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Numero do processo: 16327.720533/2013-91
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Nov 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010
DESPESAS. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. PERÍODOS ANTERIORES. REGIME DE COMPETÊNCIA. INDEDUTIBILIDADE.
As despesas com juros sobre o capital próprio (JCP) se submetem às regras gerais de contabilização de despesas, obedecendo o regime de competência: somente podem incorrer no mesmo exercício social em que as receitas correlacionadas geradas com o uso do capital que os JCP remuneram se produzem, formando o resultado daquele exercício. Não se admite a dedução de JCP calculados sobre as contas do patrimônio líquido de exercícios anteriores. Precedentes recentes na 1ª Turma da CSRF. Acórdãos nº 9101-002.180, 9101-002.181, 9101-002.182, 9101-003.064, 9101-003.065, 9101-003.066 e 9101-003.067.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA.
A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, e 61, § 3º, da Lei 9.430/96.
Numero da decisão: 9101-003.216
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa (relatora), Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andre Mendes de Moura. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro Demetrius Nichele Macei.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rego - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Cristiane Silva Costa Relatora
(assinado digitalmente)
Andre Mendes de Moura Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flavio Franco Correa, Demetrius Nichele Macei (suplente convocado em substituição à Conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rego. Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: CRISTIANE SILVA COSTA
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010 DESPESAS. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. PERÍODOS ANTERIORES. REGIME DE COMPETÊNCIA. INDEDUTIBILIDADE. As despesas com juros sobre o capital próprio (JCP) se submetem às regras gerais de contabilização de despesas, obedecendo o regime de competência: somente podem incorrer no mesmo exercício social em que as receitas correlacionadas geradas com o uso do capital que os JCP remuneram se produzem, formando o resultado daquele exercício. Não se admite a dedução de JCP calculados sobre as contas do patrimônio líquido de exercícios anteriores. Precedentes recentes na 1ª Turma da CSRF. Acórdãos nº 9101 002.180, 9101002.181, 9101002.182, 9101003.064, 9101003.065, 9101 003.066 e 9101003.067. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, e 61, § 3º, da Lei 9.430/96. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa (relatora), Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andre Mendes de Moura. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro Demetrius Nichele Macei. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 05 33 /2 01 3- 91 Fl. 674DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 675 2 (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rego Presidente em exercício (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa – Relatora (assinado digitalmente) Andre Mendes de Moura – Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flavio Franco Correa, Demetrius Nichele Macei (suplente convocado em substituição à Conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rego. Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto. Relatório Tratase de processo originado por Autos de Infração de IRPJ e CSLL, quanto aos anos de 2007, 2008 e 2009, com a imposição de multa de 75%. Consta do Termo de Verificação Fiscal (fls. 116) como descrição dos eventos que originaram a autuação fiscal: Conforme informação da Ficha 06B – Demonstração do resultado – da Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (DIPJ) 2009 / Cisão total, a fiscalizada registrou despesas de Juros sobre Capital Próprio (...) no anocalendário de 2009. O beneficiário dos juros, conforme consta da Ata da Reunião da Diretoria Executiva parágrafo “ENCERRAMENTO”, FOI O ACIONISTA CONTROLADOR Banco Santander (Brasil) S.A. (...) Durante o procedimento fiscal o contribuinte apresentou informações que demonstram que este montante referese a juros calculados sobre diversos anoscalendário. O contribuinte apresentou “Ata da reunião da diretoria executiva realizada em 30 de junho de 2009”, que em sua 2ª deliberação trata acerca da distribuição e pagamento dos JCP no ano de 2009 (...) Fl. 675DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 676 3 Apesar de constar em ata que os JCP foram apurados no balanço de 30 de junho de 2009, em sua resposta o contribuinte informa que, para o exercício findo em 30/06/09, foi determinado o valor de (...) para aquele anocalendário, sendo a diferença relativa aos anos de 2003, 2004, 2006 e 2008. (...) Conforme já minuciosamente exposto no tópico 3, as Sociedades Anônimas estão obrigadas à observância do regime de competência por força legal do art. 177 da Lei 6.404/76 (...) Além disso, as demonstrações financeiras dos anoscalendário 2003, 2004 e 2005, 2006 e 2008 foram aprovadas sem a previsão do pagamento/creditamento de Juros sobre Capital Próprio no período. (...) Logo, não regularmente materializada a opção do interessado, nos anoscalendário de 2003, 2004, 2005, 2006 e 2008, mediante a inexistência de deliberação tomada no devido tempo e a falta de contabilização do pagamento ou do crédito aos sócios dos JCP, não é possível validar a opção extemporânea pelo pagamento de juros sobre capital próprio, sob pena de deturpação da sistemática de tributação em vigor. O contribuinte apresentou Impugnação Administrativa, decidindo a Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo pela manutenção integral dos lançamentos, conforme acórdão ementado da forma seguinte (fls. 230/248): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009 JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. DEDUTIBILIDADE. REGIME DE COMPETÊNCIA. A contabilização no períodobase correspondente é condição para a dedutibilidade dos juros sobre o capital próprio por se tratar de opção do contribuinte. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2009 ALEGAÇÕES DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. O exame de alegações de ilegalidade e inconstitucionalidade é de exclusiva competência do Poder Judiciário. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2009 MULTA DE OFÍCIO. CISÃO TOTAL. SUCESSÃO DAS OBRIGAÇÕES. Fl. 676DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 677 4 Nos termos do art.229, §3º, da Lei nº 6.404/76, quando a sociedade cindida cede parcela do seu patrimônio a sociedade existente, observamse as formalidades da incorporação, cabendo observar que a pessoa jurídica sucessora é responsável pelo crédito tributário da sucedida, respondendo tanto pelos tributos e contribuições, como por eventual multa de ofício e demais encargos legais decorrentes de infração cometida pela empresa sucedida, mesmo que formalizados após a alteração societária, mormente se sucessora e sucedida encontravamse sob controle comum. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A multa de ofício, sendo parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido O contribuinte apresentou recurso voluntário (fls. 253), ao qual foi negado provimento pela 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da Primeira Seção deste Conselho, em acórdão assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2010 DESPESAS OPERACIONAIS. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. DEDUTIBILIDADE. A remuneração ou não do capital próprio constitui uma faculdade ínsita à esfera de decisão da pessoa jurídica, sendo lhe lícito, ao decidir pela remuneração, apropriar a despesa no momento que melhor lhe aprouver. Contudo, os efeitos fiscais decorrentes de tal decisão são ditados pela norma tributária de regência. Nos termos do art. 9º da Lei nº 9.249/1995, a observância dos critérios e limites para fins de dedutibilidade deve ser feita no momento em que a despesa com os juros é apropriada ao resultado. INOBSERVÂNCIA DE REGIME CONTÁBIL. INOCORRÊNCIA. Não tratando os autos de registro de despesa em período diverso ao de competência, nem de postergação do pagamento do imposto, descabe apreciar os efeitos preconizados pelas normas regulamentares que disciplinam tais matérias (artigos 247 e 273 do RIR/99). ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 2010 SUCESSÃO. OBRIGAÇÃO ANTERIOR E LANÇAMENTO POSTERIOR. RESPONSABILIDADE DA SOCIEDADE SUCESSORA. DECISÃO DO STJ EM SEDE DE RECURSOS Fl. 677DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 678 5 REPETITIVOS. EMPRESAS PERTENCENTES AO MESMO GRUPO ECONÔMICO. SÚMULA CARF Nº 47. A responsabilidade tributária de que trata o art. 132 do CTN não está limitada aos tributos devidos pelos sucedidos, mas abrange as multas que, por representarem penalidade pecuniária de caráter objetivo, acompanham o passivo do patrimônio adquirido pelo sucessor. O descumprimento da obrigação principal faz com que a ela se agregue, imediatamente, a obrigação consistente no pagamento da multa tributária. A responsabilidade do sucessor abrange, nos termos do artigo 129 do CTN, os créditos definitivamente constituídos, em curso de constituição ou "constituídos posteriormente aos mesmos atos, desde que relativos a obrigações tributárias surgidas até a referida data", que é o caso dos autos. Decisão do STJ em sede de recursos repetitivos (art. 543C do CPC), nos Edcl no REsp nº 923.012MG. Tal conclusão se aplica, ainda com mais motivos, diante da constatação de que sucessora e sucedida pertenciam ao mesmo grupo econômico à época do evento sucessório, impondose a aplicação da Súmula CARF nº 47. JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC. A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. Em 14/09/2015, o contribuinte foi intimado quanto ao acórdão (fls. 416), interpondo recurso especial em 25/09/2015, alegandose divergência na interpretação da lei tributária, quanto aos seguintes temas: (i) inovação do critério jurídico pela autoridade julgadora, mencionando como paradigmas os acórdãos (i.a) 10809.256 (processo administrativo nº 13884.005045/200375), no qual se decidiu que "À autoridade julgadora (DRJ ou Conselho de Contribuintes) não é permitido ajustar o lançamento" e (i.b) 3102001.690 (processo administrativo nº 10711.000143/200229), do qual se extrai: "ao julgador é defeso inovar na fundamentação da exigência"; (ii) dedutibilidade dos juros sobre capital próprio, indicando como paradigmas os acórdãos: (ii.a) 1402001179 (processo administrativo nº 16327.001201/200928), no qual se decidiu que "Embora os juros pagos e deduzidos em 2006 e 2007 tenham sido calculados também com base nas contas do patrimônio líquido de anoscalendário anteriores de 2001 a 2005, tratandose de despesas relativas aos anoscalendários de 2006 e 2007, respectivamente, e não de 2001 a 2005, tendo em vista que somente em 2006 e 2007 ocorreu a deliberação sobre o pagamento/crédito dos valores desses juros" e (ii.b) 10196.751, no qual consta que "não vejo qualquer óbice na legislação de regência de a Recorrente adotar o procedimento acima Fl. 678DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 679 6 descrito pelo fiscal, que vale repetir, de calcular ano a ano o montante do valor de JCP passível de dedução". (iii) a incidência de juros sobre a multa de ofício, indicando como paradigma o acórdão 9101000722, do qual se destaca: "Os juros de mora só incidem sobre o valor do tributo, não alcançando o valor da multa ofício aplicada". O recurso especial foi parcialmente admitido, conforme razões a seguir reproduzidas da decisão da Presidente da 3ª Câmara da Primeira Seção deste Conselho (Conselheira Adriana Gomes Rêgo) às fls. 563/569, proferida em 15/10/2015: a) Impossibilidade de inovação do critério jurídico pela autoridade julgadora divergência de interpretação do art. 149 do Código Tributário Nacional (...) Confrontandose os acórdãos recorrido e paradigmas, no entanto, não se confirma a divergência suscitada na interpretação do art. 149 do CTN, dispositivo que elenca os casos em que "o lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa". Com efeito, se os acórdãos paradigma, ante a situações fáticas totalmente distintas da que envolve o acórdão recorrido, manifestaram entendimento de que não se pode admitir que a autoridade julgadora administrativa venha a corrigir erros cometidos na autuação fiscal, o recorrido não se posicionou em sentido contrário, ou seja, de que tais erros possam ser corrigidos em sede de julgamento administrativo. Assim, as diferenças de conclusão entre os julgados não decorreram de divergência de interpretação do art. 149 do CTN, mas sim de apreciação sobre situações que não convergem. Ora, no primeiro paradigma, que trata de mútuo com pessoa vinculada sediada no exterior, concluiuse, resumidamente, que "o lançamento deveria ter reconhecido como receita de juros correspondente à operação, no mínimo, o valor calculado com base na taxa Libor acrescida de 3% anuais a título de spread", e que, tendo a DRJ identificado tal equívoco, andou bem ao exonerar o crédito tributário constituído, uma vez que não caberia a ela ajustar o lançamento. Já no segundo paradigma, que trata de lançamento de IPI e Imposto de Importação em decorrência de reclassificação fiscal de mercadorias feita em procedimento de revisão aduaneira, o colegiado julgador concluiu que "tanto a classificação defendida pelo Fisco quanto a defendida pelo contribuinte estão equivocadas", e que, assim, "a aplicação de terceira classificação implicaria inovação na fundamentação", cabendo "decretarse a improcedência da exigência". O acórdão recorrido, por sua vez, manifestandose expressamente sobre a alteração do critério jurídico do lançamento por parte do julgador de primeira instância alegada pela Recorrente, concluiu não ter havido tal alteração de Fl. 679DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 680 7 critério. Isso porque tanto a autuação fiscal quanto a decisão que julgou a sua impugnação tomaram por base o disposto no art. 9º da Lei nº 9.249, de 1995, e que, embora a decisão da DRJ tenha feito "extensas considerações acerca do regime de competência, citando inclusive dispositivos da Lei das Sociedades por Ações", o lançamento foi mantido por descumprimento do art. 9º da Lei nº 9.249, de 1995. (...) Não se confirma, portanto, a divergência de interpretação da legislação tributária, uma vez que as conclusões diferentes a que chegaram os acórdãos confrontados com o recorrido advém da apreciação que cada colegiado fez da situação fática com a qual se defrontou, sendo as situações enfrentadas totalmente diversas. b) Atendimento ao limite legalmente previsto para dedutibilidade dos JCP divergência de interpretação do art. 9º da Lei nº 9.249, de 1995 O confronto do primeiro paradigma (acórdão nº 1402001.179) com o acórdão recorrido confirma a divergência apontada. Com efeito, embora ambos os julgados convirjam na conclusão de que despesas com JCPs só podem ser consideradas incorridas, no regime de competência, após a sociedade deliberar por seu pagamento ou crédito, divergem no que se refere aos critérios de determinação para fins de dedução na apuração da base de cálculo do IRPJ. Deveras, no recorrido se considerou que a observância dos critérios e limites estabelecidos pelo art. 9º da Lei nº 9.249, de 1995, para fins de dedutibilidade, "deve ser feita no momento em que a despesa com os juros é apropriada ao resultado", ou seja, "descabendo cogitar de aplicação de limites 'a cada ano'". E, assim, decidiu o colegiado por manter o lançamento fiscal que glosou a parcela dos JCPs que extrapolava o limite dedutível, calculado com base na TJLP e no Patrimônio Líquido no ano calendário 2009, ano no qual foi deliberado pagamento ou creditamento dos juros. (...) Confirmada a divergência em relação ao primeiro paradigma, despisciendo o exame em relação ao segundo julgado apontado, sendo de se assinalar que as ementas dos dois paradigmas apresentam, na parte que trata da matéria apreciada nesse tópico, texto praticamente igual, bem como que o primeiro paradigma faz referência e transcreve longo trecho do segundo. c) Ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício divergência de interpretação dos artigos 161 do CTN e 61 da Lei nº 9.430, de 1996 (...) Com razão a recorrente. O confronto da ementa dos acórdãos paradigma e recorrido (transcrita parcialmente no início do presente exame), bem como o teor dos trechos do paradigma reproduzidos no recurso confirmam a divergência suscitada. (...) Fl. 680DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 681 8 Em cumprimento ao disposto no art. 18, inciso III, do Anexo II do RICARF, e com base nas razões retro expostas, que aprovo e adoto como fundamentos deste despacho, DOU SEGUIMENTO PARCIAL ao recurso especial interposto, apenas nas matérias do atendimento ao limite legalmente previsto para dedutibilidade dos JCP e da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício, e, por força do art. 71 do Anexo II do RICARF, submeto o presente despacho à apreciação do Presidente da CSRF. O Presidente da Câmara Superior de Recursos Fiscais (Conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto) confirmou o despacho da Presidente de Câmara em 27/10/2015, conforme decisão às fls. 570/571, da qual se destaca: Com base no art. 71 do RICARF, recepciono o recurso especial para reexame e passo a apreciálo, juntamente com o despacho que lhe negou seguimento. O despacho da Presidente da 3ª Câmara não merece qualquer reparo, uma vez que, em relação ao tópico da impossibilidade de inovação do critério jurídico pela autoridade julgadora, a diferença de conclusão entre os acórdãos recorrido e paradigmas não decorre de interpretação divergente do art. 149 do Código Tributário Nacional, mas sim da apreciação que cada colegiado julgador fez das situações fáticas que envolvem cada julgado, situações essas que se mostram totalmente distintas. Em face do exposto, decido por manter, na íntegra, o despacho da Presidente da Câmara e DOU PARCIAL SEGUIMENTO ao recurso especial interposto pelo sujeito passivo, apenas em relação às matérias do atendimento ao limite legalmente previsto para dedutibilidade dos JCP e da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício. Encaminhemse os autos à Procuradoria da Fazenda Nacional para ciência do despacho da Presidente da Câmara e deste despacho, facultandolhe a apresentação de contrarrazões ao recurso especial do sujeito passivo na parte admitida. Após ciência da Fazenda Nacional, os autos deverão ser encaminhados à Deinf São Paulo, para dar ciência ao sujeito passivo do despacho da Presidente da Câmara e deste despacho, e demais providências cabíveis em relação à parte na qual o sujeito passivo restou vencido. Posteriormente, o processo deve retornar à 1ª Turma da CSRF, para prosseguimento. O processo foi remetido à Procuradoria em 28/10/2015(fls. 572), que apresentou contrarrazões em 05/11/2015, nas quais pleitea seja negado provimento ao recurso (fls. 573/608). Como o processo não havia sido encaminhado à unidade de origem para ciência do sujeito passivo quanto ao despacho da Presidente da Câmara e do Presidente da CSRF e demais providências, a despeito da previsão no artigo 71, §3º, do RICARF (Portaria MF 343/2015) então vigente, foi determinada tal providência (fls. 611/616). Fl. 681DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 682 9 Tendo sido intimado em 10/05/2017, o contribuinte apresentou agravo (fls. 624/629). O Presidente da CSRF negou conhecimento ao agravo e indeferiu o pedido de retificação do exame de admissibilidade, entendendo não estar demonstrado lapso manifesto ou inexatidão material (fls. 659/664). O contribuinte foi intimado quanto a esta decisão em 22/06/2016 (fls. 669). É o relatório. Voto Vencido Conselheira Cristiane Silva Costa, Relatora Conheço do recurso especial quanto aos dois temas acima referidos, eis que tempestivo e demonstrada a divergência na interpretação da lei tributária, conforme decisões da Presidente de Câmara, adotando as suas razões de decidir. Passo a analisar seu mérito. Juros sobre Capital Próprio A Lei nº 9.249/1995, dispõe sobre os juros sobre capital próprio, tendo a seguinte redação ao tempo dos fatos em discussão nestes autos (2009): Art. 9º A pessoa jurídica poderá deduzir, para efeitos da apuração do lucro real, os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pro rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo TJLP. § 1º O efetivo pagamento ou crédito dos juros fica condicionado à existência de lucros, computados antes da dedução dos juros, ou de lucros acumulados e reservas de lucros, em montante igual ou superior ao valor de duas vezes os juros a serem pagos ou creditados. (...) § 7º O valor dos juros pagos ou creditados pela pessoa jurídica, a título de remuneração do capital próprio, poderá ser imputado ao valor dos dividendos de que trata o art. 202 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, sem prejuízo do disposto no § 2º. (ver se vigente ao tempo dos fatos) Segundo a Lei nº 9.249/1995, portanto, os juros sobre capital próprio ("JsCP") serão dedutíveis no momento em que pagos ou creditados ao acionista (art. 9º, caput). O mesmo dispositivo legal estabeleceu que estes JsCP seriam calculados sobre contas do Fl. 682DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 683 10 patrimônio líquido, limitados à variação pro rata dia da TJLP (art. 9º, caput, in fine). E ainda limitou os juros ao valor de 50% de lucros acumulados ou das reservas de lucros (art. 9º, §1º). Pois bem. A remuneração de capital dos sócios, por meio de JsCP, é faculdade relacionada à liberdade do exercício da atividade econômica. E apenas com o pagamento ou crédito aos sócios após assembleia que delibere a esse respeito surge a despesa correspondente a estes JsCP. A inexistência de norma tributária ou mesmo de outro ramo do Direito que restrinja o pagamento de juros sobre capital próprio com base em patrimônio líquido de anos anteriores reafirma a liberdade das pessoas jurídicas de deliberar a esse respeito, com a dedução de tais valores na forma autorizada pelo artigo 9º, acima colacionado. Assim, só quando os JsCP forem deliberados e pagos (ou creditados) aos acionistas será possível a dedutibilidade, na forma expressa pelo artigo 9º, acima reproduzido. No caso destes autos, houve efetiva deliberação e pagamento dos juros sobre o capital próprio em 2009, reputandose, em tal momento, a possibilidade de sua dedução, mesmo que relacionandose aos anos anteriores. O Superior Tribunal de Justiça decidiu de forma similar, legitimando a dedução dos juros sobre capital próprio em anocalendário futuro: MANDADO DE SEGURANÇA. DEDUÇÃO. JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO DISTRIBUÍDOS AOS SÓCIOS/ACIONISTAS. BASE DE CÁLCULO DO IRPJ E DA CSLL. EXERCÍCIOS ANTERIORES. POSSIBILIDADE. I Discutese, nos presentes autos, o direito ao reconhecimento da dedução dos juros sobre capital próprio transferidos a seus acionistas, quando da apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL no anocalendário de 2002, relativo aos anoscalendários de 1997 a 2000, sem que seja observado o regime de competência. II A legislação não impõe que a dedução dos juros sobre capital próprio deva ser feita no mesmo exercíciofinanceiro em que realizado o lucro da empresa. Ao contrário, permite que ela ocorra em anocalendário futuro, quando efetivamente ocorrer a realização do pagamento. III Tal conduta se dá em consonância com o regime de caixa, em que haverá permissão da efetivação dos dividendos quando esses foram de fato despendidos, não importando a época em que ocorrer, mesmo que seja em exercício distinto ao da apuração. IV "O entendimento preconizado pelo Fisco obrigaria as empresas a promover o creditamento dos juros a seus acionistas no mesmo exercício em que apurado o lucro, impondo ao contribuinte, de forma oblíquoa, a época em que se deveria dar o exercício da prerrogativa concedida pela Lei 6.404/1976". Fl. 683DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 684 11 V Recurso especial improvido. (Superior Tribunal de Justiça, Primeira Turma, Rel. Min. Francisco Falcão, Resp 1086752, DJe 11/03/2009) O julgamento realizado pela Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça não foi submetido à sistemática do então vigente art. 543C, do CPC/1973. Assim, não se trata de decisão de reprodução obrigatória pelos membros deste Colegiado. De toda forma, reforça o entendimento ora manifestado no presente voto. Por fim, afasto a alegação de renúncia do direito pela ausência de deliberação de pagamento dos JsCP nos anos anteriores, por força do artigo 192, da Lei nº 6.404/1976. Até porque "os negócios jurídicos benéficos e a renúncia interpretamse estritamente", como prevê o artigo 114, do Código Civil. A eventual renúncia do direito pela contribuinte só poderia ocorrer de forma expressa, não se admitindo sua presunção pela mera omissão de manifestação do acionista em assembleias realizadas em anos anteriores. Acrescento que o artigo 132, da Lei nº 6.404/1976 não estabelece obrigação de deliberação a respeito do pagamento de JsCP nas assembleias gerais ordinárias, o que corrobora a impropriedade em se tratar a omissão dos acionistas como renúncia ao direito de pagamento destes JsCP. Destaco trecho de voto de lavra do exConselheiro Alexandre Antonio Alkimin, adotandoo como fundamento do presente voto, a respeito da inaplicabilidade da "preclusão temporal" quanto aos JsCP de anos anteriores: Portanto, tendo em vista ser a preclusão relacionada à perda de direitos, faculdades ou poderes processuais, logicamente, não será aplicada à hipótese de ausência de deliberação de JCP. Mesmo na eventualidade de considerar que a ausência de deliberação do JCP em exercícios anteriores conduziria à caducidade do direito à dedução do valor do lucro real (direito material), o argumento não prosperaria em virtude da ausência de fundamento legal que ampare esse raciocínio. Isso porque, como bem salientou a DRJ, a deliberação do pagamento de JCP é uma faculdade dos acionistas. Lado outro, a caducidade extingue o direito pelo fato de seu titilar quedarse inerte e não exercer seu direito dentro do prazo legal ou convencional. Ora, se a lei não define prazo para que seja exercida a faculdade atribuída ao contribuinte, não há que se falar em perda do direito por decurso de prazo que não foi limitado ou fixado por ato legal. Deste modo, não merece prosperar o argumento de preclusão temporal, vez que esse instituto não é aplicável à perda de direito material e tampouco existe previsão legal de prazo para deliberação de pagamento de JCP. (Acórdão nº 1401000.901, processo administrativo nº 16327.001409/201081) Diante de tais razões, notadamente considerando que o art. 9º da Lei 9.249/95 define que o "pagamento ou crédito" é definidor do momento da ocorrência do fato gerador dos JsCP, entendo que apenas neste momento é possível a dedutibilidade destes "juros". Fl. 684DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 685 12 Em que pese o entendimento desta Relatora, esclareço que esta Turma da CSRF firmou entendimento em sentido contrário, com composição similar à presente, como se observa do acórdão nº 9101002.692, proferido em sessão de julgamento de 19/03/2017: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Anocalendário: 2005 JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. FACULDADE SUJEITA AO REGIME DE COMPETÊNCIA E A CRITÉRIOS TEMPORAIS. DEDUÇÃO EM EXERCÍCIOS POSTERIORES. VEDAÇÃO. 1 O pagamento ou crédito de juros sobre capital próprio a acionista ou sócio representa faculdade concedida em lei, que deve ser exercida em razão do regime de competência. Incabível a deliberação de juros sobre capital próprio em relação a exercícios anteriores ao da deliberação, posto que os princípios contábeis, a legislação tributária e a societária rejeitam tal procedimento, seja pela ofensa ao regime de competência, seja pela apropriação de despesas em exercício distinto daquele que as ensejou. 2 As despesas de Juros com Capital Próprio devem ser confrontadas com as receitas que formam o lucro do período, ou seja, tem que estar correlacionadas com as receitas obtidas no período que se deu a utilização do capital dos sócios, no período em que esse capital permaneceu investido na sociedade. 3 A aplicação de uma taxa de juros que é definida para um determinado período de um determinado ano, e seu rateio proporcional ao número de dias que o capital dos sócios ficou em poder da empresa, configuram importante referencial para a identificação do período a que corresponde a despesa de juros, e, conseqüentemente, para o registro dessa despesa pelo regime de competência, 4 Não existe a possibilidade de uma conta de despesa ou de receita conservar seus saldos para exercícios futuros. Em outros termos, apurado o resultado, o que era receita deixa de sêlo e também o que era despesa deixa de sêlo. Apenas as contas patrimoniais mantém seus saldos de um ano para outro. os JCPs podem passar de um exercício para o outro, desde que devidamente incorrida e escriturada a despesa dos JCPs no exercício em que o capital dos sócios foi utilizado pela empresa, com a constituição do passivo correspondente. Contribuição Social sobre o lucro líquido – CSLL TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Estendese ao lançamento decorrente, no que couber, a decisão prolatada no lançamento matriz, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula. Fl. 685DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 686 13 Em referido julgamento, foram vencidos esta Relatora, além dos Conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra. O entendimento desta Relatora não se alterou desde aquele julgamento. Diante de tais razões, com a devida vênia ao entendimento majoritário desta Turma, voto por dar provimento ao recurso especial da contribuinte. Juros de Mora sobre a Multa de Ofício Ademais, dou provimento ao recurso especial do contribuinte para reconhecer a ilegalidade da exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, em face da falta de previsão expressa em lei para tanto, mantendo, assim, o acórdão recorrido. Isto porque o caput do artigo 61 da Lei nº 9.430/1996, trata apenas dos débitos de tributos e contribuições administradas pela Secretaria da Receita Federal, verbis: Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (Vide Medida Provisória nº 1.725, de 1998) (Vide Lei nº 9.716, de 1998) O caput acima colacionado, ao dispor sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições tratou dos débitos decorrentes dos fatos geradores que originam a cobrança destes tributos e contribuições, isto é, os débitos dos tributos. Não tratou, assim, das penalidades decorrentes do descumprimento da obrigação tributária. Acrescentese que o §3º deste dispositivo legal trata da possibilidade de incidência de juros de mora sobre os débitos a que se refere o citado artigo, isto é, débitos de tributos e contribuições devidas à Receita Federal do Brasil expressamente tratados pelo caput , confirmando que não há previsão para incidência de juros sobre a multa de ofício. Ressaltese que os parágrafos de um artigo expressam aspectos complementares à norma enunciada no caput do artigo, ou exceções à regra por ele estabelecidas, conforme artigo 11, III, alínea "c", da Lei Complementar nº 95/1998: Fl. 686DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 687 14 Art. 11. As disposições normativas serão redigidas com clareza, precisão e ordem lógica, observadas, para esse propósito, as seguintes normas: (...) III para a obtenção de ordem lógica: (...) c) expressar por meio dos parágrafos os aspectos complementares à norma enunciada no caput do artigo e as exceções à regra por este estabelecida; Assim, a disposição do §3º, do artigo 61 deve se conformar ao caput deste dispositivo, regulando, assim, os débitos de tributos, contribuições e multa de mora. É oportuno lembrar que o legislador expressamente previu a incidência de juros sobre multas isoladas, como se depreende do artigo 43, da mesma Lei nº 9.430/1996: Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Ao regular a multa de ofício, em sentido contrário, o artigo 44 da Lei nº 9.430/1996 não estabeleceu expressamente a incidência de juros. Nesse sentido, destacase a , redação do citado dispositivo, com redação vigente ao tempo do fato gerador tratado nestes autos (2007): Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; § 1º As multas de que trata este artigo serão exigidas: I juntamente com o tributo ou a contribuição, quando não houverem sido anteriormente pagos; Ressaltese que o Código Tributário Nacional trata de crédito tributário com dois sentidos diferentes, em alguns dispositivos tratando da obrigação tributária e a penalidade pelo descumprimento desta obrigação, como se observa dos artigos 121, 139, 142, em outros apenas como a obrigação tributária principal, como se verifica dos artigos 161 e 164. Colacionase o artigo 164, do Código Tributário Nacional: Fl. 687DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 688 15 Art. 164. A importância de crédito tributário pode ser consignada judicialmente pelo sujeito passivo, nos casos: I de recusa de recebimento, ou subordinação deste ao pagamento de outro tributo ou de penalidade, ou ao cumprimento de obrigação acessória; II de subordinação do recebimento ao cumprimento de exigências administrativas sem fundamento legal; III de exigência, por mais de uma pessoa jurídica de direito público, de tributo idêntico sobre um mesmo fato gerador. § 1º A consignação só pode versar sobre o crédito que o consignante se propõe pagar. Ao dispor que cabe a consignação na hipótese de recusa ao pagamento "outro tributo ou de penalidade" evidencia que no crédito tributário tratado pelo artigo 164 não está incluída penalidade. No mesmo sentido, dispõe o artigo 161, do Código Tributário Nacional: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. Notese que o artigo 161, do Código Tributário Nacional, define a incidência de juros de mora, "sem prejuízo das penalidades", revelando que estas penalidades não compõe o crédito tributário na acepção expressa por este dispositivo. O §1º do artigo 161 expressa "aspectos complementares à norma enunciada no caput" (conforme artigo 11, III, alínea "c", da Lei Complementar nº 95/1998) e, portanto, não infirma a conclusão que a penalidade não está incluída no crédito como definido por este dispositivo. Conclusão Diante de tais razões, com a devida vênia ao entendimento majoritário desta Turma, dou provimento ao recurso especial da contribuinte quanto a ambos os temas (JsCP e juros sobre a multa). (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa Fl. 688DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 689 16 Voto Vencedor Conselheiro Andre Mendes de Moura, Redator designado. Não obstante o substancioso voto da I. Relatora, a quem sempre rendo homenagens, manifesto meu entendimento contrário em relação ao mérito. As matérias devolvidas são temporalidade do JCP (Juros sobre Capital Próprio) e incidência de juros de mora sobre multa de ofício. Passo ao exame. I. Juros sobre Capital Próprio Dedutibilidade de Pagamento/Creditamento O assunto já foi enfrentado pelo Colegiado, em recentes julgamentos. Vale citar os Acórdãos nº 9101002.180, 9101002.181, 9101002.182, 9101003.064, 9101 003.065, 9101003.066 e 9101003.067 (os últimos quatro na sessão de setembro de 2017). Transcrevo o voto da Conselheira Adriana Gomes Rego, proferido no Acórdão nº 9101003.066, cujos fundamentos adoto como razões para decidir. Juros sobre Capital Próprio Períodos Anteriores A discussão cingese à possibilidade de a pessoa jurídica deduzir, na apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL de determinado anocalendário, tão somente os juros sobre o capital próprio (JCP) calculados sobre os valores das contas do patrimônio líquido no exercício social correspondente ao anocalendário em questão (entendimento da Fiscalização) ou também em relação a exercícios sociais anteriores (entendimento da Contribuinte). (...) Como resta evidente pelos próprios precedentes trazidos pela Fazenda e pela Contribuinte, a matéria não se encontra pacificada no âmbito do CARF. As decisões mais recentes desta 1ª Turma da CSRF, no entanto, vão no sentido da indedutibilidade dos JCP em relação a períodos pretéritos. Com efeito, na sessão de 20 de janeiro de 2016, foram prolatados três acórdãos (de nºs 9101 002.180, 9101002.181 e 9101002.182), todos de relatoria do Conselheiro Rafael Vidal de Araújo nessa linha. Em todas essas votações, meu voto acompanhou o Relator, por entender que: a) os Juros sobre o Capital Próprio representam uma remuneração dos sócios pelo capital investido; b) por serem juros pagos pelas pessoas jurídicas a seus sócios, têm a natureza contábil de despesas (contrapartida das receitas advindas do uso desse capital); c) por serem uma despesa, transitam pelo resultado; e Fl. 689DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 690 17 d) por transitarem pelo resultado, não podem ser pagos ou creditados após o encerramento do período. Já na sessão de 1º de março de 2016, um processo de minha relatoria foi a julgamento, tendo esta Turma decidido que não se admite a dedução de JCP calculados sobre as contas do patrimônio líquido de exercícios anteriores (acórdão nº 9101002.248). Nesse contexto, trazse para o presente caso os argumentos expendidos na decisão em questão, dirimidas eventuais diferenças. Em primeiro lugar, registrese presente o fato de que a Lei nº 9.249/1995 visou estimular o investimento de capital nas empresas e desestimular o financiamento das atividades operacionais, mediante empréstimos, que caracterizavam uma subcapitalização. Constatase, também, que a lei não mencionou o momento em que tais juros devem ser pagos. Contudo, vislumbrase isso desnecessário, porque se a norma estabelece limites para fins de dedução do lucro real, é porque estamos falando de uma despesa contábil, que tem limites de dedutibilidade para fins de lucro real. Por oportuno, transcrevese trecho do acórdão nº 1102000.934, de 8 de outubro de 2013, da lavra do exConselheiro José Evande Carvalho Araújo: Contudo, pareceme evidente que, quando a lei permite que se deduza, para efeitos da apuração do lucro real, os JCP calculados pela aplicação pro rata dia da taxa TJLP sobre os valores das contas do patrimônio líquido, está se limitando o cálculo para o mesmo período da apuração do lucro real. Apesar de a doutrina afirmar que a natureza jurídica dos juros sobre o capital próprio é a de distribuição sui generis de lucro, não há dúvidas de que a lei fiscal lhes dá o tratamento de despesa financeira. E como despesa financeira, só podem ser apropriados no período a que competirem. Não é razoável se entender que a lei permitiu implicitamente a dedução de uma despesa calculada com base no patrimônio de períodos anteriores. Isso seria o mesmo que admitir, por exemplo, a dedução de juros sobre um empréstimo relativos ao ano calendário anterior. (Grifei) Antes da deliberação para o pagamento dos JCP não há que se falar em direito subjetivo dos sócios ao seu recebimento, nem em despesa incorrida. De fato, a despesa só surge após deliberação acerca do pagamento ou do creditamento dos juros e da sua correspondente contabilização. Correto o Ilustre relator do acórdão recorrido quando afirma que para os exercícios pretéritos, não tendo havido pagamento da despesa ou apropriação da obrigação para pagar aos sócios em conta de passivo, não há que se falar em despesa incorrida. Fl. 690DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 691 18 Todavia, resta equivocado quando declara ser descabida menção à inobservância do regime de competência, posto que não houve despesa incorrida. Há inobservância ao regime de competência quando em 2010, a contribuinte apropria uma despesa, cujos fatos geradores ocorreram entre 1998 a 2009. Neste sentido, trago à colação a lição de Hiromi Higuchi (HIGUCHI, Hiromi. Imposto de Renda das Empresas: Interpretação e Prática. 38ª ed. São Paulo: IR Publicações, 2013. p. 127.): Alguns tributaristas entendem que os juros sobre o capital próprio são dedutíveis na determinação do lucro real, ainda que não contabilizados no período base correspondente, desde que escriturados como exclusão no LALUR e sejam contabilizados no períodobase seguinte como ajuste de exercício anterior. Entendemos que a contabilização no períodobase correspondente é condição para a dedutibilidade dos juros sobre o capital próprio por tratarse de opção do contribuinte. Sem o exercício da opção de contabilizar os juros não há despesa incorrida. É diferente de juros calculados sobre o empréstimo de terceiro porque neste há despesa incorrida, ainda que os juros sejam contabilizados só no pagamento. (Grifei) E também os ensinamentos de Edmar Oliveira Andrade Filho 1: Se em determinado exercício social passado não foram pagos ou creditados juros sobre o capital e se demonstrações contábeis já tiverem sido aprovadas pelos acionistas é lícito inferir que eles deliberaram pelo não pagamento ou crédito dos juros. Se as pessoas que detinham competência para deliberar sobre o pagamento dos juros não o fizeram e aprovaram as demonstrações financeiras sem que tal obrigação fosse considerada, parece fora de dúvida que elas renunciaram à faculdade prevista em lei. Em decorrência dessa renúncia e considerando demonstrações contábeis, depois de aprovadas pelos sócios ou acionistas são consideradas "ato jurídico perfeito", impõese a conclusão de que elas só podem ser modificadas em caso de erro, dolo ou simulação. Portanto, lógica e juridicamente, não há como imputar a exercícios passados os efeitos de deliberação societária (sujeita a uma disciplina jurídica específica) tomada no presente. Essa imputação só poderá ocorrer se o Balanço vier a ser retificado por determinação dos sócios ou acionistas, mas tal retificação só poderia ser juridicamente 1 (Disponível em <http://www.fiscosoft.com.br/a/2fac/irpjecslljurossobreocapitalpropriocalculadosobrea movimentacaodopatrimonioliquidoosfatoseaconsultaedmaroliveiraandradefilho>, acesso em 10/07/2017, às 15h58min ) Fl. 691DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 692 19 justificada se demonstrada a anterior ocorrência de erro, dolo ou simulação. E é aqui que reside a questão: o momento que em o valor dos juros é imputado ao resultado do exercício. Como após a apuração do lucro, não há que se falar mais em pagamento ou reconhecimento da obrigação referentes às despesas de juros sobre o capital próprio, relativamente aos anoscalendário de 1998 a 2009, não se poderia mais pagar juros sobre capital próprio; daí porque o “períodobase correspondente”, como dito, necessariamente precisa ser o de apuração do lucro. No presente processo, em relação aos anoscalendário 1998 a 2009, para os quais a deliberação para pagamento de JCP só ocorreu em dezembro de 2010, e não foi constituída a obrigação de pagar os JCP correspondentes nos AC 1998 a 2009, não há que se falar em dessas despesas incorridas. Poderseia argumentar que a lei autoriza o cálculo de JCP sobre os lucros acumulados de anos anteriores; contudo, a menção aos lucros acumulados trazida pela Lei nº 9.249, de 1995, diz respeito tão somente a um dos limites para fins de dedutibilidade do lucro real, senão vejamos: Art. 9º A pessoa jurídica poderá deduzir, para efeitos da apuração do lucro real, os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pro rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo TJLP. § 1º O efetivo pagamento ou crédito dos juros fica condicionado à existência de lucros, computados antes da dedução dos juros, ou de lucros acumulados e reservas de lucros, em montante igual ou superior ao valor de duas vezes os juros a serem pagos ou creditados. (Redação dada pela Lei nº 9.430, de 1996) (Grifei) Neste sentido também entendeu a Conselheira Edeli Pereira Bessa, por meio do Acórdão nº 1101000.904, de 12 de junho de 2013: Esclareçase, ainda, que o fato de a remuneração do capital próprio por meio de juros atribuídos aos sócios ter seus limites estabelecidos, também, em função do montante de lucros acumulados no momento da deliberação, não significa que o cálculo dos juros podem considerar períodos de apuração anteriores, cujos resultados integram aquele saldo acumulado, mas apenas que os juros incorridos no período de referência podem ser pagos ainda que superem o resultado do exercício correspondente, desde que haja saldo em conta de lucros acumulados que suportem este pagamento. Inadmissível, assim, a redução dos lucros apurados no anocalendário 2005 em razão de juros decorrentes da utilização de capital próprio em Fl. 692DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 693 20 período de apuração distinto daquele ao qual se refere os lucros que se pretendeu destinar à remuneração de capital. (Grifei) Além disso, o fato de o Conselho de Administração deliberar em dezembro/2010 acerca do pagamento de juros sobre o capital, que poderia ter sido deliberado em exercícios passados, não tem o condão de subverter o regime de competência e tornar dedutível despesa não incorrida a seu tempo. É dizer, não tendo a despesa com JCP incorrido no exercício correspondente, não se pode deduzi la na apuração do lucro real de exercício posterior. A imputação dessa despesa só poderia ser efetivada com retificação do balanço, e esta retificação só tem previsão nas hipóteses de ocorrência de erro, dolo ou simulação, o que não é o caso. Para se considerar a despesa como efetivamente incorrida, são necessários dois requisitos: i) a deliberação acerca do pagamento ou creditamento dos JCP e ii) a devida contabilização do pagamento da despesa ou da apropriação da obrigação em conta de passivo. Dessa forma, a deliberação em reunião do Conselho de Administração para creditar aos sócios JCP incidentes sobre patrimônio líquido de exercícios anteriores (1998 a 2009) não tem validade para fins fiscais, pois se refere a despesas que não foram incorridas naqueles exercícios. Não se discute que a deliberação, nos termos do art. 37 do Estatuto Social da autuada, é uma faculdade. O ponto é que essa faculdade precisa ser exercida no momento da apuração do lucro, por se estar tratando de uma despesa da pessoa jurídica. É uma faculdade do Conselho de Administração deliberar sobre pagamento de JCP em 2010, poderia não têlo feito. Mas ao decidir fazer uso desta faculdade, a deliberação só pode abranger o pagamento de JCP sobre o patrimônio líquido existente ao final do anocalendário de 2010, não podendo criar despesas para períodos de apuração já encerrados. De fato, a análise dos requisitos de dedutibilidade não pode ficar restrita à possibilidade de pagamento posterior dos juros do capital próprio, sob pena de se concluir, equivocadamente, que a legislação estipulou o regime de caixa para seu reconhecimento. Se a lei silencia, o regime a ser adotado é o de competência, estabelecido no art.177 da Lei nº 6.404/76 como regra geral, verbis: Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. § 1º As demonstrações financeiras do exercício em que houver modificação de métodos ou critérios contábeis, de efeitos relevantes, deverão indicála em nota e ressaltar esses efeitos. (Grifei) Ou seja, a Lei nº 6.404/76 adotou o regime de competência como regra geral, devendo o regime de caixa ser aplicado excepcionalmente, para isso, Fl. 693DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 694 21 deve estar previsto expressamente em lei. Nesse mesmo sentido, a citada lei, em seu art.187, que trata da demonstração do Resultado do Exercício, vincula as despesas, custos e encargos às receitas correspondentes do mesmo exercício, verbis: Art. 187. A demonstração do resultado do exercício discriminará: (...) § 1º Na determinação do resultado do exercício serão computados: a) as receitas e os rendimentos ganhos no período, independentemente da sua realização em moeda; e b) os custos, despesas, encargos e perdas, pagos ou incorridos, correspondentes a essas receitas e rendimentos. Temse ainda a Instrução Normativa SRF nº 11/96, que em seu artigo 29 disciplina a possibilidade de dedução de juros sobre capital próprio, e ratifica a interpretação da Lei nº 6.404/76, verbis: Juros Sobre Capital Próprio Art. 29. Para efeito de apuração do lucro real, observado o regime de competência, poderão ser deduzidos os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração de capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pró rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo – TJLP. (Grifei) A contribuinte invoca o mesmo normativo (art.29 da IN SRF nº 11/96) para declarar que respeitou o regime de competência, na medida em que só se pode cogitar da existência da despesa relativa ao JCP no momento em que o pagamento se torna obrigatório para a pessoa jurídica, e que essa obrigatoriedade só surgiu após a deliberação do Conselho de Administração em dezembro de 2010. Conforme já mencionado, tal entendimento não tem cabimento, uma vez que a inobservância ao regime de competência decorre do fato de a contribuinte tentar apropriar despesas, em descompasso com as receitas geradas com o uso do capital que os JCP remuneram. A matéria também se encontra regulamentada na IN SRF nº 41/98, nos seguintes termos: Art. 1º Para efeito do disposto no art. 9º da Lei Nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, considerase creditado, individualizadamente, o valor dos juros sobre o capital próprio, quando a despesa for registrada, na escrituração contábil da pessoa jurídica, em contrapartida a conta ou subconta de seu passivo exigível, representativa de direito de crédito do sócio ou acionista da sociedade ou do titular da empresa individual. (Grifei) Fl. 694DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 695 22 O normativo acima esclarece que é possível o pagamento posterior de juros sobre capital próprio, mas desde que a despesa tenha sido reconhecida e devidamente registrada no anocalendário correspondente ao que foi utilizado para cômputo do JCP, em contrapartida à conta do passivo, que represente a obrigação perante os sócios para pagamento futuro. No caso em tela, a contribuinte manteve uma planilha de JCP acumulados à margem da contabilidade da empresa. (...) Resta claro, assim, que a legislação adota como regra geral o regime de competência para o registro das mutações patrimoniais e das receitas e despesas. As exceções devem vir explícitas na lei. Contudo, a Lei nº 9.249/95 não tratou de excepcionar a regra geral, razão pela qual seria um contrassenso, calcular os JCP com base no patrimônio líquido de um determinado anocalendário, e apropriar essa despesa em um anocalendário distinto daquele que serviu como parâmetro para o cálculo dos JCP. Antes, é preciso compreender os juros sobre capital próprio como destinação do lucro formado a partir da aplicação do capital dos sócios, e uma destinação opcional, em substituição à distribuição de lucros, consoante expressa o art. 9º, §7º da Lei nº 9.249/95, ao permitir que o valor dos JCP seja "imputado ao valor dos dividendos" obrigatórios, "de que trata o art. 202 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, sem prejuízo" da retenção na fonte prevista no §2º daquele dispositivo. Ressaltese que o caput do art. 9º permite a dedução, para efeitos da apuração do lucro real, dos juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio. Por óbvio que o capital próprio a ser remunerado por juros ao final de cada ano é o capital dos sócios ou acionistas naquele anocalendário. Esse aspecto da legislação precisa ser observado, porque leva ao seguinte questionamento: ocorrendo a deliberação acerca do pagamento de JCP em 2010, referente a anoscalendários anteriores (1998 a 2009), os sócios/acionistas que receberam a remuneração dos juros foram individualizadamente aqueles constantes do quadro societário/acionistas de 1998 a 2009? Ou foram os sócios/acionistas existentes em 2010? Poderia a Conselho de Administração em 2010 rever as decisões tomadas pelos sócios/acionistas anteriores? Observese, portanto, que se a contribuinte delibera em 2010 o pagamento de JCP dos anoscalendários 1998 a 2009, os sócios a serem remunerados deveriam ser aqueles constantes do quadro societário nos respectivos anoscalendários sobre o qual se calcula os JCP, não os sócios existentes em 2010, sob pena de não se estar a remunerar o capital próprio, mas o capital de outrem. Certamente não é isso o que acontece. O Conselho de Administração não ia decidir, no presente, remunerar sócios/acionistas que não mais fazem parte da sociedade, quando poderia remunerar os sócios/acionistas atuais através de dividendos. Remunerar os sócios atuais com juros sobre um capital de anos calendários pretéritos, seria desvirtuar completamente o instituto do juros sobre capital próprio, pois estarseia a remunerar um capital que pertencia a outrem, logo, não haveria remuneração de capital próprio dos sócios. Por todo exposto, temse que as despesas com JCP somente podem incorrer, no mesmo exercício social em que as receitas correlacionadas (geradas com Fl. 695DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 696 23 o uso do capital que os JCP remuneram) se produzem, formando o resultado daquele exercício. Ressalto que despesas incorridas são aquelas efetivamente pagas ou apropriadas contabilmente como obrigação em conta de passivo. Não tendo incorrido no exercício correspondente, não se pode deduzilas na apuração do lucro real de exercício posterior. É dizer, não se admite a dedução de JCP calculados sobre as contas do patrimônio líquido de exercícios anteriores. Em relação ao decidido pela 1ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, também se manifestou com clareza o Acórdão nº 9101003.066: Quanto ao precedente do Superior Tribunal de Justiça STJ trazido pela Contribuinte em contrarrazões [REsp nº 1.086.752PR (2008/01933882), 1ª Turma, Rel. Ministro Francisco Falcão, DJ 11/03/2009], observase que não se trata de decisão definitiva de mérito proferida pelo STJ na sistemática dos recursos repetitivos (art. 543C da Lei nº 5.869, de 1973 CPC). Não se aplica, portanto, o comando de vinculação de decisões veiculado no art. 62, § 2º, do Anexo II do Regimento Interno deste CARF, aprovado pela Portaria nº 343, de 9 de junho de 2015. Acrescentese que este REsp nº 1.086.752 do STJ é um precedente isolado, não havendo outros no mesmo sentido. Além do que, seu entendimento contraria frontalmente o art.177 da Lei nº 6.404/76, que estabelece a regra geral do regime de competência. Colacionase um excerto do RESP, que demonstra tal contradição: II A legislação não impõe que a dedução dos juros sobre capital próprio deva ser feita no mesmo exercício financeiro em que realizado o lucro da empresa. Ao contrário, permite que ela ocorra em anocalendário futuro, quando efetivamente ocorrer a realização do pagamento. III Tal conduta se dá em consonância com o regime de caixa, em que haverá permissão da efetivação dos dividendos quando esses foram de fato despendidos, não importando a época em que ocorrer, mesmo que seja em exercício distinto ao da apuração. (Grifei) Logo, data venia, resta equivocado o entendimento consignado neste RESP, e talvez por esta razão, não se encontrem outros julgados neste sentido. Resta evidente, portanto, a impossibilidade de, no anocalendário de 2008, deduzirse de despesas relativas a pagamentos de JCP atinentes aos anoscalendários pretéritos. Tampouco há que se falar em postergação, vez que a despesa deixa de ser dedutível porque não observou o período de competência e também porque não foi reconhecida nas correspondentes assembléias dos acionistas realizada nos anos anteriores a 2008. Fl. 696DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 697 24 E, não tendo sido objeto de reconhecimento no momento correto (2004 a 2007), conforme previsto na legislação, não há que se falar em antecipação de despesa. Da mesma maneira, a partir do momento em que foi reconhecida em um momento posterior (2008), sem previsão legal, consumouse uma despesa indevida, desprovida de dedutibilidade, que provocou a redução da base de cálculo do IRPJ e CSLL, razão pela qual se mostra imperiosa a glosa do dispêndio. Nesse contexto, sem reparos o procedimento da autoridade fiscal, ao glosar despesa de juros sobre capital próprio cujo pagamento referese a períodos pretéritos, vez que não goza de dedutibilidade. Cabe, assim, ser negado provimento ao recurso. II. Juros de Mora sobre Multa de Ofício. Sobre o assunto, vale transcrever, inicialmente, o artigo 113, do CTN, que predica que o objeto da obrigação tributária principal é o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. (grifei) § 2º (...) Por sua vez, o crédito tributário decorre da obrigação principal, conforme o artigo 139 do CTN: Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. A penalidade pecuniária tem base no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, materializada na multa de ofício aplicada sobre o tributo. E, como se pode observar a penalidade pecuniária, decorrente da infração, compõe a obrigação tributária principal e, por conseguinte, integra o crédito tributário. Por sua vez, o CTN, ao discorrer sobre o pagamento, informa que devem incidir juros sobre o crédito tributário não integralmente adimplido no vencimento, verbis: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. (grifei) § 1º (...) E a correção estipulada pelo mencionado art. 161, a partir da Lei nº 9.065, de 1995, segue a taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais, questão já pacificada pela Súmula CARF nº 4: Fl. 697DF CARF MF Processo nº 16327.720533/201391 Acórdão n.º 9101003.216 CSRFT1 Fl. 698 25 A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Verificase, assim que tanto tributo quanto a multa de ofício estão sujeitos à atualização prevista no art. 161 do CTN, mediante aplicação da taxa SELIC. Portanto, cabe ser negado provimento ao recurso. III. Conclusão. Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso especial da Contribuinte. (assinado digitalmente) Andre Mendes de Moura Fl. 698DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10580.726611/2009-06
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Dec 12 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2005, 2006, 2007
DIFERENÇAS DE URV. NATUREZA SALARIAL.
As diferenças de URV incidentes sobre verbas salariais integram a remuneração mensal percebida pelo contribuinte.
INCIDÊNCIA DO IMPOSTO SOBRE OS JUROS RECEBIDOS.
Não são tributáveis os juros incidentes sobre verbas isentas ou não tributáveis, assim como os recebidos no contexto de perda do emprego. Na situação sob análise, não se estando diante de nenhuma destas duas hipóteses, trata-se de juros tributáveis.
Numero da decisão: 9202-006.287
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes (relatora) e Patrícia da Silva, que lhe negaram provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada).
(Assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício
(Assinado digitalmente)
Ana Paula Fernandes Relatora
(Assinado digitalmente)
Ana Cecília Lustosa da Cruz - Redatora Designada
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
Nome do relator: ANA PAULA FERNANDES
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2005, 2006, 2007 DIFERENÇAS DE URV. NATUREZA SALARIAL. As diferenças de URV incidentes sobre verbas salariais integram a remuneração mensal percebida pelo contribuinte. INCIDÊNCIA DO IMPOSTO SOBRE OS JUROS RECEBIDOS. Não são tributáveis os juros incidentes sobre verbas isentas ou não tributáveis, assim como os recebidos no contexto de perda do emprego. Na situação sob análise, não se estando diante de nenhuma destas duas hipóteses, trata-se de juros tributáveis.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes (relatora) e Patrícia da Silva, que lhe negaram provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada). (Assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes Relatora (Assinado digitalmente) Ana Cecília Lustosa da Cruz - Redatora Designada Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
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NATUREZA SALARIAL. As diferenças de URV incidentes sobre verbas salariais integram a remuneração mensal percebida pelo contribuinte. INCIDÊNCIA DO IMPOSTO SOBRE OS JUROS RECEBIDOS. Não são tributáveis os juros incidentes sobre verbas isentas ou não tributáveis, assim como os recebidos no contexto de perda do emprego. Na situação sob análise, não se estando diante de nenhuma destas duas hipóteses, tratase de juros tributáveis. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes (relatora) e Patrícia da Silva, que lhe negaram provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada). (Assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes – Relatora (Assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 66 11 /2 00 9- 06 Fl. 383DF CARF MF 2 Ana Cecília Lustosa da Cruz Redatora Designada Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). Relatório O presente Recurso Especial trata de pedido de análise de divergência motivado pela Fazenda Nacional face ao acórdão 2802001.572, proferido pela 2ª Turma Especial / 2ª Seção de Julgamento. Tratase de auto de infração relativo ao Imposto de Renda Pessoa Física IRPF correspondente aos exercícios 2005, 2006, 2007, para exigência de crédito tributário, no valor de R$ 133.109,21, incluída a multa de ofício no percentual de 75% (setenta e cinco por cento) e juros de mora, decorrente de omissão de rendimentos recebidos do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia a título de “Valores Indenizatórios de URV”, em 36 (trinta e seis) parcelas no período de janeiro de 2004 a dezembro de 2006. Conforme descrição dos fatos e enquadramento legal constantes no auto de infração, o crédito tributário foi constituído em razão de ter sido apurada classificação indevida de rendimentos tributáveis na Declaração de Ajuste Anual como sendo rendimentos isentos e não tributáveis. Os rendimentos foram recebidos do Ministério Público do Estado da Bahia a título de “Valores Indenizatórios de URV”, em 36 (trinta e seis) parcelas no período de janeiro de 2004 a dezembro de 2006, em decorrência da Lei Complementar do Estado da Bahia nº 20, de 08 de setembro de 2003. As diferenças recebidas teriam natureza eminentemente salarial, pois decorreram de diferenças de remuneração ocorridas quando da conversão de Cruzeiro Real para URV em 1994, consequentemente, estariam sujeitas à incidência do imposto de renda, sendo irrelevante a denominação dada ao rendimento. O Contribuinte apresentou impugnação alegando, às fls. 28/97, em síntese: que não teria classificado indevidamente os rendimentos recebidos a título de URV, pois seriam isentos de imposto de renda em conformidade com a legislação que instituiu tal verba indenizatória. Asseverou que a responsabilidade pela retenção do imposto seria da fonte pagadora, no caso o Estado da Bahia, sendo impossível atribuir responsabilidade decorrente da omissão da fonte à autuada. Questionou a multa de ofício, ponderando que seu erro teria sido motivado pela fonte pagadora e tal entendimento teria sido expresso pelo Ente autuante em resposta à Consulta Administrativa feita pela Presidente do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, ratificando o entendimento já fixado pelo Advogado Geral da União, através da Nota AGU/AV 12/2007. Ponderou que mesmo que o valor decorrente do recebimento da URV em atraso fosse tributável, não caberia tributar os juros incidentes sobre ele, tendo em vista sua natureza indenizatória. Invoca a distribuição constitucional das receitas para reforçar seus argumentos de impossibilidade de manutenção da exigência em discussão. Ponderou que o STF, através da Resolução nº 245, de 2002, deixou claro que o abono conferido aos Magistrados Federais em razão das diferenças de URV tem natureza indenizatória, e que por esse motivo não sofre a incidência do imposto de renda. Assim, tributar estes mesmos valores recebidos pelos Magistrados Estaduais constitui violação ao princípio constitucional da isonomia. Fl. 384DF CARF MF Processo nº 10580.726611/200906 Acórdão n.º 9202006.287 CSRFT2 Fl. 10 3 A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, fls. 114/121, julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido. O Contribuinte interpôs Recurso Voluntário, fls. 124/207, reiterando os argumentos feitos em sua impugnação. A 1ª Turma Especial da 2ª Seção de Julgamento, às fls. 221/226, DEU PARCIAL PROVIMENTO ao Recurso Ordinário. A ementa do acórdão recorrido assim dispôs: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2005, 2006, 2007 ILEGITIMIDADE PASSIVA. SÚMULA CARF Nº 12. Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção. IRPF. ABONO PERCEBIDO PELOS INTEGRANTES DA MAGISTRATURA DO ESTADO DA BAHIA (LEI ESTADUAL nº 8.730, de 08 de setembro de 2003) As verbas percebidas pelos Magistrados do Estado da Bahia, resultantes da diferença apurada na conversão de suas remunerações da URV para o Real, ainda que recebidas em virtude de decisão judicial, têm natureza salarial e, portanto, estão sujeitas à incidência de Imposto de Renda. Precedentes do C. STJ e deste E. Sodalício. JUROS DE MORA LEGAIS. NATUREZA INDENIZATÓRIA. NÃO INCIDÊNCIA DE IMPOSTO DE RENDA. Por ocasião do julgamento do EDCL no Resp 1227133 RS, Primeira Seção, Rel. Ministro Cesar Asfor Rocha, julgado em 23.11.2011. Não incide imposto de renda sobre os juros moratórios legais vinculados a verbas trabalhistas reconhecidas em decisão judicial. MULTA DE OFÍCIO. ERRO ESCUSÁVEL. Não comporta multa de oficio o lançamento constituído com base em valores espontaneamente declarados pelo contribuinte que, induzido pelas informações prestadas pela fonte pagadora, incorreu em erro escusável no preenchimento da declaração de rendimentos. Preliminares Rejeitadas Recurso Voluntário Provido em Parte. Às fls. 229/246, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial de Divergência, alegando divergência jurisprudencial em relação à incidência ou não de imposto Fl. 385DF CARF MF 4 de renda sobre juros moratórios e a aplicação do Resp nº 1.227.133 RS, Primeira Seção, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Rel. para acórdão Min. Cesar Asfor Rocha, julgado em 28.9.2011. Expôs inicialmente que, em todos os feitos, analisava se lançamento de IRPF relativo às diferenças de remuneração recebidas pela Magistratura e/ou pelo Ministério Público do Estado da Bahia, em decorrência da Lei Estadual. Sobre a divergência, consoante decidiram os paradigmas, segundo o entendimento encampado pelo STJ, em julgamento submetido ao rito do art. 543 C do CPC, o imposto de renda não incide sobre os juros quando a verba trabalhista possui natureza indenizatória, de modo que, a contrario senso, em sendo de natureza remuneratória, seria possível a incidência do tributo. Para a Turma a quo, a verba principal recebida pelo autuado não tem natureza trabalhista e/ou indenizatória nem foi recebida em virtude de sentença judicial, o que leva à conclusão de que não se aplicam a ela os fundamentos adotados pelo STJ para afastar a incidência do IRPF sobre os juros moratórios no julgamento do Recurso Repetitivo 1.227.133/RS. Às fls. 248/251, a 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento realizou o Exame de Admissibilidade do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, DANDO SEGUIMENTO ao recurso em relação à incidência ou não de imposto de renda sobre juros moratórios. Intimado à fl. 254, o Contribuinte apresentou Recurso Especial de Divergência, às fls. 256 e ss., alegando divergência jurisprudencial em relação à definição da natureza da verba de abono variável recebidas pelo membros do Ministério Público Estadual para fins de incidência de IRPF. De um lado, o acórdão recorrido entendeu que sobre abono variável pago aos membros do Ministério Público baiano incide Imposto de Renda Pessoa Física, haja vista a vedação a extensão com base em analogia em sede de incidência tributária. Já o acórdão paradigma considerou que sobre o abono variável previsto pela Lei 10.447 de 2002 pagos aos membros do Ministério Público do Estado da Bahia não incide o Imposto de Renda Pessoa Física em razão de uma interpretação extensiva de decisão do STF que considerou isenta tais verbas pagas aos membros da magistratura federal. O Contribuinte, às fls. 306/324, apresentou Contrarrazões, arguindo, no tocante ao mérito, que as alegações da União não merecem prosperar, uma vez que aplicável, sim, ao caso presente, o disposto no art. 62, § 2º do RICARF e, portanto, indevida a incidência dos juros sobre as verbas recebidas pela Recorrida, conforme entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça, de forma ampla e brilhantemente fundamentada, razão pela qual se impõe a manutenção da decisão guerreada neste posto. Às fls. 362/364, a 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento realizou o Exame de Admissibilidade do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, NEGANDO SEGUIMENTO ao recurso, uma vez que o acórdão paradigma utilizado pelo Recorrente restou reformado. Intimado o Contribuinte à fl. 371, vieram os autos conclusos para julgamento. É o relatório. Voto Vencido Fl. 386DF CARF MF Processo nº 10580.726611/200906 Acórdão n.º 9202006.287 CSRFT2 Fl. 11 5 Conselheira Ana Paula Fernandes Relatora O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, merece ser conhecido. Tratase de auto de infração relativo ao Imposto de Renda Pessoa Física IRPF correspondente aos exercícios 2005, 2006, 2007, para exigência de crédito tributário, no valor de R$ 133.109,21, incluída a multa de ofício no percentual de 75% (setenta e cinco por cento) e juros de mora, decorrente de omissão de rendimentos recebidos do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia a título de “Valores Indenizatórios de URV”, em 36 (trinta e seis) parcelas no período de janeiro de 2004 a dezembro de 2006. O Acórdão recorrido deu parcial provimento ao Recurso Ordinário. O Recurso Especial apresentado pela Fazenda Nacional trouxe para análise a divergência jurisprudencial em relação incidência ou não de imposto de renda sobre juros moratórios e a aplicação do Resp nº 1.227.133 RS, Primeira Seção, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Rel. para acórdão Min. Cesar Asfor Rocha, julgado em 28.9.2011. INCIDÊNCIA DE IMPOSTO DE RENDA SOBRE JUROS MORATÓRIOS A questão merece debate, pois está longe de ter entendimento unânime no Tribunal Administrativo. A Fazenda Nacional sustenta a regularidade do auto de infração, pois defende que a interpretação correta do Repetitivo de Controvérsia RE 1227.133/RS, é a de que imposto de renda não incide sobre os juros de mora em apenas duas hipóteses. A primeira é condenação judicial no contexto de perda de emprego ou rescisão contratual. A segunda hipótese ocorre quando a verba principal for isenta ou estiver fora do campo de incidência do imposto de renda. Sustenta assim que no caso em análise, a verba principal tem nítido caráter salarial, uma vez que corresponde a diferenças de remuneração ocorridas na conversão de Cruzeiro Real para URV. Se os valores recebidos têm natureza salarial, os juros moratórios, necessariamente, terão a mesma natureza, conforme dispõe o art. 92 do novo Código Civil (Lei nº 10.406, de 10/02/2002). Por sua vez a Contribuinte defende a não incidência do Imposto de Renda sobre os valores recebidos a título de juros. Segundo o entendimento do Recorrente, invariavelmente, os juros de mora possuem natureza indenizatória, pois sua função é a de recompor dano ao patrimônio do beneficiário que deixou de receber no tempo certo valor que lhe seria devido. Sendo assim, insurgese contra o auto de infração, pois partindo do pressuposto de que a verba é isenta, estaria esta fora do campo de incidência do imposto de renda. O acórdão recorrido seguiu no sentido do que foi argumentado pela Contribuinte. Fl. 387DF CARF MF 6 Tratase de entendimento compartilhado pelos mais renomados juristas, valendo citar parte do artigo publicado pelo Professor Hugo de Brito Machado, na Revista Dialética de Direito Tributário nº 215 (p. 115/116): Não há dúvida quanto à natureza indenizatória dos juros de mora. A expressão juros moratórios, que é própria do Direito Civil, designa a indenização pelo atraso no pagamento da divida. O Código Civil de 1916 estabelecia que as perdas e danos, nas obrigações de pagamento em dinheiro, consistem nos juros de mora e custas, sem prejuízo das pena convencional. E o Código Civil vigente estabelece: "Art. 404. As perdas e danos, nas obrigações de pagamento em dinheiro, serão pagas com atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos, abrangendo juros, custas e honorários de advogados, sem prejuízo da penas convencional. Parágrafo único: Provado que os juros de mora não cobrem o prejuízo, e não havendo pena convencional, pode o juiz concede ao credor indenização complementar." Com se vê, o legislador previu que o não recebimento nas datas correspondentes dos valores me dinheiro aos quais se tem direito implica prejuízo. (...) Não se trata de lucro cessante, nem de dano simplesmente moral, que evidentemente também podem ocorrer. Tratase de perda patrimonial efetiva, decorrente do não recebimento, nas datas correspondentes, dos valores aos quais tinha direito. Perda que o legislador presumiu e tratou como presunção absoluta que não admite prova em contrário, e cuja indenização com juros de mora independe de pedido do interessado. Sendo assim, os valores recebidos a título de juros moratórios não estariam sujeitos ao imposto, afinal o conceito de renda e proventos pressupostos pela Constituição Federal, exigem a ocorrência de um acréscimo patrimonial experimentado ao longo de um determinado período de tempo, o que conforme anteriormente exposto não ocorre no presente caso concreto. Cito aqui posicionamento adotado pelo Conselheiro Gerson Guerra, em relação à incidência do IRPF sobre juros moratórios "é importante destacar, que o acessório segue o principal. Nesse contexto, aplicase o que decidido pelo STJ (NUMÉRO DO RESP), fundamentado no artigo 543C, do antigo Código de Processo Civil", no seguinte sentido: Fl. 388DF CARF MF Processo nº 10580.726611/200906 Acórdão n.º 9202006.287 CSRFT2 Fl. 12 7 RECURSO ESPECIAL. REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. JUROS DE MORA LEGAIS. NATUREZA INDENIZATÓRIA. NÃO INCIDÊNCIA DE IMPOSTO DE RENDA. Não incide imposto de renda sobre os juros moratórios legais em decorrência de sua natureza e função indenizatória ampla. Recurso especial, julgado sob o rito do art. 543C do CPC, improvido. Ressalto aqui que não desconheço a existência de Repercussão Geral sobre o tema, conforme esposado pela conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri: Destaco que o Supremo Tribunal Federal ainda não firmou sua posição em relação ao assunto, haja vista estar pendente de julgamento o Recurso Extraordinário nº 855.091, recebido sob o rito da Repercussão Geral sob o Tema 808 Incidência de imposto de renda sobre juros de mora recebidos por pessoa física, processo por meio do qual questionase a constitucionalidade dos dispositivos acima descrito. Em que pese concordar com os argumentos acima, entendo que a norma regimental prevista no art. 62 do RICARF me impede de deixar de aplicar o que determina o art. 6 da Lei 4.506/1964: “Art. 16. serão classificados como rendimentos do trabalho assalariado tôdas as espécies de remuneração por trabalho ou serviços prestados no exercício dos empregos, cargos ou funções referidos no artigo 5º do Decretolei número 5.844, de 27 de setembro de 1943, e no art. 16 da Lei número 4.357, de 16 de julho de 1964, tais como: (...) Parágrafo único. Serão também classificados como rendimentos de trabalho assalariado os juros de mora e quaisquer outras indenizações pelo atraso no pagamento das remunerações previstas neste artigo.” (Grifamos) Tal dispositivo está reproduzido no art. 43, § 3º do Decreto 3.000/99 (RIR): “Art. 43. São tributáveis os rendimentos provenientes do trabalho assalariado, as remunerações por trabalho prestado no exercício de empregos, cargos e funções, e quaisquer proventos ou vantagens percebidos, tais como (Lei nº 4.506, de 1964, art. 16, Lei nº 7.713, de 1988, art. Fl. 389DF CARF MF 8 3º, § 4º, Lei nº 8.383, de 1991, art. 74, e Lei nº 9.317, de 1996, art. 25, e Medida Provisória nº 1.76955, de 11 de março de 1999, arts. 1º e 2º): (...) § 3º Serão também considerados rendimentos tributáveis a atualização monetária, os juros de mora e quaisquer outras indenizações pelo atraso no pagamento das remunerações previstas neste artigo (Lei nº 4.506, de 1964, art. 16, parágrafo único).” Contudo a meu ver acredito que o encaminhamento a essa questão deva ser dado de modo diverso. Considerando a existência de Repetitivo de controvérsia atinente a questão, e que, este não foi sobrestado ao tema 808 admitido em sede de repercussão geral, por se tratar de julgado anterior a admissão deste é caso de se aplicar o repetitivo até posterior julgamento da repercussão geral. Pelo exposto, voto no sentido de conhecer o Recurso Especial da Contribuinte para no mérito negarlhe provimento. É o voto. (assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes Voto Vencedor Conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz Redatora designada. Em que pese o brilhantismo e a logicidade do voto da ilustre Relatora, ouso dela divergir, com a máxima vênia, quanto à incidência do imposto de renda sobre o valor recebido a título de diferenças da Unidade Real de Valor (URV) e dos respectivos juros de mora. Argumenta o Contribuinte a não incidência do imposto de renda sobre a diferença de URV e sobre os juros de mora, considerando a natureza indenizatória da verba principal, bem como dos juros de mora, por conseqüência (o acessório segue o principal). Assim, a primeira apreciação a ser feita referese à natureza das verbas sob análise. E o segundo ponto a ser analisado é sobre a existência ou não de isenção relativa à URV. Ao meu ver, embora seja menos relevante a natureza indenizatória da verba para a análise da incidência do imposto de renda, entendo que os valores recebidos pelos contribuintes decorrem da compensação pela falta de correção no valor nominal do salário, oportunamente, quando da implantação da URV e, assim, constituem parte integrante de seus vencimentos. Fl. 390DF CARF MF Processo nº 10580.726611/200906 Acórdão n.º 9202006.287 CSRFT2 Fl. 13 9 Não obstante o meu entendimento anteriormente destacado acerca da natureza salarial da diferença de URV, cabe ressaltar que, no caso do Ministério Público da Bahia, foi publicada uma Lei Estadual (LC 20/2003) que dispôs de modo diverso, tratando a verba como indenização. Tendo em vista que o imposto de renda é regido por legislação federal, tal dispositivo não possui efeito tributário para a análise do tributo em questão. Assim, estando a mencionada lei em plena vigência, prestase apenas ao fim por ela almejado, qual seja o pagamento de precatório, de forma especial. Cabe destacar que a inaplicabilidade da LC 20/2003 não decorre de um juízo de inconstitucionalidade, mas sim de uma interpretação sistemática das normas, em observância do princípio da legalidade, tendo em vista a ausência de lei isentiva, no presente caso. Sobre a aplicação da Resolução do Supremo Tribunal Federal (STF) 245/2002 pugnada pelos recorrentes, notase que foi conferida natureza jurídica indenizatória ao abono variável concedido à Magistratura Federal e ao Ministério Público da União, não se confundindo com as diferenças decorrentes de URV, ora analisadas. Desse modo, deve ser considerada a natureza salarial das diferenças sob apreciação. Ainda que fosse caracterizada como indenizatória a verba sob análise, ressaltase que a incidência do imposto de renda independe da denominação do rendimento, pois as indenizações não gozam de isenção indistintamente, mas tão somente as previstas em lei específica concessiva de isenção. Havendo, notadamente, acréscimo patrimonial, sob a forma de diferenças de vencimentos recebidos a destempo, resta evidente a incidência do imposto de renda, não havendo lei concessiva de isenção apta a afastar a tributação, nesse caso. No que se referem aos juros de mora, aplico o posicionamento da Primeira Seção do STJ no sentido da incidência do imposto de renda sobre tais juros, em regra, não incidindo, excepcionalmente, quando decorrentes da rescisão do contrato de trabalho ou quando a verba principal for isenta ou fora do campo de incidência do IR. Portanto, como a verba principal não é isenta, bem como não é oriunda de rescisão do contrato de trabalho, há incidência do imposto de renda sobre os juros de mora. Diante do exposto, voto por conhecer do Recurso Especial e, no mérito, dar lhe provimento. (assinado digitalmente) Ana Cecília Lustosa da Cruz Fl. 391DF CARF MF 10 Fl. 392DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10768.043486/95-79
Turma: Segunda Câmara
Seção: Segundo Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Tue Feb 02 00:00:00 UTC 1999
Numero da decisão: 202-02017
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conteudo_txt : Metadados => date: 2010-01-30T00:44:59Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.6; pdf:docinfo:title: ; xmp:CreatorTool: CNC PRODUÇÃO; Keywords: ; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; subject: ; dc:creator: CNC Solutions; dcterms:created: 2010-01-30T00:44:59Z; Last-Modified: 2010-01-30T00:44:59Z; dcterms:modified: 2010-01-30T00:44:59Z; dc:format: application/pdf; version=1.6; Last-Save-Date: 2010-01-30T00:44:59Z; pdf:docinfo:creator_tool: CNC PRODUÇÃO; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:keywords: ; pdf:docinfo:modified: 2010-01-30T00:44:59Z; meta:save-date: 2010-01-30T00:44:59Z; pdf:encrypted: false; modified: 2010-01-30T00:44:59Z; cp:subject: ; pdf:docinfo:subject: ; Content-Type: application/pdf; pdf:docinfo:creator: CNC Solutions; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; creator: CNC Solutions; meta:author: CNC Solutions; dc:subject: ; meta:creation-date: 2010-01-30T00:44:59Z; created: 2010-01-30T00:44:59Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 3; Creation-Date: 2010-01-30T00:44:59Z; pdf:charsPerPage: 1247; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; meta:keyword: ; Author: CNC Solutions; producer: CNC Solutions; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: CNC Solutions; pdf:docinfo:created: 2010-01-30T00:44:59Z | Conteúdo => 5- el-j . PUBLIC/1M NO O. O,R, , 13 047_, ic ,vi> ani. e ___-_________ _ _ MINISTÉRIO DA FAZENDA SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES Processo N. o 10.325-000.356/86-60 JAN 11 de outubro 88 202-02.017 &suo de de 19 ACORDÃO No Recurso n.o 78.934 Recorrente ALI BRASIL DIESEL VEÍCULOS E PEÇAS LTDA. Recorrida DRF EM IMPERATRIZ-MA FINSOCIAL - Omissão de receita apurada em processo fiscal autuado na grea do IRPJ. Inexistencia de coa traerova nos de exigencia do FINSOCIAL. Penda des necessgria, face "As provas que instruem o AUTO de. infração. Nega-se provimento ao recurso. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos de re curso interposto por AIA BRASIL DIESEL VEÍCULOS E PEÇAS LTDA. ACORDAM os Membros da Segunda C gmara do Segundo Conse- lho de Contribuintes, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. Sala das SessSes,em 11 de outubro de 1988 JOYALSTES DA FONSE A - PRESIDENTE _ 50.4 IP d li ; ElIáTI , 0 : -CE : A - RELATOR :7/ i.,/ 4 OLEG nS 1 SI VEI A * De AS'- PROCURADOR-REPRESENTANTE DA STA EM SESS* FAZENDA NACIONAL n : DE 4 5 DEZ1 1988 Participaram, ainda, do presente julgamento,os Conselheiros: OSVALDO TANCREDO DE OLIVEIRA, MARIA HELENA JAIME, ELIO ROTNE,ERNESTO FREDERI CO ROLLER (SUPLENTE), ALDE DA COSTA SANTOS JINIOR e JOSÉ LOPES FER= NANDES.M i g° t :-4.•<. /7, -z=sr-.4ts MINISTÉRIO DA FAZENDA SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES Processo N.° 10.325-000.356/86-60 Recurso ri.°: 78,934 Acordei° n.°: 202-02.017 Recorrente: ALÔ BRASIL DIESEL VEÍCULOS E PEÇAS LTDA. RELATCRIO A presente lide fiscal foi relatada na sessão do dia 24 de março de 1988, quando dela era relator o ilustre ex-conselhei ro Carlos Mgrio da Silva Velloso Filho, de quem adoto este relat g -rio de fls. 55/57, o qual leio. Naquela oportunidade, o julgamento foi convertido em diligencia, para que a Repartição de origem juntasse aos autos a documentação comprobateria da omissão de receita e a constante dos autos do processo instaurado na area do imposto de renda, Essa diligencia foi atendida pela juntada dos documen- tos de fls. 62/140, precedida pelo termo de encerramento de diligen cia de fls. 61, o qual esclarece que "faltaram as notas fiscais de n9 431 e 437 serie C de 27.11.84 e as de n9s 812, 813, 814, -sgrie B1 de 22.02.85, que não foram localizadas". A Recorrente, atendendo â intimação a propOsito, prestou os esclarecimentos insertos :is fls. 62, os quais leio para a Câmara. É o relatgrio. VOTO DO CONSELHEIRO-MAIOR SEBASTIÃO BORGES TAQUARY Considero, preliminarmente, desnecessgria a perícia re querida pela Recorrente. A prova em prol da defesa havia de ser fel ta naquele el g stico prazo de 45 (quarenta e cinco) dias, com a so juntada de documentos que, se existissem, estariam em poder dela. segue- 2- SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL Processo n9 10.325-000.356/86-60 Acerdão n? 202-02.017 A confrontação de documentos com as notas fiscais e ou- tros expedientes foi feita pela Fiscalização, que encontrou o valor do credito tributerio ora em exig'encia, o qual não foi infirmado,tam bem, pela documentação acostada em fase recursal, que, alies, veio incompleta por culpa exclusiva da Recorrente. Considero, finalmente, a infração bem apurada e compro- vada nos autos. A decisão singular, por isso, merece ser confirmada. Nego, pois, provimento ao recurso. Sala das Sess6es,em 11 de outubro de 1988 1 //\ eV BASTI*0 BIOS 4ARIL
score : 1.0
Numero do processo: 10860.721255/2011-02
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 30/06/2006 a 30/06/2006
ADESÃO AO PRORELIT. DESISTÊNCIA DOS RECURSOS ADMINISTRATIVOS. RENÚNCIA AO DIREITO SOBRE O QUAL SE FUNDAM OS RECURSOS ADMINISTRATIVOS.
A adesão ao Programa de Redução de Litígios Tributários - PRORELIT, de que trata a Lei nº 13.202/2015 configura desistência dos recursos administrativos e renúncia ao direito sobre o qual se funda o recurso interposto, inclusive na hipótese de já ter ocorrido decisão favorável ao recorrente.
CRÉDITO DE IPI POR DEVOLUÇÃO OU RETORNO DE PRODUTOS. O direito ao crédito do IPI por devolução ou retorno de produtos subordina-se à comprovação do reingresso no estabelecimento bem como à efetiva reincorporação daqueles ao estoque, mediante a escrituração do Livro Registro de Controle da Produção e do Estoque, modelo 3, ou de sistema de controle equivalente.
Recurso Voluntário Negado.
Crédito Tributário Mantido.
Numero da decisão: 3302-005.306
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer, parcialmente, do recurso voluntário e, na parte conhecida, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède
Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Walker Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad e Diego Weis Jr.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer, parcialmente, do recurso voluntário e, na parte conhecida, em negar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Walker Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad e Diego Weis Jr.
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DESISTÊNCIA DOS RECURSOS ADMINISTRATIVOS. RENÚNCIA AO DIREITO SOBRE O QUAL SE FUNDAM OS RECURSOS ADMINISTRATIVOS. A adesão ao Programa de Redução de Litígios Tributários PRORELIT, de que trata a Lei nº 13.202/2015 configura desistência dos recursos administrativos e renúncia ao direito sobre o qual se funda o recurso interposto, inclusive na hipótese de já ter ocorrido decisão favorável ao recorrente. CRÉDITO DE IPI POR DEVOLUÇÃO OU RETORNO DE PRODUTOS. O direito ao crédito do IPI por devolução ou retorno de produtos subordinase à comprovação do reingresso no estabelecimento bem como à efetiva reincorporação daqueles ao estoque, mediante a escrituração do Livro Registro de Controle da Produção e do Estoque, modelo 3, ou de sistema de controle equivalente. Recurso Voluntário Negado. Crédito Tributário Mantido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer, parcialmente, do recurso voluntário e, na parte conhecida, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 86 0. 72 12 55 /2 01 1- 02 Fl. 411DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 411 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, Walker Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad e Diego Weis Jr. Relatório Trata o presente de Auto de Infração para constituição de crédito tributário referente ao Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, em razão de: 1. Glosas de compras de insumos para industrialização, com origem nos mercados interno e externo, com destaque indevido de IPI, em razão de a operação ser obrigatoriamente, com suspensão; 2. Glosa de crédito de devolução e retorno de produtos tributados, em razão de sua não escrituração no Livro de Registro de Controle da Produção e do Estoque ou sistema equivalente; 3. Multa isolada por destaque indevido de IPI nas notas fiscais de aquisição de importados, cujas operações eram de suspensão obrigatória. Em impugnação, a recorrente alegou que o fornecedor Johnson Mathey do Brasil é estabelecimento equiparado a industrial, não se aplicando a suspensão prevista no artigo 5º da Lei nº 9.826/1999, que destinase apenas aos estabelecimentos industriais e não aos equiparados; que a glosa nas compras com destaque do IPI é indevida, uma vez que a suspensão é opcional e não obrigatória, como entendeu a fiscalização; a escrituração no Livro de Registro de Controle da Produção e do Estoque ou sistema equivalente é mera obrigação acessória, incapaz de elidir a possibilidade de tomada de crédito, uma vez que fora comprovada a efetiva entrada dos produtos e o registro no Livro Registro de Entradas; que a multa não é devida, pois a recorrente promovera o pagamento do imposto, tido por devido pela fiscalização, antes de qualquer procedimento fiscal e que o destaque teria decorrido de erro escusável por erro de interpretação da legislação, nos termos do artigo 488, §3º do RIPI/2002. Por sua vez, a Oitava Turma da DRJ em Ribeirão Preto julgou a impugnação parcialmente procedente, nos termos da seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Data do fato gerador: 30/06/2006 SUSPENSÃO DO IPI. ART.29 DA LEI Nº10.637, DE 2002. EQUIPARADO A INDUSTRIAL. A suspensão do IPI prevista no art. 29 da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, com redação dada pelo art. 25 da Lei nº 10.684, de 30 de maio de 2003, não alcança as operações de saídas realizadas por estabelecimento importador que tenha sido equiparado a industrial por força do inciso I do art. 4º da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, regulamentado pelo inciso I do art. 9º do Decreto nº 4.544, de 26 de dezembro de 2002 (Regulamento do IPI Ripi/2002). Fl. 412DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 412 3 SUSPENSÃO DO IPI. ART.29 DA LEI Nº10.637. IMPORTAÇÃO. As matériasprimas, os produtos intermediários e os materiais de embalagem, importados diretamente por estabelecimentos industriais fabricantes, preponderantemente, de componentes, chassis, carroçadas, partes e peças destinados a veículos automotores, serão desembaraçados, obrigatoriamente, com suspensão do IPI. CRÉDITOS RELATIVOS A DEVOLUÇÕES E RETORNOS DE PRODUTOS. FALTA DE ESCRITURAÇÃO DO LIVRO REGISTRO DA PRODUÇÃO E DO ESTOQUE OU DE SISTEMA EQUIVALENTE. O aproveitamento de créditos de IPI relativos a devoluções e retornos de produtos tributados está condicionado à comprovação de escrituração do Livro de Registro de Controle da Produção e do Estoque ou sistema de controle equivalente. MULTA ISOLADA. CRÉDITO INDEVIDO. Somente não será aplicada a multa isolada se, além do pagamento, o responsável provar que a infração decorreu de erro escusável. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte. Inconformada, a contribuinte interpôs recurso voluntário, reiterando as razões aduzidas em impugnação, à exceção da matéria na parte que a decisão da DRJ foilhe favorável. Posteriormente, a recorrente protocolou petição requerendo a revisão de débitos com a exigibilidade suspensa por ter aderido ao PRORELIT, tendo efetuado o pagamento de 30% do valor das débitos relativos às multas isoladas mantidas no acórdão da DRJ, conforme efls. 386/387 e 405/406. Na forma regimental, o processo foi distribuído a este relator. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède. Conforme a petição de efls. 386/387, a recorrente aderiu ao Programa de Redução de Litígios Tributários PRORELIT nos termos da Lei nº 13.202/2015, efetuando o pagamento de 30% dos débitos relativos às multas isoladas, únicos débitos remanescentes após Fl. 413DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 413 4 o julgamento na DRJ, de acordo com o artigo 2º, inciso I, alínea "a"1 da Lei nº 13.202/2015, com a consequente desistência dos recursos administrativos concernentes aos débitos objeto da adesão ao programa, conforme disposto no §3º do referido artigo 2º: § 3o Para aderir ao programa de que trata o art. 1o, o sujeito passivo deverá comprovar a desistência expressa e irrevogável das impugnações ou dos recursos administrativos e das ações judiciais que tenham por objeto os débitos que serão quitados e renunciar a qualquer alegação de direito sobre as quais se fundem as referidas impugnações e recursos ou ações. No caso, a petição protocolada, informando o pagamento de 30% e a adesão ao PRORELIT configura desistência do prosseguimento do litígio, relativo aos débitos das multas isoladas mantidas na decisão da DRJ, implicando a renúncia ao direito sobre o qual se fundava o recurso voluntário, nos termos do §3º do artigo 78 do Anexo II do RICARF: Art. 78. Em qualquer fase processual o recorrente poderá desistir do recurso em tramitação. § 1º A desistência será manifestada em petição ou a termo nos autos do processo. § 2º O pedido de parcelamento, a confissão irretratável de dívida, a extinção sem ressalva do débito, por qualquer de suas modalidades, ou a propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda Nacional, de ação judicial com o mesmo objeto, importa a desistência do recurso. § 3º No caso de desistência, pedido de parcelamento, confissão irretratável de dívida e de extinção sem ressalva de débito, estará configurada renúncia ao direito sobre o qual se funda o recurso interposto pelo sujeito passivo, inclusive na hipótese de já ter ocorrido decisão favorável ao recorrente. Porém, a multa isolada por destaque indevido de imposto, quando o correto era suspensão, vincula à glosa mantida na decisão recorrida relativa às aquisições de insumos importados sem suspensão de IPI, com destaque do imposto. Os fundamentos desenvolvidos pela recorrente em sua peça recursal para a inaplicabilidade da multa foram a inexistência da infração concernente ao destaque indevido nas aquisições de insumos importados por não ter havido suspensão, ou alternativamente, caso prevalecesse a tese da fiscalização quanto à obrigatoriedade da suspensão, a existência do pagamento do IPI destacado por ocasião do desembaraço e a existência de erro escusável por erro de interpretação da legislação, de acordo com o §3º do artigo 488 do RIPI/2002, não tendo havido dolo ou máfé por parte da recorrente. Ocorre que a desistência implica a renúncia ao direito sobre o qual se funda o recurso, o que no caso concreto, configura renúncia ao direito referente à inexistência da 1 Art. 2o O requerimento de que trata o § 1o do art. 1o deverá ser apresentado até 30 de novembro de 2015, observadas as seguintes condições: I pagamento em espécie equivalente a, no mínimo: a) 30% (trinta por cento) do valor consolidado dos débitos indicados para a quitação, a ser efetuado até 30 de novembro de 2015; Fl. 414DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 414 5 infração de destaque indevido do IPI, pois que a multa isolada é mero reflexo da infração que resultou na glosa dos créditos de IPI tomados em razão do destaque de IPI. Assim, a renúncia ao direito sobre o fundamento para cancelamento da multa isolada atinge diretamente a defesa quanto à glosa dos créditos tomados em razão do destaque indevido, de cuja a aplicação da multa isolada é mero reflexo. Portanto, entendo que houve renúncia ao fundamento deduzido para a glosa perpetrada. Destarte, não conheço do recurso voluntário quanto às matérias "II.1 Glosa de créditos de IPI Apropriação de crédito em importação própria suspensão do IPI benefício fiscal optativo e não obrigatório" e "II.3. Da Multa Isolada", remanescendo ainda o litígio quanto ao item "II.2. Da Glosa do Crédito por Falta de Escrituração do Livro Controle da Produção e do Estoque". Quanto à glosa do crédito de retorno por falta de escrituração no Livro de Registro e Controle da Produção e do Estoque, não há reparos a se fazer na decisão recorrida. Os artigos 172 do RIPI/2002 e 234 do RIPI/2010 dispuseram sobre a exigência de registro no referido livro nos seguintes termos: RIPI/2002: Art. 172. Na hipótese de retomo de produtos, deverá o remetente, para creditarse do imposto, escriturálo nos livros Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque ou em sistema equivalente nos termos do art. 388, com base na nota fiscal, emitida na entrada dos produtos, a qual fará referência aos dados da nota fiscal originária. RIPI/2010: Art. 234. Na hipótese de retorno de produtos, deverá o remetente, para creditarse do imposto, escriturálo nos livros Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque ou em sistema equivalente, nos termos do art. 466, com base na nota fiscal, emitida na entrada dos produtos, a qual fará referência aos dados da nota fiscal originária. As disposições regulamentares são claras ao exigir a escrituração no Livro Registro e Controle da Produção e Estoque, como forma de garantir a reincorporação dos produtos ao estoque e nova tributação quando de eventual nova saída. A respeito, transcrevo o voto condutor da decisão recorrida, cujas razões adoto como fundamento de decidir: "O IPI regese pelo princípio da nãocumulatividade previsto constitucionalmente no art. 153, § 3º, inciso II, da Carta Magna de 1988, sendo normatizado por disposições constantes do art. 49 do Código Tributário Nacional (CTN – Lei nº 5.172/66) e exercido pelo “sistema de créditos”, consoante a disciplina do Capítulo X (arts. 163 a 198) do RIPI/2002, vigente à época dos fatos. Nesse contexto, temse que o art. 167 do RIPI/2002 permitia ao estabelecimento contribuinte creditarse do IPI relativo a produtos tributados recebidos em devolução ou retorno, de modo total ou parcial, conforme tais operações assim tenham ocorrido: Fl. 415DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 415 6 Art. 167. É permitido ao estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, creditarse do imposto relativo a produtos tributados recebidos em devolução ou retorno, total ou parcial.’ Observase, porém, que o direito à utilização do crédito em tais operações encontravase subordinado ao adimplemento das exigências especificadas no art. 169 do RIPI/2002, a teor do disposto pelo art. 30 (abaixo transcrito) da Lei nº 4.502/64: Art. 30. Ocorrendo devolução do produto ao estabelecimento produtor, devidamente comprovada, nos termos que estabelecer o regulamento, o contribuinte poderá creditarse pelo valor do imposto que sobre ele incidiu quando da sua saída. (grifouse) Dessa forma, cabe ao Regulamento do IPI estabelecer as condições segundo as quais se considerava comprovada a devolução/retorno dos produtos, tendo sido, dentre outros requisitos, condicionada tal comprovação ao registro das notas fiscais de devolução/retorno no livro fiscal Registro de Controle da Produção e do Estoque, modelo 3, conforme a disposição do inciso II, alínea ‘b’, do supracitado art. 169 do RIPI/2002: Art. 169. O direito ao crédito do imposto ficará condicionado ao cumprimento das seguintes exigências: (...) II pelo estabelecimento que receber o produto em devolução: (...) b) lançamento nos livros Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque das notas fiscais recebidas, na ordem cronológica de entrada dos produtos no estabelecimento;’ (grifouse) Também os arts. 172 e 388 do RIPI/2002 determinavam condições para a utilização dos créditos em devolução/retorno de produtos: Art. 172. Na hipótese de retorno de produtos, deverá o remetente, para creditarse do imposto, escriturálo nos livros Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque ou em sistema equivalente nos termos do art. 388, com base na nota fiscal emitida na entrada dos produtos, a qual fará referência aos dados da nota fiscal originária. Art. 388. O estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, e o comercial atacadista, que possuir controle quantitativo de produtos que permita perfeita apuração do estoque permanente, poderá optar pela utilização desse controle, em substituição ao livro Registro de Controle da Produção e do Estoque, observado o seguinte: I o estabelecimento fica obrigado a apresentar, quando solicitado, aos Fiscos Federal e Estadual, o controle substitutivo; Fl. 416DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 416 7 II para a obtenção de dados destinados ao preenchimento do documento de prestação de informações, o estabelecimento industrial, ou a ele equiparado, poderá adaptar, aos seus modelos, colunas para indicação do valor do produto e do imposto, tanto na entrada quanto na saída; e III o formulário adotado fica dispensado de prévia autenticação. Além da previsão contida no art. 388 do RIPI/2002, que admitia a dispensa do livro modelo 3 na hipótese de o estabelecimento adotar equivalente sistema de controle da produção e do estoque, o RIPI/2002 consignava, no art. 385, inciso I, a possibilidade de substituição do aludido livro por fichas impressas com os mesmos elementos do livro substituído: Art. 385. O livro poderá, a critério da autoridade competente do Fisco Estadual, ser substituído por fichas: I impressas com os mesmos elementos do livro substituído; A respeito dos elementos que a escrituração do referido livro modelo 3 deveria conter, assim preceituava o art. 384 do RIPI/2002: Art. 384. Os registros serão feitos da seguinte forma: I no quadro "Produto": identificação do produto; II no quadro "Unidade": especificação da unidade (quilograma, litro etc.); III no quadro "Classificação Fiscal": indicação do código da TIPI e da alíquota do imposto; IV nas colunas sob o título "Documento": espécie e série, se houver, do respectivo documento fiscal ou documento de uso interno do estabelecimento, correspondente a cada operação; V nas colunas sob o título "Lançamento": número e folha do livro Registro de Entradas ou Registro de Saídas, em que o documento fiscal tenha sido registrado, bem como a respectiva codificação contábil e fiscal, quando for o caso; VI nas colunas sob o título "Entradas": a) coluna "Produção No Próprio Estabelecimento": quantidade do produto industrializado no próprio estabelecimento; b) coluna "Produção Em Outro Estabelecimento": quantidade do produto industrializado em outro estabelecimento da mesma firma ou de terceiros, com matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, anteriormente remetidos para esse fim; c) coluna "Diversas": quantidade de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, produtos em fase de fabricação e produtos acabados, não compreendidos nas alíneas Fl. 417DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 417 8 anteriores, inclusive os recebidos de outros estabelecimentos da mesma firma ou de terceiros, para industrialização e posterior retorno, consignandose o fato, nesta última hipótese, na coluna "Observações"; d) coluna "Valor": base de cálculo do imposto, quando a entrada dos produtos originar crédito do tributo; se a entrada não gerar crédito ou quando se tratar de isenção, imunidade ou não incidência, será registrado o valor total atribuído aos produtos; e) coluna "IPI": valor do imposto creditado; VII nas colunas sob o título "Saídas": a) coluna "Produção No Próprio Estabelecimento": em se tratando de matériaprima, produto intermediário e material de embalagem, a quantidade remetida do almoxarifado para o setor de fabricação, para industrialização do próprio estabelecimento; no caso de produto acabado, a quantidade saída, a qualquer título, de produto industrializado do próprio estabelecimento; b) coluna "Produção Em Outro Estabelecimento": em se tratando de matériaprima, produto intermediário e material de embalagem, a quantidade saída para industrialização em outro estabelecimento da mesma firma ou de terceiros, quando o produto industrializado deva ser remetido ao estabelecimento remetente daqueles insumos; em se tratando de produto acabado, a quantidade saída, a qualquer título, de produto industrializado em estabelecimentos de terceiros; c) coluna "Diversas": quantidade de produtos saídos, a qualquer título, não compreendidos nas alíneas anteriores; d) coluna "Valor": base de cálculo do imposto; se a saída estiver amparada por isenção, imunidade ou nãoincidência, será registrado o valor total atribuído aos produtos; e) coluna "IPI": valor do imposto, quando devido; VIII na coluna "Estoque": quantidade em estoque após cada registro de entrada ou de saída; IX na coluna "Observações": anotações diversas. § 1º Quando se tratar de industrialização no próprio estabelecimento, será dispensada a indicação dos valores relativos às operações indicadas na alínea "a", do inciso VI, e na primeira parte da alínea "a", do inciso VII. § 2º No último dia de cada mês serão somados as quantidades e valores constantes das colunas "Entradas" e "Saídas", apurando se o saldo das quantidades em estoque, que será transportado para mês seguinte. Portanto, o Livro Registro de Controle da Produção e do Estoque – modelo 3 – e os sistemas legais a ele equivalentes consubstanciavam, à época dos fatos, como ainda Fl. 418DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 418 9 consubstanciam na legislação vigente, medida cautelar prevista no Regulamento do IPI para conferir à Administração Tributária a segurança de que os produtos devolvidos ou retornados haviam sido efetivamente reincorporados ao estoque do estabelecimento contribuinte, encontrandose em condições de uma nova saída sujeita à tributação. Deveras, os requisitos para a admissão do crédito traduziamse não só pela reentrada dos produtos no estabelecimento, caracterizada pela emissão de notas fiscais de devolução/retorno de produtos, com registro no livro de entradas, mas, sobretudo, pela sua reincorporação ao estoque, comprovada pelos meios de prova estabelecidos especificamente nos arts. 169 e 172 do RIPI/2002, ou por outros meios com a mesma eficácia. Destaquese que a opção por ‘outros meios de mesma eficácia’ significa que o controle eleito pelo estabelecimento contribuinte contenha todos os dados do livro (modelo 3) substituído, imprescindíveis para a formação de um juízo de certeza quanto ao real ingresso do produto devolvido/retornado ao estoque. É esse o sentido que se deve abstrair da expressão “sistema equivalente de controle da produção e do estoque”. Como exposto, a essência do controle da produção e do estoque é conferir a segurança de que os produtos devolvidos/retornados tenham sido realmente reincorporados ao estoque, estando, assim, aptos a uma nova saída tributada, legitimandose, com isso, o direito ao crédito do imposto pelo reingresso e sujeitandose ao débito pela posterior saída. E a emissão de notas fiscais de devolução ou de retorno, assim como seu registro no livro fiscal de entradas, quando muito podem servir de indício acerca da reentrada dos produtos no estabelecimento, mas, terminantemente, não comprovam a efetiva reincorporação ao estoque, condição esta sem a qual não se torna possível a ocorrência de uma nova saída tributada. Não se pode olvidar que o produto que reentrou no estabelecimento, pelas mais variadas razões, pode não mais se sujeitar a uma nova saída. E somente a reincorporação ao estoque é que garante uma potencial saída tributada ulterior, viabilizando o direito ao crédito do IPI pela reentrada. Essa é a essência quantitativa e qualitativa do controle da produção e do estoque. Ora, está claro que a finalidade da lei ao instituir o Livro de Registro da Produção e do Estoque, ou controle equivalente, foi propiciar ao fisco o controle quantitativo da produção e do estoque de mercadorias, o que só pode ser alcançado por meio de registros que permitam controlar a espécie e a quantidade de produtos em estoque. Outrossim, o entendimento ora expendido encontra total consonância com o posicionamento de longa data emanado do então Segundo Conselho de Contribuintes, conforme atestam os Acórdãos nºs 20172.344; 20204.484 e 20305.199, cujas ementas, respectivamente, dispõem: Fl. 419DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 419 10 ‘IPI CRÉDITOS EM DEVOLUÇÃO/RETORNO GLOSA 1 Consoante art. 30 da Lei nr. 4.502/54, c/c o art. 86, II, ‘b’, do Decreto nr. 87.981 (RIPI/82), é condição para o creditamento do valor do IPI relativo às devoluções e retornos de mercadorias o lançamento no livro fiscal modelo. 3. A falta de escrituração deste livro fiscal ou de sistema equivalente que veicule, de pronto, as mesmas informações daquele, tornam ilegítimo o crédito, dando margem à sua glosa e recálculo do IPI. Precedentes jurisprudenciais (CSRF/020.074).’ ‘IPI – CRÉDITO POR DEVOLUÇÃO DE VENDAS – Improcede quando não reste demonstrada a reintegração do produto aos estoques possíveis de nova saída tributada.’ ‘IPI – LIVRO MODELO 3 – Inexistência, inclusive, de elementos de controle da produção e do estoque. Desatendimento do art. 86, inciso II, letra ‘b’, do RIPI/82, e da Portaria MF nº 328/72, item 2. Negase provimento ao recurso voluntário.’ A final, cumpre salientar que a essência dos preceitos normativos do RIPI/82 sobre a matéria em questão (legitimidade dos créditos do IPI referentes a operações de devolução ou de retorno de produtos) encontrase presente nos demais Regulamentos do IPI que o sucederam (RIPI/98 e RIPI/2002).” Desse modo, diante de previsão legal expressa em sentido contrário, não se pode aceitar como substitutos do Modelo 3, os livros de entrada ou de controles internos, sem as adaptações que permitam o controle quantitativo/qualitativo dos produtos movimentados, devendo, por conseguinte, ser mantida a glosa efetuada pela fiscalização..." Neste sentido, citamse outras decisões deste Conselho: Acórdão nº 3402004.087: IPI. CRÉDITO. DEVOLUÇÕES E RETORNOS DE PRODUTOS. FALTA DA ESCRITURAÇÃO DAS NF NO LIVRO REGISTRO DA PRODUÇÃO E DO ESTOQUE OU SISTEMA EQUIVALENTE. IMPOSSIBILIDADE. O aproveitamento de créditos de IPI relativos a devoluções e retornos de produtos tributados está condicionado à comprovação de escrituração do Livro de Registro de Controle da Produção e do Estoque ou de sistema de controle equivalente. O sistema adotado pela empresa apenas indica a data da emissão da nota de devolução/cancelamento e o seu motivo, não constando o número das notas de devolução cuja escrituração no sistema equivalente de controle de estoque é exigida pelos artigos 231, II, 'b' e 234 do RIPI/2010 como condicionante para o aproveitamento do crédito. Acórdão nº 3403001.936: IPI. CRÉDITO. RETORNO DE MERCADORIAS. ESCRITURAÇÃO. REQUISITOS. Fl. 420DF CARF MF Processo nº 10860.721255/201102 Acórdão n.º 3302005.306 S3C3T2 Fl. 420 11 O aproveitamento de créditos por retorno e/ou devolução de mercadorias, assegurado pelo art. 167 do RIPI/02 (Decreto nº 4.544/02), se vincula à observância dos requisitos exigidos pelo art. 169 do mesmo regulamento, dentre os quais, a escrituração do Livro Registro de Controle da Produção e do Estoque (mod. 3) ou sistema controle alternativo, não sendo suficiente apenas a escrituração do Livro Registro de Entradas (mod. 1). Acórdão nº 20219271: CRÉDITO DE IPI POR DEVOLUÇÃO OU RETORNO DE PRODUTOS. O direito ao crédito do IPI por devolução ou retorno de produtos subordinase à comprovação do reingresso no estabelecimento bem como à efetiva reincorporação daqueles ao estoque, mediante a escrituração do Livro Registro de Controle da Produção e do Estoque, modelo 3, ou de sistema de controle equivalente. Diante do exposto, voto para conhecer parcialmente o recurso voluntário e, na parte conhecida, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 421DF CARF MF
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Numero do processo: 16561.000188/2008-36
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Dec 05 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Feb 28 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007
ADMISSIBILIDADE. ART. 67 DO ANEXO II DO RICARF/2015. INSUFICIÊNCIA RECURSAL. NÃO CONHECIMENTO.
Tendo o crédito tributário sido constituído com base em dois suportes legais autônomos, o recurso que visa ao seu cancelamento deve atacar ambos.
Se a autoridade julgadora somente se manifesta acerca de um dispositivo legal, cabe ao sujeito passivo provocar o pronunciamento também a respeito do outro, pela via dos embargos declaratórios, para que haja apreciação completa da acusação fiscal.
Não tendo havido a adequada caracterização da divergência de ambos os suportes jurídicos, o recurso que leva a julgamento um único dispositivo legal base do lançamento se mostra insuficiente para cancelar a acusação fiscal.
ATOS SOCIETÁRIOS PRATICADOS EM ANO JÁ DECAÍDO. REFLEXOS TRIBUTÁRIOS. FATO GERADOR OCORRIDO EM PERÍODO NÃO DECAÍDO. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA.
Ainda que os atos societários que deram origem ao ágio tenham se dado em período já alcançado pelo prazo decadencial de cinco anos, não há que se falar em decadência se os fatos geradores dos tributos que tiveram suas bases de cálculo minoradas pelo aproveitamento indevido deste ágio ainda não se encontram decaídos.
A contagem do prazo decadencial somente se inicia após a ocorrência do fato gerador de tributo, quer seja aplicável ao caso concreto a regra estabelecida no art. 173, inciso I, do CTN, quer seja a fixada pelo art. 150, §4º, do mesmo Código.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2003
ÁGIO INTERNO. APROVEITAMENTO TRIBUTÁRIO. IMPOSSIBILIDADE.
A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição.
Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienante e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidencia-se a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar.
Tampouco se presta o ágio criado de tal forma artificial a impactar o cálculo de ganhos de capital em operações de alienação do investimento a ele associado.
Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
TRIBUTAÇÃO REFLEXA.
Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
Numero da decisão: 9101-003.254
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que conheceram integralmente do recurso. No mérito, (i) quanto à decadência, por unanimidade de votos, acordam em negar provimento ao recurso e (ii) quanto ao ágio, por maioria de votos, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto e Adriana Gomes Rego.
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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Aproveitamento tributário de ágio. Recorrente KLABIN S.A. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 ADMISSIBILIDADE. ART. 67 DO ANEXO II DO RICARF/2015. INSUFICIÊNCIA RECURSAL. NÃO CONHECIMENTO. Tendo o crédito tributário sido constituído com base em dois suportes legais autônomos, o recurso que visa ao seu cancelamento deve atacar ambos. Se a autoridade julgadora somente se manifesta acerca de um dispositivo legal, cabe ao sujeito passivo provocar o pronunciamento também a respeito do outro, pela via dos embargos declaratórios, para que haja apreciação completa da acusação fiscal. Não tendo havido a adequada caracterização da divergência de ambos os suportes jurídicos, o recurso que leva a julgamento um único dispositivo legal base do lançamento se mostra insuficiente para cancelar a acusação fiscal. ATOS SOCIETÁRIOS PRATICADOS EM ANO JÁ DECAÍDO. REFLEXOS TRIBUTÁRIOS. FATO GERADOR OCORRIDO EM PERÍODO NÃO DECAÍDO. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Ainda que os atos societários que deram origem ao ágio tenham se dado em período já alcançado pelo prazo decadencial de cinco anos, não há que se falar em decadência se os fatos geradores dos tributos que tiveram suas bases de cálculo minoradas pelo aproveitamento indevido deste ágio ainda não se encontram decaídos. A contagem do prazo decadencial somente se inicia após a ocorrência do fato gerador de tributo, quer seja aplicável ao caso concreto a regra estabelecida no art. 173, inciso I, do CTN, quer seja a fixada pelo art. 150, §4º, do mesmo Código. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 00 01 88 /2 00 8- 36 Fl. 2336DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 3 2 ÁGIO INTERNO. APROVEITAMENTO TRIBUTÁRIO. IMPOSSIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição. Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienante e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidenciase a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar. Tampouco se presta o ágio criado de tal forma artificial a impactar o cálculo de ganhos de capital em operações de alienação do investimento a ele associado. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplicase à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que conheceram integralmente do recurso. No mérito, (i) quanto à decadência, por unanimidade de votos, acordam em negar provimento ao recurso e (ii) quanto ao ágio, por maioria de votos, acordam em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas – Presidente em exercício (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 2337DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 4 3 (Presidente em exercício). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto e Adriana Gomes Rego. Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela contribuinte KLABIN S.A. em 01/09/2016, com fundamento nos arts. 64, inciso II, 67 e 68 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09/06/2015 (RICARF/2015), em que se alega a existência de divergências jurisprudenciais acerca de matérias relacionadas à lide. A recorrente insurgese contra o Acórdão nº 1102001.182, por meio do qual os membros da 2a Turma Ordinária da 1a Câmara da 1a Seção de Julgamento do CARF decidiram, por maioria de votos, negar provimento ao recurso de ofício e dar provimento parcial ao recurso voluntário, para admitir a dedução de despesas com fiança prestada pela controladora da contribuinte. Os autos de infração objeto do presente processo trataram de uma série de infrações tributárias que a Fiscalização entendeu terem sido cometidas pela contribuinte. Entre os anoscalendário de 2003 a 2007, teriam sido indevidamente deduzidas do lucro real e da base de cálculo da CSLL despesas indedutíveis relacionadas a: (i) remuneração de aval prestado por pessoa jurídica sócia da contribuinte; (ii) pagamento de royalties a pessoa jurídica sócia da contribuinte; (iii) amortização de ágio decorrente da incorporação da empresa KLAMASA PARTICIPAÇÕES S.A. (doravante denominada KLAMASA) pela pessoa jurídica INDÚSTRIAS KLABIN DE PAPEL E CELULOSE S.A. (identificada de agora em diante apenas como IKPC); e (iv) amortização/depreciação de ágio decorrente da aquisição das ações da empresa IGARAS PAPÉIS E EMBALAGENS S.A. (citada a partir deste ponto apenas como IGARAS) pela contribuinte. O lançamento dos créditos tributários relacionados às infrações apontadas implicou na insuficiência de saldos de prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL que a contribuinte havia utilizado em compensações nos anoscalendário de 2004, 2006 e 2007. Assim, a Fiscalização também efetuou a glosa das aludidas compensações indevidas. A primeira infração identificada pela Fiscalização concerne ao tratamento tributário dado pela contribuinte aos valores pagos à sua controladora KLABIN IRMÃOS & CIA, em razão de esta lhe ter prestado garantias exigidas pelo BNDES em contratos de concessão de financiamentos. A contribuinte considerou dedutíveis as despesas relativas à comissão de aval, entendimento questionado pela Fiscalização, que defende a indedutibilidade de tais despesas como consequência de sua desnecessidade. A segunda irregularidade constante dos autos de infração também advém da discordância entre contribuinte e Fiscalização a respeito da necessidade (e consequente dedutibilidade) de despesas incorridas. A contribuinte deduziu das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL valores de royalties pagos à sua controladora KLABIN IRMÃOS & CIA e à SOGEMAR SOCIEDADE GERAL DE MARCAS LTDA. (controlada exatamente pelos mesmos sócios da contribuinte, direta ou indiretamente) em decorrência de contrato de licença para uso de marca. Fl. 2338DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 5 4 A Fiscalização considerou que tais despesas seriam desnecessárias, uma vez que os proprietários da marca cedida eram, direta ou indiretamente, proprietários da contribuinte KLABIN S.A.. Assim careceria de sentido o pagamento de royalties pela pessoa jurídica possuidora do parque industrial às empresas que a controlavam e eram, portanto, diretamente beneficiadas pelos seus resultados, por meio da distribuição de dividendos. Diante da desnecessidade de tais despesas, entendeuse desatendida a condição de dedutibilidade prevista pelo art. 352 do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto nº 3.000/1999) RIR/1999, dispositivo baseado no art. 71, alínea "a", da Lei nº 4.506/1964. Além disso, a Fiscalização destacou o teor do inciso I do art. 353 do mesmo RIR/1999, que expressamente declara, com fundamento na alínea "d" do parágrafo único do art. 71 da Lei nº 4.506/1964, que não são dedutíveis os royalties pagos a sócios, pessoas físicas ou jurídicas, ou dirigentes de empresas, e a seus parentes ou dependentes. Já a terceira infração tributária apontada pela Fiscalização diz respeito ao indevido aproveitamento tributário do ágio de R$ 255.332.858,04 gerado contabilmente em operações que envolveram a contribuinte KLABIN S.A. e as empresas KLAMASA, IKPC, INDÚSTRIAS KLABIN S.A. e KIV PARTICIPAÇÕES S.A. (doravante mencionada apenas como KIV). Tal ágio surgiu em 24/11/2000, por ocasião da incorporação das ações da KLAMASA pela IKPC. As ações tinham o valor contábil de R$ 68.046.232,68, mas foram avaliadas em R$ 323.379.090,72 com fundamento na expectativa de rentabilidade futura da KLAMASA (cujo principal ativo eram ações da contribuinte KLABIN S.A., à época ainda denominada KLABIN RIOCELL S.A.). A diferença entre tais valores (R$ 255.332.858,04) foi registrada como ágio na contabilidade da IKPC. Em 22/10/2001, a IKPC utilizou as ações da KLAMASA (acompanhadas do ágio) para integralizar aumento de capital social da empresa INDÚSTRIAS KLABIN S.A.. Esta empresa incorporou a KLAMASA em 30/10/2001, passando a controlar diretamente as ações da contribuinte KLABIN RIOCELL S.A.. Em 31/10/2001, a INDÚSTRIAS KLABIN S.A. utilizou o investimento que detinha junto à contribuinte para fins de aumento do capital da KIV. Por fim, em 28/12/2001, a contribuinte, já renomeada como KLABIN S.A., incorporou suas controladoras KIV, INDÚSTRIAS KLABIN S.A. e IKPC, trazendo para sua contabilidade o ágio associado a suas ações e passando a utilizálo tributariamente (parte teve sua amortização deduzida como despesa; parte foi baixada em 2003, por ocasião da alienação do investimento). A Fiscalização considerou que a engenharia societária promovida pelo grupo KLABIN teve o objetivo único de criar ágio que pudesse ser aproveitado para reduzir lucros tributáveis da KLABIN S.A., seu braço mercantil. Apontou a autoridade tributária que os sócios das empresas envolvidas nas operações eram os mesmos, direta ou indiretamente; que a KLAMASA foi utilizada como empresa veículo para transferir o ágio; que os valores deduzidos dos resultados tributáveis eram indedutíveis, por inexistência dos pressupostos do ágio; que configurouse no caso concreto um abuso de direito, em razão da distorção da aplicação de lei. Assim, foram glosados os valores indevidamente deduzidos, relacionados ao ágio de R$ 255.332.858,04, e realizados os consequentes lançamentos de IRPJ e de CSLL, com Fl. 2339DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 6 5 fundamento nos arts. 247, 249, 299, 386, 390 e 391 do RIR/1999, art. 2º da Lei nº 7.698/1988, art. 1º da Lei nº 9.316/1996 e art. 28 da Lei nº 9.430/1996. Por fim, o último ilícito tributário verificado pela autoridade tributária guarda relação com o ágio de R$ 570.909.159,70 associado às ações da empresa IGARAS. A contribuinte KLABIN S.A. adquiriu da empresa INDÚSTRIAS KLABIN S.A., em 10/12/2001, 100% das ações da IGARAS por R$ 704.294.450,85, valor que contemplaria: i) ágio de R$ 384.545.590,77 fundamentado na mais valia do ativo imobilizado da sociedade adquirida; e ii) ágio de R$ 186.363.568,93 baseado em expectativa de rentabilidade futura da mesma pessoa jurídica. Em 28/12/2001, a contribuinte incorporou a IGARAS e passou a concentrar, em uma mesma pessoa jurídica: o ativo imobilizado que pertencia à incorporada e a mais valia a ele atribuído; a investida e o ágio fundamentado na rentabilidade futura que dela se esperava. Assim, julgandose amparado pela regra determinada pelo art. 386 do RIR, a contribuinte passou a amortizar o ágio de R$ 384.545.590,77, fundamentado no valor de mercado dos bens do ativo da IGARAS, em 10 anos, e o ágio de R$ 186.363.568,93, fundamentado em expectativa de rentabilidade futura da IGARAS, em 5 anos. A Fiscalização se opôs à dedutibilidade de tais despesas apontando uma série de motivos que a impediriam, entre as quais se destacam: a) não se verificou, na vendedora INDÚSTRIAS KLABIN S.A., ganho de capital que justificasse o surgimento de ágio na contribuinte; b) os laudos de avaliação que embasaram a criação do ágio datam de setembro e novembro de 2001, um ano após a aquisição da IGARAS pelo grupo KLABIN; c) não houve qualquer pagamento da adquirente KLABIN S.A. à alienante INDÚSTRIAS KLABIN S.A., apenas o registro de dívida em contas credora e devedora, extintas por ocasião da incorporação da segunda empresa pela primeira. Por considerar que o ágio sob discussão teria sido gerado de forma artificial, dentro do grupo econômico, sem desembolso algum e com o único propósito de propiciar a redução de tributos a serem pagos pela contribuinte, a autoridade tributária promoveu a glosa das respectivas despesas verificadas nos anoscalendário fiscalizados e constituiu os correspondentes créditos tributários de IRPJ e CSLL. Além dos fundamentos legais já indicados no lançamento relacionado à KLAMASA, os autos de infração indicaram ainda, neste lançamento, os arts. 434 e 435 do RIR/1999 como base do lançamento. No julgamento administrativo de primeira instância, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) em São Paulo I cancelou a cobrança da CSLL relativa às glosas de despesas com a remuneração de aval e com o pagamento de royalties a pessoa jurídica sócia da contribuinte, mantendo o restante da autuação (as glosas de compensação foram devidamente ajustadas para refletir a exoneração dos créditos de CSLL). Posteriormente a 2a Turma Ordinária da 1a Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, em decisão contra a qual ora se insurge a contribuinte recorrente, negou provimento ao recurso de ofício e deu provimento parcial ao recurso voluntário apenas para cancelar a cobrança dos créditos de IRPJ relacionados à glosa das despesas decorrentes da prestação de fiança por empresa controladora da contribuinte. O acórdão recorrido foi assim ementado: Fl. 2340DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 7 6 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 REMUNERAÇÃO POR FIANÇA PRESTADA POR SÓCIO CONTROLADOR. DESPESAS NECESSÁRIAS. São dedutíveis as despesas necessárias e usuais pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa e voltadas para a manutenção da respectiva fonte produtora, nos termos do art. 299 do RIR/99. São necessárias e usuais as despesas relacionadas à remuneração por garantia prestada pelo controlador na forma de fiança em contrato de empréstimo tomado junto ao BNDES, quando o mútuo está claramente relacionado com as atividades da empresa, e o pagamento se deu com base em taxas compatíveis com as cobradas no mercado. IRPJ. ROYALTIES PAGOS A SÓCIO. DESPESA INDEDUTÍVEL. Não são dedutíveis, da base de cálculo do IRPJ, os royalties pagos a sócios, pessoas físicas ou jurídicas, por expressa vedação do art. 353, inciso I, do RIR/99 (art. 71 da Lei nº 4.506, de 1964). DECADÊNCIA. FATOS COM REPERCUSSÃO EM PERÍODOS FUTUROS. É legítimo o exame de fatos ocorridos há mais de cinco anos do procedimento fiscal para deles extrair a repercussão tributária em períodos ainda não atingidos pela decadência. Desse modo, é possível o lançamento de infrações relativas aos efeitos tributários decorrentes da amortização de ágio dos últimos cinco anos, mesmo que a origem do ágio date de período anterior, estando a empresa obrigada a manter a escrituração de fatos que repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros, nos termos do art. 37 da Lei nº 9.430, de 1996. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. USO DE EMPRESA VEÍCULO. APROVEITAMENTO POR OUTRA EMPRESA DO GRUPO. PROPÓSITO NEGOCIAL. POSSIBILIDADE. Em regra, é legítima a dedutibilidade de despesas decorrentes de amortização de ágio efetivamente pago, devidamente fundamentado na mais valia do ativo ou em rentabilidade futura, e decorrente de transação entre partes independentes. Caso exista um propósito negocial válido e se demonstre ser possível a dedução do ágio por incorporação direta, não há óbices para que o grupo econômico “transfira” o ágio efetivamente pago para outra de suas empresas, aproveitandose do benefício fiscal em outra parte da estrutura societária, mesmo se para isso se utilizar de empresa veículo. Do mesmo modo que é necessário frear os planejamentos que criem benefícios fiscais aos quais o contribuinte não faça jus, não se deve permitir que um formalismo exacerbado impeça o uso de direito legitimamente adquirido. Fl. 2341DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 8 7 ÁGIO. FUNDAMENTO. DEMONSTRAÇÃO CONTEMPORÂNEA AOS FATOS. NECESSIDADE. A lei exige que o lançamento do ágio com base no valor de mercado ou na expectativa de rentabilidade futura seja baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Não há a exigência de que a comprovação se dê por laudo, mas por qualquer forma de demonstração, contemporânea aos fatos, que indique por que se decidiu por pagar um sobrepreço. Contudo, não é possível se admitir que laudo elaborado mais de um ano após os fatos, sem qualquer suporte em documentos contemporâneos à aquisição de terceiros, sirva para fundamentar o ágio em uma das modalidades que permitam o benefício fiscal. ÁGIO DECORRENTE DE REAVALIAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA A VALOR DE MERCADO. INDEDUTIBILIDADE. Não é dedutível o ágio decorrente de incorporação de ações reavaliadas a valor de mercado, por ter sido criado dentro do próprio grupo econômico, sem a ocorrência de efetivo desembolso nem tendo como contrapartida a apuração de ganho de capital. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 BASE DE CÁLCULO DA CSLL. LUCRO REAL. REGRAS DE APURAÇÃO. O artigo 57 da Lei nº 8.981, de 1995, não autoriza aplicar à base de cálculo da CSLL as mesmas regras expressamente endereçadas pela lei para a apuração do lucro real (entendimento majoritário da Turma, ressalvada a opinião do relator). CSLL. ROYALTIES PAGOS A SÓCIO. DESPESA NECESSÁRIA E DEDUTÍVEL. A regra do art. 353, inciso I, do RIR/99 (art. 71 da Lei nº 4.506, de 1964), que veda a dedução de royalties pagos a sócios da base de cálculo do IRPJ, não se aplica à CSLL por falta de previsão legal. A princípio, o pagamento de royalties por marca detida por outra empresa do grupo consiste em despesa necessária e usual à atividade da empresa, em especial se, na acusação, não há qualquer ponderação sobre alguma vantagem tributária ilícita obtida com a prática. LANÇAMENTO REFLEXO DE CSLL. MESMA MATÉRIA FÁTICA Para as demais infrações, aplicase ao lançamento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL o decidido em relação ao lançamento do tributo principal, por decorrer da mesma matéria fática. Recurso de Ofício Negado. Recurso Voluntário Provido em Parte. Fl. 2342DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 9 8 Os autos foram encaminhados eletronicamente à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) em 12/02/2015, dandose a intimação pessoal presumida do Procurador em 16/03/2015, nos termos do § 3º do art. 7º da Portaria MF nº 527/2010 e do art. 79 do RICARF/2015. Em 17/03/2015, a Fazenda Nacional se manifestou afirmando expressamente que não recorreria da decisão. A contribuinte foi intimada a respeito do acórdão em 24/07/2015, por meio de mensagem eletrônica enviada à sua Caixa Postal (Domicílio Tributário Eletrônico), e lhe opôs, em 27/07/2015, embargos de declaração tempestivos. Arguiu a existência de contradições entre os fatos analisados e o direito aplicado e de omissões em relação a aspectos essenciais para o julgamento da lide, vícios cujo saneamento implicaria no reconhecimento de efeitos infringentes e na consequente modificação da decisão embargada. Por meio de despacho exarado em 12/07/2016, o Presidente da 1ª Câmara da 1ª Seção não admitiu, com fundamento no art. 65, § 3º do Anexo II do RICARF/2015, os embargos de declaração manejados pela contribuinte, por entender que as situações de omissão e de contradição não estariam apontadas objetivamente e que as alegações suscitadas seriam improcedentes. Em 23/08/2016, a contribuinte foi cientificada a respeito da não admissão de seus embargos, por meio de mensagem eletrônica remetida ao seu Domicílio Tributário Eletrônico. Já em 01/09/2016, interpôs recurso especial tempestivo insurgindose contra o acórdão que apreciou seu recurso voluntário, sob a alegação de que ele teria dado à lei tributária interpretação diversa da adotada em outros processos julgados no âmbito do CARF e do extinto Primeiro Conselho de Contribuintes. O recurso especial apresentado pela contribuinte contesta a interpretação adotada pelo acórdão recorrido em relação a quatro matérias: 1) dedutibilidade de royalties pagos a acionistas; 2) decadência do direito de questionar a formação dos ágios; 3) dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa IGARAS; e 4) dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa KLAMASA. Em atendimento aos requisitos de admissibilidade do recurso especial previstos nos arts. 67 e seguintes do Anexo II do RICARF/2015, a contribuinte apontou acórdãos de turmas de câmaras do CARF, de câmaras do extinto Primeiro Conselho de Contribuintes e de turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) que teriam dado aos temas combatidos interpretação diversa daquela esposada pelo acórdão recorrido. Por razões de clareza, serão separadamente analisadas as alegações perfiladas pela recorrente a respeito de cada matéria combatida. 1) Dedutibilidade de royalties pagos a acionistas A contribuinte narra que o Acórdão nº 1102001.182, ora recorrido, defende que a regra de indedutibilidade de despesas com pagamento de royalties a sócios, contida na alínea "d" do parágrafo único do art. 71 da Lei nº 4.506/1964 (base legal do art. 353, inciso I, do RIR/1999), aplicarseia também a pagamentos feitos a sócios pessoas jurídicas. Ao adotar tal entendimento, a decisão recorrida teria entrado em conflito com os Acórdãos nº CSRF/0104.629 (proferido pela 1ª Turma da CSRF) e nº 10806.226 (julgado pela 8ª Câmara do extinto Primeiro Conselho de Contribuintes). As decisões trazidas como Fl. 2343DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 10 9 paradigmas teriam interpretado o citado dispositivo legal de forma oposta à abraçada pelo acórdão recorrido. Enquanto a decisão recorrida afirma que a expressão "parentes e dependentes", contida no dispositivo, diria respeito apenas aos dirigentes de empresas e sócios pessoas físicas, visando apenas à inclusão de novas pessoas na regra de indedutibilidade e não à exclusão das pessoas jurídicas, os acórdãos paradigmas, de modo diverso, interpretam que a presença da citada expressão leva obrigatoriamente à conclusão de que a vedação legal alcança somente sócios pessoas físicas. Assim, estaria devidamente configurada a divergência jurisprudencial necessária ao seguimento do recurso especial no que diz respeito à matéria. 2) Decadência do direito de questionar a formação dos ágios Em seguida, a contribuinte defende que não poderiam ter sido glosadas, no ano de 2008, despesas relacionadas a ágios originados em operações societárias ocorridas em 2000 e 2001, uma vez que o direito de o Fisco contestar tais operações já estaria fulminado pela decadência, quer seja pela aplicação do art. 150, § 4º, do CTN, quer seja pela inteligência do art. 173, I, do mesmo Código. Em seu favor, argumenta que o Fisco já conhecia tais operações societárias desde a sua ocorrência, graças às alterações promovidas nos cadastros das pessoas jurídicas envolvidas e às informações contidas nas suas DIPJ. Apesar disso, o acórdão recorrido teria negado a ocorrência da decadência concluindo que "é possível o lançamento de infrações relativas aos efeitos tributários decorrentes da amortização de ágio dos últimos cinco anos, mesmo que a origem do ágio date de período anterior". A recorrente defende que, dessa forma, o acórdão recorrido teria inaugurado divergência jurisprudencial frente a decisões anteriormente proferidas no âmbito do extinto Primeiro Conselho de Contribuintes: Acórdão nº 10197.084 (1ª Câmara) e Acórdão nº 107 09.545 (7ª Câmara). A primeira decisão paradigma trazida ao debate contraria o entendimento adotado pelo acórdão recorrido, segundo a recorrente, ao pregar que o Fisco não pode analisar fatos ocorridos e contabilizados em períodos anteriores a cinco anos, a contar do momento da autuação. Já o segundo acórdão paradigma afirma que o Fisco até pode examinar fatos situados em períodos já alcançados pela decadência, mas não readequálos segundo seu juízo de valor. Assim, segundo esta tese, a consideração de que uma operação societária não se enquadrou nas condições legais que permitem a amortização fiscal do ágio ali originado configuraria juízo de valor a seu respeito, não podendo ser utilizada pelo Fisco para fins de lançamentos tributários. Desta forma, também em relação à questão da decadência o acórdão recorrido estaria dissonante de decisões administrativas anteriores. 3) Dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa IGARAS Fl. 2344DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 11 10 A contribuinte inicia este tópico de seu recurso especial identificando a legislação tributária que teria sido interpretada de maneira divergente: arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977, que correspondem aos arts. 385 e 386 do RIR/1999. O acórdão recorrido, relata a contribuinte, teria negado a dedutibilidade das despesas de amortização do ágio surgido na operação de aquisição da empresa IGARAS por conta da inexistência de demonstração do fundamento do ágio que fosse contemporânea à realização do investimento. Portanto, a demonstração exigida pelo § 3º do art. 20 do Decreto Lei nº 1.598/1977 deveria ser, impreterivelmente, um documento contemporâneo à operação de aquisição. As decisões paradigmas arroladas no recurso, Acórdão nº 1101000.899 (de lavra da 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF) e Acórdão nº 1103000.960 (julgado pela 3ª Turma Ordinária da mesma Câmara), embora tenham alcançado conclusões desfavoráveis aos sujeitos passivos que figuravam nas lides, teriam, segundo a recorrente, rechaçado a razão de decidir do acórdão recorrido. Naqueles casos, o não provimento dos recursos dos contribuintes teria sido fundado em outras razões, alheias à discussão desenvolvida no presente processo. No que interessa à matéria sob discussão, a contribuinte recorrente afirma que os acórdãos paradigmas teriam entrado em conflito com a decisão combatida por trazerem as seguintes teses em seus votos condutores: Acórdão nº 1101000.899: "Isto porque a exigência legal é no sentido de que a contribuinte mantenha comprovante de escrituração que demonstre o fundamento do ágio pago. Este comprovante deve expressar razões que justifiquem a aquisição, mas não precisa ser, necessariamente, elaborado antes ou concomitantemente com a operação." Acórdão nº 1103000.960: "Na hipótese aventada não há razão para rejeição como comprovação do laudo feito posteriormente, desde que apresentados elementos complementares, como de fato aconteceu no caso sob exame, tendose em mente a inexistência de prazo fixado na legislação." Dessa forma, teria restado devidamente demonstrado, no entender da recorrente, a divergência jurisprudencial acerca do fundamento utilizado pelo Acórdão nº 1102001.182 para negar a dedutibilidade das despesas relacionadas ao ágio originado nas operações que envolveram a empresa IGARAS. 4) Dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa KLAMASA Por fim, a recorrente aduz ainda a existência de dissenso jurisprudencial a respeito da interpretação dada à legislação (arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977 e art. 252 da Lei nº 6.404/1976) pelo acórdão recorrido quando concluiu pela impossibilidade de aproveitamento tributário do ágio oriundo das operações de aquisição da empresa KLAMASA. Segundo a contribuinte, o acórdão recorrido teria negado o efeito tributário pretendido por ela com base na afirmação de que o ágio em questão decorreria de reavaliação de participação societária a valor de mercado efetuada por meio de incorporação de ações, sem a ocorrência de efetivo desembolso ou a verificação de ganho de capital como contrapartida. Fl. 2345DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 12 11 Ao assim decidir, a decisão recorrida teria entrado em colisão com os entendimentos constantes dos Acórdãos nº 1301001.852 e nº 1301001.297, que defendem a possibilidade de formação do ágio passível de aproveitamento tributária em qualquer forma de aquisição, independentemente de efetivo desembolso ou "entrega de dinheiro". Além disso, o acórdão recorrido teria divergido do Acórdão nº 1301001.852 ao rechaçar a possibilidade de avaliação de ações a valor de mercado na operação de incorporação de ações, tendo em vista que a decisão paradigma defende que, neste tipo de operação, as ações da incorporada devem ser entregues em substituição a novas ações emitidas pela incorporadora, com a manutenção de equivalência entre as riquezas envolvidas. Por fim, a recorrente argumenta que os acórdãos paradigmas contrariam o disposto na decisão recorrida ainda no que diz respeito à possibilidade de criação de ágio amortizável em operações entre partes relacionadas: o acórdão recorrido negou tal possibilidade no caso concreto porque o ágio sob discussão teria sido criado dentro de um grupo econômico; os acórdãos paradigmas, em sentido inverso, defendem que a legislação fiscal não veda a utilização do ágio gerado no interior de um grupo. Defendendo terem sido devidamente demonstradas as divergências jurisprudenciais a respeito das quatro matérias que combate, a contribuinte pede que seu recurso especial seja admitido e remetido para julgamento pela CSRF. Além de defender a existência de divergência jurisprudencial entre os acórdãos recorrido e paradigmas em relação às matérias indicadas, a recorrente apresenta ainda uma série de alegações endereçadas à CSRF que deveriam, sob seu ponto de vista, provocar a reforma da decisão recorrida. Em suma, argumentase que: O art. 353, I, do RIR/1999, na parte em que veda a dedutibilidade dos royalties pagos a sócios pessoas jurídicas, não possui fundamento legal porque o art. 71, parágrafo único, alínea "d", da Lei nº 4.506/1964, estabelece restrição aplicável somente a sócios pessoas físicas; A expressão "e seus parentes ou dependentes", presente na alínea "d" do parágrafo único do art. 71 da Lei nº 4.506/1964, leva obrigatoriamente à conclusão de que os sócios ali mencionados só podem ser pessoas físicas; A comparação do art. 353, I, do RIR/1999, com os dispositivos correspondentes nas versões anteriores do RIR (de 1966, 1975 e 1980), editadas já na vigência da Lei nº 4.506/1964, prova que a inclusão dos sócios pessoas jurídicas na vedação à dedutibilidade de pagamentos de royalties se deu de forma ilegal: as versões anteriores somente reproduziam o art. 71 da Lei, sem mencionar "pessoas jurídicas"; O RIR/1999, em seu art. 353, inciso I, teria, portanto, extrapolado a legislação que lhe serve de amparo, o que não pode ser admitido; Os ágios cujas despesas de amortização foram considerados indedutíveis pela Fiscalização foram originados em operações ocorridas e registradas nos controles fiscais e contábeis da recorrente e de outras empresas havia mais de cinco anos (anos 2000 e 2001) contadose do momento da autuação (2008). Assim, o direito de o Fisco contestar tais operações já encontravase fulminado pela decadência; Fl. 2346DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 13 12 Mesmo tendo ciência das operações desde a época de sua realização, por conta das alterações promovidas nos cadastros das pessoas jurídicas e de informações constantes de suas DIPJ, a Fiscalização somente em 2008 veio alegar a existência de irregularidades nos negócios jurídicos; A atuação da Fiscalização em 2008 não se trata de simples questionamento de dados relativos às amortizações deduzidas entre 2003 e 2007, como a aferição da correção das quotas amortizadas, mas de verdadeira discordância a respeito da validade dos negócios jurídicos realizados em 2000 e 2001, para tentar invalidar seus efeitos jurídicos e consequências fiscais; Tal intenção afronta a segurança jurídica, princípio fundamental do Estado de Direito protegido pelo instituto da decadência (art. 150, § 4º, e art. 173, I, ambos do CTN); Se o Fisco se mantém inerte ao longo dos cinco anos seguintes àquele em que o negócio jurídico foi realizado, a atividade exercida pelo contribuinte considerase homologada e não pode mais ser questionada, uma vez que, seja pela decadência, seja pela homologação tácita, extinguese o próprio crédito tributário, nos termos do art. 156, V e VII, do CTN; Em 03/10/2000, as controladoras da empresa IGARAS no exterior (RASAGI e VERYWOOD) foram adquiridas pela BAYWOOD, empresa do grupo KLABIN, por US$ 510.000.000,00, sendo que ágio de US$ 257.849.667,68 foi apurado considerandose como custo de aquisição somente o valor de US$ 400.400.000,00 (excluiuse a parcela do preço pago por meio da assunção de dívidas). O valor empregado na aquisição das empresas foi objeto de avaliação pelo BANCO CHASE MANHATTAN, que realizou estudo econômico baseado na rentabilidade esperada da IGARAS; Em dezembro de 2001, em processo de reorganização societária promovida pelo grupo KLABIN, a IGARAS passou a ser controlada diretamente pela INDUSTRIAS KLABIN S.A., que contabilizou suas ações por R$ 704.294.450,85, sem desdobrar tal valor para reconhecer o ágio. Em 10/12/2001, a contribuinte KLABIN S.A. adquiriu as ações e desdobrou seu custo para reconhecer ágio de R$ 570.909.159,70 (R$ 384.545.590,77 lastreado em mais valia do ativo imobilizado e R$ 186.363.568,93 baseado em expectativa de rentabilidade futura). Já em 28/12/2001, a contribuinte recorrente incorporou a IGARAS, passando a deduzir despesas de amortização de tais ágios; O ágio apurado na aquisição da IGARAS decorreu, portanto, de investimento por compra e venda, com pagamento em dinheiro, feita perante terceiros não relacionados ao grupo KLABIN; O sobrepreço pago em tal aquisição estava devidamente fundamentado em estudo de rentabilidade futura feito pelo BANCO CHASE em 28/06/2000, durante, portanto, as negociações de compra da IGARAS perante terceiros. Tal estudo chegou a conclusões semelhantes às alcançadas pela TREVISAN CONSULTORES, em avaliação realizada mais de um ano depois; A legislação (art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977) não obriga que o contribuinte elabore laudo antes da aquisição do investimento, tampouco condiciona a amortização fiscal à elaboração de laudo de forma prévia ou concomitante à operação. A lei exige somente uma demonstração, nada mais. Somente com a vigência da Medida Provisória nº Fl. 2347DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 14 13 627, convertida na Lei nº 12.973/2014, é que se passou a estabelecer alguns requisitos formais para o documento em questão; O fato de uma nova legislação ter introduzido formalidades e prazos em relação ao comprovante de fundamentação do ágio também deve ser interpretado como prova da inexistência de idênticas exigências no passado. Além disso, a Lei nº 12.973/2014, ao alterar a redação do § 3º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977, estabelece que o laudo relativo ao ágio deve ser apresentado em até 13 meses após a aquisição do investimento. Ou seja, a exigência que passou a existir permite a elaboração de laudo posteriormente ao lançamento contábil, exatamente como verificado no caso concreto; Assim, não merece prevalecer o argumento da Fiscalização e do acórdão recorrido no sentido de que a avaliação feita em 2001 não serve como demonstrativo das razões econômicas que motivavam o pagamento do ágio em discussão, devendo ser canceladas as glosas fiscais correspondentes; Já o ágio relacionado às operações envolvendo a empresa KLAMASA surgiu em decorrência de permuta entre acionistas de empresas do grupo KLABIN, especialmente da IKPC, e vários acionistas independentes e institucionais da contribuinte KLABIN S.A., o que já é suficiente para refutar a alegação de que o ágio teria se originado em operações praticadas entre partes relacionadas; A permuta em questão, realizada em 23/11/2000, consistiu na troca de 82.893.666 ações da IKPC, possuídas pela KLAMASA (empresa criada especificamente para operacionalizar esta operação e que recebeu as ações em integralização de aumento de capital promovido pelos acionistas controladores da IKPC), a um custo de R$ 68.619.940,98, por 289.917.420 ações da contribuinte KLABIN S.A. (à época ainda denominada KLABIN RIOCELL S.A.), até então de propriedade de acionistas como BNDES, PREVI, PETROS e outros; Os valores adotados na permuta respeitaram os valores de mercado das empresas, segundo avaliação feita por empresa especializada; Neste momento, a KLAMASA fez a equivalência patrimonial do investimento e desdobrou seu valor total de R$ 240.116.940,98 em um deságio de R$ 171.497.000,00 e custo de R$ 68.619.940,98; Em conformidade com o que havia sido previamente acertado entre os permutantes, em 24/11/2000 houve a incorporação das ações da KLAMASA pela IKPC. Para tal, a IKPC emitiu mais 82.494.666 ações (mesma quantidade previamente aportada na KLAMASA para a realização da permuta), pelo valor de R$ 323.379.090,72 (foi atribuído a cada ação o mesmo valor praticado na permuta, ou seja, R$ 3,92). As ações emitidas foram integralizadas com o recebimento das ações da KLAMASA, valoradas a R$ 68.046.232,68, o que provocou a contabilização, no ativo da IKPC, de ágio de R$ 255.332.858,04; Finalizada a permuta, os acionistas da KLABIN S.A., que detinham 58.85% do capital desta empresa, passaram a possuir 11,19% do capital da IKPC. Já os acionistas da IKPC, que entregaram ações para a KLAMASA e posteriormente receberam igual quantidade de ações da IKPC na incorporação de ações, detinham participação de 49,95% no capital da empresa e ficaram, ao final, com 43,62%, tendo em vista aumento de capital subscrito apenas pelo BNDES; Fl. 2348DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 15 14 Um ano depois, em 22/10/2001, já no contexto da reorganização societária do grupo KLABIN, a IKPC transferiu seu investimento na KLAMASA, juntamente com o ágio de R$ 255.332.858,04, para a INDÚSTRIAS KLABIN S.A. em operação de aumento de capital social. O deságio de R$ 171.497.000,00 permaneceu na KLAMASA; Em 30/10/2001, a INDÚSTRIAS KLABIN S.A. incorporou a KLAMASA por valores contábeis, transferindo o ágio de R$ 255.332.858,04 da conta de investimento para seu ativo diferido. A INDÚSTRIAS KLABIN S.A. passou então a controlar diretamente a contribuinte KLABIN S.A. e o deságio de R$ 171.497.000,00, anteriormente controlado na KLAMASA, foi reconstituído na INDÚSTRIAS KLABIN S.A.; Em 31/10/2001, a INDÚSTRIAS KLABIN transferiu seu investimento na KLABIN S.A., pelo seu valor patrimonial contábil, para sua controlada KIV, em processo de aumento de capital. O ágio de R$ 255.332.858,04 passou a ser registrado no ativo diferido da KIV. O deságio de R$ 171.497.000,00 foi realizado, com a adição do valor ao lucro real da INDÚSTRIAS KLABIN S.A.; Já em 28/12/2001, a KLABIN S.A. (que, repitase, à época ainda adotava o nome KLABIN RIOCELL S.A.) incorporou suas controladoras diretas e indiretas (IKPC, INDÚSTRIAS KLABIN S.A. e KIV). Com isso, o ágio de R$ 255.332.858,04 foi inserido no ativo diferido da contribuinte; O raciocínio de que o ágio sob análise seria decorrente de mera reavaliação de ações realizada entre partes relacionadas sem o efetivo desembolso, constante do acórdão recorrido, não merece prosperar uma vez que o ágio em comento nasceu em operação de incorporação de ações, efetuada no âmbito de reorganização societária realizada entre partes independentes, sob amplo escrutínio da CVM; A operação de incorporação de ações, regida pelo art. 252 da Lei nº 6.404/1976, implica em aquisição de participação societária. Se tal participação for relevante para fins de aplicação do método de equivalência patrimonial, a incorporadora obrigase à aplicação da regra de desdobramento do respectivo custo em valor de patrimônio líquido da investida e ágio ou deságio (art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977); Foi para dar cumprimento a esta regra que a IKPC, ao incorporar a totalidade das ações da KLAMASA, desdobrou o respectivo custo de aquisição em valor do patrimônio líquido e ágio; O art. 20 de DecretoLei nº 1.598/1977 e o art. 386 do RIR/1999 não limitam sua aplicação a operações de compra e venda, aceitando qualquer modalidade de aquisição de participação societária. Entre as modalidades possíveis, está justamente a incorporação de ações, hipótese encontrada nos presentes autos; Sendo assim, também é irrelevante a contraprestação da aquisição corresponder a pagamento em dinheiro ou a qualquer outra obrigação do adquirente; Da mesma forma, é irrelevante, para fins de reconhecimento de ágio ou deságio, a ocorrência de ganho ou perda de capital pela contraparte, ao contrário do que defende o acórdão recorrido; Fl. 2349DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 16 15 Na incorporação de ações, a apuração de ágio é mera decorrência do fato de as ações entregues pela incorporadora possuírem valor superior ao valor patrimonial das ações por ela incorporadas; Também é descabida a alegação, contida no acórdão recorrido, de que o ágio teria sido apurado entre partes relacionadas. A operação em questão, apesar de envolver partes relacionadas, também teve a participação efetiva do mercado, por conta da presença de acionistas minoritários, tendo inclusive ocorrido sob o crivo da CVM. A contribuinte encerra seu recurso especial com o pedido de que este seja conhecido, processado em seus trâmites regulares e afinal provido para cancelar integralmente as exigências fiscais objeto da lide. A irresignação da contribuinte foi submetida a juízo de admissibilidade, a fim de se verificar o atendimento aos requisitos regimentalmente exigidos dos recursos especiais. As conclusões foram expostas em despacho de 07/11/2016. O aludido despacho considerou cumpridos os requisitos formais de admissibilidade e passou a verificar a existência das alegadas divergências jurisprudenciais entre a decisão recorrida (Acórdão nº 1102001.182) e os vários paradigmas indicados. A este respeito, foram expostas as seguintes conclusões: Matéria "dedutibilidade de royalties pagos a acionistas": Considerouse comprovada a existência de divergência jurisprudencial entre a decisão recorrida e os dois paradigmas indicados pela recorrente (nº CSRF/0104.629 e nº 10806.226); Matéria "decadência do direito de questionar a formação dos ágios": Entendeuse demonstrado o dissídio jurisprudencial entre a decisão recorrida e o Acórdão nº 10197.084, primeiro paradigma trazido pela recorrente. Por esta razão, o cotejo com o segundo acórdão paradigma (nº 10709.545) foi considerado dispensável; Matéria "dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa IGARAS": Do cotejo entre o acórdão recorrido e os acórdãos paradigmas colacionados, concluiuse que não foi comprovada a divergência jurisprudencial arguida pela recorrente, restando desatendidos requisitos de admissibilidade do recurso especial previstos no art. 67 do Anexo II do RICARF/2015. De início, considerouse que a decisão recorrida não exige, como alega o recurso, que a demonstração do fundamento do ágio seja contemporânea aos fatos, mas apenas que o laudo, mesmo que elaborado posteriormente às operações, seja acompanhado de provas das razões que serviram de base à tomada de decisões, estas sim, por questão lógica, contemporâneas aos fatos. Além disso, em relação ao Acórdão nº 1101000.889 (primeiro paradigma), verificouse que: a questão atinente aos requisitos do laudo foi abordada como mero obiter dictum; não é possível concluir que o entendimento da Conselheira Redatora seria de fato divergente do expresso na decisão recorrida; o contexto fáticoprobatório é diverso daquele analisado no acórdão combatido. Já no que toca ao segundo paradigma, de nº 1103 000.960, também constatouse que: os excertos reproduzidos do julgado não permitem concluir que o entendimento a respeito do assunto em foco seria contrário ao exposto na decisão recorrida; os contextos fáticos esquadrinhados em cada caso são distintos; Matéria "dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa KLAMASA": Concluiuse pela existência de dissenso jurisprudencial entre a decisão recorrida e o Acórdão nº 1301 Fl. 2350DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 17 16 001.297, segundo paradigma apontado pela recorrente. Em virtude disso, o cotejo com o primeiro acórdão paradigma (nº 1301001.852) foi dispensado; Portanto, o despacho que examinou a admissibilidade do recurso especial interposto pela contribuinte decidiu por darlhe seguimento parcial. Obtiveram seguimento três das matérias recorridas: "dedutibilidade de royalties pagos a acionistas", "decadência do direito de questionar a formação dos ágios" e "dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa KLAMASA". Devidamente cientificada do despacho que deu seguimento parcial ao seu recurso especial, a contribuinte protocolou, em 16/12/2016, de forma tempestiva e com fulcro nos arts. 64, III, e 71 do Anexo II do RICARF/2015, agravo questionando a parte do despacho que negou seguimento a uma das matérias recorridas. De forma sintética, alegou o seguinte: A divergência jurisprudencial entre a decisão recorrida e os paradigmas, no que diz respeito à matéria "dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa IGARAS", deve ser observada do ponto de vista da demonstração do fundamento do ágio, conforme prega o § 3º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977; Neste contexto, é patente a divergência jurisprudencial arguida pela recorrente, já que a decisão recorrida entendeu ser imprescindível que a demonstração do ágio seja contemporânea à aquisição do investimento, enquanto as decisões paradigmas atestaram expressamente que a lei não prevê nenhum prazo para elaboração da demonstração do fundamento do ágio; Enquanto o acórdão recorrido não admitiu demonstração elaborada posteriormente à aquisição, os acórdãos paradigmas a reconheceram como válida. Assim, o fato de haver ou não elementos contemporâneos à aquisição é despiciendo, tendo em vista que a lei não fala de outros elementos, mas tão somente em demonstração a ser arquivada pelo contribuinte; Assim, no contexto da interpretação do § 3º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977, não resta dúvida acerca da divergência entre os acórdãos analisados; Quanto à alegação do despacho agravado de que inexistiria similitude fática entre os acórdãos cotejados, registrese que a demonstração analítica da divergência não requer a exata identidade fática entre os arestos recorrido e paradigma. Basta, em realidade, que a mesma norma tenha sido julgada em sentidos diversos, sejam as circunstâncias fáticas dos casos sob exame iguais ou meramente similares; Ademais, é imperioso salientar que a demonstração do fundamento do ágio foi elaborado pela contribuinte no momento em que seu reconhecimento se tornou obrigatório, nos termos do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977. Por isso a elaboração da demonstração se deu em setembro de 2001 (época da reorganização societária do grupo KLABIN), quando passou a ser obrigatória, a despeito de a aquisição do investimento ter se dado em 2000, por pessoa jurídica sediada no exterior (não submetida à legislação tributária brasileira); Portanto, não há que se falar em extemporaneidade da demonstração elaborada pela ora agravante, haja vista que ela foi elaborada no momento em que reconhecimento do ágio era mandatório. Fl. 2351DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 18 17 Ao final, a contribuinte pede que seu agravo seja conhecido e provido para reformar o despacho de admissibilidade de modo que se dê seguimento ao recurso especial também em relação à matéria "dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa IGARAS". O agravo foi rejeitado pelo Presidente da CSRF por meio de despacho exarado em 06/02/2017. Considerouse que a decisão agravada não merecia reparos, uma vez que efetivamente não existia qualquer divergência entre os acórdãos recorrido e paradigmas em relação à matéria objeto do recurso especial. Nos termos do despacho, "as singelas diferenças vislumbradas pela agravante entre os casos confrontados residem, justamente, no elemento essencial para a decisão expressa nos paradigmas: a existência de elementos contemporâneos à aquisição que se prestem como justificativa para o preço pago, posteriormente confirmados em laudo". Após a análise do agravo, o processo foi remetido à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) para fins de ciência da interposição de recurso especial pela contribuinte, assim como dos despachos que o admitiram parcialmente, em conformidade com o art. 70 do Anexo II do RICARF/2015. Em resposta, foram apresentadas, em 24/02/2017, contrarrazões às alegações da recorrente. Assim podem ser resumidas as alegações perfiladas pela Fazenda Nacional: Não há suporte hermenêutico para que se interprete de maneira restritiva o termo "sócio" contido na alínea "d" do parágrafo único do art. 71 da Lei nº 4.506/1964, que estabelece hipótese de indedutibilidade de despesas com pagamento de royalties. Se o legislador federal em momento algum distinguiu a pessoa física da pessoa jurídica, não pode o hermeneuta fazêlo; No presente caso, mais do que interpretar restritivamente a lei, o que a recorrente propõe é uma atuação como legislador positivo, com a inserção de distinção em momento algum veiculada no texto legal. A referência a "parentes e dependentes" não restringe o significado da palavra "sócios", pois não se trata de aposto restritivo. O que existe são diversos núcleos do objeto indireto colocados em paralelo por coordenação, conforme se nota pela utilização da conjunção aditiva "e"; Obviamente a expressão "parentes e dependentes" somente se refere aos sócios pessoas físicas, mas isso não significa, de forma alguma, que a expressão "sócios" só se refira a pessoas físicas. Neste sentido já se manifestaram a jurisprudência e a doutrina; No que toca à alegação recursal de decadência, registrese que, embora os atos que geraram os ágios glosados na autuação tenham ocorrido em 2001, a amortização desse ágio pela recorrente só se deu no decorrer de 2003 a 2007, o que motivou a adequada e pontual atuação do Fisco, em 2008, conforme fatos geradores indicados nos autos de infração de IRPJ e CSLL; O prazo decadencial aplicase à atividade tributante do Estado. Ou seja, ocorrida a materialização da hipótese de incidência tributária prevista em lei (fato gerador), o Fisco tem o prazo de cinco anos para constituir a correspondente obrigação tributária por meio do lançamento; Fl. 2352DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 19 18 Portanto, para a contagem da decadência, devese ter em mira o fato gerador da obrigação tributária. Sem a materialização de alguma hipótese de incidência prevista em lei, não há que se falar em constituição de crédito fiscal, o que, por sua vez, afasta a possibilidade de contagem do prazo decadencial. Em resumo, não havendo fato gerador, não haverá prazo decadencial a ser contado; Como o simples pagamento de um ágio na aquisição de participação societária não é fato gerador de nenhum tributo federal, não há que se cogitar da ocorrência de decadência no caso dos presentes autos; Ao adquirir uma participação societária com ágio, a pessoa jurídica adquire uma expectativa de direito de, no futuro, caso ocorra a situação prevista na legislação, poder amortizar esse valor na apuração de tributos por ela devidos. Somente a partir do momento em que a contribuinte promove o efeito tributário que entende decorrer de tal ágio é que o Fisco poderá averiguar a regularidade de sua utilização, concordando ou não com sua amortização nas bases de cálculo do IRPJ e da CSLL; Já em relação ao ágio originado nas operações que envolveram a empresa KLAMASA, acertou a Fiscalização ao considerálo indedutível para fins de apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, à luz dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (arts. 385 e 386 do RIR/1999); De acordo com o art. 385 do RIR/1999, no caso de investimentos realizados em sociedade coligada ou controlada, em razão da aplicação do método de equivalência patrimonial, o correspondente preço de ágio deverá ser registrado pela parte que o suporta em conta distinta do valor patrimonial do investimento (desdobramento do custo de aquisição); Na apuração do lucro real e do lucro líquido das empresas, normalmente o ágio e o deságio não integram o cálculo do resultado. Via de regra, eles só serão considerados quando o investimento que lhes deu origem for alienado ou liquidado (arts. 391 e 426 do RIR/1999); A exceção a tal regra ocorre em certos casos de incorporação, fusão ou cisão, quando a dedução da amortização do ágio ou deságio na conta de resultado é admitida independentemente de alienação ou liquidação do investimento. O art. 386 do RIR/1999, repetindo os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, determina que uma empresa que absorva o patrimônio de outra em que detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 385 do RIR/1999 e baseado em expectativa de resultados futuros, pode passar a deduzir a amortização do correspondente ágio ou deságio; Ocorre que, para existir, o ágio deve sempre ter como origem um propósito negocial (aquisição de um investimento) e um substrato econômico (transação comercial). Meros registros escriturais não podem ensejar o nascimento desta figura econômica e contábil; Por propósito negocial entendese a razão negocial que leva uma empresa a adquirir um investimento por valor superior àquele que originalmente custou ao alienante; O ágio deve sempre decorrer da efetiva aquisição de um investimento oriundo de um negócio comutativo, onde as partes contratantes, independentes entre si e ocupando posições opostas, tenham interesse em assumir direitos e obrigações correspondentes e proporcionais; Fl. 2353DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 20 19 A operação que dá origem ao ágio deve ainda ter substrato econômico, com o dispêndio de um gasto (econômico ou patrimonial) pelo adquirente e o respectivo ganho (também econômico ou patrimonial) pelo alienante. Sem essa troca de riquezas e da titularidade do investimento, não há que se falar em aquisição e, como consequência, em surgimento de ágio; A exigência do cumprimento de tais requisitos é reconhecida pela Comissão de Valores Mobiliários, por meio do OfícioCircular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007 e pelo Conselho Federal de Contabilidade, nos termos da Resolução CFC nº 1157/2009; A aquisição de um investimento por meio de mera escrituração artificial, sem a real materialização no mundo econômico, não é hábil a gerar ágio ou deságio; No caso sob análise, o ágio amortizado pela recorrente efetivamente não era dedutível, uma vez que não existiu de verdade, foi criado apenas no papel e não apresentou propósito negocial ou substrato econômico que justificasse seu surgimento; O ágio em questão não se fundamentou em rentabilidade futura da KLAMASA, mas da própria recorrente (o único bem possuído pela KLAMASA era seu investimento na KLABIN S.A.). Enfim, o propósito negocial das operações que originaram o ágio era sua própria criação, um fim em si mesmo; A KLAMASA teve o único papel de servir como veículo para a transferência de ações entre as empresas, com geração de ágio contábil. Cumprida tal tarefa, a empresa foi extinta logo em seguida, sem que nenhum fato externo tenha concorrido para isso; Além de não ter propósito negocial, o ágio criado com a "reorganização societária" também não apresenta substrato econômico que justifique seu surgimento. Não houve circulação de nenhuma espécie de riqueza que justificasse sua existência; Os mesmos sujeitos ocuparam indiretamente as posições de adquirente e cedente da participação societária alienada, sem a intervenção de qualquer terceiro. Assim, não houve variação patrimonial dos envolvidos, não ocorreu dispêndio de qualquer natureza e não se verificou qualquer racionalidade econômica na operação, a não ser engendrar uma economia fiscal decorrente da minoração da base de cálculo de IRPJ e CSLL; O titular de um bem não pode simplesmente lhe atribuir valor superior ao de aquisição/constituição para originar despesas que afetem seu lucro tributável. É isso que acontece quando são utilizadas operações realizadas no interior de um grupo econômico, por pessoas interligadas, em desacordo com o requisito da autonomia das partes envolvidas; Diante do exposto, concluise que o ágio objeto de discussão nos presentes autos, sendo inexistente, não é válido e não é eficaz para ser amortizado na conta de resultado da recorrente, seja pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (arts. 385 e 386 do RIR/1999), seja por qualquer outra norma; Na ausência de norma que excepcione a incidência de CSLL em casos como o presente, aplicase a disposição constante do art. 57 da Lei nº 8.981/1995. Além disso existe, no art. 75 da Instrução Normativa (IN) nº 390/2004, que dispõe sobre a apuração e o pagamento de CSLL, previsão de que as condições de dedutibilidade do ágio na base de Fl. 2354DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 21 20 cálculo do IRPJ, previstas no art. 386 do RIR/1999, aplicamse igualmente ao cálculo da contribuição. Por conta de tudo que expôs, a PGFN pede, ao final, que seja negado provimento ao recurso especial da contribuinte, mantendose o acórdão preferido pela Turma a quo. Os autos seguiram então para a CSRF para o julgamento do recurso especial. É o relatório. Fl. 2355DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 22 21 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator Embora o tema não tenha sido abordado nas razões que a PGFN contrapôs ao recurso especial apresentado pela contribuinte KLABIN S.A., julgo relevante examinar inicialmente a questão do conhecimento recursal no que diz respeito à dedutibilidade dos royalties pagos a sócios pessoas jurídicas. Vencida tal etapa, passarei à análise da arguição preliminar trazida pela recorrente, concernente à suposta decadência do direito de o Fisco questionar aspectos de operações societárias praticadas em períodos que antecederam a autuação em mais de cinco anos. Por fim, analisarei o mérito da controvérsia relacionada à possibilidade de aproveitamento tributário do ágio oriundo das operações societárias que envolveram a empresa KLAMASA, praticadas pelo grupo econômico a que pertence a contribuinte. 1) Conhecimento do recurso especial Royalties Conforme relatado, um dos motivos que levaram a contribuinte a se insurgir contra o Acórdão nº 1102001.182 foi o fato de ter sido mantida a cobrança dos créditos tributários de IRPJ fundamentados na indedutibilidade das despesas com pagamento de royalties a sócios pessoas jurídicas. Ao tratar desta infração tributária, dispôs o Termo de Verificações Fiscais: "2 ROYALTIES (...) A legislação do Imposto de Renda esta consubstanciada nos artigos 352 e seqüentes, e determinam que: A dedução de despesas com royalties será admitida quando necessárias para que o contribuinte mantenha a posse, uso ou fruição do bem ou direito que produz o rendimento (Lei n° 4.506, de 1964, art. 71) Tratandose da necessidade, como é possível entender que os proprietários da marca que são efetivamente, direta ou indiretamente, proprietários da Klabin S/A, submeter a pagamentos de royalties pelo uso da marca justamente a empresa possuidora do parque industrial de produção, que comercializa os seus produtos e que afinal traz resultados, quase que exclusivamente, que serão distribuídos para os sócios em forma de dividendos. Outra questão que se poderia fazer é como seria a empresa se utilizasse marca diferente daquela que repercute despesas de royalties, será que influenciaria no retorno que os sócios desejariam desta empresa? Fl. 2356DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 23 22 A eventual alegação de que a klabin não pertence 100% aos sócios detentores da marca (família Klabin e família Lafer), perdese quanto se verifica que os sócios proprietários da marca são exatamente aqueles que diretamente administram o grupo de empresas que levam o nome Klabin. A resposta a esta questão só pode ser reconhecida como ação para diminuir o lucro da Klabin S/A com a geração deste tipo de despesas, e por conseqüência reduzir a carga tributária. Logo, a necessidade de uso da marca é do interesse dos sócios para que a Klabin proporcione lucros a ela própria, diferentemente de royalties pelo uso da marca feita por terceiros como acontece, por exemplo, com marcas de calçados, onde quem usa a marca o faz para obter lucratividade com o nome e o proprietário da marca recebe por emprestar o nome, e tudo o que envolve a marca, tendo ingerência na administração da empresa produtora, quanto à manutenção da qualidade dos produtos e a forma do uso da marca. Já o artigo 353 do RIR/06, é conclusivo, ao determinar que não são dedutíveis (Lei 4.506, de 1964, art. 71, parágrafo único), logo no primeiro inciso, os royalties pagos a sócios, pessoas físicas ou jurídicas, ou dirigentes de empresas, e a seus parentes ou dependentes. É literal e não deixa dúvidas sobre a restrição imposta pela legislação tributaria, crivando de indedutibilidade os valores atribuídos a titulo de royalties conforme especifica. Vale citar que é perfeitamente compatível com o ordenamento jurídico, na medida em que o legislador pode restringir a dedutibilidade de custos e despesas das pessoas jurídicas, quando a incorrência desses encargos operase no campo restrito da liberalidade de seus dirigentes. Ou seja, a lei tributaria não proíbe a pratica de operações mercantis, como a celebrada entre a fiscalizada e seus controladores, mas atribuilhes efeitos próprios no campo de apuração da base tributável do IRPJ. Contribui para esta definição os dizeres do Parecer Normativo n" CST 102/75 item c — "Com efeito, as despesas com royalties são indedutiveis, por força do artigo 71, parágrafo único, alínea d, da Lei 4.506/94 (não são dedutíveis os royalties pagos a sócios...), reproduzido pelo artigo 353 do atual RIR). Referida determinação alcança tantos os royalties pagos a beneficiários aqui domiciliados como no exterior. Não se alegue, de outro lado, que o dispositivo veda a dedutibilidade apenas quando o beneficiário for pessoas física, não cerceando os pagamentos a pessoas jurídicas. A administração fazendária, em casos análogos, através dos Paraceres Normativos CST n" 241 e 871, ambos de 1971, estabeleceu entendimento que a restrição legal é extensiva também às pessoas jurídicas ". (...)" (grifouse) É de fácil percepção que a autoridade tributária determinou a glosa das despesas relativas aos pagamentos de royalties a sócios pessoas jurídicas com base em dois suportes legais autônomos: Fl. 2357DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 24 23 i) A desnecessidade de tais despesas, o que, nos termos do art. 352 do RIR/1999 (alínea "a" do art. 71 da Lei nº 4.506/1964), implica na sua indedutibilidade; ii) A correta interpretação do art. 71, parágrafo único, alínea "d", da Lei nº 4.506/1964, é aquela dada pelo art. 353, I, do RIR/1999, qual seja, o termo "sócios" na sentença "Não são dedutíveis os 'royalties' pagos a sócios ou dirigentes de empresas, e a seus parentes ou dependentes" engloba tanto pessoas físicas quanto jurídicas. Pois bem. Em seu recurso voluntário, a contribuinte efetivamente ataca ambos os suportes legais do lançamento promovido pela Fiscalização, conforme se verifica nas passagens transcritas a seguir: "Inicialmente, a fiscalização alega que aquelas despesas não seriam necessárias, como requerem o art. 352 do RIR/99 e o art. 71, alínea "a", da Lei n. 4506, de 30.11.1964. Diz ela: (...) A seguir, pretende justificar a autuação com base no suposto descumprimento do art. 353, inciso I, do RIR/99, cujo fundamento legal é o art. 71, parágrafo único, alínea "d", da Lei n. 4506. Confirase: (...) A acusação fiscal, tal como definida nos autos de infração e no respectivo Termo de Verificação Fiscal, está baseada tão somente na suposta falta de necessidade das despesas, segundo o art. 352 do RIR/99, e na inobservância do art. 353, inciso I, do mesmo regulamento. Quanto à alegação de falta de necessidade, é necessário esclarecer que, ao contrário do que pretende levar a crer a fiscalização, não houve infração ao art. 352 do RIR/99. (...) O art. 352 contém norma específica para as despesas com "royalties", fato que afasta de pronto qualquer possibilidade de discussão nestes autos acerca da aplicação da regra geral de necessidade das despesas, contida no art. 299 do mesmo regulamento, conforme demonstrado nos capítulos II e III deste recurso. (...) Em suma, as despesas com "royalties", incorridas pela recorrente, são necessárias, nos termos do art. 352 do RIR/99. Superada esta questão, devese verificar que o art. 353, inciso I, do RIR/99, não serve de amparo para a glosa "sub judice". (...) Ocorre que o art. 353, inciso I, na parte em que veda a dedutibilidade dos "royalties" pagos a sócios pessoas jurídicas, não possui fundamento legal, pois nos termos do art. 71, parágrafo único, alínea "d", da Lei n. 4506, tal restrição é aplicável apenas às pessoas físicas. Confirase: Fl. 2358DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 25 24 (...) Em suma, diante do acima exposto, devese reconhecer que a vedação contida no art. 71, parágrafo único, alínea "d", da Lei n. 4506, é aplicável apenas aos "royalties" devidos a sócios pessoas físicas. Portanto, o art. 353, inciso I, do RIR/99, ao pretender estender a vedação em questão também aos sócios pessoas jurídicas, extrapolou a legislação que lhe serve de amparo, o que não é possível. (...) Destarte, conforme acima demonstrado, não é válida a norma contida no art. 353, inciso I, do RIR/99, ao pretender estender aos sócios pessoas jurídicas a vedação aplicável apenas aos "royalties" pagos a sócios pessoas físicas, nos termos art. 71, parágrafo único, alínea "d", da Lei n. 4506. Sendo o referido art. 353, inciso I, o dispositivo que serve de fundamento para o presente item da autuação "sub judice", deve ser reconhecida a sua improcedência, por evidente falta de amparo legal, devendo ser canceladas as respectivas exigências fiscais." (grifouse) Ao apreciar o recurso voluntário interposto pela contribuinte, a 2ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por meio do acórdão ora recorrido de nº 1102001.182, manteve as glosas no tocante ao IRPJ nos seguintes termos, expostos no voto condutor da decisão: "Foram glosadas despesas relativas a royalties pagos a sua controladora, a empresa Klabin Irmãos & Cia (KIC), em decorrência de licença para uso de marca, no valor de 1,3657% do faturamento líquido dos produtos. A Fiscalização considerou as despesas indedutíveis nos termos do art. 353, inciso I, do RIR/99, abaixo transcrito: (...) Além disso, a autoridade fiscal considerou as despesas como não necessárias, entendendo não ser razoável se pagar royalties aos próprios proprietários da empresa. A decisão recorrida confirmou a glosa das despesas, mas exonerou a tributação da CSLL, por se entender que, nos casos de vedação de dedutibilidade da legislação do IRPJ, não existe previsão de ajuste na base de cálculo da CSLL, sendo que isso somente ocorreria nos casos de falta de comprovação ou inexistência das despesas deduzidas. Quanto à necessidade da despesa, o recorrente esclarece que não há qualquer irregularidade no fato de os direitos referentes às marcas Klabin serem detidos por pessoas jurídicas diferentes daquela que industrializa e vende os produtos que levam tais marcas, sendo que essa estrutura decorre de decisão gerencial estratégica do conglomerado econômico, cuja conveniência não pode ser questionada pela Fiscalização. Acrescenta que, se as referidas marcas são de titularidade de outras empresas do grupo, a sua utilização deve necessariamente ocorrer Fl. 2359DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 26 25 mediante cessão de direito de uso. E não há estranheza alguma em que tal cessão seja remunerada, pois se trata de contrato oneroso, isto é, no qual a uma prestação corresponde uma contraprestação. Quanto ao art. 353, inciso I, do RIR/99, na parte em que veda a dedutibilidade dos royalties pagos a sócios pessoas jurídicas, a defesa afirma não possuir fundamento legal, pois, nos termos do art. 71, parágrafo único, alínea “d”, da Lei nº 4.506, de 1964, tal restrição seria aplicável apenas às pessoas físicas. Isso tanto porque a menção a “parentes e dirigentes”, feita no dispositivo legal, obviamente a restringe a pessoas físicas, quanto pela já consolidada interpretação que se faz do art. 72, inciso I, da mesma Lei nº 4.506, de 1964, que possui idêntica redação e só tem sua aplicação admitida para pessoas físicas. Acrescenta que este Conselho pode deixar de cumprir dispositivo de regulamento que não tem base em lei, conforme se vê em inúmeros precedentes, pois seu regimento interno somente veda o afastamento de decreto por motivo de inconstitucionalidade (art. 62), e não de sua contrariedade com a lei. Quanto à CSLL, defende a manutenção da decisão recorrida, pois a indedutibilidade de royalties não se estenderia a essa contribuição por falta de previsão legal. Quanto ao recurso voluntário, entendo não possuir razão a defesa. É insuperável a vedação da dedução de despesas de royalties pagos a sócios pessoas jurídicas, nos termos do art. 353, inciso I, do RIR/99, com base legal no art. 71 da Lei nº 4.506, de 1964, abaixo transcrito: (...) A defesa argumenta que: a) a menção a “parentes e dirigentes” restringe a interpretação a sócios pessoas físicas; b) formouse consolidada interpretação nesse sentido quando da análise do conteúdo do art. 72, inciso I, da mesma Lei nº 4.506, de 1964, que possuía redação semelhante, mas que se concluiu referir apenas a sócio pessoa física. Apesar de engenhosos e instigantes, os argumentos não convencem. A expressão “parentes e dependentes” diz respeito apenas àqueles a quem possa ser imputada tal relação: os dirigentes de empresas e os sócios pessoas físicas. Isto é, a lei objetivou incluir novas pessoas à regra da indedutibilidade, e não excluir os sócios pessoas jurídicas. Ademais, a jurisprudência citada a respeito da distribuição disfarçada de lucros nos termos do art. 72 da Lei nº 4.506, de 1964, limitase à leitura do dispositivo na égide do Decreto nº 58.400, de 10 de maio de 1966 (RIR/66), que não havia incluído as pessoas jurídicas no dispositivo regulamentar, sendo que as próprias decisões citadas afirmam que tal quadro se alterou com a edição dos Decretos nºs 2.064 e 2.065, ambos de 1983, quando também passou a se considerar a distribuição disfarçada de lucros em negócios realizados entre pessoas jurídicas. Fl. 2360DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 27 26 Tem sido esse o entendimento desta Casa, como demonstram as ementas abaixo transcritas: (...)" (grifouse) Verificase que o voto lavrado pelo i. Conselheiro Relator do acórdão recorrido abordou, quando da análise do recurso voluntário, somente um dos dispositivos legais apontados pela Fiscalização para fins de realização da glosa das despesas com pagamento de royalties a sócios pessoas jurídicas: a correta interpretação da alínea "d" do parágrafo único do art. 71 da Lei nº 4.506/1964. E assim o fez por entender que, no tocante àquela discussão, seu entendimento acerca deste enquadramento legal específico já era suficiente para a manutenção do lançamento tributário, sendo desnecessário adentrar na seara da aplicabilidade ao caso concreto do art. 352 do RIR/1999 (art. 71, alínea "a", da Lei nº 4.506/1964), que trata da necessidade das despesas. Ocorre que o silêncio em relação ao outro suporte jurídico não tem o condão de afastálo e tornar insubsistente a acusação fiscal. Para que o cancelamento se dê deveria ter havido a apreciação completa da acusação fiscal. Registrese que o i. Conselheiro Relator até aborda a questão da necessidade das despesas, mas apenas quando aprecia o recurso de ofício que visava ao restabelecimento da cobrança dos créditos de CSLL exonerados pela decisão de primeira instância. Assim, no que tange à apreciação do recurso voluntário, o acórdão recorrido efetivamente se cala sobre a necessidade/desnecessidade das despesas. E isso se comprova facilmente pela leitura da ementa da decisão, que, no que concerne ao tema, que traz apenas: IRPJ. ROYALTIES PAGOS A SÓCIO. DESPESA INDEDUTÍVEL. Não são dedutíveis, da base de cálculo do IRPJ, os royalties pagos a sócios, pessoas físicas ou jurídicas, por expressa vedação do art. 353, inciso I, do RIR/99 (art. 71 da Lei nº 4.506, de 1964). Diante deste quadro, caberia à contribuinte, caso quisesse ver julgados ambos os suportes jurídicos que a Fiscalização apontou para a glosa das despesas, ter oposto embargos declaratórios ao Acórdão nº 1102001.182 para provocar o pronunciamento da 2ª Turma Ordinária da 1ª Câmara a respeito da dedutibilidade de tais despesas com base no art. 352 do RIR/1999. Houve oposição de embargos à decisão, mas a questão citada não foi abordada naquela peça, que se restringiu a questionar supostas omissões e contradições relativas ao julgamento do aproveitamento tributário dos ágios oriundos das operações societárias que envolveram as empresas integrantes do grupo econômico KLABIN, notadamente a KLAMASA e a IGARAS. Restou, portanto, não apreciada a acusação fiscal da desnecessidade das despesas com pagamento de royalties aos sócios pessoas jurídicas da contribuinte. Por conta do exposto, verificase que, mesmo que a questão da dedutibilidade de royalties pagos a acionistas fosse conhecida, conforme opina o despacho que examinou a Fl. 2361DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 28 27 admissibilidade do recurso especial da contribuinte, sua discussão seria inócua para a finalidade recursal desejada pela recorrente, qual seja, o cancelamento das glosas relativas às despesas com pagamento de royalties. Isso porque, tendo o contribuinte contestado apenas um dos suportes jurídicos autônomos utilizados para tais glosas (e comprovado a existência de divergência jurisprudencial a respeito deste, como exige o art. 67 do Anexo II do RICARF/2015), os créditos tributários correspondentes não seriam cancelados ainda que esta 1ª Turma da CSRF considerasse procedentes os argumentos recursais e fosse aplicável ao caso concreto o entendimento adotado pelos acórdãos paradigmas colacionados pela recorrente. O outro dispositivo da legislação, concernente à necessidade das despesas à luz do art. 352 do RIR/1999, condição para sua dedutibilidade, não foi contestado por meio do recurso especial. Sendo assim, concluise que a matéria relativa à "dedutibilidade de royalties pagos a acionistas", nos termos e com o alcance em que foi proposta pela recorrente, não deve ser conhecida por conta de sua insuficiência recursal. Significa dizer que, independentemente do resultado do julgamento da matéria em sede de recurso especial, o efeito prático seria a manutenção da exigência tributária. Diante do exposto, voto por NÃO CONHECER do recurso especial interposto pela contribuinte em relação à matéria "dedutibilidade de royalties pagos a acionistas". Destaco que, no que atine às outras duas matérias que obtiveram seguimento para julgamento por esta CSRF, "decadência do direito de questionar a formação dos ágios" e "dedutibilidade do ágio apurado na aquisição da empresa KLAMASA", adoto as razões expostas no despacho que examinou a admissibilidade do recurso especial para delas CONHECER. 2) Preliminar de decadência em relação aos efeitos do ágio gerado em 2000 e 2001 A recorrente defende que o Fisco não poderia ter glosado, no ano de 2008, despesas relacionadas a ágios que surgiram em operações societárias praticadas em 2000 e 2001. Isso porque o direito de o Fisco contestar tais operações já teria sido fulminado pela decadência. As operações a que a recorrente se refere são aquelas que culminaram na criação do ágios que posteriormente ela pretendeu dedutíveis: i) Em 24/11/2000, a IKPC incorporou as ações da KLAMASA, contabilizandoas por R$ 323.379.090,72, valor em que se embutia ágio de R$ 255.332.858,04; e ii) Em 10/12/2001, a contribuinte adquiriu as ações da IGARAS junto à INDÚSTRIAS KLABIN S.A., desdobrando o preço pago em valor patrimonial e ágio de R$ 570.909.159,70. A recorrente alega que o Fisco já conhecia as operações desde a época de sua realização, por conta da entrega de DIPJ e da atualização dos CNPJ, mas que somente veio a apontar irregularidades nos negócios jurídicos em 2008, com a intenção de invalidar seus efeitos jurídicos e consequências tributárias. Fl. 2362DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 29 28 Assim, irregular seria a conduta da Fiscalização, que estaria desrespeitando a segurança jurídica, princípio fundamental protegido pelo instituto da decadência. Se o Estado quedouse inerte ao longo dos cinco anos seguintes àquele em que os negócios jurídicos foram realizados, não poderia mais questionar a atividade exercida pelo contribuinte. Em resumo, postula a recorrente o reconhecimento da decadência do direito do Fisco de questionar a legalidade de atos praticados em período já alcançado, no momento da autuação, pelo prazo decadencial de cinco anos previsto no art. 150, §4º, ou no art. 173, I, ambos do CTN. Pois bem. O instituto da decadência tributária visa a limitar, no tempo, o direito do Fisco de constituir créditos tributários por meio do lançamento, sendo regido pelos arts. 173 e 150 do CTN. O primeiro dispositivo traz, em seu inciso I, a regra geral da decadência, que reza que o direito da Fazenda Pública de constituir o crédito tributário se extingue com o esgotamento do prazo de cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento tributário poderia ter sido efetuado. Já o §4º do art. 150 prevê a regra a que se submetem os tributos sujeitos ao lançamento por homologação: se a Fazenda Pública não se pronunciar em cinco anos a partir da ocorrência do fato gerador do tributo, o lançamento é homologado e o respectivo crédito, extinto. In verbis: Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. (...) Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. (...) § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Observase que os dois dispositivos têm algo em comum: ambos baseiamse no fato gerador dos tributos para estabelecer o marco temporal inicial da contagem do prazo decadencial. No caso do art. 173, inciso I, a contagem se inicia no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que a autoridade tributária já poderia ter realizado o lançamento, motivado, logicamente, pela verificação do fato gerador. Já na previsão contida no §4º do art. 150, a própria ocorrência do fato gerador inaugura o decurso do prazo decadencial. Fl. 2363DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 30 29 Os presentes autos tiveram origem em autos de infração referentes a dois tributos: IRPJ e CSLL. Observese o que a legislação específica estabelece para tais tributos: Decreto nº 3.000, de 26/03/1999 (Regulamento do Imposto de Renda) Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. (...) Lei nº 7.689, de 15/12/1988 Art. 2º A base de cálculo da contribuição é o valor do resultado do exercício, antes da provisão para o imposto de renda. a) será considerado o resultado do períodobase encerrado em 31 de dezembro de cada ano; b) no caso de incorporação, fusão, cisão ou encerramento de atividades, a base de cálculo é o resultado apurado no respectivo balanço; c) o resultado do períodobase, apurado com observância da legislação comercial, será ajustado pela: (...) O fato gerador do IRPJ é, portanto, a aquisição de disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou de proventos de qualquer natureza. Já o fato gerador da CSLL, embora o dispositivo legal não seja explícito a este respeito, é a ocorrência de resultado ajustado positivo no exercício financeiro, antes da provisão para o imposto de renda. Assim, só há sentido em se discutir decadência de lançamento relativo ao IRPJ e à CSLL a partir do momento em que ocorrem tais fatos geradores, por determinação expressa dos arts. 150, §4º, e 173, inciso I, do CTN. A recorrente defende a tese de que a contagem do prazo decadencial se iniciaria com as operações societárias ocorridas em 2000 e 2001, ou com o registro dos ágios decorrentes de tais operações na contabilidade das empresas IKPC e KLABIN S.A., ou ainda com a entrega ao Fisco das informações atinentes a tal contabilização. Segundo a teoria exposta, feitos os registros contábeis referentes aos atos societários que deram origem ao ágio, se estes não forem contestados pela Administração Tributária dentro de cinco anos, receberiam uma espécie de "homologação tácita" e seu aproveitamento fiscal estaria autorizado, também de forma tácita. Fl. 2364DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 31 30 Não existe fundamento jurídico que possa sustentar a tese desenvolvida pela recorrente. O instituto da decadência tributária tem o nobre propósito de evitar surpresas na relação entre contribuintes e Estado, homenageando o princípio da segurança jurídica. Todavia, ele não existe de forma independente, desvinculada dos fatos geradores dos tributos. Não é razoável cogitarse da existência de decadência para cada ato societário, cada registro contábil, cada transação realizada. Tais eventos indubitavelmente fazem parte da rotina das pessoas jurídicas, mas somente quando implicam na ocorrência do fato gerador de um tributo específico é que se pode falar em início da contagem de prazo decadencial. O simples registro do ágio na contabilidade da recorrente ou da IKPC ou ainda a sua transferência a outras empresas do mesmo grupo econômico não poderiam ser objeto de glosa ou de lançamento tributário por parte da autoridade fiscalizadora. A presença do ágio nos livros contábeis não provoca redução de crédito tributário, majoração de prejuízo fiscal ou causa para lançamento de multa isolada. Assim, não havia obrigação de atuação por parte do Fisco que pudesse provocar a fluência de prazo decadencial contra ele. Os arts 385 e 386 do RIR/1999 prevêem que a pessoa jurídica que incorporar outra em que detenha participação societária (ou for por ela incorporada), com a contabilização de ágio fundamentado na expectativa de resultados futuros, passa a ter um potencial direito de, no futuro, caso sejam cumpridos os demais requisitos exigidos pela legislação, usufruir da possibilidade de utilização das despesas decorrentes da amortização de tal ágio como deduções na apuração do IRPJ e da CSLL devidos. Algo semelhante se dá em relação à teórica possibilidade de utilização de ágio contabilizado anteriormente para fins de integração ao valor contábil de participação societária alienada ou liquidada no futuro, conforme previsão do art. 426 do RIR/1999. Somente quando o contribuinte faz uso destes direitos que entende lhe caberem, é que surge a obrigação da autoridade tributária de verificar a correção dos procedimentos adotados e dos valores apurados a título de IRPJ e de CSLL. Se os tributos forem apurados de forma incorreta, a valor menor, em razão da utilização de ágio tributariamente imprestável ou do não cumprimento de todas as exigências legais, passa a existir um fato que demanda a atuação do Fisco. Somente a partir do momento em que ocorrem os fatos geradores destes tributos, portanto, é que se passa a discutir decadência. O prazo decadencial aplicável a esta hipótese delimita o tempo de que o Fisco dispõe para averiguar a utilização, pelos contribuintes, do ágio, contabilizado em anos anteriores, para fins de redução dos tributos relativos aos anos posteriores. No caso da presente lide, os créditos tributários lançados referemse aos anoscalendário de 2003 a 2007. Assim, se considerarmos aplicável ao caso o §4º do art. 150 do CTN (hipótese mais benéfica à recorrente), a autoridade tributária teria até o fim do ano de 2008 (cinco anos contados dos fatos geradores dos tributos) para verificar a utilização do ágio na apuração dos tributos relativos a 2003 (primeiro anocalendário autuado), homologando sua utilização ou glosando as parcelas dela decorrentes. Como a ciência da contribuinte a respeito das mencionadas glosas se deu em 08/12/2008, nenhuma irregularidade é identificada na atuação estatal. Além disso, registrese que a atuação do Fisco pode desconstituir a utilização fiscal do ágio, caso as condições legais estabelecidas pelos arts. 385, 386 ou 426 do RIR/1999 não tenham sido cumpridas, mas não a sua contabilização. O ágio contábil permanece na escrituração dos contribuintes, fato que reforça a ideia de que a atuação da autoridade tributária Fl. 2365DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 32 31 não afeta, efetivamente, fatos ocorridos e já alcançados pela decadência, mas apenas seus efeitos verificados em anos ainda não decaídos. O entendimento exposto neste voto é corroborado pela Lei nº 9.430/1996, na parte em que dispõe a respeito da obrigação de guarda de documentos pelos sujeitos passivos: Art. 37. Os comprovantes da escrituração da pessoa jurídica, relativos a fatos que repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros, serão conservados até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios. Ao determinar que os comprovantes de escrituração relativos a fatos que repercutam no futuro devem ser guardados pelos sujeitos passivos até o momento em que se opere a decadência do direito de constituição dos créditos tributários relativos a estes exercícios (os futuros), a legislação explicita que os fatos comprovados pela documentação não inauguram a contagem do prazo decadencial, mas sim os fatos geradores dos tributos que devem ser apurados e recolhidos nos exercícios posteriores. O CARF já teve oportunidade de se pronunciar acerca da tese apresentada pela recorrente. Em recente julgamento de recurso voluntário nos autos do processo nº 10183.723840/201320, a 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara apreciou alegação exatamente igual à levantada no recurso especial sob análise. No Acórdão nº 1301002.019, restou assim ementada a decisão relativa a tal discussão: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2009, 2010 DECADÊNCIA. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TERMO INICIAL. Em relação à decadência, a contagem do prazo deve ter como base a data a partir da qual o Fisco poderia efetuar o lançamento, ou seja, a data do fato gerador da obrigação. Sob essa ótica, para efeito de tributação da amortização indevida do ágio, a simples apuração desse ágio não dá azo a qualquer infração a qual só poderia, eventualmente, caracterizarse quando da amortização. Isso porque o valor amortizado é despesa que reduz o resultado tributável gerando, quando indevida, a infração passível de lançamento. Do voto que prevaleceu em relação a esta matéria naquele julgamento, reproduzse o excerto: "Como preliminar, inicialmente, a recorrente insurgese contra a decisão da Turma Julgadora a quo que decidiu no sentido de que o termo inicial para a contagem do prazo decadencial seria contado a partir do início da sua amortização (anocalendário 2009) e não quando da apuração do ágio (ano calendário 2007). Com relação a decadência, a contagem do prazo deve ter como base a data a partir da qual o Fisco poderia efetuar o lançamento, ou seja, a data do fato gerador da obrigação. Sob essa ótica, para efeito de tributação da amortização indevida do ágio, a simples apuração desse ágio não dá azo a qualquer infração a qual só poderia, eventualmente, caracterizarse quando da sua amortização. Isso porque o valor Fl. 2366DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 33 32 amortizado é despesa que reduz o resultado tributável gerando, quando indevida, a infração passível de lançamento. Assim, o prazo decadencial deve ter como referência o período de apuração onde tenha ocorrido a amortização/dedução. No caso sob exame, a amortização iniciouse no anocalendário de 2009, como a ciência dos autos deuse em 24/09/2013, rejeito a preliminar da decadência conforme suscitada." (grifouse) Diante de tudo o que foi exposto, entendo que não existe decadência a afetar o lançamento dos créditos tributários objeto dos presentes autos. Os autos de infração foram lavrados em 2008, tendo por base fatos geradores de IRPJ e de CSLL ocorridos de 2003 a 2007, não os ágios registrados em 2000 e 2001. Assim, relativamente à alegação preliminar de decadência, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte. 3) Possibilidade de aproveitamento tributário do ágio criado nas operações que envolveram a KLAMASA O último ponto de debate nos presentes autos, entre aqueles que foram objeto do recurso especial da contribuinte e obtiveram seguimento para esta CSRF, diz respeito à regularidade do procedimento adotado pela recorrente (e condenado pela Fiscalização) de promover o aproveitamento tributário, no anocalendário de 2003, do ágio registrado na contabilidade da IKPC por ocasião da incorporação das ações da KLAMASA, em novembro de 2000. Inicialmente, esclareçase que, embora os autos de infração que originaram o presente processo se refiram aos anoscalendário de 2003 a 2007, no caso específico da infração associada ao ágio oriundo das operações que envolveram a empresa KLAMASA, só houve lançamento tributário relativo ao anocalendário de 2003. Conforme se verifica na tabela apresentada pela contribuinte ainda na fase de fiscalização, à fl. 83, e reproduzida no Termo de Verificações Fiscais à fl. 1.183 (numeração referente ao processo digital), a contribuinte também promoveu, ao longo do ano de 2002, a dedução de despesas decorrentes da amortização de parte do ágio originalmente registrado de R$ 255.332.858,04. Contudo, como tal período já se encontrava decaído em dezembro de 2008, época da formalização dos autos de infração, somente foram lançadas as glosas do saldo aproveitado em 2003, de R$ 195.755.191,20. Zerado tal saldo ainda em 2003, não houve reflexos tributários nos anos seguintes. O ágio de R$ 255.332.858,04 objeto da controvérsia surgiu em novembro de 2000 como desdobramento de um processo de permuta entre ações da IKPC e da contribuinte, que à época ainda atendia pelo nome de KLABIN RIOCELL S.A.. Foram permutadas, em 23/11/2000, 82.893.666 ações da IKPC, de propriedade da KLAMASA, por 289.917.420 ações da contribuinte KLABIN S.A., até então detidas por acionistas como BNDES, PETROS, PREVI e outros. A contribuinte alega que os valores atribuídos às ações permutadas (R$ 3,92 cada ação da IKPC; R$ 1,12 cada ação da KLABIN S.A.) respeitaram o valor de mercado de cada empresa, segundo avaliação realizada por empresas especializadas. Com base neste valor de mercado é que foi estabelecida a taxa de troca entre as ações, de aproximadamente 3,5 ações da KLABIN S.A. para cada ação da IKPC. Fl. 2367DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 34 33 Ocorre que as ações da IKPC possuídas pela KLAMASA estavam registradas por um custo de R$ 68.619.940,98, resultado da soma de R$ 68.127.000,49 (valor contábil das 82.494.666 ações da IKPC conferidas em aumento de capital da KLAMASA em 31/08/2000) e R$ 492.940,49 (valor pago pela KLAMASA na aquisição de mais 398.906 ações da IKPC para completar a quantidade que se pensava inicialmente ser necessária para a permuta que estava por vir). A partir dos números apresentados, podese calcular que o valor contábil de cada ação da IKPC detida pela KLAMASA, antes da permuta, era de aproximadamente R$ 1,21. No dia seguinte à permuta (24/11/2000), com o intuito de incorporar as ações da KLAMASA, a IKPC emitiu mais 82.494.666 ações, pelo valor de R$ 323.379.090,72 (adotouse para cada ação emitida o valor de mercado de R$ 3,92, o mesmo utilizado anteriormente para fins de cálculo da taxa de permuta de 3,5 para 1). As ações emitidas foram integralizadas pelos acionistas da KLAMASA por meio da entrega da totalidade das ações desta empresa, a um valor contábil de R$ 68.046.232,68. Por conta da diferença entre o valor de mercado que atribuiu a suas próprias ações (R$ 323.379.090,72) e o valor contábil pelo qual recebeu as ações da KLAMASA (R$ 68.046.232,68), a IKPC registrou ágio de R$ 255.332.858,04 associado a tal investimento. Destaquese que o único ativo relevante detido à época pela KLAMASA eram as ações da contribuinte KLABIN S.A. recebidas em permuta pelas ações da IKPC. Já no contexto da reorganização societária do grupo KLABIN, em 22/10/2001, a IKPC utilizou seu investimento na KLAMASA, devidamente acompanhado do ágio, para integralizar aumento de capital da INDÚSTRIAS KLABIN S.A.. Em 30/10/2001, a INDÚSTRIAS KLABIN S.A. incorporou a KLAMASA a valores contábeis, passando a registrar o ágio de R$ 255.332.858,04 em seu ativo diferido e a controlar de forma direta a contribuinte KLABIN S.A.. No dia seguinte, a INDÚSTRIAS KLABIN S.A. transferiu, em procedimento de aumento de capital, seu investimento na contribuinte KLABIN S.A., a valores patrimoniais, para sua controlada KIV, que registrou em seu ativo diferido o ágio associado à participação societária recebida. Por fim, em 28/12/2001, a KLABIN S.A. incorporou suas controladoras IKPC, INDÚSTRIAS KLABIN S.A. e KIV, trazendo o ágio de R$ 255.332.858,04 para sua contabilidade. Julgandose amparada pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (arts. 385 e 386 do RIR/1999), a contribuinte passou a promover, durante os anoscalendário de 2002 e 2003, o aproveitamento tributário do ágio, por meio da dedução das despesas decorrentes de sua amortização e de sua baixa para alienação de investimento (conforme já se mencionou, apenas os efeitos tributários observados no ano de 2003 foram considerados para fins de autuação, uma vez que o anocalendário de 2002 já se encontrava decaído). Muito bem. A respeito da figura do ágio, há que se dizer que seu conceito tributário foi introduzido no ordenamento brasileiro pelo DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977. À época dos fatos discutidos nestes autos, dispunha o art. 20 do Decreto Lei, antes de ter sua redação alterada pela Lei nº 12.973, de 13/05/2014: Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: Fl. 2368DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 35 34 I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. O art. 385 do RIR/1999 é basicamente uma cópia do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977. Em ambos os dispositivos, encontrase a determinação de que contribuintes que avaliam investimentos em sociedade controlada ou coligada pelo valor do patrimônio líquido registrem o ágio apurado na aquisição de participação societária em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Além disso, os dispositivos prevêem que tal ágio deve ser fundamentado em pelo menos um dos três fatores: a) valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; b) expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros ou; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Quando o art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977 e o art. 385 do RIR/1999 afirmam que o destinatário das regras ali expostas é o contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido, estão se referindo ao método da equivalência patrimonial. Segundo tal método, as variações observadas nos patrimônios líquidos da sociedades coligadas ou controladas provocam reflexos nos valores dos investimentos registrados na investidora. Observese o que dispõem os arts. 387 a 389 do RIR/1999, a respeito do método de equivalência patrimonial: Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): I o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até dois meses, no máximo, Fl. 2369DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 36 35 antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda; (...) Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (...) Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (...) O art. 389 do RIR/1999 é explícito ao determinar que os resultados auferidos pelas empresas coligadas ou controladas não devem ser computados na determinação do resultado da investidora. Assim, lucros apurados em uma investida devem ser objeto de tributação somente no âmbito daquela empresa. Embora tenham o reflexo de majorar o valor do investimento registrado na investidora, os lucros da investida não devem integrar a base tributável da pessoa jurídica que nela detém participação societária, sob pena de configurarse hipótese de dupla tributação. Caso a investidora tenha registrado, em sua contabilidade, ágio decorrente da expectativa de rentabilidade futura da investida, concluise que a causa do pagamento a maior efetivamente se concretizou, mas foi tributada somente na coligada ou controlada. Sendo assim, não há que se cogitar de amortização do ágio na investidora, uma vez que não ocorre, nesta pessoa jurídica, tributação do resultado positivo da investida. Somente seria lógico falar em amortização daquele ágio caso a concretização do motivo que lhe deu causa, qual seja, a lucratividade futura da investida, tivesse reflexos tributários na pessoa jurídica que pagou a "mais valia". Dessa forma, o dispêndio a maior poderia ser gradativamente recuperado sob a forma de despesas dedutíveis, se os lucros que o motivaram provocassem um maior recolhimento de tributos nos períodos posteriores à aquisição do investimento. Como, por determinação legal, não é esta a hipótese que se verifica no método de equivalência patrimonial, podese concluir que a regra geral é a da impossibilidade de utilização fiscal do ágio registrado na investidora. É o que reza expressamente o art. 391 do RIR/1999: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Fl. 2370DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 37 36 Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). Existem, contudo, duas exceções a tal regra. A primeira delas é indicada pelo próprio art. 391, quando ressalva o disposto no art. 426 do mesmo RIR/1999: Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. A primeira exceção à regra da impossibilidade de aproveitamento tributário do ágio tratado pelo art. 385 do RIR/1999 diz respeito, portanto, à apuração de ganho ou perda de capital. Se o investimento que deu causa à "mais valia" for alienado ou liquidado, o ágio ou deságio registrados na contabilidade da controladora devem compor o custo de aquisição considerado no cálculo do resultado tributável da operação, sobre o qual incidirão IRPJ e CSLL. Já a segunda exceção referese a transformações societárias envolvendo investidoras, investidas e o ágio associado aos investimentos. A respeito da evolução histórica das previsões legais que contemplaram a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio em hipóteses de transformações societárias, remetome ao irretocável apanhado feito pelo nobre Conselheiro André Mendes de Moura no Acórdão nº 9101002.301: "Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de Fl. 2371DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 38 37 mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada período base a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de mercado, e tal situação se mostraria viável, especialmente, quando, imediatamente após à aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão. Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale transcrever a Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 19971, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 1 Exposição de Motivos publicada no Diário do Congresso Nacional nº 26, de 02/12/1997, pg. 18021 e segs, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. Fl. 2372DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 39 38 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI2 ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. (...) Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista3 que trabalhou na edição da MP 1.609, de 19974: 2 SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo : Dialética, 2012, p. 66 e segs. 3 Relatório da Comissão Mista publicada no Diário do Congresso Nacional nº 27, de 03/12/1997, pg. 18494, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 4 Na realidade, o número da Medida Provisória abordada é 1.602. Fl. 2373DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 40 39 O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anoscalendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. (...) Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegouse a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.607, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização." Depreendese da retrospectiva transcrita que os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (produto da conversão da Medida Provisória nº 1.602/1997) foram erigidos pelo legislador com a específica finalidade de coibir a prática de planejamentos tributários abusivos em que empresas superavitárias adquiriam com ágio empresas deficitárias para serem em seguida incorporadas por elas. Tal incorporação reversa, também denominada de incorporação "às avessas", não tinha nenhum propósito negocial que não fosse a simples geração de ganhos de natureza tributária. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 foram integralmente incorporados ao RIR/1999 por meio de seu art. 386. Como este artigo faz referência expressa a dispositivos do art. 385 (cópia do já reproduzido art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977), transcrevemse ambos a seguir: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição Fl. 2374DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 41 40 da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do §2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do §2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração. §1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §1º). Fl. 2375DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 42 41 §2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §2º): I o ágio em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; II o deságio em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. §3º O valor registrado na forma do inciso II (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §3º): I será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; II poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. §4º Na hipótese do inciso II do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos ou contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §4º). §5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §5º). §6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. §7º Sem prejuízo do disposto nos incisos III e IV, a pessoa jurídica sucessora poderá classificar, no patrimônio líquido, alternativamente ao disposto no §2º deste artigo, a conta que registrar o ágio ou deságio nele mencionado (Lei nº 9.718, de 1998, art. 11). Verificase que os arts. 385 e 386 do RIR/1999 guardam uma relação indissociável entre si, uma vez que requisitos à aplicação do segundo artigo são extraídos diretamente da redação do primeiro. O art. 385, conforme já mencionado, estabelece duas regras principais. A primeira determina que o ágio apurado em uma aquisição de participação societária em sociedade controlada ou coligada seja registrado em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Já a segunda fixa os possíveis fundamentos econômicos do ágio pago na aquisição da participação societária (valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros; fundo de comércio, intangíveis e Fl. 2376DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 43 42 outras razões econômicas). Por fim, o artigo ainda prevê que o ágio fundamentado em valor de mercado dos bens do ativo da investida ou na expectativa de resultados futuros deve ser baseado em documentação comprobatória, devidamente arquivada. Já o art. 386 trata, entre outras coisas, da possibilidade de aproveitamento tributário do ágio decorrente do fundamento econômico previsto no inciso II do §2º do artigo anterior (valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros). O caput do art. 386 traz o primeiro requisito que deve ser cumprido para que seja possível o aproveitamento do ágio: uma pessoa jurídica deve absorver o patrimônio de uma segunda, em que detenha participação societária adquirida com ágio. A respeito deste primeiro requisito exigido pela norma, recorro novamente ao Acórdão nº 9101002.301, pela assertividade da análise ali desenvolvida: "Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA 5. Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A 5 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ª ed. São Paulo : Malheiros Editores, 2010, p. 51 e segs. Fl. 2377DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 44 43 (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado "transferido" para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoa se o encontro de contas entre investidor e investida, e a amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra Fl. 2378DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 45 44 fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI6, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Considerandose o regime de tributação adotado pelo sujeito passivo, aperfeiçoase o lançamento fiscal e o termo inicial para contagem do prazo decadencial." Concluise, portanto, que o art. 386 do RIR/1999, sob o aspecto pessoal, se dirige à investidora que vier a incorporar sua investida (ou por ela ser incorporada), após ter efetivamente acreditado na mais valia do investimento, feito os estudos de rentabilidade futura e desembolsado os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço, pago em momento anterior pela investidora em razão da confiança na rentabilidade futura da investida. Destaquese que a regra se aplica tanto à incorporação da investida pela investidora quanto, no sentido inverso, à hipótese em que a investidora é que é incorporada por 6 SCHOUERI, 2012, p. 62. Fl. 2379DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 46 45 sua investida. Em ambos os casos, a lei exige que a investidora envolvida na incorporação seja a "original" ou stricto sensu (no sentido de que a originalidade está indissociavelmente ligada à pessoa jurídica que paga o ágio e, por isso mesmo, tem confiança na rentabilidade futura, pois é quem assume o risco). A situação em que a investida incorpora sua investidora é denominada de incorporação reversa ou ainda de incorporação "às avessas". A previsão da possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio nesta hipótese é trazida pelo §6º, inciso II, do art. 386 do RIR/1999. O dispositivo faz uso de uma técnica legislativa transitiva, indicando assim que o que vale para o caput do art. 386 do RIR/1999 vale também para o seu §6º. As premissas de exegese da norma não são afetadas, sendo necessárias apenas as devidas adaptações para contemplar a situação prevista. De forma correlata ao que se analisou quanto ao aspecto pessoal, a confusão de patrimônios, principal item do aspecto material para fins de enquadramento no art. 386 do RIR/1999, consumase quando, na sociedade incorporadora, o lucro futuro e o investimento original com expectativa desse lucro (aquele que foi sobreavaliado) passam a se comunicar diretamente (os riscos se fundem: o risco do investimento assim entendidos os recursos aportados e o risco do empreendimento). Compartilhando o mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolidase cenário no qual a pessoa jurídica detentora da "mais valia" (ágio) do investimento baseado na expectativa de rentabilidade futura passa a ser responsável também por honrar tal rentabilidade. Assim, a legislação permite que o contribuinte considere perdido o capital que foi investido com o ágio e deduza a despesa relativa à "mais valia". Configuração semelhante ocorre na incorporação reversa, na medida em que a pessoa jurídica responsável por gerar a rentabilidade esperada para o futuro passa a ser a detentora do ágio baseado na expectativa de tal rentabilidade. Sendo assim, pressupõese que a "mais valia" porventura contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participam da "confusão patrimonial". Para fins de acesso à dedutibilidade estabelecida pelo art. 386 do RIR/1999, a pessoa jurídica que efetivamente suportou o ágio pago na aquisição de um investimento deve incorporar tal investimento (incorporação da investida pela investidora) ou ser incorporada pela empresa em que investiu (incorporação "às avessas"). Em síntese, a subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/1999, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material das hipóteses ali previstas. Na atual redação destes dispositivos, exclusivamente no caso em que houver o efetivo desembolso de valores (ou sacrifício de outros ativos) a título de investimento da investidora (futura incorporadora ou, no caso da incorporação reversa, incorporada) na investida (futura incorporada ou, no caso da incorporação reversa, incorporadora), é que haverá o atendimento aos aspectos pessoal e material. Se o ágio não foi de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da "confusão patrimonial", não há sentido em clamarse pela dedutibilidade das despesas decorrentes de amortização de ágio instituída pelo art. 386 do RIR/1999. No caso analisado nos presentes autos, o ágio que a contribuinte pretendeu aproveitar tributariamente teve origem em 24/11/2000, quando a IKPC incorporou a totalidade das ações da KLAMASA, atribuindo a elas um valor de mercado de R$ 323.379.090,72. Como Fl. 2380DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 47 46 tais ações tinham um valor contábil de R$ 68.046.232,68, a diferença entre o "custo de aquisição" e o "valor patrimonial" das ações incorporadas (R$ 255.332.858,04) foi registrado pela IKPC como ágio. Quase um ano depois, este ágio foi transferido entre empresas do grupo: (i) em 22/10/2001, a IKPC o transferiu à INDÚSTRIAS KLABIN S.A. em integralização de aumento de capital; (ii) em 31/10/2001, a INDÚSTRIAS KLABIN o transferiu, após ter incorporado a KLAMASA, à KIV, também em integralização de aumento de capital; (iii) em 28/12/2001, a contribuinte KLABIN S.A. o trouxe para sua contabilidade por meio da incorporação da KIV. Como o ágio fora originalmente atribuído à expectativa de rentabilidade futura da KLAMASA, cujo único ativo relevante à época eram as ações da KLABIN S.A., a contribuinte considerou que tinha reunido na mesma entidade, a partir de 28/12/2001, o ágio e o investimento cuja expectativa de resultados lhe servira como fundamento. Assim, julgando se amparada pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (arts. 385 e 386 do RIR/1999), passou a deduzir, nos anoscalendário de 2002 e 2003, despesas decorrentes da amortização do ágio das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Ocorre que o entendimento defendido pela contribuinte não tem amparo nos mencionados dispositivos legais ou em quaisquer outros. Interpretandose o conteúdo do art. 386 do RIR/1999 sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, verificase que não restaram observados, no caso concreto, os aspectos pessoal e material necessários à subsunção da situação fática à previsão normativa. A configuração do aspecto pessoal da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999 requer, como foi visto, que a pessoa jurídica que vier a absorver o patrimônio da outra em que detenha participação societária (ou a ser absorvida por ela, no caso da incorporação "às avessas") tenha acreditado na "mais valia", feito estudos de rentabilidade futura e efetivamente desembolsado os recursos para a aquisição do investimento. Verificando as operações societárias que envolveram a empresa KLAMASA, descritas nos autos, é incontroverso que não houve desembolso algum, por qualquer das partes envolvidas, que justificasse o surgimento do ágio de R$ 255.332.858,04. Este número adveio simplesmente da diferença entre o valor de mercado atribuído a 82.494.666 ações da IKPC emitidas em 24/11/2000 (para fins de incorporação das ações da KLAMASA) e o valor contábil de 82.494.666 ações da mesma IKPC emitidas em 31/08/2000 (conferência em aumento de capital da KLAMASA para fins de realização da permuta por ações da contribuinte KLABIN S.A.). Em agosto de 2000, as ações da IKPC foram transferidas à KLAMASA pelo valor contábil de R$ 1,21 cada uma. Como consequência, o valor contábil das ações da KLAMASA, incorporadas pela IKPC em 24/11/2001, totalizou R$ 68.046.232,68. Mas em novembro de 2000, ao dimensionar o "custo de aquisição" das ações da KLAMASA que incorporou, a IKPC valorou as ações que emitiu a R$ 3,92 cada uma (segundo a recorrente, tratarseia do seu valor de mercado). Por conta disso, o custo de aquisição das ações da KLAMASA foi calculado em R$ 323.379.090,72. A partir destes valores, chegouse a diferença de R$ 255.332.858,04, que foi denominada de ágio. Fl. 2381DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 48 47 Concluise, portanto, que não houve desembolso algum por quaisquer das partes envolvidas e que o ágio efetivamente decorreu de mera reavaliação das ações da IKPC. Entre agosto e novembro de 2000, cada ação desta empresa teve uma valorização de quase 224%, passando de R$ 1,21 (valor considerado para formação do valor contábil das ações da KLAMASA, em virtude da utilização de ações da IKPC na integralização de seu aumento de capital) para R$ 3,92 (valor de mercado atestado por empresa especializada). Sendo assim, não há que se falar na existência de uma investidora real, que faria jus à possibilidade de aproveitamento tributário do ágio nos moldes delineados no art. 386 do RIR/1999. Além disso, também o aspecto material da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999 não restou caracterizado no caso concreto. Para que o ágio possa ser objeto de aproveitamento fiscal, é necessária a ocorrência de "confusão patrimonial" entre investidora e investida porque assim passam a coexistir dentro da mesma pessoa jurídica a "mais valia" paga com base na expectativa de rentabilidade futura e o próprio investimento de que se espera tal rentabilidade. É justamente por conta deste encontro que a legislação permite que os contribuintes dêem por perdido o capital investido na "mais valia" e passem a utilizar as despesas de sua amortização como deduções da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Se não existiu o efetivo dispêndio da investidora por tal "mais valia", não há valor pago a maior que possa ser considerado perdido por ocasião de seu encontro, na contabilidade da mesma pessoa jurídica, com o investimento de que se esperava a produção futura de resultados positivos. Logo, perde o sentido a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio. Assim, a amortização operada pela recorrente não teve amparo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 ou dos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Conforme se viu, a possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio só tem sentido em situações em que a investidora de fato, responsável por arcar com o dispêndio que faz nascer o ágio, incorpora a pessoa jurídica em que possua participação societária (investimento) ou é por ela incorporada. No caso dos autos, não existiu a figura da investidora originária porque não houve dispêndio apto a amparar a criação do ágio que se pretendeu amortizável. O ágio contabilizado decorreu de reavaliação do valor de mercado das ações da empresa IKPC, não tendo sido verificado nenhum dispêndio que viesse a satisfazer os aspectos pessoal e material da hipótese de incidência da benesse estabelecida no art. 386 do RIR/1999. É indiferente para tal conclusão o fato de, ao final das operações societárias promovidas pelo grupo KLABIN, estarem reunidos no patrimônio da contribuinte KLABIN S.A. o ágio de R$ 255.332.858,04 (que, no fim das contas, fundamentouse na expectativa de sua rentabilidade futura, uma vez que o ativo da KLAMASA resumiase a ações da recorrente) e o investimento que lhe serviu de fundamento. Sem a realização de investimento efetivo que justifique o nascimento do ágio, não há que se falar na ocorrência de confusão patrimonial que possibilite a dedutibilidade prevista no art. 386 do RIR/1999. Importante ressaltar que, quando se estabelece a necessidade de que a investidora arque com a aquisição do investimento com ágio, não se restringe tal operação a uma compra e venda com o desembolso de valores monetários. O dispêndio a que se refere diz respeito a qualquer operação que gere ganhos para o alienante e gastos para o adquirente. Mais do que um pagamento em dinheiro, o que se espera como resultado desta operação é que haja variações patrimoniais para os envolvidos em valores proporcionais ao negócio celebrado. Fl. 2382DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 49 48 O ágio inicialmente contabilizado pela IKPC e posteriormente incorporado pela recorrente foi criado sem esta troca de riquezas entre adquirente e alienante. A criação de tal ágio foi um fenômeno puramente contábil. Ninguém sacrificou valores ou direitos que justificassem sua criação. Isso só foi possível por causa do vínculo existente entre as empresas IKPC e KLAMASA. Conforme demonstrado pela própria recorrente, a KLAMASA foi constituída por parte dos acionistas da IKPC para operacionalizar a permuta de ações desta empresa por ações da contribuinte, à época ainda chamada de KLABIN RIOCELL S.A.. Embora a IKPC tivesse ações negociadas em bolsa da valores, apenas 24,35% de seu capital se encontrava distribuído desta forma. Em outras palavras, as decisões do grupo KLABIN (a partir de sua controladora IKPC) estavam concentradas nas mãos de dois grupos que a recorrente identificou da seguinte forma nos slides que acompanharam seu recurso especial (fls. 2.164 a 2.174): CONTROLADORES (NIBLAK e irmãos KLABIN) e ACIONISTAS PF. As mesmas pessoas, portanto, controlavam a IKPC e a KLAMASA à época das operações que geraram o ágio contábil de R$ 255.332.858,04. Somente por esta razão foi possível a absurda valorização de 224%, em um período de três meses, atribuída às ações da IKPC, que gerou a diferença milionária entre o valor contábil das ações da KLAMASA e o valor pelo qual elas foram incorporadas em seguida. A circulação de riquezas requerida pelo art. 386 do RIR/1999, para fins de caracterização do aspecto pessoal da hipótese de incidência, requer obrigatoriamente a participação de um terceiro, externo ao grupo econômico que negocia a participação societária, especificamente na operação que fixa o "custo de aquisição", o "valor de mercado", que será empregado no cálculo do ágio. É neste momento que a participação de um terceiro é necessária, porque somente desta forma é possível garantir que o valor praticado na "aquisição" do investimento é verossímil e apto a ser utilizado como parâmetro de cálculo de um ágio que poderá ser posteriormente convertido em vantagens tributárias para o adquirente da participação societária. No caso concreto, os controladores da IKPC poderiam determinar, em última instância, qualquer valor de "alienação" para as ações da KLAMASA que foram incorporadas em 24/11/2000 porque ocupavam, simultaneamente, as posições de alienante e adquirente da participação societária. Não há sentido em se cogitar da existência de ágio com base em reavaliação promovida unilateralmente pelos controladores, sem que o valor estipulado para a "mais valia" passe pelo crivo de razoabilidade do mercado, por meio da aceitação, por um terceiro nãorelacionado, em arcar com o correspondente ônus (não necessariamente por meio de pagamento, mas de algum sacrifício patrimonial proporcional). A participação, no processo de reorganização societária do grupo, de acionistas independentes da KLABIN RIOCELL S.A., como BNDES, PREVI, PETROS e outros, não muda tal análise por dois motivos: i) No momento da permuta, para estes acionistas houve efetivamente uma simples troca de ações da KLABIN RIOCELL S.A. por ações da IKPC, valor a valor, de acordo com a proporção de 3,5 para 1 estabelecida a partir dos valores de mercado estimados para as empresas envolvidas. Assim, tais acionistas não tinham ingerência ou interesse direto Fl. 2383DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 50 49 na fixação dos valores do custo contábil e custo de aquisição das ações da KLAMASA pela IKPC, que afetaram diretamente o valor do ágio que veio a ser registrado; ii) Ainda que não tivessem interesse direto na fixação dos valores que impactaram o cálculo do ágio, o interesse indireto que tais acionistas poderiam ter em tal ágio era convergente com o dos controladores da IKPC: como passariam a ser controladores indiretos da KLABIN S.A., uma futura majoração dos resultados e dividendos desta empresa (em virtude da redução de tributos a serem pagos) lhes beneficiaria, notadamente porque não tiveram que realizar desembolso algum por ocasião da formação do ágio que possibilitaria tal vantagem tributária. Assim, o negócio celebrado entre estas empresas não aconteceu em um ambiente de livre concorrência, em que os atos negociais visam a atender aos interesses de todos os contratantes, que assumem direitos e deveres proporcionais. O fato de as empresas estarem submetidas a controle comum adiciona novos elementos e interesses maiores ao negócio. Não necessariamente os atos celebrados têm como objetivo beneficiar todas as partes envolvidas. Embora a contribuinte tenha argumentado que a utilização tributária do ágio de R$ 255.332.858,04 se fundamentou no disposto do art. 386 do RIR/1999, verificase que considerável parte deste ágio foi baixada no anocalendário de 2003, não como despesa de amortização, mas como baixa por alienação de investimento. É o que depreende das respostas que a contribuinte prestou às intimações feitas pela autoridade tributária. À fl. 83, a contribuinte apresenta tabela que mostra que o saldo de R$ 195.755.191,20 de ágio que existia na sua contabilidade ao final de 2002 foi utilizado da seguinte forma: Verificase que houve um lançamento em 30/06/2003 no valor de R$ 25.533.285,80, a título de "Amortização mensal Jan a Jun 2003" e mais dois lançamentos, em 30/06/2003 e 31/07/2003, com valores de R$ 68.088.762,16 e R$ 102.133.143,24 respectivamente, identificados como "Baixa pela alienação de investimento". Na resposta que consta à fl. 113 dos presentes autos, a contribuinte confirma tais informações e explica que o primeiro lançamento se deu a débito da conta "3180201094 Amortização de Ágio Empresas Incorporadas" e os dois últimos, a débito da conta "3310203000" Resultado Não Operacional Outros Ganhos e Perdas". Fl. 2384DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 51 50 Estas informações sugerem que, dos R$ 195.755.191,20 que a contribuinte utilizou para fins tributários em 2003 e que foram glosados pela Fiscalização, R$ 25.533.285,80 foram deduzidos das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL como despesas de amortização e os R$ 170.221.905,40 restantes foram utilizados para reduzir a tributação sobre ganhos de capital auferidos sobre investimentos alienados. Outro indício de que o aproveitamento tributário dos R$ 170.221.905,40 não se fundamentou no art. 386 do RIR/1999 é o fato de que a utilização do ágio não se deu em parcelas mensais (mínimo de 60), como determina aquele dispositivo, mas em apenas duas parcelas (junho e julho de 2003) que, juntas, totalizaram dois terços de todo o ágio contabilizado em 2000, por ocasião da incorporação da KLAMASA pela IKPC. Diante deste quadro, uma hipótese bastante factível é que a contribuinte tenha julgado que o aproveitamento tributário da parcela de R$ 170.221.905,40 do ágio estaria albergada na previsão contida no art. 426 do RIR/1999 (já mencionado neste voto), que trata da alienação de investimento avaliado pelo método da equivalência patrimonial: Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. Ocorre que, a exemplo do que se verificou em relação à aplicabilidade dos arts. 385 e 386 do RIR/1999 (reproduções do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977 e dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1977), também a regra insculpida no art. 426 do RIR/1999 (cópia do art. 33 do DecretoLei nº 1.598/1977, na redação vigente à época) exige a existência de ágio real, surgido em operações dotadas de propósito negocial e substrato econômico. Só se pode cogitar de aproveitamento tributário de ágio que seja real, o que só ocorre a partir do momento em que uma pessoa jurídica ou física investidora se dispõe a pagar pelo sobrepreço. O "pagamento do sobrepreço" aqui referido não tem que se dar necessariamente por meio do desembolso de valores monetários, mas exigese a existência de alguma operação que gere ganhos para o alienante e gastos proporcionais para o adquirente. Em outras palavras, exigese a ocorrência de variações patrimoniais para os envolvidos, em valores condizentes com o negócio celebrado. No caso dos autos, já analisado neste voto, os controladores da IKPC atribuíram um valor contábil às ações da KLAMASA a partir do valor de suas próprias ações conferidas em aumento de capital. Três meses depois, por meio de reavaliação de suas ações a Fl. 2385DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 52 51 valor de mercado, designaram um valor consideravelmente superior ao primeiro, como custo de aquisição das ações da KLAMASA que a IKPC incorporou. Da diferença entre tais valores, surgiu o ágio contábil de R$ 255.332.858,04. Ou seja, o ágio inicialmente registrado na IKPC e posteriormente incorporado pela recorrente KLABIN S.A. foi criado sem troca alguma de riquezas entre adquirente e alienante. Tratouse de um fenômeno puramente contábil. Ninguém sacrificou valores ou direitos que justificassem sua criação. O ágio surgiu de forma artificial, em ambiente em que não imperava a livre concorrência. Os controladores da IKPC, por meio de uma ação determinada unicamente por eles, converteram um direito seu em outro, de maior valor (mantiveram o controle sobre as empresas do grupo KLABIN, mas "turbinado" por um ágio milionário). Não é possível cogitar da existência de ágio com base em reavaliação promovida unilateralmente pelos sócios controladores de uma empresa, sem que o valor estipulado para a "mais valia" passe pelo crivo de razoabilidade do mercado, por meio da aceitação, por um terceiro, em arcar com o correspondente ônus (não necessariamente por meio de pagamento, mas de algum sacrifício patrimonial proporcional). Portanto, concluise que também o ágio de R$ 170.221.905,40 (utilizado pela contribuinte para reduzir as bases de cálculo de IRPJ e CSLL em junho e julho de 2003), ainda que não tenha sido amortizado com base no art. 386 do RIR/1999, é imprestável para fins tributários por ter sido gerado de forma artificial por meio de operações celebradas entre partes vinculadas. Este entendimento é corroborado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que já se pronunciou de forma contrária à possibilidade de geração de ágio em operação societária envolvendo apenas empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico, por meio do OfícioCircular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007, de onde se transcreve o seguinte trecho: "Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômico contábil é preciso esclarecer que o ágio surge, única e exclusivamente, quando o preço (custo) pago pela aquisição ou subscrição de um investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial, supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de aquisição somente surge quando há o dispêndio para se obter algo de terceiros. Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal e, portanto, inadmissível. Não é concebível, econômica e contabilmente, o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma transação dos acionistas com eles próprios. Ainda que, do ponto de vista formal, os atos societários tenham atendido à legislação aplicável (não se questiona aqui esse aspecto), do ponto de vista econômico, o registro de ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de pressões ou outros interesses que não a essência da transação, condições essas denominadas na literatura internacional como “arm’s length”. Portanto, é nosso entendimento que essas transações não se revestem de Fl. 2386DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 53 52 substância econômica e da indispensável independência entre as partes, para que seja passível de registro, mensuração e evidenciação pela contabilidade." (Grifouse) Assim, verificase que a CVM não chancela a existência contábil do ágio gerado dentro de um mesmo grupo econômico, sem dispêndio algum. Também o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) já se manifestou de maneira semelhante, por meio da Orientação Técnica OCPC nº 02/2008: "É importante lembrar que só pode ser reconhecido o ativo intangível ágio por expectativa de rentabilidade futura se adquirido de terceiros, nunca o gerado pela própria entidade (ou mesmo conjunto de empresas sob controle comum). E o adquirido de terceiros só pode ser reconhecido, no Brasil, pelo custo, vedada completamente sua reavaliação." Por fim, relevante ainda mencionar que o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) tampouco reconhece a legitimidade do ágio gerado intragrupo, como foi expresso nas seguintes Resoluções: Resolução CFC nº 1.110/2007 “O reconhecimento de ágio decorrente de rentabilidade futura gerado internamente (goodwill interno) é vedado pelas normas nacionais e internacionais. Assim, qualquer ágio dessa natureza anteriormente registrado precisa ser baixado.” Resolução CFC nº 1.303/2010 "48. O ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente não deve ser reconhecido como ativo. 49. Em alguns casos incorrese em gastos para gerar benefícios econômicos futuros, mas que não resultam na criação de ativo intangível que se enquadre nos critérios de reconhecimento estabelecidos na presente Norma. Esses gastos costumam ser descritos como contribuições para o ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente, o qual não é reconhecido como ativo porque não é um recurso identificável (ou seja, não é separável nem advém de direitos contratuais ou outros direitos legais) controlado pela entidade que pode ser mensurado com confiabilidade ao custo." Os atos administrativos mencionados e parcialmente transcritos foram todos exarados de 2007 em diante, posteriormente, portanto, ao período em que o grupo econômico a que pertence a recorrente praticou operações societárias que pretensamente originaram o ágio passível de aproveitamento tributário (2000). Isto não significa, entretanto, que o entendimento exposto nos atos administrativos daqueles órgãos fosse novo. A este respeito, observese a manifestação da própria CVM por ocasião do julgamento de recurso constante do Processo Administrativo CVM RJ 2007/3480: "RELATÓRIO Fl. 2387DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 54 53 No caso concreto, as demonstrações financeiras da Companhia do exercício de 2006 continham uma informação que a SEP e a SNC consideraram errada: o valor de um ativo (a participação acionária na CPM USA) foi contabilizado por um valor apurado em laudo de avaliação, mas esse bem estava, antes, contabilizado em companhia do mesmo grupo por valor mais baixo, e o aumento de seu valor se deu por incorporação entre partes relacionadas. A Companhia não recorreu quanto ao mérito desse entendimento, mas entende que ele somente foi manifestado pela CVM ao mercado através do Oficio Circular de 2007, divulgado em 14.02.2007,(...) SEP e SNC confirmam que essa dicção somente constou a partir do Oficio Circular 01/2007, mas sustentam que o entendimento já era este desde sempre, porque ele decorre dos princípios contábeis geralmente são aplicáveis à escrituração contábil das companhias brasileiras por força do art. 177 da Lei 6.404/76 (...) O recurso apresentado pela Companhia sustenta que a introdução desse entendimento pela CVM constituiria mudança de critério contábil de que trata o art. 186, §1º da Lei 6.404/76, e, por isso, a determinação de baixa do ágio poderia ser feita mediante ajuste de exercícios anteriores, na primeira ITR, como já teria sido aceito pela CVM em outros precedentes. Quanto ao primeiro ponto, entendo ter razão a área técnica. Não se pode afirmar que seja novo o entendimento da CVM quanto à impossibilidade contábil de aproveitamento do ágio interno (assim entendido como aquele gerado em operações entre partes relacionadas). Como lembra a SNC, essa impossibilidade está ligada ao Principio do Custo como Base de Valor — segundo os especialistas "o mais antigo e discutido principio de contabilidade" — que considera o valor de entrada como o que deve servir de base para registro de qualquer ativo, ressalvada a hipótese restrita (e mesmo inexistente em alguns países, como nos Estados Unidos) de reavaliação e, ainda, observandose o valor de recuperação, sempre que menor. Como destacam as áreas técnicas, esse principio foi expressamente reconhecido na "Estrutura Conceitual Básica de Contabilidade" desde a Deliberação 29/86, além de estar à base da Deliberação 183/95. Portanto, ainda que o OficioCircular 01/2007 tenha vindo a dar maior destaque à questão especifica do ágio interno, o entendimento da CVM sempre existiu, com fundamento do Principio do Custo como Base de Valor, e era público. Assim, não vejo como sustentar, portanto, que se possa falar em "mudança de critério contábil" (grifouse). Concluise, portanto, que as próprias Ciências Contábeis têm restrições em relação à existência do ágio gerado internamente, por meio de operações societárias realizadas entre partes vinculadas e sem o lastro de efetiva circulação de riquezas. Com base nisso e na inexistência de lei que estabeleça tratamento tributário diferenciado para tal situação, forçoso se faz concluir pela inutilidade do ágio discutido nestes autos para os fins tributários pretendidos pela recorrente. Fl. 2388DF CARF MF Processo nº 16561.000188/200836 Acórdão n.º 9101003.254 CSRFT1 Fl. 55 54 Assim, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte também no que diz respeito ao pedido de cancelamento das glosas relativas ao ágio oriundo das operações que envolveram a empresa KLAMASA, mantendo os lançamentos de IRPJ e CSLL realizados pela Fiscalização. Desse modo, sumariando os entendimentos expostos, voto no sentido de NÃO CONHECER do recurso especial interposto pela contribuinte em relação à matéria "dedutibilidade de royalties pagos a acionistas" e, na parte conhecida, por NEGAR PROVIMENTO tanto ao pedido de reconhecimento da decadência do direito do Fisco de contestar os efeitos tributários de ágio gerado em 2000 e 2001 quanto ao pleito de cancelamento das glosas relacionadas à utilização tributária do ágio criado nas operações que envolveram a KLAMASA. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Fl. 2389DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10580.904787/2011-11
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Mar 13 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3402-001.268
Decisão: Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da Relator.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente substituto e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Carlos Augusto Daniel Neto e Pedro Sousa Bispo. Ausente a Conselheira Maysa de Sá Pittondo Deligne e, momentaneamente, o Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire.
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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(assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente substituto e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Carlos Augusto Daniel Neto e Pedro Sousa Bispo. Ausente a Conselheira Maysa de Sá Pittondo Deligne e, momentaneamente, o Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire. Relatório Trata o presente processo de indeferimento de Manifestação de Inconformidade contra o Despacho Decisório emitido eletronicamente que não homologou a Declaração de Compensação em tela face a inexistência de saldo credor. Conforme este Despacho Decisório, a partir das características do DARF descrito, foram localizados um ou mais pagamentos, mas integralmente utilizados na quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito. Cientificado do Despacho Decisório, a Recorrente apresentou a manifestação de inconformidade, tempestivamente, fazendo um resumo dos fatos: a) em preliminar, assevera que exerceu o seu direito conforme disposto na legislação vigente, sendo que apenas não procedeu à retificação das DCTF e demais obrigações acessórias; b) quanto ao mérito, tece considerações sobre o direito à compensação administrativa e a respeito das hipóteses em que há vedação legal e expressa para a declaração de compensação; RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 05 80 .9 04 78 7/ 20 11 -1 1 Fl. 84DF CARF MF Processo nº 10580.904787/201111 Resolução nº 3402001.268 S3C4T2 Fl. 89 2 b.1) assinala ainda os pontos de discordância: (i) da inexistência do crédito para a compensação constante do PER/DCOMP e respectivo Darf, e (ii) do direito em retificar as DCTF e demais obrigações acessórias. Ao final, faz referência aos documentos anexados e pede seja acolhida a presente manifestação de inconformidade. A DRJ/BHE julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, adotando, para tanto, o convencimento no sentido de que "(...) a retificação da DCTF atesta apenas a alteração do valor do débito anteriormente confessado, mas não comprova o erro que levou ao suposto pagamento indevido ou a maior do tributo apurado originalmente, de forma a conferir a necessária certeza e liquidez ao crédito postulado". Cientificada da decisão do Colegiado a quo e irresignada com o teor do Acórdão nº 0261.020, a Recorrente recorre a este Conselho, apresentando um argumento novo visando amparar a legalidade dos créditos aqui discutidos. Vejase os principais trechos abaixo reproduzidos: "(...) 2. A ora Recorrente SOCIEDADE ANÔNIMA HOSPITAL ALIANÇA, determinouse em identificar e excluir da base de cálculo de PIS e COFINS os medicamentos com incidência de alíquota zero, conforme se pode inferir na petição inicial com pedido de liminar devidamente protocolada em 23/09/2009 com distribuição e inicio do processo Judicial sob o n° 2009.34.00,0314472, em trâmite perante a 9ª Vara Federal da Seção Judiciária Federal do Distrito Federal. Distribuída a Ação, o MM. Juiz deferiu in tantum a LIMINAR pleiteada nos seguintes termos: "Assim, em face do exposto, DEFIRO o pedido liminar, e determino à autoridade Impetrada que suspenda a exigibilidade do PIS e da COFINS sobre a receita proveniente da utilização de medicamentos que já sofreram tal tributação, na forma. prevista pela Lei 10.147/00, com as alterações feitas pela Lei 10.548/02, isentando, assim, de efetuar a cobrança de tais valores, dos Hospitais e Clinicas substituídos." A liminar foi deferida em 27/10/2009 e ainda confirmada por decisão final de primeira instância em 07/04/2010 que assim declarou: "isto posto, ratifico a liminar e CONCEDO a SEGURANÇA para: 1) determinar à autoridade Impetrada e seus prepostos que se abstenha de exigir o recolhimento da contribuição para o PIS e COFINS sobre a receita proveniente da utilização de medicamentos que já sofreram tal tributação, na forma prevista pela Lei 10.147/00, com as alterações realizadas pela Lei 10.548/02, eximindo os hospitais e clinicas _ substituídos dos . respectivos pagamentos; 2) declara o direito dos substituídos à compensação de todos os valores indevidamente recolhidos á titulo de PIS e COFINS sobre a receita de medicamentos que já sofreram tal tributação, nos termos da Lei 10.147/00, com outros tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal, em atenção aos arts. 73. e 74 da Lei 9.430/96 e observado o disposto no art. 170A do CTN." Dessa forma, a Recorrente REQUER: 1. Determinar à autoridade impetrada e seus prepostos que se abstenham de exigir o recolhimento da contribuição para PIS e COFINS sobre a receita proveniente da utilização de Fl. 85DF CARF MF Processo nº 10580.904787/201111 Resolução nº 3402001.268 S3C4T2 Fl. 90 3 medicamentos que já sofreram tal tributação, na forma prevista pela Lei 10.147/00, com as alterações realizadas pela Lei 10.548/02 e posteriores. 2. Que seja este Recurso Voluntário conhecido por este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, e, ao final, provido, para efeitos de restar reformado o r. acórdão recorrido, mantendo se a integralidade do crédito e a homologação da compensação nos moldes como informado pela mesma, reconhecendose a legitimidade adotada pela Recorrente e o reconhecimento de DCTF e DACON retifícadores ora apresentados junto à SRFB. 3. Declarar o direito dos substituídos à compensação de todos os valores indevidamente recolhidos a título de PIS e de COFINS sobre a receita de medicamentos que já sofreram tal tributação, nos termos da Lei 10.147/00 e alterações posteriores, com outros tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal, em atenção aos arts. 73 e74 da Lei nº 9.430/96 e observado o disposto no art. 170A, do CTN. 4. Sucessivamente, cumprir a decisão e sentença, com sede de Liminar, no sentido de .. suspender qualquer cobrança em processo administrativo e/ou execução até que seja julgado o mérito da referida ação, fazendo valer seus efeitos. A Recorrente anexa cópia dos seguintes documentos: cópia da Decisão e Sentença do Processo Judicial sob n° 2009.34.00.0314472, 9ª Vara Federal Seção Judiciária Federal do Distrito Federal; cópia da Certidão de objeto e pé expedida pelo Tribunal Regional Federal da Primeira Região referente ao processo 2009.34.00.0314472; DCTF e DACON retificadores. É o relatório. Voto Conselheiro Waldir Navarro Bezerra Relator Conselheiro Waldir Navarro Bezerra, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução nº 3402001.261, de 28 de fevereiro de 2018, proferida no julgamento do processo 10580.904788/201166, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu na Resolução 3402001.261: 1. Da admissibilidade do recurso O recurso voluntário interposto é tempestivo e preenche os demais pressupostos de admissibilidade, razão pela qual dele tomo conhecimento. 2. Das razões do Recurso Voluntário Não é possível ainda analisar o mérito do presente processo por este órgão Colegiado. Isto porque, antes disso, uma questão prejudicial deve ser adequadamente respondida, saneando o processo, para que nenhuma das partes que compõe o litígio tenha tratamento Fl. 86DF CARF MF Processo nº 10580.904787/201111 Resolução nº 3402001.268 S3C4T2 Fl. 91 4 desconforme a legislação tributária que rege o processo administrativo fiscal. Tratase de questão acerca do Mandado de Segurança Coletivo (MSC), com pedido de liminar, impetrado pela CONFEDERAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE, HOSPITAIS E ESTABELECIMENTOS E SERVIÇOS, contra ato do SECRETÁRIO DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL, objetivando a concessão da medida liminar da forma requestada visando à imediata suspensão da exigibilidade do PIS e da COFINS sobre a receita proveniente da utilização de medicamentos que já sofreram tal tributação, impedindo que a autoridade coatora e seus prepostos possam efetuar a cobrança de tais valores dos Hospitais e Clinicas Substituídos. Como se vê, a Impetrante do MSC, no caso, atuando como substituta processual, é pessoa jurídica de direito privado, devendo os substituídos exercer atividade social de prestação de serviços hospitalares, sendo, desta forma, contribuintes do PIS e da CONFINS. É fato que para a consecução de suas respectivas atividades empresariais, além da prestação de serviços hospitalares, os Hospitais e Clínicas Substituídos sempre necessitaram realizar a aplicação de vários produtos, dentre eles, os medicamentos ministrados aos pacientes. Pois bem. Verificase na "Copia da Certidão de objeto e pé expedida pelo Tribunal Regional Federal da Primeira Região referente ao processo 2009.34.00.0314472", que a Justiça Federal concedeu a SEGURANÇA no seguinte sentido (fl. 40): (1) determinar à autoridade impetrada e seus prepostos que se abstenham de exigir o recolhimento da contribuição para PIS e COFINS sobre a receita proveniente da utilização de medicamentos que já sofreram tal tributação na forma prevista pela Lei nº 10.147/00, com as alterações realizadas pela Lei 10.548/02, eximindo os hospitais, e clínicas substituídos dos respectivos pagamentos; 2) declarar o direito dos substituídos à compensação de todos os valores indevidamente recolhidos a título de PIS e de COFINS sobre a receita de medicamentos que já sofreram tal tributação, nos termos da Lei 10.147/00, com.outros tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal, em atenção aos arts. 73 e 74 da Lei n. 9.430/96 e observado o disposto no art. 170A do CTN . Posto isto, tornase imprescindível nos autos, a comprovação de que a Recorrente, enquadrase, no caso, como substituída da CONFEDERAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE, HOSPITAIS E ESTABELECIMENTOS E SERVIÇOS. Em situações como a ora sob análise, o CARF tem entendido pelo cabimento de diligência para a averiguação das informações faltantes, para então decidir pelo conhecimento ou não das razões aduzidas no recurso voluntário apresentado pela Recorrente. Nesse sentido, destaco a Resolução nº 3403000551, proferida no bojo do Processo nº 13898.000203/200261. Fl. 87DF CARF MF Processo nº 10580.904787/201111 Resolução nº 3402001.268 S3C4T2 Fl. 92 5 3. Da conversão em Diligência Com essas considerações, voto pela conversão do processo em diligência, a fim de que a Autoridade Administrativa da DRF de origem, adote a seguintes providências: (i) Intimar a Recorrente a apresentar documentos que comprove ser substituída (associada ou parte) da CONFEDERAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE, HOSPITAIS E ESTABELECIMENTOS E SERVIÇOS, indicando claramente a data de sua filiação; (ii) informar a fase processual (certidão de inteiro teor ou objeto e pé), que se encontra na Justiça Federal o referido Mando de Segurança Coletivo. Caso entender necessário, intimar a empresa para atendimento deste quesito; (iii) após encerrada as diligências, a Autoridade Administrativa deverá elaborar Relatório Conclusivo das averiguações efetuadas, juntar aos autos todos os documentos comprobatórios dos fatos que forem analisados e, caso queira (uma vez que tais fatos não foram apresentados em instâncias anteriores), manifestarse sobre os termos do Recurso Voluntário apresentado; (iv) por fim, a Autoridade Administrativa deverá cumprir o disposto no artigo 35, parágrafo único do Decreto nº 7.574/2011, dando ciência à Recorrente do termo e dos demais documentos mencionados no item (iii), concedendolhe prazo de 30 (trinta dias) para manifestação. Atendida a diligência acima solicitada, o processo deverá ser devolvido para esta 2ª Turma Ordinária, da 4ª Câmara, 3ª Seção do CARF, para prosseguimento do julgamento. Importante frisar que os documentos juntados pela contribuinte no processo paradigma, como prova do direito creditório, encontram correspondência nos autos ora em análise. Desta forma, os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso do paradigma também a justificam no presente caso. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu por converter o julgamento em diligência, a fim de que a Autoridade Administrativa da DRF de origem, adote as seguintes providências: (i) Intimar a Recorrente a apresentar documentos que comprove ser substituída (associada ou parte) da CONFEDERAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE, HOSPITAIS E ESTABELECIMENTOS E SERVIÇOS, indicando claramente a data de sua filiação; (ii) informar a fase processual (certidão de inteiro teor ou objeto e pé), que se encontra na Justiça Federal o referido Mando de Segurança Coletivo. Caso entender necessário, intimar a empresa para atendimento deste quesito; (iii) após encerrada as diligências, a Autoridade Administrativa deverá elaborar Relatório Conclusivo das averiguações efetuadas, juntar aos autos todos os documentos comprobatórios dos fatos que forem analisados e, caso queira (uma Fl. 88DF CARF MF Processo nº 10580.904787/201111 Resolução nº 3402001.268 S3C4T2 Fl. 93 6 vez que tais fatos não foram apresentados em instâncias anteriores), manifestar se sobre os termos do Recurso Voluntário apresentado; (iv) por fim, a Autoridade Administrativa deverá cumprir o disposto no artigo 35, parágrafo único do Decreto nº 7.574/2011, dando ciência à Recorrente do termo e dos demais documentos mencionados no item (iii), concedendolhe prazo de 30 (trinta dias) para manifestação. Atendida a diligência acima solicitada, o processo deverá ser devolvido para esta 2ª Turma Ordinária, da 4ª Câmara, 3ª Seção do CARF, para prosseguimento do julgamento. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Relator Fl. 89DF CARF MF
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Numero do processo: 10283.905348/2012-61
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Apr 12 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/08/2010 a 31/08/2010
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PERD/COMP. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. INSUFICIÊNCIA.
As alegações constantes da manifestação de inconformidade devem ser acompanhadas de provas suficientes que confirmem a liquidez e certeza do crédito pleiteado.
Não tendo sido apresentada documentação assaz apta a embasar a existência e suficiência crédito alegado pela Recorrente, não é possível o reconhecimento do direito a acarretar em qualquer imprecisão do trabalho fiscal na não homologação da compensação requerida.
DCTF RETIFICADORA APRESENTADA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHODECISÓRIO.EFEITOS.
A DCTF retificadora apresentada após a ciência da contribuinte do despacho decisório que indeferiu o pedido de compensação não é suficiente para a comprovação do crédito tributário pretendido, sendo indispensável à comprovação do erro em que se funde, nos moldes do artigo 147, §1º do Código Tributário Nacional.
Recurso voluntário negado.
Numero da decisão: 3402-005.055
Decisão:
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(Assinado com certificado digital)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: JORGE OLMIRO LOCK FREIRE
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PERD/COMP. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. INSUFICIÊNCIA. As alegações constantes da manifestação de inconformidade devem ser acompanhadas de provas suficientes que confirmem a liquidez e certeza do crédito pleiteado. Não tendo sido apresentada documentação assaz apta a embasar a existência e suficiência crédito alegado pela Recorrente, não é possível o reconhecimento do direito a acarretar em qualquer imprecisão do trabalho fiscal na não homologação da compensação requerida. DCTF RETIFICADORA APRESENTADA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHODECISÓRIO.EFEITOS. A DCTF retificadora apresentada após a ciência da contribuinte do despacho decisório que indeferiu o pedido de compensação não é suficiente para a comprovação do crédito tributário pretendido, sendo indispensável à comprovação do erro em que se funde, nos moldes do artigo 147, §1º do Código Tributário Nacional. Recurso voluntário negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (Assinado com certificado digital) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 3. 90 53 48 /2 01 2- 61 Fl. 299DF CARF MF Processo nº 10283.905348/201261 Acórdão n.º 3402005.055 S3C4T2 Fl. 0 2 Jorge Olmiro Lock Freire Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto em face da decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento (“DRJ”) de Fortaleza, que julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pela Contribuinte sobre pedido de restituição de créditos de Contribuição para COFINS. O Despacho Decisório denegatório do direito pleiteado inicialmente, fundamentou a não homologação da compensação sob a justificativa de que o pagamento referente ao DARF indicado no PER/DCOMP foi integralmente utilizado para a quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Ciente do Despacho Decisório, o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade tempestiva, na qual alega em síntese que: • A legislação federal referente à restituição/compensação assegura em caso de não homologação da compensação o direito a interposição de manifestação de inconformidade; • O Despacho Decisório de não homologação foi demasiadamente sucinto e não esclareceu o porquê da decisão. • Os princípios constitucionais do contraditório e ampla defesa não foram respeitados pela administração tributária. O Despacho Decisório deve ser considerado nulo uma vez que não expôs os motivos da não homologação prejudicando seu direito de defesa; • É “empresa industrial com projeto aprovado na SUFRAMA e detentora de incentivos fiscais próprios da Zona Franca de Manaus, instituídos pelo DecretoLei nº 288/1967, bem como sujeita ao regime de apuração pela sistemática não cumulativa do PIS e da COFINS, podendo descontar créditos que poderão ser deduzidos do montante devido de tributos administrados pela Receita Federal do Brasil.” • Faz jus aos créditos de PIS e COFINS, com base nos artigos 3º da Lei 10.637/2002 e da Lei nº 10.833/2003, especificamente com relação ao inciso III: “energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica.” • Levantou os créditos no mês de competência e utilizou parte do crédito oriundo do previsto no inciso III dos artigos 3º da Lei 10.637/2002 e da Lei nº 10.833/2003, para compensar com as Fl. 300DF CARF MF Processo nº 10283.905348/201261 Acórdão n.º 3402005.055 S3C4T2 Fl. 0 3 contribuições vencidas no período, conforme DACONs retificadoras; “A manifestante, inclusive, providenciou a retificação da DCTF correspondente, regularizando qualquer pendência que ainda pudesse haver.” A defesa relaciona os Acórdãos nºs 1246124 de 10 de maio de 2012 da 17ª Turma e 1638673 de 11 de maio de 2012 da 3ª Turma. (...) • Ao final requer que se julgue procedente a Manifestação de Inconformidade, para o efeito de reformar o Despacho Decisório exarado no processo. Sobreveio então o Acórdão 08033.068, da DRJ/FOR, negando provimento à manifestação de inconformidade, por entender que "a eficácia da retificação da DCTF, quando apresentada após a ciência do Despacho Decisório, depende de comprovação, a cargo do contribuinte, do erro em que se funda, mediante escrituração e documentos", comprovação esta que não restou satisfeita. Irresignada, a Contribuinte interpôs Recurso Voluntário a este Conselho, no qual repisa os argumentos trazidos em sua impugnação ao lançamento tributário com relação ao mérito da questão, bem como alegando que a decisão recorrida não analisou a documentação apresentada no seu entender, suficiente para garantir o crédito pleiteado , deixando prevalecer erro material nas declarações inicialmente prestadas pela Contribuinte, mas depois devidamente sanadas. É o relatório. Voto Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 3402005.034, de 22 de março de 2018, proferida no julgamento do processo 10283.904567/201223, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu no Acórdão nº 3402005.034: "Como se depreende do relato acima, a lide resumese à comprovação da existência e suficiência do crédito objeto da compensação. Pois bem. A Lei n. 5.172/66 (Código Tributário Nacional), em seu art. 165, assegura o direito à restituição de tributos por recolhimento ou pagamento indevido ou a maior que o devido e estabelece os casos que configuram tal recolhimento ou Fl. 301DF CARF MF Processo nº 10283.905348/201261 Acórdão n.º 3402005.055 S3C4T2 Fl. 0 4 pagamento, como a Recorrente afirma possuir, nos seguintes termos: Art. 165. O sujeito passivo tem direito, independentemente de prévio protesto, à restituição total ou parcial do tributo, seja qual for a modalidade do seu pagamento, ressalvado o disposto no § 4º do artigo 162, nos seguintes casos I Cobrança ou pagamento espontâneo de tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido; II erro na edificação do sujeito passivo, na determinação da alíquota aplicável, no cálculo do montante do débito ou na elaboração ou conferência de qualquer documento relativo ao pagamento; III reforma, anulação, revogação ou rescisão de decisão condenatória Por sua vez, o instituto da compensação de créditos tributários está previsto no artigo 170 do Código Tributário Nacional (CTN): Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. (...) Com o advento da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, a compensação passou a ser tratada especificamente em seu artigo 74, tendo a citada Lei disciplinado a compensação de débitos tributários com créditos do sujeito passivo decorrentes de restituição ou ressarcimento de tributos ou contribuições, âmbito da Secretaria da Receita Federal (SRF). Ainda, o §1º do art. 74 da Lei nº 9.430/96 (incluído pelo art. 49 da Lei nº 10.637/02) 1 determina que a compensação será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados (PER/DCOMP), como pretende a Recorrente in casu. Nesse sentido, a Recorrente processou pedido de compensação, afirmando possuir créditos relativos à Contribuição ao PIS, decorrente de pagamentos indevidos e créditos que teria direito pela sistemática da não cumulatividade da contribuição social (incentivos fiscais próprios da Zona Franca de Manaus, instituídos pelo DecretoLei nº 288/1967 e 1 A referida legislação recebeu ainda algumas alterações promovidas pelas Leis nºs 10.833/2003 e 11.051/2004. Atualmente, os procedimentos respectivos encontramse regidos pela IN RFB nº 1.300/2012 e alterações posteriores Fl. 302DF CARF MF Processo nº 10283.905348/201261 Acórdão n.º 3402005.055 S3C4T2 Fl. 0 5 com base nos artigos 3º da Lei 10.637/2002 e da Lei nº 10.833/2003, respectivamente). Entretanto, a partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP, foram localizados um ou mais pagamentos, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte. Assim, concluiu a Fiscalização que não restava crédito disponível para restituição, e, por conseguinte, a compensação não foi homologada. Muito embora a falta de prova sobre a existência e suficiência do crédito tenha sido o motivo tanto da não homologação da compensação por despacho decisório, como da negativa de provimento à manifestação de inconformidade, a Recorrente permanece sem se desincumbir do seu ônus probatório, insistindo que efetuou a retificação do Dacon e da DCTF, o que demonstraria seu direito ao crédito. Ocorre que o Dacon constitui demonstrativo por meio do qual a empresa apura as contribuições devidas. Com efeito, o Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais (DACON), instituído pela Instrução Normativa SRF nº 387, de 20 de janeiro de 2004, é uma declaração acessória obrigatória em que as pessoas jurídicas informavam a Receita Federal do Brasil sobre a apuração da Contribuição ao PIS e da COFINS. Em outros termos, sua função é de refletir a situação do recolhimento das contribuições da empresa, sendo os créditos autorizados por lei e com substrato nos documentos contábeis da empresa, basicamente notas fiscais os livros fiscais onde estão registradas as referidas notas, além da própria DCTF. Assim, são esses últimos documentos que possuem aptidão para comprovar o crédito. Ademais, a Instrução Normativa n. 1.015, de 05 de março de 2010, vigente à época dos fatos, estabelece que Art. 10. A alteração das informações prestadas em Dacon, nas hipóteses em que admitida, será efetuada mediante apresentação de demonstrativo retificador, elaborado com observância das mesmas normas estabelecidas para o demonstrativo retificado. § 1º O Dacon retificador terá a mesma natureza do demonstrativo originariamente apresentado, substituindoo integralmente, e servirá para declarar novos débitos, aumentar ou reduzir os valores de débitos já informados ou efetivar alteração nos créditos e retenções na fonte informados. § 2º A retificação não produzirá efeitos quando tiver por objeto: I reduzir débitos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins: Fl. 303DF CARF MF Processo nº 10283.905348/201261 Acórdão n.º 3402005.055 S3C4T2 Fl. 0 6 a) cujos saldos a pagar já tenham sido enviados à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) para inscrição em Dívida Ativa da União (DAU), nos casos em que importe alteração desses saldos; b) cujos valores apurados em procedimentos de auditoria interna, relativos às informações indevidas ou não comprovadas prestadas no demonstrativo original, já tenham sido enviados à PGFN para inscrição em DAU; ou c) que tenham sido objeto de exame em procedimento de fiscalização; e II alterar débitos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins em relação aos quais a pessoa jurídica tenha sido intimada de início de procedimento fiscal. (...) § 5º A pessoa jurídica que entregar Dacon retificador, alterando valores que tenham sido informados na Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), deverá apresentar, também, DCTF retificadora. Quanto à DCTF, cuja retificação foi feita posteriormente à prolação do despacho decisório, tampouco salvaguarda o pleito da Recorrente. Explico. Este Conselho possui pacífica jurisprudência, tanto nas turmas ordinárias (e.g. Acórdãos 3801004.289, 3801004.079, 3803003.964) como na Câmara Superior de Recursos Fiscais (e.g. Acórdão 9303005.519), no sentido de que a retificação posterior ao Despacho Decisório não impediria o deferimento do crédito quando acompanhada de provas documentais comprovando o erro cometido no preenchimento da declaração original. Tal entendimento fundase na letra do artigo 147, § 1º do Código Tributário Nacional, a seguir transcrito: Art. 147. O lançamento é efetuado com base na declaração do sujeito passivo ou de terceiro, quando um ou outro, na for ma da legislação tributária, presta à autoridade administrativa informações sobre matéria de fato, indispensáveis à sua efetivação. § 1º A retificação da declaração por iniciativa do próprio declarante, quando vise a reduzir ou a excluir tributo, só é admissível mediante comprovação do erro em que se funde, e antes de notificado o lançamento. Portanto, a DCTF retificadora apresentada após a ciência do Despacho Decisório não é suficiente para a demonstração do crédito pleiteado em PER/DCOMP, sendo imprescindível que a Contribuinte faça prova do erro em que se fundou a retificação. Fl. 304DF CARF MF Processo nº 10283.905348/201261 Acórdão n.º 3402005.055 S3C4T2 Fl. 0 7 Nesse sentido, destaco a ementa do Acórdão nº 9303005.708, cujo julgamento na CSRF, por unanimidade, ocorreu em 19 de setembro de 2017: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 30/04/2001 DCTF RETIFICADORA APRESENTADA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. EFEITOS. A retificação da DCTF após a ciência do Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição não é suficiente para a comprovação do crédito, sendo indispensável a comprovação do erro em que se funde. Recurso Especial do Contribuinte negado.) Com relação a prova dos fatos e o ônus da prova, dispõem o artigo 36, caput, da Lei nº 9.784/99 e o artigo 373, inciso I, do Código de Processo Civil, abaixo transcritos, que caberia à Recorrente, autora do presente processo administrativo, o ônus de demonstrar o direito que pleiteia: Art. 36 da Lei nº 9.784/99. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no art. 37 desta Lei. Art. 373 do Código de Processo Civil. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; Peço vênia para destacar as palavras do Conselheiro relator Antonio Carlos Atulim, plenamente aplicáveis ao caso sub judice: “É certo que a distribuição do ônus da prova no âmbito do processo administrativo deve ser efetuada levandose em conta a iniciativa do processo. Em processos de repetição de indébito ou de ressarcimento, onde a iniciativa do pedido cabe ao contribuinte, é óbvio que o ônus de provar o direito de crédito oposto à Administração cabe ao contribuinte. Já nos processos que versam sobre a determinação e exigência de créditos tributários (autos de infração), tratandose de processos de iniciativa do fisco, o ônus da prova dos fatos jurígenos da pretensão fazendária cabe à fiscalização (art. 142 do CTN e art. 9º do PAF). Assim, realmente andou mal a turma de julgamento da DRJ, pois o ônus da prova incumbe a quem alega o fato probando. Se a fiscalização não provar os fatos alegados, a consequência jurídica disso será a improcedência do lançamento em relação ao que não tiver sido provado e não a sua nulidade. No caso em análise, a Contribuinte esclarece que teria apurado créditos de PIS, contudo, para comprovar a liquidez e Fl. 305DF CARF MF Processo nº 10283.905348/201261 Acórdão n.º 3402005.055 S3C4T2 Fl. 0 8 certeza do crédito informado nas declarações (DCTF e DACON) é imprescindível que seja demonstrada através da escrituração contábil e fiscal, baseada em documentos hábeis e idôneos, a diminuição do valor do débito correspondente a cada período de apuração. A Contribuinte não juntou aos autos nenhum documento contábil ou fiscal capaz de comprovar a liquidez e certeza do credito apontado. Somente insistiu que as declarações retificadoras seriam suficientes para tanto, mesmo após a decisão da DRJ ter expressamente colocado quais documentos seriam necessários para a efetividade da prova do crédito. Sobre esse ponto, saliento que este Colegiado vem admitindo provas apresentadas em sede de recurso voluntário, haja vista o princípio da verdade material e da informalidade moderada que reinam na esfera do processo administrativo. Todavia, nem em sede recursal a Recorrente se desincumbiu do ônus da prova. Dessarte, não tendo sido comprovada pela Recorrente a liquidez e certeza do crédito pleiteado, de acordo com toda a disciplina jurídica supra mencionada, não há reparos a serem feitos quanto ao Acórdão recorrido. Dispositivo Por essas razões, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário." Da mesma forma que ocorreu no caso do paradigma, no presente processo o contribuinte não logrou comprovar o direito creditório pleiteado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, NEGO PROVIMENTO AO RECURSO VOLUNTÁRIO. (Assinado com certificado digital) Jorge Olmiro Lock Freire Fl. 306DF CARF MF
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Numero do processo: 11829.720038/2012-27
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 31 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Mar 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 30/06/2009 a 30/06/2010
DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU. AUSÊNCIA DE APRECIAÇÃO DE PONTO SOBRE O QUAL DEVERIA MANIFESTAR-SE. INEXATIDÃO MATERIAL COMPROVADA. RETORNO DOS AUTOS PARA INTEGRAÇÃO DO JULGADO. POSSIBILIDADE.
Comprovada inexatidão material por lapso manifesto na decisão de primeira instância, ao deixar de mencionar matéria expressamente impugnada capaz de, em tese, culminar na alteração do resultado do julgamento, sob pena de configurar supressão de instância, os autos devem retorna ao citado órgão julgador, para que novo julgamento seja realizado e nova decisão proferida, sem inexatidão material por lapso manifesto.
Decisão Primeiro Grau Anulada.
Numero da decisão: 3302-005.145
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em anular o acórdão recorrido.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Fernandes do Nascimento - Relator.
Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Diego Weis Júnior, Jorge Lima Abud, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e José Renato Pereira de Deus.
Nome do relator: JOSE FERNANDES DO NASCIMENTO
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E OUTROS Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 30/06/2009 a 30/06/2010 DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU. AUSÊNCIA DE APRECIAÇÃO DE PONTO SOBRE O QUAL DEVERIA MANIFESTARSE. INEXATIDÃO MATERIAL COMPROVADA. RETORNO DOS AUTOS PARA INTEGRAÇÃO DO JULGADO. POSSIBILIDADE. Comprovada inexatidão material por lapso manifesto na decisão de primeira instância, ao deixar de mencionar matéria expressamente impugnada capaz de, em tese, culminar na alteração do resultado do julgamento, sob pena de configurar supressão de instância, os autos devem retorna ao citado órgão julgador, para que novo julgamento seja realizado e nova decisão proferida, sem inexatidão material por lapso manifesto. Decisão Primeiro Grau Anulada. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em anular o acórdão recorrido. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Relator. Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Diego Weis AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 82 9. 72 00 38 /2 01 2- 27 Fl. 3743DF CARF MF 2 Júnior, Jorge Lima Abud, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e José Renato Pereira de Deus. Relatório Tratase de auto de infração (fls. 6/417), no valor total de R$ 142.223.071,65, correspondente ao somatório dos seguintes valores: a) R$ 2.492.565,95 de multa de 1% do valor aduaneiro, por omitir informação necessária ao controle aduaneiro, prevista no art. 69, § 1º, da Lei 10833/2003, combinado com o art, 84 da MP 2158/2001; b) R$ 12.923.367,70 de multa de 10% do valor aduaneiro, por cessão de nome em operação de importação, capitulada no art. 33 da Lei 11.488/2007; e c) R$ 126.807.138,00 de multa de 100% do valor aduaneiro, por conversão da pena de perdimento, aplicada com no art. 23, § 1°, do DecretoLei 1.455/1976. A razão da aplicação da multa de 1%, do valor aduaneiro, mencionada em “a”, deveuse ao fato de que nas declarações de importação realizadas com financiamento da autuada, onde constavam produtos da exportadora Caterpillar, não foi informado a condição de vinculação entre as duas empresas, uma vez que a autuada é representante exclusiva da Caterpillar no Brasil. O motivo da aplicação das multas mencionadas nas alíneas “b” e “c” foi a constatação de que a autuada, que detinha razão social de Cabo Empreendimentos, em 30/06/2009 incorporou a empresa SOTREQ S/A, doravante denominada SOTREQ, da qual, adotou o nome, passando a se chamar SOTREQ S/A. A autuada (incorporadora) mesmo com a incorporada extinta, continuou a utilizála para realizar importações, por ela financiada. Além da Incorporada, a autuada também financiou importações realizadas em nome das empresas SOIMPEX S.A. (empresa do Grupo da SOTREQ), e COTIA VITÓRIA SERVIÇOS E COMÉRCIO (trading), doravante denominadas SOIMPEX e COTIA, em que os despachos de importação eram feitos por conta e ordem, sendo indicada como adquirente das mercadorias a empresa incorporada (extinta). As irregularidades anteriormente relatadas conjugadas as informações obtidas nas Declarações de Informações Econômicos Fiscais de Pessoa Jurídica (DIPJ), da incorporada e da incorporadora, referente ao período de julho a dezembro do ano de 2009, de que nenhuma das empresas informaram realizar operações de comércio exterior (importação e exportação), levaram a fiscalização a considerar que as importações realizadas com financiamento da autuada pela empresa incorporada (extinta) e pelas empresas SOIMPEX e COTIA, houve interposição fraudulenta e a proceder a lavratura do presente auto de infração. Foram indicados como responsáveis solidários pela infração os seguintes diretores e sócios da autuada: Responsável Solidário: Carl Alfred Orberg CPF 666.141.55849 Cargo na Autuada: Diretor Presidente (desde 28/10/2009 até a presente data) Cargo na Importadora: Acionista e Diretor Presidente (desde 19/07/2001 até a sua incorporação pela AUTUADA em 30/06/2009) Responsável Solidário: Laércio Brazil Lenz César CPF 031.054.07715 Cargo na Autuada: Diretor (desde 04/08/2009 a 30/06/2011) Cargo na Importadora: Acionista e Diretor (desde 17/05/2004 até a sua incorporação pela AUTUADA em 30/06/2009) Responsável Solidário: Carl Vagn Orberg CPF 033.970.09804 Cargo na Autuada: Acionista e Diretor (desde 01/12/2004 até a presente data) Cargo na Importadora: Acionista Fl. 3744DF CARF MF Processo nº 11829.720038/201227 Acórdão n.º 3302005.145 S3C3T2 Fl. 3.744 3 Responsável Solidário: Jorge Delaura Meyer Neto CPF 352.705.94749 Cargo na Autuada: Diretor (desde 04/08/2009 a 02/01/2012) Cargo na Importadora: Acionista e Diretor (desde 17/05/2004 até a sua incorporação pela AUTUADA em 30/06/2009) Responsável Solidário: Arthur Castilho CPF 247.502.80763 Cargo na Autuada: Cargo na Importadora: Acionista e Diretor (desde 17/05/2004 até a sua incorporação pela AUTUADA em 30/06/2009) Responsável Solidário: José Ricardo Martins Cordeiro CPF 617.962.20787 Cargo na Autuada: Diretor (desde 04/08/2009 até a presente data) Cargo na Importadora: Diretor (desde 17/05/2004 até a sua incorporação pela AUTUADA em 30/06/2009) Responsável Solidário: Renato Pimentel Freitas CPF 709.986.98768 Cargo na Autuada: Diretor (desde 04/08/2009 até a presente data) Cargo na Importadora: Diretor (desde 17/05/2004 até a sua incorporação pela AUTUADA em 30/06/2009) Responsável Solidário: Sybelle da Costa Oliveira Ban CPF 312.664.10759 Cargo na Autuada: Diretor (desde 04/08/2009 até a presente data) Cargo na Importadora: Diretor (desde 17/05/2004 até a sua incorporação pela AUTUADA em 30/06/2009) Responsável Solidário: Fernando Curado CPF 295.671.49704 Cargo na Autuada: Diretor (desde 28/10/2009 até a presente data) Cargo na Importadora: Responsável Solidário: Kathryn Orberg Beek CPF 530.444.95768 Cargo na Autuada: Cargo na Importadora: Diretor (desde 17/05/2004 até a sua incorporação pela AUTUADA em 30/06/2009) Responsável Solidário: José Germano da Costa Silveira Filho CPF 754.632.780830 Endereço: Rua Zacarias de Bóis, 977/51 São Paulo SP Cargo na Importadora: Diretor (desde 12/11/2008 até a sua incorporação pela AUTUADA em 30/06/2009) Da ação fiscal em referência foi realizada outra autuação contra à recorrente, objeto do processo nº 10831.720.002/201231, na qual foi aplicada a multa prevista no art. 12 da Lei 8.218/1991, decorrente da infração enunciada no art. 11 da mesma Lei, por inobservância de manter em boa guarda e ordem os livros fiscais e apresentálos à fiscalização quando solicitado. As principais irregularidades apuradas pela fiscalização e as peças impugnatórias foram resumidas no relatório integrante da decisão recorrida, com os seguintes dizeres, in verbis: Com base nas constatações decorrentes da ação fiscal, a fiscalização chegou às seguintes conclusões: Que a partir de 31/06/2009, data da incorporação da importadora pela autuada, esta já se encontra com todas as condições para dar baixa da antiga SOTREQ, CNPJ 61.064.689/000102, no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica junto a Receita Federal do Brasil, e cumprir as normas determinadas na IN RFB n° 748/2007, vigente à época. Fl. 3745DF CARF MF 4 Entretanto, a mesma não o fez (art. 94 do Decreto=Lei n° 37/1966); Sendo assim, à época das operações de importação relacionadas neste auto de infração, a Importadora encontrava se sem as condições necessárias para exercer a mercancia no Mercado Internacional, a saber: não apresentava as condições legais para manter sua habilitação junto ao Sistema SISCOMEX, pois, a empresa incorporadora, a Autuada, deveria ter dado baixa a incorporada, a empresa usada indevidamente como Importadora; A forma como foi feito o registro dos atos referentes à incorporação na JUCESP , diferente da forma como foi feito na JUCERJA, contribuiu para gerar perante os cadastros da Receita Federal a aparência de uma realidade diferente da real, que infringir as normas de controle aduaneiro então existente. A respeito dos registros na JUCESP, cita a fiscalização que , não haveria a necessidade do arquivamento da Ata de Incorporação na Junta Comercial correspondente, pois para a RFB, a aprovação da incorporação pela AGE é o ato necessário e suficiente para peticionar solicitação de baixa da empresa incorporada junto ao Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica CNPJ. Logo não se constata motivo justificável para a empresa Autuada não ter solicitado a baixa do registro da empresa incorporada, registro 61.064.689/000130, no CNPJ, junto à RFB. Mesmo sem a importadora/incorporada, apresentar condições legais para manter sua habilitação no Siscomex, a autuada realizou importações sob o CNPJ 61.064.658/000102 da incorporada, do período de 01/07/2009 à 30/06/2010. Portanto, exatamente dentro do período em que se manteve INERTE a respeito do seu DEVER de solicitar a baixa, junto à RFB, do registro (61.064.658/000102) no CNPJ da incorporada/Importadora. A fiscalização entendeu a forma de agir da Autuada injustificável, uma vez que mesmo baixado o CNPJ a mesma poderia continuar a exercer as atividades de comércio exterior com os seguintes procedimentos: 1 _ Solicitar junto a RFB a Habilitação, modalidade simplificada, para atuar no Comércio Exterior anteriormente à data da AGE de Incorporação da SOTREQ S/A; pois, esta modalidade é mais célere por considerar volumes transacionais menores. Após a AGE de 30/06/2009, a mesma solicitaria uma alteração da modalidade para nária, evitando assim interromper com a sua atividade; ou 2_ Solicitar junto à RFB a Habilitação, modalidade ordinária, para atuar no Comércio Exterior antes do da AGE de Incorporação, 30/06/2009, ou até mesmo no próprio dia. Entendeu a fiscalização que as operações de importação analisadas no período abrangido pelo presente procedimento fiscal, tratamse de Negócio Jurídico PRATICADO com vício, em razão da INEXISTÊNCIA do titular dos documentos de Fl. 3746DF CARF MF Processo nº 11829.720038/201227 Acórdão n.º 3302005.145 S3C3T2 Fl. 3.745 5 importação, já que as Declarações de Importação foram todas registradas sob um registro de CNPJ EXTINTO. Com base no levantamento comparativo dos valores das Declarações de Importação, ANEXO XIII, com os contratos de câmbio entregues e a contabilidade da empresa, ANEXO VI, ficou claro que a origem os recursos era da autuada. Que a autuada conhecia a legislação que disciplina a importação por conta e ordem de terceiros, uma vez nas operações realizadas pelas empresas SOIMPEX S/A e COTIA VITÓRIA S/A, nas quais a importadora/incorporada figurava como adquirente,. as importações eram feitas na forma prevista em lei. Este fato mostra de forma inequívoca o conhecimento do Representante Legal, SR. CARL ALFRED ORBERG, CPF 666.141.55849, DIRETOR PRESIDENTE DAS DUAS EMPRESAS, a Autuada (Incorporadora), CNPJ 34.151.100/000130, e a Incorporada, portanto Extinta, CNPJ 61.064.689/000102, sobre a correta aplicação dos dispositivos previstos na IN SRF 225/2002. Sobre a emissão de notas fiscais de entrada e saída em nome da autuada,, a fiscalização concluiu que As NF de entrada, em uma importação, devem conter o registro no CNPJ do importador. Ora, a Autuada, incorporadora e sucessora da empresa extinta, sabedora deste fato, registrou a sua própria inscrição no CNPJ para emitir as NFe de entrada, assumindo que o uso de CNPJ extinto não seria a prática correta. A fiscalização entendeu ainda que a utilização do CNPJ da empresa extinta, poderia estar ligada a intenção de ocultar a empresa autuada para obter os ganhos como a super estimativa do seu custo, com redução do IRPJ a recolher, e o não recolhimento do Imposto de Produtos Industrializados (IPI). Sobre as informações conflitantes entre o balanço patrimonial da autuada e a sua DIPJ ano calendário 2009, concluiu a fiscalização que houve omissão da Autuada em informar na DIPJ anocalendário 2009, que além de ter incorporado empresa controlada, absorvendo seus estoques, patrimônio e suas operações, tornouse contribuinte de IPI, PISImportação e COFINSImportação desde 30/06/2009. Em relação ao IPI, a fiscalização concluiu em tese, que houve a quebra da cadeia do IPI., caracterizando, crime de sonegação fiscal. Que no caso em tela, houve simulação fiscal, nos termos de Xavier, que entende que a SIMULAÇÃO FISCAL ocorre quando o terceiro enganado/prejudicado na operação é o Fisco, e que nessa situação o ato de enganar, pode recair sobre qualquer dos elementos da obrigação tributária: fato gerador, base de cálculo ou sujeito passivo. Uma vez simulado, tratase de ato jurídico nulo. Fl. 3747DF CARF MF 6 Que no caso em tela houve dano ao erário, aqui entendido num modo mais amplo, que abrange a violação dos bens jurídicos tutelados pela legislação aduaneira. Sobre isto é citado do RVF: A importação por Conta e Ordem de Terceiro é uma modalidade importante e deve ser devidamente respeitada em nome do cumprimento das normas legais e da transparência das operações de Comércio Exterior. Neste passo, a TRANSPARÊNCIA das operações de Comércio Exterior ante o Estado brasileiro tornase mais relevante do que o próprio recolhimento de tributos, por inserir em si mesmo os princípios máximos da Constituição Federal de 1988, a saber: SOBERANIA NACIONAL. Portanto, havendo registrado 716 (setecentos e dezesseis) Declarações de Importação, no valor total transacionado de R$ 126.807.138,00 (cento e vinte e seis milhões, oitocentos e sete mil, cento e trinta e oito reais), no período de 01/07/2009 a 30/06/2010, declarando como importador uma empresa EXTINTA, a AUTUADA agride de forma direta e profunda todos os princípios sob os quais esta nação encontrase alicerçada, como TRANSPARÊNCIA dos negócios jurídicos, SOBERANIA NACIONAL, COMPETIÇÃO JUSTA entre as indústrias nacionais, RESPEITO PELO MERCADO INTERNO e pelo CONSUMIDOR. Sem embargo, a Autuada simulou situação de realidade diversa diante do retardo da publicação da Ata da AGE de Incorporação da Controlada, a Importadora, em jornal de grande circulação, DOSP, em 15/07/2010; enquanto que a publicação em DORJ da Ata da AGE de Incorporação da Controladora, a Autuada, já havia ocorrido em 14/08/2009, sacramentandose a incorporação em Em relação a não informação sobre a vinculação entre as empresas exportadoras e a empresa importadora, concluiu que esta ocorreu, e uma vez não informada na declaração de importação, prejudicou a aplicação da Legislação que se refere ao Preço de Transferência. Impugnações apresentadas Impugnação da SOTREQ S/A A autuada inicia sua defesa com o item III – Do Direito onde argumenta: Que o auto de infração criou uma situação inexistente, quando sancionou a autuada com a infração prevista no inciso V do artigo 23 do Decreto Lei 1455/76, hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive interposição fraudulenta de terceiros. Que inexiste interposição fraudulenta de terceiro, uma vez que de início deveria haver uma terceiro, que não existiu no caso. Que em junho de 2009, a incorporadora antiga Cabo Empreendimentos S/A incorporou a SOTREQ S/A., adotando então a denominação social desta, e assim todo acervo patrimonial da empresa incorporada, passou a pertencer à impugnante incorporadora, cita o artigo 227 da Lei 6404/76. Cita que a partir de 30 de junho de 2009 não existiam duas Fl. 3748DF CARF MF Processo nº 11829.720038/201227 Acórdão n.º 3302005.145 S3C3T2 Fl. 3.746 7 pessoas jurídicas distintas, sendo a filial da SOTREQ S/A. de Sumaré que realizava as importações também foi incorporada, sendo as importações então realizadas passando a ser de titularidade da incorporadora. Que neste contexto fático, é impossível existir interposição de terceira pessoa entre empresa incorporadora e incorporada. Que o fato da Receita Federal do Brasil realizar a baixa do CNPJ da empresa incorporadora de forma retroativa, é prova do reconhecimento de que se tratava somente de uma pessoa jurídica. Que nos fatos abordados no auto de infração, não houve a existência de fraude, que é necessário para a caracterização de interposição fraudulenta de terceiros. Que o texto onde foi mencionado o vício de Simulação, apresentado no RVF, é equivocado e distorce toda a realidade. Que a Receita Federal do Brasil tomou conhecimento da incorporação com a entrega da DIPJ da empresa em 16/10/2009 e mesmo assim, sempre autorizou importação dos produtos por este mesmo estabelecimento incorporado pela autuada, e a manutenção da incorporada com as importações não ocasionou qualquer dano ao fisco, muito menos a quebra da cadeia do IPI. Que realizou todos os procedimentos necessários junto a Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro JUCERJA. Que referente à Junta Comercial do Estado de São Paulo, teve que adotar todos os procedimentos previstos no artigo 12 da Instrução Normativa do DNRC no 88/01. Que para registrar na Junta Comercial seria necessário uma certidão atestando a incorporação que seria emitida pela JUCERJA, e que este procedimento não dependia apenas da boa vontade da impugnante. Que também houve a necessidade da liberação de uma certidão junto à JUCESP para regularizar a situação das 30 filiais da incorporada nos demais estados. Esta certidão somente saiu em 15/04/2010, quando então iniciou a regularização das filiais. Que o conjunto dos fatos mencionados, causou a demora da baixa do CNPJ 61.064.689/000102. Que desta forma não houve qualquer violação às regras do CNPJ, uma vez que a demora da baixa do mesmo decorreu da necessidade de antes regularizar as filiais e da demora para liberação de documentos delas juntas estaduais. Que o fato de não realizar importações com o CNPJ da autuada, seria um mero erro, mas nunca operação simulada ou fraudulenta. Fl. 3749DF CARF MF 8 Que o fato de quebra da cadeia do IPI deve ser ignorado, uma vez que as filiais sempre mantiveram o livro de apuração regularizado, recolhendo o tributo corretamente. Multa pela Cessão de Nome Referente a esta multa, de plano a impugnante pleiteia a nulidade do auto de infração, alegando como principal causa para o fato, que o fato de não mais existir o CNPJ da incorporada., e desta forma esta não poderia ceder o nome. Alega também que como sucessora da incorporada, ela é a própria dona do nome, então não há de se falar em cessão ou empréstimo do nome. Multa por Vinculação entre Importador e Exportador Vinculação entre impugnante e a Caterpilar. Afirma que não existe a vinculação mencionada no Termo de Verificação fiscal. Cita os artigos 4 , 5 e 15 do Acordo de valor aduaneiro e afirma que não existem as relações citadas nos artigos entre ela e a Caterpillar, relações estas necessárias para o reconhecimento de vinculação. Alega que nem a condição de revendedor exclusivo a empresa possui, uma vez que no Brasil existem outras empresas que comercializam os produtos fabricados pela Caterpillar. Também não existe vinculação sob a ótica do artigo 23 da Lei 9430/1996 Multa de 1% falta de comprovação da relação Contratual nas importações realizadas por conta e ordem. Alega que nas importações por conta e ordem realizada pelo importador SOIMPEX S/A. foram observadas as regras previstas na IN SRF 225/2002 e firmados os respectivos contratos de prestação de serviços. Quanto às importações realizadas pela Cotia Vitória S/A, alega que não foram por conta e ordem e sim por encomenda, sendo inaplicável as disposições da IN RFB 225/02. Sobre a referida multa, alega ainda que há erro no valor da mesma. Que no caso dos autos, a autoridade administrativa não apenas aplicou 1% sobre o valor aduaneiro, mas também agregou a este montante o valor de R$ 500,00 por adição, exigindo a multa ao final de R$ 2.492.565,95. Entende que a multa deve ser aplicada por declaração de importação e não por adição. Necessidade de Realização de Diligência A autuada afirma que a alegação quanto à quebra da cadeia do IPI é meramente teórica, sem qualquer embasamento de provas, razão pela qual o auto de infração deve ser declarado nulo. Fl. 3750DF CARF MF Processo nº 11829.720038/201227 Acórdão n.º 3302005.145 S3C3T2 Fl. 3.747 9 Requer diligência para comprovação da cadeia do IPI Ao final requer relevação da penalidade com base no artigo 736 do Regulamento Aduaneiro. Justifica seu pleito no argumento que não houve dano ao erário e em decisão do STJ – 2ª Turma. Impugnação dos Responsáveis Solidários As impugnações dos sócios e diretores, aos quais foi atribuída a responsabilidade solidária, tem uma parte comum a todas as impugnações, que será mencionada na seqüência, e alegações individuais referentes a posição da pessoa na empresa, geralmente o cargo que e as atividades que será apresentada na seqüência. Alegações comuns dos Responsáveis Solidários Todas as impugnações dos responsáveis solidários mencionam que: com base no artigo 135 do CTN é inaplicável a responsabilidade solidária ao mesmo, pois não se enquadra na situação do referente artigo; não há qualquer infração a legislação aduaneira por parte da SOTREQ S/A (autuada); o instituto da responsabilidade decorre de créditos correspondentes à obrigações tributárias e não a multas administrativas, decorrentes de infração ao controle aduaneiro. Uma vez que todos os tributos incidentes na importação foram devidamente recolhidos, não cabe a responsabilização solidária; a própria RFB assevera que as normas oriundas do descumprimento da legislação que rege o controle aduaneiro não tem natureza tributária, conforme dispõe a Solução de Consulta da SRRF/5ª Região Fiscal de 29.09.2009; também não pode ser aplicada a multa uma vez que não houve dolo e nexo causal entre a conduta dos impugnantes e as infrações imputadas a SOTREQ; o referido artigo 135 do CTN exige para a imposição da responsabilidade solidária a gestão “com excesso de poderes ou infração à lei ou ao contrato/estatuto social”, assim considerada a gestão fraudulenta com o intuito de lesar credor tributário deliberadamente. No caso não houve esta hipótese. Alegam que a infração a lei aduaneira não se enquadraria no conceito de Infração à Lei. infração a lei, seria uma infração a legislação societária, vinculada a administração que desencadeasse a inadimplência de tributos. Fl. 3751DF CARF MF 10 no caso em comento, a autoridade administrativa não indicou qual a disposição infringida, limitandose a responsabilizar os diretores. Cabe ao fisco provar; a autoridade administrativa também não provou que os diretores aos quais foi atribuída a responsabilidade solidária, agiram com dolo, deixando de apontar o nexo de causalidade entre a conduta destes e o ato infracional; afirma ainda que não tinha ingerência sobre as importações realizadas; Além das alegações sobre a ausência da responsabilidade individual, todos os impugnantes alegaram que não houveram as infrações que constam do auto de infração, com os mesmos argumentos apresentados pela SOTREQ, aqui já listados. As alegações individuais são apresentadas no quadro que segue: Responsável Solidário: Carl Alfred Orberg CPF 666.141.55849 Cargo na Autuada: Diretor Presidente (desde 28/10/2009 até a presente data) Alegação individual Não tinha ingerência nas importações realizadas. Responsável Solidário: Laércio Brazil Lenz César CPF 031.054.07715 Cargo na Autuada: Diretor (desde 04/08/2009 a 30/06/2011) Alegação individual Não desenvolvia atividades relacionadas diretamente com a mportação, que foram alvo de fiscalização e que ensejaram a autuação, o impugnante sequer tinha ingerência sobre operações registradas no siscomex. Não sendo pessoa habilitada a operar no siscomex não há que se atribuir a ele a responsabilidade nas operações de comércio exterior Responsável Solidário: Carl Vagn Orberg CPF 033.970.09804 Cargo na Autuada: Acionista e Diretor (desde 01/12/2004 até a presente data) Alegação Individual Exercia a função de presidente do conselho da empresa, Não desenvolvia atividades relacionadas diretamente com a importação, que foram alvo de fiscalização e que ensejaram a autuação, o impugnante sequer tinha ingerência sobre operações registradas no siscomex. Responsável Solidário: Jorge Delaura Meyer Neto CPF 352.705.94749 Cargo na Autuada: Diretor (desde 04/08/2009 a 02/01/2012) Alegação Individual O impugnante exercia a função de Diretor Responsável pela área de novos negócios, responsável por estruturar a Unidade de Energia e Petróleo Marítimo, bem como participava como membro do Conselho Consultivo da Empresa. Não desenvolvia atividades relacionadas diretamente com a importação, que foram alvo de fiscalização e que ensejaram a autuação, o impugnante sequer tinha ingerência sobre operações registradas no siscomex. Responsável Solidário: Arthur Castilho CPF 247.502.80763 Cargo na Autuada: Não tinha Alegação Individual: Não ocupava cargo de diretor ou gerente no período em que a empresa foi autuada. Responsável Solidário: José Ricardo Martins Cordeiro CPF 617.962.20787 Cargo na Autuada: Diretor (desde 04/08/2009 até a presente data) Alegação Individual O impugnante exercia atividade de Diretor Financeiro e Contábil da empresa autuada, atividade essa que não está diretamente relacionada com as importações que foram alvo da fiscalização e que ensejaram a impugnação. O impugnante sequer tinha ingerência sobre as operações Fl. 3752DF CARF MF Processo nº 11829.720038/201227 Acórdão n.º 3302005.145 S3C3T2 Fl. 3.748 11 registradas no Siscomex ou constava como pessoa habilitada a operá lo. Responsável Solidário: Renato Pimentel Freitas CPF 709.986.98768 Cargo na Autuada: Diretor (desde 04/08/2009 até a presente data) Alegação Individual: O impugnante exercia a função de Diretor Responsável pela área de mineração da empresa autuada, atividade que não está diretamente relacionada com as importações que foram alvo da fiscalização e ensejaram a autuação. O impugnante sequer tinha ingerência sobre as operações registradas no Siscomex ou constava como pessoa habilitada a operálo. Responsável Solidário: Sybelle da Costa Oliveira Ban CPF 312.664.10759 Cargo na Autuada: Diretor (desde 04/08/2009 até a presente data) Alegação Individual O impugnante exercia a função de Diretora do RH, estratégia e marketing da empresa autuada., atividade essa que não está diretamente relacionada com as importações que foram alvo da fiscalização e que ensejaram a impugnação. Responsável Solidário: Fernando Curado CPF 295.671.49704 Cargo na Autuada: Diretor (desde 28/10/2009 até a presente data) Alegação Individual: Exercia a função de conselheiro, atividade essa que não está diretamente relacionada com as importações que foram alvo da fiscalização e que ensejaram a impugnação. Responsável Solidário: Kathryn Orberg Beek CPF 530.444.95768 Cargo na Autuada: Não tinha Alegação Individual Não fazia mais parte da diretoria, tendo renunciado quando da incorporação, quando foi eleito um novo diretor para substituíla Ata da empresa SOTREQ DE 19.05.2009 DELIBEROU SUA RENUNCIA COMO Membro do Conselho Consultivo. A empresa foi incorporada posteriormente à sua saída. Responsável Solidário: José Germano da Costa Silveira Filho CPF 754.632.780830 Cargo na Autuada Não tinha Alegação Individual Que não pode ser responsabilizado uma vez que não tinha sequer o cargo de diretor. O autuado não ocupou nenhum cargo na empresa autuada. Diligência realizada Apresentadas as impugnações, o auto de infração foi enviado à DRJ para análise. Quando do início da análise do processo, não foi possível a abertura dos arquivos digitais, referentes aos anexos 2, 3, 6 e 7, que encontravamse compactados/zipados, motivo pelo qual, o processo retornou a Inspetoria da Alfândega de Viracopos para que se desse algum tipo de solução do problema. Ciente do problema, a Alfândega de Viracopos elaborou o Relatório Fiscal (fls. 2803 a 2828) que indicou os procedimentos técnicos a serem seguidos para a abertura dos referidos arquivos. Do relatório mencionado, tiveram ciência a autuada e os responsáveis solidários, que se manifestaram, conforme mencionado na seqüência. Fl. 3753DF CARF MF 12 Abertura dos Arquivos Digitais Compactados (Anexos 2, 3, 6 e 7) A partir da execução dos procedimentos indicados no Relatório Fiscal citado, foi possível a este julgador ter conhecimento dos arquivos mencionados, sendo possível então a completa análise do processo ora em foco. Ressaltese que para êxito do procedimento, contamos com o auxílio dos servidores do SAPOC da DRJ SPO que nos deu o devido suporte técnico. Manifestação da Autuada e dos Responsáveis Solidários sobre o Relatório Fiscal das fls 2803 a 2828. Manifestaramse mencionando que após várias tentativas de abertura dos arquivos digitais zipados, referentes aos anexos 2, 3. 6 e 7, não obtiveram sucesso, não sendo possível portanto o conhecimento dos mesmos. Desta forma o problema da abertura dos arquivos gerou um óbice a própria defesa dos autuados, logo o cerceamento de defesa. Este fato nos termos dos artigos 59 inciso II do Decreto 70235/1972 tornam uma possível decisão do auto de infração como um ato nulo, uma vez que é proferido com preterição ao direito de defesa. Que no caso em comento houve prejuízo do contraditório e ampla defesa dos autuados. Sendo assim em todas as manifestações, a autuada e os responsáveis solidários, requereram a nulidade da diligência realizada, bem como do auto de infração lavrado sob pena de violação aos princípios constitucionais do contraditório e ampla defesa. (grifos originais) Sobreveio a decisão de primeira instância (fls. 3317/3361), em que, por maioria de votos, a impugnação foi julgada improcedente e o crédito tributário integralmente mantido, com base nos fundamentos resumidos nos enunciados das ementas que seguem transcritos: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Período de apuração: 30/06/2009 a 30/06/2010 INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA SIMULAÇÃO. A utilização por empresa incorporadora, da habilitação no Siscomex de empresa incorporada, para realização de operações de importação onde a incorporadora tratase do real adquirente dos bens importados, não obedece o disposto no parágrafo 2º do artigo 15 da IN SRF 650/2006 e artigo 2º, assim como simula uma situação inexistente que dificulta o controle aduaneiro, ocultando a incorporadora, real adquirente, fato que se enquadra no disposto no Inciso V do artigo 23 do decreto 1455/1976, Infração de Interposição fraudulenta, punível com a pena de perdimento. FRAUDE SIMULAÇÃO BAIXA DO CNPJ Fl. 3754DF CARF MF Processo nº 11829.720038/201227 Acórdão n.º 3302005.145 S3C3T2 Fl. 3.749 13 A não adoção das medidas para baixa do CNPJ de empresa incorporada, prevista no artigo 28 da IN SRF 748/2007, e a utilização da empresa incorporada, já não mais existente em operações de comércio exterior, configura simulação prevista no Inciso V do artigo 23 do Decreto 1455/1976. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA INFRAÇÃO À LEI A responsabilização solidária de sócios prevista no artigo 135 do CTN, é devida sempre que houver infração à lei de qualquer natureza, onde fique caracterizada que a conduta do sócio se deu com culpa ou dolo. Este entendimento está amparado em decisões do STF, no artigo 85 do Decreto 37/66, RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA INFRAÇÕES ADUANEIRAS A responsabilidade solidária é aplicável a créditos originados a partir de lançamentos de multas administrativas de qualquer natureza, e portanto também as multas aplicadas a partir da infração à legislação aduaneira, por força do disposto no artigo 4º da Lei 6830/1980. MULTA DE 1% POR INFORMAÇÃO INCORRETA NA D.I. A aplicação da multa prevista no artigo 69 da Lei 10833/2003 é aplicada por adição, uma vez que o texto do artigo 84 da MP 215835/2001, menciona que a multa será aplicada por mercadoria, e não por declaração de importação. MULTA LANÇADA EM RAZÃO DE INFRAÇÃO. INCORPORAÇÃO. RESPONSABILIDADE DA SUCESSORA. A pessoa jurídica incorporadora é responsável pelo crédito tributário da incorporada, respondendo tanto pelos tributos e contribuições como por eventual multa de ofício e demais encargos legais decorrentes de infração por ela cometido em nome da sucedida, mesmo que formalizados após a alteração societária, mormente se incorporadora e incorporada encontravamse sob controle comum. Portanto, à luz da lei, da doutrina e da jurisprudência, não pode ser afastada a responsabilidade da sucessora em relação à multa lançada em razão de infração cometida em nome da sucedida. Impugnação Procedente Crédito Tributário Mantido A autuada SOTREQ S/A. foi cientificada da decisão em 16/4/2014 (fl. 3419), enquanto que os responsáveis solidários, mantidos no pólo passivo da autuação, os Srs. Carl Alfred Orberg e José Ricardo Martins Cordeiro, foram cientificados, respectivamente, em 7/4/2014 (fl. 3427) e 10/4/2014 (fl. 3431). Os demais responsáveis solidários, afastados do polo passivo da autuação, foram cientificados nas seguintes datas: Fernando Curado, em 7/4/2014 (fl. 3425); Kathryn Orberg Beek, em 29/4/2014 (fl. 3621); Arthur Castilho, em 8/4/2014 (fl. 3426); Carl Vagn Fl. 3755DF CARF MF 14 Orberg, em 7/4/2014 (fl. 3428); Jorge Delaura Meyer Neto, em 8/4/2014 (fl. 3429); Laércio Brazil Lenz César, em 7/4/2014 (fl. 3433); Renato Pimentel Freitas, em 8/4/2014 (3434); José Germano da Costa Silveira Filho, em 4/4/2014 (fl. 3430) e Sybelle da Costa Oliveira Ban, em 11/4/2014 (fl. 3394). Em 30/4/2014, a autuada SOTREQ protocolou o recurso voluntário de fls. 3490/3527, em que reafirmou as razões de defesa suscitadas na peça impugnatória. Em 30/4/2014, os responsáveis solidários Carl Alfred Orberg e José Ricardo Martins Cordeiro protocolaram os recursos voluntário de fls. 3568/3598 e 3436/3466, em que reafirmaram as razões de defesa aduzidas nas respectivas peças impugnatórias. Em aditamento, em preliminar, alegaram a nulidade da decisão recorrida por cerceamento do direito de defesa, sob o argumento de que o referido julgado havia aperfeiçoado o lançamento ao alterar o fundamento da responsabilidade solidária do art. 135, III, do CTN, determinado pela fiscalização, para o art. 95, I, do Decretolei 37/1966, o que caracterizava mudança de critério jurídico, vedada pelo art. 146 do CTN. Enfim, no dia 16/2/2016, a recorrente protocolou a petição de fls. 3627/3628, acompanhada de extenso memorial e de parecer da lavra da exConselheira deste Conselho, a Drª Judith do Amaral Marcondes Armando. É o relatório. Voto Conselheiro José Fernandes do Nascimento, Relator. Os recursos são tempestivos, tratam de matéria da competência deste Colegiado e preenchem os demais requisitos de admissibilidade, portanto, devem ser conhecidos. O acórdão recorrido contém erros materiais graves, que sem o devido saneamento, certamente, impossibilita o julgamento da lide por este Colegiado. No citado julgado, há erro material na ementa do acórdão, pois, nela consta “Impugnação Procedente”, em evidente contradição com o teor dos enunciados das ementas, os fundamentos do voto vencedor e o resultado do julgamento anotado no dispositivo julgado, onde há expressa menção que, por maioria de votos, a impugnação foi julgada improcedente. Também há erros materiais na redação do dispositivo. Um deles consiste na referência a apenas uma impugnação, quando nos autos foram apresentadas e apreciadas nos votos vencido e vencedor 1 impugnação da pessoa jurídica autuada e 11 impugnações das pessoas físicas responsáveis solidárias. Outro erro material, de natureza mais grave e, portanto insanável, no entendimento deste Relator, foi a omissão da não interposição de recurso de ofício em relação aos 9 responsáveis solidários excluídos do pólo passivo da autuação. Para essa hipótese, há obrigatoriedade de interposição de recurso de ofício por determinação do art. 34 do Decreto 70.235/1972 e por expressa determinação do art. 70, § 3º, do Decreto 7.574/2011, que segue transcrito: Art. 70. O recurso de ofício deve ser interposto, pela autoridade competente de primeira instância, sempre que a decisão Fl. 3756DF CARF MF Processo nº 11829.720038/201227 Acórdão n.º 3302005.145 S3C3T2 Fl. 3.750 15 exonerar o sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa de valor total (lançamento principal e decorrentes) a ser fixado em ato do Ministro de Estado da Fazenda, bem como quando deixar de aplicar a pena de perdimento de mercadoria com base na legislação do IPI (Decreto no 70.235, de 1972, art. 34, com a redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997, art. 67). § 1o O recurso será interposto mediante formalização na própria decisão. § 2º Sendo o caso de interposição de recurso de ofício e não tendo este sido formalizado, o servidor que verificar o fato representará à autoridade julgadora, por intermédio de seu chefe imediato, no sentido de que seja observada aquela formalidade. § 3º O disposto no caput aplicase sempre que, na hipótese prevista no § 3º do art. 561, a decisão excluir da lide o sujeito passivo cuja exigência seja em valor superior ao fixado em ato do Ministro de Estado da Fazenda, ainda que mantida a totalidade da exigência do crédito tributário. (Incluído pelo Decreto nº 8.853, de 2016) Ora, se o § 2º do art. 70 em destaque determina que o servidor que verificar falta da interposição de recurso de ofício representará perante a autoridade julgadora, no sentido de que seja observada a dita formalidade, com muito mais razão, se a autoridade julgadora constata tal irregularidade, inequivocamente, ela deve determinar o saneamento do vício, sob pena de grave prejuízo aos princípios basilares que regem o processo administrativo fiscal. E uma vez constados tais erros materiais, os autos devem retornar à Turma de Julgamento prolatora do acórdão, para que outro seja proferido em boa e devida forma, consoante determina o art. 21, § 1º, da Portaria MF nº 341/2011, a seguir reproduzido: Art. 21. As decisões serão assinadas pelo relator, pelo redator designado, sendo o caso, e pelo Presidente da Turma, e delas constarão o nome dos julgadores presentes, mencionandose, se houver, os impedidos, os ausentes, bem como os julgadores vencidos e a matéria em que o foram. § 1º Para a correção de inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e a erros de escrita ou de cálculo existentes no acórdão, será proferido novo acórdão. § 2º Nos casos de conversão do julgamento em diligência, a forma a ser adotada é a de resolução. (grifos não originais) 1 "Art. 56. A impugnação, formalizada por escrito, instruída com os documentos em que se fundamentar e apresentada em unidade da Secretaria da Receita Federal do Brasil com jurisdição sobre o domicílio tributário do sujeito passivo, bem como, remetida por via postal, no prazo de trinta dias, contados da data da ciência da intimação da exigência, instaura a fase litigiosa do procedimento (Decreto no 70.235, de 1972, arts. 14 e 15). [...] § 3o No caso de pluralidade de sujeitos passivos, caracterizados na formalização da exigência, todos deverão ser cientificados do auto de infração ou da notificação de lançamento, com abertura de prazo para que cada um deles apresente impugnação. [...]" Fl. 3757DF CARF MF 16 Por todo o exposto, votase pelo conhecimento do recurso voluntário, para determinar o retorno dos autos ao órgão de julgamento de primeiro grau, para que seja proferido novo acórdão, em boa e devida forma. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Fl. 3758DF CARF MF
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Numero do processo: 10314.720709/2016-11
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Exercício: 2012
BASE DE CÁLCULO. VALOR ADUANEIRO. AJUSTES.
Na forma do art. 8º, § 1º, letra c do Acordo sobre a Implementação do Artigo VII do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, ao preço efetivamente pago ou a pagar pelas mercadorias importadas devem ser acrescidos os royalties e direitos de licença, pagos direta ou indiretamente, desde que como condição de venda das mercadorias e a elas relacionados.
MULTA REGULAMENTAR
Se os parâmetros materiais e quantitativos de sua aplicação foram vazados por lei vigente, válida e eficaz, descabe à instâncias administrativas adentrarem em sua constitucionalidade. Súmula CARF nº 2.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.INCIDÊNCIA.
O crédito tributário, quer se refira atributo, quer seja relativo à penalidade pecuniária, não pago no respectivo vencimento, está sujeito àincidência de juros demora, calculado à taxa Selic até o mês anterior ao pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Precedentes da CSRF.
Recurso negado.
Numero da decisão: 3402-004.983
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto, que apresentou declaração de voto lida em sessão.
(assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: JORGE OLMIRO LOCK FREIRE
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VALOR ADUANEIRO. AJUSTES. Na forma do art. 8º, § 1º, letra c do Acordo sobre a Implementação do Artigo VII do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, ao preço efetivamente pago ou a pagar pelas mercadorias importadas devem ser acrescidos os royalties e direitos de licença, pagos direta ou indiretamente, desde que como condição de venda das mercadorias e a elas relacionados. MULTA REGULAMENTAR Se os parâmetros materiais e quantitativos de sua aplicação foram vazados por lei vigente, válida e eficaz, descabe à instâncias administrativas adentrarem em sua constitucionalidade. Súmula CARF nº 2. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.INCIDÊNCIA. O crédito tributário, quer se refira atributo, quer seja relativo à penalidade pecuniária, não pago no respectivo vencimento, está sujeito àincidência de juros demora, calculado à taxa Selic até o mês anterior ao pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Precedentes da CSRF. Recurso negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto, que apresentou declaração de voto lida em sessão. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 31 4. 72 07 09 /2 01 6- 11 Fl. 17932DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.929 2 Jorge Olmiro Lock Freire Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Tratase de auto de infração lavrado para constituição de crédito tributário referente à diferença de tributos incidentes na importação (II, IPI e PIS/COFINS importação) decorrente da não inclusão no valor aduaneiro dos royalties pagos pelo importador, acrescido de multa de ofício e juros de mora. Igualmente, foi feita exigência fiscal de multa regulamentar de 1% do valor aduaneiro (art. 84 da MP 2.15835/2001) face a não inclusão dos royalties no campo "informações complementares" da DI. Segundo o relatório fiscal (fls. 2848/2950), o Serviço de Programação, Avaliação e Controle da Atividade Fiscal (SEPAC) da Delegacia Especial da RFB de Fiscalização de Comércio Exterior (DELEX/SPO) verificou que a C&A efetuou recolhimentos de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), sob o Código de Receita 0422, cuja descrição é “IRRF – ROYALTIES E ASSISTÊNCIA TÉCNICA– RESIDENTES EXTERIOR”, no ano de 2012, e, ao mesmo tempo, realizou diversas importações no período. Com base nessas informações, a fiscalização promoveu procedimento para verificar a causa dos pagamentos dos royalties, a fim de determinar se seria o caso de os valores pagos a título de royalties serem incluídos no cômputo do valor aduaneiro das importações da empresa e, em caso positivo, aferir se os pagamentos a título de royalties foram efetivamente incluídos. Após a apresentação de ampla gama de documentos, a fiscalização concluiu que parte dos pagamentos sob o Código de Receita 0422 se referia à contraprestação por serviços de assistência técnica, tais como serviços de pesquisa de tendência de moda e criação e desenvolvimento de peças de vestuário e acessório, e outra parte das remessas, majoritária, relacionavase ao pagamento de royalties referentes à licença para uso de marca. Num segundo momento da auditoria, a fiscalização requereu que a contribuinte apresentasse, ”(...) para cada uma das marcas, os produtos/mercadorias importados de empresas vinculadas e não vinculadas, bem como aqueles obtidos no mercado interno. Foi solicitado ainda que a C&A informasse o valor correspondente aos royalties pagos por produto/mercadoria e período”. Após o detalhado exame dos contratos, cujas cópias encontramse no Anexo IV do auto de infração, e demais elementos de informação apresentados, a fiscalização concluiu (item 6.1 DOS CONTRATOS) que os royalties pagos pela interessada em razão da exploração das marcas objeto dos contratos firmados com as empresas MATTEL DO BRASIL LTDA, THE WALT DISNEY COMPANY (BRASIL) LTDA, WARNER BROS (SOUTH) INC., ITC AMERICA LATINA S/C LTDA (MARVEL); PLAYBOY ENTERPRISES INTERNATIONAL, COFRA HOLDING AG e GISELE INC caracterizavamse como condição de venda (item 6.2 DA CONDIÇÃO DE VENDA) das mercadorias importadas de Fl. 17933DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.930 3 terceiros fabricantes. Consequente, os valores relativos aos royalties deveriam ser adicionados ao cálculo do valor aduaneiro. As premissas que apoiaram a conclusão fiscal foram as seguintes: 1. Os direitos de licença e de uso da marca foram utilizados nos produtos importados, portanto, esses direitos estão relacionados às mercadorias importadas. 2. O pagamento dos direitos é condição para uso da marca, pois sem o pagamento dos royalties a contribuinte não poderá mais adquirir os produtos das empresas exportadoras. 3. A importadora não efetuou o ajuste ao valor aduaneiro conforme estabelecido no artigo 8, item 1, c, do Acordo de Valoração Aduaneira (AVA). 4. A autuada submeteu aos despachos aduaneiros diversos produtos cujos fornecedores estrangeiros estão a ela vinculados nos termos do artigo 15, item 4, do AVA. Entretanto, no campo da declaração de importação destinado a informar a condição de vinculação, a empresa declarouse “não vinculada”, conforme planilha Demonstrativa Multa Não Vinculadas, anexada aos autos. 5. Os dados referentes ao tipo de vínculo entre as partes contratantes são informações de natureza administrativotributária e, portanto, necessários à determinação do competente procedimento de controle aduaneiro, inclusive a valoração aduaneira dos produtos. 6. Prestando informação inexata, já que nos casos aqui tratados existe vinculação entre a importadora e os fornecedores, a empresa acabou por incorrer na penalidade prevista no § 1º do artigo 69, da Lei nº 10.833/2003. Intimada, a contribuinte apresentou impugnação, cujas alegações não foram acolhidas pela DRJ Curitiba (fls. 17686/17730), em julgamento de 31/01/2017. Irresignada, a contribuinte apresentou recurso voluntário (fls. 17762/17853), no qual alega, em síntese: (i) que a legislação aduaneira é clara ao determinar que o valor aduaneiro nem sempre conterá os royalties pagos em relação à mercadoria importada, mas visa ajustálo apenas e tão somente quando pagos como condição da venda imposta pelo vendedor, ao importador para a aquisição das mercadorias, a eliminar distorção causada pela cobrança de parte do preço sob a forma de royalties; (ii) que a condição de venda não é todo e qualquer elemento para a concretização da importação, mas constitui obrigação adicional ao pagamento do preço, imposta para a realização da venda, ou seja, pelo vendedor/fabricante, detentor da licença (1ª Condição estabelecida pelo CARF), para a venda dos produtos, pagamento este que deverá favorecer ao vendedor ou a terceiro a este necessariamente vinculado (2ª Condição estabelecida pelo CARF); (iii) que os royalties pagos ao Licenciante devem estar diretamente relacionados às mercadorias objeto de valoração, isto é, devem ser diretamente relacionados aos valores objeto da compra e venda. (3ª Condição estabelecida pelo CARF); Fl. 17934DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.931 4 (iv) nos casos analisados no presente auto de infração, o pagamento de royalties não é condição de venda para a importação das mercadorias, pois existem duas relações jurídicas independentes firmadas pela Recorrente. Uma com o Licenciante regulando a exploração da licença, outra com os fabricantes, terceiros absolutamente independentes dos Licenciantes, regulando a compra e venda das mercadorias. Inclusive, poderia a C&A optar pela fabricação própria das mercadorias (em território nacional ou estrangeiro); (v) que a análise de todos os contratos em questão deixa claro que os fabricantes (vendedores das mercadorias) não são titulares das licenças exploradas pela Recorrente e não tem qualquer relação comercial, financeira ou societária com os Licenciantes, razão pela qual não possui qualquer ingerência sobre o montante, a forma ou o prazo em que os royalties serão pagos da Recorrente às Licenciantes; (vi) que a obrigatoriedade de a Recorrente cessar a comercialização das peças licenciadas, bem como de os fabricantes cessarem, após comunicação, a produção de produtos com a marca licenciada, não implica, por óbvio, qualquer indício de vinculação entre fabricantes e detentores da marca. Na verdade, tratase de mera decorrência lógica do contrato de licença firmado, bem como do respeito às normas nacionais e internacionais que regulamentam a propriedade industrial; (vii) a forma pela qual o pagamento dos royalties é calculado na maioria dos contratos (parcela fixa, garantia mínima e/ou percentual da venda, antecipações de valores etc.) é mais um demonstrativo de que não existe “condição de venda” para inclusão dos royalties no valor aduaneiro das mercadorias importadas; (viii) especificamente com relação ao contrato firmado com a COFRA, importante destacar que (a) as empresas Mondial Hong Kong e C&A Sourcing Limited atuam, tão somente, como exportadoras das mercadorias adquiridas no Leste Asiático de diversos fabricantes de todas as marcas (assim, essas empresas não fabricam as mercadorias importadas); (b) aproximadamente 74% de todas as mercadorias comercializadas pela Recorrente (relacionadas às marcas detidas pela COFRA) são adquiridas de empresas nacionais; (c) os royalties, no montante de apenas 1% sobre a Receita Líquida de Vendas no mercado interno, são pagos pela Recorrente somente após 30 dias do encerramento do trimestre de vendas, o que demonstra, de maneira cristalina, a absoluta independência da operação de compra e venda firmada pela Recorrente com os fabricantes da operação de licenciamento firmada pela Recorrente com a COFRA; (ix) subsidiariamente, caso se entenda que os royalties devem compor o valor aduaneiro, o que sequer se admite como hipótese em razão dos argumentos acima, haverá o reconhecimento de que os tributos pagos na remessa dos royalties são indevidos, razão pela qual poderão ser recuperados pela Recorrente (compensandose com os valores exigidos no presente AIIM); (x) pede a exclusão da multa administrativa sobre o valor aduaneiro, por considerála abusiva, uma vez que somente o valor da mesma ultrapassa o valor dos tributos somados, pugnando pela sua redução ao patamar de no máximo 100% dos tributos exigidos; (xi) por fim, com relação à penalidade aplicada, não há dúvidas acerca da necessidade de, ao menos, afastarse a incidência de juros de mora sobre o montante referente a multas, em lançamento de ofício, nos termos da jurisprudência desse CARF. Fl. 17935DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.932 5 De fls. 17881/17926, contrarrazões da Fazenda Nacional pugnando que seja negado provimento in totum ao recurso voluntário. É o relatório. Voto Conselheiro Jorge Lock Freire, Relator. OS ROYALTIES NA VALORAÇÃO ADUANEIRA Entende a recorrente, em suma, que o pagamento dos royalties não era uma condição de venda na importação das mercadorias em cada um dos contratos por ela firmados com as empresa a que aludi no relatório, pois alega existirem duas relações jurídicas: uma com o licenciante regulando a exploração da licença, e outra com os fabricantes (em território nacional ou estrangeiro), terceiros independentes dos licenciantes, regulando a compra e venda da mercadoria. Com espeque nesse raciocínio, por não serem os fabricantes titulares das licenças por ela exploradas, e por não terem qualquer relação comercial ou societária com os licenciantes (os detentores das marcas), não possuem eles qualquer ingerência sobre o montante, a forma ou o prazo em que os royalties seriam pagos pela recorrente às licenciantes. o que afastaria a inclusão dos mesmos na valoração aduaneira dos produtos importados dos fabricantes estrangeiros. Entende, em suma, que para "inclusão dos royalties no valor aduaneiro é essencial que o dever de pagamento dos mesmos aflore e decorra do contrato de compra e venda, e que o pagamento deste seja feito a entidade vinculada ao vendedor/fabricante". De seu turno, a fiscalização entende que sem o pagamento dos royalties, não poderia a autuada ter direito às mercadorias produzidas no exterior, pelo que sem o pagamento daqueles não haveria a importação que deu azo à presente lide. Todavia, não se controverte sobre o fato de que os royalties pagos pela recorrente se relacionam com os direitos de imagem que são explorados pelas mercadorias objeto da presente autuação e que os mesmos não foram incluídos no valor da transação. Sem embargo, a questão nuclear, aparte da multa regulamentar, é definir se os pagamentos dos royalties constitui ou não uma condição de venda das mercadorias importadas de modo, então, a incidir o ajuste do valor da transação, nos termos do AVA GATT. O Acordo de Valoração Aduaneira, aplicado em mais de 180 países, não pode ser alterado pela vontade unilateral das partes, nem ter seus conceitos deturpados pela legislação nacional. Gizese que no Brasil, lamentavelmente, a legislação nacional chegou a tentar alterar o conteúdo da expressão "valor aduaneiro", alteração essa que acabou corretamente obstada pela suprema corte, no RE nº 559.607/SC. Certo que a expressão "valor aduaneiro" não pode significar no Brasil algo diferente do que significa nos demais países signatários do GATT, e membros da OMC, sob pena de tornar inócuo o acordo internacional uniformizador, e de ser o país acionado perante o Fl. 17936DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.933 6 Órgão de Solução de Controvérsias de tal organização. Aliás, a incorporação da expressão "valor aduaneiro" ao texto constitucional brasileiro (art. 149, § 2o, II, "a"), pela Emenda Constitucional nº 33/2001, obviamente se fez com a acepção que já estava consagrada internacionalmente. Assim, o conteúdo da expressão "valor aduaneiro" e dos elementos que o compõem deve ser buscado na legislação internacional, mormente no Acordo de valoração Aduaneira (AVA), somente se prestando a legislação nacional a complementar o AVA naqueles temas em que o acordo prevê faculdades às partes (artigo 8º, 2). O próprio AVA define a quase totalidade dos termos e expressões que emprega, justamente para evitar tratamento desigual pelos países signatários. E o tema sobre o qual estamos a tratar é disciplinado no Artigo 8º, 1, "c" do AVA: Artigo 1 1. O valor aduaneiro de mercadorias importadas será o valor de transação, isto é, o preço efetivamente pago ou a pagar pelas mercadorias em uma venda para exportação para o país de importação, ajustado de acordo com as disposições do Artigo 8, desde que: (a) não haja restrições à cessão ou à utilização das mercadorias pelo comprador, ressalvadas as que: (i) sejam impostas ou exigidas por lei ou pela administração pública do país de importação; (ii) limitem a área geográfica na qual as mercadorias podem ser revendidas; ou (iii) não afetem substancialmente o valor das mercadorias; (b) a venda ou o preço não estejam sujeitos a alguma condição ou contraprestação para a qual não se possa determinar um valor em relação às mercadorias objeto de valoração; (c) nenhuma parcela do resultado de qualquer revenda, cessão ou utilização subseqüente das mercadorias pelo comprador beneficie direta ou indiretamente o vendedor, a menos que um ajuste adequado possa ser feito de conformidade com as disposições do Artigo 8; e (d) não haja vinculação entre o comprador e o vendedor ou, se houver, que o valor de transação seja aceitável para fins aduaneiros, conforme as disposições do parágrafo 2 deste Artigo. E o artigo 8º do AVA GATT ( internalizado pelo Decreto nº 1.355/94), tem a seguinte dicção: Artigo 8 1. Na determinação do valor aduaneiro, segundo as disposições do Artigo 1, deverão ser acrescentados ao preço efetivamente pago ou a pagar pelas mercadorias importadas: ... Fl. 17937DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.934 7 (c) royalties e direitos de licença relacionados com as mercadorias objeto de valoração, que o comprador deva pagar, direta ou indiretamente, como condição de venda dessas mercadorias, na medida em que tais royalties e direitos de licença não estejam incluídos no preço efetivamente pago ou a pagar; (grifei) Nota ao Artigo 8 1. Os royalties e direitos de licença referidos no parágrafo l (c) do Artigo 8 poderão incluir, entre outros, pagamentos relativos a patentes, marcas registradas e direitos de autor. No entanto, na determinação do valor aduaneiro, os ônus relativos ao direito de reproduzir as mercadorias importadas no país de importação não serão acrescentados ao preço efetivamente pago ou a pagar por elas. 2. Os pagamentos feitos pelo comprador pelo direito de distribuir ou revender as mercadorias importadas não serão acrescidos ao preço efetivamente pago ou a pagar por elas, caso não sejam tais pagamentos uma condição da venda, para exportação para o país de importação das mercadorias importadas. (grifei) Com efeito, para fins de valoração aduaneira, é imperativo perquirir se o pagamento destes royalties ou direitos de licença constitui condição para a produção ou a aquisição dos produtos objeto de importação. Ou seja, é preciso saber se esses royalties ou direitos de licença estão intrínseca e indissociavelmente ligados à possibilidade da comercialização dessas mercadorias no país de importação. Além de definir os termos e expressões que utiliza, o AVA estabelece "princípios" que norteiam a aplicação de todo o Acordo, em sua Introdução Geral: “Introdução Geral – 1. A base primeira para a valoração aduaneira, em conformidade com este Acordo, é o valor de transação...”; “Os membros, ...desejando elaborar normas para sua aplicação com vistas a assegurar maior uniformidade e precisão na sua implementação; reconhecendo a necessidade de um sistema equitativo, uniforme e neutro para a valoração de mercadorias para fins aduaneiros, que exclua a utilização de valores aduaneiros arbitrários ou fictícios; reconhecendo que a base de valoração de mercadorias para fins aduaneiros deve ser tanto quanto possível o valor de transação das mercadorias a serem valoradas; reconhecendo que o valor aduaneiro deve basearse em critérios simples e equitativos condizentes com as práticas comerciais e que os procedimentos de valoração devem ser de aplicação geral, sem distinção entre fontes de suprimento; reconhecendo que os procedimentos de valoração não devem ser utilizados para combater o dumping; acordam...” (grifos nossos). No corpo do acordo podem ainda ser apontados outros “princípios”, como o da leal concorrência, derivado do artigo 1º, pelo qual o valor aduaneiro deve ter como base um preço representativo de uma operação normal, não afetada por vínculos entre vendedor e Fl. 17938DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.935 8 comprador; o da compatibilização entre o sigilo das informações de caráter confidencial fornecidas pelo importador e a publicidade das regras e critérios utilizados para valoração aduaneira, previstos, respectivamente, nos artigos 10 e 12 do AVA/GATT, e o do direito de informação, previsto no artigo 16 do acordo, por meio do qual o importador tem direito de receber, por escrito, após solicitação, uma explicação da Aduana sobre como foi determinado o valor aduaneiro das mercadorias por ele importadas. Ademais, no Anexo I do AVA figuram as Notas Interpretativas do acordo, que o integram, conforme artigo 14, contendo explicações e exemplos para facilitar sua aplicação. O Anexo II detalha disposições sobre o Comitê Técnico de Valoração Aduaneira (CTVA, ou “Comitê de Valoração de Bruxelas”), sob os auspícios do CCA/OMA, com a finalidade de conseguir, no nível técnico, uniformidade na interpretação e aplicação do acordo, podendo, o CTVA, emitir Opiniões Consultivas, Comentários e Notas Explicativas. Tal comitê foi criado pelo artigo 18 do AVAGATT. Compreendido o Acordo em visão sistêmica, há que se entender que os royalties e direitos de licença, qualquer que seja a denominação que lhes dê a legislação nacional (direitos, taxas, gravames, cânones...), devem ser acrescentados ao preço pago ou a pagar, para fins de valoração aduaneira, caso devam ser pagos pelo comprador, direta ou indiretamente, e constituam uma condição de venda das mercadorias. No caso em análise, a recorrente paga royalties às empresas licenciantes das marcas de roupas que serão fabricadas (na hipótese por terceiros no exterior) e os paga conforme disposto nos contratos, longamente dissecados no TVF e na decisão recorrida. Certo que não pagos esses royalties, todos indiretamente e de diferentes formas contratas com as diferentes licenciantes, haverá proibição de venda, e até mesmo, em certos casos, de distribuição/destruição das mercadorias. Igualmente, todos fabricantes no exterior, quer tenham eles vínculos com a importadorarecorrente ou não, estarão sujeitos, na forma contratada, à supervisão das licenciantes sob pena de variadas sanções. Assim, como pontuado, a questão posta a nosso julgamento é identificarmos, então, se o pagamento desses royalties são uma condição de venda, daí a ensejar o acréscimos daqueles na valoração aduaneira. E a interpretação do que seja uma condição de venda, por óbvio, não pode ser tão simples a ponto de que seja necessário que conste literalmente de contrato entre as partes, individualizadamente. A recorrente defende que há duas relações jurídicas distintas; uma com as licenciantes e outra com os fabricantes no exterior. Contudo, ao fazer tal afirmação, que não é falsa, se esquece que nos contratos que ela fez com as licenciantes é dado amplo, vasto direito de interferência da licenciante em relação à fabricação dos produtos, até mesmo veto de fabricante, escolha específica de fabricante, supervisão da fabricação, vistoria por designer apontado pela licenciante, etc. Dessarte, dúvida não resta que embora distintas as partes dos contratos, eles se imbricam de modo a interferirem os licenciantes diretamente na fabricação das roupas pelos fabricantes no exterior. Em consequência, afasto o argumento da recorrente quanto à necessidade de que os pagamentos de royalty estejam diretamente relacionados com os valores objeto de compra e venda. Há várias opiniões consultivas em sentido contrário. A fiscalização e a DRJ concluíram que a expressão “condição de venda” vem sendo entendida pela Comissão como circunstância apta a afetar a vontade do vendedor em realizar a transação comercial. As Opiniões Consultivas 4.1 e 4.11 reconheceram o pagamento dos royalties como condição de venda em situações em que as partes fabricante e licenciante eram pessoas jurídicas distintas e independentes. Fl. 17939DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.936 9 Sem embargo, da análise da legislação, podemos afirmar que os royalties somente comporão o valor aduaneiro se ocorrerem cumulativamente as seguintes condições: a) os valores pagos a título de royalties forem relativos às mercadorias objeto de valoração; b) o comprador tiver que pagálos, direta ou indiretamente, como uma condição de venda; c) os valores de royalties não estiverem incluídos no preço pago ou a pagar. Inconteste, nos contratos analisados, que restou caracterizado pela fiscalização que os royalties pagos pela impugnante são relativos às mercadorias objeto das autuações que compõem este processo. Para elucidar a questão de se os royalties pagos foram condição de venda nos contratos com as licenciantes, devese analisar as opiniões consultivas emitidas pelo Comitê Técnico de Valoração Aduaneira da Organização Mundial do Comércio, que, como pontuado alhures, são parte do AVAGATT, pois, em que pese o título de “opiniões consultivas”, as mesmas compõem a legislação tributária, por força do artigo 1º da Instrução Normativa SRF nº 318 de 04 de abril de 2003. Passando à análise das opiniões consultivas, vale destacar que elas foram emitidas de acordo com contextos bem específicos, portanto, merecendo o devido cuidado em sua reprodução e aplicação a outros casos Por outro lado, a partir delas podese verificar a linha de raciocínio que o comitê aplica para caracterizar a condição de venda. Opinião consultiva 4.1: 1. Quando uma máquina, fabricada segundo um processo patenteado, for vendida para exportação para o país de importação por um preço que não compreende o direito da patente, que o importador, segundo as instruções do vendedor, deva pagar a um terceiro, titular da patente, o royalty deve ser adicionado ao preço pago ou a pagar com base no disposto no Artigo 8.1 c ) do Acordo? 2. O Comitê Técnico de Valoração Aduaneira expressou a seguinte opinião: O royalty deve ser acrescido ao preço efetivamente pago ou a pagar, de conformidade com o disposto no Artigo 8.1 c), posto que o pagamento do royalty pelo comprador está relacionado com as mercadorias objeto de valoração e constitui uma condição de venda dessas mercadorias. Neste caso, o comitê entendeu que o fato do comprador pagar direitos de royalties em função das instruções do vendedor, mesmo este não sendo o detentor dos direitos, constitui uma condição de venda. Ou seja, para que o vendedor realize a transação comercial, este exige que sejam pagos o royalties para terceira pessoa detentora destes direitos. Portanto, o comitê considera que mesmo sendo pessoa diversa do detentor dos direitos de royalties, o vendedor, ao exigir que seja feito este pagamento, estabeleceu Fl. 17940DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.937 10 uma condição para que a venda fosse realizada, isto é, o comitê utiliza a seguinte linha de raciocínio: se os royalties não fossem pagos, em tese, a vontade do vendedor em concluir a transação comercial seria afetada, constituindo, assim, uma verdadeira condição de venda. Opinião consultiva 4.11: 1. O fabricante M de vestimentas esportivas e o importador I são ambos vinculados à matriz C, que possui os direitos de uma marca registrada afixada nessas vestimentas. O contrato de venda entre M e I não prevê o pagamento de royalty. Entretanto, I é obrigado a pagar um royalty a C, em virtude de um acordo distinto com este celebrado, para a obtenção do direito de uso da marca registrada afixada nas vestimentas que I adquiriu de M. O pagamento do royalty constitui uma condição de venda e está relacionado com os artigos de vestuário esportivos importados? 2. O Comitê Técnico de Valoração Aduaneira emitiu a seguinte opinião: O contrato de venda entre M e I, cobrindo as mercadorias objeto da marca registrada, não contém cláusula que imponha expressamente o pagamento de um royalty. Entretanto, o pagamento em questão é uma condição de venda, uma vez que I é obrigado a pagar o royalty à matriz em razão da compra das mercadorias. I não está autorizado a utilizar a marca registrada sem o pagamento do royalty. A inexistência de contrato escrito com a matriz não anula a obrigação que I tem de efetuar o pagamento por ela exigido. Pelas razões expostas, o pagamento pelo direito de uso da marca referese às mercadorias objeto de valoração e a quantia correspondente deve ser acrescida ao preço efetivamente pago ou a pagar Nesta hipótese, o comitê entendeu que, apesar do pagamento dos royalties se dar em função de contrato diverso ao de venda, a existência de vinculo entre as partes é relevante, e acaba por determinar o acréscimo ao valor da transação. Em outras palavras, a vinculação entre as partes daria condições, para que, mesmo indiretamente, o detentor da licença pudesse impedir a venda, sob pena de ter o seu direito ao recebimento dos royalties frustrado. Ou seja, o pagamento ou não dos royalties afetaria, em tese, a vontade do vendedor (mesmo que indiretamente) em concluir a transação comercial, sendo por isso caracterizada a condição de venda. Sendo assim, a caracterização da condição de venda se dá pela analise das relações jurídicas estabelecidas entre as partes (detentor da marca, importador, vendedor, fabricante ) para que se afira se existe algum elemento que implique a seguinte questão: se os royalties não forem pagos, em tese, a vontade do vendedor em realizar a transação comercial será afetada? Pois bem, das análise feitas, quer pelo agente fiscal (fls. 2869/2910) quer pelo decisum a quo (fls. 17715/17729), que não reproduzo por desnecessário, mas que as tomo como razões de decidir (nos termos do § 1º do art. 50 da Lei 9.784/99), estreme de dúvidas que Fl. 17941DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.938 11 o pagamento dos royalties é condição de venda em todos os contratos que deram azo à presente exação, embora sob diferentes formas, pois avençados casuisticamente. Da análise da documentação apresentada pela C&A e das informações contidas nas declarações de importação (DI), concluise que as mercadorias importadas têm seus direitos autorais, quanto a desenhos e arte final, pertencentes a empresas sediadas no exterior, as quais cobram da C&A royalties pagos pela concessão da licença para produzir e comercializar mercadorias. Verificase ainda que as mercadorias são fabricadas por uma terceira empresa, também sediada no exterior, devidamente autorizada pela detentora dos direitos autorais. Para cada um dos contratos analisados, o produtor/fabricante da mercadoria deve ser informado à licenciante (dona da marca), com vistas a obter sua aquiescência. Do teor dos contratos, depreendese que são rígidos os controles que o dono da marca estabelece, mostrandose bastante rigoroso o processo de aprovação de um dado fabricante. Temse, assim, evidenciada a correlação entre licenciante e fabricante, ou seja, não é possível afirmar que o contrato de uso da marca é totalmente dissociado do contrato para fabricação das mercadorias (peças de vestuário, acessórios, etc). Sendo assim, correta a exigência fiscal ao incluir no valor aduaneiro os valores pagos a título de royalties. Nesse sentido, já se manifestou a CSRF em caso semelhante, consoante Acórdão 9303003.466, de 24/02/2016. Também não há que se falar em bitributação, tendo em conta o argumento da recorrente que ela já pagou o IRRF quando do envio dos royalties, porque se tratam de fatos geradores distintos, com hipóteses de incidência díspares, pelo que afasto tal articulação. A MULTA REGULAMENTAR Em relação à aplicação da multa regulamentar a que se refere o art. 84 da MP 2.15835/2001, a irresignação da recorrente (tópico II.vi do recurso) cingese ao argumento de que a mesma "toma como base valor que não o do crédito tributário exigido, mas sim a base de cálculo dos tributos (valor aduaneiro), resultando em montante praticamente 30 % superior ao montante de tributos exigidos pela Fiscalização" para concluir que a mesma tem natureza confiscatória, não adentrando no mérito da autuação. Assim, para análise do único fundamento recursal que afrontou a referida multa teríamos que adentrar no mérito da constitucionalidade do art. 84 da MP 2.15835/2001, o que é vedado aos julgadores no âmbito administrativo. No caso do CARF, em específico, a matéria encontrase sumulada. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Destarte, resta mantida a multa regulamentar aplicada. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO Fl. 17942DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.939 12 Nesse ponto, adoto o entendimento inserto no Acórdão 9303002.399, da 3ª Turma da CSRF, julgado em 15/03/2013. Repiso o voto do relator, Henrique Pinheiro Torre, vazado nos seguintes termos, o qual tomo como fundamento de decidir. A obrigação tributária principal, como é de conhecimento de todos, surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto o pagamento do tributo ou de penalidade pecuniária, e extinguese com o crédito dela decorrente. Essa é a dicção do § 1º do 1art. 113 do CTN. Ao seu turno o art. 139 do CTN dispõe que o crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. Do cotejo desses dispositivos legais, concluise, sem qualquer margem à dúvida, que o crédito tributário inclui tanto o valor do tributo quanto o da penalidade pecuniária, visto que ambos constituem a obrigação tributária, a qual tem a mesma natureza do crédito a ela correspondente. Um é a imagem, absolutamente, simétrica do outro, apenas invertida, como ocorre no reflexo do espelho. Olhandose do ponto de vista do credor (pólo ativo da relação jurídica tributária, verseá o crédito tributário; se se transmutar para o pólo oposto, que se verá será, justamente, o inverso, uma obrigação. Daí o art. 139 do CTN declarar expressamente que um tem a mesma natureza do outro. Assim, como o crédito tributário correspondente à obrigação tributária e esta é constituída de tributo e de penalidade pecuniária, a conclusão lógica, e a única possível, é que a penalidade é crédito tributário. Estabelecidas essas premissas, o próximo passo é verificar o tratamento dispensado pela Legislação às hipóteses em que o crédito não é liquidado na data de vencimento. Primeiramente, temse a norma geral estabelecida no Código Tributário Nacional, mais precisamente no caput do 3art. 161, o qual dispõe que, o crédito não integralmente pago no vencimento será acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta. Essa norma geral, por si só, já seria suficiente para assegurar a incidência de juros moratórios sobre multa não paga no prazo de vencimento, pois disciplina especificamente o tratamento a ser dado ao crédito não liquidado no tempo estabelecido pela legislação tributária, mas o legislador ordinário, para não deixar margem à interpretação que discrepasse desse entendimento, foi preciso ao estabelecer que o crédito decorrente de penalidades que não forem pagos no respectivo vencimento estarão sujeitos à incidência de juros de mora. Essa previsão consta, expressamente, do art. 43 da Lei 9.430/1996, que se transcreve linhas abaixo. Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Fl. 17943DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.940 13 Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Da leitura do dispositivo acima transcrito, concluise, facilmente, sem necessidade de se recorrer a Hermes ou a uma Pitonisa, que o crédito tributário, relativo à penalidade pecuniária, constituído de ofício, não pago no respectivo vencimento, fica sujeito à incidência de juros moratórios, calculados à taxa Selic, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento Em síntese, temse que o crédito tributário, quer se refira a tributo quer seja relativo à penalidade pecuniária, não pago no respectivo vencimento, fica sujeito à incidência de juros de mora, calculado à taxa Selic, a partir do primeiro dia do mês subsequente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento Para eliminar quaisquer dúvidas que ainda restassem, o Superior Tribunal de Justiça já pacificou o entendimento sobre a matéria, conforme AgRg no REsp 1.335.688PR, julgado em 04/12/2012: EMENTA: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: "É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário." (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. 2. Agravo regimental não provido. Embora o caso paradigmático aresto tratasse de exação de tributo estadual, asseverou o Ministro relator do Agravo: Nos termos da jurisprudência pacífica do STJ, o crédito tributário compreende a multa pecuniária, o que legitima a incidência de juros moratórios sobre a totalidade da dívida. Assim, devem ser mantidos os juros de mora sobre a multa de ofício. Essa é a remansosa jurisprudência da 3ª Turma da CSRF. CONCLUSÃO Fl. 17944DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.941 14 Diante do exposto, nego provimento ao recurso voluntário. assinado digitalmente Jorge Olmiro Lock Freire Declaração de Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Peço vênia ao Ilustre Relator para, a despeito das considerações versadas em seu voto, apresentar e fundamentar minha divergência, contribuindo para a construção do entendimento deste Colegiado. O cerne da divergência instaurada nesse voto diz respeito à possibilidade ou não da inclusão do valor pago a título de royalties no valor aduaneiro correspondente às importações efetuadas pela Recorrente. O Valor Aduaneiro (ou para fins alfandegários) é estabelecido, originalmente, no Artigo VII do GATT, e regulamentado através do Acordo de Valoração Aduaneira (AVA GATT), ao determinar, em regra, que "1.O valor aduaneiro de mercadorias importadas será o valor de transação, isto é, o preço efetivamente pago ou a pagar pelas mercadorias em uma venda para exportação para o país de importação". Sobre isso, foi pontuado com precisão pelo Cons. Rosaldo Trevisan no acórdão CARF nº 3401003.194, que essa matéria é objeto de tratado internacional, não podendo ser objeto de interpretação à luz de conceitos hauridos da legislação e doutrina pátrias é dizer, o AVAGATT não pode ter seu alcance e conteúdo alterado unilateralmente pelo Estado Brasileiro, sendo vedado o treaty override por força do art. 26 da Convenção de Viena. Como pontua Mazzuoli: Vige aqui a regra pacta sunt servanda, universalmente reconhecida como norteadora dos compromissos exteriores do Estado, e expressamente estabelecida pelo art. 26 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados de 1969, segundo a qual todo tratado em vigor ‘obriga as partes e deve ser cumprido por elas de boa fé. (MAZZUOLI, Valério de Oliveira. Curso de Direito Internacional Público, 7 ed.. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2012, p.397) Desse modo, o conceito de "valor aduaneiro" no Brasil não pode ser diferente daquele praticado na França, na Argentina ou na Inglaterra pelo contrário, deve haver uma uniformidade conceitual entre os países signatários do GATT, de modo que o seu sentido deve Fl. 17945DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.942 15 ser construído à partir deste tratado e do Acordo de Valoração Aduaneira, bem como nas notas interpretativas, pareceres e comentários elaborados pelo Comitê Técnico de Valoração Aduaneira (criado pelo art. 18 do AVAGATT), que correspondem às orientações oficiais sobre a matéria. Esse Acordo, inclusive, deixa claro em sua "Introdução Geral" os princípios que devem orientar o estabelecimento do valor aduaneiro: Os Membros, Tendo em vista as negociações comerciais Multilaterais; Desejando promover a consecução dos objetivos do GATT 1994 e assegurar vantagens adicionais para o comércio internacional dos países em desenvolvimento; Reconhecendo a importância das disposições do Artigo VII do GATT 1994 e desejando elaborar normas para sua aplicação com vistas a assegurar maior uniformidade e precisão na sua implementação; Reconhecendo a necessidade de um sistema eqüitativo, uniforme e neutro para a valoração de mercadorias para fins aduaneiros, que exclua a utilização de valores aduaneiros arbitrários ou fictícios; Reconhecendo que a base de valoração de mercadorias para fins aduaneiros deve ser tanto quanto possível o valor de transação das mercadorias a serem valoradas; Reconhecendo que o valor aduaneiro deve basearse em critérios simples e eqüitativos condizentes com as práticas comerciais e que os procedimentos de valoração devem ser de aplicação geral, sem distinção entre fontes de suprimento; Reconhecendo que os procedimentos de valoração não devem ser utilizados para combater o dumping; Acordam o seguinte: Um dos principais princípios orientadores do AVAGATT é o da livre concorrência e proibição de discriminação no âmbito do comércio internacional, estabelecendo um tratamento uniforme e neutro para as operações de compraevenda nesse mercado, como forma de promover a redução de barreiras para importações e exportações. Desse modo, é preciso que o estabelecimento do valor aduaneiro não influencie a opção econômica entre a aquisição de um produto de estabelecimento no exterior ou no mercado nacional e tampouco deve ser utilizado como instrumento antidumping, sob pena de desvio de finalidade desse conceito. Um segundo princípio importante é o da aproximação com o valor da transação, estabelecendo assim que todos os acréscimos e reduções devam ser tratados como excepcionais. Como explica Tejada, o preço do contrato real não é o normal ou o valor aduaneiro, mas sim o ponto de partida para a sua determinação, podendo passar por acréscimos Fl. 17946DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.943 16 e diminuições na sua apuração, de acordo com a legislação vigente (TEJADA, Henrique Wills. Valor Aduaneiro Coleção Gerson Augusto da Silva. Brasília: ESAF, 1983, p.5758). Naturalmente, há diversas regras no AVAGATT acerca da composição do valor aduaneiro, fugindo muito do escopo deste voto a análise ampla desses elementos. Interessa aqui, especificamente, o Artigo VIII desse acordo, que trata de montantes que deverão ser acrescentados ao valor pago ou a pagar, para a composição final: Artigo 8 1.Na determinação do valor aduaneiro, segundo as disposições do Artigo 1, deverão ser acrescentados ao preço efetivamente pago ou a pagar pelas mercadorias importadas: (a) os seguintes elementos na medida em que sejam suportados pelo comprador mas não estejam incluídos no preço efetivamente pago ou a pagar pelas mercadorias: (i) comissões e corretagens, excetuadas as comissões de compra; (ii) o custo de embalagens e recipientes considerados, parafins aduaneiros, como formando um todo com as mercadorias em questão; (iii) o custo de embalar, compreendendo os gastos com mãodeobra e com materiais. (b) o valor devidamente atribuído dos seguintes bens e serviços, desde que fornecidos direta ou indiretamente pelo comprador, gratuitamente ou a preços reduzidos, para serem utilizados na produção e na venda para exportação das mercadorias importadas e na medida em que tal valor não tiver sido incluído no preço efetivamente pago ou a pagar: (i) materiais, componentes, partes e elementos semelhantes incorporados às mercadorias importadas; (ii) ferramentas, matrizes, moldes e elementos semelhantes empregados na produção das mercadorias importadas; (iii) materiais consumidos na produção das mercadorias importadas; (iv) projetos da engenharia, pesquisa e desenvolvimento, trabalhos de arte e de design e planos e esboços necessários à produção das mercadorias importadas e realizados fora do país de importação. (c) royalties e direitos de licença relacionados com as mercadorias objeto de valoração que o comprador deve pagar, direta ou indiretamente, como condição de venda dessas mercadorias, na medida em que tais royalties e direitos de licença não estejam incluídos no preço efetivamente pago ou a pagar; (d) o valor de qualquer parcela do resultado de qualquer revenda, cessão ou utilização subseqüente das mercadorias importadas que reverta direta ou indiretamente ao vendedor. (...) 4.Na determinação do valor aduaneiro, nenhum acréscimo será feito ao preço efetivamente pago ou a pagar se não estiver previsto neste Artigo. Fl. 17947DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.944 17 Mais especificamente, são pertinentes para o presente caso o item "1.c" e "4": 1.Na determinação do valor aduaneiro, segundo as disposições do Artigo 1, deverão ser acrescentados ao preço efetivamente pago ou a pagar pelas mercadorias importadas: (...) (c) royalties e direitos de licença relacionados com as mercadorias objeto de valoração que o comprador deve pagar, direta ou indiretamente, como condição de venda dessas mercadorias, na medida em que tais royalties e direitos de licença não estejam incluídos no preço efetivamente pago ou a pagar; (...) 4.Na determinação do valor aduaneiro, nenhum acréscimo será feito ao preço efetivamente pago ou a pagar se não estiver previsto neste Artigo. Como se vê da literalidade do item "1.c", a inclusão dos royalties no valor aduaneiro se dá exclusivamente (por força do item 4, que estabelece o caráter numerus clausus desse rol de acréscimos) nas hipóteses em que esse pagamento seja condição de venda dessas mercadorias. Além disso, outra condição da inclusão é que os royalties não estejam incluídos no preço pago ou a pagar o que é óbvio, sob pena de se pagar duas vezes o mesmo valor. É dizer, a regra se aplica aos casos em que o fornecedor não tenha embutido no preço da mercadoria o custo correspondente aos royalties (a exemplo dos casos em que o fabricante seja, também, o detentor da propriedade intelectual sobre determinada marca utilizada no produto que produz). Por fim, exigese também que o comprador (importador) seja o devedor dos royalties, que podem ser pagos direta ou indiretamente. Quanto aos dois primeiros itens, parecenos que não há grandes problemas, já que dizem respeito à composição do preço contratualmente estipulado, que pode ou não incluir os royalties devidos também ao fabricante, e o pagamento dos mesmos por parte do importador. O maior problema parece ser determinar se o pagamento dos royalties, de forma direta ou indireta, é condição de venda das mercadorias. Por força do art. 109 do Código Tributário Nacional, é necessário recorrer ao conceito de condição existente no Direito Privado, versado expressamente no art. 121 do Código Civil, nos seguintes termos: Art. 121. Considerase condição a cláusula que, derivando exclusivamente da vontade das partes, subordina o efeito do negócio jurídico a evento futuro e incerto. Portanto, para que o pagamento de royalties seja tratado como condição da venda, é preciso que haja uma cláusula contratual entre o importador o e exportador que subordine o efeito translativo do negócio jurídico de compraevenda a este evento. Essa é a definição de condição. Nesse ponto, é pacífico no trabalho fiscal que não há nos contratos efetuados com os fornecedores qualquer exigência do pagamento de royalties. É preciso que se deixe absolutamente claro o que se refere por "venda" n a expressão "condição de venda". Verificando a operação do contribuinte, temse o seguinte gráfico de fls. 17.666: Fl. 17948DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.945 18 Como se vê, há três momentos diferentes: I) o contrato de licenciamento entre a Recorrente e os licenciantes; II) o contrato de fornecimento entre os fabricantes e a Recorrente; e, por fim, III) o fornecimento de mercadorias da Recorrente para os varejistas brasileiros. Desses três momentos, apenas dois deles envolvem operações de venda: II e III. Todavia, quando se fala em "condição de venda" no AVAGATT, estáse a referir à operação II, visto que se trata de uma operação de comércio internacional e, portanto, sujeita à regulamentação específica desse acordo. A venda interna não possui o valor aduaneiro, para fins tributários, de modo que a etapa III é irrelevante para a verificação das condições de inclusão ou não dos royalties no valor aduaneiro praticado na etapa anterior. Sobre isto, aduziu o relator que: Com efeito, para fins de valoração aduaneira, é imperativo perquirir se o pagamento destes royalties ou direitos de licença constitui condição para a produção ou a aquisição dos produtos objeto de importação. Ou seja, é preciso saber se esses royalties ou direitos de licença estão intrínseca e indissociavelmente ligados à possibilidade da comercialização dessas mercadorias no país de importação. Fl. 17949DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.946 19 Com a devida vênia, pareceme haver um salto lógico entre o pagamento dos royalties ser condição da importação (aquisição no mercado internacional) e a necessidade de pagamento deles para a comercialização no país que importou (venda no mercado nacional). Essa distinção, inclusive, restou esclarecida cabalmente na Nota Explicativa ao item 8.1 c) do AVAGATT, elaborada pela Organização Mundial de Aduanas OMA (World Customs Organization): Paragraph 1 (c) 1. The royalties and licence fees referred to in paragraph 1 (c)of Article 8 may include, among other things, payments in respect to patents, trademarks and copyrights. However, the charges for the right to reproduce the imported goods in the country of importation shall not be added to the price actually paid or payable for the imported goods in determining the Customs value. 2. Payments made by the buyer for the right to distribute or resell the imported goods shall not be added to the price actually paid or payable for the imported goods if such payments are not a condition of the sale for export to the country of importation of the imported goods. (WORLD CUSTOMS ORGANIZATION. Brief Guide to the Customs Valuation Agreement, 3ª ed. Bruxelas: WCO, 1996, p.26) Em tradução livre: Parágrafo 1 (c): 1. Os royalties e direitos de licença referidos no parágrafo 1(c) do Artigo 8 podem influir, entre outras coisas, pagamentos relativos a patentes, marcas e direitos autorais. Entretanto, as cobranças pelo direito de reproduzir os bens importados no pais da importação não devem ser adicionados ao preço efetivamente pago ou a pagar pelos bens importados na determinação do Valor Aduaneiro. 2. Pagamentos feitos pelo comprador pelo direito de distribuir ou revender os bens importados não devem ser adicionados ao preço pago ou a pagar pelos bens importados, se esses pagamentos não foram condição da venda para exportação para o país da importação dos bens importados. Como se vê, o fato dos royalties serem devidos ao titular da marca para que os bens importados seja distribuídos ou revendidos no mercado nacional não devem ser incluídos no valor aduaneiro na importação. Essa conclusão é de uma simplicidade franciscana: eles não são condição da importação do bem, mas sim exigência legal para a distribuição do bem no território nacional a Lei nº 9.279/96 enuncia diversos tipos penais para aqueles que utilizem marcas, desenhos industriais, patentes etc., sem a autorização dos titulares desses direitos, a exemplo dos seus arts. 189 e 190: CAPÍTULO III DOS CRIMES CONTRA AS MARCAS Art. 189. Comete crime contra registro de marca quem: I reproduz, sem autorização do titular, no todo ou em parte, marca registrada, ou imitaa de modo que possa induzir confusão; ou II altera marca registrada de outrem já aposta em produto colocado no mercado. Fl. 17950DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.947 20 Pena detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa. Art. 190. Comete crime contra registro de marca quem importa, exporta, vende, oferece ou expõe à venda, oculta ou tem em estoque: I produto assinalado com marca ilicitamente reproduzida ou imitada, de outrem, no todo ou em parte; ou II produto de sua indústria ou comércio, contido em vasilhame, recipiente ou embalagem que contenha marca legítima de outrem. Pena detenção, de 1 (um) a 3 (três) meses, ou multa. A conclusão é matemática e, se formulada silogisticamente, evidencia a situação: I) Todas as vendas lícitas de produtos com marca, no mercado nacional, estão condicionadas à autorização do titular da marca (art. 189 da Lei nº 9.279/96). II) Todas as autorizações dos titulares das marcas (conforme contratos dos autos) tem como condição o pagamento de royalties. III) Ergo todas as vendas lícitas de produtos com marca, no mercado nacional, tem como condição o pagamento de royalties. Ora, resta absolutamente claro que o pagamento dos royalties ao licenciante é condição de venda da mercadoria no mercado interno, nada tendo a ver com o valor aduaneiro a ser calculado, mas sim o a precificação do produto no âmbito nacional. Na linha do comentário da OMA mencionado acima, esses pagamentos não são condição da importação, mas apenas da venda interna, o que corrobora a não inclusão dos royalties no valor aduaneiro. Mais ainda, a Instrução Normativa SRF nº 318/2003 internalizou no Direito Brasileiro diversos atos normativos proferidos pela OMA, dentro os quais uma série de opiniões consultivas que versam sobre a inclusão ou não de royalties no valor aduaneiro e que, conquanto casuísticas, devem ser analisadas com a finalidade de identificar parâmetros gerais de identificação. É o que tentaremos fazer na planilha a seguir Opinião Consultiva Produto Importado Pagamento dos royalties/licença Vinculação Resultado 4.1 Máquina produzida por um processo patenteado. Instrução do vendedor para pagar ao titular da patente os royalties. irrelevante Inclusão 4.2 Discos fonográficos com obra musical Após a venda dos discos no mercado nacional, em decorrência da legislação nacional, os royalties são pagos ao titular do direito autoral Não há vinculação nenhuma entre o detentor do direito autoral e o fabricante. Não inclusão Fl. 17951DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.948 21 4.3 Máquina idealizada especialmente para processo patenteado. Pagamento em contrato separado da máquina. Não há vinculação nenhuma entre o detentor do direito autoral e o fabricante. Não inclusão 4.4 Concentrado patenteado para ser diluído e vendido no mercado nacional Pagamento na compra, também para o fabricante o fabricante é o detentor da patente Inclusão 4.5 Ingredientes essenciais de cosmético com marca registrada. Pagamento de royalties sobre o volume de venda, para o fabricante o fabricante é o detentor da marca Inclusão 4.6 Concentrado de bebidas que pode ser diluído e vendido com ou sem a marca registrada do fabricante Pagamento de royalties sobre o volume de venda com a utilização da marca registrada. o fabricante é o detentor da marca Inclusão apenas sobre a parcela vendida com a marca. 4.7 Discos fonográficos importados de gravadora que possui contrato com o detentor dos direitos autorais (ambos no mesmo país). Pagamento sobre o volume de vendas, à gravadora, que paga posteriormente ao detentor os royalties dos direitos autorais. a gravadora e o artista possuem um contrato prévio de exploração da obra musical. Inclusão. 4.8 Sapatos fabricados no exterior por terceiro, mediante arte e design fornecidos pelo titular da licença. Pagamento ao titular da licença sobre o volume de vendas. Não há vinculação entre o fabricante, o importador e o titular da licença Não inclusão 4.9 Antiflamatório não patenteado importado para a fabricação de uma preparação veterinária, com exploração da patente e marca no fabrico e venda. Pagamento de royalties para remunerar o uso da marca e da patente no mercado nacional. O exportador é o detentor da marca. Não inclusão, pois a utilização da marca e da patente registrada não está vinculada às mercadorias objeto de valoração. 4.10 Objetos de vestuário fabricados pelo detentor da marca. Pagamento dos royalties sobre o valor de venda, separado do preço das mercadorias. O fabricante é o detentor da marca. Inclusão 4.11 Vestimentas esportivas, na qual o importador e o fabricante são PJs vinculadas à matriz, detentora dos direitos de marca. Pagamento de royalties à matriz sobre o volume de vendas. O fabricante, o importador e o detentor da marca são vinculados. Inclusão. 4.12 Equipamento de moagem com tecnologia incorporada que envolve processo patenteado. Pagamento de royalties é feito diretamente ao fabricante, que remete a totalidade ao titular da patente. Irrelevante. Inclusão Fl. 17952DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.949 22 4.13 Sacolas esportivas do fabricante, com a afixação de etiquetas com a marca X, de titularidade de empresa vinculada ao importador. Pagamento direto dos royalties à titular. O importador e o proprietário da marca são vinculados, mas ambos não tem relação com o fabricante. Não Inclusão. Analisando a planilha elaborada, verificase que um elemento comum de todos os casos em que a OMA entendeu que não se incluem os royalties no valor aduaneiro é o fato do detentor da licença ou patente ser desvinculado do fabricante vejase, por exemplo, que na Opinião 4.13 havia vinculação entre o detentor da licença e o importador, mas ambos eram desvinculados do fabricante/exportador, e ainda assim determinouse a não inclusão dos royalties. A única exceção fica por conta da Opinião 4.9, mas pela simples razão do produto importado ser um insumo comum, referindose os royalties pagos à utilização de processo fabril para a produção e comercialização de um produto industrializado, é dizer, os royalties não tem qualquer relação com a aquisição do bem. Da mesma forma, outro elemento comum a todas as Opiniões Consultivas da OMA sobre a matéria dizem respeito ao pagamento dos royalties: em todos os casos de não inclusão, os royalties são pagos diretamente ao titular da licença ou direito, através de contrato próprio, e não através do fabricante ou por meio de instrução dele. Portanto, dois critérios podem ser abduzidos das soluções dadas pela OMA, para a não inclusão dos royalties no valor aduaneiro: I) o detentor da licença deve ser pessoa distinta e desvinculada do fabricante; II) o pagamento dos royalties deve se dar diretamente ao titular do direito, através de contrato próprio, sem qualquer instrução do fabricante. A Fiscalização menciona também a Opinião Consultiva nº 4.15, que foi emitida na 36ª Sessão do Comitê Técnico de Valoração Aduaneira da Organização Mundial do Comércio, realizada em 2013, e que ainda não consta no anexo único da Instrução Normativa SRF nº 318/2003. O texto pode ser obtido por meio do site da Organização Mundial de Comércio, e é transcrito abaixo: “ADVISORY OPINION 4.15 ROYALTIES AND LICENCE FEES UNDER ARTICLE 8.1 (c) OF THE AGREEMENT 1. Importer I of country S enters into a licence agreement with licensor L established in country R under which I is required to pay to L, for the right to use its trademark in connection with manufacture and importation of the goods, a royalty consisting of a fixed percentage calculated on the net income obtained by I from sales in country S of the products bearing such trademark. In the event that I fails to pay L the royalty, L will have the right to terminate the licence agreement. L and I are related under the terms of the Valuation Agreement. Additionally, L has signed a supply agreement with company M of country X in order for M to manufacture the goods bearing its trademark and then to sell them to I. Under this agreement, M must follow the specifications relating to quality, design and Fl. 17953DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.950 23 technology provided by L. The agreement specifically states that M undertakes to produce and to sell products with this trademark exclusively to I or to other companies determined by L. Company M is not related to L or to I. I enters into a sales contract with M under which M sells to I goods bearing the trademark of L. There is no requirement in that contract to pay the corresponding royalty. The price actually paid by I to M for the imported goods does not include the royalty payable from I to L. Is the payment of the royalty from importer I to licensor L a condition of sale of the goods that I purchases from supplier M, and is this royalty related to the goods being valued? 2. The Technical Committee on Customs Valuation expressed the following view. Since the goods imported by I bear the trademark of L, it can be stated that the royalties in question are related to the goods being valued. Furthermore, in this case, pursuant to the supply agreement, L controls the production relating to the goods bearing its trademark by authorizing the manufacture of the licensed goods, determining which companies M may sell to, and directly providing the designs and technology for manufacturer M. Since L authorizes I to use the trademark in connection with the manufacture and importation of the goods pursuant to the provisions of the license agreement, L further influences and controls the transaction between M and I by selecting what party may use the trademark and purchase the imported goods. The sales contract between M and I does not contain any clause requiring payment of a royalty. However, payment of the royalty is made as a condition of sale of the goods, because I would not be able to buy them if it failed to make that payment to L. Nonpayment of the royalty to L by I would cause not only the termination of the licence agreement but also the withdrawal of the authorization given to M to manufacture and sell to I the goods bearing such trademark. The royalties in question, therefore, should be added to the price actually paid or payable for the goods under Article 8.1(c) of the Agreement.” O caso tratado pela Opinião Consultiva nº 4.15 possui, de fato, diversas similaridades com os contratos realizados pela Recorrente, mas, como diversas vezes disse o fictício Sherlock Holmes, "os pequenos detalhes são sempre os mais importantes.". Atentemos, pois, aos pequenos detalhes dessa opinião: I) O licenciante (L) e o importador (I) são partes vinculadas; II) Há um contrato de fornecimento é assinado entre o licenciante (L) e o fabricante/exportador (M), através do qual o L determina expressamente para quem M poderá Fl. 17954DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.951 24 vender, incluindo aí o I e eventuais outros compradores. Somente após esse contrato entre L e M, que I poderá contratar com M a compraevenda das mercadorias. III) Através do contrato de suprimento, L controla a produção de M, através da autorização para que M manufature as peças com a marca, e também determinando para quem M poderá vender, além de fornecer diretamente os designs para M. IV) Como L autoriza I a utilizar a marca em relação à fabricação e à importação dos bens, em conformidade com as disposições do contrato de licença, L adicionalmente influencia e controla a transação entre M e I, selecionando as partes que podem utilizar a marca e comprar os bens importados. V) Mesmo que o contrato de compraevenda entre M e I não contenha a cláusula de pagamento dos royalties, esse pagamento é condição da exportação das mercadorias, já que a operação é controlada por L. Apesar das características desse caso analisado pela OMA, a conclusão pela inclusão dos royalties no valor aduaneiro não destoa dos critérios abduzidos pelos demais, casos, visto que resta caracterizado um controle do Licenciante sobre o fornecimento de mercadorias do Fabricante para o Importador controle esse que não decorre de vínculos societários, mas sim de contrato de fornecimento assinado entre Licenciante e Fabricante caracterizando assim a vinculação apta a alçar os royalties pagos à condição de importação das mercadorias. Nihil novi sub sole é a lição da Vulgata para a tentativa de apresentar esta Opinião Consultiva como inovadora e definitiva para o caso sob julgamento. Como se vê, sob a perspectiva das Opiniões Consultivas da OMA, é necessário que : I) o detentor da licença seja pessoa distinta e desvinculada (societariamente ou contratualmente) do fabricante; II) o pagamento dos royalties se dê diretamente ao titular do direito, através de contrato próprio, sem qualquer instrução ou exigência do fabricante. Vejamos agora o teor de algumas das Soluções de Consulta exaradas pela Receita Federal do Brasil, acerca do tema, e invocadas pela fiscalização no termo de verificação fiscal: “SOLUÇÃO DE CONSULTA DISIT/SRRF08 nº 483, de 18/12/2009 Assunto: Imposto sobre a Importação II VALOR ADUANEIRO. ROYALTIES RELATIVOS A USO DE MARCA E DIREITOS AUTORAIS. De acordo com o artigo 8, item 1(c), do Acordo de Valoração Aduaneira, promulgado pelo Decreto nº 1355, de 1994, na determinação do valor aduaneiro deve ser acrescentado ao preço efetivamente pago ou a pagar pelas mercadorias importadas o valor de royalties ou direitos de licença relacionados com as mercadorias objeto de valoração, desde que tais royalties devam ser pagos, direta ou indiretamente, como condição de venda dessas mercadorias no país de importação e na medida em que não estejam incluídos em seu preço. São passíveis de tal acréscimo os royalties devidos e Fl. 17955DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.952 25 pagos pelo importador a empresa VINCULADA sediada no exterior, em virtude de contrato com essa celebrado, relativos ao uso de marca e direitos autorais, sobre produtos importados para serem comercializados no Brasil, ainda que estes produtos não sejam importados daquela empresa, titular dos referidos direitos, mas, sim de outra EMPRESA DO MESMO GRUPO ECONÔMICO , portanto, também vinculada ao importador. Entendese que, nessas circunstâncias, os royalties a serem pagos constituem condição de venda das mercadorias, pois estão intrínseca e indissociavelmente ligados à possibilidade de sua comercialização no País, não podendo esta ocorrer sem o pagamento daqueles direitos, sem os quais, por conseguinte, é também inviável sua importação com o objetivo de prática da mercancia.” “SOLUÇÃO DE CONSULTA DISIT/SRRF10 nº 74, de 17/10/2011 Assunto: Imposto sobre a Importação II VALOR ADUANEIRO. ROYALTIES. DIREITOS DE LICENÇA. A base de cálculo do imposto de importação, quando a alíquota for ad valorem, corresponde ao valor aduaneiro apurado segundo as normas do Artigo VII do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio Gatt 1994. Na determinação do valor aduaneiro com base no método do valor de transação deverão ser acrescentados ao preço efetivamente pago ou a pagar pelas mercadorias importadas, entre outros elementos, os royalties e os direitos de licença relacionados com a mercadoria objeto de valoração, que o comprador deva pagar, direta ou indiretamente, como condição de venda dessa mercadoria, na medida em que tais valores não estejam incluídos no preço efetivamente pago ou a pagar. O valor de transação é o preço efetivamente pago ou a pagar pelas mercadorias, em uma venda para exportação para o país de importação, ajustado de acordo com as disposições do Artigo 8 do Acordo sobre a Implementação do Artigo VII do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio Acordo de Valoração Aduaneira (AVA/Gatt). O preço efetivamente pago ou a pagar compreende todos os pagamentos efetuados ou a efetuar, como condição de venda das mercadorias objeto de valoração, PELO COMPRADOR AO VENDEDOR, OU PELO COMPRADOR A TERCEIRO, PARA SATISFAZER UMA OBRIGAÇÃO DO VENDEDOR. Para fins de apuração do valor aduaneiro, deverá ser acrescentado ao preço efetivamente pago ou a pagar o valor dos bens e serviços fornecidos, direta ou indiretamente, pelo comprador, para serem utilizados na produção da mercadoria importada. Os bens e serviços, aqui referidos, compreendem, entre outros, os materiais, componentes, partes e elementos semelhantes incorporados à mercadoria, os materiais consumidos na produção e os projetos de engenharia, pesquisa e desenvolvimento, trabalhos de arte e de design, e planos e esboços, realizados no exterior.” Como podemos ver nos campos grifados, a primeira consulta (Solução de Consulta DISIT/SRRF08 nº 483, de 18/12/2009) diz respeito a hipóteses em que o licenciante, Fl. 17956DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.953 26 o importador e o fabricante são partes vinculadas, componentes de um mesmo grupo econômico, ao passo que a segunda consulta (Solução de Consulta DISIT/SRRF10 nº 74, de 17/10/2011) diz respeito à hipótese em que os royalties são pagos diretamente ao exportador ou pagos a terceiro, por exigência do exportador. Portanto, é absolutamente claro que os critérios elencados nas soluções de consulta da RFB se encontram alinhados com aqueles por nós apresentados, à partir da análise de todas as opiniões consultivas da OMA, a respeito do tema. Verificada a concordância da Receita Federal com os critérios apresentados anteriormente, cabe agora verificar como a matéria tem sido tratada no âmbito do CARF, haja vista que por se tratar de uma matéria que depende eminentemente do caso concreto, a simples leitura da ementa ou do dispositivo não permite a assunção de conclusões seguras a respeito. I) Acórdão CARF nº 3402002.444 (Caso Pirelli), julgado em Agosto de 2014. Nesse caso, a Pirelli Pneus Ltda. realizada duas operações distintas e independentes com a sociedade Pirelli Tyre S.P.A (estrangeira): a) o pagamento dos royalties que se referem à transferência de tecnologia e Knowhow necessários à fabricação dos pneumáticos que serão produzidos e comercializados pela recorrente no mercado nacional; e b) o pagamento pelos insumos (borracha) utilizados para fabricação dos produtos nacionalmente (insumos estes que também eram adquiridos de diversos outros fornecedores estrangeiros). No julgamento, verificouse que os royalties pagos não eram condição de venda dos insumos (que inclusive eram adquiridos de diversas pessoas distintas), mas sim condição da industrialização deles em território nacional, razão pela qual os mesmos não deveriam ser considerados como condição de venda e incluídos no valor aduaneiro. Tratase de um caso absolutamente similar à opinião consultiva 4.9 da OMA, haja vista que apesar do exportador ser também o licenciante, o knowhow cedido não tem qualquer vinculação com o produto importado, mas sim com a etapa de industrialização e comércio que ocorrerá em território nacional. Andou bem, portanto, o Conselho, se alinhando à orientação internacional, a despeito do caso não ser similar àquele posto sob julgamento. II) Acórdão nº 3201002.050 (Caso Dow Brasil), julgado em Fevereiro de 2016. Neste caso, a empresa brasileira adquiria produtos licenciados da fornecedora estrangeira, que também era detentora da licença, sendolhe concedida autorização para revender tais produtos, mas também para produzilos em território nacional, para serem vendidos. No julgamento, o relator do caso entendeu que embora a licença tenha sido conferida à importadora para a produção, o uso e a venda dos produtos licenciados, o pagamento dos royalties só se tornou, no caso, devido quando houve a venda no mercado interno, razão pela qual não deveria ser considerado como condição de venda. Como fundamento, invocouse no acórdão a Opinião consultiva 4.2 a nosso ver de forma equivocada , fazendo a ressalva de que na hipótese tratada nela Fl. 17957DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.954 27 haveria uma distinção entre o licenciante e o exportador, para em seguida aplicar a sua conclusão pela não inclusão dos royalties. Data maxima venia, a decisão foi equivocada, pois tratou como irrelevante o principal aspecto do caso concreto a unipessoalidade do licenciante e do fabricante das mercadorias vendidas, já apontada anteriormente como um dos principais critérios para a verificação da inclusão ou não dos royalties no valor aduaneiro. Isso fica evidenciado compulsandose a Opinião 4.10, que trata de situação análoga às circunstâncias daquele caso, no qual o controle do licenciante sobre o fornecimento das mercadorias caracterizava os royalties como condição de venda, ainda que pagos apenas após a venda no mercado nacional. III) Acórdão nº 3301002.478 (Caso Iguasport), julgado em Novembro de 2014. Neste caso, a empresa brasileira era franqueada de empresa estrangeira (a ela vinculada), que lhe fornecia o Knowhow comercial e autorizava a publicidade em nome da marca, além de autorizar a venda de produtos importados daquela marca no território nacional. A aquisição desses produtos, por sua vez, era feita de fabricantes autorizados pela empresa detentora da Marca. Um ponto merece destaque, nesse caso: entre os exportadores, havia empresas vinculadas à detentora da marca, mas também empresas independentes (não fica claro no voto se há algum vínculo contratual entre a fabricante e a licenciante). Nesse caso, em relação àquelas mercadorias fornecidas da fabricante vinculada à licenciante, seria hipótese de aplicação da Opinião Consultiva 4.11 (com a inclusão dos royalties no valor aduaneiro), em razão do controle sobre o fornecimento das mercadorias, ao passo que em relação às demais, aplicarseia a Opinião 4.8, pois haveria somente o fornecimento da marca e design, por parte do importador, ao fabricante, com os royalties sendo devidos na venda da mercadoria no território nacional, o que implicaria na não inclusão desse valor na base de cálculo dos tributos aduaneiros solução esta aplicada pela Turma Julgadora ao caso. Além disso, caso houvesse um contrato específico entre a detentora da marca e os fabricantes, com a concessão da marca e designs, para posterior importação pelos franqueados espalhados por diversos países, seria caso de aplicação da Opinião 4.15, que prescreve a inclusão dos royalties. IV) Acórdão CARF nº 3402002.417 (Caso Fiat), julgado em Julho de 2014. Neste caso, a empresa brasileira contratou junto à licenciante a concessão do knowhow de fabricação de determinados veículos e o direito de utilização da marca na revenda dos veículos no território nacional, importando as partes e peças a serem utilizadas na industrialização de outras empresas (todas pertencentes ao mesmo grupo econômico da licenciante). Entretanto, nos autos fica claro que a importadora somente deveria pagar royalties sobre a receita líquida de venda dos veículos produzidos no país, mas não daqueles importados prontos, o que deixa claro que o valor remunerava especificamente o knowhow de fabricação. Nesse caso, não há nenhuma Opinião Consultiva que se adeque expressamente, mas há uma grande aproximação com a 4.9, visto que o que se Fl. 17958DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.955 28 importa são os insumos, ao passo que os royalties se referem ao fabrico e venda das mercadorias no âmbito nacional. V) Acórdão CARF nº 3401003.194 (Caso Alpargatas), julgado em Julho de 2016. Este é, sem dúvida, o mais abalizado acórdão a respeito da matéria no repositório de precedentes deste CARF, cujo voto vencedor foi elaborado pelo Conselheiro Rosaldo Trevisan. No caso concreto, a importadora brasileira era franqueada da licenciadora estrangeira (detentora da marca), estabelecendo contratualmente uma cláusula de "compra exclusiva", através da qual a empresa brasileira somente poderia importar as mercadorias de fabricantes afiliados da licenciadora ou terceiros designadas por esta (denominados de "fontes"). O que se verifica, portanto, é que todos os fornecedores são vinculados ao licenciante seja por vínculos societários, seja por vínculos contratuais, inclusive com possibilidade de obstar a exportação em caso de não pagamento dos royalties devidos. O relator invoca, em seu voto, a Opinião Consultiva 4.13, que absolutamente nada tem a ver com o caso concreto, pois diz respeito à afixação de etiquetas em produtos prontos, fabricados por empresa totalmente desvinculada da licenciante. Corretamente, o voto vencedor apontou uma proximidade muito maior com a Opinião Consultiva 4.11 especialmente em relação aos fornecedores afiliados do licenciante , mas também a 4.15, para os fornecedores que tem vínculo contratual com a licenciante para vender produtos somente para seus franqueados. Nesse caso, a inclusão dos royalties se justifica em razão do controle exercido pela licenciante sobre o fornecimento internacional de mercadorias, caracterizando o pagamentos dos royalties ainda que em contrato apartado como condição da venda dos produtos. Correto, pois, o abalizado entendimento do Conselheiro Trevisan, e alinhado às diretrizes da OMA, analisados anteriormente. Como se vê da sucinta análise feita dos acórdãos indicados, verificase que há casos em que: i) houve a exclusão dos royalties na esteira dos critérios internacionais; ii) houve a inclusão dos royalties na esteira dos critérios internacionais; iii) houve a exclusão dos royalties contrariamente aos critérios internacionais. Nos acórdãos se verificou com honrosas exceções um baixo apuro das circunstâncias concretas, cingindose à análise da existência de dois contratos apartados (com o licenciante e com o fabricante) quando, como já apontado, esse não é um critério suficiente para verificar se estes são ou não condições da venda. Isso se verifica, sobretudo, na remissão a opiniões consultivas que não possuem similaridade às circunstâncias concretas, ou não possuem similaridades no tocante às características relevantes para os critérios adotados pelas opiniões da OMA. Tratase, pois, de uma matéria que dificilmente possuirá uma jurisprudência consolidada no âmbito deste Conselho, visto que as peculiaridades concretas impactam diretamente a possibilidade ou não de inclusão dos royalties no valor aduaneiro. Feito essa exposição sobre os critérios de determinação dos royalties como condição de venda, cumpre agora analisar os contratos da Recorrente, um a um. Fl. 17959DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.956 29 I) Mattel do Brasil Ltda. Inicialmente, frisese que é reconhecido pela própria fiscalização que a Licenciante, a RecorrenteImportadora e a Fabricante não são partes vinculadas. Compulsando o contrato, se verifica que os royalties são devidos pela venda dos produtos com a marca discriminada, nas lojas da Recorrente, sujeitandose o pagamento conforme a taxa de royalties estabelecida em fl. 16454, além de se comprometer à realização de despesas com marketing e publicidade dos produtos licenciados (fl.16455): Além disso, a Licenciante exige que os materiais do produto seja fornecidos a ela para autorização, como forma de controlar a qualidade dos produtos nos quais a sua marca será integrada (fl. 16456): Tal ponto foi invocado pela Fiscalização para sustentar que a Licenciante teria controle sobre todo o fornecimento de bens, caracterizando assim o pagamento de royalties como condição de venda. Entretanto, laborou em equívoco a Fiscalização nesse ponto, ao confundir a vinculação contratual ou societária entre o licenciante e o fabricante (que é critério da OMA para a inclusão dos royalties no valor aduaneiro), com o direito do titular do registro de exercer a supervisão sobre a forma como a marca será utilizada. É preciso frisar que tal poder sequer decorre de contrato, mas sim de expressa determinação legal, constante no art. 139 da Lei nº 9.279/1996 (Lei da Propriedade Industrial), que assim prescreve: Art. 139. O titular de registro ou o depositante de pedido de registro poderá celebrar contrato de licença para uso da marca, sem prejuízo de seu direito de exercer controle efetivo sobre as especificações, natureza e qualidade dos respectivos produtos ou serviços. Tal poder do licenciante é reconhecido por lei, independente de previsão contratual e decorre da natureza específica do contrato de licença de uso, como expressado pelo Superior Tribunal de Justiça, no REsp nº 1.387.244/DF, no voto do Min. João Otávio de Noronha: A marca, muito mais que mera denominação, traz em si o conceito do produto ou serviço que a carrega, identificandoo e garantindo seu desempenho e eficiência. Além disso, possui feição concorrencial: distinguea dos concorrentes; facilita o reconhecimento e a captação de clientes; diminui o risco para a Fl. 17960DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.957 30 clientela, que conta com a padronização dos produtos, serviços, atendimento e demais atributos que cercam a marca. Com a licença de uso, o licenciado comprometese, ex lege, com a integridade e reputação da marca, obrigandose a zelar por ela. (grifo nosso) (REsp 1387244/DF, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, TERCEIRA TURMA, julgado em 25/02/2014, DJe 10/03/2014) Muito diferente é a situação fática invocada pela fiscalização que justificaria a aplicação da Opinião Consultiva 4.15, conforme a própria tradução feita pelo auditor (fl. 2918): Além disso, L assinou um acordo de fornecimento com a empresa M, do país X, a fim de que M fabrique os produtos que ostentem a sua marca e, em seguida, vendaos a I. Nos termos deste acordo, M deve seguir as especificações relacionadas com a qualidade, design e tecnologia fornecidas por L. O acordo prevê especificamente que M comprometese a produzir e vender produtos com esta marca exclusivamente a I ou a outras empresas determinadas por L. Nesse caso, há um vínculo contratual, através de um contrato de fornecimento, entre a licenciante e o fabricante, de modo que os produto seria fabricado de acordo com as especificações passadas diretamente pela licenciante (é dizer, não há mera supervisão, mas sim determinação), incluindo aí a determinação das pessoas para quem o produto poderia ser exportado nesse caso, há um claro controle do licenciante sobre todo o processo produtivo e sobre o fornecimento dos bens ao importador brasileiro, que pode ser imediatamente interrompido no caso de cessação do pagamento dos royalties. Novamente, no caso concreto, analisando os contratos dos autos, o que há é simplesmente a previsão do exercício de supervisão por parte do licenciante, de resto absolutamente cediço nos contratos de licenciamento e previsto na legislação pertinente não há qualquer prova de controle do licenciante sobre o fluxo de fornecimento entre o fabricante estrangeiro e a Recorrente. Ademais, aduziu a fiscalização: O item 5 (“Direitos de Aprovação e Controle da Licenciadora”) estabelece, dentre outras obrigações, que a “Licenciada deverá obter a Aprovação da Licenciadora em cada estágio do desenvolvimento e da criação de cada Produto (“Estágios de Desenvolvimento”)”. Ou seja, é imperioso o aval da Licenciadora para que ocorra a fabricação dos produtos e, por conseguinte, a comercialização dos mesmos entre a Fabricante e a Licenciada. A informação prestada pelo Fiscal está, no mínimo, imprecisa, visto que se contradiz com o que há no contrato e com seu próprio relatório fiscal: como se vê, licenciadora aprova cada estágio do DESENVOLVIMENTO e CRIAÇÃO, para se chegar ao modelo que será produzido. Após esse aval, não há qualquer controle sobre a comercialização dos bens entre a Fabricante e a Recorrente. Fl. 17961DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.958 31 Outro ponto aduzido pelo Fiscal é o seguinte: Por seu turno, o item 7 do anexo B4, “Contrato do Fabricante” – por determinação da MATTEL os fabricantes dos produtos licenciados estão sujeitos à celebração de um contrato, cujas disposições revelam uma sujeição destes fabricantes à Licenciante MATTEL – , estabelece que, na rescisão ou término do contrato entre a MATTEL e a C&A, o fabricante concorda em imediatamente interromper e desistir da fabricação de qualquer produto . Compulsando o referido anexo, se verifica novamente que a informação dada pelo fiscal foi imprecisa, pois o que há é o compromisso da Fabricante de atender a certos princípios globais de fabricação, como não utilizar trabalho infantil, manutenção de ambiente de trabalho hígido, não utilização de trabalho forçado ou presidiário, atendimento da legislação trabalhista local e vedação à prática de discriminação baseada em raça, religião, origem etc. O que o contrato prevê é a possibilidade da Licenciadora realizar inspeções nas instalações do Fabricante para verificar o atendimento a esses termos mencionados acima, o que se inclui no próprio direito de supervisão do titular da marca muito dista, tal direito, de uma submissão da Fabricante à Licenciadora, como quis induzir a fiscalização. A análise do contrato deixa claro que a situação é absolutamente análoga à Opinião Consultiva 4.8: ROYALTIES E DIREITOS DE LICENÇA SEGUNDO O ARTIGO 8.1 c) DO ACORDO 1. O importador I conclui com o detentor da licença L, estabelecido no país X, um contrato de licença/royalty segundo o qual I aceita pagar a L uma quantia fixa, a título de royalty, relativa a cada par de sapatos, importado para o país de importação, que apresente a marca registrada de L. O titular da licença L fornece trabalhos de arte e de design relacionados com a marca registrada. O importador I conclui outro contrato com o fabricante M do país X para a compra de sapatos que apresentem a marca registrada de L afixada nos sapatos por M, entregando a este os trabalhos de arte e de design fornecidos por L. O fabricante M não está licenciado por L. Este contrato de venda não contém qualquer referência a pagamento de royalty. Não há vinculação entre o fabricante, o importador e o titular da licença.. 2. O Comitê Técnico de Valoração Aduaneira emitiu a seguinte opinião: O importador é obrigado a pagar um royalty para a obtenção do direito de uso da marca registrada. Esta obrigação resulta de um contrato distinto que não se relaciona com a venda para exportação das mercadorias para o país de importação. As mercadorias são adquiridas de um fornecedor consoante outro contrato e o pagamento do royalty não é uma condição de venda destas mercadorias. Portanto, o pagamento do royalty, neste caso, não deve ser acrescido ao preço efetivamente pago ou a pagar. O caso analisado possui todos os elementos fáticos relevantes para aplicação dessa opinião: i) ausência de vinculação entre Importador, Licenciadora e Fabricante. Fl. 17962DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.959 32 ii) contrato de licença entre a Licenciadora e o Importador, para fornecimento de trabalhos de arte e design relacionados à marca registrada; iii) contrato de fornecimento entre o Importador e o Fabricante, para a produção das mercadorias de acordo com a arte e design fornecido pela Licenciadora; iv) O Fabricante não possui a licença e não consta no seu contrato qualquer referência ao pagamento de royalties; A decisão do Comitê Técnico de Valoração Aduaneira, na esteira da Nota Explicativa nº 2 ao item 8.1 c) do AVAGATT, citado anteriormente, entendeu que sob estas circunstâncias os royalties eram pagos como condição da distribuição ou revenda dos bens importados, razão pela qual não deveriam ser incluídos no valor aduaneiro. Senão vejamos sua disposição literal: 2. Pagamentos feitos pelo comprador pelo direito de distribuir ou revender os bens importados não devem ser adicionados ao preço pago ou a pagar pelos bens importados, se esses pagamentos não foram condição da venda para exportação para o país da importação dos bens importados. Desse modo, não há nos autos qualquer prova que os royalties pagos à MATTEL sobre o valor líquido de vendas dos produtos licenciados seja condição de importação destes, tampouco estando presentes nesse caso quaisquer circunstâncias que identifiquem essa característica, razão pela qual deve ser dado provimento ao Recurso a respeito das mercadorias importadas com marcas dessa empresa. II) The Walt Disney Company (Brasil) Ltda; ITC América Latica S/C Ltda; Warner Bros (South) INC.; Playboy Enterprises Internacional; Compulsando esse contrato, se verifica que o contexto fático é absolutamente similar àquele da MATTEL, com a supervisão sobre o modelo dos produtos que serão produzidos, mas sem ingerência da Licenciadora sobre a Fabricante o que há, efetivamente, é o direito da Licenciadora de negar certos Fabricantes que não se adequem aos princípios internacionais que regem as relações de trabalho, até mesmo como forma de proteção da sua marca, na linha do art. 139 da Lei nº 9.279/96. Da mesma forma, os royalties são pagos diretamente à Licenciadora, por contrato próprio, e calculados sobre o valor líquido das vendas, sendo condição da distribuição desses bens no mercado nacional, mas não da importação deles. Ademais, há que se frisar que nos contratos de licenciamento há menção expressa quanto a liberdade da Recorrente de subcontratar a fabricação dos produtos ou partes desses produtos licenciados, o que demonstra que as Licenciadoras não possuem qualquer ingerência sobre as Fabricantes, para além do direito de supervisão. Além disso, em todos os casos o fiscal se apega à cláusula contratual na qual a Recorrente se compromete a fazer cessar as importações após o vencimento ou encerramento do contrato de licença, para concluir que isso caracterizaria que o pagamento dos royalties seria condição da importação. Na verdade, essa cláusula também é despicienda em vista do art. 190 da Lei nº 9.279/96, verbis: Fl. 17963DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.960 33 Art. 190. Comete crime contra registro de marca quem importa, exporta, vende, oferece ou expõe à venda, oculta ou tem em estoque: I produto assinalado com marca ilicitamente reproduzida ou imitada, de outrem, no todo ou em parte; ou II produto de sua indústria ou comércio, contido em vasilhame, recipiente ou embalagem que contenha marca legítima de outrem. Pena detenção, de 1 (um) a 3 (três) meses, ou multa. Ora, a cláusula simplesmente aduz que encerrado o contrato de licença, o Importador não poderá mais utilizar a marca, bem como designs e artes fornecidos pela Licenciado, de modo que a utilização para a composição de modelos que serão encomendados a um fabricante estrangeiro configuraria crime, nos termos do artigo citado. Dessa forma, o artigo simplesmente diz: "Recorrente, não cometa crimes contra a propriedade industrial" o que de resto já está assaz prescrito pela lei. Todos esses contratos parecem se subsumir claramente à Opinião Consultiva 4.8, já exposta anteriormente. III) Cofra Holding AG Em relação aos produtos licenciados pela Cofra, a situação é um pouco diferente, visto que recebeu um tratamento específico e bem mais detalhado que os demais contratos. Como informado pela fiscalização: a C&A é vinculada à COFRA (proprietária das marcas), conforme já mencionado em tópico específico deste relatório fiscal. conforme informado pelo próprio sujeito passivo, por meio da planilha “Mercadorias_Complementar_Gisele_Cofra.xlsx”, o fornecedor dos produtos licenciados, importados pela C&A, é também vinculado ao grupo COFRA: Nesse caso, aplicase o critério adotado pela OMA de vinculação entre o Fabricante e a Licenciadora para determinar que os royalties são condição de venda e devem ser incluídos no valor aduaneiro, na esteira da Opinião Consultiva 4.11: ROYALTIES E DIREITOS DE LICENÇA SEGUNDO O ARTIGO 8.1 c) DO ACORDO Fl. 17964DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.961 34 1. O fabricante M de vestimentas esportivas e o importador I são ambos vinculados à matriz C, que possui os direitos de uma marca registrada afixada nessas vestimentas. O contrato de venda entre M e I não prevê o pagamento de royalty. Entretanto, I é obrigado a pagar um royalty a C, em virtude de um acordo distinto com este celebrado, para a obtenção do direito de uso da marca registrada afixada nas vestimentas que I adquiriu de M. O pagamento do royalty constitui uma condição de venda e está relacionado com os artigos de vestuário esportivos importados? 2. O Comitê Técnico de Valoração Aduaneira emitiu a seguinte opinião: O contrato de venda entre M e I, cobrindo as mercadorias objeto da marca registrada, não contém cláusula que imponha expressamente o pagamento de um royalty. Entretanto, o pagamento em questão é uma condição de venda, uma vez que I é obrigado a pagar o royalty à matriz em razão da compra das mercadorias. I não está autorizado a utilizar a marca registrada sem o pagamento do royalty. A inexistência de contrato escrito com a matriz não anula a obrigação que I tem de efetuar o pagamento por ela exigido. Pelas razões expostas, o pagamento pelo direito de uso da marca referese às mercadorias objeto de valoração e a quantia correspondente deve ser acrescida ao preço efetivamente pago ou a pagar A ratio da opinião é exarada é justamente que a vinculação existente entre a Licenciadora e a Fabricante permite que aquele controle o fornecimento de mercadorias ao Importador, condicionando esse fornecimento ao pagamento de royalties. Nesse caso, a relação entre a Cofra e a Recorrente é irrelevante para o caso vejase, por exemplo, a Opinião Consultiva 4.13, na qual a vinculação entre Licenciadora e Importadora não implicou na consideração dos royalties devidos pela revenda dos bens nacionalmente como condição de importação dos bens. Nesse caso, portanto, correto o entendimento fazendário. IV) Gisele Inc. e Gisele Bündchen Este caso também possui certas peculiaridades, devendo ser tratado em separado. O contrato de licença assinado com a Gisele Inc., através do qual a modelo cede seu nome e imagem para "lançar, promover e comercializar, coleções de roupas femininas, acessórios e calçados que serão desenvolvidos e inspirados no estilo de vestir da Modelo e que comercializadas sob a designação Coleção Gisele Bündchen para C&A". Como se vê, a licença tem como objeto a imagem para fins de divulgação isto é, atrelando a imagem da modelo a determinadas roupas, como forma de estimular a compra das peças no mercado nacional em momento nenhum a imagem da modelo será utilizada nas peças vendidas pelo contrário, isso é expressamente vedado pelo contrato: Fl. 17965DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.962 35 Como se vê, em momento algum o contrato trata de licença de uso da marca "Gisele Bundchen" ou imagem da modelo nos produtos a serem importados, mas apenas para a produção de campanhas e materiais publicitários que irão alavancar as vendas nacionalmente. A única exceção é a possibilidade de fazer constar o nome "Gisele Bündchen" na etiqueta, para identificar a peça como pertencente à "Coleção GB" situação esta largamente distinta de, por exemplo, estampar um personagem da Disney ou da Marvel em uma camiseta. Reproduzo outros trechos do contrato: Como se vê, o cerne da licença é o direito de uso da imagem e do nome da modelo para impulsionar a venda das mercadorias, mas não para a confecção das mercadorias em si. Há no contrato também o estabelecimento de supervisão por parte da Licenciante, ficando claro que a Recorrente deverá contratar a estilista e consultora de moda responsável pela elaboração dos designs e artes da coleção, que serão posteriormente aprovados pela Licenciante: Fl. 17966DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.963 36 Em momento nenhum a Licenciante indica quem deverá ser o Fabricante, ou estabelece qualquer vínculo societário ou contratual com este. Por fim, resta absolutamente claro que os royalties são pertinentes à atividade publicitária e não à produção das mercadorias no item 5.6 (fl. 171734), no qual fica consignado que a Recorrente poderia vender os produtos mesmo após o término do contrato de licenciamento, mas restando vedada a possibilidade de utilização do material publicitário na divulgação, no prazo de 60 dias: Como se vê, os valores pagos à Gisele Inc. são relativos à utilização da marca na venda de mercadorias como participantes da "Coleção GB" (falase sempre em "veiculação das Campanhas") o produto em si não ostenta a marca ou a imagem da Licenciante (salvo na etiqueta, mediante permissão contratual específica), de modo que não há qualquer vinculação à produção e posterior exportação do bem, não devendo ser incluído no valor aduaneiro. No presente caso, os royalties não tem a menor possibilidade de serem tratados como condição de venda das mercadorias, já que são cobrados em razão de campanha publicitária realizada pela Recorrente para a venda dos produtos em território nacional. Desse modo, tem razão o contribuinte nesse ponto. Dos Juros sobre a multa de ofício Contesta o Recorrente a incidência de juros sobre multa de ofício. Sobre isto, entendo ter razão o contribuinte, pelo que tomo como os meus os fundamentos esposados pela Fl. 17967DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.964 37 Conselheira Thaís de Laurentiis no Acordão 3402003.148, em seu voto vencedor sobre esta matéria, reproduzido abaixo: Com relação à não incidência dos juros Selic sobre a multa de ofício, entendo que assiste razão à Recorrente. Isto porque inexiste no ordenamento jurídico pátrio dispositivo legal que fundamente tal exigência. Com efeito, o artigo 61, caput e §3º da Lei n. 9.430, de 37 de dezembro de 1996 (“Lei n. 9.430/96) dispõe que sobre os “ “os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, (...) não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora”, e que “sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora”. O comando do citado artigo, portanto, determina que sobre os débitos (tributos) será aplicada multa de mora quando pagos a destempo, e sobre os débitos aplicarseá, igualmente, os juros de mora. Contudo, a multa de ofício não foi incluída no débito tributário para fins de aplicação dos juros. Seria de fato “ilógico interpretar que a expressão “débitos” ao início do caput abarca as multas de ofício. Se abarcasse, sobre elas deveria incidir a multa de mora, conforme o final do comando do caput”, nas palavras do Conselheiro Rosaldo Trevisan (Acórdão 3403002.367, de 24 de julho de 2013). Vêse, assim, que a literalidade do artigo separa os débitos tributários das penalidades (multas de ofício), determinando a incidência dos juros só sobre os primeiros, e não sobre as segundas. Parece ter assim andado o legislador buscando estar em sintonia com as regras estabelecidas pelo Código Tributário Nacional (“CTN”), com o status de lei complementar que tem ao dar cumprimento às funções estipuladas pelo artigo 146 da Constituição Federal. Efetivamente, o CTN além de claramente separar a natureza jurídica dos tributos (invariavelmente decorrente de condutas lícitas, segundo o artigo 3ª) e das multas (penalidades pela prática de ilícitos, ou seja, sanções aplicadas quando da ocorrência de infrações ao sistema tributário), em seu artigo 161 coloca que o “crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária.” O artigo 161 do CTN, destarte, desintegra as penalidades do crédito tributário para fins de aplicação dos juros. Afinal, caso quisesse que as penalidades estivessem abarcadas pela locução “crédito”, no início do dispositivo, não as teria destacado e dado tratamento diferenciado ao final do mesmo dispositivo legal. Fl. 17968DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.965 38 Ressalto que não se está aqui a olvidar que a separação entre crédito tributário (do ponto de vista do Fisco, o que corresponde ao débito tributário, do ponto de vista do contribuinte) e penalidades, do artigo 161 do CTN, colide com outras normas trazidas pelo próprio CTN, vale dizer, o artigo 1131 combinado com o artigo 139,2 os quais, lidos conjuntamente, levam à conclusão de que o crédito tributário abarca toda a obrigação principal, composta tanto pelos tributos como pelas penalidades pecuniárias devidas pelo contribuinte aos Cofres Públicos. Tal incoerência, contudo, não é suficiente para afastar a dissociação entre crédito/débito tributário e penalidades, estampada tanto no artigo 161 do CTN como no artigo 61 da Lei n. 9.430/96, quando tratam especificamente a incidência dos juros sobre os valores devidos pelos contribuintes ao Fisco. Em ambos os dispositivos somente há autorização para a incidência de juros (no âmbito federal representado pela SELIC) sobre o crédito/débito, entendido como aquele decorrente de fatos gerados de tributos, mas não sobre as penalidades tributárias. As incoerências da legislação tributária são diversas, cabendo aos órgãos julgadores solucionálas da maneira mais lógica e justa possível, que é justamente o que aqui se pretende, chegando, das razões acima expostas, à conclusão pela não incidência de juros sobre a multa de ofício. Nesse sentido vem caminhando a jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (e.g. Acórdão 3403002.367, de 24 de julho de 2013; Acórdão 3402002.862, de 26 de janeiro 2016), porém ainda não consolidada. Assim, ao meu ver, é nesse sentido que deve ser interpretada a Súmula CARF n. 4,3 cujo teor impõe o reconhecimento como devida a SELIC sobre débitos tributários administrados pela Secretaria Receita Federal. São sim devidos os juros SELIC, mas tão somente sobre os tributos no período de inadimplência, e não sobre eventuais multas de ofício cobradas no mesmo suporte documental (auto de infração). Sem lei que estabeleça expressamente a aplicação de juros sobre a multa de ofício, incabível a cobrança pretendida pela Autoridade Fiscal nestes autos, devendo ser a mesma cancelada por este Colegiado. Neste ponto, insta mencionar que não seria aplicável ao presente caso o art. 43, da Lei n.º 9.430/96, mencionado no Acórdão 9303002.399, da 3ª Turma da CSRF. Isso porque o referido dispositivo traz a previsão de aplicação dos juros de mora quando da lavratura auto de infração que se refira, "exclusivamente, a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente", tratandose, portanto, de "Auto de Infração sem tributo" nos termos do título utilizado pela própria lei neste artigo: "Seção V Normas sobre o Lançamento de Tributos e Contribuições Auto de Infração sem Tributo Art. 43. Poderá ser Fl. 17969DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.966 39 formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento." (grifo nosso) Como se depreende do relatório, a hipótese trazida no dispositivo legal acima distinguese claramente daquela sob análise, no qual foi aplicada multa de ofício sobre o valor do tributo não recolhido (IPI), esta sim sem previsão legal para a incidência de juros. Por fim, cumpre tecer alguns comentários sobre o julgamento do Superior Tribunal de Justiça, que poderia ser citado como fundamento da posição em sentido contrário a aqui exposta. Tratase do AgRg no REsp 1.335.688PR, segundo o qual: "entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: 'É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário.' (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010." Com a devida vênia ao Egrégio Tribunal, entendo que a decisão ali alcançada não merece guarida. Para ser mais precisa, por uma análise acurada do teor do julgamento, entendo que o STJ ainda não se manifestou sobre a específica questão aqui discutida, pois no AgRg no REsp 1.335.688PR não foi trazido um único fundamento de decidir a respeito da diccção do artigo 61 caput e §3º da Lei n. 9.430/96, apresentada alhures, tendo sido a decisão calcada em acórdãos do próprio órgão que não resolvem ao tema. Explico. No Recurso Especial n. 1.335.688, bem como no Agravo de Instrumento de mesmo número, as razões de decidir do Ministro Relator Benedito Gonçalvez se limitam a afirmar que o acórdão do TRF da 4ª Região, objeto de reclame do contribuinte, ao decidir pela incidência dos juros Selic sobre a multa de ofício espelhou a jurisprudência firmada pelas Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ, justamente como consta no trecho da ementa acima citado, quais sejam: o REsp 1.129.990/PR e o REsp 834.681/MG. Ocorre que no REsp 1.129.990/PR, segundo os dizeres do Ministro Castro Meira (Relator) "a questão devolvida a este Superior Tribunal de Justiça consiste em saber se a multa decorrente do inadimplemento de ICMS sujeitase à incidência de juros de mora, como defende o Fisco Estadual, ou sequer integra o crédito tributário e, portanto, não pode sofrer este Fl. 17970DF CARF MF Processo nº 10314.720709/201611 Acórdão n.º 3402004.983 S3C4T2 Fl. 17.967 40 acréscimo, conforme a tese adotada pelo acórdão hostilizado." Não são necessárias maiores digressões para chegar a conclusão de que se a matéria analisada pelo STJ nesse caso dizia respeito à tributo estadual (ICMS), de modo que não foi objeto de apreciação a legislação federal que fundamenta o presente voto (artigo 61 caput e §3º da Lei n. 9.430/96). Com efeito, o r. acórdão teve como base unicamente as normas constantes dos artigos 113, 139 e 161 do CTN. Na mesma problemática incorre o REsp 834.681/MG, no qual discutiase, em primeiro lugar, a aplicabilidade da taxa Selic como índice legítimo de correção monetária e juros de mora para a correção de débitos do contribuinte perante a Fazenda Pública estadual (de Minas Gerais, in casu). Como segundo ponto enfrentado pelo STJ aparecia a incidência dos juros sobre a multa de ofício que, por óbvio, também se limitava ao âmbito da legislação estadual, provável razão pela qual mais uma vez o Tribunal silenciou sobre a exegese do artigo 61, caput e §3º da Lei n. 9.430/96. Constatase, assim, que os precedentes utilizados como alicerce para a decisão do AgRg no REsp 1.335.688PR não tangenciaram especificamente os dizeres do artigo 61 caput e §3º da Lei n. 9.430/96. Por essa razão não vislumbro qualquer razão para alterar o posicionamento majoritário que vem sendo adotado por esse Colegiado, a respeito da falta de previsão legal para a incidência da Selic sobre a multa de ofício imposta nos autos de infração lavrados pela Secretaria da Receita Federal. Portanto, procede o pleito da Recorrente quanto à exclusão dos juros sobre multa de ofício. Conclusão Ante o exposto, voto por dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, mantendo a inclusão dos royalties no valor aduaneiro dos produtos licenciados pela empresa COFRA, nos termos da Opinião Consultiva 4.11 da OMA, e afastando a cobrança de juros sobre multa de ofício. É como voto. Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Fl. 17971DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13805.003604/93-30
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Feb 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Mar 27 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 1992
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO DE SALDO NEGATIVO DE IRPJ GERADO POR RETENÇÕES NA FONTE (IRRF). COMPROVAÇÃO DA RETENÇÃO.
O sujeito passivo tem direito de deduzir o imposto retido pelas fontes pagadoras incidentes sobre receitas auferidas e oferecidas à tributação, do valor do imposto devido ao final do período de apuração, ainda que não tenha recebido o comprovante de retenção ou não possa mais obtê-lo, desde que consiga provar, por quaisquer outros meios ao seu dispor, que efetivamente sofreu as retenções que alega.
Numero da decisão: 9101-003.437
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo - Presidente.
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araujo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Adriana Gomes Rêgo (Presidente).
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo - Presidente. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Adriana Gomes Rêgo (Presidente).
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COMPROVAÇÃO. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado DERSA DESENVOLVIMENTO RODORIÁRIO S/A ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 1992 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO DE SALDO NEGATIVO DE IRPJ GERADO POR RETENÇÕES NA FONTE (IRRF). COMPROVAÇÃO DA RETENÇÃO. O sujeito passivo tem direito de deduzir o imposto retido pelas fontes pagadoras incidentes sobre receitas auferidas e oferecidas à tributação, do valor do imposto devido ao final do período de apuração, ainda que não tenha recebido o comprovante de retenção ou não possa mais obtêlo, desde que consiga provar, por quaisquer outros meios ao seu dispor, que efetivamente sofreu as retenções que alega. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Presidente. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Adriana Gomes Rêgo (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 80 5. 00 36 04 /9 3- 30 Fl. 860DF CARF MF Processo nº 13805.003604/9330 Acórdão n.º 9101003.437 CSRFT1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN), fundamentado atualmente no art. 67 e seguintes do Anexo II da Portaria MF nº 343, de 09/06/2015, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), em que se alega divergência jurisprudencial quanto ao que foi decidido sobre as formas possíveis para comprovação de retenções na fonte. A recorrente insurgise contra o Acórdão nº 130200.945, de 05/07/2012, por meio do qual a 2a Turma Ordinária da 3a Câmara da 1a Seção de Julgamento do CARF deu provimento parcial a recurso voluntário da contribuinte acima identificada, para fins de, entre outras coisas, admitir a possibilidade de comprovação de retenções na fonte mediante apresentação de documentos outros que não o comprovante de retenção emitido pela fonte pagadora dos rendimentos. O acórdão recorrido contém a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 1992 IRRF. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO. RENDIMENTOS PARCIALMENTE OFERECIDOS À TRIBUTAÇÃO. PROPORCIONALIDADE. É direito do sujeito passivo computar, no saldo negativo apurado ao final do exercício, o imposto retido sobre as receitas de aplicação financeira efetivamente contabilizadas e reconhecidas na base de cálculo, pois o tributo não pode ser utilizado como sanção pela omissão parcial de receitas, nos termos do art. 3º do CTN, respeitado o princípio da proporcionalidade. IRRF. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO. COMPROVANTES DE RETENÇÃO. O sujeito passivo tem direito à dedução do imposto retido pelas fontes pagadoras incidentes sobre receitas auferidas e oferecidas à tributação, do valor do imposto devido ao final do período de apuração, ainda que não tenha recebido o comprovante de retenção ou não possa mais obtêlo, desde que consiga provar, por quaisquer outros meios ao seu dispor, que efetivamente sofreu as retenções que alega. A PGFN afirma que o acórdão recorrido deu à lei tributária interpretação divergente da que tem sido dada em outros processos, relativamente à matéria acima mencionada. Para o processamento de seu recurso, a PGFN desenvolve os argumentos descritos a seguir: Fl. 861DF CARF MF Processo nº 13805.003604/9330 Acórdão n.º 9101003.437 CSRFT1 Fl. 4 3 DO CABIMENTO DO PRESENTE RECURSO ESPECIAL o colegiado a quo aceitou como prova documentos diversos do comprovante de retenção apresentados em cópias; para satisfazer a exigência de comprovação de dissídio jurisprudencial, é transcrito precedente que, diversamente do entendimento demonstrado nos autos, exige que o contribuinte comprove, para fins de restituição de IRPJ decorrente de IRRF retido, somente pela apresentação do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora (informe de rendimentos): Acórdão 140100.115 Tributo/Matéria: IRPJ restituição e compensação. Assunto: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. Anocalendário: 1999. Ementa COMPENSAÇÃO. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. IRRETROATIVIDADE DAS LEIS. O disposto no § 5° do artigo 74 da Lei nº 9.430/96, com a redação dada pelo art. 17 da Medida Provisória n° 135, de 30 de outubro de 2003, convertida na Lei n° 10.833, de 29 de dezembro de 2003, segundo o qual considerase homologada tacitamente a compensação objeto de pedido de compensação convertido em declaração de compensação que não seja objeto de despacho decisório proferido no prazo de cinco anos, contado da data do protocolo do pedido, independentemente da procedência e do montante do crédito, aplicase somente a partir de 30/10/2003. RETENÇÃO NA FONTE COMPROVAÇÃO O imposto de renda retido na fonte sobre quaisquer rendimentos somente poderá ser compensado, na declaração de ajuste do período, pela pessoa física ou jurídica, se a interessada possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos. COMPENSAÇÃO. SALDO NEGATIVO DA CSLL A pessoa jurídica poderá compensar o valor de até 1/3 da COFINS efetivamente pago, relativo aos meses do anocalendário, na apuração de 31/12/1999 (ajuste anual), sendo que o excesso não compensado no ajuste anual não poderá ser compensado e nem utilizado em períodos posteriores. quanto ao objeto de insurgência, assim se manifestou a decisão paradigma: [...]; o precedente acima citado comprova, de forma cabal, a necessidade de que o contribuinte comprove, de forma idônea e contundente, e somente pela apresentação do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora (informe de rendimentos), o valor retido a título de IRRF; de acordo com a jurisprudência invocada, os aludidos comprovantes constituem exigência legal inafastável para a compensação do IRRF na apuração do imposto de renda devido ao final do ano; assim, fica comprovada a divergência sobre a matéria, tendo em vista que o acórdão recorrido, de modo diverso da decisão paradigma, aceitou os valores de IRRF no cálculo do imposto apurado no ajuste anual, sem a apresentação dos comprovantes de retenção; Fl. 862DF CARF MF Processo nº 13805.003604/9330 Acórdão n.º 9101003.437 CSRFT1 Fl. 5 4 demonstrada a divergência jurisprudencial diante dos acórdãos paradigmas acima transcritos, nos termos do art. 67 do RICARF aprovado pela Portaria MF nº 256/2009, afiguramse presentes os requisitos de admissibilidade do Recurso Especial; DOS FUNDAMENTOS PARA REFORMA DO ACÓRDÃO RECORRIDO a exigência de apresentação do comprovante de retenção emitido em nome da empresa pela fonte pagadora (informe de rendimentos) para fins de comprovação da retenção de IRRF decorre de expressa disposição legal: Lei nº 7.450/85 Art 55 O imposto de renda retido na fonte sobre quaisquer rendimentos somente poderá ser compensado na declaração de pessoa física ou jurídica, se o contribuinte possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos. esta norma se encontra reproduzida no Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto n º 3.000/99 (art. 943); o mesmo Regulamento ainda dispõe em seu art. 264 que a pessoa jurídica é obrigada a conservar em ordem, enquanto não prescritas eventuais ações que lhes sejam pertinentes, os livros, documentos e papéis relativos à sua atividade, ou que se refiram a atos ou operações que modifiquem ou possam vir a modificar sua situação patrimonial; cumpre ressaltar que referidos preceitos também foram previstos no Decreto nº 85.450/1980 que aprovou o Regulamento do Imposto de Renda de 1980. Referida previsão se encontra nos arts. 89, §3º e 584 do Regulamento, que fazem referência ainda ao disposto na Lei n° 4.154/62, art. 13, § 3º (o RIR/1980 é anterior à Lei nº 7.450/85, art. 55). E a obrigação do contribuinte de conservar a documentação comprobatória ficou contemplada no art. 165 do RIR/80; da análise dos textos normativos acima explicitados temse clara a condição imposta pela lei para que o contribuinte possa compensar o valor retido a título de IRRF na declaração de pessoa jurídica, qual seja: a posse de comprovante da retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora; desta forma, a não apresentação deste documento específico inviabiliza a compensação pretendida pelo contribuinte. Notese que o texto é claro ao exigir comprovante de retenção emitido pela fonte pagadora, mostrandose correta a decisão de 1ª instância, que glosou os valores do IRRF na apuração do saldo negativo pleiteado; ressaltese que não se trata de matéria que admite qualquer meio de prova, mas sim de matéria cuja comprovação contém forma específica e legalmente estabelecida, não podendo o Julgador se furtar à observância de tal preceito; além disso, a quase totalidade dos documentos apresentados pelo contribuinte com o fim de comprovar a retenção foi carreada por cópia ao processo; Fl. 863DF CARF MF Processo nº 13805.003604/9330 Acórdão n.º 9101003.437 CSRFT1 Fl. 6 5 não logrando êxito o contribuinte em comprovar a retenção na forma estabelecida pelo RIR/99, não poderá obter restituição de IRPJ decorrente de IRRF retido, por falta de atendimento dos requisitos legais, estando correta a conclusão da auditoria fiscal; diante de todo o exposto, temos por evidente que a decisão ora recorrida, merece ser reformada por total afronta à disciplina normativa da matéria. Quando do exame de admissibilidade do Recurso Especial da PGFN, o Presidente da 3ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por meio do Despacho nº 227/2013, de 12/06/2013, deu seguimento ao recurso especial, fundamentando sua decisão na seguinte análise sobre a divergência suscitada: [...] Examinando o acórdão paradigma em seu inteiro teor, verificase que seu entendimento é expresso no sentido de que o imposto de renda retido na fonte somente poderá ser compensado, na declaração de ajuste, se a interessada possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos. O Informe de Rendimentos seria considerado a prova legal da retenção admitida pela Receita Federal do Brasil. De outra parte, o acórdão recorrido diverge desta interpretação, ao dispor que o contribuinte que alega ter sofrido retenção de imposto pela fonte pagadora pode fazer prova de sua alegação por quaisquer outros meios ao seu dispor, e não exclusivamente mediante a apresentação do comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora. Portanto, as conclusões sobre a matéria ora recorrida nos acórdãos examinados revelamse divergentes, restando plenamente configurada a divergência jurisprudencial apontada pela recorrente. Em 01/12/2016, a contribuinte foi intimada do Acórdão nº 130200.945, do recurso especial da PGFN, e do despacho que admitiu esse recurso. Tempestivamente, em 16/12/2016, ela apresentou as contrarrazões ao recurso, com os argumentos descritos a seguir: a Primeira Turma Especial deste Conselho, ao julgar o recurso voluntário n. 11065.000211/200870, no Acórdão n. 1801001.687, decidiu que em virtude da diretiva da livre apreciação da prova, é possível a apreciação de outros meios de prova para apuração do direito creditório, e não somente o comprovante de retenção emitido pela fonte pagadora, in verbis: “PER/DCOMP.ÔNUS DA PROVA. Cabe à Recorrente produzir o conjunto probatório nos autos de suas alegações, já que o procedimento de apuração do direito creditório não prescinde comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de tributo pago a maior. COMPENSAÇÃO. DEDUÇÃO DE RETENÇÃO DE IRPF. PROVA. LIVRE APRECIAÇÃO. DIRF. Fl. 864DF CARF MF Processo nº 13805.003604/9330 Acórdão n.º 9101003.437 CSRFT1 Fl. 7 6 Não prevalece o entendimento de que a retenção de fonte somente se comprova pelo comprovante de retenção emitido pela fonte pagadora, em nome do beneficiário, eis que, no ordenamento processual pátrio, incide a diretiva da livre apreciação da prova, que autoriza o exame de outros documentos, como a DIRF. COMPENSAÇÃO. SALDO NEGATIVO DE IRPJ. GLOSA DE IRRF. COMPROVAÇÃO DAS RETENÇÕES. RECONHECIMENTO DO CRÉDITO. Em declaração de compensação com crédito de saldo negativo de IRPJ, em que a DRF glosou parcelas de deduções de IRRF, havendo prova das retenções e compatibilidade entre os rendimentos correspondentes aos valores retidos e as receitas oferecidas à tributação, devem ser afastadas as glosas e reconhecido o crédito." grifo nosso assim, considerando que o Recurso Especial da Fazenda Nacional, desconsidera a validade de outros meios de prova, sendo mister ressaltar que inclusive tais documentos foram apreendidos pela Receita Federal, e estão em seu poder até a presente data; ora, se tais documentos não tivessem força probatória, não haveria razão de sua retenção, e até mesmo apreciação e consideração pelo próprio CARF, para fins de reconhecimento do direito ao crédito adicional, como, acertadamente, reconhecido pelo Conselheiro Relator; vejase o Termo de Apreensão de Documentos Fiscais abaixo: [...]; se tais documentos fossem inócuos para verificação do direito creditório da recorrida, certamente, não estariam em poder do Fisco. E mais, foram verificados pelo mesmo, dandose por plenamente verificados, conforme o Relatório de Diligência abaixo: [...]; a conduta do contribuinte está plenamente de acordo com os ditames e requisitos da Lei 8.383/91, em especial o disposto no artigo 39; isto porque, os documentos apresentados no processo administrativo foram fornecidos pelas empresas e órgãos competentes para a Recorrida de acordo com as normas Cíveis e de Direito Comercial na época; como é sabido, não cabe à legislação tributária alterar definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados expressa ou implicitamente para definir ou limitar competências tributárias, conforme preceitua o Art. 110 do CTN; ora, tais documentos obedeciam aos Institutos do Direito Civil e Direito Comercial, tinham validade jurídica para todos os atos de mercado e de direito, logo, estes devem ser aceitos no âmbito do direito tributário, como o foi, pelo Relator, eis que documento hábil a comprovar a retenção e justificar o pedido de direito ao crédito; os documentos apresentados não carecem de fé pública, afinal estes documentos, na presente data, têm mais de vinte anos, são documentos antigos que foram muito manuseados, é de se esperar que estejam em regular estado de conservação, mas isso não Fl. 865DF CARF MF Processo nº 13805.003604/9330 Acórdão n.º 9101003.437 CSRFT1 Fl. 8 7 lhes tira a sua autenticidade, conforme já reconhecido por este CARF, no v. acórdão recorrido pela Fazenda Nacional; ademais, segundo o Art. 106 do código Tributário Nacional, a legislação tributária se aplica ao fato pretérito, ou seja, a legislação tributária aplicável ao lançamento é aquela que estava vigente no anocalendário de 1992, a saber: a Instrução Normativa da Secretaria da Receita Federal nº 142 de 18 de dezembro de 1992; da análise do anexo “A”, o quadro I extraído de fls. 548 do processo administrativo, temse demonstrativo mês a mês das receitas financeiras contabilizadas e das diferenças apontadas, bem como no quadro II temse demonstrado os valores de despesas não contabilizadas. Todos os valores estão demonstrados e acompanhados de documentos hábeis no sentido de comprovar a pretensão creditória do contribuinte, ora recorrido; cabe ainda esclarecer que a Recorrida deixou de contabilizar os referidos valores em vista das informações trazidas nos extratos mensais, fornecidas pelas instituições financeiras. Quando recebeu os informes de rendimentos anuais, por cautela, a Recorrida aguardou o pronunciamento da Delegacia da Receita Federal, antes de fazer qualquer ajuste, uma vez que os valores não iriam reverter a base de cálculo de negativa para positiva; extraídas as informações do anexo 4 da declaração de ajuste anual de imposto de renda de pessoa jurídica, constante às fls. 322, demonstra que após a diligência da autoridade fiscal, mesmo a recorrida realizando os ajustes dos exercícios anteriores para fins de demonstrações financeiras em seu balanço patrimonial de exercícios futuros, e para fins fiscais restituídos seus saldos no Livro de Apuração do Lucro real – LALUR – instituído pela IN nº 28/1978, do exercício de 1992 para atender o princípio da competência, a Recorrida não penalizou aos cofres públicos; e não houve qualquer prejuízo ao Erário na medida em que a base de cálculo negativa e o prejuízo fiscal apresentado e evidenciado no imposto de renda retido na fonte foi descontado, mês a mês, de seus rendimentos auferidos; por fim, e não com menos razão o acórdão paradigma trazido pela Fazenda Nacional não se aplica in casu, pois se refere a período de competência distinto, e portanto, sujeito à diferentes exigências legais; o fato é que, para ser reconhecido o direito ao crédito, basta que existam documentos hábeis e idôneos a comprovar a existência do mesmo, não necessariamente “comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora”; ademais, o próprio Fisco dispõe de diversos meios para verificação dos documentos, sistema interno, cruzamento de informações, e até mesmo, ofício ou diligências in loco para verificação do requerido pelo contribuinte; não há qualquer obrigação quanto à forma da comprovação, basta que o documento seja hábil e idôneo o suficiente para atestar o direito pleiteado, ainda que por meios indiretos de prova; diante de todo o exposto, requer seja julgado improcedente o Recurso Especial apresentado pela Fazenda Nacional, mantendose na íntegra, o v. acórdão de n. 1302 00.945, que reconheceu o direito do contribuinte, ora recorrido, ao crédito adicional no Fl. 866DF CARF MF Processo nº 13805.003604/9330 Acórdão n.º 9101003.437 CSRFT1 Fl. 9 8 montante de 87.110,90 UFIR e homologou as compensações efetuadas até o montante do direito creditório reconhecido, na medida em que em consonância com o entendimento recente e majoritário, em especial junto a Primeira Turma Especial do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, Acórdão n. 1801001.687, que admite outros documentos hábeis para a comprovação do direito ao crédito, e não somente o comprovante de retenção da fonte pagadora, em prol da diretiva do ordenamento pátrio da livre apreciação da prova. Finalmente, é oportuno registrar que a contribuinte, além das contrarrazões acima mencionadas, também apresentou recurso especial contra a parte do Acórdão nº 1302 00.945 que lhe foi desfavorável, mas esse recurso não foi admitido, conforme o despacho exarado em 06/04/2017 pela Presidente da 3ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF. Intimada do despacho que negou seguimento ao seu recurso especial, a contribuinte apresentou agravo, mas esse recurso não foi conhecido pelo Presidente da Câmara Superior de Recursos Fiscais, em razão de sua intempestividade. É o relatório. Fl. 867DF CARF MF Processo nº 13805.003604/9330 Acórdão n.º 9101003.437 CSRFT1 Fl. 10 9 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator. Conheço do recurso, pois este preenche os requisitos de admissibilidade. O presente processo tem por objeto pedido de restituição/compensação de saldo negativo de IRPJ decorrente de IRRF retido no anocalendário de 1992, tendo em vista que a interessada apurou prejuízo fiscal no primeiro e no segundo semestre daquele ano calendário. A Delegacia da Receita Federal em São Paulo/SP, que primeiro analisou os pedidos formulados pela interessada, os deferiu parcialmente, e as compensações vinculadas ao pedido de restituição foram homologadas até o limite do direito creditório reconhecido. De acordo com o despacho decisório da Delegacia de origem (vol. 5 do e processo, efls. 148/153), a parte do direito creditório que foi reconhecida é relativa a retenções cujas receitas correspondentes foram integralmente oferecidas à tributação, e que constavam de "comprovantes de retenção" originais emitidos pelas fontes pagadoras. Ainda de acordo com o referido despacho, as razões para a glosa de parte do direito creditório foram: 1) a não contabilização, em todos os meses do período de janeiro a dezembro de 1992, de parte das receitas financeiras, o que implicou na glosa da integralidade do IRRF vinculado aos respectivos rendimentos informados pelas fontes pagadoras, conforme exigido pela legislação (art. 39, § 4º, c/c art 43 da Lei nº 8.383/1991; MAJUR/93, pág. 37); e 2) os documentos trazidos ao processo (quase todos cópias), objetivando comprovar o IRRF sobre rendimentos de Obrigações Eletrobrás e de levantamento de depósitos judiciais, para fins de compensação com o devido na Declaração, estão em desacordo com as normas de regência vigentes à época dos fatos (Art. 55 da Lei nº 7.450/1985, IN SRF nºs 09/1993 e 10/1993), tendo sido glosado o IRRF correspondente. A decisão de primeira instância administrativa manteve o mesmo entendimento da Delegacia de origem. A decisão de segunda instância administrativa (acórdão ora recorrido), por sua vez, deu provimento parcial ao recurso voluntário para fins de afastar a glosa integral do IRRF em razão de as receitas financeiras não terem sido contabilizadas pelo seu valor total. Foi admitido o aproveitamento das retenções correspondentes às receitas de aplicação financeira efetivamente contabilizadas e reconhecidas na base de cálculo do imposto, respeitado o princípio da proporcionalidade (item "1" acima referido). E quanto ao item "2" acima referido, relativo ao IRRF sobre rendimentos de Obrigações Eletrobrás e de levantamento de depósitos judiciais, o acórdão ora recorrido admitiu a possibilidade de as retenções na fonte serem comprovadas mediante apresentação de Fl. 868DF CARF MF Processo nº 13805.003604/9330 Acórdão n.º 9101003.437 CSRFT1 Fl. 11 10 documentos outros que não o comprovante de retenção emitido pela fonte pagadora dos rendimentos. É especificamente esse segundo ponto que configura o objeto do recurso especial apresentado pela PGFN. Em sede de contrarrazões, a contribuinte alega que o acórdão paradigma trazido pela Fazenda Nacional não se aplica ao caso em pauta, pois se refere a período de competência distinto (anocalendário 1999), e portanto, sujeito a diferentes exigências legais. A preliminar de não conhecimento é improcedente, porque a diferença nos períodos de competência em nada afeta a caracterização da divergência jurisprudencial. É que a controvérsia gira em torno do art. 55 da Lei 7.450/85, que ainda hoje é a base legal do §2º do art. 943 do atual Regulamento do Imposto de Renda (RIR/1999). Portanto, o fato de o recorrido tratar de situação ocorrida no anocalendário de 1992 e do paradigma se referir ao anocalendário de 1999 não prejudica a divergência suscitada pela PGFN. Vislumbro uma outra questão em relação à admissibilidade do recurso, mais perceptível que aquela apontada pela contribuinte em sede de contrarrazões. Constato que o paradigma não tratou propriamente da questão sobre a possibilidade de se comprovar retenções na fonte mediante apresentação de documentos outros que não o comprovante de retenção emitido pela fonte pagadora dos rendimentos. Até porque a contribuinte, no caso do paradigma, não tentou comprovar essas retenções por outros meios de prova. Naquele caso, a insurgência da contribuinte voltouse mais para aspectos temporais relativos à extinção dos débitos que a contribuinte pretendia quitar por compensação com os alegados créditos, para questões referentes à homologação tácita de compensação, etc. Aliás, no relatório do paradigma consta inclusive a informação de que o direito creditório já havia sido parcialmente reconhecido pela Delegacia de origem não apenas com base nas cópias de comprovantes de retenção apresentados pela contribuinte, mas também a partir de telas de consulta ao sistema SIEFDIRF. O referido relatório, portanto, evidencia que nem sempre há correspondência entre essas duas fontes de informação. Ou seja, pode haver DIRF e não haver emissão do comprovante de retenção, e viceversa, e isso não prejudicou o reconhecimento do direito creditório pela Delegacia de origem naquele outro caso. De qualquer forma, o acórdão paradigma, ao tratar das parcelas adicionais de direito creditório que a contribuinte continuou reivindicando, afirmou taxativamente em sua parte conclusiva que "o imposto de renda retido na fonte sobre quaisquer rendimentos somente poderá ser compensado, na declaração de ajuste do período, pela pessoa física ou jurídica, se a interessada possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos", e em razão da literalidade da afirmação, penso que não há como deixar de reconhecer a divergência jurisprudencial suscitada pela PGFN. Fl. 869DF CARF MF Processo nº 13805.003604/9330 Acórdão n.º 9101003.437 CSRFT1 Fl. 12 11 Assim, concluo que a divergência restou caracterizada e que o recurso deve mesmo ser conhecido. Quanto ao seu mérito, entretanto, penso que o recurso não deve obter o mesmo êxito. E a razão para isso é bem simples. Não há como prejudicar um contribuinte por falha/infração cometida por outro. No caso, negar o direito de aproveitamento de retenção na fonte sofrida pelo beneficiário de um rendimento em razão de a fonte pagadora descumprir o dever instrumental de emitir e lhe fornecer o respectivo comprovante de rendimentos e de retenção na fonte. Não há como impor um ônus para um contribuinte cujo atendimento depende única e exclusivamente de conduta a ser praticada por outro contribuinte (emissão de comprovante de rendimentos e de retenção na fonte). A imagem de um empregado/servidor que recebe pagamento descontado do IRFonte e que não pode computar essa retenção na sua declaração de rendimentos porque a fonte pagadora não emitiu o correspondente informe de rendimentos e de retenção na fonte ilustra bem o que está sendo dito. O sentido que se dá ao texto da lei não pode conflitar de forma tão flagrante com o sistema jurídico. Se a fonte pagadora não emite o referido comprovante, ou se o beneficiário do pagamento não tem como obter esse documento da fonte pagadora (e isso pode ocorrer em função de várias situações), não se pode negar ao beneficiário do pagamento o direito ao aproveitamento da retenção que este sofreu e que consegue comprovar com outros meios de prova. Correto o acórdão recorrido nesse aspecto. Não é o caso aqui de reexaminar elementos probatórios, até porque não é esse o escopo do recurso especial de divergência. Mesmo assim, vale reproduzir as razões pelas quais o acórdão recorrido admitiu o aproveitamento das retenções na fonte em questão: 2. Do IRRF retido sobre o levantamento de depósitos judiciais e os rendimentos de Obrigações da Eletrobrás [...] É fato que o contribuinte para ter direito a abater do valor do imposto devido ao final do período de apuração os montantes retidos pelas fontes pagadoras, incidentes sobre receitas auferidas e oferecidas à tributação nesse mesmo período deve apresentar o comprovante de retenção, emitido em seu nome pela fonte pagadora, conforme o disposto no art. 55 da Lei nº 7.450/1985, in verbis: [...] Todavia, essa exigência tem sido relativizada nas hipóteses em que o contribuinte não tenha recebido esse comprovante e/ou não tenha como obtêlo, desde que possa fazer prova, por outros meios ao seu dispor, de Fl. 870DF CARF MF Processo nº 13805.003604/9330 Acórdão n.º 9101003.437 CSRFT1 Fl. 13 12 que efetivamente sofreu as retenções que alega, conforme a jurisprudência deste CARF [...]. No que se refere ao IRRF sobre o levantamento de depósitos decorrentes de ações judiciais, o contribuinte apresentou diversos documentos que representam um robusto conjunto probatório do recebimento dos valores e da retenção na fonte realizada pelas instituições financeiras responsáveis pelo pagamento, além de estarem devidamente contabilizados conforme cópias do Livro Diário anexadas aos autos pela autoridade fiscal que realizou as diligências. A circunstância de terem sido apresentadas apenas em cópia reprográfica deve ser relativizada, ganhando especial relevo o fato das informações constantes dos documentos apresentados estarem detalhadamente registradas na contabilidade da recorrente e de não ter sido questionada sua autenticidade pela autoridade fiscal que realizou as diligências. De se observar que as ações judiciais se referem a ações de reparação de danos em face de acidentes em rodovias administradas pela recorrente e que diversas delas têm como parte indenizante (fonte pagadora) uma pessoa física, que não está obrigada a fornecer comprovantes de rendimentos. E ainda, nos casos de ações judiciais, por dever legal, o imposto é retido pela própria instituição financeira responsável pelo pagamento, por ordem da justiça. Assim, entendo que foram devidamente comprovadas a retenção do imposto na fonte e o reconhecimento das operações na contabilidade da recorrente, conforme quadro abaixo, no qual estão descritos os valores dos rendimentos e do respectivo IRRF, comprovantes apresentados e suas respectivas folhas nos autos, além das folhas dos autos na qual estão transcritos os lançamentos contábeis feitos no Livro Diário: [...] Assim, entendo que deve ser reconhecido o direito creditório da recorrente relativo ao IRRF retido, no montante de 23,19 UFIR no primeiro semestre e de 60,66 UFIR no segundo semestre, sobre os levantamentos de depósitos relativos a ações judiciais. Por fim, analiso a comprovação relativa ao imposto retido na fonte sobre o recebimento de Juros sobre Obrigações da Eletrobrás. A recorrente trouxe aos autos, em relação ao mês de abril/1992 cópias dos documentos denominados Resumo de Pagamento de Juros/Resgate de Obrigações emitidos pela Eletrobrás, nos quais estão descritos os rendimentos brutos e os valores descontados a título de IOF, IRRF, Adicional de IR e o valor líquido, com chancelas bancárias, que estão devidamente registrados no Livro Diário, cujas cópias constam dos autos. Com relação ao rendimento creditado no mês de agosto de 1992, apresentou cópia de Recibo de Pagamento de Juros e aviso de crédito do Banco Banespa, com o mesmo detalhamento de valores, devidamente registrado no Livro Diário. Não foram apresentados comprovantes do rendimento recebido no mês de dezembro de 1.992, no valor de Cr$ 260.05,98 e IRRF de Cr$ 65.126,50, conforme consta do Demonstrativo às fls. 43 dos autos. Embora o rendimento e respectiva fonte estejam contabilizados no livro Diário, entendo que esta operação não está suficientemente comprovada pela recorrente, devendo ser mantida a glosa do IRRF no pedido de restituição. Os valores dos rendimentos e do imposto retido e respectivas comprovações estão descritos no quadro abaixo: Fl. 871DF CARF MF Processo nº 13805.003604/9330 Acórdão n.º 9101003.437 CSRFT1 Fl. 14 13 [...] Assim, entendo que deve ser reconhecido o direito creditório no montante de 156,51 UFIR, relativo ao IRRF retido sobre rendimentos recebidos sobre Obrigações da Eletrobrás. [...] O acórdão recorrido não merece nenhum reparo. Diante de todo o exposto, voto no sentido de NEGAR provimento ao recurso especial da PGFN. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 872DF CARF MF
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