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Numero do processo: 11080.735706/2017-16
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 25 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Mar 14 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2016
IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE - IRRF.
Do imposto apurado na Declaração de Ajuste Anual somente pode ser deduzido o imposto de renda efetivamente retido pela fonte pagadora, devidamente comprovado mediante documentação hábil e idônea, desde que relativo aos rendimentos incluídos na sua base de cálculo.
Numero da decisão: 2002-000.782
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencida a conselheira Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez que lhe deu provimento.
(assinado digitalmente)
Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente
(assinado digitalmente)
Mônica Renata Mello Fereira Stoll - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Fereira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: MONICA RENATA MELLO FERREIRA STOLL
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2016 IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE - IRRF. Do imposto apurado na Declaração de Ajuste Anual somente pode ser deduzido o imposto de renda efetivamente retido pela fonte pagadora, devidamente comprovado mediante documentação hábil e idônea, desde que relativo aos rendimentos incluídos na sua base de cálculo.
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Do imposto apurado na Declaração de Ajuste Anual somente pode ser deduzido o imposto de renda efetivamente retido pela fonte pagadora, devidamente comprovado mediante documentação hábil e idônea, desde que relativo aos rendimentos incluídos na sua base de cálculo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencida a conselheira Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez que lhe deu provimento. (assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente (assinado digitalmente) Mônica Renata Mello Fereira Stoll Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Fereira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 73 57 06 /2 01 7- 16 Fl. 103DF CARF MF Processo nº 11080.735706/201716 Acórdão n.º 2002000.782 S2C0T2 Fl. 100 2 Relatório Tratase de Notificação de Lançamento (efls. 04/07) lavrada em nome do sujeito passivo acima identificado, decorrente de procedimento de revisão de sua Declaração de Ajuste Anual do exercício 2016 (efls. 43/60), onde se apurou a Compensação Indevida de Imposto de Renda Retido na Fonte IRRF de R$ 4.459,97 referente à fonte pagadora Santos e Pellin Comércio de Móveis Ltda ME. O contribuinte apresentou impugnação (efls. 02/03, 08/09), cujas alegações foram sintetizadas no relatório do acórdão recorrido (efls. 67/68): que o valor contestado referese ao imposto de renda retido na fonte informado no comprovante de rendimentos fornecido pela fonte pagadora; que os rendimentos correspondentes foram devidamente oferecidos à tributação na Declaração de Ajuste Anual. que apresenta as informações relativas ao contrato de aluguel e afirma que contratou a Guarida Imóveis para administração do aluguel, sendo esta responsável pelas retenções do imposto de renda; que informa 50% dos rendimentos recebidos de aluguéis e sua esposa Leda Dalberto Toschi os outros 50%, de modo que a totalidade dos rendimentos são tributados; que foi efetuada a retenção do imposto de renda, conforme mencionado no informe de rendimentos; que comprovado que recebeu o valor líquido do aluguel é incabível a glosa do imposto de renda na Declaração de Ajuste Anual; que uma vez retida pelo locatário o valor do imposto de renda retido, não há que se falar em responsabilidade do locador; que os valores informados na Declaração de Ajuste Anual estão em conformidade com a legislação em vigor, não havendo, portanto, as divergências apuradas pela fiscalização; Traz à colação jurisprudência a seu favor. Solicita a prioridade do Estatuto do Idoso. A impugnação foi julgada procedente em parte pela 6ª Turma da DRJ/BSB, a qual restabeleceu o IRRF de R$ 3.559,33 (efls. 66/70). Cientificado do acórdão de primeira instância em 19/04/2018 (efls. 75), o interessado ingressou com Recurso Voluntário em 16/05/2018 (efls. 78/81) com os argumentos a seguir sintetizados. Fl. 104DF CARF MF Processo nº 11080.735706/201716 Acórdão n.º 2002000.782 S2C0T2 Fl. 101 3 Apresenta breve descrição das fases processuais. Insurgese contra a o reconhecimento da solidariedade entre as partes da relação jurídica de locação no tocante ao adimplemento de obrigação tributária não cumprida pela empresa que efetuava o pagamento do aluguel à pessoa física após a retenção da quantia correspondente ao Imposto de Renda. Expõe que, conforme se verifica nos documentos de retenção, está comprovado que o valor referente ao Imposto de Renda foi devidamente retido pela empresa locatária, sendo incabível a glosa na sua declaração de ajuste anual. Defende que, uma vez retida pelo locatário a quantia devida a título de Imposto de Renda, não há que se falar em responsabilidade do locador para recolhêla aos Cofres Públicos. Apresenta jurisprudência sobre o assunto. Destaca que, além dos comprovantes de retenção enviados pela imobiliária administradora das locações anexados à impugnação, juntou ao recurso os comprovantes de depósito bancário dos valores líquidos. Voto Conselheira Mônica Renata Mello Ferreira Stoll Relatora O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. No caso em tela a decisão recorrida manteve parcialmente a compensação indevida de IRRF apurada no lançamento por considerar insuficientes os documentos comprobatórios apresentados pelo sujeito passivo, conforme se extrai dos excertos a seguir reproduzidos (efls. 69/70): Em sede de impugnação, o contribuinte juntou aos autos o comprovante de rendimentos da fonte pagadora Santos e Pellin Comércio de Móveis Ltda, bem como a documentação da administradora de imóveis (fls. 1638). Inicialmente é importante ressaltar que os documentos emitidos pela administradora de imóvel são insuficientes para comprovar a retenção do imposto de renda. O comprovante de rendimentos da fonte pagadora Santos e Pellin Comércio de Móveis Ltda informa o IRRF de R$ 7.118,66 (fl. 16). A fonte pagadora não apresentou a Dirf em nome do contribuinte. Portanto, será considerado o imposto de renda retido na fonte de R$ 7.118,66. Fl. 105DF CARF MF Processo nº 11080.735706/201716 Acórdão n.º 2002000.782 S2C0T2 Fl. 102 4 Como o contribuinte informa 50% dos rendimentos de aluguéis, o imposto de renda retido na fonte corresponderá a R$ 3.559,33. Em seu Recurso Voluntário o contribuinte reitera que os documentos fornecidos pela administradora de Imóveis Guarida são suficientes para a comprovação do IRRF pleiteado e apresenta extratos bancários com o intuito de demonstrar o recebimento do aluguel líquido em alguns meses. Devese esclarecer, contudo, que a compensação de IRRF somente é permitida se os rendimentos correspondentes forem incluídos na base de cálculo do imposto apurado na Declaração de Ajuste Anual e se o contribuinte possuir comprovante da retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora, nos termos do art. 87 do Regulamento do Imposto de Renda RIR/99, aprovado pelo Decreto 3.000/99, o que não se verifica no presente caso. Ressaltese que a responsabilidade pela retenção do imposto de renda pertence à fonte pagadora e não à administradora de imóveis, cabendo a ela fornecer o respectivo comprovante. Os documentos acostados aos autos não são hábeis a demonstrar, de maneira inequívoca, que os rendimentos declarados para a Santos e Pellin Comércio de Móveis correspondem ao valor bruto recebido a titulo de aluguel e que este, de fato, sofreu a retenção de imposto de renda informada. Importa salientar que o que está sendo analisado neste processo é a comprovação da retenção do imposto pela fonte pagadora e não o recolhimento do mesmo após a sua retenção, ao contrário do que parece entender o recorrente. Assim, diante da ausência de comprovante de retenção emitido pela fonte pagadora e de DIRF apresentada pela mesma, e tendo em vista que a empresa foi baixada em 2016 conforme consulta ao sítio da RFB, não sendo possível a realização de diligência para confirmar as informações fornecidas pela administradora de imóveis, não há reparos a serem feitos na decisão recorrida. Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Mônica Renata Mello Fereira Stoll Fl. 106DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10314.010750/2005-22
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 20 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Apr 09 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Data do fato gerador: 12/04/2003
RECONHECIMENTO E CONCESSÃO DE ISENÇÃO OU REDUÇÃO DE IMPOSTO. COMPROVAÇÃO DE QUITAÇÃO DE TRIBUTOS E CONTRIBUIÇÕES NO DESPACHO ADUANEIRO DE IMPORTAÇÃO. OBRIGATORIEDADE.
O reconhecimento e a concessão de isenção ou redução de imposto são condicionados à comprovação pelo importador de que, no momento da importação, os tributos e contribuições federais estavam quitados, a não ser que lei disponha expressamente em sentido contrário.
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. RECOLHIMENTO A MAIOR QUE O DEVIDO. INOCORRÊNCIA.
Não cabe a restituição do imposto quando não está caracterizado o pagamento indevido ou a maior que o devido em face da legislação tributária aplicável.
Numero da decisão: 3002-000.666
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Larissa Nunes Girard - Presidente e Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Alberto da Silva Esteves, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Larissa Nunes Girard (Presidente). Ausente o conselheiro Alan Tavora Nem.
Nome do relator: LARISSA NUNES GIRARD
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Importação - II Data do fato gerador: 12/04/2003 RECONHECIMENTO E CONCESSÃO DE ISENÇÃO OU REDUÇÃO DE IMPOSTO. COMPROVAÇÃO DE QUITAÇÃO DE TRIBUTOS E CONTRIBUIÇÕES NO DESPACHO ADUANEIRO DE IMPORTAÇÃO. OBRIGATORIEDADE. O reconhecimento e a concessão de isenção ou redução de imposto são condicionados à comprovação pelo importador de que, no momento da importação, os tributos e contribuições federais estavam quitados, a não ser que lei disponha expressamente em sentido contrário. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. RECOLHIMENTO A MAIOR QUE O DEVIDO. INOCORRÊNCIA. Não cabe a restituição do imposto quando não está caracterizado o pagamento indevido ou a maior que o devido em face da legislação tributária aplicável.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard - Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Alberto da Silva Esteves, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Larissa Nunes Girard (Presidente). Ausente o conselheiro Alan Tavora Nem.
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REDUÇÃO. RESTITUIÇÃO. Recorrente CONTINENTAL BRASIL INDUSTRIA AUTOMOTIVA LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 12/04/2003 RECONHECIMENTO E CONCESSÃO DE ISENÇÃO OU REDUÇÃO DE IMPOSTO. COMPROVAÇÃO DE QUITAÇÃO DE TRIBUTOS E CONTRIBUIÇÕES NO DESPACHO ADUANEIRO DE IMPORTAÇÃO. OBRIGATORIEDADE. O reconhecimento e a concessão de isenção ou redução de imposto são condicionados à comprovação pelo importador de que, no momento da importação, os tributos e contribuições federais estavam quitados, a não ser que lei disponha expressamente em sentido contrário. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. RECOLHIMENTO A MAIOR QUE O DEVIDO. INOCORRÊNCIA. Não cabe a restituição do imposto quando não está caracterizado o pagamento indevido ou a maior que o devido em face da legislação tributária aplicável. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard Presidente e Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Alberto da Silva Esteves, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Larissa Nunes Girard (Presidente). Ausente o conselheiro Alan Tavora Nem. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 31 4. 01 07 50 /2 00 5- 22 Fl. 329DF CARF MF Processo nº 10314.010750/200522 Acórdão n.º 3002000.666 S3C0T2 Fl. 306 2 Relatório Trata este processo de solicitação de retificação da Declaração de Importação (DI) nº 03/03094495, para fins de aplicação da redução de 40% do Imposto de Importação (II), prevista na Lei nº 10.182/2001, uma vez que no momento do despacho aduaneiro a fiscalização aduaneira não aceitou o tratamento tributário requerido porque o contribuinte estava impossibilitado de apresentar certidão negativa em decorrência da existência de débitos, tendo sido a mercadoria desembaraçada com pagamento integral do imposto. A solicitação de retificação da DI está acompanhada de pedido de restituição de II no valor de R$ 717,61 (fls. 3 a 6). Os pedidos foram instruídos com cópia da DI, do comprovante de importação, do conhecimento de carga, da fatura, da nota fiscal de entrada, de livros contábeis, do contrato de câmbio, do Ofício Decex/CGME/Setel nº 17/2005 e de documentos de constituição e representação da empresa (fls. 7 a 34). A Inspetoria de São Paulo indeferiu o pedido de retificação porque o benefício foi solicitado após encerrado o despacho de importação e, segundo eles, inexistia disposição legal específica para a sua concessão sem a anuência da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) fls. 36 a 39. O contribuinte apresentou manifestação de inconformidade na qual alegou que foi compelida a recolher o tributo integralmente, por não ter CND à época do despacho aduaneiro, mas que havia solicitado; que já havia se habilitado perante a Secex e, portanto, era detentora do direito à redução de 40%; que era ilegal a exigência de Certidão Negativa de Débitos a cada importação; que a Administração teria acesso a esses dados, devendo providenciálos de ofício, em atendimento ao previsto no art. 37 da Lei nº 9.784/1999; e que a Secex era incompetente para autorizar retificação de DI (fls. 41 a 58). A IRF/São Paulo determinou o arquivamento do processo por intempestividade, com base no entendimento de que o pedido de retificação de DI estava regido pela Lei nº 9.784/1999, que prevê prazo de 10 dias para interposição de recurso. O contribuinte entrou com recurso administrativo à decisão e, diante de uma segunda negativa, teve provido mandado de segurança que determinou à Administração que recebesse e processasse regularmente uma série de manifestações de inconformidade semelhantes, dentre elas a deste processo. A IRF/São Paulo providenciou revisão no despacho decisório, para fins de saneamento dos autos, e encaminhou o processo para julgamento em primeira instância. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo proferiu o Acórdão nº 1721.879, por meio do qual negou provimento com os seguintes fundamentos: i) o tratamento tributário previsto na Lei nº 10.182/2001, conhecido por Regime Automotivo, consiste em benefício fiscal de caráter misto, vinculado à qualidade do importador (caráter subjetivo) e à destinação do bem (caráter objetivo), motivo pelo qual deve o contribuinte provar que atende às condições para sua fruição; ii) a exigência das CNDs tem amparo no art. 60 da Lei nº 9.069/1995, não se aplicando ao caso a solução Cosit de dispensa de CND, porque proferida para mercadorias isentas ou tributadas à alíquota zero (caráter exclusivamente objetivo); e iii) que a regularidade fiscal deve ser comprovada a cada importação, não sendo suficiente a habilitação inicial ao benefício (fls. 124 a 136). O Acórdão foi assim ementado: Fl. 330DF CARF MF Processo nº 10314.010750/200522 Acórdão n.º 3002000.666 S3C0T2 Fl. 307 3 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 12/04/2003 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO DE IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. ALEGAÇÃO DE RECOLHIMENTO A MAIOR POR NÃO UTILIZAÇÃO DA REDUÇÃO PREVISTA NA LEI 10.182/2001 (REGIME AUTOMOTIVO). NÃO RECONHECIDO O DIREITO CREDITÓRIO TENDO EM VISTA A NÃO COMPROVAÇÃO DE REGULARIDADE QUANDO AOS TRIBUTOS E CONTRIBUIÇÕES FEDERAIS À ÉPOCA DO FATO GERADOR. Conforme art. 165 da Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional), cabe restituição de tributos recolhidos indevidamente ou a maior que o devido. Não caracterizado o recolhimento como indevido ou a maior que o devido, não cabe a restituição do mesmo ao sujeito passivo. APRESENTAÇÃO DE CNDs POR OCASIÃO DO DESPACHO ADUANEIRO DE MERCADORIA BENEFICIADA POR ISENÇÃO / REDUÇÃO DE CARÁTER SUBJETIVO OU MISTO. A concessão ou reconhecimento de qualquer incentivo ou benefício fiscal de caráter subjetivo (vinculado à qualidade do importador) ou misto (vinculado tanto à qualidade e destinação da mercadoria quanto à qualidade do importador), relativos a tributos e contribuições administrados pela Receita Federal fica condicionada à comprovação pelo contribuinte, pessoa física ou jurídica, da quitação de tributos e contribuições federais, sendo cabível o disposto no artigo 60 da Lei n° 9.069, de 29 de junho de 1995. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido A recorrente apresentou Recurso Voluntário (fls. 140 a 153), no qual argumentou que precisa atender apenas e tão somente os requisitos previstos na Lei nº 10.182/2001 e que a exigência da CND a cada importação é ato arbitrário e ilegal, pois a Lei nº 9.069/1995 aplicase apenas à concessão ou reconhecimento do benefício fiscal, não sendo necessária sua reapresentação a cada operação de importação para a fruição do aludido benefício; que é inconcebível exigir que a recorrente apresente CND nos períodos nos quais está impossibilitada, uma vez que já preencheu os requisitos para usufruir do benefício; que compete à Administração providenciar as certidões de ofício, em atendimento ao previsto no art. 37 da Lei nº 9.784/1999; e juntou jurisprudência do STJ no sentido da ilegalidade da exigência de CND no desembaraço aduaneiro de drawback. O Recurso teve julgamento no CARF, mas o acórdão foi redigido por conselheiro ad hoc, tendo em vista que relatora deixou o Conselho sem formalizar seu voto. Decidiuse por anular os atos processuais a partir do acórdão recorrido, inclusive (fls. 170 a 174). O Acórdão nº 3101000.498 foi assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Fl. 331DF CARF MF Processo nº 10314.010750/200522 Acórdão n.º 3002000.666 S3C0T2 Fl. 308 4 Data do fato gerador: 12/04/2003 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL FEDERAL. PRINCÍPIOS ESPECÍFICOS. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. Em face do princípio da legalidade, é dever da autoridade administrativa a busca da verdade material, independentemente da versão oferecida pelas partes. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. As normas que regem o processo administrativo fiscal concedem ao contribuinte o direito de ver apreciada toda a matéria litigiosa em duas instâncias. Supressão de instância é fato caracterizador do cerceamento do direito de defesa. Nula é a decisão maculada com vício dessa natureza. Processo Anulado. Em cumprimento ao que foi decidido no CARF, a DRJ/São Paulo determinou a conversão do julgamento em diligência para que a autoridade preparadora verificasse, em seus próprios bancos de dados, a existência de tributos e/ou contribuições federais não quitados à época do fato gerador do imposto de importação objeto da lide (fls. 177 a 183). Da diligência resultou a informação de que não era possível verificar a existência de tributos e contribuições federais não quitados à época do fato gerador, mas apenas no momento presente (fls. 215 e 216). Cientificado da diligência, o interessado argumentou que, na ausência de comprovação de que era devedor e em não sendo apontado nenhum óbice para que pudesse fruir de benefício legalmente previsto, o pleito deveria ser deferido (fls. 240 a 246). A DRJ/São Paulo proferiu nova decisão (fls. 265 a 280), em que não reconheceu o direito creditório por entender que a certidão negativa de débito é exigência legal para fins de concessão da redução do imposto e não havia sido apresentada pela recorrente, que confessou ter débitos no momento do despacho. Em relação ao ônus probatório, apontou que neste caso deve o contribuinte fazer prova do que pleiteia, estando tal condição expressa no art. 60 da Lei nº 9.069/1995. O Acórdão nº 16079.642 foi assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 12/04/2003 REGIME AUTOMOTIVO. DESPACHO ADUANEIRO MERCADORIAS BENEFICIÁRIAS DA SEM MENCIONADA REDUÇÃO. Pleito da restituição do valor que entende recolhido a maior. Ao beneficiário de uma redução do tipo objetivo/subjetivo ou misto cabe o ônus da prova de sua regularidade junto à Fazenda Fl. 332DF CARF MF Processo nº 10314.010750/200522 Acórdão n.º 3002000.666 S3C0T2 Fl. 309 5 Pública, mediante apresentação de uma Certidão Negativa de Crédito. A própria Lei impede a inversão do ônus da prova. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido O contribuinte tomou ciência do Acórdão proferido pela DRJ em 05.09.2017, conforme Termo de Ciência por Abertura de Mensagem constante às fl. 285, e protocolizou seu recurso em 28.09.2017, conforme Termo de Solicitação de Juntada à fl. 286. Em seu Recurso Voluntário (fls. 288 a 301), a recorrente argumenta que sempre atendeu aos requisitos para aproveitamento do benefício; que a exigência da CND a cada importação é ato ilegal, pois não consta essa exigência do rol dos arts. 5º e 6º da Lei nº 10.182/2001; que a localização de documentos e informações sob sua responsabilidade é dever da Administração, não se tratando de inversão do ônus da prova; que obteve decisão favorável recentemente em outro processo de restituição semelhante; e, por fim, que deve ser aplicado ao caso o que foi decidido no julgamento do REsp nº 1.041.237/SP, objeto da Súmula 569, no sentido de que é indevida a exigência de nova certidão negativa de débito no momento do desembaraço, se já apresentada quando da concessão do regime de drawback. É o relatório. Voto Conselheira Larissa Nunes Girard Relatora O recurso voluntário é tempestivo, preenche os requisitos formais de admissibilidade, inclusive quanto à competência das Turmas Extraordinárias e, portanto, dele tomo conhecimento. Diferentemente dos demais processos do contribuinte sobre a mesma matéria que se julga conjuntamente, é ponto crucial neste caso a confissão do interessado de que, no momento do despacho aduaneiro, estava impossibilitado de emitir certidão negativa pela existência de débitos. Uma vez estabelecido que o contribuinte estava positivado no momento do desembaraço aduaneiro, situação informada e confirmada por ele em suas diversas manifestações ao longo deste processo, o cerne da discussão que vai se travar reside em definir se a apresentação da certidão negativa a cada operação de importação é condição para a aplicação da redução do imposto. A redução de alíquota do imposto de importação prevista na Lei nº 10.182/ 2001, específica para partes e peças de veículos, decorre das condições gerais estabelecidas para o Regime Automotivo por meio da Lei nº 9.449/1997, que fixa o teto da redução de partes em peças em até 90%. Com a publicação da Lei nº 10.182/2001, a redução ficou fixada em 40%. Portanto, deve ser entendida dentro desse contexto. Fl. 333DF CARF MF Processo nº 10314.010750/200522 Acórdão n.º 3002000.666 S3C0T2 Fl. 310 6 O Regime Automotivo segue uma sistemática bastante frequente nos benefícios fiscais concedidos na área aduaneira: ser composto de duas fases. A primeira, de habilitação do operador ao regime, consiste em demonstrar para o órgão competente que o importador atende aos requisitos para se utilizar do benefício – essa fase diz respeito, usualmente, ao atendimento a uma condição de caráter subjetivo. Esse órgão competente pode ser a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) ou a própria Secretaria da Receita Federal. No nosso caso específico, deve ser demonstrado, por exemplo, que o importador é fabricante ou montador de veículos ou, quando fabricante de autopeças, que mais de cinqüenta por cento do seu faturamento líquido anual é decorrente da venda desses produtos, destinados à montagem e fabricação de veículos. Cumpridos os requisitos para habilitação junto à Secex, o importador está apto a pleitear a redução de imposto sob o amparo da Lei nº 10.182/2001 quando fizer a importação de autopeças, apenas. Uma outra empresa, que não fosse habilitada nesta primeira fase, jamais poderia sequer pleitear a redução que ora se discute, pois o Siscomex não permitiria a indicação de redução do II com este fundamento. Pelo exposto, vêse que estar habilitado não significa a aquisição automática e perene da redução do imposto, independentemente da operação em curso, pois o atendimento das demais condições será aferido posteriormente, a cada entrada de mercadoria, o que nos leva à segunda fase, que compreende o reconhecimento e a concessão do benefício. Na segunda fase, que ocorre durante o despacho aduaneiro, caberá ao importador demonstrar para a Receita Federal que faz jus aos demais requisitos para o efetivo gozo do benefício fiscal. A fiscalização vai observar não somente os requisitos definidos na lei que instituiu o benefício fiscal como, por exemplo, verificar que não se trata de partes e peças para motocicleta, não contempladas pela Lei nº 10.182/2001, como também os requisitos gerais, definidos na legislação aduaneira e aplicáveis a qualquer isenção ou redução, salvo se lei específica expressamente dispensar o seu atendimento. A concessão da redução, como consequência do reconhecimento do direito, se expressa pelo desembaraço aduaneiro. É o momento em que a fiscalização aduaneira atesta que o importador atendeu ao previsto tanto na lei específica, que instituiu o benefício, quanto na legislação aduaneira, e pode dispor do bem pagando um tributo menor. Tal afirmação tem suporte no Decreto nº 4.543/2002 (Regulamento Aduaneiro – RA/2002), vigente à época dos fatos, do qual transcrevo a parte relativa a reconhecimento e concessão da isenção ou da redução: Do Reconhecimento da Isenção ou da Redução Art. 120. O reconhecimento da isenção ou da redução do imposto será efetivado, em cada caso, pela autoridade aduaneira, com base em requerimento no qual o interessado faça prova do preenchimento das condições e do cumprimento dos requisitos previstos em lei ou em contrato para sua concessão (Lei no5.172, de 1966, art. 179). § 1o O reconhecimento referido no caput não gera direito adquirido e será anulado de ofício, sempre que se apure que o beneficiário não satisfazia ou deixou de satisfazer as condições Fl. 334DF CARF MF Processo nº 10314.010750/200522 Acórdão n.º 3002000.666 S3C0T2 Fl. 311 7 ou não cumprira ou deixou de cumprir os requisitos para a concessão do benefício (Lei no 5.172, de 1966, art. 179, § 2o). § 2o A isenção ou a redução poderá ser requerida na própria declaração de importação. § 3o O requerimento de benefício fiscal incabível não acarreta a perda de benefício diverso. § 4o O Ministro de Estado da Fazenda disciplinará os casos em que se poderá autorizar o desembaraço aduaneiro, com suspensão do pagamento de impostos, de mercadoria objeto de isenção ou de redução concedida por órgão governamental ou decorrente de acordo internacional, quando o benefício estiver pendente de aprovação ou de publicação do respectivo ato regulamentador (Decretolei no 2.472, de 1988, art. 12). Art. 121. Na hipótese de não ser concedido o benefício fiscal pretendido, para a mercadoria declarada e apresentada a despacho aduaneiro, serão exigidos o imposto correspondente e os acréscimos legais cabíveis. Art. 122. As disposições desta Seção aplicamse, no que couber, a toda importação beneficiada com isenção ou com redução do imposto, salvo expressa disposição de lei em contrário. (grifado) Entendo que os artigos do RA/2002 não deixam dúvida sobre a correção do entendimento aqui exposto. Creio ser mais do que suficiente para rechaçar a interpretação confusa trazida pela recorrente em seu recurso. Prosseguindo, para verificar quais seriam as condições a serem atendidas para a aplicação da redução, vamos novamente nos socorrer do RA/2002, que dispõe longa e minuciosamente sobre o tratamento a ser dado às isenções e reduções do imposto de importação nos seus arts. 113 a 211. Da Seção I Das Disposições Preliminares, do Capítulo de Isenções e Reduções do Imposto do RA/2002, transcrevemos: Art. 113. Interpretase literalmente a legislação tributária que dispuser sobre a outorga de isenção ou de redução do imposto de importação (Lei no 5.172, de 1966, art. 111, inciso II). Art. 114. A isenção ou a redução do imposto somente será reconhecida quando decorrente de lei ou de ato internacional. Art. 115. Os bens objeto de isenção ou de redução do imposto, em decorrência de acordos internacionais firmados pelo Brasil, terão o tratamento tributário neles previsto (Lei no 8.032, de 1990, art. 6o). Art. 116. O tratamento aduaneiro decorrente de ato internacional aplicase exclusivamente à mercadoria originária do país beneficiário (Decretolei no 37, de 1966, art. 8o). § 1o Respeitados os critérios decorrentes de ato internacional de que o Brasil seja parte, temse por país de origem da mercadoria Fl. 335DF CARF MF Processo nº 10314.010750/200522 Acórdão n.º 3002000.666 S3C0T2 Fl. 312 8 aquele onde houver sido produzida ou, no caso de mercadoria resultante de material ou de mãodeobra de mais de um país, aquele onde houver recebido transformação substancial (Decretolei no 37, de 1966, art. 9o). § 2o Entendese por processo de transformação substancial o que conferir nova individualidade à mercadoria. Art. 117. Observadas as exceções previstas em lei ou neste Decreto, a isenção ou a redução do imposto somente beneficiará mercadoria sem similar nacional e transportada em navio de bandeira brasileira (Decretolei no 37, de 1966, art. 17, e Decretolei no 666, de 2 de julho de 1969, art. 2o). Art. 118. A concessão e o reconhecimento de qualquer incentivo ou benefício fiscal relativo ao imposto ficam condicionados à comprovação pelo contribuinte, pessoa física ou jurídica, da quitação de tributos e contribuições federais (Lei no 9.069, de 29 de junho de 1995, art. 60). Parágrafo único. O disposto no caput não se aplica às importações efetuadas pela União, pelos Estados, pelo Distrito Federal, pelos Territórios e pelos Municípios. (grifado) Especificamente dos arts. 118 e 119 acima, extraímos que a concessão de qualquer isenção ou redução é condicionada à comprovação de regularidade fiscal, de inexistência de similar nacional e de transporte do bem importado em navio de bandeira brasileira, a menos que a lei disponha de forma diversa. Em consonância com o ordenamento jurídico, a Lei nº 10.182/2001 apontou expressamente quais, dentre os requisitos gerais, não seriam aplicados na matéria por ela disciplinada, in verbis: Art. 5º O Imposto de Importação incidente na importação de partes, peças, componentes, conjuntos e subconjuntos, acabados e semiacabados, e pneumáticos fica reduzido em: ....................................................................................................... §2o O disposto nos arts. 17 e 18 do DecretoLei no 37, de 18 de novembro de 1966, e no DecretoLei no 666, de 2 de julho de 1969, não se aplica aos produtos importados nos termos deste artigo, objeto de declarações de importações registradas a partir de 7 de janeiro de 2000. (grifado) O § 2º acima referese à inexistência de similar nacional e ao transporte sob bandeira brasileira. Assim, dos três requisitos do regramento geral para concessão de redução, dois foram expressamente excluídos pela Lei, restando incólume a exigência de prova de quitação dos tributos e contribuições federais para a concessão da redução. A corroborar esse entendimento, temos que o próprio RA/2002, ao dispor sobre a redução de alíquota da Lei nº 10.182/2001, elencou tão somente a dispensa de similaridade e de bandeira brasileira. Seguem os trechos pertinentes: Fl. 336DF CARF MF Processo nº 10314.010750/200522 Acórdão n.º 3002000.666 S3C0T2 Fl. 313 9 Art. 136. É concedida a redução de quarenta por cento do imposto incidente sobre a importação de partes, peças, componentes, conjuntos e subconjuntos, acabados e semi acabados, e pneumáticos, destinados exclusivamente aos processos produtivos das empresas montadoras e dos fabricantes de (Lei no 10.182, de 12 de fevereiro de 2001, art. 5o e § 1o): ........................................................................................................ Art. 201. São dispensados da apuração de similaridade: ....................................................................................................... XII bens importados com a redução do imposto a que se refere o art. 136 (Lei no 10.182, de 12 de fevereiro de 2001, art. 5o e § 2o). ........................................................................................................ Art. 210. Respeitado o princípio de reciprocidade de tratamento, é obrigatório o transporte em navio de bandeira brasileira (Decretolei no 666, de 1969, art. 2o): ................................................................................................... § 3o São dispensados da obrigatoriedade de que trata o caput: I bens doados por pessoa física ou jurídica residente ou sediada no exterior; e II partes, peças, componentes, conjuntos e subconjuntos, acabados e semiacabados, e pneumáticos, beneficiados com a redução do imposto a que se refere o art. 136 (Lei no 10.182, de 2001, art. 5o). Dessa forma, entendo estar demonstrada a improcedência do argumento de que a exigência de CND a cada importação seria ilegal por não constar da Lei nº 10.182/2001 e que, deve sim, ser apresentada a cada operação de importação para a concessão do benefício. Quanto ao argumento de aplicação ao caso do REsp nº 1.041.237/SP e da Súmula 569, que definem como ilícita a exigência de CND no momento do despacho de importação de mercadorias amparadas por drawback, por certo que seriam vinculantes para este Colegiado se tratassem da mesma matéria deste processo. Contudo, tais decisões referem se a um regime aduaneiro especial, modalidade para a qual não há as mesmas exigências que a legislação impôs para a concessão de isenção e de redução de imposto. No regime aduaneiro especial, por regra geral o importador deve apresentar um termo de responsabilidade no despacho de importação. Inexiste a obrigação de apresentar CND, nem de se aferir a existência de similar nacional ou transportar sob bandeira brasileira. Drawback e redução de imposto são institutos diferentes. Tanto é assim que apenas um mês após a prolação do acórdão acima, o mesmo ministro relator decidiu no sentido que se adota neste voto, afirmando, inclusive, o direito de a Fazenda reter a mercadoria até que seja provada a regularidade fiscal. O REsp ao qual me refiro, REsp nº 1.074.121/SP, apesar de também não tratar de redução de imposto, Fl. 337DF CARF MF Processo nº 10314.010750/200522 Acórdão n.º 3002000.666 S3C0T2 Fl. 314 10 pode aqui ser aplicado, porque referese a isenção, instituto para o qual a legislação da tratamento similar à redução de imposto. Transcrevo sua ementa: TRIBUTÁRIO. PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. OMISSÃO ART. 535 DO CPC. INOCORRÊNCIA. IMPORTAÇÃO. MERCADORIA ISENTA DE IMPOSTO. DESEMBARAÇO. EXIGÊNCIA DE CND. RETENÇÃO DE MERCADORIA. MECANISMOS LEGAIS PARA CONCESSÃO DE ISENÇÃO E OBRIGAR A QUITAÇÃO DE TRIBUTOS. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE. 1. A isenção legal prevista no regramento da Lei 8.032/90, quanto ao imposto de importação, sofre condicionamentos especiais para sua concessão, frente às disposições trazidas pelas Leis 8.036/90, 8.212/91 e, principalmente, a Lei 9.069/95, no art. 60, in verbis: “A concessão ou reconhecimento de qualquer incentivo ou benefício fiscal, relativos a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal fica condicionada à comprovação pelo contribuinte, pessoa física ou jurídica, da quitação de tributos e contribuições federais”. 2. O princípio da legalidade informa que a exigência da CND pela autoridade fiscal para comprovar a regularidade tributária e conceder o benefício isentivo, ainda que em detrimento do desembaraço aduaneiro, encontra amparo no art. 194 e parágrafo único, da Norma Geral Tributária, in verbis: “Art. 194. A legislação tributária, observado o disposto nesta Lei, regulará, em caráter geral, ou especificamente em função da natureza do tributo de que se tratar, a competência e os poderes das autoridades administrativas em matéria de fiscalização da sua aplicação. Parágrafo único. A legislação a que se refere este artigo aplicase às pessoas naturais ou jurídicas, contribuintes ou não, inclusive às que gozem de imunidade tributária ou de isenção de caráter pessoal.” 3. O Código Tributário Nacional privilegia e confere mecanismos que possibilitem a administração fiscalizar e aplicar o regramento fiscal, objetivando o pagamento dos tributos, diante do regular exercício de competências que as autoridades administrativas recebem da legislação tributária. 4. A prova de regularidade fiscal é exigida somente dos interessados para a habilitação em licitações, convênios, acordos, ajustes etc., celebrados por órgãos e entidades da Administração, bem como para obtenção de favores creditícios, isenções, subsídios, auxílios, outorga ou concessão de serviços ou quaisquer outros benefícios a serem concedidos. (Precedente RESP 833.992/DF, julgado em 07.10.2008, DJ. 29.10.2008). Fl. 338DF CARF MF Processo nº 10314.010750/200522 Acórdão n.º 3002000.666 S3C0T2 Fl. 315 11 5. O acórdão recorrido, em sede de embargos de declaração, que enfrenta explicitamente a questão embargada não enseja recurso especial pela violação do artigo 535, II, do CPC. 6. Ademais, o magistrado não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos trazidos pela parte, desde que os fundamentos utilizados tenham sido suficientes para embasar a decisão. 7. Recurso Especial desprovido. Por fim, o contribuinte traz alegações sobre ônus da prova e o dever de a Administração providenciar as informações de que dispõe, mas, frente à admissão de que estava positivado, entendo que não faz sentido discutir a matéria. A única informação que interessa produzir já está nos autos, desde o início. Sem mencionar que está pacificado no CARF que o ônus probatório nos processos de restituição, ressarcimento e compensação pertence ao interessado. Registro que o relator não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos trazidos pela recorrente, desde que os fundamentos utilizados tenham sido suficientes para embasar a decisão. Conclusão Em não tendo sido atendido requisito indispensável para o reconhecimento do direito à redução do imposto de importação, concluo pela inexistência de pagamento indevido e pela improcedência do pedido de restituição. Com essas considerações, nego provimento ao Recurso Voluntário. É como voto. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard Fl. 339DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.001006/2007-15
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 14 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri Mar 29 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2002, 2003
AUTO DE INFRAÇÃO. LOCAL DE VERIFICAÇÃO DA FALTA. LAVRATURA. NULIDADE. INEXISTÊNCIA.
1. O art. 10 do Decreto 70.235/1972 preleciona que o auto de infração será lavrado no local da verificação da falta.
2. O local de verificação da falta não significa o local de ocorrência do fato gerador da obrigação, tampouco a localidade em que a infração foi praticada, mas sim onde ela foi constatada pelo agente fiscal.
3. Súmula CARF nº 6: É legítima a lavratura de auto de infração no local em que foi constatada a infração, ainda que fora do estabelecimento do contribuinte.
DIREITO AO SIGILO BANCÁRIO. LEI COMPLEMENTAR 105/2001. REQUISITOS OBJETIVOS. TRASLADO DO DEVER DE SIGILO DA ESFERA BANCÁRIA PARA A FISCAL. STF. REPERCUSSÃO GERAL. RICARF. DEVER DE REPRODUÇÃO.
1. O Supremo Tribunal Federal, em recurso extraordinário com repercussão geral, decidiu que o art. 6º da Lei Complementar 105/01 estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal, não sendo inconstitucional.
2. O § 2º do art. 62 do RICARF determina que as decisões de mérito proferidas pelo Supremo, com repercussão geral, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF.
IMPOSTO DE RENDA. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. COMPROVAÇÃO DA ORIGEM. ÔNUS PROBATÓRIO DO SUJEITO PASSIVO.
O art. 42 da Lei 9.430/1996 cria um ônus em face do contribuinte, consistente em demonstrar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em conta de depósito ou de investimento mantida em instituição financeira. O consequente normativo resultante do descumprimento desse dever é a presunção de que tais recursos não foram oferecidos à tributação, tratando-se, pois, de receita ou rendimento omitido.
Numero da decisão: 2402-007.112
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Denny Medeiros da Silveira - Presidente
(assinado digitalmente)
João Victor Ribeiro Aldinucci - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Denny Medeiros da Silveira, Luis Henrique Dias Lima, João Victor Ribeiro Aldinucci, Paulo Sergio da Silva, Wilderson Botto (Suplente Convocado), Mauricio Nogueira Righetti, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior.
Nome do relator: JOAO VICTOR RIBEIRO ALDINUCCI
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2002, 2003 AUTO DE INFRAÇÃO. LOCAL DE VERIFICAÇÃO DA FALTA. LAVRATURA. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. 1. O art. 10 do Decreto 70.235/1972 preleciona que o auto de infração será lavrado no local da verificação da falta. 2. O local de verificação da falta não significa o local de ocorrência do fato gerador da obrigação, tampouco a localidade em que a infração foi praticada, mas sim onde ela foi constatada pelo agente fiscal. 3. Súmula CARF nº 6: É legítima a lavratura de auto de infração no local em que foi constatada a infração, ainda que fora do estabelecimento do contribuinte. DIREITO AO SIGILO BANCÁRIO. LEI COMPLEMENTAR 105/2001. REQUISITOS OBJETIVOS. TRASLADO DO DEVER DE SIGILO DA ESFERA BANCÁRIA PARA A FISCAL. STF. REPERCUSSÃO GERAL. RICARF. DEVER DE REPRODUÇÃO. 1. O Supremo Tribunal Federal, em recurso extraordinário com repercussão geral, decidiu que o art. 6º da Lei Complementar 105/01 estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal, não sendo inconstitucional. 2. O § 2º do art. 62 do RICARF determina que as decisões de mérito proferidas pelo Supremo, com repercussão geral, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. IMPOSTO DE RENDA. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. COMPROVAÇÃO DA ORIGEM. ÔNUS PROBATÓRIO DO SUJEITO PASSIVO. O art. 42 da Lei 9.430/1996 cria um ônus em face do contribuinte, consistente em demonstrar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em conta de depósito ou de investimento mantida em instituição financeira. O consequente normativo resultante do descumprimento desse dever é a presunção de que tais recursos não foram oferecidos à tributação, tratando-se, pois, de receita ou rendimento omitido.
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DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA Recorrente JEAN WAGNER CABRAL Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2002, 2003 AUTO DE INFRAÇÃO. LOCAL DE VERIFICAÇÃO DA FALTA. LAVRATURA. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. 1. O art. 10 do Decreto 70.235/1972 preleciona que o auto de infração será lavrado no local da verificação da falta. 2. O local de verificação da falta não significa o local de ocorrência do fato gerador da obrigação, tampouco a localidade em que a infração foi praticada, mas sim onde ela foi constatada pelo agente fiscal. 3. Súmula CARF nº 6: É legítima a lavratura de auto de infração no local em que foi constatada a infração, ainda que fora do estabelecimento do contribuinte. DIREITO AO SIGILO BANCÁRIO. LEI COMPLEMENTAR 105/2001. REQUISITOS OBJETIVOS. TRASLADO DO DEVER DE SIGILO DA ESFERA BANCÁRIA PARA A FISCAL. STF. REPERCUSSÃO GERAL. RICARF. DEVER DE REPRODUÇÃO. 1. O Supremo Tribunal Federal, em recurso extraordinário com repercussão geral, decidiu que o art. 6º da Lei Complementar 105/01 estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal, não sendo inconstitucional. 2. O § 2º do art. 62 do RICARF determina que as decisões de mérito proferidas pelo Supremo, com repercussão geral, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. IMPOSTO DE RENDA. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. COMPROVAÇÃO DA ORIGEM. ÔNUS PROBATÓRIO DO SUJEITO PASSIVO. O art. 42 da Lei 9.430/1996 cria um ônus em face do contribuinte, consistente em demonstrar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em conta de depósito ou de investimento mantida em AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 10 06 /2 00 7- 15 Fl. 579DF CARF MF Processo nº 19515.001006/200715 Acórdão n.º 2402007.112 S2C4T2 Fl. 580 2 instituição financeira. O consequente normativo resultante do descumprimento desse dever é a presunção de que tais recursos não foram oferecidos à tributação, tratandose, pois, de receita ou rendimento omitido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira Presidente (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Denny Medeiros da Silveira, Luis Henrique Dias Lima, João Victor Ribeiro Aldinucci, Paulo Sergio da Silva, Wilderson Botto (Suplente Convocado), Mauricio Nogueira Righetti, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto em face de decisão que julgou improcedente a impugnação apresentada contra lançamento suplementar de IRPF, constituído em face de alegada omissão de rendimentos, decorrente de valores creditados em conta de depósito ou investimento, cuja origem não teria sido comprovada mediante a apresentação de documentação hábil e idônea. Segue a ementa da decisão: Exercício: 2003, 2004 LOCAL DA VERIFICAÇÃO DA FALTA. É legitima a lavratura de Auto de Infração fora do domicilio do fiscalizado. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. FALTA DE COMPROVAÇÃO DO NEXO CAUSAL. A Lei n° 9430/96, que teve vigência a partir de 01/01/1997, estabeleceu, em seu art. 42, uma presunção legal de omissão de rendimentos que autoriza o lançamento do imposto correspondente quando o titular da conta bancária não comprovar, mediante documentação hábil e idônea, a origem Fl. 580DF CARF MF Processo nº 19515.001006/200715 Acórdão n.º 2402007.112 S2C4T2 Fl. 581 3 dos valores depositados em sua conta de depósito ou investimento. O ônus legal desta comprovação cabe ao contribuinte, que detêm o conhecimento das operações financeiras, que deram origem aos créditos porventura ocorrido na sua contabancária. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. EXTENSÃO. As decisões administrativas, inclusive as proferidas pelo Conselho de Contribuintes, e as judiciais, a exceção daquelas proferidas pelo STF sobre a inconstitucionalidade de normas legais, não têm caráter de norma geral, razão pela qual seus julgados não se aproveitam em relação em relação a qualquer outra ocorrência senão Aquela objeto da decisão. APRESENTAÇÃO DE PROVAS A prova documental deve ser apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; refirase a fato ou a direito superveniente ou destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. O sujeito passivo foi intimado da decisão em 03/09/2009, através de correspondência com aviso de recebimento (fl. 487 do pdf) e interpôs recurso voluntário em 14/09/2009 (fls. 489 e seguintes), no qual reafirmou as seguintes de teses de defesa: a lavratura do auto fora do domicílio do fiscalizado é ilegal; o auditor ignorou a Súmula 182 do TFR e constituiu o crédito com base em mera presunção; o arbitramento da base de cálculo baseado em depósitos não é prova absoluta; não houve pesquisa ou investigação que demonstrasse preocupação em provas os fatos alegados, citandose o art. 5º, incs. LV e LVI, da Constituição Federal; deve ser comprovado o nexo causal entre o depósito e o fato omissão de receita. Sem contrarrazões ou manifestação pela Procuradoria. É o relatório. Voto Conselheiro João Victor Ribeiro Aldinucci Relator Fl. 581DF CARF MF Processo nº 19515.001006/200715 Acórdão n.º 2402007.112 S2C4T2 Fl. 582 4 1. Conhecimento O recurso voluntário é tempestivo, visto que interposto dentro do prazo legal de trinta dias, e estão presentes os demais requisitos de admissibilidade, devendo, portanto, ser conhecido. 2. Do local da lavratura do auto O recorrente afirma que a lavratura do auto fora do seu domicílio seria ilegal. Todavia, o art. 10 do Decreto 70235/72 preleciona que o auto de infração será lavrado no local da verificação da falta. Vejase: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: Ao contrário do que alega o recorrente, o local de verificação da falta não significa o local de ocorrência do fato gerador da obrigação, tampouco a localidade em que a infração foi praticada ou onde reside o sujeito passivo, mas sim onde ela foi constatada pelo agente fiscal. Isto é, a verificação da ilegalidade pode ocorrer dentro da própria repartição, sendo aplicável ao caso o verbete sumular CARF nº 6. Vejase: Súmula CARF nº 6: É legítima a lavratura de auto de infração no local em que foi constatada a infração, ainda que fora do estabelecimento do contribuinte. Ademais, entendo não ter havido cerceamento ao direito de defesa do contribuinte, sobretudo porque a ação fiscal foi conduzida por servidor competente, que concedeulhe os prazos legais para a apresentação de documentos e prestação de esclarecimentos; a autuação foi devidamente motivada e foi concedido ao sujeito passivo o prazo legal para a formulação de impugnação; a autuação ainda contém clara descrição do fato gerador da obrigação, da matéria tributável, do montante do tributo devido, da identificação do sujeito passivo e da penalidade aplicável; não houve nenhum prejuízo para os direitos de defesa e do contraditório da recorrente, que puderam ser exercidos na forma e no prazo legal. Nesse contexto, a preliminar de nulidade deve ser rejeitada. 3. Da ilicitude da prova Ainda que de forma não categórica, o recorrente sugere que o auto de infração estaria lastreado em prova ilícita. Sem razão o contribuinte. O § 2º do art. 62 do Regimento Interno deste Conselho RICARF determina que as decisões de mérito proferidas pelo STF e pelo STJ, na sistemática dos arts. 543B e 543C do CPC/73, ou dos arts. 1.036 a 1.041 do CPC vigente, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos. Até pelo uso do verbo (deverão), vêse que se trata de norma cogente, de aplicação obrigatória por parte deste Conselho. Fl. 582DF CARF MF Processo nº 19515.001006/200715 Acórdão n.º 2402007.112 S2C4T2 Fl. 583 5 Essa matéria, reiteradamente debatida no Judiciário e no CARF, foi solucionada definitivamente pelo STF por ocasião do julgamento do RE 601.314, com repercussão geral, Rel. Min. Edson Fachin, tema 225, redigido nos seguintes termos: Tema 225 a) Fornecimento de informações sobre movimentações financeiras ao Fisco sem autorização judicial, nos termos do art. 6º da Lei Complementar nº 105/2001; b) Aplicação retroativa da Lei nº 10.174/2001 para apuração de créditos tributários referentes a exercícios anteriores ao de sua vigência. Como se vê, o citado tema trata exatamente da matéria suscitada pelo recorrente. Naquele recurso extraordinário, a Suprema Corte decidiu que "o art. 6º da Lei Complementar 105/01 não ofende o direito ao sigilo bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio da capacidade contributiva, bem como estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal". Segue a ementa do julgado: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL. DIREITO TRIBUTÁRIO. DIREITO AO SIGILO BANCÁRIO. DEVER DE PAGAR IMPOSTOS. REQUISIÇÃO DE INFORMAÇÃO DA RECEITA FEDERAL ÀS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. ART. 6º DA LEI COMPLEMENTAR 105/01. MECANISMOS FISCALIZATÓRIOS. APURAÇÃO DE CRÉDITOS RELATIVOS A TRIBUTOS DISTINTOS DA CPMF. PRINCÍPIO DA IRRETROATIVIDADE DA NORMA TRIBUTÁRIA. LEI 10.174/01. 1. O litígio constitucional posto se traduz em um confronto entre o direito ao sigilo bancário e o dever de pagar tributos, ambos referidos a um mesmo cidadão e de caráter constituinte no que se refere à comunidade política, à luz da finalidade precípua da tributação de realizar a igualdade em seu duplo compromisso, a autonomia individual e o autogoverno coletivo. 2. Do ponto de vista da autonomia individual, o sigilo bancário é uma das expressões do direito de personalidade que se traduz em ter suas atividades e informações bancárias livres de ingerências ou ofensas, qualificadas como arbitrárias ou ilegais, de quem quer que seja, inclusive do Estado ou da própria instituição financeira. 3. Entendese que a igualdade é satisfeita no plano do autogoverno coletivo por meio do pagamento de tributos, na medida da capacidade contributiva do contribuinte, por sua vez vinculado a um Estado soberano comprometido com a satisfação das necessidades coletivas de seu Povo. 4. Verificase que o Poder Legislativo não desbordou dos parâmetros constitucionais, ao exercer sua relativa liberdade de conformação da ordem jurídica, na medida em que estabeleceu requisitos objetivos para a requisição de informação pela Administração Tributária às instituições financeiras, assim como manteve o sigilo dos dados a respeito das transações financeiras do contribuinte, observandose um translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal. 5. A alteração na ordem jurídica promovida pela Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, uma vez que aquela se encerra na atribuição de competência administrativa à Fl. 583DF CARF MF Processo nº 19515.001006/200715 Acórdão n.º 2402007.112 S2C4T2 Fl. 584 6 Secretaria da Receita Federal, o que evidencia o caráter instrumental da norma em questão. Aplicase, portanto, o artigo 144, §1º, do Código Tributário Nacional. 6. Fixação de tese em relação ao item “a” do Tema 225 da sistemática da repercussão geral: “O art. 6º da Lei Complementar 105/01 não ofende o direito ao sigilo bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio da capacidade contributiva, bem como estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal”. 7. Fixação de tese em relação ao item “b” do Tema 225 da sistemática da repercussão geral: “A Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, tendo em vista o caráter instrumental da norma, nos termos do artigo 144, §1º, do CTN”. 8. Recurso extraordinário a que se nega provimento.(RE 601314, Relator(a): Min. EDSON FACHIN, Tribunal Pleno, julgado em 24/02/2016, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe198 DIVULG 15 092016 PUBLIC 16092016) Eis, ainda, o conteúdo da decisão prolatada: O Tribunal, por maioria e nos termos do voto do Relator, apreciando o tema 225 da repercussão geral, conheceu do recurso e a este negou provimento, vencidos os Ministros Marco Aurélio e Celso de Mello. Por maioria, o Tribunal fixou, quanto ao item “a” do tema em questão, a seguinte tese: “O art. 6º da Lei Complementar 105/01 não ofende o direito ao sigilo bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio da capacidade contributiva, bem como estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal”; e, quanto ao item “b”, a tese: “A Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, tendo em vista o caráter instrumental da norma, nos termos do artigo 144, §1º, do CTN”, vencidos os Ministros Marco Aurélio e Celso de Mello. Ausente, justificadamente, a Ministra Cármen Lúcia. Presidiu o julgamento o Ministro Ricardo Lewandowski. Plenário, 24.02.2016. A análise do tema, da ementa e do acórdão do recurso extraordinário demonstram que o caso julgado sob o regime da repercussão geral é idêntico ao dos autos. Em sendo assim, deve ser aplicado o art. 62, § 2o, do RICARF, aprovado pela Portaria MF n° 343/2015, para desprover o recurso neste tópico. 4. Dos depósitos bancários de origem não comprovada Neste ponto, o recurso voluntário reafirma as seguintes teses de defesa: o auditor ignorou a Súmula 182 do TFR e constituiu o crédito com base em mera presunção; o arbitramento da base de cálculo baseado em depósitos não é prova absoluta; Fl. 584DF CARF MF Processo nº 19515.001006/200715 Acórdão n.º 2402007.112 S2C4T2 Fl. 585 7 não houve pesquisa ou investigação que demonstrasse preocupação em provas os fatos alegados, citandose o art. 5º, incs. LV e LVI, da Constituição Federal; deve ser comprovado o nexo causal entre o depósito e o fato omissão de receita. Tais argumentações, contudo, não afastam o lançamento. O art. 42 da Lei 9.430/1996 cria um ônus em face do contribuinte, consistente em demonstrar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em conta de depósito ou de investimento mantida em instituição financeira. O consequente normativo resultante do descumprimento desse dever é a presunção de que tais recursos não foram oferecidos à tributação, tratandose, pois, de receitas ou rendimentos omitidos. Tal disposição legal é de cunho eminentemente probatório e afasta a possibilidade de acatarse afirmações genéricas e imprecisas. A comprovação da origem, portanto, deve ser feita de forma minimamente individualizada, a fim de permitir a mensuração e a análise da coincidência entre as origens e os valores creditados em conta bancária. O § 3º do citado artigo, ao prever que os créditos serão analisados individualizadamente, corrobora a afirmação acima e não estabelece, para o Fisco, a necessidade de comprovar o acréscimo de riqueza nova por parte do fiscalizado. A título ilustrativo, segue o texto da regra: Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. §1º O valor das receitas ou dos rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. §2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. §3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 1.000,00 (mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano Fl. 585DF CARF MF Processo nº 19515.001006/200715 Acórdão n.º 2402007.112 S2C4T2 Fl. 586 8 calendário, não ultrapasse o valor de R$ 12.000,00 (doze mil reais). (Vide Lei nº 9.481, de 19971) §4º Tratandose de pessoa física, os rendimentos omitidos serão tributados no mês em que considerados recebidos, com base na tabela progressiva vigente à época em que tenha sido efetuado o crédito pela instituição financeira. § 5o Quando provado que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem a terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento.(Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) § 6o Na hipótese de contas de depósito ou de investimento mantidas em conjunto, cuja declaração de rendimentos ou de informações dos titulares tenham sido apresentadas em separado, e não havendo comprovação da origem dos recursos nos termos deste artigo, o valor dos rendimentos ou receitas será imputado a cada titular mediante divisão entre o total dos rendimentos ou receitas pela quantidade de titulares.(Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) O art. 4º da Lei 9.481/1997 alterou os valores a que se refere o inc. II do § 3º acima para R$ 12.000,00 e R$ 80.000,00, respectivamente. Na mesma toada, a Súmula CARF nº 612. A não comprovação da origem dos recursos viabiliza a aplicação da norma presuntiva, caracterizando tais recursos como receitas ou rendimentos omitidos. Destarte, e de acordo com a regra legal, não é que os depósitos bancários, por si só, caracterizam disponibilidade de rendimentos, mas sim os depósitos cujas origens não foram comprovadas em processo regular de fiscalização. Expressandose de outra forma, o sujeito passivo pode comprovar que o recurso é atinente a venda de imóveis ou recebimento de prólabore e lucros, etc. Não o fazendo, aplicase o consequentemente normativo da presunção, com a consequente constituição do crédito tributário dela decorrente. O verbete sumular CARF 26 preceitua o seguinte: Súmula CARF nº 26: A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. 1 Art. 4º Os valores a que se refere o inciso II do § 3º do art. 42 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, passam a ser de R$ 12.000,00 (doze mil reais) e R$ 80.000,00 (oitenta mil reais), respectivamente. 2 Súmula CARF nº 61: Os depósitos bancários iguais ou inferiores a R$ 12.000,00 (doze mil reais), cujo somatório não ultrapasse R$ 80.000,00 (oitenta mil reais) no anocalendário, não podem ser considerados na presunção da omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada, no caso de pessoa física. Fl. 586DF CARF MF Processo nº 19515.001006/200715 Acórdão n.º 2402007.112 S2C4T2 Fl. 587 9 O Superior Tribunal de Justiça reconhece a legalidade do imposto cobrado com base no art. 42, como se vê no precedente abaixo, não havendo que se cogitar de violação ao disposto no art. 5º, incs. LV e LVI, da Constituição Federal: TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. ALEGAÇÕES GENÉRICAS DE OFENSA AO ART. 535 DO CPC. SÚMULA 284/STF. IMPOSTO DE RENDA. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. ART. 42 DA LEI 9.430/1996. LEGALIDADE. DECADÊNCIA. TERMO INICIAL. AUSÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. INCIDÊNCIA DO ART. 173, I, DO CTN. [...] 4. A jurisprudência do STJ reconhece a legalidade do lançamento do imposto de renda com base no art. 42 da Lei 9.430/1996, tendo assentado que cabe ao contribuinte o ônus de comprovar a origem dos recursos a fim de ilidir a presunção de que se trata de renda omitida (AgRg no REsp 1.467.230/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 28.10.2014; AgRg no AREsp 81.279/MG, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 21.3.2012). [...] (AgRg no AREsp 664.675/RN, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 05/05/2015, DJe 21/05/2015) Mais ainda, aquele Tribunal Superior vem consignando a inaplicabilidade da Súmula 182/TFR, que preconizava a ilegitimidade do imposto lançado com base em extratos bancários (EDcl no AgRg no REsp 1343926/PR, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 04/12/2012, DJe 13/12/2012 e REsp 792.812/RJ, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 13/03/2007, DJ 02/04/2007, p. 242). Portanto, e também neste particular, o recurso deve ser desprovido. 5. Conclusão Diante do exposto, voto no sentido de conhecer e negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Fl. 587DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16327.720751/2014-15
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 21 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri Mar 29 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Exercício: 2009, 2010, 2011, 2012
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PRINCÍPIO DA DECORRÊNCIA. APLICAÇÃO.
Tratando-se de lançamento reflexo, qual seja, calcado nas mesmas infrações autuadas em outro processo, dito principal, cumpre aplicar no julgamento deste o princípio da decorrência, repercutindo a mesma decisão daquele quanto ao mérito.
Numero da decisão: 1402-003.754
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário. O Conselheiro Paulo Mateus Ciccone manifestou interesse em apresentar declaração de voto.
(assinado digitalmente)
Edeli Pereira Bessa - Presidente.
(assinado digitalmente)
MARCO ROGÉRIO BORGES - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Evandro Correa Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado) e Edeli Pereira Bessa. Ausente o conselheiro Caio Cesar Nader Quintella, substituído pelo conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues.
Nome do relator: Marco Rogério Borges
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Exercício: 2009, 2010, 2011, 2012 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PRINCÍPIO DA DECORRÊNCIA. APLICAÇÃO. Tratandose de lançamento reflexo, qual seja, calcado nas mesmas infrações autuadas em outro processo, dito principal, cumpre aplicar no julgamento deste o princípio da decorrência, repercutindo a mesma decisão daquele quanto ao mérito. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário. O Conselheiro Paulo Mateus Ciccone manifestou interesse em apresentar declaração de voto. (assinado digitalmente) Edeli Pereira Bessa Presidente. (assinado digitalmente) MARCO ROGÉRIO BORGES Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 07 51 /2 01 4- 15 Fl. 633DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 634 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Evandro Correa Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado) e Edeli Pereira Bessa. Ausente o conselheiro Caio Cesar Nader Quintella, substituído pelo conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues. Relatório Trata o presente de Recurso Voluntário interposto em face de decisão proferida pela 3a Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belém PA, que julgou IMPROCEDENTE a impugnação do contribuinte em epígrafe. Da autuação: Trata o presente processo de Autos de Infração de Contribuição para o PIS e de Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – Cofins, referente aos períodos de apuração compreendidos nos anos calendários 2009 a 2012. Por bem retratar a descrição dos eventos que motivaram a autuação fiscal, transcrevo a parte concernente no relatório da decisão a quo: Do Termo de Verificação Fiscal nº 01/2013.006570, fls. 427/441, extraímos os seguintes excertos: “O Estatuto Social da fiscalizada estabelece que: “Art. 3º A Companhia tem por objeto social exclusivo a titularidade e o exercício do controle acionário da sociedade denominada Itaú Unibanco Banco Múltiplo S.A. (“ITAÚ UNIBANCO”), a qual está inscrita no CNPJ sob o nº 60.872.504/000123, devendo manter, de forma direta e em caráter permanente, a propriedade de ações representativas de, pelo menos, 51% das ações com direito a voto de emissão do ITAÚ UNIBANCO. Parágrafo único A Companhia não poderá desenvolver qualquer outra atividade, nem deter participação em qualquer outras sociedade, que não aquela referida no caput deste artigo.” “Observase que conforme documento CRTUAF272/2014, de 22/07/2014, houve a alteração da denominação da Itaú Unibanco Banco Múltiplo para Itaú Unibanco Holding (CNPJ 60.872.504/000123).” “Dessa forma, depreendese que a fiscalizada atende ao conceito de empresa holding pura.”(grifo no original) “No caso de uma holding “pura”, a receita básica operacional é oriunda de resultado de equivalência patrimonial, juros sobre o capital próprio, dividendos ou lucros recebidos de empresas nas quais tem participação societária. Dessa forma Fl. 634DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 635 3 uma holding “pura” pode ter como receita operacional juros sobre o capital próprio, recebidos de empresas nas quais tem participação societária.” “A empresa holding está sujeita à incidência das Contribuições ao PIS/PASEP e à COFINS sobre a totalidade das receitas auferidas, observandose as normas pertinentes a essas contribuições. Observamos que, conforme o art. 22, inciso VII, do Decreto nº 4.524/02, para efeito de apuração da base de cálculo de PIS/PASEP e COFINS podem ser excluídos da receita bruta os resultados positivos das participações societárias.” “Portanto, se a holding for “pura”, não haverá base de cálculo para PIS/PASEP e COFINS, exceto no caso de juros sobre o capital próprio recebidos de empresas nas quais tem participação societária. Nesse caso, a holding como beneficiária deve considerar esses juros como receita financeira, estando sujeita a tributação do PIS e COFINS, de acordo com o Artigo 1º, § único, inciso I do Decreto nº 5.442, de 9 de maio de 2005, os Artigos 1º, 2º, 3º e 4º da Lei nº 10.637/02 e os Artigos 1º, 2º, 3º e 5º da Lei nº 10.833/03. ”(grifo no original) “Podemos inferir que no presente caso temos uma situação inusitada, visto que a fiscalizada tem como objetivo o exercício do controle da Itaú Unibanco Holding, na qual tem investimento direto, do qual deveriam resultar os frutos intrínsecos a esse investimento, todavia em razão de entendimentos entre particulares não transitou pela fiscalizada uma parte desses frutos, relativa a ações entregues para a integralização de seu capital sobre as quais foram impostos gravames. Em especial, em razão dessas convenções particulares, não transitaram pela fiscalizada as receitas relativas aos Juros sobre Capital Próprio referentes às ações objeto de gravame, cuja natureza é intrínseca à das receitas de uma holding pura. Esses juros foram pagos diretamente aos beneficiários do gravame, o que tem evidente efeito tributário, pois a empresa deixou de recolher os tributos elencados acima” (...) “Fica claro que, para fins tributários, os contribuintes dos rendimentos advindos dos JCP pagos são os titulares, sócios ou acionistas da pessoa jurídica que efetua o pagamento. E não poderia ser diferente, afinal, como o próprio nome já diz, tratase de remuneração do valor investido pelos titulares, sócios ou acionistas. Seria uma espécie de equiparação de tratamento dado aos recursos de terceiros, isto é, seria como remunerar o custo de oportunidade dos valores empregados na empresa em detrimento de qualquer outra aplicação destes mesmos recursos. Em outras palavras, a lei atribui a sujeição passiva dos tributos incidentes sobre as receitas de JCP aos titulares, sócios e acionistas da pessoa jurídica pagante. No presente caso, apesar da fiscalizada ter apenas a nuapropriedade das ações gravadas, conferida por meio de instrumento particular, era ela a acionista da pessoa jurídica que efetuou o pagamento e não as pessoas físicas e jurídicas usufrutuárias de direitos econômicos em razão de gravame. Assim sendo, os instrumentos particulares de reserva de usufruto e outras avenças firmados entre a fiscalizada e os seus acionistas não podem ser opostos ao Fisco para alterar a sujeição passiva da obrigação tributária, nos termos do art 123 do Código Tributário Nacional.” Da Impugnação: Fl. 635DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 636 4 Inconformada com a autuação, a recorrente apresentou impugnação, a qual aproveito a sua descrição no relatório do v. acórdão recorrido: Regularmente intimada, com ciência pessoal em 21 de agosto de 2014, a interessada apresentou, em 19 de setembro de 2014, a impugnação de fls. 460/474, informando e alegando, inicialmente, acerca da estruturação da IUPAR – Itaú Unibanco Participações: (...) “decorreu da associação entre os antigos controladores do Itaú (GRUPO ITAÚ) e os antigos controladores do Unibanco (GRUPO MOREIRA SALLES), em razão da qual houve: a) a unificação das atividades dos dois conglomerados financeiros, sob o controle indireto do ITAÚ UNIBANCO HOLDING S.A. (ITAÚ UNIBANCO HOLDING) e b) a unificação, nessa holding, de todo o quadro acionário das antigas instituições financeiras.” (...) “os dois grupos aportaram ações votantes, de emissão do ITAÚ UNIBANCO HOLDING, que totalizaram 51% do seu capital votante, sendo que o controle da IUPAR, Impugnante, foi partilhado entre os dois grupos, passando cada um a deter 50% do capital votante dessa companhia.” (...) “a Impugnante se destinou apenas ao exercício do controle compartilhado do ITAÚ UNIBANCO HOLDING, sendo esse seu objeto exclusivo, suas acionistas integralizaram seu capital mediante aporte tãosomente da nuapropriedade e dos direitos de voto de parte das ações conferidas à Impugnante. Os direitos patrimoniais (ou seja, o direito ao recebimento de dividendos e juros sobre capital próprio) sobre essa parcela de ações do ITAÚ UNIBANCO HOLDING foram objeto de usufruto instituído pelas acionistas da Impugnante, de modo que o aporte das ações ao capital desta contemplou apenas a nuapropriedade e o direito de voto, e não os referidos direitos patrimoniais Outra parcela de ações foi conferida sem a instituição do usufruto, de modo que, apenas em relação a essa parcela, a Impugnante adquiriu a titularidade tanto dos direitos políticos quanto dos direitos patrimoniais. ”(grifo no original) Sobre os direitos políticos e direitos patrimoniais das ações, cita que, no caso de propriedade plena de ações, o titular detém: o poder de dispor das ações, podendo vendêlas ou de outro modo transferilas para terceiros; o direito de votar nas assembléias gerais e o direito de fruir os frutos produzidos pelas ações (dividendos e juros sobre o capital próprio). Com o instituto do usufruto se dá a fragmentação do direito de propriedade, a propriedadenua e a propriedadefruto, sendo prevista esta possibilidade na Lei das S.A e afirma: “No caso concreto, os dividendos e juros sobre o capital próprio declarados pelo ITAÚ UNIBANCO HOLDING, relativamente às ações gravadas com o usufruto, foram distribuídos por essa companhia para os seu legítimos titulares, que são as usufrutuárias, e não a Impugnante, que detém apenas a nuapropriedade e o direito de voto das ditas ações” Em seguida, traz a razão econômica e jurídica do aporte de ações gravadas com usufruto: “As acionistas da Impugnante estruturaramna para o exercício do controle compartilhado do ITAÚ UNIBANCO HOLDING.” “Para isso, ela necessitaria, obviamente, deter ações ordinárias de emissão do Itaú (às quais é conferido o direito de voto), em quantidade suficiente para garantir o controle daquela instituição financeira (51%). Para que, por seu turno, as acionistas Fl. 636DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 637 5 da Impugnante pudessem exercer, indiretamente, o controle compartilhado do ITAÚ UNIBANCO HOLDING, era necessário que elas (acionistas da Impugnante) detivessem cada uma metade do capital votante da Impugnante.” “Dado que a Impugnante não possui nenhuma outra atividade, no seu objeto social, além dessa, restrita ao exercício do poder de controle do ITAÚ UNIBANCO HOLDING, ela não necessita de recursos financeiros elevados (que seriam necessários caso ela atuasse como veículo de investimento de suas acionistas em outras atividades, direta ou indiretamente, por meio de outras subsidiárias, que viesse a criar ou financiar mediante investimentos de capital).” “Por isso, suas acionistas não precisaram efetuar aportes mais volumosos de recursos (ou direitos patrimoniais que dessem à Impugnante o direito a dividendos e juros sobre o capital próprio). Para realizar satisfatoriamente seu objeto social, era imprescindível à Impugnante isto sim deter 51% dos direitos de voto do ITAÚ UNIBANCO HOLDING. ”(grifo no original) “Os frutos das ações podiam ficar como em parte ficaram efetivamente com as acionistas da Impugnante que ao aportar nela ações de emissão do ITAÚ UNIBANCO HOLDING instituíram o usufruto dos direitos patrimoniais sobre parte das ações.” “Observase que a razão econômica descrita harmonizase com a razão jurídica. Juridicamente, a Impugnante foi estruturada para instrumentar o exercício do controle compartilhado do ITAÚ UNIBANCO HOLDING (para o que era necessária a titularidade, pela Impugnante, de 51% das ações votantes dessa instituição financeira). Economicamente, não havia sentido em transferir para a Impugnante o direito aos frutos, dado que eles não seriam necessários para o desenvolvimento do objeto social da Impugnante. ”(grifo no original) Alega, posteriormente, que o artigo 123 do Código Tributário Nacional CTN, citado na autuação, não se enquadra na presente situação e afirma: (...) “normas legais definidoras de responsabilidade tributária são imperativas, cogentes, não podendo, portanto, ser afastadas pela vontade dos indivíduos. .”(grifo no original) “Resulta evidente que o discutido art. 123 do CTN nada tem a ver com a criação do direito real de usufruto, como nada tem a ver com a transferência da propriedade de mercadorias, entre outros tantos negócios jurídicos mediante os quais se transferem ou se instituem direitos reais.”(grifo no original) “A aplicação do art. 123 do CTN não pode darse com abstração da titularidade dos bens, direitos ou frutos que componham a hipótese legal de incidência. Obrigação tributária só nasce se e quando ocorrer fato gerador relativo ao bem ou direito ou fruto a eles pertinentes e será sujeito passivo quem mantiver com a situação concreta um dos vínculos previstos no art. 121 do CTN. Identificado esse sujeito passivo, é ele que não poderá ser "substituído" por outra pessoa, em razão de convenções particulares. ”(grifo no original) Sustenta ainda, sobre o artigo 123 do CTN, que não existe disposição legal que defina como sujeito passivo de obrigação tributária atinente ao PIS ou à COFINS o nuproprietário de ações, sendo assim, é impossível firmar convenção que modifique essa inexistente definição legal. Fl. 637DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 638 6 Passa a defender, então, que os frutos de bens gravados pelo usufruto não pertencem ao nuproprietário: “Atentese para que, no caso, o Autuante, ao atribuir a condição de sujeito passivo para a Impugnante (nuaproprietária), entendeu que as receitas (juros sobre o capital próprio) seriam dela, Impugnante. Ou seja, pressupôs que os frutos (objeto do usufruto) pertenceriam ao nuproprietário (e não às usufrutuárias).” “Com isso, o Autuante agrediu a própria materialidade do fato gerador. Cassou o direito das usufrutuárias (direito patrimonial atinente às ações objeto do usufruto) e atribuiu esse direito à Impugnante, que jamais foi dele titular. Ou seja, ignorou a materialidade efetiva e criou outra. Criou outro fato gerador: recebimento de juros sobre o capital próprio pela Impugnante, que, em razão de "convenção particular" (de que ela nem participou) teria transferido para outra pessoa (as usufrutuárias) a responsabilidade pelo pagamento do tributo de que ela seria sujeito passivo.” “Imaginese o caos que haveria se os devedores de frutos (alugueis de bens, p. ex.) tivessem que ir atrás dos nusproprietários (dos bens locados), para atribuir a eles os valores de tais frutos sob pena de fiscalmente serem acusados de terem pago mal ou de, eventualmente, terem errado na aplicação de eventuais normas de incidência tributária.” “Para mais uma vez evidenciarse o absurdo da pretensão fiscal, figurese a hipótese de o nuproprietário de ações ser uma pessoa física que tenha instituído o usufruto a favor da pessoa jurídica. A tese do Autuante (de atribuir os juros sobre o capital próprio ao nuproprietário) levaria ao resultado de considerar o rendimento como fiscalmente pertencente à pessoa física e não à pessoa jurídica, recusandose os tributos devidos pela pessoa jurídica e cobrandose os devidos pela pessoa física (que, nessa insólita situação, nem existiriam pois, para pessoa física, a incidência é apenas a do imposto de renda exclusivo na fonte).” “Em suma, descabe fundamento à pretensão fiscal, dado que: a) os juros sobre o capital próprio nunca pertenceram ao nuproprietário das ações; b) por isso mesmo, a Impugnante, nuaproprietária, não abriu mão de nenhuma receita que a ela pertencesse; c) sendo a responsabilidade inerente aos usufrutuários, não cabe a aplicação do art. 123 do CTN (a não ser na hipótese que não é a dos autos de os usufrutuários transferirem para outrem o ônus fiscal).” Insurgese ainda contra a fiscalização, alegando que foi invocado o artigo 9º da Lei nº 9.249/95. Afirma novamente que no caso do usufruto, a propriedade é desmembrada em duas partes, gerando dois direitos reais: o da nuapropriedade e o da propriedade fruto, e que no presente caso, todos os procedimentos, como arquivamento e averbação do instrumento do usufruto foram apresentados no curso do procedimento fiscal e não foram questionados pela Fiscalização. Sendo assim, aduz o impugnante, que nas assembléias gerais, vota quem tiver direito de voto e nas distribuições de lucro recebe dividendo ou juros sobre o capital próprio quem tiver esse direito. E cita: “Nem o art. 123 do CTN nem o art. 99 da Lei 9.249/95 permitem ignorar a realidade concreta, que foi a transferência (apenas) da nuapropriedade de ações para a IUPAR, com o direito de voto, e a permanência do direito patrimonial sobre essas ações com as acionistas da IUPAR.” Fl. 638DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 639 7 Apresenta decisão administrativa sobre os efeitos tributários de usufruto de ações. E ainda no mérito, traz o Parecer CST 16/72, que afirma esclarecer o alcance do artigo 123 do CTN. Por fim, questiona a incidência de juros sobre a multa de ofício. Alega que a Lei nº 9.430/96 prevê que os débitos de tributos e contribuições serão acrescidos de multa de mora e que, sobre aqueles débitos, incidirão juros de mora, e não sobre o valor da multa de mora. Assim, se os juros de mora não incidem sobre a multa de mora, não cabe aplicar tais juros sobre a multa de ofício. Sustenta que o artigo 164 do CTN, ao tratar de crédito tributário, separa claramente tributo, juros de mora e penalidades. Igual distinção ocorre no artigo 161, caput, do CTN e por consequência, não são aplicáveis à multa de ofício os juros de 1% ao mês, referidos no parágrafo 1º do artigo 161 do CTN. Carreia aos autos algumas decisões administrativas. E requer seja reconhecida a improcedência do auto de infração. Da decisão da DRJ: A ementa da decisão é a seguinte: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2009, 2010, 2011, 2012 PAF. DECISÕES JUDICIAIS E ADMINISTRATIVAS. EFEITOS. As decisões judiciais e administrativas relativas a terceiros não possuem eficácia normativa, uma vez que não integram a legislação tributária de que tratam os arts. 96 e 100 do Código Tributário Nacional ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2009, 2010, 2011, 2012 INSTRUMENTO PARTICULAR. ALTERAÇÃO DA SUJEIÇÃO PASSIVA. INOPONIBILIDADE AO FISCO. Salvo disposições de lei em contrário, as convenções particulares, relativas à responsabilidade pelo pagamento de tributos, não podem ser opostas à Fazenda Pública, para modificar a definição legal do sujeito passivo das obrigações tributárias correspondentes. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. NATUREZA FINANCEIRA. PIS. INCIDÊNCIA. Incide PIS sobre as receitas de juros sobre o capital próprio, pois estes tem natureza de receitas financeiras e não estão amparados pelas exclusões previstas nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Fl. 639DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 640 8 Anocalendário: 2009, 2010, 2011, 2012 INSTRUMENTO PARTICULAR. ALTERAÇÃO DA SUJEIÇÃO PASSIVA. INOPONIBILIDADE AO FISCO. Salvo disposições de lei em contrário, as convenções particulares, relativas à responsabilidade pelo pagamento de tributos, não podem ser opostas à Fazenda Pública, para modificar a definição legal do sujeito passivo das obrigações tributárias correspondentes. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. NATUREZA FINANCEIRA. PIS. INCIDÊNCIA. Incide COFINS sobre as receitas de juros sobre o capital próprio, pois estes tem natureza de receitas financeiras e não estão amparados pelas exclusões previstas nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003. Do Recurso Voluntário: Tomando ciência em 16/03/2015 (fl. 564) da decisão a quo, a recorrente apresentou recurso voluntário em 14/04/2015 (fl. 566), que em síntese, repisa as alegações e argumentos já apresentados na sua peça impugnatória, dos quais destaco abaixo: a) direitos políticos e direitos patrimoniais das ações: no usufruto, fragmentase o direito de propriedade, de modo que os atributos a ela inerentes (dispor e fruir) são conferidos a pessoas diversas, tendo estas direito real à dita propriedadenua ou à chamada propriedadefruto. O usufruto também é possível no caso de ações de emissão de sociedade, conforme artigo 40; 169, § 2°; 171, § 5°, todos da Lei das S/A. O proprietáriopleno das ações pode, como ocorreu no caso concreto, aportar na companhia a propriedadenua das ações mais o direito de voto, reservando para si a propriedadefruto (usufruto dos direitos patrimoniais: dividendos e JCP). Por essa razão, o Itaú Unibanco Holding pagou juros sobre o capital próprio para os usufrutuários, seus legítimos beneficiários, e não para a recorrente, detentora apenas da nuapropriedade e o direito de voto. b) objetivo de criação da IUPAR o controle partilhado do Itaú Unibanco Holding: a estruturação da recorrente decorreu da associação entre os antigos controladores do Itaú e os antigos controladores do Unibanco, o que resultou: a) na unificação das atividades dos dois conglomerados financeiros, sob o controle do Itaú Unibanco Holding; b) na unificação, nesta holding, de todo o quadro acionário das instituições financeiras antes pertencentes a cada um dos referidos grupos. Acordouse, também, que o controle do Itaú Unibanco Holding seria compartilhado entre os dois grupos. Por conseguinte, os dois grupos aportaram na recorrente (IUPAR) ações ordinárias, de emissão do Itaú Unibanco Holding, que totalizaram 51% do seu capital votante, sendo que o controle da IUPAR foi partilhado entre os dois grupos, passando cada um a deter 50% do capital votante dessa companhia. Fl. 640DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 641 9 c) razão econômica e razão jurídica do aporte de ações gravadas com usufruto: o objeto social da recorrente é restrito e exclusivo, ou seja, controle compartilhado do Itaú Unibanco Holding, para cujo exercício a recorrente necessitava apenas que as acionistas transferissem para ela ações votantes em quantidade suficiente para que ela detivesse o controle daquela instituição. Como o objeto social era restrito ao exercício do controle, não havia razão para que os acionistas transferissem para a autuada os direitos patrimoniais das ações aportadas, mas apenas o direito de voto. Os direitos patrimoniais das ações não pertencem e nunca pertenceram à recorrente, pois nunca foram conferidos a ela. Por essa razão, o Itaú Unibanco Holding distribuiu os respectivos dividendos e juros sobre o capital próprio para as usufrutuárias e não para a recorrente. d) a validade formal e a prova da existência do usufruto: a fiscalização, em nenhum momento, questionou a validade formal ou jurídica da instituição do usufruto, tampouco foi cogitado abuso. Logo, não foi motivo da autuação a alegação de abuso de forma ou de direito. A prova do usufruto foi entregue durante a ação fiscal. e) o artigo 9° da Lei n. 9.249/95: os juros sobre capital próprio devem ser pagos ao titular do direito, geralmente ao proprietáriopleno das ações, quando sobre estas inexiste o usufruto. Na distribuição de lucros, recebe dividendos ou JCP quem tem esse direito. A companhia, obviamente, não pode ignorar a existência do usufruto e atribuir direitos a quem não seja o seu titular legítimo. O artigo 9° da Lei n. 9.249/95 regula o tratamento tributário dos juros sobre o capital próprio. Todavia, não imputa efeitos fiscais a quem não é o recebedor dos rendimentos, tampouco estabelece que o proprietárionu, sem direito aos JCP, fictamente os recebe para fins de tributação. f) o artigo 123 do CTN seu conteúdo e alcance: o CTN não permite que, por convenção particular, uma pessoa que legalmente seria devedora de tributo, transfira sua obrigação para outra pessoa e obrigue o Fisco a respeitar tal transferência e cobrar o tributo do cessionário da obrigação. A transferência de responsabilidade poderá valer entre as partes, mas não é oponível ao Fisco. g) o artigo 123 do CTN não se aplica a hipótese dos autos: a aplicação do artigo não pode darse com abstração da titularidade dos bens, direitos ou frutos que componham a hipótese legal de incidência. Se alguém é nuproprietário e está despido dos frutos patrimoniais que o bem pode produzir, não pode o Fisco atribuir a ele fato gerador de tributo praticado por outra pessoa (usufrutuário). Se o usufrutuário é a pessoa que realiza o fato gerador (recebimento dos frutos do bem), será ele o sujeito passivo das contribuições, não podendo o artigo 123 do CTN ser utilizado para transferir a responsabilidade para outrem. A recorrente nem foi instituidora, nem beneficiária do usufruto; aliás, nem figurou como parte no negócio jurídico de criação do gravame. Com o aporte, apenas recebeu a nuapropriedade e direito a voto. A sujeição passiva do PIS e da Cofins decorrem de lei, e não de eventual convenção entre a autuada e as usufrutuárias das ações. Fl. 641DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 642 10 h) o auto agride a materialidade do fato gerador: o lançamento, ao atribuir a sujeição passiva à recorrente, entendeu que os juros sobre o capital próprio seriam dela. Com essa conclusão, agrediu a materialidade do fato gerador, pois cassou o direito das usufrutuárias e o atribuiu à recorrente, que nunca os recebeu. i) jurisprudência do CARF: existe precedente do Carf, corroborando a tese da recorrente (acórdão 1103001.123). j) o Parecer Normativo CST 16/72: a Receita Federal também já reconheceu a eficácia tributária da reserva de direito real de usufruto, no Parecer Normativo CST 16/72, que, inclusive, esclareceu o alcance do artigo 123 do CTN. l) por fim, defende a não incidência de juros sobre a multa de ofício. É o relatório. Voto Conselheiro Marco Rogério Borges Relator O recurso voluntário foi apresentado pelo contribuinte tempestivamente, do qual tomo conhecimento. Da questão inerente ao processo 16327.721155/201444 IRPJ Encontrase nos autos, às folhas 627 e seguintes, Resolução da 3ª Seção de Julgamento deste CARF (Resolução nº 3401001.329, sessão de 29/01/2018) em que há declínio de competência a esta 1ª Seção, por conta de que o presente processo (16327.720751/201415) é reflexo do processo 16327.721155/201444, considerado o processo principal. Nas suas razões para tal resolução, consta o seguinte: Conforme se depreende do termo de verificação fiscal, a fiscalização teve início para verificar a regularidade do recolhimento do IRPJ, da CSL, do PIS e da Cofins, conforme se depreende do trecho abaixo transcrito: No Termo de Intimação n° 03, o contribuinte foi intimado a "Demonstrar que os Recebimentos de Juros sobre o Capital Próprio, relativos às ações sobre as quais não foram impostos Fl. 642DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 643 11 gravames, no período em referência, foram oferecidos à tributação do IRPJ e CSLL, bem como do PIS e da COFINS." A acusação fiscal da existência de adições não computadas na apuração do lucro real, para fins de apuração de IRPJ, e de insuficiência de adições à base de cálculo ajustada, para fins de apuração da CSL, foi tratada no Processo Administrativo Federal n° 16327.721155/201444, distribuído, conforme extrato de andamento processual, à relatoria do Conselheiro Paulo Mateus Ciccone, integrante da 2a Turma da 4a Câmara da 1a Seção de Julgamento deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais em 15/09/2016: (...) Em sessão de 10/04/2017, foi proferido o Acórdão CARF n° 1402002.445, que, por maioria de votos, deu provimento ao recurso voluntário, vencido o relator, sendo designado como redator do voto vencedor o Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, e cuja ementa abaixo se transcreve: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010, 2011, 2012 USUFRUTUÁRIOS. TITULARES DOS JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. INEXISTÊNCIA DE OMISSÃO DE RECEITAS PELA NUAPROPRIETÁRIA DAS AÇÕES. Em virtude da reserva de usufruto dos direitos econômicos, a titularidade dos rendimentos provenientes dos JCP é dos usufrutuários das ações, razão pela qual não há que se falar no reconhecimento de receitas dos JCP pela nuaproprietária. USUFRUTO. JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. TRIBUTAÇÃO. INTERPRETAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. No caso dos rendimentos pagos ou creditados a título de juros sobre capital próprio, o legislador tributário deixou de atribuir ao instituto do usufruto efeitos tributários específicos, o que implica remeter o intérprete aos efeitos típicos decorrentes do direito privado. Ao se realizar o cotejo entre o presente processo e aquele que culminou com o acórdão acima referenciado, e como se denota dos próprios memoriais apresentados pelo representante da contribuinte ora recorrente, os autos de infração referentes ao IRPJ e à CSL e aqueles referentes ao PIS e à Cofins têm idênticos pressupostos de fato, voltandose, inclusive, aos mesmos períodos de apuração: Fl. 643DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 644 12 Verificase nos autos que o presente processo (16327.720751/201415) é reflexo do processo 16327.721155/201444. Ambos os processos decorrem do mesmo procedimento de fiscalização, sob o MPF nº 08.1.66.002013.006570, tendo a mesma autoridade fiscal autuante, e exatamente a mesma situação fática no mérito, mudando apenas que houve a formalização de dois processos administrativos: um de IRPJ/CSLL (processo 16327.720751/201415) e um de PIS/COFINS (16327.721155/201444). Da leitura de ambos os TVF verificase que ambas as fiscalizações tiveram exatamente os elementos de prova coligidos durante o procedimento fiscal e amealhados como instrução probatória para a fundamentação de ambas autuações fiscais. Por uma circunstância de seguirem passos processuais distintos, acabou o processo de IRPJ/CSLL (16327.720751/201415) sendo julgado anteriormente. Quando o processo reflexo (o presente processo 16327.721155/201444) esteve apto a análise e julgamento, e vislumbrouse esta vinculação entre ambos os processos, já havia uma decisão prolatada naquele. Diante deste preâmbulo para demonstrar que ambos os processos (o presente (16327.721155/201444) e o de IRPJ/CSLL (16327.720751/201415) estão umbilicalmente interligados, devendo o de PIS/COFINS ser considerado reflexo do de IRPJ/CSLL. Tal questão está regrada no art. 6º do anexo II do Ricarf: Art. 6º Os processos vinculados poderão ser distribuídos e julgados observandose a seguinte disciplina: §1º Os processos podem ser vinculados por: I conexão, constatada entre processos que tratam de exigência de crédito tributário ou pedido do contribuinte fundamentados em fato idêntico, incluindo aqueles formalizados em face de diferentes sujeitos passivos; II decorrência, constatada a partir de processos formalizados em razão de procedimento fiscal anterior ou de atos do sujeito passivo acerca de direito creditório ou de benefício fiscal, ainda que veiculem outras matérias autônomas; e III reflexo, constatado entre processos formalizados em um mesmo procedimento fiscal, com base nos mesmos elementos de prova, mas referentes a tributos distintos. (...) Fl. 644DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 645 13 Para esclarecer a amplitude material do §1º deste artigo 6º, recorre ao excertos do voto do i. conselheiro André Mendes de Moura, relator do acórdão nº 9101 002.755: Faço a distinção, amparado no conceito empregado pelo RICARF, valendose de exemplos. Nos processos reflexos, há uma autuação fiscal principal, por exemplo, de IRPJ, acompanhada de reflexos de CSLL, PIS e Cofins, com base nos mesmos elementos de prova constituídos em um mesmo procedimento fiscal. No processo reflexo, a decisão do processo principal tem repercussão direta nos reflexos. A vinculação por decorrência ocorre quando há obrigatoriamente um processo principal e demais processos acessórios, que tiveram origem a partir do processo principal. Tanto que se o julgamento do processo principal afastar a autuação, automaticamente os processos acessórios perdem o objeto. Por exemplo: (1) processo principal trata de exclusão do SIMPLES, e o acessório de auto de infração lavrado em razão da exclusão da empresa do regime especial; (2) processo principal trata da suspensão ou perda de imunidade/isenção, e o acessório de auto de infração lavrado em razão da suspensão/perda do benefício; (3) processo principal trata de autuação fiscal que altera o ajuste anual do imposto, alterando a apuração de saldo negativo, e o acessório de declaração de compensação que se utilizou de saldo negativo que, em razão da autuação fiscal, teve seu valor diminuído ou extinto. Na decorrência, duas são as características principais: (1) não é prático (para não dizer que é impossível) fazer o julgamento do processo acessório antes do julgamento do processo principal e (2) o decidido no principal tem repercussão direta nos processos decorrentes. Qual a praticidade em julgar os autos de infração de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins se tais lançamentos tiveram origem em uma suspensão de imunidade ainda pendente de julgamento? Na realidade, a vinculação por reflexão e decorrência tem muitas semelhanças, principalmente por disporem de um processo principal precisamente definido, e de processo(s) acessório(s) cujo julgamento tem uma estreita dependência com o principal. Enfim, a conexão ocorre quando se tem um suporte fático X e um enquadramento legal Y que é idêntico, ou para vários sujeitos passivos (A, B, C, D, E ...), ou para o mesmo sujeito passivo em anoscalendário diferentes (AC1, AC2, AC3...). Naturalmente, são formalizados vários processos, mas as autuações fiscais (suporte fático e enquadramento legal) são as mesmas, diferenciandose, em linhas gerais, o sujeito passivo e o ano calendário. Como exemplo, pode ser um auto de infração de glosa de despesas, com o mesmo suporte fático, de uma mesma empresa, Fl. 645DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 646 14 com os mesmos fatos e elementos de prova, formalizado em processos diferentes, cada qual para um anocalendário (AC1, AC2, AC3 e AC4). Ou, o auto de infração de glosa de despesas, com o mesmo suporte fático, mas lavrado em face de empresas que desenvolvem a mesma atividade econômica e tiveram uma interpretação idêntica da legislação tributária, ou seja, processos com sujeitos passivos A, B, C, D e E. Ainda, processo de reconhecimento de direito creditório que se utilizou do crédito X para compensar débitos D1, D2, D3, D4 e D5, cada qual em um processo diferente. O que se observa nos processos por conexão é que não há um processo que pode ser classificado como o principal. O julgamento pode ser dar em qualquer um dos processos. Pode ser julgado o processo AC3, sem prejuízo nenhum para os demais. Ou o processo contra o sujeito passivo D, ou o processo tratando da compensação do débito D2. Na realidade, os processo por conexão são aqueles que podem ser reunidos para julgamento em lotes, ou na sistemática dos repetitivos. Podese escolher qualquer um dos processos para julgamento, e aplicar a decisão para os demais. Tal procedimento, obviamente, não pode ser adotado para os reflexos ou decorrentes, tendo em vista a existência de um processo principal. Dada e explicação acima dos conceitos envolvidos nos 3 tipos de processos vinculados conexão, decorrência e reflexo, resta evidenciado que o presente processo é reflexo, nos termos o inciso III do §1º art. 6º do anexo II do Ricarf. Tem a mesma matéria fática e jurídica do processo principal de IRPJ/CSLL. Notese que se ambos os processos do presente processo e o principal tivessem sido seguidos os mesmos passos processuais, deveriam ter sido julgados em conjunto, conforme a melhor prática processual. E se assim fosse, o julgado no processo reflexo teria a mesma sorte do processo principal. Tal vinculação decisória decorre do chamado princípio da decorrência, consagrado neste Conselho, por razões lógicas e jurídicas. Não é dado a dois colegiados distintos de igual hierarquia, proferir decisões distintas sobre os mesmos fatos e período de abrangência, cabendo um deles declinar da competência, nos termos do art. 6º do anexo II do Ricarf, ou por economia processual, adotar a mesma decisão anteriormente proferida. Resta, portanto, quanto ao cerne da discussão aqui suscitada, para dar provimento integral ao recurso voluntário, nos termos do acórdão 1402002.445. (assinado digitalmente) Marco Rogério Borges Fl. 646DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 647 15 Declaração de Voto Conselheiro Paulo Mateus Ciccone. CONSIDERAÇÕES INICIAIS Discutese neste procedimento (processo 16327.720751/201415), a exigência de contribuições de PIS e COFINS reflexos dos autos de infração de IRPJ formalizados no Processo nº 16327.721155/201444, este sob relatoria deste Conselheiro. Levado a julgamento em 10/04/2017, foi prolatada decisão consubstanciada no Ac. 1402002.445, restando vencido este Conselheiro que pugnava pela improvimento do recurso voluntário e mantença integral da decisão recorrida e dos lançamentos, sendo designado o Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto para redigir o voto vencedor. Naquela oportunidade, expressei meu entendimento de que o procedimento realizado pela recorrente de não reconhecer a receita dos JCP pagos/creditados pela Itaú Unibanco Holding S/A se mostrava indevido, pelo que a ação fiscal se revelou correta. Peço vênia para reproduzir, visando melhor aclarar meu ponto de vista sobre a matéria, o voto que proferi naquela oportunidade, restringindo ao ponto focado (JCP). Para melhor compreensão do tema, impende rever a evolução histórica dos JCP, ainda que de forma resumida. Já antecipadamente à sua entrada no mundo jurídico, ocorrida pela Lei nº 9.249, de 26/12/1995, art. 9º, autores de contabilidade faziam referência a uma forma de remuneração do capital, ressaltando, todavia (certamente tolhidos pela legislação tributária que, à época, interferia de forma desmedida na ciência contábil), sua não aceitação como “despesa”, esta entendida para fins fiscais. Nesse contexto, pouco antes da promulgação da mencionada Lei, A. Lopes de Sá e A. M. Lopes de Sá1, escreviam (destaques não são do original): “JUROS SOBRE CAPITAL – Valor que deve apresentar o interesse ou compensação do capital aplicado em uma empresa, e que, segundo algumas teorias, deverá ser incluído no custo de um produto (teoria de economistas e de raríssimos contabilistas); despesa figurativa que representa o valor que renderia um capital aplicado. 1 in “CUSTO” – Dicionário de Contabilidade – 9ª Ed. – São Paulo – Atlas, 1995 – pgs. 273/274) Fl. 647DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 648 16 A inclusão do valor dos juros sobre o capital como fator de custeio é bastante discutida ainda, por efeito de confusões que se estabelecem em nossa doutrina. Os juros sobre o capital não devem ser incluídos como fator de custo de operação, mas, apenas, extraordinariamente, para efeito de estudos de rentabilidade do capital e não de sua reditibilidade”. De se ver que o tema era quase um tabu, sendo entendido mais como um assunto afeto aos economistas que aos contabilistas, muito provavelmente pelo engessamento que a legislação tributária, mormente do IR, exercia sobre a Contabilidade e os profissionais da área. Muito a propósito: “A imputação dos juros sobre o capital próprio ao custo é matéria discutida em Contabilidade e a maior parte de nossos melhores autores concorda em não admitir tal como custo, pois julga que isto é mais um problema de Economia que de Contabilidade”.2 Nesse caminhar, foi necessária a devida permissão legislativa para que o assunto mudasse de cenário, ganhando a forma e a dimensão de hoje, o que se fez pela Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, art. 9º, cuja redação atual é a seguinte: Art. 9º A pessoa jurídica poderá deduzir, para efeitos da apuração do lucro real, os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pro rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo TJLP. § 1º O efetivo pagamento ou crédito dos juros fica condicionado à existência de lucros, computados antes da dedução dos juros, ou de lucros acumulados e reservas de lucros, em montante igual ou superior ao valor de duas vezes os juros a serem pagos ou creditados.(Redação dada pela Lei nº 9.430, de 1996) § 2º Os juros ficarão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte à alíquota de quinze por cento, na data do pagamento ou crédito ao beneficiário. § 3º O imposto retido na fonte será considerado: I antecipação do devido na declaração de rendimentos, no caso de beneficiário pessoa jurídica tributada com base no lucro real; II tributação definitiva, no caso de beneficiário pessoa física ou pessoa jurídica não tributada com base no lucro real, inclusive isenta, ressalvado o disposto no § 4º; § 4º (Revogado pela Lei nº 9.430, de 1996) § 5º No caso de beneficiário sociedade civil de prestação de serviços, submetida ao regime de tributação de que trata o art. 1º do DecretoLei nº 2.397, de 21 de dezembro de 1987, o imposto poderá ser compensado com o retido por ocasião do pagamento dos rendimentos aos sócios beneficiários. 2 ibidem – pg. 120 – destaque acrescido pela Relatoria Fl. 648DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 649 17 § 6º No caso de beneficiário pessoa jurídica tributada com base no lucro real, o imposto de que trata o § 2º poderá ainda ser compensado com o retido por ocasião do pagamento ou crédito de juros, a título de remuneração de capital próprio, a seu titular, sócios ou acionistas. § 7º O valor dos juros pagos ou creditados pela pessoa jurídica, a título de remuneração do capital próprio, poderá ser imputado ao valor dos dividendos de que trata o art. 202 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, sem prejuízo do disposto no § 2º. § 8º Para os fins de cálculo da remuneração prevista neste artigo, não será considerado o valor de reserva de reavaliação de bens ou direitos da pessoa jurídica, exceto se esta for adicionada na determinação da base de cálculo do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido. (Vide Medida Provisória nº 627, de 2013) (Vigência) § 9º. (Revogado pela Lei nº 9.430, de 1996) § 10. (Revogado pela Lei nº 9.430, de 1996) § 11. (Vide Medida Provisória nº 627, de 2013) (Vigência) Importante verificar que o artigo 35 dispôs que referida Lei entraria em vigor a partir de 1º de janeiro de 1.996, oportunidade em que também passou a viger outro dispositivo (art. 10)3 que excluiu da tributação do IR, os lucros e dividendos calculados com base nos resultados das pessoas jurídicas, em quaisquer de suas formas de apuração (Lucros Real, Presumido ou Arbitrado). A conjugação destes dois dispositivos (arts. 9º e 10) mostra que a intenção do legislador foi a de permitir que os empreendedores e investidores nos capitais das empresas mantivessem tais investimentos nas próprias pessoas jurídicas de que participassem recebendo, em contrapartida, remuneração por tal aplicação, ao invés de buscarem tais frutos no mercado financeiro. Em outras palavras, os JCP nada mais são e representam, que a compensação do capital investido por alguém, pessoa física ou jurídica, em uma empresa. Nesta trilha, não só se isentaram os “lucros” da tributação, como se permitiu que sobre o Capital e outras contas do Patrimônio Líquido se calculassem e pagassem JCP aos detentores de ações, quotas ou participações societárias (ou mesmo empreendedores individuais) permitindo, ainda, a reaplicação de tais montantes ao próprio Capital, aumentando a base de cálculo dos Juros. Tudo isso sem olvidar que a lei trouxe uma tributação extremamente favorecida no caso de beneficiárias pessoas físicas (15% de IRRF, ao invés de 27,5% na 3 Art. 10. Os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, presumido ou arbitrado, não ficarão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte, nem integrarão a base de cálculo do imposto de renda do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior. Parágrafo único. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista. Fl. 649DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 650 18 Declaração de ajuste anual) e o fato de as pessoas jurídicas tributadas pelo Lucro Real poderem deduzir tais montantes das bases imponíveis de IRPJ e CSLL (geralmente 34%). Neste hiato, imprescindível lembrar o contexto existente no Brasil quando a Lei nº 9.249/1995 foi promulgada. Até 1995 existia no País a Correção Monetária dos Balanços (CMB), sistema pelo qual os saldos credores ou devedores da CMB (confronto entre contas do Ativo Permanente e Patrimônio Líquido), resultavam em, i) lucro inflacionário, sobre o qual o tributo devido poderia ser diferido para pagamento quando de sua realização, ou, ii) despesas, dedutíveis in actu. Extinta a Correção Monetária com o advento do Plano Real, a CMB foi também expurgada do sistema contábil e fiscal. Com isso, dado que às obrigações junto a terceiros, assim como às aplicações financeiras continuaram sendo imputados juros, com evidente desequilíbrio patrimonial e reflexos tributários caso as contas do Patrimônio Líquido não seguissem sendo igualmente atualizadas pelo mesmo critério, o legislador acenou com o surgimento da figura aqui analisada, ou seja, a dos Juros sobre o Capital Próprio, calculados com base na variação pro rata dia da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) e sobre contas previamente definidas, permitindo a remuneração, a título de “juros”, ao sócio, acionista ou empreendedor individual. Surge daí a condição legal para seu pagamento, condicionada à existência de lucros antes da dedução dos próprios juros, ou de lucros acumulados e reservas de lucros em montante igual ou superior ao valor de duas vezes os juros a serem pagos ou creditados, pagamento que a lei determina seja feito a titular, sócios ou acionistas (art. 9º, caput)4. Para melhor compreensão dos pressupostos ensejadores do nascimento dos Juros sobre o Capital Próprio no ordenamento jurídico, fundamental que se perscrute a exposição de motivos do Projeto de Lei nº 913/1995, origem do artigo 9º da Lei 9.249/1995 (atrás reproduzido), quando se perceberá que a intenção de permitir a dedução dos JCP do imposto de renda da pessoa jurídica que realiza o pagamento ou crédito dos Juros sobre o Capital Próprio foi baseada no princípio da isonomia, isto porque, antes da referida alteração legislativa, as pessoas jurídicas que possuíam capital financiado de terceiros podiam deduzir os juros desse tipo de empréstimo da base de cálculo do imposto de renda, não havendo, entretanto, previsão legal para a mesma dedução no caso de investimento com capital próprio. Vejase o que diz a exposição de motivos do Projeto de Lei nº 913/1995 (depois Lei nº 9.249/1995) em relação ao artigo 9º: “A permissão da dedução de juros pagos ao acionista até o limite proposto [variação da Taxa de Juros de Longo Prazo – 4 Art. 9º A pessoa jurídica poderá deduzir, para efeitos da apuração do lucro real, os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pro rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo TJLP. Fl. 650DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 651 19 TJLP], em especial, deverá provocar um incremento das aplicações produtivas nas empresas brasileiras, capacitandoas a elevar o nível de investimentos, sem endividamento, com evidentes vantagens no que se refere à geração de empregos e ao crescimento sustentado da economia. Objetivo a ser atingido mediante a adoção de política tributária moderna e compatível com aquela praticada pelos demais países emergentes, que competem com o Brasil na captação de recursos internacionais para investimentos”. O deputado Antonio Kandir, relator do PL nº 913/1995, destacou seu entendimento a respeito do que viria a ser o artigo 9º, da Lei: “A medida visa a estimular o autofinanciamento das empresas, pela redução da diferença de tratamento que a atual legislação confere ao capital próprio e ao capital de terceiros. Como se sabe, os juros sobre empréstimos (capital de terceiros) são dedutíveis na determinação da base de cálculo do imposto de renda, enquanto os encargos implícitos sobre a parcela do capital próprio não podem ser deduzidos. Com isso, a empresa que se financia de formas preponderante com empréstimos de terceiros tem a vantagem comparativa com outra empresa do mesmo porte, que opera no mesmo setor, mas que prefira financiarse com capital próprio, pois que a primeira deverá pagar menos imposto de renda do que a segunda. (...) Os encargos implícitos sobre o capital próprio consistem no seu custo de oportunidade, vale dizer, no custo equivalente ao quanto renderia se aplicado no mercado financeiro”. O que o legislador buscou, portanto, foi criar um ambiente propício para que se aumentasse o autofinanciamento das empresas, gerando aumento em sua liquidez, sem endividamento, mediante a formação de capitais próprios, de seus acionistas ou sócios, em detrimento do uso dos empréstimos. Situação que se sintetiza na brilhante lição de Marco Aurélio Greco5 “Neste contexto é que aparece a figura das opções fiscais, que serão figuras criadas pelo ordenamento, propositalmente formuladas e colocadas à disposição do contribuinte para que delas se utilize, conforme a sua conveniência”. Postas estas premissas, podese afirmar que no Brasil o legislador optou por permitir uma forma mista de remuneração do capital para os investidores, a saber: i) dividendos; e, ii) juros sobre capital próprio, destacandose, TODAVIA, que essa divisão não é meramente acadêmica ou didática, pois dela resultam efeitos tributários diferentes, conforme se verá adiante. 5 Planejamento Fiscal e Interpretação da Lei tributária – Dialética – 1998 – São Paulo. Fl. 651DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 652 20 Esclareçase: ainda que tenham por fim remunerar o capital dos investidores, lucros e JCP têm contornos legais e tributários opostos, bem ao revés do entendimento de alguns de que os JCP possuem natureza de dividendos. Sobre os efeitos tributários antagônicos dos JCP e dos dividendos, a definição da Procuradora Federal Tarsila Ribeiro Marques Fernandes em artigo apresentado na rede mundial de computadores no dia 05/06/20136 é extremamente pertinente: “Os dividendos são uma parte dos lucros de uma empresa que é dividida entre os acionistas. Nesse sentido, pessoas, físicas ou jurídicas, que possuem ações, títulos ou fundos mútuos, podem receber dividendos de tais investimentos. Cabe esclarecer que tanto os dividendos quanto os juros sobre capital próprio são formas de remuneração do investidor, com uma grande diferença tributária, uma vez que o pagamento dos dividendos não confere à pessoa jurídica o direito à dedução do imposto de renda, uma vez que há isenção do imposto de renda para o beneficiário. (...) Quaisquer valores pagos a título de dividendos como forma de remunerar os acionistas não são tributados, razão pela qual os investidores recebem integralmente os valores distribuídos (...) diferentemente do que acontece no Brasil em relação aos juros sobre capital próprio, que é considerado, como visto anteriormente, um custo dedutível da apuração do seu lucro real para fins de tributação do imposto de renda”. Muito a propósito, vejase o posicionamento do Ministro Mauro Campbell Marques, expresso no REsp 1.200.492/RS, Primeira Seção, julgado em 14/10/2015 (DJe 22/02/2016), cujo teor espanca quaisquer dúvidas acerca da diferença entre os institutos: “Ora, em que pese os juros sobre o capital próprio, a exemplo dos lucros ou dividendos, serem destinações do lucro líquido, para fins tributários sua semelhança acaba aí, havendo uma série de tratamentos distintos na legislação que evidencia a diferença de sua natureza jurídica, a saber: “LUCROS OU DIVIDENDOS: Em relação ao beneficiário: não estão sujeitos ao imposto de renda na fonte pagadora nem integram a base de cálculo do imposto de renda do beneficiário (art. 10, da Lei n. 9.249/95) – Em relação à pessoa jurídica que paga: não são dedutíveis do lucro real (base de cálculo do imposto de renda). – Obedecem necessariamente ao disposto no art. 202, da Lei n. 6.404/76 (dividendo obrigatório). 6 Tarsila Ribeiro Marques Fernandes – Procuradora Federal Graduada em Direito pela UFPE – PósGraduada em Direito Público – artigo disponível no site www.conteudojuridico.com.br Fl. 652DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 653 21 – Têm limite máximo fixado apenas no estatuto social ou, no silêncio deste, o limite dos lucros não destinados nos termos dos arts. 193 a 197 da Lei n. 6.404/76. – Estão condicionados apenas à existência de lucros (arts. 198 e 202, da Lei n. 6.404/76). JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO: – Em relação ao beneficiário: estão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte na data do pagamento do crédito ao beneficiário (art. 9º, §2º, da Lei n. 9.249/95). – Em relação à pessoa jurídica que paga: quando pagos são dedutíveis do lucro real (art. 9º, caput, da Lei n. 9.249/95). – Podem, facultativamente, integrar o valor dos dividendos para efeito de a sociedade obedecer à regra do dividendo obrigatório (art. 202, da Lei n. 6.404/76). – Têm como limite máximo a variação da TJLP (art. 9º, caput, da Lei n. 9.249/95). – Estão condicionados à existência de lucros no dobro do valor dos juros a serem pagos ou creditados (art. 9º, §1º, da Lei n. 9.249/95)”. Dizendo de modo mais claro, enquanto lucros e dividendos estão fora da tributação do IR quando distribuídos, os JCP submetemse a toda uma sistemática de imposição tributária (na fonte, de forma exclusiva, quando os recebedores forem pessoas físicas), como antecipação, se beneficiários pessoas jurídicas, além de seu caráter de dedutibilidade na fonte pagadora (PJ com regime de tributação pelo Lucro Real). Resumidamente podese afirmar com segurança que: i) lucros e dividendos significam a participação do sócio/acionista/empreendedor individual no resultado positivo da atividade empresarial; e, ii) JCP revestemse de nítidos e indiscutíveis contornos de “remuneração do capital investido dos acionistas/sócios”, ou, no dizer do deputado Antonio Kandir, relator do Projeto que se transformou na Lei nº 9.249/1995: “os encargos implícitos sobre o capital próprio consistem no seu custo de oportunidade, vale dizer, no custo equivalente ao quanto renderia se aplicado no mercado financeiro”. Fl. 653DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 654 22 Nesta linha é que o Código Civil de 2002, por seu artigo 1.0077 ÚNICA E TÃO SOMENTE cuidou de permitir que os lucros pudessem ser distribuídos de forma desigual às participações dos sócios/acionistas no capital, NÃO FAZENDO QUALQUER REFERÊNCIA EM RELAÇÃO AOS JCP (sempre lembrando que, quando da promulgação da Lei nº 10.406/2002, os JCP já existiam no ordenamento legal há sete anos, de modo que, se fosse intenção do legislador equiparar ambos institutos, o teria feito naquela oportunidade). Contextualmente, enquanto o Código Civil permite distribuição desproporcional dos lucros, os Juros sobre o Capital Próprio, por sua nítida natureza compensatória do investimento realizado e seu claro caráter de “custo de oportunidade”, só podem ser calculados sobre o Capital e na EXATA PROPORÇÃO da participação dos investidores no referido capital, sob pena de completo desvirtuamento do instituto. Mal comparando, mas bem comparando, imaginese uma sociedade de dois sócios, “A” e “B”, na qual o primeiro detenha 20% do capital e o segundo os restantes 80%. Se ambos deliberarem que os JCP serão pagos meio a meio, ou seja, 50% para cada um, como é que “A” (que só tem 20%) poderá habilitarse a receber 50% de juros sobre o capital próprio se o capital próprio que possui é apenas 20%? Como poderá receber juros sobre um capital que não detém?! Um verdadeiro absurdo sob o ângulo da própria lógica jurídica e cotidiana. Pois bem, feitas estas digressões, vejamos como se comportariam tais premissas no caso de o beneficiário do pagamento ou crédito dos JCP não ser o proprietário das ações, mas o usufrutuário delas. Que o usufruto é matéria afeta ao Direito Civil e frequenta nosso ordenamento jurídico há mais de uma centena de anos (cf. Código de 1916), é absolutamente pacífico. Que, como largamente assentado pela recorrente, o usufruto se constitui em direito real (Código Civil de 2002, artigo 1.225, IV), também induvidoso. Como é induvidoso que o usufruto pode recair sobre bens móveis ou imóveis, de um patrimônio inteiro ou parte dele8, que se estende aos acessórios da coisa e seus acrescidos9 e que sua transferência não se pode dar por alienação, sendo lícito cederse seu exercício por título gratuito ou oneroso10. 7 Art. 1.007. Salvo estipulação em contrário, o sócio participa dos lucros e das perdas, na proporção das respectivas quotas, mas aquele, cuja contribuição consiste em serviços, somente participa dos lucros na proporção da média do valor das quotas. 8 Código Civil – Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Art. 1.390. O usufruto pode recair em um ou mais bens, móveis ou imóveis, em um patrimônio inteiro, ou parte deste, abrangendolhe, no todo ou em parte, os frutos e utilidades. 9 Art. 1.392. Salvo disposição em contrário, o usufruto estendese aos acessórios da coisa e seus acrescidos. (ibidem) 10 Art. 1.393. Não se pode transferir o usufruto por alienação; mas o seu exercício pode cederse por título gratuito ou oneroso. (ibidem) Fl. 654DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 655 23 Certo ainda que o usufrutuário tem direito à posse, uso, administração e percepção dos frutos (CC/2002, artigo 1394) e, em caso de título de crédito com usufruto, o detentor do usufruto terá direito a perceber os frutos e a cobrar as respectivas dívidas (ibidem, artigo 1395). Com este cenário estampado parece ter razão a recorrente quando pugna, exaustivamente, que os beneficiários dos JCP pagos/creditados seriam os usufrutuários e não os proprietários das ações, de modo que os lançamentos exigindo o reconhecimento da receita na contribuinte autuada não fariam sentido e, por isso, deveriam ser cancelados. Em que pese a sempre brilhante argumentação do patrono da recorrente em todas as peças que produz, ouso dela discordar. É certo, como dito antes, que ao usufruto e aos usufrutuários aplicamse as normas expressas na legislação civil. Também é certo que, na forma dos artigos 109 e 110 do CTN11, os princípios gerais de direito privado podem ser utilizados no âmbito do direito para pesquisa de definição, conteúdo e alcance dos seus institutos, conceitos e formas, “mas não para definição dos respectivos efeitos tributários” e que a legislação tributária “não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado” e, desta forma, “definir ou limitar competências tributárias”. Todavia (e aí me parece residir a grande divergência de raciocínio entre as partes em combate), não houve pelo lado do Fisco, como quer fazer entender a recorrente, uma interpretação equivocada da legislação tributária, ao contrário, a Autoridade Fiscal única e tão somente assumiu legislação própria e específica da seara tributária (e não de natureza civil), aplicandoa ao caso concreto. Ou seja, não desvirtuou nem modificou nem alterou conceitos e formas de direito privado para imputar obrigações tributárias. Exatamente ao inverso. Os conceitos eram fechadamente de matéria fiscal, expressos na Lei nº 9.249, de 1996, de modo que impensável supor que a lei civil (direito privado), por um de seus institutos, “usufruto” possa ser fundamento para afastar regra de natureza específica e voltada ao Direito Tributário (ramo de direito público). Isso porque, como antes já relatado, os JCP surgiram no Brasil com cunho estritamente fiscal, tanto que sequer dele cuida a lei societária (Lei nº 6.404/1976), sempre lembrando que a lei nº 9.249/1996 (JCP) foi editada 20 anos após a dita Lei das S/A que, diga se, já sofreu inúmeras alterações, ampliações e revogações, sem que JAMAIS este tópico tenha sido a ela incorporado pelo legislador. 11 Art. 109. Os princípios gerais de direito privado utilizamse para pesquisa da definição, do conteúdo e do alcance de seus institutos, conceitos e formas, mas não para definição dos respectivos efeitos tributários. Art. 110. A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias. Fl. 655DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 656 24 Em síntese, como bem apontado pela Procuradoria Fazendária em suas contrarrazões, “os JCP não estão previstos em normas de direito privado, mas em norma específica tributária”, de forma que se está diante de um instituto com faceta exclusiva do Direito Tributário, impondo concluir que, regidos os JCP unicamente pelo art. 9º da Lei nº 9.249, de 1996, encontramse a salvo de que um instituto privado possa vir a lhes modificar o regime jurídico tributário. Mais a mais, o fato de a Lei nº 6.404/1976 fazer referência ao usufruto e permitir pagamento de dividendos aos usufrutuários de ações em nada modifica o quadro aqui estampado, muito ao contrário o reforça, isto porque na referida lei só se tratou de dividendos, em nenhum momento de “juros sobre capital próprio”. Enfaticamente, “os juros sobre o capital não ostentam o mesmo caráter jurídico dos dividendos” (Edmar Oliveira Andrade Filho). Ainda nas palavras do renomado autor, “aqueles remuneram os investidores em razão da indisponibilidade dos recursos enquanto os dividendos os remuneram pelo sucesso do empreendimento”.12 (negritouse). Fábio Konder Comparato13 leciona: “Os juros calculamse sobre quantia fixa (principal), em função do tempo decorrido. Os dividendos, embora calculados sobre quantia fixa, só podem ser pagos com os resultados positivos obtidos na exploração empresarial, resultados esses cuja variação não está ligada à fluência do tempo”. Para Umberto Navarrini e G. Fagella (in “Das Sociedades Comerciais – v.2 – Rio de Janeiro – José Konfino – 1950 – fls. 532 – citado por Edmar Oliveira Andrade Filho obra citada – fls. 448): “A oposição entre dividendos e juros é aqui marcada de maneira decidida: os primeiros representam o lucro da sociedade, os outros deveriam representar a compensação pelos riscos que os SÓCIOS correm”. (destaquei). Ou seja, SEMPRE E SEMPRE, os juros remuneram o capital investido pelos acionistas, sócios ou empreendedor individual. Os dividendos são parte do lucro obtido. Para que estes existam é necessário que o resultado seja positivo. Para que aqueles sejam pagos/creditados, basta a existência de valores positivos no Patrimônio Líquido da sociedade sobre o qual serão calculados. Se os dividendos têm previsão na norma societária (por exemplo, artigos 26, 42, 111, 118, da Lei nº 6.404/1976) e o usufruto e usufrutuário são destacados no mesmo diploma legal (artigos 40, 114) e, mais especificamente ainda, o artigo 205 prevê pagamento de dividendos a usufrutuários14, na legislação que cuida dos JCP (Lei nº 9.249, de 26 de 12 Edmar Oliveira Andrade Filho – in Imposto de Rendas das Empresas – 10ª Ed. Atlas – SP – 2013 – fls. 447/448 13 Direito Empresarial – São Paulo – Saraiva – 1990 fls. 164165) 14 Art. 205. A companhia pagará o dividendo de ações nominativas à pessoa que, na data do ato de declaração do dividendo, estiver inscrita como proprietária ou usufrutuária da ação. Fl. 656DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 657 25 dezembro de 1995) não se vê UMA ÚNICA CITAÇÃO, por mínima que seja, de que os juros possam ser pagos a “usufrutuários”. Muito diversamente, a redação do artigo 9º é claríssima no sentido de determinar a remuneração do investidor que aportou recursos na pessoa jurídica, ou seja, aquele que retirou recursos próprios e, acreditando no empreendimento do qual participa, deixou de aplicálo em outros investimentos e carreouos à própria empresa. Vejase (destacado): Art. 9º A pessoa jurídica poderá deduzir, para efeitos da apuração do lucro real, os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pro rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo TJLP. Na trilha da jurisprudência deste Colegiado (Ac. n° 10196.692) IRPJ — JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO — Os juros sobre capital próprio investido pela sociedade em outra empresa não têm natureza de lucro ou dividendo, mas de receita financeira. Regime jurídico tributário diferenciado. Os juros recebidos em decorrência de aplicação capital próprio em outra pessoa jurídica compõem a base de cálculo do IRPJ. (grifamos) Foi vista antes, a exposição de motivos que compôs o PL nº 913/1995, posteriormente Lei nº 9.249/1995. Vejase abaixo a exposição de motivos quando da conversão do PL na própria Lei: 10. Com vistas a equiparar a tributação dos diversos tipos de rendimentos do capital, o Projeto introduz a possibilidade de remuneração do capital próprio investido na atividade produtiva, permitindo a dedução dos juros pagos aos acionistas, até o limite da variação da Taxa de Juros de Longo prazo TJLP; compatibiliza as alíquotas aplicáveis aos rendimentos provenientes de capital de risco àquelas pela qual são tributados os rendimentos do mercado financeiro; desonera os dividendos; caminha na direção da equalização do tratamento tributário do capital nacional e estrangeiro; e revoga antiga isenção do imposto de renda incidente sobre a remessa de juros para o exterior, prevista no DecretoLei nº 1.215, de 1972 (arts. 9º a 12, § 2º do art. 13, art. 28, e inciso I do art. 32), a fim de que não ocorra qualquer desarmonia no tratamento tributário que se pretende atingir. Igualandose, para esse fim, o aplicador nacional e estrangeiro. 11. A permissão de dedução de juros pagos ao acionista, até o limite proposto, em especial, deverá provocar um incremente das aplicações produtivas nas empresas brasileiras capacitandoas a elevar nível de investimentos, sem endividamento, com evidentes vantagens no que se refere à geração de empregos e ao crescimento sustentado da economia. Objetivo a ser atingido mediante a adoção de política tributária moderna e compatível com aquela praticada pelos demais países emergentes, que competem com o Brasil na capacitação de recursos internacionais para investimento. Fl. 657DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 658 26 O Superior Tribunal de Justiça, ao apreciar o Recurso Especial nº 1.169.202 – SP, que tratou do direito de voto relativamente a ações objeto de usufruto vidual (usufruto em função de herança), adotou posição que não destoa da acima esposada. Confirase excerto do voto da Ministra Nancy Andrighi: “(...) Acrescentese a isso o fato de que o nuproprietário permanece acionista, inobstante o usufruto, e sofre os efeitos das decisões tomadas nas assembléias em que o direito de voto é exercido”. (grifouse) Em resumo, pela literal definição do artigo 9º, da Lei nº 9.249, de 26/12/1995, os JCP devem se pagos ao acionista. Mesmo que constituído o usufruto sobre as ações, o nuproprietário permanece sendo o acionista. É a ele, então, que devem ser pagos os juros, tendo em vista a relação jurídica travada no âmbito tributário. Não ao usufrutuário. Neste momento, permitome voltar aos dizeres dos artigos 109 e 110 do CTN, olhandoos agora sob novo enfoque. Se não é permitido subverter as normas, conteúdo e alcance dos institutos de direito privado (Direito Civil) para definir os respectivos efeitos tributários e se a legislação tributária “não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado” para “definir ou limitar competências tributárias”, a mão inversa sofre a mesma ou até maior restrição, digase, não é possível, como quer a recorrente, ampararse em conceitos e definições de caráter privado (usufruto e usufrutuários) para obter um benefício que a lei fiscal, ou seja, lei tributária, NÃO CONCEDEU. Ora, como exaustivamente visto, os JCP não fazem parte do arcabouço de normas de direito privado, mas, sim, norma de específica vigência na área tributária, ou seja, a celeuma envolve instituto exclusivo da esfera do direito tributário, de tal forma que regidos exclusivamente pelo que foi disposto no art. 9º da Lei nº 9.249, de 1996, não se permite que instituto de natureza privada possa modificar seu regime jurídico. Por todos estes pontos, plenamente relevantes e pertinentes a remessa ao artigo 123 do CTN (ratificada pela decisão recorrida), posto que aplicável tal dispositivo ao caso sob análise, valendo registrar os argumentos expressos pelo voto condutor do acórdão recorrido acerca da matéria: “Sobre a aplicação da norma constante do art. 123 do CTN ao caso dos autos, o impugnante a entende equivocada. Defende que os juros sobre o capital próprio consistem em direito do usufrutuário. Os juros a ele pertenceriam desde o pagamento ou crédito inicial. Dito de outra forma, não teria havido a transferência do encargo fiscal. Consoante já demonstrado à saciedade, a lei tributária determina o contrário, ou seja, que o pagamento ou crédito dos juros se dá em favor do acionista, que é o nuproprietário. Dessa forma, a operação engendrada pelo impugnante redundou na transferência do encargo fiscal do sujeito passivo legalmente eleito (acionista/nuproprietário) para terceiro (usufrutuário). Passo seguinte é a interpretação da regra insculpida no art. 123 do CTN.Seria a regra circunscrita às convenções que tenham por objeto a definição de quem será o responsável pelo pagamento do tributo? Ou também seria aplicável às convenções que não tivessem esse objeto de Fl. 658DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 659 27 forma explícita, mas que atingissem o efeito da transferência do encargo fiscal? Entendo que a segunda hipótese é aquela que consta da regra. Repriso a norma: “Art. 123. Salvo disposições de lei em contrário, as convenções particulares, relativas à responsabilidade pelo pagamento de tributos, não podem ser opostas à Fazenda Pública, para modificar a definição legal do sujeito passivo das obrigações tributárias correspondentes.” A meu juízo, a expressão “relativas à responsabilidade” deve ser entendida como “relacionadas com a responsabilidade”. O fim colimado pela norma é vedar que ajustes privados alterem a definição legal do sujeito passivo. No caso do autos, a convenção particular (usufruto) não possui por objeto específico a responsabilidade pelo pagamento, mas imprime alteração na sujeição passiva, segundo o entendimento do impugnante (os juros sobre o capital próprio pertencem ao usufrutuário desde o seu pagamento ou crédito inicial). Sob esse ângulo, a aplicação do art. 123 do CTN ao caso dos autos se apresenta correta”. Resumindo, é impensável que uma norma cogente e de observância compulsória, advinda do Poder Público, possa ter seus contornos e responsabilidades alteradas meramente por uma convenção entre partes privadas e assim modificar o sujeito passivo previamente fixado por lei. No caso concreto, a se aceitar tal tese estarseia modificando o sujeito passivo eleito pela lei fiscal (Lei nº 9.249/1995), ou seja, o ACIONISTA, proprietário das ações, substituindoo pelo “usufrutuário”, figura jurídica advinda do direito privado e não citada na norma legal em momento algum. Em síntese, nenhuma convenção ou negócio entre particulares pode servir como fundamento para alterar o que foi definido na legislação tributária. O entendimento dado pela recorrente à matéria levaria à substituição da sujeição passiva tributária, em clara violação ao que dispõe o art. 123 do CTN e art. 9º da Lei nº 9.249, de 1996. Seria o mesmo que aceitar, por exemplo, que um acordo de natureza privada pudesse determinar ao Poder Público Municipal que lançasse o IPTU de um imóvel contra o “inquilino” deste imóvel e não contra o “proprietário”, só porque no contrato de locação estaria definido que o ônus financeiro deste tributo correria por conta do citado inquilino. Claro que este tipo de contrato existe e é bem comum (o inquilino arcar com o ônus do IPTU do imóvel alugado), mas ele só tem valor entre as partes, ou seja, o morador geralmente reembolsa o montante do imposto ao proprietário que faz o pagamento do tributo ao município, na qualidade de contribuinte que é. Ou seja, o IPTU é lançado contra o proprietário e não em desfavor do inquilino, não sendo possível alterarse o sujeito passivo eleito pela lei, posto que inadmissível opor acordo de cunho privado aos ditames da legislação tributária, conforme literal disposição do artigo 123 do CTN. Fl. 659DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 660 28 Por fim, entendo carecer razão à recorrente quanto às alegações de que o Fisco teria questionado a criação da empresa IUPAR ou que o usufruto sobre as ações tenha sido feito irregularmente. Na verdade, o que o Fisco questionou foi a interpretação das normas tributárias pela autuada, com a consequente apuração dos tributos que a contribuinte estava obrigada a recolher aos cofres públicos, tidos como feitos de modo irregular, jamais interferir em procedimentos de natureza privada e privativa do sujeito passivo. Em linguajar diverso, o que a Autoridade Fiscal suscitou foram os efeitos tributários que a contribuinte pretendeu conferir às receitas provenientes de JCP. Neste eito, absolutamente irrelevante a afirmação da recorrente de que “se os acionistas não tivessem aportado ações na Recorrente, os tributos que o Fisco perceberia seriam menores” (destaque no original). Não se trata de que os tributos devidos e recolhidos sejam “maiores” ou “menores”. Tratase, sim, da correta aplicação da norma jurídica. Neste panorama, por tudo o que se viu até agora, é possível chegarse à inevitável pergunta: “Os usufrutuários das ações, acionistas da recorrente, estariam impedidos, de receber os benefícios dos JCP?” Ou, mudando os dizeres do questionamento, “pode o Fisco intrometerse em contratos de natureza estritamente privadas e celebrados por particulares, desqualificando os?” Em ambos os casos a resposta, certamente, é NÃO! O que o Fisco pode, sim, é exigir, à vista da estrita obediência aos regramentos legais que permeiam a legislação tributária, que tais pagamentos de JCP – exclusivamente sob o ângulo do direito fiscal, sejam à referida legislação subordinados. Só isso. Não se trata de invasão indevida a atos praticados por particulares e contratos de natureza privada, mas de submeter tais acordos aos perímetros da lei. Concretamente, nada, mas nada mesmo! poderia impedir que os acionistas da IUPAR fossem remunerados pelo pagamento de JCP, mas não na categoria de “usufrutuários” como pretendido, recebendo pagamentos feitos pela empresa da qual a IUPAR é a acionista (e não eles, usufrutuários), no caso, Itaú Unibanco Holding S/A, mas, sim, recebendo os benefícios dos juros quando pagos pela recorrente, IUPAR, na qualidade de acionistas que são desta sociedade e não daquela (Itaú Unibanco Holding S/A) . Neste cenário, a recorrente receberia, como acionista que é da Itaú Unibanco Holding S/A, os JCP pagos pela sua investida e, subsequentemente, se entendesse viável, calcularia e pagaria juros sobre o capital próprio para seus acionistas (no caso, as pessoas físicas/jurídicas) que compõem sua estrutura societária, e aí não mais como USUFRUTUÁRIOS, mas como ACIONISTAS. Fl. 660DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 661 29 Esquematicamente: 1. Itaú Unibanco Holding S/A pagaria JCP à sua acionista IUPAR 2. IUPAR pagaria JCP a seus acionistas pessoas físicas/jurídicas Neste fotograma simbólico, o Fisco não poderia impedir, criar obstáculos ou impor óbices ao procedimento. Com este singelo e elementar procedimento estariam atendidas as legislações fiscais e societárias e o questionamento do Fisco inexistiria. Assumindo postura diferente, ainda que por razões de manter o controle das decisões na empresa investida (o que é bastante lógico sob o ponto de vista societário), tenha sido engendrada toda a engenharia que estampa sua estrutura social, a verdade é que acabou por atrair para si o ônus de enfrentar a legislação fiscal, visto ter esta outra dimensão além das que se relacionam com o direito privado, exatamente por envolver o interesse público. Neste patamar, reforcese, ainda que sob o enfoque civil, comercial e societário não haja o que opor ao acordado e decidido pela recorrente em sua vida social privada, debaixo da ótica fiscal o regramento tem outra configuração, tanto que permitiu à Autoridade Fiscal perpetrar os lançamentos ora analisados. Voltando um pouco atrás, tivesse a recorrente procedido como assentado neste voto, digase, tivesse ela tivesse recebido os JCP da investida (Itaú Unibanco Holding S/A) e posteriormente pago os JCP a seus acionistas (agora não mais como usufrutuários) e nada seria questionado. Ocorre que, na verdade, este modus operandi traz um “problema”: aumento da carga tributária, nem sempre – ou quase nunca! – interessante para os contribuintes. Realidade observada com perspicácia por Hiromi Higuchi et alli15: “A vantagem fiscal do pagamento de juros sobre o capital próprio desaparece quando a beneficiária é pessoa jurídica, por vários motivos. A pessoa jurídica, na redistribuição de juros sobre o capital próprio, terá que observar as condições de dedutibilidade, nem sempre possíveis de serem cumpridas. A redução para zero das alíquotas de PIS e COFINS incidentes sobre as receitas financeiras, de que trata o Decreto nº 5.164, de 2004, substituído pelo Decreto nº 5.442, de 2005, excluiu do benefício os juros sobre o capital próprio. Com isso, as empresas tributadas pelo lucro real pagam PIS e COFINS de 9,25% sobre a receita recebida. Se a beneficiária dos juros sobre o capital próprio for tributada pelo lucro presumido, além de pagar o PIS e a COFINS de 3,65%, os juros recebidos entram na base de cálculo de IRPJ e CSLL a título de outros rendimentos, sem aplicação dos percentuais de presunção do lucro, ou seja, 15% mais 9% sem a incidência do adicional. 15 Hiromi Higuchi, Fabio Hiroshi Higuchi e Celso Hiroyoki Higuchi – Imposto de Renda das Empresas – Interpretação e Prática – 35ª Ed. – IR Publicações Ltda. – São Paulo – 2010 – fls. 119/120 Fl. 661DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 662 30 Em alguns grupos empresariais, entre a pessoa jurídica produtiva e a pessoa física investidora encontramse duas ou três pessoas jurídicas meramente investidoras. Nesta hipótese, o aumento de ônus tributário de 9,25% ocorre em cada pagamento na cadeia de participação societária porque a pessoa jurídica que paga os juros, a despesa financeira não gera nenhum crédito de PIS e COFINS”. (destacouse). Concluindo, o beneficiário dos JCP pagos/creditados é o acionista que detém a nuapropriedade das ações, ainda que gravadas com cláusula de usufruto e não os usufrutuários, sendo inaplicável perfilar institutos jurídicos diferentes (dividendos e juros sobre capital próprio) como se fossem simétricos, primeiro porque um é destacado do lucro e exige resultado positivo para que possa ser distribuído e o outro é remuneração de recursos próprios do investimento feito pelo acionista; depois porque suas bases legais são diferentes, os dividendos e os eventuais usufrutos gravados sobre ações sustentandose na Lei nº 6.404/1976 e os JCP com fulcro em Lei Fiscal de caráter específico que não se refere, em momento algum, à possibilidade de os pagamentos serem feitos a “usufrutuários”. De outro lado, acordos entre partes não podem ser opostos ao Fisco para modificar a definição legal do sujeito passivo relativamente às obrigações tributárias correspondentes (CTN, art. 123) sendo tais acordos, como o próprio nome diz, nada mais que res inter alios16 e como tal devem ser tratados. Assim, não reconhecida pela recorrente a receita dos JCP pagos/creditados pela Itaú Unibanco Holding S/A, correta a imputação feita pela Fiscalização, exigindo o IRPJ e a CSLL devidos". Entretanto, como dito no preâmbulo desta “Declaração de Voto”, as argumentações expostas por este Conselheiro restaram vencidas pelo Colegiado que pugnou pelo provimento do RV interposto e afastou os lançamentos. Entretanto, ainda que assim seja, meu pensamento permanece incólume em relação ao que consta naquele processo e principalmente acerca da matéria lá trazida. DO CASO CONCRETO Feitas estas ponderações, volto ao caso concreto, dizendo respeito à análise dos lançamentos de PIS/COFINS, reflexos dos de IRPJ presentes no Processo nº 16327.721155/201444, acima citado. Neste momento, em razão de se estar diante de situação fática e jurídica consumada e que se reporta integralmente ao presente naquele processo (nº 16327.721155/201444), do qual este (processo nº 16327.720751/201415) é mero reflexo e sendo os lançamentos lá expostos exonerados por decisão da maioria do Colegiado (vencido este Conselheiro, então Relator), óbvio que as imputações de PIS e COFINS aqui analisadas devem seguir o mesmo caminho do que foi decidido em relação ao processo principal (IRPJ), guardando com ele a necessária coerência. 16 Coisa entre terceiros Fl. 662DF CARF MF Processo nº 16327.720751/201415 Acórdão n.º 1402003.754 S1C4T2 Fl. 663 31 Mais a mais, caso tivessem sido como geralmente são , juntados em um único processo, a decisão aplicada ao IRPJ, por evidente, alcançaria automaticamente os reflexos presentes nos mesmos autos, nem havendo necessidade de julgamento apartado. Desse modo e pelo exposto, neste julgamento ainda que, repito, mantenha, em relação ao mérito, o mesmo entendimento que expressei e estão traduzidos no Ac. 1402 002.445 acompanhei o Relator e a Turma Julgadora para dar provimento ao recurso voluntário. Estes os argumentos que entendo serem necessários para esclarecer a minha posição. É como voto. (documento assinado digitalmente) PAULO MATEUS CICCONE Fl. 663DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10783.902380/2013-35
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 26 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Mar 19 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 3402-001.773
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do Colegiado, por maioria de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto da relatora. Vencidos os Conselheiros Maria Aparecida Martins de Paula, Larissa Nunes Girard (suplente convocada) e Waldir Navarro Bezerra que entendiam pela desnecessidade da diligência, uma vez que somente foram apresentados os DACON e DCTF retificadores.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Maysa de Sá Pittondo Deligne - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Larissa Nunes Girard (suplente convocada), Cynthia Elena de Campos e Thais De Laurentiis Galkowicz. Ausente o Conselheiro Pedro Sousa Bispo, sendo substituído pela Conselheira Larissa Nunes Girard (suplente convocada).
Nome do relator: MAYSA DE SA PITTONDO DELIGNE
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Recorrente BRAZIL TRADING LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do Colegiado, por maioria de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto da relatora. Vencidos os Conselheiros Maria Aparecida Martins de Paula, Larissa Nunes Girard (suplente convocada) e Waldir Navarro Bezerra que entendiam pela desnecessidade da diligência, uma vez que somente foram apresentados os DACON e DCTF retificadores. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Larissa Nunes Girard (suplente convocada), Cynthia Elena de Campos e Thais De Laurentiis Galkowicz. Ausente o Conselheiro Pedro Sousa Bispo, sendo substituído pela Conselheira Larissa Nunes Girard (suplente convocada). RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 07 83 .9 02 38 0/ 20 13 -3 5 Fl. 122DF CARF MF Processo nº 10783.902380/201335 Resolução nº 3402001.773 S3C4T2 Fl. 123 2 Relatório Tratase de pedido de compensação relacionado a crédito de pagamento indevido ou a maior de PIS Não cumulativo (código de receita 6912) relativo ao período de apuração de 31/12/2009. Após a transmissão de despacho decisório não homologando a compensação pleiteada, sob a justificava do crédito pleiteado ter sido utilizado para quitar débito de PIS Não cumulativo do período, o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade informando que os débitos de PIS originariamente informados em DCTF foram revisados e reduzidos, ensejando em pagamento indevido ou a maior no período. Como comprovante, apresentou, dentre outros documentos, cópia da DCTF e DACON retificadores. Esta defesa foi julgada improcedente pela Delegacia de Julgamento, em acórdão ementado nos seguintes termos: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do fato gerador: 25/01/2010 NULIDADE. PRESSUPOSTOS. Ensejam a nulidade apenas os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. RETIFICAÇÃO DE DCTF. NECESSIDADE DE PROVAS. A retificação de declaração já apresentada à RFB somente é válida quando acompanhada dos elementos de prova que demonstrem a ocorrência de erro de fato no preenchimento da declaração original (art. 147 § 1º, do CTN) DIREITO CREDITÓRIO. PROVAS. MOMENTO PARA APRESENTAÇÃO. Cabe à contribuinte, no momento da apresentação da manifestação de inconformidade, apresentar todos os documentos que comprovem os fatos alegados. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido" (efl. 74) Intimada desta decisão em 28/03/2016 (efl. 89), a empresa apresentou Recurso Voluntário em 25/04/2016 (efls. 91/102) alegando, em síntese: (i) preliminarmente, a nulidade do despacho decisório, face a ausência de motivação expressa para a não homologação da compensação pleiteada; (ii) no mérito, a necessidade de reconhecimento do crédito, devidamente respaldado pela retificação dos documentos fiscais (DCTF e DACON). Sustenta a possibilidade de retificação da DCTF para refletir os dados do DACON mesmo após a transmissão do PER/DCOMP (Parecer Normativo COSIT n.º 2/2015), indicando a possibilidade da conversão do processo em diligência para confirmar a validade das informações. Em seguida, os autos foram direcionados a este Conselho para julgamento. É o relatório. Fl. 123DF CARF MF Processo nº 10783.902380/201335 Resolução nº 3402001.773 S3C4T2 Fl. 124 3 Voto Conselheira Relatora Maysa de Sá Pittondo Deligne. O Recurso Voluntário é tempestivo e merece ser conhecido. Entendo, contudo, pela necessidade de conversão do processo em diligência para verificar a validade do crédito pleiteado pelo sujeito passivo. Como se depreende dos presentes autos, a Recorrente entende que seria suficiente a retificação do DACON e, posteriormente, da DCTF, para confirmar a validade do seu crédito. Contudo, necessário ainda que, além deste indício da existência do crédito, sejam analisados os documentos contábeis e fiscais necessários à confirmar a validade das informações constantes do DACON. Uma vez que o contribuinte trouxe documentos que sugerem a existência do crédito (DACON e DCTF retificadores), entendo pela necessidade da conversão do processo em diligência para que a autoridade fiscal de origem oportunize à Recorrente a apresentação de documentos e informações adicionais que podem confirmar sua validade. Diante dessas considerações, à luz do art. 29 do Decreto n.º 70.235/721, proponho a conversão do presente processo em diligência para que a autoridade fiscal de origem (Delegacia da Receita Federal do Brasil em Vitória/ES): (i) intime a Recorrente para apresentar cópia dos documentos fiscais e contábeis entendidos como necessários para que a fiscalização possa confirmar o crédito tomado pelo contribuinte informado em seu DACON retificador (notas fiscais emitidas, as escritas contábil e fiscal e outros documentos que considerar pertinentes). Importante que sejam anexados aos autos o DACON e a DCTF originais, com os esclarecimentos pela empresa de quais informações foram modificadas na apuração do PIS devido no mês (comparação entre o DACON original e o DACON retificador). (ii) elaborar relatório fiscal conclusivo considerando os documentos e esclarecimentos apresentados, informando se os dados trazidos pelo contribuinte no DACON retificador estão de acordo com sua contabilidade, veiculando análise quanto à validade do crédito informado pelo contribuinte e a possibilidade de seu reconhecimento no presente processo. Concluída a diligência e antes do retorno do processo a este CARF, intimar a Recorrente do resultado da diligência para, se for de seu interesse, se manifestar no prazo de 30 (trinta) dias. É como proponho a presente Resolução. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne. 1 "Art. 29. Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias." Fl. 124DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13502.001217/2007-11
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 13 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Mar 14 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/03/1995 a 30/04/1995
DECISÃO DEFINITIVA. ÓRGÃO COLEGIADO QUE ADMINISTRAVA O TRIBUTO. QUESTIONAMENTO EM SEDE DE RECURSO VOLUNTÁRIO. REAPRECIAÇÃO PELO CARF. IMPOSSIBILIDADE.
O julgamento em outros órgãos da administração federal far-se-á de acordo com a legislação própria, ou, na sua falta, conforme dispuser o órgão que administra o tributo, forte no art. 38 do Decreto n. 70.235/1972.
Existindo decisão definitiva exarada por órgão colegiado da administração federal que administra o tributo, falece competência ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) para rediscuti-la, pois não cabe a este atuar como instância revisora das decisões exaradas pelo Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS).
RENOVAÇÃO DE LANÇAMENTO. ALTERAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO. CARACTERIZAÇÃO.
A alteração da qualificação jurídica, consubstanciada na mudança do enquadramento legal do fato jurídico tributário quando da renovação de lançamento autorizada pelo competente órgão julgador que administra o tributo, configura conduta vedada pelo CTN (art. 146).
PRELIMINAR DE DECADÊNCIA. SÚMULA VINCULANTE STF 8. LEI COMPLEMENTAR 128/2008. ART. 173, I E II, DO CTN. OCORRÊNCIA. LANÇAMENTO SUBSTITUTO.
Transcorrido o quinquênio decadencial previsto na regra geral do art. 173, I, do CTN, em face do lançamento substituto, há se reconhecer o advento da decadência.
As regras de decadência de créditos de natureza tributária (incluídos as contribuições previdenciárias) são aquelas estabelecidas no CTN.
Numero da decisão: 2402-006.973
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Mauricio Nogueira Righetti e Denny Medeiros da Silveira, que negaram provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Denny Medeiros da Silveira - Presidente
(assinado digitalmente)
Luís Henrique Dias Lima - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luís Henrique Dias Lima, João Victor Ribeiro Aldinucci, Paulo Sérgio da Silva, Wilderson Botto (Suplente Convocado), Maurício Nogueira Righetti, Renata Toratti Cassini, Gregório Rechmann Júnior e Denny Medeiros da Silveira.
Nome do relator: LUIS HENRIQUE DIAS LIMA
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/03/1995 a 30/04/1995 DECISÃO DEFINITIVA. ÓRGÃO COLEGIADO QUE ADMINISTRAVA O TRIBUTO. QUESTIONAMENTO EM SEDE DE RECURSO VOLUNTÁRIO. REAPRECIAÇÃO PELO CARF. IMPOSSIBILIDADE. O julgamento em outros órgãos da administração federal far-se-á de acordo com a legislação própria, ou, na sua falta, conforme dispuser o órgão que administra o tributo, forte no art. 38 do Decreto n. 70.235/1972. Existindo decisão definitiva exarada por órgão colegiado da administração federal que administra o tributo, falece competência ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) para rediscuti-la, pois não cabe a este atuar como instância revisora das decisões exaradas pelo Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS). RENOVAÇÃO DE LANÇAMENTO. ALTERAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO. CARACTERIZAÇÃO. A alteração da qualificação jurídica, consubstanciada na mudança do enquadramento legal do fato jurídico tributário quando da renovação de lançamento autorizada pelo competente órgão julgador que administra o tributo, configura conduta vedada pelo CTN (art. 146). PRELIMINAR DE DECADÊNCIA. SÚMULA VINCULANTE STF 8. LEI COMPLEMENTAR 128/2008. ART. 173, I E II, DO CTN. OCORRÊNCIA. LANÇAMENTO SUBSTITUTO. Transcorrido o quinquênio decadencial previsto na regra geral do art. 173, I, do CTN, em face do lançamento substituto, há se reconhecer o advento da decadência. As regras de decadência de créditos de natureza tributária (incluídos as contribuições previdenciárias) são aquelas estabelecidas no CTN.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Mauricio Nogueira Righetti e Denny Medeiros da Silveira, que negaram provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira - Presidente (assinado digitalmente) Luís Henrique Dias Lima - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luís Henrique Dias Lima, João Victor Ribeiro Aldinucci, Paulo Sérgio da Silva, Wilderson Botto (Suplente Convocado), Maurício Nogueira Righetti, Renata Toratti Cassini, Gregório Rechmann Júnior e Denny Medeiros da Silveira.
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ÓRGÃO COLEGIADO QUE ADMINISTRAVA O TRIBUTO. QUESTIONAMENTO EM SEDE DE RECURSO VOLUNTÁRIO. REAPRECIAÇÃO PELO CARF. IMPOSSIBILIDADE. O julgamento em outros órgãos da administração federal farseá de acordo com a legislação própria, ou, na sua falta, conforme dispuser o órgão que administra o tributo, forte no art. 38 do Decreto n. 70.235/1972. Existindo decisão definitiva exarada por órgão colegiado da administração federal que administra o tributo, falece competência ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) para rediscutila, pois não cabe a este atuar como instância revisora das decisões exaradas pelo Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS). RENOVAÇÃO DE LANÇAMENTO. ALTERAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO. CARACTERIZAÇÃO. A alteração da qualificação jurídica, consubstanciada na mudança do enquadramento legal do fato jurídico tributário quando da renovação de lançamento autorizada pelo competente órgão julgador que administra o tributo, configura conduta vedada pelo CTN (art. 146). PRELIMINAR DE DECADÊNCIA. SÚMULA VINCULANTE STF 8. LEI COMPLEMENTAR 128/2008. ART. 173, I E II, DO CTN. OCORRÊNCIA. LANÇAMENTO SUBSTITUTO. Transcorrido o quinquênio decadencial previsto na regra geral do art. 173, I, do CTN, em face do lançamento substituto, há se reconhecer o advento da decadência. As regras de decadência de créditos de natureza tributária (incluídos as contribuições previdenciárias) são aquelas estabelecidas no CTN. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 50 2. 00 12 17 /2 00 7- 11 Fl. 329DF CARF MF Processo nº 13502.001217/200711 Acórdão n.º 2402006.973 S2C4T2 Fl. 330 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Mauricio Nogueira Righetti e Denny Medeiros da Silveira, que negaram provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira Presidente (assinado digitalmente) Luís Henrique Dias Lima Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luís Henrique Dias Lima, João Victor Ribeiro Aldinucci, Paulo Sérgio da Silva, Wilderson Botto (Suplente Convocado), Maurício Nogueira Righetti, Renata Toratti Cassini, Gregório Rechmann Júnior e Denny Medeiros da Silveira. Relatório Cuidase de Recurso Voluntário (efls. 158/188) em face do Acórdão n. 15 27.441 6ª. Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Salvador (BA) DRJ/SDR (efls. 144/151) que julgou improcedente a impugnação (efls. 106/125) e manteve o lançamento consignado na Notificação Fiscal de Lançamento de Débito (NFLD) DEBCAD n. 37.054.6989 consolidado e constituído em 30/01/2007 no valor total de R$ 9.432,66 Competências: 03/1995 a 04/1995 (efls. 02/34), com fulcro nas contribuições sociais devidas à Seguridade Social, nos termos do art. 20 e 22, I, da Lei n. 8.212/91, e naquelas destinadas ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho (SAT/RAT/GIILRAT), nos termos do art. 22, II, da Lei n. 8.212/91, todas decorrentes do instituto da responsabilidade tributária, conforme discriminado no Relatório Fiscal de efls. 64/76. De acordo com o Relatório Fiscal (efls. 64/77), a NFLD DEBCAD n. 37.054.6989, em litígio, substituiu a NFLD DEBCAD n. 35.897.4933, de 30/12/2005, declarada nula pela DecisãoNotificação (DN) n. 04.401.4/0189/2006, de 18/07/2006, em virtude de equívoco no relatório "Fundamentos Legais do Débito". A NFLD DEBCAD n. 35.897.4933, por sua vez, tinha sido lavrada em substituição à NFLD DEBCAD n. 32.615.8367 (processo n. 18050.002253/200853), de 18/12/1998, cientificada à CARAÍBA METAIS em 21/01/1999, anulada por decisão do Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS) órgão colegiado na época responsável pelo controle de legalidade das decisões em processo de interesse dos beneficiários e contribuintes da Seguridade Social nos termos do Acórdão n. 2035, de 02/09/2003. O crédito tributário em apreço foi lançado, conforme informado no Relatório Fiscal (efls. 64/77), em virtude da utilização de prestação de serviços remunerados de construção civil realizados por pessoas físicas vinculadas à empresa PAVTEST PAVIMENTAÇÃO TERRAPLANAGEM E ESTUDOS LTDA. CNPJ 15.130.388/000112 entre 03/1995 a 04/1995, havendo por fato gerador da contribuição previdenciária a Fl. 330DF CARF MF Processo nº 13502.001217/200711 Acórdão n.º 2402006.973 S2C4T2 Fl. 331 3 remuneração aferida através das notas fiscais referentes às atividades de construção civil emitidas pela retrocitada empresa. O lançamento em lide foi efetuado em face da CARAÍBA METAIS S/A CNPJ 15.224.488/000108 (contribuinte fiscalizado) e da empresa PAVTEST PAVIMENTAÇÃO TERRAPLANAGEM E ESTUDOS LTDA. CNPJ 15.130.388/000112. Devido à ausência, nos autos, da NFLD DEBCAD n. 35.897.4933 (com o respectivo relatório fiscal); a DecisãoNotificação (DN) n. 04.401.4/0189/2006, de 18/07/2006; a NFLD DEBCAD n. 32.615.8367, de 18/12/1998 (com o respectivo relatório fiscal); e o Acórdão n. 2035, de 02/09/2003, da lavra do Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS), que decretou a nulidade desta última, foi solicitado, nos termos da Resolução n. 2402 000.639 (efls. 263/266), que fossem juntados os referidos documentos, no que foi atendida (e fls. 290/322). A empresa PAVTEST PAVIMENTAÇÃO TERRAPLANAGEM E ESTUDOS LTDA. CNPJ 15.130.388/000112 não se manifestou nos autos. Em relação a essa empresa, é denunciado no Relatório Fiscal (efls. 64/76) que se encontra com situação cadastral ativa junto à Administração Tributária Federal: Sem contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Luís Henrique Dias Lima Relator. O Recurso Voluntário (efls. 158/188) já foi conhecido pelo Colegiado. Passo à análise. Inicialmente, é oportuno resgatar o entendimento do órgão julgador de primeira instância, consolidado no Acórdão n. 1527.441 (efls. 144/151) e sumarizado na ementa abaixo transcrita: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/03/1995 a 30/04/1995 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. BENEFÍCIO DE ORDEM. A ausência de fiscalização prévia do prestador do serviço não tem o condão de extinguir o crédito tributário devidamente lançado e cientificado ao tomador do serviço, isso porque a responsabilidade solidária não comporta benefício de ordem. Impugnação Improcedente Fl. 331DF CARF MF Processo nº 13502.001217/200711 Acórdão n.º 2402006.973 S2C4T2 Fl. 332 4 Crédito Tributário Mantido Em face da decisão recorrida, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário (e fls. 158/188) aduzindo, em apertada síntese, preliminar de decadência, e, no mérito, inexistência de responsabilidade solidária e de cessão de mãodeobra. Da Preliminar de Decadência A discussão acerca de decadência iniciase com a anulação do lançamento consubstanciado na NFLD DEBCAD n. 32.615.8367, de 18/12/1998, pelo Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS) órgão colegiado na época responsável pelo controle de legalidade das decisões em processo de interesse dos beneficiários e contribuintes da Seguridade Social nos termos do Acórdão n. 2035, de 02/09/2003 (efls. 297/301). A NFLD DEBCAD n. 32.615.8367 foi substituída pela NFLD DEBCAD 35.897.4933, que também foi anulada, agora mediante decisão exarada no âmbito da Decisão Notificação (DN) n. 04.401.4/0189/2006, de 18/07/2006 (efls. 313/322). A NFLD DEBCAD 35.897.4933 foi então substituída pela NFLD DEBCAD n. 37.054.6989, objeto do mérito deste litígio. De plano, cabe destacar que a decisão abrigada no Acórdão n. 2035, de 02/09/2003 (efls. 297/301) de cujo teor a Recorrente tomou conhecimento e contra ela não se insurgiu é definitiva, de mérito, e transitou em julgado na esfera administrativa, não sendo passível, assim, de qualquer tipo de discussão ou revisão suscitada por questionamento em sede de recurso voluntário, vez que falece competência ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) para o mister. por tratarse de instâncias de mesmo nível horizontal, sem qualquer hierarquia entre elas. Nesse sentido, cabe resgatar o art. 38 do Decreto n. 70.235/1972, verbis: Art. 38. O julgamento em outros órgãos da administração federal farseá de acordo com a legislação própria, ou, na sua falta, conforme dispuser o órgão que administra o tributo.(grifei) É dizer, não há que se rediscutir a natureza do vício (formal ou material) que fundamentou a anulação da NFLD DEBCAD n. 32.615.8367 lavrada em 18/12/1998 , prevalecendo assim a natureza de vício formal expressamente indicada no decisum do CRPS, incidindo, destarte, a regra do art. 173, II, do CTN, consoante determinado naquela decisão. Todavia, e apenas por amor à argumentação, destaco o teor do Acórdão n. 2035, de 02/09/2003 (efls. 297/301) ao tratar da NFLD DEBCAD n. 32.615.8367, verbis: [...] Conforme já relatado, trata a presente NFLD, lavrado em 21 JAN 99, de Contribuições Sociais destinadas ao custeio da Previdência Social e Terceiros, parcela empresa (Empresa/SAT) e empregados, incidente sobre a remuneração da mãodeobra cedida à Recorrente através da contratação de prestação de serviços e a ela imputado por solidariedade, vide Art. 31, da Lei 8.212/91. O débito é referente as competências 03 e 05.95 e foi apurado com base em nota fiscal de serviço, tudo conforme consta do Relatório Fiscal. Fl. 332DF CARF MF Processo nº 13502.001217/200711 Acórdão n.º 2402006.973 S2C4T2 Fl. 333 5 Cabe informar que contra a Recorrente foram lavradas diversas NFLD's com o mesmo objeto e que foram julgadas pela 2' e 4a CaJ/CRPS, que proferiram decisões divergentes. Tendo em vista se tratarem de processos conexos, foi determinado pelo Presidente do CRPS, que todos os processos fossem encaminhados à 2a CaJ/CRPS. [...] Conforme já vinha se manifestando a 2ª CaJ/CRPS é notório, obstante não constar do presente o TEAF da ação fiscal anterior, que no que diz respeito a solidariedade, se trata de retroação de fiscalização no período de 02.93 a 10.95. Tal conclusão é corroborada pelas manifestações do INSS, que não só deixam de rebater tal acertiva (sic), como tenta motivar a refiscalização nos seguintes termos processo conexo: [...] Assim temos um contribuinte que foi fiscalizado pelo INSS e na ocasião nenhum crédito foi constituído, restando a ele, tão somente a comprovação de estar agindo dentro dos termos da lei e recolhendo corretamente as contribuições fiscalizadas pelo INSS tal situação impossibilitou, inclusive, a correção de eventuais erros ou omissões do contribuinte. Aí, de uma hora para outra, tal estabilidade é alterada, não sendo apresentada a menor justificativa ao contribuinte para tal atitude e quando a 2ª CaJ/CRPS buscou alguma explicação, restou tão somente que o ato decorre apenas de prerrogativa e praxe do INSS nenhum comprovação de fraude, falta funcional da autoridade ou omissão de ato ou formalidade essencial foi apresentada. Por tudo o que foi acima exposto, não vejo melhor decisão que anular a NFLD em pauta, visto que lavrada em flagrante desrespeito aos direitos do Contribuinte. CONCLUSÃO Face ao exposto, voto no sentido conhecer do Pedido de Revisão e ANULAR o acórdão n.° 04/02341/2002, da 4ª CaJ/CRPS e ANULAR A NFLD em pauta, cabendo ao INSS verificar a oportunidade de adotar os procedimentos eferentes refiscalização e assim efetuar novo lançamento. (grifei) Assim, da leitura do Acórdão CRPS n. 2035, de 02/09/2003 (efls. 297/301) resta evidenciado que a NFLD DEBCAD n. 32.615.8367 lavrada em 18/12/1998 teve como fundamento legal a responsabilidade tributária por cessão de mão de obra (art. 31 da Lei n. 8.212/1991), tendo sido anulada, oportunizandose, todavia, ao INSS proceder a novo lançamento, o que pressupõe a aplicação do art. 173, II, do CTN, vez que caracterizado, ainda que não conste expressamente do decisum, vício formal, restando afastada qualquer possibilidade de rediscussão da sua natureza. Com lastro no decisum acima resgatado, a autoridade lançadora, constituiu, em 30/12/2005, a NFLD DEBCAD 35.897.4933, declarada nula pela DecisãoNotificação Fl. 333DF CARF MF Processo nº 13502.001217/200711 Acórdão n.º 2402006.973 S2C4T2 Fl. 334 6 (DN) n. 04.401.4/0189/2006, de 18/07/2006, em virtude de equívoco no relatório "Fundamentos Legais do Débito", vez que, nos termos daquela decisão: [...] 44. Não obstante o crédito previdenciário estar regularmente descrito no Relatório da Notificação Fiscal de Lançamento de Débito REFISC e os documentos anexados comprovem a existência do Fato Gerador, constatase que os AFPS se equivocaram ao fundamentálo, no relatório Fundamentos Legais do Débito FLD (fls. 30), no Art. 31 da Lei 8.212/91. [...] 47. Uma vez que a fundamentação registrada no sistema informatizado da Previdência está incorreta e não é passível de alteração, constatase a presença de vício formal insanável, devendo ser decretada a nulidade da presente NFLD, a qual deverá ser objeto de novo lançamento, com a fundamentação correta (Art. 30, VI, da Lei 8.212/91). [...](grifei) Ao fim e ao cabo, a DecisãoNotificação (DN) n. 04.401.4/0189/2006, de 18/07/2006, determina a emissão de NFLD substitutiva, que veio a se materializa na NFLD DEBCAD n. 37.054.6989, objeto do mérito deste litígio. Em face da decadência, é relevante destacar os esclarecimentos da decisão recorrida, que bem elucidam os fatos: [...] 14. A CARAÍBA METAIS S.A. foi cientificada da NFLD substituída DEBCAD n° 32.615.8367 (Processo n° 18050.002253/200853), de 18/12/1998, em 21/01/1999, então não foram alcançados pela decadência para a mesma os fatos geradores lançados nesta NFLD, 03/95 a 04/95, na contagem do prazo decadencial deste primeiro período. Não há que se falar em decadência frente ao segundo período de cientifícação de NFLD, haja vista que o Acórdão de nulidade n° 2035, no qual constava o registro expresso de que tal decisão resguardava os direitos da Administração Tributária no que se referia ao prazo decadencial previsto no art. 173, II, do CTN, data de 02/09/2003, e a ciência da NFLD DEBCAD n° 35.897.4933 se deu em 30/12/2005. Também não houve decadência no período compreendido entre a Decisão Notifícação n° 04.401.4/0189/2006, de 18/07/2006, que anulou a NFLD DEBCAD n° 35.897.4933, de 21/12/2005, e a ciência desta NFLD em 30/01/2007, haja vista que, na forma do art. 173, inciso II, do CTN, não se passaram 5 anos da data em que se tornou definitiva a decisão que anulou, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. [...](grifei) Fl. 334DF CARF MF Processo nº 13502.001217/200711 Acórdão n.º 2402006.973 S2C4T2 Fl. 335 7 Não há notícia nos autos, nem mesmo qualquer referência no recurso voluntário em apreço, de que a Recorrente tenha se insurgido contra a DecisãoNotificação (DN) n. 04.401.4/0189/2006, de 18/07/2006, o que a confere, também, caráter definitivo, sob a manta da coisa julgada administrativa. Com espeque na DecisãoNotificação (DN) n. 04.401.4/0189/2006, a autoridade lançadora, constituiu em 30/01/2007 a NFLD DEBCAD n. 37.054.6989 (lançamento substituto em litígio), dentro, portanto, do lapso temporal de cinco anos previsto no art. 173, II, do CTN, com fundamento legal na responsabilidade tributária de proprietário de obra de construção civil (art. 30, VI, da Lei n. 8.212/91): De se observar que o lançamento consignado na NFLD DEBCAD n. 35.897.4933 (lançamento substituto anulado) também teve fundamentação legal na responsabilidade tributária de proprietário de obra de construção civil (art. 30, VI, da Lei n. 8.212/91), conforme informado já no primeiro parágrafo da DecisãoNotificação (DN) n. 04.401.4/0189/2006, que o anulou: Tratase de lançamento de crédito previdenciário contra as empresas acima identificadas, no montante de R$ 9.020,14 (nove mil, vinte reais e quatorze centavos), consolidado em 21 de dezembro de 2005, relativo à responsabilidade solidária Fl. 335DF CARF MF Processo nº 13502.001217/200711 Acórdão n.º 2402006.973 S2C4T2 Fl. 336 8 decorrente da contratação de serviços de construção civil, conforme preceitua o Art. 30, IV da Lei 8.212/91. Ocorre que o lançamento abrigado na NFLD DEBCAD n. 32.615.8367 (lançamento original substituído) teve por fundamentação legal responsabilidade solidária por cessão de mão de obra (art. 31 da Lei n. 8.212/1991), conforme consta expressamente no Acórdão n. 2035, de 02/09/2003 (efls. 297/301), acima reproduzido, bem assim no respectivo relatório fiscal (efls. 290/296), verbis: Ora, nesse contexto, há de se reconhecer, sem muito esforço cognitivo, que desde o primeiro lançamento substituto (NFLD DEBCAD n. 35.897.4933), que foi anulado, ocorreu evidente alteração da qualificação jurídica consubstanciada na mudança do enquadramento legal do fato jurídico tributário, vez que o lançamento abrigado na NFLD DEBCAD n. 32.615.8367 (lançamento original substituído) lastreavase na responsabilidade solidária com fundamento na cessão de mão de obra (art. 31 da Lei n. 8.212/1991), e o seu sucessor (NFLD DEBCAD n. 35.897.4933) na responsabilidade solidária de proprietário de obra de construção civil (art. 30, VI, da Lei n. 8.212/91). Fl. 336DF CARF MF Processo nº 13502.001217/200711 Acórdão n.º 2402006.973 S2C4T2 Fl. 337 9 Nesse contexto, considerandose que a NFLD DEBCAD n. 35.897.4933 constituiuse em 30/12/2005 e referese às competências 03/1995 a 04/1995 é forçoso admitir se que já fora alcançado pela decadência, observandose a regra geral do art. 173, I, do CTN. Não obstante, conforme já informado, foi constituído em 30/12/2007 o lançamento consignado na NFLD DEBCAD n. 37.054.6989 (lançamento substituto em litígio). É dizer, ocorreu, no caso concreto, renovação do lançamento original (NFLD DEBCAD n. 32.615.8367), autorizada pela decisão do CRPS, por outros lançamentos substitutos, ambos com fundamento jurídico distinto, confrontando vedação do CTN em seu art. 146. Nessa perspectiva, o lançamento substituto em litígio (NFLD DEBCAD n. 37.054.6989 fundamentação legal no art. 30, VI, da Lei n. 8.212/1991), da mesma forma que a NFLD DEBCAD n. 35.897.4933, nada tem a ver com o lançamento original NFLD DEBCAD n. 32.615.8367 (fundamentação legal no art. 31 da Lei n. 8.212/1991), cuja substituição foi autorizada pelo CRPS, caracterizandose, isso sim, um novel lançamento que já nasceu fulminado pela decadência (da mesma forma que a NFLD DEBCAD n. 35.897.493 3), observandose a regra geral do art. 173, I, do CTN, vez que se refere às competências 03/1995 a 04/1995 e foi constituído apenas em 30/01/2007. Ante o exposto, voto no sentido de CONHECER do Recurso Voluntário (e fls. 158/188) e DARLHE PROVIMENTO, em virtude do advento da decadência do lançamento. (assinado digitalmente) Luís Henrique Dias Lima Fl. 337DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15586.720585/2012-63
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 25 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Mar 28 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008
NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. CRÉDITOS. CONCEITO.
O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte (STJ, do Recurso Especial nº 1.221.170/PR).
DESPESAS. FRETES. TRANSFERÊNCIA/TRANSPORTE. PRODUTOS INACABADOS E INSUMOS. ESTABELECIMENTOS PRÓPRIOS, CRÉDITOS. POSSIBILIDADE.
As despesas com fretes para a transferência/transporte de produtos em elaboração (inacabados) e de insumos entre estabelecimentos do contribuinte integram o custo de produção dos produtos fabricados/vendidos e, consequentemente, geram créditos da contribuição, passíveis de desconto do valor apurado sobre o faturamento mensal.
NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. CAPATAZIA.
Os serviços de capatazia e estivas geram créditos de Cofins, no regime não cumulativo, como serviços de logística, respeitados os demais requisitos da Lei.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008
NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. CRÉDITOS. CONCEITO.
O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte (STJ, do Recurso Especial nº 1.221.170/PR).
DESPESAS. FRETES. TRANSFERÊNCIA/TRANSPORTE. PRODUTOS INACABADOS E INSUMOS. ESTABELECIMENTOS PRÓPRIOS, CRÉDITOS. POSSIBILIDADE.
As despesas com fretes para a transferência/transporte de produtos em elaboração (inacabados) e de insumos entre estabelecimentos do contribuinte integram o custo de produção dos produtos fabricados/vendidos e, consequentemente, geram créditos da contribuição, passíveis de desconto do valor apurado sobre o faturamento mensal.
NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. CAPATAZIA.
Os serviços de capatazia e estivas geram créditos de PIS, no regime não cumulativo, como serviços de logística, respeitados os demais requisitos da Lei.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008
ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. ESFERA ADMINISTRATIVA.
O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
AUDITORIA POR AMOSTRAGEM. POSSIBILIDADE.
O Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil pode valer-se, na realização de sua atribuição legal, de qualquer método de fiscalização não vedado por norma legal ou administrativa, inclusive da auditoria por amostragem.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008
MULTA QUALIFICADA.
Se devidamente comprovado nos autos que a conduta do contribuinte se subsumiu a uma das hipóteses previstas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502, de 1964, é de se aplicar a multa de ofício na forma qualificada, nos termos da legislação específica.
Numero da decisão: 3201-004.887
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, apenas para aplicar aqui o que foi decidido no julgamento do processo administrativo nº 15586.720483/2012-48.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Laercio Cruz Uliana Junior e Paulo Roberto Duarte Moreira.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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camara_s : Segunda Câmara
ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008 NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. CRÉDITOS. CONCEITO. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte (STJ, do Recurso Especial nº 1.221.170/PR). DESPESAS. FRETES. TRANSFERÊNCIA/TRANSPORTE. PRODUTOS INACABADOS E INSUMOS. ESTABELECIMENTOS PRÓPRIOS, CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas com fretes para a transferência/transporte de produtos em elaboração (inacabados) e de insumos entre estabelecimentos do contribuinte integram o custo de produção dos produtos fabricados/vendidos e, consequentemente, geram créditos da contribuição, passíveis de desconto do valor apurado sobre o faturamento mensal. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. CAPATAZIA. Os serviços de capatazia e estivas geram créditos de Cofins, no regime não cumulativo, como serviços de logística, respeitados os demais requisitos da Lei. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008 NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. CRÉDITOS. CONCEITO. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte (STJ, do Recurso Especial nº 1.221.170/PR). DESPESAS. FRETES. TRANSFERÊNCIA/TRANSPORTE. PRODUTOS INACABADOS E INSUMOS. ESTABELECIMENTOS PRÓPRIOS, CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas com fretes para a transferência/transporte de produtos em elaboração (inacabados) e de insumos entre estabelecimentos do contribuinte integram o custo de produção dos produtos fabricados/vendidos e, consequentemente, geram créditos da contribuição, passíveis de desconto do valor apurado sobre o faturamento mensal. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. CAPATAZIA. Os serviços de capatazia e estivas geram créditos de PIS, no regime não cumulativo, como serviços de logística, respeitados os demais requisitos da Lei. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008 ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. ESFERA ADMINISTRATIVA. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. AUDITORIA POR AMOSTRAGEM. POSSIBILIDADE. O Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil pode valer-se, na realização de sua atribuição legal, de qualquer método de fiscalização não vedado por norma legal ou administrativa, inclusive da auditoria por amostragem. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008 MULTA QUALIFICADA. Se devidamente comprovado nos autos que a conduta do contribuinte se subsumiu a uma das hipóteses previstas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502, de 1964, é de se aplicar a multa de ofício na forma qualificada, nos termos da legislação específica.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, apenas para aplicar aqui o que foi decidido no julgamento do processo administrativo nº 15586.720483/2012-48. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Laercio Cruz Uliana Junior e Paulo Roberto Duarte Moreira.
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PIS. COFINS. Recorrente CBF INDÚSTRIA DE GUSA S/A Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008 NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. CRÉDITOS. CONCEITO. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte (STJ, do Recurso Especial nº 1.221.170/PR). DESPESAS. FRETES. TRANSFERÊNCIA/TRANSPORTE. PRODUTOS INACABADOS E INSUMOS. ESTABELECIMENTOS PRÓPRIOS, CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas com fretes para a transferência/transporte de produtos em elaboração (inacabados) e de insumos entre estabelecimentos do contribuinte integram o custo de produção dos produtos fabricados/vendidos e, consequentemente, geram créditos da contribuição, passíveis de desconto do valor apurado sobre o faturamento mensal. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. CAPATAZIA. Os serviços de capatazia e estivas geram créditos de Cofins, no regime não cumulativo, como serviços de logística, respeitados os demais requisitos da Lei. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008 NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. CRÉDITOS. CONCEITO. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item bem ou serviço para o desenvolvimento AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 58 6. 72 05 85 /2 01 2- 63 Fl. 10374DF CARF MF 2 da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte (STJ, do Recurso Especial nº 1.221.170/PR). DESPESAS. FRETES. TRANSFERÊNCIA/TRANSPORTE. PRODUTOS INACABADOS E INSUMOS. ESTABELECIMENTOS PRÓPRIOS, CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas com fretes para a transferência/transporte de produtos em elaboração (inacabados) e de insumos entre estabelecimentos do contribuinte integram o custo de produção dos produtos fabricados/vendidos e, consequentemente, geram créditos da contribuição, passíveis de desconto do valor apurado sobre o faturamento mensal. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. CAPATAZIA. Os serviços de capatazia e estivas geram créditos de PIS, no regime não cumulativo, como serviços de logística, respeitados os demais requisitos da Lei. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008 ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. ESFERA ADMINISTRATIVA. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. AUDITORIA POR AMOSTRAGEM. POSSIBILIDADE. O Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil pode valerse, na realização de sua atribuição legal, de qualquer método de fiscalização não vedado por norma legal ou administrativa, inclusive da auditoria por amostragem. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008 MULTA QUALIFICADA. Se devidamente comprovado nos autos que a conduta do contribuinte se subsumiu a uma das hipóteses previstas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502, de 1964, é de se aplicar a multa de ofício na forma qualificada, nos termos da legislação específica. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, apenas para aplicar aqui o que foi decidido no julgamento do processo administrativo nº 15586.720483/201248. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente e Relator. Fl. 10375DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.375 3 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Laercio Cruz Uliana Junior e Paulo Roberto Duarte Moreira. Relatório Trata o presente processo de autos de infração lavrados contra a contribuinte acima identificada, constituindo crédito tributário decorrente das Contribuições para o Programa de Integração Social PIS e para o Financiamento da Seguridade Social Cofins, com origem nos fatos geradores ocorridos em maio e junho de 2007, com multa de ofício de 150% e juros de mora. Por bem retratar os fatos constatados nos autos, passamos a transcrever o Relatório da decisão de primeira instância administrativa: Trata o presente processo de Pedidos de Ressarcimento e Declarações de Compensação (Dcomp) de créditos relativos ao PIS e a Cofins não cumulativos associados a operações de exportação, referentes aos 1º trimestre de 2005 até 4º trimestre de 2008. A DRF/Vitória exarou o despacho decisório de fls. 4.420/4.431, com base no Parecer SEFIS/DRF/VIT nº 081/2012 em fls.3.772/3.915, decidindo reconhecer em parte o direito creditório pleiteado e homologar parcialmente as compensações declaradas. Em decorrência da decisão proferida foi lavrado o Auto de Infração anexado em fls.20/31 do processo apenso nº 15586.720516/201248 (na verdade, 15586.720483/201250), no valor total de R$ 14.995.407,63, relativo à multa isolada decorrente de compensação indevida, apurada sobre o valor do débito indevidamente compensado (períodos de 06/2007 a 05/2012 COFINS, e períodos de 06/2007 a 06/2009 PIS) e multa aplicada em decorrência de compensação não homologada ( período de 05/2012). Igualmente em decorrência do despacho decisório antes referido foi lavrado Auto de Infração anexado às fl.12/21, do processo apenso 15586.720585/201263, no valor total de R$ 271.725,82 (PIS) e R$ 1.255.165,51 (COFINS), em virtude da falta de recolhimento das contribuições nos períodos de apuração 05/2007 e 06/2007. No Parecer SEFIS/DRF/VIT nº 081/2012 consta consignado, em resumo, que: 1) Com base na legislação da contribuição ao PIS e COFINS apurados sobre o regime da não cumulatividade, o crédito passível de utilização na compensação de outros tributos e contribuições é o apurado após a dedução de débitos da própria contribuição, e mais, o crédito deve ser decorrente de operações Fl. 10376DF CARF MF 4 de mercadorias para o exterior ou de vendas a empresa comercial exportadora, com o fim específico de exportação; 2) Durante o procedimento fiscal, a fiscalização tomou ciência, mediante grande divulgação pela mídia, da operação “Ouro Negro”, deflagrada em 2011 pelo Núcleo de Repressão às Organizações Criminosas e a Corrupção – NUROC/ES, no combate ao bilionário esquema de sonegação fiscal envolvendo a comercialização ilegal de carvão vegetal, no norte do estado do Espírito Santo e sul da Bahia, sendo usadas várias empresas laranjas para emissão de notas fiscais “frias”, tendo como beneficiárias as Siderúrgicas, grandes adquirentes do carvão vegetal; 3) Diante desses fatos, o Delegado da Receita Federal do Brasil em Vitória/ES, solicitou ao Delegado Chefe do NUROC/ES a relação das empresas investigadas nos autos da operação Ouro Negro, envolvidas em atividades ilícitas na área tributária, bem como, os depoimentos, as diligências e demais documentos vinculados, juntamente com a cópia da autorização judicial que franqueou o acesso a Receita Federal do Brasil aos referidos documentos; 4) De posse das 1ªs vias das notas fiscais, sobre as quais, a fiscalizada, nos sistemas informatizados da RFB e nas provas contidas nos Inquéritos Policiais, ficou constatado que a pessoa jurídica efetuou aquisições de carvão vegetal de empresa constituída por sócio inexistente de fato, ou seja, em nome de pessoa fictícia, de empresas constituídas por interposta pessoa e de empresas que se encontram em “situação irregular” com o fisco federal, dentre outras situações; 5) As irregularidades foram divididas em três etapas: 5.1) Primeira Etapa: aquisição de carvão vegetal de empresa constituída em nome de pessoa fictícia. Empresa criada em nome de pessoa física inexistente, com nítido objetivo de sonegação fiscal e geração de créditos tributários para terceiros; 5.2) Segunda Etapa: aquisições de carvão vegetal de empresas constituídas em nome de interpostas pessoas popularmente conhecidos como laranjas. Pessoas humildes que cederam seus dados pessoais, com ou sem contraprestação em dinheiro, com vista ao acobertamento dos reais proprietários da empresa, com evidente objetivo de sonegação fiscal e geração de créditos tributários para terceiros; 5.3) Terceira Etapa: aquisições de carvão vegetal de empresas que se encontram em situação irregular com o fisco federal, as quais constam no cadastro da Receita Federal do Brasil como inapta, inativa, sem nenhum recolhimento ou com recolhimentos irrisórios ou ainda cuja movimentação financeira é totalmente incompatível com a receita bruta informada; 6) Com base nos documentos apresentados, consta que a CBF Indústria de Gusa adquiriu carvão vegetal da empresa Jayr Souza Oliveira – ME (CNPJ 09.483.406/000147) e filiais, constituída em 01/04/2008. Somente nesse ano, a empresa emitiu Fl. 10377DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.376 5 R$ 649.653,84 de notas fiscais de vendas de carvão vegetal para a CBF; 7) O Relatório Final do Inquérito Policial nº 013/2011 concluiu que a Jayr Souza Oliveira – Me é a principal empresa envolvida no esquema de sonegação fiscal da máfia do carvão no Estado do Espírito Santo. Referida empresa foi constituída em nome de uma pessoa fictícia. Verificouse que o número do documento de identidade em nome de Jayr Souza Oliveira é falso. O número pertence ao RG de uma mulher de nome Karla Rios Sabia; 8) Com a prisão preventiva de Marcelo Meirelles Muniz, até então conhecido como Jayr Souza Oliveira, novos fatos foram trazidos ao Inquérito Policial nº 013/2011, entre os quais se destaca a confirmação de que Marcelo é o verdadeiro responsável pela empresa Jayr Souza Oliveira – ME e de ter utilizado documentos falsos para a abertura da mesma e filiais; 9) No citado depoimento, Marcelo Meirelles Muniz confessa de maneira cristalina que sua participação na empresa é meramente figurativa, pois recebia uma contraprestação em dinheiro de R$ 1.000,00 a R$ 2.000,00 por mês para se fazer passar pela pessoa de Jayr Souza Oliveira; 10) Diligência realizada pelo NUROC/ES no endereço comercial da JayrME em Conceição da Barra/ES (foto nos autos), comprova que a empresa não possui patrimônio e nem tampouco capacidade operacional para a realização de seu objeto social. Tais fatos, obviamente, já eram de se imaginar, em razão do quadro societário ser constituído por “sócio inexistente de fato”; 11) A empresa de energia do Espírito Santo informa que não consta no cadastro de seus clientes o endereço cadastral de JayrME. Além disso, pesquisas aos sistemas da RFB, mostram que o capital social registrado pela JAYRME é incompatível com as expressivas movimentações realizadas pela empresa em 2008; 12) Não restam dúvidas de que a empresa Jayr Souza Oliveira – ME é uma empresa constituída em nome de pessoa fictícia, ou seja, inexistente no mundo real, com evidente intuito de lesar o fisco e gerar créditos tributários para terceiros; 13) A firma individual J.A.S. da HORA COMÉRCIO DE CARVÃO VEGETAL –ME, CNPJ 08.757.953/000100, foi constituída em 10/04/2007, em nome do senhor José Augusto Santos da Hora, CPF 011.552.42580, com sede à Av. Central, 1.181 A, Por do Sol, Mucuri/BA; 14) A abertura da empresa ocorreu após a criação das Leis que instituíram os créditos da não cumulatividade do Pis (Lei nº 10.637/2002) e da Cofins (Lei nº10.833/2003). Somente para a CBF emitiu R$ 2.307.520,43 de notas fiscais de vendas de carvão vegetal no período de 2007 e 2008; Fl. 10378DF CARF MF 6 15) Apesar da expressiva receita bruta de vendas auferidas, apresentou DIPJ com receita “zerada” em 2007, não apresentou DIPJ em 2008 e não recolheu nenhum centavo aos cofres públicos nesse período. Além disso, declarou GFIP (Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social) com a condição Sem Movimento no período de 01/2007 a 12/2008. Esta situação declarada pela própria “empresa” quer dizer que ela nunca teve empregados, comercializou produtos rurais ou qualquer outro fato que a obrigasse informar à previdência social; 16) Mediante depoimento do senhor José Augusto Santos da Hora, na Operação Ouro Negro, o mesmo confessa de forma bastante clara que sua participação na empresa é meramente figurativa. Corroborando com suas declarações, verificamos nos sistemas da RFB que não possui capacidade sócioeconômica compatível para ser proprietário de fato de uma empresa que movimenta milhões de reais; 17) Não restam dúvidas de que o senhor José Augusto Santos da Hora cedeu seus dados pessoais para constituição da empresa J.A.S. da Hora Comércio de Carvão Vegetal – ME, sendo usado como “laranja”; 18) Diante do exposto, concluise que a empresa J.A.S. da Hora Comércio de Carvão Vegetal – ME foi constituída por interposta pessoa, com objetivos claros de lesar o fisco e gerar créditos tributários para terceiros, tendo em vista que não recolheu nenhum centavo aos cofres públicos; 19) A firma individual G.A Matos Indústria & Comércio de Carvão Vegetal, CNPJ 05.459.646/000155, foi constituída em 30/12/2002, em nome de Gildato Ancelmo Matos, CPF 142.073.38500, com sede a Rua Pedreira Franco, 679A, Centro, Mucuri/BA. Somente para a interessada emitiu R$ 849.861,55 de notas fiscais de vendas de carvão vegetal no período de 2006 e 2007; 20) Apesar da expressiva receita bruta de vendas auferidas, recolheu valores irrisórios aos cofres públicos. Não declarou DIPJ em 2006 e apresentou DIPJ com receita irrisória em 2007. Além disso, não declarou nenhum empregado na GFIP; 21) A DRF/Itabuna, em procedimento de diligência fiscal, no período de 13 a 15/02/2012, compareceu no domicilio fiscal da empresa G. A. Matos, onde “em tese” deveria funcionar a empresa, ocasião em que teve contato com o responsável pela empresa senhor Gildato Ancelmo Matos, onde o mesmo confessou que foi usado como “laranja” na constituição da empresa G. A. Matos; 22) Corroborando com suas declarações, foi verificado nos sistemas da RFB que o mesmo não possui capacidade sócioeconômica compatível para ser proprietário de fato de uma empresa que movimenta milhões de reais. Não restam dúvidas de que o senhor Gildato Ancelmo Matos cedeu seus dados pessoais para constituição da empresa G. A. Matos, sendo usado como “laranja”; Fl. 10379DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.377 7 23) Concluise que a empresa G. A. Matos Indústria e Comércio de Carvão Vegetal – Me foi constituída por interposta pessoa, com objetivos claros de lesar o fisco e gerar créditos tributários para terceiros, tendo em vista que recolheu valores irrisórios; 24) A firma Forno e Carvão Comércio e Indústria de Carvão Ltda, CNPJ 06.155.658/000159, foi constituída em 15/03/2004 com sede a Faz. Chapada, S/N, Ribeirão do Meio, Aracruz/ES, tendo como sócios o senhor Antonio Carlesso (admitido na sociedade em 18/11/2004) e a senhora Edinea Terezinha Morellato Carlesso (admitida na sociedade em 29/06/2006); 25) Interessante observar que a empresa foi aberta logo após a criação das Leis que instituíram os créditos da não comulatividade do Pis (Lei nº 10.637/2002) e da Cofins (Lei nº 10.833/2003). Somente para a CBF emitiu R$ 1.180.489,75 de notas fiscais de vendas de carvão vegetal em 2005; 26) Apesar da expressiva receita bruta de vendas auferidas, apresentou DIPJ em 2005 com receita bruta de vendas irrisória e não recolheu nenhum centavo aos cofres públicos a título de impostos e contribuições federais nesse período. Além disso, não declarou nenhum empregado na GFIP; 27) Conforme consta no Inquérito Policial nº 013/2011, instaurado pelo NUROC/ES, o sócio administrador da empresa senhor Antônio Carlesso – CPF nº 317.697.30710, prestou esclarecimentos nos autos da operação “Ouro Negro” e basicamente confirmou sua participação na qualidade de “laranja” da empresa Forno e Carvão; 28) Corroborando com as constatações realizadas pela Autoridade Policial, observase nos sistemas da RFB que o sócio administrador da empresa não possui capacidade sócio econômica compatível para ser sócio de fato de uma empresa que movimenta milhões de reais. Diante do exposto, não restam dúvidas de que quadro societário da empresa Forno e Carvão Comércio e Indústria de Carvão Ltda, a partir de 18/11/2004, passou a ser constituída por interposta pessoa, com objetivos claros de lesar o fisco e gerar créditos tributários para terceiros; 29) A firma individual J. Azevedo do Espírito Santo – ME, CNPJ 07.879.420/000139, foi constituída em 20/02/2006 em nome de José Azevedo do Espírito Santo, CPF nº 244.494.74600, com sede a Fazenda Colorado, S/N, Cristal do Norte, Pedro Canário/ES e com uma filial em Conceição da Barra/ES. Somente para a CBF emitiu R$ 384.197,47 de notas fiscais de vendas de carvão vegetal no período de 2006 a 2008; 30) Apesar da expressiva receita bruta de vendas auferidas, apresentou DIPJ em 2006 com receita “zerada”, não declarou DIPJ em 2007 e recolheu valores irrisórios aos cofres públicos nesse período. Em 2008 embora tenha confessado débitos insuficientes na DASN, no entanto, também não recolheu nenhum centavo aos cofres públicos; Fl. 10380DF CARF MF 8 31) No depoimento do senhor José Azevedo do Espírito Santo, extraído do Inquérito Policial nº 020/2011, da Operação Ouro Negro, o mesmo confessou claramente que sua participação na empresa é meramente figurativa, pois recebia uma contraprestação em dinheiro de 01 salário mínimo por mês, por ter cedido seus dados pessoais; 32) Corroborando com seu depoimento, verificamos nos sistemas da RFB que o titular da empresa não possui capacidade sócio econômica compatível para ser proprietário de fato de uma empresa que movimenta milhões de reais. Diante do exposto não restam dúvidas de que a empresa J. Azevedo do Espírito Santo – ME foi constituída por interposta pessoa, com objetivos claros de lesar o fisco e gerar créditos tributários para terceiros, tendo em vista que não recolheu nenhum centavo aos cofres públicos; 33) A firma individual Pedro Octávio da RosME, CNPJ 05.893.812/000127, foi constituída em 18/09/2003 em nome de Pedro Octávio da Ros, CPF nº 379.742.38704, com sede em Conceição da Barra/ES, com uma filial em Montanha/ES. Somente para a CBF emitiu R$ 375.059,95 de notas fiscais de vendas de carvão vegetal em 2008; 34) Apresentou Declaração anual do Simples Nacional (DASN), no entanto, não recolheu nenhum centavo aos cofres públicos em 2008. É importante ressaltar que a confissão de impostos e contribuições através da DASN é uma estratégia utilizada para não se chegar aos verdadeiros donos, já que a empresa e seu titular de direito não possuem qualquer patrimônio passível de execução fiscal pela Procuradoria da Fazenda Nacional – PFN; 35) As investigações realizadas pelo NUROC/ES operação “Ouro Negro”, no combate a máfia do carvão vegetal, comprovou que o proprietário de fato da empresa Pedro Octavio da Ros – ME não é o senhor Pedro Octávio da Ros e sim o senhor Paulo José Gava; 36) No depoimento prestado pelo senhor Pedro Octávio da Ros, no inquérito policial, o mesmo confessou claramente que sua participação na empresa é meramente figurativa, pois recebia uma contraprestação em dinheiro de R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais) por mês, por ter cedido sua empresa e seus dados pessoais; 37) Corroborando com seu depoimento, foi verificado nos sistemas da RFB que o titular da empresa não possui capacidade sócioeconômica compatível para ser proprietário de fato de uma empresa que movimenta milhões de reais; 38) Cumpre informar que o senhor Paulo José Gava foi indiciado nos autos do Inquérito Policial nº 016/2011, instaurado pelo Delegado Chefe da NUROC/ES operação “Ouro Negro”, devido seu envolvimento na comercialização ilegal de carvão vegetal no Estado do Espírito Santo e sul do Estado da Bahia; 39) Não restam dúvidas de que a empresa Pedro Octávio da Ros ME foi constituída por interposta pessoa, agindo com objetivos claros de lesar o fisco e gerar créditos tributários para terceiros, Fl. 10381DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.378 9 tendo em vista que não recolheu nenhum centavo aos cofres públicos. 40) A empresa Comercial de Carvão Hikari Ltda ME, CNPJ 74.026.774/000128, foi constituída em 06/01/1994 com sede em Caravelas/BA e com uma filial em Belmonte/BA, tendo como sócio desde a sua abertura o senhor José Wellington Benedito Guedes Filho, CPF: 844.637.08591. Somente para a CBF emitiu R$ 11.616.466,79 de notas fiscais de vendas de carvão vegetal no período de 2005 a 2008; 41) Apesar da expressiva receita bruta de vendas auferidas, apresentou DIPJ com receita “zerada” e não recolheu nenhum centavo aos cofres públicos no referido período. Não declarou nenhum empregado na GFIP, o que por si só já é uma situação atípica, ou seja, uma empresa sem empregados movimentar milhões de reais; 42) Conforme informações constantes no Inquérito Policial nº 025/2011, instaurado pelo Delegado Chefe da NUROC/ES operação “Ouro Negro”, o senhor José Wellington foi usado como interposta pessoa “laranja” na constituição da empresa e que o responsável de fato é o senhor Marciano Vescovi Sacani; 43) Além disso, observase nos sistemas da RFB que o titular da empresa não possui capacidade sócioeconômica compatível para ser proprietário de fato de uma empresa que movimenta milhões de reais; 44) Mediante tais fatos, não restam dúvidas de que a empresa Comercial de Carvão Hikari Ltda foi constituída por interposta pessoa, agindo com objetivos claros de lesar o fisco e gerar créditos tributários para terceiros, tendo em vista que não recolheu nenhum centavo aos cofres públicos. É importante mencionar que o senhor Marciano Vescovi Sacani foi indiciado nos Inquéritos Policiais nº 013/2011 e 025/2011, instaurados pelo Delegado Chefe da NUROC/ES operação “Ouro Negro”, devido seu envolvimento na comercialização ilegal de carvão vegetal no Estado do Espírito Santo e sul do Estado da Bahia, sendo indiciado inclusive pelo crime, em tese, contra a ordem tributária; 45) A relação comercial entre a CBF e a empresa Comercial de Carvão Hikari Ltda foi objeto de investigação pelo NUROC/ES e consta no Inquérito Policial nº 025/2011; 46) Além das empresas anteriormente listadas, citese que os principais fornecedores de carvão vegetal da CBF Indústria de Gusa S/A, praticamente nada recolheram aos cofres públicos a título de contribuições para o Pis e para a Cofins. A maioria desses fornecedores, apesar de emitirem notas fiscais, encontramse em situação irregular junto a RFB; 47) No Inquérito Policial nº 016/2011, inúmeras conversas telefônicas foram monitoradas, entre as quais, devem ser destacadas àquelas que pontuaram evidências do envolvimento Fl. 10382DF CARF MF 10 da CBF Indústria de Gusa S/A, no esquema de compra ilegal de carvão vegetal, através do seu Gerente de Compras senhor Thiciano da Ross Rosa. Chama atenção as conversas realizadas com o responsável pela movimentação financeira da empresa JAYR –ME, senhor Uelinton Spinassé de Jesus. 48) De acordo com o teor dos diálogos ficou evidenciado que o senhor Ricardo Carvalho Nascimento (Diretor da CBF) e o senhor Thiciano da Ross Rosa (Gerente de Compras da CBF), tinham conhecimento do esquema ilícito referente à compra de carvão vegetal adquirido pela CBF; 49) Nos Inquéritos Policiais ficou também evidenciado que Thiciano da Ross Rosa e Uelinton Spinassé de Jesus (responsável pela movimentação financeira da empresa JAYR ME) se uniram para que o carvão de origem duvidosa fosse adquirido pela CBF; 50) Por tudo que consta nos Inquéritos Policiais instaurados pelo NUROC/ES, a Autoridade Policial decidiu pelo indiciamento dos senhores Ricardo Carvalho Nascimento (Diretor da CBF), Thiciano da Ross Rosa (Gerente de Compras da CBF) e Fabrício Baptista (exfuncionário da CBF que trabalhava no setor de compras de carvão vegetal, desligado da empresa em junho de 2009) pela prática, em tese, de diversos crimes, dentre eles, crime contra a ordem tributária, tipificado no art. 1º, incisos I, II e art. 2º , inciso I , ambos da Lei nº 8.137, de 1990 (na forma continuada); 51) Não restam dúvidas de que a CBF Indústria de Gusa S/A (adquirente de carvão vegetal) tinha conhecimento e se beneficiou do esquema ilícito de aquisição de carvão vegetal realizado com empresa constituída por pessoa fictícia, nos moldes da JAYRME e constituídas por interpostas pessoas, que praticamente não recolheram nada aos cofres públicos, portanto, a CBF não pode ser considerada adquirente de boafé; 52) As informações disponíveis não deixam margem à dúvida de que o senhor Jayr Souza Oliveira não existe no mundo real, portanto, não poderia ser o titular de fato do empreendimento denominado Jayr Souza Oliveira–ME, tratandose, na verdade, de um caso de simulação de negócio jurídico com objetivo de lesar o fisco e gerar créditos tributários para terceiros; 53) O mesmo ocorrendo com os fornecedores constituídos por sócios laranjas. Empresas criadas em nome de terceiros com objetivo de acobertar os seus reais proprietários, com evidente intuito de sonegação fiscal e geração de créditos tributários para terceiros; 54) Dessa forma foram excluídos da base de cálculo dos créditos do Pis e da Cofins às aquisições adquiridas da JAYRME, cujo titular já foi identificado neste parecer como fictício e das demais empresas constituídas por interpostas pessoas e que se encontram em situação irregular no cadastro da RFB, sob pena de patrocinar o enriquecimento sem causa em detrimento dos cofres públicos. As referidas glosas encontramse discriminadas no Anexo I deste Parecer; Fl. 10383DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.379 11 55) A contribuinte buscou valerse de créditos de Pis e Cofins referente às aquisições de insumos pagos ou creditados a pessoa física, o que é vedado pela legislação, conforme previsto no art. 3º, § 2º, I, das Leis nºs 10.637, de 2002 e 10.833, de 2003; 56) As referidas aquisições foram excluídas da base de cálculo dos créditos do Pis e da Cofins e encontramse relacionadas no Anexo II deste parecer; 57) Ao analisar o documentário fiscal dos insumos adquiridos pela CBF e o seu efetivo pagamento, foi constatado aquisições realizadas com pessoas jurídicas, com emissão de nota fiscal, tendo como beneficiários dos pagamentos pessoas físicas; 58) Os documentos apresentados pela CBF não foram suficientes para justificar o fato do insumo ter sido comprado com um fornecedor e efetuado o pagamento a uma pessoa física. Nas referidas aquisições não restou comprovado pela CBF quem foram os efetivos vendedores. As referidas aquisições foram excluídas da base de cálculo dos créditos do Pis e da Cofins e estão relacionadas no Anexo III deste parecer; 59) A contribuinte também buscou valerse de créditos de Pis e da Cofins referente às aquisições de insumos de sucata de ferro, sucata de ferro gusa e sucata de aço, cujo crédito a partir de 01/03/2006 passou a ser vedado pela legislação. Com a vigência do art. 47 da Lei nº 11.196, de 2005, essas aquisições passaram a não gerar mais direito ao crédito do Pis e da Cofins. Essas aquisições foram excluídas da base de cálculo dos créditos do Pis e da Cofins e estão discriminadas no Anexo IV deste parecer; 60) A contribuinte considerou como insumo de “carvão vegetal” com direito a crédito de Pis e Cofins, as despesas de fretes relativas às transferências internas entre estabelecimentos. Esses fretes se referem a deslocamentos entre estabelecimentos da própria CBF, relativos ao envio da matériaprima de uma filial para outra. Notese que aqui não há que se falar em frete vinculado à compra, tampouco de frete relacionado à operação de venda de que trata o art. 3º, IX, da Lei nº 10.833, de 2003; 61) Nessas transferências não há vínculos jurídicos estabelecidos entre a CBF e terceiros (compradores ou vendedores da matériaprima/produto). Os produtos são transportados entre as filiais da CBF com notas de simples remessa emitidas pela própria CBF. Ou seja, não tratam de insumos diretos, serviços aplicados ou consumidos na produção ou fabricação do produto, como define o art. 8º, §4º, I, “b”, da IN SRF nº 404, de 2004, nos termos do art. 3º, II, da Lei nº 10.833, de 2003. Tais despesas foram excluídas da base de cálculo dos créditos do Pis e da Cofins e se encontram discriminadas no Anexo V deste parecer; 62) A contribuinte descontou créditos apurados sobre os gastos contabilizados na conta de despesas comerciais 3.3.2.02.0015 Combustíveis e Lubrificantes. No entanto, de acordo com as Leis nºs 10.637, de 2002 e 10.833, de 2003, as aquisições de Fl. 10384DF CARF MF 12 combustíveis somente geram direito ao credito de Pis e da Cofins se aplicados diretamente como insumo no processo produtivo; 63) O conceito de insumo consta no art. 66, § 5°, I, da IN SRF nº 247, de 2002, introduzido pela IN SRF nº 358, de 2003. Desse modo, para haver o direito a credito, não é suficiente que tenham sido adquiridos combustíveis e lubrificantes. É necessário que essa aquisição seja para uso como insumo. Assim, as despesas comerciais com combustíveis, informadas na conta 3.3.2.02.0015 Combustíveis e Lubrificantes, foram afastadas da base de cálculo do crédito da contribuição para o Pis e para a Cofins e as mesmas encontramse discriminadas no Anexo VI deste parecer; 64) A contribuinte pelo fato de efetuar venda de gusa em estado líquido e fazer uso de serviços de escolta, informou despesas de escolta relacionadas à comercialização dos produtos. A análise da legislação mostra que os gastos com armazenagem e frete passaram a dar direito ao desconto de crédito do Pis e da Cofins com o advento da Lei nº 10.833/2003; 65) Notase, que o contribuinte incluiu dentre os serviços de armazenagem e frete, outros serviços correlatos, porém que não encontram previsão legal. É imperativo afirmar que cabe a interpretação literal (restritiva) do dispositivo supra citado. Desta forma, estas despesas foram excluídas da base de cálculo dos créditos de PIS e da COFINS e as mesmas encontramse discriminadas no Anexo VII deste Parecer; 66) A contribuinte informa despesas de serviços de embarque. Nesta conta são registrados os serviços referentes ao embarque, a movimentação do produto acabado no entreposto para embarque nos navios, conforme informado pelo contribuinte. A análise da legislação mostra que os gastos com armazenagem e frete passaram a dar direito ao desconto de crédito do PIS e da COFINS com o advento da Lei nº 10.833, de 2003; 67) Notase, que da mesma forma do item anterior o contribuinte incluiu dentre os serviços de armazenagem e frete, outros serviços correlatos, porém que não encontram previsão legal. É imperativo afirmar que cabe a interpretação literal (restritiva) do dispositivo supra citado. Desta forma, estas despesas foram excluídas da base de cálculo dos créditos do PIS e da COFINS e as mesmas encontramse discriminadas no Anexo VIII deste Parecer; 68) Conforme o inciso II, do art. 16 da Lei nº 11.116/2004, o saldo credor do Pis e da Cofins vinculado a vendas não tributadas no mercado interno, acumulado ao final de cada trimestre calendário, poderá ser utilizado para fins de compensação ou ressarcimento. Neste sentido, o sujeito passivo pode solicitar o ressarcimento do saldo credor por ventura apurado, desde que o faça para cada trimestrecalendário; 69) No presente processo administrativo foi solicitado o ressarcimento/compensação de saldo credor apurado no 1º Trimestre de 2005 ao 4º Trimestre de 2008. Após a análise dos créditos pleiteados, foram efetuadas às glosas dos créditos Fl. 10385DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.380 13 indevidamente apurados pela contribuinte e confeccionados o Demonstrativo de Apuração do PIS Não Cumulativo, constante no anexo IX deste Parecer e o Demonstrativo de Apuração da COFINS Não Cumulativa, constante no anexo XI deste Parecer, onde se encontram detalhados os créditos pleiteados, as glosas efetuadas pela fiscalização e finalmente o crédito reconhecido em cada trimestre; 70) Em virtude de fatos mencionados neste Parecer (aquisições de carvão vegetal de empresas constituídas em nome de pessoa fictícia e interpostas pessoas) configurarem, em tese, crime contra ordem tributária, tipificado nos incisos I, II e IV do artigo 1º e inciso I do artigo 2º ambos da Lei nº 8.137, de 1990, foi formalizada a Representação Fiscal para Fins Penais, mediante processo administrativo protocolizado sob o nº 15586.720517/201202, em cumprimento ao disposto no artigo 1º do Decreto nº 2.730, de 1998 e artigos 1º e 4º da Portaria RFB nº 2.439, de 2010 (com as alterações promovidas pela Portaria RFB nº 3.182, de 2011); 71) As glosas realizadas resultaram no não reconhecimento de parcela dos créditos pleiteados nos Pedidos de Ressarcimento e Declarações de Compensação envolvendo a existência, em tese, de dolo ou indícios veemente dessa circunstância no aproveitamento de crédito integral decorrente de aquisições de empresas constituídas em nome de pessoa fictícia e por interpostas pessoas, o que resultou na aplicação de multa isolada conforme dispositivo legal, referentes ao período de 01/2005 a 12/2008; 72) Os valores e o devido enquadramento legal estão discriminados no Auto de Infração lavrado e no Termo de Verificação Fiscal constantes no Processo Administrativo nº 15586.720516/201250, o qual foi devidamente apensado a este Processo, para fins de julgamento simultâneo, segundo o disposto no art. 66, §6º da IN RFB nº 900, de 2008 e na Portaria RFB nº 666, de 2008. No Relatório de Fiscalização do processo nº 15586.720585/201263, anexo ao Auto de Infração (fls.3/9 e 12/21 do processo apenso), a autoridade lançadora consigna, em resumo, que: 1) A fiscalização elaborou os Demonstrativos de Apuração do Pis e da Cofins, compilados com base no Parecer Sefis nº 081/2012 constante no processo nº 15586.720483/201248. Nestes Demonstrativos foram discriminadas as glosas procedidas na base de cálculo dos créditos a descontar, de tal sorte que não foi possível homologar, em sua totalidade, os Per/Dcomps apresentados pela CBF Indústria de Gusa S/A, por insuficiência de créditos; 2) Nos meses em que restou comprovada a falta/insuficiência de recolhimentos de PIS/COFINS não cumulativos (saldo devedor), resultado da recomposição dos créditos a descontar e que não Fl. 10386DF CARF MF 14 foram atingidos pelo instituto da decadência, procedeuse o devido lançamento de ofício; 3) As diferenças mensais apuradas e lançadas de ofício decorreram na grande maioria das glosas de aquisições de carvão vegetal de empresas constituídas em nome de pessoa fictícia, laranjas e que se encontram em situação irregular com o fisco federal. Importante ressaltar que o insumo carvão vegetal representou 94% (noventa e quatro por cento) do valor das glosas realizadas pela fiscalização; 4) Em consulta aos sistemas informatizados da Receita Federal do Brasil, foi verificado que o contribuinte não efetuou nenhum recolhimento de Pis não cumulativo (código 6912) e Cofins não cumulativa (código 5856), no ano calendário 2007; 5) O aproveitamento integral de créditos de Pis e da Cofins não cumulativos com base em aquisições de carvão vegetal realizadas com empresas constituídas por pessoa física fictícia e interpostas pessoas, demonstra que a apuração dos créditos constituídos pela CBF Indústria de Gusa S/A se deu com dolo ou indícios veemente dessa circunstância, conforme demonstrado no Parecer Sefis nº 081/2012 (constante no processo nº 15586.720483/201248); 6) Sendo assim, sobre o saldo devedor de Pis e Cofins decorrente das glosas realizadas pela fiscalização, cabe ser aplicada a multa qualificada de 150% (cento e cinqüenta por cento), nos termos do §1º do art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996; No Relatório de Fiscalização do processo nº 15586.720516/201250, anexo ao Auto de Infração – Multa Isolada (fls.3/19 e 20/31 do processo apenso), a autoridade lançadora consigna, em resumo, que: 1) Ocorrendo a não homologação da compensação declarada pelo sujeito passivo, nas hipóteses em que ficar caracterizada a prática das infrações previstas nos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 1964, o lançamento de ofício de que trata o art. 90 da Medida Provisória nº 2.15835/ 2001, limitarseá à imposição de multa isolada sobre o valor total do débito indevidamente compensado; 2) O aproveitamento integral dos créditos de Pis e da Cofins nãocumulativos com base em aquisições de carvão vegetal realizadas com empresas constituídas por pessoa física fictícia e interpostas pessoas, demonstra que a apuração dos créditos constituídos pela CBF se deu com dolo ou indícios veemente dessa circunstância, conforme relatado no Parecer Sefis nº 081/2012 (processo nº 15586.720483/201248). Assim, no caso de compensação não homologada e comprovada a falsidade da declaração, as penalidades aplicáveis estão previstas no caput e parágrafos do art. 18 da Lei nº 10.833, de 2003; 3) Importante ressaltar que o insumo carvão vegetal representou 94% (noventa e quatro por cento) do valor total das glosas realizadas pela fiscalização; 4) Após o reconhecimento do crédito pelo Delegado da Receita Federal do Brasil em VitóriaES, o Serviço de Controle e Arrecadação Tributária (SECAT) desta DRF efetuou a conciliação dos créditos apurados pela fiscalização com os Fl. 10387DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.381 15 débitos, objeto de declarações de compensação – DCOMP’s apresentadas pela CBF Indústria de Gusa S/A, resultando em débitos indevidamente compensados (NÃO HOMOLOGADOS), sobre os quais a fiscalização aplicou a multa isolada de 150% que trata o art. 18 da Lei nº 10.833, de 2003, conforme planilha de débitos indevidamente compensados por declaração de compensação, cujos demonstrativos encontramse no anexo I e II deste termo; 5) No Auto de Infração, a multa isolada calculada sobre as compensações não homologadas é lançada de forma consolidada por data de referência que é o momento da apresentação da compensação indevida, a saber: data da transmissão da DCOMP – que consta no próprio número de identificação do documento; 6) Com relação à decadência dos créditos tributários, o “dies a quo” para lançamento de ofício da multa isolada na hipótese de compensação não homologada ou não declarada é o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que a declaração de compensação tenha sido apresentada, nos termos do art. 173, inciso I, da Lei nº 5.172, de 27 de outubro de 1996 (CTN); 7) O contribuinte apresentou em 02/05/2012 a declaração de compensação retificadora nº 17654.37687.020512.1.7.091211, compensando créditos de Cofins referente ao 3º trimestre de 2008, ou seja, após a vigência da Lei nº 12.249, de 2010. A recomposição dos créditos da Cofins resultou no RECONHECIMENTO PARCIAL dos créditos pleiteados nos Per/Dcomp, referente ao 3º trimestre de 2008, o que gerou a aplicação de multa isolada conforme dispositivo legal; 8) Em conformidade com o art. 62 da Lei nº 12.249, de 2010, foram estabelecidas multas, mediante alteração da redação da Lei nº 9.430, de 1996; 9) Com a edição da referida Lei, as situações sujeitas à aplicação de multa isolada passaram a ser as seguintes: 9.1) Multa de 50% (ou 100%) incidente sobre o valor do crédito não validado quando não for homologada a compensação; 9.2) Multa de 50% (ou 100%) incidente sobre o valor do crédito objeto de pedido de ressarcimento indeferido ou indevido; 10) As multas estabelecidas pela Lei nº 12.249, de 2010, mediante a inclusão dos §§º 15 ao 17 no art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996, devem ser aplicadas relativamente às declarações ou aos pedidos de ressarcimentos entregues a partir da data da publicação desta Lei, ou seja, a partir de 14 de junho de 2010, inclusive; 11) Quaisquer declarações de compensação ou pedidos de ressarcimento, retificadores ou não, entregues na vigência da Lei nº 12.249, de 2010, estarão sujeitos à aplicação das multas por ela previstas. A interessada pleiteou, por meio de Dcomp, Fl. 10388DF CARF MF 16 créditos da não cumulatividade da COFINS após o dia em que passou a surtir os efeitos do citado dispositivo legal; 12) Após a recomposição dos créditos a descontar, restou comprovado o NÃO RECONHECIMENTO do valor do crédito pleiteado nesta Dcomp. Neste sentido, foi aplicada multa isolada de 100% (cem por cento) sobre a parcela de crédito não homologada, em virtude da apuração dos créditos da Cofins pleiteados pela CBF terem sido constituídos com evidente intuito de dolo ou indícios veemente dessa circunstância, conforme demonstrado no Parecer Sefis nº 081/2012 (constante no processo nº 15586.720483/201248); 13) Em decorrência dos fatos relatados, foi efetuado o Lançamento de Ofício mediante lavratura do Auto de Infração, resultando no crédito tributário no valor de R$ 14.995.407,63 (quatorze milhões, novecentos e noventa e cinco mil, quatrocentos e sete reais e sessenta e três centavos); 14) Todos os elementos de prova que fundamentaram a emissão do presente Auto de Infração encontramse anexados aos autos do processo administrativo nº 15586.720483/201248. Por essa razão, e tendose em vista o disposto na Portaria RFB nº 666, de 2008, bem como §6º do art. 66 da Instrução Normativa RFB 900, de 2008, foi realizada a apensação deste processo ao processo acima mencionado, para fins de julgamento simultâneo. A contribuinte foi cientificada do Despacho Decisório em 20/06/2012 (fl. 4.432/4.435), e dos Autos de Infração em 12/07/2012, e apresentou, em 19/07/2012, Manifestação de Inconformidade (fl. 4.477/4.550) e as Impugnações aos Autos de Infração em 10/08/2012 (fls. 12.052/12.107 e 22.270/22.302). Na Manifestação de Inconformidade alega, em síntese que: 1) A Fiscalização não deu ao caso o tratamento adequado, deixando de examinar devidamente os fatos e provas (documentos fiscais apresentados pela Impugnante) que demonstram a liquidez e certeza do crédito requerido; 2) A quase totalidade dos créditos requeridos nos PER/DCOMP´s, originalmente apurados no período compreendido entre o 1º trimestre de 2005 e o 4º trimestre de 2008, não podem mais ser glosados. Tais créditos foram obtidos a partir da atividade de apuração do PIS e da COFINS realizada pela impugnante no referido período, atividade esta que se considera tacitamente homologada depois de cinco anos dos respectivos fatos geradores; 3) Como esses fatos geradores aperfeiçoaramse nos respectivos meses de cada ano objeto da fiscalização, o presente despacho decisório não poderia glosar os créditos apurados no período de janeiro de 2005 a junho de 2007, considerando ser o despacho de 14/06/2012 e a ciência do impugnante de 20/06/2012; 4) A contribuinte apresentou à Fiscalização inúmeras notas fiscais de aquisição de carvão vegetal, bem como os comprovantes bancários de pagamento aos respectivos emitentes, o que demonstra que, efetivamente, houve o desembolso para a quitação do aludido insumo adquirido. Fl. 10389DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.382 17 Mesmo diante disso, percebese que 58,00% do crédito pleiteado foi glosado, malgrado tenha sido apresentada a documentação fiscal que lhe deu origem; 5) Portanto, há pontos da atividade fiscalizatória que ficaram sem a devida justificação, mormente se considerado que a atividade fiscal é vinculada e, no caso em tela, ignorouse, por completo, o teor do parágrafo único do art. 82 da Lei n.9.430/96; 6) Estando a atividade fiscal vinculada às determinações da lei, não poderia o Auditor Fiscal ter deixado de analisar os documentos fiscais que lhe foram apresentados, sob o argumento da sua inidoneidade, pois o único requisito exigido pela lei para o creditamento é o de que haja a comprovação da aquisição dos insumos e do seu pagamento, o que foi feito pelo interessado. Desse modo, ao ignorar a existência dos aludidos documentos, a Autoridade Administrativa negou vigência ao parágrafo único do art.82 da Lei nº 9.430/96, o que lhe cabia aplicar incondicionalmente no exercício da sua competência administrativa; 7) Mesmo considerando inidônea a documentação fiscal que lhe foi apresentada, cabia ao Auditor Fiscal, por expressa determinação legal, tão somente verificar se a Impugnante comprovou a aquisição e o pagamento dos insumos, eis que a irregularidade das empresas emitentes das notas fiscais já é uma condição fática considerada pelo parágrafo único do citado art.82, comprovação essa feita à saciedade; 8) Aliado à estranheza desse procedimento fiscal, ainda há outro dado que expõe a ilogicidade da glosa dos créditos do PIS e da COFINS no caso sub examine: a escolha da amostragem, como técnica de inspeção fiscal, impede a não homologação total do direito creditório fiscalizado; 9) Não pode a Administração Tributária se valer de presunções ou de meros indícios, colhidos por meio de análise de amostras, para imputar uma suposta conduta dolosa à Impugnante e, com isso, contaminar todas as demais notas fiscais por elas apresentadas (porém não analisadas) e glosar a totalidade dos créditos correlatos; 10) Ao considerar que uma nota fiscal (colhida por amostragem) emitida por determinada empresa fornecedora de carvão vegetal inidônea, desconsiderou (e glosou) a totalidade dos créditos apurados pela interessada sobre todas as demais notas fiscais emitidas; 11) A constante busca pela verdade material constitui o regime jurídico administrativo. É conseqüência do princípio da legalidade, mas também da própria natureza da atividade estatal administrativa: como esta se desenvolve em um “regime de administração” –que é aquele em que alguém age em nome de outrem, é dizer, para outrem – ela está jungida a atender otimamente os fins dos próprios administrados; Fl. 10390DF CARF MF 18 12) Como a DRFVitória/ ES acabou por não analisar vários dos documentos apresentados pela impugnante, difícil afastar a nulidade de sua investigação, por desrespeito ao princípio em tela, nulidade esta que espalha seus efeitos para o despacho decisório guerreado; 13) A eventual conduta dolosa praticada por terceiros, que venderam o carvão vegetal à Impugnante, não pode ser utilizada para afastar a sua condição de adquirente de boafé, mormente quando a Autoridade Fiscal não apresenta elementos contundentes que comprovam a participação do contribuinte na prática do ato destinado a fraudar o Fisco; 14) Com base em provas indiciárias colhidas nos inquéritos policiais, especialmente escutas telefônicas autorizadas judicialmente, a polícia chegou ao nome de Thiciano da Ross Rosa, que ocupava o cargo de gerente de compras na usina da Impugnante, suspeito de ser um dos “cabeças” do esquema de comércio ilegal de carvão vegetal e sonegação fiscal. Várias são as ligações telefônicas interceptadas pela polícia em que apenas o sr. Thiciano aparece realizando operações com os suspeitos de integrarem a quadrilha, especialmente com a pessoa apontada de ser o seu chefe( de nome Uelinton Spinassé de Jesus), que não pertence aos quadros de empregados da pessoa jurídica; 15) E foi com suporte exclusivamente nessas escutas telefônicas e reportagens jornalísticas que a Fiscalização desconsiderou a condição de adquirente de boafé da Impugnante e glosou a totalidade do crédito apurado sobre as notas fiscais emitidas por 164 empresas que lhe forneciam carvão vegetal. Ou seja, a fiscalização utilizouse, para glosar os créditos da Impugnante, de fatos apurados em investigações policiais preliminares, cabendo salientar que, em relação a tais investigações, ainda não há sequer denúncia oferecida por parte do Ministério Público; 16) Os elementos indiciários que embasaram a desconsideração da Impugnante como adquirente de boafé não têm esse condão, inexistindo sequer indícios de que a interessada, ou seus diretores, tivessem conhecimento da operação ilegal de venda de carvão vegetal por meio de notas fiscais “frias”; 17) Com efeito, inquérito policial é um procedimento de instrução provisória e preparatória, destinado a reunir os elementos necessários à apuração da prática de uma infração penal e da sua autoria (art. 4º do Código de Processo Penal); 18) Ainda que fosse legítima a utilização de trechos de inquéritos policiais como elemento de prova para a glosa dos créditos de PIS e COFINS, no caso concreto o inquérito utilizado pela fiscalização não se presta a tal fim. É que retrata fatos e escutas telefônicas ocorridas em 2010/2011 e os créditos glosados referemse ao período de 2005 a 2008; 19) Com efeito, a operação policial “Ouro Negro” foi deflagrada em 2011, ou seja, os elementos colhidos por meio dos inquéritos policiais instaurados são bastante posteriores ao período no qual foram apurados os créditos do PIS e da COFINS(2005 a 2008), objeto de glosa da Fiscalização; Fl. 10391DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.383 19 20) Quando da apuração dos créditos pela interessada, as empresas fornecedoras de carvão mencionadas no Parecer Sefis possuíam inscrição vigente, eficaz e válida no CNPJ/SINTEGRA. E ainda que já tivessem sido declaradas inaptas naquela época, os efeitos da inidoneidade dos documentos fiscais emitidos para a Impugnante, como já dito, estariam elididos pela comprovação do pagamento e recebimento das respectivas mercadorias; 21) Em verdade, a Administração Federal, até a presente data, não cuidou de declarar a inaptidão dos fornecedores da Impugnante. E, se não o fez, não pode exigir a glosa dos créditos relativos às aquisições destes fornecedores, ao argumento de que seriam inidôneos. Com efeito, nos termos do parágrafo único do art.3º da Portaria MF nº 187/93, a glosa apenas pode se legitimar após a respectiva declaração de inidoneidade pelo Poder Público; 22) Não pode a Fiscalização Federal exigir que a Impugnante, para a apuração dos seus créditos do PIS e da COFINS, tenha conhecimento ( o que seria, na prática, impossível) das irregularidades contábil e fiscal do fornecedor; 23) É inquestionável ter ocorrido a efetiva aquisição do carvão vegetal das pessoas jurídicas fornecedoras, o que se comprova não apenas pelas notas fiscais de compra, mas também por meio do registro contábil dos referidos documentos nos livros fiscais pertinentes (Livro de Registro de Entradas do ICMS, Livro Razão etc.) e pelos comprovantes de pagamento aos fornecedores, documentos estes já entregues à fiscalização e solenemente ignorados por esta; 24) Nunca é demais relembrar que, nos termos das Leis nº 10.637/02 e nº 10.833/03, o crédito é calculado sobre o valor da aquisição de insumos. Isto é, ocorrendo a aquisição é desimportante, para fins de tomada do crédito, a regularidade fiscal, contábil e cadastral do fornecedor; 25) Corroborando o exposto e sepultando definitivamente qualquer entendimento em contrário, a própria Lei nº 9.430/96, em seu artigo 82, parágrafo único, preceitua que a declaração de inaptidão de determinada pessoa jurídica fornecedora de bens e serviços não se aplicará aos adquirentes, para fins de desconsideração da idoneidade dos documentos fiscais emitidos, quando estes comprovarem a efetivação do pagamento respectivo preço e o recebimento dos bens, direitos e mercadorias ou utilização dos serviços; 26) Os pagamentos realizados pela Impugnante a pessoas físicas em nada desvirtuam o fato de que as aquisições se deram de pessoas jurídicas produtoras de carvão vegetal. Os documentos fiscais comprovam cabalmente que a Impugnante adquiriu o carvão vegetal, utilizado como insumo em sua produção, de pessoas jurídicas. Observese que todos os registros de entrada do carvão foram feitos em nome das citadas pessoas jurídicas, não existindo qualquer recibo de venda emitido pelas pessoas físicas referidas no Parecer da Fiscalização; Fl. 10392DF CARF MF 20 27) Os comprovantes de pagamento em nome de pessoas físicas não são suficientes para deturpar a natureza da aquisição e a origem dos créditos tributários. O pagamento é apenas um dos elementos da compra; 28) As notas fiscais dos fornecedores, aliadas aos registros contábeis, demonstram, com clareza meridiana, que a relação de compra e venda se aperfeiçoou plenamente. O pagamento realizado em nome de pessoas físicas não desnatura essa relação; 29) Não pode o Fisco simplesmente desconsiderar tais pagamentos, porque, embora atípicos, são perfeitamente válidos, e viciam a relação principal. Tratase de dois negócios jurídicos distintos: (a) aquisição de carvão vegetal de pessoa jurídica e (b) cessão do crédito da pessoa jurídica a pessoas físicas. É certo que a obrigação foi adimplida em relação à pessoa jurídica vendedora; 30) Foram glosados ainda os créditos apurados pela Impugnante sobre a aquisição (a) de combustível, (b) serviço de escolta, (c) transporte de insumos entre os estabelecimentos da Impugnante, (d) serviço de movimentação de produto acabado/embarque e (e) aquisição de desperdícios, resíduos ou aparas, que constituem insumos extremamente necessários à consecução das atividades da empresa, quais sejam, a produção e a exportação do ferro gusa; 31) As já citadas Leis nº 10.637/02 e nº 10.833/03, em seu art.3º, incisos II e IX, atribuem aos contribuintes o direito de se creditarem por todas e quaisquer despesas relativas aos custos de armazenamento e transporte de mercadoria contratados junto a terceiros; 32) É inegável que o legislador federal pretendeu, para fins de plena efetividade da não cumulatividade prevista constitucionalmente para o PIS e para a COFINS, que todo o ônus envolvido na aquisição de combustível e dos serviços de frete, armazenamento, escolta e movimentação/embarque das mercadorias, desde que a cargo do vendedor, fossem hábeis à concessão do crédito. Não se poderia esperar menos porque, ao fim e ao cabo, essa despesa é parte do próprio custo da mercadoria a ser vendida; 33) O Despacho Decisório não reconheceu o direito ao crédito previsto na legislação em tela, porque as despesas com escolta, combustível e movimentação do produto acabado/embarque foram lançadas contabilmente na conta de despesas comerciais com frete e armazenagem, tendo o Auditor Fiscal entendido que inexiste previsão legal para tal; 34) As referidas despesas nada mais são do que despesas com frete realizado por conta própria do vendedor, sem a contratação de um serviço de terceiro. Nesse sentido, ainda que sejam despesas incorridas na etapa de comercialização, todo e qualquer custo que essa logística demande deve ser entendido como passível de gerar créditos; Fl. 10393DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.384 21 35) Ainda que sob uma denominação diferente, meramente contábil, as despesas incorridas pela Impugnante com combustível, escolta, movimentação e embarque se traduzem em despesa de frete, cujo crédito encontrase expressamente autorizado pelas Leis nº 10.637/02 e nº 10.833/03; 36) Tomandose as despesas com escolta, frisese que se trata de despesa obrigatória. Diante da alta periculosidade, o ferrogusa em estado líquido só pode ser transportado com escolta especializada. De forma alguma, tal gasto é um preciosismo da contribuinte, senão despesa inarredável para o transporte do produto fabricado, que constitui a sua atividadefim; 37) Com relação ao transporte de insumos entre estabelecimentos da contribuinte, é evidente que se trata de custo de produção do produto final, e desta forma, gera o direito ao creditamento; 38) No tocante aos desperdícios, resíduos ou aparas industriais, a própria RFB entende que são mercadorias e, portanto, as receitas decorrentes da sua venda compõem o faturamento da empresa e, conseqüentemente, a base de cálculo do PIS e da COFINS. De igual modo, sua aquisição deve ensejar, para os adquirentes, o direito ao crédito das referidas contribuições; 39) Assim, restando comprovado que todas as despesas com (a) combustível; (b) transporte de insumos entre estabelecimento da contribuinte; (c) serviço de escolta; (d) serviço de movimentação de produto acabado/embarque e (e) aquisição de desperdícios, resíduos ou aparas são necessárias ao exercício da atividade da Impugnante, as glosas dos créditos relativos a essas despesas devem ser anuladas; 40) Solicita Perícia e/ou Diligência Fiscal para o exame de toda a documentação relativa à apuração do crédito no período de 2005 a 2008; 41) Por todo o exposto, requer: 41.1) Preliminarmente, o reconhecimento da decadência do direito do Fisco Federal de glosar os créditos de PIS e COFINS apurados no período de janeiro de 2005 a maio de 2007, visto o disposto no art.150 e § 4º, do CTN; 41.2) nulidade do Despacho Decisório face a falta de análise da documentação apresentada; 41.3) No mérito, reconhecimento do crédito relativamente às despesas/insumos sob pena de violação ao princípio da verdade material. Na Impugnação apresentada contra o lançamento de multa isolada formalizado em auto de infração (processo nº 15586.720516/201250, em apenso), a empresa alega, em síntese, que: 1) Diante da suposta conduta dolosa da Impugnante, o Auditor Fiscal aplicou sobre os débitos indevidamente compensados(nãohomologados) a multa qualificada de 150% ou, ainda, a multa qualificada de 100% (esta sobre os créditos Fl. 10394DF CARF MF 22 nãohomologados, objeto de PER/DCOMP´s posteriores à publicação da Lei nº 12.249/10); 2) A Fiscalização, contudo, não deu ao caso o tratamento adequado, deixando de examinar devidamente os fatos e provas (documentos fiscais apresentados pela Impugnante) que demonstram a liquidez e a certeza do crédito requerido e, conseqüentemente, a impossibilidade de não homologação dos PER/DCOMP´s apresentados e aplicação da multa isolada; 3) Como se vê do relatório fiscal que embasa este Auto de Infração, quase todos os PER/DCOMP´s não homologados ou homologados parcialmente sofreram a incidência da multa isolada de 150%, com base no art.18 da Lei nº 10.833/2003; 4) O lançamento da multa isolada em questão só tem cabimento quando a não homologação dos pedidos de compensação decorrer da comprovada falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo, ou seja, da prática concreta e demonstrada de um ilícito, doloso, por parte do contribuinte; 5) No caso, contudo, vale reafirmar que a idoneidade das notas fiscais que ensejaram a apuração do crédito pela Impugnante não pode ser utilizada como fundamento para lhe imputar a prática de uma conduta dolosa, pois o parágrafo único do art.82 da Lei nº 9.430/96 mantém a sua condição de adquirente de boa fé e, por via de conseqüência, o seu direito ao creditamento, uma vez comprovado o pagamento do preço respectivo; 6) Uma vez comprovada a aquisição e recebimento do carvão vegetal, bem como o respectivo pagamento feito aos fornecedores, impossível aplicar à Impugnante a multa isolada prevista no art.18 da Lei nº 10.833/03, não só em razão do fato de que os créditos apurados devem ser mantidos, deferindose as compensações requeridas (o que é objeto de discussão no processo nº 15586.720483/201248), mas também pelo fato de que o citado dispositivo legal somente prevê a aplicação da multa isolada nas hipóteses em que restar comprovada a falsidade da declaração prestada pelo contribuinte; 7) Além disso, a multa de 150% aplicada sobre os PER/DCOMP´s não homologados (ou homologados parcialmente), transmitidos antes da vigência da Lei nº 12.249/10, deve ser reduzida ao patamar de 100%, em razão do princípio da retroatividade da lei benigna, previsto no art.106, inciso II, alínea “c” do CTN; 8) Conforme narrado no relatório fiscal, em 14 de junho de 2010 foi publicada a Lei nº 12.249, que acrescentou os parágrafos 15, 16 e 17 do artigo 74 da Lei nº 9.430/96, instituindo a aplicação de multa isolada sobre o valor do crédito objeto de declaração de compensação nãohomologada, independentemente da existência de dolo por parte do contribuinte. Assim, ao contrário do previsto no art.18 da Lei nº 10.833/03 – que determina a aplicação da multa isolada somente nas hipóteses de comprovada falsidade da declaração de compensação – a atual redação do art.74 da Lei nº 9.430/96 (em seus parágrafos 15 a 17) prevê aplicação de multa isolada em qualquer hipótese de não homologação das declarações de compensação Fl. 10395DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.385 23 apresentadas. Apenas o percentual da multa é que poderá variar, dependendo da existência de conduta dolosa ou não por parte do contribuinte: inexistindo falsidade da declaração, a multa será de 50% sobre o valor do crédito, existindo falsidade, ela será aplicada no percentual de 100%; 9) Uma vez que ambos os diplomas regulam a mesma situação fática, qual seja, a aplicação de multa isolada quando a declaração de compensação não for homologada e houver dolo do contribuinte na sua apresentação, resta claro que, se mantida a multa qualificada aplicada contra a Impugnante, o que se admite para argumentar, deve ser ela reduzida ao patamar de 100% por ser mais benéfico à Impugnante; 10) Sobre o crédito nãohomologado objeto do PER/DCOMP mº 17654.37687.020512.1.7.091211, correspondente a R$ 21.417,47, foi aplicada pela Fiscalização a multa isolada de 100%, que atingiu o idêntico valor de R$ 21.417,47. Contudo, ao analisar os anexos do presente Auto de Infração, percebese que o Auditor Fiscal, equivocadamente, fez incidir sobre o referido crédito não homologado a multa isolada de 150%. Com isso, a multa lançada atingiu o montante de R$ 32.126,21 e não os R$ 21.417,47 apontados no relatório fiscal que embasa o Auto de Infração. Se mantida a multa qualificada (100%), deve ser retificado o valor da penalidade aplicada sobre o referido PER/DCOMP; 11) Ademais, verificase nos Anexos I e II que o valor da multa aplicada em relação aos créditos do PIS (R$ 2.631.063,89) e da COFINS (R$ 12.342.926,09) totaliza a importância de R$ 14.973.989,98, ao passo que o crédito tributário informado no relatório fiscal e lançado neste Auto de Infração soma o montante de R$ 14.995.407,63, ou seja, exatamente R$ 21.417,65 a mais do que o informado nas planilhas que compõem os citados anexos; 12) Concluise, portanto, que além de ter aplicado equivocadamente a multa de 150% sobre o crédito de COFINS constante no PER/DCOMP nº 17654.37687.020512.1.7.091211, o Auditor Fiscal lançou a penalidade em duplicidade: uma no valor de R$ 32.126,21 (150%) e outra no valor de R$ 21.417,65 (100%). Flagrante, portanto, o erro cometido, que deverá ser sanado na hipótese de manutenção da multa qualificada objeto desta autuação. Na Impugnação apresentada contra o lançamento pela falta de recolhimento das contribuições formalizado mediante auto de infração (processo nº 15586.720585/201263, em apenso), a empresa alega, em síntese, que: 1) O presente lançamento, nos períodos de apuração 05/2007 e 06/2007, é resultante do Despacho Decisório proferido nos autos do processo nº 15586.720483/201248, com homologação parcial de Declarações de Compensação, diante glosa de créditos; 2) Na sistemática do lançamento por homologação, se transcorridos cinco anos do fato gerador sem a prática do ato Fl. 10396DF CARF MF 24 homologatório pela autoridade fiscal, dáse a homologação tácita, que é, ressaltese mais uma vez, da atividade perpetrada pelo contribuinte. Ou seja, passado o qüinqüênio legal, as operações praticadas pelo sujeito passivo (para quitação da obrigação tributária) não podem ser mais fiscalizadas/questionadas, eis que verdadeiramente petrificadas pela consumação da homologação tácita; 3) Por isso, independentemente da data em que foram transmitidos os PER/DCOMP´s pela Impugnante e das datas em que foram apurados os créditos de PIS e COFINS glosados pela Fiscalização, o crédito tributário lançado neste Auto de Infração encontrase extinto pela decadência. Como os fatos geradores das contribuições lançadas aperfeiçoaramse nos respectivos meses de cada ano objeto da fiscalização, ou seja, em maio de 2007 e junho de 2007, o presente lançamento, efetivado em 12/07/2012, somente poderia abranger eventuais créditos tributários de PIS e COFINS do período de julho de 2007 em diante; 4) Não bastasse a indevida glosa dos créditos a que fazia jus, que deu ensejo à apuração de um suposto saldo devedor de PIS e COFINS a ser quitado pela Impugnante, o Auditor Fiscal aplicou sobre o crédito tributário lançado a multa qualificada de 150%, por presumir que os créditos de PIS e COFINS informados nos PER/DCOMP´s não homologados foram constituídos “com dolo ou indícios veemente dessa circunstância...”; 5) A multa qualificada deve ser reduzida ao patamar de 75%, nos termos do art.44, I, da Lei nº 9.430/96, diante da comprovação de que a Impugnante não incorreu nas hipóteses previstas nos artigos 71 a 73 da Lei nº 4.502,64 e, portanto, não agiu de forma dolosa; 6) Inobstante a vasta argumentação tecida anteriormente, o artigo 82, parágrafo único da Lei nº 9.430/96, que mantém a condição de adquirente de boafé do contribuinte que, embora tenha apurado créditos sobre notas fiscais comprovadamente inidôneas, comprova a aquisição/recebimento das mercadorias e o seu efetivo pagamento aos fornecedores. A 17ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento no Rio de Janeiro I julgou improcedente a manifestação de inconformidade e as impugnações apresentadas, proferindo o Acórdão DRJ/RJI n.º 1258.313, de 08/08/2013 (fls. 32547 e ss.), assim ementado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008 GLOSA DE CRÉDITOS. DECADÊNCIA. Não há como confundir a proibição de constituição do crédito tributário, presente no CTN, que trata da decadência, com proibição de apuração dos créditos provenientes da não Fl. 10397DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.386 25 cumulatividade do PIS e da COFINS, com o objetivo de verificar a correção do valor solicitado em ressarcimento. Não encontra respaldo nas normas que regem a matéria a impossibilidade de glosa de créditos indevidos com vistas a apuração dos saldos solicitados em ressarcimento ou declaração de compensação. AMOSTRAGEM Ao realizar os trabalhos de fiscalização a ele atribuídos, o Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil pode valerse de qualquer método de fiscalização não vedado por norma legal ou administrativa, inclusive da auditoria por amostragem. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. Os serviços caracterizados como insumos são aqueles diretamente aplicados ou consumidos na produção ou fabricação do produto. Despesas e custos indiretos, embora necessários à realização das atividades da empresa, não podem ser considerados insumos para fins de apuração dos créditos no regime da não cumulatividade. USO DE INTERPOSTA PESSOA. INEXISTÊNCIA DE FINALIDADE COMERCIAL. DANO AO ERÁRIO. COMPROVADO. Negócios efetuados com pessoas jurídicas, artificialmente criadas e intencionalmente interpostas na cadeia produtiva sem qualquer finalidade comercial, visando reduzir a carga tributária no contexto da não cumulatividade do PIS/Cofins, além de simular negócios inexistentes para dissimular negócios de fato existentes, constituem dano ao Erário e fraude contra a Fazenda Pública, rejeitandose peremptoriamente qualquer eufemismo de planejamento tributário. FRAUDE. DISSIMULAÇÃO. DESCONSIDERAÇÃO. NEGÓCIO ILÍCITO. Comprovada a existência de simulação/dissimulação por meio de interposta pessoa, com o fim exclusivo de afastar o pagamento da contribuição devida, é de se glosar os créditos decorrentes dos expedientes ilícitos, desconsiderandose os negócios fraudulentos. MULTA DE OFÍCIO.QUALIFICAÇÃO.FRAUDE. A multa de ofício qualificada deve ser aplicada quando ocorre prática reiterada, consistente de ato destinado a iludir a Administração Fiscal quanto aos efeitos do fato gerador da obrigação tributária, mormente em situação fraudulenta, planejada e executada mediante ajuste doloso. DECADÊNCIA.LANÇAMENTO. Comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, o interregno decadencial deve ser computado na forma Fl. 10398DF CARF MF 26 determinada pelo art. 173, I, do CTN, isto é, contase o prazo de 5(cinco) anos do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. MULTA ISOLADA SOBRE O VALOR DE DÉBITOS INDEVIDAMENTE COMPENSADOS. Aplicase a multa isolada de 150% sobre o valor do débito indevidamente compensado quando se comprove falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo. MULTA ISOLADA SOBRE O VALOR DE CRÉDITO OBJETO DE PEDIDO RESSARCIMENTO INDEFERIDO OU INDEVIDO. Aplicase a multa isolada de 100% sobre o valor do crédito objeto de Ressarcimento quando se comprove falsidade no pedido apresentado pelo sujeito passivo. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Irresignada, a contribuinte apresentou, no prazo legal, recurso voluntário de fls. 32797 e ss., por meio do qual alega, em síntese, os mesmos argumentos já declinados em sua primeira peça de defesa. O processo foi distribuído a este Conselheiro Relator, na forma regimental. É o relatório. Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator. Presentes os demais requisitos de admissibilidade, entendemos que o recurso deve ser conhecido. A Recorrente apresentou inúmeros pedidos eletrônicos de ressarcimento/compensação, por meio dos quais requer créditos de PIS/Cofins não cumulativos associados a operações de exportação, com origem no período que vai do 1º trimestre de 2005 até o 4º trimestre de 2008. Em face do deferimento parcial, a fiscalização lavrou autos de infração para exigência de multa isolada e das contribuições não recolhidas, formalizados, respectivamente, nos processos de nº 15586.720483/201250 e 15586.720585/201263, o ora em julgamento. Como os fatos dos decorrem os autos de infração são exatamente os mesmos apreciados no processo administrativo nº 15586.720483/201248, passamos a reproduzir, no presente, os votos vencido e vencedor neste proferidos, para, somente ao depois, enfrentarmos os argumentos que lhe são particulares: Em síntese, foram glosados créditos sobre a aquisição de carvão vegetal, combustíveis e lubrificantes, resíduos ou aparas (sucatas), serviços de escolta, transporte de insumos entre os Fl. 10399DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.387 27 estabelecimentos e no embarque e movimentação do produto acabado e embarque nos portos. Antes de ingressar nas razões de defesa, cabe pontuar que parte significativa dos créditos glosados tem origem na aquisição de carvão vegetal (95% das glosas), utilizado na produção de ferro gusa, o produto elaborado pela Recorrente. O fundamento adotado pela fiscalização para efetuar as glosas de carvão vegetal devese à apuração de práticas criminosas por algumas siderúrgicas, entre as quais a Recorrente, e podem ser resumidas nos seguintes parágrafos extraídos do PARECER SEFIS Nº 081/2012, acostado às fls. 3772: "20. Durante o procedimento fiscal, tomamos conhecimento através da imprensa, da operação “Ouro Negro” deflagrada em 2011 pelo Núcleo de Repressão às Organizações Criminosas e a Corrupção – NUROC/ES, no combate ao bilionário esquema de sonegação fiscal envolvendo a comercialização ilegal de carvão vegetal, no norte do estado do Espírito Santo e sul da Bahia, sendo usadas várias empresas laranjas para emissão de notas fiscais “frias”, tendo como beneficiárias as Siderúrgicas, grandes adquirentes do carvão vegetal. (...) As investigações apontam que, as madeiras eram furtadas de áreas de preservação ambiental e de empresas que fazem plantio de eucalipto no Norte do ES e/ou Sul da Bahia. Quinze pessoas presas e um rombo que ultrapassa R$100 milhões aos cofres da Receita Federal. O saldo é decorrente uma organização criminosa que roubava madeira em alguns municípios do Norte do Estado e Sul da Bahia, e sonegava impostos. As prisões ocorreram nesta terçafeira (5), através da "Operação Ouro Negro" deflagrada pelo Núcleo de Repressão ás Organizações Criminosas e a Corrupção (Nuroc). Entre os presos estão empresários, contadores e "laranjas" do município de João Neiva e também da Bahia. Jordano Gasperazzo, delegado do Nuroc, informou que a quadrilha movimentava cerca de R$ 1,6 milhões por mês. Além desses, outras 18 pessoas são alvos de investigação por suposto envolvimento com a quadrilha. Foram apreendidos celulares, computadores, notas fiscais e seis carros de luxo, sendo um com placa de Linhares e cinco de João Neiva. As investigações apontam que, as madeiras eram furtadas de áreas de preservação ambiental e de empresas que fazem plantio de eucalipto no Norte do ES e/ou Sul da Bahia. Após o furto a carga era direcionada as empresas constituídas por "laranjas", pessoas que emprestavam seus nomes a troco de dinheiro ou droga, conforme o delegado. Fl. 10400DF CARF MF 28 As madeiras após transformadas em carvão eram "vendidas" com "notas frias" a empresa Jayr Souza Oliveira ME, que repassava as siderúrgicas localizadas no Estado, na Bahia e Minas Gerais, sem gerar dívida proveniente da arrecadação de ICMS. A sonegação fiscal acontece no momento que a empresa capixaba, por exemplo, a Jayr Souza Oliveira ME, vende o carvão pelo mesmo valor de compra da primeira operação. Deste modo, a empresa zera o seu crédito junto a Receita Federal, e não acumula nenhum débito, uma vez que, o produto é vendido pelo valor comprado. Entenda o esquema passo a passo 1º Pessoas de baixa renda, usuários de droga e pessoas criadas a partir de documentos falsos, no Sul da Bahia, eram convencidas a entrarem no esquema, abrindo empresas "laranjas". Como recompensa elas recebiam dinheiro ou drogas. O pagamento variava de R$ 500 a R$ 50, dependendo da situação financeira de cada um, explicou Gasperazzo. 2º As empresas situadas na Bahia emitiam notas fiscais de venda de carvão vegetal ou insumo para empresas capixabas. Estas, por sua vez, emitiam notas fiscais de venda de carvão para usinas da Bahia, Minas Gerais e ES. Sendo a Jayr Souza Oliveira ME, a empresa "cabeça" em solo capixaba. Nomes e participação na quadrilha, segundo o Nuroc: (...) 22. Dentre as matérias publicadas pela imprensa, destacamos a que diz respeito do envolvimento da empresa CBF Indústria de Gusa S/A, no esquema de sonegação fiscal envolvendo comercialização ilegal de carvão vegetal, através do seu Diretor, senhor Ricardo Carvalho Nascimento e do seu Gerente de Compras, senhor Thiciano da Ross Rosa cujas reportagens transcrevemos abaixo. 11/11/2011 às 15h46 Atualizado em 11/11/2011 às 16h54 Diretor de siderúrgica capixaba é preso acusado de participação na máfia do carvão do Norte do ES Folha Vitória Redação Folha Vitória O diretor de uma siderúrgica foi preso acusado de participação na máfia do carvão, na última quartafeira (11), pelo Núcleo de Repressão às Organizações Criminosas e à Corrupção (Nuroc). Ricardo Carvalho Nascimento, de 33 anos, atua na siderúrgica CBF, localizada em João Neiva, e seria responsável pela compra de R$ 107.608.00,00 em carvão vegetal de 16 empresas capixabas e da Bahia, com indícios de irregularidades. De acordo com as investigações do Nuroc, as empresas que forneciam milhões de reais em carvão vegetal para a siderúrgica CBF, possuíam somente existência jurídica, ou seja, em documentos, tendo endereços falsos, sócios que não existem ou não são encontrados. Além disso, as empresas foram constituídas com uso de documentos falsos. Fl. 10401DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.388 29 Ainda segundo as investigações, elas forneciam grandes quantidades de carvão e não possuíam autorização para produzir ou comercializar o vegetal. Outra irregularidade constatada é que as empresas forneciam carvão vegetal em quantidade absurdamente acima de sua capacidade, tendo em vista os poucos fornos de carvão vegetal que possuía registrados. A polícia ainda identificou que pequenos e médios produtores de carvão vegetal capixabas e baianos eram forçados a vender a produção na ilegalidade, com notas fiscais de determinadas empresas que faziam parte do esquema de acobertamento para a siderúrgica CBF. As investigações apontam para um esquema que funcionava no Espírito Santo a cerca de dez anos e trazia retornos financeiros milionários para poucos empresários do ramo da siderurgia. Tudo isso, à custa do trabalho de regime familiar de centenas de pessoas de baixa renda que produzem carvão vegetal em fornos artesanais no norte do ES e sul da Bahia. Outras duas siderúrgicas capixabas estão sob investigação, também pela compra de milhões de reais em carvão vegetal produzido na ilegalidade e sem procedência da madeira usada. Novos mandados de prisão podem ser expedidos nos próximos dias em desfavor dos responsáveis pelas empresas. (...) TV Vitória denunciou máfia do carvão com exclusividade A máfia do carvão no Norte capixaba e Sul da Bahia foi denunciada pela TV Vitória com exclusividade. A matéria mostrou como funcionava uma das maiores organizações criminosas do Estado, abordando exploração infantil, trabalho escravo, trafico de drogas em um universo quase infinito de crimes. Só em sonegação fiscal a polícia calcula que em dez anos o prejuízo aos cofres públicos federal e estadual pode superar R$ 1 bilhão. A operação, intitulada Ouro Negro, identificou ao todo 5.824 crimes cometidos pela máfia do carvão. Entre eles, formação de quadrilha, crime ambiental, lavagem de dinheiro, homicídios, entre outros. Com tantos delitos a polícia ainda não em como calcular uma pena para os suspeitos. Seis policiais civis da Bahia também podem estar envolvidos no esquema. "Infelizmente existem indícios claros da conivência de servidores policiais nesse esquema", completou o delegado. A operação continua em andamento. Ao todo 357 pessoas foram presas em dez meses de trabalho. De acordo com o Nuroc, as investigações revelaram o maior esquema de sonegação fiscal e comercialização de produtos de procedência ilícita descoberto no Espírito Santo. (...) Fl. 10402DF CARF MF 30 Na terceira fase da Operação Ouro Negro, comandada pelo Núcleo de Repressão às Organizações Criminosas e à Corrupção (Nuroc) do Espírito Santo, foram presas, 18 pessoas acusadas de causarem um rombo de mais de R$ 1 bilhão aos cofres públicos estaduais e federais. As prisões começaram acontecer no último dia 11 de outubro, nos municípios de Vila Velha, Serra e Cariacica, na região metropolitana de Vitória (ES), João Neiva, Conceição da Barra, São Mateus e Pedro Canário, no norte do Espírito Santo, Belo Horizonte (MG), além de outras prisões cumpridas no extremo sul da Bahia, na cidade de Mucuri, no distrito de Posto a Mata no município de Nova Viçosa e em Teixeiras de Freitas. Essa á a terceira fase da Operação Ouro Negro, comandada pelo delegado Jordano Bruno Leite, titular do Núcleo de Repressão às Organizações Criminosas e à Corrupção (Nuroc), da Secretaria Estadual de Segurança Pública do Espírito Santo, que tem por objeto combater as máfias do carvão e da madeira instaladas no extremo norte do Espírito Santo e no extremo sul da Bahia. A primeira fase da operação começou com a identificação das quadrilhas que furtavam madeira de eucalipto de empresas privadas para serem usadas em carvoarias e cerrarias, causando prejuízos mensais acima de R$ 2 milhões, e movimentado uma complexa rede criminosa envolvida com homicídios, assaltos e tráfico de drogas. Nesta fase foram presas e indiciadas mais de 140 pessoas por diversos crimes como furto qualificado, homicídios, pose de arma de fogo, receptação, roubo de veículos, crimes ambientais, dentre outros. A segunda fase da operação foi dirigida às carvoarias clandestinas e atravessadores de carvão vegetal produzido clandestinamente para siderúrgicas. Foi feito mapeamento de quarenta e cinco carvoarias no extremo norte do Espírito Santo e no extremo sul da Bahia, que agiam na ilegalidade, comprando madeira furtada, isso quando os próprios carvoeiros furtavam a madeira. Nesta fase, foram presos e indiciados mais de noventa pessoas por crimes de receptação qualificada, furto qualificado, formação de quadrilha, sonegação fiscal. Crimes ambientais etc.. Apenas uma das quadrilhas movimentava mais de R$ 20 milhões por ano em carvão vegetal produzido de forma clandestina. No desenrolar da operação, 17 veículos foram judicialmente resgatados, 24 pessoas físicas e jurídicas tiveram contas bancárias bloqueadas. (...) Como o esquema funcionava Segundo o delegado Jordano Bruno Leite, titular do Nuroc, o esquema funcionava da seguinte forma: As empresas baianas emitiam notas fiscais de venda de carvão vegetal ou insumos para sua produção para as empresas capixabas, e estas emitiam notas fiscais de venda de carvão vegetal para usinas da Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo. O Fl. 10403DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.389 31 esquema de emissão de notas “frias” teria duas finalidades: a primeira, a de acobertar a venda do carvão vegetal produzido com madeira furtada de empresas que plantam eucalipto no extremo norte capixaba e no extremo sul baiano; a segunda seria a acumulação de créditos tributários para as grandes siderúrgicas adquirentes de carvão vegetal. “Laranjas” – No momento em que as empresas “laranjas” emitiam notas fiscais de venda de carvão vegetal para empresas capixabas, as empresas baianas passavam a ser responsáveis pelo recolhimento do ICMS das operações de venda, o que acabava não se consumando e gerando prejuízos aos cofres públicos e evasão tributária. Além disso, a empresa capixaba que comprava o carvão dessas empresas fantasmas acumulava créditos tributários. Em seguida, a empresa capixaba vendia neste momento carvão para usina da Bahia, e, pelo mesmo valor de compra da primeira operação, a empresa capixaba zerava o seu crédito com a Receita Estadual, sem acumular nenhum débito, pois o carvão era vendido pelo mesmo valor da primeira operação. Esquema sonegou mais de R$ 1 bi em 10 anos É o maior caso de rombo fiscal já descoberto no Estado. Com esta dinâmica, a usina que adquiria o carvão vegetal da empresa capixaba ficava com o crédito tributário gerado na primeira operação de venda do carvão – da empresa “laranja” baiana para a empresa “laranja” capixaba. Passado algum tempo, a quadrilha abandonava as empresas baianas com enormes dívidas fiscais, e, em seguida, destruíam qualquer vestígio que pudesse ligar as empresas aos seus integrantes. Com este esquema, foram acumulados milhões de reais em créditos fiscais para as grandes usinas compradoras de carvão vegetal. De Acordo com as investigações do Nuroc, Receita Federal e Secretaria de Estado da Fazenda, a principal empresa envolvida no esquema de sonegação era Jayr Souza Oliveira ME, que teria recebido milhões de reais em notas fiscais de entrada das empresas “laranjas” constituídas na Bahia e no Espírito Santo. Cerca de 60 caminhões pertencentes à quadrilha circulavam todos os dias entre o Espírito Santo, Bahia e Minas Gerais transportando carvão ilegal com notas fiscais “frias” em nome da empresa Jayr. Quatro mil viagens de caminhões Foram identificadas pelo menos quatro mil viagens de caminhões carregados de carvão vegetal com notas da empresa Jayr, com toda movimentação sendo feita sem qualquer recolhimento de impostos. A estimativa prevista de lucro anual era da ordem de R$ 20 milhões por ano, e o esquema funcionou pelo menos dois anos. Foram financiados veículos de alto valor comercial em nome da empresa e também foram realizados empréstimos bancários. Assim, e empresa Jayr Souza Oliveira Me acumulou dívidas superiores a R$ 200 mil junto a instituições financeiras. A empresa havia sido constituída Fl. 10404DF CARF MF 32 com documento de identidade falso e devem aos cofres públicos estaduais cerca de R$ 10 milhões. As seguintes empresas foram usadas como “laranjas” para abastecer a empresa Jayr com créditos tributários e esta os repassava para as siderúrgicas: R. Pereira Thomaz, G. Santos Matos Carvão Vegetal. Cid Ferreira Machado Me, Forno e Carvão Comércio e Indústria de Carvão Ltda, Brazilian Trade Export Ltda, New Star –Indústria, Comércio, Exportação e Transportes Ltda., e Rosana Gomes Nascimento. Segundo levantamentos preliminares, essas empresas devem mais de R$ 100 milhões em impostos para a Receita Federal e ao Fisco do Estado do Espírito Santo. Os valores teriam sido repassados através de notas fiscais “frias” para as siderúrgicas. (...) Até agora, cinco siderúrgicas – uma baiana, uma mineira e três capixabas – aparecem como as maiores beneficiárias do esquema criminoso e seus representantes foram denunciados por centenas de crimes fiscais e de receptação. Um representante de siderúrgica capixaba já respondia a ação penal por receptação do carvão produzido com madeira de procedência ilícita. Principais investigados que tiveram mandados de prisão preventiva decretados: Thiciano Rosa – diretor de compra de carvão vegetal da CBF INDÚSTRIA DE GUSA S/A; Paulo José Gava, conhecido como Barão do Carvão; José Benso Maciel, responsável por carvoarias pertencentes à quadrilha; Sérgio Antônio Ferreira, era sócio e parceiro de Paulo Gava; Liliane Ferraz de Oliveira Barcellos, responsável por adquirir carvão vegetal clandestino na Bahia para a quadrilha; Elberton Ferreira Alves, investigado por fornecer carvão e crédito tributário para empresas do Espírito Santo; Adaiton Figueiredo de Melo, parceiro de Paula Gava, em uma das empresas que pertencia ao esquema. (...) ENVOLVIMENTO DA CBF INDÚSTRIA DE GUSA S/A NO ESQUEMA DE COMPRA ILEGAL DE CARVÃO VEGETAL 297. O senhor Marcelo Meirelles Muniz, nos autos da operação “Ouro Negro”, declarou em depoimento ao NUROC/ES, que cedeu sua fotografia e assinatura para se passar pela pessoa fictícia de Jayr Souza Oliveira. Declarou ainda que o senhor Uelinton era encarregado de fazer a movimentação financeira da empresa Jayr Souza Oliveira – Me. 298. No Inquérito Policial nº 016/2011, inúmeras conversas telefônicas foram monitoradas, entre as quais, destacamos àquelas que pontuaram evidências do envolvimento da CBF Indústria de Gusa S/A, no esquema de compra ilegal de carvão vegetal, através do seu Gerente de Compras senhor Thiciano da Ross Rosa. Chamamos atenção para conversas realizadas com o responsável pela movimentação financeira da empresa JAYR – ME, senhor Uelinton Spinassé de Jesus. Fl. 10405DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.390 33 299. Abaixo transcrevemos trechos das conversas telefônicas monitoradas pelo NUROC/ES, autorizadas judicialmente, envolvendo o senhor Thiciano da Ross Rosa. (...) 300. De acordo com o teor dos diálogos acima ficou evidenciado que o senhor Ricardo Carvalho Nascimento (Diretor da CBF) e o senhor Thiciano da Ross Rosa (Gerente de Compras da CBF), tinham conhecimento do esquema ilícito referente à compra de carvão vegetal adquirido pela CBF. 301. Nos Inquéritos Policiai ficou também evidenciado que Thiciano da Ross Rosa e Uelinton Spinassé de Jesus (responsável pela movimentação financeira da empresa JAYR ME)se uniram para que o carvão de origem duvidosa fosse adquirido pela CBF. (...) 302. Por tudo que consta nos Inquéritos Policiais instaurados pelo NUROC/ES, a Autoridade Policial decidiu pelo indiciamento dos senhores Ricardo Carvalho Nascimento (Diretor da CBF), Thiciano da Ross Rosa (Gerente de Compras da CBF) e Fabrício Baptista (exfuncionário da CBF que trabalhava no setor de compras de carvão vegetal, desligado da empresa em junho de 2009) pela prática, em tese, de diversos crimes, dentre eles, crime contra a ordem tributária, tipificado no art. 1º, incisos I, II e art. 2º , inciso I , ambos da Lei nº 8.137, de 1990 (na forma continuada). 303. Não restam dúvidas de que a CBF Indústria de Gusa S/A (adquirente de carvão vegetal) tinha conhecimento e se beneficiou do esquema ilícito de aquisição de carvão vegetal realizado com empresa constituída por pessoa fictícia, nos moldes da JAYRME e constituídas por interpostas pessoas, que praticamente não recolheram nada aos cofres públicos, portanto, a CBF não pode ser considerada adquirente de boa fé.” Diante desse quadro, a fiscalização intimou a Recorrente a apresentar, para o período de 1º trimestre de 2005 até 4º trimestre de 2008, as notas fiscais de aquisição de carvão vegetal (a intimação, segundo se registrou, foi feita por amostragem em face da grande quantidade de notas), acompanhadas dos respectivos comprovantes pagamentos. Constatouse que a Recorrente adquiriu, de empresa constituída por sócio inexistente de fato (nome de pessoa física fictícia), de empresas constituídas por interpostas pessoas e de empresas que se encontram em “situação irregular” no cadastro da Receita Federal (inapta, inativa, sem nenhum recolhimento de tributos ou com recolhimentos irrisórios; a partir da fl. 3812, passa a descrever as irregularidades de cada umas dessas empresas, Fl. 10406DF CARF MF 34 acompanhada de farto conjunto probatório das irregularidades constatadas). Ao final, após informar do indiciamento, pela autoridade policial competente, dos senhores Ricardo Carvalho Nascimento (Diretor da Recorrente), Thiciano da Ross Rosa (Gerente de Compras da Recorrente) e Fabrício Baptista (exfuncionário da Recorrente), pela prática, em tese, de diversos crimes, registra que, da base de cálculo dos créditos do PIS/Cofins, foram excluídas as aquisições realizadas à empresa cujo sócio inexistia de fato, as realizadas a empresas constituídas por interpostas pessoas e, também, as realizadas àquelas que se encontravam em situação irregular perante o cadastro da RFB. Também foram glosados: a) as aquisições de carvão vegetal realizadas a pessoas físicas (o que seria vedado pela legislação do PIS/Cofins não cumulativo); b) as aquisições realizadas a pessoas jurídicas, com emissão de nota fiscal, mas tendo como beneficiários dos pagamentos pessoas físicas; c) as aquisições de insumos de sucata de ferro, sucata de ferro gusa e sucata de aço, cujo crédito, a partir de 01/03/2006, passou a ser vedado pela legislação; d) os gastos com fretes nas transferências internas entre estabelecimentos da própria Recorrente (esta considerou como insumo de carvão vegetal); e) os gastos contabilizados na conta de despesas comerciais 3.3.2.02.0015 Combustíveis e Lubrificantes (segundo a fiscalização, só se fosse insumo da produção); f) gastos com serviços de escolta; e, finalmente, g) os serviços referentes ao embarque, à movimentação do produto acabado no entreposto para embarque nos navios. O primeiro argumento de defesa direcionase a atacar a higidez do procedimento, ao fundamento de que a fiscalização, ao efetuar a análise dos documentos por amostragem (algumas das notas emitidas pelas "empresas" fornecedoras, mas não de todas as por esta emitidas), terseia desconsiderado, de conseguinte, a totalidade dos créditos apurados pela interessada sobre todas as demais notas fiscais emitidas. Também sustenta que a fiscalização baseouse em prova emprestada, frágil e que não admite o exercício do contraditório e da ampla defesa. Nada há de equivocado no procedimento. Não há norma que obrigue a fiscalização a proceder à análise de toda a documentação contábil e/ou fiscal de um contribuinte, quando parte dela já indica, pela irregularidade que contém, que a infração se estende a todo o resto. É o que ocorre com as notas fiscais requeridas, emitidas pelas mesmas "empresas" (assim, mais uma vez, entre aspas) cujas ilegalidades pululam nos autos, uma das quais, sublinhese, "dirigida" por um fantasma, uma pessoa física de existência apenas espectral. A propósito, amostragem sequer meio de prova é, mas método, forma de conhecer a totalidade de algo, mediante a análise de parcela dele (conhecer a população pela análise dos indivíduos). Prova, por seu turno, é coisa diferente: é o meio de se demonstrar a verdade de um fato. No caso em exame: os Fl. 10407DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.391 35 depoimentos, as diligências, a documentação apreendida, as fotos etc. Repisese também aqui, por necessário, o que a respeito se disse no acórdão recorrido: a Recorrente não impugnou "um item sequer, dentre os glosados, que demonstrasse que o resultado, mesmo que realizado por amostragem, tenha sido marcado pela incerteza. Mais ainda, não demonstrou ou apontou valores que deixaram de ser considerados pela autoridade fiscal, que tenham causado prejuízo no cálculo do direito creditório pleiteado. Frisese, tendo permanecido apenas no campo da argumentação, a contribuinte pôs por terra a argüição de invalidade da decisão e do trabalho fiscal, ainda mais que, a partir da ciência do Despacho Decisório, teve a oportunidade de se manifestar e indicar possíveis mal feitos da fiscalização que teriam invalidado o trabalho de auditoria". A utilização de prova emprestada de outro processo administrativo, policial ou judicial, ademais, nada tem de ilegal, quando ao contribuinte é oferecido, na esfera administrativa, a possibilidade de contraditar as provas coletadas e oferecer as suas razões de defesa. É o que ocorre no caso em exame. Também não há que se aventar da aplicação do disposto no art. 82 da Lei nº 9.430, de 19961. Obviamente, o legislador teve o claro desiderato de não prejudicar o adquirente de boafé, de modo que ao contribuinte assim enquadrado não se possa vir a exigir o conhecimento da situação fiscal de todas as pessoas jurídicas com as quais se relacionar comercialmente, como se lhe fosse possível a onisciência própria das divindades. Não é o caso, porém, da Recorrente, conforme acima demonstrado, tanto que foram indiciados, pela autoridade policial, um de seus diretores, o seu gerente de compras responsável pela aquisição de carvão vegetal e um de seus exfuncionários, todos, segundo se afirma, envolvidos nos ilícitos. Aplicálo, portanto, seria premiar a mais deslavada ilicitude. Entende a Recorrente que as provas carreadas aos autos somente podem servir de comprovação dos ilícitos a partir do início de sua coleta pela autoridade policial, como se não se pudesse olhar para o passado das "empresas" envolvidas. Nada mais equivocado. A depender de sua natureza, as irregularidades constatadas podem, sim, servir para exigência dos tributos não recolhidos ou para a glosa, como no caso, de créditos de PIS/Cofins não cumulativos, antes mesmo do início da investigação policial, da autoridade fazendária ou — destaquese aqui porque especialmente contestado no recurso — 1 Art. 82. Além das demais hipóteses de inidoneidade de documentos previstos na legislação, não produzirá efeitos tributários em favor de terceiros interessados, o documento emitido por pessoa jurídica cuja inscrição no Cadastro Geral de Contribuintes tenha sido considerada ou declarada inapta. Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica aos casos em que o adquirente de bens, direitos e mercadorias ou o tomador de serviços comprovarem a efetivação do pagamento do preço respectivo e o recebimento dos bens, direitos e mercadorias ou utilização dos serviços. Fl. 10408DF CARF MF 36 da declaração de inidoneidade da pessoa jurídica, uma vez que podem ser, no caso em exame, de tal importância, que não contaminem apenas operações isoladas ou a partir de determinada data, mas todas as que com aquelas foram realizadas. Os pagamentos realizados a pessoas físicas, não obstante acobertadas por notas fiscais emitidas pelas "empresas" envolvidas, também não podem ensejar o creditamento pretendido, especialmente porque, como destacado no Parecer, foram insuficientes as justificativas para o fato do insumo ter sido comprado de um fornecedor e o respectivo pagamento ter sido efetuado a uma pessoa física. Não se paga a quem não se deve, sob pena de se pagar duas vezes. Se o pagamento foi realizado a uma pessoa física, é porque cabia a esta o valor pago. E se cabia a esta o valor pago, não cabe à Recorrente, por expressa vedação legal, o crédito de PIS/Cofins correspondente. As demais glosas que resta examinar são as seguintes: a) os gastos com fretes nas transferências de matériaprima entre estabelecimentos da própria Recorrente; b) os gastos contabilizados na conta de despesas comerciais 3.3.2.02.0015 Combustíveis e Lubrificantes; c) gastos com serviços de escolta; e, finalmente, d) os serviços referentes ao embarque, à movimentação do produto acabado no entreposto para embarque nos navios. Correta, ainda, a glosa de créditos com gastos com fretes nas transferências de matériaprima entre estabelecimentos da própria Recorrente (segundo a fiscalização, foram considerados como insumo carvão vegetal), uma vez que, no nosso entender, não podem compor a base de cálculo dos créditos de PIS/Cofins reclamados. Aqui não se trata de transporte de produtos em elaboração, para que seja submetido a posterior processo de industrialização por outro estabelecimento da mesma pessoa jurídica, mas da própria matériaprima. Todavia, como este não é o entendimento dos demais integrantes da Turma, passamos a adotálo, por economia processual e apreço ao princípio da colegialidade. Confiramse, a respeito, ementas de acórdãos proferidos por esta Turma e pela 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF, que o reproduz: GASTOS COM FRETE. TRANSFERÊNCIA DE INSUMOS ENTRE ESTABELECIMENTOS INDUSTRIAIS DO CONTRIBUINTE. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITO.POSSIBILIDADE. Os fretes e dispêndios para transferência de insumos entre estabelecimentos industriais do próprio contribuinte são componentes do custo de produção e essenciais ao contexto produtivo. Portanto, geram direito de crédito de Pis e Cofins, no regime não cumulativo, conforme artigo 3º das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, e Resp 1.221.170/PR. (Acórdão nº 3201004.053, de 24/07/2018). Fl. 10409DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.392 37 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/10/2008 a 31/12/2008 DESPESAS. FRETES. TRANSFERÊNCIA/TRANSPORTE. PRODUTOS INACABADOS E INSUMOS. ESTABELECIMENTOS PRÓPRIOS, CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas com fretes para a transferência/transporte de produtos em elaboração (inacabados) e de insumos entre estabelecimentos do contribuinte integram o custo de produção dos produtos fabricados/vendidos e, consequentemente, geram créditos da contribuição, passíveis de desconto do valor apurado sobre o faturamento mensal. (Acórdão nº 9303007.283, de 15/08/2018). Contudo, somente se pode admitir a concessão do crédito no caso em que não tenha havido a glosa do crédito de PIS/Cofins correspondente à aquisição da matériaprima transportada, já que a esta umbilicalmente interrelacionada. A razão é evidente e dispensa maiores comentários. Já os gastos contabilizados na conta de despesas comerciais (3.3.2.02.0015 Combustíveis e Lubrificantes) e aqueles despendidos com serviços de escolta, porque não aplicados na produção, não podem ser considerados insumos. É intuitivo, tratandose de pessoa jurídica que se dedica à produção de ferrogusa, nem por hipótese os gastos assim realizados podem se apresentar com a natureza de insumo, admitindose, por hipótese, no segundo caso, se a Recorrente, por exemplo, se dedicasse ao transporte de valores2. Não é a sua atividade, porém. Pelo mesmo motivo, concordamos com a glosa de créditos oriundo dos gastos com os serviços decorrentes do embarque e da movimentação do produto acabado no entreposto para os navios, em comunhão, aliás, com o entendimento esposado pela a 3ª CSRF: PIS. SERVIÇOS DE CAPATAZIA E ESTIVAS. CRÉDITOS DA NÃO CUMULATIVIDADE. IMPOSSIBILIDADE. Os serviços de capatazia e estivas por não serem utilizados no processo produtivo, não geram créditos de PIS no regime não cumulativo, por absoluta falta de previsão legal. (Acórdão nº 9303004.383, de 08/11/2016) 2 O art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003, delimitaram o conceito de insumos àqueles bens e serviços utilizados na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, é dizer, aqueles insumos efetivamente empregados no produto final do processo de industrialização ou no serviço prestado ao tomador. Fl. 10410DF CARF MF 38 Por fim, há ainda que se enfrentar o fato da impossibilidade de gerar créditos as aquisições de insumos de sucata de ferro, sucata de ferro gusa e sucata de aço. Com efeito, conforme lembrado no aqui mencionado, tal creditamento passou a ser vedado a partir de 01/03/2006 (art. 47 da Lei nº 11.196, de 20053), de modo que não cabe às instâncias administrativas afastar a sua aplicação ao fundamento de sua incompatibilidade com o Texto Constitucional4. Ante o exposto, DOU PROVIMENTO PARCIAL ao recurso voluntário, apenas para conferir o direito ao crédito sobre as despesas com fretes para o transporte de matériaprima entre os estabelecimentos da Recorrente, desde que não glosado o crédito correspondente à aquisição do insumo transportado. Voto vencedor Conselheiro Marcelo Giovani Vieira, Redator Designado O presidente incumbiume de redigir o acórdão na parte pertinente aos gastos de capatazia e estiva. Os gastos com logística, na operação de aquisição de insumos, geram direito a crédito por comporem o conceito contábil de custo de aquisição de mercadoria5. Os gastos logísticos para movimentação de insumos, internamente ou entre estabelecimentos da mesma empresa, inseremse no contexto de produção do bem, porque inerentes e relevantes ao respectivo processo produtivo. Desse modo, devem gerar direito de crédito, na esteira do Resp 1.221.170/PR, que tramitou sob o regime dos recursos repetitivos (art. 543C do CPC), e que vincula o Carf (art. 62, §2º, do Anexo II do Regimento Interno). No caso dos gastos logísticos na venda, entendo que estão abrangidos pela expressão “armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda”, conforme consta no inciso IX do artigo 3º das Leis 10.833/2003 e 10.637/2002. Entendo que são termos cuja semântica abrange a movimentação das cargas na operação de venda. Assim, tais dispêndios logísticos estão inseridos no direito de crédito, respeitados os demais requisitos da Lei, como, por 3 Lei nº 11.196, de 2005 Art. 47. Fica vedada a utilização do crédito de que tratam o inciso II do caput do art. 3o da Lei no 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e o inciso II do caput do art. 3o da Lei no 10.833, de 29 de dezembro de 2003, nas aquisições de desperdícios, resíduos ou aparas de plástico, de papel ou cartão, de vidro, de ferro ou aço, de cobre, de níquel, de alumínio, de chumbo, de zinco e de estanho, classificados respectivamente nas posições 39.15, 47.07, 70.01, 72.04, 74.04, 75.03, 76.02, 78.02, 79.02 e 80.02 da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados – TIPI, e demais desperdícios e resíduos metálicos do Capítulo 81 da Tipi. 4 Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. 5 11. O custo de aquisição dos estoques compreende o preço de compra, os impostos de importação e outros tributos (exceto os recuperáveis perante o fisco), bem como os custos de transporte, seguro, manuseio e outros diretamente atribuíveis à aquisição de produtos acabados, materiais e serviços. Descontos comerciais, abatimentos e outros itens semelhantes devem ser deduzidos na determinação do custo de aquisição. (Redação dada pela Resolução CFC nº. 1.273/10) Fl. 10411DF CARF MF Processo nº 15586.720585/201263 Acórdão n.º 3201004.887 S3C2T1 Fl. 10.393 39 exemplo, que o serviço seja feito por pessoas jurídicas tributadas pelo Pis e Cofins. (assinatura digital) Marcelo Giovani Vieira, Redator Designado. As matérias que resta apreciar, porque particulares ao presente litígio, são as seguintes: a) decadência e b) aplicação da multa qualificada. Ambas são, como se passa a demonstrar, absolutamente improcedentes e podem ser enfrentadas em conjunto. Sustenta a Recorrente a sua condição de adquirente de boafé, de modo que a multa de ofício a ser aplicada, na remota possibilidade de manutenção do lançamento, deveria ser de 75%, não se 150%. Contudo, no caso ora em julgamento, a fiscalização demonstrou que a aplicação da multa qualificada se assentou em fatos documentalmente comprovados e inequívocos, que foram não apenas perpetrados pela Recorrente, mas também por ela, engendrados com a só finalidade de reduzir o pagamento de tributos federais. Tanto que pessoas a ela ligadas (diretores e exfuncionário) foram indiciados pela prática de vários delitos. Tais fatos foram muito bem explanados no PARECER SEFIS Nº 081/2012, parte dos quais repisados no presente voto e não diretamente contestados pela Recorrente, e são determinantes à qualificação da multa de ofício, uma vez que, deliberadamente, a Recorrente utilizouse de créditos lastrados em notas fiscais, ideologicamente falsas, emitidas por pessoa jurídica com sócio inexistente de fato (a própria pessoa física era fictícia), por empresas constituídas por interpostas pessoas e por empresas que se encontravam em “situação irregular” no cadastro da Receita Federal (inapta, inativa, sem nenhum recolhimento de tributos ou com recolhimentos irrisórios), o que, a nosso juízo, tipifica a sonegação, a fraude e o conclui, nos moldes em que preconizam os arts. 71 a 73 da Lei n.º 4.502, de 19646. Absolutamente correta, portanto, a aplicação da multa no percentual de 150%. E, por via de consequência, considerando o disposto no art. 150, § 4º, c/c o art. 173, I, do CTN e dolosa a conduta perpetrada pela Recorrente, ainda não havia decaído o direito da Fazenda Pública na data da ciência do lançamento (12/07/2012), visto que o termo inicial do prazo decadencial, para os meses de maio e junho de 2007, somente ocorreu no 1º dia útil de 2008, extinguindose somente em 2013. 6 Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. Fl. 10412DF CARF MF 40 Por derradeiro, cabe observar que as alegações de incompatibilidade vertical entre o diploma legal que instituiu a multa qualificada e a Constituição Federal não podem, à míngua de competência, ser aqui apreciadas por este Colegiado administrativo (Súmula n.º 2 do CARF). Pelo exposto, voto por DAR PROVIMENTO PARCIAL o recurso voluntário, para que, mantido tudo o mais, apliquese aqui o que decido no julgamento do processo administrativo nº 15586.720483/201248. É como voto. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 10413DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.904976/2008-86
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 13 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Apr 04 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2003
COMPENSAÇÃO. PERDCOMP. LIQUIDEZ E CERTEZA. CRÉDITO DISPONÍVEL. SUPORTE PROBATÓRIO. NECESSIDADE.
O reconhecimento de direito credito creditório dá-se por meio de documentação hábil e idônea que comprove sua liquidez e certeza, nos termos no art. 170 do CTN. A DIPJ não se presta à tal comprovação por tratar-se de prestação de informações unilateral e que não está sujeita à revisão da Administração. Ademais, na hipótese de a origem do direito creditório ser saldo negativo de CSLL, o direito de compensação está condicionado a que o contribuinte apresente, inequivocamente, as parcelas que compõe o seu direito creditório no PER/DCOMP, devendo este coincidir com o que fora informado na DIPJ.
Numero da decisão: 1003-000.523
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Carmen Ferreira Saraiva Presidente
(assinado digitalmente)
Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva (Presidente), Bárbara Santos Guedes e Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça. Ausente justificadamente o Conselheiro Wilson Kazumi Nakayama.
Nome do relator: MAURITANIA ELVIRA DE SOUSA MENDONCA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2003 COMPENSAÇÃO. PERDCOMP. LIQUIDEZ E CERTEZA. CRÉDITO DISPONÍVEL. SUPORTE PROBATÓRIO. NECESSIDADE. O reconhecimento de direito credito creditório dáse por meio de documentação hábil e idônea que comprove sua liquidez e certeza, nos termos no art. 170 do CTN. A DIPJ não se presta à tal comprovação por tratarse de prestação de informações unilateral e que não está sujeita à revisão da Administração. Ademais, na hipótese de a origem do direito creditório ser saldo negativo de CSLL, o direito de compensação está condicionado a que o contribuinte apresente, inequivocamente, as parcelas que compõe o seu direito creditório no PER/DCOMP, devendo este coincidir com o que fora informado na DIPJ. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva – Presidente (assinado digitalmente) Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 90 49 76 /2 00 8- 86 Fl. 205DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva (Presidente), Bárbara Santos Guedes e Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça. Ausente justificadamente o Conselheiro Wilson Kazumi Nakayama. Relatório Tratase de recurso voluntário contra Acórdão de nº 0627.131, proferido pela 1ª Turma da DRJ/CTA, que julgou improcedente a manifestação de inconformidade da Recorrente, não homologando a compensação declarada. Fazendo uma breve retrospectiva, temse que a Recorrente transmitiu a declaração de compensação n° 2553870421.290704.I.3.032208 (fls. l217), em 29/07/2004, informado utilização de direito creditório oriundo do saldo negativo de CSLL do exercício de 2004, anocalendário de 2003, no valor de R$ 1.564,24. Após a transmissão do PER/DCOMP, foram emitidos os Termos de Intimação de fls. 37 e 39, oportunizando a Recorrente a apresentar explicações acerca das divergências encontradas em suas declarações, bem como, se fosse o caso, retificálas. Como a Recorrente não adotou nenhuma providência no tocante à correção das divergências apontadas entre a PER/DCOMP e DIPJ, a compensação efetuada não foi homologada, conforme Despacho Decisório de fls. 01, in verbis: Analisadas as Informações prestadas no documento acima Identificado, não foi possível confirmar a apuração do crédito, pois o valor Informado na Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ) não corresponde o valor do saldo negativo informado no PER/DCOMP. Valor original do Saldo negativo Informado no PER/DCOMP Com demonstrativo de Crédito: RS 1.554,24 Valor do saldo negativo informado na DIPJ: R$ 1.523,52 Diante do exposto, NÃO HOMOLOGO a compensação declarada no PER/DCOMP acima Identificado. Cientificada, a Recorrente interpôs Manifestação de Infoncormidade, às fls. 10, alegando a ocorrência de erro de fato no preenchimento do PER/DCOMP, conforme transcrito a seguir: "Aduz o Despacho Decisório, que ao ser analisado o PER/DCOMP referente ao período de apuração do crédito do Exercício 2004 01/01/2003 a 31/12/2003, saldo negativo de CSLL, processo em epígrafe, não foi possível a confirmação da apuração do credito, sendo que o saldo negativo da CSLL informado na DIPJ não corresponde ao informado no PER/DCOMP. De fato, ao ser preenchido o PER/DCOMP equivocadamente foi transcrito incorretamente o saldo negativo da CSLL, ao invés de Fl. 206DF CARF MF Processo nº 10980.904976/200886 Acórdão n.º 1003000.523 S1C0T3 Fl. 3 3 informar o valor correto de RS 1.523,52, foi informado o valor incorreto de R$ 1.564,24. Para sanar as incorreções, com anterioridade ao Despacho Decisório, tratou de elaborar DIPJ/RETIFICADORA 2004 Ano calendário 2003 entregue em 16/08/2006, não sendo possível a alteração de dados do PER/DCOMP entregue com incorreções. À vista de todo exposto, demonstrado o erro de fato, espera e requer seja acolhido o presente para o fim de assim ser decidido, reconsiderandose o Despacho Decisório da não homologação da compensação declarada no PER/DCOMP acima identificado. Por sua vez, a DRJ/CTA, ao apreciar a dita Manifestação de Inconformidade, entendeu por bem julgála improcedente, não reconhecendo o direito creditório em discussão. A decisão restou assim ementada: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2003 PER/DCOMP. SALDO NEGATIVO DE CSLL. DIVERGÊNCIA ENTRE O VALOR INFORMADO NA DIPJ E NO PER/DCOMP. NÃOHOMOLOGAÇÃO. A única via admissível para a efetuação de compensação é por meio da entrega da respectiva declaração, a qual deve, obrigatoriamente. (a) seguir as regras de preenchimento estabelecidas pela RFB; c (b) informar os créditos que foram utilizados naquela declaração de compensação. Portanto, em cumprimento ao disposto no art. 170 do CTN e do § 14 do art.74 da Lei n“ 9.430/96, na hipótese de a origem do direito creditório ser Saldo Negativo de CSLL, o direito de compensação do contribuinte está condicionado a que informe, inequivocamente, as parcelas que compõe seu direito creditório; no PER/DCOMP, idêntico valor de Saldo Negativo de CSLL em relação ao que foi informado na DIPJ Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Inconformada, a Recorrente, basicamente, reproduziu os argumentos aduzidos em sua manifestação de inconformidade e requereu: "Face ao exposto, requer se digne Vossa Senhoria, com o devido respeito, homologar a compensação efetuada, no valor (principal) até o montante de R$ 1.523,52, reconhecendo o direito da requerente parcialmente ao crédito objeto de pedido de restituição e compensação neste valor referente a saldo negativo de CSLL do anocalendário 2003, DIPJ 2004 haja vista que foi apresentada DIPJ retificadora e elaborados pedidos de restituição e compensação, apesar do equívoco cometido com relação ao preenchimento do valor do saldo negativo de CSLL no PER/Dcomp". É o relatório. Fl. 207DF CARF MF 4 Voto Conselheira Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça, Relatora. Compulsando os autos, verifico que o recurso voluntário é tempestivo e cumpre com os demais requisitos legais de admissibilidade previstos nas normas de regência, razão pela qual dele tomo conhecimento e passo a apreciálo. Em suas razões recursais, a Recorrente, busca a reforma do acórdão recorrido visando à homologação da compensação efetuada, todavia, não houve, por parte da Recorrente, a comprovação de fosse líquido e certo o crédito pleiteado para a compensação. Todavia, no presente caso, a Recorrente informou valor divergente de Saldo Negativo de Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ no PER/DCOMP e na DIPJ, gerando incoerências. Tal discrepância acarretou a referida não homologação da compensação declarada. Neste contexto, fora concedida à Recorrente a oportunidade para que houvesse a retificação das ditas divergências.Contudo, a Recorrente não tomou nenhuma medida corretiva no sentido de regularizar sua Declaração de Compensação de acordo com as normas de regência no âmbito da Receita Federal. Na verdade, é do contribuinte o ônus de instruir os autos com documentos hábeis e idôneos que justifiquem a retificação das informações retificadas. Nesse sentido também vale ressaltar o disposto no art. o art. 195 do Código Tributário Nacional e o art. 4º do DecretoLei nº 486, de 03 de março de 1969, que preveem, em última análise, "que os livros obrigatórios de escrituração comercial e fiscal e os comprovantes dos lançamentos neles efetuados serão conservados até que ocorra a prescrição dos créditos tributários decorrentes das operações a que se refiram." Ademais, na hipótese de a origem do direito creditório ser saldo negativo de CSLL, o direito de compensação está condicionado a que o contribuinte apresente, inequivocamente, as parcelas que compõe o seu direito creditório no PER/DCOMP, devendo este coincidir com o que fora informado na DIPJ Fl. 208DF CARF MF Processo nº 10980.904976/200886 Acórdão n.º 1003000.523 S1C0T3 Fl. 4 5 Ora, em um processo de restituição, ressarcimento ou compensação, é o contribuinte que toma a iniciativa de viabilizar seu direito ao aproveitamento do crédito, quer por pedido de restituição ou ressarcimento, quer por compensação, incumbindolhe, na qualidade de autor, demonstrar seu direito. Nesta senda, a compensação válida pressupõe o encontro de valores líquidos e certos, inclusive, harmônicos com todos os registros e declarações do interessado, não podendo estar presentes incertezas e dúvidas para o cotejo de contas. Logo, levandose em conta que o crédito oferecido à compensação deve ser líquido e certo (art. 170 do CTN1), consoante já exposto, concluise que não deve haver homologação da compensação se ficar configurada a falta de certeza e liquidez, como de fato ocorreu in casu, notadamente com base em informações prestadas pelo próprio contribuinte em declarações ou demonstrativos por ele entregues. Neste ponto, por entender que as considerações realizadas pela DRJ, no acórdão de piso, são irretocáveis, colaciono parte de seu texto como fundamento deste voto: "(...) 5. Originalmente o contribuinte transmitiu DIPJ/2004, AC 2003, em 28/06/2004 (fls.4244), apresentando Saldo a Pagar de CSLL, no valor de R$ 1.030,22. 6. Em 22/07/2006 foi expedido o Termo de Intimação de fls. 37, onde a DRF/Curitiba informou ao interessado que “Não foi saldo negativo da DIPJ e sim contribuição social a pagar". Assim. tendo me vista que no PER/DCOMP foi postulado. como Crédito, Saldo Negativo de CSLL no valor de R$ 2.553,74 e na DIPJ, ao contrário, constou Saldo a Pagar, o contribuinte foi solicitado a “retificar a DIPJ correspondente ou apresentar PER/DCOMP retificador indicando corretamente o período de apuração do saldo negativo e, se for o caso, corrigindo o detalhamento do crédito utilizado na sua composição". E ainda. foi esclarecido que "Outras divergências entre as informações do PER/DCOMP. da DIPJ e da DCTF do período deverão ser sanadas pela apresentação de declarações retificadoras no prazo estabelecido nesta intimação." Do referido Termo de Intimação o contribuinte tornou ciência em 03/08/2006 (fls. 38). 1 Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. Fl. 209DF CARF MF 6 7. Em 16/08/2006, foi transmitida a DIPJ retificadora de fls. 45 47, alterandose o valor do Saldo a Pagar anterior de R$ 1.030,22, para um Saldo Negativo de R$ 1.523,52, tendo em vista que passou a ser mencionado na Linha 41, da Ficha 17 (fls. 45), o valor da CSLL Mensal Paga por Estimativa, no total de R$ 2.553,74. Na discriminação das parcelas de Estimativa, Ficha 16 (fls.47), constaram as seguintes parcelas: 8. Considerando a persistência de diferença entre o Saldo Negativo de CSLL declarado no PER/DCOMP (R$ 1.564,24) em relação ao agora constante na DIPJ retificadora (R$ 1.523,52), a empresa foi novamente destinatária de Termo de Intimação, em 29/08/2007 (fls. 39). Desta feita. a DRF/Curitiba informou que " O valor do saldo negativo informado na PER/DCOMP é diferente do apurado na DIPJ. (...) DIPJ. Valor do Saldo Negativo R$ 1.523,52. PER/DCOMP. Valor do Saldo Negativo: R$ 2.553,74". Assim, o órgão fiscal registrou: "Solicitase retificar a DIPJ correspondente ou apresentar PER/DCOMP retificador indicando corretamente o valor do saldo negativo apurado no período e, se for o caso, corrigindo o detalhamento do crédito utilizado na sua composição. Outras divergências entre as informações do PER/DCOMP, da DIPJ e da DCTF do período deverão ser sanadas pela apresentação de declarações retificadoras no prazo estabelecido nesta intimação". E, no desfecho, a DRF/Curitiba asseverou: "fica o sujeito passivo acima identificado INTIMADO a sanar a (s) irregularidade (s) apontada (s) no quadro 4, no prazo de 20 dias contados da ciência desta Intimação. Não sanada (s) a (s) irregularidade (s) apontada (s) no prazo estipulado, o PER/DCOMP em análise poderá ser indeferido/nãohomologado". A empresa tomou ciência do Termo de Intimação em 12/09/2007 (fls. 40). 9. Não consta nos autos, e nem nos sistemas informatizados da Receita Federal, a notícia de alguma providência que o interessado tenha tomado em relação ao disposto neste segundo Termo de Intimação. 10. Verificase da Manifestação de Inconformidade, que 0 contribuinte reconhece INCORRETO o valor de R$ 1.564,24 mencionado no PER/DCOMP (fls 10), como Saldo Negativo de CSLL, sendo que o valor CORRETO seria R$ 1.523,52. Segundo esta assertiva, o próprio interessado estaria reconhecendo que o Direito Creditório invocado no seu PER/DCOMP não é correto. Mas, em não sendo correto o valor e tendo ele sido intimado a proceder a retificação do PER/DCOMP, conforme Termo de Intimação de fls.39, porque não o fez? 11. Ademais, há reconhecimento expresso que o valor CORRETO seria R$ 1.523,52, constante de sua DIPJ. Entretanto, referido Saldo Negativo é resultante do confronto Fl. 210DF CARF MF Processo nº 10980.904976/200886 Acórdão n.º 1003000.523 S1C0T3 Fl. 5 7 entre o valor da Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido Total (R$ 1.030,22) e o total da CSLL Mensal Paga por Estimativa (R$ 2.553,74). Tudo conforme fls. 45, que é a Ficha 17 da DIPJ/2004 (AC 2003). Ocorre que este valor de R$ 2.553,74 esta incorreto, considerando as parcelas mensais de Estimativa declaradas na Ficha 16, fls. 17 17 vº. É que o total de tais parcelas monta em RS 2.360,31, conforme detalhado no quadro do item 7 acima, e não em RS 2.553,74. Portanto, a basearse no somatório das parcelas mensais de Estimativa, declaradas na Ficha 16, a Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido Total (RS 1.030,22) deveria sofrer cotejo com o referido valor de R$ 2.360,31, 0 que resultaria em um Saldo Negativo de R$ 1.330,09 na DIPJ. Assim, também na DIPJ há dúvida quanto a certeza do Saldo Negativo indicado como CORRETO, de R$ 1.523,52. 12. O direito creditório que o contribuinte alega possuir, neste caso, é Saldo Negativo de CSLL. Este, como sabido, resulta da comprovação de que parcelas de antecipações realizadas efetivamente pelo contribuinte, como estimativas, retenções na fonte e outras, não utilizadas para outras finalidades, são maiores que a Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido Total. Como cediço, se a Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido Total for maior que as antecipações realizadas, restará ainda CSLL a Pagar. Ao contrário, se as antecipações, não utilizadas para outras finalidades, forem em maior valor que a Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido Total, restará Saldo Negativo a favor do contribuinte. 13. Portanto, deve existir certeza e liquidez sobre as parcelas de antecipações e sobre a Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido Total, para que do cotejo entre os dois, se maiores as primeiras, possa emergir direito creditório também líquido e certo, requisito primeiro para o pleito de restituição/compensação. 14. O cálculo da Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido Total e as parcelas que concorreram para a formação do Saldo Negativo ou CSLL a Pagar, se demonstra na Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica DIPJ, daí a importância de sua estrita correção e a exata concordância com os dados de outras declarações. O Saldo Negativo, assim apurado, que no presente caso foi de R$ 1.523,52 (ainda que haja a dúvida apontada no item II acima), deverá ser levado ao PER/DCOMP, conforme instruções do Programa Gerador PER/DCOMP, verbis: 1) Valor do Saldo Negativo: Informar o valor do .saldo negativo de CSLL apurado no período a que se refere 0 crédito objeto do Pedido Eletrônico de Restituição ou a Declaração de Compensação. conforme informado na Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ).(Grifei) Fl. 211DF CARF MF 8 15. Mas, em vez de assim fazêlo, o contribuinte informou o valor de R$ 1.564,24 no PER/DCOMP, como Valor do Saldo Negativo (fls. 06). Mais ainda, tendo a oportunidade de retificar tal divergência, quedouse inerte. 16. Nesses lindes. mais que se vê do mister de não pairar dúvidas acerca das diversas informações e dados, que compõe o direito creditório do interessado, devendo ser eles precisos e conformes. Cabe ao pleiteante, do direito, cuidar pela correta apresentação de dados e elementos, para que o órgão fiscal possa ter condições de aferir a exatidão do crédito postulado, até o seu último centavo. A incerteza trazida pela diferença apontada pela Receita Federal, para a qual o interessado não tomou nenhuma providência corretiva, macula a certeza e liquidez do suposto credito alegado. 17. Ainda que as inconsistência já bastasse para elidir a pretensão do interessado, registrese novamente que o contribuinte foi intimado e cientificado de tal diferença e lhe requerido que a compusesse, por retificação de um dos elementos discordantes, e mesmo assim o interessado nada fez. Era um ônus a que o contribuinte não poderia ter dado as costas, mas ao revés, bem cumprilo. 18. Plácido e Silva conceitua o vocábulo ônus, afirmando que "[...] na significação técnico jurídica, entendese todo encargo, dever ou obrigação que pesa sobre uma coisa ou uma pessoa, em virtude do que esta obrigada a respeitála ou a cumprilos. É o gravame” (Silva. 2002. p. 573). 19. O ônus estabelece um dever subjetivo que vigora no âmbito pessoal do indivíduo, ou seja, do interessado em dar, fazer ou não fazer determinada coisa. No caso de não ser observado o ônus que incumbia à parte, as conseqüências negativas somente lhe atingem. Aqui, o sujeito é quem decide com ampla liberdade acerca do cumprimento do seu encargo, eis que as conseqüências decorrentes da inobservância atingem a si. 20. A norma inaugural do direito de compensação em nosso ordenamento jurídico e o Código Tributário Nacional (CTN Lei n° 5.172/66), que, em seu art. 170, determina o seguinte: Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. Parágrafo único. Sendo vincendo o crédito do sujeito passivo, a lei determinará, para os efeitos deste artigo, a apuração do seu montante, não podendo, porém, cominar redução maior que a correspondente ao juro de 1% (um por cento) ao mês pelo tempo a decorrer entre a data da compensação e a do vencimento. Fl. 212DF CARF MF Processo nº 10980.904976/200886 Acórdão n.º 1003000.523 S1C0T3 Fl. 6 9 21. Percebese, como é de todos sabido, que o direito de compensação tributária apartase radicalmente do instituto congênere próprio do direito privado. No Direito Civil, havendo duas pessoas reciprocamente credoras e devedoras em dívidas líquidas,vencidas e de coisas fungíveis entre si (da mesma natureza), as suas obrigações se extinguem automaticamente, independentemente de qualquer procedimento ou pronunciamento. Invocada no bojo de ação judicial, o juiz apenas declara a compensação já acontecida. Tudo conforme os seguintes artigos do Código Civil (Lei n° 10.406/02): Art. 368. Se duas pessoas forem ao mesmo tempo credor e devedor uma da outra, as duas obrigações extinguemse. até onde se compensarem. Art. 369. A compensação efetuase entre dívidas líquidas. vencidas e de coisas fungíveis. 22. Já no Direito Tributário, não há espaço para qualquer compensação automática. Conforme o art. 170 do CTN, o contribuinte só terá direito a compensar se, c apenas se, (a) a lei estabelecer esse direito; (b) se forem atendidas as condições estipuladas diretamente pela lei, ou as condições cuja estipulação a lei delegue às autoridades administrativas competentes; e, ainda, (c) sob as garantias estipuladas pela lei. 23. O direito a efetivação da compensação encontrase agasalhado, hoje, no art. 74 da Lei n" 9.430/96, com as diversas alterações que veio a sofrer, in litteris: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. § 1o A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pela sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. (...) § 14. A Secretaria da Receita Federal SRF disciplinará o disposto neste artigo, inclusive quanto à fixação de critérios de prioridade para apreciação de processos de restituição, de ressarcimento e de compensação. 24. Como se pode observar, a lei expressamente confere à Secretaria da Receita Federal, hoje Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), competência para disciplinar as regras sobre a compensação estabelecidas no art. 74. Fl. 213DF CARF MF 10 25. Para além disso, a lei, direta e expressamente, determina que a compensação poderá ser efetuada exclusivamente mediante a entrega de declaração em que constem as informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. 26. Portanto, a única via admissível para a efetuação de compensação é por meio da entrega da respectiva declaração, a qual deve, obrigatoriamente, (a) seguir as regras de preenchimento estabelecidas pela RFB, conforme o § 14, acima; e (b) informar os créditos que foram utilizados naquela declaração de compensação, conforme 0 § I°. 27. Ao aprovar o programa gerador de PER/DCOMP, a RFB aprova concomitantes instruções de preenchimento que são cogentes ao contribuinte. Na esteira da letra "a", do item anterior, só têm direito à compensação os contribuintes que efetuarem o preenchimento correto do PER/DCOMP, conforme as regras estabelecidas pela RFB. 28. As instruções de preenchimento do PER/DCOMP, referentes à PASTA CRÉDITO, assim estabelecem (item 6.4): As Fichas acima serão disponibilizadas pelo Programa PER/DCOMP na primeira utilização do Crédito de Saldo Negativo de CSLL. Nessas Fichas devem ser informados todos os recolhimentos. retenções e/ou compensações que contribuíram para formar o referido saldo negativo de IRPJ. ou seja, o total dos valores deduzidos na sua DIPJ e não somente até o limite do Valor do Saldo Negativo. (Grifei) 29. Na Ficha “Saldo negativo de CSLL", como já reproduzido neste voto retro dentro da ficha 6.4, lêse o seguinte 1) Valor do Saldo Negativo: Informar o valor do saldo negativo de CSLL apurado no período a que se refere o crédito objeto do Pedido Eletrônico de Restituição ou a Declaração de Compensação, conforme informado na Declaração de Informações Econômica Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ). (grifei) 30. Portanto, em cumprimento ao disposto no art. 170 do CTN e do § 14 do art. 74 da Lei n“ 9.430/96, na hipótese de a origem do direito creditório ser saldo negativo de IRPJ, o direito de compensação do contribuinte esta condicionado a que informe no PER/DCOMP idêntico valor de saldo negativo de IRPJ em relação ao que foi informado na DIPJ, e não paire dúvidas acerca da liquidez e certeza das parcelas que compuseram referido direito creditório. 31. No presente caso, o contribuinte informou valores divergentes de parcelas de Estimativa e Saldo Negativo de CSLL no PER/DCOMP e na DIPJ. intimado a tomar providências corretivas, olvidou do Termo de Intimação Fiscal de fls. 39 e nada providenciou". Fl. 214DF CARF MF Processo nº 10980.904976/200886 Acórdão n.º 1003000.523 S1C0T3 Fl. 7 11 Que fique claro: o crédito usado em compensação deve estar disponível na data da transmissão da PERDCOMP, ou seja, o crédito deve ser líquido e certo, nos termos do art. 170 do CTN, naquele momento, o que não se deu aqui antes as divergências apontadas e não corrigidas, impossibilitando a comprovação de crédito informado nos PER/DCOMP. Lado outro, ainda que se tratasse de erro de fato, aquele erro, por exemplo, que se situa no conhecimento e compreensão das características da situação fática tais como inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e os erros de escrita ou de cálculos, é certo que cabe à Recorrente o ônus de sua prova (art. 147 do CTN2), e, como já foi dito, isso não ocorreu, mesmo tendo sido ofertada tal oportunidade à Recorrente. Ante o exposto, voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, mantendo o não reconhecimento do direito creditório em questão, e, por conseguinte, a não homologação da compensação pleiteada. (assinado digitalmente) Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça 2 Art. 147. O lançamento é efetuado com base na declaração do sujeito passivo ou de terceiro, quando um ou outro, na forma da legislação tributária, presta à autoridade administrativa informações sobre matéria de fato, indispensáveis à sua efetivação. Fl. 215DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.720127/2017-80
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 20 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Apr 10 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 1301-000.666
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Giovana Pereira de Paiva Leite, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Bianca Felícia Rothschild e Fernando Brasil de Oliveira Pinto.
Relatório
NOVARTIS BIOCIENCIAS S/A recorre a este Conselho, com fulcro no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, objetivando a reforma do acórdão nº 12-98.345 proferido pela 15ª Turma da Delegacia de Julgamento no Rio de Janeiro que julgou parcialmente procedente a impugnação apresentada.
Por bem refletir o litígio até aquela fase processual, adoto o relatório da decisão de primeira instância, complementando-o ao final:
Trata o presente processo de Auto de Infração de IRPJ e reflexo de CSLL, lavrado em 14/12/2017, em procedimento de Fiscalização levado a efeito pela DEMAC/SPO, AC 2012 (a partir de setembro), com ciência no Domicílio Tributário Eletrônico (DTE).
O procedimento fiscal teve por objeto a verificação das operações de Preço de Transferência originariamente praticadas pela empresa ALCON LABORATORIO DO BRASIL LTDA, CNPJ 60.412.327/0001-00, incorporada pela Impugnante em setembro de 2012.
Assim, o procedimento fiscal deu origem a duas autuações distintas no mesmo AC 2012 para o IRPJ e para a CSLL: uma antes (até agosto de 2012) e a outra depois do evento de incorporação da ALCON pela Impugnante (de setembro até o final de 2012). Este processo trata da autuação do 2º período.
Não obstante este processo tratar da 2a. parte de 2012, isto é, após o evento de incorporação, observei que o TVF permanece fazendo referência às operações da ALCON em separado das demais operações da NOVARTIS, ora Impugnante.
Para ALCON, foram apresentados cálculos para:
- 310 itens sujeitos ao método PRL20 (comercialização); e
- 31 para itens sujeitos ao PRL60 (produção).
Para a INOVARTIS, foram apresentados cálculos para:
- 73 itens pelo método do PRL20; e
- 31 para o método PRL60. Ao longo da fiscalização, 19 itens foram mudados nas apurações na INOVARTIS do PRL20 para o PRL60.
Os métodos de Preço de Transferência visam a calcular o Preço Parâmetro ou de Referência, isto é, o preço até aonde é admissível a sua dedução do lucro para fins de tributação do IRPJ e da CSLL, quando o pagamento é destinado a um beneficiário vinculado. Além disso, estabelece critério para determinação do denominado Preço (ou Custo) Praticado. Uma diferença positiva entre estes preços (Preço Praticado - Preço Parâmetro) significa que o contribuinte pagou além do aceitável, nos termos da legislação, para partes vinculadas, devendo tal diferença, multiplicada pela quantidade consumida, ser adicionada ao Lucro Líquido para fins de tributação do IRPJ e da CSLL.
Quanto às atividades principais da Impugnante, informa o Termo de Verificação Fiscal (TVF) que são a fabricação e comércio, inclusive importação e exportação e distribuição de produtos farmacêuticos, especialidades biológicas e dietéticas, quimioterápicas, oftálmicas, entre outros assemelhados. A ALCON (incorporada pela Impugnante) teria por objeto, entre outras atividades, a fabricação, comércio e distribuição de produtos farmacêuticos, em especial, oftálmicos.
O crédito tributário deste processo importa em R$ 166.048.097,58, totalizado a partir dos valores de R$ 122.094.189,40, a título de IRPJ, e de R$ 43.953.908,18, a título de CSLL, conforme demonstrativos abaixo:
Em síntese, a autuação de que trata este processo decorre do descumprimento, em tese, de 3 (três) regras de ajuste de preço de transferência, conforme relatado pela autoridade autuante no Termo de Verificação Fiscal (TVF):
(i). A falta de inclusão do Imposto de Importação II no cálculo do Preço Praticado nos produtos sujeitos ao método PRL20;
(ii). Utilização indevida do PRL20 (itens destinados ao comércio) para determinados itens quando deveria ter sido aplicado o método do PRL60 (itens destinados à produção);
(iii). Cálculo do Preço Parâmetro em desacordo com o preconizado pela IN SRF 243/02 no método do PRL60.
As três infrações foram acima foram impugnadas. Além disso, a Impugnante contestou os seguintes pontos nos cálculos feitos pela autoridade autuante, completando-se assim o rol de controvérsias suscitadas neste processo:
(iv). A autoridade autuante deduziu indevidamente do Preço Parâmetro tributos que não teriam incidido em algumas operações, especificamente:
iv.1) ICMS na venda de medicamentos (CERTICAN, MIACALCIC e MYFORTIC) para órgãos públicos, isentos pelo Convênio 87/2002; e
iv.2) PIS e COFINS na venda de medicamentos da chamada Lista Positiva (Decreto nº 3803/2001), os quais são isentos destas contribuições.
(v). A autoridade autuante teria deixado de excluir do cálculo da margem de 20% as vendas canceladas (Anexo 03N Cálculo Preços Parâmetros PRL20 NOVARTIS).
(vi). Haveria erro na transposição do valor da base de cálculo apurada no Termo de Verificação e a efetivamente transposta para o Auto de Infração.
(vii). O método de proporção do valor agregado previsto na IN SRF 243/2002 seria ilegal.
As infrações encontram-se consolidadas no corpo do Auto de Infração, divididas pelos resultados apurados na Alcon e na Novartis:
INFRAÇÕES DETALHADAS
(i) Falta de inclusão do Imposto de Importação II no cálculo do Preço Praticado nos produtos sujeitos ao método PRL20
Como consequência da falta de inclusão do Imposto de Importação no cálculo do preço praticado pelo método PRL20, a autoridade autuante procedeu à apuração dos ajustes de preço de transferência com as seguintes providências:
a) Excluíram-se as parcelas do consumo que tiveram sua origem em aquisições do mercado interno e em importações de não vinculadas, restando somente as parcelas de produtos importados de vinculadas;
b) Consolidaram-se, por produto, as quantidades, e os valores FOB convertidos para R$, e as parcelas de frete, seguro e do Imposto de Importação;
c) Somaram-se, por produto, aos valores FOB convertidos em R$ os valores de frete, seguro e Imposto de Importação (CIF+II);
d) Calculou-se o preço praticado unitário por produto, dividindo o valor CIF + II pela quantidade consumida do produto;
Os preços praticados estão discriminados no Anexo 02A Cálculo dos Preços Praticados ALCON (fls. 614 a 622).
(ii) Utilização do PRL20 (itens destinados ao comércio) para determinados itens quando deveria ter sido aplicado o método do PRL60 (itens aplicados à produção)
Segundo a autoridade autuante, o método PRL20 só pode ser aplicado para produtos importados e revendidos sem qualquer agregação de valor no País. Esta afirmação decorreria do art. 12 da IN SRF/243/02:
Art. 12. A determinação do custo de bens, serviços ou direitos, adquiridos no exterior, dedutível da determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, poderá, também, ser efetuada pelo método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL), definido como a média aritmética ponderada dos preços de revenda dos bens, serviços ou direitos, diminuídos:
(...)
IV - de margem de lucro de:
a) vinte por cento, na hipótese de revenda de bens, serviços ou direitos;
b) sessenta por cento, na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados na produção.
(...)
§ 9º O método do Preço de Revenda menos Lucro mediante a utilização da margem de lucro de vinte por cento somente será aplicado nas hipóteses em que, no País, não haja agregação de valor ao custo dos bens, serviços ou direitos importados, configurando, assim, simples processo de revenda dos mesmos bens, serviços ou direitos importados.
§ 10. O método de que trata a alínea "b" do inciso IV do caput [PRL 60] será utilizado na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados à produção.
O sentido da regra acima mencionado seria colocar em mesmo patamar produtos estrangeiros e nacionais de mesma natureza. Se o produto será apenas revendido, presume-se uma margem de lucratividade de 20%.
Se o insumo importado for aplicado à produção, presume-se a margem de 60% (conseqüentemente, o preço parâmetro será menor, resultando maior tributação). Esta margem pode ser alterada por meio de pedido fundamentado à Administração Tributária, conforme arts. 32 a 35 da IN SRF nº 243/2002.
Informa ainda a Fiscalização, acerca da importância da aposição da marca e do rótulo como elementos fundamentais para a comercialização de remédios, o seguinte:
No caso específico da indústria farmacêutica, há um elemento adicional a ser considerado na escolha do método de ajuste de Preços de Transferência, que é o rígido controle da agência reguladora responsável pela produção e distribuição desses produtos no país, a ANVISA.
(...)Ou seja: a embalagem contendo todas as informações relativas ao medicamento, destacando a Marca, mas não apenas essa, é o que, em última análise permite a comercialização dos produtos importados no mercado nacional. Medicamento sem marca ou quaisquer outros elementos previstos na legislação sujeitam o produto, ipso facto, a desconfiança sobre sua autenticidade e eficácia. Não há, portanto, a mínima possibilidade de os produtos farmacêuticos serem comercializados sem o acréscimo desses elementos essenciais, notadamente a aposição da marca.
Está-se falando, assim, de um novo bem, diverso daquele importado, ainda que o princípio ativo seja o mesmo em ambos. Princípio ativo sem aposição de marca e acondicionado a granel é, na melhor das hipóteses, um estoque de produtos intermediários. Uma mudança no produto que o transforme, de insumo ou estoque em produto disponível para venda não pode ser considerada uma mudança ínfima ou desprezível mas, sim, uma mudança fundamental, essencial.
Ou seja, entre os elementos fundamentais que justificam a aplicação do PRL60 para medicamentos, além da aposição da marca, estaria também o cumprimento das exigências regulatórias da ANVISA.
Além desses elementos, outros 2 (dois) foram identificados pela Fiscalização como justificantes para a aplicação do PRL60 para remédios:
1. Os custos reduzidos de transporte, manuseio e risco: ao importar os produtos ainda inacabados, seja na forma de componentes ou mesmo parcialmente embalados, o contribuinte incorre em menores custos de transporte e manuseio, além de menores riscos de deterioração dos produtos.
2. A terceirização da fabricação dos medicamentos: no caso presente, o contribuinte subcontrata empresa terceirizada para efetuar todas as etapas necessárias para tornar o produto apto ao consumo final (empresa ANOVIS: http://www.anovis.com.br/). Para realizar essas etapas exige-se uma unidade fabril, sujeita a controles e auditorias internos e externos, regulatórios e de conformidade. Se a NOVARTIS pudesse realizar as etapas de agregação de valor sem uma planta produtiva, assim o teria feito. Isso é mais um elemento que descaracteriza a mera revenda de produtos importados, exigindo do contribuinte a utilização do método PRL60 ou equivalente.
Assim, a etapa de agregação nacional comporta evidentes economias para o contribuinte no que tange à movimentação internacional dos produtos, além de se caracterizar como atividade de produção de um novo bem, realizado por terceiro qualificado para tal.
Portanto, baseado no entendimento acima exposto, diversos itens importados tiveram seus preços parâmetros migrados de ofício do método PRL20 para o PRL60, rejeitando-se as explicações da Impugnante no sentido de sustentar o PRL20.
Essencialmente, as explicações apresentadas pela Impugnante à Fiscalização tratavam de serem os produtos EXJADE, RITALINA acabados. Contudo, mesmo para estes produtos, entendeu a Fiscalização que seria aplicável a Solução de Consulta Cosit nº 5 de 2006, que prescreve o PRL60 para casos semelhantes a este.
No caso específico do GLIVEC, não foi também aceito o método do Preço sob Cotação na Importação (PIC), pleiteado pela Impugnante no curso do procedimento fiscal. O não acatamento deste método pela Fiscalização deu-se sob o fundamento de insuficiência nos documentos apresentados pela Impugnante. Entre estes, relata o TVF:
A ausência de documentos de importação ou de aquisição;
Prova de não vinculação dos envolvidos na negociação; e
Outros.
Também foi rejeitada aplicação do PRL20 para o GLIVEC, tendo sido aplicado pela Fiscalização o PRL60.
No caso da migração do PRL20 para o PR60 para os itens em geral, os ajustes foram feitos apenas quando a diferença atingia os 5%, como previsto no art. 38 da IN 243/2002. A diferença encontrada era multiplicada pela quantidade de itens para encontrar o total a ser adicionado ao Lucro Líquido.
(iii) Cálculo do Preço Parâmetro em desacordo com o preconizado pela IN SRF 243/02 no método do PRL60 para os itens adquiridos pela NOVARTIS
No caso dos itens que já tinham tido seus preços parâmetros calculados pelo PRL60 pela Impugnante, os cálculos foram refeitos segundo a metodologia determinada pela IN 243/2002 e a diferença encontrada também foi adicionada o Lucro Líquido pela Fiscalização.
A metodologia do PRL60 prevista na IN 243/2002 foi aplicada para os itens da ALCON, mas não teria sido aplicada pelos itens adquiridos pela NOVARTIS por parte da Impugnante.
Essencialmente, a metodologia excluiu o valor agregado no País e a margem de lucro de 60%. Para encontrar o Preço Parâmetro, informa ainda o TVF a adoção dos seguintes procedimentos:
a) para cada insumo, multiplicou-se a relação insumo-produto, informada pelo contribuinte, em relação a cada bem produzido, pela quantidade vendida do bem produzido e assim obteve-se a quantidade utilizada de determinado insumo importado em cada bem produzido;
b) a seguir, multiplicou-se essa quantidade utilizada de insumo importado pelo preço praticado na importação (que representa o custo unitário de importação de determinado insumo) e assim encontramos o custo total do insumo importado no bem produzido;
c) dividindo-se o custo total do insumo importado pelo custo total de produção do bem produzido encontramos o percentual de participação do insumo no custo do bem produzido;
d) multiplicou-se então esse percentual de participação do insumo no custo do bem produzido pelo valor líquido das vendas e encontramos a participação do bem importado no preço de venda do bem produzido;
e) A margem de lucro foi obtida mediante a aplicação do percentual de sessenta por cento (60%) sobre a participação do bem importado no preço de venda do bem produzido.
f) O preço parâmetro foi encontrado subtraindo-se o valor da margem de lucro do valor da participação do bem importado no preço do bem produzido;
g) Nos casos em que determinado insumo importado é aplicado na produção de diversos bens finais, são gerados preços parâmetros distintos para cada bem final produzido. Desta forma, apuramos o preço médio ponderado, dividindo a somatória dos preços parâmetros pela quantidade total de insumo utilizada na produção.
O detalhamento dos cálculos dos preços parâmetros pelo método PRL60 é mostrado no Anexo 04A - Preços parâmetro pelo PRL 60 ALCON.
IMPUGNAÇÃO
A Impugnante, em síntese, pleiteia o reconhecimento da nulidade ou improcedência da autuação em razão das seguintes alegações:
A Fiscalização não poderia ter migrado o produto GLIVEC do método PIC, eleito pela Impugnante, para o método PRL60 (Termo de Constatação de fls. 383), em razão do disposto no art. 20-A da Lei 9.430/96 (necessidade de intimação prévia para, no prazo de 30 dias, o contribuinte apurar o ajuste por outro método) ;
Haveria diversos erros de direito na apuração das bases de cálculo autuadas;
O simples acondicionamento de produtos em embalagens primárias ou secundárias, como feito pela Impugnante, não configura produção, no sentido dado pela legislação de preço de transferência. No caso ainda dos produtos RITANINA e EXJADE, o PRL60 foi indevidamente aplicado pela Fiscalização por haver para estes apenas a aposição de rótulo na embalagem de transporte. Tais produtos são revendidos nas mesmas embalagens primárias e secundárias em que são importados, não lhes devendo ser aplicável, por conseguinte, o PRL60 (mas, sim, o PRL 20);
As disposições da IN 243/02 acerca do cálculo do preço parâmetro pelo PRL60 excedem os limites previstos na Lei 9.430/96, sendo, por conseguinte, ilegais.
Os valores de frete, seguro e tributos aduaneiros entre os quais, o Imposto de Importação não devem ser incluídos no cálculo dos preços praticados para fins de apuração dos ajustes no PRL.
Indevida desconsideração do método PIC para o produto GLIVEC
Alega a Impugnante que, nos termos do § 2º, inciso III, do art. 20-A da Lei 9.430/96, deveria ter sido previamente intimada pela Fiscalização a apresentar os elementos que considerou úteis à verificação dos cálculos para apuração do preço parâmetro pelo PIC para o Glivec.
Alega ainda que a Fiscalização assim não fez pois, com a proximidade do termo final do prazo decadencial para o lançamento do crédito tributário ora discutido, não havia tempo hábil para intimar a Impugnante e, assim, optou por simplesmente lavrar os autos de infração desconsiderando o pedido de substituição dos métodos.
Apresentado pela Impugnante em atendimento à intimação do Termo de Constatação de fls. 383 e seguintes.
Erros na apuração das bases de cálculo autuadas
(b.1) Erro na apuração do preço parâmetro pelo PRL60: consideração das quantidades de produtos importados/estoque inicial como quantidades de produto revendidas
A Fiscalização teria apurado o custo dos produtos e mercadorias vendidas, nos métodos PRL, em desacordo com os valores efetivamente incorridos, como reclama a seguinte passagem da Impugnação:
Sem amparo em qualquer previsão legal, em vez de considerar efetivamente o número total das operações de revenda dos produtos importados, a D. Fiscalização houve por bem considerar, para fins de determinação do preço parâmetro no PRL60, as quantidades de produtos importados e em estoque no início do período de apuração (identificadas nas planilhas de cálculo como Qtde praticado).
(b.2) Erro na apuração do preço parâmetro quanto ao Glivec: dedução de contribuições que não incidiram efetivamente sobre as operações de revenda
O Glivec (cujo princípio ativo é o Mesilato de Imatinibe) está listado no Anexo do Decreto 3.803/01 (a chamada Lista Positiva do Ministério da Saúde). O referido Decreto lista os medicamentos que fazem jus ao regime especial de PIS e COFINS disposto no art. 3º da Lei 10.147/00.
Referido regime especial concede créditos presumidos equivalentes aos valores de PIS e COFINS apurados nas vendas dos medicamentos da Lista Positiva por importadores e estabelecimentos industriais.
Em outras palavras, o crédito de valor equivalente ao PIS e COFINS apurados sobre a operação de saída acaba por anular a incidência do PIS e da COFINS nas operações com medicamentos da Lista Positiva.
Este efeito de anular a incidência do PIS e da COFINS é levado em consideração pelas Autoridades Reguladoras para o fim de determinar os preços máximos de comercialização dos medicamentos da Lista Positiva.
Deste modo, em razão do crédito presumido previsto no art. 3º da Lei 10.147/00, o PIS e a COFINS não podem ser repassados no valor das operações de revenda.
(b.3) Erro na apuração do preço parâmetro do PRL20: exclusão indevida do valor de ICMS no cálculo do preço parâmetro de produtos isentos nos termos do Convênio 87/2002
Alguns dos medicamentos importados objeto da autuação seriam revendidos para órgãos da Administração Pública Direta Federal, Estadual e Municipal, fazendo jus à isenção do ICMS prevista pelo Convênio ICMS nº 87, celebrado em 28 de junho de 2002 (Convênio 87/02, anexo doc. 03).
Este seria o caso dos medicamentos MIACALCIC, MYFORTIC e CERTICAN. Para comprovar tal alegação, juntou amostra de Notas Fiscais às fls. 413 e 456 e 383 a 398.
Alega ainda que, ao ser intimada a manifestar-se sobre os cálculos feitos pela Fiscalização, informou o erro e apresentou apurações do preço parâmetro com a dedução do ICMS corrigida.
A Fiscalização teria recusado os cálculos por entender não ter sido devidamente demonstrada a incorreção, basicamente por terem sido apresentadas algumas poucas das Notas Fiscais como meio de prova das alegações.
Contudo, reclama a Impugnante que a Fiscalização poderia ter acesso à totalidade das Notas Fiscais por meio do SPED. Por não o ter feito e por ter ignorado o apontamento feito pela Impugnante, o Auto de Infração deve ser reputado nulo ou, pelo menos, que sejam refeitos os cálculos para expurgar o efeito do ICMS sobre a apuração do preço parâmetro de determinados itens.
(b.4) Erro na apuração do preço parâmetro do PRL20: consideração dos valores de mercadorias devolvidas na base de cálculo da margem de lucro de 20%
A Fiscalização teria deduzido do Preço Parâmetro no PRL20 margem maior do que a aplicável, pois não excluiu as devoluções de vendas.
Embora não esteja expressamente previsto que a média aritmética do valor das operações deve abater as devoluções, este procedimento decorreria logicamente do próprio método de apuração de preços.
Exemplifica o erro cometido pela Fiscalização apontando trecho do Anexo 03N Cálculo Preços Parâmetros PRL20 NOVARTIS o registro do medicamento Miacalcic. Informa que a Fiscalização teria calculado margem de 20% sobre o valor bruto de R$ 2.649.147,33., tendo encontrado R$ 529.829,47. Prossegue nos apontamentos:
Já no "valor presente de referido produto, considerou o valor das devoluções, uma vez que R$2.206.813,67 correspondem a R$2.649.147,33 subtraídos dos R$435.176,80 considerados a título de ICMS e de R$7.156,86 de devoluções.
E conclui:
Em outras palavras, a D. Fiscalização descontou o valor das devoluções no cálculo do preço líquido de vendas - desconto este que faz diminuir o preço parâmetro apurado e, por consequência, o valor dos supostos ajustes devidos; e, de outro lado, calculou a margem de 20% sem descontar as devoluções.
Ao calcular a margem de 20% desta forma, diminuiu de forma indevida o valor do preço parâmetro e, por conseguinte, apurou ajustes de preços de transferência inexistentes do ponto de vista da legislação aplicável.
Assim, pleiteia a nulidade do lançamento em razão do erro na base de cálculo.
(b.5) Erro por uso de base de cálculo diversa da apurada
A Fiscalização teria ainda apurado incorretamente o IRPJ e a CSLL por ter transposto bases de cálculo informadas no TVF não coincidentes com as constantes no Auto de Infração.
No TVF, as bases de cálculo informadas constariam da seguinte passagem:
Contudo, no Auto de Infração, a Base de Cálculo seria outra:
Alega a Impugnante que, ao utilizar a base de cálculo diversa daquela apontada no TVF, sem explicar os motivos pelos quais assim procedeu, a Fiscalização a impediu de exercer amplamente seu direito de defesa, porque não tem como contradizer base de cálculo cuja origem desconhece.
Insubsistência dos motivos para desqualificar a aplicação do método do PRL20
O simples acondicionamento de produtos em embalagens primárias ou secundárias, como feito pela Impugnante, não configura produção, no sentido dado pela legislação de preço de transferência
No caso mais específico dos produtos RITALINA e EXJADE, o PRL60 foi indevidamente aplicado pela Fiscalização por haver para estes apenas a aposição de rótulo na embalagem de transporte. Tais produtos são revendidos nas mesmas embalagens primárias e secundárias em que são importados, não lhes devendo ser aplicável, por conseguinte, o PRL60.
A inconformidade da Impugnante pela desclassificação do método PRL20 para PRL60 é manifestada para os 19 produtos listados a seguir, entre eles o GLIVEC (GLIVE FCT), cujo método inicial seria o PIC:
Não seria necessário, segundo a Impugnante, experiência farmacêutica para se concluir que se trata de medicamentos importados acabados, prontos para o uso (ainda que dependentes de acondicionamento para fins de comercialização).
Para todos os itens da tabela, entende a Impugnante que deveria ser aplicado o método do PRL20 em vez do PRL60.
Ilegalidade das disposições da IN 243/02 para apuração do PRL60
As disposições da IN 243/02 acerca do cálculo do preço parâmetro pelo PRL60 excedem os limites previstos na Lei 9.430/96, sendo, por conseguinte, ilegais.
Segundo a Impugnante, o modo legalmente correto de se apurar o PRL60 se daria com a seguinte fórmula:
A fórmula correta, acima exposta, é deduzida do art. 18, II, d, 1, da Lei 9.430/96, com uma pequena correção no texto: suprime-se a preposição d na seguinte passagem:
1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção;
Mas não seria necessária a correção da preposição, pois se poderia chegar ao mesmo entendimento por meio de esforço interpretativo não significativo, como diz a Impugnante:
Apesar de se convir como conveniente a exclusão da letra d para se considerar a plenitude gramatical do citado dispositivo, há de se considerar que, mesmo sem a exclusão, o esforço interpretativo para se chegar a fórmula acima citada não é significativo, tendo sido até mesmo este o posicionamento da Receita Federal, conforme disposto no art. 12 da IN 32/01 anterior a Instrução Normativa n° 243/02. O art. 12 da IN 32/01, ao invés de excluir a letra d, optou por inserir preposições para cada um dos elementos que deveriam ser deduzidos do Preço de Venda, produzindo o mesmo resultado prático propugnado acima. Confira-se:
Art. 12 (...) § 11. Na hipótese do parágrafo anterior, o preço a ser utilizado como parâmetro de comparação será a diferença entre o preço líquido de venda e a margem de lucro de sessenta por cento, considerando-se, para este fim:
I - preço líquido de venda, a média aritmética dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas;
II - margem de lucro, o resultado da aplicação do percentual de sessenta por cento sobre a média aritmética dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas, das comissões e corretagens pagas e do valor agregado ao bem produzido no País.
Sucede que, após um ano e poucos meses da edição da IN 32/01 a Receita Federal do Brasil editou a IN 243/02, que revogou a anterior e pretendeu alterar substancialmente os critérios de cálculo do PRL60, sem que tivesse havido qualquer alteração na matriz legal (alínea d, 1, do inciso II do art. 18 da Lei 9.430/96).
Aponta ainda a Impugnante um efeito circular provocado pela regra contida na IN 243/02, na medida em que, se repetido para um mesmo produto, encontraria preços parâmetros sempre menores, tomando por base aqueles já encontrados pela primeira aplicação do método.
A referida sistemática da IN 243/02 acabaria por tornar mais vantajoso, para as empresas multinacionais, alocar todas as etapas de produção de seus bens para unidades fabris localizadas fora do Brasil.
A própria RFB, em Solução de Consulta, teria admitido expressamente que a IN 243/02 teria inovado no cálculo do Preço de Transferência, tornando explícita a ilegalidade do procedimento.
As Medidas Provisórias 478/09 e 563/12 teriam reconhecido a necessidade de legalizar critérios de cálculo antes não previstos em lei, conforme se depreende pela exposição de motivos. Por fim, a própria Lei 12.715/2012 determinou que as alterações nos critérios de apuração do preço parâmetro pelo método PRL entrariam em vigor apenas em 01.01.2013, para respeitar o princípio da anterioridade tributária. Se houve necessidade de determinar a observância do princípio da anterioridade tributária, reconheceu o Poder Legislativo que de fato a introdução de tais critérios representaria majoração de tributos.
Fretes, Seguros e Imposto de Importação não se sujeitam a Preços de Transferência
Ocorre que as despesas com frete, seguro e tributos aduaneiros, dentre eles o II, não estão sujeitas ao controle de preços de transferência. Isso porque os fornecedores de frete e seguro não são pessoas vinculadas à Impugnante, ou seja, são custos que não podem sofrer influência em função da posição comercial da Impugnante.
Os valores de frete, seguro e tributos aduaneiros entre os quais, o Imposto de Importação não devem ser incluídos no cálculo dos preços praticados para fins de apuração dos ajustes no PRL.
Com a Lei 12.715/12, o dispositivo passou a determinar que, para fins de cálculo do preço parâmetro pelo PRL, os valores de frete, seguro e tributos não devem ser integrar o custo (isto é, devem ser excluídos do custo para fins do cálculo).
Mesmo a redação anterior prevendo que o frete, seguro e tributos não devem integrar o custo, tal interpretação não pode ser adotada, sob pena de considerar despesas como frete, seguro e Imposto de Importação como sujeitas a ajuste de preço de transferência.
Inaplicabilidade de juros de mora sobre a multa de ofício
Não haveria que se falar que, de acordo com o art. 113, § 1o, do CTN, as multas de ofício também fariam parte da obrigação principal, uma vez que (i) referida norma trata das obrigações acessórias, ou seja, as decorrentes do não cumprimento de obrigações de fazer e (ii) já é unânime na doutrina e jurisprudência pátria que a penalidade pecuniária não se confunde com a obrigação principal, pois é decorrente de uma sanção pelo não pagamento do tributo (vide art. 3º do CTN).
Analisando a impugnação apresentada, a turma julgadora de primeira instância julgou-a parcialmente procedente, excluindo da base de cálculo dos autos de infraçãoR$ 156.022,00 decorrentes de erro material na transposição dos valores apurados no TVFe R$ 1.298.420,78 decorrentes da retificação do cálculo do PRL20 para as operaçõesNovartis, não havendo interposição de recurso de ofício em razão de o crédito tributário cancelado não alcançar o limite de alçada (tributo e multas) de R$ 2.500.000,00.
O contribuinte foi intimado da decisão em 06 de junho de 2018 (fl. 2256), apresentando recurso voluntário de fls. 2494-2565 em 06 de julho de 2018 (fl. 2257). Em resumo:
I. Nulidades dos autos de infração
I.a. Teria havido erro na apuração do preço parâmetro do PRL20: sem qualquer fundamentação jurídica, a Fiscalização teria adotado um valor como média ponderada de operações de revenda (descontando-se deste cálculo as devoluções de mercadoria) e um valor diferente de base para apuração da margem de 20% (sem descontar as devoluções). Aduz que o voto vencido da decisão recorrida deixa claro que sequer é possível identificar o porquê de tal divergência, pois não constam maiores detalhes sobre o tema no Termo de Verificação Fiscal, concluindo que não se trataria de erro de fato, e sim de erro de direito, o que levaria à impossibilidade de alteração do lançamento por parte das autoridades julgadoras. Argumenta ainda que o voto vencedor não se limitou a fazer um mero ajuste em erro material, mas sim inserindo um novo critério no lançamento (devolução das exclusões também para a base de cálculo da margem de 20%);
I.b. Erro na apuração do preço parâmetro pelo PRL60: consideração das quantidades de produtos importados/estoque inicial como quantidades de produtos revendidos desconsideração do estoque final. A Fiscalização, ainda que se apoiando em demonstrativos elaborados pela própria Recorrente, considerou que a quantidade de produtos importados no período, somada ao estoque inicial, deveria seria igual à quantidade de produto revendido, desconsiderando o estoque final de cada um dos produtos sujeitos à ajuste no método PRL60. Argumenta a Recorrente que se trata de erro de direito no lançamento, não podendo ser realizado qualquer ajuste, e que o fato de os demonstrativos terem sido por ela elaborados não possui o condão de transformar em legal o lançamento realizado em desacordo com a lei, sendo obrigação do Fisco, a teor do que dispõe o art. 142 do CTN, a verificação dos fatos e a realização do lançamento;
I.c. Indevida desconsideração do método PIC pra o produto Glivec: segundo a Recorrente, a autoridade fiscal desconsiderou o método PRL20, apresentando os cálculos que entendia devido no método PRL60, e intimou o contribuinte a apresentar cálculo ou método alternativo no prazo de 30 dias. Aduz que, ao contrário do afirmado pela decisão de primeira instância, o contribuinte se manifestou, entre outras coisas, pela utilização do método PIC, apresentando os cálculos correspondentes (fls. 409-412). Após essa manifestação, os autos de infração foram lavrados, tendo sido mantido o lançamento referente ao ajuste do produto Glivec com base no método PRL60 sob a justificativa de que o contribuinte não havia apresentado documentos comprobatórios para utilização do método PIC. Argumenta ainda que o art. 20-A da Lei nº 9.430/96, introduzido pelo art. 51 da Lei nº 12.715/12, teria entrado em vigor na data de sua publicação, sendo obrigatória a intimação do contribuinte para apresentar cálculo sobre método alternativo na hipótese de a Fiscalização ter desconsiderado o método inicialmente escolhido pelo contribuinte, e que §2º, inciso III, do citado art. 20-A da Lei 9.430/96, determina que a Fiscalização poderá adotar quaisquer dos métodos previstos na legislação de preços de transferência caso o contribuinte deixe de oferecer quaisquer elementos úteis à verificação dos cálculos para apuração do preço parâmetro, quando solicitados pelaautoridade responsável pelo procedimento fiscal, sendo que não teria havido qualquer solicitação prévia de apresentação de outros elementos ou documentos além do próprio cálculo. Por essas razões, pugna pela nulidade do lançamento, ou, caso não acolhido seu pleito, que seja cancelada a exigência ao menos em relação ao ajuste do produto Glivec porquanto a Fiscalização deveria ter aceito o cálculo pelo método PIC, e, caso assim não se decida, que seja acatado o cálculo pelo método PIC com base naqueles apresentados pela Fiscalização e nos documentos acostados ao recurso voluntário que comprovariam que o preço parâmetro determinado pelo método PIC é menor do que o preço médio praticado nas importações do produto Glivec, ou seja, seja cancelada a exigência por não haver que se falar em ajuste em relação a tal produto;
I.d. Erro na apuração do preço parâmetro do PRL20: exclusão indevida do valor de ICMS no cálculo do preço parâmetro de produtos isentos nos termos do Convênio 87/2002. Aduz que diversas vendas foram realizadas para órgãos da Administração Pública Direta, fazendo jus à isenção de ICMS prevista pelo Convênio ICMS 87, ou seja, não poderia ter sido deduzido ICMS sobre os valores dessas vendas para fins de determinação do preço parâmetro. Essa informação teria sido por ela fornecida à Fiscalização antes da lavratura do auto de infração, mas a autoridade fiscal entendeu que não houve comprovação das operações realizadas sob essa égide. A Recorrente argumenta que a Fiscalização tinha acesso ao Sped e poderia ter feito essa verificação. Argumenta ainda que anexou à impugnação demonstrativo com todas as vendas realizadas para órgãos públicos e as respectivas notas fiscais, mas a DRJ entendeu que tais informações não seriam suficientes, havendo necessidade de uma nova memória de cálculo incluindo a identificação dos destinatários das vendas e subtotalizando os valores por item, entre outras exigências. Aduz que embora discordasse de tal entendimento, elaborou nova planilha e anexou ao presente recurso com a abertura do recálculo do preço parâmetro sem a indevida inclusão do ICMS nos casos abrangidos pelo Convênio 87/02 cujas informações são corroboradas pelas notas fiscais já juntadas aos autos (fls. 773-2110). Por fim requer a nulidade da exigência, e, em caso contrário, que ao menos seja realizado o recálculo dos preços parâmetros para fins de apuração dos ajustes com base no PRL20 para excluir os montantes de ICMS que não correspondem ao imposto que efetivamente incidiu sobre as operações de revenda;
I.e. Erro na apuração do preço parâmetro quanto ao Glivec: dedução de contribuições que não incidiram efetivamente sobre as operações de revenda. Argumenta que a Fiscalização se equivocou ao deduzir valores de PIS e Cofins para determinação do preço parâmetro pelo método PRL60 que efetivamente não incidiram nas operações listadas na denominada Lista Positiva do Ministério da Saúde (Anexo do Decreto 3.803/01). Explica que nesse regime especial são concedidos créditos presumidos equivalentes aos valores de PIS e COFINS apurados nas vendas dos medicamentos da Lista Positiva por importadores eestabelecimentos industriais. Com esse mecanismo, argumenta que há uma anulação da incidência de PIS e Cofins na operação, sendo que as autoridades reguladores desconsideram o valor dessas contribuições para o fim de determinar os preços máximos de comercialização dos medicamentos da Lista Positiva. Requer, assim, a anulação dos autos de infração, ou, se não acatado seu pedido, que ao menos seja recalculado o preço parâmetro a partir da exclusão do PIS e Cofins não incidentes nas citadas operações;
II. Insubsistências dos motivos para desqualificar a aplicação do método PRL20. Alega que o produto importado Foraseq citado pela Fiscalização para demonstrar a agregação de valor, no Brasil, seria o que passa pelo processo de acondicionamento mais complexo. Para diversos outros produtos os procedimentos adotados seriam mais simples, tais como mera aposição de selo de controle em embalagem já pronta ou acondicionamento em embalagem secundária de produto já importado em embalagem primeira (por exemplo, cartela ou blister). Cita que nos casos dos produtos Ritalina e Exjade, a única atividade após a importação seria a rotulagem das embalagens de transporte (que sequer configuraria industrialização, nos termos do art. 4º, IV, do Decreto nº 7212/2010). Acrescenta que mesmo as fotos obtidas pela Fiscalização evidenciam que os produtos ali ilustrados já são importados com a marca, o nome comercial do medicamento e demais informações requeridas pela ANVISA para comercialização no País. Aduz que não é possível associar produção a qualquer atividade que agregue valor ao bem importado, até porque a atividade de revenda também agrega valor a bens importados (tanto que o preço da mercadoria no ponto de varejo é maior do que o a mercadoria antes do desembarque no porto).
II.a. Critério legal para determinação da aplicação do PRL20 e do PRL60: aduz que a Lei nº 9.430/96, ao introduzir o método PRL60 condicionou à aplicação dos produtos importados na produção, e que nos produtos importados em que houve a desqualificação do PRL20, o percentual de participação do bem importado para fins de determinação do preço parâmetro seria muito alto, beirando, em geral, os 100%, concluindo que o valor agregado a tais produtos após a importação seria mínimo, compatível com atividades de revenda. Aduz ainda que produção tem significado próximo ao de industrialização, mas, especialmente em se tratando de legislação tributária federal, os dois termos não podem ser confundidos. Argumenta que para a palavra produção impõe a utilização do insumo em um processo produtivo no qual serão utilizados outros produtos que, em conjunto com o primeiro, passarão por um processo de trabalho redundando em um novo produto, e que, portanto, produção seria um gênero da industrialização, se aproximando do conceito de transformação (inciso I do art. 4º do Decreto 7.212/10), e não se confundindo com as atividades de acondicionamento ou reacondicionamento (inciso IV do art. 4º do Decreto 7.212/10);
II.b. Inocorrência de aplicação à produção dos produtos para os quais o PRL20 foi desqualificado: aduz que os medicamentos importados já contêm a marca Novartis, são os mesmos produtos revendidos no Brasil, prontos para uso, sendo que alguns já chegariam ao Brasil, inclusive, com o nome comercial, a identificação do princípio ativo, a dosagem contida na embalagem, o número do lote e a data de vencimento;
II.b. Ilegalidade das disposições da IN 243/02 para apuração do PRL60: questiona a legalidade da referida instrução normativa no que diz respeito à proporcionalização do valor dos insumos importados em relação ao preço praticado e a inclusão frete, seguro e tributos no preço parâmetro;
III.c. Inaplicabilidade de juros de mora sobre a multa de ofício.
Em 14 de dezembro de 2018 o contribuinte apresentou petição e documentos (fls. 2571-3493) anexando cópia apostilada das faturas de vendas do produto Glivec para terceiros não relacionados ao grupo Novartis e cópia da tradução juramentada dessas faturas, argumentando que tal documentação deu suporte para o cálculo do preço parâmetro pelo método PIC (no recurso voluntário foram apresentadas cópias da faturas de vendas do produto Glivec acompanhada da respectiva tradução juramentada - fls. 2260-2304 -, bem como cálculo do preço parâmetro pelo método PIC para o mesmo produto com base nessas faturas - fl. 2490).
É o relatório.
Nome do relator: FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Giovana Pereira de Paiva Leite, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Bianca Felícia Rothschild e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Relatório NOVARTIS BIOCIENCIAS S/A recorre a este Conselho, com fulcro no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, objetivando a reforma do acórdão nº 12-98.345 proferido pela 15ª Turma da Delegacia de Julgamento no Rio de Janeiro que julgou parcialmente procedente a impugnação apresentada. Por bem refletir o litígio até aquela fase processual, adoto o relatório da decisão de primeira instância, complementando-o ao final: Trata o presente processo de Auto de Infração de IRPJ e reflexo de CSLL, lavrado em 14/12/2017, em procedimento de Fiscalização levado a efeito pela DEMAC/SPO, AC 2012 (a partir de setembro), com ciência no Domicílio Tributário Eletrônico (DTE). O procedimento fiscal teve por objeto a verificação das operações de Preço de Transferência originariamente praticadas pela empresa ALCON LABORATORIO DO BRASIL LTDA, CNPJ 60.412.327/0001-00, incorporada pela Impugnante em setembro de 2012. Assim, o procedimento fiscal deu origem a duas autuações distintas no mesmo AC 2012 para o IRPJ e para a CSLL: uma antes (até agosto de 2012) e a outra depois do evento de incorporação da ALCON pela Impugnante (de setembro até o final de 2012). Este processo trata da autuação do 2º período. Não obstante este processo tratar da 2a. parte de 2012, isto é, após o evento de incorporação, observei que o TVF permanece fazendo referência às operações da ALCON em separado das demais operações da NOVARTIS, ora Impugnante. Para ALCON, foram apresentados cálculos para: - 310 itens sujeitos ao método PRL20 (comercialização); e - 31 para itens sujeitos ao PRL60 (produção). Para a INOVARTIS, foram apresentados cálculos para: - 73 itens pelo método do PRL20; e - 31 para o método PRL60. Ao longo da fiscalização, 19 itens foram mudados nas apurações na INOVARTIS do PRL20 para o PRL60. Os métodos de Preço de Transferência visam a calcular o Preço Parâmetro ou de Referência, isto é, o preço até aonde é admissível a sua dedução do lucro para fins de tributação do IRPJ e da CSLL, quando o pagamento é destinado a um beneficiário vinculado. Além disso, estabelece critério para determinação do denominado Preço (ou Custo) Praticado. Uma diferença positiva entre estes preços (Preço Praticado - Preço Parâmetro) significa que o contribuinte pagou além do aceitável, nos termos da legislação, para partes vinculadas, devendo tal diferença, multiplicada pela quantidade consumida, ser adicionada ao Lucro Líquido para fins de tributação do IRPJ e da CSLL. Quanto às atividades principais da Impugnante, informa o Termo de Verificação Fiscal (TVF) que são a fabricação e comércio, inclusive importação e exportação e distribuição de produtos farmacêuticos, especialidades biológicas e dietéticas, quimioterápicas, oftálmicas, entre outros assemelhados. A ALCON (incorporada pela Impugnante) teria por objeto, entre outras atividades, a fabricação, comércio e distribuição de produtos farmacêuticos, em especial, oftálmicos. O crédito tributário deste processo importa em R$ 166.048.097,58, totalizado a partir dos valores de R$ 122.094.189,40, a título de IRPJ, e de R$ 43.953.908,18, a título de CSLL, conforme demonstrativos abaixo: Em síntese, a autuação de que trata este processo decorre do descumprimento, em tese, de 3 (três) regras de ajuste de preço de transferência, conforme relatado pela autoridade autuante no Termo de Verificação Fiscal (TVF): (i). A falta de inclusão do Imposto de Importação II no cálculo do Preço Praticado nos produtos sujeitos ao método PRL20; (ii). Utilização indevida do PRL20 (itens destinados ao comércio) para determinados itens quando deveria ter sido aplicado o método do PRL60 (itens destinados à produção); (iii). Cálculo do Preço Parâmetro em desacordo com o preconizado pela IN SRF 243/02 no método do PRL60. As três infrações foram acima foram impugnadas. Além disso, a Impugnante contestou os seguintes pontos nos cálculos feitos pela autoridade autuante, completando-se assim o rol de controvérsias suscitadas neste processo: (iv). A autoridade autuante deduziu indevidamente do Preço Parâmetro tributos que não teriam incidido em algumas operações, especificamente: iv.1) ICMS na venda de medicamentos (CERTICAN, MIACALCIC e MYFORTIC) para órgãos públicos, isentos pelo Convênio 87/2002; e iv.2) PIS e COFINS na venda de medicamentos da chamada Lista Positiva (Decreto nº 3803/2001), os quais são isentos destas contribuições. (v). A autoridade autuante teria deixado de excluir do cálculo da margem de 20% as vendas canceladas (Anexo 03N Cálculo Preços Parâmetros PRL20 NOVARTIS). (vi). Haveria erro na transposição do valor da base de cálculo apurada no Termo de Verificação e a efetivamente transposta para o Auto de Infração. (vii). O método de proporção do valor agregado previsto na IN SRF 243/2002 seria ilegal. As infrações encontram-se consolidadas no corpo do Auto de Infração, divididas pelos resultados apurados na Alcon e na Novartis: INFRAÇÕES DETALHADAS (i) Falta de inclusão do Imposto de Importação II no cálculo do Preço Praticado nos produtos sujeitos ao método PRL20 Como consequência da falta de inclusão do Imposto de Importação no cálculo do preço praticado pelo método PRL20, a autoridade autuante procedeu à apuração dos ajustes de preço de transferência com as seguintes providências: a) Excluíram-se as parcelas do consumo que tiveram sua origem em aquisições do mercado interno e em importações de não vinculadas, restando somente as parcelas de produtos importados de vinculadas; b) Consolidaram-se, por produto, as quantidades, e os valores FOB convertidos para R$, e as parcelas de frete, seguro e do Imposto de Importação; c) Somaram-se, por produto, aos valores FOB convertidos em R$ os valores de frete, seguro e Imposto de Importação (CIF+II); d) Calculou-se o preço praticado unitário por produto, dividindo o valor CIF + II pela quantidade consumida do produto; Os preços praticados estão discriminados no Anexo 02A Cálculo dos Preços Praticados ALCON (fls. 614 a 622). (ii) Utilização do PRL20 (itens destinados ao comércio) para determinados itens quando deveria ter sido aplicado o método do PRL60 (itens aplicados à produção) Segundo a autoridade autuante, o método PRL20 só pode ser aplicado para produtos importados e revendidos sem qualquer agregação de valor no País. Esta afirmação decorreria do art. 12 da IN SRF/243/02: Art. 12. A determinação do custo de bens, serviços ou direitos, adquiridos no exterior, dedutível da determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, poderá, também, ser efetuada pelo método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL), definido como a média aritmética ponderada dos preços de revenda dos bens, serviços ou direitos, diminuídos: (...) IV - de margem de lucro de: a) vinte por cento, na hipótese de revenda de bens, serviços ou direitos; b) sessenta por cento, na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados na produção. (...) § 9º O método do Preço de Revenda menos Lucro mediante a utilização da margem de lucro de vinte por cento somente será aplicado nas hipóteses em que, no País, não haja agregação de valor ao custo dos bens, serviços ou direitos importados, configurando, assim, simples processo de revenda dos mesmos bens, serviços ou direitos importados. § 10. O método de que trata a alínea "b" do inciso IV do caput [PRL 60] será utilizado na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados à produção. O sentido da regra acima mencionado seria colocar em mesmo patamar produtos estrangeiros e nacionais de mesma natureza. Se o produto será apenas revendido, presume-se uma margem de lucratividade de 20%. Se o insumo importado for aplicado à produção, presume-se a margem de 60% (conseqüentemente, o preço parâmetro será menor, resultando maior tributação). Esta margem pode ser alterada por meio de pedido fundamentado à Administração Tributária, conforme arts. 32 a 35 da IN SRF nº 243/2002. Informa ainda a Fiscalização, acerca da importância da aposição da marca e do rótulo como elementos fundamentais para a comercialização de remédios, o seguinte: No caso específico da indústria farmacêutica, há um elemento adicional a ser considerado na escolha do método de ajuste de Preços de Transferência, que é o rígido controle da agência reguladora responsável pela produção e distribuição desses produtos no país, a ANVISA. (...)Ou seja: a embalagem contendo todas as informações relativas ao medicamento, destacando a Marca, mas não apenas essa, é o que, em última análise permite a comercialização dos produtos importados no mercado nacional. Medicamento sem marca ou quaisquer outros elementos previstos na legislação sujeitam o produto, ipso facto, a desconfiança sobre sua autenticidade e eficácia. Não há, portanto, a mínima possibilidade de os produtos farmacêuticos serem comercializados sem o acréscimo desses elementos essenciais, notadamente a aposição da marca. Está-se falando, assim, de um novo bem, diverso daquele importado, ainda que o princípio ativo seja o mesmo em ambos. Princípio ativo sem aposição de marca e acondicionado a granel é, na melhor das hipóteses, um estoque de produtos intermediários. Uma mudança no produto que o transforme, de insumo ou estoque em produto disponível para venda não pode ser considerada uma mudança ínfima ou desprezível mas, sim, uma mudança fundamental, essencial. Ou seja, entre os elementos fundamentais que justificam a aplicação do PRL60 para medicamentos, além da aposição da marca, estaria também o cumprimento das exigências regulatórias da ANVISA. Além desses elementos, outros 2 (dois) foram identificados pela Fiscalização como justificantes para a aplicação do PRL60 para remédios: 1. Os custos reduzidos de transporte, manuseio e risco: ao importar os produtos ainda inacabados, seja na forma de componentes ou mesmo parcialmente embalados, o contribuinte incorre em menores custos de transporte e manuseio, além de menores riscos de deterioração dos produtos. 2. A terceirização da fabricação dos medicamentos: no caso presente, o contribuinte subcontrata empresa terceirizada para efetuar todas as etapas necessárias para tornar o produto apto ao consumo final (empresa ANOVIS: http://www.anovis.com.br/). Para realizar essas etapas exige-se uma unidade fabril, sujeita a controles e auditorias internos e externos, regulatórios e de conformidade. Se a NOVARTIS pudesse realizar as etapas de agregação de valor sem uma planta produtiva, assim o teria feito. Isso é mais um elemento que descaracteriza a mera revenda de produtos importados, exigindo do contribuinte a utilização do método PRL60 ou equivalente. Assim, a etapa de agregação nacional comporta evidentes economias para o contribuinte no que tange à movimentação internacional dos produtos, além de se caracterizar como atividade de produção de um novo bem, realizado por terceiro qualificado para tal. Portanto, baseado no entendimento acima exposto, diversos itens importados tiveram seus preços parâmetros migrados de ofício do método PRL20 para o PRL60, rejeitando-se as explicações da Impugnante no sentido de sustentar o PRL20. Essencialmente, as explicações apresentadas pela Impugnante à Fiscalização tratavam de serem os produtos EXJADE, RITALINA acabados. Contudo, mesmo para estes produtos, entendeu a Fiscalização que seria aplicável a Solução de Consulta Cosit nº 5 de 2006, que prescreve o PRL60 para casos semelhantes a este. No caso específico do GLIVEC, não foi também aceito o método do Preço sob Cotação na Importação (PIC), pleiteado pela Impugnante no curso do procedimento fiscal. O não acatamento deste método pela Fiscalização deu-se sob o fundamento de insuficiência nos documentos apresentados pela Impugnante. Entre estes, relata o TVF: A ausência de documentos de importação ou de aquisição; Prova de não vinculação dos envolvidos na negociação; e Outros. Também foi rejeitada aplicação do PRL20 para o GLIVEC, tendo sido aplicado pela Fiscalização o PRL60. No caso da migração do PRL20 para o PR60 para os itens em geral, os ajustes foram feitos apenas quando a diferença atingia os 5%, como previsto no art. 38 da IN 243/2002. A diferença encontrada era multiplicada pela quantidade de itens para encontrar o total a ser adicionado ao Lucro Líquido. (iii) Cálculo do Preço Parâmetro em desacordo com o preconizado pela IN SRF 243/02 no método do PRL60 para os itens adquiridos pela NOVARTIS No caso dos itens que já tinham tido seus preços parâmetros calculados pelo PRL60 pela Impugnante, os cálculos foram refeitos segundo a metodologia determinada pela IN 243/2002 e a diferença encontrada também foi adicionada o Lucro Líquido pela Fiscalização. A metodologia do PRL60 prevista na IN 243/2002 foi aplicada para os itens da ALCON, mas não teria sido aplicada pelos itens adquiridos pela NOVARTIS por parte da Impugnante. Essencialmente, a metodologia excluiu o valor agregado no País e a margem de lucro de 60%. Para encontrar o Preço Parâmetro, informa ainda o TVF a adoção dos seguintes procedimentos: a) para cada insumo, multiplicou-se a relação insumo-produto, informada pelo contribuinte, em relação a cada bem produzido, pela quantidade vendida do bem produzido e assim obteve-se a quantidade utilizada de determinado insumo importado em cada bem produzido; b) a seguir, multiplicou-se essa quantidade utilizada de insumo importado pelo preço praticado na importação (que representa o custo unitário de importação de determinado insumo) e assim encontramos o custo total do insumo importado no bem produzido; c) dividindo-se o custo total do insumo importado pelo custo total de produção do bem produzido encontramos o percentual de participação do insumo no custo do bem produzido; d) multiplicou-se então esse percentual de participação do insumo no custo do bem produzido pelo valor líquido das vendas e encontramos a participação do bem importado no preço de venda do bem produzido; e) A margem de lucro foi obtida mediante a aplicação do percentual de sessenta por cento (60%) sobre a participação do bem importado no preço de venda do bem produzido. f) O preço parâmetro foi encontrado subtraindo-se o valor da margem de lucro do valor da participação do bem importado no preço do bem produzido; g) Nos casos em que determinado insumo importado é aplicado na produção de diversos bens finais, são gerados preços parâmetros distintos para cada bem final produzido. Desta forma, apuramos o preço médio ponderado, dividindo a somatória dos preços parâmetros pela quantidade total de insumo utilizada na produção. O detalhamento dos cálculos dos preços parâmetros pelo método PRL60 é mostrado no Anexo 04A - Preços parâmetro pelo PRL 60 ALCON. IMPUGNAÇÃO A Impugnante, em síntese, pleiteia o reconhecimento da nulidade ou improcedência da autuação em razão das seguintes alegações: A Fiscalização não poderia ter migrado o produto GLIVEC do método PIC, eleito pela Impugnante, para o método PRL60 (Termo de Constatação de fls. 383), em razão do disposto no art. 20-A da Lei 9.430/96 (necessidade de intimação prévia para, no prazo de 30 dias, o contribuinte apurar o ajuste por outro método) ; Haveria diversos erros de direito na apuração das bases de cálculo autuadas; O simples acondicionamento de produtos em embalagens primárias ou secundárias, como feito pela Impugnante, não configura produção, no sentido dado pela legislação de preço de transferência. No caso ainda dos produtos RITANINA e EXJADE, o PRL60 foi indevidamente aplicado pela Fiscalização por haver para estes apenas a aposição de rótulo na embalagem de transporte. Tais produtos são revendidos nas mesmas embalagens primárias e secundárias em que são importados, não lhes devendo ser aplicável, por conseguinte, o PRL60 (mas, sim, o PRL 20); As disposições da IN 243/02 acerca do cálculo do preço parâmetro pelo PRL60 excedem os limites previstos na Lei 9.430/96, sendo, por conseguinte, ilegais. Os valores de frete, seguro e tributos aduaneiros entre os quais, o Imposto de Importação não devem ser incluídos no cálculo dos preços praticados para fins de apuração dos ajustes no PRL. Indevida desconsideração do método PIC para o produto GLIVEC Alega a Impugnante que, nos termos do § 2º, inciso III, do art. 20-A da Lei 9.430/96, deveria ter sido previamente intimada pela Fiscalização a apresentar os elementos que considerou úteis à verificação dos cálculos para apuração do preço parâmetro pelo PIC para o Glivec. Alega ainda que a Fiscalização assim não fez pois, com a proximidade do termo final do prazo decadencial para o lançamento do crédito tributário ora discutido, não havia tempo hábil para intimar a Impugnante e, assim, optou por simplesmente lavrar os autos de infração desconsiderando o pedido de substituição dos métodos. Apresentado pela Impugnante em atendimento à intimação do Termo de Constatação de fls. 383 e seguintes. Erros na apuração das bases de cálculo autuadas (b.1) Erro na apuração do preço parâmetro pelo PRL60: consideração das quantidades de produtos importados/estoque inicial como quantidades de produto revendidas A Fiscalização teria apurado o custo dos produtos e mercadorias vendidas, nos métodos PRL, em desacordo com os valores efetivamente incorridos, como reclama a seguinte passagem da Impugnação: Sem amparo em qualquer previsão legal, em vez de considerar efetivamente o número total das operações de revenda dos produtos importados, a D. Fiscalização houve por bem considerar, para fins de determinação do preço parâmetro no PRL60, as quantidades de produtos importados e em estoque no início do período de apuração (identificadas nas planilhas de cálculo como Qtde praticado). (b.2) Erro na apuração do preço parâmetro quanto ao Glivec: dedução de contribuições que não incidiram efetivamente sobre as operações de revenda O Glivec (cujo princípio ativo é o Mesilato de Imatinibe) está listado no Anexo do Decreto 3.803/01 (a chamada Lista Positiva do Ministério da Saúde). O referido Decreto lista os medicamentos que fazem jus ao regime especial de PIS e COFINS disposto no art. 3º da Lei 10.147/00. Referido regime especial concede créditos presumidos equivalentes aos valores de PIS e COFINS apurados nas vendas dos medicamentos da Lista Positiva por importadores e estabelecimentos industriais. Em outras palavras, o crédito de valor equivalente ao PIS e COFINS apurados sobre a operação de saída acaba por anular a incidência do PIS e da COFINS nas operações com medicamentos da Lista Positiva. Este efeito de anular a incidência do PIS e da COFINS é levado em consideração pelas Autoridades Reguladoras para o fim de determinar os preços máximos de comercialização dos medicamentos da Lista Positiva. Deste modo, em razão do crédito presumido previsto no art. 3º da Lei 10.147/00, o PIS e a COFINS não podem ser repassados no valor das operações de revenda. (b.3) Erro na apuração do preço parâmetro do PRL20: exclusão indevida do valor de ICMS no cálculo do preço parâmetro de produtos isentos nos termos do Convênio 87/2002 Alguns dos medicamentos importados objeto da autuação seriam revendidos para órgãos da Administração Pública Direta Federal, Estadual e Municipal, fazendo jus à isenção do ICMS prevista pelo Convênio ICMS nº 87, celebrado em 28 de junho de 2002 (Convênio 87/02, anexo doc. 03). Este seria o caso dos medicamentos MIACALCIC, MYFORTIC e CERTICAN. Para comprovar tal alegação, juntou amostra de Notas Fiscais às fls. 413 e 456 e 383 a 398. Alega ainda que, ao ser intimada a manifestar-se sobre os cálculos feitos pela Fiscalização, informou o erro e apresentou apurações do preço parâmetro com a dedução do ICMS corrigida. A Fiscalização teria recusado os cálculos por entender não ter sido devidamente demonstrada a incorreção, basicamente por terem sido apresentadas algumas poucas das Notas Fiscais como meio de prova das alegações. Contudo, reclama a Impugnante que a Fiscalização poderia ter acesso à totalidade das Notas Fiscais por meio do SPED. Por não o ter feito e por ter ignorado o apontamento feito pela Impugnante, o Auto de Infração deve ser reputado nulo ou, pelo menos, que sejam refeitos os cálculos para expurgar o efeito do ICMS sobre a apuração do preço parâmetro de determinados itens. (b.4) Erro na apuração do preço parâmetro do PRL20: consideração dos valores de mercadorias devolvidas na base de cálculo da margem de lucro de 20% A Fiscalização teria deduzido do Preço Parâmetro no PRL20 margem maior do que a aplicável, pois não excluiu as devoluções de vendas. Embora não esteja expressamente previsto que a média aritmética do valor das operações deve abater as devoluções, este procedimento decorreria logicamente do próprio método de apuração de preços. Exemplifica o erro cometido pela Fiscalização apontando trecho do Anexo 03N Cálculo Preços Parâmetros PRL20 NOVARTIS o registro do medicamento Miacalcic. Informa que a Fiscalização teria calculado margem de 20% sobre o valor bruto de R$ 2.649.147,33., tendo encontrado R$ 529.829,47. Prossegue nos apontamentos: Já no "valor presente de referido produto, considerou o valor das devoluções, uma vez que R$2.206.813,67 correspondem a R$2.649.147,33 subtraídos dos R$435.176,80 considerados a título de ICMS e de R$7.156,86 de devoluções. E conclui: Em outras palavras, a D. Fiscalização descontou o valor das devoluções no cálculo do preço líquido de vendas - desconto este que faz diminuir o preço parâmetro apurado e, por consequência, o valor dos supostos ajustes devidos; e, de outro lado, calculou a margem de 20% sem descontar as devoluções. Ao calcular a margem de 20% desta forma, diminuiu de forma indevida o valor do preço parâmetro e, por conseguinte, apurou ajustes de preços de transferência inexistentes do ponto de vista da legislação aplicável. Assim, pleiteia a nulidade do lançamento em razão do erro na base de cálculo. (b.5) Erro por uso de base de cálculo diversa da apurada A Fiscalização teria ainda apurado incorretamente o IRPJ e a CSLL por ter transposto bases de cálculo informadas no TVF não coincidentes com as constantes no Auto de Infração. No TVF, as bases de cálculo informadas constariam da seguinte passagem: Contudo, no Auto de Infração, a Base de Cálculo seria outra: Alega a Impugnante que, ao utilizar a base de cálculo diversa daquela apontada no TVF, sem explicar os motivos pelos quais assim procedeu, a Fiscalização a impediu de exercer amplamente seu direito de defesa, porque não tem como contradizer base de cálculo cuja origem desconhece. Insubsistência dos motivos para desqualificar a aplicação do método do PRL20 O simples acondicionamento de produtos em embalagens primárias ou secundárias, como feito pela Impugnante, não configura produção, no sentido dado pela legislação de preço de transferência No caso mais específico dos produtos RITALINA e EXJADE, o PRL60 foi indevidamente aplicado pela Fiscalização por haver para estes apenas a aposição de rótulo na embalagem de transporte. Tais produtos são revendidos nas mesmas embalagens primárias e secundárias em que são importados, não lhes devendo ser aplicável, por conseguinte, o PRL60. A inconformidade da Impugnante pela desclassificação do método PRL20 para PRL60 é manifestada para os 19 produtos listados a seguir, entre eles o GLIVEC (GLIVE FCT), cujo método inicial seria o PIC: Não seria necessário, segundo a Impugnante, experiência farmacêutica para se concluir que se trata de medicamentos importados acabados, prontos para o uso (ainda que dependentes de acondicionamento para fins de comercialização). Para todos os itens da tabela, entende a Impugnante que deveria ser aplicado o método do PRL20 em vez do PRL60. Ilegalidade das disposições da IN 243/02 para apuração do PRL60 As disposições da IN 243/02 acerca do cálculo do preço parâmetro pelo PRL60 excedem os limites previstos na Lei 9.430/96, sendo, por conseguinte, ilegais. Segundo a Impugnante, o modo legalmente correto de se apurar o PRL60 se daria com a seguinte fórmula: A fórmula correta, acima exposta, é deduzida do art. 18, II, d, 1, da Lei 9.430/96, com uma pequena correção no texto: suprime-se a preposição d na seguinte passagem: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; Mas não seria necessária a correção da preposição, pois se poderia chegar ao mesmo entendimento por meio de esforço interpretativo não significativo, como diz a Impugnante: Apesar de se convir como conveniente a exclusão da letra d para se considerar a plenitude gramatical do citado dispositivo, há de se considerar que, mesmo sem a exclusão, o esforço interpretativo para se chegar a fórmula acima citada não é significativo, tendo sido até mesmo este o posicionamento da Receita Federal, conforme disposto no art. 12 da IN 32/01 anterior a Instrução Normativa n° 243/02. O art. 12 da IN 32/01, ao invés de excluir a letra d, optou por inserir preposições para cada um dos elementos que deveriam ser deduzidos do Preço de Venda, produzindo o mesmo resultado prático propugnado acima. Confira-se: Art. 12 (...) § 11. Na hipótese do parágrafo anterior, o preço a ser utilizado como parâmetro de comparação será a diferença entre o preço líquido de venda e a margem de lucro de sessenta por cento, considerando-se, para este fim: I - preço líquido de venda, a média aritmética dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; II - margem de lucro, o resultado da aplicação do percentual de sessenta por cento sobre a média aritmética dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas, das comissões e corretagens pagas e do valor agregado ao bem produzido no País. Sucede que, após um ano e poucos meses da edição da IN 32/01 a Receita Federal do Brasil editou a IN 243/02, que revogou a anterior e pretendeu alterar substancialmente os critérios de cálculo do PRL60, sem que tivesse havido qualquer alteração na matriz legal (alínea d, 1, do inciso II do art. 18 da Lei 9.430/96). Aponta ainda a Impugnante um efeito circular provocado pela regra contida na IN 243/02, na medida em que, se repetido para um mesmo produto, encontraria preços parâmetros sempre menores, tomando por base aqueles já encontrados pela primeira aplicação do método. A referida sistemática da IN 243/02 acabaria por tornar mais vantajoso, para as empresas multinacionais, alocar todas as etapas de produção de seus bens para unidades fabris localizadas fora do Brasil. A própria RFB, em Solução de Consulta, teria admitido expressamente que a IN 243/02 teria inovado no cálculo do Preço de Transferência, tornando explícita a ilegalidade do procedimento. As Medidas Provisórias 478/09 e 563/12 teriam reconhecido a necessidade de legalizar critérios de cálculo antes não previstos em lei, conforme se depreende pela exposição de motivos. Por fim, a própria Lei 12.715/2012 determinou que as alterações nos critérios de apuração do preço parâmetro pelo método PRL entrariam em vigor apenas em 01.01.2013, para respeitar o princípio da anterioridade tributária. Se houve necessidade de determinar a observância do princípio da anterioridade tributária, reconheceu o Poder Legislativo que de fato a introdução de tais critérios representaria majoração de tributos. Fretes, Seguros e Imposto de Importação não se sujeitam a Preços de Transferência Ocorre que as despesas com frete, seguro e tributos aduaneiros, dentre eles o II, não estão sujeitas ao controle de preços de transferência. Isso porque os fornecedores de frete e seguro não são pessoas vinculadas à Impugnante, ou seja, são custos que não podem sofrer influência em função da posição comercial da Impugnante. Os valores de frete, seguro e tributos aduaneiros entre os quais, o Imposto de Importação não devem ser incluídos no cálculo dos preços praticados para fins de apuração dos ajustes no PRL. Com a Lei 12.715/12, o dispositivo passou a determinar que, para fins de cálculo do preço parâmetro pelo PRL, os valores de frete, seguro e tributos não devem ser integrar o custo (isto é, devem ser excluídos do custo para fins do cálculo). Mesmo a redação anterior prevendo que o frete, seguro e tributos não devem integrar o custo, tal interpretação não pode ser adotada, sob pena de considerar despesas como frete, seguro e Imposto de Importação como sujeitas a ajuste de preço de transferência. Inaplicabilidade de juros de mora sobre a multa de ofício Não haveria que se falar que, de acordo com o art. 113, § 1o, do CTN, as multas de ofício também fariam parte da obrigação principal, uma vez que (i) referida norma trata das obrigações acessórias, ou seja, as decorrentes do não cumprimento de obrigações de fazer e (ii) já é unânime na doutrina e jurisprudência pátria que a penalidade pecuniária não se confunde com a obrigação principal, pois é decorrente de uma sanção pelo não pagamento do tributo (vide art. 3º do CTN). Analisando a impugnação apresentada, a turma julgadora de primeira instância julgou-a parcialmente procedente, excluindo da base de cálculo dos autos de infraçãoR$ 156.022,00 decorrentes de erro material na transposição dos valores apurados no TVFe R$ 1.298.420,78 decorrentes da retificação do cálculo do PRL20 para as operaçõesNovartis, não havendo interposição de recurso de ofício em razão de o crédito tributário cancelado não alcançar o limite de alçada (tributo e multas) de R$ 2.500.000,00. O contribuinte foi intimado da decisão em 06 de junho de 2018 (fl. 2256), apresentando recurso voluntário de fls. 2494-2565 em 06 de julho de 2018 (fl. 2257). Em resumo: I. Nulidades dos autos de infração I.a. Teria havido erro na apuração do preço parâmetro do PRL20: sem qualquer fundamentação jurídica, a Fiscalização teria adotado um valor como média ponderada de operações de revenda (descontando-se deste cálculo as devoluções de mercadoria) e um valor diferente de base para apuração da margem de 20% (sem descontar as devoluções). Aduz que o voto vencido da decisão recorrida deixa claro que sequer é possível identificar o porquê de tal divergência, pois não constam maiores detalhes sobre o tema no Termo de Verificação Fiscal, concluindo que não se trataria de erro de fato, e sim de erro de direito, o que levaria à impossibilidade de alteração do lançamento por parte das autoridades julgadoras. Argumenta ainda que o voto vencedor não se limitou a fazer um mero ajuste em erro material, mas sim inserindo um novo critério no lançamento (devolução das exclusões também para a base de cálculo da margem de 20%); I.b. Erro na apuração do preço parâmetro pelo PRL60: consideração das quantidades de produtos importados/estoque inicial como quantidades de produtos revendidos desconsideração do estoque final. A Fiscalização, ainda que se apoiando em demonstrativos elaborados pela própria Recorrente, considerou que a quantidade de produtos importados no período, somada ao estoque inicial, deveria seria igual à quantidade de produto revendido, desconsiderando o estoque final de cada um dos produtos sujeitos à ajuste no método PRL60. Argumenta a Recorrente que se trata de erro de direito no lançamento, não podendo ser realizado qualquer ajuste, e que o fato de os demonstrativos terem sido por ela elaborados não possui o condão de transformar em legal o lançamento realizado em desacordo com a lei, sendo obrigação do Fisco, a teor do que dispõe o art. 142 do CTN, a verificação dos fatos e a realização do lançamento; I.c. Indevida desconsideração do método PIC pra o produto Glivec: segundo a Recorrente, a autoridade fiscal desconsiderou o método PRL20, apresentando os cálculos que entendia devido no método PRL60, e intimou o contribuinte a apresentar cálculo ou método alternativo no prazo de 30 dias. Aduz que, ao contrário do afirmado pela decisão de primeira instância, o contribuinte se manifestou, entre outras coisas, pela utilização do método PIC, apresentando os cálculos correspondentes (fls. 409-412). Após essa manifestação, os autos de infração foram lavrados, tendo sido mantido o lançamento referente ao ajuste do produto Glivec com base no método PRL60 sob a justificativa de que o contribuinte não havia apresentado documentos comprobatórios para utilização do método PIC. Argumenta ainda que o art. 20-A da Lei nº 9.430/96, introduzido pelo art. 51 da Lei nº 12.715/12, teria entrado em vigor na data de sua publicação, sendo obrigatória a intimação do contribuinte para apresentar cálculo sobre método alternativo na hipótese de a Fiscalização ter desconsiderado o método inicialmente escolhido pelo contribuinte, e que §2º, inciso III, do citado art. 20-A da Lei 9.430/96, determina que a Fiscalização poderá adotar quaisquer dos métodos previstos na legislação de preços de transferência caso o contribuinte deixe de oferecer quaisquer elementos úteis à verificação dos cálculos para apuração do preço parâmetro, quando solicitados pelaautoridade responsável pelo procedimento fiscal, sendo que não teria havido qualquer solicitação prévia de apresentação de outros elementos ou documentos além do próprio cálculo. Por essas razões, pugna pela nulidade do lançamento, ou, caso não acolhido seu pleito, que seja cancelada a exigência ao menos em relação ao ajuste do produto Glivec porquanto a Fiscalização deveria ter aceito o cálculo pelo método PIC, e, caso assim não se decida, que seja acatado o cálculo pelo método PIC com base naqueles apresentados pela Fiscalização e nos documentos acostados ao recurso voluntário que comprovariam que o preço parâmetro determinado pelo método PIC é menor do que o preço médio praticado nas importações do produto Glivec, ou seja, seja cancelada a exigência por não haver que se falar em ajuste em relação a tal produto; I.d. Erro na apuração do preço parâmetro do PRL20: exclusão indevida do valor de ICMS no cálculo do preço parâmetro de produtos isentos nos termos do Convênio 87/2002. Aduz que diversas vendas foram realizadas para órgãos da Administração Pública Direta, fazendo jus à isenção de ICMS prevista pelo Convênio ICMS 87, ou seja, não poderia ter sido deduzido ICMS sobre os valores dessas vendas para fins de determinação do preço parâmetro. Essa informação teria sido por ela fornecida à Fiscalização antes da lavratura do auto de infração, mas a autoridade fiscal entendeu que não houve comprovação das operações realizadas sob essa égide. A Recorrente argumenta que a Fiscalização tinha acesso ao Sped e poderia ter feito essa verificação. Argumenta ainda que anexou à impugnação demonstrativo com todas as vendas realizadas para órgãos públicos e as respectivas notas fiscais, mas a DRJ entendeu que tais informações não seriam suficientes, havendo necessidade de uma nova memória de cálculo incluindo a identificação dos destinatários das vendas e subtotalizando os valores por item, entre outras exigências. Aduz que embora discordasse de tal entendimento, elaborou nova planilha e anexou ao presente recurso com a abertura do recálculo do preço parâmetro sem a indevida inclusão do ICMS nos casos abrangidos pelo Convênio 87/02 cujas informações são corroboradas pelas notas fiscais já juntadas aos autos (fls. 773-2110). Por fim requer a nulidade da exigência, e, em caso contrário, que ao menos seja realizado o recálculo dos preços parâmetros para fins de apuração dos ajustes com base no PRL20 para excluir os montantes de ICMS que não correspondem ao imposto que efetivamente incidiu sobre as operações de revenda; I.e. Erro na apuração do preço parâmetro quanto ao Glivec: dedução de contribuições que não incidiram efetivamente sobre as operações de revenda. Argumenta que a Fiscalização se equivocou ao deduzir valores de PIS e Cofins para determinação do preço parâmetro pelo método PRL60 que efetivamente não incidiram nas operações listadas na denominada Lista Positiva do Ministério da Saúde (Anexo do Decreto 3.803/01). Explica que nesse regime especial são concedidos créditos presumidos equivalentes aos valores de PIS e COFINS apurados nas vendas dos medicamentos da Lista Positiva por importadores eestabelecimentos industriais. Com esse mecanismo, argumenta que há uma anulação da incidência de PIS e Cofins na operação, sendo que as autoridades reguladores desconsideram o valor dessas contribuições para o fim de determinar os preços máximos de comercialização dos medicamentos da Lista Positiva. Requer, assim, a anulação dos autos de infração, ou, se não acatado seu pedido, que ao menos seja recalculado o preço parâmetro a partir da exclusão do PIS e Cofins não incidentes nas citadas operações; II. Insubsistências dos motivos para desqualificar a aplicação do método PRL20. Alega que o produto importado Foraseq citado pela Fiscalização para demonstrar a agregação de valor, no Brasil, seria o que passa pelo processo de acondicionamento mais complexo. Para diversos outros produtos os procedimentos adotados seriam mais simples, tais como mera aposição de selo de controle em embalagem já pronta ou acondicionamento em embalagem secundária de produto já importado em embalagem primeira (por exemplo, cartela ou blister). Cita que nos casos dos produtos Ritalina e Exjade, a única atividade após a importação seria a rotulagem das embalagens de transporte (que sequer configuraria industrialização, nos termos do art. 4º, IV, do Decreto nº 7212/2010). Acrescenta que mesmo as fotos obtidas pela Fiscalização evidenciam que os produtos ali ilustrados já são importados com a marca, o nome comercial do medicamento e demais informações requeridas pela ANVISA para comercialização no País. Aduz que não é possível associar produção a qualquer atividade que agregue valor ao bem importado, até porque a atividade de revenda também agrega valor a bens importados (tanto que o preço da mercadoria no ponto de varejo é maior do que o a mercadoria antes do desembarque no porto). II.a. Critério legal para determinação da aplicação do PRL20 e do PRL60: aduz que a Lei nº 9.430/96, ao introduzir o método PRL60 condicionou à aplicação dos produtos importados na produção, e que nos produtos importados em que houve a desqualificação do PRL20, o percentual de participação do bem importado para fins de determinação do preço parâmetro seria muito alto, beirando, em geral, os 100%, concluindo que o valor agregado a tais produtos após a importação seria mínimo, compatível com atividades de revenda. Aduz ainda que produção tem significado próximo ao de industrialização, mas, especialmente em se tratando de legislação tributária federal, os dois termos não podem ser confundidos. Argumenta que para a palavra produção impõe a utilização do insumo em um processo produtivo no qual serão utilizados outros produtos que, em conjunto com o primeiro, passarão por um processo de trabalho redundando em um novo produto, e que, portanto, produção seria um gênero da industrialização, se aproximando do conceito de transformação (inciso I do art. 4º do Decreto 7.212/10), e não se confundindo com as atividades de acondicionamento ou reacondicionamento (inciso IV do art. 4º do Decreto 7.212/10); II.b. Inocorrência de aplicação à produção dos produtos para os quais o PRL20 foi desqualificado: aduz que os medicamentos importados já contêm a marca Novartis, são os mesmos produtos revendidos no Brasil, prontos para uso, sendo que alguns já chegariam ao Brasil, inclusive, com o nome comercial, a identificação do princípio ativo, a dosagem contida na embalagem, o número do lote e a data de vencimento; II.b. Ilegalidade das disposições da IN 243/02 para apuração do PRL60: questiona a legalidade da referida instrução normativa no que diz respeito à proporcionalização do valor dos insumos importados em relação ao preço praticado e a inclusão frete, seguro e tributos no preço parâmetro; III.c. Inaplicabilidade de juros de mora sobre a multa de ofício. Em 14 de dezembro de 2018 o contribuinte apresentou petição e documentos (fls. 2571-3493) anexando cópia apostilada das faturas de vendas do produto Glivec para terceiros não relacionados ao grupo Novartis e cópia da tradução juramentada dessas faturas, argumentando que tal documentação deu suporte para o cálculo do preço parâmetro pelo método PIC (no recurso voluntário foram apresentadas cópias da faturas de vendas do produto Glivec acompanhada da respectiva tradução juramentada - fls. 2260-2304 -, bem como cálculo do preço parâmetro pelo método PIC para o mesmo produto com base nessas faturas - fl. 2490). É o relatório.
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Giovana Pereira de Paiva Leite, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Bianca Felícia Rothschild e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 65 61 .7 20 12 7/ 20 17 -8 0 Fl. 3494DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.495 2 Relatório NOVARTIS BIOCIENCIAS S/A recorre a este Conselho, com fulcro no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, objetivando a reforma do acórdão nº 1298.345 proferido pela 15ª Turma da Delegacia de Julgamento no Rio de Janeiro que julgou parcialmente procedente a impugnação apresentada. Por bem refletir o litígio até aquela fase processual, adoto o relatório da decisão de primeira instância, complementandoo ao final: Trata o presente processo de Auto de Infração de IRPJ e reflexo de CSLL, lavrado em 14/12/2017, em procedimento de Fiscalização levado a efeito pela DEMAC/SPO, AC 2012 (a partir de setembro), com ciência no Domicílio Tributário Eletrônico (DTE). O procedimento fiscal teve por objeto a verificação das operações de Preço de Transferência originariamente praticadas pela empresa ALCON LABORATORIO DO BRASIL LTDA, CNPJ 60.412.327/000100, incorporada pela Impugnante em setembro de 2012. Assim, o procedimento fiscal deu origem a duas autuações distintas no mesmo AC 2012 para o IRPJ e para a CSLL: uma antes (até agosto de 2012) e a outra depois do evento de incorporação da ALCON pela Impugnante (de setembro até o final de 2012). Este processo trata da autuação do 2º período. Não obstante este processo tratar da 2a. parte de 2012, isto é, após o evento de incorporação, observei que o TVF permanece fazendo referência às operações da ALCON em separado das demais operações da NOVARTIS, ora Impugnante. Para ALCON, foram apresentados cálculos para: 310 itens sujeitos ao método PRL20 (comercialização); e 31 para itens sujeitos ao PRL60 (produção). Para a INOVARTIS, foram apresentados cálculos para: 73 itens pelo método do PRL20; e 31 para o método PRL60. Ao longo da fiscalização, 19 itens foram mudados nas apurações na INOVARTIS do PRL20 para o PRL60. Os métodos de Preço de Transferência visam a calcular o Preço Parâmetro ou de Referência, isto é, o preço até aonde é admissível a sua dedução do lucro para fins de tributação do IRPJ e da CSLL, quando o pagamento é destinado a um beneficiário vinculado. Além disso, estabelece critério para determinação do denominado Preço (ou Custo) Praticado. Uma diferença positiva entre estes preços (Preço Praticado Preço Parâmetro) significa que o contribuinte pagou além do aceitável, nos termos da legislação, para partes vinculadas, Fl. 3495DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.496 3 devendo tal diferença, multiplicada pela quantidade consumida, ser adicionada ao Lucro Líquido para fins de tributação do IRPJ e da CSLL. Quanto às atividades principais da Impugnante, informa o Termo de Verificação Fiscal (TVF) que são a fabricação e comércio, inclusive importação e exportação e distribuição de produtos farmacêuticos, especialidades biológicas e dietéticas, quimioterápicas, oftálmicas, entre outros assemelhados. A ALCON (incorporada pela Impugnante) teria por objeto, entre outras atividades, a fabricação, comércio e distribuição de produtos farmacêuticos, em especial, oftálmicos. O crédito tributário deste processo importa em R$ 166.048.097,58, totalizado a partir dos valores de R$ 122.094.189,40, a título de IRPJ, e de R$ 43.953.908,18, a título de CSLL, conforme demonstrativos abaixo: Em síntese, a autuação de que trata este processo decorre do descumprimento, em tese, de 3 (três) regras de ajuste de preço de transferência, conforme relatado pela autoridade autuante no Termo de Verificação Fiscal (TVF): (i). A falta de inclusão do Imposto de Importação – II no cálculo do Preço Praticado nos produtos sujeitos ao método PRL20; (ii). Utilização indevida do PRL20 (itens destinados ao comércio) para determinados itens quando deveria ter sido aplicado o método do PRL60 (itens destinados à produção); (iii). Cálculo do Preço Parâmetro em desacordo com o preconizado pela IN SRF 243/02 no método do PRL60. Fl. 3496DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.497 4 As três infrações foram acima foram impugnadas. Além disso, a Impugnante contestou os seguintes pontos nos cálculos feitos pela autoridade autuante, completandose assim o rol de controvérsias suscitadas neste processo: (iv). A autoridade autuante deduziu indevidamente do Preço Parâmetro tributos que não teriam incidido em algumas operações, especificamente: iv.1) ICMS na venda de medicamentos (CERTICAN, MIACALCIC e MYFORTIC) para órgãos públicos, isentos pelo Convênio 87/2002; e iv.2) PIS e COFINS na venda de medicamentos da chamada Lista Positiva (Decreto nº 3803/2001), os quais são isentos destas contribuições. (v). A autoridade autuante teria deixado de excluir do cálculo da margem de 20% as vendas canceladas (Anexo 03N – Cálculo Preços Parâmetros PRL20 NOVARTIS). (vi). Haveria erro na transposição do valor da base de cálculo apurada no Termo de Verificação e a efetivamente transposta para o Auto de Infração. (vii). O método de proporção do valor agregado previsto na IN SRF 243/2002 seria ilegal. As infrações encontramse consolidadas no corpo do Auto de Infração, divididas pelos resultados apurados na Alcon e na Novartis: INFRAÇÕES DETALHADAS Fl. 3497DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.498 5 (i) Falta de inclusão do Imposto de Importação – II no cálculo do Preço Praticado nos produtos sujeitos ao método PRL20 Como consequência da falta de inclusão do Imposto de Importação no cálculo do preço praticado pelo método PRL20, a autoridade autuante procedeu à apuração dos ajustes de preço de transferência com as seguintes providências: a) Excluíramse as parcelas do consumo que tiveram sua origem em aquisições do mercado interno e em importações de não vinculadas, restando somente as parcelas de produtos importados de vinculadas; b) Consolidaramse, por produto, as quantidades, e os valores FOB convertidos para R$, e as parcelas de frete, seguro e do Imposto de Importação; c) Somaramse, por produto, aos valores FOB convertidos em R$ os valores de frete, seguro e Imposto de Importação (CIF+II); d) Calculouse o preço praticado unitário por produto, dividindo o valor “CIF + II” pela quantidade consumida do produto; Os preços praticados estão discriminados no Anexo 02A Cálculo dos Preços Praticados ALCON (fls. 614 a 622). (ii) Utilização do PRL20 (itens destinados ao comércio) para determinados itens quando deveria ter sido aplicado o método do PRL60 (itens aplicados à produção) Segundo a autoridade autuante, o método PRL20 só pode ser aplicado para produtos importados e revendidos sem qualquer agregação de valor no País. Esta afirmação decorreria do art. 12 da IN SRF/243/02: Art. 12. A determinação do custo de bens, serviços ou direitos, adquiridos no exterior, dedutível da determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, poderá, também, ser efetuada pelo método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL), definido como a média aritmética ponderada dos preços de revenda dos bens, serviços ou direitos, diminuídos: (...) Fl. 3498DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.499 6 IV de margem de lucro de: a) vinte por cento, na hipótese de revenda de bens, serviços ou direitos; b) sessenta por cento, na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados na produção. (...) § 9º O método do Preço de Revenda menos Lucro mediante a utilização da margem de lucro de vinte por cento somente será aplicado nas hipóteses em que, no País, não haja agregação de valor ao custo dos bens, serviços ou direitos importados, configurando, assim, simples processo de revenda dos mesmos bens, serviços ou direitos importados. § 10. O método de que trata a alínea "b" do inciso IV do caput [PRL 60] será utilizado na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados à produção. O sentido da regra acima mencionado seria colocar em mesmo patamar produtos estrangeiros e nacionais de mesma natureza. Se o produto será apenas revendido, presumese uma margem de lucratividade de 20%. Se o insumo importado for aplicado à produção, presumese a margem de 60% (conseqüentemente, o preço parâmetro será menor, resultando maior tributação). Esta margem pode ser alterada por meio de pedido fundamentado à Administração Tributária, conforme arts. 32 a 35 da IN SRF nº 243/2002. Informa ainda a Fiscalização, acerca da importância da aposição da marca e do rótulo como elementos fundamentais para a comercialização de remédios, o seguinte: No caso específico da indústria farmacêutica, há um elemento adicional a ser considerado na escolha do método de ajuste de Preços de Transferência, que é o rígido controle da agência reguladora responsável pela produção e distribuição desses produtos no país, a ANVISA. (...)Ou seja: a embalagem contendo todas as informações relativas ao medicamento, destacando a Marca, mas não apenas essa, é o que, em última análise permite a comercialização dos produtos importados no mercado nacional. Medicamento sem marca ou quaisquer outros elementos previstos na legislação sujeitam o produto, ipso facto, a desconfiança sobre sua autenticidade e eficácia. Não há, portanto, a mínima possibilidade de os produtos farmacêuticos serem comercializados sem o acréscimo desses elementos essenciais, notadamente a aposição da marca. Estáse falando, assim, de um novo bem, diverso daquele importado, ainda que o princípio ativo seja o mesmo em ambos. Princípio ativo sem aposição de marca e acondicionado a granel é, na melhor das hipóteses, um estoque de produtos intermediários. Uma mudança no produto que o transforme, de insumo ou estoque em produto disponível Fl. 3499DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.500 7 para venda não pode ser considerada uma mudança ínfima ou desprezível mas, sim, uma mudança fundamental, essencial. Ou seja, entre os elementos fundamentais que justificam a aplicação do PRL60 para medicamentos, além da aposição da marca, estaria também o cumprimento das exigências regulatórias da ANVISA. Além desses elementos, outros 2 (dois) foram identificados pela Fiscalização como justificantes para a aplicação do PRL60 para remédios: 1. Os custos reduzidos de transporte, manuseio e risco: ao importar os produtos ainda inacabados, seja na forma de componentes ou mesmo parcialmente embalados, o contribuinte incorre em menores custos de transporte e manuseio, além de menores riscos de deterioração dos produtos. 2. A terceirização da fabricação dos medicamentos: no caso presente, o contribuinte subcontrata empresa terceirizada para efetuar todas as etapas necessárias para tornar o produto apto ao consumo final (empresa ANOVIS: http://www.anovis.com.br/). Para realizar essas etapas exigese uma unidade fabril, sujeita a controles e auditorias internos e externos, regulatórios e de conformidade. Se a NOVARTIS pudesse realizar as etapas de agregação de valor sem uma planta produtiva, assim o teria feito. Isso é mais um elemento que descaracteriza a mera revenda de produtos importados, exigindo do contribuinte a utilização do método PRL60 ou equivalente. Assim, a etapa de agregação nacional comporta evidentes economias para o contribuinte no que tange à movimentação internacional dos produtos, além de se caracterizar como atividade de produção de um novo bem, realizado por terceiro qualificado para tal. Portanto, baseado no entendimento acima exposto, diversos itens importados tiveram seus preços parâmetros migrados de ofício do método PRL20 para o PRL60, rejeitandose as explicações da Impugnante no sentido de sustentar o PRL20. Essencialmente, as explicações apresentadas pela Impugnante à Fiscalização tratavam de serem os produtos EXJADE, RITALINA acabados. Contudo, mesmo para estes produtos, entendeu a Fiscalização que seria aplicável a Solução de Consulta Cosit nº 5 de 2006, que prescreve o PRL60 para casos semelhantes a este. No caso específico do GLIVEC, não foi também aceito o método do Preço sob Cotação na Importação (PIC), pleiteado pela Impugnante no curso do procedimento fiscal. O não acatamento deste método pela Fiscalização deuse sob o fundamento de insuficiência nos documentos apresentados pela Impugnante. Entre estes, relata o TVF: A ausência de documentos de importação ou de aquisição; Prova de não vinculação dos envolvidos na negociação; e Outros. Fl. 3500DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.501 8 Também foi rejeitada aplicação do PRL20 para o GLIVEC, tendo sido aplicado pela Fiscalização o PRL60. No caso da migração do PRL20 para o PR60 para os itens em geral, os ajustes foram feitos apenas quando a diferença atingia os 5%, como previsto no art. 38 da IN 243/2002. A diferença encontrada era multiplicada pela quantidade de itens para encontrar o total a ser adicionado ao Lucro Líquido. (iii) Cálculo do Preço Parâmetro em desacordo com o preconizado pela IN SRF 243/02 no método do PRL60 para os itens adquiridos pela NOVARTIS No caso dos itens que já tinham tido seus preços parâmetros calculados pelo PRL60 pela Impugnante, os cálculos foram refeitos segundo a metodologia determinada pela IN 243/2002 e a diferença encontrada também foi adicionada o Lucro Líquido pela Fiscalização. A metodologia do PRL60 prevista na IN 243/2002 foi aplicada para os itens da ALCON, mas não teria sido aplicada pelos itens adquiridos pela NOVARTIS por parte da Impugnante. Essencialmente, a metodologia excluiu o valor agregado no País e a margem de lucro de 60%. Para encontrar o Preço Parâmetro, informa ainda o TVF a adoção dos seguintes procedimentos: a) para cada insumo, multiplicouse a relação insumoproduto, informada pelo contribuinte, em relação a cada bem produzido, pela quantidade vendida do bem produzido e assim obtevese a quantidade utilizada de determinado insumo importado em cada bem produzido; b) a seguir, multiplicouse essa quantidade utilizada de insumo importado pelo preço praticado na importação (que representa o custo unitário de importação de determinado insumo) e assim encontramos o custo total do insumo importado no bem produzido; c) dividindose o custo total do insumo importado pelo custo total de produção do bem produzido encontramos o percentual de participação do insumo no custo do bem produzido; d) multiplicouse então esse percentual de participação do insumo no custo do bem produzido pelo valor líquido das vendas e encontramos a participação do bem importado no preço de venda do bem produzido; e) A margem de lucro foi obtida mediante a aplicação do percentual de sessenta por cento (60%) sobre a participação do bem importado no preço de venda do bem produzido. f) O preço parâmetro foi encontrado subtraindose o valor da margem de lucro do valor da participação do bem importado no preço do bem produzido; g) Nos casos em que determinado insumo importado é aplicado na produção de diversos bens finais, são gerados preços parâmetros Fl. 3501DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.502 9 distintos para cada bem final produzido. Desta forma, apuramos o preço médio ponderado, dividindo a somatória dos preços parâmetros pela quantidade total de insumo utilizada na produção. O detalhamento dos cálculos dos preços parâmetros pelo método PRL60 é mostrado no Anexo 04A Preços parâmetro pelo PRL 60 ALCON. IMPUGNAÇÃO A Impugnante, em síntese, pleiteia o reconhecimento da nulidade ou improcedência da autuação em razão das seguintes alegações: a) A Fiscalização não poderia ter migrado o produto GLIVEC do método PIC, eleito pela Impugnante, para o método PRL60 (Termo de Constatação de fls. 383), em razão do disposto no art. 20A da Lei 9.430/96 (necessidade de intimação prévia para, no prazo de 30 dias, o contribuinte apurar o ajuste por outro método) ; b) Haveria diversos erros de direito na apuração das bases de cálculo autuadas; c) O simples acondicionamento de produtos em embalagens primárias ou secundárias, como feito pela Impugnante, não configura produção, no sentido dado pela legislação de preço de transferência. No caso ainda dos produtos RITANINA e EXJADE, o PRL60 foi indevidamente aplicado pela Fiscalização por haver para estes apenas a aposição de rótulo na embalagem de transporte. Tais produtos são revendidos nas mesmas embalagens primárias e secundárias em que são importados, não lhes devendo ser aplicável, por conseguinte, o PRL60 (mas, sim, o PRL 20); d) As disposições da IN 243/02 acerca do cálculo do preço parâmetro pelo PRL60 excedem os limites previstos na Lei 9.430/96, sendo, por conseguinte, ilegais. e) Os valores de frete, seguro e tributos aduaneiros – entre os quais, o Imposto de Importação – não devem ser incluídos no cálculo dos preços praticados para fins de apuração dos ajustes no PRL. (a) Indevida desconsideração do método PIC para o produto GLIVEC Alega a Impugnante que, nos termos do § 2º, inciso III, do art. 20A da Lei 9.430/96, deveria ter sido previamente intimada pela Fiscalização a apresentar os elementos que considerou úteis à verificação dos cálculos para apuração do preço parâmetro pelo PIC para o Glivec. Alega ainda que a Fiscalização assim não fez pois, com a proximidade do termo final do prazo decadencial para o lançamento do crédito tributário ora discutido, não havia tempo hábil para intimar a Impugnante e, assim, optou por simplesmente lavrar os autos de infração desconsiderando o pedido de substituição dos métodos. Fl. 3502DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.503 10 Apresentado pela Impugnante em atendimento à intimação do Termo de Constatação de fls. 383 e seguintes. (b) Erros na apuração das bases de cálculo autuadas (b.1) Erro na apuração do preço parâmetro pelo PRL60: consideração das quantidades de produtos importados/estoque inicial como quantidades de produto revendidas A Fiscalização teria apurado o custo dos produtos e mercadorias vendidas, nos métodos PRL, em desacordo com os valores efetivamente incorridos, como reclama a seguinte passagem da Impugnação: Sem amparo em qualquer previsão legal, em vez de considerar efetivamente o número total das operações de revenda dos produtos importados, a D. Fiscalização houve por bem considerar, para fins de determinação do preço parâmetro no PRL60, as quantidades de produtos importados e em estoque no início do período de apuração (identificadas nas planilhas de cálculo como “Qtde praticado”). (b.2) Erro na apuração do preço parâmetro quanto ao Glivec: dedução de contribuições que não incidiram efetivamente sobre as operações de revenda O Glivec (cujo princípio ativo é o Mesilato de Imatinibe) está listado no Anexo do Decreto 3.803/01 (a chamada “Lista Positiva” do Ministério da Saúde). O referido Decreto lista os medicamentos que fazem jus ao regime especial de PIS e COFINS disposto no art. 3º da Lei 10.147/00. Referido regime especial concede créditos presumidos equivalentes aos valores de PIS e COFINS apurados nas vendas dos medicamentos da Lista Positiva por importadores e estabelecimentos industriais. Em outras palavras, o crédito de valor equivalente ao PIS e COFINS apurados sobre a operação de saída acaba por anular a incidência do PIS e da COFINS nas operações com medicamentos da Lista Positiva. Este efeito de anular a incidência do PIS e da COFINS é levado em consideração pelas Autoridades Reguladoras para o fim de determinar os preços máximos de comercialização dos medicamentos da Lista Positiva. Deste modo, em razão do crédito presumido previsto no art. 3º da Lei 10.147/00, o PIS e a COFINS não podem ser repassados no valor das operações de revenda. (b.3) Erro na apuração do preço parâmetro do PRL20: exclusão indevida do valor de ICMS no cálculo do preço parâmetro de produtos isentos nos termos do Convênio 87/2002 Alguns dos medicamentos importados objeto da autuação seriam revendidos para órgãos da Administração Pública Direta Federal, Estadual e Municipal, fazendo jus à Fl. 3503DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.504 11 isenção do ICMS prevista pelo Convênio ICMS nº 87, celebrado em 28 de junho de 2002 (“Convênio 87/02”, anexo doc. 03). Este seria o caso dos medicamentos MIACALCIC, MYFORTIC e CERTICAN. Para comprovar tal alegação, juntou amostra de Notas Fiscais às fls. 413 e 456 e 383 a 398. Alega ainda que, ao ser intimada a manifestarse sobre os cálculos feitos pela Fiscalização, informou o erro e apresentou apurações do preço parâmetro com a dedução do ICMS corrigida. A Fiscalização teria recusado os cálculos por entender não ter sido devidamente demonstrada a incorreção, basicamente por terem sido apresentadas algumas poucas das Notas Fiscais como meio de prova das alegações. Contudo, reclama a Impugnante que a Fiscalização poderia ter acesso à totalidade das Notas Fiscais por meio do SPED. Por não o ter feito e por ter ignorado o apontamento feito pela Impugnante, o Auto de Infração deve ser reputado nulo ou, pelo menos, que sejam refeitos os cálculos para expurgar o efeito do ICMS sobre a apuração do preço parâmetro de determinados itens. (b.4) Erro na apuração do preço parâmetro do PRL20: consideração dos valores de mercadorias devolvidas na base de cálculo da margem de lucro de 20% A Fiscalização teria deduzido do Preço Parâmetro no PRL20 margem maior do que a aplicável, pois não excluiu as devoluções de vendas. Embora não esteja expressamente previsto que a média aritmética do valor das operações deve abater as devoluções, este procedimento decorreria logicamente do próprio método de apuração de preços. Exemplifica o erro cometido pela Fiscalização apontando trecho do Anexo 03N – Cálculo Preços Parâmetros PRL20 NOVARTIS o registro do medicamento Miacalcic. Informa que a Fiscalização teria calculado margem de 20% sobre o valor bruto de R$ 2.649.147,33., tendo encontrado R$ 529.829,47. Prossegue nos apontamentos: Já no "valor presente” de referido produto, considerou o valor das devoluções, uma vez que R$2.206.813,67 correspondem a R$2.649.147,33 subtraídos dos R$435.176,80 considerados a título de ICMS e de R$7.156,86 de devoluções. E conclui: Em outras palavras, a D. Fiscalização descontou o valor das devoluções no cálculo do preço líquido de vendas desconto este que faz diminuir o preço parâmetro apurado e, por consequência, o valor dos supostos ajustes devidos; e, de outro lado, calculou a margem de 20% sem descontar as devoluções. Fl. 3504DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.505 12 Ao calcular a margem de 20% desta forma, diminuiu de forma indevida o valor do preço parâmetro e, por conseguinte, apurou ajustes de preços de transferência inexistentes do ponto de vista da legislação aplicável. Assim, pleiteia a nulidade do lançamento em razão do erro na base de cálculo. (b.5) Erro por uso de base de cálculo diversa da apurada A Fiscalização teria ainda apurado incorretamente o IRPJ e a CSLL por ter transposto bases de cálculo informadas no TVF não coincidentes com as constantes no Auto de Infração. No TVF, as bases de cálculo informadas constariam da seguinte passagem: Contudo, no Auto de Infração, a Base de Cálculo seria outra: Alega a Impugnante que, ao utilizar a base de cálculo diversa daquela apontada no TVF, sem explicar os motivos pelos quais assim procedeu, a Fiscalização a impediu de exercer amplamente seu direito de defesa, porque não tem como contradizer base de cálculo cuja origem desconhece. (c) Insubsistência dos motivos para desqualificar a aplicação do método do PRL20 Fl. 3505DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.506 13 O simples acondicionamento de produtos em embalagens primárias ou secundárias, como feito pela Impugnante, não configura produção, no sentido dado pela legislação de preço de transferência No caso mais específico dos produtos RITALINA e EXJADE, o PRL60 foi indevidamente aplicado pela Fiscalização por haver para estes apenas a aposição de rótulo na embalagem de transporte. Tais produtos são revendidos nas mesmas embalagens primárias e secundárias em que são importados, não lhes devendo ser aplicável, por conseguinte, o PRL60. A inconformidade da Impugnante pela desclassificação do método PRL20 para PRL60 é manifestada para os 19 produtos listados a seguir, entre eles o GLIVEC (GLIVE FCT), cujo método inicial seria o PIC: N ão seria necessári o, segundo Fl. 3506DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.507 14 a Impugnante, experiência farmacêutica para se concluir que se trata de medicamentos importados acabados, prontos para o uso (ainda que dependentes de acondicionamento para fins de comercialização). Para todos os itens da tabela, entende a Impugnante que deveria ser aplicado o método do PRL20 em vez do PRL60. (d) Ilegalidade das disposições da IN 243/02 para apuração do PRL60 As disposições da IN 243/02 acerca do cálculo do preço parâmetro pelo PRL60 excedem os limites previstos na Lei 9.430/96, sendo, por conseguinte, ilegais. Segundo a Impugnante, o modo legalmente correto de se apurar o PRL60 se daria com a seguinte fórmula: A fórmula correta, acima exposta, é deduzida do art. 18, II, d, 1, da Lei 9.430/96, com uma pequena correção no texto: suprimese a preposição “d” na seguinte passagem: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção;” Mas não seria necessária a correção da preposição, pois se poderia chegar ao mesmo entendimento por meio de esforço interpretativo não significativo, como diz a Impugnante: Apesar de se convir como conveniente a exclusão da letra “d” para se considerar a plenitude gramatical do citado dispositivo, há de se considerar que, mesmo sem a exclusão, o esforço interpretativo para se chegar a fórmula acima citada não é significativo, tendo sido até mesmo este o posicionamento da Receita Federal, conforme disposto no art. 12 da IN 32/01 – anterior a Instrução Normativa n° 243/02. O art. 12 da IN 32/01, ao invés de excluir a letra “d”, optou por inserir preposições para cada um dos elementos que deveriam ser deduzidos do Preço de Venda, produzindo o mesmo resultado prático propugnado acima. Confirase: Fl. 3507DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.508 15 “Art. 12 (...) § 11. Na hipótese do parágrafo anterior, o preço a ser utilizado como parâmetro de comparação será a diferença entre o preço líquido de venda e a margem de lucro de sessenta por cento, considerandose, para este fim: I preço líquido de venda, a média aritmética dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; II margem de lucro, o resultado da aplicação do percentual de sessenta por cento sobre a média aritmética dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas, das comissões e corretagens pagas e do valor agregado ao bem produzido no País.” Sucede que, após um ano e poucos meses da edição da IN 32/01 a Receita Federal do Brasil editou a IN 243/02, que revogou a anterior e pretendeu alterar substancialmente os critérios de cálculo do PRL60, sem que tivesse havido qualquer alteração na matriz legal (alínea d, 1, do inciso II do art. 18 da Lei 9.430/96). Aponta ainda a Impugnante um efeito circular provocado pela regra contida na IN 243/02, na medida em que, se repetido para um mesmo produto, encontraria preços parâmetros sempre menores, tomando por base aqueles já encontrados pela primeira aplicação do método. A referida sistemática da IN 243/02 acabaria por tornar mais vantajoso, para as empresas multinacionais, alocar todas as etapas de produção de seus bens para unidades fabris localizadas fora do Brasil. A própria RFB, em Solução de Consulta, teria admitido expressamente que a IN 243/02 teria inovado no cálculo do Preço de Transferência, tornando explícita a ilegalidade do procedimento. As Medidas Provisórias 478/09 e 563/12 teriam reconhecido a necessidade de legalizar critérios de cálculo antes não previstos em lei, conforme se depreende pela exposição de motivos. Por fim, a própria Lei 12.715/2012 determinou que as alterações nos critérios de apuração do preço parâmetro pelo método PRL entrariam em vigor apenas em 01.01.2013, para respeitar o princípio da anterioridade tributária. Se houve necessidade de determinar a observância do princípio da anterioridade tributária, reconheceu o Poder Legislativo que de fato a introdução de tais critérios representaria majoração de tributos. (e) Fretes, Seguros e Imposto de Importação não se sujeitam a Preços de Transferência Ocorre que as despesas com frete, seguro e tributos aduaneiros, dentre eles o II, não estão sujeitas ao controle de preços de transferência. Isso porque os fornecedores de frete e seguro não são pessoas vinculadas à Impugnante, ou seja, são custos que não podem sofrer influência em função da posição comercial da Impugnante. Fl. 3508DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.509 16 Os valores de frete, seguro e tributos aduaneiros – entre os quais, o Imposto de Importação – não devem ser incluídos no cálculo dos preços praticados para fins de apuração dos ajustes no PRL. Com a Lei 12.715/12, o dispositivo passou a determinar que, para fins de cálculo do preço parâmetro pelo PRL, os valores de frete, seguro e tributos não devem ser integrar o custo (isto é, devem ser excluídos do custo para fins do cálculo). Mesmo a redação anterior prevendo que o frete, seguro e tributos não devem integrar o custo, tal interpretação não pode ser adotada, sob pena de considerar despesas como frete, seguro e Imposto de Importação como sujeitas a ajuste de preço de transferência. (f) Inaplicabilidade de juros de mora sobre a multa de ofício Não haveria que se falar que, de acordo com o art. 113, § 1o, do CTN, as multas de ofício também fariam parte da obrigação principal, uma vez que (i) referida norma trata das obrigações acessórias, ou seja, as decorrentes do não cumprimento de obrigações de fazer e (ii) já é unânime na doutrina e jurisprudência pátria que a penalidade pecuniária não se confunde com a obrigação principal, pois é decorrente de uma sanção pelo não pagamento do tributo (vide art. 3º do CTN). Analisando a impugnação apresentada, a turma julgadora de primeira instância julgoua parcialmente procedente, excluindo da base de cálculo dos autos de infração R$ 156.022,00 decorrentes de erro material na transposição dos valores apurados no TVF e R$ 1.298.420,78 decorrentes da retificação do cálculo do PRL20 para as operações Novartis, não havendo interposição de recurso de ofício em razão de o crédito tributário cancelado não alcançar o limite de alçada (tributo e multas) de R$ 2.500.000,00. O contribuinte foi intimado da decisão em 06 de junho de 2018 (fl. 2256), apresentando recurso voluntário de fls. 24942565 em 06 de julho de 2018 (fl. 2257). Em resumo: I. Nulidades dos autos de infração I.a. Teria havido erro na apuração do preço parâmetro do PRL20: sem qualquer fundamentação jurídica, a Fiscalização teria adotado um valor como média ponderada de operações de revenda (descontandose deste cálculo as devoluções de mercadoria) e um valor diferente de base para apuração da margem de 20% (sem descontar as devoluções). Aduz que o voto vencido da decisão recorrida deixa claro que sequer é possível identificar o porquê de tal divergência, pois não constam maiores detalhes sobre o tema no Termo de Verificação Fiscal, concluindo que não se trataria de erro de fato, e sim de erro de direito, o que levaria à impossibilidade de alteração do lançamento por parte das autoridades julgadoras. Argumenta ainda que o voto vencedor não se limitou a fazer um mero ajuste em erro material, mas sim inserindo um novo critério no lançamento (devolução das exclusões também para a base de cálculo da margem de 20%); I.b. Erro na apuração do preço parâmetro pelo PRL60: consideração das quantidades de produtos importados/estoque inicial como quantidades de produtos revendidos – desconsideração do estoque final. A Fiscalização, ainda que se apoiando em demonstrativos Fl. 3509DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.510 17 elaborados pela própria Recorrente, considerou que a quantidade de produtos importados no período, somada ao estoque inicial, deveria seria igual à quantidade de produto revendido, desconsiderando o estoque final de cada um dos produtos sujeitos à ajuste no método PRL60. Argumenta a Recorrente que se trata de erro de direito no lançamento, não podendo ser realizado qualquer ajuste, e que o fato de os demonstrativos terem sido por ela elaborados não possui o condão de transformar em legal o lançamento realizado em desacordo com a lei, sendo obrigação do Fisco, a teor do que dispõe o art. 142 do CTN, a verificação dos fatos e a realização do lançamento; I.c. Indevida desconsideração do método PIC pra o produto Glivec: segundo a Recorrente, a autoridade fiscal desconsiderou o método PRL20, apresentando os cálculos que entendia devido no método PRL60, e intimou o contribuinte a apresentar cálculo ou método alternativo no prazo de 30 dias. Aduz que, ao contrário do afirmado pela decisão de primeira instância, o contribuinte se manifestou, entre outras coisas, pela utilização do método PIC, apresentando os cálculos correspondentes (fls. 409412). Após essa manifestação, os autos de infração foram lavrados, tendo sido mantido o lançamento referente ao ajuste do produto Glivec com base no método PRL60 sob a justificativa de que o contribuinte não havia apresentado documentos comprobatórios para utilização do método PIC. Argumenta ainda que o art. 20A da Lei nº 9.430/96, introduzido pelo art. 51 da Lei nº 12.715/12, teria entrado em vigor na data de sua publicação, sendo obrigatória a intimação do contribuinte para apresentar cálculo sobre método alternativo na hipótese de a Fiscalização ter desconsiderado o método inicialmente escolhido pelo contribuinte, e que §2º, inciso III, do citado art. 20A da Lei 9.430/96, determina que a Fiscalização poderá adotar quaisquer dos métodos previstos na legislação de preços de transferência caso o contribuinte deixe de oferecer quaisquer elementos úteis à verificação dos cálculos para apuração do preço parâmetro, quando solicitados pela autoridade responsável pelo procedimento fiscal, sendo que não teria havido qualquer solicitação prévia de apresentação de outros elementos ou documentos além do próprio cálculo. Por essas razões, pugna pela nulidade do lançamento, ou, caso não acolhido seu pleito, que seja cancelada a exigência ao menos em relação ao ajuste do produto Glivec porquanto a Fiscalização deveria ter aceito o cálculo pelo método PIC, e, caso assim não se decida, que seja acatado o cálculo pelo método PIC com base naqueles apresentados pela Fiscalização e nos documentos acostados ao recurso voluntário que comprovariam que o preço parâmetro determinado pelo método PIC é menor do que o preço médio praticado nas importações do produto Glivec, ou seja, seja cancelada a exigência por não haver que se falar em ajuste em relação a tal produto; I.d. Erro na apuração do preço parâmetro do PRL20: exclusão indevida do valor de ICMS no cálculo do preço parâmetro de produtos isentos nos termos do Convênio 87/2002. Aduz que diversas vendas foram realizadas para órgãos da Administração Pública Direta, fazendo jus à isenção de ICMS prevista pelo Convênio ICMS 87, ou seja, não poderia ter sido deduzido ICMS sobre os valores dessas vendas para fins de determinação do preço parâmetro. Essa informação teria sido por ela fornecida à Fiscalização antes da lavratura do auto de infração, mas a autoridade fiscal entendeu que não houve comprovação das operações realizadas sob essa égide. A Recorrente argumenta que a Fiscalização tinha acesso ao Sped e poderia ter feito essa verificação. Argumenta ainda que anexou à impugnação demonstrativo com todas as vendas realizadas para órgãos públicos e as respectivas notas fiscais, mas a DRJ entendeu que tais informações não seriam suficientes, havendo necessidade de uma nova memória de cálculo incluindo a identificação dos destinatários das vendas e subtotalizando os valores por item, entre outras exigências. Aduz que embora discordasse de tal entendimento, elaborou nova planilha e anexou ao presente recurso com a abertura do recálculo do preço Fl. 3510DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.511 18 parâmetro sem a indevida inclusão do ICMS nos casos abrangidos pelo Convênio 87/02 cujas informações são corroboradas pelas notas fiscais já juntadas aos autos (fls. 7732110). Por fim requer a nulidade da exigência, e, em caso contrário, que ao menos seja realizado o recálculo dos preços parâmetros para fins de apuração dos ajustes com base no PRL20 para excluir os montantes de ICMS que não correspondem ao imposto que efetivamente incidiu sobre as operações de revenda; I.e. Erro na apuração do preço parâmetro quanto ao Glivec: dedução de contribuições que não incidiram efetivamente sobre as operações de revenda. Argumenta que a Fiscalização se equivocou ao deduzir valores de PIS e Cofins para determinação do preço parâmetro pelo método PRL60 que efetivamente não incidiram nas operações listadas na denominada “Lista Positiva” do Ministério da Saúde (Anexo do Decreto 3.803/01). Explica que nesse regime especial são concedidos créditos presumidos equivalentes aos valores de PIS e COFINS apurados nas vendas dos medicamentos da Lista Positiva por importadores e estabelecimentos industriais. Com esse mecanismo, argumenta que há uma anulação da incidência de PIS e Cofins na operação, sendo que as autoridades reguladores desconsideram o valor dessas contribuições para o fim de determinar os preços máximos de comercialização dos medicamentos da Lista Positiva. Requer, assim, a anulação dos autos de infração, ou, se não acatado seu pedido, que ao menos seja recalculado o preço parâmetro a partir da exclusão do PIS e Cofins não incidentes nas citadas operações; II. Insubsistências dos motivos para desqualificar a aplicação do método PRL20. Alega que o produto importado “Foraseq” citado pela Fiscalização para demonstrar a agregação de valor, no Brasil, seria o que passa pelo processo de acondicionamento mais complexo. Para diversos outros produtos os procedimentos adotados seriam mais simples, tais como mera aposição de selo de controle em embalagem já pronta ou acondicionamento em embalagem secundária de produto já importado em embalagem primeira (por exemplo, cartela ou blister). Cita que nos casos dos produtos Ritalina e Exjade, a única atividade após a importação seria a rotulagem das embalagens de transporte (que sequer configuraria industrialização, nos termos do art. 4º, IV, do Decreto nº 7212/2010). Acrescenta que mesmo as fotos obtidas pela Fiscalização evidenciam que os produtos ali ilustrados já são importados com a marca, o nome comercial do medicamento e demais informações requeridas pela ANVISA para comercialização no País. Aduz que não é possível associar produção a qualquer atividade que agregue valor ao bem importado, até porque a atividade de revenda também agrega valor a bens importados (tanto que o preço da mercadoria no ponto de varejo é maior do que o a mercadoria antes do desembarque no porto). II.a. Critério legal para determinação da aplicação do PRL20 e do PRL60: aduz que a Lei nº 9.430/96, ao introduzir o método PRL60 condicionou à aplicação dos produtos importados na produção, e que nos produtos importados em que houve a desqualificação do PRL20, o percentual de participação do bem importado para fins de determinação do preço parâmetro seria muito alto, beirando, em geral, os 100%, concluindo que o valor agregado a tais produtos após a importação seria mínimo, compatível com atividades de revenda. Aduz ainda que produção tem significado próximo ao de industrialização, mas, especialmente em se tratando de legislação tributária federal, os dois termos não podem ser confundidos. Argumenta que para a palavra produção impõe a utilização do insumo em um processo produtivo no qual serão utilizados outros produtos que, em conjunto com o primeiro, passarão por um processo de trabalho redundando em um novo produto, e que, portanto, produção seria um gênero da industrialização, se aproximando do conceito de transformação (inciso I do art. 4º do Decreto Fl. 3511DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.512 19 7.212/10), e não se confundindo com as atividades de acondicionamento ou reacondicionamento (inciso IV do art. 4º do Decreto 7.212/10); II.b. Inocorrência de aplicação à produção dos produtos para os quais o PRL20 foi desqualificado: aduz que os medicamentos importados já contêm a marca Novartis, são os mesmos produtos revendidos no Brasil, prontos para uso, sendo que alguns já chegariam ao Brasil, inclusive, com o nome comercial, a identificação do princípio ativo, a dosagem contida na embalagem, o número do lote e a data de vencimento; II.b. Ilegalidade das disposições da IN 243/02 para apuração do PRL60: questiona a legalidade da referida instrução normativa no que diz respeito à proporcionalização do valor dos insumos importados em relação ao preço praticado e a inclusão frete, seguro e tributos no preço parâmetro; III.c. Inaplicabilidade de juros de mora sobre a multa de ofício. Em 14 de dezembro de 2018 o contribuinte apresentou petição e documentos (fls. 25713493) anexando cópia apostilada das faturas de vendas do produto Glivec para terceiros não relacionados ao grupo Novartis e cópia da tradução juramentada dessas faturas, argumentando que tal documentação deu suporte para o cálculo do preço parâmetro pelo método PIC (no recurso voluntário foram apresentadas cópias da faturas de vendas do produto Glivec acompanhada da respectiva tradução juramentada fls. 22602304 , bem como cálculo do preço parâmetro pelo método PIC para o mesmo produto com base nessas faturas fl. 2490). É o relatório. Fl. 3512DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.513 20 Voto Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Relator. O recurso voluntário, além de tempestivo, preenche os demais pressupostos para sua admissibilidade. Dele, portanto, conheço. A exigência diz respeito a autos de infração de IRPJ e de CSLL decorrentes de ajustes de preço de transferência. Além da discussão sobre a correição do cálculo elaborado pela fiscalização na utilização do método PRL20, houve ainda, para outros produtos, a desclassificação dos métodos originalmente utilizados pelo contribuinte e a adoção, de ofício, do método PRL60. A Recorrente aponta uma série de supostos equívocos da autoridade fiscal que redundariam na nulidade do lançamento. Ocorre que, se superadas essas arguições, há pontos que, a meu ver, demandariam a realização de diligência para que o julgamento pudesse ser realizado a contento. Particularmente, em situações como essas, entendo que as preliminares não devem ser analisadas antes da realização da diligência, uma vez que o § 5º do art. 63 do Anexo II do RICARF determina que aso de resolução ou anulação de decisão de 1ª (primeira) instância, as questões preliminares, prejudiciais ou mesmo de mérito já examinadas serão reapreciadas quando do julgamento do recurso, por ocasião do novo julgamento. Não faria sentido, por exemplo, a rejeição das arguições de nulidade quando da conversão do julgamento em diligência, para, no retorno dos autos, reiniciarse a discussão e o debate sobre essas mesmas preliminares. Com efeito, a meu sentir, a melhor leitura que se deve fazer desse dispositivo é que, nos casos em que o relator, em seu voto, rejeitar as preliminares e avança no mérito do julgamento, mas, em sessão, o colegiado entende ser o caso de conversão do julgamento em diligência, faz sentido o julgamento das preliminares arguidas em recurso, mas, em caso diverso, quando o relator já expõe seu convencimento de que há necessidade de diligência, tornase despiciendo o julgamento das preliminares, sob pena de se permitir que o mesmo tema seja rediscutido e julgado em diversas ocasiões. Pois bem, passo discorrer sobre os pontos que entendo que devam ser alvo de diligência. Erro na apuração do preço parâmetro pelo PRL60 Conforme relatado, a Fiscalização, apoiada em demonstrativos elaborados pelo contribuinte, acabou não levando em consideração o estoque final de produtos em que foram utilizados os insumos importados, ou seja, considerou que a quantidade de produtos importados no período, somada ao estoque inicial, deveria seria igual à quantidade de produto revendido. Fl. 3513DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.514 21 A fim de que, ao final do exame do presente recurso, possam ser estabelecidos os valores exatos que redundariam a partir da exclusão dos estoques finais dos produtos revendidos (com insumos sujeitos ao ajuste do PRL60), permitindo, inclusive, que o contribuinte possa analisar e contraditar os cálculos elaborados pela Fiscalização, entendo que o julgamento deva ser convertido em diligência a fim de que a unidade de origem recalcule os preços parâmetros objeto do presente lançamento, replicando esse novo preço praticado para fins do preço parâmetro1, e os respectivos valores de ajustes a título de preço de transferência, excluindose o saldo do estoque final dos produtos em que houve utilização dos insumos importados e sujeitos ao ajuste do PRL60, apresentando, ao final, eventual novo cálculo do ajuste pelo método do PRL60, inclusive aqueles que por ventura devam ser exonerados na presente exigência. Indevida desconsideração do método PIC pra o produto Glivec Alega a Recorrente que a autoridade fiscal desconsiderou o método PRL20, apresentando os cálculos que entendia devido no método PRL60, e intimou o contribuinte a apresentar cálculo ou método alternativo no prazo de 30 dias. Aduz que, ao contrário do afirmado pela decisão de primeira instância, o contribuinte se manifestou, entre outras coisas, pela utilização do método PIC, apresentando os cálculos correspondentes (fls. 409412). Após essa manifestação, os autos de infração teriam sido foram lavrados utilizandose o método PRL60 para o ajuste do produto Glivec sob a justificativa de que o contribuinte não havia apresentado documentos comprobatórios para utilização do método PIC. Argumenta ainda a Recorrente que o art. 20A da Lei nº 9.430/96, introduzido pelo art. 51 da Lei nº 12.715/12, teria entrado em vigor na data de sua publicação, sendo obrigatória a intimação do contribuinte para apresentar cálculo sobre método alternativo na hipótese de a Fiscalização ter desconsiderado o método inicialmente escolhido pelo contribuinte, e que §2º, inciso III, do citado art. 20A da Lei 9.430/96, o qual determina que a Fiscalização poderá adotar quaisquer dos métodos previstos na legislação de preços de transferência caso o contribuinte deixe de oferecer quaisquer elementos úteis à verificação dos cálculos para apuração do preço parâmetro, quando solicitados pela autoridade responsável pelo procedimento fiscal, sendo que não teria havido qualquer solicitação prévia de apresentação de outros elementos ou documentos além do próprio cálculo. Por essas razões, pugna pela nulidade do lançamento, ou, caso não acolhido seu pleito, que seja cancelada a exigência ao menos em relação ao ajuste do produto Glivec porquanto a Fiscalização deveria ter aceito o cálculo pelo método PIC, e, caso assim não se decida, que seja acatado o cálculo pelo método PIC com base nos cálculos apresentados pela Fiscalização e nos documentos acostados ao recurso voluntário que comprovariam que o preço parâmetro determinado pelo método PIC é menor do que o preço médio praticado nas importações do produto Glivec, ou seja, seja cancelada a exigência por não haver que se falar em ajuste em relação a tal produto. 1 O § 4º do art. 12 da IN SRF 243/2002 determina que no cálculo do PRL (60 ou 20) sejam consideradas operações de revenda realizadas no período de apuração, verbis: Art. 12. [...] § 4º Para efeito desse método, a média aritmética ponderada do preço será determinada computandose as operações de revenda praticadas desde a data da aquisição até a data do encerramento do período de apuração. Fl. 3514DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.515 22 Em relação a esse ponto, assim dispõe o art. 20A da Lei nº 9.430, de 1996, com a redação dada pelo art. 51 da Lei nº 12.715, de 2013: Art. 51. A Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. 20A e 20B: "Art. 20A. A partir do anocalendário de 2012, a opção por um dos métodos previstos nos arts. 18 e 19 será efetuada para o ano calendário e não poderá ser alterada pelo contribuinte uma vez iniciado o procedimento fiscal, salvo quando, em seu curso, o método ou algum de seus critérios de cálculo venha a ser desqualificado pela fiscalização, situação esta em que deverá ser intimado o sujeito passivo para, no prazo de 30 (trinta) dias, apresentar novo cálculo de acordo com qualquer outro método previsto na legislação. § 1o A fiscalização deverá motivar o ato caso desqualifique o método eleito pela pessoa jurídica. § 2o A autoridade fiscal responsável pela verificação poderá determinar o preço parâmetro, com base nos documentos de que dispuser, e aplicar um dos métodos previstos nos arts. 18 e 19, quando o sujeito passivo, após decorrido o prazo de que trata o caput: I não apresentar os documentos que deem suporte à determinação do preço praticado nem às respectivas memórias de cálculo para apuração do preço parâmetro, segundo o método escolhido; II apresentar documentos imprestáveis ou insuficientes para demonstrar a correção do cálculo do preço parâmetro pelo método escolhido; ou III deixar de oferecer quaisquer elementos úteis à verificação dos cálculos para apuração do preço parâmetro, pelo método escolhido, quando solicitados pela autoridade fiscal. § 3o A Secretaria da Receita Federal do Brasil do Ministério da Fazenda definirá o prazo e a forma de opção de que trata o caput." [...] Art. 78. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação, produzindo efeitos: I em relação aos arts. 15 a 23, a partir de sua regulamentação, até 31 de dezembro de 2015; e II em relação aos arts. 40 a 44 e 62, a partir de sua regulamentação. § 1o Os arts. 48 e 50 entram em vigor em 1o de janeiro de 2013. § 2o Os arts. 53 a 56 entram em vigor no 1o (primeiro) dia do 4o (quarto) mês subsequente à data de publicação da Medida Provisória no 563, de 3 de abril de 2012, produzindo efeitos a partir de sua regulamentação, à exceção: Fl. 3515DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.516 23 I da nova redação dada ao § 15 e ao novo § 23 do art. 8o da Lei no 10.865, de 30 de abril de 2004, que entram em vigor na data de publicação desta Lei; II do disposto no inciso III do caput do art. 7o e no § 3o do art. 8o da Lei no 12.546, de 14 de dezembro de 2011, que entra em vigor em 1o de janeiro de 2013; [...] Pois bem, nesse ponto, entendo assistir razão à Recorrente: o art. 20A da Lei nº 9.430/1996, introduzido pelo art. 51 da Lei nº 12.715/2012, passou a viger de imediato, sem a vacatio legis determinada aos arts. 48 a 50 do mesmo diploma legal (o § 1º do art. 78 determina que os arts. 48 a 50 somente produziriam efeito a partir de 1º de janeiro de 2013). Vejase que a própria autoridade fiscal autuante intimou o contribuinte ao desclassificar o método por ele eleito originalmente para o ajuste de diversos insumos (PRL20), concedeu o prazo de 30 dias para que o contribuinte se manifestasse sobre os cálculos ou apresentasse o cálculo por outro método alternativo, ou seja, aplicando o disposto no art. 51 da Lei nº 12.715/2012 ainda no decorrer do próprio ano de sua edição. Por oportuno, reproduzse excerto do Termo de Constatação Fiscal nº 2 (fls. 383398): À fl. 387 dos autos (último linha da planilha do denominado Anexo 1), consta o ajuste segundo o método e cálculo elaborado pela autoridade fiscal (PRL60) em decorrência da desclassificação do método PRL20. Em 13/11/2017 o contribuinte foi cientificado do Termo de Constatação Fiscal nº 2, apresentando no prazo previsto no art. 20A da Lei nº 9.430/96 resposta de fls. 409412, incluindo em seu item III o cálculo alternativo de ajuste para o Glivec pelo método PIC (arquivo não paginável, conforme termo de anexação de fl. 457), segundo o qual não haveria ajuste de preço de transferência em relação a esse produto. Nesse ponto, incorreta a decisão de primeira instância ao afirmar que o contribuinte não houvera se manifestado a esse respeito. Pois bem, segundo consta à fl. 489 página 19 do Termo de Verificação Fiscal, a Recorrente não teria apresentado a documentação por ela utilizada como suporte para determinação do preço praticado, e haveria ainda ausência de documentos de importação ou Fl. 3516DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.517 24 aquisição, e de prova da não vinculação dos envolvidos na negociação, entre outros elementos necessários. Ocorre que o contribuinte, em nenhum momento, foi intimado a apresentar essa documentação, mas tão somente cálculo ou método alternativo ao PRL60 ante à desconsideração do método originalmente adotado pelo contribuinte (PRL20). E, como bem abordado pela Recorrente em sua peça recursal, o § 2º do art. 20A da lei nº 9.430/96, determina que, após desconsideração do método inicialmente adotado pelo contribuinte, e transcorrido o prazo de 30 dias da intimação ao contribuinte para que pudesse escolher um novo método, a autoridade fiscal responsável pelo procedimento fiscal poderia determinar o preço parâmetro com os documentos que dispusesse no caso de o contribuinte, no prazo para cumprimento da intimação, não apresentasse os documentos que dariam suporte à determinação do preço praticado nem às respectivas memórias de cálculo para apuração do preço parâmetro, segundo o método escolhido, ou deixar de oferecer quaisquer elementos úteis à verificação dos cálculos para apuração do preço parâmetro, pelo método escolhido, mas somente quando solicitados pela autoridade fiscal. Compulsando os autos, resta evidente que a autoridade fiscal não solicitou ao contribuinte os documentos que deram suporte aos cálculos com base no método PIC, sendo somente oportunizada tal possibilidade após a lavratura dos autos de infração. Nesse cenário, entendo que os documentos acostados aos autos até o momento devam ser analisados pela autoridade fiscal designada a cumprir a presente diligência, a fim de que sejam aferidos os cálculos apresentados pela Recorrente com base no método PIC para o produto Glivec, salientando que outros documentos poderão ser solicitados pela autoridade fiscal durante o procedimento de diligência. Erro na apuração do preço parâmetro do PRL20 Para a Recorrente, a Fiscalização teria se equivocado ao excluir o valor de ICMS no cálculo do preço parâmetro de produtos isentos nos termos do Convênio 87/2002. Argumenta que diversas vendas foram realizadas para órgãos da Administração Pública Direta, fazendo jus à isenção de ICMS prevista pelo Convênio ICMS 87, ou seja, não poderia ter sido deduzido ICMS sobre os valores dessas vendas para fins de determinação do preço parâmetro. Essa informação teria sido por ela fornecida à Fiscalização antes da lavratura do auto de infração, mas a autoridade fiscal entendeu que não houve comprovação das operações realizadas sob essa égide. A Recorrente argumenta que a Fiscalização tinha acesso ao Sped e poderia ter feito essa verificação. Argumenta ainda que anexou à impugnação demonstrativo com todas as vendas realizadas para órgãos públicos e as respectivas notas fiscais, mas a DRJ entendeu que tais informações não seriam suficientes, havendo necessidade de uma nova memória de cálculo incluindo a identificação dos destinatários das vendas e subtotalizando os valores por item, entre outras exigências. Aduz que embora discordasse de tal entendimento, elaborou nova planilha e anexou ao presente recurso com a abertura do recálculo do preço parâmetro sem a indevida inclusão do ICMS nos casos abrangidos pelo Convênio 87/02 cujas informações são corroboradas pelas notas fiscais já juntadas aos autos (fls. 7732110). Fl. 3517DF CARF MF Processo nº 16561.720127/201780 Resolução nº 1301000.666 S1C3T1 Fl. 3.518 25 Nesse ponto, registro que discordo da Recorrente de sua conclusão no sentido de que a Fiscalização deveria ter, de ofício, acessado todas as notas fiscais, via Sped, a fim de verificar que não houve a incidência de ICMS nas operações em questão, uma vez que a prova compete a quem faz a alegação. Por outro lado, a Recorrente anexou ao seu recurso voluntário os arquivos não pagináveis denominados “Miacalcic_Preço Parametro.xlsx”, “Myfortic_Preço Parametro.xlsx” e “Certican_Preço Parametro.xlsx” como arquivos, com a abertura nota a nota do recálculo do preço parâmetro sem a indevida inclusão do ICMS nos casos abrangidos pelo Convênio 87/02, tal qual afirmado pela DRJ como informações necessárias ao deferimento do pleito da Recorrente. Ante a esse fato, entendo que deva ser realizada diligência pela autoridade fiscal a fim de verificar se os dados constantes nas planilhas estão em consonância com as notas fiscais já apresentadas (fls. 7732110), bem como se os cálculos elaborados pelo contribuinte estão corretos, apresentando, ao final, eventual novo cálculo do ajuste pelo método do PRL20, inclusive aqueles que por ventura devam ser exonerados na presente exigência. CONCLUSÃO Por essas razões, entendo que os autos não se encontram em condições de julgamento, devendo ser diligência a fim de que a autoridade fiscal designada: (i) dê ciência desta resolução à autuada, fornecendolhe cópia; (ii) elabore Relatório de Diligência2 abordando os pontos tratados neste voto. Para tanto, e havendo necessidade, a autoridade fiscal poderá intimar o contribuinte a apresentar documentos complementares e esclarecimentos adicionais antes de elaborar o relatório ora requerido. Poderá ainda a autoridade fiscal apresentar os esclarecimentos que julgar necessários à melhor análise de tais fatos. Ao final, o Recorrente deverá ser cientificado do resultado da diligência, abrindose prazo de 30 dias para que, querendo, manifestese sobre seu conteúdo (art. 35, parágrafo único, do Decreto nº 7.574/2011). (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto 2 Decreto nº 7.574, de 2011: Art. 36. [...] § 3o Determinada, de ofício ou a pedido do impugnante, diligência ou perícia, é vedado à autoridade incumbida de sua realização escusarse de cumprilas. Fl. 3518DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13007.000127/2003-61
Turma: Segunda Câmara
Seção: Segundo Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Thu May 07 00:00:00 UTC 2009
Ementa: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS - IPI
Período de apuração: 01/06/2003 a 07/06/2003
NORMAS PROCESSUAIS. DIREITO AO CRÉDITO DE IPI SOBRE INSUMOS DESONERADOS. OPÇÃO PELA VIA JUDICIAL. RENÚNCIA À DISCUSSÃO DA MESMA MATÉRIA NA VIA ADMINISTRATIVA.
A propositura de ação judicial, com o mesmo objeto do processo
administrativo, implica renúncia às instâncias administrativas ou desistência do recurso interposto (Súmula nº 1, do 2º CC).
DCOMP. DECISÃO JUDICIAL NÃO TRANSITADA EM JULGADO.
CRÉDITOS E DÉBITOS DE ESPÉCIES DIFERENTES. COMPENSAÇÃO
NÃO AUTORIZADA. INCIDÊNCIA DO ART. 170-A.
É indevida a compensação de crédito com base em decisão judicial que não reconheceu este direito, ainda mais quando esta decisão ainda nem transitou em julgado, o que fere, também, as disposições do art. 170-A do CTN.
DCTF E DCOMP. CONFISSÃO DE DIVIDA. DÉBITO COMPENSADO
INDEVIDAMENTE. MP 2.158-35/2001, ART. 90. DERROGAÇÃO
PARCIAL. LEI Nº 10.833/2003, ART. 18. LANÇAMENTO DE OFICIO.
DESNECESSIDADE.
A DCOMP apresentada antes de 31/10/2003, data da publicação da M2 nº 135/2003, que incluiu o § 6º no art. 74 da Lei n2 9.430/1996, não constitui confissão de divida.
A DCTF constitui confissão de divida da totalidade do débito declarado, independentemente de este estar ou não vinculado à compensação, seja ela certa ou indevida.
O lançamento de oficio dos débitos indevidamente compensados em DCTF só foi obrigatório na vigência do art. 90 da MP n2 2.158-35/2001, isto é, de 27/08/2001 a 30/10/2003. Com a derrogação parcial deste dispositivo, pelo art. 18 da Lei n2 10.833/2003, a cobrança destes débitos voltou a ser efetuada
com base nas DCTF.
Os débitos confessados em DCTF, mesmo na vigência do art. 90 da MP nº 2.158-35/2001, podem ser exigidos pelo Fisco, inclusive por meio de inscrição em dívida ativa e cobrança judicial. Precedentes do STJ.
CONSECTÁRIOS LEGAIS. MULTA DE MORA E JUROS DE MORA.
TAXA SELIC.
A multa de mora é devida quando presentes as condições de sua
exigibilidade. Art. 61 da Lei n 2 9.430/96.
É cabível a cobrança de juros de mora sobre os débitos para com a União decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil com base na taxa referencial do Sistema Especial de Liqüidação e Custódia - Selic para títulos federais (Súmula nº 3, do 2º CC).
Recurso negado.
Numero da decisão: 2101-000.130
Decisão: ACORDAM os membros da 1ª câmara / 1ª turma ordinária da segunda seção de julgamento, por maioria de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade. Vencidos os conselheiros Gustavo Kelly Alencar, Domingos de Sá Filho (Relator) e Maria Teresa Martínez López. No mérito, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso acerca da matéria em discussão concomitante com a apresentada ao Poder Judiciário. E, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. Designado o Conselheiro Antonio Zomer para redigir o voto vencedor
Matéria: IPI- processos NT - ressarc/restituição/bnf_fiscal(ex.:taxi)
Nome do relator: ANTONIO ZOMER
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MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS ' SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO • Processo n° 13007.000127/2003-61 Recurso n° 154.080 Voluntário Acórdão n° 2101-00.130 — 1' Câmara! 1 Turma Ordinária Sessão de 07 de maio de 2009 Matéria COMPENSAÇÃO DE IPI Recorrente BRASKEM S/A Recorrida DRJ-PORTO ALEGRE/RS ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS - IPI Período de apuração: 13/04/2003 a 19/04/2003 NORMAS PROCESSUAIS. DIREITO AO CRÉDITO DE IPI SOBRE INSUMOS DESONERADOS. OPÇÃO PELA VIA JUDICIAL. RENÚNCIA À DISCUSSÃO DA MESMA MATÉRIA NA VIA ADMINISTRATIVA. A propositura de ação judicial, com o mesmo objeto do processo administrativo, implica renúncia às instâncias administrativas ou desistência do recurso interposto (Súmula n2 1, do r CC). DCOMP. DECISÃO JUDICIAL NÃO TRANSITADA EM JULGADO. CRÉDITOS E DÉBITOS DE ESPÉCIES DIFERENTES. COMPENSAÇÃO NÃO AUTORIZADA. INCIDÊNCIA DO ART. 170-A. É indevida a compensação de crédito com base em decisão judicial que não reconheceu este direito, ainda mais quando esta decisão ainda nem transitou em julgado, o que fere, também, as disposições do art. 170-A do CTN. DCTF E DCOMP. CONFISSÃO DE DÍVIDA. DÉBITO COMPENSADO INDEVIDAMENTE. MP 2.158-35/2001, ART. 90. DERROGAÇÃO PARCIAL. LEI N2 10.833/2003, ART. 18. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. DESNECESSIDADE. A DCOMP apresentada antes de 31/10/2003, data da publicação da MP n2 .- 135/2003, que incluiu o § 62 no art. 74 da Lei n2 9.430/1996, não constitui confissão de dívida. A DCTF constitui confissão de dívida da totalidade do débito declarado, independentemente de este estar ou não vinculado à compensação, seja ela certa ou indevida. O lançamento de oficio dos débitos indevidamente compensados em DCTF só foi obrigatório na vigência do art. 90 da MP n 2 2.158-35/2001, isto é, de 27/08/2001 a 30/10/2003. Com a derrogação parcial deste dispositivo, pelo o Processo e 13007.000127/2003-61 52-CIT1.. Acórdão n.° 2101-00.130 FI.918 art. 18 da Lei n2 10.833/2003, a cobrança destes débitos voltou a ser efetuada com base nas DCTF. Os débitos confessados em DCTF, mesmo na vigência do art. 90 da MP n2 2.158-35/2001, podem ser exigidos pelo Fisco, inclusive por meio de inscrição em dívida ativa e cobrança judicial. Precedentes do STJ. CONSECTÁRIOS LEGAIS. MULTA DE MORA E JUROS DE MORA. TAXA SELIC. A multa de mora é devida quando presentes as condições de sua exigibilidade. Art. 61 da Lei n2 9.430/96. É cabível a cobrança de juros de mora sobre os débitos para com a União decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil com base na taxa referencial do Sistema Especial de Liqüidação e Custódia - Selic para títulos federais (Súmula n2 3, do 22 CC). Recurso negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros da P câmara 1 1 turma ordinária do segunda seção de julgamento, por maioria de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade. Vencidos os conselheiros Gustavo Kelly Alencar, Domingos de Sá Filho (Relator) e Maria Teresa Mardnez López. No mérito, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso acerca da matéria em discussão concomitante com a apresentada ao Poder Judiciário. E, por unanimidade de votos, negar pro -* • s ento ao recurso. Design. 4 o o Conselheiro Antonio Zomer para redigir o voto vencedor. i -. "" \ ) CAI* MARCOS tik DIDO / P .... 4 • I • a b, C dirO rikilli 11 11P-- • 1 31 - 0 Nir OMER Relator-Designado Participaram, ainda, do presente julgamento, os Conselheiros Maria Cristina Roza da Costa, Antonio Carlos Atulim e Antônio Lisboa Cardoso. Relatório Trata-se de recurso voluntário interposto em face do Acórdão da DRJ em Porto Alegre/RS, que manteve o indeferimento e deixou de homologar a Declaração de Compensação apresentada em 24 de abril de 2003, para quitação de débito de IRRF incluído em DCTF, relativo ao período de apuração de 13/04/2003 a 19/04/2003, vencimento em 2 • Processo n° 13007.000127/2003-61 S2-CIT1 Acórdão n.° 2101-00.130 Fl. 919 24/04/2003, com credito de IPI decorrente de aquisição de matéria-prima isenta, não tributadas e tributadas com alíquota zero de IPI, utilizadas no processo produtivo, relativo ao período de apuração de 01/08/1999 a 31/08/1999, amparada em decisão judicial obtida por meio de Mandado de Segurança n2 2000.71.00.018617-3/RS, doc. fls.01/02. A compensação efetuada pela recorrente não foi homologada pela DRF em Porto Alegre — RS, por tratar-se de créditos vinculados decorrentes de decisão judicial que não transitou em julgado, vedação do art. 170-A da Lei n2 5.172/66 - Código Tributário Nacional (CTN). O fundamento para não homologação da compensação pela Autoridade Administrativa, é de que só teria sido reconhecido judicialmente o direito de creditamento do IPI para compensação com débitos do próprio IPI,ainda, assim, apenas em relação aos insumos adquiridos nos últimos dez anos, não tendo sido autorizada a compensação dos créditos de IPI com outros tributos sem obediência das normas que regem a matéria. A Recorrente na fase inicial pugnou pela atribuição de efeito suspensivo a manifestação de inconformidade pela aplicação da norma contida no art. 151 do CTN, sustentando que a norma processual aplicável é aquela vigente quando da apresentação impugnação, nos molde do parágrafo 11, do art. 74, da Lei 9.430, 1996, alterada pela Lei numero 10.833/03. Sustenta também que não se aplica ao caso o disposto no art. 170-A do CTN, pois essa norma só é aplicada nos casos das ações judiciais promovidas a partir de 10 de janeiro de 2001, data em que entrou em vigor o referido dispositivo, assim sendo, não alcança o provimento obtido no bojo do Mandado de Segurança impetrado. Também não se aplica a norma do art. 170-A do CTN, uma vez que não há no comando da sentença autorização nesse sentido. Defende que a sentença proferida no mandado de segurança assegurou o direito de compensar os créditos anteriores limitado aos últimos cinco anos à interposição da ação, decisão que foi modificada pelo Tribunal Regional Federal da 4a Região que estendeu para os últimos 10 (dez) anos, e não importou em exclusão de todo o período subseqüente. Demonstra irresignação em relação aplicação da multa isolada, multa de mora e juros de mora, salientando que o direito ao aproveitamento dos créditos decorrem de decisão judicial, não reformada e tampouco modificada por Instância superior, assim como, a multa isolada, que havendo sentença concessiva da segurança a constituição do crédito dar-se- ia com a exigibilidade suspensa, por essa razão é inaplicável as penalidades pecuniárias. Na fase recursal manteve seu posicionamento jurídico e fático sustentado em sua manifestação de inconformidade, em síntese e fundamentalmente alega que: interpretação equivocada da decisão judicial obtida em relação à compensação, que a decisão judicial obtida transitou em julgado, inaplicabilidade do art. 170 do CTN, multa de mora, juros mora e da multa isolada, por derradeiro requer a reforma total do acórdão, na medida que se mostra conflitante com decisão judicial que autorizou o • creditamento IPI em questão, consequentemente, homologação das compensações efetuadas. É o relatório. 3 Processo n° 13007.000127/2003-61 S2-CITI Acórdão n.° 2101-00.130 Fl. 920 Voto Vencido Conselheiro DOMINGOS DE SÁ FILHO, Relator Conheço do recurso por ser tempestivo e atender os demais pressupostos de admissibilidade. Trata-se de declaração de compensação para aproveitamento de crédito de IPI decorrente de aquisições insumos isentos, alíquota zero e não tributados apresentada pela empresa sucedida pela empresa Braskem S/A, efetivado com amparo em provimento judicial obtido em ação mandamental, conforme se vê dos autos. Antes de adentrar no mérito, cabe examinar de oficio se a DECOMP apresentada até 31 de outubro de 2003 pode ser considerada instrumento hábil a constituir o crédito tributário, assim como, se a DCTF, pelo simples ato de sua apresentação constituiria confissão de dívida. É certo que, os débitos declarados por meio da DECOMP, assim como da DCTF, ambas constitui instrumento hábil e confissão de dívida, suficiente para exigir os créditos tributários reconhecidos nestes documentos. No caso vertente, a primeira vista, os valores lançados na DCOMP configuraria confissão dívida, dispensando a intervenção do ato administrativo do fisco em apurar a irregularidade, quantificar o quantum devido e o sujeito passivo da obrigação. Entretanto, não se pode perder de vista que o sistema constitucional e o ordenamento jurídico vigente entre nós é de maior complexidade e, bem mais engenhoso do que a própria formulação da legislação aplicável ao caso específico. Portanto, impõe-se a necessidade de verificar a eficácia da legislação aplicável ao tempo da apresentação da referida declaração de compensação e se conferia a DECOMP legitimidade para ser considerada confissão de divida. Neste caso entendo, salvo melhor juízo, de que não se trata de matéria incidental, mas sim como o cerne da questão vinculada diretamente à exigência da dívida. Como se sabe, tanto os juízes togados, quantos os demais julgadores, entre estes encontram os administrativos, não podem aplicar a lei ao caso concreto sem antes observar se a norma -respeita os princípios e regras hauridos da Constituição, caso contrário estaria a por em risco toda estrutura jurídica construída a duras penas neste país. A Medida Provisória número 135, publicada em 31/10/2003, promoveu inovação na legislação vigente, com a introdução do parágrafo 60 ao art. 74 da Lei 9.430/96, a partir de quando a declaração de compensação passou a ser considerada confissão dívida. Neste contexto, é apropriado trazer à baila a orientação editada pela Coordenação Geral do Sistema de Tributação — COSIT, por meio de Solução de Consulta Interna número 3, que assim disciplina a aplicação da • - norma introduzida no sistema jurídico: 4 Processo rr 13007.000127/2003-61 S2-CITI Acórdão n.° 2101-00.130 Fl. 921 "6. A Declaração de Compensação (Dcomp) foi instituída pelo art. 49 da Ml' No 66, de 29 de agosto de 2002, convertida na Lei No 10.637, de 30 de dezembro de 2002. 7. Cotejando o texto da MP No 66, de 2002, com o da MP no 135, de 2003, verifica-se que a Dcomp, à época em que foi instituída, não tinha o caráter de confissão de dívida. Tal status só lhe foi conferido com a edição da MP número 135, de 2003, cujo art. 17, ao adicionar novo parágrafo 6' ao art. 74 da Lei número 9.430, de 27 de dezembro de 1996, atribuiu à declaração de compensação natureza de confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados. 8. Essa é a interpretação mais consentânea com o Direito, segundo a qual as leis, em princípio, produzem efeitos para o futuro. 9. Portanto, somente as declarações de compensação entregues à SRF a partir de 31/10/2003, data da publicação da Ml' no 135, de 2003, constituem-se confissão dívida e instrumento hábil e suficiente à exigência dos débitos indevidamente compensados." É de conhecimento geral, que a Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro, marco norteador do Direito Civil Brasileiro, regula por meio do art. 1°', que a lei começa a vigorar oficialmente após sua publicação. Assim, a publicação revela o modo pelo qual se dá conhecimento a todos da lei editada e marca a sua entrada no mundo jurídico. Neste passo se revela oportuno lembrar a lição de GOFFFtEDO TELLE JÚNIOR, para ele a norma positiva é, em suas palavras: "Uma norma social passa a ser considerada norma de garantia e, portanto, norma atributiva ou norma jurídica, no momento em que o governo do grupo a declare como tal. As normas de garantias ou normas jurídicas são vias essenciais ou úteis para a consecução dos objetivos que o grupo tem em mira. Ora, o governo compete, antes de mais nada, no desempenho de sua missão precípua, indicar essas vias, ou seja, declarar para o conhecimento de todos as normas jurídicas e, depois, assegurar pela força, o seu cumprimento." (Filosofia do Direito, São Paulo, Max Limond, V.2, p.468). Assim, publicidade é o atributo daquilo que, por qualquer motivo, deve ser - divulgado, a partir do qual passa gerar seus efeitos, de modo que, mesmo aqueles que não tenha interesse direto no fato tomem conhecimento a respeito, pela notoriedade e divulgação que dela se faz. Os princípios constitucionais e o ordenamento jurídico, não permite aplicação de uma legislação a fatos pretéritos, essa é a regra geral, pois se assim não fosse estaria em risco a segurança jurídica. Neste caso está sob exame a aplicação da lei tributária a fatos anterior ao seu evento. Portanto, impõe saber se aplica a lei atual ou por tratar-se de situação jurídica definitiva estava ao abrigo da lei anterior. Se concluirmos que aplica-se a lei tributária vigente e não Processo tr 13007.000127/2003-61 S2-CIT1 Acórdão n.° 2101-00.130 Fl. 922 aquela que vigia ao tempo da apresentação da declaração de compensação, estamos diante do princípio da irretroatividade. Os princípios devem ser observados de modo intenso, tanto no campo tributário, assim como é em relação as questões penais por acarretar violação aos direitos fimdamentais do indivíduo, é o caso da privação da liberdade. A aplicação de lei a fato anterior ao seu evento se revela retroativa e fere princípio basilar, assim sendo, não pode ser ignorado pelo julgador, independentemente de manifestação dos interessados, devendo ser conhecido de oficio. Em relação a irretroatividade no campo tributário, o legislador infraconstitucional tratou do assunto por meio do artigo 105 da Código Tributário Nacional, vedando a sua aplicação, não cabe aqui discussão em relação aos fatos pendentes, pois o direito brasileiro não contempla-os, só considera fato gerador ocorrido ou não ocorrido. Assim sendo, a aplicação da legislação tributária tem de observar o princípio da irretroatividade estampado no art. 150, III, "a" da Carta da República de 1988. Os casos excepcionais de aplicação desse instituto são àqueles mencionados no artigo 106 do CTN, que não implicam propriamente em retroação, entre esses encontram as leis meramente interpretativa, que dizem respeito à aplicação de lei mais benigna ao contribuinte, que deixa de considerar certos atos como infração e/ou comine pena mais branda. Portanto, em obediência ao princípio constitucional da irretroatividade das leis, bem como ao ordenamento jurídico infraconstitucional vigente, que vedam aplicação retroativa das leis, impõe-se reconhecer no caso destes autos que os débitos declarados por meio de Dcomp antes de 31 de outubro de 2003 não configura confissão dívida, assim sendo, deixa de ser neste caso documento hábil a permitir que a Fazenda exija a obrigação sem antes constituir o crédito tributário por meio de lançamento. Deste modo a Declaração de Compensação — Decomp - apresentada até 31 de outubro de 2003, não configura confissão de dívida, por essa razão, impõe a Autoridade Fiscal diligenciar no sentido de apurar a irregularidade e constituir o crédito por meio de lançamento e, se for o caso inscrever em divida ativa. Assim sendo, por tratar-se de matéria prejudicial ao mérito, conheço de oficio e declaro inexistente o débito incluído em DCOMP efetivado pelo contribuinte até 31.10.2003, em razão de que este documento ao tempo dos fatos estava despido de legalidade para constituir o crédito tributário, por essa razão deixou de ser instrumento hábil para exigir o pagamento do devedor por meio de carta de cobrança. Em relação a DCTF é sabido que trata-se de documento que representa cumprimento de obrigação acessória, apresentada comunicando a existência do crédito tributário, importa em lançamento fiscal. Também é certo que o simples fato da entrega da DCTF, afasta a decadência relativamente à dívida, em razão da confissão, a partir daí possível efetuar a inscrição em dívida ativa com suporte exclusivo na referida declaração. Entretanto, há peculiaridade que deve ser observada, no caso deste feito, a DCTF apresentada foi confeccionada com o objetivo de declarar o crédito tributário e ao mesmo tempo compensar por meio de crédito fiscal apu . do na contabilidade, cujo saldo resultante deste encontro de contas é igual a zero. 6 Processo n• 13007.00012712003-61 S2-CITI Acórdão n.° 2101-00.130 Fl. 923 Assim, em que pese a DCTF ter por objeto a constituição do crédito tributário, depende de operação aritmética para tomar certo e líquido o quantum devido, pois este mesmo documento depende da inserção de dados necessários cujo resultado aritmético revela se a existência de crédito a favor da Fazenda ou não. Se a declaração é por excelência ato voluntário do contribuinte, e este simultaneamente aponta um débito e um crédito, resultando em saldo zero, forçoso convir de que tal procedimento administrativo, cujo objetivo é determinar o fato gerador, a matéria tributável, o quantum do tributo e a sua legitimidade passiva, implica dizer que não há crédito a favor da Fazenda. A inexistência de saldo a favor da Fazenda é uma peculiaridade capaz de afastar o entendimento de que o simples fato da entrega da DCTF configura confissão de dívida e o próprio lançamento, suficiente para desprezar a intervenção da Administração no sentido de constituir o crédito tributário. O Superior Tribunal de Justiça - STJ examinando situação idêntica a desse caderno, reconheceu que há peculiaridade capaz de afastar o entendimento em relação ao crédito tributário declarado por meio de DCTF, é o que se extraí do voto aqui transcrito: "TRIBUTÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. PIS E FINCOSL4L. CRÉDITO DECLARADO EM DCTF OBJETO DE COMPENSAÇÃO PELO CONTRIBUINTE. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. INOCORRÊNCIA. (.) 1- A jurisprudência desta colenda Corte afirma que, uma vez reconhecido o crédito tributário, por meio de DCTF, tal ato equivale ao próprio lançamento, tornando-se imediatamente exigível o débito não pago [...]. 2 — Todavia, verifico que há peculiaridade a afastar tal entendimento, in casu, consubstanciada no fato de que o crédito declarado em DCTF foi objeto de compensação pelo contribuinte, devidamente informada ao Fisco, conforme atestado pelo acórdão de fls, de maneira que cabe, em conseqüência à Fazenda verificar a regularidade da conduta, por meio do devido procedimento administrativo-fiscaL Assim, somente em concluindo pela ilegitimidade da compensação, após o referido procedimento, é que será possível a constituição do crédito tributário respectivo. Precedentes: AgRg no REsp 327.626/RS, Rel. Min. FRANCIULLI NE77'0, DJ de 19/12/05; AgRg no REsp n° 64 I .448/RS, Rd Min. JOSÉ DELGADO, DJ de 01/02/05 e REsp n° 328.727/PR, Rei Min. FRANCISCO PEÇANHA MARTINS, D. 1 de 30/08/04. (AgRg no RESP 801.0691R5, Min. Francisco Falcão, la Turma. DJU 26.06.2006) TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. PIS. COMPENSAÇÃO. DCTF. INSCRIÇÃO EM DIVIDA ATIVA. IMPOSSIBILIDADE. 1 — Comunicado pelo contribuinte, na Declaração de Contribuições e Tributos Federais (DCTF) que o valor do débito foi quitado por meio de utilização de mecanismo compensatório, 7 Processo e 13007.000127/2003-61 S2-CITI Acórdão n.° 2101-00.130 Fl. 924 não há porque se falar em confissão de divida suficiente a inscrição em dívida ativa. (RESP 419.476/RS, Min. João Otávio Noronha, 2a Turma, DJU 02.08.2006)". Portanto, não se discute que a DCTF possui efeito de lançamento, mas é imperioso, para tanto, que esteja presente todos elementos imprescindíveis, não é o caso nestes autos, pois aqui constata-se a ausência do quantum devido do tributo, pois o valor do débito foi quitado por meio da compensação , portanto, não se pode falar em lançamento perfeito e acabado. A inexistência de saldo residual que configuraria o débito, não abre espaço para o entendimento de que neste caso, o crédito tributário seria o total do débito informado. Também, inexiste justificativa de que deva prevalecer o débito em decorrência do contribuinte não ter logrado êxito em relação ao pedido de compensação. O entendimento oposto, ao meu ver, colocaria-nos diante de crédito inconsistente carregado de ilegitimidade substancial ou formal, que certamente pereceria quando submetido ao crivo do Poder Judiciário. Por tratar-se da eficácia ao ato de lançamento, impõe mencionar os ensinamentos da professora LÚCIA VALLE FIGUEIREDO, que assim ensina: "... é imperioso concluir-se, ao lado de Misabel Derzi, Alberto Xavier, Luciano Amaro, que não se pode inscrever a dívida com apenas a declaração do contribuinte, que pode ser de longo tempo, ter-se desatualizado... Ora, 5e esse ato dá eficácia ao ato de lancamento. apresenta-se como ato de controle de legalidade. E os atos de controle de legalidade nada podem acrescentar ao ato anterior ( por isso a necessidade imperiosa de haver ato anterior), mas apenas lhe atribuir eficácia. (.„) Por tais razões. entendo que haveria cerceamento de defesa na hipótese de ser ter inscrito o crédito sem a realizacão do ato anterior como necessário e natural antecedente. É dizer, haveria violacão do devido processo legal." (Lúcia Valle Figueiredo, A Inscrição da Dívida como Ato de Controle do Lançamento, em Revista Dialética de Direito Tributário n. 36, 1998, p. 83 —). O saldo apresentado na DCTF, sendo igual a zero não configura confissão de divida. Assim, reconheço que a DCTF, neste caso, por ausência de saldo devedor em decorrência de que o débito declarado foi objeto de compensação, está despida da condição de confissão de divida, o que impõe a constituição do crédito tributário por meio de lançamento. Ultrapassado essas questões, passo examinar o mérito: As pretensões submetidas à apreciação do Judiciário se referem ao direito de repetir os pagamentos decorrentes da falta de cômputo dos valores de aquisição dos insumos isentos, não-tributados, ou tributados com alíquota zero do IPI, nos últimos 10 (dez) anos e das aquisições futuras. • Processo n°13007.000127/2003-61 S2-CITI Ao5rdão n.° 2101-00.130 Fl. 925 O pleito foi concedido parcialmente no que tange ao direito de repetir em relação aos últimos dez anos, restringindo aos cinco últimos anos, o que foi modificado pelo julgamento do Tribunal Federal Regional, provendo o recurso para assegurar o direito a contribuinte de aproveitar os dez últimos anos. Não há dúvida de que decisão judicial assegurou o direito aos créditos de IPI nas aquisições de produtos isentos, não tributados e alíquotas zero, tanto em relação aos últimos 10 (dez) anos, bem como os créditos futuros. A matéria submetida à apreciação na esfera administrativa tange ao direito de créditos de IPI decorrentes de futuras aquisições e a restrição de compensação autorizada por decisão judicial antes do transito em julgado contido no art. 170-A do CTN. Assim sendo, não vislumbro a existência de concomitância entre a esfera administrativa e judicial.Portanto, não é o caso da aplicação da Súmula número 1, de 26.09.2007, deste Conselho de Contribuintes. A controvérsia surge em relação à interpretação da parte final da sentença quanto ao aproveitamento dos créditos de IPI referentes as aquisições futuras. O entendimento da Autoridade Administrativa funda-se no fato de não constar da decisão um comando expresso reconhecendo o direito de aproveitamentos dos créditos futuros. Com toda vênia, entendo ser desnecessário constar no comando sentencial à totalidade dos pedidos formulados. Como se sabe, o Juiz julga procedente (parte ou totalidade) ou improcedente os pedidos, não se julga a ação, bastando, para tanto, que o Julgador mencione àqueles que são negados e os acolhidos parcialmente. O pleito foi acolhido in totum, apenas limitando o aproveitamento do crédito aás cinco últimos anos à interposição do mandado de segurança, esse é o meu entendimento. No que tange a vedação de compensação de créditos autorizados por medida judicial antes do trânsito em julgado, por vedação do artigo 170-A do CTN, não se aplica ao caso deste caderno processual administrativo, pois trata de provimento judicial concedido antes da vigência do referido diploma legal. Como se sabe, as sentenças judiciais monocráticas, não transitadas em julgadas, são passiveis de ser modificadas ou anuladas mediante recursos específicos, entretanto, não podem ser cassadas por força de lei editada posteriormente, se assim não fosse, estaria em risco o princípio da segurança jurídica. Não vislumbro como óbice no caso vertente a restrição do art. 170-A do CTN, portanto, afasto aplicação deste dispositivo, assim como reconheço que a sentença assegurou o direito do crédito IPI das aquisições Muras, beneficio este estendido aos dez anos anteriores à interposição do Mandado de Segurança. A Súmula n. 212 do STJ, assegura o direito de compensação desde que o deferimento tenha ocorrido por meio de sentença, e não por meio de medida liminar, o que restou vedado pela a aludida súmula é compensação fundada em liminar. Além do que, no caso deste caderno processual, o crédito objeto de compensação é de 1999, portanto, anterior ao evento do art. 170-A, introduzido no C \, 9 Processo n°13007.000127/2003-61 S2-CIT1 Acórdão n.• 2101-00.130 Fl. 926 ordenamento jurídico pela Lei Complementar número 118/2002. Sendo certo que a compensação tributária, nos termos da jurisprudência do STJ, rege-se pela lei vigente ao tempo do nascimento do crédito aproveitado e não por aquela vigente quando do efetivo encontro de contas. Nesse passo é conferir a lição de LEO KRAKOWIAK: "Com efeito, muito embora a jurisprudência de nossos Tribunais tenha oscilado quanto à determinação de qual a legislação aplicável em se tratando de compensação, se aquela em vigor quando do pagamento indevido ou aquela em vigor no momento da compensação, pacificou-se afinal adotando aquela primeira linha de raciocínio, com se verifica do recente acórdão unânime da Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, verbis" I. As limitações das Leis números 9.037/95 e 9.129/95 só incidem a partir da data de sua vigência. 2. Os recolhimentos indevidos efetuados até a data da publicação das leis em referência não sofrem limitações. 3. Embargos de divergência rejeitados "(Embargos de Divergência em Resp. n. 164.739-SP, Rel. Min. Eliana Calmon, I° Seção, DJ, 1, 12.02.01). Deste modo, pacificado no ámbito do Superior Tribunal de Justiça que a compensação de tributos pagos indevidamente se rege pela legislação em vigor à época de cada pagamento, dúvida não há de que o mesmo entendimento deve ser aplicado também à vedação trazida pelo art. 170.A do CTN" (A Compensação e a Correta Aplicação do art. 170-A do CIN, Revista Dialética de Direito Tributário., vol. 68,pág. 82)." Assim sendo, por se tratar de sentença prolatada antes do evento do art. 170- A do CTN, conserva a sua eficácia plena. No caso dos autos a recorrente tem assegurado o direito de compensar os créditos de IPI de aquisições anteriores à impetração do mandado de segurança, bem como os futuros incidentes sobre as aquisições de produtos não tributados, alíquota zero e isento. A legislação vigente permite a compensação de crédito de IPI com outros débitos tributários, entretanto, neste caso restou limitado pela sentença, que fixou parâmetro para que o contribuinte pudesse se beneficiar do crédito oriundo das aquisições de matéria primas isentas, não tributadas, ou tributadas com alíquota zero de IPI, que deve ser utilizado para compensar com débitos oriundos da venda dos produtos industrializados, como se vê da parte final do decisão: "concedo parcialmente a segurança requerida, para o efeito de reconhecer às impetrantes o direito de aproveitar os valores de aquisição de matéria primas isentas, não tributadas, ou tributadas com alíquota zero de 1P1 como abatimento do valor de venda dos produtos que elaboram, para apuracão do referido tributo...". No caso vertente a compensação de crédito tributário deu-se com débito de tributo distinto, portanto, além dos limites traçado no comando sentenciai. 10 Processo e 13007.000127/2003-61 S2-CITI Acórdão o.' 2101-00.130 Fl. 927 Por essa razão sou inclinado a negar provimento ao apelo da recorrente em relação ao aproveitamento de crédito de IPI para compensar débitos tributários de natureza distinta daquela que restou autorizada. Dos consectários legais: multa de mora e juros Selic A cobrança de multa de mora e juros de mora encontra amparo legal no art. 61 da Lei n2 9.430/96, que assim estabelece, verbis: "Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1° de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. 30 Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3 0 do art. 5°, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento." Sabe-se que a multa de mora não depende da análise de elemento subjetivo para ser aplicada, ou seja, não importa se o atraso ou falta de pagamento ocorreu por culpa ou por força maior. Havendo o vencimento do débito sem que haja o pagamento, incide a multa moratória. A legalidade da cobrança de juros de mora com base na taxa Selic é matéria pacificada no âmbito deste Segundo Conselho de Contribuintes, assim como também é o entendimento de que ao julgador administrativo não compete apreciar a inconstitucionalidade de disposição legal. Estas matérias foram, inclusive, sumuladas pelo Segundo Conselho de Contribuintes, sendo bastante, para rebater as alegações da recorrente, a transcrição do enunciado das Súmulas n2s 2 e 3, que têm o seguinte teor: "Súmula n2 2 - O Segundo Conselho de Contribuintes não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de legislação tributária." n "Súmula n2 3 - É cabível a cobrança de juros de mora sobre os débitos para com a União decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil com base na taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia — Selic para títulos federais." De modo que, a Recorrente não obtendo êxito na demanda judicial, está sujeita a aplicação da norma contida no art. 61 da Lei n. 9.430/96. Multa Isolada no caso de Compensação Não Homologada. 11 Processo n° 13007.000127/2003-61 S2-CITI Acórdão n.° 2101-00.130 Fl. 928 Em relação aplicação da multa isolada, em que pese ter sido objeto do recurso, não é o caso dos autos, por tratar-se de indeferimento de compensação de crédito. A penalidade é aplicada quando o sujeito passivo efetua compensação ao arrepio da legislação e essas deixam de ser homologadas pela Autoridade Administrativa, por expressa disposição legal. No caso destes autos não há pena aplicada com arrimo no art. 18 da Lei 10.833, de 2003. De modo que, as sustentações de que não há base legal para imposição de multa em decorrência modificação no referido dispositivo legal por meio da Medida Provisória numero 2.158-35, de 24 de agosto de 2001, são desnecessárias pelo fato de inexistir aplicação de penalidade. Mesmo assim, consoante se vê da leitura do dispositivo mencionado, com a nova redação, o Legislador Ordinário restringiu à sua aplicação a prática das infrações previstas nos arts. 71 a 73 da Lei número 4.502, de 30 de novembro de 1964. Portanto, aplicação da norma contida no art. 18 da Lei 10.833/2003, alcança aqueles que praticarem conduta típica passível punição de acordo com o Direito Penal. Configura conduta típica a pratica de fraude, conluio e sonegação com intuito de causar dano a Fazenda Pública. Entretanto, no caso vertente, trata de direito declarado judicialmente aos créditos oriundos de materiais que não incidiram IPI na etapa anterior, que a Recorrente compensou com débito fiscais, créditos tributários administrado pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, nos moldes do art. 74 da Lei número 9.430/96. Em relação a constituição do crédito tributário, é direito da União Federal, mesmo tratando de tributo com exigibilidade suspensa com intuito de prevenir a decadência. Como se sabe a discussão judicial não inibe, por si só, a atividade fiscal, portanto, o mero ajuizamento de ação para a discussão de uma obrigação tributária não constitui em óbice para o sujeito ativo do tributo de fiscalizar o cumprimento da lei, verificando a ocorrência do fato gerador. No entanto, para que reste inibida a atividade fiscal em relação exigência tributária, faz-se necessário que o contribuinte esteja protegido por decisão judicial, essa por seu turno suspende a exigibilidade. Assim sendo, não há que se falar em mora. Tanto é verdade que há previsão ,1 legal contida no art. 63 da Lei n. 9.430/96, dispõe que o contribuinte incorrerá em mora 30 dias após eventual decisão que modifique a decisão que albergou a suspensão da exigibilidade. Extrai-se do dispositivo mencionado: "Art. 63 — Na constituição de crédito tributário destinada a prevenir a decadência, relativo a tributo de competência da União, cuja exigibilidade houver sido suspensa na forma dos incisos IV e V do art. 151 da Lei n. 5.172, de 25 de outubro de 1966, não caberá lançamento de multa de oficio". 12 Processo n° 13007.000127/2003-61 S2-CITI Acórdão o.° 2101-00.130 Fl. 929 Constata-se no caso presente que todo o procedimento de compensação tem amparo em medida judicial, o que por si só afasta a presunção de conduta ilícita ou dolosa da recorrente. Diante do exposto, conheço do recurso e dou provimento parcial para afastar a qualidade de confissão de dívida e de instrumento hábil para exigir o pagamento de débito informado DCOMP apresentada pelo contribuinte até 31.10.2003, em razão de que este documento ao tempo dos fatos estava despido de legalidade para constituir o crédito tributário e exigir o pagamento por meio de carta de cobrança. Também reconheço que a DCTF, neste caso, por ausência de s Ido devedor, uma vez que o débito declarado foi objeto de compensação, está despid. da condição de confissão de dívida, impondo a constituição do crédito tributário por meio • e lançamento, ri • a compensação em razão de ter sido .da co • - bito d- contribuição e e stos de natureza : •stinta. É COM* voo. Sala das Se .ões, em 07 de ma e de 2009. • DOMINGO DE SÁ FILHO Voto Vencedor Conselheiro ANTONIO ZOMER, Designado Cuido neste voto da parte em que o relator originário foi vencido, ou seja, da preliminar de nulidade da cobrança dos débitos cuja compensação não foi homologada, por falta de lançamento. A ora recorrente, BRASKEM S/A, desde 31/03/2003, é sucessora por incorporação, da OPP QUÍMICA S/A, que é a impetrante do mandado de segurança OPP POLIETILENOS S/A sob nova denominação, a qual, antes de ser incorporada, assumira como sucessora a outra impetrante - a OPP PETROQUIMICA S/A. Alega a recorrente que os débitos compensados não podem ser cobrados por falta de lançamento de oficio, uma vez que a DCOMP tratada neste processo não constitui confissão de dívida, porque apresentada antes da vigência da Ml' n° 135/2003, depois convertida na Lei n2 10.833/2003.Alega, também, que a confissão de divida não se operou nas DCTF, nas quais não foi declarado qualquer valor a titulo de saldo a pagar. Embora estas alegações só tenham sido levantadas após a apresentação do recurso voluntário, entendo que as mesmas devem ser admitidas e apreciadas pelo Colegiado, por se tratar de questões de ordem pública. Com efeito, se admitidas as teses da contribuinte, o crédito tributário, mesmo que indevidamente compensado, só poderá ser cobrado por meio de 3. 13 Processo rr 13007.000127/2003-61 S2-CITI Acórdão n.° 2101-00.130 Fl. 930 auto de infração, restando indevida a expedição das cartas de cobrança impugnadas pela empresa, tanto na manifestação de inconformidade como no recurso voluntário. Passando à análise destas questões, anota-se, primeiramente, que as declarações de compensação — Dcomp constituem confissão de divida, apta a permitir a cobrança dos débitos indevidamente compensados, conforme disposto nos §§ 62 a 82 do art. 74 da Lei n2 9.430/96, verbis: "56° A declaração de compensação constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados. ss 7. Não homologada a compensação, a autoridade administrativa deverá cientificar o sujeito passivo e intimá-lo a efetuar, no prazo de 30 (trinta) dias, contado da ciência do ato que não a homologou, o pagamento dos débitos indevidamente compensados. § 8° Não efetuado o pagamento no prazo previsto no § 7°, o débito será encaminhado à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional para inscrição em Divida Ativa da União, ressalvado o disposto no § 9°." No entanto, como esses parágrafos só foram inseridos no art. 74 da Lei n2 9.430/96 pela Medida Provisória n2 135, que foi editada em 30 de outubro de 2003, as suas disposições só se aplicam a partir da publicação desta norma, que se deu em 31/10/2003. Isto porque, sendo a "confissão de divida" um gravame que a lei nova imputou às Declarações de Compensação, esse atributo não alcança os fatos passados, pois os arts. 105 e 106 do Código Tributário Nacional — CTN (Lei n2 5.172/66), que regulamentam a aplicação da lei tributária no tempo, proíbem esta retroação. Desta forma, o crédito tributário em discussão não pode ser exigido com fundamento na declaração de compensação, pois ela não constituiu a confissão de dívida dos débitos indevidamente compensados, já que apresentada em 31/03/2003, antes do surgimento do § 62 do art. 74 da Lei n2 9.430/96, supratranscrito. No que se refere às DCTF, não há dúvida de que os débitos objeto da compensação não-homologada foram informados neste tipo de declaração. Também não há dúvida, aliás, não é motivo de discussão, o fato de que estas declarações constituem confissão de divida. O motivo da discussão está no valor alcançado pela confissão: se é a totalidade do débito declarado ou apenas o saldo a pagar, depois da dedução dos valores pagos e/ou compensados pela contribuinte. Antes de adentrar na análise desta questão, é preciso esclarecer que ao preencher a Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais — DCTF, a contribuinte é obrigada a informar, além do débito apurado em cada fato gerador, como efetuou ou está efetuando a sua quitação. Assim, ao referido débito são vinculados créditos, que podem advir de pagamento por DARF, de compensação de pagamento indevido ou a maior feito em período anterior, de outras compensações, autorizadas judicialmente ou não, de pedido de parcelamento, ou de suspensão da exigibilidade por outros motivos. 14 Processo e 13007.000127/2003-61 S2-CIT1 i Acórdão n.• 2101-00.130 Fl. 931 Só depois de deduzidos todos os créditos vinculados é que se informa o saldo a pagar, que se espera seja sempre zero, pois o prazo de entrega tempestiva da DCTF ocorre após o encerramento do prazo de quitação dos tributos nela declarados, e o contribuinte deve recolher os seus tributos na data de vencimento prescrita por lei. Se não o fizer, informa o por quê do seu procedimento na DCTF, preenchendo as linhas correspondentes aos tipos de créditos vinculados citados no parágrafo anterior. Entende a recorrente que a confissão de divida realizada em DCTF alcança somente o valor declarado como saldo a pagar, o que tomaria totalmente inócua as disposições do art. 52 e §§ 1 2 e 22 do Decreto-Lei n2 2.124, dei 3/06/1984, verbis: "Art. 50 O Ministro da Fazenda poderá eliminar ou instituir obrigações acessórias relativas a tributos federais administrados pela Secretaria da Receita FederaL § I° O documento que formalizar o cumprimento de obrigação acessória, comunicando a existência de crédito tributário, constituirá confissão de divida e instrumento hábil e suficiente para a exigência do referido crédito. § 2° Não pago no prazo estabelecido pela legislação, o crédito. corrigido monetariamente e acrescido da muita de vinte por cento e dos juros de mora devidos, poderá ser imediatamente inscrito em dívida ativa, para efeito de cobrança executiva, observado o disposto no § 2° do artigo 7° do Decreto-lei n° 2.065, de 26 de outubro de 1983." Parece que não há necessidade de grande exercício interpretativo para deduzir que o objetivo do legislador foi eliminar a necessidade de lançamento do crédito tributário declarado pelo contribuinte. E crédito tributário é o total do débito apurado e não o saldo a pagar, advindo de um acertamento da divida informado pelo contribuinte, para evitar futuras cobranças indevidas por parte do Fisco. Ademais, o saldo a pagar é o resultado de uma simples conta de somar, cujas parcelas são o débito declarado e o total dos créditos vinculados (utilizados para a sua quitação). Se um dos créditos vinculados for glosado, por indevido ou não confirmado, o resultado da conta será alterado, repercutindo num valor maior do saldo a pagar. Assim, ,..;er quando o Fisco glosa um valor compensado pelo contribuinte, nada mais faz do que aumentar o valor do saldo a pagar em igual montante. Mas esta correção do saldo a pagar só interessa para se identificar a parcela remanescente do débito confessado pelo contribuinte, que deve ser objeto de cobrança administrativa e até judicial, se for o caso. A Secretaria da Receita Federal do Brasil sempre entendeu que a confissão alcança todo o débito declarado, conforme se infere da leitura atenta do art. 1 2 e parágrafo único da Instrução Normativa n2 77, de 24/07/1998, na redação que lhe foi dada pela Instrução Normativa n2 14, de 14/02/2000, verbis: - "Art. I° Os saldos a pagar, relativos a tributos e contribuições, constantes da declaração de rendimentos das pessoas físicas e da declaração do ITR, quando não quitados nos prazos estabelecidos na legislação, e da DCTF, serão comunicados à Procuradoria da Fazenda Nacional para fins de inscrição como Dívida Ativa da União. i . 15 Processo n° 13007.000127/2003-61 S2-CIT1 • Acórdão n.• 2101-00.130 Fl. 932 Parágrafo único. Na hipótese de indeferimento de pedido de compensação, efetuado segundo o disposto nos arts. 12 e 15 da Instrução Normativa SRF res 11, de 10 de março de 1997, alterada pela Instrução Normativa SRF n" 73, de 15 de setembro de 1997, os débitos decorrentes da compensação indevida na DCTF serão comunicados à Procuradoria da Fazenda Nacional para fins de inscrição como Divida Ativa da União, trinta dias após a ciência da decisão definitiva na esfera administrativa que manteve o indeferimento." Veja-se que a instrução normativa não fala, em momento algum, que a confissão alcança apenas o saldo a pagar. O que se diz é que o saldo a pagar é, em princípio (caput do artigo), o que deve ser cobrado pelo Fisco. A norma do Fisco não trata de confissão de dívida mas de cobrança dos débitos declarados em DCTF, sem a necessidade de lançamento de oficio, inclusive no tocante à parte do débito indevidamente compensado, quando se deve ajustar o saldo a pagar declarado (parágrafo primeiro). O caput do art. 1 2 da IN SRF n2 77/98 determina a cobrança imediata do saldo a pagar, pois contra esta exigência não há contraditório: o contribuinte declara e o Fisco aceita. Se declarou errado o saldo a pagar, o contribuinte pode retificar a DCTF mas nunca impugnar o valor espontaneamente declarado. O parágrafo único, a seu turno, trata da cobrança da parcela do débito decorrente de compensação indevida, determinando que o encaminhamento à Procuradoria da Fazenda Nacional, para inscrição em divida ativa deste débito, seja feito somente após decorridos trinta dias da ciência da decisão definitiva que manteve o indeferimento. Assim, a Receita Federal, antes de efetuar a cobrança dos débitos indevidamente compensados, garante o exercício da ampla defesa ao contribuinte, só remetendo o débito para inscrição em dívida ativa trinta dias após a ciência da decisão definitiva que manteve o indeferimento da compensação na via administrativa. Não é diferente o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça — STJ, que, em reiteradas ocasiões, tem decidido que a declaração do débito em DCTF dispensa a necessidade de lançamento de oficio e permite a cobrança, tanto administrativa como judicial dos débitos declarados. Eis duas de suas decisões mais recentes acerca da matéria, sendo recorrente a Fazenda Nacional: 1) RECURSO ESPECIAL N° 999.020 - PR (2007/0248760-5). RELATOR: MINISTRO CASTRO MEIRA. DJe de 21/05/2008. Ementa: "TRIBUTÁRIO. DECLARAÇÃO DE CONTRIBUIÇÕES DE TRIBUTOS FEDERAIS - DCTF. COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. CRÉDITO NÃO CONS7ITUIDO DEVIDAMENTE. CERTIDÃO DE REGULARIDADE FISCAL. I. É pacifico na jurisprudência desta Corte que a declaração do tributo por meio de DCTF, ou documento equivalente, dispensa o Fisco de proceder à constituição formal do crédito tributário. 2. Não obstante, tendo o contribuinte declarado o tributo via DCTF e realizado a compensação nesse mesmo documento, 16 Processo n° 13007.000127/2003-61 S2-CITI Acórdão ri.° 2101-00.130 Fl. 933 também é pacífico que o Fisco não pode simplesmente desconsiderar o procedimento adotado pelo contribuinte e, sem qualquer notificação de indeferimento da compensação, proceder à inscrição do débito em dívida ativa com posterior ajuizamento da execução fiscal. 3. Inexiste crédito tributário devidamente constituído enquanto não finalizado o necessário procedimento administrativo que possibilite ao contribuinte exercer a mais ampla defesa, sendo vedado ao Fisco recusar o fornecimento de certidão de regularidadejiscal se outros créditos não existirem. 4.Recurso especial não provido." 2) RECURSO ESPECIAL N° 842.444 - PR (2006/0087836-5). Relator: MINISTRA ELIANA CALMON. DJe 07/10/2008. Ementa: "TRIBUTÁRIO - COMPENSAÇÃO - DECLARAÇÃO NÃO RECUSADA FORMALMENTE - INEXISTÉNCIA DE DÉBITO - CERTIDÃO NEGATIVA OU POSITIVA COM EFEITO DE NEGATIVA - CONCESSÃO - POSSIBILIDADE - PRECEDENTES DAS TURMAS DE DIREITO PÚBLICO. 1. Com relação à possibilidade de expedição de certidão negafiva ou positiva com efeito de negativa de débitoS tributários em regime de compensação afiguram-se possíveis as seguintes situações: a) declarada, via documento específico (DCTF, GIA, GFIP e congêneres), a dívida tributária, prescindível o lançamento formal porque já constituído o crédito, sendo inviável a expedição de certidão negativa ou positiva com efeitos daquela; b) declarada a compensação por intermédio de instrumento especifico, até que lhe seja negada a homologação, inexiste débito (condição resolutória), sendo devida a certidão negativa; c) negada a compensação, mas pendente de apreciação na esfera administrativa (fase processual anterior à inscrição em dívida ativa), existe débito, mas em estado latente, inexigível, razão pela qual é devida a certidão positiva com efeito de negativa, após a vigência da Lei 10.833/03; d) inscritos em dívida ativa os créditos indevidamente compensados, nega-se a certidão negativa ou positiva com efeitos de negativa. 2. Hipótese dos autos prevista na letra "b", na medida em que a declaração do contribuinte não foi recusada, nem este cientificado formalmente da recusa, de modo que inexiste débito tributário a autorizar a negativa da expedição da certidão negativa de débitos, nos termos do art. 205 do CIN. 3. Recurso especial não provido." 17 Processo n0 13007.000127/2003-61 52-C1T1r Acórdão rt.° 2101-00.130 Fl. 934 • . Em ambos os casos, a Fazenda Nacional reclamou, no recurso especial, que as decisões recorridas, prolatadas pelo TRF da 4' Região, ofendera ao art. 5 0, § 1°, do Decreto- lei n2 2.124/84, que prescreve que a declaração do contribuinte constitui o crédito tributário, tornando dispensável a formação do processo administrativo de acertamento da dívida tributária. O TRF entendera que sem o lançamento de oficio o contribuinte não teria garantido o direito de defesa contra a glosa da compensação, como demonstra a ementa da decisão relativa ao segundo caso acima referido: "CERTIDÃO NEGATIVA DE DÉBITOS. DCTF. COMPENSAÇÃO. PROCEDIMENTO ADMINL StRATIVO. LANÇAMENTO. I. A compensação tributária, declarada em DCTF, acarreta a extinção do crédito tributário, sob condição resolutó ria de ulterior homologação, na forma dos arts. 156, inc. II, do Código Tributário Nacional e 74, if 2°, da Lei 9.430/96. 2. Na hipótese de discordância quanto à compensação levada a efeito pelo contribuinte, cumpre ao Fisco instaurar o competente procedimento administrativo tendente à apuração de eventuais irregularidades. Inexistindo nos autos notícia acerca do mencionado procedimento, mostra-se ilegítima a recusa do Fisco no fornecimento de CND em favor da impetrante. 3.Apelação e remessa oficial improvidas." Ao contrário do TRF4, o STJ concluiu que a declaração em DCTF constitui a confissão de dívida do débito integral e, caso haja glosa de compensação indicada neste instrumento, há que se garantir ao contribuinte o contraditório em todas as fases de defesa administrativa, sem o que o débito cuja compensação não havia sido admitida não estaria definitivamente constituído. No caso da recorrente, foi-lhe garantido o direito à ampla defesa por meio da apresentação da manifestação de inconformidade contra a glosa da compensação, a qual foi apreciada pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento. Contra a decisão da DRJ foi-lhe garantido o direito ao recurso voluntário ora em julgamento. Assim, é certo que ao final da discussão administrativa, o débito em questão estará definitivamente constituído e o Fisco e a Fazenda Nacional estarão aptas a efetuar a sua cobrança, tanto administrativa quanto judicialmente. Outro ponto da defesa, levantado pela recorrente, funda-se no art. 90 dà--ie--- Medida Provisória n2 2.158-35/2001, que teria obrigado o Fisco a efetuar o lançamento em situações como a presente, nos seguintes termos: "Art. 90. Serão objeto de lançamento de oficio as diferenças apuradas, em declaração prestada pelo sujeito passivo, decorrentes de pagamento, parcelamento, compensação ou suspensão da exigibilidade, indevidos ou não comprovados, relativamente aos tributos e às contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal." ON- 18 Processo n• 13007.000127/2003-61 S2-CI TI• Acórdão o.° 2101-00.130 A. 935 Este regramento, no entanto, prevaleceu somente até a edição da MP n 2 135, de 30/10/2003, convertida na Lei n2 10.833, de 29/12/2003, em cujo art. 18 assim se dispôs, verbis: "Art 18. O lançamento de oficio de que trata o art. 90 da Medida Provisória n°2.158-35. de 24 de agosto de 2001, limitar-se-á à imposição de multa isolada sobre as diferenças apuradas decorrentes de compensação indevida e aplicar-se-á unicamente nas hipóteses de o crédito ou o débito não ser passível de compensação por expressa disposição legal, de o crédito ser de natureza não tributária, ou em que ficar caracterizada a prática das infrações previstas nos arts. 71 a 73 da Lei n° 4.502, de 30 de novembro de 1964. § 12 Nas hipóteses de que trata o caput, aplica-se ao débito indevidamente compensado o disposto nos §§ 62 a 11 do art. 74 da Lei no 9.430, de 1996. .1 § 22 A multa isolada a que se refere o caput é a prevista nos incisos 1 e II ou no § 2° do art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996, conforme o caso. 14 " O art. 18 supratranscrito restringiu o lançamento previsto no art. 90 às raras hipóteses nele elencadas, e ainda assim, apenas da multa isolada. O art. 18 da Lei n2 10.833/2003 foi alterado por dispositivos legais supervenientes, porém, na essência, manteve- se a previsão de lançamento, unicamente, da multa isolada. Durante o curto espaço de tempo em que o art. 90 teve eficácia total, isto é, ainda não havia sido derrogado parcialmente, o Fisco efetuou vários lançamentos de oficio de débitos indevidamente compensados em DCTF ou Dcomp. Estes lançamentos, se efetuados até 30/10/2003, não devem ser cancelados, pois tinham amparo legal para ser efetuados. No entanto, a sua existência não desfaz a confissão dos débitos feita nas DCTF. Porém, havendo lançamento de oficio, o Fisco deve efetuar a cobrança dos débitos com base nestp instrumento e não nas DCTF. A partir de 31/10/2003, com a edição do art. 18 da MP n2 135/2003, depois convertida na Lei n2 10.83312003, o lançamento, mesmo no caso de declarações apresentadas antes dessa data, não mais poderia ser efetuado, por falta de amparo legal. IfrO art. 18 da Lei n2 10.833/2003 veio registrar em lei o entendimento de que o débito declarado em DCTF prescinde de lançamento para a sua cobrança. A mesma lei, no seu -. art. 17, ao inserir os §§ 9 a 11 no art. 74 da Lei n2 9.430/96, também registrou o entendimento já existente, de que se deveria garantir ao contribuinte o direito ao contraditório e à ampla defesa, nos casos em que a compensação não fosse admitida pelo Fisco. Eis o teor destes dispositivos legais, verbis: "§ 92 É facultado ao sujeito passivo, no prazo referido no § 72, apresentar manifestação de inconformidade contra a não- homologação da compensação. (Incluído pela Lei n° 10.833, de 29.12.2003) L-Iii 19 Processo n°13007.000127/2003-61 S2-CITI e Acórdão n.° 2101-00.130 Fl. 936 §. 10. Da decisão que julgar improcedente a manilistação de inconformidade caberá recurso ao Conselho de Contribuintes. (Incluído pela Lei n°10.833. de 29.12.2003) § 11. A manifestação de inconformidade e o recurso de que tratam os §§ 92 e 10 obedecerão ao rito processual do Decreto na 70.235, de 6 de março de 1972, e enquadram-se no disposto no inciso Hl do art. 151 da Lei re 5.172, de 25 de outubro de 1966 - Código Tributário Nacional, relativamente ao débito objeto da compensação. (Incluído pela Lei n° 10.833, de 29.12.2003)" De tudo o que se viu até aqui, há de se concluir que a DCTF nunca deixou de constituir a confissão de dívida da integralidade dos débitos declarados. No caso de glosa de compensação, no entanto, como vem decidindo o STJ e já previa a Receita Federal na Instrução Normativa n9 77/98, deve ser garantido ao contribuinte o direito ao contraditório e à ampla defesa administrativa. Por fim, observa-se que o procedimento de fiscalização está disciplinado em leis processuais. Como parte indissociável deste procedimento, o lançamento previsto no art. 142 do CTN está regulado pelos arts. 9° a 11 do Decreto n° 70.235/72, que é uma lei processual. Sendo assim, ao procedimento de lançamento aplica-se a lei posterior que tiver instituído novos critérios de apuração ou processos de fiscalização, a teor do que dispõe do § 1° do art. 144 do CTN, verbis: " Art. 144. O lançamento reporta-se à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e rege-se pela lei então vigente, ainda que posteriormente modificada ou revogada. § 1" Aplica-se ao lançamento a legislação que, posteriormente à ocorrência do fato gerador da obrigação, tenha instituído novos critérios de apuração ou processos de fiscalização, ampliado os poderes de investigação das autoridades administrativas, ou outorgado ao crédito maiores garantias ou privilégios, exceto, neste último caso, para o efeito de atribuir responsabilidade , tributária a terceiros." (destaquei) Certamente, o art. 18 da Lei n° 10.833, de 2003, que dispensou a necessidade de lançamento, no caso de débitos declarados em DCTF, enquadra-se entre as normas citadas -neste dispositivo legal, sendo de aplicação obrigatória pela fiscalização. Desta forma, em situações como a presente, não há fundamento legal para a lavratura de auto de infração. Conseqüentemente, não há qualquer vício de nulidade nas cartas expedidas pela Delegacia da Receita Federal do Brasil, para a cobrança dos débitos cuja compensação não foi homologada. No entanto, a cobrança, seja ela administrativa ou judicial, só poderá ter seguimento quando a decisão administrativa que mantiver a não-homologação da compensação tornar-se definitiva, ou seja, quando se concretizar uma das condições estipuladas pelo art. 42 do Decreto n° 70.235/72. 20 Processo e 13007.00012712003-61 S2-CIT1 Acórdão n.°2101-00.130 P1937 Conclusão Ante todo o exposto, rejeito a preliminar de nulidade da cobrança dos débitos indevidamente compensados, posto que confessados em Der F. Sal. das Se- ses,emo7demaiode2009. '• n0 IMER 21 Page 1 _0104900.PDF Page 1 _0105000.PDF Page 1 _0105100.PDF Page 1 _0105200.PDF Page 1 _0105300.PDF Page 1 _0105400.PDF Page 1 _0105500.PDF Page 1 _0105600.PDF Page 1 _0105700.PDF Page 1 _0105800.PDF Page 1 _0105900.PDF Page 1 _0106000.PDF Page 1 _0106100.PDF Page 1 _0106200.PDF Page 1 _0106300.PDF Page 1 _0106400.PDF Page 1 _0106500.PDF Page 1 _0106600.PDF Page 1 _0106700.PDF Page 1 _0106800.PDF Page 1
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