais débitos. A regularização tempestiva de pendências é condição sine qua non para o acesso ao regime de tributação do Simples Nacional, nos termos da legislação pertinente e transcrita acima. Por todo o exposto, face à comprovada existência de débito não suspenso perante a Fazenda Nacional na data limite para a opção (31/01/2013), voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário mantendose o indeferimento da opção pelo simples Nacional. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni, Relator Fl. 47DF CARF MF
score : 1.0
