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Numero do processo: 10925.903941/2012-71
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 29 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Dec 13 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do fato gerador: 31/05/2005
DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO/RESTITUIÇÃO. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. CRÉDITO NÃO COMPROVADO.
Não se admite a compensação/restituição se o contribuinte não comprovar a existência de crédito líquido e certo.
RETIFICAÇÃO DE DACON PARA REDUÇÃO DE DÉBITO SEM A CORRESPONDENTE RETIFICAÇÃO DA DCTF. INEFICÁCIA.
Não produz efeito a retificação do Dacon para redução de base de cálculo sem a correspondente retificação da DCTF ou comprovação do novo valor reduzido.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3302-004.673
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Walker Araujo, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Charles Pereira Nunes, José Renato Pereira de Deus e Lenisa Rodrigues Prado.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Data do fato gerador: 31/05/2005 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO/RESTITUIÇÃO. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. CRÉDITO NÃO COMPROVADO. Não se admite a compensação/restituição se o contribuinte não comprovar a existência de crédito líquido e certo. RETIFICAÇÃO DE DACON PARA REDUÇÃO DE DÉBITO SEM A CORRESPONDENTE RETIFICAÇÃO DA DCTF. INEFICÁCIA. Não produz efeito a retificação do Dacon para redução de base de cálculo sem a correspondente retificação da DCTF ou comprovação do novo valor reduzido. Recurso Voluntário Negado.
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PROVA DO DIREITO CREDITÓRIO. Recorrente I.J.G. SUPERMERCADOS LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do fato gerador: 31/05/2005 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO/RESTITUIÇÃO. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. CRÉDITO NÃO COMPROVADO. Não se admite a compensação/restituição se o contribuinte não comprovar a existência de crédito líquido e certo. RETIFICAÇÃO DE DACON PARA REDUÇÃO DE DÉBITO SEM A CORRESPONDENTE RETIFICAÇÃO DA DCTF. INEFICÁCIA. Não produz efeito a retificação do Dacon para redução de base de cálculo sem a correspondente retificação da DCTF ou comprovação do novo valor reduzido. Recurso Voluntário Negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Walker Araujo, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Charles Pereira Nunes, José Renato Pereira de Deus e Lenisa Rodrigues Prado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 5. 90 39 41 /2 01 2- 71 Fl. 39DF CARF MF Processo nº 10925.903941/201271 Acórdão n.º 3302004.673 S3C3T2 Fl. 3 2 Relatório Tratase o presente processo de Pedido de Restituição/Declaração de Compensação – PERDCOMP, com base em suposto crédito de contribuição social (PIS/Cofins), sendo que a DRF de origem emitiu Despacho Decisório eletrônico não reconhecendo o direito creditório/não homologando a compensação, sob o fundamento de que, a partir das características do DARF descrito no PerDcomp, foram localizados um ou mais pagamentos, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para restituição e compensação dos débitos informados no PerDcomp. Cientificado do Despacho Decisório o interessado apresentou manifestação de inconformidade alegando, inicialmente, que a empresa se dedica ao comércio varejista de mercadorias em geral, com predominância de produtos alimentícios, tendo verificado que estava tributando PIS e Cofins de produtos sujeitos à alíquota zero. Diante disso, constatouse pagamento indevido ou a maior em alguns meses. Assevera que foram retificados os Dacon e feito um pedido de restituição do crédito referente ao pagamento do Darf e, posteriormente, feito um pedido de compensação vinculado ao pedido de restituição. Assim, o manifestante não pode ter a DCOMP indeferida sem que se analise o crédito que lhe deu origem como demonstra comprovante em anexo, tendo destacado que não se justifica a não homologação da compensação, já que não foi analisado o pedido de restituição referente ao Darf pago a maior. Ao final, requer seja homologada a compensação, cujo crédito está demonstrado em Dacon e objeto de pedido de restituição e, se assim não for decidido, que seja determinada a apreciação e julgamento do pedido de restituição mencionado, para que se confirme o crédito pleiteado na forma da legislação. O Acórdão a quo manteve o indeferimento do pleito, nos termos do Acórdão 02056.317. Cientificada daquela decisão a Recorrente apresentou recurso voluntário, onde repisa os argumentos apresentados na primeira instância, e acrescenta que não apresentou a DCTF retificadora correspondente ao Dacon retificador, com débito reduzido, porque não sabia desta exigência. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3302004.659, de Fl. 40DF CARF MF Processo nº 10925.903941/201271 Acórdão n.º 3302004.673 S3C3T2 Fl. 4 3 29 de agosto de 2017, proferido no julgamento do processo 10925.902188/201115, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3302004.659): "O Recurso deve ser conhecido por ter sido apresentado tempestivamente e atender os demais pressupostos e requisitos de admissibilidade. Segundo a decisão recorrida, os fatos ocorreram na seguinte sequência: Vêse que para a retificação do Dacon em 22/11/2007 não houve a correspondente retificação obrigatória da DCTF1. Em 04/10/2007 foi transmitido o PER pedindo restituição de R$ 608,37, antes mesmo de ser retificado o Dacon acima, restando sem análise. Em 17/10/2007, também antes de ser entregue o Dacon retificador, foi transmitida a Dcom indicando como valor original do crédito o mesmo valor de R$ 608,37. finalmente, em 05/07/2011 foi emitido o despacho decisório correspondente à PerdComp 29929.28859.171007.1.3.040235, constante na fl. 2 indicando a não homologação e consequente emissão de DARF para pagamento. 1 Instrução Normativa SRF nº 590, de 22 de dezembro de 2005 Art. 11. Os pedidos de alteração nas informações prestadas no Dacon serão formalizados por meio de Dacon retificador, mediante a apresentação de novo demonstrativo elaborado com observância das mesmas normas estabelecidas para o demonstrativo retificado. § 4ºA pessoa jurídica que entregar o Dacon retificador, alterando valores que tenham sido informados em DCTF, deverá apresentar, também, DCTF retificadora. Fl. 41DF CARF MF Processo nº 10925.903941/201271 Acórdão n.º 3302004.673 S3C3T2 Fl. 5 4 Na análise da matéria, inicialmente verificase que está correta a decisão a quo quando afirma que a Dcomp anula o Per anterior, pois evidentemente o mesmo crédito não pode ser restituído e compensado simultaneamente, pois constituiria dupla repetição de indébito. Evidenciase que o erro cometido pela recorrente ao deixar de apresentar a DCTF retificadora vinculada ao Dacon retificador prejudicou a análise tanto do seu pedido de restituição (Per) quanto da declaração de compensação (Dcomp), estranhamente transmitidos antes do Dacon retificador, uma vez que o débito anteriormente declarado na DCTF original não foi alterado e com isso ele absorveu todo valor do DARF, nada havendo a restituir ou a compensar. Nos autos não existe prova de que a Recorrente teria direito ao crédito pleiteado, pois a retificação do Dacon em si mesmo não produz efeito probatório, mormente quando desacompanhada da correspondente retificação da DCTF que levaria o fisco a intimar a declarante para comprovação. Pedido de reconhecimento de crédito realizado sem as formalidade acima exigem que a requerente desde o início carreie para os autos as provas das suas alegações. A simples menção à legislação que reduziu à zero a alíquota do PIS e da Cofins para determinados produtos não é suficiente para comprovar erro nas informações prestadas na DCTF, não retificada, de forma a evidenciar a existência de pagamento indevido. Assim sendo, por falta de provas sobre a existência de crédito líquido e certo, não há como se admitir a compensação pleiteada. Conclusão Isto posto voto por negar provimento ao recurso voluntário." Da mesma forma que ocorreu no caso do paradigma, no presente processo a Recorrente não retificou a DCTF e nem trouxe aos autos escrituração e/ou documentos fiscais, não logrando comprovar o crédito que alega fazer jus, decorrentes de supostos pagamentos indevidos ou a maior de PIS/Pasep e Cofins. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 42DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11128.000616/97-67
Turma: Terceira Câmara
Seção: Terceiro Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Mon Aug 20 00:00:00 UTC 2001
Ementa: TRIBUTÁRIO - INFRAÇÃO - MULTA PUNITIVA -
DECLARAÇÃO INEXATA - ART. 44, I, LEI N° 9.430/96 - AD(N)
COSIT N° 010/97 - Caracterizada, no caso, a declaração inexata
da mercadoria, em virtude da sua incorreta descrição nos
documentos de importação. A máquina despachada não executa
a função de "etiquetagem" declarada pela importadora, estando,
inclusive, desprovida do respectivo aparelho etiquetador.
Aplicável a penalidade prevista
Recurso Especial provido
Numero da decisão: CSRF/03-03.229
Decisão: ACORDAM os Membros da Terceira Turma da Câmara Superior
de Recursos Fiscais, por unanimidade de votos, DAR provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
Nome do relator: Paulo Roberto Cuco Antunes
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ementa_s : TRIBUTÁRIO - INFRAÇÃO - MULTA PUNITIVA - DECLARAÇÃO INEXATA - ART. 44, I, LEI N° 9.430/96 - AD(N) COSIT N° 010/97 - Caracterizada, no caso, a declaração inexata da mercadoria, em virtude da sua incorreta descrição nos documentos de importação. A máquina despachada não executa a função de "etiquetagem" declarada pela importadora, estando, inclusive, desprovida do respectivo aparelho etiquetador. Aplicável a penalidade prevista Recurso Especial provido
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FAZENDA NACIONAL RECORRIDA 3' CÂMARA DO TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES INTERESSADA FIBAM COMPANHIA INDUSTRIAL SESSÃO DE : 20 DE AGOSTO DE 2001 ACÓRDÃO N° : CSRF/03-03 229 TRIBUTÁRIO - INFRAÇÃO - MULTA PUNITIVA - DECLARAÇÃO INEXATA - ART. 44, I, LEI N° 9.430/96 - AD(N) COSIT N° 010/97 - Caracterizada, no caso, a declaração inexata da mercadoria, em virtude da sua incorreta descrição nos documentos de importação. A máquina despachada não executa a função de "etiquetagem" declarada pela importadora, estando, inclusive, desprovida do respectivo aparelho etiquetador. Aplicável a penalidade prevista Recurso Especial provido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos de recurso interposto pela FAZENDA NACIONAL, ACORDAM os Membros da Terceira Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, por unanimidade de votos, DAR provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. SONir-DEI:~9~JES PRESIDENTE 7 •, e, 5 - PAULO ROBE V - 0 CO ANTUNES RELATOR FORMALIZADO EM 28 SET 200f PROCESSO N° . 11128.000616/97-67 ACÓRDÃO N° CSRF/03-03.229 Participaram, ainda, do presente julgamento, os Conselheiros: CARLOS ALBERTO GONÇALVES NUNES, MOACYR ELOY DE MEDEIROS, MÁRCIA REGINA MACHADO MELARÉ, HENRIQUE PRADO MEGDA, JOÃO HOLANDA COSTA e NILTON LUIZ BARTOLI 2 PROCESSO N° 11128,000616197-67 ACÓRDÃO N° CSRF/03-03.229 RECURSO N° RP1303-0264 RECORRENTE : FAZENDA NACIONAL RECORRIDA :: 3' CÂMARA DO 3° CONSELHO DE CONTRIBUINTES INTERESSADA :: FIBAM COMPANHIA INDUSTRIAL RELATÓRIO A Fazenda Nacional, por sua Douta Procuradoria, interpôs Recurso Especial com fulcro no art. 5°, inciso I, do Regimento Interno desta Câmara Superior de Recursos Fiscais, contra o Acórdão n° 303-29.270, de 22/03/2000, prolatado pela Colenda Terceira Câmara do Egrégio Terceiro Conselho de Contribuintes, na parte em que, por: maioria de votos, foi provido o Recurso Voluntário do sujeito passivo, para fins de excluir do crédito tributário a penalidade capitulada no art„ 44, inciso I, da Lei n° 9..430.96. A Ementa do Acórdão recorrido diz textualmente o seguinte: "REDUÇÃO — EX TARIFÁRIO. O enquadramento em ex tarifário procede somente se a mercadoria for aquela descrita na portaria que concedeu o benefício. A multa prevista no art 44, inciso 1, da Lei n° 9.430/96, deve ser excluída, face o disposto no Ato Declaratório (Normativo) COS1T n°10/97. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO". Os fatos que envolvem a ação fiscal resumem-se no seguinte: A empresa autuada, FIBAM COMPANHIA INDUSTRIAL, importou duas máquinas, que descreveu como sendo: "MÁQUINAS INTEGRADAS AUTOMÁTICAS PARA ACONDICIONAMENTO DE PRODUTOS EM CAIXAS DE PAPELÃO COM SISTEMA DE TRANSPORTE, SEPARAÇÃO, ALIMENTAÇÃO, ET1QUETAGEM E CONTROLE DE PESO, MODELOS MCMS 1 E MCMS 7, COMPLETAS COM BALANÇA PADRÃO, DISPOSITIVO ELETRÔNICO DE 3 PROCESSO N° 11128.000616/97-67 ACÓRDÃO N° . CSRF/03-03.229 CONTROLE PARA ELIMINAÇÃO DE PESAGEM ERRADA, ESTRUTURA DE SUSTENTAÇÃO", A Classificação Fiscal foi feita no código NCM 8422.40.90, que abrange: OUTRAS MÁQUINAS E APARELHOS PARA EMPACOTAR OU EMBALAR MERCADORIAS". Solicitou a importadora o enquadramento do produto no "Ex" tarifário concedido pela Portaria MF n° 279/96, com alíquota de 0% para o 11, como também requerida a isenção para o IPI, prevista na Medida Provisória n° 1.508-12, DOU de 13/12/96. Conforme informado às fls. 40 (Decisão), o texto do "Ex" mencionado diz o seguinte: "Ex 046 — Máquina integrada automática para acondicionamento de produtos em caixas de papelão com sistema de transporte, separação, alimentação, etiquetagem e controle de peso", Baseada em Laudo Técnico produzido por Engenheiro credenciado, a fiscalização promoveu a autuação da importadora, conforme descrição dos fatos no verso do A.I. de fls. 01, por haver concluído que. "(. .) as mercadorias examinadas diferenciam da descrita na DI, por não serem maquinas automáticas, não etiquetarem e terem como função principal a pesagem do produto" Pelo que se infere da mesma Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal constante do campo 10, verso do Auto de Infração de fls. 01, na realidade não houve a "desclassificação" tarifária, ou seja, mudança do código tarifário adotado pela Importadora. A fiscalização simplesmente considerou que a mercadoria não estava abrangida pelo mencionado "Ex" tarifário criado no mesmo código, não podendo beneficiar-se da alíquota reduzida correspondente. O Laudo Técnico que embasou a autuação encontra-se acostado às fls. 13/15, tendo sido emitido pelo Engenheiro Mecânico, Dr, Sérgio Luiz Guedes, o qual afirmou que: As máquinas são "semi-automáticas" e não automáticas; 4 1 PROCESSO N° 11128.000616/97-67 ACÓRDÃO N° CSRF/03-03 229 São específicas (função principal) para pesagem de produtos, Não correspondem àquelas descritas nos documentos de importação O perito nada falou sobre o sistema de etiquetagem, presumindo-se a sua inexistência. A Autuada contestou a conclusão alcançada pela fiscalização e as informações contidas no Laudo Técnico que embasou a autuação, apresentando também um Laudo Técnico contraditório, elaborado pelo perito, Engenheiro Mecânico, Dr Gerson Carlos Augusto (fls.. 29/31). No referido Laudo o Perito nomeado pela importadora informa, conclusivamente, que: "-O equipamento em questão é máquina integrada automática para acondicionamento de produtos em caixas de papelão, pois foi projetado e construído para realizar a operação de acondicionar produtos em caixas de papelão sem a necessidade de intervenção externa ou, automaticamente em diversos módulos perfeitamente integrados; -Não se pode admitir que essas máquinas sejam "semi- automáticas", pois uma vez atribuído o peso-padrão para a peça tipo e o tamanho do lote, todas as operações restantes para o acondicionamento do produto em caixas de papelão são realizadas AUTOMATICAMENTE, sem qualquer intervenção externa; -O equipamento não pode ser destinado apenas e tão somente para a pesagem de mercadorias, por dois motivos. 1) em sendo um equipamento destinado apenas à pesagem, dispensaria todos os outros módulos e, consequentemente, teria um custo bastante inferior; 2) a existência dos separadores, dos acondicionadores e dos transportadores, caracterizam perfeitamente um equipamento para trabalhar integradamente". 5 416 PROCESSO N° 11128.000616/97-67 ACÓRDÃO N° CSRF/03-03 229 Em função da divergência entre os Laudos apresentados, a Autuada requereu a realização de nova perícia, por um terceiro perito desempatador. Admitiu, entretanto, a ausência do "aparelho etiquetador", argumentando que tal fato não poderá fazer com que o equipamento seja excluído do referido "Ex" tarifário, Em suas razões de decidir o I, Julgador "a quo" assevera que: "De fato, a ausência do etiquetador não modifica sua finalidade principal ou classificação tributária„ Todavia, não é este o cerne da questão, que é o enquadramento em um "EX", A tarifa de exceção ou "EX" pode ser concedida desde que a mercadoria corresponda exatamente àquela que foi descrita na portaria, já que, combinando-se o art. 111 do CTN com o Art. 129 do RA, temos que a legislação tributária que disponha sobre redução tarifária deve ser interpretada literalmente. Apenas e tão somente o produto que funcione como o descrito na norma concessória do benefício pode ser enquadrado no "EX", já que sob um idêntico código tarifário podem residir produtos assemelhados que discrepem daquele que é objeto do benefício" Com base em tais fundamentos e mencionando que o E. Terceiro Conselho de Contribuintes vem decidindo nesse sentido, manteve a exigência tributária pelo não enquadramento do produto no questionado "EX". Com relação à penalidade aplicada, também impugnada pela importadora, manteve a sua exigência, sob fundamento de que: "Quanto à multa aplicada, capitulada no art.. 44, I, da Lei n° 9,430/96 por configurar-se declaração inexata, ela será mantida nos termos do ADN n° 10/97, que é de locução que a indicação indevida de destaque (EX) só não é infração punível por tal dispositivo, desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e 6 PROCESSO N° :11128.000616/97-67 ACÓRDÃO N° : CSRF/03-03 229 desde que não se constate intuito doloso ou má fé por parte do declarante A mercadoria importada não está corretamente descrita na Dl, visto que foi declarada como "Máquina integrada automática para acondicionamento de produtos em caixas de papelão com sistema de transporte, separação, alimentação, etiquetagem e controle de peso, modelo MCMS 7, completa com balança padrão, dispositivo eletrônico de controle para eliminação de pesagem errada, estrutura de sustentação", e é incontestável que não existe o sistema de etiquetagem Conseqüentemente é devida a multa " Outras exigências formuladas no Auto de Infração foram excluídas pelo Julgador singular, nada mais sendo questionado a respeito Como se depreende do Acórdão recorrido, foi unânime o entendimento da Colenda Câmara "a quo" em manter a exigência do tributo, considerando como não aproveitável a redução estabelecida no "Ex" tarifário em comento, para a mercadoria importada. Com relação à penalidade aplicada, a Decisão que excluiu tal exigência do lançamento fiscal foi adotada por maioria de votos, sendo vencida somente a I. Relatora, que sobre a questão assim se manifestou. "(, )Considero que também esteve bem a decisão singular quando manteve a multa prevista no artigo 44 da Lei 9,430/96 A mercadoria não foi descrita corretamente na Declaração de Importação, pois constava de tal descrição o sistema de etiquetagem que, na verdade, não a acompanhava" O Voto Vencedor que integra o citado Acórdão, entretanto, caminhou em outra direção Segundo o seu autor, duas condições são imprescindíveis para a aplicação do AD(N) n° 10/97, a saber 7 PROCESSO N° : 11128.000616/97-67 ACÓRDÃO N° CSRF/03-03.229 a)a descrição da mercadoria apresentada pelo importador na Dl deverá conter os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado; e b)o intuito doloso ou a má-fé, por parte do declarante, não estejam presentes. Concluiu-se, então, que essas duas condições estavam devidamente atendidas, primeiramente pelo fato de que a autoridade fiscal utilizou o mesmo código tarifário que a declarante informou na DI, o que, por si só, é elemento suficiente para confirmar a primeira condição. Por outro lado, a inexistência nos autos de prova demonstrando o evidente intuito doloso ou a má-fé da Recorrente, confirma a segunda condição, Inconformada com tal sentença a D. Procuradoria da Fazenda Nacional interpôs o competente Recurso Especial, pleiteando a reforma do Acórdão, para restabelecimento da penalidade excluída. Em extensa fundamentação procura demonstrar que o AD(N) Cosit n° 10/97, não privilegia o sujeito passivo que não descreveu, corretamente, a mercadoria nos documentos de importação, mas tão somente aquele que, tendo descrito o produto com exatidão, tenha incorrido em erro de classificação tarifária. Argumenta que, no presente caso, não restou dúvida de que o importador descreveu, incorretamente, a sua mercadoria nos documentos de importação, tanto assim que a própria Câmara "a quo" confirmou a Decisão monocrática, ao concluir que tal mercadoria não se enquadrava, efetivamente, no texto do "Ex" tarifário cujo beneficio pleiteou. Isto caracteriza declaração inexata. Afirma que a interpretação do AD(N) COSIT n° 10/97 pela qual se pautou o R. Acórdão recorrido, está em descompasso não só com os próprios termos do ato normativo, mas também com o art. 44, I da Lei n° 9430/96, vez inexistir dúvida de que o contribuinte apresentou declaração inexata, Reporta-se e transcreve textos dos Pareceres: CST n° 54/77 e CST/DANSELAB n° 3513, bem como do AD(N) CST n° 29/80, cujas cópias apresenta em anexo Regularmente intimado o sujeito passivo não apresentou contra-razões ao Recurso Especial É o Relatório. 8 PROCESSO N° : 11128.000616/97-67 ACÓRDÃO N° CSRF/03-03„229 VOTO CONSELHEIRO RELATOR: PAULO ROBERTO CUCO ANTUNES O Recurso ora em exame é tempestivo. A Procuradoria foi intimada a tomar ciência do Acórdão em 28/08/2000, como atesta o Termo de Intimação acostado às fls. 107. Embora não exista a data de recepção pelo órgão receptor competente, o Despacho de admissibilidade constante às fls. 108 data de 11/09/2000. Estando devidamente fundamentado reúne, em meu entender, os requisitos necessários à sua admissibilidade, razão pela qual dele conheço. Quanto ao mérito, a questão única a ser decidida por este Colegiado é se o sujeito passivo incorreu na infração capitulada no art. 44, inciso I, da Lei n° 9,430/96, pela prática de declaração inexata e, neste caso, se estaria ou não beneficiado pelo disposto no Ato Declaratório (Normativo) n° 10, de 16/01/97, da Coordenação-Geral do Sistema de Tributação (Cosit). Tornou-se inquestionável nestes autos que a empresa incorreu, efetivamente, na prática de "declaração inexata", uma vez que declarou nos documentos de importação que a máquina importada realiza, dentre outras coisas, também o trabalho de "etiouetaqem", o que na realidade não ocorre„ É a própria autuada quem confirma tal fato, pelo texto dos tópicos 2.6 e 2.7, da sua Impugnação de Lançamento (fls. 21) o que conduziu, inclusive, à inaceitação da aplicação do "Ex" tarifário no qual a mercadoria foi enquadrada. Resta definirmos, entretanto, se a referida declaração inexata configura infração, pelo enfoque dado pela Cosit, em seu AD(N) n° 10, de 1997, Vejamos o que estabelece o texto do Ato Normativo em discussão: "1 — Declara, em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal, às Delegacias da Receita Federal de Julgamento e aos demais interessados, que não constitui infração punível com as multas previstas no artigo 4° da Lei n. 8.218, de 29 de agosto de 1991, e no artigo 44 da Lei n. 9,430, de 27 de dezembro de 1996, a solicitação, feita no despacho aduaneiro, de reconhecimento de imunidade tributária, isenção ou redução do Imposto sobre a Importação e preferência percentual negociada em acordo internacional, quando incabíveis, bem assim a classificação tarifária errônea ou a indicação indevida de destaque (ex), desde que o produto esteia corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao 9 1l° PROCESSO N° 11128.000616/97-67 ACÓRDÃO N° CSRF/03-03.229 enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má-fé por parte do declarante." (grifos meus) De pronto afastamos as hipóteses de intuito doloso ou má-fé por parte do declarante, situações que não foram abordadas nestes autos. Pelo que se infere do texto da norma legal transcrita, a infração poderia estar descaracterizada ainda que houvesse mudança no "enquadramento tarifário pleiteado", ou seja, mudança no código tarifário enquadrado pela importadora, desde que a mercadoria estivesse corretamente descrita nos documentos de importação e com todos os elementos necessários à sua identificação. Entendo, todavia, que tal situação não ocorre no presente caso. Tornou-se evidente que ao descrever a mercadoria a interessada declarou que a mesma possuída, também, a função de "etiquetagem" o que seria realizado, segundo afirma em sua Impugnação, por um "aparelho etiouetador, o qual não se encontrava presente, em razão de "falha do fabricante em não fornece-lo". É fora de dúvida, portanto, que a mercadoria não foi, neste caso, descrita corretamente nos documentos de importação, com todos os elementos necessários à sua identificação. Não seria possível identificar uma mercadoria com a função de "etiquetamento", se o respectivo "aparelho etiquetador" não se fazia presente O Enquadramento Tarifário correto mencionado no texto da norma questionada não é condição alternativa, mas sim aditiva. Para que a declaração inexata não seja considerada infração, segundo a referida norma legal, é indispensável que a mercadoria esteja "corretamente descrita", com todos os elementos necessários não só ao seu "enquadramento tarifário", como também à sua identificação. E, nesse caso, não estando presente o "aparelho etiquetador" não era possível identificar a máquina como apropriada para o "etiquetamento" declarado pela importadora. Assim sendo, reconhecendo assistir razão à Recorrente, no presente caso, voto por dar provimento ao Recurso Especial aqui em exame. Sala das Sessões-DF, 20 de agosto de 2001. — PAULO ROBE Wo ' CO ANTUNES. 10 Page 1 _0000200.PDF Page 1 _0000300.PDF Page 1 _0000400.PDF Page 1 _0000500.PDF Page 1 _0000600.PDF Page 1 _0000700.PDF Page 1 _0000800.PDF Page 1 _0000900.PDF Page 1 _0001000.PDF Page 1
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Numero do processo: 16643.000392/2010-61
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Sep 12 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Nov 16 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010
ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE.
A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição.
Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienante e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico, evidencia-se a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio pretendido pela contribuinte.
Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
TRIBUTAÇÃO REFLEXA
Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
Normas Gerais de Direito Tributário
MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS MENSAIS DO IRPJ E DA CSLL. CABIMENTO.
A partir do advento da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, não há mais dúvida interpretativa acerca da inexistência de impedimento legal para a incidência da multa isolada cominada pela falta de pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, concomitantemente com a multa de ofício decorrente da falta de pagamento do imposto e da contribuição devidos ao final do ano-calendário.
Como decorrência lógica da possibilidade de cobrança concomitante das multas tem-se a regularidade do lançamento da multa isolada mesmo após o encerramento do ano-calendário em que deveriam ter sido recolhidas as antecipações por estimativa.
Processo Administrativo Fiscal
QUESTÕES NÃO ANALISADAS PELA TURMA ORDINÁRIA. PREJUDICIAIS DE MÉRITO. NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO ESPECIAL. NECESSÁRIO RETORNO DOS AUTOS À TURMA DE ORIGEM.
A Turma Ordinária, ao julgar favoravelmente ao contribuinte a questão principal da dedutibilidade das despesas de amortização de ágio, deixou de analisar questões acessórias como a qualificação da multa de ofício, por restarem prejudicadas. Com a reforma dessa decisão pela Câmara Superior de Recursos Fiscais, devem os autos retornar à Turma a quo para a análise das questões outrora prejudicadas, sob pena de supressão de instância.
Numero da decisão: 9101-003.077
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, quanto (i) a` amortizac¸a~o fiscal das despesas de a´gio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura, por voto de qualidade, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Lui´s Fla´vio Neto (relator), Leonardo de Andrade Couto (Suplente Convocado), Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que na~o conheceram do recurso, quanto a` esta mate´ria. No me´rito, por voto de qualidade, acordam em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Lui´s Fla´vio Neto (relator), Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento; quanto (ii) a` qualificac¸a~o de multa de ofi´cio, por unanimidade de votos, em na~o conhecer do Recurso Especial, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciac¸a~o dessas e das demais questo~es constantes do recurso volunta´rio, que restaram prejudicadas pela decisa~o recorrida e quanto (iii) a` exige^ncia de multa isolada, por unanimidade de votos, acordam em na~o conhecer do Recurso Especial quanto aos anos calenda´rios de 2005 a 2006 e, por maioria de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, quanto aos anos calenda´rios de 2007 a 2010, vencidos os conselheiros Lui´s Fla´vio Neto (relator) e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que na~o conheceram do recurso, quanto a` esta mate´ria. No me´rito, por maioria de votos, acordam em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Lui´s Fla´vio Neto (relator), Cristiane Silva Costa e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe negaram provimento. Votaram pelas concluso~es, quanto a` amortizac¸a~o fiscal das despesas de a´gio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura, os conselheiros Cristiane Silva Costa e Gerson Macedo Guerra. Votou pelas concluso~es, quanto a` qualificac¸a~o de multa de ofi´cio, o conselheiro Rafael Vidal de Arau´jo. Designado para redigir o voto vencedor no conhecimento e no me´rito, quanto a` amortizac¸a~o fiscal das despesas de a´gio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura e quanto a` exige^ncia de multa isolada, o conselheiro Rafael Vidal de Arau´jo.
(assinatura digital)
Adriana Gomes Rego - Presidente em exercício
(assinatura digital)
Luís Flávio Neto - Relator
(assinatura digital)
Rafael Vidal de Araújo Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Leonardo de Andrade Couto (suplente convocado), Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Adriana Gomes Rego (Presidente em exercício).
Nome do relator: LUIS FLAVIO NETO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição. Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienante e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico, evidencia-se a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio pretendido pela contribuinte. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL TRIBUTAÇÃO REFLEXA Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ. Normas Gerais de Direito Tributário MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS MENSAIS DO IRPJ E DA CSLL. CABIMENTO. A partir do advento da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, não há mais dúvida interpretativa acerca da inexistência de impedimento legal para a incidência da multa isolada cominada pela falta de pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, concomitantemente com a multa de ofício decorrente da falta de pagamento do imposto e da contribuição devidos ao final do ano-calendário. Como decorrência lógica da possibilidade de cobrança concomitante das multas tem-se a regularidade do lançamento da multa isolada mesmo após o encerramento do ano-calendário em que deveriam ter sido recolhidas as antecipações por estimativa. Processo Administrativo Fiscal QUESTÕES NÃO ANALISADAS PELA TURMA ORDINÁRIA. PREJUDICIAIS DE MÉRITO. NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO ESPECIAL. NECESSÁRIO RETORNO DOS AUTOS À TURMA DE ORIGEM. A Turma Ordinária, ao julgar favoravelmente ao contribuinte a questão principal da dedutibilidade das despesas de amortização de ágio, deixou de analisar questões acessórias como a qualificação da multa de ofício, por restarem prejudicadas. Com a reforma dessa decisão pela Câmara Superior de Recursos Fiscais, devem os autos retornar à Turma a quo para a análise das questões outrora prejudicadas, sob pena de supressão de instância.
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AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição. Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienante e adquirente integrarem o mesmo grupo econômico, evidenciase a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio pretendido pela contribuinte. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL TRIBUTAÇÃO REFLEXA Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos, aplicase à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ. NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS MENSAIS DO IRPJ E DA CSLL. CABIMENTO. A partir do advento da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, não há mais dúvida interpretativa acerca da inexistência de impedimento legal para a incidência da multa isolada cominada pela falta de pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, concomitantemente com a multa de ofício decorrente da falta de pagamento do imposto e da contribuição devidos ao final do anocalendário. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 64 3. 00 03 92 /2 01 0- 61 Fl. 2262DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.263 2 Como decorrência lógica da possibilidade de cobrança concomitante das multas temse a regularidade do lançamento da multa isolada mesmo após o encerramento do anocalendário em que deveriam ter sido recolhidas as antecipações por estimativa. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL QUESTÕES NÃO ANALISADAS PELA TURMA ORDINÁRIA. PREJUDICIAIS DE MÉRITO. NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO ESPECIAL. NECESSÁRIO RETORNO DOS AUTOS À TURMA DE ORIGEM. A Turma Ordinária, ao julgar favoravelmente ao contribuinte a questão principal da dedutibilidade das despesas de amortização de ágio, deixou de analisar questões acessórias como a qualificação da multa de ofício, por restarem prejudicadas. Com a reforma dessa decisão pela Câmara Superior de Recursos Fiscais, devem os autos retornar à Turma a quo para a análise das questões outrora prejudicadas, sob pena de supressão de instância. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, quanto (i) à amortizacã̧o fiscal das despesas de ágio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura, por voto de qualidade, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Leonardo de Andrade Couto (Suplente Convocado), Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram do recurso, quanto à esta matéria. No mérito, por voto de qualidade, acordam em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento; quanto (ii) à qualificação de multa de ofício, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciacã̧o dessas e das demais questões constantes do recurso voluntário, que restaram prejudicadas pela decisão recorrida e quanto (iii) à exigência de multa isolada, por unanimidade de votos, acordam em não conhecer do Recurso Especial quanto aos anos calendários de 2005 a 2006 e, por maioria de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, quanto aos anos calendários de 2007 a 2010, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator) e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que não conheceram do recurso, quanto à esta matéria. No mérito, por maioria de votos, acordam em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Cristiane Silva Costa e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que lhe negaram provimento. Votaram pelas conclusões, quanto à amortizaçaõ fiscal das despesas de ágio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura, os conselheiros Cristiane Silva Costa e Gerson Macedo Guerra. Votou pelas conclusões, quanto à qualificaçaõ de multa de ofício, o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Designado para redigir o voto vencedor no conhecimento e no mérito, quanto à amortizacã̧o fiscal das despesas de ágio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura e quanto à exigência de multa isolada, o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. (assinatura digital) Adriana Gomes Rego Presidente em exercício Fl. 2263DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.264 3 (assinatura digital) Luís Flávio Neto Relator (assinatura digital) Rafael Vidal de Araújo – Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Leonardo de Andrade Couto (suplente convocado), Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Adriana Gomes Rego (Presidente em exercício). Relatório Tratase de recurso especial interposto pela Procuradoria da Fazenda Nacional (doravante “PFN, “recorrente”), em face do acórdão nº 1301001.299 (doravante “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”), proferido pela 1a Turma Ordinária da 3a Câmara desta 1a Seção (doravante “Turma a quo”). O presente processo administrativo tem como objeto a glosa de despesas com amortização de ágio, acrescida da multa de 150%, bem como da exigência de multa isolada pela não apuração de estimativas entre os anos de 2005 e 2010. O acórdão recorrido traz a seguinte narrativa quanto aos fatos, in verbis: “1 A autoridade fiscal inicia por discorrer sobre estruturação das empresas EMS S/A. e EMS Investimentos S/A., como a seguir sintetizo para conhecimento dos meus pares: 1.1A empresa EMS S/A. (“EMS”), sociedade por ações de capital fechado, iniciou suas atividades em 17/12/2002, tendo por sócios Carlos Eduardo Sanchez e Nanci Sanchez. 1.2 Em 04/05/2004 foi constituída a empresa Sol Collection Assessoria Empresarial Ltda. Em 15/12/2004 essa empresa foi adquirida pelas empresas Salmont Empreendimentos e Participacõ̧es Ltda., através de seu sócio Carlos Eduardo Sanchez e Saltriver Empreendimentos e Participações Ltda., através de sua sócia Nanci Sanchez, tendo sido alterado sua razão social para EMS Investimentos S/A. (EMS Investimentos), e seu objeto para holdings de instituicõ̧es não financeiras. Suas atividades foram encerradas em 13 de setembro de 2005, por ter sido incorporada pela EMS S/A. (durou aproximadamente oito meses). Fl. 2264DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.265 4 1.4 As fichas cadastrais da JUCESP informam que Carlos Eduardo Sanchez e Nanci Sanchez figuraram como diretores nas duas empresas, EMS S/A. e EMS Investimentos, nos períodos de 2004 e 2005. 1.5 A EMS Investimentos S/A. aprovou, em assembléia geral extraordinária realizada em 29 de dezembro de 2004 (fls. 233/236), a incorporacã̧o da totalidade das ações da EMS S/A. pelo valor de R$ 926.642.000,00, fixado com base num potencial de lucratividade futura (metodologia de fluxo de caixa futuro descontado), segundo valores de mercado em 30 de novembro de 2004, conforme laudo elaborado por empresa de consultoria (fls. 168/228); 1.6 Incorporadas as ações da EMS S/A., a EMS Investimentos S/A teve seu patrimônio aumentado em R$ 926.642.000,00, mediante a emissão de 140.000.000 novas acõ̧es ordinárias, nominativas, sem valor nominal, ao preço de emissão total de R$ 926.642.000,00, sendo R$ 140.000.000,00 o valor do aumento do capital e R$ 786.642.000,00 o valor da Reserva de Capital — Ágio na emissão de acõ̧es decorrente da incorporacã̧o das ações da EMS pelo valor de mercado, conferindose aos acionistas novas acõ̧es ordinárias nominativas e sem valor nominal, sendo que uma acã̧o da EMS passou a corresponder a sete ações da EMS Investimentos, ficando assim distribuídas: Carlos Eduardo Sanchez — recebeu sete novas ações, Nanci Sanchez — recebeu sete novas ações e EMS Sigma Pharma Participacõ̧es S/A. – recebeu 139.999.986 ações; 1.7 A contribuinte apresentou o Razão de novembro/2004 e o Livro Diário n° 2 de 2005 da EMS Investimentos S/A., constando naquele os registros nas contas de investimento na EMS S/A. (R$ 145.281.215,03) e, do ágio correspondente (R$ 781.360.784,97), embora o investimento na EMS tenha sido efetuado apenas em dezembro/2004, como atestam a Ata da Assembléia Geral, de 15 de dezembro de 2004, em que ocorreu a compra da empresa Sol Collection e a sua transformação na EMS Investimentos S/A. (fl. 93), e a Ata da Assembléia Geral Extraordinária da EMS Investimentos S/A., de 29 de dezembro de 2004 (fls. 233 a 236); 1.8 A empresa não apresentou quaisquer motivos ou benefícios sobre a constituicã̧o da EMS Investimentos S/A., apresentando praticamente zerados todos os campos das Declarações de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica DIPJ da EMS Investimentos S/A., de 2004 e 2005 (fls. 529 a 571), registrando apenas as movimentações relativas à participação societária da EMS S/A., demonstrando a ausência de operações e empregados; 1.9 O ágio registrado quando da incorporação de ações da EMS não foi pago, conforme se observa da contabilizacã̧o desse ágio na EMS Investimentos S/A: (...) Fl. 2265DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.266 5 1.10 Em julho de 2005, com a incorporação da controladora EMS Investimentos S/A. pela então controlada EMS S/A., o referido ágio passou a ser amortizado por esta; 1.11 A EMS S/A. informou, na linha 47 — Demais Aplicações em Despesas Amortizáveis, no Ativo (ficha 36A) da DIPJ 2006, ano calendário 2005, o valor de R$ 788.477.711,19 (superior ao ágio surgido na incorporação, de R$ 781.360.784,97), tendo explicado que esse valor se tratava de ágio na incorporação da EMS Investimentos e que essa contabilizacã̧o se dera de acordo com o inc. II, do art. 385 do RIR/99 (fls. 13 e 14); 1.12. Pelos registros dos Razões apresentados e juntados às fls. 122 a 126, as seguintes contas do ativo diferido compuseram o valor informado na DIPJ/2006: (...) 1.13 Depois de analisar as respostas dadas a intimações para explicar inconsistência nos valores informados em suas DIPJ’s, concluiuse que os reais valores referentes à amortização do ágio foram os seguintes: (...) 1.14 Quanto à incorporação da EMS Investimentos S/A. pela EMS S/A., foram observados os seguintes aspectos O valor total do Patrimônio Líquido da sociedade é de R$ 1.143.389.474,00; Em razão de ser a EMS Investimentos detentora da totalidade das ações da EMS, a incorporação acarretou aumento de capital da EMS, sem emissão de novas ações, no valor de R$ 3.360,61; O valor do Patrimônio Líquido da EMS Investimentos a ser vertido para EMS representou R$ 781.364.145,58, tendo sido deliberada a constituicã̧o de Reserva de Capital de Ágio na incorporacã̧o pelo valor de R$ 781.360.784,97; Acionistas: EMS Sigma Pharma Participações S/A. (19.999.284 ações), Saltmont Empreendimentos e Participacõ̧es Ltda. (500 acõ̧es), Saltriver Empreendimentos e Participações Ltda. (214 ações), Carlos Eduardo Sanchez (01 ação), Nanci Sanchez (01 ação). 1.15 Embora a possibilidade de amortização do ágio antes de ocorrida a alienacã̧o ou liquidacã̧o do investimento caracterize beneficio fiscal outorgado pela Lei n° 9.532/97, ele se aplica às hipóteses reais de aquisição de investimento com ágio, não àquelas em que tenha havido uma artificial estruturação para possibilitar o aparecimento do ágio a ser amortizado em futura incorporacã̧o, com o único objetivo de criar despesas dedutíveis; Fl. 2266DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.267 6 1.16 A incorporação às avessas demanda uma razão específica relevante que afaste a estranheza da operação e que mostre sua perfeita adequação à realidade fática, sendo que a contribuinte não apresentou razões para as operações societárias que não fossem a evidente finalidade de reduzir o montante de tributos devidos; 1.17 A EMS Investimentos S/A. foi introduzida ao grupo econômico para servir de veículo para "adquirir" a EMS S/A. — empresa operacional — pela incorporação da totalidade de suas ações, gerando um ágio de R$ 781.360.784,97, para, na seqüência, ser incorporada pela sua subsidiária (EMS S/A.), transmitindolhe o ágio e as suas próprias quotas, sendo que não houve qualquer saída de caixa (pagamento) nessa operação da qual se originou o ágio; 1.19 O surgimento de ágio com fundamento em potencial lucratividade futura, numa operação "não caixa", entre empresas do mesmo grupo, é rejeitado pela jurisprudência, pelo Conselho Federal de Contabilidade (Resolucã̧o nº 1.157/2009), pelo Instituto dos Auditores Independentes do Brasil – Ibracon, não podendo sua amortização, a luz da legislação contábil e tributária, reduzir as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL; 2 Em seguida, a autoridade fiscal aponta que o contribuinte também omitiu a obtencã̧o de receita pela cessão do direito de processamento da sua folha de pagamentos de salários, com exclusividade, ao Banco Santander por um período de 5 anos, no valor de R$ 6.830.585,38, sendo que, ao ser intimada em 02/09/2010 a apresentar o correspondente contrato (fls. 392 e 393) apresentou "Termo de Parceria Comercial" (fls. 409 a 417), lavrado em 21 de setembro de 2010, configurando contrato pósdatado e em plena vigen̂cia da fiscalização, para justificar o mencionado valor incluso na linha 22, ficha 37A, Passivo, da DIPJ/2009AC 2008 "outras contas"; 3 A autoridade fiscal aponta que, em conseqüência das infracõ̧es apuradas, o prejuízo fiscal e base de cálculo negativa de CSLL apurados originalmente para o ano calendário 2008, converteramse em valores positivos (R$ 103.874.696,75), restando indevidas as compensacõ̧es, com sua utilização, dos resultados positivos apurados pelo sujeito passivo no ano calendário de 2009 e em maio de 2010; 4 O autuante apontou os seguintes procedimentos como enquadrados na hipótese de fraude prevista no artigo 72 da Lei nº 4.502/1964: o registro de ágio gerado internamente, sem propósito negocial, sem pagamento, utilizacã̧o de empresa veículo, com o exclusivo propósito de reduzir os tributos devidos, e o contrato com o Banco Santander, pósdatado, lavrado quando já se encontrava sob acã̧o fiscal, e qualificou a multa, nos termos do § 1o do artigo 44 da Lei nº 9.430/1996; 5 Em razão da adição da receita omitida oriunda do contrato com o Banco Santander às bases de cálculo das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, verificouse um recolhimento a Fl. 2267DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.268 7 menor dessas antecipações no período, fundamentando a aplicacã̧o da multa isolada de 50% sobre os valores das diferenças apuradas”. O contribuinte apresentou impugnação administrativa. Em face da decisão proferida pela DRJ houve recurso de ofício e voluntário. Ao julgálos, a Turma a quo proferiu o acórdão recorrido (efls. 1.165 e seg.), que decidiu negar provimento ao recurso de ofício, dar provimento parcial ao recurso para cancelar a exigen̂cia a título de omissão de receitas do ano calendário de 2010 (R$ 569.215,45), bem como a glosa de ágio e a multa isolada exigida. O acórdão recorrido restou assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 INCORPORAÇÃO DE AÇÕES EMPRESAS DO MESMO GRUPO O registro foi expressamente admitido pelo art. 36 da Lei no 10.637/2002, não podendo a administração tributária recusarlhe os efeitos previstos nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.542/97. EFEITOS DO ART. 36 DA LEI Nº 10.637/2002 O art. 36 da Lei nº 10.637/2002 autorizou o diferimento da tributação do ganho de capital, representado pela reavaliação de participacã̧o societária para fins de incorporação ao patrimônio de outra pessoa jurídica, para o períodobase em que a pessoa jurídica para a qual a participação societária tenha sido transferida realizar o valor dessa participacã̧o, por alienação, liquidacã̧o, conferen̂cia de capital em outra pessoa jurídica, ou baixa a qualquer título. A incorporacã̧o, da pessoa jurídica para a qual foi transferido o investimento, pela pessoa jurídica investida, implica realização prevista no § 1º do art. 36 (baixa a qualquer título), fazendo cessar o diferimento do valor controlado no LALUR. A hipótese não se encontra abrangida pela exceção prevista no § 2º do artigo, por não ocorrer transferen̂cia da participação ao patrimônio de outra pessoa jurídica, mas sua extincã̧o por confusão patrimonial entre investidora e investida. OMISSÃO DE RECEITA RECEITA RECEBIDA ANTECIPADAMENTE Se o contribuinte é tributado pelo lucro real anual, o fato de não haver apropriado as parcelas mensais de receita correspondentes aos meses de janeiro a maio não pode dar ensejo a lançamento por omissão receitas se comprovado que nos meses seguintes a receita apropriada excedeu o montante apropriável no ano. MULTA ISOLADA FALTA DE RECOLHIMENTO DAS ESTIMATIVAS MENSAIS Descabe exigir multa por falta ou insuficien̂cia das estimativas mensais após o encerramento do ano calendário. Fl. 2268DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.269 8 LANÇAMENTOS DECORRENTES CSLL, PIS e COFINS O decidido quanto as infracã̧o à legislacã̧o do IRPJ aplicamse aos litígios relativos aos demais tributos em cujas bases de cálculo influenciaram. A PFN interpôs recurso especial (efls. 1.792 e seg.), arguindo a divergência em relação às seguintes decisões proferidas por diferentes Turmas do CARF, especialmente quanto às seguintes matérias: (1) impossibilidade de deducã̧o, da base de cálculo do IRPJ e da csll, de despesas com amortização de ágio criado internamente; (2) qualificação da multa de ofício para 150% e; (3) incidência da multa isolada por falta de recolhimento de estimativas. Vale observar que não foi interposto recurso quanto ao tema da omissão de receitas. O recurso especial foi admitido por despacho (efls. 1.749 e seg.). O contribuinte apresentou contrarrazões ao recurso especial (efls. 1.885 e seg.), pugnando pelo não conhecimento do recurso especial e, no mérito, sustentando a legitimidade do ágio amortizado, bem como, caso restabelecida a glosa, a impossibilidade de qualificação da multa em 150% e a exigência cumulada da multa isolada de estimativas com a multa de ofício. O contribuinte também interpôs recurso especial (efls. 1.838 e seg.), o qual, contudo, não foi admitido por despacho (efls. 2.054 e seg.; efls. 2.059 e seg.). Foram juntados aos autos pareceres jurídicos, emitidos por variados juristas, anteriores e posteriores às operações, que corroborariam à validade dos atos praticados pelo contribuinte. Concluise, com isso, o relatório. Fl. 2269DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.270 9 Voto Vencido Conselheiro Luís Flávio Neto, Relator Conhecimento do recurso especial. O recurso especial interposto pela PFN versa sobre três matérias: amortização fiscal do ágio, multa de ofício qualificada em 150% e exigência de multa isolada cumulativamente com a referida multa de ofício em razão da não apuração de estimativas mensais. Em sede de contrarrazões, o contribuinte pugna pelo não conhecimento do recurso especial, arguindo que, quanto à matéria da amortização fiscal do ágio, (i) haveria insuficiência recursal, bem como (ii) os acórdãos apresentados como paradigmas seriam convergentes e não divergentes, servindose o recurso especial para a revisão probatória, de forma que o recurso especial interposto pela PFN não deveria ser conhecido. Ademais, a PFN não teria demonstrado o prequestionamento da matéria guerreada. Para justificar o não conhecimento do recurso especial interposto pela PFN quanto à questão da amortização fiscal do ágio, o contribuinte sustenta que o acórdão recorrido teria se baseado em três fundamentos autônomos para afastar a glosa em questão, mas que a PFN apenas teria contestado um deles em seu recurso. Haveria, então, insuficiência recursal quanto à matéria da amortização fiscal do ágio. Corroborando com esse entendimento, o contribuinte apresentou pareceres jurídicos, emitidos pelos renomados processualistas, como Eduardo Arruda Alvim, Cândido Rangel Dinamarco. Os três fundamentos autônomos adotados pela decisão recorrida seriam: a alegação de que as operações não envolveriam terceiros, a ausência de pagamento e a referência aos fundamentos contábeis apresentados não seriam suficientes para invalidar o ágio; as operações teriam sido realizadas por razões extra tributárias, com a evidenciação de propósitos negociais; haveria explicito fundamento legal no período compreendido para a amortização fiscal do ágio em questão (Lei n. 10.637/2002, art. 36). A questão é saber se os referidos fundamentos adotados pela decisão recorrida estão inseridos em um mesmo núcleo e todo ele foi objeto de irresignação e demonstração de divergência pelo recurso especial da PFN ou, ainda, se tratarseiam de argumentos autônomos. Caso se verifique essa segunda hipótese, caberia à PFN manejar o seu recurso para a devolução de cada um dos temas à CSRF para a solução das divergências de interpretação. Destacamse os seguintes trechos da decisão recorrida: Fl. 2270DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.271 10 “Ademais, como leciona o Professor Eliseu Martins no parecer complementar apresentado nos memoriais, que tem sido incansavelmente citado e adotado pelas autoridades fiscais como o orientador dessa nova interpretação, para fins contábeis, leciona que somente a partir do CPC 18 – 2010 é que surgiu a vedação do registro de ágio decorrente de operações envolvendo um mesmo grupo econômico. (...) E mais, ainda que se pudesse admitir tal possibilidade, ainda assim, por se tratarem de normas editadas nos ano de 2010, pelo princípio da irretroatividade das leis somente poderiam ser aplicáveis a partir do ano de 2010. (...) Noutro prisma, o fundamento apontado pela autoridade fiscal para não aceitar o ágio gerado entre empresas do mesmo grupo é que por serem partes relacionadas estaria maculada a independência de avaliação, e por isso, a mensuração dos valores da transação não seria confiável. Mais uma vez, aqui se valeu de regras contábeis posteriores aos fatos (Resolucã̧o CFC nº 1303/2010 que aprovou o NBC TG 04). Nesse passo, entendo que não há na legislação fiscal qualquer vedação ao ágio gerado internamente dentro de um mesmo grupo econômico. Ao contrário, foi autorizado pelo art. 36 da Lei n. 10.637/02 (que revogou a postergação do ganho), art. 21 da Lei n. 9.249/95 (único fundamento p/ágio – expectativa de rentabilidade futura) e art. 8º. da Lei n. 9.532/97 (admitiu sua dedutibilidade na incorporação reversa). (...) Outro fundamento adotado pela autoridade lanca̧dora para glosar o ágio foi no sentido de que o ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente não deve ser reconhecido como ativo porque não é um recurso identificável (ou seja, não é separável nem advém de direitos contratuais ou outros direitos legais) controlado pela entidade que pode ser mensurado com confiabilidade ao custo. (...) Ocorre que, ainda que as normas contábeis pudessem ser aplicadas no presente caso, superandose questões insuperáveis como a legalidade fiscal e a irretroatividade, mesmo assim, do exame das robustas provas do processo podese concluir que aqui não se aplicam tão somente os argumentos da “teoria contábil” para a não aceitação do chamado ágio interno, mas também o propósito negocial da operacã̧o, tendo em vista que na operação está presente uma empresa estrangeira que é um terceiro independente, a qual teria o maior interesse em ser rigorosa com a concretude da operação e, o mais importante, Fl. 2271DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.272 11 toda operacã̧o foi acompanhada por laudos de empresas idôneas e não impugnados pela autoridade fiscal, ou seja, quer contabilmente quer pela lei fiscal, todas as operacõ̧es realizadas pela empresa foram e são consideradas verdadeiras, eis que foram públicas, registradas e efetivas. Como se não bastasse, o propósito negocial da operacã̧o em questão é claro. A empresa pretendia se associar a uma empresa estrangeira, e dela se associou; adentrar ao mercado externo, fato que se realizou; aumentar os seus lucros com base nos laudos de rentabilidade futura procedido, o que de fato ocorreu; os laudos e documentos da empresa em nenhum momento foram questionados pela autoridade fiscal, e sendo assim, patente que o propósito negocial também ocorreu. (...) Portanto, nem mesmo podese afirmar que a operação se deu apenas entre empresas de um mesmo grupo, pois, no propósito negocial objetivado pelo plano de negócios, existia a necessidade de que houvesse uma nova avaliação das empresas, brasileira e estrangeira para que se pudesse realizar a permuta de ações negociada entre elas. (...) Mas não é só isso. Ainda que se parta da premissa adotada pela fiscalizacã̧o, de que o reconhecimento contábil do “ágio interno” não encontra respaldo nos princípios da cien̂cia contábil, só sendo verdadeiros os ágios gerados em aquisicõ̧es de participações societárias em negócios entre partes independentes, ainda assim o lançamento não se sustentaria. É que, com ou sem respaldo na Ciência Contábil, o fato é que no período de 1o de janeiro de 2003 a 31/12/2005, esse ágio pôde ser registrado para retratar situação prevista em norma tributária específica, in casu, o art. 36 da Lei nº 10.637/2002, revogado pela Lei nº 11.196, de 2005, e que dispunha: (...) Assim, o ágio “interno” registrado no período em que vigorou a Lei nº 10.637, de 2002, não obstante em desacordo com os princípios contábeis, não pode ser impugnado pelo Fisco, por estar amparado em norma legal expressa. O ágio registrado com base nesse comando da legislação tributária tem como único efeito fiscal aquele previsto na própria norma que justificou sua contabilizacã̧o. Ou seja, o diferimento da tributação do valor correspondente à reavaliação da participação societária conferida na integralização de capital subscrito.” (grifouse) Fl. 2272DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.273 12 A leitura da decisão recorrida evidencia que de fato há três núcleos de razões que levaram a Turma a quo a afastar a glosa do ágio, com o esclarecimento do voto contudor que se tratariam de matérias autônomas, isto é, ainda que superada primeira causa para o cancelamento, ainda assim restariam as demais. Nesse sentido, explicitou acórdão recorrido que, ainda que operações realizadas dentro de um mesmo grupo não fossem capazes de gerar ágio aferível pelos padrões contábeis (o que foi refutado pela decisão recorrida, como primeiro núcleo da decisão), ainda assim deveria ser cancelado o auto de infração quanto ao ágio, pois a análise do caso evidenciaria a presença de efetivos propósitos negociais e a presença de terceiros. Por fim, ainda que superadas essas questões, o acórdão compreendeu que o art. 36 da Lei 10.637/2002 por sí só legitimaria a amortização fiscal em questão. Analisando o recurso especial interposto pela PFN, é possível observar que esta apresentou irresignação apenas contra os dois primeiros núcleos em questão, mas nada arguindo em relação ao terceiro, pertinente aos efeitos da Lei n. 10.637/2002. De fato, ao trazer o primeiro acórdão paradigma (1202000.890), a recorrente dá ênfase no primeiro núcleo, bem como sublinha trecho segundo o qual operações realizadas entre partes relacionadas seriam insusceptíveis de apresentar propósito negocial. Ao desenvolver as razões para a alteração do julgado, a recorrente também explora esses dois núcleos. No entanto, não há uma linha no recurso especial interposto quanto aos efeitos da Lei n. 10.637/2002, adotado como fundamento autônomo pela decisão recorrida. Nenhuma utilidade haveria em decisão proferida por este Colegiado em face do recurso especial interposto, pois este não teria o condão de alterar um fundamento autônomo adotados pela decisão recorrida para o cancelamento do auto de infração atinente ao ágio. Nesse seguir, não há como admitir o recurso especial, tendo em vista a preclusão processual para a revisão de matéria autônomas, distintas entre si e adotadas pelo acórdão recorrido como individualmente suficientes para afastar o lançamento tributário. Tratase da hipótese equivalente à da Súmula n. 283 do e. STF, bem como da Súmula n. 126 do e. STJ: STF, Súmula 283 É inadmissível o recurso extraordinário, quando a decisão recorrida assenta em mais de um fundamento suficiente e o recurso não abrange todos eles. STJ, Súmula 126 É inadimissível recurso especial quando o acórdão recorrido assenta em fundamentos constitucional e infraconstitucional, qualquer deles suficiente, por si só, para mantêlo, e na parte vencida não manifesta recurso extraordinário. Ademais, o contribuinte também aponta que os acórdãos indicados como paradigmas (ac. 1202000.890 e 1402001.338) seriam convergentes e não divergentes, servindose o recurso especial para a revisão probatória, de forma que o recurso especial interposto pela PFN não deveria ser conhecido. Sustenta que, enquanto os paradigmas exigiriam a presença de propósito negocial e substrato econômico pertinente à participação de terceiros na operação, o acórdão recorrido teria adotado o mesmo entendimento, mas Fl. 2273DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.274 13 concluído, a partir dos elementos fáticos do caso, que tais fatores teriam sido preenchidos. Se apenas essa questão estivesse presente, compreendo que o recurso deveria ser conhecido, pois o reconhecimento da empresa GERMED como “terceiro” na operação que gerou o ágio não consistiria revisão de provas, mas qualificação das provas avaliadas, para compreender se a presença desse “terceiro” na operação como um todo, reconhecida pela Turma a quo, influenciaria a operação específica de aquisição de investimento com ágio, realizada no âmbito do grupo empresarial da EMS. O não conhecimento do recurso quanto à glosa de ágio, sob a minha perspectiva, decorre da insuficiência recursal acima analisada. Quanto à qualificação da multa, compreendo não se tratar de matéria que possa ser objeto de recurso especial neste momento processual, sob pena de supressão de instância. Como se pode observar, a Turma a quo considerou válida a amortização do ágio, restanto prejudicada, portanto, a análise de questões como a qualificação da multa imposta, tendo em vista o caráter acessório desta. O recurso especial da PFN, portanto, apenas pode se referir à questão principal, com a pretensão recursal de ver confirmada a legalidade da glosa realizada pela fiscalização. Caso não seja conhecido ou mesmo seja negado provimento a este recurso especial quanto ao ágio, a decisão da Turma a quo será confirmada, afastandose em definitivo a cobrança do principal e da multa de ofício. Por sua vez, caso seja dado provimento ao recurso especial da PFN quanto à glosa das despesas de ágio, os autos devem retornar à Turma Ordinária para a análise da qualificação da multa imposta, bem como de outras questão que tenham restado prejudicadas. Por fim, quanto à exigência de multa isolada, sustenta a contribuinte que o recurso também não deveria ser conhecido, pois (i) o acórdão recorrido teria analisado tão somente a questão se, após o término no ano calendário, seria possível a exigência de multa isolada por estimativa, não adentrando no tema da possibilidade ou não de concomitância com a multa de ofício; por sua vez, os dois acórdãos paradigmas analisaram justamente a questão pertinente à referida concomitância; (ii) a incidência da Súmula 105 do CARF impediria o conhecimento de recurso especial sobre a matéria. Quanto à primeira questão, é possível verificar que o acórdão n. 1302 001.080, indicado como paradigma, trata tanto da concomitância da multa como do fato de a autuação fiscal ter sido realizada após o término do exercício fiscal. No entanto, compreendo que assiste razão ao contribuinte quanto à incidência da Súmula 105 do CARF, a qual impede o conhecimento de recurso especial sobre a matéria. No presente caso, o período em discussão compreende os anos de 2005 a 2010. Nos períodos anteriores à vigência da Lei n. 11.488/2007 (no caso, 2005 e 2006), não há dúvidas que a questão já foi pacificada no âmbito deste Tribunal, não cabendo sequer o conhecimento de recurso especial para a sua discussão (RICARF, art. 67, § 3º), por força da Súmula n. 105 do CARF, aprovada em 08.12.2014: “A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44, § 1º, inciso IV, da Lei nº Fl. 2274DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.275 14 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício.” No presente caso, fazse necessário decidir se este Colegiado possui competência para conhecer o mérito do recurso interposto pela PFN quanto aos períodos posteriores à edição da Lei n. 11.488/2007 (no caso, 2007 a 2010). Para tanto, é preciso analisar os efeitos trazidos pela Lei nº 11.488/2007 sobre o 44 da Lei nº 9.430/96, de forma a verificar se a Súmula n. 105 é igualmente aplicável aos períodos posteriores a 2007. Em sua redação original, o art. 44 da Lei n. 9.430/96 assim prescrevia: Art. 44. Nos casos de lançamento de oficio, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; §1° As multas de que trata este artigo serão exigidas: I juntamente com o tributo ou a contribuição, quando não houverem sido anteriormente pagos; (...); IV isoladamente, no caso de pessoa jurídica sujeita ao pagamento do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido, na forma do art. 2°, que deixar de fazêlo, ainda que tenha apurado base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente. Com a redação que lhe foi atribuída pela Lei n. 11.488/2007, o dispositivo passou a dispor: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (…) b) na forma do art. 2o desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. Fl. 2275DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.276 15 Notese que, tanto nos termos do RICARF vigente à época da enunciação da Súmula n. 105 do CARF (08.12.2014) quanto no atual, para a enunciação de súmulas, são levados à apreciação dos Conselheiros deste Tribunal determinado número de julgados sobre a matéria, considerados capazes de possibilitar a “mais precisa percepção possível não apenas da questão de direito cuja relevância há de se aferir, como também do conflito em que ela se insere” 1. Os casos selecionados devem propiciar a ventilação dos mais relevantes argumentos quanto à interpretação que deve ser atribuída à legislação federal, pois a norma decorrente da súmula deverá ser aplicada a todos os demais casos que apresentem questão de direito equivalente. Por esse arcabouço jurídico, atribuise à súmula do CARF a feição de precedente com “força necessária para servir como ratio decidendi para o juiz subsequente”2. Por essa sistemática, os fundamentos adotados nos acórdãos paradigmáticos que provocaram a edição da súmula passam a ser aplicáveis, de forma obrigatória, a todos os demais casos que vierem a ser submetidos ao CARF. Para a solução do presente caso, é preciso compreender essa relação de complementariedade: a ratio decidendi dos acórdãos paradigmas não se desprendem da respectiva súmula, nem esta deve ser aplicada a hipóteses que não estariam abrangidas pelos aludidos paradigmas. Em outras palavras, como a súmula é norma geral e concreta3 que veicula a ratio decidendi outrora presente em reiterados acórdãos individuais e concretos, a sua aplicação é restrita às situações que sejam equivalentes àquelas tratadas nos referidos acórdãos paradigmáticos. A aplicação de uma súmula a um caso concreto pressupõe que as premissas fáticas e as normas questionadas neste sejam equivalentes às premissas fáticas e às normas questionadas nos paradigmas que ensejaram a súmula. No caso, duas ratio decidendi podem ser abstraídas dos fundamentos dos paradigmas da Súmula n. 105 do CARF. A primeira delas é que, pelo critério da consunção, nas autuações realizadas após o término do exercício fiscal, a penalidade atinente à multa isolada pela não apuração de estimativas mensais deve ser absorvida pela multa de ofício. É o que se observa dos seguintes acórdãos que serviram de inspiração à Súmula n. 105: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Anocalendário: 1998 (...) MULTA ISOLADA APLICAÇÃO CONCOMITANTE COM A MULTA DE OFICIO — Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de oficio pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução 1 TALAMINI, Eduardo. Julgamento de recursos no STJ ‘por amostragem’. Informativo Justen, Pereira Oliveira e Talamini, 2008. Disponível em www.justen.com.br/informativo. 2 À semelhança do que ocorre com os recursos repetitivos do STJ. A respeito destes, vide: MESQUITA, José Ignácio Botelho et al. A repercussão geral e os recursos repetitivos: economia, direito e política, In: Revista de Processo, São Paulo, v. 38, n. 220, p. 1332, jun. 2013, p. 29. 3 Vide, sobre o tema: CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: fundamentos jurídicos da incidência. 7ª ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 3541. Fl. 2276DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.277 16 da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do anocalendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. (CSRF, 9101001.307, de 24/04/2012) IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2002 APLICAÇÃO CONCOMITANTE DE MULTA DE OFÍCIO E MULTA ISOLADA NA ESTIMATIVA Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de ofício pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do anocalendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. (CARF, 3ª Turma Especial, 1ª Seção, 1803001.263, de 10/04/2012) Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Anocalendário: 2001 Ementa: APLICAÇÃO CONCOMITANTE DE MULTA DE OFICIO E MULTA ISOLADA NA ESTIMATIVA — Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de oficio pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do ano calendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. (CSRF, 9101001.261, de 22/11/2011) Fl. 2277DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.278 17 Neste último acórdão, houve a transcrição integral dos fundamentos adotados em outro julgamento da CSRF, que restou assim ementado: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Exercício. 1999, 2000, 2001, 2002, 2003 Ementa: APLICAÇÃO CONCOMITANTE DE MULTA DE OFICIO E MULTA ISOLADA NA ESTIMATIVA — Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de oficio pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do ano calendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. Recurso especial negado. (CSRF/0105.838, de 15.04.2008) A segunda ratio decidendi, que se abstrai dos paradigmas que inspiraram a Súmula n. 105 do CARF, consiste no não cabimento de lançamento de multa isolada cuja base de cálculo seja coincidente ou esteja está inserida na base de cálculo das multas de ofício. É o que se observa de suas respectivas ementas, a seguir transcritas: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Exercício: 2000, 2001 Ementa: MULTA ISOLADA. ANOSCALENDÁRIO DE 1999 e 2000. FALTA DE RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFICIO EXIGIDA EM LANÇAMENTO LAVRADO PARA A COBRANÇA DO TRIBUTO. Incabível a aplicação concomitante da multa por falta de recolhimento de tributo sobre bases estimadas e da multa de oficio exigida no lançamento para cobrança de tributo, visto que ambas penalidades tiveram como base o valor das glosas efetivadas pela Fiscalização. Recurso Especial do Procurador conhecido e não provido. (CSRF, 9101001.203, de 17/10/2011) Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte IRRF Exercício: 2001 Fl. 2278DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.279 18 IRFONTE. AFASTAMENTO. O próprio lançamento tributário em razão da desconsideração do planejamento fiscal já atribuiu as respectivas saídas de valores a causa e seus beneficiários. MULTA ISOLADA. ANOCALENDÁRIO DE 2000. FALTA DE RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFICIO EXIGIDA EM LANÇAMENTO LAVRADO PARA A COBRANÇA DO TRIBUTO. Incabível a aplicação concomitante da multa por falta de recolhimento de tributo sobre bases estimadas e da multa de oficio exigida no lançamento para cobrança de tributo, visto que ambas penalidades tiveram como base o valor da receita omitida apurado em procedimento fiscal. Recurso especial do Procurador negado. (CSRF, 9101001.238, de 21/11/2011) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2000, 2001 (...) LANÇAMENTO DE OFÍCIO. PENALIDADE. MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. Devem ser exoneradas as multas isoladas por falta de recolhimento de estimativas, uma vez que, cumulativamente foram exigidos os tributos com multa de ofício, e a base de cálculo das multas isoladas está inserida na base de cálculo das multas de ofício, sendo descabido, nesse caso, o lançamento concomitante de ambas. (...) (CARF, 1ªC/2ªTO, 110200.748, de 09/05/2012) Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2003 DECADÊNCIA. MULTA ISOLADA. ESTIMATIVAS NÃO RECOLHIDAS. A regra geral para contagem do prazo decadencial para constituição do crédito tributário, no caso de penalidades, está prevista no artigo 173, I do CTN, apresentandose regular a exigência formalizada dentro deste prazo. Por sua vez, em relação aos tributos, havendo antecipação de recolhimentos o prazo é contado na forma do art. 150, §4o. do CTN. MULTA DE OFICIO ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS CONCOMITANTE COM A MULTA DE OFICIO. Fl. 2279DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.280 19 INAPLICABILIDADE. É inaplicável a penalidade quando existir concomitância com a multa de oficio sobre o ajuste anual (mesma base). (...) (CARF, 4ªC/2ªTO, 1402001.217, de 04/10/2012) Em todos esses julgados, portanto, compreendeuse não ser cabível o lançamento de multa isolada, quando: pelo critério da consunção, nas autuações realizadas após o término do exercício fiscal, a penalidade atinente à multa isolada pela não apuração de estimativas mensais deva ser absorvida pela multa de ofício. a sua base de cálculo seja coincidente ou esteja inserida na base de cálculo das multas de ofício; Compreendo que os referidos fundamentos permanecem aplicáveis mesmo após a edição da Lei n. 11.488/2007, o que nos obriga à aplicação da Súmula n. 105. Em primeiro lugar, não há dúvidas que a referida súmula consagrou o princípio da consunção, que servira de fundamento aos acórdãos que a inspiraram. É o que se observa dos fundamentos do acórdão 0105.838, proferido pela CSRF em 15.04.2008, da relatoria do então Conselheiro MARCOS VINICIUS NEDER DE LIMA, in verbis: “Quando várias normas punitivas concorrem entre si na disciplina jurídica de determinada conduta, é importante identificar o bem jurídico tutelado pelo Direito. Nesse sentido, para a solução do conflito normativo, devese investigar se uma das sanções previstas para punir determinada conduta pode absorver a outra, desde que o fato tipificado constitui passagem obrigatória de lesão menor, de um bem de mesma natureza para a prática da infração maior. No caso sob exame, o não recolhimento da estimativa mensal pode ser visto como etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. A primeira conduta é, portanto, meio de execução da segunda. Com efeito, o bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do anocalendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. Assim, a interpretação do conflito de normas deve prestigiar a relevância do bem jurídico e não exclusivamente a grandeza da pena cominada, pois o ilícito de passagem não deve ser penalizado de forma mais gravosa que o ilícito principal. É o que os penalistas denominam ‘principio da consunção’. Segundo as lições de Miguel Reale Junior: ‘pelo critério da consunção, se ao desenrolar da ação se vem violar uma Fl. 2280DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.281 20 pluralidade de normas passandose de uma violação menos grave para outra mais grave, que é o que sucede no crime progressivo, prevalece a norma relativa ao crime em estágio mais grave...’. E prossegue ‘no crime progressivo portanto, o crime mais grave engloba o menos grave, que não é senão um momento a ser ultrapassado, uma passagem obrigatória para se alcançar uma realização mais grave’. Assim, não pode ser exigida concomitantemente a multa isolada e a multa de oficio na hipótese de falta de recolhimento de tributo apurado no final do exercício e também pela falta de antecipação sob a forma estimada. Cobrase apenas a multa de oficio por falta de recolhimento de tributo.” No caso, mesmo após as alterações introduzidas pela Lei n. 11.488/2007 ao art. 44 da Lei n. 9.430/96, a teoria da consunção permanece plenamente aplicável. Esse é, inclusive, o entendimento que vem sendo adotado pelo Superior Tribunal de Justiça (doravante “STJ”), como se observa do seguinte julgado: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. VIOLAÇÃO DO ART. 535 DO CPC. DEFICIÊNCIA DA FUNDAMENTAÇÃO. SÚMULA 284/STF. MULTA ISOLADA E DE OFÍCIO. ART. 44 DA LEI N. 9.430/96 (REDAÇÃO DADA PELA LEI N. 11.488/07). EXIGÊNCIA CONCOMITANTE. IMPOSSIBILIDADE NO CASO. 1. Recurso especial em que se discute a possibilidade de cumulação das multas dos incisos I e II do art. 44 da Lei n. 9.430/96 no caso de ausência do recolhimento do tributo. 2. Alegação genérica de violação do art. 535 do CPC. Incidência da Súmula 284 do Supremo Tribunal Federal. 3. A multa de ofício do inciso I do art. 44 da Lei n. 9.430/96 aplicase aos casos de "totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata". 4. A multa na forma do inciso II é cobrada isoladamente sobre o valor do pagamento mensal: "a) na forma do art. 8° da Lei no 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; (Incluída pela Lei nº 11.488, de 2007) e b) na forma do art. 2° desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (Incluída pela Lei n. 11.488, de 2007)". 5. As multas isoladas limitamse aos casos em que não possam ser exigidas concomitantemente com o valor total do tributo devido. Fl. 2281DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.282 21 6. No caso, a exigência isolada da multa (inciso II) é absorvida pela multa de ofício (inciso I). A infração mais grave absorve aquelas de menor gravidade. Princípio da consunção. Recurso especial improvido. (STJ, REsp 1.496.354/PR, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 17/03/2015, DJe 24/03/2015) Em seu voto, acompanhado pela unanimidade da Segunda Turma da 1a Seção do STJ, o i. Ministro HUMBERTO MARTINS, relator do referido julgado, assim explicitou os fundamentos, in verbis: “Sistematicamente, notase que a multa do inciso II do referido artigo somente poderá́ ser aplicada quando não possível a multa do inciso I. Destacase que o inadimplemento das antecipações mensais do imposto de renda não implicam, por si só, a ilação de que haverá tributo devido. Os recolhimentos mensais, ainda que configurem obrigações de pagar, não representam, no sentido técnico, o tributo em si. Este apenas será apurado ao final do ano calendário, quando ocorrer o fato gerador. As hipóteses do inciso II, "a" e "b", em regra, não trazem novas hipóteses de cabimento de multa. A melhor exegese revela que não são multas distintas, mas apenas formas distintas de aplicação da multa do art. 44, em consequência de, nos caso ali descritos, não haver nada a ser cobrado a título de obrigação tributária principal. As chamadas "multas isoladas", portanto, apenas servem aos casos em que não possam ser as multas exigidas juntamente com o tributo devido (inciso I), na medida em que são elas apenas formas de exigência das multas descritas no caput. Esse entendimento é corolário da lógica do sistema normativo tributário que pretende prevenir e sancionar o descumprimento de obrigações tributárias. De fato, a infração que se pretende repreender com a exigência isolada da multa (ausência de recolhimento mensal do IRPJ e CSLL por estimativa) é completamente abrangida por eventual infração que acarrete, ao final do ano calendário, o recolhimento a menor dos tributos, e que dê azo, assim, à cobrança da multa de forma conjunta. Em se tratando as multas tributárias de medidas sancionatórias, aplicase a lógica do princípio penal da consunção, em que a infração mais grave abrange aquela menor que lhe é preparatória ou subjacente. O princípio da consunção (também conhecido como Princípio da Absorção) é aplicável nos casos em que há uma sucessão de condutas típicas com existência de um nexo de dependência entre elas. Segundo tal preceito, a infração mais grave absorve aquelas de menor gravidade. Fl. 2282DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.283 22 Sob este enfoque, não pode ser exigida concomitantemente a multa isolada e a multa de ofício por falta de recolhimento de tributo apurado ao final do exercício e também por falta de antecipação sob a forma estimada. Cobrase apenas a multa de oficio pela falta de recolhimento de tributo.” Em decisão posterior, no REsp 1.499.389/PB, o STJ novamente vivificou o princípio da consunção para afastar a cumulação da multa de ofício com a multa isolada, em período posterior à Lei n. 11.488/2007. A referida decisão restou assim ementada: TRIBUTÁRIO. MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO. ART. 44 DA LEI N. 9.430/96 (REDAÇÃO DADA PELA LEI N. 11.488/07). EXIGÊNCIA CONCOMITANTE. IMPOSSIBILIDADE NO CASO. PRECEDENTE. 1. A Segunda Turma desta Corte, quando do julgamento do REsp nº 1.496.354/PR, de relatoria do Ministro Humberto Martins, DJe 24.3.2015, adotou entendimento no sentido de que a multa do inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430/96 somente poderá ser aplicada quando não for possível a aplicação da multa do inciso I do referido dispositivo. 2. Na ocasião, aplicouse a lógica do princípio penal da consunção, em que a infração mais grave abrange aquela menor que lhe é preparatória ou subjacente, de forma que não se pode exigir concomitantemente a multa isolada e a multa de ofício por falta de recolhimento de tributo apurado ao final do exercício e também por falta de antecipação sob a forma estimada. Cobra se apenas a multa de oficio pela falta de recolhimento de tributo. 3. Agravo regimental não provido. (STJ, AgRg no REsp 1499389/PB, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 17/09/2015, DJe 28/09/2015) É fundamental, então, constatar que a ratio decidendi presente nos referidos julgados do STJ, que se detiveram às alterações introduzidas pela Lei n. 11.488/2007, não é distinta daquela adotada pelo CARF em seus reiterados julgados proferidos na vigência da redação original do art. 44 da Lei n. 9.430/96 e que motivaram a edição da Súmula n. 105. Além disso, também a segunda ratio decidendi da Súmula n. 105 permanece aplicável mesmo após a edição da Lei n. 11.488/2007, atinente à impossibilidade da base de cálculo da multa isolada estar inserida na base de cálculo das multas de ofício. Notese que, no acórdão 110200.748, também citado acima entre os paradigmas da Súmula n. 105 do CARF, a então Conselheira ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA consignou que o fundamento para a proibição da cumulação da multa de ofício com a multa isolada se daria pelo fato da base de cálculo desta estar compreendida na base de cálculo daquela, in verbis: “No caso destes autos, constatase que o valor da base de cálculo da multa isolada está inserido na base de cálculo da multa de ofício. Fl. 2283DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.284 23 Levandose em conta que é o bem público que deve ser protegido, aplicar a multa proporcional cumulativamente com a multa isolada, por falta de recolhimento da estimativa sobre os valores apurados, em procedimento fiscal, sobre base de cálculo de idêntico valor, implicaria admitir que, sobre o imposto apurado de oficio, se aplicaria duas punições, que significaria em relação à falta, a imposição de penalidade desproporcional ao proveito obtido.” (grifos acrescidos) Como se pode observar, a ratio decidendi adotada nesse julgado, proferido com vistas à redação original da Lei n. 9.430/96, também é perfeitamente aplicável às normas sancionatórios veiculadas pela Lei n. 11.488/2007: enquanto a redação original previa que as bases de cálculo da multa isolada e da multa de ofício seriam idênticas, com a redação vigente a partir de 2007, não há mais necessária coincidência, embora seja certo que o valor da base de cálculo da multa isolada permanece inserido na base de cálculo da multa de ofício. Nesse seguir, por compreender que nenhuma das três matéria ventiladas no recurso especial preencheram os requisitos de admissibilidade, pelo NÃO CONHECIMENTO do recurso especial. Mérito do recurso especial 1. A amortização fiscal das despesas de ágio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura. A palavra “ágio” conduz à ideia de um sobrepreço que se paga por algo, um valor superior a determinado parâmetro.4 Um exemplo simplificado é útil para situar essa ideia geral. Na década de 90, em plena transformação da indústria automobilística brasileira, era comum que as concessionárias levassem meses para receber da fábrica os automóveis adquiridos por seus clientes. O cliente comum, ansioso para receber o automóvel em que empenhava as suas economias, era submetido a uma longa e angustiante espera mesmo após já ter concretizado a compra. As concessionárias, então, vislumbraram nisso uma oportunidade: adquiriam antecipadamente alguns automóveis novos, assumindo o risco (baixo, devido à elevada procura) de não os vender. Assim, aos clientes eram apresentadas duas possibilidades: (i) a aquisição do veículo pelo preço de tabela, com a espera de alguns meses até a entrega pela fábrica ou; (ii) a aquisição do veículo em estoque (entrega imediata), com o acréscimo um determinado valor sobre o preço da tabela, a título de “ágio”. Notese que, ao optar pelo veículo em estoque e o pagamento do “ágio” referido, o adquirente realizaria o pagamento de um sobrepreço com o objetivo de desfrutar da posse do veículo antecipadamente, ao que estaria destituído dessa fruição imediata caso optasse por desembolsar apenas o preço de tabela do bem. Já o vendedor, por sua vez, seria recompensado pelo risco assumido e pelo adiantamento à fábrica do custo do automóvel. O “ágio”, nesse simplório exemplo outrora corriqueiro no mercado automobilístico brasileiro do varejo, ilustra bem quão normal é o pagamento de sobrepreços, bem como que este pode ser 4 Vide: SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo: Dialética, 2012, p. 13 e seg. Fl. 2284DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.285 24 justificado por motivos distintos sob as perspectivas dos dois polos do negócio jurídico (adquirente e alienante). O ágio analisado no presente processo administrativo se refere à aquisição de participação societária relevante em empresas (investidas) por outras empresas (investidoras). No período atinente ao caso ora sob julgamento, como se verá a seguir, o legislador reconhecia como justificativa negocial para o pagamento de ágio (ou deságio) a expectativa de rentabilidade futura da empresa investida, o valor de mercado de bens do ativo da empresa investida superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade, o fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. 1.1. A identificação do ágio pelo Método de Equivalência Patrimonial (“MEP) Quando uma pessoa jurídica possui participação societária relevante em outra (controlada ou coligada), deve refletir em sua contabilidade tal investimento, avaliandoo conforme o método da equivalência patrimonial (doravante “MEP”). “Ágios” e “deságios” são itens evidenciados nas demonstrações contábeis pelo MEP: à época dos fatos presentes nestes autos, era exigido de companhias investidoras que evidenciassem o fato de que que parte do investimento mantido em empresa controlada ou coligada não se justificaria pelo valor patrimonial desta, mas sim por um ágio despendido quando de sua aquisição, considerando o fundamento pelo qual se incorreu neste.5 Nos idos de 1976, a Lei n. 6.404 (“Lei das SAs”) regulou a adoção do MEP, especialmente em seu art. 248: “Art. 248. No balanço patrimonial da companhia, os investimentos relevantes (artigo 247, parágrafo único) em sociedades coligadas sobre cuja administração tenha influência, ou de que participe com 20% (vinte por cento) ou mais do capital social, e em sociedades controladas, serão avaliados pelo valor de patrimônio líquido, de acordo com as seguintes normas: (…)” A legislação brasileira passou a prever que as pessoas jurídicas que detivessem investimentos em controladas ou coligadas, ao realizar escrituração pelo MEP, deveriam desdobrar o custo destas em: (i) valor do patrimônio líquido existente no momento da aquisição da respectiva empresa investida e; (ii) ágio ou deságio eventualmente presente na aludida aquisição: Decretolei n. 1.598/77 Art. 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e 5 Após a Lei 12.943/2014, que se aplica a período posterior ao dos presentes autos, o ágio por expectativa de rentabilidade futura se tornou residual ao valor justo dos ativos da investida. Fl. 2285DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.286 25 II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Avaliação do Investimento no Balanço Art 21 Em cada balanço o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no artigo 248 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e as seguintes normas: I o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até 2 meses, no máximo, antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda. II se os critérios contábeis adotados pela coligada ou controlada e pelo contribuinte não forem uniformes, o contribuinte deverá fazer no balanço ou balancete da coligada ou controlada os ajustes necessários para eliminar as diferenças relevantes decorrentes da diversidade de critérios; III o balanço ou balancete da coligada ou controlada levantado em data anterior à do balanço do contribuinte deverá ser ajustado para registrar os efeitos relevantes de fatos extraordinários ocorridos no período; IV o prazo de 2 meses de que trata o item I aplicase aos balanços ou balancetes de verificação das sociedades, de que trata o § 4º do artigo 20, de que a coligada ou controlada participe, direta ou indiretamente. V o valor do investimento do contribuinte será determinado mediante a aplicação, sobre o valor de patrimônio líquido ajustado de acordo com os números anteriores, da porcentagem Fl. 2286DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.287 26 da participação do contribuinte na coligada ou controlada. O ágio (ou deságio) lançado no ativo permanente da empresa investidora, na conta de investimento (ativo diferido), seria amortizado mediante débito ou crédito em seu lucro líquido. A referida amortização, no entanto, seria meramente contábil, não podendo (ainda) gerar efeitos fiscais. Ainda do ponto de vista da contabilidade, vale observar que o desdobramento do referido ágio também pode ser observado sob a perspectiva da pessoa jurídica investida, embora tais registros contábeis não apresentem qualquer importância para a questão em análise. Notese que a apuração ou mesmo amortização contábil do aludido ágio por expectativa de rentabilidade futura, escriturada pela empresa investidora em função do MEP, sempre se manteve neutra para fins tributários nas diversas alterações legislativas atinentes à matéria. Essa foi a regra estabelecida pelo Decretolei 1.598/77: Art. 25 As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o artigo 20 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no artigo 33. Contudo, como será analisado no subtópico seguinte, a amortização fiscal do do ágio, à fração 1/60 ao mês, passou a ser possível a partir da edição da Lei n. 9.532/97, que previu uma fórmula operacional básica a ser seguida pelo contribuinte para a dedutibilidade da referida despesa. 1.2. A norma de dedutibilidade fiscal das despesas de amortização de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura. Com a edição da Lei n. 9.532/97, o legislador ordinário alterou sensivelmente as consequências tributárias do ágio por expectativa de rentabilidade futura. A partir de então, passou a ser possível o aproveitamento do ágio à fração 1/60 ao mês, desde o momento em que o ágio escriturado pela investidora viesse a ser confrontado, em um mesmo acervo patrimonial, com os lucros advindos da empresa investida que justificaram o pagamento desse sobrepreço por expectativa de rentabilidade futura. A possibilidade de amortização das despesas de ágio por expectativa de rentabilidade futura, da forma prescrita pela Lei n. 9.532/97, depende do cumprimento de uma fórmula operacional básica, que pressupõe o fenômeno societário da absorção patrimonial, com a reunião (por incorporação, fusão ou cisão) do patrimônio da pessoa jurídica investidora com a pessoa jurídica investida, a fim de que o aludido ágio registrado naquela seja emparelhado com os lucros gerados por esta. Concretizada a absorção patrimonial exigida pelo legislador, o ágio apurado em aquisição precedente pode ser amortizado, com a redução da base de cálculo do tributo, no mínimo em 60 meses, nos balanços levantados após a ocorrência de um desses eventos, ainda que a incorporada ou cindida seja a investidora (incorporação reversa). É o que se observa dos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97: Art. 7º. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado Fl. 2287DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.288 27 segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "a" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "c" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2° do art. 20 do Decretolei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração6; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados durante os cinco anoscalendários subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no mínimo, para cada mês do período de apuração. § 1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão. § 2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar: a) o ágio, em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; b) o deságio, em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. § 3º O valor registrado na forma do inciso II do caput: a) será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; b) poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. § 4º Na hipótese da alínea "b" do parágrafo anterior, a posterior 6 Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998. Fl. 2288DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.289 28 utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos e contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente. § 5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito. Art. 8º. O disposto no artigo anterior aplicase, inclusive, quando: a) o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor de patrimônio líquido; b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. Analiticamente, nos termos da Lei n. 9.532/97, a hipótese de incidência da norma que atribui consequências tributárias ao ágio incorrido por expectativa de rentabilidade futura requer que seja executada uma fórmula operacional básica, a saber: Aquisição de investimento, por quaisquer das formas em Direito admitidas, com contraprestação de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura; Fluxo financeiro ou sacrifícios econômicos envolvidos na operação de aquisição; Desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial da investida e ágio ou deságio incorrido pelo MEP; A amortização do ágio deve se processar contra os lucros da empresa investida (cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição); Absorção da pessoa jurídica a que se refira o ágio ou deságio (investida) pela pessoa jurídica investidora (ou viceversa); Exclusão de até 1/60 do ágio ao mês na apuração da base de cálculo do tributo. Os arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97 prescreveram que, na hipótese de aquisição de investimento relevante com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, com a correta adoção do MEP para apuração pela investidora do patrimônio líquido da investida e do correspondente ágio, acompanhada da fórmula operacional básica estipulada em lei para a absorção, pela pessoa jurídica investidora, do acervo patrimonial da controlada ou coligada que justificou o ágio incorrido em sua aquisição (ou vice versa), então a consequência jurídico tributária deve ser a amortização da fração de 1/60 por mês do ágio por expectativa de rentabilidade futura contra as receitas da empresa investida (cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição). Fl. 2289DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.290 29 No ambiente jurídico em questão, para que o contribuinte fizesse jus à dedutibilidade do ágio, deveria preencher os referidos critérios. No presente caso, então, para que a fiscalização tributária logre êxito na glosa de despesas de ágio excluídas da base de cálculo do tributo, deverá demonstrar a simulação ou outras formas de não cumprimento de algum desses requisitos. 1.3. Aquisição de investimento de partes relacionadas mediante a integralização de ações avaliadas a valor de mercado e com apuração de ganho de capital diferido. A Lei n. 12.973/2014 prescreveu a regra de que operações de aquisição de participação acionária entre partes dependentes não devem ter efeitos fiscais para fins amortização de agío. Conforme já se advertiu acima, contudo, o presente caso não é regido por essa Lei, tendo em vista que os fatos se reportam a período muito anterior à sua edição. Essa distinção quanto às normas aplicáveis ao caso é relevante. Ocorre que, até a edição da Lei n. 12.973/2014, não havia na legislação brasileira vedação expressa ou mesmo qualquer referência a essa figura que, no jargão, tornouse popular chamar “ágio interno”. Por se tratar de um rótulo, que surgiu da experiência diante de situações concretas e não da Lei n. 9.532/97, é preciso compreender a sua extensão e as consequência jurídicas que emanam da qualificação de uma operação como “ágio interno”, sem perder de vista as peculiaridades da situação concreta ora trazida a esta CSRF. Em termos muito gerais, o chamado “ágio interno” consiste em situações nas quais não se encontram presentes partes estranhas entre si, não ligadas, não relacionadas, não dependentes. Em geral, há a transmissão do investimento em uma pessoa jurídica para outra, pertencente ao mesmo grupo empresarial. Dizse, então, que o ágio foi constituído “internamente”, sem a participação de agentes externo. Assim como operações realizadas entre partes independentes societariamente podem se revelar artificiais (com conluio, por exemplo), quando se está diante de operações rotuladas de “ágio interno”, é necessário investigar as suas peculiaridades, a fim de atribuir lhes a qualificante “válido” ou “inválido”. Enquanto o primeiro, ágio interno válido, mantém incólume a possibilidade de amortização fiscal, o ágio interno inválido não gera qualquer direito à dedutibilidade dessas despesas. Nas ponderadas palavras de MARCOS SHIGUEO TAKATA7, “há ágios internos e ‘ágios internos’ ”. A pedra de toque deste julgamento, portanto, consiste em qualificar o caso concreto como ágio interno válido (operações juridicamente existentes) ou ágio interno inválido (operações simuladas). 1.4. O “ágio interno válido”, cujos efeitos jurídicos devem ser reconhecidos pela administração tributária. É compreensível que operações realizadas entre partes relacionadas permaneçam no radar da fiscalização tributária, tendo em vista a maior facilidade para a manipulação de atos cometidos intramuros. No entanto, no presente caso, a presença de partes 7 TAKATA, Marcos Shigueo. Ágio Interno sem Causa ou “Artificial” e Ágio Interno com Causa ou Real – Distinções necessárias, in Controvérsias jurídicocontábeis (aproximações e distanciamentos), vol. 3 (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo: Dialética, 2012, p. 194. Fl. 2290DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.291 30 relacionadas não é determinante ou mesmo relevante para a amortização fiscal do ágio por expectativa de rentabilidade futura. Essa assertiva encontra fundamento ao menos em duas evidências jurídicas, com as quais é convergente uma evidência de natureza contábil. Sob a perspectiva da contabilidade, ELISEU MARTINS e SÉRGIO DE IUDÍCIBUS8 suscitam que a máxima contábil, de que “só se ativa o ágio por rentabilidade futura quando fruto de uma transação, jamais quando ele é criado pela própria entidade”, demanda a questão do que seja “entidade”. Esclarecem os professores que, enquanto países como EUA adotam a tradição da elaboração de balanços consolidados, no Brasil e em uma série de outros países o balanço consolidado é exceção, sendo a regra o balanço individual. Como conclusão, então, seria possível o reconhecimento de ágio gerado em operação entre entidades distintas, ainda que pertencentes ao mesmo grupo empresarial. O argumento contábil, então, restringe substancialmente a extensão de situações abrangidas pelo rótulo “ágio interno”. A partir de tal constatação, LUÍS EDUARDO SCHOUERI e ROBERTO CODORNIZ LEITE PEREIRA9 acertadamente suscitam que “o substantivo ‘ágio’, para receber o adjetivo ‘interno’, teria que ser necessariamente gerado nas estritas fronteiras de uma entidade contábil o que, no Brasil, só ocorreria nas hipóteses de ágio interno artificial, desde que, evidentemente, resta caracterizada a simulação da operação, pois, neste caso, não mais haverá duas pessoas distintas participando da operação, mas, tão somente, uma”. Em boa medida, essa tradição contábil brasileira reflete o contexto jurídico vigente no Brasil ao tempo dos fatos deste processo administrativo. Por essa razão, há convergência com duas evidências jurídicas quanto à irrelevância de ligação entre as partes da operação de aquisição de investimento com ágio, tal como aquela que está sob julgamento: (i) o princípio da legalidade e o completo silêncio do legislador (período anterior à Lei n. 12.973/2014) e; (ii) todos os requisitos exigidos pelo legislador para a apuração e amortização fiscal do ágio podem potencialmente ser cumpridos em operações realizadas entre entre partes ligadas. A primeira evidência jurídica referidas, atinente ao princípio da legalidade, decorre da inexistência de qualquer reação do legislador competente à hipótese de realização de operações entre partes ligadas, especialmente no que pertine à amortização de eventual ágio por expectativa de rentabilidade futura apurado. O reclamo por uma lei para a restrição à liberdade de empresa do contribuinte não necessita de maiores justificativas. As restrições às liberdades fundamentais, quando permitidas, devem ser veículas por lei que expresse com clareza a decisão do legislador competente. A exigência de clareza decorre também dos princípios da segurança jurídica, certeza do direito e confiança, pelos quais se requer que o legislador estabeleça os critérios para que a sua decisão restritiva seja executada pela administração fiscal. Tais critérios devem fornecer caracteres que possibilitem ao executor da lei, sem arbítrios, segregar situações qualificáveis como legítimas de outras, consideradas vedadas, não toleradas. 8 MARTINS, Eliseu; IUDÍCIBUS, Sérgio de. Ágio interno é um mito?, in Controvérsias jurídicocontábeis: aproximações e distanciamentos (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo: Dialética, 2013. 9 SCHOUERI, Luís Eduardo; PEREIRA, Roberto Codorniz Leite. O ágio interno na jurisprudência do CARF e a (des)proporcionalidade do art. 22 da Lei n. 12.973/2014, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 363. Fl. 2291DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.292 31 Nas situações em que partes ligadas, relacionadas, dependentes sejam critérios para segregar situações legitimamente geradoras de direitos de outras, nas quais o Direito tributário não reconhece as mesmas consequências, esses conceitos devem ser claramente delimitados pelo legislador. Por não se tratar de conceito vulgar, mas sim técnico, é imprescindível a delimitação legal. Um bom exemplo pode ser colhido da sistemática dos preços de transferência prevista pela Lei n. 9.430/96, aplicável exclusivamente na hipóteses “operações efetuadas com pessoa vinculada” (art. 18). Como não poderia ser diferente, em seu art. 23, a da Lei n. 9.430/96 expressamente prescreve os critérios para que os contribuintes e a administração fiscal identifiquem quando há e quando não há vinculação entre as partes envolvidas na operação. O mesmo se dá em relação à matéria objeto deste recurso especial. A Lei n. 12.973/2014, em seu art. 22, passou a prescrever que, em operações ocorridas a partir de sua edição, a apuração de ágio (good will) apenas poderá se dar na hipótese de “aquisição de participação societária entre partes não dependentes”. Por não se tratar de conceito vulgar, mas técnico, o legislador necessariamente deveria definir critérios para identificar a referida dependência, o que o fez no art. 25 da aludida lei, como segue: “Art. 25. Para fins do disposto nos arts. 20 e 22, consideramse partes dependentes quando: I o adquirente e o alienante são controlados, direta ou indiretamente, pela mesma parte ou partes; II existir relação de controle entre o adquirente e o alienante; III o alienante for sócio, titular, conselheiro ou administrador da pessoa jurídica adquirente; IV o alienante for parente ou afim até o terceiro grau, cônjuge ou companheiro das pessoas relacionadas no inciso III; ou V em decorrência de outras relações não descritas nos incisos I a IV, em que fique comprovada a dependência societária. Parágrafo único. No caso de participação societária adquirida em estágios, a relação de dependência entre o(s) alienante(s) e o(s) adquirente(s) de que trata este artigo deve ser verificada no ato da primeira aquisição, desde que as condições do negócio estejam previstas no instrumento negocial.” Sobre esse ponto, a Lei n. 12.973/2014 contrasta e torna o silêncio da Lei n. 9.532/97 ainda mais eloquente: apenas a partir da edição dessa nova lei passou a ser vedada a apuração fiscal de ágio na aquisição de participação societária entre partes dependentes. Inovouse o sistema jurídico, com o estabelecimento de critérios para identificação de operações alcançadas pela referida restrição legal. Como até o 2014 o legislador não vedava a apuração de ágio em restruturações societárias realizadas entre partes relacionadas, considerando tal fator como a priori irrelevante, a Lei n. 9.532/97 não prescreveu quaisquer critérios para distinguir situações Fl. 2292DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.293 32 em que as partes fossem ligadas ou independentes. A ausência de critérios prescritos pelo legislador, por exemplo quanto ao grau de dependência admitido (ou, o grau de independência exigido), impossibilita que o intérprete adote arbitrariamente requisitos subjetivos e apriorísticos. Nesse seguir, nos casos ocorridos antes da edição da Lei n. 12.973/2014, sob pena de ofensa à legalidade, não pode haver discriminação de operações pelo fato exclusivo de não haver a participação de terceiros independentes na operação, inclusive por não haver parâmetros legais para a delimitação de conceito de dependência no bojo da Lei n. 9.532/97. A segunda evidência jurídica, que deve ser considerada no julgamento deste recurso especial, consiste na constatação de que todos os requisitos exigidos pela Lei n. 9.532/97, para a apuração e amortização fiscal do ágio, podem potencialmente ser cumpridos em operações em que partes ligadas estejam presentes ou não. Como é sabido, no período dos fatos geradores atinentes ao presente caso, vigia norma segundo a qual “apenas” seriam relevante os seguintes critérios para se aferir a possibilidade ou não da amortização fiscal do ágio: (i) aquisição de investimento em pessoa jurídica com contraprestação de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura; (ii) fluxo financeiro ou sacrifícios econômicos envolvidos na operação de aquisição; (iii) desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial da investida e ágio ou deságio incorrido; (iv) absorção da pessoa jurídica a que se refira o ágio ou deságio (investida) pela pessoa jurídica investidora (ou viceversa), de forma que a amortização do ágio se processe contra os lucros da empresa investida (cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição) e, ainda, (v) deve ser respeitado o limite quantitativo de 1/60 ao mês para a amortização do ágio. O requisito (i) deve ser aferido a partir das regras de aquisição de participação societária prescritas no âmbito do Direito privado. Dessa forma, a aquisição de participação societária, referida pelo art. 7o da Lei n. 9.532/97, poderá se dar por quaisquer das formas em Direito admitidas. Nesse universo de possibilidades para aquisição de participação societária, em caráter não exaustivo, podem ser citados exemplos como doação, permuta ou alienação realizadas pelo proprietário das ações de uma pessoa jurídica, bem como a integralização de dinheiro, de bens imóveis, de bens móveis ou mesmo direitos relacionados a bens intangíveis (marcas, patentes, direitos de imagem etc), entre outas, realizadas como contribuição ao capital social da pessoa jurídica. No caso ora sob julgamento, houve a prática de negócio jurídico típico e tradicional no ordenamento brasileiro, caracterizado pela aquisição de participação societária em uma pessoa jurídica mediante a composição do capital social desta com participação societária detida em outra pessoa jurídica. A referida operação de integralização de ações ocasiona, indiscutivelmente, aquisição de participação societária na empresa investida. O requisito (ii), requerido pela Lei n. 9.532/97, consiste, como se viu, em sacrifícios econômicos ou financeiros para a aquisição da particição societária com sobrepreço (ágio). Não requereu o legislador que houvesse fluxo de moeda na operação, o que restringiria a apuração de ágio para fins fiscais apenas às hipóteses de integralização de dinheiro ao capital social de pessoa jurídica ou, ainda, à alienação de partipação societária em troca de dinheiro. Fl. 2293DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.294 33 Na verdade, o legislador não distinguiu sacrifícios financeiros ou econômicos inerentes a quaisquer das formas em Direito admitidos para a aquisição de partipações societárias. Quando uma empresa (A) integraliza ações de uma determinada empresa (B) no capital de outra (C), o ordenamento jurídico brasileiro outorga a possibilidade dessas ações serem vertidas a valor histórico ou a valor de mercado. Tratase de uma opção fiscal. Se a referida integralização ocasionar a aquisição de participação societária equivalente ao valor de mercado das ações integralizadas, então deverá ser apurado o correspondente ganho de capital, nos termos da legislação tributária aplicável. Se, por outro lado, a contribuição ao capital social da empresa investida se limitar ao valor histórico da partipação societária integralizada, então não haverá, naturalmente, ganho de capital a ser apurado. Em relação a esse requisito, o que distingue o ágio interno válido do ágio interno inválido é a artificialidade das operações realizadas. O ágio interno válido pressupõe que a avaliação das ações, pois se mentirosa fosse, estaria simulando o sacrifício econômico que corresponde ao requisito (ii) para a amortização fiscal do ágio. Diante da simulação da transmissão desses direitos que, na verdade, inexistem, não há como admitirse a apurado e amortizado fiscal do ágio. O requisito (iii), atinente ao desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial da investida e ágio incorrido, pode igualmente ser cumprido. Na apuração do MEP, se for o caso, o custo de aquisição do investimento deve ser desdobrado no valor patrimônio líquido da empresa investida e no sobrepreço incorrido, justificado por expectativa de rentabilidade futura. Não é demais repetir que, como o ágio interno válido tem como condição a verdade dos atos praticados, a expectativa de rentabilidade futura deve ser real. Dito de outro modo, as avaliação, os laudos ou outros meios de prova utilizados pelo contribuinte para justificar o sobrepreço incorrido não podem ser inconsistentes, artificiais. O OfícioCircular/CVM/SNC/SEP n. 01/2007 não representa óbice para o cumprimento desse requisito no presente caso. Conforme esse pronunciamento, para o registro, mensuração e evidenciação do ágio pela contabilidade, seria necessário independência entre as partes da operação. A recomendação em questão, contudo, seria aplicável exclusivamente às companhias de capital aberto, de forma a sequer influenciar o caso ora em análise, em que está em cena empresa de capital fechado. Por sua vez, para o cumprimento do requisito (iv), que consiste na absorção da pessoa jurídica a que se refira o ágio ou pela pessoa jurídica investidora (ou viceversa), naturalmente seria totalmente indiferente anterior operação de aquisição entre partes ligadas. Portanto, também não há óbice potencial ao cumprimento desse requisito. Para encerrar, o requisito (v) exige o respeito ao limite quantitativo de 1/60 do ágio ao mês na apuração da base de cálculo do tributo, cujo cumprimento, naturalmente, independe da questão ora sob análise. Nesse cenário, como até a edição da Lei n. 12.973/2014 seria possível a existência de ágio interno válido, oponível ao fisco, é ilegal reputar como ilegítima operação de aquisição de investimento exclusivamente por esta ter sido realizada entre partes ligadas, à revelia da demonstração da prática de atos simulados pelo contribuinte. Fl. 2294DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.295 34 A análise dos precedentes do CARF traz exemplos de casos envolvendo ágio interno reputado de válido, nos quais verificouse inexistir simulação, como se observa das ementas a seguir: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008 ÁGIO. REQUISITOS DO ÁGIO. O art. 20 do DecretoLei n° 1.598, de 1997, retratado no art. 385 do RIR/1999, estabelece a definição de ágio e os requisitos do ágio, para fins fiscais. 0 ágio é a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor patrimonial das ações adquiridas. Os requisitos são a aquisição de participação societária e o fundamento econômico do valor de aquisição. Fundamento econômico do ágio é a razão de ser da mais valia sobre o valor patrimonial. A legislação fiscal prevê as formas como este fundamento econômico pode ser expresso (valor de mercado, rentabilidade futura, e outras razões) e como deve ser determinado e documentado. ÁGIO INTERNO. A circunstância da operação ser praticada por empresas do mesmo grupo econômico não descaracteriza o ágio, cujos efeitos fiscais decorrem da legislação fiscal. A distinção entre ágio surgido em operação entre empresas do grupo (denominado de ágio interno) e aquele surgido em operações entre empresas sem vinculo, não é relevante para fins fiscais. ÁGIO INTERNO. INCORPORAÇÃO REVERSA. AMORTIZAÇÃO. Para fins fiscais, o ágio decorrente de operações com empresas do mesmo grupo (dito ágio interno), não difere em nada do ágio que surge em operações entre empresas sem vinculo. Ocorrendo a incorporação reversa, o ágio poderá ser amortizado nos termos previstos nos arts. 7° e 8° da Lei n° 9.532, de 1997. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano calendário: 2005, 2006, 2007, 2008 ART. 109 CTN. ÁGIO. ÁGIO INTERNO. É a legislação tributária que define os efeitos fiscais. As distinções de natureza contábil (feitas apenas para fins contábeis) não produzem efeitos fiscais. O fato de não ser considerado adequada a contabilização de ágio, surgido em operação com empresas do mesmo grupo, não afeta o registro do ágio para fins fiscais. DIREITO TRIBUTÁRIO. ABUSO DE DIREITO. LANÇAMENTO. Não há base no sistema jurídico brasileiro para o Fisco afastar a incidência legal, sob a alegação de entender estar havendo abuso de direito. O conceito de abuso de direito é louvável e aplicado pela Justiça para solução de alguns litígios. Não existe previsão do Fisco utilizar tal conceito para efetuar lançamentos de oficio, ao menos até os dias atuais. O lançamento é vinculado a lei, que não pode ser afastada sob alegações subjetivas de abuso de direito. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. ELISÃO. EVASÃO. Em direito tributário não existe o menor problema em a pessoa agir para reduzir sua Fl. 2295DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.296 35 carga tributária, desde que atue por meios lícitos (elisão). A grande infração em tributação é agir intencionalmente para esconder do credor os fatos tributáveis (sonegação). ELISÃO. Desde que o contribuinte atue conforme a lei, ele pode fazer seu planejamento tributário para reduzir sua carga tributária. O fato de sua conduta ser intencional (artificial), não traz qualquer vicio. Estranho seria supor que as pessoas só pudessem buscar economia tributária licita se agissem de modo casual, ou que o efeito tributário fosse acidental. SEGURANÇA JURÍDICA. A previsibilidade da tributação é um dos seus aspectos fundamentais. (Acórdão n. 1101000.708 Processo n. 10680.724392/201028) Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Ano calendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 DECADÊNCIA. NÃO HOMOLOGAÇÃO DAS DECLARAÇÕES APRESENTADAS. Verificado que o lançamento tributário versou nãohomologação às declarações apresentadas, cujas bases de cálculo foram impactadas pela despesa considerada indedutível, verificase que a insurgência fiscal não se dá no tocante à contabilização da despesa, mas, quanto à sua utilização. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE. ERRO OU DEFICÊNCIA NO ENQUADRAMENTO LEGAL. NÃO OCORRÊNCIA. Tendo em vista que a Fiscalização discriminou detidamente os fatos imputados, permitindo à Recorrente exercitar, com plenitude e suficiência, sua defesa técnica e bem fundamentada, verificase a total ausência de prejuízo ao contribuinte, bem como de pecha capaz de inquinar de nulidade o feito. INCORPORAÇÃO DE SOCIEDADE. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. ARTIGOS 7º E 8º DA LEI Nº 9.532/97. PLANEJAMENTO FISCAL INOPONÍVEL AO FISCO. INOCORRÊNCIA. A efetivação da reorganização societária, mediante a utilização de empresa veículo, não resulta economia de tributos diferente da que seria obtida sem a utilização da empresa veículo e, por conseguinte, não pode ser qualificada de planejamento fiscal inoponível ao fisco. O “abuso de direito” pressupõe que o exercício do direito tenha se dado em prejuízo do direito de terceiros, não podendo ser invocada se a utilização da empresa veículo, exposta e aprovada pelo órgão regulador, teve por objetivo proteger direitos (os acionistas minoritários), e não violálos. Não se materializando excesso frente ao direito tributário, pois o resultado tributário alcançado seria o mesmo se não houvesse sido utilizada a empresa veículo, nem frente ao direito societário, pois a utilização da empresa veículo deuse, exatamente, para a proteção dos acionistas minoritários, descabe considerar os atos praticados e glosar as amortizações do ágio. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. LANÇAMENTO DECORRENTE Repousando o lançamento da CSLL nos mesmos fatos e mesmo fundamento jurídico do lançamento do IRPJ, as decisões quanto a ambos devem ser a mesma. (Acórdão n. 1301001.224. Processo n. 16327.001482/201052) Fl. 2296DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.297 36 Nesse cenário, como norma prescrita pelo legislador competente (até a edição da Lei n. 12.973/2014), deve ser reconhecido o ágio gerado por operação real, não simulada, independentemente de haver sido conduzida entre partes relacionadas, ligadas, dependentes. 1.5. O “ágio interno inválido”: definição de “simulação” e critérios legais para a qualificação do caso concreto. Os casos rotulados de “ágio interno inválido” são operações societárias realizadas exclusivamente dentro dos muros do grupo empresarial, consideradas sem causa legítima, fictícias, artificiais, simuladas. O que os torna ilegítimos não é a realização de operações entre partes ligadas, mas a simulação que contamina tais operações, com o dolo de evadir tributos. Ao julgar o presente caso, a análise criteriosa esperada deste Tribunal requer esta consideração. Nesse labor, é preciso rejeitar silogismos circulares, capazes de comprometer a correta aplicação das normas tributárias pertinentes, como este: Premissa 01: Operações com partes relacionadas, quando simuladas, não dão direito à amortização do ágio. Premissa 02: Operações realizadas sem a participação de terceiros são, por si, simuladas. Conclusão: Operações com partes relacionadas nunca dão direito à amortização do ágio. O vício desse silogismo decorre da “premissa 02”, que não é verdadeira. Não se pode assumir que operações realizadas entre partes dependentes sejam, apenas por essa razão, viciadas. Nos presentes autos, compreendo ser juridicamente mandatório que o lançamento tributário apenas se mantenha caso se logre demonstrar que a amortização fiscal do ágio, tal como levada a termo, seja parte de um processo engrendrado por meio de atos simulados, com o dolo específico de deduzir indevidamente despesas para a evasão de tributos. Como a pedra de toque para a solução da matéria ora sob julgamento está centrada no reconhecimento da simulação, fazse necessário compreender adequadamente esse instituto. As decisões do CARF até o fim do século XX apresentavam duas características fundamentais quanto à simulação: (i) a simulação seria um vício de consentimento, cuja mácula consistiria na divergência entre a vontade interna, subjetiva, e a vontade declarada; (ii) seria exigida a demonstração dos atos realizados às escuras, divergentes daqueles levados ao público.10 Assim, no acórdão n. 0101857, de 15.05.95, julgado pela CSRF11, foram refutadas as alegações de simulação formuladas pela fiscalização, tendo em 10 Nesse sentido, vide: BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo : IBDT/Quartier Latin, 2015, p. 214. 11 CARF, CSRF, acórdão n. 0101857, de 15.05.95. Fl. 2297DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.298 37 vista a inexistência de provas de que a vontade das partes, levada a cabo nos documentos formulados para uma incorporação, seria contraditória com a vontade intima efetivamente presente. Contudo, FABIO PIOVESAN BOZZA12 sugere que, desde meados de 2005, a concepção de simulação no âmbito do CARF teria se tornado preponderantemente causalista, com contraposição à postura voluntarista até então. O elemento fundamental para a caracterização da simulação não seria mais a divergência subjetiva, entre a vontade interna das partes e a manifestada nos negócios realizados. O foco, a partir de então, passaria a ser a incompatibilidade objetiva entre o modelo adotado nas operações realizadas para o negócio supostamente pretendido pelas partes. A partir daí, embora não se possa dizer que seja estanque a referida divisão, em muitos julgamentos passaram a ser despiciendas as provas quanto à verdadeira vontade das partes ou da prática de atos às escondidas (modelo subjetivo). Em vez disso, pelo modelo objetivo, passaram a ter lugar deduções lógicas decorrentes de indícios dos mais variados, vocacionados a demonstrar a divergência do negócio realizado com a sua causa típica. Paradoxalmente, observa FABIO PIOVESAN BOZZA13, “o conceito objetivo de simulação tornou se de aplicação subjetiva”. Do Direito positivo, é necessário observar que o art. 149, VII, do CTN, atribui ao agente fiscal a competência e o dever de realizar o lançamento tributado “quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação”. O legislador tributário não edificou um institito distinto de “simulação fiscal”, mas laborou com remissão normativa, acolhendo o conceito normativo de “simulação” prescrito pelo Direito privado. No Código Civil, a tutela da simulação se dá com o art. 167: Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. § 1. Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; II contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III os instrumentos particulares forem antedatados, ou pós datados. § 2. Ressalvamse os direitos de terceiros de boafé em face dos contraentes do negócio jurídico simulado. Desse modo, no âmbito do Direito civil e, por remissão do legislador complementar, também do Direito tributário, são reais e existentes atos de transmissão de 12 BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo : IBDT/Quartier Latin, 2015, p. 218224. 13 BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo : IBDT/Quartier Latin, 2015, p. 228. Fl. 2298DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.299 38 direitos que efetivamente façam com que seja alterado o titular de direitos e obrigações de um determinado acerto patrimonial. Operações que apenas simulam essa transmissão devem ser transparentes aos olhos da fiscalização tributária. Já operações que ocultam a prática de outro negócio jurídico devem ser desmascaradas: inoponível, a operação dissimulada, por transparente aos olhos do fisco, conduz a que se desvende a operação verdadeira que se procurou ocultar, à qual devem ser aplicadas as consequências tributárias correspondentes à espécie. Assim, por exemplo, não há direito à amortização fiscal de ágio apurado em operação de integralização de ações, em que se tenha simulado uma supervalorização da participação societária objeto de contribuição. A utilização de laudos de avaliação forjados, sem lastro em critérios técnicos e aleatórios, evidencia a simulação e macula de forma insanável um dos critérios necessários para a amortização fiscal do ágio, qual seja, sacrifício econômico ou financeiro incorrido para aquisição de participação societária com sobrepreço. Da mesma forma, se o valor atribuído às ações oferecidas como contribuição à aquisição da participação societária é artificial, não se cumpre o sacrifício correspondente ao sobrepreço que se alega incorrer. São conhecidas decisões deste Tribunal quanto ao ágio interno inválido, em que restou caracterizada a simulação e, por consequência, foram negados os efeitos fiscais de aquisições realizadas entre partes relacionadas, com a atração, por dever funcional do agente fiscal (ato vinculado e não discricionário), da aplicação de multa de 150%. Como exemplo, vale observar o seguinte precedente: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anos calendário: 2001 e 2002 Ementas: NULIDADE REEXAME DE FATOS JÁ VALIDADOS EM FISCALIZAÇÃO ANTERIOR A Secretaria da Receita Federal não valida ou invalida fatos, mas analisa sua repercussão frente à legislação tributária e exige o tributo porventura deles decorrentes. No caso, a repercussão tributária dos fatos só surgiu com a amortização do suposto ágio. ATOS SIMULADOS. PRESCRIÇÃO PARA SUA DESCONSTITUIÇÃO. No campo do direito tributário, sem prejuízo da anulabilidade (que opera no plano da validade), a simulação nocente tem outro efeito, que se dá plano da eficácia: os atos simulados não têm eficácia contra o fisco, que não necessita, portanto, demandar judicialmente sua anulação. INCORPORAÇÃO DE SOCIEDADE. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO NA AQUISIÇÃO DE AÇÕES. SIMULAÇÃO. A reorganização societária, para ser legítima, deve decorrer de atos efetivamente existentes, e não apenas artificial e formalmente revelados em documentação ou na escrituração mercantil ou fiscal. A caracterização dos atos como simulados, e não reais, autoriza a glosa da amortização do ágio contabilizado. MULTA QUALIFICADA A simulação justifica a aplicação da multa qualificada. COMPARTILHAMENTO DE DESPESAS DEDUTIBILIDADE. Para que sejam dedutíveis as despesas com comprovante em nome de uma outra empresa do mesmo grupo, por terem sido as mesmas rateadas, é imprescindível que, além de atenderem os requisitos previstos no Regulamento do Imposto de Renda, fique justificado e comprovado o critério de rateio. BENS DE NATUREZA PERMANENTE DEDUZIDO COMO DESPESA. Não Fl. 2299DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.300 39 caracterizada a infração pelo fisco, não prospera a glosa das despesas contabilizadas. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Se nenhuma razão específica justificar o contrário, aplicase ao lançamento tido como reflexo as mesmas razões de decidir do lançamento matriz. Recurso voluntário e de ofício negados. (LIBRA TERMINAL 35 S/A. Acórdão n. 159.490. Processo n. 18471.000947/200633) Vale também observar que o nosso Colegiado (1a Turma da CSRF), por unanimidade, recentemente julgou caso de ágio interno inválido (acórdão n. 9101002.427). Naquele caso, restou evidenciada a simulação do sacrifício econômico alegadamente incorrido pelo contribuinte e a artificialidade do laudo de expectativa de rentabilidade futura. Fezse necessário, portanto, descontinar a real situação jurídica, de forma a evidenciar a ausência de fundamento para a amortização fiscal do ágio. Tendo em vista a estrutura engendrada com o intuito doloso de evadir tributos, mantevese, naquele caso, a qualificação da multa para o percentual de 150%. 1.6. Aplicação das normas jurídicas ao caso concreto. Quanto à legitimidade das operações praticadas, compreendo assistir razão ao contribuinte: há, no caso, aquisição de investimento em pessoa jurídica, com sacrifícios econômicos suportados, correspondentes às ações integralizadas, bem como sobrepreço (ágio) incorrido, fundado em expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida, devidamente demonstrada por laudo de avaliação. Os pareceres jurídicos juntados aos autos corroboram esse entendimento. No caso do parecer emitido pelo Prof. Heleno Taveira Torres, ao tratar do “contexto da reestruturação societária”, este observa que os atos praticados pela contribuinte respeitariam “as regras de direito privado, as normas contábeis e tributárias. Todos estão imbuídos de boafé e foram declarados de forma transparente e fidedigna pelas partes envolvidas”. Após descrever as operações realizadas, inseridas em um plano de expansão do grupo para o mercado europeu, com a presença de dois grupos empresariais distintos (joint venture), bem como com a evidência de propósitos extratributários nos principais atos praticados, conclui pela legitimidade e oponibilidade fiscal do ágio apurado e amortizado. Como distinguish, suscita ser necessário considerar que “a ausência de fraude ou simulação”. Notese que, mesmo àqueles que exigem que se observe o “filme” de todas as operações (e não a “foto” de cada uma delas isoladamente) para a aferição de “propósitos negociais”, será possível constatar a presença de justificativas não tributárias para as reestruturações realizadas. Por sua vez, foi cumprida a exigência do efetivo desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial e o ágio por expectativa de rentabilidade futura. Foi cumprido o requisito da demonstração a expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. Embora a recorrente alegue que o efetivo propósito das operações realizadas tenha sido a mera reavaliação de ativos, não se verifica impugnação aos critérios adotados ou mesmo à efetiva expectativa de rentabilidade futura presente no caso. Fl. 2300DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.301 40 Igualmente foi cumprida a exigência do art. 8o, “b”, da Lei 9.532/97, com a absorção patrimonial da pessoa jurídica que detinha o investimento adquirido com ágio. Também foi cumprida a exigência de que a amortização do ágio apurado pela investidora se processe contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição: a absorção da “EMS Investimentos S/A” pela “EMS S/A” pela recorrente possibilitou o emparelhamento de receitas e despesas tecnicamente requerido pelo legislador. É fundamental repisar que, até a edição da Lei n. 12.973/2014, o legislador passou a vedar a apuração de ágio na aquisição de investimento relevante realizada entre partes dependentes. Contudo, tal vedação não existia anteriormente, período em que o legislador apenas combatia operações artificiais, simuladas. Ademais, embora as específicas operações que deram origem ao ágio e à sua amortização tenham sido realizadas dentro do grupo empresarial a que pertence a EMS, é relevante observar que, considerandose as operações descritas e demonstradas pelo contribuinte como um todo, há também um terceiro independente, a GERMED, empresa portuguesa que posteriormente se tornou acionista da contribuinte e foi parceira de seu projeto de expansão internacional. Compreendo que a presença de GERMED não seja por si só determinante, inclusive porque, até antes da Lei n. 12.973/2014 não exigia a participação de terceiros. Contudo, todo o contexto apresentado e os planos efetivamente concretizados de expansão internacional, com efetiva parceria com a GERMED parecem assentar a presença de importantes fatores extra tributários reestruturação societária implementada. Também é importante observar que as operações em questão ocorreram sob a égide da Lei n. 10.637/2002. Essa foi, inclusive, uma das causas de decidir do acórdão recorrido, que compreendeu que a referida norma legitimou a amortização fiscal do ágio no período em que permaneceu em vigor. Particularmente não compreendo que o art. 36 da Lei n. 10.637/2002 possuía a carga normativa apontada pelo acórdão recorrido. No entanto, não se pode negar que, com a edição do referido dispositivo legal, havia inclusive indução para que houvesse a integralização de ações como a ocorrida no caso dos autos, em ambiente normativo no qual a legitimidade da amortização do ágio entre empresas do mesmo grupo ainda era compreendida como legítima por relevante parte da sociedade. Assim, se o art. 36 da Lei n. 10.637/2002 não é considerado um fundamento de validade imediato à apuração do ágio em operações envolvendo empresas do mesmo grupo, sem dúvida esse é um fator relevante que reforça a legitimidade dos atos praticados. 2. A exigência de multa isolada. A exigência de multa isolada pela não apuração de estimativas mensais tela diz respeito ao período de 2005 a 2010. O Colegiado desta 1a Turma da CSRF, contudo, decidiu admitir o recurso especial da PFN apenas em relação ao período de 2007 a 2010, pela indubitável incidência da Súmula CARF n. 105 em relação a 2005 e 2006. Em relação à parcela do recurso especial admitida (período de 2007 a 2010), o cerne da contenda consiste em saber se a multa isolada pelo não recolhimento das Fl. 2301DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.302 41 estimativas mensais de IRPJ e CSL deve ser cobrada cumulativamente com a multa de ofício, na hipótese de auto de infração lavrado após o término do exercício fiscal. Compreendo que, mesmo após as alterações introduzidas pela Lei n. 11.488/2007 no art. 44 da Lei n. 9.430/96, a questão deve ser analisada com vistas à teoria da consunção, conforme exposto neste voto, no exame de admissibilidade do recurso especial sob julgamento. Dessa forma, no mérito, a conclusão não pode ser outra: não deve haver incidência cumulativa da multa isolada e da multa de ofício. Esse é, ainda, o mesmo entendimento que vem sendo adotado pelo STJ na aplicação da legislação tributária, a exemplo do REsp 1.499.389/PB e do REsp nº 1.496.354/PR. Nesse cenário, adoto como fundamento a mesma ratio decidendi presente nos acórdãos que inspiraram a Súmula n. 105 do CARF. É, ainda, importante observar o quanto disposto pela Súmula CARF n. 82: “Após o encerramento do anocalendário, é incabível lançamento de ofício de IRPJ ou CSLL para exigir estimativas não recolhidas.” Ocorre que a multa (acessório) segue por esse mesmo caminho do tributo (principal). Após o fim do exercício fiscal sem o recolhimento da referida estimativa mensal, nem esta e nem a corresponde penalidade seriam cabíveis, devendo a fiscalização exigir o recolhimento do efetivo tributo (IRPJ e CSL) por ventura devido e não recolhido a seu tempo, com a multa cabível em razão desse atraso (qualificada, se for o caso). Após esse marco temporal, o bem jurídico em questão (estimativas mensais) deixa de ser exigível, bem como a corresponde penalidade que busca garantir a seu cumprimento espontâneo pelo contribuinte também deixa ser justificável e exigida pelo legislador. Assim como os respectivos tributos, as regras que impõem sanções pelo não recolhimento destes apresentam em suas hipóteses de incidência critérios materiais, espaciais e temporais. No caso da multa isolada ora em exame, o seu critério temporal está adstrito ao exercício fiscal em que uma determinada estimativa deveria ser apurada e recolhida pelo contribuinte e não o tenha sido. Apenas na hipótese da fiscalização exigir estimativas não apuradas e recolhidas no curso do exercício fiscal (até o dia 31.12) é que seria cabível a imposição da correspondente multa isolada. 3. Dispositivo do voto. Nos termos do quanto exposto, voto no sentido de NÃO CONHECER e, no mérito, NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial. (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto Fl. 2302DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.303 42 Voto Vencedor Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Redator designado Inicialmente registro minha concordância com o nobre Conselheiro Relator a respeito da impossibilidade de conhecimento do recurso especial manejado pela PGFN no que diz respeito à matéria "qualificação da multa de ofício". O Acórdão n° 1301001.299, ora recorrido, foi explícito ao afirmar que, diante do cancelamento, ali determinado, das glosas das despesas de amortização do ágio discutido nos autos, perdeu o sentido a discussão acerca do cabimento da qualificação da multa de ofício imposta pela Fiscalização: "improcedente a glosa, perde o objeto a discussão sobre a qualificação da multa de ofício". Não havendo pronunciamento da decisão recorrida acerca da matéria, torna se logicamente impossível a caracterização da divergência jurisprudencial exigida pelo art. 67 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09/06/2015 (RICARF/2015), para fins de admissibilidade do recurso especial. Além disso, não poderia esta Câmara Superior de Recursos Fiscais se pronunciar a respeito de um tema antes que o faça a Turma a quo, sob o risco de supressão de instância que pode vir a prejudicar alguma das partes. Em recente julgado de minha relatoria prevaleceu por unanimidade o entendimento de que, em situações como a presente, caso a Turma da CSRF restabeleça a glosa cancelada no julgamento do recurso voluntário, a melhor prática consiste em devolver o processo à Turma recorrida para apreciação das matérias acessórias não apreciadas no primeiro julgamento. Traz a emenda do Acórdão nº 9101002.188, no trecho que interessa à discussão: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2006, 2007, 2008, 2009 MULTA QUALIFICADA. MATÉRIA NÃO EXAMINADA NA FASE DE RECURSO VOLUNTÁRIO. Uma vez restabelecidas as autuações fiscais, deverá haver julgamento quanto à multa qualificada, fazendose necessário o retorno à Turma a quo para análise dos pontos específicos suscitados em relação a essa matéria no recurso voluntário. Portanto, compartilho do entendimento do Conselheiro Relator pelo não conhecimento do recurso especial da PGFN em relação à matéria "qualificação da multa de ofício", registrando que cabe à Turma a quo se manifestar originariamente a respeito de qualquer tema que tenha sido objeto dos recursos voluntário ou de ofício. Dito isso, passo a tratar de pontos a respeito dos quais divirjo dos entendimentos tão bem expostos pelo i. Conselheiro Relator, sempre com a devida vênia. Fl. 2303DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.304 43 O nobre Relator restou vencido quanto ao conhecimento do recurso especial da Fazenda Nacional no que toca às matérias "impossibilidade de dedução, da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, de despesas com amortização de ágio criado internamente" e "multa isolada por falta de recolhimento de estimativas" e também no julgamento do mérito destas mesmas matérias. Assim, inicio meu voto pela apreciação do conhecimento das matérias objeto do recurso especial, passando em seguida à análise de seu mérito. I) Conhecimento do recurso especial da Fazenda Nacional em relação à matéria "dedutibilidade de despesas com amortização de ágio criado internamente" A PGFN, em seu recurso especial, narra que o acórdão recorrido concluiu que a dedução das despesas com a amortização do ágio, promovida pela contribuinte entre os anoscalendário de 2005 a 2010, teria obedecido a todos os requisitos impostos pela legislação tributária. O aludido ágio decorreria de um efetivo dispêndio financeiro e de operações com inegável propósito negocial e teria sido absorvido por meio de operações societárias válidas. Assim, diante do cumprimento de todas as condições necessárias, a dedução das despesas sob discussão das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL estaria amparada pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997. Prossegue a Fazenda Nacional defendendo que, ao assim se posicionar, o acórdão recorrido teria divergido frontalmente da posição adotada pelos Acórdãos nº 1202 000.890 e 1402001.338, indicados como paradigmas. O primeiro acórdão paradigma, segundo a recorrente, analisou caso bastante semelhante ao abordado nos presentes autos: o contribuinte promoveu reorganização societária envolvendo empresas vinculadas ao mesmo grupo econômico, caracterizada por uma sequência de operações de integralização de capital, incorporação e cisão parcial, gerando ágio que foi posteriormente aproveitado pelo grupo. Contudo, ao contrário do que foi decidido no acórdão recorrido, a decisão paradigma teria concluído pela artificialidade de tal ágio e pela consequente impossibilidade de seu aproveitamento tributário. Já o segundo acórdão paradigma divergiria da decisão recorrida por ter defendido a impossibilidade de formalização de ágio em operação societária realizada entre empresas de um mesmo grupo econômico, em razão da inexistência de contrapartida de terceiro que gere o efetivo dispêndio. Assim, seria impossível também o aproveitamento tributário de tal ágio por meio da dedução das despesas decorrentes de sua amortização. Pois bem. Ao analisar o conhecimento do recurso especial no que tange ao tema, o i. Conselheiro Relator votou por não conhecêlo por entender que um dos fundamentos autônomos apontados pelo voto condutor do Acórdão nº 1301001.299 para dar provimento ao recurso voluntário não teria sido objeto do recurso da Fazenda Nacional. O nobre Conselheiro Relator afirma que o voto condutor do acórdão recorrido teria defendido que, mesmo que superadas as demais questões debatidas em relação à dedutibilidade das despesas de amortização do ágio interno, o disposto no art. 36 da Lei nº 10.637/2002, por si só, legitimaria a amortização fiscal em questão. Como o mencionado dispositivo legal não foi objeto de questionamento no recurso especial, defende o i. Conselheiro Relator que qualquer decisão construída por este Fl. 2304DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.305 44 Colegiado seria inútil para fins de reforma da decisão recorrida. Com base, portanto, em uma suposta insuficiência recursal, foi proposto o não conhecimento do recurso no que atine à matéria "impossibilidade de dedução, da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, de despesas com amortização de ágio criado internamente". Entendo que tal tese carece de fundamento. Examinando o voto condutor do acórdão recorrido, identifico as seguintes passagens de interesse para a discussão em curso: "Mas não é só isso. Ainda que se parta da premissa adotada pela fiscalização, de que o reconhecimento contábil do “ágio interno” não encontra respaldo nos princípios da ciência contábil, só sendo verdadeiros os ágios gerados em aquisições de participações societárias em negócios entre partes independentes, ainda assim o lançamento não se sustentaria. É que, com ou sem respaldo na Ciência Contábil, o fato é que no período de 1º de janeiro de 2003 a 31/12/2005, esse ágio pôde ser registrado para retratar situação prevista em norma tributária específica, in casu, o art. 36 da Lei nº 10.637/20024, revogado pela Lei nº 11.196, de 2005, e que dispunha: (...) O ágio registrado com base nesse comando da legislação tributária tem como único efeito fiscal aquele previsto na própria norma que justificou sua contabilização. Ou seja, o diferimento da tributação do valor correspondente à reavaliação da participação societária conferida na integralização de capital subscrito. (...) O fato concreto é que, o registro do ágio (gerado internamente) decorre de disposição expressa e específica da legislação tributária, com o efeito tributário previsto no dispositivo legal, qual seja, o diferimento da tributação da reavaliação da participação conferida." (grifouse) Nos trechos transcritos, o i. Relator do acórdão recorrido defende a possibilidade de registro, de contabilização do ágio gerado internamente entre 01/01/2003 e 31/12/2005, em razão de vigência, naquele período, de norma tributária consubstanciada no art. 36 da Lei nº 10.637/2002. Observese que o voto condutor da decisão é expresso ao citar, mais de uma vez, que o único efeito fiscal do aludido dispositivo é o diferimento da tributação sobre o ganho de capital decorrente do processo de reavaliação de participação societária conferida em procedimento de integralização de capital social. Assim, verificase que a decisão recorrida não aponta o art. 36 da Lei nº 10.637/2002 como autorizador da dedução, das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, de Fl. 2305DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.306 45 despesas de amortização do ágio interno. Se nem isso o faz, muito menos poderia têlo apontado como fundamento autônomo para tal. Afastado tal argumento, creio que a análise quanto ao conhecimento do recurso especial fazendário, no que atine à matéria "dedutibilidade de despesas com amortização de ágio criado internamente", deve ser feita à luz do que estabelece o art. 67 do Anexo II do RICARF/2015: verificação da existência de divergência entre interpretações dadas à legislação tributária. Tendo isso em vista, considero não ser de difícil percepção que o acórdão recorrido e as decisões paradigmas efetivamente adotam interpretações divergentes a respeito da aplicação dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (base legal do art. 386 do Decreto nº 3.000/1999 Regulamento do Imposto de Renda). Do cotejo entre o acórdão recorrido e o primeiro paradigma trazido pela Fazenda Nacional (Acórdão nº 1202000.890), verificase que as situações fáticas são muito semelhantes no que interessa à discussão em foco. Assim como a decisão recorrida, o acórdão paradigma também analisa glosas relativas a despesas de amortização de ágio, promovidas pela Fiscalização com base no entendimento de que tal ágio teria sido gerado em operações societárias realizadas apenas entre empresas relacionadas; em período exíguo; sem propósito negocial; sem efetivo sacrifício patrimonial; com utilização de empresaveículo. Diante deste contexto fático, o acórdão recorrido defende que a legislação tributária aplicável ao caso (art. 7º e 8º da lei nº 9.532/1997) em momento algum exige que o ágio, para que seja passível de aproveitamento tributário mediante a dedução das despesas decorrentes de sua amortização, seja oriundo de operações realizadas entre partes independentes. Ademais, argumenta que a aquisição de participação societária requerida pela legislação pode se dar de muitas formas, algumas das quais não envolvem a contrapartida por meio de pagamento em dinheiro. De forma contrastante, o acórdão paradigma nº 1202000.890 entende que é artificial o ágio que surge a partir de operações realizadas entre partes dependentes e sem o dispêndio de recursos, hipótese em que não seria permitida a aplicação dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997. Sendo assim, considero perfeitamente configurada a divergência jurisprudencial entre a decisão recorrida e o Acórdão nº 1202000.890. Por terem sido cumpridos este e os demais requisitos de admissibilidade estabelecidos no art. 67 do Anexo II do RICARF/2015, CONHEÇO do recurso especial da Fazenda Nacional em relação à matéria "dedutibilidade de despesas com amortização de ágio criado internamente". II) Conhecimento do recurso especial da Fazenda Nacional em relação à matéria "multa isolada por falta de recolhimento de estimativas" O recurso especial da PGFN narra que o acórdão recorrido teria adotado o entendimento de que não é devida a multa isolada por falta de recolhimento de estimativa se tiver sido aplicada após o encerramento do anocalendário. Assim teria se inaugurado dissenso jurisprudencial entre a decisão recorrida e os acórdãos paradigmas nº 1302001.080 e nº 1202000.964, que defenderiam a validade da cobrança de multa isolada independentemente do encerramento do anocalendário, uma vez Fl. 2306DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.307 46 que tal penalidade visa a sancionar o contribuinte que descumpre a sistemática de recolhimento mensal dos tributos com base no regime de estimativa. O i. Conselheiro Relator deste julgamento votou pelo não conhecimento do recurso especial fazendário em relação à matéria "multa isolada por falta de recolhimento de estimativas" sob o argumento de que o Acórdão nº 1301001.299 teria aplicado entendimento já sumulado no âmbito do CARF. Como a Súmula CARF nº 105 já teria estabelecido a impossibilidade de lançamento concomitante das multas isolada e de ofício, a regra insculpida no §3º do art. 67 do Anexo II do RICARF/2015 (equivalente ao §2º do art. 67 do Anexo II do RICARF/2009, vigente à época da apresentação do recurso) impediria o conhecimento do recurso especial na parte que pretende a rediscussão deste tema. O voto apresentado pelo nobre Conselheiro Relator defende que a vedação citada aplicarseia tanto aos anoscalendário anteriores quanto aos posteriores à vigência da Lei nº 11.488/2007 (resultado da conversão da Medida Provisória nº 351, de 22/01/2007) e é explica que tal conclusão se baseia no entendimento de que, mesmo após a revogação, pela aludida lei, do inciso IV do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/1996, textualmente citado na Súmula CARF nº 105, a ratio decidendi aplicada no julgamento dos acórdãos utilizados como paradigmas para a edição da Súmula permaneciam perfeitamente válidos. Divirjo de tal entendimento. A Súmula CARF nº 105 é explícita ao mencionar a impossibilidade de cobrança concomitante da "multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996" com a "multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual". Observese que o dispositivo legal que fundamenta a cobrança da multa de ofício não é mencionado. Sendo assim, é bastante provável que a intenção da 1ª Turma da CSRF tenha sido exatamente a de delimitar a vedação de aplicação concomitante à multa isolada fundamentada especificamente no inciso IV do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/1996. Caso a menção ao dispositivo legal tivesse sido feito de forma despretensiosa, apenas com a intenção de identificar de que multa isolada a Súmula estaria tratando, provavelmente a referência à multa de ofício também viria acompanhada da identificação do dispositivo legal que a fundamenta. Além disso, tendo sido a Súmula editada pela 1ª Turma da CSRF apenas em 08/12/2014, muito tempo após a revogação do inciso IV do §1º do art. 44 da Lei nº 9.430/1996 e o início da vigência da Lei nº 11.488/2007, seria esperado que ela fizesse alguma referência genérica como "A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas não pode ser exigida (...)" caso não desejasse se referir especificamente à multa isolada prevista no dispositivo revogado em 2007. A previsão legal da multa aplicada isoladamente foi significativamente alterada em janeiro de 2007. Na redação anterior, contida no art. 44, § 1º, inciso IV, da Lei nº 9.430/1996, previase a exigência de multa isolada, calculada sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição, no caso de a pessoa jurídica sujeita ao pagamento do IRPJ e da CSLL, na forma do art. 2º da Lei nº 9.430/1996, deixar de fazêlo, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a CSLL no anocalendário correspondente. O percentual da multa aplicável era de 75%. Fl. 2307DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.308 47 Já com a redação introduzida pela MP nº 351/2007 e pela Lei nº 11.488/2007, prevêse no art. 44, inciso II, alínea "b" da Lei nº 9.430/1996 a cobrança de multa isolada de 50%, calculada sobre o valor do pagamento mensal que deixar de ser efetuado na forma do art. 2º da Lei nº 9.430/1996, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a CSLL no anocalendário correspondente. Verificase, portanto, que houve alterações expressas e significativas na base de cálculo e nos percentuais aplicáveis à multa isolada. Desta forma, não é possível afirmar, em sede de análise do conhecimento do recurso e sem adentrarmos no mérito da discussão, que a Súmula CARF nº 105 abrangeria também períodos posteriores a 2007. Diante do exposto, entendo inaplicável ao caso sob análise a restrição tipificada no art. 67, §3º, do Anexo II do RICARF/2015 (art. 67, §2º, do Anexo II do RICARF/2009), razão pela qual CONHEÇO do recurso especial da PGFN em relação às multas isoladas relacionadas aos anoscalendário 2007 a 2010. Registro, por fim, que não houve nos presentes autos lançamento de multas isoladas relativas aos anoscalendário 2005 e 2006, razão pela qual se torna inócua a discussão acerca do não conhecimento do recurso especial quanto à matéria "multa isolada por falta de recolhimento de estimativas" para estes períodos. III) Mérito Dedutibilidade de despesas com amortização de ágio criado internamente O ponto central do debate desenvolvido ao longo dos presentes autos diz respeito à regularidade do procedimento adotado pela contribuinte EMS S.A. (e condenado pela Fiscalização) de deduzir, ao longo dos anoscalendário de 2005 a 2010, do lucro real e da base de cálculo da CSLL, despesas relacionadas à amortização de ágio registrado em sua contabilidade. Tal ágio decorreu de operações societárias celebradas entre a contribuinte e a empresa EMS INVESTIMENTOS S.A.. As duas empresas tinham as mesmas controladoras: SALTMONT EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES (doravante identificada apenas como SALTMONT) e SALTRIVER EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA (de agora em diante citada como SALTRIVER). O controle destas empresas sobre a EMS INVESTIMENTOS era direto; já sobre a EMS S.A., indireto e exercido por meio da EMS SIGMA PHARMA PARTICIPAÇÕES. A SALTMONT era controlada pelo sócio Carlos Eduardo Sanchez e a SALTRIVER, pela sócia Nanci Sanchez. Estas duas pessoas físicas constavam, entre 2004 e 2005, como únicos diretores tanto da EMS S.A. quanto da EMS INVESTIMENTOS. Portanto, à época das operações societárias que geraram o ágio objeto da discussão, tanto a contribuinte quanto a EMS INVESTIMENTOS eram controladas e administradas pelas mesmas duas pessoas físicas. Em 29/12/2004, a EMS INVESTIMENTOS incorporou a totalidade das ações da EMS S.A., atribuindolhe o valor de R$ 926.642.000,00, com fundamento na expectativa de rentabilidade futura daquela pessoa jurídica, segundo laudo elaborado por empresa especializada. Na sua contabilidade, tal valor foi desdobrado em duas contas distintas: R$ 145.281.215,03 foram registrados a título de investimento na EMS S.A. (associado ao valor Fl. 2308DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.309 48 patrimonial das ações incorporadas) e R$ 781.360.784,97 foram registrados como ágio relacionado a tal investimento. Já em julho de 2005, a contribuinte EMS S.A. incorporou sua controladora direta EMS INVESTIMENTOS e trouxe o ágio de R$ 781.360.784,97 para sua contabilidade. Passou então a deduzir, entre 2005 e 2010, as despesas decorrentes da amortização deste ágio de seus resultados tributáveis, considerando que tal prática estaria amparada pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, também contempladas no Regulamento do Imposto de Renda (RIR/1999), nos arts. 385 e 386. Muito bem. A respeito da figura do ágio, há que se dizer que seu conceito tributário foi introduzido no ordenamento brasileiro pelo DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977. À época dos fatos discutidos nestes autos, dispunha o art. 20 do Decreto Lei, antes de ter sua redação alterada pela Lei nº 12.973, de 13/05/2014: Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. O art. 385 do RIR/1999 é basicamente uma cópia do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977. Em ambos os dispositivos, encontrase a determinação de que contribuintes que avaliam investimentos em sociedade controlada ou coligada pelo valor do patrimônio líquido registrem o ágio apurado na aquisição de participação societária em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Além disso, os dispositivos prevêem que tal ágio deve ser fundamentado em pelo menos um dos três fatores: a) valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao Fl. 2309DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.310 49 registrado na contabilidade; b) expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros ou; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Quando o art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977 e o art. 385 do RIR/1999 afirmam que o destinatário das regras ali expostas é o contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido, estão se referindo ao método da equivalência patrimonial. Segundo tal método, as variações observadas nos patrimônios líquidos da sociedades coligadas ou controladas provocam reflexos nos valores dos investimentos registrados na investidora. Observese o que dispõem os arts. 387 a 389 do RIR/1999, a respeito do método de equivalência patrimonial: Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): I o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até dois meses, no máximo, antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda; (...) Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (...) Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (...) O art. 389 do RIR/1999 é explícito ao determinar que os resultados auferidos pelas empresas coligadas ou controladas não devem ser computados na determinação do resultado da investidora. Assim, lucros apurados em uma investida devem ser objeto de tributação somente no âmbito daquela empresa. Embora tenham o reflexo de majorar o valor do investimento registrado na investidora, os lucros da investida não devem integrar a base tributável da pessoa jurídica que nela detém participação societária, sob pena de configurarse hipótese de dupla tributação. Fl. 2310DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.311 50 Caso a investidora tenha registrado, em sua contabilidade, ágio decorrente da expectativa de rentabilidade futura da investida, concluise que a causa do pagamento a maior efetivamente se concretizou, mas foi tributada somente na coligada ou controlada. Sendo assim, não há que se cogitar de amortização do ágio na investidora, uma vez que não ocorre, nesta pessoa jurídica, tributação do resultado positivo da investida. Somente seria lógico falar em amortização daquele ágio caso a concretização do motivo que lhe deu causa, qual seja, a lucratividade futura da investida, tivesse reflexos tributários na pessoa jurídica que pagou a "mais valia". Dessa forma, o dispêndio a maior poderia ser gradativamente recuperado sob a forma de despesas dedutíveis, se os lucros que o motivaram provocassem um maior recolhimento de tributos nos períodos posteriores à aquisição do investimento. Como, por determinação legal, não é esta a hipótese que se verifica no método de equivalência patrimonial, podese concluir que a regra geral é a da impossibilidade de utilização fiscal do ágio registrado na investidora. É o que reza expressamente o art. 391 do RIR/1999: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). Existem, contudo, duas exceções a tal regra. A primeira delas é indicada pelo próprio art. 391, quando ressalva o disposto no art. 426 do mesmo RIR/1999: Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. Fl. 2311DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.312 51 A primeira exceção à regra da impossibilidade de aproveitamento tributário do ágio tratado pelo art. 385 do RIR/1999 diz respeito, portanto, à apuração de ganho ou perda de capital. Se o investimento que deu causa à "mais valia" for alienado ou liquidado, o ágio ou deságio registrados na contabilidade da controladora devem compor o custo de aquisição considerado no cálculo do resultado tributável da operação, sobre o qual incidirão IRPJ e CSLL. Já a segunda exceção, que interessa mais diretamente à discussão desenvolvida nos presentes autos, referese a transformações societárias envolvendo investidoras, investidas e o ágio associado aos investimentos. A respeito da evolução histórica das previsões legais que contemplaram a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio em hipóteses de transformações societárias, remetome ao irretocável apanhado feito pelo nobre Conselheiro André Mendes de Moura no Acórdão nº 9101002.301: "Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Fl. 2312DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.313 52 b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada períodobase a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de mercado, e tal situação se mostraria viável, especialmente, quando, imediatamente após à aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão. Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale transcrever a Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 199714, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que 14 Exposição de Motivos publicada no Diário do Congresso Nacional nº 26, de 02/12/1997, pg. 18021 e segs, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. Fl. 2313DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.314 53 possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI15 ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. (...) Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista16 que trabalhou na edição da MP 1.609, de 199717: O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da 15 SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo : Dialética, 2012, p. 66 e segs. 16 Relatório da Comissão Mista publicada no Diário do Congresso Nacional nº 27, de 03/12/1997, pg. 18494, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 17 Na realidade, o número da Medida Provisória abordada é 1.602. Fl. 2314DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.315 54 fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anoscalendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. (...) Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegou se a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.607, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização." Depreendese da retrospectiva transcrita que os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (produto da conversão da Medida Provisória nº 1.602/1997) foram erigidos pelo legislador com a específica finalidade de coibir a prática de planejamentos tributários abusivos em que empresas superavitárias adquiriam com ágio empresas deficitárias para serem em seguida incorporadas por elas. Tal incorporação reversa, também denominada de incorporação "às avessas", não tinha nenhum propósito negocial que não fosse a simples geração de ganhos de natureza tributária. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 foram integralmente incorporados ao RIR/1999 por meio de seu art. 386. Como este artigo faz referência expressa a dispositivos do art. 385 (cópia do já reproduzido art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977), transcrevemse ambos a seguir: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. Fl. 2315DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.316 55 § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do §2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do §2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração. §1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §1º). Fl. 2316DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.317 56 §2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §2º): I o ágio em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; II o deságio em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. §3º O valor registrado na forma do inciso II (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §3º): I será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; II poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. §4º Na hipótese do inciso II do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos ou contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §4º). §5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §5º). §6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. §7º Sem prejuízo do disposto nos incisos III e IV, a pessoa jurídica sucessora poderá classificar, no patrimônio líquido, alternativamente ao disposto no §2º deste artigo, a conta que registrar o ágio ou deságio nele mencionado (Lei nº 9.718, de 1998, art. 11). Verificase que os arts. 385 e 386 do RIR/1999 guardam uma relação indissociável entre si, uma vez que requisitos à aplicação do segundo artigo são extraídos diretamente da redação do primeiro. Fl. 2317DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.318 57 O art. 385, conforme já mencionado, estabelece duas regras principais. A primeira determina que o ágio apurado em uma aquisição de participação societária em sociedade controlada ou coligada seja registrado em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Já a segunda fixa os possíveis fundamentos econômicos do ágio pago na aquisição da participação societária (valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros; fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas). Por fim, o artigo ainda prevê que o ágio fundamentado em valor de mercado dos bens do ativo da investida ou na expectativa de resultados futuros deve ser baseado em documentação comprobatória, devidamente arquivada. Já o art. 386 trata, entre outras coisas, da possibilidade de aproveitamento tributário do ágio decorrente do fundamento econômico previsto no inciso II do §2º do artigo anterior (valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros). O caput do art. 386 traz o primeiro requisito que deve ser cumprido para que seja possível o aproveitamento do ágio: uma pessoa jurídica deve absorver o patrimônio de uma segunda, em que detenha participação societária adquirida com ágio. A respeito deste primeiro requisito exigido pela norma, recorro novamente ao Acórdão nº 9101002.301, pela assertividade da análise ali desenvolvida: "Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA 18. Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. 18 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ª ed. São Paulo : Malheiros Editores, 2010, p. 51 e segs. Fl. 2318DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.319 58 Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado "transferido" para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida Fl. 2319DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.320 59 (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoase o encontro de contas entre investidor e investida, e a amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI19, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha 19 SCHOUERI, 2012, p. 62. Fl. 2320DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.321 60 participação societária adquirida com ágio ou deságio, ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Considerandose o regime de tributação adotado pelo sujeito passivo, aperfeiçoase o lançamento fiscal e o termo inicial para contagem do prazo decadencial." Concluise, portanto, que o art. 386 do RIR/1999, sob o aspecto pessoal, se dirige à investidora que vier a incorporar sua investida (ou por ela ser incorporada), após ter efetivamente acreditado na mais valia do investimento, feito os estudos de rentabilidade futura e desembolsado os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço, pago em momento anterior pela investidora em razão da confiança na rentabilidade futura da investida. Destaquese que a regra se aplica tanto à incorporação da investida pela investidora quanto, no sentido inverso, à hipótese em que a investidora é que é incorporada por sua investida. Em ambos os casos, a lei exige que a investidora envolvida na incorporação seja a "original" ou stricto sensu (no sentido de que a originalidade está indissociavelmente ligada à pessoa jurídica que paga o ágio e, por isso mesmo, tem confiança na rentabilidade futura, pois é quem assume o risco). A situação em que a investida incorpora sua investidora é denominada de incorporação reversa ou ainda de incorporação "às avessas". A previsão da possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio nesta hipótese é trazida pelo §6º, inciso II, do art. 386 do RIR/1999. O dispositivo faz uso de uma técnica legislativa transitiva, indicando assim que o que vale para o caput do art. 386 do RIR/1999 vale também para o seu §6º. As premissas de exegese da norma não são afetadas, sendo necessárias apenas as devidas adaptações para contemplar a situação prevista. De forma correlata ao que se analisou quanto ao aspecto pessoal, a confusão de patrimônios, principal item do aspecto material para fins de enquadramento no art. 386 do RIR/1999, consumase quando, na sociedade incorporadora, o lucro futuro e o investimento original com expectativa desse lucro (aquele que foi sobreavaliado) passam a se comunicar diretamente (os riscos se fundem: o risco do investimento assim entendidos os recursos aportados e o risco do empreendimento). Compartilhando o mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolidase cenário no qual a pessoa jurídica detentora da "mais valia" (ágio) do investimento baseado na expectativa de rentabilidade futura passa a ser responsável também por honrar tal rentabilidade. Assim, a legislação permite que o contribuinte considere perdido o capital que foi investido com o ágio e deduza a despesa relativa à "mais valia". Fl. 2321DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.322 61 Configuração semelhante ocorre na incorporação reversa, na medida em que a pessoa jurídica responsável por gerar a rentabilidade esperada para o futuro passa a ser a detentora do ágio baseado na expectativa de tal rentabilidade. Sendo assim, pressupõese que a "mais valia" porventura contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participam da "confusão patrimonial". Para fins de acesso à dedutibilidade estabelecida pelo art. 386 do RIR/1999, a pessoa jurídica que efetivamente suportou o ágio pago na aquisição de um investimento deve incorporar tal investimento (incorporação da investida pela investidora) ou ser incorporada pela empresa em que investiu (incorporação "às avessas"). Em síntese, a subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/1999, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material das hipóteses ali previstas. Na atual redação destes dispositivos, exclusivamente no caso em que houver o efetivo desembolso de valores (ou sacrifício de outros ativos) a título de investimento da investidora (futura incorporadora ou, no caso da incorporação reversa, incorporada) na investida (futura incorporada ou, no caso da incorporação reversa, incorporadora), é que haverá o atendimento aos aspectos pessoal e material. Se o ágio não foi de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da "confusão patrimonial", não há sentido em clamarse pela dedutibilidade das despesas decorrentes de amortização de ágio instituída pelo art. 386 do RIR/1999. No caso analisado nos presentes autos, é incontroverso que o ágio cujas despesas de amortização a contribuinte EMS S.A. pretende dedutíveis teve origem no momento em que a totalidade de suas ações foi incorporada pela EMS INVESTIMENTOS, empresa submetida ao controle dos mesmos sócios indiretos da contribuinte. O valor pelo qual as ações foram recebidas contemplou uma parte relacionada ao valor original do investimento (R$ 145.281.215,03) e o ágio quantificado com base em laudo que avaliou o valor de mercado da participação societária incorporada com fundamento na expectativa de sua rentabilidade futura (R$ 781.360.784,97). Alguns meses depois, a EMS INVESTIMENTOS foi incorporada pela contribuinte, em um processo de incorporação reversa, o que fez com que o ágio antes contabilizado na primeira empresa ingressasse no patrimônio da segunda. De posse de tal ágio, a contribuinte EMS S.A. passou a deduzir de seu lucro líquido, entre os anos de 2005 e 2010, as despesas decorrentes da sua amortização, sob o argumento de que sua situação amoldavase à previsão legal abrigada nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e nos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Ocorre que o entendimento defendido pela contribuinte não tem amparo nos mencionados dispositivos legais ou em quaisquer outros. Interpretandose o conteúdo do art. 386 do RIR/1999 sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, verificase que não restaram observados, no caso concreto, os aspectos pessoal e material necessários à subsunção da situação fática à previsão normativa. A configuração do aspecto pessoal da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999 requer, como foi visto, que a pessoa jurídica que vier a absorver o patrimônio da outra em que detenha participação societária (ou a ser absorvida por ela, no caso da incorporação "às avessas") tenha acreditado na "mais valia", feito estudos de rentabilidade futura e efetivamente desembolsado os recursos para a aquisição do investimento. Fl. 2322DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.323 62 No caso dos autos, é incontroverso que não houve desembolso algum, por qualquer das partes envolvidas, nas operações que originaram o ágio de R$ 781.360.784,97. Este número adveio simplesmente da diferença entre a reavaliação encomendada pelos controladores da contribuinte e o valor nominal de suas ações que foram incorporadas pela EMS INVESTIMENTOS. Sendo assim, não há que se falar na existência de uma investidora real, que faria jus à possibilidade de aproveitamento tributário do ágio nos moldes delineados no art. 386 do RIR/1999. Além disso, também o aspecto material da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999 não restou caracterizado no caso concreto. Para que o ágio possa ser objeto de aproveitamento fiscal, é necessária a ocorrência de "confusão patrimonial" entre investidora e investida porque assim passam a coexistir dentro da mesma pessoa jurídica a "mais valia" paga com base na expectativa de rentabilidade futura e o próprio investimento de que se espera tal rentabilidade. É justamente por conta deste encontro que a legislação permite que os contribuintes dêem por perdido o capital investido na "mais valia" e passem a utilizar as despesas de sua amortização como deduções da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Se não existiu o efetivo dispêndio da investidora por tal "mais valia", não há valor pago a maior que possa ser considerado perdido por ocasião de seu encontro, na contabilidade da mesma pessoa jurídica, com o investimento de que se esperava a produção futura de resultados positivos. Logo, perde o sentido a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio. Assim, a amortização operada pela contribuinte não teve amparo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 ou dos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Conforme se viu, a possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio só tem sentido em situações em que a investidora de fato, responsável por arcar com o dispêndio que faz nascer o ágio, incorpora a pessoa jurídica em que possua participação societária (investimento) ou é por ela incorporada. No caso dos autos, não existiu a figura da investidora originária porque não houve dispêndio apto a amparar a criação do ágio que se pretendeu amortizável. O ágio contabilizado decorreu de reavaliação do valor de mercado das ações da contribuinte EMS S.A., posteriormente incorporadas pela EMS INVESTIMENTOS, não tendo sido verificado nenhum dispêndio que viesse a satisfazer os aspectos pessoal e material da hipótese de incidência da benesse estabelecida no art. 386 do RIR/1999. É indiferente para tal conclusão o fato de, ao final das operações societárias promovidas pelo grupo econômico, estarem reunidos no patrimônio da contribuinte EMS S.A. o ágio de R$ 781.360.784,97 (que, no fim das contas, fundamentouse na expectativa de sua rentabilidade futura, uma vez que o ativo da EMS INVESTIMENTOS resumiase a ações da contribuinte) e o investimento que lhe serviu de fundamento. Sem a realização de investimento efetivo que justifique o nascimento do ágio, não há que se falar na ocorrência de confusão patrimonial que possibilite a dedutibilidade prevista no art. 386 do RIR/1999. Importante ressaltar que, quando se estabelece a necessidade de que a investidora arque com a aquisição do investimento com ágio, não se restringe tal operação a uma compra e venda com o desembolso de valores monetários. O dispêndio a que se refere diz respeito a qualquer operação que gere ganhos para o alienante e gastos para o adquirente. Mais do que um pagamento em dinheiro, o que se espera como resultado desta operação é que haja variações patrimoniais para os envolvidos em valores proporcionais ao negócio celebrado. Fl. 2323DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.324 63 O ágio inicialmente contabilizado pela EMS INVESTIMENTOS e posteriormente incorporado pela contribuinte EMS S.A. foi criado sem esta troca de riquezas entre adquirente e alienante. A criação de tal ágio foi um fenômeno puramente contábil. Ninguém sacrificou valores ou direitos que justificassem sua criação. Isso só foi possível porque a contribuinte EMS S.A. e a empresa EMS INVESTIMENTOS pertenciam ao mesmo grupo econômico, estando submetidas ao controle dos mesmos acionistas. Conforme já foi mencionado, as duas empresas eram controladas indiretamente e administradas pelas mesmas duas pessoas físicas: Carlos Eduardo Sanchez e Nanci Sanchez. Assim, o negócio celebrado entre estas empresas não aconteceu em um ambiente de livre concorrência, em que os atos negociais visam a atender aos interesses de ambos os contratantes, que assumem direitos e deveres proporcionais. O fato de as empresas integrarem o mesmo grupo econômico adiciona novos elementos e interesses maiores ao negócio. Não necessariamente os atos celebrados têm como objetivo beneficiar ambas as partes. A contribuinte defende, nas manifestações feitas ao longo do contencioso administrativo, que teria havido, no caso concreto, a participação de um terceiro independente (sem relação societária com as empresas controladas por Carlos Eduardo Sanchez e Nanci Sanchez) no conjunto de operações que provocaram o surgimento do ágio de R$ 781.360.784,97, o que contradiria a teoria do Fisco de que tratase de ágio interno imprestável para fins fiscais. Ela se refere à empresa GERMED, de nacionalidade portuguesa, com quem teria firmado, em 05/07/2004, um contrato para formação de uma jointventure que possibilitaria o ingresso do grupo EMS no mercado europeu de medicamentos. Como a aludida jointventure foi operacionalizada por meio da permuta de 9% das ações da GERMED por 1% das ações da EMS S.A. (finalidade de estabelecimento de participação recíproca), seria necessária a reavaliação a valor de mercado de ambas as empresas e a concordância da outra parte em relação ao valor reavaliado. Assim, a operação responsável pela geração do ágio teria tido o aval de terceiro independente a lhe garantir a isenção necessária no tocante aos valores praticados. A tese da contribuinte não prospera. De início, já se identifica uma inconsistência temporal nos fatos apontados. A citada permuta de ações entre as empresas EMS S.A e GERMED teria sido selada em julho de 2004. Já a reavaliação do valor das ações da contribuinte foi realizada somente em novembro daquele ano, conforme atesta o laudo elaborado pela empresa PROINVEST CONSULTORES ASSOCIADOS, presente a partir da fl. 171 deste processo (numeração referente ao processo digital). Sendo assim, não se pode afirmar que o valor alcançado na reavaliação tenha sido examinado e aprovado pela empresa portuguesa como uma condição para a celebração do contrato de jointventure. Além disso, existe um claro descompasso quantitativo na justificativa apresentada. A permuta de ações acordada entre a EMS S.A. e a GERMED envolveu apenas 1% das ações da contribuinte. Se tais ações antes valiam R$ 1.400.000,00 e passaram, com a Fl. 2324DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.325 64 reavaliação, a valer R$ 9.266.420,00, verificamos um sobrepreço, sobre a parcela envolvida na permuta, de R$ 7.826.420,00. Já o ágio total registrado inicialmente na EMS INVESTIMENTOS com a incorporação da totalidade das ações reavaliadas da EMS S.A. foi de R$ 781.360.784,97. Não se pode admitir, portanto, que o argumento de que era necessária a reavaliação de 1% das ações da empresa (sobrepreço de R$ 7.826.420,00) justifique a criação de ágio quase cem vezes (!) maior. Por fim, o valor "pago" a maior pela empresa GERMED somente poderia repercutir em sua própria contabilidade, caso esta fosse uma pessoa jurídica que se submetesse à legislação tributária brasileira. O montante que ultrapassasse o valor nominal das ações que recebeu na operação de permuta poderia ser, nesta situação hipotética, contabilizado como ágio e posteriormente aproveitado tributariamente, caso se verificasse a confusão patrimonial exigida pelo art. 386 do RIR/1999. Portanto, quanto ao aproveitamento tributário do ágio de R$ 781.360.784,97, pretendido pela contribuinte EMS S.A., considero que andou bem a Fiscalização ao não permitilo e ao determinar as respectivas glosas. Conforme se verificou, tratase de ágio interno, criado de forma artificial em operações meramente contábeis realizadas entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico, imprestável, portanto, para fins de utilização tributária. O entendimento aqui exposto é corroborado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que já se pronunciou de forma contrária à possibilidade de geração de ágio em operações societárias envolvendo apenas empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico, por meio do OfícioCircular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007, de onde se transcreve o seguinte trecho: "Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômicocontábil é preciso esclarecer que o ágio surge, única e exclusivamente, quando o preço (custo) pago pela aquisição ou subscrição de um investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial, supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de aquisição somente surge quando há o dispêndio para se obter algo de terceiros. Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal e, portanto, inadmissível. Não é concebível, econômica e contabilmente, o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma transação dos acionistas com eles próprios. Ainda que, do ponto de vista formal, os atos societários tenham atendido à legislação aplicável (não se questiona aqui esse aspecto), do ponto de vista econômico, o registro de ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de pressões ou outros interesses que não a essência da transação, condições essas denominadas na literatura internacional como “arm’s length”. Portanto, é nosso entendimento que essas transações Fl. 2325DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.326 65 não se revestem de substância econômica e da indispensável independência entre as partes, para que seja passível de registro, mensuração e evidenciação pela contabilidade." (grifouse) Assim, verificase que a CVM não chancela a existência contábil do ágio gerado dentro de um mesmo grupo econômico, sem dispêndio algum. Também o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) já se manifestou de maneira semelhante, por meio da Orientação Técnica OCPC nº 02/2008: "É importante lembrar que só pode ser reconhecido o ativo intangível ágio por expectativa de rentabilidade futura se adquirido de terceiros, nunca o gerado pela própria entidade (ou mesmo conjunto de empresas sob controle comum). E o adquirido de terceiros só pode ser reconhecido, no Brasil, pelo custo, vedada completamente sua reavaliação." Por fim, relevante ainda mencionar que o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) tampouco reconhece a legitimidade do ágio gerado intragrupo, como foi expresso nas seguintes Resoluções: Resolução CFC nº 1.110/2007 “O reconhecimento de ágio decorrente de rentabilidade futura gerado internamente (goodwill interno) é vedado pelas normas nacionais e internacionais. Assim, qualquer ágio dessa natureza anteriormente registrado precisa ser baixado.” Resolução CFC nº 1.303/2010 "48. O ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente não deve ser reconhecido como ativo. 49. Em alguns casos incorrese em gastos para gerar benefícios econômicos futuros, mas que não resultam na criação de ativo intangível que se enquadre nos critérios de reconhecimento estabelecidos na presente Norma. Esses gastos costumam ser descritos como contribuições para o ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente, o qual não é reconhecido como ativo porque não é um recurso identificável (ou seja, não é separável nem advém de direitos contratuais ou outros direitos legais) controlado pela entidade que pode ser mensurado com confiabilidade ao custo." Os atos administrativos mencionados e parcialmente transcritos foram todos exarados de 2007 em diante, posteriormente, portanto, aos períodos em que o grupo econômico a que pertence a contribuinte praticou operações societárias que pretensamente originaram ágio passível de aproveitamento tributário (2004 e 2005). Isto não significa, entretanto, que o entendimento exposto nos atos administrativos daqueles órgãos fosse novo. A este respeito, observese a manifestação da Fl. 2326DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.327 66 própria CVM por ocasião do julgamento de recurso constante do Processo Administrativo CVM RJ 2007/3480: "RELATÓRIO No caso concreto, as demonstrações financeiras da Companhia do exercício de 2006 continham uma informação que a SEP e a SNC consideraram errada: o valor de um ativo (a participação acionária na CPM USA) foi contabilizado por um valor apurado em laudo de avaliação, mas esse bem estava, antes, contabilizado em companhia do mesmo grupo por valor mais baixo, e o aumento de seu valor se deu por incorporação entre partes relacionadas. A Companhia não recorreu quanto ao mérito desse entendimento, mas entende que ele somente foi manifestado pela CVM ao mercado através do Oficio Circular de 2007, divulgado em 14.02.2007,(...) SEP e SNC confirmam que essa dicção somente constou a partir do OficioCircular 01/2007, mas sustentam que o entendimento já era este desde sempre, porque ele decorre dos princípios contábeis geralmente são aplicáveis à escrituração contábil das companhias brasileiras por força do art. 177 da Lei 6.404/76 (...) O recurso apresentado pela Companhia sustenta que a introdução desse entendimento pela CVM constituiria mudança de critério contábil de que trata o art. 186, §1º da Lei 6.404/76, e, por isso, a determinação de baixa do ágio poderia ser feita mediante ajuste de exercícios anteriores, na primeira ITR, como já teria sido aceito pela CVM em outros precedentes. Quanto ao primeiro ponto, entendo ter razão a área técnica. Não se pode afirmar que seja novo o entendimento da CVM quanto à impossibilidade contábil de aproveitamento do ágio interno (assim entendido como aquele gerado em operações entre partes relacionadas). Como lembra a SNC, essa impossibilidade está ligada ao Principio do Custo como Base de Valor — segundo os especialistas "o mais antigo e discutido principio de contabilidade" — que considera o valor de entrada como o que deve servir de base para registro de qualquer ativo, ressalvada a hipótese restrita (e mesmo inexistente em alguns países, como nos Estados Unidos) de reavaliação e, ainda, observandose o valor de recuperação, sempre que menor. Como destacam as áreas técnicas, esse principio foi expressamente reconhecido na "Estrutura Conceitual Básica de Contabilidade" desde a Deliberação 29/86, além de estar à base da Deliberação 183/95. Fl. 2327DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.328 67 Portanto, ainda que o OficioCircular 01/2007 tenha vindo a dar maior destaque à questão especifica do ágio interno, o entendimento da CVM sempre existiu, com fundamento do Principio do Custo como Base de Valor, e era público. Assim, não vejo como sustentar, portanto, que se possa falar em "mudança de critério contábil" (grifouse). Diante de todo o exposto, concluise que as próprias Ciências Contábeis têm restrições em relação à existência do ágio gerado internamente, por meio de operações societárias realizadas no interior de um grupo econômico e sem o lastro de efetiva circulação de riquezas. Com base nisso e na inexistência de lei que estabeleça tratamento tributário diferenciado para este instituto, forçoso se faz concluir pela inutilidade do denominado "ágio interno" para os fins tributários pretendidos pela contribuinte. Ainda que não bastassem todos os argumentos já apresentados no sentido da indedutibilidade das despesas de amortização do ágio gerado nas operações societárias celebradas no interior do grupo econômico de que fazia parte a contribuinte, a análise do caso realizada sob outro enfoque leva à mesma conclusão. O aproveitamento tributário do ágio discutido nos presentes autos consiste, como já foi dito por diversas vezes, na dedução de despesas decorrentes de sua amortização na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Fazse relevante, portanto, analisar o caso sob a perspectiva da teoria atinente às despesas que têm relevância fiscal. Uma vez mais, pedese vênia para transcreverse excerto extraído do Acórdão nº 9101002.301, por sua concisão e clareza: "Definido que o aproveitamento do ágio pode darse por meio de despesa de amortização, mostrase pertinente apreciar do que trata tal dispêndio. No RIR/99 (DecretoLei nº 3.000, de 26/03/1999), o conceito de amortização encontrase no Subtítulo II (Lucro Real), Capítulo V (Lucro Operacional), Seção III (Custos, Despesas Operacionais e Encargos). O artigo 299 do diploma em análise trata, no art. 299, na Subseção I, das Disposições Gerais sobre as despesas: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). Fl. 2328DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.329 68 § 3º O disposto neste artigo aplicase também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Para serem dedutíveis, devem as despesas serem necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, e serem usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Por sua vez, logo após as Subseções II (Depreciação de Bens do Ativo Imobilizado) e III (Depreciação Acelerada Incentivada), encontra previsão legal a amortização, no art. 324, na Subseção IV do RIR/99. Percebese que a amortização constituise em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99. Despesa Diante de Fatos Construídos Artificialmente No mundo real os fatos nascem e morrem, decorrentes de eventos naturais ou da vontade humana. O direito elege, para si, fatos com relevância para regular o convívio social. No que concerne ao direito tributário, são escolhidos fatos decorrentes da atividade econômica, financeira, operacional, que nascem espontaneamente, precisamente em razão de atividades normais, que são eleitos porque guardam repercussão com a renda ou o patrimônio. São condutas relevantes de pessoas físicas ou jurídicas, de ordem econômica ou social, ocorridas no mundo dos fatos, que são colhidas pelo legislador que lhes confere uma qualificação jurídica. Por exemplo, o fato de auferir lucro, mediante operações espontâneas, das atividades operacionais da pessoa jurídica, amoldase à hipótese de incidência prevista pela norma, razão pela qual nasce a obrigação do contribuinte recolher os tributos. Da mesma maneira, a pessoa jurídica, no contexto de suas atividades operacionais, incorre em dispêndios para a realização de suas tarefas. Contratase um prestador de serviços, comprase uma mercadoria, operações necessárias à consecução das atividades da empresa, que surgem naturalmente. Ocorre que, em relação aos casos tratados relativos á amortização do ágio, proliferaramse situações no qual se busca, especificamente, o enquadramento da norma permissiva de despesa. Tratamse de operações especificamente construídas, mediante inclusive utilização de empresas de papel, de curtíssima duração, sem funcionários ou quadro funcional incompatível, com capital social mínimo, além de outras características Fl. 2329DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.330 69 completamente atípicas no contexto empresarial, que recebem aportes de milhões e em questão de dias ou meses são objeto de operações de transformação societária. Tais eventos podem receber qualificação jurídica e surtir efeitos nos ramos empresarial, cível, contábil, dentre outros. Situação completamente diferente ocorre no ramo tributário. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Impossível estender atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas, independente sua espécie, derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. Admitindose uma construção artificial, consumarseia um tratamento desigual, desarrazoado e desproporcional, que afronta o princípio da capacidade contributiva e da isonomia, vez que seria conferida a uma determinada categoria de despesa uma premissa completamente diferente, uma liberalidade não aplicável à grande maioria dos contribuintes." Acrescentese à análise reproduzida que os pronunciamentos da CVM, CPC e CFC, transcritos alhures, deixam claro que as Ciências Contábeis não reconhecem o ágio gerado dentro de um mesmo grupo econômico. Assim, do ponto de vista contábil, são inexistentes tanto este ágio quanto as despesas decorrentes de sua amortização. Sendo inexistentes as despesas de amortização do "ágio interno", não podem afetar a apuração do lucro líquido e, consequentemente, do lucro real e da base de cálculo da CSLL (que decorrem do lucro líquido calculado nos termos da legislação comercial). Concluise, assim, que as despesas de amortização de ágio criado em operações como as analisadas nos presentes autos, internas, atípicas e integrantes de um processo de planejamento tributário que tem a finalidade específica de criar artificialmente hipótese próxima à requerida pelo art. 386 do RIR/1999, não se revestem das características de necessidade, usualidade e normalidade requeridas para sua dedutibilidade. Diante de todo o exposto, relativamente às matérias relacionadas à legitimidade do aproveitamento tributário do ágio gerado internamente, voto por DAR PROVIMENTO ao recurso especial da Fazenda Nacional. IV) Mérito Multa isolada por falta de recolhimento de estimativas A Fazenda Nacional contesta também o entendimento exposto no acórdão recorrido no sentido de que é incabível o lançamento de multa isolada pela falta de recolhimento das estimativas mensais após o encerramento do anocalendário. Conforme já foi descrito, a contribuinte apresentou arguição preliminar de não conhecimento do recurso especial da PGFN, argumentando que a Súmula CARF nº 105 não teria sua aplicabilidade restrita ao período de vigência do inciso IV do §1º do art. 44 da Lei nº 9.430/1996. Assim, o recurso da PGFN, ao pedir o restabelecimento da multa isolada Fl. 2330DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.331 70 aplicada em relação aos anoscalendário de 2007 a 2010, estaria em conflito com entendimento sumulado no âmbito do CARF, o que impediria a admissão da peça recursal por afronta ao art. 67, §3º do Anexo II do RICARF/2015 (art. 67, §2º, do Anexo II do RICARF/2009). O i. Conselheiro Relator concordou com a tese apresentada pela contribuinte recorrida, mas foi vencido quanto ao tema. Por isso, foi conhecido o recurso fazendário e o assunto passa a ter seu mérito analisado. O acórdão recorrido considerou ser impossível a cobrança simultânea da multa de ofício estabelecida no inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430/1996 e da multa isolada pelo não pagamento das estimativas mensais de IRPJ e CSLL, independentemente de esta última ter sua previsão retirada do revogado inciso IV do §1º do art. 44 ou da alínea "b" do inciso II do art. 44, ambos da mesma Lei nº 9.430/1996. A mudança do dispositivo legal que prevê a multa isolada foi operado, como já citado, pela MP nº 351/2007, que veio a ser convertida na Lei nº 11.488/2007. A conclusão do acórdão recorrido foi fundamentada no argumento de que, encerrado o anocalendário, a exigência dos recolhimentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL perde sua eficácia, prevalecendo a exigência apurada com base no balanço encerrado ao final do anocalendário. Passado tal marco temporal, desapareceria o bem jurídico tutelado pela norma sancionadora consubstanciada na cobrança da multa isolada (seja antes ou depois da alteração promovida em 2007), desaparecendo o fundamento para exigência das antecipações que deveriam ter sido recolhidas. Divirjo de tal entendimento pelas razões que passo a expor. Até o advento da MP nº 351/2007 e da Lei nº 11.488/2007, a multa isolada devida por ausência de pagamento das estimativa mensais de IRPJ e de CSLL tinha a seguinte previsão: Art. 44. Nos casos de lançamento de oficio, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; II cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. § 1° As multas de que trata este artigo serão exigidas: (...) IV isoladamente, no caso de pessoa jurídicas sujeita ao pagamento do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro liquido, na forma do art. 2°, que deixar de fazêlo, ainda que tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa Fl. 2331DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.332 71 para a contribuição social sobre o lucro liquido, no ano calendário correspondente; (...) Com as alterações introduzidas pela Lei nº 11.488/2007, passou a dispor a mesma Lei nº 9.430/1996: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (...) b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (...) Observemse as alterações efetivas operadas pela mudança de redação: (i) a multa isolada não é mais calculada sobre "a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição"; passando a incidir sobre o valor do pagamento mensal que deixar de ser pago na forma prevista no art. 2º da mesma lei; (ii) o percentual aplicável no cálculo da multa passa de 75% para 50%. A antiga redação do art. 44 efetivamente não deixava tão clara a distinção entre as multas de ofício e isolada. A base sobre a qual as multas incidiam era prevista de forma conjunta, no caput do artigo ("calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição"). O percentual aplicável para ambas as multas também era fixado no mesmo dispositivo, o inciso I do artigo ("setenta e cinco por cento"). Somente no inciso IV do §1º é que existia a previsão específica da exigência de multa isolada pelo não pagamento de IRPJ ou CSLL na forma do art. 2º da Lei nº 9.430/1996 (estimativas mensais com base na receita bruta do período). A falta de clareza na antiga redação do art. 44 e o fato de parte das previsões das duas multas constarem dos mesmos dispositivos (mesma base de cálculo, inclusive) foram, em grande medida, responsáveis pela sedimentação do entendimento desta Corte no sentido da impossibilidade de cobrança simultânea das multas isolada e de ofício. Por conta disso, editou se a multicitada Súmula CARF nº 105: Súmula CARF nº 105 : A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Fl. 2332DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.333 72 Com o advento da MP nº 351, de 22/01/2007, e sua posterior conversão na Lei nº 11.488, de 15/06/2007, julgo terem sido extirpadas as fontes de dúbia interpretação do art. 44 no que diz respeito à previsão das multas isolada e de ofício. A nova redação é clara em relação às hipóteses de incidência de cada uma das multas, suas bases de cálculo e percentuais aplicáveis. Conforme expus na rejeição da arguição preliminar de não conhecimento do recurso especial da PGFN, apresentada pela contribuinte, não considero razoável se considerar que tenha sido casual a expressa menção, pela Súmula CARF nº 105, do dispositivo que tipificou a multa isolada ali mencionada. A Súmula foi editada pela 1ª Turma da CSRF em 08/12/2014, muitos anos após as mudanças redacionais introduzidas pela Lei nº 11.488/2007. Caso a egrégia Turma quisesse se referir indiscriminadamente a qualquer multa isolada, anterior ou posterior à alteração da redação do art. 44, o teria feito simplesmente deixando de mencionar o art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996. Neste mesmo sentido já se manifestou a CSRF no Acórdão nº 910100.947, cujo voto condutor assim se pronunciou: "Da comparação entre a redação vigente e a anterior do mesmo dispositivo, constatase que com as alterações introduzidas recentemente a penalidade isolada não deve mais incidir "sobre a totalidade ou diferença de tributo", mas apenas sobre "valor do pagamento mensal" a titulo de recolhimento de estimativa. Além disso, para compatibilizar as penalidades ao efetivo dano que a conduta ilícita proporciona, ajustouse o percentual da multa pela falta de recolhimento de estimativas para 50%, passível de redução a 25% no caso de o contribuinte, notificado, efetuar o pagamento do débito no prazo legal de impugnação. Desta forma, a penalidade isolada aplicada em procedimento de oficio em função da não antecipação no curso do exercício se aproxima da multa de mora cobrada nos casos de atraso de pagamento de tributo (20%). Providência que se fazia necessária para tomar a punição proporcional ao dano causado pelo descumprimento do dever de antecipar o tributo. Porém, este novo disciplinamento das sanções administrativas aplicadas no procedimento de oficio passaram a viger somente a partir de janeiro de 2007, portanto, após os fatos de que tratam os autos. No caso presente, em relação ao anocalendário 1998, a contribuinte foi autuada para exigir principal e multa de oficio em relação a CSLL não recolhida ao final do exercício e, concomitantemente, foi aplicada multa isolada sobre a mesma base estimada não recolhida. Como dito acima, essa dupla penalização sobre ilícitos materialmente relacionados e por força do principio da consunção, não pode subsistir." (grifouse) Interpretando a contrario sensu a referida decisão, concluise que, a partir de janeiro de 2007, quando entrou em vigência a MP nº 351/2007, não subsistem os motivos que outrora impediam a cobrança concomitante das duas multas. Fl. 2333DF CARF MF Processo nº 16643.000392/201061 Acórdão n.º 9101003.077 CSRFT1 Fl. 2.334 73 Diante de todo o exposto, não vislumbro óbice à cobrança cumulativa das multas isolada (art. 44, inciso II, alínea "b", da Lei nº 9.430/1996) e de ofício (art. 44, inciso I, da mesma Lei) para infrações ocorridas a partir de janeiro de 2007. Obviamente, tal conclusão tem como decorrência lógica a possibilidade de lançamento das multas isoladas após o encerramento do anocalendário, uma vez que somente a partir deste momento é possível a quantificação e a constituição da multa de ofício, cuja cobrança poderá ser realizada concomitantemente com a multa isolada. Portanto, relativamente ao pedido de restabelecimento da exigência das multas isoladas lançadas em vista do não recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e CSLL apuradas ao longo dos anoscalendário 2007 a 2010, voto por DAR PROVIMENTO ao recurso especial da Fazenda Nacional. Desse modo, sumariando os entendimentos expostos, voto no sentido de: CONHECER do recurso especial interposto pela Fazenda Nacional em relação às matérias "dedutibilidade, da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, de despesas com amortização de ágio criado internamente" e "multa isolada por falta de recolhimento de estimativas"; DAR PROVIMENTO ao recurso especial da PGFN, para restabelecer a autuação fiscal pela glosa da despesa de amortização de ágio e seus reflexos tributários nos anoscalendário de 2005 a 2010; DAR PROVIMENTO ao recurso especial da PGFN, para restabelecer a cobrança de multa cobrada isoladamente em razão da falta de recolhimento de estimativas mensais nos anoscalendário de 2007 a 2010; DETERMINAR o retorno dos autos à Turma a quo, para prolação de nova decisão quanto à multa qualificada aplicada sobre as glosas das despesas de amortização do ágio, em virtude do restabelecimento da cobrança de tais créditos tributários principais, após ser dada ciência às partes desta decisão. (Assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Fl. 2334DF CARF MF
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Numero do processo: 10120.726965/2012-65
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Sep 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Oct 18 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2010, 2011
MULTA QUALIFICADA. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DESCRIÇÃO DE CONDUTA DOLOSA ESPECÍFICA. AUSÊNCIA.
A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo (Súmula CARF nº 14).
Numero da decisão: 9202-006.021
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Júnior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
Nome do relator: MARIA HELENA COTTA CARDOZO
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OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DESCRIÇÃO DE CONDUTA DOLOSA ESPECÍFICA. AUSÊNCIA. A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo (Súmula CARF nº 14). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Júnior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 72 69 65 /2 01 2- 65 Fl. 484DF CARF MF 2 Relatório Trata o presente processo, de exigência de Imposto de Renda Pessoa Física, acrescido de multa de ofício qualificada e juros de mora, tendo em vista a omissão de rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício, recebidos de pessoas físicas (serviços de odontologia), bem como multa isolada do carnêleão. Em sessão plenária de 21/01/2015, foi julgado o Recurso Voluntário s/n, prolatandose o Acórdão nº 2202002.960 (fls. 403 a 414), assim ementado: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2010, 2011 MULTA ISOLADA DO CARNÊLEÃO E MULTA DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA A partir da vigência da Medida Provisória nº 351, de 22 de janeiro de 2007 (convertida na Lei nº 11.488, de 2007) é devida a multa isolada pela falta de recolhimento do carnêleão, independentemente da aplicação, relativamente ao mesmo período, da multa de ofício pela falta de recolhimento ou recolhimento a menor de imposto, apurado no ajuste anual. MULTA QUALIFICADA A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo. (Súmula CARF nº 14) Recurso Provido em Parte." A decisão foi assim resumida: "Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para desqualificar a multa de ofício, reduzindo ao percentual de 75%. Vencido o Conselheiro RAFAEL PANDOLFO, que provia parcialmente em maior extensão para afastar a multa isolada pela concomitância com a multa de ofício." O processo foi encaminhado à PGFN em 03/03/2015 (Despacho de Encaminhamento de fls. 415) e, em 24/03/2015 (Despacho de Encaminhamento de fls. 443), foi interposto o Recurso Especial de fls. 416 a 424, com fundamentado no art. 67, Anexo II, do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009, visando rediscutir a desqualificação da multa de ofício. Ao Recurso Especial foi dado seguimento, conforme despacho de 10/06/2016 (fls. 444 a 448). Em seu apelo, a Fazenda Nacional alega: Fl. 485DF CARF MF Processo nº 10120.726965/201265 Acórdão n.º 9202006.021 CSRFT2 Fl. 484 3 o acórdão ora recorrido desqualificou a multa de ofício, em contrariedade ao artigo 44, I, c/c § 1º, da Lei n.º 9.430, de 1996, conforme nova redação conferida pela Lei nº 11.488, de 2007, resultante da conversão da MP n.º 351, de 2007, cujo teor é o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) (...)§ 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007)” (destaques da Recorrente) (cita doutrina de Marco Aurélio Greco) a lei determina que além das hipóteses do inciso I, se faz necessário integrar com as previsões dos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964: “Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I – da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II – das condições pessoais do contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas visando qualquer dos efeitos referidos nos artigos 71 e 72.” verificase que a sonegação, do artigo 71, referese à conduta (comissiva ou omissiva) para impedir ou retardar o conhecimento da ocorrência do fato gerador ou das condições pessoais da contribuinte; fraude, do artigo 72, que não se trata de fraude à lei, mas ao Fisco, atua na formação do fato gerador da obrigação tributária principal, impedindo ou retardando sua ocorrência, como, também, depois de formado, modificandoo para reduzir imposto ou diferir seu pagamento; no caso concreto, fazse mister examinar se a materialidade da conduta se ajusta à norma inserida nos artigos da Lei nº 4.502, de 1964 a que remete a Lei nº 9.430, de 1996, em seu artigo 44, I, c/c § 1º, conforme nova redação conferida pela Lei nº 11.488, de 2007, resultante da conversão da MP n.º 351, de2007; Fl. 486DF CARF MF 4 como visto, restou cristalina a atividade ilícita do autuado, observada a partir da prática de infrações tributárias, e tal conduta revela evidente intuito fraudulento, a ensejar a incidência da multa qualificada; destarte, o sujeito passivo, repitase, por sua ação firme, abusiva e sistemática, em burla ao cumprimento da obrigação fiscal, demonstrou conduta consciente de quem procura e obtém determinado resultado: enriquecimento sem causa (cita doutrina de Luiz Regis Prado e Fernando Capez); tudo considerado, concluise que o contribuinte: i) praticou atividade ilícita observada a partir da apuração de infrações tributárias, em atividade reiterada que reforça o intuito de fraude, motivo pelo qual foi aplicada a multa de 150%; ii) como resultado de sua conduta dolosa, houve diminuição do efetivo valor da obrigação tributária, com o consequente pagamento a menor do tributo devido, em evidente prejuízo ao erário; iii) a conduta foi sempre resultado de sua vontade, livre e consciente, já que realizada de forma sistemática, objetivando impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal; iv) a conduta repetida sistematicamente demonstrou desprezo ao cumprimento da obrigação fiscal, ao princípio da solidariedade de matriz constitucional e ao dever legal de participação, indicando a intensidade do dolo. Ao final, a Fazenda Nacional requer seja conhecido e provido o Recurso Especial, reformandose o acórdão recorrido, para restabelecer a multa de 150%. Cientificado do acórdão, do Recurso Especial da Procuradoria e do despacho que lhe deu seguimento em 24/06/2016 (AR Aviso de Recebimento de fls. 459), o Contribuinte ofereceu, em 29/08/2016 (protocolo às fls. 470), as Contrarrazões de fls. 470 a 482. Voto Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo Relatora O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. O Contribuinte foi intimado em 24/06/2016, sextafeira (AR Aviso de Recebimento de fls. 459), e teria até 11/07/2016, segundafeira, para oferecer Contrarrazões, o que somente foi feito em 29/08/2016 (protocolo às fls.470), portanto já fora do prazo de quinze dias. Assim, as Contrarrazões não podem ser conhecidas, por intempestividade. Trata o presente processo, de exigência de Imposto de Renda Pessoa Física dos exercícios de 2010 e 2011, acrescido de multa de ofício qualificada, no percentual de 150%, e juros de mora, tendo em vista a omissão de rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício, recebidos de pessoas físicas (serviços de odontologia), bem como multa isolada do carnêleão, no percentual de 50 %. Fl. 487DF CARF MF Processo nº 10120.726965/201265 Acórdão n.º 9202006.021 CSRFT2 Fl. 485 5 No acórdão recorrido, a multa de ofício foi desqualificada, mediante a aplicação da Súmula CARF nº 14. A Fazenda Nacional, por sua vez, pede o restabelecimento da qualificadora, alegando a reiteração da infração. De plano, verificase que o Auto de Infração não esclarece a motivação específica para a qualificação da penalidade, concluindose assim que a própria omissão teria ensejado a exacerbação da multa. Embora no voto condutor do acórdão recorrido se registre que a qualificação teria sido motivada pela reiteração, esse fundamento foi o adotado pela DRJ. Como se pode constatar, tratase unicamente de omissão de rendimentos, sem que fosse descrita uma conduta dolosa específica, que desse azo à aplicação de multa qualificada. Quanto à reiteração, por si só, esta não seria suficiente para exasperar a penalidade, conforme têm decidido reiteradamente as Turmas do CARF que tratam de Imposto de Renda Pessoa Física. Assim, entende esta Conselheira que, no presente caso, tratase efetivamente da aplicação da Súmula CARF nº 14, que assim estabelece: "Súmula CARF nº 14: A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo." Diante do exposto, conheço do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional e, no mérito, negolhe provimento. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Fl. 488DF CARF MF
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Numero do processo: 13706.001776/2003-01
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Aug 17 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Oct 20 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/10/2001 a 31/12/2001
CRÉDITO BÁSICO DE IPI. RESSARCIMENTO. NOTA FISCAL DE AQUISIÇÃO. NECESSIDADE DE SUA APRESENTAÇÃO. COMPROVAÇÃO DO CRÉDITO.
A 1ª via da nota fiscal de aquisição é documento essencial que dá suporte ao registro do crédito de IPI nos livros fiscais. Existem meios alternativos para comprovar a legitimidade do crédito, porém não é suficiente os próprios livros fiscais, pois são escriturados a partir da referida documentação. Cabe ao contribuinte providenciar meios legítimos, à sua disposição, para substituir a referida via. Não o fazendo, ou fazendo de forma ineficiente, não é possível o reconhecimento da liquidez e certeza do crédito solicitado.
Numero da decisão: 9303-005.576
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Érika Costa Camargos Autran (relatora) e Tatiana Midori Migiyama, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Érika Costa Camargos Autran - Relatora
(assinado digitalmente)
Andrada Márcio Canuto Natal - Redator designado
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: ERIKA COSTA CAMARGOS AUTRAN
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ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/10/2001 a 31/12/2001 CRÉDITO BÁSICO DE IPI. RESSARCIMENTO. NOTA FISCAL DE AQUISIÇÃO. NECESSIDADE DE SUA APRESENTAÇÃO. COMPROVAÇÃO DO CRÉDITO. A 1ª via da nota fiscal de aquisição é documento essencial que dá suporte ao registro do crédito de IPI nos livros fiscais. Existem meios alternativos para comprovar a legitimidade do crédito, porém não é suficiente os próprios livros fiscais, pois são escriturados a partir da referida documentação. Cabe ao contribuinte providenciar meios legítimos, à sua disposição, para substituir a referida via. Não o fazendo, ou fazendo de forma ineficiente, não é possível o reconhecimento da liquidez e certeza do crédito solicitado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidas as conselheiras Érika Costa Camargos Autran (relatora) e Tatiana Midori Migiyama, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 70 6. 00 17 76 /2 00 3- 01 Fl. 209DF CARF MF Processo nº 13706.001776/200301 Acórdão n.º 9303005.576 CSRFT3 Fl. 3 2 (assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Redator designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto pela Fazenda Nacional contra o acórdão nº 3803006.890, de 29 de janeiro de 2015 (fls. 171 a 180 do processo eletrônico), proferido Terceira Turma Especial da Terceira Seção de Julgamento deste CARF, decisão que por maioria de votos, deu provimento parcial ao recurso voluntário para afastar a limitação de prova exclusivamente mediante a primeira via das notas fiscais e determinar a devolução do processo ao órgão julgador de primeiro grau, para apreciar os demais requisitos do crédito. A discussão dos presentes autos tem origem no pedido de ressarcimento de crédito básico de IPI, cumulados com declaração de compensação, no valor total de R$ 30.328,63, amparandose no art. 11 da Lei nº 9.779, de 1999. Submetido o pleito à análise da Fiscalização, esta, por meio de Termo de Constatação Fiscal, posicionouse favoravelmente ao reconhecimento parcial do ressarcimento, tendo opinado pelo glosa de créditos em razão (i) da não apresentação de algumas notas fiscais de aquisição, (ii) da apropriação de créditos em duplicidade, (iii) do fato de se tratar de operação registrada no Livro de Apuração do IPI como se tratando de “operação sem crédito de imposto” e (iv) da não apresentação das primeiras vias de algumas das notas fiscais registradas. Por meio de Despacho Decisório, a repartição de origem acatou os resultados da auditoria fiscal e decidiu por reconhecer parcialmente o ressarcimento e homologar a compensação até o limite do direito creditório reconhecido. Fl. 210DF CARF MF Processo nº 13706.001776/200301 Acórdão n.º 9303005.576 CSRFT3 Fl. 4 3 O contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade requerendo o reconhecimento integral do crédito, alegando que a legislação de regência não exige a apresentação da primeira via da nota fiscal para fins de ressarcimento, que pode se embasar apenas na escrituração fiscal, sendo a nota fiscal um elemento adicional de prova. A DRJ em Juiz de Fora/MG deferiu parcialmente a Manifestação de Inconformidade apresentada pelo contribuinte. Irresignado com a decisão contrária ao seu pleito, o Contribuinte apresentou recurso voluntário, o Colegiado por maioria de votos deu provimento parcial ao recurso voluntário para afastar a limitação de prova exclusivamente mediante a primeira via das notas fiscais e determinar a devolução do processo ao órgão julgador de primeiro grau, para apreciar os demais requisitos do crédito, conforme acórdão assim ementado in verbis: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/10/2001 a 31/12/2001 RESSARCIMENTO. CRÉDITO BÁSICO DE IPI. NOTA FISCAL DE AQUISIÇÃO. RESTRIÇÃO DE MEIOS DE PROVA. IMPOSSIBILIDADE. A legislação que trata do conjunto probatório no processo administrativo fiscal não admite a restrição da prova das operações de aquisições de insumos a uma só forma a primeira via das notas fiscais. O art. 24 do Decreto nº 7.574/2011, que consolidou a legislação afeta ao processo administrativo tributário, é claro no sentido de que são hábeis para comprovar a verdade dos fatos todos os meios de prova admitidos em direito. Também obram a favor da não restrição das provas no processo administrativo o art. 23 do aludido Decreto, bem como os arts. 293 do RIPI/98 elementos subsidiários e o 413 do indigitado RIPI. A Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial de Divergência (fls. 182 a 185) em face do acordão recorrido que deu provimento parcial ao recurso do contribuinte, a divergência suscitada pela Fazenda Nacional diz respeito ao aceitamento do crédito do IPI sem que, no entanto, o contribuinte tenha apresentado a primeira via da nota fiscal. Fl. 211DF CARF MF Processo nº 13706.001776/200301 Acórdão n.º 9303005.576 CSRFT3 Fl. 5 4 Para comprovar a divergência jurisprudencial suscitada, a Fazenda Nacional apresentou como paradigma o acórdão de número 3301002.480. A comprovação do julgado firmouse pela juntada de cópia de interior teor do acórdão paradigma, documento de fls. 186 a 195. O Recurso Especial da Fazenda Nacional foi admitido, conforme despacho de fls. 197 a 199, sob o argumento que pela análise do acórdão recorrido e do acórdão paradigma, verificase que se tratam de decisões divergentes referente ao mesmo fato, inclusive ao mesmo contribuinte, alterando somente o período de apuração. Desta forma, restou comprovada a divergência jurisprudencial. O contribuinte foi cientificado para apresentar contrarrazões, conforme se verifica às fls. 204 e 208 e não se manifestou. É o relatório em síntese. Voto Vencido Conselheira Érika Costa Camargos Autran Relatora Depreendendose da análise do Recurso Especial interposto pela Fazenda entendo que devo conhecêlo, eis que observados os pressupostos para a admissibilidade do r. recurso. O Recurso Especial da Fazenda Nacional foi admitido, sob o argumento que pela análise do acórdão recorrido e do acórdão paradigma verificase que se tratam de decisões divergentes referente ao mesmo fato, inclusive ao mesmo contribuinte, alterando somente o período de apuração, devendo ser dado seguimento ao recurso especial. Desta forma, restou comprovada a divergência jurisprudencial. No que se refere a parte questionada do acórdão recorrido, esta traz que existindo prova inequívoca do pagamento do IPI na entrada, por ocasião da importação dos Fl. 212DF CARF MF Processo nº 13706.001776/200301 Acórdão n.º 9303005.576 CSRFT3 Fl. 6 5 insumos, este crédito pode ser apropriado para ressarcimento, mesmo estando ausente, no caso, a primeira via da nota fiscal de entrada. Referente a mesma matéria, o acórdão paradigma traz quanto aos créditos decorrentes de operações de importação, não tendo sido apresentado documento comprobatório do recolhimento do imposto no desembaraço, não há como se deferir o crédito pleiteado. Entendo que ficou comprovada a divergência jurisprudencial. A discussão dos presentes autos tem origem no pedido de ressarcimento de créditos básicos de IPI, previsto no art. 11 da Lei no 9.779/99 e na IN SRF no 210/2002, relativo ao 3º trimestre de 2000. No tocante aos meios de provas admitidos para a comprovação de credito de IPI, entendo oportuno adotar as razões esposadas no processo 13706.001773/200369, julgado na sessão do dia 15.02.2012, da lavra do Conselheiro Corintho Oliveira Machado, in verbis: “(...) Ao meu sentir, a recorrente tem razão em seus reclamos, porquanto tal conduta está dissociada da melhor exegese da legislação que trata do conjunto probatório no processo administrativo fiscal, e configurou, s.m.j., cerceamento do direito de defesa da recorrente, na medida em que restringiu a prova das operações de aquisições de insumos a uma só forma a primeira via das notas fiscais quando não há dispositivo legal que preveja tal imperativo. Ao contrário do propalado pelas dignas autoridades administrativas, temse o art. 24 do Decreto nº 7.574/2011, que consolidou a legislação afeta ao processo administrativo tributário, no sentido de que: são hábeis para comprovar a verdade dos fatos todos os meios de prova admitidos em direito (Lei nº 5.869/73, art. 332 Código de Processo Civil). Esse é o dispositivo que inaugura o Capítulo referente às Provas, do Título I Das Normas Gerais. Também obra a favor da não restrição das provas no processo administrativo o art. 23 do aludido Decreto Os órgãos da Secretaria da Receita Federal do Brasil, e os AuditoresFiscais da Receita Federal do Brasil, no uso de suas atribuições legais, poderão solicitar informações e esclarecimentos ao sujeito passivo ou a terceiros, sendo as declarações, ou a recusa em prestálas, lavradas pela autoridade administrativa e assinadas pelo declarante (Lei nº 2.354/54, art. 7º; DecretoLei nº 1.718/79, art. 2º; Lei nº 5.172/66 Código Tributário Fl. 213DF CARF MF Processo nº 13706.001776/200301 Acórdão n.º 9303005.576 CSRFT3 Fl. 7 6 Nacional, arts. 196 e 197; Lei nº 11.457/2007, art. 10). Esse dispositivo trata do dever de prestar informações, que não é adstrito ao sujeito passivo, e sim extensivo a terceiros, cujas informações podem e devem ser utilizadas no procedimento relativo ao sujeito passivo. Essas normas processuais gerais já são suficientes para afastar a restrição aposta pelo Fisco, no sentido de que as operações efetuadas pelo contribuinte somente são passíveis de prova mediante a exibição da primeira via da nota fiscal. Nada obstante, há outras no campo da legislação do IPI, para ficar na esfera da legislação referida na decisão recorrida, que também se amoldam à ampliação dos meios de prova no âmbito dos procedimentos fiscais, tais como o art. 293 do RIPI/98 elementos subsidiários constituem elementos subsidiários da escrita fiscal os livros da escrita geral, as faturas e notas fiscais recebidas, documentos mantidos em arquivos magnéticos ou assemelhados, e outros efeitos comerciais, inclusive aqueles que, mesmo pertencendo ao arquivo de terceiros, se relacionarem com o movimento escriturado (Lei nº 4.502/64, art. 56, § 4º, e Lei nº 9.430/96, art. 34). O art. 413 do RIPI/98 pessoas obrigadas a prestar informações mediante intimação escrita, são obrigados a prestar aos Auditores Fiscais todas as informações de que disponham com relação aos produtos, negócios ou atividades de terceiros (Lei n.º 4.502/64, art. 97, e Lei nº 5.172/66, art. 197): (...) VIII as demais pessoas, naturais ou jurídicas, cujas atividades envolvam negócios que interessem à fiscalização e arrecadação do imposto. Nesse contexto, a leitura dos arts. 326 e 327 do RIPI/98 feita pela decisão recorrida também não se me afigura a mais escorreita, pois o fato de uma via da nota fiscal não substituir outra para fins de função fiscal e destinação não significa que qualquer uma delas não represente fidedignamente a mesma operação subjacente. E a previsão de utilização de cópia reprográfica de nota fiscal, do art. 327, para as hipóteses elencadas, não quer dizer finalidade única e específica; ao revés, configura adaptação da legislação da nota fiscal do IPI para novas necessidades (numerus apertus), excetuando apenas o trânsito dos produtos e mercadorias. Fl. 214DF CARF MF Processo nº 13706.001776/200301 Acórdão n.º 9303005.576 CSRFT3 Fl. 8 7 Em suma, fica evidenciado que a “interpretação sistêmica” da legislação possibilita que o contribuinte comprove suas operações de outros meios para além da rígida regra que estabelece a primeira via da nota fiscal. Ora, no caso concreto há sim outras provas tão idôneas quanto a primeira via da nota fiscal, isto é, outras vias do mesmo documento fiscal, que sequer tiveram qualquer suspeita levantada pela fiscalização, que apenas se apegou numa questão meramente formal. O Decreto nº 7574/2011 que consolida a legislação sobre o processo administrativo tributário, prevê em seu artigo 24, constante do Capítulo V, pertinente às “PROVAS” prevê que, “são hábeis para comprovar a verdade dos fatos todos os meios de prova admitidos em direito”. Verificase que a própria legislação do processo administrativo tributário prevê a amplitude quanto à produção probatória, portanto, no caso em tela não deveria restringir e simplesmente desconsiderar os outros meios de prova apresentados pelo contribuinte. Desta forma, entendo que o processo administrativo deve buscar a verdade material dos fatos, a qual deve ser buscada diante de todo campo probatório admitido em direito, portanto, devendo as outras provas apresentadas pelo contribuinte serem pelo menos analisadas. Além da legislação já trazida no precedente acima transcrito, ainda vale citar outras regras indissociáveis deste caso concreto. A Lei 9.784/99, que regula o processo administrativo federal, e que pode ser aplicada subsidiariamente ao processo administrativo fiscal, aponta dois dispositivos que devem ser considerados na solução da questão, in verbis: Art. 2º A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. (...) Fl. 215DF CARF MF Processo nº 13706.001776/200301 Acórdão n.º 9303005.576 CSRFT3 Fl. 9 8 VI adequação entre meios e fins, vedada a imposição de obrigações, restrições e sanções em medida superior àquelas estritamente necessárias ao atendimento do interesse público; (...) Art. 38. O interessado poderá, na fase instrutória e antes da tomada da decisão, juntar documentos e pareceres, requerer diligências e perícias, bem como aduzir alegações referentes à matéria objeto do processo. § 1º Os elementos probatórios deverão ser considerados na motivação do relatório e da decisão. § 2º Somente poderão ser recusadas, mediante decisão fundamentada, as provas propostas pelos interessados quando sejam ilícitas, impertinentes, desnecessárias ou protelatórias. Assim, verificase claramente que existe fundamento jurídico capaz de acolher a argumentação do contribuinte no sentido de afastar o estreitamento exagerado em torno de aceitar como prova apenas a primeira via da nota fiscal. Por tais razões, entendo que a estreita limitação probatória não seja a melhor solução para reconhecer o direito de o contribuinte comprovar seus créditos reclamados. Diante do exposto, voto em negar provimento ao Recurso Especial da Fazenda. É como voto. (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran Fl. 216DF CARF MF Processo nº 13706.001776/200301 Acórdão n.º 9303005.576 CSRFT3 Fl. 10 9 Voto Vencedor Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal Redator designado. Com todo respeito ao voto da ilustre relatora, porém não concordo com suas conclusões. Ela citou farta legislação que caminham no mesmo sentido de que não se deve estreitar a possibilidade de apresentação de elementos de prova ao contribuinte, na tentativa de demonstrar o seu direito creditório relativo ao pedido de ressarcimento de crédito básico de IPI, amparado no art. 11 da lei nº 9.779/99. Creio que houve uma simplificação da matéria discutida nos presentes autos. Percebese tal fato tanto no acórdão recorrido quanto no voto da relatora. Entendo que a discussão relevante para o deslinde da controvérsia, não é exatamente de restrição de meios de provas, mas da comprovação do direito alegado, em que a autoridade administrativa entendeu que os elementos de prova apresentados não eram suficientes para tal intento. O sistema de apuração de créditos da não cumulatividade do IPI é realizado de uma forma relativamente simples no Livro Fiscal denominado Registro de Apuração do IPI, o qual é escriturado com base nos Livros "Registro de Entradas" e "Registro de Saídas". Todas as notas fiscais de aquisição de produtos com créditos do IPI são registradas no Livro "Registro de Entradas" com base na 1ª via da Nota fiscal emitida pelo fabricante do produto. Portanto, o elemento de prova original é a 1ª via da Nota Fiscal. Evidente que o registro no referido livro não pode substituíla, pois fosse assim, poderia ser uma fonte de registros sem origem a critério de quem faz a escrituração. A nota fiscal é quem dá sustentação ao registro naquele livro e não o contrário. Daí, temos a primeira conclusão lógica de que não é possível que os livros fiscais dêem suporte a créditos que estão desprovidos das notas fiscais que lhe dão sustentação. Assim a fiscalização glosou os créditos que estavam escriturados nos referidos livros, mas que não tinham suporte em documento fiscal. O documento fiscal que dá suporte aos créditos é a 1ª Via da Nota Fiscal emitida pelo seu fornecedor. É esta via que acompanha a mercadoria desde a sua origem até o destino final e não existe razão normal do contribuinte não possuíla. Óbvio que pode acontecer o seu extravio de forma esporádica, mas existem providências a cargo do contribuinte para suprir a sua falta. A legislação do ICMS a Fl. 217DF CARF MF Processo nº 13706.001776/200301 Acórdão n.º 9303005.576 CSRFT3 Fl. 11 10 cargo dos Estados prevê forma e procedimentos para a substituição da 1ª via da nota fiscal em caso de perda ou extravio. Tal fato é de conhecimento notório e não necessita de maiores esclarecimentos. Portanto, não se trata de restringir os meios de prova, mas que as provas apresentadas sejam suficientes para comprovar o direito ao crédito, sendo que as instâncias julgadoras de piso e também este relator entendem que não foi comprovado, sendo insuficientes os livros fiscais apresentados pelos motivos acima expostos. A obrigação de manter a documentação que respalda a escrituração, por evidente, não decorre da Lei nº 9.779/99, mas do próprio Regulamento do IPI/98 (Decreto nº 2.637/98), que vigia à época dos fatos: Art. 171. Os créditos serão escriturados pelo beneficiário, em seus livros fiscais, à vista do documento que lhes confira legitimidade. (Grifei) (...) Art. 289. O documentário fiscal obedecerá aos modelos anexos a este Regulamento, bem assim àqueles aprovados ou que vierem a ser aprovados pelo Secretário da Receita Federal, em atos administrativos ou em convênio com as Unidades Federativas (Lei nº 4.502, de 1964, arts. 48 e 56, § 1º, e DecretoLei nº 400, de 1968, art. 17). Art. 290. Os livros, os documentos que servirem de base à sua escrituração e demais elementos compreendidos no documentário fiscal serão escriturados ou emitidos em ordem cronológica, sem rasuras ou emendas, e conservados no próprio estabelecimento para exibição aos agentes do Fisco, até que cesse o direito de constituir o crédito tributário (Lei nº 4.502, de 1964, arts. 57, § 1º, e 58). (...) Art. 320. Nos casos dos arts. 321 e 322, a nota fiscal será emitida, no mínimo, em quatro vias e no caso do art. 323, em no mínimo, cinco vias. Art. 321. Na saída de produtos para a mesma Unidade da Federação, as vias de nota fiscal terão o seguinte destino: I a primeira acompanhará os produtos e será entregue, pelo transportador, ao destinatário; II a segunda permanecerá presa ao bloco, para exibição ao Fisco; Fl. 218DF CARF MF Processo nº 13706.001776/200301 Acórdão n.º 9303005.576 CSRFT3 Fl. 12 11 III a terceira e quarta atenderão ao que for previsto na legislação da Unidade da Federação do emitente. Art. 322. Na saída de produtos para outra Unidade da Federação, as vias da Nota Fiscal terão o seguinte destino: I a primeira acompanhará os produtos e será entregue, pelo transportador, ao destinatário; II a segunda permanecerá presa ao bloco, para exibição ao Fisco; III a terceira acompanhará os produtos para fins de controle do Fisco na Unidade Federada de destino; IV a quarta atenderá ao que for previsto na legislação da Unidade da Federação do emitente. (...) Art. 326. As diversas vias das notas fiscais não se substituirão em suas respectivas funções e a sua disposição obedecerá ordem seqüencial que as diferencia, vedada a intercalação de vias adicionais. Evidente que a razão de tanto rigor, tanto na guarda dos documentos fiscais, quanto nas suas funções, não decorre de mero formalismo do legislador. São documentos que geram créditos a favor de quem os possui e sua má utilização pode resultar em prejuízos para a Fazenda Pública. O que se percebe é que o contribuinte não teve o cuidado necessário na guarda de seus documentos fiscais. Tal fato pode ser evidenciado pela transcrição de parte do relatório da fiscalização: (...) “No entanto, na auditoria para comprovação do direito creditício conforme determina o RIPI/98, diversas exclusões e glosas de créditos fizeramse necessárias face á documentação incompleta apresentada pela requerente, que após um período de quase 05 ( cinco ) meses de sucessivas intimações e contatos telefônicos, demonstrou visível dificuldade e ou desinteresse em reunir os elementos comprobatórios mínimos exigidos pela legislação, sob variadas alegações verbais, dificultando sobremaneira a execução da verificação fiscal. Num primeiro momento, a requerente chegou, inclusive, a apresentar apenas um "relatório de créditos" constando de planilhas de créditos e cópias xerografadas do Livro RAIPI, o que foi descartado de plano por esta fiscalização, já que são necessários os livros fiscais autenticados e os originais de 1ª via das notas fiscais. Finalmente, em resposta às intimações e solicitações, após meses e muitas delongas, a requerente apresentou a planilha de créditos em anexo, e junto com elas apenas parte das notas fiscais que geraram os créditos, alegando que "não havia localizado as notas fiscais no arquivo" . Apresentou também, após a 3ª intimação, os livros fiscais exigidos. Fl. 219DF CARF MF Processo nº 13706.001776/200301 Acórdão n.º 9303005.576 CSRFT3 Fl. 13 12 Na planilha elaborada pela própria requerente, constam linhas destacadas em amarelo, correspondentes às notas fiscais não apresentadas, e nas linhas em azul são destacadas as notas fiscais que não eram originais da lª via, tais como 3ª vias ou cópias. (...) Neste sentido, vale destacar que o contribuinte teve muitas oportunidades para localizar as primeiras vias das notas fiscais ou até mesmo providenciar junto ao emitente ou à Unidade da Federação correspondente uma forma de validar oficialmente a falta das 1ª vias das referidas notas fiscais. Ao invés preferiu ficar argumentando que a legislação não exige a apresentação da 1ª via da nota fiscal para autorizar o ressarcimento. Assim, forçoso concluir que a primeira via da nota fiscal é a que acompanha os produtos e a que deve permanecer em poder do destinatário, configurandose, portanto, no documento fiscal essencial para conferir legitimidade ao aproveitamento escritural do crédito de IPI pela contribuinte. Evidente que a falta da 1ª via pode ser suprida por outro elemento de prova, porém o contribuinte não obteve êxito ou não teve interesse em fazer a comprovação. Portanto, resta configurado que não foi comprovada a liquidez e certeza do crédito pleiteado pelo contribuinte. Assim, voto por dar provimento ao recurso especial apresentado pela Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Fl. 220DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.658697/2012-40
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 22 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Oct 26 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010
DIREITO DE DEFESA - AVALIAÇÃO CONCRETA
Alegações genéricas de violação do direito de defesa, sem respaldo concreto nas decisões e despachos decisórios atacados, não dão azo à anulação dessas manifestações administrativas. Ainda que o despacho decisório fosse nulo, o reconhecimento da nulidade não ensejaria a homologação da compensação sem a apreciação de mérito.
Numero da decisão: 1401-001.943
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Jose Roberto Adelino da Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Livia De Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
Nome do relator: ANTONIO BEZERRA NETO
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2010 DIREITO DE DEFESA - AVALIAÇÃO CONCRETA Alegações genéricas de violação do direito de defesa, sem respaldo concreto nas decisões e despachos decisórios atacados, não dão azo à anulação dessas manifestações administrativas. Ainda que o despacho decisório fosse nulo, o reconhecimento da nulidade não ensejaria a homologação da compensação sem a apreciação de mérito.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Jose Roberto Adelino da Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Livia De Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
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EPP Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010 DIREITO DE DEFESA AVALIAÇÃO CONCRETA Alegações genéricas de violação do direito de defesa, sem respaldo concreto nas decisões e despachos decisórios atacados, não dão azo à anulação dessas manifestações administrativas. Ainda que o despacho decisório fosse nulo, o reconhecimento da nulidade não ensejaria a homologação da compensação sem a apreciação de mérito. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Jose Roberto Adelino da Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Livia De Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 65 86 97 /2 01 2- 40 Fl. 57DF CARF MF Processo nº 10880.658697/201240 Acórdão n.º 1401001.943 S1C4T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de recurso voluntário contra decisão da Delegacia de Julgamento que indeferiu manifestação de inconformidade apresentada contra despacho não homologatório de compensação declarada. No referido recurso, o contribuinte alega que a decisão recorrida: 1) não considerou os princípios constitucionais da motivação e da ampla defesa, o que impediu o particular de apresentar defesa e de demonstrar a existência do crédito; 2) o princípio da motivação foi violado, uma vez que a autoridade indeferiu a homologação da compensação sob o fundamento de inexistência do crédito, sem qualquer outro esclarecimento, enquanto a decisão de primeiro grau aduziu que havia fundamentação fazendo menção genérica a artigos genéricos da legislação tributária; 3) essas decisões impediram a recorrente de apresentar uma defesa concreta. Com base nesses fundamentos, o recorrente pede a nulidade do despacho decisório e a homologação da compensação. É o relatório do essencial. Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1401001.937, de 22.06.2017, proferido no julgamento do Processo nº 10880.658691/201272. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1401001.937): Evidentemente, os princípios constitucionais concretizadores do devido processo legal, como a fundamentação dos atos e decisões, a ampla defesa e o contraditório, devem ser atendidos também nos processos administrativos. Os particulares devem ser capazes de identificar as razões que motivaram as prescrições veiculadas nas manifestações das autoridades administrativas que se refiram a seus direitos. Nesse sentido, diferentemente do alegado pela recorrente, tanto o despacho decisório, quanto à decisão de primeira instância ofereceram com especificidade os elementos aptos ao particular Fl. 58DF CARF MF Processo nº 10880.658697/201240 Acórdão n.º 1401001.943 S1C4T1 Fl. 4 3 identificar com precisão as razões concretas para não ter a compensação homologada. Em primeiro lugar, a Delegacia de Julgamento não fundamenta a sua decisão com base em menção genérica a dispositivos legais. Pelo contrário, sua análise é fática e específica. A decisão recorrida aponta de forma minuciosa as razões de fato que ensejaram o despacho decisório denegatório da homologação, as quais, com efeito, constam do referido despacho. Para haver compensação, é necessário o reconhecimento do indébito tributário, o qual, uma vez indeferido, corresponde ao próprio fundamento da não homologação. Claro que o indeferimento do crédito ao qual o contribuinte considera fazer jus também deve ser motivado, mas foi e em quadro próprio que compõe o despacho decisório atacado. O despacho decisório são se restringiu, diferentemente do alegado pelo recorrente, a apontar genericamente a inexistência do indébito. Em quadro próprio, apresenta as razões fáticas para o não reconhecimento do crédito alegado. Já a Delegacia de Julgamento discorre com minúcias acerca dessas razões fáticas. Reiteramos: sua decisão acerca da motivação do despacho decisório não se restringiu a alegações genéricas calcadas em dispositivos da legislação tributário, como indevidamente o recorrente afirma em sua peça recursal. Tal estratégia é que pode ser imputada ao contribuinte, pois, ao revés de buscar demonstrar concretamente o seu direito creditório, apegase exclusivamente, tanto na manifestação de inconformidade, quanto no recurso voluntário, na tentativa de anular os atos decisórios administrativos e na esperança de que uma decisão desse jaez tivesse também a consequência de homologar as compensações declaradas. Claro que nem um, nem o outro pedido pode ser deferido. Não podemos deixar de consignar que cabe ao particular comprovar o seu direito de crédito contra o Fisco, o que poderia ter sido realizado, em face do princípio da eventualidade, até em sede recursal. Afinal, a nulidade da despacho decisório, diferentemente do pretendido pelo recorrente, não pode ter por efeitos imediatos o reconhecimento do indébito tributário. A consequência natural é a necessidade de refazer os atos nulos, o que pode ser superada com o provimento de mérito a favor do particular, nos termos do art. 59, § 3º, do Decreto nº 70.235/72: § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta. Nada obstante, o contribuinte postouse numa cômoda, mas absolutamente indevida, condição de tecer alegações genéricas Fl. 59DF CARF MF Processo nº 10880.658697/201240 Acórdão n.º 1401001.943 S1C4T1 Fl. 5 4 contra o despacho decisório sem envidar qualquer esforço concreto para demonstrar, no mérito, o seu direito de crédito contra o Fazenda Pública. É importante reiterar. Ainda que considerássemos nulo o despacho decisório e, conseguintemente, a decisão da Delegacia de Julgamento, tal nulidade não acarretaria o reconhecimento de indébito tributário e, conseguintemente, a homologação da compensação pretendida. Por todo o exposto, voto para negar provimento ao recurso voluntário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Fl. 60DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13003.000175/2007-13
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 24 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Nov 16 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Exercício: 1991, 1992, 1993
COMPENSAÇÃO. CRÉDITO DECORRENTE DE AÇÃO JUDICIAL. PRAZO PRESCRICIONAL. HABILITAÇÃO PRÉVIA. SUSPENSÃO.
O prazo para a apresentação de Declaração de Compensação de crédito tributário decorrente de ação judicial é de cinco anos, contados do trânsito em julgado da sentença que reconheceu o crédito ou da homologação da desistência de sua execução.
No período entre o pedido de habilitação do crédito decorrente de ação judicial e a ciência do seu deferimento definitivo no âmbito administrativo, o prazo prescricional para apresentação da Declaração de Compensação fica suspenso.
Recurso Voluntário Provido
Aguardando Nova Decisão
Numero da decisão: 3402-004.688
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Pedro Bispo, Relator, e Waldir Navarro. Designada redatora para o voto vencedor a Conselheira Maria Aparecida.
(assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente
(assinado digitalmente)
Pedro Sousa Bispo - Relator
(assinado digitalmente)
Maria Aparecida Martins de Paula - Redatora Designada
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire (Presidente), Waldir Navarro Bezerra, Maria Aparecida Martins de Paula, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Thais de Laurentiis Galkowicz, Diego Diniz Ribeiro e Pedro Sousa Bispo.
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Exercício: 1991, 1992, 1993 COMPENSAÇÃO. CRÉDITO DECORRENTE DE AÇÃO JUDICIAL. PRAZO PRESCRICIONAL. HABILITAÇÃO PRÉVIA. SUSPENSÃO. O prazo para a apresentação de Declaração de Compensação de crédito tributário decorrente de ação judicial é de cinco anos, contados do trânsito em julgado da sentença que reconheceu o crédito ou da homologação da desistência de sua execução. No período entre o pedido de habilitação do crédito decorrente de ação judicial e a ciência do seu deferimento definitivo no âmbito administrativo, o prazo prescricional para apresentação da Declaração de Compensação fica suspenso. Recurso Voluntário Provido Aguardando Nova Decisão
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Pedro Bispo, Relator, e Waldir Navarro. Designada redatora para o voto vencedor a Conselheira Maria Aparecida. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente (assinado digitalmente) Pedro Sousa Bispo - Relator (assinado digitalmente) Maria Aparecida Martins de Paula - Redatora Designada Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire (Presidente), Waldir Navarro Bezerra, Maria Aparecida Martins de Paula, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Thais de Laurentiis Galkowicz, Diego Diniz Ribeiro e Pedro Sousa Bispo.
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Recorrida FAZENDA PÚBLICA ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 1991, 1992, 1993 COMPENSAÇÃO. CRÉDITO DECORRENTE DE AÇÃO JUDICIAL. PRAZO PRESCRICIONAL. HABILITAÇÃO PRÉVIA. SUSPENSÃO. O prazo para a apresentação de Declaração de Compensação de crédito tributário decorrente de ação judicial é de cinco anos, contados do trânsito em julgado da sentença que reconheceu o crédito ou da homologação da desistência de sua execução. No período entre o pedido de habilitação do crédito decorrente de ação judicial e a ciência do seu deferimento definitivo no âmbito administrativo, o prazo prescricional para apresentação da Declaração de Compensação fica suspenso. Recurso Voluntário Provido Aguardando Nova Decisão Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Pedro Bispo, Relator, e Waldir Navarro. Designada redatora para o voto vencedor a Conselheira Maria Aparecida. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente (assinado digitalmente) Pedro Sousa Bispo Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 00 3. 00 01 75 /2 00 7- 13 Fl. 220DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Maria Aparecida Martins de Paula Redatora Designada Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire (Presidente), Waldir Navarro Bezerra, Maria Aparecida Martins de Paula, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Thais de Laurentiis Galkowicz, Diego Diniz Ribeiro e Pedro Sousa Bispo. Relatório Por bem relatar os fatos, adoto o Relatório da decisão recorrida com os devidos acréscimos: O contribuinte teve reconhecido por decisão judicial transitada em julgado, processo nº 98.00217584, o direito a créditos de PIS pagos a maior devido à inconstitucionalidade da aplicação dos DecretosLeis nº 2.445/88 e 2.449/88, onde além de requerer a condenação da União à repetição de todos os valores indevidamente recolhidos, solicitava que lhe fosse facultada a opção pela compensação (fl. 97). O trânsito em julgado deuse em 05/03/2001 como se observa à fl. 108. Em 02/09/2005, o contribuinte encaminhou à Receita Federal do Brasil o pedido de habilitação dos créditos decorrentes dessa decisão judicial transitada em julgado no total de R$ 183.930,67 (fls. 28 a 34). Em 14/11/2006, renunciou à execução da já referida decisão judicial por pretender proceder à restituição dos valores pagos indevidamente através de procedimento de compensação, de acordo como art. 50, da IN SRF nº 600/05. A homologação dessa renúncia da execução judicial se encontra às fls. 109 e 110. Em 29/12/2006, foi emitido o Despacho DRF/POA/SECAT nº 163, o qual dispunha que diante do atendimento dos requisitos previstos na IN SRF nº 600/05, deferiuse o pedido de habilitação do crédito decorrente da ação judicial, através do processo nº 11080.007084/200507 (fls. 143 e 144). Somente a partir daí o contribuinte passou a enviar declarações de compensação eletrônica (fls. 70 a 81) ou em papel. As declarações em papel se encontram à fl. 1 dos autos, e também nos processos nº 13003.000213/200738 e 13003.000313/2007 64, os quais foram apensados pela DRF de origem ao processo aqui em análise. A justificativa do contribuinte para a apresentação das compensações em papel se baseava no fato de o sistema PER/DCOMP emitir uma mensagem de erro dizendo que a ação judicial apresentava trânsito em julgado com mais de 5 anos em relação à data da transmissão. O Despacho Decisório DRF/POA nº 1.420/2007, emitido em 19/07/2007, não deferiu as compensações pretendidas pelo contribuinte, informando não ser possível a homologação com base em créditos que foram reconhecidos em decisão judicial Fl. 221DF CARF MF Processo nº 13003.000175/200713 Acórdão n.º 3402004.688 S3C4T2 Fl. 221 3 transitada em julgado há mais de 5 anos das datas de protocolo ou de transmissão dessas DCOMPs (fls. 147 a 150). Em tal despacho é ainda dito que a demora no processo de habilitação não serviria de escusa ao contribuinte, pois este comprovou que preenchia as condições para deferimento do pedido somente em 27/10/2006 e 13/12/2006, quando respectivamente juntou as cópias das decisões judiciais que reconheceram o direito creditório (fls. 85 a 107) e a cópia da homologação judicial da renúncia à execução (fls. 109/110). Portanto, as declarações de compensação entregues no período de janeiro a junho de 2007 foram consideradas pela DRF de origem como não homologadas e como confissões de dívida, sendo emitidas as cartascobrança das fls. 154 a 159. Sobre essas compensações o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, conforme a alínea “b” abaixo. No entanto, em 20/07/2007, após a emissão do Despacho Decisório nº 1.420/2007, mas antes da ciência do mesmo, o contribuinte apresentou nova declaração de compensação em papel, formalizada no processo nº 13003.000374/200721. Nessa nova declaração queria se compensar dos mesmos créditos habilitados através do processo nº 11080.007084/200507, os quais já haviam sido alvo de análise do referido Despacho Decisório. Os débitos referentes a essa nova declaração de compensação foram considerados confissão espontânea e enviados para cobrança. Conforme a Informação nº 327, de 22/09/2010, entendeu a DRF de origem que o Despacho Decisório nº 1.420/2007, apesar de anterior a essa nova declaração de compensação, tinha disposição expressa pela não homologação de outras compensações eventualmente efetuadas com base nos mesmos créditos objetos da decisão judicial da ação ordinária nº 98.00217584. A DRF de origem veio a apensar mais esse processo ao aqui inicialmente em análise. Diante do Despacho Decisório nº 1.420/07 apresentou manifestação de inconformidade, e depois da Informação nº 327/2010 apresentou uma segunda manifestação de inconformidade, sobre as quais passaremos a registrar o que é alegado em cada uma delas: a) Manifestação de Inconformidade do Processo nº 13003.000175/200713 A ciência do contribuinte do despacho decisório ocorreu em 06/08/2007 (fl. 161), e a manifestação de inconformidade foi apresentada tempestivamente em 29/08/2007 (fls. 163 a 171). Em síntese o contribuinte apresenta os seguintes argumentos em sua manifestação: QUE o pedido de habilitação dos créditos foi apresentado pelo autor em 02/09/2005 (4 anos após o trânsito em julgado), porém Fl. 222DF CARF MF 4 somente em 29/12/2006 a Receita Federal deferiu o pedido, e, portanto, se existia o prazo qüinqüenal para o exercício da compensação, houve descumprimento pela autoridade fiscal e não pelo contribuinte (fls. 164). QUE diante da habilitação referida houve a tentativa de entrega das declarações de compensação pelo sistema PER/DCOMP, mas o programa não aceitou por já terem transcorridos 5 anos da data do trânsito em julgado (fl. 164). QUE o contribuinte não podia realizar a compensação pela ausência de autorização do Fisco (fl. 165). QUE não há de se falar em prescrição ou decadência do direito ao crédito reconhecido judicialmente, já que este prazo foi estancado pelo ajuizamento da medida judicial, sendo inaplicável o inciso I, do art. 168, do Código Tributário Nacional (fl. 167). QUE não permaneceu inerte, tendo juntado todos os documentos necessários para a instrução do pedido de habilitação (fl. 167) QUE a sistemática da compensação não pode ser injustificadamente obstaculizada, nem tampouco ter seu alcance diminuído, em estrita obediência ao princípio da efetividade das normas constitucionais (fl. 169). Por último, requer o recebimento dessa manifestação de inconformidade e a declaração de insubsistência do despacho decisório em face da total procedência das compensações realizadas. b) Manifestação de Inconformidade do Processo nº 13003.000374/200721 Ao tomar ciência da Informação nº 327 da DRF de origem, em 02/12/2010, o contribuinte encaminhou manifestação de inconformidade, em 22/12/2010, constante às fls. 39 a 44 do processo nº 13003.000374/200721, onde basicamente alega que inexiste despacho decisório não homologando essa específica declaração de compensação, concluindo que devido a isso houve cerceamento ao seu direito de defesa. Registrese, ainda, que o contribuinte ingressou na justiça com a ação anulatória nº 2009.71.00.0190477 requerendo a nulidade da CDA nº 002080066996 (visto que a DRF de origem já havia enviado os débitos da pretendida compensação para a cobrança). Na sentença da decisão judicial o juiz assim determinou: “... o débito referente ao processo de crédito 13003.000374/200721 ainda não foi objeto de despacho decisório, e, portanto, não poderia ter sido enviado para cobrança em dívida ativa, conforme reconhece a autoridade fiscal ...”. (gn) Por fim, requer: a invalidade ou nulidade da notificação recebida através da Informação nº 327/2010; a expedição de despacho decisório acerca da não homologação da compensação requerida; e a abertura de prazo para Fl. 223DF CARF MF Processo nº 13003.000175/200713 Acórdão n.º 3402004.688 S3C4T2 Fl. 222 5 manifestação de inconformidade, em respeito ao Decreto nº 70.235/72, à Lei nº 9.460 e à decisão judicial no processo nº 2009.71.00.0190477. Em ato contínuo, a DRJPORTO ALEGRE (RS) julgou a manifestação de inconformidade do contribuinte nos seguintes termos: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Exercício: 1991, 1992, 1993 DIREITO CREDITÓRIO. PRAZO PRESCRICIONAL DE 5 ANOS DO TRÂNSITO EM JULGADO. INEXISTÊNCIA DE SUSPENSÃO OU INTERRUPÇÃO NA ESFERA ADMINISTRATIVA. Contase a partir da data do trânsito em julgado o prazo prescricional para que o sujeito passivo exerça o direito de compensação de débitos na via administrativa, sendo que inexiste hipótese de suspensão ou interrupção do prazo prescricional na esfera administrativa. Manifestação de Inconformidade Improcedente. Direito Creditório Não Reconhecido. Em seguida, devidamente notificada, a Recorrente interpôs o presente recurso voluntário pleiteando a reforma do acórdão. A Recorrente em seu Recurso Voluntário repisou os mesmos argumentos utilizados na sua Manifestação de Inconformidade quanto ao seu direito creditório. Voto Vencido Conselheiro Pedro Sousa Bispo O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche todos os requisitos previstos em lei, motivo pelo qual deve ser conhecido. A discussão do processo limitase a definição do prazo para o Contribuinte exercer o seu direito creditório reconhecido em decisão judicial transitada em julgado, na qual foram afastados os mandamentos dos DecretosLeis nº2.445 e 2.449/88, restabelecendose a vigência da LC nº07/70 e suas alterações, surgindo, em consequência, valores recolhidos a maior a título de PIS. A Delegacia da Receita Federal indeferiu totalmente a compensação solicitada pelo Contribuinte, alegando que o direito creditório reconhecido judicialmente já teria sido atingido pela Decadência, tendo em vista o transcorrer de mais de cinco anos da data do trânsito em julgado da sentença que reconheceu o crédito. Fl. 224DF CARF MF 6 A Recorrente, tendo o seu crédito reconhecido por decisão judicial transitada em julgado, optou pela execução administrativa do PIS. Somente realizou a execução judicial dos honorários advocatícios e custas judiciais, conforme informado nos autos do processo nº9800217584 da Décima Vara Federal de Porto Alegre. O Contribuinte possui o prazo de 5 (cinco) anos para promover a execução do seu direito creditório reconhecido judicialmente, seja na modalidade judicial ou administrativa, com fundamento no art. 1o do Decreto n° 20.910/1932, bem como do inciso IV, §4°, do art. 71 da IN RFB n° 900, de 2008. No caso de direito creditório discutido judicialmente, a legislação tributária estabelece como termo inicial para a contagem do prazo prescricional do direito creditório a data do trânsito em julgado da decisão que reconheceu o direito creditório ou a data da homologação da desistência da execução do título judicial. A seguir reproduzido o art. 51 da IN nº600/05 que dispôs sobre a matéria: Art. 51. Na hipótese de crédito reconhecido por decisão judicial transitada em julgado, a Declaração de Compensação, o Pedido Eletrônico de Restituição e o Pedido Eletrônico de Ressarcimento, gerados a partir do Programa PER/DCOMP, somente serão recepcionados pela SRF após prévia habilitação do crédito pela Delegacia da Receita Federal (DRF), Delegacia da Receita Federal de Administração Tributária (Derat) ou Delegacia Especial de Instituições Financeiras (Deinf) com jurisdição sobre o domicílio tributário do sujeito passivo. § 1º A habilitação de que trata o caput será obtida mediante pedido do sujeito passivo, formalizado em processo administrativo instruído com: I o formulário Pedido de Habilitação de Crédito Reconhecido por Decisão Judicial Transitada em Julgado, constante do Anexo V desta Instrução Normativa, devidamente preenchido; II a certidão de inteiro teor do processo expedida pela Justiça Federal; III a cópia do contrato social ou do estatuto da pessoa jurídica acompanhada, conforme o caso, da última alteração contratual em que houve mudança da administração ou da ata da assembléia que elegeu a diretoria; IV cópia dos atos correspondentes aos eventos de cisão, incorporação ou fusão, se for o caso; V a cópia do documento comprobatório da representação legal e do documento de identidade do representante, na hipótese de pedido de habilitação do crédito formulado por representante legal do sujeito passivo; e VI a procuração conferida por instrumento público ou particular e cópia do documento de identidade do outorgado, na hipótese de pedido de habilitação formulado por mandatário do sujeito passivo. § 2º O pedido de habilitação do crédito será deferido pelo titular da DRF, Derat ou Deinf, mediante a confirmação de que: Fl. 225DF CARF MF Processo nº 13003.000175/200713 Acórdão n.º 3402004.688 S3C4T2 Fl. 223 7 I o sujeito passivo figura no pólo ativo da ação; II a ação tem por objeto o reconhecimento de crédito relativo a tributo ou contribuição administrados pela SRF; III houve reconhecimento do crédito por decisão judicial transitada em julgado; IV foi formalizado no prazo de 5 anos da data do trânsito em julgado da decisão; e V na hipótese de ação de repetição de indébito, houve a homologação pelo Poder Judiciário da desistência da execução do título judicial ou a comprovação da renúncia à sua execução, bem assim a assunção de todas as custas e os honorários advocatícios referentes ao processo de execução. § 3º Constatada irregularidade ou insuficiência de informações nos documentos a que se referem os incisos I a V do § 1º, o requerente será intimado a regularizar as pendências no prazo de 30(trinta) dias, contado da data de ciência da intimação. § 4º No prazo de 30 (trinta) dias, contado da data da protocolização do pedido ou da regularização de pendências de que trata o § 3º, será proferido despacho decisório sobre o pedido de habilitação do crédito.12 § 5º Será indeferido o pedido de habilitação do crédito nas seguintes hipóteses: I não forem atendidos os requisitos constantes nos incisos I a V do § 2º; ou II as pendências a que se refereo§3ºnão forem regularizadas no prazo nele previsto. § 6º O deferimento do pedido de habilitação do crédito não implica homologação da compensação ou o deferimento do pedido de restituição ou de ressarcimento Nesse sentido, a Receita Federal também expôs mais detalhadamente a questão no Parecer Normativo nº11 de 19 de dezembro de 2014, in verbis: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário. COMPENSAÇÃO DE CRÉDITO DECORRENTE DE AÇÃO JUDICIAL. PRAZO PARA APRESENTAR DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. NECESSIDADE DE HABILITAÇÃO PRÉVIA. SUSPENSÃO DO PRAZO PRESCRICIONAL. O crédito tributário decorrente de ação judicial pode ser executado na própria ação judicial para pagamento via precatório ou requisição de pequeno valor ou, por opção do sujeito passivo, ser objeto de compensação com débitos tributários próprios na via administrativa. Ao fazer a opção pela compensação na via administrativa, o sujeito passivo sujeitase ao disciplinamento da matéria feito pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, especificamente a Instrução Normativa nº 1.300, de 2012, conforme § 14 do art. 74 Fl. 226DF CARF MF 8 da Lei nº 9.430, de 1996, e às demais limitações legais. Para a apresentação da Declaração de Compensação, o sujeito passivo deverá ter o pedido de habilitação prévia deferido. A habilitação prévia do crédito decorrente de ação judicial é medida que tem por objetivo analisar os requisitos preliminares acerca da existência do crédito, a par do que ocorre com a ação de execução contra a Fazenda Nacional, quais sejam, legitimidade do requerente, existência de sentença transitada em julgado e inexistência de execução judicial, em respeito ao princípio da indisponibilidade do interesse público. O prazo para a compensação mediante apresentação de Declaração de Compensação de crédito tributário decorrente de ação judicial é de cinco anos, contados do trânsito em julgado da sentença que reconheceu o crédito ou da homologação da desistência de sua execução. No período entre o pedido de habilitação do crédito decorrente de ação judicial e a ciência do seu deferimento definitivo no âmbito administrativo, o prazo prescricional para apresentação da Declaração de Compensação fica suspenso. O crédito habilitado pode comportar mais de uma Declaração de Compensação, todas sujeitas ao prazo prescricional de cinco anos do trânsito em julgado da sentença ou da extinção da execução, não havendo interrupção da prescrição em relação ao saldo. Eventual mudança de interpretação sobre a matéria será aplicável somente a partir de sua introdução na legislação tributária. Dispositivos Legais. Constituição Federal, arts. 37 e 100; Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, arts. 100, 170 e 170A; Decreto nº 20.910, Lei nº 9.430, de 1996, art. 74; Lei nº 9.779, art. 16; Lei nº 9.784, de 1999, art. 2º; Portaria MF nº 203, de 2012, art. 1º, III, e art. 280, III e XXVI; IN RFB nº 1.300, de 2012, arts. 81 e 82 eprocesso 10880.724252/201346. No caso concreto, tendo o contribuinte obtido o trânsito em julgado da decisão que reconheceu o seu crédito em 05/03/2001, poderia apresentar as declarações de compensação até 05/03/2006. Dessa forma, as declarações apresentadas após essa data foram atingidas pela prescrição. As Declarações de compensação objeto do presente processo foram apresentadas no período de janeiro a junho de 2007 em formulário. O uso de formulário se deveu ao fato de já terem passado mais de 5 anos do trânsito em julgado, não permitindo o Sistema PER/DCOMP a transmissão pela via eletrônica. A Recorrente alegou que o seu pedido de Habilitação do Crédito Judicial apresentado em 02/09/2005, antes portanto de transcorrer o prazo quinquenal, teria interrompido o prazo prescricional da sua execução administrativa, não podendo mais se falar em prazo para realizar as compensações. Além disso, afirma que se a Receita Federal somente deferiu o seu pedido em 29/12/2006, após decorridos os 5 (cinco) anos, e que houve descumprimento pela Autoridade Fiscal e não pelo Contribuinte. Ao contrário do que afirma a Recorrente, entendo que a Habilitação é apenas um procedimento preliminar e preparatório ao pedido de compensação de crédito originário de decisão judicial transitada em julgado. O procedimento de habilitação foi previsto no §2º do art.51, da IN SRF nº600/05. Sua base legal esta no §14 do art. 74, da Lei nº9.430/96, in verbis: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou Fl. 227DF CARF MF Processo nº 13003.000175/200713 Acórdão n.º 3402004.688 S3C4T2 Fl. 224 9 contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele órgão. (...) § 14. A Secretaria da Receita Federal SRF disciplinará o dispostoneste artigo, inclusive quanto à fixação de critérios de prioridade para apreciação de processos de restituição, de ressarcimento e de compensação. (grifei) Na habilitação não se discute o direito creditório do contribuinte, a sua suficiência ou o seu quantum, tratase apenas de procedimento formal onde se verifica a validade da decisão transitada em julgado para a realização da compensação, que se dará posteriormente pela apresentação das Dcomps (declarações de compensações), nos termos do § 2º do art.51, da IN SRF nº600/05. A suficiência e o quantum referente ao direito creditório é somente verificado quando ocorre a homologação da compensação pela Autoridade Tributária. A Habilitação também é procedimento sumário que a legislação prevê o prazo de 30 dias para a Receita Federal proferir despacho decisório sobre o pedido de habilitação do crédito, a contar da data da protocolização do pedido ou da regularização de pendências. Nos autos fica evidente que o motivo principal da demora para a Administração se pronunciar sobre a habilitação foi que o Contribuinte somente apresentou a comprovação do trânsito em julgado em 27/10/2006 e a homologação da desistência da execução judicial no dia 13/12/2006, mais de treze meses após a protocolização do pedido, que se deu em 02/09/2005. A Receita Federal emitiu Despacho deferindo a habilitação do crédito em 29/12/2006, dentro do prazo de 30 dias da regularização da pendência previsto no § 4º do art.51, da IN SRF nº600/05. Assim, admitindose que o pedido de habilitação gera a suspensão do prazo prescricional, entendo que o contribuinte não pode se beneficiar da mora que ele mesmo deu causa (art.5º do Dec. 20.910/32). Dessa forma, deve ser considerado como período de suspensão apenas o prazo regular de 30 dias previsto no § 4º do art.51 da IN SRF nº600/05. Ainda assim, mesmo que se considere esse prazo de suspensão, as declarações de compensação apresentadas no período de janeiro a junho de 2007 teriam sido atingidas pela prescrição. Argumenta, ainda, o contribuinte que por força da Súmula 150 do STF o seu prazo de prescrição para execução seria de 10 anos e não 5 anos como considerou a Autoridade Tributária. A referida súmula preceitua que a execução no mesmo prazo de prescrição da ação. Equivocase na sua afirmação a Recorrente porque o julgamento da tese vencedora do "cinco + cinco" do repetitivo do STF não afetou o prazo de prescrição aplicável para a repetição de indébito dos tributos sujeitos a lançamento por homologação. O prazo permaneceu inalterado em cinco anos, de acordo com o art.168 do CTN. O termo inicial da prescrição é que é considerado, não a data do pagamento do crédito, mas a data da homologação tácita desse pagamento, o que extingue, na hipótese de tributo sujeito a lançamento por homologação, o crédito tributário (art.150, § 4º do CTN). Consequentemente, o Fl. 228DF CARF MF 10 prazo para execução também permaneceu em cinco anos, em consonância com a súmula nº150 do STF. Nesse mesmo sentido, o STJ já julgou a matéria em sede de Recurso Especial, conforme a ementa da decisão a seguir transcrita: TRIBUTÁRIO. PRESCRIÇÃO PARA A AÇÃO DE EXECUÇÃO DE TÍTULO JUDICIAL ORIUNDO DE AÇÃO DE REPETIÇÃO DE INDÉBITO REFERENTE AO FINSOCIAL. PRAZO. SÚMULA 150∕STF. 1. Consoante dispõe a Súmula 150∕STF, "prescreve a execução no mesmo prazo de prescrição da ação." Consectariamente, a execução na ação de repetição do indébito deve obedecer esse lapso quinquenal. Impõese distinguir o termo a quo do prazo para a ação de repetição com o prazo de prescrição da mesma. 2. Tratandose de tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo prescricional para a respectiva ação de repetição de indébito contase a partir da extinção do crédito, que se dá com a homologação tácita, esta ocorrente cinco anos após o lançamento da exação. Precedentes do STJ. 3. Conforme dispõe o art. 168 do Código Tributário Nacional, o direito de pleitear a restituição do indébito extinguese com o decurso de cinco anos, contados da data da extinção do crédito tributário (inciso I). 4. Interpretando este dispositivo em harmonia com o que dispõe o art. 150, § 4º do CTN, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça concluiu pela ocorrência da prescrição em cinco anos, contados da homologação tácita do proceder do contribuinte, que se perfaz em cinco anos contados da ocorrência do fato gerador, considerando que o crédito tributário se extingue, nesta hipótese, com a preclusão para o Fisco efetuar o lançamento. 5. Extraise, desse contexto, que o prazo de prescrição não é de dez anos, mas de cinco. Do contrário estarseia ofendendo o próprio texto legal (art. 168). O termo inicial da prescrição é que é considerado, não a data do pagamento do crédito, mas a data da homologação tácita desse pagamento, o que extingue, na hipótese de tributo sujeito a lançamento por homologação, o crédito tributário (art. 150, § 4º). 6. Recurso Especial provido (STJ, REsp 543.808) (grifei) Por fim, cabe frisar que o argumento de inaplicabilidade dos dispositivos da IN SRF nº 600/05 ao caso, principalmente dos seus impedimentos, por sua edição ser posterior ao trânsito em julgado da ação, também não pode prosperar. O procedimento de habilitação e as compensações realizadas foram realizadas sob a vigência da referida norma legal, sendo plenamente aplicável as suas determinações. Fl. 229DF CARF MF Processo nº 13003.000175/200713 Acórdão n.º 3402004.688 S3C4T2 Fl. 225 11 Diante de todo o exposto, nego provimento ao Recurso Voluntário quanto ao reconhecimento do direito creditório e a homologação das compensações deste processo, assim como dos apensados de nº 13003.000313/200764 e 13003.00213/200738. Pedro Sousa Bispo Relator Fl. 230DF CARF MF 12 Voto Vencedor Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula, Redatora Designada Na sessão de julgamento ousei divergir do Voto do Ilustre Conselheiro Relator, no que fui acompanhada por outros Conselheiros, restando meu posicionamento vencedor por maioria de votos, razão pela qual apresento abaixo as minhas razões de decidir. A solução da lide diz respeito à delimitação do prazo para que o contribuinte possa obter a compensação do indébito tributário reconhecido judicialmente, especialmente porque, a partir da publicação da Instrução Normativa SRF nº 517/2005 no DOU de 01/03/2005, passou a ser obrigatória a existência de um processo de habilitação ao crédito previamente à declaração de compensação, como condição para a apresentação desta última, nos termos do seu art. 3º: Art. 3º Na hipótese de crédito reconhecido por decisão judicial transitada em julgado, a Declaração de Compensação, o Pedido Eletrônico de Restituição e o Pedido Eletrônico de Ressarcimento, gerados a partir do Programa PER/DCOMP 1.6, somente serão recepcionados pela SRF após prévia habilitação do crédito pela Delegacia da Receita Federal (DRF), Delegacia da Receita Federal de Administração Tributária (Derat) ou Delegacia Especial de Instituições Financeiras (Deinf) com jurisdição sobre o domicílio tributário do sujeito passivo. § 1º A habilitação de que trata o caput será obtida mediante pedido do sujeito passivo, formalizado em processo administrativo instruído com: (...) § 2º O pedido de habilitação do crédito será deferido pelo titular da DRF, Derat ou Deinf, mediante a confirmação de que: I o sujeito passivo figura no pólo ativo da ação; II a ação tem por objeto o reconhecimento de crédito relativo a tributo ou contribuição administrados pela SRF; III houve reconhecimento do crédito por decisão judicial transitada em julgado; e IV houve a homologação pela Justiça Federal da desistência da execução do título judicial ou da renúncia à sua execução, bem assim a assunção de todas as custas do processo de execução, inclusive os honorários advocatícios, no caso de ação de repetição de indébito. § 3º Constatada irregularidade ou insuficiência de informações nos documentos a que se referem os incisos I a V do § 1º, o requerente será intimado a regularizar as pendências no prazo de 30 (trinta) dias, contado da data de ciência da intimação. § 4º No prazo de 30 (trinta) dias, contado da data da protocolização do pedido ou da regularização de pendências de que trata o § 3º, será proferido despacho decisório sobre o pedido de habilitação do crédito. § 5º Será indeferido o pedido de habilitação do crédito nas seguintes hipóteses: I não forem atendidos os requisitos constantes nos incisos I a IV do § 2º; ou Fl. 231DF CARF MF Processo nº 13003.000175/200713 Acórdão n.º 3402004.688 S3C4T2 Fl. 226 13 II as pendências a que se refere o § 3º não forem regularizadas no prazo nele previsto. § 6º O deferimento do pedido de habilitação do crédito não implica homologação da compensação ou o deferimento do pedido de restituição ou de ressarcimento. § 7º A apresentação da Declaração de Compensação, do Pedido Eletrônico de Restituição e do Pedido Eletrônico de Ressarcimento, gerados a partir do Programa PER/DCOMP 1.6, na hipótese prevista no caput, fica condicionada à informação do número do processo administrativo no qual tenha havido o deferimento do pedido de habilitação do crédito. (...) [negritei] Assim, após a conclusão do processo administrativo de habilitação do crédito decorrente de título judicial, que envolve pedido do contribuinte, análise da fiscalização e seu eventual deferimento, tornase necessária nova iniciativa por parte do contribuinte, qual seja, a apresentação da Declaração de Compensação. Dessa forma, surge a questão: Poderia prescrever o direito de o contribuinte compensar o crédito reconhecido judicialmente com seus débitos no período entre o pedido de habilitação do crédito e o correspondente deferimento pela fiscalização? Responder afirmativamente a essa questão significaria dizer que o contribuinte pode ser prejudicado pela demora a que não deu causa, conforme reflexão contida no PARECER PGFN/CAT Nº 2093/2011, nos seguintes termos: (...) 111. A exigência de habilitação prévia ao processamento da DECOMP, e mais, a programação de sistema de informática para rejeição da DECOMP após cinco anos corridos do trânsito em julgado da sentença (§ 6º do art. 71 da IN) – sem considerar o dispêndio de tempo imposto e inventado pela própria Administração Pública nesse ínterim, dada a ordem de se obter prévia habilitação – embaralha o desenvolvimento cronológico da relação jurídica de indébito, legalmente pautado pelos prazos extintivos aqui já sobremaneira citados. 112. Bem entendido, à guisa de operacionalizar dispositivos da lei, a RFB poderia criar a condição da habilitação, mas não poderia modificar o curso do prazo prescricional da execução do indébito. E o lapso temporal para a habilitação demanda suspensão da prescrição executiva para o contribuinte, porque ele não pode ser prejudicado pela demora a que não deu causa. 113. Nesses termos, a dúvida da DISIT/SRRF01, acima copiada, é impossível de ser respondida, porque não é o vácuo acerca de base legal para regência do prazo de habilitação que deve ser encontrado. Antes disso, devese perquirir se há espaço normativo, diante dos prazos extintivos positivados em lei complementar, para a inserção, por instrução normativa, de um processo de habilitação entre o trânsito em julgado da sentença constitutiva do indébito e a apresentação da DECOMP (execução). (...) 114. Ao inserir um procedimento entre o trânsito em julgado e a apresentação da declaração da compensação, que é um modo de execução da sentença, a RFB criou a necessidade de um prazo Fl. 232DF CARF MF 14 suspensivo ou interruptivo da prescrição executiva. Sucede que essa suspensão (ou a necessidade dela) não poderia ser engendrada por ato infralegal, porque, como visto, a matéria é regida pelo art. 168 ou 169 do CTN e Súmula Nº 150, do STF. (...) Não obstante o entendimento acima, no sentido de que não poderia haver a suspensão da prescrição por ato infralegal, o fato é que, posteriormente, a Receita Federal, mediante o Parecer Normativo Cosit nº 11, de 19 de dezembro de 2014, publicado no DOU de 22/12/2014, aprovado pelo Despacho RFB s/n, publicado na mesma data, solucionou o problema, manifestandose no sentido de que o prazo prescricional para apresentação da Declaração de Compensação ficaria suspenso no período entre o pedido de habilitação do crédito decorrente de ação judicial e a ciência do seu deferimento definitivo no âmbito administrativo, conforme ementa e fundamentação abaixo transcritas: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário. COMPENSAÇÃO DE CRÉDITO DECORRENTE DE AÇÃO JUDICIAL. PRAZO PARA APRESENTAR DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. NECESSIDADE DE HABILITAÇÃO PRÉVIA. SUSPENSÃO DO PRAZO PRESCRICIONAL. (...) Ao fazer a opção pela compensação na via administrativa, o sujeito passivo sujeitase ao disciplinamento da matéria feito pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, especificamente a Instrução Normativa nº 1.300, de 2012, conforme § 14 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996, e às demais limitações legais. Para a apresentação da Declaração de Compensação, o sujeito passivo deverá ter o pedido de habilitação prévia deferido. (...) No período entre o pedido de habilitação do crédito decorrente de ação judicial e a ciência do seu deferimento definitivo no âmbito administrativo, o prazo prescricional para apresentação da Declaração de Compensação fica suspenso. (...) Dispositivos Legais. Constituição Federal, arts. 37 e 100; Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, arts. 100, 170 e 170A; Decreto nº 20.910, Lei nº 9.430, de 1996, art. 74; Lei nº 9.779, art. 16; Lei nº 9.784, de 1999, art. 2º; Portaria MF nº 203, de 2012, art. 1º, III, e art. 280, III e XXVI; IN RFB nº 1.300, de 2012, arts. 81 e 82. eprocesso 10880.724252/201346 (...) 11. Entretanto, como já visto, para a apresentação da Dcomp, o sujeito passivo que apurou o crédito deve apresentar o pedido de habilitação prévia dos créditos, nos termos do art. 82 da IN RFB nº 1.300, de 2012. A questão é se tal pedido influi na contagem do prazo prescricional para apresentação da Dcomp. 11.1. O posicionamento da RFB é que a aplicação do prazo para execução da sentença, aí incluído para apresentar a Dcomp, é de cinco anos por uma construção sistêmica, e não entende que há aplicação do art. 168 do CTN nem que se trata de normas gerais de direito tributário, o que necessitaria de lei complementar para seu disciplinamento, por força da alínea “a” do inciso III do art. 146 da CF. 11.2 Notese que neste Parecer Normativo analisase apenas a execução/liquidação da sentença que já concedeu o direito Fl. 233DF CARF MF Processo nº 13003.000175/200713 Acórdão n.º 3402004.688 S3C4T2 Fl. 227 15 creditório ao contribuinte. O prazo para interposição da ação judicial realmente deve se dar mediante lei complementar, mas não é o caso para sua execução mediante compensação. Foi o art. 170 do CTN que deixou à lei (ordinária, portanto) dispor como realizar a compensação. Tanto que o art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996, trouxe a possibilidade de existir uma Declaração de Compensação que já extingue o débito tributário com posterior homologação no prazo de cinco anos. Se essa lei ordinária dispusesse que a compensação somente se daria após pedido (como ocorre com a restituição, por exemplo), evidentemente que a Dcomp como existe hoje seria impossível. E mais: uma interpretação de que o prazo para apresentar a Dcomp após a sentença somente se daria por lei complementar é o mesmo que dizer que todo o instituto de compensação tributária deveria estar disciplinada por lei complementar. Nunca houve decisão judicial nesse sentido, muito pelo contrário. Citase julgado que corrobora o aqui exposto: DIREITO PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. DIREITO À REPETIÇÃO. CONTRIBUIÇÃO AO PIS. DECRETOSLEI Nº 2.445/88 E 2.449/88. TRÂNSITO EM JULGADO. EXECUÇÃO DA SENTENÇA. DESISTÊNCIA. PEDIDO DE HABILITAÇÃO DE CRÉDITO. COMPENSAÇÃO. PRAZO DE CINCO ANOS. DECRETO Nº 20.910/32. 1. A prescrição, em favor da Fazenda Pública, para execução de crédito em favor do contribuinte, não se confunde com a regra de prescrição tributária nem exige lei complementar, estando disciplinada pelo Decreto nº 20.910/32, que fixa prazo de cinco anos, com uma única interrupção, e retomada pela metade do prazo inicial (artigos 8º e 9º). (...) (AC 2008.61.00.0207810/SP, Rel. Des. Fed. Carlos Muta, TRF3, Terceira Turma, julgado em 03/12/2009, DJ 15/12/2009) 11.3. Desta feita, a melhor interpretação é que a interposição do pedido de habilitação suspende o prazo prescricional para apresentar a Dcomp, conforme dispõe o art. 4º do Decreto nº 20.910, de 1932: Art. 4º Não corre a prescrição durante a demora que, no estudo, ao reconhecimento ou no pagamento da dívida, considerada líquida, tiverem as repartições ou funcionários encarregados de estudar e apurála. Parágrafo único. A suspensão da prescrição, neste caso, verificar seá pela entrada do requerimento do titular do direito ou do credor nos livros ou protocolos das repartições públicas, com designação do dia, mês e ano. 11.4. Tal entendimento é compartilhado pelo STJ. No seguinte julgado, ele entendeu que ao prazo para interpor a execução aplicase o disposto no art. 168 do CTN, mas que o pedido de habilitação prévia impõe a aplicação do art. 4º do Decreto nº 20.910, de 1932: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO EM RECURSO ESPECIAL. AUSÊNCIA DE OMISSÃO, OBSCURIDADE, CONTRADIÇÃO OU ERRO MATERIAL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO REJEITADOS. PRAZO PARA O AJUIZAMENTO DE AÇÃO Fl. 234DF CARF MF 16 DE REPETIÇÃO DE INDÉBITO REFERENTE A CRÉDITO JUDICIALMENTE RECONHECIDO. ART. 168, II, C/C ART. 165, III, DO CTN. PRÉVIO PEDIDO DE HABILITAÇÃO DE CRÉDITO PERANTE A SECRETARIA DA RECEITA FEDERAL. SUSPENSÃO DO PRAZO PRESCRICIONAL. ART. 4º DO DECRETO N. 20.910/32. 1. Não havendo omissão, obscuridade, contradição ou erro material, merecem ser rejeitados os embargos declaratórios interpostos que têm o propósito infringente. 2. A jurisprudência invocada pela embargante referese a situação de Pedido de Restituição Administrativa ou Pedido de Compensação. O caso em apreço diz respeito a Pedido de Habilitação de Crédito, procedimento que antecede o próprio Pedido de Restituição Administrativa ou de Compensação. De fato, o Pedido de Restituição Administrativa ou Compensação não suspende ou interrompe o prazo para o Pedido Judicial, até porque são alternativas que podem ser exercidas no mesmo prazo (art. 168, II, do CTN), mas quando a Administração Tributária cria procedimento prévio ao Pedido Administrativo, chama para este caso a aplicação do Decreto n. 20.910/32. Pensar de forma diferente significa entregar à Administração Tributária o poder de, com sua própria mora na apreciação do Pedido de Habilitação de Crédito, obstar o exercício do direito do contribuinte de repetir o indébito administrativamente (Pedido de Restituição Administrativa ou Compensação) ou judicialmente (Pedido de Restituição Judicial). (grifouse) 3. Embargos de declaração rejeitados. (EDcl no EDcl no REsp 1.174.017/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, 2ª Turma, j. em 4/12/2012, DJe de 10/10/2012) (...) Salientese que, à época do pedido de habilitação e das declarações de compensação do presente processo ainda não estava vigente a Instrução Normativa SRF nº 900/20081, que introduziu norma expressa no sentido de que o deferimento do pedido de habilitação não implicava alteração do prazo prescricional quinquenal do título judicial, a qual foi mantida na redação original Instrução Normativa RFB nº 1.300/2012, mas subtraída do dispositivo em 2015, quando foram incorporados os entendimentos do referido Parecer Normativo da Cosit, nestes termos: 1 Art. 71. Na hipótese de crédito reconhecido por decisão judicial transitada em julgado, a Declaração de Compensação, o pedido de restituição, o pedido de ressarcimento e o pedido de reembolso somente serão recepcionados pela RFB após prévia habilitação do crédito pela DRF, Derat ou Deinf com jurisdição sobre o domicílio tributário do sujeito passivo. (...) § 4º O pedido de habilitação do crédito será deferido pelo titular da DRF, Derat ou Deinf, mediante a confirmação de que: I o sujeito passivo figura no pólo ativo da ação; II a ação tem por objeto o reconhecimento de crédito relativo a tributo administrado pela RFB; III houve reconhecimento do crédito por decisão judicial transitada em julgado; IV o pedido foi formalizado no prazo de 5 (cinco) anos da data do trânsito em julgado da decisão ou da homologação da desistência da execução do título judicial; e (...) § 6º O deferimento do pedido de habilitação do crédito não implica homologação da compensação ou deferimento do pedido de restituição, de ressarcimento ou de reembolso nem alteração do prazo prescricional qüinqüenal do título judicial referido no inciso IV do § 4º. Fl. 235DF CARF MF Processo nº 13003.000175/200713 Acórdão n.º 3402004.688 S3C4T2 Fl. 228 17 Art. 82. Na hipótese de crédito decorrente de decisão judicial transitada em julgado, a Declaração de Compensação será recepcionada pela RFB somente depois de prévia habilitação do crédito pela DRF, Derat, Demac/RJ ou Deinf com jurisdição sobre o domicílio tributário do sujeito passivo. [redação original] (...) § 4º O pedido de habilitação do crédito será deferido pelo titular da DRF, Derat, Demac/RJ ou Deinf, mediante a confirmação de que: § 4º O pedido de habilitação do crédito será deferido por AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil, mediante a confirmação de que: (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1661, de 29 de setembro de 2016) (...) IV o pedido foi formalizado no prazo de 5 (cinco) anos da data do trânsito em julgado da decisão ou da homologação da desistência da execução do título judicial; e (...) § 7º O deferimento do pedido de habilitação do crédito não implica homologação da compensação ou alteração do prazo prescricional quinquenal do título judicial referido no inciso IV do § 4º. [redação original] § 7º O deferimento do pedido de habilitação do crédito não implica homologação da compensação. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1557, de 31 de março de 2015) (...) Art. 82A. A Declaração de Compensação de que trata o art. 82 poderá ser apresentada no prazo de 5 (cinco) anos, contado da data do trânsito em julgado da decisão ou da homologação da desistência da execução do título judicial. (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1557, de 31 de março de 2015) Parágrafo único. O prazo de que trata o caput fica suspenso no período compreendido entre o protocolo do pedido de habilitação do crédito decorrente de ação judicial e a ciência do seu deferimento, observado o disposto no art. 5º do Decreto nº 20.910, de 1932. (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1557, de 31 de março de 2015) Assim, embora o Parecer Normativo Cosit nº 11/2014, tenha analisado os arts. 81 e 82 da Instrução Normativa RFB nº 1.300/2012 em conjunto com os demais dispositivos da legislação pertinente, e não especificamente os dispositivos da Instrução Normativa SRF nº 517/2005, vigente na data do pedido de habilitação, ou da Instrução Normativa SRF nº 600/2005, vigente na data das declarações de compensação do presente processo, com maior razão ainda, diante da ausência de norma expressa em sentido contrário, a norma interpretativa veiculada pelo referido Parecer, a teor do disposto no art. 106, I do CTN, deve ser aplicada ao presente caso concreto. Na situação sob estudo, temse que: i) a decisão judicial transitou em julgado em 05/03/2001; Fl. 236DF CARF MF 18 ii) em 02/09/2005, a contribuinte requereu o pedido de habilitação, o qual foi deferido em 29/12/2006, estando o prazo de prescrição suspenso nesse período; iii) a data mais tardia de apresentação das declarações de compensação foi 20/06/2007, conforme trecho abaixo transcrito do Despacho Decisório: Com efeito, à época do início do processo de habilitação (02/09/2005), ainda faltava um pouco mais de 6 meses para esgotarse o prazo total, o qual foi então suspenso até 29/12/2006, voltando a correr o período faltante a partir daí, de forma que em 20/06/2007 ainda não estava prescrito o direito da ora recorrente de apresentar suas declarações de compensação. Isso sem levar em conta que, na verdade, nesse caso, o prazo inicial para a contagem do prazo de prescrição seria da homologação da desistência da execução e não do trânsito em julgado da decisão favorável no processo de conhecimento2. Assim, voto no sentido de dar provimento ao recurso voluntário para, afastando a prejudicial de prescrição apontada no despacho decisório, determinar que a autoridade administrativa analise o mérito das declarações de compensação apresentadas pela recorrente entre 30/01/2007 e 20/06/2007. (Assinatura Digital) Maria Aparecida Martins de Paula Redatora Designada 2 Após o início da execução do título judicial perante o Poder Judiciário, o fato que origina o direito de o contribuinte apresentar a declaração de compensação perante a Administração é a homologação da sua desistência da execução, que deve ser considerado o prazo inicial para o decurso da prescrição, nos termos do art. 1º do Decreto nº 20.910/32: Art. 1º As dívidas passivas da União, dos Estados e dos Municípios, bem assim todo e qualquer direito ou ação contra a Fazenda federal, estadual ou municipal, seja qual for a sua natureza, prescrevem em cinco anos contados da data do ato ou fato do qual se originarem. Posteriormente aos fatos sob análise, a Receita Federal solucionou a questão introduzindo norma infralegal expressa na Instrução Normativa SRF nº 900/2008 no sentido de que o prazo para a apresentação do pedido de habilitação dos créditos poderia ser contado da homologação da desistência do processo de execução do título judicial, quando fosse o caso; a qual foi mantida no art. 82 da Instrução Normativa RFB nº 1.300/2012. Fl. 237DF CARF MF Processo nº 13003.000175/200713 Acórdão n.º 3402004.688 S3C4T2 Fl. 229 19 Fl. 238DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10660.906077/2012-17
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 24 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 21 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Data do fato gerador: 23/10/2009
PEDIDOS DE COMPENSAÇÃO/RESSARCIMENTO. INSUFICIÊNCIA DE CRÉDITO.
Não tendo sido apresentadas nem alegações nem provas suficientes para demonstrar a liquidez e certeza do crédito apresentado, procedente o Despacho Decisório que constatou a sua insuficiência em montante suficiente para compensar a totalidade dos débitos.
Numero da decisão: 3401-004.176
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário apresentado.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (Presidente), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge DOliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida e Tiago Guerra Machado.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Data do fato gerador: 23/10/2009 PEDIDOS DE COMPENSAÇÃO/RESSARCIMENTO. INSUFICIÊNCIA DE CRÉDITO. Não tendo sido apresentadas nem alegações nem provas suficientes para demonstrar a liquidez e certeza do crédito apresentado, procedente o Despacho Decisório que constatou a sua insuficiência em montante suficiente para compensar a totalidade dos débitos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário apresentado. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (Presidente), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D’Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida e Tiago Guerra Machado. Relatório Trata o presente processo administrativo de PER/DCOMP que pretendia obter o reconhecimento de direito creditório por suposto pagamento a maior. Tal pleito restou indeferido através de Despacho Decisório que integra os autos, face a vinculação do pagamento com débitos devidamente declarados em DCTF, inexistindo saldo a favor da recorrente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 66 0. 90 60 77 /2 01 2- 17 Fl. 61DF CARF MF Processo nº 10660.906077/201217 Acórdão n.º 3401004.176 S3C4T1 Fl. 3 2 Intimada, a contribuinte manifestou sua irresignação, alegando que os créditos oriundos do pagamento indevido já se encontravam desvinculados das DCTFs respectivas. A decisão de primeira instância julgou improcedente a manifestação de inconformidade em razão da falta de liquidez e certeza do crédito vindicado. A recorrente ingressou então com recurso voluntário alegando que houve falha de seu departamento fiscal, que não promoveu as retificações que demonstrariam a desvinculação dos pagamentos e a conseqüente existência do crédito. Em 25/01/2017, esta turma proferiu a Resolução CARF nº 3401000.973, por unanimidade de votos, para a finalidade de: "tendo em vista nem a administração tributária, nem a instância anterior, ter ido além do despacho decisório de processamento automático, proponho a este Colegiado a conversão do julgamento em diligência para que a unidade de jurisdição local analise e informe a respeito do alegado pela contribuinte, e também a respeito da existência de retificação realizada ou tentada pela contribuinte com relação ao (débitos e créditos) discutido neste processo administrativo. Que se dê ciência à contribuinte desta decisão e também do relatório conclusivo e da informação fiscal resultantes da diligência, e prazo de 30 dias para ela se manifestar em cada uma dessas intimações" (seleção nossa). Em atenção à resolução determinada, a unidade preparadora produziu relatório de diligência fiscal, no qual concluiu pela indisponibilidade do crédito alegado pela recorrente. Intimada do conteúdo da diligência em referência, a recorrente requereu prazo suplementar de mais 30 dias para se manifestar. A DRF proferiu despacho que indeferiu o pedido da contribuinte, por inexistência de previsão legal para a prorrogação requerida, devolvendo os autos a este Conselho para reinclusão em pauta e prosseguimento do julgamento. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3401004.167, de Fl. 62DF CARF MF Processo nº 10660.906077/201217 Acórdão n.º 3401004.176 S3C4T1 Fl. 4 3 24 de outubro de 2017, proferido no julgamento do processo 10660.906083/201274, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3401004.167): "O recurso voluntário é tempestivo e preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. Recortase, a seguir, a integralidade da manifestação de inconformidade da contribuinte: Transcrevese, ainda, a íntegra das razões do recurso voluntário interposto: Fl. 63DF CARF MF Processo nº 10660.906077/201217 Acórdão n.º 3401004.176 S3C4T1 Fl. 5 4 Inexiste, como se percebe, substantiva defesa realizada pela contribuinte, o que suscitaria debate a respeito do próprio conhecimento do recurso manejado, que se prestou unicamente a requerer prorrogação do prazo para o exercício do contraditório, curiosamente com base nos princípios da capacidade contributiva e da vedação ao confisco, sob pena de "insolvência econômica" (sic). Tendo, no entanto, a Resolução em referência considerado tempestivo o recurso, bem como sido atendidos os demais requisitos de admissibilidade, e considerando que o processo foi baixado em diligência, retornando agora a este Conselho com relatório conclusivo, entendo que menor prejuízo será causado ao interesse público ao se adentrar o mérito do que ao não fazê lo. Assim, transcrevese abaixo o resultado da diligência efetuada: Fl. 64DF CARF MF Processo nº 10660.906077/201217 Acórdão n.º 3401004.176 S3C4T1 Fl. 6 5 Desta forma, voto por conhecer e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário, acolhendo integralmente o resultado da diligência." Registrese que a diligência efetuada em relação ao presente processo registrou a mesma conclusão quanto a indisponibilidade do crédito alegado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o colegiado negou provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 65DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.720784/2012-95
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Aug 09 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Oct 24 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007
CONCOMITÂNCIA. MULTA ISOLADA.
MULTA ISOLADA.
A multa isolada pune o contribuinte que não observa a obrigação legal de antecipar o tributo sobre a base estimada ou levantar o balanço de suspensão, logo, conduta diferente daquela punível com a multa de ofício proporcional, a qual é devida pela ofensa ao direito subjetivo de crédito da Fazenda Nacional.
Numero da decisão: 9101-003.013
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencido o conselheiro Luís Flávio Neto, que não conheceu do recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Lívia de Carli Germano (suplente convocada), que lhe negaram provimento. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pela conselheira Lívia de Carli Germano.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente
(assinado digitalmente)
Gerson Macedo Guerra - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Lívia de Carli Germano (suplente convocada para os impedimentos de conselheiros), Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: GERSON MACEDO GUERRA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2007 CONCOMITÂNCIA. MULTA ISOLADA. MULTA ISOLADA. A multa isolada pune o contribuinte que não observa a obrigação legal de antecipar o tributo sobre a base estimada ou levantar o balanço de suspensão, logo, conduta diferente daquela punível com a multa de ofício proporcional, a qual é devida pela ofensa ao direito subjetivo de crédito da Fazenda Nacional.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencido o conselheiro Luís Flávio Neto, que não conheceu do recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Lívia de Carli Germano (suplente convocada), que lhe negaram provimento. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pela conselheira Lívia de Carli Germano. (assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente (assinado digitalmente) Gerson Macedo Guerra - Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Lívia de Carli Germano (suplente convocada para os impedimentos de conselheiros), Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto.
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ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007 CONCOMITÂNCIA. MULTA ISOLADA. MULTA ISOLADA. A multa isolada pune o contribuinte que não observa a obrigação legal de antecipar o tributo sobre a base estimada ou levantar o balanço de suspensão, logo, conduta diferente daquela punível com a multa de ofício proporcional, a qual é devida pela ofensa ao direito subjetivo de crédito da Fazenda Nacional. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencido o conselheiro Luís Flávio Neto, que não conheceu do recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Lívia de Carli Germano (suplente convocada), que lhe negaram provimento. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pela conselheira Lívia de Carli Germano. (assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente (assinado digitalmente) Gerson Macedo Guerra Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 07 84 /2 01 2- 95 Fl. 1223DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Lívia de Carli Germano (suplente convocada para os impedimentos de conselheiros), Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto. Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto pela Fazenda Nacional contra o acórdão nº 1301001.503 através do qual o colegiado decidiu dar provimento ao recurso voluntário, por maioria, entendendo que não é cabível a cobrança de multa isolada quando já lançada a multa de ofício, no anocalendário 2007. Na origem, tratase de autuação para cobrança de IRPJ e CSLL, relativos ao anocalendário 2007, acrescidos de multa de ofício, multa isolada e juros de mora, sob o fundamento de que não foram oferecidos à tributação os valores da atualização dos títulos patrimoniais da BM&F quando do processo de desmutualização. A impugnação apresentada foi julgada parcialmente procedente, o que ensejou a interposição de Recurso Voluntário. A par disso, com o advento da Lei 12.865/2013 parte do valor discutido foi incluído em parcelamento, restando em discussão apenas a cobrança da multa isolada. No julgamento do Voluntário a Turma decidiu que não é cabível a cobrança de multa isolada quando já lançada a multa de ofício, conforme ementa e decisão abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007 CONCOMITÂNCIA. MULTA ISOLADA. Não é cabível a cobrança de multa isolada quando já lançada a multa de ofício. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros da 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária da Primeira Seção de Julgamento, 1) Por unanimidade de votos, recurso não conhecido em parte em virtude de desistência. 2) Quanto à parte conhecida (multa isolada): Por maioria de votos, dado provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Wilson Fernandes Guimarães e Paulo Jakson da Silva Lucas Cientificada da decisão a Fazenda Nacional opôs embargos de declaração, que não foram admitidos. Ato sequente, tempestivamente, foi apresentado Recurso Especial de divergência, alegando que enquanto que a Câmara a quo entende que não pode ser exigida a multa por lançamento de ofício e a multa isolada concomitantemente, a 2ª Turma Ordinária da 2º Câmara da 1ª Seção do CARF (Acórdão nº 1202000.964) e a 2ª Turma Ordinária da 3º Câmara da 1ª Seção do CARF (Acórdão nº 1302001.080) julgaram que ambas as multas Fl. 1224DF CARF MF Processo nº 16327.720784/201295 Acórdão n.º 9101003.013 CSRFT1 Fl. 1.224 3 podem ser exigidas simultaneamente, sem ofensa a qualquer dispositivo do Código Tributário Nacional, por se tratar de hipóteses legais distintas. Em suas razões, alega a Fazenda: · Que não há óbice de que sejam aplicadas ao contribuinte faltante, diante de duas infrações tributárias, duas penalidades que possuam a mesma base de cálculo. Ora, como se sabe, a base de calculo é elemento que apenas quantifica o imposto ou a penalidade tributária, não se confundindo com os fatos/atos que lhe dão origem. Assim, a penalidade tributária decorre sempre de um ato ilícito e a base de cálculo mensura o montante dessa penalidade; · O que a proibição do bis in idem pretende evitar é a dupla penalização por um mesmo ato ilícito, e não, propriamente a utilização de uma mesma medida de quantificação para penalidades diferentes, decorrentes do cometimento de atos ilícitos também diferentes; · Analisandose os autos, vêse que a aplicação da multa de ofício, prevista no art. 44, inc. I, da Lei 9.430/96, resultou falta de recolhimento de tributo (IRPJ e CSLL) por parte da empresa. A denominada multa isolada, fundada no art. 44, II, ‘b’ da Lei 9.430/96, foi aplicada em razão do descumprimento da sistemática de recolhimento por estimativa mensal da CSLL; · Que quanto à base de cálculo das duas penalidades, normalmente elas não são coincidentes. A multa de ofício incide sobre o tributo devido pela parte e que não foi recolhido no momento oportuno. Já a multa isolada deve ser calculada sobre as antecipações que não foram pagas pela empresa no decorrer do ano. Nem sempre o conjunto dessas antecipações equivalerá ao tributo cobrado. O Recurso da Fazenda foi admitido por despacho do presidente da Câmara. Cientificado, o Contribuinte apresentou contrarrazões. Em sua peça, o Contribuinte suscita o não conhecimento do Recurso da Fazenda Nacional, pelas seguintes razões: · Incompetência do auditor fiscal que elaborou o despacho de admissibilidade, ainda que o presidente da Câmara o tenha ratificado; · Que a súmula 105 é aplicável ao presente caso, mesmo se considerando a alteração do artigo 44, da Lei 9.430/96 pela Lei 11.488/2007; · Que o despacho de admissibilidade padece de erro em suas conclusões, na medida em que inicialmente confirma a comprovação do dissídio jurisprudencial, mas ao final conclui que não foram atendidos os pressupostos de admissibilidade do recurso. Fl. 1225DF CARF MF 4 Em seus fundamentos de mérito, alega o Contribuinte: · Que não se pode acolher a duplicidade de penalidades de ofício sobre uma mesma infração, posto que o valor tributado e que supostamente não foi recolhido, tanto fez parte do crédito tributário lançado de ofício e sobre o qual incidiu multa de 75% quanto foi utilizado a título de base de cálculo da multa isolada por falta de recolhimento de estimativa; · Tratase de dupla incidência sobre a mesma materialidade, pois o valor do pagamento mensal é exatamente a totalidade ou diferença do tributo incluído pela autoridade fiscal no cálculo do ajuste anual; · Que não é cabível cobrança da após o encerramento do ano calendário. É o relatório. Voto Conselheiro Gerson Macedo Guerra, Relator Diante do questionamento do contribuinte acerca do conhecimento do recurso da Fazenda Nacional, entendo pertinente tecer alguns comentários. Sobre a incompetência do servidor, entendo não caber razão ao contribuinte, haja vista que o ato administrativo de fato foi assinado pelo Presidente da Câmara, conforme determina o Regimento. Sobre a aplicação da súmula Carf 105 ao presente caso, entendo também não caber razão ao contribuinte, na medida em que a súmula foi publicada anteriormente à alteração do artigo 44, da Lei 9.430/96 pela Lei 11.488/07, que incluiu no inciso II, as alíneas "a" e "b" em referido artigo, prevendo nova multa, específica para o não recolhimento das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL recolhidos pelo Lucro Real Anual. Quando da edição da súmula, o §1º do artigo 44 em questão determinava a aplicação da mesma multa aplicável pela ausência de recolhimento do tributo, pa a ausência de recolhimento de estimativas mensais. Quanto ao alegado erro contido no despacho de admissibilidade, entendo também não haver razão o contribuinte. Tratase de mero erro material que não impacta na compreensão do quanto pretendido pela autoridade competente. Nesse contexto, conheço do recurso da Fazenda Nacional. Com relação ao mérito, entendo que merece reforma o Acórdão a quo. Adoto como razões de decidir o voto do Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior, proferido no acórdão 1302001.080, que ouso transcrever: Das condutas infracionais diferentes Fl. 1226DF CARF MF Processo nº 16327.720784/201295 Acórdão n.º 9101003.013 CSRFT1 Fl. 1.225 5 Ainda que aplicável fosse o princípio da consunção para solucionar conflitos aparentes de norma tributárias, não há no caso em tela qualquer conflito que justificasse a sua aplicação. Conforme já asseverado, o conflito aparente de normas ocorre quando duas ou mais normas podem aparentemente incidir sobre um mesmo fato, o que não ocorre in casu, já que temos duas situações fáticas diferentes: a primeira, o não recolhimento do tributo devido; a segunda, a não observância das normas do regime de recolhimento sobre bases estimadas. Ressaltese que o simples fato de alguém, optante pelo lucro real anual, deixar de recolher o IRPJ mensal sobre a base estimada não enseja per se a aplicação da multa isolada, pois esta multa só é aplicável quando, além de não recolher o IRPJ mensal sobre a base estimada, o contribuinte deixar de levantar balanço de suspensão, conforme dispõe o art. 35 da Lei nº 8.981/95. Assim, a multa isolada não decorre unicamente da falta de recolhimento do IRPJ mensal, mas da inobservância das normas que regem o recolhimento sobre bases estimadas, ou seja, do regime. Temos, então, duas situações fáticas diferentes, sob as quais incidem normas também diferentes. O art. 44 da Lei no 9.430/96 (na sua redação vigente à época do lançamento) já albergava várias normas, das quais vale pinçar as duas sub examine: a decorrente da combinação do inciso I do caput com o inciso I do § 1o aplicável por falta de pagamento do tributo; e a decorrente da combinação do inciso I do caput com o inciso IV do § 1º – aplicável pela não observância das normas do regime de recolhimento por estimativa. Ora, a norma prevista da combinação do inciso I do caput com o inciso I do § 1o do art. 44 jamais poderia ser aplicada pela falta de recolhimento do IRPJ sobre a base estimada, então, como se falar em consunção, para que esta absorva a norma prevista da combinação do inciso I do caput com o inciso IV do mesmo § 1º. Assim, demonstrado que temos duas situações fáticas diferentes, sob as quais incidem normas diferentes, resta irrefutável que não há unidade de conduta, logo não existe qualquer conflito aparente entre as normas dos incisos I e IV do § 1º do art. 44 e, consequentemente, indevida a aplicação do princípio da consunção no caso em tela. Noutro ponto, refuto os argumentos expendidos no acórdão recorrido, os quais concluem que a falta de recolhimento da estimativa mensal seria uma conduta menos grave, por atingir um bem jurídico secundário – que seria a antecipação do fluxo de caixa do governo. Conforme já demonstrado, a multa isolada é aplicável pela não observância do regime de recolhimento pela estimativa e a conduta que ofende tal regime jamais poderia ser tida como menos grave, já que põe em risco todo o sistema de recolhimento do IRPJ sobre o lucro real anual – pelo menos no formato desenhado pelo legislador. Fl. 1227DF CARF MF 6 Em verdade, a sistemática de antecipação dos impostos ocorre por diversos meios previstos na legislação tributária, sendo exemplos disto, alem dos recolhimentos por estimativa, as retenções feitas pelas fontes pagadoras e o recolhimento mensal obrigatório (carnêleão), feitos pelos contribuintes pessoas físicas. O que se tem, na verdade são diferentes formas e momentos de exigência da obrigação tributária. Todos esses instrumentos visam ao mesmo tempo assegurar a efetividade da arrecadação tributária e o fluxo de caixa para a execução do orçamento fiscal pelo governo, impondose igualmente a sua proteção (como bens jurídicos). Portanto, não há um bem menor, nem uma conduta menos grave que possa ser englobada pela outra, neste caso. Ademais, é um equívoco dizer que o não recolhimento do IRPJ estimada é uma ação preparatória para a realização da “conduta mais grave” – não recolhimento do tributo efetivamente devido no ajuste. O não pagamento de todo o tributo devido ao final do exercício pode ocorrer independente do fato de terem sido recolhidas as estimativas, pois o resultado final apurado não guarda necessariamente proporção com os valores devidos por estimativa. Ainda que o contribuinte recolha as antecipações, ao final pode ser apurado um saldo de tributo a pagar, com base no resultado do exercício. As infrações tributárias que ensejam a multa isolada e a multa de ofício nos casos em tela são autônomas. A ocorrência de uma delas não pressupõe necessariamente a existência da outra, logo inaplicável o princípio da consunção, já que não existe conflito aparente de normas. Das diferentes bases para cálculos das multas A tese de que as multas isolada e de ofício, no presente caso, estariam incidindo sobre a mesma base, também, não deve prosperar, seja porque as bases não são idênticas, seja porque, ainda que idênticas, o bis in idem só ocorreria se as duas sanções fossem aplicadas pela ocorrência da mesma conduta, o que já ficou demonstrado que não ocorre, se não vejamos. A multa isolada corresponde a um percentual do IRPJ calculado sobre a base estimada, na qual o valor das despesas e custos decorrem de uma estimativa legal, ou seja, o legislador quando determina a aplicação de um percentual sobre a receita bruta, para o cálculo da base estimada, está, em verdade, estimando custos e despesas. A multa de ofício, in casu, corresponde a um percentual sobre o IRPJ calculado sobre o lucro real, na qual se leva em conta as despesas e custos efetivamente incorridos. Em suma, se a base estimada difere do lucro real, se são valores distintos, inclusive com previsões legais distintas, os impostos delas resultantes são também valores distintos e, consequentemente, as multas ad valorem que incidem sobre elas, também, são valores que não se confundem. Todavia, ainda que as multas isolada e de ofício fossem calculadas sobre o IRPJ incidente sobre a mesma base de cálculo, isso não significaria um bis in idem, pois, como já asseverado acima, a ocorrência de uma infração não importa Fl. 1228DF CARF MF Processo nº 16327.720784/201295 Acórdão n.º 9101003.013 CSRFT1 Fl. 1.226 7 necessariamente na ocorrência da outra, o que torna irrefutável que as infrações decorrem de condutas diversas. O contribuinte pode ter recolhido todo o IRPJ devido sobre a base estimada em cada mês do anocalendário e não recolher a diferença calculada ao final do período, ficando sujeito assim a multa de ofício, mas não a multa isolada. Ao contrário, pode deixar de recolher o IRPJ sobre a base estimada, mas pagar, ao final do ano, todo o IRPJ sobre o lucro real, hipótese na qual só ficará sujeito à multa isolada. A definição da infração, da base de cálculo e do percentual da multa aplicável é matéria exclusiva de lei, nos termos do art. 97, V do CTN, não cabendo ao intérprete questionar se a dosimetria aplicada em tal e qual caso é adequada ou excessiva, a não ser que adentre a seara da sua constitucionalidade, o que está expressamente vedado pela Súmula CARF nº 2. Da redação original do art. 44, § 1o, IV, da Lei 9430/96 Aditese ainda, que o legislador dispôs expressamente, já na redação original do inciso IV do § 1o do art. 44, que é devida a multa isolada ainda que o contribuinte apure prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa ao final do ano, deixando claro, assim, que: a) primeiro, que estava se referindo ao imposto ou contribuição calculado sobre a base estimada, já que em caso de prejuízo fiscal e base negativa, não há falar em tributo devido no ajuste; e b) segundo, que o valor apurado como base de cálculo do tributo ao final do ano é irrelevante para se saber devida ou não a multa isolada; e c) terceiro, que a multa isolada é devida ainda que lançada após o encerramento do anocalendário, já que pode ser lançada mesmo após apurado prejuízo fiscal ou base negativa. Da negativa de vigência de lei federal Peço vênia aos meus pares, para expressar minha profunda discordância com as referidas posições adotadas por este Colegiado: Entendo que tais posicionamentos têm, em verdade, por via oblíqua, negado vigência a uma lei federal, pois afrontam literalmente o disposto nos art. 2º e 44, § 1º , IV, da Lei no 9.430/96 (vigente à época do lançamento) e no art. 35 da Lei 8.981/95. É demais imaginar que se coaduna com os mais comezinhos princípios do direito a permissão dada ao contribuinte, por tais decisões, para, em janeiro de um determinado anocalendário, decidir se obedece ou não o art. 2o e segs. da Lei no 9.430/96. Em outras palavras, os referidos posicionamentos deste Colegiado desnaturam a norma tributária tornandoa uma norma facultativa, já que a sua não observância não traz, à luz de tais posicionamentos, qualquer consequência jurídica. Fl. 1229DF CARF MF 8 Nesse contexto, voto por dar provimento ao Recurso da Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Gerson Macedo Guerra Fl. 1230DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16692.720090/2013-71
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Oct 26 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2008
COMPENSAÇÃO. GLOSA DE ESTIMATIVAS COBRADAS EM PER/DCOMP. DESCABIMENTO.
Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp), e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na Declaração de Informações Econômico-fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ).
Numero da decisão: 1401-001.987
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito creditório suplementar no valor originário de R$ 12.377.938,52 a título de saldo negativo de IRPJ para o ano-calendário de 2008, relativo a parcelas não homologadas das estimativas de janeiro, fevereiro, março, junho e setembro do mesmo ano, bem assim para realizar as compensações declaradas até o montante do valor reconhecido.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente.
(assinado digitalmente)
Guilherme Adolfo dos Santos Mendes - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Abel Nunes de Oliveira Neto, Daniel Ribeiro Silva e Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
Nome do relator: GUILHERME ADOLFO DOS SANTOS MENDES
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camara_s : Quarta Câmara
ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2008 COMPENSAÇÃO. GLOSA DE ESTIMATIVAS COBRADAS EM PER/DCOMP. DESCABIMENTO. Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp), e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na Declaração de Informações Econômico-fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ).
turma_s : Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
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secao_s : Primeira Seção de Julgamento
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito creditório suplementar no valor originário de R$ 12.377.938,52 a título de saldo negativo de IRPJ para o ano-calendário de 2008, relativo a parcelas não homologadas das estimativas de janeiro, fevereiro, março, junho e setembro do mesmo ano, bem assim para realizar as compensações declaradas até o montante do valor reconhecido. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente. (assinado digitalmente) Guilherme Adolfo dos Santos Mendes - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Abel Nunes de Oliveira Neto, Daniel Ribeiro Silva e Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
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GLOSA DE ESTIMATIVAS COBRADAS EM PER/DCOMP. DESCABIMENTO. Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp), e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na Declaração de Informações Econômicofiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito creditório suplementar no valor originário de R$ 12.377.938,52 a título de saldo negativo de IRPJ para o anocalendário de 2008, relativo a parcelas não homologadas das estimativas de janeiro, fevereiro, março, junho e setembro do mesmo ano, bem assim para realizar as compensações declaradas até o montante do valor reconhecido. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente. (assinado digitalmente) Guilherme Adolfo dos Santos Mendes Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 69 2. 72 00 90 /2 01 3- 71 Fl. 1576DF CARF MF 2 Santos Mendes, Abel Nunes de Oliveira Neto, Daniel Ribeiro Silva e Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa. Relatório Em relação às peças iniciais do presente feito, sirvome do relatório da autoridade a quo: A interessada transmitiu, em 24 de março de 2010, o Pedido de Restituição (PER/DCOMP) numerada 37237.44160.240310.1.2.025113, alegando dispor de direito creditório oriundo de saldo negativo de IRPJ – Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas – apurado no exercício de 2009. DESPACHO DECISÓRIO Tal PER/DCOMP foi examinado pela DRF de origem, que prolatou o Despacho Decisório de fls. 367 a 375, no qual se fizeram as seguintes ponderações: Da análise do crédito alegado Saldo Negativo de IRPJ AC 2008 O contribuinte declarou na Ficha 12A da DIPJ/2009 AC 008, que o Saldo Negativo de IRPJ é de R$ 31.838.417,60, conforme quadro a seguir: (...) [segue um quadro com a demonstração de diversas compensações de estimativa não homologadas ou homologadas parcialmente] Em face destas constatações, a DRF recalculou o saldo negativo de IRPJ como se vê abaixo: (...) [segue o recálculo e a justificativa para não aceitar as estimativas não homologadas ou a parte não homologada] MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE Ciente em 8 de novembro de 2013 (fl. 377), a interessada apresentou, em 27 de novembro de 2013, a manifestação de inconformidade de fls. 378 a 487, alegando o que a seguir se resume. Sob o título “II.1 Da Duplicidade da Cobrança”, a interessada relaciona diversas declarações de compensação e aduz: (...) [seguem diversas razões de ordem fática e jurídica contra os fundamentos da decisão] Da decisão de primeiro grau A Delegacia de Julgamento negou provimento à manifestação de inconformidade (fls. 14101419), por ausência de certeza e liquidez das estimativas, que Fl. 1577DF CARF MF Processo nº 16692.720090/201371 Acórdão n.º 1401001.987 S1C4T1 Fl. 1.577 3 compuseram o crédito. Isso porque as referidas estimativas foram compensadas, mas tais compensações não foram homologadas pela Receita Federal. É o relatório do essencial para o deslinde do feito. Voto Conselheiro Guilherme Adolfo dos Santos Mendes Relator A questão ora em disputa diz respeito ao reconhecimento de saldo negativo de IRPJ para o anocalendário de 2008, relativamente às parcelas de estimativa de janeiro fevereiro, março, junho e setembro haviam sido extintas por compensação, as quais, contudo, não foram homologadas ou foram parcialmente. Já julguei de forma similar à posição adotada pela DRJ. Sempre tive a convicção de que estimativas não podem ser lançadas, nem cobradas. Caso não recolhidas, a omissão deve ser punida com a multa isolada e repercutir no saldo negativo do período ou no tributo a recolher que, este sim, deve ser lançado relativamente à diferença não recolhida. Desse modo, uma compensação não homologada não poderia repercutir na formação do saldo negativo do período. Nada obstante, a Administração Tributária entende de modo diverso e efetivamente cobra estimativas declaradas em Dcomp não homologadas. Citese, nesse sentido o Parecer PGFN/CAT n.º 193/2013, cuja conclusão reproduzimos abaixo: CONCLUSÃO 22. Em síntese, os questionamentos levantados na consulta oriunda da Secretaria da Receita Federal do Brasil devem ser respondidos nos seguintes termos: a) Entendese pela possibilidade de cobrança dos valores decorrentes de compensação não homologada, cuja origem foi para extinção de débitos relativos a estimativa, desde que já tenha se realizado o fato que enseja a incidência do imposto de renda e a estimativa extinta na compensação tenha sido computada no ajuste; b) Propõese que sejam ajustados os sistemas e procedimentos para que fique claro que a cobrança não se trata de estimativa, mas de tributo, cujo fato gerador ocorreu ao tempo adequado e em relação ao qual foram contabilizados valores da compensação não homologada, a fim de garantir maior segurança no processo de cobrança. Em razão dessa premissa, tanto a Receita Federal do Brasil, quanto a Procuradoria da Fazenda Nacional já se manifestaram no sentido de a estimativa objeto de Fl. 1578DF CARF MF 4 compensação não homologada compensada possa compor o saldo negativo do período, conforme podemos constatar na Solução de Consulta Interna COSIT nº 18/2006 e no Parecer/PGFN/CAT nº 88/2014, cujas ementas transcrevo abaixo: Solução de Consulta Interna (SCI) Cosit n° 18, de 13 de outubro de 2006: Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Dcomp, e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na DIPJ. PARECER PGFN/CAT/Nº 88/2014: Imposto de Renda da Pessoa Jurídica – IRPJ. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL. Opção por tributação pelo lucro real anual. Apuração mensal dos tributos por estimativa. Lei nº 9.430, de 27.12.1996. Não pagamento das antecipações mensais. Inclusão destas em Declaração de Compensação (DCOMP) não homologada pelo Fisco. Conversão das estimativas em tributo após ajuste anual. Possibilidade de cobrança. A Câmara Superior de Recursos Fiscais também já assentou esse entendimento, conforme podemos constatar pela ementa do Acórdão nº 9101002.493, de 23/11/2016: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2006 COMPENSAÇÃO. GLOSA DE ESTIMATIVAS COBRADAS EM PER/DCOMP. DESCABIMENTO. Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp), e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na Declaração de Informações Econômicofiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ). Não há, pois, razão para a glosa das estimativas extintas por meio de compensação posteriormente não homologada. Abaixo, reproduzo quadro constante do despacho decisório e da decisão recorrida, acrescentando o total do crédito originariamente compensado: nº Dcomp Mês Valor em Dcomp Confirmado Justificativa 08105.44246.111208.1.7.105780 jan/08 112.495,56 112.495,56 Dcomp homologada 07161.07522.300408.1.7.109626 jan/08 919,43 919,43 Dcomp homologada 36728.23227.300408.1.7.107150 jan/08 351.484,09 351.484,09 Dcomp homologada 13344.71325.300408.1.7.103428 jan/08 169.535,69 169.535,69 Dcomp homologada 2774805602.111208.1.7.115400 jan/08 592.188,30 0 Dcomp não homologada 3592789272.300408.1.7.084808 jan/08 6.224,26 0 Dcomp não homologada 2589500904.270608.1.7.101481 jan/08 567,42 0 Dcomp não homologada 2716497327.050508.1.7.093644 jan/08 28.669,33 0 Dcomp não homologada Fl. 1579DF CARF MF Processo nº 16692.720090/201371 Acórdão n.º 1401001.987 S1C4T1 Fl. 1.578 5 2974261390.310308.1.3.025203 fev/08 950.638,74 0 Dcomp não homologada 3054498105.280408.1.3.027048 mar/08 675.600,86 0 Dcomp não homologada 0982894370.290408.1.3.114447 mar/08 5.464.568,76 2.499.968,07 Dcomp homologada parcialmente 2981849933.280408.1.3.024944 mar/08 455.179,58 26.278,97 Dcomp homologada parcialmente 2833951949.240708.1.3.083620 jun/08 1.412,43 0 Dcomp não homologada 1922608918.240708.1.3.114488 jun/08 7.174.724,07 3.898.002,07 Dcomp homologada parcialmente 2322065602.240708.1.3.106940 jun/08 1.557.668,94 846.274,67 Dcomp homologada parcialmente 2616887441.240708.1.3.107398 jun/08 783,29 0 Dcomp não homologada 0012961214.240708.1.3.094523 jun/08 6.508,94 0 Dcomp não homologada 2616361730.231008.1.3.110007 set/08 5.029.291,36 2.295.563,98 Dcomp homologada parcialmente Totais 22.578.461,05 10.200.522,53 Logo, o valor suplementar a ser reconhecido é de R$ 12.377.938,52 (R$ 22.578.461,05 R$ 10.200.522,53). Conclusão Por todo o exposto, voto para dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito creditório suplementar no valor originário de R$ 12.377.938,52 a título de saldo negativo de IRPJ para o anocalendário de 2008 e que é relativa a parcelas não homologadas das estimativas de janeiro, fevereiro, março, junho e setembro de 2008, bem como para realizar as compensações declaradas até o montante do valor reconhecido. (assinado digitalmente) Guilherme Adolfo dos Santos Mendes Fl. 1580DF CARF MF
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