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11425089 #
Numero do processo: 10983.909696/2021-10
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 17 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Jul 16 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 31/10/2017 a 31/12/2017 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. Devem ser acolhidos os embargos na parte em que o recorrente demonstra de forma clara a omissão e/ou contradição no acórdão recorrido, apontando e individualizando cada item. SÚMULA CARF nº 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições.
Numero da decisão: 3401-014.541
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, acolher parcialmente os embargos de declaração, com efeitos infringentes, nos termos do voto do relator. Assinado Digitalmente MATEUS SOARES DE OLIVEIRA – Relator Assinado Digitalmente LEONARDO CORREIA LIMA MACEDO – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Celso Jose Ferreira de Oliveira, Laercio Cruz Uliana Junior, Marco Unaian Neves de Miranda (substituto [a] integral), Mateus Soares de Oliveira (Relator), Laura Baptista Borges, Leonardo Correia Lima Macedo (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Ana Paula Pedrosa Giglio, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Marco Unaian Neves de Miranda.
Nome do relator: MATEUS SOARES DE OLIVEIRA

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Devem ser acolhidos os embargos na parte em que o recorrente demonstra de forma clara a omissão e/ou contradição no acórdão recorrido, apontando e individualizando cada item. SÚMULA CARF nº 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, acolher parcialmente os embargos de declaração, com efeitos infringentes, nos termos do voto do relator. Assinado Digitalmente MATEUS SOARES DE OLIVEIRA – Relator Assinado Digitalmente LEONARDO CORREIA LIMA MACEDO – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Celso Jose Ferreira de Oliveira, Laercio Cruz Uliana Junior, Marco Unaian Neves de Miranda (substituto [a] integral), Mateus Soares de Oliveira (Relator), Laura Baptista Borges, Leonardo Correia Lima Macedo Fl. 2300DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.541 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909696/2021-10 2 (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Ana Paula Pedrosa Giglio, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Marco Unaian Neves de Miranda. RELATÓRIO Trata-se de Embargos de Declaração interpostos pelo contribuinte, sustentando, basicamente, omissões no julgado recorrido, conforme rubricas a seguir: a) Este processo administrativo tem origem no auto de infração lavrado a cobrança da Contribuição ao PIS e COFINS referes aos meses do 4º trimestre de 2017, acrescidos de multa de ofício e juros de mora. A autuação glosou créditos das referidas contribuições e, por via de consequência, resultou na não- homologação de PER/DCOMPs transmitidas pela Embargante para a compensação de débitos com os créditos glosados. 17830.720221/2022-41- Auto de Infração- glosa do PIS e da COFINS. 10983.909696/2021-10- Pedido de ressarcimento e de compensação. PIS. 10983.909695/2021-67- Pedido de ressarcimento e de compensação. COFINS. b) Dos tópicos do Recurso Voluntário, a Embargante entendeu haver omissões e contradições nos citados abaixo: (i) E.1. Da multa por apresentação de EFD-Contribuições com informações inexatas, incompletas ou omitidas; (ii) D.2.2. Carnes Temperadas (iii) C.2.9. A possibilidade de apropriação de créditos atrelados a serviços de outras naturezas; (iv) C.2.7. A possibilidade de apropriação de créditos atrelados à diária e serviços de inspeção; (v) B.5. Créditos calculados sobre despesas com imóvel utilizado para armazenagem; (vi) C.3. A possibilidade de apropriação de crédito com serviços de industrialização; (vii) C.4. A possibilidade de apropriação de crédito com serviços de frete independentemente do produto transportado; I - Houve admissão parcial dos embargos, consoante r. despacho, nos termos que se seguem: CRÉDITOS – SERVIÇOS DE OUTRA NATUREZA Fl. 2301DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.541 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909696/2021-10 3 a) A alegação da embargante é de que o procedimento fiscal foi precário ao não fundamentar as glosas de diversos serviços lançados como insumos, e considerados, pelo Fisco, inaptos à concessão de crédito por não terem sido aplicados na atividade operacional da empresa. Segundo afirma, elaborou uma tabela demonstrando a aplicação destes serviços e requereu a declaração de improcedência das conclusões a que chegaram as autoridades fiscais, por ausência de fundamentação, mas o acórdão nada disse a respeito. É verdade que recurso voluntário contemplou esse assunto (e-folhas 3039 a 3043), e também é verdade que o acórdão não se pronunciou a respeito. Com razão a embargante nesse particular. 7.9- A POSSIBILIDADE DE APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS ATRELADOS A FRETE INDEPENDENTEMENTE DO PRODUTO TRANSPORTADO Neste ponto, como dito à inicial, a embargante refere-se à Súmula CARF nº 188, que reconhece o direito ao aproveitamento de créditos sobre gastos com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pelas Contribuições. A Súmula a que fez referência entrou em vigor no dia 27 de junho do ano de 2024 e acórdão data do dia 20 de agosto do mesmo ano; portanto, a Súmula é anterior a data de prolação da decisão. Contudo, observa-se que os fundamentos da decisão estão de acordo com o enunciado da Súmula, senão vejamos. 7.9- A POSSIBILIDADE DE APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS ATRELADOS A FRETE INDEPENDENTEMENTE DO PRODUTO TRANSPORTADO Conforme se infere do TVF, a Autoridade Fiscal pretende conferir aos fretes o mesmo tratamento conferido aos próprios produtos transportados. Ora, a contratação de frete representa operação comercial travada diretamente com a transportadora, cuja receita será tributada pelo PIS e pela COFINS independentemente do insumo transportado. Sendo os regimes de incidência distintos, do produto (pago ao distribuidor) e do frete (pago à empresa transportadora), não há que se falar que o destino do crédito do frete segue o mesmo daquele da mercadoria, como fez a Autoridade Fiscal ao fundamentar o lançamento tributário nos presentes autos. A parte dispositiva do voto, esta sim, parece não ter feito referência à reversão desta específica glosa. Acordam os membros do colegiado, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, tendo sido revertidas, por unanimidade de votos, as glosas relativas a créditos extemporâneos, créditos presumidos previstos no artigo 55, da Lei nº 12.350, 2010, fretes de exportação e despesas portuárias, locação de uniformes de Fl. 2302DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.541 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909696/2021-10 4 trabalho, despesas com locação de empilhadeiras e omissão de receitas financeiras decorrentes de depósito judicial e, por maioria de votos, revertidas as glosas com crossdocking e pallets; vencida a Conselheira Ana Paula Pedrosa Giglio que votou por mantê-las. Mantidas, por unanimidade, as demais glosas. E a ementa do voto revela-se obscura. PIS E COFINS. NÃO CUMULATIVO. GASTOS COM TRANSPORTE DE INSUMOS. CUSTO DE AQUISIÇÃO DA MATÉRIA-PRIMA SUJEITA À ALÍQUOTA ZERO. DIREITO A CRÉDITO NO FRETE. POSSIBILIDADE. O artigo 3º, inciso II das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 garante o direito ao crédito correspondente aos insumos, mas excetua expressamente nos casos da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição. E conclui: Acolho em parte os embargados de declaração, apenas para que o acórdão seja integrado, nos termos deste despacho, em relação aos itens: C.2.9. Possibilidade de Apropriação de Créditos Atrelados a Serviços de Outras Naturezas. C.4. A Possibilidade de Apropriação de Crédito com Serviços de Industrialização Eis o relatório. VOTO Conselheiro Mateus Soares de Oliveira, Relator. 1 DO CONHECIMENTO. O recurso é tempestivo e reúne as demais condições de admissibilidade, motivo pelo qual dele tomo conhecimento. 2 DOS CRÉDITOS DECORRENTES DE SERVIÇOS DE OUTRAS NATUREZA. No tocante ao item admitido como suposta omissão e referente ao direito a tomada de crédito de frete sobre produtos com não onerados tributariamente, assiste parcial razão ao recorrente. Embora conste na própria ementa e na fundamentação do voto o entendimento direcionado para a reversão da glosa, não se verifica prejuízos em tornar a decisão mais clara neste sentido. Em razão disto, deve-se constar na redação da ementa, a própria Súmula 188. E no próprio dispositivo também. Fl. 2303DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.541 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909696/2021-10 5 Súmula CARF nº 188- Aprovada pela 3ª Turma da CSRF em sessão de 20/06/2024 – vigência em 27/06/2024 É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. Acórdãos Precedentes: 9303-014.478; 9303-014.428; 9303-014.348. Portanto, merece provimento, com efeitos infringentes, haja vista que não constou no dispositivo este tema de forma clara. Em relação ao Crossdocking, Pallets e Despesas Portuárias, assim restou consignado, tanto no corpo da fundamentação (itens 11 e 12), quanto no dispositivo do Acórdão recorrido (itens 3 e 4): 3- CROSSDOCKING e PALLETS. (11- CROSSDOCKING e PALLETS. Merece reforma a decisão recorrida. Estas matérias já são um tanto quanto pacificadas, inclusive por este relator em julgados de casos similares. Não há como a empresa desenvolver suas respectivas atividades e manter o grau de qualidade dos produtos sem submeter-se a logística apropriada, com veículos especiais e armazenamento específico, seja nos terminais, quanto no próprio transporte e transbordo. A propósito, em excelente voto e deste mesmo contribuinte, o Conselheiro LEONARDO CORREIA LIMA MACEDO, em sede do Acórdão nº 3201-005.724 assim se pronunciou: Neste caso, os requisitos para a tomada do crédito do PIS/COFINS são atendidos tendo em vista: i) a importância deles para a preservação dos produtos, uma vez que são utilizados para movimentar cargas de pequenas dimensões; ii) o fato de tais pallets serem muitas vezes descartados, não mais retornando para o estabelecimento da Recorrente. Existe jurisprudência do CARF nesse sentido. MATERIAL DE EMBALAGEM. AQUISIÇÃO DE “PALLETS” DE MADEIRA. PLÁSTICO DE COBERTO. FILME PLÁSTICO DO TIPO “STRETCH”. INSUMO. DIREITO AO CRÉDITO RECONHECIDO. (...) No segmento de laticínios, a paletização - que envolve o acondicionamento no “pallet”, plástico de coberto e colocação do filme “strecht” - não é realizada apenas para fins de transporte, mas para a própria estocagem do produto no estabelecimento industrial. Decorre ainda de normas de controle sanitário na área de alimentos (Portaria SVS/MS nº 326, de 30 de julho de 1997), que exigem o acondicionamento dos produtos acabados em estrados (item 5.3.10), de forma a impedir a contaminação e a ocorrência de alteração ou danos ao recipiente ou embalagem (item 8.8.1). Tratando-se, assim, de acondicionamento diretamente relacionado à produção do bem e que decorre de exigências sanitárias, deve ser reconhecido o direito ao crédito. CARF, Acórdão 3802-001.619, Data 28/02/13. Fl. 2304DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.541 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909696/2021-10 6 CRÉDITOS. INSUMOS. PALLETS Os pallets são utilizados para proteger a integridade dos produtos, enquadrando-se no conceito de insumos. Acórdão nº 3301-004.056 do Processo 10983.911352/2011-91 Data 27/09/2017. As despesas listadas nos autos nessa categoria me parecem essenciais a produção/fabricação da agroindústria. Assim, entendo que atendem aos parâmetros de essencialidade, relevância ou imprescindibilidade”. Do exposto, voto por reformar a r. decisão neste ponto). 4- FRETE EXPORTAÇÃO E DESPESAS PORTUÁRIAS (12- FRETE EXPORTAÇÃO E DESPESAS PORTUÁRIAS. As despesas com fretes para fins de exportação até o porto, nada mais representam do que custos com fretes de vendas, motivo pelo qual seus custos devem conferir o direito ao contribuinte de creditar-se dos mesmos, sendo que a mesma regra aplica-se aos locais apropriados para fins de armazenamento dos produtos, até mesmo porque se tratam de alimentos. Importante consignar que o frete na operação de venda deste tipo de negócio é essencial e relevante para o desenvolvimento das atividades da empresa, posto que se tratam de alimentos que, por sua vez, necessitam de transporte em veículos adequados para tal finalidade. E o mesmo se diga em relação ao armazenamento, até mesmo porque necessitam de locais apropriados para este tipo de alimento, fato que, inclusive, faz com que estas empresas tenham gastos diferenciados (mais altos) em terminais de armazenamento por força da estrutura utilizada para manutenção da qualidade destes produtos). Em relação ao material de EPI, especificamente aos uniformes, suscitados pelo recorrente, ouve clara menção e o respectivo deferimento para que a glosa fosse revertida, conforme item 13 da fundamentação e 5 do dispositivo. 13- CRÉDITOS RELACIONADOS A DESPESAS COM LOCAÇÃO DE UNIFORMES DE TRABALHO e DESPESAS COM LOCAÇÃO DE EMPILHADEIRAS. Merece provimento este pleito recursal, posto que os dispêndios com locação também são aptos a gerar o crédito nos termos do inciso II do artigo 3º das Leis 10.833/03 e 10.637/02 e que basta a comprovação de relevância e essencialidade do produto utilizado, já reconhecida pela Fiscalização, cai por terra a glosa fiscal também neste ponto. 5- CRÉDITOS RELACIONADOS A DESPESAS COM LOCAÇÃO DE UNIFORMES DE TRABALHO e DESPESAS COM LOCAÇÃO DE EMPILHADEIRAS. No item 104 de seu Embargos Declaratórios, elenca os serviços a que o r. acórdão teria sido omisso, no tocante aos créditos decorrentes das despesas inerentes as ‘outras despesas’. a) SERVICO CONTAINER HANDLING EXPORTACAO. Fl. 2305DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.541 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909696/2021-10 7 b) SERV MONITORAMENTO ENERGIA PORTUARIA. c) SERVICO TRANSPORTES PORTA CONTAINER. d) SERVICO ALUGUEL DE PA CARREGADEIRA. e) SERV DESOVA E OVA (ZONA PRIMARIA) IMPORT. f) SERVICO TRANSPORTE COLETA, SERV CAMINHÃO CACAMBA P/ TRANSP CASCALHO; SERVICO RETIRADA DE CACAMBA. g) SERV AGRO COLETA E TRANSP DE ANALISES. h) SERVICO GUINDASTE 14 TON; SERVICO i) GUINDASTE 7 TON; SERVICO GUINDASTE 25 TON; SERVICO GUINDASTE 40 TON; SERVICO GUINDASTE 60 TON; SERVICO GUINDASTE 30 TON; SERVICO DE POLIGUINDASTE. j) SERVICO VERIFICACAO HALAL. k) SERVICO LOCACAO CAMINHAO HIDROJATO; SERVICO CAMINHAO MUNCK; SERVICO LOCACAO DE MAQUINA ESTEIRA; SERVICO ALUGUEL TRANSPALETEIRA ELETRICA. l) SERV LAV DESINF CAM TRUCK TRANS SUINOS. m) SERV DISTRIBUICAO CAL. n) SERV. ATRELADOS A EPI. o) SERVICO DE TRANSPORTE DE OVOS. p) SERVICO CAMINHAO TRUCK. Em seu recurso voluntário, a recorrente destaca a menção da fiscalização externada as fls. 1504 do Relatório Fiscal, com destaque ao item 4.3.1.3.3.1 (Aquisições de Serviços não Considerados Insumos), no qual consta uma relação de itens não considerados pela fiscalização. Com base nisso, a embargante entendeu que houve omissão ao Acórdão Recorrido na rubrica do Recurso Voluntário que pugnou pela reforma do entendimento da fiscalização. O primeiro ponto que este relator recorre é a fundamentação da glosa em relação os itens mencionados, mantida pela fiscalização. Encontra-se as fls. 1504 a 1514. Não há uma única acusação de falta de provas. A recusa do reconhecimento se deve ao entendimento de não considerar tais itens como insumos. Neste ponto, cabe parcial razão ao embargante, haja vista que, conforme já demonstrado, grande parte da relação presente no iten 104 dos embargos já foi reconhecida na decisão recorrida, com plena reversão da glosa. Seja na fundamentação, como no próprio dispositivo. Por isso, acolhe-se os presentes embargos, com efeitos infringentes, para que sejam revertidas as seguintes glosas: Fl. 2306DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.541 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909696/2021-10 8 a) SERVICO ALUGUEL DE PA CARREGADEIRA. b) SERVICO TRANSPORTE COLETA, SERV CAMINHÃO CACAMBA P/ TRANSP CASCALHO; SERVICO RETIRADA DE CACAMBA. c) SERV AGRO COLETA E TRANSP DE ANALISES. d) SERVICO GUINDASTE 14 TON; SERVICO e) GUINDASTE 7 TON; SERVICO GUINDASTE 25 TON; SERVICO GUINDASTE 40 TON; SERVICO GUINDASTE 60 TON; SERVICO GUINDASTE 30 TON; SERVICO DE POLIGUINDASTE. f) SERVICO LOCACAO CAMINHAO HIDROJAisTO; SERVICO CAMINHAO MUNCK; g) SERVICO LOCACAO DE MAQUINA ESTEIRA; h) SERVICO ALUGUEL TRANSPALETEIRA ELETRICA. i) SERV LAV DESINF CAM TRUCK TRANS SUINOS. j) SERVICO DE TRANSPORTE DE OVOS. k) SERVICO CAMINHAO TRUCK. 3 DO DISPOSITIVO. Isto posto, acolho parcialmente os embargos, com efeitos infringentes, nos termos que se seguem: 3.1- Que a seja alterada a redação da ementa em relação a Súmula 188 nos termos que se seguem: FRETE DE INSUMO DESONERADO. CREDITAMENTO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF N° 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para a COFINS não cumulativa, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. 3.2- Que passe a constar no dispositivo o reconhecimento ao direito do crédito nos termos da Súmula 188 do CARF; 3.3- Em relação os produtos e peças utilizados em ‘demais despesas’, cabe reconhecimento de crédito, para que sejam incluídos os seguintes itens: a) SERVICO TRANSPORTE COLETA, SERV CAMINHÃO CACAMBA P/ TRANSP CASCALHO; SERVICO RETIRADA DE CACAMBA. b) SERV AGRO COLETA E TRANSP DE ANALISES. Fl. 2307DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.541 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909696/2021-10 9 c) SERVICO GUINDASTE 14 TON; SERVICO. d) GUINDASTE 7 TON; SERVICO GUINDASTE 25 TON; SERVICO GUINDASTE 40 TON; SERVICO GUINDASTE 60 TON; SERVICO GUINDASTE 30 TON; SERVICO DE POLIGUINDASTE. e) SERVICO LOCACAO CAMINHAO HIDROJAisTO; f) SERVICO CAMINHAO MUNCK; g) SERVICO LOCACAO DE MAQUINA ESTEIRA; h) SERVICO ALUGUEL TRANSPALETEIRA ELETRICA. i) SERV LAV DESINF CAM TRUCK TRANS SUINOS. j) SERVICO DE TRANSPORTE DE OVOS. É como voto. Assinado Digitalmente MATEUS SOARES DE OLIVEIRA Fl. 2308DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 do conhecimento. 2 dos créditos decorrentes de serviços de outras natureza. 3 do dispositivo.

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11425880 #
Numero do processo: 16561.720092/2018-60
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jun 22 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Jul 16 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2013 GANHO DE CAPITAL. CONDIÇÕES DO FECHAMENTO DA OPERAÇÃO DIFERENTES DAQUELAS VERIFICADAS NA ASSINATURA DO CONTRATO. DÍVIDAS DAS PESSOAS JURÍDICAS CONTROLADAS TRANSFERIDAS PARA A ADQUIRENTE. Venda de participação societária tendo como contraprestação assunção de dívidas. Ausência de comprovação de benefício da vendedora, por meio de aumento dos seus ativos ou redução dos seus passivos. Condições do fechamento diferentes daquelas estabelecidas na assinatura do contrato, circunstância comum em operações de fusões e aquisições de grande porte. Cancelamento da infração. ALIENAÇÃO. VALOR DA PARTICIPAÇÃO. GANHO DE CAPITAL. Comprovado que o valor de uma das participações alienadas era maior que o considerado na autuação, apura-se ganho de capital em valor inferior ao lançado. PREJUÍZO FISCAL E BASE DE CÁLCULO NEGATIVA DA CSLL. COMPENSAÇÃO. O prejuízo fiscal a base de cálculo negativa da CSLL de períodos anteriores devem ser compensados com o lucro líquido ajustado pelas adições e exclusões previstas na legislação do IRPJ e da CSLL, observado o limite máximo, para a compensação, de trinta por cento do referido lucro líquido ajustado. MULTA QUALIFICADA. IMPROCEDÊNCIA Multa qualificada. Ausência de comprovação de sonegação. Cancelamento. RESPONSABILIDADE PESSOAL DO SÓCIOS. ART. 135 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. Não restando caracterizada a prática dolosa de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, exclui-se a responsabilização tributária dos sócios.
Numero da decisão: 1301-008.271
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício e em dar provimento ao Recurso Voluntário, nos termos do voto do Relator. Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros - Presidente e Redator ad hoc Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Iágaro Jung Martins, José Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista, Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski e Rafael Taranto Malheiros (Presidente). Conforme o art. 58, inc. III, do RICARF, o Presidente da Turma, Conselheiro Rafael Taranto Malheiros, autodesignou-se como redator ad hoc para formalizar o presente acórdão, dado que o relator original, Conselheiro Eduardo Monteiro Cardoso, não mais integra o CARF. Para tanto, serviu-se das minutas de ementa, relatório e voto inseridos pelo relator original no diretório oficial do CARF, a seguir reproduzidas.
Nome do relator: EDUARDO MONTEIRO CARDOSO

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FAZENDA NACIONAL Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2013 GANHO DE CAPITAL. CONDIÇÕES DO FECHAMENTO DA OPERAÇÃO DIFERENTES DAQUELAS VERIFICADAS NA ASSINATURA DO CONTRATO. DÍVIDAS DAS PESSOAS JURÍDICAS CONTROLADAS TRANSFERIDAS PARA A ADQUIRENTE. Venda de participação societária tendo como contraprestação assunção de dívidas. Ausência de comprovação de benefício da vendedora, por meio de aumento dos seus ativos ou redução dos seus passivos. Condições do fechamento diferentes daquelas estabelecidas na assinatura do contrato, circunstância comum em operações de fusões e aquisições de grande porte. Cancelamento da infração. ALIENAÇÃO. VALOR DA PARTICIPAÇÃO. GANHO DE CAPITAL. Comprovado que o valor de uma das participações alienadas era maior que o considerado na autuação, apura-se ganho de capital em valor inferior ao lançado. PREJUÍZO FISCAL E BASE DE CÁLCULO NEGATIVA DA CSLL. COMPENSAÇÃO. O prejuízo fiscal a base de cálculo negativa da CSLL de períodos anteriores devem ser compensados com o lucro líquido ajustado pelas adições e exclusões previstas na legislação do IRPJ e da CSLL, observado o limite máximo, para a compensação, de trinta por cento do referido lucro líquido ajustado. MULTA QUALIFICADA. IMPROCEDÊNCIA Multa qualificada. Ausência de comprovação de sonegação. Cancelamento. RESPONSABILIDADE PESSOAL DO SÓCIOS. ART. 135 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. Fl. 11705DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 2 Não restando caracterizada a prática dolosa de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, exclui-se a responsabilização tributária dos sócios. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício e em dar provimento ao Recurso Voluntário, nos termos do voto do Relator. Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente e Redator ad hoc Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Iágaro Jung Martins, José Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista, Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski e Rafael Taranto Malheiros (Presidente). Conforme o art. 58, inc. III, do RICARF, o Presidente da Turma, Conselheiro Rafael Taranto Malheiros, autodesignou-se como redator ad hoc para formalizar o presente acórdão, dado que o relator original, Conselheiro Eduardo Monteiro Cardoso, não mais integra o CARF. Para tanto, serviu-se das minutas de ementa, relatório e voto inseridos pelo relator original no diretório oficial do CARF, a seguir reproduzidas. RELATÓRIO 1. Trata-se de Recurso Voluntário de MARFRIG GLOBAL FOODS S.A. (fls. 2.023/2.077) e de Recurso de Ofício interpostos em face de acórdão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo (DRJ/SPO) que julgou parcialmente procedente a Impugnação apresentada, mantendo parte do crédito tributário constituído nestes autos. 2. Referido crédito tributário decorre de Autos de Infração (fls. 1.284/1.303) lavrados para a exigência de IRPJ e de CSLL, do ano-calendário de 2013, em função da constatação de duas supostas infrações: (i) falta de contabilização de ganho de capital apurado na alienação de investimento e (ii) falta de recolhimento sobre as bases de cálculo estimadas. Os valores cobrados foram acrescidos de juros de mora e de multa de ofício qualificada. Foram responsabilizados, com fundamento no art. 135, III, do CTN, os senhores MARCOS ANTÔNIO MOLINA DOS SANTOS e MÁRCIA APARECIDA PASCOAL MARÇAL DOS SANTOS. 3. Por bem descrever os fatos envolvidos na cobrança, adoto parcialmente o relatório presente no acórdão recorrido: DOS FATOS Fl. 11706DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 3 Em decorrência da verificação de indícios de infrações à legislação tributária na apuração de ganho de capital devido à venda de participações societárias no ano- calendário de 2013, a contribuinte foi selecionada para que a operação fosse verificada. Conforme Notas Explicativas da Marfrig de 31/03/2011, a Marfrig Alimentos S.A. foi fundada em 06/06/2000, tornando-se uma Sociedade Anônima em 26/03/2007. Em 31/03/2012, 164.422.038 ações ou 47,39% do capital social da Companhia eram detidas pelo controlador, MMS Participações S.A. (CNPJ 08.542 030/0001- 31) e seus sócios. Na mesma data o "free float" era de 182.561.916 ações em circulação, o que representava 52,61% do capital social total da Companhia. A MMS Participações S.A. é controlada por Marcos Antonio Molina dos Santos (CPF xxx.xxx.xxx-xx) e Márcia Aparecida Pascoal Marçal dos Santos (CPF xxx.xxx.xxx-xx), cada qual com 50% de participação. Da Marfrig antes da venda da Seara e da Zenda para a JBS Segundo as Notas Explicativas às Demonstrações Contábeis Intermediárias Individuais da Controladora consolidadas em 31/03/2011 e 2012 (doc. 14.1 e 14.2), as operações da empresa abrangiam os seguintes negócios: • Marfrig Beef - Bovinos, ovinos e couro, com operações de abate de animais localizadas na América do Sul (Brasil, Argentina, Uruguai e Chile) e uma trading localizada na Europa. Nesse segmento, podemos destacar: • Columbus Netherlands B. V. (Holanda) - participação da Marfrig é de 100%, a qual detém 59,17% da empresa Gideny S.A., que é a holding que controla 100% do Grupo Zenda, que opera no Uruguai na industrialização e comercialização de couros acabados e cortados, além de suas afiliadas na Argentina, México, Estados Unidos, Alemanha, Africa do Sul, Chile, Hong Kong e China; Weston Importers Ltd. (Reino Unido), trading que atua no mercado europeu e que detém 100% da empresa CDB Meats Ltd. (Reino Unido), produtora de carnes industrializadas - a participação da Marfrig é de 100%. • Seara Foods - Aves, suínos e produtos elaborados e processados, com operações no Brasil, Europa, Estados Unidos, Oriente Médio e Ásia. Nesse segmento, podemos destacar: • Seara Holdings (Europe) B. V., que detém 99,9% da Babicora Holding Participações Ltda., a qual detém 99,9% da Seara Alimentos S.A (Brasil) além de suas afiliadas na Europa e na Asia - a participação da Marfrig é de 100%; •Secculum Participações Ltda. (Brasil) detém a participação da Marfrig de 99,99% e União Frederiquense Participações Ltda. (Brasil) a participação da Fl. 11707DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 4 Marfrig é de 99,99%, empresas que em conjunto detêm 100% da empresa Frigorífico Mabella Ltda. Deve-se destacar que as empresas Seara e Zenda representavam parte importante dos negócios Marfrig, principalmente a Seara. Da descrição das operações vendidas pela Marfrig à JBS Através do Contrato de Compra e Venda de Participações Societárias e Outras Avenças, celebrado entre JBS S.A. e Marfrig Alimentos S.A. em 07/6/2013 (doc. 05.1), por meio do qual a Marfrig alienou participações societárias em sociedades de seu grupo que, por sua vez, operam a unidade de negócios denominada Seara Brasil, bem como todos os direitos relacionados às suas atividades (incluindo a cessão de contratos com terceiros, marcas e demais direitos de propriedade intelectual). O contrato faz referência também à aquisição, pela JBS, de 100% do capital da Columbus Netherlands B.V. ("Zenda"), sociedade que desenvolve negócio de couro no Uruguai. A Zenda e suas controladas não possuem faturamento no território nacional. Segundo o relatado pela JBS no processo junto ao CADE, a aquisição proposta no Brasil permitirá expandir suas atividades nos mercados de abate de frangos e suínos, e incrementar sua atuação em alimentos processados, setores que complementam a atuação do grupo J&F e o portfólio de produtos oferecidos pela JBS no Brasil e no exterior. Espera-se que essa aquisição também leve à otimização da rede de distribuição da JBS e à ampliação de sua presença em alimentos processados, com ganhos de sinergia relevantes. Por sua vez, a alienação da unidade de negócios Seara Brasil permitirá à Marfrig reequilibrar sua estrutura de capital e reforçar seu foco no Brasil na área de carne bovina, de distribuição e o redirecionamento estratégico ao segmento de food service de produtos fabricados à base de carne bovina. Do objeto e preço no contrato de compra e venda da Zenda e da Seara Por meio do Contrato de Compra e Venda de Participações Societárias e Outras Avenças (doc. 05.1) entre JBS e Marfrig, que aliena participações societárias em sociedades de seu grupo que, por sua vez, operam a unidade de negócios denominada Seara Brasil, bem como todos os direitos relacionados às suas atividades (incluindo a cessão de contratos com terceiros, marcas e demais direitos de propriedade intelectual), através dos ativos relacionados no Anexo 5.6. do referido Contrato. Nos termos do Contrato, Anexo (A), as participações societárias referem-se a: (i) 100% do capital social da Seara Holding (Europe) B.V. ("Seara"), a qual controla as empresas Seara Japan Ltd., Seara Singapore Pte. Ltd., Seara Ibéria S.L., Seara Food Europe Holding B.V., 92 License V.V.s, Seara Meats B.V., Babicora Holding Part. Ltda., Seara Alimentos Ltda., Seara International Ltd. (Cayman) e seus respectivos escritórios de representação (conjuntamente "Subsidiárias Seara"); Fl. 11708DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 5 (ii) 99,99% do capital social da Secculum Participações Ltda. e da União Frederiquense Participações Ltda., as quais detém 100% da Frigorífico Mabella Ltda., controladora das empresas Brusand Ltd. (Bermudas), MBL Alimentos S.A. Brásio Produção de Carnes Ltda., MAS do Brasil Part. Ltda., MAS Frangos Participações Ltda., Pare Castell Limited (Jersey), Valores Catalenes S.A. (Panamá), Protinal Participações Ltda., DaGranja Agroind. Ltda., Ibirapuera Avícola Ltda., Agrofrango Ind. e Com. De Alimentos Ltda., Penasul Alimentos Ltda., Penasul UK Ltd., Penasul (Southeast) Ltd. (UK), Houtingdon Poultry Ltd. (UK), Penasul Trading Ltd. (UK), Penasul East Anglia Ltd. (UK), Ipumirim Ltd. (UK), Garibaldi Poultry Ltd. (UK), Roca Sales Ltd. (UK),_Huntingdon Frozen Foods Ltd. (UK), Caxias do Sul Ltd. (UK), Penasul Eurajje Ltd. (UK) e os respectivos escritórios de representação (conjuntamente "Subsidiárias Mabella"); (iii) direitos decorrentes de contrato anteriormente firmado com Sadia Alimentos S.A. ("Sadia"), por meio do qual a Sadia adquire 73,93% do capital social da Baumhardt Com. e Part. Ltda., a qual, com Marfrig, controla a Excelsior Alimentos S.A. ("Excelsior"); (iv) 53,89% e 36,57% do capital votante e das ações preferenciais da Excelsior, as quais correspondem a 46,01% da Excelsior; (v) 99,99% da Athena Alimentos S.A. Conforme se pode depreender pelas Cláusulas do Contrato de Compra e Venda transcritas abaixo celebrado entre a Marfrig e JBS (doc. 05.1) o preço e a forma de pagamento por estas participações foram as seguintes (grifado e negritado conforme Termo de Verificação Fiscal): “2.1 Implementação das Operações objeto do presente Contrato é estabelecer os termos e condições das Operações, as quais serão implementadas da seguinte forma: (...) (ii) compra e venda das Participações Seara, nos termos da Cláusula 2.2, e compra e venda das Participações Zenda, nos termos da Cláusula 2.3, pelo valor total de R$ 5.850.000.000,00 (cinco bilhões oitocentos e cinquenta milhões de reais). 2.2 Compra e Venda das Participações Seara Sujeito aos termos e condições previstos neste Contrato, a Marfrig obriga-se, de forma irrevogável e irretratável, a vender e transferir e fazer com que sejam vendidas e transferidas à JBS, que se obriga, em caráter irrevogável e irretratável, a adquirir, a totalidade das Participações Seara no Fechamento, livres e desembaraçadas de todos e quaisquer ônus. 2.2.1 Participações Seara. As Participações Seara serão transferidas com todo e qualquer direito político ou patrimonial a elas inerentes, inexistindo diluições que possam ser devidas em decorrência de direitos de preferência na subscrição ou direitos de subscrição de qualquer natureza (fully diluted Fl. 11709DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 6 basis). A transferência das Participações Seara significará a transferência de todos os ativos e passivos das Subsidiárias Seara Transferidas. 2.2.2 Preço. O preço total de aquisição das Participações Seara certo e acordado entre as Partes é de R$5.400.000.000,00 (cinco bilhões quatrocentos milhões de reais) ("Preço Seara"), que inclui o valor devido à BRF - Brasil Foods S.A. por conta do Contrato de Permuta de Ativos e Outras Avenças celebrado em 20 de março de 2012, em decorrência das Operações objeto deste Contrato. Caso entre a presente data e a data do Fechamento transcorra mais de 30 (trinta) dias, a parte do Preço Seara que for paga mediante assunção de dividas contratadas em R$ será atualizada pelo Certificado de Depósito Interbancário - CDI, desde o 31° dia contado da presente data até a data do efetivo pagamento, pro rata die. 2.2.3 Forma de Pagamento. O Preço Seara será pago pela JBS à Marfrig mediante a assunção, pela JBS, das dívidas da Marfrig e/ou suas Afiliadas descritas no Anexo 2.2.3, nas mesmas condições originalmente contratadas pela Marfrig e/ou suas Afiliadas, nos termos do artigo 299 e ss, do Código Civil Brasileiro, observado o seguinte: (...) 2.2.4 Adiantamento do Preço Seara. Como adiantamento do Preço Seara pelas Participações Seara, a JBS se obriga, sem duplicação, a assumir dívidas indicadas no Anexo 2.2.3 que totalizem o valor de R$1.000.000.000,00 (um bilhão de reais). (...) 2.3 Compra e Venda das Participações Zenda Sujeito aos termos e condições previstos neste Contrato, a Marfrig obriga-se, de forma irrevogável e irretratável, a vender e transferir e fazer com que sejam vendidas e transferidas à JBS, que sejam, em caráter irrevogável e irretratável, a adquirir, a totalidade das Participações Zenda no Fechamento, livres e desembaraçadas de todos e quaisquer ônus. 2.3.1 Participações Zenda. As Participações Zenda serão transferidas com todo e qualquer direito político ou patrimonial a elas inerentes, inexistindo diluições que possam ser devidas em decorrência de direitos de preferência na subscrição ou direitos de subscrição de qualquer natureza (fully diluted basis). A transferência das Participações Zenda significará a transferência de todos os ativos e passivos das Subsidiárias Zenda Transferidas. 2.3.2 Preço. O preço total de aquisição das Participações Zenda certo e acordado entre as Partes é de R$450.000.000,00 (quatrocentos e cinquenta milhões de reais) ("Preço Zenda"). Caso entre a presente data e a data do Fechamento transcorra mais de 30 (trinta) dias, a parte do Preço Zenda que for paga mediante assunção de dívidas contratadas em R$ será atualizada pelo Certificado de Depósito Interbancário - CDI, desde o 31° dia contado da presente data até a data do efetivo pagamento, pro rata die. Fl. 11710DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 7 2.3.3 Forma de Pagamento. O Preço Zenda será pago pela JBS à Marfrig mediante a assunção, pela JBS, das dívidas da Marfrig e/ou suas Afiliadas descritas no Anexo 2.3.3, nas mesmas condições originalmente contratadas pela Marfrig e/ou suas Afiliadas, nos termos do artigo 299 e ss, do Código Civil Brasileiro, observado o seguinte: (...)”. Da transcrição acima, observa-se que o pagamento do preço pela aquisição das empresas Seara e Zenda seria feito pela assunção das dívidas das duas empresas. Do valor dos investimentos baixados após a venda para a JBS / Custo de Aquisição Conforme o Contrato de Compra e Venda de Participações, a JBS e Marfrig concordam que esta última possa fazer as reestruturações societárias necessárias para a separação dos ativos das empresas vendidas para a JBS. Visando a obtenção de uma visão clara sobre quais os ativos e valores dos investimentos baixados devido à venda da Seara e Zenda, a fiscalização intimou a contribuinte em 19/09/2018 (doc. 15). Em sua resposta de 28/09/2018 (doc. 16), a contribuinte apresentou demonstrativo contendo os valores baixados contabilmente dos ativos vendidos à JBS, parcialmente reproduzido nos quadros à fl. 1253, mostrando os valores do ano-calendário 2013. Nos referidos quadros, a contribuinte informou que o valor total da baixa dos investimentos envolvendo as empresas vendidas à JBS foi de R$ 2.263.207.000,00, a seguir sintetizado (em R$ mil): Do pagamento pela JBS Conforme já depreendido pela leitura do Contrato de Compra e Venda, o preço que a JBS acordou pagar pelas empresas Seara e Zenda foi de R$ 5.850 milhões. Buscando verificar as informações prestadas pela contribuinte, foi aberta uma Ação Fiscal de Diligência na JBS (doc. 27). Nesse processo, intimou-se a empresa em 13/09/2018 (doc. 28) para obter-se as informações globais dessas aquisições. Em resposta de 28/09/2018, a JBS apresentou um demonstrativo (doc. 20) com esses valores, onde pode-se destacar que o valor total das dívidas da Marfrig assumidas pela JBS foi de R$ 3.708.921.878,98. Foi também apresentado pela JBS o detalhamento dos lançamentos contábeis que totalizaram esse valor de assunção de dívidas (doc. 16.3). Segue um resumo desse demonstrativo (valores em reais): Fl. 11711DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 8 Na resposta da contribuinte de 28/09/2018, foi juntado um outro demonstrativo (doc. 16.1) contendo todos os valores de dívidas assumidas e/ou liquidadas pela JBS que totalizaram após os ajustes: R$ 3.593.959.945,10. Vê-se que há discrepância entre os valores informados. Da apuração do ganho de capital pela Marfrig Segundo a Marfrig, conforme resposta de 12/04/2018 (doc. 12), os valores envolvidos na venda dessas empresas e que levaram à apuração do ganho de capital declarado foram os seguintes (em R$ mil): Fl. 11712DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 9 Ainda em sua resposta de 12/04/2018 (doc. 12), a contribuinte informou que os lançamentos contábeis realizados na conta 6.1.02.01.23 onde se apurou o Ganho de Capital obtido, de R$ 820.207.122,00, pela venda dessas empresas foram os reproduzidos à fl. 1256, sintetizados a seguir: DA AUDITORIA Em 10/10/2018, foi enviado um novo Termo de Intimação requisitando a apresentação de Demonstrativo do Cálculo do Ganho de Capital devido à venda da Seara e Zenda, bem como a informação da linha onde foi declarado em sua DIPJ ano-calendário 2013 (doc. 25). Em 23/10/2018, a contribuinte apresentou resposta (doc. 19). Da Diligência realizada na JBS Visando verificar os valores e documentos que embasaram essa negociação, foi iniciada uma Ação Fiscal de Diligência na JBS cujos principais documentos obtidos e aqui juntados estão relacionados à fl. 1258. Os documentos apresentados foram muito úteis para o entendimento de toda a negociação, mostrando que: • Os valores das dívidas assumidas informadas pela Marfrig (R$ 3.593.959.945,10) e JBS (R$ 3.708.921.878,98) são diferentes; e •O valor total de baixa de investimentos na Marfrig (R$ 2.107.205.000,00) e o valor justo apurado em Laudos da APSIS para a JBS (R$ 2.191.389.677,93) são próximos e explicável pela parcela subjetiva dos Laudos. Da análise das informações e documentos apresentados Os documentos apresentados pela contribuinte foram analisados conforme abaixo: Do contrato de compra e venda de participações societárias Conforme já citado, Marfrig e JBS acordaram e materializaram entendimento no Contrato de Compra e Venda de Participações Societárias e seus Anexos (doc. 05.1). As principais linhas da negociação presentes no contrato foram as seguintes: • Preço: Seara=> R$ 5.400 milhões e Zenda=> R$ 450 milhões; • Forma de pagamento: assunção de dívidas da Seara e da Zenda, listadas no Anexo 2.3.3; • Adiantamento do pagamento Seara: Foi acordado a assunção de dívidas no valor de R$ 1 bilhão; Fl. 11713DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 10 • Balanço de referência: O levantado pela BDO Auditores Independentes de 31/03/2013; • Taxa do dólar para dívidas no exterior: R$ 2,1247/dólar; • Condições precedentes ao cumprimento do acordado: Aprovação pelo CADE, BNDESPAR e pelos credores da Seara e Zenda; • Fechamento: A consumação das operações ocorrerá no 5° dia útil após a data da última das condições precedentes. Conforme pode-se depreender, inclusive do Relatório Anual Marfrig de 2013 (doc. 34), a Marfrig objetivou com a venda dessas operações a diminuição de seu endividamento e melhoria do seu Rating nas Agências de Risco. Ocorre que nessa negociação, a Marfrig praticamente não recebeu nada pelas vendas da Seara e Zenda. Conforme informado pela JBS em seu Demonstrativo Detalhado (doc. 20), houve o pagamento de somente R$ 190 milhões ao sócio Marcos Antonio Molina dos Santos (CPF xxx.xxx.xxx-xx). Dos laudos de avaliação da Seara e da Zenda O Laudo de Avaliação feito para a Nova Seara, que se constituiu das empresas Seara Holding EuroPE, JBS Foods (antiga Pine Point Participações) e Excelsior, pela empresa APSIS (doc. 21), concluiu o seguinte: "Com base nos estudos apresentados realizados pela APSIS, com data-base de 30 de setembro de 2013, e atendendo ao disposto nos artigos 385, parágrafo 2°, Inciso II, parágrafo 3° e 386, Inciso III e parágrafo 6° do RIR/99, A PERSPECTIVA DE RENTABILIDADE FUTURA DE nova Seara fundamentará o ágio relativo ao investimento realizado pela JBS. (...)". O Laudo de Avaliação feito para a Zenda, que era controlada pela Columbus Netherlands B.V., pela empresa APSIS (doc. 22), concluiu o seguinte: "Com base nos estudos apresentados realizados pela APSIS, com data-base de 30 de junho de 2013, e atendendo ao disposto nos artigos 385, parágrafo 2°, Inciso II, parágrafo 3° e 386, Inciso III e par ágrafo 6° do RIR/99, A PERSPECTIVA DE RENTABILIDADE FUTURA DE nova Seara fundamentará o ágio relativo ao investimento realizado pela JBS. (...)". Da apuração contábil do ganho de capital De acordo com a resposta da contribuinte de 12/04/2018 (doc. 12), a Marfrig abateu da base de cálculo do ganho de capital as dívidas assumidas pela JBS. No caso da Seara o valor deduzido foi de R$ 2.350.162.000,00, enquanto que no caso da Zenda o valor foi de US$ 28.566.000,00 referida à data de 31/05/2013 (doc. 12.2), que segundo o Contrato (doc. 05.1), serão convertidos pela taxa de R$ 2,1247/US$, resultando numa assunção de R$ 60.694.180,20. Fl. 11714DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 11 Essas deduções fizeram com que o ganho de capital fosse reduzido para R$ 820.207.122,00, o que não está de acordo com a legislação vigente (artigos 288 e 418 do RIR/99). Da declaração do ganho de capital na DIPJ Analisando a DIPJ do ano-calendário 2013 (doc. 25), tem-se que estão zeradas as linhas 24 e 67 da Ficha 07A e a linha 08 da Ficha 09A, e que nenhum valor foi declarado como pago a título de "Imp. Pago no Ext. s/Lucros, Rend. e Ganhos de Capital" na Ficha 11. Visando obter da contribuinte onde foi declarado o ganho de capital apurado contabilmente por ela no valor de R$ 820.207.122,00, a mesma foi intimada em 08/10/2018. Em 23/10/2018, a contribuinte respondeu que o valor total do ganho de capital foi declarado na Ficha 6A, linha 43, da seguinte forma (valores em reais): Como pode-se verificar, esse valor foi declarado erroneamente em Outras receitas operacionais, o que não é o caso do ganho de capital. Por si só, já representa uma estranheza, agravada pelo fato de estar junto com outros 8 valores. Além disso, a diminuição na base de cálculo do ganho de capital fez com que a contribuinte deixasse de ser tributado no seu real valor, que é o determinado pelos artigos 138 e 418 do RIR/99. De acordo com os números apresentados pela contribuinte no demonstrativo juntado na resposta de 28/09/2018 (doc. 16), a Marfrig informou que o valor total de baixa dos investimentos que compões as empresas de Seara e Zenda foi de R$ 2.263.207.000,00, já citado. Levando-se em consideração o adicional de preço da Zenda (doc. 05.3) e o valor informado pela Marfrig (doc. 05.7), o valor final pago pela JBS passou a ser de R$ 601.703.000,00. Diante desses valores, o valor correto do ganho de capital que deveria ter sido oferecido à tributação é o seguinte (valores em reais): Fl. 11715DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 12 Se considerarmos o valor calculado pela contribuinte de R$ 820.207.122,00 e o calculado acima, resta um valor a ser lançado e tributado de R$ 2.918.288.878,00, conforme a seguir demonstrado (valors em reais): Do impacto nos valores de IRPJ e CSLL Visando obter os valores de IRPJ e CSLL há que se destacar os valores declarados na DIPJ do ano-calendário de 2013 e os obtidos após considerar o valor do ganho de capital não tributado pela contribuinte (R$ 2.918.288.878,00): Da comparação entre o ágio na JBS e o ganho de capital da Marfrig Essa comparação (quadro abaixo, valores em reais) tem o objetivo de verificar a razoabilidade entre os valores informados pela JBS (doc. 35) e os valores dos investimentos baixados após a venda informados pela Marfrig (doc. 16.2). Se compararmos os números globais do negócio fornecidos pela JBS e Marfrig, os valores estão coerentes. Principalmente, se levarmos em conta, no caso da Seara, que o Laudo de Avaliação da APSIS fala num Valor de Custo do Imobilizado Residual de R$ 2.744.253.000,00. No caso da Zenda, esse mesmo valor apurado pela APSIS foi de US$ 55.663.000,00, que convertido pela taxa acordada em Contrato (R$ 2,1247/US$) se torna R$ 118.267.176,10. Ou seja, o valor total do Custo do Imobilizado Residual de Seara e Zenda foi avaliado pela APSIS em R$ 2.862.520.176,00. Comparando o total de investimentos baixados pela Marfrig e o total do Custo do Imobilizado Residual apurado pela APSIS, conclui-se que apesar do valor Marfrig estar abaixo do apontado pela APSIS (menos 599 milhões de reais), as pequenas imprecisões na realização dos Laudos de Avaliação das empresas contribuem para essa diferença. Fl. 11716DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 13 Da Contabilidade Digital da Marfrig, chegou-se ao valor de R$ 2.465.699.327,90, conforme quadro abaixo (valores em reais): Portanto, o valor informado pela Marfrig de R$ 2.263.207.000,00, foi considerado como correto e utilizado no cálculo do ganho de capital. Da conclusão De todo o exposto resta claro que a Marfrig reduziu indevidamente, ou ajustou conforme suas palavras, o valor do ganho de capital, abatendo as dívidas assumidas pela JBS. Não há amparo legal para isso Conclui-se, portanto, que a Marfrig reduziu irregularmente a base de cálculo do IRPJ e da CSLL. DA MULTA QUALIFICADA Os procedimentos adotados pela fiscalizada estão compreendidos na hipótese prevista no artigo 71, inciso I, da Lei nº 4.502/64 ("Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária (…) da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais"). O que qualifica o agir do sujeito passivo como sonegação, fraude ou conluio é o dolo. Significa, portanto, que basta evidenciar o dolo para que se justifique a qualificação da multa de ofício. Genericamente, o dolo se presta a provocar o erro na formação da vontade. A palavra dolo descende do substantivo latino dolus, que se origina do vocábulo grego dolos, que significa engano. O dolo consiste em manobras ou maquinações feitas com o propósito de obter uma declaração de vontade que não seria emitida se o declarante não fosse enganado. É a provocação intencional de um erro. É oportuno consignar que o Conselho Federal de Contabilidade, por intermédio da NBC T11, aprovada pela Resolução n° 820/97, definiu o que seriam fraude e erro em sua área de atuação: "11.1.4 - FRAUDE E ERRO 11.1.4.1 - Para os fins destas normas, considera-se: a) fraude, o ato intencional de omissão ou manipulação de transações, adulteração de documentos, registros e demonstrações contábeis; e Fl. 11717DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 14 b) erro, o ato não intencional resultante de omissão, desatenção ou má interpretação de fatos na elaboração de registros e demonstrações contábeis". Desse modo, também do ponto de vista contábil não é possível atribuir aos atos aqui narrados um outro adjetivo diferente de sonegação, pois a Marfrig abateu intencionalmente da base de cálculo do ganho de capital as dívidas das empresas Seara e Zenda, transferindo para o Fisco um ônus indevido, almejando com isso evadir-se da obrigação de pagar tributos. Vale ainda ressaltar que em sua DIPJ ano-calendário 2013 a contribuinte nada informou na linha de ganho de capital, que é uma receita não operacional, mas informou o valor calculado por ele como sendo o ganho de capital a declarar, na linha outras despesas operacionais junto com diversos outros valores. Com isso, manobrou para ocultar o valor declarado, e que é muito menor que o real valor, de uma análise pelo Fisco em sua DIPJ. As definições de sonegação que dão suporte à qualificação da multa implicam ações tendentes a provocar a emissão de um juízo errôneo por parte da autoridade fiscal. Age, portanto, com dolo, justificando a qualificação da multa nos termos da Lei n° 9.430/96. A jurisprudência também tem entendido dessa forma. Considerando que os valores informados incorretamente e dolosamente pela contribuinte visaram reduzir o montante dos tributos devidos (o que caracteriza a sonegação), correta a aplicação da multa qualificada. DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA É aplicável ao caso o artigo 135, inciso III, do CTN em face dos sócios da fiscalizada serem responsáveis por atos praticados com infração de lei ou excesso de poderes, porquanto apresentaram declarações artificiais para se eximir de recolhimento de tributos incidentes sobre ganho de capital. Assim, sem prejuízo das consequências atinentes à esfera penal, impõe-se a responsabilização dos sócios que participaram das transações, à época dos fatos geradores. Em decorrência de serem os representantes das pessoas jurídicas, essas pessoas possuíam os poderes administrativos (e decisórios) sobre atos praticados em nome da empresa, incluído o artifício doloso, demonstrado pela fiscalização, para redução dos tributos devidos. Pelo exposto, foram lavrados os Termos de Sujeição Passiva Solidária para os seguintes contribuintes, com base no artigo 135, inciso III, do CTN: [...] Todos os ex-sócios da Seara e Zenda que aparecem no Contrato (doc. 05.1) foram os responsáveis pelas operações de venda das participações e pela dedução indevida das dívidas das empresas na base de cálculo do IRPJ e CSLL, conforme comprovam as cópias das Atas das AGEs e demais documentos anexados ao processo. Fl. 11718DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 15 Os dois ex-sócios citados aparecem em todas as AGEs da Marfrig, bem como no Contrato de Compra e Venda (doc. 05.1) e no Contrato Social da Marfrig (doc. 08). Não há, portanto, como deixar de incluir os ex-sócios das empresas Seara e Zenda como responsáveis solidários do planejamento tributário abusivo aqui descrito e analisado, tendo em vista sua participação direta e aprovação junto às reuniões relativas às operações. DA MULTA ISOLADA POR INSUFICIÊNCIA DE PAGAMENTO NA ESTIMATIVA DO IRPJ E DA CSLL A Lei n° 9.430/96, com a redação dada pela Lei n° 1 1.488/2007, visou claramente o estabelecimento de duas multas distintas, com finalidades igualmente distintas: uma penalidade pela redução indevida do tributo (com ou sem o crime de sonegação); outra, pelo simples inadimplemento. São os incisos I e II do artigo 44. Crédito tributário e adimplência são dois conceitos intimamente ligados, mas diversos. Cada um deles demanda uma proteção diferente sob o risco de, em não havendo sanção efetiva, haver um incentivo aos contribuintes para que não cumpram um ou outro, neste caso principalmente o adimplemento, que é o bem protegido pela multa isolada. A multa isolada pode conviver com a multa de ofício, pois visa tutelar direito público diverso, o recebimento tempestivo dos tributos, o fluxo de caixa estatal, a adimplência. Já a multa de ofício tutela a exigibilidade do tributo em si, podendo ser majorada ou minorada, dependendo do caso concreto. Pretender extinguir a multa isolada fere de morte o direito estatal ao fluxo de caixa mensal, permitindo e, até, incentivando a inadimplência dos contribuintes. No tocante às multas isoladas, para o presente caso, aplicou-se o disposto no artigo 44, inciso II, da Lei n° 9.430/96. Para os cálculos foi utilizada a DIPJ do ano-calendário 2013 (doc. 25), LALUR do ano-calendário 2013 (doc. 07), a ECD do mesmo ano-calendário. Além disso, para o cálculo do lucro realizado após a assinatura do Contrato de Compra e Venda das Participações Societárias, foi utilizado o cronograma de Assunção de Dívidas (doc. 16.1.1) após a concordância dos credores, e que está presente na planilha de cálculo (doc. 23). Desta forma, os valores das multas isoladas, calculadas em função da inclusão do ganho de capital omitido, que, por sua vez, geraram falta de recolhimento da estimativa, encontram-se demonstradas, mensalmente, nos quadros anexados (doc. 23) e consolidadas abaixo (ano-calendário de 2013, valores em reais): Fl. 11719DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 16 4. Inconformados com a exigência, a Recorrente e os responsáveis tributários apresentaram Impugnação (fls. 1.312/1.382), que foi parcialmente acolhida pela DRJ, por meio de acórdão (fls. 1.948/2.009) ementado da seguinte forma: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2013 ALIENAÇÃO. VALOR DA PARTICIPAÇÃO. GANHO DE CAPITAL. Comprovado que o valor de uma das participações alienadas era maior que o considerado na autuação, apura-se ganho de capital em valor inferior ao lançado. Exigência exonerada em parte. PREJUÍZO FISCAL E BASE DE CÁLCULO NEGATIVA DA CSLL. COMPENSAÇÃO. O prejuízo fiscal a base de cálculo negativa da CSLL poderão ser compensados com o lucro líquido ajustado pelas adições e exclusões previstas na legislação do IRPJ e da CSLL, observado o limite máximo, para a compensação, de trinta por cento do referido lucro líquido ajustado. MULTA QUALIFICADA. IMPROCEDÊNCIA A multa de 150% deve ser reduzida para 75%, por não restar comprovada a existência de situações que justifiquem a sua qualificação. MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. MULTA DE OFÍCIO PELA FALTA OU INSUFICIÊNCIA DE TRIBUTO. MATERIALIDADES DISTINTAS. EXIGÊNCIA EXONERADA EM PARTE. A partir do advento da MP nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, a multa isolada passa a incidir sobre o valor não recolhido da estimativa mensal independentemente do valor do tributo devido ao final do ano, cuja falta ou insuficiência, se apurada, estaria sujeita à incidência da multa de ofício. São duas materialidades distintas, uma refere-se ao ressarcimento ao Estado pela não entrada de recursos no tempo determinado e a outra pelo não oferecimento à tributação de valores que estariam sujeitos à mesma. Exigência exonerada em parte, como conseqüência da apuração de ganho de capital em valor inferior ao lançado. RESPONSABILIDADE PESSOAL DO SÓCIOS. Não restando caracterizada a prática dolosa de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, exclui-se a responsabilização tributária dos sócios. CSLL. DECORRÊNCIA. O decidido quanto ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica aplica-se, mutatis mutandis, à tributação decorrente dos mesmos fatos e elementos de prova. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte 5. Analisando o acórdão, verifica-se que a DRJ acolheu parcialmente a Impugnação, para (i) reduzir o ganho de capital tributável, exonerando parte do crédito tributário cobrado, (ii) cancelar a qualificação da multa de ofício e (iii) excluir a responsabilidade tributária dos sócios MARCOS ANTÔNIO MOLINA DOS SANTOS e MÁRCIA APARECIDA PASCOAL MARÇAL DOS SANTOS. Fl. 11720DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 17 6. A redução do ganho de capital tributável feita pela DRJ decorreu da sua análise a respeito da operação de alienação da Seara para a JBS, sob a perspectiva de três diferenças entre a apuração da Fiscalização e do contribuinte: (i) ajuste de R$ 2,35 bilhões no preço de venda feito pela Recorrente, (ii) valor da baixa do investimento na Seara existente e (iii) outras adições e exclusões efetuadas apenas pelo contribuinte. No caso do item “(ii)”, a DRJ entendeu correto o valor indicado pela Recorrente, discordando, porém, dos demais ajustes. No caso da análise da alienação da Zenda/Columbus para a JBS, a DRJ destacou que a Fiscalização apurou um ganho de capital inferior ao utilizado pelo contribuinte, razão pela qual este montante foi mantido. 7. Tendo em vista o cancelamento parcial do crédito tributário e a exclusão dos responsáveis, foi interposto Recurso de Ofício a este Carf, nos termos do art. 34, I, do Decreto nº 70.235/72. 8. Em seguida, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário (fls. 2.023/2.077), sustentando, em síntese, o seguinte: (i) “Justamente no ponto em que a ora Recorrente tinha mais certeza de carência jurídica e factual para a exigência perpetrada, em face da robustez de seus argumentos e da comprovação documental e contábil trazido aos autos, explorando e esgotando a saciedade o preço a ser considerado para apuração do ganho de capital da transação realizada, a turma julgadora optou por uma singeleza de análise, de forma que essa ficou adstrita a mera leitura de cláusulas contratuais (foto estanque) do contrato de compra e venda de participações societárias firmado em 07.06.2013, de forma totalmente desconectada com a realidade dos fatos (filme completo) ocorrida até o closing da operação em 30.09.2013.”; (ii) “Não é possível que os diversos registros contábeis, a declaração emitida pela própria compradora em procedimento diligencial no tocante ao montante das dívidas por ela assumidas e o reforço dado a tudo isso pelo laudo técnico emitido pela BDO juntado aos presentes autos, não fossem merecedores de uma mínima menção na fundamentação da decisão exarada.”; (iii) “Para compreender de fato a efetiva operação realizada em termos financeiros e consequentemente jurídicos é preciso ter o correto e completo entendimento dos conceitos de preço e assunção de dívidas, praticados no instrumento firmado e na efetiva operação realizada, bem como a mutação dos valores atinentes a estes dois elementos entre 07.06.2013 e a data do derradeiro fechamento ocorrido em 30.09.2013, trabalho este não efetuado com o devido esmero pela fiscalização”; (iv) Haveria erro na apuração do preço de venda, pois “as obrigações contraídas em reais perfaziam R$ 2.158.146.169,00. Já aquelas em dólar, pela taxa de conversão do contrato, eram de R$ 1.810.830.189,00, ou seja, esse bloco atingia um montante global R$ 3.968.976.358,00; Fl. 11721DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 18 (v) “Somando-se, portanto, as dívidas constantes dos dois quadros, conclui-se que para aquisição das participações do negócio SEARA, em tese a dívida total a ser assumida em 07.06.2013 era de R$ 5.690.396.309,00.” Este valor seria compensado na assunção de dívidas da Zenda/Columbus; (vi) “por uma análise simplista, como a feita alhures até se poderia interpretar ter havido de fato uma assunção de dívidas no montante de 5,85 bilhões para liquidação do contrato firmado.” (vii) “Contudo, como será amplamente demonstrado a partir de agora, não foi esta a realidade que se materializou, posto que verdadeiramente as únicas dívidas de fato assumidas pela JBS, nos termos do art. 299 do Código Civil foram aquelas contraídas originalmente pela RECORRENTE”; (viii) Referida conclusão estaria baseada na análise detida dos seguintes documentos: “i) Demais previsões do CONTRATO DE COMPRA E VENDA firmado em 07.06.2013; ii) TERMO DE FECHAMENTO celebrado em 30.09.2013 (Doc. 09) – não analisado pela fiscalização; iii) LANÇAMENTOS CONTÁBEIS realizados pela Recorrente, e; iv) INFORMAÇÕES PRESTADAS PELA COMPRADORA JBS em sede diligência acerca das dívidas por ela assumidas.”; (ix) “Apenas os montantes de R$ 1.577.851.016 e R$ 2.015.996.588, totalizando R$ 3.593.847.574,00 é que de fato perfaziam dívidas financeiras da Recorrente a serem assumidas pela compradora JBS nos termos do art. 299 do Código Civil.” (x) “Mostra-se inconteste que a descrição em referência (dívidas constantes do passivo contábil das empresas cujas participações foram adquiridas) não se coaduna com o conceito de assunção de dívidas do Código Civil, o qual somente mostra-se aplicável às dívidas contraídas pela própria Recorrente, devidamente registradas em seu balanço, assumidas pela devedora JBS, e consequentemente baixadas do passivo.”; (xi) “No demonstrativo de cálculo da multa isolada feita pela fiscalização (fls 793/794), ela mesma menciona o montante de R$ 3,703 bilhões como dívida global assumida pela JBS, em que pese de forma antinômica refutá-lo para fins do presente lançamento.” (xii) “Conforme alardeado nos tópicos 2.2 deste recurso, faz-se mister esclarecer que o valor de R$ 190 milhões, informado pela JBS não se refere a compra das participações relativas aos negócios Zenda e Seara. Referido desembolso, cujo depósito teve como efetivo favorecido a pessoa física do Sr. Marcos Antônio Molina dos Santos (sócio da MMS Participações /AS), teve motivação, a realização de outro negócio à mesma época, qual seja, a venda de quotas e ativos da empresa Biocamp Indústria, Comércio, Importação E Exportação De Biodiesel Ltda – CNPJ nº 08.094.915/0001-15.” (xiii) Essas conclusões teriam sido confirmadas por laudo da BDO, que não teria sido devidamente analisado pela DRJ; Fl. 11722DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 19 (xiv) Seria ilegítima a cumulação da multa isolada por falta de recolhimento das estimativas mensais com a multa de ofício. 9. A PGFN também apresentou Contrarrazões ao Recurso Voluntário (fls. 2.092/2.125), sustentando que o acórdão da DRJ, no que negou provimento à Impugnação, deveria ser mantido, pois, em síntese: (i) Improcedentes as alegações feitas com base nas cláusulas contratuais, que não serviriam para fundamentar os ajustes realizados pelo contribuinte e (ii) A consideração de dívidas assumidas pela JBS relativas ao negócio Seara Brasil no preço de aquisição estaria correta; (iii) Haveria jurisprudência deste CARF (Acórdão nº 1201-002.134) em sentido similar ao adotado pela Fiscalização; (iv) A aplicação da multa isolada por estimativas mensais não recolhidas estaria correta, a partir do art. 44 da Lei nº 9.430/96. 10. Ainda, a PGFN apresentou na mesma manifestação as razões de provimento do Recurso de Ofício, sustentando que (i) a multa de ofício deveria ser qualificada, pois o “descumprimento do contrato, aliado à prestação de informações falsas em DIPJ” teriam como objetivo reduzir a carga tributária indevidamente, caracterizando o dolo e (ii) seria cabível a responsabilização solidária dos sócios administradores, pois existentes os elementos necessários – ser administrador e ter cometido ilícito nesta posição. 11. O sujeito passivo apresentou memoriais reforçando e sintetizando as suas alegações, após a distribuição neste Carf (fls. 2.130/2.139). 12. Em primeira análise, esta Turma Ordinária decidiu converter o julgamento em diligência, por meio da Resolução Carf nº 1301-001.238 (fls. 2.256/2.285), nos seguintes termos: Assim, tendo em vista esses elementos, proponho a conversão do julgamento em diligência, para que a Unidade de Origem: (i) Intime a Recorrente e, se necessário, as pessoas jurídicas alienadas e a adquirente JBS, para que apresentem de forma detalhada os contratos relativos às dívidas da Seara e da Zenda que foram transferidas à JBS, citados no Apêndice 4.2 do Termo de Fechamento. Em seguida, analise referidos contratos, apresentando manifestação conclusiva a respeito de eventual vantagem da Recorrente na transferência do passivo; (ii) Analise o Laudo produzido pela consultoria técnica BDO (fls. 1.683/1.945), confirmando ou não as suas conclusões a respeito da conciliação contábil feita entre a Recorrente Marfrig e a JBS. Em seguida, apresente as suas conclusões a respeito do impacto da referida conciliação na análise que deu fundamento à exigência discutida nestes autos; (iii) Verifique se houve e qual foi a repercussão, na Recorrente Marfrig, da redução do passivo da Seara e da Zenda em decorrência da sua alienação à JBS, intimando as pessoas jurídicas envolvidas caso entenda necessário; Fl. 11723DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 20 (iv) Por fim, elabore relatório conclusivo, intimando a Recorrente para que se manifeste a respeito, no prazo de 30 (trinta) dias. Com o transcurso do prazo, sejam os autos devolvidos a este Carf, para novo julgamento. 13. A Fiscalização lavrou Termo de Intimação Fiscal (fls. 2.291), que foi respondido pela Recorrente (fls. 2.299/2.309) por meio de manifestação acompanhada de documentos comprobatórios. Esta resposta foi complementada posteriormente com traduções juramentadas de documentos cujos originais estão em espanhol ou inglês (fls. 6.759/6.766). 14. Em seguida, a Fiscalização elaborou Relatório Conclusivo de Diligência (fls. 11.499/11.505), manifestando-se no sentido de que “o lançamento realizado está correto e deve ser mantido”. 15. Intimado a respeito do relatório, a Recorrente defendeu que não houve o atendimento da diligência solicitada por este Carf, sustentando ainda que teriam sido apresentados os documentos necessários para a sua realização (fls. 11.524/11.530). 16. Continuando o julgamento dos recursos após devolução dos autos, esta Turma Ordinária entendeu não realizada a perícia determinada, nos seguintes termos: 42. De fato, comparando a solicitação feita por esta Turma Ordinária na Resolução nº 1301-001.238 com o que foi apresentado pela Fiscalização, entendo que a diligência não foi realizada nos termos propostos. O ponto central da discussão diz respeito ao ajuste de R$ 2,35 bilhões feito pela Recorrente no preço da venda: é necessário confirmar se tal montante corresponde a dívidas da Seara e da Zenda que não tiveram qualquer repercussão na MARFRIG enquanto redução do seu próprio passivo. Considerações a respeito da melhora no rating da empresa para fins de obtenção de empréstimos com instituições financeiras não respondem o que foi solicitado. Também não houve análise do Laudo apresentado pela BDO, limitando-se a Unidade de Origem a mencionar que os “os ajustes sugeridos na Tabela 18 não podem prevalecer contra o art. 138 do RIR”. Ou seja, não foi confirmada a correção do referido Laudo quanto aos aspectos fáticos relativos à conciliação contábil. Deste modo, entendo que os autos devem retornar à Unidade de Origem, para que a diligência seja efetivamente realizada. 17. Foi produzido novo relatório conclusivo (fls. 11.675/11.682), com a subsequente manifestação da contribuinte (fls. 11.688/11.700) e retorno dos autos a este Carf. É o relatório. VOTO Conselheiro Rafael Taranto Malheiros, Redator ad hoc Fl. 11724DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 21 Como Redator ad hoc, sirvo-me da minuta de voto inserida pelo relator original, Conselheiro Eduardo Monteiro Cardoso, no diretório corporativo do CARF, a seguir reproduzida, cujo posicionamento adotado coincide com o meu. 18. A admissibilidade do Recurso Voluntário e do Recurso de Ofício já foi analisada quando da decisão desta Turma Ordinária consubstanciada na Resolução nº 1301-001.238 (fls. 2.256/2.285). Assim, presentes os pressupostos formais, conheço dos recursos. 1 I. SÍNTESE DA AUTUAÇÃO E RESULTADOS DAS DILIGÊNCIAS ELABORADAS 19. Como relatado, a controvérsia diz respeito ao valor do ganho de capital apurado pela Recorrente MARFRIG no ano-calendário de 2013, decorrente das operações de venda dos negócios “Seara” e “Zenda” para a JBS. 20. De acordo com o “Contrato de Compra e Venda de Participações Societárias e Outras Avenças” (fls. 11/34), firmado em 07/06/2013, foi definida venda das “Participações Seara” e “Participações Zenda”, pelo valor total de R$ 5.850.000.000,00. Houve a definição do preço e da forma de pagamento, da seguinte forma: 2.2.1 Participações Seara. As Participações Seara serão transferidas com todo e qualquer direito político ou patrimonial a elas inerentes, inexistindo diluições que possam ser devidas em decorrência de direitos de preferência na subscrição ou direitos de subscrição de qualquer natureza (fully diluted basis). A transferência das Participações Seara significará a transferência de todos os ativos e passivos das Subsidiárias Seara Transferidas. 2.2.2 Preço. O preço total de aquisição das Participações Seara certo e acordado entre as Partes é de R$5.400.000.000,00 (cinco bilhões quatrocentos milhões de reais) ("Preço Seara"), que inclui o valor devido à BRF - Brasil Foods S.A. por conta do Contrato de Permuta de Ativos e Outras Avenças celebrado em 20 de março de 2012, em decorrência das Operações objeto deste Contrato. Caso entre a presente data e a data do Fechamento transcorra mais de 30 (trinta) dias, a parte do Preço Seara que for paga mediante assunção de dívidas contratadas em R$ será atualizada pelo Certificado de Depósito Interbancário - CDI, desde o 31º dia contado da presente data até a data do efetivo pagamento, pro rata die. 2.2.3 Forma de Pagamento. O Preço Seara será pago pela JBS à Marfrig mediante a assunção, pela JBS, das dívidas da Marfrig e/ou suas Afiliadas descritas no Anexo 2.2.3, nas mesmas condições originalmente contratadas pela Marfrig e/ou suas Afiliadas, nos termos do artigo 299 e ss, do Código Civil Brasileiro, observado o seguinte: (...) 2.2.4 Adiantamento do Preço Seara. Como adiantamento do Preço Seara pelas Participações Seara, a JBS se obriga, sem duplicação, a assumir dívidas indicadas no Anexo 2.2.3 que totalizem o valor de R$1.000.000.000,00 (um bilhão de reais). (...) Fl. 11725DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 22 2.3 Compra e Venda das Participações Zenda. Sujeito aos termos e condições previstos neste Contrato, a Marfrig obriga-se, de forma irrevogável e irretratável, a vender e transferir e fazer com que sejam vendidas e transferidas à JBS, que sejam, em caráter irrevogável e irretratável, a adquirir, a totalidade das Participações Zenda no Fechamento, livres e desembaraçadas de todos e quaisquer ônus. 2.3.1 Participações Zenda. As Participações Zenda serão transferidas com todo e qualquer direito político ou patrimonial a elas inerentes, inexistindo diluições que possam ser devidas em decorrência de direitos de preferência na subscrição ou direitos de subscrição de qualquer natureza (fully diluted basis). A transferência das Participações Zenda significará a transferência de todos os ativos e passivos das Subsidiárias Zenda Transferidas. 2.3.2 Preço. O preço total de aquisição das Participações Zenda certo e acordado entre as Partes é de R$450.000.000,00 (quatrocentos e cinquenta milhões de reais) ("Preço Zenda"). Caso entre a presente data e a data do Fechamento transcorra mais de 30 (trinta) dias, a parte do Preço Zenda que for paga mediante assunção de dívidas contratadas em R$ será atualizada pelo Certificado de Depósito Interbancário - CDI, desde o 31° dia contado da presente data até a data do efetivo pagamento, pro rata die. 2.3.3 Forma de Pagamento. O Preço Zenda será pago pela JBS à Marfrig mediante a assunção, pela JBS, das dívidas da Marfrig e/ou suas Afiliadas descritas no Anexo 2.3.3, nas mesmas condições originalmente contratadas pela Marfrig e/ou suas Afiliadas, nos termos do artigo 299 e ss, do Código Civil Brasileiro, observado o seguinte: (...)”. 21. A Recorrente apresentou um resumo da apuração do ganho de capital na venda da Seara (fls. 533), com os seguintes valores: Fl. 11726DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 23 22. A Fiscalização, porém, discordou da referida apuração, obtendo valor diverso de ganho de capital. As divergências existentes foram bem sintetizadas pela DRJ no acórdão recorrido (fls. 1.979): 23. De acordo com a tabela acima, as diferenças correspondem aos seguintes aspectos: (i) “ajuste no preço de venda”, por meio do qual a Recorrente MARFRIG reduziu o preço em R$ 2.350.162.000,00, (ii) valor da baixa de investimento Seara Brasil, no montante de R$ 983.757.000,00 e (iii) outras adições (“baixa de outros resultados abrangentes”, no valor de R$ 622.699.000,00) e exclusões (“transferência de outras dívidas” e “baixa do ágio”). 24. Na sua análise, a DRJ retificou as conclusões da Fiscalização tão somente com relação ao item “(ii)”, concordando com a Recorrente MARFRIG no sentido de que o valor da baixa de investimentos corresponderia a R$ 3.090.962.000,00. Rejeitou, porém, as alegações relativas aos demais ajustes. 25. Com relação à venda da Zenda, a apuração feita pela Recorrente Marfrig (fls. 532) foi a seguinte: 26. A Fiscalização, na sua análise a respeito do valor obtido com a operação de alienação da Zenda, identificou montante de ganho de capital inferior, no valor de R$ 445.701.000,00. Assim, os valores indicados pela Recorrente MARFRIG foram mantidos pela Fiscalização e, consequentemente, pelo acórdão da DRJ. 27. Veja-se que a principal diferença entre as apurações do ganho de capital feitas pela Recorrente e pela Fiscalização corresponde ao ajuste de R$ 2,35 bilhões no preço de venda da Fl. 11727DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 24 Seara, reduzindo o ganho da operação. De acordo com o Termo de Verificação Fiscal, o preço de venda da Seara teria sido R$ 5.400.000.000,00 (fls. 1.263), conforme previsão contratual. 28. A Recorrente MARFRIG alegou em suas razões que, embora ela e a JBS tenham estipulado um preço inicial no Contrato de Compra e Venda firmado em 07/06/2013 (fls. 11/34), este ficou sujeito a uma variação no fechamento. Este mecanismo foi expressamente previsto no referido instrumento: 29. A Recorrente trouxe aos autos, em Impugnação, a íntegra do Termo de Fechamento, cujo Apêndice 4.2 (fls. 1.516/1.530) substituiu as dívidas previstas inicialmente no Contrato de Compra e Venda. Veja-se que o Termo de Fechamento, por exemplo, previu expressamente a redução em função da variação de capital de giro (fls. 1.444), com impacto direto no preço, o que, a meu ver, não foi considerado pela Fiscalização: 30. Além disso, apesar do valor inicial previsto no contrato ter sido de R$ 5,850 bilhões, considerado pela Fiscalização, os valores informados pela JBS como dívida assumida e como custo da operação foram distintos. Veja-se a Nota Explicativa das suas Demonstrações Financeiras para os semestres findos em 30 de junho de 2013 e 2012 (fls. 1.129): Fl. 11728DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 25 31. Os lançamentos contábeis registrados na JBS também indicam uma assunção de dívidas de R$ 3.703.212,790,08 (fls. 550), sendo que foi considerado para fins de ágio na operação um valor de aquisição de R$ 3.708.921.878,98 (fls. 634). Embora exista uma pequena diferença entre os valores, trata-se de situação natural em operações de grande porte. 32. Nesse sentido, o Laudo apresentado pela consultoria especializada efetuou a conciliação entre as informações contábeis da Recorrente MARFRIG e as apresentadas pela JBS (fls. 1.720/1.721), chegando à seguinte conclusão: 75. Assim, das referências e cotejamentos da Tabela 15 é possível confirmar que os empréstimos registrados nas 2 (duas) Companhias objeto dos contratos de Assunção de Dívidas nos termos do artigo 299 do Código Civil, são os mesmos, bem como que o registro contábil nestas Companhias, ainda que com algum ajuste e controle diversos, correspondem as mesmas operações contratadas. 76. No resumo abaixo é possível extrair os valores resumidos da Tabela 15 e suas referências somadas e resumidas conforme os anexos dos Termo de Fechamento da transação, e, informação da JBS S.A. ao Sr. AFRF e finalizar as composições destas transações demonstrando que são as mesmas que estiveram sempre à disposição da DD. Autoridade Fiscal: Tabela 16 – Resumo dos empréstimos transferidos para a JBS S.A. pela Marfrig 33. A partir dessa análise, verifica-se que as dívidas que seriam titularizadas pela Seara e pela Zenda, que constaram no Apêndice 4.2 do Termo de Fechamento, mencionado acima, não corresponderiam a passivo transferido da Recorrente MARFRIG para a adquirente JBS. Como mencionado, referidas dívidas não constavam na contabilidade da Recorrente MARFRIG, não tendo sido identificada pela Fiscalização a redução do passivo que representaria vantagem decorrente da Fl. 11729DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 26 alienação. Se as dívidas eram titularizadas pelas pessoas jurídicas negociadas, ainda que fossem controladas pela Recorrente, entendo que caberia à Fiscalização demonstrar a vantagem obtida pelo vendedor – seja esta vantagem um acréscimo no seu ativo ou uma redução no seu passivo – como decorrência da referida alienação. 34. Ou seja, a Recorrente MARFRIG trouxe aos autos elementos que justificariam a realização do ajuste de R$ 2,35bi, demonstrando que o preço da operação ao final foi reduzido, não podendo ser considerada para esta finalidade as dívidas titularizadas pela Seara e pela Zenda. 35. Sobre esse ponto, a PGFN sustenta, em suas Contrarrazões ao Recurso Voluntário (fls. 2.092/2.125), que as dívidas da Seara e da Zenda – citadas no Apêndice 4.2 do Termo de Fechamento e assumidas pela JBS –, poderiam representar uma redução das obrigações da Recorrente MARFRIG, vez que esta poderia figurar como coobrigada nos contratos que deram origem àquele passivo. 36. Diante desse cenário, surgiu dúvida relevante a respeito da possibilidade de as dívidas titularizadas pela Seara e pela Zenda integrarem o preço de aquisição da operação, o que motivou a conversão do julgamento em diligência por meio da Resolução Carf nº 1301-001.238 (fls. 2.256/2.285), solicitando em síntese que a Unidade de Origem: (i) intimasse a Recorrente e, se necessário, as pessoas jurídicas alienadas e a adquirente JBS, para que fossem apresentados de forma detalhada os contratos relativos às dívidas da Seara e da Zenda que foram transferidas à JBS, citados no Apêndice 4.2 do Termo de Fechamento, com a subsequente análise dos referidos contratos, apresentando manifestação conclusiva a respeito de eventual vantagem da Recorrente na transferência do passivo, (ii) fosse analisado o Laudo produzido pela consultoria técnica BDO (fls. 1.683/1.945), confirmando ou não as suas conclusões a respeito da conciliação contábil feita entre a Recorrente Marfrig e a JBS, com a subsequente conclusão a respeito do impacto da referida conciliação na análise que deu fundamento à exigência discutida nestes autos e (iii) fosse feita a verificação a respeito da repercussão, na Recorrente MARFRIG, da redução do passivo da Seara e da Zenda em decorrência da sua alienação à JBS, intimando as pessoas jurídicas envolvidas caso entenda necessário. 37. Com o retorno dos autos à Unidade de Origem, foi lavrado o Termo de Intimação Fiscal (fls. 2.291), para apresentação do seguinte: ITEM ÙNICO – Tendo em vista a necessidade de elucidar quais dívidas da SEARA e da ZENDA foram assumidas pela adquirente JBS, requisita-se as cópias de todos os Contratos de dívidas das referidas empresas na época de suas vendas para a JBS, mostrando quais foram transferidas e quais permaneceram na MARFRIG (se for o caso). 38. A Recorrente, além de esclarecimentos fáticos, juntou aos autos extensa documentação comprobatória. Apresentou planilha relacionando as dívidas de sua titularidade e das pessoas jurídicas alienadas Seara e Zenda (Doc. 02) com os contratos, também apresentados (Docs. 03 a 06). Também juntou os instrumentos de assunção de dívida firmados com a JBS (Doc. 07). Vale transcrever as suas conclusões (fls. 2.308): Fl. 11730DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 27 ✓ Conclusão 1: Consoante se observa da planilha anexa (Doc.02), em conjunto com os Docs. 03, 04 e 06, as dívidas da Seara e da Zenda são de titularidade delas, razão pela qual nunca pertenceram à Marfrig e, via de consequência, não foram transferidas à JBS via assunção de dívidas; ✓ Conclusão 2: Foram transferidas à JBS a título de assunção de dívidas o montante de 3,7 bilhões, pertencentes à Marfrig Global Foods S/A, conforme se observa dos Docs. 02 (planilha), Doc. 05 (contratos dívidas da Marfrig) e Doc. 07 (Cessão de Dívidas), ora colacionados. 39. Após a resposta, a Fiscalização elaborou Relatório Conclusivo de Diligência (fls. 11.499/11.505), com a seguinte conclusão: 40. A Recorrente MARFRIG manifestou-se sobre a diligência, defendendo que teria ocorrido “de forma inequívoca o descumprimento por parte do I. Agente Fiscal quanto ao determinado pelo E. Conselho Administrativo de Recursos Fiscais”, pois teria se limitado a fazer “considerações genéricas acerca da matéria”. 41. Comparando a solicitação feita por esta Turma Ordinária na Resolução nº 1301- 001.238 com o que foi apresentado pela Fiscalização, entendeu-se que a diligência não foi realizada nos termos propostos. O ponto central da discussão diz respeito ao ajuste de R$ 2,35 bilhões feito pela Recorrente no preço da venda: é necessário confirmar se tal montante corresponde a dívidas da Seara e da Zenda que não tiveram qualquer repercussão na MARFRIG enquanto redução do seu próprio passivo. Considerações a respeito da melhora no rating da empresa para fins de obtenção de empréstimos com instituições financeiras não respondem o que foi solicitado. Também não houve análise do Laudo apresentado pela BDO, limitando-se a Unidade de Origem a mencionar que os “os ajustes sugeridos na Tabela 18 não podem prevalecer contra o art. 138 do RIR”. Ou seja, não foi confirmada a correção do referido Laudo quanto aos aspectos fáticos relativos à conciliação contábil. Deste modo, entendo que os autos devem retornar à Unidade de Origem, para que a diligência seja efetivamente realizada. 42. Diante desse cenário, houve nova conversão do julgamento em diligência (fls. 11.539/11.565), para que a Unidade de Origem: Fl. 11731DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 28 (i) Analise os contratos apresentados pela Recorrente em diligência (Docs. 03 a 06, complementados posteriormente em manifestação de fls. 6.767/6.771), relacionados em planilha demonstrativa (Doc. 02 – fls. 2.314), apresentando manifestação conclusiva a respeito de eventual vantagem da Recorrente na transferência do passivo, especialmente se houve redução do próprio passivo em decorrência da transferência das dívidas da Seara e da Zenda; (ii) Analise o Laudo produzido pela consultoria técnica BDO (fls. 1.683/1.945), confirmando ou não as suas conclusões a respeito da conciliação contábil feita entre a Recorrente MARFRIG e a JBS. Em seguida, apresente as suas conclusões a respeito do impacto da referida conciliação na análise que deu fundamento à exigência discutida nestes autos; 43. Após intimações direcionadas à contribuinte, a Fiscalização apresentou relatório concluindo o seguinte: De todo o material aqui exposto, conclui-se que a autuação foi efetuada de forma correta (corroborado pela DRJ, mediante seu respectivo Acórdão de Impugnação), principalmente no que se refere quanto à não comprovação de que as dívidas da Seara e da Zenda não foram transferidas à adquirente JBS no processo de aquisição da empresa Marfrig. 44. Feitos esses esclarecimentos, passo à análise do mérito dos recursos. 2 II. ANÁLISE DO RECURSO VOLUNTÁRIO 3 II.1. MÉRITO: DIFERENÇA DE GANHO DE CAPITAL APURADA NA AQUISIÇÃO DA SEARA E DA ZENDA 45. A Recorrente MARFRIG sustentou que a DRJ estaria equivocada no que diz respeito à legitimidade da realização do ajuste do preço de venda, no valor de R$ 2.350.162.000,00. Segundo alegou, a compreensão efetiva da operação dependeria (i) do entendimento correto “dos conceitos de preço e assunção de dívidas” e (ii) da mutação dos valores desses elementos entre 07/06/2013, data do contrato, e 30/09/2013, quando teria sido concluída a operação. 46. A Recorrente MARFRIG juntou aos autos os Anexos 2.2.3 e 2.3.3 do Contrato firmado com a JBS para a venda dos negócios Seara e Zenda (fls. 2.043/2.045). De acordo com esses documentos as dívidas transferidas à adquirente seriam as seguintes: Fl. 11732DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 29 47. Porém, embora uma análise simplista dos valores pudesse indicar uma assunção de dívida de R$ 5,85 bi, a Recorrente MARFRIG afirma que a realidade é que as únicas dívidas que teriam sido assumidas pela adquirente seriam aquelas de sua própria titularidade. Isso seria comprovado pelos seguintes elementos: (i) demais previsões do Contrato de Compra e Venda, (ii) Termo de Fechamento de 30/09/2013, que não teria sido analisado pela Fiscalização, (iii) lançamentos contábeis da Recorrente MARFRIG e (iv) informações prestadas pela JBS em diligência a respeito das dívidas por ela assumidas. 48. No âmbito das demais previsões contratuais, a Recorrente MARFRIG destacou que o instrumento firmado permitiria a realização de diversos ajustes entre a data da assinatura (07/06/2013) e o fechamento efetivo da operação (30/09/2013). 49. Nesse sentido, o Termo de Fechamento de 30/09/2013 comprovaria a realização desses ajustes no caso da Seara (fls. 1.436/1.531). As cláusulas 3.5 e 3.6 trataram de ajuste no valor de R$ 234.246.000,00 em função de diferenças no capital de giro da Seara, tendo a MARFRIG concordado com a assunção de “menos dívidas no fechamento”. Tendo em vista esses e outros ajustes, os Anexos 2.2.3 e 2.3.3 do Contrato de Compra e Venda teriam sido substituídos pelo Apêndice 4.2 do Termo de Fechamento: Fl. 11733DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 30 50. De acordo com a Recorrente, referido Apêndice 4.2 traria o seguinte (fls. 1.518): 51. Porém, desse montante, somente os itens “MRFG já transferido” e “MRFG transf em 30/09” é que corresponderiam, efetivamente, a dívidas financeiras da Recorrente MARFRIG, a serem assumidas pela JBS nos termos do art. 299 do Código Civil. 52. De acordo com as informações apresentadas pela JBS e pela análise contábil, ficaria evidente que as únicas dívidas de fato assumidas pela adquirente seriam aquelas cuja devedora era a Recorrente MARFRIG. As dívidas da Seara, BRF e Zenda, indicadas no Apêndice 4.2, nunca teriam sido lançadas no balanço da MARFRIG, sendo dívida daquelas pessoas jurídicas. Portanto, Fl. 11734DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 31 tais obrigações teriam sido transferidas como consequência natural da concretização do negócio, mas não como objeto da relação de troca prevista no Contrato de Compra e Venda. Não sendo dívida titularizada pela MARFRIG, sequer poderia, nos termos do art. 299 do Código Civil, ter sido prevista a sua transferência para a JBS. 53. Nesse sentido, entendo que a Recorrente demonstrou a legitimidade do ajuste no preço realizado na apuração do ganho de capital. 54. Inicialmente, vale destacar que cabe à Fiscalização determinar a matéria tributável (art. 142 do CTN) e instruir o Auto de Infração com os “elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito” (art. 9º do Decreto nº 70.235/72). Ou seja, ao invés de considerar o montante genericamente informado no contrato – o qual estava sujeito a ajustes no fechamento, como já demonstrado – deveria ter diligenciado junto às pessoas jurídicas relativas aos negócios Seara e Zenda para que comprovassem a origem da dívida e esclarecessem se a Marfrig seria ou poderia vir a ser responsabilizada pelo seu adimplemento, comprovando o benefício – ainda que indireto – que poderia advir da assunção daquelas dívidas. 55. Assim, caberia à Fiscalização demonstrar a pertinência da Recorrente MARFRIG nas referidas dívidas dos negócios Seara e Zenda, o que a meu ver não foi feito. Por outro lado, a Recorrente trouxe aos elementos suficientes para justificar o ajuste no preço da operação, demonstrando por meio de documentação comprobatória – não infirmada nas diligências – que se refere a dívidas titularizadas pela Seara e pela Zenda. Por isso, entendo que não se pode falar num ganho daquela na operação. Como se sabe, em regra, deve ser preservado o princípio da entidade, segundo o qual não se admite que o resultado contábil ou fiscal de uma pessoa jurídica impacte os lançamentos de outra, ainda que se trate de controladora e controlada, vez que cada uma delas é autônoma. Nesse sentido: TRANSFERÊNCIA DE ATIVOS, PASSIVOS, RECEITAS E DESPESAS ENTRE PESSOAS JURÍDICAS DISTINTAS. COMPENSAÇÃO DE CONTAS. INOBSERVÂNCIA DO PRINCÍPIO DA ENTIDADE. Em respeito ao Princípio da Entidade não é possível admitir que o resultado contábil e fiscal de uma empresa seja impactada em contrapartida por lançamentos efetuados por outra empresa, sendo certo que cada qual deve manter seus livros fiscais/contábeis e demonstrações financeiras próprias, exatamente, para que se possa efetuar a devida apuração de resultado contábil e fiscal de cada uma. A ausência de documentação suporte que justifique a ocorrência sistemática de transferências e ajustes entre empresas justifica o lançamento fiscal. (Acórdão nº 1201-001.597, Rel. Cons. Luis Fabiano Alves Penteado, Sessão de 22/03/2017) 56. Ou seja, caberia à Fiscalização analisar os impactos das transações nas pessoas jurídicas envolvidas na operação, cuja redução de dívida poderia representar um ganho destas últimas, mas não da Recorrente MARFRIG. Novamente, as duas diligências realizadas não infirmaram a documentação trazida para demonstrar de que forma a Recorrente MARFRIG teria sido beneficiada pela assunção da dívida registrada nas suas então controladas. Fl. 11735DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 32 57. No primeiro relatório conclusivo, a Unidade de Origem mencionou o seguinte sobre o suposto benefício da MARFRIG: 58. Veja-se que se trata de benefício eventual e indireto, não tendo sido demonstrado pela Fiscalização que houve redução de passivo da Marfrig para fins de inclusão das dívidas no preço do negócio e apuração do ganho de capital. 59. Sobre esse ponto, o segundo relatório de diligência destacou o seguinte: Desta forma, a empresa esclarece que o passivo correspondente às dívidas da Seara e da Zenda foram transferidas de forma integral à JBS no momento da alienação. Isto somente vem a corroborar o fato de que as dívidas foram transferidas em seu total, não tendo havido exceções, e que o valor da venda era realmente de R$ 5,85 bilhões e não de R$ 3,7 bilhões como alega a diligenciada. 60. Novamente, não se discute a transferência das dívidas da Seara e da Zenda, mas sim os supostos benefícios daí decorrentes para a MARFRIG, o que não se demonstrou. 61. Nas suas Contrarrazões (fls. 2.092/2.125), a PGFN também alega que este Carf já teria se manifestado em situação similar, no Acórdão nº 1201-002.134 (Rel. Cons. Eva Maria Los, Sessão de 12/04/2018), que por coincidência teve como objeto a alienação do negócio Seara, da Cargill Agricola S/A para a Recorrente MARFRIG. 62. Analisando o voto proferido pela Ilma. Relatora daquele acórdão, verifico que foi considerada para a conclusão a existência de uma coincidência de informações, tanto na vendedora (Cargill) quanto na compradora (MARFRIG), a respeito do valor total da operação. 58. Ainda o TVF descreve que a Cargill alegou que a Dívida Operacional de US$193.782.999 não foi assumida pela compradora, por isso, não integrou o preço de venda; US$193.782.999, mas o Autuante entendeu que a compradora assumiu, sim, essa dívida, portanto, tomou como preço de venda o total de US$900.000.000,00, pois a Cargill Agrícola fez constar em seu relatório Anual de 2009 que: "O valor da transação foi de US$ 899,0 milhões, sendo US$ 705,2 milhões em moeda e US$ 193,8 milhões em assunção de endividamento.” 59. Bem como a Marfrig, nos Fatos Relevantes, págs. 2.955/2.957, já transcritos neste voto! 63. Neste caso, porém, a adquirente JBS adequou o valor da operação nas suas demonstrações financeiras, como já transcrito acima, estando o montante de acordo com o que foi informado à fiscalização e à sua contabilidade. Entendo, portanto, que mesmo se aplicado o mesmo standard probatório exigido naqueles autos, a conclusão deste caso não seria a mesma, vez que inexistentes os mesmos elementos de prova. Fl. 11736DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 33 64. Portanto, entendo que assiste razão à Recorrente MARFRIG no que diz respeito ao ajuste de preço de venda realizado, sendo improcedente a glosa feita pela Fiscalização. 65. Ainda, a DRJ desconsiderou os ajustes classificados como outras adições (“baixa de outros resultados abrangentes”, no valor de R$ 622.699.000,00) e exclusões (“transferência de outras dívidas” e “baixa do ágio”), com a seguinte fundamentação: Em relação à adição efetuada pela contribuinte (denominada "Baixa de outros resultados abrangentes"), no montante de R$ 622.699.131,48 (que aumentou o ganho de capital por ela apurado), a impugnante não traz nenhuma alegação, nem demonstração, nem comprovação. Dessa forma, deve ser desconsiderada da apuração a ser feita nesta decisão. Principalmente porque sua aceitação seria prejudicial à contribuinte, pois a fiscalização, em sua apuração, não considerou esse valor, de modo que, caso fosse considerada nesta decisão, estaríamos agravando a exigência, o que não é permitido às Delagacias de Julgamento. Quanto às exclusões efetuadas pela contribuinte (que diminuiram o ganho de capital) ela simplesmente afirma que o montante de R$ 201.259.850,00 ("Transferência de outras dívidas") refere-se à "transferência do título a pagar à BRF conforme descrita na nota n° 20(a) " e que o montante de R$ 43.325.604,26 ("Baixa do ágio") refere-se ao "Ágio das subsidiárias União Frederiquense, Secculum, Seara Holding Europe BV e Athena Alimentos S.A., que estavam registrados na Controladora - Marfrig Global Foods S.A.". No entanto, esses valores não podem ser aceitos, visto que a contribuinte não comprova essa dedutibilidade, nem em sua impugnação, nem com a apresentação do Laudo Técnico da BDO RCS Auditores Independentes SS. 66. Os referidos ajustes feitos pela Recorrente, considerados em sua totalidade, representaram um aumento no ganho de capital apurado. Assim, mesmo que improcedentes, não levariam a qualquer exigência tributária. Tanto que, em seu Recurso Voluntário, a Recorrente destacou que esses aspectos sequer foram objeto de impugnação (fls. 2.036/2.037): Item 3 (Outras Adições e Exclusões), constam do final da fl. 1987 indo até a fl. 1988 do processo digital, o qual inclusive sequer havia sido objeto de contestação na impugnação, posto que a não consideração de seu valor global pela autoridade lançadora para apuração do ganho de capital, teve efeito favorável a Recorrente para apuração do ganho de capital, como bem assentou a decisão da DRJ. 67. Sendo assim, uma vez que referido aspecto não foi objeto do Recurso Voluntário, devem ser mantidas as conclusões da DRJ sobre esses outros ajustes. 68. Desse modo, entendo que devem ser acolhidas as razões recursais, com o cancelamento da autuação. Fl. 11737DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 34 4 III. RAZÕES DE RECURSO DE OFÍCIO 69. Como relatado, o acórdão recorrido deu provimento à Impugnação apresentada, para (i) majorar o custo contábil baixado considerado na apuração do ganho de capital, reduzindo o montante tributável, (ii) reconhecer a necessidade de ser compensado o montante cobrado com os prejuízos fiscais e a base de cálculo negativa de CSLL, (iii) cancelar a qualificação da multa de ofício e (iv) excluir a responsabilidade tributária dos senhores MARCOS MOLINA e MÁRCIA DOS SANTOS. Veja-se os valores mantidos e exonerados pela DRJ (fls. 2.009): 70. Passo, a seguir, a analisar referida decisão. 5 III.1. CUSTO CONTÁBIL CONSIDERADO NA BAIXA DOS ATIVOS RELACIONADOS AO NEGÓCIO SEARA PARA APURAÇÃO DO GANHO DE CAPITAL 71. A respeito do montante baixado dos investimentos na venda das pessoas jurídicas relacionadas ao negócio Seara, houve divergência entre a apuração do contribuinte e da Fiscalização: enquanto esta última considerou um valor de R$ 2.107.205 mil, a Marfrig utilizou o montante de R$ 3.090.962 mil. A DRJ considerou correto o valor indicado pela Marfrig, dando provimento à Impugnação, pelos seguintes fundamentos: Baixa no investimento da Seara nos montantes de R$ 3.090.962 mil (contribuinte) e R$ 2.107.205 mil (fiscalização) Primeiramente, cumpre destacar que o valor de R$ 2.107.205.000,00, considerado pela fiscalização como baixa no investimento da Seara, foi informado e demonstrado pela contribuinte na Nota Explicativa 12.2 (fl. 72), conforme a seguir sintetizado (em R$ mil) Considerando o fato de a contribuinte haver informado, na Nota Explicativa 12.4 (fls. 72/74), que a baixa no investimento da Seara seria de R$ 3.090.962 mil, a contribuinte foi intimada a esclarecer o motivo da diferença de R$ 983.757 mil (Termo de Intimação Fiscal de fls. 524/525). Fl. 11738DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 35 Em sua resposta de fls. 527/529, a contribuinte afirmou que o valor correto seria o da Nota Explicativa 12.4 (R$ 3.090.962 mil). No demonstrativo de fl. 536, a contribuinte apresenta, entre outros, os seguintes lançamentos: Novamente intimada (Termo de Intimação de fls. 538/539), a contribuinte apresentou a resposta de fls. 540/542, esclarecendo que (destaques da contribuinte): No que se refere aos dados constantes nas planilhas anexas, a Contribuinte esclarece que: 1) A Pine Point foi uma empresa constituída com a finalidade de efetuar a reorganização societária das empresas envolvidas na operação de venda Seara. 2) A baixa constante na nota 12.2 referente à empresa Athena Alimentos S.A. não deve ser considerada na composição da Baixa de investimento da Seara Brasil. A Athena Alimentos S.A. era uma empresa da Marfrig que foi entregue à Seara Alimentos S/A em momento anterior a operação de venda, a fim de quitar um passivo existente entre estas empresas. Dessa maneira, o valor de R$ 790.528 milhões relativo à baixa da Athena NÃO integra diretamente, o cálculo de ganho e perda na baixa da Seara. 3) A Marfrig Holdings (Europe) BV, localizada na Holanda, detinha participação societária (99,90%) da Babicora Holding Participações LTDA, a qual foi vendida para a Marfrig e posteriormente repassada para a Pine Point a título de capitalização, a fim de viabilizar a operação de venda da Seara. Como sua detentora era estrangeira (investimento indireto), não foi indicada sua baixa na Nota Explicativa 12.2, tendo sido informado apenas o resultado da Equivalência Patrimonial após capitalização da empresa. Conforme controles contábeis, o valor da baixa da Babicora perfaz o montante de R$ 1.774.284. Segue abaixo composição PL Pine Point: Dessa maneira, o valor da baixa de investimentos da Seara (R$ 3.090.962) pode ser assim composto: Fl. 11739DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 36 Em sua impugnação, a contribuinte reitera esses cálculos, apresentando, os razonetes de fls. 1353/1354, demonstrando "os lançamentos contábeis realizados pela Impugnante para retratar a baixa dos ativos alienados no contexto da operação em análise (fl 460)". Na referida fl. 460 consta, em síntese, o seguinte: E complementa sua impugnação afirmando que (fl. 1354): Constata-se claramente por meio do lançamento "4" a baixa de ativos relacionados aos investimentos SEARA, EXCELSIOR, BAUMHARDT E PINE POINT em razão do CONTRATO DE COMPRA E VENDA celebrado, que tiverem como contrapartida lançamento a débito em contra de OUTRAS RECEITAS OPERACIONAIS. Para que fique ainda mais claro, tem-se a mesma demonstração em forma mais cursiva, com identificação das respectivas contas contábeis (fls 456/457): Oportuno esclarecer que a empresa CCKVL Holding BV trata-se da Seara Holding BV Europe. Acerca da Pine Point Participações Ltda. (CNPJ 18.502.619/00001-47), a contribuinte esclarece que: Referida sociedade foi concebida pela Impugnante para congregar as participações de determinadas empresas que pelo CONTRATO DE COMPRA E VENDA firmado, teriam sua titularidade transferida para a JBS/S.A. Fl. 11740DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 37 Foram aportadas nesta pessoa jurídica as participações das empresas Secculum Participações Ltda, União Frederiquense Participações Ltda e Babicora Holding Participações Ltda (Docs. 14, 15 e 16). Apenas para que fiquem claros os steps que culminaram na integralização das participações destas empresas na Pine Point, far-se-á um breve resumo das movimentações societárias ocorridas, fazendo alusão às respectivas alterações contratuais de forma didática e cronológica. PASSO 1 (01.07.2013): Constituição da Pine Point Participações Ltda (Doc. 17); PASSO 2 (09.09.13): Cessão das quotas da Pine Point para a Impugnante (Doc. 18); PASSO 3 (20.09.2013): participação da empresa Babicora Holding Participações Ltda, detida pela Seara Holding Europe BV (antiga CCKVL Holding B.V) é alienada para a Marfrig Holding Europe (Doc. 19) que passa a ser sócia da Babicora juntamente com a Impugnante; PASSO 4 (23.09.2013): Marfrig Holding Europe BV cede sua participação da Babicora para a Impugnante que passa a deter 100% desta investida. No mesmo ato a Impugnante integraliza suas quotas na Pine Point (Doc. 16); PASSO 5 (20.09.2013): Inclusão da Pine como sócia das empresas Secculum Participações Ltda, União Frederiquense Participações Ltda e Babicora Holding (Docs. 14, 15 e 16); PASSO 6 (24.09.2013): Impugnante aporta na Pine Point as cotas por ela detidas nas empresas Secculum Participações Ltda, União Frederiquense Participações Ltda e Babicora Holding Participações Ltda (Doc. 20). E finaliza afirmando que (destaques da impugnante): Na intenção de demonstrar ainda mais solarmente o valor total de custos dos ativos baixados pela Impugnante em função da transação realizada quais sejam, PINE POINT (R$ 2,421 bilhões), EXCELSIOR (R$ 21,2 milhões), BAUMHARDT (R$ 8 milhões) e CCKVL HOLDING BV (Seara Holdings Europe BV) (R$ 640,2 milhões), colaciona-se a presente impugnação os razões contábeis de referidos investimentos (Doc. 21). Os supracitados docs. 14 a 21 encontram-se às fls. 1567/1636. Em síntese, em relação ao valor da baixa considerado pela fiscalização, de (-)R$ 2.107.205.000,00), haveria, segundo a contribuinte, que se fazer os seguintes ajustes:  Excluir o valor de (-)R$ 790.528.000,00, relativo à Athena Alimentos S.A.;  Agregar ao valor da Pine Point Participações, além do valor de R$ 148.103.000,00 (equivalência patrimonial), os valores relativos à Secculum Participações, de (-)R$ 8.427.000,00, e à União Frederiquense, Fl. 11741DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 38 de (-)R$ 786.913.000,00, todos já considerados pela fiscalização (haveria apenas uma consolidação desses valores, sem qualquer alteração, na Pine Point);  Agregar ao valor da Pine Point Participações – além dos valores acima - o valor de (-)R$ 1.774.283.595,00 (fl. 455), relativo à Babicora Holding Participações Ltda. Ou seja, há que se analisar, basicamente, as alegações da impugnante relativas às operações envolvendo a Pine Point Participações e a Babicora Holding Participações. E essas alegações restam comprovadas pelos documentos juntados aos autos. Em especial o doc. 16 (Alteração e Consolidação do Contrato Social da Babicora Holding Participações Ltda., de 23/09/2013, fls. 1582/1590), no qual constam, entre outras, as seguintes informações: "1. A sócia MARFRIG HOLDINGS (EUROPE) B.V., detentora de 1.725.256.699 (um bilhão, setecentas e vinte e cinco milhões, duzentas e cinquenta e seis mil, seiscentas e noventa e nove) quotas da Sociedade, resolve neste ato, retirar-se da Sociedade mediante a cessão e transferência onerosa da totalidade de suas quotas, pelo valor patrimonial da Sociedade, com base no balanço patrimonial da Sociedade encerrado em 31 de agosto de 2013, para a sócia MARFRIG ALIMENTOS S.A. devidamente qualificada, outorgando à MARFRIG ALIMENTOS S.A. e à Sociedade, plena e irrevogável quitação para nada mais exigir em juízo ou fora dele. 2. Em razão da cessão outorgada, a sócia MARFRIG ALIMENTOS S.A. passa a figurar como única sócia da Sociedade, com um total de 1.725.256.700 (um bilhão, setecentas e vinte e cinco milhões, duzentas e cinquenta e seis mil e setecentas) quotas, no valor nominal de R$ 1,00 (um real) cada uma e totalizando o montante de R$ 1.725.256.700,00 (um bilhão, setecentos e vinte e cinco milhões, duzentos e cinquenta e seis mil e setecentos reais). 3. A única sócia MARFRIG ALIMENTOS S.A., legítima proprietária 1.725.256.700 (um bilhão, setecentas e vinte e cinco milhões, duzentas e cinquenta e seis mil e setecentas) quotas, retira-se da sociedade em decorrência da conferência da totalidade de suas quotas, pelo valor patrimonial da Sociedade, com base no balanço patrimonial da Sociedade encerrado em 31 de agosto de 2013, para fins de integralização do aumento de capital realizado na sociedade PINE POINT PARTICIPAÇÕES LTDA. sociedade empresária limitada, inscrita no CNPJ/MF sob n° 18.502.669/0001-47, com seus atos so cietários arquivados na Junta Comercial do Estado de São Paulo (JUCESP) sob NIRE 35.227.706.501, com sede localizada na Cidade de São Paulo, Estado de São Paulo, na Rua Boa Vista, n° 254, 4º andar, sala 422, parte, Centro, CEP 01014-907, neste ato devidamente representada na forma de seus documentos societários, a qual Fl. 11742DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 39 ingressa nessa Sociedade como única sócia e titular da totalidade das quotas anteriormente detidas pela MARFRIG ALIMENTOS S.A., figurando com um total de 1.725.256.700 (um bilhão, setecentas e vinte e cinco milhões, duzentas e cinquenta e seis mil e setecentas) quotas. 4. A PINE POINT PARTICIPAÇÕES LTDA. figurara como única sócia da Sociedade devendo-se a pluralidade de sócios ser recomposta no prazo máximo de 180 (cento e oitenta) dias contados da presente data nos moldes do inciso IV do artigo 1.033 da lei 10.406/02 ("Código Civil Brasileiro")". E o doc. 20 (Alteração e Consolidação do Contrato Social da Pine Point Participações, de 24/09/2013, fls. 1621/1632), no qual constam, entre outras, as seguintes informações: "1. Considerando que o capital social da Sociedade encontra-se totalmente subscrito e integralizado em moeda corrente nacional no valor de R$ 1.000,00 (mil reais), dividido em 1.000 (mil) quotas, com valor nominal de R$ 1,00 (um real) cada, os sócios decidem neste ato, por unanimidade, aumentar o capital social da Sociedade no valor de R$ 2.569.702.665,00 (dois bilhões, quinhentos e sessenta e nove milhões, setecentos e dois mil, seiscentos e sessenta e cinco reais), no valor nominal de R$ 1:00 (um real) cada uma, a favor da sócia MARFRIG ALIMENTOS S.A., totalmente subscritas e integralizadas da seguinte forma: (…) c) R$ 1.774.283.595,00 (um bilhão, setecentos e setenta e quatro milhões, duzentos e oitenta e três mil, quinhentos e noventa e cinco reais), correspondentes ao valor patrimonial da BABICORA (qualificada abaixo), com base em seu balanço patrimonial encerrado em 31 de agosto de 2013, mediante a conferencia pela sócia MARFRIG ALIMENTOS S.A. de 1.725.256.700 (um bilhão, setecentas e vinte e cinco milhões, duzentas e cinquenta e seis mil e setecentas) quotas da sociedade BABICORA HOLDING PARTICIPAÇÕES LTDA. ("BABICORA"), sociedade limitada, com sede na Cidade de São Paulo, Estado de São Paulo, na Avenida Chedid Jafet n° 222, Bloco A, 3º Andar/Sala 03, CEP 04551-065, Vila Olímpia, inscrita no CNPJ/MF sob n° 11.164.866/0001-54, com seu Contrato Social devidamente arquivado perante a Junta Comercial do Estado de São Paulo ("JUCESP") sob NIRE 35.2.2360812-1, passando a Sociedade a ser sócia quotista da BABICORA na mesma proporção das quotas conferidas para o presente aumento de capital". Assim, comprova-se que a Pine Point Participações era a única sócia da Babicora Holding Participações (sendo o capital social de R$ 1.774.283.595,00) antes da venda da Seara para a JBS. Destaque-se que o valor de R$ 1.774.283.595,00 também pode ser confirmado pelos lançamentos constantes da fl. 455. Fl. 11743DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 40 Conseqüentemente, comprova-se o valor da baixa da Pine Point Participações como sendo R$ 2.421.600.391,59, relativo à soma dos valores relativos à equivalência patrimonial e à baixa dos valores relativos à Secculum Participações, à União Frederiquense e à Babicora Holding Participações. Dessa forma, por todo o exposto, há que se considerar como baixa no investimento da Seara, o valor de R$ 3.090.961.857,61, conforme alega a impugnante, a seguir demonstrado: 72. De fato, analisando o Termo de Verificação Fiscal (fls. 1.253), verifico que foi considerado um total de investimentos baixados de R$ 2.263.207 mil, distribuídos da seguinte forma entre as pessoas jurídicas: 73. Retirando o valor da Columbus (R$ 156.002 mil), pessoa jurídica envolvida na venda do negócio Zenda, chega-se a um montante de R$ 2.107.205 mil relativo aos investimentos baixados por conta da venda do negócio Seara. De fato, o último valor foi indicado pela própria Marfrig durante a Fiscalização, em resposta de 28/09/2018 (fls. 547), correspondendo à Nota Explicativa 12.2 das suas Demonstrações Financeiras do exercício findo em 31/12/2013 (fls. 72). 74. Porém, em resposta anterior de 12/04/2018 (fls. 527/529), a MARFRIG já havia esclarecido o motivo do valor presente na Nota Explicativa 12.2 não poder ser utilizado, defendendo a aplicação do valor indicado na Nota Explicativa 12.4 (R$ 3.090.962 mil – fls. 74). 75. A correção do montante de R$ 3.090.961.857,61, como bem demonstrado pela DRJ, decorre: (i) da exclusão da pessoa jurídica Athena da operação e (ii) da reorganização societária prévia à operação, feita por meio da pessoa jurídica Pine Point Participações, cujo valor contábil correto é de R$ 2.421.600.391,59, relativo à soma dos valores relativos à equivalência patrimonial Fl. 11744DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 41 e à baixa dos valores relativos à Secculum Participações, à União Frederiquense e à Babicora Holding Participações. 76. Portanto, concordo com as razões da DRJ, devendo ser negado provimento ao Recurso de Ofício neste ponto. 6 III.2. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS E BASE DE CÁLCULO NEGATIVA DE CSLL DE PERÍODOS ANTERIORES 77. O acórdão da DRJ também reconheceu o equívoco da Fiscalização no que diz respeito à ausência de compensação do prejuízo fiscal e da base de cálculo de CSLL disponível, relativos a períodos de apuração anteriores: DA COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS E BASES DE CÁLCULO NEGATIVA DA CSLL Na presente autuação, a fiscalização, corretamente, deduziu do valor tributável o prejuízo fiscal (R$ 520.695.895,39) e a base de cálculo negativa da CSLL (R$ 402.429.358,82) do período (ano-calendário 2013). No entanto, como bem observa a impugnante, a fiscalização deixou de compensar o resultado obtido com o prejuízo fiscal e a base de cálculo negativa da CSLL de períodos anteriores (limite de 30% do resultado do período ajustado após a autuação). Destaque-se que, conforme pesquisa (em anexo) ao sistema SAPLI da RFB (que controla as compensações de resultados negativos), a contribuinte tinha, no ano- calendário de 2013, saldo suficiente para tanto: R$ 1.807.962.420,07 de saldo de prejuízos fiscais de períodos anteriores e R$ 1.820.212.842,29 de saldo de base de cálculo negaiva de períodos anteriores. Dessa forma, há que se efetuar essa compensação (tópico seguinte), nos termos dos artigos 15 e 16 da Lei nº 9.065/95. 78. A partir desse entendimento, a DRJ recalculou o IRPJ e a CSLL devidos, abatendo os créditos disponíveis informados no sistema Sapli, obedecendo o limite legal de 30% (trinta por cento). Referido procedimento está de acordo com a jurisprudência deste Carf: COMPENSAÇÃO DE BASES NEGATIVAS. Havendo saldos compensáveis de bases negativas de períodos anteriores, e tendo o sujeito passivo indicado na declaração de rendimentos a sua utilização para compensação com os resultados positivos, devem ser aproveitados os saldos ainda não utilizados, para fins de compensação com a matéria tributável apurada em procedimento de ofício. (Acórdão nº 1102- 000.857, Rel. Cons. João Otávio Oppermann Thome, Sessão de 10/04/2013) IRPJ E CSLL. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS E BASES NEGATIVAS. PRECLUSÃO. Ao proceder o lançamento de ofício, a ação fiscal deve levar em conta os prejuízos apurados e declarados pelo contribuinte, compensando-os. Fl. 11745DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 42 (Acórdão nº 1301-000.756, Rel. Cons. Edwal Casoni de Paula Fernandes Junior, Sessão de 23/11/2011) 79. Portanto, entendo que é o caso de manter o entendimento manifestado pela DRJ. 7 III.3. QUALIFICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO 80. A Fiscalização qualificou a multa de ofício, com fundamento no art. 44, I e § 1º, da Lei nº 9.430/96, sustentando a configuração de sonegação, conduta descrita no art. 71, I, da Lei nº 4.502/64. Após transcrever os dispositivos legais e tratar da conceituação geral do dolo, trouxe a seguinte descrição dos fatos constatados que levaram à qualificação da multa: Desse modo, também do ponto de vista contábil não é possível atribuir aos atos aqui narrados um outro adjetivo diferente de Sonegação, pois a MARFRIG abateu intencionalmente da base de cálculo do Ganho de Capital as dívidas das empresas SEARA e ZENDA, transferindo para o Fisco um ônus indevido, almejando com isso evadir-se da obrigação de pagar tributos. Vale ainda ressaltar que em sua DIPJ AC 2013, o Contribuinte nada informou na linha de Ganho de Capital, que é uma receita não operacional, mas informou o valor calculado por ele como sendo o Ganho de Capital a declarar, na linha outras despesas operacionais junto com diversos outros valores. Com isso, manobrou para ocultar o valor declarado, e que é muito menor que o real valor, de uma análise pelo Fisco em sua DIPJ. Portanto, pode-se concluir que as definições de sonegação que dão suporte à qualificação da multa implicam ações tendentes a provocar a emissão de um juízo errôneo por parte da autoridade fiscal. Age, portanto, com dolo, justificando a qualificação da multa nos termos da própria Lei n° 9.430, de 1996. [...] Considerando que os valores informados incorretamente e dolosamente pelo Contribuinte, visaram reduzir o montante dos tributos devidos (o que caracteriza a sonegação), correta a aplicação da multa qualificada. 81. A partir da fundamentação adotada, verifica-se que foram duas as alegações que deram origem à qualificação da conduta como sonegação: (i) o fato de a Marfrig “intencionalmente” ter abatido da base de cálculo do ganho de capital as dívidas das pessoas jurídicas relativas aos negócios Seara e Zenda e (ii) a ausência de informação da operação na linha referente ao ganho de capital da DIPJ do ano-calendário de 2013, sendo que com isso “manobrou para ocultar o valor declarado”. 82. De acordo com o art. 71, I, da Lei nº 4.502/64, a sonegação se verifica quando há ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador, sua natureza ou circunstâncias materiais. O principal aspecto para a caracterização da sonegação é o elemento dolo: deve ser Fl. 11746DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 43 demonstrado que o sujeito passivo, tendo consciência da ilicitude do ato, ainda assim o praticou intencionalmente. 83. A respeito da qualificação da multa de ofício, este Carf vem entendendo que a qualificação da multa depende da comprovação de condutas que transbordem a própria infração fiscal, a fim de revelar, “de forma clara e precisa, o evidente intuito de fraude” (Acórdão nº 9101- 001.980, Rel. Cons. Valmir Sandri, Sessão de 23/09/2014). Nesse sentido, a Súmula Carf nº 14 consolidou o entendimento de que “a simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo.” 84. A respeito do primeiro fato, verifico que se trata do próprio pressuposto da infração fiscal: a Fiscalização entendeu que o preço praticado na venda do negócio Seara não poderia ter sido reduzido pela assunção de dívidas das próprias pessoas jurídicas transferidas. Trata-se, assim, de divergência a respeito da interpretação da legislação fiscal que deu origem à própria infração, sem significar qualquer ato doloso por parte do sujeito passivo para impedir ou retardar o conhecimento do fato gerador ou de suas circunstâncias. 85. No caso do segundo fato citado, embora tenha informado de forma equivocada o valor na sua DIPJ, efetivamente houve a sua indicação, com o efetivo desdobramento e justificativas quando solicitado pela Fiscalização. Vale esclarecer que o montante apurado pela Marfrig como ganho de capital compôs a Linha 43 da Ficha 6A da DIPJ: 86. Portanto, houve a efetiva declaração do montante, ainda que de forma equivocada o valor tenha sido classificado como “outras receitas operacionais” e não na linha correta. 87. Também não houve qualquer indicação de que esse fato tenha sido praticado de forma dolosa – que poderia ser demonstrado por sua reiteração ou outros elementos de prova – Fl. 11747DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 44 sendo que a qualificação da multa com base neste fato significaria concluir que toda informação errônea em DIPJ é feita com objetivo fraudulento. Este foi o entendimento da DRJ: Em segundo lugar, há que se destacar que para a qualificação da multa exige-se que o contribuinte tenha agido com dolo (como observa a própria fiscalização), comprovação cujo ônus cabe a quem alegar (ou seja, à fiscalização). E não há, no caso em tela, comprovação nesse sentido. Meras conjecturas não são suficientes para a qualificação da multa de ofício. 88. Portanto, por concordar com o acórdão recorrido neste ponto, entendo que é caso de ser negado provimento ao Recurso de Ofício. 8 III.4. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA ATRIBUÍDA AOS SENHORES MARCOS MOLINA E MÁRCIA DOS SANTOS 89. A Fiscalização atribuiu responsabilidade tributária aos senhores MARCOS MOLINA e MÁRCIA DOS SANTOS, com fundamento no art. 135, III, do CTN, com base nas seguintes razões (fls. 1.272/1.273): É aplicável ao caso, o artigo 135, III, do CTN em face dos sócios da fiscalizada serem responsáveis por atos praticados com infração de lei ou excesso de poderes, porquanto apresentaram declarações artificiais para se eximir de recolhimento de tributos incidentes sobre ganho de capital. Assim, sem prejuízo das consequências atinentes à esfera penal, impõe-se a responsabilização dos sócios que participaram das transações, à época dos fatos geradores. Em decorrência de serem os representantes das pessoas jurídicas, essas pessoas possuíam os poderes administrativos (e decisórios) sobre atos praticados em nome da empresa, incluído o artifício doloso, demonstrado por esta fiscalização, para redução dos tributos devidos. Pelo exposto, foram lavrados os Termos de Sujeição Passiva Solidária para os seguintes contribuintes, com base no art. 135, III do CTN: [...] Todos os ex-sócios da SEARA e ZENDA que aparecem no Contrato (doc.05.1) foram os responsáveis pelas operações de venda das participações e pela dedução indevida das dívidas das empresas na base de cálculo do IRPJ e CSLL, conforme comprovam as cópias das Atas das AGEs e demais documentos anexados ao processo. Os dois ex-sócios citados aparecem em todas as AGEs da MARFRIG, bem como no Contrato de Compra e Venda (doc.05.1) e no Contrato Social da MARFRIG (doc.08). Não há, portanto, como deixar de incluir os ex-sócios das empresas SEARA e ZENDA como responsáveis solidários do planejamento tributário abusivo aqui Fl. 11748DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 45 descrito e analisado, tendo em vista sua participação direta e aprovação junto às reuniões relativas às operações 90. Como se sabe, para aplicação do art. 135, III, do CTN não basta a indicação da circunstância que levou à falta de recolhimento do tributo e à constatação da infração. É necessária a comprovação de ato específicos dos administradores que comprovem os ilícitos praticados. Nesse sentido, o E. STJ firmou a seguinte tese vinculante no REsp 1.101.728/SP (Rel. Min. Teori Zavascki, DJ 11/03/2009): A simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa. 91. De igual forma, a Súmula nº 430 do STJ prescreve que “o inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sócio- gerente”. 92. Portanto, para a aplicação do art. 135, III, do CTN é fundamental avaliar se há prova dos atos ilícitos que transbordem a falta de recolhimento do tributo, conforme precedentes deste Carf: RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135 DO CTN. FALTA DE RECOLHIMENTO DE TRIBUTO. IMPOSSIBILIDADE. NECESSIDADE DE INDICAÇÃO OBJETIVA DAS IRREGULARIDADES PRATICADAS A interpretação sistemática do CTN faz com que a mera falta de recolhimento de tributos se subsuma ao art. 134 do CTN, enquanto o art. 135 do CTN abarque as hipóteses de infração a leis diversas daquelas que instituem obrigações tributárias principais. A Autoridade Fiscal deve indicar de forma objetiva as irregularidades supostamente praticadas, comprovar os atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto e demonstrar o nexo causal entre as irregularidades e a obrigação tributária delas decorrente. (Acórdão nº 1301-006.253, Rel. Cons. Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic, Sessão de 13/12/2022) RESPONSABILIDADE. NÃO APLICAÇÃO. Para que haja a responsabilização nos termos dos artigos 124 e 135 do CTN é necessário que o auto de infração descreva especificamente a conduta que revele a hipótese descrita em tais dispositivos legais. (Acórdão nº 1401-001.790, Rel. Cons. Livia de Carli Germano, Sessão de 15/02/2017) 93. Como mencionado quando da análise da qualificação da multa, não ficou demonstrada a fraude na DIPJ apresentada, o que demandaria uma prova específica do dolo dos sócios-administradores. Não havendo elementos para se concluir pelo objetivo fraudulento da atuação dos sócios-administradores, deve se presumir que houve um erro no preenchimento da declaração. Portanto, entendo que são insuficientes as alegações trazidas pelo TVF para atribuir referida responsabilidade. Fl. 11749DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 46 94. Vale transcrever, nesse sentido, a manifestação da DRJ, que cancelou a responsabilização dos sócios-administradores da MARFRIG: Entendo que a responsabilização acima determinada é pessoal dos representantes/mandatários, sócios ou administradores das pessoas jurídicas envolvidas (o que excluiria a responsabilidade da contribuinte, pessoa jurídica), mas decorreria, exclusivamente, de atos praticados dolosamente por essas pessoas físicas com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. A intenção desse artigo é responsabilizar os administradores de pessoas jurídicas que agem em interesse próprio, de forma contrária aos interesses da sociedade. O administrador só poderá ser responsabilizado se houver praticado o fato gerador da obrigação tributária de forma que exceda os seus poderes de administração. Caso contrário, a responsabilidade tributária será da pessoa jurídica, pois, se o ato do administrador não contrariar as normas societárias, contrato social ou estatuto, quem está praticando o ato será a sociedade, e não o administrador. Destaque-se que quem se beneficiou diretamente da redução indevida do ganho de capital foi empresa Marfrig, e não os seus sócios (ou, no caso, os sócios da sócia MMS Participações). Mesmo considerando a redução indevida do ganho de capital uma "infração a lei", essa infração foi praticada pela pessoa jurídica e não pelos sócios. O Direito pátrio separa a pessoa jurídica e a pessoa física, não podendo suas responsabilidades serem confundidas, sob pena de se destruir um dos importantes pilares da ciência jurídica, que é a autonomia da pessoa jurídica como um ente próprio, que se destaca da pessoa de seus sócios. É regra em nosso ordenamento jurídico que as pessoas jurídicas têm existência distinta da dos seus membros, e a possibilidade de se desconsiderar esta distinção é uma exceção. A atribuição da responsabilidade pelo crédito tributário a terceiro é sempre excepcional, e por isto as normas devem ser interpretadas com cautela, evitando sua ampliação, notadamente por ser o direito tributário pautado pela legalidade estrita, não admitindo extensões e analogia. Por fim, há que se destacar a Súmula nº 430 do STJ (mencionada pela contribuinte), que dispõe que "O inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sócio-gerente". Dessa forma, por todo o exposto, não procede a responsabilização do Sr. Marcos Antônio Molina dos Santos e da Sra. Márcia Aparecida Pascoal Marçal dos Santos, que devem, portanto, ser excluídos do pólo passivo da obrigação tributária. 95. Assim, por concordar com a referida decisão, entendo que é o caso de negar provimento ao Recurso de Ofício neste ponto. Fl. 11750DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-008.271 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16561.720092/2018-60 47 9 IV. DISPOSITIVO 96. Diante do exposto, conheço do Recurso Voluntário e lhe dou provimento, para cancelar integralmente a autuação fiscal. 97. Ainda, conheço do Recurso de Ofício e lhe nego provimento. Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros Fl. 11751DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 I. Síntese da autuação e resultados das diligências elaboradas 2 II. Análise do Recurso Voluntário 3 II.1. Mérito: diferença de ganho de capital apurada na aquisição da Seara e da Zenda 4 III. Razões de Recurso de Ofício 5 III.1. Custo contábil considerado na baixa dos ativos relacionados ao negócio Seara para apuração do ganho de capital 6 III.2. Compensação de prejuízos fiscais e base de cálculo negativa de CSLL de períodos anteriores 7 III.3. Qualificação da multa de ofício 8 III.4. Responsabilidade tributária atribuída aos senhores Marcos Molina e Márcia dos Santos 9 IV. Dispositivo

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Numero do processo: 13227.721956/2019-54
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 09 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Mon Jul 06 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2016 CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não se configura cerceamento de defesa quando nos autos se encontram a descrição dos fatos, o enquadramento legal e todos os elementos que permitem ao contribuinte exercer seu pleno direito de defesa. OMISSÃO DE RECEITAS DA ATIVIDADE RURAL. LANÇAMENTO DE OFÍCIO A omissão de receitas da atividade rural, apuradas com base em notas fiscais emitidas pelo contribuinte, implica em lançamento de ofício pela autoridade fiscal. DESPESAS DA ATIVIDADE RURAL NÃO COMPROVADAS. GLOSA. As despesas da atividade rural quando não comprovadas, por meio de documentos legais hábeis e idôneos, a existência e vinculação com a atividade desenvolvida, devem ser glosadas pela autoridade fiscal. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. LANÇAMENTO COM BASE EM DEPÓSITOS BANCÁRIOS. ART. 42 DA LEI Nº 9.430, DE 1996. A presunção em lei de omissão de rendimentos tributáveis autoriza o lançamento com base em depósitos bancários para os quais o titular, regularmente intimado pela autoridade fiscal, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a procedência e natureza dos recursos utilizados nessas operações. PRESUNÇÕES LEGAIS RELATIVAS - DO ÔNUS DA PROVA As presunções legais relativas obrigam a autoridade fiscal a comprovar, tão somente, a ocorrência das hipóteses sobre as quais se sustentam as referidas presunções, atribuindo ao contribuinte o ônus de provar que os fatos concretos não ocorreram na forma como presumidos pela lei. PEDIDO DE DILIGÊNCIA E/OU PERÍCIA. DESNECESSIDADE. INDEFERIMENTO. O pedido de diligências e/ou perícias pode ser indeferido pelo órgão julgador quando desnecessárias para a solução da lide. Imprescindível a realização de diligência e/ou perícia somente quando necessária a produção de conhecimento técnico estranho à atuação do órgão julgador, não podendo servir para suprir omissão na produção de provas.
Numero da decisão: 2201-012.806
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário.. Assinado Digitalmente Weber Allak da Silva – Relator Assinado Digitalmente Marco Aurélio de Oliveira Barbosa – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cleber Ferreira Nunes Leite, Fernando Gomes Favacho (substituto[a] integral), Luana Esteves Freitas, Thiago Alvares Feital, Weber Allak da Silva, Marco Aurelio de Oliveira Barbosa (Presidente).
Nome do relator: WEBER ALLAK DA SILVA

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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2016 CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não se configura cerceamento de defesa quando nos autos se encontram a descrição dos fatos, o enquadramento legal e todos os elementos que permitem ao contribuinte exercer seu pleno direito de defesa. OMISSÃO DE RECEITAS DA ATIVIDADE RURAL. LANÇAMENTO DE OFÍCIO A omissão de receitas da atividade rural, apuradas com base em notas fiscais emitidas pelo contribuinte, implica em lançamento de ofício pela autoridade fiscal. DESPESAS DA ATIVIDADE RURAL NÃO COMPROVADAS. GLOSA. As despesas da atividade rural quando não comprovadas, por meio de documentos legais hábeis e idôneos, a existência e vinculação com a atividade desenvolvida, devem ser glosadas pela autoridade fiscal. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. LANÇAMENTO COM BASE EM DEPÓSITOS BANCÁRIOS. ART. 42 DA LEI Nº 9.430, DE 1996. A presunção em lei de omissão de rendimentos tributáveis autoriza o lançamento com base em depósitos bancários para os quais o titular, regularmente intimado pela autoridade fiscal, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a procedência e natureza dos recursos utilizados nessas operações. PRESUNÇÕES LEGAIS RELATIVAS - DO ÔNUS DA PROVA As presunções legais relativas obrigam a autoridade fiscal a comprovar, tão somente, a ocorrência das hipóteses sobre as quais se sustentam as referidas presunções, atribuindo ao contribuinte o ônus de provar que os fatos concretos não ocorreram na forma como presumidos pela lei. PEDIDO DE DILIGÊNCIA E/OU PERÍCIA. DESNECESSIDADE. INDEFERIMENTO. O pedido de diligências e/ou perícias pode ser indeferido pelo órgão julgador quando desnecessárias para a solução da lide. Imprescindível a realização de diligência e/ou perícia somente quando necessária a produção de conhecimento técnico estranho à atuação do órgão julgador, não podendo servir para suprir omissão na produção de provas.

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INOCORRÊNCIA. Não se configura cerceamento de defesa quando nos autos se encontram a descrição dos fatos, o enquadramento legal e todos os elementos que permitem ao contribuinte exercer seu pleno direito de defesa. OMISSÃO DE RECEITAS DA ATIVIDADE RURAL. LANÇAMENTO DE OFÍCIO A omissão de receitas da atividade rural, apuradas com base em notas fiscais emitidas pelo contribuinte, implica em lançamento de ofício pela autoridade fiscal. DESPESAS DA ATIVIDADE RURAL NÃO COMPROVADAS. GLOSA. As despesas da atividade rural quando não comprovadas, por meio de documentos legais hábeis e idôneos, a existência e vinculação com a atividade desenvolvida, devem ser glosadas pela autoridade fiscal. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. LANÇAMENTO COM BASE EM DEPÓSITOS BANCÁRIOS. ART. 42 DA LEI Nº 9.430, DE 1996. A presunção em lei de omissão de rendimentos tributáveis autoriza o lançamento com base em depósitos bancários para os quais o titular, regularmente intimado pela autoridade fiscal, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a procedência e natureza dos recursos utilizados nessas operações. PRESUNÇÕES LEGAIS RELATIVAS - DO ÔNUS DA PROVA As presunções legais relativas obrigam a autoridade fiscal a comprovar, tão somente, a ocorrência das hipóteses sobre as quais se sustentam as referidas presunções, atribuindo ao contribuinte o ônus de provar que os fatos concretos não ocorreram na forma como presumidos pela lei. Fl. 1533DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 2 PEDIDO DE DILIGÊNCIA E/OU PERÍCIA. DESNECESSIDADE. INDEFERIMENTO. O pedido de diligências e/ou perícias pode ser indeferido pelo órgão julgador quando desnecessárias para a solução da lide. Imprescindível a realização de diligência e/ou perícia somente quando necessária a produção de conhecimento técnico estranho à atuação do órgão julgador, não podendo servir para suprir omissão na produção de provas. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário.. Assinado Digitalmente Weber Allak da Silva – Relator Assinado Digitalmente Marco Aurélio de Oliveira Barbosa – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cleber Ferreira Nunes Leite, Fernando Gomes Favacho (substituto[a] integral), Luana Esteves Freitas, Thiago Alvares Feital, Weber Allak da Silva, Marco Aurelio de Oliveira Barbosa (Presidente). RELATÓRIO 1 - DA AUTUAÇÃO Após ação fiscal, com objetivo de apurar movimentação financeira incompatível e divergências entre os valores das Receitas e Despesas da Atividade Rural com os rendimentos declarados, referentes ao ano calendário de 2016, foi lavrado auto de infração pela prática das seguintes infrações: a) Omissão de rendimentos da atividade rural Fl. 1534DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 3 A partir da análise do livro caixa, em confronto com as notas fiscais eletrônicas de saída, foi constatado a existência de rendimentos auferidos, no montante de R$ 12.914,85, que foram devidamente não escriturados. b) Despesas da atividade rural não comprovadas Também com base no livro caixa apresentado, foram identificadas despesas escrituradas, desprovidas de documentos comprobatórios, ou sem base legal para serem deduzidas. c) Omissão de resultado tributável da atividade rural Considerando que o contribuinte autuado teria informado a existência de parceria rural, na qual possuía participação de 70% da produção, e o Parceiro Proprietário o percentual de 30%, a autoridade fiscal considerou que as despesas deveriam ser apropriadas com base nesta proporção. Assim, foram glosadas 30% das despesas totais, uma vez que se referiam à participação do Parceiro Proprietário. d) Depósitos bancários de origem não comprovadas Após a análise das movimentações financeiras presentes nas contas junto às Instituições financeiras Caixa Econômica, XP Investimento e Banco SICOOB, foi identificado a existência de vários ingressos (depósitos e transferências eletrônicas de terceiros) para os quais não foram encontradas contrapartidas nas contas-correntes do mesmo titular referentes a empréstimos, resgates de investimentos, TED de mesma titularidade, devoluções de TED ou de cheques, de tal forma que permitisse à fiscalização identificar as origens e naturezas destes recursos. Segundo narrado no relatório fiscal (fls. 15/42), o contribuinte teria alegado que os depósitos se referiam a contratos de mútuos e Distribuição de Lucros. No entanto, para os contratos de mútuo, realizados com pessoas jurídicas, além de não escriturados na ECF, não teriam sido apresentados os comprovantes de pagamentos do IOF sobre tais operações. Já com relação à distribuição de lucros, não foi apresentada ECF pela empresa, razão pela qual não há como ser comprovada a existência de lucro a ser distribuído. A apuração dos valores lançados foi demonstrada no Anexo I do relatório fiscal. Foi ressaltado, ainda, que: dos valores (R$ 605.571,50) recebidos da J P TRANSPORTADORA LTDA – EPP (TABELA A), apenas R$ 415.000,00 foram devolvidos (TABELA B). Portanto, R$ 190.571,50 não tiveram sua origem comprovada. Embora, em resposta ao Termo de Intimação Fiscal nº 02, o contribuinte tenha alegado que tratar-se de mútuo financeiro, não há o registro dessa operação na DIRPF. Por tais razões, o rendimento de R$ 190.571,50 foi considerado auferido na data da ocorrência do fato gerador (31/12/2016). Multa de Ofício Foi aplicada a multa de ofício, no percentual de 75%, nos termos do art. 44, inciso I da Lei nº9.430 de 27 de dezembro de 1996. Lei nº9.430 de 27 de dezembro de 1996. Fl. 1535DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 4 2 – DA IMPUGNAÇÃO Em 15/01/2020 foi apresentada impugnação ao lançamento contendo, em síntese, as seguintes alegações:  Nulidade do lançamento, com base na violação ao contraditório e na ampla defesa;  Que não teriam sido cumpridos os requisitos prevista na Portaria RFB n° 2.047/2014, para a obtenção de informações sobre movimentação financeira. Que não se encontra nos autos a prévia e imprescindível RMF - Requisição de Informações sobre Movimentação Financeira cercada das formalidades essenciais para o acesso à movimentação financeira que serviram ao lançamento combatido, maculando-o com a eiva da nulidade formal;  Que a autoridade fiscal não teria realizado a análise individualizada de cada crédito, resultando com isso em ofensa ao princípio da vinculação;  Desconsideração dos documentos apresentados pela autoridade fiscal;  Que o contrato de parceria fixava a contribuição que caberia a cada parceiro em prol da parceria e, portanto, os custos a cada um atribuível. Também restou expressamente definida a forma de partilha dos frutos apurados como resultado da Parceria. Assim, autoridade fiscal não poderia glosar 30 % das despesas, diante da falta de fundamentação legal;  Que a despesa montante de R$ 8.908,94 não poderia ter sido glosada, sob o argumento que não estariam, os documentos comprobatórios respectivos, cercados dos requisitos formais necessários à configuração das despesas em prol da atividade rural;  Que a suposta receita, no montante de R$ 9.040,40, não teria sido efetivamente recebida, a despeito da emissão da nota fiscal;  Que, como a autoridade fazendária submeteu à tributação o resultado apurado via livro caixa após as glosas, deveria arbitrar em 20% das receitas o rendimento tributável, nos termos do Parágrafo 2°, do Art. 18 da Lei 9.250/95;  Que parcela mais significativa dos ingressos às contas do Impugnante tem como origem a distribuição de Lucros ou Dividendos, com o respectivo registro no sistema público de escrituração - SPED;  Que tendo o contribuinte demonstrado a efetiva origem dos depósitos (distribuição de lucros), com concordância da autoridade fazendária, não poderia ela tipificar a hipótese de incidência como omissão por origem não comprovada. A conduta que poderia ser atribuída seria a inobservância da obrigação acessória relativa ao registro da distribuição do lucro em ECF, a qual possui norma tipificadora específica; Fl. 1536DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 5  Que caso o conjunto probatório dos autos comprove que o contribuinte somente tem rendimentos provenientes da atividade rural, deve-se reduzir a quinta parte a base tributável;  Alega que parte dos depósitos (R$ 1.809.000,00) se refere à contratação de mútuos financeiros junto a terceiros cujos valores ingressaram às suas contas correntes;  Parcela dos depósitos de referem à recuperação de despesas antecipadas e de responsabilidade de terceiros as quais arcadas originalmente pelo contribuinte lhe foram ressarcidas. Neste caso em específico o montante do ingresso refere-se a restituição de despesas de aluguel pagas pelo Impugnante em sua totalidade e cuja obrigação era do neto da impugnante;  Que carece de nexo de causalidade para fins de configuração de rendimento tributável a relação entre o depósito e a omissão de receita. Que o Auto de Infração combatido funda-se exclusivamente em presunção que não possui qualquer fundamento fático ;  Que o agente fiscalizador, na qualidade de ente acusador, não produziu nenhuma prova idônea capaz de atestar de forma cabal a omissão de receitas que sustenta;  A Inconstitucionalidade do Artigo 42 da Lei n°. 9.430/96.  Alega violação aos princípios da razoabilidade, do não confisco e da Primazia da Realidade;  Requer o deferimento de perícia contábil para análise dos documentos juntados pela Impugnante no decorrer do procedimento fiscalizatório ; Em 15/09/2020 a 6ª Turma da DRJ05 proferiu acórdão, julgando procedente em parte a impugnação apresentada. Adiante reproduzo os principais trechos da decisão por matéria impugnada: DAS PRELIMINARES. .................................................................................................................................. Considerando que os extratos bancários foram fornecidos pelo próprio contribuinte quando da requisição pela Autoridade Fiscal em resposta ao Termo de Intimação Fiscal de fls. 43 e 45; considerando que existe lei permitindo que a Autoridade Fiscal analise documentos de instituições financeiras, em especial aquela fornecidas pela impugnante; considerando que a contribuinte ainda alegou ofensa a princípios constitucionais e que tal matéria foge à competência da Delegacia de Julgamento, devendo ser discutido na esfera judicial; por tais motivos, rejeito a preliminar de nulidade arguida pela defesa. ................................................................................................................................ Fl. 1537DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 6 Considerando o disposto no Relatório Fiscal, verifica-se que não procede a alegação da contribuinte de que houve a falta de análise individualizada por parte da autoridade fazendária. Ressalte-se também que a lei exige defesa pormenorizada, ou seja, individualizada, das infrações relatadas no Relatório Fiscal. De se rejeitar a preliminar de nulidade, vez que não há qualquer ilegalidade. ............................................................................................................................... Além disto, houve a apuração do quantum exigido, indicando-se os respectivos critérios que sinalizam os parâmetros para evolução do crédito constituído. A fundamentação legal está posta e compreendida pelo autuado, tanto que exerceu seu direito de defesa bem debatendo o mérito do lançamento. A autuação converge para aspecto comum quanto às provas que identificam a subsunção do caso concreto à norma tributante, estando os autos bem instruídos e substanciados para dar lastro a subsunção jurídica efetivada. Os fundamentos estão postos, foram compreendidos e a recorrente exerceu claramente seu direito de defesa rebatendo-os, a tempo e modo, em extenso arrazoado para o bom e respeitado debate. Ante ao exposto, não acolho esta preliminar de nulidade. .................................................................................................................................. Registre-se que o lançamento observou os requisitos contidos no Código Tributário Nacional (CTN), instituído pela Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, e no Decreto nº 70.235, de 1972, permitindo à impugnante identificar os fundamentos da autuação efetuada e, consequentemente, propiciando-lhe todos os meios para manifestar suas razões de defesa. Cabe ainda ressaltar que a fiscalização emitiu vários Termos de Intimação Fiscal para que a contribuinte apresentasse seus esclarecimentos. Cada TIF foi gerado após análise dos documentos apresentados, bem como o período de apuração abrangeu o ano calendário de 2016, portanto, não procede a legação do contribuinte. De se rejeitar a preliminar de nulidade, vez que não há qualquer ofensa ao devido processo legal. .................................................................................................................................. É a própria lei quem define como omissão de rendimentos esta lacuna probatória de origem em face dos créditos em conta. Deste modo, não se tratam de meros indícios de omissão, razão pela qual não há que se estabelecer o nexo causal entre cada depósito e o fato que represente omissão de receita. Ocorrendo os dois antecedentes da norma: créditos em conta e a não comprovação da origem quando o contribuinte tiver sido intimado a fazê-lo, o consequente é a presunção de omissão. Cabe ao sujeito passivo a comprovação da origem dos recursos utilizados nessas operações. Deste modo não há como acolher a preliminar de nulidade suscitada. Fl. 1538DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 7 ................................................................................................................................. Ao contrário do que afirma o impugnante o lançamento não decorre de simples presunção. Temos parte de lançamento que resulta de omissão de rendimentos da atividade rural, glosa de despesa da atividade rural e omissão de resultado da atividade rural. No restante do lançamentos este é baseado em presunção legal. A autoridade fiscal procedeu tal como prescreve a legislação. O extenso e minucioso procedimento fiscal relatado minuciosamente pela autoridade fiscal, refuta o argumento do impugnante de uma suposta carência de profundidade. Face ao exposto rejeito a preliminar de nulidade arguida. ............................................................................................................................... Por oportuno, não há de se falar de violação de princípios quando o procedimento fiscal tem fundamento na legislação em vigor. Inexiste cerceamento de defesa quando resta comprovado nos autos que a autoridade fiscal concedeu ao sujeito passivo, mediante intimações fiscais, oportunidades de apresentação de esclarecimentos e documentos comprobatórios. Afasto, portanto, a preliminar de cerceamento de direito de defesa. Por último no que toca a presunção de inocência, do devido processo legal, da razoabilidade e do inquisitório, e no relativo a multa do princípio da proporcionalidade e aos da ordem econômica. Cabe registrar que não há de se falar de violação de princípios quando o procedimento fiscal tem espeque na legislação em vigor. Inexiste cerceamento de defesa quando resta comprovado nos autos que a autoridade fiscal concedeu ao sujeito passivo, mediante intimações fiscais, oportunidades de apresentação de esclarecimentos e documentos comprobatórios. Ante ao exposto, voto por REJEITAR AS PRELIMINARES arguidas, e passo a seguir a apreciar o mérito do lançamento. DO MÉRITO DA INDEVIDA GLOSA DE PERCENTUAL DE CUSTOS E DESPESAS INCORRIDOS NO REGULAR DESENVOLVIMENTO DE PARCERIA RURAL .................................................................................................................................... Inobstante o arrazoado da autoridade fazendária para glosar 30% das despesas do contribuinte, não identifico motivação jurídica para essa glosa. Especialmente pelo fato de que as despesas concretamente em si não foram apreciadas, nem foram apresentados motivos consistentes para a atribuição do percentual as despesas, no qual foi pactuado a segregação das receitas. Acrescente-se, por pertinente, que ignorara se os termos e definições do contrato de parceria regularmente celebrado entra as partes, efetuando uma glosa geral e abstrata, não especificada por itens, de 30% do montante das despesas lançadas no livro caixa, deixando no entanto, por congruência de considerar 30% das despesas do demais parceiro. Fl. 1539DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 8 Face ao exposto, não identifico razões de fato e direito para que se mantenha glosa genérica sobre 30% das despesas escrituradas no livro caixa, sem uma análise de mérito das mesmas, ou mesmo sem verificar que as mesma estavam provadas documentalmente. Restaria-me a dúvida quais as despesas que estão sendo mantidas, uma vez de a glosa é genérica sobre montante total. Portanto proponho o restabelecimento da glosa efetuada pela fiscalização em percentual de 30% das despesas escrituradas no contribuinte que totalizam R$ 1.863.284,64. ................................................................................................................................... DA GLOSA DE DESPESA PRETENSAMENTE NÃO DEDUTÍVEL No que toca a glosa de despesa de R$ 8.908,94 que foi objeto do lançamento o contribuinte se opõe a mesma argumentando que estaria tudo demonstrado na escrituração e documentos presentes nos autos. Enfatiza que esse montante é composto por despesas regularmente havidas pelo Impugnante, declaradas em seu Livro Caixa e comprovadas através de documentação hábil junto à autoridade fazendária. ................................................................................................................................... De pronto destaca-se que o impugnante não confronta os motivos das glosas apresentados pela fiscalização. Argumenta, apenas retoricamente, que tudo está comprovado. Como os motivos da glosa são justificáveis, e face a que os argumentos do impugnante não confronta as razões da fiscalização. É de se manter essa parte do lançamento. DA RECEITA NÃO DECLARADA. Porém, no momento em que a autoridade autuante circularizou os adquirentes das mercadorias do autuado e se assenhoreou das notas fiscais de receitas da parceria rural, estas trazidas aos autos pelo próprio autuado, emitidas dentro do ano fiscalizado, apreendeu-se, por ser o normal, que as notas fiscais geraram as receitas a serem tributadas no ano de emissão delas. Tal como se consigna no Relatório Fiscal ao apreciar a omissão de rendimentos da atividade rural, verifica-se: “Da análise dos livro-caixa fornecidos pelo contribuinte em cotejo com as Notas Fiscais Eletrônicas de saída, identificamos a existência de rendimentos auferidos pelo contribuinte e não escriturados”. Caberia ao contribuinte ter informado que uma ou outra nota fiscal gerou recebimentos em outros exercícios, até porque a autoridade fiscal fez uma minuciosa auditoria, detalhando uma única nota fiscal omitida. (...) Não se desincumbiu desse o ônus o fiscalizado, razão que justifica a manutenção da omissão de rendimentos da atividade rural. DO ARBITRAMENTO DO RESULTADO DA ATIVIDADE RURAL ................................................................................................................................ Fl. 1540DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 9 Quanto ao arbitramento do resultado tributável da atividade rural, assim como em outros casos previstos na legislação federal, é medida de caráter excepcional, que aqui deve ser utilizada na impossibilidade de apuração da base de cálculo do imposto de renda segundo o critério desejado pelo sujeito passivo, isto é, de escrituração em livro caixa e comprovação de receitas e despesas por meio de documentação hábil e idônea (art. 60, do RIR/99). ................................................................................................................................. A despeito das falhas na contabilidade, depreende se da avaliação da fiscalização que não houve carência de elementos indispensáveis à descoberta da grandeza econômica através do confronto entre receitas e despesas provenientes do exercício da atividade rural. Tampouco decidiu pela imprestabilidade das fontes disponíveis à fiscalização que justificasse o arbitramento do lucro da atividade através da tributação específica limitada a 20% da receita bruta do ano calendário. ................................................................................................................................. A forma de apuração do resultado tributável da atividade rural é opção do contribuinte, exercida quando da entrega da Declaração de Ajuste Anual, não cabendo a sua alteração após iniciado o procedimento de ofício e lavrado o auto de infração, de acordo com o que lhe for mais favorável. No caso da opção pela diferença entre a receita bruta total e as despesas de custeio e investimentos, o lançamento de ofício não ficará limitado a 20% da receita bruta do ano calendário. ................................................................................................................................. O arbitramento da base de cálculo do resultado tributável à razão de 20% da receita bruta do ano calendário deve constituir medida excepcional no procedimento de ofício. As deficiências de escrituração não conduzem inevitavelmente ao arbitramento quando o agente fiscal constata que o valor probatório do conjunto de documentos que tem à sua disposição não está comprometido, desfrutando de elementos sérios e convergentes para suplantar as irregularidades e apurar a base de cálculo da atividade rural na sistemática de opção do contribuinte. Portanto, neste diapasão, não reconheço como pertinente a possibilidade de arbitramento do resultado da atividade rural em 20% da receita bruta. DA PRESUNÇÃO DE OMISSÃO BASEADA EM DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA .................................................................................................................................. A presunção legal de omissão de rendimentos com base nos depósitos bancários está condicionada apenas à falta de comprovação da origem dos recursos que transitaram, em nome do sujeito passivo, em instituições financeiras, ou seja, pelo artigo 42 da Lei n° 9.430/1996, tem se a autorização para considerar ocorrido o Fl. 1541DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 10 “fato gerador” quando o contribuinte não logra comprovar a origem dos créditos efetuados em sua conta bancária, não havendo a necessidade do fisco juntar qualquer outra prova. .................................................................................................................................. Assim, não cabe ao julgador discutir se tal presunção é equivocada ou não, pois se encontra totalmente vinculado aos ditames legais (art. 116, inc. III, da Lei n.º 8.112/1990), mormente quando do exercício do controle de legalidade do lançamento tributário (art. 142 do Código Tributário Nacional CTN). Nesse passo, não é dado apreciar questões que importem a negação de vigência e eficácia do preceito legal que, de modo inequívoco, estabelece a presunção legal de omissão de receita ou de rendimento sobre os valores creditados em conta de depósito mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações (art. 42, caput, da Lei n.º 9.430/1996). Uma questão que se coloca é decidir se o art. 42 da Lei nº 9.430/96 abriga (ou não) a possibilidade de autuação por omissão de receitas, quando a origem dos depósitos é identificada pela pessoa física ou jurídica fiscalizada. ................................................................................................................................. Para se desincumbir do ônus probatório que lhe cabe, portanto, não basta à pessoa física ou jurídica simplesmente “identificar”, ou meramente “apontar”, “indicar”, a origem dos depósitos. Cabe a ela comprovar a origem do depósito, ou seja, cabe-lhe o ônus de demonstrar que aquele específico depósito encontra-se, por exemplo, vinculado ao documento “X”, e encontra-se devidamente contabilizado no Livro “Y”, na data “Z”. Este é o sentido de comprovar a origem, que é algo muito maior do que simplesmente indicar uma suposta origem. ................................................................................................................................. Em momento algum foi feita pelo impugnante qualquer vinculação de algum documento que apresenta-se algum requisito formal com os depósitos bancários ocorridos nas contas correntes, nem tampouco a sua vinculação a qualquer forma de contabilização dessas receitas em algum livro contábil ou fiscal. Os contratos apresentados tiveram sua validade probatória questionada no relatório fiscal que acompanha o Auto de Infração, entretanto, nada de novo trouxe o contribuinte em sua impugnação. De fato, nenhum documento novo foi trazido aos autos com vistas a esclarecer os questionamentos suscitados pela autoridade tributária. .................................................................................................................................. De fato não se vislumbra qualquer reparo a fazer, portanto, ao lançamento fiscal constituído com base no art. 42 da Lei nº 9.430/96, porque, em primeiro lugar, de fato em momento algum houve a comprovação da origem dos depósitos. Este é o primeiro ponto. Daí porque, de pronto, refuta-se expressamente a aplicação da Fl. 1542DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 11 tese defendida que havendo indicação pelo sujeito passivo de elementos suficientes, que permitiriam a identificação da origem dos recursos, cabe ao Fisco sua persecução, com a reinversão do ônus probatório. Ora, indicar elementos que permitiriam identificar a origem, com todas as vênias, não é o mesmo que “comprovar a origem”, que é o que a lei exige. ................................................................................................................................. Em outras palavras, para não sofrer a tributação sobre o referido depósito como omissão de receitas, cabe ao fiscalizado demonstrar que aquele depósito bancário, por hipótese: (i) não corresponde a um rendimento tributável; ou (ii) corresponde a uma rendimento que, por qualquer razão, seja isenta ou não tributável; ou (iii) corresponde a uma receita que já oferecida à tributação. A situação do impugnante, conforme visto, não se enquadra em nenhum desses casos. Nenhum reparo a fazer, portanto, ao lançamento fiscal, também sob esta ótica, pois restou perfeitamente configurada a omissão de receitas por depósitos de origem não comprovada. ................................................................................................................................. Em síntese e conclusão, tem-se que o art. 42 da Lei 9.430/1996 constitui uma presunção legal cujo efeito é o de transferir ao contribuinte o ônus de elidir a imputação, o que somente pode ser feito mediante a comprovação da origem dos recursos, bem como do correto oferecimento da respectiva receita à tributação, no caso de se tratar de receita tributável. DO ÔNUS DA PROVA NA PRESUNÇÃO DO ART. 42 DA LEI 9.430/1996 Em outras palavras, identificados depósitos bancários, exige-se tão somente que a autoridade fazendária intime o Contribuinte para comprovar a origem dos recursos. A este é que cabe o ônus da prova, não sendo suficiente a apresentação de argumentos ou indícios. Nesse caminho, não pode prevalecer a tese de que cabia à autoridade fazendária aprofundar as investigações quando o Contribuinte, devidamente intimado, não logrou apresentar os documentos requeridos. Não é suficiente para comprovar a origem dos recursos bancários alegações genéricas. ................................................................................................................................ DA DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS PARA JUSTIFICAR DEPÓSITOS BANCÁRIOS No caso concreto, destaque-se que adicionalmente, o contribuinte não declarou oportunamente na sua DIRPF, a existência de lucros nas empresas, que agora alega ter recebido. Caso tenha cometido erro de fato no preenchimento da declaração cabe agora a ele demonstrar tais fatos. Alegações de que os depósitos são lucros de suas empresas desacompanhadas de meios de prova conclusivas que as justifiquem, individualizadamente, os depósitos a que se refere, revelam-se insuficientes para comprovar a origem. Para esclarecer a questão, além da escrituração contábil demonstrando a apuração de resultados da empresa e deliberações no sentido de que o lucro fosse distribuído, Fl. 1543DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 12 esses elementos devem vir acompanhados de comprovação da efetiva transferência do valor distribuído por meio de provas inequívocas. Ante ao exposto, não vejo como retificar essa parte do lançamento. DOS MÚTUOS FINANCEIROS TOMADOS PELO IMPUGNANTE .............................................................................................................................. É crucial que alegação da existência de mútuos realizados com terceiros deve vir acompanhada de provas inequívocas da natureza da operação, com a comprovação de que cada depósito corresponde ao recebimento de um valor emprestado. DA RECUPERAÇÃO DE DESPESAS. ................................................................................................................................ Afirma que neste caso o montante do ingresso refere-se a restituição de despesas de aluguel pagas pelo Impugnante em sua totalidade e cuja obrigação era de terceiro, especificamente neto do Impugnante dividia apartamento com colega de faculdade. Registra que impugnante arcava com 100% do aluguel sendo que posteriormente a remetente daqueles valores ressarcia a parcela devida pelo mesmo. Ainda que verossímil os argumentos dos impugnante eles precisam ser acompanhados de prova. Não há como socorrer o contribuinte se o mesmo não apresenta uma prova inequívoca que os valores que eram depositados em sua conta procediam de recuperação de despesas. As meras alegação sem prova, na prática não socorrem o impugnante. DA INCONSTITUCIONALIDADE DE NORMAS E ainda que assim não fosse, observe-se que o próprio Decreto n. 70.235/72 veda os órgãos de julgamento administrativo fiscal de afastarem a aplicação ou deixarem de observar lei ou decreto sob fundamento de inconstitucionalidade. DA ALEGAÇÃO DE CONFISCO Com respeito à alegação de confisco, o argumento da contribuinte constitui alegação de inconstitucionalidade, que não pode ser analisada nesta instância administrativa. DO PEDIDO DE PERÍCIA ............................................................................................................................... No Processo Administrativo Fiscal, vigora o princípio da livre convicção motivada, ou seja, o julgador tem liberdade para formar a sua convicção de acordo com os elementos de prova contidos nos autos, impondo-se a motivação das suas decisões. Não há nos autos questões cujo deslinde exija conhecimento técnico especializado. Os elementos necessários à fundamentação dos tributos lançados foram trazidos aos autos pelo fisco. O impugnante, por sua vez, alegou a Fl. 1544DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 13 existência de fatos modificativos e apresentou documentos, os quais serão analisados e fundamentaram eventual modificação do crédito lançado. Por esta razão, a realização da perícia se mostra prescindível, o que justifica seja o pedido indeferido, nos termos do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972. ............................................................................................................................... Dessa forma, voto no sentido de REJEITAR AS PRELIMINARES arguidas, e no mérito julgo PROCEDENTE EM PARTE a impugnação, mantendo-se o crédito tributário exigido no tocante ao imposto e demais acréscimos legais. 3 – DO RECURSO VOLUNTÁRIO Após ciência, em 28/10/2020, da decisão de 1ª instância (fls. 1.372/1.373), o contribuinte apresentou Recurso Voluntário em 24/11/2020, reproduzindo as alegações trazidas na peça de impugnação. É o relatório. VOTO Conselheiro Weber Allak da Silva, Relator. Da admissibilidade O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade. Assim, dele conheço e passo à análise da matéria. Preliminar de nulidade. O Recorrente argui preliminarmente a nulidade do lançamento, alegando as seguintes as seguintes irregularidades, que passaremos a analisar. Irregularidade obtenção de informações sobre movimentação financeira. Segundo o Recorrente, a obtenção de informações sobre movimentação financeira não teria cumprido os requisitos previstos na Portaria RFB n° 2.047/2014, já que não estaria nos autos a RMF - Requisição de Informações sobre Movimentação Financeira, com as formalidades essenciais para o referido acesso. Ocorre que, como já esclarecido na decisão recorrida, os extratos bancários foram apresentados próprio contribuinte. Deste forma, a emissão de RMF só caberia diante de eventual omissão do sujeito passivo. O acesso às informações obtidas junto às instituições financeiras pela autoridade fiscal independe de autorização judicial, não implicando quebra de sigilo bancário, mas simples transferência deste, porquanto em contrapartida está o sigilo fiscal a que se obrigam os agentes Fl. 1545DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 14 fiscais. Assim sendo, não cabe a alegação de que o contribuinte teria sido “coagido”, como arguido na peça recursal. Portanto, não sendo verificada qualquer irregularidade na apuração com base nos extratos fornecidos pelo contribuinte, não cabe alegação de nulidade. Análise individualizada dos valores creditados Quanto ao argumento de que a autoridade não teria analisado individualmente os depósitos bancários, carece de fundamento. O lançamento fiscal, decorrente de depósitos de origem não comprovada, é baseado na presunção legal prevista no Art. 42 de Lei 9.430/96. Assim, identificado os referidos depósitos, fica o contribuinte obrigado a comprovar sua origem e natureza. Tratando-se de lançamento lastreado em presunção legal, mesmo que relativa, não é dever da autoridade lançadora averiguar a origem e natureza dos depósitos bancários, como requer o Recorrente. Portanto, não cabe alegação de nulidade com base nos argumentos apresentados. Inobservância do devido processo legal e cerceamento de direito de defesa Foi alegado que o fisco deveria ter realizado levantamento fisco-contábil, de modo que o contribuinte fiscalizado pudesse questionar de forma contundente o lançamento fiscal. Não há o que se falar em cerceamento de defesa quando o auto de infração descreve de forma clara o fato gerador, descrevendo os depósitos de origens não identificadas que lastrearam o lançamento fiscal. Neste caso caberia ao contribuinte apresentar, em sede de impugnação ou recurso, os comprovantes relativos a tais depósitos. O auto de infração atende a todas as prescrições do art. 10 do Decreto nº 70.235/72, descrevendo adequadamente no termo de verificação fiscal, e documentos anexos, os fatos que deram suporte ao lançamento, os procedimentos realizados e as irregularidades apuradas. Portanto incabível a alegação de nulidade por cerceamento de defesa. Erro na Capitulação da Infração Alega o Recorrente que o auto de infração restringiu-se, ao capitular a infração, teria informado genericamente a omissão de receitas tributáveis, sem especificar qual seria o rendimento tributável. Como já exposto, o lançamento com base na presunção relativa, possui previsão legal, cabendo ao contribuinte elidir tal presunção mediante a apresentação de documentos comprobatórios que demonstrem a origem e a natureza dos valores depositados. Portanto, não procede a alegação trazida. Vencidas as preliminares, passo à análise de mérito Mérito Fl. 1546DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 15 Receitas e despesas da atividade rural O Recorrente alega que a despesa, no montante de R$ 8.908,94, foi indevidamente glosada, a mesma teria sido regularmente escriturada e comprovada tal no decorrer do procedimento fiscalizatório. Incialmente, cabe pontuar que a legislação do imposto de renda somente permite a dedutibilidade de despesas quando estas estão vinculadas à atividade rural, cabendo ao contribuinte comprovar tal natureza. No caso concreto em análise, verificou-se que, apesar da escrituração das referidas despesas, e da apresentação dos documentos fiscais, foram apontadas, no item 3.2 do relatório fiscal (fls. 15/42), irregularidades que impedem a vinculação com à atividade rural desempenhada. Considerando que tais irregularidades não foram contestadas, como bem apontado no acórdão recorrido, a glosa se mostra correta. Com relação à omissão de receitas, no montante de R$ 9.040,40, alega que o efetivo recebimento não teria ocorrido no ano calendário fiscalizado. Ocorre que, como já exposto na decisão recorrida, o contribuinte não apresentou provas do diferimento da referida receita. Portanto, o procedimento adotado pela autoridade lançadora, ao considerar que a receita foi efetivamente auferida no ano de emissão da nota fiscal, foi correto. Para o reconhecimento dos argumentos trazidos em sede de recurso, deveria o Recorrente apresentar os documentos comprobatórios do fato alegado, o que não se verificou. Portanto, não se pode acatar as alegações contidas no recurso voluntário. Depósitos de origem não comprovada – lucros e dividendos O Recorrente alega que, a despeito de eventuais irregularidades cometidas, teria sido demonstrado que parcela dos depósitos, considerados não comprovados pela autoridade fiscal, se referiam à distribuição de lucros e dividendos de empresas, das quais o contribuinte é sócio. Prossegue, arguindo que tipificação da hipótese de incidência como omissão por origem não comprovada seria indevida. Que caberia somente autuação pela distribuição irregular de lucros, com base no Artigo 22 da Instrução Normativa RFB 1.500/14. Assim, entende que houve erro na capitulação da infração, ofensa à tipicidade e à legalidade e, consequentemente a nulidade do lançamento. Em que pese os argumentos trazidos, não há que se falar em erro de capitulação, quando a autoridade fiscal identifica depósitos bancários, intima o contribuinte para comprovar a origem dos mesmos, que não o faz de forma efetiva. Não basta ao contribuinte apontar que a origem dos depósitos seriam lucros e dividendos distribuídos, sem comprovar o fato com base em documentos. Neste sentido, apontou corretamente a decisão recorrida: Alegações de que os depósitos são lucros de suas empresas desacompanhadas de meios de prova conclusivas que as justifiquem, individualizadamente, os depósitos a que se refere, revelam-se insuficientes para comprovar a origem. Para esclarecer a questão, além da escrituração contábil demonstrando a apuração de resultados da empresa e deliberações no sentido de que o lucro fosse distribuído, Fl. 1547DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 16 esses elementos devem vir acompanhados de comprovação da efetiva transferência do valor distribuído por meio de provas inequívocas. Nota-se que o Recorrente reconhece que praticou irregularidades ao não escriturar a distribuição de lucros na ECF, no entanto alega tratar-se de mera infração por descumprimento de obrigação acessória. No entanto, é preciso ressaltar que a infração por descumprimento de obrigação acessória pode ter reflexos na apuração fiscal, quando constituir motivo para o não reconhecimento da possível origem dos depósitos, como fundamentado no relatório fiscal. Portanto considero que a autoridade fiscal adotou o procedimento correto ao capitular o lançamento com base na presunção relativa prevista no art.42 da Lei 9.430/1996, e não acato as alegações trazidas. Depósitos de origem não comprovada – mútuos financeiros Alega o Recorrente que os depósitos, no montante de R$ 1.809.000,00, se refere mútuo financeiro, obtido junto à empresa M&M Calçados. Para tal apresenta possíveis comprovantes de devolução, ocorridas após a juntada da Impugnação. Não é por demais lembrar que nos casos de lançamento por presunção legal, previstos no art. 42 da Lei 9.430/1996, cabe ao contribuinte demonstrar de forma cabal através de documentação idônea a origem dos recursos. Assim, basta à autoridade lançadora demonstrar a ocorrência do fato que gerou a presunção legal, invertendo-se o ônus probatório. Embora possa parecer crível que a entrada dos recursos na conta corrente do contribuinte tenha como origem possível mútuo, foi informado no relatório fiscal que o contribuinte não apresentou os respectivos contratos, nem comprovou o recolhimento do IOF referente à operação de crédito. Acrescenta-se, ainda, que a alegada devolução dos valores somente se deu após a apresentação da impugnação. As operações realizadas entre empresas e sócios devem ser revestidas de todas as formalidades necessárias, caso sejam utilizadas para fazer prova perante o fisco. Em relação ao montante de R$ 190.571,50, depositado pela empresa JP Transportadora, o contribuinte apresenta as mesma alegações, acrescentando que teria declarado o empréstimo nas DIRPF, cujas cópias foram anexadas ao autos (fls. 1.472/1.522). No entanto, nota-se que as cópias juntadas se referem a declarações retificadoras, enviadas após o lançamento fiscal. Assim como já exposto no parágrafo anterior, os alegados empréstimos não estavam revestidos das formalidades necessárias para desconstituir a presunção relativa, prevista no art. 42 da Lei 9.430/1996. Portanto não acato as alegações quanto aos contratos de mútuos. Depósitos de origem não comprovada – ressarcimento de despesas Alega o Recorrente que parcela dos depósitos se referiam a ressarcimento de despesas de aluguel pagas pelo Sr. Severiano, cuja obrigação era de seu neto. A despeito da Fl. 1548DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 17 possível veracidade dos fatos, a comprovação perante ao fisco deve ser acompanhada de documentação hábil e inidônea, o que não se verificou no caso concreto em análise. O recurso voluntário, no item 3.3.1.2.2.2, se restringiu a narrativas sem a devida comprovação documental. Também não fora comprovado o registro da operação de empréstimo nas DIRPF dos contribuintes. Quanto às supostas recuperações de despesas das pessoas jurídicas citadas em planilha, constante no item 3.3.1.2.2.2 do relatório fiscal, também não foram apresentados documentos comprobatórios. Considerando a ausência de comprovação, não acato as alegações trazidas. Demais alegações Recorrente alega, ainda, a inexistência de aumento patrimonial a descoberto e decorrente falta de nexo de causalidade entre o depósito e a pretensa renda omitida. Que teria sido violado o princípio da presunção de inocência, diante da ausência de provas. Trata-se de alegações vagas, sem atacar os fundamentos do lançamento. Como já descrito neste voto, o acréscimo patrimonial, decorrente da identificação de depósitos de origem não comprovada, se dá mediante presunção legal. Neste sentido dispõe a Sumula CARF 26: Súmula CARF nº 26 A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Portanto, carece de fundamento tais alegações. Quanto às alegações de inconstitucionalidade do Artigo 42 da Lei N°. 9.430/96, princípios de não confisco, razoabilidade, entre outros, dispõe a Sumula CARF n°2 que este Conselho não é competente para se pronunciar sobre violação a princípios constitucionais quando o lançamento fiscal cumpre os requisitos previstos em legislação própria. Pedido de diligência O contribuinte requer a realização de diligência/perícia para realização de novo cálculo do valor devido. Alega que a autoridade fazendária não teria realizado a análise dos documentos juntados pelo Recorrente no decorrer do procedimento fiscalizatório. Não vislumbro a necessidade de baixa do presente processo em diligência, pelos motivos já apontados na decisão pretérita. O art. 16 do PAF, Decreto nº 70.235/1972, estabelece que a prova documental deve ser apresentada por ocasião da impugnação, sendo precluso o direito de o sujeito passivo apresentá-la em momento processual diverso, a menos que verifique alguma das hipóteses presentes no § 4º de referido artigo. Fl. 1549DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2201-012.806 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13227.721956/2019-54 18 O instrumento da diligência não pode ser utilizado para postergar o trâmite processual ou suprir a falta de produção provas pelo contribuinte no prazo legal. Cabe ao órgão julgador avaliar a necessidade do referido procedimento, como disposto na Súmula CARF 163: Súmula CARF Nº 163 Aprovada pelo Pleno em sessão de 06/08/2021 – vigência em 16/08/2021 O indeferimento fundamentado de requerimento de diligência ou perícia não configura cerceamento do direito de defesa, sendo facultado ao órgão julgador indeferir aquelas que considerar prescindíveis ou impraticáveis. (Vinculante, confa: Conclusão Por todo o exposto, voto por rejeitar as preliminares de nulidade, e, no mérito por negar provimento ao recurso voluntário.. (documento assinado digitalmente) Weber Allak da Silva Fl. 1550DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10675.721874/2017-71
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon May 18 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Aug 05 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/07/2010 a 30/09/2010 RESSARCIMENTO. PRAZO PRESCRICIONAL. TERMO INICIAL. O prazo prescricional tem início a partir do momento em que o direito material se torna juridicamente exercitável, não podendo correr em período anterior à sua constituição. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO PRESUMIDO. COOPERATIVA. LIMITAÇÃO REVOGADA. IRRETROATIVIDADE. IMPOSSIBILIDADE. O direito ao crédito presumido previsto no art. 8º da Lei nº 10.925, de 2004, sobre o leite in natura recebido de cooperado está limitado para as operações de mercado interno, em cada período de apuração, ao valor do PIS e da Cofins devidos em relação à receita bruta decorrente da venda de bens e de produtos deles derivados, depois de efetuadas as exclusões previstas legislação. Somente a partir de outubro de 2015 é que teve efeito a retirada dessa limitação pela Lei nº 13.137, de 2015. Isso porque a mudança da legislação, a partir da Lei nº 13.137, de 2015, não se enquadra em nenhuma das hipóteses previstas no art. 106 do CTN, que permite a atribuição de efeitos retroativos à nova lei. PROCESSO DE COMPENSAÇÃO/RESSARCIMENTO. ÔNUS DA PROVA. CONTRIBUINTE. Tratando-se de processo de iniciativa da contribuinte é dela o ônus de comprovar a liquidez e certeza do crédito pleiteado, nos termos do art. 373, inciso I, do CPC. Sendo assim, considerando que a contribuinte comprovou que o Despacho Decisório partiu de premissa fática equivocada para fundamentar parte da glosa, impõe-se a reversão da glosa nesta parte.
Numero da decisão: 3302-016.029
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo da matéria referente aos princípios da isonomia, razoabilidade e proporcionalidade e, na parte conhecida, acolher a preliminar de tempestividade do pedido de ressarcimento e, no mérito, dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para reverter a glosa de crédito presumido referente à parcela que tenha sido comprovada como referente às aquisições de leite in natura de não cooperados, constantes da planilha anexada como arquivo não paginável denominado Anexo I - Compras de Leite. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3302-016.021, de 18 de maio de 2026, prolatado no julgamento do processo 10675.721080/2017-16, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares - Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Mário Sérgio Martinez Piccini, Louise Lerina Fialho, Winderley Morais Pereira, Luciana Ferreira Braga (Substituta), Marina Righi Rodrigues Lara, Lázaro Antonio Souza Soares (Presidente).
Nome do relator: LAZARO ANTONIO SOUZA SOARES

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conteudo_txt : Metadados => date: 2026-08-04T19:58:19Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-08-04T19:58:19Z; Last-Modified: 2026-08-04T19:58:19Z; dcterms:modified: 2026-08-04T19:58:19Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-08-04T19:58:19Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-08-04T19:58:19Z; meta:save-date: 2026-08-04T19:58:19Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-08-04T19:58:19Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-08-04T19:58:19Z; created: 2026-08-04T19:58:19Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 11; Creation-Date: 2026-08-04T19:58:19Z; pdf:charsPerPage: 1915; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-08-04T19:58:19Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 10675.721874/2017-71 ACÓRDÃO 3302-016.029 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 18 de maio de 2026 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE COOPERATIVA AGROPECUARIA LTDA DE UBERLANDIA INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/07/2010 a 30/09/2010 RESSARCIMENTO. PRAZO PRESCRICIONAL. TERMO INICIAL. O prazo prescricional tem início a partir do momento em que o direito material se torna juridicamente exercitável, não podendo correr em período anterior à sua constituição. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO PRESUMIDO. COOPERATIVA. LIMITAÇÃO REVOGADA. IRRETROATIVIDADE. IMPOSSIBILIDADE. O direito ao crédito presumido previsto no art. 8º da Lei nº 10.925, de 2004, sobre o leite in natura recebido de cooperado está limitado para as operações de mercado interno, em cada período de apuração, ao valor do PIS e da Cofins devidos em relação à receita bruta decorrente da venda de bens e de produtos deles derivados, depois de efetuadas as exclusões previstas legislação. Somente a partir de outubro de 2015 é que teve efeito a retirada dessa limitação pela Lei nº 13.137, de 2015. Isso porque a mudança da legislação, a partir da Lei nº 13.137, de 2015, não se enquadra em nenhuma das hipóteses previstas no art. 106 do CTN, que permite a atribuição de efeitos retroativos à nova lei. PROCESSO DE COMPENSAÇÃO/RESSARCIMENTO. ÔNUS DA PROVA. CONTRIBUINTE. Tratando-se de processo de iniciativa da contribuinte é dela o ônus de comprovar a liquidez e certeza do crédito pleiteado, nos termos do art. 373, inciso I, do CPC. Sendo assim, considerando que a contribuinte comprovou que o Despacho Decisório partiu de premissa fática equivocada para fundamentar parte da glosa, impõe-se a reversão da glosa nesta parte. Fl. 440DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-016.029 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.721874/2017-71 2 ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo da matéria referente aos princípios da isonomia, razoabilidade e proporcionalidade e, na parte conhecida, acolher a preliminar de tempestividade do pedido de ressarcimento e, no mérito, dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para reverter a glosa de crédito presumido referente à parcela que tenha sido comprovada como referente às aquisições de leite in natura de não cooperados, constantes da planilha anexada como arquivo não paginável denominado Anexo I – Compras de Leite. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3302-016.021, de 18 de maio de 2026, prolatado no julgamento do processo 10675.721080/2017-16, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Mário Sérgio Martinez Piccini, Louise Lerina Fialho, Winderley Morais Pereira, Luciana Ferreira Braga (Substituta), Marina Righi Rodrigues Lara, Lázaro Antonio Souza Soares (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que julgou o Pedido de Ressarcimento apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de COFINS. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, em síntese abaixo, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/07/2010 a 30/09/2010 NÃO-CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS PRESUMIDOS. PRESCRIÇÃO. A apuração dos créditos presumidos do PIS/Pasep e da Cofins, previstos na Lei nº 10.925/2004, está sujeita ao prazo prescricional previsto no art. 1º do Decreto nº Fl. 441DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-016.029 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.721874/2017-71 3 20.910, de 06 de janeiro de 1932, cujo termo inicial é o primeiro dia do mês subsequente ao de sua apuração. CRÉDITO PRESUMIDO. COOPERATIVA. LIMITAÇÃO. AQUISIÇÃO DE LEITE IN NATURA. Somente a partir da vigência do artigo 5o da Lei nº 13.137/2015, o direito ao crédito presumido previsto no art. 8º da Lei nº 10.925, de 2004, calculado sobre o leite in natura recebido de cooperado, deixou de estar limitado, para as operações de mercado interno, ao valor do PIS/Pasep e da Cofins devidos em relação à receita bruta decorrente da venda de bens deles derivados, após efetuadas as exclusões previstas no art. 15 da Medida Provisória nº 2.158-35, de 24 de agosto de 2001. A contribuinte, tendo tomado ciência da decisão da DRJ, apresentou Recurso Voluntário, reiterando os argumentos já expostos na Manifestação de Inconformidade, os quais serão analisados e detalhados no decorrer do voto. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: ADMISSIBILIDADE O Recurso Voluntário é tempestivo e merece ser conhecido em parte. Isso porque, nos termos da Súmula CARF nº 2, este órgão julgador não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Assim, deixo de conhecer do aludido recurso apenas no que diz respeito ao pedido de aplicação dos princípios constitucionais da isonomia, razoabilidade e proporcionalidade para fins de atribuir efeitos retroativos à disposição estabelecida pelo § 2º, do art. 9º, da Lei no 11.051, de 2004. Isso conforme será exposto no tópico II.2 do presente voto. PRELIMINAR: Da alegação de não consumação da prescrição Conforme referido no relatório, a Recorrente sustentou a inaplicabilidade da prescrição. Isso, tendo vista que o direito ao ressarcimento do crédito presumido apurado sobre o leite in natura nasceu com a Lei nº 13.137, de 19 de junho de 2015, que incluiu o art. 9-A na Lei nº 10.925/2004. Nesse sentido, sustentou que o Fl. 442DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-016.029 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.721874/2017-71 4 prazo prescricional de cinco anos deve ser contado do momento em que foi possibilitado ao contribuinte exercer o seu direito ao ressarcimento, qual seja, para os créditos do ano de 2010, a partir de 01.10.2015, para os créditos do ano de 2011, a partir de 01.01.2016 e para os créditos do ano de 2012, a partir de 01.01.2017. Entendo que assiste razão à Recorrente. Para fundamentar o meu posicionamento, vou pedir vênia para me valer dos precisos fundamentos apresentados pela Conselheira Marina Righi Rodrigues Lara, no Acórdão de no 3302-015.398, em que esta turma, por maioria de votos, em caso semelhante, entendeu por afastar o decurso do prazo prescricional. Nos termos do art. 1º do Decreto nº 20.910/1932, a prescrição quinquenal tem início a partir do ato ou fato do qual se origina o direito. No caso concreto, embora as apurações das contribuições sob o regime não cumulativo sejam relevantes para a formação dos créditos, elas não foram suficientes, por si sós, para gerar o direito ao ressarcimento. O direito material ora discutido somente ingressou no ordenamento jurídico com a edição da Lei nº 13.137/2015, que conferiu às pessoas jurídicas a possibilidade jurídica de pleitear o ressarcimento do saldo de créditos presumidos acumulados, vinculados à produção e à comercialização de leite. Cuida-se, portanto, de típica hipótese prevista no art. 116, II, do Código Tributário Nacional, segundo o qual, tratando-se de situação jurídica, considera-se ocorrido o fato gerador quando esta se encontra definitivamente constituída nos termos da lei aplicável. Assim, o nascimento do direito não se confunde com a apuração pretérita dos créditos, mas com a edição da norma que autoriza sua fruição. Tal conclusão encontra sólido respaldo na teoria da actio nata, amplamente reconhecida pelo Superior Tribunal de Justiça, segundo a qual o prazo prescricional somente se inicia quando surge, para o titular, a pretensão juridicamente exigível. Nesse sentido, o STJ já assentou que “(...) de acordo com o princípio da actio nata, o prazo prescricional apenas pode começar a ser contado a partir do momento em que surge, para a parte, o direito de exigir do outro o cumprimento de sua obrigação, vale dizer, a pretensão.” (RESP 1028592, Rel. Ministra Eliana Calmon). Dessa forma, não há falar em fluência de prazo prescricional em momento no qual o contribuinte não dispunha de qualquer possibilidade jurídica de exercer o direito, sob pena de se admitir prescrição fundada em inércia fictícia. Cumpre ainda destacar que é irrelevante o fato de a lei permitir o aproveitamento de créditos apurados em períodos anteriores à sua vigência. Isso não significa que o direito tenha existido antes da lei, mas apenas que o legislador autorizou seu exercício retroativo. A possibilidade legal de utilizar créditos formados em exercícios passados não retroage o nascimento do direito nem desloca o marco inicial da prescrição para datas anteriores à criação da própria situação jurídica. Fl. 443DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-016.029 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.721874/2017-71 5 Admitir entendimento diverso significaria impor a perda de um direito antes mesmo de seu surgimento, resultado incompatível com a própria finalidade do instituto da prescrição, que visa sancionar a inércia do titular diante de um direito já exercível. Nesse contexto, o art. 54 da IN RFB nº 1.717, de 2017 ao limitar o ressarcimento a créditos apurados nos cinco anos anteriores ao pedido, contando-se esse prazo a partir de período anterior à própria criação do direito, restringe indevidamente direito assegurado por lei, inovando na ordem jurídica e contrariando o art. 1º do Decreto nº 20.910, de 1932. Ademais, verifica-se que o pedido de ressarcimento realizado pela contribuinte observou os prazos estabelecidos pelo art. 9-A, parágrafo 1º, na Lei nº 10.925, de 2004, que assim estabelece: Art. 9º-A. A pessoa jurídica poderá utilizar o saldo de créditos presumidos de que trata o art. 8º apurado em relação a custos, despesas e encargos vinculados à produção e à comercialização de leite, acumulado até o dia anterior à publicação do ato de que trata o § 8º deste artigo ou acumulado ao final de cada trimestre do ano-calendário a partir da referida data, para: (...) § 1º O pedido de compensação ou de ressarcimento do saldo de créditos de que trata o caput acumulado até o dia anterior à publicação do ato de que trata o § 8º somente poderá ser efetuado: (Incluído pela Lei nº 13.137, de 2015) (Vigência) I - relativamente aos créditos apurados no ano-calendário de 2010, a partir da data de publicação do ato de que trata o § 8º; (Incluído pela Lei nº 13.137, de 2015) (Vigência) II - relativamente aos créditos apurados no ano-calendário de 2011, a partir de 1º de janeiro de 2016; (Incluído pela Lei nº 13.137, de 2015) (Vigência) III - relativamente aos créditos apurados no ano-calendário de 2012, a partir de 1º de janeiro de 2017; (Incluído pela Lei nº 13.137, de 2015) (Vigência) IV - relativamente aos créditos apurados no ano-calendário de 2013, a partir de 1º de janeiro de 2018; (Incluído pela Lei nº 13.137, de 2015) (Vigência) V - relativamente aos créditos apurados no período compreendido entre 1º de janeiro de 2014 e o dia anterior à publicação do ato de que trata o § 8º, a partir de 1º de janeiro de 2019. (Incluído pela Lei nº 13.137, de 2015) (Vigência) Reconhecido, portanto, que o direito ao ressarcimento foi constituído apenas com a edição da Lei nº 13.137, de 19 de junho de 2015, e que foi observado, no caso concreto, a disposição estabelecida pelo art. 9-A, parágrafo 1º, na Lei nº 10.925, de 2004, conclui-se que o prazo prescricional quinquenal teve início a partir desse marco. Assim, o Pedido de Ressarcimento transmitido em 20/04/2017 foi apresentado dentro do prazo legal, não havendo que se falar em intempestividade. Fl. 444DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-016.029 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.721874/2017-71 6 DO MÉRITO No tocante ao mérito, passo a analisar cada uma das alegações da contribuinte. Do direito à manutenção e ao ressarcimento do crédito presumido A Recorrente sustentou que o § 2º do art. 9º da Lei no 11.051, de 2004, introduzido pela Lei no 13.137, de 19 de junho de 2015, tem efeitos retroativos. Isso com fundamento na disposição estabelecida pelo art. 106, incisos I, do CTN. E que, com isso, não há falar em limitação do crédito presumido para o período em exame. Entendo que não assiste razão à contribuinte, pelas seguintes razões. Veja-se que assim dispõe o art. 9º da Lei no 11.051, de 2004: Art. 9º O direito ao crédito presumido de que trata o art. 8º da Lei nº 10.925, de 23 de julho de 2004, calculado sobre o valor dos bens referidos no inciso II do caput do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, recebidos de cooperado, fica limitado para as operações de mercado interno, em cada período de apuração, ao valor da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins devidas em relação à receita bruta decorrente da venda de bens e de produtos deles derivados, após efetuadas as exclusões previstas no art. 15 da Medida Provisória nº 2.158-35, de 24 de agosto de 2001. Parágrafo único. O disposto neste artigo aplica-se também ao crédito presumido de que trata o art. 15 da Lei nº 10.925, de 23 de julho de 2004. § 1º . O disposto neste artigo aplica-se também ao crédito presumido de que trata o art. 15 da Lei nº 10.925, de 23 de julho de 2004. § 2º O disposto neste artigo não se aplica no caso de recebimento, por cooperativa, de leite in natura de cooperado. (Incluído pela Lei nº 13.137, de 2015) (Vigência) Conforme se vê da disposição legal acima citada, o caput do art. 9º limitou a utilização do crédito presumido, calculado sobre bens específicos, recebidos de cooperados. Com o advento do § 2º, introduzido pela Lei no 13.137, de 2015, tal limitação deixou de ser aplicada no caso de recebimento, por cooperativa, de leite in natura de cooperado. Ou seja, houve uma mudança do enunciado normativo para que as cooperativas, no caso expressamente previsto (cooperativa que recebesse leite in natura de cooperado) fossem excluídas da limitação até então imposta pelo legislador para a utilização do benefício fiscal. Ocorre que, diferentemente do sustentado pela contribuinte, não há razão jurídica para que a nova norma em questão, introduzida pela Lei no 13.137, de 2015, seja aplicada de forma retroativa. Fl. 445DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-016.029 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.721874/2017-71 7 Isso porque o § 2º, do art. 9º da Lei no 11.051, de 2004, introduzido pela Lei no 13.137, de 2015, não é meramente interpretativo, o que afasta a possibilidade de seus efeitos se aplicarem retroativamente. O Código Tributário Nacional prevê expressamente que a chamada retroatividade benigna da legislação tributária, cuja matéria não seja infração ou penalidade, é aplicável quando a lei for expressamente interpretativa, nos termos do art. 106, inciso I, do CTN. No caso, o dispositivo em análise instituiu um tratamento específico para as cooperativas que recebem lei in natura de cooperado, que, na realidade, é uma exceção à regra estabelecida no caput, vigente desde 2004. Portanto, não se trata de norma de natureza interpretativa, mas sim de natureza modificativa de enunciados normativos, destinados a criarem uma norma. Nesse sentido, como bem explica Paulsen, “o art. 106 do CTN determina a aplicação retroativa da legislação tributária quando seja meramente interpretativa (em nada inova) ou quando estabeleça tratamento mais benéfico ao infrator”1. Ou seja, a lei meramente interpretativa não estabelece qualquer disposição normativa diferente daquela já estabelecida pela lei interpretada. Em outras palavras, “denominam-se leis interpretativas as que têm por objeto determinar, em caso de dúvida, o sentido das leis existentes, sem introduzir disposições novas”.2 Quanto ao ponto, vale também citar as lições de Bomfim3: “...assumir a possibilidade de que uma dada lei seja meramente interpretativa pressupõe conceber que a entrada desse veículo normativo no sistema jurídico não altera as relações jurídicas em andamento, dado que se assim não fosse a lei teria natureza modificativa (e não interpretativa), alterando a realidade e só podendo ser aplicada a fatos futuros” No caso, não há dúvida de que a instituição do § 2º, no art. 9º da Lei no 11.051, de 2004, pela Lei no 13.137, de 2015, modificou as relações jurídicas entre a União e as cooperativas que recebem leite in natura de cooperado. Ademais, no que diz respeito à aplicação dos princípios da isonomia, razoabilidade e proporcionalidade para fins de aplicação retroativa da já citada disposição estabelecida pelo § 2º, do art. 9º, da Lei no 11.051, de 2004, destaco que é incabível, pelo CARF, a análise de tal ponto. O princípio da isonomia tem fundamento normativo constitucional. Para analisar o pedido da Recorrente, seria preciso adentrar na questão da constitucionalidade dos dispositivos legais utilizados pela fiscalização para negar o direito ao crédito 1 PAULSEN, Leandro. Constituição e Código Tributário comentados: à luz da doutrina e da jurisprudência. 18. Ed. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 900. 2 PAULSEN, Leandro. Constituição e Código Tributário comentados: à luz da doutrina e da jurisprudência. 18. Ed. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 901. 3 BOMFIM, Diego Marcel. Cide-Tecnologia: análise das alterações promovidas pela Lei n. 11.452/2007. RDDT 155/26, ago. 2008. Fl. 446DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-016.029 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.721874/2017-71 8 presumido ora pleiteado, o que é vedado pelo art. 26-A do Decreto nº 70.235/1972: Art. 26-A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Nesse mesmo sentido, a Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Logo, conheço em parte da matéria alegada e, na parte conhecida, entendo que não há falar em atribuição de efeitos retroativos à nova lei e, portanto, correta a glosa realizada pela fiscalização. Da presunção da fiscalização de que a contribuinte teria recebido leite exclusivamente de cooperados A Recorrente, de forma subsidiária ao tópico anterior, sustentou que a autoridade fiscalizadora presumiu que todo o leite in natura foi recebido de cooperados, porém, não é isso que acontece, a Recorrente adquire uma parcela significativa de leite de terceiros, não cooperados. Nesse sentido, referiu que, ainda que se entenda que o art. 9º da Lei nº 11.051, de 2004, limitou unicamente o crédito apropriado sobre os bens recebidos de cooperados, a parcela do crédito presumido apurada sobre as aquisições de terceiros deve ser mantida e ressarcida em favor da Recorrente, uma vez que a suposta limitação só se aplica à cooperados. Quanto ao tema, cumpre destacar o seguinte trecho do Acórdão da DRJ: Ainda com relação ao limite do crédito presumido, a empresa questiona que a fiscalização teria considerado todas as aquisições como sendo de cooperados pessoas físicas, alegando que parcela significativa do leite foi adquirida de terceiros não cooperados, não estando sujeita ao limite estipulado no artigo 9º da Lei nº 11.051/2004. Nesse ponto, tem razão a manifestante. Entretanto, as informações constantes na planilha anexada junto com a manifestação de inconformidade indicam que esses terceiros não cooperados são pessoas jurídicas. Nesse caso, conforme disposto no artigo 8º, parágrafo 1º, inciso II da Lei nº 10.925/2004, o direito de apurar crédito presumido relativo a aquisições de pessoa jurídica somente se aplica a “pessoa jurídica que exerça cumulativamente as atividades de transporte, resfriamento e venda a granel de leite in natura”, o que deve ser comprovado por meio de documentação hábil e idônea. As informações da planilha indicam aquisições de “LEITE CRU PREBENEFICIADO INTEGRAL/DESNATADO e LEITE C PADRÃO INDÚSTRIA” de diversos fornecedores PJ, não estando demonstrado que Fl. 447DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-016.029 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.721874/2017-71 9 os mesmos se enquadram nos requisitos definidos na lei para compor a base de cálculo do crédito presumido. Outro fato constatado pela autoridade fiscal de origem, foi que nas fichas 6A e 16A do DACON (linhas 25 a 29) não existe qualquer valor informado na rubrica CRÉDITOS PRESUMIDOS – ATIVIDADES AGROINDUSTRIAIS. Os fatos contábeis devem ser registrados no momento de sua ocorrência e de acordo com as normas vigentes. Dessa forma, são passíveis de ressarcimento os créditos apurados e registrados de acordo com as normas vigentes no respectivo período de apuração. Especialmente em matéria de direito creditório, para o reconhecimento em favor do contribuinte, é necessário que restem plenamente caracterizados os seus atributos de certeza e liquidez. Ou seja, o direito creditório pretendido deve ser comprovado pela documentação hábil e idônea correspondente aos fatos que lhe deram origem e registrados em sua escrituração contábil e fiscal, de forma que fique demonstrada a certeza de sua procedência e a liquidez do seu valor. (Grifei) Conforme se verifica do trecho acima referido, a DRJ deu razão à Recorrente com relação ao fato de que grande parcela do leite in natura foi recebido de não cooperados. No entanto, negou o direito ao crédito presumido postulado, decorrente de atividades agroindustriais, em razão da ausência de documentos que comprovassem o preenchimento dos requisitos estabelecidos pelo artigo 8º, parágrafo 1º, da Lei nº 10.925/2004. Ou seja, a DRJ deu razão à Recorrente, mas manteve a glosa por fundamento jurídico diverso daquele constante no Despacho Decisório, o qual assim motivou a glosa: 21. O art. 9º-A da Lei nº 10.925/2004, introduzido pela Lei nº 13.137/2015, acima transcrito, foi regulamentado pelo Decreto nº 8.533/2015, publicado no DOU de 01/10/2015, sendo essa a data de vigência para os seus efeitos. Este artigo permitiu às pessoas jurídicas, com direito à apuração do crédito presumido de que trata o art. 8º da Lei nº 10.925/2004, e que ainda possuíam saldo acumulado deste crédito presumido, utilizar-se desse saldo em compensação com débitos próprios administrados pela RFB ou ser objeto de pedido de ressarcimento. Conforme podemos observar, essa prerrogativa contida no art. 9º-A da Lei nº 10.925/2004 não pode ser aplicada retroativamente às sociedades cooperativas que operam no mercado interno, pela vigência da limitação no cálculo do valor do crédito presumido, imposta pelo art. 9º da Lei nº 11.051/2004. Para as sociedades cooperativas não há possibilidade legal de existir saldo acumulado do crédito presumido uma vez que o direito a esse crédito estava limitado ao valor do saldo a pagar das contribuições, não havendo como ter valor excedente acumulado. Essa limitação somente deixou de existir com a vigência do § 2º no art. 9º da Lei nº 11.051/2004, que foi introduzido pela Lei nº 13.137/2015, que assim dispõe: (...) 22. A vigência do § 2º do art. 9º da Lei nº 11.051/2004 ocorreu a partir do dia 01/10/2015, primeiro dia do quarto mês subseqüente ao da publicação no DOU da Lei nº 13.137/2015, ocorrida em 22/06/2015. Deste modo, as sociedades cooperativas, que adquirem leite in natura de seus cooperados pessoas físicas Fl. 448DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-016.029 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.721874/2017-71 10 passaram a ter direito de apurar o crédito presumido de que trata o art. 8º da Lei nº 10.925/2004 de forma integral, sem qualquer limitação de valor, a partir de 01/10/2015. Assim, não há que se falar em saldo acumulado anteriormente a essa data. 23. Consultando os Demonstrativos de Apuração das Contribuições Sociais - DACON, relativos ao 1º trimestre de 2012 (períodos de apuração 01/2012 a 03/2012), verifica-se que nas linhas correspondentes das fichas 06A e 14, relativas ao PIS/PASEP, e 16A e 24, relativas à COFINS, realmente não existe qualquer valor de crédito presumido das agroindústrias que pudesse alicerçar os seus pedidos de ressarcimento. Conforme se depreende do trecho acima extraído do Despacho Decisório, a glosa teve como fundamento jurídico o fato de que apenas a partir do primeiro dia do quarto mês subsequente ao da publicação no DOU da Lei nº 13.137/2015, ocorrida em 22/06/2015, a Recorrente teria direito ao crédito presumido decorrente das aquisições de leite in natura de cooperados pessoas físicas. No entanto, a partir da planilha anexada como arquivo não paginável denominado Anexo I – Compras de Leite, verifica-se que a contribuinte comprovou que parte das aquisições de leite in natura, no período em análise, foi realizada com não cooperados. Sendo assim, o fundamento jurídico da glosa de crédito presumido não merece prosperar nesta parte. Nesse sentido, cumpre ainda destacar que exigir da Recorrente a comprovação do preenchimento dos requisitos estabelecidos pelo artigo 8º, parágrafo 1º, da Lei nº 10.925/2004, como feito pela DRJ, implica em violação ao art. 146 do CTN. Por tais razões, voto por reverter a glosa de crédito presumido em relação à parcela decorrente de aquisições de leite in natura de não cooperados. Ante o exposto, voto por conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo da matéria referente aos princípios da isonomia, razoabilidade e proporcionalidade e, na parte conhecida, acolher a preliminar de tempestividade do pedido de ressarcimento e, no mérito, dar parcial provimento ao aludido Recurso para reverter a glosa de crédito presumido referente à parcela que tenha sido comprovada como decorrente de aquisições de leite in natura de não cooperados, constantes da planilha anexada como arquivo não paginável denominado Anexo I – Compras de Leite. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui Fl. 449DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-016.029 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10675.721874/2017-71 11 adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo da matéria referente aos princípios da isonomia, razoabilidade e proporcionalidade e, na parte conhecida, acolher a preliminar de tempestividade do pedido de ressarcimento e, no mérito, dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para reverter a glosa de crédito presumido referente à parcela que tenha sido comprovada como referente às aquisições de leite in natura de não cooperados, constantes da planilha anexada como arquivo não paginável denominado Anexo I – Compras de Leite. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Redator Fl. 450DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 16327.720685/2019-80
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jun 23 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Jul 28 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Data do fato gerador: 31/12/2014 CSLL. INCONSTITUCIONALIDADE. LIMITES DA COISA JULGADA. SUPERVENIÊNCIA DE JULGAMENTO COM EFEITOS ERGA OMNES DECLARANDO A CONSTITUCIONALIDADE DA CONTRIBUIÇÃO. TEMAS 881 E 885 DO STF. Sobre o tema, aplicam-se os efeitos das decisões dos temas 881 e 885 do STF, de onde se extrai que 1. As decisões do STF em controle incidental de constitucionalidade, anteriores à instituição do regime de repercussão geral, não impactam automaticamente a coisa julgada que se tenha formado, mesmo nas relações jurídicas tributárias de trato sucessivo. 2. Já as decisões proferidas em ação direta ou em sede de repercussão geral interrompem automaticamente os efeitos temporais das decisões transitadas em julgado nas referidas relações, respeitadas a irretroatividade, a anterioridade anual e a noventena ou a anterioridade nonagesimal, conforme a natureza do tributo.
Numero da decisão: 9101-007.612
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial, e, no mérito, dar-lhe provimento parcial com retorno dos autos ao colegiado a quo para julgamento das matérias suscitadas em Recurso Voluntário e prejudicadas em razão de seu provimento. Assinado Digitalmente Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior - Relator Assinado Digitalmente Carlos Higino Ribeiro de Alencar - Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Maria Carolina Maldonado Mendonca Kraljevic, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior, Jandir Jose Dalle Lucca, Carlos Higino Ribeiro de Alencar (Presidente)
Nome do relator: HELDO JORGE DOS SANTOS PEREIRA JUNIOR

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DISTRIBUIDORA DE TÍTULOS E VALORES MOBILIÁRIOS (CIFRA S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO) Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Data do fato gerador: 31/12/2014 CSLL. INCONSTITUCIONALIDADE. LIMITES DA COISA JULGADA. SUPERVENIÊNCIA DE JULGAMENTO COM EFEITOS ERGA OMNES DECLARANDO A CONSTITUCIONALIDADE DA CONTRIBUIÇÃO. TEMAS 881 E 885 DO STF. Sobre o tema, aplicam-se os efeitos das decisões dos temas 881 e 885 do STF, de onde se extrai que 1. As decisões do STF em controle incidental de constitucionalidade, anteriores à instituição do regime de repercussão geral, não impactam automaticamente a coisa julgada que se tenha formado, mesmo nas relações jurídicas tributárias de trato sucessivo. 2. Já as decisões proferidas em ação direta ou em sede de repercussão geral interrompem automaticamente os efeitos temporais das decisões transitadas em julgado nas referidas relações, respeitadas a irretroatividade, a anterioridade anual e a noventena ou a anterioridade nonagesimal, conforme a natureza do tributo. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial, e, no mérito, dar-lhe provimento parcial com retorno dos autos ao colegiado a quo para julgamento das matérias suscitadas em Recurso Voluntário e prejudicadas em razão de seu provimento. Fl. 353DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.612 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720685/2019-80 2 Assinado Digitalmente Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior – Relator Assinado Digitalmente Carlos Higino Ribeiro de Alencar – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Maria Carolina Maldonado Mendonca Kraljevic, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior, Jandir Jose Dalle Lucca, Carlos Higino Ribeiro de Alencar (Presidente) RELATÓRIO Trata-se de Recurso Especial da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional – PGFN (fls.248/318) em face do Acórdão de Recurso Voluntário nº 1001-003.403, de 08 de Julho de 2024 (fls. 269/282), por meio do qual aquele Colegiado julgou procedente, por unanimidade, o Acórdão de Recurso Voluntário. Assim restou assentado o Acórdão ora Recorrido: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Data do fato gerador: 31/12/2014 CSLL. INCONSTITUCIONALIDADE. LIMITES DA COISA JULGADA. SUPERVENIÊNCIA DE JULGAMENTO COM EFEITOS ERGA OMNES DECLARANDO A CONSTITUCIONALIDADE DA CONTRIBUIÇÃO E ALTERAÇÕES LEGISLATIVAS. PREVALÊNCIA DOS EFEITOS DA DECISÃO PROFERIDA EM CONTROLE DIFUSO. Contra os contribuintes que tenham a seu favor decisão judicial, transitada em julgado, proferida em sede de controle difuso, declarando a inconstitucionalidade de lei que instituiu um determinado tributo, não pode ser lavrada Autuação referente a tal obrigação. Não pode haver a sobreposição de declaração de constitucionalidade, posterior e superveniente, dessa Contribuição pelo E. Supremo Tribunal Federal, sob pena de esvaziamento da eficácia do controle difuso de constitucionalidade, conforme entendimento estampado no REsp nº 1.118.893/MG, julgado dentro do regime do art. 543-C do CPC/73 (Tema Repetitivo 340). Incidência da previsão do artigo 98, parágrafo único, inciso II, alínea “a”, do RICARF vigente. Fl. 354DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.612 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720685/2019-80 3 As alterações na legislação da CSLL, promovidas após a Lei nº 7.689/88, não modificaram os elementos primordiais de sua regra matriz, restando preservada a sua materialidade e os demais critérios do seu arquétipo jurídico. Sob todas essas circunstâncias, somente poder-se-ia exigir CSLL do contribuinte se fosse, previa e definitivamente, obtido êxito pela Fazenda Nacional no exercício da prerrogativa excepcional tratada no inciso I, do art. 471 do CPC/73 (inciso I, do art. 505 do Codex Processual Civil de 2015). O Despacho de Admissibilidade (fls. 322/332) admitiu a existência de dissídio jurisprudencial à única matéria suscitada, tendo sido oferecidos dois Acórdãos Paradigma, conforme abaixo: Matéria Acórdãos Paradigma (im)possibilidade da exigência de CSLL diante da existência de decisão judicial transitada em julgado em favor da contribuinte. 9101-002.902 e 9101-002.583 Extraem-se do Despacho Decisório: A divergência, de fato, mostra-se evidente até mesmo pelo simples confronto de suas ementas, que adequadamente sintetizam os fundamentos esposados em cada acórdão, conforme se verifica da leitura de seu inteiro teor. Conforme bem observou a recorrente, não se vislumbra nenhuma peculiaridade fática ou mesmo a aplicação de disciplina jurídica específica apta a afastar as conclusões a que chegaram os órgãos julgadores em cada caso. Dito de outra forma, resta evidente que os colegiados que analisaram os respectivos casos concretos (recorrido e paradigmas) manteriam a sua mesma decisão caso estivessem analisando o(s) caso(s) submetido(s) ao outro colegiado. E, enquanto o acórdão recorrido deu provimento ao recurso voluntário, por entender que a contribuinte estaria amparada por decisão judicial transitada em julgado a seu favor, declarando a inconstitucionalidade da Lei 7.689/88, que instituiu a CSLL, bem assim por entender obrigatória a aplicação do entendimento consagrado no REsp nº 1.118.893/MG para a solução do caso, os acórdãos paradigmas nº 9101-002.902 e nº 9101-002.583, em situação idêntica, negaram provimento aos respectivos recursos dos contribuintes com relação a este ponto, por entender que os efeitos da coisa julgada em favor dos contribuintes foram interrompidos diante dos diversos precedentes proferidos pelo Supremo Tribunal Federal que concluíram pela constitucionalidade da exigência da CSLL pela Lei 7.689/1988 (afastando apenas a sua cobrança no ano de 1988), bem assim expressando o entendimento de que o REsp nº 1.118.893/MG não se aplica à solução da controvérsia jurídica em questão. Observo que esses mesmos dois paradigmas foram recentemente analisados pela CSRF em casos que resultaram na prolação dos acórdãos nº 9101-006.942 e nº Fl. 355DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.612 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720685/2019-80 4 9101-006.987. Em ambos os casos a CSRF concluiu pela não configuração da divergência jurisprudencial alegada com relação a esse mesmo tema em face desses dois paradigmas. Contudo, da leitura de suas ementas e inteiro teor, verifica-se que restou identificado, naqueles casos, peculiaridades específicas dos processos que impediam o conhecimento do recurso (no primeiro caso, uma circunstância processual específica do recorrido – ação rescisória, e no segundo, um fundamento inatacado pela PGFN no especial), circunstâncias as quais, ao menos nesse juízo prelibatório de admissibilidade, não se fazem presentes no caso desses autos. (grifos nossos) Instada a se manifestar a Contribuinte ofereceu contrarrazões (fls. 342/347) insurgindo-se ao conhecimento e também contra o mérito, com base nos seguintes argumentos: a) A PGFN “não realizou o cotejo analítico entre o acórdão recorrido e os acórdãos paradigmas, nem demonstrou objetivamente a similitude fática entre os acórdãos, como exigido pelo artigo 118, § 8º, do RI-CARF”. b) O Recurso Especial teria sido instruído sem cópia do inteiro teor dos acórdãos indicados como paradigma, em ofensa ao artigo 118, §9º do RICARF. c) Da necessidade de observância da modulação dos efeitos dos Temas 881 e 885. a. A Contribuinte não desconhece o teor de tais decisões, mas “ao julgar os embargos de declaração opostos pelo Contribuinte no Leading case dos referidos temas, o STF entendeu por afastar a aplicação das multas punitivas e moratórias, relativamente ao contribuinte que detinha coisa julgada em seu favor...” b. Ainda que seja conhecido o Recurso Especial, as multas deveriam ser afastadas em razão do que restou decidido no julgamento dos Embargos de Declaração que resultou nos Temas 881 e 885. As multas seriam as multas de ofício sobre a CSLL Estimativas e multa isolada. É o relatório. VOTO Conselheiro Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior, Relator TEMPESTIVIDADE A tempestividade foi aferida quando do exame monocrático de admissibilidade, e o Recurso Especial foi atestado como tempestivo. CONHECIMENTO Fl. 356DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.612 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720685/2019-80 5 A Contribuinte alega a impossibilidade de conhecimento do Recurso Especial em razão de afronta a dois dispositivos do art. 118 do RICARF/23 (Portaria MF nº 1.634/2023). Seriam a falta de cotejamento analítico (§8º) e a falta de cópia dos Acórdãos Paradigma (§9º). Entendo que não assiste razão à Contribuinte. Primeiro porque, no caso concreto, a temática é conhecida e eminentemente jurídica. A matéria não exige cotejamento pormenorizado dos pontos divergentes. Trata-se da aplicação dos efeitos da coisa julgada em face dos Temas 881 e 885 do STF. Segundo, porque o processo administrativo fiscal é orientado pela formalidade moderada, e, no caso de sua instrução com cópia do inteiro teor dos acórdãos indicados como paradigmas, há a alternativa de suas ementas serem reproduzidas no corpo da peça recursal, a teor do que se extrai do §11, do art. 118, do RICARF/23. Note-se que o Recurso Especial da PGFN não é silente quanto a essa particularidade regimental. Vejamos: Anote-se que, em atenção à norma regimental, serão apresentados, quanto a cada matéria objeto de insurgência, até duas ementas para a caracterização do dissídio. As razões abaixo elencadas servirão, a um só tempo, para alicerçar a admissibilidade recursal e para fundamentar as razões para modificação do julgado ora recorrido. Ademais, nos termos § 11º do art. 118 do RI-CARF, as ementas dos paradigmas serão reproduzidas no corpo do recurso, em sua integralidade. (...) Não há nos acórdãos confrontados nenhuma peculiaridade fática ou mesmo a aplicação de disciplina jurídica específica apta a afastar as conclusões a que chegaram os órgãos julgadores. É o que ficou evidenciado inclusive pelas passagens já transcritas da decisão recorrida e pelos trechos adiante colacionados das decisões paradigmas. A simples transcrição das ementas dos paradigmas já demonstra a divergência alegada. Cabe esclarecer, por oportuno, que a divergência jurisprudencial exigida nos termos do art. 118 do RICARF para conhecimento do recurso especial se dá em relação à interpretação da lei tributária. Por concordar com as razões do Despacho de Admissibilidade, voto por conhecer do Recurso Especial. MÉRITO Este Conselheiro entende por superada a discussão sobre os efeitos da coisa julgada, mormente a que envolve o REsp nº 1.118.893/MG (objeto do dissenso entre os Acórdãos Fl. 357DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.612 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720685/2019-80 6 Comparados), após o julgamento dos Temas 881 e 885 do STF. Destaco o resultado dos Embargos de Declaração no RE nº 949.2971, com certidão de trânsito em 01/10/2025: RE 949297 ED / CE - CEARÁ EMB.DECL. NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO Relator(a): Min. LUÍS ROBERTO BARROSO Julgamento: 04/04/2024 Publicação: 20/08/2024 Órgão julgador: Tribunal Pleno Ementa Ementa: Direito constitucional e tributário. Embargos de declaração em recurso extraordinário. Coisa julgada nas relações tributárias de trato sucessivo. Parcial provimento. I. Caso em exame 1. Embargos de declaração contra acórdão de julgamento de recurso extraordinário, submetido ao rito da repercussão geral, em que se decidiu sobre a cessação dos efeitos futuros da coisa julgada, nas relações tributárias de trato sucessivo, quando a decisão estiver em desacordo com pronunciamento vinculante do Supremo Tribunal Federal que lhe sobrevenha. II. Questão em discussão 2. Discute-se a existência de vícios de obscuridade, contradição, omissão ou erro material no julgamento além da modulação dos efeitos da decisão por razões de segurança jurídica. III. Razões de decidir 3. Não há obscuridade, contradição, omissão ou erro material quanto ao julgamento de mérito no acórdão questionado. As questões levantadas nos embargos – tais como a amplitude dos efeitos do controle difuso de constitucionalidade, o caráter inovador da tese fixada, a natureza constitucional do tema, o termo inicial da contagem da anterioridade tributária, a aplicação da tese em sentido favorável ao contribuinte, entre outras – foram exaustivamente consideradas, de tal sorte que inexistem os vícios apontados. 4. Por outro lado, há razões que justificam a modulação dos efeitos da decisão apenas para afastar a aplicação de multas punitivas e moratórias, relativamente ao contribuinte que detinha coisa julgada a seu favor quanto à exigibilidade da CSLL. Tais razões decorrem especialmente da ausência de dolo ou má-fé na conduta daquele que deixou de recolher a contribuição nessas circunstâncias. IV. Dispositivo e tese 5. Embargos de declaração dos amici curiae não conhecidos. Embargos de declaração da parte parcialmente acolhidos para afastar exclusivamente as multas tributárias cujo fato gerador tenha ocorrido até a data da publicação da ata do julgamento de mérito (13.02.2023), impostas aos contribuintes que possuíam decisão favorável transitada em julgado em ações judiciais propostas para questionar a exigibilidade da CSLL. Fica preservada a incidência dos juros de mora e da correção monetária e vedada a repetição dos valores já recolhidos a título de multa de qualquer 1 https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search?classeNumeroIncidente=RE%20949297&base=acordaos&sin onimo=true&plural=true&page=1&pageSize=10&sort=_score&sortBy=desc&isAdvanced=true&origem=AP Fl. 358DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.612 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720685/2019-80 7 natureza. ________ Dispositivos relevantes citados: Constituição Federal, art. 3º, IV; art. 5º, caput, II e XXXVI; art. 37; e art. 150, VI, c. Jurisprudência relevante citada: ADI 15, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, (2007); REsp 1.118.893, Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima (2011); RE 596.663, Redator p/o Acórdão o Min. Teori Zavascki (2014); RE 638.115-RG, Rel. Min. Gilmar Mendes, (2017). Decisão (ED) Após o voto do Ministro Luís Roberto Barroso (Relator), que não conhecia dos embargos de declaração opostos pelos amici curiae e rejeitava os embargos de declaração opostos pela parte, o processo foi destacado pelo Ministro Luiz Fux. A Ministra Rosa Weber antecipou seu voto acompanhando o Relator. Plenário, Sessão Virtual de 22.9.2023 a 29.9.2023 (Sessão iniciada na Presidência da Ministra Rosa Weber e finalizada na Presidência do Ministro Luís Roberto Barroso). Decisão: (ED) (processo destacado do Plenário virtual) Após os votos dos Ministros Luís Roberto Barroso (Presidente e Relator), Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes, que negavam provimento aos embargos de declaração; dos votos dos Ministros Luiz Fux e Edson Fachin, que davam provimento ao recurso; e do voto do Ministro André Mendonça, que excepcionava o pagamento de multas, pediu vista dos autos o Ministro Dias Toffoli. Na sessão virtual em que houve pedido de destaque, a Ministra Rosa Weber acompanhou o voto do Relator. A questão do cabimento de embargos de declaração opostos por amicus curiae ficou pendente de deliberação. Ausente, justificadamente, o Ministro Nunes Marques. Plenário, 16.11.2023. Decisão: (ED) Após o voto-vista do Ministro Dias Toffoli, que: 1) divergia parcialmente do Ministro Luís Roberto Barroso (Presidente e Relator), acolhendo em parte os primeiros e segundos embargos de declaração no RE n º 955.227/BA bem como os primeiros, segundos, terceiros e quartos embargos de declaração no RE nº 949.297/CE para propor, a título de modulação dos efeitos do item 2 da tese firmada, que somente a partir de 13/2/2023 as decisões proferidas em ação direta ou em sede de repercussão geral com atas de julgamento publicadas até essa data interrompem, automaticamente, os efeitos temporais das decisões favoráveis aos sujeitos passivos transitadas em julgado anteriormente ao mesmo marco; 2) preservava os eventuais pagamentos que os contribuintes beneficiários de decisão transitada em julgado, embora abarcados pela modulação ora proposta, já tenham realizado; e 3) na hipótese de não acolhimento dessa proposta, propunha, no que diz respeito às decisões em sede de ação direta ou de repercussão geral com ata de julgamento publicada até 13/2/2023, o afastamento das multas tributárias de qualquer natureza cujo fato gerador tenha ocorrido até a mesma data, impostas contra os sujeitos passivos que tinham coisa julgada formada a seu favor; e do voto do Ministro Nunes Marques, que: 1) acolhia os embargos da TBM, naquilo que apontam contradição interna nos acórdãos, por não atentarem para o princípio da irretroatividade, presente nas teses de julgamento; ii) acolhia os embargos da TBM, no ponto em que argumentam omissão nos acórdãos, por deixarem de enfatizar o papel sistêmico e Fl. 359DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.612 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720685/2019-80 8 uniformizador da jurisprudência do STJ; e iii) ao sanar esses vícios, modulava os efeitos da decisão, em homenagem à boa-fé, à confiança legítima dos contribuintes e à segurança jurídica, na esteira do art. 27 da Lei n. 9.868/99 e do art. 927, § 3º, CPC, a fim de declarar que a perda de eficácia da coisa julgada em matéria tributária, por equivaler a situação inédita na jurisprudência desta Corte, deve emanar efeitos ex nunc, a partir da publicação da ata de julgamento do mérito destes RREE n. 949.297 e n. 955.227, nos termos do voto do Ministro Dias Toffoli (13/2/2023), o julgamento foi suspenso. Plenário, 3.4.2024. Decisão: (ED) O Tribunal, por maioria, resolvendo questão de ordem, manteve sua jurisprudência no sentido da ausência de legitimidade de amicus curie para oposição de embargos de declaração, registrando, todavia, a possibilidade de invocação do art. 323, § 3º, do RISTF, vencidos os Ministros André Mendonça, Nunes Marques, Edson Fachin, Luiz Fux e Dias Toffoli. Votou na questão de ordem o Ministro Flávio Dino. Por maioria, o Tribunal não modulou os efeitos da decisão de mérito, vencidos os Ministros Luiz Fux, Edson Fachin, Dias Toffoli e Nunes Marques. Não votou nesse ponto o Ministro Flávio Dino, sucessor da Ministra Rosa Weber, que já havia votado em assentada anterior também no sentido da não modulação dos efeitos. Por fim, por maioria, o Tribunal deu parcial provimento aos embargos de declaração opostos por TBM - Têxtil Bezerra de Menezes S/A para afastar exclusivamente as multas tributárias de qualquer natureza impostas aos contribuintes que tiveram decisão favorável transitada em julgado em ações judiciais propostas para questionar a exigibilidade da CSLL e cujo fato gerador tenha ocorrido até a data da publicação da ata do julgamento de mérito (13.02.2023), ficando preservada a incidência dos juros de mora e da correção monetária e vedada a repetição dos valores já recolhidos referentes a multas de qualquer natureza, vencidos os Ministros Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Rosa Weber, que já havia votado em assentada anterior. Não votou nesse ponto o Ministro Flávio Dino. Tudo nos termos do voto do Ministro Luís Roberto Barroso (Presidente e Relator). Plenário, 4.4.2024. Verifica-se, pois, que a coisa julgada, antes tida como uma das relíquias sagradas no Direito, passou a contar com novo entendimento. Para o Ministro Fux, “A decisão destruiu a coisa julgada e criou a maior surpresa fiscal para os contribuintes. Foi uma decisão genérica que se aplica a todos os tributos, com consequências desastrosas. O contribuinte que tem uma decisão favorável julgada há mais de dez anos não poderá mais dormir com tranquilidade com essa decisão "2 Nesse novo entendimento, há cessação dos efeitos produzidos pela coisa julgada de forma automática, não se exigindo uma ação revisional ou rescisória. O STF também negou o pedido de modulação de efeitos, o que poderia permitir o retorno da cobrança, no caso da CSLL, apenas a partir de 2023, ano da decisão dos Embargos de Declaração. O resultado prático dessa 2 https://www.ibet.com.br/destruicao-da-coisa-julgada-leva-intranquilidade-aos-contribuintes-diz-fux-em- evento-realizado-pelo-sescon-sp-ministro-do-stf-disse-estar-incomodado-com-julgamento-recente-da/ Fl. 360DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.612 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720685/2019-80 9 decisão, então, é a possibilidade de exigência da CSLL a partir do julgamento do ADI nº 15, em 2007. Consta no site do STF3 a explicação do resultado pelo Ministro condutor da tese vencedora: O ministro Barroso, que conduziu a tese vencedora no julgamento, explicou os principais pontos da discussão. Segundo ele, não se pode falar em prejuízo às empresas uma vez que, no caso em debate, o STF validou o imposto em 2007 e, desde então, as empresas deveriam ter passado a pagar ou no mínimo ter provisionado recursos para esta finalidade. “A insegurança jurídica não foi criada pela decisão do Supremo. A insegurança jurídica foi criada pela decisão de, mesmo depois da orientação do Supremo de que o tributo era devido, continuar a não pagá-lo ou a não provisionar. (...) A partir do momento em que o Supremo diz que o tributo é devido, quem não pagou ou provisionou fez uma aposta”, esclareceu o ministro. E, mais adiante, continua: Sobre quais tipos de tributos o STF se pronunciou? A decisão que estipulou a perda de efeitos de uma sentença definitiva (transitada em julgado, sem possibilidade de recurso), caso o Supremo tome uma decisão contrária, foi unânime e vale apenas para tributos recolhidos de forma continuada, ou seja, aqueles cuja cobrança se renova periodicamente, como a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Nos casos dos tributos cobrados uma vez só, como, por exemplo, o ITBI, que incide sobre a venda de um determinado imóvel, se houver uma decisão transitada em julgado, como a relação é única, esse direito permanece, mesmo após decisão contrária do STF sobre o tema. (grifamos) Conforme o ministro Barroso, o STF entendeu que no caso das relações tributárias continuadas uma decisão anterior que considere determinado tributo inconstitucional perde eficácia após decisão do STF reconhecendo sua validade. Isso faz com que a retomada do pagamento seja obrigatória, mesmo para os contribuintes que já tinham decisões definitivas de outras instâncias desobrigando o recolhimento. Mas ele deixou claro: não se cobra para trás. Somente para frente, após a decisão do STF de 2007. Por quê o STF reverteu nesses casos a “coisa julgada”? O ministro salientou que a coisa julgada – o direito adquirido a partir de uma decisão judicial sem possibilidade de recursos – vale enquanto permanecerem as mesmas condições fáticas e jurídicas. No entanto, quando a Suprema Corte decide que um tributo é devido, a partir daquele momento, todos têm que pagar. 3 https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=502140&ori=1 Fl. 361DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.612 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720685/2019-80 10 Barroso destacou a importância de que um determinado tributo incida sobre todos os atores do mercado, caso contrário, quem tiver obtido uma coisa julgada antiga tem uma vantagem competitiva em relação aos concorrentes, em decorrência da desigualdade tributária. (grifamos) Qual foi o caso concreto decidido? Em 1992, algumas empresas conseguiram na Justiça o direito de não pagar a CSLL, e o caso transitou em julgado em outra instância. Porém, em 2007, no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 15, o STF afirmou que a contribuição era constitucional e deveria ser paga. O Supremo se pronunciou no sentido de que a partir daquela decisão, todos deveriam ter passado a pagar o tributo. Haverá prejuízo às empresas envolvidas? Conforme o ministro Barroso, desde que o STF tomou a decisão em 2007, nenhuma empresa pode dizer que foi pega de surpresa. Para ele, o entendimento do STF não cria insegurança jurídica, pois quem deixou de pagar depois que a Corte validou a cobrança e não provisionou recursos para esta finalidade fez uma “aposta”. (grifamos) “A insegurança jurídica não foi criada pela decisão do Supremo. A insegurança jurídica foi criada pela decisão de, mesmo depois da orientação do Supremo de que era devido, continuar a não pagar e a não provisionar. (...) Se você for num cassino e fizer uma aposta você está num quadro de insegurança jurídica e pode ganhar ou perder. De modo que a partir do momento em que o Supremo diz que o tributo é devido, quem não pagou ou provisionou fez uma aposta”, explicou. O entendimento valerá para todos os processos? A decisão foi tomada em sede de repercussão geral. Portanto, a decisão valerá para todos os casos semelhantes que corram em outras instâncias. Nos casos de outros tributos que venham a ser considerados constitucionais, a partir de quando as empresas terão que pagar os valores? Pelo entendimento dos ministros, se o tributo for imposto e considerado constitucional, ele só será cobrado no ano seguinte. Se for contribuição, três meses depois da decisão. (grifamos) O ministro Barroso esclareceu ainda que no caso da CSLL, por ter uma inequívoca decisão anterior do Supremo afirmando que o tributo era devido, a Corte entendeu que não deveria fazer a chamada modulação e determinou o recolhimento dos valores passados, respeitado o prazo de prescrição. Caso haja outro tributo, em situação fática ou jurídica distinta, o STF poderá decidir se haverá ou não modulação. (grifamos) Confira novamente a tese fixada no julgamento: Fl. 362DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.612 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720685/2019-80 11 1. As decisões do STF em controle incidental de constitucionalidade, anteriores à instituição do regime de repercussão geral, não impactam automaticamente a coisa julgada que se tenha formado, mesmo nas relações jurídicas tributárias de trato sucessivo. 2. Já as decisões proferidas em ação direta ou em sede de repercussão geral interrompem automaticamente os efeitos temporais das decisões transitadas em julgado nas referidas relações, respeitadas a irretroatividade, a anterioridade anual e a noventena ou a anterioridade nonagesimal, conforme a natureza do tributo. Portanto, assiste razão à Recorrente. No caso em concreto, o lançamento refere-se ao ano-calendário de 2014. Ou seja, após cessados os efeitos da coisa julgada, valendo o que restou decido no ADI nº 15 de 2007. Acontece, porém, que há outros lançamentos que não foram julgadas em razão da sua consequente prejudicialidade naquele instante. Confira-se: Daí porque, nos filiamos ao entendimento do STJ, estampado nos autos do REsp nº 1.118.893/MG, com trânsito em julgado em 09/05/2011, processado/julgado sob o rito dos recursos repetitivos e, portanto, vinculante a este Colegiado, no sentido de que “os contribuintes que possuem a seu favor decisão judicial transitada em julgado, declarando a inconstitucionalidade da CSLL, não podem ser compelidos a pagar tal contribuição, ainda que o STF, em controle concentrado ocorrido em momento posterior à referida decisão, declare a constitucionalidade da exação”, impondo seja decretada a improcedência do feito. Neste sentido, uma vez reconhecida a improcedência do lançamento, restam prejudicadas as demais alegações recursais. (grifamos) Em razão disso, entendo que o feito deva retornar ao Colegiado a quo, para que as demais matérias sejam julgadas. CONCLUSÃO Em razão do exposto, voto por CONHECER do Recurso Especial do Procurador, e, no mérito, DAR-LHE PARCIAL PROVIMENTO, devendo o feito retornar ao Colegiado a quo, para julgamento das matérias suscitadas em Recurso Voluntário e prejudicadas em razão de seu provimento. Assinado Digitalmente Heldo Jorge dos Santos Pereira Junior Fl. 363DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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11436689 #
Numero do processo: 16682.900082/2019-11
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 23 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Fri Jul 24 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Exercício: 2014 PRELIMINAR. FUNDAMENTAÇÃO DO DESPACHO DECISÓRIO. DELIMITAÇÃO DOS FATOS E DA PREMISSA JURÍDICA. A validade do despacho decisório exige a indicação dos fatos relevantes e da premissa jurídica determinante do não reconhecimento do crédito. Evidenciada a delimitação da controvérsia e a explicitação do fundamento da glosa, a discordância da contribuinte desloca-se para o mérito da decisão administrativa. Demonstrado que a parte identificou a razão determinante da glosa e apresentou defesa técnica específica, não se configura ofensa aos incisos III e IV do art. 10 do Decreto nº 70.235/1972. PRELIMINAR. MUDANÇA DE CRITÉRIO JURÍDICO. REINTERPRETAÇÃO DA LEGISLAÇÃO APLICÁVEL. A mudança de critério jurídico pressupõe a substituição do fundamento normativo que estrutura a exigência ou a controvérsia administrativa, com potencial de alterar a causa de decidir ou restringir o exercício do contraditório. A mera explicitação de entendimento próprio acerca do alcance das normas discutidas, sem modificação do objeto litigioso ou da questão jurídica submetida a julgamento, não caracteriza inovação. PRELIMINAR. DILIGÊNCIA E PERÍCIA. VERDADE MATERIAL. DEVER-PODER INSTRUTÓRIO DO JULGADOR. ÔNUS DA PROVA. A diligência e a perícia constituem instrumentos de instrução processual destinados à formação do convencimento da autoridade julgadora quando os elementos constantes dos autos se mostrarem insuficientes para o adequado esclarecimento dos fatos controvertidos. O princípio da verdade material não afasta a distribuição do ônus probatório nem autoriza a utilização da atividade instrutória como mecanismo de substituição da atuação processual da parte. Inadmissível a realização de diligência destinada à obtenção de elementos probatórios que poderiam e deveriam ter sido produzidos pelo próprio contribuinte durante a fase litigiosa. CSLL. TRIBUTAÇÃO DOS LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR. IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE. ART. 9º DA MEDIDA PROVISÓRIA Nº 2.158-35/2001. REGIME JURÍDICO DO CRÉDITO. O tratamento jurídico do crédito previsto no art. 9º da Medida Provisória nº 2.158-35/01 não se define pela circunstância de o imposto ter sido arrecadado em território nacional, mas pelo regime normativo ao qual o legislador expressamente o vinculou. Inserido no contexto da tributação internacional da renda, o crédito submete-se às regras e finalidades próprias desse sistema, voltadas à neutralização da dupla incidência tributária sobre resultados auferidos no exterior. A referência ao imposto devido sobre o lucro real constante do art. 9º da Medida Provisória nº 2.158-35/01 traduz a disciplina ordinária de utilização inicial do crédito no âmbito do IRPJ, não constituindo norma restritiva apta a vedar sua repercussão sobre a tributação dos lucros auferidos no exterior sujeita à CSLL. A instituição de limitação ao aproveitamento do crédito exige previsão legal expressa, inexistente na hipótese examinada. Não se mostra compatível com a lógica do sistema jurídico afastar a incidência do regime da tributação internacional da renda sob o fundamento de que o crédito decorre de imposto recolhido no Brasil e, simultaneamente, deixar de aplicar as consequências próprias do regime geral das compensações tributárias federais. A rejeição concomitante de ambos os regimes legais para justificar solução restritiva não prevista em lei implica criação de disciplina excepcional sem suporte normativo. LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR. CONSOLIDAÇÃO DE RESULTADOS. COMPROVAÇÃO DA BASE CONSOLIDADA. ÔNUS DA PROVA. A opção pela consolidação dos resultados auferidos no exterior impõe ao contribuinte o ônus de demonstrar a regular formação da base consolidada utilizada para apuração dos lucros submetidos à tributação no Brasil. A comprovação não se limita ao resultado final consolidado, alcançando também os resultados das entidades cujos números foram absorvidos pela consolidação. A falta de apresentação de demonstração financeira exigida relativamente à sociedade estrangeira cujos resultados integraram a consolidação impede a verificação da exatidão dos lucros considerados pelo contribuinte e inviabiliza o reconhecimento do crédito pleiteado.
Numero da decisão: 1201-007.589
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, nos termos do voto do Relator. Vencidos os Conselheiros Isabelle Resende Alves Rocha e Lucas Issa Halah, que votaram por dar provimento parcial em maior extensão. Assinado Digitalmente Renato Rodrigues Gomes – Relator Assinado Digitalmente Nilton Costa Simões – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Raimundo Pires de Santana Filho, Renato Rodrigues Gomes, Marcelo Antonio Biancardi, Isabelle Resende Alves Rocha, Lucas Issa Halah, Nilton Costa Simoes (Presidente).
Nome do relator: RENATO RODRIGUES GOMES

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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Exercício: 2014 PRELIMINAR. FUNDAMENTAÇÃO DO DESPACHO DECISÓRIO. DELIMITAÇÃO DOS FATOS E DA PREMISSA JURÍDICA. A validade do despacho decisório exige a indicação dos fatos relevantes e da premissa jurídica determinante do não reconhecimento do crédito. Evidenciada a delimitação da controvérsia e a explicitação do fundamento da glosa, a discordância da contribuinte desloca-se para o mérito da decisão administrativa. Demonstrado que a parte identificou a razão determinante da glosa e apresentou defesa técnica específica, não se configura ofensa aos incisos III e IV do art. 10 do Decreto nº 70.235/1972. PRELIMINAR. MUDANÇA DE CRITÉRIO JURÍDICO. REINTERPRETAÇÃO DA LEGISLAÇÃO APLICÁVEL. A mudança de critério jurídico pressupõe a substituição do fundamento normativo que estrutura a exigência ou a controvérsia administrativa, com potencial de alterar a causa de decidir ou restringir o exercício do contraditório. A mera explicitação de entendimento próprio acerca do alcance das normas discutidas, sem modificação do objeto litigioso ou da questão jurídica submetida a julgamento, não caracteriza inovação. PRELIMINAR. DILIGÊNCIA E PERÍCIA. VERDADE MATERIAL. DEVER-PODER INSTRUTÓRIO DO JULGADOR. ÔNUS DA PROVA. A diligência e a perícia constituem instrumentos de instrução processual destinados à formação do convencimento da autoridade julgadora quando os elementos constantes dos autos se mostrarem insuficientes para o adequado esclarecimento dos fatos controvertidos. O princípio da verdade material não afasta a distribuição do ônus probatório nem autoriza a utilização da atividade instrutória como mecanismo de substituição da Fl. 1418DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 2 atuação processual da parte. Inadmissível a realização de diligência destinada à obtenção de elementos probatórios que poderiam e deveriam ter sido produzidos pelo próprio contribuinte durante a fase litigiosa. CSLL. TRIBUTAÇÃO DOS LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR. IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE. ART. 9º DA MEDIDA PROVISÓRIA Nº 2.158- 35/2001. REGIME JURÍDICO DO CRÉDITO. O tratamento jurídico do crédito previsto no art. 9º da Medida Provisória nº 2.158-35/01 não se define pela circunstância de o imposto ter sido arrecadado em território nacional, mas pelo regime normativo ao qual o legislador expressamente o vinculou. Inserido no contexto da tributação internacional da renda, o crédito submete-se às regras e finalidades próprias desse sistema, voltadas à neutralização da dupla incidência tributária sobre resultados auferidos no exterior. A referência ao imposto devido sobre o lucro real constante do art. 9º da Medida Provisória nº 2.158-35/01 traduz a disciplina ordinária de utilização inicial do crédito no âmbito do IRPJ, não constituindo norma restritiva apta a vedar sua repercussão sobre a tributação dos lucros auferidos no exterior sujeita à CSLL. A instituição de limitação ao aproveitamento do crédito exige previsão legal expressa, inexistente na hipótese examinada. Não se mostra compatível com a lógica do sistema jurídico afastar a incidência do regime da tributação internacional da renda sob o fundamento de que o crédito decorre de imposto recolhido no Brasil e, simultaneamente, deixar de aplicar as consequências próprias do regime geral das compensações tributárias federais. A rejeição concomitante de ambos os regimes legais para justificar solução restritiva não prevista em lei implica criação de disciplina excepcional sem suporte normativo. LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR. CONSOLIDAÇÃO DE RESULTADOS. COMPROVAÇÃO DA BASE CONSOLIDADA. ÔNUS DA PROVA. A opção pela consolidação dos resultados auferidos no exterior impõe ao contribuinte o ônus de demonstrar a regular formação da base consolidada utilizada para apuração dos lucros submetidos à tributação no Brasil. A comprovação não se limita ao resultado final consolidado, alcançando também os resultados das entidades cujos números foram absorvidos pela consolidação. A falta de apresentação de demonstração financeira exigida relativamente à sociedade estrangeira cujos resultados integraram a consolidação impede a verificação da exatidão dos lucros considerados pelo contribuinte e inviabiliza o reconhecimento do crédito pleiteado. Fl. 1419DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 3 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, nos termos do voto do Relator. Vencidos os Conselheiros Isabelle Resende Alves Rocha e Lucas Issa Halah, que votaram por dar provimento parcial em maior extensão. Assinado Digitalmente Renato Rodrigues Gomes – Relator Assinado Digitalmente Nilton Costa Simões – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Raimundo Pires de Santana Filho, Renato Rodrigues Gomes, Marcelo Antonio Biancardi, Isabelle Resende Alves Rocha, Lucas Issa Halah, Nilton Costa Simoes (Presidente). RELATÓRIO A controvérsia submetida a julgamento tem origem em pedido de compensação formalizado pela Recorrente por meio da DCOMP nº 32612.64486.230915.1.3.03-4029, posteriormente retificada pela DCOMP nº 13967.75760.120617.1.7.03-0733, no qual foi informado crédito decorrente de saldo negativo de CSLL relativo ao ano-calendário de 2013, no montante de R$ 68.293.147,33: Descrição Valor Declarado Valor Confirmado CSLL Devida R$ 22.365.931,77 R$ 22.365.931,77 IR Pago no Exterior R$ 46.055.726,35 R$ 0,00 Retenção na fonte de CSLL R$ 2.804.561,16 R$ 2.202.597,63 Pagamento via DARF R$ 27.856.958,53 R$ 27.856.958,53 Pagamento via Compensação R$ 13.941.834,07 R$ 13.941.834,07 Saldo Negativo R$ 90.659.080,11 R$ 44.001.390,23 Ao examinar a composição desse crédito, a Administração Tributária reconheceu sua existência apenas até o montante de R$ 44.001.390,23, circunstância que resultou na homologação integral de alguns pedidos, na homologação parcial de outros e, ainda, o indeferimento do pedido de restituição: Fl. 1420DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 4 Compensações integralmente homologadas: Compensações não homologadas:  DCOMP nº 13967.75760.120617.1.7.03-0733  DCOMP nº 41338.23697.120617.1.7.03-0760  DCOMP nº 41373.81053.120617.1.7.03-9009  DCOMP nº 03548.61244.130617.1.7.03-4704  DCOMP nº 35994.32316.130617.1.7.03-1112  DCOMP nº 00903.30519.130717.1.3.03-7047 Compensação parcialmente homologada: Restituição/ressarcimento indeferido:  DCOMP nº 42192.07568.130617.1.7.03-1453  PER nº 15453.93749.170718.1.2.03-8405 Ao percorrer o demonstrativo de análise que acompanha o despacho decisório, verifico que a redução do crédito originalmente pleiteado repousa sobre três premissas distintas:  O primeiro fundamento refere-se à não comprovação de parte das retenções de CSLL na fonte em operações domésticas, no valor de R$ 601.963,53;  O segundo ponto controvertido decorre da interpretação da autoridade fiscal segundo a qual inexiste autorização legal para que o IRRF retido pela matriz brasileira sobre os juros pagos à sua filial localizada nas Ilhas Cayman seja utilizado para compensar a CSLL incidente sobre os lucros atribuídos a essa mesma filial;  O terceiro motivo está relacionado à alegada insuficiência do conjunto probatório apresentado pela contribuinte para demonstrar o atendimento dos pressupostos legais que autorizariam o aproveitamento, no Brasil, do imposto de renda recolhido no exterior pela subsidiária integral Spring Valley. Em sua impugnação, a contribuinte inaugura a discussão sustentando a nulidade parcial do despacho decisório. Argumenta que a glosa do crédito correspondente ao IRRF incidente sobre rendimentos de fonte brasileira remetidos à sua filial localizada nas Ilhas Cayman não foi acompanhada da necessária exposição dos fundamentos que a justificariam, circunstância que, em seu entendimento, comprometeria o exercício pleno do contraditório e da ampla defesa. Avançando para o mérito da controvérsia, sustenta que os lucros auferidos pela Filial Cayman, no montante de R$ 744.148.131,40, foram regularmente submetidos à tributação no Brasil. A partir dessa premissa, defende que o IRRF incidente sobre rendimentos de fonte brasileira poderia ser utilizado para compensação com a CSLL incidente sobre esses mesmos resultados, solução que encontraria amparo nos artigos 9º e 21 da Medida Provisória nº 2.158- 35/01. A defesa também contesta a glosa relacionada ao imposto de renda corporativo recolhido no exterior pela subsidiária integral Spring Valley. Sobre esse ponto, afirma ter apresentado documentação suficiente para comprovar o preenchimento dos requisitos legais exigidos para o aproveitamento do crédito, incluindo comprovantes autenticados de recolhimento Fl. 1421DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 5 do tributo, contratos de aquisição das ações da empresa, demonstrações financeiras e respectivas traduções juramentadas. Por fim, no que se refere à parcela do crédito vinculada à CSLL retida na fonte, informa ter iniciado diligências junto às fontes pagadoras com o objetivo de obter documentação apta a comprovar a retenção e o respectivo recolhimento do tributo. Afirma, ainda, que tais documentos serão oportunamente apresentados aos autos tão logo estejam disponíveis. A matéria foi apreciada pela 12ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro, que julgou improcedente a impugnação apresentada pela contribuinte. Quanto à preliminar de nulidade, o órgão julgador entendeu não estar configurada qualquer violação ao direito de defesa apta a comprometer a validade do despacho decisório. Em relação ao crédito vinculado à filial localizada nas Ilhas Cayman, a Turma reconheceu a existência de disciplina legal específica para compensação de tributos pagos no exterior com a CSLL devida no Brasil. Todavia, concluiu que tal regime não alcançaria o IRRF incidente sobre rendimentos de fonte brasileira remetidos à filial domiciliada no exterior, por inexistir previsão legal expressa que autorizasse essa forma de aproveitamento. No tocante ao crédito relacionado à subsidiária integral Spring Valley Management LLC, entendeu que a contribuinte não apresentou as demonstrações financeiras das demais participações mantidas no exterior, circunstância que impediria a validação do imposto de renda pago sobre os lucros daquela sociedade para fins de compensação no Brasil. Por fim, relativamente às retenções de CSLL na fonte, observou que a contribuinte não apresentou documentos capazes de comprovar as retenções não confirmadas pela fiscalização, limitando-se a informar que havia iniciado diligências para obtenção da documentação pertinente, sem que novos elementos probatórios tivessem sido juntados aos autos até a prolação da decisão. Inconformada com o desfecho do julgamento de primeira instância, a contribuinte interpôs Recurso Voluntário, requerendo a reforma integral da decisão. Para tanto, formula os seguintes argumentos:  Nulidade do Despacho Decisório: Por suposta ausência de fundamentação clara e precisa quanto às razões que justificaram a glosa do crédito referente ao IRRF incidente no Brasil sobre rendimentos de fonte brasileira remetidos à sua filial localizada nas Ilhas Cayman;  Nulidade do Acórdão Recorrido: Ao argumento de que a decisão de primeira instância teria inovado nos fundamentos jurídicos adotados pela Fl. 1422DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 6 Administração Tributária para manter o indeferimento da parcela do crédito decorrente da compensação do IRRF;  IRRF (Ilhas Cayman): Defende que o art. 9º da Medida Provisória nº 2.158- 35/01, interpretado em conjunto com o art. 26 da Lei nº 9.249/95, autorizaria a compensação do IRRF incidente sobre rendimentos auferidos por filial domiciliada no exterior com a CSLL devida pela Recorrente no Brasil;  IR pago no Exterior (Spring Valley): Sustenta que a exigência de apresentação das demonstrações financeiras das demais entidades estrangeiras seria indevida e, de todo modo, afirma que a documentação apresentada seria suficiente para comprovar o cumprimento dos requisitos exigidos para o aproveitamento do crédito pleiteado;  CSLL Retida na Fonte: Requer a conversão do julgamento em diligência, com fundamento no princípio da verdade material, para que sejam reexaminados os pagamentos efetuados pelas fontes pagadoras brasileiras e os créditos correspondentes pleiteados pela Recorrente. Distribuído o feito à minha relatoria, passo à análise da controvérsia devolvida a este Conselho, submetendo o presente voto à apreciação deste Colegiado. É o relatório. VOTO Conselheiro Renato Rodrigues Gomes, Relator. Admissibilidade dos Recurso Voluntário: O recurso voluntário foi interposto tempestivamente e preenche os demais requisitos para sua admissibilidade. Por isso, passo ao seu conhecimento. Preliminar | Nulidade do despacho decisório: A Recorrente suscita preliminar de nulidade parcial do despacho decisório, por entender que a glosa do crédito referente ao IRRF incidente sobre rendimentos de fonte brasileira remetidos à sua filial localizada nas Ilhas Cayman não foi acompanhada da necessária exposição dos fundamentos que a justificariam. Argumenta que o aproveitamento do referido crédito encontra respaldo expresso no artigo 9º da Medida Provisória nº 2.158-35/01 e que, apesar disso, a autoridade fiscal limitou-se a afastar seu reconhecimento sem explicitar, de forma suficiente, as razões jurídicas e fáticas que teriam conduzido a tal conclusão. Fl. 1423DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 7 Nessa perspectiva, sustenta que o ato administrativo não observou o dever de motivação imposto à Administração Tributária, circunstância que, em seu entendimento, comprometeria o exercício do contraditório e da ampla defesa. Por essa razão, requer a declaração de nulidade parcial do despacho decisório. Tenho reiteradamente assentado que a decretação de nulidade de ato administrativo constitui medida de caráter excepcional, reservada às hipóteses em que se demonstre, simultaneamente, a existência de vício formal relevante e a ocorrência de prejuízo concreto à parte, especialmente quando comprometido o exercício do direito de defesa: Código de Processo Civil Art. 277. Quando a lei prescrever determinada forma, o juiz considerará válido o ato se, realizado de outro modo, lhe alcançar a finalidade. Art. 282. Ao pronunciar a nulidade, o juiz declarará que atos são atingidos e ordenará as providências necessárias a fim de que sejam repetidos ou retificados. § 1º O ato não será repetido nem sua falta será suprida quando não prejudicar a parte. Art. 283. O erro de forma do processo acarreta unicamente a anulação dos atos que não possam ser aproveitados, devendo ser praticados os que forem necessários a fim de se observarem as prescrições legais. Parágrafo único. Dar-se-á o aproveitamento dos atos praticados desde que não resulte prejuízo à defesa de qualquer parte. A máxima segundo a qual “não há nulidade sem prejuízo” decorre diretamente do Princípio da Instrumentalidade das Formas. O seu propósito é evitar que o excesso de formalismo comprometa a efetividade da tutela jurisdicional. Assim, atos que cumpram sua função essencial devem ser preservados, ainda que apresentem imperfeições formais. Examinando os autos, não verifico a ocorrência do vício suscitado pela Recorrente. A leitura das razões recursais revela que a insurgência não se dirige propriamente à ausência de motivação do despacho decisório, mas à conclusão jurídica nele adotada. Em outras palavras, a controvérsia instaurada não diz respeito à falta de exposição dos fundamentos do ato administrativo, mas à discordância da contribuinte quanto ao entendimento da fiscalização acerca da impossibilidade de aproveitamento do crédito de IRRF incidente sobre remessas de juros de fonte brasileira à sua filial situada nas Ilhas Cayman. Essa circunstância é relevante porque a divergência interpretativa acerca da aplicação do artigo 9º da Medida Provisória nº 2.158-35/01 integra o próprio mérito da discussão. Não se trata de questão relacionada à validade formal do despacho decisório, mas de tema atinente à correção jurídica da conclusão alcançada pela autoridade fiscal. Fl. 1424DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 8 As próprias razões apresentadas pela contribuinte demonstram a improcedência da alegação de nulidade. Tanto na impugnação quanto no recurso voluntário, a Recorrente desenvolve argumentação jurídica detalhada com o propósito de demonstrar que a sistemática legal de compensação de tributos pagos no exterior também deveria alcançar o IRRF incidente sobre rendimentos de fonte brasileira remetidos à sua filial localizada nas Ilhas Cayman. Nessas circunstâncias, não se pode afirmar que houve deficiência de motivação. O que os autos revelam é a existência de controvérsia jurídica acerca da possibilidade de utilização desse crédito, matéria que se situa no plano do mérito da discussão e não da validade formal do despacho decisório. Se a parte foi capaz de identificar a razão determinante da glosa e construir defesa técnica específica para afastá-la, não há como reconhecer a existência de prejuízo ao contraditório ou à ampla defesa. Nessas condições, a alegada deficiência de fundamentação não ultrapassa o campo da inconformidade com o mérito da decisão administrativa: Acórdão nº 1201-007.398 NULIDADE. DECISÃO. FUNDAMENTAÇÃO SUFICIENTE. A nulidade da decisão administrativa é medida excepcional, condicionada à comprovação simultânea de vício relevante e de prejuízo concreto à parte. A exigência constitucional de motivação não impõe fundamentação exaustiva, sendo suficiente o enfrentamento das questões essenciais ao deslinde da controvérsia. A eventual inconformidade quanto às conclusões adotadas insere-se no âmbito do mérito recursal, não configurando nulidade. Inexistente violação ao art. 93, IX, da Constituição Federal e ao art. 59, II, do Decreto nº 70.235/72. À vista das considerações, concluo que não se encontra configurada a alegada ofensa aos incisos III e IV do art. 10 do Decreto nº 70.235/72. Embora a Recorrente sustente a insuficiência da fundamentação adotada pela autoridade fiscal, os autos demonstram que o despacho decisório delimitou os fatos relevantes para a solução da controvérsia e explicitou a premissa jurídica que embasou o não reconhecimento da parcela do crédito em discussão. Preliminar | Nulidade do acórdão recorrido: Antes de avançar no exame da controvérsia de mérito, reputo conveniente também enfrentar a alegação de nulidade do acórdão recorrido deduzida pela Recorrente, sob o argumento de que teria havido indevida mudança de critério jurídico. A mudança de critério jurídico pressupõe a adoção de fundamento normativo diverso daquele que estruturou a controvérsia originalmente instaurada, com potencial para Fl. 1425DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 9 alterar a própria causa de decidir ou surpreender a parte quanto aos parâmetros jurídicos relevantes para o julgamento da matéria. Não foi isso que ocorreu no presente caso. O acórdão recorrido manteve o objeto litigioso e examinou a mesma questão jurídica submetida à apreciação administrativa: a possibilidade de utilização do crédito de IRRF para fins de compensação na forma defendida pela contribuinte. O fato de o órgão julgador ter desenvolvido argumentação própria para justificar a conclusão alcançada não configura, por si só, mudança de critério jurídico. A motivação da decisão pode envolver diferentes construções argumentativas sem que isso implique alteração da controvérsia efetivamente julgada. No caso concreto, o que se observa é que o colegiado recorrido apenas explicitou sua compreensão acerca do alcance da legislação aplicável, entendendo que as normas invocadas pela contribuinte disciplinariam hipóteses de compensação relacionadas a tributos pagos no exterior, não alcançando a situação específica objeto dos autos. Trata-se de fundamento integrante da própria análise jurídica da controvérsia, e não de inovação decisória capaz de comprometer o exercício do contraditório ou da ampla defesa. Diante desse contexto, não identifico vício processual apto a ensejar a nulidade pretendida, razão pela qual também afasto a preliminar suscitada. Preliminar | Conversão do julgamento em diligência: Em relação à parcela do crédito não reconhecida em decorrência da ausência de confirmação de retenções de CSLL na fonte em operações domésticas, a Recorrente requer a conversão do julgamento em diligência. Sustenta que o aprofundamento da instrução probatória permitiria reexaminar os pagamentos efetuados pelas fontes pagadoras brasileiras e identificar corretamente os créditos a eles vinculados, providência que reputa necessária para assegurar a observância do princípio da verdade material no âmbito do processo administrativo fiscal. Pois bem. A diligência e a perícia ocupam posição de relevo no processo administrativo fiscal, não como fins em si mesmas, mas como instrumentos destinados a suprir insuficiências da instrução probatória sempre que a adequada compreensão dos fatos assim o exigir. Fl. 1426DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 10 Por isso, a avaliação acerca de sua necessidade não pode ser realizada em abstrato nem decorrer automaticamente da manifestação de vontade das partes. Ao contrário, deve resultar do exame do acervo probatório já incorporado aos autos, pois somente a partir dele é possível verificar se permanecem dúvidas objetivas relevantes para o julgamento ou se a controvérsia já se encontra suficientemente madura para apreciação. Sua finalidade é complementar a instrução quando os elementos disponíveis se revelarem insuficientes para a adequada solução da controvérsia. Não se prestam, contudo, à reabertura da fase instrutória ou suprir deficiência probatória decorrente do não atendimento de ônus que competia a parte. É precisamente nesse contexto que se insere a exigência contida no art. 16, inciso IV, do Decreto nº 70.235/72. Ao determinar que o interessado indique os motivos que justificam a prova requerida, formule os quesitos pertinentes e, tratando-se de perícia, nomeie assistente técnico, a legislação evidencia que a produção probatória não constitui providência automática, mas medida condicionada à demonstração, perante o julgador, de sua efetiva utilidade para o esclarecimento dos fatos controvertidos: Decreto nº 70.235/1972 Art. 16. A impugnação mencionará: [...] IV - As diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito. [...] § 1º Considerar-se-á não formulado o pedido de diligência ou perícia que deixar de atender aos requisitos previstos no inciso IV do art. 16. O §1º do mencionado dispositivo é expresso ao estabelecer que o pedido que não observe tais requisitos será considerado não formulado, evidenciando que o exercício da ampla defesa pressupõe atuação diligente e tecnicamente fundamentada da parte. No caso submetido a julgamento, verifico que a Recorrente não atendeu aos requisitos exigidos pela legislação para o deferimento da diligência requerida. O pedido formulado em sede recursal limita-se a requerer o reexame dos pagamentos e dos créditos discutidos, sem identificar quais fatos permaneceriam controvertidos, quais dúvidas objetivas demandariam esclarecimento adicional ou de que forma a medida contribuiria para a solução da controvérsia. Ausente a demonstração da utilidade da prova requerida para o esclarecimento dos fatos controvertidos, seu indeferimento não configura cerceamento do direito de defesa. Trata-se, ao contrário, do exercício regular da competência atribuída ao órgão julgador para Fl. 1427DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 11 avaliar a pertinência, a necessidade e a relevância das medidas instrutórias requeridas pelas partes: Súmula CARF nº 163: O indeferimento fundamentado de requerimento de diligência ou perícia não configura cerceamento do direito de defesa, sendo facultado ao órgão julgador indeferir aquelas que considerar prescindíveis ou impraticáveis. De fato, o princípio da verdade material invocado pela parte ocupa posição de destaque no processo administrativo, funcionando como importante vetor para a adequada reconstrução dos fatos submetidos à apreciação do Contencioso Fiscal. Trata-se de valor que orienta a atividade instrutória e busca assegurar que a decisão seja construída a partir da realidade efetivamente demonstrada nos autos. Todavia, sua relevância não permite concluir pela dispensa das regras que disciplinam a produção da prova. A busca da verdade material desenvolve-se dentro da estrutura procedimental estabelecida em lei e pressupõe a observância das normas que regulam a distribuição dos encargos probatórios. Por essa razão, a invocação desse princípio não exonera a contribuinte do dever de comprovar os fatos constitutivos do direito que pretende ver reconhecido. Da mesma forma, não autoriza transferir ao julgador o encargo de produzir elementos probatórios que poderiam e deveriam ter sido apresentados pela própria parte interessada ao longo da fase litigiosa. Acórdão nº 1201-007.300 PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. INÉRCIA DA PARTE. ÔNUS DA PROVA. VERDADE MATERIAL NÃO AFASTA A RESPONSABILIDADE PROBATÓRIA. Não há cerceamento de defesa quando a ausência de prova decorre da própria inércia da parte, que, embora instada reiteradas vezes, não apresenta elementos mínimos para demonstrar suas alegações. A conversão do julgamento em diligência, por possuir natureza discricionária, não constitui direito subjetivo do contribuinte. O princípio da verdade material não funciona como salvo- conduto para afastar regras processuais, nem para transferir ao julgador o dever de demonstrar fatos constitutivos do direito alegado. Tendo o contribuinte deixado de produzir as provas que lhe incumbiam, apesar das oportunidades concedidas, inexiste nulidade do lançamento ou da decisão. Ademais, a própria Recorrente admitiu, em sua impugnação, não dispor dos documentos necessários à comprovação da retenção e do correspondente recolhimento do tributo pelas fontes pagadoras. Naquela oportunidade, informou ter iniciado procedimentos destinados à obtenção dessa documentação e consignou que a apresentaria tão logo estivesse disponível. Fl. 1428DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 12 Não obstante, mesmo após o regular desenvolvimento do processo, nenhum documento adicional foi juntado aos autos. A contribuinte tampouco informou o resultado das diligências que afirmou ter iniciado, não esclareceu se os documentos foram efetivamente solicitados, se houve recusa por parte das fontes pagadoras ou se existiu qualquer obstáculo concreto à sua obtenção. Diante desse contexto, indefiro o pedido de diligência. Além de formulado de maneira genérica e desacompanhado dos requisitos previstos no art. 16, inciso IV, do Decreto nº 70.235/72, o requerimento não evidencia a existência de fato controvertido que demande complementação da instrução, revelando-se voltado, em realidade, à obtenção de elementos probatórios cuja produção incumbia à própria Recorrente. Análise do direito creditório: IRRF (Ilhas Cayman): O debate instaurado nos autos consiste em definir se o imposto de renda retido na fonte sobre rendimentos de fonte brasileira remetidos à filial da Recorrente situada nas Ilhas Cayman pode ser utilizado para compensação da CSLL incidente sobre os lucros auferidos por essa mesma unidade no exterior. A resposta oferecida pela fiscalização, posteriormente acolhida pelo acórdão recorrido, foi negativa. Segundo essa compreensão, o ordenamento jurídico contempla disciplina específica para compensação de tributos pagos no exterior, mas não autoriza o aproveitamento de imposto retido no Brasil sobre rendimentos pagos ou creditados à filial estrangeira para quitação da CSLL incidente sobre os lucros por ela auferidos. A Recorrente, por outro lado, sustenta que essa conclusão decorre de leitura fragmentada do sistema normativo. Defende que o art. 9º da Medida Provisória nº 2.158-35/01, interpretado em conjunto com o art. 26 da Lei nº 9.249/95, autoriza a compensação pretendida e que eventual interpretação restritiva comprometeria a própria finalidade do regime jurídico instituído pelo legislador. Em sua ótica, a expressão “imposto de renda pago no exterior”, constante do parágrafo único do art. 9º da Medida Provisória nº 2.158-35/2001, não foi concebida para restringir o aproveitamento de créditos, mas para operacionalizar um sistema voltado à neutralização dos efeitos da dupla tributação econômica dos resultados produzidos fora do país. Fl. 1429DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 13 Sob essa perspectiva, não haveria razão jurídica para distinguir o crédito decorrente do imposto corporativo recolhido pela filial estrangeira daquele originado da retenção na fonte incidente sobre rendimentos remetidos a essa mesma unidade. A contribuinte acrescenta ainda que essa compreensão encontraria respaldo na própria sistemática declaratória então vigente. Destaca que a DIPJ não previa qualquer segregação entre os créditos submetidos ao regime do art. 9º da MP nº 2.158-35/01 e os demais créditos relacionados a resultados auferidos no exterior, circunstância que, segundo sustenta, evidencia a unidade do tratamento jurídico conferido pelo legislador as diferentes formas de tributação. Passo às minhas considerações. Tenho por pressuposto que o direito positivo não se revela plenamente por meio da leitura fragmentada de seus enunciados normativos. As disposições legais não operam de forma isolada, mas integram estruturas normativas mais amplas, concebidas para disciplinar determinada realidade econômica e realizar finalidades específicas eleitas pelo legislador. Por essa razão, a interpretação não pode limitar-se à investigação da literalidade de determinado dispositivo. Embora o texto legal constitua ponto de partida indispensável, a adequada compreensão da norma exige a identificação do regime jurídico em que ela se insere, da função que desempenha dentro desse regime e dos efeitos que a solução interpretativa produz sobre a coerência do sistema considerado em sua integralidade. É por essa razão que a solução da controvérsia não deve partir exclusivamente da origem geográfica do imposto retido na fonte. O fato de o IRRF ter sido arrecadado pela União Federal em território nacional é dado relevante, mas não suficiente para definir o tratamento jurídico do crédito. A questão central consiste em identificar qual regime jurídico o legislador atribuiu ao crédito previsto no art. 9º da Medida Provisória nº 2.158-35/01. Em outras palavras, antes de se discutir a possibilidade de compensação com a CSLL, é necessário responder a uma questão prejudicial anterior: trata-se de crédito submetido ao regime jurídico da tributação internacional da renda ou de crédito interno sujeito à disciplina geral das compensações tributárias federais? É justamente por esse motivo que prossigo a análise pelo exame do art. 9º da MP nº 2.158-35/01, dispositivo que instituiu a sistemática objeto da presente discussão: Art. 9o O imposto retido na fonte sobre rendimentos pagos ou creditados à filial, sucursal, controlada ou coligada de pessoa jurídica domiciliada no Brasil, não compensado em virtude de a beneficiária ser domiciliada em país enquadrado nas disposições do art. 24 da Lei no 9.430, de 1996, poderá ser compensado com o Fl. 1430DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9430.htm#art24 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 14 imposto devido sobre o lucro real da matriz, controladora ou coligada no Brasil quando os resultados da filial, sucursal, controlada ou coligada, que contenham os referidos rendimentos, forem computados na determinação do lucro real da pessoa jurídica no Brasil. Parágrafo único. Aplica-se à compensação do imposto a que se refere este artigo o disposto no art. 26 da Lei no 9.249, de 26 de dezembro de 1995. A leitura do dispositivo revela que o legislador não instituiu regime jurídico autônomo para o crédito nele previsto. O art. 9º regula uma hipótese específica de aproveitamento de crédito, mas não disciplina de forma completa os critérios de utilização, os limites de aproveitamento, o tratamento dos saldos excedentes ou sua integração com os sistemas internos. Se o legislador pretendesse criar um crédito autônomo ou excepcional, seria necessário disciplinar integralmente o respectivo regime jurídico. Não foi essa a opção normativa adotada. O legislador limitou-se a identificar a hipótese específica de crédito e, em seguida, determinou sua submissão ao regime jurídico já existente no art. 26 da Lei nº 9.249/95: Art. 26. A pessoa jurídica poderá compensar o imposto de renda incidente, no exterior, sobre os lucros, rendimentos e ganhos de capital computados no lucro real, até o limite do imposto de renda incidente, no Brasil, sobre os referidos lucros, rendimentos ou ganhos de capital. § 1º Para efeito de determinação do limite fixado no caput, o imposto incidente, no Brasil, correspondente aos lucros, rendimentos ou ganhos de capital auferidos no exterior, será proporcional ao total do imposto e adicional devidos pela pessoa jurídica no Brasil. § 2º Para fins de compensação, o documento relativo ao imposto de renda incidente no exterior deverá ser reconhecido pelo respectivo órgão arrecadador e pelo Consulado da Embaixada Brasileira no país em que for devido o imposto. § 3º O imposto de renda a ser compensado será convertido em quantidade de Reais, de acordo com a taxa de câmbio, para venda, na data em que o imposto foi pago; caso a moeda em que o imposto foi pago não tiver cotação no Brasil, será ela convertida em dólares norte-americanos e, em seguida, em Reais. Em termos objetivos, o art. 9º identifica o crédito, enquanto o art. 26 disciplina sua utilização. A partir dessa premissa, a controvérsia desloca-se para seu verdadeiro núcleo jurídico: a determinação do regime normativo aplicável ao crédito em questão. Isso porque, embora decorrente de imposto arrecadado em território nacional, sua disciplina jurídica está inserida em contexto próprio da tributação internacional. O art. 9º não trata de qualquer imposto de renda retido na fonte. Trata exclusivamente de IRRF incidente sobre rendimentos remetidos à filial, sucursal, controlada ou Fl. 1431DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9249.htm#art26 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 15 coligada situada no exterior, em hipóteses nas quais a entidade beneficiária não pode aproveitar esse crédito em razão de sua localização em jurisdição com tributação favorecida. Além disso, a utilização do crédito somente é admitida quando os resultados da entidade estrangeira, que contenham os referidos rendimentos, forem posteriormente computados na determinação do lucro tributável da pessoa jurídica domiciliada no Brasil. Portanto, a própria hipótese normativa revela que o crédito está funcionalmente vinculado à tributação dos resultados auferidos no exterior. A situação examinada nos autos corresponde exatamente à hipótese que o art. 9º procurou solucionar: a existência de crédito tributário regularmente constituído que não pode ser utilizado pela entidade localizada nas Ilhas Cayman, mas cujos resultados foram alcançados pela tributação brasileira. Foi precisamente para evitar a perda econômica definitiva desse crédito e neutralizar a sobreposição de incidências tributárias sobre a mesma manifestação de riqueza que o legislador autorizou a utilização IRRF pela pessoa jurídica domiciliada no Brasil. Torno a repetir: a sistemática instituída pelo art. 9º da Medida Provisória nº 2.158-35/01 não se destina a instituir regime autônomo de creditamento, mas a eliminar os efeitos da tributação anteriormente suportada por ocasião da remessa dos valores ao exterior. Reconhecido, portanto, que o crédito foi inserido nesse contexto normativo específico de tributação internacional, cumpre examinar as consequências jurídicas decorrentes dessa qualificação. Afinal, os limites e as modalidades de utilização do crédito devem ser definidos a partir do regime jurídico ao qual pertence, e não de regras concebidas para disciplinar situações materialmente distintas. Nesse contexto, assume especial relevância o disposto no art. 21 da própria Medida Provisória nº 2.158-35/01: Art. 21. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior sujeitam-se à incidência da CSLL, observadas as normas de tributação universal de que tratam os arts. 25 a 27 da Lei no 9.249, de 1995, os arts. 15 a 17 da Lei no 9.430, de 1996, e o art. 1o da Lei no 9.532, de 1997. Parágrafo único. O saldo do imposto de renda pago no exterior, que exceder o valor compensável com o imposto de renda devido no Brasil, poderá ser compensado com a CSLL devida em virtude da adição, à sua base de cálculo, dos lucros oriundos do exterior, até o limite acrescido em decorrência dessa adição. Fl. 1432DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9249.htm#art25 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9430.htm#art15 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9430.htm#art15 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9532.htm#art1 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 16 A relevância desse dispositivo não decorre de qualquer tentativa de atribuir à expressão “imposto”, constante do art. 9º da Medida Provisória nº 2.158-35/2001, significado distinto daquele que ordinariamente lhe é conferido pela legislação tributária. A controvérsia não exige afirmar que a expressão “imposto devido sobre o lucro real” compreenda, por si só, a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), tampouco pressupõe a equiparação conceitual entre espécies tributárias distintas. A questão submetida a julgamento situa-se em plano diverso. O que se deve investigar é se o crédito instituído pelo art. 9º, uma vez inserido pelo próprio legislador no contexto normativo da tributação internacional da renda, permanece sujeito exclusivamente à disciplina literal contida naquele dispositivo ou se deve ser compreendido em conjunto com as demais normas que integram esse mesmo regime jurídico. Em outras palavras, não se discute o significado da palavra “imposto”, mas o alcance sistêmico do regime jurídico em que o crédito foi inserido e os efeitos que decorrem dessa inserção para sua utilização na neutralização da dupla tributação interna da riqueza manifestada. Nesse contexto, penso que o art. 9º estabelece a regra primária de aproveitamento do crédito no âmbito do imposto de renda, exatamente como ocorre com o regime geral previsto no art. 26 da Lei nº 9.249/95. Também nesse regime geral a legislação se refere ao imposto pago no exterior e ao imposto devido no Brasil. Nem por isso se sustenta que os efeitos do sistema se exaurem exclusivamente no âmbito do IRPJ. Com efeito, toda a sistemática de tributação internacional da renda foi originalmente construída a partir da lógica do imposto de renda. Por essa razão, os dispositivos que disciplinam o aproveitamento dos créditos decorrentes da tributação de resultados externos naturalmente fazem referência ao imposto pago e ao imposto devido. Essa técnica legislativa, contudo, jamais impediu que o próprio ordenamento previsse repercussões desses créditos sobre a CSLL quando os mesmos resultados fossem submetidos à incidência da contribuição social. É precisamente o que ocorre no art. 21 da Medida Provisória nº 2.158-35/01. Ao determinar que os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior sujeitam-se à incidência da CSLL, observadas as normas de tributação universal, o legislador integrou a contribuição social ao mesmo sistema jurídico que já disciplinava o aproveitamento dos créditos vinculados à tributação internacional da renda. Fl. 1433DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 17 Mais do que isso, o parágrafo único do referido dispositivo autorizou expressamente que o saldo do imposto de renda pago no exterior, excedente ao montante compensável com o imposto de renda devido no Brasil, fosse utilizado para compensação da CSLL incidente sobre os lucros oriundos do exterior. Isso demonstra que a mera utilização da expressão "imposto" não traduz, por si só, intenção legislativa de limitar definitivamente o aproveitamento do crédito ao IRPJ. Se assim fosse, a própria sistemática do art. 21 seria inviável, pois o saldo excedente do imposto de renda pago no exterior jamais poderia ser utilizado para compensação da CSLL. A referência ao imposto devido sobre o lucro real constante do art. 9º não constitui cláusula de exclusão da CSLL. Trata-se apenas da disciplina ordinária e inicial de aproveitamento do crédito, tal como ocorre em todo o regime de tributação internacional da renda, onde primeiro compensa IRPJ e depois a CSLL sobre os lucros do exterior. Não existe qualquer dispositivo legal estabelecendo que o crédito previsto no art. 9º estaria excluído dessa sistemática. E essa ausência normativa não é irrelevante. Uma vez reconhecido que o parágrafo único do art. 9º conduz expressamente o crédito ao regime jurídico do art. 26 da Lei nº 9.249/95, a sua submissão às regras de compensação próprias da tributação internacional da renda passa a ser consequência ordinária da qualificação normativa realizada pelo próprio legislador. Em outras palavras, a compensabilidade não decorre de lacuna, analogia ou ampliação interpretativa favorável ao contribuinte. Ela decorre da inserção expressa do crédito em regime jurídico cuja finalidade é precisamente disciplinar o aproveitamento de valores anteriormente suportados em razão da tributação de resultados auferidos no exterior. Por isso, para afastar a utilização do crédito na forma ordinariamente admitida pelo sistema, seria necessária norma legal específica de exclusão. Não porque todo silêncio legislativo favoreça o contribuinte, mas porque, nesse caso, a regra geral aplicável ao regime jurídico em que o crédito foi inserido é justamente a possibilidade de aproveitamento do crédito para neutralização da tributação incidente sobre os lucros oriundos do exterior, inclusive quanto à CSLL, nos termos do art. 21 da Medida Provisória nº 2.158-35/01. Assim, a inexistência de vedação expressa ganha relevância porque não se está diante de crédito estranho ao sistema, cuja utilização dependeria de autorização autônoma. Trata- se de crédito expressamente remetido pelo legislador ao regime de tributação internacional da renda. Logo, sua exclusão das consequências normativas próprias desse regime é que dependeria de previsão legal específica. Fl. 1434DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 18 Há, contudo, aspecto adicional que evidencia a inconsistência da conclusão adotada pela fiscalização e pelo acórdão recorrido. Não se mostra compatível com essa diretriz hermenêutica de interpretação sistemática a extração de fragmentos de regimes jurídicos distintos para, mediante sua combinação, construir disciplina que não encontra correspondência em qualquer modelo normativo efetivamente previsto pelo legislador. É precisamente isso que ocorre no presente caso. A autuação afasta a incidência do regime jurídico da tributação internacional sob o argumento de que o crédito decorre de imposto recolhido no Brasil. Contudo, também deixa de aplicar as consequências próprias do regime geral das compensações tributárias federais, especialmente a possibilidade de compensação entre tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil: Lei nº 9.430/1996 Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. Surge, assim, categoria intermediária sem previsão legal expressa: um crédito que não seria internacional para fins de aplicação das regras próprias da tributação dos resultados auferidos no exterior, mas que também não seria interno para fins de incidência das normas gerais de compensação doméstica. Tal construção não encontra amparo no ordenamento. Se o crédito integra o regime jurídico da tributação internacional da renda, devem ser observadas as consequências inerentes a esse enquadramento. Se não o integra, sua disciplina jurídica deverá ser extraída das regras gerais aplicáveis aos créditos tributários federais. O que não se revela compatível com a lógica do sistema é a rejeição simultânea de ambos os regimes para justificar solução restritiva não contemplada pela legislação. Nessa hipótese, deixa-se de aplicar os regimes efetivamente previstos em lei para instituir disciplina excepcional construída exclusivamente para o caso concreto. Por fim, a própria regulamentação administrativa oferece elemento adicional de confirmação da interpretação aqui adotada. Ao disciplinar a tributação dos lucros auferidos no exterior, a Instrução Normativa RFB nº 1.520/14 passou a tratar o IRRF no Brasil dentro do mesmo conjunto normativo destinado aos mecanismos de creditamento internacional. Fl. 1435DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 19 O art. 27 autoriza expressamente que esse imposto seja considerado para fins da dedução disciplinada pelo art. 25, ao passo que seu § 3º do art. 27 determina sua inclusão no Demonstrativo de Imposto Pago no Exterior previsto no art. 40: Instrução Normativa RFB nº 1.520/2014 Art. 25. A pessoa jurídica poderá deduzir, na proporção de sua participação, o imposto sobre a renda pago no exterior pela controlada direta ou indireta, incidente sobre as parcelas positivas computadas na determinação do lucro real da controladora no Brasil, até o limite do IRPJ e da CSLL incidentes no Brasil sobre as referidas parcelas. Art. 27. A matriz e a pessoa jurídica controladora domiciliada no Brasil ou a ela equiparada, nos termos do art. 15, poderão considerar como imposto pago, para fins da dedução de que trata o art. 25, o imposto sobre a renda retido na fonte no Brasil e no exterior, na proporção de sua participação, decorrente de rendimentos recebidos pela filial, sucursal ou controlada domiciliada no exterior. § 3º O imposto sobre a renda retido na fonte de que trata este artigo deve ser informado no Demonstrativo de Imposto Pago no Exterior de que trata o art. 40. Art. 40. O Demonstrativo de Imposto Pago no Exterior deverá conter as seguintes informações para cada controlada, direta ou indireta, equiparada a controlada, coligada de que trata o art. 19, filial ou sucursal no exterior: A relevância dessa regulamentação não está em atribuir ao ato infralegal aptidão para inovar a ordem jurídica ou ampliar o alcance da lei. Seu valor interpretativo consiste em demonstrar que a própria Administração Tributária compreendeu esse crédito como integrante do mesmo regime jurídico aplicável aos mecanismos de tributação internacional da renda. Assim, da interpretação conjunta do art. 9º e do art. 21 da Medida Provisória nº 2.158-35/01, do art. 26 da Lei nº 9.249/95 e do art. 27 da Instrução Normativa RFB nº 1.520/14, concluo que o crédito decorrente do IRRF sobre rendimentos remetidos à filial situada em país com tributação favorecida integra o regime jurídico da tributação internacional da renda. Consequentemente, inexistindo vedação legal expressa e considerando que a própria CSLL foi submetida às normas de tributação universal e aos respectivos mecanismos de neutralização da tributação dos resultados auferidos no exterior, revela-se legítima sua utilização para compensação da contribuição sobre os lucros oriundos do exterior, observados os limites legalmente previstos. IR pago no exterior (Spring Valley): Diferentemente do capítulo anterior, a controvérsia ora submetida a julgamento não exige aprofundamento do debate jurídico desenvolvido até aqui. A questão passa a situar-se Fl. 1436DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 20 no plano probatório e consiste em verificar se a documentação apresentada pela Recorrente é suficiente para atender aos requisitos formais exigidos pela legislação para o aproveitamento do crédito relativo ao imposto pago no exterior. A glosa promovida pela fiscalização apoiou-se em três fundamentos: i) A alegada ausência de comprovação da afiliação e participação da empresa Spring Valley Management LLC; ii) A falta de apresentação das demonstrações financeiras de determinadas sociedades integrantes da estrutura societária do grupo; e iii) A insuficiência da comprovação do pagamento do tributo no exterior. O julgamento de primeira instância reconheceu que a aquisição, pela filial situada nas Ilhas Cayman, de 6.500 ações da Spring Valley comprova a participação da Recorrente no exterior. Da mesma forma, o acórdão recorrido admitiu a validade do certificado de pagamento apresentado pela contribuinte, considerando-o apto à comprovação do recolhimento do tributo. Assim, a manutenção da glosa passou a repousar em fundamento mais específico. Segundo o acórdão recorrido, inexistiriam documentos suficientes para permitir a determinação dos lucros obtidos por todas as participações mantidas pela Recorrente no exterior. Reproduzo abaixo o quadro sintético constante do acórdão recorrido: Coligadas Original Traduzida Observações Banco BTG Pactual S.A. Cayman Branch 794/822 4445/4495 do processo nº 16682.720909/2013-19 BTG Pactual Chile International Limited 662/692 – Foi anexado à fl 660/661 documento intitulado de "Demonstrações Contábeis Consolidadas" BTG Pactual Chile SPA 695/787 – Foi anexado à fl 693/694 documento intitulado de "Demonstrações Contábeis Consolidadas" BTG Pactual Overseas Corporation – – BTG Pactual S.A. Comisionista de Bolsa 790/793 – Foi anexado à fl 788/789 documento intitulado de "Demonstrações Contábeis Consolidadas" Spring Valley Management LLC 654/656 657/659 A Recorrente, de seu lado, ressalta que os créditos objeto da presente discussão decorrem do imposto de renda recolhido pela subsidiária integral Spring Valley nos Estados Unidos da América. Afirma que ofereceu à tributação, no ano-calendário de 2013, a integralidade dos lucros e rendimentos auferidos no exterior, sustentando que os resultados das sociedades estrangeiras foram integralmente consolidados na Filial Cayman. Com base nessa premissa, a Recorrente sustenta que a apresentação das demonstrações financeiras das demais entidades integrantes da estrutura societária seria Fl. 1437DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 21 desnecessária, uma vez que os demonstrativos da própria Filial Cayman bastariam para comprovar o crédito objeto da presente discussão. Em apoio à tese recursal quanto à regularidade do crédito objeto da presente discussão, a Recorrente instruiu seu recurso com os seguintes documentos:  Demonstrações Contábeis do BTG Pactual Chile International Ltd. (“BTG Chile International”) traduzida para o português por tradutor juramentado.  Demonstrações Contábeis do BTG Pactual Chile SpA (“BTG Chile SpA”) traduzida para o português por tradutor juramentado.  Demonstrações Contábeis do BTG Pactual S.A. Comisionista de Bolsa (“BTG Comisionista de Bolsa”) traduzida para o português por tradutor juramentado.  Demonstrações Contábeis do BTG Pactual Overseas Corporation (“BTG Overseas”) produzida, desde seu original, em língua portuguesa e devidamente assinada pelo contador responsável. À vista da documentação posteriormente apresentada pela Recorrente, mostra- se oportuno atualizar o quadro sintético elaborado pelo acórdão recorrido, que passa a assumir a seguinte configuração: Coligadas Original Traduzida Observações Banco BTG Pactual S.A. Cayman Branch 794/822 4445/4495 do processo nº 16682.720909/2013-19 BTG Pactual Chile International Limited 662/692 1161/1190 Foi anexado à fl 660/661 documento intitulado de "Demonstrações Contábeis Consolidadas" BTG Pactual Chile SPA 695/787 1222/1309 Foi anexado à fl 693/694 documento intitulado de "Demonstrações Contábeis Consolidadas" BTG Pactual Overseas Corporation – – Fl. 1413 DRE em português. BTG Pactual S.A. Comisionista de Bolsa 790/793 1403/1408 Foi anexado à fl 788/789 documento intitulado de "Demonstrações Contábeis Consolidadas" Spring Valley Management LLC 654/656 657/659 Apresento minhas razões. A Instrução Normativa SRF nº 213/02 adotou como regra geral o controle individualizado dos resultados produzidos pelas filiais, sucursais, controladas e coligadas mantidas no exterior por pessoa jurídica domiciliada no Brasil. Nesse sentido, o § 5º do art. 1º expressamente determina que os lucros sejam computados de forma individualizada por entidade estrangeira, vedando-se a consolidação dos Fl. 1438DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 22 resultados entre diferentes filiais, sucursais, controladas ou coligadas diretamente vinculadas à investidora brasileira: Instrução Normativa SRF nº 213/2002 Art. 1º Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, por pessoa jurídica domiciliada no Brasil, estão sujeitos à incidência do imposto de renda das pessoas jurídicas (IRPJ) e da contribuição social sobre o lucro líquido (CSLL), na forma da legislação específica, observadas as disposições desta Instrução Normativa. § 5º Para efeito de tributação no Brasil, os lucros serão computados na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, de forma individualizada, por filial, sucursal, controlada ou coligada, vedada a consolidação dos valores, ainda que todas as entidades estejam localizadas em um mesmo país, sendo admitida a compensação de lucros e prejuízos conforme disposto no § 5º do art. 4º desta Instrução Normativa. § 6º Os resultados auferidos por intermédio de outra pessoa jurídica, na qual a filial, sucursal, controlada ou coligada, no exterior, mantenha qualquer tipo de participação societária, ainda que indiretamente, serão consolidados no balanço da filial, sucursal, controlada ou coligada para efeito de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da beneficiária no Brasil. A disciplina normativa, contudo, não ignora a realidade das estruturas societárias multinacionais, nas quais as próprias entidades estrangeiras frequentemente detêm participações em outras sociedades localizadas fora do País. Por essa razão, o § 6º do mesmo dispositivo autoriza que os resultados auferidos por intermédio dessas participações societárias diretas ou indiretas sejam consolidados no balanço da respectiva filial, sucursal, controlada ou coligada no exterior. A consolidação admitida pela norma, portanto, não ocorre no âmbito da pessoa jurídica domiciliada no Brasil, mas no interior da própria entidade estrangeira que integra a cadeia de investimentos internacionais. Em outras palavras, a legislação preserva a individualização da tributação de cada unidade econômica estrangeira perante a investidora brasileira, ao mesmo tempo em que admite que essa unidade econômica apresente resultados consolidados das sociedades por ela controladas ou participadas. É precisamente nessa sistemática que a Recorrente fundamenta sua pretensão. Conforme sustenta em seu recurso, a totalidade das participações societárias mantidas no exterior encontra-se alocada na Filial Cayman, razão pela qual os resultados das diversas filiais, controladas e coligadas diretas e indiretas estariam refletidos nas demonstrações financeiras dessa entidade. A partir dessa premissa, conclui que a apresentação das demonstrações financeiras da própria Filial Cayman seria suficiente para comprovar os lucros oferecidos à tributação no Brasil e o imposto cuja compensação é pretendida. Fl. 1439DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 23 Com efeito, a Instrução Normativa SRF nº 213/02 admite a consolidação dos resultados econômicos produzidos pelas sociedades integrantes da cadeia societária estrangeira. Todavia, em nenhum momento dispensa a comprovação dos elementos que compõem essa consolidação: Instrução Normativa SRF nº 213/02 Art. 6º As demonstrações financeiras das filiais, sucursais, controladas ou coligadas, no exterior, serão elaboradas segundo as normas da legislação comercial do país de seu domicílio. § 1º Nos casos de inexistência de normas expressas que regulem a elaboração de demonstrações financeiras no país de domicílio da filial, sucursal, controlada ou coligada, estas deverão ser elaboradas com observância dos princípios contábeis geralmente aceitos, segundo as normas da legislação brasileira. § 2º As contas e subcontas constantes das demonstrações financeiras elaboradas pela filial, sucursal, controlada ou coligada, no exterior, depois de traduzidas em idioma nacional e convertidos os seus valores em Reais, deverão ser classificadas segundo as normas da legislação comercial brasileira, nas demonstrações financeiras elaboradas para serem utilizadas na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL. § 3º A conversão em Reais dos valores das demonstrações financeiras elaboradas pelas filiais, sucursais, controladas ou coligadas, no exterior, será efetuada tomando-se por base a taxa de câmbio para venda, fixada pelo Banco Central do Brasil, da moeda do país onde estiver domiciliada a filial, sucursal, controlada ou coligada, na data do encerramento do período de apuração relativo à demonstrações financeiras em que tenham sido apurados os lucros dessa filial, sucursal, controlada ou coligada. § 4º Caso a moeda do país de domicílio da filial, sucursal, controlada ou coligada não tenha cotação no Brasil, os valores serão primeiramente convertidos em Dólares dos Estados Unidos da América e depois em Reais. § 5º As demonstrações financeiras levantadas pelas filiais, sucursais, controladas ou coligadas, no exterior, que embasarem as demonstrações financeiras em Reais, no Brasil, deverão ser mantidas em boa guarda, à disposição da Secretaria da Receita Federal, até o transcurso do prazo de decadência do direito da Fazenda Nacional de constituir crédito tributário com base nessas demonstrações. § 6º As demonstrações financeiras em Reais das filiais, sucursais, controladas ou coligadas, no exterior, deverão ser transcritas ou copiadas no livro Diário da pessoa jurídica no Brasil. § 7º Para efeito do disposto nesta Instrução Normativa, as participações em filiais, sucursais, controladas ou coligadas e as aplicações em títulos e valores mobiliários Fl. 1440DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 24 no exterior devem ser escrituradas separada e discriminadamente na contabilidade da pessoa jurídica no Brasil, de forma a permitir a correta identificação desses valores e as operações realizadas. A própria lógica da consolidação evidencia a necessidade de existência de controles capazes de demonstrar os resultados que contribuíram para a formação do saldo final. Isso porque a consolidação não constitui mecanismo autônomo de apuração de lucros, mas mera técnica de agregação de resultados previamente apurados por entidades distintas. Nessa perspectiva, não há como validar o resultado consolidado sem que seja possível identificar os resultados individuais que lhe serviram de fundamento. A exigência torna-se ainda mais evidente quando o contribuinte pretende comprovar o imposto pago por cada entidade em sua respectiva jurisdição, pois o reconhecimento do tributo pressupõe a identificação do lucro que lhe deu origem, da entidade que o auferiu, da jurisdição em que foi tributado e dos critérios utilizados em sua apuração. Por essa razão, a demonstração financeira consolidada da Filial Cayman revela apenas o resultado final da consolidação, sem permitir a verificação dos elementos que contribuíram para sua formação. A partir dela não se consegue identificar quais sociedades participaram da composição do lucro oferecido à tributação no Brasil, quais resultados individuais foram considerados, quais prejuízos foram absorvidos ou quais tributos foram efetivamente suportados pelas entidades integrantes da estrutura societária. A validação dessa correspondência exige a reconstrução dos elementos que compõem o resultado consolidado da Filial Cayman, não sendo suficiente a apresentação isolada da documentação de parte das entidades integrantes da estrutura societária. Nesse passo, ao examinar a documentação apresentada pela Recorrente, verifico que não foram juntadas aos autos as demonstrações financeiras originárias da BTG Pactual Overseas Corporation. Quanto a essa sociedade, consta apenas Demonstração do Resultado do Exercício apresentada diretamente em língua portuguesa, o que, a meu ver, não é suficiente para comprovar os resultados que teriam integrado a consolidação invocada pela contribuinte. A Instrução Normativa SRF nº 213/2002 estabelece que as demonstrações financeiras das filiais, sucursais, controladas e coligadas no exterior devem ser elaboradas segundo as normas da legislação comercial do país de seu domicílio. Apenas na hipótese de inexistência de normas específicas aplicáveis à elaboração dessas demonstrações admite-se a adoção dos princípios contábeis geralmente aceitos segundo a legislação brasileira. Trata-se de requisito diretamente relacionado à própria apuração dos lucros auferidos no exterior, pois o resultado a ser considerado no Brasil deve ter como ponto de partida Fl. 1441DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 25 a escrituração e as demonstrações financeiras elaboradas conforme as normas legais e contábeis vigentes no país de domicílio da entidade estrangeira. Somente depois de identificado esse resultado originário é que se torna possível realizar sua tradução, conversão e integração à base tributável da pessoa jurídica domiciliada no Brasil. Por essa razão, a apresentação de demonstrativo já elaborado em língua portuguesa, sem as demonstrações financeiras originalmente produzidas pela sociedade estrangeira, não permite verificar se o lucro informado foi efetivamente apurado segundo a legislação aplicável em seu país de constituição, nem se os valores considerados na consolidação correspondem aos registros contábeis efetivamente mantidos pela entidade. O único documento apresentado em relação à BTG Pactual Overseas Corporation consiste em Demonstração do Resultado do Exercício já elaborada em língua portuguesa, desacompanhada de qualquer documentação contábil ou societária que permita verificar sua correspondência com os registros originalmente mantidos pela sociedade estrangeira. Embora a apresentação de documentação complementar pudesse, em tese, permitir a validação dos resultados nela consignados, não foram trazidos aos autos elementos aptos a demonstrar sua aderência à escrituração da entidade estrangeira ou às demonstrações financeiras que deveriam ter sido elaboradas segundo a legislação de seu país de domicílio. Em outras palavras, não foram apresentados elementos que possibilitem aferir a origem dos valores ali consignados, validar sua aderência à escrituração da entidade ou confirmar que refletem os resultados efetivamente apurados segundo a legislação aplicável em seu país de domicílio. Ausente esse suporte documental, o demonstrativo apresentado permanece desprovido dos elementos mínimos necessários à verificação de sua confiabilidade e força probatória. Nessa perspectiva, a ausência da documentação exigida para comprovação dos resultados da BTG Pactual Overseas Corporation impede exclusivamente o reconhecimento dos créditos vinculados à referida sociedade, uma vez que não restaram atendidos os pressupostos formais estabelecidos pela legislação para o aproveitamento do benefício. Todavia, a mesma conclusão não se aplica aos créditos relacionados às demais sociedades integrantes da consolidação. Conforme se verifica dos autos, a Recorrente apresentou a documentação exigida para comprovação dos resultados e dos tributos correspondentes relativamente às demais entidades estrangeiras, circunstância que permite a verificação dos requisitos necessários ao reconhecimento dos respectivos créditos. Fl. 1442DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 26 A glosa integral do crédito consolidado implicaria atribuir à deficiência documental verificada em relação a uma única sociedade efeitos que ultrapassam os limites do vício efetivamente constatado, alcançando créditos cuja formação se encontra regularmente comprovada. Tal solução imporia ao contribuinte ônus excessivo e desproporcional, desconsiderando elementos probatórios válidos produzidos em relação às demais entidades que compõem a consolidação. Assim, reputo que a insuficiência documental deve produzir efeitos exclusivamente em relação aos créditos vinculados à BTG Pactual Overseas Corporation, preservando-se o direito ao aproveitamento dos créditos correspondentes às demais sociedades integrantes da consolidação cujos requisitos legais foram adequadamente demonstrados nos autos. CONCLUSÃO Diante das razões fáticas e jurídicas expostas, encaminho meu voto no sentido de CONHECER do Recurso Voluntário para, no mérito, dar-lhe PARCIAL PROVIMENTO, a fim de:  Rejeitar a preliminar de nulidade parcial do despacho decisório por alegado cerceamento do direito de defesa, bem como a preliminar de nulidade do acórdão recorrido por suposta mudança de critério jurídico, por não vislumbrar os vícios apontados pela Recorrente;  Dar parcial provimento ao recurso voluntário para reconhecer os créditos relativos ao imposto de renda pago no exterior vinculados às sociedades cujos requisitos legais foram devidamente comprovados nos autos, mantendo-se a glosa apenas da parcela correspondente à sociedade em relação à qual não foram apresentadas as demonstrações financeiras e demais documentos exigidos pela legislação de regência, indispensáveis à verificação do direito creditório pleiteado;  Reverter a glosa do crédito decorrente do imposto de renda retido na fonte incidente sobre rendimentos remetidos ao exterior, reconhecendo a legitimidade de sua utilização para compensação da CSLL incidente sobre os lucros auferidos no exterior, observados os limites legalmente previstos e, por conseguinte, homologar a compensação declarada até o limite do crédito ora reconhecido. Fl. 1443DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1201-007.589 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900082/2019-11 27 Assinado Digitalmente Renato Rodrigues Gomes Conselheiro Relator Fl. 1444DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Admissibilidade dos Recurso Voluntário: Preliminar | Nulidade do despacho decisório: Preliminar | Nulidade do acórdão recorrido: Preliminar | Conversão do julgamento em diligência: Análise do direito creditório: IRRF (Ilhas Cayman): IR pago no exterior (Spring Valley): CONCLUSÃO

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Numero do processo: 15889.720007/2017-27
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue May 19 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Wed Jul 08 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2014 STOCK OPTIONS. NATUREZA MERCANTIL. IRPF. NÃO INCIDÊNCIA. TEMA 1.226 DO STJ A natureza mercantil das stock Options foi apreciada pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Tema nº 1.226 a) No regime do Stock Option Plan (art. 168, § 3º, da Lei n. 6.404/1976), porque revestido de natureza mercantil, não incide o imposto de renda pessoa física/IRPF quando da efetiva aquisição de ações, junto à companhia outorgante da opção de compra, dada a inexistência de acréscimo patrimonial em prol do optante adquirente. b) Incidirá o imposto de renda pessoa física/IRPF, porém, quando o adquirente de ações no Stock Option Plan vier a revendê-las com apurado ganho de capital. DECISÃO PROFERIDA EM SEDE DE RECURSO REPETITIVO. APLICAÇÃO OBRIGATÓRIO. RICARF Art. 99. As decisões de mérito transitadas em julgado, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, ou pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática da repercussão geral ou dos recursos repetitivos, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF
Numero da decisão: 2402-013.615
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares suscitadas para, no mérito, dar provimento ao recurso voluntário interposto, nos termos do voto do relator. Assinado Digitalmente João Ricardo Fahrion Nüske - Relator Assinado Digitalmente Rodrigo Duarte Firmino - Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Marcus Gaudenzi de Faria, Joao Ricardo Fahrion Nuske, Alexandre Correa Lisboa, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Suez Roberto Colabardini Filho, Rodrigo Duarte Firmino (Presidente)
Nome do relator: JOAO RICARDO FAHRION NUSKE

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NATUREZA MERCANTIL. IRPF. NÃO INCIDÊNCIA. TEMA 1.226 DO STJ A natureza mercantil das stock Options foi apreciada pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Tema nº 1.226 a) No regime do Stock Option Plan (art. 168, § 3º, da Lei n. 6.404/1976), porque revestido de natureza mercantil, não incide o imposto de renda pessoa física/IRPF quando da efetiva aquisição de ações, junto à companhia outorgante da opção de compra, dada a inexistência de acréscimo patrimonial em prol do optante adquirente. b) Incidirá o imposto de renda pessoa física/IRPF, porém, quando o adquirente de ações no Stock Option Plan vier a revendê-las com apurado ganho de capital. DECISÃO PROFERIDA EM SEDE DE RECURSO REPETITIVO. APLICAÇÃO OBRIGATÓRIO. RICARF Art. 99. As decisões de mérito transitadas em julgado, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, ou pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática da repercussão geral ou dos recursos repetitivos, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 556DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.615 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15889.720007/2017-27 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares suscitadas para, no mérito, dar provimento ao recurso voluntário interposto, nos termos do voto do relator. Assinado Digitalmente João Ricardo Fahrion Nüske – Relator Assinado Digitalmente Rodrigo Duarte Firmino – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Marcus Gaudenzi de Faria, Joao Ricardo Fahrion Nuske, Alexandre Correa Lisboa, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Suez Roberto Colabardini Filho, Rodrigo Duarte Firmino (Presidente) RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto nos autos do processo nº 15889.720007/2017-27, em face do acórdão nº 10-63.286, na qual os membros daquele colegiado entenderam por julgar improcedente a impugnação. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da DRJ de origem que assim os relatou: Contra o contribuinte acima identificado foi lavrado o auto de infração de fls. 2 a 7, em15/03/2017, relativo ao imposto sobre a renda das pessoas físicas do exercício 2014, ano-calendário 2013, no qual foi apurado imposto no valor de R$786.142,50 acrescido da multa de ofício e juros de mora, decorrente da apuração de omissão de rendimentos do trabalho com vínculo empregatício recebidos na forma de concessão de opções de compra de ações, conforme dispositivos legais no referido auto. De acordo com o Termo de Verificação Fiscal de fls.9 a 25, a ação fiscal foi realizada em cumprimento ao Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal nº 08.1.03.00-2017-00005-3 e teve início em 21/01/2017, quando o contribuinte tomou ciência (fl.29) do Termo de Início do Procedimento Fiscal de fls.27 a 28. O lançamento de ofício foi formalizado em decorrência da apuração omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica, decorrentes do trabalho com vínculo empregatício, de R$2.858.700,00 no ano-calendário 2013. Fl. 557DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.615 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15889.720007/2017-27 3 Em julgamento a DRJ firmou a seguinte posição: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF Exercício: 2014 NULIDADE. CIÊNCIA DO AUTO DE INFRAÇÃO. O contribuinte foi cientificado do Auto de Infração através de procurador legalmente constituído. NULIDADE. Comprovado que o procedimento fiscal foi feito regularmente, não se apresentando, nos autos, as causas apontadas no art. 59 do Decreto n.º 70.235, de 1972, não há que se cogitar em nulidade do lançamento. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. EFEITOS. As decisões administrativas e as judiciais, excetuando-se as proferidas pelo STF sobre a inconstitucionalidade das normas legais, não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se aproveitam em relação a qualquer outra ocorrência, senão àquela objeto da decisão. FATO GERADOR DO IMPOSTO DE RENDA. O fato eleito pela legislação tributária como necessário e suficiente para o surgimento da obrigação de pagar o imposto de renda é a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou de proventos de qualquer natureza, isto é, a existência de um acréscimo patrimonial. PLANO DE OPÇÃO DE COMPRA DE AÇÕES (STOCK OPTIONS). RENDIMENTO DO TRABALHO. FATO GERADOR DO IMPOSTO SOBRE A RENDA. O valor relativo à outorga de Plano de Opção de Compra de Ações (stock options) a beneficiários eleitos pela Companhia integra os rendimentos tributáveis, pois é ofertado em função do trabalho em retribuição aos serviços prestados nas condições estipuladas pelo empregador. As stock options configuram contrato suspensivo, na forma do art. 125 do Código Civil (Lei nº 10.406/2002), ocorrendo o acréscimo patrimonial relativo à outorga das opções de compra de ações no momento em que, findo o prazo de carência, o beneficiário exerce o direito à opção, adquirindo as ações pelo preço de exercício pré-estabelecido, inferior ao de mercado. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. LEGALIDADE. A multa de ofício, sendo parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do primeiro dia do mês Fl. 558DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.615 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15889.720007/2017-27 4 subseqüente ao do vencimento. Sobre os débitos da União decorrentes de tributos e contribuições não pagos nos prazos previstos na legislação específica, incidirão juros de mora calculados à taxa Selic, a partir do primeiro dia do mês subsequente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Sobreveio Recurso Voluntário alegando, em síntese 1) nulidade do lançamento por intimação de terceiro não habilitado; 2) erro na verificação do fato jurídico; 3) inexistência de natureza salarial É o relatório. VOTO Conselheiro João Ricardo Fahrion Nüske, Relator Sendo tempestivo e preenchidos os demais requisitos, conheço do recurso voluntário. 1. DA TRIBUTAÇÃO DAS STOCK OPTIONS PELO IRPF O lançamento sobre o qual o recorrente se opõe consiste em cobrança de Imposto de Renda de Pessoa Física sobre as chamadas Stock Options e, verificando o Relatório Fiscal constata-se que o único fundamento para o lançamento consistiu no entendimento de que as verbas possuiriam natureza remuneratória. Não houve a desqualificação do plano ou suposição de conduta fraudulenta, tão somente o entendimento de que se tratariam de verbas remuneratórias. Em que pese a longa discussão já travada em sede deste Conselho sobre a matéria, certo é que o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do Tema nº 1.226 definiu que as Stock Options possuem natureza mercantil e deve se tributadas somente na revenda. A tese firmada foi: a) No regime do Stock Option Plan (art. 168, § 3º, da Lei n. 6.404/1976), porque revestido de natureza mercantil, não incide o imposto de renda pessoa física/IRPF quando da efetiva aquisição de ações, junto à companhia outorgante da opção de compra, dada a inexistência de acréscimo patrimonial em prol do optante adquirente. b) Incidirá o imposto de renda pessoa física/IRPF, porém, quando o adquirente de ações no Stock Option Plan vier a revendê-las com apurado ganho de capital. Saliento que, em consulta ao site do Superior Tribunal de Justiça constata-se que o Resp nº 2069644 transitou em julgado em 07.03.2025 Fl. 559DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.615 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15889.720007/2017-27 5 Ainda, em 26.11.2025 o Supremo Tribunal Federal entendeu por não reconhecer a repercussão geral da matéria, encerrando o julgamento sobre o tema: Decisão: O Tribunal, por maioria, reconheceu a inexistência de repercussão geral da questão, por não se tratar de matéria constitucional, vencidos os Ministros Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes. Não se manifestou a Ministra Cármen Lúcia. Desta forma, deve-se ater à observância do previsto no art. 99 do RICARF: Art. 99. As decisões de mérito transitadas em julgado, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, ou pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática da repercussão geral ou dos recursos repetitivos, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros nº julgamento dos recursos no âmbito do CARF Com isso, tendo em vista a posição firmada pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo no sentido de definir a natureza mercantil das Stock Options, dou provimento ao recurso voluntário para cancelar o lançamento. Tendo em vista a decisão de mérito favorável acima, resta prejudicada a análise das preliminares de nulidade, com fundamento no art. 59, §3º do Decreto nº 70.235 § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta. Conclusão Ante o exposto voto por conhecer do recurso voluntário interposto e dar-lhe provimento. Assinado Digitalmente João Ricardo Fahrion Nüske Fl. 560DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 11020.721283/2012-57
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon May 18 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Aug 13 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Período de apuração: 01/04/2007 a 31/12/2010 ARBITRAMENTO. ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL IMPRESTÁVEL. SUBSISTÊNCIA. A escrituração eivada de vícios que a tornem imprestável para a determinação do lucro real ou para a identificação da movimentação financeira sujeita o contribuinte ao arbitramento do lucro. LUCRO PRESUMIDO. COEFICIENTE REDUZIDO DE PRESUNÇÃO. SERVIÇOS HOSPITALARES. AUSÊNCIA DE CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS DO ART. 15, §1º, III, A, DA LEI Nº 9.249/95. A partir de 01/01/2009, além dos serviços hospitalares, é possível a utilização do percentual de 8% para apuração da base de cálculo do IRPJ pela sistemática do lucro presumido em relação às atividades de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que a prestadora dos serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Anvisa. Contribuinte que não comprova simultaneamente tais condições está sujeito à aplicação do percentual de 32% sobre a receita bruta, não podendo se beneficiar do percentual reduzido. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Período de apuração: 01/04/2007 a 31/12/2010 LUCRO PRESUMIDO. COEFICIENTE REDUZIDO DE PRESUNÇÃO. SERVIÇOS HOSPITALARES. AUSÊNCIA DE CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS DO ART. 15, §1º, III, A, DA LEI Nº 9.249/95. A partir de 01/01/2009, além dos serviços hospitalares, é possível a utilização do percentual de 12% para apuração da base de cálculo da CSLL pela sistemática do lucro presumido em relação às atividades de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que a prestadora dos serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Anvisa. Contribuinte que não comprova simultaneamente tais condições está sujeito à aplicação do percentual de 32% sobre a receita bruta, não podendo se beneficiar do percentual reduzido.
Numero da decisão: 1002-004.317
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidas as conselheiras Andrea Viana Arrais Egypto (relatora), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Angélica Echer Ferreira Feijó, que davam provimento parcial ao recurso para que prevalecesse os percentuais reduzidos de 8% (IRPJ) e 12% (CSLL) sobre a receita bruta apurada pela fiscalização. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Aílton Neves da Silva. Assinado Digitalmente Andréa Viana Arrais Egypto - Relator Assinado Digitalmente Ailton Neves da Silva - Presidente e Redator Designado. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andréa Viana Arrais Egypto, Luís Ângelo Carneiro Baptista (substituto integral), Maria Angelica Echer Ferreira Feijó, Ricardo Pezzuto Rufino, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Ailton Neves da Silva (Presidente).
Nome do relator: ANDREA VIANA ARRAIS EGYPTO

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ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL IMPRESTÁVEL. SUBSISTÊNCIA. A escrituração eivada de vícios que a tornem imprestável para a determinação do lucro real ou para a identificação da movimentação financeira sujeita o contribuinte ao arbitramento do lucro. LUCRO PRESUMIDO. COEFICIENTE REDUZIDO DE PRESUNÇÃO. SERVIÇOS HOSPITALARES. AUSÊNCIA DE CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS DO ART. 15, §1º, III, "A", DA LEI Nº 9.249/95. A partir de 01/01/2009, além dos serviços hospitalares, é possível a utilização do percentual de 8% para apuração da base de cálculo do IRPJ pela sistemática do lucro presumido em relação às atividades de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que a prestadora dos serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Anvisa. Contribuinte que não comprova simultaneamente tais condições está sujeito à aplicação do percentual de 32% sobre a receita bruta, não podendo se beneficiar do percentual reduzido. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Período de apuração: 01/04/2007 a 31/12/2010 LUCRO PRESUMIDO. COEFICIENTE REDUZIDO DE PRESUNÇÃO. SERVIÇOS HOSPITALARES. AUSÊNCIA DE CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS DO ART. 15, §1º, III, "A", DA LEI Nº 9.249/95. A partir de 01/01/2009, além dos serviços hospitalares, é possível a utilização do percentual de 12% para apuração da base de cálculo da CSLL pela sistemática do lucro presumido em relação às atividades de auxílio Fl. 417DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 2 diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que a prestadora dos serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Anvisa. Contribuinte que não comprova simultaneamente tais condições está sujeito à aplicação do percentual de 32% sobre a receita bruta, não podendo se beneficiar do percentual reduzido. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidas as conselheiras Andrea Viana Arrais Egypto (relatora), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Angélica Echer Ferreira Feijó, que davam provimento parcial ao recurso para que prevalecesse os percentuais reduzidos de 8% (IRPJ) e 12% (CSLL) sobre a receita bruta apurada pela fiscalização. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Aílton Neves da Silva. Assinado Digitalmente Andréa Viana Arrais Egypto – Relator Assinado Digitalmente Ailton Neves da Silva – Presidente e Redator Designado. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andréa Viana Arrais Egypto, Luís Ângelo Carneiro Baptista (substituto integral), Maria Angelica Echer Ferreira Feijó, Ricardo Pezzuto Rufino, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Ailton Neves da Silva (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto pela empresa CLÍNICA INFANTIL TIO CECIM LTDA, contra decisão proferida pela DRJ, que julgou a impugnação improcedente e manteve o crédito tributário exigido. Fl. 418DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 3 O presente processo decorre de Autos de Infração (fls. 198 e seguintes), lavrado em 19/04/2012, em que se apurou o IRPJ e CSLL, com arbitramento do lucro com base no Art. 530, inciso II, do RIR/99. De acordo com o RELATÓRIO DO PROCESSO FISCAL (fls. 237/250), em face de vícios decorrentes de falta de contabilização de pagamentos de aluguéis e de outras despesas da empresa; contabilização de despesas de outras empresas e de ex-sócios e pagamentos não relacionados às atividades operacionais da empresa; contabilização de cheques emitidos, compensados pelo banco, como suprimento de caixa; pagamentos de contas com cheques sem a identificação do beneficiário e da destinação dos recursos; contabilização de transferências bancárias a terceiros como retirada de caixa, sem a identificação dos destinatários; saldos de caixa elevados; saldos credores na conta “caixa”, a contabilidade foi considerada imprestável, o que implicou no arbitramento do lucro, nos termos do art. 530, II, do Decreto nº 3.000/99. Quanto aos percentuais a serem aplicados sobre a receita bruta, a fiscalização alega que devem ser aplicados os percentuais relativos a prestação de serviços em geral (38,4% para o IRPJ e 32% para a CSLL), visto que a que a tributação com percentual reduzido sobre a receita bruta decorrente da prestação de serviços hospitalares prestados por sociedade empresária aplicava-se somente para as atividades listadas no art. 27 da Instrução Normativa SRF nº 480/2004, com a redação dada pela Instrução Normativa SRF nº 539/2005. Afirma ainda se aplica o percentual reduzido também para as atividades de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que a prestadora desses serviços fosse organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa. A empresa foi cientificada do lançamento e apresentou impugnação de fls. 256/264, em que assevera o seguinte:  Que a Fiscalização alega que a empresa não tem caráter empresarial, por ter sido constituída como sociedade simples, bem como as atividades prestadas não se enquadram no conceito de serviços hospitalares, os quais exigiriam, por força da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) n° 50/2002 da ANVISA, regime de internação supe4ºr a 24 horas, porém afirma que nenhum dos argumentos discorridos pela fiscalização prosperam;  Afirma que a decisão judicial proferida em seu favor já refuta todas as hipóteses aduzidas pela fiscalização de não aplicação do percentual favorecido do lucro presumido com relação aos serviços hospitalares;  Destaca que a discussão objeto da presente autuação fiscal torna-se inócua, por força da decisão judicial com trânsito em julgado, que teve por enquadrar a impugnante como prestadora de serviços hospitalares, inclusive reconhecendo o seu direito a repetição de indébito dos valores indevidamente recolhidos; Fl. 419DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 4  Com relação ao arbitramento do lucro, afirma que não foi identificado qualquer indício de omissão de receitas, não há qualquer comprovação da suposta tentativa de modificação do fato gerador e não foi identificada qualquer irregularidade na base de cálculo do tributo. A 10ª Turma da DRJ/SPO, por unanimidade de votos, julgou procedente em parte a impugnação apresentada, conforme ementa do Acórdão nº 16-87.818 (fls. 373/386) a seguir transcrita: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Período de apuração: 01/04/2007 a 31/12/2010 ARBITRAMENTO. ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL IMPRESTÁVEL. O contribuinte tributado pelo regime do lucro presumido deve manter a escrituração contábil de acordo com a legislação comercial, ou, alternativamente, a escrituração do livro Caixa com toda a movimentação financeira inclusive bancária. A escrituração eivada de vícios que a tornem imprestável para a determinação do lucro real ou para a identificação da movimentação financeira sujeita o contribuinte ao arbitramento do lucro. LUCRO PRESUMIDO. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO. SERVIÇOS HOSPITALARES. ART. 15, §1º, III, "A", DA LEI Nº 9.249/95 (REDAÇÃO ORIGINAL, VIGENTE ATÉ 31/12/2008). O art. 15, §1º, III, "a", da Lei nº 9.249/95 em sua redação original, vigente até 31/12/2008, estabelece que a prestação de serviços hospitalares está sujeita à aplicação do percentual de presunção de 8% sobre a receita bruta para cálculo do lucro presumido. No julgamento do REsp 1.116.399/BA, sob a sistemática do art. 543-C do CPC, o STJ decidiu que a expressão "serviços hospitalares" deve ser interpretada de forma objetiva (ou seja, sob a perspectiva da atividade realizada pelo contribuinte), porquanto a lei, ao conceder o benefício fiscal, não considerou a característica ou a estrutura do contribuinte em si (critério subjetivo), mas a natureza do próprio serviço prestado (assistência à saúde). Nesse julgamento, ficou consignado que os regulamentos emanados da Receita Federal não poderiam exigir que os contribuintes cumprissem requisitos não previstos em lei (a exemplo da necessidade de manter estrutura que permita a internação de pacientes) para a obtenção do benefício fiscal. LUCRO PRESUMIDO. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO. ATIVIDADES DE AUXÍLIO DIAGNÓSTICO. ART. 15, §1º, III, "A", DA LEI Nº 9.249/95 (REDAÇÃO DADA PELA LEI Nº 11.727/2008, VIGENTE A PARTIR DE 01/01/2009). A partir de 01/01/2009, além dos serviços hospitalares, é possível a utilização do percentual de 8% para apuração da base de cálculo do IRPJ, pela sistemática do lucro presumido, em relação às atividades de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que a prestadora dos serviços seja Fl. 420DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 5 organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Anvisa. Contribuinte com natureza jurídica de sociedade simples carece do caráter empresarial e não pode se beneficiar do referido percentual, devendo aplicar o percentual de 32% sobre a receita bruta. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO - CSLL Período de apuração: 01/04/2007 a 31/12/2010 LUCRO PRESUMIDO. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO. SERVIÇOS HOSPITALARES. ART. 15, §1º, III, "A", DA LEI Nº 9.249/95 (REDAÇÃO ORIGINAL, VIGENTE ATÉ 31/12/2008). O art. 15, §1º, III, "a", da Lei nº 9.249/95 em sua redação original, vigente até 31/12/2008, combinado com o art. 20 da mesma lei, estabelece que a prestação de serviços hospitalares está sujeita à aplicação do percentual de presunção de 12% sobre a receita bruta para a apuração da base de cálculo da CSLL. No julgamento do REsp 1.116.399/BA, sob a sistemática do art. 543-C do CPC, o STJ decidiu que a expressão "serviços hospitalares" deve ser interpretada de forma objetiva (ou seja, sob a perspectiva da atividade realizada pelo contribuinte), porquanto a lei, ao conceder o benefício fiscal, não considerou a característica ou a estrutura do contribuinte em si (critério subjetivo), mas a natureza do próprio serviço prestado (assistência à saúde). Nesse julgamento, ficou consignado que os regulamentos emanados da Receita Federal não poderiam exigir que os contribuintes cumprissem requisitos não previstos em lei (a exemplo da necessidade de manter estrutura que permita a internação de pacientes) para a obtenção do benefício fiscal. LUCRO PRESUMIDO. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO. ATIVIDADES DE AUXÍLIO DIAGNÓSTICO. ART. 15, §1º, III, "A", DA LEI Nº 9.249/95 (REDAÇÃO DADA PELA LEI Nº 11.727/2008, VIGENTE A PARTIR DE 01/01/2009). A partir de 01/01/2009, além dos serviços hospitalares, é possível a utilização do percentual de 12% para apuração da base de cálculo da CSLL, pela sistemática do lucro presumido, em relação às atividades de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que a prestadora dos serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Anvisa. Contribuinte com natureza jurídica de sociedade simples carece do caráter empresarial e não pode se beneficiar do referido percentual, devendo aplicar o percentual de 32% sobre a receita bruta. A Contribuinte tomou ciência do Acórdão da DRJ em 25/06/2019 (fls. 393) e, inconformada com a decisão prolatada, em 19/07/2019 (fl. 395) apresentou RECURSO VOLUNTÁRIO (fls. 397/407), onde traz uma síntese dos fatos, e assevera o seguinte: Fl. 421DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 6  Em 2010, foi reconhecido o direito da Contribuinte à redução das alíquotas do IRPJ e da CSLL em razão da prestação de serviços hospitalares;  A alteração da Lei 9.249/95 pela Lei nº 11.727, de 2008 não afasta a decisão judicial transitada em julgado em favor da empresa;  A empresa é organizada sob a forma de sociedade empresária, pois é uma organização econômica dotada de personalidade jurídica e patrimônio próprio, constituída por mais de uma pessoa, que têm como objetivo a prestação de serviços com fins lucrativos;  Improcede o argumento que embasa o arbitramento do lucro, qual seja, a tentativa de modificação do fato gerador tributário, razão pela qual deve ser julgada procedente a presente impugnação, desconstituindo-se o auto de infração lavrado. É o Relatório. VOTO VENCIDO Conselheiro Andréa Viana Arrais Egypto, Relator Juízo de admissibilidade O Recurso Voluntário foi apresentado dentro do prazo legal e atende aos requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. Mérito Percentual de presunção do Lucro Presumido – Base de Cálculo do IRPJ e CSLL A Recorrente é empresa que tem como objetivo o ramo de prestação de serviços em exames radiológicos e ultra sonográficos em medicina, nos termos da Cláusula Terceira da Consolidação Contratual (fl. 17). Cabe registrar a ação judicial declaratória, favorável à contribuinte, na qual se discutiu a correta definição de "serviço hospitalar" para fins de redução das alíquotas de IRPJ e CSLL de que tratam os arts. 15, § 1°, 111 e 20 da Lei n. 9.249/95 e firmou-se o entendimento no sentido de que as empresas que prestam serviços médicos laboratoriais desempenham atividade diretamente ligada à promoção da saúde, que demanda maquinário específico, podendo ser realizada em ambientes hospitalares ou similares, não se assemelhando a simples consultas Fl. 422DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 7 médicas, razão pela qual fazem jus ao benefício fiscal de redução das alíquotas do IRPJ e da CSLL (Processo nº 2006.71.07.001181 - fls. 275/346). Dessa forma, os serviços prestados pela Recorrente, dentro do escopo disposto em seu contrato social (exames radiológicos e ultrassonográficos em medicina) caracterizam-se como serviços hospitalares. Conforme se verifica dos autos, a decisão recorrida concluiu que, relativamente aos fatos geradores ocorridos nos anos-calendário de 2007 e 2008, devem ser aplicados os percentuais de 9,6% para o IRPJ e 12% para a CSLL sobre a receita bruta para a apuração das bases de cálculo. No entanto, entendeu que, para os fatos geradores ocorridos em 2009 e 2010, devem ser mantidos os percentuais de 38,4% para o IRPJ e 32% para a CSLL, utilizados pela fiscalização, haja vista a impugnante não se constituir como sociedade empresária (questão não impugnada). Dessa forma, dentro do contexto do presente processo administrativo, a Recorrente se insurge contra a decisão recorrida que não reconheceu o direito da empresa de aplicar os percentuais de presunção favorecido, relativamente aos serviços hospitalares prestados no período de 01/01/2009 a 31/12/2010, por não ser organizada sob a forma de sociedade empresária. Inicialmente, entendo que a matéria não se encontra preclusa, uma vez que a empresa impugnou a totalidade da exigência tributária com fundamento no racional da decisão judicial em seu favor, inclusive destaca na impugnação que que a Fiscalização alega que a empresa não tem caráter empresarial, por ter sido constituída como sociedade simples. Entretanto, em face da decisão judicial entende inócua qualquer discussão a respeito em face da abrangência da decisão judicial. Assim, superada a questão da preclusão, passo à análise da matéria. Conforme visto, com relação à prestação de serviços hospitalares por parte da Recorrente não restam mais dúvidas, tanto que a DRJ firmou entendimento pela aplicação dos percentuais de 9,6% para o IRPJ e 12% para a CSLL sobre a receita bruta para a apuração das bases de cálculo, com relação aos fatos geradores dos anos-calendário de 2007 e 2008. Entretanto, relativamente aos fatos geradores ocorridos em 2009 e 2010, a decisão recorrida entendeu que a empresa não tem direito ao percentual reduzido por não ser organizada sob a forma de sociedade empresária e por não atender às normas da Anvisa. Assim, o ponto fulcral da discussão trata do enquadramento da Recorrente como “sociedade empresária”, para que possa usufruir da redução tributária prevista na norma. Nesse contexto, trago como razões de decidir o Acórdão n.º 9101-006.537 da CSRF que firmou entendimento no sentido de que a formalização da pessoa jurídica como sociedade simples não afasta, por si só, a sua natureza de sociedade empresária, quando os elementos constantes dos autos demonstram que a contribuinte exerce atividade econômica organizada, conforme requisito legal do Art. 15, §1º, III, alínea “a”, da Lei nº 9.249/95. Vejamos: Fl. 423DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 8 Diante do dilema quanto ao que seria sociedade simples e sociedade empresária, necessário evocar a previsão do art. 966 do CC: Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. Do dispositivo exsurge a constatação de que quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, não é empresário. A atividade médica aqui se insere. A não ser, excetua o texto, que o exercício destas atividades esteja ligada por elementos que permitam concluir tratar-se de uma empresa. Entretanto, o dispositivo não aponta como requisito para caracterização da atividade empresarial o registro em órgão competente. Afirma tão somente que ela se caracteriza se “...o exercício da profissão constituir elemento de empresa”. O art. 967 do mesmo código talvez tenha induzido a autoridade fiscal a desconsiderar a contribuinte como sociedade empresária organizada. Segundo o dispositivo, o empresário deve ser registrado no Registro Público de Empresas Mercantis. Como, no caso dos autos, não havia registro dos atos constitutivos na Junta Comercial do Estado de São Paulo, concluiu-se que a entidade não seria sociedade empresária, por falta de registro no órgão competente. Note-se que a autoridade fiscal imputou duas causas para não considerar a autuada como beneficiária do percentual reduzido de presunção do lucro. Para o Fisco, a empresa era sociedade simples, de fato, e estava registrada como tal, de direito. Cabe aqui um parêntese, inclusive para infirmar uma alegação do recurso especial. Assevera a recorrente que se poderia inferir que as atividades são exercidas exclusivamente pelos sócios da pessoa jurídica e, por esta razão, a sociedade seria simples, e não empresária. Além de se tratar de questão de fato, não compreendida na interpretação da legislação discutida, tal afirmativa é rechaçada expressamente pelo recorrido, inclusive pelo voto vencido, conforme seguinte passagem dele extraída (com destaques acrescidos): Relativamente ao argumento considerado pela decisão de piso, de que a recorrente seria (ou, conforme afirmou tudo indica) uma sociedade simples, entendo, data vênia, de maneira diversa. [...] Retornando aos autos, veja-se que a recorrente, contrariamente ao alegado no termo fiscal e na decisão de piso, é um estabelecimento assistencial de saúde, dispõe de estrutura material e de pessoal destinados ao atendimento da Fl. 424DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 9 população (pacientes), clínica organizada com serviços profissionais não só de médicos, mas também conta com enfermeiros e outros, além de realizar procedimentos cirúrgicos de alta tecnologia, com possibilidade de internação 24 horas e exames laboratoriais de variada ordem, atuando em sistema day clinic, nos termos da Solução de Consulta COSIT nº 191/2015, anteriormente transcrita sua ementa. A decisão de piso inferiu, ao meu sentir, perfunctoriamente, que os sócios é que prestam os serviços médicos, e por isso seria a recorrente uma sociedade simples, conclusão que, data vênia, discordo, uma vez que há elementos suficientes nos autos em direção oposta, ou seja, na direção de que a recorrente tenha característica de sociedade empresária. Entendo que aqui o trabalho do profissional especializado e/ou intelectual assume a condição de elemento de empresa, ou seja, o seu trabalho, apesar de extremamente importante, é exercido dentro de uma estrutura organizada, com o auxílio de materiais técnicos específicos, aparelhos para exames laboratoriais, inclusive de imagenologia, auxiliares de enfermagem, equipamentos para cirurgias e internações, ou seja, um rol de atividades e/ou serviços tratados como de serviços hospitalares, nos termos da Solução de Consulta COSIT nº 191/2015, anteriormente transcrita sua ementa. [...] Assim, afasto a conclusão assinalada na decisão de piso de que a recorrente seria uma sociedade simples. O voto vencido negou provimento ao recurso voluntário exclusivamente por faltar à contribuinte registro dos seus atos constitutivos em Junta Comercial, já que afastou, expressamente, a conclusão proferida pela DRJ que considerou o sujeito passivo sociedade simples. Quanto à organização empresarial, o Colegiado, por unanimidade, afastou a conclusão proferida em primeira instância de julgamento e considerou que ela estava comprovada nos autos. Voltando ao art. 967 do CC, resta a seguinte indagação: se é obrigatória a inscrição do empresário no registro competente, qual seria a consequência da falta de inscrição? Não vejo alternativa outra que não considerar, quando muito, como motivo de mera irregularidade formal a falta de registro da entidade empresarial na Junta Comercial. Mormente quando a empresa possuía, desde sua constituição, registro assentado em cartório, conforme aliás determinava o art. 1.364 do Código Civil de 1916, considerando tratar-se de pessoa jurídica constituída em 1988: Art. 1.364. Quando as sociedades civis revestirem as formas estabelecidas nas leis comerciais, entre as quais se inclui a das sociedades anônimas, obedecerão aos Fl. 425DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 10 respectivos preceitos, no em que não contrariem os deste Código; mas serão inscritas no Registro Civil, e será civil o seu foro. Não se está aqui afirmando que a contribuinte não deveria ter transferido seu registro para a Junta Comercial. Mas em função da falta de exigência expressa deste registro para fins de utilização do percentual reduzido previsto no art. 15, § 1º, III, “a” da Lei nº 9.249/1995, e considerando-se comprovada a atuação da contribuinte como sociedade empresária, penso que o provimento do recurso especial resulte em peso excessivo para o que, como dito, constitui mera irregularidade formal. Em linha com a conclusão aqui manifestada, recente julgado deste mesmo Colegiado, relatado pelo Conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca, deu provimento ao recurso especial da contribuinte para autorizá-lo a utilizar o percentual reduzido, conforme ementa no Acórdão nº 9101-006.407, que reformou o próprio acórdão paradigma indicado pela recorrente, verbis: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2014 LUCRO PRESUMIDO. PERCENTUAL DE PRESUNÇÃO. CONCEITO DE SOCIEDADE EMPRESÁRIA. ATIVIDADE HOSPITALAR. O conceito de sociedade empresária é subjetivo, pressupondo, tão só, o exercício de atividade econômica “organizada para a produção ou circulação de bens e de serviços”, assim se considerando a sociedade que tenha por objeto inclusive serviços de natureza intelectual, desde que estes conformem “elemento de empresa”, mesmo que não tenha promovido o registro de seus atos constitutivos em Junta do Comércio. Portanto, a formalização da pessoa jurídica como sociedade simples não afasta, por si só, a sua natureza empresária quando presta serviço de natureza evidentemente hospitalar, nos termos do art. 15 da Lei nº 9.249/1995, com a redação dada pela Lei nº 11.727/2008. No presente caso, não resta dúvida de que a Recorrente explora seu objeto social de diagnóstico por imagem, de forma organizada, para a produção de serviços, com habitualidade, reiteração e prospecção futura, tudo permeado pelo intuito lucrativo. Assim, resta plenamente caracterizada a Recorrente como sociedade organizada de forma empresarial, não havendo determinação legal para que se registre em junta comercial para aplicação do percentual de presunção reduzido. Quanto ao atendimento à norma da ANVISA, entendo que esse não é o escopo do lançamento para a consideração de que a empresa não teria os percentuais reduzidos de lucro presumido, tanto que, durante o procedimentos fiscal, a fiscalização requereu apenas a Fl. 426DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 11 apresentação dos documentos que constam no TERMO DE INÍCIO DE PROCEDIMENTO FISCAL (fl. 03), TERMO DE INTIMAÇÃO FISCAL n° 01 (fl. 05), TERMO DE INTIMAÇÃO FISCAL n° 02 (fl. 06/09). Dessa forma, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário, nesse ponto, quanto à utilização das alíquotas reduzidas para a apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, relativas aos serviços hospitalares prestados pela Recorrente. Arbitramento do Lucro Com relação ao arbitramento do lucro, a empresa afirma que não foi identificada qualquer irregularidade na base de cálculo do tributo, qual seja, a receita bruta da empresa. Afirma que todas as irregularidades verificadas dizem respeito tão somente a contabilização das despesas da empresa, fato que, em face da opção da recorrente pelo lucro presumido, não afetam a base de cálculo tributável do IRPJ e da CSLL, ratificando o argumento de que não houve de modificação do fato gerador ou da base de cálculo tributária e, consequentemente, prejuízo ao erário. Pois bem. Cabe nesse ponto registrar a constatação verificada pela Fiscalização: 4. 1. A empresa deixou de contabilizar nos Livros Diário e Razão nos anos- calendário de 2005, 2006, 2007 e 2008 todos os pagamentos de aluguéis do estabelecimento filial (cnpi 91.109.249/0003-57) correspondente ao contrato de sublocação datado de 02/01/2006 (anexo II). São anexados os Demonstrativos de Resultado dos Exercícios de 2005 a 2008, constantes dos respectivos livros diários onde é constatada a inexistência das contas de resultado de aluguel (anexo IV). 4. 1. 1. Em relação ao estabelecimento matriz, tampouco são contabilizados os pagamentos dos aluguéis dos anos-calendário de 2005 a março de 2010. A empresa justifica tal fato através de correspondência emitida por Rodrigo Ramos, datada de 23/03/2012, a qual relata: "que por acordo verbal ajustado no ano de 2000 (dois mil), entre a Clinimagem — Clínica de Diagnóstico por Imagem e a Companhia Hospitalar Nossa Senhora de Fátima, a Clinimagem estaria isenta por um período de 10 (dez) anos, do pagamento de quaisquer valores referentes ao espaço ocupado no andar térreo do prédio situado à Rua Alexandre Fleming, n° 454, ..." (grifo nosso). O sr. Rodrigo Ramos assina tal correspondência como diretor à época da Companhia Hospitalar Nossa Senhora de Fátima (fl. 34). Tal declaração conflita com o que estabelece no Contrato de Sub-Arrendamento de Imóvel para Uso Comercial efetuado datado de 01/01/2010 entre a Associação Cultura e Cientifica Virvi Ramos (sub-arrendante), Clinimagem — Clínica de Diagnóstico por Imagem (sub-arrendatário) e M. Ramos Participações e Empreendimentos Imobiliários Ltda. (anuente), a qual em sua cláusula 3 relata que o imóvel foi sub-arrendado em 1° de junho de 2002 (portanto, não houve acordo verbal em 2000, e sim houve o sub-arrendamento Fl. 427DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 12 em 2002) (anexo III — cláusula 3). Mais ainda, não contempla a realidade já que de acordo com os balanços patrimoniais do sujeito passivo inexistem gastos contábeis em benfeitorias (anexo V). 4. 2. Além disso, a empresa é contumaz em omitir na contabilidade os gastos com despesas corriqueiras de sua atividade operacional, tais como: telefone, condomínio, água e energia elétrica do período 2006 a 2010. A empresa justifica dizendo que: "As contas de água, luz, condomínio, fazem parte do montante pago com o aluguel, cujos recibos estão lançados nas despesas operacionais da empresa, declaramos que estão faltando recibos de vários meses de aluguel, pelo desencontro de informações entre empresa e escritório contábil" (fl. 31). Tal declaração não reflete a realidade, já que no período de 2006 a 2010 inexiste na contabilidade da empresa lançamentos contábeis de água, luz (energia elétrica), condomínio e telefone (anexo IV). 4. 2. 1. As despesas com telefone referem-se aos números telefônicos utilizados pela empresa conforme discriminação impressa em suas notas fiscais de serviço: 3223.1333, 2108.8357 e 2108.8856 (anexo VI). Tais telefones constam inclusive como telefone de contato nas notas fiscais de entrada emitidas por seus fornecedores. Como amostragem é anexada a nota fiscal 746 emitida pela Deca Indústria de Móveis Ltda., em 03/12/2008 no valor de R$ 350,00, onde consta no campo "fone/fax" o número 2108.8856 (anexo VII). 4. 3. Mas há mais. A contabilidade não espelha a veracidade dos atos e fatos da empresa. Irregularmente escritura notas fiscais emitidas para outras empresas. Escritura como sendo suas despesas, gastos de outras empresas e de seus ex- sócios. Efetua pagamentos que não são da atividade operacional da empresa. Abaixo são citados e anexados alguns documentos fiscais colhidos por amostragem que corroboram as afirmações acima (anexos VIII e IX): [...] Em nenhum momento a empresa contesta a análise feita pela Fiscalização e não traz documentos e nem elementos para contestar as afirmações fiscais, apenas afirma que improcede o argumento que embasa o arbitramento do lucro. Dessa forma, entendo que não assiste razão à Recorrente no presente ponto. Conclusão Ante o exposto, voto por CONHECER do Recurso Voluntário e DAR-LHE PARCIAL PROVIMENTO para que prevaleça os percentuais reduzidos de 8% (IRPJ) e 12% (CSLL) sobre a receita bruta decorrente de prestação de serviço hospitalar, com o acréscimo de 20% tendo em vista a sistemática do lucro arbitrado. Assinado Digitalmente Fl. 428DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 13 Andréa Viana Arrais Egypto VOTO VENCEDOR Conselheiro Ailton Neves da Silva, redator designado Não obstante o bem articulado voto da Conselheira relatora, discordo de sua posição apenas em relação à aplicação dos percentuais sobre a receita bruta para fins de apuração das bases de cálculo do IRPJ e CSLL para os anos-calendário de 2009 e 2010 do Recorrente, porquanto entendo que ele não atendeu aos requisitos para fruição do benefício de alíquota reduzida nesses anos. Explica-se. Conforme relatório do acórdão recorrido, o art. 15, §1º, III, "a", da Lei nº 9.249/95 em sua redação original, vigente até 31/12/2008, combinado com o art. 20 da mesma lei, estabelecia que a prestação de serviços hospitalares estava sujeita à aplicação dos percentuais de presunção de 8% e 12% sobre a receita bruta para apuração da base de cálculo, respectivamente, do IRPJ e CSLL. No julgamento do REsp 1.116.399/BA, sob a sistemática do art. 543-C do CPC, o STJ decidiu que a expressão "serviços hospitalares" deveria ser interpretada de forma objetiva (ou seja, sob a perspectiva da atividade realizada pelo contribuinte), porquanto a lei, ao conceder o benefício fiscal, não considerou a característica ou a estrutura do contribuinte em si (critério subjetivo), mas a natureza do próprio serviço prestado (assistência à saúde). Nesse julgamento, ficou consignado que os regulamentos emanados da Receita Federal não poderiam exigir que os contribuintes cumprissem requisitos não previstos em lei (a exemplo da necessidade de manter estrutura que permita a internação de pacientes) para a obtenção do benefício fiscal. A legislação tributária determinou a aplicação irrestrita desse entendimento na esfera administrativa, o qual permaneceu inalterado até o advento da Lei nº 11.727/2008, que deu nova redação ao art. 15, §1º, III, "a", da Lei nº 9.249/95, autorizando, a partir de 01/01/2009, a utilização dos percentuais de 8% e 12%, respectivamente, para apuração da base de cálculo de IRPJ e CSLL, pela sistemática do lucro presumido, em relação às atividades de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que a prestadora dos serviços fosse organizada sob a forma de sociedade empresária e atendesse às normas da Anvisa. Pois bem, o auto de infração envolve períodos-base de 2007 a 2010, sujeitos, portanto, ao um regime híbrido: aos anos-calendário 2007 e 2008, aplica-se o art. 15, §1º, III, "a", Fl. 429DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 14 da Lei nº 9.249/95 na sua redação original e aos anos-calendário 2009 e 2010, o mesmo dispositivo, porém, com a redação dada pela Lei nº 11.727/2008. O Acórdão recorrido está alinhado com este entendimento. Confira-se: DOS PERCENTUAIS APLICADOS SOBRE A RECEITA BRUTA PARA A APURAÇÃO DAS BASES DE CÁLCULO DO IRPJ E DA CSLL A impugnante informa que ajuizou, em 10/06/2006, ação declaratória de existência parcial de relação jurídico tributária e de repetição de indébito, protocolizada sob nº 2006.71.07.001181-9. Na petição inicial (fls. 279 a 290), verifica-se que a ação judicial tem por objeto o reconhecimento de que os serviços prestados pela contribuinte (exames radiológicos e ultrassonográficos em medicina) caracterizam-se como serviços hospitalares previstos no art. 15, §1º, III, “a”, da Lei nº 9.249/95, fazendo jus à apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL pelo lucro presumido com percentuais de 8% e 12%, respectivamente. A contribuinte obteve decisões desfavoráveis na 1ª e na 2ª instâncias. Entretanto, o Superior Tribunal de Justiça - STJ deu provimento ao recurso especial e reconheceu que os serviços prestados pela contribuinte se incluem no conceito de “serviços hospitalares” previsto no art. 15, §1º, III, “a”, da Lei nº 9.249/95, podendo a mesma utilizar os percentuais reduzidos na apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL relativamente à receita proveniente da atividade específica sujeita ao benefício (fls. 369 a 372). Tal decisão já transitou em julgado (fls. 338). Ante o exposto, conclui-se que a inclusão dos serviços prestados pela contribuinte (exames radiológicos e ultrassonográficos em medicina) no conceito de “serviços hospitalares” previsto no art. 15, §1º, III, “a”, da Lei nº 9.249/95 foi objeto de ação judicial. O poder judiciário decidiu favoravelmente à contribuinte na ação ordinária nº 2006.71.07.001181-9, tendo a decisão já transitado em julgado. Observe-se que essa questão específica (inclusão dos serviços radiológicos e ultrassonográficos no conceito de “serviços hospitalares”) não foi objeto da impugnação, tendo a impugnante questionado apenas a aplicação do art. 27 da Instrução Normativa SRF nº 480/2004, alterada pela IN SRF nº 539/2005 e pela IN RFB nº 791/2007, além do arbitramento. Cabe observar que a abrangência da expressão “serviços hospitalares” prevista no art. 15, §1º, III, “a”, da Lei nº 9.249/95 foi objeto de decisão proferida pelo STJ no RESP 1.116.399/BA sob a sistemática do art. 543-C do CPC, constando da lista de dispensa de contestar e recorrer da PGFN para fins de aplicação do art. 19, §§4º, 5º e 7º, da Lei nº 10.522/2002. A questão foi objeto da Nota PGFN/CRJ/Nº 359/2017: Fl. 430DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 15 Resumo: Para fins do pagamento dos tributos com as alíquotas reduzidas, a expressão "serviços hospitalares", constante do artigo 15, § 1º, inciso III, da Lei 9.249/95, deve ser interpretada de forma objetiva (ou seja, sob a perspectiva da atividade realizada pelo contribuinte), porquanto a lei, ao conceder o benefício fiscal, não considerou a característica ou a estrutura do contribuinte em si (critério subjetivo), mas a natureza do próprio serviço prestado (assistência à saúde). Ficou consignado que os regulamentos emanados da Receita Federal referentes aos dispositivos legais acima mencionados não poderiam exigir que os contribuintes cumprissem requisitos não previstos em lei (a exemplo da necessidade de manter estrutura que permita a internação de pacientes) para a obtenção do benefício. Para fins de redução da alíquota, devem ser considerados serviços hospitalares "aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde", de sorte que, "em regra, mas não necessariamente, são prestados no interior do estabelecimento hospitalar, excluindo-se as simples consultas médicas, atividade que não se identifica com as prestadas no âmbito hospitalar, mas nos consultórios médicos". Ficou consignado que a redução de alíquota prevista na Lei 9.249/95 não se refere a toda a receita bruta da empresa contribuinte genericamente considerada, mas sim àquela parcela da receita proveniente unicamente da nos exatos termos do § 2º do artigo 15 da Lei 9.249/95. OBSERVAÇÃO: O benefício não se aplica às consultas médicas, nem mesmo quando realizadas no interior de hospitais, de modo que só abrange parcela das receitas da sociedade que decorre da prestação de serviços hospitalares propriamente ditos. Ressaltamos que o STF não reconheceu repercussão geral com relação a este tema (AI nº 803.140). OBSERVAÇÃO 2: para fatos geradores ocorridos a partir de 01/01/2009, deve se atentar para a incidência da nova redação do art. 15, § 1º, III, "a", da Lei nº 9.249/95, considerando a alteração promovida pela Lei nº 11.727/2008 (art. 29 c/c art. 41, VI). Portanto, a partir de tal marco, a prestadora dos serviços referidos na alínea em comento deve estar organizada sob a forma de sociedade empresária (excluídas, portanto, as sociedades simples e os empresários individuais) e atender às normas da ANVISA. Vide REsp 1606437/SC, AgRg no REsp 1538506/SC, AgRg no REsp 1506187/PR, AgRg no REsp 1383586/RS, AgRg nos EDcl no REsp 1369745/RS, dentre outros. Esse entendimento é vinculante para a RFB, nos termos da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 1/2014, que regulamenta o disposto no art. 19, §§ 4º, 5º e 7º da Lei nº 10.522/2002. Portanto, relativamente aos fatos geradores ocorridos nos anos-calendário de 2007 e 2008, somente pode ser exigido o atendimento do critério objetivo, ou seja, que os serviços prestados tenham a natureza de serviços hospitalares, para a aplicação dos percentuais reduzidos. Assim, para a utilização dos percentuais reduzidos, é indevida a exigência de cumprimento de critérios subjetivos previstos Fl. 431DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 16 nos atos normativos da RFB, tais como constituição da pessoa jurídica como sociedade empresária e existência de estrutura física para internação de pacientes. Ante o exposto, conclui-se que, relativamente aos fatos geradores ocorridos nos anos-calendário de 2007 e 2008, devem ser aplicados os percentuais de 9,6% para o IRPJ e 12% para a CSLL sobre a receita bruta para a apuração das bases de cálculo. Ressalte-se que o art. 15, §1º, III, “a”, da Lei nº 9.249/95 teve sua redação alterada pela Lei nº 11.727/2008, com vigência a partir de 01/01/2009: Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de oito por cento sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto nos arts. 30 a 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995. (redação original) § 1º Nas seguintes atividades, o percentual de que trata este artigo será de: (...) III - trinta e dois por cento, para as atividades de: a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares e de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que a prestadora destes serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa; (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008) (...) Como se viu, a nova redação dada ao art. 15, §1º, III, “a”, da Lei nº 9.249/95 incluiu os serviços de auxílio diagnóstico, inclusive imagenologia, no percentual de 8% previsto no caput, porém, impôs a obrigatoriedade de atendimento de dois requisitos pela prestadora dos serviços: 1) deve ser organizada sob a forma de sociedade empresária; 2) deve atender às normas da Anvisa. Entretanto, como bem apontado pelo Acórdão recorrido, esses requisitos não foram objeto da ação judicial nº 2006.71.07.001181 9, pelo simples fato dela ter sido ajuizada antes das alterações introduzidas no art. 15, §1º, III, “a”, da Lei nº 9.249/95 pela Lei nº 11.727/2008. Pelo mesmo motivo, a exigência de atendimento de tais requisitos para os anos- calendário de 2009 e 2010 não foi impugnada pelo Recorrente, do que se conclui que a matéria sequer foi apreciada pela instância de origem, inviabilizando sua análise neste momento processual em face da ocorrência da preclusão. Fl. 432DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.317 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 11020.721283/2012-57 17 Ainda que assim não fosse, não há provas nos autos que atestem o cumprimento dos requisitos de que cuidam os itens 1 e 2 acima para fins de fruição do benefício da alíquota de presunção reduzida, vez que o Recorrente não comprova nem o atendimento das normas da Anvisa nem a condição de sociedade empresária. Portanto, correta a autuação relativamente aos fatos geradores ocorridos em 2009 e 2010, não havendo reparos a fazer na Decisão recorrida. É como voto. Assinado Digitalmente Ailton Neves da Silva Fl. 433DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor

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Numero do processo: 16327.900519/2018-84
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jun 22 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Tue Aug 11 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2011 PER/DCOMP. SALDO NEGATIVO. COMPROVAÇÃO. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. RETORNO DOS AUTOS À ORIGEM. Verificada, em juízo de cognição administrativa, a existência de elementos indiciários do direito creditório, sem que a unidade de origem tenha apreciado adequadamente a documentação à luz desse entendimento, impõe-se o retorno do processo à Receita Federal para reapreciação do pedido, sob pena de supressão de instância.
Numero da decisão: 1101-002.265
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator, para que o processo retorne à Receita Federal do Brasil, a fim de que reaprecie o pedido de compensação formulado pelo contribuinte, a partir dos fundamentos e documentos juntados aos autos (nota fiscal, extrato bancário e TED por amostragem), podendo intimar a parte a apresentar outros documentos adicionais (v.g., livro razão e livro diário), devendo ser emitida decisão complementar contra a qual caberá eventual manifestação de inconformidade do interessado, retomando-se o rito processual. Assinado Digitalmente Jeferson Teodorovicz – Relator Assinado Digitalmente Efigênio de Freitas Júnior – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Roney Sandro Freire Correa, Jeferson Teodorovicz, Edmilson Borges Gomes, Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira e Efigênio de Freitas Júnior (Presidente).
Nome do relator: JEFERSON TEODOROVICZ

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SALDO NEGATIVO. COMPROVAÇÃO. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. RETORNO DOS AUTOS À ORIGEM. Verificada, em juízo de cognição administrativa, a existência de elementos indiciários do direito creditório, sem que a unidade de origem tenha apreciado adequadamente a documentação à luz desse entendimento, impõe-se o retorno do processo à Receita Federal para reapreciação do pedido, sob pena de supressão de instância. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator, para que o processo retorne à Receita Federal do Brasil, a fim de que reaprecie o pedido de compensação formulado pelo contribuinte, a partir dos fundamentos e documentos juntados aos autos (nota fiscal, extrato bancário e TED por amostragem), podendo intimar a parte a apresentar outros documentos adicionais (v.g., livro razão e livro diário), devendo ser emitida decisão complementar contra a qual caberá eventual manifestação de inconformidade do interessado, retomando-se o rito processual. Assinado Digitalmente Jeferson Teodorovicz – Relator Fl. 657DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 2 Assinado Digitalmente Efigênio de Freitas Júnior – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Roney Sandro Freire Correa, Jeferson Teodorovicz, Edmilson Borges Gomes, Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira e Efigênio de Freitas Júnior (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário protocolado pela contribuinte (e-fls.626/636), contra acórdão da DRJ (e-fls. 602/617), que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade contra o Despacho Decisório, que não reconheceu o direito creditório pleiteado pelo interessado, referente a saldo negativo de CSLL, referente ao ano calendário de 2011. Para síntese dos fatos, reproduzo o Relatório do acórdão recorrido: 1. DESPACHO DECISÓRIO 2. O presente processo trata de Manifestação de Inconformidade contra o Despacho Decisório com número de rastreamento 131004521 (e-fls. 41), emitido eletronicamente em 05/03/2018, referente ao crédito demonstrado no PER/DCOMP nº 26309.74587.190913.1.2.03-9005. Fl. 658DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 3 3. O tipo do crédito utilizado é Saldo Negativo CSLL, do ano-calendário 2011. 4. Os valores das parcelas de composição do crédito informados no PER/DCOMP e os valores confirmados pelo fisco foram assim discriminados no despacho decisório: Tabela 2 – Parcelas da Composição do Saldo Negativo 5. Somatório das parcelas de composição do crédito na DIPJ: R$ 99.559,99. 6. CSLL devido(a): R$ 20.403,01. Fl. 659DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 4 7. Valor original do saldo negativo informado no PER/DCOMP com demonstrativo de crédito: R$ 79.156,98. 8. Valor na DIPJ: R$ 79.156,98. 9. No despacho, não foi reconhecido o direito creditório. 10. Como enquadramento legal são citados os seguintes dispositivos: art. 168 da Lei n.£' 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional – CTN); § 1£' do art. 6£' e art. 74 da Lei n.£' 9.430, 27 de dezembro de 1996; art. 4£' da IN RFB n.£' 1.300, de 21 de novembro de 2012. 11. O detalhamento das parcelas confirmadas encontra-se no documento intitulado “Despacho Decisório - Análise de Crédito” (e-fls. 572/575). 12. CIÊNCIA 13. A Interessada teve ciência do Despacho Decisório em 16/03/2018 – sexta-feira -, conforme documento à e-fls. 570. 14. MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE 15. A interessada apresentou manifestação de inconformidade em 16/04/2018 – segunda-feira - (e-fls. 02) com suas razões de discordância às e-fls. 05/27. 16. Em linhas gerais, a Interessada alega: • DOS FATOS • A composição do saldo negativo em comento se deu em razão do somatório de todas as retenções na fonte a título de CSRF realizadas por terceiros oriundas da prestação de serviços às pessoas jurídicas, ao longo do ano calendário de 2011. • Todas as operações que formam o fato gerador do CSLL decorrentes da prestação de serviços da Interessada foram devidamente formalizadas através da emissão das respectivas Notas Fiscais Eletrônicas, onde se pode constatar que foram destacados, os tributos federais, cujos valores foram deduzidos no ato da quitação do pagamento, sendo certo que a Interessada apenas auferiu o valor líquido. • No que tange as exigências da RFB, a Interessada apresentou sua DIPJ do período, discriminando na Ficha 57 retenções na fonte a título CSLL— que totalizou R$ 99.559,88, que após reduzida a CSLL— devida, apresentou Saldo Negativo no valor de R$ 79.156,98 disponível para aproveitamento, tal como retratado na Ficha 17. • A Interessada ao recompor sumariamente seu crédito, apurou e analisou pormenorizadamente todas as antecipações realizadas durante o período de 2011 e constatou que no confronto entre Notas Fiscais emitidas de Prestação de Serviços a terceiros com a disponibilidade financeira dos valores a elas atrelados na conta bancária da Interessada, as retenções que ocasiona a dedução dos tributos de fato foram realizadas. • A Interessada, após análise detalhada, constatou que alguns tomadores de serviços efetuaram o pagamento pelo total da Nota Fiscal, não efetuando assim os devidos retenções dos impostos, a soma dos valores de CSLL— nestas circunstâncias soma o importe de R$ 775,00, o qual a Interessada reconhece que não deveria ter considerado para efeito de composição do saldo negativo, como retenções efetivadas. Fl. 660DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 5 • O valor correto das antecipações, conforme notas fiscais, disponibilidade financeira e parcelas confirmadas de CSLL— retida soma o valor de R$ 98.784,39. • Portanto, para o ano de 2011, a Interessada reconhece que para o cálculo do Saldo Negativo, comprovado inconteste, a conta que se deve fazer é: • Partindo do princípio da verdade real, o saldo negativo de CSLL— que deve ser deferido em favor da Interessada é aquele apurado com vistas as retenções advindas da prestação de serviços à terceiros em notas fiscais, confirmadas pelos valores pagos pelos serviços não sendo sua responsabilidade o repasse dos valores retidos aos cofres públicos, uma vez que a própria norma determina que as pessoas jurídicas tomadoras dos serviços e que promoveram o pagamento o façam. Os chamados responsáveis tributários. • Ora, uma vez realizada a prestação de serviços e descontados os valores dos tributos não é dever da Interessada provar que houve o repasse da citada retenção aos cofres públicos. • Neste caso, cabe ao Fisco acionar as fontes pagadoras que não cumpriram com sua obrigação tributária e cobrar delas o efetivo recolhimento, sob pena de infringir a lei. Isto porque, atribuir a outro sujeito passivo o ônus da prova do pagamento é penalizá-lo com uma tarefa que compete ao órgão arrecadador. • Assim, a Interessada não concorda em estar privada de se valer da totalidade do crédito informado no que diz respeito as retenções por ela sofrida no ano de 2011, quando se apurou a título de saldo negativo o importe correto no valor de R$ 78.381,38. • Quanto à retenção, o RIR determina que compete à fonte pagadora reter o referido imposto, procedimento devidamente cumprido, quando da emissão das notas fiscais. Nessas situações em que a fonte pagadora é obrigada a reter o imposto e não repassa aos cofres públicos, esta deve arcar com o ônus do imposto, reajustando a base de cálculo. • Sabendo-se que nos procedimentos elencados na legislação que disciplina esta tributação surge a figura do responsável tributário, é possível afirmar que havendo o destaque da retenção na operação, automaticamente é transferido o ônus do recolhimento à fonte pagadora, que tem o dever legal de efetuar o devido repasse e este é realizado com identificação no seu próprio CNPJ. • Logo, reafirma-se que não é dever da Interessada provar que houve o repasse, uma vez que ela sofreu a retenção, e esta dedução no valor bruto de seus serviços resta devidamente comprovado nestes autos. • Destaca-se, por oportuno, que as obrigações acessórias foram rigorosamente cumpridas pela Interessada, bem como as informações dispensadas nos Perdcomp's, de modo que o saldo negativo de IRPJ para o período consta valorado na DIPJ. Fl. 661DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 6 • A Interessada menciona que deve ser levado em consideração o Princípio da Verdade Material, nos termos do art. 29 do Decreto nº 70.235/72. • Portanto, compete ao Fisco efetivar as diligências necessárias, a fim de fiscalizar e cobrar devidamente os terceiros envolvidos nesta relação tributária, deixando de lesar o crédito apurado pelos reais detentores. • Notadamente, a disposição do art. 18 do Decreto nº 70.235/72 aduz que a autoridade julgadora de primeira instância deverá realizar todas as diligências ao seu alcance, tudo em atendimento ao princípio da verdade material. • DO DIREITO • Frente ao alegado, não há dúvida de que a Interessada é detentora dos valores correspondentes ao saldo negativo de CSLL, exercício de 2012, no valor correto de R$ 78.381,38, uma vez que seu direito está calcado na legislação e doutrina aplicáveis, devendo a compensação ser homologada integralmente, sob pena de insegurança jurídica. • Mister reiterar que as informações relativas ao crédito de saldo negativo contida na DIPJ é o valor correto e o Perdcomp deve ser homologado na proporção do referido valor, devidamente atualizado na data da realização da compensação. • Com efeito, resta demonstrado pelo raciocínio jurídico acima desenvolvido que a Interessada faz jus ao crédito parcial comprovado de saldo negativo de IRPJ. • Tanto é verdade, que foram apontados os CNPJ's das pessoas jurídicas consideradas fontes pagadoras, devendo ficar a cargo delas o repasse dos valores ao Fisco, nada interferindo a composição do crédito. • Neste cenário, a fonte pagadora se transforma, por determinação expressa no CTN, especialmente no art. 121, em responsável tributário. • Ainda neste entendimento, o art. 128 atribui a responsabilidade pelo pagamento do tributo à terceira pessoa vinculada ao fato gerador da obrigação tributária, tanto pode excluir a responsabilidade do contribuinte como atribuir a este a responsabilidade. • Ciente de que o imposto em discussão é regulamentado pelo RIR, é possível constatar que o art. 717, há definição de que a responsabilidade pela retenção do IR é da fonte pagadora. • Surge, portanto, a figura do segundo sujeito passivo da obrigação tributária, que está vinculado ao cumprimento das seguintes responsabilidades: reter e recolher o tributo, já retirado da disponibilidade patrimonial de quem prestou o serviço, inclusive com a informação constante na Nota Fiscal. • Assim, incorre em crime de apropriação indébita previsto em lei específica, aquele que seja responsável pelo recolhimento, que neste caso é a fonte pagadora, e descumpre com tal determinação. • Depreende-se a convicção de que cabe ao Fisco a cobrança dos valores retidos, uma vez verificada a falta de repasse do imposto aos seus cofres públicos, já que a própria lei assim dispõe. • DO PEDIDO • Ante o exposto, requer seja reconhecido e deferido parcialmente o crédito relativo ao saldo negativo de 2012 descrito no Perdcomp de crédito nº Fl. 662DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 7 26309.74587.190913.1.2.03-9005, formado pelo total de retenções de CSLL sofridas pela Interessada na prestação de serviços realizada a terceiros, que nestes autos comprova o valor de R$ 78.381,38. 17. Com a manifestação de Inconformidade vieram os documentos às e-fls. 28/569. 18. Nesta Turma, juntou-se a pesquisa de e-fls. 601. 19. Do exposto, o direito creditório discutido na presente lide é de R$ 79.156,98, que corresponde ao total do(s) Perdcomp, conforme tela(s) inserida(s) abaixo: 20. É o relatório. Nada obstante, o Acórdão da DRJ julgou improcedente a manifestação de inconformidade, conforme ementa abaixo: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2011 PERDCOMP. DESPACHO ELETRÔNICO. SALDO NEGATIVO. CSLL. RETENÇÃO NA FONTE. COMPROVAÇÃO DIRF. INEXISTENCIA DE CRÉDITO. Não conterá ementa o acórdão resultante de julgamento de processo administrativo fiscal decorrente de despacho decisório emitido por processamento eletrônico. Manifestação de Inconformidade Procedente em Parte Direito Creditório Não Reconhecido Nestes termos DISPOSITIVO do acórdão recorrido: Os membros desta Turma acordam, por unanimidade de votos, nos termos do Relatório e Voto anexos, julgar a manifestação de inconformidade procedente em parte, para: a) reconhecer a parcela de retenção na fonte, no valor de R$ 9.384,48, para compor o saldo negativo de CSLL; b) não reconhecer o direito creditório pleiteado, porque não houve formação de saldo negativo de CSLL; c) considerar definitiva na esfera administrativa a glosa de retenção de CSLL no valor de R$ 775,49 (itens 24 a 26 do voto). Quanto à verdade material privilegiada pelo CARF, estamos diante da verdade material e legal aplicável ao caso, não havendo saldo negativo no período. Fl. 663DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 8 CONCLUSÃO Em face do exposto, voto por julgar improcedente a manifestação de inconformidade, não reconhecendo o direito creditório em litígio. Ato contínuo, a recorrente foi cientificada em 28.06.2022 (efls. 623) da decisão de piso e juntou o Recurso Voluntário às efls.625, em 26.07.2022, às efls. 626/636, em que defende, em síntese sumarizada: Preliminarmente: a) do Direito a Discussão Administrativa e da Suspensão do Crédito Tributário; no mérito; b) o reconhecimento parcial do crédito não se deu em razão de análise dos documentos acostados pela RECORRENTE. Finalmente, requer: I) Seja o presente Recurso Voluntário acolhido em todos os seus termos, a fim confirmar o crédito a título de CSLL—, exercício de 2012 (período de apuração 01.01.2011 a 31.12.2011), informado no PER/DCOMP com demonstrativo de Crédito n. 26309.74587.190913.1.2.03-9005, no valor defendido em Manifestação de Inconformidade de R$ 78.381,38. II) Em ato subsequente sejam homologadas, na proporção do direito creditório deferido, as compensações processadas frente a DCOMP n. 25623.35135.190913.1.3.03-9738 e 15142.53576.101013.1.3-03-5008. III) Permaneça a suspensão da exigibilidade do débito nos processos administrativos de cobrança que tramita sob n. 16327.900.808/2018-83 e n.16327.900.809/2018-28, nos moldes do artigo 151 inciso III do Código Tributário Nacional, até o presente recurso esteja pendente de solução administrativa impedindo quaisquer atos constritivos de direito, principalmente a inscrição em Dívida Ativa, impedimento de expedição de Certidão Positiva com Efeitos de Negativa e posterior execução como feito e pelos motivos que o foi, tudo, por ser da mais colimada ordem de direito!!! É o Relatório. VOTO Conselheiro Jeferson Teodorovicz, Relator O recurso voluntário é tempestivo e dele tomo conhecimento. Conforme relatado, trata-se de PER/DCOMP com demonstrativo de Crédito nº 26309.74587.190913.1.2.03-9005, no valor original de R$ 79.156,98 (setenta e nove mil, cento e cinquenta e seis reais e noventa e oito centavos), em que se pleiteia crédito correspondente a Saldo Negativo de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL, exercício de 2012 (período de apuração 01.01.2011 a 31.12.2011). Extrai-se do Despacho decisório que a fundamentação para a negativa do crédito pleiteado foi a não comprovação de retenções na fonte: Fl. 664DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 9 Fl. 665DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 10 Fl. 666DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 11 Fl. 667DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 12 A DRJ entendeu que os documentos apresentados não seriam suficientes para comprovar os créditos pleiteados, mormente diante da impossibilidade de se conciliar os extratos bancários e as notas fiscais: 40. Pelo entendimento do artigo supracitado, a autoridade, para reconhecer o crédito, porventura, existente, necessita aferir a certeza e liquidez. E, como visto, depende de comprovação por parte da Interessada a quem cabe manter em boa guarda toda a documentação a qual comprove o seu direito. 41. A Interessada alega que não pode ter o seu direito negado se as fontes pagadoras não recolheram o tributo retido na fonte. 42. Equivoca-se a Interessada, já que não é necessário que as fontes pagadoras comprovem o efetivo recolhimento para que a beneficiária aproveitasse as retenções na fonte na apuração do saldo negativo. Bastaria a Interessada apresentar o comprovante de retenção imposto pela legislação para garantir o seu direito. O que não foi apresentado por ela nos autos e nem há qualquer comprovação de que as fontes pagadoras se negaram a entregar tais comprovantes à Interessada. 43. O comprovante de retenção estabelecido pela legislação tem como fundamento fazer com que as fontes pagadoras sejam compelidas a informar tais valores em suas DIRF, já que entregariam um documento a seus beneficiários, como espelho ao que seria informado à RFB. 44. Cabe aos beneficiários, que quiserem utilizar tais valores retidos na dedução do tributo apurado no final do período, exigir que as fontes pagadoras lhes entreguem tais comprovantes. 45. Como ocorre nos casos de recibos médicos que as pessoas físicas exigem para poderem utilizar em suas deduções nas declarações de ajuste anual. 46. Destarte, a Interessada não comprovou que houve negativa das fontes pagadoras em fornecê-las. Além do que, se a fonte pagadora se negar a fornecer tal documento à época do fato, o beneficiário deveria ter denunciado à RFB, haja visto que seria uma violação legal. O que também não se demonstrou nos autos. 47. A Interessada apresenta várias notas fiscais, que são documentos emitidos por ela, e extratos bancários que não demonstram qualquer Fl. 668DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 13 vinculação com àquelas notas fiscais. Inclusive há valores não encontrados nos extratos bancários nas datas descritas por ela em sua planilha constante da manifestação de inconformidade e juntada aos autos às e-fls. 568/569, conforme demonstrado na tabela abaixo: (…) 50. Os extratos bancários apresentados apenas demonstram que há valores creditados na conta corrente, mas que não permitem que se identifiquem a que se tratam, haja visto que são, em sua maioria, apenas TED – Transferência Eletrônica Disponível, o que impede fazer qualquer vinculação às notas fiscais elencada pela Interessada. 51. Além disso, a maioria das datas de crédito são anteriores a data de emissão das notas fiscais correlacionadas pela Interessada, como apresentado na tabela abaixo: (…) 52. Assim, os documentos apresentados não são hábeis a comprovar as retenções utilizadas pela Interessada em seu Perdcomp. 53. Entretanto, a ausência dos comprovantes de rendimentos e retenção na fonte pode ser suprida, quando possível, pelos registros constantes nos bancos de dados da Receita Federal em relação às retenções na fonte informadas pelas fontes pagadoras na DIRF. 54. Em pesquisa aos bancos de dados da Receita Federal (e-fls. 601), são confirmadas nas DIRF entregues pelas fontes pagadoras, para o ano- calendário 2013, retenções de CS na fonte em benefício da interessada no montante de R$ 11.272,97 (Rendimentos de R$ 1.127.297,41), valor superior ao anteriormente confirmado no despacho, R$ 1.888,49. 55. A tabela abaixo relaciona as fontes pagadoras informadas em DIRF, com base das extrações do Receita Data: (...) 56. Registre-se que o código de retenção 5952 implica numa alíquota concentrada de 4,65%, que corresponde à CSLL de 1%, Cofins de 3% e PIS de 0,65%. 57. No entanto, embora tenha sido comprovada a existência das retenções na fonte descritas acima, ainda há que se verificar se a totalidade dos rendimentos, aos quais as retenções se referem, foram efetivamente oferecidos à tributação, para que possam ser considerados como antecipação do devido e, por via de consequência, poder compor o saldo negativo do período. 58. É importante mencionar que a apuração do saldo negativo de IRPJ/CSLL é formada pela diferença entre o imposto/contribuição apurado(a) no final do período deduzido dos valores já antecipados, seja a título de retenções Fl. 669DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 14 ou de imposto/contribuição pago(a), pelo entendimento do art. 2º c/c art. 28 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, in verbis: (...) 59. Nesse sentido, só pode ser deduzida a fonte sobre as receitas que efetivamente foram computadas na determinação do lucro real, que é a base de cálculo do referido tributo. 60. Analisando-se a DIPJ nº 0001593063 Retificadora transmitida em 27/08/2013 (e-fls. 42/110), que permanece ativa, em especial a Ficha 06A - Demonstração do Resultado - PJ, observa-se que as receitas apresentadas guardam relação com os rendimentos informados na DIRF (Tabela 6), como destacado na tela inserida abaixo: 61. Como visto, os rendimentos informados em DIRF são compatíveis com os valores de receitas de serviços declarados em DIPJ, assim as retenções na fonte relativas àqueles rendimentos podem compor o saldo negativo do período. 62. Como já tinha sido confirmado no Despacho Decisório o valor de R$ 1.888,49, cabe reconhecer, neste voto, a diferença de fonte de R$ 9.384,48 (R$ 11.272,97 - R$ 1.888,49). 63. Reapurando-se o saldo negativo de CSLL referente ao ano-calendário de 2011, obtêm-se os valores da Tabela abaixo: Por outro lado, a Recorrente alega que a composição do saldo negativo pleiteado se deu em razão do somatório de todas as retenções na fonte a título de Imposto de Renda - código de receita 5952 realizadas por TERCEIROS EM SEU NOME oriundas da prestação de serviços à pessoas jurídicas, ao longo do ano calendário de 2011, sendo debitado o imposto de renda devido das operações, acostando para tanto extratos bancários do período, notas fiscais, DIPJ. Acostou também planilha com a recomposição do seu crédito com base nos citados documentos e quando da elaboração e checagem dos valores das antecipações, a RECORRENTE constatou que alguns tomadores de serviços efetuaram o pagamento pelo total da Nota Fiscal, não efetuando assim as devidas retenções dos impostos. A soma dos valores de CSLL nestas circunstâncias teriam somado o importe de R$ 775,60, o qual a RECORRENTE reconheceu que não deveria ter considerado para efeito de composição do saldo negativo, como retenções efetivadas. Assim, o valor correto das antecipações para o ano calendário de 2011, conforme notas fiscais, disponibilidade financeira e parcelas confirmadas de CSLL retido somou o valor de R$ 98.784,39, alterando assim, o total de saldo negativo inconteste para o valor de R$ 78.381,38. Nesse aspecto, a RECORRENTE acosta nesta oportunidade recursal, por amostragem, através de planilha e comprovantes dos TED´s - Transferência Eletrônica Disponíveis anexos, que estas transações bancárias tem vinculação entre os valores dos extratos bancários com as notas fiscais relacionadas: Fl. 670DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 15 Acresce que a alegação da autoridade RECORRIDA no item 51 de que “a maioria das datas de crédito são anteriores a data de emissão das notas fiscais correlacionadas pela Interessada” não merece prosperar, pois, por ser uma sociedade Gestora de Fundos de Investimentos, na ocasião realizava a indicação de alguns de seus clientes para operações de Cédula de Crédito Bancário (CCB) junto aos seus parceiros de negócios, a qual, finalizava-se após a liberação dos valores em favor do cliente. Segundo a RECORRENTE, depois de confirmada e comprovada cada operação, os dados e valores eram enviados para validação dos créditos em conta bancária da RECORRENTE e, na sequência, emitido o documento fiscal. Trata-se, portanto, de um procedimento de praxe para este mercado, não havendo qualquer irregularidade, uma vez que os documentos fiscais comprovam a prestação de serviço dentro do próprio mês, com raras exceções, em razão de feriados ou recesso de fim de ano. Sendo assim, considerando a juntada de documentos probatórios em que a RECORRENTE demonstra, em mais de um documento formal, a retenção que sofreu quando do recebimento da prestação de serviço no período (nota fiscal, extrato bancário e TED por amostragem) deveria ser reconhecido o direito creditório em seu favor. Pois bem. Em minha leitura, a análise doa referidos documentos em conjunto com os demais documentos dos autos indicam de forma indiciária o direito creditório pleiteado. Contudo, tais fatos devem ser analisados pela unidade de origem, sob o risco de supressão de instância, razão pela qual, entendo deva ser dado parcial provimento ao recurso voluntário. Além disso, considero também essenciais para verificação do direito creditório pleiteado a apresentação de documentos contábeis, a exemplo do livro razão e do livro diário, que permitiriam, junto dos demais documentos já acostados nos autos, e com maior clareza, tanto verificar as retenções na fonte quanto o oferecimento destas à tributação, nos termos das Súmulas CARF n. 143 e 80. Conclusão Diante do exposto, voto por conhecer o recurso voluntário e, no mérito, dar-lhe parcial provimento, para que o processo retorne à Receita Federal do Brasil, a fim de que reaprecie o pedido de compensação formulado pelo contribuinte, a partir dos fundamentos e Fl. 671DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.265 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.900519/2018-84 16 documentos juntados aos autos (nota fiscal, extrato bancário e TED por amostragem), podendo intimar a parte a apresentar outros documentos adicionais (v.g., livro razão e livro diário), devendo ser emitida decisão complementar contra a qual caberá eventual manifestação de inconformidade do interessado, retomando-se o rito processual. É como voto. Assinado Digitalmente Jeferson Teodorovicz Fl. 672DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10983.901216/2008-97
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Mar 16 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Jul 16 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Exercício: 2004 RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO. RETENÇÃO NA FONTE. ANTECIPAÇÃO. CRÉDITO LÍQUIDO E CERTO. A retenção na fonte possui natureza de antecipação do tributo devido no período de apuração. A compensação ou restituição somente é cabível quando demonstrada a efetiva formação de crédito líquido e certo em nome do sujeito passivo, com prova idônea de sua não apropriação nas apurações de origem. Inexistindo tal comprovação, não se reconhece crédito passível de restituição ou compensação. COMPENSAÇÃO. RETENÇÃO NA FONTE. DARF INEXISTENTE. AUSÊNCIA DE CRÉDITO. A mera alegação de retenção na fonte não basta para amparar declaração de compensação. Ausente a demonstração de crédito líquido e certo em nome do contribuinte, e verificada a instrução do pedido com referência incompatível com o regime legal aplicável, impõe-se a não homologação da compensação.
Numero da decisão: 3402-013.057
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidas as conselheiras Mariel Orsi Gameiro (relatora), Alessandra Lessa dos Santos e Cynthia Elena de Campos, que votaram por dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para reconhecer o crédito pleiteado nos termos da informação fiscal produzida a partir da diligência determinada pelo CARF. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro José de Assis Ferraz Neto. Assinado Digitalmente José de Assis Ferraz Neto - Redator designado Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles - Presidente e Redator Ad Hoc Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Alessandra Lessa dos Santos, Anselmo Messias Ferraz Alves, Cynthia Elena de Campos, Jose de Assis Ferraz Neto, Mariel Orsi Gameiro, Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente). Conforme o art. 58, inciso III, do RICARF, o Presidente da 2ª Turma da 4ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento, Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, designou-se redator ad hoc para formalizar o presente acórdão, dado que a relatora original, Conselheira Mariel Orsi Gameiro, não mais integra o CARF. Como redator ad hoc apenas para formalizar o acórdão, o Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles serviu-se das minutas de ementa, relatório e voto inseridas pela relatora original no diretório oficial do CARF, a seguir reproduzidas.
Nome do relator: MARIEL ORSI GAMEIRO

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RETENÇÃO NA FONTE. ANTECIPAÇÃO. CRÉDITO LÍQUIDO E CERTO. A retenção na fonte possui natureza de antecipação do tributo devido no período de apuração. A compensação ou restituição somente é cabível quando demonstrada a efetiva formação de crédito líquido e certo em nome do sujeito passivo, com prova idônea de sua não apropriação nas apurações de origem. Inexistindo tal comprovação, não se reconhece crédito passível de restituição ou compensação. COMPENSAÇÃO. RETENÇÃO NA FONTE. DARF INEXISTENTE. AUSÊNCIA DE CRÉDITO. A mera alegação de retenção na fonte não basta para amparar declaração de compensação. Ausente a demonstração de crédito líquido e certo em nome do contribuinte, e verificada a instrução do pedido com referência incompatível com o regime legal aplicável, impõe-se a não homologação da compensação. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidas as conselheiras Mariel Orsi Gameiro (relatora), Alessandra Lessa dos Santos e Cynthia Elena de Campos, que votaram por dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para reconhecer o crédito pleiteado nos termos da informação fiscal produzida a partir Fl. 205DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.057 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.901216/2008-97 2 da diligência determinada pelo CARF. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro José de Assis Ferraz Neto. Assinado Digitalmente José de Assis Ferraz Neto – Redator designado Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente e Redator Ad Hoc Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Alessandra Lessa dos Santos, Anselmo Messias Ferraz Alves, Cynthia Elena de Campos, Jose de Assis Ferraz Neto, Mariel Orsi Gameiro, Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente). Conforme o art. 58, inciso III, do RICARF, o Presidente da 2ª Turma da 4ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento, Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, designou-se redator ad hoc para formalizar o presente acórdão, dado que a relatora original, Conselheira Mariel Orsi Gameiro, não mais integra o CARF. Como redator ad hoc apenas para formalizar o acórdão, o Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles serviu-se das minutas de ementa, relatório e voto inseridas pela relatora original no diretório oficial do CARF, a seguir reproduzidas. RELATÓRIO Por bem retratar os fatos e direitos debatidos no presente processo administrativo fiscal, peço vênia para me utilizar do relatório constante à Resolução nº 3402-000.693: Trata-se de Declaração de Compensação Eletrônica – DCOMP – no valor de R$ 11.785,11 (onze mil e setecentos e oitenta e cinco reais e onze centavos) apresentado pelo contribuinte com o fim de ver compensados débitos seus (COFINS – 04/2004) com créditos relativos a retenções na fonte, que sofreu em face do recebimento de valores que lhes foram pagos por órgão com afetação pública, a Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. A compensação não foi homologada, ante a constatação, por parte da DRF- Florianópolis/SC, de que o DARF apontado como crédito inexistia. DA MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE A contribuinte apresentou em 09/06/2008, Manifestação de Inconformidade, à fl. 03 (n.e.) alegando, em síntese, que é pessoa jurídica concessionária de serviço público de energia elétrica e por isso está sujeita à incidência, na fonte, de Fl. 206DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.057 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.901216/2008-97 3 imposto sobre a renda, da contribuição social sobre o lucro líquido, da contribuição para seguridade social – COFINS e da contribuição para o PIS, conforme o art. 64, da Lei 9.430/96. E que verificou que em maio de 2004 a Universidade efetuava a retenção do IRPJ, CSLL, COFINS e PIS e recolhia em nome da contribuinte aos cofres públicos. Aduz que só é possível efetuar a compensação com os dados da guia de recolhimento (DARF) e que diligenciou junto à Universidade e obteve junto ao departamento financeiro a cópia da tela SIAF representativa do documento de arrecadação, e identificou a quantia de R$ 8.065,77, que acrescidos de juros SELIC desde o recolhimento, equivale à quantia de R$ 11.785,70. Assim, procedeu com a compensação do crédito, conforme artigo 74 da Lei 9.430/96, alegando ser legítima a compensação efetuada e que a mesma deve ser homologada pela Autoridade Fiscal. DO JULGAMENTO DE 1ª INSTÂNCIA A 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Florianópolis (SC), decidiu pela não homologação da compensação, proferindo Acórdão n° 0716.313 (fls. 59 – numeração eletrônica), de 29/05/2009, nos seguintes termos: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2004 RETENÇÃO NA FONTE POR ÓRGÃOS PÚBLICOS. COMPENSAÇÃO DOS VALORES RETIDOS COM DÉBITOS POSTERIORES. O direito à compensação dos valores retidos por órgãos públicos quando de pagamentos efetuados pelo fornecimento de bens ou prestação de serviços, com débitos posteriores existe, mas antes é preciso que tais retenções na fonte, como antecipações das exações devidas no período a que se referem que são, sejam antes utilizadas como dedução de impostos e contribuições referentes ao mesmo período-base de quem fazem parte. Apenas o saldo eventualmente remanescente desta confrontação, é que é passível de compensação com débitos de períodos - base posteriores. Compensação não homologada Para a DRJ, a Contribuinte não poderia ter se validado da DCOMP para se aproveitar dos valores retidos, sem antes recompor formalmente os registros e declarações nos quais apurou e declarou os valores devidos e a pagar relativos às contribuições objeto das retenções, devendo-se serem inicialmente compensadas com os períodos base a que pertencem, sendo apenas o saldo credor porventura resultante passível de ser usado para a compensação posterior. Após todo o exposto, votou-se no sentido de julgar improcedente a Manifestação de Inconformidade, assim, não homologando a compensação. DO RECURSO Cientificado do Acórdão de Primeira Instância em 06/07/2009 (conforme AR de fls. 66), a contribuinte apresentou tempestivamente o recurso de fls. 67, em 31/07/2009. Fl. 207DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.057 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.901216/2008-97 4 A recorrente trouxe, novamente, todos os fatos alegados em sede de Manifestação de Inconformidade. Aduziu, ainda, que verificou nos sistemas informatizados da Secretaria da Receita Federal que nunca utilizou os valores para deduzir do saldo a pagar desses tributos e que não sendo utilizado tal crédito, tem-se que esse valor é um excesso e deve ser restituído ao contribuinte, que também pode compensá-los com tributos vincendos; e que essa retenção possui natureza jurídica de um pagamento, uma vez que é um depósito nas contas pública provenientes de recursos do próprio contribuinte e que as retenções são imposições mais severas do que pagamentos espontâneos. Alega ainda que, não utilizou esse crédito e sua natureza é de pagamento a maior que o devido, e que a compensação efetuada é legítima e deve ser homologada por esse órgão de julgamento; e que ficou configurado pagamento a maior que o devido, podendo a quantia excedente ser objeto de pedido de restituição ou, ainda, ser compensada pelo sujeito passivo com seus débitos relativos a outros tributos administrados pela SRF. Ao final, requereu a reforma da decisão para declarar a homologação da compensação realizada pela contribuinte. DA PRIMEIRA DILIGÊNCIA DO CARF Em 28/10/2010, às fls. 84, através da Resolução de nº 340100.104, convertendo o julgamento em diligência para, em síntese, “que o órgão de origem se pronuncie sobre a DCTF retificadora, informando, de modo conclusivo, sobre o seu acatamento e substituição da original ou não, e sobre a existência de pagamento a maior ou não”. DO RELATÓRIO DA DILIGÊNCIA A Delegacia da Receita Federal em Florianópolis/SC, através da SEORT, proferiu relatório de diligência fiscal, às fls. 100 (n.e.), trazendo, primeiramente, quanto à legitimidade ad causam ocorrida no Recurso Voluntário da contribuinte, e a conclusão com os seguintes termos: Respondendo ao questionado pelo CARF: a DCTF retificadora foi acatada, substituindo a original, contudo, na DCTF ativa que consta do sistema o valor do PIS de novembro de 2000 é o mesmo informado na DCTF original (ver item 5); sobre a existência de pagamento a maior, mesmo se consideradas as retenções na fonte alegadas pelo contribuinte, não há qualquer valor disponível referente ao período de apuração novembro/2000 para ser usado da Dcomp de que tratam estes autos, nº 09509.73894.140504.1.3.047142 (ver item 6). E conforme mencionado no item 2, acreditamos que deveria ser procedida a cobrança imediata do débito indevidamente compensado, uma vez que decorreu in albis o prazo após a ciência do acórdão da DRJ sem manifestação válida do contribuinte. [...] DA SEGUNDA DILIGÊNCIA DO CARF Em 22/05/2012, às fls. 113 (n.e.), o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, através da Resolução nº 3401000.476, acordou por converter novamente o Fl. 208DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.057 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.901216/2008-97 5 julgamento em diligência, sustentando que a recorrente possui inúmeros processos semelhantes, alguns já reanalisados por este mesmo Conselho, e, visou sanar a falha na representação e intimar a contribuinte a se pronunciar sobre o entendimento da DRF Florianópolis (SC), exposto na primeira diligência. DA MANIFESTAÇÃO EM DILIGÊNCIA FISCAL DO CONTRIBUINTE Em 24/07/2012, às fls. 122, a contribuinte foi intimada e na data de 24/08/2012, às fls. 123 (n.e.), a contribuinte apresentou sua manifestação referente à diligência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, alegando, em suma “que as telas SIAFI demonstram que a Celesc sofreu a carga econômica das retenções em razão dos pagamentos feitos por órgãos públicos em decorrência de fornecimento de energia elétrica, devendo o recurso voluntário ser provido, a decisão da DRJ reformada e a compensação confirmada, pois o SIAFI é um sistema e administrado pela Secretaria do Tesouro Nacional. Subsidiariamente, acaso Vossa Excelência entenda que as telas SIAFI não são aptas para demonstrar a existência do crédito, a Celesc requer a conversão do julgamento em diligência, para que proceda a juntada dos respectivos “Comprovantes Anuais de Retenção de IRPJ, CSLL, COFINS e PIS” (Lei nº 9.430/96, Art. 64), expedidos pela fonte pagadora/órgão público, que são espelho das telas SIAFI, forma adotada pelo CARF nos processos 10983.901218/200886 e 10983.901097/2008 72, onde o valor compensado decorrentes de retenções sofridas foi confirmado pela DRF”, bem como regularizando a representação processual. DA TERCEIRA DILIGÊNCIA DO CARF Em 27/11/2012, através da Resolução 3401000.586, às fls. 151 (n.e.), o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais resolveu por converter o julgamento em diligência, por terem sido insuficientes as diligências realizadas até o presente momento, e assim prescindir de se realizar uma nova, para que a unidade de origem adote procedimentos semelhantes aos realizados nos processos nºs 10983.901218/200886 e 10983.901097/200872, investigando a fundo a existência de pagamento a maior ou não, bem como emitir parecer conclusivo sobre a compensação, respondendo os seguintes questionamentos: a) se restaram comprovadas tais retenções, discriminando os seus valores em caso positivo; e b) se houve ou não compensação com os montantes devidos, elaborando demonstrativo com os valores retidos, compensados e os saldos porventura disponíveis. A DRF de Florianópolis, através da SEORT, manifestouse sobre a diligência do CARF, no sentido de que ocorreu a retenção em benefício da recorrente, equivalente à quantia de R$ 15.728,26, a qual foi realizada pela fonte pagadora Universidade Federal de Santa Catarina (CNPJ 83.899.526/000182), consoante o documento de fls. 154 (extrato SIAFI), entretanto, considera que o crédito indicado pela Recorrente não representa natureza jurídica de pagamento Fl. 209DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.057 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.901216/2008-97 6 indevido ou a maior, restando inidôneo para fins de utilização na compensação de tributos administrados pela RFB. Isso porque, não demonstrou haver promovido a retificação formal nos registros e declarações dos períodos de apuração correlatos aos supostos créditos, pelo que impossível reconhecer liquidez e certeza aos créditos invocados em suas DCOMP. DA MANIFESTAÇÃO À TERCEIRA DILIGÊNCIA FISCAL Intimado em 08/11/2013, a contribuinte apresentou sua Manifestação na data de 09/12/2013, às fls. 165, suscitando, resumidamente, que frente ao fato de que a DRJ na diligência executada reconheceu explicitamente a existência da retenção em benefício da recorrente, a qual por não ter sido utilizada caracterizase como pagamento indevido ou a maior passível de compensação, conforme já decidido pelo CARF nos processos administrativos 10983.901218/200886 e 10983.901097/200872, requerendo seja provido o recurso voluntário da recorrente, reformandose o despacho decisório de modo a confirmar a compensação. DA DISTRIBUIÇÃO Tendo o processo sido distribuído a esse relator por sorteio regularmente realizado, vieram os autos para relatoria, por meio de processo eletrônico, em 01 (um) Volume, numerado até a folha 171 (cento e setenta e um), estando apto para análise desta Colenda 2ª Turma Ordinária da Terceira Seção do CARF. O processo foi baixado em diligência no julgamento ocorrido em 16 de setembro de 2014, através da Resolução nº 3402-000.693, sob os seguintes termos: Desta forma, assim como os registros de créditos indevidos não fazem nascer créditos, tenho que a falta de registro de créditos não se lhes pode tolher, pelo que persiste a necessidade de se apurar a real base de cálculo dos tributos em questão, para se aferir a existência ou não do indébito tributário em discussão nos autos, restando por cumprir esta providência já anteriormente determinada na Resolução nº 3401000.586. Sendo assim, considerando já restar comprovado pela autoridade preparadora que de fato ocorreram as retenções alegadas pela Recorrente, voto no sentido de converter novamente o julgamento em diligência para determinar o retorno dos autos à unidade de origem, para que: a) emita parecer conclusivo sobre a existência ou não de pagamento indevido ou a maior, em sendo consideradas as retenções efetuadas, e, consequentemente, sobre a legitimidade do procedimento de compensação realizado, respondendo se houve ou não compensação com os montantes devidos, elaborando demonstrativo com os valores retidos, compensados e os saldos porventura disponíveis; Fl. 210DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.057 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.901216/2008-97 7 b) após, seja dado vistas do “Relatório Final da Diligência” ao sujeito passivo, para que, querendo, se manifeste no prazo de no mínimo 30 (trinta) dias, retornando os autos para reinclusão em pauta de julgamento neste Conselho. Foi juntado ao processo o despacho de diligência de fls., como retorno e cumprimento da resolução supramencionado, retornando os autos para julgamento. É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, Redator ad hoc Como Redator ad hoc, sirvo-me da minuta de voto inserida pela relatora original, Conselheira Mariel Orsi Gameiro, no diretório oficial do CARF, a seguir reproduzida, cujo posicionamento adotado não necessariamente coincide com o meu. O recurso voluntário é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo integral conhecimento. Cinge-se a controvérsia no procedimento compensatório constante à DCOMP nº nº 23866.48788.140504.1.3.04-8910, donde requer a compensação de parcela de débito da COFINS (período de apuração – abril/04), com a utilização de crédito relativo a suposto pagamento a maior de COFINS, decorrente de retenção promovida em benefício da recorrente, na data de 22/11/01, nos termos do art. 64 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. O processo foi baixado em diligência, com o seguinte retorno: Trata-se de diligência proposta pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - CARF, por meio da Resoluçãonº 3402-000.693, de 16/11/2014, no curso de apreciação de Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte em epígrafe, no que concerne à Declaração de Compensação (DCOMP) nº 23866.48788.140504.1.3.04-8910, donde requer a compensação de parcela de débito da COFINS (período de apuração – abril/04), com a utilização de crédito relativo a suposto pagamento a maior de COFINS, decorrente de retenção promovida em benefício da recorrente, na data de 22/11/01, nos termos do art. 64 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Na presente diligência, busca o CARF que esta Unidade da Receita Federal do Brasil (RFB), emita parecer conclusivo sobre a existência ou não de pagamento indevido ou a maior, em sendo consideradas as retenções efetuadas, e, consequentemente, sobre a legitimidade do procedimento de compensação realizado, respondendo se houve ou não compensação com os montantes devidos, elaborando demonstrativo com os valores retidos, compensados e os saldos porventura disponíveis. Fl. 211DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.057 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.901216/2008-97 8 Com efeito, cumpre destacar, de início, a existência de retenção em benefício da recorrente, equivalente à quantia de R$ 17.081,54 (código 6147)1, a qual foi realizada pela fonte pagadora Universidade Federal de Santa Catarina (CNPJ 83.899.526/0001-82), consoante o documento de fls. 171/172 (extrato SIAFI), o qual foi obtido por meio de diligência outrora realizada por esta Unidade junto àquela fonte pagadora. O artigo 64 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, determina que os pagamentos efetuados por órgãos, autarquias e fundações da administração pública federal a pessoas jurídicas, pelo fornecimento de bens ou prestação de serviços, estão sujeitos à incidência, na fonte, do Imposto sobre a Renda (IR), da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) e da Contribuição ao Programa de Integração Social (PIS) e ao Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PASEP). Portanto, as retenções efetuadas por órgão da administração pública, por determinação da Lei nº 9.430/1996, englobam diversos tributos e contribuições. Assim, no total retido sob o código de receita 6147, há uma parcela de IR, de CSLL, de COFINS e de PIS/PASEP. A Instrução Normativa SRF/STN/SFC nº 28, de 1º de março de 1999, regulamentou no período de 01/02/1999 a 07/03/2001, as alíquotas aplicáveis às retenções de impostos e contribuições de competência da União a serem retidos por órgãos da administração pública. No período de 08/03/2001 a 02/2003 vigorou a Instrução Normativa SRF/STN/SFC nº 23, de 2 de março de 2001. Essas normas dispunham que a retenção sob o código de receita 6147 deveria ser efetuada no percentual total de 5,85% dos rendimentos pagos ao contribuinte, sendo que desse percentual a parcela relativa ao PIS/PASEP corresponde a 0,65%. Dessa forma, do montante retido sob o código de receita 6147, somente 11,11% correspondem ao PIS/PASEP. Em consulta aos Sistemas da RFB, notadamente o DIPJ, verifica-se que a recorrente deixou de se valer da faculdade de dedução do valor relativo ao PIS/PASEP retido na fonte, nos termos do art. 64, § 3º, da Lei nº 9430/1996, consoante se verifica da Ficha 19a,/Linha 19 – Cálculo do PIS/PASEP (novembro/2000), extraído da DIPJ 2001 (entregue à RFB na data de 27/06/2001) – fls. 176. Na Dcomp nº 23866.48788.140504.1.3.04-8910, a recorrente informou um DARF que não existe, isso porque quem recolhe o DARF, na retenção no código de receita 6147, é a fonte pagadora dos rendimentos e não o beneficiário da retenção. No entanto, a retenção alegada confere com o valor constante do comprovante de rendimentos apresentado. E, conforme já exposto, do montante de R$ 15.728,26, retido sob o código de receita 6147, a quantia de R$ 8.065,77 corresponde à COFINS. Fl. 212DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.057 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.901216/2008-97 9 A rigor, entendemos, s.m.j, que o procedimento adotado pela recorrente, ou seja, buscar restituir e/ou compensar suposto crédito decorrente de retenção na fonte antecipação como sendo pagamento indevido ou a maior (sem que tais valores tivessem sido deduzidos na apuração da contribuição), não justifica a natureza jurídica de indébito. Porém, considerando a uma, que, da análise da Declaração de Informações Econômico Fiscais (período de apuração 11/2001), não existe a informação de que teria sido deduzida referida quantia, e, a duas, os entendimentos firmados noutros processos, que reconheceram a existência de indébito nessas condições, a exemplo do recurso voluntário provido, no ponto, no bojo do Processo nº 10983.901218/2008-86, promovemos a apuração do crédito, a consideração da autoridade julgadora, com a respectiva imputação aos débitos da DCOMP sob análise. Na compensação feita na Dcomp em tela, a contribuinte utilizou a taxa de correção 46,12%. Essa taxa engloba a SELIC de dezembro/2001 (de 1,39%), utilizada indevidamente, porque considera que o pagamento indevido teria ocorrido em novembro/2001. O correto é posicionar o pagamento indevido em dezembro/2001 (data de recolhimento da COFINS de novembro/2001). Assim procedendo, a taxa de correção seria 44,73%. Feita a alocação do crédito da COFINS (R$ 8.065,77, posicionado em dezembro/2001) ao débito compensado na DCOMP, verifica-se que o crédito seria suficiente para suportar a quase totalidade da compensação declarada, restando em aberto a quantia de R$ 112,57. Diante do exposto, e considerando que o contribuinte apresentou comprovante relativo à retenção na fonte alegada na Dcomp, tendo a fonte pagadora dos rendimentos confirmado a ocorrência da retenção, a presente diligência conclui no sentido de que, do montante retido, a quantia de R$ 8.065,77 seria referente a COFINS. Posicionado o crédito na data correta (dezembro/2001), o valor seria suficiente para suportar a compensação da quase totalidade do débito indicado na Dcomp, restando em aberto a parcela de R$ 112,57. Nesse sentido, acato o conteúdo da diligência, para dar parcial provimento ao recurso voluntário, reconhecendo-se o crédito nos termos da informação fiscal. Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles VOTO VENCEDOR Fl. 213DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.057 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.901216/2008-97 10 José de Assis Ferraz Neto, redator designado Acompanho o relatório quanto aos fatos. Divirjo, no entanto, do entendimento da ilustre relatora, por não reconhecer, no caso concreto, a existência de crédito de indébito apto a amparar a compensação declarada. O art. 64 da Lei nº 9.430/1996 atribui às retenções na fonte efetuadas por órgãos públicos natureza de antecipação, dispondo, em seu § 3º, que “o valor retido na forma deste artigo será deduzido do imposto e das contribuições devidas pela pessoa jurídica beneficiária, relativamente ao período de apuração em que houver ocorrido a retenção”. Já o art. 74 da mesma lei permite a compensação apenas de crédito “passível de restituição ou compensação”, isto é, crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior, devidamente apurado, líquido e certo. Portanto, a retenção na fonte em debate tem natureza de antecipação: deve, primeiramente, ser deduzida do tributo devido no próprio período de apuração. Apenas eventual excedente, após essa confrontação, poderia, em tese, dar origem a crédito a favor do contribuinte. Art. 64. Os pagamentos efetuados por órgãos, autarquias e fundações da administração pública federal a pessoas jurídicas, pelo fornecimento de bens ou prestação de serviços, estão sujeitos à retenção, na fonte, do imposto de renda e das contribuições sociais de que trata este artigo, na forma e condições estabelecidas pela Secretaria da Receita Federal. E o § 3º do mesmo artigo estabelece: § 3º O valor retido na forma deste artigo será deduzido do imposto e das contribuições devidas pela pessoa jurídica beneficiária, relativamente ao período de apuração em que houver ocorrido a retenção. Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de compensação, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a quaisquer tributos e contribuições sob administração da Secretaria da Receita Federal. As instruções normativas da Receita Federal, em especial a IN SRF/STN/SFC nº 23/2001 e a IN SRF nº 306/2003, disciplinam as retenções e autorizam a compensação “dos valores retidos [...] com o imposto e contribuições de mesma espécie, devidos relativamente a fatos geradores ocorridos a partir do mês da retenção”, mediante aplicação das alíquotas individuais sobre o valor da fatura. Daí resulta que a retenção deve ser primeiro apropriada nas apurações de origem; eventual excedente, corretamente demonstrado nas declarações (inclusive via retificação), é que pode se tornar crédito compensável na forma do art. 74. IN SRF nº 306, de 12/03/2003 Art. 5º Os valores retidos na forma desta Instrução Normativa poderão ser compensados pelo contribuinte com o imposto e contribuições de mesma Fl. 214DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.057 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.901216/2008-97 11 espécie, devidos relativamente a fatos geradores ocorridos a partir do mês da retenção. Parágrafo único. O valor do imposto ou das contribuições a ser compensado será determinado mediante aplicação das respectivas alíquotas sobre o valor da fatura. Tal circunstância comprova procedimento incompatível com a legislação de regência e impede reconhecer a existência de pagamento indevido ou a maior em nome da contribuinte, nos termos do art. 74 da Lei nº 9.430/1996, afastando a liquidez e certeza do crédito alegado, sem que seja necessário atribuir qualquer juízo subjetivo quanto à intenção do contribuinte. Esse ponto, a meu ver, é decisivo: não há, nos sistemas da Receita Federal, documentação que comprove pagamento indevido ou a maior em nome do sujeito passivo. A compensação foi instruída com número de DARF inexistente, em desacordo com o modelo do art. 74, que pressupõe crédito decorrente de pagamento efetivamente realizado pelo contribuinte e passível de restituição ou compensação. Há decisões no CARF no sentido de que a retenção na fonte constitui antecipação do tributo devido no período de apuração, mas a sua utilização em pedido de restituição ou compensação exige a demonstração da efetiva formação do crédito em nome do sujeito passivo, com prova idônea de que a retenção não foi apropriada na apuração original. Nessa linha, não basta a simples referência à retenção, sendo necessário comprovar a existência de crédito líquido e certo, passível de restituição ou compensação, nos termos do art. 74 da Lei nº 9.430/1996. A própria diligência conclui que o procedimento adotado não justifica a natureza jurídica de indébito. Ou seja, a mera existência de retenção não apropriada, sem recomposição das declarações e com indicação de DARF inexistente, não se converte, por si, em crédito de indébito compensável via declaração de compensação. A rigor, entendemos, s.m.j, que o procedimento adotado pela recorrente, ou seja, buscar restituir e/ou compensar suposto crédito decorrente de retenção na fonte antecipação como sendo pagamento indevido ou a maior (sem que tais valores tivessem sido deduzidos na apuração da contribuição), não justifica a natureza jurídica de indébito. É verdade que, por consideração a entendimentos firmados em outros processos, a diligência apura, em caráter subsidiário, qual seria o valor do crédito caso se viesse a reconhecer o indébito. Esse cálculo, contudo, é apresentado apenas “à consideração da autoridade julgadora” e não altera o juízo jurídico anterior de que, “a rigor”, não há natureza de indébito. Diante disso, entendo que, enquanto a retenção do art. 64 não for corretamente apropriada nas apurações de origem, refletida nas declarações e demonstrada com documentos idôneos em nome do contribuinte, não se forma crédito líquido e certo “passível de restituição ou compensação”, na forma do art. 74. A tentativa de tratar diretamente a retenção bruta, com Fl. 215DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-013.057 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.901216/2008-97 12 indicação de DARF inexistente, como pagamento indevido ou a maior, não encontra amparo no regime legal e infralegal aplicável. Por essas razões, voto em negar provimento ao Recurso Voluntário a fim de não homologar a compensação declarada, mantendo o débito tributário conforme apurado. Assinado Digitalmente José de Assis Ferraz Neto Fl. 216DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor

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