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Numero do processo: 10880.678639/2009-37
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Sep 26 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2003
ESTIMATIVAS RECOLHIDAS NO EXERCÍCIO COMPÕEM O RESULTADO E O PRÓPRIO SALDO NEGATIVO. IMPOSSIBILIDADE DE COMPENSAÇÃO DAS ESTIMATIVAS. DIREITO A RESSARCIMENTO OU COMPENSAÇÃO DO SALDO NEGATIVO.
Do cotejo dos documentos apresentados no PER/DCOMP sob análise, não subsistia qualquer crédito ao recorrente na medida em que, ele confessou o débito recolhido a título de estimativa de CSLL devida no exercício, e quer compensar essa própria estimativa paga com débitos de outro exercício.
A DCTF retificadora que tenha por objeto alterar os débitos relativos a tributos e contribuições entregue após o início de qualquer procedimento fiscal, como no presente caso (a DCTF retificadora foi entregue em após a ciência do Despacho Decisório), não produz efeitos, nos termos do artigo 9º, § 2º, inciso II, da IN RFB nº 974/2009.
Assim é que, as estimativas recolhidas durante o exercício passaram a compor o saldo negativo apurado no mesmo exercício. Este sim, a que faria jus a Recorrente ao ressarcimento ou compensação.
Numero da decisão: 1401-002.818
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao Recurso Voluntário. Ausente momentaneamente a conselheira Lívia de Carli Germano.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga.
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2003 ESTIMATIVAS RECOLHIDAS NO EXERCÍCIO COMPÕEM O RESULTADO E O PRÓPRIO SALDO NEGATIVO. IMPOSSIBILIDADE DE COMPENSAÇÃO DAS ESTIMATIVAS. DIREITO A RESSARCIMENTO OU COMPENSAÇÃO DO SALDO NEGATIVO. Do cotejo dos documentos apresentados no PER/DCOMP sob análise, não subsistia qualquer crédito ao recorrente na medida em que, ele confessou o débito recolhido a título de estimativa de CSLL devida no exercício, e quer compensar essa própria estimativa paga com débitos de outro exercício. A DCTF retificadora que tenha por objeto alterar os débitos relativos a tributos e contribuições entregue após o início de qualquer procedimento fiscal, como no presente caso (a DCTF retificadora foi entregue em após a ciência do Despacho Decisório), não produz efeitos, nos termos do artigo 9º, § 2º, inciso II, da IN RFB nº 974/2009. Assim é que, as estimativas recolhidas durante o exercício passaram a compor o saldo negativo apurado no mesmo exercício. Este sim, a que faria jus a Recorrente ao ressarcimento ou compensação.
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IMPOSSIBILIDADE DE COMPENSAÇÃO DAS ESTIMATIVAS. DIREITO A RESSARCIMENTO OU COMPENSAÇÃO DO SALDO NEGATIVO. Do cotejo dos documentos apresentados no PER/DCOMP sob análise, não subsistia qualquer crédito ao recorrente na medida em que, ele confessou o débito recolhido a título de estimativa de CSLL devida no exercício, e quer compensar essa própria estimativa paga com débitos de outro exercício. A DCTF retificadora que tenha por objeto alterar os débitos relativos a tributos e contribuições entregue após o início de qualquer procedimento fiscal, como no presente caso (a DCTF retificadora foi entregue em após a ciência do Despacho Decisório), não produz efeitos, nos termos do artigo 9º, § 2º, inciso II, da IN RFB nº 974/2009. Assim é que, as estimativas recolhidas durante o exercício passaram a compor o saldo negativo apurado no mesmo exercício. Este sim, a que faria jus a Recorrente ao ressarcimento ou compensação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao Recurso Voluntário. Ausente momentaneamente a conselheira Lívia de Carli Germano. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente e Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 67 86 39 /2 00 9- 37 Fl. 175DF CARF MF Processo nº 10880.678639/200937 Acórdão n.º 1401002.818 S1C4T1 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face do acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal em São Paulo (SP), que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada pelo contribuinte em virtude da Declaração de Compensação não Homologada. Dos autos consta – “PER/DCOMP, transmitido pela contribuinte em indica como crédito pagamento indevido / a maior de CSLL. A DERAT proferiu o Despacho Decisório no qual não homologou a compensação declarada, em face de o DARF discriminado no PER/DCOMP haver sido integralmente utilizado para quitação de débitos da contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP”. Ciente da autuação, o interessado apresentou MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE, na qual alegou em síntese: 1. O contribuinte, “ao fazer a entrega da DCTF, efetuou recolhimento a maior de CSLL. Ocorre que o contribuinte não fez, em momento oportuno, a retificação da referida DCTF, fato que levou ao entendimento de que não haveria créditos a serem compensados.” 2. Desta feita, requereu“a juntada da DCTF em tela com as alterações realizadas e o DARF referente à compensação, a fim de demonstrar a existência de crédito a seu favor”. 3. Requereu o acolhimento da presente manifestação de inconformidade, com a devida compensação dos créditos. O Acórdão ora Recorrido não reconheceu do direito creditório. Isto porque, segundo entendimento da Turma “o DARF indicado no PER/DCOMP como origem do crédito, corresponde exatamente ao débito de CSLL relativo à estimativa do ano de 2003, confessado na última DCTF entregue antes de ser proferido o Despacho Decisório , inexistindo, a princípio, pagamento indevido de CSLL”; Entendeu ainda a DRJ que (...) “A contribuinte nem sequer esclarece porque o pagamento do valor confessado originalmente em DCTF, seria indevido. Ademais, a DCTF retificadora (na qual foi excluído o débito de CSLL), assim como a DIPJ/2004 (na qual as estimativas encontramse zeradas), além de entregues após a ciência do Despacho Decisório, deveriam estar acompanhadas de documentos que dessem respaldo às alterações efetivadas na DCTF. Tratandose de pagamento mensal de estimativa, a regra é a apuração do tributo Fl. 176DF CARF MF Processo nº 10880.678639/200937 Acórdão n.º 1401002.818 S1C4T1 Fl. 4 3 tomandose como base de cálculo a aplicação de um percentual sobre a receita bruta auferida mensalmente. A contribuinte teria a opção de reduzir ou suspender o pagamento mensal, mas desde que subsidiado no correspondente balanço ou balancete. Mas a contribuinte nada apresenta”. Ciente da decisão do Acórdão, o contribuinte interpõe Recurso Voluntário alegando seguintes as razões: a) Afirma que “o prejuízo restou comprovado na DIPJ de 2003, o qual homologado tacitamente, faz prova do recolhimento indevido,significando, isso, que qualquer recolhimento tributário que tenha sido promovido a título de estimativa, representa RECOLHIMENTO INDEVIDO e portanto passível de ser utilizado como crédito tributário para compensação. (...) O fato da Recorrente não ter incluído o recolhimento estimado na DIPJ do respectivo período, não tem o condão de considerar indevida a compensação, diante do incontroverso prejuízo fiscal, os qual é plenamente válido. Com efeito, nestes autos não há qualquer prova que não tenha existido o prejuízo fiscal. Portanto, homologada a DIPJ que apurou prejuízo fiscal, houve a inversão do ônus da prova, sendo certo que não houve qualquer prova material capaz de indeferir a compensação”. b) Diz que “o prejuízo fiscal foi totalmente comprovado e apto para produzir plenos efeitos jurídicos, diante do recolhimento estimado.” E que, “não se vislumbra qualquer hipótese prevista em lei, para se desconsiderar a Base Negativa de 2003, dando ensejo o crédito referente à CSLL estimada mensal, recolhida em 2003, objeto do PER/DCOMP”. c) Requereu o conhecimento e o provimento do presente recurso, sendo apreciado toda a matéria, tendo em vista os ditames dos artigos 53 e 65 da Lei 9.784/99 4, bem como Súmulas 346 e 473 do Supremo Tribunal Federal, para que homologue o PER/DCOMP transmitido. É o relatório do essencial. Fl. 177DF CARF MF Processo nº 10880.678639/200937 Acórdão n.º 1401002.818 S1C4T1 Fl. 5 4 Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1401002.817, de 26/07/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10880.678640/2009 61, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1401002.817): "Observo que as referências a fls. feitas no decorrer deste voto se referem ao eprocesso. O recurso é tempestivo e preenche os requisitos de admissibilidade, por isso dele conheço. Como se observa dos autos, o DARF indicado no PER/DCOMP como origem do crédito corresponde exatamente ao débito de IRPJ relativo à estimativa do mês de 2003, confessado na última DCTF entregue antes de ser proferido o Despacho Decisório, inexistindo, a princípio, pagamento indevido de IRPJ. Como é de conhecimento da própria Recorrente que reafirma o quanto exposto na decisão recorrida, a DCTF (Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais), instituída pela IN SRF nº 126/98 constitui confissão de dívida nos termos do artigo 5º, § 1º, do Decretolei nº 2.124/84, que dispõe que “O documento que formalizar o cumprimento de obrigação acessória, comunicando a existência de crédito tributário, constituirá confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência do referido crédito“. Assim é que, do cotejo dos documentos apresentados no PER/DCOMP sob análise, não subsistia qualquer crédito ao recorrente na medida em que, ele confessou o débito recolhido a título de estimativa de IRPJ devida no exercício de 2003, e quer compensar essa própria estimativa paga com débitos de IRPJ. Ocorre que, como já dito, não subsistia crédito, mas sim um débito confessado e o seu efetivo pagamento. Por sua vez, após a ciência do referido Despacho Decisório que indeferiu o pedido de compensação, a Recorrente apresenta DCTF retificadora, onde excluiu os débitos de estimativa do ano de 2003 para gerar o suposto crédito pleiteado. Fl. 178DF CARF MF Processo nº 10880.678639/200937 Acórdão n.º 1401002.818 S1C4T1 Fl. 6 5 Ocorre que, a DCTF retificadora que tenha por objeto alterar os débitos relativos a tributos e contribuições entregue após o início de qualquer procedimento fiscal, como no presente caso (a DCTF retificadora após a ciência do Despacho Decisório), não produz efeitos, nos termos do artigo 9º, § 2º, inciso II, da IN RFB nº 974/2009 (vigente à época da apresentação da DCTF retificadora), in verbis: “Art. 9º. A alteração das informações prestadas em DCTF será efetuada mediante apresentação de DCTF retificadora, elaborada com observância das mesmas normas estabelecidas para a declaração retificada. (...) § 2º A retificação não produzirá efeitos quando tiver por objeto: (...) II alterar os débitos de impostos e contribuições em relação aos quais a pessoa jurídica tenha sido intimada de início de procedimento fiscal. (...)”. Como bem observado na decisão recorrida: com relação ao débito confessado espontaneamente pela contribuinte em DCTF, vigora a presunção de liquidez e certeza (o débito existe, no exato valor indicado), de modo que, para desconstituilo, a contribuinte deveria apresentar provas contundentes de que a verdade material é outra, o que não ocorre no presente caso. Em sede de manifestação de inconformidade a Recorrente sequer justifica o porque da retificação ou do suposto crédito. Vêse, portanto, que não há qualquer fundamento ou prova cabal que demonstre iliquidez ou incerteza no crédito espontaneamente confessado. Outrossim, a própria contribuinte confessa que não fez a retificação no momento devido, apenas o fazendo após a ciência do indeferimento do seu pleito, razão pela nos termos do artigo 9º, § 2º, inciso II, da IN RFB nº 974/2009, tal retificação não tem nenhum efeito. Pois bem, apenas em sede Recursal é que é possível de certa forma compreender o pleito co contribuinte. O fato é que, segundo o mesmo, a DIPJ referente ao exercício de 2003 (já homologada tacitamente), declarou saldo negativo, razão pela qual as estimativas recolhidas durante o exercício seriam indevidas e passíveis de compensação. Para isso, inclusive demonstra de forma bastante clara e simples a "equação" no que aduz que recolhimento estimado (comprovado na DCTF original) + prejuízo fiscal (comprovado Fl. 179DF CARF MF Processo nº 10880.678639/200937 Acórdão n.º 1401002.818 S1C4T1 Fl. 7 6 na DIPJ 2003) = saldo negativo e consequente restituição (PER/DCOMP). E tem razão o Recorrente, tal equação é absolutamente simples, apesar de não ter sido demonstrada anteriormente pelo contribuinte, a quem incumbia o ônus da prova diante da confissão espontânea do referido débito em DCTF. Por sua vez, a sua conclusão também é absolutamente correta, os recolhimentos de estimativas durante o exercício, caso apurado prejuízo, se revertem e compõem o saldo negativo apurado no período, o qual é passível de compensação ou ressarcimento. Entretanto, a Recorrente se equivoca ao confundir os conceitos e natureza da estimativa recolhida antecipadamente e do saldo negativo apurado no resultado do exercício, no qual já estão consideradas as próprias estimativas. Saldos negativos formamse quando, durante um período de apuração (trimestral ou anual), a empresa recolhe valores de IRPJ e CSLL que resultam superiores ao que efetivamente apuram como devido ao final do mesmo período. Esse indesejado fenômeno decorre (i) da obrigação de antecipações mensais a título de estimativa dos tributos (no regime de apuração anual) ou (ii) da sujeição à retenção dos tributos por determinadas fontes pagadoras (nos regimes de apuração anual ou trimestral). O saldo negativo consiste, enfim, numa espécie de pagamento a maior de tributo, e que pode ser usado como moeda para compensação com outros débitos tributários do contribuinte, mediante transmissão de Declaração de Compensação – DComp. Assim é que, as estimativas recolhidas durante o exercício passaram a compor o saldo negativo apurado no mesmo exercício. Este sim, a que faz jus a Recorrente ao ressarcimento ou compensação. Veja que apesar da confusão que faz a Recorrente em seu recurso, essa é exatamente a mesma conclusão a que ele chega, bem como, o Ato Declaratório SRF 03/2000 e os precedentes apresentados também convergem no mesmo sentido. As estimativas foram efetivamente devidas, e passaram a compor o saldo negativo. Entretanto, o que a contribuinte compensou e insiste em seu recurso é na utilização do valor recolhido a título da própria estimativa. Permitir tal compensação seria subverter a simples equação apresentada pela Recorrente, e dificultar ou impedir o controle desse aproveitamento pela SRF. Isto porque, nada impediria que o contribuinte apresentasse novo pedido de ressarcimento ou compensação do mesmo valor, que já compõe Fl. 180DF CARF MF Processo nº 10880.678639/200937 Acórdão n.º 1401002.818 S1C4T1 Fl. 8 7 o saldo negativo do período, o qual, como bem observado por ela, foi homologado tacitamente. Por sua vez, não pode o Recorrente tentar imputar ao Fisco um erro que foi reconhecidamente seu. Observese que em processos de restituição / compensação o ônus da prova do direito creditório alegado recai sobre o contribuinte, e que nos termos do §4º do artigo 16 do Decreto nº 70.235/72, com a redação dada pela Lei nº 8.748/93, a prova documental deve ser apresentada junto com a manifestação de inconformidade, o que claramente não ocorreu. Assim, por todo o exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário.” Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto acima transcrito. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Fl. 181DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.910730/2008-71
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 27 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 15/02/2000
DIREITO CREDITÓRIO. COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO. AUSÊNCIA DE PROVA.
O direito à restituição/ressarcimento/compensação deve ser comprovado pelo contribuinte, porque é seu o ônus. Na ausência da prova, em vista dos requisitos de certeza e liquidez, conforme art. 170 do CTN, o pedido deve ser negado.
DILIGÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE
Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, em especial, quando o contribuinte não colaciona aos autos nenhuma prova ou indício do seu direito.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3201-004.101
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, (Presidente), Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 15/02/2000 DIREITO CREDITÓRIO. COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO. AUSÊNCIA DE PROVA. O direito à restituição/ressarcimento/compensação deve ser comprovado pelo contribuinte, porque é seu o ônus. Na ausência da prova, em vista dos requisitos de certeza e liquidez, conforme art. 170 do CTN, o pedido deve ser negado. DILIGÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, em especial, quando o contribuinte não colaciona aos autos nenhuma prova ou indício do seu direito. Recurso Voluntário Negado
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decisao_txt : Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, (Presidente), Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 15/02/2000 DIREITO CREDITÓRIO. COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO. AUSÊNCIA DE PROVA. O direito à restituição/ressarcimento/compensação deve ser comprovado pelo contribuinte, porque é seu o ônus. Na ausência da prova, em vista dos requisitos de certeza e liquidez, conforme art. 170 do CTN, o pedido deve ser negado. DILIGÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, em especial, quando o contribuinte não colaciona aos autos nenhuma prova ou indício do seu direito. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, (Presidente), Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 91 07 30 /2 00 8- 71 Fl. 76DF CARF MF Processo nº 10880.910730/200871 Acórdão n.º 3201004.101 S3C2T1 Fl. 3 2 Relatório FARGON ENGENHARIA E INDÚSTRIA LTDA. apresentou Declaração de Compensação (DCOMP) relativa a pagamento a maior da contribuição (Cofins/PIS), declaração essa que restou não homologada pela repartição de origem. Cientificado, o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade e requereu a anulação do despacho decisório, ou sua reforma, bem como a realização de diligência para se comprovar o direito creditório, alegando que recolhera aos cofres públicos valores superiores aos efetivamente devidos, pois desconsiderara os termos do art. 3º, inciso III, § 2º da Lei nº 9.718/1998. Arguiu, também, que o Fisco concluíra pela inexistência do crédito sem ao menos solicitar qualquer documento capaz de comprovar ou não a existência e suficiência do valor compensado. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento, por meio do acórdão nº 16 031.878, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, em razão da não comprovação da liquidez e certeza do crédito pleiteado, afastandose o pedido de realização de diligência por falta de apresentação de qualquer documento indicativo do direito alegado. Cientificado da decisão da DRJ, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário de forma hábil e tempestiva, repisando os mesmos argumentos de defesa, destacandose os seguintes argumentos: (i) a Delegacia de Julgamento invocou a ausência da prova de liquidez e certeza dos créditos para rejeitar a manifestação de inconformidade, sendo que, se tivesse ocorrido a intimação para se demonstrar o crédito, o Fisco teria tido acesso às planilhas de apuração e poderia ter verificado a regularidade do encontro de contas efetuado; (ii) enquanto não for realizada a efetiva mensuração dos créditos utilizados é precipitada qualquer consideração a respeito da existência ou não de créditos passíveis de compensação; (iii) se a autoridade responsável pelo exame da declaração de compensação tivesse cumprido o dever de fiscalizar a existência do crédito declarado e não simplesmente glosado mecanicamente o encontro de contas teria verificado que o Requerente é legitimo credor da União Federal; e (iv) não se permitiu a produção de provas necessárias e, com base nessa decisão, julgouse pela improcedência por falta de provas. É o relatório. Fl. 77DF CARF MF Processo nº 10880.910730/200871 Acórdão n.º 3201004.101 S3C2T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015, aplicandose, portanto, ao presente litígio o decidido no Acórdão 3201004.096, de 25/07/2018, proferido no julgamento do processo 10880.910725/200869, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201004.096): No caso em apreço há a imperiosa necessidade de se comprovar a existência do direito creditório de modo inconteste, o que, pela análise dos elementos probatórios não ocorreu. Da decisão recorrida temse: "No caso em apreço, o Contribuinte declarou em débito de COFINS e apontou um documento de arrecadação como origem do crédito. Em se tratando de declaração eletrônica, a verificação dos dados informados pela contribuinte foi realizada também de forma eletrônica, tendo resultado no Despacho Decisório em discussão. O ato combatido aponta como causa da não homologação o fato de que não foi localizado o pagamento indicado no PER/DCOMP como origem do crédito. De fato, tal constatação decorre da não localização do DARF indicado pelo Contribuinte no PER/DCOMP nos sistemas da Secretaria da Receita Federal. Observase que antes do Despacho Decisório, de 12/08/2008, o Contribuinte foi informado da não localização do DARF e intimado, em 15/12/2006 conforme A.R., às fls. 07, a verificar e conferir os dados da ficha DARF informados no PER/DCOMP com os dados do DARF original, bem como a sanar as irregularidades apontadas, tendolhe sido informado na mesma oportunidade que a consequência da falta de saneamento no prazo poderia acarretar o indeferimento/não homologação do PER/DCOMP em análise. Portanto, ao contrário do alega a Manifestante, foi lhe dado a oportunidade para comprovar ou não a existência e suficiência do crédito compensado. No entanto, antes da ciência do despacho decisório, o interessado conservouse silente e inerte no tocante à integralidade das informações declaradas perante a RFB, as quais acabaram servindo de parâmetro para a continuidade da análise da matéria e respaldando a referida decisão administrativa. Pelo exposto, resta devidamente demonstrado que não procede o argumento da requerente de que recolheu aos cofres públicos tributos superiores aos efetivamente devidos por não ter considerado os termos do § 2º, do inciso III, do artigo 3º, da lei 9.718/98, quando apurou a base de Fl. 78DF CARF MF Processo nº 10880.910730/200871 Acórdão n.º 3201004.101 S3C2T1 Fl. 5 4 cálculo das contribuições do PIS/COFINS, para o período de apuração constante neste PER/DCOMP, pois o contribuinte não conseguiu comprovar a existência do alegado indébito neste período, ou seja, o DARF supra mencionado que poderia demonstrar que de fato teria ocorrido "o pagamento indevido ou a maior" gerandolhe crédito, não foi localizado, e a empresa quando intimada a sanar tal irregularidade não se manifestou, e consequentemente, a compensação declarada não foi homologada. Cabe observar ainda que, mesmo se o referido DARF tivesse sido localizado, o art. 170 do CTN fixa como pressuposto para que possa ser feito o encontro de contas com a Fazenda Nacional: que os créditos estejam revestidos de liquidez e certeza comprovada pela demonstração do quantum recolhido indevidamente, mediante a apresentação de documentação hábil e idônea, consistente na escrituração contábil/fiscal do contribuinte, a comprovar a efetiva natureza da operação, a ocorrência do fato gerador do tributo, a base de cálculo e a alíquota aplicável, para o fim de se conferir a existência e o valor do indébito tributário. No entanto, a interessada não trouxe aos autos documentos que pudessem vir a comprovar a apuração incorreta nas bases de cálculo do COFINS, para o período em que alega o direito creditório, motivo pelo qual não se operaria, mesmo nesta hipótese, a liquidez e certeza desses pretensos créditos." Temse, então, que a decisão recorrida julgou improcedente a manifestação de inconformidade e não reconheceu o direito creditório em face de a recorrente, não ter comprovado a existência e liquidez do crédito apontado, mesmo tendo sido oportunizada a produção de prova. Não logrou êxito a recorrente em desconstituir o fundamento decisório através de prova apta para tanto. Mesmo em sede recursal não trouxe a recorrente qualquer elemento de prova válido a confirmar suas alegações. Devese levar em consideração que a necessidade de liquidez e certeza dos créditos é condição imperiosa, para que se proceda a compensação de valores. Não é devida a autorização de compensação quando os créditos estão pendentes de certeza e liquidez. Nos processos administrativos que tratam de restituição/compensação ou ressarcimento de créditos tributários, é atribuição do sujeito passivo a demonstração da efetiva existência do indébito. Nesses casos, quando a DRF nega o pedido de compensação/restituição/ressarcimento que aponta para a inexistência ou insuficiência de crédito, cabe ao manifestante, caso queira contestar a decisão a ele desfavorável, cumprir o ônus que a legislação lhe atribui, trazendo ao contraditório os elementos de prova que demonstrem a existência do crédito. Documentos comprobatórios são os que possibilitam aferir, de forma inequívoca, a origem e a quantificação do crédito, visto que, sem tal comprovação, o pedido de repetição fica prejudicado. Humberto Teodoro Júnior sobre a prova ensine que: "Não há um dever de provar, nem à parte contrária assiste o direito de exigir a prova do adversário. Há um simples ônus, de modo que o litigante assume o risco de perder a causa se não provar os fatos alegados Fl. 79DF CARF MF Processo nº 10880.910730/200871 Acórdão n.º 3201004.101 S3C2T1 Fl. 6 5 dos quais depende a existência de um direito subjetivo que pretende resguardar através da tutela jurisdicional. Isto porque, segundo máxima antiga, fato alegado e não provado é o mesmo que fato inexistente.” (Humberto Teodoro Junior, in Curso de Direito Processual Civil, 41ª ed., v. I, p. 387) A própria recorrente confessa que não trouxe elementos probatórios aos autos para confirmar sua pretensão, tanto que, solicita a realização de diligências. Ocorre que, conforme já referido, sequer indícios do seu direito foram colacionados ao processo administrativo, razão pela qual não há como se converter o julgamento em diligência. Sobre a necessidade de se provar o direito creditório em pedidos de restituição ou compensação, é uníssona a jurisprudência deste Colegiado, conforme precedentes a seguir elencados: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do Fato Gerador: 20/06/2006 COFINS. REPETIÇÃO DO INDÉBITO. AUSÊNCIA DE PROVA. Não se reconhece o direito à repetição do indébito quando o contribuinte, sobre quem recai o ônus probandi, não traz aos autos nenhuma prova de que teria havido pagamento a maior ou indevido, embora tenha tido mais de uma oportunidade processual para fazêlo, não se justificando, portanto, o pedido de diligência para produção de provas. COFINS IMPORTAÇÃO SERVIÇOS. PER. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. RECOLHIMENTO VINCULADO A DÉBITO CONFESSADO. Correto o Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição por inexistência de direito creditório, tendo em vista que o recolhimento alegado como origem do crédito estava integral e validamente alocado para a quitação de débito confessado. Recurso Voluntário Negado." (Processo 10930.903684/201206; Acórdão 3402003.651; Relator Conselheiro Antônio Carlos Atulim; Sessão de 13/12/2016) "Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Data do fato gerador: 31/01/2008 CRÉDITO NÃO RECONHECIDO. ÔNUS DA PROVA DO CONTRIBUINTE. O pagamento indevido, assim como a certeza e liquidez do crédito, precisam ser comprovados pelo contribuinte nos casos de solicitações de restituições e/ou compensações. Fundamento: Art. 170 do Código Tributário Nacional e Art. 16 do Decreto 70.235/72." (Processo 10865.905444/201269; Acórdão 3201002.880; Relator Conselheiro Pedro Rinaldi de Oliveira Lima; sessão de 27/06/2017) "Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 30/06/2011 Fl. 80DF CARF MF Processo nº 10880.910730/200871 Acórdão n.º 3201004.101 S3C2T1 Fl. 7 6 DCTF. CONFISSÃO DE DÍVIDA. RETIFICAÇÃO. A DCTF é instrumento formal de confissão de dívida, e sua retificação, posteriormente a procedimento fiscal, exige comprovação material. VERDADE MATERIAL. ÔNUS DA PROVA. DILIGÊNCIA. As alegações de verdade material devem ser acompanhadas dos respectivos elementos de prova. O ônus de prova é de quem alega. A busca da verdade material não se presta a suprir a inércia do contribuinte que tenha deixado de apresentar, no momento processual apropriado, as provas necessárias à comprovação do crédito alegado. COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVA. O direito à restituição/ressarcimento/compensação deve ser comprovado pelo contribuinte, porque é seu o ônus. Na ausência da prova, em vista dos requisitos de certeza e liquidez, conforme art. 170 do CTN, o pedido deve ser negado.Recurvo Voluntário Negado." (Processo 10805.900727/201318; Acórdão 3201003.103; Relator Conselheiro Marcelo Giovani Vieira; sessão de 30/08/2017) "Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2005 DIREITO CREDITÓRIO. RESTITUIÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVA. O direito à restituição/ressarcimento/compensação deve ser comprovado pelo contribuinte, porque é seu o ônus. Na ausência da prova, em vista dos requisitos de certeza e liquidez, conforme art. 170 do CTN, o pedido deve ser negado. Correta decisão que julgou improcedente a manifestação de inconformidade por inexistência de direito creditório, tendo em vista que o recolhimento alegado como origem do crédito está integral e validamente alocado para a quitação de outro débito está integral e validamente alocado para a quitação de outro débito." (Processo nº 11080.930940/201160; Acórdão 3201003.499; Relator Conselheiro Leonardo Vinicius Toledo de Andrade; Sessão de 01/03/2018) Ademais, a Recorrente, em casos análogos, teve seus recursos julgados improcedentes conforme decisões a seguir transcritas: "ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 20/10/2005 COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO. COMPROVAÇÃO. Compete ao contribuinte à apresentação de livros de escrituração comercial e fiscal e de documentos hábeis e idôneos à comprovação do alegado sob pena de acatamento do ato administrativo realizado, em momento processual previsto em lei. DILIGÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis." (Processo Fl. 81DF CARF MF Processo nº 10880.910730/200871 Acórdão n.º 3201004.101 S3C2T1 Fl. 8 7 nº 10880.950624/200821; Acórdão 3803003.786; Relator Conselheiro João Alfredo Eduão Ferreira; sessão de 29/11/2012) "ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 20/10/2005 COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO. COMPROVAÇÃO. Compete ao contribuinte à apresentação de livros de escrituração comercial e fiscal e de documentos hábeis e idôneos à comprovação do alegado sob pena de acatamento do ato administrativo realizado, em momento processual previsto em lei. DILIGÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis." (Processo nº 10880.950622/200831; Acórdão 3803003.785; Relator Conselheiro João Alfredo Eduão Ferreira; sessão de 29/11/2012) Diante do exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário interposto. Destaquese que, não obstante o processo paradigma se referir unicamente à Cofins, a decisão ali prolatada se aplica nos mesmos termos à Contribuição para o PIS. Importa registrar, ainda, que, nos presentes autos, as situações fática e jurídica encontram correspondência com as verificadas no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Portanto, aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 82DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16004.720065/2013-06
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 12 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 09 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 2401-000.696
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Presidente
(assinado digitalmente)
Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Rayd Santana Ferreira, Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro, Andrea Viana Arrais Egypto, Matheus Soares Leite, Miriam Denise Xavier (Presidente).
Nome do relator: LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier - Presidente (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Rayd Santana Ferreira, Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro, Andrea Viana Arrais Egypto, Matheus Soares Leite, Miriam Denise Xavier (Presidente).
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Presidente (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Rayd Santana Ferreira, Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro, Andrea Viana Arrais Egypto, Matheus Soares Leite, Miriam Denise Xavier (Presidente). RELATÓRIO Contra o contribuinte acima identificado foi lavrado o Auto de Infração de DEBCAD 37.374.8568 (fls. 3.488), que apurou o crédito tributário no montante de R$ 152.096,44 (cento e cinquenta e dois mil e noventa e seis reais e quarenta e quatro centavos), RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 60 04 .7 20 06 5/ 20 13 -0 6 Fl. 3592DF CARF MF Processo nº 16004.720065/201306 Resolução nº 2401000.696 S2C4T1 Fl. 3 2 consolidado em 18/04/2013, referente às contribuições destinadas a “Outras Entidades” (SalárioEducação, INCRA, SENAI, SESI e SEBRAE), em decorrência da exclusão da empresa do Sistema Integrado de Pagamento Impostos e Contribuições das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte – SIMPLES, conforme Processo Administrativo nº 16044.720.053/201292, Ato Declaratório Executivo nº 095 de 26/02/2013, cópia juntada ao processo digital. De acordo com o Relatório Fiscal (Termo de Constatação fls. 3.497/3.502), a Fiscalização esclarece que para apuração do crédito tributário tomou como base os valores de remunerações declaradas pelo contribuinte constantes nas Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social GFIP, as quais foram extraídas do banco de dados da Secretaria da Receita Federal do Brasil – RFB e encontramse anexas ao presente processo. Considera como fatos geradores das contribuições lançadas as remunerações pagas ou creditadas aos segurados empregados e contribuintes individuais discriminadas e declaradas na GFIP, em consonância com o artigo 28 da Lei nº 8.212/91, cujos valores encontramse relacionados no Relatório Fiscal, fl. 3.498 e no Relatório de Lançamentos, fls. 3.495/3.496. Para o cálculo das contribuições devidas informa que aplicou as alíquotas referente ao código “0079” destinadas às “Outras Entidades”, conforme abaixo discriminado: SALÁRIO EDUCAÇÃO (0001) 2,5% INCRA (0002) – 0,2% SENAI (0004) – 1,0¨% SESI (0008) – 1,5% SEBRAE (0064) – 0,6% DA APLICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO Em decorrência da conduta infracionária descrita acima conforme previsto nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64, aplicou a multa de ofício em dobro no percentual de 150% (75% x 2) a partir da competência 12/2008 com fundamento no artigo 44, inciso I e § 1º da Lei nº 9.430/96, e considerou ser irrelevante distinguir se tal conduta se configurou em sonegação, fraude ou conluio já que demonstra infração a tipos definidos na citada lei. Devidamente cientificada do lançamento por via postal, em 29/04/2013, conforme AR fl. 3.517, a empresa apresentou em 24/05/2013, impugnação ao citado Auto de Infração às fls. 3.519/3.537, acompanhada dos documentos às fls. 3.538/3.539 alegando, em apertada síntese que: (i) Da preliminar de cerceamento ao direito de defesa e do devido processo legal. Fl. 3593DF CARF MF Processo nº 16004.720065/201306 Resolução nº 2401000.696 S2C4T1 Fl. 4 3 Inicialmente, argumenta que houve inobservância ao que prescreve a Constituição Federal , artigo 5º, inciso LV e o artigo 2º da Lei nº 9.781/99 uma vez que considera que lhe está sendo exigido o pagamento de contribuições previdenciárias antes mesmo de apreciada a manifestação de inconformidade pela sua exclusão do SIMPLES Nacional. Cita ainda o artigo 23, Parágrafo único da Lei Complementar nº 123/2006 para fundamentar que lhe seja assegurado o contraditório, a ampla defesa e as determinações relativas ao processo administrativo fiscal consoante ao que determina o Decreto nº 70.235/1972; Sustenta que a efetividade da exclusão do SIMPLES ocorre quando o contribuinte perde qualquer dos requisitos estabelecidos na LC 123/2006, o que no caso ainda não se concretizou pelo fato de que a Manifestação de Inconformidade aguarda julgamento, ou seja, o ADE (Retificado) não é ainda uma decisão definitiva; Defende que o presente lançamento encontrase eivado de vício insanável, haja vista que o ADE n° 095/2012 e ADE 095 (retificado) de 26/02/2013 foi objeto de manifestação de inconformidade tempestiva, motivo pelo qual não há razões legais para que surta efeitos. (ii) Do mérito da exclusão do simples inexistência de motivo a justificar a exclusão da impugnante Demonstrou a insubsistência do ADE n° 095 RETIFICADO, cujo teor inovou ao ato originário, culminando em flagrante vício material que por certo leva à nulidade do referido ato; O Relatório do Despacho Decisório que determinou a exclusão da Impugnante do Simples Nacional, não têm relação com a realidade dos fatos, conforme já demonstrado pela Impugnante em manifestação de inconformidade e aditamento à manifestação de inconformidade apresentadas nos autos do processo administrativo que trata da exclusão; (iii) Da impossibilidade de efeitos retroativos ao ato declaratório executivo n° 095/2012 e n° 095 retificado de 26/02/2013 Argumenta que mesmo admitindo a possibilidade de lavratura de auto de infração antes de concluída definitivamente apreciação do ADE que determinou a exclusão da Impugnante do SIMPLES, (pelo princípio da eventualidade), o presente lançamento não merece prosperar pelo fato de que os efeitos do ADE não podem retroagir a situações anteriores. Cita o artigo 22, § 5º da IN/SRF nº 365/2003, como fundamento do seu pleito. Que não houve mudança na atividade da Impugnante, ou outro motivo qualquer que justificasse sua exclusão do SIMPLES, portanto entende que não há razão para prosperar a repercussão de efeitos retroativos do ADE para os períodos anteriores à ciência do mesmo. Cita jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça para justificar a sua tese de irretroatividade dos efeitos da exclusão do SIMPLES Nacional. (iv) Da compensação entre os valores objeto do lançamento de oficio e os valores recolhidos pela impugnante no Simples Fl. 3594DF CARF MF Processo nº 16004.720065/201306 Resolução nº 2401000.696 S2C4T1 Fl. 5 4 O presente lançamento não indica a compensação de valores, o que deveria ser realizado pela autoridade fiscal, no curso do procedimento fiscalizatório, deduzindo do débito que apurado em desfavor da Impugnante, o valor de eventuais créditos que a mesma possui contra a Fazenda Nacional; Acaso mantido o lançamento de ofício, deve ser compensado os valores recolhidos no SIMPLES com os valores objeto do presente lançamento, sob pena de cobrança de valores além dos supostamente devidos; Cita jurisprudência administrativa do CARF para justificar o pedido de compensação das contribuições recolhidas pela sistemática do SIMPLES, reduzindo assim o presente lançamento. (v) Da inaplicabilidade de multa qualificada de 150% O lançamento tem como único fundamento a decisão de exclusão do SIMPLES Nacional; Para o período de 01 a 11/2008 a autoridade fiscal aplicou a multa de ofício no percentual de 75%. Já para as competências 12 e 13/2008 qualificou a multa aplicandoa no percentual de 150%. Discorda do procedimento fiscal uma vez que não se justifica tal distinção já que são idêncitcos os fundamentos que enserjaram a lavratura do presente Auto de Infração para os citados períodos; No caso em comento não há que se falar em qualquer fraude, conluio ou sonegação, uma vez que a Impugnante estava inserida no sistema do SIMPLES, pelo qual recolhia contribuição previdenciária juntamente com demais tributos em um único pagamento. Considera que nunca adotou conduta maliciosa a ludibriar o Fisco, tanto que defendese do ADE 95/2012 e n° 095 RETIFICADO (datado de 26/02/2013) que culminou na indicação de exclusão do SIMPLES, certa de que tal ato encontrase eivado de vícios, o que por certo espera ser corrigido a fim de manterse no SIMPLES; (vi) Da decadência. Em virtude da ciência do presente lançamento ter ocorrido por via postal em 29/04/2013 e por ter havido recolhimentos pela sistemática do SIMPLES, a contagem do prazo decadencial deve obedecer a regra prevista no artigo 150, § 4º, do CTN. Devese portanto reconhecer a decadência para os fatos geradores anteriores a competência de 04/2008. Destaca que a decadência é matéria de ordem pública e que deve ser reconhecida em qualquer momento processual. Cita jurisprudência administrativa e judicial sobre o tema. (vii) Do descabimento da Taxa Selic. A Taxa Selic, na forma como calculada, jamais poderia ser utilizada como "juros moratórios", uma vez que possui natureza jurídica totalmente diferente da "mora" por parte do devedor, qual seja a remuneratória. Fl. 3595DF CARF MF Processo nº 16004.720065/201306 Resolução nº 2401000.696 S2C4T1 Fl. 6 5 A referida Taxa não foi criada e definida em lei, mas por Resoluções do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central do Brasil, o que ofende ao princípio constitucional da legalidade, bem como ao disposto no artigo 161, § 1º, do Código Tributário Nacional. Considerandose a natureza remuneratória da taxa SELIC, a inconstitucionalidade de sua aplicação, bem como sua ilegalidade, não há que se admitir a utilização da mesma, no presente caso, com a natureza de juros de mora, razão pela qual deverá ser cancelada por essa autoridade Julgadora. (viii) Da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa. Ainda que se entenda correta a utilização da taxa Selic para cobrança dos juros de mora incidentes sobre o tributo supostamente devido, é certo que os juros calculados com base nessa taxa não poderão ser exigidos sobre a multa de ofício lançada, por absoluta ausência de previsão legal. O artigo 13 da Lei nº 9.065/95, que prevê a cobrança dos juros de mora com base na taxa Selic, remete ao artigo 84 da Lei 8.981/95, que, por sua vez, estabelece a cobrança de tais acréscimos apenas sobre tributos. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Fortaleza (CE) lavrou Decisão Administrativa contextualizada no Acórdão nº 0829.408 da 6ª Turma da DRJ/FOR, às fls. 3.700/3.723, julgando improcedente a Impugnação apresentada em face do lançamento, mantendo o crédito tributário exigido em sua integralidade. Recordese: “ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2010 Ementa: CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NULIDADE DO LANÇAMENTO FISCAL. INOCORRÊNCIA Não ocorre cerceamento do direito de defesa quando os fatos descritos nos relatórios do Auto de Infração permitem a exata compreensão dos elementos que o compõem e dos valores apurados no cômputo da multa. ALEGAÇÃO DE DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA A ocorrência de dolo, fraude ou simulação afasta a possibilidade de homologação do pagamento de que trata o § 4º do art. 150 do Código Tributário Nacional e remete a contagem do prazo decadencial para a regra geral prevista no art. 173, inciso I do mesmo diploma legal, tendo seu início no exercício seguinte àquele em que tenha havido a ciência pela autoridade tributária da ocorrência dos fatos geradores omitidos pelo sujeito passivo AUTO DE INFRAÇÃO. FORMALIDADES LEGAIS. Fl. 3596DF CARF MF Processo nº 16004.720065/201306 Resolução nº 2401000.696 S2C4T1 Fl. 7 6 Quando o Auto de Infração encontrase revestido das formalidades legais, tendo sido lavrado de acordo com os dispositivos legais e normativos que disciplinam o assunto, apresentando, assim, adequada motivação jurídica e fática, bem como os pressupostos de liquidez e certeza, podendo ser exigidos nos termos da Lei. SIMPLES NACIONAL. CONSTITUIÇÃO DE PESSOA JURÍDICA POR INTERPOSTA PESSOA. É cabível a exclusão do regime simplificado quando ficar comprovada a utilização de interpostas pessoas na constituição e no funcionamento de pessoa jurídica, de modo a encobrir quem são os verdadeiros sócios administradores. EXCLUSÃO DO SIMPLES. EFEITOS A partir do momento em que operados os efeitos da exclusão, a pessoa jurídica excluída do Simples se sujeita às normas de tributação aplicáveis às demais pessoas jurídicas. SIMPLES. GUIAS DE RECOLHIMENTO. DARF/DAS. APROVEITAMENTO. VEDAÇÃO É vedada a compensação de contribuições previdenciárias com o valor recolhido indevidamente para o SIMPLES. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A multa de ofício, sendo parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do primeiro dia do mês subsequente ao do vencimento. LEGALIDADE. CONSTITUCIONALIDADE. A declaração de inconstitucionalidade de lei ou atos normativos federais, bem como de ilegalidade destes últimos, é prerrogativa outorgada pela Constituição Federal ao Poder Judiciário. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido” Inconformada com a decisão exarada pelo órgão julgador a quo, a Recorrente Galego Implemento para Transportes Ltda. EPP interpôs Recurso Voluntário às fls. 3.565/3.589, resumidamente nos seguintes termos: (i) Cerceamento de Defesa – Sustenta que a Constituição Federal de 1988 e a Lei nº 9.784/99 garantem além da obrigatoriedade de observância de um procedimento administrativo regular, garantem, igualmente, que durante o procedimento seja conferido aos administrados o contraditório e a ampla defesa, o que não teria sido observado na espécie, uma vez que, antes mesmo de decisão definitiva quanto ao ADE 095/2012 (original) e ADE 095 Fl. 3597DF CARF MF Processo nº 16004.720065/201306 Resolução nº 2401000.696 S2C4T1 Fl. 8 7 retificado de 26/02/2013, já foram lavrados autos de infrações em desfavor da recorrente, pelo qual se exigem contribuição previdenciária. Todavia, entende que a efetividade da exclusão do SIMPLES somente ocorre quando o contribuinte perde qualquer dos requisitos estabelecidos na Lei Complementar 123/2006, o que não ocorre no caso presente, pelo fato de que não se tem julgamento em definitivo do ADE retificado. Dessa forma entende que o presente lançamento se encontra maculado de vício insanável, porquanto a premissa a que se vale não se encontra devidamente e legalmente constituída, uma vez que o ADE não definitivamente julgado. (ii) Inexistência de motivo a justificar a exclusão da recorrente. Alega que a Fiscalização deturpou a real situação fática da Recorrente, buscando maliciosamente unir duas empresas distintas, administradas por pessoas diferentes, com quadro de funcionários próprios. Argumenta que em nenhum momento os irmãos Florindo Rodrigues e José Antonio Rodrigues, sócios da Recorrente, participaram e/ou administraram a empresa Equipamentos Rodrigues. Defende que conforme demonstrado, o Sr. Florindo somente passou a ser sócio da empresa Equipamento Rodrigues em 2011, após o falecimento do seu genitor, ocasião em que a Recorrente deixou de integrar o Simples Nacional e passou a apurar lucro tributável através do Lucro Presumido. Finaliza argumentando que não incorreu em prática que justifique a atitude de sua exclusão do Simples Nacional. (iii) Da impossibilidade de efeitos retroativos ao Ato Declaratório Executivoº 095/2012. Sustenta que o lançamento não merece prosperar, uma vez que os efeitos do ADE não podem retroagir a situações anteriores. Nesse passo, defende que o entendimento adotado pela DRJ de origem vai na contramão do quanto dispõe o artigo 22, § 5º da Instrução Normativa SRF nº 355, de 2003. Colaciona jurisprudência do STJ para corroborar a sua tese. (iv) Da compensação entre os valores objeto do lançamento de ofício e os valores recolhidos pela Recorrente no SIMPLES. Caso mantido os valores do lançamento de ofício, estes devem ser compensados com os valores recolhidos pela Recorrente quando do sistema do Simples Nacional, sob pena de cobrança de valores além dos supostamente devidos. (v) Da inaplicabilidade da multa qualificada de 150%. Defende que jamais se utilizou de conduta maliciosa de modo a ludibriar o Fisco, e que não há nos autos elementos que justifiquem a aplicação da multa de 150%. Assim, requer seja determinada a exclusão da multa qualificada imposta, ou, caso não seja o entendimento, a sua redução ao patamar de 75%. (vi) Da decadência. Em virtude da ciência do presente lançamento ter ocorrido por via postal em 29/04/2013 e por ter havido recolhimentos pela sistemática do SIMPLES, a contagem do prazo decadencial deve obedecer a regra prevista no art. 150, § 4º, do CTN. Devese portanto reconhecer a decadência para os fatos geradores anteriores a competência de 04/2008. Fl. 3598DF CARF MF Processo nº 16004.720065/201306 Resolução nº 2401000.696 S2C4T1 Fl. 9 8 Destaca que a decadência é matéria de ordem pública e que deve ser reconhecida em qualquer momento processual. Cita jurisprudência administrativa e judicial sobre o tema. (vii) Do descabimento da Taxa Selic. Sustenta a ilegalidade e inconstitucionalidade da aplicação da Taxa Selic, em razão da sua natureza remuneratória. (viii) Da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa. É o relatório. VOTO Conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora 1. DOS PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE A Recorrente foi cientificada do acórdão em 05/06/2014 (fls. 3.563) e interpôs o Recurso Voluntário, tempestivamente, em 02/07/2014, razão pela qual CONHEÇO DO RECURSO já que presentes os requisitos de admissibilidade. 2. DO MÉRITO 2.1 Da necessidade de sobrestamento. De início, verifico que a decisão de procedência ou não do presente Auto de Infração está ligado à sorte do DEBCAD 51.016.8230 (Processo nº 16004.720053/201292), onde se discute a exclusão da Recorrente, da sistemática de pagamento dos tributos e contribuições federais de que trata o artigo 3º da Lei Complementar nº 123/2006, denominada Simples Nacional, uma vez que estaria configurada a hipótese de exclusão pela constituição de empresa por interpostas pessoas, nos termos do artigo 29, inciso IV da referida lei, com todos os consectários daí emergentes. Dessa forma, o resultado do julgamento daquele processo é determinante para a correta apreciação da matéria em análise. Ocorre, porém, que naqueles autos, os demais sujeitos passivos que integram a lide não foram intimados do teor do Acórdão nº 0829.406, razão pela qual determinei a conversão do julgamento do Processo 16004.720053/201292 em diligência, com o objetivo de sanar o vício apontado e garantir a ampla defesa e o contraditório. O artigo 55 da Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 (Código de Processo Civil), determina que os processos conexos devem ser julgados em conjunto, o mesmo ocorrendo com os processos que possam gerar risco de prolação de decisões conflitantes ou contraditórias, mesmo sem conexão entre eles. Confirase: “Art. 55. Reputamse conexas 2 (duas) ou mais ações quando lhes for comum o pedido ou a causa de pedir. § 1º Os processos de ações conexas serão reunidos para decisão conjunta, salvo se um deles já houver sido sentenciado. § 2º Omissis. Fl. 3599DF CARF MF Processo nº 16004.720065/201306 Resolução nº 2401000.696 S2C4T1 Fl. 10 9 § 3º Serão reunidos para julgamento conjunto os processos que possam gerar risco de prolação de decisões conflitantes ou contraditórias caso decididos separadamente, mesmo sem conexão entre eles.” De outra banda, o Regimento Interno deste Conselho (Artigo 6º e seguintes – RICARF) preleciona que os processos podem ser vinculados por conexão, decorrência ou reflexo. Assim, com o objetivo de evitar decisões discordantes, entendo ser necessário o julgamento conjunto do presente processo com o referido Processo 16004.720053/201292. É como voto. CONCLUSÃO: Pelos motivos expendidos, CONVERTO O JULGAMENTO EM DILIGÊNCIA, nos termos do relatório e voto. (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa. Fl. 3600DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.923302/2014-57
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Sep 12 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/11/2013 a 30/11/2013
DECISÃO CITRA PETITA. NULIDADE.
É inválida a decisão que deixa de enfrentar e decidir causa de pedir ou alegação suscitada pela defesa, e que seja indispensável a sua solução, por ofensa ao aspecto substancial da garantia do contraditório, ao duplo grau de jurisdição e à exigência de motivação das decisões. Fundamento: Art. 31, 59, 60 e 61 do Decreto 70.235/72 (Lei do Processo Administrativo Fiscal); Art. 142 e 145 do Código Tributário Nacional e Regimento Interno deste Conselho.
Numero da decisão: 3201-004.049
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso, para anular a decisão proferida pela DRJ, devendo outra decisão ser proferida, com a análise da documentação juntada em manifestação de inconformidade.
(assinatura digital)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente.
(assinatura digital)
Pedro Rinaldi de Oliveira Lima - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Leonardo Correia Lima Macedo, Tatiana Josefovicz Belisario, Paulo Roberto Duarte Moreira, Laercio Cruz Uliana Junior, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Marcelo Giovani Vieira, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade.
Nome do relator: PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA
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NULIDADE. É inválida a decisão que deixa de enfrentar e decidir causa de pedir ou alegação suscitada pela defesa, e que seja indispensável a sua solução, por ofensa ao aspecto substancial da garantia do contraditório, ao duplo grau de jurisdição e à exigência de motivação das decisões. Fundamento: Art. 31, 59, 60 e 61 do Decreto 70.235/72 (Lei do Processo Administrativo Fiscal); Art. 142 e 145 do Código Tributário Nacional e Regimento Interno deste Conselho. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso, para anular a decisão proferida pela DRJ, devendo outra decisão ser proferida, com a análise da documentação juntada em manifestação de inconformidade. (assinatura digital) Charles Mayer de Castro Souza Presidente. (assinatura digital) Pedro Rinaldi de Oliveira Lima Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Leonardo Correia Lima Macedo, Tatiana Josefovicz Belisario, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 92 33 02 /2 01 4- 57 Fl. 126DF CARF MF 2 Paulo Roberto Duarte Moreira, Laercio Cruz Uliana Junior, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Marcelo Giovani Vieira, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade. Relatório Tratase de Recurso Voluntário de fls. 59 interposto em face da decisão de primeira instância da DRJ/SP de fls. 53, que manteve o não reconhecimento do crédito de IPI pleiteado, nos moldes do Despacho Decisório de fls. 46. Como de costume desta Turma de julgamento, transcrevese o relatório da decisão de primeira instância: "Trata o presente de manifestação de inconformidade contra o Despacho Decisório que não homologou a compensação do débito declarado, por falta de direito creditório contra a Fazenda Nacional, em razão de constar nos sistemas da Secretaria da Receita Federal do Brasil, que o alegado recolhimento indevido já tinha sido utilizado integralmente para quitação de outros débitos do contribuinte A manifestante preliminarmente alega a nulidade do Despacho Decisório, por cerceamento à defesa e, no mérito, defende, em síntese, que, por não ter utilizado créditos do IPI, na apuração do imposto devido, recolheu tributo maior que o devido, portanto, conforme legislação e julgados que cita teria direito à restituição." A decisão de primeira instância da DRJ/SP foi publicada com a seguinte Ementa: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/11/2013 a 30/11/2013 NULIDADES. As causas de nulidade no âmbito do processo administrativo fiscal são somente aquelas elencadas na legislação de regência. O Despacho Decisório devidamente fundamentado é regularmente válido. IPI. CRÉDITO EXTEMPORÂNEO O aproveitamento dos créditos do IPI, darseá, inicialmente, por compensação do imposto devido pelas saídas dos produtos do estabelecimento industrial no período de apuração em que forem escriturados, sendo que o valor passível de ressarcimento é o saldo credor restante ao final de cada trimestrecalendário. RESTITUIÇÃO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITO EXTEMPORÂNEO. INADEQUAÇÃO. Pedido de ressarcimento, e não de restituição, é a modalidade de pleito administrativo adequado quando, pelo aproveitamento de créditos extemporâneos, resulta saldo credor no trimestre de apuração. Fl. 127DF CARF MF Processo nº 10880.923302/201457 Acórdão n.º 3201004.049 S3C2T1 Fl. 127 3 CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. INCIDÊNCIA DA TAXA SELIC. VEDAÇÃO. É incabível, por ausência de base legal, a atualização monetária de créditos do imposto, pela incidência da taxa Selic, ou de outros índices, sobre os créditos extemporâneos. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido." O processo digital foi distribuído e pautado nos moldes do regimento interno vigente. Relatório proferido. Voto Conselheiro Pedro Rinaldi de Oliveira Lima Relator. Conforme o Direito Tributário, a legislação, os fatos, as provas, documentos e petições apresentados aos autos deste procedimento administrativo e, no exercício dos trabalhos e atribuições profissionais concedidas aos Conselheiros, conforme Portaria de condução e Regimento Interno, apresentase este voto. Por conter matéria preventa desta 3.º Seção de julgamento deste Conselho e presentes os requisitos de admissibilidade, o tempestivo Recurso Voluntário deve ser conhecido. Em que pese o Despacho Decisório eletrônico ser muito breve, algo que realmente poderia ser aprimorado pelo Estado para melhor atender os contribuintes, neste caso em concreto o Despacho Decisório de fls. 46 foi devidamente motivado, fundamentado e emitido por autoridade competente. A conclusão apresentada é clara: o crédito não foi reconhecido porque os pagamentos já haviam sido utilizados para quitar outros débitos. Dessa forma, nos moldes da legislação que regula o PAF, como previsto no Art. 59 do Decreto 70.235/72 e Lei 9.718/99, o Despacho Decisório, objeto deste recurso, não pode ser considerado nulo, razão pela qual não merece provimento a alegação preliminar. Com relação ao mérito, verificase que o contribuinte apresentou documentação suficientemente importante que deveria ter sido analisada na decisão de primeira instância, mas não foi. A decisão de primeira instância analisou somente a primeira apuração. Em adição, a argumentação do contribuinte faz sentido, reproduzida a seguir em alguns trechos de seu Recurso: Fl. 128DF CARF MF 4 (...) Alega que não aproveitou crédito líquido e certo em determinado período e, por não ter aproveitado o crédito, ao quitar os débitos do período, quitou mais débitos do que devia. Assim, além de pagar mais do que devia, procedeu um segundo erro: reapurou o período, considerando os créditos e, para retificar o recolhimento anterior, pagou novamente os débitos. Ou seja, além de recolher duas vezes os tributos de um mesmo período, fez sem considerar seus créditos na apuração e, para comprovar, juntou comprovantes de arrecadação em fls. 39 e 40, NFs e resumos da apuração do IPI em fls. 33 e seguintes, assim como os documentos juntados em Manifestação de Inconformidade de fls. 19: Fl. 129DF CARF MF Processo nº 10880.923302/201457 Acórdão n.º 3201004.049 S3C2T1 Fl. 128 5 Diante do exposto, votase para que seja DADO PARCIAL PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, com fundamento no Art. 31, 59, 60 e 61 do Decreto 70.235/72 (Lei do Processo Administrativo Fiscal), no Art. 142 e 145 do Código Tributário Nacional e Regimento Interno deste Conselho, por não haverem medidas sanatórias, para que a decisão de primeira instância seja anulada e que nova seja proferida, com a devida análise da documentação juntada em Manifestação de inconformidade. Voto proferido. (assinatura digital) Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Fl. 130DF CARF MF
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Numero do processo: 10166.721879/2012-30
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Sep 19 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2007
DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. EXIGÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO EFETIVO PAGAMENTO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE.
A legislação do Imposto de Renda determina que as despesas com tratamentos de saúde declaradas pelo contribuinte para fins de dedução do imposto devem ser comprovadas por meio de documentos hábeis e idôneos, podendo a autoridade fiscal exigir que o contribuinte apresente documentos que demonstrem a real prestação dos serviços e o efetivo desembolso dos valores declarados, para a formação da sua convicção.
Numero da decisão: 2002-000.231
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Thiago Duca Amoni (relator) e Virgílio Cansino Gil, que lhe deram provimento parcial, para afastar a glosa das deduções de despesas médicas no valor de R$8.900,00, referentes ao profissional MARCO ANTÔNIO MARQUES DE ANDRADE e de R$600,00 referentes a profissional JACYARA NUNES RESENDE. Mantendo a glosa das despesas médicas de R$3.800,00 (JACYARA NUNES RESENDE) e de R$ 5.010,00 (ANA PAULA DE ABREU). Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez.
(assinado digitalmente)
Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente
(assinado digitalmente)
Thiago Duca Amoni - Relator.
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Fábia Marcília Ferreira Campelo, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: THIAGO DUCA AMONI
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DESPESA MÉDICA. Recorrente MARCELO DE ASSIS FERNANDES Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2007 DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. EXIGÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO EFETIVO PAGAMENTO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. A legislação do Imposto de Renda determina que as despesas com tratamentos de saúde declaradas pelo contribuinte para fins de dedução do imposto devem ser comprovadas por meio de documentos hábeis e idôneos, podendo a autoridade fiscal exigir que o contribuinte apresente documentos que demonstrem a real prestação dos serviços e o efetivo desembolso dos valores declarados, para a formação da sua convicção. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Thiago Duca Amoni (relator) e Virgílio Cansino Gil, que lhe deram provimento parcial, para afastar a glosa das deduções de despesas médicas no valor de R$8.900,00, referentes ao profissional MARCO ANTÔNIO MARQUES DE ANDRADE e de R$600,00 referentes a profissional JACYARA NUNES RESENDE. Mantendo a glosa das despesas médicas de R$3.800,00 (JACYARA NUNES RESENDE) e de R$ 5.010,00 (ANA PAULA DE ABREU). Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez. (assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente (assinado digitalmente) Thiago Duca Amoni Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 72 18 79 /2 01 2- 30 Fl. 93DF CARF MF Processo nº 10166.721879/201230 Acórdão n.º 2002000.231 S2C0T2 Fl. 90 2 Participaram do presente julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Fábia Marcília Ferreira Campelo, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil. Relatório Notificação de lançamento Trata o presente processo de notificação de lançamento – NL (efls. 40 a 45), relativa a imposto de renda da pessoa física pela qual se procedeu a glosa de despesas médicas indevidamente deduzidas. Tal autuação gerou lançamento de imposto de renda pessoa física suplementar de R$ 5.107,90, acrescido de multa de ofício no importe de 75%, bem como juros de mora Impugnação A notificação de lançamento foi objeto de impugnação, às efl. 02 a 32 dos autos, sob os seguintes fundamentos: · os recibos que colacionados aos autos são documentos hábeis para afastar a glosa das despesas médicas; · protesta pela nulidade do lançamento, por inexistência de causa para o lançamento. A impugnação foi apreciada na 7ª Turma da DRJ/BSB que por unanimidade, em 11/07/2014, no acórdão 0362.239, às efls. 59 a 67, julgou a impugnação parcialmente procedente. Recurso voluntário Ainda inconformado, o contribuinte, apresentou recurso voluntário, às efls. 74 a 88, no qual alega, em resumo, que os recibos emitidos em nome do contribuinte são documentos hábeis para afastamento das glosas. É o relatório. Fl. 94DF CARF MF Processo nº 10166.721879/201230 Acórdão n.º 2002000.231 S2C0T2 Fl. 91 3 Voto Vencido Conselheiro Thiago Duca Amoni Relator Pelo que consta no processo, o recurso é tempestivo, já que o contribuinte foi intimado do teor do acórdão da DRJ em 04/08/2014, efls. 71, e interpôs o presente Recurso Voluntário em 02/09/2014, efls. 74, posto que atende aos requisitos de admissibilidade e, portanto, dele conheço. Apresentada impugnação, a DRJ afastou a glosa da despesa médica com o Hospital Alvorada Taguatinga, no valor de R$264,18, de acordo com excerto da decisão: Em relação à despesa médica glosada com Hospital Alvorada Taguatinga (R$ 264,18), o contribuinte junta aos autos o comprovante da despesa médica (fls. 26), logo deve ser restabelecida tal dedução. Logo, subsiste a lide em relação a glosa das despesas médicas dos serviços prestados pelos seguintes profissionais: · Ana Paula de Abreu, no valor de R$ 5.010,00; · Jacyara Nunes Resende, no valor de R$4.400,00; · Marco Antônio Marques de Andrade, no valor de R$8.900,00. As despesas com médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais são dedutíveis da base de cálculo do imposto de renda da pessoa física, seja para tratamento do próprio contribuinte ou de seus dependentes, desde que devidamente comprovadas, conforme artigo 8º da Lei nº 9.250/95 e artigo 80 do Decreto nº 3.000/99 Regulamento do Imposto de Renda/ (RIR/99): Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o ano calendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com Fl. 95DF CARF MF Processo nº 10166.721879/201230 Acórdão n.º 2002000.231 S2C0T2 Fl. 92 4 exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; : Art. 80. Na declaração de rendimentos poderão ser deduzidos os pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, inciso II, alínea "a"). §1ºO disposto neste artigo (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, §2º): I aplicase, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica CNPJ de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento (grifos nossos) O trecho em destaque é claro quanto a idoneidade de recibos e notas fiscais, desde que preenchidos os requisitos legais, como meios de comprovação da prestação de serviço de saúde tomado pelo contribuinte e capaz de ensejar a dedução da despesa do montante de IRPF devido, quando da apresentação de sua DAA. O dispositivo em comento vai além, permitindo ainda que, caso o contribuinte tomador do serviço, por qualquer motivo, não possua o recibo emitido pelo profissional, a comprovação do pagamento seja feita por cheque nominativo ou extratos de conta vinculados a alguma instituição financeira. Assim, como fonte primária da comprovação da despesa temos o recibo e a nota fiscal emitidos pelo prestador de serviço, desde que atendidos os requisitos legais. Na falta destes, pode, o contribuinte, valerse de outros meios de prova. Ademais, o Fisco tem a sua disposição outros instrumentos para realizar o cruzamento de dados das partes contratantes, devendo prevalecer a boafé do contribuinte. Nesta linha, no acórdão 2001000.388, de relatoria do Conselheiro deste CARF José Alfredo Duarte Filho, temos: Fl. 96DF CARF MF Processo nº 10166.721879/201230 Acórdão n.º 2002000.231 S2C0T2 Fl. 93 5 (...) No que se refere às despesas médicas a divergência é de natureza interpretativa da legislação quanto à observância maior ou menor da exigência de formalidade da legislação tributária que rege o fulcro do objeto da lide. O que se evidencia com facilidade de visualização é que de um lado há o rigor no procedimento fiscalizador da autoridade tributante, e de outro, a busca do direito, pela contribuinte, de ver reconhecido o atendimento da exigência fiscal no estrito dizer da lei, rejeitando a alegada prerrogativa do fisco de convencimento subjetivo quanto à validade cabal do documento comprobatório, quando se trata tão somente da apresentação da nota fiscal ou do recibo da prestação de serviço. O texto base que define o direito da dedução do imposto e a correspondente comprovação para efeito da obtenção do benefício está contido no inciso II, alínea “a” e no § 2º, do art. 8º, da Lei nº 9.250/95, regulamentados nos parágrafos e incisos do art. 80 do Decreto nº 3.000/99 – RIR/99, em especial no que segue: Lei nº 9.250/95. (...) É clara a disposição de que a exigência da legislação especificada aponta para o comprovante de pagamento originário da operação, corriqueiro e usual, assim entendido como o recibo ou a nota fiscal de prestação de serviço, que deverá contar com as informações exigidas para identificação, de quem paga e de quem recebe o valor, sendo que, por óbvio, visa controlar se o recebedor oferecerá à tributação o referido valor como remuneração. A lógica da exigência coloca em evidência a figura de quem fornece o comprovante identificado e assinado, colocandoo na condição de tributado na outra ponta da relação fiscal correspondente (dedução tributação). Ou seja: para cada dedução haverá um oferecimento à tributação pelo fornecedor do comprovante. Quem recebe o valor tem a obrigação de oferecêlo à tributação e pagar o imposto correspondente e, quem paga os honorários tem o direito ao benefício fiscal do abatimento na apuração do imposto. Simples assim, por se tratar de uma ação de pagamento e recebimento de valor numa relação de prestação de serviço. Ocorre, neste caso, uma correspondência de resultados de obrigação e direito, gerados nessa relação, de modo que o contribuinte que tem o direito da dedução fica legalmente habilitado ao benefício fiscal porque de posse do documento comprobatório que lhe dá a oportunidade do desconto na apuração do tributo, confiante que a outra parte se quedará obrigada ao oferecimento à tributação do valor Fl. 97DF CARF MF Processo nº 10166.721879/201230 Acórdão n.º 2002000.231 S2C0T2 Fl. 94 6 correspondente. Somese a isso a realidade de que o órgão fiscalizador tem plenas condições e pleno poder de fiscalização, na questão tributária, com absoluta facilidade de identificação, tão somente com a informação do CPF ou CNPJ, sobre a outra banda da relação pagador recebedor do valor da prestação de serviço. O dispositivo legal (inciso III, do § 1º, art. 80, Dec. 3.000/99) vai além no sentido de dar conforto ao pagador dos serviços prestados ao prever que no caso da falta da documentação, assim entendido como sendo o recibo ou nota fiscal de prestação de serviço, poderá a comprovação ser feita pela indicação de cheque nominativo pelo qual poderia ter sido efetuado o pagamento, seja por recusa da disponibilização do documento, seja por extravio, ou qualquer outro motivo, visto que pelas informações contidas no cheque pode o órgão fiscalizador confrontar o pagamento com o recebimento do valor correspondente. Além disso, é de conhecimento geral que o órgão tributante dispõe de meios e instrumentos para realizar o cruzamento de informações, controlar e fiscalizar o relacionamento financeiro entre contribuintes. O termo “podendo” do texto legal consiste numa facilitação de comprovação dada ao pagador e não uma obrigação de fazêlo daquela forma." Ainda, há várias outras jurisprudências deste Conselho que corroboram com os fundamentos até então apresentados: Processo nº 16370.000399/200816 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2001000.387 – Turma Extraordinária / 1ª Turma Sessão de 18 de abril de 2018 Matéria IRPF DEDUÇÃO DESPESAS MÉDICAS Recorrente FLÁVIO JUN KAZUMA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2005 DESPESAS MÉDICAS GLOSADAS. DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS QUE JUSTIFIQUEM A INIDONEIDADE DOS COMPROVANTES. Recibos de despesas médicas têm força probante como comprovante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física. A glosa por recusa da aceitação dos recibos de despesas médicas, pela autoridade fiscal, deve estar sustentada em indícios consistentes e elementos que indiquem a falta de idoneidade do documento. A ausência de elementos que indique a falsidade ou incorreção dos recibos os torna válidos para comprovar as despesas médicas incorridas. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. RECONHECIMENTO DO DÉBITO. Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte. Processo nº 13830.000508/200923 Fl. 98DF CARF MF Processo nº 10166.721879/201230 Acórdão n.º 2002000.231 S2C0T2 Fl. 95 7 Recurso nº 908.440 Voluntário Acórdão nº 220201.901 – 2ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 10 de julho de 2012 Matéria Despesas Médicas Recorrente MARLY CANTO DE GODOY PEREIRA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2006 DESPESAS MÉDICAS. RECIBO. COMPROVAÇÃO. Recibos que contenham a indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica CNPJ de quem prestou os serviços são documentos hábeis, até prova em contrário, para justificar a dedução a título de despesas médicas autorizada pela legislação. Os recibos que não contemplem os requisitos previstos na legislação poderão ser aceitos para fins de dedução, desde que seja apresenta declaração complementando as informações neles ausentes. Feitas estas considerações, às efls. 38 a 30 dos autos, o contribuinte junta recibos que atestam que foi submetido a procedimento dentário no valor de R$8.900,00 realizado com o profissional MARCO ANTÔNIO MARQUES DE ANDRADE, motivo pelo qual afasto a glosa da despesa médica. Quanto as despesas com a profissional JACYARA NUNES RESENDE, totalizando o valor de R$4.400,00, às efls. 88, há um recibo, no valor de R$600,00, que consta a identidade profissional da prestadora de serviço e outro recibo, no valor de R$3.800,00, que não atende este requisito elencado pela legislação vigente. Logo, afasto a glosa da dedução do valor de R$600,00. Às efls. 89 há declaração do próprio contribuinte alegando que não encontrou os recibos dos serviços prestados pela profissional ANA PAULA DE ABREU, no valor de R$ 5.010,00, motivo pelo qual, não restam comprovadas as despesas médicas, devendo a glosa ser mantida. Diante do exposto, conheço do recurso voluntário para, no mérito, darlhe parcial provimento para afastar a glosa das deduções de despesas médicas no valor de R$8.900,00, referentes ao profissional MARCO ANTÔNIO MARQUES DE ANDRADE e de R$600,00 referentes a profissional JACYARA NUNES RESENDE. Mantenho a glosa das despesas médicas de R$3.800,00 (JACYARA NUNES RESENDE) e de R$ 5.010,00 (ANA PAULA DE ABREU) (assinado digitalmente) Thiago Duca Amoni Fl. 99DF CARF MF Processo nº 10166.721879/201230 Acórdão n.º 2002000.231 S2C0T2 Fl. 96 8 Voto Vencedor Conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Redatora Designada Com a devida vênia, divirjo do conselheiro relator quanto à possibilidade de restabelecimento das despesas médicas efetuadas com os profissionais Marco Antonio e Jacyara, na forma proposta em seu voto, à vista dos documentos existentes nos autos. No curso da ação fiscal, o recorrente foi instado a comprovar o efetivo pagamento de despesa médica declarada, limitandose a juntar recibos e declarações emitidas pelos profissionais, que não se revelam hábeis a fazer a prova exigida. A dedução a título de despesas médicas é condicionada ainda ao atendimento de algumas formalidades legais: os pagamentos devem ser especificados e comprovados com documentos originais que indiquem nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) ou Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) de quem os recebeu (art. 8º, § 2º, inc. III, da Lei 9.250, de 1995). Esta norma, no entanto, não dá aos recibos valor probante absoluto, ainda que atendidas todas as formalidades legais. A apresentação de recibos de pagamento com nome e CPF do emitente têm potencialidade probatória relativa, não impedindo a autoridade fiscal de coletar outros elementos de prova com o objetivo de formar convencimento a respeito da existência da despesa. Nesse sentido, o artigo 73, caput e § 1º do RIR/1999, autoriza a fiscalização a exigir provas complementares se existirem dúvidas quanto à existência efetiva das deduções declaradas: Art. 73. Todas as deduções estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (Decretolei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). § 1º Se forem pleiteadas deduções exageradas em relação aos rendimentos declarados, ou se tais deduções não forem cabíveis, poderão ser glosadas sem a audiência do contribuinte. (Decreto lei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 4º. (Grifei). Sobre o assunto, seguem decisões emanadas da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) e da 1ª Turma, da 4ª Câmara da 2ª Seção do CARF: IRPF. DESPESAS MÉDICAS.COMPROVAÇÃO. Todas as deduções declaradas estão sujeitas à comprovação ou justificação, mormente quando há dúvida razoável quanto à sua efetividade. Em tais situações, a apresentação tãosomente de recibos e/ou declarações de lavra dos profissionais é insuficiente Fl. 100DF CARF MF Processo nº 10166.721879/201230 Acórdão n.º 2002000.231 S2C0T2 Fl. 97 9 para suprir a não comprovação dos correspondentes pagamentos. (Acórdão nº9202005.323, de 30/3/2017) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2011 DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. APRESENTAÇÃO DE RECIBOS. SOLICITAÇÃO DE OUTROS ELEMENTOS DE PROVA PELO FISCO. Todas as deduções estão sujeitas à comprovação ou justificação, podendo a autoridade lançadora solicitar motivadamente elementos de prova da efetividade dos serviços médicos prestados ou dos correspondentes pagamentos. Em havendo tal solicitação, é de se exigir do contribuinte prova da referida efetividade. (Acórdão nº9202005.461, de 24/5/2017) IRPF. DEDUÇÃO DE DESPESAS MÉDICAS. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DA EFETIVA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS E DO CORRESPONDENTE PAGAMENTO. A Lei nº 9.250/95 exige não só a efetiva prestação de serviços como também seu dispêndio como condição para a dedução da despesa médica, isto é, necessário que o contribuinte tenha usufruído de serviços médicos onerosos e os tenha suportado. Tal fato é que subtrai renda do sujeito passivo que, em face do permissivo legal, tem o direito de abater o valor correspondente da base de cálculo do imposto sobre a renda devido no ano calendário em que suportou tal custo. Havendo solicitação pela autoridade fiscal da comprovação da prestação dos serviços e do efetivo pagamento, cabe ao contribuinte a comprovação da dedução realizada, ou seja, nos termos da Lei nº 9.250/95, a efetiva prestação de serviços e o correspondente pagamento. (Acórdão nº2401004.122, de 16/2/2016) Portanto, os recibos e as declarações não são uma prova absoluta para fins da dedução, sendo possível a exigência fiscal de comprovação do pagamento da despesa ou, alternativamente, a efetiva prestação do serviço médico, por meio de receitas, exames, prescrição médica. É não só direito mas também dever da Fiscalização exigir provas adicionais quanto à despesa declarada em caso de dúvida quanto a sua efetividade ou ao seu pagamento. Ao se beneficiar da dedução da despesa em sua Declaração de Ajuste Anual, o contribuinte deve se acautelar na guarda de elementos de provas da efetividade dos pagamentos e dos serviços prestados. Fl. 101DF CARF MF Processo nº 10166.721879/201230 Acórdão n.º 2002000.231 S2C0T2 Fl. 98 10 Importa salientar que não é o Fisco quem precisa provar que as despesas médicas declaradas não existiram, mas o contribuinte quem deve apresentar as devidas comprovações quando solicitado. Os recibos constituem declaração particular, com eficácia entre as partes. Em relação a terceiros, comprovam a declaração e não o fato declarado. E o ônus da prova do fato declarado compete ao contribuinte, interessado na prova da sua veracidade. É o que estabelece o artigo 408 do Código de Processo Civil (Lei nº 13.105, de 2015): Art. 408. As declarações constantes do documento particular escrito e assinado ou somente assinado presumemse verdadeiras em relação ao signatário. Parágrafo único. Quando, todavia, contiver declaração de ciência de determinado fato, o documento particular prova a ciência, mas não o fato em si, incumbindo o ônus de proválo ao interessado em sua veracidade. (destaques acrescidos) O Código Civil também aborda a questão da presunção de veracidade dos documentos particulares e seus efeitos sobre terceiros: Art. 219. As declarações constantes de documentos assinados presumemse verdadeiras em relação aos signatários. Parágrafo único. Não tendo relação direta, porém, com as disposições principais ou com a legitimidade das partes, as declarações enunciativas não eximem os interessados em sua veracidade do ônus de proválas. ... Art. 221. O instrumento particular, feito e assinado, ou somente assinado por quem esteja na livre disposição e administração de seus bens, prova as obrigações convencionais de qualquer valor; mas os seus efeitos, bem como os da cessão, não se operam, a respeito de terceiros, antes de registrado no registro público.” (destaques acrescidos) Não tendo sido apresentada a prova exigida, é de se negar provimento ao recurso, mantendose a glosa das despesas médicas. É como voto. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Fl. 102DF CARF MF
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Numero do processo: 10314.000028/2011-28
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Sep 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 22 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Período de apuração: 02/10/2007 a 28/02/2008
INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS
A ocultação do real adquirente de mercadorias importadas configura a infração tipificada como dano ao Erário, punível com a penalidade de perdimento das mercadorias.
PENA DE PERDIMENTO. SUBSTITUIÇÃO.
É cabível a conversão do perdimento em multa pecuniária equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, quando esta for consumida ou não localizada.
Numero da decisão: 3302-005.817
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros Walker Araújo, José Renato Pereira de Deus, Diego Weis Jr e Raphael Madeira Abad que dar provimento ao recurso voluntário. O Conselheiro Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado) não participou do julgamento em razão do voto proferido definitivamente pelo Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida na sessão de agosto de 2018.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède -Presidente
(assinado digitalmente)
Jorge Lima Abud -Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Vinicius Guimarães (Suplente Convocado), Walker Araujo, Orlando Rutigliani Berri (Suplente Convocado), Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Paulo Guilherme Deroulede.
Nome do relator: JORGE LIMA ABUD
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IMP. E EXP. E COMÉRCIO E OUTROS Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Período de apuração: 02/10/2007 a 28/02/2008 INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS A ocultação do real adquirente de mercadorias importadas configura a infração tipificada como dano ao Erário, punível com a penalidade de perdimento das mercadorias. PENA DE PERDIMENTO. SUBSTITUIÇÃO. É cabível a conversão do perdimento em multa pecuniária equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, quando esta for consumida ou não localizada. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros Walker Araújo, José Renato Pereira de Deus, Diego Weis Jr e Raphael Madeira Abad que dar provimento ao recurso voluntário. O Conselheiro Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado) não participou do julgamento em razão do voto proferido definitivamente pelo Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida na sessão de agosto de 2018. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 31 4. 00 00 28 /2 01 1- 28 Fl. 1446DF CARF MF 2 Jorge Lima Abud Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Vinicius Guimarães (Suplente Convocado), Walker Araujo, Orlando Rutigliani Berri (Suplente Convocado), Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Paulo Guilherme Deroulede. Relatório Transcrevese o Relatório do Acórdão n° 1651.169 da 23ª da Delegacia Regional de Julgamento de São Paulo: Trata o presente processo de auto de infração lavrado em 04/01/2011, no valor de R$ 1.147.475,75, em face do contribuinte em epígrafe, formalizando a exigência de multa equivalente ao valor aduaneiro pela impossibilidade da apreensão das mercadorias importadas então sujeitas à Penalidade de Perdimento, uma vez caracterizada a infração de interposição fraudulenta nos termos do art. 23, inciso V, §§ 1° e 3° do DecretoLei n° 1.455/76. Informa a Fiscalização que, mediante Mandado de Procedimento Fiscal MPF n° 08.1.55.002010009035 foi realizada ação fiscal na empresa ITIBAN S/A IMPORTAÇÃO, EXPORTAÇÃO E COMÉRCIO com o objetivo de aprofundar o procedimento especial instaurado em 2008/2009, com fundamento no art. 1° da IN SRF n° 228/2002, restando constatado, por ocasião da fiscalização, o que segue : Histórico fraudulento, consoante pesquisas efetuadas no sistema RADAR, tanto da autuada ITIBAN quanto das tradings que operavam com ela; A empresa ITIBAN não possuía estrutura para movimentar as mercadorias por ela importadas na condição de real adquirente, situação evidenciada em visita efetuada pela Fiscalização à sede da empresa em São Paulo; A empresa ITIBAN operava por conta e ordem de terceiros, segundo depoimento prestado por seu sócioadministrador; Requisições de movimentação financeira da ITIBAN evidenciaram movimentações bancárias atípicas e insuficientes para financiar suas operações de comércio exterior; A autuada não possuía empregados, depósitos ou armazéns, e apresentava a posição contábil dos estoque sempre igual a zero; Não foi comprovada a capacidade econômicofinanceira de seus sócios, e, quanto ao capital social da empresa, a integralização deuse, em sua quase totalidade, de forma duvidosa, por meio de um imóvel no meio da Amazônia. Ao final do procedimento a Fiscalização conclui que a empresa ITIBAN utilizava recursos de terceiro para financiar suas Fl. 1447DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 3 3 operações de comércio exterior, sendo, na verdade, a empresa ALPELO CONFECÇÕES E COMÉRCIO DE ROUPAS LTDA a real adquirente das mercadorias importadas por intermédio das DI(s) elencadas em fl. 56, então registradas pelo importador ALCOEX. De outro lado, levando em conta os procedimentos de fiscalização efetuados sobre a empresa ALPELO, constatouse que: Esta apresentava estrutura e capacidade econômicofinanceira compatíveis com as suas atividades comerciais; As mercadorias amparadas pelas DI(s) elencadas em fl. 56, em que a empresa ITIBAN encontrase registrada como o real adquirente, têm por fornecedores estrangeiros empresas indicadas pela empresa ALPELO como seus; Em que pese encontrarse registrada como real adquirente das mercadorias mencionadas no item anterior, a empresa ITIBAN não conseguiu informar os contatos relacionados aos fornecedores estrangeiros das mercadorias; Consoante fluxo financeiro detalhado em fls. 61/62, houve adiantamento de recursos com vistas a custear as operações de importação objeto desta ação fiscal, uma vez que a empresa ITIBAN recebera recursos financeiros de seu cliente ALPELO antes de repassálos ao fornecedor estrangeiro, na forma ali relatada. Cientificadas do auto de infração, as autuadas apresentaram, tempestivamente, as respectivas impugnações, na forma do art. 56 do Decreto n° 7.574, de 29/09/2011, instaurando, desse modo, a fase litigiosa do processo, alegando o que segue: EMPRESA ITIBAN A Impugnante é a real adquirente das mercadorias importadas objeto do auto de infração impugnado; (fl. 1.255) Essas mercadorias foram importadas na modalidade importação por conta e ordem de terceiros, consoante contrato celebrado desde meados do ano de 2006 com a empresa importadora Alcoex Trading Assessoria Comercial, Importação e Exportação Ltda; (fl. 1.256) Não há ocultação do real adquirente das mercadorias importadas, sendo que os valores registrados nos livros contábeis da empresa Itiban S/A referemse a quantias recebidas posteriormente à nacionalização daquelas mercadorias produto, portanto, das relações comerciais de compra e venda; (fl. 1.256) Não há de prosperar a suposição de fraude em relação ao real adquirente das mercadorias, uma vez que não houve uma exata vinculação dos valores depositados pela empresa ALPELO com Fl. 1448DF CARF MF 4 os valores da operação de câmbio relacionados à compra das mercadorias no exterior; (fls. 1.256/1.257) A Impugnante, assim como seus sócios, possuem capacidade econômica e financeira, conforme se pode constatar, em relação a esses, por intermédio das respectivas declarações de IRPF, e, quanto àquela, pela integralização do seu capital social (imóvel adquirido no valor de R$ 19.000.000,00); (fl. 1.259) Quanto à falta de capacidade operacional da autuada alegada pela Fiscalização precária instalação física, quadro de funcionários inadequado, ausência de depósito para o armazenamento do estoque rotativo a Impugnante argumenta que a maioria dos serviços são terceirizados: comissária de despachos, locação provisória de armazenamento, transportes; (fl. 1.260) Em relação ao dano ao Erário, a tese sustentada pela autoridade fiscal, por ocasião da lavratura do auto de infração, de que a autuada não estaria pagando o IPI na saída das mercadorias importadas não há de prevalecer, haja vista que, de acordo com o princípio da não cumulatividade desse tributo, o consumidor seria quem, de fato, arcaria com o ônus financeiro desse tributo; (fls. 1.261/1.265) Caso prevaleça o entendimento de que a autuada praticara a infração de interposição fraudulenta, a penalidade a ser aplicada deveria ser outra, mais precisamente aquela prescrita pelo art. 33 da Lei n° 11.488/2007. (fls. 1.265/1.266) Por derradeiro, a Impugnante, considerando as alegações apresentadas, requer o acolhimento de sua defesa e a improcedência do auto de infração então lavrado. EMPRESA ALPELO Em sua defesa, o responsável solidário tece as seguintes alegações: Não praticara qualquer ato contrário à lei, nem praticara fraude ou simulação; (fl. 1.322) Não restou provado nos autos que a Impugnante tenha deixado de efetuar o pagamento do IPI na saída das mercadorias, devendo, pois, tal assertiva ser rechaçada a fim de que não subsista como fundamento de fundo; (fl. 1.322) Da mesma forma, não sonegara tributos como ICMS, PIS, COFINS, IR, etc., nem praticara crime de lavagem de dinheiro; (fls. 1.324/1.326) Todas as empresas envolvidas na análise fiscal que culminou com a presente ação estão devidamente inscritas e autorizadas a operar no comércio exterior, perante habilitação em sistemas da Receita Federal; (fl. 1.326) Não há que se falar em ocultação, uma vez que todos os documentos foram disponibilizados e apresentados à Fiscalização, sendo convergentes os documentos apresentados pela Impugnante e pela empresa Itiban e as respectivas Fl. 1449DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 4 5 operações devidamente registradas nos livros fiscais e declaradas ao Fisco pelas empresas; (fls. 1.326/1.327) Foram autorizados, pela Receita Federal, o credenciamento e o registro do contrato de importação na modalidade por conta e ordem de terceiros entre as empresa Itiban e Alcoex ; (fl. 1.327) A Impugnante não praticou a infração de dano ao Erário, uma vez que não comercializou produtos nocivos à saúde ou à natureza, nem praticou atos criminosos ou de sonegação de tributos; (fls. 1.328/1.329) Repudia a presunção do Fisco de que efetuara as negociações das mercadorias diretamente com o exportador pelo fato de a empresa Itiban não fornecer informações acerca de contatos com o fornecedor estrangeiro; (fls. 1.329) A Impugnante é parte ilegítima para figurar no pólo passivo da obrigação tributária, pois não participara das importações; (fl. 1.334) A autoridade autuante não observou os fatos e as regras a serem aplicadas, pois, o auto foi baseado no Decreto n° 6.759/2009, enquanto os fatos tratados aconteceram em momento anterior ao da vigência desse (entre 10/2007 a 02/2008); (fl. 1.342) Por derradeiro, requer a Impugnante a procedência de sua impugnação. Em 30 de setembro de 2013, através do Acórdão n° 1651.169, a 23ª Turma da Delegacia Regional de Julgamento de São Paulo, por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido. Entendeu a Turma que a autuação se sustenta numa linha de eventos, considerados não de forma isolada, mas formando uma cadeia objetivando um fim: demonstrar a ocorrência de infração de dano ao Erário devido à ocultação do real adquirente das mercadorias em questão. Então, segundo o apurado pela Fiscalização: I. a empresa Alpelo efetuava as negociações das mercadorias diretamente com o exportador; II. as mercadorias eram importadas por intermédio da empresa Alcoex, na modalidade de importação por conta e ordem de terceiros, ocasião em que figurava como suposto real adquirente dessas mercadorias a empresa Itiban; III. após os registros das DI(s), e antes do desembaraço das mercadorias, a empresa Itiban emitia as respectivas notas fiscais de venda ao seu cliente no mercado interno a empresa Alpelo; Fl. 1450DF CARF MF 6 IV. após o desembaraço aduaneiro, havia a emissão de duplicatas pela empresa Itiban com vencimentos em até 180 dias (às vezes à vista) contra o sacado (empresa Alpelo), contados do registro das respectivas DI(s); V. a empresa Itiban operava com o prazo de 180 dias para honrar seus compromissos no exterior, segundo declaração em fl. 130, ou seja, utilizavase dos recursos recebidos no mercado interno para o pagamento das mercadorias. A empresa ITIBAN S/A foi cientificada da Decisão da Delegacia Regional de Julgamento, em 09/05/2014, via Edital, às folhas 1.379 do processo digital. A empresa ALPELO CONFECÇÕES foi cientificada da Decisão da Delegacia Regional de Julgamento, em 28/04/2014, via Aviso de Recebimento, às folhas 1.385 do processo digital. Em 28/05/2014, a empresa ALPELO CONFECÇÕES ingressou com RECURSO VOLUNTÁRIO junto ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, apresentando suas razões, de folhas 1.392 a 1.440. Em síntese, foi alegado que: ü A Recorrente está habilitada a operar com o mercado internacional, possuindo “radar” ativo e regular desde o ano de 2004, efetuando operações regulares de mercado exterior, sempre submetendo suas importações a autoridade aduaneira brasileira (fls. 1352); ü Dentro de sua atividade no ano de 2008 a empresa Recorrente adquiriu mercadorias da empresa ITIBAN, tudo devidamente documentado e contabilizado, como se depreende pelos documentos de fls. 698/907; ü A Recorrente adquiriu mercadorias dentro do mercado interno, com pagamento após a entrega do produto e, obviamente, depois do desembaraço aduaneiro; ü Não houve interposição fraudulenta, nem nenhum ato omitido ao fisco, como se observa nas centenas de documentos que instruíram o presente processo, porquanto o fisco só chegou até a Recorrente por encontrar lançamentos fiscais em seu nome na contabilidade da autuada ITIBAN; ü Depois da leitura do auto de infração e da extração do que é mais relevante, chegamos à conclusão de que foi aplicada a legislação aduaneira de perdimento das mercadorias em face da empresa que adquiriu os produtos, com base em presunção de que tenha havido fraudes e simulações; ü Os fatos presumidos pela fiscalização prescindem de provas para afastar os atos legítimos praticados pela Recorrente, bem como deve haver muito mais que argumentos para refutar a prova lícita produzida nos presentes autos; Fl. 1451DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 5 7 ü A ilegitimidade passiva da Recorrente é flagrante, a imputação fiscal é improcedente, e é assim que submete ao reexame Dessa Colenda Turma para ver aplicado o Direito em sua exata dimensão; ü Analisando as provas produzidas pelo fisco e a conduta das empresas, sua legalidade, devem orientar as razões que as levariam a praticar as supostas fraudes descritas pela Douta Fiscalização e admitidas pela Delegacia de Julgamento a quo tendo em vista que que a imputação fiscal está calcada apenas em suposições; ü Aparentemente a determinação em dar pela pena de perdimento é maior que o esforço em demonstrar ter havido a fraude presumida. Só em argumentos não se pode fiar o lançamento de ofício, necessário que autoridade fiscal apresente provas; ü Entende a Recorrente que, libertandose dos preceitos, ou pré conceitos, devem os autos ser analisados na melhor acepção jurídica do mesmo ou seja, “o que não está nos autos, não está no mundo” (quod non est in actis non est in mundo), deixando de lado as experiências ou fatos praticados ou constatados em outros processos que não o presente; ü Estranhamente o relatório de fls. 352/359 da própria inspetoria atesta que a empresa autuada ITIBAN atuava licitamente, descrevendo inclusive o pagamento de tributos com regularidade e o fechamento de câmbio em 2008; ü Observem Doutos Conselheiros, a empresa tinha contratos de câmbio que fechava com os próprios recursos, bem como tinha despesa compatível com sua atividade tal contrariedade entre os Auditores só demonstra a incerteza nas conclusões fiscais negativas expedidas no presente procedimento; ü O volume total de operações entre a Recorrente e a ITIBAN fica na casa de 6% (seis por cento), do que alega a fiscalização que tenha a empresa faturado (mais de trinta milhões de reais), corroborando a informação que a compra de produtos de outros fornecedores só se presta a compor o mix de produtos que a própria Recorrente fabrica em sua sede; ü Não é crível que se entenda que alguém que tenha crédito e possa receber de seus clientes antes de pagar as mercadorias que comprou esteja praticando um ato ilícito; ü Estando convencida a Recorrente que não praticou nenhum ato contrário a lei, ou em fraude ou simulação apresenta detalhadamente os fatos que autorizam a declaração de improcedência do auto de infração, esperando que Esse Egrégio Conselho os reconheça como legítimos; Fl. 1452DF CARF MF 8 ü No presente caso houve uma transação comercial entabulada por empresas inscritas perante os órgãos de controle e fiscalização, com a emissão de documentos fiscais e sua devida contabilização e declaração ao fisco. Nenhum ato criminoso foi praticado para que houvesse qualquer assertiva a respeito do malsinado crime; ü Como se nota, mais uma vez, não trouxe a autoridade autuante nenhum elemento de prova que esteja acontecendo o crime de lavagem de dinheiro, até porque a Recorrente apresentou a sua contabilidade demonstrando a origem de todo o seu capital, inclusive com as declarações de imposto de renda dos sócios; ü Não se pode falar em ocultação quando todos os documentos são franqueados, disponibilizados e apresentados à fiscalização, sem qualquer ressalva ou vírgulas, sendo convergentes os documentos apresentados pela Recorrente e pela vendedora ITIBAN, ou seja, as operações foram registradas nos livros fiscais e declarados ao fisco por ambas as empresas; ü Todos os processos de importação, pelo que está provado nos presentes autos, foram submetidos ao desembaraço e conferência aduaneira, onde foram efetuadas todas as declarações e recolhimentos dos tributos, nada sendo omitido ao fisco, sendo autorizado o credenciamento das empresas, o registro do contrato entre a ITIBAN e ALCOEX, e o desembaraço da mercadoria, ou seja, TUDO EXPLICITAMENTE EFETUADO SOB A ÉGIDE E AUTORIZAÇÃO DAS AUTORIDADES FAZENDÁRIAS; ü Não restou configurado nos presentes autos qualquer das infrações descritas, e o argumento que as operações foram submetidas a análise fiscal foi efetuada exatamente para demonstrar que nada foi omisso ou oculto, dentro do tópico em questão; ü Os pagamentos realizados em dinheiro se justifica pela forma que opera a Recorrente, por ser uma empresa estabelecida no pólo comercial do Brás, um dos mais pujantes da Capital de São Paulo, recebe de seus clientes vindos de outras cidades grandes quantias em dinheiro e que não possuem crédito, então, optou por pagar a sua fornecedora ITIBAN com parte em dinheiro, o que não ocorreu em todas as operações, sendo a maioria dos negócios efetuados com pagamento através de depósito bancário; ü O pagamento em dinheiro não representa nenhum ato ilícito autorizador de qualquer presunção fiscal negativa, até porque foram emitidos os documentos fiscais exigidos por lei e foram efetuados todos os registros contábeis pertinentes (§ 1° do artigo 9° da Lei de Duplicatas Lei n° 5.474/68); ü O Douto Julgador tributário inverteu a ordem dos fatos alegados em Impugnação, porquanto entendeu que a empresa estivesse confirmando a negociação direta, quando repitase ‐ o que Fl. 1453DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 6 9 ocorreu foi o inverso ‐ a empresa Recorrente passou a comprar do exportador chinês após conhecer seus produtos adquiridos no mercado nacional da ITIBAN; ü A questão é que o crédito na interpretação acima deve ser considerado como capacidade financeira. Se uma empresa não tem capital, mas tem crédito e consegue comprar, vender e receber antes de pagar é um potencial financeiro que a mesma possui, ademais não há nos autos qualquer relação entre o exportador estrangeiro e a Recorrente que autorizasse entender que o pagamento fosse custeado pela mesma; ü Veja Nobres Conselheiros, o negócio jurídico comercial efetuado entre a Recorrente e a empresa ITIBAN está claramente demonstrado nos documentos apresentados ao fisco, estando claro ainda que foi um negócio jurídico perfeito albergado pela legalidade; ü A Recorrente pagou a mercadoria que recebeu, dentro do preço, prazo e condições da negociação, não pode, nem tem competência de se imiscuir nos negócios efetuados pela ITIBAN dentro de sua atividade e objetivo social devidamente registrado e autorizado pelos órgãos de controle e fiscalização, aliás, somente o poder de polícia inerente à Autoridade Fiscal poderia lançar mão de uma gama tão grande de informações como a constante no presente processo, e, mesmo assim não há qualquer ato ilícito praticado que autorize a imputação realizada, com a devida e repetida vênia; ü O dano ao erário deve ser sempre comprovado, para que se possa aplicar a lei ao caso concreto; ü Por fim, em termos de argumentação fática deve deixar claro que não houve nada omitido, oculto ou simulado, sendo as operações praticadas pela Recorrente regidas pela mais explicita licitude e devidamente documentada nos presentes autos; ü Se o fisco federal habilitou uma empresa a operar o mercado externo, e depois vem alegar que houve fraude no procedimento de cadastramento, deve penalizar aqueles que participaram da fraude e não a Recorrente que nenhuma relação outra teve com a empresa IT1BAN senão a comercial, como explicitado nos presentes autos. ü Dessa forma, se houve irregularidade na importação por culpa da ITIBAN que não cumpriu as obrigações acessórias no momento do despacho de importação, não pode a Recorrente ser penalizada, por se tratar de terceiro de boafé; ü Inexistindo conduta dolosa por parte da recorrente não se pode aplicar qualquer pena de perdimento, posto que esse elemento essencial para aplicação da penalidade; Fl. 1454DF CARF MF 10 ü Portanto, tendo os atos praticados pela Recorrente sido efetuados sob o regime da estrita legalidade, e sob a égide e autorização da própria Receita Federal não há que se falar perdimento de todas as mercadorias importadas, sendo, inclusive a Recorrente parte ilegítima para figurar no pólo passivo da presente autuação; ü Ao que parece, o fato de se importar mercadoria destinada a um determinado cliente (ainda que fosse mas não é) não caracteriza fraude ou a simulação até porque é uma operação comercial legal, e mais, não existindo o dano ao erário, estaria a fiscalização impondo restrições ilegítimas à livre negociação e ao trânsito de mercadorias (artigo 150, V da CF); ü Importante notar que a empresa Recorrente não efetuou uma importação sob encomenda da empresa ITIBAN, mas se assim o fosse não representaria um negócio ilícito, sem que o fisco demonstre a fraude ou a simulação ou mesmo qualquer um dos “danos ao erário” descritos pela Douta autoridade julgadora; ü Da forma como está lançada a presente autuação o simples fato de se presumir ter havido uma importação por conta e ordem de terceiro já autoriza o fisco a aplicar a pena capital de perdimento. Tal entendimento não se coaduna com a legislação civil vigente; ü A legislação só admite a anulação dos atos tidos como simulados (artigo 167 do Código Civil e 116 do Código Tributário Nacional), mas apenas quando tem a intenção de lesar. DOS PEDIDOS: Requer, finalmente, seja dado provimento integral ao presente Recurso, para reconhecer improcedente a presunção fiscal lançada nos autos, em confronto com as provas apresentadas. Requer a intimação do julgado proferido à Recorrente, pelo como da sessão de julgamento para apresentação de memoriais e ou sustentar oralmente suas razões recursais. É o relatório. Voto Conselheiro Jorge Lima Abud – Relator. Da admissibilidade. Por conter matéria desta E. Turma da 3a Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e presentes os requisitos de admissibilidade, conheço do Recurso Voluntário tempestivamente interposto pelo contribuinte, considerando que: A empresa ITIBAN S/A foi cientificada do Acórdão n° 1651.169 em 09/05/2014, via Edital, às folhas 1.379 do processo digital. Fl. 1455DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 7 11 A empresa ALPELO CONFECÇÕES foi cientificada do Acórdão n° 16 51.169 em 28/04/2014, via Aviso de Recebimento, às folhas 1.385 do processo digital. Em 28/05/2014, a empresa ALPELO CONFECÇÕES ingressou com RECURSO VOLUNTÁRIO. a empresa ITIBAN S/A. IMP. E EXP. E COMÉRCIO E OUTROS foi cientificada do Acórdão n° 1651.169, em 13/10/2010, via Aviso de Recebimento, às folhas 293 do processo digital. A empresa CONQUISTADORA TRANSPORTE COLETIVO DE URUGUAINA apresentou o seu Recurso Voluntário em 12/11/2010, às folhas 294 do processo digital. O recurso é tempestivo. Da controvérsia. ü A legislação só admite a anulação dos atos tidos como simulados; ü A prática de interposição fraudulenta de terceiros pela empresa ALPELO CONFECÇÕES; ü A fiscalização se pauta em fatos presumidos que prescindem de provas; ü A ilegitimidade passiva da empresa ALPELO CONFECÇÕES; ü A empresa ALPELO CONFECÇÕES possuía recursos próprios para o pagamento de tributos com regularidade e o fechamento de câmbio em 2008; ü A ocorrência de ocultação do sujeito passivo; ü Não restou configurado nos presentes autos qualquer das infrações descritas, e o argumento que as operações foram submetidas a análise fiscal foi efetuada exatamente para demonstrar que nada foi omisso ou oculto, dentro do tópico em questão; ü Os pagamentos realizados em dinheiro; ü O dano ao erário; ü A empresa ALPELO CONFECÇÕES é terceiro de boafé; ü A ausência de conduta dolosa. Das preliminares. É alegado às folhas 45 do Recurso Voluntário: Fl. 1456DF CARF MF 12 De outro lado, a Douta autoridade autuante, com base em presunções, resolve reabrir procedimento fiscalizatório, equipasse de apenas conceitos de fraudes e de seu ilimitado conhecimento técnico e interpreta as provas existentes nos presentes autos de forma a concluir que houve uma fraude, ou uma simulação, contudo, as mesmas provas que permitiram a Douta autoridade autuante presumir ter havido importação por terceiro é a prova que reafirma a legítima negociação comercial entre as empresas, então padece o presente processo de um motivo para que haja a presunção laçada pelo fisco em face a vida de licitude da Recorrente. A legislação só admite a anulação dos atos tidos como simulados (artigo 167 do Código Civil e 116 do Código Tributário Nacional), mas apenas quando tem a intenção de lesar, como nos explica a melhor doutrina: Indispensável para a presente análise é discorrer sobre o instituto da NORMA ANTIELISIVA. A aplicação da norma geral antielisiva tem por fulcro investigar práticas ilícitas ocultas por interposta pessoa. Ela se apóia nos princípios da capacidade contributiva e da isonomia. Seu propósito é o combate ao desequilíbrio perpretado pela prática da elisão fiscal: o de que uma mesma transação econômica incorre em gravame tributário distinto caso um contribuinte tenha e outro não planejamento tributário adequado. Em que pese opiniões respeitáveis divergentes, se o princípio da capacidade contributiva, também conhecido como princípio da capacidade econômica, compreende a aferição de uma riqueza passível de ser tributado em face das condições que se encontra o contribuinte, o que justificaria gravames tributários distintos para contribuintes que apresentam situação econômica idêntica e que pratiquem a mesma transação comercial? O fato de um dos contribuintes possuir um planejamento tributário que lhe permita praticar a elisão fiscal é condição permissiva para que incorra em um gravame tributário menor? Qual a justificativa? Só concebo uma: Esperteza, traduzida em um bônus para o próprio contribuinte que se vê livre de uma parcela ou até mesmo de todo o encargo e um ônus para toda sociedade alijada daquele recurso. Nesse mesmo diapasão, assinalase que essa esperteza será responsável por quebrar um dos pontos basilares da justiça tributária: o princípio da isonomia. Também conhecido por Princípio da Igualdade Tributária que determina a instituição de tratamento igual àqueles contribuintes que se encontrem em situação idêntica, e desigual aos que estejam em situações diversas, na medida da sua desigualdade. A esperteza não é motivo para desconstituir esse preceito, que pode vir a implicar na viabilidade de um empreendimento e na inviabilidade de outro. Não é assim que se constrói uma sociedade justa, nem tampouco se distribui a justiça fiscal. - Condição para o uso da norma geral antielisiva pela fiscalização Para se valer da norma geral antielisiva, a fiscalização deverá necessariamente identificar o fato gerador efetivamente ocorrido, conforme previsto em lei, que a dissimulação procurou ocultar ou esconder, para que se possa a partir desta constatação, constituir o devido crédito tributário que se buscou evitar. Fl. 1457DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 8 13 Amílcar Araújo Falcão apud Estrella advoga a ilicitude da elisão fiscal com base na interpretação econômica do fato gerador, invocando o disposto no artigo 109 do CTN. Defende que a lei tributária interpretada funcionalmente deve levar em conta: A consistência econômica do fato gerador; A normalidade e a forma dos meios empregados, e; A finalidade ou função que o tributo instituído vai desempenhar. Assim, não se deveria considerar, na referência feita pela lei tributária a um negócio jurídico regulado pelo direito privado, a forma jurídica por ele revestida, mas sim seu conteúdo econômico. (ESTRELLA, André Luiz Carvalho. A norma antielisão e seus efeitos. Art. 116, parágrafo único, do CTN. Jus Navigandi, Teresina, ano 6, n. 52, 1 nov. 2001 . Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/2317>. Acesso em 17/03/2013.) Portanto, a regra de ouro da norma geral consiste na demonstração de que a situação que se quer acobertar, efetivamente ocorreu, para além da mera aparência. Para a fiscalização a explicitação dessas circunstâncias é fundamental para a exigência da exação tributária. ❉ A APLICABILIDADE DO PARÁGRAFO ÚNICO DO ARTIGO 116 DO CTN A redação do dispositivo determina que autoridade administrativa possa desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária. À ocasião da publicação da nova redação do Parágrafo Único do artigo 116 do CTN, trazida pela Lei Complementar nº 104/2001, Carvalho Estrela abordou o tema da necessidade ou não da publicação da Lei Ordinária para implementar a norma antielisiva, apresentando três correntes doutrinárias: A primeira corrente atribui ao Parágrafo Único do artigo 116 do CTN nenhum efeito. Vale dizer, entendem que o dispositivo citado não inovou na Ordem Tributária, já que a hipótese de simulação tem previsão expressa no artigo 149, inciso VII, do CTN. E como a norma antielisão tem como meta proibir a dissimulação, que nada mais é que a simulação relativa, então a nova norma não alcançou o fim a que se destinava (proibir a elisão). Ademais, pela literalidade do texto, constatam que a norma antielisão estaria abraçando as hipóteses ilícitas de redução de impostos. Em outras palavras, não seria caso de elisão e sim de fraude. Concluem nesse sentido, porque dissimular a ocorrência do fato gerador é na verdade ocultar a sua ocorrência. O fato gerador já teria acontecido, mas o contribuinte estaria ocultando, disfarçando, encobrindo a sua Fl. 1458DF CARF MF 14 ocorrência ao fisco. Assim, teria ultrapassado a linha divisória que separa a elisão da fraude, a ocorrência do fato gerador. A segunda corrente, capitaneada por Ives Gandra da Silva Martins, defende a inconstitucionalidade da Lei ComVplementar nº 104/2001, pois considera a norma antielisiva uma violação ao princípio da legalidade estrita, instaurandose uma completa insegurança nos negócios praticados pelos contribuintes. Ademais, preconiza a tese de que se essa norma for considerada constitucional, ela estaria autorizando a interpretação econômica no direito brasileiro, deferindo ao fisco o dever de tributar duas situações jurídicas distintas, reveladoras de mesmo conteúdo econômico e de igual capacidade contributiva. Uma terceira linha de pensamento adota posições menos radicais e mais ponderadas, asseverando que o critério de interpretação da norma deve ser orientado pela busca do pluralismo de valores com equilíbrio entre a liberdade, justiça e segurança jurídica. Tendo em vista este posicionamento, dois regimes de antielisão podem ser compreendidos no modelo ventilado na Lei Complementar nº 104/2001. O primeiro consiste na previsão de norma antielisiva geral disposta no CTN associada à legislação ordinária meramente procedimental dos membros da Federação. O segundo dispõe a norma antielisiva de forma genérica no CTN e deixa ao legislador de cada ente federativo para elaborar a norma antielisiva específica que contenha a lista dos negócios inoponíveis ao Fisco. Nesse passo, algumas condições são necessárias à aplicação da norma antielisiva geral. No primeiro regime, considerase constitucional a norma antielisiva geral desde que, cumulativamente: a) o intérprete faça uso da técnica de ponderação de interesses na solução do conflito, tal como anteriormente colocado; b) a justificativa para a intervenção do fisco seja bem clara e definida, usando de critérios objetivos, à luz da transparência que deve existir nas relações fisco e contribuinte; c) obedeça à lei ordinária de cada ente federativo exigida em seu texto (lei meramente procedimental); d) exista uma ampla defesa, contraditório e controle do ato de desconsideração, sob pena de se atribuir um poder sem sua contrapartida (checks and balance). No segundo regime, desde que a lei ordinária exigida de cada ente federativo contenha a lista de situações antielisivas (lei contendo norma antielisiva específica), acrescentandose, ainda, as condições de letras a), b) e d) acima citadas. (ESTRELLA, André Luiz Carvalho. A norma antielisão e seus efeitos. Art. 116, parágrafo único, do CTN. Jus Navigandi, Teresina, ano 6, n. 52, 1 nov. 2001 . Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/2317>. Acesso em 17/03/2013.) De modo profícuo, o que se pode extrair do texto transcrito é que o Código Tributário Nacional, desde sua publicação, já conta com sólidos instrumentos para o combate da ocultação do sujeito passivo, mediante o uso de fraude ou simulação, estando à disposição da fiscalização tributária para a repreensão desta prática. Castro também orienta nessa linha: Fl. 1459DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 9 15 Sem enveredar pela discussão do alcance da norma antielisiva, ou do artigo 118 do CTN, o que se pode constatar são situações em que a legislação, por meio de Lei Complementar, dá ao Fisco poderes para: Interpre dfatar a definição legal do fato gerador, abstraindose da validade jurídica dos atos e dos seus efeitos; Desconsiderar negócios jurídicos nos casos em que ocorrer dissimulação. (...) O procedimento de recusar o sujeito passivo que se apresenta e perseguir o real contribuinte, além de plenamente justificado, é a busca da verdade material, visando a defesa dos interesses fazendários nacionais, assegurada pela Constituição. (CASTRO, Wagner Wilson. As alterações na legislação aduaneira introduzidas pelos artigos 59 e 60 da media provisória nº 66, de 29 de agosto de 2002. 60 f. Monografia (especialização em direito tributário), Escola de Administração Fazendária/Universidade Federal de Pernambuco, Brasília, 2004, pg.14.) No ano subsequente à publicação da nova redação do Parágrafo Único do artigo 116 do CTN, trazida pela Lei Complementar nº 104/2001,, foi editada a Medida Provisória Nº 66/2002, convertida na Lei nº 10.637, de 30/12/2002, que dispôs sobre os procedimentos relativos à norma geral antielisão, nos seus artigos de 13 a 19. É certo que até o momento, não houve a regulamentação completa da matéria. A Lei nº 10.637, de 30/12/2002 tratou exclusivamente de procedimentos da norma geral antielisão relativos à área aduaneira, não dispondo sobre a aplicação desses procedimentos à área dos tributos internos. Contudo, no que concerne aos tributos do comércio exterior, a matéria foi devidamente regulamentada, tanto do ponto de vista legal quanto pelo ponto de vista infra legal, a começar pelo artigo 59 da própria Medida Provisória Nº 66/2002. Pensar de outra forma é desconsiderar que desde o ano de 2003, todos os autos de infração referentes a prática de interposição fraudulenta de terceiros (MULDI) são de total aceitação no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e na Câmara Superior de Recursos Fiscais quanto a esse critério. ▣ O EXERCÍCIO DOS CONTROLES ADUANEIROS Para a instauração de Ação Fiscal há a necessidade de se selecionar a empresa a ser fiscalizada. Para que as chances de acerto na escolha da empresa a ser fiscalizada sejam maiores, é recomendável que a seleção se realize a partir de algumas das seguintes fontes: ● Representações Externas Fundamentadas Fl. 1460DF CARF MF 16 Devem ser valorizadas as representações externas que já tragam os elementos indiciários que as fundamentem. Não devem ser confundidas com as demandas externas requisitórias, às quais devem ser encaminhadas para a fiscalização sem passar por crivo de seleção, passando apenas por eventual complementação. ● Representações Internas Geralmente, são representações de alta qualidade, elaboradas por servidores da RFB. Normalmente já vêm instruídas com os elementos indiciários. Costumam ser oriundas da Habilitação, da Fiscalização em zona secundária ou do Despacho Aduaneiro. ● Seleção Interna É o emprego de técnicas de cruzamento de informações fiscais e aduaneiras visando identificar um conjunto de empresas que possuam maior probabilidade de estar atuando como interposta pessoa. A seguir temos uma representação dos sistemas de informações disponibilizados pelas diferentes instâncias do controle aduaneiro durante as operações de importação, os quais acumulam informações que podem ser utilizadas na seleção interna: Além das informações obtidas durante o controle aduaneiro, temos várias outras que são oriundas dos sistemas de fiscalização e arrecadação de tributos internõsr Estas podem ser conjugadas com as informações de origem aduaneira, potencializando um aumento da qualidade e efetividade da seleção interna. A seleção interna na área da Interposição Fraudulenta normalmente considera diversos aspectos de uma empresa como a sua regularidade fiscal, rendimentos dos seus sócios, número de funcionários, etc., sendo considerado um trabalho de certa complexidade. Normalmente não utiliza qualquer informação externa como denúncias ou representações, apenas informações contidas nos bancos de dados da RFB; visando a análise dos principais componentes de risco, tais como: Fl. 1461DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 10 17 · Logística: tipo de mercadoria, embalagem, rota, via de transporte, país de procedência; · Relativa à Transação Comercial: país de aquisição, forma de pagamento, marca x origem. · Componente Relativa à Qualidade dos Importadores · Estrutural: Condições financeiras para a realização das operações, sócios com conhecimento do negócio, condições financeiras e patrimoniais compatíveis; · Comportamental: Relacionada ao histórico de indícios ou infrações aduaneiras, tributárias, administrativas, penais. · Componente Relativa à Qualidade dos Terceiros Intervenientes; · Estrutural: Localização do domicílio em comparação à área de atuação; · Comportamental: Relacionada ao histórico de envolvimento com infrações aduaneiras, tributárias, administrativas, penais, ou indícios. A ausência de informação sobre o adquirente ou o encomendante do bem importado no registro da Declaração de Importação, prejudica o exercício efetivo dos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros. ❉ DA HABILITAÇÃO NO RADAR Para Importar, necessariamente a empresa deve estar habilitada em uma das seguintes modalidaades: 1. Habilitação ordinária: destinada à pessoa jurídica que atue habitualmente no comércio exterior. Nesta modalidade, a empresa está sujeita ao acompanhamento da Receita Federal com base na análise prévia da sua capacidade econômica e financeira. É a modalidade mais completa de habilitação, permitindo aos operadores realizar qualquer tipo de operação; 2. Habilitação simplificada para as pessoas físicas, as empresas públicas ou sociedades de economia mista, as entidades sem fins lucrativos e, também, para as pessoas jurídicas que se enquadrem nas seguintes situações: a) Obrigadas a apresentar, mensalmente, a Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF); Fl. 1462DF CARF MF 18 b) Constituídas sob a forma de sociedade anônima de capital aberto, bem como suas subsidiárias integrais; c) Habilitadas a utilizar o Despacho Aduaneiro Expresso (Linha Azul); d) Que atuem exclusivamente como pessoa jurídica encomendante; e) Que realizem apenas importações de bens destinados à incorporação ao seu ativo permanente; f) Que atuem no comércio exterior em valor de pequena monta (Considerase valor de pequena monta, a realização de operações de comércio exterior com cobertura cambial, em cada período consecutivo de seis meses, até os seguintes limites: trezentos mil dólares norteamericanos ou o equivalente em outra moeda para as exportações FOB ("Free on Board"); e cento e cinqüenta mil dólares norte americanos ou o equivalente em outra moeda para as importações CIF ("Cost, Insurance and Freight")). 3. Habilitação especial destinada aos órgãos da administração pública direta, autarquia e fundação pública, órgão público autônomo, e organismos internacionais; 4. Habilitação restrita para pessoa física ou jurídica que tenha operado anteriormente no comércio exterior, exclusivamente para realização de consulta ou retificação de declaração . A escolha da modalidade de habilitação mais apropriada a cada empresa é livre e de sua inteira responsabilidade. Ao optar pela modalidade simplificada para operações de pequena monta, o contribuinte fica desonerado de apresentar uma série de documentos, além de ter o seu pedido analisado em, no máximo, dez dias. Em contrapartida, submetese às restrições daquela modalidade. De acordo com a IN RFB n° 1.288/2012, art. 4°, a estimativa da capacidade financeira da pessoa jurídica se refere a cada período de 6 (seis) meses. E essa estimativa determinará em qual submodalidade a pessoa jurídica será enquadrada, caso concedido a habilitação, após análise fiscal. “Art. 4° Para fins de deferimento da solicitação de habilitação, a pessoa jurídica requerente será submetida à análise fiscal. § 1° A análise a que se refere o caput consiste, também, em estimar a capacidade financeira da pessoa jurídica para operar no comércio exterior, relativa a cada período de 6 (seis) meses. Fl. 1463DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 11 19 § 2°A estimativa da capacidade financeira da pessoa jurídica determinará o enquadramento da sua habilitação em uma das submodalidadesprevistas no inciso Ido caput do art. 2°. § 3°A estimativa da capacidade financeira da pessoa jurídica, apurada por ocasião da habilitação, poderá ser revista a qualquer tempo pela RFB: de ofício, com base nas informações disponíveis em suas bases de dados; ou a pedido, mediante a prestação de informações adicionais pelo interessado ”. Um dos motivos para o cometimento da interposição fraudulenta repousa na tentativa de burla aos controles administrativos exercidos pelos órgãos de fiscalização, em especial, pela Receita Federal. Algumas empresas que desejam importar mercadorias não possuem a devida habilitação no Siscomex para operar em comércio exterior. Outras empresas possuem esta habilitação, mas esbarram nos limites dos valores de operação impostos pela legislação. Assim, pode ocorrer de tais empresas registrarem suas operações em nome de outras que não possuam estas pendências para operar em comércio exterior, o que se configura irregular em face do exposto a respeito das modalidades de importação. ▣ O COMBATE ÀS PRÁTICAS DE INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS É alegado no item 38 do Recurso Voluntário: Se o fisco federal habilitou uma empresa a operar o mercado externo, e depois vem alegar que houve fraude no procedimento de cadastramento, deve penalizar aqueles que participaram da fraude e não a Recorrente que nenhuma relação outra teve com a empresa IT1BAN senão a comercial, como explicitado nos presentes autos. O combate às práticas de interposição fraudulenta de terceiros pode ocorrer nos seguintes estágios: · 1º estágio: No momento da habilitação da empresa importadora/exportadora no SISCOMEX, decorrente da determinação do artigo 2º, I da Portaria MF nº 350/02, regulamentado pela IN SRF nº 229/02 hoje, IN RFB nº 1.288/12. O fato de a empresa possuir habilitação para atuar no sistema da Receita Federal do Brasil não significa em absoluto, salvo conduto ou regularidade nas operações de comércio exterior cursadas pela mesma, uma vez que se trata apenas de medida preventiva. Fl. 1464DF CARF MF 20 · 2º estágio: Antes, durante e após o despacho aduaneiro, decorrente da determinação do Art. 1º da IN RFB nº1.169/11; (*) · 3º estágio: Em ato de procedimento especial de fiscalização aduaneira a que alude a IN SRF nº 228/02. (*) Se ao longo do 2º estágio a equipe responsável pelo gerenciamento de risco da aduana onde se processa o desembaraço aduaneiro constata que o importador é empresa interposta frente ao que está estipulado no § 3º, do artigo 2º, da IN RFB nº1.169/11, comunicará o fato à unidade da RFB de fiscalização aduaneira com jurisdição sobre o domicílio fiscal do estabelecimento matriz da empresa importadora que poderá submeter a referida empresa ao procedimento especial de fiscalização estabelecido na IN SRF nº 228/02. No 1º estágio o foco da análise fiscal é realizado, via de regra, de forma sumária e dentro de uma perspectiva preventiva quanto à empresa; No 2º estágio o foco do controle aduaneiro é a carga (antes do despacho),a mercadoria (durante e após despacho), a transação comercial (fraude valor) e a empresa, mas no contexto de uma determinada operação de importação ou um conjunto delimitado de importações; No 3º estágio o foco da fiscalização pode ser tanto a empresa quanto a mercadoria e a transação. A legislação permite que o combate à prática efetiva ou presumida da interposição fraudulenta de terceiros seja implementado a qualquer tempo e de forma diversificada. E isso se justifica pelos seguintes motivos: å No momento da habilitação da empresa importadora/exportadora no Sistema RADAR, não há como verificar se aquela empresa terá um comportamento adequado frente aos critérios de compatibilidade entre sua capacidade contributiva e o seu volume transacionados bem como as demais práticas ilícitas referentes ao uso de empresa interposta em operações de comércio exterior. Fl. 1465DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 12 21 å No procedimento de habilitação do responsável legal no Siscomex, a pessoa jurídica importadora é submetida à análise fiscal sumária que visa, especialmente, evidenciar sua existência de fato e compatibilidade entre sua atividade econômica e financeira com as informações prestadas no requerimento de habilitação. å No desembaraço aduaneiro, a ação fiscal está focada, sobretudo, na análise pontual da mercadoria importada. å Embora seja possível a análise da capacidade econômica da empresa no momento do desembaraço aduaneiro, é plausível que esse exame seja postergado para a revisão aduaneira, até mesmo porque o enfoque a ser dado nessa ação fiscal será a análise histórica do volume de importações praticados pela empresa importadora ao longo dos anos frente a sua capacidade econômica. Ressaltese que, no caso de habilitação de importador para atuar por conta e ordem de terceiro, também o adquirente da mercadoria importada deve ser submetido à análise fiscal no procedimento de habilitação de seu responsável legal visto que os recursos utilizados nas operações de comércio exterior terão origem neste adquirente, conforme determinação, inicialmente, do art. 14 da IN SRF n.º 286 (de 15/01/03); depois, art. 36 da IN SRF n.º 455 (de 05/10/04); depois, art. 26 da IN SRF n.º 650 (de 15/05/06), hoje IN RFB nº 1.288 (de 31/08/2012) in verbis: Art. 24. A habilitação de pessoa jurídica importadora para operação por conta e ordem de terceiros, de que trata a Instrução Normativa SRF n º 225, de 18 de outubro de 2002 , está condicionada à prévia habilitação da pessoa física responsável pela pessoa jurídica adquirente das mercadorias, nos termos desta Instrução Normativa. Parágrafo único. À operação realizada por importador por encomenda, de que trata a Instrução Normativa SRF n º 634, de 24 de março de 2006 , aplicase o disposto no caput , relativamente ao encomendante. Desde o advento da INSRF 286/03, nem o importador, nem o importador por conta e ordem de terceiros conseguem registrar Declarações de Importação no SISCOMEX se ainda não tiverem habilitado seus responsáveis legais neste sistema. Entretanto, como fraude à nova sistemática, pode ocorrer que, não desejando o verdadeiro adquirente da mercadoria ser submetido à análise fiscal no procedimento de habilitação de seu responsável legal, contrate com pessoa jurídica já submetida ao procedimento de habilitação para que esta registre a operação de importação, como se fosse proprietária da mercadoria, ocultando o real adquirente da mesma. Por isso, dentre outros, é que no momento do despacho aduaneiro não há como a fiscalização antever que outros despachos aduaneiros serão patrocinados pela empresa no futuro, de modo a incorrer na discrepância desses critérios ou qualquer outra ilicitude. Não obstante, também não há como configurar ainda a prática de empresa interposta em Fl. 1466DF CARF MF 22 importação, fato que só poderá ser apurado a partir da constatação do destino da mercadoria importada no mercado interno. Por vezes, é preciso deixar que um volume substancial de operações de comércio exterior ocorra para que a fiscalização consiga detectar os meandros do esquema engendrado, o que só ocorrerá após meses, ou mesmo após anos, da primeira importação/exportação. O questionamento feito na impugnação pode ser assim expressado: Se a própria Receita Federal do Brasil confere a habilitação da empresa importadora/exportadora no Sistema RADAR, esse ato, por si só, não atestaria a regularidade e a idoneidade da empresa para atuar em operações de comércio exterior? É necessário um esclarecimento com vistas a uma análise mais profícua dessa questão relevante: o procedimento de habilitação para operar no SISCOMEX é realizado dentro de um contexto preventivo, derivado do exercício do poder de polícia administrativa com vistas à proteção da sociedade. Justamente por ser um procedimento inserido em um contexto preventivo, mesmo que habilitada no Sistema RADAR, a empresa não está imune da verificação pela fiscalização de que suas transações em comércio exterior, no decorrer do tempo, permanecerão adstritas as estimativas previstas na habilitação. Tampouco, mesmo com a habilitação da empresa no Sistema RADAR nada impede que a mesma desempenhe a função de empresa interposta em operação de comércio exterior à margem do que é previsto na legislação aplicável. Destarte, a habilitação deferida pela RFB ou o desembaraço aduaneiro da mercadoria importada não é garantia de que o importador não sofrerá ação fiscal focada, entre outros, no combate à interposição fraudulenta de terceiros. ¨ O CONCEITO DE INTERPOSIÇÃO EM OPERAÇÃO DE IMPORTAÇÃO A função da sólida construção jurisprudencial é fornecer critérios precisos para a equânime e indistinta aplicação da Lei. O dicionário eletrônico Houaiss, fornece uma definição precisa da locução interposição, que se adéqua ao contexto aqui a ser evidenciado: ato ou efeito de interpor(se) Locuções i. de pessoa jur substituição intencional por terceiro, num processo simulatório, do verdadeiro interessado num ato jurídico. Fonte: (http://houaiss.uol.com.br/busca?palavra=interposi%25C3%25A7%25C3%25A3o, em 01/08/15) A expressão “interposição fraudulenta” foi cunhada pela primeira vez em nosso Sistema Jurídico na Medida Provisória n° 66/2002. Para colher o exato alcance que pretendeu dar o legislador à citada expressão é necessário comparar termos semelhantes e seus respectivos significados. Fl. 1467DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 13 23 Aurélio Buarque de Holanda conceitua “interposição de pessoa” como “simulação que consiste em ocultar o verdadeiro interessado num ato jurídico, fazendo aparecer um terceiro em seu lugar”. No Vocabulário Jurídico, De Plácido e Silva, definese interposição como meterse de permeio, colocarse entre. É a intervenção de uma pessoa em negócio alheio, por ordem de seu dono ou a mandado dele. A pessoa interposta, com o fito de cumprir ou realizar aquilo que o ordenante ou mandante não pode fazer, é colocada ou posta entre este e um terceiro. A interposta pessoa nada mais é que aquela que executa um ato jurídico ou uma série de atos jurídicos, a mando ou ordem de alguém. O ato jurídico, objeto da presente análise, é justamente a operação de importação maculada pela prática de interposição fraudulenta de terceiros. Portanto, um ilícito aduaneiro. O ato de se interpor em operação de importação, pressupõe necessariamente a existência de dois participes: 1. O importador ➞ aquele que se apresenta às autoridades aduaneiras como responsável pela nacionalização da mercadoria. Importador é aquele que promove a entrada do bem no território nacional. Há dois pressupostos básicos para se caracterizar o importador: a) deve estar devidamente HABILITADO no Sistema SiscomexRADAR; b) é aquele que efetua o registro da Declaração de Importação em seu nome. 2. O sujeito passivo oculto (ou responsável pela operação de importação) ➞ aquele que se vale do importador para obter a nacionalização da mercadoria à margem dos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros. O sujeito passivo oculto é aquele que não pode ou não quer promover a operação de importação em seu próprio nome. Por isso se vale outro ( o importador ) para obter produto importado no mercado interno. Fl. 1468DF CARF MF 24 É de se frisar que é perfeitamente possível, à luz da legislação aplicável, que terceiro utilize o importador para obter produto importado no mercado interno. A legislação prevê duas formas de identificar o terceiro (REAL COMPRADOR no mercado interno ) responsável pela importação: I. modalidade de "importação por conta e ordem de terceiros"; e II. modalidade de "importação por encomenda". Não se valendo dessas duas modalidades de importação, fica caracterizada a seguinte situação: Ø o REAL COMPRADOR no mercado interno (sujeito passivo oculto) obtém a nacionalização do bem importado, por intermédio do importador interposto, sem a adoção formas previstas na legislação aplicável, permanecendo à margem dos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros. Fl. 1469DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 14 25 ❉ A normatização do conceito de interposição fraudulenta de terceiros em operações de importação. Coube ao artigo 59 da Lei n° 10.637/02, normatizar o conceito de interposição fictícia de pessoas para a área aduaneira, denominandoo de interposição fraudulenta de terceiros. O referido artigo alterou a redação do artigo 23, do DecretoLei nº 1.455, de 07 de Abril de 1976, que define as infrações que causam dano ao Erário, acrescentandolhe o inciso V, além de quatro novos parágrafos. ❖ Decreto Lei n° 1.455/76: Art 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: (...) V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros.(Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) § 1o O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) § 2o Presumese interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados.(Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) § 3o As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972. (Redação dada pela Lei nº 12.350, de 2010) § 4o O disposto no § 3o não impede a apreensão da mercadoria nos casos previstos no inciso I ou quando for proibida sua importação, consumo ou circulação no território nacional.(Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) Deve ser feita uma observação. No inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76, o legislador trata da mesma forma as seguintes expressões: I. sujeito passivo oculto aquele que importa o bem através de um importador interposto; II. real comprador aquele que adquire o bem importado através de importador interposto no mercado interno; e III. responsável pela operação (importação) aquele que mesmo não adquirido o bem importado no mercado interno, exerce o "Domínio do Fato" sobre a operação de importação. Essas expressões ao serem usadas pelo legislador como sinônimas, retratam a mesma pessoa: o terceiro no mercado interno (dentro do território nacional) que se vale de um importador interposto para obter a nacionalização de um bem, à margem dos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros. Fl. 1470DF CARF MF 26 ❉ Formas de constatação da existência do sujeito passivo oculto Existem, a princípio, duas formas de constatação da existência do sujeito passivo oculto: · Por AÇÃO DIRETA – A fiscalização evidencia a existência e identifica o sujeito passivo oculto a partir de duas situações: 1. Verificação de que a fonte dos recursos aplicados na operação de comércio exterior advém de terceiro; ou 2. Verificação que terceiro foi de fato o responsável pela operação em comércio exterior (possuiu/exerceu o “domínio do fato” sobre a transação), sendo o importador um instrumento para obter o bem importado. Em ambos os casos, o terceiro deveria se identificar aos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros e assim não procedeu. · Por AÇÃO INDIRETA – O fisco não identifica o sujeito passivo oculto. Contudo, o ato omissivo do importador, em não comprovar a origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados, autoriza a fiscalização a presumir que terceiro (não identificado) financia a operação em comércio exterior. Essa é a mesma conclusão da lição de Deiab Junior e Nepomuceno (2008), ao se referirem às inovações trazidas à baila pela alteração do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76: a) apenou com perdimento a mercadoria de origem estrangeira, na importação ou na exportação, quando constatada a ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros, e; b) criou a presunção legal de interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior, quando não comprovada a origem, disponibilidade e a transferência, dos recursos empregados em tais transações. DEIAB JUNIOR, Remy; NEPOMUCENO, Bruno Carvalho. Interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior perpetradas por pessoas físicas. Jus Navigandi, Teresina, ano 13, n. 1794, 30 maio 2008 . Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/11329>. Acesso em: 16 dez. 2012. Portanto, há duas formas de constatação da prática de interposição fraudulenta de terceiros: 1. Prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros (Ocultação) – Conduta infracional tipificada no inciso V do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76 – É a constatação da ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável através de fraude ou simulação. Sua inspiração vem da norma geral antielisiva do Parágrafo Único do artigo 116 do CTN, que pode estar relacionada ou não com a legislação que Fl. 1471DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 15 27 cuida do crime relacionado à ordem tributário e a “lavagem de dinheiro”, responsável por municiar a fiscalização para o combate da interposição fictícia de pessoas em operações de comércio exterior, o que implica na necessidade de comprovação, mediante a demonstração por parte da fiscalização, de quem é de fato o real sujeito passivo beneficiado. Aplicação do processo conhecido como “follow the money”. 2. Prática presumida da interposição fraudulenta de terceiros – Conduta infracional tipificada no §2° do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76 – Advém de uma presunção legal, o que acarreta ao importador/exportador a necessidade comprovar a origem, disponibilidade e a transferência, dos recursos empregados em operações de comércio exterior. Sua inspiração vem não só da norma geral antielisiva já citada, como também do artigo 1º da Lei nº 9.613/98 e municia a fiscalização com um mecanismo de controle para coibir a prática, pelo sujeito ocultado, do crime relacionado à “lavagem de dinheiro” por sucessivas operações internacionais, podendo estar relacionado com outras irregularidades tributárias, como por exemplo, fraude no preço/valor declarado (sub ou superfaturamento). O artigo 11 da IN SRF n° 228/2002 contempla essa formatação de constatação da prática de interposição fraudulenta de terceiros e determina seus respectivos efeitos, substanciados no artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76, artigo 33 da Lei n° 11.488/2007 e no artigo 81 da Lei n° 9.430/96: ° Artigo 11 da IN SRF n° 228/2002: Art. 11. Concluído o procedimento especial, aplicarseá a pena de perdimento das mercadorias objeto das operações correspondentes, nos termos do art. 23, V do Decretolei nº 1.455, de 7 de abril de 1976, na hipótese de: http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/an exoOutros.action?idArquivoBinario=0 I ocultação do verdadeiro responsável pelas operações, caso descaracterizada a condição de real adquirente ou vendedor das mercadorias; II interposição fraudulenta, nos termos do § 2º do art. 23 do Decretolei nº 1.455, de 1976, com a redação dada pela Medida Provisória nº 66, de 29 de agosto de 2002, em decorrência da não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados, inclusive na hipótese do art. 10. § 1º Na hipótese prevista no inciso I do caput, será aplicada, além da pena de perdimento das mercadorias, a multa de que trata o art. 33 da Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007. http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/an exoOutros.action?idArquivoBinario=0(Redação dada Fl. 1472DF CARF MF 28 pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1678, de 22 de dezembro de 2016) § 2º Na hipótese prevista no inciso II do caput, além da aplicação da pena de perdimento das mercadorias, será instaurado procedimento para declaração de inaptidão da inscrição da empresa no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/an exoOutros.action?idArquivoBinario=0 (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1678, de 22 de dezembro de 2016) § 3º A hipótese prevista no inciso I do caput contempla a ocultação de encomendante predeterminado. http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/an exoOutros.action?idArquivoBinario=0 (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1678, de 22 de dezembro de 2016) ❉ Inftações decorrentes de cada prática de interposição fraudulenta de terceiros A prática EFETIVA da interposição fraudulenta de terceiros implica em duas infrações: ¨ Uma infração tipificada no inciso V, do artigo 23, do Decreto Lei 1.455/76, punível com a aplicação da pena de perdimento, tendo por destinatário o real adquirente da mercadoria e conseguinte conversão em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria no caso de que não seja localizada ou que tenha sido consumida. Uma infração imprópria que pode ser cometida por qualquer um na condição de REAL COMPRADOR em coautoria com o importador interposto. ¨ Outra infração tipificada no caput do artigo 33 da Lei 11.488/2007, punível com a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais), tendo por destinatário a pessoa jurídica que cedeu seu nome. Uma infração própria, já que para cometêla o agente deve ter a condição de ser importador devidamente habilitado no SISCOMEX. A prática PRESUMIDA da interposição fraudulenta de terceiros também implica em duas infrações: ¨ Uma infração tipificada no §2º, do artigo 23, do Decreto Lei n° 1.455/76, punível com a aplicação da pena de perdimento e conseguinte conversão em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria no caso de que não seja localizada ou que tenha sido consumida, tendo por destinatário o importador de direito (INTERPOSTO), em razão da não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na importação. Uma infração própria, já que para cometêla o agente Fl. 1473DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 16 29 deve ter a condição de ser importador devidamente habilitado no SISCOMEX. ¨ Outra infração tipificada no artigo 81, §1º, da Lei nº 9.430/96, que determina a declaração de inaptidão da inscrição da pessoa jurídica no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – CNPJ, que não comprove a origem, a disponibilidade e a efetiva transferência, se for o caso, dos recursos empregados em operações de comércio exterior. Coadunase para essa constatação, o seguinte artigo: ¹ Artigo 99 do DecretoLei nº 37/66: Art.99 Apurandose, no mesmo processo, a prática de duas ou mais infrações pela mesma pessoa natural ou jurídica, aplicamse cumulativamente, no grau correspondente, quando for o caso, as penas a elas cominadas, se as infrações não forem idênticas. (Grifo e Negrito Nossos) ❉ Do ônus probatório A depender da forma de constatação da existência do sujeito passivo oculto, o ônus probatório irá oscilar: Ø Na prática efetiva o ônus probatório é da fiscalização: Cabe à ação fiscal reunir os elementos que indicam a ocorrência da interposição fraudulenta de terceiros entre o importador interposto e o sujeito passivo oculto. Ø Na prática presumida o ônus probatório é do importador: Cabe ao importador a comprovação da origem, disponibilidade e transferência de recursos empregados Fl. 1474DF CARF MF 30 na importação, na forma do §2º, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76. ❉ A caracterização da infração O núcleo da infração da prática de interposição fraudulenta de terceiros é o USO DE INTERPOSTA PESSOA em operação de comércio exterior com o propósito de ACOBERTAR o sujeito passivo oculto. A partir disso são detectadas duas espécies da mesma infração: · Infração 1: O uso de interpostas pessoas como instrumento (meio) para acobertar a identificação do responsável pela importação (OCULTAÇÃO) por infração contra o sistema tributário nacional (FRAUDES FISCAIS/SIMULAÇÃO). · Infração 2: O uso de interpostas pessoas como instrumento (meio) para acobertar a identificação do responsável pela importação (OCULTAÇÃO) por infração contra o sistema financeiro nacional (LAVAGEM DE DINHEIRO/SIMULAÇÃO). Nesse diapasão, há três formas de se caracterizar a prática de interposição fraudulenta de terceiros: 1. A PARTIR DA NÃO IDENTIFICAÇÃO DA ORIGEM DOS RECURSOS APLICADOS A administração aduaneira deve estar atenta à movimentação de recursos financeiros de origem desconhecida ou não comprovada associada ao uso de interposta pessoa em operação de comércio exterior. 2. A PARTIR DA IDENTIFICAÇÃO DO RESPONSÁVEL DE INFRAÇÃO CONTRA O SISTEMA TRIBUTÁRIO NACIONAL A Lei nº 8.137, de 1990, define crimes contra a ordem tributária, econômica e contra as relações de consumo. Nesse contexto, a legislação objetivou não só evitar as fraudes fiscais, como também dar maior efetividade na cobrança de tributos buscando identificar o verdadeiro sujeito passivo da obrigação tributária. 3. A PARTIR DA IDENTIFICAÇÃO DO RESPONSÁVEL PELA INFRAÇÃO CONTRA O SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL A Lei nº 9.613, de 1998, dispõe sobre os crimes de "lavagem" ou ocultação de bens, direitos e valores, bem como sobre a prevenção da utilização do sistema financeiro. Portanto, tem se também como finalidade não cuidar da questão puramente tributária, mas coibir crimes de "lavagem" ou ocultação de bens, direitos e valores. Na prática as três causas se mesclam, e assim existe a hipótese de haver infrações entrelaçadas, mas sempre com o USO DE INTERPOSTA PESSOA COMO INSTRUMENTO (MEIO) PARA DIFICULTAR A IDENTIFICAÇÃO do sujeito passivo oculto. Fl. 1475DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 17 31 ❉ A sanção prevista A legislação apenou a prática de interposição fraudulenta de terceiros com o perdimento da mercadoria de origem estrangeira. A nova redação do § 3º, do artigo 23, do DecretoLei nº 1.455/76, dada pela Lei nº 12.350/10, substituiu a redação originariamente dada pela Medida Provisória n° 66/2002, em 29 de agosto de 2002, e estipulou a seguinte alternância de procedimentos – ritos: · Pena de perdimento ➞ se a mercadoria em situação irregular for apreendida pela fiscalização ( rito aplicado: artigo 27 do Decreto Lei n° 1.455/76 ); ou · Multa equivalente ao valor aduaneiro (100% do valor aduaneiro) ➞ se a mercadoria passível de perdimento não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida ( rito aplicado: Decreto n° 7.574/2011). Estáse assim diante de uma alternância de ritos procedimentais, a depender da retenção ou não da mercadoria passível de perdimento. É de se enfatizar o seguinte: ainda que a multa equivalente ao valor aduaneiro receba a designação de “crédito tributário”, por ser advinda de um lançamento, isso não altera a natureza jurídica da prática de interposição fraudulenta de terceiros: um ato ilícito passível de sanção (pena de perdimento ou multa equivalente ao valor aduaneiro). ▣ A PRÁTICA EFETIVA DE INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS A demonstração da prática efetiva de interposição fraudulenta de terceiros engloba três pontos: 1. Identificação do importador interposto e do sujeito passivo oculto; 2. Constatação do liame entre o importador interposto e o sujeito passivo oculto; 3. Demonstração da FRAUDE ou SIMULAÇÃO. ❉ A identificação do importador interposto e do sujeito passivo oculto Salientase que esse é o primeiro passo ou o pressuposto básico e necessário para a caracterização da prática efetiva, mas longe de ser o suficiente. Como dito, o ato de se interpor em operação de importação, pressupõe necessariamente a existência de dois participes. Fl. 1476DF CARF MF 32 Na demonstração da prática efetiva, a fiscalização tem o dever de identificar tanto o importador interposto como o sujeito passivo oculto. A fiscalização deve também evidenciar que o sujeito passivo oculto se valeu do importador interposto para obter produto importado no mercado interno. Portanto, é indispensável a demonstração pela fiscalização da revenda do produto importado no mercado interno entre os dois participes, ou a revenda do importador a alheio ( MERO COMPRADOR) sob a determinação do sujeito passivo oculto. A caracterização da prática efetiva de interposição fraudulenta de terceiros pode ocorrer através de diversos elementos, tais como: · a destinação integral e imediata das mercadorias importadas; · o conhecimento prévio ao registro da DI do destinatário das mercadorias importadas; · rotulagem das mercadorias importadas com sinais de identificação do adquirente (logotipo, marcas etc.); · especificidade das mercadorias que são importadas para um único adquirente, ou conjunto restrito de adquirentes, de tal forma que a importação não poderia ser realizada para posterior comercialização no mercado interno. Atualmente, duas formas de “terceirização” das operações de comércio exterior são reconhecidas e reguladas pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB): · A importação por conta e ordem uma empresa (a adquirente), interessada em uma determinada mercadoria, contrata uma prestadora de serviços (a importadora por conta e ordem) para que esta, utilizando os recursos originários da contratante. providencie, entre outros, o despacho de importação da mercadoria em nome da empresa adquirente; Fl. 1477DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 18 33 · A importação por encomenda uma empresa (a encomendante predeterminada), interessada em uma certa mercadoria, contrata uma outra empresa (a importadora) para que esta, com seus próprios recursos, providencie a importação dessa mercadoria e a revenda posteriormente para a empresa encomendante. A escolha entre importar mercadoria estrangeira por conta própria ou por meio de um intermediário, contratado para esse fim, é livre e perfeitamente legal, seja esse intermediário um prestador de serviço ou um revendedor. Entretanto, tanto o importador quanto o adquirente ou encomendante. conforme o caso, devem observar o tratamento tributário específico dessas operações e alguns cuidados especiais, a fim de não serem autuados ou, até mesmo, que as mercadorias sejam apreendidas. Para que uma operação de importação por encomenda ou importação por conta e ordem seja realizada de forma perfeitamente regular, é necessário, antes de tudo, que tanto as empresas encomendantes e adquirentes quanto a empresa importadora estejam habilitadas para operar no Siscomex, nos termos da legislação respectiva. Além de habilitação de todos os intervenientes (encomendante, adquirente e importador), nas operações de importação terceirizadas, é necessário apresentar, à unidade da RFB com jurisdição para fiscalização aduaneira sobre o estabelecimento matriz da encomendante ou adquirente, cópia do contrato firmado entre as empresas (encomendante ou adquirente e importadora), caracterizando a natureza de sua vinculação, a fim de que a contratante e a contratada sejam vinculadas no Siscomex. pelo prazo ou operações previstos no contrato. A fim de promover o despacho aduaneiro das mercadorias importadas, conforme determina o art. 3o, da IN SRF n° 634/06 e o art. 3o, da IN SRF n° 225/02, ao elaborar a Declaração de Importação, o importador, pessoa jurídica contratada, deve informar que não se trata de uma operação por conta própria, indicando, em campo próprio na ficha “importador” da DI, o número de inscrição do encomendante ou do adquirente no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ). Fl. 1478DF CARF MF 34 A falta de indicação do encomendante ou adquirente na Declaração de Importação, bem como a ausência de habilitação de alguma das partes no Siscomex e a ausência de vinculação do contrato na Receita Federal caracterizam a situação de ocultação do sujeito passivo ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, punível com a pena de perdimento das mercadorias (art. 23 V, do Decretolei n° 1.455/76 com a redação dada pela Lei n° 10.637/02). ❉ Das modalidades de Importação Não há propriamente uma definição normatizada e, portanto, estanque do que vem a ser a importação direta. Poderseia esboçar aqui uma definição sob o sério risco de fazêla incompleta ou até mesmo imperfeita e assim confundir mais do que auxiliar. Por isso, tomase o caminho mais fácil e seguro. Se tanto a Importação por “conta e ordem” como a Importação por “encomenda” possuem definições precisas dadas pela Lei e se apenas existem três modalidades e possibilidades de importação no Brasil, valese do critério da complementaridade para se estabelecer que aquilo que não for Importação por “conta e ordem” e Importação por “encomenda” será, portanto, uma importação direta. É mister que se compreenda um ponto chave na consolidação da legislação de combate a interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior e que servirá para o adequado deslinde do caso ora em análise: O artigo 27 da Lei n° 10.637/02 e a IN SRF nº 225, de 18 de outubro de 2002 – responsáveis pela definição, previsão e regulamentação da modalidade de Importação por “conta e ordem” – assim como o artigo 11 da Lei nº 11.281/2006 e a IN SRF nº 634/2006 responsáveis pela definição, previsão e regulamentação da modalidade de Importação por “encomenda” não criam qualquer conduta infracional. O que elas regulamentam, simplesmente, são formas permissivas de atuação de empresa interposta na importação. Assim, temos que inicialmente o artigo 27 da Lei n° 10.637/02 (modalidade de Importação por “conta e ordem”) e posteriormente o artigo 11 da Lei n° 11.281/06 (modalidade de Importação por “encomenda”) criam formas permissivas do uso do importador interposto. Caracterizada a prática de qualquer uma dessas duas modalidades de Importação, sem a adoção dos respectivos procedimentos previstos para a adequada identificação do adquirente ou do encomendante no mercado interno, resta configurada a ocultação do sujeito passivo (real beneficiário da importação) pelo importador interposto. ❉ A identificação do liame entre o importador interposto e o sujeito passivo oculto Para a seguinte indagação: existe a possibilidade da prática de interposta pessoa (importador interposto) em operações de importação frente à legislação brasileira? A resposta é SIM: Ø seja através da Importação por “conta e ordem”; ou Ø seja através da Importação por “encomenda”. Fl. 1479DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 19 35 Portanto, o passo subsquente ao da identificação do importador interposto e do sujeito passivo oculto é a demonstração por parte da fiscalização de que: Ø a modalidade de importação “direta” eleita pelo importador oculta uma modalidade de "importação por conta e ordem de terceiros"; ou Ø a modalidade de importação “direta” eleita pelo importador oculta uma modalidade de "importação por encomenda". Em outros termos: justamente para não identificar o REAL COMPRADOR no mercado interno do produto importado, foi eleita a modalidade de importação “direta”. ❉ identificação da modalidade de "importação por conta e ordem de terceiros" Para uma adequada análise, partese do conceito normativo da importação por conta e ordem de terceiros: · Disciplinada pelos artigos 80, 81 da Medida Provisória n° 2.158/0135 e artigo 29 da Medida Provisória n° 66/2002, regulamentada pela Instrução Normativa SRF nº 225, de 18 de outubro de 2002, com definição jurídica dada pelo artigo 27 da Lei n° 10.637/02: Art. 27. A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste, para fins de Fl. 1480DF CARF MF 36 aplicação do disposto nos arts. 77 a 81 da Medida Provisória n° 2.15835, de 24 de agosto de 2001. O artigo transcrito autoriza a seguinte presunção: denominar de importação por conta e ordem de terceiros a importação realizada mediante utilização de recursos de terceiros. Assim, se a operação de importação é adimplida (fechamento do câmbio) com recursos de terceiro, a modalidade de importação a ser reconhecida será a importação por conta e ordem de terceiros, na forma do artigo 27 da Lei n° 10.637/02. O fluxograma nos auxiliará na visualização do contexto: ❉ Identificação da modalidade de importação “por encomenda” Para uma adequada análise, partese do conceito normativo da importação por encomenda: · Disciplinada pelo artigo 11 da Lei 11.281/06 e regulamentada pela Instrução Normativa SRF nº 634, de 24 de março de 2006, com definição jurídica dada pelo artigo 11 da Lei n° 11.281/06: Art. 11. A importação promovida por pessoa jurídica importadora que adquire mercadorias no exterior para revenda a encomendante predeterminado não configura importação por conta e ordem de terceiros. Como dito, na redação do inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76, o legislador se valeu de três expressões análogas: I. sujeito passivo oculto; II. real comprador; e Fl. 1481DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 20 37 III. responsável pela importação. Usase uma outra expressão com o mesmo significado para explorar adequadamente o conceito de importação por encomenda: “PESSOA PREDETERMINADA”. A nova expressão tem o seu propósito porque vem a retratar uma faceta específica e determinante para a identificação da modalidade de "importação por encomenda" : A tomada de risco. Se na modalidade de "importação por conta e ordem de terceiros" a regra de ouro é entender a gênese do recurso e sua consequencia no financiamento da operação de importação, na modalidade de "importação por encomenda" a regra de ouro é identificar se o importador correu risco quanto à revenda do produto importado no mercado interno. Há que se comente um detalhe de suma importância: A bem dizer, o critério tomada de risco também pode e deve ser usado para caracterizar a modalidade de "importação por conta e ordem de terceiros", pois se entende que a tomada de risco de revenda das mercadorias importadas no mercado interno é uma característica essencial da importação direta. Isso porque: Ø na Importação por “conta e ordem” no momento da nacionalização – registro da Declaração de Importação – já existe no mercado interno comprador certo (ADQUIRENTE); e Ø na Importação por “encomenda” no momento da nacionalização – registro da Declaração de Importação – já existe no mercado interno comprador certo (ENCOMENDANTE). Portanto, é perfeitamente possível ver em um Auto de Infração o uso do critério tomada de risco conjugado com o repasse de recursos para evidenciar uma importação por conta e ordem de terceiros. Contudo, é o repasse de recursos a característica essencial daquela modalidade de importação. Na importação por encomenda, dado o seu conceito normativo inexiste qualquer repasse de recursos. Por isso, que o critério tomada de risco passa a ser relevante em sua caracterização. Tomase por base um quadrinho usado comumente para retratar a modalidade de importação direta: Fl. 1482DF CARF MF 38 Ø O importador adquire a mercadoria no mercado externo com recursos próprios e a revende no mercado interno para comprador indeterminado. Um outro quadrinho auxiliará a compreensão do conceito de PESSOA PREDETERMINADA: Ø O importador adquire a mercadoria no mercado externo com recursos próprios e a revende no mercado interno para comprador determinado (REAL COMPRADOR). A pessoa predeterminada é o comprador de bem importado definido antes da data do registro da Declaração de Importação. Como dito, a tomada de risco de revenda das mercadorias é uma característica essencial da importação direta, enquanto que na Importação por “conta e ordem” e na Importação por “encomenda” no momento da nacionalização – registro da Declaração de Importação – já existe no mercado interno comprador certo (REAL COMPRADOR). Em uma operação de venda casada, como a promovida por uma interposta pessoa em operações de importação este risco é inexistente, já que toda operação de compra e venda foi previamente arranjada e seus termos são bem conhecidos no momento em que o importador promove o despacho aduaneiro das mercadorias. Fl. 1483DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 21 39 Essa premissa decorre de modo direto e imperioso do objetivo traçado pela Receita Federal do Brasil em pretender possuir controle absoluto sobre o destino de todas as mercadorias importadas por empresas nacionais. Aquele que é destinatário de bem importado, já conhecido no momento do registro da respectiva Declaração de Importação, deve ser necessariamente informado aos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros na forma da IN SRF nº 225/02 para a modalidade de Importação por “conta e ordem” e da IN SRF nº 634/2006 para a modalidade de Importação por “encomenda” , sob o risco de configuração da prática de interposição fraudulenta de terceiros e conduta tendente a burlar os controles aduaneiros. O registro da Declaração de Importação é o marco eleito para identificar a PESSOA PREDETERMINADA, pois: 1. É o aspecto temporal que define o momento da entrada do bem no território aduaneiro; 2. É o instante de nacionalização do bem possível de ser precisado; 3. Antes desse instante a legislação pátria não tem qualquer efeito sobre o bem importado; 4. Só com o registro da Declaração de Importação é que se reúne toda a gama de informações suficientes para atender os requisitos exigidos pelas Instruções Normativas citadas. E ainda se acrescenta: Antes do ingresso da mercadoria no território nacional o bem é completamente alienígena ao ordenamento jurídico pátrio. Quem comprou, porque comprou, quando comprou, como pagou são questões por ora estranhas à fiscalização aduaneira, até mesmo porque a mercadoria pode vir a ter outro destino que não o Brasil. A ação da fiscalização aduaneira brasileira, com relação à mercadoria importada, só tem sentido a partir do seu ingresso no País. Esse momento a legislação precisa muito bem, inclusive em termos de minutos e até segundos: é o registro da Declaração de Importação. A partir desse instante é que o bem passa a ter relevância ao ordenamento jurídico pátrio, em particular à ação da fiscalização aduaneira da Receita Federal do Brasil. Para poder exercer sua expertise e verificar a regularidade da importação e assim atender a premissa de possuir controle absoluto sobre o destino de todas as mercadorias importadas por empresas nacionais, no momento do registro da Declaração de Importação o importador tem o dever de informar esse fato à fiscalização aduaneira através da adoção da modalidade de Importação por “conta e ordem” ou modalidade de Importação por “encomenda” a depender da forma de financiamento da importação. Se no momento do registro da Declaração de Importação a mercadoria tem destino certo no mercado interno – PESSOA PREDETERMINADA – é dever do importador expor esse fato, sob pena de burla aos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros. Fl. 1484DF CARF MF 40 E nesse contexto, é inegável que o importador age como interposta pessoa, pois a mercadoria apenas transpassa por ele. Por vezes sequer adentra ao seu estabelecimento comercial. Uma questão que é comumente suscitada é a alegação de que para se caracterizar a modalidade de "importação por encomenda" é necessário que o encomendante participe da transação comercial com o fornecedor estrangeiro. O legislador contemplou essa situação nos §§ 3º e 4º, do inciso I, do artigo 112 do Regulamento Aduaneiro, aprovado pelo Decreto n° 6.759/2009: § 3o A importação promovida por pessoa jurídica importadora que adquire mercadorias no exterior para revenda a encomendante predeterminado não configura importação por conta e ordem de terceiros (Lei no 11.281, de 2006, art. 11, caput). § 4o Considerase promovida na forma do § 3o a importação realizada com recursos próprios da pessoa jurídica importadora, participando ou não o encomendante das operações comerciais relativas à aquisição dos produtos no exterior (Lei no 11.281, de 2006, art. 11, § 3o, com a redação dada pela Lei nº 11.452, de 2007, art. 18). (grifo e negrito nossos) Portanto, a participação do encomendante das operações comerciais relativas à aquisição dos produtos no exterior é irrelevante para a caracterização da modalidade de "importação por encomenda". ❉ Identificação do responsável pela importação. Está aqui diante de um terceiro modo de identificação do liame entre o importador interposto e o sujeito passivo oculto, à margem da modalidade de importação praticada: reconhecer quem foi o responsável pela importação. Fl. 1485DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 22 41 Um adendo se faz necessário: como já dito, usualmente, a fiscalização identifica a prática efetiva de interposição fraudulenta de terceiros pela desconstituição da modalidade de importação direta adotada pelo importador com a consequente caracterização da modalidade de "importação por conta e ordem de terceiros" ou de “por encomenda”. Todavia, há um outro modo de demonstrar esse liame, à margem de qualquer demonstração de repasse de recursos e/ou tomada de risco. É demonstrar que o responsável pela importação utilizou o importador interposto como um longa manus. É uma outra ótica da fiscalização reconhecer a prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros dissociada do critério da capacidade econômica: o REAL COMPRADOR no mercado interno seria identificado como sendo aquele que detém o “Domínio do Fato”. Um outro modo de compreender (identificar) o responsável pela importação é através da seguinte constatação: sem a sua vontade a importação não aconteceria. Percebam uma nova variante da prática de interposição fraudulenta de terceiros: Quem exerce o “domínio do fato” pode vir a ser ou não o destinatário dos produtos importados no mercado interno. A mercadoria transacionada PODE SEQUER passa por ele assim como o dinheiro referente à transação. Ainda assim, é ele que determina todas as coordenadas do importador. Portanto, é tido como o responsável pela importação. IMPORTANTE: Se não for constatado o liame entre os assim denominados “importador interposto” e “sujeito passivo oculto”, aquele que a fiscalização a priori identificou como REAL COMPRADOR no mercado interno perde essa qualificação e passa a ser tratado como um “MERO COMPRADOR”, não cabendo assim qualquer tipificação da conduta no inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76. Fl. 1486DF CARF MF 42 ❉ Demonstração da FRAUDE ou SIMULAÇÃO. Como visto, o significado de “interpor”, verbo transitivo, é "pôr entre". Já a fraude representa todo artifício empregado com o fim de enganar uma pessoa e causarlhe prejuízo. Destarte, tomando como base o simples significado das palavras, é possível concluir que interposição fraudulenta é a situação fática em que determinado ente fica numa posição de "intermediário" (importador ostensivo) com o objetivo de esconder outro agente (adquirente ou encomendante), causando prejuízo ao erário ou dificultando os controles administrativos das Aduanas. Embora a fraude já esteja perfeitamente caracterizada, nos termos do art. 72 da Lei nº 4.502/1964, cumpre ainda atentar que o bem jurídico protegido pela norma contida no art. 83, inciso I, da Lei nº 4.502/1964, com a redação dada pelo art. 1º, alteração 2ª, do Decreto lei nº 400, de 30 de dezembro de 1968, não é unicamente o Erário, mas a norma visa essencialmente resguardar o controle aduaneiro e proteger a economia nacional, que se vêem afetados pela importação fraudulenta e pela entrada clandestina de mercadorias no País. Nesse passo é possível discernir entre a fraude tributária stricto sensu e a fraude aduaneira que abrange, além dos aspectos estritamente fiscais atinentes àquela, também os extrafiscais, próprios do controle aduaneiro. Nesse sentido, fraude aduaneira não se restringe à fraude exclusivamente tributária. Assim, em matéria aduaneira, a fraude assume uma feição própria, de modo que o termo “importação fraudulenta” transcende a conduta dolosa de tãosomente evitar ou reduzir o pagamento de tributo, não se restringindo à “fraude”, tal como conceituada no art. 72 da Lei nº 4.502/1964, de feição estritamente tributária. Envolve também as ações dolosas empreendidas para burlar os controles aduaneiros, com o intuito de lograr benefícios ilicitamente, com p. ex., obter vantagens cambias, remeter divisas irregularmente etc. Em tais situações, pode ocasionalmente não haver insuficiência ou falta de recolhimento de impostos, porém não se há de negar a caracterização da importação como fraudulenta, porquanto resta evidente a ação dolosa em ilidir o controle aduaneiro para fruição de vantagens ilícitas em detrimento da economia nacional, bens jurídicos que a norma visa assegurar. Então, em relação a operações aduaneiras, seria um contrasenso exigir que a fraude se caracterizasse unicamente pela falta ou insuficiência de pagamento dos impostos incidentes na importação. No ordenamento jurídico encontramos exemplos dessa acepção, em que a importação fraudulenta não necessariamente implica supressão ou redução do imposto devido. É o caso art. 23 do DecretoLei nº 1.455, de 7 de abril de 1976, com redação dada pelo art. 59 da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002 (DOU 31/12/2002), que pune uma espécie de importação fraudulenta, caracterizada pela ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros, mesmo não havendo repercussão no recolhimento do imposto. Assim, “importação fraudulenta” significa importação com fraude ao controle aduaneiro, mitigandose a feição estritamente tributária de “reduzir ou evitar o pagamento do imposto” ocorrendo nos casos em que a falsificação ou a adulteração de documentos acarrete dano ao citado controle, mesmo que não haja repercussão no tratamento tributário. Fl. 1487DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 23 43 A propósito observese o lúcido ensinamento de ROOSEVELT BALDOMIR SOSA: "consiste a falsidade documental, em matéria aduaneira, em elaborar documento falso, ou alterálo total ou parcialmente de modo a iludir o controle administrativo. Também se conhece a falsidade ideológica, que é quando o documento se mostra verdadeiro, mas não expressa a verdade” (Comentário à lei aduaneira: Regulamento Aduaneiro, São Paulo: Aduaneiras, 1993, vol. III, p. 187) . A prática efetiva de interposição fraudulenta de terceiros, tipificada no inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76. é uma conduta que o legislador entendeu por bem não tolerar, dado o seu RISCO POTENCIAL. O quadro abaixo indica as três etapas para a consumação da infração, de acordo com a prática efetiva. OS FATOS QUE EMBASAM A PRESENTE AÇÃO FISCAL A empresa ITIBAN, ainda que conste como "adquirente" nas declarações de importações, não possuía recursos próprios para realizar tais operações de comércio exterior. Ou seja, a ITIBAN operava com recursos de terceiros. A fiscalização apurou que se não houvesse os "recebimentos de clientes", não haveria recursos disponíveis para efetuar o pagamento das importações. No dia 16 de agosto de 2010, foi realizada diligência na sede da ITIBAN, localizada na Avenida Nove de Julho, 3.229, conjunto 1.407, Jardim Paulista, São PauloSP. Fl. 1488DF CARF MF 44 Em tal ocasião, constataramse os seguintes indicios de que a ITIBAN não poderia ser a real adquirente do grande volume de mercadorias importadas em seu nome no período fiscalizado (cerca de US$ 11.400.000,00 CIF): a) tratase de uma pequena sala comercial, do tipo escritório, ou seja, há apenas uma instalação física precária, incapaz de abrigar qualquer tipo de estoque de mercadoria; e b) não há quaisquer empregados trabalhando no local (o sóciogerente, o Sr. Roberto de Azevedo e Sá, estava sozinho na sala), o que denota uma infra estrutura precária, incompatível com o volume de mercadorias adquirido pela ITIBAN em operações de comércio exterior. Sendo assim, as mercadorias eram importadas por intermédio da empresa ALCOEX, na modalidade de importação por conta e ordem de terceiros, ocasião em que figurava como suposto real adquirente dessas mercadorias a empresa ITIBAN. Lêse em diversas partes de contrato firmado entre a ITIBAN e a ALCOEX, em 19 de setembro de 2007, constante do DPFA n° 055/10, que a ITIBAN importaria POR CONTA E ORDEM da ALCOEX. Transcrevo trechos desse contrato: O presente contrato tem por objetivo a importação de mercadoria(s) em nome da CONTRATADA (ALCOEX), por conta e ordem da CONTRATANTE (ITIBAN), (...), ficando sob a responsabilidade da CONTRATADA (ALCOEX) o desembaraço da(s) mercadoria(s) a ser(em) importada(s) até a entrega à CONTRATANTE (ITIBAN), na cidade de MaceióAL, ou outro lugar previamente pactuado entre as partes. (...) A(s) mercadoria)s) importada(s) pela CONTRATADA (ALCOEX), por conta e ordem da CONTRATANTE (ITIBAN), tendo em vista a natureza e o objeto do presente contrato, (...) por se tratar de mercadoria)s) de propriedade de terceiros, não integram(m) o ativo da CONTRATADA (ALCOEX)... (...) A CONTRATADA (ALCOEX) atuará no objeto deste contrato, por conta e ordem e sob a responsabilidade da CONTRATANTE (ITIBAN), nas operações de importação que forem efetuadas durante a vigência deste contrato, ficando a contratada obrigada a receber e entregar a(s) mercadoria(s) importada(s), única e exclusivamente, à CONTRATANTE, através de documento de Nota Fiscal de entrada, acrescido dos tributos incidentes na importação. Ou seja: em tal contrato, por diversas vezes, a ITIBAN colocou se EXPRESSAMENTE como a REAL ADQUIRENTE das mercadorias importadas pela ALCOEX, mesmo não o sendo na realidade. Isso demonstra, claramente, a intenção da ITIBAN de fingir ser a real adquirente dessas mercadorias para ocultar os reais destinatários e, assim, fraudar o fisco. Aliás, é óbvio que a ITIBAN colocouse entre o importador e o real adquirente com o Fl. 1489DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 24 45 intuito de interpor mais um elo na cadeia até o real adquirente e, assim, dificultar os trabalhos da fiscalização. Quando se começou a fiscalizar a ocultação de sujeitos passivos, verificava se facilmente o fluxo financeiro entre a real adquirente – empresa ALPELO CONFECÇÕES e a empresa ocultadora – empresa ITIBAN S/A , por meio de adiantamentos de recursos. Assim, por exemplo, a ocultadora recebia, no dia "x", R$ 100.000,00 da real adquirente. No dia "x+1", a ocultadora registrava a respectiva Declaração de Importação, e, com os R$ 100.000,00 recebidos, fechava o contrato de câmbio e pagava os tributos sobre o comércio exterior. Porém, quando as ocultadoras perceberam que a fiscalização da Receita Federal do Brasil punia essas operações de cessão de nome com base em tais adiantamentos, houve a necessidade de sofisticação da fraude, para dificultar a fiscalização. Nesse momento entrou a forma de captação de recursos desenvolvida pela ITIBAN. Nas planilhas inseridas no subitem 4.10.7.2, já do Relatório de Procedimento Fiscal, vemos que a ITIBAN não recebia quaisquer adiantamentos dos reais adquirentes. Muito pelo contrário: a ITIBAN, em geral, oferecia a possibilidade de pagamentos a prazo, às vezes até de forma parcelada. Podese ver, pela tabela acima, que, ainda que o adiantamento de recursos não tenha ocorrido da maneira clássica, é certo que a ITIBAN não operava com recursos próprios. Isso porque a ITIBAN recebia os recursos após o registro da Declaração de Importação, mas antes do pagamento ao exterior. A maneira de operar da ITIBAN, portanto, nada mais é do que uma sofisticação do adiantamento de recursos elaborada para dificultar a fiscalização e encaixase perfeitamente na definição de importação por conta e ordem de terceiros da IN SRF n° 225/2002 . Isso significa que a ITIBAN, ao não declarar expressamente o real adquirente das mercadorias, cede seu nome a terceiros que se beneficiam das vantagens expostas no subitem anterior. Na verdade, verificase que a ITIBAN nada mais é do que uma prestadora de serviços, ainda que não tenha emitido nenhuma nota fiscal de serviços. Ou seja: ela apenas intermedeia as operações de importação entre seus clientes (no caso, a real adquirente Fl. 1490DF CARF MF 46 ALPELO) e as tradings por ela contratadas (no caso das Declaração de Importação objeto deste auto de infração, a ALCOEX). Tanto é assim que as mercadorias importadas pela ITIBAN nunca chegaram a entrar em seus estoques nem fisicamente (a ITIBAN não possui estrutura para a guarda e armazenagem de mercadorias) nem contabilmente (nos Balanços Patrimoniais da ITIBAN, analisados mais adiante neste relatório, o valor dos estoques é sempre ZERO). O esquema fraudulento é retratado no quadro abaixo: A fiscalização aproveitou, ainda, para tomar o depoimento do Sr. Roberto de Azevedo e Sá, CPF 943.160.82868, sóciogerente da ITIBAN, a fim de obter esclarecimentos sobre a forma de operação da empresa. Os pontos mais relevantes do Termo de Depoimento estão transcritos às folhas 32 e 33 do processo digital. Admitiu expressamente o próprio sóciogerente da ITIBAN, fica claro que a ITIBAN opera por conta e ordem de terceiros, cedendo seu nome a seus clientes. A filial de Alagoas da ITIBAN foi criada somente para burlar o fisco e que não havia real distinção entre as operações da matriz de São Paulo e dessa filial. Aliás, a ITIBAN declarou expressamente não haver transferências nem de recursos nem de mercadorias entre os dois CNPJ (São Paulo e Alagoas). Isso, mais uma vez, demonstra a intenção da fiscalizada de esconder a fraude. A fiscalização apurou que a conta da matriz de São Paulo foi usada para o pagamento de tributos da filial de Alagoas. Do repasse de recursos da ITIBAN à ALCOEX Fl. 1491DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 25 47 Segundo os extratos de Livro Razão da ITIBAN constantes do DPFA n° 055/2010, foram transferidos recursos da ITIBAN à ALCOEX (devese observar que tais valores correspondem a TODAS as importações da ITIBAN promovidas pela ALCOEX, e não exclusivamente às importações destinadas à ALPELO). Para tanto, foi apresentada a tabela de 23 a 26 do processo digital, relacionando recursos repassados da ITIBAN à ALCOEX. ABC DESPACHOS ADUANEIROS LTDA, CNPJ 01.878.013/000120 A ABC, comissária de despachos, aparece no livro Razão retirado do DPFA n° 055/2010 como tendo recebido, no periodo fiscalizado, mais de R$ 7.745.000,00 da ITIBAN. Verificouse que este dinheiro era utilizado para pagar as operações de comércio exterior da ITIBAN. Aliás, os recursos repassados da ITIBAN à ALCOEX não cobrem as despesas das importações da ITIBAN. Assim, é óbvio que uma parte dos pagamentos da ITIBAN foi feita por meio da ABC. Às folhas 26 a 28 do processo digital consta uma lista dos pagamentos feitos da ITIBAN à ABC, conforme extrato do Livro Razão da ITIBAN constante do DPFA no 055/2010. É alegado às folhas 15 do Recurso Voluntário: Analisando as provas produzidas pelo fisco e a conduta das empresas, sua legalidade, devem orientar as razões que as levariam a praticar as supostas fraudes descritas pela Douta Fiscalização e admitidas pela Delegacia de Julgamento a quo tendo em vista que que a imputação fiscal está calcada apenas em suposições. Aparentemente a determinação em dar pela pena de perdimento é maior que o esforço em demonstrar ter havido a fraude presumida. Só em argumentos não se pode fiar o lançamento de ofício, necessário que autoridade fiscal apresente provas. E mais a seguir, às folhas 16 do Recurso Voluntário: Entende a Recorrente que, libertandose dos preceitos, ou pré conceitos, devem os autos ser analisados na melhor acepção jurídica do mesmo ou seja, “o que não está nos autos, não está no mundo” (quod non est in actis non est in mundo), deixando de lado as experiências ou fatos praticados ou constatados em outros processos que não o presente. Na espécie, o ônus de provar que houve a ocultação do real adquirente é do Fisco, devendo este comprovar de forma cabal a infração cometida pela empresa. (...) Pelo contrário. A fiscalização logrou êxito inclusive em desmembrar o esquema fraudulento. Fl. 1492DF CARF MF 48 Uma das formas da sofisticação da fraude apurada pela fiscalização foi a inserção, na cadeia de comercialização, de um maior número de empresas entre a importadora e a real adquirente. Os pagamentos referentes às operações de comércio exterior são feitos, em aua maior parte, por meio da empresa ABC Despachos Aduaneiros Ltda. Tendo isso em mente, fica óbvio que a ITIBAN utilizouse das tradings, neste caso da ALCOEX, com a finalidade de aumentar a quantidade de empresas entre o exportador estrangeiro e o real adquirente. Aliás, a fraude foi tão bem planejada pela ITIBAN que se pode ver a sua evolução com o tempo, conforme explicado nos parágrafos seguintes. Nas operações referentes ao exercício de 2006, o adiantamento de recursos por parte dos clientes fica claro, conforme se pode ver na tabela abaixo, elaborada a partir do extrato do Livro Razão constante do DPFA n° 055/2010: No início de 2007, a ITIBAN começou a aglomerar mais os recebimentos de clientes e os pagamentos às tradings, de forma a dificultar a identificação do fluxo financeiro. Em abril de 2007, a ITIBAN parou de registrar o número das notas fiscais às quais se referiam os recebimentos de seus clientes, o que, além de dificultar a identificação do fluxo financeiro, vai de encontro às normas de contabilidade. No final de 2007, a ITIBAN parou de registrar o número das notas fiscais às quais se referiam os pagamentos às importadoras, o que, além de dificultar a identificação do fluxo financeiro, vai de encontro às normas de contabilidade. Em 2008, a ITIBAN sofistica a maneira de realizar seus pagamentos, da seguinte forma: Ø passa a operar por meio da ABC Despachos, o que torna impossível relacionar o pagamento feito pela ITIBAN à trading utilizada na operação de comércio exterior; Fl. 1493DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 26 49 Ø passa a registrar operações de câmbio e de pagamento de tributos sobre o comércio exterior sem qualquer identificação (não há o número dos contratos de câmbio ou das Dl referentes a cada pagamento de câmbio). Ante o exposto, verificase a clara intenção da ITIBAN de esconder sua operação fraudulenta, notadamente a cessão de seu nome a seus clientes (reais adquirentes das mercadorias importadas). Da diligência inicial e dos fatos ocorridos até a entrega dos documentos No dia 28 de outubro de 2010, foi realizada diligência na sede da ALPELO, localizada na Rua Miller, 339, Brás, São PauloSP, CEP 03.011011. Em tal ocasião, constatouse que: Ø tratase de empresa do ramo de comércio atacadista de artigos de vestuário; Ø havia materiais estocados na empresa; Ø havia funcionários trabalhando na empresa, movimentando os materiais e atendendo a clientes; Ø nenhum dos sócios estava no local; e Ø a empresa estava sob responsabilidade do Sr. Aldeon Gomes Fernandes, CPF n° 151.003.35807, supervisor administrativo, a quem foi entregue o Termo de Inicio de Ação Fiscal Sefia I n° 251/2010. Como se pode ver, a ALPELO apresenta estrutura compatível com as suas atividades comerciais, o que indica que ela é a real adquirente das mercadorias importadas pela ITIBAN, através das seguintes Declarações de Importação: Das notas fiscais de venda emitidas pela ITIBAN a favor da ALPELO: Fl. 1494DF CARF MF 50 Da tabela de folhas 60 e 61 do processo digital podemos tirar as seguintes conclusões, todas apontando para o fato de a ITIBAN estar cedendo seu nome à real adquirente ALPELO: Ø as mercadorias repassadas à ALPELO pela ITIBAN são sempre artigos de vestuário, o que é plenamente compatível com o objeto social da ALPELO; e Ø as quantidades repassadas são compatíveis com as quantidades registradas em cada Declaração de Importação. Do fluxo financeiro entre a ITIBAN e a ALPELO: As movimentações financeiras entre a ITIBAN e a ALPELO vão completamente ao encontro da forma de operação descrita. Isso significa que a sequência dos acontecimentos é sempre a seguinte: 1°) registro da Dl; 2°) emissão da NF de venda pela ITIBAN; 3°) desembaraço aduaneiro das mercadorias / emissão de duplicatas pela ITIBAN; 4°) pagamento das duplicatas (em até 180 dias do registro da Dl, ou seja, antes de a ITIBAN precisar pagar o exportador, já que o exportador ofereceu crédito de até 180 dias para pagamento). Como se pode ver, ainda que não haja a forma clássica de adiantamento de recursos, não se pode negar que o adiantamento de recursos ocorreu, pois, de qualquer forma, a ITIBAN recebeu o dinheiro da ALPELO antes de repassálo ao exterior. É alegado às folhas 19 e 20 do Recurso Voluntário: Como se observa as constatações do primeiro Auditor da Receita Federal que fez a análise da contabilidade da empresa são antagonicamente contrários ao do presente processo, especialmente em relação ao ano de 2008. Observem Doutos Conselheiros, a empresa tinha contratos de câmbio que fechava com os próprios recursos, bem como tinha despesa compatível com sua atividade tal contrariedade entre os Auditores só demonstra a incerteza nas conclusões fiscais negativas expedidas no presente procedimento. O volume total de operações entre a Recorrente e a ITIBAN fica na casa de 6% (seis por cento), do que alega a fiscalização que tenha a empresa faturado (mais de trinta milhões de reais), corroborando a informação que a compra de produtos de outros fornecedores só se presta a compor o mix de produtos que a própria Recorrente fabrica em sua sede. (...) Fl. 1495DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 27 51 Não é crível que se entenda que alguém que tenha crédito e possa receber de seus clientes antes de pagar as mercadorias que comprou esteja praticando um ato ilícito. A prova é uma presunção, e há uma desconexão entre o negócio jurídico efetuado entre a vendedora e compradora e os negócios que a vendedora possui no exterior. O Recorrente confunde conceitos. Para melhor análise, focase no trecho negritado. Esse é o cerne da discussão. Embora no mercado interno essa operação seja corriqueira e legal, ao envolver a revenda de produtos importados ela assume outros contornos. Isso porque, dada a legislação já mencionada, a operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste. Consoante o alegado pelo Recorrente, a origem do recurso foi de terceiro. Nesse sentido, a modalidade de importação é por "conta e ordem". Uma vez que as operações de importação em análise não apontavam o nome do adquirente, no caso empresa ALPELO CONFECÇÕES, justamente por terem sido registradas na modalidade de importação "direta", houve a ocultação do sujeito passivo, o que implica na infração tipificada no inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76. É alegado às folhas 26 do Recurso Voluntário: Não se pode falar em ocultação quando todos os documentos são franqueados, disponibilizados e apresentados à fiscalização, sem qualquer ressalva ou vírgulas, sendo convergentes os documentos apresentados pela Recorrente e pela vendedora ITIBAN, ou seja, as operações foram registradas nos livros fiscais e declarados ao fisco por ambas as empresas. Mais adiante, às folhas 32 do processo digital alega: Para o fisco dizer que tal negócio tratase de uma simulação, ou ocultação deveria trazer elementos contundentes das ilicitudes praticadas, e não apenas presunções e ilações doutrinárias, data venia. A ocultação do sujeito passivo vem de fato certo e determinado: ocorreu no momento em que o nome da empresa ALPELO CONFECÇÕES não constou nas Declarações de Importação identificada como ADQUIRENTE dos bens importados. Essa omissão implica em burla aos órgãos responsáveis pelos controles aduaneiros para as operações de importação em análise e consequentemente fraude. Da conclusão com relação à ALPELO Do exposto acima, concluise que a ALPELO, ao contrário da ITIBAN, possui capacidade econômicofinanceiraoperacional para suportar as importações referentes às Fl. 1496DF CARF MF 52 Dl de n° 07/13380866, 07/14678222, 08/00459592, 08/01204407, 08/01208283, 08/01516158, 08/01656693, 08/01977422, 08/03104655 e 08/03104647. Isso significa que a ITIBAN cedeu seu nome à ALPELO e que esta última é a real adquirente das mercadorias. Ainda, podese dizer que a ITIBAN, ao se colocar, na Declaração de Importação, no lugar da real adquirente (ALPELO), ocultou uma operação de importação por conta e ordem de terceiros, fraudando o fisco, com a finalidade de obter vantagens para si e para a real adquirente. .¨ O DANO AO ERÁRIO No caso em análise, o bem jurídico tutelado é o controle aduaneiro e esse controle foi violado, mediante a prática de fraude ou simulação tendente a burlar a Administração Aduaneira. Por serem os Imposto de Importação e de Exportação tributos com caráter extrafiscal, o dano ao Erário não se relaciona apenas a questão de “quanto de tributo deixou de ser recolhido”. Até mesmo porque, pela própria natureza da fraude e simulação proporciona vantagens de outra natureza. Mas mesmo assim, podem vir a serem detectadas vantagens irregulares relacionadas a nãoincidência de impostos e contribuições decorrentes da prática de interposição fraudulenta de terceiros, muito embora não se mostrem imprescindíveis para configurar o dano ao Erário. Para esclarecer o assunto, listase algumas dessas vantagens que podem ser auferidas indevidamente pela prática da interposição fraudulenta de terceiros: Burlar os controles de habilitação para operar no comércio exterior: Para que uma pessoa, física ou jurídica, possa operar no comércio exterior, é necessário que a Receita Federal lhe conceda uma habilitação para acesso ao Siscomex – Sistema Integrado de Comércio Exterior. A pessoa deve possuir Radar. Procedimentos relacionados a essa habilitação estão previstos em atos normativos que estabelecem uma série de verificações fiscais atinentes à avaliação da capacidade operacionaleconômicofinanceira da empresa e ao confronto entre as informações prestadas no requerimento e aquelas constantes na base de dados da Receita Federal (auditoria preventiva). Foi citado, em mais de uma oportunidade, que na interposição fraudulenta de terceiros aquele que não possui capacidade contributiva está intencionalmente exercendo o papel daquele que a possui, com o firme propósito de burla dos controles aduaneiros e fugir da exação tributária. Mesmo que se alegue que a exação tributária foi paga pela interposta pessoa, portanto o Erário não deixou de efetuar o recolhimento que lhe cabia, a burla dos controles aduaneiros ocorreu, pois não é o real importador que se apresenta perante à fiscalização com o seu nome no despacho aduaneiro. A burla aos controles aduaneiros pode causar: • impedir que uma determinada empresa (adquirente) seja submetida ao procedimento de habilitação; Fl. 1497DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 28 53 • impedir a equiparação, do real adquirente, à condição de estabelecimento industrial, contribuinte do IPI; • impedir a aplicação das restrições e determinações previstas na legislação de "valor aduaneiro" e de "preços de transferência"; . • impedir o conhecimento da verdadeira origem dos recursos; • impedir atribuir ao adquirente a condição de responsável solidário pelos tributos incidentes na importação; • impedir o devido registro contábil da propriedade dos bens, incluindo a composição de custos destes bens; • propiciar o aproveitamento indevido de incentivos fiscais estaduais (ICMS), a chamada "guerra fiscal' entre os Estados da federação que, muitas vezes, apenas fomenta a criação , ou simulação de enpresas com o fim único de se obter tais vantagens; • impedir o efetivo controle aduaneiro e fiscal; No caso específico da modalidade Importação por “conta e ordem” ainda podem ser listadas as seguintes burlas aos controles aduaneiros: · A não vinculação do adquirente ao Importação por “conta e ordem”, no Siscomex, via Declaração de Importação; · A não apresentação do adquirente, para fins da vinculação, de requerimento à unidade aduaneira da Receita Federal do Brasil com jurisdição sobre o seu estabelecimento matriz, indicando: I nome empresarial e número de inscrição do importador no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ); e II – apresentação de cópia do contrato firmado entre as partes para a prestação dos serviços. · A não habilitação do adquirente no RADAR; · A não informação pelo Importação por “conta e ordem", do número de inscrição do adquirente no CNPJ em campo próprio da Declaração de Importação; · A exigência de garantia para autorização da entrega ou desembaraço aduaneiro de mercadorias, por parte do adquirente quando o valor das importações for incompatível com o capital social ou patrimônio líquido deste; Fl. 1498DF CARF MF 54 E ainda traz outros efeitos: Blindar o patrimônio do real adquirente/encomendante: No caso de eventual lançamento tributário decorrente das operações, o real importador se beneficia de certa “imunidade” no âmbito patrimonial (cobrança de tributos e multa) e penal (conduta criminosa), uma vez que, aos olhos do Fisco, somente é conhecida a identidade da interposta pessoa. Quebra da cadeia de incidência do IPI: Por ordenamento constitucional, o IPI é um tributo de incidência nãocumulativa, compensandose o que for devido em cada operação com o montante cobrado nas anteriores (art. 153, § 3º, inciso II, da CF/88). O importador de mercadoria estrangeira é estabelecimento equiparado a industrial, consoante o artigo 13 da Lei 13.281/06. Desse modo, a saída de mercadoria do estabelecimento equiparado a industrial, mesmo quando a importação não tenha sido realizada diretamente por ele, constitui fato gerador do IPI, sendo efetivamente devido o valor do imposto em razão da diferença entre o preço de entrada e o preço de saída, pelo princípio da nãocumulatividade, conforme artigo 35 do Decreto nº 7.212/10 (RIPI). Ao não se apresentar à Receita Federal como importador de mercadorias importadas, o real adquirente intenta afastar sua condição de contribuinte (por equiparação) do IPI pela saída do produto de seu estabelecimento. Sonegação de PIS/PASEP e COFINS nãocumulativos: Em uma importação por intermédio de terceiros, o importador é contribuinte do PIS/PASEP e COFINS não cumulativos sobre a receita bruta auferida (no caso da importação por encomenda) ou sobre o valor dos serviços prestados (no caso de importação por conta e ordem), consoante o artigo 12 do Decreto nº 4.524/02. Lavagem de dinheiro e ocultação de bens e valores: Por lavagem de dinheiro entendese o procedimento utilizado para disfarçar a origem de bens e valores obtidos ilegalmente. No caso da ocultação mediante fraude ou simulação, abrese brecha para a utilização de recursos de origem desconhecida no pagamento das importações. Fl. 1499DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 29 55 Fruição indevida pelo importador oculto ( adquirente ) do benefício do ICMS. Esse ponto em destaque ganha abrupta relevância quando a interposta pessoa se localiza em Estado da Federação que proporciona benefícios fiscais relacionados a incidência do ICMS. Um instrumento que a princípio teria fins de elisão fiscal, ao ser combinado com a prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros, via modalidade de Importação por “conta e ordem" não declarada, assume contornos de elusão fiscal. Aquele que seria em princípio instrumento para fomentar a atividade econômica de um Estado da Federação, passa a ser usado de modo ilícito ao ser combinado com a prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior. Para legitimar a sanção, basta a certificação do fato infracional, independente da existência de culpa, demonstração de boafé e ocorrência de efetivo dano ao Erário público. Este também parecer ser o entendimento da colenda jurisprudência, conforme a seguinte ementa de decisão emanada pela terceira turma do TRF da 4º Região, referente ao processo 2001.72.08.0023793/SC a respeito da natureza do dano ao erário: ADMINISTRATIVO. PENA DE PERDIMENTO. LESÃO AO ERÁRIO. ART. 136 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. Como a responsabilidade decorrente da violação à legislação tributária é objetiva, o dano ao erário deve ser entendido como de natureza meramente potencial, sob pena de se incentivar a Fl. 1500DF CARF MF 56 fraude fiscal com a aparência de inocência, dada a dificuldade de se apurar o elemento subjetivo em cada caso concreto. Neste mesmo sentido: Origem: TRIBUNAL QUARTA REGIÃO Processo: 96.04.005111 UF: PR Orgão Julgador: PRIMEIRA TURMA Ementa PENA DE PERDIMENTO. DEL37/66. O DEL37/66 não foi revogado pela Constituição Federal pois, o dano causado ao erário público previsto no ART153, PAR11 da Carta Magna, não exige o prejuízo decorrente da exportação sem pagamento de tributos ou mesmo a exportação proibida, bastando configurarse uma situação vedada pela lei, fato que se assemelha ao crime de perigo previsto na lei penal.” Agreguese ainda outro julgado do mesmo Tribunal, na Apelação em Mandado deSegurança nº 2001.72.03.0009910/SC (grifouse): "Devese ter presente que dano ao erário não se configura unicamente pelo nãorecolhimento de tributos. Em matéria de controle aduaneiro, a questão não se limita aos aspectos tributários, pois a atividade alfandegária ultrapassa em muito a mera questão tributária. "... não é certo considerar o Direito Aduaneiro como um ramo do Direito Fiscal. É, sim, ramo independente que com aquele não se confunde, pois não lida apenas com o fenômeno impositivo, mas sobretudo com a complexa e variada gama de fenômenos que caracterizam o comércio internacional,tanto do ponto de vista da regulação quanto do controle estatal exercido” (ob. cit., p.52). ▣ DA BOA FÉ ALEGADA Oportuno agora se faz trazer comentários a respeito do alegado quanto à boa fé: É imprescindível para a análise a transcrição do artigo 136 do Código Tributário Nacional: Responsabilidade por Infrações Art. 136. Salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. Esse artigo possui o seu correspondente no DecretoLei n° 37/66: Art.94 Constitui infração toda ação ou omissão, voluntária ou involuntária, que importe inobservância, por parte da pessoa natural ou jurídica, de norma estabelecida neste DecretoLei, no seu regulamento ou em ato administrativo de caráter normativo destinado a completálos. § 1º O regulamento e demais atos administrativos não poderão estabelecer ou disciplinar obrigação, nem definir infração ou cominar penalidade que estejam autorizadas ou previstas em lei. Fl. 1501DF CARF MF Processo nº 10314.000028/201128 Acórdão n.º 3302005.817 S3C3T2 Fl. 30 57 § 2º Salvo disposição expressa em contrário, a responsabilidade por infração independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. O artigo 136 do Código Tributário Nacional é taxativo no sentido de que a responsabilidade tributária é objetiva. O §2º, do artigo 94 do Decreto Lei n° 37/66, também é taxativo no sentido de que a responsabilidade por infração aduaneira é objetiva. Assim, ainda agindo de boafé, cercado das cautelas de praxe, com razões suficientes para acreditar que está praticando um ato em conformidade com o direito, ainda que ignore o fato de seu ato ou de seus representantes estar em descompasso com a legislação, o Impugnante não pode se furtar de sua responsabilidade. O Código Tributário Nacional, ao preceituar a aplicação de sanção por infrações tributárias, utiliza a expressão “independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato”. Linha absolutamente idêntica é adotada pelo DecretoLei n° 37/66. Ambos ordenamentos desconsideram a intenção do agente ou responsável como pressuposto para a aplicação da devida punição, bem como dispensa a comprovação dos efeitos e extensão dos danos à Fazenda Pública. A boa fé alegada, ainda que preponderante, por força dos artigos transcritos, não tem o condão de afastar a responsabilidade por infrações da legislação tributária. Assim, o legislador ao consagrar a responsabilidade objetiva por atos infracionais, dispensa a Fazenda Pública de perquirir fatos comprovadores da presença do dolo ou da culpa e elementos de materialidade efetiva para aplicar a sanção correspondente. A responsabilidade objetiva garante de forma mais eficaz a coercibilidade do sistema punitivo tributário. De outro modo, a atividade de fiscalização se inviabilizaria se a cada infração tivesse que se provar que o contribuinte não autorizou determinada operação por negligência, imperícia ou imprudência. Para legitimar a sanção, basta a certificação do fato infracional, independente da existência de culpa, demonstração de boafé e ocorrência de efetivo dano ao Erário público. Somase a isso a necessidade de ser criterioso na escolha de quem lhe representará, bem como vigiar os atos praticados por tais representantes, sob pena de responder por eles, por culpa "in eligendo" e "Instrução Normativa vigilando". A culpa “in eligendo” advém da má escolha daquele em quem se confia a prática de um ato ou o adimplemento da obrigação. A culpa “in vigilando” é aquela que decorre da falta de atenção com o procedimento de outrem, cujo ato ilícito o responsável deve pagar. Ambas as figuras são de ampla aceitação na doutrina e jurisprudência pátria e imputam ao empregador a responsabilidade de seus efeitos. Fl. 1502DF CARF MF 58 Diante de tudo que foi exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso da Contribuinte. É como voto. Jorge Lima Abud. Fl. 1503DF CARF MF
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Numero do processo: 13984.900191/2008-92
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 16 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 01 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Exercício: 2004
DESISTÊNCIA DCOMP- INDEFERIMENTO
Pedido de desistência de compensação formulado após a data de ciência da decisão administrativa não homologatória há de ser indeferido.
Numero da decisão: 1402-003.192
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Ailton Neves da Silva (Suplente convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei, Paulo Mateus Ciccone (Presidente).
Nome do relator: PAULO MATEUS CICCONE
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Exercício: 2004 DESISTÊNCIA DCOMP INDEFERIMENTO Pedido de desistência de compensação formulado após a data de ciência da decisão administrativa não homologatória há de ser indeferido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Ailton Neves da Silva (Suplente convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei, Paulo Mateus Ciccone (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 98 4. 90 01 91 /2 00 8- 92 Fl. 58DF CARF MF Processo nº 13984.900191/200892 Acórdão n.º 1402003.192 S1C4T2 Fl. 3 2 Relatório Tratase de DCOMP transmitida pela contribuinte ante pagamento indevido ou a maior um Darf Simples que, no entanto, não foi homologada sob o fundamento de que o pagamento encontrase completamente utilizado, vinculado a débito também de código de receita 6106 e mesmo período de apuração, tornandoo indisponível para qualquer outra utilização. Cientificada do feito fiscal a contribuinte encaminhou manifestação de inconformidade, na qual alega que apresentou a declaração de compensação indevidamente, uma vez que era optante pelo Simples no período a que se referem os débitos incluídos na DComp. Nesse sentido, afirma que não existe valor a ser compensado, e nem motivo para apresentar a declaração de compensação, "uma vez que os tributos que ali se pedia compensação não eram devidos". Com base nessas alegações, a contribuinte requer o cancelamento da DComp apresentada, "por tratarse apenas de um engano fortuito, sem qualquer objetivo de ludibriar o fisco, sendo este perfeitamente justificado frente ao grande número de obrigações acessórias que os contribuintes de maneira geral tem para cumprimento com o Fisco". Em julgamento a DRJ julgou por improcedente a manifestação de inconformidade sob o entendimento de que o pagamento indevido já fora integralmente utilizado. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Mateus Ciccone Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1402003.180, de 16/05/2018, proferido no julgamento do Processo nº 13984.900120/2008 90, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1402003.180): "1. DA ADMISSIBILIDADE: O Recurso Voluntário preenche os requisitos legais de admissibilidade ao que merece ser processado. Fl. 59DF CARF MF Processo nº 13984.900191/200892 Acórdão n.º 1402003.192 S1C4T2 Fl. 4 3 2. DO MÉRITO: Conforme consta da decisão da DRJ o pagamento levado como crédito na DCOMP foi totalmente utilizado em face de vinculação a débito declarado pela contribuinte. E contra esse fato a contribuinte não apresenta qualquer oposição. Em sede da manifestação de inconformidade a contribuinte apenas alega que a apresentação da DComp em exame decorreu de engano, razão pela qual requer seu cancelamento. A legislação tributária então regente não respalda o requerimento da contribuinte com destaque para o que previa Instrução Normativa SRF n 600, de 28 de dezembro de 2005, que, em seu art. 62 assim estabelecia: Desistência de Pedido de Restituição, de Pedido de Ressarcimento e de Compensação Art. 62. A desistência do Pedido de Restituição, do Pedido de Ressarcimento ou da compensação poderá ser requerida pelo sujeito passivo ,mediante a apresentação à SRF do Pedido de Cancelamento gerado a partir do Programa PER/DCOMY ou, na hipótese de utilização de formulário (papel), mediante a apresentação de requerimento à SRF, o qual somente será deferido caso o Pedido de Restituicdo, o Pedido de Ressarcimento ou a compensacdo se encontre pendente de decisão administrativa ti data da apresentação do Pedido de Cancelamento ou do requerimento. Parágrafo único. 0 pedido de cancelamento da Declaração de Compensação será indeferido quando formalizado após intimação para apresentação de documentos comprobatórios da compensação. (destaques acrescidos) Há que se ressaltar que, na Instrução Normativa RFB n. 1717, de 30 de dezembro de 2017, atualmente em plena vigência, há disposição idêntica. Ante o exposto, considerando que o pedido de desistência da compensação foi formulado após a data de ciência da decisão administrativa que não a homologou, de se indeferir o requerimento da contribuinte. Uma vez indeferido o pedido de cancelamento da DComp, cumpre analisar o motivo apresentado para não homologar a compensação pleiteada, principalmente em face da alegação da contribuinte de que, no período a que se referem os débitos incluídos na DComp, era optante pelo Simples. Fl. 60DF CARF MF Processo nº 13984.900191/200892 Acórdão n.º 1402003.192 S1C4T2 Fl. 5 4 Nesse cenário, a principio, seriam insubsistentes os débitos com código do Simples Federal relativos a períodos posteriores A data de inicio dos efeitos da exclusão do regime simplificado, conforme essa Turma de Julgamento tem reiteradamente se manifestado. Com isso, inexistiria a utilização do pagamento apresentada no Despacho Decisório como motivo para não reconhecer o direito creditório da contribuinte. Diante do exposto, considerando que a DComp não pode ser cancelada, voto por manter a decisão proferida pela DRJ. É como voto." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Fl. 61DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.919172/2009-91
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 29 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2003
PER/DCOMP. RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. SALDO NEGATIVO. DIREITO CREDITÓRIO. .
A estimativa recolhida,. afastado eventual pagamento a maior ou indevido, forma o saldo negativo do contribuinte, devendo respeitar a sua metodologia própria para o pleito do direito creditório correspondente via PER/Dcomp.
Numero da decisão: 1402-003.467
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Participaram do julgamento os Conselheiros Edgar Bragança Bazhuni e Eduardo Morgado Rodrigues (Suplentes Convocados).
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edgar Bragança Bazhuni (suplente convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Eduardo Morgado Rodrigues (suplente convocado) e Paulo Mateus Ciccone.
Nome do relator: PAULO MATEUS CICCONE
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RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. SALDO NEGATIVO. DIREITO CREDITÓRIO. . A estimativa recolhida,. afastado eventual pagamento a maior ou indevido, forma o saldo negativo do contribuinte, devendo respeitar a sua metodologia própria para o pleito do direito creditório correspondente via PER/Dcomp. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Participaram do julgamento os Conselheiros Edgar Bragança Bazhuni e Eduardo Morgado Rodrigues (Suplentes Convocados). (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edgar Bragança Bazhuni (suplente convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Eduardo Morgado Rodrigues (suplente convocado) e Paulo Mateus Ciccone. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 91 91 72 /2 00 9- 91 Fl. 120DF CARF MF Processo nº 10880.919172/200991 Acórdão n.º 1402003.467 S1C4T2 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente de Recurso Voluntário interposto em face de decisão proferida pela 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo I SP, em primeira instância administrativa, que julgou IMPROCEDENTE, a manifestação de inconformidade do contribuinte em epígrafe, agora recorrente. Do Despacho Decisório: Trata o presente processo da Declaração de Compensação, na qual a recorrente alega possuir crédito contra a Fazenda Pública, decorrente de pagamento a maior ou indevido de antecipações por estimativa, buscando extinguir por compensação de débito próprio, conforme detalhamento que consta no Despacho Decisório acostado aos autos. Transmitida, o PER/Dcomp recebeu da DRF de origem o Despacho Decisório de "não homologação’ da compensação", cujas razões de negação se fundam na utilização integral do pagamento discriminado para a quitação de outro débito. Portanto, não haveria crédito disponível para a compensação em análise. Da Manifestação de Inconformidade: Inconformada com o despacho decisório, a recorrente interpôs a manifestação de inconformidade, na qual alega, em síntese, que por ocasião do ajuste do exercício, a recorrente apurou prejuízo, sendo que deste modo todas as antecipações efetuadas se transformaram em crédito passível de restituição, e até a vigência da Medida Provisória nº 449/2008, não haveria vedação da compensação das estimativas com quaisquer outros tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Da decisão da DRJ Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento: A DRJ, em seu julgamento, por unanimidade considerou improcedente a manifestação de inconformidade, e não reconheceu o direito creditório pleiteado, e consequente não homologação da compensação do PER/Dcomp objeto do presente processo. Na decisão ora recorrida, entendeuse que os valores pagos a título de estimativa de IRPJ e CSLL não poderiam ser considerados crédito em favor da recorrente, sob a qualificação de "pagamento indevido ou a maior". Tais valores deveriam compor o saldo negativo, o que demandaria uma comprovação própria. Eventual pagamento indevido ou a maior de estimativa, mesmo que comprovado, à época dos fatos, na regência da IN SRF nº 460/2004, deveria reduzir o tributo a pagar ou para compor o seu saldo negativo, não podendo ser aproveitado diretamente e por si só pelo contribuinte. Do Recurso Voluntário: Irresignada com o a decisão, apresentou recurso voluntário em que expõe que as estimativas poderão, em caso de saldo negativo, a partir da entrega da declaração de Fl. 121DF CARF MF Processo nº 10880.919172/200991 Acórdão n.º 1402003.467 S1C4T2 Fl. 4 3 rendimentos, compensados com tributos federais administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil SRF, nos termos do art. 6º da Lei nº 9.430/1996. No seu entender, as antecipações ocorridas ao longo do anocalendário de 2003, às quais não se confirmaram por conta do prejuízo apurado no ajuste, podem ser objeto de restituição, e compensação com qualquer tributo administrado pela SRF, ao menos até a vigência da MP 449/2008, que vedou a compensação de estimativas. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Mateus Ciccone, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1402003.458, de 20/09/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10880.909357/2009 97, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1402003.458): O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, podese dele conhecer. Antes de adentrar no mérito, cabe informar que o julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015, sendo o paradigma. Síntese dos fatos Primeiramente, fica bem claro nos autos que o direito creditório que está sendo pleiteado pela recorrente, e com seu conhecimento, é saldo negativo de IRPJ ou base de cálculo negativa de CSLL. A recorrente ao preencher o PER/Dcomp, informou que houve um pagamento indevido ou a maior de estimativa para justificar o direito creditório pelo qual objetivava extinguir o débito, conforme consta no pedido de compensação. Contudo, foi denegado pela autoridade fiscal conforme Despacho Decisório, pois o crédito pleiteado estava alocado, quitando o débito correspondente da antecipação do IRPJ (ou da CSLL). Fl. 122DF CARF MF Processo nº 10880.919172/200991 Acórdão n.º 1402003.467 S1C4T2 Fl. 5 4 Sua manifestação de inconformidade vai ao encontro do informado acima, entendendo, contudo, que seria cabível a compensação, independente da designação dada. A decisão a quo considerou improcedente sua manifestação de inconformidade, pois, em linhas gerais, tal forma de compensar o saldo negativo do IRPJ (ou CSLL) não seria a correta, de acordo com as normas aplicáveis. Em sede recursal, reitera, o seu entendimento que tem o direito, pois apesar de ser sido pagos como estimativas, não se confirmaram quando apurou prejuízo, o que lha dá o direito à restituição. Adiciona que tal posicionamento de não homologação seria equivocado, pois há regência legal para sua postura. Do mérito O presente caso envolve uma questão recorrente neste CARF, que seria de qual a natureza jurídica do recolhimento das estimativas de IRPJ e CSLL, em que a recorrente entende que o recolhido antecipadamente a maior foi indevido, querendo que seja tratado como uma repetição de indébito, apesar de não explicitar tal situação nos autos. Conforme entendimento consolidado deste CARF e através de matéria já sumulada1, para ser caracterizada uma estimativa recolhida como indébito, é necessário que tenha ocorrido realmente um pagamento indevido ou maior, o que exigiria demonstração de erro na apuração. Ou seja, se fosse o caso, o valor pago de estimativas foi superior ao devido, com base na receita bruta, ou em balanço de suspensão/redução, e a repetição do indébito poderia ser até, inclusive, no curso do ano calendário da período que se refere o pagamento indevido. Compulsando os autos, em nenhum momento é mencionado, e muito menos demonstrado, pela recorrente que foi um pagamento indevido ou a maior de estimativa. Pelo contrário, demonstra que o caso é de pagamentos de estimativas recolhidos devidamente e, que no final do ano apurou excesso de recolhimentos, além do necessário, pois apurou prejuízos fiscais, o que se configura saldo negativo (tanto de IRPJ quanto de CSLL). Aqui, cabe destacar a importância da distinção material entre o direito creditório se basear em pagamento indevido de estimativa ou saldo negativo. Aquele, sendo um indébito, geraria o direito a atualização monetária a partir do mês seguinte da sua ocorrência. Este, só haveria sua apuração do encerramento do exercício, e sua atualização monetária no mês seguinte. No caso da recorrente, ao ser optante do lucro real anual no ano calendário de 2003, e há valores recolhidos em vários meses ao longo de ano, poderia haver alguma repercussão financeira, em 1 Súmula CARF nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Fl. 123DF CARF MF Processo nº 10880.919172/200991 Acórdão n.º 1402003.467 S1C4T2 Fl. 6 5 seu favor (e por consequência em prejuízo ao erário) se seguisse com a visão de eventuais estimativas recolhidas a maior seriam indébitos, e não saldo negativo, como tenta imputar na apresentação do seu PER/Dcomp. Não se quer aqui negar o direito da recorrente de tratar como indébito eventual estimativa recolhida a maior ou erroneamente, devidos a erro na sua apuração da base de cálculo, pois nestes casos tratável como repetição de indébito. Contudo, não resta alegado, e por consequência, nem comprovado em nenhum momento que houve um erro no pagamento da estimativa da sua parte, e como já dito anteriormente, muito pelo contrário, há sua afirmação que foram pagamentos de estimativas corretas que geraram o saldo negativo de IRPJ ou CSLL. Portanto, muito mais que um problema formal no preenchimento do PER/Dcomp, de qualificação como pagamento indevido ou saldo negativo, estáse diante de um problema atinente à própria metodologia de apuração do IRPJ/CSLL, e suas consequências advindas, de acordo com a opção eleita pela recorrente. Nestas circunstâncias, corretas as negativas, tanto no despacho decisório quanto no acórdão a quo, do pleito da recorrente, pois se valeu erradamente do seu direito, não logrando demonstrar diferente. Pelo todo exposto, NEGO PROVIMENTO ao recurso voluntário. É como voto. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Fl. 124DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12571.000017/2010-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Sep 24 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3301-000.714
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, para que o processo seja encaminhado à repartição de origem onde deverá aguardar até que seja proferida a decisão no processo nº 12571.000201/2010-00, que deverá ser juntada, em cópia de seu inteiro teor, nestes autos.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Valcir Gassen - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
Nome do relator: VALCIR GASSEN
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Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, para que o processo seja encaminhado à repartição de origem onde deverá aguardar até que seja proferida a decisão no processo nº 12571.000201/201000, que deverá ser juntada, em cópia de seu inteiro teor, nestes autos. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Valcir Gassen Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. Relatório Trata o presente processo de PER/DCOMP de créditos de COFINS mercado interno e exportação, apurados no regime de incidência nãocumulativa, com base no art. 3º, §1º da Lei nº 10.833/2003. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 25 71 .0 00 01 7/ 20 10 -5 1 Fl. 451DF CARF MF Processo nº 12571.000017/201051 Resolução nº 3301000.714 S3C3T1 Fl. 452 2 Cabe ressaltar a existência dos Processos nºs. 12571.000200/201057 e 12571.000201/201000, que tratam dos Autos de Infração de PIS/Pasep e Cofins, respectivamente, lançados em decorrência da análise do direito creditório promovida nos créditos das referidas contribuições dos anos de 2003 a 2007. Além da glosa dos créditos, foi verificado que, em diversos períodos de apuração, ocorreu a não tributação de algumas receitas pelo Contribuinte, motivo pelo qual lhe restou saldo devedor da contribuição a pagar, sendo, então, lavrados os dois Autos de Infração citados. No âmbito dos Processos nºs. 12571.000200/201057 e 12571.000201/201000, proferiuse as Resoluções nº 3301000.520 e 3301000.521, respectivamente. Nestas resoluções decidiuse por converter os julgamentos em diligências para fins de juntada de processos vinculados, processos esses, inclusive o presente, em que se estão sendo analisados os créditos de PIS/Pasep e Cofins (PER/DCOMPs) e que deram ensejo aos autos de infração constantes dos processos referidos. No cumprimento da Resolução nº 3301000.521 assim constou do Despacho de Encaminhamento: DESPACHO DE ENCAMINHAMENTO Devolvamse os presentes autos ao Conselheiro Valcir Gassen, para prosseguimento, informando que os processos 12571.000006/2010 71, 12571.000007/201016, 12571.000008/201061, 12571.000009/201013, 12571.000010/201030, 12571.000011/201084, 12571.000012/201029, 12571.000013/201073, 12571.000014/201018, 12571.000015/201062, 12571.000016/201015, 12571.000017/201051, 12571.000018/201004, 12571.000019/201041, 12571.000020/201075, 12571.000021/201010, 12571.000022/201064, 12571.000023/201017, 13931.000367/200820, 13931.000936/200837, 13931.000938/200826, 13931.000941/200840, 13931.000943/200839, 13931.000944/200883, 13931.000945/200828, e 13931.000947/200817, que tratam da análise de créditos de Cofins (PER/DECOMPs) e que deram ensejo ao auto de que trata este processo foram distribuídos ao referido Conselheiro, em cumprimento à determinação constante da Resolução 3301000.521, de 28/9/2017. É o relatório. Voto Conselheiro Valcir Gassen Relator Quando da análise dos autos para julgamento dos Processos nºs. 12571.000200/201057 e 12571.000201/201000, distribuídos a este relator, constatouse que os dois processos referemse a autos de infração, o primeiro no que tange a contribuição ao PIS e o segundo diz respeito a Cofins, e que existiam outros processos vinculados a estes e que tratam de pedidos de restituição e de compensação (PER/DCOMP) de PIS e Cofins Exportação apurados no regime de incidência nãocumulativa. Fl. 452DF CARF MF Processo nº 12571.000017/201051 Resolução nº 3301000.714 S3C3T1 Fl. 453 3 Em pesquisa realizada no eprocesso verificouse que esses processos vinculados aos autos de infração encontravamse distribuídos em fases distintas. Por intermédio das Resoluções nº 3301000.520 e 3301000.521, proferidas nos Processos nºs. 12571.000200/201057 e 12571.000201/201000, os processos vinculados foram reunidos e distribuídos a este Conselheiro prevento. Assim entendo que foram atendidas as Resoluções nº 3301000.520 e 3301 000.521. Verificando os processos de PER/Dcomps, constatase que o Auto de Infração alcança todos os períodos de apuração dos PER/Dcomps vinculados, sendo que a solução do litígio no processo do lançamento alcança os processos de ressarcimento/compensação vinculados. Assim, voto pela conversão do julgamento em diligência, para que o presente processo seja encaminhado à repartição de origem, onde deverá aguardar até que seja proferida a decisão definitiva no processo nº 12571.000201/201000, que deverá ser juntada, em cópia de seu inteiro teor, neste processo. (assinado digitalmente) Valcir Gassen Fl. 453DF CARF MF
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Numero do processo: 10935.004178/2010-12
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 31/01/2005 a 31/12/2008
SIMULAÇÃO. PROVA INDIRETA. INDÍCIOS CONVERGENTES. TERCEIRIZAÇÃO. EMPRESAS OPTANTES PELO SIMPLES. EVASÃO DA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA.
Há simulação quando a vontade declarada destoa da vontade real. A contratação de empresas optantes pelo Simples apenas para o fornecimento de serviços, mantidos com a contratante os elementos caracterizadores da relação empregatícia, configura simulação para evadir-se de obrigações previdenciárias.
SIMULAÇÃO. LEGITIMIDADE PASSIVA.
É o contribuinte quem possui relação pessoal e direta com a situação constitutiva do fato gerador. Havendo simulação, o contribuinte é aquele que emerge do desvelo dos fatos simuladores, no caso, a contratante dos serviços impropriamente terceirizados a empresas optantes pelo Simples.
CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. COMPETÊNCIA PARA O LANÇAMENTO. AUDITORES-FISCAIS DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL. IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. NORMA ANTIELISIVA GERAL. DESCONSIDERAÇÃO DE PERSONALIDADE JURÍDICA.
Compete privativamente aos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil a constituição, pelo lançamento de ofício, das contribuições previdenciárias. É etapa do lançamento a correta identificação do sujeito passivo, que não se confunde com a aplicação de norma antielisiva geral ou desconsideração de personalidade jurídica.
JULGADORES A QUO. ISENÇÃO. LIVRE CONVENCIMENTO.
A autoridade julgadora é livre para formar sua convicção diante de sua interpretação das provas. Identificados elementos convincentes e justificada a convicção, não cabe a alegação de falta de isenção do julgador.
SIMULAÇÃO. DECADÊNCIA.
Havendo simulação, a regra decadencial é a prevista no parágrafo único do art. 173 do CTN.
PAGAMENTOS DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA EFETUADOS PELAS EMPRESAS INTERPOSTAS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. INCOMPETÊNCIA DA AUTORIDADE JULGADORA PARA RECONHECIMENTO DE CRÉDITOS FORA DA LIDE. ILEGITIMIDADE ATIVA PARA SOLICITAR INDÉBITO DE TERCEIROS.
O lançamento tributário requer a identificação do real sujeito passivo. A identificação dos sujeito passivo oculto pela simulação não implica desconsideração da personalidade jurídica das empresas interpostas, que permanecem titulares de direitos e deveres. Carece de legitimidade ativa ao sujeito passivo oculto para pleitear o indébito de terceiros. O reconhecimento do direito creditório, quando alheio à lide, não é competência da autoridade julgadora, mas da autoridade tributária, aplicando-se o rito típico da espécie. Os pagamentos ao Simples efetuados pelas empresas interpostas não podem ser aproveitados para compensação com débitos de contribuição previdenciária do verdadeiro sujeito passivo, por conta da limitação imposta pelo art. 89 da Lei nº 8.212, de 1991.
PERÍCIA. DESNECESSIDADE. ELEMENTOS PRESENTES NOS AUTOS. PLENO CONHECIMENTO DO REQUERENTE.
A autoridade julgadora poderá determinar as perícias necessárias para a formação de sua convicção. Presentes, nos autos, os elementos suficientes ao convencimento do julgador, prescindível é a perícia. Não assiste razão ao deferimento de pedido de perícia quando a defesa tem acesso às informações que pretenderia obter.
Numero da decisão: 2301-005.368
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, (a) por unanimidade de votos, não conhecer do recurso na questão relativa à exigência de garantias e na questão dos pagamentos às cooperativas de trabalho; (b) por maioria de votos, conhecer do pedido de aproveitamento dos pagamento realizados por terceiras pessoas jurídicas, vencido o conselheiro João Bellini Júnior; (c) por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares e (d) por unanimidade de votos, denegar o pedido de perícia (e) no mérito, (e.1) por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso nas questões da decadência, legitimidade da recorrente e ao pagamento a empregados, cota dos terceiros (e.2) pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso na questão de aproveitamento dos pagamentos ao Simples por terceiras pessoas jurídicas. Impedida a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato.
(assinado digitalmente)
João Bellini Júnior - Presidente.
(assinado digitalmente)
João Maurício Vital - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Maurício Vital, Wesley Rocha, Antônio Sávio Nastureles, Alexandre Evaristo Pinto, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll (suplente convocada), Marcelo Freitas de Souza Costa, Fernanda Melo Leal (suplente convocada em substituição aos impedimentos da conselheira Juliana Marteli Fais Feriato) e João Bellini Júnior (Presidente).
Nome do relator: JOAO MAURICIO VITAL
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PROVA INDIRETA. INDÍCIOS CONVERGENTES. TERCEIRIZAÇÃO. EMPRESAS OPTANTES PELO SIMPLES. EVASÃO DA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. Há simulação quando a vontade declarada destoa da vontade real. A contratação de empresas optantes pelo Simples apenas para o fornecimento de serviços, mantidos com a contratante os elementos caracterizadores da relação empregatícia, configura simulação para evadirse de obrigações previdenciárias. SIMULAÇÃO. LEGITIMIDADE PASSIVA. É o contribuinte quem possui relação pessoal e direta com a situação constitutiva do fato gerador. Havendo simulação, o contribuinte é aquele que emerge do desvelo dos fatos simuladores, no caso, a contratante dos serviços impropriamente terceirizados a empresas optantes pelo Simples. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. COMPETÊNCIA PARA O LANÇAMENTO. AUDITORESFISCAIS DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL. IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. NORMA ANTIELISIVA GERAL. DESCONSIDERAÇÃO DE PERSONALIDADE JURÍDICA. Compete privativamente aos AuditoresFiscais da Receita Federal do Brasil a constituição, pelo lançamento de ofício, das contribuições previdenciárias. É etapa do lançamento a correta identificação do sujeito passivo, que não se confunde com a aplicação de norma antielisiva geral ou desconsideração de personalidade jurídica. JULGADORES A QUO. ISENÇÃO. LIVRE CONVENCIMENTO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 93 5. 00 41 78 /2 01 0- 12 Fl. 775DF CARF MF 2 A autoridade julgadora é livre para formar sua convicção diante de sua interpretação das provas. Identificados elementos convincentes e justificada a convicção, não cabe a alegação de falta de isenção do julgador. SIMULAÇÃO. DECADÊNCIA. Havendo simulação, a regra decadencial é a prevista no parágrafo único do art. 173 do CTN. PAGAMENTOS DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA EFETUADOS PELAS EMPRESAS INTERPOSTAS. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. INCOMPETÊNCIA DA AUTORIDADE JULGADORA PARA RECONHECIMENTO DE CRÉDITOS FORA DA LIDE. ILEGITIMIDADE ATIVA PARA SOLICITAR INDÉBITO DE TERCEIROS. O lançamento tributário requer a identificação do real sujeito passivo. A identificação dos sujeito passivo oculto pela simulação não implica desconsideração da personalidade jurídica das empresas interpostas, que permanecem titulares de direitos e deveres. Carece de legitimidade ativa ao sujeito passivo oculto para pleitear o indébito de terceiros. O reconhecimento do direito creditório, quando alheio à lide, não é competência da autoridade julgadora, mas da autoridade tributária, aplicandose o rito típico da espécie. Os pagamentos ao Simples efetuados pelas empresas interpostas não podem ser aproveitados para compensação com débitos de contribuição previdenciária do verdadeiro sujeito passivo, por conta da limitação imposta pelo art. 89 da Lei nº 8.212, de 1991. PERÍCIA. DESNECESSIDADE. ELEMENTOS PRESENTES NOS AUTOS. PLENO CONHECIMENTO DO REQUERENTE. A autoridade julgadora poderá determinar as perícias necessárias para a formação de sua convicção. Presentes, nos autos, os elementos suficientes ao convencimento do julgador, prescindível é a perícia. Não assiste razão ao deferimento de pedido de perícia quando a defesa tem acesso às informações que pretenderia obter. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, (a) por unanimidade de votos, não conhecer do recurso na questão relativa à exigência de garantias e na questão dos pagamentos às cooperativas de trabalho; (b) por maioria de votos, conhecer do pedido de aproveitamento dos pagamento realizados por terceiras pessoas jurídicas, vencido o conselheiro João Bellini Júnior; (c) por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares e (d) por unanimidade de votos, denegar o pedido de perícia (e) no mérito, (e.1) por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso nas questões da decadência, legitimidade da recorrente e ao pagamento a empregados, cota dos terceiros (e.2) pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso na questão de aproveitamento dos pagamentos ao Simples por terceiras pessoas jurídicas. Impedida a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato. (assinado digitalmente) João Bellini Júnior Presidente. (assinado digitalmente) Fl. 776DF CARF MF Processo nº 10935.004178/201012 Acórdão n.º 2301005.368 S2C3T1 Fl. 776 3 João Maurício Vital Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Maurício Vital, Wesley Rocha, Antônio Sávio Nastureles, Alexandre Evaristo Pinto, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll (suplente convocada), Marcelo Freitas de Souza Costa, Fernanda Melo Leal (suplente convocada em substituição aos impedimentos da conselheira Juliana Marteli Fais Feriato) e João Bellini Júnior (Presidente). Relatório Tratase do Auto de Infração nº 37.212.50424, constituído em 29/07/2010 (efl. 659), para exigência de contribuições a Outras Entidades e Fundos (Terceiros), incidentes sobre a remuneração de empregados, sob responsabilidade da Sperafico por caracterização de simulação para evasão de tributos. As contribuições são relativas ao período de 01/2005 a 12/2008. A Recorrente apresentou impugnação (efls. 661 a 733), que foi julgada improcedente nos termos do Acórdão nº 0632.045 (efls. 735 a 758). Na contestação, a Recorrente alegou, em suma: a) que não poderia ser considerada sujeito passivo da relação tributária; b) que alguns períodos lançados teriam sido alcançados pela decadência; c) que não foram aproveitados, no lançamento, os recolhimentos efetuados pelas "pessoas jurídicas desconsideradas", cujos valores requereu serem apurados por perícia; d) que as atividades transferidas às outras empresas não eram suas atividades econômicas principais e finalísticas; e) que os agentes fiscais teriam modificado o empregador nos contratos celebrados entre os trabalhadores e as "pessoas jurídicas desconsideradas"; f) que teriam sido aplicadas a "teoria da desconsideração da personalidade jurídica" e a "norma antielisiva geral", circunstâncias que seriam alheiras às competências do Fisco; g) que a terceirização de suas atividades aconteceu nos termos do Enunciado TST nº 331, pois tratavamse de atividadesmeio; h) que a Autoridade Autuante teria utilizadose de critérios subjetivos, sem provas contundentes, e chegado a conclusões equivocadas sobre a relação da Recorrente com as empresas contratadas; i) que não cabe ao Fisco alterar contratos e negócios jurídicos constituídos no âmbito do Direito Privado; Fl. 777DF CARF MF 4 j) que as terceirizações teriam ocorrido para proporcionar melhor gerenciamento administrativo das atividadesmeio; k) que não incidiria contribuição previdenciária sobre os pagamentos a cooperativas de trabalho; l) que são indevidos os juros com base na taxa Selic, que possui natureza de indenização, e não de remuneração; m) que o seja observada a conexão e a continência com outros processos resultantes da mesma ação fiscal e processos decorrentes de autos lavrados em desfavor das empresas contratadas, iniciandose o julgamento pelo auto de infração nº 37.212.5026 para que sua decisão repercuta nos demais. Foi, então, interposto recurso voluntário (efls. 764 a 772) no qual a Recorrente reafirmou os termos da impugnação e aduziu: a) a inconstitucionalidade da exigência de garantias como condição para o apelo recursal. b) a falta de isenção dos julgadores da primeira instância administrativa porquanto não vincularam os fundamentos jurídicos às provas dos autos. É o relatório. Voto Conselheiro João Maurício Vital Relator. 1 Do conhecimento O recurso é tempestivo, pelo que se constata em despacho da unidade preparadora (efl. 773). Deixo de conhecer a questão relativa à exigência de garantias porque não está na lide. Ademais, o recurso interposto não foi condicionado à prestação de qualquer garantia. Também não conheço do recurso quanto à incidência de contribuição previdenciária sobre pagamentos a cooperativas de trabalho, que não fazem parte deste processo. Conheço, entretanto, das demais matérias. Registrese que o auto de infração deste processo guarda estreita relação com o Processo nº 10935.004176/201023, ao qual se encontra apensado e onde estão a quase totalidade das provas juntadas pela Autoridade Lançadora, inclusive o Relatório Fiscal (efls. 518 a 738 do Processo nº 10935.004176/201023), e pela Recorrente. Portanto, neste voto serão feitas referências a partes do Processo nº 10935.004176/201023. Fl. 778DF CARF MF Processo nº 10935.004178/201012 Acórdão n.º 2301005.368 S2C3T1 Fl. 777 5 2 Das preliminares 2.1 DA ILEGITIMIDADE PASSIVA A Recorrente sustentou que, tendo as Autoridades Fiscais lançado a obrigação principal em seu nome e as penalidades relativas às obrigações acessórias em nome de outras empresas, as quais teriam sido desconsideradas pelo Fisco, configuraria a ilegitimidade passiva da Recorrente. O que arguiu foi que, se houve lançamento reflexo nas empresas desconsideradas, como poderia, a Recorrente, ser o sujeito passivo da obrigação principal? Para responder à questão, há que se adentrar no ponto mais determinante do Processo nº 10935.004176/201023 e deste processo, que é a identificação de quem tem relação pessoal e direta com a situação que constituiu os fatos geradores da exação. As Autoridades Lançadoras afirmaram, em síntese, que a Recorrente teria se utilizado de uma rede de empresas de fachada (KL, LDI, Olecargas, Plasma, PP, PPMS, RTC, Spartano, Tolecargas, Tolenorte, TPC, Transcar, VS e Wsul), que aqui serão genericamente referidas por empresas decorrentes, todas optantes pelo Simples, para evadirse das obrigações previdenciárias, na medida em que utilizava a mãodeobra de trabalhadores registrados formalmente naquelas empresas, mas que, em verdade, seriam trabalhadores da própria Recorrente. As circunstâncias nas quais o Fisco se baseou para concluir pela legitimidade passiva da Recorrente foram assim resumidas (Relatório Fiscal, efls. 514 e 515 do Processo nº 10935.004176/201023): Ficou constatado que as empresas não possuem existência de fato, sendo criadas apenas para possibilitar a obtenção de benefícios fiscais pois todas realizaram Opção Pelo Simples por parte da SPERAFICO; que as receitas auferidas pelas empresas provinham da própria SPERAFICO, o que em dados momentos foi inferior ou muito próximo às despesas com pessoal; que os segurados empregados registrados nas empresas trabalhavam nas dependências da SPERAFICO ou a serviço desta, desenvolvendo as atividades operacionais da mesma, mas cujos contratos de trabalho constam nas diversas empresas; que posteriormente os empregados remanescentes foram transferidos para a SPERAFICO; que são utilizadas pessoas que não detém a real qualidade de sócios nas diversas empresas, vulgarmente conhecidos como "laranjas", pessoas que mantêm/mantinham ou mantiveram vínculos com a SPERAFICO. A investigação fiscal identificou vários elementos que sustentaram a conclusão quanto à interposição de pessoas e o uso de empresas de fachada. Por serem essenciais ao deslinde da controvérsia jurídica, é importante enumerar os principais indícios e provas apontados pelo Fisco. Fl. 779DF CARF MF 6 2.1.1 Da criação e dos dados cadastrais das empresas decorrentes As empresas decorrentes informaram o mesmo endereço da Sperafico ou, em alguns casos, em imóveis a ela pertencentes. Em outras situações, o endereço era a residência do sócio (efls. 516 e 517 do Processo nº 10935.004176/201023). Observase no Quadro Anexo II Sócios (efls. 834 a 837 do Processo nº 10935.004176/201023) que os sócios das empresas decorrentes ou são sócios da Sperafico, ou possuem com ela vínculo empregatício, ou foram dela empregados, ou são empregados de outra empresa decorrente ou, de algum modo, possuem relações de parentesco com empregados da Sperafico. Sobre a questão, assim se pronunciou o Relatório Fiscal (efl. 518 do Processo nº 10935.004176/201023): No Quadro Anexo II (fls. 829/832) é apresentada a situação dos supostos quadros societários das empresas. É fácil visualizar a estreita vinculação entre todos, seja mediante emprego direto na SPERAFICO ou em outras das empresas, ou mesmo vínculo familiar. A subordinação à SPERAFICO das pessoas que figuram no quadro societário da maioria das empresas é evidente. Podese afirmar que a subordinação é tão evidente que em alguns casos a própria SPERAFICO assume a condição de sócio majoritário da empresa, conforme será relatado adiante. Os contadores das empresas decorrentes também possuíam algum vínculo com a Sperafico, como se constata no seguinte trecho do relatório fiscal (efl. 518 do Processo nº 10935.004176/201023) e, ainda no Quadro Anexo II Contadores (efls. 839 a 841 do Processo nº 10935.004176/201023) No Quadro III (fls. 833/836) é apresentada a vinculação entre empresas e contadores. Percebese também que a escrita contábil das empresas remete à vinculação com a SPERAFICO. No ano de 2005, esteve dividida entre os contadores Clerione Raquel Herther (LDI), Carlos Alberto Koval (KL, OLECARGAS, PP, RTC, TOLECARGAS, TOLENORTE, TRANSCAR, WSUL) e Neldo Danzer (PPMS, TPC, VS); já no período de 2006 a 2008 ficou apenas como Contador de todas as empresas o funcionário da SPERAFICO Luciano Vendramini Bassi. Na SPERAFICO atuou como Contadores no período de 2005 a 2008, além da Sra. Clerione Raquel Herther o Sr. Aloisio Antonio Bonemberger (sic.) Até mesmo as testemunhas que assinaram os contratos sociais e respectivas alterações eram vinculadas à Sperafico, como se observa no Quadro Anexo IV Testemunhas (efls. 844 e 845 do Processo nº 10935.004176/201023). 2.1.2 Das atividades das empresas decorrentes Consta dos documentos dos autos (efls. 765 do Processo nº 10935.004176/201023) que o objeto social da Sperafico coincide, em grande parte, com o objeto social das empresas decorrentes. Com base nas informações do processo, elaborouse a Tabela 1 Atividades, anexa a este voto, para bem ilustrar a compatibilidade das atividades. 2.1.3 Utilização de plano de contas em comum Segundo o Relatório Fiscal (efls. 518 e 519 do Processo nº 10935.004176/201023): Fl. 780DF CARF MF Processo nº 10935.004178/201012 Acórdão n.º 2301005.368 S2C3T1 Fl. 778 7 Ficou constatado que o PLANO DE CONTAS da SPERAFICO é o mesmo que foi utilizado pelas demais empresas no período de 2006 a 2008 (no ano de 2005, as empresas, à exceção da LDI, tiveram escrituração realizada em escritórios contábeis distintos da estrutura da SPERAFICO). Teoricamente, isto não deveria acontecer, já que se fossem empresas distintas, com administrações distintas e contabilidades diferentes, cada qual organizaria sua própria escrituração. No entanto, aconteceu e está comprovado com a juntada do Plano de Contas da SPERAFICO em anexo (fls. 772/785), o qual corresponde aos planos de contas das outras empresas, que também são juntados em anexo (cópias às fls. KL 968/985, LDI. 1292/1310, OLECARGAS 1532/1549, PLASMA 1734/1753 PP 1998/2018, PPMS 2355/2373, RTC 2610/2628, TOLECARGAS 2946/2964, TOLENORTE 3174/3191, TPC 3607/3625, TRANSCAR 3948/3960, VS 4172/4190, WSUL 4394/4414). De fato, o uso do mesmo plano de contas em todas as empresas, embora, isoladamente, não se constitua prova definitiva, é um indício que converge para a conclusão de que as empresas eram, em verdade, uma extensão da Sperafico. O plano de contas é elemento característico de uma entidade, pois reflete a organização patrimonial e os registros do resultado empresarial, que normalmente é diferente em cada empresa, sobretudo quando os objetos sociais são distintos. No caso, em que se tem empresas dos ramos de comercialização de peças e manutenção e reparo de veículos, de transporte rodoviário de cargas, de capatazia (carga e descarga de produtos), de industrialização, empacotamento e comércio de cereais, de fabricação de móveis, é no mínimo muito incomum que um mesmo plano de contas possa servir a todas as empresas. 2.1.4 Do local onde os trabalhadores das empresas decorrentes atuavam Conta do Relatório Fiscal (efls. 519 e 520 do Processo nº 10935.004176/201023) que as empresas decorrentes ou tinham o mesmo endereço das filiais e matriz da Sperafico ou mantinham funcionários nas suas dependências. O relatório descreve cada uma das situações, envolvendo cada empregado, cada filial e cada empresa decorrente, em que os empregados prestaram serviço diretamente nas filiais da Sperafico. A título de exemplo ilustrativo, reproduzse a situação encontrada na empresa KL (efl. 527 do Processo nº 10935.004176/201023): Não possui filial. No entanto, confirmando o que fora afirmado anteriormente, os trabalhadores desta "empresa" eram alocados em diversas filiais da SPERAFICO. Vejase a propósito "Relação de Empregados" (fls. 1101/1104), que evidencia o fato, como por exemplo, trabalhadores alocados na MATRIZ (TOLEDO), e filiais como Tupãssi , Vila Nova, Nova Aurora, Cascavel, Vila Ipiranga, São Luiz, Guaíra, Santa Inês, no setor de Transportes (Toledo), Braganey, São José, Indústria e Penha. Encontrase demonstrado na planilha (fls. 4688/4719) denominada de QUADRO ANEXO V NF PRESTADORAS X FILIAIS SPERAFICO que, em razão da filial da SPERAFICO tomadora do serviço de acordo com a Nota Fiscal, eram alocados trabalhadores registrados na KL a prestarem serviços Fl. 781DF CARF MF 8 a diversas filiais da SPERAFICO em diversas localidades diferentes da sede da KL, o que confirma a informação acima e realça o aspecto de que a subordinação desses empregados era de fato com a SPERAFICO já que as empregadoras (prestadoras de serviço) aparentes não se faziam presentes nos locais das prestações de serviços. A situação verificada na empresa KL se repetiu, com o mesmo modus operandi, em outras empresas decorrentes. 2.1.5 Do fornecimento de recursos financeiros às empresas decorrentes Segundo o Relatório Fiscal (efl. 521 do Processo nº 10935.004176/201023): As diversas empresas "prestadoras de serviços", registraram, no período fiscalizado, de forma contumaz, severos resultados negativos (prejuízos) ante um pequeno valor de capital social. Ou seja, não ostentavam condições econômicas de operar com normalidade, sua existência se justificava para o fim evidente de burlar a legislação tributária, com a obtenção indevida de benefícios fiscais através da indevida inclusão no SIMPLES. Em itens adiante será evidenciada a situação por empresa. Em face disso, para a existência das "prestadoras de serviços", mesmo que apenas na aparência, era a SPERAFICO quem fornecia recursos financeiros, seja na condição de único tomador de serviços, seja, por fim na condição de sócio majoritário, como em alguns casos, com a integralização de capital social com créditos seus junto à prestadora. O Fisco entendeu que, ao apresentarem prejuízos constantes e sobreviverem apenas de recursos oriundos da Sperafico, as empresas decorrentes não exerciam, na verdade, atividade econômica. Eram apenas extensões da própria Sperafico. Filiome, neste caso, ao entendimento do Fisco. Está demonstrado (efls. 527 e 528 do Processo nº 10935.004176/201023) que as empresas decorrentes acumularam prejuízos, isto porque a Sperafico, única cliente, transferia recursos suficientes apenas para pagar o custo dos serviços que foram prestados por aquelas empresas, sem possibilidade de gerar resultado positivo. A característica essencial da atividade empresarial produtiva é a busca pelo lucro, se as empresas decorrentes tinham suas receitas provenientes exclusivamente da Sperafico e seus prejuízos cobertos por aporte de capital desta empresa, sem que gerassem resultados positivos, resta bem evidenciado que elas não tinham propósito empresarial. 2.1.6 Das folhas de pagamento e demais atos de gestão de RH Consta do Relatório Fiscal (efl. 522 do Processo nº 10935.004176/201023): Além disso, no período de 2006 a 2008, o processamento da folha de pagamento, a organização e a realização de todas as tarefas atinentes ao RH das empresas estaria, como quer fazer crer a situação que foi apresentada à auditoría fiscal, a cargo de uma única pessoa responsável pelo parte contábil e de RH, na pessoa do contador (funcionário da SPERAFICO) Luciano Vendramini Bassi (que se apresenta como sendo profissional autônomo, desvinculado da SPERAFICO, para fins de atender às "prestadoras de serviços"). Seria evidentemente impossível que uma única pessoa realizasse todas as tarefas, desde controle de Fl. 782DF CARF MF Processo nº 10935.004178/201012 Acórdão n.º 2301005.368 S2C3T1 Fl. 779 9 freqüência, processamento dos diversos itens de folha de pagamento, controle e efetivação de pagamento de pessoal, controle de férias, licenças, FGTS, SEFIP/GFIP; Previdência Social, processamento e controle dos benefícios (mercado,farmácia, Unimed, gás), e além disso realizar a escrituração contábil de todas as empresas com todas as outras tarefas atinentes à área contábil e fiscal. Na realidade, os fatos apurados evidenciam que a folha de pagamento foi, como não podia ser diferente, processada dentro da SPERAFICO, no setor próprio de RH desta, com o pessoal desta. Isto fica demonstrado de modo mais claro por empresa em itens adiante, onde se vê que até determinados erros cometidos no processamento de uma folha de pagamento, o mesmo erro repercutia nas demais, como se fosse (como de fato é) apenas uma única folha de pagamento. Observese que, segundo foi apurado na investigação fiscal, a gestão de pessoal e a confecção da folha de pagamento dos empregados das empresas decorrentes acontecia dentro da Sperafico, por empregados do setor de recursos humanos desta empresa, sob a responsabilidade de seu contador. Verificase que os emails fornecidos nos documentos apresentados pelas empresas decorrentes eram sempre do domínio @sperafico.com.br. O acórdão recorrido bem apontou (efl. 7126 do Processo nº 10935.004176/201023) o exemplo das informações ao Caged em que consta eloi@sperafico.com.br. Mais uma vez corroboro o entendimento do Fisco de que essa condição denota uma incomum participação da Sperafico na gestão dos trabalhadores da empresas decorrentes, o que só se justifica se, como sustentado pelas Autoridades Lançadoras, os empregados fossem de fato da Sperafico, ainda que estivessem registrados em nome de outras empresas. 2.1.7 Da movimentação de empregados com o advento do Simples Nacional Ainda quanto à administração de recursos humanos, a Fiscalização Tributária observou a transferência de empregados das empresas decorrentes para a Sperafico. Isto porque, com o fim do Simples, em 2007, o modelo que teria sido criado pela Recorrente deixou de possibilitar o benefício tributário; não havia, pois, mais razões de seus trabalhadores estarem registrados nas empresas que foram criadas para optarem pelo Simples e, com isso, pagarem menos contribuição previdenciária (além de outros encargos e tributos). A Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de 2006, que passou a vigorar em 1º de julho de 2007, instituiu o Simples Nacional, que excetuou do modelo, no que se refere às contribuições previdenciárias, as microempresas e da empresas de pequeno porte que se dediquem às atividades de prestação de serviços. E foi exatamente a partir dessa data que as empresas decorrentes passaram a ser tributadas com base no lucro presumido (efl. 515, item 3.3, do Processo nº 10935.004176/201023). De fato, analisando as informações compiladas do Caged sobre a transferência de empregados (efl. 794 do Processo nº 10935.004176/201023), salta aos olhos a coincidência entre o fluxo de empregados e a vigência do Simples. Nos meses de julho e agosto de 2007, houve uma expressiva transferência dos trabalhadores que estavam na empresas decorrentes para a Sperafico. Isto, mais uma vez, demonstra inequivocamente que os Fl. 783DF CARF MF 10 trabalhadores sempre foram empregados, de fato, da Sperafico e apenas figuravam como empregados das empresas decorrentes em razão de um planejamento tributário deixou de fazer sentido com a alteração legislativa. 2.1.8 Dos descontos para a associação de funcionários Os Auditores Fiscais constataram (efl. 523 do Processo nº 10935.004176/201023) que, assim como na Sperafico, nas empresas decorrentes havia desconto da contribuição dos empregados para a Associação de Funcionários da Agrícola Sperafico (Afas). Pareceme lógica a conclusão do Fisco de que os empregados das empresas decorrentes eram, em verdade, empregados da Sperafico, do contrário, não haveria razão para deles descontar o valor da contribuição para a entidade. 2.1.9 Das atividades exercidas pelos empregados das empresas decorrentes O acórdão recorrido bem apontou outro ponto revelador da verdadeira intenção do planejamento tributário. Alguns funcionários foram registrados nas empresas decorrentes para funções que são incompatíveis com seus objetos sociais, mas absolutamente inerentes aos objetivos da Sperafico. É o que se observa no seguinte trecho (efl. 7126 do Processo nº 10935.004176/201023): Cabe acrescentar que a peça defensiva acabou se abstendo de rebater verificações/fatos ao meu ver fundamentais na análise do caso. Não há, por exemplo, qualquer justificativa para que uma empresa que tem por objeto a prestação de serviços de consertos e substituições de peças de caminhões, ônibus e outros veículos pesados possua um funcionário registrado como Classificador de Cereais. Da mesma forma, entre diversas outras incompatibilidades de funções descritas no relatório fiscal, a peça defensiva também não explica porque uma empresa que possui como objeto social serviços de carga e descarga de produtos agrícolas possui empregados nas funções de OPERADOR DE CALDEIRA, AJUDANTE DE SECADOR ou AUXILIAR DE LABORATÓRIO. Em resumo, a natureza dos serviços descritos não só se mostra incompatível com os objetos das empresas interpostas, como se afeiçoam necessárias às atividades da própria impugnante. A Recorrente, em seu favor, alegou que as atividades efetivamente realizadas pela empresa não foram as descritas em seu objeto social e apresentou, para comprovar, balancetes que indicariam que as fontes de suas receitas eram a comercialização e industrialização de produtos agrícolas. O fato de, no período, as receitas se concentrarem apenas em parte das atividades da Recorrente, ao meu ver, dá mais substância à tese da simulação. Ora, se a empresa transferiu atividades de seu objeto social para as empresas decorrentes, permanecendo apenas com algumas delas,. não haveria mesmo de ter qualquer receita contabilizada oriunda das atividades transferidas. Demonstra, na verdade, que parte de suas atividades finalísticas, porquanto compunham o seu objeto social, foram indevidamente terceirizadas, notadamente as que demandavam grande quantidade de mãodeobra. Esta é, na essência, a tese advogada pela Autoridade Lançadora e pelo acórdão a quo. Fl. 784DF CARF MF Processo nº 10935.004178/201012 Acórdão n.º 2301005.368 S2C3T1 Fl. 780 11 2.1.10 Dos benefícios pagos aos empregados da Sperafico Consta do Relatório Fiscal (efl. 523 do Processo nº 10935.004176/201023): Foi constatado que a SPERAFICO mantém uma certa conduta com relação a benefícios para empregados, concedendolhes algumas formas de benefícios que se traduzem em facilidades na aquisição de gêneros alimentícios, medicamentos e gás no comércio da cidade de Toledo PR. Idêntica situação ocorre nas empresas "prestadoras de serviços", seguindo o mesmo procedimento. Foi constatado também que a SPERAFICO funciona como intermediária na aquisição de plano de saúde UNIMED para seus empregados. Assim, desconta nas respectivas folhas de pagamento valores relativos a UNIMED. O mesmo ocorre nas "prestadoras de serviços", seguindo o mesmo procedimento. Tais fatos evidenciam que se trata de uma única administração de pessoal. Conforme o Fisco apurou, os empregados registrados nas empresas decorrentes usufruíam dos mesmo benefícios e do plano de saúde oferecidos aos empregados da Sperafico, o que mais uma vez caracteriza que o patrão, de fato, era esta empresa. 2.1.11 Do preenchimento das notas fiscais de prestação de serviços Conforme o Relatório Fiscal (efls. 523, 524, 702, 703 e 704 do Processo nº 10935.004176/201023), foi identificado que muito as notas fiscais de prestação de serviços das diversas empresas decorrentes eram preenchidas sempre com a mesma caligrafia. Conclui o Relatório Fiscal, neste ponto: Este elemento evidencia que não existiam empresas distintas, mas uma única empresa, que se utilizou do expediente de emissão de notas fiscais de prestação de serviços por supostas empresas "prestadoras de serviços" para justificar a alocação de mãodeobra fora de sua folha de pagamento. De fato, verificando as notas constantes dos autos (efls. 4492 a 4710 do Processo nº 10935.004176/201023) facilmente se constata, sem necessidade de profundos conhecimentos grafotécnicos, que as notas das diferentes empresas foram escritas com a mesma caligrafia. Este é um importante indício de que, na verdade, os blocos de notas estavam ali, à disposição da mesma pessoa, para preencher os documentos de acordo com a necessidade. É um expediente comum em casos de empresas de fachada ou empresasfantasma pois, obviamente, essas empresas não possuem setor de faturamento com faturistas para emissão das próprias notas fiscais, sendo isto uma atribuição da empresa oculta. 2.1.12 Do ativo imobilizado Os AuditoresFiscais constataram que todo o ativo imobilizado utilizado na prestação dos serviços pertencia à Sperafico, e não às empresas prestadoras (efl. 524 do Processo nº 10935.004176/201023): Fl. 785DF CARF MF 12 A SPERAFICO era e é a única detentora dos meios de produção utilizados no processo produtivo e no desenvolvimento dos diversos serviços que em seus estabelecimentos foram/são realizados. Assim, não é difícil perceber que as "empresas" que realizavam serviços de transportes não possuíam sequer um veículo no seu ativo permanente; as que realizavam atividades de carga e descarga não possuíam equipamentos para tal, como por exemplo carregadeiras, empilhadeiras, veículos, etc; as diversas "empresas" não tiveram/têm sede nem estrutura administrativa mínima. Este elemento evidencia que não existiam empresas distintas, mas uma única empresa, que se utilizou do expediente de criar empresas "prestadoras de serviços" para justificar a alocação de mãodeobra fora de sua folha de pagamento, sem o cuidado sequer de lhe fornecer meios próprios de operar. Ora, se as empresas decorrentes não tinham qualquer bem de produção e nem há registro de que os obtinha por intermédio de algum tipo de arrendamento, não haveria como se constituírem em legítimas empresas sem os meios para a realização de seus objetos sociais. 2.1.13 Das receitas e despesas das empresas decorrentes A investigação fiscal constatou que toda a receita das empresas decorrentes provinha exclusivamente da Sperafico ou de outra empresa do grupo (efl. 524 do Processo nº 10935.004176/201023): As empresas "prestadoras de serviços" não possuíam outra fonte de receita que não a própria SPERAFICO ou alguma empresa do GRUPO, conforme evidenciam em suas respectivas escriturações. Não existiam por si só, mas apenas e em função da SPERAFICO, que lhes deu a "suposta" existência. Ademais, suas receitas escrituradas eram apenas para cobrir despesas de pessoal, conforme fica evidenciado em itens adiante, por empresa. Nalguns (sic) casos, não havia receitas nem para cobrir tais despesas. O fato de as receitas das empresas decorrentes virem exclusivamente da Sperafico não seria, isoladamente, um elemento determinante para se concluir pela interposição. Porém, diante do contexto, somase aos demais indícios que demonstrar ser a Sperafico a real prestadora dos serviços, utilizandose de empresas de fachada. 2.1.14 Das despesas das empresas decorrentes A Fiscalização também constatou que as empresas não tinham despesas operacionais (efls. 524 e 525 do Processo nº 10935.004176/201023): Em se tratando de despesas, a situação apurada revela que as empresas não realizavam, apesar de comuns a qualquer organização empresarial, despesas com água, luz, telefone, aluguel, material de consumo, material de escritório, móveis, equipamentos. Fl. 786DF CARF MF Processo nº 10935.004178/201012 Acórdão n.º 2301005.368 S2C3T1 Fl. 781 13 Outro fato constatado, foi o expediente utilizado nas escriturações das diversas "prestadoras de serviços" de lançar valores em contas como DUPLICATAS A RECEBER e ADIANTAMENTO DE CLIENTES, que na verdade significavam valores de pagamentos que a SPERAFICO fazia para elas, ou seja, a SPERAFICO pagava diretamente as despesas e os valores eram apropriados como redutores de duplicatas a receber ou como adiantamento de clientes. Tais fatos serão demonstrados por empresa, em itens adiante. Este elemento evidencia que não existiam empresas distintas, mas uma única empresa, que se utilizou do expediente de criar empresas "prestadoras de serviços" para justificar a alocação de mãodeobra fora de sua folha de pagamento, sem o cuidado sequer de lhe fornecer meios próprios de operar. No meu entender, este é um elemento que prova a inexistência de fato das empresas decorrentes. É possível que haja uma empresa sem ativos, ou sem receitas, até mesmo sem diretores, mas não possível uma empresa sem despesas operacionais. A característica essencial de qualquer atividade empresarial é a transformação de algo em produto ou serviço colocado no mercado, nesse processo de transformação surgem, inexoravelmente, as despesas e, quase sempre, os custos diretos e indiretos. No caso, as despesas aconteciam, mas não eram registradas como tal, eram registradas como deduções dos valores a receber da Sperafico, ou seja, quem arcava com o ônus das despesas era a própria Sperafico. 2.1.15 Das reclamatórias trabalhistas Os agentes do Fisco se fundamentaram, também, na ações trabalhistas em que empregados da empresas decorrentes pleitearam o vínculo com a Sperafico (efls. 703 a 712 do Processo nº 10935.004176/201023). Foram declinadas várias petições iniciais em que os reclamantes atestaram trabalharem para a Sperafico, inclusive sob subordinação. Em alguns casos, foram encontradas anotações determinando que o pagamento decorrente das ações trabalhistas fosse efetuado pelo setor de RH da Sperafico. 2.1.16 Das apólices de seguro de vida No Relatório Fiscal consta (efl. 713 do Processo nº 10935.004176/201023): Foi constatado na análise de documentos referente a seguros de vida de empregados de diversas empresas das prestadoras de serviços à SPERAFICO, que na contratação de seguros de vida, as mesmas figuram nas apólices como subestipulantes, sendo a estipulante a SPERAFICO (cópias de does. de seguro às fls. 4721/4753). Mais uma evidência do vínculo com a SPERAFICO. Há caso em que figura como estipulante outra empresa do grupo SPERAFICO, a Clean Farm do Brasil Ltda. Entendeu, o Fisco, que o fato de a estipulante ser a a Sperafico (com e exceção do contrato envolvendo a WSul, cuja estipulante era a Clean Farm) representaria mais um indício de que as empresas decorrentes eram, de fato, a longa manus da Sperafico. Fl. 787DF CARF MF 14 2.1.17 Da simulação Os AuditoresFiscais entenderam que, diante das provas e indícios identificados, estavam diante de uma simulação. Assim asseveraram em seu Relatório Fiscal (efl. 714 do Processo nº 10935.004176/201023): Restou demonstrado que o desmembramento da organização empresarial em outras supostas sociedades empresariais consiste em estratégia de planejamento que caracteriza a evasão fiscal, pois busca usufruir indevidamente do tratamento tributário simplificado e favorecido instituído pela Lei nº 9.317/96 (Lei do SIMPLES). A simulação (criação de realidades inexistentes) utilizada, consubstanciada na constituição ou aquisição de empresas para serem, na aparência, distintas da empresa "mãe", retira toda a validade dos atos por ela viciados, devendo prevalecer a real situação fática, com base no princípio da verdade material. E, em decorrência desse princípio, temse como inexistente, para fins previdenciários, a contratação irregular de trabalhadores feita pelas empresas "prestadoras de serviços". Na realidade, a real e verdadeira contratação de empregados se deu para beneficiar a empresa SPERAFICO, que se beneficiou diretamente dos trabalhos executados pelos trabalhadores então contatados. Conclui, o Fisco, que teria havido simulação da Recorrente, mediante a criação de empresas optantes pelo Simples para, por intermédio delas, fazer uso da mãode obra necessária às suas atividades, evadindose dos compromissos previdenciários (efl. 514 e 515 do Processo nº 10935.004176/201023): Ficou constatado que esta empresa caracterizase como líder de um grupo empresarial, conhecido por SPERAFICO. A SPERAFICO AGROINDUSTRIAL LTDA, segundo se apurou, utilizouse do mecanismo da simulação, expediente este que consistiu na criação de diversas outras empresas que têm existência ou são criadas para lhe prestarem serviços, serviços estes que consistem atividades operacionais da própria SPERAFICO, haja vista a amplitude de seu objeto social, o que se verá demonstrado neste relatório. Ficou evidente, após as análises realizadas nas diversas empresas, neste relatório identificadas, o propósito de se criarem empresas para obtenção indevida do benefício da opção pelo Simples. Tais fatos evidenciam a prática da evasão fiscal, relativamente às contribuições previdenciárias, mediante o citado procedimento da simulação. A tese apresentada pelas Autoridades Lançadoras é a da ocorrência se simulação, ou seja, a vontade declarada (o que consta dos documentos formais) não corresponde à vontade real (a obtenção dos serviços dos trabalhadores com menor custo tributário, usufruindo de um regime fiscal favorecido). A Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 Código Civil, esclarece Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. Fl. 788DF CARF MF Processo nº 10935.004178/201012 Acórdão n.º 2301005.368 S2C3T1 Fl. 782 15 § 1o Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; É importante destacar que a comprovação de interposição de pessoas, do uso de empresas de fachada e da simulação dificilmente se dá com elementos documentais contundentes, pois a característica essencial desse tipo de conduta é a criação de uma situação aparente, formalmente amparada em documentos, para ocultar uma situação real. Portanto, para se desvendar o fato simulado, é necessário olhar por trás do fato simulador. Assim, a formalidade documental deve ser afastada quando presentes elementos circunstanciais que a contradizem. Ao contrário do que a recorrente sustentou no seu apelo, não se trata de desconsideração das pessoas jurídicas. Tratase da correta identificação do sujeito passivo da relação tributária. Os Fiscais não desconstituíram as empresas decorrentes, elas estavam lá, constituídas formalmente e praticando atos e fatos com efeitos no mundo jurídico. Mas os vínculos de trabalho, estes sim, foram desconsiderados para que o verdadeiro empregador, a Sperafico, pudesse surgir na relação tributária. Como bem estatuiu BOZZA1: A prova da simulação é normalmente uma prova por presunção relativa, isto é, indireta, por inferência, baseada em indícios que são colhidos no contexto no qual o ato ou negócio foi executado. Conforme esclarecido pelo conselheiro Marcos Neder, no voto proferido no Ac. CSRF/0106015, de 14 de outubro de 2008, "a prova por presunção pode assegurar ao julgador a certeza necessária para proferir sua decisão, desde que fundada num conjunto de indícios graves, precisos e convergentes. Esses fatos circunstanciais considerados isoladamente podem não alcançar a certeza, mas, ao serem examinados em conjunto, podem levar a uma comprovação confiável da ocorrência do fato jurídico tributário". Entendo que, diante da constelação de indícios, todos convergentes, que apontam para a Sperafico como a real contratante dos trabalhadores, a simulação resta comprovada. Na verdade, os elementos dos autos são absolutamente contundentes, quando vistos em seu conjunto. Os fatos constatados podem assim ser resumidos: a Sperafico detinha pleno controle das empresas decorrentes, os empregados trabalhavam nas dependências dela e sob suas ordens, as empresas decorrentes não possuíam finalidade econômica real, todas elas eram optantes pelo Simples e, quando a vantagem fiscal acabou em razão de mudança legislativa, os empregados foram transferidos para a Sperafico, revelando o verdadeiro propósito do arranjo empresarial, qual seja, manter os empregados em empresas optantes pelo Simples e, por conseguinte, evadirse dos encargos previdenciários. 1 BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. Série Doutrina Tributária, vol. XV. São Paulo: Quartier Lantin, 2015, p. 233. Fl. 789DF CARF MF 16 A seu favor, a Recorrente sustenta que a terceirização de suas atividades encontra amparo legal e que as teria promovido para proporcionar melhor gerenciamento administrativo das atividadesmeio. De fato, a terceirização está prevista no ordenamento, mas existem claros critérios, como a vedação à transferência de atividades finalísticas e a vedação à pessoalidade e subordinação diretas. Ao observar as provas dos autos, o que mais se vê é a participação ativa da Sperafico na gestão de RH dos empregados registrados nas empresas decorrentes (que sequer possuíam estrutura administrativa). Atividades como controle de ponto, pagamento e outras providências de pessoal eram exercidas diretamente pela Sperafico. Além disso, os trabalhadores atuavam nas dependências dessa empresa em distintas cidades, executando as atividadesfim da Sperafico. O gerenciamento administrativo das atividades, que foi a alegada causa das terceirizações, permaneceu com a Sperafico. Como não admitir o vínculo direto? Vale, aqui, relembrar, mais uma vez, a lição de BOZZA2: Na interposição real, não simulada, a interposta pessoa dá lugar ao intermediário. Estabelecese, assim, um vínculo negocial efetivo, de um lado, entre o interpoente e o intermediário e, de outro lado, entre o intermediário e o terceiro contraente. O intermediário que realmente participa do contrato estabelece em seu nome a relação jurídica e tornase titular de direito e obrigações, ainda que ostente um vínculo obrigacional com o interpoente, resultando em uma combinação de atos jurídicos. Essa é a razão pela qual o intermediário não pode ser considerado interposta pessoa simulada. Isso já não ocorre na interposição fictícia ou simulada, pois existe apenas uma relação jurídica direta entre o interpoente e o terceiro contraente. A interposta pessoa não participa verdadeiramente do negócio, nem se beneficia de qualquer vantagem patrimonial. Apenas finge que faz, emprestando seu nome para ser aposto no documento. A sua eventual participação apenas será feita para dar verossimilhança ao engano. Resta claro que os contratos de trabalho ligavam diretamente os trabalhadores à Sperafico. Percebese a simulação, também, ao se analisar as relações contratuais entre a Sperafico e as empresas decorrentes. Não havia, ali, um motivo econômico, ou um propósito negocial. Aquelas empresas não geraram lucro, não tinham ativos, não tinham nem os equipamentos elementares para a prestação dos serviços para os quais teriam sido contratadas. Nos contratos juntados pela Recorrente (efls. 6522 a 6552 do Processo nº 10935.004176/201023) observase que as cláusulas eram praticamente idênticas, até os erros de Português eram os mesmos, independentemente do objeto contratado. Aliás, em todos os contratos se verifica a mesma cláusula 5ª (com exceção da empresa LDI Transportes, em que o texto está na cláusula 6ª) que deixa claro que o papel das empresas decorrentes era fornecer mãodeobra à Sperafico, que arcaria com todo o material e equipamento necessário aos serviços: A CONTRATADA obrigase a fornecer toda a mãodeobra necessária para a execução dos trabalhos contratados, assim como a administração, o pagamento das verbas remuneratórias 2 BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. Série Doutrina Tributária, vol. XV. São Paulo: Quartier Lantin, 2015, p. 238. Fl. 790DF CARF MF Processo nº 10935.004178/201012 Acórdão n.º 2301005.368 S2C3T1 Fl. 783 17 e encargos sociais e a CONTRATANTE obrigase a entregar todos os materiais, insumos, veículos de transporte, máquinas e equipamentos necessários para a prestação de serviços objeto deste contrato. Na verdade, os contratos entre Sperafico e empresas decorrentes não eram verdadeiros, mas apenas simulacros. As empresas nem possuíam estrutura física e ativos para fornecerem os serviços, apenas serviram de meio para registrar os empregados livrando a Sperafico dos ônus previdenciários. Ainda segundo BOZZA3 A ausência de propósito negocial também surge diante da impossibilidade material de realização da atividade empresarial, como ficou decidido no Ac. 30332460, de 19 de outubro de 2005 (Caso CDR), em face da inexistência de móveis ou maquinários adequados para o empreendimento. O Ac. 101 95208, de 19 de outubro de 2005 (Caso CDR), considerou artificial a constituição de empresas entre pessoas ligadas para se beneficiar de regime de tributação favorecido, mas que não possuía meios materiais para a prestação de serviços. (Grifo do original.) Assim como consignado no relatório fiscal e no acórdão recorrido, eu também enxergo claramente o emprego do artifício usado para ocultar a verdadeira relação trabalhista entre a Sperafico e os empregados registrados nas empresas decorrentes. 2.1.18 Conclusão quanto à legitimidade passiva da Sperafico No início deste tópico, foi colocada a seguinte questão: se houve lançamento reflexo nas empresas desconsideradas, como poderia ser a Recorrente o sujeito passivo da obrigação principal? Quanto ao lançamento das multas sobre descumprimento de obrigações acessórias nas empresas decorrentes, a matéria não faz parte destes autos. Cabe, aqui, analisar se a Recorrente é o sujeito passivo das exações que constam deste processo, que derivaram de do pagamento a empregados. Ora, a resposta à questão central requer conhecer quem, de fato, mantinha a relação de emprego com os segurados empregados. O acórdão recorrido estatuiu: Ocorre que cabe ao fisco identificar se a conduta da notificada em conjunto com as empresas supracitadas desponta no caso em exame como planejamento tributário, assim entendida a medida adotada pela empresa, entre as várias alternativas não vedadas em lei, que resulte na diminuição de custos, inclusive os tributários. Todavia, de pronto essa possibilidade é rechaçada tendo em vista o vasto material probatório produzido pela autoridade lançadora, com a clara demonstração da ocorrência de evasão fiscal utilizandose de procedimento que buscou a ocultação do verdadeiro ato realizado. 3 Idem ibdem, p. 244. Fl. 791DF CARF MF 18 No caso, entendo que os elementos contidos nos autos são bastante persuasivos em retratar a ocorrência de simulacro empregado pela empresa, objetivando se esquivar de suas obrigações previdenciárias. Corroboro o que consta do acórdão recorrido, que reafirmou a tese de simulação e considerou a Recorrente a verdadeira contratante dos trabalhadores e, portanto, ela é parte legítima para figurar no pólo passivo da relação tributária. Observese que os indícios e provas indicados nos itens 2.1.1 a 2.1.15 talvez fossem, se analisados isoladamente, insuficientes para sustentar a tese de que teria havido simulação. Porém, tomando em conta o conjunto de elementos, não há como se esquivar que a Sperafico era a verdadeira empregadora, pois: a) havia subordinação, porquanto os empregados trabalhavam nas dependências da Sperafico, que lhes controlava os registros de ponto, em atividades atinentes ao seu objeto social, com cargos compatíveis com a estrutura organizacional da empresa e, inclusive, fazendo jus aos mesmos benefícios que os empregados registrados na própria Sperafico; b) o trabalho era habitual e contínuo, como bem descreveu o acórdão a quo: Mesmo a partir do dia seguinte à transferência dos empregados das empresas prestadoras (conforme relato supra), jamais houve qualquer interrupção na prestação de serviços à SPERAFICO, inclusive com a continuidade no mesmo cargo, restando, portanto, também configurado o caráter da não eventualidade; c) os recursos para pagamento dos salários aos empregados provieram sempre da Sperafico, o que evidencia a onerosidade da relação de trabalho; d) os empregados registrados nas empresas decorrentes exerciam funções próprias da Sperafico mesmo quando eram transferidos entre aquelas empresas ou daquelas para a Sperafico, caracterizando a pessoalidade. Não restam dúvidas, por todo os que foi evidenciado, que a Sperafico possuía relação pessoal e direta com as situações que constituíram os fatos geradores das contribuições sociais, revestindose, pois, da condição de sujeito passivo, na qualidade de contribuinte. nos termos do art. 121, parágrafo único, inciso I do CTN. Rejeito, pois, a preliminar de erro de ilegitimidade passiva e concluo pela ocorrência de simulação para ocultar os fatos geradores tributários. 2.2 DA CONEXÃO E DA CONTINÊNCIA ENTRE PROCESSOS Embora esta matéria não componha a lide, a Recorrente solicita que sejam consideradas, no julgamento administrativo, a conexão e continência com as referidas autuações seja declarada a conexão e continência entre estes autos e os autos de infração nºs 37.212.5034, 37.212.5042 e 37.212.5182 (efl. 6384 do Processo nº 10935.004176/201023). Solicita, também, que o julgamento dos processos se inicie pelos presentes autos do Processo nº 10935.004176/201023 para que a decisão repercuta nos demais, face à conexão e continência (efl. 6385 do Processo nº 10935.004176/201023). Fl. 792DF CARF MF Processo nº 10935.004178/201012 Acórdão n.º 2301005.368 S2C3T1 Fl. 784 19 A esse respeito, registrese que os processos resultantes da mesma ação fiscal foram distribuídos para o mesmo relator, de modo a, quando possível e necessário, presentes as iguais situações de fato e de direito e mesmos elementos de prova, procederse a conclusões convergentes. Também solicita, a Recorrente, que se considere a conexão e continência entre estes autos e autos com os autos de infração lavrados em desfavor das empresas decorrentes (autos de infração 37.289.6375, 37.289.6332, 37.289.6480, 37.289.6383, 37.289.6391, 37.289.6464, 37.289.6472, 37.289.6421, 37.289.6448, 37.289.6430, 37.289.6413, 37.289.6405, 37.289.6367, 37.289.6456, 37.289.6340 e 37.289.6359), considerando, no seu entender (efl. 6386 do Processo nº 10935.004176/201023): (...) a incompatibilidade de assunção da obrigação tributária principal pela Impugnante e, relativamente aos memos (sic) tributos, as penalidades pecuniárias por descumprimento de obrigações acessórias às "pessoas jurídicas desconsideradas" Não vejo possibilidade de atender ao apelo. Primeiramente, destacase que o art. 31 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 19724, delimita as decisões aos autos de infração que componham o processo, não sendo possível que se estenda o julgamento a outros processos, de outros contribuintes, ainda que, como alegado, possa haver conexão entre os fatos. Admitese, para efeito de convencimento do julgador, que os fatos e provas decorrentes de uma mesma ação fiscal, mas que foram dispersos em distintos processos do mesmo contribuinte, possam ser analisados em conjunto, mas sempre resultando em distinta decisão em cada processo. A análise de processos que provieram de outras ações fiscais, perpetradas em outros contribuintes, implicaria no julgamento conjunto de todos os fatos, o que não está previsto no regulamento processual administrativo. Ainda, a Recorrente não provou, nos autos, que haja conexão entre as matérias, apenas alegou que eventual decisão aqui proferida teria reflexos naqueles processos. Nada impediria que a Recorrente buscasse naqueles autos de infração os elementos que entendesse úteis à sua defesa, que aqui poderiam ser apreciados para efeito de decidir a presente controvérsia. Ademais, como descrito no item anterior, não houve desconstituição de pessoa jurídica, como afirmou a Recorrente, e, portanto, caberia àquelas empresas apresentarem tempestivamente suas inconformidades, que constituiriam litígio administrativo próprio. Por fim, as normas do processo civil têm aplicação apenas subsidiária e não podem ser invocadas no caso, quanto à conexão, pois o rito processual administrativo, notadamente o inc. I do § 1º do art. 6º do Regimento Interno do Carf (Ricarf) 5, já estabelece o 4 Art. 31. A decisão conterá relatório resumido do processo, fundamentos legais, conclusão e ordem de intimação, devendo referirse, expressamente, a todos os autos de infração e notificações de lançamento objeto do processo, bem como às razões de defesa suscitadas pelo impugnante contra todas as exigências. 5 Art. 6º Os processos vinculados poderão ser distribuídos e julgados observandose a seguinte disciplina: §1º Os processos podem ser vinculados por: I conexão, constatada entre processos que tratam de exigência de crédito tributário ou pedido do contribuinte fundamentados em fato idêntico, incluindo aqueles formalizados em face de diferentes sujeitos passivos; Fl. 793DF CARF MF 20 instituto no âmbito do tribunal administrativo. Quanto à continência, também não se aplica, por não haver identidade entre as partes. Indefiro, pois os pedidos de conexão e de continência. 2.3 DA COMPETÊNCIA PARA O LANÇAMENTO A Recorrente alegou que os AuditoresFiscais da Receita Federal ao estabelecerem vínculos empregatícios de forma irrestrita, teriam desconsiderado a personalidade jurídica da empresas decorrentes e a aplicado o art. 116, parágrafo único, do CTN (norma antielisiva geral). Desta forma, teriam extrapolado suas competências previstas na Lei nº 10.593, de 6 de dezembro de 2002, e na Lei nº 11.457, de 16 de março de 2007, avançando sobre competências próprias da Fiscalização do Trabalho e da Justiça do Trabalho. A Recorrente se equivoca. Não houve desconsideração de pessoa jurídica, o que ocorreu foi a correta identificação do sujeito passivo e dos fatos geradores, como determina o artigo 142 do CTN6, sendo o lançamento uma decorrência da imposição legal. Presente a simulação, autorizado estará o lançamento de ofício, como estabelece o inciso VI do art. 149 do CTN7. E a competência para a constituição de créditos tributários de contribuições previdenciárias está claramente disposta na alínea a do inc. I do art. 6º da Lei nº 10.593, de 20028. Destaco trecho do voto condutor do Acórdão nº 2402004.380, do Conselheiro Ronaldo de Lima Macedo, que adoto como razão de decidir: Insta mencionar ainda que, ao considerar o real sujeito passivo da relação tributária, o Fisco não está aplicando a regra prevista no art. 116 do CTN nem está realizando a desconsideração de pessoa jurídica prevista no art. 50 do Código Civil já que a sua ação não está voltada para fins relacionados exclusivamente ao direito civil, mas sim ao cumprimento fiel e irrestrito da legislação previdenciária e tributária, e encontra respaldo legal nesses artigos 142 e 149, inciso VII, do CTN. Portanto, no presente caso o Fisco não excedeu de suas competências ao efetuar o lançamento, tampouco adentrou em atribuições alheias, senão ficou adstrito ao encargo de laçar as contribuições previdenciárias. Destaquese que consta, nos Fundamentos Legais do Débito (efl. 66), toda a legislação que ampara a competência das Autoridades Fiscais no presente caso. Rejeito, pois, a preliminar de incompetência das Autoridades Lançadoras. 6 Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. 7 Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: .................................................................... VII quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; 8 Art. 6º São atribuições dos ocupantes do cargo de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil: I no exercício da competência da Secretaria da Receita Federal do Brasil e em caráter privativo: a) constituir, mediante lançamento, o crédito tributário e de contribuições; Fl. 794DF CARF MF Processo nº 10935.004178/201012 Acórdão n.º 2301005.368 S2C3T1 Fl. 785 21 2.4 DA IMPARCIALIDADE DOS JULGADORES A QUO No recurso voluntário, a Recorrente alegou a falta de isenção dos julgadores da primeira instância administrativa, porquanto não vincularam os fundamentos jurídicos às provas dos autos. Não assiste razão à Recorrente. O acórdão a quo foi diligente ao fartamente vincular sua conclusões, especialmente no que se refere à existência de simulação e do vínculo empregatício, aos elementos dos autos, inclusive indicando as respectivas folhas e fazendo citações ilustrativas. Ainda que, expressamente, o acórdão recorrido não houvesse feito a vinculação, não se trataria, no dizer da Recorrente, de falta de isenção de "animus" dos julgadores preliminares e nem de razão para a anulação da decisão, pois que a autoridade julgadora é livre para formar sua convicção diante de sua interpretação das provas9. 3 Da questão prejudicial à análise do mérito 3.1 DA DECADÊNCIA A Recorrente alegou que, ao caso, deveria ser aplicado o art. 150, §4º do CTN e não o artigo 173, inciso I, pois não houve fraude, dolo ou simulação. Alegou que tudo o que fez foi utilizarse legalmente de terceirização de serviços de suas atividadesmeio, em consonância com a Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho (TST) 10. Não é o que se observa nos autos. Segundo a Súmula nº 331 do TST, o vínculo empregatício não se forma quando a contratação se dá em atividadesmeio e inexista a pessoalidade e a subordinação direta. O que se vê no processo é que as atividades exercidas pelos profissionais registrados nas empresas decorrentes eram atividades finalísticas da Sperafico (item 2.1.2 deste voto); ademais, ficaram evidenciadas a pessoalidade e a subordinação (item 2.1.18 deste voto). A conclusão geral a que se chega é a de que houve simulação. Assim, não há como aplicar a regra decadencial contida no § 4º do art. 150 do CTN11. Filiome ao entendimento manifestado pelo STJ (AgRg no Recurso Especial nº 1.044.953/SP) segundo o qual, aplicandose o disposto no parágrafo único do art. 17312 do Estatuto Tributário, o prazo 9 Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972: Art. 29. Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias. 10 III Não forma vínculo de emprego com o tomador a contratação de serviços de vigilância (Lei nº 7.102, de 20.06.1983) e de conservação e limpeza, bem como a de serviços especializados ligados à atividademeio do tomador, desde que inexistente a pessoalidade e a subordinação direta. 11 Art. 150. .......................................................................... § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. 12 Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. Parágrafo único. O direito a que se refere este artigo extinguese definitivamente com o decurso do prazo nele previsto, contado da data em que tenha sido iniciada a constituição do crédito tributário pela notificação, ao sujeito passivo, de qualquer medida preparatória indispensável ao lançamento. Fl. 795DF CARF MF 22 quinquenal se conta da data em que se iniciou a constituição do crédito tributário que, no caso, é 02/03/2009 (efl. 742). Tendo em conta que o lançamento se aperfeiçoou em 29/07/2010 (e fl. 6312) não há qualquer período alcançado pela decadência. Ainda que se aplicasse o inc. I do art. 173 do CTN, tendo em conta que o lançamento referese às competências a partir de 01/2005, também nenhum período estaria decaído. 4 Do mérito 4.1 QUANTO AOS AO PAGAMENTO A EMPREGADOS O argumento fundamental da Recorrente em sua impugnação, reafirmado no recurso voluntário, é que teria sido aplicada a norma antielisiva geral para desconsideração das pessoas jurídicas aqui genericamente referidas por empresas decorrentes. Também pousou sua contestação na afirmação de que a simulação não restaria provada, contestando cada um dos indícios para, então, afirmar que não constituiriam prova da simulação. Por fim, sustentou a regularidade da terceirização de serviços. Porém, entendo que não foi o que ocorreu. Como explicado nos tópicos anteriores, não houve desconsideração de pessoa jurídica, de negócio jurídico e nem aplicação de norma antielisiva. O que aconteceu foi a identificação do verdadeiro sujeito passivo da obrigação tributária, oculto por detrás de empresas criadas por pessoas relacionadas para, apenas e tãosomente, transferir a elas as atividades que demandavam mãodeobra e, assim, usufruir indevidamente da tributação favorecida proporcionada pelo Simples, com prejuízo à previdência social. Ao contrário do que afirmou a Recorrente, há provas e elementos de convicção a sustentar a tese da simulação, descritos nos tópicos 2.1.1.a 2.1.17 deste voto e muito minuciosamente enumerados no Relatório Fiscal. Observese que a Recorrente não contestou o fato de que os empregados registrados nas empresas decorrentes lhes prestavam serviços. Também não contestou que as empresas tinham por sócios pessoas com vínculos familiares ou empregatícios com a Sperafico (embora tenha sustentado que careceria provas materiais de que tais pessoas estariam a atuar como laranja). Como já exposto, não existe prova material contundente, direta, da simulação acontecida. Não se registraria em nenhum documento o arranjo engendrado (criação de empresas em nome de pessoas relacionadas para apenas proporcionar à Recorrente uma vantagem tributária nos encargos previdenciários), de modo a comprovar que esse era mesmo o propósito. E, como já esclarecido, também não se pode tomar cada um dos indícios identificados como prova absoluta e suficiente. O que se tem, e em abundância, são indícios convergentes que demonstram, ao meu ver sem sombra de dúvidas, a simulação. E indícios, quando numerosos e convergentes, se constituem prova indireta apta a convencer o julgador. A Recorrente não se conformou com a consideração, na ação fiscal, de todos os empregados das empresas decorrentes como sendo a ela vinculados. Alegou que alguns talvez não exercessem atividades em seu proveito. Entendo diferente. Assumindo a tese da simulação, todas as relações empregatícias nas empresas simuladas não seriam mais do que parte da estrutura forjada para proporcionar e economia tributária indevida. Assim, mesmo um auxiliar de escritório que cuidasse da burocracia de uma das empresas decorrentes estaria, ao cabo, também a serviço da Recorrente. Por isso, entendo que não há como distinguir, dos Fl. 796DF CARF MF Processo nº 10935.004178/201012 Acórdão n.º 2301005.368 S2C3T1 Fl. 786 23 quadros de pessoal, aqueles que atuariam diretamente para a Recorrente; no final, todos estavam a seu serviço, fosse um técnico de laboratório, um motorista de caminhões, um porteiro, um auxiliar de escritório, um vigia , um diretor ou um mecânico. Afirmou, a Recorrente, que os seus registros contábeis e das empresas decorrentes estavam corretos. Ora, uma das características da simulação é que as formalidades em geral (contratos, registros contábeis e documentação) estejam de acordo com o que se pretende simular. O fato de a contabilidade ser escorreita, como afirma a Recorrente, não elide a simulação. O argumento da Recorrente, ao meu ver, não lhe socorre. Em outro ponto, a Recorrente disse que as empresas decorrentes teriam sido consideradas inexistentes pelo Fisco e, mesmo assim, teriam sido autuadas. Não há nisso qualquer irregularidade, porquanto, ao contrário do que afirmou a Recorrente, o Fisco não desconsiderou as pessoas jurídicas, apenas atribuiu à Recorrente os vínculos de trabalho para efeito de incidência da contribuição previdenciária. As empresas decorrentes continuam sendo sujeito de direitos e obrigações no mundo jurídico. Alegou, a Recorrente, que o lançamento carecia de fundamentação legal precisa, porquanto utilizouse de artigos da CLT, imprestáveis para efeito de atribuir responsabilidade tributária. Não foi isso que aconteceu, a utilização subsidiária de normas trabalhistas ocorreu apenas para caracterizar as relações de trabalho, e não as suas decorrências previdenciárias. O lançamento, no que se refere às contribuições previdenciárias, está corretamente fundamentado (efls. 155 a 157) em normas de natureza tributária. Sobre a incidência de Selic, a Recorrente entendeu serem incabíveis os juros calculados com base naquela taxa, pois ela teria natureza remuneratória e não moratória. Os juros são encargos estabelecidos no § 1º do art. 161 do CTN13 e no § 3º da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 199614. Não cabe ao julgador administrativo substituir o papel do legislador para suprimir, aumentar ou modificar a forma de cálculo dos juros. 4.2 DO APROVEITAMENTO DOS PAGAMENTOS AO SIMPLES E DO PEDIDO DE PERÍCIA A recorrente solicitou, por derradeiro, que, no insucesso de seu apelo, fossem compensadas, das contribuições previdenciárias lançadas, as contribuições pagas pelas empresas decorrentes a título de Simples e de previdência retida dos empregados (efls. 6320 e 6321 do Processo nº 10935.004176/201023). 13 Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. 14 Art. 61 Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação especifica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. ................................................................................. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º a partir do primeiro dia do mês subsequente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Fl. 797DF CARF MF 24 Preliminarmente, destaquese que não cabe ao julgador administrativo a homologação ou autorização de compensação de tributos, sendo certo que o procedimento administrativo para esse fim está regulado na legislação tributária. A exceção ocorre quando a matéria está ligada à lide, ou seja, quando a compensação é o próprio objeto da controvérsia ou quando valores a compensar deveriam compor o cálculo dos valores lançados. No presente caso, em relação aos pagamentos ao Simples, entendo que a matéria não cabe na lide, pois tratase de outro regime tributário e eventuais indébitos devem ser objeto de requerimento à autoridade preparadora, nos termos da legislação própria, que analisará a existência de alegados créditos tendo em conta os fatos geradores de todos os tributos recolhidos em conjunto. Ademais, a compensação de diferentes espécies tributárias não se aplica às contribuições previdenciárias, para as quais o disciplinamento, quanto a compensações, continua a ser o art. 89 da Lei nº 8.212, de 199115, segundo o qual a compensação de débito das contribuições previdenciárias somente pode se dar com créditos de pagamentos ou recolhimentos indevidos ou a maior dessas mesmas contribuições, não sendo possível a utilização de créditos dos recolhimentos ao Simples. Por esta razão, indefiro o pedido de perícia para levantamento dos valores a compensar que estariam contidos nos recolhimentos ao Simples. Em relação, entretanto às contribuições recolhidas pelas empresas decorrentes, cujas GPS foram juntadas (efls. 6692 a 6868 do Processo nº 10935.004176/2010 23), os titulares dos prováveis direitos creditórios são as empresas que efetuaram os pagamentos e não a Recorrente. Não houve desconstituição das pessoas jurídicas, que permanecem titulares de direitos e obrigações. Não vejo óbice para que tais empresas pleiteiem, na via própria, a restituição dos valores com base nos argumentos deste voto, mas não é possível utilizarse do julgamento para substituir a autoridade tributária, sobretudo quando os créditos sequer pertencem à reclamante. A propósito, não há razão para deferimento de perícia para levantamento de tais valores porque já estão nos autos e são do pleno conhecimento da Recorrente, que inclusive juntos os comprovantes. 5 Conclusões Por todo o exposto, voto por não conhecer do recurso nas questões relativas à exigência de garantias e ao pagamento a cooperativas de trabalho e por rejeitar as preliminares de ilegitimidade passiva, conexão ou continência entre processos de distintos sujeitos passivos, incompetência das autoridades lançadoras e falta de isenção dos julgadores a quo. Voto também por negar o pedido de perícia. No mérito, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso. (assinado digitalmente) João Maurício Vital Relator 15 Art. 89. As contribuições sociais previstas nas alíneas a, b e c do parágrafo único do art. 11 desta Lei, as contribuições instituídas a título de substituição e as contribuições devidas a terceiros somente poderão ser restituídas ou compensadas nas hipóteses de pagamento ou recolhimento indevido ou maior que o devido, nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). Fl. 798DF CARF MF Processo nº 10935.004178/201012 Acórdão n.º 2301005.368 S2C3T1 Fl. 787 25 Tabela 1 Atividades Empresa Objeto Social Atividade Preponderante (CNAE) Sperafico (...) a exploração no ramo de serviços de transportes rodoviários nacionais e internacionais de cargas, produção, beneficiamento e comércio de sementes selecionadas, Indústria e comércio de cereais e seus derivados, comercialização de pneus, peças, máquinas e equipamentos, comércio de corretivos, defensivos agrícolas, água mineral, produtos alimentícios, indústria e comércio de fertilizantes químicos e fertilizantes organominerais, indústria de óleo de soja, armazenamento de cereais, representações comerciais, prestação de serviços fitossanitários, importação e exportação de produtos objeto do ramo social. 1041400 Fabricação de óleos vegetais em bruto, exceto óleo de milho 1062700 Moagem de trigo e fabricação de derivados 1066000 Fabricação de alimentos para animais 4622200 Comércio atacadista de soja 4623108 Comércio atacadista de matériasprimas agrícolas com atividade de fracionamento e acondicionamento associada 4623109 Comércio atacadista de alimentos para animais 4623199 Comércio atacadista de matériasprimas agrícolas não especificadas anteriormente 4632001 Comércio atacadista de cereais e leguminosas beneficiados 4930202 Transporte rodoviário de carga, exceto produtos perigosos e mudanças, intermunicipal, interestadual e internacional KL De 23/03/2004 em diante: serviços de consertos e substituição de peças de caminhões, ônibus e outros veículos pesados, e comércio a varejo de peças e acessórios novos para veículos automotores. 4530703 Comércio a varejo de peças e acessórios novos para veículos automotores LDI Serviço de transporte rodoviário de cargas e afins. 4930202 Transporte rodoviário de carga, exceto produtos perigosos e mudanças, intermunicipal, interestadual e internacional Olecargas Carga e descarga de produtos alimentícios e transporte 5212500 Carga e descarga Plasma Industrialização, empacotamento e o comércio de cereais e serviços relacionados. 1062700 Moagem de trigo e fabricação de derivados PP Exploração do ramo de Serviços de Carga e Descarga de Produtos Agrícolas. 5212500 Carga e descarga PPMS Serviços de Transporte Rodoviário de Cargas em Geral e Serviços de Cargas e Descargas em Geral. 4930202 Transporte rodoviário de carga, exceto produtos perigosos e mudanças, intermunicipal, interestadual e internacional RTC Carga, Descarga e Movimentação de Produtos Agrícolas e Transporte 5212500 Carga e descarga Spartano Fabricação e comércio de assentos com estrutura em mental, móveis e utensílios em geral. 5212500 Carga e descarga Tolecargas carga, descarga, movimentação de produtos agrícolas e transporte. 5212500 Carga e descarga Tolenorte Serviços de Carga e Descarga em transporte rodoviário e movimentação de produtos agrícolas em grãos e farelo e serviços de beneficiamento, moagem e preparação de outros produtos de origem vegetal, e transportes rodoviários dos mesmos. 5212500 Carga e descarga TPC Serviços de Transporte Rodoviário de Cargas em Geral e Serviços de Carga e Descargas em Geral 4930202 Transporte rodoviário de carga, exceto produtos perigosos e mudanças, intermunicipal, interestadual e internacional Transcar Carga, Descarga e Movimentação de Produtos Agrícolas e Transporte 5212500 Carga e descarga VS Comércio Varejista de: Defensivos Agrícolas, Corretivos, Fertilizantes, Sementes, Insumos Agropecuários, Aplicação de Agrotóxicos e a Prestação de Serviços de Carga e Descarga de Cereais e Manutenção de Armazéns 4789099 Comércio varejista de outros produtos não especificados anteriormente WSul Prestação de serviços de manutenção e reparos em veículos, caminhões, máquinas e equipamentos agrícolas, equipamentos industriais e equipamentos de armazenagem; comércio de peças e acessórios para equipamentos industriais 4520001 Serviços de manutenção e reparação mecânica de veículos automotores Fl. 799DF CARF MF 26 Fl. 800DF CARF MF
score : 1.0
