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Numero do processo: 10580.910898/2012-48
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Aug 17 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 01 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1201-000.599
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente e Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Gisele Barra Bossa e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente).
Nome do relator: ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Gisele Barra Bossa e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 05 80 .9 10 89 8/ 20 12 -4 8 Fl. 63DF CARF MF Processo nº 10580.910898/201248 Resolução nº 1201000.599 S1C2T1 Fl. 3 2 Relatório 1. Tratase o presente processo de Manifestação de Inconformidade referente ao PER/DCOMP nº 35453.51636.200208.1.3.042976. 2. O PER/DCOMP é relativo a pedido de compensação dos débitos discriminados com crédito de IRPJ decorrente de recolhimento com DARF no valor de R$ 6.604,18, efetuado em 28/04/2000. 3. No despacho decisório constatouse que na data de transmissão do PER/DCOMP o crédito já estava extinto em razão de terem se passado mais de cinco anos entre a data de arrecadação do DARF, 28/04/2000, e a data de transmissão do PER/DCOMP, 20/02/2008. Portanto, a compensação não foi homologada sob o fundamento legal dos artigos 165 e 170, do CTN, e artigo 74 da Lei 9.430/96. 4. A contribuinte, devidamente intimada do despacho, apresentou Manifestação de Inconformidade na qual alega, em síntese, que: (i) o despacho é nulo diante da ausência de análise efetiva da situação que ensejou o direito material da contribuinte, o que acaba por cercear do seu direito de defesa; (ii) o crédito é líquido e certo; (iii) ao realizar o pedido de compensação por meio do Programa PER/DCOMP versão 3.3, que já identificava a prescrição ou não do crédito, não houve nenhum aviso de “erro”; e (iv) o direito creditório não está extinto, pois o crédito utilizado na DCOMP, objeto do presente processo, já havia sido indicado em DCOMP anteriormente apresentada dentro do prazo legal de cinco anos. 5. Ao final, a contribuinte requer que (i) o despacho decisório seja declarado nulo; (ii) seja admitida a DCOMP; e (iii) homologada a presente compensação. 6. Em sessão de 14 de abril de 2015, a 2ª Turma da DRJ/BHE, por unanimidade de votos, julgou improcedente a manifestação de inconformidade para não reconhecer o direito creditório e não homologar as compensações em litígio, nos termos do voto relator, Acórdão nº 0265.294, cuja ementa recebeu o seguinte descritivo, verbis: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA – IRPJ Anocalendário: 2000 COMPENSAÇÃO APÓS A EXTINÇÃO DO DIREITO DE PLEITEAR RESTITUIÇÃO. Não se admite a compensação com crédito apurado ou decorrente de pagamento efetuado há mais de 5 anos da data da entrega do PER/DCOMP e que não tenha sido objeto de pedido de restituição ou de ressarcimento apresentado à RFB antes do transcurso do referido prazo. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido”. Fl. 64DF CARF MF Processo nº 10580.910898/201248 Resolução nº 1201000.599 S1C2T1 Fl. 4 3 7. A DRJ/ BHE julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade sob os seguintes fundamentos: 7.1. O despacho decisório não é nulo, pois não se verifica nenhuma das hipóteses do artigo 59, inciso II, do Decreto nº 70.235/72. Ademais, o despacho está devidamente motivado e não deixa dúvidas sobre o fundamento para a não homologação, que consiste na extinção do direito de utilização do crédito por ter se passado mais de cinco anos entre a data de arrecadação do crédito e a data de transmissão do PER/DCOMP. 7.2. Por força do artigo 168, inciso I, do CTN, o direito de pleitear a restituição ou ressarcimento extinguese com o decurso do prazo de cinco anos contados da data da extinção do crédito, que ocorro no momento do pagamento. Tendo em vista que o crédito é referente a pagamento efetuado em 28/04/2000, o direito da contribuinte em pleitear a restituição se extinguiu em 28/04/2005. 7.3. A mera existência de DCOMP transmitida antes da extinção do direito de requerer restituição não legitima compensações efetuadas com o mesmo crédito depois da extinção, pois a declaração de compensação não interrompe a contagem do prazo para extinção do direito de pedir a restituição. 7.4. No presente caso, a contribuinte não escolheu a opção de “Pedido de Restituição” no primeiro PER/DCOMP, mas apenas consta a expressão “Declaração de Compensação”. Portanto, tendo em vista que a declaração de compensação não tem a mesma natureza do pedido de restituição, não há que se homologar a presente compensação transmitida após o dia 28/04/2005. 8. Cientificada da decisão em 11/06/2015, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário em 09/07/2015 reiterando as razões já expostas em sede de Manifestação de Inconformidade, em especial para alegar que o crédito em questão decorre de resposta à Solução de Consulta que reconheceu o direito à aplicação do percentual de 8% na determinação da base de cálculo do IRPJ por exercer atividade equiparada a “Serviços Hospitalares”, com efeito retroativo por força do artigo 106 do CTN. Ademais, a Recorrente requerer: (i) que seja admitido o pedido de restituição e/ou Declaração de Compensação objeto do presente processo; (ii) que seja refutada a alegação de preclusão; e (iii) que seja admitido que a Recorrente exercia a atividade de prestação dos serviços hospitalares consoante às normas aplicáveis à época. É o relatório. Fl. 65DF CARF MF Processo nº 10580.910898/201248 Resolução nº 1201000.599 S1C2T1 Fl. 5 4 Voto Conselheira Ester Marques Lins de Sousa, Relatora O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução nº 1201000.598, de 17/08/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10580.910897/2012 01, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Resolução nº 1201000.598): 9. O recurso voluntário interposto pelo Recorrente é tempestivo e cumpre os demais requisitos legais de admissibilidade, razão pela qual dele tomo conhecimento e passo a apreciar. Da Necessária Realização de Diligência 10. No presente caso, as doutas autoridades fiscais consideram que, mesmo sendo o valor suficiente, não se poderia homologar as compensacõ̧es do PER/DCOMP nº 17901.26282.300108.1.3.044602, porque efetuadas depois de extinto o direito de o sujeito passivo pleitear restituicã̧o do pagamento indevido ou a maior nele utilizado. 11. De fato, de acordo com o artigo 74, da Lei nº 9.430/96 e do artigo 168, inciso I, da Lei 5.172/66, o contribuinte pode utilizar na compensação de débitos próprios créditos passíveis de restituição ou ressarcimento e o direito de pleitear a restituicã̧o extinguese com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados da data da extinção do crédito tributário. Confirase: Lei nº 9.430/96 "Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. § 1o A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. § 2o A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação." CTN "Art. 165. O sujeito passivo tem direito, independentemente de prévio protesto, à restituição total ou parcial do tributo, Fl. 66DF CARF MF Processo nº 10580.910898/201248 Resolução nº 1201000.599 S1C2T1 Fl. 6 5 seja qual for a modalidade do seu pagamento, ressalvado o disposto no § 4º do artigo 162, nos seguintes casos: I cobrança ou pagamento espontâneo de tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido; (...) Art. 168. O direito de pleitear a restituição extinguese com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados: I nas hipótese dos incisos I e II do artigo 165, da data da extinção do crédito tributário;" 12. Por sua vez, a extinção do crédito tributário ocorre no momento do pagamento, conforme dispõe o artigo 3º, da Lei Complementar nº 118/05: Art. 3º Para efeito de interpretação do inciso I do art. 168 da Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional, a extinção do crédito tributário ocorre, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, no momento do pagamento antecipado de que trata o § 1o do art. 150 da referida Lei. 13. Sobre o tema, o Supremo Tribunal Federal, no Recurso Extraordinário nº 566.621, proferiu decisão definitiva sob o rito da repercussão geral, para definir o termo a quo do prazo estabelecido no artigo 168, inciso I, do CTN, afetando o direito de pleitear a restituição, tanto no âmbito administrativo como no judicial. 14. De acordo com a decisão, a interpretação veiculada na Lei Complementar nº 118/2005 deve ser aplicada aos pedidos de restituição e declarações de compensação apresentados a partir de 09/06/2005. Nestes casos, o direito de pleitear restituição, ou utilizar indébito em compensação, extinguese com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados da data da extinção do crédito tributário (leia se pagamento). 15. Já os pedidos de restituição e declarações de compensação apresentados antes de 09/06/2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. Nesse sentido, é a própria Súmula CARF nº 91: "Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador". 16. No caso em tela, estamos tratando de valor pago indevidamente ou a maior em 28/04/2000 à título de IRPJ 1º Trimestre de 2000, cujo PER/DCOMP original foi transferido em 30/01/2008. Logo, em uma primeira e isolada análise, poderia estar extinto do direito creditório do contribuinte. Fl. 67DF CARF MF Processo nº 10580.910898/201248 Resolução nº 1201000.599 S1C2T1 Fl. 7 6 17. Contudo, quando da verificação dos autos, não é possível evidenciar se houve ou não pedido de restituição e/ou declaração de compensação apresentados entre 28/04/2000 e 09/06/2005, conforme orienta o citado precedente do STF. O próprio contribuinte traz essa alegação e aponta a existência de DCOMPs apresentados dentro do citado período. 18. Não é demais consignar que, o precedente em questão (RE nº 566.621) equipara as figuras do pedido de restituição e da declaração de compensação, visto que os efeitos práticos e jurídicos dos dois institutos são equivalentes, no primeiro caso o contribuinte irá reaver o valor pago a maior e no segundo vai ver compensado seu direito de crédito com débito de sua titularidade. Inclusive, a compensação evita que a Administração Pública tenha efetivo desembolso financeiro. Tanto é que a redação do artigo 74, da Lei nº 9.430/96, mantém, em termos herméticos e técnicos tal, equiparação. 19. Não pode a autoridade fiscal "criar" distinção técnica onde nem a Suprema Corte e nem o legislador o fez. Adotar tal entendimento leva não só ao enriquecimento ilícito do Estado como afronta valores basilares como segurança jurídica, razoabilidade e eficiência administrativa. 20. Não é porque estamos diante de direito creditório do contribuinte que podemos olvidar dos princípios que regem a Administração Pública, em especial do princípio da eficiência. 21. De acordo com Prof. Doutor Humberto Ávila1 " para que a administração esteja de acordo com o dever de eficiência, não basta escolher meios adequados para promover seus fins. A eficiência exige mais o que mera adequação. Ela exige satisfatoriedade na promoção dos fins atribuídos à administração. Escolher um meio adequado para promover um fim, mas que promove o fim de modo insignificante, com muitos efeitos negativos paralelos ou com pouca certeza, é violar o dever de eficiência administrativa. O dever de eficiência traduzse, pois, na exigência de promoção satisfatória, para esse propósito, a promoção minimamente intensa e certa do fim”. 22. Nessa linha, e em última análise, deixar de observar os preceitos aqui descritos viola o princípio da eficiência, pois os litígios acabam sendo levados para o âmbito do Poder Judiciário. Para além do ônus suportado pelas partes, temos o ônus para o própria Administração Pública. O Estado é um só e os custos do contencioso são suportados por todos os cidadãos brasileiros. A eficiência de gestão dos recursos públicos e o cuidado na busca de soluções satisfativas2 são valores legais necessários à promoção do interesse público e não podem ser considerados incompatíveis com esse objetivo. 1 ÁVILA, HUMBERTO. Moralidade, Razoabilidade e Eficiência na Atividade Administrativa. In: Revista Eletrônica sobre a Reforma do Estado, nº 04, out/nov/dez 2005, p. 2324. Disponível em: https://goo.gl/Hn3CpK. Acesso em: 01/01/2018. 2 Sobre o tema, não é demais citar os valores processuais contantes dos artigos 4º, 6º e 8º, da Lei nº 13.105/2015: "Art. 4º As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída a atividade satisfativa. (...) Art. 6º Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva. (...) Fl. 68DF CARF MF Processo nº 10580.910898/201248 Resolução nº 1201000.599 S1C2T1 Fl. 8 7 23. No mais, os valores segurança jurídica e previsibilidade estão estampados no artigo 24, da Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro (LINDB): "Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas." 24. De acordo com o próprio autor do Anteprojeto da LINDB, Floriano de Azevedo Marques3, tal diploma normativo é plenamente aplicável ao CARF, verbis: "A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro trata da aplicação da norma por todo o órgão que o faça no exercício de competência estatal. Me surpreende que este argumento tenha sido utilizado para gerar uma imunidade à Lei de Introdução – ou por acaso o Carf não utiliza a regra da Lei de Introdução sobre a vigência? Aplicar a LINDB na contratação ou exoneração de servidor público? Esta é uma interpretaçãocontra legis." (...) "Se alguém achar que existe algum órgão que é imune à aplicação das Leis de Introdução”, ponderou, “este alguém está dizendo que algum órgão está imune à aplicação das regras do Direito”. 25. Portanto, diante dessas premissas técnicas, data máxima, vênia discordo do posicionamento da DRJ que busca aplicar efeitos distintos para o pedido de restituição e o pedido de compensação. Considero fundamental o julgador ter a ciência de eventual pedido de restituição e ou declaração de compensação apresentado entre 28/04/2000 e 09/06/2005. 26. No mais, conforme consignado pela Recorrente, o direito creditório em exame decorre do processo de consulta nº 10580.006591/200431 que reconheceu o direito a aplicação do percentual de 8% na determinação da base de cálculo do lucro presumido, para fins do IRPJ apurado no respectivo trimestre, equiparandose, tais serviços, aos serviços hospitalares, cujo efeito retroativo se deu por força do artigo 106 do CTN. 27. Com isso, os valores de IRPJ apurados anteriormente com o percentual de 32% foram revisados o que motivou a retificação das respectivas DCTFs do 1º Trimestre de 2000, dentre outras Art. 8º Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência." 3 MENDES, Guilherme. CARF deve aplicar artigo 24 da LINDB, afirma autor da nova redação da norma. Jota, São Paulo, 06 ago. 2018. Disponível em: https://goo.gl/phv85x. Acesso em: 07 ago. 2018. "Floriano de Azevedo Marques, que formulou as alterações da lei, afirma que o CARF não está imune à sua aplicação." Fl. 69DF CARF MF Processo nº 10580.910898/201248 Resolução nº 1201000.599 S1C2T1 Fl. 9 8 retificadoras. Portanto, conforme também consignado pela douta DRJ, o direito creditório seria legítimo. 28. Lembro que, as atividades de instrução destinadas a averiguar e comprovar os dados necessários à tomada de decisão devem ser realizadas de ofício pela autoridade fiscal, nos termos do artigo 29, da Lei nº 9.784/994. 29. Diante das circunstâncias fáticas e jurídicas aqui apresentadas, VOTO por CONVERTER O JULGAMENTO EM DILIGÊNCIA, para que a autoridade preparadora: (i) Relacione eventuais pedidos restituição e de declaração de compensação que evolvam o direito creditório aqui em análise e indique as datas de transmissão de tais documentos, a fim de que seja confirmada a existência ou não de apresentação entre o período de 28/04/2000 e 09/06/2005; (ii) Instrua o presente processo administrativo com a decisão proferida no processo de consulta nº 10580.006591/200431; (iii) Verifique as DCTFs retificadoras apresentadas, efetuando a apuração do crédito relativo aos períodos sob apreciação; e (iv) faça o cotejamento desses créditos com as Dcomps relativas a pagamento a maior de IRPJ e CSLL, anocalendário 2000, procedendo à valoração para fins de verificação de suficiência destes, considerandose, inclusive, alguma Dcomp porventura já homologada. 30. Em caso de dúvidas quanto à exatidão das informações prestadas, a autoridade fiscal deve intimar a contribuinte a prestar esclarecimentos complementares. 31. Após a conclusão da diligência, a autoridade fiscal responsável deverá elaborar Relatório Conclusivo, com posterior ciência à Recorrente, para que, se assim desejar, se manifeste no prazo de 30 (trinta) dias e na seqüência retornem os autos ao E. CARF para julgamento. É como voto." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto acima transcrito. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa 4 Art. 29. As atividades de instrução destinadas a averiguar e comprovar os dados necessários à tomada de decisão realizamse de ofício ou mediante impulsão do órgão responsável pelo processo, sem prejuízo do direito dos interessados de propor atuações probatórias. § 1º O órgão competente para a instrução fará constar dos autos os dados necessários à decisão do processo. § 2º Os atos de instrução que exijam a atuação dos interessados devem realizarse do modo menos oneroso para estes. Fl. 70DF CARF MF
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Numero do processo: 10111.721024/2016-78
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Sep 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2013, 2014, 2015
MULTA PREVISTA PELO INCISO III, DO ARTIGO 711 DO DECRETO Nº 6.759/2009.
Constatada a prestação de informação inexata na declaração de importação, capaz de colocar em risco o procedimento de controle aduaneiro apropriado, cabível a aplicação da multa prevista do artigo 711 do Decreto nº 6.759/2009 (Regulamento Aduaneiro).
DESCUMPRIMENTO DAS NORMAS RELATIVAS À IMPORTAÇÃO POR CONTA E ORDEM DE TERCEIROS. DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MULTA SUBSTITUTIVA.
Restando comprovada a interposição fraudulenta, incontroverso o entendimento da fiscalização de ocorrência da infração prevista no artigo 33 da Lei nº 11.488/2007, regulamentada pelo Decreto 6.759/2009 (RA), considerada dano ao Erário, punida com a multa proporcional ao respectivo valor aduaneiro, caso elas não sejam localizadas ou tenham sido consumidas.
Numero da decisão: 3301-004.851
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Marcelo Costa Marques d'Oliveira - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente).
Nome do relator: MARCELO COSTA MARQUES D OLIVEIRA
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Constatada a prestação de informação inexata na declaração de importação, capaz de colocar em risco o procedimento de controle aduaneiro apropriado, cabível a aplicação da multa prevista do artigo 711 do Decreto nº 6.759/2009 (Regulamento Aduaneiro). DESCUMPRIMENTO DAS NORMAS RELATIVAS À IMPORTAÇÃO POR CONTA E ORDEM DE TERCEIROS. DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MULTA SUBSTITUTIVA. Restando comprovada a interposição fraudulenta, incontroverso o entendimento da fiscalização de ocorrência da infração prevista no artigo 33 da Lei nº 11.488/2007, regulamentada pelo Decreto 6.759/2009 (RA), considerada dano ao Erário, punida com a multa proporcional ao respectivo valor aduaneiro, caso elas não sejam localizadas ou tenham sido consumidas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Marcelo Costa Marques d'Oliveira Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 11 1. 72 10 24 /2 01 6- 78 Fl. 10567DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.568 2 Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente). Relatório Adoto o relatório da decisão de primeira instância "Trata o presente processo de aplicação de multa regulamentar decorrente de omissão ou informação inexata ou incompleta bem como por cessão do nome da pessoa jurídica com vistas ao acobertamento dos reais intervenientes ou beneficiários no valor total de R$ 7.094.875,70. Tanto o exportador (FRIGORÍFICO CONCEPCIÓN) como a importadora COREX S/A e os adquirentes de fato das mercadorias importadas (GARANTIA TOTAL LTDA CNPJ base: 10.197.224, AGRO TRADING IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO DE CARNES LTDA –CNPJ 07.702.840/000145, BEST BOI ALIMENTOS EIRELI CNPJ: 18.236.111/000167) pertencem ao mesmo grupo denominado TORLIM. A ligação entre as empresas foi constatada mediante a análise dos contratos sociais das empresas envolvidas nas operações comerciais bem como da verificação documental entre elas a escrita contábil bem como dos documentos de suporte dos lançamentos da contabilidade (notas fiscais, faturas). A COREX S/A apenas prestava serviços de importação das mercadorias para as outras empresas do mesmo grupo (TORLIM), as quais financiavam as operações de importação, cujo fornecedor, FRIGORÍFICO CONCEPCIÓN, pertence ao grupo TORLIM. A Fiscalização identificou que a contribuinte (COREX S/A) importou (Carnes de animais de origem bovina e ovina para consumo humano) nos últimos seis meses do período abrangido pela presente fiscalização, a saber de janeiro/2013 a março/2015, atuandocomo importador direto, o valor CIF de US$ 21.624.725,23. Notouse aqui um incremento de mais de 42000% (quarenta e dois mil por cento) em relação à estimativa constante da sua habilitação (US$ 512.652,00 – ano calendário de 2012). O capital social total da empresa atualmente é de apenas R$ 100 mil, integrando um Patrimônio Líquido Total de R$ 387.296,06 em 2013 (fonte DIPJ 2014) o que se mostra incompatível com os montantes movimentados pela empresa. Apesar do alto volume de importações efetuadas pela COREX, todas elas registradas como sendo por conta própria da empresa, demonstrouse que essas Fl. 10568DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.569 3 operações foram suportadas financeiramente por terceiros ocultos nas Declarações de Importação. As provas elencadas neste Termo visaram demonstrar cabalmente que a COREX ocultou os reais adquirentes das importações realizadas por conta própria utilizando meios fraudulentos para atingir este objetivo e resultando em grandes danos à administração aduaneira, conforme reproduzido a seguir: Intimada da exação em tela em 31/08/2016 (fl.10.335), a autuada apresentou impugnação em 30/09/2016 (fls.9.473/9.533) alegando, em síntese, que a multa não é cabível em razão de: · Cumpre esclarecer que as pessoas apontadas apenas exercem, e bem, papel de executivos e sócios da empresa, sem que seja possível responsabilizálos legalmente pelo alegado débito apurado; · O simples inadimplemento de um tributo não acarreta a responsabilidade dos dirigentes da empresa; · Não obstante a falta de ciência da contribuinte sobre as prorrogações anunciadas em relatório fiscal, impera observar que é intempestivo o lançamento por excesso do prazo concedido legalmente, portanto, sendo nulo o presente lançamento fiscal; Fl. 10569DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.570 4 · A Ação Fiscal objeto desta impugnação deve ser extinta sem o julgamento do mérito, considerando flagrante desvio de finalidade e motivação; · A infração apontada em Termo de Verificação Fiscal foi invocada por conclusão baseada em análise genérica da legislação invocada, sem a correta subsunção ao caso concreto; · As importações realizadas nos anos de 2013, 2014 e 2015 aumentaram por simples motivo de novos contratos firmados com novos fornecedores estrangeiros, o que, per si, é passível de natural prospecção de novos mercados e clientes; · Com relação ao alegado grupo econômico TORLIM, mencionado por diversas vezes em Termo de Verificação Fiscal, a Impugnante observa que não possui as informações destacadas pela autoridade administrativa, uma vez que TÃO SOMENTE tem RELAÇÃO COMERCIAL com o fornecedor estrangeiro e com os clientes o mercado interno; · A margem de lucro nos percentuais praticados pela Impugnante é perfeitamente aplicável no segmento de carne bovina, especialmente por tratarse de produto perecível, adquirido em moeda de variação diária e que possui o preço de venda determinado pelo mercado, de acordo com a oferta da concorrência; · É flagrante que o Auditor Fiscal propositalmente lança as alegações de ausência de capacidade financeira tão somente para tentar enquadrar tais resultados em supostos requisitos para configuração de interposição fraudulenta, o que demonstra desvio de finalidade e desvio de motivação do ato administrativo; · A análise da documentação apresentada pela empresa autora à equipe de fiscalização, é possível constatar que estão comprovadas documentalmente a existência física, capacidade operacional, capacidade financeira, autonomia empresarial, bem como a origem, disponibilidade e regular transferência dos recursos financeiros referentes às operações de importação; · Ao contrário do que pretende fazer concluir o auditor fiscal, fraude e simulação não se presumem, mas sim devem ser efetivamente provadas por quem alega, uma vez que as provas apresentadas pela empresa autuada são suficientes para afastar a acusação; · Tratase de mera suspeita fundada em indícios que a Impugnante tratou de afastar com sólidas explicações e comprovações, desfigurandose a acusação fiscal, que ao fim e ao cabo resta sem provas. E sem qualquer comprovação efetiva e com ilações decorrentes de um emaranhado de alegações sem sustentação fática, probatória e jurídica, incorrese em inquestionável insubsistência do auto de infração; · Reiterase, ainda, que neste caso, o DOLO é essencial para caracterização do ilícito e incidência da penalidade correspondente; Fl. 10570DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.571 5 · Neste caso, é INDISPENSÁVEL a figura da intenção do agente e respectivo DANO ao Erário, representado pela consequência advinda pelo DOLO do importador; · Com isso, a falta de comprovação da CONDUTA DOLOSA impede que se caracterize interposição fraudulenta; · Com o Princípio do Não Confisco, a Constituição Federal/88 veda expressamente a utilização de tributo com efeito confiscatório; · Destacase ainda que, para decretação da pena de perdimento de bens, devem ser respeitados os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade; · Não se pode manter concomitantemente as duas acusações e penalidades, devendo ser cancelada, em pedido subsidiário, a multa regulamentar de falta de informação, por consunção; · O presente auto de infração pune ao mesmo tempo a conduta meio e a conduta fim, de forma exagerada e desnecessária." A DRJ em São Paulo (SP) julgou a impugnação improcedente e o Acórdão n° 1677.456, de 26 de abril de 2017, foi assim ementado: "ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2013, 2014, 2015 MULTA PREVISTA PELO INCISO III, DO ARTIGO 711 DO DECRETO Nº 6.759/2009. Constatada a prestação de informação inexata na declaração de importação, capaz de colocar em risco o procedimento de controle aduaneiro apropriado, cabível a aplicação da multa prevista do artigo 711, do Decreto nº 6.759/2009 (Regulamento Aduaneiro). DESCUMPRIMENTO DAS NORMAS RELATIVAS À IMPORTAÇÃO POR CONTA E ORDEM DE TERCEIROS. DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MULTA SUBSTITUTIVA. Restando comprovada a interposição fraudulenta, incontroverso o entendimento da fiscalização de ocorrência da infração prevista pelo artigo 33 da Lei nº 11.488/2007, regulamentada pelo Decreto 6.759/2009 (RA), considerada dano ao Erário, punida com a multa proporcional ao respectivo valor aduaneiro, caso elas não sejam localizadas ou tenham sido consumidas. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido! Inconformado, o contribuinte interpôs recurso voluntário, em que repete as alegações contidas na impugnação e adiciona que, sobre as informações contidas no Termo de Fl. 10571DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.572 6 Verificação Fiscal, quanto à vinculação entre o exportador e seus clientes do grupo Torlim, informa que as desconhece, tendo se aproximado dos mesmo por razões comerciais. É o relatório. Voto Conselheiro Relator Marcelo Costa Marques d'Oliveira O recurso voluntário preenche os requisitos de admissibilidade e deve ser conhecido. A fiscalização concluiu que a recorrente, apesar de apor nos documentos nos documentos que realizava importações diretas, em nome próprio, na verdade, operava por conta e ordem de terceiros. Então, aplicoulhe as multas por cessão de nome, de 10% do valor das operações acobertadas (art. 33 da Lei n° 11.488/07 e art. 727 do Decreto n° 6.759/09 Regulamento Aduaneiro RA), e por omissão de informação necessária ao controle aduaneiro, de 1% do valor aduaneiro (inciso III do art. 711 do RA). Esta última compreendeu as infrações de não indicar os reais adquirentes e a vinculação, para fins da legislação aduaneira (Artigo 15, parágrafo 4º, alíneas ‘a’, ‘b’, ‘d’ e ‘e’ do Acordo Sobre a Implementação do Artigo VII do GATT – AVAGATT), entre estes e o exportador. Foram designados como responsáveis solidários o Sr. OLIVIER CHRISTOPHER NICOLAS LOUIS VAN HAREN, CPF Nº 712.676.62115, sócio administrador, e a empresa BEHEER EN BELEGGINGSMIJ ZANDBERGEN BV, CNPJ Nº 08.205.683/000125, sócia, à época dos fatos, com sede em INDUSTRIEWEG 66 LEIDEN HOLANDA (empresa com domicílio no exterior). Foi também lavrada Representação Fiscal para Fins Penais (RFPFP). Transcrevo a conclusão da auditoria fiscal (Termo de Verificação Fiscal, fls. 239 e 240): "10 – CONCLUSÃO DA FISCALIZAÇÃO Por tudo que foi acima descrito, fica evidenciada a abrangência tomada por esta fiscalização na busca da verdade material dos fatos. A empresa COREX em suas importações registradas no Sistema Siscomex como sendo por conta própria oculta os reais adquirentes, financiadores e interessados. Tais importações foram efetuadas com o único intuito de repassar as mercadorias para seus reais adquirentes, simulando operações que de fato não ocorreram. Ficou demonstrado que a COREX não dispunha de estrutura econômicofinanceira para fazer jus aos dispêndios inerentes às importações próprias por ela efetuadas. A ocultação dos reais adquirentes gera inúmeros danos ao controle aduaneiro, não apenas de natureza tributária, e portanto é apenada conforme as disposições legais devidamente listadas neste Termo de Verificação Fiscal. Em resumo, o “modus operandi” da empresa para o período fiscalizado pode ser descrito como: • A empresa assume a operação do serviço de importação para o GRUPO TORLIM após a suspensão da habilitação para operar no comércio exterior de todas Fl. 10572DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.573 7 as empresas do grupo, permitindo que a COREX importasse em 6 meses um volume equivalente a 624% do total adquirido desde a sua constituição (período superior a 6 anos); • A agregação praticada é baixa e insuficiente para cobrir os gastos normais de uma empresa atacadista (tais como armazenagem, movimentação de carga, depósito, frete, pessoal, aluguel, luz, água, etc.) e ainda gerar lucro; • A totalidade das mercadorias adquiridas no mercado externo é repassada integralmente para os reais adquirentes ocultos, imediatamente ou logo após o desembaraço, com baixa agregação; • As importações são financiadas utilizando recursos dos reais adquirentes ocultos, conforme comprovado em sua escrituração contábil e adicionalmente por testemunho do sócioadministrador da importadora; • A empresa não possuía, à época dos fatos, estrutura de armazenamento para as mercadorias importadas, utilizandose do suporte logísticooperacional das empresas adquirentes ocultas." Os argumentos apresentados na impugnação e repisados no recurso foram sintetizados no relatório. No recurso, para robustecer a defesa, aduz que desconhecia as informações contidas no Termo de Verificação Fiscal acerca da vinculação entre o exportador e seus clientes do denominado "Grupo Torlim", dos quais se aproximou por razões estritamente comerciais e não na forma como foi tabulada pela fiscalização. Passemos à apreciação da defesa. Em processos desta natureza, minha preocupação central é a de verificar se há elementos nos autos capazes de comprovar que as operações nas quais supostamente se interpôs uma pessoa jurídica não se revestiam das características usualmente encontradas no respectivo mercado. Digo: se havia ou não provas de que não tinham um real propósito empresarial. E refirome, principalmente, à identificação de adoção margens de lucro de lucro na revenda compatíveis com as praticadas naquele mercado. Adicional ou alternativamente, se eram suficientes para suportar os custos e ainda gerar lucros a serem distribuídos para os sócios. Adiantamentos financeiros próximos às datas das liquidações de câmbio, identidade ou proximidade entre as datas da entrada e a da revenda das mercadorias, falta de local próprio para a armazenagem e, sempre muito destacado nas auditorias fiscais, a existência de sócios comuns, a meu ver, por si sós, não se constituem elementos suficientes para a caracterização da interposição fraudulenta. São aspectos subsidiários, formadores, quando devidamente comprovados e inseridos no contexto das operações, de provas indiciárias. Entretanto, o presente lançamento de ofício foi muito bem instruído e, desde já consigno que meu voto será por sua manutenção integral. O auditor selecionou importações. Identificou os custos administrativos e tributários e alguns correlatos. E os comparou com os preços de venda, para demonstrar que não se mostravam viáveis, sob o ponto de vista financeiro. Fl. 10573DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.574 8 Demonstrou, portanto, aquilo ao qual acima me referi: ausência de propósito empresarial. Não obstante, também identificou aquelas que considero como provas indiciárias, que, a meu ver, tão somente se prestam para robustecer a conclusão quanto à falta de substância econômica. Isto posto, pela ordem, iniciarei, enfrentando as preliminares trazidas pela recorrente. Em seguida, por estar de acordo com o seu teor, transcreverei excerto do voto condutor da decisão de primeira instância, que adotarei como minha razão de decidir, com fulcro no § 1° da art. 50 da Lei n° 9.784/99. Tal ppassagem afasta as alegações da recorrente, contidas nos seguintes tópicos do recurso voluntário: "4.1. DA EXISTÊNCIA FÍSICA E CAPACIDADE OPERACIONAL DA EMPRESA RECORRENTE. 4.2. DA ANÁLISE FISCAL SOBRE A MARGEM DE LUCRO DA EMPRESA AUTUADA. CAPACIDADE FINANCEIRA. 4.3. DA ALEGADA PARTICIPAÇÃO DE TERCEIROS NAS OPERAÇÕES DE IMPORTAÇÃO REALIZADAS PELA RECORRENTE. 4.4. DA ALEGADA INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS. DISPOSITIVOS LEGAIS APLICÁVEIS." E, por fim, examinarei os tópicos: "4.5. DA MULTA APLICADA. PENALIDADE EXCESSIVA. CONFISCO. CAPACIDADE CONTRIBUTIVA E FINALIDADE. 4.6. DA CONSUNÇÃO DAS CONDUTAS QUE SE PRETENDE APENAR EM SEPARADO 4.7. DA RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. IMPOSSIBILIDADE DE SE RESPONSABILIZAR SOLIDARIAMENTE OS SÓCIOS" PRELIMINARES "3.1 NULIDADE POR EXCESSO DE PRAZO DO PROCEDIMENTO FISCAL. INTEMPESTIVIDADE DO LANÇAMENTO; 3.2 NULIDADE POR DESVIO DE FINALIDADE E MOTIVAÇÃO 3.3 NULIDADE POR FALTA DE ATENÇÃO AOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS" O primeiro argumento é o seguinte: "(. . .) Após os prazos concedidos para entrega de documentação, bem como os fatos já esclarecidos acima, o atendimento integral do MPF pela empresa fiscalizada Fl. 10574DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.575 9 ocorreu em 05/04/2016, como se observa do Protocolo de nº 00001790/2016, anexado às fls. 24432453. Ocorre que o término do procedimento só ocorreu no dia 17/08/2016 através do TERMO DE ENCERRAMENTO DE FLS. 242243 do PAF, com a intimação da Recorrente sobre a autuação no dia 31/08/2016. Outrossim, o Auditor Fiscal informa a “ocorrência de prorrogação no prazo de vencimento do TDPF nº 01176002015 001022, ocorrida em 06/04/2016 e em 04/08/2016”. Porém, em nenhum momento tais prorrogações foram comunicadas à empresa fiscalizada. Não obstante a falta de ciência da contribuinte sobre as prorrogações anunciadas em relatório fiscal, impera observar que é intempestivo o lançamento por excesso do prazo concedido legalmente, o qual não pode ser alargado pelo Auditor Fiscal em detrimento da previsão legal. (. . .)" Há muito se formou jurisprudência no CARF no sentido de que o MPF é apenas um instrumento de controle administrativo e que eventuais incorreções, tal qual a indicada pela recorrente, não têm o condão de tornálo nulo. Vejamos, como exemplo, dois trechos de ementas: MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. PRORROGAÇÃO. NULIDADE. Não implica nulidade dos atos praticados a ocorrência de extinção por decurso de prazo do MPF. (Acórdão 2201004.030) PRELIMINAR. NULIDADE EXTINÇÃO DO MPF. INEXISTÊNCIA O MPF é instrumento de controle da atividade administrativa. Possíveis irregularidades na prorrogação do mesmo não implicam em nulidade da autuação. (Acórdão 1401002.031) Portanto, nego provimento. Em seguida, aduz que seria nulo por desvio de finalidade e motivação: "(. . .) Ocorre que a infração apontada em Termo de Verificação Fiscal foi invocada por conclusão baseada em análise genérica da legislação invocada, sem a correta subsunção ao caso concreto, como abaixo será fundamentado. Por outro lado, o Auditor Fiscal igualmente deixou de atentar aos PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS incidentes sobre o ato administrativo ao analisar as comprovações colhidas em Mandado de Procedimento Fiscal. Em síntese, para incidência da infração caracterizada como interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior é NECESSÁRIA a não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos utilizados nas respectivas operações, o que não ocorreu no presente caso. É flagrante o desvio de finalidade e motivação! (. . .) Fl. 10575DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.576 10 Aplicase igualmente o PRINCÍPIO DA RAZOABILIDADE, pelo qual será sempre necessário existir uma harmonia entre o que é posto na norma e o que é feito pela sua utilização. A razoabilidade é assim o ponto de partida do ordenamento jurídico, o princípio pelo qual será vedada a adoção de práticas insensatas, incoerentes e desmedidas como meio de se concretizar o fim buscado pela lei. Da mesma forma, cabe invocar o PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE, pelo qual deve haver certas ponderações, estar o ato sempre atrelado ao binômio necessidadeadequação. (. . .)" Tais argumentos confundemse com os de mérito. Não obstante, afastoos desde já, pois, ainda que não concordasse com as conclusões do agente fiscal, da leitura do auto de infração, resta claro que reuniu elementos fáticos e aplicou as sanções, de acordo com sua leitura da legislação incidente. Isto é, motivou o ato administrativo. Também não deve prosperar esta alegação. E, por fim: "(. . .) Qualquer lançamento tributário executado com base em procedimento fiscal contaminado por vício é nulo de pleno direito, homenageando a imprescindível Segurança Jurídica. Salientase que a obrigação de fiscalizar está contida na regra do artigo 142 do CTN: À autoridade incumbe, privativamente: verificar a ocorrência do fato gerador do tributo; determinar a matéria tributável; calcular o montante do tributo devido e constituir esse crédito fiscal pelo lançamento. (. . .)" A recorrente não identificou, de forma clara, os princípios do processo administrativo, derivados de princípios constitucionais, que não teriam sido observados. Contudo, consigno que o estudo dos autos que desenvolvi não revelou qualquer deslize que pudesse eivar de nulidade o lançamento, o qual foi devidamente, motivado. Portanto, nego provimento ao argumento. MÉRITO Conforme acima mencionei, passo a transcrever trecho do voto condutor da decisão de piso, no que compete ao enfrentamento de parte dos argumentos de mérito. "DO MÉRITO Encaminhados os autos do presente processo que trata da impugnação apresentada, procede ao julgamento nos termos do regimento interno da RFB. A Fiscalização identificou que a contribuinte importou (Carnes de animais de origem bovina e ovina para consumo humano) nos últimos seis meses do período abrangido pela presente fiscalização, atuando como importador direto, um valor incompatível com os montantes movimentados pela empresa. Fl. 10576DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.577 11 Em razão da atividade de fiscalização, em que toda a documentação apresentada foi analisada, foram imputadas à contribuinte as penas de multa de 1% em razão de omissão ou informação inexata ou incompleta bem como a penalidade de 10% do valor aduaneiro da mercadoria por cessão do nome da pessoa jurídica com vistas ao acobertamento dos reais intervenientes ou beneficiários. Com relação à penalidade prevista no art. 84 da Medida Provisória nº 2158 35/01 combinado com o art. 69 e art. 81, inc. IV, da Lei n° 10.833/03, foi aplicada em razão de o importador de regime aduaneiro ter omitido e/ou prestado informação de natureza administrativotributária, cambial ou comercial inexata/incompleta, necessária à determinação do procedimento de controle apropriado, conforme art.69 da Lei nº 10.833/03 (art.711 do RA): Art. 69. A multa prevista no art. 84 da Medida Provisória no 2.15835, de 24 de agosto de 2001, não poderá ser superior a 10% (dez por cento) do valor total das mercadorias constantes da declaração de importação. § 1o A multa a que se refere o caput aplicase também ao importador, exportador ou beneficiário de regime aduaneiro que omitir ou prestar de forma inexata ou incompleta informação de natureza administrativotributária, cambial ou comercial necessária à determinação do procedimento de controle aduaneiro apropriado. § 2o As informações referidas no § 1o, sem prejuízo de outras que venham a ser estabelecidas em ato normativo da Secretaria da Receita Federal, compreendem a descrição detalhada da operação, incluindo: I identificação completa e endereço das pessoas envolvidas na transação: importador/exportador; adquirente (comprador)/fornecedor (vendedor), fabricante, agente de compra ou de venda e representante comercial; II destinação da mercadoria importada: industrialização ou consumo, incorporação ao ativo, revenda ou outra finalidade; III descrição completa da mercadoria: todas as características necessárias à classificação fiscal, espécie, marca comercial, modelo, nome comercial ou científico e outros atributos estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal que confiram sua identidade comercial; IV países de origem, de procedência e de aquisição; e V portos de embarque e de desembarque. Decreto nº 6.759/2009 “Art. 711. Aplicase a multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria (Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 84, caput; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 69, § 1º): I classificada incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul, nas nomenclaturas complementares ou em outros detalhamentos instituídos para a identificação da mercadoria; II quantificada incorretamente na unidade de medida estatística estabelecida pela Secretaria da Receita Federal do Brasil; ou Fl. 10577DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.578 12 III quando o importador ou beneficiário de regime aduaneiro omitir ou prestar de forma inexata ou incompleta informação de natureza administrativo tributária, cambial ou comercial necessária à determinação do procedimento de controle aduaneiro apropriado. “ § 1o As informações referidas no inciso III do caput, sem prejuízo de outras que venham a ser estabelecidas em ato normativo da Secretaria da Receita Federal do Brasil, compreendem a descrição detalhada da operação, incluindo (Lei nº 10.833, de 2003, art. 69, § 2º): I identificação completa e endereço das pessoas envolvidas na transação: importador ou exportador; adquirente (comprador) ou fornecedor (vendedor), fabricante, agente de compra ou de venda e representante comercial; II destinação da mercadoria importada: industrialização ou consumo, incorporação ao ativo, revenda ou outra finalidade; III descrição completa da mercadoria: todas as características necessárias à classificação fiscal, espécie, marca comercial, modelo, nome comercial ou científico e outros atributos estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil que confiram sua identidade comercial; IV países de origem, de procedência e de aquisição; e V portos de embarque e de desembarque. § 2o O valor da multa referida no caput será de R$ 500,00 (quinhentos reais), quando do seu cálculo resultar valor inferior, observado o disposto nos §§ 3o a 5o (Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 84, § 1º; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 69, caput). § 3o Na ocorrência de mais de uma das condutas descritas nos incisos do caput, para a mesma mercadoria, aplicase a multa somente uma vez. § 4o Na ocorrência de uma ou mais das condutas descritas nos incisos do caput, em relação a mercadorias distintas, para as quais a correta classificação na Nomenclatura Comum do Mercosul seja idêntica, a multa referida neste artigo será aplicada somente uma vez, e corresponderá a: I um por cento, aplicado sobre o somatório do valor aduaneiro de tais mercadorias, quando resultar em valor superior a R$ 500,00 (quinhentos reais); ou II R$ 500,00 (quinhentos reais), quando da aplicação de um por cento sobre o somatório do valor aduaneiro de tais mercadorias resultar valor igual ou inferior a R$ 500,00 (quinhentos reais). Para a contribuinte, não houve omissão ou prestação inexata ou incompleta de informação de natureza administrativotributária. No presente caso, a impugnante forneceu informações incorretas na ocasião dos registros da DI, imputando a penalidade prevista no art.711 do Regulamento Aduaneiro. A multa de 1% (um por cento) foi corretamente aplicada sobre o valor aduaneiro de todas as mercadorias de todas as DIs registradas pela COREX no período da fiscalização, pois houve o registro de importações provenientes do exportador estrangeiro FRIGORIFICO CONCEPCION S/A, para os quais a empresa ocultou os reais adquirentes e omitiu a informação de estes estarem vinculados ao Fl. 10578DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.579 13 exportador estrangeiro pertencente ao Grupo Econômico TORLIM, num total de 173 (cento e setenta e três) Declarações de Importação – DIs (fls.222 e 225). “Conforme já amplamente descrito neste Termo de Verificação Fiscal, o exportador estrangeiro FRIGORIFICO CONCEPCION S/A, e as empresas que a COREX ocultava em suas Declarações de Importação, a saber TORLIM ALIMENTOS S/A, GARANTIA TOTAL LTDA, AGRO TRADING IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO DE CARNES LTDA e BEST BOI ALIMENTOS EIRELI fazem parte de um mesmo Grupo Econômico – o GRUPO TORLIM, que traz como seu principal acionista o Sr. JAIR ANTONIO DE LIMA. ............................................................................................................................. A multa de 1% (um por cento) será aplicada sobre o valor aduaneiro de todas as mercadorias de todas as DIs registradas pela COREX no período da presente fiscalização, a saber de 01 (primeiro) de janeiro de 2013 (dois mil e treze) a 31 (trinta e um) de março de 2015 (dois mil e quinze) que registram importações provenientes do exportador estrangeiro FRIGORIFICO CONCEPCION S/A, para os quais a empresa oculta os reais adquirentes e omite a informação de estes serem vinculados ao exportador estrangeiro pertencente ao Grupo Econômico TORLIM, num total de 173 (cento e setenta e três) Declarações de Importação – DIs.” Destarte, cabível a multa aplicada pela fiscalização, no percentual de 1% do valor aduaneiro, prevista no artigo 711, do Decreto nº 6.759/2009, diante da prestação inexata de informação de natureza administrativotributária. Com relação à interposição de fraudulenta (Art. 33 da Lei nº 11.488/2007 regulamentado pelo art. 727 do Decreto nº 6.759/2009, arts. 104, 106, 551, § 1º, inciso I, 673, 674, incisos I, IV, V e § único, 675, inciso IV, 732, 734, 735, § 2º, 801, § 5º, 744, 745 e 768 do Decreto nº 6.759/09), objeto de discussão neste PAF, cabe as seguintes considerações. Pelas DI, ora objeto de fiscalização, foram registradas pela impugnante na modalidade importação por conta própria (quando o importador assume o risco do negócio e faz a aquisição das mercadorias no exterior, arca com os custos referentes à importação e vende as mercadorias no mercado interno a quem quiser, ou seja, não existe um comprador nacional prédeterminado a ser declarado na qualidade de adquirente da mercadoria importada). O que foi constatado no curso da fiscalização aduaneira é a operação de importação por conta e ordem de terceiros, cujo o nome e o CNPJ da empresa adquirente deveriam ter sido ser informados na Declaração de Importação (DI). No presente caso, o real adquirente da mercadoria não poderia manterse oculto, pelo contrário, sua identidade deveria ter sido obrigatoriamente revelada, haja vista que a importação só está acontecendo por demanda e financiamento desta empresa, a quem cabe, inclusive, o ônus de comprovar perante a Receita Federal, ou outros órgãos competentes, em casos de fiscalização, a origem lícita dos recursos empregados nas operações de comércio exterior. Em desrespeito à legislação, empresas deliberadamente mantêmse ocultas nas operações de comércio exterior pelas mais diversas razões, a depender dos interesses envolvidos. Dessa forma, mesmo que a importadora por conta e ordem efetue os pagamentos ao fornecedor estrangeiro, antecipados ou não, não se caracteriza uma operação por sua conta própria, mas, sim, entre o exportador estrangeiro e a empresa adquirente, pois dela se originam os recursos financeiros. Fl. 10579DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.580 14 A Interposta pessoa dizse daquele que comparece num dado negócio jurídico em nome próprio, mas no interesse de outrem, substituindoo e encobrindoo. Trata se do prestanome ou testadeferro. Age em lugar do verdadeiro interessado, que, por motivos não de todo lícitos, deseja ocultar sua participação num ato negocial. A Lei nº 11.488/2007, incluiu na legislação brasileira a tipificação da infração “ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros”, punível com a multa de 10% valor aduaneiro da mercadoria. “Art. 727. Aplicase a multa de dez por cento do valor da operação à pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários (Lei nº 11.488, de 2007, art. 33, caput). ” Podese dizer que a interposição fraudulenta se caracteriza pela ocultação do verdadeiro importador de mercadorias estrangeiras, conforme definição constante do DecretoLei (DL) n° 1.455/76, de 7 de abril de 1976 (com a redação dada pela Lei n° 10.637/2002). A utilização de empresas interpostas para a realização de importações destinadas a terceiros passou a ser conduta punida com pena de perdimento das mercadorias importadas, bem como a ocultação decorre da não informação do responsável pela operação, a quem se destina as mercadorias e que pode fornecer, ou não, os recursos empregados. A interposição se configura quando uma pessoa, física ou jurídica, apresentase como responsável por uma operação que não realizou, interpondose entre a determinada parte (no caso a aduana) e outra (no caso, o verdadeiro adquirente). A ocultação do verdadeiro responsável pela importação é método de se eximir da responsabilização pelos atos praticados. Sua caracterização como fraude decorre de disposição legal, pois a ação ou omissão atinge, excluindo ou modificando, a obrigação tributária em uma das suas características essenciais, qual seja, o sujeito passivo. A interessada alega que as importações realizadas nos anos de 2013, 2014 e 2015 aumentaram por simples motivo de novos contratos firmados com novos fornecedores estrangeiros. Referido fato não comprova em nada os valores muito acima do habitual negociados pela requerente e muito bem levantados pela autoridade fiscal em seu TVF. Com relação ao alegado grupo econômico TORLIM, a Impugnante defende que possui apenas relação comercial com o fornecedor estrangeiro e com os clientes no mercado interno. A FISCALIZAÇÃO efetuou uma extensa análise da situação comercial, societária, fiscal e financeira da ora impugnante com o Grupo TORLIM. Com relação ao aspecto societário, como indicado no TVF de fl.97, existe uma ligação estreita entre o Grupo TORLIM e o Frigorífico CONCEPCION S/A, principal exportador para a COREX, demonstrado no processo de nº 15165.720940/201417. A TORLIM ALIMENTOS possui JAIR ANTONIO DE LIMA (CPF: 814.078.07820) como presidente. Segundo o levantamento fiscal, “a empresa esteve entre os cinco principais clientes dos produtos comercializados pela COREX no ano de 2014, e em 2015, após parar de operar no comércio exterior, as vendas da TORLIM ALIMENTOS despencaram. A empresa realiza todas as suas compras no mercado interno por meio de negociações com a COREX ou pessoas jurídicas Fl. 10580DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.581 15 supostamente relacionadas ao grupo econômico (Garantia Total Ltda, V.L. Agro industrial Ltda e Agro Trading Importação e Exportação de Carnes Ltda)”. Cabe destacar que o FRIGORÍFICO CONCEPCIÓN (fl.96), fornecedor da empresa COREX S/A tem como seu presidente o mesmo Sr. JAIR ANTONIO DE LIMA (CPF: 814.078.07820). Além do citado fato faz necessário a reprodução dos principais fatos constatados pela autoridade fiscal em relação ao grupo societário TORLIM, intimamente relacionado à empresa fiscalizada COREX: · A empresa GARANTIA TOTAL LTDA (CNPJ base: 10.197.224): já teve como Sócios Administradores o Sr. JAIR ANTONIO DE LIMA e o Sr. PEDRO CASSILDO PASCUTTI (CPF nº 595.867.70982), este último seu atual contador e também diretor da FRIGORIFICO CONCEPCION S/A. Foi a maior importadora dos produtos do FRIGORIFICO CONCEPCION S/A durante o segundo semestre de 2012 e o primeiro de 2013. O processo judicial de n° 0000303 88.2013.8.16.0017, tramitando no Foro Central de Maringá, reconheceu judicialmente a participação da empresa como integrante do GRUPO TORLIM (documentos nos autos); · É importante mencionar que a empresa GARANTIA TOTAL se apresenta como uma das empresas envolvidas nas transações; · AGRO TRADING IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO DE CARNES LTDA: (CNPJ: 07.702.840/000145): foi a principal cliente dos produtos da COREX no ano de 2014 e segunda maior considerando todo o período analisado; · Além disso, 95% das aquisições da empresa têm origem na COREX, TORLIM ALIMENTOS, GARANTIA TOTAL e outras empresas do GRUPO TORLIM. Quanto aos principais clientes, destacamse a BEST BOI ALIMENTOS EIRELI e a GARANTIA TOTAL, portanto, as operações de compra e venda da AGRO TRADING são praticamente voltadas para o GRUPO TORLIM; · O sócioadministrador da AGRO TRADING, EVANDRO SANTOS (CPF: 047.503.84950), já possuiu vínculo empregatício com a IRAPURU PRODUTOS ALIMENTICIOS LTDA (Nome Fantasia: TORLIM PRODUTOS ALIMENTICIOS LTDA, CNPJ: 03.426.346/000225). A empresa em questão, IRAPURU, também tem como Sócio Administrador o Sr. JAIR ANTONIO DE LIMA e já compartilhou o mesmo endereço da GARANTIA TOTAL LTDA; · BEST BOI ALIMENTOS EIRELI (CNPJ: 18.236.111/000167): é a terceira maior cliente da COREX no período analisado e maior cliente em 2015, a empresa foi mencionada no processo administrativo n° 15165.720940/201417, como umas das figuras centrais dentro do funcionamento do GRUPO TORLIM. O Sócioadministrador da BEST BOI, CLEBER GAETA (CPF: 177.789.39843), já possuiu vínculo empregatício durante 3 anos com a IRAPURU PRODUTOS ALIMENTICIOS LTDA (Nome Fantasia: TORLIM PRODUTOS ALIMENTICIOS LTDA, CNPJ: 03.426.346/000225) e durante 1 ano com a GARANTIA TOTAL LTDA. Além disso, CLEBER GAETA era sócio de JORGE MACHADO (Sócioadministrador da Fl. 10581DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.582 16 empresa GARANTIA TOTAL) na empresa MACHADO PARTICIPACOES SOCIETARIAS EIRELI (CNPJ: 12.504.161/000100), a qual tinha 90% de participação societária na GARANTIA TOTAL; · É importante ressaltar que o cliente de maior volume de compras da BEST BOI em 2014 foi a GARANTIA TOTAL. Dentre os principais fornecedores da pessoa jurídica, além da COREX, destacamse as empresas do grupo econômico analisado (AGRO TRADING e GARANTIA TOTAL); · A empresa foi mencionada no processo administrativo 15165.720940/201417 como umas das figuras centrais dentro do funcionamento do GRUPO TORLIM, inclusive sendo incluída como responsável solidária pelo recolhimento do valor lançado sobre a GARANTIA TOTAL pelo Auto de Infração constante no processo citado. · O exportador estrangeiro FRIGORIFICO CONCEPCION S/A, e as empresas que a COREX ocultava em suas Declarações de Importação, a saber TORLIM ALIMENTOS S/A, GARANTIA TOTAL LTDA, AGRO TRADING IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO DE CARNES LTDA e BEST BOI ALIMENTOS EIRELI fazem parte de um mesmo Grupo Econômico – o GRUPO TORLIM, que traz como seu principal acionista o Sr. JAIR ANTONIO DE LIMA. Pelo exposto fica evidente a relação de participação mútua entre as empresas mencionadas em razão de participação de sócios em comum além do fato de alguns deles terem relação empregatícia nas empresas participantes do grupo societário. Outro fato interessante levantado no curso da ação fiscal é que em outubro de 2014, mês de efetivo início das operações de importação da COREX de produtos do FRIGORIFICO CONCEPCION S/A, tendo em vista que em setembro só ocorreu o registro de uma declaração de importação, todas as habilitações para operar no comércio exterior de empresas do GRUPO Econômico TORLIM estavam suspensas ou sob análise (fls.101/102). Outro acontecimento interessante é o início do vínculo comercial entre a empresa COREX e o FRIGORIFICO CONCEPCION, aliado à suspensão da autorização das empresas do GRUPO TORLIM para operarem no comércio exterior, permitiram que a empresa brasileira importasse em 6 meses um volume equivalente a 624% (fl.104) do total adquirido desde a sua constituição (período superior a 6 anos). Também relevante a observação da Fiscalização de que “os dados analisados conjuntamente com a estrutura física da COREX, pois na época, possuía apenas uma sala localizada no Centro Empresarial Alto do Prosa, em Campo Grande/MS, só reforçam a tese de que o aumento do volume de operações realizadas pela empresa foi suportada logística, operacional e economicamente pelo GRUPO TORLIM. Finalmente, ao recordarmos que, no período analisado, o FRIGORÍFICO CONCEPCION representa aproximadamente 80% das importações realizadas pela COREX, e que as vendas para empresas do GRUPO TORLIM representam aproximadamente 78% das vendas no mercado interno, temos configurada a dependência que a empresa possui deste fornecedor estrangeiro e, consequentemente, o vínculo existente com o GRUPO TORLIM.” Fl. 10582DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.583 17 Conforme destacado pela fiscalização, “a empresa assume a operação do serviço de importação para o GRUPO TORLIM após a suspensão da habilitação para operar no comércio exterior de todas as empresas do grupo, permitindo que a COREX importasse em 6 meses um volume equivalente a 624% do total adquirido desde a sua constituição (período superior a 6 anos)”. Um fato bem destacado pela autoridade fiscal em seu TVF (fls.131/132) é a promiscuidade na escrituração contábil envolvendo as empresas do grupo TORLIM em que todos os lançamentos contabilizados como entrada de valores provenientes da GARANTIA TOTAL, BEST BOI e TORLIM ALIMENTOS e recebidos na conta da empresa no Banco SANTANDER, quando cotejados com os extratos bancários apresentados, se mostram na verdade como transferências de valores provenientes da AGRO TRADING. O Grupo TORLIM fornecia apoio logístico à interessada por meio de transportadoras RAPIDA LOGISTICA NACIONAL E INTERNACIONAL LTDA e TRANSPORTADORA CONCEPCION S/A. A RAPIDA LOGISTICA NACIONAL E INTERNACIONAL LTDA (Nome Fantasia EMPRESA DE TRANSPORTES TORLIM, CNPJ nº 54.247.945/000484) possui como Sócio Administrador o Sr. JAIR ANTONIO DE LIMA, presidente do GRUPO TORLIM. Por tudo que foi apresentado, concluise que a impugnante faz parte do Grupo Econômico TORLIM. A contribuinte defende que a margem de lucro nos percentuais praticados é perfeitamente aplicável no segmento de carne bovina, especialmente por tratarse de produto perecível, adquirido em moeda de variação diária e que possui o preço de venda determinado pelo mercado, de acordo com a oferta da concorrência. A autoridade fiscal de posse dos documentos apresentados pela interessada (fl.105) elaborou a planilha “Planilha COREX NF Entrada e Saída” preenchida pela empresa e que vincula, para cada DI, as Notas Fiscais de Entrada e Saída emitidas pela empresa, esta fiscalização passou a calcular, com base nos valores anotados nas Notas Fiscais de Entrada (importação) e Saída (venda) de mercadorias emitidas pela COREX, a agregação existente entre o Dispêndio incorrido pela empresa fiscalizada em cada uma das importações por ela efetuada no período e o valor auferido com a venda das mesmas mercadorias, conforme valores constantes nas Notas Fiscais de Saídas apresentadas. Foi constatado que as operações comerciais da fiscalizada apresentavam margens de lucro incompatíveis com as práticas de mercado, as quais visam preponderantemente o ganho. Conforme demonstra a contabilidade e as notas fiscais de negociação, a agregação entre a nota fiscal de saída e o dispêndio na importação é de apenas 5% sem contar os gastos com tributos internos e demais custos operacionais e são, portanto, totalmente insuficientes para financiar os custos operacionais que uma empresa atacadista teria (gastos com transporte interno, armazenagem, movimentação de carga, depósito, frete, pessoal, aluguel, luz, água, etc) e ainda gerar lucro. É de destacarse que existem casos onde a agregação é negativa, isto é, o preço de venda praticado é inferior àquele constante da Nota Fiscal de Entrada. Ou seja, nestes casos a empresa opera no comércio exterior com prejuízo operacional, o que revela que a transferências para os reais adquirentes no mercado interno não são de fato operações comerciais. Fl. 10583DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.584 18 A Fiscalização formou a convicção de que a relação entre os reais adquirentes das mercadorias importadas e a empresa COREX não é comercial, e sim uma relação que visa a ocultar os verdadeiros responsáveis pela importação destes produtos e que ficaram ocultos em todas as declarações e documentos apresentados à RFB, entendimento este adotado por esta Delegacia de Julgamento. Alega a impugnante que o Auditor Fiscal lança as alegações de ausência de capacidade financeira tão somente para tentar enquadrar os resultados em supostos requisitos para configuração de interposição fraudulenta, o que demonstra desvio de finalidade e desvio de motivação do ato administrativo. A autoridade fiscal, de posse da documentação apresentada pela impugnante, efetuou a auditoria das principais contas contábeis bem como da documentação suporte e verificou que a COREX era acionada para a prestação de serviços de importação com empréstimo de sua estrutura documental para realizar operações no comercio exterior que tem por essência o fato de serem motivadas por um interesse do adquirente em receber suas mercadorias negociadas no exterior. Ou seja, caso não existisse esse interesse do adquirente, o importador jamais promoveria a nacionalização dessas mercadorias. Tais importações, a depender da origem dos recursos envolvidos, estariam sujeitas aos trâmites legais definidos para importações do tipo “por conta e ordem” ou “por encomenda”, onde os reais responsáveis pelas operações estariam devidamente identificados e visíveis aos controles do Fisco, ao invés de permanecem ocultos como no presente caso. O que ocorreu no presente caso, segundo bem discriminado no TVF, é a ocultação do real adquirente, ou seja, “blindar” os verdadeiros favorecidos pela fraude, uma vez que estas empresas quando chamadas a cumprir com suas obrigações legais (tributárias e até civis) não são alcançadas em virtude da ocultação. Reproduzse trecho do TVF em que a autoridade fiscal explica a forma como a impugnante agiu para acobertar os reais adquirentes das mercadorias importadas: “Além disso temos que, salvo pouquíssimas exceções, as mercadorias importadas pela COREX e registradas como sendo de importação própria da empresa são repassadas imediatamente (no mesmo dia) ou em dias subseqüentes para os seus “clientes” finais. A média praticada é a emissão da Nota Fiscal de Venda no mesmo dia da emissão da Nota Fiscal de Entrada. Em muitos casos, as mercadorias são “vendidas” no mesmo dia do desembaraço, ou até antes deste, o que demonstra que estas mercadorias são previamente adquiridas no exterior por conta e ordem das empresas que ficaram ocultas nessas Declarações de Importação. Mais uma vez, essa logística incomum contribui para formação da convicção de que as importações são na verdade motivadas e suportadas por esses reais adquirentes, os quais, muito embora sejam os reais responsáveis e financiadores das importações registradas pela COREX, permanecem ocultos aos controles aduaneiros. Fica evidenciado que a empresa COREX participa de um esquema que visa unicamente ocultar ao fisco e aos outros órgãos intervenientes do comércio exterior os verdadeiros responsáveis pelas importações declaradas em seu próprio nome.” Pelo exposto, a autoridade fiscal tirou suas conclusões com base nas provas colhidas nos autos mediante análise minuciosa de toda a documentação apresentada no curso da fiscalização na busca da verdade material dos fatos. A contribuinte insurgese contra as conclusões da fiscalização, pois, conforme acredita a contribuinte, a análise da documentação apresentada comprova a Fl. 10584DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.585 19 existência física, capacidade operacional, capacidade financeira, autonomia empresarial, bem como a origem, disponibilidade e regular transferência dos recursos financeiros referentes às operações de importação. A Fiscalização verificou, em análise da documentação acostada aos autos, que são freqüentes as situações de prejuízo operacional, onde, por exemplo, ocorreu de um mesmo veículo declarado nas notas de entrada e saída, reinspeções realizadas pelo MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) em endereços idênticos ao de pessoas jurídicas vinculadas ao GRUPO TORLIM (ocorridas principalmente em 2014) e financiamento das importações, com a COREX recebendo de empresas do grupo econômico antes de efetuar o fechamento de câmbio da DI. Além dos fatos mencionados, a utilização de veículos e recintos pertencentes ao GRUPO TORLIM reforçam a teoria do suporte econômico e operacional oferecido por esse à empresa COREX. Assim, diante dos fatos expostos, existem fortes indícios de que a mercadoria tenha sido entregue diretamente na sede da AGRO TRADING, o que implica que a mercadoria estava previamente vendida para esta empresa anteriormente ao registro da DI 14/19732635 e que foi adquirida por Conta e Ordem desta. Fica evidente portanto a ocorrência de interposição fraudulenta, com ocultação do real adquirente das mercadorias (fl.124). A verificação da documentação da interessada comprovou que as importações foram financiadas utilizando recursos dos reais adquirentes ocultos, conforme discriminado em sua escrituração contábil (fls.151/154, 156/157, 159/160, 162, 164/169, 171, 173/193, ) e adicionalmente por testemunho do sócioadministrador da importadora. Constatouse também que a empresa não possuía, à época dos fatos, estrutura de armazenamento para as mercadorias importadas, utilizandose do suporte logísticooperacional das empresas adquirentes ocultas. Por fim, foi descoberto por meio da análise contábilfiscal, que a COREX não dispunha de capacidade financeira e operacional para fazer frente às importações por ela realizadas e que na verdade foram suportadas pelas empresas do GRUPO TORLIM. O trecho a seguir reproduzido do TVF explicita o fato ora descrito (fls.128/129, 150 e 198): “Temos que as transações com empresas do GRUPO TORLIM representam aproximadamente 76% das operações da COREX no mercado externo e aproximadamente os mesmo 76% das suas operações de venda no mercado interno. Esse fato, aliado às Notas Fiscais já analisadas confirmam que 100% das aquisições da COREX junto ao FRIGORIFICO CONCEPCION são repassadas para empresas do GRUPO TORLIM. A empresa fecha o ano de 2014 com um saldo de R$ 16 milhões em seu passivo com o FRIGORIFICO CONCEPCION, totalizando aproximadamente 61% das operações realizadas com aquele fornecedor. A empresa também encerra o ano contábil com um ativo em contas a receber de R$ 16 milhões considerandose as três empresas do GRUPO TORLIM com as quais opera naquele ano, totalizando aproximadamente 57% das vendas realizadas para o grupo. Tais valores se mostram totalmente incompatíveis com condições normais de financiamento entre empresas que operam no comércio, seja no exterior ou no mercado interno, ainda mais considerando que estes valores são referentes apenas ao saldo em 31/12/2014 (a COREX chega a ter um saldo a receber com a AGRO TRADING de mais de R$ 11 milhões em novembro/2014) e acarretariam imensos custos financeiros para as empresas participantes. Fl. 10585DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.586 20 Porém, ao lembrarmos que tratase aqui de um Grupo Econômico formado pelas empresas “clientes” e “fornecedoras” das COREX, tais custos financeiros não se tornam tão relevantes, pois seriam movimentados em contas de empresas pertencentes ao mesmo grupo, podendo servir até como forma de mascarar possíveis remessas internacionais de lucros. Ainda, para deixar ainda mais evidente a relação de grupo econômico existente entre as empresas do GRUPO TORLIM, todos os lançamentos contabilizados como entrada de valores provenientes da GARANTIA TOTAL, BEST BOI e TORLIM ALIMENTOS e recebidos na conta da empresa no Banco SANTANDER, quando cotejados com os extratos bancários apresentados, se mostram na verdade como transferências de valores provenientes da AGRO TRADING, o que demonstra a promiscuidade na escrituração contábil envolvendo empresas do GRUPO TORLIM. Finalmente, a contabilidade da COREX apresenta diversos lançamentos em que se credita diretamente a conta de DUPLICATAS a RECEBER, com débito em FORNECEDORES, sem que haja nenhum trânsito contábil em contas de resultado ou de DISPONÍVEL. Ou seja, no mesmo dia em que a COREX recebe os recursos de seus “clientes”, esses recursos são transferidos integralmente para o exportador internacional. Tais operações são evidências de que as importações são financiadas com recursos de seus reais adquirentes, os quais são imediatamente repassados ao exportador estrangeiro através do fechamento do câmbio efetuado pela COREX. Fl.150 do TVF “Além disso temos que, salvo pouquíssimas exceções, as mercadorias importadas pela COREX e registradas como sendo de importação própria da empresa são repassadas em dias subseqüentes para os seus “clientes” finais. A média praticada é a emissão da Nota Fiscal de Venda 4 (quatro) dias após a emissão da Nota Fiscal de Entrada. Em muitos casos, as mercadorias são “vendidas” um ou dois dias após o desembaraço, o que demonstra que estas mercadorias são previamente adquiridas no exterior por conta e ordem das empresas que ficaram ocultas nessas Declarações de Importação. Mais uma vez, essa logística incomum contribui para formação da convicção de que as importações são na verdade motivadas e suportadas por esses reais adquirentes, os quais, muito embora sejam os reais responsáveis e financiadores das importações registradas pela COREX, permanecem ocultos aos controles aduaneiros.” Fls.198 do TVF “Desse modo, como a COREX não pode comercializar a carne bovina importada e seus derivados sem a reinspeção dos produtos pelo MAPA e esta deveria ser realizada no mesmo endereço da empresa GARANTIA TOTAL LTDA, podese concluir que a carga foi remetida diretamente do recinto alfandegado para os reais adquirentes (GRUPO TORLIM), sem transitar fisicamente pelos estoques da importadora interposta (COREX), na qual ocorreu um mero fluxo contábil. Os fatos expostos fortalecem o quadro indiciário de interposição fraudulenta e ocultação do real sujeito passivo. É importante ressaltar que a DI 14/19732635 foi analisada como exemplo, mas o procedimento observado foi utilizado de forma recorrente pela COREX, como Fl. 10586DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.587 21 parte do modus operandi da empresa. Além do já evidenciado suporte referente às inspeções fitossanitárias e da comprovada remessa direta das mercadorias diretamente do recinto alfandegado para os reais adquirentes das mercadorias, os quais permaneceram ocultos aos olhos do Fisco, temos uma outra faceta do modus operandi da COREX e do suporte logístico oferecido pelo GRUPO TORLIM: o transporte das mercadorias importadas desde a origem até seu destino final.” A Fiscalização chegou à conclusão mencionada em razão da análise das DI e da contabilidade da empresa Conta Duplicatas a Receber e a conta Adiantamentos de Clientes) mencionaram explicitamente que as operações de importação à empresa PRIME CATER, por exemplo, foi financiada pela real adquirente da mercadoria e não pela importadora (fl.152). Analisando agora a contabilidade da empresa para o ano de 2013, temos que tais operações de importação foram na verdade suportadas pelos reais adquirentes e destinatários das mercadorias importadas e que permaneceram ocultos nas Declarações de Importação registradas pela COREX como sendo de Importação Própria. Para fins de sistematização, separaremos a análise contábil por cada um dos “clientes” da COREX, analisando as seguintes contas, todas constantes do Plano de Contas da COREX para o referido ano fiscal: 1. PRIME CATER COMERCIAL DE PRODUTOS ALIMENTICIOS LTDA (CNPJ nº 17.283.362/000130): • Conta 630 PRIME CATER COML DE PRODUTOS ALIMENTICIOS LTDA. Tratase de conta integrante do ATIVO CIRCULANTE / CLIENTES / DUPLICATAS A RECEBER; • Conta 633 PRIME CATER COML DE PRODS ALIMENTICIOS LTDA. Tratase de conta integrante do PASSIVO CIRCULANTE / OUTRAS OBRIGAÇÕES / ADIANTAMENTO DE CLIENTES. 1.1. DI 13/09452468. Registrada em 16/mai/2013. Valor Aduaneiro de R$ 229.795,58. • A venda para a PRIME CATER é realizada através da NF nº 54 no valor de R$ 264.228,92; • A Conta 633 de ADIANTAMENTO DE CLIENTES registra um adiantamento feito pela PRIME CATER em 13/mai/2013 no valor de R$ 264.228,92. 1.2. DI 13/15667950. Registrada em 12/ago/2013. Valor Aduaneiro de R$ 290.107,15. • A venda para a PRIME CATER é realizada através da NF nº 81 no valor de R$ 279.311,36; • A Conta 633 de ADIANTAMENTO DE CLIENTES registra um adiantamento feito pela PRIME CATER em 02/ago/2013 no valor de R$ 90.000,00. A autoridade fiscal cita também o caso das importações efetuadas pela impugnante para as empresas INTERMEZZO, TERRA MAE ALIMENTOS LTDA – EPP, FRIGORIFICO ESTANCIA LUMA LTDA, COMAL COMERCIO ATACADISTA DE ALIMENTOS LTDA, POBRE JUAN RESTAURANTE Fl. 10587DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.588 22 GRILL LTDA, além de outras empresas não pertencentes ao Grupo TORLIM, em que parte ou a totalidade do valor para a operação já é fornecida pela real adquirente da mercadoria tratandose, na verdade, de negociação por conta e ordem e não importação própria como informado na DI (fls.154/155). Antes mesmo do registro das DIs a COREX recebe parte ou até mesmo a integralidade do valor das futuras “vendas” para a PRIME CATER. Na realidade, o que ocorre é que a PRIME CATER é a real adquirente da mercadoria e real responsável pelas importações. Tratamse de Importações por Conta e Ordem da PRIME CATER e registradas pela COREX como sendo de Importação Própria. A COREX assim cedeu o seu nome para ocultar a PRIME CATER dos controles do Fisco. Lembramos que, de acordo com o Artigo 27 da Lei 10.637/2002: “A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste, para fins da aplicação do disposto nos Artigos 77 a 81 da Medida Provisória nº 2.15835 de 24 de agosto de 2001”. Adicionalmente, temos que as mercadorias são repassadas integralmente aos adquirentes tão logo sejam liberadas dos controles alfandegários. A agregação praticada é claramente não comercial e é totalmente insuficiente para financiar os custos operacionais que uma empresa atacadista teria (gastos com armazenagem, movimentação de carga, depósito, frete, pessoal, aluguel, luz, água, etc.) e ainda gerar lucro. Esta situação e os outros elementos relatados neste Termo formam a convicção de que a relação entre os reais adquirentes (neste caso a PRIME CATER) e a empresa COREX não é comercial, e sim uma relação que visa a ocultar os verdadeiros responsáveis pela importação destes produtos e que ficaram ocultos em todas as declarações e documentos apresentados a RFB. A ocultação do real adquirente visa “blindar” os verdadeiros favorecidos pela fraude, uma vez que estas empresas quando chamadas a cumprir com suas obrigações legais (tributárias e até civis) não são alcançadas em virtude da ocultação. Mesmo que, hipoteticamente, os recursos tivessem comprovação na contabilidade bem como dos referidos desembolsos, os fatos reforçariam o esquema fraudulento de ocultação do verdadeiro adquirente das mercadorias importadas. Portanto, qualquer prova que comprovasse a origem dos recursos acabaria por constituirse de prova contra a impugnante. Em razão do exposto, fica acolhida o entendimento da Fiscalização neste quesito. Para a interessada, a fraude e simulação não se presumem, ou seja, a mera suspeita fundada em indícios e sem qualquer comprovação efetiva incorre em inquestionável insubsistência do auto de infração. A Fiscalização Aduaneira fez um extenso levantamento das DI da fiscalizada e fez todas as diligências necessárias para a análise dos fatos por meio de intimações sucessivas e verificação de toda a documentação apresentada no cursos da atividade fiscal. Portanto, as conclusões da autoridade fiscal não estão calcadas em meras suposições, conforme entende a contribuinte, pois estão respaldadas nos fatos verificados por meio de documentação apresentada pela própria interessada. O que ocorreu no presente caso, como bem explicitado no Termo de Verificação Fiscal, é a ocorrência de simulação ou da fraude nas atividades de comércio exterior, por meio da falsidade documental, com a intenção de omitir dos controles aduaneiros os verdadeiros intervenientes das operações de comércio Fl. 10588DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.589 23 exterior. A burla ao controle aduaneiro ocorreu por meio da simulação com inserção, no campo “real adquirente” da DI, nome diverso daquele que ali deveria aparecer. Quando uma empresa cede seu nome para constar na DI no lugar de outra, ela traz para a sociedade, automaticamente, uma série de riscos, com a destinação irregular das mercadorias importadas sem controle aduaneiro. Reitera a impugnante que o DOLO é essencial para caracterização do ilícito e incidência da penalidade correspondente sendo INDISPENSÁVEL a figura da intenção do agente e respectivo DANO ao Erário e a falta de comprovação da CONDUTA DOLOSA impede que se caracterize interposição fraudulenta. Conforme já exposto, a legislação aduaneira, a qual trata da matéria ora discutida, determina que para legitimar a sanção, basta a certificação do fato infracional, independente da existência de culpa, demonstração de boafé e ocorrência de efetivo dano ao Erário público. Como muito bem mencionado pela autoridade fiscal, o Dano ao Erário aqui mencionado difere do conceito de dano que é utilizado no Direito Civil, pois ele não está relacionado à ocorrência de lesão patrimonial ou moral e não requer, necessariamente, considerações sobre questão do pagamento de tributos (salvo nos casos em que tal fato é previsto no tipo aduaneiro). A presunção de interposição fraudulenta a que se refere o §2º, do art. 23, do DL nº 1.455/76, o jurista Alfredo Augusto Becker define a presunção como o resultado do processo lógico mediante o qual, do fato conhecido cuja existência é certa, inferese o fato desconhecido cuja existência é provável. Ou seja, na presunção, que é uma prova indireta, há um fato indiciário (conhecido), um fato indiciado (inferido) e uma relação implicacional entre os fatos. No que tange à presunção legal do 2º, do art. 23, do DL nº 1.455/76, há três elementos: a) um fato indiciário, que é a nãocomprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados em operação de comércio exterior; b) um fato indiciado, que é a interposição fraudulenta de terceiros e; c) a implicação entre os fatos, que já está dada e construída pela disposição legal contida no próprio §2º, do art. 23, do DL nº 1.455/76. Uma vez não comprovada a origem, a disponibilidade ou a efetiva transferência dos recursos financeiros empregados na operação de comércio exterior (fato indiciário), fica a fiscalização dispensada de provar quem disponibilizou os recursos, incidindo, por expressa disposição legal, o fato indiciado (a interposição fraudulenta de terceiros). Portanto, o procedimento de fiscalização busca identificar e, se for o caso, punir quem oculta o sujeito passivo, inclusive por meio de interposição de pessoas, podendo a interposição também ser provada ao arrimo da presunção inserida pelo novo parágrafo segundo do art. 23 do DecretoLei nº 1.455/76. (. . .) Pelas razões expostas, fica mantido o crédito tributário, conforme proposto pela autoridade fiscal." Fl. 10589DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.590 24 Não obstante reputar que os argumentos acima expostos já se mostram suficientes para ratificar o lançamento de ofício, cumpre adicionar alguns detalhes do TVF e as correspondentes alegações de defesa sobre as margens de lucro apuradas pela fiscalização. O auditor fiscal realizou uma comparação simples: o custo de aquisição dos produtos versus os correspondentes preços de revenda. Em operações com empresas do Grupo Torlim, a margem de lucro média foi de 5% (fl. 114). E, com outras empresas, de 14% (fl. 149). A conclusão do auditor fiscal foi de que eram insuficientes, pois não conseguiriam cobrir os demais custos normais envolvidos em uma atividade do gênero dos quais, por serem os mais relevantes, destacamse os com despachante aduaneiro, transporte dentro do País, movimentação de carga e descarga, tributos internos, mãodeobra e armazenagem e ainda gerar lucro para os acionistas. O raciocínio pareceme lógico e consistente. E fazme crer que realmente houve ocultação dos reais adquirentes, pois, em nenhum momento processual, a recorrente enfrentou estes argumentos, apresentando demonstrativo de cálculo com resultado contrário ao apurado pela fiscalização. Em sua defesa, trouxe as seguintes alegações: a) A margem de lucro praticada seria comum no seguimento. Como prova disto, informa que; em 2014, a margem líquida (lucro líquido versus faturamento) da empresa JBS teria sido de 1,69% e a sua de 1,33%. Em 2015, a da JBS de 2,85%, a da MARFRIG 5,96 (negativa) e a que apresentou de 1,73%. b) Em 2015, as margens operacionais (receita líquida de vendas versus resultado operacional) da MARFRIG teria sido de 6,77%, da JBS de 5,63% e a sua de 2,89%. Por dois motivos muito simples, as comparações apresentadas não afastam as conclusões do auditor: i) não indicou se as concorrentes operaram exclusivamente no ramo de negócios em que atuou; e ii) no caso da margem líquida, as concorrentes podem ter arcado, por exemplo, com custos financeiros de empréstimos, o que impacta negativamente a margem líquida. Assim, com base no acima exposto, nego provimento aos argumentos da recorrente, contidos nos tópicos "4.1" ao "4.4" do recurso voluntário. "4.5. DA MULTA APLICADA. PENALIDADE EXCESSIVA. CONFISCO. CAPACIDADE CONTRIBUTIVA E FINALIDADE." Alega que as multas aplicadas são excessivas, ferindo o princípio da capacidade contributiva. Destaca que não pleiteia a declaração da inconstitucionalidade do dispositivo legal, porém a devida aplicação dos princípios constitucionais ao processo administrativo em tela. Esta corte não é competente para afastar a aplicação de dispositivo legal plenamente vigente, ainda que por força de eventual afronta a princípio constitucional, nos Fl. 10590DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.591 25 termos da Súmula CARF n° 2: "O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária." Portanto, nego provimento. "4.6. DA CONSUNÇÃO DAS CONDUTAS QUE SE PRETENDE APENAR EM SEPARADO" Sustenta a recorrente que: "Como já demonstrado em peça de Impugnação, reiterase que, na inadvertida hipótese de se manter a autuação por interposição fraudulenta, o que se admite apenas por eventualidade, é fato que a ausência da informação quanto ao suposto encomendante é absorvido pela conduta de acobertar o real beneficiário das importações. Se interpõe e acoberta um terceiro mediante a ausência da informação. Logo, não se pode manter concomitantemente as duas acusações e penalidades, devendo ser cancelada, em pedido subsidiário, a multa regulamentar de falta de informação, por consunção. O presente auto de infração pune ao mesmo tempo a conduta meio e a conduta fim, de forma exagerada e desnecessária. A impossibilidade de apenar duas condutas consistentes em uma atividade meio e outra fim é altamente repudiada pelos doutrinadores tributários, sendo plenamente aplicável o princípio da consunção/absorção." O argumento não procede, pois tratase de multas aplicadas por fatos distintos com capitulações legais específicas decorrentes de fatos geradores diversos: i) multa por cessão de nome, de 10% do valor das operações acobertadas (art. 33 da Lei n° 11.488/07 e art. 727 do Decreto n° 6.759/09 Regulamento Aduaneiro RA); ii) multa por omissão de informação necessária ao controle aduaneiro, de 1% do valor aduaneiro (inciso III do art. 711 do RA). Esta última compreendeu não apenas a infração por não indicar os reais adquirentes, como também relativa à vinculação, para fins da legislação aduaneira (Artigo 15, parágrafo 4º, alíneas ‘a’, ‘b’, ‘d’ e ‘e’ do Acordo Sobre a Implementação do Artigo VII do GATT – AVAGATT), entre estes e o exportador. E assim dispõe o § 6° do citado art. 711 do RA: "(. . .) § 6o A aplicação da multa referida no caput não prejudica a exigência dos tributos, da multa por declaração inexata de que trata o art. 725, e de outras penalidades administrativas, bem como dos acréscimos legais cabíveis (Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 84, § 2º)." (g.n.) Concluo por negar provimento. 4.7. DA RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. IMPOSSIBILIDADE DE SE RESPONSABILIZAR SOLIDARIAMENTE OS SÓCIOS" Fl. 10591DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.592 26 A recorrente remetese aos já combatidos argumentos para reiterar que não se demonstrou qualquer conduta que indicasse infração à lei ou ao contrato social (art. 135 do CTN). Ademais, ainda que se confirme a multa por omissão de informação, não houve dolo ou dano ao erário. Foi robustamente demonstrada a ocultação dos reais adquirentes das mercadorias, tendo sido, inclusive, lavrada Representação Fiscal para Fins Penais, fundamentada no cometimento do crime contra a ordem tributária previsto nos artigos 1° e 2° da Lei n° 8.137/90: "Art. 1° Constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou reduzir tributo, ou contribuição social e qualquer acessório, mediante as seguintes condutas: (Vide Lei nº 9.964, de 10.4.2000) I omitir informação, ou prestar declaração falsa às autoridades fazendárias; II fraudar a fiscalização tributária, inserindo elementos inexatos, ou omitindo operação de qualquer natureza, em documento ou livro exigido pela lei fiscal; Pena reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. Art. 2° Constitui crime da mesma natureza I fazer declaração falsa ou omitir declaração sobre rendas, bens ou fatos, ou empregar outra fraude, para eximirse, total ou parcialmente, de pagamento de tributo; Pena detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa." Desta forma, é adequada a atribuição da responsabilidade tributária aos sócios, pela a aplicação dos dispositivos legais em que foi capitulada pela fiscalização: DecretoLei nº37/66 "Art. 95 Respondem pela infração: I conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie;" Código Tributário Nacional – CTN "Art. 134. Nos casos de impossibilidade de exigência do cumprimento da obrigação principal pelo contribuinte, respondem solidariamente com este nos atos em que intervierem ou pelas omissões de que forem responsáveis: (. . .) VII os sócios, no caso de liquidação de sociedade de pessoas. Fl. 10592DF CARF MF Processo nº 10111.721024/201678 Acórdão n.º 3301004.851 S3C3T1 Fl. 10.593 27 Parágrafo único. O disposto neste artigo só se aplica, em matéria de penalidades, às de caráter moratório. Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I as pessoas referidas no artigo anterior; II os mandatários, prepostos e empregados; III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado." Nego provimento aos argumentos. CONCLUSÃO Nego provimento ao recurso voluntário. É como voto. (assinado digitalmente) Marcelo Costa Marques d'Oliveira Fl. 10593DF CARF MF
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Numero do processo: 13984.000993/2009-81
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Fri Jul 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Sep 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Ano-calendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009
PASEP. PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PÚBLICO INTERNO. BASE DE CÁLCULO. TRANSFERÊNCIAS RECEBIDAS DO FUNDEF/FUNDEB
A base de cálculo do PASEP devido pelas pessoas jurídicas de direito público interno será apurada com base no valor mensal das receitas correntes arrecadadas e das transferências correntes e de capital recebidas, nos termos do art. 2º, III, da Lei 9.715/98, excluindo-se as transferências efetuadas a outras entidades públicas. As transferências recebidas do FUNDEF e do FUNDEB compõem a base de cálculo da contribuição por constituir transferência corrente.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3301-004.987
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Marcelo Costa Marques D Oliveira, Salvador Candido Brandão Júnior e Winderley Morais Pereira, que davam provimento parcial ao recurso voluntário, aplicando a Solução de Consulta Cosit nº 278/2017.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente.
(assinado digitalmente)
Valcir Gassen - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
Nome do relator: VALCIR GASSEN
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Marcelo Costa Marques D Oliveira, Salvador Candido Brandão Júnior e Winderley Morais Pereira, que davam provimento parcial ao recurso voluntário, aplicando a Solução de Consulta Cosit nº 278/2017. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira - Presidente. (assinado digitalmente) Valcir Gassen - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
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PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PÚBLICO INTERNO. BASE DE CÁLCULO. TRANSFERÊNCIAS RECEBIDAS DO FUNDEF/FUNDEB A base de cálculo do PASEP devido pelas pessoas jurídicas de direito público interno será apurada com base no valor mensal das receitas correntes arrecadadas e das transferências correntes e de capital recebidas, nos termos do art. 2º, III, da Lei 9.715/98, excluindose as transferências efetuadas a outras entidades públicas. As transferências recebidas do FUNDEF e do FUNDEB compõem a base de cálculo da contribuição por constituir transferência corrente. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Marcelo Costa Marques D Oliveira, Salvador Candido Brandão Júnior e Winderley Morais Pereira, que davam provimento parcial ao recurso voluntário, aplicando a Solução de Consulta Cosit nº 278/2017. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente. (assinado digitalmente) Valcir Gassen Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 98 4. 00 09 93 /2 00 9- 81 Fl. 507DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 520 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fls. 347 a 349) interposto pelo Contribuinte, em 10 de setembro de 2012, contra decisão consubstanciada no Acórdão nº 0729.662 (fls. 327 a 341), de 31 de julho de 2012, proferido pela 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Florianópolis (SC) – DRJ/FNS – que decidiu, por maioria de votos, julgar improcedente a Impugnação (fls. 301 a 303), mantendo o crédito tributário exigido. Visando a elucidação do caso e a economia processual adoto e cito o relatório do referido Acórdão: Trata o presente processo de auto de infração lavrado em razão da insuficiência de recolhimento da contribuição para o PIS/Pasep devida em relação a fatos geradores ocorridos no período 01/2005 a 12/2008. Está sendo exigida, da interessada em epígrafe, a quantia de R$ 79.388,36, acrescida de multa de ofício e juros de mora. Do Relatório Fiscal Relata a autoridade fiscal que elaborou os documentos "Demonstrativo de Receitas Correntes e Transferências de Capital Contabilizadas Anoscalendário de 2006 e 2007" e o "Demonstrativo de Apuração do Pasep", que espelham o montante de receitas correntes arrecadadas e transferências correntes e de capital recebidas pela Prefeitura do Município de Lages e a apuração dos montantes devidos, retidos, recolhidos e a pagar do PASEP, tendo por base os Demonstrativos de Receitas segundo as categorias econômicas da Lei n° 4.320/64, fls. 16/197, enviados pela Prefeitura. Explica que critério adotado na elaboração dos demonstrativos foi o de, primeiro, levar à incidência da contribuição para o PIS/PASEP todas as receitas que compõem a sua base de cálculo, independente de ter havido a retenção de PASEP pelo Tesouro Nacional, e, em seguida, efetuar a dedução dos valores retidos da contribuição. Informa que os valores retidos encontram listados nos relatórios extraídos do sitio da internet do Banco do Brasil (www.bb.com.br), no link "Governo/Poder Executivo Federal/Dispêndios/Repasses de Recursos/Distribuição da Arrecadação Federal, Estadual e Municipal/Prefeitura de Lages", juntados as fls. 03/10. E que houve retenção somente a partir do mês de outubro de 2007, não havendo outros valores retidos de conhecimento do sujeito passivo, que não os citados, conforme se depreende de sua resposta ao Termo de Intimação Fiscal n° 002. Em relação a alegações trazidas pelo contribuinte, em resposta á intimação fiscal presentes nas folhas 268 e269, esclarece, que: Fl. 508DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 521 3 1) a receita recebida classificada sob a rubrica "Receita de Capital Recebida" é tributada de acordo com o disposto no art. 70 (caput) do Regulamento do PIS/Pasep e que essa receita, quando recebida de outra entidade de direito público interno, não sofre a dupla tributação no ente recebedor, pois o ente transferidor deduz da base de cálculo do PIS/Pasep o valor dessa transferência, conforme disposto no parágrafo segundo desse art. 70; 2) as receitas arrecadadas e as de transferências correntes e de capital recebidas das Entidades 3, 6, 7, 8, 9 e 11, conforme consta nos demonstrativos consolidados de fls. 16/197, são receitas próprias dessas entidades, portanto sujeitas à tributação do PIS/Pasep conforme prevê o art. 70 (caput) do Regulamento; e que não foram submetidas a tributação as transferências recebidas da União com a função Recursos do SUS, da Entidade 3, e Recursos do Fundo Nacional da Assistência Social, da Entidade 11, tendo em vista analogia que se faz com o entendimento esboçado pela Solução de Consulta SRRF/9aRF/DISIT n° 70, de 30 de abril de 2003; 3) as deduções da base de calculo do Pasep, praticadas pelo contribuinte, conforme demonstrativos por ele elaborados fls. 13/15, ou se tratam de receitas próprias (como FPM, Indenizações/Restituições e Receita Divida Ativa), ou recursos recebidos com a classificação contábil de Transferência Corrente (como: Outras Transferência da União; Transferência Comp. Financ. p/ Expl.; Transf. Recurso do Fdo Nac. Educ; e Transf. de Recursos FUNDEF e Convênios); quanto à tributação das Transferências Correntes, foi adotado o mesmo entendimento já exposto no item 1 acima, ou seja, quando da transferência do recurso, a entidade transferidora deduz da base de cálculo do Pasep o valor da transferência, não se configurando, assim, dupla incidência; em relação aos valores recebidos sob a rubrica "Recursos do Fundeb", cita o entendimento da RFB esboçados na Solução de Divergência n° 2 Cosit, de 10 de fevereiro de 2009, da CoordenaçãoGeral de Tributação da RFB e na Solução de Consulta SRRF/9aRF/DISIT n° 70, de 30 de abril de 2003; registra que não ha recursos recebidos para o FUNDEB a título de repasses complementares conforme resposta do contribuinte, o que ensejaria a sua dedução da base de cálculo do Pasep, conforme solução de consulta Cosit nº 2. Informa, por fim, que o "Demonstrativo de Receitas Correntes e Transferências de Capital Contabilizadas Anoscalendário de 2006 e 2007" traz, no ano calendário de 2006 a dedução da rubrica "Dedução da Receita", contabilizada na conta "9.0.0.0.00.00.00.00 — Deduções da Receita Corrente" que, no anocalendário de 2007, está contabilizada na conta "9.7.2.x.xx.xx.xxx" como retificadora de cada transferência corrente recebida. E explica quer essa exclusão decorre da dedução feita pela União a título de FUNDEB, cujos valores são posteriormente devolvidos de acordo com as normas desse Fundo/Programa, como, também, demonstra a resposta do contribuinte em fls. 268/269. Da Impugnação A impugnante contesta o lançamento discordando da metodologia adotada pelos auditores fiscais. Diz que entende que na composição da base de cálculo da contribuição deve ser contemplada a dedução da Transferência Multigovernamental, qual seja, a receita de Transferência de Recursos do Fundef/Fundeb (Receita recebida do Fundef) e não a receita transferida ao Fundo pelo município que é deduzida na fonte quando do recebimento/crédito das Receitas de Transferências constitucionais (FPM, ITR, ICMS, IPVA). A recorrente baseia se na sua interpretação e entendimento da Solução de Divergência no 2 da Cosit. Nesse sentido afirma: Fl. 509DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 522 4 Acreditamos que a referência se faz [na Solução de Divergência Cosit] ao valor retido do repasse das transferências constitucionais (FPE e FPM) e transferido ao Fundo, o que vem a confirmar o disposto no parágrafo anterior, ou seja: os valores retidos e repassados/alocados para o FUNDEF pelos Municípios, não podem ser excluídos da base de calculo da contribuição para o PASEP. Assim sendo, a aliquota de 1% para recolhimento da contribuição ao PASEP deve ser aplicada sobre a receita bruta proveniente das Transferências Constitucionais (FPM, ICMS, etc.). O que nos leva ao entendimento de que o Município, ao contabilizar os valores oriundos da receita de Transferência do FUNDEF/FUNDEB, deve deduzilos de sua base de cálculo para contribuição ao PASEP, pois tais valores já sofreram a incidência da contribuição no Município arrecadador ou em outro ente federativo. Mesmo quando o Município obtém um ganho, em função da arrecadação com o FUNDEF/FUNDEB (valores transferidos/devolvidos pelo Fundo ao Município) ser superior ao valor retido na fonte de suas receitas de transferencias constitucionais (valores transferidos ao Fundo pelo Município), entendemos que a referida receita deva ser deduzida da base de cálculo do PASEP, pois tais valores já compuseram a base de cálculo de outro ente federativo. Registra que no “Demonstrativo de Receitas Correntes e Transferências de Capital Contabilizadas – AnosCalendários 2006 e 2007", está contemplado como "deduções da receita", para fins de composição da base de cálculo do Pasep, os valores retidos das transferências constitucionais decorrentes da dedução feita pela União a título de Fundeb. E acrescenta: Porém, tal entendimento não vai de encontro com o que prescreve a Solução de Divergência n.° 2 Cosit, ou seja: "Os valores de suas receitas próprias repassados/alocados, para o FUNDEF/FUNDEB, pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios, não podem ser excluídos da base de cálculo da Contribuição para o PIS/PASEP do ente que efetuar o repasse/alocação, por falta de amparo legal", reforçando que inclusive a parte destacada para FUNDEF/FUNDEB deve ser incluída na base de cálculo. Notese que a Solução de Divergência não faz menção aos recursos devolvidos pelo Fundo (FUNDEB) ao Município, porém, ao considerar que os recursos repassados ao FUNDEB pelo Município não podem ser excluídos da base de cálculo do PASEP, incoerente seria se a receita oriunda de recursos devolvidos pelo FUNDEB fizesse parte da composição da base de cálculo, pois evidenciaria dupla incidência da Contribuição ao PASEP. Tendo em vista a negativa do Acórdão da 4ª Turma da DRJ/FNS, que, por maioria de votos, julgou improcedente a Impugnação apresentada pelo Contribuinte, este ingressou com Recurso Voluntário visando reformar a referida decisão. É o relatório. Voto Fl. 510DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 523 5 Conselheiro Valcir Gassen Relator O Recurso Voluntário interposto em face da decisão consubstanciada no Acórdão nº 0729.662 é tempestivo e atende os pressupostos legais de admissibilidade, motivo pelo qual deve ser conhecido. O ora analisado Recurso Voluntário visa reformar decisão que possui a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 PASEP. BASE DE CÁLCULO. TRANSFERÊNCIAS RECEBIDAS DO FUNDEF/FUNDEB. As transferências recebidas do FUNDEF e do FUNDEB compõem a base de cálculo da contribuição por constituir transferência corrente. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A questão no presente processo envolve a inclusão ou não na base de cálculo do Pasep do valor correspondente a parcela destinada ao Município advinda do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB). O Contribuinte discorda quanto ao lançamento da autoridade fiscal por ter incluído na base de cálculo do PASEP os valores recebidos do FUNDEB e contabilizados na conta contábil "1.7.2.4.01.00.00.00 — Transf. de Recursos do FUNDEF. Cabe citar o histórico do Fundef e Fundeb e da sua natureza jurídica e tributária formulado pelo il. Conselheiro José Henrique Mauri no Acórdão nº 3301004.140 que bem contextualiza os fatos e o direito e servem como razões para bem decidir: 1.1 HISTÓRICO DO FUNDEF E FUNDEB A Carta Magna de 1988 fez nascer a obrigatoriedade de se priorizar o sistema educacional brasileiro, razão pela qual foi criado o Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério), posteriormente substituído pelo Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação). A criação do Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério) em 1996 foi, sem dúvida, uma das mais importantes mudanças ocorridas na política de financiamento da educação no Brasil nas últimas décadas. Seu principal mérito talvez tenha sido o de proporcionar uma melhor redistribuição dos recursos financeiros educacionais, mediante o critério do número de alunos matriculados, com o objetivo de atenuar a enorme desigualdade regional existente no Brasil. Vale ressaltar, também, a contribuição do Fundef quanto ao aperfeiçoamento do processo de gerenciamento orçamentário e financeiro no setor educacional, bem como permitindo uma maior visibilidade na aplicação dos recursos recebidos à conta do Fundo. [Excerto de artigo extraído da web em 1/7/2017: Texto Fundeb_PROGED.doc autor não identificado] Fl. 511DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 524 6 O Fundef teve como precursor a Emenda Constitucional no 14, de 1996, que alterou o art. 60, do ADCT, nos termos abaixo transcritos, com os destaques adicionados: Art. 60. Nos dez primeiros anos da promulgação desta Emenda, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios destinarão não menos de sessenta por cento dos recursos a que se refere o caput do art. 212 da Constituição Federal, à manutenção e ao desenvolvimento do ensino fundamental, com o objetivo de assegurar a universalização de seu atendimento e a remuneração condigna do magistério. (Redação dada pela Emenda Constitucional no 14, de 1996) § 1o A distribuição de responsabilidades e recursos entre os Estados e seus Municípios a ser concretizada com parte dos recursos definidos neste artigo, na forma do disposto no art. 211 da Constituição Federal, é assegurada mediante a criação, no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal, de um Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, de natureza contábil. (Incluído pela Emenda Constitucional no 14, de 1996) § 2o O Fundo referido no parágrafo anterior será constituído por, pelo menos, quinze por cento dos recursos a que se referem os arts. 155, inciso II; 158, inciso IV; e 159, inciso I, alíneas "a" e "b"; e inciso II, da Constituição Federal, e será distribuído entre cada Estado e seus Municípios, proporcionalmente ao número de alunos nas respectivas redes de ensino fundamental. (Incluído pela Emenda Constitucional no 14, de 1996) § 3o A União complementará os recursos dos Fundos a que se refere o § 1o, sempre que, em cada Estado e no Distrito Federal, seu valor por aluno não alcançar o mínimo definido nacionalmente. (Incluído pela Emenda Constitucional no 14, de 1996) § 4o A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios ajustarão progressivamente, em um prazo de cinco anos, suas contribuições ao Fundo, de forma a garantir um valor por aluno correspondente a um padrão mínimo de qualidade de ensino, definido nacionalmente. (Incluído pela Emenda Constitucional no 14, de 1996) § 5o Uma proporção não inferior a sessenta por cento dos recursos de cada Fundo referido no § 1o será destinada ao pagamento dos professores do ensino fundamental em efetivo exercício no magistério. (Incluído pela Emenda Constitucional no 14, de 1996) § 6o A União aplicará na erradicação do analfabetismo e na manutenção e no desenvolvimento do ensino fundamental, inclusive na complementação a que se refere o § 3o, nunca menos que o equivalente a trinta por cento dos recursos a que se refere o caput do art. 212 da Constituição Federal. (Incluído pela Emenda Constitucional no 14, de 1996) § 7o A lei disporá sobre a organização dos Fundos, a distribuição proporcional de seus recursos, sua fiscalização e controle, bem como sobre a forma de cálculo do valor mínimo nacional por aluno. [Destaquei] Cumprindo o disposto no §7o, suso transcrito, foi editada a Lei no 9.424, de 1996, instituindo o Fundef Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fl. 512DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 525 7 Fundamental e de Valorização do Magistério (posteriormente substituído pelo Fundeb criado pela Lei no 11.494, de 2007), no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal, com natureza meramente contábil. O Fundef era formado por 15% dos recursos dos Estados e Municípios decorrentes da arrecadação do ICMS (incluindo as compensações por perdas decorrentes da desoneração de exportações – LC 87, de 1996), do FPE e FPM, do IPI proporcionalmente às exportações, na forma do art. 1o, §§1o e 2o da Lei no 9.424, de 19961. A União contribuía, por sua vez, complementarmente, na forma do art. 6o da referida lei2, de modo a atingir o valor mínimo por aluno definido nacionalmente. Com o fim do prazo de vigência do Fundef [o fundo vigorou por dez anos: 1997 a 2006], foi editado a Lei n. 11.494/07, conversão da MP no 339, de 2006, que, para substituir o Fundef, instituiu o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) que se estenderá até o ano de 2020. O novo fundo representou um aprimoramento do antigo Fundef, especialmente quando ao volume de recursos a ele aportados (a alíquota passou de 15% para 20%, bem assim alargouse a base de cálculo) e à abrangência do sistema de ensino a ser contemplado, passando a alcançar também o ensino infantil e médio (o Fundef beneficiava unicamente o ensino fundamental). Todavia, foram preservadas, no Fundeb, as naturezas jurídica e tributária inerentes ao extinto Fundef, razão pela qual os contenciosos tributários constituídos 1 Art. 1o É instituído, no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, o qual terá natureza contábil e será implantado, automaticamente, a partir de 1o de janeiro de 1998. (Vide Medida Provisória no 339, de 2006). (Revogado pela Lei no 11.494, de 2007) § 1o O Fundo referido neste artigo será composto por 15% (quinze por cento) dos recursos: (Vide Medida Provisória no 339, de 2006). (Revogado pela Lei no 11.494, de 2007) I da parcela do imposto sobre operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação ICMS, devida ao Distrito Federal, aos Estados e aos Municípios, conforme dispõe o art. 155, inciso II, combinado com o art. 158, inciso IV, da Constituição Federal; (Vide Medida Provisória no 339, de 2006). (Revogado pela Lei no 11.494, de 2007) II do Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal FPE e dos Municípios FPM, previstos no art. 159, inciso I, alíneas a e b, da Constituição Federal, e no Sistema Tributário Nacional de que trata a Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966; e (Vide Medida Provisória no 339, de 2006). (Revogado pela Lei no 11.494, de 2007) III da parcela do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI devida aos Estados e ao Distrito Federal, na forma do art. 159, inciso II, da Constituição Federal e da Lei Complementar no 61, de 26 de dezembro de 1989. (Vide Medida Provisória no 339, de 2006). (Revogado pela Lei no 11.494, de 2007) § 2o Incluise na base de cálculo do valor a que se refere o inciso I do parágrafo anterior o montante de recursos financeiros transferidos, em moeda, pela União aos Estados, Distrito Federal e Municípios a título de compensação financeira pela perda de receitas decorrentes da desoneração das exportações, nos termos da Lei Complementar no 87, de 13 de setembro de 1996, bem como de outras compensações da mesma natureza que vierem a ser instituídas. (Vide Medida Provisória no 339, de 2006). (Revogado pela Lei no 11.494, de 2007) 2 Art. 6o A União complementará os recursos do Fundo a que se refere o art. 1o sempre que, no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal, seu valor por aluno não alcançar o mínimo definido nacionalmente. (Vide Medida Provisória no 339, de 2006). (Revogado pela Lei no 11.494, de 2007) Fl. 513DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 526 8 fundamse em idênticas controvérsias, seja inaugurado sob a égide de um ou de outro fundo, v.r., questionase a incidência do Pasep sobre o repasse de recursos ao Fundo, pela União. Portanto, no presente voto farseá referência indistintamente ao Fundef ou Fundeb, independentemente de trataremse de fatos ocorridos na vigência temporal ou espacial de um ou de outro. 1.2 DA NATUREZA JURÍDICA E TRIBUTÁRIA A Secretaria do Tesouro Nacional – STN – assim dispôs em seu Manual de Contabilidade Aplicada ao Setor Público – Parte III – Procedimentos Contábeis Específicos3, ao tratar do Fundeb: “03.01.02.02 NATUREZA DO FUNDEB O Fundeb não é considerado federal, estadual, nem municipal, por se tratar de um fundo de natureza contábil, formado com recursos provenientes das três esferas de governo e pelo fato de a arrecadação e distribuição dos recursos que o formam serem realizadas pela União e pelos Estados, com a participação do Banco do Brasil, como agente financeiro do fundo. Além disso, os créditos dos seus recursos são realizados automaticamente em favor dos Estados e Municípios, de forma igualitária, com base no número de alunos. Esses aspectos do Fundeb o revestem de peculiaridades que transcendem sua simples caracterização como Federal, Estadual ou Municipal. Assim, dependendo do ponto de vista, o fundo tem seu vínculo com a esfera federal (a União participa da composição e distribuição dos recursos), a estadual (os Estados participam da composição, da distribuição, do recebimento e da aplicação final dos recursos) e a municipal (os Municípios participam da composição, do recebimento e da aplicação final dos recursos). É importante destacar, no entanto, que a sua instituição é estadual, conforme prevê a Emenda Constitucional no 53, de 19/12/2006, art. 1o. [Destaquei] Ressaltese que, embora as considerações feitas pela STN refirase ao Fundeb, elas são igualmente aplicáveis ao extinto Fundef, pois ambos possuem a mesma natureza, conforme explicitado em tópico precedente. Ainda quanto à natureza jurídica, o artigo publicado na revista da PGFN4 Ano I – Número 1 – 2011 pondera: “3 A natureza do Fundeb e a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal A classificação dos fundos tem sido recorrentemente um problema para a Administração Pública, especialmente no que se refere aos efeitos práticos de qualquer iniciativa definitiva de taxonomia. Em âmbito federal a questão preocupa, principalmente, o Tesouro Nacional, a quem incumbe, efetivamente, o controle dos fluxos dos altíssimos valores envolvidos. Neste sentido, há previsão de fundos de gestão orçamentária, de gestão especial e de natureza contábil. O Fundeb se encontra no último grupo. Ao que consta, os fundos de gestão orçamentária 3 https://www.tesouro.fazenda.gov.br/images/arquivos/artigos/Parte_III__PCE.pdf 4 http://www.pgfn.fazenda.gov.br/revistapgfn/revistapgfn/anoinumeroi/arnaldo.pdf Fl. 514DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 527 9 realizam a execução orçamentária e financeira das despesas orçamentárias financiadas por receitas orçamentárias vinculadas a essa finalidade. De acordo com o Tesouro Nacional entre os fundos de gestão orçamentária se classificam o Fundo Nacional da Saúde, o Fundo da Criança e Adolescente e o Fundo da Imprensa Nacional, entre outros. Os fundos de gestão especial subsistem para a execução de programas específicos, mediante capitalização, empréstimos, financiamentos, garantias e avais. Exemplificase com o Fundo Constitucional do Centro Oeste, com o Fundo de Investimento do Nordeste, com o Fundo de Investimento da Amazônia. Os fundos de natureza contábil instrumentalizam transferências, redefinem fontes orçamentárias, instrumentalizam a repartição de receitas, recolhem, movimentam e controlam receitas orçamentárias (bem como a necessária distribuição) para o atendimento de necessidades específicas. É o caso do Fundo de Participação dos Estados, do Fundo de Participação dos Municípios e do Fundeb, especialmente. O fundo é uma mera rubrica contábil. Não detém patrimônio. Não é órgão. Não é entidade jurídica. Não detém personalidade própria. É instrumento. Não é fim. Propicia meios. Eventual inscrição no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (no caso de alguns fundos) é determinação que decorre da necessidade da administração tributária deter informações cadastrais. [Destaquei] O Fundeb, de modo semelhante ao Fundef, não deve ser considerado, portanto, um fundo específico de determinada esfera governamental, mas um fundo multigovernamental, que não possui personalidade jurídica própria, e que é composto por recursos complementarmente pela União, distribuído pelos Estados e, em carater complementar, pela União, sendo seus recursos aplicados por Estados e Municípios e fiscalizados de forma concorrente pelas três esferas de governo. Relativamente a sua contabilização, a STN publicou a Portaria no 328, de 2001, na qual explicita os lançamentos contábeis e assim dispôs: Art. 1o Estabelecer, para os estados, Distrito Federal e municípios, os procedimentos contábeis para os recursos destinados e oriundos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério – FUNDEF. Art. 2o As receitas provenientes do Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal – FPE e dos Municípios – FPM, do Imposto sobre a circulação de mercadorias e de prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal, e de comunicação – ICMS, do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI sobre as exportações, na forma da Lei Complementar no 61 e da Desoneração do ICMS, nos termos da Lei Complementar no 87, deverão ser registradas contabilmente pelos seus valores brutos, em seus respectivos códigos de receitas. Art. 3o Os quinze por cento retidos automaticamente das transferências citadas no artigo anterior, serão registradas na conta contábil retificadora da receita orçamentária, criada especificamente para este fim, cuja conta será o mesmo código da classificação orçamentária, com o primeiro dígito substituído pelo número 9. Fl. 515DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 528 10 Neste caso, as classificações de receita 1721.01.00 e 1722.01.00 terão como contas retificadoras as contas contábeis números 9721.01.00 e 9722.01.00 – Dedução de Receita para Formação do FUNDEF. Parágrafo 1o A Proposta Orçamentária conterá a classificação própria da receita com a apresentação da previsão bruta e as deduções para a formação do FUNDEF, ficando a despesa fixada com base no valor líquido da receita prevista. Parágrafo 2o A contabilidade manterá os registros distintos da receita arrecadada em contas abertas em cada ente da federação que representarão, respectivamente a classificação da receita e a dedução correspondente, na forma definida no caput do artigo. Art. 4o Os quinze por cento deduzidos ou transferidos pelos Estados e DF do Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação para o FUNDEF serão registrados na conta contábil retificadora da receita orçamentária, código 9113.02.00 – Dedução para o FUNDEF, devendo aplicar esta regra de criação de contas retificadoras para as demais receitas. Art. 5o Os valores do FUNDEF repassados ao Estado, Distrito Federal e Municípios deverão ser registrados no código de receita 1724.01.00 Transferência do FUNDEF. Parágrafo único – Quando constar do montante creditado na conta do FUNDEF, parcela de complementação de seu valor o mesmo deverá ser registrado destacadamente na conta 1724.02.00 – Transferência de Complementação do FUNDEF. Art. 6o Os procedimentos de registros contábeis, estabelecidos nesta Portaria, das transferências e as respectivas deduções estão evidenciadas no Anexo I. Art. 7° Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação, aplicandose seus efeitos a partir do exercício financeiro de 2002, inclusive no que se refere à elaboração da respectiva lei orçamentária. [Destaquei] O Anexo I da referida portaria descreve os lançamentos contábeis atinentes ao fundo. Depreendese que há três lançamentos distintos: (i) o recebimento das transferências correntes dos outros entes públicos, (ii) a dedução para formação do fundo e (iii) o recebimento dos recursos do fundo. Relativamente aos Municípios, que é o caso dos presentes autos, devese contabilizar, pelo seu valor bruto, os valores das transferências constitucionais recebidas da União e dos Estados e, em conta retificadora de receita, o valor relativo aos 15% destinados ao Fundef [20% na vigência do Fundeb]. Já o recebimento dos recursos oriundos do Fundef é contabilizado como transferência corrente recebida, de forma separada, entre os recursos provenientes do fundo, distribuídos pelos Estados, e os distribuídos pela União, como complementação para o valor mínimo nacional, referida no §3o do art. 60 do ADCT e no art. 6o da Lei no 9.424, de1996. Fl. 516DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 529 11 A contabilização segue os ditames da Lei no 4.320, de 1964, a qual conceitua as receitas correntes, transferências correntes recebidas e efetuadas: Art. 11 A receita classificarseá nas seguintes categorias econômicas: Receitas Correntes e Receitas de Capital. (Redação dada pelo Decreto Lei no 1.939, de 20.5.1982) § 1o São Receitas Correntes as receitas tributária, de contribuições, patrimonial, agropecuária, industrial, de serviços e outras e, ainda, as provenientes de recursos financeiros recebidos de outras pessoas de direito público ou privado, quando destinadas a atender despesas classificáveis em Despesas Correntes. (Redação dada pelo Decreto Lei no 1.939, de 20.5.1982) ... Art. 12. A despesa será classificada nas seguintes categorias econômicas: (Vide DecretoLei no 1.805, de 1980) § 1o Classificamse como Despesas de Custeio as dotações para manutenção de serviços anteriormente criados, inclusive as destinadas a atender a obras de conservação e adaptação de bens imóveis. § 2o Classificamse como Transferências Correntes as dotações para despesas as quais não corresponda contraprestação direta em bens ou serviços, inclusive para contribuições e subvenções destinadas a atender à manifestação de outras entidades de direito público ou privado. Isto posto acerca do histórico do Fundef e Fundeb e sua natureza jurídica tributária, cabe citar trecho do voto do il. Conselheiro José Henrique Mauri, proferido quando do Acórdão nº 3301004.140, nesta turma de julgamento, acerca do Pasep e a legislação aplicável, bem como, da incidência da contribuição ao Pasep sobre o Fundeb: 1.3 DO PROGRAMA DE FORMAÇÃO DO PATRIMÔNIO DO SERVIDOR PÚBLICO (PASEP) O Pasep constitui contribuição à seguridade social destinada à formação do patrimônio do servidor público, instituída pela Lei Complementar no 8/70 e, a partir da Constituição Federal de 1988, art. 239, fixouse que os recursos advindos de tal tributo iriam financiar o programa do segurodesemprego e o abono salarial. Constituição Federal de 1988 Art. 239. A arrecadação decorrente das contribuições para o Programa de Integração Social, criado pela Lei Complementar no 7, de 7 de setembro de 1970, e para o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público, criado pela Lei Complementar no 8, de 3 de dezembro de 1970, passa, a partir da promulgação desta Constituição, a financiar, nos termos que a lei dispuser, o programa do seguro desemprego e o abono de que trata o § 3o deste artigo. Lei Complementar no 8/70 Art. 1o É instituído, na forma prevista nesta Lei Complementar, o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público. Fl. 517DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 530 12 Art. 2o A União, os Estados, os Municípios, o Distrito Federal e os Territórios contribuirão para o Programa, mediante recolhimento mensal ao Banco do Brasil das seguintes parcelas: I União: 1% (um por cento) das receitas correntes efetivamente arrecadadas, deduzidas as transferências feitas a outras entidades da Administração Pública, a partir de 1o de julho de 1971; 1,5% (um e meio por cento) em 1972 e 2% (dois por cento) no ano de 1973 e subseqüentes. II Estados, Municípios, Distrito Federal e Territórios: a) 1% (um por cento) das receitas correntes próprias, deduzidas as transferências feitas a outras entidades da Administração Pública, a partir de 1o de julho de 1971; 1,5% (um e meio por cento) em 1972 e 2% (dois por cento) no ano de 1973 e subseqüentes; b) 2% (dois por cento) das transferências recebidas do Governo da União e dos Estados através do Fundo de Participações dos Estados, Distrito Federal e Municípios, a partir de 1o de julho de 1971. Parágrafo único Não recairá, em nenhuma hipótese, sobre as transferências de que trata este artigo, mais de uma contribuição. Relativamente à questão tributária, a contribuição para o Pasep sobre as receitas governamentais encontrase disposta na Lei no 9.715, de 1998, art. 2o, inciso III, que assim dispõe: “Art.2o A contribuição para o PIS/PASEP será apurada mensalmente: (...) III pelas pessoas jurídicas de direito público interno, com base no valor mensal das receitas correntes arrecadadas e das transferências correntes e de capital recebidas. (...) §6o A Secretaria do Tesouro Nacional efetuará a retenção da contribuição para o PIS/PASEP, devida sobre o valor das transferências de que trata o inciso III. (Incluído pela Medida Provisória no 2.15835, de 2001) (...) Art.7o Para os efeitos do inciso III do art. 2o, nas receitas correntes serão incluídas quaisquer receitas tributárias, ainda que arrecadadas, no todo ou em parte, por outra entidade da Administração Pública, e deduzidas as transferências efetuadas a outras entidades públicas. Art.8o A contribuição será calculada mediante a aplicação, conforme o caso, das seguintes alíquotas: (...) Fl. 518DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 531 13 III um por cento sobre o valor das receitas correntes arrecadadas e das transferências correntes e de capital recebidas.” [Destaquei] Portanto, a contribuição para o Pasep sobre as receitas governamentais incide sobre as receitas correntes arrecadadas e transferências correntes e de capital recebidas. Nas receitas correntes serão incluídas quaisquer receitas tributárias, ainda que arrecadadas, no todo ou em parte, por outra entidade da Administração Pública, e deduzidas as transferências efetuadas a outras entidades de direito público interno. Por oportuno, ressaltese que a Lei no 12.810, de 2013, alterou a Lei no 9.715, de 1998, para incluir no art. 2o, o § 7o, para permitir a exclusão da base de cálculo do Pasep as transferências recebidas decorrentes de convênio, contrato de repasse ou instrumento congênere com objeto definido, nos seguintes termos: “Art.2o A contribuição para o PIS/PASEP será apurada mensalmente: (...) § 7o Excluemse do disposto no inciso III do caput deste artigo os valores de transferências decorrentes de convênio, contrato de repasse ou instrumento congênere com objeto definido. (Incluído pela Lei no 12.810, de 2013). Todavia, referida alteração não alcança o período de que cuida a exigência fiscal ora apreciada, portanto não deve ser considerada para o presente contencioso. 1.4 DA INCIDÊNCIA DO PASEP SOBRE O FUNDEB5 Conforme já explicitado em tópico precedente, a base de cálculo da contribuição para o Pasep, devida pelas pessoas jurídicas de direito público interno, será apurada com base no valor mensal das receitas correntes arrecadadas e das transferências correntes e de capital recebidas, nos termos do art. 2o, III, da Lei 9.715/98, excluindose as transferências efetuadas a outras entidades públicas(art. 7o). A Lei no 12.810, de 2013, alterou a Lei no 9.715, de 1998, para incluir no art. 2o, o § 7o, alterando a base de cálculo do Pasep, permitindo, em sua apuração, a exclusão de transferências decorrentes de convênio, contrato de repasse ou instrumento congênere com objeto definido. Porém, o novo dispositivo somente se aplica a partir de 15 de maio de 2013, início da vigência da Lei, não alcançando assim os fatos geradores do presente processo, 2008 e 2009. A receita do ente municipal é alimentada não só pelas denominadas receitas tributárias próprias, mas também pelas transferidas pelos demais entes federados. Argumentam os municípios que, ao lhes creditar tais valores, a União já faria a dedução para alocação dos recursos ao Fundef/Fundeb6, bem como a correlata retenção na fonte da contribuição para o PASEP. 5 Para a elaboração do presente tópico utilizouse de fundamentos buscados no artigo "O FUNDEB como base de cálculo da contribuição ao PASEP", de autoria de Ana Cristina Leão Nave Lamberti, pesquisado na web em 1/8/2017: http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=9743 6 O mesmo raciocínio aplicase ao Fundef, nos termos da Lei no 9.424/96, que vigorou até 2006 e a seu Fl. 519DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 532 14 Ocorre que, no entender de alguns entes municipais, haveria dúvida na base de cálculo do PASEP em relação a tais receitas, na medida em que os valores vertidos aos entes federados, pela União, não guardariam consonância com os valores efetivamente recebidos pelos mesmos, em decorrência dos critérios de distribuição estabelecidos pela Lei n. 11.494/2007. Advogam esses Municípios que os valores do Fundeb que compõem a base de cálculo da contribuição ao Pasep devem ser aqueles efetivamente recebidos e não a quantia alocada quando do repasse de verbas pela União. O ente municipal calca todo seu raciocínio na premissa de que o PASEP deve incidir sobre o valor que recebe do fundo e não sobre o valor alocado, o que levaria a uma retenção indevida pela União do tributo, que teria que ter sua base de cálculo reajustada. Ocorre que o fundamento acima não é sustentável em razão da sistemática do Fundeb, que não obedece à simples equação matemática pretendida pelos municípios. É fato que o valor vertido ao fundo guarda relação com o montante repassado pela União, de forma a compor a base de cálculo do Pasep, alimentada pelos recursos auferidos pelo ente público, seja via arrecadação, seja por transferência. Porém, não há correspondência, por obviedade matemática, entre o valor alocado, que o é genericamente por todos os municípios, e o valor recebido por cada ente municipal, proporcional ao número de alunos. Há de se esclarecer que o Fundeb tem como escopo o fomento da educação, guardando relação com índices que refletem justamente a situação educacional do município. Foi esse o critério utilizado pelo legislador no momento de distribuir os recursos do fundo em questão, entre os entes municipais. Nos ditames da Lei no 11.494/07, em seu art. 8o, o valor que o Município recebe do fundo, que será destinado à educação, depende diretamente do número de alunos que possui em sua rede de educação básica. É esta grandeza que irá mensurar a fatia do Fundeb que cada município irá receber. Art. 8o: A distribuição de recursos que compõem os Fundos, no âmbito de cada Estado e do Distrito Federal, darseá, entre o governo estadual e os de seus Municípios, na proporção do número de alunos matriculados nas respectivas redes de educação básica pública presencial, na forma do Anexo desta Lei. Assim, irá contribuir mais com o Pasep o ente que receber maiores recursos da União, alargando a base de cálculo da indigitada contribuição. De outra banda, o município que recebe poucos recursos da UNIÃO, terá baixa retenção ao Pasep. Contudo, isso não irá refletir necessariamente o quantum o ente efetivamente receberá da parcela dos recursos do Fundeb. Verificase a situação posta porque o parâmetro utilizado para o rateio do Fundeb a cada Município é diverso de mero cálculo aritmético encontrado pela quantificação do valor repassado pela União aos entes municipais e que é destinado à constituição do fundo. Referido valor é encontrado com base em grandeza trazida pelo texto sucessor, o Fundeb, nos termos da Lei no 11.494/2007, com vigor até 2020. Fl. 520DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 533 15 legal, compondose do proporcional número de alunos que dado município possui matriculado nas redes de educação básica pública presencial. Portanto, um Município que recebe grande quantidade de recursos da União irá contribuir sobremaneira para o Fundeb, deduzindo a União tal fatia dos recursos que transfere ao ente municipal, e já retendo o percentual ao Pasep, mas, por possuir, p.ex., poucos alunos em sua rede de ensino, receberá uma pequena parcela dos recursos existentes no Fundeb. Ao contrário, podese vislumbrar o seguinte quadro: um município que recebe menor quantidade de recursos da União irá contribuir menos com o Pasep, mas poderá receber uma quantia maior dos recursos do Fundeb por ter maior número de alunos em sua rede de ensino. Eis o parâmetro eleito pela lei para a distribuição do Fundeb a cada município. Podese verificar na situação descrita uma eficiente forma de distribuição de renda, de maneira que municípios que recebem mais recursos federais, detendo potencialmente melhor situação educacional, contribuem mais para o Fundeb, sendo tal Fundo, por sua vez, objeto de distribuição em maiores proporções aos entes municipais com deficiência em recursos para verter em educação. O intuito da norma que cuida do critério de distribuição do Fundeb a cada Município é justamente amparar a educação básica, de forma a socorrer aqueles entes municipais com potencial deficiência educacional. De qualquer forma, a base de cálculo do PASEP há de ser o valor da receita transferida ao Município pela União e destinada ao Fundeb, por imediata dedução, por compor a definição legal da base de cálculo do referido tributo, e não o valor que efetivamente recebe o ente municipal, quando do rateio do Fundo, que guarda relação com outra grandeza, conforme delineado. Os destaques relativos aos valores repassados ao Fundeb ou Fundef, nas transferências constitucionais, efetuadas pela União ou pelo Estado, possuem a mesma natureza das próprias transferências, ou seja, devem ser oferecidas à tributação da contribuição, pelo Município, sem prejuízo, do aproveitamento, se for o caso, da retenção pela STN, no caso das transferências recebidas da União. Esse entendimento alinhase com a RFB, nos termos da Solução de Divergência no 12, de 2011, assim ementada: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Base de cálculo de Município. As receitas financeiras auferidas pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios, em decorrência da remuneração de depósitos bancários, de aplicações de disponibilidade em operações de mercado e de outros rendimentos oriundos de renda de ativos permanentes, integram suas receitas correntes arrecadadas e transferências correntes e de capital recebidas, base de cálculo mensal para a incidência da Contribuição para o PIS/Pasep, à alíquota de 1%. Os valores das receitas repassados/alocados para o FUNDEB (antigo FUNDEF) pelos Estados, Distrito Federal e Municípios, não podem ser excluídos da base de cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep do ente que efetuar o repasse/alocação, por falta de amparo legal. Fl. 521DF CARF MF Processo nº 13984.000993/200981 Acórdão n.º 3301004.987 S3C3T1 Fl. 534 16 Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios ao receberem da União valores relativos às transferências constitucionais do FPE e do FPM, inclusive a parte destacada para FUNDEF/FUNDEB, devem incluílos na sua totalidade em suas respectivas bases de cálculos mensais de incidência da Contribuição para o PIS/Pasep, porque os referidos valores se enquadram como transferências recebidas de outra entidade da administração pública, cuja inclusão na base de cálculo da contribuição está prevista na alínea “b” do inciso II do art. 2o da Lei Complementar no 8, de 1970, e o no inciso III do art. 2o da Lei no 9.715, de 1998. Quando ficar comprovado que houve a retenção pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN) da Contribuição para o PIS/Pasep na fonte, à alíquota de 1%, incidente sobre o total dos valores transferidos pela União, poderão os Estados, o Distrito Federal e os Municípios excluir de suas respectivas bases de cálculos da Contribuição para o PIS/Pasep os valores recebidos a título de transferências constitucionais relativas ao FPE e ao FPM, inclusive os valores destacados para o FUNDEF/FUNDEB. Dispositivos Legais: Lei Complementar no 8, de 1970: e Lei no 9.715, de 1998, (art. 2o, inciso III, e § 6o e arts. 7o e 8o). Assim, quanto ao recebimento pelo Município das transferências da União e dos Estados, devem ser incluídas na base de cálculo do Pasep, inclusive quanto aos valores destacados para o Fundef/Fundeb. Portanto, diante da legislação e dos fatos e com os argumentos acima expostos, compartilho com esse entendimento, de que o recebimento pelos Municípios das transferências da União e dos Estados, no caso os valores do FUNDEB, devem ser incluídas na base de cálculo do PASEP. Portanto, tendo em vista a legislação aplicável ao caso e a os autos do processo, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário apresentado, mantendo a decisão ora recorrida. (assinado digitalmente) Valcir Gassen Fl. 522DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.722961/2013-20
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 02 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 16 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 2401-000.709
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Relatora e Presidente.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Rayd Santana Ferreira, José Luiz Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa e Matheus Soares Leite.
Relatório
Trata-se de auto de infração de imposto de renda pessoa física - IRPF, fls. 645/651, ano-calendário 2008, que apurou imposto suplementar de R$ 4.948.262,85, acrescido de juros de mora e multa de ofício, em virtude de acréscimo patrimonial a descoberto.
Conforme Termo de Verificação Fiscal TVF (fls. 631/644) o crédito tributário foi constituído em razão de ter sido apurada omissão de rendimentos caracterizada por acréscimo patrimonial a descoberto, onde se verificou excesso de aplicações sobre origens, não respaldado por rendimentos declarados/comprovados. As planilhas de recursos/origens e entradas/aplicações e o demonstrativo da variação patrimonial foram juntados aos autos às fls. 640/644.
Em impugnação apresentada às fls. 661/702, o contribuinte alega o lançamento é nulo por não falta de ciência das prorrogações do MPF, questiona e apresenta argumentos sobre os valores lançados, não concorda com os juros de mora sobre a multa de ofício.
A DRJ/SDR, julgou procedente em parte a impugnação, retificando o crédito tributário, conforme Acórdão 15-36.576 de fls. 982/988, assim ementado:
ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF Ano-calendário: 2008 VARIAÇÃO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. OMISSÃO DE RENDIMENTOS.
Caracteriza omissão de rendimentos a variação patrimonial a descoberto, onde se verifique excesso de aplicações sobre origens, não respaldado por rendimentos declarados / comprovados.
Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Cientificado do Acórdão em 3/10/14 (Aviso de Recebimento - AR de fl. 993).
O contribuinte apresentou recurso voluntário em 31/10/14, fls. 995/1.037, que contém, entre outras, as seguintes alegações de fato:
Alega que não ocorreu a omissão de rendimentos, pois seus rendimentos superam suas aplicações no ano-calendário e todos os valores mencionados pela fiscalização como "sem origem" possuem origem comprovada.
Diz que é contraditória a desconsideração da origem e aplicações oriundos da Hemava, pois todos os numerários que compuseram os valores considerados pela fiscalização como "origem" e os que foram desconsiderados têm a mesma procedência.
Explica que à época era sócio da empresa Hemava Adm. Empreendimentos Ltda. e por isso recebia da empresa juros sobre capital próprio (reconhecido pela DRJ), lucros e dividendos, assim como promovia aumentos de capital na empresa. Afirma que todas estas operações estão refletidas nos documentos societários e documentos contábeis da Hemava.
Informa que possuía um valor a receber da empresa a título de empréstimos, que ficava registrado em uma conta contábil originalmente denominada "adiantamento para futuro aumento de capital". Esta conta, após terem sido realizados os aportes de capital se converteu em conta de "empréstimos a sócios". Diz que usava esse crédito que tinha com a empresa para quitar compromissos próprios. Afirma que esta situação consta do TVF.
Entende que a desconsideração desses valores se deu por dois motivos: i) os aportes não foram comprovados e, portanto, desconhece-se destes valores; e ii) só podem ser considerados como recursos os valores liberados pela Hemava para o contribuinte ou cônjuge. A DRJ considerou que os rendimentos e empréstimos vinculados à Hemava foram computados como origens de recursos, mas não foram considerados os repasses da Hemava para terceiros, por conta e ordem do contribuinte.
Frisa que todos os valores mencionados na linha 22 do anexo I decorrem da mesma conta contábil, cuja origem são empréstimos ao Sr. Hélio pela Hemava, mas a fiscalização acatou apenas parte dos valores. Diz que preparou planilha comparativa das informações escrituradas no Livro Razão e da planilha adotada pela fiscalização (documento de fls. 1.039/1.052).
Explica que a fiscalização computou alguns meses parcialmente, outros totalmente, sem esclarecer a razão do tratamento diferenciado, uma vez que todos os valores correspondem a mútuo comprovado pelo registro na contabilidade da empresa Hemava.
Diz que a DRJ simplesmente adotou as informações prestadas pela fiscalização ao entender que todos os rendimentos vinculados à Hemava foram computados no demosntrativo de fl. 640. Contudo, incorreu em erro porque nem todos os rendimentos vinculados à Hemava foram aceitos como origem dos rendimentos do recorrente.
Afirma que a contabilidade regular faz prova a seu favor. Cita o CPC e decisões do antigo Conselho de Contribuintes.
Entende incorreta a desconsideração pela fiscalização de R$ 9.748.443,47, devidamente contabilizado pela Hemava como valores recebidos pelo Sr. Hélio. Diz que comprovação está na própria conta contábil.
Argumenta que não procede a alegação de que a despeito de estarem os valores contabilizados como disponíveis ao Sr. Hélio, os valores não podem ser considerados como receitas porque foram utilizados por terceiros. Diz que este fato, para quem os valores foram utilizados, é irrelevante para a infração aqui analisada. Cita a Súmula CARF nº 67 e decisões. Entende irrelevante que tais valores tenham sido repassados, por conta e ordem, diretamente àquelas pessoas físicas e jurídicas a quem o recorrente pretendia efetuar pagamentos. Este procedimento não tem o condão de alterar o fato de que os valores foram disponibilizados pela Hemava para o Sr. Hélio.
Diz não questionar que os lançamentos são dispêndios e aplicações efetuados pela pessoa física, mas que são valores que a Hemava repassou ao Sr. Hélio, constituindo origem que comporta o adimplemento de dispêndios e aplicações enumeradas pela fiscalização.
Sobre a desconsideração de empréstimos em 2008, afirma que a única razão da DRJ para negar o pleito do recorrente de adicionar aos seus rendimentos o valor de R$ 1.675.576,14 (este número é o saldo inicial da conta 229202 e representa o saldo do mútuo ainda existente com o Sr. Hélio e a Hemava) é o fato de que esse valor já teria sido considerado como origem no lançamento fiscal, estaria contido no total considerado pela fiscalização como receitas de origem (R$ 6.920.245,89). Informa que a planilha fiscal (anexo I) não possui a linha 20 e o valor mencionado encontra-se na linha 22. Contudo, a decisão recorrida está errada, pois na planilha do anexo I apenas foram computados os valores considerados pela fiscalização como tendo sido movimentados durante o ano, não tendo sido considerado o saldo inicial da conta de R$ 1.675.576,14.
Afirma ser necessário proceder à análise dos demais empréstimos realizados: i) o empréstimo realizado para a empresa Merlin, ii) o empréstimo concedido ao Sr. Alceu Rodrigues Vasone e iii) empréstimos rurais.
Cita trecho do acórdão recorrido onde consta que os valores relativos à empresa Merlin (R$ 285.000,00) e a redução do saldo do empréstimo a Alceu Rodrigues Vasone (R$ 368.631,00) constam da DIRPF do sujeito passivo, mas não podem ser considerados pois não foi comprovado o recebimento dos valores.
Entende que a DIRPF é suficiente para comprovar o equívoco no lançamento, pois tais valores não foram mencionados no auto de infração, TVF ou planilhas.
Informa que a decisão recorrida reconheceu a quitação dos empréstimos rurais.
Informa que parte dos valores relativos ao empréstimo ao Sr. Hélio de Athayde Vasone Junior lançados em duplicidade foram excluídos pela DRJ.
Afirma que alguns valores contabilizados pela Hemava se confundem com os empréstimos declarados em sua DIRPF e, portanto, não poderiam ser considerados somados.
Esclarece que na linha 38 do anexo I o valor de R$ 7.145.069,28 correspondem aos valores transferidos para Hélio Junior a título de mútuo. Tais valores foram declarados na DIRPF do recorrente e do mutuário. Por outro lado, na linha 45 do anexo I constam recursos destinados a terceiros, onde foram discriminados os valores da conta 229202 da Hemava. Esta conta em 30/6/08 foi transformada na conta 123201, empréstimos a sócios - Helio de Athayde Vasone.
Diz que para melhor compreensão, tratou individualmente na impugnação dos valores identificados no anexo III relacionados ao Sr. Helio Junior, esclarecendo os negócios jurídicos que os originaram.
Transcreve a tabela do acórdão recorrido onde foi discriminado os valores não excluídos pela DRJ.
Alega que todas as operações têm em comum o seguinte procedimento: o recorrente dispunha de crédito que tinha com a Hemava (debitado na conta 229202) para emprestar a seu filho Hélio Junior, que utilizava o numerário na atividade da empresa de que era sócio - Energy. Em alguns casos o numerário transferido era contabilizado na conta contábil da Energy 229201 - Hélio de Athayde Vasone Junior, em outros o valor era destinado diretamente para a finalidade operacional da Energy para o qual o empréstimo era necessário.
O acórdão recorrido apenas reconheceu a duplicidade de valores que foram transferido para a conta de Hélio Junior. Para os demais valores, afirmou não restar comprovado que o valor foi transferido direta ou indiretamente para o Sr. Hélio Junior. Entende que este fato não é suficiente para descaracterizar a operação de empréstimo.
Alega que este raciocínio somente se aplicaria se a Hemava tivesse algum interesse nas operações que subsidiou com a transferência do numerário. No caso, a Energy tem como objeto social atividades na área esportiva. Já a Hemava é uma holding que atua na administração de bens móveis e imóveis. O único elo entre as empresas são os proprietários, pai e filho.
Diz que as operações de empréstimo entre pai e filho estão espelhadas em suas DIRPF, no mesmo valor e data das transferências realizadas. Não há registro de empréstimo realizado para a Energy.
Afirma que os valores foram debitados da conta de empréstimo do Sr. Helio na Hemava, conforme Razão Analítico juntado aos autos. Tais valores foram transferidos para seu filho, para que garantisse a operação da Energy.
Cita decisão do Conselho de Contribuintes segundo a qual aceita-se a informalidade quando se trata de empréstimo entre parentes.
Justifica os mútuos conforme quadro 1.
Quadro 1 - Recursos transferidos para empresa do filho - Energy
Data transferência
Valor (R$)
Justificativa
11/04/2008
50.000,00
TED para Energy, conforme Livro Razão. Extrato Banco Safra que comprova TED para a União São João Esporte Club
23/07/2008
1.000.000,00
TED para Energy, conforme Livro Razão. Extrato Banco Safra que comprova o TED para Ipatinga Futebol Clube para aquisição de direitos econõmicos de aleta, conforme contrato juntado à fl. 1.078.
24/07/2008
1.000.000,00
TED para Energy, conforme Livro Razão. Extrato Banco Safra que comprova o TED para CDR Consultoria Esportiva Ltda.
21/08/2018
200.000,00
Retirada Sr. Helio (Energy), conforme Livro Razão. Extrato Banco Santander que comprova o TED.
28/08/2018
150.000,00
Retirada Sr. Helio (Energy), conforme Livro Razão. Extrato Banco Santander que comprova o TED.
18/09/2008
493.838,78
TED Itau BBA (Energy), conforme Livro Razão.
Reforça que os valores emprestados pelo recorrente ao Sr. Helio Jr. foram utilizados para quitação de débitos da empresa Energy. Requer o cancelamento da duplicidade ocorrida.
Por fim, alega inconstitucionalidade da exigência de juros à taxa Selic sobre o valor da multa.
Requer seja dado provimento ao recurso voluntário e negado provimento ao recurso de ofício.
É o relatório.
Nome do relator: MIRIAM DENISE XAVIER
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier - Relatora e Presidente. Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Rayd Santana Ferreira, José Luiz Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa e Matheus Soares Leite. Relatório Trata-se de auto de infração de imposto de renda pessoa física - IRPF, fls. 645/651, ano-calendário 2008, que apurou imposto suplementar de R$ 4.948.262,85, acrescido de juros de mora e multa de ofício, em virtude de acréscimo patrimonial a descoberto. Conforme Termo de Verificação Fiscal TVF (fls. 631/644) o crédito tributário foi constituído em razão de ter sido apurada omissão de rendimentos caracterizada por acréscimo patrimonial a descoberto, onde se verificou excesso de aplicações sobre origens, não respaldado por rendimentos declarados/comprovados. As planilhas de recursos/origens e entradas/aplicações e o demonstrativo da variação patrimonial foram juntados aos autos às fls. 640/644. Em impugnação apresentada às fls. 661/702, o contribuinte alega o lançamento é nulo por não falta de ciência das prorrogações do MPF, questiona e apresenta argumentos sobre os valores lançados, não concorda com os juros de mora sobre a multa de ofício. A DRJ/SDR, julgou procedente em parte a impugnação, retificando o crédito tributário, conforme Acórdão 15-36.576 de fls. 982/988, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF Ano-calendário: 2008 VARIAÇÃO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Caracteriza omissão de rendimentos a variação patrimonial a descoberto, onde se verifique excesso de aplicações sobre origens, não respaldado por rendimentos declarados / comprovados. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Cientificado do Acórdão em 3/10/14 (Aviso de Recebimento - AR de fl. 993). O contribuinte apresentou recurso voluntário em 31/10/14, fls. 995/1.037, que contém, entre outras, as seguintes alegações de fato: Alega que não ocorreu a omissão de rendimentos, pois seus rendimentos superam suas aplicações no ano-calendário e todos os valores mencionados pela fiscalização como "sem origem" possuem origem comprovada. Diz que é contraditória a desconsideração da origem e aplicações oriundos da Hemava, pois todos os numerários que compuseram os valores considerados pela fiscalização como "origem" e os que foram desconsiderados têm a mesma procedência. Explica que à época era sócio da empresa Hemava Adm. Empreendimentos Ltda. e por isso recebia da empresa juros sobre capital próprio (reconhecido pela DRJ), lucros e dividendos, assim como promovia aumentos de capital na empresa. Afirma que todas estas operações estão refletidas nos documentos societários e documentos contábeis da Hemava. Informa que possuía um valor a receber da empresa a título de empréstimos, que ficava registrado em uma conta contábil originalmente denominada "adiantamento para futuro aumento de capital". Esta conta, após terem sido realizados os aportes de capital se converteu em conta de "empréstimos a sócios". Diz que usava esse crédito que tinha com a empresa para quitar compromissos próprios. Afirma que esta situação consta do TVF. Entende que a desconsideração desses valores se deu por dois motivos: i) os aportes não foram comprovados e, portanto, desconhece-se destes valores; e ii) só podem ser considerados como recursos os valores liberados pela Hemava para o contribuinte ou cônjuge. A DRJ considerou que os rendimentos e empréstimos vinculados à Hemava foram computados como origens de recursos, mas não foram considerados os repasses da Hemava para terceiros, por conta e ordem do contribuinte. Frisa que todos os valores mencionados na linha 22 do anexo I decorrem da mesma conta contábil, cuja origem são empréstimos ao Sr. Hélio pela Hemava, mas a fiscalização acatou apenas parte dos valores. Diz que preparou planilha comparativa das informações escrituradas no Livro Razão e da planilha adotada pela fiscalização (documento de fls. 1.039/1.052). Explica que a fiscalização computou alguns meses parcialmente, outros totalmente, sem esclarecer a razão do tratamento diferenciado, uma vez que todos os valores correspondem a mútuo comprovado pelo registro na contabilidade da empresa Hemava. Diz que a DRJ simplesmente adotou as informações prestadas pela fiscalização ao entender que todos os rendimentos vinculados à Hemava foram computados no demosntrativo de fl. 640. Contudo, incorreu em erro porque nem todos os rendimentos vinculados à Hemava foram aceitos como origem dos rendimentos do recorrente. Afirma que a contabilidade regular faz prova a seu favor. Cita o CPC e decisões do antigo Conselho de Contribuintes. Entende incorreta a desconsideração pela fiscalização de R$ 9.748.443,47, devidamente contabilizado pela Hemava como valores recebidos pelo Sr. Hélio. Diz que comprovação está na própria conta contábil. Argumenta que não procede a alegação de que a despeito de estarem os valores contabilizados como disponíveis ao Sr. Hélio, os valores não podem ser considerados como receitas porque foram utilizados por terceiros. Diz que este fato, para quem os valores foram utilizados, é irrelevante para a infração aqui analisada. Cita a Súmula CARF nº 67 e decisões. Entende irrelevante que tais valores tenham sido repassados, por conta e ordem, diretamente àquelas pessoas físicas e jurídicas a quem o recorrente pretendia efetuar pagamentos. Este procedimento não tem o condão de alterar o fato de que os valores foram disponibilizados pela Hemava para o Sr. Hélio. Diz não questionar que os lançamentos são dispêndios e aplicações efetuados pela pessoa física, mas que são valores que a Hemava repassou ao Sr. Hélio, constituindo origem que comporta o adimplemento de dispêndios e aplicações enumeradas pela fiscalização. Sobre a desconsideração de empréstimos em 2008, afirma que a única razão da DRJ para negar o pleito do recorrente de adicionar aos seus rendimentos o valor de R$ 1.675.576,14 (este número é o saldo inicial da conta 229202 e representa o saldo do mútuo ainda existente com o Sr. Hélio e a Hemava) é o fato de que esse valor já teria sido considerado como origem no lançamento fiscal, estaria contido no total considerado pela fiscalização como receitas de origem (R$ 6.920.245,89). Informa que a planilha fiscal (anexo I) não possui a linha 20 e o valor mencionado encontra-se na linha 22. Contudo, a decisão recorrida está errada, pois na planilha do anexo I apenas foram computados os valores considerados pela fiscalização como tendo sido movimentados durante o ano, não tendo sido considerado o saldo inicial da conta de R$ 1.675.576,14. Afirma ser necessário proceder à análise dos demais empréstimos realizados: i) o empréstimo realizado para a empresa Merlin, ii) o empréstimo concedido ao Sr. Alceu Rodrigues Vasone e iii) empréstimos rurais. Cita trecho do acórdão recorrido onde consta que os valores relativos à empresa Merlin (R$ 285.000,00) e a redução do saldo do empréstimo a Alceu Rodrigues Vasone (R$ 368.631,00) constam da DIRPF do sujeito passivo, mas não podem ser considerados pois não foi comprovado o recebimento dos valores. Entende que a DIRPF é suficiente para comprovar o equívoco no lançamento, pois tais valores não foram mencionados no auto de infração, TVF ou planilhas. Informa que a decisão recorrida reconheceu a quitação dos empréstimos rurais. Informa que parte dos valores relativos ao empréstimo ao Sr. Hélio de Athayde Vasone Junior lançados em duplicidade foram excluídos pela DRJ. Afirma que alguns valores contabilizados pela Hemava se confundem com os empréstimos declarados em sua DIRPF e, portanto, não poderiam ser considerados somados. Esclarece que na linha 38 do anexo I o valor de R$ 7.145.069,28 correspondem aos valores transferidos para Hélio Junior a título de mútuo. Tais valores foram declarados na DIRPF do recorrente e do mutuário. Por outro lado, na linha 45 do anexo I constam recursos destinados a terceiros, onde foram discriminados os valores da conta 229202 da Hemava. Esta conta em 30/6/08 foi transformada na conta 123201, empréstimos a sócios - Helio de Athayde Vasone. Diz que para melhor compreensão, tratou individualmente na impugnação dos valores identificados no anexo III relacionados ao Sr. Helio Junior, esclarecendo os negócios jurídicos que os originaram. Transcreve a tabela do acórdão recorrido onde foi discriminado os valores não excluídos pela DRJ. Alega que todas as operações têm em comum o seguinte procedimento: o recorrente dispunha de crédito que tinha com a Hemava (debitado na conta 229202) para emprestar a seu filho Hélio Junior, que utilizava o numerário na atividade da empresa de que era sócio - Energy. Em alguns casos o numerário transferido era contabilizado na conta contábil da Energy 229201 - Hélio de Athayde Vasone Junior, em outros o valor era destinado diretamente para a finalidade operacional da Energy para o qual o empréstimo era necessário. O acórdão recorrido apenas reconheceu a duplicidade de valores que foram transferido para a conta de Hélio Junior. Para os demais valores, afirmou não restar comprovado que o valor foi transferido direta ou indiretamente para o Sr. Hélio Junior. Entende que este fato não é suficiente para descaracterizar a operação de empréstimo. Alega que este raciocínio somente se aplicaria se a Hemava tivesse algum interesse nas operações que subsidiou com a transferência do numerário. No caso, a Energy tem como objeto social atividades na área esportiva. Já a Hemava é uma holding que atua na administração de bens móveis e imóveis. O único elo entre as empresas são os proprietários, pai e filho. Diz que as operações de empréstimo entre pai e filho estão espelhadas em suas DIRPF, no mesmo valor e data das transferências realizadas. Não há registro de empréstimo realizado para a Energy. Afirma que os valores foram debitados da conta de empréstimo do Sr. Helio na Hemava, conforme Razão Analítico juntado aos autos. Tais valores foram transferidos para seu filho, para que garantisse a operação da Energy. Cita decisão do Conselho de Contribuintes segundo a qual aceita-se a informalidade quando se trata de empréstimo entre parentes. Justifica os mútuos conforme quadro 1. Quadro 1 - Recursos transferidos para empresa do filho - Energy Data transferência Valor (R$) Justificativa 11/04/2008 50.000,00 TED para Energy, conforme Livro Razão. Extrato Banco Safra que comprova TED para a União São João Esporte Club 23/07/2008 1.000.000,00 TED para Energy, conforme Livro Razão. Extrato Banco Safra que comprova o TED para Ipatinga Futebol Clube para aquisição de direitos econõmicos de aleta, conforme contrato juntado à fl. 1.078. 24/07/2008 1.000.000,00 TED para Energy, conforme Livro Razão. Extrato Banco Safra que comprova o TED para CDR Consultoria Esportiva Ltda. 21/08/2018 200.000,00 Retirada Sr. Helio (Energy), conforme Livro Razão. Extrato Banco Santander que comprova o TED. 28/08/2018 150.000,00 Retirada Sr. Helio (Energy), conforme Livro Razão. Extrato Banco Santander que comprova o TED. 18/09/2008 493.838,78 TED Itau BBA (Energy), conforme Livro Razão. Reforça que os valores emprestados pelo recorrente ao Sr. Helio Jr. foram utilizados para quitação de débitos da empresa Energy. Requer o cancelamento da duplicidade ocorrida. Por fim, alega inconstitucionalidade da exigência de juros à taxa Selic sobre o valor da multa. Requer seja dado provimento ao recurso voluntário e negado provimento ao recurso de ofício. É o relatório.
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ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. Recorrentes HELIO DE ATHAYDE VASONE FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Relatora e Presidente. Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Rayd Santana Ferreira, José Luiz Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa e Matheus Soares Leite. Relatório Tratase de auto de infração de imposto de renda pessoa física IRPF, fls. 645/651, anocalendário 2008, que apurou imposto suplementar de R$ 4.948.262,85, acrescido de juros de mora e multa de ofício, em virtude de acréscimo patrimonial a descoberto. Conforme Termo de Verificação Fiscal – TVF (fls. 631/644) o crédito tributário foi constituído em razão de ter sido apurada omissão de rendimentos caracterizada por acréscimo patrimonial a descoberto, onde se verificou excesso de aplicações sobre origens, não respaldado por rendimentos declarados/comprovados. As planilhas de recursos/origens e RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 95 15 .7 22 96 1/ 20 13 -2 0 Fl. 1099DF CARF MF Processo nº 19515.722961/201320 Resolução nº 2401000.709 S2C4T1 Fl. 1.099 2 entradas/aplicações e o demonstrativo da variação patrimonial foram juntados aos autos às fls. 640/644. Em impugnação apresentada às fls. 661/702, o contribuinte alega o lançamento é nulo por não falta de ciência das prorrogações do MPF, questiona e apresenta argumentos sobre os valores lançados, não concorda com os juros de mora sobre a multa de ofício. A DRJ/SDR, julgou procedente em parte a impugnação, retificando o crédito tributário, conforme Acórdão 1536.576 de fls. 982/988, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2008 VARIAÇÃO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Caracteriza omissão de rendimentos a variação patrimonial a descoberto, onde se verifique excesso de aplicações sobre origens, não respaldado por rendimentos declarados / comprovados. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Cientificado do Acórdão em 3/10/14 (Aviso de Recebimento AR de fl. 993). O contribuinte apresentou recurso voluntário em 31/10/14, fls. 995/1.037, que contém, entre outras, as seguintes alegações de fato: Alega que não ocorreu a omissão de rendimentos, pois seus rendimentos superam suas aplicações no anocalendário e todos os valores mencionados pela fiscalização como "sem origem" possuem origem comprovada. Diz que é contraditória a desconsideração da origem e aplicações oriundos da Hemava, pois todos os numerários que compuseram os valores considerados pela fiscalização como "origem" e os que foram desconsiderados têm a mesma procedência. Explica que à época era sócio da empresa Hemava Adm. Empreendimentos Ltda. e por isso recebia da empresa juros sobre capital próprio (reconhecido pela DRJ), lucros e dividendos, assim como promovia aumentos de capital na empresa. Afirma que todas estas operações estão refletidas nos documentos societários e documentos contábeis da Hemava. Informa que possuía um valor a receber da empresa a título de empréstimos, que ficava registrado em uma conta contábil originalmente denominada "adiantamento para futuro aumento de capital". Esta conta, após terem sido realizados os aportes de capital se converteu em conta de "empréstimos a sócios". Diz que usava esse crédito que tinha com a empresa para quitar compromissos próprios. Afirma que esta situação consta do TVF. Entende que a desconsideração desses valores se deu por dois motivos: i) os aportes não foram comprovados e, portanto, desconhecese destes valores; e ii) só podem ser considerados como recursos os valores liberados pela Hemava para o contribuinte ou cônjuge. A DRJ considerou que os rendimentos e empréstimos vinculados à Hemava foram computados como origens de recursos, mas não foram considerados os repasses da Hemava para terceiros, por conta e ordem do contribuinte. Frisa que todos os valores mencionados na linha 22 do anexo I decorrem da mesma conta contábil, cuja origem são empréstimos ao Sr. Hélio pela Hemava, mas a Fl. 1100DF CARF MF Processo nº 19515.722961/201320 Resolução nº 2401000.709 S2C4T1 Fl. 1.100 3 fiscalização acatou apenas parte dos valores. Diz que preparou planilha comparativa das informações escrituradas no Livro Razão e da planilha adotada pela fiscalização (documento de fls. 1.039/1.052). Explica que a fiscalização computou alguns meses parcialmente, outros totalmente, sem esclarecer a razão do tratamento diferenciado, uma vez que todos os valores correspondem a mútuo comprovado pelo registro na contabilidade da empresa Hemava. Diz que a DRJ simplesmente adotou as informações prestadas pela fiscalização ao entender que todos os rendimentos vinculados à Hemava foram computados no demosntrativo de fl. 640. Contudo, incorreu em erro porque nem todos os rendimentos vinculados à Hemava foram aceitos como origem dos rendimentos do recorrente. Afirma que a contabilidade regular faz prova a seu favor. Cita o CPC e decisões do antigo Conselho de Contribuintes. Entende incorreta a desconsideração pela fiscalização de R$ 9.748.443,47, devidamente contabilizado pela Hemava como valores recebidos pelo Sr. Hélio. Diz que comprovação está na própria conta contábil. Argumenta que não procede a alegação de que a despeito de estarem os valores contabilizados como disponíveis ao Sr. Hélio, os valores não podem ser considerados como receitas porque foram utilizados por terceiros. Diz que este fato, para quem os valores foram utilizados, é irrelevante para a infração aqui analisada. Cita a Súmula CARF nº 67 e decisões. Entende irrelevante que tais valores tenham sido repassados, por conta e ordem, diretamente àquelas pessoas físicas e jurídicas a quem o recorrente pretendia efetuar pagamentos. Este procedimento não tem o condão de alterar o fato de que os valores foram disponibilizados pela Hemava para o Sr. Hélio. Diz não questionar que os lançamentos são dispêndios e aplicações efetuados pela pessoa física, mas que são valores que a Hemava repassou ao Sr. Hélio, constituindo origem que comporta o adimplemento de dispêndios e aplicações enumeradas pela fiscalização. Sobre a desconsideração de empréstimos em 2008, afirma que a única razão da DRJ para negar o pleito do recorrente de adicionar aos seus rendimentos o valor de R$ 1.675.576,14 (este número é o saldo inicial da conta 229202 e representa o saldo do mútuo ainda existente com o Sr. Hélio e a Hemava) é o fato de que esse valor já teria sido considerado como origem no lançamento fiscal, estaria contido no total considerado pela fiscalização como receitas de origem (R$ 6.920.245,89). Informa que a planilha fiscal (anexo I) não possui a linha 20 e o valor mencionado encontrase na linha 22. Contudo, a decisão recorrida está errada, pois na planilha do anexo I apenas foram computados os valores considerados pela fiscalização como tendo sido movimentados durante o ano, não tendo sido considerado o saldo inicial da conta de R$ 1.675.576,14. Afirma ser necessário proceder à análise dos demais empréstimos realizados: i) o empréstimo realizado para a empresa Merlin, ii) o empréstimo concedido ao Sr. Alceu Rodrigues Vasone e iii) empréstimos rurais. Cita trecho do acórdão recorrido onde consta que os valores relativos à empresa Merlin (R$ 285.000,00) e a redução do saldo do empréstimo a Alceu Rodrigues Vasone (R$ Fl. 1101DF CARF MF Processo nº 19515.722961/201320 Resolução nº 2401000.709 S2C4T1 Fl. 1.101 4 368.631,00) constam da DIRPF do sujeito passivo, mas não podem ser considerados pois não foi comprovado o recebimento dos valores. Entende que a DIRPF é suficiente para comprovar o equívoco no lançamento, pois tais valores não foram mencionados no auto de infração, TVF ou planilhas. Informa que a decisão recorrida reconheceu a quitação dos empréstimos rurais. Informa que parte dos valores relativos ao empréstimo ao Sr. Hélio de Athayde Vasone Junior lançados em duplicidade foram excluídos pela DRJ. Afirma que alguns valores contabilizados pela Hemava se confundem com os empréstimos declarados em sua DIRPF e, portanto, não poderiam ser considerados somados. Esclarece que na linha 38 do anexo I o valor de R$ 7.145.069,28 correspondem aos valores transferidos para Hélio Junior a título de mútuo. Tais valores foram declarados na DIRPF do recorrente e do mutuário. Por outro lado, na linha 45 do anexo I constam recursos destinados a terceiros, onde foram discriminados os valores da conta 229202 da Hemava. Esta conta em 30/6/08 foi transformada na conta 123201, empréstimos a sócios Helio de Athayde Vasone. Diz que para melhor compreensão, tratou individualmente na impugnação dos valores identificados no anexo III relacionados ao Sr. Helio Junior, esclarecendo os negócios jurídicos que os originaram. Transcreve a tabela do acórdão recorrido onde foi discriminado os valores não excluídos pela DRJ. Alega que todas as operações têm em comum o seguinte procedimento: o recorrente dispunha de crédito que tinha com a Hemava (debitado na conta 229202) para emprestar a seu filho Hélio Junior, que utilizava o numerário na atividade da empresa de que era sócio Energy. Em alguns casos o numerário transferido era contabilizado na conta contábil da Energy 229201 Hélio de Athayde Vasone Junior, em outros o valor era destinado diretamente para a finalidade operacional da Energy para o qual o empréstimo era necessário. O acórdão recorrido apenas reconheceu a duplicidade de valores que foram transferido para a conta de Hélio Junior. Para os demais valores, afirmou não restar comprovado que o valor foi transferido direta ou indiretamente para o Sr. Hélio Junior. Entende que este fato não é suficiente para descaracterizar a operação de empréstimo. Alega que este raciocínio somente se aplicaria se a Hemava tivesse algum interesse nas operações que subsidiou com a transferência do numerário. No caso, a Energy tem como objeto social atividades na área esportiva. Já a Hemava é uma holding que atua na administração de bens móveis e imóveis. O único elo entre as empresas são os proprietários, pai e filho. Diz que as operações de empréstimo entre pai e filho estão espelhadas em suas DIRPF, no mesmo valor e data das transferências realizadas. Não há registro de empréstimo realizado para a Energy. Fl. 1102DF CARF MF Processo nº 19515.722961/201320 Resolução nº 2401000.709 S2C4T1 Fl. 1.102 5 Afirma que os valores foram debitados da conta de empréstimo do Sr. Helio na Hemava, conforme Razão Analítico juntado aos autos. Tais valores foram transferidos para seu filho, para que garantisse a operação da Energy. Cita decisão do Conselho de Contribuintes segundo a qual aceitase a informalidade quando se trata de empréstimo entre parentes. Justifica os mútuos conforme quadro 1. Quadro 1 Recursos transferidos para empresa do filho Energy Data transferência Valor (R$) Justificativa 11/04/2008 50.000,00 TED para Energy, conforme Livro Razão. Extrato Banco Safra que comprova TED para a União São João Esporte Club 23/07/2008 1.000.000,00 TED para Energy, conforme Livro Razão. Extrato Banco Safra que comprova o TED para Ipatinga Futebol Clube para aquisição de direitos econõmicos de aleta, conforme contrato juntado à fl. 1.078. 24/07/2008 1.000.000,00 TED para Energy, conforme Livro Razão. Extrato Banco Safra que comprova o TED para CDR Consultoria Esportiva Ltda. 21/08/2018 200.000,00 Retirada Sr. Helio (Energy), conforme Livro Razão. Extrato Banco Santander que comprova o TED. 28/08/2018 150.000,00 Retirada Sr. Helio (Energy), conforme Livro Razão. Extrato Banco Santander que comprova o TED. 18/09/2008 493.838,78 TED Itau BBA (Energy), conforme Livro Razão. Reforça que os valores emprestados pelo recorrente ao Sr. Helio Jr. foram utilizados para quitação de débitos da empresa Energy. Requer o cancelamento da duplicidade ocorrida. Por fim, alega inconstitucionalidade da exigência de juros à taxa Selic sobre o valor da multa. Requer seja dado provimento ao recurso voluntário e negado provimento ao recurso de ofício. É o relatório. Voto Conselheira Miriam Denise Xavier, Relatora. O recurso voluntário foi oferecido no prazo legal, assim, deve ser conhecido. Fl. 1103DF CARF MF Processo nº 19515.722961/201320 Resolução nº 2401000.709 S2C4T1 Fl. 1.103 6 No recurso, o contribuinte esclarece os elementos de fato que entende corretos e que podem ter levado a lançamentos indevidos. Para o adequado julgamento do presente processo, prestigiando a verdade material, solicitase que a fiscalização, considerando os argumentos e documentos juntados aos autos, ou ainda podendo intimar o contribuinte para apresentar outros, se for o caso, responda aos questionamentos, conforme ponderações a seguir: 1. Quanto aos valores oriundos da conta em nome do Sr. Helio na empresa Hemava (229202), os quais o recorrente alega que eram usados para pagamentos de despesas da pessoa física, verificase que foram considerados como origens os retirados pelo contribuinte e cônjuge, mas não foram considerados os utilizados para pagamentos a terceiros. Entretanto, tais pagamentos foram utilizados na planilha I, fl. 640, como aplicações de recursos (linha 45), conforme anexo III, fl. 643. O recorrente junta as páginas do Livro Razão às fls. 1.045/1.052. Aqui verificase que se o valor foi pago, como alega o recorrente, por sua conta e ordem, diretamente a terceiros, ele poderia ser considerado como recurso e simultaneamente como aplicação, o que não alteraria o resultado da planilha Demonstrativo da Variação Patrimonial. Entretanto, tais valores somente foram utilizados como aplicação de recursos. Se tal conta foi considerada para apuração da aplicação de recursos (valores pagos a terceiros), por que as origens também não foram consideradas, já que, a princípio, a fiscalização considerou que os recursos oriundos de tal conta (pagos diretamente ao contribuinte ou cônjuge) justificavam as origens de recursos? 2. O valor de R$ 1.675.576,14, que o recorrente alega que é o saldo inicial da conta 229202, foi considerado como origem de recursos? 3. Os valores recebidos relativos aos empréstimos da empresa Merlin (R$ 285.000,00) e a redução do saldo do empréstimo a Alceu Rodrigues Vasone (R$ 368.631,00), que constam da DIRPF do sujeito passivo, não mencionados no TVF, podem ser considerados como origem de recursos ou há algum motivo específico para que não tenham sido considerados? 4. O recorrente alega que há lançamento em duplicidade, pois parte dos recursos que saíram de sua conta junto à empresa Hemava foram repassados para seu filho Sr. Hélio de Athayde Vasone Junior, para pagamento de despesas da empresa do filho Energy. Assim, eles foram considerados como recursos destinados a terceiros na linha 22 e também empréstimo na linha 38. Justifica cada um dos valores. Afirma que as operações de empréstimo entre pai e filho estão espelhadas em suas DIRPF, no mesmo valor e data das transferências realizadas. Tais valores utilizados para pagamento a terceiros, que o contribuinte alega que emprestou ao filho e este emprestou para Energy, contudo o dinheiro foi diretamente transferido da conta do contribuinte na Hemava para os terceiros, credores da Energy, ingressaram na contabilidade da Energy? Eles coincidem com os valores declarados por pai e filho como empréstimo? Podem ser considerados como tal e foram apurados em duplicidade? Solicitase que seja novamente elaborada a planilha de fl. 640 considerando as exclusões efetuadas no Acórdão de Impugnação, e ainda, eventuais exclusões, conforme Fl. 1104DF CARF MF Processo nº 19515.722961/201320 Resolução nº 2401000.709 S2C4T1 Fl. 1.104 7 respostas dadas aos itens acima (solicitase que o arquivo contendo tal planilha eletrônica seja anexado no eprocesso). Sendo assim, voto por converter o julgamento em diligência, para que a fiscalização responda aos quesitos acima e apresente, se for o caso, a tabela de fl. 640 com correções, informando se cabe retificação nos valores tributáveis lançados. O sujeito passivo deverá ser intimado do resultado da diligência, devendo ser concedido a ele o prazo de trinta dias para manifestação. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Fl. 1105DF CARF MF
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Numero do processo: 19515.004989/2009-03
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 18 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 25 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2005
NULIDADE. IMPOSSIBILIDADE.
Não se cogita acerca de nulidade quando não se vislumbram nos autos quaisquer das hipóteses previstas no art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972.
CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA.
Tendo havido, por parte do contribuinte, conhecimento e ciência de todos os requisitos que compuseram a autuação; contendo o auto de infração suficiente descrição dos fatos e correto enquadramento legal, sanadas as irregularidades, dada ciência e oportunizada a manifestação do autuado, ou seja, atendida integralmente a legislação de regência, não se verifica cerceamento do direito de defesa.
OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS E VALORES CREDITADOS EM CONTA BANCÁRIA. ORIGEM NÃO COMPROVADA. ÔNUS DA PROVA.
A Lei nº 9.430/96, em seu art. 42, estabeleceu a presunção legal de omissão de rendimentos que autoriza o lançamento dos tributos correspondentes sempre que o titular da conta bancária, regularmente intimado, não desconstitua, mediante documentação hábil e idônea, a referida presunção.
OMISSÃO DE RECEITAS. DETERMINAÇÃO DO IMPOSTO. REGIME DE TRIBUTAÇÃO.
Verificada a omissão de receita, o imposto a ser lançado de ofício deve ser determinado de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica no período base a que corresponder a omissão.
Numero da decisão: 1402-003.410
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário da recorrente, mantendo os lançamentos e dar provimento ao recurso voluntário do responsável solidário Cícero Clarindo, afastando a imputação de responsabilidade. Participaram do julgamento os Conselheiros Edgar Bragança Bazhuni e Eduardo Morgado Rodrigues (Suplentes Convocados).
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone - Presidente.
(assinado digitalmente)
Leonardo Luis Pagano Gonçalves - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Caio Cesar Nader Quintella, Evandro Correa Dias, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Marco Rogerio Borges, Paulo Mateus Ciccone (Presidente), Eduardo Morgado Rodrigues e Edgar Braganca Bazhuni (Suplentes Convocados).
Nome do relator: LEONARDO LUIS PAGANO GONCALVES
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Recorrida FAZENDA PÚBLICA. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005 NULIDADE. IMPOSSIBILIDADE. Não se cogita acerca de nulidade quando não se vislumbram nos autos quaisquer das hipóteses previstas no art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Tendo havido, por parte do contribuinte, conhecimento e ciência de todos os requisitos que compuseram a autuação; contendo o auto de infração suficiente descrição dos fatos e correto enquadramento legal, sanadas as irregularidades, dada ciência e oportunizada a manifestação do autuado, ou seja, atendida integralmente a legislação de regência, não se verifica cerceamento do direito de defesa. OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS E VALORES CREDITADOS EM CONTA BANCÁRIA. ORIGEM NÃO COMPROVADA. ÔNUS DA PROVA. A Lei nº 9.430/96, em seu art. 42, estabeleceu a presunção legal de omissão de rendimentos que autoriza o lançamento dos tributos correspondentes sempre que o titular da conta bancária, regularmente intimado, não desconstitua, mediante documentação hábil e idônea, a referida presunção. OMISSÃO DE RECEITAS. DETERMINAÇÃO DO IMPOSTO. REGIME DE TRIBUTAÇÃO. Verificada a omissão de receita, o imposto a ser lançado de ofício deve ser determinado de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica no período base a que corresponder a omissão. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 49 89 /2 00 9- 03 Fl. 539DF CARF MF Processo nº 19515.004989/200903 Acórdão n.º 1402003.410 S1C4T2 Fl. 540 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário da recorrente, mantendo os lançamentos e dar provimento ao recurso voluntário do responsável solidário Cícero Clarindo, afastando a imputação de responsabilidade. Participaram do julgamento os Conselheiros Edgar Bragança Bazhuni e Eduardo Morgado Rodrigues (Suplentes Convocados). (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Presidente. (assinado digitalmente) Leonardo Luis Pagano Gonçalves Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Caio Cesar Nader Quintella, Evandro Correa Dias, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Marco Rogerio Borges, Paulo Mateus Ciccone (Presidente), Eduardo Morgado Rodrigues e Edgar Braganca Bazhuni (Suplentes Convocados). Relatório Fl. 540DF CARF MF Processo nº 19515.004989/200903 Acórdão n.º 1402003.410 S1C4T2 Fl. 541 3 Tratamse de Recursos Voluntários interpostos pela empresa autuada e o responsável solidário Sr. Cícero, face v. acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil que decidiu manter as exigências perpetradas no Auto de Infração. A Fiscalização considerou para apuração das bases de cálculo mensais do SIMPLES e constatação da receita omitida, a diferença entre os depósitos bancários de origem não comprovada (artigo 42 da Lei 9.430/96), com os valores de receita bruta já declarados na Declaração Simplificada da Pessoa Jurídica do SIMPLES, conforme demonstrou no Termo de Verificação Fiscal e Responsabilidade Solidária. Também, foi constato e demonstrado a Insuficiência de Recolhimento por Tributo/Contribuição. A Recorrente e o responsável solidário foram intimados para que comprovassem a origem dos valores creditados/depositados nas contas correntes bancárias da empresa no anocalendário 2005 e se manifestam argumentando que os valores creditados/depositados em suas contas correntes referemse a movimentações financeiras de terceiros e, que não pode comprovar o alegado por documentação física, pois, fora vitima de contumazes e reiterados roubos a seu estabelecimento comercial, que foram subtraídos papéis de toda sorte, entre o quais, aqueles que seriam aptos a esclarecer o alegado. Frente a falta de comprovação documental, a Fiscalização lavrou os Autos de Infração em epígrafe exigindo o IRPJ, CSLL, PIS/COFINS e INSS. Em seguida, a Recorrente e o responsável solidário ofereceram impugnação de fls. contestando apenas a autuação e a aplicação de responsabilidade do Sr. Cícero, quedandose inerte em relação a exclusão da empresa do Simples. Ato contínuo, a DRJ proferiu v. acórdão mantendo os Autos de Infração, registrando a seguinte ementa: ASSUNTO: SISTEMA INTEGRADO DE PAGAMENTO DE IMPOSTOS E CONTRIBUIÇÕES DAS MICROEMPRESAS E DAS EMPRESAS DE PEQUENO PORTE SIMPLES Anocalendário: 2005 LANÇAMENTO FISCAL. ARGÜIÇÃO DE NULIDADE. Somente são considerados nulos os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa, nos termos do art. 59, incisos I e II, do Decreto nº 70.235, de 1972. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Inexiste ofensa ao princípio da ampla defesa quando o contribuinte demonstra ter pleno conhecimento dos fatos imputados pela fiscalização, bem como da legislação tributária aplicável, exercendo seu direito de defesa de forma ampla na impugnação. ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. Fl. 541DF CARF MF Processo nº 19515.004989/200903 Acórdão n.º 1402003.410 S1C4T2 Fl. 542 4 Discussões acerca da constitucionalidade, legalidade ou eqüidade das leis exorbitam da esfera de competência das autoridades administrativas, às quais cabe apenas cumprir o que determina a legislação em vigor, principalmente em se tratando de norma validamente editada, segundo o processo legislativo constitucionalmente estabelecido. OMISSÃO DE RECEITA DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. A Lei 9.430, de 1996, em seu art. 42, autoriza a presunção de omissão de receita com base nos valores depositados em conta bancária para os quais a contribuinte titular, regularmente intimada, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. REQUISIÇÃO DE INFORMAÇÕES SOBRE MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA RMF. NULIDADE. Verificado que o procedimento adotado pela fiscalização encontra fundamento no Decreto nº 3.724, de 2001, que autoriza a expedição de Requisição de Informações sobre Movimentação Financeira RMF, bem como na Portaria SRF nº 180, de 1 de fevereiro de 2001, não há que se falar em nulidade do feito. PROVA. EXTRATOS BANCÁRIOS. OBTENÇÃO. Válida é a prova consistente em informações bancárias requisitadas em absoluta observância das normas de regência e ao amparo da lei, sendo desnecessária prévia autorização judicial. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. TRIBUTOS. CONTRIBUIÇÕES. MULTA. Em vista da presença de fatos que evidenciam plenamente o vínculo existente entre a impugnante e o procurador da empresa, além dos fatos que culminaram com a formalização do lançamento, correta é a responsabilização solidária pelo crédito tributário exigido. A responsabilidade solidária não se restringe aos tributos e contribuições exigidos, abrangendo também as multas imputadas, inclusive a multa de ofício, em vista de sua natureza patrimonial e não pessoal. MULTA DE OFÍCIO DE 75% SOBRE O PRINCIPAL. Nos termos do inciso I, do artigo 44, da Lei nº 9.430, de 1996, apurada falta de recolhimento ou mesmo a sua insuficiência, aplicável é a multa de 75% sobre o imposto apurado, a ser exigido de ofício. DA VEDAÇÃO AO CONFISCO COMO NORMA DIRIGIDA AO LEGISLADOR E NÃO APLICÁVEL AO CASO DE PENALIDADE PECUNIÁRIA. O princípio da vedação ao confisco está previsto no art. 150, IV, e é dirigido ao legislador de forma a orientar a feitura da lei, que deve observar a capacidade contributiva e não pode dar ao tributo a conotação de confisco. Portanto, uma vez positivada a norma, é dever da autoridade fiscal aplicála. Fl. 542DF CARF MF Processo nº 19515.004989/200903 Acórdão n.º 1402003.410 S1C4T2 Fl. 543 5 A multa de ofício é devida em face da infração tributária, e por não constituir tributo, mas penalidade pecuniária estabelecida em lei, é a ela inaplicável o conceito de confisco previsto no inciso IV do art. 150 da Constituição Federal. INTIMAÇÃO DIRIGIDA EXCLUSIVAMENTE AO PATRONO DA EMPRESA/RESPONSÁVEL SOLIDÁRIO NO ENDEREÇO DAQUELE. IMPOSSIBILIDADE. É descabida a pretensão de intimações, publicações ou notificações dirigidas ao Patrono da Impugnante em endereço diverso do domicílio fiscal do contribuinte tendo em vista o § 4º do art. 23 do Decreto 70.235/72. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Inconformada com o v. acórdão, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário repisando os mesmos argumentos da impugnação. Ato contínuo, os autos retornaram para o E. CARF/MF e foram distribuídos para este Conselheiro relatar e votar. É o relatório. Voto Fl. 543DF CARF MF Processo nº 19515.004989/200903 Acórdão n.º 1402003.410 S1C4T2 Fl. 544 6 Conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves Relator Os Recursos Voluntários são tempestivos e possuem os requisitos previstos na legislação, motivos pelos quais devem ser admitidos. Quebra de sigilo bancário: Em relação a quebra de sigilo bancário sem autorização do judiciário e a argüição de inconstitucionalidade da Lei Complementar nº 105 e da Lei nº 10.174, ambas de 2001, o Pretório Excelso, decidiu da seguinte forma, conforme pode se verificar da ementa abaixo colacionada: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL. DIREITO TRIBUTÁRIO. DIREITO AO SIGILO BANCÁRIO. DEVER DE PAGAR IMPOSTOS. REQUISIÇÃO DE INFORMAÇÃO DA RECEITA FEDERAL ÀS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. ART. 6º DA LEI COMPLEMENTAR 105/01. MECANISMOS FISCALIZATÓRIOS. APURAÇÃO DE CRÉDITOS RELATIVOS A TRIBUTOS DISTINTOS DA CPMF. PRINCÍPIO DA IRRETROATIVIDADE DA NORMA TRIBUTÁRIA. LEI 10.174/01. 1. O litígio constitucional posto se traduz em um confronto entre o direito ao sigilo bancário e o dever de pagar tributos, ambos referidos a um mesmo cidadão e de caráter constituinte no que se refere à comunidade política, à luz da finalidade precípua da tributação de realizar a igualdade em seu duplo compromisso, a autonomia individual e o autogoverno coletivo. 2. Do ponto de vista da autonomia individual, o sigilo bancário é uma das expressões do direito de personalidade que se traduz em ter suas atividades e informações bancárias livres de ingerências ou ofensas, qualificadas como arbitrárias ou ilegais, de quem quer que seja, inclusive do Estado ou da própria instituição financeira. 3. Entendese que a igualdade é satisfeita no plano do autogoverno coletivo por meio do pagamento de tributos, na medida da capacidade contributiva do contribuinte, por sua vez vinculado a um Estado soberano comprometido com a satisfação das necessidades coletivas de seu Povo. 4. Verificase que o Poder Legislativo não desbordou dos parâmetros constitucionais, ao exercer sua relativa liberdade de conformação da ordem jurídica, na medida em que estabeleceu requisitos objetivos para a requisição de informação pela Administração Tributária às instituições Fl. 544DF CARF MF Processo nº 19515.004989/200903 Acórdão n.º 1402003.410 S1C4T2 Fl. 545 7 financeiras, assim como manteve o sigilo dos dados a respeito das transações financeiras do contribuinte, observandose um translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal. 5. A alteração na ordem jurídica promovida pela Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, uma vez que aquela se encerra na atribuição de competência administrativa à Secretaria da Receita Federal, o que evidencia o caráter instrumental da norma em questão. Aplicase, portanto, o artigo 144, §1º, do Código Tributário Nacional. 6. Fixação de tese em relação ao item “a” do Tema 225 da sistemática da repercussão geral: “O art. 6º da Lei Complementar 105/01 não ofende o direito ao sigilo bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio da capacidade contributiva, bem como estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal”. 7. Fixação de tese em relação ao item “b” do Tema 225 da sistemática da repercussão geral: “A Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, tendo em vista o caráter instrumental da norma, nos termos do artigo 144, §1º, do CTN”. 8. Recurso extraordinário a que se nega provimento. (RE 601314, Relator(a): Min. EDSON FACHIN, Tribunal Pleno, julgado em 24/02/2016, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe 198 DIVULG 15092016 PUBLIC 16092016) No mesmo sentido: EMENTA: CONSTITUCIONAL. SIGILO BANCÁRIO. FORNECIMENTO DE INFORMAÇÕES SOBRE MOVIMENTAÇÃO BANCÁRIA DE CONTRIBUINTES, PELAS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS, DIRETAMENTE AO FISCO, SEM PRÉVIA AUTORIZAÇÃO JUDICIAL (LEI COMPLEMENTAR 105/2001). POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DA LEI 10.174/2001 PARA APURAÇÃO DE CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS REFERENTES A EXERCÍCIOS ANTERIORES AO DE SUA VIGÊNCIA. RELEVÂNCIA JURÍDICA DA QUESTÃO CONSTITUCIONAL. EXISTÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL. (RE 601314 RG, Relator(a): Min. RICARDO LEWANDOWSKI, julgado em 22/10/2009, DJe218 DIVULG 19112009 PUBLIC 20 112009 EMENT VOL0238307 PP01422 ) Sendo assim, mesmo que a ação judicial da Recorrente se encontre aguardando o julgamento de Recurso Extraordinário, o C. Supremo Tribunal de Federal já decidiu sobra a matéria pela sistemática de repercussão geral, entendendo ser legitimo e constitucional o art. 6º da Lei Complementar 105/01, eis que segundo a Corte Suprema não ofende o direito ao sigilo bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio da capacidade contributiva, bem como estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal. Fl. 545DF CARF MF Processo nº 19515.004989/200903 Acórdão n.º 1402003.410 S1C4T2 Fl. 546 8 Desta forma, entendo que tal alegação relativa a quebra de sigilo bancário deve ser afastada. Da alegação de nulidades ou cerceamento do direito de defesa: Em relação a alegação de cerceamento do direito de defesa, entendo que não deve ser acolhida. A acusação está bem instruída com os documentos necessários para demonstrar a infração a legislação tributária de omissão de receita nos termos do artigo 42 da Lei 9.430/96 (287 do RIR/99), sendo que neste caso, a Recorrente é quem tem o ônus de provar que tal diferença não se refere a receita tributável, inexistindo assim cerceamento ao direito de defesa. Primeiramente, há de se observar que as preliminares de nulidade do lançamento fiscal arguidas pela Impugnante não encontram amparo no quanto previsto no artigos 59 do Decreto nº 70.235/72 (Processo Administrativo Fiscal – PAF). Art. 59. São nulos; I – os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II – os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Observa se que quaisquer outras irregularidades, incorreções e omissões cometidas em Auto de Infração não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o Sujeito Passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio, nos termos do art. 60 do mencionado decreto. Ainda, da leitura do Termo de Verificação Fiscal percebese que a Autoridade Autuante narrou as etapas do procedimento fiscal e os fatos verificados em consequência daquele, bem como a subsunção à presunção legal adiante versada. Constam do referido termo e dos documentos que compõem os Autos de Infração lançados os dispositivos legais nos quais se alicerçaram, estando ainda presentes no processo administrativo a composição analítica da base de cálculo e os demonstrativos dos tributos devidos. Por conseguinte, restaram adequadamente observadas as previsões estampadas nos incisos do art. 10, do Decreto nº 70.235/72, não merecendo prosperar as alegações da Recorrente em sentido contrário. Ademais, foram disponibilizadas cópias dos documentos integrantes da autuação a Recorrente e ao responsável solidário, tendolhes sido conferido tempo hábil, após regularmente cientificado dos lançamentos, para apresentar seus questionamentos, consubstanciados na Impugnação e nos Recurso Voluntários dos quais são possíveis de se Fl. 546DF CARF MF Processo nº 19515.004989/200903 Acórdão n.º 1402003.410 S1C4T2 Fl. 547 9 depreender o entendimento dos fatos que lhes foram imputados. Assim, não houve qualquer preterição do respectivo direito de defesa. Mérito: Em relação as alegações de inconstitucionalidade da legislação referente ao a presunção de omissão de receita, insta esclarecer que nos termos da Súmula 2, este E. Tribunal não tem competência para analisar ou afastar aplicação de lei por entendêla inconstitucional. O contribuinte é optante do Simples que é um sistema que se constitui em uma forma simplificada e unificada de recolhimentos de tributos, por meio da aplicação e percentuais favorecidos e progressivos, incidentes sobre uma única base de cálculo, a receita bruta, que é considerado nos termos do artigo 186 do RIR/99 como o produto da venda de bens e serviços nas operações de conta própria, o preço dos serviços prestados e o resultado nas operações em conta alheia, não incluídas as vendas canceladas e os descontos incondicionalmente concedidos. Ressalvadas essas exclusões, é vedado, para fins da determinação da receita bruta apurada mensalmente procederse a qualquer outra exclusão ou individualização em virtude da alíquota incidente ou de tratamento tributário diferenciado, tais como, substituição tributária, diferimento, crédito presumido, redução de base de cálculo e isenção, aplicáveis as demais pessoas jurídicas não optantes ao Simples (Lei no 9.317 de 1996, art. 2°, § 2° e IN SRF n° 250/2002, art. 40, §1°, e art. 1'). Portanto, a base de cálculo para optantes do Simples é a totalidade das receitas auferidas pela empresa, não admitindo a exclusão dos valores relativos a gastos efetivados ou depósitos cuja a origem não foi identificada, bem como a individualização das bases tributáveis por imposto ou contribuição. Dando continuidade ao raciocínio, a autuação trata de omissões de receita de microempresas e empresa de pequeno porte, onde existe o artigo 18 da Lei 9.317/1996 que determina que aplicamse as presunções de omissão de receita existentes nas legislações específicas de regência dos impostos e contribuições. Vejamos o texto do dispositivo: “Art. 18. Aplicamse à microempresa e à empresa de pequeno porte todas as presunções de omissão de receita existentes nas legislações de regência dos impostos e contribuições de que trata esta Lei, desde que apuráveis com base nos livros e documentos a que estiverem obrigadas aquelas pessoas jurídicas. " Sendo assim, foi correta a aplicação do artigo 42 da Lei 9.430/96 quando caracterizado a omissão de receita com base em depósitos bancários não escriturados e sem a comprovação de sua origem. Fl. 547DF CARF MF Processo nº 19515.004989/200903 Acórdão n.º 1402003.410 S1C4T2 Fl. 548 10 Aos contribuintes cabe demonstrar com documentos idôneos e hábeis o registro e a origem do depósitos não escriturados, quando questionados pela fiscalização, sob pena de serem considerados receita tributável. Portanto, verificada a ocorrência da hipótese descrita em lei, qual seja, a que o contribuinte recebeu depósitos, não os escriturou e eximiuse de comprovar depósito por depósito mediante documentação hábil e idônea a sua origem, correta está a autuação. Continuando o raciocínio, entendo importante ressaltar que os depósitos bancários que foram utilizados como instrumento para encontrar os rendimentos presumidamente omitidos nos termos do artigo 42 da Lei 9.430/96 (objeto da infração 1), também serviram como base de cálculo para a infração 2 do Auto de Infração de insuficiência do valor recolhido, apurada de acordo com a recomposição da receita bruta mensal auferida no período e os percentuais progressivos fixados em relação a receita bruta acumulada, nos termos do artigo 188 do RIR/991. Ao enquadrar os depósitos bancários não escriturados como acréscimo à receita bruta declarada pela Recorrente; logo como aumento da base de cálculo; verificouse também um novo enquadramento da alíquota do SIMPLES, ou seja, os valores originalmente recolhidos foram insuficientes, ensejando também a cobrança complementar devido a insuficiência de recolhimentos, conforme demonstrativo de apuração dos valores não recolhidos, que faz parte do presente processo de débito. Desta forma, não verifico que as duas infrações constantes no Auto de Infração estão imputando a Recorrente dupla tributação, eis que na primeira foi recomposta a receita bruta mensal com base nos depósitos bancários não escriturados e, na segunda, foram aplicados os percentuais progressivos fixados na legislação que prevê exceção para as microempresas e empresas de pequeno porte inscritas no Simples, em relação a receita bruta acumulada. Em relação a alegação da Taxa Selic aplicada aos juros de mora e as alegações de que a multa é confiscatória, utilizo os argumentos do v. acórdão recorrido como fundamento do meu voto: Em relação aos juros lançados com base na taxa SELIC pautou se a atividade fiscal pela aplicação da legislação pertinente e agiu de forma legitima. 0 fundamento legal da sua aplicação é Lei n° 8.981/1995, art. 84, I e Lei 9.065/1995, art. 13. 0 legislador, ao modificar a forma de cálculo do percentual da taxa juros mensais a ser cobrada dos contribuintes com obrigações tributárias em atraso, 1 Este artigo 188 do RIR/99 preve exceção de como será determinada a receita bruta para as microempresas e empresas de pequeno porte inscritas no SIMPLES, conforme pode se verificar em seu texto abaixo colacionado. "art. 188. O valor devido mensalmente pela microempresa e empresa de pequeno porte, inscritas no SIMPLES, será determinado mediante a aplicação, sobre a receita bruta mensal auferida, dos percentuais e nas condições estabelecidas no art. 5, e seus parágrfos, da Lei 9.317/96, observado, quando for o caso, o disposo nos arts. 204 e 205." Fl. 548DF CARF MF Processo nº 19515.004989/200903 Acórdão n.º 1402003.410 S1C4T2 Fl. 549 11 elevando os para patamares mais aproximados daqueles que o Executivo remunera seus títulos da divida pública — os chamados juros de mora calculados à base da variação da taxa SELIC, nada fez do que uma tentativa de equalizar esta situação absurda e injusta para com o erário, em que o sujeito passivo é beneficiado pelo não cumprimento de suas obrigações. É o próprio parágrafo 10 do art. 161 do CTN, abaixo transcrito, que permite, por autorização legal, exigência de juros de mora em valor superior a 1% ao mês: "Art. 161. 0 crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1. Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculado, taxa de 1% (um por cento) ao mês." Por determinação do art. 13 da Lei n.° 9.065/1995, os juros, acumulados com base na taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia Selic, para títulos federais, acumulada mensalmente, passaram a ser aplicáveis, a partir de 1° de abril (I e 1995, aos tributos e contribuições sociais arrecadados pela Secretaria da Receita Federal, n. o pagos nos prazos previstos na legislação tributária, inclusive no caso de parcelamento ( e débitos, bem assim As contribuições sociais arrecadadas pelo INSS e aos débitos para com o patrimônio imobiliário, quando não recolhidos nos prazos previstos na legislação especificidade. Até então, eram exigíveis juros de mora equivalentes à taxa média mensal de captação do Tesouro Nacional relativa à Divida Mobiliária Federal Interna (art. 84, I da Lei n° 8.981/1995 A partir de 1° de janeiro de 1996, as restituições e compensações e valores correspondentes a impostos, taxas, contribuições federais e receitas patrimoniais passaram a ser acrescidas de juros equivalentes à taxa Selic acumulada mensalmente, calculados a partir da data do pagamento indevido ou a maior (art. 39, § 4°, da Lei ° 9.250/1995). Sobre esta contestação do contribuinte de que a Taxa Selic, pelo percentual, pela forma como é apurada e pela inexistência de inflação apresentase como uma verdadeira multa ao contribuinte, cabe esclarecer que a atividade administrativa é plenamente vinculada. Com efeito, o julgador administrativo deve limitar seu pronunciamento à legalidade dos atos administrativos trazidos à sua apreciação. A nossa tarefa esgotase em declarar se o ato administrativo questionado encontra — ou não — fundamento de validade na legislação se regência. Por essa razão, encontramonos vinculados A letra da lei e não nos é licito desviar o foco da análise do ato administrativo para a legislação que lhe confere supedâneo. Fl. 549DF CARF MF Processo nº 19515.004989/200903 Acórdão n.º 1402003.410 S1C4T2 Fl. 550 12 Em face das razões expendidas, deixamos de analisar a suposta inconstitucionalidade da aplicação da taxa Selic como juros de mora, intentada pelo interessado, tendo em vista que a legislação indigitada no Auto de Infração sob análise, está vigente e eficaz, ao tempo de sua aplicação. Da multa aplicada: Quanto a alegação da multa aplicada aos Autos de Infração ser confiscatória, entendo que não é oponível à instância administrativa por ser matéria constitucional reservada aos órgãos judiciais. Neste sentido o art. 26A do Decreto n° 70.23 5/1972 que trata do processo administrativo fiscal, in verbis: “Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. " (Redação dada pela Lei 11.941/2009) No caso em epígrafe, a multa aplicada está de acordo com a lei validamente promulgada e até pronunciamento em contrário do Poder Judiciário, a lei goza da presunção de constitucionalidade. Portanto, não cabe ao órgão administrativo deixála de cumprir. Sendo assim, entendo que ambas infrações indicadas nos Autos de Infração estão corretas, devendo serem mantidas as acusações fiscais em seus termos. No mais, mantido o lançamento relativo ao IRPJ, igual tratamento deve ser dado aos lançamentos de PIS, Cofins, CSLL e INSS, decorrentes da omissão de receita, ante a íntima relação de causa e efeito. Responsabilidade solidária do Sr. Cícero Clarindo: A responsabilidade do Sr. Cícero Clarindo, foi imputada nos termo do artigo 124, inciso I do CTN, por ser o procurador dos sócios da empresa autuada e responsável pela movimentação financeira/das contas bancárias da Recorrente. Tal informação foi obtida por meio da Requisição de Informação Financeira feita pela Fiscalização junto ao Banco Real S.A. (fls. 96/114), onde demonstrou que o Sr. Cícero movimentou a conta bancária diversas vezes. Entretanto, não restou comprovado nos autos que o Sr. Cícero se beneficiou de alguma forma com a receita omitida. Fl. 550DF CARF MF Processo nº 19515.004989/200903 Acórdão n.º 1402003.410 S1C4T2 Fl. 551 13 Não restou comprovado nos autos que parte da receita ou a receita inteira foi destinada para a pessoa física responsabilizada. Assim, o fato de o Sr. Cícero ter apenas movimentado as contas bancárias da empresa Recorrente não significa que ele obteve vantagem para si, não se enquadrando no entendimento da jurisprudência e da doutrina para aplicação do artigo 124 do CTN. Desta forma, ante a falta de provas de que o Sr. Cícero Clarindo se beneficiou com a receita omitida, entendo que a aplicação da responsabilidade solidária nos termos do artigo 124, inciso I do CTN deve ser afastada. Pelo exposto e por tudo que consta processo nos autos conheço de ambos Recursos Voluntários, nego provimento ao da empresa autuada e dou provimento ao recurso do Sr. Cícero Clarindo, afastando sua responsabilidade. (assinado digitalmente) Leonardo Luis Pagano Gonçalves Relator. Fl. 551DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10315.001518/2008-36
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 15 00:00:00 UTC 2010
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ
Ano-calendário: 2003, 2004
NULIDADE. MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL.
INOCORRÊNCIA.
O MPF constitui-se em elemento de controle da administração tributária, disciplinado por ato administrativo. A eventual inobservância da norma infralegal não pode gerar nulidades no âmbito do processo administrativo fiscal.
NULIDADE. CIÊNCIA POR EDITAL. INOCORRÊNCIA.
A ciência dos atos praticados pode ser obtida por via postal, com aviso de recebimento, nos termos do art. 23, II, do Decreto nº 70.235/72.
DECADÊNCIA. FRAUDE DEMONSTRADA PELA FISCALIZAÇÃO.
Havendo fraude praticada pelo recorrente, o termo da decadência é obtido de acordo com o art. 173, I, do CTN.
INTERPOSIÇÃO DE PESSOA. MULTA QUALIFICADA.
Havendo interposição de pessoa, com utilização de contas bancárias de terceiros para movimentar valores que pertenciam ao recorrente, fica autorizada a aplicação da multa qualificada.
Numero da decisão: 1302-000.430
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar
provimento ao recurso.
Matéria: IRPJ - AF - lucro real (exceto.omissão receitas pres.legal)
Nome do relator: EDUARDO DE ANDRADE
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MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. INOCORRÊNCIA. O MPF constitui-se em elemento de controle da administração tributária, disciplinado por ato administrativo. A eventual inobservância da norma infra- legal não pode gerar nulidades no âmbito do processo administrativo fiscal. NULIDADE. CIÊNCIA POR EDITAL. INOCORRÊNCIA. A ciência dos atos praticados pode ser obtida por via postal, com aviso de recebimento, nos termos do art. 23, II, do Decreto nº 70.235/72. DECADÊNCIA. FRAUDE DEMONSTRADA PELA FISCALIZAÇÃO. Havendo fraude praticada pelo recorrente, o termo da decadência é obtido de acordo com o art. 173, I, do CTN. INTERPOSIÇÃO DE PESSOA. MULTA QUALIFICADA. Havendo interposição de pessoa, com utilização de contas bancárias de terceiros para movimentar valores que pertenciam ao recorrente, fica autorizada a aplicação da multa qualificada. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) MARCOS RODRIGUES DE MELLO - Presidente. Fl. 1DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO 2 (assinado digitalmente) EDUARDO DE ANDRADE - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Rodrigues de Mello (presidente da turma), Irineu Bianchi (vice-presidente), Wilson Fernandes Guimarães, Lavínia Moraes de Almeida Nogueira Junqueira, Eduardo de Andrade e Daniel Salgueiro da Silva. Relatório Por bem descrever os eventos ocorridos até o momento de seu relato, adoto o relatório produzido na DRJ. Contra o sujeito passivo de que trata o presente processo foram lavrados os seguintes autos de infração: 1. Imposto de Renda Pessoa Jurídica - IRPJ, fls. 719/730, no valor total de R$ 2.049.644,36, incluindo encargos legais; 2. Contribuição para o Programa de Integração Social – PIS, fls. 731/741, no valor total de R$ 175.500,09, incluindo encargos legais. 3. Contribuição para Financiamento da Seguridade Social – Cofins, fls. 742/752, no valor total de R$ 810.001,94, incluindo encargos legais. 4. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, fls. 753/763, no valor total de R$ 698.124,52, incluído encargos legais. 5. Imposto de Renda Retido na Fonte - IRRF, fls. 764/773, no valor total de R$ 3.340.570,19, incluído encargos legais. De acordo com a Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal, fls. 721/724, foram apuradas as infrações a seguir descritas. 1) Razão do arbitramento no(s) período(s): 06/2003 09/2003 12/2003 03/2004 06/2004 e 09/2004 12/2004. Arbitramento do lucro que se faz tendo em vista que o contribuinte notificado a apresentar os livros e documentos da sua escrituração, conforme Termo de Início de Fiscalização e termo(s) de intimação em anexo, deixou de apresentá-los. Enquadramento Legal: Art. 530, inciso III, do Regulamento do Imposto de Renda – Decreto nº 3.000/99 - RIR/99. 2) Receita Operacional Omitida (Atividade Não Imobiliária) Prestação de Serviços Gerais. Omissão de receitas de prestação de serviços, conforme Termo de Verificação Fiscal, anexo, o qual passa a fazer parte integrante do presente auto de infração. Fl. 2DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 10315.001518/2008-36 Acórdão n.º 1302-00.430 S1-C3T2 Fl. 923 3 Enquadramento Legal: Arts. 532 e 537 do RIR/99. 3) Depósitos Bancários de Origem Não Comprovada. Valor apurado conforme Termo de Verificação Fiscal anexo, o qual passa a fazer parte integrante do presente auto de infração. Enquadramento Legal: Arts. 27, inciso I, e 42 da Lei nº 9.430/96; Arts. 532 e 537 do RIR/99. Os lançamentos da Cofins, PIS e da CSLL tiveram como base as mesmas infrações acima indicadas. Já com relação ao auto de infração do Imposto de Renda na Fonte, fls. 765/773, foi apontada a seguinte infração: 1 - Imposto de Renda na Fonte sobre Pagamentos a Beneficiários Não Identificados - Pagamentos Sem Causa. Falta de recolhimento de imposto de renda na fonte sobre pagamentos a beneficiários não identificados/sem causa, conforme Termo de Verificação Fiscal anexo, o qual passa a fazer parte integrante do presente auto de infração. Enquadramento Legal: Art. 674 e §§ do RIR/99; Art. 61 e §§ da Lei 8.981/95. O Termo de Verificação Fiscal foi anexado às fls. 774/788, do qual se destacam os tópicos a seguir indicados. INTRODUÇÃO Através do Memorando nº 114/SRRF-03, de 02 de setembro de 2004, doc. de fls. 17, o Superintendente da 3ª Região Fiscal encaminhou ao Delegado da Receita Federal do Brasil na cidade de Juazeiro do Norte/CE um rol de documentos sobre denúncias consideradas mais graves, envolvendo os cofres municipais deste município. Dentre elas merece destaque a Representação Judicial para a Promotora da 28ª Zona Eleitoral de Juazeiro do Norte/CE, datada de 23/08/2004, doc. de fls. 583/592, contendo sérias denúncias envolvendo a empresa ora fiscalizada. Vale ressaltar que durante a presente ação fiscal o contribuinte mudou de endereço por duas vezes, entretanto, somente alterou no cadastro do CNPJ da Secretaria da Receita Federal a primeira mudança. Com relação à segunda mudança, ratificada pelo Termo de Constatação Fiscal, doc. de fls 373, não foi possível localizarmos o seu novo endereço. Assim, alguns documentos encaminhados ao contribuinte tiverem suas ciências por Edital, conforme determina o § 1º do art. 23 do Decreto 70.235/72. Também, tendo em vista existir inquérito instaurado na Polícia Federal para apurar possíveis irregularidades na licitação pública envolvendo a Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte e a LIMP Empresa de Serviços e Gerenciamentos em Limpeza Urbana Ltda, esta fiscalização utilizou alguns documentos/informações fornecidos pela Polícia Federal para subsidiar os trabalhos de auditoria fiscal. DA AÇÃO FISCAL Fl. 3DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO 4 1 - Através do Ato Declaratório Executivo nº 003 de 05 de janeiro de 2005, doc. de fls. 18/23 o contribuinte foi excluído do SIMPLES com efeitos a partir do dia 1º de maio de 2003; 2 - Em 01/04/2005 foi lavrado o Termo de Início de Fiscalização, doc. de fls. 24 onde foram solicitamos Livros e Documentos referentes aos anos-calendário de 2003 e 2004, tendo o contribuinte tomado ciência em 05/04/2005, conforme doc. de fls. 25; 3 - Em 03/06/2005 o contribuinte entregou os Livros Diários de 2003 e 2004, como também os Livros Razão de 2003 e 2004, e ainda o Contrato Social e demais documentos. 4 - Conforme anteriormente relatado a empresa ora fiscalizada foi excluída do SIMPLES, porém não fez a opção pela tributação com base no Lucro Presumido no momento correto, ou seja, conforme determina o art. 35 e parágrafos da IN SRF nº 93/97 c/c art. 516 §4º do Decreto nº 3.000 de 26 de março de 1999-RIR/99. Assim, os livros apresentados deveriam estar escriturados de modo a possibilitar a apuração do imposto devido através do Lucro Real Trimestral. Também cabe ressaltar que nos Livros apresentados pelo contribuinte não constava a sua movimentação bancária, bem como as Demonstrações do Resultado do Exercício por trimestre. Além disso, também não fora apresentado o Livro de Apuração do Lucro Real-LALUR; 5 - Assim, através dos Termos de Intimação Fiscal, doc. de fls 29/31, 32, e 35 o contribuinte foi intimado a apresentar o LALUR e as Demonstrações de Resultados dos Exercícios, referentes aos trimestres de 2003 e 2004; 6 - Em 22/08/2005, conforme Termo de Devolução de Documentos, doc. de fls 33/34, foram devolvidos ao contribuinte os Livros Diário e Razão para que ele providenciasse a escrituração adequada à apuração do Lucro Real Trimestral; 7 - Porém, em 02/09/2005, o contribuinte informou, através do doc. de fls. 37 que seus livros estavam escriturados de conformidade com o lucro presumido, conhecendo-se apenas o lucro líquido anual, e que autorizava esta fiscalização a apurar os impostos devidos referentes aos anos-calendário de 2003 e 2004 através do lucro arbitrado; 8 - Mesmo autorizada pelo contribuinte a proceder à apuração dos impostos devidos através do lucro arbitrado, esta fiscalização através do Termo de Intimação fiscal nº A-07, doc. de fls. 370/375, intimou, novamente, o contribuinte a apresentar os livros Diário, Razão, LALUR, bem como as demonstrações financeiras relativas aos anos-calendário de 2003 e 2004, sem contudo receber qualquer resposta. DO ARBITRAMENTO Tendo-se por base o art. 530 do Decreto 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR/99), procedeu-se ao arbitramento do lucro para apurar a base de cálculo do IRPJ, tendo em vista que o contribuinte não apresentou os livros e documentos solicitados. Vale ressaltar que, conforme doc. de fls. 37 o contribuinte solicitou que fosse arbitrado o seu lucro. Foram compensados do IRPJ devido os valores de IRRF constantes das DIRF de fls. 684 e 685. A autuação também englobou as contribuições CSLL, PIS e a COFINS. Fl. 4DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 10315.001518/2008-36 Acórdão n.º 1302-00.430 S1-C3T2 Fl. 924 5 DOS VALORES AUTUADOS 1 - RECEITA OPERACIONAL OMITIDA (ATIVIDADE NÃO IMOBILIÁRIA) PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS GERAIS Foi utilizado como receita bruta conhecida as notas fiscais de prestações de serviços emitidas pela empresa durante o ano de 2003 e 2004, encaminhadas a Delegacia da Receita Federal pela Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte através do oficio nº 786/2005, doc. de fls. 299/338. Também foram encaminhadas junto com as referidas notas fiscais os cheques emitidos pela Prefeitura correspondentes aos pagamentos das mesmas, doc. de fls. 38/170. 2 - DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGENS NÃO COMPROVADAS Como existiam indícios - que foram confirmados, como veremos mais adiante - que um dos sócios de direito era um “laranja”, a fiscalização decidiu aprofundar os trabalhos no intuito de apurar a veracidade dos fatos. Assim, através do Termo de Intimação Fiscal, lavrado em 29/08/2005, doc. de fls. 36, a empresa foi intimada a apresentar os seus extratos bancários, referentes aos anos-calendário de 2003 e 2004, como também cópias dos vinte maiores cheques emitidos em cada ano-calendário. Como a empresa não atendeu a solicitação acima, esta fiscalização, baseada no que estabelece o art. 30 § 2º inciso I do Decreto 3.724/2001 solicitou ao Bic Banco, através de Requisição de Movimentação Financeira-RMF nº 0310200 2005 00048-7, doc. de fls. 297/298 os extratos bancários e as cópias dos referidos cheques. Cabe ressaltar que todo o faturamento da fiscalizada nos anos de 2003 e 2004 foram provenientes da prestação de serviços referente ao Contrato nº 2802/01 - CCL/SEAD, de fls. 414/422, ratificado pelas notas fiscais de fls. 300/338, ou seja, serviços de limpeza urbana prestados à Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte/CE. Porém, da análise dos extratos bancários, apresentados pelo Bic Banco, doc. de fls. 339/369, constatou-se a existência de vários depósitos (em cheques, em dinheiro e em transferências), discriminados às fls. 383, que não correspondiam com os cheques recebidos da Prefeitura de Juazeiro do Norte, doc. de fls. 39/170. Assim através do Termo de Intimação, doc. de fls 382/383 o contribuinte foi intimado a comprovar, através de documentação hábil e idônea, a origem dos referidos depósitos. Como a empresa não atendeu ao solicitado no referido Termo, foi autuada por omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada. 3 - IMPOSTO DE RENDA NA FONTE SOBRE PAGAMENTOS A BENEFICIÁRIOS NÃO IDENTIFICADOS/PAGAMENTOS SEM CAUSA Da análise dos extratos bancários apresentados pelo Bic Banco, doc. de fls 340/369, constatou-se que a empresa emitiu vários cheques, com histórico de “compensação nacional”, ou seja, não foram retirados na boca do caixa, como também foi apurada a existência de várias transferências, que só podem ter sido para Fl. 5DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO 6 contas bancárias de terceiros, já que, conforme Dossiê Integrado de fls. 709/710 a empresa só possuía uma conta bancária nos anos de 2003 e 2004. No documento anexo às fls. 377 estão discriminados os referidos cheques e as referidas transferências. Como o contribuinte não havia escriturado a sua movimentação bancária, a fiscalização através do Termo de Intimação, doc. de fls. 376, intimou o contribuinte a informar os nomes dos beneficiários dos referidos cheques compensados e das transferências realizadas. O contribuinte não atendeu a solicitação. Como a empresa não atendeu ao solicitado do referido termo, foi também autuada por pagamentos a beneficiários não identificados/sem causa. Vale ressaltar que de acordo com o art. 674, § 30 do Decreto 3.000/99 e art. 20 da IN SRF nº 15 de 2001 a base de cálculo foi reajustada. No curso da fiscalização constatou-se que uma parte dos cheques, doc. de fls. 154 às fls. 170, emitidos pela Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte, nominais à LIMP, destinados ao pagamento da prestação de serviços de limpeza urbana não foram depositados na conta bancária da empresa, ou seja, no BIC Banco, c/c 14.051816-1, mas sim, nas contas bancárias de terceiros (informação constante no verso dos cheques), conforme Demonstrativo de fls. 389. Assim, através do Termo de Intimação Fiscal anexo às fls. 388, a empresa foi intimada a informar o motivo da transferência para terceiros dos referidos cheques. Como a empresa não atendeu ao solicitado no referido Termo, os referidos cheques foram considerados como pagamentos a beneficiários não identificados/sem causa. Vale ressaltar que de acordo como art. 674, § 3º do Decreto 3.000/99 e art. 20 da IN SRF nº 15 de 2001 a base de cálculo foi reajustada. Durante a fiscalização também ficou constatado que os cheques anexos às fls. 144 a 153, emitidos pela Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte, nominais a LIMP, destinados ao pagamento da prestação de serviços de limpeza urbana, não foram depositados na conta-corrente da empresa, ou seja, no BIC Banco, c/c 14.051816-1, mas sim, na conta bancária nº 14.051771-8. Conforme documento de fls. 711, extraído da fiscalização que esta sendo realizada através do MPF 0310200 2005 00044-4, a referida conta corrente pertence à locadora UNIFÁCIL-LOCADORA DE VEÍCULOS LTDA. Assim, através dos Termos de Intimações e Reintimações de fls. 396/413, solicitamos da empresa LIMP, como também da empresa UNIFÁCIL-LOCADORA DE VEíCULOS LTDA informações sobre o motivo da transferência dos referidos cheques. Como as referidas empresas não atenderam ao solicitado nos referidos termos, considerou-se os referidos cheques como pagamentos sem causa. A base de cálculo foi reajustada. DO SÓCIO DE FATO DA LIMP - EMPRESA DE SERVIÇOS E GERENCIAMENTOS EM LIMPEZA Conforme contrato social doc. de fls. 424/435, a LIMP foi constituída em 07 de janeiro de 2003, tendo como objeto social, entre outros, a limpeza urbana (coleta de lixo domiciliar, hospitalar, resíduo sólido e entulhos) com seu quadro social composto pelos sócios: 1 - Cícero Canuto de Araújo - CPF 013.234.398-38; 11 - Maria do Socorro Lira Nobre - CPF 172.592.823-04. Fl. 6DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 10315.001518/2008-36 Acórdão n.º 1302-00.430 S1-C3T2 Fl. 925 7 O capital integralizado foi de apenas R$ 140.000,00 (cento e quarenta mil reais). Conforme já mencionado anteriormente existe um contrato (contendo assinaturas em nome do sócio Cícero Canuto de Araújo) firmado entre a Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte/CE e a empresa LIMP - Empresa de Serviço e Gerenciamento em Limpeza Urbana Ltda, no valor de R$ 33.334.538,00 (trinta e três milhões, trezentos e trinta e quatro mil e quinhentos e trinta e oito reais), com vigência para 60 (sessenta) meses, celebrado em 28/02/2003, doc. de fls. 414/422. Também conforme já mencionado anteriormente, tal contrato foi resultado do Processo de Licitação Concorrência Pública nº 011/2002, conforme cláusula 21 do referido contrato. Cabe relembrar que a LIMP tinha sido constituída no mês anterior, com um capital de apenas R$ 140.000,00 (cento e quarenta mil reais). Acontece que o Laudo de Exame Documentoscópico (Grafoscópico) nº 132/2008-SETEC/SR/DPF/CE, doc. de fls. 436/455 constatou que as rubricas C C Araújo e a assinatura em nome de Cícero Canuto de Araújo apostas no referido contrato não partiram do punho de Cícero Canuto de Araújo. Também no referido laudo ficou constatado que as assinaturas em nome de Cícero Canuto de Araújo apostas em outros documentos relacionados com a referida Licitação também não partiram do punho de Cícero Canuto de Araújo. Ora, se o senhor Cícero fosse o verdadeiro sócio da LIMP - Empresa de Serviços e Gerenciamento em Limpeza Urbana Ltda não haveria a necessidade de outra pessoa estar assinando documentos da empresa como sendo Cícero Canuto de Araújo. Também se ele fosse o verdadeiro sócio majoritário da LIMP Empresa de Serviços e Gerenciamento em Limpeza Urbana Ltda, ele não estaria trabalhando como motorista - conforme documentos de fls 458/522, com um salário líquido mensal inferior a R$ 1.000,00 (hum mil reais), conforme DIRF de fls. 523 - após a sua empresa ter celebrado um contrato de prestação de serviços para receber R$ 33.334.538,00 (trinta e três milhões, trezentos e trinta e quatro mil e quinhentos e trinta e oito reais). Além disso, também constatou-se que foram apostas assinaturas em nome de Cícero Canuto de Araújo nos recibos de fls. 171/282, atestando o recebimento de valores pagos pela Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte/CE à empresa LIMP - Empresa de Serviços e Gerenciamentos em Limpeza Urbana Ltda por serviços prestados. Acontece que, conforme as folhas de ponto encaminhadas pela Fundação Padre Anchieta Paulista de Rádio e TV Educativas, situada na cidade de São Paulo/SP, nas datas em que os recibos foram assinados o senhor Cícero Canuto de Araújo estava trabalhando naquela Instituição, ou seja, a mais ou menos 3.000 KM de distância. Também as assinaturas em nome de Cícero Canuto de Araújo apostas nos referidos recibos são parecidíssimas com a assinatura da foto 21 do Laudo de Exame Documentoscópico (Grafoscópico) nº 132/2008SETEC/SR/DPF/CE, doc de fls. 451, a qual, segundo o referido Laudo, não fluiu do punho de Cícero Canuto de Araújo. Outro fato que chama a atenção são os cheques de fls. 524/543, emitidos pela empresa e contendo assinaturas em nome de Cícero Canuto de Araújo. Também conforme folhas de ponto encaminhadas pela Fundação Padre Anchieta Paulista de Rádio e TV Educativas, situada na cidade de São Paulo/SP, nas datas em que eles foram assinados o senhor Cícero Canuto de Araújo estava trabalhando naquela Instituição, ou seja, a mais ou menos 3.000 KM de distância. Também as assinaturas Fl. 7DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO 8 em nome de Cícero Canuto de Araújo apostas nos referidos cheques são parecidíssimas com a assinatura da foto 21 do Laudo de Exame Documentoscópico (Grafoscópico) nº 132/2008 SETEC/SR/DPF/CE, doc de fls. 451, a qual, segundo o referido Laudo, não fluiu do punho de Cícero Canuto de Araújo. Ora, os fatos acima demonstram que o senhor Cícero Canuto de Araújo não pode ser o sócio de fato da empresa LIMP. Portanto, fica o seguinte questionamento: Se o senhor Cícero Canuto de Araújo não é um dos sócios de fato da empresa LIMP - Empresa de Serviços e Gerenciamentos em Limpeza Urbana Ltda, então, quem será o sócio oculto que está por traz dele? Os fatos abaixo discriminados apontam para o senhor Pedro Lira Nobre, CPF 172.693.933-20, senão vejamos: 1. No dia 08 de setembro de 2004 o Sr. Pedro Lira Nobre, CPF 172.693.933-20 foi admitido na sociedade conforme aditivo, doc. de fls. 427/430. No dia 25 de maio de 2005, ou seja, após o início da fiscalização, o Sr. Pedro Lira transferiu suas cotas para o Sr. Cícero Canuto de Araújo, conforme aditivo, doc. de fls. 432/433; 2. Porém, conforme depoimento prestado à Policia Federal, doc. de fls. 546, a Sra. Maria do Socorro Lira Nobre, uma das sócias, conforme contrato social de fls. 424/435, declarou que aquiesceu que o seu nome fizesse parte do quadro societário da LIMP - EMPRESA DE SERVIÇOS E GERENCIAMENTO EM LIMPEZA URBANA LTDA, juntamente com seu genro, Cícero Canuto de Araújo, porque o Senhor Pedro Lira Nobre, seu filho, tinha pendências junto à Receita Federal e Secretaria da Fazenda, mas que na verdade o VERDADEIRO DONO DA EMPRESA SEMPRE FOI SEU FILHO, PEDRO LIRA; 3. Também existe o Relatório da Polícia Federal, doc. de fls. 547/549 no qual está sendo apurado se a assinatura no livro nº 120, folha 27, do cartório do 1º Ofício da Comarca de Juazeiro do Norte/CE, autorizando o Sr. Raimundo Luiz dos Santos a representar a LIMP, é realmente de Cícero Canuto de Araújo. Porém, se o fato ainda não foi apurado, existem outros fatos no referido Relatório que levam esta fiscalização a considerar que o Sr. Pedro Lira Nobre é quem gerenciava de fato a empresa LIMP: a. o senhor Raimundo Luiz dos Santos declarou que foi o Sr. Pedro Lira que pediu para ele fazer a procuração; b. o senhor Raimundo Luiz dos Santos declarou que não conhece e nunca falou com Cícero Canuto de Araújo; c. o endereço constante na procuração pública como sendo de Cícero Canuto de Araújo pertence a Sra. Maria do Socorro Lira Nobre, mãe do Sr. Pedro Lira Nobre, e que o Sr. Cícero Canuto de Araújo nunca residiu ali. 4. Outro fato que aponta para o Sr. Pedro Lira foram os depoimentos prestados pelos funcionários do BIC Banco, o senhor Francisco de Oliveira Barreto, CPF 223.431.803-34 e a senhora Mônica Gonçalves Bezerra, CPF 214.266.513-68, anexos às fls. 550/556. Neles, os funcionários declararam que: “(...) O senhor Pedro Lira Nobre era considerado responsável financeiro porque era ele quem fazia as previsões e as consultas ao Banco no que diz respeito àquela empresa. Além disso, era ele quem, na maioria dos vezes, comparecia ao banco para fazer o saque dos cheques. Neste caso, estando ele presente, Fl. 8DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 10315.001518/2008-36 Acórdão n.º 1302-00.430 S1-C3T2 Fl. 926 9 carimbava-se o verso do cheque constando seu nome como contactado. Com menor freqüência comparecia ao banco o Office-boy para retirada do dinheiro, então contactava-se Pedro Lira Nobre, através do celular dele, para autorizar o pagamento, informando também seu nome como contactado no verso do cheque ( ... ) Que Pedro Lira fazia também a previsão de saques mensalmente para pagamento de funcionários do empresa LIMP ( ... ) Não sabem informar quem era o proprietário e sócios do empresa LIMP e nunca tiveram contato com nenhum deles”. 5. Também não podemos esquecer que o senhor Cícero Canuto de Araújo é casado com a irmã do Senhor Pedro Lira Nobre. Também não podemos esquecer que era o senhor Pedro Lira que administrava tudo na empresa, conforme declarações e documentações constantes do presente processo. Assim, não tinha como o senhor Pedro Lira Nobre desconhecer que um terceiro estava assinando documentos da LIMP, em nome do seu cunhado. 6. Conforme extrato do CNPJ de fls. 557/560, o senhor Pedro Lira Nobre é sócio administrador de 02 (duas) empresas, ou seja, DIANCAL DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS DO CARIRI, CNPJ 00.448.133/0001-25 e TRENA EDIFICAÇÕES E SERVIÇOS DE LIMPEZA URBANA LTDA, CNPJ 01.626.974/0001-48, como também é proprietário da empresa individual CONSTRUTORA JEPEL LTDA, CNPJ 69.712.859/0001-20. Dá para perceber que ele é um empresário, enquanto o senhor Cícero Canuto de Araújo exerce apenas o cargo de motorista da Fundação Padre Anchieta Paulista Radio e TV Educativas, na cidade de São Paulo. Além disso, durante a fiscalização, foram constatadas ligações de uma das empresas de Pedro Lira com a LIMP, ou seja, alguns dos cheques recebidos pela LIMP, doc de fls. 39/60, foram parar na conta bancária nº 51.747-5. Conforme informações extraídos da fiscalização que esta sendo realizada através do MPF 0310200 2005 00044-4, a referida conta-corrente pertence à TRENA EDIFICAÇÕES E SERVIÇOS DE LIMPEZA URBANA LTDA. Questionada por esta fiscalização, através do Termo de Intimação de fls. 712/715, a empresa apresentou os documentos de fls. 561/582, informando que os valores repassados foram referentes aos alugueis de dois caminhões. Portanto, estar-se diante do caso em que a empresa ostenta no seu quadro societário o nome de pessoa de baixa capacidade econômica, no caso, o senhor Cícero Canuto de Araújo que, de fato, encobre a identidade do verdadeiro administrador do empreendimento, ou seja, o senhor Pedro Lira Nobre. Ressalte-se que na área tributária, a preocupação é premente dado que a interposta pessoa normalmente não tem patrimônio para garantir a realização do crédito tributário. Comumente, colocam-se como testas-de-ferro pessoas físicas que não dispõem de qualquer patrimônio para garantir o crédito tributário, sendo que quando da constituição deste, geralmente bem após a ocorrência dos fatos geradores, a pessoa jurídica não é localizada, já se extinguiu de fato ou mesmo por razões de direito, deixando o fisco a litigar por um crédito tributário impossível de ser realizado, dada a falta de patrimônio que o garanta, resultando em procedimento absolutamente inócuo, lesivo aos cofres públicos. Assim, é que a legislação pátria permite o alcance de terceiros que efetivamente se locupletaram por intermédio da simulação. Fl. 9DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO 10 Face ao todo exposto, a fiscalização considerou o senhor Pedro Lira Nobre, CPF 172.693.933-20 como sujeito passivo solidário, conforme Termo de Sujeição Passiva Solidária de fls. 789/793, pois está caracterizado o interesse comum na situação que constitui o fato gerador da obrigação tributária nos termos do inciso I do art. 124 da Lei nº 5.172/66 (Código Tributário Nacional). DA MULTA QUALIFICADA Os fatos acima já são motivos mais que suficientes para uma multa qualificada. Porém, além deles existem outros que também justificam, senão vejamos: 1. Às fls. 583/592 consta a Representação para a Promotora da 28ª Zona Eleitoral de Juazeiro do Norte/CE, datada de 23 de agosto de 2004, formulada por diversos partidos políticos, solicitando uma total investigação referente ao contrato celebrado entre a Prefeitura de Juazeiro do Norte e a LIMP - Empresa de Serviços e Gerenciamento em Limpeza Urbana Ltda. O que chama a atenção é que, até o mês da referida denúncia, ou seja, até o mês de agosto de 2004, a LIMP havia apresentado somente uma Declaração Anual Simplificada - SIMPLES, ND 8858940, referente ao ano-calendário de 2003, documento de fls. 593/612 (que foi cancelada), com R$ 0,00 de faturamento declarado. Acontece que, após a referida denúncia, ou seja, no mês de setembro de 2004, a LIMP passou a declarar as receitas recebidas pela prestação de serviços prestados à Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte-CE, conforme Declarações Retificadoras apresentadas no dia 23/09 (ND 9191776) doc. de fls. 613/630 (CANCELADA) e a outra no dia 27/09 (ND 9194501) doc. de fls. 631/648 (também cancelada). Também até o mês de agosto de 2004 a LIMP não havia recolhido nenhum imposto e/ou contribuição à Receita Federal, conforme tela do Sinal às fls. 650/652. Acontece que, somente após a referida denúncia, a empresa formalizou, no dia 27/09/2004, um pedido de parcelamento pela internet, conforme tela do SINCOR de fls. 649, pagando a 1º quota no dia 29 daquele mês, conforme tela do SINAL às fls. 650. Cabe ressaltar que o parcelamento foi rescindido no dia 19/08/2005. Também até o mês de agosto de 2004 o Senhor Cícero Canuto de Araújo havia apresentado somente uma Declaração de Ajuste Anual de Imposto de Renda do ano-calendário de 2003 (ND 08/25.006.675) doc. de fls. 653/655, com um rendimento tributável declarado de apenas R$ 15.489,08 (quinze mil, quatrocentos e oitenta e nove reais e oito centavos). Acontece que, após a denúncia, ou seja, no dia 16/09/2004, foi apresentada uma declaração retificadora (ND 03/34.338.747) doc. de fls. 656/658, com a inclusão de mais um rendimento, ou seja, de um rendimento tributável que teria sido recebido de pessoa física/exterior no valor de R$ 64.510,92 (sessenta e quatro mil, quinhentos e dez reais e noventa e dois centavos), ou seja, a diferença exata que faltava para dar suporte ao capital integralizado no mês de janeiro de 2003. (R$ 80.000,00 que foi o valor integralizado menos os R$ 15.489,08 declarado como motorista). Cabe ressaltar que, se a intenção foi essa, e os fatos apontam que foi, esqueceram que o rendimento de R$ 15.489,08 recebido como motorista foi bruto, e não foi recebido totalmente em janeiro de 2003. Fl. 10DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 10315.001518/2008-36 Acórdão n.º 1302-00.430 S1-C3T2 Fl. 927 11 2. A DIPJ referente ao ano-calendário de 2004 e as DCTF's (apresentadas pelo Lucro Presumido) referentes aos anos-calendário de 2003 e 2004 somente foram entregues após o início da fiscalização. Portanto, ao Fisco Federal cabe aplicar as penalidades definidas em lei. O art. 44, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996, dispõe que, nos casos de lançamento de ofício deve ser aplicada a multa de 150% (cento e cinqüenta por cento) sobre a totalidade ou diferença do imposto devido, nos casos de evidente intuito de fraude, o que restou sobejamente demonstrado nos presentes autos. Inconformado com as exigências, das quais tomou ciência em 20/10/2008, fls. 798, apresentou o contribuinte impugnação em 19/11/2008, fls. 805/826, contrapondo-se aos lançamentos com base nos argumentos a seguir sintetizados. A ação fiscal apresenta uma série de inconsistências, razão pela qual vêm os impugnantes perante esta Delegacia de Julgamento, requerer sua reforma, no sentido de verem sanadas tais irregularidades no lançamento, segundo os argumentos que passam a expor. PRELIMINAR. INCOMPETÊNCIA PARA FISCALIZAÇÃO DE PIS, COFINS, CSLL E IRRF. Inicialmente, antes mesmo de tratar do auto de infração, cumpre analisar seu nascedouro, que coincide com o Mandado de Procedimento Fiscal emitido em 29 de março de 2005, pelo Sr. Delegado da Receita Federal em Juazeiro do Norte, autorizando o início da fiscalização na empresa Impugnante. Observando-se atentamente o referido mandado, acostado à fl. 01 do processo, vê-se que, no campo “TRIBUTOS/CONTRIBUIÇÕES” a serem fiscalizadas, consta apenas “IRPJ”. É de inquestionável clareza, a determinação de que o tributo ali identificado deveria ser o único tributo fiscalizado. Conclusão a que se chega pela veemência do campo onde constam os termos tributos/contribuições, acompanhado dos campos “PROCEDIMENTO FISCAL”, onde consta “fiscalização” e do período abrangido, no caso, “PERÍODOS”, onde se determina o intervalo compreendido de 01/2003 a 12/2004. Desta maneira, não há como não entender que a ordem emanada da Delegacia foi específica para a fiscalização de um único tributo, qual seja: o IRPJ, no período de 01/2003 a 12/2004. A despeito das decisões conflitantes em volta desta matéria, não há como sustentar a inexistência de nulidade em casos como o presente, uma vez que o Mandado de Procedimento Fiscal não é somente um instrumento de controle interno, como também se tem entendido. O MPF-F é mais que isso: é a autorização para o início de uma ação fiscal, que deve se pautar, especificamente, em seus termos, conforme legislação vigente. Nesse sentido a defesa faz referência ao art. 7º do Decreto nº 70.235/72; art. 2º do Decreto nº 3.724/2001, alterado pelo Decreto nº 6.104/2007; e a Portaria nº 3.007/2001, alterada pela Portaria nº 1.238/2002 e pela Podaria nº 1.468/2003. Afirma a defesa que a previsão constante da legislação tem encontrado amparo nos julgados do Conselho de Contribuintes, reconhecendo a nulidade do procedimento fiscal, quando em desacordo com aquilo previsto inicialmente no MPF. Fl. 11DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO 12 Destarte, requer o acatamento da preliminar ora posta, para que se reconheça a nulidade da ação fiscal, no que toca aos tributos não mencionados no MPF (PIS, COFINS, CSLL e IRRF), por se configurar caso de absoluta ausência de competência, nos termos previstos nos decretos e portarias acima transcritas. PRELIMINAR. NULIDADE DO LANÇAMENTO. INTIMAÇÕES POR EDITAL. PROCURADOR HABILITADO NOS AUTOS. Afora a nulidade demonstrada, em relação ao mandado de procedimento fiscal, o processo em análise também se mostra categoricamente nulo em virtude de não ter observado a via mais adequada para a intimação dos interessados, conforme ficará apresentado. Em todo o caderno processual, vêem-se diversas intimações editalícias efetuadas em nome da empresa impugnante, sob o argumento de que a mesma não mais funcionava no endereço informado à Secretaria da Receita Federal. Ocorre, entretanto, que à fl. 33 dos autos, repousa “TERMO DE DEVOLUÇÃO DE DOCUMENTOS”, datado de 22/08/2005 (logo no início da ação fiscal), através do qual o Auditor Fiscal José Ricardo Cavalcante Baltar devolveu ao Sr. João Luiz dos Santos, documentos submetidos à análise desta fiscalização (livros fiscais). Na folha seguinte (fl. 34), consta procuração pública lavrada no Cartório do 1º Ofício, em 07 de julho de 2005, através da qual foram outorgados amplos poderes para o Sr. Raimundo Luiz dos Santos representar a empresa LIMP -Empresa de Serviços e Gerenciamentos em Limpeza Urbana Ltda. É estranho, portanto, que embora representada por mandatário devidamente eleito, através de instrumento público, tenham sido remetidas inúmeras intimações por meio de edital, quando se sabia facilmente o endereço do Outorgado (contabilista largamente conhecido na região como “SANTOS CONTABILIDADE”). É de se ponderar que, estando a empresa representada por seu contador, não há razão legítima para se desconsiderar tal fato, a ponto de se lançar mão de uma intimação postal ou pessoal ao seu legítimo procurador, para se utilizar de intimação de tamanha ineficácia e sabida inocuidade como a editalícia. Tal conduta, portanto, se mostra contraproducente e ininteligível, uma vez que elege meio de cientificar o interessado na fiscalização, pelo meio menos adequado para tal fim. Reitere-se que, estando eleito pela parte fiscalizada, um procurador, através de termo lavrado em cartório, sem prazo de vencimento e sem revogação expressa pelo outorgante, descabe desconsiderar tal fato, e não intimar seja pela via postal, seja pela via pessoal, aquele que é o representante da empresa fiscalizada. Acatando este entendimento, encontramos decisões do Conselho de Contribuintes, reconhecendo a nulidade das intimações efetuadas por meio de edital, quando a empresa está representada por procurador. Ora, se se admite a intimação do mandatário para apresentação de impugnação, aplicando-lhe as penas de sua desídia, porque não se admitir a intimação do mandatário no presente caso, onde este, inclusive, teve acesso a documentos sigilosos quando devolvidos pelos agentes fiscais? Que razão lógica admite a sobreposição da intimação editalícia quando se conhece representante legítimo do fiscalizado, com endereço certo, na mesma circunscrição do órgão fiscal? Fl. 12DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 10315.001518/2008-36 Acórdão n.º 1302-00.430 S1-C3T2 Fl. 928 13 Ao que nos parece, não há bom senso em se insistir em intimações por edital totalmente inúteis, quando se sabe que o contribuinte está representado por procurador devidamente nomeado, com poderes para receber correspondências, documentos, etc, como no caso vertente. Não é por outra razão que o Conselho de Contribuintes tem decidido pela anulação ab initio dos processos, quando presente o cerceamento do direito de se manifestar, e de ter ciência do procedimento fiscal. Isso porque não se pode malferir princípio dos mais importantes, na orientação do processo em geral, como a ampla defesa e o contraditório. No caso em análise, a via eleita para a ciência dos sujeitos passivos resultou em grave prejuízo aos interessados, uma vez que não puderam se manifestar, em diversos momentos, na ocasião oportuna sobre o delineamento da ação fiscal. Assim, considerando estas razões, amparadas pela jurisprudência do Conselho de Contribuintes, requer seja anulado ab initio o processo em questão, por total nulidade das intimações efetuadas através de edital, considerando-se que, desde o início do processo, a empresa autuada estava devidamente representada por procurador legítimo, sem que esse tenha recebido qualquer intimação para se manifestar ou sanar falhas, em nome de seu mandante, na época devida. MULTA DE OFÍCIO. APLICAÇÃO EM DOBRO. DESCABIMENTO. A título de penalidade, as autoridades fiscais aplicaram multa qualificada, correspondente a 150% (cento e cinqüenta por cento), sobre todos os tributos levantados, representando imposição em desconformidade com o que prevê a legislação que trata das multas fiscais - Lei 9.430/96. Ao que se vê, a multa imposta foi duplicada, com base no que estatui o § 1ºdo art. 44 da referida Lei, segundo o critério de que a conduta dos autuados configuram o tipo sonegação fiscal. Ocorre, entretanto, que não assiste razão à duplicação da multa, uma vez que o presente processo não contempla caso de fraude ou dolo no sentido de ocultar o fato gerador, não podendo, por isso, representar caso típico de crime de sonegação fiscal, mas sim mero inadimplemento, fiscal. Vejamos. Analisando os autos, verifica-se que: (1) a empresa emitiu notas fiscais de todas suas atividades, (2) manteve escriturados livros comerciais, (3) apresentou DIPJ relativa aos anos fiscalizados, (4) sofreu retenções de IRRF, espontaneamente denunciadas em todas as notas fiscais emitidas aos tomadores dos serviços; tudo revelando formas incontestes de ciência dos fatos geradores ocorridos, para o Fisco. Desta feita, não há que se falar em sonegação fiscal, nos casos onde há, puramente, o não-pagamento dos tributos, conforme entendimento de MANOEL PEDRO PIMENTEL apud MAURÍCIO KALACHE em Crimes tributários - Uma análise da Estrutura do Tipo Penal nos artigos 10 e 20 da Lei 8.137, de 27.12.1990, Curitiba, 2006 (citação transcrita às fls. 816). Reforçando seus argumentos, a defesa transcreve às págs. 12/13 da impugnação (fls. 816/817), o entendimento de Hugo de Brito Machado e Paulo Roberto Decomain. Após a transcrição de ementas do Conselho de Contribuintes, a defesa conclui afirmando que, diante da inexistência de crime de prática de sonegação fiscal, no Fl. 13DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO 14 presente caso, impende reconhecer pelo descabimento da majoração da multa aplicada em percentual de 150%, devendo esta ser reduzida para o patamar de 75%, em conformidade com o entendimento dominante do Conselho de Contribuintes em volta da matéria. OMISSÃO DE RECEITA. CHEQUES, TRANSFERÊNCIAS E DEPÓSITOS. CONTRATO DE CONTA GARANTIDA (MÚTUO BANCÁRIO). INADEQUAÇÃO COM O CONCEITO DE RECEITA. BITRIBUTAÇÃO. PAGAMENTO A TERCEIROS NÃO IDENTIFICADOS. INEXISTÊNCIA PARCIAL. PAGAMENTO DE EMPRÉSTIMO CONTRAÍDO. DESOBRIGAÇÃO DE RECOLHER IRRF. A ação fiscal ora impugnada, conforme visto acima, além de ter resultado no lançamento dos tributos relacionados à apuração do lucro, considerando como receitas omitidas entradas na conta corrente da empresa, também se voltou para a apuração do IRRF Imposto de Renda Retido na Fonte, relativo aos pagamentos efetuados a terceiros não identificados. Inicialmente, a título de receitas omitidas, foram consideradas todas as notas fiscais emitidas para a Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte, apresentadas a pedido dos Auditores-Fiscais. Num segundo momento, todavia, foram fiscalizadas as origens de créditos (depósitos e transferências) efetuados na conta corrente da empresa LIMP, mantida junto à agência do BIC Banco, nesta cidade. Como critério de triagem, foram investigados cheques que não se confundiam com aqueles pagos em razão da prestação de serviços ao Município de Juazeiro do Norte, observando-se somente os valores individualizados de cada título. Assim, no exercício de suas funções, os auditores solicitaram da empresa fiscalizada, esclarecimentos acerca dos mencionados créditos em conta, o que foi feito seguindo a mesma metodologia de intimação através de edital, conforme narrado em tópico anterior. Obviamente, mais uma vez, não compareceu a empresa para prestar os solicitados esclarecimentos acerca das transações. Desta forma, restou majorado o valor do auto lavrado em função da omissão de receita, tendo em vista que todos aqueles créditos efetuados em conta foram considerados receitas omitidas. Além disso, foi lavrado, também, auto de infração por falta de retenção na fonte do IRRF, pela fonte “pagadora”, relativo a pagamentos efetuados a terceiros não identificados. Portanto, agora, em sede de impugnação, pretende-se demonstrar que parte daqueles créditos considerados receitas omitidas, não o são, bem como parte dos pagamentos a terceiros não identificados, na verdade, não são pagamentos. Pois bem. Iniciemos pelos ingressos em conta corrente. É bem verdade que, relativamente à maior parte das transações não há sequer condições de aferir com exatidão, atualmente, sua origem e seu destino, dado que já se passaram alguns anos. Entretanto, a análise ainda que pouco atenta, permite discernir que parte dos créditos não representam, essencialmente, receitas, mas sim entradas na conta corrente da empresa, em virtude de contrato mantido pela empresa impugnante, com ao BIC Banco, denominado “Conta Garantida” ou “Mútuo Plus”, por meio do qual a Fl. 14DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 10315.001518/2008-36 Acórdão n.º 1302-00.430 S1-C3T2 Fl. 929 15 instituição financeira antecipa o pagamento de receitas que pendentes de recebimento pela empresa mutuária. No caso, a empresa fiscalizada recebeu, em empréstimo, do BIC Banco, quantias equivalentes ao valor que teria a receber dos seus clientes (tomadores dos seus serviços). Noutros termos, um adiantamento de receita operacional, mediante remuneração de juros pactuados em contrato, cujas cópias seguem em anexo, devidamente assinadas e registradas em cartório. Assim, dos valores constantes da relação repousante à fl. 383, constatam-se duas quantias em cujos históricos constam a sigla “TRANSF. CCG” , sendo uma no valor de R$ 398.171,85 e outra no valor de R$ 234.909,11. Em confirmação ao alegado, verifica-se, que nos dois contratos de mútuo ora anexados, constam os valores de R$ 400.000,00 e R$ 236.000,00, bastante aproximados daqueles acima postos, cuja razão de não serem exatamente iguais, reside na cobrança do IOF sobre a transação e das tarifas de análise de cadastro cobradas pela instituição financeira. Ora, tendo-se que ambas quantias foram recebidas pela empresa em razão de contrato de empréstimo contraído perante instituição financeira idônea, não há que se falar em omissão de receita, haja vista que a entrada de valores na conta da empresa, em função de contratos desta natureza (mútuo), não acarreta resultado positivo,de modo que não pode ser considerada receita, para fins de tributação. Neste sentido é vasta a jurisprudência do Conselho de Contribuintes, afastando a caracterização de omissão de receita em tais casos (ementas de acórdãos transcritas às fls. 822). Ademais disso, maior razão assiste a não tributação dos valores referidos, tendo em vista que, além de não poderem ser considerados receita, tais quantias equivalem a valores já tributados, quando do levantamento das receitas operacionais omitidas. Noutros termos, tributar o valor recebido em função de um contrato de mútuo já contraria a legislação, máxime se este valor coincide com valores de receitas recebidas pela empresa, por se tratar de um adiantamento realizado pelo banco; hipótese que configura caso de bitributação. Assim, é a presente peça para observar que aqueles valores depositados em conta não podem dar azo à cobrança de tributos, sob o argumento de serem receitas omitidas. No que tange à via inversa - os débitos em conta-corrente - impõe observar que parte daqueles tidos como pagamentos a terceiros não identificados, também são fruto de ilação fiscal equivocada. Da mesma forma que o crédito efetuado em conta corrente, foram feitos débitos, dias após, em valores aproximados, como pagamento do mútuo contratado. Aí, igualmente, resultou em lançamento contra a empresa fiscalizada, agora sob o fundamento de se caracterizar pagamento efetuado a terceiro não identificado. Observando a relação de pagamentos (cheques, transferências) verifica-se que há transações cujas siglas são “TRANSFERENCIA CCG” e “TRANSFERENCIA C/CA”, também em quantias elevadas, que somadas, representam o valor de R$ 612.867,40, Fl. 15DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO 16 Subtraindo-se este valor, do somatório dos dois adiantamentos antes apresentados, vê-se que a diferença entre um e outro é pequena, representando um saldo que corresponde, exatamente, aos juros cobrados pelo banco, em remuneração do empréstimo concedido. Sendo assim, também não assiste razão para o lançamento do IRRF relativo a tais valores, uma vez que tal transação não se coaduna como hipótese de obrigatoriedade de retenção, previstas no RIR. Por este motivo, impende reconhecer que a autuação efetuada é falha, também, nesta parte, de modo que deve ser modificada, no sentido de anular parcialmente, tanto o lançamento por omissão de receitas, quanto o por ausência de retenção de IRRF, relativamente aos valores acima referidos, seja por total inadequação dos créditos com o conceito de receita, seja pela total desobrigação legal de efetuar retenção de imposto de renda em casos de pagamento de empréstimo, como no caso. Razão por que se espera a reforma da ação fiscal, também nesta parte, posto ser medida de direito. DECADÊNCIA Por fim cumpre observar o prazo de constituição do crédito tributário no presente caso, a fim de se observar que, relativamente a parte do valor lançado, restou ultrapassado o prazo decadencial, como será demonstrado. É consabido que, nos tributos lançados por homologação, a decadência opera-se logo que alcançados 05 (cinco) anos do fato gerador. Pois bem, no caso em análise, todos tributos lançados adotam a mesma sistemática de homologação, de modo que, em tendo sido lavrado o auto apenas em 08/10/2008, somente estariam alcançados os fatos geradores ocorridos após 08/10/2003, em sintonia com a orientação do Conselho de Contribuintes (ementas transcritas às fls. 824/825). Assim, requer seja anulado o lançamento dos créditos tributários relativos aos fatos geradores ocorridos em data anterior a 08 de outubro de 2003, ante a extinção do crédito tributário, pela decadência, nos termos do art. 150, § 4º do Código Tributário Nacional. PEDIDO Diante de todo o exposto, Requer seja recebida a presente impugnação, dando-lhe o devido processamento, visto que se encontra tempestiva e em conformidade com os demais requisitos de sua admissibilidade, especialmente aqueles previstos no art. 16 do Decreto 70.235/72, julgando-a totalmente procedente, para: a) Acatar a primeira preliminar argüida, reconhecendo-se a nulidade da ação fiscal, no que toca aos tributos não mencionados no MPF - Mandado de Procedimento Fiscal (PIS, COFINS, CSLL e IRRF), por se configurar caso de absoluta ausência de competência e de ato arbitrário, por ausência de autorização, configurando-se abuso de poder, nos termos previstos nos decretos e portarias acima transcritas. b) Que seja anulado ab initio o processo em questão, por total nulidade das intimações efetuadas através de edital, considerando-se que, desde o início do processo, a empresa autuada estava devidamente representada por procurador legítimo, sem que esse tenha recebido qualquer intimação para se manifestar ou sanar falhas, em nome de seu mandante, na época devida. Fl. 16DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 10315.001518/2008-36 Acórdão n.º 1302-00.430 S1-C3T2 Fl. 930 17 c) Que seja reconhecida a improcedência da autuação efetuada quanto à alegada omissão de receitas, referente aos créditos em conta corrente, nos valores de R$ 398.171,85 e R$ 234.909,11, por não se tratarem de receita, mas sim de crédito advindo de contrato de mútuo realizado, não comportanto, por isso, a tributação ostentada. d) Que seja reconhecida a improcedência da autuação efetuada por ausência de retenção de IRRF, relativamente aos valores debitados em conta corrente, cujas siglas são "TRANSFERENCIA CCG" e "TRANSFERENCIA C/CA", no valor de R$ 612.867,40, por total ausência de obrigação legal de efetuar retenção de imposto de renda em casos de pagamento de empréstimo, e) Que se reconheça a extinção parcial dos créditos tributários lançados, em virtude do alcance da decadência, relativamente aos fatos geradores ocorridos em data anterior a 08 de outubro de 2003, nos termos do art. 150, § 4º do Código Tributário Nacional. f) Que, além do Impugnante, sejam também intimados/notificados de qualquer decisão, seus patronos, em seu respectivo domicílio profissional, na Rua José Carvalho, 300, Centro, Crato, Ceará, CEP: 63.100-020 (Fone: 88-3521-2823). A 3ª Turma da DRJ/FOR, em sessão de julgamento, decidiu, por unanimidade, julgar procedente em parte o lançamento, nos termos do voto do relator, com supedâneo nos seguintes fundamentos: Preliminar de Nulidade – Da suposta incompetência para lavratura dos autos de infração do PIS, Cofins, CSLL e IRRF. A Portaria SRF nº 1.265/99 que estabelece normas para a execução de procedimentos fiscais relativos aos tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal – SRF, ao dispor sobre o mandado de procedimento fiscal, expressamente estabelece no seu art. 9º que “na hipótese em que infrações apuradas, em relação a tributo ou contribuição contido no MPF-F ou no MPF-E, também configuram, com base nos mesmos elementos de prova, infrações a normas de outros tributos ou contribuições, estes serão considerados incluídos no procedimento de fiscalização, independentemente de menção expressa”; No presente caso, a fiscalização apurou omissão de receitas de prestação de serviços e decorrente de depósitos bancários de origem não comprovada, que resultaram nas tributações reflexas das contribuições PIS/Pasep, Cofins e CSLL. Na análise dos extratos bancários foi constatada, ainda, transferência de recursos para terceiros cujos beneficiários não foram identificados, fato que ensejou também a cobrança do IRRF, conforme art. 674 do RIR/99. Portanto, considerando-se que os demais lançamentos decorreram dos mesmos elementos de prova que embasaram a exação do IRPJ, é de se concluir pela desnecessidade de emissão de novos MPF’s como alega a defesa. Preliminar de Nulidade – Ciência por Edital Fl. 17DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO 18 A legislação processual tributária permite a utilização do Edital, sempre que resultar improfícuo um dos meios de intimação previstos no Decreto nº 70.235/72 e alterações posteriores. O contribuinte mudou de endereço por duas vezes, entretanto, somente alterou no cadastro do CNPJ da Secretaria da Receita Federal a primeira mudança. Com relação à segunda mudança, ratificada pelo Termo de Constatação Fiscal, doc. de fls 373, não foi possível localizar o seu novo endereço. Assim, alguns documentos encaminhados ao contribuinte tiveram suas ciências por Edital, conforme determina o § 1º do art. 23 do Decreto 70.235/72. O instrumento de procuração é específico ao conferir poderes ao Sr. Raimundo Luiz dos Santos para representar a autuada junto a órgãos públicos, restringindo sua atuação para requerer e receber certidões e firmar contratos de parcelamento de débitos. Resta claro, pois, que o referido senhor não tinha poderes para representar o contribuinte na presente ação fiscal. Prejudicial de Decadência. Na situação em análise, foi constatada conduta fraudulenta pela autoridade fiscal, afastando a homologação tácita. Assim, o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, para os fatos geradores ocorridos até 08/10/2003, é o dia 01/01/2004, o que implica na extinção do prazo qüinqüenal em 01/01/2009. Com efeito, considerando-se que o contribuinte tomou ciência dos lançamentos em 20/10/2008, fls. 798, resta claro que àquela data ainda não havia expirado o prazo para constituição de ofício do crédito tributário. Multa de Ofício – Aplicação em Dobro. No presente caso, a fiscalização apurou que a empresa ostentava em seu quadro societário o nome de pessoa de baixa capacidade econômica, no caso o senhor Cícero Canuto de Araújo, encobrindo a identidade do verdadeiro administrador do empreendimento, qual seja, o senhor Pedro Lira Nobre. Outros fatos foram ainda apontados pela fiscalização, como a falsificação de assinaturas de documentos e a constatação de que as declarações contendo faturamento somente foram apresentadas após o início da ação fiscal. Destarte, uma vez não tendo a defesa apresentado elementos para elidir as provas apresentadas pela fiscalização, é de se concluir pela procedência da duplicação do percentual da multa lançada, conforme previsto no § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96. Dos Valores Lançados em Conta Corrente. Relativamente aos valores constantes da relação às fls. 383, cujos históricos constam a sigla “TRANSF. CCG” , sendo uma no valor de R$ 398.171,85, e outra no valor de R$ 234.909,11, afirmado pela recorrente que são decorrentes de contrato mantido pela empresa impugnante, com ao BIC Banco, denominado “Conta Garantida” ou “Mútuo Plus”, entendeu estar devidamente comprovada a origem dos referidos valores depositados na conta corrente da empresa, ficando sem efeito a tributação correspondente. Como conseqüência, tornam-se também descabidos os valores considerados como pagamento sem causa (tributação do IRRF, fls. 764/773), cujo histórico corresponde à operação de “TRANSFERÊNCIA CCG”, fls 377. Fl. 18DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 10315.001518/2008-36 Acórdão n.º 1302-00.430 S1-C3T2 Fl. 931 19 Quanto aos valores com histórico “TRANSFERÊNCIA C/CA”, fls. 377, por não ter a defesa apresentado qualquer elemento que demonstrasse que também decorria de transação de empréstimo, manteve a tributação. Jurisprudências Administrativa e Judicial – Não Vinculação. Por fim, sobre os excertos doutrinários citados pela reclamante, não se conformam em textos normativos, não ensejando, pois, subordinação administrativa. Lançamentos Reflexos Quanto aos demais lançamentos, aplica-se mutatis mutandis o que foi decidido quanto à exigência matriz, devido à íntima relação de causa e efeito entre eles. Irresignado, o recorrente interpôs Recurso Voluntário a este Conselho, alegando, em síntese, que: Preliminarmente, - o procedimento fiscal é nulo pela autuação de tributos não elencados no Mandado de Procedimento Fiscal; - há nulidade por dispor o recorrente de procurador habilitado por instrumento público, e mesmo assim, a autoridade fiscal ter efetuado algumas das notificações por edital, por não ter encontrado a empresa no seu domicílio fiscal eleito; - operou-se a decadência dos fatos geradores ocorridos até 08/10/2003, vez que o auto de infração foi lavrado em 08/10/2008; No mérito, - Analisando os autos, verifica-se que: (1) a empresa emitiu notas fiscais de todas suas atividades, (2) manteve escriturados livros comerciais, (3) apresentou DIPJ relativa aos anos fiscalizados, (4) sofreu retenções de IRRF, espontaneamente denunciadas em todas as notas fiscais emitidas aos tomadores dos serviços; tudo revelando formas incontestes de ciência dos fatos geradores ocorridos, para o Fisco. Assim, não há que se falar em sonegação fiscal, mas tão somente o não-pagamento dos tributos; - repisa alegações quanto aos valores de crédito em conta de R$400.000,00 e de R$236.000,00, e de valores a débito em conta no valor de R$612.867,40, os quais já haviam sido desconstituídos no acórdão de primeiro grau, que acolheu sua pretensão. É o relatório. Fl. 19DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO 20 Voto Conselheiro Eduardo de Andrade, Relator. O recurso é tempestivo, e portanto, dele conheço. O Mandado de Procedimento Fiscal (MPF) é instrumento interno, de controle gerencial da Administração Tributária, não podendo gerar nulidade a falta, naquele documento, de tributo apurado de forma reflexa, com base nos mesmos elementos de prova daquele originariamente submetido à fiscalização. A jurisprudência pacífica do CARF se assenta no mesmo sentido, senão se veja: Acórdão 108-07078 –2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara – Relator: Conselheiro Luiz Alberto Cava Maceira NULIDADE - INOCORRÊNCIA – MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL – O MPF constitui-se em elemento de controle da administração tributária, disciplinado por ato administrativo. A eventual inobservância da norma infra-legal não pode gerar nulidades no âmbito do processo administrativo fiscal. Acórdão 107-06797 –1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara – Relator: Conselheira Neycir de Almeida MPF.MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL.POSTULADOS.INOBSERVÂNCIA. CAUSA DE NULIDADE. ARGÜIÇÃO RECURSAL. IMPROCEDÊNCIA. O Mandado de Procedimento Fiscal (MPF ) fora concebido com o objetivo de disciplinar a execução dos procedimentos fiscais relativos aos tributos e contribuições sociais administrados pela Secretaria da Receita Federal. Não atinge a competência impositiva dos seus Auditores Fiscais que, decorrente de ato político por outorga da sociedade democraticamente organizada e em benefício desta, há de subsistir em quaisquer atos de natureza restrita e especificamente voltados para as atividades de controle e planejamento das ações fiscais. A não-observância - na instauração ou na amplitude do MPF - poderá ser objeto de repreensão disciplinar, mas não terá fôlego jurídico para retirar a competência das autoridades fiscais na concreção plena de suas atividades legalmente próprias. A incompetência só ficará caracterizada quando o ato não se incluir nas atribuições legais do agente que o praticou. Fl. 20DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 10315.001518/2008-36 Acórdão n.º 1302-00.430 S1-C3T2 Fl. 932 21 Acórdão 107-06952 –1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara – Relator: Conselheiro Francisco de Sales Ribeiro de Queiroz NORMAS PROCESSUAIS - MPF-MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL - NULIDADE DO LANÇAMENTO - RECURSO EX OFFICIO. O pleno exercício da atividade fiscal não pode ser obstruído por força de um ato administrativo que deve ser entendido como sendo de caráter meramente gerencial. Tal instituto, por ser medida disciplinadora, visando a administração dos trabalhos de fiscalização, não pode se sobrepor ao que dispõe o Código Tributário Nacional acerca do lançamento tributário, e aos dispositivos do Decreto-lei nº 2.354/54, que trata da competência funcional para a lavratura do auto de infração. Recurso de ofício a que se dá provimento. Acórdão 105-14096 – 5ª Câmara – Relator: Conselheiro Álvaro Barros Barbosa Lima AÇÃO FISCAL - MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL - CONTROLE ADMINISTRATIVO - A manifestação do Poder Tributante por meio dos seus agentes fiscalizadores, em lançamento de ofício, aos quais conferiu a lei competência para praticar todos os atos próprios à exteriorização da sua vontade, não se confunde com as atividades específicas de controle administrativo daqueles atos praticados em seu nome. Acórdão CSRF/01-05.330 – 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais – Relator: Marcus Vinicius Neder de Lima recurso "ex officio" – MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL – MPF. O Mandado de Procedimento Fiscal instituído pela Port. SRF nº 1.265, de 22/11/99, é um instrumento de planejamento e controle das atividades de fiscalização, dispondo sobre a alocação da mão-de-obra fiscal, segundo prioridades estabelecidas pelo órgão central. Não constitui ato essencial à validade do procedimento fiscal de sorte que a sua ausência ou falta da prorrogação do prazo nele fixado não retira a competência do auditor fiscal que é estabelecida em lei (art. 7° da Lei n° 2.354/54 c/c o Dec.lei n° 2.225, de 10/01/85) para fiscalizar e lavrar os competentes termos. A inobservância da mencionada portaria pode acarretar sanções disciplinares, mas não a nulidade dos atos por ele praticados em cumprimento ao disposto nos arts 950, 951 e 960 do RIR/94. 142 do Código Tributário Nacional. O MPF, todavia, é essencial à validade do lançamento quando efetuado com fundamento na Lei Complementar nº 105/2001- Lei 9.311/96, art. 11, § 3º, nova redação dada pelo art. 1º da Lei 10.174, de 09.01.2001, e Decreto n º 3.724, de 10.01.2001, por se tratar de normas formais ou procedimentais que ampliam o poder de fiscalização com aplicação imediata, alçando fatos pretéritos, consoante o disposto no artigo 144, § 1º, do Código Tributário Nacional. Fl. 21DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO 22 Acórdão CSRF/02-02.509 – 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais – Relator: Henrique Pinheiro Torres MPF - É de ser rejeitada a nulidade do lançamento, por constituir o Mandado de Procedimento Fiscal elemento de controle da administração tributária, não influindo na legitimidade do lançamento tributário. Nestes termos, rejeito a preliminar de nulidade por não constarem do MPF os tributos apurados reflexamente: PIS, Cofins, CSLL e IRRF. Verifica-se, da análise dos autos, grande quantidade de termos fiscais cuja ciência se deu por via postal e por via editalícia. Nota-se, todavia, esforço da autoridade fiscal em encontrar a pessoa jurídica no seu domicílio fiscal eleito, com o pré-envio dos termos àquele local, e a posterior notificação por edital, verificado o insucesso naquela via. Nosso sistema adota como regra geral o domicílio de eleição, no qual o contribuinte deve ser encontrado para receber termos e intimações e atender a fiscalização. A ciência dos atos praticados, todavia, pode ser obtida por via postal, com aviso de recebimento, nos termos do art. 23, II, do Decreto nº 70.235/72. O contribuinte pode constituir procurador para atender a fiscalização. Contudo, nem por isso seu domicílio passa a ser o daquele, persistindo o eleito e informado à Repartição Fiscal. Não vejo, assim, qualquer nulidade no tocante a este ponto. A decadência, nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, se opera em cinco anos, contados da ocorrência do fato gerador, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação (art. 150, §4º, CTN). Os tributos lançados no auto de infração foram acompanhados de aplicação de multa qualificada por ter verificado a autoridade fiscal a existência de elementos que caracterizam fraude, dentre elas a utilização de interposta pessoa. Neste sentido, havendo existência comprovada de fraude, necessário se faz o deslocamento do dies ad quem da decadência para aquele prescrito no art. 173, I, do mesmo diploma, que autoriza a constituição de crédito tributário para os períodos de apuração lançados. Desta forma, rechaço a preliminar com fulcro no art. 173, I, CTN. No caso presente, verifica-se forte corpo probatório coligido pela autoridade lançadora destinado a provar interposição de pessoa (Cícero Canuto de Araújo, interposto por Pedro Lira Nobre), havendo, inclusive, perícia do Instituto de Criminalística da Polícia Federal em documento particular supostamente firmado por Cícero C. Araújo, cujo resultado atesta que a assinatura aposta não fluiu da mão de Cícero C. Araújo. Fl. 22DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 10315.001518/2008-36 Acórdão n.º 1302-00.430 S1-C3T2 Fl. 933 23 O acórdão da DRJ menciona alguns pontos apurados pela fiscalização que autorizam a qualificação, os quais repiso, dada a clareza com que demonstram a força das provas obtidas: a) o sócio Cícero Canuto de Araújo trabalhava como motorista da Fundação Padre Anchieta – Centro Paulista de Rádio e TV Educativas, conforme documento às fls. 458/522, com um salário líquido mensal inferior a R$ 1.000,00 (hum mil reais) à época em que sua empresa celebrou contrato de prestação de serviços, no valor de R$ 33.334.538,00 (trinta e três milhões, trezentos e trinta e quatro mil e quinhentos e trinta e oito reais). b) foram apostas assinaturas em nome do referido senhor nos recibos às fls. 171/182, atestando o recebimento de valores pagos pela Prefeitura de Juazeiro do Norte, no período em que ele trabalhava na Fundação Padre Anchieta, localizada aproximadamente a 3.000 Km da cidade de Juazeiro. O mesmo aconteceu com os cheques emitidos pela empresa no período; c) o Sr. Pedro Lira Nobre foi admitido como sócio da autuada em 08/09/2004, sendo que, em 25/05/2005, logo após o início do procedimento fiscal, transferiu suas cotas ao Sr. Cícero Canuto de Araújo. Ressalte-se que o Sr. Pedro Lira é um empresário, sócio de outras duas empresas, enquanto que o Sr. Cícero Canuto, repita-se, era motorista da Fundação Padre Anchieta, na cidade de São Paulo; d) conforme depoimento prestado à Policia Federal, doc. de fls. 546, a Sra. Maria do Socorro Lira Nobre, uma das sócias, conforme contrato social de fls. 424/435, declarou que aquiesceu que o seu nome fizesse parte do quadro societário da LIMP - EMPRESA DE SERVIÇOS E GERENCIAMENTO EM LIMPEZA URBANA LTDA, juntamente com seu genro, Cícero Canuto de Araújo, porque o Senhor Pedro Lira Nobre, seu filho, tinha pendências junto à Receita Federal e Secretaria da Fazenda, mas que na verdade o VERDADEIRO DONO DA EMPRESA SEMPRE FOI SEU FILHO, PEDRO LIRA; e) Também existe o Relatório da Polícia Federal, doc. de fls. 547/549 no qual está sendo apurado se a assinatura no livro nº 120, folha 27, do cartório do 1º Ofício da Comarca de Juazeiro do Norte/CE, autorizando o Sr. Raimundo Luiz dos Santos a representar a LIMP, é realmente de Cícero Canuto de Araújo. Porém, se o fato ainda não foi apurado, existem outros fatos no referido Relatório que levam a fiscalização a considerar que o Sr. Pedro Lira Nobre é quem gerenciava de fato a empresa LIMP: o senhor Raimundo Luiz dos Santos declarou que foi o Sr. Pedro Lira que pediu para ele fazer a procuração; o senhor Raimundo Luiz dos Santos declarou que não conhece e nunca falou com Cícero Canuto de Araújo; o endereço constante na procuração pública como sendo de Cícero Canuto de Araújo pertence a Sra. Maria do Socorro Lira Nobre, mãe do Sr. Pedro Lira Nobre, e que o Sr. Cícero Canuto de Araújo nunca residiu ali. e) Outro fato que aponta para o Sr. Pedro Lira foram os depoimentos prestados pelos funcionários do BIC Banco, o senhor Francisco de Oliveira Barreto, CPF 223.431.803-34 e a senhora Mônica Gonçalves Bezerra, CPF 214.266.513-68, anexos às fls. 550/556. Neles, os funcionários declararam que: “(...) O senhor Pedro Lira Nobre era considerado responsável financeiro porque era ele quem fazia as previsões e as consultas ao Banco no que diz respeito àquela empresa. Além disso, era ele quem, na maioria das vezes, comparecia ao banco para fazer o saque dos cheques (...)” Fl. 23DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO 24 Além dos fatos acima narrados, suficientes para caracterizar o evidente intuito de fraude nas operações da empresa, outros foram ainda apontados pela fiscalização, como a falsificação de assinaturas de documentos e a constatação de que as declarações contendo faturamento somente foram apresentadas após o início da ação fiscal. Ressalte-se que na peça impugnatória o contribuinte não se insurgiu especificamente contra as irregularidades acima apontadas, limitando-se apenas a afirmar que manteve escrituração dos livros e havia emitido todas as notas fiscais da atividade, fatos estes insuficientes para descaracterizarem as irregularidades apuradas pela fiscalização. De se ressalvar aqui, que os fatos que causaram a exasperação da multa não foram simplesmente mencionados mas comprovados pela autoridade fiscal. A jurisprudência do CARF é remansosa quanto ao cabimento da multa qualificada na presença de hipótese de interposição de pessoa, senão se veja: Acórdão 104-22242 – Relator: Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo – 4ª Câmara. MULTA QUALIFICADA - Comprovada a utilização de interposta pessoa nas operações bancárias, cabível a qualificação da penalidade. Acórdão 103-22892 – Relator: Conselheiro Márcio Machado Caldeira - 3ª Câmara. SIMULAÇÃO - INTERPOSTA PESSOA - EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE - Na utilização de interposição de pessoa o intuito do declarante é o de inculcar a existência de um titular de direito, mencionado na declaração, ao qual, todavia, nenhum direito se outorga ou se transfere, servindo seu nome exclusivamente para encobrir o da pessoa a quem de fato se quer outorgar ou transferir o direito de que se trata, afigurando-se, na espécie, o evidente intuito de fraude, enquadrável na tipificação de simulação da identidade dos verdadeiros responsáveis pela empresa fiscalizada. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA - Nos casos de lançamento de ofício deve ser aplicada a multa qualificada sobre a totalidade ou diferença do tributo devido, quando comprovado o evidente intuito de fraude. Acórdão 105-16546 – Relator: Conselheiro José Carlos Passuelo - 5ª Câmara. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO - INTERPOSIÇÃO DE PESSOA - Reunidos nos autos elementos suficientes à comprovação dos fatos descritos na peça acusatória, há que se manter o lançamento tributário, não sendo necessário que a autoridade fiscal demonstre a total vinculação existente entre os atos praticados por terceiro e o fiscalizado, mas, sim, que sejam trazidos aos autos indícios robustos dessa vinculação, tornando indubitável a relação existente entre um e outro. MULTA QUALIFICADA - Se os fatos apurados pela Autoridade Fiscal permitem caracterizar o intuito deliberado do contribuinte de subtrair valores à tributação, é cabível a Fl. 24DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO Processo nº 10315.001518/2008-36 Acórdão n.º 1302-00.430 S1-C3T2 Fl. 934 25 aplicação, sobre os valores apurados a título de omissão de receitas, da multa de ofício qualificada de 150%, prevista no inciso II do artigo 44 da Lei nº 9.430, de 1996. Acórdão 105-16546 – Relator: Conselheiro José Carlos Passuelo - 5ª Câmara. INTERPOSIÇÃO DE PESSOA – MULTA QUALIFICADA – Nos casos de interposição de pessoa, consistente na utilização de contas bancárias de terceiros para movimentar valores que pertenciam ao Recorrente, está correta a aplicação do disposto no art. 44, inc. II, devendo ser mantida a multa da forma como foi aplicada no lançamento. Acórdão CSRF/01-05.820 – Relator: Conselheiro Mário Sérgio Fernandes Barroso - 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais. MULTA QUALIFICADA Cabe o agravamento da multa de ofício quando a contribuinte, por meio de interposta pessoa, movimenta recursos em contas correntes, à margem de sua contabilidade. Destarte, resta para mim configurada hipótese de aplicação da multa qualificada. O recorrente repisa alegações quanto aos valores de crédito em conta de R$400.000,00 e de R$236.000,00, e de valores a débito em conta no valor de R$612.867,40, os quais já haviam sido desconstituídos no acórdão de primeiro grau, que acolheu sua pretensão. Neste ponto, trago à colação os trechos em que o relator aponta sua concordância com as pretensões do ora impugnante: Da análise dos referidos documentos constata-se que há uma perfeita identidade entre as datas neles constantes (11/12/2003 e 29/03/2004) e a dos depósitos em sua conta corrente (extrato fls. 383). Já com relação aos valores, verifica-se apenas uma proximidade. Enquanto os constantes nos contratos são da monta de R$ 400.000,00 e R$ 236.000,00, os valores depositados foram de R$ 398.171,85 e R$ 234.909,11, respectivamente. A razão entre os valores é de 0,995 em ambos os casos, o que corrobora com o entendimento da defesa de que decorrem da cobrança do IOF e de taxas bancárias. Outro dado bastante significativo é que o número do contrato datado de 11/12/2003 (nº 791345) corresponde exatamente ao número indicado no extrato de conta corrente quando do registro do valor de R$ 398.171,85 (cópia do extrato às fls. 351). O mesmo ocorre com o contrato datado de 29/03/2004 (nº 809512) e o lançamento em contra corrente do valor de R$ 234.909,11 (extrato às fls. 356) Portanto, entendo estar devidamente comprovada a origem dos referidos valores depositados na conta corrente da empresa, o que torna sem efeito a tributação correspondente. Fl. 25DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO 26 Como conseqüência, tornam-se também descabidos os valores considerados como pagamento sem causa (tributação do IRRF, fls. 764/773), cujo histórico corresponde à operação de “TRANSFERÊNCIA CCG”, fls 377. Desta forma, resta ausente o interesse na reforma de matéria para a qual já foi dado provimento à pretensão do recorrente. Assim, voto para negar provimento ao Recurso Voluntário, mantendo-se os termos já decididos quando do acórdão de primeiro grau. Sala das Sessões, 15 de dezembro de 2010. (assinado digitalmente) Eduardo de Andrade - Relator Fl. 26DF CARF MF Impresso em 24/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO EX CL UÍ DO Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/01/2011 por EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 p or EDUARDO DE ANDRADE, Assinado digitalmente em 14/01/2011 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO
score : 1.0
Numero do processo: 10630.900684/2011-40
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Aug 17 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 13 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2004
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. RETENÇÃO DO IMPOSTO DE RENDA INCIDENTE SOBRE RENDIMENTOS AUFERIDOS NAS APLICAÇÕES EM FUNDOS DE INVESTIMENTO. IMUNIDADE RECÍPROCA. EXTENSÃO ÀS AUTARQUIAS. POSSIBILIDADE.
Basta a comprovação, mediante prova normativa, de que a entidade é autarquia municipal criada, para instituir regime de previdência próprio dos servidores públicos municipais, nos termos do art. 40 da CF e da Lei nº 9.717, de 1998, para que sejam restituídas as retenções de fonte efetuadas sobre as aplicações financeiras.
Numero da decisão: 1201-002.408
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente e Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Gisele Barra Bossa, Ester Marques Lins de Sousa (Presidente).
Nome do relator: ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
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RETENÇÃO DO IMPOSTO DE RENDA INCIDENTE SOBRE RENDIMENTOS AUFERIDOS NAS APLICAÇÕES EM FUNDOS DE INVESTIMENTO. IMUNIDADE RECÍPROCA. EXTENSÃO ÀS AUTARQUIAS. POSSIBILIDADE. Basta a comprovação, mediante prova normativa, de que a entidade é autarquia municipal criada, para instituir regime de previdência próprio dos servidores públicos municipais, nos termos do art. 40 da CF e da Lei nº 9.717, de 1998, para que sejam restituídas as retenções de fonte efetuadas sobre as aplicações financeiras. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Gisele Barra Bossa, Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 63 0. 90 06 84 /2 01 1- 40 Fl. 163DF CARF MF Processo nº 10630.900684/201140 Acórdão n.º 1201002.408 S1C2T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra o Acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo/SP que julgou improcedente a manifestação de inconformidade para indeferir o pedido de restituição. O crédito trazido no PER/DCOMP teria origem em pagamento indevido a título de imposto de renda incidente sobre rendimentos auferidos sobre aplicação em fundos de investimento. Pelo Despacho Decisório, o crédito não foi reconhecido e a restituição foi indeferida em face de que "não foi confirmada a existência do crédito pleiteado, pois o DARF a seguir, discriminado no PER/DCOMP, não foi localizado nos sistemas da Secretaria da Receita Federal do Brasil." Protocolada a Manifestação de Inconformidade, foi julgada improcedente tendo como principal fundamento: "apenas mediante a condução de robusto conjunto probatório tendente à demonstração ampla e transparente do cumprimento dos preceitos estipulados nos §§2º e 3º do art. 150 da nossa Carta Política se revelaria verossímil corroborar com a incidência, de plano, da imunidade recíproca em favor da entidade autárquica, o que não é o caso dos presentes autos." Foi manejado o Recurso Voluntário em que é alegado: o recorrente mesmo sendo uma autarquia municipal instituto de previdência dos servidores públicos municipais de Águas Formosas (Lei nº 1.204/2007), tendo feito aplicações em fundos de investimento através da conta de investimentos nº 9.000x, mantida no Banco do Brasil, suportou descontos em virtude de retenções a título de imposto de renda no biênio 2003/2004; o entendimento que resultou na decisão de improcedência da manifestação de inconformidade apresentando como esteio a sustentação de ausência dos diplomas legais alusivos à criação do INPREMAF, contemplando a pormenorização de seus objetivos e finalidades, não deve permanecer carecendo ser reformada a aludida decisão; com efeito, a respeitável decisão está estribada na necessidade de comprovação da existência de lei municipal, hipótese em que deverá ser aplicado, supletivamente, os preceitos expressos no CPC, onde o artigo 337, dispondo sobre as normas gerais das provas, preceitua que o teor e a vigência de norma municipal será exigida como prova quando o julgador assim o determinar; temse ainda que no artigo 399 do mesmo diploma legal, está consignado que o julgador "requisitará às repartições públicas em qualquer tempo ou grau de jurisdição as certidões necessárias à prova das alegações das partes"; Fl. 164DF CARF MF Processo nº 10630.900684/201140 Acórdão n.º 1201002.408 S1C2T1 Fl. 4 3 ademais, nos dados inseridos no CNPJ, consta que a recorrente tem como atividade econômica principal a arrecadação proveniente da "seguridade social obrigatória"; destarte, no que pertine ao entendimento da necessidade da comprovação de tais diplomas legais, deveria ter sido solicitado ao recorrente, à Câmara Municipal ou ao Executivo Municipal, antes do julgamento final, os diplomas legais ausentes nos autos e entendidos como imprescindíveis para o deferimento da pretensão do recorrente. Portanto, a apresentação dos documentos ora acostados não é intempestiva; de outro lado, não deverá ser mantido o entendimento quanto à necessidade de comprovação da existência de elementos comprobatórios no sentido de que os recursos financeiros aplicados no fundo de investimento "vinculamse efetivamente as atividades ou serviços de prestação obrigatória e exclusiva do Estado"; não é prudente indeferir o pedido da restituição das retenções efetivadas ao arrepio da Constituição Federal exigindo prova da inexistência do desvio de finalidade na atuação do recorrente, quando esta, como bem salientou a relatora Maria Lucia Aguilera, compete à fiscalização tributária, conforme legislação vigente. com o fito de sanar a prova documental entendida como necessária, anexa aos autos cópia da legislação pertinente à Recorrente e dos balancetes resumidos das receitas relativas aos exercícios financeiros de 2003/2004. É o relatório. Voto Conselheira Ester Marques Lins de Sousa, Relatora. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1201002.399, de 17/08/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10630.900675/2011 59, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1201002.399): "O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais pressupostos de admissibilidade. Assim, dele conheço. O crédito pleiteado pela Contribuinte se refere às retenções de fonte efetuadas sobre as aplicações financeiras em virtude de ser uma autarquia municipal criada para instituir regime de previdência próprio dos servidores públicos municipais, nos termos do art. 40 da CF e da Lei nº 9.717, de 1998. Fl. 165DF CARF MF Processo nº 10630.900684/201140 Acórdão n.º 1201002.408 S1C2T1 Fl. 5 4 A declaração de voto da ilustre julgadora Maria Lucia Aguilera na decisão de primeira instância, a meu ver, irretocável, cujos trechos trago a colação, contém todos os elementos necessários para se proferir a decisão: (...) A imunidade recíproca tem previsão no art.150, VI, “a”, §§2ºe 3º da Constituição Federal – CF, verbis: Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: (...) VI instituir impostos sobre: a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros; (...) § 2º A vedação do inciso VI, “a”, é extensiva às autarquias e às fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público, no que se refere ao patrimônio, à renda e aos serviços, vinculados a suas finalidades essenciais ou às delas decorrentes. § 3º As vedações do inciso VI, “a”, e do parágrafo anterior não se aplicam ao patrimônio, à renda e aos serviços, relacionados com exploração de atividades econômicas regidas pelas normas aplicáveis a empreendimentos privados, ou em que haja contraprestação ou pagamento de preços ou tarifas pelo usuário, nem exonera o promitente comprador da obrigação de pagar imposto relativamente ao bem imóvel (...) Quanto às pessoas alcançadas pela imunidade recíproca, a própria Constituição Federal – CF expressamente consignou a proteção ao entes que compõem a Federação – União, Estados, Distrito Federal e Municípios, os quais gozam de autonomia uns em relação aos outros, nos termos dos arts. 1ºe 18 da CF. Aos entes políticos, formadores da Federação, a Constituição Federal – CF atribuiu patrimônio e competências executivas, que não podem ser afetados pela tributação. Assim, o patrimônio, os serviços prestados e a renda auferida pelos entes da Federação estão protegidos pela imunidade recíproca. Além dos entes da Federação, a imunidade recíproca alcança as autarquias e fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público (art. 150, §2º da CF). A definição de autarquia se encontra no art. 5º, inciso I, DecretoLei nº 200, de 25 de fevereiro de 1967, in verbis: Fl. 166DF CARF MF Processo nº 10630.900684/201140 Acórdão n.º 1201002.408 S1C2T1 Fl. 6 5 Art. 5º Para os fins desta lei, considerase: I Autarquia o serviço autônomo, criado por lei, com personalidade jurídica, patrimônio e receita próprios, para executar atividades típicas da Administração Pública, que requeiram, para seu melhor funcionamento, gestão administrativa e financeira descentralizada. (...) A característica mais marcante, que determina a natureza jurídica autárquica, é a atividade ser típica da Administração Pública e exercida pela entidade, por atribuição legal. Nos termos do art. 6º da Constituição Federal – CF, com a redação dada pela Emenda Constitucional nº 64, de 2010, a previdência social se inclui entre os direitos sociais. (...) No presente caso, invoca a defesa ser a requerente uma autarquia criada por Lei editada pelo Município de Águas Formosas/MG, para instituir Regime Próprio de Previdência Social, de acordo com os preceitos do art. 40 da CF: Art. 40. Aos servidores titulares de cargos efetivos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, incluídas suas autarquias e fundações, é assegurado regime de previdência de caráter contributivo e solidário, mediante contribuição do respectivo ente público, dos servidores ativos e inativos e dos pensionistas, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial e o disposto neste artigo (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 41, 19.12.2003). Para a implementação deste regime de previdência próprio do funcionalismo público, a competência exclusiva da União, para a instituição da contribuição previdenciária, no caso dos servidores públicos, foi transferida aos Estados, Distrito Federal e Municípios, instituidores do regime previdenciário em favor de seus servidores. É o que dispõe, verbis: Art. 149. Compete exclusivamente à União instituir contribuições sociais, de intervenção no domínio econômico e de interesse das categorias profissionais ou econômicas, como instrumento de sua atuação nas respectivas áreas, observado o disposto nos arts. 146, III, e 150, I e III, e sem prejuízo do previsto no art. 195, § 6º, relativamente às contribuições a que alude o dispositivo. § 1º Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituirão contribuição, cobrada de seus servidores, para Fl. 167DF CARF MF Processo nº 10630.900684/201140 Acórdão n.º 1201002.408 S1C2T1 Fl. 7 6 o custeio, em benefício destes, do regime previdenciário de que trata o art. 40, cuja alíquota não será inferior à da contribuição dos servidores titulares de cargos efetivos da União (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 41, 19.12.2003). De fato, a regulamentação da instituição e funcionamento dos regimes próprios veio a ocorrer somente após dez anos da sua promulgação, com a edição da Lei Federal nº 9.717/98 de 28 de novembro de 1998, seguida da Emenda Constitucional nº 20, de 15 de dezembro de 1998, e da Emenda Constitucional nº 41, de 19 de dezembro de 2003. (...) Por sua vez, art. 40, caput, da CF, assegurou aos servidores públicos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, incluídas suas autarquias e fundações, um regime de previdência próprio, de caráter contributivo e solidário, mediante contribuição do respectivo ente público, dos servidores ativos e inativos e dos pensionistas. Assim, foi criada a possibilidade de o ente público deixar de verter as contribuições previdenciárias ao RGPS e adotar sistema próprio de previdência social para os seus servidores, que em decorrência do chamado pacto federativo, representado pela autonomia política e administrativa de cada ente federativo, a eles foi facultado legislar concorrentemente sobre a organização e funcionamento, princípio aplicado também sobre os seus sistemas de previdência, desde que obedecidos os limites constitucionais e regras gerais. (...) E nos termos do art. 5º da Lei nº 9.717, de 1998, os regimes próprios de previdência social dos servidores públicos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, dos militares dos Estados e do Distrito Federal não poderão conceder benefícios distintos dos previstos no Regime Geral de Previdência Social, de que trata a Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, salvo disposição em contrário da Constituição Federal. Diante desse quadro jurídico, em se tratando de autarquia, instituída por Lei Municipal, para gerir regime de previdência próprio dos servidores públicos municipais, de filiação compulsória, em substituição ao regime geral de previdência social, e por isso de caráter público, e não privado, a imunidade recíproca, prevista no art. 150, VI, “a”, §§2º e 3º da CF, deve se estender aos seus rendimentos de aplicações financeiras, vinculados a suas finalidades essenciais. (...) Fl. 168DF CARF MF Processo nº 10630.900684/201140 Acórdão n.º 1201002.408 S1C2T1 Fl. 8 7 Comprovado o status de autarquia municipal criada, para instituir regime de previdência próprio dos servidores públicos municipais, nos termos do art. 40 da CF e da Lei nº 9.717, de 1998, não há que se falar também em exploração de atividade econômica, porque se trata de entidade dedicada a regime público de previdência, conforme acima já explicado. Com relação à impossibilidade de contraprestação pelo usuário, registrese, por oportuno, que, nos termos do art. 40 da CF, as fontes de “receita” da autarquia são as contribuições do respectivo ente público, dos servidores ativos e inativos e dos pensionistas, vinculadas ao custeio, em benefício destes, do regime previdenciário próprio, o que configura “contribuição”, mas não “contraprestação” do usuário. Apesar de tudo, cumpre aquiescer com o Relator que, no caso dos presentes autos, não é possível deferir os pedidos de restituição, porque o Instituto de Previdência do Município de Águas Formosas/MG – INPREMAF não trouxe aos autos a legislação municipal (leis, decretos e outros instrumentos) comprobatória de que a Requerente é autarquia municipal criada, para instituir regime de previdência próprio dos servidores públicos municipais, nos termos do art. 40 da CF e da Lei nº 9.717, de 1998. Cumpre deixar claro a divergência em relação ao voto proferido pelo Exmo. Relator, no que diz respeito à extensão da prova requerida, para o deferimento do pedidos de restituição. Para esta Relatora, basta a comprovação, mediante prova normativa, de que a entidade é autarquia municipal criada, para instituir regime de previdência próprio dos servidores públicos municipais, nos termos do art. 40 da CF e da Lei nº 9.717, de 1998, para que sejam restituídas as retenções de fonte efetuadas sobre as aplicações financeiras. A prova aqui requerida é de que a Lei Municipal e os atos normativos dela decorrentes, que instituíram e regulamentaram o regime próprio de previdência social dos servidores públicos municipais, observaram os requisitos constitucionais e os previstos na Lei nº 9.717, de 1998. No âmbito do presente processo, descabe imputar à entidade o ônus da prova de regularidade de atuação ou de observância das normas instituidoras do referido regime previdenciário, mediante a apresentação da competente escrituração. O ônus da prova de qualquer desvio de finalidade compete à fiscalização tributária, mediante os procedimentos de suspensão da imunidade, previstos no art. 32 da Lei nº 9.430, de 1996. Para comprovar que se trata de uma autarquia municipal criada para instituir regime de previdência próprio dos Fl. 169DF CARF MF Processo nº 10630.900684/201140 Acórdão n.º 1201002.408 S1C2T1 Fl. 9 8 servidores públicos municipais, nos termos do art. 40 da CF e da Lei nº 9.717, de 1998 a recorrente trouxe aos autos, na fase recursal, a cópia dos atos normativos abaixo relacionados: 1) Lei nº 1.095/2002 dispõe sobre a criação do Regime próprio Previdenciário dos Servidores Públicos do Município de Águas Formosas, cria o instituto de Previdência do Município de Águas Formosas INPREMAF, e regulamenta o Fundo Municipal d Previdência dos Servidores Públicos de Águas Formosas PREVAF, e dá outras providências (doc. de fls. 67/100) e Certidão de Publicação expedida pela Prefeitura Municipal de Águas Formosas (doc. de fls. 101); 2) Lei Complementar nº 1.204, de 23 de abril de 2007 dispõe sobre a reestruturação do Plano de Benefícios do Instituto de Previdência do Município de Águas Formosas INPREMAF e dá outras providências correlatas, visando a adequação às emendas constitucionais 41/2003 e 47/2005 (doc. de fls. 102/147); 3) Lei nº 1.239, de 14 de fevereiro de 2008 altera dispositivos da Lei nº 1.204, de 23 de abril de 2007 que "Dispõe sobre a reestruturação do Plano de Benefícios do Instituto de Previdência do Município de Águas Formosas INPREMAF e dá outras providências correlatas, visando a adequação às emendas constitucionais 41/2003 e 47/2005." (doc. de fls. 148/149); 4) Lei nº 1.240, de 14 de fevereiro de 2008 altera dispositivos da Lei nº 1.204, de 23 de abril de 2007 que "Dispõe sobre a reestruturação do Plano de Benefícios do Instituto de Previdência do Município de Águas Formosas INPREMAF e dá outras providências correlatas, visando a adequação às emendas constitucionais 41/2003 e 47/2005." (doc. de fls. 150/151); 5) Lei nº 1.418, de 27 de maio de 2013 altera dispositivos da Lei nº 1.204, de 23 de abril de 2007 que "Dispõe sobre a reestruturação do Plano de Benefícios do Instituto de Previdência do Município de Águas Formosas INPREMAF e dá outras providências correlatas, visando a adequação às emendas constitucionais 41/2003 e 47/2005", alterada pela Lei nº 1.240/2008. (doc. de fls. 152/153). Também anexou os balancetes resumidos das receitas relativas aos exercícios financeiros de 2003/2004 (doc. de fls. 65/66). Assim, entendo, na esteira da declaração de voto proferido pela eminente relatora, que a recorrente apresentou prova normativa de que a Lei Municipal e os atos normativos dela decorrentes, que instituíram e regulamentaram o regime próprio de previdência social dos servidores públicos municipais, observaram os requisitos constitucionais e os previstos na Lei nº 9.717, de 1998. Ademais, descabe imputar à entidade o ônus da prova de regularidade de atuação ou de observância das normas Fl. 170DF CARF MF Processo nº 10630.900684/201140 Acórdão n.º 1201002.408 S1C2T1 Fl. 10 9 instituidoras do referido regime previdenciário, mediante a apresentação da competente escrituração. O ônus da prova de qualquer desvio de finalidade compete à fiscalização tributária, mediante os procedimentos de suspensão da imunidade, previstos no art. 32 da Lei nº 9.430, de 1996. Diante de todo o exposto, a recorrente faz jus a imunidade recíproca e teria direito a restituição das retenções de fonte efetuadas sobre as suas aplicações financeiras. Assim, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário no sentido de deferir o pedido de restituição." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto acima transcrito. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Fl. 171DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16682.720869/2011-43
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 13 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/10/2007 a 31/12/2007
COMPENSAÇÃO/RESSARCIMENTO DE CRÉDITO/ DEPENDÊNCIA DE AUTUAÇÃO FISCAL JULGADA PROCEDENTE/ VINCULAÇÃO
É de se reconhecer a decisão proferida por Turma do CARF que aplicou a Súmula nº 20 para decidir pela procedência da autuação fiscal que glosou os créditos do IPI nas aquisições de insumos empregados na fabricação de produto NT na TIPI.
Não se homologa compensação, além do limite do crédito em despacho decisório, quando o credito pleiteado revelase indevido após auditoria fiscal em processo formalizado para sua verificação, uma vez que a procedência do auto de infração para cobrança das glosas dos créditos vincula o resultado do processo de declaração de compensação/ressarcimento
Numero da decisão: 3201-004.005
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade em negar provimento ao Recurso Voluntário.
CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA - Presidente.
LAÉRCIO CRUZ ULIANA JUNIOR - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Laercio Cruz Uliana Junior e Charles Mayer de Castro Souza (Presidente)
Nome do relator: LAERCIO CRUZ ULIANA JUNIOR
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/10/2007 a 31/12/2007 COMPENSAÇÃO/RESSARCIMENTO DE CRÉDITO/ DEPENDÊNCIA DE AUTUAÇÃO FISCAL JULGADA PROCEDENTE/ VINCULAÇÃO É de se reconhecer a decisão proferida por Turma do CARF que aplicou a Súmula nº 20 para decidir pela procedência da autuação fiscal que glosou os créditos do IPI nas aquisições de insumos empregados na fabricação de produto NT na TIPI. Não se homologa compensação, além do limite do crédito em despacho decisório, quando o credito pleiteado revelase indevido após auditoria fiscal em processo formalizado para sua verificação, uma vez que a procedência do auto de infração para cobrança das glosas dos créditos vincula o resultado do processo de declaração de compensação/ressarcimento
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Não se homologa compensação, além do limite do crédito em despacho decisório, quando o credito pleiteado revelase indevido após auditoria fiscal em processo formalizado para sua verificação, uma vez que a procedência do auto de infração para cobrança das glosas dos créditos vincula o resultado do processo de declaração de compensação/ressarcimento Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade em negar provimento ao Recurso Voluntário. CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA Presidente. LAÉRCIO CRUZ ULIANA JUNIOR Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 68 2. 72 08 69 /2 01 1- 43 Fl. 6198DF CARF MF 2 Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Laercio Cruz Uliana Junior e Charles Mayer de Castro Souza (Presidente) Relatório Tratase de Recurso Voluntário apresentado pelo Contribuinte em face do acórdão proferido pela DRJ, que assim relatou o feito: Tratase de Despacho Decisório de autoridade da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Maiores Contribuintes – DEMAC/RJO, que não reconheceu direito de crédito relativo ao 4º trimestre de 2007, pleiteado com fundamento no art. 11 da Lei 9.779, de 1999, através do Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou Restituição e Declaração de Compensação (PER/DCOMP) nº 11683.33316.280510.1.5.013375, transmitido em 28/05/2010, no valor de RS 2.495.930,16 e não homologou as compensações vinculadas. De acordo com o Termo de Verificação Fiscal, que integra o Despacho Decisório, foi realizada auditoria para análise conjunta de PER/DCOMP relativos a créditos do 3º trimestre de 2007 ao 1º trimestre de 2008, protocolizados pela Companhia Brasileira de Petróleo Ipiranga – CBPI – tendo por objeto créditos apurados pela filial inscrita no CNPJ sob nº 33.069.766/000343, a qual, com a incorporação pela empresa IPIRANGA PRODUTOS DE PETRÓLEO S/A –IPP, foi sucedida pela filial da IPP inscrita no CNPJ sob n° 33.337.122/014187. No curso da auditoria foram detectadas dois tipos de infrações, a saber: erro na classificação fiscal de produtos, resultando em falta de lançamento de imposto e aproveitamento de crédito básico indevido. O motivo da glosa de créditos foi em síntese, o fato de decorrerem de aquisições de matériaprima (MP), produto intermediário (PI) e material de embalagem (ME) empregados em “óleos lubrificantes”, produtos nãotributados (“NT”) na Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados aprovada pelo Decreto n° 6.006/2006 – TIPI/2007, o que não foi aceito, conforme fundamentação exposta no citado TVF. Também foram glosados créditos extemporâneos cujo aproveitamento não observou a legislação de regência. A reconstituição da escrita resultou na apuração de saldos devedores em todos os períodos de apuração relativos aos pedidos analisados, indicando a falta de liquidez e certeza do crédito pleiteado, o que levou ao seu indeferimento, dada a inexistência de saldo credor a ressarcir. Também foi lavrado auto de infração objeto do processo administrativo 16682.720900/201227. Irresignado, o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade tempestiva, assinada por procuradores habilitados, na qual alega, em síntese: que industrializa e comercializa óleos lubrificantes, os quais são derivados de petróleo, imunes por força do art. 155, §3º, da Fl. 6199DF CARF MF Processo nº 16682.720869/201143 Acórdão n.º 3201004.005 S3C2T1 Fl. 615 3 Constituição Federal de 1988 e que lançou os créditos decorrentes de insumos neles empregados com base em resposta favorável obtida através na Solução de Consulta SRRF/7ª RF/DISIT 248/2000; a definição dos referidos óleos como derivados de petróleo teria fundamento no art. 6o, inciso III, da Lei n°. 9.478/1997 Lei do Petróleo bem como nas definições da Portaria n° 17/2009 da Agência Nacional do Petróleo ANP, órgão regulador das atividades que integram a indústria do petróleo e gás natural e a dos biocombustíveis no Brasil e que o autuante estaria equivocado ao insistir que seriam derivados de petróleo apenas as Fl. 6026 RS PORTO ALEGRE DRJ Processo 16682.720869/2011 43 Acórdão n.º 1053.394 DRJ/POA Fls. 3 3 substâncias que decorrem do refino; ou seja, da operação física ou química diretamente realizada sobre o petróleo para a sua decomposição; a TIPI/2007 não faz distinção entre os óleos lubrificantes obtidos imediatamente após o refino (sem aditivos) ou em etapas subsequentes (com aditivos), sendo todos classificados no item 2710.1 e que os óleos lubrificantes produzidos são compostos por mais de 70% de óleos de petróleo, conforme documentação que anexa; não teria sido intimada da revogação da Solução de Consulta SRRF/7ª RF/ DISIT nº. 248/2000, e que a mudança repentina e injustificada do entendimento fazendário teria violado a segurança jurídica; questiona a possibilidade de um ato infralegal, como o ADI nº 05/2006 sobreporse ao Decreto n° 4.544/ 2002 – Regulamento do IPI, norma hierarquicamente superior; a vedação ao aproveitamento de créditos em relação às aquisições de insumos aplicados em produtos NT seria cabível apenas nos casos de não incidência em sentido estrito, onde não há processo de industrialização; é questionável a aplicação da Súmula 20 do CARF, pois nenhum de seus precedentes decorreria de hipóteses de imunidade ou isenção, mas tão somente de não incidência em sentido estrito, sendo que nem mesmo as súmulas vinculantes, aprovadas pelo Supremo Tribunal Federal, poderiam ser aplicadas a situações distintas de seus precedentes; relaciona decisões favoráveis proferidas pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Juiz de Fora, reconhecendo a imunidade de seus produtos e manutenção dos efeitos da antes citada Solução de Consulta. Finalizando solicita a reforma do Despacho Decisório e a homologação da compensação vinculada. (...) Seguindo a marcha processual normal, irresignado com a r. decisão, o Contribuinte apresentou Recurso Voluntário, querendo reforma, sob a seguinte argumentação: Fl. 6200DF CARF MF 4 · Preliminarmente – inexistência de decadência parcial; cerceamento de defesa; · Mérito: possibilidade de usufruir os créditos; não poderia existir interpretação restritiva pelas Autoridades Fazendárias; inaplicabilidade da súmula 20/CARF; aplicação da NT aos produtos Recorrentes; aplicabilidade de consulta fiscal – SRRF/ 7ª. RF/DIST, no. 248/00; aplicação da decisão TRF 1ª. Região – 000632620.2014.4.01.0000/DF; É o relatório. Voto Conselheiro Relator Laércio Cruz Uliana Junior O Recurso Voluntário é tempestivo e merece ser conhecido. Em relação ao pedido preliminar para que se oportunize a ampla defesa, não merece prosperar tal pleito, uma vez, que foi oportunizado a ampla, ao mais, não foi demonstrado qual prejuízo sofreu ou qual produção de prova foi cerceada. Já em razão da decadência faço analise com o mérito, pois, o resultado é dependente da conclusão do Julgado. O Recorrente busca a compensação de crédito por meio de PER/DCOMP relativo ao IPI nas aquisições de insumo na fabricação de produtos NT na TIPI. Contudo, é de ressaltar que tal matéria já teve o assunto enfrentado por essa Turma com Relatoria do Conselheiro Paulo Roberto Moreira, vejamos: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuracã̧o: 01/07/2009 a 31/07/2009 COMPENSAÇÃO/RESSARCIMENTO DE CRÉDITO. DEPENDÊNCIA DE AUTUAÇÃO FISCAL JULGADA PROCEDENTE. VINCULAÇAÕ. É de se reconhecer a decisão proferida por Turma do CARF que aplicou a Súmula no 20 para decidir pela procedência da autuação fiscal que glosou os créditos do IPI nas aquisicõ̧es de insumos empregados na fabricação de produto NT na TIPI. Não se homologa compensação, além do limite do crédito reconhecido em despacho decisório, quando o credito pleiteado revelase indevido após auditoria fiscal em Fl. 6201DF CARF MF Processo nº 16682.720869/201143 Acórdão n.º 3201004.005 S3C2T1 Fl. 616 5 processo formalizado para sua verificação, uma vez que a procedência do auto de infração para cobrança das glosas dos créditos vincula o resultado do processo de declaração de compensacã̧o/ressarcimento. Recurso Voluntário Negado Direito crédito não reconhecido (J.25/04/17) Ainda em recentes julgados neste Conselho adotou o mesmo o mesmo posicionamento, vejamos: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/10/2002 a 31/12/2002 NORMAS PROCESSUAIS. OBSERVÂNCIA DE SÚMULA. Nos termos do art. 72 do Regimento Interno do CARF, é obrigatória a observância pelos Conselheiros membros deste Órgão das Súmulas aprovadas pelo seu Pleno bem como daquelas baixadas pelos antigos Conselhos de Contribuintes. IPI. CREDITAMENTO. PRODUTOS NT. IMPOSSIBILIDADE, SÚMULAS 13 DO SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES E 20 DO CARF. Nos termos da Súmula nº 13 do antigo Segundo Conselho de Contribuintes ratificada pelo Pleno do CARF como Súmula nº 20: “Não há direito aos créditos de IPI em relação às aquisições de insumos aplicados na fabricação de produtos classificados na TIPI como NT”. Acórdão: 9303006.520 Número do Processo: 13710.000165/200378 Data de Publicação: 23/05/2018 Andrada Márcio Canuto Natal – Redator designado Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/01/1999 a 30/06/2003 DECADÊNCIA DO DIREITO DO FISCO. IPI. PRESUNÇÃO DE PAGAMENTO ANTECIPADO. A presunção de pagamento antecipado prevista no art. 124, parágrafo único, III, do RIPI/2002, somente opera em Fl. 6202DF CARF MF 6 relação a créditos admitidos pelo regulamento. Sendo ilegítimos os créditos glosados e tendo os saldos credores da escrita fiscal dado lugar a saldos devedores que não foram objeto de pagamento antes do exame efetuado pela autoridade administrativa, o prazo de decadência deve ser contato pela regra do art. 173, I, do CTN. IPI. CRÉDITOS BÁSICOS. FALTA DE LEGITIMIDADE. AQUISIÇÃO DE INSUMOS PARA INDUSTRIALIZAÇÃO DE PRODUTOS COM SAÍDA NÃO TRIBUTADA. Súmula CARF nº 20: Não há direito aos créditos de IPI em relação às aquisições de insumos aplicados na fabricação de produtos classificados na TIPI como NT. IPI. SUSPENSÃO. CONDIÇÃO. Somente se faz autorizada a saída de produtos do estabelecimento industrial com a suspensão do IPI quando observadas as disposições normativas estabelecidas para a espécie, cuja inobservância implica a exigência do tributo devido na operação. Recurso negado. Número do Processo: 10882.002150/200627 Data de Publicação: 02/04/2018 Contribuinte: IPIRANGA PRODUTOS DE PETROLEO S.A. Relator(a): JORGE OLMIRO LOCK FREIRE Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/01/2007 a 31/03/2008 PRODUTO NÃO TRIBUTADO (“NT”). APROPRIAÇÃO DE CRÉDITO DO IPI. IMPOSSIBILIDADE. Não há direito aos créditos de IPI em relação às aquisições de insumos aplicados na fabricação de produtos classificados na TIPI como NT (Súmula CARF nº 20). Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/01/2007 a 31/03/2008 DECADÊNCIA DO DIREITO DE LANÇAR. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. TERMO INICIAL DO PRAZO DE DECADÊNCIA. APLICAÇÃO DA REGRA DO ART. 173, I, DO CTN. OBRIGATORIEDADE. Nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado, o dies a quo do prazo quinquenal de decadência regese pelo disposto no art. 173, I, do CTN, sendo certo que o “primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado” corresponde, inequivocamente, ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato gerador, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, a exemplo do IPI (Adoção da jurisprudência do STJ, por Fl. 6203DF CARF MF Processo nº 16682.720869/201143 Acórdão n.º 3201004.005 S3C2T1 Fl. 617 7 força do disposto no art. 62, § 2º, do Anexo II do RICARF/2015) GLOSA DE CRÉDITOS DO IPI. INEXISTÊNCIA DE PRAZO DECADENCIAL. APLICAÇÃO DOS ARTIGOS 150, § 4º, E 173 DO CTN. Os prazos decadenciais previstos nos artigos 150, §4º e 173 do CTN aplicamse somente ao direito de constituir o crédito tributário e não ao direito de glosar o crédito do IPI escriturado, para o qual não existe determinação legal a respeito da matéria. Recurso Voluntário Negado. Número do Processo: 16682.720900/201227 Data de Publicação: 15/03/2018 Contribuinte: IPIRANGA PRODUTOS DE PETROLEO S.A. Relator(a): JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO Diante desse fato, ̧ reconhecese o acerto do procedimento da fiscalizaçaõ que apontou o aproveitamento indevido de créditos informado na PER/DCOMP, objeto de compensação neste processo , além da falta de recolhimento do IPI devido conforme restou decidido. Assim, no curso da auditoria fiscal promovida em decorren̂cia da compensação declarada, foram os créditos glosados, pois que se revelaram indevidos após a reconstituiçaõ da escrita fiscal. Correta a decisão da DRJ/Porto Alegre, pois o crédito levado à compensação e submetido a julgamento naquela instância naõ gozava dos requisitos de liquidez e certeza necessária à homologação da compensação, nos termos do art. 170 do CTN. Ademais, no presente caso não se vislumbra fatos necessários para o afastamento da Súmula 20 do CARF, devendo ser aplicada ao caso conforme ementada: Súmula CARF nº 20: Não há direito aos créditos de IPI em relação às aquisições de insumos aplicados na fabricação de produtos classificados na TIPI como NT. Ademais a mais, deve ser afastada a prescrição, uma vez, da transmissão da PER/DCOMP ao despacho decisório, e da ciência do, com isso não decorrendo os 5 (cinco) anos para reconhecimento da homologação tácita (prescrição) nos termos doa art. 74, §5º da Lei 9430/96. Com isso, o voto é no sentido de conhecer do Recurso, e negar provimento. Relator Laércio Cruz Uliana Junior Relator (assinado digitalmente) Fl. 6204DF CARF MF 8 Fl. 6205DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16095.720341/2011-94
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 30 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009
OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE.
Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiar-se dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para a COFINS.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009
OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE.
Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiar-se dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para o PIS.
Recurso Voluntário Negado
Crédito Tributário Mantido
Numero da decisão: 3402-005.580
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Renato Vieira de Avila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos que davam provimento. O Conselheiro Diego Diniz Ribeiro apresentou declaração de voto, lida em sessão. O Conselheiro Renato Vieira de Avila (suplente convocado) votou pelas conclusões da divergência.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Pedro Sousa Bispo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (presidente da turma), Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Diego Diniz Ribeiro, Cynthia Elena de Campos, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado), Pedro Sousa Bispo e Rodrigo Mineiro Fernandes.
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO
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camara_s : Quarta Câmara
ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiar-se dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para a COFINS. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiar-se dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para o PIS. Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Renato Vieira de Avila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos que davam provimento. O Conselheiro Diego Diniz Ribeiro apresentou declaração de voto, lida em sessão. O Conselheiro Renato Vieira de Avila (suplente convocado) votou pelas conclusões da divergência. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra - Presidente. (assinado digitalmente) Pedro Sousa Bispo - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (presidente da turma), Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Diego Diniz Ribeiro, Cynthia Elena de Campos, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado), Pedro Sousa Bispo e Rodrigo Mineiro Fernandes.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiarse dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para a COFINS. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiarse dos créditos por AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 09 5. 72 03 41 /2 01 1- 94 Fl. 1601DF CARF MF 2 ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para o PIS. Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Renato Vieira de Avila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos que davam provimento. O Conselheiro Diego Diniz Ribeiro apresentou declaração de voto, lida em sessão. O Conselheiro Renato Vieira de Avila (suplente convocado) votou pelas conclusões da divergência. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Pedro Sousa Bispo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (presidente da turma), Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Diego Diniz Ribeiro, Cynthia Elena de Campos, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado), Pedro Sousa Bispo e Rodrigo Mineiro Fernandes. Relatório Por bem relatar os fatos, adoto o relatório do acórdão recorrido com os devidos acréscimos: Neste processo está se discutindo a glosa de créditos em todos os meses do ano 2009 das contribuições da Cofins e do PIS (fls. 855 a 856 1º trimestre; 858 a 860 2º trimestre; 862 a 864 3º trimestre; e 867 a 868 4º trimestre ), que geram por consequência, após sua recomposição e apuração, débitos das citadas contribuições em alguns meses do ano 2009 (fl. 814 e 822), sendo necessária a lavratura de Autos de Infração para constituição de crédito tributário (Cofins fls. 821 a 830, e PIS fls. 813 a 820), conforme Termo de Verificação e Constatação de Irregularidades Fiscais (TCIF, fls. 832 a 854) e planilhas anexas (fls. 855 a 871, em formato PDF), cuja ciência ocorreu em 02/01/2012 (fl. 873). Glosas essas relacionadas essencialmente pela não consideração da aquisição do ouro ativo financeiro / instrumento cambial como gerador de créditos da não cumulatividade, adquirido de Sociedades Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs), apenas uma pequena parte de se refere a bens do ativo imobilizado (parte essa não impugnada). Abaixo os valores envolvidos no lançamento, das respectivas contribuições, bem como descrição da infração: Fl. 1602DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.602 3 No TCIF a autoridade fiscal assim relatou, parcialmente, o presente lançamento (com destaques nossos): [...] 4DO CREDITAMENTO IRREGULAR NA COMPRA DE OURO Com relação à conferência dos valores utilizados para compor a base de cálculo dos créditos das contribuições, percebeuse que o Contribuinte utilizou em sua composição, na linha "Bens Utilizados como Insumos" de todos os meses do período verificado, valores correspondentes a aquisições de ouro adquirido de empresas distribuidoras de títulos e valores mobiliários (DTVMs). A inclusão deste tipo de operação na base de cálculo dos créditos mereceu uma análise mais detalhada. Por isto o Contribuinte foi intimado, como dito, em 29 de novembro de 2011 a apresentar os documentos que ampararam tais transações, de forma a esclarecer o seu efetivo direito ao crédito. De acordo com os elementos apresentados em resposta à intimação, bem como em pesquisas efetuadas junto ao Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), pôdese concluir que o Contribuinte adquiriu, através das operações relacionadas em Fl. 1603DF CARF MF 4 anexo (RELAÇÃO DE GLOSA DE CRÉDITOS DE PIS/COFINS APROPRIADOS SOBRE AQUISIÇÕES DE OURO FINANCEIRO, por trimestre), ouro de instituições financeiras, mais especificamente, distribuidoras de títulos e valores mobiliários(DTVMs), que têm autorização do Banco Central do Brasil para praticar operações de compra e venda de no mercado físico de ouro, por conta própria ou de terceiro. Vale observar que o ouro pode ser classificado como ativo financeiro ou como mercadoria, dependendo de sua destinação. Considerase ativo financeiro quando destinado ao mercado financeiro, ou à execução da política cambial do País, em operações realizadas com a interveniência de instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional (art. 1º, Lei n° 7.766, de 11/05/89). Em relação ao caso em questão, não restam dúvidas de que as Sociedades Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM) são instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional, autorizadas pelo Banco Central a realizar operações financeiras. Nesse mesmo sentido, ou seja, que o ouro adquirido é ouro financeiro, observamos que sua aquisição sempre esteve acompanhada da Nota Fiscal de Remessa de Ouro, e de Nota fiscal de Nota Fiscal de Negociação do Ouro, documentos instituídos pela Instrução Normativa SRF N° 49/2001, e de emissão exclusiva em operações com o ouro, quando definido como ativo financeiro ou instrumento cambial: [...] Diante das características descritas, concluise que as operações de aquisição de ouro de DTVMs são tipicamente operações financeiras, não podendo ser confundidas com aquisições ordinárias de matériaprima, mesmo considerando que o comprador assim as classifique em seus registros contábeis e fiscais, e que as utilize de fato em seu processo produtivo. Mesmo que o propósito do comprador, no momento da realização da operação, seja a utilização do ouro como matéria prima, a operação em si, considerada as partes intervenientes, e principalmente as regras de controle do Sistema Financeiro Nacional, é tipicamente de natureza financeira. Vale dizer que diante do fato do fornecedor de ouro ser instituição financeira, e das características dos documentos fiscais emitidos na operação, o Contribuinte não pode deixar de admitir que tenha praticado uma operação tipificada financeira, independentemente do "animus" em relação à utilização do produto adquirido. A importância da caracterização das aquisições de ouro como financeira está ligada à análise da tributação nessas operações pelo PIS e pela COFINS (Contribuições). As operações envolvendo o ouro ativo financeiro não sofrem a incidência dessas Contribuições, uma vez que não são definidas como seu fato gerador, pela legislação. Fl. 1604DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.603 5 O ouro, quando definido pela lei como ativo financeiro, tem um tratamento muito específico, que se inicia com o disposto no § 5º, do artigo 153, da nossa Constituição: [...] A Lei 7. 766/89 define o conceito de ouro financeiro, logo em seu artigo 1º: [...] O dispositivo presente no artigo acima prevê a dimensão e a abrangência do conceito de ouro financeiro, e permite a criação de toda uma cadeia, desde a etapa da mineração até as mais sofisticadas negociações financeiras envolvendo o metal. Por força do também citado § 5º , do artigo 153, da Constituição Federal, esta cadeia fica totalmente franqueada da incidência de outros tributos que não sejam o IOF, sendo esta incidência prevista para uma única etapa da cadeia, a compra do ativo por qualquer instituição financeira autorizada pelo Banco Central do Brasil, o que também é corroborado pelos artigo 4º e 8º da Lei 7.766/89: [...] Destaquese que a operação praticada pelo Contribuinte, onde adquiriu ouro de Instituição Financeira, subsumese integralmente ao disposto no § 2º , do artigo 1º, da Lei 7.766/89, onde é definido que operações de compra do metal no mercado de balcão são operações financeiras. A tributação das atividades financeiras pela Contribuição para o PIS e pela COFINS incide sobre suas receitas, assim consideradas conforme a definição do Plano de Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional (COSIF). Uma característica da atividade financeira, que é refletida no COSIF, é a de reconhecer como receita o produto da intermediação financeira, que, na essência, é o objeto social dessas instituições. Assim, nos casos em que estas instituições transacionam com valores mobiliários, ou quaisquer outros ativos financeiros, é pacífico que o valor registrado a título de receita é o ganho ou a renda auferida na transação, seja ela de compra ou venda do ativo. O valor do ativo transacionado não compõe o conceito da receita das instituições financeiras, como ocorre na empresa comercial, ou industrial. Diante disto, quando os artigos 1º e 2º , da Lei 9.718/98, definem a incidência do COFINS sobre a Receita Bruta da Pessoa Jurídica, o intérprete deve entender, no caso de uma instituição financeira, que esta incidência se dá sobre o valor da receita auferida (fato gerador), tomando esta conforme as normas de contabilidade bancária assim a definem, e não sobre o valor da transação realizada. A propósito, esta transação, estritamente considerada, pode nem resultar em receita, uma vez que pode haver perda na alienação de qualquer ativo. Fl. 1605DF CARF MF 6 Dito isto, não pode ser aceita a argumentação no sentido de que a operação de venda de ouro financeiro por Instituição Financeira seria uma operação sujeita ao pagamento das Contribuições. E isto se opera pelo simples fato de que esta operação (a alienação de ativo financeiro) não é enquadrada no conceito de receita, pelo COSIF. Desta forma, considerando esta não incidência das Contribuições na operação de venda de ouro financeiro, as operações de aquisição do metal de DTVMs enquadramse nos dispositivos previstos pelo § 2º, inciso II, do artigo 3º, das Leis 10.637/2002, e 10.833/2003: [...] É oportuno lembrar que a forma de tributação pelo PIS e pela COFINS das Instituições Financeiras é disciplinada pelo artigo 95, da Instrução Normativa SRF N° 247/2002. Basicamente, este dispositivo prevê que a base de cálculo mensal das Contribuições das Instituições Financeiras seja apurada com o apoio da planilha prevista no anexo I da Instrução Normativa, onde as receitas das instituições financeiras, ao final de cada mês, seguindo a planificação contábil do Sistema Financeiro Nacional (COSIF), são enumeradas. Entre estas receitas, podemos encontrar a denominada "Rendas de Aplicações em Ouro",código 7.1.5.70.002 . Segundo as instruções do Banco Central do Brasil, a função desta conta é registrar os ajustes positivos nas aplicações temporárias em ouro, que constituam receita efetiva da instituição no período. A tributação dessa receita não se confunde de maneira nenhuma com a tributação da transmissão da propriedade do ativo financeiro. O fato de um eventual rendimento auferido na alienação do ouro financeiro (eventual porque pode ser que haja perdas neste tipo de operação, também) não significa que toda a operação de alienação do ativo tenha sido submetida à tributação. É fundamental perceber que o conceito técnico contábil de Receita não envolve o valor da movimentação do ativo financeiro. Prova disso é que não encontramos no Plano de Contas das Instituições do Sistema Financeiro, dentre as receitas operacionais, qualquer item que pudesse representar o valor total da alienação de um ativo, como "receita da venda de ouro", ou receita da "venda de ações", ou ainda "receita da venda de recebíveis". O próprio conceito de receita, nas Instituições Financeiras, restringese ao valor do rendimento na operação, o que não inclui o valor do ativo negociado. Por ocasião da resposta ao Termo de Intimação de 29 de novembro de 2011, o Contribuinte cita em socorro de sua tese (legitimidade da utilização das aquisições de ouro financeiro na base de cálculo de seus créditos das Contribuições) o artigo 22, da Instrução Normativa SRF N° 247/2002, extraindo dele que "as Instituições Financeiras estão sujeitas ao pagamento do PIS e COFINS por ocasião da alienação dos ativos financeiros". Na Fl. 1606DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.604 7 verdade, o que de fato está disposto neste artigo é que as receitas auferidas (receitas assim consideradas de acordo com o COSIF) pela Instituição Financeira, produzidas em decorrência de avaliações de seus títulos e valores mobiliários a preço de mercado, somente participarão da composição da base de cálculo a partir do momento da alienação do ativo. Ou seja, o dispositivo não se preocupa alterar a definição do fato gerador ou da base de cálculo, mas sim em definir o aspecto temporal da incidência. Também em sua defesa o Contribuinte comenta que no caso do PIS e COFINS, os contribuintes podem descontar créditos sobre os custos incorridos em valor superior ao pago na etapa anterior da cadeia, reforçandose com a citação de reposta de Consulta Tributária. Este comentário, porém, não atinge o centro da questão que aqui se discute. Não se trata de considerar que houve incidência na operação anterior, com um recolhimento inferior de Contribuições, como acontece, por exemplo, no caso de aquisições de mercadorias de empresa que apura as Contribuições no regime cumulativo. Tratase, sim, de considerar que não houve incidência na operação anterior, uma vez que, como já exaustivamente demonstrado, o valor da alienação de um ativo financeiro ou valor mobiliário não se confunde com a receita financeira eventualmente auferida. O conceito de base de cálculo é em regra elemento indissociável do conceito de fato gerador. A base de cálculo, salvo nos casos expressamente previstos em lei, é nada mais nada menos do que a expressão quantitativa do fato gerador. Se o fato gerador das Contribuições é auferir receita bruta, a base de cálculo é o valor da receita auferida! Assim, se o fato gerador, no caso de movimentação de ouro financeiro é o fato da instituição auferir receita financeira, a expressão econômica desta operação é o valor desta receita financeira, e não o valor desta receita somado ao valor do ativo financeiro. Diferentemente, numa operação comercial, o fato gerador é auferir a receita da venda das mercadorias. Assim a base de cálculo das Contribuições neste caso é a receita da venda das mercadorias, e não o lucro bruto apurado na operação. Pelo exposto, concluise que a empresa não poderia ter utilizado os valores provenientes da aquisição de ouro financeiro para compor a base de cálculo de seus créditos. E não haveria nenhum sentido que diferente fosse. Como visto, toda a cadeia do ouro financeiro é livre da incidência do PIS e da COFINS. Desde a saída de empresa mineradora, as Contribuições não incidem, ou por força da não incidência Constitucional (art. 153, § 5º), ou pela incidência da alíquota zero, prevista no artigo 1º , do Decreto 5.442/2005: Fl. 1607DF CARF MF 8 Art. lº Ficam reduzidas a zero as alíquotas da Contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS incidentes sobre as receitas financeiras, inclusive decorrentes de operações realizadas para fins de hedge, auferidas pelas pessoas jurídicas sujeitas ao regime de incidência nãocumulativa das referidas contribuições. Notese que o assunto "ouro como ativo financeiro ou mercadoria" já foi amplamente abordado pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional em seu Parecer PGFN/CRJ n° 0957, de 22/07/1999 publicado no DOU de 10/08/1999, Seção I, p 1, cujo texto, em parte, está transcrito a seguir: "A Constituição pretérita estabelecia que o ouro estava sujeito ao imposto único sobre minerais IUM, nas operações realizadas com o ouro antes da industrialização. Com a industrialização, o ouro se submetia ao IPI e ao ICM: a operação de industrialização, ou a produção de mercancia, tendo por base o ouro industrializado, o ICM. A Constituição de 1988 inovou: não há imposto único sobre minerais. Em estado natural, ou industrializado, o ouro está sujeito, nas operações mercantis, ao ICMS. Todavia, se utilizado com ativo financeiro, estará o ouro sujeito ao IOF. (C.F., art. 153, § 5º; art. 155, § 2°, X, c) . Desaparecida essa condição utilização como ativo financeiro submeterseá ao ICMS, nas operações mercantis. (José Alfredo Borges, "As e o regime Jurídico Receita do ICMS ao Ver. Jurídica da da Fazenda Estadual operações com Ouro da Repartição da Município", in ProcuradoriaGeral Minas Geral", 13/9) Com propriedade, pois, escreveu o então Juiz Ari Pargendler, no voto que embasa o acórdão recorrido, que "a destinação do ouro o identifica como mercadoria ou como mercadoria ou como ativo financeiro. A entrada do ouro no mercado financeiro e sua permanência nele lhe assegura esse regime vantajoso: o de ser tributado uma só vez (monofasicamente) e de modo exclusivo (unicamente) pelo Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro Relativo a Títulos e Valores Mobiliários". Se não há incidência, em nenhuma dessas etapas foi recolhido qualquer valor a título de Contribuições. Sendo assim, não há qualquer valor de Contribuição acumulado na cadeia de comercialização que justifique crédito por parte de quem adquiriu este ouro financeiro e o desviou para a utilização como matéria prima em seu processo industrial. Mesmo que consideremos os valores recolhidos no fornecimento de insumo à pessoa jurídica mineradora de ouro, esses valores seriam passíveis de aproveitamento ou ressarcimento a essa empresa, por força do disposto no artigo 27, inciso II, da Fl. 1608DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.605 9 Instrução Normativa SRF N° 900/2008, ficando assim garantido o direito de que esta cadeia seja expurgada de qualquer incidência das contribuições. Assim, se admitido o crédito na aquisição de ouro financeiro, a adquirente ficaria em uma posição econômica imensamente favorecida em relação à empresa que trabalhasse com o ouro mercadoria, pois este produto certamente lhe custaria mais caro, uma vez que viria "carregado" pela incidência das Contribuições nas etapas precedentes do processo de produção. O princípio da nãocumulatividade tem por finalidade precípua a garantia de que o tributo pago nas etapas anteriores de uma cadeia de produção e/ou comercialização não incida em cascata nas operações subsequentes. O mecanismo do crédito é a forma pelo qual o princípio da nãocumulatividade se faz eficaz. Assim o direito ao crédito só se justifica quando há incidência de contribuição em etapas antecedentes de uma cadeia de produção/comercialização. Se esta incidência não existe, o crédito não faz o menor sentido. A não ser que haja um claro propósito do legislador no sentido de incentivar uma determinada atividade. Porém, mesmo neste último caso, o benefício deve ser expressamente previsto na lei. Se não bastasse o todo exposto, foi observado durante a auditoria fiscal que o Contribuinte destina vendas com o código fiscal de operação e prestação (CFOP) 6109, que se trata de venda de produção do estabelecimento destinada a Zona Franca de Manaus ou Áreas de Livre Comércio. Por se tratar de venda para a Zona Franca de Manaus, essas saídas são tributadas à alíquota zero de PIS/COFINS. Nesta operação, destacase como cliente a empresa COIMPA INDUSTRIAL LTDA, CNPJ 04.222.428/000130, a qual a empresa objeto da presente ação fiscal detém um percentual de 99,97% do capital (conforme consta da base de dados da RFB). Em alguns casos a venda realizada tratase de apenas, e somente, ouro em lingotes, ou seja, o mesmo ouro adquirido nas DTVM's. Estamos, assim, presenciando a seguinte situação. O Contribuinte adquire o ouro financeiro sem a tributação do PIS/COFINS. Revende o mesmo ouro para um empresa em que, claramente, detém o controle acionário, mas tributado à alíquota zero de PIS/COFINS. E, por fim, pleiteia o crédito que em nenhum momento foi recolhido ao Erário. Ao analisar situação semelhante àquela que nos é aqui apresentada, a Delegacia de Julgamento da Receita Federal em Porto Alegre decidiu em consonância com o raciocínio aqui desenvolvido, embora naquele caso, a empresa recorrente teria se utilizado de valores de aquisição de ouro financeiro na composição da base de cálculo do crédito presumido de IPI, que visaria justamente o ressarcimento de valores que teriam Fl. 1609DF CARF MF 10 incididos a título de PIS e de COFINS na cadeia de produtiva de produtos exportados. [...] 5DO CREDITAMENTO IRREGULAR NA COMPRA DE BENS PARA O ATIVO IMOBILIZADO [...] 6 DAS GLOSAS EFETUADAS E SUAS CONSEQUÊNCIAS Diante de todo o exposto, consideramos que não cabe o crédito das Contribuições efetuadas na aquisição de ouro, quando adquirido de empresas Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários; e não cabe, também, o aproveitamento integral do crédito das Contribuições relativo as compras de bens para o ativo imobilizado. Consequentemente procedemos às glosas dos referidos créditos e cujas planilhas (por trimestre) "RELAÇÃO DE GLOSA DE CRÉDITOS DE PIS/COFINS APROPRIADOS SOBRE AQUISIÇÕES DE OURO FINANCEIRO"; "RELAÇÃO DE GLOSA DE CRÉDITOS DE PIS/COFINS APROPRIADOS SOBRE AQUISIÇÕES DE BENS PARA ATIVO IMOBILIZADO"; e "RESUMO DOS CRÉDITOS PIS/COFINS"; fazem parte do presente Termo de Constatação e Verificação de Irregularidades Fiscais. Nos meses onde os créditos reconhecidos não foram suficientes para fazer "re te aos débitos do mês, as diferenças entre esses valores foram constituídas através de Autos de Infração dos quais o presente Termo de Verificação e Constatação de Irregularidades Fiscais é parte integrante. Nas "Relação de glosa de créditos de PIS/COFINS apropriados sobre aquisições de ouro financeiro" de cada um dos trimestres e na "Relação de glosa de créditos de PIS/COFINS apropriados sobre aquisições de bens para ativo imobilizado" de cada um dos trimestres, constam as glosas individualizadamente, e no demonstrativo "Resumo dos créditos PIS/COFINS" dos 1º ao 4º trimestre de 2009 do TCIF a autoridade fiscal relacionou, mês a mês, os valores dos créditos da Cofins e do PIS glosados (com base nos valores das notas fiscais, conforme, fl. 672 a 676). Demonstrou em resumo os valores no TCIF que tais glosas (linhas "Glosa") refletiram nos PerDcomps apresentados, conforme "Resumo dos créditos PIS/COFINS" dos 1º ao 4º trimestre de 2009 para o PIS e para a Cofins, linhas "Saldo de crédito passível de ressarcimento" ou que geraram débitos a lançar, conforme linha "Valor a ser constituído via Auto de Infração". Por sua vez o contribuinte apresentou sua impugnação (fls. 877 a 912), em 26/01/2012, com extensos arrazoados nos seguintes tópicos: l. Dos fatos; 2. Do direito; 2.1. Da tempestividade; 2.2. Da tributação do ouro autorizada pela Constituição Federal; 2.3. Da classificação do ouro: relevância da destinação dada ao bem; 2.4. Do direito ao desconto de créditos de PIS e de COFINS nas aquisições de ouro ativo financeiro como insumo; 2.5. Da nãocumulatividade do PIS e da COFINS e da irrelevância do regime de tributação a que esteja submetido o fornecedor dos bens. 2.6 Das operações com a Zona Franca de Manaus. 3. Do pedido. A seguir parte dos argumentos trazidos: [...] A Impugnante é sociedade empresária que se dedica à industrialização comercialização, importação e exportação de produtos manufaturados e semimanufaturados, especialmente de Fl. 1610DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.606 11 metais preciosos e outros metais, prezando sempre pelo fiel cumprimento de suas obrigações. Por força de suas atividades operacionais, a Impugnante regularmente acumula créditos de PIS e COFINS decorrentes da sistemática nãocumulativa dessas contribuições, prevista nas Leis nºs 10.637/02 e 10.833/03. [...] Após análise de toda documentação contábil e fiscal da Impugnante, a Receita Federal do Brasil (RFB) houve por bem glosar parte do crédito pleiteado, especificamente no que tange aos valores oriundos de aquisições de ouro de Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários DTVMs. [...] Por consequência, a presente impugnação tem por escopo somente a defesa da glosa do crédito relacionado à aquisição de ouro das DTVMs. [...] A glosa dos créditos de PIS e de COFINS, derivados da aquisição de ouro ativo financeiro, de acordo com o descrito no TVCIF pela D. Autoridade de Fiscalização, teria se verificado, em síntese, em face do seguinte: [...] Ocorre que, entretanto, que referido entendimento não pode prosperar, uma vez que o crédito glosado é legítimo, eis que: 1. A alienação do ouro, ativo financeiro ou não, em todas as etapas de sua cadeia, sujeitase ao pagamento da contribuição ao PIS e da COFINS: 2. O ouro ativo financeiro, se e enquanto de propriedade de instituições financeiras, sujeitase à contribuição do PIS e à COFINS; 3. O ouro ativo financeiro, quando adquirido como insumo e desde que obedecidas as condições impostas pela legislação, permite o desconto de créditos das contribuições; 4. O ouro adquirido pela Impugnante é insumo de seu processo industrial, afirmação feita a partir da destinação dada pela adquirente ao bem; e 5. As operações realizadas com contribuintes localizados na Zona França de Manaus, nos termos da legislação vigente, de modo algum permite a acumulação de créditos inexistentes. [...] Dessa forma, considerando que a incidência da contribuição ao PIS e da COFINS é o faturamento, assim entendido a receita bruta auferida e não a operação com o bem ou serviço em si, podese notar que o ouro, seja ele ativo financeiro ou mercadoria, em todas as etapas de sua cadeia, indiscutivelmente sujeitase à incidência de tais contribuições. Essa é a única conclusão possível de se construir a partir da Constituição Federal. [...] Apesar de fincar orientação de que o elemento norteador da natureza jurídica da operação com o ouro é a sua destinação, a fiscalização, nos parágrafos seguintes, defende que o simples fato de uma instituição financeira participar da relação negocial envolvendo o ouro acarreta a conclusão de que o referido metal Fl. 1611DF CARF MF 12 será sempre um ativo financeiro (e nunca mercadoria). Vejamos: [...] Da mera leitura do trecho acima, depreendemos que a fiscalização simplesmente abandonou a importância da destinação para valorar exclusivamente as pessoas envolvidas na operação. Nada mais equivocado e desprovido de fundamento legal. A Lei n. 7.766/89 define claramente que o ouro será considerado ativo financeiro quando destinado ao mercado financeiro (o que não é o caso), in ver bis: [...] E de forma ainda mais categórica, o artigo 4º de referida norma determina taxativamente a necessidade da destinação do ouro ao mercado financeiro, a fim de que este seja classificado como ativo financeiro. Vejamos: [...] Da exegese dos dois dispositivos supra transcritos, concluise que o elemento definidor da natureza jurídica do ouro é sua destinação. Esse entendimento, inclusive, foi brilhantemente observado pelo então Juiz Ari Pargendler, nos autos da arguição de inconstitucionalidade n° 92.04.096250/113 do E. Tribunal Regional Federal da 4ª Região, quando decidiu que: A destinação do ouro o identifica como mercadoria ou como ativo financeiro. A entrada do ouro no mercado financeiro e sua permanência nele lhe assegura esse regime vantajoso: o de ser tributado uma só vez (monofasicamente) e de modo exclusivo (unicamente) pelo Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro Relativo a Títulos e Valores Mobiliários. E indiscutível que, mesmo com a interveniência de uma instituição financeira no negócio como vendedora, se o bem não for destinado ou não permanecer no Sistema Financeiro Nacional, ele não poderá ser classificado com ativo financeiro. No caso em apreço, a destinação do ouro adquirido pela Impugnante não foi o mercado financeiro, e tampouco nele ocorreu sua permanência, o que é expressamente reconhecido no auto de infração. O auditor fiscal menciona, por diversas vezes, que o ouro adquirido pela Umicore das DTVMs, desde sua aquisição, sempre esteve direcionado/destinado à industrialização, i.e. à utilização no processo produtivo da Impugnante, o que fica evidente na seguinte frase, abaixo reproduzida a título exemplificativo: Diante das características descritas, concluise que as operações de aquisição de ouro de DTVMs são tipicamente operações financeiras, não podendo ser confundidas com aquisições ordinárias de matéria prima, mesmo considerando que o comprador assim as classifique em seus registros contábeis e fiscais, e que as utilize de fato em seu processo produtivo. (destacamos) Esse fato é novamente reconhecido no decorrer do TVIF, quando a fiscalização tenta, de forma ardilosa, imputar irregularidade na prática negocial da impugnante. Fl. 1612DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.607 13 Observe que a fiscalização tenta dar ênfase a um suposto desvio de finalidade no uso do ouro, como se a Impugnante estivesse utilizandoo de forma irregular. Vejamos: Não há qualquer valor de contribuição acumulado na cadeia de comercialização que justifique crédito por parte de quem adquiriu este ouro financeiro e o desviou para a utilização como matériaprima em seu processo industrial (destacamos) Entretanto, não há nada de irregular na conduta da Impugnante, industrializadora de metais preciosos. Tal "desvio" demonstra, claramente, que a destinação do ouro no caso em questão não foi o mercado financeiro, mas sim a industrialização (atividade operacional da Impugnante). E, como tal, é inequívoco seu direito creditório. Ademais, diferentemente do que restou asseverado pela fiscalização, a utilização da documentação instituída pela IN 49/2001 não define a natureza da operação, mas sim a destinação dada ao ouro. Dito de outra forma: não é o conjunto de documentos fiscais que define a natureza jurídica do bem, mas sim a destinação a ele dada na operação. [...] No âmbito de suas atividades, a Impugnante adquire o ouro em estado bruto de Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários DTVMs e, a seguir, para que possa ser utilizado como insumo em cadeias produtivas, faz o seu refino processo que tem por escopo eliminar as impurezas e contaminantes para que o ouro possa ser utilizado industrialmente produzindo lingotes com teor de pureza de 99,99%. A partir daí, os lingotes são vendidos a clientes produtores de jóias ou indústrias que utilizam o metal já refinado como insumo, dentre estes, a Coimpa Industrial Ltda. (Coimpa), subsidiária da Umicore, localizada na Zona Franca de Manaus. Destaquese que a Coimpa especificamente citada pela d. fiscalização, foi responsável pela aquisição de apenas 77,1% do total das vendas realizadas em janeiro, fevereiro e novembro de 2009 para a ZFM (doc. 10), sendo que os demais 22,9% referem se a clientes não relacionados à Impugnante. Isso demonstra, indiscutivelmente, que existe propósito negocial (e não meramente eventual economia fiscal) na aquisição do ouro bruto pela Impugnante e posterior venda à Coimpa. Mas não é só. Contrariamente ao exposto pela d. fiscalização, expliquemos melhor porque a Umicore não aliena o mesmo ouro adquirido das DTVMs à Coimpa e demais clientes não relacionados (vide fotos do laudo técnico doc. 6). O ouro passa por um efetivo processo de industrialização, onde é refinado e transformado em lingotes; só então é posto ao mercado na forma de ouro puro para utilização em processo industrial. E prova disso é a descrição das operações de compra de ouro bruto e venda de ouro refinado, com os respectivos documentos que o suportam: Fl. 1613DF CARF MF 14 1. A Impugnante adquire de Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs) ouro em bruto, ou seja, ouro extraído do garimpo e com teor aproximado de impureza de 15% a 5% (ou seja, entre 85% a 95% de ouro). 2. A nota fiscal emitida pela DTVM apresenta os pesos em bruto (peso do produto recebido) e líquido (peso do ouro estimado contido), conforme doc. 8. 3. Os documentos fiscais relativos à compra do ouro são: nota fiscal de negociação do ouro, nota fiscal de remessa de ouro e nota fiscal fatura de entrada. Os dois primeiros são emitidos pelas DTVMs e o último pela Umicore. 4. A Umicore recebe o bem e paga o fornecedor de acordo com o valor da nota fiscal. 5. O ouro é recebido em barras fundidas. Estas barras possuem dimensões, apresentações e pesos não padronizados, pois se tratam de produto resultante da fundição de pequenos lotes oriundos da atividade de mineração (fotos constantes do laudo doc. 6). Pela mesma razão os teores de ouro contidos nas barras recebidas variam de barra para barra. 6. A Umicore funde o ouro em bruto, coleta uma amostra e analisa o teor do ouro contido (Ficha de Recuperação de Resíduos). 7. A Umicore refina o ouro bruto teores aproximados de 85% a 95%, produzindo ouro puro equivalente ao teor de 99,99%. 8. O ouro puro refinado é fundido em lingotes (foto constante do laudo doc. 6), sendo substancialmente diferente do ouro em bruto conforme demonstrado no laudo técnico (seja no grau de impurezas, seja na apresentação). 9. A Umicore possui a qualificação Good for deliver, emitida pela London Bullion Market Association LBMA. A Impugnante é uma das duas únicas empresas brasileiras portadoras de referida qualificação, conforme apresentado na lista anexa (doc. 5). 10. A Umicore vende os lingotes por ela industrializados, destinandoos ao mercado para utilização de diversos fins (docs. 10 e 11). 11. Especificamente a Coimpa utiliza o ouro principalmente para a produção de aurocianeto de PotássioPGC (Cianeto duplo de Ouro e Potássio). Para esta aplicação o ouro precisa ter pureza 99,99% e teor de prata, como impureza, extremamente baixo, uma vez que o produto final não pode conter teor de prata superior a 10 partes por milhão (ppm) (especificação do produto PGC). Ademais, temos que: a) No exercício de 2009, a Coimpa adquiriu 75,1% do ouro em lingotes vendidos pela Umicore, enquanto que empresas não relacionadas responderam por 24,9% das vendas (doe. 10). Já nos meses autuados (janeiro, fevereiro e novembro), o percentual foi de 77,1% para a Coimpa e 22,9% para as demais (doc. 10). Concluise, portanto, que a aquisição dos lingotes de empresa relacionada é fato necessário ao desenvolvimento das atividades da Coimpa, não se tratando de exclusivo Fl. 1614DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.608 15 planejamento fiscal desprovido de propósito negocial. E a Umicore, por sua vez, fornece os bens tanto para a Coimpa quanto para diversos outros clientes; b) Conforme já elucidado, o ouro comercializado sujeitouse às contribuições do PIS e COFINS em todas as suas etapas. Logo, se por um lado a venda à ZFM sujeitase à alíquota zero, por outro, a empresa na ZFM não desconta créditos sobre tais aquisições, não se verificando qualquer dano ao erário público. Além disso, quando da alienação pela Coimpa, de parte de sua produção ao mercado nacional, a receita de venda se sujeita ao PIS e à COFINS. E, se é verdade que na exportação, em face da imunidade constitucional não há PIS e COFINS, também é verdade que as aquisições de ouro realizadas pela Coimpa não possibilitam o desconto de créditos do ouro adquirido da Impugnante, o que também infirma a conclusão alcançada pela D. autoridade de fiscalização. [...] Assim, não há razão para a fiscalização questionar as transações realizadas pela Impugnante com empresas situadas na ZFM, em especial com a Coimpa. haja vista que tais operações são reais, necessárias e não configuram prejuízo aos cofres fazendários. Pelo contrário, são operações que, embora sujeitas à alíquota zero do PIS e da COFINS, não permitem ao contribuinte localizado na ZFM o direito a crédito dessas contribuições, ao passo que possibilitam à Impugnante a manutenção dos créditos, visto que o insumo utilizado no processo, ouro ativo financeiro, sujeitouse em todas as etapas da sua cadeia, à incidência das contribuições. 3. DO PEDIDO Por todo o exposto, requer seja julgada procedente a presente impugnação, para os fins de anular a parcela impugnada dos autos de infração e imposição de multa de PIS e de COFINS (processo n. 16095.720341/201194), com o consequente reconhecimento do direito de descontar créditos de PIS e de COFINS sobre a aquisição de ouro oriundo de DTVMs, utilizados no processo produtivo da Impugnante. Protesta pela juntada adicional de quaisquer documentos comprobatórios das alegações citadas ao longo do presente petitório. Ao final o contribuinte juntou os seguintes documentos a sua impugnação: Doc. 1 Procuração; Docs. 2 e 3 Documentos pessoais dos signatários; Doc. 4 Contrato social; Doc. 5 — Cópia da página da internet (www.lbma.org.uk) que prova que apenas duas empresas brasileiras são certificadas pela The London Bullion Market Association como Goodfor deliver para a industrialização de barras de ouro com 99,99% de pureza do metal; Doc. 6 Laudo técnico descrevendo o processo de industrialização do ouro realizado pela Umicore, acompanhado de algumas fotos; Docs. 7, 8 e 9 Três jogos de notas fiscais relativos à compra do ouro bruto com impurezas, compostos por (i) nota de negociação do ouro, (ii) nota fiscal de remessa de ouro e (iii) nota fiscal fatura de entrada; Doc. 10 Planilha relativa aos adquirentes dos lingotes fabricados pela Umicore, valores e percentuais; Doc. 11 Jogo de notas fiscais fatura de saída, que subsidiam a planilha indicada como doc. Fl. 1615DF CARF MF 16 10 e comprovam as informações lá constantes; e Doc. 12 Auto de infração e imposição de multa Docs. 13 e 14 DARFs de pagamento do PIS e Cofins relativos ao creditamento do ativo imobilizado parte não impugnada dos autos de infração. O contribuinte ainda juntou de forma extemporânea e sem previsão legal (em 03/08/2012, fls. 1.086 a 1.088, e anexos fls. 1.089 a 1.096) uma manifestação, tratando de acórdão do CARF em relação a crédito presumido do IPI de uma indústria de jóias. Ato contínuo, a DRJRIBEIRÃO PRETO (SP) julgou a Impugnação do Contribuinte nos seguintes termos: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro / instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo), pois a CF/1988 assim determinou que fosse ele considerado. A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro então mercadoria se beneficiar dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição da Cofins. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro / instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo), pois a CF/1988 assim determinou que fosse ele considerado. A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro então mercadoria se beneficiar dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição do PIS. Impugnação Improcedente. Fl. 1616DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.609 17 Crédito Tributário Mantido. Em seguida, devidamente notificada, a Recorrente interpôs o presente recurso voluntário pleiteando a reforma do acórdão. Em seu Recurso Voluntário, a Empresa suscitou apenas questões de mérito, apresentando as mesmas argumentações da sua impugnação. É o relatório. Voto Conselheiro Pedro Sousa Bispo O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele se deve conhecer. Conforme se depreende dos autos, a autuação em tela teve por base o procedimento de verificação das Perdcomps apresentadas referentes aos trimestres de 2009, nos quais foram parte dos créditos solicitados indeferidos nos pedidos de ressarcimentos pela Autoridade Fiscal e resultou na lavratura dos autos de infração de PIS/Pasep e COFINS, em alguns meses, para cobrança de diferenças apuradas dessas contribuições decorrentes de glosas de crédito na aquisição de insumos (ouro). As glosas operadas estão relacionadas essencialmente com a não consideração da aquisição do ouro ativo financeiro/instrumento cambial como gerador de créditos da não cumulatividade, adquirido de Sociedades Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs). A Recorrente é uma empresa que atua no refino e na reciclagem de metais, especialmente o ouro, atuando na sua purificação, normalmente obtendo o ouro a 58% de pureza e o transformando em ouro a 99,99%, ideal para a utilização na fabricação de jóias, quando ligados com outros metais que acrescentam cor e resistência ao metal. Além de processar ouro por conta própria, a empresa também presta o mesmo serviço de industrialização por encomenda para outras empresas do ramo. Abaixo os tipos de ouro encontrados no mercado, de acordo com o seu grau de pureza: A Fiscalização procedeu a glosa dos créditos na aquisição de ouro pela Umicore pois entendeu que em toda a cadeia envolvida no ouro adquirido no mercado de balcão de empresas DTVMs (ouro ativo financeiro), desde a etapa da mineração até as negociações no mercado financeiro envolvendo o metal, não houve a incidência das contribuições ao PIS e COFINS nas operações, uma vez que a tributação do ouro se dá em uma única etapa somente pelo IOF, conforme prevê a Constituição Federal no art.153, § 5º e a Fl. 1617DF CARF MF 18 legislações infraconstitucionais relativas a Lei nº7.766/89 e Decreto nº5.442/2005. Dessa forma, o ouro adquirido no mercado financeiro (ouro ativo financeiro) não dá direito a crédito, situação esta prevista na legislação do PIS e da COFINS que, expressamente, veda o desconto de créditos nas aquisições de bens e serviços que não se sujeitaram à incidência das contribuições. O Contribuinte, por sua vez, alega que a alienação do ouro, ativo financeiro ou não, sujeitase ao pagamento das contribuições ao PIS e COFINS em todas as etapas da sua cadeia, inclusive sobre o valor da intermediação financeira ocorrida nas Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários. A destinação que o comprador dar ao ouro ativo financeiro adquirido é que define o seu direito ao crédito, uma vez que este é utilizado como insumo do seu processo industrial, comprovado nos autos pela documentação fiscal e contábil, especificamente pelas notas fiscais de entrada emitidas e pela contabilização do ouro como insumo (estoque) destinado a produção, como se vê pelo código fiscal de operação e prestação de serviço (CFOP) utilizado. Considerando que a base oponível à contribuição para o PIS e a COFINS é o faturamento, assim entendida a receita bruta oponível, e não a operação com o bem ou serviço em si, podese notar que o ouro, seja ele ativo financeiro ou mercadoria, sujeitase, indiscutivelmente, a incidência de tais contribuições em todas as etapas de sua cadeia, conforme se depreende do conteúdo da Constituição Federal. Percebese que é fato provado nos autos que a empresa adquiriu ouro ativo financeiro de empresa DTVM, nos termos previstos no art.1º, § 2º da Lei nº7.766/89 e conforme documentos anexados de notas de negociação de ouro e nota fiscal de remessa de ouro emitida pela instituição financeira. Somente após aquisição do ouro ativo financeiro foi que a empresa deu a ele destinação diversa ao produto adquirido, transformandoo em mercadoria para aplicação como insumo no seu processo de produção do ouro purificado e, posteriormente, vendeu o produto resultante para empresas que o destina à produção de jóias. Depreendese que, em suma, a discussão a ser decidida por este Colegiado referese a controvérsia quanto a possibilidade ou não de se calcular crédito das contribuições ao PIS e a COFINS sobre a aquisição de ouro como ativo financeiro, posteriormente transformado em mercadoria para aplicação na produção de ouro purificado realizado pela Recorrente Umicore. Por oportuno, fazemse algumas considerações sobre o funcionamento do mercado do ouro no Brasil e a tributação envolvida. Identificase no país dois tipos de ouro circulando no Brasil, quanto ao seu uso, que são diferenciados não pela composição física, mas sim pelas características atribuídas por lei quanto a sua destinação: ouro mercadoria e ouro ativo financeiro. O primeiro (ouro mercadoria) é aquele extraído pelos garimpeiros/cooperativas ou por empresas mineradoras e destinado ao mercado de ouro como reserva de valor de empresas e particulares ou como insumo para a produção de artefatos para computadores, comunicações, naves espaciais, motores de reação na aviação e artigos de luxo, tal como, no presente caso, para a produção de jóias. Nesses casos, o ouro se caracteriza como mercadoria, sujeitandose às mesmas regras ordinárias das demais mercadorias quanto a emissão dos documentos fiscais e a tributação relativa ao ICMS, IPI, PIS e COFINS. O segundo tipo é aquele ouro que desde a sua origem na extração é destinado a se tornar ativo financeiro ou instrumento cambial. Nesse caso, é necessário que seja formalizado compromisso de destinálo ao Banco Central do Brasil ou à instituição por ele autorizada, nos termos estabelecidos na Lei nº7.766/89. Após ser adquirido pela instituição financeira, esse ouro como ativo financeiro/instrumento cambial poderá ser negociado em Fl. 1618DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.610 19 bolsas de valores, de mercadorias, de futuros ou assemelhados, ou no mercado de balcão, mas em qualquer dos casos ele sempre será considerado uma operação do mercado financeiro. Os requisitos para o ouro adquirir natureza de ativo financeiro são delineados pela Lei nº7.766/89, in verbis: “Art. 1º O ouro em qualquer estado de pureza, em bruto ou refinado, quando destinado ao mercado financeiro ou à execução da política cambial do País, em operações realizadas com a interveniência de instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional, na forma e condições autorizadas pelo Banco Central do Brasil, será desde a extração, inclusive, considerado ativo financeiro ou instrumento cambial. § 1º Enquadrase na definição deste artigo: I o ouro envolvido em operações de tratamento, refino, transporte, depósito ou custódia, desde que formalizado compromisso de destinálo ao Banco Central do Brasil ou à instituição por ele autorizada. II as operações praticadas nas regiões de garimpo onde o ouro é extraído, desde que o ouro na saída do Município tenha o mesmo destino a que se refere o inciso I deste parágrafo. § 2º As negociações com o ouro, ativo financeiro, de que trata este artigo, efetuada nos pregões das bolsas de valores, de mercadorias, de futuros ou assemelhadas, ou no mercado de balcão com a interveniência de instituição financeira autorizada, serão consideradas operações financeiras. (...) Art. 3º A destinação e as operações a que se referem os arts. 1º e 2º desta Lei serão comprovadas mediante notas fiscais ou documentos que identifiquem tais operações. Pela leitura do conteúdo da lei transcrita, observase que o compromisso de destinação ao ouro assume condição fundamental para a sua caracterização como ativo financeiro. Quando ele é destinado ao Banco Central, ou a instituições financeiras por ele autorizadas, o ouro será considerado como ativo financeiro, desde a sua origem na extração, nos termos do compromisso firmado disposto na lei em comento. A documentação de suporte necessária para acompanhar as operações com esse ativo financeiro foram estabelecidas pela IN SRF nº49/2001. No caso sob análise, constatase que de fato a Recorrente adquiriu o produto ouro ativo financeiro de uma instituição financeira DVTM (Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários), comprovado pela documentação emitida pela empresa vendedora do ativo financeiro. Ao adquirir o ouro ativo financeiro, a empresa teria a opção de mantêlo custodiado na instituição financeira autorizada pelo Banco Central indicada por ela ou retirar o ouro em barras/linguotes e leválo consigo. A opção da Recorrente foi por retirar o ativo financeiro do Sistema Financeiro e ficar com a posse do seu ouro visando aplicálo de modo diverso daquele que até então vinha sendo utilizado. Fl. 1619DF CARF MF 20 Percebese que a Umicore adquiriu tal produto com o animus de dar destinação diversa daquela que até então possuía o ativo e transformálo em mercadoria para utilização como insumo em seu processo produtivo, fato materializado pelas notas fiscais de entrada emitidas pela Recorrente constantes dos autos, que consignam o CFOP utilizado de compras de insumos para industrialização –1.101. A legislação anteriormente transcrita, a Lei n. 7.766/89, define claramente que o ouro será considerado ativo financeiro quando destinado ao mercado financeiro. No presente caso, entretanto, restou comprovado que o Contribuinte adquiriu o ouro ativo financeiro com o animus de transformálo em mercadoria (insumo). O elemento definidor da natureza jurídica do ouro, portanto, é a sua destinação. Tal entendimento, inclusive, foi brilhantemente observado pelo então Juiz Ari Pargendler (ex Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal), nos autos da arguição de inconstitucionalidade nº 92.04.096250/RS, do E. Tribunal Regional Federal da 4ª Região, quando decidiu que: “A destinação do ouro o identifica como mercadoria ou como ativo financeiro. A entrada do ouro no mercado financeiro e sua permanência nele lhe assegura esse regime vantajoso: o de ser tributado uma só vez (monofasicamente) e de modo exclusivo (unicamente) pelo Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro Relativo a Títulos e Valores Mobiliários”. Entendese, assim, que o ouro, ao sair do sistema financeiro, por vontade do investidor para utilização em função diversa que até então possuía, não mais poderá ser classificado como ativo financeiro, mas sim como mercadoria. No caso concreto, temse que a destinação dada ao ouro ativo financeiro foi aplicálo, após a compra, como insumo no processo produtivo de produção de ouro com maior grau de pureza pela Recorrente. Entendo que, se a definição da natureza do ouro se dá pela sua destinação, embora a documentação emitida na transferência do ouro da DTVM para a Recorrente seja de tradição de um ativo financeiro, isso não impede que a empresa, agora proprietária e de posse do seu bem materializado, dê destinação diversa a ele fora do mercado financeiro, tratandoo como mercadoria/insumo. Ressaltese que não há nenhuma vedação legal a esse procedimento adotado pela empresa. Admitese, assim, a possibilidade do ouro ser adquirido como ativo financeiro e ser posteriormente transformado em mercadoria com o fim de ser aplicado como insumo no processo produtivo da Recorrente. Admitida a possibilidade do ouro adquirido ser transformado em insumo após a sua aquisição como ativo financeiro, resta analisar a possibilidade da empresa se creditar do PIS/COFINS sobre a aquisição do referido ouro ativo financeiro de acordo com as regras de creditamento presentes na legislação que rege a matéria. Inicialmente, devese entender como ocorre a tributação do ouro ativo financeiro adquirido em toda a cadeia envolvida desde a extração até a instituição financeira. A Constituição Federal previu a incidência unicamente de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre as operações com ouro definido como ativo financeiro, assim como a incidência monofásica desse imposto na entrada na instituição financeira sobre o que seria devido na operação de origem: Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre: [...] Fl. 1620DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.611 21 V operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários; § 5° O ouro, quando definido em lei como ativo financeiro ou instrumento cambial, sujeitase exclusivamente à incidência do imposto de que trata o inciso V do "caput" deste artigo, devido na operação de origem; a alíquota mínima será de um por cento, assegurada a transferência do montante da arrecadação nos seguintes termos: (negritos nossos) Os entes tributários ficam impedidos, assim, de criar outros tributos ou prever a incidência dos já existentes sobre as operações com ouro ativo financeiro, descritas na forma da lei. A regulamentação do citado dispositivo constitucional veio por meio da Lei nº7.766/89, in verbis: (...) Art. 4º O ouro destinado ao mercado financeiro sujeitase, desde sua extração inclusive, exclusivamente à incidência do imposto sobre operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários. Parágrafo único. A alíquota desse imposto será de 1% (um por cento), assegurada a transferência do montante arrecadado, nos termos do art. 153, § 5º, incisos I e II, da Constituição Federal. (...) Art. 7º A pessoa jurídica adquirente fará constar, da nota fiscal de aquisição, o Estado, o Distrito Federal, ou o Território e o Município de origem do ouro. Art. 8º O fato gerador do imposto é a primeira aquisição do ouro, ativo financeiro, efetuada por instituição autorizada, integrante do Sistema Financeiro Nacional. (...) Art. 13. Os rendimentos e ganhos de capital decorrentes de operações com ouro, ativo financeiro, sujeitamse às mesmas normas de incidência do imposto de renda aplicáveis aos demais rendimentos e ganhos de capital resultantes de operações no mercado financeiro. Parágrafo único. O ganho de capital em operações com ouro não considerado ativo financeiro será determinado segundo o disposto no art. 3º, § 2º, da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988. Art. 14. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Art. 15 Revogamse as disposições em contrário.” Fl. 1621DF CARF MF 22 (negritos nossos) Quanto à incidência do PIS e COFINS, entendese que as operações com ouro ativo financeiro praticadas por todos aqueles envolvidos (desde sua extração, operações de tratamento, refino, transporte, depósito ou custódia, conforme art. 1º da Lei nº 7.766/89) estão fora do campo de incidência dessas contribuições por expressa determinação constitucional, anteriormente transcrita. Esse é o mesmo entendimento do Professor Ricardo Alexandre que, explicando sobre a tributação do ouro ativo financeiro, afirma a impossibilidade de incidência de outros tributos, além do IOF, que incidam sobre mercadorias, conforme o trecho a seguir reproduzido: Quando o ouro é mercadoria, não há qualquer especificidade digna de nota, pois sobre ele incidirão os tributos que ordinariamente incidem sobre as mercadorias (ICMS, IP!, II, IE). Já nos casos em que o ouro é o próprio meio de pagamento, como se fora moeda, não há que se falar em cobrança de tributos que incidem sobre mercadorias, pois, a título de exemplo, se não incide ICMS sobre a circulação dos reais usados para pagar determinado débito, também não pode incidir sobre o ouro' utilizado para quitar débito semelhante. 1 Nesse cenário, a afirmação da Recorrente, em sua defesa, de que o ouro ativo financeiro se sujeita normalmente a incidência do PIS e da COFINS em todas as operações envolvidas ao longo da sua cadeia não se mostra verdadeira, pois, conforme visto nos dispositivos legais anteriormente expostos, o ouro ativo financeiro tem uma carga tributária bastante reduzida se comparada como o do ouro mercadoria. Sobre as operações envolvendo o primeiro , os envolvidos na cadeia de produção do ouro ativo financeiro, desde a extração até chegar a instituição financeira, não pagam PIS e COFINS sobre essas operações, posto que são beneficiadas pela imunidade, excetuandose IOF. Tendo uma carga tributária menor, logicamente o ouro ativo financeiro/instrumento cambial tem um preço mais barato que o ouro mercadoria. As instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central a operarem com o ouro ativo financeiro, tais como as DTVMs, por sua vez, estão sujeitas ao regime cumulativo das Contribuições para o PIS e COFINS, incidindo essas contribuições sobre as receitas de serviços bancários (cobranças de tarifas) e as de intermediação financeira. Quanto a tributação das contribuições em comento nesse ramo de atividade, reproduzse o Parecer PGFN/CAT/Nº 2.773/2007, que trata da base de cálculo dessas contribuições devidas pelas instituições financeiras e seguradoras após o julgamento do RE 357.9509/RS, no qual fica claro que as instituições financeiras tem como receita apenas serviços para fins tributários, e destes a receita pelo serviço de intermediação financeira, não tendo receitas pela venda de mercadorias, in verbis: Segundo a Nota da Cosit, após a decisão do STF, diversos questionamentos foram levantados sobre a aplicação da referida decisão às instituições financeiras e às seguradoras, sob o argumento de que tais entidades não possuem “faturamento”, propriamente dito, pois argumentam as entidades que a palavra faturamento teria acepção própria, tecnicamente construída, e corresponderia, taxativamente, ao conjunto de receitas obtidas 1 Alexandre, Ricardo. Direito tributário I Ricardo Alexandre 11. ed. rev. atual. e amp1. Salvador Ed.JusPodivm, 2017. Fl. 1622DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.612 23 pela pessoa jurídica na venda de mercadorias e na prestação de serviços. Não se confundiria, nem se equipararia, com receitas outras, como as receitas financeiras das pessoas jurídicas que se dedicam à indústria, ao comércio ou à prestação de serviços. 3.Entretanto, continua mencionada Nota, resta equivocado o entendimento dado pelas instituições financeiras, com base no argumento referido, no sentido de que deverão recolher os tributos em pauta apenas sobre as tarifas de emissão de extratos ou de talões de cheque, entre outras assemelhadas, considerandoas unicamente como receitas de serviços. Sabese que a maior parte das receitas das instituições citadas decorre de atividades estritamente financeiras. As instituições alegam que não importa que essas receitas sejam consideradas operacionais, visto que o conceito de faturamento não é maleável a ponto de sofrer ampliações em função da natureza das atividades do contribuinte, conforme já decidido pelo STF. 4.O argumento utilizado pelas empresas de seguros não é diferente, neste caso tais empresas dizem que a receita de prêmios de seguros também não se enquadra no conceito de faturamento por não se tratar de venda de serviços, de mercadorias e de serviços e mercadorias. A Nota da Cosit prossegue afirmando: 8.Portanto, são frágeis os argumentos das instituições financeiras e seguradoras no que tange à não incidência dessas contribuições sobre suas receitas financeiras, sem que antes seja examinada a natureza jurídica dessas receitas em relação às suas atividades. 9.Com efeito, o enquadramento da atividade de bancos e de seguros no setor terciário da economia (serviços) é contemplado no Acordo Geral sobre Comércio de Serviços (GATS), firmado durante a rodada de negociações multilaterais promovidas no âmbito do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio 1994 (GATT 1994) – Rodada Uruguai, promulgada pelo Decreto nº 1.355, de 30 de dezembro de 1994. 9.1.O Acordo Geral sobre Comércio de Serviços (GATS) pode ser subdivido em dois grandes blocos. O primeiro é o próprio texto do Acordo contendo as regras e as obrigações aplicáveis a todos os Membros da OMC. O segundo é composto pelos anexos que tratam de problemas específicos de alguns setores. São eles: o anexo referente ao movimento de pessoas físicas fornecedoras de serviço, o anexo sobre os serviços de transportes aéreos e os de transportes marítimos, o anexo sobre serviços financeiros, e, finalmente, os anexos concernentes a telecomunicações. 9.2.O Anexo sobre Serviços Financeiros do GATS (em anexo), em seu item 5, efetua as seguintes determinações: 5. Definições: Para os fins do presente Anexo: Fl. 1623DF CARF MF 24 Por serviço financeiro se entende todo serviço financeiro oferecido por um prestador de serviço de um Membro. Os serviços financeiros incluem os serviços de seguros e os relacionados com seguros e todos os serviços bancários e demais serviços financeiros (excluídos seguros). Os serviços financeiros incluem as seguintes atividades: Operações comerciais por conta própria ou para clientes, seja em bolsa, em mercado não cotado (overthemarket) ou, em outros casos, no que se segue: instrumentos do mercado monetário (inclusive cheques, letras de câmbio, certificados de depósito); divisas; produtos derivados, tais como, mas não exclusivamente, futuros e opções; instrumentos do mercado cambial e monetário, tais como “swaps” e acordos a prazo sobre juros; valores mobiliários negociáveis; outros instrumentos e ativos financeiros negociáveis, inclusive metal; [...] 10.Assim, entendese que, sendo essas atividades caracterizadas como serviços, as receitas delas provenientes são receitas de serviços, e, portanto, integrantes do faturamento.” [...] 33. Com efeito, o conceito de serviços não se limita àqueles assim caracterizados na legislação e na doutrina especificamente bancárias, na qual as atividades da instituições financeiras, em geral, discriminadas entre operações bancárias (em síntese, relacionadas à intermediação financeira) e serviços bancários (estes, em síntese, relacionados à prestação direta de serviços pelas instituições a seus usuários, clientes ou não, e normalmente remunerados sob a forma de tarifas). [...] h) serviços para as instituições financeiras abarcam as receitas advindas da cobrança de tarifas (serviços bancários) e das operações bancárias (intermediação financeira); [...] 66. Temse, então, que a natureza das receitas decorrentes das atividades do setor financeiro e de seguros pode ser classificada como serviços para fins tributários, estando sujeita à incidência das contribuições em causa, na forma dos arts. 2º, 3º, caput e nos §§ 5º e 6º do mesmo artigo, exceto no que diz respeito ao “plus” contido no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718, de 1998, considerado inconstitucional por meio do Recurso Extraordinário 357.9509/ RS e dos demais recursos que foram julgados na mesma assentada. A Fiscalização, ainda, discorreu de forma detalhada sobre as especificidades da sistemática de tributação do PIS e COFINS no ramo de atividade das instituições financeiras. Reproduzemse os trechos principais: A tributação das atividades financeiras pela Contribuição para o PIS e pela COFINS incide sobre suas receitas, assim consideradas conforme a definição do Plano de Contas Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional (COSIF). Uma característica da atividade financeira, que é refletida no COSIF, é a de reconhecer como receita o produto da intermediação Fl. 1624DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.613 25 financeira, que, na essência, é o objeto social dessas instituições. Assim, nos casos em que estas instituições transacionam com valores mobiliários, ou quaisquer outros ativos financeiros, é pacífico que o valor registrado a título de receita é o ganho ou a renda auferida na transação, seja ela de compra ou venda do ativo. O valor do ativo transacionado não compõe o conceito da receita das instituições financeira, como ocorre na empresa comercial ou industrial. Diante disto, quando os artigos 1º, 2º, da Lei nº9.718/98, definem a incidência do COFINS sobre a Receita Bruta da pessoa jurídica, o interprete deve entender, no caso de uma instituição financeira, que esta incidência se dá sobre o valor da receita auferida (fato gerador), tomando esta conforme as normas de contabilidade bancária assim a definem, e não sobre o valor da transação realizada, A propósito, esta transação, estritamente considerada pode nem resultar em receita, uma vez que pode haver perda na alienação de qualquer ativo. Dito isto, não pode ser aceita a argumentação no sentido de que a operação de venda de ouro financeiro por instituição financeira será uma operação sujeita ao pagamento das contribuições. E isto se opera pelo simples fato de que esta operação (a alienação de ativo financeiro) não é enquadrada no conceito de receita pelo COSIF. É oportuno lembrar que a forma de tributação pelo PIS e pela COFINS das instituições financeiras é disciplinada pelo art.95, da Instrução Normativa SRF nº247/2002. Basicamente, este dispositivo prevê que a base de cálculo mensal das contribuições das instituições financeiras seja apurada com o apoio da planilha prevista no anexo I da Instrução Normativa, onde as receitas das instituições financeiras, ao final de cada mês, seguindo a planificação contábil do Sistema Financeiro Nacional (COSIF), são enumeradas. Entre estas receitas, podemos encontrar a denominada "Rendas de Aplicações em Ouro", código 7.1.5.70.002. Segundo as instruções do Banco Central do Brasil, a função desta conta é registrar os ajustes positivos nas aplicações temporárias em ouro, que constituam receita efetiva da instituição no período. A tributação dessa receita não se confunde de maneira nenhuma com a tributação da transmissão de propriedade do ativo financeiro. O fato de um eventual rendimento auferido na alienação do ouro financeiro (eventual porque pode ser que haja perdas nesta tipo de operação, também) não significa que toda a operação de alienação do ativo tenha sido submetido à tributação. Destarte, concluise que na instituição financeira (DTVM) que recebe o ouro compromissado com natureza de ativo financeiro e o aliena a um investidor, a tributação do ouro não se dá sobre o valor do bem ouro alienado, mas tão somente sobre a receita de serviço de intermediação, incidindo sobre o ganho apurado entre a operação de compra e a de venda, se por ventura apurado, pois também se é possível apurar perda na operação. Fl. 1625DF CARF MF 26 No caso ora analisado, tornase evidente que o produto (ouro) adquirido pela Recorrente, na sua origem, era, de fato, um ativo financeiro que possuía, pela Constituição e lei regulamentadora, características próprias bem distintas das do ouro mercadoria, mormente com relação as instituições autorizadas a operálo, documentação lastreadora das operações e sua forma de tributação privilegiada. Depreendese dos fatos até aqui narrados, que a Recorrente comprou um ativo financeiro e posteriormente, por vontade própria, transformouo em mercadoria, e consequentemente insumo, para aplicação no seu processo produtivo de purificação do ouro. Ressaltase que o produto adquirido foi um ativo financeiro da DTVM e não uma mercadoria, como faz crer a Recorrente. Em uma etapa posterior foi que o Contribuinte concretizou o seu animus de transformálo em mercadoria nova, quando então a utilizou como insumo. Entendo, assim, que a situação explicitada não gera direito a crédito porque a Recorrente, de forma originária, fez surgir a mercadoria que não existia nas operações anteriores, posto que o produto adquirido (ouro ativo financeiro) possuía características próprias, distintas das mercadorias, não havendo que se falar em direito a crédito. Se a Recorrente optou pela transformação do ouro ativo financeiro em mercadoria isso deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiarse dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Ademais, ainda que se entenda que a empresa adquiriu um insumo, o que se admite apenas para efeito de argumentação, também este não faria jus ao crédito, por não ser possível aplicar a não cumulatividade nessa operação discutida por inexistência de crédito na operação anterior. Como se sabe, o princípio da não cumulatividade tem por finalidade limitar a incidência tributária nas cadeias de produção e circulação mais extensas, fazendo com que, a cada etapa da cadeia, o tributo somente incida sobre o valor adicionado nessa etapa. A não cumulatividade se materializa por meio da previsão de creditamento das aquisições antecedentes de uma cadeia de produção/comercialização. Se não há incidência na etapa antecedente, pela lógica da sistemática, não há direito a creditamento, a não ser que haja um claro propósito do legislador no sentido de incentivar uma determinada atividade. Porém, mesmo nesse último caso, o benefício deve ser expressamente previsto em lei. Nessa direção, há expressa vedação à apropriação de créditos das referidas contribuições, nos termos do art. 3º, § 2º, II, das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, a seguir reproduzido: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] § 2º Não dará direito a crédito o valor: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) [...] II da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou Fl. 1626DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.614 27 serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição. (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (negritos nossos) No caso concreto, restou comprovado que o bem adquirido pela Recorrente (ouro ativo financeiro), além de não ser mercadoria no momento da aquisição, também não se sujeitou o bem, ouro ativo financeiro, a incidência das contribuições ao PIS e a COFINS ao longo da sua cadeia, desde a extração até a negociação do ativo financeiro pela DTVM, o que torna inviável a possibilidade de creditamento dessas contribuições na operação de aquisição do bem. A essa mesma conclusão chegou a Conselheira Relatora Liziane Angelotti Meira Nessa no acórdão nº 3301004.675, da 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, que, em julgamento dos mesmos elementos fáticojurídicos da própria Recorrente, mas de período de apuração diferente, concluiu pela impossibilidade de creditamento na operação de aquisição do ouro na forma aqui discutida, conforme sintetizado na ementa a seguir reproduzida: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro / instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro então mercadoria se beneficiar dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição do PIS. Por fim, cabe informar à Recorrente que as conclusões tomadas no acórdão nº3302001.492, de lavra do ilustre Conselheiro Gileno Gurjão, não tem relação com o caso ora analisado. pois lá foi discutido o direito a ressarcimento de crédito presumido de IPI na exportação previsto na Lei nº 9.363/96, no qual não é imprescindível a incidência das contribuições em comento sobre as aquisições de insumos para a requerente fazer jus ao ressarcimento (REsp nº 993.164 MG), enquanto no presente caso, em não havendo previsão legal de regra ou benefício especial de creditamento, o Contribuinte para ter direito a crédito deve adquirir o bem a ser utilizado como insumo necessariamente com incidência das referidas contribuições, nos termos estabelecidos nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003. Além do mais, conforme já anteriormente indicado no presente voto, o ouro adquirido nessa situação é ativo financeiro e não mercadoria (insumo), posição divergente, portanto, daquela do ilustre Relator no citado acórdão. Fl. 1627DF CARF MF 28 Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Pedro Sousa Bispo Relator Declaração de Voto 1. Com a devida vênia, ouso divergir do bem fundamentado voto do I. Relator do caso, o que passo a fazer nos seguintes termos. 2. Antes, todavia, de apresentarmos nossas conclusões, mister se faz nesse instante elucidar dois pontos que são fundamentais para o deslinde da presente contenda. 3. Primeiramente, insta registrar que não há dúvida quanto ao tratamento contábil atribuído pelas DTVM´s, de quem a recorrente adquire o ouro aqui questionado, na presente operação; tais empresas tratam a operação com ouro como se ativo financeiro fosse, submetendo, pois, tal operação à incidência de IOF, bem como ao PIS e à COFINS no regime cumulativo. Tanto é verdade que a declaração prestada pelas DTVM's na sua Escrituração Fiscal Digital EFD contribuições é no sentido de tratar como "rendas com títulos e valores mobiliários e instrumentos e instrumentos financeiros" aquelas receitas decorrentes das aplicações com ouro. 4. Também não existem dúvidas quanto ao objeto social da recorrente2 nem quanto ao destino dado ao ouro por ela adquirido das DTVM's. É inconteste nos autos o seu emprego como insumo para fins de industrialização. Nesse sentido, inclusive, é o teor de parte do Termo de Relatório Fiscal (fls. 839 e s.s.): (...). 2 Industrialização de metais preciosos, inclusive ouro, conforme cláusula 5a do se contrato social (fls. 19 e s.s.). Fl. 1628DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.615 29 (...). 5. Aliás, do trecho alhures transcrito, é possível perceber que a fiscalização não nega a possibilidade do ouro ser juridicamente tratado como mercadoria e não como ativo financeiro, nos exatos termos do art. 155, § 2º, inciso X, alínea "c" da Constituição Federal. Todavia, no presente caso em concreto, a fiscalização afasta esta possibilidade uma vez que aqui (i) o ouro foi adquirido de instituição financeira na qualidade de ativo financeiro, o que (ii) estaria devidamente comprovado nos documentos fiscais emitidos pelas DTVM's e que materializaram a operação em análise. Logo, o ulterior tratamento fiscal e contábil dado pela recorrente não seria hábil para desnaturar tal operação jurídica e, por conseguinte, transmutar a qualidade do ouro adquirido pela recorrente de ativo financeiro para mercadoria. 6. Assim, sob uma perspectiva estritamente formal, assiste razão à fiscalização, bem como ao bem fundamentado voto do d. Relator do caso. Acontece que, a depender de determinadas particularidades fáticas do caso em concreto, a forma deve ceder espaço à essência do ato jurídico praticado, sob pena de se prestigiar um indevido formalismo exacerbado. 7. Tratando de tal questão sob uma perspectiva contábil, o que se afirma aqui é que os registros contábeis não têm o condão de criar uma realidade jurídica, já que a contabilidade deve limitarse a registrar fatos e não criálos. Ao encontro de tal assertiva, é a mudança sofrida nos últimos anos no sentido de promover a convergência da contabilidade brasileira às regras internacionais. Aliás, a respeito do tema, assim se pronuncia a Comissão de Valores Mobiliários por intermédio do seu parecer de orientação n. 37/2011, in verbis: (...) Dois conceitos interrelacionados são essenciais para o entendimento dessa nova realidade contábil: (i) a representação verdadeira e apropriada; e (ii) a primazia da essência sobre a Fl. 1629DF CARF MF 30 forma. A contabilidade somente cumprirá sua função essencial de fornecer informações úteis ao processo de tomada de decisão de seus usuários se refletir verdadeiramente a realidade econômica subjacente. Para que essa representação apropriada (true and fair view) possa ser alcançada, é importante observar a primazia da essência econômica sobre a forma jurídica dos eventos econômicos. Dessa forma, com a mudança iniciada com a edição da Lei 11.638, de 2007, resgatase a característica fundamental das demonstrações contábeis, que devem representar fidedignamente a realidade dos efeitos econômicos das transações, independentemente do seu tratamento jurídico. (...) (grifos nosso). 8. Logo, um eventual equívoco nos registros contábeis das DTVM's para fins de materialização da operação fiscalizada não pode ser capaz de desnaturála em sua substância. 9. Pois bem. Feitos tais esclarecimentos convém repisar que as DTVM's indevidamente registraram que as operações aqui fiscalizadas (de venda de ouro para a recorrente) geraram receitas que foram rubricadas como "rendas com títulos e valores mobiliários e instrumentos e instrumentos financeiros". Além disso, submeteram tal operação ao IOF e ao PIS e a COFINS não cumulativos, na medida em que deram saída de tais bens na qualidade de ativos financeiros. 10. Acontece que tais empresas erraram em seus registros contábeis, uma vez que deveriam ter apontado as operações aqui tratadas como realizadoras de receita bruta, nos termos do art. 12, inciso I do Decreto n. 1.598/77, já que decorrentes de venda de ouro como mercadoria, operação esta que foge do espectro das suas atividades empresariais ordinárias e que, portanto, não pode ser originária de receita operacional3. 11. Tal equívoco contábil, entretanto, não é suficiente para, a priori, desnaturar a operação realizada entre as DTVM's e a recorrente como uma operação de venda de ouro mercadoria e não de ouro como ativo financeiro. Todavia, para efetivamente precisar se no específico caso sob julgamento o ouro adquirido pela recorrente é de fato mercadoria, mister se faz destacar o parecer emitido pela Deloitte Brasil Auditores Ltda. (fls. 1.228/1.244). 12. Conforme se observa do sobredito parecer, a Auditoria independente analisou os seguintes documento fiscais e contábeis da recorrente para o período objeto da autuação: (i) escrituração contábil digital (ECD); (ii) escrituração fiscal digital do ICMS e do IPI (EFD Fiscal); (iii) escrituração fiscal digital contribuições (EFD Contribuições); (iv) demonstrativo de apuração de contribuições sociais (DACON); e, ainda 3 Segundo o CPC 30, vigente à éopoca dos fatos, apenas as atividades ordinárias de uma empresa se enquadram no conceito de receitas operacionais, conforme se observa do citado pronunciamento abaixo transcrito: "Receita é o ingresso bruto de benefícios econômicos durante o período observado no curso das atividades ordinárias da entidade que resultam no aumento do seu patrimônio líquido, exceto os aumentos de patrimônio líquido relacionados às contribuições dos proprietários." Fl. 1630DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.616 31 (v) notas fiscais de entrada (por amostragem e aleatórias) do ouro adquirido pela recorrente junto as DTVM's. 13. Depois de analisar tal documentação, assim concluiu o citado parecer: (...). O ouro adquirido junto às DTVMs pela Umicore foi tratado contabilmente como estoque de matériaprima. Do ponto de vista fiscal, as transações foram apresentadas como entrada de mercadoria para insumo de produção; O ouro, mesmo que inicialmente tenha sido classificado pela DTVM como ativo financeiro, deve ser classificado como mercadoria pelo adquirente industrial, quando for destinado para produção como matériaprima, e, nesse sentido, sua classificação como insumo do processo industrial, sob os aspectos contábeis e fiscais, reflete aquela que melhor expressa sua natureza. Ou seja, havendo destinação diferente do mercado financeiro, o ouro adquirido passa a ser tratado como “ouro mercadoria”. Assim, no caso específico da Umicore, do ponto de vista contábil e fiscal, a classificação do ouro como insumo é aquele que melhor expressa sua natureza; Quando da entrada do ouro na Umicore, a mesma emite nota fiscal de entrada eletrônica de emissão própria registrandoa como compra de ouro para industrialização, haja vista que a Sociedade utilizará o ouro adquirido como matériaprima na produção de lingotes que serão revendidos futuramente. Este procedimento atende o disposto estabelecido no art. 136 da Regulamento do ICMS, o qual estabelece a necessidade do contribuinte emitir nota fiscal no momento em que entrar no estabelecimento, real ou simbolicamente, mercadoria ou bem. Assim, é possível afirmar que o procedimento adotado pela Umicore de emitir nota fiscal de entrada está em consonância com aquilo disposto na legislação fiscal vigente. No que tange ao CFOP utilizado na nota fiscal de entrada, entendemos que o mesmo reflete a destinação pretendida da matéria prima pela Umicore e, portanto, o CFOP utilizado pela Sociedade está condizente com a natureza da transação realizada pela Sociedade; A Umicore, com base em seu relatório de produção, demonstra a entrada do ouro bruto como insumo e sua remessa para o processo de refino, bem como é possível identificar o ingresso no estoque de produto acabado; e As entradas de ouro entre outubro de 2006 e dezembro de 2012, em sua totalidade, foram destinadas ao processo industrial como insumo, não tendo sido dada qualquer outra destinação diversa, tal como ativo financeiro. (...) (g.n.). Fl. 1631DF CARF MF 32 14. Percebese, pois, que segundo o citado parecer contábil, a integralidade do ouro adquirido pela recorrente junto as DTVM's no período fiscalizado foi utilizado na qualidade de insumo para a sua produção, o que, conjugado com os equívocos quanto aos registros contábeis perpetrados pelas DTVM's, desvela a verdadeira natureza da operação empresarial aqui debatida: a aquisição de ouro mercadoria e não de ouro ativo financeiro. 15. Tais conclusões são reforçadas quando se observa as notas fiscais emitidas pelas DTVM's para a recorrente (fls. 684/806), tal como a exemplarmente colacionada abaixo: 16. Ao se analisar o campo "característica da operação" da nota fiscal alhures o que se observa é a transferência do ouro mercadoria, inclusive com a indicação da quantidade de gramas que está sendo transferida da DTVM para a recorrente. Se de fato a operação fosse de venda de ouro como ativo financeiro, o que seria transmitido da DTVM para a recorrente seria um direito, materializado em um título e lastreado em ouro, mas não o metal precioso propriamente dito. 17. Diante deste quadro e, em especial, levando em consideração as particulares circunstâncias fáticas que gravitam em torno do caso em julgamento, resta claro que a recorrente de fato adquiriu ouro mercadoria e, como tal, faz jus a manutenção dos créditos indevidamente glosados pela fiscalização. 18. Nesse sentido, ouso divergir do d. Relator do caso para dar integral provimento ao recurso voluntário interposto pelo contribuinte. 19. É como voto. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro Fl. 1632DF CARF MF Processo nº 16095.720341/201194 Acórdão n.º 3402005.580 S3C4T2 Fl. 1.617 33 Fl. 1633DF CARF MF
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Numero do processo: 10074.001041/2008-79
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Oct 05 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3301-000.798
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os autos.
Resolvem os membros deste colegiado, por unanimidade de votos, converter este julgamento em diligência, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Marcelo Costa Marques d'Oliveira - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente).
Nome do relator: MARCELO COSTA MARQUES D OLIVEIRA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os autos. Resolvem os membros deste colegiado, por unanimidade de votos, converter este julgamento em diligência, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira - Presidente (assinado digitalmente) Marcelo Costa Marques d'Oliveira - Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente).
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 12; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1628; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C3T1 Fl. 379 1 378 S3C3T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10074.001041/200879 Recurso nº Voluntário Resolução nº 3301000.798 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Data 28 de agosto de 2018 Assunto CLASSIFICAÇÃO FISCAL Recorrente TEXTIL HIGH TECH LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os autos. Resolvem os membros deste colegiado, por unanimidade de votos, converter este julgamento em diligência, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Marcelo Costa Marques d'Oliveira Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente). Relatório Adoto o relatório da decisão de primeira instância: "Trata o presente processo de auto de infração, lavrado em 07/02/2008, em face do contribuinte em epígrafe, formalizando a exigência de multa regulamentar, duas multas proporcionais ao valor aduaneiro e multa do controle administrativo no valor de R$ 390.511,11, em virtude dos fatos a seguir descritos. Considerando a correta classificação tributária no código NCM 5407.6100, deixou a empresa de obter a Licença de Importação, conforme o Comunicado/DECEX n° 23 de 24/08/98, a Portaria/SECEX n°17 de 01°/12/2003 e o Tratamento RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 00 74 .0 01 04 1/ 20 08 -7 9 Fl. 739DF CARF MF Processo nº 10074.001041/200879 Resolução nº 3301000.798 S3C3T1 Fl. 380 2 Administrativo do SISCOMEX, conforme impressões anexas. Para tanto, foi autuada a empresa em 30% (trinta por cento) sobre o valor aduaneiro das mercadorias importadas sem a devida Licença de Importação, de acordo com a alínea "a" do inciso II do art. 633, e art. 490 do Decreto n° 4.543/02 (Regulamento Aduaneiro). Pela incorreta classificação das mercadorias importadas nas referidas DIs, a multa de 1% (um por cento) sobre o valor aduaneiro das mercadorias, conforme determina o art. 84 da MP n° 2.158/01, combinado com o art. 69 da Lei n° 10.833/03. Tendo em vista a não manutenção dos documentos fiscais e comerciais que embasaram as importações analisadas, em boa guarda e ordem, e a não apresentação dos mesmos à fiscalização, como define o item 1 da alínea "b", do inciso II do art. 70 da Lei n° 10.833/03, a multa de 5% (cinco por cento) do valor aduaneiro das mercadorias importadas. Cientificado do auto de infração, pessoalmente, em 03/07/2008 (fls. 20), o contribuinte, protocolizou impugnação, tempestivamente em 04/08/2008, na forma do artigo 56 do Decreto nº 7.574/2011, de fls. 330 à 345, instaurando assim a fase litigiosa do procedimento. O impugnante alegou que: AS RAZÕES DE DEFESA Conforme se verifica do relatório Fiscal, a Declaração de Importação que serviu de paradigma para a extensão de entendimento realizada pela Autoridade foi registrada em 2007. A DI PARADIGMA Para a citada Dl paradigma, foi realizado laudo pericial, cujo Relatório Técnico (fls.146) consigna o seguinte: Quesito: Informar se o tecido é composto de fios ou fibras de poliéster. O material, no estado em que se encontra, deve ser corretamente interpretado como sendo um tecido plano contendo em peso 100% e fios cujo poliéster se apresenta na forma de fibras sintéticas descontínuas, em ponto sarjado branco, liso, largura de 1,50m, gramatura aproximada de 116 g/m2, título de 83dtex no urdume e 167 dtex na trama, acondicionado em rolos. O tecido foi obtido a partir de filamentos sintéticos contínuos. Porém o mesmo foi submetido a um acabamento do tipo “lixagem" que promoveu o rompimento desses filamentos caracterizando ao tecido o aspecto de fibras descontínuas. Da observação atenta do quadro acima, podese perceber que as 18 (dezoito) DI registradas pela Impugnante não se referem à importação do mesmo produto objeto da DI registra em 2007. Pelo contrário, é nítido tratarse de mercadorias com diferentes descrições, especificações diversas, provenientes de fabricantes e países diferentes. O resultado do laudo técnico feito para apenas um produto não pode ser estendido para todas as importações efetuadas nos últimos cinco anos pelo Contribuinte: Além do fato de o laudo pericial realizado para a amostra da Declaração n°07/04461298 não apresentar resultado capaz de afastar a classificação fiscal utilizada pelo Contribuinte naquele caso concreto, devese ressaltar que não é possível estender os seus efeitos às demais importações efetuadas pela Impugnante. Fl. 740DF CARF MF Processo nº 10074.001041/200879 Resolução nº 3301000.798 S3C3T1 Fl. 381 3 Como dito, o procedimento fiscal e o auto de infração dizem respeito a 18 (dezoito) importações, levadas a efeito entre 2003 e 2004, de produtos diversos, provenientes de fabricantes diferentes. Para melhor esclarecimento, cabe examinar a regra em que está prevista a única possibilidade de extensão de conclusão de laudos periciais a outras importações. Tal hipótese segue o disposto no § 3o, do art. 30, do Decreto 70.235/72 (PAF), isto é, laudos ou pareceres podem ser aproveitados de um para outro processo, desde que se trate de produtos de mesmo fabricante, com iguais denominação, marca e especificação. Ou seja, está claro que o laudo pericial, realizado sobre a amostra de um produto, de uma importação, proveniente de um fabricante diferente, não pode servir de fundamento para a desclassificação pretendida pela Autoridade Fiscal. Não se verifica nos autos a hipótese incluída no ordenamento pela Lei n° 9.532/97, sendo, portanto, ilegítimo lançamento efetuado pelo autuante. Junta textos da jurisprudência. Conforme o quadro antes transcrito, vêse que a análise paradigma se circunscreveu a um produto importado através da Dl n° 07/04461298, ou seja, ocorrida cerca de quatro anos depois do objeto da presente autuação. Assim, mesmo que se compreendesse que o laudo tivesse sido suficiente para afastar a classificação declarada e para confirmar a nova posição proposta pelo AFRFB na Dl n° 07/04461298, todos os demais produtos e todas as demais Dl devem ser, peremptoriamente, excluídos da tributação. Até a base legal invocada pela AFRFB, qual seja, o artigo 68, da Lei n° 10.833/2003, não confere ao Fisco poderes da magnitude pretendida na presente autuação. A propósito, devese consignar que a conclusão do perito sobre a amostra da Dl registrada em 2007 não dá abrigo à desclassificação promovida pela Auditora. De acordo com as Considerações Gerais do Capítulo 55, as fibras sintéticas (filamentos), a que se refere o capítulo 54, incluemse no capítulo 55, desde que se apresentem como fibras curtas, isto é, como fibras descontínuas. Os filamentos submetidos a processos mecânicos ou químicos (como lavagem, branqueamento ou tingímento) podem ser cortados em comprimentos diferentes, em geral entre 25 e 180mm. Com efeito, a AFRFB afirmou que as importações da Impugnante classificamse no capítulo 54 da NCM, capítulo este que se refere aos “Filamentos sintéticos ou artificiais". Inversamente ao proposto pela Autoridade Fiscal, a perícia oficial afirma que "o material, no estado em que se encontra, deve ser corretamente interpretado como sendo um tecido plano contendo em peso 100% e fios cujo poliéster se apresenta na forma de fibras sintéticas descontínuas". Junta textos da jurisprudência do Conselho de Contribuintes. Este entendimento é tão mais aplicável quando se percebe que a conclusão da AFRFB é voluntariosa e imotivada, limitada que foi à mera transcrição da NESH, não submetida a qualquer análise de seu conteúdo, que pudesse levar à adoção da classificação apontada como correta pela Autoridade. Transcreve trecho do Relatório de Procedimento Fiscal. Fl. 741DF CARF MF Processo nº 10074.001041/200879 Resolução nº 3301000.798 S3C3T1 Fl. 382 4 Esta afirmação da AFRFB é de todo inaceitável, pois demonstra que a Autoridade não tem certeza sobre qual a classificação correta. Ora, é seu dever apontar, com clareza, todos os elementos constitutivos do fato gerador, sendo absolutamente incurial afirmar que a classificação fiscal podería ser qualquer uma outra (não se sabe ao certo qual), cujos efeitos jurídicos, indubitavelmente, seriam também outros. É nítido que, não tendo certeza sobre a classificação tarifária e carecendo de elementos para afastar a declaração do Contribuinte, a Auditora, simplesmente, e sem nenhuma prova, resolveu eleger uma classificação de outro capítulo (54), que se refere a tecidos feitos, não de fibras, mas de filamentos, para impor ao Fiscalizado o cometimento de infrações, na verdade, inexistentes. A NÃO CONSTITUIÇÃO DE PROVAS DO ILÍCITO. Ressaltese, portanto, que o auto de infração ora combatido não constituiu prova de cometimento de qualquer erro ou ilícito efetuado pelo sujeito passivo, sendo certo, inclusive, que o próprio laudo da Dl, erradamente tomada como paradigma, aponta para um tecido de fibras descontínuas, abrangidas no capítulo 55 e, nunca, na posição proposta pela AFRFB. Logo, não foi efetuada a contento a atividade fiscal vinculada de embasar o lançamento com provas, o que o toma absolutamente inaproveitável. Notese que não se está diante de qualquer hipótese de inversão legais do ônus da prova. Logo, cabe à Autoridade lançadora basear sua exigência em provas veementes do cometimento do ilícito, sob pena de sua invalidade. Esta é uma regra de Processo Civil, vinculada à legalidade e ao direito de defesa, que foi totalmente acolhida no âmbito do PAF. Assim, cabe à autoridade lançadora provar a ocorrência do fato constitutivo do direito de lançar do fisco. Esta ausência de provas que se verifica no lançamento ora impugnado. Desta forma, sendo do Fisco o ônus de comprovar a ocorrência da situação descrita na norma abstrata, deveser declarada a completa improcedência deste lançamento. MULTAS POR DESCRIÇÃO INCORRETA DAS MERCADORIAS E POR FALTA DE LI Não se sustenta a pretensão do Fisco de impor a cobrança da multa por descrição inexata das mercadorias, primeiro por inexistente tal declaração inexata, segundo porque a descrição efetivada pelo Importador em nada dificultou a identificação do produto pela Autoridade, sendo certo que tal descrição possibilitou, inclusive, a lavratura do auto ora combatido. Além disto, não há como persistir uma multa por descrição incorreta, se a própria Autoridade lançadora não foi capaz de demonstrar qual seria a descrição certa, pois, como se viu, a descrição proposta pela AFRFB está errada, não tendo o condão de afastar a classificação adotada pelo Contribuinte. Junta textos da jurisprudência administrativa. Da mesma forma, incabível a multa por falta de LI, pois a classificação adotada pelo Contribuinte, e não validamente afastada por este auto de infração, não demandava, à época dos fatos, a obtenção de prévio licenciamento. Inexistente, assim, o fato gerador da respectiva obrigação. Também é completamente vazia a afirmação de que o Contribuinte não tenha mantido em boa guarda os documentos fiscais ou que se tenha negado a apresentálos à Autoridade Fiscal. Fl. 742DF CARF MF Processo nº 10074.001041/200879 Resolução nº 3301000.798 S3C3T1 Fl. 383 5 Transcreve trecho do Relatório de Procedimento Fiscal. Conforme se vê, as intimações feitas pela Autoridade Fiscal — fls. 49 e 117 — foram documentos padrões e iguais. Não houve, no presente caso, a lavratura de termos de reintimação, consignando o não atendimento anterior de quaisquer itens, por parte do Fiscalizado. Pelo contrário, o relatório acima demonstra muita diligência do Contribuinte em atender as exigências da Fiscalização. A falta de manutenção em boa guarda ou a recusa em apresentar documentos não ocorreu, não espelhando a realidade dos fatos. Pelo contrário, o Contribuinte se desdobrou para atender a fiscalização, sujeitandose, inclusive, a suas ordens verbais pouco razoáveis, tais como a elaboração de tradução juramentada de documento, com entrega para o dia seguinte. Quanto aos documentos fiscais, todos se encontravam, como se encontram, em muito boa guarda e à disposição do Fisco, no domicílio fiscal do Contribuinte, conforme comprova a documentação ora anexada, cujo acesso, repitase, foi irrestritamente garantido à Autoridade Fiscal. O Contribuinte não forneceu amostras ou laudos de produtos dos quais não dispunha, fato este que não caracteriza, em absoluto, desobediência à intimação fiscal. Notese, nesse sentido, que a presunção legal de legitimidade dos atos administrativos também se efetua a favor do Fiscalizado. Assim, os atos administrativos de desembaraço aduaneiro das Declarações de Importação do Contribuinte, anuindo à classificação por este proposta e sem o recolhimento de qualquer amostra por parte da Autoridade, milita no sentido da retidão dos dados e, não, contra o Contribuinte, conforme pretende a AFRFB. Não restando demonstrada a ocorrência da infração, mostrase indevida a multa proposta, que, por tal motivo, deve ser afastada pelas Autoridades Juladoras. CONCLUSÃO E PEDIDO: Do exame dos autos, concluise que o lançamento deve ser declarado por completo insubsistente, mormente: 1. pelo fato de haver sido erigido sobre elementos de prova frágeis e escassos, remanescendo dúvidas que beneficiam o acusado; 2. em razão da falta de provas de que o produto analisado seja constituído exclusiva e essencialmente pelos compostos e da forma elencada no capítulo 54; 3. porque é imprescindível ao reenquadramento tarifário de mercadorias a certeza quanto à sua identificação na nova posição proposta pela Fiscalização; 4. porque não é possível estender o resultado do laudo pericial efetuado sobre apenas um produto, importado, de outra origem, cerca de quatro anos depois, a todas as demais importações efetuadas pela Impugnante; 5. porque os documentos contábeis se encontram em boa guarda, sempre à disposição da fiscalização, que foi atendida prontamente durante todo o procedimento. Requer, desta maneira, a Impugnante a essa colenda Turma Julgadora que: a) Seja recebida a presente impugnação, em vista de sua tempestividade, sendo o Contribuinte intimado, no prazo e nos estritos temos da lei, acerca da data do julgamento, a fim de que possa apresentar sustentação oral; Fl. 743DF CARF MF Processo nº 10074.001041/200879 Resolução nº 3301000.798 S3C3T1 Fl. 384 6 b) Seja afastada a classificação fiscal adotada pela Fiscalização para as Dl em tela, sendo inadmitida extensão do resultado do laudo aos produtos que não sejam originários do mesmo fabricante, com igual denominação, marca e especificação; c) No mérito, seja declarado improcedente o auto de infração, exonerandose, assim, o Contribuinte de todas as imposições ali elencadas. É o Relatório." A DRJ em São Paulo (SP) julgou a impugnação improcedente e o Acórdão n° 16071.565, de 31/03/16 foi assim ementado: "ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Data do fato gerador: 21/07/2003 A descrição do produto atribuída pelo importador: “ TECIDO SINTÉTICO POLIÉSTER ”, portanto um tecido sintético. Assim, a classificação adequada se faz na posição 5407 (TECIDOS DE FIOS DE FILAMENTOS SINTÉTICOS). Multa proporcional ao valor aduaneiro (5% do V.A.). Tendo em vista a não manutenção dos documentos fiscais e comerciais que embasaram as importações analisadas, em boa guarda e ordem, e a não apresentação dos mesmos à fiscalização. Multa do controle administrativo. É inaplicável o ATO DECLARATÓRIO COSIT N° 12/97 porque na descrição não estão presentes todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado. Multa proporcional ao valor aduaneiro (1% do V.A.). Em função de classificação fiscal errônea. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido" Inconformado, o contribuinte interpôs recurso voluntário, contendo as seguintes alegações: i) cópias de livros fiscais, para combater a multa correspondete: ii) a descrição das mercadorias na DI foi suficiente para a fiscalização efetuar nova classificação, o que elidiria as multas por falta de LI e erro de classificação fiscal; iii) o resultado de um laudo técnico não pode ser estendido a todas as importações; e iv) o laudo técnico não dá suporte à classificação adotada pela fiscalização. É o relatório. Voto Conselheiro Relator Marcelo Costa Marques d'Oliveira Fl. 744DF CARF MF Processo nº 10074.001041/200879 Resolução nº 3301000.798 S3C3T1 Fl. 385 7 O recurso voluntário preenche os requisitos de admissibilidade, pelo que dele tomo conhecimento. Tratase de fiscalização de dezoito Declarações de Importação (DI), registradas nos anos de 2003 e 2004, cujo resultado foi a aplicação de multas por erro na classificação fiscal (não houve, contudo, diferença nos tributos aduaneiros); falta de licença prévia para importação e descumprimento do dever de manter documentos fiscais em boa guarda. Trago proposta de conversão do julgamento em diligência, nos termos do que adiante exponho. No "Relatório de Ação Fiscal", a fiscalização informa que "a descrição das dezoito DIs é a mesma, 'TECIDO SINTÉTICO (POLIÉSTER)'" (fl. 46). Assim sendo, selecionei, aleatoriamente, para exame, a DI n° 04/04373024 (fl. 71), registrada em 10/05/2004, que traz as seguintes informações: As posições NCM adotadas pelo contribuinte e pela fiscalização foram as seguintes: · Fiscalização "54.07 Tecidos de fios de filamentos sintéticos, incluindo os tecidos obtidos a partir dos produtos da posição 54.04. 5407.6 Outros tecidos, que contenham pelo menos 85 %, em peso, de filamentos de poliéster: 5407.61.00 Que contenham pelo menos 85 %, em peso, de filamentos de poliéster não texturizados · Contribuinte Fl. 745DF CARF MF Processo nº 10074.001041/200879 Resolução nº 3301000.798 S3C3T1 Fl. 386 8 "55.16 Tecidos de fibras artificiais descontínuas. 5516.2 Que contenham menos de 85 %, em peso, de fibras artificiais descontínuas, combinadas,principal ou unicamente, com filamentos sintéticos ou artificiais: 5516.23.00 De fios de diversas cores" (g.n.) A fiscalização concluiu que a classificação fiscal 5516.23.00, provida pelo contribuinte, estava incorreta e que a adequada seria 5407.6100, com base na RGI 1 e, subsidiariamente, em laudo técnico de instituição credenciada pela RFB, emitido para fins de importação registrada em 2007 (DI 07/04461298), como segue (trechos do Relatório Fiscal, fls. 39 a 48): "(. . .) As Regras Gerais para Interpretação (RGI) indicam que: "A CLASSIFICAÇÃO DAS MERCADORIAS NA NOMENCLATURA REGE SE PELAS SEGUINTES REGRAS: 1. OS TÍTULOS DAS SEÇÕES, CAPÍTULOS E SUBCAPÍTULOS TÊM APENAS VALOR INDICATIVO. PARA OS EFEITOS LEGAIS, A CLASSIFICAÇÃO É DETERMINADA PELOS TEXTOS DAS POSIÇÕES E DAS NOTAS DE SEÇÃO E DE CAPÍTULO E, DESDE QUE NÃO SEJAM CONTRARIAS AOS TEXTOS DAS REFERIDAS POSIÇÕES E NOTAS, PELAS REGRAS SEGUINTES. (. . .) Diz o texto da Posição 5407: "TECIDOS DE FIOS DE FILAMENTOS SINTÉTICOS, INCLUÍDOS OS TECIDOS OBTIDOS A PARTIR DOS PRODUTOS DA POSIÇÃO 54.04. Foram utilizadas as Notas do Capitulo 54: 1. Na Nomenclatura, a expressão fibras sintéticas ou artificiais referese a fibras descontínuas e filamentos, de polímeros orgânicos, obtidos industrialmente: (. . .) Foram utilizadas as considerações gerais do Capitulo 54 da NESH, no que tange à definição de tecidos sintéticos, como segue: I. FIBRAS SINTÉTICAS (. . .) São as seguintes as principais fibras sintéticas: (. . .) 5) Fibras de poliéster: As fibras compostas de macromoléculas lineares e apresentando na composição macromolecular pelo menos 85%, em peso, de um éster de diol e ácido tereftálico. (. . .) Fl. 746DF CARF MF Processo nº 10074.001041/200879 Resolução nº 3301000.798 S3C3T1 Fl. 387 9 E a Nota Explicativa da Posição 5407 da NESH: 54.07 TECIDOS DE FIOS DE FILAMENTOS SINTÉTICOS, INCLUÍDOS OS TECIDOS OBTIDOS A PARTIR DOS PRODUTOS DA POSIÇÃO 54.04. Nota Explicativa A parte IC das Considerações Gerais da Seção XI define o que se deve entender aqui pelo termo tecidos. Estão compreendidos na presente posição os tecidos fabricados com fios de filamentos sintéticos ou com monofilamentos ou lâminas da posição 54.04, abrangendo, assim, uma grande variedade de tecidos para vestuário, forros, mobiliário, para artigos para acampamento, páraquedas, etc. Portanto, conforme fartamente demonstrado, a classificação do tecido na NCM: 5516.2300 (TECIDOS DE FIBRAS ARTIFICIAIS DESCONTÍNUAS) foi equivocada, uma vez que se trata de tecido de poliéster, considerado tecido sintético, a desclassificação se faz automaticamente pelos próprios textos das Posições: 5516 (TECIDOS DE FIBRAS ARTIFICIAIS DESCONTÍNUAS) e 5407 (TECIDOS DE FIOS DE FILAMENTOS SINTÉTICOS). Mesmo que o importador alegasse que o tecido fosse de fibras descontínuas, ainda assim, a classificação estaria errada, pois a Posição correta seria uma que indicasse TECIDOS DE FIBRAS SINTÉTICAS DESCONTÍNUAS, do Capitulo 55 da NCM. Desta forma, foi desconsiderada a classificação dada pelo importador nas dezoito Declarações de Importação. Conforme já informado no inicio do presente relatório, o contribuinte, embora intimado a apresentar toda a documentação que embasou as importações referentes às dezoito Declarações de Importação em análise, e tendo tido tempo hábil para fazêlo, ainda assim, não apresentou nenhum documento que demonstrasse a completa descrição das mercadorias importadas. Observase, porém, que a descrição das dezoito DIs é a mesma, "TECIDO SINTÉTICO (POLIÉSTER)", e que a empresa também importou nas DIs: 06/15088338, 07/03019850 e 07/04461298 mercadorias com descrição semelhante, sendo "TECIDO PLANO DE FIOS DE FILAMENTOS SINTÉTICOS, CONTENDO 100% EM PESO DE FILAMENTOS SINTÉTICOS DE POLIÉSTER, ..." Desta forma, foi utilizada a ferramenta legal para que, salvo prova em contrário, de acordo com o art. 68 da Lei n° 10.833/03, "As mercadorias descritas de forma semelhante em diferentes declarações aduaneiras do mesmo contribuinte, são presumidas idênticas para fins de determinação do tratamento tributário ou aduaneiro." O relatório técnico, apresentado. pelo importador, também comprova que a mercadoria importada pela DI 07/04461298 é constituída por filamentos sintéticos continuos, e não por fibras descontinuas. Portanto, a correta classificação, por ser a mais especifica, para as mercadorias das DIs em tela é a NCM 5407.6100 (TECIDOS DE FIOS DE FILAMENTOS SINTÉTICOS, CONTENDO PELO MENOS 85%, EM PESO, DE FILAMENTOS DE POLIÉSTER NÃO TEXTURIZADOS)." (. . .)" (g.a) Fl. 747DF CARF MF Processo nº 10074.001041/200879 Resolução nº 3301000.798 S3C3T1 Fl. 388 10 Cumpre, por fim, reproduzir a descrição do produto que se encontra na DI n° 07/04461298, cujo produto foi objeto de exame e emissão do laudo citado pela fiscalização (fls. 146 a 150): DI n° 07/04461298 Laudo Técnico "1) Informar se o tecido é composto de fios ou fibras de poliéster. O material em questão, no estado em que se encontra, deve ser corretamente interpretado como sendo um tecido plano contendo em peso 100% de fios cujo poliéster se apresenta na forma de fibras sintéticas descontínuas, em ponto sarjado, branco, liso, largura de 1,50 m, gramatura aproximada de 116 g/m2, titulo de 83 dtex no urdume e 167 dtex na trama, acondicionado em rolos. O tecido foi obtido a partir de filamentos sintéticos contínuos. Porém o mesmo foi submetido a um acabamento do tipo "lixagem" que promoveu o rompimento desses filamentos caracterizando ao tecido o aspecto de fibras descontínuas." (g.n.) Do cotejo entre as descrições constantes das dezoito DI, da DI cuja mercadoria foi objeto de análise e emissão de Laudo Técnico e dos títulos, notas e textos das posições adotadas pelo Fisco e recorrente, extraise que: i) A DI selecionada por este relator traz no campo "Descrição Detalhada da Mercadoria" o seguinte: "Tecido Sintético (Poliéster)". ii) No Laudo Técnico da DI adotada como paradigma pela fiscalização consta que tratase de "tecido plano, contendo, em peso 100% de fios, cujo poliéster se apresenta na forma de fibras sintéticas descontínuas". Fl. 748DF CARF MF Processo nº 10074.001041/200879 Resolução nº 3301000.798 S3C3T1 Fl. 389 11 iii) O Capítulo 54, adotado pelo Fisco, tem como título: "FILAMENTOS SINTÉTICOS OU ARTIFICIAIS". iii a) Em sua Nota, esclarece que a expressão FIBRAS SINTÉTICAS refere se a FIBRAS DESCONTÍNUAS E FILAMENTOS. iii b) O texto da posição 54.07.61.00 abriga "tecidos de fios de filamentos sintéticos, que contenham pelo menos 85%, em peso, de filamentos de poliéster não texturizados". iv) O Capítulo 55, adotado pela recorrente, tem como título: "FIBRAS SINTÉTICAS OU ARTIFICIAIS, DESCONTÍNUAS". iv a) O texto da posição 55.16 é o seguinte: "tecidos de fibras artificiais descontínuas, que contenham menos de 85%, em peso, de fibras artificiais descontínuas, combinadas, principal ou unicamente, com filamentos sintéticos ou artificiais, de fios de diversas cores". Examinemos os dados acima mencionados. O laudo técnico atesta que o tecido é de fibra sintética descontínua. O Capítulo 54 é assim titulado: "FILAMENTOS SINTÉTICOS OU ARTIFICIAIS". Sua Nota ensina que a fibra sintética pode ser descontínua ou filamento. Porém, na posição 54.07.61.00, classificamse, exclusivamente, os tecidos de filamentos sintéticos. O título do Capítulo 55 é: "FIBRAS SINTÉTICAS OU ARTIFICIAIS, DESCONTÍNUAS". E a posição 55.16.23.00 abriga os tecidos de fibras artificiais descontínuas. Minha conclusão preliminar é a de que o fato de o tecido ser de fibra descontínua e não filamento, afasta a classificação determinada pelo Fisco (54.07.61.00) e levanos para a adotada pelo contribuinte (55.16.23.00). Pareceme que o citado detalhe técnico foi pouco explorado pelo agente fiscal, o que inferese da leitura do "Relatório de Ação Fiscal", como um todo, e, notadamente, do seguinte trecho (fl. 46): "Mesmo que o importador alegasse que o tecido fosse de fibras descontinuas, ainda assim, a classificação estaria errada, pois a Posição correta seria uma que indicasse TECIDOS DE FIBRAS SINTÉTICAS DESCONTÍNUAS, do Capitulo 55 da NCM." Dada a complexidade que envolve a atividade de classificação fiscal, proponho que o processo seja convertido em diligência, para que a unidade de origem esclareça se a classificação que originalmente adotou considerou a conclusão do laudo técnico de que o tecido é de fibra sintética descontínua e não de filamento sintético. Adicionalmente, devem ser inspecionados os documentos fiscais (BL, notas fiscais de entrada e livros de entrada, saída e de inventário) carreados aos autos pela recorrente, em ambas as instâncias, para verificar se atendem aos requisitos legais. Esta conclusão instruirá Fl. 749DF CARF MF Processo nº 10074.001041/200879 Resolução nº 3301000.798 S3C3T1 Fl. 390 12 o julgamento sobre a multa pela não manutenção de documentos comerciais e fiscais em boa guarda. Deve ser produzido relatório conclusivo e aberto prazo de 30 dias para as partes se manifestarem. Em seguida, os autos devem retornar para o CARF, conclusos para julgamento. É como voto. (assinado digitalmente) Marcelo Costa Marques d'Oliveira Fl. 750DF CARF MF
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