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Numero do processo: 19515.001263/2009-19
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Jul 03 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 21 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2004, 2005
SOCIEDADE QUE SE COMPORTA COMO SOCIEDADE DE FATO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA E ILIMITADA PARA OS SÓCIOS DE FATO.
São solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal (CTN, art. 124, I). Em condições normais, o sistema jurídico prevê apartação patrimonial entre a pessoa jurídica e as pessoas que compõem o seu quadro societário (sócios de direito). Mas a utilização fraudulenta de pessoa jurídica afasta essa apartação patrimonial, e os sócios de fato respondem solidária e ilimitadamente pelas obrigações surgidas de sua empresa (negócio/ empreendimento). A sonegação de tributo perpetrada via utilização fraudulenta da pessoa jurídica, mediante interposição de pessoas, faz com que a pessoa jurídica seja tratada de modo semelhante a uma sociedade de fato (porque se comporta como tal), situação em que as pessoas envolvidas, por se encontrarem na mesma posição jurídica em relação ao fato gerador, respondem solidária e ilimitadamente pelos débitos surgidos do negócio.
PROCURADOR/ADMINISTRADOR DE SOCIEDADE EMPRESARIAL. PRÁTICA DE ILÍCITO TRIBUTÁRIO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA.
Os mandatários e os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado são pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. (CTN, art. 135, II e III).
CTN, ART. 124, I, E ART. 135, II E III. INCIDÊNCIA CONJUNTA. POSSIBILIDADE.
No caso destes autos, as referidas regras de responsabilização tributária não são excludentes, elas coexistem. A mesma ilicitude (uso fraudulento de pessoa jurídica, mediante interposição de pessoas) leva à responsabilização tributária. O vínculo obrigacional por uma regra surge em decorrência da condição de sócio de fato, enquanto pela outra, da condição de procurador/ administrador da empresa.
Numero da decisão: 9101-002.954
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Ausente, momentaneamente, o conselheiro Luís Flávio Neto.
(assinado digitalmente)
Marcos Aurélio Pereira Valadão - Presidente
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araujo - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em exercício).
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2004, 2005 SOCIEDADE QUE SE COMPORTA COMO SOCIEDADE DE FATO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA E ILIMITADA PARA OS SÓCIOS DE FATO. São solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal (CTN, art. 124, I). Em condições normais, o sistema jurídico prevê apartação patrimonial entre a pessoa jurídica e as pessoas que compõem o seu quadro societário (sócios de direito). Mas a utilização fraudulenta de pessoa jurídica afasta essa apartação patrimonial, e os sócios de fato respondem solidária e ilimitadamente pelas obrigações surgidas de sua empresa (negócio/ empreendimento). A sonegação de tributo perpetrada via utilização fraudulenta da pessoa jurídica, mediante interposição de pessoas, faz com que a pessoa jurídica seja tratada de modo semelhante a uma sociedade de fato (porque se comporta como tal), situação em que as pessoas envolvidas, por se encontrarem na mesma posição jurídica em relação ao fato gerador, respondem solidária e ilimitadamente pelos débitos surgidos do negócio. PROCURADOR/ADMINISTRADOR DE SOCIEDADE EMPRESARIAL. PRÁTICA DE ILÍCITO TRIBUTÁRIO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. Os mandatários e os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado são pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. (CTN, art. 135, II e III). CTN, ART. 124, I, E ART. 135, II E III. INCIDÊNCIA CONJUNTA. POSSIBILIDADE. No caso destes autos, as referidas regras de responsabilização tributária não são excludentes, elas coexistem. A mesma ilicitude (uso fraudulento de pessoa jurídica, mediante interposição de pessoas) leva à responsabilização tributária. O vínculo obrigacional por uma regra surge em decorrência da condição de sócio de fato, enquanto pela outra, da condição de procurador/ administrador da empresa.
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(Responsável Tributário: ALBERTO MUCCIOLO) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2004, 2005 SOCIEDADE QUE SE COMPORTA COMO SOCIEDADE DE FATO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA E ILIMITADA PARA OS SÓCIOS DE FATO. São solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal (CTN, art. 124, I). Em condições normais, o sistema jurídico prevê apartação patrimonial entre a pessoa jurídica e as pessoas que compõem o seu quadro societário (sócios de direito). Mas a utilização fraudulenta de pessoa jurídica afasta essa apartação patrimonial, e os sócios de fato respondem solidária e ilimitadamente pelas obrigações surgidas de sua empresa (negócio/ empreendimento). A sonegação de tributo perpetrada via utilização fraudulenta da pessoa jurídica, mediante interposição de pessoas, faz com que a pessoa jurídica seja tratada de modo semelhante a uma sociedade de fato (porque se comporta como tal), situação em que as pessoas envolvidas, por se encontrarem na mesma posição jurídica em relação ao fato gerador, respondem solidária e ilimitadamente pelos débitos surgidos do negócio. PROCURADOR/ADMINISTRADOR DE SOCIEDADE EMPRESARIAL. PRÁTICA DE ILÍCITO TRIBUTÁRIO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. Os mandatários e os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado são pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. (CTN, art. 135, II e III). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 12 63 /2 00 9- 19 Fl. 1763DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 3 2 CTN, ART. 124, I, E ART. 135, II E III. INCIDÊNCIA CONJUNTA. POSSIBILIDADE. No caso destes autos, as referidas regras de responsabilização tributária não são excludentes, elas coexistem. A mesma ilicitude (uso fraudulento de pessoa jurídica, mediante interposição de pessoas) leva à responsabilização tributária. O vínculo obrigacional por uma regra surge em decorrência da condição de sócio de fato, enquanto pela outra, da condição de procurador/ administrador da empresa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Ausente, momentaneamente, o conselheiro Luís Flávio Neto. (assinado digitalmente) Marcos Aurélio Pereira Valadão Presidente (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em exercício). Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN), fundamentado atualmente no art. 67 e seguintes do Anexo II da Portaria MF nº 343, de 09/06/2015, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), em que se alega divergência jurisprudencial relativamente à anulação de Termo de Sujeição Passiva que atribuía responsabilidade tributária pelos débitos apurados junto à empresa acima identificada. A recorrente insurgiuse contra o Acórdão nº 110100.736, de 08/05/2012, por meio do qual a 1a Turma Ordinária da 1a Câmara da 1a Seção de Julgamento do CARF, entre outras questões, decidiu por maioria de votos anular o Termo de Sujeição Passiva lavrado contra Alberto Mucciolo, para o qual foi imputada responsabilidade solidária relativamente aos débitos apurados junto à empresa Denwa Vídeo, Foto, Som, Comércio e Importação Ltda. O acórdão recorrido contém a ementa e a parte dispositiva descritas abaixo: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica — IRPJ Fl. 1764DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 4 3 Exercício: 2004, 2005. OMISSÃO DE RECEITA. EXTRATOS BANCÁRIOS. HISTÓRICOS. PROVA. Históricos de créditos nas contas correntes, indicando que se trata de pagamento de operações mercantis, são elemento de prova de que os ingressos correspondem a receitas da empresa. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Exercício: 2004, 2005. OMISSÃO DE RECEITA. ELEMENTOS DE PROVA. EXTRATOS BANCÁRIOS. Extratos bancários que revelam, nos históricos dos lançamentos à crédito nas contas correntes, trataremse de pagamento de venda são provas diretas das receitas auferidas pela empresa, ainda mais quando associados a circularização que confirma as operações mercantis. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Exercício: 2006, 2007 RECURSO VOLUNTÁRIO. CONTESTAÇÃO DOS FATOS. AUSÊNCIA. Se o contribuinte não contesta os fatos sustentados na autuação, não cabe ao julgador fazêlo. SONEGAÇÃO. ELEMENTOS DE PROVA. Restando demonstrado que o contribuinte deixou de registrar expressivas compras e respectivos pagamentos, resta demonstrada a sonegação de fatos tributáveis ao Fisco, cabendo a aplicação da multa de 150%. CONSTITUCIONALIDADE DE LEI. Não é possível analisar a constitucionalidade de leis, ou adequação das leis ao CTN, em processo administrativo. As leis têm presunção de constitucionalidade e devem ser aplicadas pela Administração, salvo determinação em contrário da Justiça. SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE DE TERCEIROS. ART. 135 DO CTN. A responsabilidade prevista no art. 135 do CTN é subsidiária, de sorte que apenas surge quando demonstrada a impossibilidade de cobrança da dívida do devedor. SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE DE TERCEIROS. ART. 124 DO CTN. A responsabilidade prevista no art. 124 do CTN não se aplica a tributos como IRPJ, CSLL, PIS e Cofins, nos quais o pólo passivo é constituído unicamente pelo contribuinte. Só é possível haver a incidência do art. 124 do CTN se as pessoas estiverem na mesma posição jurídica em relação ao fato gerador. Fl. 1765DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 5 4 TERMOS DE SUJEIÇÃO PASSIVA. NULIDADE. É nulo o termo de sujeição passiva lavrado sem amparo na legislação. ARTIGO 124 DO CTN. O art. 124 ao mencionar "interesse comum" diz interesse idêntico e isso significa que para serem solidários as pessoas precisam corealizar o fato gerador. ARTIGO 135 DO CTN. Uma das possibilidades de responsabilização de gerentes, com base no art. 135 do CTN, é que o débito tributário decorra de sonegação, que o gerente tenha estado na administração da empresa no momento em que ocorreu a sonegação, e que não seja possível cobrar da empresa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado: 1) por unanimidade de votos, NEGAR PROVIMENTO ao recurso de oficio; 2) por unanimidade de votos, NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário de Denwa Vídeo Foto, Som, Comércio e Importação; 3) por maioria de votos ANULAR o termo de sujeição passiva, divergindo os Conselheiros Edeli Pereira Bessa e João Carlos de Figueiredo Neto, que negavam provimento ao recurso voluntário de Alberto Mucciolo; 4) por unanimidade de votos, NÃO CONHECER da petição de Yoshe Sugahara Ishii. Fará declaração de voto a Conselheira Edeli Pereira Bessa. A PGFN afirma que o acórdão recorrido deu à lei tributária interpretação divergente da que tem sido dada em outros processos, especificamente quanto à anulação do Termo de Sujeição Passiva que atribuía responsabilidade tributária a Alberto Mucciolo pelos débitos apurados junto à empresa Denwa Vídeo, Foto, Som, Comércio e Importação Ltda. Para o processamento de seu recurso, a PGFN desenvolve os argumentos descritos abaixo: o acórdão recorrido merece reforma por adotar interpretação divergente daquela adotada, em casos semelhantes, por outras Turmas e Câmaras do CARF; DAS DIVERGÊNCIAS QUANTO À INTERPRETAÇÃO DO ARTIGO 124, I DO CTN (PRIMEIRA DIVERGÊNCIA); DOS ARTIGOS 11, 59 E 60, DO DECRETO Nº 70.235/72 (SEGUNDA DIVERGÊNCIA) E DO ARTIGO 135, II E III DO CTN (TERCEIRA DIVERGÊNCIA). primeiramente divergiu a Câmara julgadora do entendimento esboçado pela 3ª C do 2º CC e da 8ª C do 1º CC ao entender que os Termos de Sujeição Passiva seriam nulos por erro no enquadramento legal ao indicar como fundamento o art. 124, I, do CTN: Acórdão nº 20311329 [...] Fl. 1766DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 6 5 RESPONSABILIDADE TRIBUTARIA. LARANJAS, TESTASDEFERRO OU INTERPOSTAS PESSOAS. SOCIEDADE DE FATO. SOLIDARIEDADE. CTN, ART. 124, I. Comprovada a utilização de pessoa jurídica de modo fraudulento, por pessoas físicas e outra pessoa jurídica que dela se utilizaram como meio de fugirem da tributação, cabe responsabilizar, de modo solidário e sem beneficio de ordem, todos os proprietários de fato, nos termos do art. 124, I, do CTN. [...] Acórdão nº 10808467 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA demonstrado de forma inequívoca que a sociedade é formalmente constituída por interpostas pessoas e identificados os sócios de fato, devem os mesmos ser arrolados como responsáveis solidários pelo crédito tributário constituído a teor dos artigos 124, I e 135, III, do C.T.N. Recurso negado. os acórdãos paradigmas, ao contrário do entendimento esposado pela Câmara Julgadora, entenderam que demonstrada a interposição de pessoas na constituição da pessoa jurídica, cabível a inclusão dos sócios de fato na sujeição passiva do crédito tributário com fundamento no art. 124, I do CTN, como ocorreu no caso em debate. Portanto, correto o lançamento, não havendo que se falar em erro no enquadramento legal; entretanto, ainda que se entenda que a indicação do art. 124, I, do CTN como fundamento para a validade dos termos de sujeição passiva poderia ser complementada ou mesmo estava equivocada, errou a Câmara julgadora ao anular o Auto; ao assim decidir, também divergiu o acórdão recorrido da E. CSRF a qual esboçou entendimento no sentido de que, ainda que se verifique que a capitulação errônea ou insuficiente/imprecisa do auto de infração, ou ate mesmo a ausência de enquadramento legal, tais irregularidades não são suficientes para provocar a nulidade do lançamento, ainda mais quando o direito à ampla defesa foi exercido em sua plenitude, conforme previsão dos arts. 11, 59 e 60, do Decreto n° 70.235/72; eis as ementas dos referidos julgados: Acórdão CSRF/0202.301 Ementa: NORMAS PROCESSUAIS — CAPITULAÇÃO LEGAL NULIDADE INEXISTENTE. O estabelecimento autuado defendese dos fatos a ele imputado, e não do dispositivo legal mencionado na acusação fiscal. Não existe prejuízo à defesa quando os fatos narrados e fartamente documentados nos autos amoldamse perfeitamente às infrações imputadas à empresa fiscalizada. Não há nulidade sem prejuízo. [...] Acórdão CSRF/0104.780 Ementa: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL — DESCRIÇÃO DOS FATOS E CAPITULAÇÃO LEGAL — IMPRECISÃO — CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA — NULIDADE — PROCESSO REFLEXIVO — Fl. 1767DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 7 6 DECORRÊNCIA PROCESSUAL: Tendo a peça impositiva procedido à perfeita descrição dos fatos, possibilita ao contribuinte seu amplo direito de defesa, ainda mais que ele foi exercido em sua plenitude. A capitulação legal, cuja precisão foi prejudicada pela generalidade, mas com perfeito enquadramento do tipo fiscal, não conduzindo à efetiva confusão nos argumentos de defesa, não é suficiente para provocar a nulidade do lançamento. Sendo processo reflexivo, pelo principio da decorrência processual, é de se adotar a mesma decisão prolatada no processo principal. os acórdãos paradigmas deixam claro que, ainda que reste configurada a generalidade da capitulação legal indicada, ou até mesmo a ausência desta, não há que se falar em nulidade se o contribuinte compreendeu a acusação fiscal e dela se defendeu, como ocorreu nos autos no caso dos responsáveis solidários; posição contrária foi acolhida pelo acórdão recorrido, que anulou o lançamento quanto aos responsáveis legais, sem comprovar o prejuízo sofrido por estes em seu direito de defesa, por suposto erro no enquadramento legal da infração; por fim, o acórdão recorrido também divergiu do acórdão n. 10808467 e do acórdão n. 10196145 em relação à natureza da responsabilidade prevista no art. 135, II e III, do CTN, ao afirmar categoricamente que se trata de uma responsabilidade subsidiária, a depender da impossibilidade de pagamento da dívida por parte da empresa. Com efeito, o acórdão recorrido entendeu que "a responsabilidade prevista no art. 135 do CTN é subsidiária, de sorte que apenas surge quando demonstrada a impossibilidade de cobrança da dívida do devedor" e que "não seja possível cobrar da empresa"; em sentido contrário, o Acórdão nº 10808467 aduz que "demonstrado de forma inequívoca que a sociedade é formalmente constituída por interpostas pessoas e identificados os sócios de fato, devem os mesmos ser arrolados como responsáveis solidários pelo crédito tributário constituído a teor dos artigos 124, I e 135, III, do C.T.N." O acórdão paradigma encontrase alinhado com a jurisprudência do C. STJ, firmada em sede de recursos repetitivos, segundo a qual é solidária (e não subsidiária) a responsabilidade dos administradores em caso de encerramento irregular da atividade empresarial e violação à lei (art. 135, III, do CTN); também em sentido contrário ao acórdão recorrido encontrase o Acórdão paradigma n. 10196145, segundo o qual "são pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei os mandatários, prepostos e empregados e os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. A dissolução irregular da empresa acarreta a responsabilidade pessoal de que trata o art. 135 do CTN. Respondem pelo crédito tributário os verdadeiros sócios da pessoa jurídica, pessoas físicas, acobertados por terceiras pessoas ("laranjas") que apenas emprestavam o nome para que eles realizassem operações em nome da pessoa jurídica, da qual tinham ampla procuração para gerir seus negócios e suas contascorrentes bancárias"; a fiscalização concluiu, no caso em apreço, pela ocorrência de fraude e pela incidência de multa qualificada de 150%, especialmente em virtude da violação à lei por parte do Sr. Alberto Mucciolo, que era quem de fato operava a empresa autuada. Concluiu a Fl. 1768DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 8 7 fiscalização, ainda, que a empresa já não era mais encontrada em seu domicílio fiscal. A Súmula 435 do STJ é esclarecedora nesse ponto (encerramento irregular): "Presumese dissolvida irregularmente a empresa que deixar de funcionar no seu domicílio fiscal, sem comunicação aos órgãos competentes, legitimando o redirecionamento da execução fiscal para o sóciogerente". além disso, ao contrário do que afirma o r. acórdão ora embargado, o art. 135 trata de uma responsabilidade solidária. O elemento subjetivo é o dolo gênero, logo, envolve dolo ou culpa. Em relação ao fato gerador, este pode ser anterior à infração à lei. Se o lançamento de oficio é feito com multa qualificada, ocorre a responsabilidade solidária de que trata o art. 135, em relação aos sócios administradores à época do fato gerador. Se a pessoa jurídica foi constituída por meio de interpostas pessoas, o lançamento deve ser com multa qualificada e os reais administradores respondem solidariamente com a pessoa jurídica. A dissolução irregular também configura hipótese de que trata o art. 135. Configurase dissolução irregular a baixa nos órgãos de registro, quando são apurados débitos posteriormente, pois houve infração à lei societária; observase, portanto, que, se há multa qualificada, há responsabilidade pelo art. 135 do CTN, trazendo à responsabilidade os sócios do tempo do fato gerador. Se a pessoa jurídica foi constituída por interpostas pessoas, o lançamento das infrações apuradas deve ser com multa qualificada, pois foram alteradas características do fato gerador (sujeito passivo). Nesse caso, os reais administradores também respondem solidariamente com a pessoa jurídica; uma vez evidenciada a divergência jurisprudencial apontada, afiguramse presentes os requisitos de admissibilidade do Recurso Especial por divergência devendo o presente recurso ser conhecido e processado; passase a demonstrar doravante as razões pelas quais merece ser adotado o entendimento exarado nos paradigmas, reformandose o julgado hostilizado; DOS FUNDAMENTOS PARA REFORMA DO ACÓRDÃO RECORRIDO. DA INCIDÊNCIA NA HIPÓTESE DO ART. 124, I, DO CTN E DA AUSÊNCIA DE NULIDADE QUANTO AO RESPONSÁVEL SOLIDÁRIO a fundamentação da responsabilidade no art. 124, I, do CTN não está equivocada e, ainda que a Câmara julgadora considerasse recomendável a citação de algum outro dispositivo legal, temos a presença de todos os elementos essenciais à validade do Auto de Infração; comprovouse no caso o que se denomina de "solidariedade de fato" em virtude do interesse comum que as pessoas arroladas tem nos fatos geradores apurados pela fiscalização; como bem demonstrado pela fiscalização, o responsável tributário agia por meio de testasdeferro ou laranjas (os sócios formais da empresa em questão), sendo inquestionável, portanto, seu interesse na situação em tela; neste sentido, citase: Acórdão CSRF/0105.543 Fl. 1769DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 9 8 [...] SOCIEDADE DE FATO — evidenciada a existência de vários beneficiários do ilícito, organizados sobre a gerência do principal interessado, configura se a sociedade de fato e a imputação de responsabilidade tributária por força do interesse comum (art. 124, I, do CTN). [...] assim, patente a correção do enquadramento legal adotado pela fiscalização; notese, ainda, que a necessidade de responsabilização solidária da pessoa física enumerada restou exaustivamente comprovada pela análise minuciosa de cada ação perpetrada, conforme a contundente Declaração de Voto da Eminente Conselheira Edeli Pereira Bessa (transcrição contida no recurso); nas sociedades em comum — configurada a situação de uma sociedade de fato, isto é, existente de fato, mas não constituída formalmente, aplicase o art. 990 do Código Civil, combinado com o art. 124, inciso I, do CTN. Na hipótese de extinção de sociedade regular que continua a exercer suas atividades por meio dos sócios, pode ser caracterizada uma sociedade em comum, o que, por força do art. 1.036 do Código Civil, combinado com o art. 124, inciso I, do CTN, permite atribuir responsabilidade solidária e ilimitada aos sócios; contudo, ainda que se admita a necessidade de indicação de outro dispositivo legal, temos que mesmo assim o lançamento não poderia ser considerado nulo, pois segundo resulta da disciplina dos arts. 59 c/c 60 do Decreto n. 70.235/72, a notificação e demais termos do processo administrativo fiscal somente serão declarados nulos nas situações lá previstas; sobre a matéria, a jurisprudência desta CSRF, de longa data, firmou orientação no sentido de que "Não existe prejuízo à defesa quando os fatos narrados e fartamente documentados nos autos amoldamse perfeitamente às infrações imputadas à empresa fiscalizada. Não há nulidade sem prejuízo" (Acórdão: CSRF/0202.301); o art. 11 do Decreto 70.235/72 estabelece os requisitos obrigatórios da notificação de lançamento fiscal; o voto condutor do acórdão guerreado decidiu por anular o AI quanto ao termo de atribuição de responsabilidade tributária sob o argumento de que houve erro no enquadramento legal da infração, pois o art. 124, I, do CTN não permite a inclusão de pessoas físicas como responsáveis solidários; sucede que da leitura detida do Termo de Verificação Fiscal e dos Termos de atribuição de responsabilidade tributária, concluise, indubitavelmente, que tudo está em plena conformidade com o que estabelece o Decreto nº 70.235/72; a descrição dos fatos, bem assim a metodologia utilizada para cálculo e constituição do credito tributário encontramse satisfatoriamente postas nos autos. Do mesmo modo, os fundamentos legais que sustentam a constituição da exação estão precisamente explicitados; ressaltese que o responsabilizado pelo débito demonstrou pleno entendimento das afirmações feitas pela fiscalização, combatendo inclusive as situações fáticas descritas no Termo de Verificação Fiscal como o fito de elidir a responsabilidade solidária pelo Fl. 1770DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 10 9 tributo devido. Desta forma, tendo o responsável solidário se defendido nos autos do processo administrativo demonstrando conhecer todas as acusações que lhe foram feitas não há que se falar em nulidade; não se vislumbra a ocorrência de prejuízo à defesa da contribuinte neste processo, pelo que a decretação da nulidade representa a desnecessária movimentação da máquina pública, com o dispêndio de recursos do erário, para a repetição de atos administrativos válidos, perfeitos e eficazes; ressaltese ainda que se vício houve, este deve ser considerado de natureza formal, uma vez que ocorreu na exteriorização do ato e não na ocorrência do fato gerador nem na situação de fato que levou à responsabilidade das pessoas físicas arroladas; DA INCIDÊNCIA DO ART. 135, II E III DO CTN. DA JURISPRUDÊNCIA PACÍFICA DO STJ, FIRMADA EM SEDE DE RECURSOS REPETITIVOS, ACERCA DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA (E NÃO SUBSIDIÁRIA) DOS ADMINISTRADORES EM CASO DE ENCERRAMENTO IRREGULAR DA ATIVIDADE EMPRESARIAL E DE VIOLAÇÃO À LEI (ART. 135, III, DO CTN). DO PARECER PGFN/CRJ/CAT/Nº55/2009, QUE ESGOTA A DISCUSSÃO DA MATÉRIA. cumpre à Fazenda Nacional, primeiramente, transcrever as seguintes conclusões da fiscalização: Restando para a fiscalização apenas a alternativa de considerar como interposição de pessoa, responsabilizando solidariamente o citado procurador, qualificandoo como sócio de fato da empresa, levandose em conta que o mesmo usou os poderes que lhe foram outorgados com visível infração à lei, promovendo vultosas transações comerciais, com suposto embasamento no registro social e nos documento fiscais da autuada, as quais foram omitidas das declarações de rendimentos da empresa, de forma a não permitir que fossem, tais transações, alcançadas pela tributação dos tributos federais, portanto com dolo. confirase, ainda, a afirmação da sócia formal da empresa (laranja), Sra. Yoshie Sugahara Ishii, na petição de fls. 1945/1946, apresentada em 05/01/2010: No dia 15/12/2009, compareci na sede da Receita Federal/DERAT SPO/DICAT/EQCOB à Rua Luiz Coelho, 197 — São Paulo/SP, e lá na presença do atendente, tomei CIÊNCIA de fato do processo. Informou ao atendente que, não podia ser responsabilizada pelos débitos constante no processo, pelo motivo de não ser sócia da empresa, o verdadeiro sócio responsável é o Sr. ALBERTO MUCCIOLO. Comentei ao atendente, que eu nunca assinei nenhum documento perante a RECEITA FEDERAL, nem outras repartições públicas. O fato é que conheço o Sr. Alberto Mucciolo, há mais de trinta anos. Ele me visitou, e alegando problema de saúde, me pediu um favor. Pediu se eu poderia entrar na sociedade por um período de dois meses. Disse também, que não me prejudicaria em nada. Pela amizade aceitei, logo em seguida, saí da sociedade." Fl. 1771DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 11 10 além das conclusões acima transcritas, que demonstram cabalmente a violação à lei, hipótese de responsabilização prevista no art. 135, III, do CTN, vale lembrar que a empresa autuada declarouse inativa, mas continuou exercendo sua atividade por meio do sócio de fato, implicando naturalmente o encerramento irregular da atividade empresarial. O C. STJ, a seu turno, já pacificou o entendimento, em sede de recursos repetitivos, no sentido de que configura hipótese de que trata o art. 135, a dissolução irregular. A Súmula 435 do STJ pacificou o entendimento no tocante à pessoa jurídica não localizada caracterizar dissolução irregular: Presumese dissolvida irregularmente a empresa que deixar de funcionar no seu domicílio fiscal, sem comunicação aos órgãos competentes, legitimando o redirecionamento da execução fiscal para o sóciogerente. acrescentese, ainda, que a fiscalização concluiu, no caso em apreço, pela ocorrência de fraude e pela incidência de multa qualificada de 150%, especialmente em virtude da violação à lei por parte do Sr. Alberto Mucciolo, que era quem de fato operava a empresa autuada. Concluiu a fiscalização, ainda, que a empresa já não era mais encontrada em seu domicilio fiscal, configurando nítido encerramento irregular das atividades; além disso, ao contrário do que afirma o r. acórdão ora embargado, o art. 135 trata de uma responsabilidade solidária. O elemento subjetivo e o dolo gênero, logo, envolve dolo ou culpa. Em relação ao fato gerador, este pode ser anterior à infração à lei. Se o lançamento de oficio é feito com multa qualificada, ocorre a responsabilidade solidária de que trata o art. 135, em relação aos sócios administradores à época do fato gerador. Se a pessoa jurídica foi constituída por meio de interpostas pessoas, o lançamento deve ser com multa qualificada e os reais administradores respondem solidariamente com a pessoa jurídica. A dissolução irregular também configura hipótese de que trata o art. 135; observase, portanto, que, se há multa qualificada, há responsabilidade pelo art. 135 do CTN, trazendo à responsabilidade os sócios do tempo do fato gerador. Se a pessoa jurídica foi constituída por interpostas pessoas, o lançamento das infrações apuradas deve ser com multa qualificada, pois foram alteradas características do fato gerador (sujeito passivo). Nesse caso, os reais administradores também respondem solidariamente com a pessoa jurídica; como já decidido pelo CARF, a infração à lei, a que se refere o art. 135 do CTN, não se resume à mera inadimplência, mas a todo um conjunto de procedimentos fraudulentos comprovados nos autos, desde a retirada meramente formal do quadro societário com introdução de interpostas pessoas, a mudança de endereço para lugar onde nunca veio a funcionar a empresa, culminando com a utilização das contascorrentes da sociedade para a movimentação de vultosos recursos, ocultandoos do Fisco e sem o pagamento dos tributos devidos; a jurisprudência administrativa tem admitido a sujeição passiva dos administradores como responsáveis, quando demonstrado, como no presente caso, sua participação direta na prática das infrações (ementas transcritas); em relação à tese desenvolvida no acórdão recorrido, segundo a qual seria necessário demonstrar a impossibilidade de cobrança da dívida da empresa devedora (RESPONSABILIDADE SUBSIDIÁRIA), cumpre à Fazenda Nacional transcrever parte do Fl. 1772DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 12 11 PARECER PGFN/CRJ/CAT/Nº55/2009, que analisou a questão com muita propriedade (transcrição contida no recurso); por todo o exposto, requer a União o provimento do presente recurso, para restabelecer em sua integralidade o lançamento, uma vez que não se verifica no caso qualquer hipótese legal para declaração de nulidade do Termo de Sujeição passiva lavrado; em caráter subsidiário, ainda que se entenda pela ocorrência de vício no lançamento, requer a Fazenda Nacional que este seja declarado de natureza formal. Quando do exame de admissibilidade do Recurso Especial da PGFN, o Presidente da 1ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por meio do despacho exarado em 08/07/2015, admitiu o recurso especial com base na seguinte análise sobre a divergência suscitada: [...] Aludido Recurso Especial, interposto tempestivamente pela Fazenda Nacional, está manejado em relação às matérias “responsabilidade tributária (art. 124, inciso I, do CTN)”, “erro de enquadramento legal” e “responsabilidade tributária (art. 135 do CTN)”, assim ementadas e decididas no Acórdão recorrido: [...] Da contraposição dos fundamentos expressos nas ementas e nos votos condutores dos acórdãos, evidenciase que a Recorrente logrou êxito em comprovar a ocorrência do alegado dissenso jurisprudencial. Com relação à primeira matéria, “responsabilidade tributária (art. 124, inciso I, do CTN)”, ocorre o alegado dissenso jurisprudencial, pois, em situações fáticas semelhantes, sob a mesma incidência tributária e à luz das mesmas normas jurídicas, chegouse a conclusões distintas. O acórdão recorrido considerou que, para o “sócio de fato”, não caberia a aplicação do art. 124 do CTN; já um dos acórdãos paradigmas (Acórdão nº 10808.467, de 2005), de modo diametralmente oposto, entendeu que é possível dita aplicação, juntamente com o art. 135, inciso III, do CTN (este último artigo também constou do acórdão recorrido). No que se refere à segunda matéria, “erro de enquadramento legal”, como se subordina ao eventual não acolhimento da primeira matéria, e tendo sido esta acolhida, deixase de considerála. Fosse o caso, porém, de analisála, não seria acolhida, uma vez que, no acórdão recorrido, a anulação do termo de sujeição passiva se deu pela suposto não atendimento às condições pretensamente exigidas pelos arts. 124 (“as pessoas estarem na mesma posição jurídica em relação ao fato gerador”) e 135 (“estar demonstrada a impossibilidade de cobrança da dívida do devedor”) do CTN, e não por “erro de enquadramento legal”. Por fim, no tocante à terceira matéria, “responsabilidade tributária (art. 135 do CTN)”, também ocorre o alegado dissenso jurisprudencial, pois, em situações fáticas semelhantes, sob a mesma incidência tributária e à luz das mesmas normas jurídicas, chegouse a conclusões distintas. Fl. 1773DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 13 12 O acórdão recorrido considerou que a responsabilidade tributária prevista no art. 135 do CTN é subsidiária, devendo ficar demonstrada a impossibilidade de cobrança da dívida do devedor; já um dos acórdãos paradigmas (Acórdão nº 10808.467, de 2005), de modo diametralmente oposto, entendeu que dita responsabilidade é solidária. Por tais razões, neste juízo de cognição sumária, concluise pela caracterização das divergências de interpretação suscitadas. Em 12/11/2015 e 13/11/2015, respectivamente, a contribuinte (pessoa jurídica) e o responsável tributário foram intimados do Acórdão nº 110100.736, do recurso especial da PGFN, e do despacho que admitiu esse recurso, mas nenhum deles apresentou contrarrazões e nem recurso especial. É o relatório. Fl. 1774DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 14 13 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator. Conheço do recurso, pois este preenche os requisitos de admissibilidade. O presente processo tem por objeto lançamento a título de IRPJ e tributos reflexos (CSLL, PIS e COFINS) sobre fatos geradores ocorridos nos anos calendário de 2004 e 2005. A controvérsia que chega a essa fase de recurso especial diz respeito à divergência jurisprudencial em relação à anulação do Termo de Sujeição Passiva que atribuía responsabilidade tributária a Alberto Mucciolo pelos débitos apurados junto à empresa Denwa Vídeo, Foto, Som, Comércio e Importação Ltda. O acórdão recorrido, entre outras questões, decidiu por maioria de votos anular o referido Termo de Sujeição Passiva, com o entendimento de que a responsabilidade tributária, nesse caso, não encontraria amparo nem no art. 124, I, do CTN, e nem no art. 135, II e III, do mesmo diploma legal. A aplicação dos referidos dispositivos foi afastada com o argumento de que a incidência do art. 124 do CTN só ocorre se as pessoas estiverem na mesma posição jurídica em relação ao fato gerador, se elas corealizam o fato gerador; e de que a responsabilidade prevista no art. 135 do CTN é subsidiária, de sorte que apenas surge quando demonstrada a impossibilidade de cobrança da dívida do devedor (no caso, da pessoa jurídica). A PGFN pretende reverter essa decisão, para fins de restabelecer a responsabilidade tributária de Alberto Mucciolo. O relatório constante do acórdão recorrido explicita bem o contexto em que se deu a autuação fiscal, bem como a imputação de responsabilidade tributária solidária à referida pessoa: [...] Conforme relatório, o contribuinte apresentou declaração pelo Simples para o ano de 2003 e declaração de inatividade para os anos de 2004 e 2005. Mas, foi constatada vultosa movimentação financeira e expressivas vendas. A fiscalização diz que o contribuinte só apresentou os extratos bancários, não apresentando os demais documentos e livros, nem prestando esclarecimentos. Consigna que foi lavrada autuação referente ao ano de 2003, dentro da sistemática do Simples, com base nos extratos bancários. Informa que para os anos de 2004 e 2005 o lançamento adotará a sistemática do lucro arbitrado, pois a empresa não apresentou os livros e documentos, razão pela qual solicita autorização para o arbitramento. Adiciona que a empresa não é encontrada no seu domicilio fiscal e seus sócios não foram localizados. Explica que um advogado se apresentou para representar os sócios com base em uma procuração de uma das sócias da empresa, sendo este advogado que apresentou os extratos. Informa estes extratos permitiram quantificar as receitas omitidas e Fl. 1775DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 15 14 permitiram identificar procurador que movimentava as contas bancárias, nas quais ingressaram R$ 125 milhões nos 3 anos, enquanto a empresa declarou apenas ínfimos valores relativos a 2003 e se declarou sem atividade em 2004 e 2005. Em 14/04/2009, é lavrado termo de verificação, descrevendo os fatos (proc. fls. 1268 a 1281). No termo, a fiscalização diz que foi ao local da sede da empresa, conforme domicílio fiscal cadastrado, e encontrou a empresa "Jacarezinho Escola de Educação Infantil", que funcionava no local desde dezembro de 2006, conforme explicou a sócia Magda Aparecida Bersani Nunes. Informa que a empresa autuada consta como inapta nos sistemas da Receita. Explica que intimou sócios (Yoshie Sugahara Ishii, Hermelinda Alves da Silva Demenciana) e o representante da empresa (José Chaves Sobrinho), não logrando encontrar no domicilio fiscal outra sócia (Francisleide Eugenia Eloia) e o exsócio (Nilson Soares da Silva). Frente ao não atendimento, diz que essas pessoas foram reintimadas, mas continuaram sem atender. Informa que, em 12/06/2008, o advogado Carlos Eduardo de Oliveira Pereira compareceu na repartição fiscal munido de procuração de Alberto Mucciolo, que por sua vez representava Yoshie Sugahara Ishii, conforme procuração pública lavrada em 29/08/2002, mas vencida em 28/09/2003. Explica que o mesmo advogado compareceu em 20/06/2008, desta vez munido de procuração da sócia administradora Yoshie Sugahara Ishii, o que permitiu considerar intimada a empresa, na pessoa de sua sócia administradora, sendo exigido a apresentação de livros e documentos. Informa que o advogado apresentou apenas extratos bancários de 3 contas no Bradesco. Diz que os extratos foram analisados e (depois de excluídos ingressos que correspondessem a transferência entre contas, estornos, cheques devolvidos, etc) foram feitas planilhas, parte integrante do presente termo, localizadas nas folhas 394 a 466. Conforme a fiscalização, essas planilhas mostram ingressos de R$ 58.741.209,62 e R$ 53.964.611,22, respectivamente, em 2005 e 2006, enquanto o contribuinte apresentou declaração de inatividade para estes anos. Esclarece que a análise dos históricos demonstra que "os valores creditados referemse a recebimentos de empresas especializadas no comércio varejista, na forma de transferências bancárias e depósitos identificados, bem como liquidação de cobranças, que evidenciam serem, os valores recebidos pelo contribuinte fiscalizado, oriundos de transações comerciais, cujos valores não foram informados nas Declarações de Inatividade de Pessoa Jurídica, referentes aos anos base de 2004 e 2005". Explica que a análise detalhada dos extratos bancários mostra que os ingressos decorrem de vendas, com as seguintes palavras: A análise detalhada dos extratos bancários permitiu verificar que os valores creditados nas contas correntes estão associados a operações de vendas de produtos, cujos valores foram recebidos com históricos dos extratos como "LIQUIDAÇÃO DE COBRANÇA", por intermédio do Banco Bradesco S/A., em alguns casos, em outros por pagamento por transferência bancária, com históricos como "DOC CREDITO AUTOMATICO", Fl. 1776DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 16 15 "RECEB POR 1 FORNECIMENTO" e "TED TRANSF ELETR DISPON", de clientes como AMERICANAS COM S/A COM ELETR; TV SKY SHOP; SIGLA SIST GL GRAV A VISA LTDA; SUBMARINO SA; MOBILITA COM IND E REPRES LTDA; WAL MART BRASIL LTDA; PANASHOP COML LTDA; LOJAS AMERICANAS SA; CARREFOUR COME IND LTDA; SONAE DISTRIBUICAO B S.A; BLACKBIRD MUSIC SHOP LTDA ME; FNAC BRASIL LTDA; LIV El PAPELARIA SARAIVA S/A; KELLERS RECORDS; MUCAFA MUSIC; entre outras operações de vendas (fls. 108 a 393) Conforme o relatório, para confirmar que os ingressos nas contas bancárias correspondiam à comercialização de produtos, foi feita circularização aos clientes identificados nos históricos dos extratos. Explica que foram selecionados os 5 maiores cliente e eles foram intimados a apresentar seus livros e as 20 notas fiscais mais expressivas. Informa que a resposta das empresas intimadas confirma que os créditos bancários correspondem a vendas, pois esses documentos demonstram expressivas vendas, e os valores correspondem aos ingressos nas contas correntes (proc. fls. 825 a 1170). Conclui que "dessa forma, a movimentação financeira incompatível, que já indicava omissão de receitas e se constituía em objeto de presunção legal dessa infração, convertese em omissão de receita com prova direta da realização de transações comerciais geradoras de receitas omitidas da escrituração e por completo das declarações apresentadas ao fisco". Explica que, frente à falta de apresentação de livros, só cabe aplicação da sistemática do lucro arbitrado. Enfatiza que a empresa procurou esconder os fatos tributáveis, pois declarou como inativa nos anos de 2005 e 2006 e que esta circunstância implica na aplicação da multa de 150%. O Fisco diz que tentou solicitar à empresa, por meio de intimação a seus sócios e seu procurador, explicação dos fatos acima relatados, mas não obteve retorno. Informa que a única manifestação da empresa foi de que os livros e documentos estavam extraviados e que, por isso, não era possível atender à intimação. Destaca que a empresa se calou sobre as perguntas que independiam de livros ou documentos e que indagavam das transações e origem das mercadorias comercializadas. A fiscalização explica que constatou, por amostragem, que cheques e autorizações de transações bancárias da empresa foram assinados por Alberto Mucciolo em 2004 e 2005. Diz que tal fato seria de se supor, frente à procuração vencida que foi inicialmente apresentada. Sustenta que isso caracteriza a responsabilidade desta pessoa, já que ela podia dispor e administrar sozinha os recursos da empresa. O relatório também sustenta que Alberto Mucciolo movimentou as contas bancárias da empresa e assinou os documentos de transações financeiras. Diz que foi comprovado que ele tinha procuração passada por Yoshie Sugahara Ishii, de 29/08/2002 até 28/08/2003, bem como assinou documentos bancários em 2004 e 2005. Argumenta que os sócios formais não tem patrimônio compatível com a movimentação financeira e que não tinham autonomia para movimentar as contas bancárias. Responsabiliza solidariamente Alberto Mucciolo, nos termos do art. 124, inciso I, e do art. Fl. 1777DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 17 16 135, incisos II e II, ambos do CTN. Indica a base de cálculo dos tributos lançados de oficio como sendo a soma dos ingressos nas contas bancárias. Em 30/04/2009, o contribuinte é cientificado dos autos de infrações (proc. fls. 1282 a 1316). Na mesma data, Alberto Mucciolo é notificado dos créditos exigidos, como responsável solidário (proc. fls. 1318 e 1319), por meio de seu procurador Carlos Eduardo de Oliveira Pereira (proc. fls. 1320). [...] A decisão de primeira instância administrativa cancelou parte do lançamento referente ao PIS e à COFINS, porque os autos de infração dessas contribuições acumularam as bases de cálculo por trimestre. Como as referidas contribuições tem apuração mensal, foram mantidas as exigências referentes às receitas mensais de março, junho, setembro e dezembro de 2004 e 2005 (meses que estavam expressamente indicados nos autos de infração). Os valores a título de IRPJ e CSLL foram integralmente mantidos. Também foi mantida a multa qualificada de 150%, assim como a responsabilidade tributária de Alberto Mucciolo. A decisão de segunda instância administrativa (acórdão ora recorrido) modificou a decisão anterior, mas apenas para fins de cancelar o Termo de Sujeição Passiva que imputava responsabilidade tributária solidária a Alberto Mucciolo. E isso é justamente o que a PGFN pretende reverter com seu recurso especial. A responsabilidade tributária em questão foi imputada com base nos artigos 124 e 135 do CTN. O acórdão recorrido afastou a aplicação do art. 124 do CTN, com o argumento de que a incidência desse dispositivo só ocorre se as pessoas estiverem na mesma posição jurídica em relação ao fato gerador, se elas corealizam o fato gerador, situação que não seria verificada em tributos como IRPJ, CSLL, PIS e COFINS. Também afastou a aplicação do art. 135 do CTN, por entender que a responsabilidade tributária lá prevista tem caráter subsidiário, de sorte que apenas surge quando demonstrada a impossibilidade de cobrança da dívida do devedor (no caso, da pessoa jurídica), requisito que não estaria atendido nos presentes autos. O acórdão recorrido concluiu, portanto, que não havia base legal para a imputação de responsabilidade tributária a Alberto Mucciolo. É importante registrar que o acórdão recorrido manteve os valores exigidos que remanesceram da fase processual anterior, inclusive com a multa qualificada de 150%. Especificamente em relação à multa qualificada, as conclusões do acórdão recorrido foram assim manifestadas: Quanto à alegação do contribuinte de que não é aplicável a multa de 150%, o contribuinte também não tem razão. Fl. 1778DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 18 17 Em primeiro lugar, cabe afastar os argumentos de cunho constitucional, já que tais juízos não são possíveis no julgamento administrativo. Em segundo lugar, ficou claramente demonstrado que o contribuinte sonegou tributos, declarando não ter atividade, quando negociava expressivos valores. Ainda, a caracterização da interposição de pessoas demonstrada nos autos, corrobora a certeza de fraude. Por isso, é correta a aplicação da multa de 150%. Vêse que o acórdão recorrido, embora tenha reconhecido a ocorrência de sonegação, agravada ainda pela interposição fraudulenta de pessoas, afastou a responsabilidade tributária prevista no art. 135 do CTN, porque não estaria demonstrada nos autos a impossibilidade de cobrança da dívida do devedor principal (no caso, da pessoa jurídica), requisito que seria necessário quando se trata de imputação de responsabilidade subsidiária. Entendo incorretas as duas linhas de argumentação desenvolvidas no voto que orientou o acórdão recorrido. Via de regra, a solidariedade previstas no art. 124, I, do CTN, não deve mesmo ser aplicada para imputar responsabilidade tributária aos sócios/administradores de empresa (pessoa jurídica) pelos débitos devidos por esta. Isto porque, em condições normais, o sistema jurídico prevê apartação patrimonial entre a pessoa jurídica e as pessoas que compõem o seu quadro societário (sócios de direito), assim como entre a pessoa jurídica e seus administradores. Conforme o acórdão recorrido, a regra do art. 124, I, do CTN é realmente mais adequada para estabelecer solidariedade tributária, por exemplo, entre os coproprietários de um mesmo imóvel sobre o qual incide o IPTU, situação em que os solidários estão na mesma posição jurídica em relação ao fato gerador, em que eles corealizam o fato gerador. Ocorre que a sonegação de tributo perpetrada via utilização fraudulenta da pessoa jurídica, mediante interposição de pessoas, modifica o quadro jurídico traçado acima, fazendo com que a pessoa jurídica seja tratada de modo semelhante a uma sociedade de fato (porque se comporta como tal), situação em que as pessoas envolvidas, por se encontrarem na mesma posição jurídica em relação ao fato gerador, respondem solidária e ilimitadamente pelos débitos surgidos do negócio. Na utilização fraudulenta de pessoa jurídica não há a mencionada apartação patrimonial, e os sócios de fato respondem solidária e ilimitadamente pelas obrigações surgidas de sua empresa (negócio/empreendimento). É esse contexto que justifica perfeitamente a aplicação do art. 124, I, do CTN ao caso sob exame. Além disso, restou caracterizado que Alberto Mucciolo podia dispor e administrar sozinho os recursos da empresa, que ele movimentava as contas bancárias, que assinava cheques e autorizações de transações bancárias, que tinha procuração para tanto, e que, desse modo, era quem administrava de fato a empresa, o que, dada a forma e o conteúdo de sua atuação como procurador/administrador, também enseja a aplicação do art. 135, II e III, do CTN. Fl. 1779DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 19 18 Do que se disse até aqui, já é possível verificar que as referidas regras não são excludentes. O vínculo obrigacional por uma regra surge em decorrência da condição de sócio de fato, enquanto pela outra, da condição de procurador/administrador. Quando uma pessoa participa de uma sociedade que se comporta como uma sociedade de fato, ela responde solidária e ilimitadamente pelos tributos decorrentes da atividade empresarial (art. 124, I, do CTN). E quando uma pessoa representa e administra uma sociedade/empresa praticando atos ilícitos, sonegando tributos dolosamente, mediante artifícios fraudulentos, ela também responde solidária e ilimitadamente pelos tributos decorrentes da atividade empresarial (art. 135, II e III, do CTN). No caso dos autos, essas duas realidades coexistem, são inseparáveis, de modo que a aplicação de uma regra não exclui a outra. No âmbito externo, para fora dos muros da empresa, para os fornecedores, clientes, instituições financeiras, órgãos públicas, etc., a entidade se apresenta como uma pessoa jurídica normal, regular. No seu ambiente interno, entretanto, ela se comporta como uma sociedade de fato, em que participam pessoas que não constam formalmente de seu quadro societário. É bastante oportuno transcrever a Declaração de Voto da Eminente Conselheira Edeli Pereira Bessa, que ficou vencida no julgamento do recurso voluntário, relativamente à matéria ora examinada. Além do aprofundamento nos aspectos teóricos, essa declaração de voto traz relevantes informações sobre os fatos específicos que motivaram a responsabilização tributária de Alberto Mucciolo: Divirjo do I. Relator quanto à anulação do Termo de Sujeição Passiva Solidária lavrado contra Alberto Mucciolo. Vejo clara a hipótese o art. 124, inciso I do CTN, qual seja, a solidariedade daquela pessoa física em razão de seu interesse comum na situação que constituiu o fato gerador da presente exigência. Demonstrou se sua real atuação como responsável pela movimentação das contas bancárias nas quais foram creditados valores oriundos de evidentes operações comerciais não submetidas à tributação na pessoa jurídica, conjuntamente com a inexistência de escrituração comercial destas operações e indícios de atuação daquela pessoa física como sócio de fato da autuada. De fato, constatou a Fiscalização que a sócia Yoshie Sugahara Ishii conferiu procuração a Alberto Mucciolo com plenos poderes para movimentação das contas bancárias nas quais foram promovidos os créditos de origem não comprovada, evidenciando inequívoca correlação entre pelos menos uma das sócias da empresa e a pessoa que efetuou a vultosa movimentação financeira em nome da autuada. É certo que a Fiscalização entendeu que estes fatos caracterizariam a solidariedade entre essa sócia e os demais sócios com o procurador, mas a responsabilidade pessoal dos sócios de direito da sociedade não está aqui em debate, na medida em que não houve recurso administrativo por eles submetido a este Colegiado. É certo, também, que a procuração de fl. 101, conferida em 29/08/2002, tinha validade de apenas 1 (um) ano, mas, como noto às fls. Fl. 1780DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 20 19 494/834, assinatura praticamente idêntica à de Alberto Mucciolo (fl. 100) está presente em vários cheques emitidos pela pessoa jurídica autuada, ou em documentos em nome dela firmados no período fiscalizado. Em verdade, a procuração para a prática destes autos apenas não veio aos autos porque embora a autoridade fiscal tenha intimado e reintimado (fls. 1171 a 1174 e 1179 a 1182) o interessado a apresentar as demais procurações que constituíram Alberto Mucciolo como procurador no período de 28/08/2003 a 31/12/2005, não houve qualquer informação a este respeito. É inverossímil a alegação, apresentada em recurso voluntário, de que os talões de cheque poderiam estar previamente assinados e antes do termo da validade da procuração recebida. Ofende o senso comum acreditar que uma pessoa jurídica manteria em sua posse cheques em branco assinados por um antigo procurador, os quais seriam pagos pela instituição financeira sem qualquer questionamento, depois de vencido o prazo de validade da procuração. Demais disso, como disse, há vários outros documentos emitidos pela empresa, datados de 2004 e 2005, contendo a mesma assinatura. Acrescento a este cenário a conduta do responsável no curso do procedimento fiscal, que não deixa dúvidas acerca de seu poder na empresa autuada, como se vê, por exemplo, na correspondência por ele enviada ao Banco Bradesco em 07/10/2008, requerendo informações vinculadas a operações bancárias da pessoa jurídica (fls. 482). Tais indícios conduzem à inevitável conclusão de que Alberto Mucciolo era a única pessoa física que agia em nome da empresa, e, especialmente, detinha o poder de destinar os valores creditados na conta bancária da pessoa jurídica, o que lhe permitia beneficiarse, como sócio de fato, das operações comerciais cujos resultados foram subtraídos à tributação. Em tais condições, a pessoa física não dispõe da proteção que a legislação civil concede aos sócios de direito da pessoa jurídica, e passa a figurar ao lado dela, no polo passivo da obrigação tributária, por ter auferido riqueza das operações comerciais sem qualquer legitimidade ou controle por meio da escrituração comercial. Daí a caracterização da solidariedade prevista no art. 124, inciso I do CTN. Reforça tal conclusão a declaração de Yoshie Sugahara Ishii, na petição de fls. 1945/1946, apresentada em 05/01/2010: No dia 15/12/2009, compareci na sede da Receita Federal/DERATSPO/ DICAT/EQCOB à Rua Luiz Coelho, 197 São Paulo/SP, e lá na presença do atendente, tomei CIÊNCIA de fato do processo. Informei ao atendente que, não podia ser responsabilizada pelos débitos constante no processo, pelo motivo de não ser sócia da empresa, o verdadeiro sócio responsável é o Sr. ALBERTO MUCCIOLO. Comentei ao atendente, que eu nunca assinei nenhum documento perante a RECEITA FEDERAL, nem outras repartições públicas. O fato é, que conheço o Sr. Alberto Mucciolo, há mais de trinta, anos. Ele me visitou, e alegando problemas de saúde, me pediu Fl. 1781DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 21 20 um favor. Pediu se eu poderia entrar na sociedade por um período de dois meses. Disse também, que não me prejudicaria em nada. Pela amizade aceitei, logo em seguida, saí da sociedade. Friso, ainda, que a empresa não dispunha de escrituração comercial, inclusive declarandose inativa nos anoscalendário 2004 e 2005, nos quais movimentou, em cada ano, mais de R$ 50 milhões de créditos auferidos nas contas bancárias fiscalizadas. Ainda, as demais evidências reunidas pela autoridade lançadora deixaram patente o dolo na supressão dos tributos devidos, fatos suficientes para imputar a responsabilidade pelo crédito tributário lançado a Alberto Mucciolo, ainda que apenas na condição de procurador ou de gerente, consoante prevê o art. 135 do CTN, em seus inciso II e III. Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I as pessoas referidas no artigo anterior; II os mandatários, prepostos e empregados; III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Diz o referido diploma legal que mandatários, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado respondem com seu patrimônio pessoal pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias que resultem de atos praticados com infração de lei. E, pelo exposto, a conduta de Alberto Mucciolo pode ser assim minimamente caracterizada, ainda que não se admita que ele atuou como sócio de fato da pessoa jurídica autuada. Ressalto que o art. 135 do CTN prestase a ampliar as garantias do crédito tributário, permitindo a busca de sua satisfação no patrimônio pessoal daqueles que participaram da gestão da pessoa jurídica sem a necessária lisura, hábil a assegurar que não houve desvio da riqueza manifestada pelos fatos jurídicos tributáveis. Assim, se tais pessoas se conduzem com excesso de poderes, infração à lei ou ao contrato social, o Fisco tem o direito de também buscar a satisfação de seus créditos no patrimônio pessoal destes responsáveis, ainda que o representado detenha patrimônio suficiente para tanto, na medida em que esta situação patrimonial pode não decorrer necessariamente da riqueza tributável em debate e estar gravada por outras dividas, além de estar sujeita a flutuações que podem, no futuro, prejudicar a liquidação da obrigação tributária. De toda sorte, como relatado, a empresa declarouse inativa nos períodos fiscalizados, e também não apresentou escrituração comercial de modo a permitir a averiguação dos efeitos patrimoniais das operações questionadas e dar alguma garantia à satisfação do crédito tributário lançado. Correta, portanto, a conclusão fiscal expressa no Termo de Verificação Fiscal à fl. 1277, que dá suporte à notificação fiscal que incluiu Fl. 1782DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 22 21 Alberto Mucciolo como responsável solidário pelos créditos tributários aqui lançados com fundamento nos artigos 124, I e 135, II e III da Lei n° 5.172/66 (fls. 1318/1319): Restando para a fiscalização apenas a alternativa de considerar como interposição de pessoa, responsabilizando solidariamente o citado procurador, qualificandoo como sócio de fato da empresa, levandose em conta que o mesmo usou os poderes que lhe foram outorgados com visível infração à lei, promovendo vultosas transações comerciais, com suposto embasamento no registro social e nos documentos fiscais da autuada, as quais foram omitidas das declarações de rendimentos da empresa, de forma a não permitir que fossem, tais transações, alcançadas pela tributação dos tributos federais, portanto com dolo. Por tais razões, entendo que deva ser NEGADO PROVIMENTO ao recurso voluntário de Alberto Mucciolo. É como voto Finalmente, resta tratar ainda de uma matéria. Já dissemos anteriormente que o acórdão recorrido reconheceu a ocorrência de sonegação, agravada ainda pela interposição fraudulenta de pessoas, e que, mesmo assim, afastou a responsabilidade tributária aplicada com base no art. 135 do CTN, porque não estaria demonstrada nos autos a impossibilidade de cobrança da dívida do devedor principal (no caso, da pessoa jurídica). O entendimento consignado no voto que orientou o acórdão recorrido é que a responsabilidade, nesse caso, seria subsidiária, e não solidária. A análise dessa questão aparentemente simples foi realizada com muita propriedade pelo PARECER PGFN/CRJ/CAT/Nº 55/2009, trazido à baila pelo recurso especial, e que abaixo está transcrito, na parte que aborda os aspectos doutrinários e jurisprudenciais que mais interessam aqui: [...] A NATUREZA DA RESPONSABILIDADE DOS ADMINISTRADORES 63. De início, achamos relevante rememorar as teses possíveis de serem adotadas no que tange à natureza da responsabilidade tributária decorrente da incidência do art. 135, III, do CTN (ver item III do parecer): i) Responsabilidade por substituição, exclusiva do administrador que incidiu numa das hipóteses legais; ii) Responsabilidade subsidiária, em sentido próprio, do administrador e “responsabilidade” principal da sociedade; iii) Responsabilidade principal do administrador e subsidiária da sociedade; iv) Responsabilidade subsidiária, em sentido impróprio, do administrador; v) Responsabilidade solidária do administrador que responde com a sociedade igualmente e sem benefício de ordem. Fl. 1783DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 23 22 64. A mera leitura dos acórdãos do Superior Tribunal de Justiça pode levar confusão mental ao estudioso do tema. Em muitos acórdãos, lêse que a responsabilidade tributária prevista no art. 135 do CTN é por substituição (p. ex., AgRg no REsp 724.180/PR, REsp 670.174/RJ). Noutros julgados, está expresso que a responsabilidade acolhida nesse preceito legal é subsidiária (p. ex., REsp 833.621/RS, REsp 545.080/MG); logo, por transferência tributária. Noutros, mencionase a responsabilidade solidária (p. ex., REsp 86.439/ES, AgRg no AG 748.254/RS). Chegamos a encontrar ementa de acórdão em que se refere, simultaneamente, à responsabilidade subsidiária e à responsabilidade por substituição (EDcl no REsp 724.077/SP). 65. A existência de julgados aparentemente contraditórios, porém, não exime o intérprete da lei e da jurisprudência de examinálos procurando coerência. Ainda que a lei não seja coerente, nem o seja a prática judicial, deve sêlo o hermeneuta, por imposição não só de técnica, mas também de justiça. É o que indica Norberto Bobbio: “Là dove la coerenza non è condizione di validità, è però pur sempre condizione per la giustizia dell’ordinamento” 1 (grifo do original). 66. Apesar da aparente dissonância, não cremos que exista verdadeira divergência jurisprudencial nesse ponto. Em verdade, o Superior Tribunal de Justiça simplesmente não acolhe a distinção feita doutrinariamente entre responsabilidade por substituição e por transferência. Assim, quando se lê que o sócio responde “por substituição”, não se quer desonerar a sociedade. Simplesmente, querse dizer que o sóciogerente responde em lugar da (em substituição à) sociedade quando esta não adimple os créditos tributários e é caso de aplicação do art. 135, III, do CTN. 67. Na prática, em grande parte dos casos, a Fazenda Pública costuma buscar primeiro o patrimônio da sociedade para só então, em caso de insucesso, pesquisar bens pessoais dos administradores, o que é coerente com um sistema de responsabilidade subsidiária. Essa práxis é abonada pela jurisprudência, batizandose essa operação de “redirecionamento da execução fiscal”. Neste, a ação de execução fiscal é ajuizada contra a sociedade e, não havendo satisfação do crédito, incluise o administrador no pólo passivo do processo executivo. Admitese, ainda, que a ação de execução seja diretamente ajuizada contra sociedade e administrador, se o nome deste constar da Certidão da Dívida Ativa. Nessa hipótese, é incongruente afirmar que a responsabilidade do sóciogerente é por substituição, visto que, no mesmo processo, estáse cobrando dele o crédito tributário sem “irresponsabilizar” a sociedade. 68. A análise da jurisprudência do STJ no que tange à responsabilidade derivada da aplicação do art. 135, III, do CTN deve se basear mais nos seus pressupostos e conclusões do que em atenção aos signos “substituição”, “pessoalmente”, “subsidiária” e “solidária” que comumente surgem qualificando a responsabilidade tributária do “sóciogerente” que comete infração à lei. Assim, para se desvendar a natureza da responsabilidade acolhida, devemos partir, antes de tudo, da natureza dos atos que ensejam essa responsabilidade. 69. Como vimos no item anterior, o STJ, quando admite o chamamento do administrador à execução fiscal, parte da idéia de responsabilidade por 1 Teoria Generale del Diritto, Torino, Giappichelli, 1993, p. 234. Fl. 1784DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 24 23 ato ilícito. É a ilicitude que permite sua responsabilização, ilicitude esta que deve ter sido praticada durante o exercício da gerência. É irrelevante a condição de sócio; não é suficiente a condição de administrador; é necessária a prática de ato ilícito. 70. Pois bem. Se o elemento relevante para a caracterização da responsabilidade tributária do art. 135, III, do CTN fosse a condição de sócio, faria sentido a tese da responsabilidade subsidiária. Deveras, se o terceiro respondesse por ser sócio, seria plenamente razoável que demandasse o esgotamento do patrimônio da sociedade para que só então viesse a ser chamado a pagar o crédito tributário. Como, porém, não responde por ser sócio, mas porque, na condição de administrador, pratica ato ilícito, não faz o menor sentido que seja facultado a ele esquivarse da responsabilidade exigindo que, primeiro, responda a sociedade para, só em caso de sua insolvabilidade, seja a ele imposta a sanção pela ilicitude. 71. A concepção de responsabilidade por ato ilícito exclui o caráter de subsidiariedade da obrigação do infrator. Este deve responder imediatamente por sua infração, independentemente da suficiência do patrimônio da pessoa jurídica. Eis o sentido de estar expresso no caput do art. 135 do CTN que são “pessoalmente responsáveis” os administradores infratores da lei. Dessa forma, deve ser excluída a tese da responsabilidade subsidiária em sentido próprio. 72. Dessa forma, ainda nos casos em que os julgados do STJ mencionam a “responsabilidade subsidiária”, só é razoável interpretálos como referentes à responsabilidade subsidiária em sentido impróprio, tal qual já a conceituamos no início. Vale dizer, nesse caso, estariam os julgadores exigindo, para a responsabilização do administradorinfrator, três requisitos cumulativos: (a) a própria condição de administrador, (b) a prática de ato ilícito e (c) a ausência de pagamento do crédito tributário no prazo da lei ou do regulamento; não se deve exigir, porém, o esgotamento do patrimônio da pessoa jurídica. 73. O afastamento da tese da responsabilidade subsidiária ainda é corroborado por importante precedente da egrégia Primeira Seção. Tratase dos Embargos de Divergência 702.232/RS (Rel. Min. Castro Meira, julgado em 14.9.2005 e publicado em 26.9.2005), o qual, apesar de ter por mira a presunção de certeza e liquidez da Certidão da Dívida Ativa, acabou por firmar que, estando o administrador (sóciogerente) nela contemplado, pode ser a execução movida diretamente contra ele, ao lado da pessoa jurídica. Vejamos a ementa: “TRIBUTÁRIO. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. ART. 135 DO CTN. RESPONSABILIDADE DO SÓCIOGERENTE. EXECUÇÃO FUNDADA EM CDA QUE INDICA O NOME DO SÓCIO. REDIRECIONAMENTO. DISTINÇÃO. 1. Iniciada a execução contra a pessoa jurídica e, posteriormente, redirecionada contra o sóciogerente, que não constava da CDA, cabe ao Fisco demonstrar a presença de um dos requisitos do art. 135 do CTN. Se a Fazenda Pública, ao propor a ação, não visualizava qualquer fato capaz de estender a responsabilidade ao sóciogerente e, posteriormente, pretende voltarse também contra o seu patrimônio, deverá demonstrar Fl. 1785DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 25 24 infração à lei, ao contrato social ou aos estatutos ou, ainda, dissolução irregular da sociedade. 2. Se a execução foi proposta contra a pessoa jurídica e contra o sóciogerente, a este compete o ônus da prova, já que a CDA goza de presunção relativa de liquidez e certeza, nos termos do art. 204 do CTN c∕c o art. 3º da Lei n.º 6.830/80. 3. Caso a execução tenha sido proposta somente contra a pessoa jurídica e havendo indicação do nome do sóciogerente na CDA como coresponsável tributário, não se trata de típico redirecionamento. Neste caso, o ônus da prova compete igualmente ao sócio, tendo em vista a presunção relativa de liquidez e certeza que milita em favor da Certidão de Dívida Ativa. 4. Na hipótese, a execução foi proposta com base em CDA da qual constava o nome do sóciogerente como coresponsável tributário, do que se conclui caber a ele o ônus de provar a ausência dos requisitos do art. 135 do CTN. 5. Embargos de divergência providos” 74. Transcrevemos o trecho mais importante do voto do Min. Relator: “A questão dos autos (responsabilização tributária do sócio gerente) aponta para três situações de fato distintas: a) execução promovida exclusivamente contra a pessoa jurídica e, posteriormente, redirecionada contra o sóciogerente, cujo nome não constava da CDA; b) execução inicialmente proposta contra a pessoa jurídica e o sóciogerente e c) execução promovida exclusivamente contra a pessoa jurídica, embora do título executivo constasse o nome do sóciogerente como coresponsável. Cada uma dessas hipóteses implica solução jurídica diferenciada. No primeiro caso, correta a orientação adotada pela Primeira Turma. Iniciada a execução contra a pessoa jurídica e, posteriormente, redirecionada contra o sóciogerente, que não constava da CDA, cabe ao Fisco demonstrar a presença de um dos requisitos do art. 135 do CTN. Se da CDA consta apenas a pessoa jurídica como responsável tributária, decorre que a Fazenda Pública, ao propor a ação, não visualizava qualquer fato capaz de estender a responsabilidade também ao sóciogerente. Se, posteriormente, pretende voltarse também contra o patrimônio do sócio, deverá demonstrar a infração à lei, ao contrato social ou aos estatutos ou, ainda, dissolução irregular da sociedade. Nesse sentido, há precedentes de ambas as Turmas: (...) Fl. 1786DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 26 25 Na segunda hipótese, encontrase correta a tese esposada pela Segunda Turma. Se a execução foi proposta contra a pessoa jurídica e contra o sóciogerente, a questão resolvese com a inteligência do art. 204 do CTN c/c o art. 3º da Lei n.º 6.830∕80, segundo os quais a Certidão de Dívida Ativa goza de presunção relativa de liquidez e certeza (admite prova em contrário, a cargo do responsável), tendo o efeito de prova pré constituída. Proposta a execução, simultaneamente, contra a pessoa jurídica e o sóciogerente, haverá inversão do ônus da prova, cabendo a este último demonstrar que não se faz presente qualquer das hipóteses autorizativas do art. 135 do CTN. Nesta senda, também não há discordância entre as Turmas: (...) Como se vê, as duas teses são perfeitamente conciliáveis, adotandose uma ou outra a depender da situação fática subjacente à lide. A terceira situação não difere substancialmente das duas anteriores. Se da CDA consta o nome do sóciogerente, mas a execução é proposta somente contra a pessoa jurídica, é de se reconhecer que o ônus da prova compete igualmente ao sócio, tendo em vista a presunção relativa de liquidez e certeza que milita em favor da Certidão de Dívida Ativa. Em conclusão: no caso em que a CDA já indica a figura do sócio gerente como coresponsável tributário, tendo sido a ação proposta somente contra a pessoa jurídica ou também contra o sócio, há presunção relativa de liquidez e certeza do título que embasa a execução, cabendo o ônus da prova ao sócio. Na hipótese típica de redirecionamento, há presunção também relativa de que não estavam presentes, na propositura da ação, os requisitos necessários à constrição patrimonial do sócio. Nessa circunstância, invertese o ônus da prova, que passará à Fazenda Pública exeqüente” (grifo nosso). 75. De acordo com o voto do Min. Relator, há três situações admissíveis: i) o nome do administrador não está na CDA e a execução é ajuizada contra a pessoa jurídica: tratase de redirecionamento em sentido estrito; ii) o nome do administrador está na CDA, mas a execução é ajuizada somente contra a pessoa jurídica: tratase de redirecionamento em sentido impróprio, pois o responsável já consta do título executivo; iii) o nome do administrador está na CDA e a execução é ajuizada diretamente contra o sócio, ao lado da pessoa jurídica: não se trata de redirecionamento. 76. Para efeito de análise da responsabilidade derivada do art. 135, III, do CTN, é útil analisar a hipótese iii, em que se admite o ajuizamento da execução fiscal diretamente contra o administrador (sóciogerente), o que denota a existência, desde o início, de pretensão do Fisco diretamente Fl. 1787DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 27 26 contra ele, em momento em que ainda não se procurou esgotar os bens do patrimônio da pessoa jurídica. 77. Devese notar que a admissão do responsável, desde o início, no pólo passivo do processo de execução não se resume à questão de legitimidade. Se se estivesse diante de processo de conhecimento, poderseia estar diante de mera análise de legitimidade, pois uma pessoa pode participar desse tipo de processo ainda que não haja pretensão de direito material contra si, havendo o autor, mesmo no caso de improcedência, exercido seu direito de ação. 78. No processo de execução, as coisas se passam distintamente. Neste, não se admite o processamento da ação se o juízo não estiver convencido da existência da pretensão e da ação de direito material. É que a exigibilidade do crédito (ou, impropriamente, do “título executivo”) é pressuposto do processo de execução. É o que nos ensinam Luiz Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart: “O título executivo, judicial ou extrajudicial, deve conter obrigação certa, líquida e exigível. É o que prescreve claramente o art. 586 do CPC, em relação à execução de títulos extrajudiciais, e também o que decorre da leitura do contido nos arts. 475I, § 2º, e 475J do CPC. Tais características eram comumente associadas ao título executivo, mas na verdade – como agora fazem questão de esclarecer as novas redações dos arts. 580 e 586 (introduzidas pela Lei 11.382/2006) – são atributos da obrigação a ser executada. Ou seja, é a obrigação que deve ser certa, líquida e exigível e não propriamente o título” 2 (grifo nosso). 79. Dessa forma, se o STJ admite que, estando presumida a responsabilidade do sóciogerente (mencionado na CDA), é possível que a execução seja ajuizada diretamente contra ele, está também admitindo que, nessa hipótese, a Fazenda Pública tem, desde o início, pretensão plenamente exigível contra esse administrador, pois não é possível impor a execução a alguém contra quem não se tem obrigação exigível. Ora, se a obrigação contra o responsável é desde já exigível, não dependendo de condição futura (como, p. ex., o esgotamento da busca do patrimônio da pessoa jurídica), é insustentável defender que essa responsabilidade seja subsidiária em sentido próprio. 80. Notese bem a diferença: (a) no processo de conhecimento, o juiz pode permitir que figure no pólo passivo da demanda pessoa contra quem não tenha o autor ainda crédito exigível (por exemplo, obrigação com condição ou termo); (b) no processo de execução, o juiz não pode permitir que figure no pólo passivo da demanda pessoa contra quem não tenha o autor crédito exigível. Logo, se a jurisprudência permite que a execução seja proposta contra o terceiro – responsável –, está, conseqüentemente, admitindo que tem este obrigação exigível para com a Fazenda Pública. 81. No processo de execução, o juiz, para admitir o processamento da ação, parte do direito material já atestado. Como diz Paulo Cesar Conrado: “(...) i) se, por meio do primeiro (processo de conhecimento), o Estadojuiz 2 Curso de Processo Civil – Execução, v. 3, São Paulo, RT, 2007, p. 119. Fl. 1788DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 28 27 ‘diz o direito material tributário’ (partindo dos fatos sociais que foram reconstruídos, no processo, por meio da linguagem das provas), ii) no processo de execução, o Estadojuiz parte do ‘direito material tributário já dito’, reconhecendo que a obrigação (tributário ou sua anversa) já se encontra ‘dita’ (...)” 3. A citação encaixase perfeitamente em nosso caso. Se o STJ admite a execução contra o administrador, diretamente e não por mero redirecionamento, é porque reconhece, por pressuposto, a exigibilidade da obrigação do responsável, o qual, nesse caso, não responde por mera subsidiariedade. Do contrário, estarseia admitindo “denunciação da lide realizada pelo autor em processo de execução”, o que é inadmissível, ao menos no Brasil 4. 82. Não existe ação de execução sem a presença de pretensão a uma prestação exigível. O processamento dessa ação depende da existência de pretensão a ser exercida. Assim, no processo executório, diferentemente do processo cognitivo, é válida a afirmação de F.C. Pontes de Miranda no sentido de que “se se exerce a ação, exercese a pretensão de que faz parte" 5. Destarte, podemos assegurar que a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, ao admitir o ajuizamento da execução fiscal diretamente contra o sóciogerente, ao lado da sociedade, está por admitir também que a pretensão contra este é desde já exigível, podendo o Fisco ingressar em seu patrimônio sem que seja necessário esgotar a busca de bens da empresa. Assim, devese excluir tanto a tese da responsabilidade subsidiária (em sentido próprio) do administrador quanto a tese da responsabilidade subsidiária da pessoa jurídica. 83. Por força do mesmo julgado (EREsp 702.232/RS), absolutamente seguido pelas Turmas que compõem a Primeira Seção daquela colenda Corte Superior, que admite que figurem como réus da execução tanto o administrador quanto a pessoa jurídica, não é possível acolher a tese da responsabilidade por substituição. Ora, se o administrador responde ao lado da pessoa jurídica, obviamente, sua responsabilidade não é exclusiva, não devendo ser desonerada a sociedade empresária. 84. Realmente, preocupandose o Direito Tributário com o fato econômico da circulação de riqueza, se a pessoa jurídica promove esse fato econômico, surge para si a obrigação tributária, independentemente de haver ilicitude ou não por parte dos administradores. Não há o menor sentido em “desonerar” dos respectivos tributos a pessoa jurídica que “auferiu faturamento”, “vendeu mercadorias”, “prestou serviços”. Portanto, deve ser excluída a tese da responsabilidade tributária exclusiva, por substituição propriamente dita. 85. Por tudo isso, cremos que a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça sustenta, em substância, a tese da responsabilidade solidária. Essa conclusão é confirmada por precedente em que a própria Fazenda Pública saiu derrotada. Tratase do REsp 717.717/SP, em que a Primeira Seção do STJ, apesar de ter acatado tese desfavorável ao INSS, negando validade à interpretação do art. 13 da Lei 8.620/93 que permitia a responsabilização de sócios sem poderes de gerência, arrimouse no art. 1.016 do atual Código 3 Tutela Jurisdicional Diferenciada (Cautelar e Satisfativa) em Matéria Tributária, in Processo Tributário Analítico, São Paulo, Dialética, 2003, p. 130. 4 A observação é do Dr. João Batista de Figueiredo, Procurador da Fazenda Nacional atuante perante o Superior Tribunal de Justiça, exresponsável pelo acompanhamento especial da PGFN naquela Corte. 5 Tratado de Direito Privado, t. VI, 1ª ed., Campinas, Bookseller, 2000, p. 105. Fl. 1789DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 29 28 Civil, que determina a responsabilidade solidária dos administradores perante terceiros (inclusive o Fisco). A idéia principal desse acórdão é que, ainda em relação às contribuições para a Seguridade Social, os sócios gerentes somente são “solidariamente” responsáveis quando cometerem um dos atos do art. 135 do CTN. Ora, assim, presumiuse que a responsabilidade do art. 135 é solidária. 86. De fato, representando as normas de responsabilidade tributária “garantia” especial ao crédito tributário, não faz sentido algum interpretar o Código Tributário Nacional de modo a dotar essa espécie de crédito de menor garantia que os créditos comuns da empresa para com terceiros. Assim, se, por força do Código Civil, respondem os administradores solidariamente com a pessoa jurídica pelos atos ilícitos que cometerem, não é possível aceitar que, se o ato ilícito for cometido contra a Administração Tributária, a responsabilidade desse administrador fique condicionado à ausência de bens da sociedade, bem como não é correto defender que a pessoa jurídica fique desonerada 6. 87. A tese da responsabilidade subsidiária – em sentido próprio – peca por ler implícito no art. 135 do CTN a condição de “impossibilidade de exigência do cumprimento da obrigação principal pelo contribuinte” (pessoa jurídica), condição esta que só está expressa no art. 134 do CTN, que, de fato, instituiu responsabilidade subsidiária para as pessoas ali descritas. Demais disso, se a responsabilidade do art. 135 do CTN também fosse subsidiária, perderia sentido o inciso I desse mesmo art. 135. Qual é o sentido de responsabilizar subsidiariamente, pela prática de ato ilícito, quem já é responsável subsidiário? O único sentido possível do inciso I do art. 135 do CTN é o seguinte: os responsáveis subsidiários do art. 134, caso pratiquem ilicitude, passam a ter responsabilidade solidária, respondendo juntamente com a pessoa jurídica independentemente de haver “impossibilidade de exigência do cumprimento da obrigação principal” por parte desta; nesse caso, a responsabilidade subsidiária cede para a responsabilidade solidária, que é mais rigorosa. 88. Por sua vez, a tese da responsabilidade por substituição, pessoal e exclusiva, peca por prever implícito no art. 135 do CTN a desoneração da pessoa jurídica contribuinte, coisa que não está dita nem insinuada nesse dispositivo legal. A desoneração do contribuinte não pode ocorrer por obra de mera interpretação extensiva; demanda, rigorosamente, norma expressa de desoneração. Logo, não havendo qualquer preceito que afaste o dever da pessoa jurídica de pagar o crédito tributário, continua ela com este dever, sem óbice para a exigência de pagamento também do terceiro responsável. 89. Em verdade, a responsabilidade tributária imposta ao administrador em decorrência da prática de ato ilícito é, no que tange ao nascimento, à natureza e à cobrança, autônoma da responsabilidade (em sentido amplo) da pessoa jurídica contribuinte pelo pagamento do crédito tributário. O dever desta decorre de ato lícito: o fato jurídico tributário propriamente dito (evento econômico – produção, circulação ou detenção de riqueza). Já a responsabilidade daquele decorre de ato ilícito: a “infração de lei” prevista 6 A menção ao regramento do Código Civil, que também impõe a responsabilidade solidária dos administradores que infringirem a lei, é feita com maestria pelo eminente Procurador da Fazenda Nacional Dr. Marcus Abraham, em artigo científico ainda pendente de publicação. Também faz referência à responsabilidade solidária dos sócios gerentes, em decorrência do Código Civil, José Eduardo SOARES E MELO: Curso de Direito Tributário, 4ª ed., São Paulo, Dialética, 2005, p. 211. Fl. 1790DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 30 29 no caput do art. 135 do CTN. A hipótese normativa de nascimento duma obrigação é fato lícito; a doutra, fato ilícito. Em substância, as naturezas de ambas as obrigações são distintas. A obrigação do responsável é tributária tãosó mediatamente, pois a norma que a impõe remete seu prescritor à obrigação tributária stricto sensu. Em suma, tratase de obrigações distintas, autônomas (nesses termos), atadas entre si simplesmente pelo nexo de adimplemento: o pagamento duma extingue a outra. 90. Assim, surgindo a responsabilidade do administradorinfrator, não temos uma obrigação solidária propriamente dita, senão obrigações solidárias. Explicamos. Não temos uma obrigação unitária com pluralidade de sujeitos passivos na relação jurídica. Temos, isto sim, duas ou mais obrigações, ligadas pelo vínculo da solidariedade. É o que a doutrina antiga chamava de solidariedade imprópria. 91. J.M. de Carvalho Santos7, citando a lição de Windscheid baseada no direito romano, diferenciava a solidariedade perfeita da solidariedade imperfeita. Na primeira, haveria unidade de obrigação e pluralidade de sujeitos. Na última, haveria pluralidade de obrigações e unidade de execução. Essa distinção também foi mencionada por Paulo de Lacerda8. F.C. Pontes de Miranda9, por sua vez, assim explica os conceitos de que estamos tratando: “Entre diferentes créditos do mesmo credor contra diferentes devedores, pode darse que um se libere se o outro solve a dívida. A causa seria a mesma, na solidariedade: na solidariedade imperfeita, há duas ou mais, conforme o número de devedores. Podese dizer que a solidariedade dita imperfeita não é solidariedade? Não. O que não se confunde com a solidariedade é a concorrência de pretensões sem solidariedade”. 92. A utilidade do conceito de solidariedade imperfeita para a análise da responsabilidade do terceiro infrator está em observar que sua obrigação não se confunde com a obrigação do contribuinte. As referidas obrigações nascem em momentos distintos, têm natureza distinta uma da outra e podem ser declaradas pela autoridade competente em momentos distintos; nesse sentido, são autônomas. Sem embargo disso, há entre elas nexo de adimplemento, de modo que o pagamento duma obrigação extingue a outra, por isso podemos dizer que são obrigações solidárias (solidariedade imperfeita). Além disso, a responsabilidade em sentido estrito (do administrador que incorre no art. 135 do CTN) é subordinada à obrigação tributária do contribuinte, no sentido de que sua existência, validade e eficácia dependem de ser existente, válida e eficaz esta última. Isso demonstra que estamos diante de relação jurídica de garantia. Nesse sentido, a obrigação do responsável é subordinada (à existência, validade e eficácia da obrigação do contribuinte). 93. Enfim, tomando por base a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, cremos que devam ser descartadas as teses da responsabilidade substitutiva e subsidiária (em sentido próprio) do administrador que comete 7 Código Civil Brasileiro Interpretado, v. 11, 12ª ed., Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1984, pp. 1789. 8 Manual do Código Civil Brasileiro – Direito das Obrigações, v. 10, Rio de Janeiro, Jacintho Ribeiro dos Santos, 1928, p. 225. 9 Tratado de Direito Privado, t. XXII, 1ª ed., Campinas, Bookseller, 2000, p. 402. Fl. 1791DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 31 30 ato ilícito e incorre no art. 135 do CTN. Assim, quando se lê nos julgados a menção de que respondem os “sóciosgerentes” “por substituição”, devese entender aí meramente a referência à responsabilidade em sentido amplo, em que o responsável responde “em lugar” do contribuinte. Por sua vez, nas ementas em que se observa a expressão “responsabilidade subsidiária”, somente podemos aí tomar a responsabilidade subsidiária em sentido impróprio, a qual exige, além da condição de administrador e da prática de ato ilícito, a ausência pagamento pontual do tributo (a antiga “insolvência comercial”), e não a insolvabilidade do contribuinte (pessoa jurídica). A responsabilidade subsidiária em sentido impróprio confundese, em seus efeitos práticos, com a responsabilidade solidária. 94. Assim, em conclusão, restando somente as teses da responsabilidade subsidiária em sentido impróprio e a da responsabilidade solidária, pensamos ser mais adequada a adoção desta última, seja em razão dos fundamentos encontrados nos mais diversos julgados do Superior Tribunal de Justiça, seja em razão da interpretação sistemática da ordenação tributária. Logo, o terceiro que (a) for administrador e (b) cometer o ato ilícito no exercício da gerência da empresa responde solidariamente com a pessoa jurídica pelo pagamento do crédito tributário, sendo sua responsabilidade (do administradorinfrator) autônoma da obrigação do contribuinte quanto ao nascimento, à natureza e à cobrança, mas subordinada quanto à existência, validade e eficácia. Demais disso, as responsabilidades de cada responsável são autônomas entre si, quanto à existência, validade e eficácia, sendo atadas tãosomente pelo nexo de adimplemento. 95. Por fim, ressalvamos que o art. 135, III, do CTN pode ser aplicado para responsabilizar não só o administrador de direito, mas também o administrador de fato da empresa. Assim, ainda que o estatuto ou contrato social não confira poderes a um dos sócios para praticar atos de gerência, se este é o administrador de fato da pessoa jurídica, deve ser igualmente responsabilizado pela prática de atos ilícitos. [...] De acordo com o referido parecer, "se o terceiro respondesse por ser sócio, seria plenamente razoável que demandasse o esgotamento do patrimônio da sociedade para que só então viesse a ser chamado a pagar o crédito tributário. Como, porém, não responde por ser sócio, mas porque, na condição de administrador, pratica ato ilícito, não faz o menor sentido que seja facultado a ele esquivarse da responsabilidade exigindo que, primeiro, responda a sociedade para, só em caso de sua insolvabilidade, seja a ele imposta a sanção pela ilicitude." "A concepção de responsabilidade por ato ilícito exclui o caráter de subsidiariedade da obrigação do infrator. Este deve responder imediatamente por sua infração, independentemente da suficiência do patrimônio da pessoa jurídica." Além disso, sabese que o STJ admite que a execução seja ajuizada diretamente contra o sóciogerente, e "se a obrigação contra o responsável é desde já exigível, não dependendo de condição futura (como, p. ex., o esgotamento da busca do patrimônio da pessoa jurídica), é insustentável defender que essa responsabilidade seja subsidiária em sentido próprio". Fl. 1792DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 32 31 Se a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça admite o ajuizamento da execução fiscal diretamente contra o sóciogerente, ao lado da sociedade, "está por admitir também que a pretensão contra este é desde já exigível, podendo o Fisco ingressar em seu patrimônio sem que seja necessário esgotar a busca de bens da empresa. Assim, devese excluir tanto a tese da responsabilidade subsidiária (em sentido próprio) do administrador quanto a tese da responsabilidade subsidiária da pessoa jurídica." E se as normas de responsabilidade tributária representam garantia especial ao crédito tributário, "não faz sentido algum interpretar o Código Tributário Nacional de modo a dotar essa espécie de crédito de menor garantia que os créditos comuns da empresa para com terceiros. Assim, se, por força do Código Civil, respondem os administradores solidariamente com a pessoa jurídica pelos atos ilícitos que cometerem, não é possível aceitar que, se o ato ilícito for cometido contra a Administração Tributária, a responsabilidade desse administrador fique condicionado à ausência de bens da sociedade, bem como não é correto defender que a pessoa jurídica fique desonerada." Realmente, a responsabilidade tributária prevista no art. 135 do CTN é responsabilidade solidária. Não foi correta a decisão contida no acórdão recorrido, que mesmo tendo reconhecido a ocorrência de sonegação, agravada ainda pela interposição fraudulenta de pessoas, afastou a responsabilidade tributária prevista no art. 135 do CTN, porque não estaria demonstrada nos autos a impossibilidade de cobrança da dívida do devedor principal (no caso, da pessoa jurídica). Como fartamente demonstrado acima, o esgotamento do patrimônio da pessoa jurídica não é requisito para que se possa exigir os débitos do procurados/administrador que agiu com "excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos". No contexto do art. 135 do CTN, a responsabilidade deste é solidária, seja com a pessoa jurídica, seja com eventuais outros procuradores/administradores que possam ter participado dos mesmos atos/condutas que ensejaram a responsabilização. Desse modo, voto no sentido de DAR provimento ao recurso especial da PGFN, para fins de restabelecer o Termo de Sujeição Passiva que atribui responsabilidade tributária solidária a Alberto Mucciolo pelos débitos apurados junto à empresa Denwa Vídeo, Foto, Som, Comércio e Importação Ltda. Em síntese: · conhecer do Recurso Especial e; · no mérito, em darlhe provimento. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 1793DF CARF MF Processo nº 19515.001263/200919 Acórdão n.º 9101002.954 CSRFT1 Fl. 33 32 Fl. 1794DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.721201/2013-24
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Jul 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 29 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010
ASSUNTO: PROCESSO JUDICIAL E ADMINISTRATIVO. CONCOMITÂNCIA.
A propositura pelo contribuinte de ação judicial contra a Fazenda, antes ou após a autuação, com o mesmo objeto, importa renúncia às instâncias administrativas. Não sendo idênticos os objetos, não há como reconhecer configurada a concomitância entre os processos judiciais e administrativos.
PROCESSO JUDICIAL E ADMINISTRATIVO. CONCOMITÂNCIA NÃO RECONHECIDA.
Não reconhecida a concomitância entre os processos judicial e administrativo pelo Colegiado ad quem, devem os autos retornar ao Colegiado a quo para que aprecie o mérito do litígio.
Recurso Especial do Procurador provido em parte.
Numero da decisão: 9303-005.470
Decisão:
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento parcial, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para que se prossiga na análise do mérito do litígio objeto dos autos de infração do PIS e da Cofins, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Tatiana Midori Migiyama.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Augusto do Couto Chagas, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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COFINS. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado CHINA CONSTRUCTION BANK (BRASIL) BANCO MULTIPLO S/A ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010 ASSUNTO: PROCESSO JUDICIAL E ADMINISTRATIVO. CONCOMITÂNCIA. A propositura pelo contribuinte de ação judicial contra a Fazenda, antes ou após a autuação, com o mesmo objeto, importa renúncia às instâncias administrativas. Não sendo idênticos os objetos, não há como reconhecer configurada a concomitância entre os processos judiciais e administrativos. PROCESSO JUDICIAL E ADMINISTRATIVO. CONCOMITÂNCIA NÃO RECONHECIDA. Não reconhecida a concomitância entre os processos judicial e administrativo pelo Colegiado ad quem, devem os autos retornar ao Colegiado a quo para que aprecie o mérito do litígio. Recurso Especial do Procurador provido em parte. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento parcial, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para que se prossiga na análise do mérito do litígio objeto dos autos de infração do PIS e da Cofins, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Tatiana Midori Migiyama. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 12 01 /2 01 3- 24 Fl. 790DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Augusto do Couto Chagas, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran. Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto tempestivamente pela Procuradoria da Fazenda Nacional contra o Acórdão nº 3401002.918, de 25/02/2015, proferido pela 1ª Turma da 4ª Câmara da Terceira Seção do CARF, que fora assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010 COFINS. CONCOMITÂNCIA. SUMULA CARF N. 001. A identidade entre o objeto do auto de infração e o objeto da ação judicial configura concomitância, aplicandose ao caso o disposto na Súmula CARF n. 001, impondo não se conhecer do recurso voluntário. EQUIPARAÇÃO DA ATIVIDADE DE "INTERMEDIAÇÃO FINANCEIRA" DE BANCOS A SERVIÇOS. IMPOSSIBILIDADE A atividade bancária típica, consistente no empréstimo a juros de recursos captados de depositantes, não consistindo numa obrigação de fazer, não corresponde a um serviço prestado. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010 PIS. CONCOMITÂNCIA. SUMULA CARF N. 001. A identidade entre o objeto do auto de infração e o objeto da ação judicial configura concomitância, aplicandose ao caso o disposto na Súmula CARF n. 001, impondo não se conhecer do recurso voluntário. EQUIPARAÇÃO DA ATIVIDADE DE "INTERMEDIAÇÃO FINANCEIRA" DE BANCOS A SERVIÇOS. IMPOSSIBILIDADE A atividade bancária típica, consistente no empréstimo a juros de recursos captados de depositantes, não consistindo numa obrigação de fazer, não corresponde a um serviço prestado. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010 MULTA DE OFÍCIO. INAPLICABILIDADE. Fl. 791DF CARF MF Processo nº 16327.721201/201324 Acórdão n.º 9303005.470 CSRFT3 Fl. 791 3 Constatado que os presentes lançamentos se encontram com a sua exigibilidade suspensa, são aplicáveis ao caso as disposições contidas no artigo 63 da Lei n° 9.430/96, devendo, por expressa previsão legal, não ser mantida a multa de ofício lançada. No Recurso Especial, por meio do qual pleiteou, ao final, a reforma do decisum, a Recorrente insurgese contra o reconhecimento da concomitância entres os processos administrativo e judicial. Alega divergência com relação ao que decidido no Acórdão nº 3202001.476. O exame de admissibilidade encontrase às fls. 584/587. A contribuinte apresentou contrarrazões ao recurso (fls. 596/622). Por fim, a contribuinte anexou outros documentos aos autos, os quais qualificou de "fatos novos" (fl. 787 e ss.). É o Relatório. Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator Presentes os demais requisitos de admissibilidade, entendemos que o recurso especial deve ser conhecido. Conforme se discorreu no exame de sua admissibilidade, a mesma situação fática e a mesma legislação, embora envolvendo partes diversas, estão presentes nos acórdãos recorrido e paradigma. Não obstante, enquanto o primeiro entendeu configurada a concomitância entre a ação judicial e o processo administrativo, o segundo não a reconheceu presente. É o que se passa a demonstrar. No litígio debatido nos presentes autos, a contribuinte, uma instituição financeira, requereu a declaração de inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo do PIS/Cofins. O objeto de ambas as ações foi assim delimitado (trechos extraídos das respectivas Certidões de Objeto e Pé): Mandado de Segurança nº 2005.61.00.0276624/SP (Cofins; fl. 39): 1 Objeto : "...não ser compelida ao recolhimento da COFINS, com as modificações introduzidas no artigo 3º da Lei n.º 9.718/98 e artigo 18 da Lei n.º 10.684/03, bem como seja autorizada relativa a compensar os valores indevidamente recolhidos, desde novembro de 2000." Mandado de Segurança nº 2005.61.00.0276612/SP (PIS; fl. 41): "... Mandado de Segurança, com pedido de liminar, distribuído automaticamente em 30/11/2005 à 19ª Vara Federal da Fl. 792DF CARF MF 4 Subseção Judiciária de São Paulo/SP, em que é impetrado o Sr. Delegado da Receita Federal Especial das Instituições Financeiras em São Paulo/SP, objetivando a impetrante, em definitivo, concessão de segurança para, relativamente ao períodobase de novembro de 2005 e subsequentes, garantir lhe o direito líquido e certo de efetuar o recolhimento da contribuição ao PIS, nos termos da Lei Complementar nº 7/70, ou, ao menos, o direito de recolhêla somente com base nas receitas provenientes da prestação de serviços, bem como de proceder à compensação dos valores indevidamente recolhidos a título de contribuição ao PIS desde novembro de 2000, conforme artigo 74 da Lei nº 9.430/96, com a redação da Lei nº 10.637/2002, acrescidos da taxa de juros SELIC, conforme determinado pela Lei nº 9250, de 27.12.95, sem impedimento da Autoridade Fiscal de exercer a fiscalização sobre o procedimento". Tratase, é manifesto, da mesma situação que, corriqueiramente, vem sendo apreciada por esta e outras Turmas do CARF: as ações judiciais reclamaram apenas o direito de não recolher as contribuições sobre as receitas que não resultassem da venda de mercadoria, da prestação de serviço ou da combinação de ambos, daí o lançamento, cobrando o PIS/Cofins, acrescidos de multa de ofício, sobre as receitas que a fiscalização qualificou de operacionais da instituição financeira, compreendendo as cobranças de tarifas e as operações de intermediação financeira. No litígio apreciado no acórdão paradigma, outra instituição financeira também interpôs ações judiciais com o mesmo objeto. Confirase: Mandado de Segurança nº 2006.61.00.0142340: O objeto é garantir o direito de recolher a contribuição para o PIS somente com base nas receitas provenientes da prestação de serviços, bem como de proceder à compensação dos valores indevidamente recolhidos a título de contribuição do PIS desde junho de 2.001, nos termos do art.74, da Lei nº 9.430/96, com redação dada pela Lei nº 10.637/2002, acrescidos da taxa de juros SELIC, conforme a Lei nº 9.250/95, sem impedimento de a Autoridade Fiscal exercer a fiscalização sobre o procedimento efetuado. (cópia da petição inicial às fls. 17/33 do processo administrativo nº 16321000964/200951). Mandado de Segurança nº 2006.61.00.0142351: O objeto é garantir o direito de não efetuar o recolhimento da COFINS, conforme estipulado no art.3º da Lei nº 9.718/98, com as alterações promovidas pelo art.18, da Lei nº 10.684/2003, ou, ao menos, recolhêla sobre as receitas advindas da prestação de serviços, bem como de proceder à compensação dos valores indevidamente recolhidos a título de COFINS desde junho de 2.001, nos termos do art.74, da Lei nº 9.430/96, com redação dada pela Lei nº 10.637/2002, acrescidos da taxa de juros SELIC, conforme a Lei nº 9.250/95, o que não impede que a Autoridade Fiscal exerça a fiscalização sobre o procedimento efetuado (cópia Fl. 793DF CARF MF Processo nº 16327.721201/201324 Acórdão n.º 9303005.470 CSRFT3 Fl. 792 5 da petição inicial às fls. 72/95 do processo administrativo nº 16321000964/200951). Também no auto de infração de cujo julgamento resultou o paradigma, os valores de PIS/Cofins, extraídos sobre bases de cálculo qualitativamente idênticas, foram lançados com a multa de ofício. Portanto, a despeito da identidade de situações fáticas – ações judiciais com o mesmíssimo objeto, impetradas por instituições de igual natureza –, diferentes Turmas deste Colegiado Administrativo chegaram a conclusões diversas: num caso reconheceuse a concomitância; no outro, não, motivo pelo qual é de se reconhecer o recurso. Passemos às razões de mérito. E, ao fazêlo, vemos assistir razão à Recorrente. É que, a nosso juízo, as ações mandamentais impetradas pela contribuinte não apresentam o mesmo objeto do processos administrativos, daí inaplicável a Súmula CARF nº 1, segundo a qual "Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial". Objeto de uma ação judicial, importa ressaltar, corresponde ao seu pedido, a pretensão deduzida pelo autor da demanda levada à apreciação do EstadoJuiz. Na lição de FREDIE DIDIER, "O pedido é o núcleo da petição inicial; a providência que se pede ao Poder Judiciário; a pretensão material deduzida em juízo (e que, portanto, vira pretensão processual); a consequência jurídica (eficácia) que se pretende ver implementada através da atividade jurisdicional. É, como dito alhures, o efeito jurídico posto como causa de pedir" (DIDIER, Fredie, Direito Processual Civil, 6ª ed., Salvador: JusPODIVUM, 2006, p. 376). Ora, tais ações mandamentais apenas visaram à aplicação da legislação anterior à ampliação da base de cálculo do PIS/Cofins, sob o argumento que se afigurava inconstitucional. A inconstitucionalidade é matéria que compõe a sua causa de pedir; o recolhimento sem a referida ampliação, o seu pedido. Em nenhum momento, o Poder Judiciário definiu, até porque a tanto não foi provocado nas petições iniciais, que o termo “faturamento” não compreenderia as receitas auferidas pelas instituições financeiras em face da intermediação financeira que realizam, razão por que esta matéria não pode ser incluída, por impossível, nos estreitos limites objetivos da lide, que, ademais, é sabido, estabilizase com a citação do réu, não podendo o autor livremente alterála. Contudo, ao reconhecer a concomitância entre os processos judiciais e o administrativo, a Câmara baixa não chegou a ingressar no mérito do litígio, o que aqui não se pode fazer sob pena de supressão de instância administrativa. Fl. 794DF CARF MF 6 Por último, mas não menos importante, cumpre observar que o fato de a contribuinte ter obtido decisão judicial favorável noutros processos administrativos e em relação a períodos de apuração anteriores (o denominado "fato novo"), reconhecendo a suspensão da exigibilidade dos débitos da Cofins incidente sobre o que ela chama de "receitas financeiras" e o cancelamento da multa cominada, não obriga a sua observância no presente litígio, em face da ausência de norma legal que lhe atribua efeito vinculante. Ante o exposto, conheço do recurso especial e, no mérito, doulhe parcial provimento, para que os autos retornem à Câmara baixa, a fim de que, ultrapassada a questão aqui dirimida, prossiga na análise do mérito do litígio objeto dos autos de infração do PIS e da Cofins. É como voto. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 795DF CARF MF Processo nº 16327.721201/201324 Acórdão n.º 9303005.470 CSRFT3 Fl. 793 7 Declaração de Voto Conselheira Tatiana Midori Migiyama Depreendendose da análise dos autos do processo, peço vênia ao ilustre conselheiro relator para manifestar meu entendimento. Para tanto, recordase que: · Tratase de autuação de PIS e Cofins com fulcro no art. 3º da Lei 9.718/98 alcançando receitas financeiras. · Com relação à Cofins, a turma a quo entendeu que, no bojo do MS 2005.61.00.0276624 e, em especial, por conta do seu sobrestamento até o julgamento do RE 609.096/RS pelo STF, aplicandose a Súmula CARF 1 – não conheceu o mérito afastando a multa de ofício dada a suspensão da exigibilidade consubstanciada nas decisões judiciais favoráveis acostadas aos autos. O Recurso Especial interposto pela Fazenda está limitado a Cofins, contestando a concomitância reconhecida para restabelecer a multa de ofício. No entanto, depreendendose da análise dos autos do processo, entendo que não assiste razão a Fazenda Nacional – o que concordo com o voto condutor proferido pelo relator do acórdão recorrido, que reconheceu a concomitância e afastou a multa de ofício – vez que a discussão judicial abrangeria a exigibilidade da Cofins objeto do lançamento – isto é, a receita financeira. Eis que, analisando os autos, fica evidente que o sobrestamento do MS Cofins se deu em função do RE 609.096/RS. E que ainda que a questão do sobrestamento do MS Cofins não seja fundamento principal do voto condutor lavrado pelo relator do acórdão recorrido, confere evidência à concomitância prolatada. Ora, nos autos do MS Cofins, a liminar foi deferida e em sentença proferida em 26.4.06 restou reconhecida a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei 9.718/98, bem como assegurado o direito de se recolher a Cofins apenas sobre as receitas advindas da venda de mercadorias, prestação de serviço ou combinação de ambos. A Fazenda Nacional interpôs recurso de apelação nos autos do MS Cofins requerendo literalmente que fosse reformada a sentença para que fossem incluídas as receitas financeiras na base da Cofins. Eis o que traz o Recurso de Apelação (Grifos meus): “Não se pode perder de vista que a receita bruta definida pelo Decreto nº 2.397/87 tinha amplitude suficiente para englobar as receitas financeiras, como evidenciado pelo seu art. 22, que inseria dentro da base de cálculo do FINSOCIAL as receitas operacionais das instituições financeiras e seguradoras [...] Como é todos sabido, as receitas financeiras integram a receita operacional da pessoa jurídica [...] Está demonstrado, então, que a inclusão das receitas financeiras no conceito de faturamento ou receita bruta não é inédita no direito brasileiro [...] Fl. 796DF CARF MF 8 Isto posto, requerendo faça, parte integrante do presente recurso as razões alinhadas nas informações de fls. 275/290, aguarda a União a reforma do r. decisão, reconhecendose a inconstitucionalidade da Lei 9718/98, tanto no que se refere à definição da base de cálculo, como na majoração da alíquota da Cofins e denegandose a segurança. ” Sendo assim, resta concluir que: · As Contribuições autuadas são objeto dos Mandados de Segurança nº 2005.61.00.0276612 (MS/PIS) e nº 2005.61.00.0276624 (MS/COFINS), em que: · O que se pediu e obteve foi o reconhecimento da inconstitucionalidade do art. 3º, §. 1º, da Lei 9.718/98, inclusive para afastar a incidência sobre receitas financeiras; Sendo assim, entendo que há concomitância e, por conseguinte, o descabimento de multa de ofício, diante da suspensão da exigibilidade dos débitos desde antes do início das ações fiscais, em função de: · Decisões favoráveis pela inconstitucionalidade do art. 3º, §1º, da Lei 9.718/98, inclusive para afastar a incidência sobre receitas financeiras; · Ser inconteste a discussão judicial acerca de receitas financeiras, corroborado pelas manifestações da PGFN; · É de conhecimento notório que a discussão que abarca a inconstitucionalidade do art. 3º, § 1º, da Lei 9.718/98, abrange efetivamente as receitas financeiras das Instituições Financeiras. Em vista do exposto, nego provimento ao recurso especial interposto pela Fazenda Nacional. (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Fl. 797DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10580.721136/2007-10
Turma: Primeira Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 14 00:00:00 UTC 2010
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ
Exercício: 2005
NULIDADES. DESCRIÇÃO DOS FATOS. CLAREZA E PRECISÃO.
FUNDAMENTAÇÃO LEGAL. BASES DE CÁLCULO. CERCEAMENTO
DO DIREITO DE DEFESA.
Não caracteriza ofensa aos princípios do contraditório ou ampla defesa, nem macula o lançamento tributário, a descrição dos fatos feita de forma concisa, todavia indicando os documentos em que se fundamenta, bem como os dispositivos legais, fatos geradores, bases de cálculo, demonstrativos de cálculos de apuração dos tributos e dos acréscimos legais.
OMISSÃO DE RECEITAS. LIVROS CONTÁBEIS E FISCAIS.
É legítima a utilização dos valores de vendas registrados nos livros fiscais e contábeis dos contribuintes para fixar a receita bruta auferida, em flagrante descompasso com aqueles informados ao fisco federal.
MULTA DE OFÍCIO. DESCABIMENTO. NATUREZA
CONFISCATÓRIA. INCONSTITUCIONALIDADE
Não pode órgão integrante do Poder Executivo deixar de aplicar penalidade prevista em lei em vigor, cuja inconstitucionalidade não foi reconhecida pelo STF.
(Súmula nº 02 do CARF)
JUROS SELIC. ILEGALIDADE. INCONSTITUCIONALIDADE.
A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais.
(Súmula nº 04 do CARF)
MATÉRIA SUMULADA. APRECIAÇÃO.
O artigo 72 do Anexo II do Regimento Interno do CARF (Portaria MF nº 256/09) dispõe que as súmulas editadas e publicadas por este órgão são de observância obrigatória pelo seus membros.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA.
O decidido em relação à tributação do IRPJ deve acompanhar as autuações reflexas de PIS, COFINS e CSLL.
Numero da decisão: 1801-000.412
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em preliminar, não acolher as nulidades suscitadas pela recorrente e, no mérito, negar provimento ao recurso nos termos do voto do relator
Matéria: IRPJ - AF- lucro presumido(exceto omis.receitas pres.legal)
Nome do relator: Ana de Barros Fernandes
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Exercício: 2005 NULIDADES. DESCRIÇÃO DOS FATOS. CLAREZA E PRECISÃO. FUNDAMENTAÇÃO LEGAL. BASES DE CÁLCULO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. Não caracteriza ofensa aos princípios do contraditório ou ampla defesa, nem macula o lançamento tributário, a descrição dos fatos feita de forma concisa, todavia indicando os documentos em que se fundamenta, bem como os dispositivos legais, fatos geradores, bases de cálculo, demonstrativos de cálculos de apuração dos tributos e dos acréscimos legais. OMISSÃO DE RECEITAS. LIVROS CONTÁBEIS E FISCAIS. É legítima a utilização dos valores de vendas registrados nos livros fiscais e contábeis dos contribuintes para fixar a receita bruta auferida, em flagrante descompasso com aqueles informados ao fisco federal. MULTA DE OFÍCIO. DESCABIMENTO. NATUREZA CONFISCATÓRIA. INCONSTITUCIONALIDADE Não pode órgão integrante do Poder Executivo deixar de aplicar penalidade prevista em lei em vigor, cuja inconstitucionalidade não foi reconhecida pelo STF. (Súmula nº 02 do CARF) JUROS SELIC. ILEGALIDADE. INCONSTITUCIONALIDADE. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. (Súmula nº 04 do CARF) Fl. 254DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES 2 MATÉRIA SUMULADA. APRECIAÇÃO. O artigo 72 do Anexo II do Regimento Interno do CARF (Portaria MF nº 256/09) dispõe que as súmulas editadas e publicadas por este órgão são de observância obrigatória pelo seus membros. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. O decidido em relação à tributação do IRPJ deve acompanhar as autuações reflexas de PIS, COFINS e CSLL. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em preliminar, não acolher as nulidades suscitadas pela recorrente e, no mérito, negar provimento ao recurso nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Ana de Barros Fernandes – Presidente e Relatora EDITADO EM: 17/12/2010 Participaram da sessão de julgamento, os Conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva, Guilherme Polastri Gomes da Silva, Maria de Lourdes Ramirez, Sandra Maria Dias Nunes, Rogério Garcia Peres e Ana de Barros Fernandes. Relatório A empresa em epígrafe foi autuada a recolher IRPJ, CSLL, PIS e Cofins, relativos ao ano-calendário de 2004, pelas seguintes razões, consoante texto explicativo dos Autos de Infrações lavrados às fls. 02 a 23, e relatório do acórdão ora combatido, que aproveito: “2. O lançamento decorre do fato de ter sido constatada a diferença de receitas escrituradas no Livro Razão e as receitas declaradas na DIPJ. Assevere-se que as receitas declaradas no Livro Razão estão de acordo com as informadas no Livro de Apuração de ICMS, no Livro de Registro de Saídas e na Declaração da Contribuição Provisória Sobre Movimentação Financeira - DCPMF. Por sua vez, os tributos declarados em DCTF estão de acordo com os declarados (a menor) na DIPJ. O lançamento foi especado nos artigos 224 e 518 do Regulamento do Imposto de Renda 1999 - RIR/1999, aprovado pelo Decreto n° 3.000, de 26 de março de 1999 - RIR/1999. 3. Os autos de infração relativos à Contribuição para o PIS, à Cofins e à CSLL, foram lavrados em decorrência da apuração das infrações que ensejaram o lançamento principal.” A autuada impugnou os lançamentos tributários, fls. 122 a 203 (uma impugnação para cada Auto de Infração), argumentando, em apertada síntese, que os autos Fl. 255DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 10580.721136/2007-10 Acórdão n.º 1801-00.412 S1-TE01 Fl. 255 3 padecem de vício insanável por terem sido lavrados ao arrepio da legislação vigente, pela precária descrição dos fatos, faltando-lhe precisão e a demonstração dos valores que constituíram as operações consideradas fatos geradores da obrigação tributária. Alega cerceamento do direito de defesa e inobservância ao devido processo legal, sendo que a Constituição Federal assegura aos litigantes do processo administrativo o contraditório e a ampla defesa. Argumenta também a natureza confiscatória da multa de ofício regular e a inconstitucionalidade dos juros exigidos à taxa Selic. A Primeira Turma da DRJ no Rio de Janeiro/ RJ I exarou o Acórdão nº 12- 23.150/09, fls. 213 a 219, não acolhendo as razões de contestação da impugnante, mas mantendo na íntegra os lançamentos tributários. Assim restou ementado o acórdão: “NULIDADE. INOCORRÊNCIA. O atendimento aos preceitos estabelecidos na legislação tributária relativos ao processo administrativo fiscal bem como a observância do amplo direito de defesa do contribuinte afasta a hipótese de ocorrência de nulidade do lançamento. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. DESCABIMENTO. Havendo vastas evidências nos autos de que a impugnante não somente foi notificada da autuação, como também possuía pleno conhecimento dos fatos apontados no feito fiscal, fica patente a inocorrência do alegado cerceamento do direito de defesa. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Consolida-se administrativamente o crédito tributário relativo a matéria não impugnada. MULTA DE OFÍCIO. LANÇAMENTO. A multa de ofício é de aplicação obrigatória nos casos de exigência de tributos e contribuições decorrentes de lançamento de ofício. JUROS. TAXA SELIC. O cálculo dos juros de mora com base na variação da taxa Selic têm fundamento em lei validamente editada pelo Poder Legislativo, faltando competência à autoridade administrativa para se pronunciar a respeito da sua conformidade com os preceitos da Constituição, que atribui esta função ao Poder Judiciário. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS. COMPETÊNCIA. As autoridades administrativas estão obrigadas à observância da legislação tributária vigente no País, sendo incompetentes para a apreciação de argüições de inconstitucionalidade e ilegalidade, restringindo-se a instância administrativa ao exame da validade jurídica dos atos praticados pelos agentes do fisco. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS, CSLL, COFINS. LANÇAMENTOS REFLEXOS. Subsistindo em parte o lançamento principal, igual sorte colhem os lançamentos que tenham sido formalizados por mera decorrência daquele, na medida que inexistem fatos ou argumentos novos a ensejarem conclusões diversas.” Irresignada, a empresa autuada apresentou, tempestivamente, o recurso voluntário de fls. 223 a 243, argüindo, em suma: Fl. 256DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES 4 1) supostamente foi constatada diferenças entre as receitas escrituradas no Livro razão e aquelas declaradas na DIPJ; 2) as irregularidades da autuação são flagrantes, pelo que merece reforma o acórdão de primeira instância e a improcedência dos Autos de Infração; 3) os autos não têm fundamentação, sem o que é nulo de pleno direito, pois impede o contribuinte de saber o que lhe está sendo imputado e, por conseguinte, fere o seu direito à ampla defesa e ao contraditório; 4) há um emaranhado de preceitos legais aplicados à infração imputada à recorrente, mas a autoridade fiscal menciona lei diversa da aplicada ao caso concreto, o que impede a recorrente a saber qual a alíquota a que se sujeita e dificulta o exercício de defesa, não sendo admissível tal equívoco; 5) o artigo 2º, inciso VII, da Lei nº 9.874/99 torna obrigatória a indicação dos pressupostos de fato e de direito que determinam a decisão administrativa, em respeito aos princípios da fundamentação dos atos e decisões administrativas; 6) cita acórdãos judicial e administrativos no sentido de acolher a preliminar de cerceamento de defesa por ausência de clareza na tipificação do ilícito tributário e descrição dos fatos; 7) requer a nulidade dos Autos com fulcro no artigo 59, II, do Decreto nº 70.235/72 (PAF) e 53 da Lei nº 9.784/99; 8) não se vislumbra nos Autos as planilhas de cálculos pelas quais o fiscal autuante chegou aos valores lançados; não há definição da base de cálculo, nem de quais parcelas ela foi composta; 9) não há divisão clara e inequívoca de valores e períodos levantados, com discriminação analítica; 10) a despeito da recorrente ter se defendido das supostas infrações, a defesa foi prejudicada por não conhecer a exata procedência da cobrança; 11) a legislação exige que seja demonstrado claramente a infração e por qual motivo a multa foi aplicada; 12) passa a discorrer sobre os princípios do direito administrativo (art. 37 da Constituição Federal), sobre o § 1º do artigo 142 do CTN (Código Tributário Nacional), cita doutrina de Hely Lopes Meirelles e ementas de acórdãos administrativos sobre cerceamento de defesa; 13) ataca a aplicação da multa de ofício regular (75%), por ter caráter confiscatório e argumenta que o Poder judiciário as têm reduzido, podendo o julgador administrativo reduzir a multa excessiva; 14) discorre amplamente sobre a inconstitucionalidade da cobrança dos juros à taxa Selic para os tributos; Fl. 257DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 10580.721136/2007-10 Acórdão n.º 1801-00.412 S1-TE01 Fl. 256 5 15) por fim, discorre sobre a possibilidade e o dever da autoridade administrativa de julgamento deixar de aplicar lei ou ato normativo flagrantemente inconstitucional ou ilegal. É o relatório. Passo a analisar as razões recursais. Voto Conselheira ANA DE BARROS FERNANDES, Relatora Conheço do recurso, por tempestivo. Os limites do litígio foram bem delineados pela recorrente: (i) nulidade dos lançamentos tributários consubstanciados nos Autos de Infração de fls. 02 a 27, por ausência de fundamentação legal, ausência de clareza na descrição dos fatos, ausência de demonstrativos de cálculos, enfim, cerceamento do direito de defesa da recorrente porque a autoridade fiscal não possibilitou a compreensão do ilícito tributário imputado à contribuinte, bem como não explicitou os valores que compuseram as bases de cálculo, impedindo o seu amplo exercício de defesa; (ii) inconstitucionalidade da multa por seu caráter flagrantemente confiscatório; (iii) inconstitucionalidade da exigência dos juros calculados à taxa Selic; (iv) competência das autoridades administrativas de julgamento para declarar a inconstitucionalidade/ ilegalidade das normas ou atos administrativos. Da Nulidade do Auto de Infração – Cerceamento do Direito de Defesa Da análise dos Autos de Infração lavrados para a exigência de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins e acostados ao presente processo, verifico que: I) para as exigências de IRPJ e CSLL, os valores expressos nos Autos foram discriminados de acordo com as datas de ocorrência dos fatos geradores, no caso, setembro e dezembro de 2004, visto que a contribuinte é optante pelo Lucro Presumido, com apuração trimestral – DIPJ/05 de fls. 24 a 56; foi consignada a multa de ofício no percentual de 75%; II) para as exigências de PIS e Cofins, os valores expressos nos Autos foram discriminados mensalmente, por data de fato gerador, para os meses de julho a dezembro de 2004; foi consignada a multa de ofício no percentual de 75%; Fl. 258DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES 6 III) nos Demonstrativos de cálculos que seguem, explicitou-se detalhadamente, para cada trimestre (IRPJ e CSLL) ou mês (PIS e Cofins), as diferenças de bases de cálculo, coeficientes aplicados para apuração do lucro presumido, alíquota pertinente ao tributo, imposto devido, e adicional de IRPJ calculados; bem como o cálculo da multa incidente sobre os tributos devidos no percentual de 75% e juros calculados até a data da autuação; IV) verifico, ainda, que ao final das folhas de cada Auto de Infração está devidamente expresso o enquadramento legal das infrações tributárias, por cada tributo lançado (IRPJ, CSLL, PIS e Cofins), bem como, nos demonstrativos de cálculos de multa e juros, os dispositivos legais pertinentes – artigo 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96 no caso da multa de ofício e artigo 61, § 3º, da mesma lei, para fundamentar a exigência dos juros; V) no texto dos Autos de Infração, no campo denominado “Descrição dos Fatos”, constato que o auditor fiscal responsável pelas autuações registrou que anexou aos Autos a DIPJ 2005, cópias de folhas do Livro Razão do ano-calendário de 2004, entre outros documentos (DCTF, DCPMF e DAMICMS); de fato, estes documentos fazem parte deste processo; registra, ainda, que a empresa apresentou os Livros de registros de Entradas e Saídas e LAICMS (Apuração de ICMS); VI) esclarece, ainda, que os valores escriturados no Livro de Registro de Saídas confere com aqueles escriturados no Livro Razão, da mesma forma que coincidem com aqueles registrados no LAICMS e com a DCPMF; VII) todavia, ressalva sob o título de “Diferenças de Receitas” que estes valores registrados na contabilidade da empresa fiscalizada não conferem com os valores informados na DIPJ/05, razão pela qual procede ao lançamento sobre estas diferenças : Livro Razão versus DIPJ/05; VIII) verifico também que ao confrontar os valores escriturados, mensalmente, no Livro Razão na conta “Receita de Revenda de Mercadorias” – fls. 44 e 45 do Livro (fls. 64 e 65 deste processo) – com os valores informados na DIPJ/05 entregue pela contribuinte (fls. 24 a 56), há diferenças, relevantes, a partir do mês de julho até o mês de dezembro de 2004. Estas diferenças encontradas, por mera conta aritmética de subtração, são os valores discriminados nos Autos de Infração como matéria tributável discriminada por fato gerador; IX) Exemplifico, por amostra: no mês de julho de 2004 a empresa registrou como revenda de mercadorias o valor de R$ 186.960,38, enquanto informou na DIPJ, como ‘revenda de mercadoria” o valor de R$ 14.305, 23, o que resulta na evidente diferença de R$ 172.655,15, valor este último constante do Auto de Infração como matéria tributável. Destas ponderações, basilares, concluo que as argumentações do recorrente são totalmente desprovidas. Os pressupostos de fato e de direito que norteiam e fundamentam os lançamentos tributários ora sob análise estão fartamente e visivelmente indicados pelo autor dos feitos. Não há ausência de explicação fática, não há ausência de fundamentação legal, não há ausência de demonstrativos de cálculos para a apuração dos tributos devidos e acréscimos cominados e não há ausência de documentos dos quais os valores das infrações foram extraídos. A fiscalização mostrou-se concisa e simples. A diferença entre as receitas escrituradas e aquelas declaradas constituem omissão de receitas por parte da contribuinte e foram devidamente discriminadas, lançadas e consubstanciadas nos Autos que compõem o Fl. 259DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 10580.721136/2007-10 Acórdão n.º 1801-00.412 S1-TE01 Fl. 257 7 presente processo administrativo fiscal. Tudo em estrita conformidade com as normas tributárias vigentes. E, como já demonstrou a turma julgadora a quo, as autuações não padecem de qualquer vício, formal ou material (artigo 10 do PAF e 142 do CTN) que possa acarretar as suas nulidades. Em face dos fatos e fundamentos de direito que estão inseridos nos Autos de Infração vergastados a recorrente não pode alegar cerceamento de defesa por não haver compreendido a autuação ou quanto aos valores lançados em hipótese alguma. Afasto, pelo exposto, as alegações de nulidade suscitadas pela recorrente. No que respeita às demais contestações sobre a natureza confiscatória da multa de ofício aplicada (75%) e sobre os juros Selic, ouso discordar da recorrente quanto à competência deste órgão julgador para retirar a eficácia de norma tributária vigente. Tanto um acréscimo legal, quanto o outro, foram imputados por rígida observância aos ditames legais. Se as normas foram editadas de forma abusiva ou com caráter inconstitucional não compete à autoridade administrativa do lançamento tributário ou ao órgão julgador administrativo, alterá- las ou afastar a sua aplicação. Não cabe às autoridades administrativas de julgamento negar vigência às normas tributárias não consideradas inconstitucionais pela Corte Suprema. Seria usurpação de competência, delegada pela Carta Magna, com exclusividade, ao Supremo Tribunal Federal. E o dispositivo atacado pela recorrente – artigo 44, II, Lei nº 9.430/96 – está em pleno vigor. Ademais, a vedação constitucional quanto à instituição de exação de caráter confiscatório refere-se a tributo, e não a multa; e se dirige ao legislador, e não ao aplicador da lei. Esta questão está pacificada na jurisprudência deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e está, inclusive, sumulada. A súmula nº 02 do CARF dispõe: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Também em relação à discussão dos juros cominados nas presentes autuações, resta editada súmula por este órgão, a qual impede a apreciação – Súmula nº 04/CARF: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. Em razão das súmulas acima, deixo de me manifestar a respeito das matérias, para aplicá-las ao presente caso. Fl. 260DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES 8 Destarte os lançamentos tributários em tela não padecem de qualquer vício capaz de tornar insubsistentes as exações fiscal de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins consubstanciadas nos Autos de Infração que constam deste processo. Voto, em preliminar, em não acolher as nulidades suscitadas pela recorrente e, no mérito, negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Ana de Barros Fernandes Fl. 261DF CARF MF Emitido em 02/03/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES Assinado digitalmente em 17/12/2010 por ANA DE BARROS FERNANDES
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Numero do processo: 10715.005712/2010-01
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Oct 02 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Período de apuração: 03/01/2008 a 28/01/2008
INFRAÇÃO ADUANEIRA. MULTA POR PRESTAR INFORMAÇÕES INTEMPESTIVAS QUANTO AOS EMBARQUES PARA O EXTERIOR. ART. 102, § 2º, do Decreto-lei nº 37/1966, com a nova redação dada pela Lei 12.350, de 2010.
INFRAÇÃO CARACTERIZADA. LANÇAMENTO MANTIDO
Numero da decisão: 3401-003.835
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer das alegações relativas a relevação da pena, e a negar provimento ao recurso voluntário, na parte conhecida. O Conselheiro Rodolfo Tsuboi atuou em substituição ao Conselheiro Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, que se declarou impedido. Sustentou pela recorrente a advogada Ana Carolina D'Errico, OAB/SP no 352.338.
ROSALDO TREVISAN Presidente.
ANDRE HENRIQUE LEMOS - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, André Henrique Lemos (relator), Fenelon Moscoso de Almeida, Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
Nome do relator: ANDRE HENRIQUE LEMOS
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 03/01/2008 a 28/01/2008 INFRAÇÃO ADUANEIRA. MULTA POR PRESTAR INFORMAÇÕES INTEMPESTIVAS QUANTO AOS EMBARQUES PARA O EXTERIOR. ART. 102, § 2º, do Decretolei nº 37/1966, com a nova redação dada pela Lei 12.350, de 2010. INFRAÇÃO CARACTERIZADA. LANÇAMENTO MANTIDO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer das alegações relativas a relevação da pena, e a negar provimento ao recurso voluntário, na parte conhecida. O Conselheiro Rodolfo Tsuboi atuou em substituição ao Conselheiro Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, que se declarou impedido. Sustentou pela recorrente a advogada Ana Carolina D'Errico, OAB/SP no 352.338. ROSALDO TREVISAN – Presidente. ANDRE HENRIQUE LEMOS Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, André Henrique Lemos AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 71 5. 00 57 12 /2 01 0- 01 Fl. 337DF CARF MF 2 (relator), Fenelon Moscoso de Almeida, Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). Relatório Tratase de recurso voluntário, cujo nascedouro da relação jurídicotributária se deu por meio de Auto de Infração que exige da contribuinte a multa pelo atraso na prestação de informações sobre veículo ou carga nele transportada, penalidade prevista no art. 107, inciso IV, alínea "e", do DL 37, de 1966, cuja redação foi alterada pela Lei 10.833, de 2003 (fl. 03). No caso concreto, foi impingida a referida multa, referente a 3 (três) registros de dados de embarques intempestivos, referentes aos transportes internacionais realizados em janeiro de 2008 no Aeroporto Internacional de Rio de JaneiroALF/GIG, aplicada para cada veículo identificado pelo respectivo voo, que transportou as cargas amparadas pelas Declarações de Exportação DEs, totalizando R$ 15.000,00 (fl. 3), sendo R$ 5.000,00 por voo da GOL Transportes Aéreos S/A (fls. 4 e 10). A Recorrente apresentou impugnação, argumentando: 1) A nulidade da autuação, pois houve erro na identificação do sujeito passivo, vez que não fora a Recorrente quem fez o transporte, mas sim a empresa GOL Transportes Aéreos S/A, empresa que somente incorporou a Recorrente em setembro de 2008. 2) observância ao princípio da legalidade e da tipicidade, pois a fixação da forma e do prazo foram instituídos por meio da IN/SRF 28/1994, alterada pela IN/SRF 510/2005 e somente poderiam sêlos por intermédio de lei. 3) configurada a denúncia espontânea, sendo descabida a multa, pois as informações foram prestadas antes que o procedimento fiscal fosse instaurado, e por corolário, incidindo o art. 138 do CTN c/c art. 102 do DL 37/66. 4) impossibilidade da exigência das multas lançadas à sucessora, pois os artigos 132 e 137 do CTN tratam de responsabilidade tributária por sucessão no tocante aos tributos. 5) houve erro na aplicação da multa por embarque, pois não ocorreram 3 infrações, mas sim, uma única infração ao longo do período fiscalizado, qual seja a de "deixar de prestar informação sobre (...) as operações que execute, aplicandose o artigo 112 do CTN ao caso concreto, devendo, quando muito, ser aplicada a multa no montante de R$ 5.000,00. Posteriormente a interessada aditou a impugnação para requerer o cancelamento do Auto de Infração, tendo em vista que a conduta autuada deixou de ser definida como infração, nos termos da IN RFB n.º 1.096/2010, que ampliou o prazo para prestação de informações de 02 para 07 dias, por aplicação do art. 106, II, “a”, do CTN. À fl. 99, a DRJ/FLN decidiu, à unanimidade de votos, pela procedência parcial da impugnação, mantendo o crédito tributário no valor de R$ 5.000,00. Fl. 338DF CARF MF Processo nº 10715.005712/201001 Acórdão n.º 3401003.835 S3C4T1 Fl. 308 3 Desafiando este acórdão, a Contribuinte interpôs recurso voluntário (fl. 157), defendendo: 1) Em preliminar: erro na identificação do sujeito passivo. 2) No mérito: a inaplicabilidade da IN/RFB 1.096/2010, vez que após a lavratura do presente Auto de Infração, a IN/SRF 510/2005, foi alterada pela IN/RFB 1.096/2010, alterandose o prazo de registros dos embarques, de 2 para 7 dias, logo, aplicando se a exegese do art. 2°, §1° do DL 4.657/42, na redação da Lei 12.376/2010 (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro LINDB), que determina: "a lei posterior revoga a anterior quando expressamente o declare, quando seja com ela incompatível ou quando regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior" c/c artigo 105 do CTN. 3) observância ao princípio da legalidade e da tipicidade, pois a fixação da forma e do prazo foram instituídos por meio da IN/SRF 28/1994, alterada pela IN/SRF 510/2005 e somente poderiam sêlos por intermédio de lei. 4) configurada a denúncia espontânea, sendo descabida a multa, pois as informações foram prestadas antes que o procedimento fiscal fosse instaurado, e por corolário, incidindo o art. 138 do CTN c/c art. 102 do DL 37/66. 5) impossibilidade da exigência das multas lançadas à sucessora, pois os artigos 132 e 137 do CTN tratam de responsabilidade tributária por sucessão no tocante aos tributos. 6) relevação da pena, sendo os autos encaminhados ao Secretário da Receita Federal do Brasil, nos termos do artigo 736 do RA, vez que não houve qualquer dano ao Erário, em razão de não haver incidência de tributos na exportação. À fl. 194 sobreveio decisão deste CARF, a qual, por maioria de votos, reconheceu o instituto da denúncia espontânea. Cientificada do acórdão mencionado o Representante da Fazenda Nacional interpôs recurso especial (fl. 210) suscitando divergência quanto à exoneração da penalidade em comento por aplicação da denúncia espontânea prevista no art. 102, § 2º, do Decretolei nº 37/1966, com a nova redação dada pela Lei 12.350, de 2010. O recurso foi admitido por intermédio do despacho do Presidente da Câmara recorrida (fls. 238240), vindo a contribuinte a apresentar contrarrazões (fls. 248261). A matéria submetida à Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF restringiuse à possibilidade de aplicar a denúncia espontânea após a alteração promovida pela Lei 12.350/2010, para afastar a exigência da multa pelo atraso na prestações de informações sobre veículo ou carga nele transportada. Em sede do recurso excepcional, aplicouse a sistemática prevista nos §§ 1º a 3º do art. 47 do RICARF (recursos repetitivos), dandose provimento parcial ao recurso interposto pela Fazenda Nacional, por voto de qualidade, para considerar inaplicável ao caso o instituto da denúncia espontânea ao caso concreto (art. 138 do CTN e art. 102 do DL 37/66), pois este não alcança as penalidades exigidas pelo descumprimento do dever instrumental caracterizado pelo atraso na prestação de informação à Administração. Fl. 339DF CARF MF 4 Citou o voto do relatorpresidente, precedente da 2a Turma Ordinária da 2a Câmara da 3a Seção, acórdão 310200.988, bem como o proferido no acórdão 3802002.314, e ainda, nos autos da AC 500599981.2012.404.7208/SC, da 2a Turma do TRF da 4a Região. Ato contínuo, afastada a denúncia espontânea, decidiu que processo retornasse à instância a quo para apreciação das demais questões trazidas no recurso voluntário e que não foram objeto de deliberação da E. CSRF. É o relatório. Voto Conselheiro André Henrique Lemos, relator A tempestividade recursal já fora reconhecida oportunamente (fl. 199), razão pela qual, a ratifico, tomando conhecimento do presente recurso. A questão se restringe na autuação fiscal, por ter a Recorrente, supostamente, infringido o art. 102, § 2º, do Decretolei nº 37/1966, com a nova redação dada pela Lei 12.350, de 2010, ou seja, tivera a Recorrente prestado informações intempestivas quanto aos embarques feitos para o exterior. Como se viu, o argumento da denúncia espontânea foi enfrentado e julgado em desfavor do contribuinterecorrente por decisão da E. CSRF, restando a análise dos demais temas, quais sejam: 1) Em preliminar: erro na identificação do sujeito passivo. 2) No mérito: a inaplicabilidade da IN/RFB 1.096/2010, vez que após a lavratura do presente Auto de Infração, a IN/SRF 510/2005, foi alterada pela IN/RFB 1.096/2010, alterandose o prazo de registro dos embarques, de 2 para 7 dias, logo, aplicando se a exegese do art. 2°, §1° do DL 4.657/42, na redação da Lei 12.376/2010 (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro LINDB), que determina: "a lei posterior revoga a anterior quando expressamente o declare, quando seja com ela incompatível ou quando regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior" c/c artigo 105 do CTN. 3) observância ao princípio da legalidade e da tipicidade, pois a fixação da forma e do prazo foram instituídos por meio da IN/SRF 28/1994, alterada pela IN/SRF 510/2005 e somente poderiam sêlos por intermédio de lei. 4) impossibilidade da exigência das multas lançadas à sucessora, pois os artigos 132 e 137 do CTN tratam de responsabilidade tributária por sucessão no tocante aos tributos. 5) relevação da pena, sendo os autos encaminhados ao Secretário da Receita Federal do Brasil, nos termos do artigo 736 do RA, vez que não houve qualquer dano ao Erário, em razão de não haver incidência de tributos na exportação. I. Quanto à preliminar Fl. 340DF CARF MF Processo nº 10715.005712/201001 Acórdão n.º 3401003.835 S3C4T1 Fl. 309 5 Quanto à preliminar de erro da eleição do sujeito passivo, adotase o entendimento externado no voto vencido, do Conselheiro Marcos Antonio Borges (fls. 199 200): Pelo que consta nos autos, a empresa Gol Transportes Aéreos S.A. foi baixada em 30/09/2008 tendo em vista a sua incorporação pela autuada VRG Linhas Aéreas S.A, sendo lavrado o presente auto de infração, cuja ciência ocorreu em 22/09/2010. O art. 132 do CTN assim dispõe: Art. 132. A pessoa jurídica de direito privado que resultar de fusão, transformação ou incorporação de outra ou em outra é responsável pelos tributos devidos até a data do ato pelas pessoas jurídicas de direito privado fusionadas, transformadas ou incorporadas. Apesar da referência a tributos no referido artigo, o que, a princípio, impede a aplicação às multas, a jurisprudência entende que a responsabilidade alcançaria inclusive as multas, seja ela de caráter moratório ou punitivo, conforme ementas abaixo: “RESPONSABILIDADE DO SUCESSOR... I – ‘Os arts. 132 e 133, do CTN, impõem ao sucessor a responsabilidade integral, tanto pelos eventuais tributos devidos quanto pela multa decorrente, seja ela de caráter moratório ou punitivo. A multa aplicada antes da sucessão se incorpora ao patrimônio do contribuinte, podendo ser exigida do sucessor, sendo que, em qualquer hipótese, o sucedido permanece como responsável. É devida, pois, a multa, sem se fazer distinção se é de caráter moratório ou punitivo; é ela imposição decorrente do não pagamento do tributo na época do vencimento’ (REsp nº 592.007/RS, Min. JOSÉ DELGADO, DJ de 22/03/2004).” (STJ, 1ª T., REsp 554.377/SC, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, out/05) No caso sob exame, a obrigação tributária, caracterizada pelo dever de prestar a informação à administração aduaneira na forma e no prazo estabelecidos, já existia anteriormente ao evento sucessório e foi transmitida à sucessora no momento da incorporação, não importando a data do lançamento, conforme decidiu o STJ no REsp 959.3897, assim ementado: TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. [...] MULTA TRIBUTÁRIA. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. SUCESSÃO EMPRESARIAL. OBRIGAÇÃO. ANTERIOR E LANÇAMENTO POSTERIOR. RESPONSABILIDADE DA SOCIEDADE SUCESSORA. [...]2. A responsabilidade tributária não está limitada aos tributos devidos pelos sucedidos, mas abrange as multas, moratórias ou de outra espécie, que, por representarem penalidade pecuniária, acompanham o passivo do patrimônio adquirido pelo sucessor. Fl. 341DF CARF MF 6 3. Segundo dispõe o artigo 113, § 3º, do CTN, o descumprimento de obrigação acessória faz surgir, imediatamente, nova obrigação consistente no pagamento da multa tributária. A responsabilidade do sucessor abrange, nos termos do artigo 129 do CTN, os créditos definitivamente constituídos, em curso de constituição ou "constituídos posteriormente aos mesmos atos, desde que relativos a obrigações tributárias surgidas até a referida data", que é o caso dos autos.( STJ, 2ª Turma, REsp 959.389/RS, Rel. Min. Castro Meira, 07/05/2009. DJ 21/05/2009)(grifado) Assim, entendo ser o sucessor plenamente responsável pelas multas da sucedida, devendo ser afastada a preliminar argüida de ilegitimidade passiva. Por tais razões, afastase a preliminar arguida pela Recorrente. II. Quanto à alteração do prazo para registro de embarques O Auto de Infração lavrado no caso concreto, consubstanciouse na IN/SRF 510/2005, a qual determinava o prazo de 2 (dois) para registro das mercadorias, após o embarque, porém, este comando foi alterado na marcha do presente processo, por meio da IN/RFB 1.096/2010, de 2 para 7 dias. Invocou a Recorrente que, este caso, aplicase a exegese do art. 2°, §1° do DL 4.657/42, na redação da Lei 12.376/2010 (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro LINDB), que determina: "a lei posterior revoga a anterior quando expressamente o declare, quando seja com ela incompatível ou quando regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior" c/c artigo 105 do CTN. Por outro lado, na fl. 10, consta uma Tabela que resume o que acontecer no caso: Vêse que apenas em 1 (um) caso DDE 208800391683 fora ultrapassado os 7 (sete) dias, exigidos pela IN/RFB 1.096/2010, e mais, pela decisão já proferida pela DRJ/FNS (fl. 109), apenas a multa sobre esta infração é que fora mantida, razão pela qual, comungase deste entendimento, dele ratificandose. Fl. 342DF CARF MF Processo nº 10715.005712/201001 Acórdão n.º 3401003.835 S3C4T1 Fl. 310 7 III. Do princípio da legalidade/tipicidade Disse a Recorrente que deve haver observância ao princípio da legalidade e da tipicidade, pois a fixação da forma e do prazo foram instituídos por meio da IN/SRF 28/1994, alterada pela IN/SRF 510/2005 e somente poderiam sêlos por intermédio de lei. Por outro lado, na vigência da IN/SRF 28/1994 a inobservância da obrigação estabelecida no seu art. 37 era entendida pela SRF como caracterizadora de embaraço à atividade de fiscalização aduaneira, conforme disposto em seu art. 44. A partir da superveniência da Medida Provisória 135/2003, convertida na Lei 10.833/2003, foi estabelecida, pelo artigo 77 que deu nova redação ao 37, do DL 37/66, para o transportador a obrigação de “prestar à Secretaria da Receita Federal, na forma e no prazo por ela estabelecidos, as informações sobre as cargas transportadas”. Portanto, vêse que há Lei, e esta, por seu turno, delegou à RFB a forma e o prazo a serem por ela estabelecidos, como de fato ocorreu com a IN/SRF 28/94, e posteriormente, com a IN/RFB 1.096/10. Deste modo, não há razão à Recorrente. IV. Da responsabilidade tributária por sucessão no que tocante às multas Ao votar quanto à preliminar, entendese que este assunto fora abordado, e neste particular, temse que razão não socorre à Recorrente, vez que os entendimentos jurisprudenciais abrangem também os casos de multas. Portanto, por economia, valendose dos fundamentos encampados no referido tópico a este deve ser estendido, não merecendo êxito às considerações feitas pela Recorrente. V. Da relevação da pena Defende a Recorrente que no caso concreto há de ser relevada a pena, sendo os autos encaminhados ao Secretário da Receita Federal do Brasil, nos termos do artigo 736 do RA, vez que não houve qualquer dano ao Erário, em razão de não haver incidência de tributos na exportação. O artigo 237 da Constituição Federal de 1988, dispõe: "Art. 237. A fiscalização e o controle sobre o comércio exterior, essenciais à defesa dos interesses fazendários nacionais, serão exercidos pelo Ministério da Fazenda." Vêse que a fiscalização e o controle sobre o comércio exterior são essenciais à defesa dos interesses do Erário nacional, portanto, este os bens jurídicos tutelados, não podendo o descumprimento da obrigação acessória, nesta hipótese, se sobrepor àqueles. Fl. 343DF CARF MF 8 Neste particular fora o voto proferido no acórdão 3102002.073. Acrescentase que, em casos de pena de perdimento mas tratando sobre o danos ao Erário , nos autos da Apelação Cível em Reexame Necessário 5001158 73.2012.404.7101, o TRF da 4a Região entendeu que este não se restringe a prejuízos de cunho material, configurandose como espécie de controle político e tributário, em razão da soberania das fronteiras. Por estas razões, entendese que não há razão ao argumento da Recorrente, não devendo ser conhecido do recurso em relação a tal matéria, que refoge à competência deste tribunal. Dispositivo Com estas considerações, conheço parcialmente do recurso voluntário e lhe nego provimento, mantendo a decisão da DRJ/FNS. André Henrique Lemos Relator Fl. 344DF CARF MF
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Numero do processo: 10120.911739/2011-05
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/01/2007 a 31/03/2007
PRECLUSÃO. NÃO CONHECIMENTO DE MATÉRIA NÃO IMPUGNADA.
Nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/72, considera-se preclusa a questão que não tenha sido suscitada expressamente em impugnação, de modo que sua colocação na peça recursal dirigida ao CARF é preclusa, não devendo ser conhecida.
SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE DOS SÓCIOS. IMPUTAÇÃO. COMPETÊNCIA. AUTORIDADE FISCAL.
Escapa à competência do CARF a imputação de responsabilidade aos sócios pelo crédito constituído sem sua menção no auto de infração.
DÉBITO TRIBUTÁRIO. CONSTITUIÇÃO. DCOMP.
O crédito tributário também resulta constituído nas hipóteses de confissão de dívida previstas pela legislação tributária, como é o caso da Declaração de Compensação.
Recurso voluntário negado.
Numero da decisão: 3402-004.317
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(Assinado com certificado digital)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente.
(Assinado com certificado digital)
Thais De Laurentiis Galkowicz - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: THAIS DE LAURENTIIS GALKOWICZ
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NÃO CONHECIMENTO DE MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/72, considerase preclusa a questão que não tenha sido suscitada expressamente em impugnação, de modo que sua colocação na peça recursal dirigida ao CARF é preclusa, não devendo ser conhecida. SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE DOS SÓCIOS. IMPUTAÇÃO. COMPETÊNCIA. AUTORIDADE FISCAL. Escapa à competência do CARF a imputação de responsabilidade aos sócios pelo crédito constituído sem sua menção no auto de infração. DÉBITO TRIBUTÁRIO. CONSTITUIÇÃO. DCOMP. O crédito tributário também resulta constituído nas hipóteses de confissão de dívida previstas pela legislação tributária, como é o caso da Declaração de Compensação. Recurso voluntário negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (Assinado com certificado digital) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 91 17 39 /2 01 1- 05 Fl. 313DF CARF MF 2 (Assinado com certificado digital) Thais De Laurentiis Galkowicz Relatora. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto em face da decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento (“DRJ”) de Belém/PA, que declarou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pelo Contribuinte contra Despacho Decisório nº nº 1039/2012, fls. 157/168,. Tal Despacho indeferiu o Pedido de Ressarcimento do IPI nº 39667.14632.131107.1.1.010699, formalizado em 13 de novembro de 2007, solicitando o valor total de R$ 72.689,00, referente ao 1º trimestre de 2007, e não homologou a Declaração de Compensação (Dcomp) n. 13458.07181.131107.1.3.011091. Por bem consolidar os fatos que deram ensejo ao presente processo, bem como os argumentos trazidos pela Contribuinte em sede de manifestação de inconformidade, com riqueza de detalhes, colaciono o relatório do Acórdão da DRJ in verbis: Segundo a Unidade de origem, no curso de Ação Fiscal, foi detectado que o sujeito passivo não era contribuinte do IPI e que intimada, foi incapaz de demonstrar o crédito pleiteado. Concluiu o SEFIS/DRF/GOI: “que a Interessada valeuse dos PERDcomp para, mediante declaração falsa de ser possuidora de crédito de IPI, pleitear o ressarcimento do crédito e utilizálo em compensações de tributos, de modo a reduzir indevidamente suas obrigações tributárias”. Cientificada do despacho decisório em 24 de julho de 2012, AR à fl. 179, a interessada apresentou manifestação de inconformidade, fls. 181/246, em 23 de agosto de 2012, na qual esclarece sobre os sócios administradores à época: “a autuação da pessoa jurídica deve ser lavrada em litisconsórcio com seus sócios administradores à época dos atos fraudulentos, que assinavam em conjunto e eram pessoalmente responsáveis pelos atos cometidos com excesso de poderes e contra a lei, nominadamente CAIRO ROBERTO GOMES, (...) e LUIZ VIEIRA DA PAIXÃO (...). ”Isto porque caso não sejam chamados a se defender no processo administrativo, a cobrança voltada contra si é nula por cerceamento de defesa. Além do que é inconstitucional o prosseguimento da perseguição apenas da pessoa jurídica que, apesar de,ser o contribuinte legal e, em última instância, sempre será obrigada perante a Fazenda, é, antes de tudo, um ser inanimado, que é incapaz de cometer fraude” (...) Fl. 314DF CARF MF Processo nº 10120.911739/201105 Acórdão n.º 3402004.317 S3C4T2 Fl. 112 3 Verificase dos instrumentos contratuais juntados que, desde sua criação até o registro da 6a Alteração, em 05/12/2011, perante a JUCEG, os sócios DR. CAIRO ROBERTO GOMES e DR. LUIZ VIEIRA DA PAIXÃO era administradores da empresa, sendo o último, inclusive, o sócio responsável perante esta Receita Federal. Assim, durante todo o período em que geradas as Perdcomp e suas retificadoras, as ordens eram dadas por ambos, os únicos responsáveis pela aquisição e utilização de créditos ilegais e, pior, ao que tudo indica, sequer existentes. Como o contribuinte explicou exaustivamente nas respostas às Notificações enviadas ao longo do procedimento de fiscalização, NÃO teve acesso à qualquer documento além dos que lhe foi possível juntar, quais sejam recibos passados pelo contador da época SR. MÁRCIO ADRIANO e o seu contrato de prestação de serviços com a empresa. O fato é que a atual administração vem empreendendo todos os esforços necessários, principalmente em relação aos débitos que a empresa tinha em aberto com o Fisco, realizando todos os procedimentos de adesão ao Parcelamento da Lei n. 11.941 até o seu final, quitando todos os valores e regularizando o cumprimento de todas as obrigações, sejam principais ou acessórias. No entanto, o que foi feito antes, pela administração anterior, não pode Ser imputado a ninguém mais do que os próprios administradores. De modo que, ainda que a empresa seja responsável pelo tributo e pelas multas e consectários, fato é que seus administradores são coresponsáveis uma vez que foi deles que partiu a ordem para compra e para lançamento dos créditos indevidos de IPI utilizados nas indigitadas Perdcomp. A respeito dos débitos efetivamente compensados – não homologados: Em 17/11/2011 foi enviado Dcomp retificador demonstrando que os tributos que realmente poderiam ser compensado somariam apenas R$ 42.200,33(quarenta e dois mil, duzentos reais e trinta e três centavos). Esclarece acerca de débitos já em Per/dcomps anteriores: As competências de PIS e COFINS de agosto de 2007 já haviam sido lançadas no Dcomp 19410.89459.300108.1.3.010050 que já está sendo cobrado no PAT n. 10120.911740/201121, segundo o Despacho Decisório n. 1.040/2012. Em relação ao INSS empregador: Quanto ao INSS da competência de agosto de 2007, citada no Dcomp, é forçoso verificar que foi parcelado na Lei n. 11.941/09, sob o Debcad 37.180.7638, que lançou o INSS empregador do período de 02/2007 à 02/2008. Sobre o IRPJ quando houve prejuízo fiscal: Fl. 315DF CARF MF 4 (...) a empresa fechou a apuração do Lucro Real com Prejuízo, de modo que, no ano de 2007 não apurou IRPJ que tivesse deixado de ser recolhido através das Perdcomp. Cita que levantou os tributos em cada um dos PER/Dcomps, e alega que foram lançados mais de uma vez e junta o recibo de parcelamento e o lançamento de ofício realizado no processo 10120.012629/200855 Com relação aos PER/Dcomp 39667.14632.131107.1.1.010699 e 13458.07181.131107.1.3.01 1091, 5344, informa que foram indevidamente extintos sob condição resolutória os seguintes tributos CSLL e IRRF, do PA ago/2007. Requer por fim, que: “Por todo o exposto e provado, PUGNASE SEJA FEITA A REVISÃO do Lançamento para: 1) incluir os sócios administradores da época no pólo passivo, e, 2) corrigir o valor do lançamento em face da demonstração do valor indevidamente compensado.” Em julgamento datado de 12 de agosto de 2014, a DRJ Belém/PA negou provimento manifestação de inconformidade do Contribuinte (Acórdão 0129.782), nos termos da ementa a seguir colacionada: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2007 a 31/03/2007 SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE DOS SÓCIOS. Escapa à competência das Delegacias da Receita Federal de Julgamento a apreciação da responsabilidade dos sócios pelo crédito constituído. DÉBITO TRIBUTÁRIO. CONSTITUIÇÃO. ERRO. ÔNUS DA PROVA. O crédito tributário também resulta constituído nas hipóteses de confissão de dívida previstas pela legislação tributária, como é o caso da Declaração de Compensação. Tratandose de suposto erro de fato que aponta para a inexistência do débito declarado, o contribuinte possui o ônus de prova do direito invocado. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Irresignado, o Contribuinte recorre a este Conselho, repisando os argumentos trazidos em sua impugnação ao lançamento tributário É o relatório. Voto Conselheira Relatora Thais De Laurentiis Galkowicz Fl. 316DF CARF MF Processo nº 10120.911739/201105 Acórdão n.º 3402004.317 S3C4T2 Fl. 113 5 O Recurso Voluntário é tempestivo, o patrono encontrase regularmente constituído nos autos e a matéria está inserta na esfera de competências 3ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais ("CARF"), assim dele tomo conhecimento. Como se depreende do relato acima, a Recorrente não se insurge contra o entendimento da Fiscalização sobre ser indevido o crédito que embasou o PER/DCOMP 13458.07181.131107.1.3.011091. ora sob análise. A discussão, isto sim, resumese a problemas apontados nos débitos ali declarados, quais sejam: i) são débitos em duplicidade em relação a outras DCOMPs, algumas homologadas e outras não; ii) alguns outros débitos foram objeto de parcelamento tributário; ou iii) tratase de débito referente a multas e juros simplesmente inexistentes, uma vez que não ocorreram lançamentos de ofício referente aos período a que tais imposições seriam correlatas. Lembremos que, de acordo com a legislação fiscal, tais débitos são considerados como objeto de confissão pelo Contribuinte. A este respeito, o CARF já se manifestou no sentido de que "dado o caráter de confissão de dívida dos débitos constantes da DCOMP, deve a autoridade julgadora apreciar as alegações pertinentes aos créditos e débitos compensados, cancelandose eventual exigência indevida por erro de fato contido na Declaração de Compensação." (Acórdão n. 180300.530, Processo n. 10768.100181/200314). Pois bem. Analisando a documentação trazida aos autos, e os pontos de inconformidade apontados pela Recorrente, entendo que mesmo sem os livros e demais documentos fiscais/contábeis que a Recorrente alega não mais possuir justamente porque extraviados durante a mágestão dos diretores que pretenderam efetuar as compensações com créditos tributário indevidos , é possível uma análise das alegações trazidas pela conferência dos débitos constantes desse Processo com aquel'outros apontados pela Recorrente, além de um levantamento dos débitos constantes do Parcelamento com a Receita Federal contratado pela Recorrente. Assim, para o deslinde do litígio aqui instaurado, entendo ser necessário converter o julgamento do recurso voluntário em diligência, para que a autoridade fiscal de origem elabore relatório conclusivo a respeito: i) da existência de débitos (mesmos períodos de apuração, mesmo tributo e mesmos valores) informados em duplicidade, por serem objeto repetidamente dos PER/DCOMP de n. 08779.03885.100807.1.3.015207, 18368.12432.080507.1.2.021260, 11349.38930.260607.1.3.020080 e 00706.98149.260607.1.3.027071, 20585.48289.260607.1.3.029830, 13458.07181.131107.1.3.011091, 19410.89459.300108.1.3.010050, 20354.91514.110208.1.3.015223 e 02882.73542.190208.1.3.014370, 35066.97115.300108.1.1.013476, 39667.14632.131107.1.1.010699, destacando estarem os débitos duplicados já extintos ou não por homologação das compensações; ii) a existência de débitos (mesmos períodos de apuração, mesmo tributo e mesmos valores) declarados no PER/DCOMP 13458.07181.131107.1.3.011091 que estejam sendo adimplidos por meio de parcelamento tributário (Lei n. 11.941/2009), destacando estarem os débitos já extintos pela adimplemento do programa de parcelamento ou não; Fl. 317DF CARF MF 6 iii) a existência de débitos declarados no PER/DCOMP 13458.07181.131107.1.3.011091 que sejam decorrentes de multas ou juros inexistentes, uma vez que o período ao qual fazem referência nunca foi objeto da lavratura de lançamento de ofício; iv) caso confirmados os valores em duplicidade, parcelados ou indevidos (itens i, ii e iii acima), requerse que a Autoridade Fiscal de origem especifique o débito tributário que deve permanecer nestes autos como declarados pela Recorrente no PER/DCOMP 13458.07181.131107.1.3.011091; v) finalmente, uma vez juntado o relatório conclusivo da fiscalização, seja aberta vista à Recorrente para, querendo, manifestarse sobre seu conteúdo. Ressalto que a diligência requerida aqui deve ser realizada conjuntamente com aquelas solicitadas nos Processos de n. 10120.911740/201121. e de n. 10120.911738/201152. Contudo, restei vencida por voto de qualidade na citada proposta da conversão do julgamento em diligência, em sessão de julgamento de 27 de junho de 2017. A Turma de Julgamento entendeu que não cabe em processo derivado de compensação a análise dos débitos nele constantes, mas tão somente dos créditos. Assim, caso de fato haja débitos cobrados de forma equivocada, infelizmente deverá a Recorrente se submeter ao caminho da repetição do indébito para ver garantido seu direito. Passo ao julgamento do mérito do processo. 1. Sobre o pretendido litisconsórcio com seus sócios administradores O lançamento tributário é ato administrativo de competência da autoridade fiscalizadora, nos termos do artigo 142 do Código Tributário Nacional (CTN), com relação a todos os elementos que fazem parte da relação jurídica tributária, dentre eles a sujeição passiva. Dessarte, seja no que tange ao contribuinte propriamente dito (quem pratica o fato gerador do tributo, no caso, a Recorrente artigo 121, inciso I do CTN), seja sobre eventuais responsáveis (no caso, eventualmente, os sócios administradores artigo 121, inciso II do CTN), sua inserção como sujeito passivo da obrigação tributária em lançamento de ofício é função da autoridade fiscal (o que é chamado pela Recorrente de litisconsórcio e chamamento do processo, valendose de figuras processuais constante do Código de Processo Civil, mas inexistente no processo administrativo fiscal), e não das instância de julgamento do processo administrativo fiscal, a quem incumbe julgar as impugnações, manifestações de inconformidade e recursos voluntários, conforme dispõe o Decreto 70.235/72. É nesse sentido que tornase impossível acolher a pretensão da Recorrente sobre a atribuição da responsabilidade tributária às pessoas físicas responsáveis pelos atos que deram ensejo aos presentes processos administrativos. Juridicamente, quem efetuou as compensações mediante a utilização de créditos inexistentes foi a pessoa jurídica, sendo impossível o seu afastamento do processo administrativo. 2. Da Homologação Tácita Como bem colocado pela decisão recorrida, sobre a argumentação que PER/Dcomps 18368.12432.080507.1.2.021260, 11349.38930.260607.1.3.020080 e 00706.98149.260607.1.3.027071, estariam homologados tacitamente, não é cabível a sua apreciação, à medida que os citados PER/Dcomps não estão incluídos no despacho decisório nº 1038/2012, objeto do litígio deste processo. Fl. 318DF CARF MF Processo nº 10120.911739/201105 Acórdão n.º 3402004.317 S3C4T2 Fl. 114 7 Não é necessário tecer maiores esclarecimento de que não pode este Colegiado se manifestar sobre algo que não faz parte do processo administrativo. 3. Dos demais valores Como destacado acima, a Recorrente não contesta o fato de os créditos de IPI pretendidos neste processo são de fato inexistentes. Assim, aquiesce com a fiscalização que não homologou as compensações nesse ponto. Tratase, portanto, de questão preclusa, nos termos do artigo 17 do Decreto nº 70.235/72. Ademais, tendo essa turma de julgamento decidido por voto de qualidade questão prejudicial ao pleito da Recorrente, no sentido de que não é cabível a verificação dos apontados erros relativos aos débitos que constam das compensações, não resta o que fazer nesse processo se não reconhecer que as compensações pretendidas não podem ser validadas, pois não há crédito para fazer frente aos débitos nelas apontados. Débitos esses que foram confessados, haja vista a regra contida no artigo 74, § 6º, da Lei nº 9.430, de 1996, “a declaração de compensação constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensado." 4. Dispositivo Ex positis, voto no sentido de negar provimento o recurso voluntário Relatora Thais De Laurentiis Galkowicz Fl. 319DF CARF MF
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Numero do processo: 10830.725974/2012-22
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Sep 14 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Oct 05 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007, 2008
LUCRO PRESUMIDO. VENDA DE MATERIAIS ADQUIRIDOS DA FRANQUEADORA AOS FRANQUEADOS. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO DO LUCRO.
A atividade de venda de materiais adquiridos da franqueadora aos franqueados, que não se caracteriza propriamente como comercial sujeita, esta, ao percentual de presunção do lucro presumido sobre a receita bruta de 8% (oito por cento) , submete-se ao percentual de presunção de 32% (trinta e dois por cento). Precedentes. Acórdão nº 9101-002.552, da 1ª Turma da CSRF.
Numero da decisão: 9101-003.098
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas quanto à infração tributária no qual se majorou o coeficiente de determinação do lucro presumido. No mérito, na parte conhecida, por maioria de votos, acordam em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro Demetrius Nichele Macei.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rego Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Leonardo de Andrade Couto (suplente convocado), Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Demetrius Nichele Macei (em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rego (Presidente em exercício).
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VENDA DE MATERIAIS ADQUIRIDOS DA FRANQUEADORA AOS FRANQUEADOS. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO DO LUCRO. A atividade de venda de materiais adquiridos da franqueadora aos franqueados, que não se caracteriza propriamente como comercial sujeita, esta, ao percentual de presunção do lucro presumido sobre a receita bruta de 8% (oito por cento) , submetese ao percentual de presunção de 32% (trinta e dois por cento). Precedentes. Acórdão nº 9101002.552, da 1ª Turma da CSRF. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas quanto à infração tributária no qual se majorou o coeficiente de determinação do lucro presumido. No mérito, na parte conhecida, por maioria de votos, acordam em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro Demetrius Nichele Macei. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rego – Presidente em exercício AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 72 59 74 /2 01 2- 22 Fl. 28325DF CARF MF Processo nº 10830.725974/201222 Acórdão n.º 9101003.098 CSRFT1 Fl. 28.326 2 (assinado digitalmente) André Mendes de Moura – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Leonardo de Andrade Couto (suplente convocado), Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Demetrius Nichele Macei (em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rego (Presidente em exercício). Relatório Tratase de Recurso Especial (efls. 28155/28189) interposto pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional ("PGFN") em face da decisão proferida no Acórdão nº 1201000.941 (efls. 28127/28153), pela 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da Primeira Seção, na sessão de 11/02/2014, no qual foi dado provimento ao recurso voluntário interposto pela Contribuinte. Resumo Processual A autuação fiscal (efls. 27828/27411), relativa aos anoscalendário de 2007 e 2008, discorre sobre a definição do coeficiente de determinação do lucro presumido aplicável para o fornecimento de materiais vinculados a contratos de franquia em escola de idiomas. Entendeu a Fiscalização que a CWM CONSULTORIA E PARTICIPAÇÕES LTDA ("Contribuinte") teria aplicado incorretamente o percentual de 8% sobre as vendas de materiais didáticos, vez que não caberia a segregação de tais receitas porque estariam inseridas no contrato de franquia. Assim, efetuou o lançamento de ofício para determinar a imputação do coeficiente de 32% (IRPJ e CSLL) sobre a totalidade do faturamento da atividade de franquia, por serem receitas de atividades de cessão de direitos. A multa de ofício foi qualificada (150%). A Contribuinte apresentou impugnação (efls. 27417/27483), que foi julgada improcedente (efls. 27882/27939) pela primeira instância (DRJ). Irresignada, a Contribuinte interpôs recurso voluntário (efls. 27980/28000), no qual foi dado provimento (efls. 28127/28153) pela segunda instância (Turma Ordinária do CARF). Foi interposto pela PGFN recurso especial (efls. 28155/28189), que foi admitido pelo despacho de exame de admissibilidade de efl. 28192/28195. Foram apresentadas contrarrazões pela Contribuinte (efls. 28202/28253). A seguir, maiores detalhes sobre a fase contenciosa. Da Fase Contenciosa. A contribuinte apresentou impugnação (efls. 27417/27483), que foi julgada improcedente pela 4ª Turma da DRJ/Campinas, nos termos do Acórdão nº 0540.524 (efls. 27882/27939), conforme ementa a seguir. Fl. 28326DF CARF MF Processo nº 10830.725974/201222 Acórdão n.º 9101003.098 CSRFT1 Fl. 28.327 3 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008 Lucro Presumido. Fornecimento de Materiais vinculados a Contratos de Franquia de Escolas de Idioma. Percentual de Presunção. Configura cessão de direitos de qualquer natureza o contrato de franquia em que se prescreve a cessão de direitos de uso da marca, do nome e logotipo de empresa do segmento de escolas de idiomas, assim como a cessão de direitos de uso dos métodos de ensino e sistemas administrativos, mercadológicos, comerciais e operacionais. Constituemse remuneração indireta do contrato de franquia, as receitas decorrentes de fornecimentos, a empresas franqueadas, de materiais que veiculam a marca e a tecnologia de ensino da empresa franqueadora, ainda que efetuados por empresas designadas por esta última. Tais fornecimentos, regidos pelas normas restritivas do contrato, devem receber o tratamento tributário específico previsto para as receitas decorrentes de cessão de direitos de qualquer natureza, submetendose ao percentual de presunção do lucro de 32% (trinta e dois por cento). Não é por ser a franquia um contrato complexo, que seria possível a sua fragmentação em diversos outros contratos, sob pena de completa descaracterização de sua natureza jurídica. Fraude. Caracterização. Configura fraude a informação prestada à RFB acerca da atividade principal da empresa, como sendo o comércio de livros, tendo em conta fornecimentos de materiais exclusivamente a empresas franqueadas, efetuados no âmbito e sob as regras e condições restritivas de um contrato de franquia. O procedimento fraudulento se vislumbra também na modificação dolosa de características essenciais do fato gerador (base de cálculo), na escrituração e nas declarações apresentadas de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar o seu pagamento. Multa Qualificada. Sanção Administrativa e Patrimonial. Inaplicabilidade das Normas e Princípios do Direito Penal. As normas e princípios do direito penal, relativas a excludentes de ilicitude ou dirimentes, tendo em conta as sanções restritivas de liberdade ali cominadas, não são aplicáveis às sanções administrativas de caráter exclusivamente patrimonial, previstas no âmbito do direito tributário, ainda que fundamentadas em condutas qualificadas pelo dolo. Tributação Reflexa. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL. Fl. 28327DF CARF MF Processo nº 10830.725974/201222 Acórdão n.º 9101003.098 CSRFT1 Fl. 28.328 4 Na medida em que as exigências reflexas têm por base os mesmos fatos que ensejaram o lançamento do imposto de renda, a decisão de mérito prolatada naquele constitui prejulgado na decisão dos autos de infração decorrentes. Foi interposto recurso voluntário (efls. 27980/28000) pela Contribuinte. A 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da Primeira Seção, na sessão de 11/02/2014, decidiu no sentido da dar provimento ao recurso voluntário, conforme Acórdão nº 1201000.941 (efls. 28127/28153) nos termos da ementa a seguir. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2007, 2008 CONTRATO DE FRANQUIA. A natureza jurídica do contrato de franquia, por ser complexa e híbrida, implica em relações jurídicas diferentes entre si, passíveis de segregação e individualização. Dentre as atividades que encontramos nesse complexo relacional está a atividade de cessão de direitos, a cessão de knowhow, a distribuição, a prestação de serviços e a venda de mercadorias. No caso em apreço a fiscalização não individualizou as operações, preferindo imputar toda a receita da venda de mercadorias como royalties, utilizando uma base de cálculo presumida de 32%. Diante disso, o artigo 519 do RIR é muito claro em contemplar possibilidades de que uma mesma pessoa jurídica tenha objetivos sociais diversos, hipótese em que cada uma dessas atividades deverá se submeter ao percentual específico para apuração da base de cálculo do lucro presumido. Da mesma forma deve ser o entendimento aplicado quanto à CSLL. Foi interposto pela PGFN recurso especial (efls. 28155/28189). Discorre sobre duas divergências. Na primeira, o acórdão paradigma nº 140100.289 apreciou autuação fiscal de empresa integrante do mesmo grupo econômico da Contribuinte, e naquele caso entendeu que as atividades de comércio de materiais didáticos, promocionais, publicitários e administrativos, previsto nos contratos de franquia, são indissociáveis, por representar uma atividademeio que viabiliza a cessão do direito de uso, razão pela qual não poderiam ser tributados como uma simples operação mercantil independente. Ou seja, caberia a aplicação do coeficiente de determinação do lucro presumido de 32% (cessão de direitos da franquia). Na segunda, trata da qualificação da multa de ofício, no paradigma nº 10196.908, no qual tratou da situação em que a prática reiterada de omitir receitas justificaria a imputação da multa no percentual de 150%. O recurso foi admitido por despacho de exame de admissibilidade (efls. 28192/28195). A Contribuinte apresentou contrarrazões (efls. 28202/28253), no qual aduz sobre a inadmissibilidade do recurso especial da PGFN em relação à matéria multa qualificada, Fl. 28328DF CARF MF Processo nº 10830.725974/201222 Acórdão n.º 9101003.098 CSRFT1 Fl. 28.329 5 vez que não teria restado demonstrada a divergência na interpretação da legislação tributária pelo paradigma nº 10196.908, que tratou de forma genérica casos em que houve constatação de fraude e simulação e, por isso, não guardam semelhança com os presentes autos. No mérito, menciona parecer do Professor Paulo de Barros Carvalho no qual entende que, tendo em vista que a Contribuinte tem por objeto social várias atividades, ainda que relacionadas com o contrato da franquia, a cada atividade cabe a aplicação do coeficiente de determinação do lucro presumido específico. Discorre que se equivoca a autoridade fiscal quando adota premissa de que os contratos de franquia seriam indissociáveis, vez que há possibilidade de fragmentação das atividades exercidas quanto ao regime de tributação. Aduz que não se sustenta o entendimento de que os contratos de franquia seriam remunerados por meio da venda de material didático, que a empresa não está obrigada, legalmente, a cobrar royalties de sua rede franqueada, que não há nenhuma ilegalidade no fato de se exigir limites mínimos para a aquisição de materiais e que seria plenamente possível a Fiscalização adotar um critério para a segregação das receitas, ou seja, não haveria motivos o procedimento da autuação fiscal de considerar 100% da receita como proveniente da cessão de direito de uso. Também discorre sobre a improcedência da multa qualificada, vez que não houve a tipificação da conduta prevista nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964, tampouco cabe a caracterização de simulação prevista no Código Civil, porque as situações que ensejam qualificação da penalidade estão previstas na mencionada Lei nº 4.502, de 1964. É o relatório. Voto Conselheiro André Mendes de Moura Foram devolvidas as matérias: (1ª) infração tributária no qual se majorou o coeficiente de determinação do lucro presumido (para 32%) e (2ª) multa qualificada. Admissibilidade. Em relação à matéria coeficiente de determinação do lucro presumido, adoto as razões do despacho de exame de admissibilidade (efls. 28192/28195) para conhecer do recurso especial da PGFN nessa parte. No que concerne à multa qualificada, entendo que a matéria não deve ser conhecida. Isso porque os paradigmas não se mostram a demonstrar a divergência na interpretação da legislação tributária. Quanto ao acórdão n° 10196.756, a situação que motivou a qualificação da multa é assim descrita: O lançamento efetuouse com base na presunção de omissão de rendimentos com base em divergências apuradas em notas fiscais emitidas pela contribuinte, havendo divergências entre os Fl. 28329DF CARF MF Processo nº 10830.725974/201222 Acórdão n.º 9101003.098 CSRFT1 Fl. 28.330 6 valores e destinatários registrados na via apresentada pela contribuinte e a via apresentada pela contratante. Entendo que os documentos adulterados comprovam a fraude realizada pelo Contribuinte, na medida em que as notas apresentadas contém insubsistências, com valores muito inferiores se comparadas ao montante registrado nas notas fiscais apresentadas pelas partes contratantes, razão pela qual deve ser mantida a qualificação da multa. (Grifei) Como se pode observar, falase em utilização de documentos com adulteração, de notas fiscais com valores falsos, evidenciandose a ocorrência da fraude na acepção mais literal da palavra, e que foi o fator determinante para a qualificação da multa de ofício. Tratase, portanto, de situação que não guarda nenhuma similitude fática com os presentes autos, no qual não se encontra em nenhum momento a ocorrência de situações que guardam utilização de documentos artificiais ou adulterados. Em relação ao acórdão n° 10196.908, transcrevo os fundamentos adotados pela autoridade autuante para qualificar a multa de ofício: Por fim, aplicou a multa de oficio qualificada, sob o fundamento de que a prática reiterada da contribuinte de omitir a totalidade ou extensa parcela do faturamento evidencia o intuito da contribuinte em retardar o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador, configurandose sonegação. A contribuinte utilizouse de declarações falsas, posto que, em relação aos anos 2000 a 2002, informou a condição de inativa; e, nos anos 2003 e 2004, escriturou receitas de vendas nos livros de apuração do ICMS não informadas nas Declarações Simplificadas apresentadas nem nas DCTFs, demonstrando a consciência da conduta da contribuinte. Vale ainda transcrever excerto do voto: A prática reiterada da contribuinte em omitir, mediante declaração falsa de inatividade, nos anos 2000 a 2002, e em reduzir, nos anos seguintes, consideravelmente o montante das receitas auferidas, a percentual inferior a 2% da receita auferida, caracterizam a intenção fraudulenta do sujeito passivo e, por conseguinte, a aplicação da multa qualificada de 150%. Eventual retificação das declarações prestadas ao fisco, posteriormente ao inicio de qualquer procedimento de oficio de fiscalização, não tem o condão de descaracterizar a conduta fraudulenta da contribuinte. Ora, a autuação dispõe sobre declaração falsa de inatividade e omissão reiterada de receitas em percentual inferior a dois por cento. Como se pode observar, a situação não se comunica com a tratada pelos presentes autos. Portanto, voto no sentido de não conhecer do recurso especial em relação à matéria multa qualificada. Fl. 28330DF CARF MF Processo nº 10830.725974/201222 Acórdão n.º 9101003.098 CSRFT1 Fl. 28.331 7 Assim, em razão do conhecimento parcial em relação à matéria coeficiente de determinação do lucro presumido, passo ao exame do mérito. Mérito. Conforme aduzido pela própria Contribuinte em contrarrazões (efls. 28210/28211), a matéria dos presentes autos já foi discutida em outro processo, de empresa do mesmo grupo econômico, no mesmo contexto dos presentes autos: Para o tema relativo ao percentual do lucro presumido foi utilizado como paradigma o Acórdão nº 140100.289, oriundo da 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento deste E. Conselho, relativo ao Auto de Infração lavrado em face da empresa LINX BRASIL DISTRIBUIDORA LTDA, resultado do mesmo procedimento fiscalizatório que ensejou a presente autuação, que também se encontra para julgamento perante esta Egrégia 1ª Turma. (Grifei) E o processo mencionado pela Contribuinte foi recentemente apreciado pelo presente Colegiado, na sessão de 08 de fevereiro de 2017. Tratase do processo nº 10830.009437/200774. Na ocasião, foi negado provimento ao recurso especial da Contribuinte (LINX BRASIL DISTRIBUIDORA LTDA), por voto de qualidade, no Acórdão nº 9101 002.552, nos termos da seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Data do fato gerador: 30/06/2001, 30/09/2001, 31/12/2001, 31/03/2002, 30/09/2002, 31/12/2002, 31/03/2003, 30/06/2003, 30/09/2003, 31/12/2003, 31/03/2004, 30/06/2004, 30/09/2004, 31/12/2004, 31/03/2005, 30/06/2005, 30/09/2005, 31/12/2005 LUCRO PRESUMIDO. VENDA DE MATERIAIS ADQUIRIDOS DA FRANQUEADORA AOS FRANQUEADOS. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO DO LUCRO. A atividade de venda de materiais adquiridos da franqueadora aos franqueados, que não se caracteriza propriamente como comercial sujeita, esta, ao percentual de presunção do lucro presumido sobre a receita bruta de 8% (oito por cento) , submetese ao percentual de presunção de 32% (trinta e dois por cento). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por voto de qualidade, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro suplente Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa. Solicitaram apresentar Fl. 28331DF CARF MF Processo nº 10830.725974/201222 Acórdão n.º 9101003.098 CSRFT1 Fl. 28.332 8 declaração de voto os conselheiros Luis Flávio Neto e Rafael Vidal de Araújo. Nesse contexto, peço vênia para transcrever o voto do Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão, que, como visto, tratou da mesma matéria. A matéria posta à apreciação desta Câmara Superior referese ao percentual de presunção do lucro presumido sobre a receita bruta, no caso específico da atividade de venda de materiais adquiridos da franqueadora aos franqueados, se de 8% (oito por cento) ou de 32% (trinta e dois por cento). Entendo que não se pode ter como “Comércio Atacadista de Livros, Jornais e outras Publicações” (CNAE 4647802) a atividade da Recorrente, de venda de materiais adquiridos da franqueadora aos franqueados. Ora, os materiais vendidos, além de só poderem ser adquiridos da franqueadora, também somente podem ser vendidos às franqueadas, por força de acordo de distribuição exclusiva, não se destinando, pois, ao público consumidor em geral. Entendo que, para que se pudesse ter como “Comércio Atacadista de Livros, Jornais e outras Publicações” a atividade da Recorrente, necessário se faria, por exemplo, que suas práticas não desatendessem ao disposto no art. 39, inciso IX, da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990 (Código de Defesa do Consumidor CDC): Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas: (Redação dada pela Lei nº 8.884, de 11.6.1994) [...]; IX recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, diretamente a quem se disponha a adquirilos mediante pronto pagamento, ressalvados os casos de intermediação regulados em leis especiais; (Redação dada pela Lei nº 8.884, de 11.6.1994) Ou seja, a Recorrente, com não vender os materiais adquiridos da franqueadora “a quem se disponha a adquirilos mediante pronto pagamento”, mas, única e exclusivamente, aos franqueados, não está a exercer, propriamente, o “comércio” desses materiais, como simples “vendedora”, mas, sim, a sua intermediação, como distribuidora, decorrente, não de “contrato de compra e venda”, mas de acordo de distribuição exclusiva a aquisição e a venda são efetuadas apenas em decorrência desse acordo. Nesse mesmo sentido, assim se manifestou o voto vencedor da decisão recorrida (efls. 834, grifei): Pelo TVF ainda se constata que a Wizard foi a primeira empresa do grupo a ser constituída, e é em função de suas atividades que a fiscalizada (Linx) opera, funcionando como braço distribuidor e Fl. 28332DF CARF MF Processo nº 10830.725974/201222 Acórdão n.º 9101003.098 CSRFT1 Fl. 28.333 9 logístico da franqueadora Wizard, sendo responsável em fazer chegar aos franqueados o respectivo material didático. E não sendo a sua atividade, propriamente, a comercial (“simples vendedora de material didático”) — sujeita, esta, ao percentual de presunção do lucro presumido sobre a receita bruta de 8% (oito por cento) —, submetese, ela, ao percentual de presunção de 32% (trinta e dois por cento). Aditese que os franqueados, da mesma forma, por força de contratos de franquia, apenas podem adquirir materiais, ou da Recorrente ou de outras empresas em situação idêntica (acordo de distribuição exclusiva), o que, de igual modo, descaracteriza, completamente, a mera “atividade comercial”. Como bem ressaltado pela contraarrazoante, “a compra de materiais pelas franqueadas independe da sua vontade; varia de acordo com os elementos impostos pela franqueadora” (efls. 1.302). Notese, também, que, não sendo a Recorrente, efetivamente, “comerciante de livros didáticos”, mas intermediadora decorrente de acordo de distribuição exclusiva, a sua margem de lucro em face da absoluta inexistência de concorrência na distribuição do material didático às franqueadas — extrapola, em muito, à que lhe caberia se comerciante fosse, conforme bem destacado pelo voto vencedor da decisão recorrida (efls. 835, destaquei): O autuante também constatou que, diferente do que acontece na atividade de comércio, onde o lucro efetivo oscila na faixa dos 8% (sendo esta, justamente, a razão que levou o legislador à adoção deste coeficiente para o Lucro Presumido), a margem de lucro da recorrente chegou a superar o índice dos 90% (noventa por cento), conforme coleta de dados constante em tabela de dados do TVF. Por outro lado, como bem salientado pelo voto vencedor da decisão recorrida, “não se pode desvincular a atividade praticada pelo fiscalizado do restante do grupo, sob pena de descaracterização da franquia e seu correspondente complexo negocial” (efls. 838). E mais adiante (efls. 838 a 840): A Wizard autoriza a Linx a distribuir, diretamente, a determinados franqueados o material didático usado em seus cursos, sem esclarecer as relações jurídicas por meio das quais isso se tornaria possível. Depois, quer fazer crer que o mero fato de o franqueador do método de ensino (Wizard) ter optado por distribuir parte de seu material didático por outra empresa do grupo (Recorrente) teria o poder mágico de transformar uma operação de cessão de direitos em um simples comércio de livros. [...]. Fl. 28333DF CARF MF Processo nº 10830.725974/201222 Acórdão n.º 9101003.098 CSRFT1 Fl. 28.334 10 Equivocase a defesa ao argumentar que, dada a complexidade das relações jurídicas envolvidas em um contrato de franquia, seria possível a sua fragmentação: de um lado, o contrato de franquia; e de outro, o fornecimento de materiais, pois não existe um contrato de fornecimento de materiais dentro de um contrato de franquia, sob pena de descaracterização deste último. O contrato de fornecimento, e outros mais, são meros acessórios (atividades meio) ao contrato principal de cessão de direitos (atividade fim). [...]. Fica patente, portanto, a impossibilidade de fragmentação do contrato de franquia em vários outros contratos, sob pena de descaracterização da natureza jurídica da própria franquia, que engloba necessariamente uma prestação de serviços e uma distribuição de certos produtos, de acordo com as normas convencionadas. Retirados quaisquer dos elementos distintivos do contrato de franquia, terseá um contrato de outra natureza. [...]. Diante da impossibilidade dessa indissociabilidade, cai por terra também toda a argumentação da recorrente no sentido de que a fiscalização deveria ter segregado a tributação e, não tendo feito isso, separando as operações mercantis da cessão de direitos, errara na base de cálculo. Ou seja, não é possível se admitir, também, como mera “comerciante de livros didáticos”, pessoa jurídica que só os vende, única e exclusivamente, por força de contrato de franquia. À conclusão análoga chegou a contraarrazoante (efls. 1.302 e 1.303, destaques do original): O comércio varejista de materiais didáticos, administrativos e promocionais, disciplinado pelos contratos de franquia, em nada se assemelha às usuais práticas de compra e venda. Da forma como o contribuinte estabeleceu no contrato, as condições para aquisição e fornecimento de materiais, a comercialização desses produtos não decorre das necessidades das franqueadas (adquirentes), mas sim das imposições da franqueadora (alienante). As regras para aquisição de materiais, impostas pelos contratos de franquias, estão mais próximas de um contrato de adesão, pelo qual a franqueada adere ou não às condições de compra estabelecidas pela franqueadora, do que de um contrato de compra e venda, onde a quantidade a ser negociada dependerá da vontade das partes e, principalmente, dos aspectos mercadológicos. Fl. 28334DF CARF MF Processo nº 10830.725974/201222 Acórdão n.º 9101003.098 CSRFT1 Fl. 28.335 11 Não vejo reparos ao voto proferido no Acórdão nº 9101002.552, motivo pela qual adoto suas razões para a presente lide, com fulcro no art. 50, § 1º da Lei nº 9.784, de 19991, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal. Conclusão. Diante do exposto, voto no sentido de conhecer parcialmente do recurso da PGFN em relação à matéria determinação do coeficiente do lucro presumido, no mérito, na parte devolvida, darlhe provimento. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura 1 Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: (...) V decidam recursos administrativos; (...) § 1º A motivação deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato. Fl. 28335DF CARF MF
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Numero do processo: 10166.722146/2009-17
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jun 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/12/2004 a 31/08/2008
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-005.563
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos.
Nome do relator: RITA ELIZA REIS DA COSTA BACCHIERI
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E CARGA DE BRASÍLIA LTDA ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/12/2004 a 31/08/2008 APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 72 21 46 /2 00 9- 17 Fl. 1354DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos. Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional cujo objeto é a discussão acerca da aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. Importante mencionar que, conforme termo de desapensação de fls. 1351, este processo encontravase apenso ao Processo 10166.722145/200972, principal, e foi desapensado para permitir o julgamento do respectivo recurso na sistemática prevista no art.47, §§1º e2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de2015. É o relatório. Voto Conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Relatora O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: Fl. 1355DF CARF MF Processo nº 10166.722146/200917 Acórdão n.º 9202005.563 CSRFT2 Fl. 1.355 3 a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35 A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Fl. 1356DF CARF MF 4 Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. Fl. 1357DF CARF MF Processo nº 10166.722146/200917 Acórdão n.º 9202005.563 CSRFT2 Fl. 1.356 5 § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Fl. 1358DF CARF MF 6 Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Fl. 1359DF CARF MF Processo nº 10166.722146/200917 Acórdão n.º 9202005.563 CSRFT2 Fl. 1.357 7 Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora Fl. 1360DF CARF MF 8 fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35 A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Fl. 1361DF CARF MF Processo nº 10166.722146/200917 Acórdão n.º 9202005.563 CSRFT2 Fl. 1.358 9 Fl. 1362DF CARF MF
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Numero do processo: 10882.002209/2008-49
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Aug 30 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2003 a 31/12/2003
CONFLITO DE COMPETÊNCIA. UNIÃO.ESTADOS E MUNICÍPIOS. IPI. PRINCÍPIO DA EFICÁCIA VINCULANTE DOS PRECEDENTES JURISPRUDENCIAIS.
Em respeito ao Princípio da Eficácia Vinculante dos Precedentes, emanado explicitamente pelo Novo Código de Processo Civil, cabe no processo administrativo, quando houver similitude fática dos casos tratados e jurisprudência pacificada, a observância dos precedentes jurisprudenciais fluidos pelos Tribunais, conforme arts. 15, 926 e 927 da Lei 13.105/15.
Ressurgindo à competência tributária trazida pela Constituição Federal, quando se tratar de atividades relacionadas aos serviços gráficos personalizados passíveis de tributação pelo ISS, é de se afastar a incidência de IPI, conforme inteligência promovida pelo art. 1º, § 2º, da LC 116/03.
Numero da decisão: 9303-005.427
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal e Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), que lhe deram provimento. Votaram pelas conclusões os conselheiros Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (suplente convocado) e Rodrigo da Costa Pôssas.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício
(Assinado digitalmente)
Tatiana Midori Migiyama Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: TATIANA MIDORI MIGIYAMA
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UNIÃO.ESTADOS E MUNICÍPIOS. IPI. PRINCÍPIO DA EFICÁCIA VINCULANTE DOS PRECEDENTES JURISPRUDENCIAIS. Em respeito ao Princípio da Eficácia Vinculante dos Precedentes, emanado explicitamente pelo Novo Código de Processo Civil, cabe no processo administrativo, quando houver similitude fática dos casos tratados e jurisprudência pacificada, a observância dos precedentes jurisprudenciais fluidos pelos Tribunais, conforme arts. 15, 926 e 927 da Lei 13.105/15. Ressurgindo à competência tributária trazida pela Constituição Federal, quando se tratar de atividades relacionadas aos serviços gráficos personalizados passíveis de tributação pelo ISS, é de se afastar a incidência de IPI, conforme inteligência promovida pelo art. 1º, § 2º, da LC 116/03. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal e Charles Mayer de Castro Souza (suplente AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 2. 00 22 09 /2 00 8- 49 Fl. 1302DF CARF MF 2 convocado), que lhe deram provimento. Votaram pelas conclusões os conselheiros Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (suplente convocado) e Rodrigo da Costa Pôssas. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas – Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama – Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional contra o Acórdão nº 3201000.700, da 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, que, por voto de qualidade, deu provimento ao recurso voluntário, consignando acórdão com a seguinte ementa: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2003 a 31/12/2003 ISS. SERVIÇO GRÁFICO POR ENCOMENDA E PERSONALIZADO. A prestação de serviço gráfico, personalizado e sob encomenda, ainda que envolva fornecimento de mercadorias, está sujeita unicamente ao ISS, não estando sujeito à incidência do IPI. ” Irresignada, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial contra o r. acórdão, que trouxe o entendimento de que a prestação de serviço gráfico, personalizado e sob encomenda não se sujeita ao IPI. Trouxe a Fazenda Nacional, entre outros, que: Fl. 1303DF CARF MF Processo nº 10882.002209/200849 Acórdão n.º 9303005.427 CSRFT3 Fl. 1.303 3 · O IPI é um imposto sobre a produção, enquanto que o ICM e o ISS incidem sobre a circulação (o primeiro sobre a circulação de mercadorias e o segundo sobre a de serviços); · Diferenciase o ICMS do ISS e do IPI, pois enquanto que, em relação àquele, não há atividade adicional alguma do contribuinte de que dependa a ocorrência do fato gerador (basta a venda ou revenda de mercadoria), no tocante ao IPI, a ocorrência do fato gerador depende de prévia industrialização (ou produção) e, no caso do ISS, incidência depende de urna prestação de serviço; · No âmbito das diferenças entre obrigações definidas no direito civil critério repelido pelo STF como único aplicável à solução da questão na ADI citada, hipótese de incidência do ISS depende de urna obrigação de fazer. Já o IPI depende de urna atividade de produção previa, enquanto que o ICMS depende apenas da circulação da mercadoria; · A conjugação das hipóteses de incidência do IPI e do ISS ocorreria quando obrigação de fazer comportasse uma atividade de industrialização não há lei complementar modalidade legal eleita pela Constituição para tratar de conflitos de competência que afaste a incidência de um ou de outro tributo e, para afastar a legislação do IPI que não restringe o conceito de produção ou de industrialização nos termos anteriormente expostos, seria preciso aplicar o princípio constitucional da capacidade contributiva para concluir que não poderiam incidir, no contexto exposto no parágrafo anterior, os dois impostos; · Para que urna operação esteja sujeita à incidência do IPI, basta que o estabelecimento industrialize um produto e a ele dê saída, não importando a que título jurídico decorra a saída do estabelecimento produtor. Em Despacho às fls. 1242 a 1245, foi dado seguimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. Fl. 1304DF CARF MF 4 Contrarrazões ao Recurso Especial foram apresentadas pelo sujeito passivo, que trouxe, entre outros, que: · As impressões são sempre relativas a logomarcas, cores padrão e condizentes com o próprio logotipo utilizado, eventuais mensagens específicas aos consumidores da encomendante, além de outros símbolos peculiares. De tal sorte que, indubitavelmente, as encomendas passam a integrar o ativo fixo dos encomendantes para seu uso exclusivo, não podendo, nem de longe, cogitarse acerca de seu eventual uso indiscriminado, já que imprestável seria para qualquer outra pessoa jurídica diferente da própria encomendante. · Isso sem contar que a especificidade do corte (largura) das bobinas, tem aplicação geralmente exclusiva ao terminal (PDV) ou equivalente da própria encomendante, sendo também inaplicável cogitarse de seu uso indiscriminado, como fazem crer as equivocadas razões do auditor fiscal em apreço. · Ademais, não há qualquer comercialização das bobinas personalizadas impressas quer pela Recorrida, quer pelos seus clientes (posto que inaplicáveis ao uso de terceiros, por não se tratar de um chamado "produto de prateleira"). · Pelas particularidades da encomenda, como, aliás, expressamente reconhecido pelo agente fiscalizador, temse, pois, como absolutamente descabida, do ponto de vista fático, para não dizer absurda, a aplicação de qualquer parecer desta d. Delegacia ou solução de consulta que possa ter, aparentemente, sob a ofuscada ótica da fiscalização, esgotado a matéria tão cristalinamente pacificada nos Tribunais do País; · Imperioso o respeito dos tribunais a jurisprudência pacificada do Superior Tribunal de Justiça; · Conforme vastamente demonstrado, resta límpido a pacificação da jurisprudência no Superior Tribunal de Justiça, em sentido favorável a Recorrida, do tema aqui debatido. É o relatório. Fl. 1305DF CARF MF Processo nº 10882.002209/200849 Acórdão n.º 9303005.427 CSRFT3 Fl. 1.304 5 Voto Conselheira Tatiana Midori Migiyama Relatora O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e, depreendendose da análise de seu cabimento, entendo pela admissibilidade integral do recurso, eis que a divergência jurisprudencial vem ao encontro dos termos definidos pelo artigo 67 do RICARF. O que concordo com o exame de admissibilidade constante do Despacho de Admissibilidade de Recurso Especial. Ventiladas tais considerações, passo a discorrer sobre o cerne da lide, qual seja, se haveria a incidência de IPI no caso em comento, considerando a atividade prestada pelo sujeito passivo. Cabe, então, trazer a priori que o sujeito passivo tem por objeto a prestação de serviços gráficos “personalizados” “sob encomenda” dos seus clientes, com destaque para as atividades de impressão personalizadas – serviço de composição gráfica sujeito à incidência de ISS. O sujeito passivo oferece, além da emissão, a migração de tecnologias customizadas, com o intuito de atender diferentes demandas. Considerando se tratar por óbvio de prestação de serviço gráfico customizado e personalizado, para fins de atendimento da demanda de clientes específicos, para melhor elucidar os pontos aqui desenvolvidos, cabe trazer que que tais serviços, em síntese, são assim considerados por serem, quando de sua prestação, definidas estratégias para o desenvolvimento do produto demandado pelo cliente. Tais serviços são vistos pelos clientes como diferencial nas empresas de serviços, vez que podem proporcionar para o funcionamento de seu negócio a personalização de que necessitam. Fl. 1306DF CARF MF 6 Ademais, cabe trazer que os serviços prestados pelo sujeito passivo não se confundem com a mera circulação de mercadorias/produtos, vez que tais serviços possuem como características a intangibilidade, perecibilidade, heterogeneidade e simultaneidade. Ora: · Perecibilidade, pois tais serviços não podem ser “armazenados/estocados” para a venda; · Intangibilidade, pois não podem ser vistos, provados ou sentidos; · Heterogeneidade, pois tais serviços sofrem variação para cada cliente, considerando a customização dedicada; · Simultaneidade, pois envolve a dinamicidade entre a produção e o consumo. O serviço customizado prestado pelo sujeito passivo abrange essas características, vez que: · Reflete um planejamento anterior para a busca do objeto alcançado, em observância a demanda específica exposta em contrato firmado entre o cliente e o prestador; · Não se trata de venda de produtos de prateleira padronizáveis; · Se diferenciam, de acordo com a demanda de cada cliente – considerados efetivamente, de per si, como pontuais e especiais. É de se considerar, ainda, que os serviços customizados envolve interação direta com o cliente uma vez que a personalização do produto é alcançada de forma colaborativa entre a parte contratante e o contratado. Vêse ainda que o serviço de impressão gráfica personalizada desenvolvido pelo sujeito passivo não integra um processo de industrialização. Ora, as impressões são sempre relativas a logomarcas, cores padrão e condizentes com o próprio logotipo utilizado, eventuais mensagens específicas aos Fl. 1307DF CARF MF Processo nº 10882.002209/200849 Acórdão n.º 9303005.427 CSRFT3 Fl. 1.305 7 consumidores da encomendante, além de outros símbolos peculiares. O que, indubitavelmente, as encomendas passam a integrar o ativo fixo dos encomendantes para seu uso exclusivo, não podendo, nem de longe, cogitarse acerca de seu eventual uso indiscriminado, já que imprestável seria para qualquer outra pessoa jurídica diferente da própria encomendante. A especificidade do corte (largura) das bobinas, tem aplicação geralmente exclusiva ao terminal (PDV) ou equivalente da própria encomendante. Não há uso indiscriminado. E não há qualquer comercialização das bobinas personalizadas impressas quer pela Recorrida, quer pelos seus clientes (posto que inaplicáveis ao uso de terceiros, por não se tratar de um chamado "produto de prateleira"). Após breve elucidação e antes de se adentrar na discussão acerca da incidência do IPI, discorrendo sobre eventual conflito de competência. O que se torna impossível se ignorar esse tema, cabe trazer ainda que a atividade personalizada, que envolve sua customização para atendimento da necessidade de eventual cliente, inquestionável, que tal serviço seria passível de tributação pelo ISS. Por conseguinte, por se tratar de bem oriundo de serviço personalizado/customizado, inegável que tal bem não seria considerado como sendo de prateleira, disponível em sua padronização aos clientes potenciais. O que confere o entendimento dos tribunais de se afastar a tributação pelo ICMS. Não se coaduna, assim, tais serviços com o conceito de mercadoria. Tanto é assim, que os Tribunais empregam tais conceitos – produtos feitos por encomenda, personalizados e customizados – para afastar a incidência do ICMS e/ou IPI em operações que envolvam o fornecimento de bens oriundos desses serviços especializados e personalizados. Tanto é assim, que, no que tange às essas discussões envolvendo o ISS e o ICMS, é de se recordar que os Tribunais têm manifestado, em síntese, em relação aos serviços gráficos, que: Fl. 1308DF CARF MF 8 · Se a atividade gráfica fosse exercida com certas limitações – acrescentando apenas utilidades a esse meio, com o intuito de se disponibilizar o produto indiscriminadamente a todos os clientes potenciais, sem viabilidade de personalização por cliente, configurarseia como produção em série – sendo evidente, nesse caso, que se trata de disponibilização de mercadorias, motivando assim a incidência de ICMS e de IPI, vez, que, em relação à esse último tributo, caracterizada estaria a industrialização dessa mercadoria (produzida padronizadamente em série); · Por sua vez, se fosse desenvolvida por encomenda de cliente, para atender suas necessidades específicas, visando o atendimento de sua demanda em particular estarseia diante de serviço alcançável pelo ISS. É de se expor que as mercadorias oriundas desses serviços não são disponibilizadas a terceiros. Para tal entendimento, é de se recordar o art. 1º, § 2º, da LC 116/03, in verbis (Grifos meus): “Art. 1º. O Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza, de competência dos Municípios e do Distrito Federal, tem como fato gerador a prestação de serviços constantes da lista anexa, ainda que esses não se constituam como atividade preponderantemente do prestador. [...] § 2º Ressalvadas as exceções expressas na lista anexa, os serviços nela mencionados não ficam sujeitos ao Imposto Sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação – ICMS, ainda que sua prestação envolva fornecimento de mercadorias. [...]” Com tal dispositivo, resta claro que os serviços constantes da lista de serviço da LC 116/03 não ficam sujeitos ao ICMS, apenas ao ISS. Fl. 1309DF CARF MF Processo nº 10882.002209/200849 Acórdão n.º 9303005.427 CSRFT3 Fl. 1.306 9 Continuando, no que concerne à discussão acerca da incidência cumulativa envolvendo o ISS e o IPI, importante mencionar que o TRF já editou Súmula 143/83 (Grifos meus): “Súmula 143 – Os serviços de composição gráfica e impressão gráficas personalizadas previstos no artigo 8º, § 1º, do Decretolei n. 406, de 1968, com as alterações introduzidas pelo Decretolei n. 834, de 1969, estão sujeitos apenas ao ISS, não incidindo o IPI.” No mesmo sentido, o Superior Tribunal de Justiça, editou a Súmula 156: “Súmula 156 do STJ – A prestação de serviço de composição gráfica, personalizada e sob encomenda, ainda que envolva o fornecimento de mercadorias, está sujeita, apenas, ao ISS.” Frisese tal entendimento o disposto no 9º do DecretoLei 2471/88 que, por sua vez, estabelece que ficam cancelados os processos administrativos que trate da cobrança do IPI no fornecimento de produtos personalizados de serviços de composição gráfica e impressão gráfica: “Art. 9º. Ficam cancelados, arquivandose, conforme o caso, os respectivos processos administrativos, os débitos para com a Fazenda Nacional, inscritos ou não como Dívida Ativa da União, ajuizados ou não, que tenham tido origem na cobrança: [...] VI – do Imposto sobre Produtos Industrializados relativamente ao fornecimento de produtos personalizados, resultantes de serviços de composição e impressão gráficas; e [...]” Sendo assim, resta claro que os serviços gráficos personalizados e customizados com o intuito de atender determinada necessidade de cliente não seriam passíveis de tributação pelo IPI. Fl. 1310DF CARF MF 10 Quanto à discussão sobre a impossibilidade da incidência concomitante do ISS e IPI sobre a mesma atividade, a instituição de tributos é extensivamente definida na Constituição, mediante a atribuição de competência – o que ressurjo o art. 146, inciso I, da CF/88: “Art. 146. Cabe à lei complementar: I dispor sobre conflitos de competência, em matéria tributária, entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios; II regular as limitações constitucionais ao poder de tributar; [...]” Com tal enunciado, verificase que a Lei Complementar deve dispor sobre conflitos de competência em matéria tributária entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, bem como regular as limitações constitucionais ao poder de tributar. O que, por conseguinte, expresse, temse que se a LC 116/03 dispôs que as atividades gráficas discutidas no presente processo são fatos geradores do ISS, inconteste não haver que se falar em tributação pelo ICMS e IPI sobre tais serviços. Tanto é assim que, nesse sentido, notase que fluíram várias decisões favoráveis, afastando a tributação pelo IPI. Em pesquisa jurisprudencial, cabe trazer o julgamento do RESP 437.324 – RS envolvendo a American Bank Note Company Gráfica e Serviços Ltda, onde o STJ, através do ilustre Ministro Franciulli Netto, emitiu acórdão concedendo integramente a segurança pleiteada declarando que as referidas atividades envolvem típica prestação de serviço ao ISS, consignando a seguinte ementa (Grifos meus): “RECURSO ESPECIAL ALÍNEAS "A" E "C" TRIBUTÁRIO MANDADO DE SEGURANÇA PRELIMINAR DE PERDA DE OBJETO DA IMPETRAÇÃO IMPOSSIBILIDADE DE CONHECIMENTO DE OFÍCIO DA QUESTÃO CONFECÇÃO DE CARTÕES MAGNÉTICOS E DE CRÉDITO SERVIÇO DE COMPOSIÇÃO GRÁFICA SUJEITO UNICAMENTE AO ISS VIOLAÇÃO AO DISPOSTO NO § 1º DO Fl. 1311DF CARF MF Processo nº 10882.002209/200849 Acórdão n.º 9303005.427 CSRFT3 Fl. 1.307 11 ARTIGO 8º DO DECRETOLEI N. 406/68 SÚMULA N. 156 DO STJ. Cumpre a este Sodalício examinar eventual afronta a dispositivos de lei federal, nos termos da letra "a" do permissivo constitucional, ou, pela letra "c", sanar possível dissenso pretoriano acerca de determinada questão. Assim, não prevalece o entendimento sustentado pela recorrente no sentido de que deve o Superior Tribunal de Justiça reconhecer de ofício a extinção do mandado de segurança preventivo. Embora prequestionada a questão da perda de objeto da impetração, que entendeu a Corte de origem não existir, pretendeu a recorrente, quanto a esse ponto, configurar o dissenso pretoriano com julgados deste Sodalício sem, contudo, realizar o indispensável cotejo analítico, vindo em desacordo com o estabelecido nos arts. 541, do CPC e 255, §§ 1º e 2º, do RISTJ. A elaboração dos cartões com as características requeridas pelo destinatário, que é aquele que encomenda o serviço, tais como a logomarca, a cor, eventuais dados e símbolos, indica de pronto a prestação de um serviço de composição gráfica, enquadrado no item 77 da Lista de Serviços anexa ao Decretolei n. 406/68. Há, portanto, nítida violação ao disposto no § 1º do artigo 8º do DecretoLei n. 406/68, uma vez que a hipótese dos autos configura prestação de serviços de composição gráfica personalizados, sujeitos apenas à incidência do ISS (Súmulas ns. 156/STJ e 143 do extinto TFR). Considerada a circunstância de se tratar de serviço personalizado, destinados os cartões, de pronto, ao consumidor final, que neles inserirá os dados pertinentes e não raro sigilosos, concluise que a atividade não é fato gerador do IPI.” Cabe trazer que essa decisão transitou em julgado em 3.11.03. Fl. 1312DF CARF MF 12 Outro precedente igualmente importante é o veiculado no julgamento do REsp 966.184RJ decorrente de ação ordinária ajuizada pela American Bqank Note Company Gráfica e Serviços Ltda também com o objetivo de que fosse declarada a não incidência do IPI sobre os cartões de crédito com tarja magnética confeccionados no período de junho/88 a junho/89, por se tratar de prestação de serviços personalizados sob encomenda. Tal REsp, após apreciação pelo STJ – relator Ministro Herman Benjamin, foi emitido acórdão com a seguinte ementa (Grifos meus): “EMENTA PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. IPI. CONFECÇÃO DE CARTÕES MAGNÉTICOS E DE CRÉDITO. NÃO INCIDÊNCIA. APLICAÇÃO DA SÚMULA 156/STJ. 1. O Superior Tribunal de Justiça firmou o entendimento de que em casos como o dos autos, de empresa que produz cartões magnéticos personalizados, não há incidência de IPI. Aplicação, in casu, da Súmula 156/STJ: "a prestação de serviço de composição gráfica, personalizada e sob encomenda, ainda que envolva fornecimento de mercadorias, está sujeita, apenas, ao ISS." 2. Agravo Regimental não provido.” Cabe trazer que essa decisão também transitou em julgado. Em outro julgamento no STJ, especificamente quando da apreciação do Resp 103409/RS, ficou decidido que não é devido o ICMS sobre os serviços de composição gráfica, tal qual a impressão de cartões magnéticos personalizados e sob encomenda, conforme consignado em ementa: “TRIBUTÁRIO. PROCESSUAL CIVIL. SERVIÇOS DE COMPOSIÇÃO GRÁFICA. CONFECÇÃO DE CARTÕES MAGNÉTICOS PERSONALIZADOS E SOB ENCOMENDA. NÃO INCIDÊNCIA DE ICMS. NÃO APLICAÇÃO DO ENTENDIMENTO DO STF NA MEDIDA CAUTELAR NA ADI 4389. SITUAÇÕES FÁTICAS DISTINTAS. ANÁLISE DE DISPOSITIVOS CONSTITUCIONAIS. IMPOSSIBILIDADE. COMPETÊNCIA DO STF. Fl. 1313DF CARF MF Processo nº 10882.002209/200849 Acórdão n.º 9303005.427 CSRFT3 Fl. 1.308 13 1. Nos termos do art. 535 do CPC, os embargos declaratórios somente são cabíveis para modificar o julgado que se apresentar omisso, contraditório ou obscuro, bem como para sanar possível erro material existente no acórdão, o que não aconteceu no caso dos autos. 2. No julgamento da medida cautelar na ADI 4389, o STF reconheceu a não incidência do ISS sobre operações de industrialização por encomenda de embalagens destinadas à integração ou utilização direta em processo subsequente de industrialização ou de circulação de mercadoria. 3. A incidência do ICMS só ocorrerá nos casos em que a produção de embalagens, etiquetas sob encomenda (personalizada) seja destinada a subsequente utilização em processo de industrialização ou posterior circulação de mercadoria, o que não é o caso dos autos. 4. In casu, tratase de produção de cartões magnéticos sob encomenda para uso próprio da empresa. No caso, a embargada atua como consumidora final, ou seja, tais cartões não irão fazer parte de futuro processo de industrialização ou comercialização. Incide, portanto, o ISS nos termos do que restou determinado pela Primeira Seção do STJ, no julgamento do REsp 1.092.206/SP, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, sujeito ao rito dos recursos respetivos, nos termos do art. 543C do CPC e da Resolução 8/2008 do STJ. 5. Não cabe ao STJ analisar suposta violação de dispositivos constitucionais, mesmo a título de prequestionamento, sob pena de usurpação da competência do STF. Embargos de declaração rejeitados.” Proveitoso trazer ainda outros julgados do STJ: “PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE IRREGULARIDADES. SERVIÇOS DE COMPOSIÇÃO GRÁFICA. INCIDÊNCIA, APENAS, DO ISS. Fl. 1314DF CARF MF 14 SÚMULA Nº 156/STJ. ANÁLISE DE VIOLAÇÃO A DISPOSITIVOS CONSTITUCIONAIS. IMPOSSIBILIDADE. [...] 3. Decisão atacada que tomo com base a Súmula nº 156/STJ: “a prestação de serviço de composição gráfica, personalizada e sob encomenda, ainda que envolva fornecimento de mercadorias, está sujeita, apenas, ao ISS”[...] (Superior Tribunal de Justiça, rel. Min., José Delgado, EAREP 510940/SP, DJ de 17/11/2003) “AGRAVO REGIMENTAL – TRIBUTÁRIO – SERVIÇO GRÁFICO PERSONALIZADO E POR ENCOMENDA – ICMS – NÃO INCIDÊNCIA – ENTENDIMENTO CONSAGRADO – SÚMULA 156 DESTE SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. 1. Não incide ICMS sobre serviços de composição gráfica, a teor da Súmula 156 deste Superior Tribunal de Justiça, que preceitua: “A prestação de serviço de composição gráfica, personalizada e sob encomenda, ainda que envolva fornecimento de mercadorias, está sujeita, apenas, ao ISS. 2. Agravo Regimental improvido. ” (Superior Tribunal de Justiça, rel. Min. Luiz Fux, AGRESP 331201/SP, DJU de 14.10.2002) “Tributário – ICMS e ISS – Incidência – DecretoLei nº 406/68 (art. 8º, § 2º). 1. Os serviços de composição gráfica, não distinguindo a lei entre os personalizados encomendados e os genéricos destinados ao público, sujeitamse à incidência do ISS. 2. Multifários precedentes jurisprudenciais. 3. Recurso sem provimento. ” (Superior Tribunal de Justiça re. Min. Luiz Pereira, RESP 142339/SP, DJU de 26/03/2001) Frisese esse entendimento a decisão dada pelo STF: “ISS. Serviço gráfico por encomenda e personalizado. Utilização em produtos vendidos a terceiros. Fl. 1315DF CARF MF Processo nº 10882.002209/200849 Acórdão n.º 9303005.427 CSRFT3 Fl. 1.309 15 A feitura de rótulos, fitas, etiquetas adesivas e de identificação de produtos e mercadorias, sob encomenda e personalizadamente, é atividade da empresa gráfica sujeita ao ISS, o que não se desfigura por utilizálos, o cliente e encomendante, na embalagem de produtos por ele fabricados e vendidos a terceiro. Recurso extraordinário conhecido e provido. ” (Supremo Tribunal Federal, RE 109.0697/SP, Rel. Min. Rafael Mayer) Em vista de todo o exposto, vêse acertado o entendimento de que nessa atividade não há que se falar em tributação pelo IPI – eis que para o deslinde do conflito de competência, para se apurar a tributação sobre o consumo desses bens, nas hipóteses híbridas, em que há serviço agregado a um suporte físico, no caso, um produto industrializado, devese verificar qual prevalecerá, para efeitos de atrair a competência tributária. O que, por conseguinte, as disposições da LC 116/2003 – art. 1º, § 2°, traz que salvo exceções nela expressamente previstas, os serviços incluídos na lista ficam sujeitos apenas ao ISS, "ainda que sua prestação envolva fornecimento de mercadorias” em cumprimento ao desígnio determinado pelo art. 146, I da Constituição Federal, que prescreve que cabe à Lei Complementar dispor sobre conflitos de competência. Ademais, não há como se ignorar os precedentes favoráveis dos Tribunais, inclusive aqueles emanados de Recursos interpostos por empresas que foram adquiridas pelo sujeito passivo. Em tempos atuais, inclusive, o novo Código de Processo Civil – Lei 13.105/15 traz explicitamente o respeito à “Eficácia Vinculante dos Precedentes” em seus arts. 926 e 927, in verbis (Grifos meus): “Art. 926. Os tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantêla estável, íntegra e coerente. Fl. 1316DF CARF MF 16 § 1o Na forma estabelecida e segundo os pressupostos fixados no regimento interno, os tribunais editarão enunciados de súmula correspondentes a sua jurisprudência dominante. § 2o Ao editar enunciados de súmula, os tribunais devem aterse às circunstâncias fáticas dos precedentes que motivaram sua criação. Art. 927. Os juízes e os tribunais observarão: I as decisões do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade; II os enunciados de súmula vinculante; III os acórdãos em incidente de assunção de competência ou de resolução de demandas repetitivas e em julgamento de recursos extraordinário e especial repetitivos; IV os enunciados das súmulas do Supremo Tribunal Federal em matéria constitucional e do Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional; V a orientação do plenário ou do órgão especial aos quais estiverem vinculados. § 1o Os juízes e os tribunais observarão o disposto no art. 10 e no art. 489, § 1o, quando decidirem com fundamento neste artigo. § 2o A alteração de tese jurídica adotada em enunciado de súmula ou em julgamento de casos repetitivos poderá ser precedida de audiências públicas e da participação de pessoas, órgãos ou entidades que possam contribuir para a rediscussão da tese. § 3o Na hipótese de alteração de jurisprudência dominante do Supremo Tribunal Federal e dos tribunais superiores ou daquela oriunda de julgamento de casos repetitivos, pode haver modulação dos efeitos da alteração no interesse social e no da segurança jurídica. § 4o A modificação de enunciado de súmula, de jurisprudência pacificada ou de tese adotada em julgamento de casos repetitivos observará a necessidade de fundamentação adequada e específica, considerando os princípios da segurança jurídica, da proteção da confiança e da isonomia. Fl. 1317DF CARF MF Processo nº 10882.002209/200849 Acórdão n.º 9303005.427 CSRFT3 Fl. 1.310 17 § 5o Os tribunais darão publicidade a seus precedentes, organizandoos por questão jurídica decidida e divulgandoos, preferencialmente, na rede mundial de computadores.” Devese, assim, em respeito ao Princípio da Eficácia Vinculante dos Precedentes” – exposta “explicitamente” pelo Novo Código de Processo Civil NCPC, observar o entendimento emanado pelos tribunais. Nesse caso, o entendimento de que para os serviços gráficos personalizados devese afastar a incidência do IPI. Dizse Princípio, pois deve ser considerado, assim como os outros balizadores primordiais trazidos pelo nosso ordenamento, para se nortear/direcionar o julgador/juiz quando da apreciação da matéria em debate à solução jurídica mais consonante com as diretrizes emanadas pela Carta Magna e pela legislação vigente, garantindo o conforto e a segurança jurídica de que tanto busca a Administração Fazendária e o sujeito passivo. Não é demais lembrar que no processo administrativo há que se considerar e respeitar tais precedentes, conforme versa o art. 15 do NCPC, in verbis: “Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente.” O Brasil adota como estrutura jurídica o “Civil Law” – que adota fontes de direito, dentre as quais, considera, além da Lei, como fonte direta, os precedentes jurisprudenciais. Sendo assim, inquestionável, a valorização dos precedentes. Até mesmo como forma de se conceder a segurança jurídica que tanto procura a administração fazendária e o sujeitos passivo. Ora, tal cultura de valorização de precedentes, que torna a jurisprudência na Brasil fonte direta da estrutura jurídica adotada pelo Brasil “Civil Fl. 1318DF CARF MF 18 Law” – traz irrefutavelmente segurança jurídica ao buscar o respeito à unicidade da interpretação quando as decisões possuem potencial para tanto. O que é o caso. As decisões emanadas pelos Tribunais consideraram a mesma atividade do sujeito passivo, não restando dúvida quanto à necessidade da aplicação dos fundamentos determinantes do precedente ao caso concreto. Sendo assim, até mesmo em respeito a celeridade do processo no judiciário que invoca o Novo Código de Processo Civil, eis que a jurisprudência nos Tribunais se encontra PACIFICADA, inclusive com Súmulas do TRF e STJ, é de se manter o decidido no acórdão recorrido. Ademais, é de se recordar que em recente julgamento ficou consignando em acórdão 9303004.394: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2008 a 31/03/2008 CONFLITOS DE COMPETÊNCIA. UNIÃO, ESTADOS E MUNICÍPIOS. IPI. PRINCÍPIO DA EFICÁCIA VINCULANTE DOS PRECEDENTES JURISPRUDENCIAIS Em respeito ao Princípio da Eficácia Vinculante dos Precedentes, emanado explicitamente pelo Novo Código de Processo Civil, cabe no processo administrativo, quando houver similitude fática dos casos tratados e jurisprudência pacificada, a observância dos precedentes jurisprudenciais fluidos pelos Tribunais, conforme arts. 15, 926 e 927 da Lei 13.105/15. Ressurgindo à competência tributária trazida pela Constituição Federal, quando se tratar de atividades relacionadas aos serviços gráficos personalizados passíveis de tributação pelo ISS, é de se afastar a incidência de IPI, conforme inteligência promovida pelo art. art. 1º, § 2º, da LC 116/03" Fl. 1319DF CARF MF Processo nº 10882.002209/200849 Acórdão n.º 9303005.427 CSRFT3 Fl. 1.311 19 Nesse julgamento, após pedido de vista do Conselheiro Júlio César Alves Ramos, foi apresentada Declaração de Voto, eis que foi pesquisada a ampla jurisprudência sobre o mesmo tema por esse conselheiro: "Conselheiro Júlio César Alves Ramos Julguei conveniente explicitar as razões pelas quais acompanhei a n. relatora dado que já proferi vários votos no sentido pretendido pela Fazenda Nacional. Minha posição sobre o assunto está nelas devidamente registrado, não tendo eu mudado de entendimento. Ocorre que, foi bem enfatizado pela n. relatora, a posição contrária aqui defendida pelo sujeito passivo parece mesmo consolidada no âmbito do STJ. Com efeito, naquele tribunal, podemse coligir decisões recentes1 que enfrentaram exatamente o mesmo objeto ora em discussão cartões magnéticos personalizados e entenderam que tal operação é a descrita na lista da Lei Complementar 116 (ou do Decreto 406) como "serviços gráficos personalizados", o que, no entender daquele Sodalício, afastaria a tributação pelo IPI. Algumas delas, inclusive, foram proferidas em processos de empresa sucedida pela autora deste. E, em respeito aos artigos 926 e 927 do novo CPC, decidi curvarme àquela jurisprudência, ainda que a entendendo equivocada. Registro, ao fim, que não vejo que tais artigos nos 1 Além do REsp 437.324, de relatoria do Ministro Herman Benjamin já citado pela relatora, e entre outros, cito: Resp 817.182, Ministro Luiz Fux AgRg no Resp 966.184, minstro Herman Benjamin AgRg no Resp 816.632, ministro Humberto Martins AgRg no Resp 1.369.577, ministro minstro Herman Benjamin AgRg no Resp 1.308.633, ministro Castro Meira Resp 213.594, ministro Mauro Campbell Vale acrescer que todas as decisões foram tomadas por unanimidade Fl. 1320DF CARF MF 20 imponham a obrigatória aceitação, extensivamente, de decisões dos tribunais superiores. Quero dizer com isso que é preciso, em cada caso, checar, com rigor, se a matéria é a mesma e se a jurisprudência está mesmo consolidada. No caso presente, todas as decisões que cito se referem a cartões magnéticos personalizados. Mas há outras, tratando de produtos diversos, que asseguram a tributação pelo IPI, ao ressaltar a importância de analisar o que prevalece. Por isso, a elas me curvo apenas neste caso específico, resguardando, porém, meu entendimento pessoal de que não é a mera presença de um serviço ainda que tributável pelo ISS que impede a incidência do IPI. Nesses termos, votei pelo provimento do recurso do sujeito passivo, sendo essa a declaração que solicitei fazer. Conselheiro Júlio César Alves Ramos" Cabe ainda recordar que em vários Congressos Tributários realizados recentemente com a participação de vários juízes, desembargadores e ministros do STJ, foi invocada a importância da aplicação do Princípio da Eficácia Vinculante dos Precedentes no processo administrativo fiscal trazido pelo Novo Código de Processo Civil para se evitar a morosidade da resolução da lide, bem como o desembolso da parte contrária – quer seja, dependendo do caso, a Fazenda Nacional e/ou sujeito passivo de condenação dos honorários a serem pagos, no caso de perda junto ao judiciário, conforme prevê o art. 85 do NCPC. Proveitoso trazer parte dos dizeres do Parecer dado pelo nobre Professor Emérito e Titular da PUC/SP e da USP – Paulo de Barros Carvalho emitido à Diskpar Logística e Automação Ltda: “[...] 11) Qual o entendimento adotado pelos Tribunais Superiores a respeito dessa matéria? Observase, tanto, em meio às decisões do Supremo Tribunal Federal como do Superior Tribunal de Justiça, que situações Fl. 1321DF CARF MF Processo nº 10882.002209/200849 Acórdão n.º 9303005.427 CSRFT3 Fl. 1.312 21 semelhantes às narradas pela Consulente estão sujeitas à incidência do ISS. A matéria foi até mesmo objeto de Súmula do STJ que, no enunciado 156, prescreve: “A prestação de serviço de composição gráfica, personalizada e sob encomenda, ainda que envolva fornecimento de mercadorias, está sujeita, apenas, ao ISS” Em vista de todo o exposto, voto por conhecer o Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, negandolhe provimento. (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Fl. 1322DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10650.900562/2009-09
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Feb 01 00:00:00 UTC 2012
Ementa: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO - CSLL Data do fato gerador: 31/12/2005 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO - INDÉBITO FORMADO A PARTIR DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA MENSAL As estimativas mensais não podem ser objeto de restituição, e nem de compensação direta com outros tributos. O que se restitui ou compensa é sempre o saldo negativo. Mas isso não implica dizer que o exame do direito creditório fica inviabilizado porque a Contribuinte indicou como crédito o recolhimento feito a título de estimativa mensal, e não o saldo negativo do período, que é maior que o valor da estimativa a ser restituída/compensada. Tanto as retenções na fonte quanto as estimativas representam antecipações do devido ao final do período. Considerando que os recolhimentos a título de estimativa são referentes, no seu conjunto, a um mesmo período (ano- calendário), que o pagamento reivindicado como indébito corresponde ao mesmo período anual (2005) e ao mesmo tributo (CSLL) do saldo negativo que seria restituível/compensável, e que a Contribuinte apurou base negativa de CSLL no período, as antecipações de pagamento configuram indébito a ser restituído ou compensado, eis que caracterizam a formação de saldo negativo, ainda que a Ficha 17 da DIPJ não tenha sido devidamente preenchida. O art. 165 do CTN não condiciona o direito à restituição de indébito, fundado em pagamento indevido ou a maior, a requisitos dessa espécie. O que realmente interessa é a averiguação acerca da existência e da liquidez do alegado crédito do Sujeito Passivo contra a Fazenda Pública.
Numero da decisão: 1802-001.121
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Vencida a Conselheira Ester Marques Lins de Sousa, que negava provimento ao recurso.
Nome do relator: José de Oliveira Ferraz Corrêa
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Data do fato gerador: 31/12/2005 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO INDÉBITO FORMADO A PARTIR DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA MENSAL As estimativas mensais não podem ser objeto de restituição, e nem de compensação direta com outros tributos. O que se restitui ou compensa é sempre o saldo negativo. Mas isso não implica dizer que o exame do direito creditório fica inviabilizado porque a Contribuinte indicou como crédito o recolhimento feito a título de estimativa mensal, e não o saldo negativo do período, que é maior que o valor da estimativa a ser restituída/compensada. Tanto as retenções na fonte quanto as estimativas representam antecipações do devido ao final do período. Considerando que os recolhimentos a título de estimativa são referentes, no seu conjunto, a um mesmo período (ano calendário), que o pagamento reivindicado como indébito corresponde ao mesmo período anual (2005) e ao mesmo tributo (CSLL) do saldo negativo que seria restituível/compensável, e que a Contribuinte apurou base negativa de CSLL no período, as antecipações de pagamento configuram indébito a ser restituído ou compensado, eis que caracterizam a formação de saldo negativo, ainda que a Ficha 17 da DIPJ não tenha sido devidamente preenchida. O art. 165 do CTN não condiciona o direito à restituição de indébito, fundado em pagamento indevido ou a maior, a requisitos dessa espécie. O que realmente interessa é a averiguação acerca da existência e da liquidez do alegado crédito do Sujeito Passivo contra a Fazenda Pública. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Vencida a Conselheira Ester Marques Lins de Sousa, que negava provimento ao recurso. Fl. 176DF CARF MF Impresso em 05/03/2012 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 04/03/2012 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10650.900562/200909 Acórdão n.º 180201.121 S1TE02 Fl. 2 2 (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) José de Oliveira Ferraz Corrêa Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, José de Oliveira Ferraz Corrêa, Marciel Eder Costa, Nelso Kichel, Gustavo Junqueira Carneiro Leão e Marco Antonio Nunes Castilho. Fl. 177DF CARF MF Impresso em 05/03/2012 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 04/03/2012 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10650.900562/200909 Acórdão n.º 180201.121 S1TE02 Fl. 3 3 Relatório Tratase de recurso voluntário contra decisão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Juiz de Fora/MG, que manteve a negativa de homologação em relação à Declaração de Compensação apresentada pela Contribuinte, nos mesmos termos que já havia decidido anteriormente a Delegacia de origem. Para descrever os fatos que antecederam o recurso sob exame, reproduzo o relatório constante da decisão de primeira instância, Acórdão nº 0933.966, às fls. 55 e 56: Trata o presente processo da Declaração de Compensação Eletrônica Dcomp n° 19485.75821.170506.1.3.043735 (fls. 4 a 10), transmitida em 17/05/2006, visando compensar débito de CSLL, código 2484, período de apuração dezembro de 2004, no valor de R$18,49, com crédito relativo a pagamento indevido ou a maior da CSLL, no valor original de R$22,26, efetuado por meio do DARF, abaixo discriminado: Código de Receita Data de Arrecadação Período de Apuração Valor Total do DARF 2484 24/04/2006 28/02/2005 30,81 A DRF/UBB/MG, em 25/03/2009, emitiu Despacho Decisório Eletrônico de nãohomologação da compensação, atestando a improcedência do crédito informado no PER/DCOMP por tratarse de pagamento a título de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período (fl. 3). A empresa contribuinte foi cientificada em 02/04/2009 (fls. 37 e 43). Inconformada com a não homologação da declaração de compensação, a requerente apresentou, em 30/04/2009, a manifestação de fls. 1 e 2, na qual esclarece que: 1.Diante das não HOMOLOGAÇÕES declaradas nos Despachos Decisórios em relação às PER/DCOMP'S citadas acima, gostaríamos de esclarecer que os créditos objetos de pedidos de compensações como pagamentos indevidos ou a maiores, foram oriundos de valores pagos por estimativa mensal durante o ano de 2005 e considerados no fechamento da apuração final do ano 2005. Tais valores, pagos por estimativa, compõem ao final da apuração do ano de 2005 o saldo negativo de IRPJ ou contribuição (CSLL), pois, a Fl. 178DF CARF MF Impresso em 05/03/2012 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 04/03/2012 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10650.900562/200909 Acórdão n.º 180201.121 S1TE02 Fl. 4 4 empresa neste ano fechou com prejuízo no resultado final, sendo apurados os créditos objetos dos pedidos de compensações. 2.Conforme nosso entendimento na época do pedido de compensação, estávamos cumprindo o que determinava a legislação, no que diz respeito à IN 600 SRF de 28/12/2005 DOU de 30/12/2005, no seu artigo 10. Os créditos ora compensados se referiam especificamente ao saldo negativo em função dos pagamentos indevidos ou a maiores a título de estimativa mensal, levantados o seu montante total após a devida apuração final do ano de 2005. Naquele momento entendemos se tratar de pagamentos indevidos ou a maiores. Ao nosso ver, não se justifica agora depois de todo este tempo simplesmente a não homologação, mas sim buscar uma forma de corrigir o possível procedimento adotado, uma vez que a Empresa possui os referidos créditos. Até mesmo porque os pedidos de compensação somente foram efetuados no ano de 2006 e não antes da devida apuração final do referido crédito. .......... Assim, por todo o exposto, solicitamos que sejam analisadas as justificativas apresentadas e que possam nos orientar e dar oportunidade para que possamos corrigir as possíveis irregularidades. Caso sejam necessários maiores esclarecimentos, estaremos ao inteiro dispor e poderão contactarnos através do telefone: 3436716276 ou no endereço acima citado. Para instrução do presente processo, foram anexados, às fls. 45 a 54, extratos dos sistemas informatizados da RFB. Como já mencionado, a DRJ Juiz de Fora/MG manteve a negativa em relação ao procedimento de compensação, expressando suas conclusões com a seguinte ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Data do fato gerador: 24/04/2006 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. ESTIMATIVA MENSAL. PAGAMENTO A MAIOR.. CRÉDITO INEXISTENTE. COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. IMPOSSIBILIDADE DE RETIFICAÇÃO. l.A pessoa jurídica tributada pelo lucro real anual que efetuar pagamento indevido ou a maior de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido a título de estimativa mensal, somente poderá utilizar o valor pago na dedução da CSLL devida ao final do período de apuração em que houve o pagamento indevido ou para compor o saldo negativo da CSLL do período. 2. A Fl. 179DF CARF MF Impresso em 05/03/2012 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 04/03/2012 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10650.900562/200909 Acórdão n.º 180201.121 S1TE02 Fl. 5 5 improcedência do crédito utilizado em compensação impõe o não reconhecimento do direito creditório e a não homologação da compensação. 3. A Declaração de Compensação somente poderá ser retificada pelo sujeito passivo caso se encontre pendente de decisão administrativa à data do envio do documento retificador. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Inconformada com essa decisão, da qual tomou ciência em 06/04/2011, a Contribuinte apresentou em 15/04/2011 o recurso voluntário de fls. 60 a 68, com os seguintes argumentos: o DARF que deu origem ao pagamento do tributo apurado, objeto do pedido de compensação, foi pago em 24 de abril de 2.005, sob o código 2484, conforme documento em anexo; a Recorrente inicialmente declarou na sua DCTF Semestral os valores que estavam sendo pagos a título de CSLL, ressaltandose que equivocadamente o fazia por meio do sistema de apuração por estimativa mensal, sendo que a DCTF foi transmitida em 28 de setembro de 2.005; equivocadamente, em 18 de abril de 2.006, foi novamente transmitida uma DCTF retificadora, onde foram excluídos todos os valores pagos indevidamente a título de CSLL recolhidos aos cofres públicos; da mesma forma, ao realizar o ajuste anual na DIPJ, não fez constar os valores pagos a título de CSLL, que, ressaltese mais uma vez, foi apurado pelo regime de estimativa mensal, quando o regime adotado pela Recorrente é o de ajuste anual Lucro Real; assim, quando do julgamento da Impugnação à negativa do pedido de compensação realizado pela Recorrente, os Julgadores não tiveram conhecimento da realidade dos fatos, pois realmente não era possível verificar a existência de recolhimento dos valores do tributo, uma vez que erroneamente foram excluídos da DCTF e da DIPJ, porém foi devidamente recolhido o tributo conforme consta do DARF; o recolhimento foi feito indevidamente, pois não houve lucro durante o exercício de 2.005; o processo administrativo fiscal prima por buscar a verdade real, ou seja, o Julgador quando analisa o procedimento fiscal deve analisar o conjunto probatório, para dele extrair a realidade dos fatos; é imprescindível, na busca da verdade material, que seja reconhecida como válidas as declarações prestadas e o reconhecimento de que a CSLL objeto do presente processo foi paga indevidamente, permitindo a compensação; Fl. 180DF CARF MF Impresso em 05/03/2012 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 04/03/2012 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10650.900562/200909 Acórdão n.º 180201.121 S1TE02 Fl. 6 6 o erro da Recorrente foi ter retirado da DCTF semestral os valores que foram pagos a título de CSLL, pois não poderia têlo feito, de modo que o Julgador pudesse verificar que tais valores foram recolhidos indevidamente, considerando que ficou demonstrado na DIPJ que no decorrer do ano a empresa, ora Recorrente, teve prejuízos durante todo o período de apuração; a intenção da Recorrente é que seja reconhecido o erro de fato praticado por ela, qual seja, ter excluído os valores pagos a título de CSLL da DCTF, permitindo, assim, que se faça a compensação destes valores com os devido a título do CSLL 2.004; notase claramente que a Recorrente cometeu um erro ao recolher o IRPJ e a CSSL com fundamento no lucro presumido, quando procedia a apuração por lucro real; assim, quando fez o recolhimento ficou com crédito junto ao Fisco, todavia, com a alteração do regime, indevidamente, glosou os valores da DCTF, quando na verdade deveria mantêlos para depois proceder à sua compensação, uma vez que o recolhimento foi indevido; a Recorrente não pretende incluir novo débito ou aumentar o valor do débito compensado, somente pretende que seja reconhecido que foi pago CSLL indevida, pois no corrente ano houve prejuízo, permitindo que se faça a sua compensação com o débito existente; a operação pretendida pela Recorrente não trará nenhum prejuízo para o Fisco, pois estarseá compensando o valor recolhido indevidamente com o crédito da Fazenda existente, sendo que a compensação foi requerida com impostos de mesma natureza; a Jurisprudência deste Egrégio Conselho, em casos semelhantes, tem reconhecido o direito de compensar os tributos quando oriundo de erro de fato (decisões transcritas); há de ser ressaltado que a Recorrente tentou, após ter sido notificada da r. decisão da DRF/UBA/MG que indeferiu o pedido de compensação, consertar o erro cometido na DCTF e DIPJ, todavia, não foi possível, pois o sistema não mais permitiu o acesso; também é imperioso mencionar que a Recorrente está pleiteando a compensação dentro dos limites legais, respeitando, portanto, os parâmetros de compensação; é imprescindível que seja reconhecido o erro de fato, tendo em vista que houve apuração de débito de tributo indevidamente, assim como o seu recolhimento, para determinar a sua compensação com débitos existentes. Ao final, a Contribuinte requer: 1 Seja reconhecido que a apuração do lançamento de IRPJ e CSLL realizada no mês de fevereiro/2005 foi um erro de fato; 2 Seja determinada realização da compensação do valor apurado e recolhido indevidamente aos cofres da Fazenda Nacional, nos termos da Dcomp transmitida; 3 Caso Vossas Excelências apenas reconheçam o erro de fato, porém afastem o direito de compensação, que seja deferida a Fl. 181DF CARF MF Impresso em 05/03/2012 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 04/03/2012 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10650.900562/200909 Acórdão n.º 180201.121 S1TE02 Fl. 7 7 restituição dos valores pagos indevidamente com as correções previstas em lei, uma vez que o tributo foi recolhido indevidamente aos cofres da Fazenda Nacional, pois inexistia IRPJ/CSLL a serem recolhidos no exercício 2.005, em razão do prejuízo apontado pela Recorrente. Este é o Relatório. Fl. 182DF CARF MF Impresso em 05/03/2012 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 04/03/2012 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10650.900562/200909 Acórdão n.º 180201.121 S1TE02 Fl. 8 8 Voto Conselheiro José de Oliveira Ferraz Corrêa, Relator. O recurso é tempestivo e dotado dos pressupostos para a sua admissibilidade. Portanto, dele tomo conhecimento. Conforme relatado, a Contribuinte questiona a não homologação de uma Declaração de Compensação enviada em 17/05/2006. O crédito informado na DCOMP corresponde a um recolhimento no valor original de R$ 22,26, a título de estimativa de CSLL do mês de fevereiro/2005, e o débito a ser compensado também corresponde a CSLL/estimativa, referente ao mês de dezembro de 2004. A estimativa de fevereiro/2005 foi paga em 24/04/2006, com acréscimos legais. O DARF de fls. 92, que embasa o reivindicado crédito, indica a seguinte composição de valores: Valor do Principal 22,26 Valor da Multa 4,45 Valor dos Juros 4,10 Valor Total 30,81 A decisão recorrida está fundamentada nos seguintes termos: (...) O não reconhecimento do direito creditório ocorreu porque o crédito, indicado na Dcomp, referese a pagamento a título de estimativa mensal da contribuição social sobre o lucro líquido e somente pode ser utilizada na dedução da CSLL devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo da CSLL, no caso, do anocalendário de 2005. Aduz a contribuinte que os valores, pagos por estimativa, compõem o saldo negativo da CSLL, pois a empresa apurou base de cálculo negativa da CSLL no encerramento do ano calendário de 2005. Assim, os créditos indicados nas declarações de compensação, relativos a pagamentos indevidos ou a maiores a título de estimativa mensal, referemse especificamente ao saldo negativo desse ano. Da análise dos documentos extraídos dos sistemas informatizados da RFB, fls. 45 a 54, verificase que não consta na DIPJ/2006, apresentada pela contribuinte em 28/06/2006, mais especificamente na Ficha 17 “CÁLCULO DA Fl. 183DF CARF MF Impresso em 05/03/2012 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 04/03/2012 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10650.900562/200909 Acórdão n.º 180201.121 S1TE02 Fl. 9 9 CONTRIBUIÇÃO SOBRE O LUCRO LÍQUIDO”, a apuração do saldo negativo para o anocalendário de 2005. Constatase ainda que a contribuinte promoveu o cancelamento, através de retificação da DCTF em 18/04/2006, de todos os valores declarados a título de estimativa mensal do referido ano. Sobre a situação fálica supra evidenciada, concluise que o direito creditório, indicado na Dcomp, referese, na verdade, ao pagamento relativo à estimativa devida mensalmente e não ao saldo negativo, conforme alegado, não havendo que se falar em erro de fato. E mais, a pretensão da requerente, aduzida na manifestação de inconformidade, no sentido de alterar a origem do crédito, de pagamento a maior de estimativa para saldo negativo, equivale a um pedido de retificação do crédito. Tal solicitação não é possível nessa fase processual. (...) Além disso, a análise de pedido de retificação da Dcomp é de competência da DRF de jurisdição do contribuinte. Nas lides que versam sobre declaração de compensação, a Delegacia de Julgamento somente possui competência para apreciar manifestação de inconformidade contra a nãohomologação das compensações declaradas, de acordo com disposições contidas no Regimento Interno da RFB, aprovado pela Portaria MF n° 587, de 2010. A empresa não apresentou pedido de retificação da DCOMP anteriormente à ciência (02/04/2009 fl. 43) do Despacho Decisório eletrônico de fl. 3, que não homologou a compensação, e, pelas razões expostas acima, não cabe aqui ser formulado, tampouco apreciado. Por todo o exposto, voto por julgar IMPROCEDENTE a manifestação de inconformidade e ratificar o Despacho Decisório de fl. 3. Realmente, as estimativas mensais não podem ser objeto de restituição, e nem de compensação direta com outros tributos. O que se restitui ou compensa é sempre o saldo negativo. Contudo, isso não implica dizer que o exame do direito creditório fica inviabilizado porque a Contribuinte indicou como crédito o recolhimento feito a título de estimativa mensal. Não é incomum a ocorrência de processos em que pedidos de restituição/ compensação de IR/fonte e IRPJCSLL/estimativa são examinados na ótica de sua repercussão no resultado final do período, na medida em que contribuem para a caracterização de saldo negativo. Isto porque tanto as retenções na fonte quanto as estimativas representam antecipações do devido ao final do período. Fl. 184DF CARF MF Impresso em 05/03/2012 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 04/03/2012 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10650.900562/200909 Acórdão n.º 180201.121 S1TE02 Fl. 10 10 Na sistemática da apuração anual, caso haja tributo devido no encerramento do ano, as antecipações se convertem em pagamento definitivo. Por outro lado, se houver prejuízo fiscal ou base negativa de CSLL, ou ainda se as antecipações superarem o valor do tributo devido ao final do período, fica configurado o indébito, a ser restituído ou compensado, mas somente a partir do ajuste. No caso, a Contribuinte enviou a Declaração de Compensação após o encerramento do anocalendário. Também é importante destacar que os recolhimentos a título de estimativa são referentes, no seu conjunto, a um mesmo período (anocalendário), e que embora a Contribuinte tenha indicado como crédito a ser compensado nestes autos apenas a estimativa de fevereiro/2005, e não o saldo negativo total do ano, o pagamento reivindicado como indébito corresponde ao mesmo período anual (2005) e ao mesmo tributo (CSLL) do saldo negativo que seria restituível/compensável. A indicação do crédito como sendo uma das estimativas mensais (antecipação), e não o saldo negativo final, realmente, não pode ser obstáculo ao pleito da Contribuinte. O que importa é saber se houve ou não apuração de tributo devido no ano calendário de 2005, e qual a repercussão da estimativa em questão no ajuste final. Vêse, pela DIPJ acostada aos autos (fls. 140 a 163), que a Contribuinte apurou estimativas de CSLL com base na receita bruta até o mês de abril/2005, e que a partir do mês de maio passou a apurar balancetes de suspensão, indicando bases negativas até o final do ano, com saldo negativo de CSLL a pagar em dezembro de 2005, no valor de R$ 9.323,69. O fato de a Contribuinte não ter deduzido na Ficha 17 da DIPJ (fls. 156) as estimativas recolhidas ao longo do ano com base na receita bruta, para fins de indicar nesta ficha o mesmo valor de R$ 9.323,69 a título de saldo negativo não pode prejudicar a restituição/compensação do indébito. Se ela apurou base negativa no período, e esta se encontra homologada, eis que não há nenhuma notícia de reversão do resultado por meio de auto de infração, as antecipações de pagamento configuram indébito a ser restituído ou compensado. Como já mencionado, a estimativa é um pagamento, ainda que antecipado, e no caso de ela se configurar como um pagamento indevido, que caracteriza a formação de saldo negativo, subsiste o direito à repetição, mesmo diante de um equívoco no preenchimento da DIPJ (não preenchimento adequado da Ficha 17). Com efeito, o art. 165 do CTN não condiciona o direito à restituição de indébito, fundado em pagamento indevido ou a maior, a requisitos dessa espécie. O que realmente interessa é a averiguação acerca da existência e da liquidez do alegado crédito do Sujeito Passivo contra a Fazenda Pública. Nesse mesmo passo, também não há maiores problemas em relação à retificação equivocada das DCTF, para zerar as estimativas mensais anteriormente declaradas/ confessadas. Fl. 185DF CARF MF Impresso em 05/03/2012 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 04/03/2012 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10650.900562/200909 Acórdão n.º 180201.121 S1TE02 Fl. 11 11 Em relação a isso, é importante lembrar que as estimativas declaradas em DCTF e não recolhidas, nem mesmo são encaminhadas à execução fiscal, porque o art. 44 da Lei 9.430/1996 prevê um tratamento específico para o caso de falta de recolhimento de estimativa, que consiste na aplicação de multa isolada. Assim, o fato de não mais constar da DCTF o valor recolhido a título de estimativa, em razão da retificação desta declaração, não tem qualquer reflexo na formação/ caracterização de saldo negativo a ser restituído/compensado. A ausência de declaração em DCTF não suprime o efeito das antecipações que foram efetivamente recolhidas. No caso, a estimativa foi paga e a Contribuinte apurou base negativa no período, que se encontra homologada pelo decurso do tempo. Portanto, há o direito à repetição do que foi pago indevidamente, a título de antecipação. Tratandose de estimativa mensal efetivamente recolhida, o fato de o “débito” a título de estimativa não constar de DCTF é ainda mais irrelevante, eis que ao final do período em que se apurou base negativa, o pagamento antecipado (correspondente àquele débito) passa a configurar indébito a ser restituído/compensado. Finalmente, em relação ao caso sob exame, vale registrar que o recolhimento da estimativa de fevereiro/2005 se deu com acréscimos legais, em razão de atraso, e que a Contribuinte, corretamente, reivindicou a repetição apenas da rubrica principal. Com o recolhimento da estimativa, ainda que em atraso, ela se desincumbe de seu dever de “antecipação”, e evita a aplicação da multa isolada prevista no art. 44 da Lei 9.430/1996. E em razão da apuração de base negativa, a rubrica principal se apresenta como saldo negativo a ser restituído/compensado. Os acréscimos legais, por sua vez, eram e continuam sendo devidos em razão do atraso no recolhimento da estimativa, não gerando direito à repetição, porque a Contribuinte é obrigada ao recolhimento das estimativas (salvo se houver balancete de suspensão), ainda que posteriormente estas venham ser restituídas sob a forma de saldo negativo. Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso, para homologar a compensação, no limite do crédito tributário reconhecido. (assinado digitalmente) José de Oliveira Ferraz Corrêa Fl. 186DF CARF MF Impresso em 05/03/2012 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 04/03/2012 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10650.900562/200909 Acórdão n.º 180201.121 S1TE02 Fl. 12 12 Fl. 187DF CARF MF Impresso em 05/03/2012 por ANDREA FERNANDES GARCIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 27/02/2012 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 04/03/2012 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
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Numero do processo: 12457.735133/2013-44
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 24 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 21 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Data do fato gerador: 13/07/2011, 12/10/2011
IMPORTAÇÃO POR ENCOMENDA. OCULTAÇÃO DO REAL INTERVENIENTE. MULTA. CESSÃO DE NOME.
Incorre na multa tipificada no artigo 33 da Lei nº 11.488, de 2007, a pessoa jurídica importadora que ceder seu nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros, omitindo os dados da empresa encomendante das mercadorias na Declaração de Importação, acobertando assim o real interveniente.
Numero da decisão: 3201-003.019
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado. Votou pelas conclusões o Conselheiro Pedro Rinaldi de Oliveira Lima.
Winderley Morais Pereira - Presidente.
Leonardo Vinicius Toledo de Andrade - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Orlando Rutigliani Berri e Renato Vieira de Avila
Nome do relator: LEONARDO VINICIUS TOLEDO DE ANDRADE
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OCULTAÇÃO DO REAL INTERVENIENTE. MULTA. CESSÃO DE NOME. Incorre na multa tipificada no artigo 33 da Lei nº 11.488, de 2007, a pessoa jurídica importadora que ceder seu nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros, omitindo os dados da empresa encomendante das mercadorias na Declaração de Importação, acobertando assim o real interveniente. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado. Votou pelas conclusões o Conselheiro Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Winderley Morais Pereira Presidente. Leonardo Vinicius Toledo de Andrade Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Orlando Rutigliani Berri e Renato Vieira de Avila AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 45 7. 73 51 33 /2 01 3- 44 Fl. 562DF CARF MF 2 Relatório Por retratar com fidelidade os fatos, adoto, com os devidos acréscimos, o relatório produzido em primeira instância, o qual está consignado nos seguintes termos: "Trata o presente processo de Auto de Infração lavrado para a aplicação de multa prevista pelo artigo 33 da Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007, equivalente a 10% (dez por cento) do valor aduaneiro das mercadorias importadas pelas Declarações de Importação nºs 11/12922107 e 11/19343030, registradas em 13/07/2011 e 12/10/2011 respectivamente. De acordo com o relatório fiscal, parte integrante do Auto de Infração, as informações e documentos analisados no curso de procedimento especial de controle aduaneiro mostram que a interessada atua no comércio exterior como intermediária em operações de terceiras empresas, destinatárias finais dos produtos, sem que jamais tenha informado esse fato à aduana brasileira, o que caracteriza ocultação dos reais responsáveis pela operação. Segundo a fiscalização, dentre centenas de importações realizadas em nome da PONTUAL COM. IMP. E EXP. DE PEÇAS AUTOMOTIVAS LTDA, doravante denominada PONTUAL, no período fiscalizado, constatouse que em 13/07/2011 e 12/10/2011 foram registradas as DI acima já destacadas que totalizaram R$ 119.942,09. As partes que se pretendiam manter encobertas nas declarações de importação em tela eram as pessoas jurídicas a seguir relacionadas, então supostas “clientes” da fiscalizada. Essa conclusão fundouse nos seguintes elementos, destacados no Relatório da fiscalização: Atendendo ao Fisco, a sócia JANICE ELAINE GRINGS compareceu às dependências da DRF/FOZ no dia 04/04/2013, e espontaneamente prestou informações detalhadas acerca da PONTUAL, as quais foram reduzidas ao competente Termo de Declaração (Anexo 14); A Senhora JANICE logo no início admitiu que a empresa opera com vendas casadas (de forma não exclusiva, segundo a mesma), negociando primeiro com clientes nacionais para depois contatar os fornecedores): (...) Fl. 563DF CARF MF Processo nº 12457.735133/201344 Acórdão n.º 3201003.019 S3C2T1 Fl. 3 3 Também admitiu literalmente que a PONTUAL atuou por conta e ordem de terceiros em operações de comércio exterior registradas como se fossem por conta própria. (...) Ao final, ao ser questionada se gostaria de esclarecer algo mais sobre a PONTUAL, a sócia confessou também que operou por encomenda de terceiros em operações registradas como se fossem por conta e ordem própria da fiscalizada. (...) A análise da contabilidade da PONTUAL em nada contribuiu para a presente auditoria, pois está eivada de vícios. (...) A fiscalizada declarou receitas brutas de vendas decorrentes da comercialização das mercadorias importadas no mercado interno que pouco superam os dispêndios na importação, menores que 10% (com exceção de 2009, quando chegou perto de 20%), conforme ilustrado na tabela (vide fls. 236/237), indicando uma margem de lucro pequena para uma empresa que comercializa produtos importados por conta própria. A PONTUAL também possui poucos empregados registrados desde a sua constituição. Várias vendas no mercado interno escrituradas na contabilidade como “à vista” (com débito da conta “Caixa” ou “Bancos”), na verdade foram pagas a prazo, segundo informações prestadas pela própria PONTUAL em atendimento às intimações feitas pelo Fisco para demonstrar alguns recebimentos de operações específicas. DA AUDITORIA DA DECLARAÇÃO DE IMPORTAÇÃO Nº 11/12922107 – REGISTRADA EM 13/07/2011 Ao analisar as notas fiscais eletrônicas (NFe) de venda das mercadorias importadas através da DI auditada, emitidas pela fiscalizada, constatouse que todas as mercadorias tiveram apenas um destinatário: a empresa LEANDRO DUARTE COMÉRCIO E TRANSPORTES LTDA, CNPJ 12.975.656/000109. Tanto as notas de entrada como de saída foram emitidas no mesmo dia do registro da DI que internalizou as mercadorias transacionadas por tais notas, ou seja, 13/07/2011. Neste caso específico, o representante legal que atuou no despacho em questão é despachante aduaneiro e o sócioadministrador da empresa destinatária das mercadorias importadas: LEANDRO DUARTE, CPF 628.393.22072. (...) Fl. 564DF CARF MF 4 Intimada a informar como e quando recebeu pela venda das mercadorias importadas por tal DI, a PONTUAL informou pagamentos a partir de 15/07/2011 (Anexo 19), dois dias após o registro da DI e a emissão das NFe de saída das referidas mercadorias. (...) No entanto, constatouse haver transferências bancárias anteriores a esta data da LEANDRO DUARTE para a PONTUAL, segundo extrato bancário entregue pela fiscalizada em atendimento ao intimado pelo Fisco (Anexos 17 e 18). (...) Em resposta ao Fisco, a empresa LEANDRO DUARTE admitiu ter pago parcelas em datas anteriores ao registro da DI, diversas do alegado pela fiscalizada (tendo enviado cópias dos comprovantes – Anexo 23), com a primeira parcela paga antes mesmo da data de emissão da Fatura Comercial que acobertou a mercadoria durante o transporte e que instruiu a Declaração de Importação (Invoice nº 204 – Anexo 08), ou seja, antes mesmo de a mercadoria ter saído do país exportador. DA AUDITORIA DA DECLARAÇÃO DE IMPORTAÇÃO Nº 11/19343030 REGISTRADA EM 12/10/2011 4 Na Declaração de Importação (DI) nº 11/19343030 (Anexo 10) há o envolvimento de dois intervenientes, diversos do que participou da operação anteriormente analisada. (...) Todas as mercadorias tiveram dois destinatários: as empresas JOSÉ FRANCISCO RIBEIRO ALVES, e MEGHAZINE COMÉRCIO DE PEÇAS AUTOMOTIVAS IMP. E EXP LTDA, CNPJ 12.452.473/0001 09. A primeira adquiriu 91,66% das mercadorias importadas, tendo sido o restante – 8,34%, que corresponde às mercadorias objeto do 2º Item da Adição 003 da referida DI – “vendido” para a outra adquirente. (...) Intimada, em resposta ao Fisco, a JOSÉ FRANCISCO RIBEIRO ALVES (bem como a MEGHAZINE, a outra empresa adquirente das mercadorias importadas através da DI auditada) informou que negociou com o Sr. Leandro Tomazin, suposto gerente de vendas. Alegou ainda que a negociação ocorreu por contatos telefônicos, em 21/06 e 13/07/2011, tendo juntado, para comprovar, faturas telefônicas (com ligações para o mesmo número de telefone celular que a outra adquirente informou como sendo do Sr. Leandro) – vide Anexos 24 a 27. A MEGHAZINE (a outra empresa adquirente das mercadorias importadas através da DI auditada), por sua vez, informou – como se verá no tópico seguinte – que negociara também com o Sr. Leandro Tomazin, suposto “representante da marca Roadstar no Brasil” (Anexo 26). Fl. 565DF CARF MF Processo nº 12457.735133/201344 Acórdão n.º 3201003.019 S3C2T1 Fl. 4 5 Apurouse que o citado representante é na verdade o contribuinte LEANDRO JUNIOR TOMAZIN, CPF 006.702.829 28, diretor comercial da marca ROADSTAR (do Paraguai) – a fabricante da maioria dos produtos importados através da DI auditada." A decisão recorrida apresenta a seguinte ementa: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 13/07/2011, 12/10/2011 IMPORTAÇÃO POR ENCOMENDA. OCULTAÇÃO DO REAL INTERVENIENTE. MULTA. CESSÃO DE NOME. Incorre na multa tipificada no artigo 33 da Lei nº 11.488, de 2007, a pessoa jurídica importadora que ceder seu nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros, omitindo os dados da empresa encomendante das mercadorias na Declaração de Importação, acobertando assim o real interveniente. Impugnação Improcedente" O recurso voluntário foi interposto de forma hábil e tempestiva, contendo as seguintes razões: (i) as importações foram realizadas por empresa idônea; (ii) que não ocorreu importação por encomenda; (iii) que as mercadorias importadas foram vendidas para 3 adquirentes e não para apenas um; (iv) que a multa pela cessão indevida de nome deve ser desconstituída; (v) que as operações foram realizadas primeiramente com o fornecedor estrangeiro e, na sequência, buscouse compradores brasileiros, e que os valores só foram recebidos após a emissão da licença de importação e a declaração de importação, o que demonstra não se tratar de "encomenda" ou "importação por conta e ordem"; (vi) que as declarações prestadas por uma das sócias devem ser levadas em consideração, pois é pessoa leiga em relação aos conceitos jurídicos das expressões utilizadas pelo interrogante; (vii) que entre 60%/70% de suas vendas encontra o comprador antes da nacionalização, mas sempre após a compra do fornecedor estrangeiro; (viii) que não há ilicitude na contabilidade da empresa; (ix) que se dispõe a provar por meio de prova que sua escrituração contábil é regular; Fl. 566DF CARF MF 6 (x) menciona demonstrativos de estoques e de empréstimos financeiros realizados; (xi) diz que o Fisco não pode alterar o alcance da lei, sob pena de ofensa aos arts. 110 e 112 do CTN, e (xii) que o capital da empresa está devidamente integralizado. É o relatório. Voto Conselheiro Leonardo Vinicius Toledo de Andrade O recurso é tempestivo e atende os pressupostos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. DA ALEGAÇÃO DE QUE A MULTA É CONFISCATÓRIA Preliminarmente afasto a alegação formulada pela empresa recorrente de que a multa aplicada possui caráter confiscatório, com ofensa ao art. 150, inc. IV da Constituição Federal, em face de não ser possível a sua apreciação por parte deste colegiado, em razão da sua incompetência para decidir sobre a constitucionalidade da legislação tributária. No caso em apreço, verificar eventual ocorrência de confisco seria equivalente a reconhecer a inconstitucionalidade da norma legal que prevê de forma expressa a incidência da multa, o que é vedado a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Neste sentido, assim dispõe a Súmula CARF nº 2, publicada no DOU de 22/12/2009: “Súmula CARF nº 2 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária” DO MÉRITO Em relação ao mérito recursal, melhor sorte não assiste à recorrente. O presente processo versa sobre a constituição de crédito tributário referente à aplicação da multa de 10% (dez por cento) sobre o valor da operação, por alegada cessão de nome para realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários, com multa prevista no artigo 33 da Lei nº 11.488/2007. Dispõe o art. 33 da Lei 11.488 "Art. 33. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a Fl. 567DF CARF MF Processo nº 12457.735133/201344 Acórdão n.º 3201003.019 S3C2T1 Fl. 5 7 realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000, 00 (cinco mil reais)." Parágrafo único. À hipótese prevista no caput deste artigo não se aplica o disposto no art. 81 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996." A matéria está disciplinada, ainda, no art. 727, § 3º do Regulamento Aduaneiro aprovado pelo Decreto nº 6.759/2009. "Art. 727. Aplicase a multa de dez por cento do valor da operação à pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários (Lei no 11.488, de 2007, art. 33, caput). § 1° A multa de que trata o caput não poderá ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais) (Lei no 11.488, de 2007, art. 33, caput). § 2° Entendese por valor da operação aquele utilizado como base de cálculo do imposto de importação ou do imposto de exportação, de acordo com a legislação específica, para a operação em que tenha ocorrido o acobertamento. § 3° A multa de que trata o caput não prejudica a aplicação da pena de perdimento às mercadorias na importação ou na exportação." Segundo o entendimento fiscal, o modo operacional adotado pela recorrente consistiu em atuar como intermediária em operações de terceiras empresas, destinatárias finais dos produtos, sem que jamais tenha informado esse fato à aduana brasileira, o que caracteriza ocultação dos reais responsáveis pela operação, no presente caso, Leandro Duarte Comércio e Transportes Ltda; José Francisco Ribeiro Alves e Meghazine Comércio de Peças Automotivas Imp. e Exp. Ltda ao pretender demonstrar ser, além de importadora, a efetiva e real adquirente das mercadorias, quando na verdade cedeu seu nome nas operações elencadas neste processo. Entendo que o conjunto probatório apresentado pela fiscalização é satisfatório para a caracterização da infração de cessão de nome para acobertamento dos encomendantes ou terceiros adquirentes. A fiscalização apurou que as empresas adquirentes das mercadorias importadas admitiram os pedidos antecipados e as negociações com o representante do próprio fabricante das mercadorias. Ficou, também, caracterizado que houve provimento de recursos por parte dos adquirentes para a quitação do contrato de câmbio vinculado à importação. Fl. 568DF CARF MF 8 Durante todo o transcurso processual, a recorrente não logrou êxito em provar suas afirmações, não colacionando aos autos nenhuma prova documental hábil a desconstituir as razões consignadas no lançamento. Quando a recorrente afirma que se dispõe a provar por meio de prova que a sua escrituração contábil é regular, não trouxe aos autos, sequer um indício de prova que pudesse ser considerado por este colegiado, apto a determinar eventual diligência. Alberto Xavier, leciona que: "A questão está em saber se os métodos probatórios indiciários, aí aonde são autorizados a intervir, são, em si mesmo, compatíveis com o princípio da verdade material. Nos casos em que não existe ou é deficiente a prova direta pré constituída, a Administração Fiscal deve também investigar livremente a verdade material. É certo que ela não dispõe agora de uma base probatória fornecida diretamente pelo contribuinte ou por terceiros; e por isso deverá ativamente recorrer a todos os elementos necessários à sua convicção. Tais elementos serão, via de regra, constituídos por provas indiretas, isto é, por fatos indiciantes, dos quais se procura extrair, com o auxílio de regras da experiência comum, da ciência ou da técnica, uma ilação quanto aos fatos indiciados. A conclusão ou a prova não se obtém diretamente, mas indiretamente, através de um juízo de relacionação normal entre o indício e o tema da prova. Objeto de prova em qualquer caso são os fatos abrangidos na base de cálculo (principal ou substituta) prevista na lei: só que a verdade material se obtém de modo direto e nos quadros de um modo indireto, fazendo intervir ilações, presunções e juízos de probabilidade ou de normalidade. Tais juízos devem ser, contudo, suficientemente sólidos para criar no órgão de aplicação do direito a convicção da verdade." (Do lançamento. Teoria Geral do Ato do Procedimento e do Processo Tributário”, Ed. Forense, 2ª ed., 1998, pág. 133) Assim, entendo que no caso em debate,considerando as suas especificidades, é inviável a realização de qualquer diligência, estando preclusa a produção de prova nesta instância recursal. A jurisprudência deste colegiado é pacífica sobre a aplicação da multa prevista no art. 33 da Lei 11.488 na situação de cessão de nome, conforme ementas a seguir colacionadas: "Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 17/09/2009 a 08/12/2009 MULTA POR CESSÃO DO NOME. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA COMPROVADA. RESPONSABILIDADE DO IMPORTADOR. POSSIBILIDADE. É devida a aplicação da multa de 10% (dez por cento) do valor da operação de importação se comprova a interposição fraudulenta e que o importador ostensivo cedeu o nome, com vista à ocultação do real comprador das mercadorias importadas Fl. 569DF CARF MF Processo nº 12457.735133/201344 Acórdão n.º 3201003.019 S3C2T1 Fl. 6 9 .MULTA POR OMISSÃO DE INFORMAÇÃO NECESSÁRIA À DETERMINAÇÃO DO PROCEDIMENTO DE CONTROLE ADUANEIRO. FALTA DE INFORMAÇÃO DO CNPJ NO CAMPO PRÓPRIO DA DECLARAÇÃO DE IMPORTAÇÃO (DI). CABIMENTO. A ausência da informação do número de inscrição no CNPJ do suposto encomendante predeterminado no campo próprio da DI descaracteriza a operação de importação por encomenda e altera o procedimento de controle aduaneiro apropriado a real operação de importação, circunstância que configura a prática da correspondente infração. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 17/09/2009 a 08/12/2009 MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL (MPF). DESCUMPRIMENTO DO PRAZO EMISSÃO. CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS. NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. Eventual irregularidade do Mandado de Procedimento Fiscal (MPF) não se constitui hipótese legal de nulidade do auto de infração, quando este atende todos os requisitos estabelecidos no art. 142 do CTN e no art. 10 do Decreto 70.235/1972.Recurso Voluntário Negado." (Processo n° 10920.001676/201072; Acórdão n° 3302003.724; Data da sessão: 28/03/2017; Relator: Conselheiro José Fernandes do Nascimento) "Assunto: Imposto sobre a Importação II Período de apuração: 14/05/2008 a 21/12/2011 CESSÃO DO NOME PARA UTILIZAÇÃO EM OPERAÇÕES DE COMÉRCIO EXTERIOR. MULTA PREVISTA NO ART. 33, DA LEI Nº 11.488/07.A cessão do nome para operações de comércio implica na aplicação da multa de 10% (dez por cento) do valor da mercadoria, prevista no art. 33, da Lei nº 11.488/07." (Processo n° 10516.720006/201292; Acórdão n° 3201001.552; Data da sessão: 25/02/2014; Relator: Conselheiro Daniel Mariz Gudiño voto vencido. Voto vencedor: Conselheiro Winderley Morais Pereira) O conjunto de operações praticado pela recorrente, portanto, tinha o objetivo de servir aos terceiros com a cessão do seu nome, com o intuito de omitir os reais adquirentes. Assim, tendo em vista que a recorrente não observou o contido na legislação de regência (art. 11 da Lei nº 11.281/2006 e IN SRF nº 634/2006), ocultando a figura do real adquirente/encomendante, cometeu a infração caracterizadora da aplicação da multa imposta. A penalidade aplicada no caso, com fundamento no art. 33 da Lei 11.488/2007, referese a penalidade específica à empresa que faz a cessão de seu nome e documentos para realização de operações de comércio exterior, estando corretamente utilizada. Fl. 570DF CARF MF 10 É de se salientar, ainda, que o processo n° 12457.735138/201377 que versa sobre multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria na importação, quando essa não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, por ocasião da apuração da infração por dano ao Erário, que envolve a recorrente e trata da DI 11/12922107 ora em apreço, julgado recentemente, foi negado provimento ao recurso voluntário da recorrente por voto de qualidade (Acórdão 3402003.832, publ. em 23/03/2017) Em tal julgado, a relatora Conselheira Thais de Laurentiis Galkowicz (voto vencido) entendeu por afastar a multa de perdimento, no entanto, opinava pela aplicação da multa de 10% (dez por cento) pela cessão de nome. Em seu voto, a relatora deixou caracterizada a ocorrência da infração, conforme excertos a seguir transcritos: "Percebese a correspondência entre o caso supracitado para o presente. Neste primeiro foram elencados diversos indícios que de forma contundente e conclusiva demonstram o financiamento da operação de importação: pela participação do despachante aduaneiro, a sistematicidade que ocorriam as operações, as datas das transações em contas bancárias, o conhecimento da fraude pelo ocultado, a solicitação de montantes para o recolhimento de tributos, dentre outros. Dessa forma, pela análise aos autos, entendo que a Pontual não comprovou o não financiamento das importações em questão, e existem provas suficientes para manter da infração apontada pela Fiscalização (operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro), que deveria, portanto, ensejar em procedimento específico de declaração de importação por conta e ordem de terceiros. Não tendo assim ocorrido, caracterizase a ocultação do real importador das mercadorias, a ensejar a pena de perdimento convertida em multa, nos moldes do artigo 23, inciso V e §3º do Decretolei n. 1.455/76." Prossegue adiante em seu voto: "Ora, como destacado acima, com o advento da multa 10% do valor da operação peça cessão de nome (artigo 33 da Lei nº 11.488/07) esta passou a ser a penalidade aplicável ao importador ostensivo. Todavia, permanece existindo e sendo aplicável a perda de perdimento como penalidade atribuída ao importador oculto, nos exatos termos do artigo 23, inciso V e §3º do Decretolei n. 1.455/76. Vale dizer, a multa de 10% do valor da operação pela cessão de nome não prejudica a pena de perdimento das mercadorias na importação ou exportação, justamente como impõe do §3º do artigo 727 do Regulamento Aduaneiro. De fato, ambas as penalidades serão aplicáveis em caso de constatação de interposição fraudulenta, contudo sendo cada qual imposta para o respectivo infrator das normas aduaneiras, e não conjuntamente para um único sujeito passivo. Dessarte, concluo que à Pontual, importadora ostensiva, não se aplica a penalidade imposta pelo artigo 23, inciso V e §3º do Decretolei n. 1.455/76, mas sim aquela de 10% do valor da operação pela cessão de nome (artigo 33 da Lei nº 11.488/07), Fl. 571DF CARF MF Processo nº 12457.735133/201344 Acórdão n.º 3201003.019 S3C2T1 Fl. 7 11 devendo portanto ser cancelada, relativamente a este sujeito passivo, a presente autuação fiscal." No que tange a DI 11/19343030 ora em apreço, o processo n° 12457.735136/201388 que trata sobre multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria na importação, quando essa não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, por ocasião da apuração da infração por dano ao Erário, que envolve a recorrente, também foi julgado recentemente, e teve como resultado o não provimento ao recurso voluntário da recorrente por voto de qualidade (Acórdão 3402003.831, publ. em 23/03/2017). Em aludido processo, a relatora de igual modo ao feito no processo 12457.735138/201377, entendeu pela aplicação da multa prevista de 10% do valor da operação pela cessão de nome. Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário. Leonardo Vinicius Toledo de Andrade Relator Fl. 572DF CARF MF
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