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Numero do processo: 10183.908807/2016-11
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 21 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Oct 06 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2013 a 31/03/2013 RECURSO VOLUNTÁRIO. PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não há nulidade quando a decisão é proferida por autoridade competente, contém fundamentação suficiente e assegura o exercício do contraditório e da ampla defesa. Eventual discordância quanto à valoração das provas constitui matéria de mérito, não ensejando a invalidação do processo administrativo. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2013 a 31/03/2013 CRÉDITOS. INSUMOS. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O enquadramento de bens e serviços como insumos deve observar os critérios da essencialidade e da relevância fixados pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES. ALÍQUOTA ZERO. IMPOSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO. É vedado o aproveitamento de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins relativamente à aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento das contribuições, inclusive nas hipóteses de alíquota zero, nos termos do art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003. Incumbe ao sujeito passivo comprovar a certeza e a liquidez do direito creditório pleiteado. DESPESAS ADMINISTRATIVAS. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Despesas vinculadas a atividades meramente administrativas, sem demonstração de integração ao processo produtivo, não geram direito ao creditamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL E FERRAMENTAS EMPREGADAS NO PROCESSO PRODUTIVO. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Calças, camisas, protetores faciais, ferramentas e materiais correlatos utilizados diretamente no processo produtivo, quando demonstrada sua essencialidade ou relevância, enquadram-se no conceito de insumo e geram direito ao crédito. FRETES NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS. CRÉDITOS. É permitido o aproveitamento de créditos relativos a serviços de frete contratados de forma autônoma na aquisição de insumos, desde que observados os requisitos da Súmula CARF nº 188. FRETES ENTRE ESTABELECIMENTOS. Geram direito ao crédito as despesas com frete vinculadas ao transporte de insumos e de produtos em elaboração. Não geram crédito as despesas com frete relativas ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma pessoa jurídica, nos termos da Súmula CARF nº 217. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. RETIFICAÇÃO DAS OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. NECESSIDADE. O aproveitamento de créditos extemporâneos exige a apresentação das declarações retificadoras pertinentes, conforme entendimento consolidado na Súmula CARF nº 231.
Numero da decisão: 3201-013.649
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para afastar a glosa de créditos nos seguintes termos: (i) por unanimidade de voto, em relação a (i.1) créditos reconhecidos pela autoridade fiscal na Informação Fiscal elaborada em cumprimento à diligência determinada por este Conselho (bens utilizados como insumos e armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda), (i.2) protetores faciais, calças, camisas, ferramentas e materiais correlatos — tais como cal virgem, chaves combinadas, espátula, mangote de couro, óculos de segurança, pano de saco e transformador bivolt — comprovadamente empregados no processo produtivo, (i.3) despesas com fretes na aquisição de peças de reposição de máquinas do ativo imobilizado, lubrificantes, graxas, aditivos e materiais de embalagem, bem como sobre a locação de empilhadeiras, desde que devidamente comprovados, observado o entendimento firmado na fundamentação do voto, e (i.4) despesas com fretes vinculados ao transporte de insumos e de produtos em elaboração entre estabelecimentos do Recorrente; e, (ii) por maioria de votos, para manter as demais glosas de créditos, vencido o conselheiro Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, que também revertia a glosa em relação à aquisição de clips para cabo de aço. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3201-013.648, de 21 de julho de 2026, prolatado no julgamento do processo 10183.908806/2016-76, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Hélcio Lafetá Reis - Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi, Fabiana Francisco de Miranda, Flavia Sales Campos Vale, Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, Helcio Lafeta Reis e Marcelo Enk de Aguiar.
Nome do relator: HELCIO LAFETA REIS

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PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não há nulidade quando a decisão é proferida por autoridade competente, contém fundamentação suficiente e assegura o exercício do contraditório e da ampla defesa. Eventual discordância quanto à valoração das provas constitui matéria de mérito, não ensejando a invalidação do processo administrativo. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2013 a 31/03/2013 CRÉDITOS. INSUMOS. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O enquadramento de bens e serviços como insumos deve observar os critérios da essencialidade e da relevância fixados pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES. ALÍQUOTA ZERO. IMPOSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO. É vedado o aproveitamento de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins relativamente à aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento das contribuições, inclusive nas hipóteses de alíquota zero, nos termos do art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003. Incumbe ao sujeito passivo comprovar a certeza e a liquidez do direito creditório pleiteado. DESPESAS ADMINISTRATIVAS. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Fl. 19806DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.649 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908807/2016-11 2 Despesas vinculadas a atividades meramente administrativas, sem demonstração de integração ao processo produtivo, não geram direito ao creditamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL E FERRAMENTAS EMPREGADAS NO PROCESSO PRODUTIVO. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Calças, camisas, protetores faciais, ferramentas e materiais correlatos utilizados diretamente no processo produtivo, quando demonstrada sua essencialidade ou relevância, enquadram-se no conceito de insumo e geram direito ao crédito. FRETES NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS. CRÉDITOS. É permitido o aproveitamento de créditos relativos a serviços de frete contratados de forma autônoma na aquisição de insumos, desde que observados os requisitos da Súmula CARF nº 188. FRETES ENTRE ESTABELECIMENTOS. Geram direito ao crédito as despesas com frete vinculadas ao transporte de insumos e de produtos em elaboração. Não geram crédito as despesas com frete relativas ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma pessoa jurídica, nos termos da Súmula CARF nº 217. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. RETIFICAÇÃO DAS OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. NECESSIDADE. O aproveitamento de créditos extemporâneos exige a apresentação das declarações retificadoras pertinentes, conforme entendimento consolidado na Súmula CARF nº 231. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para afastar a glosa de créditos nos seguintes termos: (i) por unanimidade de voto, em relação a (i.1) créditos reconhecidos pela autoridade fiscal na Informação Fiscal elaborada em cumprimento à diligência determinada por este Conselho (bens utilizados como insumos e armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda), (i.2) protetores faciais, calças, camisas, ferramentas e materiais correlatos — tais como cal virgem, chaves combinadas, espátula, mangote de couro, óculos de segurança, pano de saco e transformador bivolt — comprovadamente empregados no processo produtivo, (i.3) despesas com fretes na aquisição de peças de reposição de máquinas do ativo imobilizado, lubrificantes, graxas, aditivos e materiais de embalagem, bem como sobre a locação Fl. 19807DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.649 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908807/2016-11 3 de empilhadeiras, desde que devidamente comprovados, observado o entendimento firmado na fundamentação do voto, e (i.4) despesas com fretes vinculados ao transporte de insumos e de produtos em elaboração entre estabelecimentos do Recorrente; e, (ii) por maioria de votos, para manter as demais glosas de créditos, vencido o conselheiro Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, que também revertia a glosa em relação à aquisição de clips para cabo de aço. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3201- 013.648, de 21 de julho de 2026, prolatado no julgamento do processo 10183.908806/2016-76, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Hélcio Lafetá Reis – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi, Fabiana Francisco de Miranda, Flavia Sales Campos Vale, Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, Helcio Lafeta Reis e Marcelo Enk de Aguiar. RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que julgou o Pedido de Ressarcimento apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de COFINS. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, em síntese abaixo, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: ASSUNTO: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2013 a 31/03/2013 NÃO-CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. CONCEITO DE INSUMOS. O termo “insumo” não pode ser interpretado como todo e qualquer bem ou serviço que gera despesa necessária para a atividade da empresa, mas apenas aqueles, adquiridos de pessoa jurídica, que efetivamente sejam aplicados ou consumidos na produção de bens destinados à venda ou na prestação do serviço da atividade. NÃO-CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÕES NÃO SUJEITAS AO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES. Fl. 19808DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.649 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908807/2016-11 4 Os artigos 3º, parágrafo 2º, inciso II das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003 estabelecem de forma expressa que é vedado desconto dos créditos sobre as aquisições não sujeitas ao pagamento das contribuições. No regime de não- cumulatividade das contribuições PIS e COFINS, o aproveitamento de créditos está baseado na premissa da incidência dessas contribuições nas aquisições dos bens e serviços empregados no processo produtivo. FRETES. TRANSFERÊNCIA DE INSUMOS. CREDITAMENTO. Por não integrarem o conceito de insumo utilizado na produção de bens destinados à venda e nem se referirem à operação de venda de mercadorias, as despesas efetuadas com fretes contratados para o transporte de produtos acabados ou em elaboração entre estabelecimentos da mesma pessoa jurídica não geram direito à apuração de créditos. FRETES. COMPRAS DE INSUMOS. CREDITAMENTO Não há que se falar em creditamento em relação ao custo do serviço de transporte dos bens adquiridos, e sim analisar a possibilidade de creditamento em relação à aquisição dos bens cujos custos englobam os de transporte. Os dispêndios com transportes na aquisição de bens devem integrar o custo de aquisição de tais bens. A possibilidade de aproveitamento dessas despesas depende da correta apuração e contabilização, guardando estrita relação com a natureza dos insumos adquiridos. Está correta a glosa de fretes pagos na compra de insumos indevidamente incluídos na rubrica “armazenagem e frete nas operações de venda”, pois foram indevidamente apropriados e registrados. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2013 a 31/03/2013 DIREITO CREDITÓRIO. COMPROVAÇÃO. Para o reconhecimento em favor do sujeito passivo, é necessário que restem plenamente caracterizados os atributos de certeza e liquidez do direito creditório pleiteado. Ou seja, o crédito pretendido deve ser comprovado por meio da escrituração contábil e fiscal, bem como pelos documentos que a respalde. Cientificado da decisão, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário, requerendo o reconhecimento do direito creditório, a homologação das compensações vinculadas ao pedido de ressarcimento e a anulação dos débitos decorrentes das glosas efetuadas. Ao apreciar inicialmente o recurso, esta Turma, por meio de Resolução, converteu o julgamento em diligência, em razão da necessidade de reexaminar os créditos pleiteados à luz da orientação firmada pelo Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial nº 1.221.170/PR, que afastou o conceito restritivo de insumo previsto nas Instruções Normativas SRF nº 247/2002 e nº 404/2004, adotando os critérios da essencialidade e da relevância posteriormente sistematizados no Parecer Normativo COSIT/RFB nº 5, de 17 de dezembro de 2018. Fl. 19809DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.649 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908807/2016-11 5 Para tanto, determinou que a autoridade preparadora procedesse à análise conjunta da documentação constante destes autos e do e-Dossiê nº 10010.019402/0716-20, elaborando relatório detalhado acerca dos créditos relativos à aquisição de bens utilizados como insumos e às despesas com armazenagem e frete na operação de venda, com discriminação dos valores comprovados, das razões das glosas e da participação de cada item na atividade da empresa. Determinou, ainda, caso necessário, a intimação da contribuinte para apresentação de documentos ou esclarecimentos complementares, assegurando-lhe o exercício do contraditório antes do retorno dos autos ao CARF para prosseguimento do julgamento. Em cumprimento à diligência determinada pelo CARF, a autoridade fiscal procedeu à reanálise dos créditos relativos às aquisições de bens utilizados como insumos e às despesas com armazenagem e frete, elaborando relatório circunstanciado acerca dos valores comprovados e das razões para a manutenção ou o afastamento das glosas inicialmente efetuadas, após o que os autos retornaram a este Conselho para prosseguimento do julgamento. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: Conforme relatado, trata-se de Recurso Voluntário interposto contra decisão da DRJ que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada em face de Despacho Decisório que deferiu parcialmente pedido de ressarcimento de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep não cumulativa, referente ao 1º trimestre de 2013, no valor de R$ 160.182,80. O deferimento parcial decorreu da glosa de créditos cuja apuração não atendeu aos requisitos legais, especialmente em relação ao conceito de insumo, ao aproveitamento de créditos sobre aquisições não sujeitas à incidência das contribuições, ao creditamento de despesas com fretes e à insuficiência de comprovação do direito creditório. Ao apreciar a Manifestação de Inconformidade, a DRJ manteve integralmente o Despacho Decisório, assentando, em síntese, que: (i) o conceito de insumo não abrange toda despesa necessária à atividade empresarial, mas apenas os bens e serviços efetivamente aplicados ou consumidos na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços; (ii) é vedado o desconto de créditos relativos a aquisições não sujeitas ao pagamento das contribuições; (iii) despesas com fretes de transferência entre estabelecimentos da mesma pessoa jurídica não geram direito a crédito; (iv) despesas com fretes na aquisição de insumos devem compor o custo de aquisição dos respectivos bens, não podendo ser apropriadas como despesas de armazenagem e frete nas operações de venda; e (v) o Fl. 19810DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.649 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908807/2016-11 6 reconhecimento do direito creditório exige prova da sua certeza e liquidez, mediante escrituração contábil e fiscal regularmente respaldada por documentação idônea. Em cumprimento à diligência determinada por este Conselho, a autoridade fiscal elaborou Informação Fiscal circunstanciada, reexaminando as glosas objeto da controvérsia à luz dos critérios estabelecidos pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR e do Parecer Normativo COSIT/RFB nº 5/2018, mantendo apenas aquelas consideradas indevidas segundo os novos parâmetros interpretativos. Cientificada da Informação Fiscal, a recorrente apresentou razões adicionais de recurso, esclarecendo que não impugna os créditos reconhecidos pela autoridade fiscal, restringindo sua irresignação às glosas remanescentes, cuja reforma pleiteia com fundamento na documentação constante dos autos e na legislação aplicável. De pronto, registro que acompanho as conclusões da Informação Fiscal quanto à reversão das glosas nela reconhecidas, por entender que se encontram em consonância com os parâmetros fixados pelo Superior Tribunal de Justiça e pela orientação administrativa vigente. Remanescem, contudo, pontos controvertidos, cuja análise passo a realizar. Da preliminar de nulidade Em suas razões recursais, a recorrente suscita, preliminarmente, a nulidade do acórdão recorrido, ao argumento de que a DRJ deixou de apreciar a integralidade da documentação comprobatória constante do e-Dossiê nº 10010.019402/0716- 20, especialmente quanto às despesas de frete, circunstância que teria comprometido o exame do direito creditório pleiteado. Sustenta que a decisão recorrida violou o dever de fundamentação, por não enfrentar todos os argumentos e documentos capazes de infirmar a conclusão adotada, em afronta ao art. 31 do Decreto nº 70.235/1972, aos arts. 2º e 50 da Lei nº 9.784/1999, ao art. 93, IX, da Constituição Federal e ao art. 489, § 1º, do Código de Processo Civil. Afirma, ainda, que a ausência de análise da documentação caracterizou cerceamento do direito de defesa, requerendo a decretação da nulidade do acórdão recorrido e do despacho decisório, com o reconhecimento integral dos créditos pleiteados. Não assiste razão a recorrente. Nos termos dos arts. 59 a 61 do Decreto nº 70.235/1972, a nulidade do procedimento ou da decisão administrativa somente se configura nas hipóteses expressamente previstas em lei, notadamente quando praticados por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Nenhuma dessas hipóteses se verifica no presente caso. Fl. 19811DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.649 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908807/2016-11 7 A decisão recorrida foi proferida por autoridade competente e apresenta motivação suficiente para permitir a compreensão das razões de decidir e o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa, tanto que a recorrente impugnou especificamente seus fundamentos por meio do presente Recurso Voluntário. A alegada deficiência de fundamentação igualmente não procede. O dever de motivação exige que o julgador exponha os fundamentos de fato e de direito que embasam sua conclusão, não lhe sendo imposto enfrentar individualmente todos os argumentos, documentos ou alegações deduzidos pelas partes quando já houver fundamentação suficiente para a solução da controvérsia. De todo modo, eventual insuficiência na análise da documentação restou superada pela diligência determinada por este Conselho, ocasião em que a autoridade fiscal reexaminou os documentos constantes destes autos e do e- Dossiê nº 10010.019402/0716-20 à luz dos critérios fixados pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR e pelo Parecer Normativo COSIT/RFB nº 5/2018, elaborando Informação Fiscal circunstanciada. Após sua ciência, foi oportunizado à recorrente apresentar razões adicionais de recurso, as quais foram efetivamente apresentadas. Além disso, a recorrente confunde matéria preliminar com matéria de mérito. A alegação de que determinados documentos conduziriam ao reconhecimento do direito creditório ou à reversão de glosas remanescentes diz respeito à valoração da prova e ao exame da existência do direito alegado, questões que serão apreciadas no mérito do recurso, não constituindo vícios capazes de macular a validade do processo administrativo. Assim, ausentes as hipóteses de nulidade previstas no Decreto nº 70.235/1972, rejeito a preliminar suscitada. Mérito Conforme delimitado pela própria recorrente em suas razões adicionais de recurso, a controvérsia restringe-se às glosas remanescentes mantidas pela autoridade fiscal após a realização da diligência determinada por este Conselho, não havendo insurgência quanto aos créditos reconhecidos na Informação Fiscal. A Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, instituiu o regime da não cumulatividade da contribuição para o PIS/Pasep, aplicável às pessoas jurídicas tributadas com base no Lucro Real. De acordo com o art. 3º da referida norma, é permitido ao contribuinte descontar, da contribuição devida no mês, créditos apurados em relação a determinados custos, despesas e encargos vinculados à sua atividade econômica. O caput do artigo estabelece a regra-matriz do direito ao crédito, enquanto os incisos disciplinam hipóteses específicas de creditamento. Entre essas hipóteses, destacam-se: a aquisição de bens para revenda (inciso I); a aquisição de bens e Fl. 19812DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.649 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908807/2016-11 8 serviços utilizados como insumos na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços (inciso II); o consumo de energia elétrica nos estabelecimentos da pessoa jurídica (inciso III); e os pagamentos de aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos utilizados nas atividades da empresa (inciso IV), entre outros. No que se refere ao inciso II, o conceito de “insumo” não foi expressamente definido pela legislação, o que gerou divergências interpretativas relevantes. Inicialmente, a Administração Tributária adotava entendimento mais restritivo, com base nas Instruções Normativas SRF nº 247/2002 e nº 404/2004. Esse posicionamento, no entanto, foi superado pelo julgamento do REsp nº 1.221.170/PR, pelo Superior Tribunal de Justiça, sob a sistemática dos recursos repetitivos, que fixou como critério para o creditamento a demonstração da essencialidade ou relevância do bem ou serviço em relação à atividade econômica desenvolvida. Esse entendimento foi incorporado à atuação da Administração Pública Federal, conforme expresso na Nota SEI nº 63/2018 da PGFN, no Parecer Normativo COSIT nº 5/2018 e na Instrução Normativa RFB nº 2.121, de 15 de dezembro de 2022, os quais reconhecem que, para fins de geração de créditos no regime da não cumulatividade das contribuições, a caracterização de insumo deve observar esses dois critérios: essencialidade e relevância, considerados à luz do processo produtivo ou da prestação de serviços da pessoa jurídica. No mesmo sentido, a jurisprudência consolidada do CARF vem adotando tal critério interpretativo, reconhecendo o direito ao crédito quando demonstrada a vinculação direta entre o bem ou serviço e a atividade-fim do contribuinte. Ressalte-se que o CARF tem seguido um entendimento intermediário: não tão restritivo quanto aquele previsto nas Instruções Normativas SRF nº 247/2002 e nº 404/2004, que foram declaradas ilegais pelo Superior Tribunal de Justiça, tampouco tão amplo quanto o pretendido por parte dos contribuintes. Para este Conselho, a caracterização de um insumo está diretamente relacionada à pertinência ou necessidade da despesa dentro dos limites espaço-temporais do processo produtivo ou da prestação de serviços, sendo imprescindível a demonstração concreta do seu papel na dinâmica operacional da empresa. Dessa forma, a aferição do direito ao crédito no regime da não cumulatividade exige análise fático-probatória à luz do critério jurídico consolidado, segundo o qual apenas os bens e serviços essenciais ou relevantes ao processo produtivo ou à prestação de serviços da pessoa jurídica podem ser considerados insumos. Conforme já exposto, a aplicação dos parâmetros de essencialidade e relevância — consagrados pelo Superior Tribunal de Justiça e acolhidos pela jurisprudência deste Conselho — demanda apreciação casuística, de modo a verificar se os itens questionados possuem, de fato, função indispensável ou significativa no desempenho da atividade econômica da contribuinte. Fl. 19813DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.649 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908807/2016-11 9 Cumpre ressaltar, contudo, que o entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR, julgado sob a sistemática dos recursos repetitivos, delimitou o conceito de insumo previsto no art. 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, mediante a adoção dos critérios da essencialidade e relevância. Assim, tais parâmetros destinam-se à análise das hipóteses de creditamento fundamentadas no conceito jurídico de insumo, não afastando a necessidade de observância dos requisitos próprios estabelecidos pelo legislador para as demais modalidades de créditos previstas no regime da não cumulatividade. Portanto, a análise dos créditos objeto da presente controvérsia deve observar a natureza específica de cada dispêndio, verificando-se, em relação aos itens enquadrados como insumos, sua essencialidade ou relevância para o processo produtivo ou para a prestação de serviços desenvolvida pela pessoa jurídica. Glosa de insumos não sujeitos ao pagamento das contribuições Foram objeto de glosa os créditos relativos à aquisição de bens e serviços utilizados como insumos que, segundo a fiscalização, não estavam sujeitos ao pagamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. A glosa foi fundamentada no art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, segundo o qual não dão direito a crédito as aquisições de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento das referidas contribuições. A recorrente alega que a glosa carece de fundamentação individualizada, porquanto a fiscalização não identificou os Códigos de Situação Tributária (CST) nem as Notas Fiscais eletrônicas que embasariam a conclusão de que as aquisições não estariam sujeitas ao pagamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. Sustenta que as notas fiscais de aquisição foram regularmente escrituradas com o CST 53, correspondente a operações com direito a crédito, não sendo possível atribuir à adquirente eventual erro de classificação fiscal cometido pelos fornecedores. Invoca, para tanto, o princípio da verdade material e a Solução de Consulta COSIT nº 240/2023, segundo a qual erro na identificação do CST pelo fornecedor não impede, por si só, o aproveitamento dos créditos. Aduz, ainda, que as embalagens adquiridas não se enquadram nas hipóteses legais de alíquota zero, estando sujeitas à tributação ordinária, razão pela qual, uma vez caracterizadas como insumos, ensejam o direito ao creditamento. Ao final, afirma que a glosa se baseou em mera presunção, desacompanhada de demonstração fática e documental suficiente, requerendo seu afastamento. Não assiste razão à recorrente. A glosa foi efetuada com fundamento no art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, que veda expressamente o aproveitamento de Fl. 19814DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.649 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908807/2016-11 10 créditos relativos à aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. Em igual sentido, a jurisprudência deste Conselho é firme no sentido de que não é permitido o desconto de créditos decorrentes de aquisições de insumos não tributados, ainda que empregados na produção de bens destinados à venda. A recorrente sustenta que a fiscalização não demonstrou adequadamente a ausência de tributação das aquisições, bem como que eventuais erros na identificação do CST pelos fornecedores não poderiam ensejar a glosa dos créditos. Todavia, tais alegações não se mostram suficientes para infirmar a conclusão fiscal. Conforme consignado na decisão recorrida, a documentação apresentada pela recorrente revela-se insuficiente para demonstrar, de forma individualizada, a certeza e a liquidez do direito creditório pleiteado. Os documentos foram juntados sem qualquer organização por período de apuração ou por natureza da operação, abrangendo exercícios distintos, com expressivo volume de documentos estranhos à controvérsia, documentos em duplicidade e outros sem pertinência com os créditos discutidos, circunstância que inviabiliza a identificação objetiva das operações efetivamente relacionadas às glosas. Nessas condições, não se pode exigir da autoridade fiscal ou do órgão julgador que procedam ao exame indiscriminado de milhares de documentos para identificar aqueles que, em tese, poderiam amparar o direito alegado. O dever de demonstrar os fatos constitutivos do direito creditório pertence ao sujeito passivo, nos termos do art. 16, inciso III, do Decreto nº 70.235/1972, do art. 28 do Decreto nº 7.574/2011 e, subsidiariamente, do art. 373, inciso I, do Código de Processo Civil. A invocação do princípio da verdade material tampouco altera essa conclusão. Referido princípio não afasta o ônus probatório do contribuinte nem autoriza o reconhecimento de créditos quando os elementos constantes dos autos não permitem verificar, com segurança, o atendimento dos requisitos legais para o creditamento. Da mesma forma, eventual erro formal na classificação fiscal adotada pelo fornecedor somente teria relevância se a recorrente demonstrasse, de forma inequívoca, a efetiva tributação das operações e o preenchimento dos pressupostos legais para a constituição do crédito, o que não ocorreu. Ausente prova suficiente capaz de desconstituir a conclusão da fiscalização e diante da vedação expressa contida no art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, impõe-se a manutenção da glosa. Glosa de aquisição de insumos não enquadrados no conceito de insumo A recorrente sustenta que a fiscalização glosou indevidamente créditos relativos a itens classificados genericamente como despesas administrativas, ferramentas e vestuário, sem considerar sua efetiva utilização na atividade produtiva. Fl. 19815DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.649 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908807/2016-11 11 Alega que diversos itens enquadrados como materiais de escritório, a exemplo de clips para cabo de aço, embalagens e protetor facial, são empregados diretamente nas operações da empresa ou constituem equipamentos de proteção individual (EPI), enquadrando-se no conceito de insumo segundo os critérios da essencialidade e relevância fixados pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR. Afirma, ainda, que as ferramentas e materiais correlatos glosados são utilizados na manutenção de máquinas, na operação dos equipamentos e na proteção dos trabalhadores, possuindo destinação produtiva, razão pela qual não poderiam ser excluídos do creditamento com fundamento apenas em sua classificação genérica. Por fim, sustenta que as calças e camisas adquiridas possuem natureza de equipamento de proteção individual, devendo igualmente ser reconhecidas como insumos para fins de creditamento. Em síntese, defende que a fiscalização adotou critério meramente formal para a glosa, deixando de analisar a efetiva essencialidade e relevância dos bens para o desenvolvimento da atividade econômica, requerendo o reconhecimento dos respectivos créditos. No ponto, assiste razão apenas em parte à recorrente. Quanto às despesas administrativas, deve ser mantida a glosa efetuada pela autoridade fiscal. Embora tais despesas possam contribuir para o regular funcionamento da empresa, as atividades administrativas e logísticas não integram, em regra, o processo produtivo propriamente dito, não se enquadrando, por si sós, no conceito de insumo adotado pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. Ausente demonstração de que os bens glosados eram essenciais ou relevantes à produção dos bens destinados à venda, inexiste direito ao creditamento. Diversa, contudo, é a situação do protetor facial, das calças e camisas utilizadas como equipamentos de proteção individual e das ferramentas e materiais correlatos (como cal virgem, chaves combinadas, espátula, mangote de couro, óculos de segurança, pano de saco, transformador bivolt), empregados diretamente no processo produtivo. Nesses casos, a classificação contábil ou a denominação genérica do bem não são suficientes para afastar o direito ao crédito. O critério determinante é sua efetiva destinação e sua imprescindibilidade para o desenvolvimento da atividade econômica. Tratando-se de indústria do ramo alimentício, as vestimentas destinadas à proteção e higiene dos trabalhadores, quando exigidas pela legislação sanitária ou indispensáveis ao processo produtivo, revestem-se dos atributos de essencialidade e relevância estabelecidos pelo Superior Tribunal de Justiça. Da mesma forma, ferramentas e materiais utilizados diretamente na operação, manutenção e continuidade da produção constituem insumos aptos a gerar Fl. 19816DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.649 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908807/2016-11 12 créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, desde que comprovada sua vinculação ao processo produtivo. Assim, a glosa deve ser mantida em relação às despesas administrativas e afastada quanto aos protetores faciais, calças, camisas e ferramentas e materiais correlatos - como cal virgem, chaves combinadas, espátula, mangote de couro, óculos de segurança, pano de saco, transformador bivolt - comprovadamente empregadas no processo produtivo. Glosa decorrente de notas fiscais com inconsistências A recorrente também sustenta que devem ser afastadas as glosas relativas a notas fiscais supostamente incompatíveis com o CNPJ do emitente, por entender que eventual erro formal não impede o reconhecimento do direito ao crédito quando comprovada a efetividade da operação. Todavia, conforme se verifica da planilha "Reanalise_Bens_Insumo_2013.xlsx", elaborada em cumprimento à diligência determinada por este Conselho, as glosas remanescentes foram mantidas exclusivamente em razão da ausência de incidência das contribuições, da isenção da operação ou do não enquadramento dos bens no conceito de insumo. Não subsiste, portanto, glosa fundada em incompatibilidade entre o documento fiscal e o CNPJ do emitente. Dessa forma, a argumentação desenvolvida pela recorrente dissocia-se dos fundamentos efetivamente adotados pela autoridade fiscal na manutenção das glosas, razão pela qual os precedentes invocados acerca da irrelevância de vícios meramente formais em documentos fiscais não se mostram aplicáveis ao presente caso. Glosa de despesas com armazenagem e frete de bens que não se encaixariam no conceito de insumo A recorrente sustenta que a fiscalização glosou indevidamente créditos relativos a despesas de frete incidentes sobre a aquisição de determinados bens, sob o fundamento de que estes não se enquadrariam no conceito de insumo. Alega que tais fretes referem-se à aquisição de peças de reposição de máquinas do ativo imobilizado, lubrificantes, graxas, aditivos, materiais de embalagem e locação de empilhadeiras, bens e serviços que reputa essenciais ao desenvolvimento de sua atividade econômica. Invoca, para tanto, precedentes do CARF que admitem o creditamento de despesas relacionadas à manutenção de ativos produtivos e ao aluguel de equipamentos utilizados na atividade empresarial. A sistemática da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins exige que o enquadramento de determinado bem ou serviço como insumo seja aferido à luz dos critérios da essencialidade e da relevância para o processo Fl. 19817DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.649 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908807/2016-11 13 produtivo, conforme orientação firmada pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR. No caso dos autos, verifica-se que os bens e serviços em discussão apresentam vínculo direto com o processo produtivo, revelando-se essenciais ou relevantes para o desenvolvimento da atividade econômica da recorrente. Dessa forma, atendidos os requisitos legais para o creditamento, reverto as glosas efetuadas. Fretes de períodos anteriores A fiscalização manteve a glosa dos créditos extemporâneos por entender que a recorrente não observou os requisitos necessários ao seu aproveitamento, notadamente a retificação das obrigações acessórias correspondentes. Insurge-se a recorrente contra esse entendimento, sustentando que o § 4º do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003 autoriza expressamente o aproveitamento de créditos em períodos subsequentes, independentemente da retificação das declarações, afirmando que a glosa estaria fundada em excesso de formalismo e afrontaria o princípio da verdade material. A matéria encontra-se atualmente pacificada no âmbito deste Conselho por meio da Súmula CARF nº 231, segundo a qual: "O aproveitamento de créditos extemporâneos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes." Embora a legislação admita, em tese, o aproveitamento de créditos em períodos posteriores, esse direito está condicionado à adequada comprovação de sua origem e de sua existência, mediante a correspondente retificação das obrigações acessórias pertinentes. Tal exigência não constitui mero formalismo, mas instrumento indispensável à demonstração da certeza, liquidez e disponibilidade do crédito pleiteado. Assim, nada a reparar na decisão recorrida. Fretes entre estabelecimentos do mesmo contribuinte A fiscalização manteve a glosa dos créditos relativos a despesas de frete realizadas entre estabelecimentos da própria recorrente, por entender que tais operações não se enquadram nas hipóteses legais de creditamento. A recorrente sustenta que esses fretes constituem serviços essenciais à sua atividade econômica, por envolverem a movimentação de matérias-primas importadas, insumos e produtos acabados entre suas unidades, sendo Fl. 19818DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.649 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908807/2016-11 14 indispensáveis ao processo produtivo e à logística operacional. Afirma que a jurisprudência administrativa admite o creditamento quando demonstrada a essencialidade da despesa, requerendo o reconhecimento dos créditos correspondentes. Não assiste razão à recorrente em sua integralidade. A sistemática da não cumulatividade exige a análise da natureza da mercadoria transportada e da finalidade do serviço de frete. No que se refere ao transporte de insumos e de produtos em elaboração entre estabelecimentos da mesma pessoa jurídica, entendo que assiste razão à recorrente. Tais deslocamentos constituem etapa integrante do processo produtivo, revelando-se essenciais ao desenvolvimento da atividade empresarial. Nesses casos, o serviço de transporte conserva sua vinculação direta com a produção, legitimando o aproveitamento dos créditos. Diversa, contudo, é a situação dos fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa. Sobre essa hipótese, a matéria encontra-se pacificada pela Súmula CARF nº 217, segundo a qual: "Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas." Assim, os créditos devem ser reconhecidos apenas em relação aos fretes vinculados ao transporte de insumos e de produtos em elaboração, desde que devidamente comprovados, mantendo-se a glosa quanto às despesas relativas ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da recorrente, em observância ao entendimento consolidado neste Conselho. Diante do exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário, rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, dar-lhe parcial provimento para afastar as glosas referentes: i) aos créditos reconhecidos pela autoridade fiscal na Informação Fiscal elaborada em cumprimento à diligência determinada por este Conselho; ii) aos protetores faciais, calças, camisas, ferramentas e materiais correlatos — tais como cal virgem, chaves combinadas, espátula, mangote de couro, óculos de segurança, pano de saco e transformador bivolt — comprovadamente empregados no processo produtivo; iii) às despesas com frete incidentes sobre a aquisição de peças de reposição de máquinas do ativo imobilizado, lubrificantes, graxas, aditivos e materiais de embalagem, bem como sobre a locação de empilhadeiras, desde que devidamente comprovados; e Fl. 19819DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.649 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908807/2016-11 15 iv) às despesas com frete vinculadas ao transporte de insumos e de produtos em elaboração entre estabelecimentos da recorrente. Mantêm-se, quanto aos demais pontos, as glosas efetuadas pela fiscalização. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para afastar as glosas: em relação aos créditos reconhecidos pela autoridade fiscal na Informação Fiscal elaborada em cumprimento à diligência determinada por este Conselho (bens utilizados como insumos e armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda); dos protetores faciais, calças, camisas, ferramentas e materiais correlatos - tais como cal virgem, chaves combinadas, espátula, mangote de couro, óculos de segurança, pano de saco e transformador bivolt - comprovadamente empregados no processo produtivo; de despesas com fretes na aquisição de peças de reposição de máquinas do ativo imobilizado, lubrificantes, graxas, aditivos e materiais de embalagem, bem como sobre a locação de empilhadeiras, desde que devidamente comprovados, observado o entendimento firmado na fundamentação do voto; e de despesas com fretes vinculados ao transporte de insumos e de produtos em elaboração entre estabelecimentos do Recorrente. Assinado Digitalmente Hélcio Lafetá Reis – Presidente Redator Fl. 19820DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10183.908806/2016-76
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 21 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Oct 06 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2013 a 31/03/2013 RECURSO VOLUNTÁRIO. PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não há nulidade quando a decisão é proferida por autoridade competente, contém fundamentação suficiente e assegura o exercício do contraditório e da ampla defesa. Eventual discordância quanto à valoração das provas constitui matéria de mérito, não ensejando a invalidação do processo administrativo. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2013 a 31/03/2013 CRÉDITOS. INSUMOS. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O enquadramento de bens e serviços como insumos deve observar os critérios da essencialidade e da relevância fixados pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES. ALÍQUOTA ZERO. IMPOSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO. É vedado o aproveitamento de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins relativamente à aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento das contribuições, inclusive nas hipóteses de alíquota zero, nos termos do art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003. Incumbe ao sujeito passivo comprovar a certeza e a liquidez do direito creditório pleiteado. DESPESAS ADMINISTRATIVAS. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Despesas vinculadas a atividades meramente administrativas, sem demonstração de integração ao processo produtivo, não geram direito ao creditamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL E FERRAMENTAS EMPREGADAS NO PROCESSO PRODUTIVO. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Calças, camisas, protetores faciais, ferramentas e materiais correlatos utilizados diretamente no processo produtivo, quando demonstrada sua essencialidade ou relevância, enquadram-se no conceito de insumo e geram direito ao crédito. FRETES NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS. CRÉDITOS. É permitido o aproveitamento de créditos relativos a serviços de frete contratados de forma autônoma na aquisição de insumos, desde que observados os requisitos da Súmula CARF nº 188. FRETES ENTRE ESTABELECIMENTOS. Geram direito ao crédito as despesas com frete vinculadas ao transporte de insumos e de produtos em elaboração. Não geram crédito as despesas com frete relativas ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma pessoa jurídica, nos termos da Súmula CARF nº 217. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. RETIFICAÇÃO DAS OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. NECESSIDADE. O aproveitamento de créditos extemporâneos exige a apresentação das declarações retificadoras pertinentes, conforme entendimento consolidado na Súmula CARF nº 231.
Numero da decisão: 3201-013.648
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para afastar a glosa de créditos nos seguintes termos: (i) por unanimidade de voto, em relação a (i.1) créditos reconhecidos pela autoridade fiscal na Informação Fiscal elaborada em cumprimento à diligência determinada por este Conselho (bens utilizados como insumos e armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda), (i.2) protetores faciais, calças, camisas, ferramentas e materiais correlatos — tais como cal virgem, chaves combinadas, espátula, mangote de couro, óculos de segurança, pano de saco e transformador bivolt — comprovadamente empregados no processo produtivo, (i.3) despesas com fretes na aquisição de peças de reposição de máquinas do ativo imobilizado, lubrificantes, graxas, aditivos e materiais de embalagem, bem como sobre a locação de empilhadeiras, desde que devidamente comprovados, observado o entendimento firmado na fundamentação do voto, e (i.4) despesas com fretes vinculados ao transporte de insumos e de produtos em elaboração entre estabelecimentos do Recorrente; e, (ii) por maioria de votos, para manter as demais glosas de créditos, vencido o conselheiro Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, que também revertia a glosa em relação à aquisição de clips para cabo de aço. Assinado Digitalmente Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi - Relatora Assinado Digitalmente Hélcio Lafetá Reis - Presidente Participaram do presente julgamento os conselheiros Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi, Fabiana Francisco de Miranda, Flavia Sales Campos Vale, Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, Helcio Lafeta Reis e Marcelo Enk de Aguiar..
Nome do relator: BARBARA CRISTINA DE OLIVEIRA PIALARISSI

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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2013 a 31/03/2013 RECURSO VOLUNTÁRIO. PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não há nulidade quando a decisão é proferida por autoridade competente, contém fundamentação suficiente e assegura o exercício do contraditório e da ampla defesa. Eventual discordância quanto à valoração das provas constitui matéria de mérito, não ensejando a invalidação do processo administrativo. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2013 a 31/03/2013 CRÉDITOS. INSUMOS. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O enquadramento de bens e serviços como insumos deve observar os critérios da essencialidade e da relevância fixados pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES. ALÍQUOTA ZERO. IMPOSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO. É vedado o aproveitamento de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins relativamente à aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento das contribuições, inclusive nas hipóteses de alíquota zero, nos termos do art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003. Incumbe ao sujeito passivo comprovar a certeza e a liquidez do direito creditório pleiteado. DESPESAS ADMINISTRATIVAS. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Despesas vinculadas a atividades meramente administrativas, sem demonstração de integração ao processo produtivo, não geram direito ao creditamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL E FERRAMENTAS EMPREGADAS NO PROCESSO PRODUTIVO. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Calças, camisas, protetores faciais, ferramentas e materiais correlatos utilizados diretamente no processo produtivo, quando demonstrada sua essencialidade ou relevância, enquadram-se no conceito de insumo e geram direito ao crédito. FRETES NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS. CRÉDITOS. É permitido o aproveitamento de créditos relativos a serviços de frete contratados de forma autônoma na aquisição de insumos, desde que observados os requisitos da Súmula CARF nº 188. FRETES ENTRE ESTABELECIMENTOS. Geram direito ao crédito as despesas com frete vinculadas ao transporte de insumos e de produtos em elaboração. Não geram crédito as despesas com frete relativas ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma pessoa jurídica, nos termos da Súmula CARF nº 217. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. RETIFICAÇÃO DAS OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. NECESSIDADE. O aproveitamento de créditos extemporâneos exige a apresentação das declarações retificadoras pertinentes, conforme entendimento consolidado na Súmula CARF nº 231.

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para afastar a glosa de créditos nos seguintes termos: (i) por unanimidade de voto, em relação a (i.1) créditos reconhecidos pela autoridade fiscal na Informação Fiscal elaborada em cumprimento à diligência determinada por este Conselho (bens utilizados como insumos e armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda), (i.2) protetores faciais, calças, camisas, ferramentas e materiais correlatos — tais como cal virgem, chaves combinadas, espátula, mangote de couro, óculos de segurança, pano de saco e transformador bivolt — comprovadamente empregados no processo produtivo, (i.3) despesas com fretes na aquisição de peças de reposição de máquinas do ativo imobilizado, lubrificantes, graxas, aditivos e materiais de embalagem, bem como sobre a locação de empilhadeiras, desde que devidamente comprovados, observado o entendimento firmado na fundamentação do voto, e (i.4) despesas com fretes vinculados ao transporte de insumos e de produtos em elaboração entre estabelecimentos do Recorrente; e, (ii) por maioria de votos, para manter as demais glosas de créditos, vencido o conselheiro Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, que também revertia a glosa em relação à aquisição de clips para cabo de aço. Assinado Digitalmente Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi - Relatora Assinado Digitalmente Hélcio Lafetá Reis - Presidente Participaram do presente julgamento os conselheiros Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi, Fabiana Francisco de Miranda, Flavia Sales Campos Vale, Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, Helcio Lafeta Reis e Marcelo Enk de Aguiar..

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PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não há nulidade quando a decisão é proferida por autoridade competente, contém fundamentação suficiente e assegura o exercício do contraditório e da ampla defesa. Eventual discordância quanto à valoração das provas constitui matéria de mérito, não ensejando a invalidação do processo administrativo. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2013 a 31/03/2013 CRÉDITOS. INSUMOS. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O enquadramento de bens e serviços como insumos deve observar os critérios da essencialidade e da relevância fixados pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES. ALÍQUOTA ZERO. IMPOSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO. É vedado o aproveitamento de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins relativamente à aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento das contribuições, inclusive nas hipóteses de alíquota zero, nos termos do art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003. Incumbe ao sujeito passivo comprovar a certeza e a liquidez do direito creditório pleiteado. DESPESAS ADMINISTRATIVAS. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Fl. 19817DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.648 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908806/2016-76 2 Despesas vinculadas a atividades meramente administrativas, sem demonstração de integração ao processo produtivo, não geram direito ao creditamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL E FERRAMENTAS EMPREGADAS NO PROCESSO PRODUTIVO. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Calças, camisas, protetores faciais, ferramentas e materiais correlatos utilizados diretamente no processo produtivo, quando demonstrada sua essencialidade ou relevância, enquadram-se no conceito de insumo e geram direito ao crédito. FRETES NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS. CRÉDITOS. É permitido o aproveitamento de créditos relativos a serviços de frete contratados de forma autônoma na aquisição de insumos, desde que observados os requisitos da Súmula CARF nº 188. FRETES ENTRE ESTABELECIMENTOS. Geram direito ao crédito as despesas com frete vinculadas ao transporte de insumos e de produtos em elaboração. Não geram crédito as despesas com frete relativas ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma pessoa jurídica, nos termos da Súmula CARF nº 217. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. RETIFICAÇÃO DAS OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. NECESSIDADE. O aproveitamento de créditos extemporâneos exige a apresentação das declarações retificadoras pertinentes, conforme entendimento consolidado na Súmula CARF nº 231. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para afastar a glosa de créditos nos seguintes termos: (i) por unanimidade de voto, em relação a (i.1) créditos reconhecidos pela autoridade fiscal na Informação Fiscal elaborada em cumprimento à diligência determinada por este Conselho (bens utilizados como insumos e armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda), (i.2) protetores faciais, calças, camisas, ferramentas e materiais correlatos — tais como cal virgem, chaves combinadas, espátula, mangote de couro, óculos de segurança, pano de saco e transformador bivolt — comprovadamente empregados no processo Fl. 19818DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.648 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908806/2016-76 3 produtivo, (i.3) despesas com fretes na aquisição de peças de reposição de máquinas do ativo imobilizado, lubrificantes, graxas, aditivos e materiais de embalagem, bem como sobre a locação de empilhadeiras, desde que devidamente comprovados, observado o entendimento firmado na fundamentação do voto, e (i.4) despesas com fretes vinculados ao transporte de insumos e de produtos em elaboração entre estabelecimentos do Recorrente; e, (ii) por maioria de votos, para manter as demais glosas de créditos, vencido o conselheiro Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, que também revertia a glosa em relação à aquisição de clips para cabo de aço. Assinado Digitalmente Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi – Relatora Assinado Digitalmente Hélcio Lafetá Reis – Presidente Participaram do presente julgamento os conselheiros Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi, Fabiana Francisco de Miranda, Flavia Sales Campos Vale, Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, Helcio Lafeta Reis e Marcelo Enk de Aguiar.. RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra decisão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada em face de Despacho Decisório que apreciou Pedido de Ressarcimento de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep não cumulativa – Mercado Interno. Na apreciação do pleito, a autoridade fiscal, com base nos elementos constantes do processo administrativo nº 10010.019402/0716-20, concluiu pela inexistência de valores passíveis de ressarcimento, por entender que os créditos apurados foram utilizados para abatimento parcial das contribuições devidas. Irresignado com as glosas efetuadas, o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade, a qual foi julgada improcedente pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento. Na oportunidade, a DRJ rejeitou de forma unânime as alegações do sujeito passivo e manteve integralmente o Despacho Decisório, assentando, em síntese, as seguintes conclusões: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2013 a 31/03/2013 NÃO-CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. CONCEITO DE INSUMOS. Fl. 19819DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.648 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908806/2016-76 4 O termo “insumo” não pode ser interpretado como todo e qualquer bem ou serviço que gera despesa necessária para a atividade da empresa, mas apenas aqueles, adquiridos de pessoa jurídica, que efetivamente sejam aplicados ou consumidos na produção de bens destinados à venda ou na prestação do serviço da atividade. NÃO-CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÕES NÃO SUJEITAS AO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES. Os artigos 3º, parágrafo 2º, inciso II das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003 estabelecem de forma expressa que é vedado desconto dos créditos sobre as aquisições não sujeitas ao pagamento das contribuições. No regime de não- cumulatividade das contribuições PIS e COFINS, o aproveitamento de créditos está baseado na premissa da incidência dessas contribuições nas aquisições dos bens e serviços empregados no processo produtivo. FRETES. TRANSFERÊNCIA DE INSUMOS. CREDITAMENTO. Por não integrarem o conceito de insumo utilizado na produção de bens destinados à venda e nem se referirem à operação de venda de mercadorias, as despesas efetuadas com fretes contratados para o transporte de produtos acabados ou em elaboração entre estabelecimentos da mesma pessoa jurídica não geram direito à apuração de créditos. FRETES. COMPRAS DE INSUMOS. CREDITAMENTO Não há que se falar em creditamento em relação ao custo do serviço de transporte dos bens adquiridos, e sim analisar a possibilidade de creditamento em relação à aquisição dos bens cujos custos englobam os de transporte. Os dispêndios com transportes na aquisição de bens devem integrar o custo de aquisição de tais bens. A possibilidade de aproveitamento dessas despesas depende da correta apuração e contabilização, guardando estrita relação com a natureza dos insumos adquiridos. Está correta a glosa de fretes pagos na compra de insumos indevidamente incluídos na rubrica “armazenagem e frete nas operações de venda”, pois foram indevidamente apropriados e registrados. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2013 a 31/03/2013 DIREITO CREDITÓRIO. COMPROVAÇÃO. Para o reconhecimento em favor do sujeito passivo, é necessário que restem plenamente caracterizados os atributos de certeza e liquidez do direito creditório pleiteado. Ou seja, o crédito pretendido deve ser comprovado por meio da escrituração contábil e fiscal, bem como pelos documentos que a respalde. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Fl. 19820DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.648 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908806/2016-76 5 Cientificado da decisão, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário, requerendo o reconhecimento do direito creditório, a homologação das compensações vinculadas ao pedido de ressarcimento e a anulação dos débitos decorrentes das glosas efetuadas. Ao apreciar o recurso, esta Turma, por meio de Resolução, converteu o julgamento em diligência, em razão da necessidade de reexaminar os créditos pleiteados à luz da orientação firmada pelo Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial nº 1.221.170/PR, que afastou o conceito restritivo de insumo previsto nas Instruções Normativas SRF nº 247/2002 e nº 404/2004, adotando os critérios da essencialidade e da relevância posteriormente sistematizados no Parecer Normativo COSIT/RFB nº 5, de 17 de dezembro de 2018. Para tanto, determinou que a autoridade preparadora procedesse à análise conjunta da documentação constante destes autos e do e-Dossiê nº 10010.019402/0716-20, elaborando relatório detalhado acerca dos créditos relativos à aquisição de bens utilizados como insumos e às despesas com armazenagem e frete na operação de venda, com discriminação dos valores comprovados, das razões das glosas e da participação de cada item na atividade da empresa. Determinou, ainda, caso necessário, a intimação da contribuinte para apresentação de documentos ou esclarecimentos complementares, assegurando-lhe o exercício do contraditório antes do retorno dos autos ao CARF para prosseguimento do julgamento. Em cumprimento à diligência determinada pelo CARF, a autoridade fiscal procedeu à reanálise dos créditos relativos às aquisições de bens utilizados como insumos e às despesas com armazenagem e frete, elaborando relatório circunstanciado acerca dos valores comprovados e das razões para a manutenção ou o afastamento das glosas inicialmente efetuadas, após o que os autos retornaram a este Conselho para prosseguimento do julgamento. Considerando que o Relator anteriormente designado não mais integra a composição desta Turma, os autos foram a mim redistribuídos, por sorteio, para prosseguimento do julgamento. É o relatório. VOTO Conselheira Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi, Relatora Conforme relatado, trata-se de Recurso Voluntário interposto contra decisão da DRJ que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada em face de Despacho Decisório que deferiu parcialmente pedido de ressarcimento de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep não cumulativa, referente ao 1º trimestre de 2013, no valor de R$ 160.182,80. O deferimento parcial decorreu da glosa de créditos cuja apuração não atendeu aos requisitos legais, especialmente em relação ao conceito de insumo, ao aproveitamento de créditos Fl. 19821DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.648 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908806/2016-76 6 sobre aquisições não sujeitas à incidência das contribuições, ao creditamento de despesas com fretes e à insuficiência de comprovação do direito creditório. Ao apreciar a Manifestação de Inconformidade, a DRJ manteve integralmente o Despacho Decisório, assentando, em síntese, que: (i) o conceito de insumo não abrange toda despesa necessária à atividade empresarial, mas apenas os bens e serviços efetivamente aplicados ou consumidos na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços; (ii) é vedado o desconto de créditos relativos a aquisições não sujeitas ao pagamento das contribuições; (iii) despesas com fretes de transferência entre estabelecimentos da mesma pessoa jurídica não geram direito a crédito; (iv) despesas com fretes na aquisição de insumos devem compor o custo de aquisição dos respectivos bens, não podendo ser apropriadas como despesas de armazenagem e frete nas operações de venda; e (v) o reconhecimento do direito creditório exige prova da sua certeza e liquidez, mediante escrituração contábil e fiscal regularmente respaldada por documentação idônea. Em cumprimento à diligência determinada por este Conselho, a autoridade fiscal elaborou Informação Fiscal circunstanciada, reexaminando as glosas objeto da controvérsia à luz dos critérios estabelecidos pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR e do Parecer Normativo COSIT/RFB nº 5/2018, mantendo apenas aquelas consideradas indevidas segundo os novos parâmetros interpretativos. Cientificada da Informação Fiscal, a recorrente apresentou razões adicionais de recurso, esclarecendo que não impugna os créditos reconhecidos pela autoridade fiscal, restringindo sua irresignação às glosas remanescentes, cuja reforma pleiteia com fundamento na documentação constante dos autos e na legislação aplicável. De pronto, registro que acompanho as conclusões da Informação Fiscal quanto à reversão das glosas nela reconhecidas, por entender que se encontram em consonância com os parâmetros fixados pelo Superior Tribunal de Justiça e pela orientação administrativa vigente. Remanescem, contudo, pontos controvertidos, cuja análise passo a realizar. 1 Da preliminar de nulidade Em suas razões recursais, a recorrente suscita, preliminarmente, a nulidade do acórdão recorrido, ao argumento de que a DRJ deixou de apreciar a integralidade da documentação comprobatória constante do e-Dossiê nº 10010.019402/0716-20, especialmente quanto às despesas de frete, circunstância que teria comprometido o exame do direito creditório pleiteado. Sustenta que a decisão recorrida violou o dever de fundamentação, por não enfrentar todos os argumentos e documentos capazes de infirmar a conclusão adotada, em afronta ao art. 31 do Decreto nº 70.235/1972, aos arts. 2º e 50 da Lei nº 9.784/1999, ao art. 93, IX, da Constituição Federal e ao art. 489, § 1º, do Código de Processo Civil. Afirma, ainda, que a Fl. 19822DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.648 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908806/2016-76 7 ausência de análise da documentação caracterizou cerceamento do direito de defesa, requerendo a decretação da nulidade do acórdão recorrido e do despacho decisório, com o reconhecimento integral dos créditos pleiteados. Não assiste razão a recorrente. Nos termos dos arts. 59 a 61 do Decreto nº 70.235/1972, a nulidade do procedimento ou da decisão administrativa somente se configura nas hipóteses expressamente previstas em lei, notadamente quando praticados por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Nenhuma dessas hipóteses se verifica no presente caso. A decisão recorrida foi proferida por autoridade competente e apresenta motivação suficiente para permitir a compreensão das razões de decidir e o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa, tanto que a recorrente impugnou especificamente seus fundamentos por meio do presente Recurso Voluntário. A alegada deficiência de fundamentação igualmente não procede. O dever de motivação exige que o julgador exponha os fundamentos de fato e de direito que embasam sua conclusão, não lhe sendo imposto enfrentar individualmente todos os argumentos, documentos ou alegações deduzidos pelas partes quando já houver fundamentação suficiente para a solução da controvérsia. De todo modo, eventual insuficiência na análise da documentação restou superada pela diligência determinada por este Conselho, ocasião em que a autoridade fiscal reexaminou os documentos constantes destes autos e do e-Dossiê nº 10010.019402/0716-20 à luz dos critérios fixados pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR e pelo Parecer Normativo COSIT/RFB nº 5/2018, elaborando Informação Fiscal circunstanciada. Após sua ciência, foi oportunizado à recorrente apresentar razões adicionais de recurso, as quais foram efetivamente apresentadas. Além disso, a recorrente confunde matéria preliminar com matéria de mérito. A alegação de que determinados documentos conduziriam ao reconhecimento do direito creditório ou à reversão de glosas remanescentes diz respeito à valoração da prova e ao exame da existência do direito alegado, questões que serão apreciadas no mérito do recurso, não constituindo vícios capazes de macular a validade do processo administrativo. Assim, ausentes as hipóteses de nulidade previstas no Decreto nº 70.235/1972, rejeito a preliminar suscitada. 2 Mérito Conforme delimitado pela própria recorrente em suas razões adicionais de recurso, a controvérsia restringe-se às glosas remanescentes mantidas pela autoridade fiscal após a Fl. 19823DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.648 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908806/2016-76 8 realização da diligência determinada por este Conselho, não havendo insurgência quanto aos créditos reconhecidos na Informação Fiscal. A Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, instituiu o regime da não cumulatividade da contribuição para o PIS/Pasep, aplicável às pessoas jurídicas tributadas com base no Lucro Real. De acordo com o art. 3º da referida norma, é permitido ao contribuinte descontar, da contribuição devida no mês, créditos apurados em relação a determinados custos, despesas e encargos vinculados à sua atividade econômica. O caput do artigo estabelece a regra-matriz do direito ao crédito, enquanto os incisos disciplinam hipóteses específicas de creditamento. Entre essas hipóteses, destacam-se: a aquisição de bens para revenda (inciso I); a aquisição de bens e serviços utilizados como insumos na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços (inciso II); o consumo de energia elétrica nos estabelecimentos da pessoa jurídica (inciso III); e os pagamentos de aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos utilizados nas atividades da empresa (inciso IV), entre outros. No que se refere ao inciso II, o conceito de “insumo” não foi expressamente definido pela legislação, o que gerou divergências interpretativas relevantes. Inicialmente, a Administração Tributária adotava entendimento mais restritivo, com base nas Instruções Normativas SRF nº 247/2002 e nº 404/2004. Esse posicionamento, no entanto, foi superado pelo julgamento do REsp nº 1.221.170/PR, pelo Superior Tribunal de Justiça, sob a sistemática dos recursos repetitivos, que fixou como critério para o creditamento a demonstração da essencialidade ou relevância do bem ou serviço em relação à atividade econômica desenvolvida. Esse entendimento foi incorporado à atuação da Administração Pública Federal, conforme expresso na Nota SEI nº 63/2018 da PGFN, no Parecer Normativo COSIT nº 5/2018 e na Instrução Normativa RFB nº 2.121, de 15 de dezembro de 2022, os quais reconhecem que, para fins de geração de créditos no regime da não cumulatividade das contribuições, a caracterização de insumo deve observar esses dois critérios: essencialidade e relevância, considerados à luz do processo produtivo ou da prestação de serviços da pessoa jurídica. No mesmo sentido, a jurisprudência consolidada do CARF vem adotando tal critério interpretativo, reconhecendo o direito ao crédito quando demonstrada a vinculação direta entre o bem ou serviço e a atividade-fim do contribuinte. Ressalte-se que o CARF tem seguido um entendimento intermediário: não tão restritivo quanto aquele previsto nas Instruções Normativas SRF nº 247/2002 e nº 404/2004, que foram declaradas ilegais pelo Superior Tribunal de Justiça, tampouco tão amplo quanto o pretendido por parte dos contribuintes. Para este Conselho, a caracterização de um insumo está diretamente relacionada à pertinência ou necessidade da despesa dentro dos limites espaço-temporais do processo produtivo ou da prestação de serviços, sendo imprescindível a demonstração concreta do seu papel na dinâmica operacional da empresa. Dessa forma, a aferição do direito ao crédito no regime da não cumulatividade exige análise fático-probatória à luz do critério jurídico consolidado, segundo o qual apenas os bens e Fl. 19824DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.648 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908806/2016-76 9 serviços essenciais ou relevantes ao processo produtivo ou à prestação de serviços da pessoa jurídica podem ser considerados insumos. Conforme já exposto, a aplicação dos parâmetros de essencialidade e relevância — consagrados pelo Superior Tribunal de Justiça e acolhidos pela jurisprudência deste Conselho — demanda apreciação casuística, de modo a verificar se os itens questionados possuem, de fato, função indispensável ou significativa no desempenho da atividade econômica da contribuinte. Cumpre ressaltar, contudo, que o entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR, julgado sob a sistemática dos recursos repetitivos, delimitou o conceito de insumo previsto no art. 3º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, mediante a adoção dos critérios da essencialidade e relevância. Assim, tais parâmetros destinam- se à análise das hipóteses de creditamento fundamentadas no conceito jurídico de insumo, não afastando a necessidade de observância dos requisitos próprios estabelecidos pelo legislador para as demais modalidades de créditos previstas no regime da não cumulatividade. Portanto, a análise dos créditos objeto da presente controvérsia deve observar a natureza específica de cada dispêndio, verificando-se, em relação aos itens enquadrados como insumos, sua essencialidade ou relevância para o processo produtivo ou para a prestação de serviços desenvolvida pela pessoa jurídica. 2.1 glosa de insumos não sujeitos ao pagamento das contribuições Foram objeto de glosa os créditos relativos à aquisição de bens e serviços utilizados como insumos que, segundo a fiscalização, não estavam sujeitos ao pagamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. A glosa foi fundamentada no art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, segundo o qual não dão direito a crédito as aquisições de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento das referidas contribuições. A recorrente alega que a glosa carece de fundamentação individualizada, porquanto a fiscalização não identificou os Códigos de Situação Tributária (CST) nem as Notas Fiscais eletrônicas que embasariam a conclusão de que as aquisições não estariam sujeitas ao pagamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. Sustenta que as notas fiscais de aquisição foram regularmente escrituradas com o CST 53, correspondente a operações com direito a crédito, não sendo possível atribuir à adquirente eventual erro de classificação fiscal cometido pelos fornecedores. Invoca, para tanto, o princípio da verdade material e a Solução de Consulta COSIT nº 240/2023, segundo a qual erro na identificação do CST pelo fornecedor não impede, por si só, o aproveitamento dos créditos. Aduz, ainda, que as embalagens adquiridas não se enquadram nas hipóteses legais de alíquota zero, estando sujeitas à tributação ordinária, razão pela qual, uma vez caracterizadas como insumos, ensejam o direito ao creditamento. Ao final, afirma que a glosa se baseou em mera Fl. 19825DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.648 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908806/2016-76 10 presunção, desacompanhada de demonstração fática e documental suficiente, requerendo seu afastamento. Não assiste razão à recorrente. A glosa foi efetuada com fundamento no art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, que veda expressamente o aproveitamento de créditos relativos à aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. Em igual sentido, a jurisprudência deste Conselho é firme no sentido de que não é permitido o desconto de créditos decorrentes de aquisições de insumos não tributados, ainda que empregados na produção de bens destinados à venda. A recorrente sustenta que a fiscalização não demonstrou adequadamente a ausência de tributação das aquisições, bem como que eventuais erros na identificação do CST pelos fornecedores não poderiam ensejar a glosa dos créditos. Todavia, tais alegações não se mostram suficientes para infirmar a conclusão fiscal. Conforme consignado na decisão recorrida, a documentação apresentada pela recorrente revela-se insuficiente para demonstrar, de forma individualizada, a certeza e a liquidez do direito creditório pleiteado. Os documentos foram juntados sem qualquer organização por período de apuração ou por natureza da operação, abrangendo exercícios distintos, com expressivo volume de documentos estranhos à controvérsia, documentos em duplicidade e outros sem pertinência com os créditos discutidos, circunstância que inviabiliza a identificação objetiva das operações efetivamente relacionadas às glosas. Nessas condições, não se pode exigir da autoridade fiscal ou do órgão julgador que procedam ao exame indiscriminado de milhares de documentos para identificar aqueles que, em tese, poderiam amparar o direito alegado. O dever de demonstrar os fatos constitutivos do direito creditório pertence ao sujeito passivo, nos termos do art. 16, inciso III, do Decreto nº 70.235/1972, do art. 28 do Decreto nº 7.574/2011 e, subsidiariamente, do art. 373, inciso I, do Código de Processo Civil. A invocação do princípio da verdade material tampouco altera essa conclusão. Referido princípio não afasta o ônus probatório do contribuinte nem autoriza o reconhecimento de créditos quando os elementos constantes dos autos não permitem verificar, com segurança, o atendimento dos requisitos legais para o creditamento. Da mesma forma, eventual erro formal na classificação fiscal adotada pelo fornecedor somente teria relevância se a recorrente demonstrasse, de forma inequívoca, a efetiva tributação das operações e o preenchimento dos pressupostos legais para a constituição do crédito, o que não ocorreu. Ausente prova suficiente capaz de desconstituir a conclusão da fiscalização e diante da vedação expressa contida no art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, impõe-se a manutenção da glosa. Fl. 19826DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.648 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908806/2016-76 11 2.2 glosa de aquisição de insumos não enquadrados no conceito de insumo A recorrente sustenta que a fiscalização glosou indevidamente créditos relativos a itens classificados genericamente como despesas administrativas, ferramentas e vestuário, sem considerar sua efetiva utilização na atividade produtiva. Alega que diversos itens enquadrados como materiais de escritório, a exemplo de clips para cabo de aço, embalagens e protetor facial, são empregados diretamente nas operações da empresa ou constituem equipamentos de proteção individual (EPI), enquadrando-se no conceito de insumo segundo os critérios da essencialidade e relevância fixados pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR. Afirma, ainda, que as ferramentas e materiais correlatos glosados são utilizados na manutenção de máquinas, na operação dos equipamentos e na proteção dos trabalhadores, possuindo destinação produtiva, razão pela qual não poderiam ser excluídos do creditamento com fundamento apenas em sua classificação genérica. Por fim, sustenta que as calças e camisas adquiridas possuem natureza de equipamento de proteção individual, devendo igualmente ser reconhecidas como insumos para fins de creditamento. Em síntese, defende que a fiscalização adotou critério meramente formal para a glosa, deixando de analisar a efetiva essencialidade e relevância dos bens para o desenvolvimento da atividade econômica, requerendo o reconhecimento dos respectivos créditos. No ponto, assiste razão apenas em parte à recorrente. Quanto às despesas administrativas, deve ser mantida a glosa efetuada pela autoridade fiscal. Embora tais despesas possam contribuir para o regular funcionamento da empresa, as atividades administrativas e logísticas não integram, em regra, o processo produtivo propriamente dito, não se enquadrando, por si sós, no conceito de insumo adotado pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. Ausente demonstração de que os bens glosados eram essenciais ou relevantes à produção dos bens destinados à venda, inexiste direito ao creditamento. Diversa, contudo, é a situação do protetor facial, das calças e camisas utilizadas como equipamentos de proteção individual e das ferramentas e materiais correlatos (como cal virgem, chaves combinadas, espátula, mangote de couro, óculos de segurança, pano de saco, transformador bivolt), empregados diretamente no processo produtivo. Nesses casos, a classificação contábil ou a denominação genérica do bem não são suficientes para afastar o direito ao crédito. O critério determinante é sua efetiva destinação e sua imprescindibilidade para o desenvolvimento da atividade econômica. Tratando-se de indústria do ramo alimentício, as vestimentas destinadas à proteção e higiene dos trabalhadores, quando exigidas pela legislação sanitária ou indispensáveis ao processo produtivo, revestem-se dos atributos de essencialidade e relevância estabelecidos pelo Fl. 19827DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.648 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908806/2016-76 12 Superior Tribunal de Justiça. Da mesma forma, ferramentas e materiais utilizados diretamente na operação, manutenção e continuidade da produção constituem insumos aptos a gerar créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, desde que comprovada sua vinculação ao processo produtivo. Assim, a glosa deve ser mantida em relação às despesas administrativas e afastada quanto aos protetores faciais, calças, camisas e ferramentas e materiais correlatos - como cal virgem, chaves combinadas, espátula, mangote de couro, óculos de segurança, pano de saco, transformador bivolt - comprovadamente empregadas no processo produtivo. 2.3 Glosa decorrente de notas fiscais com inconsistências A recorrente também sustenta que devem ser afastadas as glosas relativas a notas fiscais supostamente incompatíveis com o CNPJ do emitente, por entender que eventual erro formal não impede o reconhecimento do direito ao crédito quando comprovada a efetividade da operação. Todavia, conforme se verifica da planilha "Reanalise_Bens_Insumo_2013.xlsx", elaborada em cumprimento à diligência determinada por este Conselho, as glosas remanescentes foram mantidas exclusivamente em razão da ausência de incidência das contribuições, da isenção da operação ou do não enquadramento dos bens no conceito de insumo. Não subsiste, portanto, glosa fundada em incompatibilidade entre o documento fiscal e o CNPJ do emitente. Dessa forma, a argumentação desenvolvida pela recorrente dissocia-se dos fundamentos efetivamente adotados pela autoridade fiscal na manutenção das glosas, razão pela qual os precedentes invocados acerca da irrelevância de vícios meramente formais em documentos fiscais não se mostram aplicáveis ao presente caso. 2.4 glosa de despesas com armazenagem e frete de bens que não se encaixariam no conceito de insumo A recorrente sustenta que a fiscalização glosou indevidamente créditos relativos a despesas de frete incidentes sobre a aquisição de determinados bens, sob o fundamento de que estes não se enquadrariam no conceito de insumo. Alega que tais fretes referem-se à aquisição de peças de reposição de máquinas do ativo imobilizado, lubrificantes, graxas, aditivos, materiais de embalagem e locação de empilhadeiras, bens e serviços que reputa essenciais ao desenvolvimento de sua atividade econômica. Invoca, para tanto, precedentes do CARF que admitem o creditamento de despesas relacionadas à manutenção de ativos produtivos e ao aluguel de equipamentos utilizados na atividade empresarial. A sistemática da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins exige que o enquadramento de determinado bem ou serviço como insumo seja aferido à luz dos Fl. 19828DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.648 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908806/2016-76 13 critérios da essencialidade e da relevância para o processo produtivo, conforme orientação firmada pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp nº 1.221.170/PR. No caso dos autos, verifica-se que os bens e serviços em discussão apresentam vínculo direto com o processo produtivo, revelando-se essenciais ou relevantes para o desenvolvimento da atividade econômica da recorrente. Dessa forma, atendidos os requisitos legais para o creditamento, reverto as glosas efetuadas. 2.5 Fretes de períodos anteriores A fiscalização manteve a glosa dos créditos extemporâneos por entender que a recorrente não observou os requisitos necessários ao seu aproveitamento, notadamente a retificação das obrigações acessórias correspondentes. Insurge-se a recorrente contra esse entendimento, sustentando que o § 4º do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003 autoriza expressamente o aproveitamento de créditos em períodos subsequentes, independentemente da retificação das declarações, afirmando que a glosa estaria fundada em excesso de formalismo e afrontaria o princípio da verdade material. A matéria encontra-se atualmente pacificada no âmbito deste Conselho por meio da Súmula CARF nº 231, segundo a qual: "O aproveitamento de créditos extemporâneos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes." Embora a legislação admita, em tese, o aproveitamento de créditos em períodos posteriores, esse direito está condicionado à adequada comprovação de sua origem e de sua existência, mediante a correspondente retificação das obrigações acessórias pertinentes. Tal exigência não constitui mero formalismo, mas instrumento indispensável à demonstração da certeza, liquidez e disponibilidade do crédito pleiteado. Assim, nada a reparar na decisão recorrida. 2.6 Fretes entre estabelecimentos do mesmo contribuinte A fiscalização manteve a glosa dos créditos relativos a despesas de frete realizadas entre estabelecimentos da própria recorrente, por entender que tais operações não se enquadram nas hipóteses legais de creditamento. A recorrente sustenta que esses fretes constituem serviços essenciais à sua atividade econômica, por envolverem a movimentação de matérias-primas importadas, insumos e produtos acabados entre suas unidades, sendo indispensáveis ao processo produtivo e à logística operacional. Afirma que a jurisprudência administrativa admite o creditamento quando Fl. 19829DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.648 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908806/2016-76 14 demonstrada a essencialidade da despesa, requerendo o reconhecimento dos créditos correspondentes. Não assiste razão à recorrente em sua integralidade. A sistemática da não cumulatividade exige a análise da natureza da mercadoria transportada e da finalidade do serviço de frete. No que se refere ao transporte de insumos e de produtos em elaboração entre estabelecimentos da mesma pessoa jurídica, entendo que assiste razão à recorrente. Tais deslocamentos constituem etapa integrante do processo produtivo, revelando-se essenciais ao desenvolvimento da atividade empresarial. Nesses casos, o serviço de transporte conserva sua vinculação direta com a produção, legitimando o aproveitamento dos créditos. Diversa, contudo, é a situação dos fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa. Sobre essa hipótese, a matéria encontra-se pacificada pela Súmula CARF nº 217, segundo a qual: "Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas." Assim, os créditos devem ser reconhecidos apenas em relação aos fretes vinculados ao transporte de insumos e de produtos em elaboração, desde que devidamente comprovados, mantendo-se a glosa quanto às despesas relativas ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da recorrente, em observância ao entendimento consolidado neste Conselho. 3 Conclusão Diante do exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário, rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, dar-lhe parcial provimento para afastar as glosas referentes: i) aos créditos reconhecidos pela autoridade fiscal na Informação Fiscal elaborada em cumprimento à diligência determinada por este Conselho; ii) aos protetores faciais, calças, camisas, ferramentas e materiais correlatos — tais como cal virgem, chaves combinadas, espátula, mangote de couro, óculos de segurança, pano de saco e transformador bivolt — comprovadamente empregados no processo produtivo; iii) às despesas com frete incidentes sobre a aquisição de peças de reposição de máquinas do ativo imobilizado, lubrificantes, graxas, aditivos e materiais de embalagem, bem como sobre a locação de empilhadeiras, desde que devidamente comprovados; e Fl. 19830DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3201-013.648 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10183.908806/2016-76 15 iv) às despesas com frete vinculadas ao transporte de insumos e de produtos em elaboração entre estabelecimentos da recorrente. Mantêm-se, quanto aos demais pontos, as glosas efetuadas pela fiscalização. É como voto. Assinatura Digital Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi Fl. 19831DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 Da preliminar de nulidade 2 Mérito 2.1 glosa de insumos não sujeitos ao pagamento das contribuições 2.2 glosa de aquisição de insumos não enquadrados no conceito de insumo 2.3 Glosa decorrente de notas fiscais com inconsistências 2.4 glosa de despesas com armazenagem e frete de bens que não se encaixariam no conceito de insumo 2.5 Fretes de períodos anteriores 2.6 Fretes entre estabelecimentos do mesmo contribuinte 3 Conclusão

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Numero do processo: 10980.905409/2017-38
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 27 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Fri Oct 09 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2015 DENÚNCIA ESPONTÂNEA. COMPENSAÇÃO. A compensação não equivale a pagamento para fins de aplicação do art. 138 do Código Tributário Nacional, que trata de denúncia espontânea. (Súmula CARF nº 203)
Numero da decisão: 1202-002.515
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário. Assinado Digitalmente André Luis Ulrich Pinto - Relator Assinado Digitalmente Leonardo de Andrade Couto - Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Liana Carine Fernandes de Queiroz, Mauricio Novaes Ferreira, Leonardo de Andrade Couto, Jose Andre Wanderley Dantas de Oliveira, Andre Luis Ulrich Pinto e Andrea Viana Arrais Egypto.
Nome do relator: ANDRE LUIS ULRICH PINTO

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COMPENSAÇÃO. A compensação não equivale a pagamento para fins de aplicação do art. 138 do Código Tributário Nacional, que trata de denúncia espontânea. (Súmula CARF nº 203) ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário. Assinado Digitalmente André Luis Ulrich Pinto – Relator Assinado Digitalmente Leonardo de Andrade Couto – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Liana Carine Fernandes de Queiroz, Mauricio Novaes Ferreira, Leonardo de Andrade Couto, Jose Andre Wanderley Dantas de Oliveira, Andre Luis Ulrich Pinto e Andrea Viana Arrais Egypto. Fl. 635DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.515 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.905409/2017-38 2 RELATÓRIO Trata-se, na origem, da declaração de compensação nº 29346.52471.281114.1.7.02- 0347, por meio da qual a Recorrente pleiteou a utilização de crédito decorrente de saldo negativo de IRPJ relativo ao ano-calendário de 2012, no valor de R$ 4.592.984,07. O crédito pleiteado foi quase integralmente reconhecido por despacho decisório, que identificou saldo negativo disponível no valor de R$ 4.592.684,04. No entanto, conforme ao que se depreende do detalhamento da compensação (fls. 582), o crédito reconhecido foi insuficiente para homologação de todas compensações, restando saldo devedor após a homologação das compensações até o limite do crédito disponível. A Recorrente apresentou manifestação de inconformidade, argumentando pela aplicação do instituto da denúncia espontânea, o que – no seu entender - afastaria a aplicação da multa de mora. A DRJ entendeu por bem julgar improcedente a manifestação de inconformidade, por considerar que a extinção do crédito tributário, sob condição resolutória da ulterior homologação da compensação, não atrairia a aplicação do instituto da denúncia espontânea, adotando como fundamento as Soluções de Consulta COSIT nº 384/2014 e 233/2019. Irresignada, a Recorrente interpôs recurso voluntário alegando que a multa de mora seria inexigível diante da denúncia espontânea aperfeiçoada pela transmissão da declaração de compensação. Defende que: (i) antes de iniciado qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização, a própria Recorrente verificou o surgimento de montante adicional a ser recolhido a título de estimativas mensais de IRPJ e CSLL apuradas no ano-calendário de 2015; Fl. 636DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.515 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.905409/2017-38 3 (ii) diante da reapuração dos débitos, transmitiu declaração de compensação, servindo-se do instituto da denúncia espontânea; e (i) a expressão “pagamento” prevista no art. 138 do Código Tributário Nacional deve ser interpretada em um sentido amplo, admitindo-se outras formas de extinção do crédito tributário tais como a compensação, que também representa o adimplemento da obrigação. É o relatório. VOTO Conselheiro André Luis Ulrich Pinto, Relator O recurso voluntário é tempestivo, preenche os pressupostos de admissibilidade e, portanto, deve ser conhecido. Cinge-se a controvérsia sobre a aplicação do instituto da denúncia espontânea mediante declaração de compensação. A Recorrente defende que o art. 138 do Código Tributário Nacional seria plenamente aplicável ao caso em tela, de forma que a multa de mora deveria ser afastada, com a consequente homologação da compensação de todos os débitos informados na DCOMP nº 29346.52471.281114.1.7.02-0347 . Merece destaque o fato de que o acórdão recorrido foi proferido em 28/09/2022, ou seja, antes da publicação da Súmula CARF nº 203, aprovada na sessão de 26/09/2024. Dessa forma, considerando que a Súmula CARF nº 203 não foi utilizada como razões de decidir pela decisão de primeira instância, o art. 101, III do RICARF não deve ser aplicado no caso em tela. Por essa razão, o recurso voluntário deve ser conhecido. Por outro lado, analisando o mérito da demanda, tem-se que a pretensão recursal encontra um obstáculo insuperável na já citada Súmula CARF nº 203, cujo enunciado ficou a seguinte tese: Súmula CARF nº 203 Aprovada pelo Pleno da CSRF em sessão de 26/09/2024 – vigência em 04/10/2024 A compensação não equivale a pagamento para fins de aplicação do art. 138 do Código Tributário Nacional, que trata de denúncia espontânea. Acórdãos Precedentes: 9303-014.401; 9303-014.698; 9303-014.718; 9101- 006.876 A Súmula em referência é plenamente aplicável ao caso em tela, no qual se discute, justamente, a aplicação da denúncia espontânea mediante declaração de compensação. Dessa forma, nos termos da faculdade prevista no art. 114, § 12, II do RICARF, mais não é preciso dizer para fundamentar a negativa de provimento do recurso voluntário. Fl. 637DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.515 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10980.905409/2017-38 4 Assim, não sendo aplicável o instituto da denúncia espontânea, não há que se falar em exclusão da responsabilidade por infrações e afastamento da multa de mora de 20% prevista no art. 61 da Lei nº 9.430/1996. 1 CONCLUSÃO Diante do exposto, voto por não conhecer do recurso voluntário. Assinado Digitalmente André Luis Ulrich Pinto Fl. 638DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 Conclusão

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Numero do processo: 10952.720145/2013-58
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Jul 23 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Oct 07 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2008 RECURSO ESPECIAL DO CONTRIBUINTE. REQUISITOS DE ADMISSIBILIDADE. TRIBUTAÇÃO ATIVIDADE RURAL. OPÇÃO REGIME 20%. REQUISITOS DE ADMISSIBILIDADE. INTERPRETAÇÃO DIVERGENTE DA LEI TRIBUTÁRIA. DESSEMELHANÇA FÁTICA. NÃO CONHECIMENTO. A ausência de similitude fática entre o acórdão recorrido e o paradigma o torna inapto para demonstrar a divergência de interpretação, inviabilizando o conhecimento do recurso. Inexistindo divergência interpretativa inviabilizado está o conhecimento do recurso do recurso especial. A Súmula CARF nº 222, cuja observância é obrigatória, determina que no lançamento do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física (IRPF) com base na aplicação da presunção do art. 42 da Lei nº 9.430/1996, quando não comprovada a origem individualizada dos depósitos bancários, não é cabível a redução da base de cálculo da autuação a 20%, ainda que o contribuinte afirme exercer exclusivamente a atividade rural.
Numero da decisão: 9202-012.007
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial. Assinado Digitalmente Ludmila Mara Monteiro de Oliveira - Relatora Assinado Digitalmente Jorge Cláudio Duarte Cardoso - Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Francisco Ibiapino Luz, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Mário Hermes Soares Campos, Leonam Rocha de Medeiros, Miriam Denise Xavier, Juciléia de Souza Lima, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira e Jorge Cláudio Duarte Cardoso (Presidente).
Nome do relator: Ludmila Mara Monteiro de Oliveira

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REQUISITOS DE ADMISSIBILIDADE. TRIBUTAÇÃO ATIVIDADE RURAL. OPÇÃO REGIME 20%. REQUISITOS DE ADMISSIBILIDADE. INTERPRETAÇÃO DIVERGENTE DA LEI TRIBUTÁRIA. DESSEMELHANÇA FÁTICA. NÃO CONHECIMENTO. A ausência de similitude fática entre o acórdão recorrido e o paradigma o torna inapto para demonstrar a divergência de interpretação, inviabilizando o conhecimento do recurso. Inexistindo divergência interpretativa inviabilizado está o conhecimento do recurso do recurso especial. A Súmula CARF nº 222, cuja observância é obrigatória, determina que “no lançamento do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física (IRPF) com base na aplicação da presunção do art. 42 da Lei nº 9.430/1996, quando não comprovada a origem individualizada dos depósitos bancários, não é cabível a redução da base de cálculo da autuação a 20%, ainda que o contribuinte afirme exercer exclusivamente a atividade rural. “ ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial. Assinado Digitalmente Fl. 4973DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9202-012.007 – CSRF/2ª TURMA PROCESSO 10952.720145/2013-58 2 Ludmila Mara Monteiro de Oliveira – Relatora Assinado Digitalmente Jorge Cláudio Duarte Cardoso – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Francisco Ibiapino Luz, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Mário Hermes Soares Campos, Leonam Rocha de Medeiros, Miriam Denise Xavier, Juciléia de Souza Lima, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira e Jorge Cláudio Duarte Cardoso (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso especial interposto por JURANDIR DE SOUZA BOA MORTE em face do acórdão nº 2102-003.553, proferido pela Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara desta eg. Segunda Seção de Julgamento que, por unanimidade de votos, rejeitou as preliminares e, no mérito, negou provimento ao seu recurso voluntário. Colaciono, por oportuno, a ementa e o respectivo dispositivo do acórdão recorrido: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF SIGILO FISCAL. TRANSFERÊNCIA DE INFORMAÇÕES. POSSIBILIDADE. O Supremo Tribunal Federal declarou a constitucionalidade do art. 6° da LC 105/2001 e fixou o entendimento de que a Receita Federal pode receber diretamente os dados bancários de contribuintes fornecidos pelas instituições financeiras, sem necessidade de prévia autorização judicial, por não se tratar de quebra de sigilo bancário e, sim, transferência do sigilo. NULIDADE POR VÍCIOS. INOCORRÊNCIA. Não se reconhece nulidade quando não há comprovação de prejuízo ao contribuinte ou não se desrespeite matéria de ordem pública. PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. INAPLICABILIDADE. SÚMULA CARF 11. DESPESAS DA ATIVIDADE RURAL. COMPROVAÇÃO. O contribuinte deve comprovar as despesas escrituradas no livro caixa, mediante documentação idônea que identifique o beneficiário, o valor, a data da operação e que contenha a discriminação das mercadorias ou dos serviços prestados para que possam ser enquadrados como necessários e indispensáveis à manutenção da fonte produtora dos rendimentos. DESPESAS. COMPROVAÇÃO DA EFETIVIDADE DOS PAGAMENTOS. Fl. 4974DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9202-012.007 – CSRF/2ª TURMA PROCESSO 10952.720145/2013-58 3 Deve ser mantida a glosa de despesas da atividade rural para cujas notas fiscais não ficou evidenciada a efetividade dos pagamentos correspondentes, sobretudo quando tal aspecto foi objeto de intimação por parte da autoridade lançadora. ATIVIDADE RURAL. OPÇÃO DA TRIBUTAÇÃO. Não poderá o sujeito passivo alterar a opção da tributação dos rendimentos da atividade rural, mormente quando em curso um procedimento fiscal que visa apurar as omissões de rendimento da referida atividade. Dispositivo: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar e a prescrição intercorrente e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. (f. 4.984) Cientificado, apresentou o recurso especial (f. 4.915/4.927) afirmando haver dissidência interpretativa da legislação tributária com relação à tributação dos rendimentos da atividade rural, suscitando o paradigma de nº 2202-000.564. Às f. 4.955/4.660 acostado o despacho inaugural de admissibilidade que deu seguimento ao apelo especial, por entender demonstrado o dissídio. Anotado ainda que o Acórdão 2202-000.564, o qual não foi reformado, na questão sujeita ao recurso especial, até a data de sua interposição (Ricarf, art. 118, §12, II); portanto, tal acórdão pode ser utilizado, para fins de recurso especial. Registro que o Acórdão 9202-003.554 negou provimento ao recurso especial da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Contrarrazões apresentadas (f. 4.962/4.970) pretendendo “seja no mérito negado provimento ao recurso especial, mantendo-se o acórdão proferido pela e. Turma a quo por seus próprios e jurídicos fundamentos.” É o relatório. VOTO Conselheira Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Relatora. Passo à análise do preenchimento dos pressupostos de admissibilidade com relação à única matéria suscitada no apelo especial, assim sumarizada pelo despacho inaugural de admissibilidade: “os valores recebidos por produtor rural pessoa física, quando a RFB não comprova origem diversa, devem se sujeitar ao limite de 20% (vinte por cento) para mensuração do resultado tributável”. Fl. 4975DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9202-012.007 – CSRF/2ª TURMA PROCESSO 10952.720145/2013-58 4 Transcrevo as razões declinadas no apelo especial na tentativa de comprovar o dissídio jurisprudencial: As conclusões da 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara de julgamento da 2ª Seção de Julgamento do CARF (doc. 01) nos autos do Processo n. 13555.000232/2006 37 (Acórdão Paradigma n. 2202-000.564 – doc. 01), diferentemente do acórdão recorrido, são claras ao determinar que os valores recebidos por produtor rural na pessoa física, quando a RFB não comprova origem diversa, devem se sujeitar ao limite de 20% (vinte por cento) para mensuração do resultado tributável. Nesse sentido, o entendimento consolidado pelo acórdão paradigma confirma que, na ausência de comprovação de que os valores omitidos decorreriam de outra origem, a tributação deve observar a limitação imposta pela legislação, garantindo a aplicação do percentual de 20% sobre a receita bruta auferida. (sublinhas deste voto) Ao seu sentir, portanto, teria a decisão paradigmática imputado à fiscalização fazendária o ônus de comprovar a origem dos valores recebidos por produtor rural na pessoa física, de modo a afastar o limite de 20% sobre a receita auferida. Não vislumbro ser este o entendimento externado. Como bem narra o despacho inaugural de admissibilidade, [f]oi indicado como paradigma o Acórdão 2202-000.564, o qual não foi reformado, na questão sujeita ao recurso especial, até a data de sua interposição (Ricarf, art. 118, §12, II); portanto, tal acórdão pode ser utilizado, para fins de recurso especial. Registro que o Acórdão 9202-003.554 negou provimento ao recurso especial da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Da ementa do acórdão nº 9202-003.554, que chancelou a acerto da decisão paradigmática, colhe-se o seguinte: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF Ano-calendário: 2000, 2001, 2002, 2003 IRPF. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. PRODUTOR RURAL. EXCLUSIVA ATIVIDADE RURAL. REGIME DE TRIBUTAÇÃO ESPECIAL/ESPECÍFICO. Os contribuintes que, comprovadamente, exercem exclusivamente atividades rurais, estão submetidos à regime de tributação especial/específico, contemplado pela Lei nº 8.023/1990, impondo a compatibilização desta norma com o disposto no artigo 42 da Lei nº 9.430, a propósito da apuração de omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada, limitando-se, assim, a base de cálculo a 20% (vinte por cento) Fl. 4976DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9202-012.007 – CSRF/2ª TURMA PROCESSO 10952.720145/2013-58 5 da omissão apurada, nos precisos termos do artigo 5º da lei especifica retromencionada. Recurso especial negado. Excerto análogo é extraído nas razões de decidir do decisium paradigmático: Ressalvado meu entendimento em sentido contrário, este E. Colegiado tem se manifestado em oportunidades anteriores no sentido de que a limitação em questão aplica-se inclusive ao lançamento relativo à omissão de rendimentos com base na movimentação bancária não comprovada, nas hipóteses em que se trata de contribuinte dedicado exclusivamente à atividade rural. A decisão recorrida estampa a seguinte situação fática: A autoridade fiscal respeitou a opção do contribuinte pela apuração com base na escrituração do Livro Caixa, desconsiderando a tributação simplificada (20% da receita bruta), conforme previsto no art. 71 do RIR/99. As divergências encontradas decorrem de omissões de receita e escrituração incompleta, e não de arbitramento da base de cálculo. Nos termos do Acórdão recorrido: Em sua declaração de ajuste anual o contribuinte fez a opção pelo cálculo do resultado tributável da atividade rural subtraindo-se da receita bruta as despesas de custeio/investimento, em detrimento do resultado presumido (20% sobre a receita bruta da atividade). Informa a autoridade fiscal no item 4.4 - APURAÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO - do Termo de Verificação Fiscal que foi respeitada essa opção do contribuinte. Entretanto, o contribuinte clama pela nulidade da ação fiscal face a opção da forma de apuração optada pelo AFRFB autuante, através do resultado da exploração da atividade rural(diferenças entre receitas e despesas), sendo que a apuração do crédito tributário deveria ser pelo resultado presumido (20% sobre a receita bruta da atividade), visto que quando da formalização da DIRPF - exercício 2009, ano calendário 2008, o sujeito passivo não possuía elementos até então, que o levasse a opção por forma distinta da apuração do resultado. Todavia, essa possibilidade que o contribuinte tem de fazer a opção pelo modelo de tributação que seja mais favorável para a sua atividade, se pela diferença entre receitas e despesas no livro caixa ou pela aplicação de 20% diretamente sobre a receita bruta, conforme a previsão contida no art. 5º da Lei nº 8.023/90 (art. 71 do RIR/99), deve ser exercida Fl. 4977DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9202-012.007 – CSRF/2ª TURMA PROCESSO 10952.720145/2013-58 6 quando da entrega da Declaração de Ajuste Anual, no anexo da atividade rural. Neste momento processual, a solicitação do contribuinte equivale a uma retificação da declaração de ajuste anual com a alteração do regime de tributação, o que não é permitido pelas normas tributárias. Conclui-se que a retificação posterior da declaração, com alteração do regime de tributação, é vedada pela legislação e jurisprudência consolidada. Assim, o lançamento fiscal deve ser mantido quanto a este ponto. Para elidir as conclusões da decisão recorrida, deveria ter a parte Recorrente trazido acórdão paradigmático que autorizaria a alteração do regime após a entrega da Declaração de Ajuste Anual, no anexo da atividade rural. A discrepância das situações confrontadas faz com que ausente o dissídio jurisprudencial, eis que as razões de decidir da decisão paradigmática nada mencionam acerca do ponto que pretendia ver devolvido a esta eg. Instância Especial. Acrescento que, ainda que se admitisse ser a discussão eminentemente jurídica, colidiria o entendimento do paradigma com o verbete sumular de nº 222 do CARF. Ante o exposto, não conheço do recurso especial. Assinado Digitalmente Ludmila Mara Monteiro de Oliveira Fl. 4978DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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11530421 #
Numero do processo: 15540.720123/2019-49
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 27 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Oct 08 00:00:00 UTC 2026
Numero da decisão: 1101-000.235
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator. Assinado Digitalmente Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho – Relator Assinado Digitalmente Efigenio de Freitas Junior – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Roney Sandro Freire Correa, Jeferson Teodorovicz, Edmilson Borges Gomes, Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Rycardo Henrique Magalhaes de Oliveira, Efigenio de Freitas Junior (Presidente)
Nome do relator: DILJESSE DE MOURA PESSOA DE VASCONCELOS FILHO

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FAZENDA NACIONAL Assunto: Conversão do Julgamento em Diligência RESOLUÇÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator. Assinado Digitalmente Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho – Relator Assinado Digitalmente Efigenio de Freitas Junior – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Roney Sandro Freire Correa, Jeferson Teodorovicz, Edmilson Borges Gomes, Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Rycardo Henrique Magalhaes de Oliveira, Efigenio de Freitas Junior (Presidente) RELATÓRIO Trata-se de recursos voluntários (e-fls. 19624-19817; 19820-19844; 19847-19866; 19869-19887) interposto contra acórdão da 15ª Turma da DRJ07 (e-fls. 18987-19367) que julgou Fl. 20168DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 2 parcialmente procedentes impugnações (e-fls. 10689-10723; 10726-10756; 10773-10998) apresentadas em face de autos de infração de IRPJ, CSLL, PIS/COFINS MERCADO INTERNO, MULTA REGULAMENTAR, CIDE REMESSAS, CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA PATRONAL, PIS/COFINS- IMPORTAÇÃO, relativos aos anos-calendário 2014 e 2015, em que se apuram diversas infrações. Em resumo, discute-se nos presentes autos as seguintes infrações: a) Glosa de despesas que estavam registradas em centros de custos de outras empresas integrantes do Grupo HAZTEC dentro da contabilidade da Impugnante; b) Glosa de despesas que se entendeu foram feitas no interesse de outras empresas do Grupo; c) Cobrança de tributos decorrentes de suposta omissão de receitas decorrentes da manutenção de obrigações de pequena monta no passivo de forma indevida; d) Glosa de despesas financeiras de debênture emitida; e) Exclusão indevida de reversão de provisão de despesas no LALUR; f) Glosa da apropriação de despesas de pequena monta de exercícios anteriores; g) Glosa de despesas de seguro contratado em benefício da HIP; h) Glosa de deduções de pequena monta feitas partidos políticos; i) Cobrança dos tributos decorrentes de suposta omissão de receitas decorrentes de aplicações financeiras e de operação de mútuo mantida com a SERB; j) Cobrança dos tributos decorrentes do recebimento de lucros acima do limite legal, o que caracterizaria omissão de receitas não operacionais; k) Multa isolada pela não retenção de IR sobre os valores pagos à ESTRUCTURA, JA CONSULTORIA, AUBRY AMPRINO e FOXX SOLUÇÕES, sob a acusação de que os pagamentos representavam remuneração dos diretores da empresa; l) Omissão de receitas decorrente de suposto passivo fictício vinculado à pessoa física de Julius Val Morbida Stepansky; m) Não recolhimento de IRRF sobre valores pagos ao Sr. Julius em decorrência de acordo judicial trabalhista; n) Glosa de despesas incorridas na contratação de serviços com a Trial Tecnologia; o) Cobrança de PIS/COFINS/CIDE sobre importação de serviços feita junto à SALES FORCE COM e PERRY JOHNSON REGISTAR; e p) Não recolhimento de IRRF sobre valores pagos a avalistas. Cientificada do lançamento, a Recorrente apresentou impugnação em que questiona todas as infrações a ela imputadas. Inicialmente, a DRJ converteu o julgamento em diligência na Resolução 107.000.319, nos seguintes termos (e-fls. 16491-16498): Fl. 20169DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 3 Visto, relatado e discutido o processo em epígrafe, RESOLVEM os membros da Turma, por maioria de votos, CONVERTER o julgamento em DILIGÊNCIA, a fim de que a autoridade fiscal responsável pelos lançamentos tributários efetuados, ou, em caso de impossibilidade, a autoridade fiscal designada para a realização da diligência: a) quantifique os montantes dos saldos de prejuízos fiscais e de bases de cálculo negativas da CSLL acumulados em 31/12/2013 que não foram comprovados pelo interessado, e, portanto, devem ser desconsiderados para fins de compensação com os valores devidos nos anos de 2014 e 2015. b) realize a atualização dos saldos de prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas de CSLL acumulados no SAPLI (Sistema de Acompanhamento de Prejuízo Fiscal e Base de Cálculo Negativa da CSLL), conforme apurado no item anterior. No curso da diligência, foram expedidas várias intimações à contribuinte, devidamente atendidas. No Termo de Intimação nº 1 (e-fls. 16501-16502), intimou-se a contribuinte a: 2 – DA INTIMAÇÃO 2.1 – Em razão do descrito em 1.1, fica o fiscalizado, por meio do presente ato, INTIMADO a: a) informar, apartadamente por ano, os números e nomes das contas de resultado, com os respectivos valores, que foram levados para o resultado do exercício e depois excluídas nos Lalur de 2012 e 2013 sob as rubricas “Ajustes por Aumento do Valor de Investimentos Avaliados pelo Patrimônio Líquido” e “Outras exclusões”, demonstrando a totalização cujos valores foram escriturados no referido livro fiscal. No Termo de Intimação nº 2 (e-fls. 16510-16511), intimou-se a contribuinte a: 2.1 – Em razão do descrito em 1.1, fica o fiscalizado, por meio do presente ato, INTIMADO a: a) informar, apartadamente por ano, os números e nomes das contas de resultado, com os respectivos valores, que foram levados para o resultado do exercício e depois adicionadas nos Lalur’s de 2012 e 2013, demonstrando a totalização cujos valores foram escriturados nº referido livro fiscal; b) informar, apartadamente por ano, os números e nomes das contas de resultado, com os respectivos valores, que foram levados para o resultado do exercício e depois adicionadas ou excluídas nos Lalur’s referentes aos anos- calendário 2009, 2010 e 2011, demonstrando a totalização cujos valores foram escriturados no referido livro fiscal; c) apresentar ata da assembleia que fundamentou o lançamento referente ao ganho de capital na alienação da participação da empresa TARGET. Fl. 20170DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 4 No Termo de Intimação nº 3 (e-fls. 16523-16525), intimou-se a contribuinte a: 1.1 - No exercício das funções de Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil, na forma do disposto no art. 7º da Lei nº 2.354/54, regulamentado pelos art. 949, 950, 956, 971 e 972 do Decreto 9.580/2018 e no art. 7º do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, verificou-se que: 1) no ano-calendário 2013, as contas “48000100 - CUSTOS VENDA HZT” e “48000200 -CUSTOS VENDA HAZ” tiveram valores levados para a apuração do resultado do exercício e não houve qualquer tipo de ajuste no Lalur referente a esses valores, bem como não foi possível identificar os registros de receitas decorrentes das citadas vendas de ativos que ensejaram os referidos “custos”. Dessa forma, os dados escriturados requerem esclarecimentos caso a empresa entenda que a influência destas contas na apuração do IRPJ e CSLL naquele período está correta. 2) Outrossim, mister se faz obter informações “46000118 - GASTOS COM DEBENTURES” escriturada em 2013, caso a empresa entenda que a influência destas contas na apuração do IRPJ e CSLL naquele período está correta. 3) Em relação ao ano-calendário 2012, as contas “47000700 - OUTRAS DESPESAS NAO OPERACIONAIS” e “47000800 - RESULTADO COM AVALIACAO ATIVO IMPAIRMENT” também requerem esclarecimentos caso a empresa entenda que a influência destas contas na apuração do IRPJ e CSLL naquele período está correta. 4) Em relação aos anos-calendário 2009, 2010, 2012 e 2013 mister se faz observar os documentos que fundamentaram os lançamentos contábeis iguais ou superiores a R$ 500,00 (quinhentos reais) na conta “46000107 – IOF”. 5) Em atenção ao Termo de Intimação nº 02, a interessada apresentou ata citada nº lançamento contábil referente à alienação da TARGET, porém, mister se faz observar os documentos financeiros, comerciais e administrativos que fundamentem os valores lançados. 1.2 Por outro lado, a fim de evitar demandas desnecessárias, fica facultado à interessada informar a inexistência de arquivos ou documentos relativos a determinado ano-calendário compreendido nº período de 2009 a 2013 2 – DA INTIMAÇÃO 2.1 – Em razão do descrito em 1.1, fica o fiscalizado, por meio do presente ato, INTIMADO a: a) em relação ao item “1”, apresentar todos os documentos financeiros, comerciais e administrativos que fundamentaram cada um dos lançamentos verificados nas citadas contas; b) em relação ao item “2”, apresentar todos os documentos financeiros, comerciais e administrativos que fundamentaram os lançamentos verificados na citada conta; Fl. 20171DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 5 c) em relação ao item “3”, apresentar todos os documentos financeiros, comerciais e administrativos que fundamentaram os lançamentos verificados nas citadas contas; d) em relação ao item “4”, apresentar todos os documentos que fundamentaram os lançamentos contábeis iguais ou superiores a R$ 500,00 (quinhentos reais) na referida conta durante os anos citados; e) em relação ao item “5”, apresentar todos os documentos financeiros, comerciais e administrativos que possam fundamentar os valores lançados relativamente à alienação da TARGET. Ao final, foi exarada a Informação Fiscal n. 1 (e-fls. 16801-16820) em que se reapurou o prejuízo fiscal ano a ano a partir de 2009 1. A presente informação é prestada em atendimento à Resolução 107-000319 da 15º Turma da DRJ07 que, em suma, solicitou a quantificação dos saldos de prejuízos fiscais e de bases de cálculo negativas da CSLL acumulados em 31/12/2013 para fins de compensação com os valores devidos nos de 2014 e 2015, além da atualização dos saldos no SAPLI. 2. Esta quantificação foi efetuada na medida que a contabilidade e as informações prestadas pela ora diligenciada permitiram, ressalvando que a fiscalização, em função das resposta da fiscalizada na época, considerou que a contabilidade da fiscalizada pretérita ao período autuado não tinha suporte em documentação necessária para comprovação dos fatos. 3. Contudo, a fim de cumprir a Resolução, a fiscalização intimou a fiscalizada a apresentar documentos que pudessem fundamentar os valores que compuseram a evolução do saldo de lucro/prejuízo fiscal até o final do exercício de 2013. 4. Resumidamente ao longo da diligência foi solicitado que a empresa demonstrasse quais contas que compuseram o resultado contábil foram objeto de ajuste no LALUR e que fossem apresentados por amostragem documentos que fundamentaram lançamentos em contas de resultado no período de 2009 a 2013. (...) 7. A fim de que reste claro o desenvolvimento e aferição dos saldos, convém ressalvar que a apuração no LALUR é precedida da apuração contábil, portanto o valor do lucro/prejuízo que será ajustado e sofrerá adições ou exclusões é aquele que adveio da apuração do resultado contábil. 8. A fim de que reste claro as aferições, a fiscalização fará progressivamente apuração ano a ano a fim de que se possa verificar progressivamente o resultado obtido ao final do ano de 2013, e, dessa forma, inicia-se a apuração dos saldos a partir do ano-calendário 2009 que a fiscalizada efetuou apurações no LALUR em junho, novembro e dezembro. (...) Fl. 20172DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 6 88. Dessa forma, o saldo do prejuízo fiscal em 31/12/2013 é de, no máximo, R$44.702.269,31. 89. Ante o exposto, sinteticamente, os valores relativos ao ano de 2013 trabalhados neste tópico seriam representados da seguinte forma 90. Por fim, tendo prestado as informações requeridas e atualizado o Sistema SAPLI, será efetivada a ciência dessa informação à autuada que terá o prazo de 30 dias para apresentar eventual manifestação e após o referido prazo haverá a devolução dos autos ao órgão julgador Intimada, manifestou-se a contribuinte a respeito da diligência realizada em Manifestação (e-fls. 16831-16875), acompanhada dos documentos de fls. 16.876 a 18.834. Em Informação (e-fls. 18842-18848), o Ilmo. Relator do processo na DRJ teceu uma série de considerações que, no seu entender, demandariam a devolução dos autos à autoridade de origem, para prestar esclarecimentos acerca de várias das conclusões apontadas no relatório de diligência. Essa proposta do Relator foi aprovada na Resolução 107.000.455 (e-fls. 18849): Vistos, relatados e discutidos os autos do processo em epígrafe, RESOLVEM os membros da Turma, por unanimidade de votos, APROVAR as propostas do Relator, contida na INFORMAÇÃO FISCAL de fls. 18.842 a 18.848, no sentido de DEVOLVER o feito ao órgão preparador, a fim de que sejam promovidos pelo fiscal designado para o cumprimento da diligência todos os procedimentos que entender necessários para esclarecimentos das questões levantadas. Se após as verificações houver modificação nos saldos de Prejuízo Fiscal e base negativa de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido deve ser promovida a correspondente alteração e demonstrado por ano, bem como os saldos finais. Neste caso efetuar as atualizações no e-SAPLI. Após a conclusão da diligência a contribuinte deve ser informada do seu resultado e de que tem a opção de, em até 30 (trinta) dias, se manifestar. Na nova Informação nº 2 (e-fls. 18851-18862), a autoridade de origem alterou substancialmente o resultado da diligência, modificando também o saldo de prejuízos fiscais: 27. Considerando que dos pontos apontados na Resolução da DRJ, não se verificou qualquer outro valor que ensejasse modificação dos valores expostos na primeira informação prestada, cumpre informar que o saldo de prejuízo fiscal em 2013 com valores atualizados seria de R$ 80.281.152,76, conforme tabela abaixo: Fl. 20173DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 7 28. Por fim, como já houve a utilização de prejuízo, o saldo final do SAPLI ficou da seguinte forma: 29. Dessa forma, tendo prestado as informações requeridas e atualizado o Sistema SAPLI, será efetivada a ciência dessa informação à autuada que terá o prazo de 30 dias para apresentar eventual manifestação e após o referido prazo haverá a devolução dos autos ao órgão julgador. Novamente intimada, a contribuinte se manifestou às e-fls. 18869-18916, efetuando a juntada de novos documentos (e-fls. 18917-18982). A DRJ proferiu acórdão que restou a seguir ementado: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 11/05/2023 PRELIMINAR DE NULIDADE. MÉTODO ADOTADO PARA APURAÇÃO DA BASE TRIBUTÁVEL. Eventual erro de apuração da base tributável não torna nula a autuação. Enseja, apenas, que seja afastada da exação a parte improcedente. ATIVIDADE DE JULGAMENTO. ACÓRDÃOS DO CARF. DECISÕES DE TRIBUNAIS SUPERIORES. VINCULAÇÃO DO JULGADOR. Os Julgadores da primeira instância administrativa federal não estão vinculados a julgados administrativos e judiciais sem alcance erga omnes. NULIDADE. INFRAÇÃO MENCIONADA NA AUTUAÇÃO SEM A CORRESPONDENTE DESCRIÇÃO DOS FATOS. É nula a parte do lançamento que apenas faz menção à infração mas não contém a descrição dos fatos. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2014, 2015 LANÇAMENTOS CONTÁBEIS.DOCUMENTAÇÃO HÁBIL PARA COMPROVAÇÃO. O histórico de um lançamento contábil nada prova se não for apresentada documentação hábil e idônea que corrobore seu conteúdo. Fl. 20174DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 8 HOLDING. DISPÊNDIOS COM CONSULTORIA PARA RECUPERAÇÃO ECONÔMICO- FINANCEIRA DE CONTROLADA PARA FUTURA ALIENAÇÃO. DESPESA DESNECESSÁRIA. A contratação de serviços de consultoria visando a recuperação econômicofinanceira de determinada empresa interessa aos seus acionistas, sejam estas pessoas físicas ou jurídicas, mas é uma despesa necessária para a empresa que necessita desse reequilíbrio. Através de sua influência volitiva o acionista majoritário pode determinar que sua controlada contrate tais serviços, mas, quando ele próprio assim o faz, paga despesa necessária de outra entidade, o que caracteriza mera liberalidade. DESPESAS COM ENCARGOS DE DEBÊNTURES LIGADAS A PROJETOS DE OUTRAS EMPRESAS DO MESMSO GRUPO EMPRESARIAL. Despesas de encargos com Debêntures cujos recursos estão ligados a projetos de investimentos de outras empresas subsidiárias são desnecessárias para a controladora que as registra em sua escrita contábil como se suas fossem. DESPESAS COM SEGUROS DE INTERESSE DE SUBSIDIÁRIAS. São desnecessárias despesas com seguros arcadas pela controladora quando o objetivo é proteger seus executivos em face de possíveis danos que eles causarem por culpa. DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS. EMPRESA TRIBUTADA PELO LUCRO PRESUMIDO COM APURAÇÃO DE RECEITAS PELO REGIME DE CAIXA. ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL PELO REGIME DE COMPETÊNCIA. TRIBUTAÇÃO DOS VALORES EXCEDENTES AO LUCRO PRESUMIDO. Os valores distribuídos aos sócios, excedentes ao lucro presumido da pessoa jurídica, não se sujeitam à incidência do imposto de renda quando a fonte pagadora é tributada pelo lucro presumido e adota o regime de caixa para reconhecimento de suas receitas, desde que a escrituração contábil da empresa aponte a existência de lucro superior ao presumido. PASSIVO NÃO COMPROVADO. OMISSÃO DE RECEITA. A presunção legal de omissão de receitas com base na manutenção, no passivo, de obrigações cuja exigibilidade não seja comprovada (passivo não comprovado), caracteriza-se no momento do registro contábil do passivo, tributando-se a irregularidade no período de apuração correspondente. PREJUÍZO FISCAL. DECADÊNCIA; A decadência de cinco anos prevista nos artigos 150, §4º e 173 do CTN é para constituição do crédito tributário, e não para verificação dos valores atribuídos ao patrimônio do sujeito passivo, cuja modificação possa repercutir em redução de bases tributáveis, como o direito à compensação dos saldo negativos de prejuízo fiscal e base negativa da CSLL. Fl. 20175DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 9 Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2014, 2015 TRIBUTAÇÃO CORRELATA Sendo uma mesma infração que ensejou tributação de IRPJ fato gerador que enseja a incidência de outro tributo, a mesma sorte terá o auto de infração correlato observada sua base de cálculo, período de apuração e alíquota própria. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano- calendário: 2014, 2015 TRIBUTAÇÃO CORRELATA Sendo uma mesma infração que ensejou tributação de IRPJ fato gerador que enseja a incidência de outro tributo, a mesma sorte terá o auto de infração correlato observada sua base de cálculo, período de apuração e alíquota própria. COFINS – IMPORTAÇÃO. SOFTWARE AS A SERVICE. SERVIÇO TÉCNICO. TRIBUTAÇÃO. Caracterizado que os valores pagos, creditados, remetidos, entregues, ou empregados à SALES FORCE se referem a autorizações de uso e acesso a Software as a Service (Saas), considerados serviços técnicos, há incidência da Cofins Importação. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ano-calendário: 2014, 2015 TRIBUTAÇÃO CORRELATA Sendo uma mesma infração que ensejou tributação de IRPJ fato gerador que enseja a incidência de outro tributo, a mesma sorte terá o auto de infração correlato observada sua base de cálculo, período de apuração e alíquota própria. PIS-IMPORTAÇÃO. SOFTWARE AS A SERVICE. SERVIÇO TÉCNICO. TRIBUTAÇÃO Caracterizado que os valores pagos, creditados, remetidos, entregues, ou empregados à SALES FORCE se referem a autorizações de uso e acesso a Software as a Service (Saas), considerados serviços técnicos, há incidência do PIS Importação. Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF Ano-calendário: 2014, 2015 TRANSPORTE, ALIMENTAÇÃO, HABITAÇÃO. REMUNERAÇÃO DOS BENEFICIÁRIOS. As despesas com benefícios e vantagens concedidos pela empresa a administradores, diretores , gerentes e seus assessores, pagos diretamente ou através da contratação de terceiros, tais como aquisição de alimentos ou quaisquer outros bens para utilização pelo beneficiário fora do estabelecimento da empresa, os pagamentos relativos a clubes e assemelhados, os salários e respectivos encargos sociais de empregados postos à disposição ou cedidos pela empresa, a conservação, custeio e a manutenção de veículos utilizados por estas pessoas e imóveis cedidos para seu uso integrarão sua remuneração, sujeitando- se à retenção do IRRF calculado com base na tabela progressiva. DECADÊNCIA. PRAZO PARA O LANÇAMENTO. Fl. 20176DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 10 Constatada ausência de dolo o prazo para a constituição do crédito tributário pela Fazenda Pública é o previsto no § 4º do artigo 150 do Código Tributário Nacional (CTN). Assunto: Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico - CIDE Ano- calendário: 2014, 2015 SOFTWARE AS A SERVICE. SERVIÇO TÉCNICO. TRIBUTAÇÃO Incide a Cide, à alíquota de dez por cento, sobre os valores pagos, creditados, entregues, empregados ou remetidos, a cada mês, a residentes ou domiciliados no exterior, decorrentes de autorizações de uso e acesso a Software as a Service (SaaS), considerados serviços técnicos, que dependem de conhecimentos especializados em informática e decorrem de estruturas automatizadas com claro conteúdo tecnológico. Foram opostos embargos inominados pelo setor responsável pelas informações de resultado de julgamento, SEINJ/DRJ07/RJO, tendo sido exarado o despacho de fls. 19.440/19.441. Os embargos foram acolhidos pela DRJ, em Acórdão 107-023.332 (e-fls. 19475- 19492): EMBARGOS INOMINADOS. ACÓRDÃO 107-023.143/2023. ADMISSIBILIDADE E EFEITOS. Constatada a ocorrência de premissa equivocada ou lapso manifesto que induziu o Colegiado a erro e influenciou o resultado do julgamento, acolhem-se os embargos atribuindo-lhes efeito modificativo. Cientificados, contribuinte e responsáveis apresentaram recursos voluntário em que repisam as alegações da impugnação. Apreciando o caso, este Colegiado proferiu a Resolução 1101-000.213 em sessão de 29/01/2026. Entendendo que seria necessário, dentre outras coisas, realizar esclarecimentos acerca do prejuízo fiscal do ano de 2011, foi determinado que a fiscalização, inclusive mediante intimação prévia da Recorrente, efetuasse a reapuração do prejuízo fiscal de 2011: Diante dessas questões, entendo que o melhor encaminhamento à esta altura processual é a conversão dos autos em diligência, a fim de que a autoridade, inclusive mediante intimação da Recorrente para complementação de documentos e informações necessárias: a)Efetue a reapuração do prejuízo fiscal relativo apenas ao ano-calendário 2011, a partir dos documentos disponíveis nos autos, notadamente ECD substitutiva, balancetes, LALUR, DIPJ, bem como recalculando o saldo final disponível passível de compensação com os valores lançados nos presentes autos; b)Verifique se é possível, para os documentos relativos à prestação de serviços realizada pela FOXX SOLUÇÕES AMBIENTAIS, vincular pagamentos e comprovantes de realização dos serviços, nota a nota, os quais não foram avaliados de forma individualizada Fl. 20177DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 11 c)Efetuar a análise individualizada das despesas relativas à infração de apropriação de despesas de terceiro, a partir dos documentos disponíveis nos autos; Ao final, deve ser intimado o contribuinte para que se manifeste no trintídio legal, retornando-se os autos a este CARF para julgamento. Foi proferida Informação Fiscal (e-fls. 19928-19939) em que o Ilmo. AFRFB – sem intimação prévia da contribuinte – concluiu: 8. Diante desta situação, cabe deixar claro que a ECD apresentada em 09/07/2015 é a escrituração que não contém qualquer dado relativo ao mês de dezembro de 2011, portanto, inexiste escrituração de receitas e despesas relativas a dezembro de 2011 que alterou o valor do patrimônio líquido, demonstrado no Termo de Intimação nº 07, em mais de R$ 213 milhões, entre o fim de novembro de 2011 e início de janeiro de 2012. 9. Com a devida vênia, a fiscalização informa que não possui qualquer elemento que possa proceder “com relativa segurança a reapuração do prejuízo fiscal naquele anocalendário”, pois a escrituração do LALUR e declarações dependem da contabilidade e neste caso há um “buraco” em dezembro de 2011 que impede eventual apuração confiável de lucro/prejuízo naquele ano-calendário. 10. Para a fiscalização, os valores descritos no LALUR naquele ano-calendário não possuem fundamento na contabilidade pela pura e simples inexistência de escrituração completa de receitas e despesas que influenciaram o resultado do exercício 2011. (...) 12. Em relação ao segundo item, há a solicitação para que seja verificada a possibilidade, para os documentos relativos à prestação de serviços realizada pela FOXX SOLUÇÕES AMBIENTAIS, vincular pagamentos e comprovantes de realização dos serviços, nota a nota, os quais não foram avaliados de forma individualizada. (...) 23. Por fim, o terceiro item solicita que se efetue a análise individualizada das despesas relativas à infração de apropriação de despesas de terceiros, a partir dos documentos disponíveis nos autos; 24. Ensejando este item consta o parágrafo onde a conselheira assim discorre: “Outras questões igualmente demandam maior aprofundamento. Relativamente à infração de que a Recorrente teria apropriado despesas de terceiros em seu centro de custo, com efeito a fiscalização efetuou o lançamento de forma “global”, a partir de uma análise amostral inicial, mas não o fez de forma individualizada, ainda que se tenha reconhecido (e também pela DRJ) que havia comprovação ao menos parcial de que parte das despesas lançadas era efetivamente da Recorrente.”. 25. No que se refere a este item, a fiscalização está consoante ao acordão proferido pela DRJ e não encontrou qualquer outro elemento no recurso Fl. 20178DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 12 voluntário que ensejasse reparo ao referido acórdão em relação à apropriação de despesas de terceiros. 26. Dessa forma, tendo prestado as informações requeridas, será efetivada a ciência dessa informação à interessada que terá o prazo de 30 dias para apresentar eventual manifestação. Intimada após a diligência, a Recorrente se manifestou (e-fls. 19950-19961). É o relatório. VOTO Conselheiro Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Relator Os recursos voluntários são tempestivos e preenchem os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, deles tomo conhecimento. Não obstante a anterior conversão em diligência do julgamento ainda pela DRJ, e as duas sucessivas Informações Fiscais produzidas pela instância de origem naquela ocasião, entendo que o melhor julgamento do feito prescinde, todavia, da melhor fixação de determinadas premissas fáticas e documentais que, em meu sentir, não restaram suficientemente claras e são necessárias ao julgamento do feito, haja vista a complexidade da autuação e a concomitância de várias infrações. É de se notar, nesse sentido, que, no julgamento da DRJ, além do substancioso voto do Ilmo. Relator (páginas 1-362 daquele acórdão), foram proferidas Declarações de Voto (e-fls. 362-381) por todos os outros três julgadores componentes daquela Delegacia de Julgamento, cada uma delas sobre aspecto distinto das infrações, o que evidencia a complexidade do processo e a pluralidade de interpretações possível a partir do acervo fático probatório. Diante desse cenário, este Colegiado proferiu resolução em que consignou três questões que mereceriam reanálise do acervo fático-probatório: (a) a questão da reapuração do prejuízo fiscal de 2011; (b) questão da comprovação dos serviços da FOXX SOLUÇÕES AMBIENTAIS; (c) análise individualizada das despesas relativas à infração de apropriação de despesas de terceiro, a partir dos documentos disponíveis nos autos. A Resolução restou com o seguinte dispositivo: Diante dessas questões, entendo que o melhor encaminhamento à esta altura processual é a conversão dos autos em diligência, a fim de que a autoridade, inclusive mediante intimação da Recorrente para complementação de documentos e informações necessárias: a)Efetue a reapuração do prejuízo fiscal relativo apenas ao ano-calendário 2011, a partir dos documentos disponíveis nos autos, notadamente ECD substitutiva, Fl. 20179DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 13 balancetes, LALUR, DIPJ, bem como recalculando o saldo final disponível passível de compensação com os valores lançados nos presentes autos; b)Verifique se é possível, para os documentos relativos à prestação de serviços realizada pela FOXX SOLUÇÕES AMBIENTAIS, vincular pagamentos e comprovantes de realização dos serviços, nota a nota, os quais não foram avaliados de forma individualizada c)Efetuar a análise individualizada das despesas relativas à infração de apropriação de despesas de terceiro, a partir dos documentos disponíveis nos autos; Ao final, deve ser intimado o contribuinte para que se manifeste no trintídio legal, retornando-se os autos a este CARF para julgamento. Atendendo-se à Resolução, foi proferida Informação Fiscal (e-fls. 19928-19939). Vejamos. Em primeiro lugar é de se observar que a referida Informação Fiscal foi prolatada sem qualquer intimação do contribuinte para esclarecimentos ou apresentação de documentos, recomendação que havia sido expressamente incluída por este Colegiado no dispositivo da Resolução acima mencionada. Com relação ao item “b”, que diz respeito à comprovação dos serviços da empresa FOXX SOLUÇÕES AMBIENTAIS, acusada de ser empresa “noteira” para encobrir remuneração dos diretores da empresa, apontou-se na Resolução que, na ocasião do procedimento fiscal, solicitou- se à empresa a apresentação das notas fiscais, dos contratos, os comprovantes bancários e os comprovantes da efetividade da locação de equipamentos, documentos que foram efetivamente apresentados, ainda que de forma parcial pela Recorrente. Entendendo que havia elementos de “alguma materialidade”, este Colegiado apontou que o ideal seria que a fiscalização esclarecesse se tais documentos permitiriam vinculação individualizada entre si (isto é, pagamentos a outros documentos, como boletins de medição, notas fiscais e comprovantes de locação dos equipamentos). Sobre o tema, a fiscalização expôs nas páginas 6-11 da Informação Fiscal os seguintes pontos: 14. Preliminarmente, cumpre esclarecer que só houve uma nota fiscal de venda de equipamentos e uma fatura de locação de equipamento (que ensejou o único boletim de medição) emitido pela FOXX SOLUÇÕES para a HAZTEC e ambos foram emitidos em janeiro de 2015, ou seja, não houve prestação de serviços da FOXX SOLUÇÕES para a HAZTEC. 15. Convém ressalvar que o contrato de locação apresentado pelo contribuinte fora celebrado em abril de 2013, ou seja, praticamente dois anos antes da emissão do relatório de medição e da fatura de locação, porém este contrato apresentado não contém qualquer registro público e/ou reconhecimento de Fl. 20180DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 14 firmas de forma que não é possível atestar efetivamente a data das assinaturas apostas. 16. Outrossim, considerando que ao longo de 2014 não houve qualquer emissão de fatura de locação e, por conseguinte, relatório de medição, pode-se inferir que os equipamentos teoricamente locados não estavam em posse da HAZTEC antes de dezembro de 2014 e, também, não foram mais utilizados ao longo de 2015, pois não houve mais qualquer emissão de fatura de locação e boletim de medição. 17. Neste sentido, cumpre destacar que para os pagamentos realizados ao longo de 2014 não houve qualquer apresentação de documentos que pudessem fundamentá-los, restando clara a transferência patrimonial da HAZTEC para o seu corpo dirigente com a utilização das camadas geradas pelas empresas que eles controlavam, incluindo a FOXX SOLUÇÕES: 18. Noutro giro, em relação aos pagamentos efetuados em 2015, não há a identificação dos bens automotores locados como número de placas e chassis ou qualquer outra identificação singular do equipamento supostamente locado. 19. A Haztec também não comprovou o efetivo recebimento, utilização e devolução dos bens. 20. Como já dito, os documentos apresentados foram genéricos sem a identificação precisa dos bens, em tese, locados (número de placas, chassis, etc): Em que pese a arguição da Recorrente em sua manifestação de que a diligência não fora cumprida, entendo que a questão foi agora suficiente e detalhadamente exposta pela diligência, restando esclarecidos os fatos relativos à empresa em questão. Com efeito, a matéria encontra-se então madura para julgamento, à luz do acervo probatório constante dos autos e será objeto de análise deste Colegiado, inclusive à luz do que a Recorrente trouxe recentemente aos autos sobre o tema. A questão agora é, então, a apreciação do acervo probatório disponível, não mais de produção de novas provas ou informações. Da parte da fiscalização, esclareceu-se o que cabia. Por parte do contribuinte, já houve a oportunidade de provar de forma concatenada o que alega. Rememoro que provar não é alegar; anexar documentos tampouco é provar. Cabe às partes, de forma estruturada e organizada, expor suas razões à luz dos elementos dos autos. Tema, portanto, maduro para julgamento. Com relação ao item “c” da Resolução, relativo à acusação de apropriação de despesas de terceiro, este Colegiado vislumbrou que o lançamento havia sido feito a partir de uma análise amostral, mas não de forma individualizada por pagamento. Esse fato foi considerado relevante, na medida em que a fiscalização, e a própria DRJ, reconheceram que havia comprovação ao menos parcial de que parte das despesas lançadas era efetivamente da Recorrente. Fl. 20181DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 15 Sobre este item, a Informação Fiscal se manifestou nos seguintes termos: 25. No que se refere a este item, a fiscalização está consoante ao acordão proferido pela DRJ e não encontrou qualquer outro elemento no recurso voluntário que ensejasse reparo ao referido acórdão em relação à apropriação de despesas de terceiros. Como se nota, basicamente a Informação reiterou sua convicção quanto à viabilidade da imputação da infração a partir da metodologia adotada na fiscalização, à luz do acervo probatório que dispunha. Trata-se, portanto, de fixação do seu critério jurídico para o lançamento, que, de fato, é insuscetível de modificação ou aperfeiçoamento pela instância julgadora. Em que pese a alegação da Recorrente de que a diligência não foi cumprida, descabe qualquer novo revolvimento do acervo probatório a esta altura. A questão a ser colocada a este Colegiado é, agora, decidir pela legalidade ou ilegalidade da imputação tributária nos termos em que feita. A viabilidade e validade do lançamento quanto à infração devem, então, ser objeto de análise por este Colegiado na apreciação do recurso voluntário. Tema, portanto, maduro para julgamento. Por outro lado, com relação ao item “a” da Resolução, relativo aos prejuízos, entendo que a Informação Fiscal não atendeu adequadamente ao determinado por este Colegiado. Vejamos. De início, reitero que o tema do saldo de prejuízos fiscais passível de aproveitamento no processo foi objeto de seguidas diligências por determinação da DRJ. Rememorando, quando da primeira Resolução determinada pala DRJ, já determinou a DRJ que se realizasse a atualização dos saldos de prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas de CSLL acumulados no SAPLI (Sistema de Acompanhamento de Prejuízo Fiscal e Base de Cálculo Negativa da CSLL). Naquela ocasião, contudo, realizou-se uma diligência de caráter bastante amplo, na qual basicamente se revisaram todas as apurações dos anos de 2009 até 2013, em nítido prejuízo à adequada instrução processual e potencial dano à adequada defesa por parte do contribuinte, seja pelo deslocamento do foco, seja pela infinidade de documentos acostados aos autos. Veja-se que, na época, a própria DRJ reconheceu que a diligência extrapolou e muito a determinação original, fazendo as seguintes considerações: c) o D. Julgador definiu o escopo da diligência a ser feita como sendo a quantificação da parcela dos ágios que não foram comprovadas pela Requerente, a fim de que a glosa somente se restringisse a essa parcela do ágio, pois, repita-se, nº entendimento que se sagrou vencedor na 15ª Turma da DRJ07, não se faz Fl. 20182DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 16 possível a glosa da integralidade dos prejuízos fiscais da Requerente. (parágrafo 37 às fls. 16846) d) entretanto, incorrendo em patente vício, o Agente Fiscal não apenas desbordou dos limites da diligência fiscal, mas, ao contrário, em sede de diligência fiscal pretendeu realizar uma ampla fiscalização de todos os componentes que interferiram na formação do prejuízo fiscal no período entre 2009 e 2013, chegando ao ponto de, de forma parcial e violadora do direito à ampla defesa da Requerente, refazer a apuração de imposto de renda da Requerente no período examinado. (parágrafo 37, fls. 16846) Tanto que o Ilmo. Julgador Relator observou: Como já mencionei, a Resolução 107-000.319, às fls. 16491, determinou que em diligência fossem quantificados os montantes dos saldos de PF e BCNCSLL acumulados em 2013, que não foram comprovados pelo interessado e, portanto, devem ser desconsiderados para fins de compensação com os valores devidos nos anos de 2014 e 2015. Ou seja, a diligência deveria focar-se nos assuntos que constaram das intimações feitas na fase da ação fiscal, e não em outras apurações. Analisarei os resultados das diligências, portanto, tendo por norte o exigido na primeira intimação acompanhada de sua motivação, e cricunscrito ao que foi apurado pelas intimações durante a ação fiscal. E, em voto vencido, o Ilmo. Julgador Guilherme Henrique da Silva Ribeiro apontou: Consultando os autos, é fácil perceber que a autoridade fiscalizadora, em resposta às diligências efetuadas, praticamente reapurou os prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL declarados pelo interessado nos anos-calendário anteriores aos da autuação, fazendo uma análise, inclusive, das exclusões e adições ao lucro líquido destes períodos, o que, obviamente, se traduz numa clara inovação, já que a fiscalização, conforme se extrai dos autos, estava restrita a fatos ocorridos no ano-calendário de 2017. Ainda que o nobre relator em seu detalhado e minucioso voto, constato, tenha se restringido ao escopo inicial das diligências, qual seja, a verificação da existência de ágios informados pelo interessado em anos-calendário anteriores à autuação e o quanto representavam no montante total dos prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL declarados nestes anos-calendário anteriores, ainda assim, penso que estaria se inovando, não nos fundamentos legais da autuação, mas com relação à questão específica dos prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL de anos anteriores. Sem querer me alongar sobre o tema, em síntese, tenho a convicção de que uma diligência deve se prestar apenas a esclarecer dúvidas acerca de matérias controversas nos autos, e não para, como ocorreu in casu, possibilitar que se Fl. 20183DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 17 reabra uma nova fiscalização que transborde em outras temáticas antes não abordadas. Portanto, para que não haja qualquer prejuízo ao interessado, em observância plena ao princípio da estrita legalidade que deve nortear o processo administrativo fiscal, entendo, divergindo do ilustre relator em seu excelente voto, que deva ser compensado 30% dos prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL dos respectivos saldos acumulados em 2013 que eventualmente constem do SAPLI, sistema da Secretaria da Receita Federal do Brasil. Em que pese tais ponderações, a reapuração dos saldos foi feita, mas sem considerar o ano-calendário de 2011. Naquela ocasião, especificamente quanto ao ano de 2011, o Agente Fiscal afirmou na época que não lhe foi possível o exame da ECD apresentada pela Requerente de forma substitutiva em 09/07/15, porque não contemplava o mês de dezembro daquele ano, pelo que lhe teria faltado “instrumento mínimo” para as análises a serem feitas com relação ao ano de 2011. Inclusive, no Termo de Intimação nº 11 proferido na ocasião, o Agente Fiscal intimou a Requerente a, com relação à ausência do mês de dezembro na ECD do ano de 2011, reapresentar a ECD, refazendo o LALUR e reapresentando-o no formato PDF, caso tivesse ocorrido alguma alteração que impactasse nos ajustes efetuados nos livros já apresentados anteriormente. Em resposta, a Recorrente esclareceu que o equívoco fora cometido apenas com relação ao mês de dezembro do ano de 2011 e, ainda naquela oportunidade, tendo em vista que ECD substitutiva entregue em 09/07/15 não alterou nenhum dado contábil, solicitou-se alternativamente que fosse considerada a ECD entregue em 17/02/2014, pois os seus dados estavam completos e em consonância com as informações contidas na DIPJ e LALUR. Todavia, o voto vencedor da DRJ consignou que “comungo do entendimento fiscal de que, se a contabilidade não contém os lançamentos de um mês do ano-calendário de 2011, como saber se os saldos de PF e BNCSLL refletem integralmente e de maneira fidedigna valores que deveriam ter sido adicionados ou excluídos?”. Como se nota, a questão que impediu a apuração do saldo do ano-calendário 2011 teria sido a falta de dados do mês de dezembro, sendo que a contribuinte, além de ter fornecido os documentos fiscais e contábeis, deu alternativa à fiscalização: utilizar a ECD original em lugar da retificadora, uma vez que não foram alterados os dados contábeis. Ao final, seguiu-se o julgamento pela DRJ sem a consideração do prejuízo fiscal daquele ano. Apreciando o caso, este Colegiado ponderou em Resolução que a própria amplitude da revisão promovida pela diligência já deveria ter coberto a questão da ECD entregue anteriormente e ter-se chegado a algum número de prejuízo; sendo imprópria a desconsideração total. Ora, se realizado tamanho esforço para recompor a apuração de 2009, 2010, 2012 e 2013, inclusive sob severos questionamentos da DRJ de que o escopo da diligência foi em muito Fl. 20184DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 18 ultrapassado, caberia que, para o ano de 2011, houvesse sido fixado algum número, sobretudo quando a própria fiscalizada deu a informação de que a ECD retificadora poderia ser desconsiderada como alternativa. Como se nota, a questão dos prejuízos fiscais ao longo dos exercícios foi objeto de controvérsia previamente à diligência, durante a diligência e no julgamento pela DRJ. O fato é que, a meu ver, fixado pela DRJ que a diligência era “aproveitável”, ainda que com limitações, não caberia a desconsideração integral de 2011. Isso porque a contribuinte aduz e demonstra com alguma verossimilhança, reconhecida pela própria fiscalização, que havia algum saldo de prejuízo fiscal de 2011, que, considerado nos saldos do período objeto de análise, 2009 a 2013, resultaria em um prejuízo em 31/12/2013 maior e, consequentemente, disponível para maior redução do crédito tributário lançado nestes autos. A questão sensível é, portanto, a seguinte: já que houve uma ampliação indevida da diligência de apuração do prejuízo fiscal, reapurando-se o IRPJ/CSLL de 2009 a 2013, essa ampliação não pode ter o condão de desconsiderar um dos anos e redundar em prejuízo ao contribuinte. Foi com base nessas considerações que entendeu este Colegiado ser necessária a revisão do Prejuízo Fiscal daquele ano. Frise-se que constam dos autos LALUR, balancete, DIPJ, além da ECD original e retificadora. E, por isto, em Resolução, determinou-se que a autoridade fiscal “efetue a reapuração do prejuízo fiscal relativo apenas ao ano-calendário 2011, a partir dos documentos disponíveis nos autos”, “inclusive mediante intimação da Recorrente para complementação de documentos e informações necessárias”. Todavia, na Informação Fiscal, proferida sem a recomendável intimação prévia, o Ilmo. Auditor Fiscal da Receita Federal reiterou as etapas de fiscalização e consignou novamente seu entendimento de que a ECD retificadora de 09/07/2015 não continha os dados de dezembro: 8. Diante desta situação, cabe deixar claro que a ECD apresentada em 09/07/2015 é a escrituração que não contém qualquer dado relativo ao mês de dezembro de 2011, portanto, inexiste escrituração de receitas e despesas relativas a dezembro de 2011 que alterou o valor do patrimônio líquido, demonstrado no Termo de Intimação nº 07, em mais de R$ 213 milhões, entre o fim de novembro de 2011 e início de janeiro de 2012. 9. Com a devida vênia, a fiscalização informa que não possui qualquer elemento que possa proceder “com relativa segurança a reapuração do prejuízo fiscal naquele anocalendário”, pois a escrituração do LALUR e declarações dependem da contabilidade e neste caso há um “buraco” em dezembro de 2011 que impede eventual apuração confiável de lucro/prejuízo naquele ano-calendário. Fl. 20185DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 19 10. Para a fiscalização, os valores descritos no LALUR naquele ano-calendário não possuem fundamento na contabilidade pela pura e simples inexistência de escrituração completa de receitas e despesas que influenciaram o resultado do exercício 2011. 11. Relembre-se que utilizando-se da escrituração apresentada em 09/07/2015 foi observada divergência superior a R$ 213 milhões na transição para o ano- calendário 2012, que diverge inclusive dos valores da DRE, e o próprio contribuinte informou a sua falha, mas não a corrigiu apresentando nova escrituração Portanto, nota-se que a diligência não cumpriu com o determinado por este Colegiado. Em sua manifestação posterior à diligência, a Recorrente reiterou: 13. Note-se que a Requerente informou claramente: 09/07/2015 continha um erro, que foi a supressão do mês de dezembro; contábil da ECD entregue em 17/02/14; -se expressamente à fiscalização que considerasse os dados da ECD entregue em 17/02/14, sob o número C8.12.52.C8.59.16.C2.DD.61.E2.86.27.D9.C4.52.3ª.CC.04.CB.E7; 14. Além disso, cabe esclarecer que a Requerente não poderia, em 16/08/19, atender à intimação recebida para que se providenciasse a substituição da ECD de 2011, tanto porque já decorreu o prazo de 5 anos, quanto porque a substituição da ECD 2011 em 2019 mostrava-se operacionalmente impossível. 15. Em razão disso é que a Requerente solicitou ao Agente Fiscal que este considerasse o arquivo anteriormente entregue, dado o equívoco da ECD Substitutiva entregue em 09/07/2015. 16. Registre-se, nesse passo, que não só o Agente Fiscal tem acesso a esta ECD entregue em 17/02/14, sob o número C8.12.52.C8.59.16.C2.DD.61.E2.86.27.D9.C4.52.3ª.CC.04.CB.E7, mas também que todas as informações relativas a Prejuízo Fiscal e Bases Negativas ficam registradas de forma automática no SAPLI. 17. Logo, a diligência determinada por este D. Órgão poderia ter sido cumprida pela fiscalização também através desta fonte de informação oficial da Receita Federal do Brasil, pois se tivesse existido a entrega Reconheço que o presente processo envolveu trabalho hercúleo de todos os envolvidos; fiscalização, contribuinte, DRJ, CARF. É justamente em homenagem a todo o esforço empregado que considero ser inadequado que a questão dos prejuízo fiscais seja encerrada dessa forma. Fl. 20186DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 20 À luz dessas ponderações, entendo ser necessária nova diligência, para que seja sanada a questão pendente do prejuízo fiscal de 2011. Além disso, verifica-se que, dentre as várias infrações, o processo engloba créditos tributários de CIDE, PIS-Importação e COFINS-Importação, constantes dos autos de infração (e- fls. 167-199). Nos termos do RICARF, a competência da Primeira Seção abrange – além do IRPJ, CSLL e IRRF, outros tributos quando “reflexos do IRPJ formalizados com base nos mesmos elementos de prova”: Art. 43. À Primeira Seção cabe processar e julgar recursos de ofício e voluntário de decisão de 1ª instância que versem sobre aplicação da legislação relativa a: IV - CSLL, IRRF, Contribuição para PIS/Pasep ou Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI, Contribuição Previdenciária sobre a Receita Bruta (CPRB), Contribuição Social sobre Bens e Serviços (CBS), e Imposto Seletivo, de que trata o art. 153, caput, inciso III da Constituição Federal, quando reflexos do IRPJ formalizados com base nos mesmos elementos de prova, sem prejuízo do disposto no § 2º do art. 45 Note-se, entretanto, que entre os tributos listados no inciso não constam a CIDE, PIS-Importação e COFINS-Importação, justamente por que tais matérias são de competência unicamente da Terceira Seção, nos termos do artigo 45 do RICARF: Art. 45. À Terceira Seção cabe processar e julgar recursos de ofício e voluntário de decisão de 1ª instância que versem sobre aplicação da legislação referente a: I - Contribuição para o PIS/Pasep e Cofins, inclusive quando incidentes na importação de bens e serviços; VIII - Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE); A matéria em questão é, portanto, de competência da Terceira Seção. Portanto, voto por declinar da competência para apreciação da matéria relativa à CIDE, PIS-Importação e COFINS-Importação, em virtude da competência da Terceira Seção, bem como proponho a realização de diligência para: a) Segregar, mediante a formalização em processo administrativo distinto, o crédito tributário relativo à CIDE, PIS-Importação e COFINS-Importação, constantes dos autos de infração, e, em seguida, remetê-la à Terceira Seção, em virtude de sua competência para apreciação da matéria; b) Seja intimado previamente o contribuinte, indicando-se expressamente quais os documentos e informações necessárias para possibilitar a reapuração do prejuízo fiscal de 2011, concedendo prazo para sua apresentação; c) Com base no que estiver disponível e for apresentado, efetue a reapuração do prejuízo fiscal relativo apenas ao ano-calendário 2011, a partir dos documentos Fl. 20187DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1101-000.235 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15540.720123/2019-49 21 disponíveis nos autos e aqueles trazidos pela contribuinte a partir do atendimento à intimação do item “b” acima, notadamente ECD substitutiva, balancetes, LALUR, DIPJ, bem como recalculando o saldo final disponível passível de compensação com os valores lançados nos presentes autos; Ao final, deve ser intimado o contribuinte para que se manifeste no trintídio legal, retornando-se os autos a este CARF para julgamento. É como voto. Assinado Digitalmente Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho Fl. 20188DF CARF MF Original Resolução Relatório Voto

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Numero do processo: 10675.911242/2021-84
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Aug 24 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Oct 06 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2015 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NECESSIDADE DE LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. SUPERAÇÃO DE ERRO DE PREENCHIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. POSSIBILIDADE. RETENÇÕES NA FONTE. FLEXIBILIDADE PROBATÓRIA. DOCUMENTOS HÁBEIS A PROVAR A HIGIDEZ DO DIREITO CREDITÓRIO. Nos termos do art. 170 do CTN, serão passíveis de compensação os créditos líquidos e certos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. A prova do direito creditório, por sua vez, cabe ao sujeito passivo, nos termos do art. 36 da Lei nº 9.784/1999, e do art. 16, III, do Decreto 70.235/1972, reforçados pelo art. 373 do Código de Processo Civil. O eventual erro de preenchimento em obrigações acessórias não é impeditivo para análise e eventual deferimento do direito creditório, desde que apresentada prova robusta. Súmulas CARF 164, 168, 175. A prova de retenção na fonte não se faz apenas com informes de rendimento, mas com outros documentos hábeis a demonstrar claramente a retenção assim como a tributação da receita. Documentos contábeis, extratos bancários e documentos fiscais se prestam a esses fins. Súmulas 80 e 143 do CARF. Tal flexibilidade probatória não afasta, porém, o ônus probatório do contribuinte.
Numero da decisão: 1101-002.349
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar a preliminar e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator. Sala de Sessões, em 24 de agosto de 2026. Assinado Digitalmente Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho – Relator Assinado Digitalmente Efigenio de Freitas Junior – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Edmilson Borges Gomes, Jeferson Teodorovicz, Roney Sandro Freire Correa, Rycardo Henrique Magalhaes de Oliveira, Efigenio de Freitas Junior (Presidente)
Nome do relator: DILJESSE DE MOURA PESSOA DE VASCONCELOS FILHO

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar a preliminar e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator. Sala de Sessões, em 24 de agosto de 2026. Assinado Digitalmente Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho – Relator Assinado Digitalmente Efigenio de Freitas Junior – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Edmilson Borges Gomes, Jeferson Teodorovicz, Roney Sandro Freire Correa, Rycardo Henrique Magalhaes de Oliveira, Efigenio de Freitas Junior (Presidente)

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NECESSIDADE DE LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. SUPERAÇÃO DE ERRO DE PREENCHIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. POSSIBILIDADE. RETENÇÕES NA FONTE. FLEXIBILIDADE PROBATÓRIA. DOCUMENTOS HÁBEIS A PROVAR A HIGIDEZ DO DIREITO CREDITÓRIO. Nos termos do art. 170 do CTN, serão passíveis de compensação os créditos líquidos e certos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. A prova do direito creditório, por sua vez, cabe ao sujeito passivo, nos termos do art. 36 da Lei nº 9.784/1999, e do art. 16, III, do Decreto 70.235/1972, reforçados pelo art. 373 do Código de Processo Civil. O eventual erro de preenchimento em obrigações acessórias não é impeditivo para análise e eventual deferimento do direito creditório, desde que apresentada prova robusta. Súmulas CARF 164, 168, 175. A prova de retenção na fonte não se faz apenas com informes de rendimento, mas com outros documentos hábeis a demonstrar claramente a retenção assim como a tributação da receita. Documentos contábeis, extratos bancários e documentos fiscais se prestam a esses fins. Súmulas 80 e 143 do CARF. Tal flexibilidade probatória não afasta, porém, o ônus probatório do contribuinte. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 142DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.349 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.911242/2021-84 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar a preliminar e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator. Sala de Sessões, em 24 de agosto de 2026. Assinado Digitalmente Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho – Relator Assinado Digitalmente Efigenio de Freitas Junior – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Edmilson Borges Gomes, Jeferson Teodorovicz, Roney Sandro Freire Correa, Rycardo Henrique Magalhaes de Oliveira, Efigenio de Freitas Junior (Presidente) RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário (e-fls. 127-139) interposto contra acórdão da 7ª Turma da DRJ06 (e-fls. 116-121) que julgou improcedente manifestação de inconformidade (e-fls. 4-19) apresentada contra despacho decisório (e-fls. 95-103) que não reconheceu direito creditório relativo a Saldo Negativo de IRPJ Exercício 2015 e, por consequência, não homologou as compensações decorrentes. Consta de referido despacho decisório: No curso da análise do direito creditório, foram detectadas inconsistências, objeto de termo de intimação, não sanadas pelo sujeito passivo. Dessa forma, de acordo com as informações prestadas no documento acima identificado, não foi possível confirmar a apuração do saldo negativo, pois não foi identificado o período de apuração a que se refere o crédito informado, uma vez que houve transmissão de mais de uma Escrituração Contábil Fiscal (ECF)para o período de apuração do saldo negativo demonstrado no PER/DCOMP. ECF 1: 01/01/2015 a 29/07/2015 ECF 2: 30/07/2015 a 31/12/2015 Fl. 143DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.349 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.911242/2021-84 3 Cientificada, a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade em que aduziu, em preliminar, nulidade do despacho decisório por vício de motivação. No mérito, sustentou que no ano-calendário foram entregues duas ECFs “porque, em 21/09/2015 foi realizada uma operação de incorporação, na qual a Requerente configurou na qualidade de incorporadora” e que “Em virtude da entrega das duas ECFS, faz-se necessário a somatória do saldo negativo de cada uma delas para se chegar ao total do saldo negativo informado nas compensações realizadas”. Fez a juntada de documentos (e-fls. 38-94). A DRJ proferiu acórdão que restou a seguir ementado: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2015 PERDCOMP. SALDO NEGATIVO. Somente o crédito líquido e certo do sujeito passivo contra a Fazenda pública é passível de restituição ou utilização em pedido de compensação. Irresignada, a Recorrente interpôs recurso voluntário em que reitera a preliminar de nulidade do despacho decisório por vício de motivação. No mérito, reiterou as razões anteriormente expostas. É o relatório. VOTO Conselheiro Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Relator O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto dele tomo conhecimento. Discute-se nestes autos crédito oriundo de Saldo Negativo, que foi negado no despacho decisório sob a justificativa de que havia mais de uma ECF transmitida para o período informado no PER/DCOMP: No curso da análise do direito creditório, foram detectadas inconsistências, objeto de termo de intimação, não sanadas pelo sujeito passivo. Dessa forma, de acordo com as informações prestadas no documento acima identificado, não foi possível confirmar a apuração do saldo negativo, pois não foi identificado o período de apuração a que se refere o crédito informado, uma vez que houve transmissão de mais de uma Escrituração Contábil Fiscal (ECF)para o período de apuração do saldo negativo demonstrado no PER/DCOMP. ECF 1: 01/01/2015 a 29/07/2015 Fl. 144DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.349 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.911242/2021-84 4 ECF 2: 30/07/2015 a 31/12/2015 Com efeito, é de se notar que a contribuinte chegou a ser previamente intimada a esclarecer o ponto (ou promover os ajustes nas obrigações acessórias). Em 21/12/2020, foi expedido Termo de Intimação (e-fls. 96) quanto às divergências entre as obrigações acessórias: A soma das parcelas de composição do crédito demonstradas no PER/DCOMP deve ser suficiente para comprovar a quitação da contribuição ou do imposto devido, se houver, e a apuração do saldo negativo. Na análise do PER/DCOMP acima identificado foi constatado que: O valor do saldo negativo informado no PER/DCOMP é diferente do apurado na Escrituração Contábil Fiscal (ECF). Período de apuração: EXERCÍCIO 2016 01/ 01/2015 a 31/12/2015 ECF: Valor do Saldo Negativo R$ 92.599,39 PER/DCOMP: Valor do Saldo Negativo R$ 130.171,76 Demonstrativo das parcelas de composição do crédito na ECF: R$ 141.511,94 (Somatório dos valores do REGISTRO N630, CAMPO 2, CODIGOS 16.04,16.05 E DE 19 a 25) Demonstrativo das parcelas de composição do crédito no PER/DCOMP: R$ 179.084,31 (Somatório das informações das fichas: Imposto de Renda pago nº exterior, Imposto de Renda Retido na Fonte, Pagamentos, Estimativas compensadas com saldo de períodos anteriores, Estimativas parceladas e Demais estimativas compensadas). No caso das parcelas de Pagamentos informadas no PER/DCOMP, o valor incluído na soma está limitado ao "Valor utilizado para compor o saldo negativo do período". Solicita-se retificar a ECF correspondente ou apresentar PER/DCOMP retificador indicando corretamente o valor do saldo negativo apurado no período e, se for o caso, corrigindo o detalhamento do crédito utilizado na sua composição. Outras divergências entre as informações do PER/DCOMP, da ECF e da DCTF do período deverão ser sanadas pela apresentação de declarações retificadoras no prazo estabelecido nesta intimação. Em 07/06/2021, foi novamente intimada em face da pluralidade de ECFs transmitidas naquele ano-calendário: Foi localizada mais de uma Escrituração Contábil Fiscal (ECF) ativa para o período de apuração do saldo negativo informado no PER/DCOMP. Período de apuração: EXERCÍCIO 2016 01/ 01/2015 a 31/12/2015 ECF localizadas: Solicitase retificar a ECF correspondente ou apresentar PER/DCOMP retificador indicando corretamente o período de apuração do saldo negativo e o detalhamento do crédito utilizado na sua composição. Outras divergências entre Fl. 145DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.349 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.911242/2021-84 5 as informações do PER/DCOMP, da ECF e da DCTF do período deverão ser sanadas pela apresentação de declarações retificadoras no prazo estabelecido nesta intimação. Não tendo prestado qualquer esclarecimento, o despacho decisório então ratificou a divergência de informações e a impossibilidade de confirmação do direito creditório a partir das obrigações acessórias transmitidas pela Recorrente. De antemão, nota-se já desse contexto que deve ser rechaçada a preliminar de nulidade, já que o despacho decisório encontra-se claramente fundamentado e ancorado em intimações anteriores. A motivação é evidente: as incongruências não esclarecidas tornaram impossível o reconhecimento do direito creditório. Muito bem observou a DRJ: No caso, o DD foi proferido por autoridade competente e, diferentemente do alegado, o motivo da não homologação das compensações, como se vê no DD, fl. 100, e literalmente citado na seção Relatório, deste documento, não foi possível confirmar o saldo negativo de IRPJ do Período de Apuração (PA) indicado no PER/DCOMP (01/01/2015 a 31/12/2015), posto que foram entregues mais de uma ECF ativa para esse ano-calendário e a interessada, não obstante cientificada acerca das inconsistências, conforme se vê nas imagens a seguir do Termo de Intimação e Aviso de Recebimento (Sief-Comunica), não promoveu as retificações necessárias. Assim, afasto a preliminar. Com relação ao mérito, o que pretende a Recorrente é que seja superado o que denomina de “erro material” no preenchimento da PER/DCOMP, uma vez que, em lugar de ter transmitido duas PER/DCOMPs distintas (uma para cada período – anterior e posterior ao evento especial de incorporação), “consolidou” os saldos negativos de ambos os períodos em um único pedido. O argumento foi rechaçado pela DRJ nos seguintes termos: A interessada argumenta que seguiu a legislação de regência ao entregar ECFs para os períodos de 01/01/2015 a 29/07/2015 e 30/07/2015 a 31/12/2015, pois realizou operação de incorporação em 21/09/2015. Defende, ainda, que o saldo negativo de IRPJ deve ser obtido somando-se as duas ECFs. Destaque-se que a Lei nº 9.430/1996, art. 1º e §1º é clara ao definir que, nos casos de eventos especiais (entre eles a incorporação), a apuração da base de cálculo e do imposto de renda devido (seja na sistemática do Lucro Real, Presumido ou Arbitrado) é efetuada na data do evento. Tais disposições se aplicam à CSLL (mesma Lei, art. 28). Observe-se que a interessada afirma que realizou operação de incorporação em 21/09/2015, porém os períodos de apuração indicados nas ECFs ativas são de 01/01/2015 a 29/07/2015 e 30/07/2015 a 31/12/2015, os quais não guardam Fl. 146DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.349 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.911242/2021-84 6 nenhuma relação com a data do evento, não se verificando, portanto, apresentação de ECFs em conformidade com a legislação de regência. Mas ainda que a contribuinte tivesse apresentado as ECFs observando a legislação relativa à ocorrência de eventos especiais, não seria possível simplesmente somá- las para apurar um saldo negativo referenciado em 31/12/2015, por se tratar de procedimento em desacordo com a legislação. Frise-se que as parcelas de composição do saldo negativo são constituídas pelas antecipações informadas pelo sujeito passivo na ECF referentes a retenções na fonte, pagamento de imposto no exterior ou de renda variável, e compensação, parcelamento ou pagamento de débitos de estimativa. A dedução dessas parcelas faz parte da demonstração do saldo de IRPJ (ou CSLL) a pagar ou do crédito de IRPJ (ou CSLL) passível de restituição ou compensação. Após determinado o resultado do período (determinado pela legislação e não pela livre escolha seja do contribuinte, seja da autoridade fiscal), apura-se a base de cálculo do IRPJ (ou da CSLL) e, na sequência, o valor do IRPJ devido (ou da CSLL devida) no período de apuração. Uma vez conhecido o valor do IRPJ devido (ou da CSLL devida), este há de ser confrontado com as antecipações realizadas. E somente quando as antecipações superam o valor devido é que se pode falar em saldo negativo. No caso, os saldos negativos invocados pela interessada foram apurados em desacordo com a legislação de regência, o que, de pronto, afasta a certeza e liquidez exigida pela Lei. De fato, a falta de documentos e esclarecimentos não permite reconhecimento de direito creditório em favor da Recorrente, até mesmo porque os supostos “saldos negativos” encontram-se insuficientemente provados. Consta dos autos tão somente recibos e trecho das ECFs (e-fls. 39-46), DIRF do ano-calendário sem separação da retenção por período (e-fls. 48-49), planilha apócrifa com listagem de retenções e desacompanhada de qualquer comprovante (e-fls. 50-53), contrato social (e-fls. 54-92), planilha apócrifa de controle do saldo negativo (e-fls. 93). Em outras palavras: o substrato do Saldo Negativo não foi objeto de nenhuma prova sequer. Dessa forma, para além de qualquer questão quanto à possibilidade ou não de se “consolidar” em uma única PER/DCOMP os saldos negativos do ano-calendário inteiro, superando a separação dos períodos pré e pós-incorporação, o fato é que a Recorrente não logra provar minimamente o direito creditório que busca. Veja-se que o eventual erro de preenchimento em obrigações acessórias não é impeditivo para análise e eventual deferimento do direito creditório, desde que apresentada prova robusta. É esse o sentido das Súmulas CARF 164, 168, 175, que caminham no sentido da superação do erro material: Súmula CARF nº 164 Fl. 147DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.349 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.911242/2021-84 7 Aprovada pelo Pleno em sessão de 06/08/2021 – vigência em 16/08/2021 A retificação de DCTF após a ciência do despacho decisório que indeferiu o pedido de restituição ou que não homologou a declaração de compensação é insuficiente para a comprovação do crédito, sendo indispensável a comprovação do erro em que se fundamenta a retificação. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 12.975, de 10/11/2021, DOU de 11/11/2021). Súmula CARF nº 168 Aprovada pelo Pleno em sessão de 06/08/2021 – vigência em 16/08/2021 Mesmo após a ciência do despacho decisório, a comprovação de inexatidão material no preenchimento da DCOMP permite retomar a análise do direito creditório. Súmula CARF nº 175 Aprovada pela 1ª Turma da CSRF em sessão de 06/08/2021 – vigência em 16/08/2021 É possível a análise de indébito correspondente a tributos incidentes sobre o lucro sob a natureza de saldo negativo se o sujeito passivo demonstrar, mesmo depois do despacho decisório de não homologação, que errou ao preencher a Declaração de Compensação – DCOMP e informou como crédito pagamento indevido ou a maior de estimativa integrante daquele saldo negativo. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 12.975, de 10/11/2021, DOU de 11/11/2021). O reconhecimento de parcela adicional demandaria, porém que a Recorrente promovesse esforço probatório, o que não ocorreu. Note-se que a prova da retenção admite razoável flexibilidade, por exemplo a teor da Súmula CARF n. 143: A prova do imposto de renda retido na fonte deduzido pelo beneficiário na apuração do imposto de renda devido não se faz exclusivamente por meio do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos. Tal entendimento ratifica os princípios da verdade material e do formalismo moderado, recorrentemente homenageados neste Conselho. Caberia, portanto, à Recorrente a juntada de novos documentos, a exemplo de extratos bancários, notas fiscais, comprovantes de pagamento; enfim, provar a retenção por outros meios, além da DIRF sobre a qual já se baseou a DRJ. Essa flexibilidade probatória, contudo, não esconde o dever de que referida prova seja efetivamente produzida pelo contribuinte e trazida oportunamente à apreciação da Administração Fazendária. Fl. 148DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.349 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.911242/2021-84 8 Nos termos do art. 170 do Código Tributário Nacional, a liquidez e certeza do crédito é condição para o ressarcimento e compensação: Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. Como se depreende do art. 36 da Lei nº 9.784/1999, que regula o processo administrativo no âmbito da administração pública federal, bem como do art. 373 do Código de Processo Civil, aplicado subsidiariamente ao processo administrativo fiscal, o ônus da prova incumbe ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito. Em sentido semelhante, o art. 16 do Decreto 70.235/1972 (aplicável às manifestações de inconformidade e recurso voluntários decorrentes, por força do art. 74 da Lei 9.430/1996) estabelece que a impugnação mencionará os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir. Diante da carência probatória, é de se negar o pedido da contribuinte. Diante do exposto, afasto a preliminar e nego provimento ao recurso voluntário. É como voto. Assinado Digitalmente Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho Fl. 149DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10845.722404/2011-31
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Aug 17 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Fri Oct 09 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 NÃO CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÕES DE CAFÉ DE PESSOAS JURÍDICAS CONSIDERADAS PSEUDOATACADISTAS PELA FISCALIZAÇÃO. COMPROVAÇÃO DE PAGAMENTO E DE RECEBIMENTO DAS MERCADORIAS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO NA FRAUDE. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Havendo comprovação do efetivo pagamento e do recebimento das mercadorias, e não tendo sido afastada a boa-fé da recorrente por meio da comprovação da participação direta em fraude para geração de crédito fictício a partir de aquisições de café de pseudoatacadistas, é legítima a apropriação dos créditos. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA. INOCORRÊNCIA. A legislação estabelece que são nulos os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Não restando configuradas tais hipóteses, não cabe a decretação de nulidade. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. EFEITOS. NÃO VINCULAÇÃO. Salvo as exceções expressas no ordenamento jurídico, as referências a entendimentos constantes em decisões deste Conselho ou em decisões judiciais não possuem força vinculante. PIS/COFINS. RESSARCIMENTO. JUROS/ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. SELIC. POSSIBILIDADE. Conforme decidido no julgamento, pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), do REsp 1.767.945/PR, realizado sob o rito dos recursos repetitivos, é devida a correção monetária no ressarcimento de crédito escritural da não cumulatividade acumulado ao final do trimestre, depois de decorridos 360 (trezentos e sessenta) do protocolo do respectivo pedido, em face da resistência ilegítima do Fisco, inclusive, para o ressarcimento de saldo credor trimestral da contribuição ao PIS e da Cofins sob o regime não cumulativo.
Numero da decisão: 3202-004.564
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em rejeitar a preliminar de nulidade do acórdão recorrido, e, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário, para que seja aplicada a correção monetária, pela taxa Selic, aos créditos reconhecidos a partir do 361º (trecentésimo sexagésimo primeiro) dia contado da data do protocolo do pedido de ressarcimento original. Por maioria de votos, em dar parcial provimento ao recurso, para reconhecer os créditos decorrentes de aquisições de café cru de pessoas jurídicas consideradas empresas de fachada (pseudoatacadistas). Vencidos os Conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira (Relator) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe, que negavam provimento ao recurso na matéria. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rafael Luiz Bueno da Cunha. Assinado Digitalmente Wagner Mota Momesso de Oliveira - Relator Assinado Digitalmente Rafael Luiz Bueno da Cunha - Redator designado Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe - Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Marina Righi Rodrigues Lara (substituta integral), Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Wagner Mota Momesso de Oliveira, Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente).
Nome do relator: WAGNER MOTA MOMESSO DE OLIVEIRA

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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 NÃO CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÕES DE CAFÉ DE PESSOAS JURÍDICAS CONSIDERADAS PSEUDOATACADISTAS PELA FISCALIZAÇÃO. COMPROVAÇÃO DE PAGAMENTO E DE RECEBIMENTO DAS MERCADORIAS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO NA FRAUDE. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Havendo comprovação do efetivo pagamento e do recebimento das mercadorias, e não tendo sido afastada a boa-fé da recorrente por meio da comprovação da participação direta em fraude para geração de crédito fictício a partir de aquisições de café de pseudoatacadistas, é legítima a apropriação dos créditos. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA. INOCORRÊNCIA. A legislação estabelece que são nulos os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Não restando configuradas tais hipóteses, não cabe a decretação de nulidade. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. EFEITOS. NÃO VINCULAÇÃO. Salvo as exceções expressas no ordenamento jurídico, as referências a entendimentos constantes em decisões deste Conselho ou em decisões judiciais não possuem força vinculante. PIS/COFINS. RESSARCIMENTO. JUROS/ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. SELIC. POSSIBILIDADE. Conforme decidido no julgamento, pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), do REsp 1.767.945/PR, realizado sob o rito dos recursos repetitivos, é devida a correção monetária no ressarcimento de crédito escritural da não cumulatividade acumulado ao final do trimestre, depois de decorridos 360 (trezentos e sessenta) do protocolo do respectivo pedido, em face da resistência ilegítima do Fisco, inclusive, para o ressarcimento de saldo credor trimestral da contribuição ao PIS e da Cofins sob o regime não cumulativo.

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em rejeitar a preliminar de nulidade do acórdão recorrido, e, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário, para que seja aplicada a correção monetária, pela taxa Selic, aos créditos reconhecidos a partir do 361º (trecentésimo sexagésimo primeiro) dia contado da data do protocolo do pedido de ressarcimento original. Por maioria de votos, em dar parcial provimento ao recurso, para reconhecer os créditos decorrentes de aquisições de café cru de pessoas jurídicas consideradas empresas de fachada (pseudoatacadistas). Vencidos os Conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira (Relator) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe, que negavam provimento ao recurso na matéria. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rafael Luiz Bueno da Cunha. Assinado Digitalmente Wagner Mota Momesso de Oliveira - Relator Assinado Digitalmente Rafael Luiz Bueno da Cunha - Redator designado Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe - Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Marina Righi Rodrigues Lara (substituta integral), Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Wagner Mota Momesso de Oliveira, Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente).

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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 NÃO CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÕES DE CAFÉ DE PESSOAS JURÍDICAS CONSIDERADAS PSEUDOATACADISTAS PELA FISCALIZAÇÃO. COMPROVAÇÃO DE PAGAMENTO E DE RECEBIMENTO DAS MERCADORIAS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO NA FRAUDE. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Havendo comprovação do efetivo pagamento e do recebimento das mercadorias, e não tendo sido afastada a boa-fé da recorrente por meio da comprovação da participação direta em fraude para geração de crédito fictício a partir de aquisições de café de pseudoatacadistas, é legítima a apropriação dos créditos. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA. INOCORRÊNCIA. A legislação estabelece que são nulos os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Não restando configuradas tais hipóteses, não cabe a decretação de nulidade. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. EFEITOS. NÃO VINCULAÇÃO. Salvo as exceções expressas no ordenamento jurídico, as referências a entendimentos constantes em decisões deste Conselho ou em decisões judiciais não possuem força vinculante. Fl. 612DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 2 PIS/COFINS. RESSARCIMENTO. JUROS/ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. SELIC. POSSIBILIDADE. Conforme decidido no julgamento, pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), do REsp 1.767.945/PR, realizado sob o rito dos recursos repetitivos, é devida a correção monetária no ressarcimento de crédito escritural da não cumulatividade acumulado ao final do trimestre, depois de decorridos 360 (trezentos e sessenta) do protocolo do respectivo pedido, em face da resistência ilegítima do Fisco, inclusive, para o ressarcimento de saldo credor trimestral da contribuição ao PIS e da Cofins sob o regime não cumulativo. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em rejeitar a preliminar de nulidade do acórdão recorrido, e, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário, para que seja aplicada a correção monetária, pela taxa Selic, aos créditos reconhecidos a partir do 361º (trecentésimo sexagésimo primeiro) dia contado da data do protocolo do pedido de ressarcimento original. Por maioria de votos, em dar parcial provimento ao recurso, para reconhecer os créditos decorrentes de aquisições de café cru de pessoas jurídicas consideradas empresas de fachada (pseudoatacadistas). Vencidos os Conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira (Relator) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe, que negavam provimento ao recurso na matéria. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rafael Luiz Bueno da Cunha. Assinado Digitalmente Wagner Mota Momesso de Oliveira – Relator Assinado Digitalmente Rafael Luiz Bueno da Cunha – Redator designado Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Marina Righi Rodrigues Lara (substituta integral), Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Fl. 613DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 3 Rafael Luiz Bueno da Cunha, Wagner Mota Momesso de Oliveira, Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente). RELATÓRIO Por bem descrever os fatos, adoto o relatório do acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento: Trata o presente processo de Pedido de Ressarcimento 20346.15650.230708.1.108-6400 e Declarações de Compensação (Dcomp) de crédito relativo ao PIS não-cumulativo associado a operações de exportação, referente ao 2º trimestre de 2008, no montante de R$ 331.472,26. A DRF-STS exarou o despacho decisório de fl. 16/25, decidindo deferir parcialmente o pedido de ressarcimento (R$ 88.476,83) e homologar as declarações de compensação até o limite reconhecido. Reportando-se ao despacho decisório, cite-se os fundamentos para reconhecimento parcial do crédito, conforme abaixo transcrito: “... Tendo em vista as peculiaridades que envolvem a apuração da contribuição pelas pessoas jurídicas tributadas pelo lucro real, a legislação que a disciplina encontra-se inserida no contexto de benefício fiscal e,-por conseguinte, sua interpretação deve ser restrita, conforme estabelece o artigo 111 da Lei n° 5.172/66-Código Tributário Nacional. De acordo com as conclusões do Ilmo. Sr. Auditor Fiscal, responsável pela ação fiscal, parte dos créditos reclamados não tiveram sua liquidez e certeza assegurados, uma vez que sua apuração está cingida por dúvidas consistentes e relevantes, permitindo-se concluir que a contribuinte não se cercou dos cuidados e diligências compatíveis com o benefício a ser usufruído, traduzido por uma soma de numerário que lhe permitiria compensar tributos por ela devidos, no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil. Segundo declara a contribuinte o café que adquire é para ser utilizado como insumo na atividade agroindustrial de padronizar, beneficiar, preparar e misturar tipos de café para definição de aroma e sabor ou separar por densidade dos grãos, com redução dos tipos determinados pela classificação oficial, vendido no mercado interno e exportado. No que diz respeito ao mérito, as conclusões da ação fiscal são assim resumidas: Uma parte do café adquirido foi de empresas, discriminadas no Relatório Fiscal, cuja situação cadastral perante a RFB está registrada como inapta, suspensa, ou baixada. Fl. 614DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 4 Alguns dos motivos que levaram ao cancelamento dessas empresas são: inexistência de fato, ausência de apresentação dá DIRPJ ou apresentadas com receita zerada, declaração de inatividade, etc. Todas as pessoas jurídicas (mencionadas no relatório recolheram, nos períodos em estudo valores ínfimos a título de Pis/Pasep e Cofins e de outros tributos administrados pela RFB. Conforme já comprovado, uma vez que a compra do café de pessoa física só gera 35% do crédito do Pis e Cofins (chamado crédito presumido), a fraude cometida pelos beneficiários do esquema consistia em interpor uma pessoa jurídica "laranja" no lugar da pessoa física produtora, tradicionalmente vendedora do produto, a fim de atender o disposto no artigo 3º das referidas normas legais, e assim obter 100% do crédito das contribuições. O interesse óbvio dos que se beneficiaram dessas ações fictícias está vinculado à obtenção de valores altos de créditos, traduzidos em pecúnia e aptos a compensar com outros tributos administrados pela RFB e/ou a ressarcir. .... As irregularidades noticiadas geraram créditos ilícitos de Pis e de Cofins, e a forma como agiam é de conhecimento pleno de quem atua nesse mercado, haja vista as .operações desencadeadas pela Polícia Federa, Ministério Público e Receita Federal, visando desbaratar as quadrilhas e coibir a conduta. Essas operações, denominadas Tempo de Colheita e Operação Broca, tem seus "modus operandi” detalhados pela autoridade fiscal no seu relatório, bem como foi destacado que uma boa parte das empresas que adotaram tais "recursos” encontram-se entre os fornecedores de café da contribuinte. De modo a revestir as fraudes de uma aparência legal que justificassem a alegação de boa fé os beneficiários do esquema adotaram procedimentos compatíveis, entre eles o de fazer os pagamentos em nome do "laranja", que, fato já comprovado, imediatamente os transferia para os efetivos vendedores, produtores rurais pessoas físicas. Ocorre que a ficção engendrada, além de se constituir infração à legislação tributária, despida dos artifícios, não produz os efeitos legais pretendidos, por não se inserirem nos fatos geradores, previstos na legislação acima mencionada, que produzem créditos integrais de Pis e Cofins, como prevê o artigo 118. combinado com o 136, do Código Tributário Nacional, abaixo transcrito. ..... Ainda, de acordo com o Relatório Fiscal, foram ajustados de ofício os créditos resultantes das compras realizadas de cooperativas, visto que estas têm tratamento fiscal diferenciados, dependendo de suas atuações. Fl. 615DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 5 Aquelas não inseridas como agroindústria produzem créditos presumidos, nos termos do artigo 8º da Lei n° 10.925/2004. acima, enquanto as que beneficiaram o café, para fins de gerar crédito integral, deveriam comprovar que não excluíram de suas bases de cálculo as receitas repassadas para seus associados, operações disciplinadas no art. 15 da MP n° 2.158-35-2001 e regulamentada na IN SRF n° 635/2006. Por último, foram glosados créditos integrais de Pis e Cofins, decorrentes de despesas de armazenagem não contratadas com pessoas jurídicas, por ferirem os disposto(sic) nos §§ 2º e 3º das Leis n°s 10.637/2002 e 10.833/2003, e, ainda/créditos de frete, aproveitados em duplicidade.” Consta às fl.35/80, Termo de Verificação Fiscal exarado no processo nº 15983.720122/2013-08 que foi supedâneo para o despacho decisório com análise dos créditos do PIS e Cofins nos períodos de apuração 07/2004 a 12/2004, 07/2005 a 12/2005, e 01/2008 a 06/2010. Cientificada em 26/06/2013, conforme consulta Portal e-CAC (fl.128) e artigo 6º da Portaria MF nº 527/2010, a interessada apresentou manifestação de inconformidade, fl. 131 e ss. onde alega em síntese, que: 1. A contribuinte é uma empresa que tem como atividade predominante, o comércio, exportação, importação de café, benefício ou rebenefício de café. O que se busca no mercado é o produto (suas características). Não se fazem questionamentos acerca da propriedade (mas sim, sobre a regularidade das fornecedoras, por meio dos Cadastros Públicos, a saber, CNPJ e SINTEGRA), eis que as partes, comprador e vendedor, na quase totalidade das operações, são articulados por corretores, em razão da diversidade e multiplicidade de fornecedores, que apresentam uma amostra de café, para os quais se discute tipo, preço e condições de entrega; 2. Não há contato pessoal entre comprador e vendedor. O simples fluxo de pagamentos (via Transferência Eletrônica Disponível “TED”, por exemplo) possibilita a concretização da operação em segundos, após a aprovação das características do café adquirido; 3. Os corretores integram a cadeia produtiva do café como facilitadores da realização de negócios entre fornecedores e adquirentes, sem a necessidade de contato pessoal entre estes; 4. Primeiramente, houve cerceamento do direito de defesa e violação aos princípios do contraditório e da ampla defesa, visto que a manifestante não teve oportunidade de participar da coleta de dados - apenas como colaboradora, ao permitir o acesso aos seus registros contábeis e documentação - e, muito menos, teve as condições necessárias de vista dos processos fiscais para apresentar sua defesa, antes da intimação da glosa dos créditos em questão; Fl. 616DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 6 5. A manifestante declara que não tem conhecimento das informações colacionadas no Termo de Verificação Fiscal, inclusive sobre as empresas que participaram das operações “Tempo de Colheita” e “Robusta”; 6. As conclusões obtidas nessas fiscalizações externas, sem a participação ativa da manifestante em tais operações especiais foram estendidas a esta, sem que, no entanto, tivesse oportunidade de acesso aos dados coletados e manifestação a respeito do seu conteúdo, antes de ser intimada da respectiva glosa de créditos. Ou seja, em momento algum, foi convocada a participar de qualquer procedimento administrativo incidental alusivo às pessoas jurídicas citadas; 7. Penalizar com base em dúvidas e incertezas, por fato de suposto conhecimento geral, é esquecer-se que tais trâmites obedecem ao necessário sigilo das informações. E passada esta premissa, seria necessário - no mínimo - a oportunidade da contribuinte ofertar sua devida defesa, já que os primados do contraditório e da ampla defesa não podem ser desprestigiados; 8. Como se verifica, as provas obtidas de fatos apurados nas operações “Tempo de Colheita” e “Robusta” e pelas diligências fiscais em várias cidades, não foram produzidas em processo envolvendo a manifestante como parte, e não observaram as formalidades estabelecidas em Lei, além da ausência de demonstração de causalidade entre o fato considerado como ilícito e a participação e/ou colaboração desta; 9. A consequência é a nulidade parcial do Despacho Decisório, na parte em que glosa os créditos fiscais integrais da COFINS com base em fato e informações em diligências externas, em caráter de sigilo e sem a participação da interessada, com total preterição do seu direito de defesa. Nesse sentido, é clara a regra que prescreve o artigo 59, inciso II, do Decreto nº 70.235/72 (com redação semelhante ao artigo 12 do Decreto nº 7.574/11); 10. Caracterizada a preterição do direito de defesa através da supressão da garantia do devido processo legal no âmbito administrativo, sem a oportunidade da abertura do contraditório e da ampla defesa, antes da intimação da glosa dos créditos fiscais integrais, impõe-se o reconhecimento da nulidade parcial e a consequente desconstituição do Despacho Decisório e do Termo de Verificação Fiscal, na parte em que glosa os créditos da COFINS, indicados para fins de compensação e ressarcimento em espécie; 11. Aplicando as considerações elencadas pela autoridade fiscal ao caso em litígio, verifica-se que a validade da glosa dos créditos da contribuição pressupõe que as supostas diferenças apontadas no referido levantamento fiscal levem, inexoravelmente, à conclusão de que a manifestante teria conhecimento ou estava envolvida com a inaptidão dessas empresas. Caso não seja possível demonstrar, com segurança, o nexo de causalidade entre o resultado do levantamento fiscal, ou seja, as diferenças ali apontadas, e a acusação consubstanciada no Despacho Decisório, este deverá ser julgado improcedente por falta de provas; Fl. 617DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 7 12. O autor do procedimento fiscal desconsidera a legislação que protege o adquirente de boa-fé. Este não será prejudicado no caso de comprovar o pagamento do preço e o recebimento das mercadorias, vide o artigo 82 da Lei nº 9.430/96; 13. Inclusive, a manifestante ultrapassou as exigências legais. Foram adotadas todas as medidas e precauções nas negociações, mediante consulta ao Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ) através do site da RFB, bem como ao Cadastro do SINTEGRA, como medida preventiva para obter informações sobre a situação cadastral dessas empresas; 14. Ora, considerando que a manifestante, na qualidade de pessoa jurídica de direito privado, não goza de poder de polícia, exigir mais do que o acima exposto configura evidente abuso, para não dizer uma prática ilegal de transferência de atos privativos da Administração Pública aos particulares. 15. A fé pública dos documentos obtidos por via digital, emitidos pela Administração Pública, devem prevalecer e afastar qualquer indício duvidoso sobre as operações praticadas pelas empresas fornecedoras na época em que estava com CNPJ e SINTEGRA ativos (sem adentrar naquelas que ainda estão com os registros regulares); 16. A boa-fé deve ser adotada, a partir de um prudente exame das interpretações possíveis, tanto na ação administrativa, como no exame do contribuinte que demonstra o intuito de agir secundam legem no cumprimento das obrigações e deveres formais. O emprego da boa-fé é a maior evidência de efetividade dos princípios da moralidade (Administração Pública) e da dignidade da pessoa humana com conteúdo de segurança jurídica (contribuinte) no Direito Tributário; 17. O autor do procedimento fiscal parece ignorar a metodologia de apuração das Contribuições em questão. Ou melhor, suas afirmativas são totalmente incompatíveis com a sistemática não-cumulativa do PIS/PASEP e da COFINS; 18. A forma de apuração dos créditos do PIS/PASEP e da COFINS obedece ao método indireto subtrativo e, portanto, difere da sistemática não-cumulativa do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS); 19. No caso da não-cumulatividade do PIS/PASEP e da COFINS, não há o que falar se na etapa anterior (na aquisição de café grão "cru" em grão já beneficiado) se houve efetivamente o recolhimento ou não dessas contribuições, mas tão somente da suscetibilidade de incidência, pressuposto quando se adquire café "cru" de pessoas jurídicas domiciliadas no País, com cadastro CNPJ ativo no momento da aquisição, tal como no caso concreto; 20. A manifestante pagou as contribuições sociais da operação realizada, quando da aquisição do produto ou mercadoria. A fiscalização em momento algum questionou o pagamento, de modo que entendeu como observadas as condições Fl. 618DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 8 contratuais relativas à quantidade, à qualidade, à classificação dos produtos e mercadorias, segundo as normas técnicas exigidas pelos órgãos reguladores e pelo mercado, podendo, por força do princípio da não-cumulatividade, ter direito ao crédito fiscal integral; 21. O autor do procedimento fiscal ao glosar os créditos está desconsiderando não só a boa-fé, como também a realidade dos fatos amparada nos lançamentos contábeis (aquisições e saídas) da contribuinte; 22. A contabilidade da manifestante é meio de prova hábil e idôneo, não sendo possível desconstituí-la, tal como pretendido pelo autor do procedimento fiscal. A escrituração regular de suas operações ratifica a sua boa-fé que, além de escriturar devidamente seus créditos, efetuou tempestivamente os recolhimentos do PIS/PASEP, COFINS, IRPJ e, reflexamente, a CSLL, nessas operações; 23. Ao analisar o arcabouço construído pelo autor do procedimento fiscal, com a descrição das particularidades econômicas ou financeiras dos fornecedores de café, e sobre a natureza e o estado dos seus negócios ou atividades, é possível concluir que a modalidade de responsabilidade do dispositivo legal em referência, imputada à pessoa jurídica não pode prosperar, por inexistir participação volitiva e nexo causal, ou sem qualquer relação material com as irregularidades cometidas fornecedores de café; 24. Anote-se que o Poder Judiciário, em reiteradas oportunidades, tem assinalado que, a despeito do caráter objetivo da responsabilidade pela infração, mercê da regra esculpida no artigo 136 do CTN, tem foro de legitimidade os questionamentos alinhados pelo destinatário da norma sancionatória, quanto aos aspectos subjetivos da infração concretamente considerada, especialmente, quando se evidencia a boa-fé do contribuinte ou mesmo a impossibilidade de cumprimento, por fatores estranho ao seu controle, de deveres acessórios; 25. Logo, não há como imputar à pessoa jurídica, sob o fundamento da responsabilidade por infração, a glosa dos créditos fiscais por se tratar de responsabilidade com caráter de punição, muito menos, a de caráter de ressarcimento de valores que não foram declarados ou, se declarados, não recolhidos aos cofres públicos nas fases anteriores do processo produtivo; 26. Ao presumir ato individual e concreto como ato abusivo de poder, cujo resultado teve interferência direta na glosa de créditos fiscais integrais, a Administração Tributária tem, no mínimo, o dever de provar o fato alegado (a exemplo de comprovar que, na época, a manifestante tinha conhecimento de que tais pessoas jurídicas não recolhiam tais contribuições e demais tributos, assim por diante). Jamais se pode admitir que, partindo de alegações genéricas, sem individualizar sujeitos, ou mesmo, sem atribuir infração à Lei, conclua-se que os créditos fiscais do PIS/PASEP e da COFINS devem ser glosados; 27. A contribuinte não pode ser penalizada pela inação estatal, que deveria exercer efetivamente o seu poder de polícia, mediante a aplicação de mecanismo Fl. 619DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 9 de controle e salvaguarda, e não objetivar o deslocamento dessa atribuição de responsabilidade para que outros procedam à verificação fiscal de seus pares; 28. Não tendo participado da prática de qualquer irregularidade, não poderá ser responsabilizada por eventual fraude ao Fisco praticada por outrem, tendo em vista a legitimidade e a boa-fé presentes na sua conduta. Até porque, nesse âmbito, a prova incumbe ao acusador; 29. O artigo 9º da Lei nº 10.925/04 tornou obrigatória, a partir de 04/04/2006, a suspensão da exigibilidade do PIS/PASEP e da COF1NS, na saída de café in natura de pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária, destinado à pessoa jurídica e/ou sociedade cooperativa de produção agroindustrial, tributada pelo lucro real e produtora de café cru beneficiado (Código NCM 09.01), na forma do 8º da Lei em questão, vigente na época dos fatos geradores; 30. A pessoa jurídica adquire café cru beneficiado (Código NCM 09.01), proveniente das sociedades cooperativas de produção agroindústria. Tal fato seria suficiente para afastar a glosa dos créditos fiscais, diante da impossibilidade de ser aplicada nova regra de suspensão nas etapas subsequentes, conforme previsto no artigo 9º, parágrafo primeiro, inciso II, da Lei n° 10.925/04, sob o prisma da não-cumulatividade; 31. Não considerando tal regime de tributação, e não satisfeito, o autor do procedimento fiscal indagou às pessoas jurídicas fornecedoras sobre o café vendido à manifestante, ou seja, se foram realizadas as atividades de padronização, beneficiamento, preparação e mistura de tipos de café para definição de aroma e sabor (blend) ou separação por densidade, com redução dos tipos determinados pela classificação oficial, na forma do §6º do artigo 8º da Lei n°. 10.925/04; 32. O autor do procedimento fiscal classificou três pessoas jurídicas (fl. 26, item 61 do Termo de Verificação Fiscal) e as sociedades cooperativas do “Grupo 1” (fl. 27, item 65 do Termo de Verificação), com base nas declarações obtidas sem a participação da manifestante, como exercentes da atividade agropecuária, desconsiderando as informações constante em nota fiscal cujo preenchimento é de inteira responsabilidade do fornecedor; 33. Prescreve o artigo 2º, §2° da IN SRF n° 660/06, que somente nas notas fiscais relativas às vendas efetuadas com suspensão da exigibilidade do PIS/PASEP e da COFINS é obrigatório constar a expressão "Venda efetuada com suspensão da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, conforme art. 9º da Lei nº 10.925/04". 34. O cumprimento dessa obrigação acessória pelo fornecedor é imprescindível para embasar a relação de confiança entre este e a Manifestante. Isso porque, inexistindo essa previsão na nota fiscal, ou até mesmo dispondo o contrário (“operação com incidência do PIS/PASEP e da COFINS”), o fornecedor está Fl. 620DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 10 indicando que vendeu café cru beneficiado, já submetido ao processo agroindustrial do §6° do artigo 8º da Lei nº 10.925/04, sujeitando-se à incidência das contribuições sociais; 35. Neste caso, de acordo com a legislação de regência, gera para o adquirente o crédito integral, nos termos do artigo 3º, inciso II das Leis n° 10.637/02 e 10.833/03. E mesmo na hipótese de não ter sido submetido à atividade agroindustrial, o que não é o caso dos autos, dever-se-ia penalizar o contribuinte que descumpre a obrigação acessória, consignada no artigo 2º, §2º da IN SRF n° 660/06, e incide em crime de falsidade ideológica. Ora, não se pode deixar ileso um contribuinte faltoso com as obrigações acessórias em detrimento da segurança jurídica e transparência das relações entre fornecedores e adquirentes; 36. Por todos os ângulos que se veja, não resta outra a conclusão senão a de que o café cru beneficiado, não só como forma de atender sua definição e padrões mínimos de comercialização no mercado externo, pressupõe, necessariamente a prática anterior das atividades cumulativas constantes no §6° do artigo 8° da Lei n°. 10.925/04, não merecendo respaldo a classificação proposta pela autoridade fiscal, muitas baseadas em declarações das cooperativas que não condizem com a realidade dos fatos; 37. O autor do procedimento fiscal glosou créditos integrais do PIS/PASEP e da COFINS apropriados em relação às despesas com serviços de armazenagem, em razão de terem sido pagos a pessoas físicas, o que seria vedado pelo disposto nos §2° e §3° dos art. 3º, das Leis n°. 10.637/02 e 10.833/03, respectivamente; 38. Ocorre que as despesas com serviços de armazenagem foram pagas a pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil, conforme comprovantes anexos. Portanto, trata- se de despesas que originam créditos integrais do PIS/PASEP e da COFINS, com amparo no inciso IX do artigo 3º da Lei n°. 10.833, de 2003 (aplicável ao PIS/PASEP por determinação do artigo 15, inciso II, da Lei n°. 10.833, de 2003); 39. A Receita Federal do Brasil, depois de reformada a decisão, de acordo com a legislação de regência, deverá ressarcir todos os valores de créditos fiscais integrais da contribuição ao PIS, inclusive considerando a diferença em relação aos valores já reconhecidos (ainda pendentes de emissão de ordem de pagamento, na data de protocolo desta manifestação), atualizados pela Taxa SELIC não só como forma de corrigir os danos ocasionados com a sua mora mas também com o fim de evitar o enriquecimento sem causa; 40. Em caso de manutenção das glosas - os créditos presumidos do PIS, deverão ser passíveis de compensação com débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições administrados pela RFB, ou então, ressarcidos em espécie; 41. A referida norma deve ser interpretada sistematicamente com os princípios/regras constitucionais da não-cumulatividade (artigo 195, §12), Fl. 621DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 11 desoneração das exportações (artigo 149, §2º, inciso I) e o da isonomia (artigo 150, inciso II); 42. A intenção do legislador, ao instituir o crédito presumido, foi de neutralizar o acúmulo do PIS/PASEP e da COFINS no preço dos agricultores. Quando a contribuinte adquire matéria-prima ou insumo/café de pessoa física, indiretamente, está pagando uma parcela dessas contribuições. Isso porque, o produtor rural pessoa física, mesmo não sendo contribuinte, paga o PIS e a COFINS quando incorre em despesas como energia elétrica, maquinários, aluguéis/arrendamento, entre outros. Essa é a essência da não-cumulatividade prestigiada pela Constituição Federal de 1988; 43. A interpretação literal do artigo 8º da Lei nº 10.925/04 implica o seguinte problema: o exportador de produtos agropecuários, destinados à alimentação humana ou animal, em virtude da imunidade das exportações (artigo 149, §2°, inciso I da CF/88), acumula vultosos créditos presumidos sem possibilidade de utilização, ofendendo a regra constitucional da não cumulatividade (a contribuinte arca com tributo de responsabilidade dos agentes antecedentes da cadeia produtiva). Por via de consequência, ao não serem utilizados, tornam-se custos, contrariando a política nacional de não exportação de tributos; 44. Portanto, os créditos presumidos do PIS (somente em caso de manutenção da glosa - o que se admite somente para antecipar o pedido) devem ser passíveis de compensação com débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, ou então, ressarcidos em espécie, de acordo com a interpretação do artigo 8º da Lei n° 10.925/04, combinada com o art.56-B da Lei nº 12.350/11, consentânea com os princípios da não-cumulatividade, desoneração das exportações e o da isonomia; 45. Ante o exposto, requer: 45.1. Nulidade do Despacho Decisório e do Termo de Verificação Fiscal, na parte em que glosa os créditos fiscais integrais, eis que configurada a preterição do direito de defesa; 45.2. Em caso contrário, a reforma do despacho face os fundamentos expostos; 45.3. A incidência da Taxa SELIC sobre todos os créditos fiscais do PIS, sejam aqueles já reconhecidos/deferidos, sejam aqueles objeto de glosa, desde a data do protocolo do pedido, por ultrapassar o prazo legal de 360 dias; 45.4. Caso seja mantida a glosa, seja reconhecido o direito ao ressarcimento, em espécie, do saldo de créditos presumidos; 45.5. Caso persistam dúvidas e incertezas seja o julgamento convertido em diligência para a realização de perícia e análise de documentos; 46.6. Caso mantida a glosa, o recálculo dos créditos do PIS/PASEP e da COFINS, com a devolução dos valores de tributos recolhidos nestas operações (IRPJ/CSLL), inclusive dos créditos presumidos dessas operações. Fl. 622DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 12 Inicialmente, o julgamento da manifestação de inconformidade apresentada foi convertido em Diligência, mediante a Resolução desta 17ª Turma da DRJ/RJO – fl. 491/496, nos seguintes termos: “De acordo com o relato acima, os elementos de prova que possibilitaram concluir pela existência de fraude no mercado de café e o consequente afastamento dos créditos integrais de PIS e COFINS apurados pelo contribuinte encontram-se acostados aos processos n°s 15586.000089/2011-17, 15586.720174/2011-97 e 16004.720665/2011-02, citados no Termo de Verificação Fiscal, que conteriam, segundo a autoridade fiscal, os fatos e provas apurados nas operações “Tempo de Colheita” e “Robusta”, tais como “depoimentos de vários agentes da cadeia de produção e comercialização de café, mais especificamente, produtores rurais, corretores e maquinistas, assim como a coleta de documentos e informações junto à instituições financeiras”. Contudo, observamos, que os citados processos se referem a autos de infração lavrados em nome de pessoas jurídicas distintas, sem vínculo com a empresa interessada, ora recorrente. Conclui-se, portanto, que o contribuinte não teve acesso aos elementos de prova que embasaram a conclusão da existência de fraude caracterizada pela utilização de empresas fictícias para simular compras de café efetuadas junto a produtores rurais, pessoas físicas, fundamento utilizado para a glosa de seus créditos. ... Cabe observar que o entendimento exarado pela Cosit - Coordenação Geral de Tributação - por meio da solução de consulta n° 65, de 10 de março de 2014, assegura à pessoa jurídica, submetida ao regime de apuração não cumulativa da Cofins, apurar créditos relativos às aquisições de produtos. Nestes termos, para evitar o cerceamento do direito de defesa além de possíveis decisões conflitantes em relação a um mesmo contribuinte e, igualmente, evitar suprimir a instância originária competente para análise dos Pedidos de Ressarcimento e Compensação, entendo que o presente processo deva retornar à autoridade administrativa que deferiu parcialmente o despacho decisório para: 1. examinar a petição apresentada pelo contribuinte - fl. 511/520 e, se assim o entender, adequar o feito ao decidido no processo n° 10845.724544/2012-24, tendo em vista a Solução de Consulta Cosit n° 65, de 10 de março de 2014, e o Parecer PGFN n° 1.425/2014; 2. Seja anexado aos autos os elementos de prova que entenda cabível, a serem extraídos dos processos administrativos acima citados, obtidos através das operações "Tempo de Colheita" e "Robusta". Através da diligência em referência a autoridade tributária proferiu a Informação Fiscal de fl. 499, onde consta textualmente: Fl. 623DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 13 “ .... Encontra-se no processo administrativo n° 15983.720032/2018-13 a conclusão da diligência demandada pela Resolução 905 da 17a. Turma da DRJ/RJO. O relatório detalhado e todos os documentos que serviram de suporte foram anexados a ele. Também foram anexados os elementos de prova de julgamos cabíveis, extraídos, da forma como se encontram, dos processos administrativos n°s 15586.000089/2011-17, 15586.720174/2011-97 e 16004.720665/2011-02, Operações "Tempo de Colheita" e "Robusta".” Após cientificada dos novos elementos trazidos aos autos, a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade complementar (fl.508/521), salientando inicialmente que em relação ao item que trata dos créditos de insumos adquiridos de cooperativas agroindustriais “a diligência consolidada foi plenamente atendida pelo órgão de origem, com a aplicação da Solução de Consulta COSIT nº 65, de 10 de março de 2014”, e quanto aos demais pontos apresenta as seguintes ponderações: 1. Ao anexar as autos mais de 1.500 folhas, a autoridade administrativa sequer conseguiu identificar os fornecedores da manifestante (objeto de acusação indeterminado). Inclusive, diversos os arquivos referem-se a operações realizadas, exclusivamente, no Estado de Rondônia; 2. Como já era esperado, a contribuinte não é citada nas extensas 1.500 folhas - prova suficiente para fortalecer as razões da manifestação de inconformidade, segundo as quais são conclusivas a respeito da estrita regularidade das operações de café, com o consequente aproveitamento do crédito fiscal da contribuição ao PIS e a COFINS; 3. Em resposta ao primeiro tópico da diligência determinada pela autoridade julgadora, a fiscalização limitou-se a juntar os elementos de prova que entendeu como cabíveis, num total de 11 arquivos (1.546 folhas). Porém, conforme será confirmado, os documentos sequer comprovam 2% das aquisições do período e, muito menos, fazem referências concretas e específicas aos fornecedores da requerente; 4. A partir dos documentos juntados pela Unidade de Origem, foi possível localizar referência a algumas das pessoas jurídicas que forneceram café à contribuinte. Ainda assim, a grande maioria das aquisições de café, tratadas nos processos indicados no Quadro 1, envolveram outros fornecedores, ou seja, pessoas jurídicas não mencionadas nesses documentos; 5. Além disso, a regularidade de todas as aquisições de café do período das pessoas jurídicas inaptas, baixadas e suspensas, incluídas as mencionadas nos documentos, foram devidamente comprovadas por meio do pagamento do preço e recebimento das mercadorias. Portanto, não foram apresentados elementos Fl. 624DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 14 relevantes para afastar a boa-fé da contribuinte, em especial o parágrafo único do artigo 82 da Lei n° 9.430/96; 6. Por meio da espécie do café adquirida pela contribuinte (café em grão Arábica), é possível concluir pela inexistência de qualquer vinculação desta com os produtos das operações descritas nos documentos juntados pela Unidade de Origem; 7. Ainda que se possa aproveitar “partes” dos documentos - se não fossem descartados pelos argumentos anteriores - apenas como força da argumentação -, foi possível identificar muitas passagens contendo “rasuras”, sob a justificativa “dados sujeitos a sigilo fiscal” e a “sigilo bancário”. Ocorre que tal fato compromete a leitura - e, neste ponto, revelam-se obstáculos à ampla defesa da contribuinte. A DRJ julgou a manifestação de inconformidade procedente em parte e reconheceu em parte o direito creditório pleiteado, no valor adicional de R$ 1.243,03, e, em consequência, determinou a homologação das compensações até o limite do crédito reconhecido. Segue a ementa do acórdão proferido pela DRJ: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 FRAUDE. DISSIMULAÇÃO. DESCONSIDERAÇÃO. NEGÓCIO ILÍCITO. Comprovada a existência de simulação/dissimulação por meio de interposta pessoa, com o fim exclusivo de afastar o pagamento da contribuição devida, é de se glosar os créditos decorrentes dos expedientes ilícitos, desconsiderando-se os negócios fraudulentos. USO DE INTERPOSTA PESSOA. INEXISTÊNCIA DE FINALIDADE COMERCIAL. DANO AO ERÁRIO. CARACTERIZADO. Negócios efetuados com pessoas jurídicas, artificialmente criadas e intencionalmente interpostas na cadeia produtiva, sem qualquer finalidade comercial, visando reduzir a carga tributária, além de simular negócios inexistentes para dissimular negócios de fato existentes, constituem dano ao Erário e fraude contra a Fazenda Pública, rejeitando-se peremptoriamente qualquer eufemismo de planejamento tributário. REGIME DE APURAÇÃO NÃO CUMULATIVA. CRÉDITOS NA AQUISIÇÃO DE PRODUTOS DE COOPERATIVA. Pessoa jurídica, submetida ao regime de apuração não cumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep, não está impedida de apurar créditos relativos às aquisições de produtos junto a cooperativas, observados os limites e condições previstos na legislação. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Fl. 625DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 15 Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 NULIDADE. Não padece de nulidade a decisão, lavrada por autoridade competente, contra a qual o contribuinte pode exercer o contraditório e a ampla defesa, onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal. DELEGACIAS DE JULGAMENTO. COMPETÊNCIA. Às Delegacias da Receita Federal de Julgamento, com jurisdição nacional, compete conhecer e julgar, depois de instaurado o litígio, impugnações e manifestações de inconformidade em processos administrativos fiscais. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/04/2008 a 30/06/2008 CORREÇÃO MONETÁRIA. TAXA SELIC. VEDAÇÃO LEGAL. Por expressa disposição legal, não incide atualização monetária sobre créditos de Cofins e de PIS/Pasep objeto de ressarcimento. A recorrente interpôs recurso voluntário em face do sobredito acórdão, por meio do qual, em síntese, pleiteia a nulidade do acórdão recorrido, bem como repisa os supracitados argumentos apresentados na manifestação de inconformidade. É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheiro Wagner Mota Momesso de Oliveira, Relator. O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, razões pelas quais o conheço. Preliminares Alegação de nulidade do acórdão recorrido A recorrente aduz que o acórdão recorrido é nulo em razão de vício quanto ao seu motivo, havendo, dessa forma, violação ao seu direito de defesa; bem como que há sólidos argumentos para que seja reconhecido o seu direito creditório. Sem razão a recorrente. Isso porque o acórdão recorrido está devidamente fundamentado, não havendo que se falar em vício quanto à sua fundamentação. Fl. 626DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 16 Com efeito, a DRJ analisou as matérias veiculadas na peça de defesa, e, de forma fundamentada, julgou improcedente a manifestação de inconformidade, sendo desnecessária a manifestação pormenorizada de cada uma das alegações. A legislação estabelece que são nulos os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa, conforme art. 59 do Decreto 70.235/1972. No presente caso, não restam configuradas tais hipóteses. Importante assinalar que o julgador não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos trazidos pela parte, se os fundamentos utilizados tenham sido suficientes para embasar a decisão. Confira-se precedentes do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e do STF (Supremo Tribunal Federal): EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. RECLAMAÇÃO. CONSEQUÊNCIA JURÍDICA- PROCESSUAL DO JULGADO DITO POR CONTRARIADO. EXTRAPOLAÇÃO DOS LIMITES DE CONHECIMENTO DESTA AÇÃO. OMISSÃO, CONTRADIÇÃO OU OBSCURIDADE. INEXISTÊNCIA. REDISCUSSÃO DO JULGADO. IMPOSSIBILIDADE. EMBARGOS REJEITADOS. 1. O magistrado não é obrigado a responder a todas as teses apresentadas pelas partes para fielmente cumprir seu encargo constitucional de prestar a jurisdição, mas tão somente decidir fundamentadamente as questões postas sob seu julgamento. Precedentes desta Corte Superior e do Supremo Tribunal Federal. (...) 4. Embargos de declaração rejeitados. (EDcl na Rcl 3460/PI – Proc. 2009/0058875-6 – Terceira seção – Rel. Min. Jorge Mussi – DJE 24/08/2016) PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. INTERPOSIÇÃO CONTRA DECISÃO PUBLICADA NA VIGÊNCIA DO CPC/2015. (...) 3. Não se configura ofensa ao art. 535 do CPC/73 quando o Tribunal de origem, embora rejeite os embargos de declaração opostos, manifesta-se acerca de todas as questões devolvidas com o recurso e consideradas necessárias à solução da controvérsia, sendo desnecessária a manifestação pontual sobre todos os artigos de lei indicados como violados pela parte vencida. (...) (AREsp 959991/RS – Proc. 2016/0200803-9 – Terceira Turma – Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze – DJE 26/08/2016) Questão de ordem. Agravo de Instrumento. Conversão em recurso extraordinário. (...) O art. 93, IX, da Constituição Federal exige que o acórdão ou decisão sejam fundamentados, ainda que sucintamente, sem determinar, contudo, o exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas, nem que sejam corretos os fundamentos da decisão. 4. Questão de ordem acolhida para reconhecer a repercussão geral, reafirmar a jurisprudência do Tribunal, negar provimento ao recurso e autorizar a adoção dos procedimentos relacionados à repercussão geral. (Questão de Ordem no Agravo de Instrumento 791.292 – PE, Rel. Min. Gilmar Mendes – DJE 12/08/2010) (destaques nosso) Fl. 627DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 17 Sendo assim, constata-se que a decisão recorrida foi proferida de forma fundamentada, não havendo nenhum vício a ser reparado. Logo, afasto a preliminar de nulidade do acórdão recorrido. Pedido de sustentação oral, decisões judiciais e decisões proferidas por este Conselho Na peça do recurso voluntário, a recorrente protesta pelo direito de fazer sustentação oral quando do julgamento do recurso. O pedido de sustentação oral deve ser feito na época própria e pelo meio disponível, conforme disposto no art. 95 do Regimento Interno deste Conselho (Portaria MF n. 1.634, de 21 de dezembro de 2023): Art. 95. É facultado às partes realizar sustentação oral e apresentar memoriais, e acompanhar a sessão de julgamento síncrona, desde que o requeiram com a antecedência necessária, conforme disciplinado por Ato do Presidente do CARF, que regulará o prazo e a forma de apresentação do requerimento e demais requisitos operacionais para realização da sustentação oral. Logo, nada a prover neste tópico. Logo, nada a prover. No que diz respeito às decisões proferidas por este Conselho, citadas e reproduzidas pela recorrente na peça recursal, cabe assinalar, desde logo, que tais decisões se aplicam apenas às partes dos respectivos processos, se referem a casos específicos, com provas e fatos distintos deste processo, e não possuem força vinculante. Com efeito, tão somente as Súmulas e as Resoluções do Pleno da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) possuem força vinculante e, portanto, devem ser observadas pelas turmas julgadoras, conforme disposto no art. 123, § 4º, e no art. 130, § 3º, do Regimento Interno (RICARF), aprovado pela Portaria MF n. 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Quanto às decisões judiciais, é cediço que, em regra, não possuem força vinculante, salvo nos casos dispostos no art. 98 do RICARF, como as decisões judiciais proferidas pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em sede de controle concentrado (ADI – Ação Direta de Inconstitucionalidade ou ADC – Ação Declaratória de Constitucionalidade, por exemplo) ou ainda em julgamento com repercussão geral reconhecida, e, pelo STJ, sob o rito de recursos repetitivos. Mérito Operações com pessoas jurídicas de fachada para geração de créditos Na peça recursal, a recorrente contesta as glosas de créditos referentes às notas fiscais emitidas por seus fornecedores, pessoas jurídicas, referentes à venda de café cru, consideradas pela Fiscalização inidôneas, e, por isso mesmo, sem produção de efeitos perante terceiros. Fl. 628DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 18 Sustenta que inexiste correlação entre a situação fática dos fornecedores e as glosas efetuadas, não havendo provas para afastar a sua presunção de boa-fé, bem como que houve pagamento e recebimento das mercadorias adquiridas por ela, conforme dispõem o art. 82 da Lei 9.430/96 e o art. 48 da Instrução Normativa RFB 748/07. Aduz que o acórdão recorrido se limitou a tecer considerações gerais a respeito das operações Tempo de Colheita, Broca e Robusta, não havendo análise específica do caso concreto, bem como que a decisão atribui culpa e participação à recorrente, afastando a presunção de sua boa-fé, sem qualquer suporte fático ou documental. Aduz que as empresas citadas no acórdão recorrido, envolvidas na operação Tempo de Colheita, como a Do Grão e a V Munaldi, não foram seus fornecedores no período sob exame. Sem razão a recorrente. A fundamentação apresentada por meio do acórdão recorrido é a mesma fundamentação apresentada pela Fiscalização por meio do TVF (Termo de Verificação Fiscal). Realmente, a autoridade fiscal, no referido TVF, de forma detalhada, apresentou as conclusões constatadas em procedimento fiscal efetuado em face de empresas envolvidas na aludidas operações, muitas fornecedoras da recorrente, de modo que a decisão recorrida também apresentou tais constatações, a fim de demonstrar que a Fiscalização corretamente efetuou as glosas de créditos em questão, créditos esses relacionados com empresas envolvidas nas referidas operações, em razão de várias constatações, registradas no TVF, que levaram à conclusão de que as supostas fornecedoras da recorrente, pessoas jurídicas, foram criadas apenas para emitir notas fiscais de venda do café cru, com créditos das contribuições em tela, bem como que, na realidade, tais aquisições foram efetuadas de pessoas físicas, produtores de café. A recorrente, de fato, não é mencionada nos autos atinentes às referidas operações. No entanto, diferentemente do alegado na peça recursal, resta claro que, dentre os inúmeros fornecedores dela, com irregularidades evidenciadas pela Fiscalização, de forma específica para cada um, há também fornecedores, do período sob exame, envolvidos e citados nas referidas operações, conforme expressamente consignado pela autoridade fiscal no TVF: 40. Restou comprovado no curso da "Operação Tempo de Colheita" que as tais "pseudo-atacadistas" investigadas apresentam patrimônio totalmente incompatível com a atividade declarada como também pela suposta movimentação comercial; que não declaram, nem pagam quaisquer tributos; situam-se em escritórios acanhados em prédios comerciais, sem qualquer logística capaz de movimentar cargas, armazenar e, muito menos beneficiar cargas de café. 41. Dentre os fornecedores de café da fiscalizada situados no ES, dois deles foram objeto de investigação da "Operação Tempo de Colheita": • L & L COMERCIO EXPORTAÇÃO DE CAFÉ LTDA., CNPJ 06.259.183/0001-40; • P. A. DE CRISTO ME, CNPJ 08.492.348/0001-55. Fl. 629DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 19 42. Além dos fornecedores instalados no Estado do Espírito Santo, no curso das investigações, os Auditores Fiscais de Vitória/ES constataram registros de compras nas empresas exportadoras de supostos fornecedores situados no Estado de Minas Gerais, principalmente, no município de MANHUAÇU. A confrontação da movimentação financeira com dados fiscais dessas supostas atacadistas de café no Estado de Minas Gerais não mostrou um quadro diferente do encontrado no Espírito Santo: movimentação financeira milionária para empresas cuja declaração de Imposto de Renda encontrava-se na situação de INATIVA, OMISSA, ZERADA ou com informação de receita irrisória e, portanto, incompatível com os recursos movimentados. Empresas sem quadro de funcionários para executar suas atividades ou, quando muito, com um número ínfimo e, além de tudo isso, sem qualquer recolhimento dos tributos devidos. 43. Dando sequência às investigações, no período de 29/11/2010 a 01/12/2010, Auditores Fiscais da DRF Vitória/ES efetuaram diligências nas cidades de MANHUAÇU, MANHUMIRIM, DIVINO e ESPERA FELIZ, em Minas Gerais, ocasião em que foram realizadas algumas abordagens diretas e fotos dos endereços onde essas pessoas jurídicas funcionam ou funcionaram. 44. Em MANHUAÇU/MG o quadro se apresentou mais emblemático. "Empresas" situadas uma ao lado da outra, desprovidas de patrimônio e capacidade operacional necessários ao seu objeto, tentando transparecer como atacadistas de café, só que próximas, não distantes, as vezes a 20 metros dos escritórios de compras de grandes exportadoras e torrefadoras. 45. Somente na Avenida Barão do Rio Branco teriam funcionado como atacadistas de café as empresas: · M. M. L. DA SILVA no nº 148; · J. B. DA SILVA no n° 239-B; · J.S. ALVES no n° 181, sala 05; · SÉCULOS COMÉRCIO DE CAFÉ LTDA no n°217, loja A , e; · JUAREZ GONÇALVES no n°344-B. 46. Na Avenida Melo Viana, transversal à Av. Barão do Rio Branco, teriam funcionado como atacadistas de café as seguintes empresas: · J. G. GONÇALVES (Cafeeira Nova Esperança) no n°591-B; · D. DE S. TEIXEIRA (Café Grãos Verdes) no n°591-C; · E. M. GOMES (Gomes Comércio) no n° 591-D; · CAMARGOS COMÉRCIO DE CAFÉ LTDA no n°604, sala 09, e; · BELA VISTA COMÉRCIO DE CAFÉ LTDA, também no n° 604, sala 09. 47. Em outra transversal à Av. Barão do Rio Branco, está a Av. Felipe Nascif, onde teriam funcionado como atacadistas de café as seguintes empresas: Fl. 630DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 20 · STYLLUS COMÉRCIO DE CAFÉ LTDA no n°10-B; · ABEL DE PAULA (Café Suíço) no n° 54; · F. A. JACOB (Cafeeira Beira Rio) no n°121-A, e; · H & B COMÉRCIO DE CAFÉ LTDA. no n°224-B. 48. Na Rua Teócrito Pinheiro constam o domicílio fiscal das seguintes pessoas jurídicas: · R. L DE SOUZA (Grão Café Comércio) no n°143-B; · AÇUCAFÉ LTDA no n° 186-A, e; · R. S. DE OLIVEIRA no n°186-B. 49. Por fim a Rua Francisco Fialho, que também cruza a Av. Barão de Rio Branco, onde constavam como endereço das seguintes pseudo-atacadístas de café: · COMERCIAL. SÃO LOURENCO LTDA no n°12, sala 01; · COMÉRCIO DE CAFÉ RIO GRANDE LTDA no n° 33; · NOVA ESPERANÇA COMÉRCIO DE CAFÉ LTDA no n° 33, 2°andar; · MlLA COMÉRCIO DE CAFÉ LTDA no n°33, sala 01; · HALLFA COMÉRCIO DE CAFÉ LTDA no n° 35-térreo; · SANTA MARTA COMÉRCIO E REPRESENTAÇÃO LTDA no n° 59; · E. A. RAPOSO no n°68, e; · AGAR COMÉRCIO LTDA no n° 108. Obs.: As empresas listadas nos itens anteriores, constam como fornecedores de mercadorias à fiscalizada, no período de 01/08 a 09/08. 50. Como resultado das diversas diligências realizadas pela Receita Federal do Brasil, através de suas Delegacias, foi declarada a INAPTIDÃO, SUSPENSÃO ou BAIXA de várias dessas empresas de fachada. (...) Algumas empresas citadas no acórdão recorrido, como a Do Grão e a V Munaldi, envolvidas na operação Tempo de Colheita, de fato, não estão relacionadas, no período sob exame, como fornecedoras da recorrente, mas já foram suas fornecedoras em outros períodos. Dessa forma, essas empresas foram citadas no acórdão recorrido apenas para demonstrar, como exemplos, o procedimento adotado pelas empresas mencionadas nas operações, não havendo nenhum vício capaz de impor a nulidade da decisão. Até porque há extensa fundamentação da Fiscalização, também destacada pela decisão recorrida, acerca das glosas de créditos efetuadas e relacionadas às empresas identificadas como fornecedoras no período em questão. Fl. 631DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 21 Trata-se de empresas com diversas irregularidades, como falta de apresentação de declarações obrigatórias (DACON – Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais, DIPJ – Declaração de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica e DCTF – Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais), inexistência de recolhimento da Cofins e da contribuição ao PIS, empresas declaradas inaptas ou baixadas, em razão de inexistência de fato, ou suspensas, conforme a relação constante no TVF, abaixo reproduzida: 17. Dentre as empresas fornecedoras de insumos para a STOCKLER, cujas compras de mercadorias geraram solicitação de créditos de PIS e Cofins não cumulativos - exportação, encontram-se com a situação de INAPTAS e BAIXADAS, por INEXISTÊNCIA DE FATO, as seguintes: 18. Há ainda fornecedores que apresentam sua situação cadastral como "SUSPENSA", conforme apresentado a seguir: Fl. 632DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 22 Cuida-se de caso com várias constatações apresentadas pela Fiscalização em relação a supostos fornecedores, pessoas jurídicas, na realidade, à época, muitos considerados inaptos ou baixados, por inexistência de fato, ou suspensos, conforme bem apontado pela autoridade fiscal. Segue a relação dos principais supostos fornecedores da recorrente, pessoas jurídicas, constante no TVF: 51. Segue adiante a relação de empresas fornecedoras da STOCKLER que foram analisadas individualmente pela Receita Federal do Brasil mediante diligências e consideradas inexistentes de fato. Foram anexadas fotos de empresas da região de Manhuaçu retratando as fachadas de algumas empresas atacadistas de café, sua capacidade operacional, assim como o recolhimento de contribuições de PIS/Cofins. Seguem em anexo as pesquisas efetuadas nos sistemas da Receita Federal do Brasil, relativa à situação cadastral e a relação de DIPJ e DACON entregues e, em vários casos, as próprias Declarações a fim de demonstrar a irregularidade das informações prestadas. Em certas situações verificamos, ainda, a situação financeira dos sócios das empresas (DIRPF), a fim de comprovar a falta de capacidade de arcar com os custos de um empreendimento. A listagem exposta a seguir prioriza a relevância das transações comerciais declaradas pela fiscalizada. A. FORNECEDORES: SITUAÇÃO CADASTRAL E VALOR COMPRAS Fl. 633DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 23 B. FORNECEDORES: RECOLHIMENTO DE TRIBUTOS Fl. 634DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 24 Considerando que são inúmeros fatos constatados, registrados pela Fiscalização, cumpre transcrever as principais constatações apresentadas pela autoridade fiscal, por meio do TVF, em relação aos aludidos 5 (cinco) principais supostos fornecedores da recorrente: 1. D. DE S. TEIXEIRA - ME, RAIZ CNPJ 08.755.351: No ano calendário de 2008 declarou na Declaração Simplificada da Pessoa Jurídica (DSPJ) a condição de INATIVA, ou seja, que permaneceu durante todo o período de 01/01/2008 a 31/12/2008 sem efetuar atividade operacional, não operacional, financeira ou patrimonial. Não entregou os Demonstrativos de Apuração das. Contribuições Sociais (DACON) desse período, assim como as Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF) e as Guias de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social (GFIP). 2. SECULOS COMERCIO DE CAFE LTDA - RAIZ CNPJ 05.516.878: No ano calendário de 2005 entregou Declaração Simplificada da Pessoa Jurídica (DSPJ) na condição de INATIVA, ou seja, que permaneceu durante todo o período de 01/01/2005 a 31/12/2005 sem efetuar atividade operacional, não operacional, financeira ou patrimonial. Nenhuma outra declaração de atividade econômica foi entregue após este período. Não entregou os Demonstrativos de Apuração das Contribuições Sociais (DACON) desse período, assim como as Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF) e as Guias de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social (GFIP). Declarada INAPTA pela DRF/Governador Valadares/MG, com efeitos a partir de 01/07/2004, através do processo 19991.000505/2009-23, em razão da constatação de sua INEXISTÊNCIA DE FATO. 3. AGRO MINAS COMERCIO E EXPORTACAO DE CAFE LTDA - ME - RAIZ CNPJ 07.250.579: No ano calendário de 2008 não entregou a Declaração de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ). Não entregou os Demonstrativos de Apuração das Contribuições Sociais (DACON) desse período, assim como as Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF) e as Fl. 635DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 25 Guias de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social (GFIP). Foi declarada INAPTA por INEXISTÊNCIA DE FATO pelo processo administrativo 16832.000616/2009-74 da DEFIS II/RJ. 4. DARIO DE SOUZA VEIGA—ME — RAIZ CNPJ 00.450.919: No ano calendário de 2008 entregou Declaração Simplificada da Pessoa Jurídica (DSPJ) na condição de INATIVA, ou seja, que permaneceu durante todo o período de 01/01/2008 a 31/12/2008 sem efetuar atividade operacional, não operacional, financeira ou patrimonial. Nenhuma outra declaração de atividade econômica foi entregue após este período. Não entregou os Demonstrativos de Apuração das Contribuições Sociais (DACON) desse período, assim como as Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF) e as Guias de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social (GFIP). Seu nome fantasia era "PADARIA VEIGA" e foi representada por INAPTIDÃO pela DRF Poços de Caldas/MG, através do processo 19991.000601/2009-71. 5. SANTA MARTA COMERCIO & REPRESENTACAO LTDA — RAIZ CNPJ 04.747.510: Do ano calendário de 2001 até o de 2009, a empresa entregou a Declaração Simplificada da Pessoa Jurídica (DSPJ) na condição de INATIVA, ou seja, que permaneceu durante todo esse período sem efetuar atividade operacional, não operacional, financeira ou patrimonial. Nenhuma outra declaração de atividade econômica foi entregue após este período. Não entregou os Demonstrativos de Apuração dás Contribuições Sociais (DACON) desse período, assim como as Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF) e as Guias de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social (GFIP). Declarada INAPTA por INEXISTÊNCIA DE FATO, através do processo 19991.000624/2009-86. Com efeito, quanto às empresas identificadas como fornecedoras da recorrente no período sob análise, a Fiscalização apresentou as constatações concernentes a tais pessoas jurídicas, supostas fornecedoras da recorrente, que corroboram a sua conclusão no sentido de que consistem em empresas criadas tão somente para emissão de notas fiscais de venda de café crú, com vistas ao aproveitamento de crédito das contribuições em tela (PIS e Cofins) pela adquirente dos produtos, no caso, a recorrente. Exatamente conforme decidiu a instância de piso, por meio do acórdão recorrido, cuja fundamentação, abaixo transcrita, adoto também como razão de decidir: Tudo indica até aqui que as autodenominadas “atacadistas” são empresas de fachadas, que se prestaram a uma simulação/dissimulação de uma operação de compra e venda de café, pois movimentavam grandes somas financeiramente, mas não tinham como operar com as mercadorias. Além do fato de ter, como se viu, uma existência fantasmagórica do ponto de vista da tributação, descumprindo obrigações acessórias e também a principal, consistente em pagar tributo. (...) Finalmente, a inconformada menciona que não há liame algum entre a recorrente e algumas empresas atacadistas, seus fornecedores, assim, os créditos derivados Fl. 636DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 26 das aquisições destas empresas não poderiam ser glosados. Alega que se os seus fornecedores deixaram de recolher tributos ou apresentaram declarações falsas não cabe a esta qualquer responsabilidade. No entanto, a alegação não procede porquanto a caracterização daqueles fornecedores como empresa atacadista sem capacidade operacional, com existência fantasmagórica do ponto vista fiscal, mas com movimento apreciável de recursos restou incontroverso nos autos (v. TVF). Além disso, encontram-se bem definidas como empresas criadas com o propósito de vender nota fiscal, não com o propósito de comercializar café, logo, não seria crível – contrariando o que afirma seus próprios sócios e administradores – que teria vendido café somente para a contribuinte, ora inconformada. Uma vez confessado pelas próprias “atacadistas”, fornecedoras da contribuinte, que não vendiam café, mas apenas forneciam nota fiscal para uma operação eufemisticamente chamada de “guiar o café”, conclui-se que a correspondente compra do café pela contribuinte não passa de simples arranjo documental com vistas a vantagens tributárias ilícitas. Em suma, se não houve a venda conforme confessado - por quem podia confessar - tampouco poderia ter havido a compra, a contrario sensu, estar-se ia diante de fenômeno único no mundo jurídico, onde uma compra não se conecta com sua contraparte lógica, a venda. (...) (destaques nosso) Diante dos fatos constatados pela autoridade fiscal, resta inequívoco que se trata de empresas criadas tão somente para emissão de nota fiscal de venda de café cru, adquiridos pela recorrente, na realidade, de produtores rurais pessoas físicas. Não merecem acolhida os argumentos apresentados pela recorrente no sentido de que não teve participação em nenhuma operação irregular, que agiu de boa-fé ao adquirir os produtos, bem como que não cabe a ela verificar a situação dos seus fornecedores. Ora, diante dos fatos constatados e evidenciados pela autoridade fiscal, infere-se que a recorrente tinha conhecimento desses fatos, vale dizer, de que os seus fornecedores, pessoas jurídicas, apenas emitiram as notas fiscais de venda de café cru a fim de possibilitar a ela o aproveitamento, indevido, de créditos da contribuição ao PIS e da Cofins. Conforme demonstrado pela autoridade fiscal, há inúmeros fornecedores que foram declarados inaptos, de modo que as notas fiscais emitidas por eles não produzem efeitos tributários em favor de terceiros interessados, como a recorrente, conforme disposto no caput do art. 82 da Lei 9.430/96. Além disso, constata-se que há também inúmeros fornecedores sem capacidade operacional, em razão de várias constatações, como a falta de apresentação de declarações obrigatórias à época, como a DACON, DIPJ e DCTF, a existência de sócios sem capacidade financeira (“sócios laranjas”), fornecedores estabelecidos em endereços incompatíveis com o porte da empresa (empresa atacadista de café), fatos esses que corroboram a conclusão Fl. 637DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 27 apresentada pela autoridade fiscal no sentido de que se trata de empresas criadas especificamente para gerar créditos indevidos das contribuições em comento. Verifica-se que não é caso de aplicação do parágrafo único do art. 82 da Lei 9.430/1996 e do § 5º do art. 48 da IN RFB 748/2007, os quais admitem o crédito do adquirente de boa-fé, se comprovado o pagamento e o recebimento da mercadoria, conforme a seguir reproduzidos: Lei 9.430/1996 Art. 82. Além das demais hipóteses de inidoneidade de documentos previstas na legislação, não produzirá efeitos tributários em favor de terceiros interessados o documento emitido por pessoa jurídica cuja inscrição no CNPJ tenha sido considerada ou declarada inapta. (Redação dada pela Lei nº 14.195, de 2021) Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica aos casos em que o adquirente de bens, direitos e mercadorias ou o tomador de serviços comprovarem a efetivação do pagamento do preço respectivo e o recebimento dos bens, direitos e mercadorias ou utilização dos serviços. IN RFB 748/2007 Art. 48. Será considerado inidôneo, não produzindo efeitos tributários em favor de terceiros interessados, o documento emitido por pessoa jurídica cuja inscrição no CNPJ haja sido declarada inapta. (...) § 5º O disposto no § 1º não se aplica aos casos em que o terceiro interessado, adquirente de bens, direitos e mercadorias ou o tomador de serviços, comprovar o pagamento do preço respectivo e o recebimento dos bens, direitos ou mercadorias ou a utilização dos serviços. Isso porque não se discute o pagamento e a aquisição da mercadoria (café), e sim o real fornecedor, no caso o produtor pessoa física, e não a pessoa jurídica emitente da nota fiscal de venda. De fato, no caso sob exame não se discute se a recorrente é adquirente de boa-fé das mercadorias adquiridas (café cru), e sim se os reais fornecedores da mercadoria são as pessoas jurídicas emitentes das notas fiscais ou os próprios produtores de café, pessoas físicas, conforme bem apontado pelo acórdão recorrido, fundamentação com a qual concordo e a adoto também como razão de decidir: O simples fato de que “comprou, pagou e recebeu a mercadoria”, o que seria suficiente para garantir o crédito de PIS/Cofins, na forma do parágrafo único do art. 82, da Lei nº 9.430/96, não é eficaz, porquanto a Fiscalização investiga resposta a outra questão: “de quem ?”. E as provas dos autos direcionam para a resposta de que “comprou, pagou e recebeu a mercadoria” de produtor rural (pessoa física), não de pessoa jurídica, no que pese as notas fiscais tenham sido construídas para mascarar a realidade, fazendo nelas constar “empresas” sem Fl. 638DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14195.htm#art19 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 28 qualquer vínculo com o mercado de café, mas criadas para participar de um estratagema de ataque à Fazenda Nacional. No quadro probatório assentado tem-se ainda por irrelevantes as alegações da inconformada quanto à inexistência de declaração de inidoneidade/inaptidão das empresas fornecedoras; ao tempo em que efetuou as transações, ou de que não fora observado o disposto no art. 82 da Lei nº 9.430/96; de que tomou o cuidado de verificar a regularidade das empresas fornecedoras no CNPJ ou Sintegra. As alegações são irrelevantes porque independentemente da declaração de inaptidão, em ato oficial adequado emitido pela autoridade competente da Receita Federal do Brasil, a documentação fiscal pode ser considerada como tributariamente ineficaz, quando comprovado não ter havido a transação a que se refere, permitindo concluir que os documentos apresentados mascaram uma aquisição fictícia de mercadorias, impondo-se afastar a faculdade de a interessada calcular crédito de PIS/Cofins na incidência não-cumulativa. Enfim, a alegação da contribuinte de que não é possível concluir que teve conhecimento da prática ilícita de fornecedores não prevalece diante da prova reunida pela Autoridade Fiscal. (...) A análise exposta nos itens anteriores rejeita peremptoriamente qualquer alegação de planejamento tributário, pois demonstra que o Contribuinte utilizou- se de pessoas jurídicas de existência fantasmagórica, a fim de interpor elo fictício na cadeia produtiva e, assim, escapar do pagamento de tributo de sua responsabilidade, por meio de compensação de créditos inexistentes de fato. A recorrente genericamente alega o absurdo de glosas inexplicadas, a saber, aquelas para as compras realizadas nas empresas nas quais a fiscalização não indicou qualquer elemento delituoso, sendo que as mesmas continuam ATIVAS até a presente oportunidade. Na verdade, a recorrente não aponta especificamente qualquer glosa inexplicada, afirma apenas que alguns dos fornecedores estariam ainda na condição de ativa no CNPJ. No entanto, tais empresas ativas permanecem em contínua inadimplência em relação a obrigações acessória e principal, sem declarar receitas ou recolher PIS/Cofins. No contexto aqui demarcado é irrelevante ter havido, ou não, o pagamento, de fato, no elo anterior da cadeia, ou se o fornecedor ainda não fora declarado inapto ou se o contribuinte recebera a mercadoria, pois, como demonstrado o resultado da investigação empreendida assentou ter havido sistemático travestimento nos negócios da Empresa. (destaques nosso) Os fatos constatados e apresentados pela Fiscalização levam inequivocadamente à conclusão de que as aquisições, pela recorrente, de café cru, não foram das pessoas jurídicas emitentes das notas fiscais apresentadas, e sim que tais pessoas jurídicas foram criadas apenas para dar aparência a negócios jurídicos inexistentes (artificiais) entre a recorrente e essas pessoas jurídicas, vale dizer, consistem em pessoas jurídicas de fachada. Fl. 639DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 29 O objetivo, consoante evidenciado pela autoridade fiscal, era o aproveitamento, pela recorrente, de créditos das contribuições em tela, de 7,6% de Cofins e 1,65% da contribuição ao PÌS, calculados sobre os valores das supostas aquisições de café cru de pessoas jurídicas. Com efeito, os supracitados fatos constatados pela autoridade fiscal, acerca de pessoas jurídicas supostamente fornecedoras da recorrente, evidenciam que os cafés crus adquiridos por ela, na verdade, foram adquiridos diretamente dos produtores rurais, pessoa físicas. Cabe destacar que essas operações, aquisições de café cru de pessoas físicas, com a apresentação dos documentos idôneos das aquisições, poderiam gerar créditos das contribuições em apreço no montante de 35% do crédito aproveitado, indevidamente, pela recorrente, como se fosse adquirido de pessoa jurídica atacadista (crédito presumido). Pelo mesmo motivo acima descrito, também não é caso de aplicação da Súmula 509 do STJ (Superior Tribunal de Justiça), já que não se discute a aquisição da mercadoria, e sim de quem realmente foi adquirida, bem como porque a aludida súmula se refere a crédito do ICMS e não das contribuições em apreço (PIS/Cofins). Logo, nada a prover neste tópico. Bens adquiridos de Cooperativas Agropecuárias A recorrente se enquadra como agroindustrial, conforme constatado pela autoridade fiscal: 8. Com vistas a obtermos a informação se a fiscalizada adquire café com a finalidade de utilizá-lo como insumo na atividade agroindustrial de padronizar, beneficiar, preparar e misturar tipos de café para definição de aroma e sabor (blend) ou separar por densidade dos grãos, com redução dos tipos determinados pela-classificação oficial, e para dar celeridade ao presente Procedimento Fiscal, utilizamo-nos da informação prestada na fiscalização anterior, do MPF 0810600/2010-00461, que confirma o processo agroindustrial, descreve todas as etapas deste, efetuado pelo próprio contribuinte ou por terceiros, e informa que não segrega os custos do café adquirido, uma vez que todo ele é utilizado como insumo. (destaques nosso) Ademais, a Fiscalização considerou o aproveitamento integral de crédito apenas dos produtos adquiridos de cooperativas agroindustriais, e, no que diz respeito aos produtos adquiridos de cooperativas agropecuárias, considerou os créditos como presumidos, de acordo com o art. 8º da Lei 10.925/04: 63. Além destes produtores, a fiscalizada adquiriu mercadorias de cooperativas. Antes de seguir adiante com a análise, vale ressaltar as diferenças legais para o enquadramento do tipo de crédito a ser pleiteado pelo contribuinte referente às compras realizadas destes fornecedores. A lei 10925/04 separa as cooperativas Fl. 640DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 30 que comercializam café (mercadoria classificada no código 09.01 da NCM Nomenclatura-Comum do MERCOSUL), em dois grupos: 1) Cooperativas -de Produção Agropecuária, que têm a incidência das contribuições para o PIS/Pasep e para a Cofins suspensas no caso de venda de seus produtos (art. 9º, Lei 10.925/04); e 2) Cooperativas Agroindustriais, que no caso do café, são aquelas que exercem cumulativamente as atividades de padronizar, beneficiar, preparar e misturar tipos de café para definição de aroma e sabor (blend) ou separar por densidade dos grãos, com redução dos tipos determinados pela classificação oficial, para as quais não há a aplicação da suspensão dessas contribuições em suas vendas (§§ 6º e 72, art. 8º e inc. II, § 1º, art. 92, todos da Lei 10.925/04). 64. A Delegacia da Receita Federal do Brasil em Santos encaminhou intimações a inúmeras cooperativas, dentre as quais uma série delas fornecedoras da STOCKLER. Nestas foram solicitadas informações relativas à natureza de suas operações e aos procedimentos adotados na apuração das contribuições. 65. Com base nas respostas obtidas verificamos que as cooperativas adiante listadas se enquadram no "grupo 1", ou seja, não exerceram cumulativamente as atividades de padronizar, beneficiar, preparar e misturar tipos de café para definição de aroma e sabor (blend) ou separar por densidade dos grãos, com redução dos tipos determinados pela classificação oficial. Desta forma, as transações comerciais com estes fornecedores não dão direito ao crédito integral e sim ao crédito presumido de PIS e Cofins: (destaques nosso) Aduz ainda que as aquisições de cooperativas agropecuárias geram direito a crédito integral, em atenção às informações constantes nas notas fiscais, juntadas por amostragem, na ocasião da apresentação da Manifestação de Inconformidade, as quais indicam que o café vendido a ela fora submetido à atividade industrial. Sem razão a recorrente. O caput do art. 8º da Lei 10.925, de 23 de julho de 2004, permite às pessoas jurídicas que produzam mercadorias de origem animal ou vegetal, destinadas à alimentação humana ou animal, deduzir crédito presumido, calculado sobre o valor dos insumos adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. Fl. 641DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 31 Além de ser autorizado o desconto de crédito presumido em relação às aquisições de pessoas físicas, estendeu o § 1º do art. 8º a possibilidade do desconto de crédito presumido também às aquisições por pessoa jurídica agroindustrial dos mesmos produtos relacionados no caput, de pessoas jurídicas que sejam cerealistas, de pessoa jurídica que dedique-se ao transporte, resfriamento e venda a granel de leite in natura, e de pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária. Ao mesmo tempo em que era concedido o crédito presumido para as aquisições, por pessoas jurídicas agroindustriais, de pessoas físicas e jurídicas, o art. 9º da mesma Lei 10.925/2004 estabeleceu a suspensão da exigibilidade da Contribuição para o PIS e da Cofins quando da venda de produtos agropecuários pelas pessoas jurídicas citadas no § 1º do art. 8°: Art. 9º A incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins fica suspensa no caso de venda: (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) I - de produtos de que trata o inciso I do § 1º do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoas jurídicas referidas no mencionado inciso; (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) II - de leite in natura, quando efetuada por pessoa jurídica mencionada no inciso II do § 1º do art. 8º desta Lei; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) III - de insumos destinados à produção das mercadorias referidas no caput do art. 8º desta Lei, quando efetuada por pessoa jurídica ou cooperativa referidas no inciso III do § 1º do mencionado artigo. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) § 1º O disposto neste artigo: (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) I - aplica-se somente na hipótese de vendas efetuadas à pessoa jurídica tributada com base no lucro real; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) II - não se aplica nas vendas efetuadas pelas pessoas jurídicas de que tratam os §§ 6º e 7º do art. 8º desta Lei. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) § 2º A suspensão de que trata este artigo aplicar-se-á nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal - SRF. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) (destaque nosso) O art. 17, III, da citada Lei 10.925/04 dispõe que a aludida suspensão se aplica desde 1º de agosto de 2004: Art. 17. Produz efeitos: (...) III - a partir de 1º de agosto de 2004, o disposto nos arts. 8º e 9º desta Lei; (destaque nosso) Dessa forma, sendo obrigatória a aplicação da suspensão em apreço desde 1º de agosto de 2004, as aquisições pela recorrente de café cru de cooperativas agropecuárias, no período sob exame, devem ser suspensas das contribuições em tela, e, dessa forma, há direito Fl. 642DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/L11051.htm#art9. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/L11051.htm#art9i https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/L11051.htm#art9i https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/L11051.htm#art9ii https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/L11051.htm#art9iii https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/L11051.htm#art9%C2%A71 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/L11051.htm#art9%C2%A71i https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/L11051.htm#art9%C2%A71ii https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/L11051.htm#art9%C2%A72 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/L11051.htm#art9%C2%A72 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/l10.925.htm#art8 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/l10.925.htm#art9. D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 32 apenas ao crédito presumido relacionado a essas aquisições, exatamente conforme considerou a autoridade fiscal. Outrossim, não procedem as alegações da recorrente no sentido de que as informações constantes nas notas fiscais indicam ou sinalizam que o café cru foi submetido à processo agroindustrial, uma vez que há provas apresentadas pelo Fisco que corroboram o fato de se tratar de aquisições de cooperativas agropecuárias. Com efeito, deve prevalecer a realidade dos fatos, vale dizer, as constatações efetuadas pela autoridade fiscal (provas) no sentido de que se trata de aquisições de café de cooperativas agropecuárias, conforme as informações prestadas, à autoridade fiscal, pelas próprias cooperativas que efetuaram as vendas de café cru à recorrente, em resposta às intimações lavradas em face dessas cooperativas, a fim de obter informações acerca das suas atividades. Também não merece acolhida o argumento no sentido de que cabe o crédito integral porque não constava na nota fiscal a expressão acerca da aplicação da suspensão da contribuição em comento, na medida em que tal falta não tem o condão de possibilitar o aproveitamento de crédito referente à operação suspensa por força de expressa disposição legal. Nesse sentido há o acórdão n. 9303-014.223, de 20 de julho de 2023, também proferido pela 3ª Turma da CSRF deste Conselho, sob a relatoria do eminente conselheiro Rosaldo Trevisan, conforme parte do voto a seguir reproduzida: Portanto, o fato de as notas fiscais de determinadas operações não terem indicado expressamente a suspensão da contribuição (que era obrigatória) não permite a tomada de créditos integrais pelo adquirente, por se tratar de procedimento contrário ao legalmente prescrito. O contribuinte, no caso, não pode se aproveitar de um direito que não lhe cabe, pois o benefício fiscal em comento foi criado em favor do vendedor, que poderá vir a exercê-lo enquanto não for decadente o seu direito de repetir a contribuição eventualmente recolhida de forma indevida. As pessoas jurídicas que, por descumprimento de preceito legal, emitiram notas fiscais sem a informação de suspensão, ou com a indicação de que se tratava de operação sujeita à incidência das contribuições, não ensejam, com tal conduta, atribuição de crédito básico em valores integrais. A lei impõe à operação a suspensão e autoriza ao adquirente o direito ao crédito presumido, que não se confunde com o crédito básico e integral. (destaques nosso) Logo, nada prover neste tópico. Incidência da Taxa Selic A recorrente aduz que é cabível a incidência da taxa Selic com relação a todos os créditos, inclusive os que forem reconhecidos por este Conselho. Fl. 643DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 33 A aplicação da taxa Selic na correção dos créditos da contribuição ao PIS e da Cofins não cumulativos não era permitida, conforme Súmula Carf 125. Contudo, tal súmula foi revogada, com base no entendimento firmado no julgamento do REsp 1.767.945 PR/STJ. Segue a reprodução da Portaria que revogou a referida súmula: CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS PORTARIA CARF/ME Nº 8.451, DE 22 DE SETEMBRO DE 2022 Revoga a Súmula CARF nº 125. O PRESIDENTE DO CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS, no uso da atribuição que lhe confere o § 4º do art. 74 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, e considerando o que consta do Recurso Especial nº 1.767.945/PR e da Nota Técnica SEI n° 42950/2022/ME, integrante dos autos do Processo SEI nº 15169.100277/2022-18, resolve: Art. 1º Fica revogada a Súmula CARF nº 125. Art. 2º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação. CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Tal súmula fora revogada em razão da tese fixada no julgamento, sob o rito dos recursos repetitivos, do REsp 1.767.945/PR (Tema 1.003), cuja redação é a seguinte: O termo inicial da correção monetária de ressarcimento de crédito escritural excedente de tributo sujeito ao regime não cumulativo ocorre somente após escoado o prazo de 360 dias para a análise do pedido administrativo pelo Fisco (art. 24 da Lei n. 11.457/2007). Infere-se que o termo inicial da correção monetária do pleito de ressarcimento de crédito escritural excedente de tributo sujeito ao regime não cumulativo ocorre apenas quando caracterizado o ato fazendário de resistência ilegítima, vale dizer, o transcurso do prazo de 360 dias para a análise, pelo Fisco, do pedido administrativo, conforme disposto no art. 24 da Lei 11.457/2007. Dessa forma, no caso de pedido de ressarcimento de créditos escriturais, em razão, evidentemente, da existência de saldo credor ressarcível, os contribuintes que utilizarem os créditos dentro de 360 dias não terão correção monetária do crédito, mas, nos casos em que o prazo for ultrapassado, a correção deve ocorrer a partir do 361º dia após o protocolo do pedido de ressarcimento, a fim de evitar desequilíbrio entre os que receberam no prazo e os que receberam fora do prazo. Em razão do decidido, notadamente, no aludido REsp 1.767.945/PR, a Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil editou a Instrução Normativa RFB 2.055, em 6 de dezembro de 2021, passando os arts. 148, 151 e 152 da referida IN a prever os acréscimos legais, a partir do 361º dia do protocolo do requerimento de ressarcimento, como segue: Fl. 644DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 34 Art. 148. O crédito relativo a tributo administrado pela RFB, passível de restituição ou de reembolso, será restituído, reembolsado ou compensado acrescido de juros equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic) para títulos federais, acumulados mensalmente, e de juros de 1% (um por cento) no mês em que: I - a quantia for disponibilizada ao sujeito passivo; II - for entregue a declaração de compensação ou for efetivada a compensação na GFIP; ou III - for considerada efetuada a compensação de ofício, conforme a data definida nos incisos I e II do art. 96. Parágrafo único. Para fins do disposto no inciso I do caput, será considerada disponibilizada a quantia ao sujeito passivo: I - no caso de restituição apurada em declaração de rendimentos da pessoa física, no mês em que o recurso for disponibilizado no banco ou na instituição de pagamento; e II - nos demais casos, no mês da efetivação da restituição. (...) Art. 151. Não haverá incidência dos juros compensatórios sobre o crédito do sujeito passivo: I - se a restituição for efetuada no mesmo mês da origem do direito creditório; II - no caso de compensação de ofício ou compensação declarada pelo sujeito passivo, se a data de valoração do crédito ocorrer no mesmo mês da origem do direito creditório; III - no ressarcimento ou na compensação de créditos do IPI, da Contribuição para o PIS/Pasep, da Cofins e relativos ao Reintegra, ressalvado o disposto no art. 152; e IV - na compensação do crédito de IRRF relativo a juros sobre capital próprio e de IRRF incidente sobre pagamentos efetuados a cooperativas a que se referem o art. 81 e o caput do art. 82, respectivamente. Art. 152. Na hipótese de não haver o ressarcimento de créditos do IPI, da Contribuição para o PIS/Pasep, da Cofins e relativos ao Reintegra, no prazo de 360 (trezentos e sessenta) dias da data do protocolo do pedido de ressarcimento, aplica-se à parcela do crédito não ressarcida ou não compensada o acréscimo de que trata o caput do art. 148. § 1º No cálculo dos juros de que trata o caput, será observado como termo inicial o 361º (trecentésimo sexagésimo primeiro) dia contado da data do protocolo do pedido de ressarcimento original. Fl. 645DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 35 § 2º O termo final da valoração do crédito objeto de pedido de ressarcimento deverá ser: I - na hipótese de ressarcimento, quando a quantia for disponibilizada ao contribuinte; II - na hipótese de compensação declarada, quando houver a entrega da declaração de compensação original; e III - na hipótese de compensação de ofício, quando ela for considerada efetuada. (destaques nosso) Há precedente da 3ª Turma da CSRF deste conselho, acerca da matéria, conforme acórdão 9303-016.230, de 21 de novembro de 2024, proferido sob a relatoria da eminente conselheira Denise Madalena Green, cuja parte da ementa e do voto seguem abaixo transcritos: Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2006 PEDIDO DE RESSARCIMENTO. CORREÇÃO MONETÁRIA. TAXA SELIC. INCIDÊNCIA, APÓS 365 DIAS. Conforme Nota Técnica SEI nº 42950/2022/ME, deve ser observado o decidido pelo STJ no REsp nº 1.767.945/PR (Tema Repetitivo 1003), no sentido de que é devida a correção monetária no ressarcimento de crédito escritural excedente de tributo sujeito ao regime não cumulativo, após escoado o prazo de 360 dias para a análise do Pedido de Ressarcimento (art. 24 da Lei nº 11.457/2007). Voto: IV – Do mérito: No mérito, pugna a recorrente para que seja reconhecido o direito à correão monetária pela Taxa SELIC, dos créditos que lhe foram reconhecidos após o transcurso do prazo de 360 dias do requerimento de ressarcimento formulado. Quanto ao direito à atualização monetária do crédito nos pedidos de ressarcimento de PIS/COFINS no regime da não cumulatividade, de fato, conforme exposto no acórdão recorrido, a previsão contida nos arts. 13 e 15, VI, da Lei nº 10.833/2003, prescreve que não incida a atualização monetária sobre os créditos em questão, nesses termos foi editada a Súmula CARF nº 125. No entanto, após a data da emissão e aprovação súmula, o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do REsp nºs 1.767.945, decidiu sob a sistemática de recursos repetitivos, que é devida a correção monetária sobre o ressarcimento de saldos credores de créditos escriturais, quando há resistência do Fisco em deferir o pedido. Fl. 646DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 36 Ressalta-se, que a Súmula CARF nº 125, que afastava a correção monetária e os juros no ressarcimento de PIS/COFINS, foi revogada pela Portaria CARF/ME nº 8.451/2022, sendo que, conforme Nota Técnica SEI nº 42950/2022/ME, exarada pela Coordenação-Geral de Gestão do Julgamento do CARF, seu afastamento justifica-se, em síntese, pela superveniência de decisão do STJ, no julgamento do REsp 1.767.945/PR (Tema 1.003), cuja redação é a seguinte: “O termo inicial da correção monetária de ressarcimento de crédito escritural excedente de tributo sujeito ao regime não cumulativo ocorre somente após escoado o prazo de 360 dias para a análise do pedido administrativo pelo Fisco (art. 24 da Lei n. 11.457/2007)”. Portanto, deve ser dado provimento ao Recurso Especial proposto pela contribuinte. V – Do dispositivo: Diante do exposto, voto por não conhecer do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, e conhecer do Recurso Especial da contribuinte, para no mérito dar provimento parcial, para garantir a incidência da atualização monetária pela Selic no montante do direito creditório reconhecido, a partir do término do prazo de 360 (trezentos e sessenta) dias contados após a data de protocolo do pedido de ressarcimento, nos termos da Nota Técnica SEI nº 42950/2022/ME. (destaques nosso) Diante do exposto, dou provimento ao pleito recursal, para que seja aplicada a correção monetária, pela taxa Selic, ao montante do direito creditório reconhecido a partir do 361º (trecentésimo sexagésimo primeiro) dia contado da data do protocolo do pedido de ressarcimento original. Compensação e ressarcimento em espécie de crédito presumido incontroverso Na peça recursal, a recorrente ainda pleiteia a compensação dos créditos presumidos reconhecidos e incontroversos com débitos de outros tributos e/ou o ressarcimento em espécie desses créditos presumidos, de acordo com o art. 7º-A da Lei 12.599/12. Os créditos presumidos reconhecidos e incontroversos, conforme consta expressamente no TVF, foram analisados pela autoridade fiscal competente, por meio do Despacho Decisório juntado aos autos. A recorrente se limitou a apresentar alegação genérica no sentido de que o crédito presumido reconhecido e incontroverso deve ser passível de compensação ou ressarcimento em espécie. Ora, a competência para analisar se o crédito presumido é passível de compensação ou de ressarcimento em espécie, depende de pedido da recorrente, em processo próprio, e sua análise cabe à Unidade de Origem, observada a legislação específica aplicável à matéria, inclusive Fl. 647DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 37 quanto a prazos extintivos, e não a este Conselho, nos termos do sobredito art. 7º-A da Lei 12.599/12. Logo, nada a prover. Conclusão Diante do exposto, rejeito a preliminar de nulidade do acórdão recorrido, e, no mérito, dou parcial provimento ao recurso voluntário, para que seja aplicada a correção monetária, pela taxa Selic, aos créditos reconhecidos a partir do 361º (trecentésimo sexagésimo primeiro) dia contado da data do protocolo do pedido de ressarcimento original. É como voto. Assinado Digitalmente Wagner Mota Momesso de Oliveira VOTO VENCEDOR Conselheiro Rafael Luiz Bueno da Cunha, redator designado O eminente relator, a quem presto minhas homenagens, entendeu que devem ser mantidas as glosas relativas a aquisições de café de empresas consideradas pela fiscalização pseudoatacadistas (tópico “Operações com pessoas jurídicas de fachada para geração de créditos” de seu do voto). Em seu entendimento, as constatações da autoridade fiscal evidenciam que as aquisições em questão, foram, na verdade, efetuadas diretamente dos produtores rurais pessoas físicas. Com todas as vênias, ouso divergir de seu entendimento, pelas razões que passo a expor. No Termo de Verificação Fiscal que acompanha o Despacho Decisório, a autoridade fiscal apresenta uma relação das empresas fornecedoras de café cru da recorrente, para, logo após, tecer considerações sobre a operação “Tempo de Colheita”, no âmbito da qual alguns dos fornecedores da recorrente tiveram sua inscrição no CNPJ suspensa, baixada ou com situação alterada para inapta em virtude de inexistência de fato. Elenca também outros fornecedores da recorrente que possuem os mesmos indícios das empresas expressamente envolvidas na operação supracitada. Fl. 648DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 38 Com base nas características das empresas fornecedoras, a autoridade fiscal conclui que as aquisições foram, na verdade, efetuadas diretamente de produtores rurais pessoas físicas, de modo que deveriam ter gerado créditos presumidos. De fato, a operação “Tempo de Colheita”, assim como a operação “Broca”, evidenciou uma grande fraude que visava gerar créditos básicos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins na aquisição de café a partir da emissão de notas fiscais por empresas fantasma. Ocorre que, a despeito do contexto de fornecedores inidôneos, a própria autoridade fiscal consigna em seu relatório que: 38. Intimada a comprovar os pagamentos relativos às aquisições (por amostragem) feitas em empresas com situação irregular junto à RFB, assim como o recebimento das mercadorias, a fiscalizada comprovou todos os pagamentos nas contas bancárias de titularidade destas, como também o recebimento do café e apresentou, também, as respectivas notas fiscais. A recorrente contestou as glosas, sustentando que comprovou o pagamento e o recebimento das mercadorias, tendo participado de boa-fé nas operações, situação em que estaria protegido em virtude da disposição do parágrafo único do art. 82 da Lei nº 9.430/1996. O acórdão recorrido ratificou as glosas, entendendo ter havido simulação nas operações, de maneira a afastar a boa-fé sustentada pela recorrente. Em seu Recurso Voluntário, a recorrente volta a se insurgir, sustentando não haver provas para afastar a sua presunção de boa-fé, bem como que houve comprovação do pagamento e do recebimento das mercadorias adquiridas. Argumenta ainda que não adquiriu café, no período sob análise, das empresas Do Grão e a V. Munaldi, mencionadas no acórdão recorrido e envolvidas na operação Tempo de Colheita. Apreciando a matéria, o i. relator entendeu que: Verifica-se que não é caso de aplicação do parágrafo único do art. 82 da Lei 9.430/1996 e do § 5º do art. 48 da IN RFB 748/2007, os quais admitem o crédito do adquirente de boa-fé, se comprovado o pagamento e o recebimento da mercadoria, conforme a seguir reproduzidos: [...] Isso porque não se discute o pagamento e a aquisição da mercadoria (café), e sim o real fornecedor, no caso o produtor pessoa física, e não a pessoa jurídica emitente da nota fiscal de venda. De fato, no caso sob exame não se discute se a recorrente é adquirente de boa-fé das mercadorias adquiridas (café cru), e sim se os reais fornecedores da mercadoria são as pessoas jurídicas emitentes das notas fiscais ou os próprios produtores de café, pessoas físicas, conforme bem apontado pelo acórdão recorrido [...] Fl. 649DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 39 Com todas as vênias, neste ponto, tenho entendimento diferente. A própria autoridade fiscal que efetuou as glosas afirma que a recorrente comprovou o pagamento em conta bancária de titularidade de seus fornecedores e o efetivo recebimento das mercadorias adquirida. Dessa forma, atendeu aos requisitos do parágrafo único do art. .82 da Lei nº 9.430/1996, que assim dispõe: Art. 82. Além das demais hipóteses de inidoneidade de documentos previstas na legislação, não produzirá efeitos tributários em favor de terceiros interessados o documento emitido por pessoa jurídica cuja inscrição no CNPJ tenha sido considerada ou declarada inapta. (Redação dada pela Lei nº 14.195, de 2021) Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica aos casos em que o adquirente de bens, direitos e mercadorias ou o tomador de serviços comprovarem a efetivação do pagamento do preço respectivo e o recebimento dos bens, direitos e mercadorias ou utilização dos serviços. (destaquei) Nesse cenário, a não ser pela comprovação de participação direta na fraude para geração de créditos fictícios das contribuições, entendo não haver fundamento para afastar a boa- fé da recorrente, bem como os efeitos tributários dela decorrentes. Analisando-se os autos, há, de fato, indícios robustos da existência de uma fraude de grandes proporções no mercado de café destinada a gerar indevidamente créditos tributários da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. No entanto, em que pese o farto conjunto probatório da existência da fraude, não se verifica comprovação da participação direta da recorrente. Nem mesmo nos depoimentos colhidos no âmbito das investigações mencionadas pode-se encontrar menção direta à participação da recorrente. O principal elemento trazido aos autos para macular as aquisições glosadas foram as características das empresas fornecedoras. Faltou, a meu ver, um elo de ligação capaz de demonstrar, de forma concreta, a conexão entre a fraude constatada e a atuação direta da recorrente. Nesse contexto, vale dizer que, em caso que envolveu a mesma recorrente e a mesma matéria, o acórdão nº 3101-004.424, de relatoria do eminente Conselheiro Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, reconheceu, por maioria de votos, a legitimidade dos créditos. Pela clareza e didaticidade, e com fundamento no art. 50, §1º, da Lei nº 9.784/1999, adoto, de forma complementar, os fundamentos expostos na ocasião, conforme voto a seguir transcrito: Cumpre destacar, inicialmente, que nos filiamos ao entendimento de que inexistindo qualquer comprovação de fraude, simulação ou conluio por parte da recorrente, e estando previsto em lei que a comprovação da efetivação do pagamento do preço e o recebimento das mercadorias permite a manutenção dos efeitos tributários, em favor de terceiros, de documento emitido por pessoa jurídica cuja inscrição no CNPJ tenha sido considerada ou declarada inapta, deve ser reconhecido o crédito pleiteado, quando comprovado, através das provas constantes dos autos, o cumprimento dos requisitos legais. Fl. 650DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14195.htm#art19 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 40 Compartilhamos o receio de legitimar a apropriação de créditos obtidos por meios irregulares, todavia, excetuadas as aquisições das empresas DO GRÃO e V. Munaldi - em relação às quais a fiscalização conseguiu demonstrar, a partir de depoimentos dos sócios das empresas e de produtores rurais, que tais empresas funcionavam como meras fornecedoras de notas fiscais, com o conhecimento das adquirentes - as demais glosas estão fundamentadas em irregularidades apuradas apenas em face das empresas fornecedoras, sem qualquer investigação mais aprofundada para o fim de comprovar eventual conluio ou participação da recorrente nas fraudes apontadas, existindo mera presunção de que a recorrente teria conhecimento das práticas perpetradas por aquelas, e generalizações realizadas com base nas fraudes perpetradas por outras fornecedoras. Neste sentido, não tendo sido afastada a boa-fé da recorrente em relação a tais aquisições, merece destaque a Súmula 509 do Superior Tribunal de Justiça, que demonstra o alinhamento do entendimento ora manifestado com a jurisprudência judicial, ao dispor que: “É lícito ao comerciante de boa-fé aproveitar os créditos de ICMS decorrentes de nota fiscal posteriormente declarada inidônea, quando demonstrada a veracidade da compra e venda”. Da mesma forma, com o devido acatamento, não merece subsistir o entendimento de que a suposta ausência de contrapartida, ou seja, do recolhimento dos tributos na operação anterior, poderia gerar a glosa dos créditos pleiteados, uma vez que o direito ao crédito surge em razão da ocorrência da operação anterior e da previsão legal de aproveitamento do respectivo crédito, inexistindo qualquer condicionamento ao efetivo cumprimento da legislação tributária pelo sujeito passivo da operação antecedente. Ressalte-se que o condicionamento do direito ao crédito ao efetivo recolhimento dos tributos na operação anterior configura ônus desproporcional e, até mesmo, impraticável, aos adquirentes, que teriam que fiscalizar o cumprimento da legislação tributária por todos os seus fornecedores, criando indesejável e ilegal óbice a concretização do princípio da não cumulatividade. Cumpre destacar que as irregularidades apontadas deram suporte às glosas efetuadas pela fiscalização em diversos pedidos de ressarcimento/compensação formulados pela recorrente, inclusive, em relação ao período de 01/04/2007 a 30/06/2007 (COFINS) e 01/10/2007 a 31/12/2007, as quais foram objeto de análise pela 1ª Turma Ordinária, da 3ª Câmara, da 3ª Seção deste e. CARF, no julgamento dos PAFs nº 10845.720048/2010-30 e 10845.720050/2010-17, nos quais aquela C. Turma decidiu, por maioria de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário para reverter a glosa dos créditos sobre as aquisições de bens de pessoas jurídicas declaradas inaptas, inativas, suspensas e/ ou baixadas no cadastro da RFB, nos termos do voto vencedor da i. Conselheira Semíramis de Oliveira Duro, abaixo reproduzido, o qual adoto também como razões para decidir, conforme autorizado pelo artigo 50, §1º, da Lei nº 9.784/99: Fl. 651DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 41 As glosas dos créditos básicos de COFINS tiveram como fundamento a simulação de operações de compra de café de produtores rurais (pessoas físicas), mediante a utilização de pessoas jurídicas fictícias e/ou criadas com o fim específico de simular as compras como se fossem destas, com vistas a gerar créditos artificialmente da contribuição. Entretanto, cabe à fiscalização trazer aos autos provas robustas da ciência e participação da Recorrente no esquema fraudulento. Entendo pelos elementos dos autos, que não há prova de que a Recorrente tinha conhecimento de que as empresas das quais adquiriu o café funcionavam apenas de fachada e emitiram notas fiscais falsas, tampouco logrou êxito a fiscalização em demonstrar que o contribuinte mantinha relações comerciais com empresas de fachada, dolosamente, para fins de geração de créditos inexistentes. A fraude tributária é a violação intencional da norma jurídica tributária, sendo imprescindível a existência do dolo, que é a intenção de empregar expediente ardiloso para “mascarar” a ocorrência do fato jurídico-tributário. Não há que se presumir o dolo. A fraude atribuída à empresa é matéria totalmente vinculada à produção de prova pela autoridade administrativa (ônus da fiscalização), nos termos do art. 373, do CPC/15. Então, considerando a estrita legalidade, tipicidade tributária, motivação do lançamento tributário, devido processo legal e ampla defesa, diante da gravidade da fraude imputada à Recorrente, a falta de provas de participação no esquema da fraude do café deve implicar no restabelecimento do crédito integral, motivo pelo qual a glosa ser revertida. Ademais, no caso em comento, as operações de aquisição dos insumos efetivamente ocorreram (com o pagamento do preço de mercado) e os bens ingressaram no seu estabelecimento, o que lhe garante a manutenção dos créditos integrais. Do exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso voluntário para reverter as glosas das aquisições de bens de pessoas jurídicas declaradas inaptas, inativas, suspensas e/ou baixadas no cadastro da RFB. Por pertinente, reproduzo também a ementa do v. acórdão nº 3301-011.806: PESSOAS JURÍDICAS INATIVAS, INAPTAS, BAIXADAS. OPERAÇÕES. SIMULAÇÕES. CRÉDITOS. GLOSA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. A falta de comprovação pela fiscalização de que o contribuinte mantinha relações comerciais com empresas de fachada, Fl. 652DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 42 dolosamente, para fins de geração de créditos inexistentes, deve implicar no restabelecimento do crédito integral. (Processo nº 10845.720048/2010-30; Acórdão nº 3301-011.806; Redatora Designada Conselheira Semíramis de Oliveira Duro, Sessão de 28/09/2022). No mesmo sentido, cito os seguintes julgados deste e. CARF, relativos a outros contribuinte: ADQUIRENTE DE BOA-FÉ. COMPROVAÇÃO DA EFETIVA AQUISIÇÃO DE MERCADORIA. Inexistindo nos autos elementos, ainda que indiciários, de que atos ou negócios jurídicos com as fornecedoras emitentes das notas fiscais glosadas tenham sido praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária ou que demonstrassem que o contribuinte estava plenamente ciente de que estava comprando o café de empresas consideradas “de fachada”, simulando aquisições de pessoas jurídicas, para se aproveitar do creditamento integral, quando na realidade o eram de pessoas físicas, apenas com direito ao crédito presumido, admite-se o desconto de créditos nos casos em que o adquirente de bens comprovar a efetivação do pagamento do preço e o recebimento dos bens. (Processo nº 13656.720273/2010-91; Acórdão nº 3401-010.478; Rel. Conselheiro Luis Felipe de Barros Reche, Sessão de 14/12/2021). NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AQUISIÇÕES DE PESSOAS JURÍDICAS INAPTAS, BAIXADAS OU SUSPENSAS. GLOSA INDEVIDA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO DA RECORRENTE. Não restando comprovada a participação da Contribuinte na criação de pessoas jurídicas de fachada, tampouco a existência ou indícios de má-fé na aquisição dos insumos, ilegítima a glosa dos créditos. DOCUMENTO VALIDADO (Processo nº 10845.003528/2004-94; Acórdão nº 3201-003.650; Redatora Designada Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário; sessão de 18/04/2018) Frise-se que, em relação às aquisições das empresas DO GRÃO e V. Munaldi, a fiscalização conseguiu demonstrar, a partir de depoimentos dos sócios das empresas e de produtores rurais, que tais empresas funcionavam como meras fornecedoras de notas fiscais, com o conhecimento das adquirentes, o que corrobora a participação da adquirente na fraude perpetrada, abalando a higidez do direito creditório pleiteado, sendo de rigor a manutenção da glosa quanto aos referidos créditos. Fl. 653DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-004.564 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10845.722404/2011-31 43 Diante disto, voto por dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, para reverter as glosas efetuadas sobre créditos relativos às aquisições de pessoas jurídicas denominadas “(Pseudo)Atacadistas”, excetuadas as aquisições realizadas das empresas DO GRÃO e V. Munaldi, em relação as quais devem ser mantidas as glosas. Ante todo o exposto, voto por dar parcial provimento ao recurso, para reconhecer os créditos decorrentes de aquisições de café cru de pessoas jurídicas consideradas empresas de fachada (pseudoatacadistas). É como voto. Assinado Digitalmente Rafael Luiz Bueno da Cunha Fl. 654DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor

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11533084 #
Numero do processo: 10580.900678/2015-59
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jun 22 00:00:00 UTC 2026
Numero da decisão: 3201-003.920
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, sobrestar o julgamento do Recurso Voluntário até o trânsito em julgado, no Supremo Tribunal Federal (STF), da matéria sob repercussão geral no RE nº 609.096 (Tema nº 372), em conformidade com a determinação do Ministro Dias Toffoli de suspensão do processamento de todos os processos correlatos pendentes de julgamento Assinado Digitalmente Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow – Relator Assinado Digitalmente Helcio Lafeta Reis – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Marcelo Enk de Aguiar, Flavia Sales Campos Vale, Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi, Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, Fabiana Francisco de Miranda, Helcio Lafeta Reis(Presidente) RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra decisão proferida pela DRJ que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada e não reconheceu o direito creditório
Nome do relator: RODRIGO PINHEIRO LUCAS RISTOW

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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Conversão do Julgamento em Diligência RESOLUÇÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, sobrestar o julgamento do Recurso Voluntário até o trânsito em julgado, no Supremo Tribunal Federal (STF), da matéria sob repercussão geral no RE nº 609.096 (Tema nº 372), em conformidade com a determinação do Ministro Dias Toffoli de suspensão do processamento de todos os processos correlatos pendentes de julgamento Assinado Digitalmente Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow – Relator Assinado Digitalmente Helcio Lafeta Reis – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Marcelo Enk de Aguiar, Flavia Sales Campos Vale, Barbara Cristina de Oliveira Pialarissi, Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, Fabiana Francisco de Miranda, Helcio Lafeta Reis(Presidente) RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra decisão proferida pela DRJ que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada e não reconheceu o direito creditório. D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3201-003.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.900678/2015-59 2 Por retratar com fidelidade os fatos, adoto, com os devidos acréscimos, o relatório produzido em primeira instância, o qual está consignado nos seguintes termos: Trata-se do Pedido de Restituição n£' 32347.01202.131005.1.2.04-1000, no montante de R$ 159.467,11, referente a pagamento que teria sido efetuado indevidamente a título de Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social do período de apuração dezembro/2000 (fls. 2/4). A Delegacia da Receita Federal do Brasil em Salvador emitiu o Despacho Decisório eletrônico de fl. 5, deferindo parcialmente o pleito no valor de R$ 19,51, pois o Darf informado como origem do pedido creditório havia sido parcialmente utilizado na quitação de débitos da contribuinte. Cientificada do despacho decisório em 20/02/2015 (fl. 7), a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade em 20/03/2015 (fls. 8/15), na qual, depois de dizer da tempestividade, alega que: • se o auditor-fiscal tinha dúvida com relação ao pagamento indevido apontado, não poderia ter indeferido de plano o pedido, devendo ao menos ter intimado a contribuinte a apresentar documentos e/ou prestar esclarecimentos necessários, sob pena de cerceamento ao direito de defesa, nos termos do que dispõe o art. 59 do Decreto n£' 70.235, de 6 de março de 1972; • os documentos ora juntados aos autos não deixam dúvida de que foi efetuado recolhimento a título de Cofins apurada sobre base diversa da constitucionalmente prevista, havendo, pois, direito à restituição do indébito; • o pedido de restituição tem por fundamento o fato de ter sido efetuado o recolhimento nos termos da Lei n£' 9.718, de 27 de novembro de 1998, sendo certo que o Supremo Tribunal Federal já reconheceu a inconstitucionalidade do parágrafo 1£' do art. 3£' desse diploma legal, entendendo só ser possível a exigência com base no faturamento das empresas, assim entendido como a receita decorrente da venda de mercadorias, de serviços ou de mercadorias e serviços; • nem se alegue, como a Fazenda Nacional tem sustentado em casos semelhantes ao presente, que, apesar de aplicável às instituições financeiras a referida decisão do STF, ainda assim seriam devidas as contribuições do PIS/Pasep e da Cofins sobre suas receitas operacionais típicas, inclusive sobre suas receitas financeiras, nos termos do Parecer PGFN/CAT n£' 2773/2007. A prevalecer o entendimento de que o conceito de faturamento varia em função do objeto social de cada contribuinte, além da base de cálculo das contribuições em tela ficar sujeita a um grau de incerteza absolutamente incompatível com uma obrigação tributária (até porque, como é notório, diversas empresas possuem objeto social extremamente amplo), passariam a ser incluídas na base de cálculo das contribuições diversas receitas sobre as quais anteriormente ao advento da Lei n£' 9.718, de 1998, jamais se cogitou de sua incidência; D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3201-003.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.900678/2015-59 3 • a Constituição Federal outorgou competência à União Federal para instituição de uma contribuição social sobre uma base de cálculo específica, conceitualmente bem delimitada, que não se altera em função do objeto social de cada pessoa jurídica. Assim, não há nenhuma relação de identidade entre o conceito de faturamento (a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviços de qualquer natureza) com a atividade principal das empresas; • é importante ressaltar que nos tempos atuais qualquer empresa bem administrada aufere receitas financeiras em função do seu fluxo de caixa, muitas vezes extremamente relevantes, sendo que desde o advento do Decreto-lei n£' 1.598, de 1977, por força de seu art. 17, as receitas financeiras são consideradas receitas operacionais que compõem o lucro operacional, independentemente de qual seja o objeto social da pessoa jurídica, conforme claramente retratado no art. 373 do Decreto n£' 3000, de 26 de março de 1999. Sendo assim, não se sabe qual poderia ser o parâmetro para se decidir quando essas receitas seriam ou não receita bruta (faturamento) decorrente do exercício da atividade empresarial; • mesmo que se entenda que as receitas financeiras auferidas por instituições tem natureza de receita de prestação de serviços, integrando o conceito de faturamento, deve ser parcialmente deferido o pedido de restituição, posto que não podem integrar a base de cálculo da Cofins as receitas financeiras decorrentes da aplicação de seus recursos próprios e ou de terceiros em hipóteses que não envolvam a intermediação financeira. Com efeito, as instituições financeiras também realizam operações no seu próprio interesse, auferindo receitas financeiras em relação à aplicação de seu próprio capital de giro e capital de terceiros, bem como em razão da remuneração dos depósitos compulsórios realizados no Banco Central e aplicações próprias, para as quais, evidentemente, não há que se falar em intermediação, nem tampouco em prestação de serviços. A decisão recorrida julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade e conforme ementa do Acórdão nº 108-004.090 - 34ª TURMA DA DRJ08 que apresentou o seguinte resultado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS Período de apuração: 01/12/2000 a 31/12/2000 BASE DE CÁLCULO. RECEITAS FINANCEIRAS. OBJETO SOCIAL. A declaração de inconstitucionalidade, pelo STF, do parágrafo 1º do art. 3º da Lei 9.718, de 1998, não teve implicação no fato de que as receitas financeiras que são resultado da atividade econômica empresarial vinculada ao objeto social da contribuinte compõem a base de cálculo da Cofins. Manifestação de Inconformidade Improcedente D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3201-003.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.900678/2015-59 4 Direito Creditório Não Reconhecido O Recurso Voluntário da Recorrente foi interposto de forma tempestiva, reproduzindo os argumentos apresentados em sede de Manifestação de Inconformidade. É o relatório. VOTO Conselheiro Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow, Relator Acerca da controvérsia, importa destacar que o embate entre o entendimento do Fisco e das Instituições Financeiras sobre a temática dos limites do conceito do faturamento constante na base de cálculo prevista no art. 2º da Lei n. 9.718 de 1998 encontra-se a termo no STF. A matéria, com repercussão geral reconhecida – Tema 372, no Recurso Extraordinário (RE) nº 609.096/RS, firmou a seguinte Tese: As receitas brutas operacionais decorrentes da atividade empresarial típica das instituições financeiras integram a base de cálculo PIS/COFINS cobrado em face daquelas ante a Lei nº 9.718/98, mesmo em sua redação original, ressalvadas as exclusões e deduções legalmente prescritas. Ressalta-se ser o RE nº 609.096/RS paradigma do Tema n° 372 de repercussão geral. No Recurso Extraordinário supracitado foram interpostos dois embargos de declaração (Banco Santander (Brasil) S.A) e pela Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN), requerendo a modulação dos efeitos da decisão. Desta feita, o Ministro Dias Toffoli, com objetivo de evitar que se multipliquem decisões que, ao cabo, não se harmonizem com o que a Corte poderá eventualmente decidir na apreciação dos referidos embargos de declaração determinou, com fundamento no art. 1.035, § 5º, do Código de Processo Civil, a suspensão do processamento de todos os processos pendentes, individuais ou coletivos, que versem sobre o Tema nº 372 e tramitem no território nacional em 30 de agosto de 2024. Considerando ser a Recorrente equiparada a uma instituição financeira, entendo que o Tema 372 guarda relação intrínseca com o objeto do presente processo administrativo, pelo que, deve-se aguardar o esgotamento da matéria na STF para prosseguir a análise do processo administrativo em tela. Com efeito, a Corte Suprema já julgou o mérito do Tema 372, ocasião em que foi favorável à incidência de PIS e COFINS sobre as receitas financeiras de bancos, haja vista que foram consideradas receitas típicas das empresas. A modulação foi sustentada pela previsão de impacto orçamentário estimado em 115 bilhões de reais. Assim, ante ao exposto, voto por sobrestar o julgamento do Recurso Voluntário até o trânsito em julgado, no Supremo Tribunal Federal (STF), da matéria sob repercussão geral no RE D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3201-003.920 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10580.900678/2015-59 5 nº 609.096 (Tema nº 372), em conformidade com a determinação do Ministro Dias Toffoli de suspensão do processamento de todos os processos correlatos pendentes de julgamento. Assinado Digitalmente Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow Resolução Relatório Voto

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11533198 #
Numero do processo: 10830.910895/2020-25
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 10 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Oct 13 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Período de apuração: 01/10/2011 a 31/12/2011 ELEMENTOS ESSENCIAIS. PERDCOMP. INEXATIDÃO MATERIAL. NÃO CARACTERIZAÇÃO. As alterações do período de apuração e do valor não se tratam meras de inexatidões materiais, mas sim de modificações de elementos essenciais do pedido original relacionados ao conhecimento da existência da situação.
Numero da decisão: 1001-004.475
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Gustavo de Oliveira Machado - Relator Assinado Digitalmente Carmen Ferreira Saraiva - Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Andre Luiz Barbosa, Danielle Iranir Cristino da Silva, Gustavo de Oliveira Machado, Reginaldo Cezar Cardoso, Carmen Ferreira Saraiva (Presidente).
Nome do relator: GUSTAVO DE OLIVEIRA MACHADO

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conteudo_txt : Metadados => date: 2026-09-24T13:22:10Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-09-24T13:22:10Z; Last-Modified: 2026-09-24T13:22:10Z; dcterms:modified: 2026-09-24T13:22:10Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-09-24T13:22:10Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-09-24T13:22:10Z; meta:save-date: 2026-09-24T13:22:10Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-09-24T13:22:10Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-09-24T13:22:10Z; created: 2026-09-24T13:22:10Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 14; Creation-Date: 2026-09-24T13:22:10Z; pdf:charsPerPage: 1278; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-09-24T13:22:10Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 10830.910895/2020-25 ACÓRDÃO 1001-004.475 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA SESSÃO DE 11 de setembro de 2026 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE SPE MACACOS ENERGIA S.A. INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Período de apuração: 01/10/2011 a 31/12/2011 ELEMENTOS ESSENCIAIS. PERDCOMP. INEXATIDÃO MATERIAL. NÃO CARACTERIZAÇÃO. As alterações do período de apuração e do valor não se tratam meras de inexatidões materiais, mas sim de modificações de elementos essenciais do pedido original relacionados ao conhecimento da existência da situação. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Gustavo de Oliveira Machado – Relator Assinado Digitalmente Carmen Ferreira Saraiva – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Andre Luiz Barbosa, Danielle Iranir Cristino da Silva, Gustavo de Oliveira Machado, Reginaldo Cezar Cardoso, Carmen Ferreira Saraiva (Presidente). Fl. 349DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.475 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.910895/2020-25 2 RELATÓRIO Trata o presente de recurso voluntário interposto em face do Acórdão nº 108- 041.356, proferido pela 22ª Turma da Delegacia de Julgamento da Receita Federal 08 que julgou improcedente a manifestação de inconformidade, não reconhecendo o direito creditório pleiteado. A Contribuinte pretendia através do PER/DCOMP nº. 34861.39401.200916.1.3-6010 a compensação de débitos diversos com crédito de saldo negativo de IRPJ referente ao 4° Trimestre de 2011 no valor de R$ 81.736,54. A DRF de Campinas- SP emitiu o Despacho Decisório eletrônico nº. 2961052 de e-fls. 3/8, cujo teor segue em síntese abaixo: “Analisadas as informações prestadas no documento acima identificado e considerando que a soma das parcelas de composição do crédito informadas no PER/DCOMP deve ser suficiente para comprovar a quitação do imposto devido e a apuração do saldo negativo, verificou-se: O crédito em análise corresponde ao valor necessário para compensação dos débitos declarados. PARCELAS DE COMPOSIÇÃO DO CRÉDITO INFORMADAS NO PER/DCOMP (...) Valor do crédito em análise: R$ 81.736,54 Valor DIPJ: 81.736,54 Somatório das parcelas de composição do crédito na DIPJ: R$ 81.736,54 IRPJ devido: R$ 0,00 Valor do saldo negativo disponível= (Parcelas confirmadas limitado ao somatório das parcelas na DIPJ) – (IRPJ devido) limitado ao menor valor entre saldo negativo DIPJ e PER/DCOMP, observado que quando este cálculo resultar negativo, o valor será zero. Valor do saldo negativo disponível: R$ 673,16 Concluída a análise do direito creditório, chegou-se à seguinte decisão: O crédito reconhecido foi insuficiente para compensar integralmente os débitos informados pelo sujeito passivo, razão pela qual: HOMOLOGO PARCIALMENTE a compensação declarada no PER/DCOMP 34861.39401.200916.1.3.02-6010. NÃO HOMOLOGO a compensação declarada no(s) seguinte(s) PER/DCOMP: 39562.40179.241016.1.3.8047 01456.67194.091116.1.3.1142 01464.16302.211216.1.3.0696 Valor devedor consolidado, correspondente aos débitos indevidamente compensados, para pagamento até 30/11/2020. Fl. 350DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.475 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.910895/2020-25 3 PRINCIPAL- R$ 84.455,22 MULTA- R$ 16.891,01 JUROS- R$ 23.453,34”. DA MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE Afirmou a Contribuinte que o processo trata da homologação parcial do pedido de compensação n. 34861.39401.200916.1.3.02-6010 (“PER/DCOMP 6010”) e da não homologação das compensações declaradas nos PER/DCOMPs ns. 39562.40179.241016.1.3.02-8047, 01456.67194.091116.1.3.02-1142 e 01464.16302.211216.1.3.02-0696, por meio das quais a empresa pretendia utilizar o Saldo Negativo de IRPJ apurado no ano-calendário de 2011 no valor original de R$ 252.753,94. Informou que o crédito em discussão tem origem nas antecipações do Imposto sobre a Renda que ocorreram em razão das retenções deste imposto (“IRRF”) em face dos rendimentos de aplicações financeiras em renda fixa, as quais foram, efetivamente, realizadas pelo Banco Bradesco (CNPJ n. 60.746.948/0001-12 – “Bradesco”) e Banco do Nordeste do Brasil (CNPJ n. 07.237.373/0001-20 – “Banco do Nordeste”), conforme consta dos informes de rendimentos elaborados por estes bancos e encaminhados a empresa. Pontuou que dos resgates ocorridos no ano-calendário de 2011, foram computadas as respectivas retenções do IR na fonte, que, por se revelarem superiores ao IRPJ devido nos respectivos períodos, compuseram o Saldo Negativo pleiteado pela empresa. Frisou que a fiscalização reconheceu apenas parcela irrisória dos créditos pleiteados, sob a justificativa de suposta retenção comprovada parcialmente. Apontou que as referidas retenções efetivamente ocorreram e que há provas de tal fato, o que, aliás, jamais foi apurado pela fiscalização, a única razão apresentada para rejeição do crédito no despacho decisório é absolutamente improcedente. Ressaltou que em operações financeiras com as realizadas pela empresa, o recolhimento do tributo devido é de responsabilidade da fonte pagadora, que somente tem o dever de deduzir o valor devido de IR, como também de informar ao contribuinte e a RFB que efetuou as retenções. Ponderou que cabe à fonte pagadora o fornecimento da documentação hábil a comprovar a retenção na fonte, o que notadamente ocorreu, mas, cabe a RFB, por sua vez, o devido cruzamento de seus bancos de dados com a documentação fornecida pela fonte pagadora para comprovar a existência e pertinência do crédito pleiteado. Alegou que o despacho decisório padece de nulidade por ausência de fundamentação válida. Esclareceu que a empresa possuía, no ano de 2011, aplicações financeiras em renda fixa no Bradesco e no Banco do Nordeste, tendo obtido, conforme disposto nos informes de Fl. 351DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.475 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.910895/2020-25 4 rendimentos que recebeu, R$ 1.214.899,21, em rendimentos tributáveis e que deste total, R$ 252.753,94, foram retidos na fonte pelos bancos administradores dos investimentos, sob o código de arrecadação 3426. Destacou que as retenções ocorreram ao longo do ano calendário de 2011. Defendeu que não há nenhum documento ou interpretação que justifique a alegação de ausência de comprovação dos valores retidos, sendo direito legítimo da empresa que sejam homologadas as PER/DCOMPs, para compensar o valor correspondente ao Saldo Negativo devidamente apurado. Esclareceu que por lapso, informou que recebera os rendimentos exclusivamente no 4° Trimestre de 2011 e não, ao longo de todos os trimestres do ano, como se depreende do informe de rendimentos apresentado. Destacou que embora em sua declaração a empresa tenha, por equívoco indicado que os rendimentos se deram exclusivamente no 4° Trimestre de 2011, a retenção e recolhimento do imposto devido ocorreram de forma regular e tempestivamente, de acordo com as datas de rendimento das aplicações financeiras sobre renda fixa à Requerente: no 1°, 2°, 3° e no 4° trimestre de 2011. Argumentou que restou documentalmente comprovado que a retenção na fonte tida como não comprovada pelo Despacho Decisório ocorrera e fora devidamente informada pela fonte pagadora. Ademais, as retenções revelaram-se como antecipações superiores ao IRPJ devido em todos os trimestres no ano-calendário de 2011. Sustentou que comprovada a retenção na fonte e a ausência de prejuízos ao Fisco, tendo ainda a empresa comprovado a existência do crédito pretendido mediante a apresentação da documentação hábil, o pleito deve ser deferido, haja vista a documentada existência do saldo negativo pleiteado, devendo ser conferida à impugnante, via pedido de compensação, a integralidade do saldo negativo do período. Pleiteou que seja julgada procedente a manifestação de inconformidade, que seja julgado nulo o despacho decisório por cerceamento de defesa, subsidiariamente, que seja dado provimento a manifestação de inconformidade, para que sejam homologados os pedidos de compensação. DO ACÓRDÃO PROLATADO Nº. 108-041.356/DRJ/08 A DRJ analisou a manifestação de inconformidade julgando-a improcedente, não reconhecendo o direito creditório pleiteado (e-fls. 254/264). Inconformada com a decisão da DRJ, a Contribuinte apresentou Recurso Voluntário, destacando, em síntese, que (e-fls. 282/295): Fl. 352DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.475 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.910895/2020-25 5 “II. DOS FATOS 4. Origina-se o presente processo da homologação parcial da declaração de compensação n. 34861.39401.200916.1.3.02-6010 e a não homologação das compensações declaradas nas DCOMPs ns. 39562.40179.241016.1.3.02-8047, 01456.67194.091116.1.3.02-114 e 01464.16302.211216.1.3.02-0696, por meio das quais a Recorrente visada utilizar Saldo Negativo de Imposto de Renda Pessoa Jurídica (“IRPJ”) apurado no 4º trimestre do ano-calendário de 2011 (fls. 59/82), no valor originário de R$252.753,94. 5. O saldo negativo de IRPJ foi formado, exclusivamente, por retenções na fonte (“IRRF”) realizadas pelo Banco Bradesco (CNPJ n. 60.746.948/0001-12 – “Bradesco”) e Banco do Nordeste do Brasil (CNPJ n. 07.237.373/0001-20 – “Banco do Nordeste”), incidentes sobre rendimentos de aplicações financeiras em renda fixa auferidos/regatados pela Recorrente no ano-calendário de 2011 – conforme demonstram os informes de rendimentos respectivos. 6. Ao analisar as compensações pleiteadas pela Recorrente, a D. Autoridade Fiscal proferiu despacho decisório reconhecendo apenas parcela irrisória do crédito pleiteado, alegando, genericamente, que a Recorrente não havia logrado êxito em comprovar parte das retenções na fonte sofridas: (...) 7. Neste contexto, a Recorrente apresentou a tempestiva manifestação de inconformidade demonstrando, em síntese: a) a nulidade do despacho decisório eletrônico por vício de motivação/cerceamento do direito de defesa, dado que cabe às fontes pagadoras informarem corretamente as retenções na fonte em DIRF, sendo que no caso de eventual divergência entre as declarações prestadas pelos beneficiários e pelas fontes deveria ser sanada através de intimação; b) as efetivas retenções na fonte sofridas e que estariam aptas a formar o saldo negativo do período; e c) que houve erro de preenchimento do PER/DCOMP demonstrativo de crédito, uma vez que os valores lá indicados englobam não apenas as retenções sofridas no 4º trimestre de 2011, mas, sim, de todo o ano-calendário – erro este que não trouxe qualquer prejuízo ao Fisco. 8. Entretanto, ao analisar a manifestação de inconformidade apresentada pela Recorrente, a DRJ entendeu por julgar improcedente a defesa para: (i) reconhecer a totalidade das retenções na fonte; no entanto, (ii) indeferir o direito creditório por razões completamente diversas àquelas utilizadas pelo despacho decisório que deu início ao presente litígio – motivo pelo qual se faz necessário o reconhecimento de sua nulidade, conforme demonstrado a diante. III. DAS RAZÕES PARA REFORMA DO ACÓRDÃO RECORRIDO III.A Da nulidade da decisão recorrida: alteração de critério jurídico Fl. 353DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.475 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.910895/2020-25 6 9. Conforme mencionado no tópico precedente, a DRJ manteve a glosa do crédito efetuada pelo despacho decisório a despeito da confirmação das retenções na fonte por meio da DIRF. 10. Referido despacho decisório, reitere-se, teve como razão de decidir, tão somente, a suposta ausência da comprovação de que os valores foram retidos na fonte pelas fontes pagadoras, documento este que foi apresentado à D. Autoridade Fiscal na oportunidade de defesa. 11. Foi por este motivo que, para afastar qualquer dúvida em relação ao direito creditório, a Recorrente apresentou os esclarecimentos necessários a comprovar as retenções na fonte sofridas, assim como a ausência de prejuízo ao fisco no erro do preenchimento do PER/DCOMP demonstrativo de crédito. 12. Apesar disso, o acórdão proferido pela DRJ embasa suas conclusões: (i) na impossibilidade de dedução de retenções na fonte de um determinado período de apuração em outro; e (ii) no suposto não oferecimento à tributação dos rendimentos que deram origem às retenções. Veja-se: (...) 13. Reitere-se, por relevante, enquanto o despacho decisório homologou parcialmente as declarações de compensação pleiteadas pela Recorrente sob a alegação de que os valores indicados nos PER/DCOMPs não tiveram suas retenções na fonte comprovadas, a decisão da DRJ julgou pela manutenção do despacho decisório fundamentando que: (i) o crédito não poderia ser conhecido, uma vez que as retenções foram realizadas durante todo o ano-calendário de 2011 e não apenas no 4º trimestre, como indicado em PER/DCOMP; e (ii) de que os rendimentos que deram origem aos valores retidos não foram oferecidos à tributação. 14. Portanto, analisando ambas as decisões (despacho decisório e acórdão da DRJ), fica nítida a diferença de fundamentos utilizados para análise acerca da dedutibilidade do IR pago no Exterior e, consequentemente, do crédito em favor da Recorrente, denotando a patente violação ao art. 146, do CTN – qual seja a alteração de critério jurídico capaz de configurar a supressão de instância e, quando não, o cerceamento de defesa da Recorrente. Verbis: (...) 15. Como se vê, tal norma não se limita à simples imutabilidade do lançamento anterior, mas também impõe a inalterabilidade do critério jurídico que tenha sido aplicado em decisão administrativa ou judicial anterior, de modo a preservar o mesmo fundamento no curso do processo. 16. Sobre o art. 146, do CTN, o professor Leandro Paulsen1 apresenta o referido artigo como garantidor do princípio da proteção à confiança, senão veja: (...) Fl. 354DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.475 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.910895/2020-25 7 17. Noutros termos, qualquer incursão por parte da DRJ, agindo por provocação da Recorrente quando da apresentação de sua defesa administrativa, em revisitar os termos do despacho decisório, negando-lhe as próprias premissas adotadas, implica em patente alteração dos critérios jurídicos originalmente tomados pela D. Autoridade Fiscal. 18. Em verdade, decisões com fundamentos diversos daqueles utilizados em despacho inaugural, dos quais a Recorrente não pode sequer se defender, configuram vício que macula de maneira insanável o quanto restou por ela decidido acarretando a nulidade do acórdão de primeira instância, pois cerceado o direito à ampla defesa da Recorrente, conforme veiculado pelo inciso II do art. 59, do Decreto n. 70.235/19722. 19. Veja-se que o ordenamento jurídico não deixou margem para qualquer ato discricionário da autoridade administrativa no desempenho de sua função arrecadadora/julgadora, estando ela adstrita a cumprir as determinações legais, porquanto, desnecessário dizer que os atos da Administração devem atender ao art. 37 da Constituição Federal (“CF”), garantindo eficiência, segurança jurídica e boa-fé. 20. Corroborando este entendimento, o Decreto n. 70.235/1972, em seu art. 18, §3º e o Decreto n. 7.574/2011, art. 41, previram que no caso de inovação ou alteração do fundamento legal da exigência, deve ser lavrado novo auto de infração e devolvido o prazo para impugnação do sujeito passivo. 21. Diferente, portanto, não deveria ser em relação à análise de créditos decorrentes de pedidos de restituição/ressarcimento/compensação, fazendo-se necessária nova análise do direito creditório pela unidade de Origem, caso se pretenda fundamentar a glosa da dedução do IRRF na impossibilidade de utilização dos valores de um período em outro ou, ainda, no suposto não oferecimento à tributação dos rendimentos que lhe deram origem. 22. Registre-se, mais uma vez, que a utilização de fundamento diverso daquele utilizado pela D. Autoridade Fiscal em sede de despacho decisório implica em cerceamento do direito de defesa e supressão de instância no presente processo, na medida em que priva a Recorrente da análise, em todas as instâncias, de eventuais argumentos (ou apresentação de documentos) que pudessem corroborar a existência de seu crédito. 23. Especificamente em relação à alteração de critério jurídico, é forte a jurisprudência do CARF no sentindo de que é vedado ao juízo a quo trazer fundamentos distintos daqueles utilizados pela Autoridade Fiscalizadora. Veja-se: (...) 25. Sendo assim, imperioso se faz a anulação da decisão recorrida, com o consequente retorno dos autos ao Tribunal a quo, a fim de que seja proferido novo acórdão fundamentado, única e exclusivamente, na comprovação ou não Fl. 355DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.475 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.910895/2020-25 8 das retenções na fonte – afastando-se qualquer questionamento acerca do procedimento adotado pela Recorrente para reaver tais valores. III.B. Subsidiariamente: ausência de prejuízo ao Fisco 26. Na remota hipótese deste C. Colegiado entender pela inexistência de nulidade do acórdão, o que se admite apenas a título de argumentação, ainda assim a decisão deverá ser reformada para reconhecer o direito creditório, dado que o procedimento adotado pela Recorrente não causou qualquer prejuízo ao Fisco, sendo que o valor das retenções na fonte sofridas seria integralmente restituível. 27. Conforme já mencionado, o caso presente trata de saldo negativo decorrente exclusivamente de retenções na fonte. O despacho decisório não coloca em cheque o oferecimento da receita à tributação, fundamentando-se exclusivamente na suposta inexistência de retenções nos sistemas da RFB em valor suficiente à formação do saldo negativo pleiteado, uma vez que os valores de IRRF não alcançariam o montante indicado pela Recorrente nas PER/DCOMPs transmitidas. 28. Pois bem. 29. A divergência apontada pelo referido despacho decorre do fato de que: (a) o despacho decisório analisara exclusivamente os valores de IRRF declarados pelas instituições financeiras em suas DIRFs (que realizam as retenções com base nas liquidações bancárias), enquanto que (b) a Recorrente transmutara o valor do IRRF relativo ao 1, 2 e 3 trimestre para o período subsequente, implicando na majoração do saldo negativo formados para o 4 trimestre. 30. O procedimento adotado pela Recorrente respalda-se no permissivo ditado pelo art. 66, da Lei n. 8.383/91, que permite a amortização de tributos da mesma espécie (no caso, ambos relativos à imposto de renda – IRRF e IRPJ). Verbis: (...) 31. O dispositivo supra ao permitir o encontro de contas de tributos federais da mesma espécie, faculta ao contribuinte a possibilidade de utilização do PER/DCOMP (pedido de restituição). Note-se que a própria dinâmica acima, justamente por não permitir a atualização do crédito, implica em cenário de compensação mais gravosa ao contribuinte do que optasse pela utilização do PER/DCOMP. 32. Tal prejudicialidade fora justamente aquela enfrentada pela Recorrente ao promover à amortização “escritural” dos valores de IRRF relativos ao 1, 2 e 3 trimestres no 4 trimestre do mesmo ano-calendário (2011). Isso porque, se tivesse utilizado tais retenções para formação de saldo negativo dos 1, 2 e 3 trimestres, estaria autorizada à atualização tal crédito pela Selic quanto da compensação com outros débitos. 33. Todavia, ainda que se entenda pela impossibilidade de utilização direta de IRRF em diferentes períodos na apuração do IRPJ, pelo lucro real trimestral, ainda Fl. 356DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.475 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.910895/2020-25 9 assim tem-se que nítida a existência do crédito pleiteado. O mero erro de procedimento na adoção da dinâmica de compensação dos créditos (utilizando-se do art. 66, § 11, da Lei n. 8.383/91 e não da previsão do art. 74, da Lei n. 9.430/96) jamais poderia implicar no não conhecimento da existência de crédito em favor da Recorrente – recuperação de crédito esta devidamente exteriorizada por meio de sua apuração e posteriores PER/DCOMPs transmitidas, em perfeito alinhamento com sua escrita fiscal e apuração de IRPJ. 34. No caso concreto, salta aos olhos que a dinâmica adotada pela Recorrente: a) não promove a amortização de tributos de espécie distinta sem transmissão de PER/DCOMP (realizando o encontro de contas de IRRF e IRPJ devido por trimestre com lastro no art. 66, §1º, da Lei n. 8.383/91); e b) não implica em qualquer prejuízo ao Fisco, uma vez que os valores das retenções não sofreram qualquer atualização monetária ou de juros para amortização do IRPJ apurado em outros períodos (o que se verificaria na hipótese de aproveitado do IRRF para formação de saldo negativo no trimestre, que estaria adstrita à correção pela taxa Selic). 35. Ainda que se admitisse que, no caso da Recorrente, as retenções somente pudessem ser utilizadas no trimestre respectivo, fato é que a única alteração verificada na dinâmica de apuração e quitação dos débitos de IRPJ é de que o saldo negativo originário do crédito seria constituído no 1º, 2º e 3º trimestre/2011 e não no 4º trimestre/2011. 36. Isto é, a única modificação nas apurações que se verifica no caso em análise seria o deslocamento do saldo negativo do 4º trimestre/2011 para os trimestres imediatamente anteriores – dentro do mesmo ano-calendário. Desta forma, ainda que a Recorrente não tivesse se utilizado da “compensação escritural” do IRRF em períodos subsequentes, com o fim de utilização do aludido crédito formado no 4º trimestre de 2011, eventuais saldos de IRPJ a pagar nos trimestres anteriores seriam objeto de compensação, via PER/COMP – procedimento este que garantiria à Recorrente um saldo credor maior, haja vista a incidência de juros e correção monetária. 37. Assim, ainda que se cogite a negativa do crédito em razão dos singelos equívocos incorridos no momento da apuração do IRPJ e da utilização do sistema PER/DCOMP, resta aqui demonstrado a inexistência de qualquer prejuízo ao Fisco ou preclusão temporal de utilização do direito creditório. 38. Diga-se uma vez mais: a postergação das deduções das retenções na fonte, que resultaram na formação de saldo negativo no 4º trimestre/2011 beneficia a administração tributária em razão da exclusão dos juros que seriam computados caso fosse formado saldo negativo nos 1º, 2º e 3º trimestres. 39. Nesse sentido, é que a jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (“CARF”) já se posicionou de maneira favorável ao contribuinte quando Fl. 357DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.475 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.910895/2020-25 10 demonstrada a ausência de danos ao Erário, conforme se pode exemplificar com os seguintes julgados assim ementados: (...) 41. Especificamente em relação às formalidades necessárias para restituição de saldos credores, o próprio Tribunal Regional Federal da 3ª Região (“TRF3”) já assentou sua jurisprudência no sentido de que a ausência de prejuízo ao Erário, por eventuais erros de procedimento, não pode impedir o reconhecimento do crédito: (...) 42. A ausência de prejuízo ao fisco ante a forma adotada pela contribuinte em sua apuração permite a análise do litígio sob o espectro da verdade material, viabilizando o reconhecimento do crédito disponível. No âmbito do CARF, o princípio da verdade material é usualmente aplicado ressaltando, exatamente, o aspecto da relativização das formalidades, conforme se pode exemplificar com o seguinte julgado assim ementado: (...) 43. Desse modo, uma vez demonstrada a existência de crédito para amortização dos débitos compensados ora em exigência nestes autos, em homenagem ao princípio da verdade material, deve ser reconhecido o saldo negativo pleiteado, a fim de homologar as compensações de forma integral. V. DO PEDIDO 44. Diante do exposto, requer seja conhecido e provido o recurso voluntário, a fim de que seja reconhecida a nulidade do acórdão recorrido em razão da alteração de critério jurídico da decisão, em patente violação ao art. 146, do CTN, e ao cerceamento do direito de defesa a que foi submetida a Recorrente, retornando- se os autos à Turma a quo para proferimento de nova decisão. 45. Caso, porém, este Colegiado entenda pela inexistência da nulidade supramencionada, que se reconheça que, à luz do princípio da verdade material, os erros de procedimento não sejam empecilho ao reconhecimento do crédito em seu favor, uma vez demonstrada a ausência de prejuízo ao fisco, homologando-se as compensações declaradas integralmente. (...)”. É o relatório. VOTO Conselheiro Gustavo de Oliveira Machado, Relator. Fl. 358DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.475 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.910895/2020-25 11 O recurso voluntário apresentado pela Recorrente atende aos requisitos de admissibilidade previstos nas normas de regência, em especial no Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972. Assim, dele tomo conhecimento, inclusive para os efeitos do inciso III do art. 151 do Código Tributário Nacional (CTN). Da Nulidade do Acórdão Alegou a Recorrente que é nulo o acórdão recorrido, vez que alterou o critério jurídico ao fundamentar “a glosa da dedução do IRRF na impossibilidade de utilização dos valores de um período em outro ou, ainda, no suposto não oferecimento à tributação dos rendimentos que lhe deram origem”. Pontuou que a utilização de fundamento diverso do utilizado pela fiscalização em sede de despacho decisório implica em cerceamento do direito de defesa e supressão de instância no presente processo, na medida em que priva a Recorrente da análise, em todas as instâncias, de eventuais argumentos (ou apresentação de documentos) que pudessem corroborar a existência de seu crédito. Pleiteou assim, a nulidade do acórdão, Pois bem. A decisão da DRJ que fundamenta a improcedência da manifestação de inconformidade e o não reconhecimento do direito creditório não inova em seus fundamentos em relação àquele que constou no despacho decisório. Apenas assenta sua decisão que o aproveitamento das retenções na fonte deve se dar no período a que se refere e eventual sobra que irá gerar o saldo negativo do respectivo período e para cada saldo negativo deve ser enviado a correspondente PERDCOMP e que somente podem ser deduzidas as retenções na fonte das receitas correspondentes computadas na apuração do Lucro. Assim, pode-se constatar que não há alteração do critério jurídico, mas sim fundamentos para embasar a decisão que o direito da Contribuinte a compensação não é líquido e certo. Desta feita, afasta-se a arguição de nulidade da decisão por inovação nos fundamentos para o indeferimento do pedido da contribuinte. Ademais, não há situações elencadas nos 59 do Decreto Lei n°. 70235/72 que caracterizariam o cerceamento do direito de defesa. Ante o exposto, não vislumbro qualquer vício que macule de nulidade a decisão recorrida, concernente à preterição ao amplo direito de defesa. Fl. 359DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.475 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.910895/2020-25 12 Do Saldo Negativo de IRPJ Alegou a Recorrente que ainda que se admitisse, que as retenções somente pudessem ser utilizadas no trimestre respectivo, fato é que a única alteração verificada na dinâmica de apuração e quitação dos débitos de IRPJ é de que o saldo negativo originário do crédito seria constituído no 1º, 2º e 3º trimestre/2011 e não no 4º trimestre/2011. Aduziu que a única modificação nas apurações que se verifica no caso em análise seria o deslocamento do saldo negativo do 4º trimestre/2011 para os trimestres imediatamente anteriores, dentro do mesmo ano-calendário. Argumentou que ainda que a empresa não tivesse se utilizado da “compensação escritural” do IRRF em períodos subsequentes, com o fim de utilização do aludido crédito formado nº 4º trimestre de 2011, eventuais saldos de IRPJ a pagar nos trimestres anteriores seriam objeto de compensação, via PER/COMP procedimento este que garantiria à Recorrente um saldo credor maior, haja vista a incidência de juros e correção monetária. Ponderou que ainda que se cogite a negativa do crédito em razão dos singelos equívocos incorridos no momento da apuração do IRPJ e da utilização do sistema PER/DCOMP, restou demonstrado a inexistência de qualquer prejuízo ao Fisco ou preclusão temporal de utilização do direito creditório. Sustentou que uma vez demonstrada a existência de crédito para amortização dos débitos compensados ora em exigência nestes autos, em homenagem ao princípio da verdade material, deve ser reconhecido o saldo negativo pleiteado, a fim de homologar as compensações de forma integral. Não assiste razão a Recorrente. A Recorrente pleiteia que sejam alterados os dados constantes no Per/DComp, em especial o período de apuração de trimestral para anual e o valor do saldo negativo de IRPJ de R$ 81.736,54 para R$ 252.753,94. Entretanto as correções do período de apuração e do valor não se tratam de meras de inexatidões materiais, mas sim de modificações de elementos essenciais do pedido original relacionados ao conhecimento da existência da situação. Para solução do erro de direito a legislação afasta a apresentação de documento retificador após a ciência válida do Despacho Decisório, conforme o art. 56 da Instrução Normativa SRF nº 600, de 28 de dezembro de 2005, vigente à época e demais dispositivos correlacionados dos atos normativos posteriores como o art. 76 da Instrução Normativa RFB nº 900, de 30 de dezembro de 2008, o art. 87 da Instrução Normativa RFB nº 1300, de 20 de novembro de 2012, o art. 106 da Instrução Normativa RFB nº 1717, de 17 de julho de 2017 e o art. 109 da Instrução Normativa RFB nº 2055 de 06 de dezembro de 2021, todos editados com fundamento no poder normativo conferido à RFB pelo §14 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 276 de dezembro de 1996. Fl. 360DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.475 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.910895/2020-25 13 Em suma, erro de fato é aquele que situa no conhecimento e compreensão das características da situação fática tais como inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e os erros de escrita ou de cálculos. Outrossim, o conceito normativo de erro material no âmbito tributário abrange a inexatidão quanto a aspectos objetivos não resultantes de entendimento jurídico tais como um cálculo errado, a ausência de palavras, a digitação errônea, e hipóteses similares. Somente podem ser corrigidas de ofício ou a pedido do sujeito passivo as informações declaradas a RFB no caso de verificada circunstância objetiva de inexatidão material e mediante a necessária comprovação do erro em que se funde (incisos I e III do art. 145 e inciso IV do art. 149 do Código Tributário Nacional e art. 32 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). Por exemplo, em situações em que o contribuinte solicita, no PER/DCOMP, o valor do saldo negativo em valor coincidente com o informado na DIPJ, mas preenche incorretamente as parcelas de composição do crédito, poder-se-ia interpretar como erro material no preenchimento do PER/DCOMP. Mas aqui, o que se afigura é uma modificação do pedido original do contribuinte, tanto quanto ao período de apuração, como de seu valor. Essa significaria, na verdade, um novo pedido e não mera alteração do pedido existente por erro material. Neste diapasão, o entendimento jurisprudencial do CARF, senão vejamos: “Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2004 ELEMENTOS ESSENCIAIS. PERDCOMP. INEXATIDÃO MATERIAL. NÃO CARACTERIZAÇÃO. As alterações do período de apuração e do valor não se tratam meras de inexatidões materiais a ensejar a aplicação da Súmula CARF nº 168, mas sim de modificações de elementos essenciais do pedido original relacionados ao conhecimento da existência da situação. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2004 DILIGÊNCIA. DESNECESSIDADE. Sendo os documentos acostados aos autos claros, permitindo um adequado julgamento, torna-se prescindível a realização de diligência para a solução da controvérsia. (Acórdão n°. 1002-003.796- 1 Seção, 2ª Turma Extraordinária, Sessão: 18/07/2025). ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2007 Fl. 361DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1001-004.475 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10830.910895/2020-25 14 INEXATIDÃO MATERIAL. As alterações do período de apuração e do valor não se tratam meras de inexatidões materiais a ensejar a aplicação da Súmula CARF nº 168, mas sim de modificações de elementos essenciais do pedido original relacionados ao conhecimento da existência da situação. (Acórdão n°. 1003-003.676- 1ª Seção de Julgamento, 3ª Turma Extraordinária, Sessão: 04/07/2023)”. Ante o exposto, não cabem reparos no acórdão recorrido. Dispositivo Isto Posto, voto em rejeitar a preliminar suscitada e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Gustavo de Oliveira Machado – Relator Fl. 362DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 15504.727304/2018-51
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 06 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Oct 05 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2013, 2014, 2015 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO VOLUNTÁRIO. IMPOSTO SOBRE A RENDA DA PESSOA FÍSICA. RENDIMENTOS RECEBIDOS POR MÉDICA POR INTERMÉDIO DE SOCIEDADE SIMPLES. DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS. RECLASSIFICAÇÃO COMO RENDIMENTOS DO TRABALHO. ART. 129 DA LEI Nº 11.196/2005. VERDADE MATERIAL. MULTA QUALIFICADA. REVISÃO DO LANÇAMENTO APÓS NOTIFICAÇÃO. ARTIGOS 145 E 149 DO CTN. APROVEITAMENTO DE TRIBUTOS RECOLHIDOS PELA PESSOA JURÍDICA. RECURSO VOLUNTÁRIO PARCIALMENTE CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO. I. CASO EM EXAME Recurso voluntário interposto contra acórdão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre/RS, que julgou improcedente a impugnação e manteve lançamento de ofício de IRPF relativo aos anos-calendário de 2013, 2014 e 2015. A exigência fiscal decorreu da reclassificação de valores declarados como lucros distribuídos pela Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME para rendimentos tributáveis do trabalho recebidos pela pessoa física da recorrente. A fiscalização entendeu que a sociedade não possuía substância operacional própria para a prestação dos serviços médicos. A autuação considerou que os serviços foram prestados pessoalmente pela médica Andrea Boueri Ticle Lima a tomadores como Hospital Mater Dei, Ecograf e Clínica Radiológica. A autoridade fiscal também entendeu que a pessoa jurídica teria sido utilizada como interposta pessoa para mascarar honorários médicos sob a forma de distribuição de lucros. A recorrente sustentou a regularidade da sociedade simples, constituída em 1996. Alegou que a clínica possuía objeto social compatível com serviços médicos especializados, contabilidade regular, emissão de notas fiscais, apuração de resultados e distribuição de lucros. Defendeu a aplicação do art. 129 da Lei nº 11.196/2005, a inexistência de vínculo empregatício, a ausência de simulação e a validade da tributação pela pessoa jurídica. A recorrente também alegou a impossibilidade de revisão do lançamento para majoração da multa de ofício de 75% para 150%. Sustentou que não houve fato novo, erro de fato, fraude funcional ou hipótese legal que autorizasse a alteração em prejuízo do contribuinte. Pediu, subsidiariamente, o afastamento da multa qualificada e o aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO Há quatro questões em discussão: (i) saber se o recurso voluntário deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade; (ii) saber se os valores recebidos pela recorrente por intermédio da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME devem ser tratados como lucros isentos ou como rendimentos tributáveis do trabalho; (iii) saber se a multa de ofício poderia ser majorada de 75% para 150% após a notificação do lançamento; e (iv) saber se os tributos recolhidos pela pessoa jurídica podem ser aproveitados em relação ao IRPF exigido da pessoa natural, na proporção de sua participação societária. III. RAZÕES DE DECIDIR O recurso voluntário não deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade. A Súmula CARF nº 2 estabelece que o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. A matéria de fundo deve ser apreciada segundo a orientação firmada pela composição colegiada em precedentes específicos sobre prestação de serviços intelectuais na área médica. Nesses precedentes, prevaleceu o entendimento de que a forma societária pode ser afastada quando o conjunto probatório demonstra que os valores pagos aos médicos não representam efetiva distribuição de lucros, mas remuneração por trabalho médico. No caso concreto, o acórdão recorrido assentou que a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME funcionava em endereço residencial dos sócios, sem prestação de serviços no local. Também registrou a ausência de comprovação de cadastro no CNES, a apresentação de alvará posterior à intimação fiscal, a inexistência de estrutura física própria relevante e a utilização de equipamentos e recursos dos tomadores dos serviços. O acórdão recorrido também apontou que a prestação dos serviços médicos era pessoal. Em relação ao Hospital Mater Dei, foram considerados o cadastramento da médica no corpo clínico, a submissão a regimento interno e a código de integridade, a necessidade de reporte a coordenador de equipe e a habitualidade das atividades. Em relação à Ecograf e à Clínica Radiológica, foram considerados os contratos que indicavam a médica Andrea como responsável pela execução dos serviços, a prestação nas sedes das contratantes e a cessão dos recursos necessários pelos tomadores. A circulação dos pagamentos reforçou a conclusão fiscal adotada pelo acórdão recorrido. O voto registrou que alguns cheques emitidos por tomadores foram nominais à fiscalizada e não transitaram pela conta bancária da pessoa jurídica. Também registrou que as distribuições de lucros ocorriam logo após os créditos feitos pelo Hospital Mater Dei e em valores próximos aos pagamentos recebidos pela clínica. A reclassificação dos valores como rendimentos tributáveis do trabalho não depende da caracterização de vínculo de emprego. Para fins de IRPF, importa a efetiva prestação pessoal do serviço pela pessoa física e o auferimento de renda. Os rendimentos do trabalho, assalariado ou não, integram a base de cálculo do ajuste anual. O art. 129 da Lei nº 11.196/2005 não se aplica quando o conjunto probatório demonstra que a pessoa jurídica não atuou como verdadeira prestadora dos serviços. A norma não protege a utilização de pessoa jurídica para dissimular relação de prestação pessoal de serviços e para conferir aparência de lucros isentos a valores com natureza remuneratória. A revisão do lançamento para modificar o percentual da multa de 75% para 150% encontra amparo nos artigos 145, III e 149, VIII, do CTN. A exteriorização do lançamento anterior em desconformidade com a evidente intenção da autoridade lançadora, caracteriza erro de fato passível de correção por meio da sua revisão de ofício, ainda que tal equívoco não possa ser imputado ao sujeito passivo. A estabilidade do lançamento regularmente notificado não assegura ao sujeito passivo a manutenção de crédito tributário realizado com evidente erro de fato na sua formalização. Mantida a qualificação da multa, aplica-se retroativamente a Lei nº 14.689/2023 para reduzir a multa qualificada de 150% para 100%, nos termos do art. 106, II, c, do CTN. O aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica deve ser admitido. Embora o acórdão recorrido tenha afirmado não haver desconsideração formal da personalidade jurídica, sua fundamentação tratou a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME como estrutura sem substância econômica própria, atribuiu suas receitas à pessoa física e reclassificou seus lucros distribuídos como honorários médicos. A desconsideração substancial da pessoa jurídica impõe a recomposição fiscal correspondente. Se a estrutura societária foi afastada para exigir IRPF da pessoa natural, os tributos recolhidos pela pessoa jurídica devem ser aproveitados em relação aos valores devidos pela pessoa física, na proporção da participação societária da recorrente.
Numero da decisão: 2202-012.079
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso. No mérito, acordam, por maioria de votos, em dar-lhe parcial provimento para permitir o aproveitamento dos tributos pagos pela pessoa jurídica, em relação aos valores devidos pela pessoa física, na proporção de sua participação societária e reduzir a multa qualificada ao percentual de 100%, vencidos os conselheiros Thiago Buschinelli Sorrentino (relator) que deu provimento parcial em maior extensão, reduzindo a multa qualificada ao percentual de 75%, e Andressa Pegoraro Tomazela, que deu provimento integral. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Marcelo Valverde Ferreira da Silva. Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino - Relator Assinado Digitalmente Marcelo Valverde Ferreira da Silva - Redator Designado Assinado Digitalmente Ronnie Soares Anderson - Presidente Participaram da reunião de julgamento os conselheiros Marcelo Valverde Ferreira da Silva, Henrique Perlatto Moura, Thiago Buschinelli Sorrentino, Andressa Pegoraro Tomazela, Rafael de Aguiar Hirano (substituto[a] integral), Ronnie Soares Anderson (Presidente).
Nome do relator: THIAGO BUSCHINELLI SORRENTINO

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A exigência fiscal decorreu da reclassificação de valores declarados como lucros distribuídos pela Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME para rendimentos tributáveis do trabalho recebidos pela pessoa física da recorrente. A fiscalização entendeu que a sociedade não possuía substância operacional própria para a prestação dos serviços médicos. A autuação considerou que os serviços foram prestados pessoalmente pela médica Andrea Boueri Ticle Lima a tomadores como Hospital Mater Dei, Ecograf e Clínica Radiológica. A autoridade fiscal também entendeu que a pessoa jurídica teria sido utilizada como interposta pessoa para mascarar honorários médicos sob a forma de distribuição de lucros. A recorrente sustentou a regularidade da sociedade simples, constituída em 1996. Alegou que a clínica possuía objeto social compatível com serviços médicos especializados, contabilidade regular, emissão de notas fiscais, apuração de resultados e distribuição de lucros. Defendeu a aplicação do art. 129 da Lei nº 11.196/2005, a inexistência de vínculo empregatício, a ausência de simulação e a validade da tributação pela pessoa jurídica. A recorrente também alegou a impossibilidade de revisão do lançamento para majoração da multa de ofício de 75% para 150%. Sustentou que não houve fato novo, erro de fato, fraude funcional ou hipótese legal que autorizasse a alteração em prejuízo do contribuinte. Pediu, subsidiariamente, o afastamento da multa qualificada e o aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO Há quatro questões em discussão: (i) saber se o recurso voluntário deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade; (ii) saber se os valores recebidos pela recorrente por intermédio da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME devem ser tratados como lucros isentos ou como rendimentos tributáveis do trabalho; (iii) saber se a multa de ofício poderia ser majorada de 75% para 150% após a notificação do lançamento; e (iv) saber se os tributos recolhidos pela pessoa jurídica podem ser aproveitados em relação ao IRPF exigido da pessoa natural, na proporção de sua participação societária. III. RAZÕES DE DECIDIR O recurso voluntário não deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade. A Súmula CARF nº 2 estabelece que o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. A matéria de fundo deve ser apreciada segundo a orientação firmada pela composição colegiada em precedentes específicos sobre prestação de serviços intelectuais na área médica. Nesses precedentes, prevaleceu o entendimento de que a forma societária pode ser afastada quando o conjunto probatório demonstra que os valores pagos aos médicos não representam efetiva distribuição de lucros, mas remuneração por trabalho médico. No caso concreto, o acórdão recorrido assentou que a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME funcionava em endereço residencial dos sócios, sem prestação de serviços no local. Também registrou a ausência de comprovação de cadastro no CNES, a apresentação de alvará posterior à intimação fiscal, a inexistência de estrutura física própria relevante e a utilização de equipamentos e recursos dos tomadores dos serviços. O acórdão recorrido também apontou que a prestação dos serviços médicos era pessoal. Em relação ao Hospital Mater Dei, foram considerados o cadastramento da médica no corpo clínico, a submissão a regimento interno e a código de integridade, a necessidade de reporte a coordenador de equipe e a habitualidade das atividades. Em relação à Ecograf e à Clínica Radiológica, foram considerados os contratos que indicavam a médica Andrea como responsável pela execução dos serviços, a prestação nas sedes das contratantes e a cessão dos recursos necessários pelos tomadores. A circulação dos pagamentos reforçou a conclusão fiscal adotada pelo acórdão recorrido. O voto registrou que alguns cheques emitidos por tomadores foram nominais à fiscalizada e não transitaram pela conta bancária da pessoa jurídica. Também registrou que as distribuições de lucros ocorriam logo após os créditos feitos pelo Hospital Mater Dei e em valores próximos aos pagamentos recebidos pela clínica. A reclassificação dos valores como rendimentos tributáveis do trabalho não depende da caracterização de vínculo de emprego. Para fins de IRPF, importa a efetiva prestação pessoal do serviço pela pessoa física e o auferimento de renda. Os rendimentos do trabalho, assalariado ou não, integram a base de cálculo do ajuste anual. O art. 129 da Lei nº 11.196/2005 não se aplica quando o conjunto probatório demonstra que a pessoa jurídica não atuou como verdadeira prestadora dos serviços. A norma não protege a utilização de pessoa jurídica para dissimular relação de prestação pessoal de serviços e para conferir aparência de lucros isentos a valores com natureza remuneratória. A revisão do lançamento para modificar o percentual da multa de 75% para 150% encontra amparo nos artigos 145, III e 149, VIII, do CTN. A exteriorização do lançamento anterior em desconformidade com a evidente intenção da autoridade lançadora, caracteriza erro de fato passível de correção por meio da sua revisão de ofício, ainda que tal equívoco não possa ser imputado ao sujeito passivo. A estabilidade do lançamento regularmente notificado não assegura ao sujeito passivo a manutenção de crédito tributário realizado com evidente erro de fato na sua formalização. Mantida a qualificação da multa, aplica-se retroativamente a Lei nº 14.689/2023 para reduzir a multa qualificada de 150% para 100%, nos termos do art. 106, II, c, do CTN. O aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica deve ser admitido. 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conteudo_txt : Metadados => date: 2026-09-08T12:17:03Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-09-08T12:17:03Z; Last-Modified: 2026-09-08T12:17:03Z; dcterms:modified: 2026-09-08T12:17:03Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-09-08T12:17:03Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-09-08T12:17:03Z; meta:save-date: 2026-09-08T12:17:03Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-09-08T12:17:03Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-09-08T12:17:03Z; created: 2026-09-08T12:17:03Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 45; Creation-Date: 2026-09-08T12:17:03Z; pdf:charsPerPage: 2001; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-09-08T12:17:03Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 15504.727304/2018-51 ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 6 de julho de 2026 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE ANDREA BOUERI TICLE LIMA INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2013, 2014, 2015 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO VOLUNTÁRIO. IMPOSTO SOBRE A RENDA DA PESSOA FÍSICA. RENDIMENTOS RECEBIDOS POR MÉDICA POR INTERMÉDIO DE SOCIEDADE SIMPLES. DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS. RECLASSIFICAÇÃO COMO RENDIMENTOS DO TRABALHO. ART. 129 DA LEI Nº 11.196/2005. VERDADE MATERIAL. MULTA QUALIFICADA. REVISÃO DO LANÇAMENTO APÓS NOTIFICAÇÃO. ARTIGOS 145 E 149 DO CTN. APROVEITAMENTO DE TRIBUTOS RECOLHIDOS PELA PESSOA JURÍDICA. RECURSO VOLUNTÁRIO PARCIALMENTE CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO. I. CASO EM EXAME Recurso voluntário interposto contra acórdão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre/RS, que julgou improcedente a impugnação e manteve lançamento de ofício de IRPF relativo aos anos-calendário de 2013, 2014 e 2015. A exigência fiscal decorreu da reclassificação de valores declarados como lucros distribuídos pela Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME para rendimentos tributáveis do trabalho recebidos pela pessoa física da recorrente. A fiscalização entendeu que a sociedade não possuía substância operacional própria para a prestação dos serviços médicos. A autuação considerou que os serviços foram prestados pessoalmente pela médica Andrea Boueri Ticle Lima a tomadores como Hospital Mater Dei, Ecograf e Clínica Radiológica. A autoridade fiscal também entendeu que a pessoa jurídica teria sido utilizada como interposta pessoa para mascarar honorários médicos sob a forma de distribuição de lucros. A recorrente sustentou a regularidade da sociedade simples, constituída em 1996. Alegou que a clínica possuía objeto social compatível com Fl. 1163DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 2 serviços médicos especializados, contabilidade regular, emissão de notas fiscais, apuração de resultados e distribuição de lucros. Defendeu a aplicação do art. 129 da Lei nº 11.196/2005, a inexistência de vínculo empregatício, a ausência de simulação e a validade da tributação pela pessoa jurídica. A recorrente também alegou a impossibilidade de revisão do lançamento para majoração da multa de ofício de 75% para 150%. Sustentou que não houve fato novo, erro de fato, fraude funcional ou hipótese legal que autorizasse a alteração em prejuízo do contribuinte. Pediu, subsidiariamente, o afastamento da multa qualificada e o aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO Há quatro questões em discussão: (i) saber se o recurso voluntário deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade; (ii) saber se os valores recebidos pela recorrente por intermédio da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME devem ser tratados como lucros isentos ou como rendimentos tributáveis do trabalho; (iii) saber se a multa de ofício poderia ser majorada de 75% para 150% após a notificação do lançamento; e (iv) saber se os tributos recolhidos pela pessoa jurídica podem ser aproveitados em relação ao IRPF exigido da pessoa natural, na proporção de sua participação societária. III. RAZÕES DE DECIDIR O recurso voluntário não deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade. A Súmula CARF nº 2 estabelece que o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. A matéria de fundo deve ser apreciada segundo a orientação firmada pela composição colegiada em precedentes específicos sobre prestação de serviços intelectuais na área médica. Nesses precedentes, prevaleceu o entendimento de que a forma societária pode ser afastada quando o conjunto probatório demonstra que os valores pagos aos médicos não representam efetiva distribuição de lucros, mas remuneração por trabalho médico. No caso concreto, o acórdão recorrido assentou que a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME funcionava em endereço residencial dos sócios, sem prestação de serviços no local. Também registrou a ausência de comprovação de cadastro no CNES, a apresentação de alvará posterior à Fl. 1164DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 3 intimação fiscal, a inexistência de estrutura física própria relevante e a utilização de equipamentos e recursos dos tomadores dos serviços. O acórdão recorrido também apontou que a prestação dos serviços médicos era pessoal. Em relação ao Hospital Mater Dei, foram considerados o cadastramento da médica no corpo clínico, a submissão a regimento interno e a código de integridade, a necessidade de reporte a coordenador de equipe e a habitualidade das atividades. Em relação à Ecograf e à Clínica Radiológica, foram considerados os contratos que indicavam a médica Andrea como responsável pela execução dos serviços, a prestação nas sedes das contratantes e a cessão dos recursos necessários pelos tomadores. A circulação dos pagamentos reforçou a conclusão fiscal adotada pelo acórdão recorrido. O voto registrou que alguns cheques emitidos por tomadores foram nominais à fiscalizada e não transitaram pela conta bancária da pessoa jurídica. Também registrou que as distribuições de lucros ocorriam logo após os créditos feitos pelo Hospital Mater Dei e em valores próximos aos pagamentos recebidos pela clínica. A reclassificação dos valores como rendimentos tributáveis do trabalho não depende da caracterização de vínculo de emprego. Para fins de IRPF, importa a efetiva prestação pessoal do serviço pela pessoa física e o auferimento de renda. Os rendimentos do trabalho, assalariado ou não, integram a base de cálculo do ajuste anual. O art. 129 da Lei nº 11.196/2005 não se aplica quando o conjunto probatório demonstra que a pessoa jurídica não atuou como verdadeira prestadora dos serviços. A norma não protege a utilização de pessoa jurídica para dissimular relação de prestação pessoal de serviços e para conferir aparência de lucros isentos a valores com natureza remuneratória. A revisão do lançamento para modificar o percentual da multa de 75% para 150% encontra amparo nos artigos 145, III e 149, VIII, do CTN. A exteriorização do lançamento anterior em desconformidade com a evidente intenção da autoridade lançadora, caracteriza erro de fato passível de correção por meio da sua revisão de ofício, ainda que tal equívoco não possa ser imputado ao sujeito passivo. A estabilidade do lançamento regularmente notificado não assegura ao sujeito passivo a manutenção de crédito tributário realizado com evidente erro de fato na sua formalização. Fl. 1165DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 4 Mantida a qualificação da multa, aplica-se retroativamente a Lei nº 14.689/2023 para reduzir a multa qualificada de 150% para 100%, nos termos do art. 106, II, “c”, do CTN. O aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica deve ser admitido. Embora o acórdão recorrido tenha afirmado não haver desconsideração formal da personalidade jurídica, sua fundamentação tratou a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME como estrutura sem substância econômica própria, atribuiu suas receitas à pessoa física e reclassificou seus lucros distribuídos como honorários médicos. A desconsideração substancial da pessoa jurídica impõe a recomposição fiscal correspondente. Se a estrutura societária foi afastada para exigir IRPF da pessoa natural, os tributos recolhidos pela pessoa jurídica devem ser aproveitados em relação aos valores devidos pela pessoa física, na proporção da participação societária da recorrente. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso. No mérito, acordam, por maioria de votos, em dar-lhe parcial provimento para permitir o aproveitamento dos tributos pagos pela pessoa jurídica, em relação aos valores devidos pela pessoa física, na proporção de sua participação societária e reduzir a multa qualificada ao percentual de 100%, vencidos os conselheiros Thiago Buschinelli Sorrentino (relator) que deu provimento parcial em maior extensão, reduzindo a multa qualificada ao percentual de 75%, e Andressa Pegoraro Tomazela, que deu provimento integral. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Marcelo Valverde Ferreira da Silva. Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino – Relator Assinado Digitalmente Marcelo Valverde Ferreira da Silva – Redator Designado Assinado Digitalmente Ronnie Soares Anderson – Presidente Fl. 1166DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 5 Participaram da reunião de julgamento os conselheiros Marcelo Valverde Ferreira da Silva, Henrique Perlatto Moura, Thiago Buschinelli Sorrentino, Andressa Pegoraro Tomazela, Rafael de Aguiar Hirano (substituto[a] integral), Ronnie Soares Anderson (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto contra o Acórdão n. 10-65.127, proferido pela 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre/RS, que julgou improcedente a impugnação apresentada e manteve lançamento de ofício de Imposto de Renda da Pessoa Física relativo aos anos-calendário de 2013, 2014 e 2015, incidente sobre valores que a recorrente afirma terem sido regularmente declarados e tributados pela pessoa jurídica Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME. Afirma-se, inicialmente, a tempestividade do recurso, ao argumento de que a recorrente foi intimada da decisão recorrida em 15 de julho de 2019, tendo o prazo recursal começado a fluir no dia seguinte e se encerrado em 14 de agosto de 2019, data em que o recurso teria sido protocolado dentro do prazo legal de trinta dias. Narra-se que a fiscalização e a decisão recorrida compreenderam que a recorrente, médica radiologista, não poderia ter se valido da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME para prestar serviços médicos especializados, pois a constituição e utilização da pessoa jurídica teriam implicado tributação menos onerosa e suposta violação ao princípio da isonomia. Sustenta-se, contudo, que tal conclusão desconsiderou que a sociedade é simples, foi constituída em 1996, existe de fato e de direito, possui objeto social compatível com as atividades desempenhadas e passou a atuar em parceria com o Hospital Mater Dei apenas a partir de novembro de 2011. Alega-se que a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME não foi criada para mascarar honorários médicos ou para obter vantagem tributária indevida, mas para organizar a prestação de serviços médicos por seus sócios, com hierarquia interna, responsabilidade técnica, contabilidade regular, emissão de notas fiscais, apuração de resultados e distribuição de lucros. Acrescenta-se que a parceria com o Hospital Mater Dei envolvia gestão da Unidade OncoMater, cessão onerosa de espaço e estrutura, assunção de custos, glosas, despesas operacionais, depreciação, medicamentos, materiais e risco econômico pela própria sociedade. Argumenta-se que a decisão recorrida teria sido simplista, por reproduzir extensamente a impugnação, por tratar de preliminar não suscitada e por deixar de enfrentar os argumentos centrais da defesa, sobretudo aqueles relativos à existência real da sociedade simples, à validade da tributação pela pessoa jurídica, à ausência de vínculo empregatício, à inexistência de simulação e à regularidade da distribuição de lucros. Sustenta-se, em preliminar, a impossibilidade de revisão do lançamento para majoração da multa de ofício de 75% para 150%, ao fundamento de que a autoridade fiscal não Fl. 1167DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 6 poderia alterar o critério jurídico originalmente adotado sob a simples alegação de erro. Defende- se que não houve fato novo, erro de fato, fraude funcional ou circunstância desconhecida que autorizasse a revisão do lançamento, mas mera alteração de enquadramento jurídico, vedada pelos artigos 145, 146 e 149 do Código Tributário Nacional. Aduz-se, no mérito, que o artigo 129 da Lei n. 11.196/2005 autoriza a prestação de serviços intelectuais por pessoa jurídica, em caráter personalíssimo ou não, sujeitando-a à legislação aplicável às pessoas jurídicas. Defende-se que a norma prestigia a livre iniciativa, a liberdade de organização e a possibilidade de constituição de sociedades simples por profissionais intelectuais, inclusive médicos, não podendo a fiscalização desconsiderar automaticamente a pessoa jurídica apenas porque a atividade é exercida por seus próprios sócios. Assevera-se que a desconsideração da personalidade jurídica somente seria admissível mediante demonstração de abuso, desvio de finalidade ou confusão patrimonial, hipóteses que a recorrente afirma inexistirem. Explica-se que a Clínica atuava dentro de seu objeto social, mantinha contabilidade regular, recebia os pagamentos em nome próprio, registrava receitas e despesas, apurava lucros e preservava patrimônio próprio, inclusive com lucros acumulados, o que afastaria a tese de confusão patrimonial. Sustenta-se, ainda, que não foram comprovados os requisitos de vínculo empregatício nos contratos analisados. Argumenta-se que pessoalidade, habitualidade e onerosidade não bastam para descaracterizar a prestação de serviços por sociedade simples, pois tais elementos também podem estar presentes em contratos civis de prestação de serviços intelectuais. Afirma-se que o requisito decisivo seria a subordinação, e que esta não foi demonstrada. Afirma-se, quanto aos contratos celebrados com Ecograf, Clínica Radiológica e Hospital Mater Dei, que a fiscalização presumiu contratação direta da médica Andrea, mas ignorou que os pagamentos teriam sido feitos à pessoa jurídica, contabilizados regularmente e acompanhados de emissão de notas fiscais. Aduz-se que a prestação de serviços nas dependências dos tomadores, a exigência de cadastramento no corpo clínico e a observância a regimentos internos e códigos de integridade não configuram, por si só, subordinação trabalhista. Argumenta-se, especificamente quanto ao Hospital Mater Dei, que a relação contratual era de parceria médico-hospitalar, com divisão de receitas, custos e riscos. Sustenta-se que a Clínica recebia percentual sobre o lucro da Unidade OncoMater, após abatimento de despesas, medicamentos, materiais, custos de pessoal, manutenção, depreciação, energia, água, telefone, tributos e glosas, de modo que sua remuneração não se vinculava ao número individual de consultas, procedimentos ou horas de trabalho da recorrente. Defende-se que a assunção do risco econômico pela Clínica afasta a tese de emprego ou de recebimento disfarçado de honorários médicos, pois, em caso de resultado negativo da operação, a sociedade suportaria os ônus. Acrescenta-se que o Hospital Mater Dei Fl. 1168DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 7 cedia estrutura de forma onerosa e precária, enquanto a Clínica geria a unidade, coordenava a equipe e respondia tecnicamente pelos serviços, sem subordinação direta ao hospital. Alega-se que a economia tributária, ainda que existente, constitui propósito negocial lícito quando realizada antes do fato gerador, sem fraude, simulação ou criação artificial de despesas. Sustenta-se que não há norma que imponha ao contribuinte a forma mais onerosa de tributação, nem regra que permita à fiscalização desconsiderar negócio jurídico apenas porque dele resulta economia fiscal. Impugna-se, também, a base de cálculo adotada pela fiscalização, ao argumento de que os valores imputados individualmente aos sócios foram calculados por critério de supostos atendimentos médicos, sem correspondência com os lucros efetivamente distribuídos e percebidos. Afirma-se que, em 2015, por exemplo, a fiscalização teria utilizado base total superior ao montante de lucros distribuídos, o que revelaria vício de motivação do lançamento. Sustenta-se que a multa qualificada de 150% é inexigível, porque não houve comprovação de dolo, fraude, sonegação ou conluio. Aduz-se que a fiscalização se apoiou em presunções e juízos de valor sobre a finalidade da pessoa jurídica, sem indicar condutas dolosas específicas praticadas pela recorrente. Argumenta-se que, no máximo, haveria divergência interpretativa sobre a forma de tributação, insuficiente para justificar penalidade qualificada. Pondera-se, subsidiariamente, que, caso mantida a desconsideração da pessoa jurídica, devem ser deduzidos do IRPF exigido os valores já recolhidos pela Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME a título de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, sob pena de bis in idem, confisco e enriquecimento sem causa da Administração Tributária. Pede-se, ao final, o conhecimento e provimento do recurso voluntário, com a reforma do acórdão recorrido e o cancelamento integral do lançamento tributário, por inexistir omissão de rendimentos tributáveis pela pessoa física e por ser válida a tributação apurada e recolhida por intermédio da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME. Pede-se, subsidiariamente, o afastamento da multa qualificada de 150%, seja pela impossibilidade de revisão do lançamento, seja pela ausência de prova de fraude, dolo ou simulação. Pede-se, ainda, caso subsista a exigência, a dedução proporcional dos valores já pagos pela pessoa jurídica a título de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, com incidência da multa apenas sobre eventual saldo residual de IRPF. O órgão julgador de origem houve por bem manter o lançamento, em acórdão assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF Ano-calendário: 2013; 2014; 2015 INCONSTITUCIONALIDADE. O exame da constitucionalidade ou legalidade das leis é tarefa estritamente reservada aos órgãos do Poder Judiciário. Fl. 1169DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 8 VALOR DO LANÇAMENTO. ERRO. O lançamento pode ser revisto de ofício pela autoridade administrativa sempre que comprovado erro. SOCIEDADE. NATUREZA JURÍDICA DOS RENDIMENTOS PAGOS AOS SÓCIOS. VERDADE MATERIAL. Apurando-se que as atividades e os negócios jurídicos desenvolvidos possuem aspectos diversos da realidade formal, sendo os supostos sócios prestadores de serviços e o lucro, na verdade, refere-se à remuneração dos serviços prestados, os valores recebidos devem ser classificados, segundo a sua efetiva natureza jurídica, como rendimentos tributáveis de prestação de serviços, que correspondem à verdade material dos fatos, e não como lucros isentos do imposto de renda. MULTA QUALIFICADA. Restando provada a ocorrência da circunstância qualificadora, imprescindível para a aplicação da multa, cabível a aplicação da penalidade de 150%. TRIBUTOS RECOLHIDOS POR PESSOA JURÍDICA. COMPENSAÇÃO COM IMPOSTO DEVIDO POR PESSOA FÍSICA. VEDAÇÃO LEGAL. A compensação do imposto de renda devido pela pessoa física com eventuais valores recolhidos espontaneamente por pessoas jurídicas, ainda que tais recolhimentos tenham sido, porventura, indevidos, é incabível por expressa vedação legal. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. EFEITOS. As decisões administrativas e as decisões judiciais, excetuando-se as proferidas pelo STF sobre a inconstitucionalidade das normas legais, não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se aproveitam em relação a qualquer outra ocorrência, senão àquela objeto da decisão. Ciência em 15/07/2019 (fls. 1.092). Interposição em 13/08/2019 (fls. 1.095). Ante o exposto, pede-se a desconstituição do crédito tributário. É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheiro Thiago Buschinelli Sorrentino, Relator RESUMO I. CASO EM EXAME Fl. 1170DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 9 Recurso voluntário interposto contra acórdão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre/RS, que julgou improcedente a impugnação e manteve lançamento de ofício de IRPF relativo aos anos-calendário de 2013, 2014 e 2015. A exigência fiscal decorreu da reclassificação de valores declarados como lucros distribuídos pela Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME para rendimentos tributáveis do trabalho recebidos pela pessoa física da recorrente. A fiscalização entendeu que a sociedade não possuía substância operacional própria para a prestação dos serviços médicos. A autuação considerou que os serviços foram prestados pessoalmente pela médica Andrea Boueri Ticle Lima a tomadores como Hospital Mater Dei, Ecograf e Clínica Radiológica. A autoridade fiscal também entendeu que a pessoa jurídica teria sido utilizada como interposta pessoa para mascarar honorários médicos sob a forma de distribuição de lucros. A recorrente sustentou a regularidade da sociedade simples, constituída em 1996. Alegou que a clínica possuía objeto social compatível com serviços médicos especializados, contabilidade regular, emissão de notas fiscais, apuração de resultados e distribuição de lucros. Defendeu a aplicação do art. 129 da Lei nº 11.196/2005, a inexistência de vínculo empregatício, a ausência de simulação e a validade da tributação pela pessoa jurídica. A recorrente também alegou a impossibilidade de revisão do lançamento para majoração da multa de ofício de 75% para 150%. Sustentou que não houve fato novo, erro de fato, fraude funcional ou hipótese legal que autorizasse a alteração em prejuízo do contribuinte. Pediu, subsidiariamente, o afastamento da multa qualificada e o aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO Há quatro questões em discussão: (i) saber se o recurso voluntário deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade; (ii) saber se os valores recebidos pela recorrente por intermédio da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME devem ser tratados como lucros isentos ou como rendimentos tributáveis do trabalho; (iii) saber se a multa de ofício poderia ser majorada de 75% para 150% após a notificação do lançamento; e (iv) saber se os tributos recolhidos pela pessoa jurídica podem ser aproveitados em relação ao IRPF exigido da pessoa natural, na proporção de sua participação societária. III. RAZÕES DE DECIDIR O recurso voluntário não deve ser conhecido quanto às alegações de inconstitucionalidade. A Súmula CARF nº 2 estabelece que o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. A matéria de fundo deve ser apreciada segundo a orientação firmada pela composição colegiada em precedentes específicos sobre prestação de serviços intelectuais na área médica. Nesses precedentes, prevaleceu o entendimento de que a forma societária pode ser Fl. 1171DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 10 afastada quando o conjunto probatório demonstra que os valores pagos aos médicos não representam efetiva distribuição de lucros, mas remuneração por trabalho médico. No caso concreto, o acórdão recorrido assentou que a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME funcionava em endereço residencial dos sócios, sem prestação de serviços no local. Também registrou a ausência de comprovação de cadastro no CNES, a apresentação de alvará posterior à intimação fiscal, a inexistência de estrutura física própria relevante e a utilização de equipamentos e recursos dos tomadores dos serviços. O acórdão recorrido também apontou que a prestação dos serviços médicos era pessoal. Em relação ao Hospital Mater Dei, foram considerados o cadastramento da médica no corpo clínico, a submissão a regimento interno e a código de integridade, a necessidade de reporte a coordenador de equipe e a habitualidade das atividades. Em relação à Ecograf e à Clínica Radiológica, foram considerados os contratos que indicavam a médica Andrea como responsável pela execução dos serviços, a prestação nas sedes das contratantes e a cessão dos recursos necessários pelos tomadores. A circulação dos pagamentos reforçou a conclusão fiscal adotada pelo acórdão recorrido. O voto registrou que alguns cheques emitidos por tomadores foram nominais à fiscalizada e não transitaram pela conta bancária da pessoa jurídica. Também registrou que as distribuições de lucros ocorriam logo após os créditos feitos pelo Hospital Mater Dei e em valores próximos aos pagamentos recebidos pela clínica. A reclassificação dos valores como rendimentos tributáveis do trabalho não depende da caracterização de vínculo de emprego. Para fins de IRPF, importa a efetiva prestação pessoal do serviço pela pessoa física e o auferimento de renda. Os rendimentos do trabalho, assalariado ou não, integram a base de cálculo do ajuste anual. O art. 129 da Lei nº 11.196/2005 não se aplica quando o conjunto probatório demonstra que a pessoa jurídica não atuou como verdadeira prestadora dos serviços. A norma não protege a utilização de pessoa jurídica para dissimular relação de prestação pessoal de serviços e para conferir aparência de lucros isentos a valores com natureza remuneratória. A revisão do lançamento para elevar a multa de 75% para 150% não encontra amparo nos arts. 145 e 149 do CTN. O demonstrativo de crédito tributário originalmente notificado à contribuinte indicava multa de 75%. A posterior alteração para 150% decorreu de inconsistência interna imputável à Administração Tributária, e não de fato novo, omissão do sujeito passivo, falsidade, dolo descoberto posteriormente, fraude funcional ou outra hipótese taxativa de revisão de ofício. A estabilidade do lançamento regularmente notificado constitui garantia do sujeito passivo. A Administração Tributária não pode transferir ao contribuinte o ônus de falha material praticada na consolidação do crédito tributário, quando a correção pretendida implica agravamento da exigência fiscal em seu prejuízo. Fl. 1172DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 11 Deve prevalecer o percentual de 75% constante do demonstrativo de crédito tributário original. O conhecimento, pela contribuinte, da motivação constante do Termo de Verificação Fiscal não convalida a alteração posterior da multa em patamar superior ao formalmente notificado. Ainda que fosse mantida a qualificação da multa, a Lei nº 14.689/2023 teria incidência retroativa benéfica para reduzir a multa qualificada de 150% para 100%, nos termos do art. 106, II, “c”, do CTN. Essa conclusão fica prejudicada no caso concreto, diante do acolhimento da tese principal de manutenção da multa em 75%. O aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica deve ser admitido. Embora o acórdão recorrido tenha afirmado não haver desconsideração formal da personalidade jurídica, sua fundamentação tratou a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda.-ME como estrutura sem substância econômica própria, atribuiu suas receitas à pessoa física e reclassificou seus lucros distribuídos como honorários médicos. A desconsideração substancial da pessoa jurídica impõe a recomposição fiscal correspondente. Se a estrutura societária foi afastada para exigir IRPF da pessoa natural, os tributos recolhidos pela pessoa jurídica devem ser aproveitados em relação aos valores devidos pela pessoa física, na proporção da participação societária da recorrente. 1 CONHECIMENTO Presentes os pressupostos, conheço do recurso voluntário. 2 PRECEDENTES ESPECÍFICOS DESTA COMPOSIÇÃO COLEGIADA Segundo argumenta o sábio juiz da Suprema Corte de Israel, Aharon Barak, ao discorrer sobre o papel de um magistrado em uma democracia (The Judge in a Democracy. Mercer County: Princeton University Press, 2009, p. 209-211), uma das funções da adjudicação é estabilizar expectativas, de modo a conferir previsibilidade e segurança jurídica. Portanto, uma vez que um dado colegiado tiver apreciado uma matéria, seria de bom aviso aos julgadores vencidos que aderissem à posição vencedora, em nome do que chamaríamos aqui de “Princípio do Colegiado”. Não obstante, em questões tidas por essenciais à própria jurisdição, prossegue Barak, deve o juiz insistir em divergência, nas hipóteses em que houver oportunidade para convencimento da maioria sobre a solução adequada a ser tomada. Fl. 1173DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 12 Evidentemente, o CARF não é um órgão jurisdicional, e seus conselheiros não são juízes. O papel do exame do recurso voluntário é realizar controle de legalidade, e não de validade amplo (SORRENTINO, Thiago B. Pode o fisco ajuizar ação para rever decisão administrativa favorável ao contribuinte?. Revista de Doutrina Jurídica, Brasília, DF, v. 111, n. 2, p. 205–225, 2020. DOI: 10.22477/rdj.v111i2.613). Contudo, há espaços de intersecção entre a jurisdição e a atividade de controle administrativo, tal como estruturada no âmbito federal, e essa sobreposição pontual permite aplicar a orientação sugerida por Barak, acerca da necessária estabilidade e previsibilidade após o exame de uma determinada questão pelo colegiado, e sobre as hipóteses que sugeririam a necessidade de propor a revisão de entendimentos já tomados. Há uma tentação que acomete o julgador de temperamento independente: a de confundir a profundidade de sua convicção com a correção absoluta de seu juízo. Esse equívoco, embora compreensível em quem sente o peso da toga como responsabilidade pessoal, desconhece a natureza essencialmente coletiva da jurisdição e o lugar que o precedente ocupa na arquitetura do Estado de Direito. O ofício de julgar não é um solilóquio. Não é o palco em que o magistrado declama suas certezas para um auditório que lhe tributa reverência; é, ao contrário, um diálogo entre gerações de intérpretes, um tecido que se vai construindo fio a fio, no qual a voz singular somente ganha sentido quando integrada ao padrão maior que o conjunto produz. A doutrina do stare decisis, nascida no common law e progressivamente incorporada às tradições de civil law que primam pela coerência sistêmica, não é uma rendição intelectual. Seu fundamento não repousa na presunção de que o precedente é infalível, mas na convicção de que a segurança jurídica, a isonomia e a previsibilidade das decisões valem mais, em regra, do que a satisfação individual de uma divergência pessoal. Quem decide em sentido contrário à orientação firmada pelo tribunal competente não demonstra coragem intelectual; demonstra, quando não existem fundamentos supervenientes que justifiquem a distinção ou a superação do precedente, uma espécie de voluntarismo que faz da função jurisdicional instrumento de expressão idiossincrática, e não de realização do direito. Segurança jurídica, dir-se- ia, é o compromisso que o Estado assume com o cidadão de que casos iguais serão tratados igualmente, ao longo do tempo e através das pessoas. Não obstante, o argumento mais profundo em favor do stare decisis transcende a dimensão pragmática da estabilidade. Ele remete a uma compreensão que a psicologia da Gestalt iluminou com a força de uma epifania: o todo é mais do que a soma das partes. O colegiado não é a justaposição mecânica de opiniões individuais, um simples somatório aritmético de convicções paralelas. É algo qualitativamente distinto, uma entidade deliberativa que produz, no encontro e no atrito das inteligências, uma síntese que nenhum de seus membros, isoladamente, seria capaz de engendrar. Quando os julgadores se reúnem em câmara, em turma, em plenário, a deliberação os transforma. A tese que emergia individual e apressada encontra resistência, nuança, a objeção que não havia sido considerada, a perspectiva que o ângulo singular não alcança. O que daí resulta, esse entendimento amadurecido e coletivamente construído, carrega uma legitimidade Fl. 1174DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 13 que a convicção solitária simplesmente não possui. Desprezá-lo, em nome da própria percepção que não foi submetida ao mesmo crisol, é um gesto de soberba epistemológica. Tal compreensão vincula-se, ademais, ao que se poderia chamar de princípio do colegiado: a ideia de que a unidade decisória não é o julgador, mas o órgão. O colegiado existe precisamente porque o direito reconhece que a complexidade das questões jurídicas supera a capacidade cognitiva de qualquer mente, por mais aguda que seja. Não há vício nessa constatação; há sabedoria institucional. O julgador que, convencido da excelência de seu raciocínio, recusa-se a acatar a orientação firmada pelo colegiado superior está, na prática, substituindo a arquitetura deliberativa do sistema pela autoridade não legitimada de sua própria consciência. Está a agir como se o tribunal fosse ele, e não aquela entidade coletiva, histórica e plural que o supera. Resulta daí que a divergência, embora legítima e até saudável quando manifestada nos espaços apropriados, não pode converter-se em dissidência permanente que mine a uniformidade da jurisprudência e fragmente a orientação que o jurisdicionado merece receber de modo coerente. Cumpre acrescentar que o respeito ao precedente não apaga a individualidade do julgador. A ratio decidendi a que ele adere não é uma jaula; é uma tradição viva, suscetível de distinção quando os fatos divergem, de superação quando a sociedade evolui, de reconsideração quando o erro originário se demonstra suficientemente grave. O stare decisis não é um mecanismo de ossificação do direito, mas de sua continuidade reflexiva. O julgador que adere ao entendimento consolidado, ainda que a contragosto, preserva algo que vai além do caso concreto: preserva a confiança de que o sistema jurídico tem memória e coerência, de que não está sujeito aos humores cambiantes de cada julgador de plantão. Essa é uma forma de respeito ao administrado que nenhuma brilhante divergência solitária jamais poderá substituir. Ao fim, a grandeza do colegiado reside exatamente nisso: na capacidade de absorver e superar as perspectivas individuais para produzir algo que as transcende. Como a catedral que nenhum artesão medieval viveu para ver concluída, mas que cada um deles construiu com dedicação anônima, o direito jurisprudencial é uma obra coletiva, intergeracional, que se ergue tijolo a tijolo, voto a voto, pela contribuição disciplinada de cada um de seus construtores. Ao julgador que diverge cabe, portanto, a nobreza da contenção: registrar sua posição nos autos com a precisão que o rigor intelectual exige, e então, resignado não à derrota, mas à grandeza do conjunto, acompanhar o entendimento do colegiado. Não porque sua voz não valha, mas porque o coro vale mais. Nesse contexto, apesar de possuir entendimento divergente, penso que é o momento de aderir nominalmente à posição desta 2ª Turma, até que haja modificação nas circunstâncias que sugiram a necessidade de reexame da matéria de direito (para os casos que sigam a tipologia deste, na linha desses precedentes). Em relação à situação da prestação de serviços intelectuais na área médica, e novamente ressalvada minha idiossincrática leitura, aplicarei o entendimento firmado por ocasião Fl. 1175DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 14 do julgamento dos seguintes precedentes: 15956.720051/2017-96 (2202-011.608), Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão em 04 de novembro de 2025 e publicação em 05 de dezembro de 2025; 15956.720169/2016-33 (2202-011.605), Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão em 04 de novembro de 2025 e publicação em 05 de dezembro de 2025; 15956.720051/2017-96 (2202-011.608), Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão em 04 de novembro de 2025 e publicação em 05 de dezembro de 2025; 15956.720169/2016-33 (2202-011.605), Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão em 04 de novembro de 2025 e publicação em 05 de dezembro de 2025. Nesses recursos voluntário, a controvérsia central consistiu em definir se os valores recebidos pelos contribuintes, declarados como rendimentos isentos a título de distribuição de lucros, correspondiam efetivamente a lucros societários ou se, como entendeu a fiscalização, constituíam remuneração por serviços médicos prestados, disfarçada sob a forma de participação societária. Neles, a fiscalização partiu da premissa de que as empresas teriam constituído uma estrutura societária apenas formal, com centenas de médicos admitidos como sócios, mas sem verdadeira affectio societatis. Os elementos apontados foram semelhantes: participação societária simbólica, em geral de R$ 1,00; concentração quase integral das cotas e do poder decisório no sócio-administrador; outorga de procurações amplas; alta rotatividade de sócios; pagamentos frequentes, inclusive várias vezes no mesmo mês ou no mesmo dia; correlação dos valores com plantões, locais de atendimento e produção individual; ausência de lastro contábil suficiente para demonstrar a apuração de lucros; existência de escalas e penalidades; e alegada promessa de recebimento de valores sem tributação. Com base nesse conjunto, a fiscalização reclassificou os valores como rendimentos tributáveis do trabalho e aplicou multa de ofício qualificada. A defesa dos contribuintes sustentou, em linhas gerais, que as empresas eram sociedades simples regularmente constituídas, voltadas à organização da prestação de serviços médicos. Alegou-se que, nesse tipo societário, a distribuição de lucros poderia ser desproporcional ao capital social e vinculada à contribuição de cada sócio para a produção de receitas, nos termos do contrato social e do art. 1.007 do Código Civil. Também se afirmou que as escalas e regras internas representavam mera organização operacional, e não subordinação trabalhista; que a multiplicidade de sócios e a rotatividade eram compatíveis com a dinâmica da atividade médica; que não havia prova individualizada de fraude ou conluio; e que, em todo caso, seria indevida a multa qualificada por ausência de dolo específico. O conselheiro relator rejeitou as preliminares de nulidade, conexão, prejudicialidade externa e insuficiência de fundamentação, por entender que o lançamento e as decisões recorridas permitiam a compreensão da acusação e o exercício da defesa. No mérito, porém, deu razão aos recorrentes. Para ele, os indícios utilizados pela fiscalização não eram suficientes, por si sós, para descaracterizar o vínculo societário e transformar os lucros declarados Fl. 1176DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 15 em remuneração tributável. O relator entendeu que a distribuição de resultados conforme a produção individual poderia ser compatível com sociedade simples de profissionais; que a participação simbólica no capital, a delegação de poderes, a concentração de gestão, a rotatividade e as escalas deveriam ser lidas à luz da economia de serviços especializados e da organização de uma sociedade médica; e que a fiscalização não teria demonstrado, de modo robusto e individualizado, simulação, fraude ou conluio. A posição deste relator também se apoiou na leitura dos precedentes do Supremo Tribunal Federal sobre terceirização, pejotização e liberdade de organização produtiva. Em sua compreensão, a ADPF 324, o RE 958.252, a ADC 66 e reclamações constitucionais posteriores indicariam que, em relações envolvendo profissionais qualificados, especialmente sem demonstração de hipossuficiência concreta, não se poderia presumir fraude apenas porque o serviço foi prestado mediante pessoa jurídica ou estrutura societária. A partir dessa premissa, concluiu que o arranjo adotado pelas empresas poderia ser juridicamente válido e que a Administração não poderia desconsiderá-lo com base em presunções genéricas. Por isso, votou pelo provimento integral dos recursos, com cancelamento do lançamento; e, subsidiariamente, afastaria a multa qualificada por ausência de prova de dolo, fraude ou conluio. Prevaleceu, contudo, a divergência aberta pela conselheira Sara Maria de Almeida Carneiro Silva, nossa colega de ontem e de sempre, a quem sempre renderemos homenagens; designada redatora para os acórdãos. Para a posição vencedora, o conjunto probatório demonstrava que os valores pagos pelas empresas aos médicos não representavam efetiva distribuição de lucros, mas remuneração por trabalho médico. A conselheira redatora atribuiu especial peso à frequência dos pagamentos, à ausência de apuração contábil compatível com distribuição de resultados, à participação societária irrisória, à concentração extrema de poder no sócio-administrador, à outorga de procurações, à rotatividade incompatível com vínculo societário estável, às escalas e penalidades e à promessa de economia tributária. Esses elementos, examinados em conjunto, foram considerados suficientes para demonstrar a simulação da condição de sócio e a natureza tributável dos valores recebidos. Assim, a posição vencedora manteve a reclassificação dos rendimentos como tributáveis pelo IRPF. A conselheira Sara concluiu que a forma societária não correspondia à realidade material da relação mantida entre os médicos e as empresas, pois os pagamentos eram vinculados à prestação de serviços, e não à participação nos resultados da sociedade. Desse modo, confirmou-se a validade do lançamento quanto ao imposto e aos juros, rejeitando-se a tese de que os valores deveriam permanecer como lucros isentos. A divergência vencedora, entretanto, não manteve integralmente a penalidade originalmente aplicada. Embora tenha reconhecido a simulação e preservado a tributação dos valores como rendimentos do trabalho, a decisão aplicou a retroatividade benigna da Lei nº 14.689/2023, que reduziu o percentual da multa qualificada, e deu provimento parcial aos recursos apenas para reduzir a multa de ofício ao patamar de 100%. O resultado, em ambos os acórdãos, foi o provimento parcial por voto de qualidade, vencidos o relator Thiago Buschinelli Fl. 1177DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 16 Sorrentino e a conselheira Andressa Pegoraro Tomazela, que davam provimento integral, e vencido também o conselheiro Marcelo Valverde Ferreira da Silva, que dava provimento parcial em maior extensão. Em síntese, os casos examinaram a validade fiscal da estrutura societária de sociedades destinadas à prestação de serviços de saúde e a natureza dos valores pagos a médicos admitidos como sócios. O relator Thiago entendeu que o Fisco não comprovou suficientemente a simulação, que os elementos apontados poderiam ser compatíveis com sociedade simples de profissionais e que os recursos deveriam ser integralmente providos. A posição vencedora, redigida pela conselheira Sara, entendeu o oposto quanto ao mérito: considerou comprovada a simulação e manteve a reclassificação dos lucros como rendimentos tributáveis, mas reduziu a multa qualificada para 100% em razão da legislação superveniente mais benéfica. 3 PRECEDENTE ESPECÍFICO DE OUTRA TURMA DA SEGUNDA SEÇÃO DO CARF Apenas para registro, anoto a existência do seguinte precedente, pertinente ao mesmo grupo: Numero do processo: 15504.725785/2018-61 Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção Câmara: Segunda Câmara Seção: Segunda Seção de Julgamento Data da sessão: Thu Jul 24 00:00:00 UTC 2025 Data da publicação: Thu Aug 14 00:00:00 UTC 2025 Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2013, 2014, 2015 SOCIEDADE. NATUREZA JURÍDICA DOS RENDIMENTOS PAGOS AOS SÓCIOS. VERDADE MATERIAL. Quando as atividades e os negócios jurídicos desenvolvidos possuem aspectos diversos da realidade formal, sendo os supostos sócios prestadores de serviços e o lucro, na verdade, refere-se à remuneração dos serviços prestados, os valores recebidos devem ser classificados, segundo a sua efetiva natureza jurídica, como rendimentos tributáveis de prestação de serviços, que correspondem a verdade material dos fatos, e não como lucros isentos do imposto de renda. NÃO APRESENTAÇÃO DE NOVAS RAZÕES DE DEFESA PERANTE A SEGUNDA INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. CONFIRMAÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA. Não tendo sido apresentadas novas razões de defesa perante a segunda instância administrativa, a fundamentação da decisão pode ser atendida mediante declaração de concordância com os fundamentos da decisão recorrida, nos termos do artigo 114, §12, I da Portaria MF n.º 1.634/2023. COMPENSAÇÃO. PEDIDO. APRECIAÇÃO. INCOMPETÊNCIA DO CARF. A competência para apreciar pedido de compensação de tributos é do titular da unidade da Receita Federal do Fl. 1178DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 17 Brasil da jurisdição do domicílio tributário do contribuinte. MULTA QUALIFICADA. CONDUTA DOLOSA. SIMULAÇÃO. A prática de simulação, caracterizada pela utilização de interposta pessoa, para dissimular o recebimento de rendimentos pelo sujeito passivo, enseja a qualificação da multa de ofício. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. RETROATIVIDADE BENIGNA. APLICAÇÃO. SUPERVENIÊNCIA DA LEI Nº 14.689/2023. Aplica-se legislação de forma retroativa a ato ou fato pretérito, quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo de sua prática. Superveniência da Lei nº 14.689, de 20 de setembro de 2023, que alterou o percentual da multa qualificada, reduzindo-a a 100%, por força da nova redação do art. 44, da Lei nº 9.430/96. Numero da decisão: 2201-012.134 Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo quanto ao pedido de compensação, vencidos os Conselheiros Luana Esteves Freitas (relatora) e Thiago Álvares Feital, que votaram pelo conhecimento integral. Na parte conhecida, por maioria de votos, em dar-lhe provimento parcial para: i) excluir da tributação os valores recebidos das empresas: a) Segmento Farma; b) Schering; c) Novartis; d) Merck; e) Permanyer; f) Planmarck; g) Astrazeneca; ii) reduzir a multa qualificada para o percentual de 100%, em virtude da retroatividade benigna; vencidos os Conselheiros Luana Esteves Freitas (Relatora) e Thiago Álvares Feital, que deram provimento integral ao recurso. Designado o Conselheiro Marco Aurélio de Oliveira Barbosa para redigir o voto vencedor. Assinado Digitalmente Luana Esteves Freitas – Relatora Assinado Digitalmente Marco Aurélio de Oliveira Barbosa – Presidente e Redator designado Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Debora Fófano dos Santos, Fernando Gomes Favacho, Weber Allak da Silva, Luana Esteves Freitas, Thiago Álvares Feital, Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente). Nome do relator: LUANA ESTEVES FREITAS 4 PRELIMINARES E MÉRITO Nos termos do art. 114, § 12º, I do Regimento Interno do CARF (RICARF/2023), se não houver inovação nas razões recursais, nem no quadro fático-jurídico, o relator pode aderir à fundamentação coligida no acórdão-recorrido. Assim, registro o seguinte trecho do acórdão-recorrido: Esclareça-se, inicialmente, que o trabalho de Fiscalização é pautado de formalidade intrínseca da atividade legal exercida, na busca da verdade material dos fatos com a sua subsunção aos preceitos legais. Fl. 1179DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 18 Trata-se de atividade plenamente vinculada, não podendo haver discricionariedade por parte da autoridade lançadora, conforme preconiza o art. 142, transcrito a seguir: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. O que esta autoridade julgadora irá analisar é se o lançamento foi efetuado conforme a legislação e os elementos de que possuía a Fiscalização, contrapondo- os com as alegações trazidas pelo impugnante juntamente com as provas que as acompanhem. Ilegalidade/Inconstitucionalidade Com relação às alegações de ilegalidade e inconstitucionalidade, saliente-se que não são suscetíveis de apreciação na via administrativa quaisquer arguições de inconstitucionalidade de leis tributárias ou fiscais, isso porque as autoridades administrativas, enquanto responsáveis pela execução das determinações legais, devem sempre partir do pressuposto de que o Legislador tenha editado leis compatíveis com a Constituição Federal. Noutras palavras, as autoridades administrativas não podem negar aplicação às leis regularmente emanadas do Poder Legislativo. O exame da constitucionalidade ou legalidade das leis é tarefa estritamente reservada aos órgãos do Poder Judiciário, nos termos do art. 102 da Constituição Federal de 1988. A autoridade tributária, tanto a lançadora quanto a julgadora, encontra-se cingida aos estritos termos da legislação fiscal, estando impedida de ultrapassar tais fronteiras para examinar questões outras como as suscitadas na impugnação em tela, uma vez que às autoridades tributárias cabe apenas cumprir e aplicar a lei. [...] Jurisprudência Administrativa e Judicial Com relação à jurisprudência judicial, esclarece-se que a eficácia dos acórdãos dos tribunais limita-se especificamente ao caso julgado e às partes inseridas no processo de que resultou a sentença, não aproveitando esses acórdãos em relação a qualquer outra ocorrência senão aquela objeto da sentença, ainda que Fl. 1180DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 19 de idêntica natureza, seja ou não interessado na nova relação o contribuinte parte do processo de que decorreu o acórdão. Quanto às decisões administrativas aludidas pelo contribuinte ao longo de sua peça impugnatória, cumpre observar que essas só se aplicam aos autos nos quais foram proferidas, não sendo cabível seu emprego a qualquer outro processo, mesmo que versando sobre a mesma matéria, por não se constituírem em norma geral. Doutrinas No que se refere às doutrinas transcritas, cabe esclarecer que mesmo a mais respeitável doutrina, ainda que dos mais consagrados tributaristas, não pode ser oposta ao texto explícito do direito positivo, mormente em se tratando do direito tributário brasileiro, por sua estrita subordinação à legalidade. Mérito A autuada questionou a totalidade do crédito tributário lançado por meio do presente lançamento de ofício, quando apresentou esclarecimentos, pontos de vista no tocante às suas teses, várias considerações e argumentos para amparar sua defesa. A extensa impugnação está sintetizada no relatório. Omissão de Rendimentos Entendeu a fiscalização, após todos os esclarecimentos e elementos de prova trazidos ao procedimento fiscal pelo contribuinte e pelas pessoas físicas e jurídicas diligenciadas e também informações constantes dos bancos de dados da RFB, que os rendimentos recebidos pelo contribuinte da pessoa jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] são referentes a honorários médicos e não a lucros distribuídos. Nos itens 4.6 e 4.7 do Termo de Verificação de Infração estão descritas as omissões de rendimentos apuradas. 4.7. Omissão de Rendimentos do Trabalho Recebidos de Pessoa Jurídica — Anos-calendário 2013 a 2015 4.7.1. Conforme já exaustivamente demonstrado, restou comprovado que os rendimentos recebidos pelo sujeito passivo possuem natureza remuneratória de prestação de serviços, referem-se a honorários médicos, e não a lucros distribuídos. 4.7.2. Além disso, conforme preconiza o inciso III do art. 28 da Lei n.º 8.212, de 24/07/1991, com redação da MP n.º 1.596-14, de 10/11/1997, convertida na Lei n.º 9.528, de 10/12/1997, integrarão o salário de contribuição do contribuinte individual a remuneração auferida em uma ou mais empresas ou pelo exercício de sua atividade por conta própria, durante o mês. Fl. 1181DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 20 4.7.3. O Anexo 03 deste Termo relaciona as notas fiscais emitidas pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] em nome de pessoas jurídicas para as quais o fiscalizado prestou serviços nos anos-calendário 2013 a 2015. O referido Anexo discrimina o valor atribuído à fiscalizada como omissão de rendimentos em cada nota fiscal. Esses valores foram lançados no Auto de Infração resultante desta fiscalização como “Omissão de Rendimentos do Trabalho Recebidos de Pessoa Jurídica”. Por oportuno, transcreve-se parte do Termo de Verificação Fiscal com as constatações e conclusões da fiscalização. 3.2. Com Relação à [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] 3.2.3. Em resposta ao Termo de Intimação Fiscal — Diligência n.º 01/2018, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] informou que a sede da empresa é no endereço residencial dos sócios [NOME ANONIMIZADO] e Andrea, servindo apenas como “endereço administrativo”, onde não ocorre a prestação de serviço, que é realizada nas empresas dos clientes. 3.2.4. Intimada a apresentar o Alvará de Funcionamento e Autorização da Vigilância Sanitária, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] apresentou um alvará concedido pela Prefeitura de [MUNICÍPIO ANONIMIZADO] datado de 07/06/2018, ou seja, data posterior à ciência do Termo de Intimação. 3.2.5. Intimada a comprovar a existência do Cadastro de Estabelecimento de Saúde junto ao CNES — [ÓRGÃO ANONIMIZADO], a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] não o fez, alegando que “está dispensada de tal cadastro, sabendo-se que o endereço da empresa é somente um endereço administrativo onde não ocorre prestação de serviço à saúde”. 3.2.6. Com relação aos bens do ativo imobilizado, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] informou que, tendo em vista a prestação dos serviços ocorrer nas dependências dos clientes, a clínica utiliza móveis, utensílios, aparelhos e equipamentos eletroeletrônicos dos locais onde são realizadas as prestações de serviços. 3.2.7. Com relação aos critérios utilizados para distribuição dos lucros aos sócios, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] informou que estes foram divididos da seguinte forma: Ano-calendário;Critério de distribuição informado 2013;De acordo com a participação no quadro societário da empresa 2014;Proporcional à participação no capital social e considerando o trabalho dos sócios 2015;Proporcional à participação no capital social e considerando o trabalho dos sócios Intimada a comprovar o efetivo recebimento de lucros da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], a fiscalizada apresentou cópias de comprovantes de Fl. 1182DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 21 transferências bancárias para sua conta conjunta com o sócio [NOME ANONIMIZADO], que é seu marido, e de alguns extratos da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA]. Além disso, a fiscalizada informou que tais comprovantes se referem aos pagamentos de lucros distribuídos a ela e a seu marido, uma vez que são casados em regime de comunhão universal de bens. Ressalta-se que a fiscalizada não apresentou nenhum documento capaz de comprovar o regime de casamento e, a partir do momento em que optou por transmitir a DIRPF separadamente da de seu marido, deveria comprovar individualmente tais recebimentos. Cumpre ressaltar ainda que os recibos apresentados pela contribuinte não comprovam a totalidade dos lucros recebidos informados por ela em seu Termo de Resposta. 3.2.8. Cabe destacar ainda a Cláusula Quinta — Objetivo Social da 2ª Alteração Contratual: “A sociedade terá por objetivo a prestação de Serviços Médicos especializado com responsabilidade pessoal e sem caráter empresarial”. Tal dispositivo foi inserido no Contrato Social para afastar a responsabilidade da pessoa jurídica no caso de uma ação judicial movida contra algum de seus profissionais. Quando um médico é acionado judicialmente em um processo por dano material e moral, o ônus da prova é de quem move o processo. No caso de pessoa jurídica, há uma inversão do ônus da prova e a empresa passa a ser tratada no processo como se fosse um hospital. Ou seja, o fiscalizado e seus sócios declaram, no Contrato Social, que assumem a responsabilidade pessoal pelos seus serviços, comprovando que a prestação era feita pelo profissional pessoa física e não pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA]. 3.2.9. Pelo exposto, resta claro que a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] não existe de fato e que foi constituída apenas para que seus sócios pudessem auferir vantagens tributárias indevidas. 3.3. Com Relação ao [HOSPITAL ANONIMIZADO] e aos Contratos Celebrados com a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] 3.3.6. Por todo o exposto, verificou-se que a existência da pessoa jurídica era totalmente desnecessária na relação estabelecida entre o [HOSPITAL ANONIMIZADO] e o contribuinte nos anos-calendário fiscalizados. Pela simples leitura do Regimento Interno do hospital, resta clara a existência de pessoalidade diante da necessidade de cadastramento do médico em seu Corpo Clínico. Fl. 1183DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 22 Além disso, conforme já relatado, o próprio regimento interno recomenda que os membros do corpo clínico se organizem preferencialmente por meio de pessoas jurídicas. Ou seja, a contratação é feita intuitu personae, e os serviços serão prestados por aquele profissional específico, que teve seu currículo analisado previamente. Outro ponto importante é que, apesar de relatar, em seu Termo de Resposta, que os médicos membros do corpo clínico exercem suas atividades sem subordinação, na prática não é o que se observa. Ao estabelecer que as ações de seus membros devem ser pautadas pelo Regimento Interno e pelo Código de Integridade do [HOSPITAL ANONIMIZADO], bem como pela necessidade de se reportar ao Coordenador de Equipe, resta clara a existência de subordinação do médico perante o hospital. Além disso, é possível constatar que a habitualidade está presente nas atividades desenvolvidas pelo fiscalizado, que fazem parte da atividade fim do [HOSPITAL ANONIMIZADO]. 3.3.7. Destaca-se ainda o fato de a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] não possuir empregados médicos, permitindo concluir que os serviços foram prestados pessoalmente por seus sócios. Especialmente no caso da fiscalizada, que detém uma especialidade médica diferente dos outros sócios, fica claro que ela sequer poderia ser substituída por outro sócio, reforçando ainda mais o caráter pessoal na prestação dos serviços. 3.3.8. Por fim, é importante frisar que, ao consultar o nome da fiscalizada em um site de busca na Internet, foram encontradas citações relacionando a médica com o [HOSPITAL ANONIMIZADO]. Verificou-se que não há qualquer menção à [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA]. 3.3.9. Ademais, conforme previsto em contrato, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] somente é responsável pelos serviços prestados, sendo os equipamentos, empregados e demais bens utilizados na prestação de serviço de propriedade/responsabilidade do [HOSPITAL ANONIMIZADO]. Ou seja, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] utilizou toda estrutura física, logística e operacional do [HOSPITAL ANONIMIZADO] para a prestação dos serviços, o que ocorre normalmente em relações de emprego, e não em relações entre duas pessoas jurídicas. Por fim, não há qualquer informação no site do [HOSPITAL ANONIMIZADO] de que o hospital terceiriza os serviços prestados no [UNIDADE ANONIMIZADA]. 3.3.10. Sendo assim, resta indubitavelmente comprovado que a existência da pessoa jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] era totalmente dispensável na execução dos serviços, sendo necessária apenas a existência de seus sócios, Fl. 1184DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 23 profissionais com capacidade técnica adequada para cumprir a demanda contratada. 3.4. Com Relação ao Contrato Celebrado entre a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] e a [CLÍNICA ANONIMIZADA 1] 3.4.1. Intimada a apresentar os contratos celebrados com a fiscalizada e/ou com as empresas das quais ela era sócia nos anos-calendário sob fiscalização, bem como informar quais serviços foram prestados por ela ou por suas respectivas empresas, a [CLÍNICA ANONIMIZADA 1] informou que a contribuinte prestou serviços em nome da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA]. Ainda em resposta ao referido Termo, a [CLÍNICA ANONIMIZADA 1] apresentou um Contrato de Prestação de Serviços Médicos celebrado com a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], que estabelece, em sua cláusula 2ª, que a sócia Andrea será a prestadora dos serviços, além de se responsabilizar civil e juridicamente pelos exames por ela realizados. A cláusula 1ª do referido contrato estabelece que a [CLÍNICA ANONIMIZADA 1] disponibilizará todos os recursos humanos e materiais necessários para a prestação dos serviços e que tais serviços serão prestados na sede da [CLÍNICA ANONIMIZADA 1]. 3.4.2. Diante de todas as informações aqui relatadas, é possível verificar que, na verdade, houve a contratação da médica Andrea para a realização de exames de ultrassonografia diagnóstica. Não havia a possibilidade de ser substituída, uma vez que ela é a única médica integrante do quadro societário da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] que possui tal especialidade e que a clínica não possuía empregados médicos nos anos- calendário fiscalizados. Além disso, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] utilizou toda a estrutura física e operacional da [CLÍNICA ANONIMIZADA 1] e nada pagou por isso, o que ocorre normalmente nas relações de emprego, e não nas relações entre duas empresas. 3.4.3. Por fim, analisando-se as cópias dos cheques apresentados pela [CLÍNICA ANONIMIZADA 1], os quais eram todos nominais à fiscalizada, em conjunto com os extratos bancários da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] apresentados pela contribuinte, verificou-se que tais cheques nunca foram depositados na conta da pessoa jurídica, confirmando que a existência da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] era totalmente dispensável na relação jurídica estabelecida entre a fiscalizada e a [CLÍNICA ANONIMIZADA 1]. 3.5. Com Relação ao Contrato Celebrado com a [CLÍNICA ANONIMIZADA 2] 3.5.1. Assim como a [CLÍNICA ANONIMIZADA 1], a [CLÍNICA ANONIMIZADA 2] também informou que todos os serviços prestados pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] foram executados pela fiscalizada. Fl. 1185DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 24 3.5.2. De acordo com o Contrato de Prestação de Serviços Médicos celebrado entre as partes, a [CLÍNICA ANONIMIZADA 2] cederá à [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] todos os equipamentos e recursos necessários para a prestação de serviços de radiologia e ultrassom. Além disso, estabelece que os serviços deverão ser prestados na sede da [CLÍNICA ANONIMIZADA 2]. A cláusula segunda do contrato proíbe a subcontratação de outro profissional ou empresa para a prestação do serviço sem o consentimento da contratante, e designa a fiscalizada como a responsável pela prestação dos serviços. 3.5.3. Pelo exposto, assim como ocorreu com a [CLÍNICA ANONIMIZADA 1], constatou-se que, na verdade, houve a contratação da médica Andrea para a realização de exames de imagem. Além disso, mais uma vez, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] utilizou toda a estrutura física e operacional da [CLÍNICA ANONIMIZADA 2], corroborando que a existência da pessoa jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] era totalmente dispensável na relação jurídica aqui descrita. 3.5.4. Por fim, analisando-se as cópias de cheques apresentadas pela [CLÍNICA ANONIMIZADA 2] e comparando-as com os extratos bancários da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], constatou-se que tais cheques nunca foram depositados na conta da pessoa jurídica, evidenciando que os pagamentos foram feitos diretamente à fiscalizada. 3.6. Com Relação aos Serviços Prestados a Outras Pessoas Jurídicas e a Pessoa Física 3.6.1. Considerando que, nos outros casos de prestação de serviços a pessoas jurídicas e a uma pessoa física, todos os sócios informaram o nome do profissional que o prestou, resta claro, mais uma vez, que a contratação se deu de forma pessoal, sendo a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] totalmente dispensável na relação jurídica estabelecida. 3.7. Com Relação aos Lucros Distribuídos aos Sócios 3.7.6. A 2ª Alteração Contratual da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], assinada em 10/10/2012, em sua Cláusula Oitava, dispõe que “os lucros apurados em balanço a ser realizado após o término do exercício social serão distribuídos entre os sócios na proporção do capital social, podendo os sócios optarem pelo aumento de capital utilizando estes lucros, e compensar os prejuízos em exercícios futuros de acordo com a legislação em vigor”. Por sua vez, a 3ª Alteração Contratual, assinada em 30/12/2014, trouxe nova redação à Cláusula Oitava: “os lucros apurados em balanço a ser realizado após o término do exercício social serão distribuídos entre os sócios de forma que os sócios minoritários recebam, no mínimo, o valor de suas proporcionalidades na participação no capital e, em consequência, os sócios majoritários recebam, no Fl. 1186DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 25 máximo, o valor de suas proporcionalidades na participação do capital, podendo os sócios optarem pelo aumento de capital utilizando estes lucros, e compensar os prejuízos em exercícios futuros de acordo com a legislação em vigor”. Sendo assim, nos anos-calendário fiscalizados, existiram duas formas de distribuição de lucros: Ano-calendário;Forma de distribuição indicada 2013;Proporcional à participação no capital social 2014;No mínimo o percentual de participação no capital social para os sócios minoritários e, no máximo, o percentual de participação no capital social para a fiscalizada, sócia majoritária 2015;No mínimo o percentual de participação no capital social para os sócios minoritários e, no máximo, o percentual de participação no capital social para a fiscalizada, sócia majoritária 3.7.7. Em resposta ao TIF n.º 02/2017, a fiscalizada esclareceu apenas que a retirada de lucro da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] era feita em forma de adiantamento de retirada de lucro mensal, transferindo o resultado final para a conta de resultado. Apresentou uma planilha contendo valores de lucros distribuídos, indicando a contrapartida no extrato bancário da clínica, e alguns comprovantes de transferências bancárias da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] para sua conta. Informou ainda que sua conta é conjunta com a de seu marido, que também é sócio da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], e que os valores transferidos se referiam a pagamentos de lucros dos dois, pois são casados em regime de comunhão universal de bens. Ressalta-se que a fiscalizada não apresentou nenhum documento que comprovasse o regime de casamento e, além disso, uma vez que optou por transmitir a DIRPF separada da de seu marido, deveria comprovar individualizadamente os valores que correspondiam aos lucros recebidos por cada um. 3.7.8. Conforme constam nos extratos bancários da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], as distribuições de lucros aos sócios sempre ocorreram logo após o pagamento do [HOSPITAL ANONIMIZADO] ser creditado na conta e, somando-se os valores de lucros distribuídos, verificou-se que eles são muito próximos àqueles creditados pelo hospital. 3.7.9. Tudo isso conduz à convicção de que essas “distribuições de lucros” têm, na verdade, natureza de honorários médicos, e que a 3ª Alteração do Contrato Social da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], ao estabelecer apenas valores mínimos e máximos de lucros distribuídos, foi realizada justamente para dar “legitimidade” a essa desigualdade na distribuição. Fl. 1187DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 26 3.8. Além de todos os fatos descritos anteriormente, após a análise dos extratos bancários da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], bem como das informações prestadas pelas pessoas diligenciadas, constatou-se que os pagamentos feitos pela [CLÍNICA ANONIMIZADA 1] e pela [CLÍNICA ANONIMIZADA 2], para as quais a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] emitiu notas fiscais mensalmente durante os anos fiscalizados, sequer transitaram pela conta bancária da empresa, indicando que foram feitos diretamente à fiscalizada, médica que prestou o serviço. Conforme já relatado, alguns cheques eram nominais a ela. 4. Lançamento de Ofício 4.3. Conforme detalhadamente demonstrado neste Termo, verificou-se que os rendimentos recebidos pelo sujeito passivo têm natureza remuneratória decorrente de serviços prestados, referindo-se, portanto, a honorários médicos e não a lucros distribuídos. Nesse sentido, ainda que o valor recebido seja denominado lucro distribuído, para fins de tributação do imposto de renda leva-se em consideração a essência do rendimento, sua verdadeira natureza. A tributação deve ser realizada de acordo com os fatos geradores efetivamente ocorridos. A situação de fato é que houve recebimento de rendimentos do trabalho percebidos pela médica Andrea Boueri Ticle Lima, tributados indevidamente como receita da interposta pessoa jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA]. 4.5. Conforme já mencionado neste Termo, na maior parte das notas fiscais emitidas pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] nos anos-calendário fiscalizados, foi possível apurar o valor do serviço atribuído a cada sócio. Sendo assim, foram adotados os seguintes procedimentos pela fiscalização: Procedimento;Descrição Desconsideração dos lucros distribuídos;Os valores de lucros distribuídos aos sócios da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] foram desconsiderados, visto que restou comprovado que tais lucros são, na verdade, honorários médicos recebidos pelos sócios Notas fiscais emitidas em nome do [HOSPITAL ANONIMIZADO];Nas notas fiscais em que mais de um profissional prestou o serviço, o valor atribuído a cada sócio foi realizado de acordo com as informações prestadas pelo próprio fiscalizado Critério de rateio;Em algumas notas emitidas em nome do [HOSPITAL ANONIMIZADO], foi informado o número total de procedimentos realizados em cada nota fiscal, bem como o número de procedimentos realizados por cada médico Cálculo fiscal;A Auditora-Fiscal calculou o valor atribuído a cada sócio com base no percentual de procedimentos realizados por ele Fl. 1188DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 27 4.6. O Anexo 02 deste Termo discrimina, para cada nota fiscal emitida pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] nos anos-calendário fiscalizados, o valor atribuído a cada sócio para fins de apuração da omissão de rendimentos. Não há lei que expressamente vede a constituição de pessoas jurídicas ou a celebração de negócio jurídico. Contudo, a análise não pode ser feita dessa maneira simplista e limitada, pois embora uma determinada ação não tenha sido proibida expressamente em uma lei, pode essa ação ir de encontro a vários preceitos previstos no ordenamento jurídico. São vários fatos observados e comprovados e não apenas um ou outro fato isolado, que o sujeito passivo, em sua impugnação, tentou demonstrar serem insuficientes para alicerçar a autuação fiscal. Constata-se que os médicos criaram a sociedade [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] para prestar serviços para outras empresas, porém, ao invés de serem remunerados regularmente por seus serviços profissionais, buscaram dar a esses pagamentos a roupagem de lucro, tendo em vista a isenção do imposto de renda das pessoas físicas. No caso, há um conjunto de elementos, dentre os quais os a seguir ilustrados, que demonstram que houve recebimento de rendimentos do trabalho pelo contribuinte que foram tributados indevidamente como receita da pessoa jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA]. A empresa jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] não detém as condições próprias de uma sociedade empresarial, posto que não tem nenhuma estrutura física, nem tampouco realiza, diretamente, nenhuma atividade comercial ou de prestação de serviços. São os “sócios” que realizam todas as atividades, ficando claro que são estes, efetivamente, os prestadores de serviços médicos. Quando intimada a apresentar o Alvará de Funcionamento e Autorização da Vigilância Sanitária, a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] apresentou um alvará concedido pela Prefeitura de [MUNICÍPIO ANONIMIZADO] com data posterior ao da ciência do Termo de Intimação, demonstrando que o mesmo somente foi solicitado quando exigido pela fiscalização. O Alvará de Funcionamento, assim como o da Vigilância Sanitária, é necessário para funcionamento de qualquer consultório ou clínica. No caso, caberia ao impugnante apresentar a prova de que a sociedade faz regularmente solicitação de emissão de alvarás de funcionamento, como alegado na impugnação. Também não foi comprovada a existência do Cadastro de Estabelecimento de Saúde junto ao CNES — [ÓRGÃO ANONIMIZADO]. Fl. 1189DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 28 O CNES — Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde — foi instituído pelo Ministério da Saúde com o objetivo de ter um banco de dados com todos os estabelecimentos que prestem assistência à saúde, públicos e privados, existentes em todo território nacional. O Ministério da Saúde obriga que todo estabelecimento, independentemente do seu tamanho, estrutura ou nível de complexidade, efetue o cadastro. Até ambulatórios que funcionam dentro de empresas, clubes ou escolas precisam preencher o CNES corretamente. Com relação à distribuição de lucros pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], foi ressaltado no Termo de Verificação Fiscal que a contribuinte, quando intimada a comprovar o efetivo recebimento de lucros da clínica, apresentou somente uma planilha contendo valores de lucros distribuídos, indicando a contrapartida no extrato bancário da clínica, e alguns comprovantes de transferências bancárias da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] para sua conta. Como bem ressaltado no Termo de Verificação Fiscal, a existência da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] era desnecessária na relação entre o contribuinte e o [HOSPITAL ANONIMIZADO]. Esse fato ficou demonstrado na pessoalidade diante da necessidade de cadastramento do médico em seu Corpo Clínico, na subordinação, pois as ações de seus membros são pautadas pelo Regimento Interno e pelo Código de Integridade do [HOSPITAL ANONIMIZADO] e pela necessidade de se reportar ao Coordenador de Equipe, e na habitualidade, pois as atividades desenvolvidas pelo contribuinte fazem parte da atividade fim do [HOSPITAL ANONIMIZADO]. Também, no caso da [CLÍNICA ANONIMIZADA 2] e da [CLÍNICA ANONIMIZADA 1], verifica-se que de fato houve a contratação da médica Andrea para a realização dos exames. Todos estes fatos levam à conclusão de que a jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] não desenvolve, efetivamente, nenhuma atividade, sendo que as atividades são desenvolvidas diretamente pelos médicos. Dessa forma, não se aplica ao caso dos autos o contido no art. 129 da Lei n.º 11.196/2005, uma vez que tal dispositivo legal só é aplicável se verdadeiramente presente uma relação civil e comercial entre a [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] e os profissionais médicos. O art. 129 da Lei n.º 11.196/2005 deve ser interpretado sistematicamente com as demais normas do ordenamento jurídico brasileiro, não podendo servir de manto protetor para a criação de pessoas jurídicas com o objetivo de disfarçar/dissimular uma relação de prestação de serviços. A realidade fática prevalece sobre o instrumento formal, pois as circunstâncias e o cotidiano nas relações podem ser diversas daquilo que foi documentado. Fl. 1190DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 29 A essência do ato jurídico é o fato, e não a forma; e, no caso, a fiscalização demonstrou cabalmente que a efetiva prestação de serviços pelo contribuinte diverge frontalmente da formalidade aparente, na qual ele figura como sócio da pessoa jurídica. Registre-se que não houve, no caso, a desconsideração da personalidade jurídica da sociedade. A fiscalização não negou a existência da jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] e nem, tampouco, adotou qualquer procedimento no sentido de efetivar a desconsideração de sua personalidade jurídica. A dita pessoa jurídica permaneceu com sua personalidade intacta, tendo a autoridade fiscal procedido apenas à desconsideração do negócio jurídico simulado, qual seja, a distribuição de lucros. Por fim, esclareça-se que a controvérsia acerca da existência ou não de vínculo de emprego é irrelevante para a incidência do imposto de renda devido pela pessoa física, posto que ambos constituem rendimentos produzidos pelo trabalho e, como tal, são tributáveis, sujeitando-se à retenção do imposto de renda pela fonte pagadora, no momento de sua percepção, e também à tributação na declaração de ajuste anual pelo contribuinte. Tanto os rendimentos do trabalho assalariado, com vínculo empregatício, quanto os rendimentos do trabalho não assalariado, sem vínculo empregatício, devem ser somados para a determinação da base de cálculo do ajuste anual. A forma de tributação no ajuste anual, portanto, não difere em função da existência ou não de vínculo de emprego, já que ambos os rendimentos são somados à base de cálculo do imposto para fins de apuração do imposto devido na declaração. Importa, neste processo, não a relação jurídica empregatícia, mas a efetiva prestação do serviço pela pessoa física e o auferimento de renda. Base de Cálculo Apurada Afirma o impugnante que a fiscalização desconsiderou o lucro distribuído pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] e optou por método diverso para apuração individual das receitas, qual seja, suposto número de atendimentos por médico. Afirma que a planilha elaborada pela fiscalização em nada condiz com os valores efetivamente recebidos. Requer, assim, que seja o lançamento limitado ao valor que alega efetivamente ter recebido. O procedimento adotado pela fiscalização está correto. Os valores dos lucros distribuídos informados pelo contribuinte em sua declaração de ajuste anual divergem dos extratos bancários apresentados. Fl. 1191DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 30 Assim, não há como considerar, como requer a contribuinte, como rendimentos omitidos, o valor informado na declaração de ajuste anual como lucros distribuídos, posto que tal valor encontra-se incorreto. No caso, foi verificado que na maior parte das notas fiscais emitidas pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] nos anos-calendário fiscalizados era possível apurar o valor do serviço atribuído a cada sócio, tendo, então, sido adotado o seguinte procedimento: Procedimento;Descrição Desconsideração dos lucros distribuídos;Os valores de lucros distribuídos aos sócios da [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] foram desconsiderados Notas fiscais emitidas em nome do [HOSPITAL ANONIMIZADO];Nas únicas notas fiscais em que mais de um profissional prestou o serviço, o valor atribuído a cada sócio foi realizado de acordo com as informações prestadas pelo próprio contribuinte Anexo 02 do Termo de Verificação Fiscal;Estão discriminados, para cada nota fiscal emitida pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA], o valor atribuído a cada sócio para fins de apuração da omissão de rendimentos Anexo 03 do Termo de Verificação Fiscal;Relaciona as notas fiscais emitidas pela [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] em nome de pessoas jurídicas para as quais a contribuinte prestou serviços nos anos-calendário 2013 a 2015 Não procede, portanto, o argumento do contribuinte de que a fiscalização presumiu o valor recebido pelo contribuinte. [...] Da Qualificação da Multa de Ofício Com relação à multa aplicada, assim dispõe o art. 44 da Lei n.º 9.430, de 27/12/1996: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I — de 75% sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II — de 50%, exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: a) na forma do art. 8º da Lei n.º 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social Fl. 1192DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 31 sobre o lucro líquido, no ano-calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. § 2º Os percentuais de multa a que se referem o inciso I do caput e o § 1º deste artigo serão aumentados de metade, nos casos de não atendimento pelo sujeito passivo, no prazo marcado, de intimação para: I — prestar esclarecimentos; II — apresentar os arquivos ou sistemas de que tratam os arts. 11 a 13 da Lei n.º 8.218, de 29 de agosto de 1991; III — apresentar a documentação técnica de que trata o art. 38 desta Lei. A multa qualificada de 150% tem por fundamento o parágrafo 1º do artigo 44 da Lei n.º 9.430/1996, transcrito, que trata da qualificação das infrações nos casos previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502/1964. Lei n.º 4.502, de 30 de novembro de 1964. Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I — da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II — das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. Como se percebe, nos casos de lançamento de ofício, a regra é aplicar a multa de 75%, estabelecida no inciso I do artigo acima transcrito. Excepciona a regra a comprovação do intuito doloso, a qual acarreta a aplicação da multa qualificada de 150%, prevista no § 1º do artigo 44 da Lei n.º 9.430 de 1996, com a redação dada pela Lei n.º 11.488, de 15/06/2007. O conceito de dolo encontra-se no inciso I do art. 18 do Decreto-lei n.º 2.848, de 07 de dezembro de 1940 — Código Penal, que dispõe ser o crime doloso aquele em que o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo. Fl. 1193DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 32 No lançamento foi aplicada a multa de ofício no percentual de 150% sobre o valor do imposto devido nos lançamentos referentes às receitas. No Termo de Verificação Fiscal consta a motivação para o lançamento da multa qualificada, conforme transcrição: 5.1.3. Conforme exaustivamente demonstrado neste Termo, o contribuinte, agindo em conluio com seus sócios, utilizou-se da pessoa jurídica interposta [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] para simular a distribuição de lucros e, desta forma, receber seus honorários médicos sem recolher o IRPF devido. Não é possível crer que a contribuinte praticou apenas uma conduta negligente, pois diante de todo o conjunto probatório resta claro que o único objetivo da constituição da pessoa jurídica [PESSOA JURÍDICA ANONIMIZADA] era mascarar o recebimento de honorários médicos por parte de seus sócios visando uma economia ilícita de tributos. 5.1.4. Conclui-se, portanto, que a fiscalizada praticou conduta definida como sonegação no art. 71 da Lei n.º 4.502, de 30/11/1964, bem como as condutas de fraude e conluio, previstas nos arts. 72 e 73, respectivamente, da mesma Lei. Ressalte-se que qualquer conduta dolosa do sujeito passivo, com vistas a reduzir ou suprimir tributo, estará sempre enquadrada em uma das hipóteses previstas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502/1964. Portanto, é irrelevante distinguir se a conduta se configurou em sonegação, fraude ou conluio, bastando apenas que se enquadre em qualquer um dos tipos definidos na citada lei e que no lançamento tenham sido indicadas todas as circunstâncias que possibilitaram a identificação do elemento subjetivo. No presente caso, conforme já analisado, restou comprovada a ocorrência de evasão fiscal, diante da clara intenção de ludibriar o Fisco, quando promoveu a alteração das características essenciais dos honorários profissionais, mascarando- os como se fossem lucros distribuídos. A evasão fiscal consiste em prática que infringe a lei, cometida após a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária, e objetiva reduzi-la ou ocultá-la. O sujeito passivo, sabendo que tem que pagar aquele tributo, encontra uma forma de dissimulá-lo, com o intuito de não pagá-lo ou minimizar o pagamento. A atitude está intrínseca na questão da evasão, pois o dolo e a intenção de não pagar ou pagar a menos do que é devido ao Estado está associada à ocorrência do fato gerador e, portanto, caracteriza-se como ilícita. É preciso reconhecer que as hipóteses em que é facultado ao contribuinte realizar negócios sem ter de contribuir para o fisco são restritas e pressupõem a atuação dentro de limites impostos pela lei, não havendo espaço para hipóteses de simulação, fraude ou dolo. Fl. 1194DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 33 Entretanto, havendo simulação, fraude ou dolo, resta caracterizada a evasão fiscal, forma ilícita de afastar a incidência tributária. Dentro da evasão encontram-se manobras ardilosas que, depois de ocorrido o fato gerador, visam a desviar a regra de incidência tributária, abrangendo as mais diversas formas de simulação. Não é razoável supor que a autuada, na qualidade de médica, não tivesse o conhecimento e discernimento necessários para compreender o mecanismo e as consequências tributárias da prática adotada. Não trata, portanto, o presente lançamento de simples omissão de rendimentos. Portanto, não há como considerar involuntária a conduta do contribuinte nem mera divergência de interpretação fática ou da legislação, o que torna devida a multa qualificada prevista no artigo 44, inciso I, parágrafo 1º, da Lei n.º 9.430, de 1996. Diante do exposto, rejeito o argumento. 5 AGRAVAMENTO DA MULTA POR DECISÃO SUPERVENIENTE À NOTIFICAÇÃO DO LANÇAMENTO Disse o órgão julgador de origem: Revisão do Lançamento Contrariamente às alegações da contribuinte, o lançamento pode ser revisto de ofício pela autoridade administrativa sempre que se comprove erro, conforme artigo 149 da Lei n.º 5.172, de 25 de outubro de 1966 — Código Tributário Nacional. Observa-se que, no primeiro auto de infração entregue à contribuinte, apesar de no demonstrativo de crédito tributário constar a multa de 75%, no Termo de Verificação Fiscal, item 5, “Multa Aplicada”, estão demonstradas as razões para aplicação da multa qualificada de 150%. A contribuinte, em sua impugnação, demonstrou estar ciente do agravamento da multa de ofício, tanto que apresentou suas alegações. As hipóteses de alteração do lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo são tema do art. 145 do Código Tributário Nacional: Art. 145. O lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo só pode ser alterado em virtude de: I — impugnação do sujeito passivo; Fl. 1195DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 34 II — recurso de ofício; III — iniciativa de ofício da autoridade administrativa, nos casos previstos no artigo 149. O art. 145 do CTN, referindo-se à revisão de ofício como hipótese de alteração do lançamento de ofício, remete às situações elencadas no art. 149 daquele mesmo diploma legal: Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: I — quando a lei assim o determine; II — quando a declaração não seja prestada, por quem de direito, no prazo e na forma da legislação tributária; III — quando a pessoa legalmente obrigada, embora tenha prestado declaração nos termos do inciso anterior, deixe de atender, no prazo e na forma da legislação tributária, a pedido de esclarecimento formulado pela autoridade administrativa, recuse-se a prestá-lo ou não o preste satisfatoriamente, a juízo daquela autoridade; IV — quando se comprove falsidade, erro ou omissão quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória; V — quando se comprove omissão ou inexatidão, por parte da pessoa legalmente obrigada, no exercício da atividade a que se refere o artigo seguinte; VI — quando se comprove ação ou omissão do sujeito passivo, ou de terceiro legalmente obrigado, que dê lugar à aplicação de penalidade pecuniária; VII — quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; VIII — quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior; IX — quando se comprove que, no lançamento anterior, ocorreu fraude ou falta funcional da autoridade que o efetuou, ou omissão, pela mesma autoridade, de ato ou formalidade especial. Parágrafo único. A revisão do lançamento só pode ser iniciada enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública. Enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública, não há óbice para correção de erro no auto de infração. De fato, o agravamento da multa não constava no documento originalmente entregue à recorrente, como reconhece a DRJ. Nesse sentido, disse a autoridade lançadora (fls. 18): Fl. 1196DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 35 Após o encerramento dos trabalhos de fiscalização em nome da contribuinte Andréa Boueri Ticle Lima, CPF *, verificou-se um erro no Demonstrativo de Apuração do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, uma vez que constava o percentual de 75% para a multa aplicada, contrariamente ao informado no item 5.1 do Termo de Verificação e na Representação Fiscal para Fins Penais. De acordo com o artigo 149 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional – CTN), o lançamento pode ser revisto de ofício pela autoridade administrativa sempre que se comprove erro quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária. Deste modo, encaminho novamente o Auto de Infração, acompanhado do Termo de Verificação Fiscal e anexos, além do Termo de Encerramento Consolidado, com o percentual da multa aplicada corrigido, qual seja, 150%. Apesar de o órgão julgador de origem procurar caracterizar o ato como simples erro material, de lapso manifesto (por ter escrito “75%” ao invés de “150%”), a conjunção dos textos citados não permite essa modificação, em prejuízo do cidadão. A pretensão de manter a multa qualificada de 150%, quando o primeiro auto de infração entregue à contribuinte indicava expressamente, no demonstrativo de crédito tributário, o percentual de 75%, não encontra amparo no artigo 149 do Código Tributário Nacional, e a autoridade fiscal, ao invocar genericamente esse dispositivo para justificar a alteração em desfavor do sujeito passivo, omite que a revisão de ofício do lançamento regularmente notificado não é faculdade discricionária da administração, mas competência vinculada a hipóteses taxativas, cuja incidência deve ser demonstrada caso a caso, e não presumida a partir da mera existência de uma divergência interna entre as peças do auto de infração. Convém partir de uma distinção que a autoridade autuante parece ter ignorado. Há uma diferença ontológica entre o erro material, que decorre de falha mecânica ou de digitação na consolidação de um documento, e o erro de fato ou de direito a que se refere o artigo 149, que pressupõe uma inexatidão substancial na apuração do crédito tributário, na declaração do contribuinte ou na conduta deste perante o Fisco. A discrepância entre o percentual de 75% constante do demonstrativo de crédito tributário e o percentual de 150% fundamentado no Termo de Verificação Fiscal é, por sua própria natureza, um erro do primeiro tipo: trata-se de uma falha na transposição de um dado já apurado e já fundamentado para a planilha de consolidação, e não de uma reavaliação do mérito da qualificação da penalidade. Reconhecer essa distinção é condição prévia para qualquer análise do artigo 149, porquanto esse dispositivo não foi concebido para sanar inconsistências redacionais da própria autoridade lançadora, mas para permitir a revisão do lançamento diante de fatos novos ou de condutas do sujeito passivo que comprometam a exatidão original da exigência fiscal. Fl. 1197DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 36 Assentada essa premissa, cumpre examinar, um a um, os incisos do artigo 149, para demonstrar que nenhum deles autoriza, no caso concreto, a manutenção da multa em patamar superior àquele que constava do demonstrativo de crédito tributário notificado à contribuinte. O inciso I exige que a lei determine, de forma específica, a revisão do lançamento. Não há, no caso, qualquer dispositivo legal que imponha à autoridade administrativa o dever de revisar o demonstrativo de crédito tributário para fazê-lo coincidir com o Termo de Verificação Fiscal; a hipótese, portanto, não se verifica, e a autoridade tampouco a invoca especificamente, limitando-se a uma referência genérica ao artigo 149 como um todo, o que já revela a fragilidade do enquadramento legal pretendido. O inciso II pressupõe a ausência de declaração, por quem de direito, no prazo e na forma da legislação tributária. A contribuinte, todavia, não apenas prestou as declarações a que estava obrigada, como também apresentou impugnação tempestiva, demonstrando pleno conhecimento dos termos em que o lançamento lhe fora notificado. Não há, pois, omissão declaratória que justifique a revisão. O inciso III trata do descumprimento de pedido de esclarecimento formulado pela autoridade administrativa. Inexiste, nos autos, qualquer notícia de que se tenha formulado à contribuinte pedido de esclarecimento sobre o percentual da multa aplicada, e muito menos de que esta se tenha recusado a atendê-lo ou o tenha atendido de forma insatisfatória. A hipótese é, portanto, estranha ao caso. O inciso IV exige a comprovação de falsidade, erro ou omissão quanto a elemento de declaração obrigatória do próprio sujeito passivo. Aqui reside o ponto que mais nitidamente expõe a impropriedade da revisão pretendida: o erro, se existente, não é da contribuinte, mas da própria autoridade fiscal, que consolidou de forma inexata, no demonstrativo de crédito tributário, um percentual de multa distinto daquele que fundamentara no Termo de Verificação Fiscal. O inciso IV pressupõe falha imputável ao sujeito passivo na prestação de informações; não alberga, e não poderia albergar, falha de elaboração do próprio auto de infração pela autoridade lançadora. O inciso V refere-se a omissão ou inexatidão da pessoa legalmente obrigada no exercício da atividade de lançamento por homologação, prevista no artigo 150 do Código. Tratando-se, no caso, de lançamento de ofício decorrente de ação fiscal, a hipótese sequer é tecnicamente aplicável. O inciso VI exige ação ou omissão do sujeito passivo que dê lugar à aplicação de penalidade pecuniária. Ora, a penalidade já havia sido aplicada e fundamentada no Termo de Verificação Fiscal desde a lavratura original do auto de infração; não há ação ou omissão posterior da contribuinte que justifique nova aplicação ou agravamento de multa, e o que se busca, em rigor, não é aplicar penalidade em razão de conduta nova, mas corrigir, em prejuízo da contribuinte, um erro de transposição cometido pela própria autoridade. Fl. 1198DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 37 O inciso VII demanda a comprovação de dolo, fraude ou simulação por parte do sujeito passivo. Note-se a ironia da situação: o dolo, quando mencionado nos autos, foi invocado pela própria autoridade fiscal como fundamento para a qualificação da multa em 150%, constante do Termo de Verificação Fiscal; não se trata, portanto, de fato novo a justificar revisão, mas de fundamento já preexistente à notificação do lançamento, o que evidencia, mais uma vez, que a hipótese de revisão de ofício é estranha ao caso, pois nada se descobriu depois da notificação que antes se ignorasse. O inciso VIII autoriza a revisão quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior. Também aqui a hipótese não se sustenta, porquanto a motivação para a multa qualificada já constava integralmente do Termo de Verificação Fiscal desde a notificação original; não há fato novo, desconhecido à época, que tenha emergido posteriormente e que justifique a revisão. O que se pretende corrigir é uma inconsistência interna do próprio auto de infração, não uma lacuna de conhecimento da autoridade fiscal superada por descoberta ulterior. O inciso IX, por fim, é o único que poderia, em tese, aproximar-se da situação dos autos, na medida em que prevê a revisão quando se comprove, no lançamento anterior, fraude ou falta funcional da autoridade que o efetuou, ou omissão de ato ou formalidade especial. Ainda assim, a hipótese não se verifica, e a razão é estrutural, não apenas circunstancial. A falta funcional a que alude o inciso IX pressupõe um vício na própria atividade de lançamento, suficientemente grave para comprometer a validade do ato administrativo, a exemplo de incompetência da autoridade, inobservância de formalidade essencial ou conduta dolosa do agente público. Um erro material de consolidação de planilha, decorrente de falha mecânica e plenamente identificável pelo cotejo entre o demonstrativo e o Termo de Verificação Fiscal, não atinge esse patamar de gravidade. Poder-se-ia objetar, a essa altura, que a própria trivialidade do vício militaria em favor de sua correção, porquanto um erro que não coloca em dúvida a validade do lançamento seria, por isso mesmo, corrigível sem maiores consequências. O argumento, contudo, inverte os termos em que a questão deve ser colocada. Que o erro seja trivial, escusável e desprovido de consequências relevantes em outras esferas do direito público é proposição com a qual não se controverte; no âmbito disciplinar, por exemplo, uma falha dessa natureza dificilmente ultrapassaria o patamar de mera irregularidade, insuficiente para configurar infração funcional, e no âmbito administrativo geral poderia até mesmo ser sanada de ofício, sem prejuízo a qualquer interessado, justamente porque, nesses domínios, a correção não recai sobre ninguém em particular nem onera posição jurídica individual já consolidada. A esfera tributária, todavia, não comporta essa mesma indiferença, e a razão é precisa: aqui, ao contrário do que ocorre na relação interna entre a administração e seus agentes, há um sujeito passivo que ocupa, por definição constitucional, a posição central de toda a Fl. 1199DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 38 engrenagem fiscal, pois é em função do contribuinte e da capacidade contributiva que se justifica a própria existência da tributação, e não o inverso. Um erro que, na esfera disciplinar, se dissolveria em mera irregularidade sem vítima identificável, na esfera tributária recai diretamente sobre quem suporta o ônus do tributo, e transforma-se, por isso, em majoração de crédito tributário imposta a quem não lhe deu causa. A trivialidade do vício, que em outros campos do direito público autorizaria sua correção indolor, é exatamente o que deveria impedir, na seara fiscal, que se transferisse ao contribuinte o custo de uma falha qualificada, em todas as demais esferas, como menor e desimportante. É precisamente neste ponto que a Teoria do Risco oferece a chave de leitura adequada para o caso. Quem exerce a atividade de lançamento tributário, prerrogativa exclusiva e indelegável da administração, assume também o risco inerente a essa atividade, incluído nele o risco de falhas materiais na elaboração dos próprios atos administrativos. No direito tributário, não é dado à administração transferir ao administrado o ônus de uma falha que lhe é inteiramente imputável. Admitir o contrário equivaleria a inverter a lógica das garantias que informam todo o sistema de revisão do lançamento: o sujeito passivo, que nada fez para causar a inconsistência entre o demonstrativo e o Termo de Verificação Fiscal, e que depositou legítima confiança no percentual que lhe fora formalmente notificado, seria onerado por um erro alheio, justamente naquilo que a legislação de regência mais zelosamente protege, a saber, a estabilidade do lançamento regularmente notificado. Essa estabilidade, consagrada no artigo 145 do Código Tributário Nacional, não é mero formalismo processual; é garantia substancial de segurança jurídica, que somente cede diante de hipóteses estritas e taxativas, exatamente porque o legislador reconheceu que o lançamento, uma vez notificado, gera no contribuinte uma expectativa legítima quanto aos seus termos. Quando a própria autoridade fiscal busca corrigir, em prejuízo do sujeito passivo, um erro que lhe é inteiramente imputável, e o faz sem que se configure qualquer das hipóteses estritas do artigo 149, ela não está exercendo a prerrogativa de revisão de ofício; está, na verdade, tentando contornar, por via oblíqua, a própria garantia de estabilidade que o artigo 145 lhe impõe observar. Conclui-se, portanto, que nenhuma das nove hipóteses do artigo 149 do Código Tributário Nacional autoriza a revisão pretendida, e que o argumento de que a contribuinte teria demonstrado, em sua impugnação, conhecimento do agravamento da multa não supre essa ausência de fundamento legal, pois o conhecimento da motivação constante do Termo de Verificação Fiscal não convalida, por si só, um lançamento cuja consolidação formal, notificada à contribuinte, indicava percentual diverso. Há de prevalecer, à míngua de requisito legal para a revisão de ofício, o percentual de 75% constante do demonstrativo de crédito tributário original, sob pena de se transferir ao sujeito passivo o risco de uma falha cuja autoria e cuja responsabilidade são exclusivamente da administração fiscal. Diante do exposto, acolho o argumento. Fl. 1200DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 39 6 APROVEITAMENTO DE TRIBUTOS RECOLHIDOS PELA PESSOA JURÍDICA DESCONSIDERADA Sem prejuízo de meu entendimento pessoal sobre a matéria de fundo, uma vez adotada a racionalidade deste Colegiado sobre a presença dos requisitos que ensejam a tributação da renda pela pessoa natural, deve-se reler a conclusão a que chegou o órgão julgador de origem sobre a desconsideração da pessoa jurídica. Evidentemente, não se tratou de simples realocação de ingressos, com base no afastamento pontual e bem identificado de um, ou uma quantidade mínima, de operações. Sustenta-se que, embora o acórdão recorrido afirme formalmente não ter havido desconsideração da personalidade jurídica da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda., toda a sua fundamentação conduz, materialmente, à conclusão oposta. Com efeito, o próprio acórdão declara que a pessoa jurídica teria sido constituída apenas para que seus sócios pudessem auferir vantagens tributárias indevidas, que sua existência seria dispensável nas relações contratuais examinadas e que os valores por ela recebidos deveriam ser tratados como rendimentos da pessoa física da contribuinte. Essa operação lógica não preserva a personalidade jurídica; ao contrário, retira-lhe eficácia fiscal justamente para atribuir à sócia os efeitos econômicos de receitas formalmente auferidas pela sociedade. Verifica-se que o acórdão recorrido não se limita a requalificar isoladamente determinado pagamento. A decisão parte de uma premissa ampla e estrutural: a de que a Clínica Radiológica e Oncológica Ltda. não existiria de fato como verdadeira prestadora de serviços, mas funcionaria como pessoa jurídica interposta para encobrir a prestação individual de serviços médicos. Essa premissa aparece de modo expresso quando o acórdão reproduz e acolhe a conclusão fiscal de que a clínica “não existe de fato” e teria sido constituída “apenas para que seus sócios pudessem auferir vantagens tributárias indevidas”. A partir daí, todo o raciocínio decisório passa a tratar a sociedade como entidade sem substância própria, substituindo sua atuação formal pela atuação direta da contribuinte. Observa-se que a decisão recorrida ancora essa conclusão em fatos concretos que, no seu entendimento, evidenciariam a artificialidade da pessoa jurídica. O acórdão menciona que a sede da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda. funcionaria no endereço residencial dos sócios, servindo apenas como “endereço administrativo”, sem prestação de serviços no local. Registra, ainda, que, quando intimada a apresentar alvará de funcionamento e autorização da vigilância sanitária, a sociedade apresentou alvará datado de 07/06/2018, posterior à ciência do termo de intimação, e que não comprovou cadastro no CNES. Também aponta que a clínica não possuiria bens próprios relevantes para a prestação dos serviços, pois utilizaria móveis, utensílios, aparelhos e equipamentos dos próprios tomadores. Acrescenta-se que o acórdão recorrido utiliza essas circunstâncias para negar substância operacional à sociedade. Ao afirmar que a empresa “não detém as condições próprias de uma sociedade empresarial”, porque não possuiria estrutura física nem realizaria diretamente atividade comercial ou prestação de serviços, a decisão não apenas examina a regularidade de Fl. 1201DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 40 documentos acessórios. Ela conclui que a pessoa jurídica não seria a verdadeira titular da atividade econômica, pois, segundo o acórdão, “são os sócios que realizam todas as atividades”, sendo eles, “efetivamente, os prestadores de serviços médicos”. Essa passagem é central: nela, o acórdão desloca a autoria da prestação da pessoa jurídica para as pessoas físicas dos sócios. Demonstra-se a desconsideração material também pelo tratamento dado aos contratos celebrados com os tomadores de serviços. Em relação ao Hospital Mater Dei, o acórdão afirma que a existência da pessoa jurídica seria “totalmente desnecessária” na relação estabelecida com a contribuinte nos anos-calendário fiscalizados. Para sustentar essa conclusão, aponta a necessidade de cadastramento do médico no corpo clínico, a análise prévia do currículo, a prestação pessoal dos serviços, a submissão ao regimento interno e ao código de integridade do hospital, a necessidade de reporte ao coordenador de equipe e a habitualidade decorrente do fato de as atividades integrarem a atividade-fim do tomador. Tais fundamentos foram empregados para esvaziar a autonomia da sociedade contratada e afirmar que, na realidade, quem prestava o serviço era a contribuinte, pessoa física. Ressalta-se que o mesmo raciocínio foi aplicado aos contratos com a Ecograf e com a Clínica Radiológica. O acórdão registra que, no contrato com a Ecograf, a sócia Andrea seria a prestadora dos serviços, responsabilizando-se civil e juridicamente pelos exames realizados, que os serviços seriam prestados na sede da contratante e que a Ecograf disponibilizaria os recursos humanos e materiais necessários. A partir desses elementos, conclui que teria havido, em verdade, a contratação da médica Andrea para realização de exames de ultrassonografia diagnóstica, sem possibilidade prática de substituição, pois ela seria a única integrante da sociedade com a especialidade indicada e a clínica não possuiria empregados médicos. Assinala-se que, quanto à Clínica Radiológica, o acórdão novamente afirma que todos os serviços prestados pela Clínica Radiológica e Oncológica Ltda. teriam sido executados pela fiscalizada. Destaca que a contratante cederia todos os equipamentos e recursos necessários, que os serviços deveriam ser prestados em sua sede, que a subcontratação dependeria de consentimento e que Andrea fora designada como responsável pela prestação dos serviços. Com base nisso, a decisão conclui que, também ali, teria havido contratação direta da médica Andrea para realização de exames de imagem, sendo a existência da pessoa jurídica “totalmente dispensável” na relação jurídica descrita. Evidencia-se, ainda, que o acórdão fundamenta a conclusão de artificialidade na forma de circulação dos pagamentos. A decisão menciona que, no caso da Ecograf e da Clínica Radiológica, cheques nominais à fiscalizada não teriam sido depositados na conta bancária da pessoa jurídica, o que indicaria que os pagamentos foram feitos diretamente à médica que prestou os serviços. Também aponta que, quanto aos pagamentos do Hospital Mater Dei, as distribuições de lucros aos sócios ocorreriam logo após o crédito dos valores na conta da clínica e em montantes muito próximos aos recebidos do hospital. A partir desses elementos, o acórdão conclui que as “distribuições de lucros” teriam, na verdade, natureza de honorários médicos. Fl. 1202DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 41 Conclui-se, portanto, que o acórdão recorrido não preservou a personalidade jurídica da Clínica Radiológica e Oncológica Ltda. para fins fiscais. Embora tenha afirmado que não houve desconsideração formal da personalidade jurídica, a decisão desconsiderou, na prática, a eficácia dos atos praticados pela sociedade, a titularidade das receitas por ela formalmente auferidas, a validade fiscal da distribuição de lucros e a própria função contratual da pessoa jurídica nas relações com seus tomadores. O acórdão substituiu a forma jurídica declarada — prestação de serviços por sociedade simples e posterior distribuição de lucros — por uma realidade reconstruída pela fiscalização — prestação pessoal de serviços médicos pela contribuinte e recebimento de honorários tributáveis na pessoa física. Afirma-se, assim, que houve verdadeira desconsideração substancial da pessoa jurídica, ainda que o acórdão tente afastar essa qualificação por meio de declaração expressa em sentido contrário. A conclusão decorre do próprio conteúdo decisório: a clínica foi tratada como estrutura desprovida de existência econômica própria, constituída para escamotear a prestação individual de serviços; seus contratos foram interpretados como meras formas aparentes; suas receitas foram atribuídas diretamente à contribuinte; e seus lucros distribuídos foram reclassificados como honorários médicos. Esse conjunto de fundamentos revela que a decisão não apenas desconsiderou um negócio jurídico isolado, mas neutralizou a própria personalidade fiscal da sociedade para alcançar a pessoa física de sua sócia. Assim, se toda a estrutura foi rejeitada, deve-se aplicar ao quadro a orientação correspondente (cf., e.g., 11065.722731/2015-66 (Acórdão 2202-011.901), Rel. Henrique Perlatto Moura, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão 08/04/2026, publicação 18/05/2026; 11634.720004/2019-96 (Acórdão 2202-011.923), Rel. Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão 10/04/2026, publicação 12/05/2026; 12448.730776/2014-91 (Acórdão 2202-011.756), Rel. Thiago Buschinelli Sorrentino, Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção, sessão 21/01/2026, publicação 05/03/2026). Diante do exposto, acolho o argumento. 7 REDUÇÃO DO PERCENTUAL DA MULTA QUALIFICADA – FUNDAMENTO SUBSIDIÁRIO. Para a hipótese de restar vencido no ponto sobre a qualificação da multa (alteração de percentual após a notificação regular ao contribuinte), reduz-se, de 150% para 100%, a razão da multa aplicada, em decorrência da modificação da legislação de regência (art. 8º da Lei 14.689/2023), aplicado retroativamente (art. 106, II, c do CTN). 8 DISPOSITIVO Ante o exposto, CONHEÇO parcialmente do recurso voluntário, com exceção das alegações de inconstitucionalidade, REJEITO as preliminares, e, no mérito, DOU-LHE PARCIAL Fl. 1203DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 42 PROVIMENTO, tão-somente para reduzir o percentual da multa, de 150 para 75%, e para permitir o aproveitamento dos tributos pagos pela pessoa jurídica, em relação aos valores devidos pela pessoa natural, na proporção de sua participação societária. É como voto. Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino VOTO VENCEDOR Conselheiro Marcelo Valverde Ferreira da Silva, redator designado A fim de bem delimitar o alcance pretendido por este voto vencedor, é preciso esclarecer que o ilustre relator, conheceu parcialmente do recurso voluntário, com exceção das alegações de inconstitucionalidade, bem como rejeitou as preliminares deduzidas pelo recorrente. No mérito, a despeito de registrar seu entendimento pessoal, adotou o posicionamento majoritário deste colegiado, fundamentando sua decisão, nos termos do art. 114, § 12, I, do RICARF, acolhendo a redução da multa proporcional ao percentual de 75%, bem como, admitindo o aproveitamento dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica, na proporção da participação societária do sujeito passivo. Tratará este voto vencedor, exclusivamente, da manutenção da multa qualificada, matéria em que o relator restou vencido. Registre-se a concordância deste colegiado com as demais matérias desenvolvidas pelo ilustre relator. Pois bem, todo a discussão gira ao redor da possibilidade de uma vez cientificado ao contribuinte o lançamento tributário, possa ser ele alterado, em razão da constatação de erro na exteriorização do documento de sua constituição. No caso concreto, a despeito do Termo de Verificação de fls. 20 a 51 deduzir um capítulo inteiro registrando a aplicação da multa qualificada prevista no artigo 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996, no lançamento anterior foi aplicado o percentual ordinário da multa proporcional de 75%, posteriormente revisado por meio do documento de fls. 2 a 15. A autoridade lançadora, reconhecendo a inexatidão do percentual da multa aplicada (Informação Fiscal de fls. 18 a 19), realizou a revisão de ofício do lançamento, cientificando o sujeito passivo do valor do crédito tributário retificado, bem como oferecendo nova oportunidade para impugná-lo. Contra este procedimento, o sujeito passivo deduz sua insurgência, acolhida pelo ilustre relator, sob o argumento de que a situação não pode ser encarada como mero erro material, que não se teria verificado quaisquer das hipóteses autorizativas do artigo 149, do CTN, que não poderia ser transferido ao sujeito passivo equívoco exclusivo da autoridade lançadora que representaria evidente agravamento da exigência. Fl. 1204DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 43 A matéria em questão está disciplinada nos artigos 145, 146 e 149, do Código Tributário Nacional: Art. 145. O lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo só pode ser alterado em virtude de: I - impugnação do sujeito passivo; II - recurso de ofício; III - iniciativa de ofício da autoridade administrativa, nos casos previstos no artigo 149. Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em consequência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. [...] Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: I - quando a lei assim o determine; II - quando a declaração não seja prestada, por quem de direito, no prazo e na forma da legislação tributária; III - quando a pessoa legalmente obrigada, embora tenha prestado declaração nos termos do inciso anterior, deixe de atender, no prazo e na forma da legislação tributária, a pedido de esclarecimento formulado pela autoridade administrativa, recuse-se a prestá-lo ou não o preste satisfatoriamente, a juízo daquela autoridade; IV - quando se comprove falsidade, erro ou omissão quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória; V - quando se comprove omissão ou inexatidão, por parte da pessoa legalmente obrigada, no exercício da atividade a que se refere o artigo seguinte; VI - quando se comprove ação ou omissão do sujeito passivo, ou de terceiro legalmente obrigado, que dê lugar à aplicação de penalidade pecuniária; VII - quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; VIII - quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior; IX - quando se comprove que, no lançamento anterior, ocorreu fraude ou falta funcional da autoridade que o efetuou, ou omissão, pela mesma autoridade, de ato ou formalidade essencial. Fl. 1205DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 44 Parágrafo único. A revisão do lançamento só pode ser iniciada enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública. Os dispositivos acima mencionados, não deixam dúvidas, da possibilidade da revisão de ofício do lançamento, após a sua notificação ao sujeito passivo. No entanto, é necessário a constatação de algum dos incisos do artigo 149, do CTN, não poderá importar em alteração do critério jurídico do lançamento, somente podendo se realizar enquanto não decorrido o prazo decadencial. No entender deste redator, caso a Administração constate posteriormente um erro de fato que resultou em tributação inferior à devida, poderá efetuar lançamento complementar ou revisar o lançamento para exigir a diferença do tributo. Não somente a jurisprudência administrativa é repleta de decisões autorizando a revisão do lançamento quando constatado erro de fato, mas também o STJ admite essa revisão quando ocorrida tal modalidade de erro. No julgamento do REsp 1.130.545/RJ, submetido ao rito dos recursos repetitivos, o STJ fixou entendimento de que a retificação de dados cadastrais que revele fato não conhecido por ocasião do lançamento anterior autoriza sua revisão, com fundamento no art. 149, VIII, do CTN. Nesse específico precedente, a revisão resultou na cobrança de diferença de IPTU decorrente de erro na metragem do imóvel, ou seja, em agravamento do crédito tributário, resultando no Tema Repetitivo nº 387 (STJ): A retificação de dados cadastrais do imóvel, após a constituição do crédito tributário, autoriza a revisão do lançamento pela autoridade administrativa (desde que não extinto o direito potestativo da Fazenda Pública pelo decurso do prazo decadencial), quando decorrer da apreciação de fato não conhecido por ocasião do lançamento anterior, ex vi do disposto no artigo 149, inciso VIII, do CTN. Ocorre que o ilustre relator entende não ser cabível a aplicação do artigo 149, VIII, do CTN, ao caso concreto, argumentando que a situação não envolve o conhecimento de fato novo ignorado por ocasião ao lançamento, mas que as circunstâncias eram de pleno conhecimento da autoridade lançadora, que teria deixado de aplicar a qualificação da multa, embora essa fosse a sua intenção. Divirjo deste entendimento, na medida em que admito a aplicação do referido inciso ao caso concreto, autorizando a revisão do lançamento “quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior”. A autoridade fiscal pretendeu a aplicação da multa qualificada ao caso concreto, tanto que a ele especificamente fez menção no Termo de Verificações. O fato não conhecido se refere ao erro na falta de aplicação da qualificadora, o que foi devidamente retificado por meio do documento de fls. 2 a 15. Ainda que a situação representasse o agravamento da exação, e que o fato que lhe deu causa somente pode ser imputado à autoridade lançadora, penso que as limitações impostas pela lei à revisão não se prestem para a manutenção do lançamento sabidamente equivocado, em detrimento àquele pretendido pela fiscalização. Tal pretensão sempre existiu, não representando qualquer alteração do critério jurídico e realizada dentro do Fl. 1206DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-012.079 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.727304/2018-51 45 limite temporal para o lançamento do tributo, razão pela qual o entendimento da maioria do colegiado foi pela manutenção da qualificação da multa. No entanto, desde a entrada em vigor da Lei nº 14.689/2023, a multa qualificada aplicada em razão da constatação da ocorrência das hipóteses dos artigos 71, 72 e 73, da Lei nº 4.502/1964, passou a ser de 100% sobre a totalidade ou diferença do imposto lançado de ofício, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata. Tal novo percentual há que ser aplicado ao caso concreto, nos termos do artigo 106, II, “c”, do CTN. Assim sendo, conforme já esclarecido nos parágrafos iniciais deste voto vencedor, ratifica-se tudo quanto contido no voto do relator, exceto a manutenção da qualificação da multa aplicada, que por maioria de votos restou vencido, cabendo sua aplicação no percentual de 100%, em razão da sua retroatividade benigna. Assinado Digitalmente Marcelo Valverde Ferreira da Silva Fl. 1207DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido 1 CONHECIMENTO 2 PRECEDENTES ESPECÍFICOS DESTA COMPOSIÇÃO COLEGIADA 3 PRECEDENTE ESPECÍFICO DE OUTRA TURMA DA SEGUNDA SEÇÃO DO CARF 4 PRELIMINARES E MÉRITO 5 agravamento da multa por decisão superveniente à notificação do lançamento 6 APROVEITAMENTO DE TRIBUTOS RECOLHIDOS PELA PESSOA JURÍDICA DESCONSIDERADA 7 REDUÇÃO DO PERCENTUAL DA MULTA QUALIFICADA – FUNDAMENTO SUBSIDIÁRIO. 8 DISPOSITIVO Voto Vencedor

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