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Numero do processo: 10880.660328/2012-17
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon May 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jul 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do fato gerador: 30/06/2012
DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. NULIDADE.
Estando demonstrados os cálculos e a apuração efetuada e possuindo o despacho decisório todos os requisitos necessários à sua formalização, sendo proferido por autoridade competente, contra o qual o contribuinte pode exercer o contraditório e a ampla defesa e onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal, não há que se falar em nulidade.
DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. FUNDAMENTAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA.
Na medida em que o despacho decisório que indeferiu a restituição requerida teve como fundamento fático a verificação dos valores objeto de declarações do próprio sujeito passivo, não há que se falar em cerceamento de defesa.
COMPENSAÇÃO. CRÉDITO INTEGRALMENTE ALOCADO. Correto o despacho decisório que não homologou a compensação declarada pelo contribuinte por inexistência de direito creditório, quando o recolhimento alegado como origem do crédito estiver integralmente alocado na quitação de débitos confessados.
Numero da decisão: 3401-004.732
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator
(assinado digitalmente)
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente), Robson José Bayerl, Cássio Schappo, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Lázaro Antônio Souza Soares, Tiago Guerra Machado.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Data do fato gerador: 30/06/2012 DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. NULIDADE. Estando demonstrados os cálculos e a apuração efetuada e possuindo o despacho decisório todos os requisitos necessários à sua formalização, sendo proferido por autoridade competente, contra o qual o contribuinte pode exercer o contraditório e a ampla defesa e onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal, não há que se falar em nulidade. DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. FUNDAMENTAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. Na medida em que o despacho decisório que indeferiu a restituição requerida teve como fundamento fático a verificação dos valores objeto de declarações do próprio sujeito passivo, não há que se falar em cerceamento de defesa. COMPENSAÇÃO. CRÉDITO INTEGRALMENTE ALOCADO. Correto o despacho decisório que não homologou a compensação declarada pelo contribuinte por inexistência de direito creditório, quando o recolhimento alegado como origem do crédito estiver integralmente alocado na quitação de débitos confessados.
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NULIDADE. Estando demonstrados os cálculos e a apuração efetuada e possuindo o despacho decisório todos os requisitos necessários à sua formalização, sendo proferido por autoridade competente, contra o qual o contribuinte pode exercer o contraditório e a ampla defesa e onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal, não há que se falar em nulidade. DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. FUNDAMENTAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. Na medida em que o despacho decisório que indeferiu a restituição requerida teve como fundamento fático a verificação dos valores objeto de declarações do próprio sujeito passivo, não há que se falar em cerceamento de defesa. COMPENSAÇÃO. CRÉDITO INTEGRALMENTE ALOCADO. Correto o despacho decisório que não homologou a compensação declarada pelo contribuinte por inexistência de direito creditório, quando o recolhimento alegado como origem do crédito estiver integralmente alocado na quitação de débitos confessados. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Rosaldo Trevisan Presidente e Relator (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 66 03 28 /2 01 2- 17 Fl. 75DF CARF MF Processo nº 10880.660328/201217 Acórdão n.º 3401004.732 S3C4T1 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente), Robson José Bayerl, Cássio Schappo, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Lázaro Antônio Souza Soares, Tiago Guerra Machado. Relatório Trata o presente processo de manifestação de inconformidade contra não homologação de compensação declarada por meio eletrônico (PER/DCOMP), relativamente a um crédito de Cofins, que teria sido recolhido a maior no período de apuração. O Despacho Decisório da DERAT/SÃO PAULO, não homologou o pedido de compensação, sob o fundamento de que, embora localizado o pagamento que deu origem ao suposto crédito original de pagamento indevido ou a maior, o mesmo estava à época do encontro de contas integralmente utilizado para quitação de débitos do contribuinte não restando crédito disponível para a compensação dos débitos informados. Notificada da decisão a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade. A DRJ Ribeirão Preto julgou improcedente a impugnação por unanimidade de votos, mantendo o crédito tributário devido. A empresa apresentou recurso voluntário onde somente alega que apesar de ter protestado em sede de impugnação pela falta de motivação do indeferimento no despacho decisório, o acórdão recorrido não demonstrou a motivação, que os atos administrativos devem ser motivados para não ter cerceado seu direito de defesa, não apresentando provas do seu direito. É o relatório. Fl. 76DF CARF MF Processo nº 10880.660328/201217 Acórdão n.º 3401004.732 S3C4T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3401004.681, de 21 de maio de 2018, proferido no julgamento do processo 10880.660277/201223, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3401004.681): "O recurso voluntário é tempestivo e preenche as demais condições de admissibilidade, por isso dele tomo conhecimento. A recorrente protesta pela falta de motivação do despacho decisório que indeferiu o seu pedido de compensação. Entendo que o despacho decisório cumpre os requisitos legais e possui todo o escopo necessário ao exercício do contraditório e da ampla defesa pelo contribuinte. Nele está inscrito o enquadramento legal da autuação: Enquadramento legal: Arts. 165 e 170, da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN). Art. 74 da Lei 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Também nele encontrase a fundamentação da decisão, ficando claro que o crédito indicado foi localizado, mas já havia sido utilizado para quitação de outros débitos do contribuinte: A análise do direito creditório está limitada ao valor do "crédito original na data de transmissão" informado no PER/DCOMP, correspondendo a 4.812,66. A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Entendo que o prejuízo, se havido, foi provocado pelo próprio contribuinte que deixou de apresentar provas que indicassem que era portador do crédito alegado. Ademais, como bem demonstrado no acórdão recorrido, o crédito já havia sido utilizado e alocado, e apesar de ser o único DARF pago pela empresa no ano de 2012, o mesmo foi utilizado em 193 pedidos de compensação. Esse procedimento utilizado pelo contribuinte, de alocar o mesmo crédito a várias Dcomps enseja a cominação de prestação de informação falsa à RFB já que há um campo na PER/DCOMP onde é perguntado se aquele Fl. 77DF CARF MF Processo nº 10880.660328/201217 Acórdão n.º 3401004.732 S3C4T1 Fl. 5 4 crédito já foi informado em outro PER/DCOMP e o contribuinte respondeu “NÃO” em todas as declarações. Por ser extremamente didático, reproduzo o acórdão recorrido, em sua íntegra, para que não haja dúvidas quanto as suas conclusões que acompanho: Em preliminar, não merece acolhida a alegação de nulidade do Despacho Decisório, vez que o mesmo apresenta de forma clara e precisa o motivo da não homologação da compensação, qual seja, a inexistência de crédito disponível para a compensação dos débitos informados na DCOMP. O Despacho Decisório preenche todos os requisitos formais e materiais para sua validade, contendo todos os elementos necessários ao exercício do direito de defesa do contribuinte, trazendo em seu bojo, ainda que de forma sintética, a fundamentação legal, a identificação da declaração de compensação enviada pela empresa, a data da transmissão, o tipo de crédito, as características do DARF apontado pela empresa na DCOMP, bem como o período de apuração a que se refere. Por outro lado, os motivos da nãohomologação residem nas próprias declarações e documentos produzidos pela contribuinte. Estas são, portanto, a prova e o motivo do ato administrativo, não podendo a interessada alegar que os desconhecia. Importante fixar que a DCOMP se presta a formalizar o encontro de contas entre o contribuinte e a Fazenda Pública, por iniciativa do primeiro, a quem cabe, portanto, a responsabilidade pelas informações sobre os créditos e os débitos, cabendo à autoridade tributária a sua necessária verificação e validação. Encontradas conforme, sobrevém a homologação confirmando a extinção. Não confirmadas as informações prestadas pelo declarante, o inverso se verifica. No caso, a contribuinte declarou um débito e apontou um documento de arrecadação como origem do crédito. Em se tratando de declaração eletrônica, a verificação dos dados informados pela contribuinte foi realizada também de forma eletrônica, tendo resultado no Despacho Decisório em discussão. O ato combatido aponta como causa da não homologação o fato de que, nos sistemas da Receita Federal, embora localizado o DARF do pagamento apontado na DCOMP como origem do crédito, o valor correspondente foi totalmente utilizado e alocado aos débitos informados em DCTF, não restando dele o saldo apontado na DCOMP como crédito. Assim, não padece de nulidade o despacho decisório proferido por autoridade competente, contra o qual o contribuinte pôde exercer o contraditório e a ampla defesa e Fl. 78DF CARF MF Processo nº 10880.660328/201217 Acórdão n.º 3401004.732 S3C4T1 Fl. 6 5 onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal. O débito declarado e pago encontrase em conformidade com a correspondente DCTF, a qual tem seus efeitos determinados pelo § 1º do artigo 5º do Decreto lei nº 2.124, de 13 de junho de 1984, entre eles o da confissão da dívida e o condão de constituir o crédito tributário, dispensada qualquer outra providência por parte do Fisco. Quando da transmissão e da análise do PER/DCOMP em tela, o crédito efetivamente não existia, pois o pagamento efetuado estava integralmente alocado ao débito declarado pela própria contribuinte em sua DCTF. Assim sendo, na data da transmissão do PER/ DCOMP a interessada não era detentora de crédito líquido e certo, condição sem a qual não há direito à restituição ou compensação. E não tendo o interessado trazido elementos hábeis a desconstituir a confissão do débito que fez na DCTF, inexiste razão para se reconhecer o pleiteado direito creditório relativo a pagamento pretensamente maior do que o devido, referente ao período de apuração. O extrato abaixo é a DCTF retificadora ativa da contribuinte, referente ao tributo e período em análise. Repare que a contribuinte declara um débito de COFINS em junho de 2012 no valor de R$ 29.148,73 e vincula ao débito um pagamento de R$4.985,20. No quadro abaixo, podemos verificar que o referido pagamento vem de um DARF de R$5.083,90, composto de um valor principal (R$4.985,20) mais multa por atraso (R$98,70). Fl. 79DF CARF MF Processo nº 10880.660328/201217 Acórdão n.º 3401004.732 S3C4T1 Fl. 7 6 Por sinal, esse foi o único DARF de Cofins pago em 2012 pela empresa, conforme demonstra o extrato abaixo. Impende salientar que, sobre esse alegado crédito de R$ 5.083,90, a contribuinte solicita a homologação de nada menos que 193 pedidos de compensação, todos do mesmo período (2º trimestre de 2012), com mesmo vencimento em 31/07/2012 que, somados, resultam em um valor de R$ 948.369,76, conforme relação abaixo dos processos de PER/DCOMP para o mesmo DARF. .... Agrava o fato de tentar utilizar mais de uma vez o mesmo crédito a prestação de informação falsa, pois no PER/DCOMP há um campo onde é perguntado se aquele crédito proveniente de pagamento indevido ou a maior já foi informado em outro PER/DCOMP, ao que o contribuinte respondeu “Não” em todos os PER/DCOMP, em infração ao inciso II do § 1º do art. 45 da IN/SRF 1.300, de 20 de novembro de 2012. Pelo exposto, voto por conhecer do recurso voluntário e no mérito por negarlhe provimento. Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado Fl. 80DF CARF MF Processo nº 10880.660328/201217 Acórdão n.º 3401004.732 S3C4T1 Fl. 8 7 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado negou provimento ao recurso voluntário. (Assinado com certificado digital) Rosaldo Trevisan Fl. 81DF CARF MF
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Numero do processo: 16561.720032/2015-02
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jun 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 21 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010, 2011
CONHECIMENTO. SIMILITUDE FÁTICA.
Sendo similares os fatos analisados pelo acórdão recorrido e paradigma, é conhecido o recurso especial.
ÁGIO TRANSFERIDO. EMPRESA VEÍCULO. DEDUTIBILIDADE.
É legítima a transferência do investimento com ágio, notadamente quando existentes restrições societárias e regulatórias que orientaram a criação de empresa veículo.
Numero da decisão: 9101-003.609
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial. No mérito, (i) quanto ao ágio, por maioria de votos, acordam em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Flávio Franco Corrêa, Viviane Vidal Wagner e Rafael Vidal de Araújo, que lhe deram provimento. Votou pelas conclusões e manifestou intenção de apresentar declaração de voto o conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado).
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Cristiane Silva Costa - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Flávio Franco Corrêa, Cristiane Silva Costa, Viviane Vidal Wagner, Luis Flávio Neto, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado), Gerson Macedo Guerra, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro André Mendes Moura, substituído pelo conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto.
Nome do relator: CRISTIANE SILVA COSTA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2010, 2011 CONHECIMENTO. SIMILITUDE FÁTICA. Sendo similares os fatos analisados pelo acórdão recorrido e paradigma, é conhecido o recurso especial. ÁGIO TRANSFERIDO. EMPRESA VEÍCULO. DEDUTIBILIDADE. É legítima a transferência do investimento com ágio, notadamente quando existentes restrições societárias e regulatórias que orientaram a criação de empresa veículo.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 28; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1500; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT1 Fl. 2.717 1 2.716 CSRFT1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 16561.720032/201502 Recurso nº Especial do Procurador Acórdão nº 9101003.609 – 1ª Turma Sessão de 05 de junho de 2018 Matéria IRPJ Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado CTEEP COMPANHIA PAULISTA DE TRANSMISSÃO DE ENERGIA ELÉTRICA ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010, 2011 CONHECIMENTO. SIMILITUDE FÁTICA. Sendo similares os fatos analisados pelo acórdão recorrido e paradigma, é conhecido o recurso especial. ÁGIO TRANSFERIDO. EMPRESA VEÍCULO. DEDUTIBILIDADE. É legítima a transferência do investimento com ágio, notadamente quando existentes restrições societárias e regulatórias que orientaram a criação de empresa “veículo”. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial. No mérito, (i) quanto ao ágio, por maioria de votos, acordam em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Flávio Franco Corrêa, Viviane Vidal Wagner e Rafael Vidal de Araújo, que lhe deram provimento. Votou pelas conclusões e manifestou intenção de apresentar declaração de voto o conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado). (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Presidente em Exercício AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 00 32 /2 01 5- 02 Fl. 2717DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Flávio Franco Corrêa, Cristiane Silva Costa, Viviane Vidal Wagner, Luis Flávio Neto, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado), Gerson Macedo Guerra, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro André Mendes Moura, substituído pelo conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Relatório Tratase de processo originado pela lavratura de Auto de Infração de IRPJ e CSLL quanto aos anos de 2010 e 2011, com imposição de multa de 75% sobre o crédito tributário, relacionada à falta de adição de despesa indedutível de ágio. Ressaltese trecho do Termo de Verificação Fiscal (fls. 1361): Durante os trabalhos de auditoria, utilizamos alguns documentos extraídos do Processo Administrativo Fiscal PAF nº 16561.720038/201318 e do PAF nº 16561.720036/201400, os quais instruíram os autos de infração previamente lavrados referentes ao anoscalendário de 2008 e 2009, respectivamente. (...) 2. SÍNTESE DOS EVENTOS DE REESTRUTURAÇÃO SOCIETÁRIA E DAS PESSOAS JURÍDICAS ENVOLVIDAS (...) Nos quadros seguintes, descrevemos esquemática e sinteticamente o conjunto de operações societárias engendradas pelas pessoas jurídicas acima identificadas, com o fim de carrear o ágio pago pela ISA Capital na aquisição do bloco de controle da CTEEP para dentro da própria empresa então adquirida, mediante utilização de empresa veículo, a ISA Participações. 1ª ETAPA: CONSTITUIÇÃO DA ISA CAPITAL DO BRASIL S/A E AQUISIÇÃO DA CTEEP (...) A ISA Capital foi constituída em 28/04/2006 tendo a Interconexión Elétrica S.A E.S.P, empresa sediada em Medellín, Colômbia, como principal sócia (99,99%) , com a finalidade de participar de leilão público e adquirir o bloco de controle da CTEEP. Como resultado do leilão ocorrido em 28/06/2006, a ISA Capital adquiriu do Estado de São Paulo participação societária de 21% no capital social da CTEEP. Numa segunda etapa, por meio de Oferta Pública de Aquisição de ações ocorrida em 09/01/2007, a ISA Capital adquiriu mais Fl. 2718DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201502 Acórdão n.º 9101003.609 CSRFT1 Fl. 2.718 3 ações representativas de 16,46% do capital social da CTEEP, perfazendo um total de 37,46%. O preço total pago pela ISA Capital foi de R$ 2.280.416.605,89, composto por valor patrimonial de R$ 1.473.705.903,86 e ágio de R$ 806.710.702,03. 2ª ETAPA: CONSTITUIÇÃO DA ISA PARTICIPAÇÕES LTDA. E POSTERIOR AUMENTO DE CAPITAL INTEGRALIZADO COM PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA NA CTEEP (...) A ISA Participações foi constituída em 10/07/2007, tendo como sócios a ISA Capital com 99% de participação societária , e Fernando Augusto Rojas Pinto com 1% restante , o qual se retiraria da sociedade em 11/01/2008. Em 30/01/2008, foi aprovado o aumento do capital social da ISA Participações para R$ 2.105.032.136,00, totalmente subscrito pela sua então única sócia ISA Capital e integralizado mediante a conferência de sua participação societária na CTEEP. Com isso, a ISA Participações passou a ser a nova controladora da CTEEP, detendo 37,46% de seu capital social e 89,40% de seu capital votante, sendo que o ágio pago pela ISA Capital na aquisição da CTEEP foi carreado para a ISA Participações 3ª ETAPA: INCORPORAÇÃO DA ISA PARTICIPAÇÕES LTDA PELA CTEEP (...) Finalmente em 28/02/2008, a CTEEP incorporou a sua então controladora ISA Participações, a qual foi utilizada como veículo para transferir o ágio gerado na ISA Capital para a CTEEP. Ao final dessa seqüência de eventos societários, verificase que a situação organizacional do grupo é exatamente igual à situação inicial retratado no quadro 1ª ETAPA, com exceção do ágio carreado pela ISA Capital para a CTEEP, a qual vem amortizando aludido ágio e considerando seus efeitos na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. (...) 3.2. DO ÁGIO E DE SUA AMORTIZAÇÃO Conforme demonstrado no item 3.1 B), o total pago pelo investimento e ágio nas duas etapas de aquisição de ações ON da CTEEP pela ISA Capital (leilão público realizado em 28/06/2006 e Oferta Pública de Aquisição de Ações ocorrido em 09/01/2007) foram de R$ 1.473.706 mil (investimento) e R$ 806.710 mil (ágio). (...) Cumpre esclarecer que o ágio de R$ 569.379 mil pago na aquisição de ações ON da CTEEP no leilão público ocorrido em 28/06/2006, cujos cálculos foram demonstrados no item 3.1 B), foi contabilizado na ISA Capital por R$ 566.502 mil, e o valor contabilizado a menor, de R$ 2.877 mil, foi ajustado no ano calendário de 2007. Fl. 2719DF CARF MF 4 Em 30/01/2008, a ISA Capital subscreveu aumento de capital na ISA Participações e integralizou o valor subscrito de R$ 2.105.032 mil mediante conferência de sua participação societária na CTEEP, composto pelos saldos contábeis do investimento (R$ 1.415.598 mil) e do ágio (R$ 689.432 mil) existentes nessa data, conforme demonstrativo da contabilização da participação da ISA Participações na CTEEP, apresentado pelo sujeito passivo (Doc. 24). Além dos mencionados ativos incorporados, a ISA Participações também registrou os seguintes eventos contábeis: (...) Importante destacar que a ISA Participações sofreu aumento de seu capital social em 30/01/2008 e um mês depois foi incorporada pela sua controlada CTEEP. E nesse curto período, mês de fevereiro de 2008, a ISA Participações reconheceu o resultado de equivalência patrimonial positivo de R$ 26.328 mil, a despesa de amortização do ágio de R$ 7.066 mil e a despesa de constituição de uma provisão para manutenção da integridade do patrimônio líquido da incorporadora (PMIPL) de R$ 450.362 mil, resultando num prejuízo contábil de R$ 431.101 mil. (...) A partir da incorporação da ISA Participações, a CTEEP passou a amortizar mensalmente o ágio vertido da empresa incorporada ISA Participações a partir do mês de fevereiro de 2008, inclusive, no montante de R$ 7.066.703,65 mensais, totalizando R$ 77.733.740,15 de despesas de ágio contabilizadas no ano calendário de 2008. Concomitantemente a essa amortização mensal do ágio, o sujeito passivo também passou a reconhecer receitas de reversão da provisão para manutenção da integridade do patrimônio líquido da incorporadora, no montante mensal de R$ 4.664.024,41, perfazendo um total de R$ 51.304.268,51 de receitas contabilizadas no anocalendário de 2008. Relativamente aos anoscalendário de 2010 e 2011 objeto do presente procedimento fiscal , o sujeito passivo registrou receitas de reversão da provisão para manutenção da integridade do patrimônio líquido da incorporadora, no montante de R$ 13.992.073,23 mil, em cada um dos períodos trimestrais dos anos de 2010 e 2011, conforme demonstrado nos lançamentos contábeis registrados na conta 6314100012 – Provisão para Manutenção da Integridade do PL para Fins dos Minoritários (Doc. 26). Entretanto, aludidas receitas contabilizadas tiveram seus efeitos anulados na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL (Lalur e Demonstrativo de apuração da base de cálculo da CSLL, Doc. 27), mediante exclusões de idêntico valor (R$ 13.992.073,23) em cada um dos períodos trimestrais dos anos de 2010 e 2011. O mesmo não se verifica com as despesas de amortização do ágio correspondente, cujo valor de R$ 21.200.110,95 contabilizado em cada um dos períodos, compôs o resultado de todos os períodos trimestrais dos anos de 2010 e 2011, mas não tiveram seus efeitos anulados na apuração das bases de cálculo Fl. 2720DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201502 Acórdão n.º 9101003.609 CSRFT1 Fl. 2.719 5 do IRPJ e da CSLL dos períodos correspondentes. Ou seja, não existem ajustes (adição) a esse título no Lalur e no Demonstrativo de apuração da base de cálculo da CSLL. 3.3. DA INEXISTÊNCIA DE MOTIVAÇÃO EXTRATRIBUTÁRIA A ISA Participações foi constituída com o claro propósito de servir de “veículo” para carrear o ágio pago pela ISA Capital para dentro da CTEEP, por meio de manobras contábeis que redundaram na “projeção” do ágio pago pela investidora no ativo da investida, e assim permitir (indevidamente) o aproveitamento fiscal dos encargos de amortização desse ágio assim replicado, de modo a reduzir o resultado tributável da empresa investida. Cumpre relembrar que a ISA Participações foi constituída em 10/07/2007 e não apresentou qualquer fato contábil relevante até 30/01/2008, quando recebeu da sua então única sócia ISA Capital a participação societária na CTEEP e o respectivo ágio pago, conferidos no aumento de capital ocorrido nessa data. Em 28/02/2008, ou seja, decorrido apenas um mês do evento de aumento de capital da ISA Participações, totalmente integralizado com a conferência do investimento na CTEEP, esta empresa investida, em operação de incorporação reversa, absorveu o patrimônio de sua nova investidora ISA Participações, inclusive o ágio gerado por ocasião de sua própria negociação com a ISA Capital, a partir de quando o sujeito passivo passou a apropriar os encargos da amortização desse ágio “recebido”. Essa operação de incorporação reversa, na qual a empresa adquirida com ágio (CTEEP) incorpora a empresa veículo (ISA Participações), teria resultado, na interpretação do sujeito passivo, no cumprimento da condição de dedutibilidade do intangível disposta no art. 386 do RIR, segundo a qual a pessoa jurídica que absorver o patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio, poderá amortizar o ágio por rentabilidade à razão máxima de 1/60 por mês. (...) Portanto, em face da ausência de substância econômica ou de uma motivação extratributária na questionada “reestruturação societária” amplamente condenada pela doutrina e pela jurisprudência , e estando evidente que o único objetivo perseguido foi a indevida transferência do potencial direito à dedução das despesas do ágio pertencente à investidora ISA Capital para a empresa investida CTEEP, temse que o ágio ilegitimamente projetado para dentro do sujeito passivo não pode gerar efeitos tributários oponíveis ao Fisco, não se admitindo o aproveitamento fiscal dos encargos de amortização desse ágio desde o momento de sua transferência artificiosa e ilícita. Fl. 2721DF CARF MF 6 3.4. DO FUNDAMENTO LEGAL E DA INDEDUTIBILIDADE DOS ENCARGOS DE AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO Uma vez demonstrada a ausência de motivação extratributária na interposição da empresa veículo ISA Participações entre a empresa investidora ISA Capital e a empresa investida CTEEP, seguida da incorporação da empresa veículo pelo sujeito passivo, com o único e evidente propósito de pretensamente tornar o ágio dedutível quando da apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL o que por si só seria suficiente para tornar os efeitos decorrentes dessas operações societárias inoponíveis ao Fisco , passamos a examinar a falta de atendimento aos requisitos exigidos pela legislação que rege a matéria para o aproveitamento fiscal dos encargos de amortização desse ágio. (...) 4. DO LANÇAMENTO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO DEVIDO 4.1. INFRAÇÃO POR FALTA DE ADIÇÃO NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL E DA BASE DE CÁLCULO DA CSLL DE DESPESA INDEDUTÍVEL DE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO Nos períodos trimestrais dos anos de 2010 e 2011, objeto desta fiscalização, o sujeito passivo deixou de adicionar, na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, as despesas indedutíveis de amortização de ágio lançadas na sua contabilidade em conta de despesa operacional (6314100011 – Amortização do Ágio), no valor de R$ 21.200.110,95 em cada um dos trimestres. Logo, essas despesas serão tributadas de ofício por esta fiscalização com a constituição do correspondente crédito tributário de IRPJ e CSLL, mediante lavratura de auto de infração, da qual o presente Termo de Verificação Fiscal é parte integrante. O contribuinte apresentou Impugnação Administrativa, decidindo a Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Brasília pela manutenção integral do lançamento, conforme acórdão do qual se destaca ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010, 2011 NULIDADE. AUTO DE INFRAÇÃO. FORMALIZAÇÃO. Não há que se falar em nulidade quando a formalização do auto de infração atende ao disposto no art. 9°, do Decreto n° 70.235, de 1972. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. FATO GERADOR DE TRIBUTO. DECADÊNCIA. Aferese a decadência a partir do fato gerador do respectivo tributo e não de fatos jurídicos sem efeitos tributários. Fl. 2722DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201502 Acórdão n.º 9101003.609 CSRFT1 Fl. 2.720 7 IRPJ E CSLL. GLOSA DE DESPESAS DE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. MATÉRIA JÁ DECIDIDA EM OUTRO PROCESSO. APLICAÇÃO AO PRESENTE PROCESSO. Tratandose de matéria já decidida no âmbito da primeira instância de julgamento, em outro processo administrativo, no qual foram examinados os efeitos tributários decorrentes dos mesmos atos e negócios jurídicos e concluiuse pela procedência da mesma acusação fiscal em face do mesmo sujeito passivo, não compete a esta Turma de Julgamento reabrir a discussão, não lhe cabendo outra decisão que não a de aplicar aqui o que já foi decidido lá, sob pena de a presente impugnação configurar verdadeiro pedido de reconsideração, não previsto na lei processual administrativa, além do fato de o recurso voluntário interposto naqueles autos se encontrar pendente de julgamento. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. É cabível a aplicação de juros de mora sobre multa de ofício, pois a teor do art. 161 do Código Tributário Nacional sobre o crédito tributário não pago correm juros de mora. Como a multa de ofício também compõe o crédito tributário, sobre ela também necessariamente incidem os juros de mora, na medida em que também não é paga no vencimento. Em recurso voluntário (fls. 2.063), o contribuinte alega: (i) erro de direito, por inexistir motivação para desconsideração da organização societária do contribuinte; (ii) decadência; (iii) a falta de propósito negocial, identificada pela fiscalização, decorreria da interpretação segmentada da operação; (iv) a legitimidade da amortização do ágio; (v) reflexos da amortização do ágio na CSLL; (vi) ilegalidade da cobrança dos juros sobre a multa. A 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Primeira Seção de Julgamento deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais deu provimento ao recurso voluntário, além de rejeitar as preliminares de nulidade e decadência, em acórdão cuja ementa se reproduz a seguir: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010, 2011 ÁGIO. AMORTIZAÇÃO. EMPRESA VEÍCULO. MOTIVAÇÃO EXTRATRIBUTÁRIA COMPROVADA. LEGITIMIDADE. Uma vez comprovada devidamente a motivação extratributária das operações societárias realizadas pelo sujeito passivo, cujo objetivo seja a amortização do ágio, havendo economia tributária que se revela como mera consequência e não um fim em si mesma, correta a dedução do ágio, ainda que por meio de empresa veículo, se a legislação de cunho regulatório e societário impuser tal formalidade. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO DECADÊNCIA. CONTAGEM DO PRAZO. REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA. AFASTAMENTO. Fl. 2723DF CARF MF 8 O prazo decadencial só se inicia após a ocorrência do fato gerador, sendo irrelevante a data da contabilização de fatos passados que possam ter repercussão futura. Deste modo, o prazo decadencial será pautado ou pela disposição do artigo 173, inciso I, do CTN ou do artigo 150, § 4º do mesmo diploma, porém, nunca pelo momento da reorganização societária, que não representa reflexo fiscal algum, num primeiro momento. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL LANÇAMENTOS REFLEXOS. CSLL. A solução do litígio principal, relativa ao IRPJ, aplicase, no que couber, aos lançamentos decorrentes, quando houver fatos ou argumentos idênticos. Os autos foram remetidos à Procuradoria em 25/09/2017 (fls. 2247), que interpôs recurso especial em 16/10/2017 (fls. 2.248), no qual alega divergência na interpretação da lei tributária a respeito dos artigos 7º e 8º, da Lei nº 9.532/1997, constando como paradigmas os acórdãos 1301001.783 e 9101002.187. O Presidente da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento deu seguimento ao recurso especial, em decisão da qual se reproduz trecho a seguir: Da contraposição dos fundamentos expressos nas ementas e nos votos condutores dos acórdãos, evidenciase que a Recorrente logrou êxito em comprovar a ocorrência do alegado dissenso jurisprudencial, como a seguir demonstrado (destaques do original transcrito): “Dedutibilidade do ágio gerado por meio de operações societárias mediante empresa veículo” Acórdão paradigma nº 1301001.783, de 2015 (...) Acórdão paradigma nº 9101002.187, de 2016: (...) Com relação a essa matéria, ocorre o alegado dissenso jurisprudencial, pois, em situações fáticas semelhantes, sob a mesma incidência tributária e à luz das mesmas normas jurídicas, chegouse a conclusões distintas. Enquanto a decisão recorrida entendeu que, uma vez comprovada devidamente a motivação extratributária das operações societárias realizadas pelo sujeito passivo, cujo objetivo seja a amortização do ágio, havendo economia tributária que se revela como mera consequência e não um fim em si mesma, correta a dedução do ágio, ainda que por meio de empresa veículo, se a legislação de cunho regulatório e societário impuser tal formalidade, os acórdãos paradigmas apontados (Acórdãos nºs 1301001.783, de 2015, e 9101 002.187, de 2016) decidiram, de modo diametralmente oposto, que, em virtude de absoluta ausência de previsão legal, o ágio incorrido na aquisição de participação societária, uma vez transferido para empresa veículo por meio de aumento de capital, não pode ser objeto da amortização antecipada de que trata o inciso III do art. 7º da Lei nº 9.532, de 1997 (primeiro acórdão paradigma) e que não há previsão legal, no contexto Fl. 2724DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201502 Acórdão n.º 9101003.609 CSRFT1 Fl. 2.721 9 dos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e dos artigos 385 e 386 do RIR/99, para transferência de ágio por meio de interposta pessoa jurídica da pessoa jurídica que pagou o ágio para a pessoa jurídica que o amortizar (segundo acórdão paradigma). De se observar, por oportuno, que o primeiro acórdão paradigma apontado (Acórdão nº 1301001.783, de 2015) se refere ao mesmo sujeito passivo e aos mesmos fatos aqui tratados, diferindo, apenas, quanto ao período de apuração (anocalendário de 2008, enquanto o presente caso se refere aos anoscalendário de 2010 e 2011), conforme observação contida no próprio voto vencido da decisão recorrida (...) Com fundamento nas razões acima expendidas, nos termos dos arts. 18, inciso III, c/c 68, § 1º, ambos do Anexo II do RI/CARF aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015, ADMITO o Recurso Especial interposto. Em 18/12/2017 o contribuinte foi intimado quanto ao acórdão do recurso voluntário, recurso especial e sua admissibilidade (fls. 2286), apresentando contrarrazões ao recurso, em 29/12/2017 (fls. 2288), nas quais alega: (i) A fiscalização teria reconhecido que o ágio foi efetivamente pago, justificado na rentabilidade futura e correção dos valores registrados; (ii) Os acórdãos identificados como paradigmas não seriam hábeis à demonstração da divergência. Quanto ao acórdão 1301001.783, embora originado de fatos similares, teria discussão de mérito distinta, pois não se discutiu – naquela decisão – a existência de propósito negocial. De forma similar, o acórdão 9101002.187 não teria tratado do propósito extrafiscal que poderia justificar as operações. Assim, pede não seja conhecido o recurso especial; (iii) O contribuinte ainda sustenta que o recurso especial trata de temas não enfrentados pela Turma a quo, mencionando “referências à fraude / simulação e ao suposto ‘ágio de si mesmo’ e questionamentos reativos ao suporte documental que suporta o ágio (laudos)”. Para estes temas, sustenta também não haveria divergência jurisprudencial; (iv) Pede, ainda, caso vencido que os autos retornem à Turma a quo para o julgamento de temas não enfrentados, quais sejam, amortização do ágio para fins específicos da CSLL e incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Subsidiariamente, se este Colegiado entender pelo enfrentamento destes temas, o contribuinte trata de questionálos no mérito de suas contrarrazões; (v) O direito à amortização fiscal do ágio, reiterando as razões tratadas ao longo do processo; (vi) a existência de erro de direito, por inexistir motivação válida para desconsiderar a reorganização societária do contribuinte. Fl. 2725DF CARF MF 10 Voto Conselheira Cristiane Silva Costa, Relatora Esclarecimento inicial Inicialmente, esclareço que o contribuinte responde por outros 2 (dois) processos administrativos relacionados no Termo de Verificação Fiscal, quanto aos anos calendário de 2008 e 2009: 16561.720038/201318 e 16561.720036/201400, respectivamente. O processo nº 16561.720038/201318 teve recurso especial recentemente analisado por esta Turma da CSRF (acórdão nº 9101003.362), de relatoria do Conselheiro Gerson Macedo Guerra; enquanto o processo nº 16561.720036/201400 foi a mim sorteado, incluído também na pauta para julgamento nesta sessão de julgamento. Conhecimento O recurso especial da Procuradoria é tempestivo, tendo sido indicados 2 (dois) acórdãos paradigmas: 1301001.783 e 9101002.187. O contribuinte alega, em suas contrarrazões, que não haveria similitude fática entre acórdãos recorridos e o caso dos autos, na medida os acórdãos paradigmas não teriam tratado do principal fundamento do acórdão recorrido, que é a existência de propósito negocial que justifica a transferência do ágio à “veículo”. O primeiro acórdão paradigma (1301001.783) foi proferido em processo envolvendo o mesmo contribuinte, tendo como distinção fática – única – com relação ao presente processo o momento do fato gerador. Enquanto no acórdão paradigma tratouse de fato gerador no ano de 2008, no presente caso tratase de fato gerador em outros anos calendário. Assim, em princípio, há similitude fática entre os casos, até porque as alegações do contribuinte são também semelhantes nos processos. De toda sorte, sustenta o contribuinte que “sendo o cerne da discussão nestes autos a existência de propósito negocial, para que o dissídio jurisprudencial restasse comprovado, deveria a PGFN indicar acórdão paradigma versando especificamente sobre situação similar (i.e., propósito negocial de reestruturação societária efetuada em virtude de limitação regulatória)”. Consta do acórdão recorrido as seguintes razões de decidir, conforme voto vencedor, elaborado pelo Conselheiro Demetrius Nichele Macei: No caso concreto, a fiscalizada ao tentar seguir as formalidades da lei tributária para a amortização do ágio, encontrou empecilhos impositivos, sendo que o da maior relevância, para mim, foi o estabelecido pela Agência Nacional de Energia Elétrica ANEEL, a qual exigiu a forma efetivamente adotada pelo Recorrente, autorizando e homologando a operação Fl. 2726DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201502 Acórdão n.º 9101003.609 CSRFT1 Fl. 2.722 11 societária perpetrada pela contribuinte, que sim, vai na contramão da legislação fiscal, ao menos sob o aspecto formal. (...) Pois bem. O caso em pauta, se analisado por completo, permite a conclusão de que embora a amortização tenha, de fato, se dado através de uma empresa veículo, assim procedeu a Recorrente, por dois imperativos, um de ordem societária, outro de ordem regulatória. O primeiro acórdão paradigma (1301001.783) tem a seguinte fundamentação, para justificar a manutenção dos autos de infração, conforme voto do ex Conselheiro Wilson Fernandes Guimarães: Em conclusão, o que temos é o seguinte: nos termos da lei, ou o ágio é recuperado por meio da alienação da participação societária, visto que integra o custo de aquisição, o que representa a regra geral; ou, ele é amortizado antecipadamente, a partir do momento em que ocorre a denominada “confusão patrimonial”, circunstância em que a participação societária também é extinta. Com o devido respeito, a afirmação do Ilustre Conselheiro Relator no sentido de que “o único óbice indicado foi a suposta falta de propósito negocial na operação intermediária da incorporação reversa da ISA Participações”, como visto, não guarda relação com os termos da autuação. O que a Fiscalização não aceitou para fins de dedutibilidade, e o Colegiado também não, foi a transferência do ágio por parte de quem efetivamente adquiriu a participação (ISA CAPITAL) para a empresa que serviu de veículo para a amortização da despesa pela autuada (ISA PARTICIPAÇÕES). No entendimento do Colegiado, em confronto com o alegado pelo Relator, aqui, não se trata de encontrar na legislação de regência óbice à transferência pretendida, mas, sim, de verificar autorização para tal, cabendo observar que, quanto a isso, a única possibilidade de transferência prevista na norma é aquela em que a investida incorpora o patrimônio da investidora (incorporação reversa), sendo que, mesmo nesse caso, verificase a “confusão patrimonial”, de modo que, uma vez extinta a participação societária, eliminase a possibilidade de dupla recuperação da despesa. Cumpre destacar que, embora a Fiscalização faça referência à utilização de empresa veículo na reorganização societária, a glosa não tomou por base tal fato. A ausência de substância econômica na realização dos eventos societários, da mesma forma, não constituiu fundamento para a autuação. Não estamos diante, também, de desconsideração de negócio jurídico, mas tão somente de glosa de dedução de amortização de ágio. Fl. 2727DF CARF MF 12 A questão, portanto, pode ser resumida por meio da seguinte indagação: na circunstância versada nos autos, em que houve efetiva transferência do ágio, seria possível aproveitar o favor fiscal trazido pela Lei nº 9.532/97, ou seja, estaria autorizada a amortização do ágio antes mesmo da alienação da participação? Para a Fiscalização e para o Colegiado, a resposta é negativa, vez que a lei não contempla tal possibilidade. Ainda que a forma adotada tenha decorrido de razões econômicas plausíveis, o que a Recorrente deveria ter verificado é que, em virtude da mais absoluta ausência de previsão legal, a antecipação da amortização do ágio objeto de transferência não poderia ser admitida. Nem mesmo o voto vencido, no primeiro acórdão paradigma (1301001.783) trata de restrições regulatórias e societárias para justificar a transferência o ágio à “veículo” (Isa Participações). Não obstante isso, ambos os julgamentos (recorrido e primeiro paradigma) tratam da dedutibilidade de ágio, possibilidade de sua transferência à luz dos artigos 7º e 8º, da Lei nº 9.532/1997. A maioria do Colegiado no acórdão paradigma (1301001783) entendeu que seriam irrelevantes as “razões econômicas plausíveis”, pois a impossibilidade de transferência do ágio decorreria das normas tributárias analisadas. De outro lado, o Colegiado a quo, em sua maioria, sensibilizouse pela legitimidade da transferência de ágio à “veículo” (Isa Participações) exatamente por conta destas normas extratributárias. O panorama me parece similar o suficiente para possibilitar o conhecimento do recurso especial, para que esta Turma da CSRF julgue se as razões extrafiscais identificadas pelo contribuinte em ambos os processos teriam influência na legitimidade da transferência do ágio. Diante disso, conheço do recurso especial quanto ao primeiro paradigma (1301001.783). O segundo paradigma (9101001.187 Celpe) trata do seguinte panorama fático, conforme relatório desta decisão: o ágio, cuja dedutibilidade ora se discute, decorre da aquisição da Companhia Energética de Pernambuco –CELPE, mediante processo licitatório de privatização, realizado em 17/02/2000; na oportunidade, os adquirentes da CELPE consistiam num consórcio de empresas, formado por ADL Energy S/A, PREVI – Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil, BB – Banco de Investimentos S/A, resultando os mesmo com 89,60% do capital votante e 79,62% do capital total, tendo sido a aquisição efetuada com incorporação de expressivo ágio; nesse processo licitatório de privatização, ficou assegurada à empresa 521 Participações S.A., representante dos empregados da CELPE, a reserva da aquisição de parte das ações. Conjuntamente com as empresas acima mencionadas, a 521 – Participações S/A constituiu o Novo Grupo de Controle da CELPE, detentor de 94,94% do capital votante e 84,38% do seu capital total; Fl. 2728DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201502 Acórdão n.º 9101003.609 CSRFT1 Fl. 2.723 13 a Fiscalização registra que, como não havia intenção de extinguir as empresas controladoras, o Conselho de Administração aprovou, por unanimidade, a adoção da seguinte estratégia: i) transferência à empresa Guaraniana das ações adquiridas, com ágio, da CELPE, mediante a integralização de aumento de capital na mesma; ii) transferência dessas mesmas ações para outra empresa – a Leicester, cujo patrimônio passa a ser formado apenas por essas ações; iii) incorporação da Leicester pela CELPE, possibilitando então o aproveitamento do ágio por esta empresa, reduzindose a carga fiscal (IRPJ e CSLL) em exercícios futuros; interessante notar que a questão foi discutida em reunião do Conselho de Administração da empresa Guaraniana, em 27/12/2000, momento em que se registrou o interesse do Grupo adquirente em deduzir na própria CELPE a amortização do ágio pago na aquisição de suas ações, e que, para tanto, seria preciso que houvesse a incorporação das controladoras pela controlada, no caso a CELPE (incorporação às avessas). Isso porque, segundo justificativa do próprio contribuinte, “a estrutura societária do grupo não tornava viável economicamente o aproveitamento do ágio pela CELPE”, pois, para tanto, seria necessária a incorporação da Guaraniana S/A. Acrescenta que a empresa Guaraniana S/A também possuía investimento em outras companhias de energia elétrica, motivo pelo qual a sua incorporação pela impugnante também não seria “viável” nem “razoável”do ponto de vista econômico; a Fiscalização registra que, como não havia intenção de extinguir as empresas controladoras, o Conselho de Administração aprovou, por unanimidade, a adoção da seguinte estratégia: i) transferência à empresa Guaraniana das ações adquiridas, com ágio, da CELPE, mediante a integralização de aumento de capital na mesma; ii) transferência dessas mesmas ações para outra empresa – a Leicester, cujo patrimônio passa a ser formado apenas por essas ações; iii) incorporação da Leicester pela CELPE, possibilitando então o aproveitamento do ágio por esta empresa, reduzindose a carga fiscal (IRPJ e CSLL) em exercícios futuros; assim, em cumprimento ao que restou decidido, aprovouse aumento de capital na Guaraniana, mediante a emissão de ações ordinárias subscritas pelas empresas controladoras e integralizadas, à vista, com as ações de emissão da CELPE, que foram adquiridas com ágio; ato contínuo, a Guaraniana adquire 99,99% do capital da Leicester e subscreve o capital desta mediante integralização das ações de emissão da CELPE, de sua propriedade; em 30/06/2001, portanto, as ações de emissão da CELPE de titularidade da Guaraniana são transferidas para a Leicester, cujo patrimônio fica integrado apenas por essas ações. O valor do ágio transferido na integralização de aumento de capital foi Fl. 2729DF CARF MF 14 amparado por laudo de avaliação de ações fornecido pela ACAL Consultoria e Auditoria S/C; Diante deste quadro fático, decidiu esta Turma da CSRF no primeiro acórdão paradigma (9101002.187), conforme voto vencedor: Esclarece o art. 385 do RIR/99 que se a pessoa jurídica adquirir um investimento avaliado pelo MEP por valor superior ou inferior ao contabilizado no patrimônio líquido, deverá desdobrar o custo da aquisição em (1) valor do patrimônio líquido na época da aquisição e (2) ágio ou deságio. Para a devida transparência na mais valia (ou menor valia) do investimento, o registro contábil deve ocorrer em contas diferentes: (...) Dentre os três critérios, assume relevância, para o caso concreto, aquele que consiste no fundamento econômico com base em expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. Tratase precisamente de lucros esperados a serem auferidos pela controlada ou coligada, em um futuro determinado. Por isso o adquirente (futuro controlador) se propõe a desembolsar pelo investimento um valor superior ao daquele contabilizado no patrimônio líquido da vendedora. Por sua vez, tal expectativa deve ser lastreada em demonstração devidamente arquivada como comprovante de escrituração, conforme previsto no § 3º do art. 385 do RIR/99. As variações no patrimônio líquido da investida passam a ser refletidas na investidora pelo MEP. Contudo, os aumentos no valor do patrimônio líquido da sociedade investida não são computados na determinação do lucro real da investidora. Vale transcrever os dispositivos dos arts. 387, 388 e 389 do RIR/99 que discorrem sobre o procedimento de contabilização a ser adotado pela controladora. (...) É por isso que a investidora, ao registrar o ágio em conta de ativo, não promove a sua amortização para fins fiscais. Não poderia ser diferente, vez que a “mais valia”, decorrente da expectativa de rentabilidade futura, foi paga em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, e que serão tributados na própria investida. Por sua vez, a repercussão de tais lucros na investidora darseá pelo MEP, que não é objeto de tributação. Dessa maneira, como os lucros não são tributados na investidora, não há que se falar em amortização do ágio na investidora. Não faria sentido tributar os lucros na investida, e em seguida tributar o aumento do patrimônio líquido na investidora, que ocorreu precisamente por conta dos lucros auferidos pela investida. Portanto, percebese que, na regra geral, para fins fiscais, o ágio não é dedutível na apuração do lucro real. O investimento adquirido com ágio pode ser alienado, liquidado, ou mesmo ser objeto de uma transformação societária. Passam a ser tratadas as situações específicas, como se pode verificar nos arts. 391 e 426 do RIR/99: (...) Fl. 2730DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201502 Acórdão n.º 9101003.609 CSRFT1 Fl. 2.724 15 Verificase que o aproveitamento do ágio ocorre no momento em que o investimento que lhe deu causa for objeto de alienação ou liquidação, oportunidade em que o ágio irá compor a apuração do custo de aquisição a ser considerado no ganho de capital auferido pelo alienante. Por sua vez, em eventos de transformação societária, quando investidora absorve o patrimônio da investida (ou vice versa), adquirido com ágio ou deságio, em razão de cisão, fusão ou incorporação, resolveu o legislador disciplinar a situação no art. 386 do RIR/99: (...) Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em debate se dirige à investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, sendo ela, e apenas ela a destinatária da prerrogativa de amortização do sobrepreço. A respeito do aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Sobre o aspecto material, há que se observar que apenas o ágio com fundamento econômico no valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros é que tem a amortização autorizada em sessenta parcelas. Ainda, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...), ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Percebese a similitude fática entre o segundo acórdão paradigma (9101 002.187) e o caso dos autos, ambos tratando da transferência do ágio (efetivamente pago). Há pequena distinção entre o acórdão recorrido e o paradigma, qual seja: no paradigma (Celpe 9101002.187) há leilão de privatização, formandose o consórcio de empresas (ADL Energy S.A., Previ – Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil, BB Banco de Investimentos S.A.), além de participação da empresa 521 Participações como adquirente; houve a transferência das ações adquiridas (da CELPE) com ágio à Guaraniana, mediante integralização de aumento de capital; transferência das ações para a Leicester e, finalmente, incorporação desta pela CELPE. No caso dos autos, houve a efetiva aquisição de participação societária com pagamento pelo ágio, posteriormente transferida à veículo (Isa Participações), transferência Fl. 2731DF CARF MF 16 questionada pelo auditor fiscal autuante. No entanto, esta pequena distinção não é suficiente para o não conhecimento do recurso especial. Por fim, o contribuinte pondera que há alguns apontamentos no recurso especial da Procuradoria sem relação com o caso dos autos, “referências à fraude / simulação e ao suposto ‘ágio de si mesmo’ e questionamentos relativos ao suporte documental que suporta o ágio (laudos)”. Noto que nenhuma destas questões compõe a lide, eis que não fundamentaram os Autos de Infração ou TVF. Assim, entendo que a referência a laudos e “ágio de si mesmo” configuram lapsos na elaboração recurso da Procuradoria, que não podem modificar o fundamento do lançamento tributário (em respeito ao artigo 146, do CTN), como tampouco a devolutividade do recurso especial. Se os temas – que aparentemente por equívoco foram tratados em razões do recurso especial – não compõe o julgamento do Colegiado a quo, não é possível a demonstração analítica da divergência e, assim, a devolução da matéria para julgamento por esta Turma. Diante disso, entendo que são procedentes os apontamentos do contribuinte, limitandose o conhecimento do recurso especial aos temas para os quais houve demonstração da divergência. Por tais razões, voto por conhecer o recurso especial da Procuradoria nos termos da demonstração da divergência acima reconhecida. Passo, assim, à análise do mérito deste recurso. Mérito O Termo de Verificação Fiscal, em síntese, efetuou a glosa da despesa com amortização do ágio porque utilizadas empresa “veículo” (ISA PARTICIPAÇÕES) para a qual foi transferido o ágio, constatando o Ilustre Auditor Fiscal que: Uma vez demonstrada a ausência de motivação extratributária na interposição da empresa veículo ISA Participações entre a empresa investidora ISA Capital e a empresa investida CTEEP, seguida da incorporação da empresa veículo pelo sujeito passivo, com o único e evidente propósito de pretensamente tornar o ágio dedutível quando da apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL o que por si só seria suficiente para tornar os efeitos decorrentes dessas operações societárias inoponíveis ao Fisco , passamos a examinar a falta de atendimento aos requisitos exigidos pela legislação que rege a matéria para o aproveitamento fiscal dos encargos de amortização desse ágio. Diante disso, tratarei no presente voto da possibilidade de surgimento de ágio com a utilização de "empresa veículo", com a transferência de investimento com ágio. O lançamento tributário e o acórdão recorrido tratam da interpretação do s artigos artigo 7º e 8º, da Lei nº 9.532/1997. Lembro o teor do artigo 7º, da Lei nº 9.532/1997: Art. 7º A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha Fl. 2732DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201502 Acórdão n.º 9101003.609 CSRFT1 Fl. 2.725 17 participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: (Vide Medida Provisória nº 135, de 30.10.2003) I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "a" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "c" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2° do art. 20 do Decretolei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998) (...) § 1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão. § 2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar: a) o ágio, em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; b) o deságio, em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. § 3º O valor registrado na forma do inciso II do caput: a) será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; b) poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. § 4º Na hipótese da alínea "b" do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos e contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente. Fl. 2733DF CARF MF 18 § 5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito. E a previsão do artigo 8º, da Lei nº 9.532/1997, verbis: Art. 8º O disposto no artigo anterior aplicase, inclusive, quando: a) o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor de patrimônio líquido; b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. Em comentários aos citados dispositivos legais, Marcos Vinicius Neder e Lavínia Moraes de Almeida Nogueira Junqueira tratam da possibilidade de holding e incorporação reversa, sem prejuízo do reconhecimento do ágio dedutível: A Lei nº 9.532/1997 expressamente veio a permitir a dedução do ágio, no caso da "incorporação reversa", algo que não estava claro na legislação anterior. Ou seja, o ágio passou a ser dedutível também no momento em que a investida incorpora a investidora. Tratase, claramente, da incorporação da investidora direta. Essa permissão expressa que autoriza deduzir o ágio na "incorporação reversa" teve como objetivo estimular o interesse da iniciativa privada na aquisição de participação societária em empresas públicas em fase de privatização. (...)" A Lei não proibiu o aproveitamento do ágio no caso de incorporação de empresas holdings, constituídas pelos controladores indiretos com o propósito de adquirir, consolidar e gerir a participação na empresa investida. Não apenas isso não foi proibido como foi expressamente autorizado, na medida em que a Lei permitiu a dedução do ágio no caso da incorporação reversa pela empresa investida na empresa que nela detém a participação acionária e estimulou os processos de privatização (...) A norma tributária, ao conceder o incentivo tributário de aproveitamento do ágio na Lei 9.532/1997, não fez restrição ao uso de holdings, muito pelo contrário as incentivou, como comentamos anteriormente, inclusive ao permitir a dedução do ágio na incorporação reversa. Assim, a mera existência da Instrução CVM 349/2001, que dispõe sobre o tratamento contábil do ágio na incorporação reversa de holdings em empresas de capital aberto, e a existência dos procedimentos contábeis nela sugeridos não afetam em nada a possibilidade de dedução do ágio na incorporação reversa da holding. (...) A Lei não restringiu a apuração ou a dedução fiscal de ágio quando a empresa incorporada, adquirente do investimento, fosse empresa pura de holding, ou quando a empresa tivesse recebido recursos de seu sócio ou acionista em aumento de capital, ou ainda quando tivesse recebido a participação acionária em subscrição de ações de sua emissão. Logo, o tratamento de todas essas hipóteses, quando da incorporação reversa da holding Y, é alcançado, de forma equivalente, pela Fl. 2734DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201502 Acórdão n.º 9101003.609 CSRFT1 Fl. 2.726 19 Lei" (Análise do Tratamento Contábil e Fiscal do Ágio em Estrutura de Aquisição ou Titularidade de Sociedades quanto há a Interposição de Holding, in Controvérsias JurídicoContábeis, 4ª Volume, São Paulo, Dialética, 2013, fls. 161, 162 e 179). Destaco, ainda, trecho do voto vencedor no acórdão recorrido, do Conselheiro Demetrius Nichele Macei, cujas razões adoto para decidir: Um planejamento tributário não inclui atos ilícitos, simulações, fraudes ou abusos de qualquer natureza. Tratase, em verdade, de um conjunto de condutas lícitas e economicamente consistentes, praticadas por sujeitos passivos de obrigações tributárias com o objetivo de eliminar, reduzir ou mesmo postergar economicamente sua carga tributária, e que o faz antes da ocorrência do fato gerador. No caso concreto, a fiscalizada ao tentar seguir as formalidades da lei tributária para a amortização do ágio, encontrou empecilhos impositivos, sendo que o da maior relevância, para mim, foi o estabelecido pela Agência Nacional de Energia Elétrica ANEEL, a qual exigiu a forma efetivamente adotada pelo Recorrente, autorizando e homologando a operação societária perpetrada pela contribuinte, que sim, vai na contramão da legislação fiscal, ao menos sob o aspecto formal. Todavia, acertadamente, em seu Recurso Voluntário, a Recorrente cita o ensinamento de Marco Aurélio Greco, ao destacar que ao se analisar um planejamento tributário é necessário analisar o filme todo e não apenas fotogramas isoladamente considerados (fl. 2.094). Pois bem. O caso em pauta, se analisado por completo, permite a conclusão de que embora a amortização tenha, de fato, se dado através de uma empresa veículo, assim procedeu a Recorrente, por dois imperativos, um de ordem societária, outro de ordem regulatória. (...) Ademais, como já me manifestei previamente no capítulo denominado "Planejamento Tributário e a Verdade Material em Juízo", parte integrante do livro "Tributação: Democracia e Liberdade (em homenagem a Ministra Denise Martins Arruda)", agir de forma ilícita significa que a hipótese de incidência ocorre e o contribuinte se utiliza de meios fraudulentos para esconder do fisco a sua ocorrência, ou mesmo que a declare, o faz de forma a subtrair do fisco a completa realidade dos fatos ocorridos, sendo que tal embaraço prejudica o correto lançamento fiscal. No caso concreto, ressaltese o caráter da publicidade garantido em todos os atos praticados pela Recorrente, demonstrando que em momento algum a intenção/dolo da fiscalizada foi o de burlar o Fisco, o que daria ensejo a uma possível simulação, fraude ou conluio. Assim, neste ponto relativo ao mérito da questão, tendo a Recorrente comprovado todo o alegado, não merece prosperar a glosa de despesa de ágio. Fl. 2735DF CARF MF 20 Adoto as razões do acórdão recorrido, acima colacionado, para confirmar a legitimidade do ágio tratado nos autos, sem que se vislumbre artificialidade na criação das empresas acima citadas. Acrescento às razões de decidir que no caso dos autos havia imposições da CVM e ANEEL que justificam por questões societárias e regulatórias – a organização societária da forma procedida, isto é, a existência da “empresa veículo”. O artigo 15, da Instrução 319 da CVM atesta que haveria “abuso” do poder de controle caso o contribuinte não constituísse a “empresa veículo” em discussão nestes autos: Art. 15. Sem prejuízo de outras disposições legais ou regulamentares, são hipóteses de exercício abusivo do poder de controle: I o aproveitamento direto ou indireto, pelo controlador, do valor do ágio pago na aquisição do controle de companhia aberta no cálculo da relação de substituição das ações dos acionistas não controladores, quando de sua incorporação pela controladora, ou nas operações de incorporação de controladora por companhia aberta controlada, ou de fusão de controladora com controlada; II a assunção, pela companhia, como sucessora legal, de forma direta ou indireta, de endividamento associado à aquisição de seu próprio controle, ou de qualquer outra espécie de dívida contraída no interesse exclusivo do controlador; III o não reconhecimento, no cálculo das relações de substituição das ações dos acionistas não controladores estabelecidas no protocolo da operação, da existência de espécies e classes de ações com direitos diferenciados, com a atribuição de ações, com direitos reduzidos, em substituição àquelas que se extingüirão, de modo a favorecer, direta ou indiretamente, uma outra espécie ou classe de ações; IV a adoção, nas relações de substituição das ações dos acionistas não controladores, da cotação de bolsa das ações das companhias envolvidas, que não integrem índices gerais representativos de carteira de ações admitidos à negociação em bolsas de futuros; V a não avaliação da totalidade dos dois patrimônios a preços de mercado, nas operações de incorporação de companhia aberta por sua controladora, ou desta por companhia aberta controlada, e nas operações de fusão entre controladora e controlada, para efeito da comparação prevista no art. 264 da Lei nº 6.404/76 e no inciso VI do art. 2º desta Instrução; e VI a omissão, a inconsistência ou o retardamento injustificado na divulgação de informações ou de documentos que tenham sido postos à disposição do controlador ou por ele utilizados no planejamento, avaliação, promoção e execução de operações de incorporação, fusão ou cisão envolvendo companhia aberta. O artigo 15, da Instrução 319 da CVM foi revogado em 2015, mas era plenamente eficaz ao tempo dos fatos dos autos (2010 a 2011). Fl. 2736DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201502 Acórdão n.º 9101003.609 CSRFT1 Fl. 2.727 21 Nesse sentido, é o parecer do Dr. Antonio Ganin acostado aos autos pelo contribuinte, explicitando as razões extrafiscais que justificaram a reorganização societária efetuada pela contribuinte: A operação pretendida pela Receita Federal do Brasil (RFB), pela qual a controlada CTEEP incorpora a ISA Capital do Brasil, encontra dois impedimentos para sua realização. O primeiro de ordem societária, pois a operação da forma pretendida pela RFB caracterizaria ato abusivo do poder de controle por parte da CTEEP, conforme previsto no art. 15 da Instrução CVM nº 319/1999, o que seria considerado infração grave para os efeitos do § 3º, do art. 11, da Lei nº 6.385/1976, conforme disposto no art. 17, dessa Instrução CVM. O segundo de ordem regulatória, pois, conforme já exposto, a ANEEL não aceitaria que a dívida da controladora, contraída justamente para a aquisição da controlada, fizesse parte do acervo líquido a ser vertido para a CTEEP por meio da incorporação de sua controladora, trazendo para a concessionária de serviço público de energia elétrica uma divida que é do acionista. A esse respeito, são precisas as considerações do Conselheiro Gerson Macedo Guerra (acórdão 9101003.362), em voto vencido – proferido no processo do mesmo contribuinte recentemente julgado , que acompanhei àquela ocasião: A Lei 9.532 veio ao mundo jurídico num contexto histórico de privatizações ocorridas no país. Como amplamente divulgado na época em que publicada a norma, o objetivo da permissão contida em seu inciso III, de amortização do ágio gerado com base em rentabilidade futura, era o regulamentar a forma de aproveitamento fiscal do ágio gerado. Por trazer regras um pouco mais claras sobre a amortização fiscal do ágio, tal norma é tida como indutora de comportamentos dos contribuintes, na medida em que trouxe segurança jurídica às operações de aquisições de empresas, tanto por investidores não residentes, que se interessaram enormemente por um mercado em recente abertura, como por investidores residentes no Brasil. Nesse contexto, teleologicamente, tal norma visava dar segurança jurídica aos adquirentes de participações societárias para o aproveitamento fiscal do ágio fundado em rentabilidade futura devidamente documentado, oriundo de operações entre partes independentes, com o efetivo pagamento do preço. Diante dessa realidade, a amortização fiscal, após a confusão patrimonial quedouse garantida aos contribuintes. Sob esse enfoque, no presente caso, houvesse a ISA Capital incorporado a CTEEP ou por ela sido incorporada, não haveria qualquer questionamento sobre a amortização fiscal do ágio. Também não haveria qualquer questionamento se a controladora da ISA Capital houvesse integralizado suas ações em outra holding e posteriormente realizasse a incorporação da Fl. 2737DF CARF MF 22 ISA Capital pela CTEEP ou viceversa, pois nesse caso o quem efetivamente pagou pela participação societária participaria diretamente do evento gerador da confusão patrimonial. Ora, se todas essas operações seriam legítimas para fins de aproveitamento do ágio, porque não seria legítima a operação aqui realizada, pelo simples fato de haver a transferência do investimento da pessoa que efetivamente por ele pagou para outra sociedade por ela controlada? Penso que, finalisticamente, não era intenção da norma coibir esse tipo de operação. Como visto na exposição de motivos retro transcrita, sua intenção era de coibir operações com ágios forjados ou a amortização integral do ágio, em função da ausência de regulamentação da forma de aproveitamento nas hipótese de confusão patrimonial entre investidora e investida. Importante frisar, ainda, que não houve qualquer menção a cometimento de qualquer ilícito pelo contribuinte para glosa do ágio em questão. O próprio voto vencedor da decisão recorrida confirma essa questão. Logo, não poderia haver a desconsideração dos atos praticados para efeitos fiscais. Apenas na hipótese de configuração de uma das situações previstas nos artigos 71, 72 e/ou 73, da Lei 4.502/64 está a fiscalização autorizada a desconsiderar os negócios jurídicos realizados, para efeitos fiscais. Por tais razões, entendo que o ágio gerado no presente caso o foi de forma legítima e que sua transferência para sociedade controlada, com posterior incorporação reversa, também foi legítima para fins de permitir sua amortização fiscal. (...) Vêse, pois, que a incorporação direta da ISA Capital apenas não foi implementada em razão de proibições que o próprio Governo Federal, do qual a RFB faz parte, determinou (normas da CVM e ANEEL). Tais proibições decorreram da impossibilidade de transferência, pela Isa Capital à Contribuinte Recorrente, do forte endividamento decorrente dos recursos captados de terceiros (emissão de dívida no mercado internacional) para a aquisição da Contribuinte Recorrente no processo de privatização. Essas proibições, importa desde já destacar, são o verdadeiro propósito negocial da validade da estrutura implementada pela Contribuinte Recorrente. Acrescento que é legítima a transferência de ágio em operação societária, fundamentandose a hipótese no artigo 248, da Lei nº 6.404/1976 e no artigo 20, do Decreto nº 1.598/1976. Desde a original redação, a Lei nº 6.404/1976 obrigava que o investimento adquirido fosse avaliado pelo método de equivalência patrimonial. O artigo 20, do Decreto nº 1.598/1976, em redação vigente ao tempo dos fatos em discussão, regulava o desdobramento do custo de aquisição em ágio por rentabilidade futura: Art. 20 – O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: Fl. 2738DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201502 Acórdão n.º 9101003.609 CSRFT1 Fl. 2.728 23 I – valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Consta do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto nº 3.000/1999) reprodução da disposição legal em seu artigo 385, verbis: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Fl. 2739DF CARF MF 24 Ao tratar do ágio sobre expectativa de rentabilidade futura, o artigo 20, do Decreto nº 1.598/1976 como também sua reprodução no RIR/99 trata indistintamente das hipóteses de aquisição da participação, sem qualquer restrição. Portanto, a exigência da aplicação do método de equivalência patrimonial decorre da própria lógica do artigo 248, da Lei nº 6.404/1976, como também do conceito adotado pelo artigo 20, do Decreto nº 1.598/1976. A transferência de ágio por meio de operações societárias devidamente registradas , portanto, decorre da regular transferência de investimento em observância a estas normas. Ressalto que o artigo 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, ao tratar da confusão patrimonial como condição da amortização do ágio não tem qualquer referência ao "investidor original". A exigência legal é de investimento adquirido com ágio, que poderá ser deduzido quando houver a confusão patrimonial pela empresa que detenha o investimento adquirido, ou mesmo pela própria investida caso ocorra incorporação reversa. Tenho manifestado neste Colegiado a minha posição sobre a dispensabilidade de confusão patrimonial (fundada pelos artigos 7º e 8º, acima citados) entre investidora original e investida original, na medida em que a legislação não atribui interpretação restritiva nesse sentido. Afinal, há que se ponderar se a origem do ágio é legítima (com a existência de partes independentes, dispêndio, demonstração da rentabilidade futura, etc.). Nesse contexto, uma vez demonstrada a legítima origem do ágio, não há restrição legal à sua transferência juntamente com o investimento a ele relacionado. Diante disso, voto por conhecer e negar provimento ao recurso especial da Procuradoria, adotando razões de decidir do acórdão recorrido. Conclusão Pelas razões expostas, voto por conhecer o recurso especial da Procuradoria. No mérito, voto por negar provimento ao recurso especial, mantendo o acórdão recorrido. (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa Declaração de Voto Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Embora concorde com as conclusões da ilustre Relatora, Conselheira Cristiane Silva Costa, divirjo em relação aos fundamentos de seu voto, ora manifestandome exclusivamente a respeito da infração referente à amortização do ágio. Fl. 2740DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201502 Acórdão n.º 9101003.609 CSRFT1 Fl. 2.729 25 A glosa do ágio levada a efeito pela autoridade fiscal lançadora baseiase no fato de que a real adquirente do investimento em CTEEP teria sido ISA Capital, que, por sua vez, teria se utilizado de ISA Participações como empresa veículo com o único intuito de, artificialmente, poder amortizar o ágio pago na aquisição do investimento na Autuada mediante confusão patrimonial artificial entre investida e investidora. Como a real investidora seria ISA Capital, não teriam sido cumpridos os requisitos legais para amortização do ágio. Embora concorde com as conclusões da ilustre Conselheira Relatora, divirjo em relação aos fundamentos de seu voto. Tratandose de operações no âmbito de processos de privatização, há de se analisar a estrutura montada para a aquisição do investimento. Cito como o exemplo o decidido no Acórdão 1402001.409 (“Caso Energisa”), de lavra do eminente Conselheiro Leonardo de Andrade Couto em que, embora houvesse acusação de utilização de empresa veículo para a aquisição do investimento, decidiuse que era justificável o desenho estrutural arquitetado na operação, utilizandose de sociedade de propósito específico que, após longo período, e depois de cumpridos os requisitos impostos por normas regulatórias, foi incorporada pela investida (incorporação reversa), iniciandose, a partir de então, a amortização do ágio. Na ocasião, acompanhei o voto do i. Conselheiro Relator no sentido de prover o recurso e restabelecer a amortização do ágio em questão. Em casos desse jaez, entendo que não se deve se apegar única e exclusivamente à capacidade operacional de tal sociedade de propósito específico, mas sim em seu propósito negocial, em especial, o porquê de sua constituição. Conforme já tive a oportunidade de me pronunciar em inúmeros casos atinentes à amortização de ágio mediante utilização de “empresas de passagem” ou “empresas veículos”, há se analisar, em cada caso, se o único propósito de assim se proceder foi a economia tributária, ou, de modo diverso, se há outros propósitos negociais que justifiquem a constituição de tal empresa1. Houve um período em que este Tribunal Administrativo havia firmado entendimento no sentido de que, a amortização do ágio pago com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, com fulcro no art. 7º, inciso III da Lei nº 9.532/97, deve atender, inicialmente, a 3 (três) premissas básicas, quais sejam: o efetivo pagamento do custo total de aquisição, inclusive o ágio; a realização das operações originais entre partes não ligadas; seja demonstrada a lisura na avaliação da empresa adquirida, bem como a expectativa de rentabilidade futura. Posteriormente, alterouse esse panorama, fixandose o entendimento de que, em regra, o ágio efetivamente pago em operação entre empresas não ligadas e calcadas em laudo que comprove a expectativa de rentabilidade futura deve compor o custo do investimento, sendo dedutível somente no momento da alienação de tal investimento 1 Nesse sentido, no Acórdão 1402001.954 votei por dar provimento ao recurso do contribuinte por entender justificada a utilização de uma empresa enquadrada como “veículo” pela autoridade fiscal lançadora, mas que restou configurada, em realidade, como sociedade de propósito específico, e não constituída com o fim único de angariar vantagem tributária de forma artificial. Fl. 2741DF CARF MF 26 (inteligência do art. 426 do Decreto nº 3.000/99 Regulamento do Imposto de Renda – RIR/99). Por decorrência, incluiuse nova premissa para que a amortização do ágio por rentabilidade futura fosse possível, qual seja, a extinção do investimento em razão da absorção do patrimônio da investidora pela investida, ou viceversa, conforme prevê o art. 386, e seu inciso III, do RIR/99. No presente caso, não há dúvidas que a real investida (Autuada) e investidora (ISA Capital) não passaram a ser uma única pessoa jurídica (mediante incorporação reversa), ao contrário do ocorrido no “Caso Energisa”. Isso porque se interpôs uma nova empresa entre a real investidora e a investida, no caso, a empresa ISA Participações. A Autuada procura demonstrar que a utilização dessa nova empresa possuía propósito negocial, tendo ocorrido em razão de questões regulatórias. Discordo de tal entendimento, uma vez que a interposição de ISA Participações se deu com exclusivo escopo tributário. Não havia qualquer obrigação de ordem societária ou regulatória que impusesse a confusão patrimonial entre investida e investidora. O que havia, isso sim, era uma impossibilidade de que isso pudesse ocorrer em razão de limitações de ordem regulatória. Nesse cenário, com o único intuito de amortizar o ágio em questão, interpôsse ISA Participações, sem sombra de dúvida uma “empresa veículo” e de existência efêmera, a fim de que se pudesse transferir o investimento a essa empresa de modo a contornar as limitações regulatórias e, a todo custo, no entender do contribuinte, iniciar a amortização do ágio. Vejase que o presente cenário diferenciase do “Caso Energisa”, pois não estamos tratando de uma empresa de propósito específico estruturada para participar de um leilão de privatização, mas sim de uma empresa veículo criada com o único intuito de obter vantagem tributária. Vejase que a criação de ISA Participações não teve como objetivo obedecer a norma regulatória, mas sim foi utilizada como meio de contornar regras regulatórias tendo como objetivo final alcançar artificialmente vantagem tributária que, sem sua existência, não poderia ser contornada, ao menos naquele momento2. Com efeito, é importante que fique registrado meu entendimento sobre o tema a fim de que, em julgamentos futuros, não sejas distorcidas minhas conclusões sobre o tema. No caso concreto, o que me leva a concluir pela inviabilidade de manutenção da exigência é outro: a estrutura adotada na operação levou a Autuada e sua controladora a incorrerem em custo tributário mais elevado do que aquele que teria sido por ela suportado se adotasse a estrutura que a autoridade fiscal lançadora e também a PGFN entendia que seria a necessária a possibilitar a amortização do ágio em questão. Explico. Como bem atestou a Autuada já no julgamento de seu recurso voluntário, [...] conforme atesta laudo preparado pela KPMG, o custo tributário incorrido pela Recorrida e sua controladora, em razão da adoção de estrutura societária imposta pela CVM e ANEEL, foi superior em R$ 262,3 milhões àquele que incidiria sobre a estrutura desejada pelo Fisco (incorporação direta da ISA Capital). A estrutura adotada pela Recorrida fez com que os pagamentos de JCPs fossem tributados na ISA Capital e, não, remetidos diretamente para o exterior, bem como não possibilitou a dedução de despesas com os financiamentos 2 No “Caso Energisa” a acusação foi a de que a empresa que participou do leilão de privatização seria “veículo”, o que foi rechaçado pelo colegiado, e o início da amortização do ágio se deu somente depois de superados os óbices regulatórios, implicando verdadeira confusão patrimonial entre o real adquirente e a investida. Fl. 2742DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201502 Acórdão n.º 9101003.609 CSRFT1 Fl. 2.730 27 existentes na ISA Capital, os quais poderiam ser deduzidos na Recorrida. Ou seja, como ISA Capital endividouse para fazer a aquisição do controle da Autuada, se houvesse a confusão patrimonial entre essas empresas, as despesas financeiras em questão reduziriam o lucro da Autuada. De igual forma, enquanto na operação levada a efeito o JCP pago pela Autuada foi reconhecido como receita por sua controladora no Brasil (ISA Capital), sujeitandoa ao pagamento de PIS e de Cofins3, se houvesse a confusão patrimonial essa receita seria reconhecida diretamente por sua controladora no exterior. Convém transcrever as razões aduzidas pelo contribuinte: 41. A fim de corroborar o acima alegado, a Recorrida contratou a empresa de auditoria independente KPMG para (i) analisar e constatar a carga tributária suportada pela ISA Capital e pela Recorrida nos anos de 2008 a 2013, (ii) estimar a carga tributária que seria suportada pela Recorrida, no mesmo período, caso ela tivesse incorporado a CTEEP, e (iii) cotejar ambos os cenários, a fim de verificar qual seria o mais gravoso do ponto de vista fiscal (vide Termo de Constatação Anexo II). 42. Como já mencionado, a ISA Capital possuía, desde 2008, elevado endividamento decorrente da emissão dos Senior Notes no mercado internacional, estando obrigada ao pagamento dos juros devidos em conexão a tais títulos. Nesse giro, a ISA Capital registrou despesas financeiras correlatas a essa dívida, as quais eram dedutíveis para fins de IRPJ e CSL. Ocorre, porém, que, por ser uma holding, a ISA Capital não possuía receitas operacionais aptas a serem contrapostas a tais despesas. Por sua vez, sendo a Recorrida uma empresa lucrativa, a incorporação direta da ISA Capital teria a vantagem de permitir que as despesas financeiras (bem como outras despesas da ISA Capital) fossem abatidas dos seus lucros, diminuindo a sua tributação para os fins de IRPJ e CSLL. 43. Mas não é só. Como se pode verificar de suas demonstrações financeiras, a Recorrida pagou JCP a seus acionistas, dentre as quais está a ISA Capital. Ora, ao receber referidos JCP, a ISA Capital os sujeitou ao PIS e à COFINS, nos termos da legislação aplicável à época9. De acordo com suas estimativas, no período de 2008 a 2013, a ISA Capital pagou cerca de R$ 46 milhões a título de PIS e COFINS sobre JCP. Tais pagamentos seriam totalmente evitados se a Recorrida tivesse simplesmente incorporado a ISA Capital, o que tornaria possível pagar JCP diretamente aos seus investidores colombianos. Nesse cenário, a Recorrida teria não apenas direito a amortizar o ágio como também poderia efetuar pagamentos de JCP diretamente a seus controladores estrangeiros, sem o pagamento de PIS e COFINS no país. 44. As constatações da KPMG levam forçosamente à conclusão de que o custo tributário efetivamente suportado pela Recorrida e sua 3 Entre os anos calendário de 2009 a 2010, e em 2013, não houve o pagamento de IRPJ e de CSLL em razão de se tratar de uma holding, sem outras receitas tributáveis que superassem as despesas decorrentes do financiamento. Nos anos de 2011 a 2012 houve recolhimento de IRPJ e de CSLL. Fl. 2743DF CARF MF 28 controladora no período analisado (o “Cenário 1”) é superior em R$ 262,3 milhões (i.e., R$ 1,481 bilhão menos R$ 1,269 bilhão) àquele que incidiria sobre a estrutura tido pelo Fisco como correta (incorporação direta da ISA Capital – “Cenário 2”). [...] 45. Ademais, na hipótese de incorporação direta da ISA Capital, também haveria economia de IRPJ e CSLL. Atualmente, referidos tributos incidem sobre os JCP recebidos pela ISA Capital, à alíquota conjunta de 34% (25% de IRPJ e 9% de CSLL) e, na hipótese de pagamento de JCP aos controladores da ISA Capital, incide novamente IRRF à alíquota de 15%. Por outro lado, se a Recorrida incorporasse a ISA Capital, os JCP pagos seriam pagos diretamente à Colômbia, com incidência única de IRRF à alíquota de 15% (conforme legislação vigente à época). 46. Em resumo, a reestruturação realizada pela Recorrida foi mais gravosa do que aquela idealizada pelo Sr. Agente Fiscal. Dessa forma, concluise que a reestruturação realizada pela Recorrida não visou ganhos fiscais, mas decorre de opção feita, por razões regulatórias, dentre outras tantas existentes, para fruição de direito previsto em lei e que culminaria com o mesmo resultado: o atendimento às condições legais para amortização fiscal do ágio. Com a exceção da afirmação aduzida pelo contribuinte de que a utilização de ISA Participações se deu para atender a normas regulatórias, conforme já abordado alhures, entendo corretas suas conclusões quanto à inexistência, no caso concreto, de ganho fiscal. Logo, inexistindo vantagem tributária nas operações registradas pelo contribuinte, não há que se falar em planejamento tributário, impondose o cancelamento integral do crédito tributário exigido de ofício. Por essas razões, assim votei no julgamento do recurso voluntário, e não há razões para alterar meu entendimento no exame do recurso especial ora em debate. (assinado digitalmente) Fernando Brasil De Oliveira Pinto Fl. 2744DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13227.900659/2009-00
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 16 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jul 13 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2005
COMPENSAÇÃO. GLOSA DE ESTIMATIVAS COBRADAS EM PER/DCOMP. DESCABIMENTO.
Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp) e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na Declaração de Informações Econômicofiscais da Pessoa Jurídica(DIPJ).
SÚMULA CARF Nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação.
Numero da decisão: 1401-002.538
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, em por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso, nos termos do voto do relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 13227.900318/2010-60, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Livia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Claudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Leticia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente).
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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GLOSA DE ESTIMATIVAS COBRADAS EM PER/DCOMP. DESCABIMENTO. Na hipótese de compensação não homologada, os débitos serão cobrados com base em Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp) e, por conseguinte, não cabe a glosa dessas estimativas na apuração do imposto a pagar ou do saldo negativo apurado na Declaração de Informações Econômicofiscais da Pessoa Jurídica(DIPJ). SÚMULA CARF Nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, em por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso, nos termos do voto do relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 13227.900318/201060, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Livia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Claudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Leticia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 22 7. 90 06 59 /2 00 9- 00 Fl. 64DF CARF MF Processo nº 13227.900659/200900 Acórdão n.º 1401002.538 S1C4T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pela contribuinte em face do Acórdão n. 0121.939 3ª Turma da DRJ/BEL, que, por unanimidade de votos, não homologou a compensação correlata ao crédito de CSLL não reconhecido. A Recorrente transmitiu declaração de compensação em 06/04/2006, na qual indicou crédito resultante de pagamento indevido ou a maior originário de DARF relativo à receita de código 2484, do período de apuração de 07/2005. A unidade de origem, por intermédio de despacho decisório, não homologou a compensação declarada, sob o argumento de que após analisadas as informações prestadas pela Recorrente foi constatada a improcedência do crédito informado no PER/DCOMP por tratarse de pagamento a título de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período. Cientificada, a interessada apresentou manifestação de inconformidade na qual alegou que: a) A empresa efetuou pagamento de CSLL Código de Receita: 2484, relativo ao período de apuração de 07/2005; b) Por ocasião do levantamento do balancete de suspensão e/ou redução nesse mês, após os ajustes verificou que recolheu valor superior ao efetivamente devido.; c) Oportunamente, aproveitou o crédito do pagamento indevido para compensar, via PER/DCOMP e de forma legal, débitos próprios. Diante dos fatos apresentados, requereu a anulação do Despacho Decisório, por questão de justiça e direito. Apreciados tais argumentos, o despacho decisório restou mantido, sob o entendimento de que as declarações de compensação apresentadas à Secretaria da Receita Federal do Brasil somente podem ser homologadas quando reste comprovada pelo sujeito passivo a existência do respectivo direito creditório. Em sede de compensação, o contribuinte possui o ônus de prova do seu direito. Inconformada, a Recorrente interpôs Voluntário com vistas a obter a reforma do julgado defendendo estar suficiente comprovado seu direito creditório. Era o essencial a ser relatado. Passo a decidir Fl. 65DF CARF MF Processo nº 13227.900659/200900 Acórdão n.º 1401002.538 S1C4T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1401002.523, de 17/05/2018, proferida no julgamento do Processo nº 13227.900318/201060, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. O processo paradigma analisou a possibilidade de utilização de crédito relativo a pagamento indevido de IRPJ estimativa mensal, referente ao período de apuração de fevereiro/2006, para compensação com débitos do contribuinte. O presente processo tratase de pedido de compensação de crédito relativo a pagamento indevido de CSLL estimativa mensal, do período de apuração de 07/2005, com débitos do contribuinte. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1401002.523): O Recurso apresenta os requisitos essenciais para sua admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. Ao julgar improcedente a manifestação de inconformidade, a decisão de piso manifestase no sentido de que pode a Fiscalização, após o encerramento do ano calendário, exigir estimativas eventualmente não recolhidas durante o ano calendário, por expressa previsão legal e que a falta de recolhimento de estimativas. Segundo o Acórdão recorrido, descabe a alegação da contribuinte no sentido de que a glosa de estimativas da apuração de saldo negativo representa dupla exigência à Recorrente decorrente do mesmo fato, pois o pagamento de estimativas deveria ter sido feito dentro do prazo legal, o que não teria ocorrido no presente caso, assim como não houve o adimplemento dos débitos confessados, a glosa do saldo negativo é consequência deste fato. Por isso, no entendimento da decisão de piso, não haveria como se manter o saldo negativo de parcelas constituintes que não estariam satisfeitas, porque a cobrança dos valores não pagos decorre de determinação legal, de forma que não haveria que se falar em dupla cobrança, já que uma vez adimplido o débito, este procedimento reflete na apuração do saldo negativo. Ocorre que, conforme apontado pela recorrente em sede de voluntário, embora a compensação tenha se dado de forma equivocada, uma vez que ao entregar a DCTF, a recorrente ao invés de simplesmente comparar o valor devido com o valor recolhido a título de estimativa e assim declarar somente o valor Fl. 66DF CARF MF Processo nº 13227.900659/200900 Acórdão n.º 1401002.538 S1C4T1 Fl. 5 4 devido, caso apurasse valor a maior do que o recolhido por estimativa, declarou o valor apurado como devido e apresentou PERD/DCOMP para compensálo. Considerando que as informações acima transcritas restam localizadas na DIPJ e LALUR, que apontam a base de cálculo da contribuição e os DARFs (fls.) devidamente pagos que originaram o crédito em discussão. Tratase, portanto, de erro de fato no preenchimento do PER aqui analisado, que não pode, sob hipótese alguma, refletir na glosa de estimativas já liquidadas, computadas na apuração do saldo negativo do IRPJ do período. Desta forma, tendo a Recorrente comprovado de maneira incontroversa que as estimativas mensais de outubro de 2006 foram liquidadas através da quitação antecipada autorizada pela Lei nº 13.043/2014 (Doc. 7 do RV), não pode ser mantida a redução do saldo negativo de 2004. Ademais, consolidando este entendimento, temos: SÚMULA CARF Nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Diante de todo o exposto, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário, para afastar a glosa das estimativas. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves. Fl. 67DF CARF MF
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Numero do processo: 10882.901909/2008-18
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Apr 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jul 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/06/2003 a 30/06/2003
COMPENSAÇÃO. AÇÃO JUDICIAL.
Não se homologa a compensação de tributo realizada antes do trânsito em julgado da decisão judicial autorizadora, nos termos do artigo 170-A do Código Tributário Nacional (CTN), aprovado pela Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1.966.
O pagamento de tributo cuja exigibilidade esteja suspensa não gera direito à repetição do indébito enquanto não tiver sido proferida decisão judicial definitiva favorável ao contribuinte.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3301-004.618
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
José Henrique Mauri - Presidente e Relator.
Participaram da presente sessão de julgamento os Conselheiros Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques DOliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semiramis de Oliveira Duro, Ari Vendramini, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado, Valcir Gassen e José Henrique Mauri (Presidente Substituto).
Nome do relator: JOSE HENRIQUE MAURI
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AÇÃO JUDICIAL. Recorrente CIDADE DE DEUS COMPANHIA COMERCIAL DE PARTICIPAÇÕES Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/06/2003 a 30/06/2003 COMPENSAÇÃO. AÇÃO JUDICIAL. Não se homologa a compensação de tributo realizada antes do trânsito em julgado da decisão judicial autorizadora, nos termos do artigo 170A do Código Tributário Nacional (CTN), aprovado pela Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1.966. O pagamento de tributo cuja exigibilidade esteja suspensa não gera direito à repetição do indébito enquanto não tiver sido proferida decisão judicial definitiva favorável ao contribuinte. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) José Henrique Mauri Presidente e Relator. Participaram da presente sessão de julgamento os Conselheiros Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D’Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semiramis de Oliveira Duro, Ari Vendramini, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado, Valcir Gassen e José Henrique Mauri (Presidente Substituto). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 2. 90 19 09 /2 00 8- 18 Fl. 155DF CARF MF Processo nº 10882.901909/200818 Acórdão n.º 3301004.618 S3C3T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente processo de Declaração de Compensação gerada pelo programa PER/DCOMP, transmitido eletronicamente. O Despacho Decisório proferido pela unidade de origem não homologou a compensação declarada em PER/DCOMP pela contribuinte acima qualificada, sob o fundamento de que, a partir das características do DARF descrito no PER/DCOMP, foram localizados um ou mais pagamentos, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Cientificado do Despacho Decisório o interessado apresentou manifestação de inconformidade alegando que impetrou o Mandado de Segurança nº 2003.61.00.0023490 com o objetivo de recolher a contribuição ao PIS na forma prevista na Lei Complementar nº 7, de 1970, qual seja, tributo calculado à razão de 5% sobre o valor do Imposto de Renda Pessoa Jurídica. A liminar pleiteada não foi deferida, mas a decisão de primeira instância foi reformada em sede do agravo de instrumento interposto ao TRF da 3ª Região, decidindose favoravelmente à recorrente. Sustenta que houve erro de fato no recolhimento promovido, na modalidade conhecida como PISrepique e PISdedução. Os valores devidos decorrem da aplicação da alíquota de 5% sobre o valor da estimativa do IRPJ incidente em 15% sobre a receita bruta. Todavia, cada recolhimento foi indevidamente calculado com base em 5% do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica – Lucro Real provisionado. Percebido o erro de fato, declarou a compensação objeto do Despacho Decisório combatido. Como, na DCTF original, não ficou evidenciado o recolhimento a menor, noticía ter transmitido DCTF retificadora na qual informou que, do débito apurado a título de PIS, parte estaria extinto por pagamento e o restante estaria com exigibilidade suspensa. Informa que, em 27/11/2007, a tutela concedida foi cassada, o que o levou a promover, dentro do prazo previsto no artigo 63 da Lei nº 9.430, de 1996, o recolhimento da diferença entre as contribuições previstas na Lei nº 10.637, de 2003, e a Lei Complementar nº 7, de 1970. Requer que a DCTF retificadora seja efetivamente processada e que o despacho decisório combatido seja reformado, homologandose a compensação. Fl. 156DF CARF MF Processo nº 10882.901909/200818 Acórdão n.º 3301004.618 S3C3T1 Fl. 4 3 A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento julgou a manifestação de inconformidade improcedente, conforme Acórdão nº 05037.253, sob fundamento de que o pagamento de tributo cuja exigibilidade esteja suspensa não gera direito à repetição do indébito enquanto não tiver sido proferida decisão judicial definitiva favorável ao contribuinte: Foi apresentado Recurso Voluntário, no qual a Recorrente apresenta suas razões organizadas nos seguintes tópicos, que serão detidamente analisados no voto: 1 EXISTÊNCIA DO CRÉDITO DIREITO À COMPENSAÇÃO; 2 INAPLICABILIDADE AO CASO DO ARTIGO 170a DO CTN, COMO JÁ RECONHECIDO PELO CARF. É o relatório. Fl. 157DF CARF MF Processo nº 10882.901909/200818 Acórdão n.º 3301004.618 S3C3T1 Fl. 5 4 Voto Conselheiro José Henrique Mauri, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3301004.611, de 19 de abril de 2018, proferido no julgamento do processo 10882.900038/200815, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3301004.611): "O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais pressupostos legais de admissibilidade e deve ser conhecido. 1 EXISTÊNCIA DO CRÉDITO DIREITO À COMPENSAÇÃO Informou a Recorrente que efetuou recolhimento a maior no período de apuração de junho de 2003, deixando de aplicar liminar que lhe era favorável. Apresenta a seguinte tabela: E concluiu que "não resta dúvida de que houve recolhimento a maior no montante de R$ 321.541,27, para o período originário do crédito." Conforme observouse na decisão de piso, para o contribuinte do IRPJ pelo lucro real, no ano de 2003, a norma legal que disciplinava as contribuições para o PIS era a Lei nº 10.637, de 2002. Esta lei instituiu o regime nãocumulativo do PIS. Fl. 158DF CARF MF Processo nº 10882.901909/200818 Acórdão n.º 3301004.618 S3C3T1 Fl. 6 5 No entanto, em mandado de segurança impetrado, a Recorrente requereu que fosse submetida à sistemática da arrecadação do PIS em sua modalidade PISrepique e PISdedução, na forma estabelecida pelo artigo 3º da Lei Complementar nº 7, de 1970. A Recorrente não obteve liminar, mas o o TRF da 3ª Região lhe concedeu a tutela antecipada. Essa tutela foi revogada com a sentença judicial de primeira instância, publicada em 26/10/2007 (conforme extrato constante da decisão recorrida) Posto isto, considerando tudo o mais que dos autos consta, ausentes os pressupostos legais, DENEGO A SEGURANÇA requerida. Honorários advocatícios indevidos nos termos da Súmula n.º 512, do Egrégio Supremo Tribunal Federal. Comuniquese a Excelentíssima Senhora Desembargadora Federal Relatora do Agravo de Instrumento n.º 2003.03.00.0007108, a respeito do teor desta decisão. Após o trânsito em julgado, convertamse os depósitos judiciais em receita a favor da União Federal.Custas e demais despesas ex lege.P. R. I. Oficiese. O contribuinte não logrou êxito em sua apelação, visto que a decisão recorrida foi mantida em 16/10/2008, pelo Tribunal competente (conforme extrato constante da página 67): CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO AO PIS. RECEPÇÃO, ART. 239 CF. POSSIBILIDADE DE ALTERAÇÃO VIA DE LEI ORDINÁRIA. LEI 10.637/02. CONSTITUCIONALIDADE. PRECEDENTES. APELAÇÃO DA IMPETRANTE IMPROVIDA. I – A contribuição ao PIS foi expressamente recepcionada pelo art. 239 da CF, a ela não se opondo as restrições constantes dos arts. 154, I e 195, §, 4º da mesma Carta. (STF ADIN MC 14170/ DF, Rel. Min. Octávio Gallotti, Pleno, v. u., j. 02/08/99). II – A contribuição ao Pis pode ser validamente alterada por lei ordinária, não se tratando de contribuição social nova. Ausente hierarquia entre lei complementar e lei ordinária, mas sim reserva material posta na CF (art. 146) III – Constitucionalidade da Lei 10.637. O tratamento diferenciado no que pertine à alíquotas e bases de cálculo em razão da diversidade quanto às atividades econômicas desenvolvidas pelos contribuintes encontra respaldo no próprio Texto Constitucional, art. 195, §§ 9º e 12. IV – Precedentes (TRF – 3ª Região, AG nº 2003.03.00.0110618, Rel. Des. Fed. Fábio Prieto, j. 16/11/05, p. DJU 08/03/06; TRF – 4ª Região, AMS nº 2005.72.08.0045630, Rel. Des. Fed. Vivian Josete Pantaleão Caminha, j. 13/12/06, p. de 30/04/07; TRF – 2ª Região, AC nº 2003.51.01.0037080, Rel. Des. Fed. Alberto Nogueira, j. 05/09/06, p. DJU 16/11/06) Fl. 159DF CARF MF Processo nº 10882.901909/200818 Acórdão n.º 3301004.618 S3C3T1 Fl. 7 6 V – Apelação improvida. A decisão desfavorável à Recorrente transitou em julgado em 02/07/2010, segundo informação obtida na página eletrônica do TRF da 3ª Região, o que levou à baixa definitiva dos autos em 10/08/2011. Portanto, verificase que, mesmo no interregno de tempo em que havia liminar favorável à Recorrente, ainda não era ela titular de crédito líquido e certo e não podia, portanto, efetuar a compensação. Em resumo, a Recorrente deixou de recolher nos termos da decisão judicial (tutela antecipada) e recolheu em montante que correspondia ao entendimento do Fisco. Segundo a Recorrente tal recolhimento a maior se deu por "erro de fato". 2 INAPLICABILIDADE AO CASO DO ARTIGO 170A DO CTN, COMO JÁ RECONHECIDO PELO CARF. Defende a Recorrente que a vedação do art. 170A do CTN referese a fatos passados, a pagamentos objeto de ação judicial, ao passo que seu caso se refere ao recolhimento de PIS no transcurso da ação, tendo por objeto efeitos futuros de uma decisão judicial, nos seguintes termos: Ou seja, não se pode aplicar a vedação do art. 170A do Código Tributário Nacional, criada para impedir que contribuintes compensem antes do trânsito em julgado créditos apurados em períodos anteriores e decorrentes de pagamentos indevidos ou seja, crédito já extinto por pgamento indevido utilizado para quitar tributos devidos em períodos posteriores a situações em que e a "compensação" diz respeito à apuração da base de cálculo e, portanto, à constituição do crédito tributário. Seguimos o entendimento da decisão recorrida de não há qualquer direito ao ressarcimento deferido pela decisão judicial e, mesmo que houvesse, esse direito somente poderia operar seus efeitos após o trânsito em julgado de sentença favorável à Recorrente, fato que não ocorreu, ou melhor, houve decisão transitada em julgado desfavorável à Recorrente. De acordo com o art. 170A do CTN, é defeso efetuar compensações de débitos mediante aproveitamento de tributo objeto de contestação judicial em trâmite, ou seja, ainda não julgado definitivamente. Ou seja, só há crédito oponível à Fazenda Pública com o desfecho em definitivo favorável ao particular da demanda judicial. Colacionase ainda disposição análoga do artigo 74 da Lei nº 9.430, de 1996, ao permitir a compensação de crédito discutido judicialmente apenas após o trânsito em julgado da decisão judicial: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. (...) § 12. Será considerada não declarada a compensação nas hipóteses: (...) Fl. 160DF CARF MF Processo nº 10882.901909/200818 Acórdão n.º 3301004.618 S3C3T1 Fl. 8 7 II em que o crédito: (...) d) seja decorrente de decisão judicial não transitada em julgado; (grifouse) Conforme se concluiu na decisão recorrida: No caso concreto, mesmo não pretendendo agir deste modo, o contribuinte acabou por pagar tributo com exigibilidade suspensa. Como a validade do tributo estava em discussão, o crédito do contribuinte não pode ser considerado certo, não sendo, por conseguinte, passível de compensação nos termos do artigo 170 do CTN." Situação semelhante, asseverase na decisão recorrida, ocorre com o depósito judicial, o qual, uma vez efetivado em valores suficientes para garantir a extinção do crédito em eventual vitória do Fisco, não pode ser objeto de restituição até o encerramento da lide judicial, nos termos do § 2º do artigo 32 da Lei nº 6.830, de 1980: § 2º. Após o trânsito em julgado da decisão, o depósito, monetariamente atualizado, será devolvido ao depositante ou entregue à Fazenda Pública, mediante ordem do Juízo competente. A planilha juntada aos autos que trata das parcelas que compõem o valor recolhido de R$ 28.846.704,12 indica que o crédito com exigibilidade suspensa relativo ao período de apuração 06/2003 restou recolhido. Deste modo, se recolhimento a maior houve, ele teria ocorrido, quando muito, em 27/11/2007, não em 15/07/2003. Correto, portanto, despacho decisório que considerou não liberado o PIS Dessarte, o direito pretendido com a ação judicial somente será liquido e certo quando a sentença, se favorável ao contribuinte, transitar em julgado e operar seus efeitos. Por outro lado, mesmo que se concordasse com a Recorrente, contrariamente a determinação expressa da legislação, que ela poderia utilizar créditos com fulcro em decisão judicial não transitada em julgado, ela estaria sujeita à habilitação do seu crédito, o que não efetuou. O cumprimento dessa obrigação acessória é imprescindível para que o Fisco tenha conhecimento e controle deste crédito e é condição para o exercício do direito de creditamento. Portanto, ainda que se adotasse este entendimento, defendido pela Recorrente o qual não adotamos deveria ser mantida a glosa. Diante do exposto, proponho manter integralmente a decisão recorrida e voto por negar provimento ao Recurso Voluntário." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Fl. 161DF CARF MF Processo nº 10882.901909/200818 Acórdão n.º 3301004.618 S3C3T1 Fl. 9 8 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) José Henrique Mauri Fl. 162DF CARF MF
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Numero do processo: 10120.727165/2016-95
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jul 30 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Ano-calendário: 2008, 2009, 2010
PIS. COFINS. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO PELA AQUISIÇÃO DE BENS DESTINADOS AO ATIVO IMOBILIZADO. VINCULAÇÃO A PRODUÇÃO DE BENS E SERVIÇOS.
O artigo 3º, inciso VI das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 restringiu os créditos da Contribuição ao PIS e da COFINS relativos ao ativo imobilizado, vinculando o creditamento em relação a máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado a seu uso na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços.
RESULTADO DE DILIGÊNCIA. ADOÇÃO. CANCELAMENTO PARCIAL. DO AUTO DE INFRAÇÃO.
Tendo sido comprovado em diligência promovida no decorrer do processo administrativo que parte das glosas perpetradas no auto de infração são indevidas, deve ser parcialmente cancelada a glosa de crédito.
PIS. COFINS. RECEITA. DESPESAS COM PROPAGANDA. REQUISITOS. PROVA. NÃO INCIDÊNCIA.
Os valores recebidos a título de reembolso por despesas com propaganda não constituem receita tributável pela Contribuição ao PIS e pela COFINS, uma vez que comprovada a correspondência entre tais despesas com propaganda e os reembolsos percebidos pela pessoa jurídica.
INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA. CARF.
A argumentação sobre a ofensa ao principio constitucional da não cumulatividade e ao principio da isonomia aplicada no lançamento tributário não escapa de uma necessária aferição de constitucionalidade da legislação tributária que estabeleceu o patamar das penalidades fiscais, o que é vedado ao CARF, conforme os dizeres de sua Súmula n. 2.
Numero da decisão: 3402-005.299
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para cancelar a autuação (a) parcialmente relativamente à infração 3, nos termos da Tabela do Relatório de diligência (fls 16.880), cancelando a glosa de créditos referente à "depreciação do ativo imobilizado de atividades industriais comprovados pela empresa" dos anos de 2008 e 2009; (b) integralmente relativamente à infração 4, no que diz respeito a tributação dos valores de reembolso proveniente da recuperação de despesas com verbas de propagandas. Ausente justificadamente o Conselheiro Suplente Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado).
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente
(assinado digitalmente)
Thais De Laurentiis Galkowicz - Relatora.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais De Laurentiis Galkowicz, Rodrigo Mineiro Fernandes, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Waldir Navarro Bezerra.
Nome do relator: THAIS DE LAURENTIIS GALKOWICZ
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2008, 2009, 2010 PIS. COFINS. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO PELA AQUISIÇÃO DE BENS DESTINADOS AO ATIVO IMOBILIZADO. VINCULAÇÃO A PRODUÇÃO DE BENS E SERVIÇOS. O artigo 3º, inciso VI das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 restringiu os créditos da Contribuição ao PIS e da COFINS relativos ao ativo imobilizado, vinculando o creditamento em relação a máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado a seu uso na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. RESULTADO DE DILIGÊNCIA. ADOÇÃO. CANCELAMENTO PARCIAL. DO AUTO DE INFRAÇÃO. Tendo sido comprovado em diligência promovida no decorrer do processo administrativo que parte das glosas perpetradas no auto de infração são indevidas, deve ser parcialmente cancelada a glosa de crédito. PIS. COFINS. RECEITA. DESPESAS COM PROPAGANDA. REQUISITOS. PROVA. NÃO INCIDÊNCIA. Os valores recebidos a título de reembolso por despesas com propaganda não constituem receita tributável pela Contribuição ao PIS e pela COFINS, uma vez que comprovada a correspondência entre tais despesas com propaganda e os reembolsos percebidos pela pessoa jurídica. INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA. CARF. A argumentação sobre a ofensa ao principio constitucional da não cumulatividade e ao principio da isonomia aplicada no lançamento tributário não escapa de uma necessária aferição de constitucionalidade da legislação tributária que estabeleceu o patamar das penalidades fiscais, o que é vedado ao CARF, conforme os dizeres de sua Súmula n. 2.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para cancelar a autuação (a) parcialmente relativamente à infração 3, nos termos da Tabela do Relatório de diligência (fls 16.880), cancelando a glosa de créditos referente à "depreciação do ativo imobilizado de atividades industriais comprovados pela empresa" dos anos de 2008 e 2009; (b) integralmente relativamente à infração 4, no que diz respeito a tributação dos valores de reembolso proveniente da recuperação de despesas com verbas de propagandas. Ausente justificadamente o Conselheiro Suplente Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado). (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra - Presidente (assinado digitalmente) Thais De Laurentiis Galkowicz - Relatora. Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais De Laurentiis Galkowicz, Rodrigo Mineiro Fernandes, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Waldir Navarro Bezerra.
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COFINS. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO PELA AQUISIÇÃO DE BENS DESTINADOS AO ATIVO IMOBILIZADO. VINCULAÇÃO A PRODUÇÃO DE BENS E SERVIÇOS. O artigo 3º, inciso VI das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 restringiu os créditos da Contribuição ao PIS e da COFINS relativos ao ativo imobilizado, vinculando o creditamento em relação a máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado a seu uso na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. RESULTADO DE DILIGÊNCIA. ADOÇÃO. CANCELAMENTO PARCIAL. DO AUTO DE INFRAÇÃO. Tendo sido comprovado em diligência promovida no decorrer do processo administrativo que parte das glosas perpetradas no auto de infração são indevidas, deve ser parcialmente cancelada a glosa de crédito. PIS. COFINS. RECEITA. DESPESAS COM PROPAGANDA. REQUISITOS. PROVA. NÃO INCIDÊNCIA. Os valores recebidos a título de reembolso por despesas com propaganda não constituem receita tributável pela Contribuição ao PIS e pela COFINS, uma vez que comprovada a correspondência entre tais despesas com propaganda e os reembolsos percebidos pela pessoa jurídica. INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA. CARF. A argumentação sobre a ofensa ao principio constitucional da não cumulatividade e ao principio da isonomia aplicada no lançamento tributário não escapa de uma necessária aferição de constitucionalidade da legislação tributária que estabeleceu o patamar das penalidades fiscais, o que é vedado ao CARF, conforme os dizeres de sua Súmula n. 2. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 72 71 65 /2 01 6- 95 Fl. 16885DF CARF MF 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para cancelar a autuação (a) parcialmente relativamente à infração 3, nos termos da Tabela do Relatório de diligência (fls 16.880), cancelando a glosa de créditos referente à "depreciação do ativo imobilizado de atividades industriais comprovados pela empresa" dos anos de 2008 e 2009; (b) integralmente relativamente à infração 4, no que diz respeito a tributação dos valores de reembolso proveniente da recuperação de despesas com verbas de propagandas. Ausente justificadamente o Conselheiro Suplente Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado). (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente (assinado digitalmente) Thais De Laurentiis Galkowicz Relatora. Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais De Laurentiis Galkowicz, Rodrigo Mineiro Fernandes, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Waldir Navarro Bezerra. Relatório O presente Processo Administrativo foi objeto da Resolução n. 1101000154 depois de sua chegada ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (“CARF”). Dessa forma, o caso já foi bem relatado pelo Conselheiro Antônio Lisboa Cardoso, antes de serem a mim redistribuído. Desta feita, peço licença para tomar emprestadas as suas palavras sobre o histórico do processo: Em razão da clareza pela riqueza de detalhes, adoto o relatório da decisão da DRJ/BRASÍLIADF, de fls. 9656/9679: Tratase de autos de infração lavrados contra a pessoa jurídica NOVO MUNDO MÓVEIS E UTILIDADES LTDA para exigir Cofins e contribuição para o PIS, referentes aos anos de 2008, 2009 e 2010, no valor total de R$ 19.331.671,93. Nos referidos lançamentos, a autoridade fiscal imputou à contribuinte a prática das seguintes infrações: (1) Exclusão indevida do lucro líquido, de valores contabilizados a título de descontos na quitação de dívidas contraídas no âmbito do Programa PRODUZIR GOIÁS, pois tais valores não caracterizariam subvenções para investimento, mas, sim, subvenções para custeio, razão pela qual deveriam ser tratadas como outras receitas operacionais, sujeitas à incidência da Cofins e da contribuição para o PIS; (2) Aproveitamento indevido de créditos de Cofins e de contribuição para o PIS, referentes a despesas com alugueis de imóveis transferidos para Fl. 16886DF CARF MF Processo nº 10120.727165/201695 Acórdão n.º 3402005.299 S3C4T2 Fl. 16.886 3 outra empresa; (3) Aproveitamento indevido de créditos de Cofins e de contribuição para o PIS, referentes a depreciação de bens do ativo imobilizado, sob o fundamento de que a empresa autuada exerceria unicamente atividade comercial; e (4) Exclusão indevida da base de cálculo da Cofins e da contribuição para o PIS do reembolso proveniente da recuperação de despesas com de verbas de propagandas. (...) 2. DA IMPUGNAÇÃO Cientificada dos referidos autos de infração, a contribuinte NOVO MUNDO MÓVEIS E UTILIDADES LTDA, irresignada, apresentou extensa peça de impugnação, por meio da qual suscita, em síntese, as seguintes razões de defesa. 2.1 Da Primeira Preliminar de Nulidade Alega a impugnante que é quase impossível saber quais os supostos dispositivos legais infringidos, pois o relatório apontaria supostas omissões por razões diversas e ao final lista um “emaranhado” de dispositivos legais. Segundo a suplicante, uma verificação acurada dos documentos anexos ao auto de infração permite concluir que os mesmos não atendem plenamente à exigência legal, já que a extensa lista de dispositivos legais seria genérica e iria além do que aparentemente está autuado. Conclui que qualquer decisão que venha a ser proferida no presente processo restaria eivada de vício, porquanto a impugnante se encontraria cerceada em seu direito de defesa, tendo em vista a obscuridade que pairaria sobre a acusação fiscal. 2.2 Da Segunda Preliminar de Nulidade Assevera a contribuinte que foi autuada por supostamente estar vinculada ao FOMENTAR e ao Programa denominado PRODUZIR que contempla unicamente indústrias e subvenciona percentuais diversos de ICMS, e, igualmente, tem exigências distintas do programa CENTROPRODUZIR, ao qual está de fato vinculada. Segundo a impugnante, o programa de desenvolvimento regional ao qual está vinculada é regulado pelo Decreto 5.515/2001, e não o Decreto 5.265/2000, apontado pelo autuante. Assevera que a empresa não tem contratos com programa FOMENTAR, citado pelo agente fiscal. Afirma também que, no período autuado, a empresa não teve contratos com o programa denominado PRODUZIR, no qual há descontos de 75% do ICMS, sendo que sua subvenção limitase a 55% do novo ICMS gerado após a contratação da subvenção ao investimento conforme previsto no programa CENTROPRODUZIR. Fl. 16887DF CARF MF 4 Conclui a impugnante que está sendo acusada de usufruir de subvenções diversas e em valores bem superiores à subvenção que de fato recebe do Estado de Goiás, ou seja, não haveria ligação da realidade fática com os fatos e legislações apontadas como norteadoras da autuação, o que implicaria a total nulidade da autuação. 2.3 Da Primeira Infração Sustenta a impugnante que as subvenções recebidas configuram subvenções para investimento, pois (1) houve a intenção do Poder Público em transferir capital para a iniciativa privada; (2) a verba oriunda da subvenção foi destinada para investimento na implantação de empreendimento econômico, Centro de Distribuição, de interesse público, que gerou de 100 a 249 empregos diretos e centenas indiretos e aumentou substancialmente a arrecadação do Estado; (3) a subvenção foi instituída em lei especifica; (4) o valor subvencionado foi utilizado apenas para absorver prejuízos fiscais, não sendo objeto de distribuição. (...) 2.4 Da Segunda Infração No que tange à acusação fiscal de aproveitamento indevido de créditos de Cofins e de contribuição para o PIS, referentes a despesas com alugueis de imóveis transferidos para outra empresa, limitouse a impugnante a sustentar que a autuação não merece subsistir, pois estaria amparada em dispositivo ilegal e inconstitucional, uma vez que ofenderia aos princípios constitucionais da não cumulatividade, da isonomia e da capacidade contributiva. 2.5 Da Terceira Infração No que tange à acusação fiscal de aproveitamento indevido de créditos de Cofins e de contribuição para o PIS, referentes a despesas com depreciação de bens do ativo imobilizado, alega a suplicante, preliminarmente, que não exerce apenas atividades de comércio, mas também desenvolve atividades industriais e de prestação de serviços, sendo incontroverso seu direito de aproveitar créditos referentes a depreciação do seu ativo imobilizado quanto ao faturamento dessas atividades. Noutro passo, mesmo quanto à atividade comercial, alega a impugnante que não se pode impedir a empresa de tomar créditos referentes a depreciação do ativo imobilizado, por clara ofensa ao principio constitucional da não cumulatividade e ao principio da isonomia, o que passa a demonstrar com apoio em doutrina e jurisprudência que cita. 2.6 Da Quarta Infração Sustenta a impugnante que os valores recebidos a título de reembolso proveniente da recuperação de despesas com propaganda não têm características de receitas, razão pela qual não estão sujeitos à incidência da Cofins e da contribuição para o PIS. Fl. 16888DF CARF MF Processo nº 10120.727165/201695 Acórdão n.º 3402005.299 S3C4T2 Fl. 16.887 5 Após transcrever o § 3º do art. 1º das Leis n° 10.833/03 e 10.637/02, ressalta que nele não é mencionado o item “despesas de terceiros”. Assevera que não consta tal item porque não deveria, uma vez que é impossível a exclusão de parte de um conceito de algo que nunca o compôs. Afirma que as receitas das pessoas jurídicas são os valores financeiros, sendo que a propriedade é adquirida em decorrência do funcionamento da sociedade empresária. Sustenta que receita é disponibilidade de novo recurso proveniente de fonte externa pelo exercício de atividade econômica e que está diretamente ligada ao Princípio Econômico da Riqueza, que é o valor total dos bens que constituem o patrimônio. Assevera que receita é entrada que, integrandose ao patrimônio sem quaisquer reservas ou condições, vem acrescer o seu vulto, como elemento positivo. Pondera que “(...) O dinheiro recebido pela venda de um serviço é uma receita, produz enriquecimento do patrimônio da pessoa. Porém, existem entradas financeiras que não se apresentam como receita, visto que não constituem fatos modificativos do patrimônio.” Reitera que, no presente caso, o reembolso de despesa é contabilizado em uma conta redutora de despesa, trazendo alterações específicas nesta conta, não sendo contabilizada na receita. Ressalta que o Comitê de Pronunciamentos Contábeis CPC 30 trata da estrutura conceitual para elaboração e divulgação de relatório contábil financeiro, e nele traz tanto o Conceito de Receitas, como também informa quando esta deve ser reconhecida. Afirma que os recebimentos questionados tratamse de reembolsos de despesas, cuja única função é reduzir uma despesa específica efetuada pela impugnante, porém imputada ao terceiro em razão de rateio de custos. Cita precedente do antigo Primeiro Conselho de Contribuintes que teria assentado que, para ter caráter de receita a entrada financeira deve representar algum benefício econômico, pois o caso de reembolso de despesa nada mais é do que recebimento de terceiros de valores a ele imputado em razão de rateio de despesas. Informa que, no caso dos autos, elaborou planilha explicativa, contendo os dados das contas contábeis de registro, bem como as despesas efetuadas com o respectivo rateio e posterior recebimento, todos com a discriminação da despesa/reembolso. A decisão recorrida sintetizada na ementa abaixo reproduzida, julgou procedente o lançamento, nos seguintes termos: Fl. 16889DF CARF MF 6 “ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2008, 2009, 2010 ÓRGÃOS ADMINISTRATIVOS. CONTROLE DE LEGALIDADE. COMPETÊNCIA. A apreciação das autoridades administrativas limitase às questões de sua competência, qual seja o controle da legalidade dos atos administrativos, consistente em examinar a adequação dos procedimentos fiscais às normas legais vigentes, zelando, assim, pelo seu fiel cumprimento. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Anocalendário: 2008, 2009, 2010 SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTOS. DESCARACTERIZAÇÃO. INCENTIVOS FISCAIS. PROGRAMA PRODUZIR. SUBPROGRAMA CENTROPRODUZIR. INEXISTÊNCIA DE VINCULAÇÃO. DESCARACTERIZAÇÃO. Os valores contabilizados a título de descontos na quitação de dívidas contraídas no âmbito do Programa PRODUZIR, Subprograma CENTRO PRODUZIR, que não possuam vinculação com a aplicação específica dos recursos em bens ou direitos referentes à implantação ou expansão de empreendimento econômico não se caracterizam como subvenção para investimentos, devendo ser computados na determinação do lucro real. Os recursos fornecidos às pessoas jurídicas pela Administração Pública, quando não atrelados ao investimento na implantação ou expansão do empreendimento projetado, constituem estímulo fiscal que se reveste das características próprias das subvenções para custeio, não se confundindo com as subvenções para investimento, e devem ser computados no lucro operacional das pessoas jurídicas, sujeitandose, portanto, à incidência não só do imposto sobre a renda e da CSLL, como da Cofins e da contribuição para o PIS. LANÇAMENTO DECORRENTE EM PARTE. Por se tratar de exigência reflexa realizada com base nos mesmos fatos, a decisão de mérito prolatada quanto ao lançamento do imposto de renda pessoa jurídica constitui prejulgado na decisão do lançamento decorrente relativo à Cofins. REGIME NÃOCUMULATIVO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. DESPESAS COM ALUGUEL DE IMÓVEL QUE PERTENCEU ANTERIORMENTE AO CONTRIBUINTE. VEDAÇÃO LEGAL. À luz do art. 31, § 3o , da Lei nº 10.865, de 2004, é defeso ao contribuinte o aproveitamento de créditos de Cofins e de contribuição para o PIS, referentes a despesas com alugueis de imóveis que já tenham integrado o seu patrimônio. EMPRESA EXCLUSIVAMENTE COMERCIAL. REGIME NÃOCUMULATIVO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. Fl. 16890DF CARF MF Processo nº 10120.727165/201695 Acórdão n.º 3402005.299 S3C4T2 Fl. 16.888 7 ENCARGOS DE DEPRECIAÇÃO DO ATIVO. IMPOSSIBILIDADE. Não há previsão legal para as pessoas jurídicas com atividade exclusivamente comercial apurarem créditos sobre encargos de depreciação do ativo, haja vista não se utilizarem tais bens para locação a terceiros, nem para prestação de serviços, ou para produção de bens destinados à venda. REGIME NÃOCUMULATIVO. BASE DE CÁLCULO. EXCLUSÃO DE VERBAS RECEBIDAS A TÍTULO DE REEMBOLSO DE DESPESAS DE PROPAGANDA. FALTA DE PREVISÃO LEGAL. A Cofins incide não só sobre receitas relativas à venda de mercadorias e prestação de serviços, mas também sobre qualquer outra auferida pela pessoa jurídica, salvo as exceções listadas exaustivamente em lei. As exclusões da base de cálculo são exaustivas, ou seja, somente podem ser excluídas da base de cálculo da contribuição as parcelas discriminadas na Lei nº 10.833, de 2003, o que não é o caso das verbas recebidas a título de reembolso de despesas de propaganda. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2008, 2009, 2010 LANÇAMENTO DECORRENTE. Por se tratar de exigência reflexa realizada com base nos mesmos fatos, a decisão de mérito prolatada quanto ao lançamento da Cofins constitui prejulgado na decisão do lançamento decorrente relativo à contribuição para o PIS. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido” Às fls. 9.705, conta a informação de que o Contribuinte tomou conhecimento do teor do Acórdão recorrida na data 15/07/2013 10:02h, pela abertura dos arquivos correspondentes no link Processo Digital, no Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte (Portal eCAC) através da opção Consulta Comunicados/Intimações. Às fls. 9708/9772, consta o recurso voluntário interposto pela Recorrente em 14/08/2013, reiterando os argumentos constantes da impugnação, volta a volta a invocar, as duas preliminares de nulidade, quais sejam a preterição do direito de defesa por vícios do direito de defesa e, ainda, a autuação equivocada com base no Decreto nº 5.265/2000, e não ao qual está de fato vinculado, ou seja, Decreto nº 5.515/2001. Ao que se refere o entendimento da DRJ, no sentido de que a recorrente não demonstrou o devido vínculo entre o valor subvencionado e os investimentos da empresa, alega que os investimentos para montagem do Centro de Destruição e a logística para concentração em Goiás da distribuição de mercadorias para todo país seriam elementos suficientes para Fl. 16891DF CARF MF 8 caracterização de investimento, reiterando, assim, sua não concordância com a autuação e, ainda mais, com a manutenção deste entendimento no julgamento de 1ª instância. Após, discorre sobre diversos argumentos sustentando tratarse de subvenção para investimento e não de receita tributável. Quando aos créditos tomados sobre a depreciação de bens do ativo, a Recorrente reitera seus argumentos já expendidos na impugnação, afirmando que não exerce apenas atividade de comércio, mas também atividade industrial e de prestação de serviço, o que lhe concederia o direito de aproveitar os referidos créditos. Alega, ainda, que mesmo no tocante à atividade comercial, não lhe pode se tolhido o direito de aproveitamento dos referidos créditos, por suposta ofensa aos princípios da não cumulatividade, capacidade contributiva e isonomia. Reitera a alegação de que alguns valores que a autoridade fiscal entendeu serem receita, não podem ser assim compreendidos, uma vez que tratarseiam de reembolso de despesa com propaganda e, em virtude de ser empresa comercial atacadista e varejista de móveis, utensílios e eletrodomésticos, não possuindo qualquer atividade referente a publicidade e propaganda, não há que se falar em entrada de receita que constitua fato modificativo de patrimônio. Ressalta, novamente, que os recebimentos questionados se tratam de reembolso de despesas, possuindo única função de reduzir uma despesa específica por ele efetuada, porém imputada à terceiro em razão de rateio de custos, sendo supostamente impossível a consideração desta ocorrência como ingresso de receita, pois não representa benefício econômico para a contribuinte. Destaca ter apresentado exemplos de publicidades de fornecedores que geraram obrigação de reembolso, mas que devido à demanda de conclusão do ano contábil, aliado ao fato de que a intimação se deu no período de maior demanda, não foi possível apresentar todos os comprovantes, assim, caso entenda se por necessário, requer a oportunidade de juntar novos documentos. Após todo o exposto requer que seja declarada a nulidade do Auto de Infração ou, se superadas, a improcedência total dos lançamentos. Inicialmente o processo foi distribuído para a 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 3ª Seção, tendo a mesma em 28/02/2014, declinado de sua competência para em favor desta 1ª Seção através do Acórdão nº 3402002.318, assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano calendário: 2008, 2009, 2010 INCOMPETÊNCIA. IRPJ. LANÇAMENTO REFLEXO. MÁTERIA QUE DEVE SER JULGADA PELA PRIMEIRA SEÇÃO. RECURSO NÃO CONHECIDO. Nos termos do Inciso IV, do art. 2º do Anexo II do RICARF, à Primeira Seção de Julgamento compete a análise e julgamento de recursos relativos a matéria que trate de IRPJ e/ou lançamentos reflexos. Fl. 16892DF CARF MF Processo nº 10120.727165/201695 Acórdão n.º 3402005.299 S3C4T2 Fl. 16.889 9 Recurso Não conhecido. É o relatório. Em julgamento datado de 3 de março de 2015 (Resolução n. 1101000154), a 1ª Turma da 1ª Câmara produziu julgamento afastando as preliminares de nulidades apresentadas pela Recorrente; e com relação ao mérito, mais especificamente à primeira infração discutida nos autos, aponta que 2ª Turma da 3ª Câmara proveu o recurso da Recorrente nos autos do processo nº 10120.730439/201208, através do Acórdão nº 1302 001.380, relativamente ao IRPJ/CSLL, cuja mesma base de cálculo (receitas decorrentes do Programa CENTROPRODUZIR, aprovado pelo Estado de Goiás) foi utilizada para exigir as contribuições de PIS/Pasep e COFINS, objeto do presente processo, tendo sido consideradas como subvenção para investimento. Seria o caso de aplicação desse resultado no presente caso. Entretanto, o julgamento do processo nº 10120.730439/201208 ainda não era definitivo, estando pendente de embargos e/ou recurso especial. Por conseguinte, optouse pelo sobrestamento do processo para que se aguardasse a decisão definitiva do processo principal. Posteriormente veio aos autos o Despacho de fls 6866, que traz à baila fato superveniente: o novo regimento interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343/2015, cuja redação original previa, para a atração da competência de processos reflexos à Primeira Seção, além da base nos mesmos elementos de prova, que as exigências estejam formalizadas em um mesmo processo administrativo fiscal. Ademais, lembra que existem três infrações que são absolutamente independentes do processo principal de IRPJ/CSLL, não se baseando de modo algum em mesmos elementos de prova e consistindo em processo administrativo fiscal distinto. Diante disso, concluiu o Conselheiro Wilson Fernandes Guimarães, Presidente da 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 1ª Seção do CARF que o processo sob análise não se inclui entre as competências da 1ª Seção de Julgamento do CARF, mas sim entre aquelas da 3ª Seção. Novo despacho foi proferido nos autos (fls 6872), dessa vez pelo Presidente Substituto da CSRF, Rodrigo da Costa Pôssas, cuja conclusão é a seguinte: A minuciosa descrição das infrações objeto do presente processo, contida no despacho de fls. 9.845 a 9.849, dá conta de que a primeira infração (exclusão indevida do lucro líquido, de valores contabilizados a título de descontos na quitação de dívidas contraídas no âmbito do Programa PRODUZIR GOIÁS) decorre dos mesmos fatos apurados no processo administrativo nº 10120.730439/201208, no qual foram constituídos créditos tributários de IRPJ e CSLL, e que as demais três infrações (aproveitamento indevido de créditos de Cofins e de contribuição para o PIS, referentes a despesas com alugueis de imóveis transferidos para outra empresa; aproveitamento indevido de créditos de Cofins e de contribuição para o PIS, referentes a depreciação de bens do ativo imobilizado, sob o fundamento de que a empresa autuada exerceria unicamente atividade comercial; e exclusão indevida da base de cálculo da Cofins e da contribuição para o PIS do reembolso proveniente da recuperação de despesas com de verbas de propagandas) são independentes, não se vinculando de qualquer forma a qualquer outro processo. Fl. 16893DF CARF MF 10 Ante o exposto e considerando que a competência para o julgamento de recurso relativo à primeira infração (CSLL) é da Primeira Seção de Julgamento, nos termos do inciso II do art. 2º do RICARF; e o relativo às outras três, acima citadas, todas referentes ao PIS e à Cofins, da Terceira Seção de Julgamento, conforme inciso I do art. 4º do RICARF, encaminhemse os presentes autos à DRF em Goiânia/GO, solicitando apartar as matérias em processos distintos, observada a competência das Seções. (grifei) Tal procedimento foi feito, dando origem ao processo n. 10120.727165/2016 95, ora em julgamento, para tratar das matérias que são de competência da 3ª Seção do CARF. Os autos vieram então para julgamento deste Colegiado, em sua antiga composição, resultando na Resolução n. 3402001.019. Nesta oportunidade, a Turma entendeu por bem baixar o julgamento em diligência, com as seguintes instruções para a autoridade fiscal de origem: 1. Com relação à infração 3 (depreciação de bens do ativo imobilizado, sob o fundamento de que a empresa autuada exerceria unicamente atividade comercial): 1.1. Intime a Recorrente a apresentar a documentação fiscal e contábil pertinente (registros contábeis, balancetes, notas fiscais, entre outros) passíveis de demonstrar a origem de sua receita; 1.2. Analise a documentação fiscal e contábil da Recorrente, confirmando a origem das suas receitas no período compreendido nesse processo (se decorrente do comércio, da locação a terceiros; da produção de bens destinados à venda; ou da prestação de serviços) por meio de parecer circunstanciado; 1.3. Confirme se os bens que geraram a glosa das Contribuições na infração 3 relacionamse às atividade de comércio; ou da produção de bens destinados à venda; ou da prestação de serviços; 2. Com relação à infração 4 (exclusão indevida da base de cálculo da Cofins e da contribuição para o PIS do reembolso proveniente da recuperação de despesas com de verbas de propagandas): 2.1. Intime a Recorrente para apresentar os documentos necessários e informações, ainda não constantes nestes autos, para a comprovação da correspondência entre as despesas com propaganda e os reembolsos; 2.2. Efetue o análise de toda a documentação e das informações, trazendo suas conclusões em parecer circunstanciado a respeito da comprovação da correspondência entre as despesas com propaganda e os reembolsos. 3. Dê ciência do resultado da diligência à Recorrente, abrindolhe prazo regulamentar para manifestação. Foram cumpridas tais providências, dando origem ao Relatório de diligência de fls 16.879 a 16.881, do qual a Recorrente foi intimada, não tendo se manifestado sobre seu conteúdo. É o relatório. Fl. 16894DF CARF MF Processo nº 10120.727165/201695 Acórdão n.º 3402005.299 S3C4T2 Fl. 16.890 11 Voto Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, Relatora. Os requisitos de admissibilidade do recurso voluntário já foram anteriormente analisados e acatados por este Conselho, de modo que passo à apreciação do caso. Inicialmente saliento que a Recorrente não apresentou em seu recurso argumentos sobre a glosa de créditos de Cofins e de Contribuição ao PIS referentes às despesas com alugueis de imóveis transferidos para outra empresa. Entendo, portanto, que aquiesceu com a decisão da DRJ, estando tal infração fora do presente julgamento. Com relação às preliminares de nulidade e aos argumentos de mérito referentes às duas demais infrações que restam para serem julgadas nesta sentada, passo a tratá los separadamente nos tópicos abaixo. 1. Preliminares de nulidade: a preterição do direito de defesa por vícios do direito de defesa e, ainda, a autuação equivocada com base no Decreto nº 5.265/2000, e não ao qual está de fato vinculado, ou seja, Decreto nº 5.515/2001 A Recorrente alegando obscuridade da acusação fiscal, afirma que (i) foi apresentado um emaranhado de dispositivos legais genéricos, indo além do que se está autuando e não atendendo plenamente à exigência legal, restando cerceado seu direito de defesa, (ii) além de existir vício quanto à autuação ter sido equivocadamente baseada no Decreto nº 5.265/2000, e não ao qual está de fato vinculado, ou seja, o Decreto nº 5.515/2001. Quanto ao ponto (i), não é possível concordar com a Recorrente, Analisando os autos de infração (fls 1219 e seguintes) que embasam o presente processo administrativo percebemos que ele contém todos elementos de validade necessários para sua subsistência, nos termos do artigo 10 do Decreto 70.235/72 e do artigo 142 do Código Tributário Nacional. Com efeito, o crédito tributário encontrase claramente delimitado, bem como as imputações de infração à Recorrente, em detalhada descrição dos fatos e enquadramento legal (fls 1220). Os dispositivos legais citados para fundamentar o lançamento estão corretos (fls 1226), de modo que na verdade a indignação da Recorrente se volta contra o sistema tributário em si, que é extenso e complexo, o que, contudo, não pode gerar o alegado vício de nulidade ao ato administrativo de lançamento, por simplesmente enunciálo. Já sobre o ponto (ii), faço coro com o Conselheiro Antônio Lisboa Cardoso, que ao analisar tais preliminares na Resolução n. 1101000154. 1 Ademais, tal questão diz 1 Apesar da Recorrente sustentar a ocorrência de cerceamento de defesa em razão do auto de infração conter um emaranhado de citações legislativas, todavia, sem entrar do mérito da afirmação entendo que a mesma deve ser rejeitada, porquanto isso em nada prejudicou a sua defesa, pois, em todas as instâncias a mesma demonstrou nítido conhecimento dos fatos a ela imputados, produzindo defesa a contento, rejeito por isso a preliminar de nulidade suscitada. Da mesma forma afasto a alegação de nulidade do Auto de Infração pelo fato de ter constado, de forma equivocada, o nº do Decreto do Estado de Goiás que regulamentou o Programa de Incentivo à Instalação de Fl. 16895DF CARF MF 12 respeito à infração 1, sobre a exclusão indevida do lucro líquido de valores contabilizados a título de descontos na quitação de dívidas contraídas no âmbito do Programa PRODUZIR GOIÁS, a qual não se encontra mais sob julgamento neste processo, pois se trata de infração decorrente dos mesmos fatos apurados no processo administrativo nº 10120.730439/201208, no qual foram constituídos créditos tributários de IRPJ e CSLL, tudo nos termos do relato acima. Com essas razões, rejeito as preliminares de nulidade suscitadas pela Recorrente. 2. Aproveitamento indevido de créditos de Cofins e de Contribuição para o PIS, referentes a depreciação de bens do ativo imobilizado, sob o fundamento de que a empresa autuada exerceria unicamente atividade comercial Destaco que o ativo imobilizado (artigo 179, inciso IV da Lei n. 6.404/76) compreende os bens de natureza duradoura, destinados ao funcionamento normal da sociedade e do seu empreendimento, assim como os direitos exercidos com essa finalidade. 2 Em outras palavras, os bens e direitos necessários ao exercício contínuo das atividades da pessoa jurídica (vide artigo 301 do RIR/99 e CPC n. 27), aí incluídos aqueles que tem finalidade unicamente administrativa, ou seja, que não são empregados diretamente na produção ou na comercialização de mercadorias e de serviços, ou ainda, na locação, integram o ativo permanente. Pois bem. A legislação de regência da Contribuição ao PIS e da COFINS permite a apuração de créditos em relação a “máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos ou fabricados para locação a terceiros, ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços” (artigo 3º, inciso VI da Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003). Pela leitura do texto legal, percebese que o legislador restringiu o direito a tomada de crédito, no que se refere aos bens do ativo imobilizado. Com efeito, os dispositivos legais são claros ao estabelecer que as situações que permitem a apuração de créditos em relação ao ativo imobilizado estão adstritas aos bens adquiridos ou fabricados para: a) locação a terceiros; b) utilização na produção de bens destinados à venda; ou c) utilização na prestação de serviços. Ou seja, não é todo e qualquer bem destinado ao ativo imobilizado que dará direito ao crédito das Contribuições, mas tão somente aqueles destinados a uma das três citadas finalidades estabelecidas pela lei. A jurisprudência deste Conselho é tranquila a respeito do tema (vide Processo 13603.724612/201113, Acórdão 3301002.806; e Processo n. 11080.931975/201116. Acórdão 3102002.166). No presente caso concreto, o motivo da glosa perpetrada pela fiscalização foi justamente o desrespeito aos itens (a), (b) e (c) identificados no parágrafo acima. Destaco Central Única de Distribuição de Produtos no Estado de Goiás, denominado CENTROPRODUZIR (Subprograma do Programa de Desenvolvimento Industrial de Goiás – PRODUZIR), pois, o equívoco da citação não trouxe qualquer prejuízo à análise e compreensão dos fatos, além disso, conforme a própria Recorrente afirma, o nº do Decreto, de fato é o 5.515, de 2001, o que por si só demonstra que não haver nenhum prejuízo à autuação ou à defesa apresentada. Ademais disto, o Decreto nº 5.265/2000, regulamenta o Programa PRODUZIR, do qual o CENTROPRODUZIR é um subprograma, pelo aquele é mais amplo e contempla também este último. 2 In: FIPECAFI. Manual de Contabilidade das Sociedades por Ações. São Paulo. Atlas, p. 198. Fl. 16896DF CARF MF Processo nº 10120.727165/201695 Acórdão n.º 3402005.299 S3C4T2 Fl. 16.891 13 abaixo a fundamentação da autoridade fiscal sobre o ponto, constante do auto de infração (fls 1224): Efetivamente, a razão para a glosa foi uma só: a sociedade teria como objeto social o comércio (toda sua receita seria daí advinda), e não a industrialização ou prestação de serviços, tampouco a locação de bens para terceiros. Assim, não possuiria o direito a tomada de créditos relativa a depreciação do ativo imobilizado. Ocorre que a Recorrente não exerce apenas atividade de comércio, mas também atividade industrial e de prestação de serviço. Destaco abaixo o seu objeto social, retirados dos contratos constantes dos autos (fls 1509): Ademais, a Recorrente trouxe aos autos elementos que comprovam que, de fato, somente parte de sua receita bruta seria oriunda do comércio. Aí que se fizeram necessários os esclarecimentos requeridos por este Colegiado na Resolução n. 3402001.019 sobre a questão (em que medida os créditos eram de fato referentes às atividades comerciais), respondidos da seguinte forma pela autoridade fiscal de origem no Relatório de Diligência (fls 16.879 a 16.881): Fl. 16897DF CARF MF 14 Restou confirmado, então, que os montantes glosados em parte dizem respeito a créditos referentes a depreciações de ativo imobilizado de atividades industriais da Recorrente, de modo que restam preenchidos os requisitos do artigo 3º, inciso VI da Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003 (utilização do ativo imobilizado para fabricação de bens destinados à venda). A resposta a diligência da autoridade fiscal foi categórica nesse sentido, sendo que tais conclusões foram alcançadas com base nas informações e documentos apresentados pela própria Recorrente, a qual, ressaltemos, não contestou o resultado da diligência. Com esses fundamentos, entendo que deve ser parcialmente cancelada a autuação relativamente à infração 3, nos exatos termos apurados na Tabela do Relatório de diligência (fls 16.880), vale dizer, cancelando a glosa de créditos referente à "depreciação do ativo imobilizado de atividades industriais comprovados pela empresa" dos anos de 2008 e 2009. 3. Exclusão indevida da base de cálculo da Cofins e da contribuição para o PIS do reembolso proveniente da recuperação de despesas com de verbas de propagandas Como destacado no relato alhures, a Recorrente reitera a alegação de que alguns valores que a autoridade fiscal entendeu serem receita, não podem ser assim compreendidos, uma vez que constituiriam reembolso de despesas com propaganda. Nesse sentido salienta que, em virtude de ser empresa comercial atacadista e varejista de móveis, utensílios e eletrodomésticos, não possui qualquer atividade referente a publicidade e propaganda, não havendo então que se falar em entrada de receita que constitua fato Fl. 16898DF CARF MF Processo nº 10120.727165/201695 Acórdão n.º 3402005.299 S3C4T2 Fl. 16.892 15 modificativo de patrimônio. Ressalta, novamente, que os recebimentos questionados caracterizam reembolso de despesas, possuindo única função de reduzir uma despesa específica por ele efetuada, porém imputada à terceiro em razão de rateio de custos, sendo e impossível a consideração desta ocorrência como ingresso de receita, pois não representa benefício econômico. Pois bem. Lembremos que Contribuição ao PIS e a COFINS, sob a modalidade de regime nãocumulativo (tal qual ocorre com a apuração efetuada pela Recorrente), têm por fato gerador o faturamento mensal, assim entendido a totalidade das receitas auferidas pelo contribuinte, independentemente da denominação ou classificação contábil, conforme se depreende dos mencionados artigos 1º das Leis nº 10.637/02 e nº 10.833/03. Segundo a abalizada doutrina de José Antonio Minatel, entendese por receita os ingressos financeiros ocorridos de forma individual que integram de forma definitiva o patrimônio da pessoa jurídica. 3 Tal conceito de receita é sustentado de longa data pela doutrina jurídica, da qual destacamos a seguinte lição de Geraldo Ataliba: 4 O conceito de receita referese a uma espécie de entrada. Entrada é todo o dinheiro que ingressa nos cofres de uma entidade. Nem toda entrada é uma receita. Receita é a entrada que passa a pertencer à entidade. Assim, só se considera receita o ingresso de dinheiro que venha a integrar o patrimônio da entidade que a recebe. Dessa forma, não é suficiente o simples reconhecimento de entrada em dinheiro na pessoa jurídica para que esteja caracterizada uma receita tributável, pois receita não é a mesma coisa que ingresso financeiro. “De fato, toda receita representa um ingresso financeiro, mas nem todo ingresso financeiro é uma receita.” 5 Eis aí o ponto jurídico a ser observado sempre, impedindo a simples transposição do conceito contábil de receita para resolver casos como o presente. Para que um ingresso financeiro caracterize juridicamente uma receita da pessoa jurídica, devem estar presentes quatro requisitos: i) sua definitividade no patrimônio da pessoa jurídica; ii) a titularidade desses valores pela pessoa jurídica; iii) a disponibilidade desses valores pela pessoa jurídica; iv) ser uma contraprestação de negócio jurídico inerente ao exercício das atividades empresariais, mesmo que tais atividades não constem do objeto social da empresa ou de suas atividades típicas. 3 MINATEL, José Antonio. O conceito de receita, para feitos de incidência do PIS e da COFINS in COÊLHO, Sacha Calmon Navarro (org.). Contribuições para a Seguridade Social. São Paulo: Ed. Quartier Latin. 2007. p. 531. 4 ISS e Base Imponível, in "Estudos e Pareceres de Direito Tributário, São Paulo, RT, 1978, 1º vol., p. 81/85 e 91. 5 DARZÉ, Andréa Medrado. Contribuição ao PIS e COFINS e os ingressos que não configuram receitas próprias. Disponível em http://www.siteadvisor.com/restricted.html?domain=http:%2F%2Fibet.provisorio.ws%2Fdownload%2FAndrea% 20Darz%C3%A9%20e%20Paulo%20Leite.pdf&originalURL=786716718&pip=false&premium=false&client_ui d=3978323949&client_ver=4.0.0.274&client_type=IEPlugin&suite=true&aff_id=91020&locale=pt_BR&ui=1&o s_ver=6.3.0.0 Acesso em 02/07/2015. Fl. 16899DF CARF MF 16 Não poderia ser diferente, sob pena de ferirse o princípio da capacidade contributiva. Dessarte, valores que apenas transitam pelos livros fiscais, sem representar, entretanto, acréscimo patrimonial, não podem ser considerados como receitas tributáveis pelas contribuições sociais. Não por outra razão a própria Receita Federal considera que, em caso de rateio de custos e despesas administrativas, os montantes percebidos pela pessoa jurídica centralizadora das atividades não serão tributados pela Contribuição ao PIS e da COFINS, afinal tais valores são de titularidade de outra pessoa jurídica. Destaco o conteúdo da Solução de Divergência Cosit nº 23, de 23/09/2013: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO É possível a concentração, em uma única empresa, do controle dos gastos referentes a departamentos de apoio administrativo centralizados, para posterior rateio dos custos e despesas administrativos comuns entre empresas que não a mantenedora da estrutura administrativa concentrada. Para que os valores movimentados em razão do citado rateio de custos e despesas sejam dedutíveis do IRPJ, exigese que correspondam a custos e despesas necessárias, normais e usuais, devidamente comprovadas e pagas; que sejam calculados com base em critérios de rateio razoáveis e objetivos, previamente ajustados, formalizados por instrumento firmado entre os intervenientes; que correspondam ao efetivo gasto de cada empresa e ao preço global pago pelos bens e serviços; que a empresa centralizadora da operação aproprie como despesa tãosomente a parcela que lhe cabe de acordo com o critério de rateio, assim como devem proceder de forma idêntica as empresas descentralizadas beneficiárias dos bens e serviços, e contabilize as parcelas a serem ressarcidas como direitos de créditos a recuperar; e, finalmente, que seja mantida escrituração destacada de todos os atos diretamente relacionados com o rateio das despesas administrativas. Relativamente à Contribuição para o PIS/Pasep e à Cofins, observadas as exigências estabelecidas no item anterior para regularidade do rateio de dispêndios em estudo: a) os valores auferidos pela pessoa jurídica centralizadora das atividades compartilhadas como reembolso das demais pessoas jurídicas integrantes do grupo econômico pelo pagamento dos dispêndios comuns não integram a base de cálculo das contribuições em lume apurada pela pessoa jurídica centralizadora; b) a apuração de eventuais créditos da não cumulatividade das mencionadas contribuições deve ser efetuada individualizadamente em cada pessoa jurídica integrante do grupo econômico, com base na parcela do rateio de dispêndios que lhe foi imputada; c) o rateio de dispêndios comuns deve discriminar os itens integrantes da parcela imputada a cada pessoa jurídica integrante do grupo econômico para permitir a identificação dos itens de dispêndio que geram para a pessoa jurídica que os suporta direito de creditamento, nos termos da legislação correlata. Dispositivos Legais: arts. 251 e 299, Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999; art. 123 da Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN); arts. 2o e 3o da Lei no 9.718, de 27 de novembro de 1998; art. 1o da Lei no 10.637, de Fl. 16900DF CARF MF Processo nº 10120.727165/201695 Acórdão n.º 3402005.299 S3C4T2 Fl. 16.893 17 30 de dezembro de 2002; e art. 1 o da Lei no 10.833, de 29 de dezembro de 2003. (grifei) O Acórdão nº 3403003.385, de relatoria do Conselheiro Antonio Carlos Atulim, de 12 de novembro de 2014, em caso análogo ao presente, esclarece a aplicação do referido entendimento para além de empresas do mesmo grupo econômico: Embora a referida solução de divergência se refira a empresas integrantes de um mesmo grupo econômico, as conclusões do referido parecer, principalmente no que tange às contribuições ao PIS e COFINS podem ser aplicadas por analogia ao caso concreto, pois onde está a mesma razão, aplicase o mesmo direito. Entretanto, para que esse direito possa ser exercido pelo contribuinte, é necessária a comprovação, por meio de ajuste escrito entre as partes, do valor global da despesa, dos critérios de rateio, do valor e do pagamento do gasto incorrido, da parte da despesa que toca a cada empresa e, obviamente, da contabilização desses ressarcimentos como direitos de créditos a recuperar. Além disso, especificamente em relação ao PIS e COFINS, a administração exige que o rateio de despesas comuns indique os itens que compõem a parcela imputada a cada empresa, a fim de permitir a identificação dos itens de dispêndio que geram para a pessoa jurídica que os suporta direito ao crédito das referidas contribuições. É justamente ratificando esse entendimento que a Câmara Superior de Recursos Fiscais do CARF tem se manifestado, em casos de empresas do mesmo ramo da Recorrente. De fato, a CSRF entende pela não incidência das contribuições em casos como o presente, porém consignando os requisitos para tal reconhecimento: “os valores recebidos a título de reembolso por despesas com propaganda constituem receita, e não ressarcimento das despesas, se não restar comprovada a correspondência entre as despesas com propaganda e tais reembolsos.” (Processo 13855.721049/201151, Acórdão 9303004.608). O voto condutor do citado processo, da lavra do Conselheiro Andrada Couto, destaca que: Quanto ao segundo item, "bonificações de ressarcimento de despesas com propaganda cooperada", melhor sorte não assiste a recorrente. Transcrevese abaixo trecho da acusação fiscal: (...) Em que pese os argumentos apresentados de que se trata de mero ressarcimento de despesas, o fato é que os valores recebidos dos fornecedores para recuperar custos publicitários não guardam correspondência direta com os gastos com publicidade, isto porque não foram apresentados quaisquer detalhamentos destes valores ressarcidos. Não obstante ter asseverado que se trata de ressarcimento, a fiscalizada não apresentou qualquer documento que detalhasse a vinculação dos gastos com as receitas de bonificação com propaganda cooperada. A documentação apresentada pela fiscalizada para justificar os recebimentos de bonificações limitase às notas de débito. Tais documentos são internos à fiscalizada, e indicam tão somente uma comunicação do departamento de compras Fl. 16901DF CARF MF 18 informando o fornecedor e a forma de recebimento da bonificação. Não foi apresentado nenhum contrato com as empresas, e nem mesmo uma simples correlação das despesas de propagandas efetuadas com as bonificações recebidas. (...) Indubitavelmente, a fiscalização até entende ser possível estas bonificações serem reembolso de despesas compartilhadas de propaganda, desde que houvesse elementos.” No mesmo sentido, vale dizer, da necessidade de esforço probatório por parte dos sujeitos passivos tributários para demonstrar a correlação entre os reembolsos contabilizados e as despesas com publicidade, como requisito sine qua non para reconhecer a não incidência da Contribuição ao PIS e da COFINS, colaciono as ementas a seguir: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2006 COFINS. RECEITA. BONIFICAÇÕES. DESCONTOS OBTIDOS. REQUISITOS. Os valores recebidos a título de descontos obtidos e bonificações constituem receita, e devem ser excluídos da base de cálculo da contribuição apenas se caracterizada a incondicionalidade do desconto. COFINS. RECEITA. DESPESAS COM PROPAGANDA. REQUISITOS. Os valores recebidos a título de reembolso por despesas com propaganda constituem receita, e não ressarcimento das despesas, se não restar comprovada a correspondência entre as despesas com propaganda e tais reembolsos. (...) (Processo 11080.722127/201118, Acórdão nº 3403002520, de 24/10/2013. Redator designado: Rosaldo Trevisan) Ementa(s) Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/03/2010 a 31/12/2010 CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP. RECEITA. BONIFICAÇÕES. DESCONTOS OBTIDOS. REQUISITOS. Os valores recebidos a título de descontos obtidos e bonificações constituem receita, e devem ser excluídos da base de cálculo da contribuição apenas se caracterizada a incondicionalidade do desconto. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP. RECEITA. DESPESAS COM PROPAGANDA. REQUISITOS. Os valores recebidos a título de reembolso por despesas com propaganda constituem receita, e não ressarcimento das despesas, se não restar comprovada a correspondência entre as despesas com propaganda e tais reembolsos. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP. DESPESAS COM FRETE NO TRANSPORTE DE MERCADORIAS ENTRE Fl. 16902DF CARF MF Processo nº 10120.727165/201695 Acórdão n.º 3402005.299 S3C4T2 Fl. 16.894 19 ESTABELECIMENTOS. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. A tomada de créditos sobre despesas com fretes limitase às operações de venda, além do que não há que se falar em insumos utilizados na prestação de serviços ou na fabricação de produtos destinados à venda no contexto de uma atividade comercial varejista. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP. ICMS SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA. CRÉDITO. IMPOSSIBILIDADE. O ICMS substituição tributária não integra o valor das aquisições de mercadorias para revenda, para fins de cálculo do crédito a ser descontado das contribuições, por não constituir custo de aquisição, mas uma antecipação do imposto devido pelo contribuinte substituído, na saída das mercadorias. (Processo 10480.722794/201559, Acórdão n. 3401004.011 de 28/09/2017 Relator(a) AUGUSTO FIEL JORGE DOLIVEIRA). (grifei) No caso sob apreço, a Recorrente elaborou planilha explicativa contendo os dados das contas contábeis de registro, bem como das despesas efetuadas com o respectivo rateio e posterior recebimento, todos com a discriminação da despesa/reembolso. Também apresentou exemplos de publicidades dos fornecedores que geraram a obrigação do reembolso. Porém, assumiu que diante da enormidade de documentos que tal questão representa, não foi possível juntar todos os documentos comprobatórios até o momento da apresentação do recurso voluntário. Diante deste quadro fático, como já mencionado acima, este Colegiado converteu o processo em diligência para analisar a documentação apresentada pela Recorrente. A autoridade fiscal de origem, em fls 16.881, reconheceu que as provas apresentadas demonstram a correspondência entre as despesas realizadas pela Recorrente com propaganda e os respectivos reembolsos que foram contabilizados, gerando a autuação ora sob análise: Fl. 16903DF CARF MF 20 Assim, a própria autoridade fiscal de origem confirmou que os valores objeto da lançamento tributário em seu item 4 correspondem a reembolsos de despesa com propaganda, não havendo que se falar em entrada de receita que constitua fato modificativo de patrimônio, tributável pela Contribuição ao PIS e pela COFINS, conforme amplamente tratado alhures. Por tudo quanto exposto, entendo que deve ser cancelado o lançamento tributário no que diz respeito à tributação pela Contribuição ao PIS e pela COFINS sobre os reembolsos de publicidade e propaganda. 4. Sobre os argumentos acerca de supostas inconstitucionalidades Com relação à alegação de ofensa ao principio constitucional da não cumulatividade e ao principio da isonomia aplicada no lançamento tributário, a argumentação da Recorrente não escapa de uma necessidade de aferição de constitucionalidade da legislação tributária, o que é vedado ao CARF, conforme os dizeres de sua Súmula n. 2, in verbis: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Ademais, no âmbito do processo administrativo fiscal é expressamente vedado afastar a aplicação de lei sob fundamento de inconstitucionalidade, por força do artigo 59 do Decreto no 7.574/2011. Portanto, não conheço da alegação de que as infrações quanto a tomada de crédito seriam pautadas em legislação restritiva e, portanto, inconstitucional. CONCLUSÃO Por tudo quanto exposto, voto por dar parcial provimento ao recurso voluntário, para: i) cancelar parcialmente a autuação relativamente à infração 3, nos exatos termos apurados na Tabela do Relatório de diligência (fls 16.880), vale dizer, cancelando a glosa de créditos referente à "depreciação do ativo imobilizado de atividades industriais Fl. 16904DF CARF MF Processo nº 10120.727165/201695 Acórdão n.º 3402005.299 S3C4T2 Fl. 16.895 21 comprovados pela empresa" dos anos de 2008 e 2009; ii) cancelar o lançamento tributário no que diz respeito à tributação pela Contribuição ao PIS e pela COFINS sobre os reembolsos provenientes de despesas com publicidade e propaganda (infração 4). Thais De Laurentiis Galkowicz Fl. 16905DF CARF MF
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Numero do processo: 10120.005182/2009-49
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Aug 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/06/2007 a 31/12/2007
PRODUTOR RURAL PESSOA FÍSICA. CONTRIBUIÇÃO AO SENAR SOBRE A COMERCIALIZAÇÃO. COOPERATIVA. SUB-ROGAÇÃO.
A Cooperativa fica sub-rogada na obrigação do empregador rural pessoa física e do segurado especial, de que tratam, respectivamente, a alínea "a" do inciso V e o inciso VII do art. 12 desta Lei nº 8.212, de 1991, na condição de responsável, em relação à retenção e ao recolhimento da contribuição ao SENAR, prevista no art. 6º da Lei nº 9.528, de 1997.
Numero da decisão: 2401-005.601
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário. Vencido o conselheiro Matheus Soares Leite que dava provimento parcial para limitar a multa ao percentual de 20%.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Presidente
(assinado digitalmente)
Francisco Ricardo Gouveia Coutinho - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Rayd Santana Ferreira, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Andrea Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Cleberson Alex Friess, Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro e Matheus Soares Leite.
Nome do relator: FRANCISCO RICARDO GOUVEIA COUTINHO
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/06/2007 a 31/12/2007 PRODUTOR RURAL PESSOA FÍSICA. CONTRIBUIÇÃO AO SENAR SOBRE A COMERCIALIZAÇÃO. COOPERATIVA. SUB-ROGAÇÃO. A Cooperativa fica sub-rogada na obrigação do empregador rural pessoa física e do segurado especial, de que tratam, respectivamente, a alínea "a" do inciso V e o inciso VII do art. 12 desta Lei nº 8.212, de 1991, na condição de responsável, em relação à retenção e ao recolhimento da contribuição ao SENAR, prevista no art. 6º da Lei nº 9.528, de 1997.
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CONTRIBUIÇÃO AO SENAR SOBRE A COMERCIALIZAÇÃO. COOPERATIVA. SUBROGAÇÃO. A Cooperativa fica subrogada na obrigação do empregador rural pessoa física e do segurado especial, de que tratam, respectivamente, a alínea "a" do inciso V e o inciso VII do art. 12 desta Lei nº 8.212, de 1991, na condição de responsável, em relação à retenção e ao recolhimento da contribuição ao SENAR, prevista no art. 6º da Lei nº 9.528, de 1997. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário. Vencido o conselheiro Matheus Soares Leite que dava provimento parcial para limitar a multa ao percentual de 20%. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Presidente (assinado digitalmente) Francisco Ricardo Gouveia Coutinho Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 00 51 82 /2 00 9- 49 Fl. 208DF CARF MF Processo nº 10120.005182/200949 Acórdão n.º 2401005.601 S2C4T1 Fl. 208 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier, Rayd Santana Ferreira, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Andrea Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Cleberson Alex Friess, Jose Luis Hentsch Benjamin Pinheiro e Matheus Soares Leite. Relatório Cuidase de recurso voluntário (fls. 183/187) interposto em face do Acórdão nº. 0336.836 (fls. 175/182) da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Brasília. Por bem circunstanciar os fatos, transcrevemse trechos do relatório da decisão do colegiado de primeira instância: Tratase de Auto de Infração de Obrigação Principal AIOP 37.219.5997, emitido contra a empresa em epígrafe, no valor de R$ 151.841,63 (Cento e cinquenta e um mil oitocentos e quarenta e um reais e sessenta e três centavos), consolidado em 27/04/2009, referente à contribuição destinada ao Serviço Nacional de Aprendizagem Rural SENAR (art. 6° da Lei nº 9.528/97; art. 11, II, Decreto n° 566/92) incidente sobre o valor da receita bruta proveniente da comercialização da produção rural in natura, realizadas por produtores rurais pessoas físicas, em substituição a que incidiria sobre o total da remuneração dos empregados dos produtores rurais (art. 3°, I da Lei n° 8.315/91, no período compreendido entre as competências 08/2006 a 1 l/2007. De acordo com o Relatório Fiscal de fls. 39/44, o fato gerador que serviu de base para o cálculo das contribuições sociais lançadas nesta autuação é proveniente da aquisição de algodão realizada pela Cooperativa, situação em que, de acordo com a legislação, a autuada se subroga na obrigação de descontar as contribuições incidentes do produtor e recolher aos cofres públicos, mas não o efetuou, e foram apurados através do levantamento: PR3 Produto Rural Algodão Dep.Judicial (contribuições depositadas judicialmente). Relata que a Cooperativa questionou na justiça a legalidade das contribuições objeto da presente autuação, primeiramente através de ação cautelar n° 2006.35.03.0028898, onde obteve decisão favorável em caráter preliminar para depósito judicial das contribuições. Em 17/02/2007, protocolou ação principal n° 2008.35.03.0019114, e em 25/01/2008, foi prolatada sentença indeferindo o pedido sem julgamento do mérito, por considerar que a cooperativa não possui legitimidade processual, sentença publicada em 22/02/2008. A autora impetrou recurso de apelação, que não foi recebido por intempestividade. Informa que os valores das contribuições constituídas através deste auto de infração foram depositadas no Banco do Brasil, com base na medida judicial citada e xerox dos comprovantes em anexo. In forma ainda que o fato gerador e as contribuições constituídas através do presente auto de infração não foram informadas nas Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações a Previdência Social — GFIP, sendo, então, emitido auto de infração. Tal omissão configura, em tese, Fl. 209DF CARF MF Processo nº 10120.005182/200949 Acórdão n.º 2401005.601 S2C4T1 Fl. 209 3 o crime de sonegação de contribuição previdenciária — art. 337 — A, item II do Código Penal Brasileiro — Decreto Lei IV 3.848, de 07/12/40, sendo emitida a respectiva Representação Fiscal para Fins Penais. • DA IMPUGNAÇÃO A empresa impetrou defesa tempestiva, As fls. 157/160, alegando, em apertada síntese: que a fiscalização lastreiase no art. 245 da Instrução Normativa MPS/SRP n" 03/2005, que estabelece a não incidência do Funrural apenas quando a produção rural for comercializada diretamente com o adquirente domiciliado no exterior. Todavia, no caso em tela, as operações realizadas são efetivamente operações diretas, visto que, pela natureza jurídica da ora impugnante, a sua participação não se caracteriza como intermediação, nem como operação mercantil, razão por que não efetuou o recolhimento do Funrural sobre as operações de exportações; tece um breve histórico do fenômeno do cooperativismo e da natureza jurídica das cooperativas para demonstrar a distinção destas e da sociedade de capital, cujo objetivo é fortalecer os seus cooperados para a obtenção, por parte deles, de vantagens econômicas. Cientificado da decisão de piso em 24/06/2010, apresentou recurso voluntário com os seguintes argumentos de defesa: 1) No tocante aos fatos, diz que recebeu autuação sob a acusação de que não efetuou recolhimento de contribuição ao SENAR sobre as operações de exportação. Informa que a fiscalização lastreouse no art. 245 da IN MPS/SRP nº 3, de 2005; 2) Afirma que as operações realizadas são efetivamente operações diretas, visto que, pela natureza jurídica da ora recorrente, a sua participação na operação não se caracteriza como intermediação, nem tampouco como operação mercantil; 3) Ressalta que a contribuição FUNRURAL foi declarada inconstitucional pelo STF, por ter como base de cálculo a receita bruta; 4) Discorre sobre as Cooperativas, fazendo menção ao fenômeno do cooperativismo e ainda de posição doutrinária sobre a matéria. Cita também artigos da Lei nº 5.764, de 1971; 5) Ao final requer: "... que seja o auto de infração ora questionado julgado improcedente, por ser de inteira justiça, visto que se exige dela contribuição por operação de exportação efetivamente ocorrida". É o relatório Voto Conselheiro Francisco Ricardo Gouveia Coutinho Relator O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos, portanto, deve ser conhecido. Fl. 210DF CARF MF Processo nº 10120.005182/200949 Acórdão n.º 2401005.601 S2C4T1 Fl. 210 4 Mérito AI DEBCAD nº 37.219.5997 (Levantamento: PR3 Produto Rural Algodão Depósito Judicial competências: 08/2006 a 12/2006, 01/2007 a 11/2007). A matéria objeto do lançamento em discussão encontrase disciplinada no art. 6º da Lei nº 9.528, de 1997, e alterações, e regulamentada pelo Decreto nº 566, de 1992, in verbis: LEI Nº 9.828, DE 1997 Art. 6o A contribuição do empregador rural pessoa física e a do segurado especial, referidos, respectivamente, na alínea a do inciso V e no inciso VII do art. 12 da Lei no 8.212, de 24 de julho de 1991, para o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), criado pela Lei no 8.315, de 23 de dezembro de 1991, é de zero vírgula dois por cento, incidente sobre a receita bruta proveniente da comercialização de sua produção rural. (Redação dada pela Lei nº 10.256, de 9.7.2001) Parágrafo único. A contribuição de que trata o caput deste artigo será recolhida: (Incluído pela Lei nº 13.606, de 2018) I pelo adquirente, consignatório ou cooperativa, que ficam subrogados, para esse fim, nas obrigações do produtor rural pessoa física e do segurado especial, independentemente das operações de venda e consignação terem sido realizadas diretamente com produtor ou com intermediário pessoa física; (Incluído pela Lei nº 13.606, de 2018) II pelo próprio produtor pessoa física e pelo segurado especial, quando comercializarem sua produção com adquirente no exterior, com outro produtor pessoa física, ou diretamente no varejo, com o consumidor pessoa física. (Incluído pela Lei nº 13.606, de 2018) DECRETO N° 566, DE 1992 Art. 11. Constituem rendas do SENAR: (Redação dada pelo Decreto n°790, de 1993) II contribuição compulsória, a ser recolhida à Previdência Social, de um décimo por cento incidente sobre a receita bruta proveniente da comercialização da produção da pessoa física, proprietária ou não, que explora atividade agropecuária ou pesqueira, em caráter permanente ou temporário, diretamente ou por intermédio de prepostos e com auxilio de empregados, utilizados a qualquer titulo, ainda que de forma não continua; (Redação dada pelo Decreto n° 790, de 1993) § 3° Integram a produção, para os efeitos do inciso II deste artigo, os produtos de origem animal ou vegetal, em estado natural ou submetidos a processo de beneficiamento ou industrialização rudimentar, assim compreendidos, entre outros, os processos de lavagem, limpeza, descarogamento, pilagem, descascamento, lenhamento, pasteurização, resfriamento, secagem, fermentação, embalagem, cristalização, fundição, carvoejamento, cozimento, destilação, moagem, torrefação, bem como os subprodutos e os resíduos obtidos através desses processos. (Incluído pelo Decreto n° 790, de 1993) Fl. 211DF CARF MF Processo nº 10120.005182/200949 Acórdão n.º 2401005.601 S2C4T1 Fl. 211 5 § 5° A contribuição de que trata este artigo será recolhida: (Incluído pelo Decreto n° 790, de 1993) a) pelo adquirente, consignatório ou cooperativa que ficam subrogados, para esse fim, nas obrigações do produtor; (Incluída pelo Decreto n° 790, de 1993) [...] Como se observa dos dispositivos acima, a referida subrogação constituise da clássica figura do responsável pela obrigação tributária, que, nos termos do inciso II do art. 121 do Código Tributário Nacional, é considerado o sujeito passivo da obrigação principal que, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de expressa disposição legal. Alega a recorrente que a contribuição Funrural foi declarada inconstitucional pelo STF, e que, dessa forma, produtores rurais e frigoríficos estão livres do recolhimento da contribuição. Em que pese o sujeito passivo fazer referência a constitucionalidade da contribuição denominada de "Funrural", necessário esclarecer que os autos tratam especificamente da contribuição de terceiros "SENAR". Outro ponto abordado pelo sujeito passivo diz respeito a natureza jurídica das Cooperativas. Faz um histórico sobre o cooperativismo, cita dispositivos da Lei nº 5.764, de 1971, que rege a política brasileira de cooperativismo e define o ato cooperativo, para concluir que não há relação mercantil entre o cooperado e a cooperativa. Art. 3° Celebram contrato de sociedade cooperativa as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir com bens ou serviços para o exercício de uma atividade econômica, de proveito comum, sem objetivo de lucro. [...] Art. 79. Denominamse atos cooperativos os praticados entre as cooperativas e seus associados, entre estes e aquelas e pelas cooperativas entre si quando associados, para a consecução dos objetivos sociais. Parágrafo único. O ato cooperativo não implica operação de mercado, nem contrato de compra e venda de produto ou mercadoria. Em regra, entre a cooperativa e cooperado não há, consoante legislação, ato de comércio quando, por exemplo, entrega sua produção a essa entidade. Entretanto, estamos diante de uma situação (fato gerador comercialização da produção por intermédio da cooperativa) em que a recorrente é apenas responsável pela obrigação tributária, sendo contribuinte o produtor rural. Nos termos do art. 150, §7º, da CF/88 e do art. 128 do CTN, a Cooperativa qualificase com responsável tributário pelo desconto e recolhimento dessa exação, por força da obrigação tributária acessória que lhe fora imposta pelo alínea "a" do § 5º do art. 11 do Decreto nº 566, de 1992. Do relatório do auto de infração AI nº 37.219.5997, retirase a motivação do lançamento em discussão (fls. 42/43): Fl. 212DF CARF MF Processo nº 10120.005182/200949 Acórdão n.º 2401005.601 S2C4T1 Fl. 212 6 2....... referente a contribuições destinadas ao Serviço Nacional de Aprendizagem Rural — SENAR (Art. 6 ° da Lei 9.528/97; Art. 11, inciso II, Decreto 566/92), sobre o valor da receita bruta proveniente da comercialização da produção rural "in natura", realizadas por produtores rurais pessoas físicas, em substituição a que incidiria sobre o total da remuneração dos empregados dos produtores rurais(art. 3º , incisos I da Lei 8.315/91), [...] 3. O fato gerador que serviu de base para calculo das contribuições que compõem o presente Auto de Infração é proveniente da aquisição de algodão realizadas pela Cooperativa, que de acordo com a legislação a autuada sub roga na obrigação de arrecadar do produtor as contribuições incidentes e recolher aos cofres público, e essa base de incidência encontrase relacionada em dois levantamentos: [...] Em que pese a recorrente alegar que as operações referemse a exportações diretas, necessário esclarecer que referido levantamento (DEBCAD dos autos) corresponde ao PR3 Produto Rural Algodão Depósito Judicial competências: 08/2006 a 12/2006, 01/2007 a 11/2007). As operações de exportação referese ao levantamento PR2 (Processo nº 101200051778200981). Nesse ponto, reafirmase a decisão do colegiado de primeira instância, que assim concluiu: Em sua defesa, a impugnante se limita a afirmar categoricamente que realizava operações de exportações de forma direta. No entanto, os argumentos da impugnante não atingiram o cerne da questão, pois não rebate os elementos de fato e constituidores do lançamento fiscal, nem a improcedência do mesmo frente às normas previdenciárias vigentes, apesar de o Relatório Fiscal e anexos possibilitarem a compreensão da origem das exigências lançadas contribuição destinada ao Serviço Nacional de Aprendizagem Rural SENAR (art. 6º da Lei n° 9.528/97; art. 11, Decreto n° 566/92), incidente sobre o valor da receita bruta proveniente da comercialização da produção rural in natura, realizada por produtores rurais pessoas físicas, em substituição à que incidiria sobre o total da remuneração dos empregados dos produtores rurais (art. 3°, I da Lei nº 8.315/91)... [...] Assim, tendo o fisco procedido em conformidade com a legislação e atos normativos vigentes a época, estando correta a atuação da auditoria fiscal autuante, deve, por conseguinte, ser mantido integralmente o lançamento. Portanto, sem razão a recorrente. Mantémse a decisão do colegiado de primeira instância. Ademais, em relação à ação judicial nº 2008.35.03.0019114 impende esclarecer que no caso foi prolatada a sentença judicial sem julgamento de mérito, considerandose que a Cooperativa não possui legitimidade processual. Fl. 213DF CARF MF Processo nº 10120.005182/200949 Acórdão n.º 2401005.601 S2C4T1 Fl. 213 7 Conclusão Voto no sentido de conhecer do recurso voluntário e, no mérito, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Francisco Ricardo Gouveia Coutinho Fl. 214DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11829.720079/2014-85
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Aug 02 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 05/09/2011 a 30/08/2012
MULTA. PERCENTUAL APLICADO. CUMPRIMENTO LEGAL
A aplicação de percentual de multa determinado em lei não afronta os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade.
SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM. ADMINISTRADORES. RESPONSABILIDADE.
As pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador são solidariamente responsáveis pelo crédito tributário apurado. Também o são os diretores, gerentes ou representantes da pessoa jurídica de direito privado pelas obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos.
OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE NA IMPORTAÇÃO. COMPROVAÇÃO. FRAUDE.
O descumprimento de obrigação aduaneira pertinente à importação por conta e ordem ou por encomenda, aliado à conduta dolosa que resulta no fornecimento de informações falsas nas declarações de importação, caracteriza fraude e ocultação do real adquirente das mercadorias importadas.
MULTA DE UM SOBRE O VALOR DA MERCADORIA IMPORTADA. CASO CONCRETO. INCABÍVEL.
A infração apontada pela fiscalização não está incluída no rol descrito nos cinco incisos do § 1º do art. 711 do RA/2009, os quais especificam quanto às informações referidas no inciso III, desse mesmo artigo, as que poderiam suscitar a aplicação da penalidade ali prevista. Multa incabível no caso concreto.
Numero da decisão: 3301-004.758
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Marcelo Costa Marques d'Oliveira - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente).
Nome do relator: MARCELO COSTA MARQUES D OLIVEIRA
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 05/09/2011 a 30/08/2012 MULTA. PERCENTUAL APLICADO. CUMPRIMENTO LEGAL A aplicação de percentual de multa determinado em lei não afronta os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM. ADMINISTRADORES. RESPONSABILIDADE. As pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador são solidariamente responsáveis pelo crédito tributário apurado. Também o são os diretores, gerentes ou representantes da pessoa jurídica de direito privado pelas obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE NA IMPORTAÇÃO. COMPROVAÇÃO. FRAUDE. O descumprimento de obrigação aduaneira pertinente à importação por conta e ordem ou por encomenda, aliado à conduta dolosa que resulta no fornecimento de informações falsas nas declarações de importação, caracteriza fraude e ocultação do real adquirente das mercadorias importadas. MULTA DE UM SOBRE O VALOR DA MERCADORIA IMPORTADA. CASO CONCRETO. INCABÍVEL. A infração apontada pela fiscalização não está incluída no rol descrito nos cinco incisos do § 1º do art. 711 do RA/2009, os quais especificam quanto às informações referidas no inciso III, desse mesmo artigo, as que poderiam suscitar a aplicação da penalidade ali prevista. Multa incabível no caso concreto.
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ME E OUTROS Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 05/09/2011 a 30/08/2012 MULTA. PERCENTUAL APLICADO. CUMPRIMENTO LEGAL A aplicação de percentual de multa determinado em lei não afronta os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM. ADMINISTRADORES. RESPONSABILIDADE. As pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador são solidariamente responsáveis pelo crédito tributário apurado. Também o são os diretores, gerentes ou representantes da pessoa jurídica de direito privado pelas obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE NA IMPORTAÇÃO. COMPROVAÇÃO. FRAUDE. O descumprimento de obrigação aduaneira pertinente à importação por conta e ordem ou por encomenda, aliado à conduta dolosa que resulta no fornecimento de informações falsas nas declarações de importação, caracteriza fraude e ocultação do real adquirente das mercadorias importadas. MULTA DE UM SOBRE O VALOR DA MERCADORIA IMPORTADA. CASO CONCRETO. INCABÍVEL. A infração apontada pela fiscalização não está incluída no rol descrito nos cinco incisos do § 1º do art. 711 do RA/2009, os quais especificam quanto às informações referidas no inciso III, desse mesmo artigo, as que poderiam suscitar a aplicação da penalidade ali prevista. Multa incabível no caso concreto. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 82 9. 72 00 79 /2 01 4- 85 Fl. 1567DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.568 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Marcelo Costa Marques d'Oliveira Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente). Fl. 1568DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.569 3 Relatório Adoto o relatório da decisão de primeira instância: "DA INFRAÇÃO Tratase de ação fiscal levada a efeito contra o sujeito passivo acima identificado, que resultou no Auto de infração de folhas 02 a 19, integrado pelo Termo de Verificação Fiscal de fls. 20 a 92 e demais documentos às fls. 93 a 1001, lavrado em 05.12.2014, para constituir o crédito tributário apurado no valor de R$ 3.247.285,00, em razão da imposição da penalidade prescrita no art. 23, § 3º, do DecretoLei nº 1.455, de 07 de abril de 1976, com redação dada pelo art. 59 da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002 combinado com o art. 81, inciso III, da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003. A autoridade lançadora evidencia que figuram no polo passivo da presente exigência fiscal a epigrafada COMERCIAL DE ROSAS WEYH LTDA.. ME, a pessoa jurídica CDV EXPORTAÇÃO IMPORTAÇÃO E COMÉRCIO LTDA.. EPP (CNPJ 05.109.438/000126) e seus sócios ROGÉRIO SARMENTO PESSOA (CPF 313.513.79704) e LEANDRO RIBAS PESSOA (CPF 293.861.80855), por força do inciso I e V, do art. 95, do DecretoLei nº 37, de 18 de novembro de 1966, e do art. 135 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 CTN. Afirma que no curso da ação fiscal, amparada pelos Mandados de Procedimento Fiscal de Fiscalização (MPFF) nº 10154.2014.000156 e nº 0817700.2013.000940, ficou demonstrado que a Comercial de Rosas Weyh Ltda. ME “ocultouse em operações de importação realizadas em nome da CDV, que simulou importações em seu nome”, pois as “importações realizadas em nome da CDV tinham destinatário certo e conhecido”. Que em todas as declarações de importação registradas pela CDV restou ocultado o nome do verdadeiro adquirente e real comprador, a Comercial de Rosas Weyh Ltda. ME. DA AUTUAÇÃO No termo de verificação fiscal, parte integrante do Auto de infração, a autoridade lançadora assenta os fundamentos da autuação; que: (i) em razão de pesquisas realizadas nos sistemas informatizados da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), de diligências, intimações e declarações prestadas por terceiros, confirmouse que o objeto social da CDV é a prestação de serviços de importação e exportação para outras empresas, habilitadas ou não no Sistema Integrado de Comércio Exterior Siscomex, e que, no caso em apreço, as mercadorias importadas eram entregues imediatamente, após desembaraço aduaneiro, para a Comercial de Rosas Weyh Ltda. ME, evidenciando que referidas flores já tinham sido negociadas antes mesmo do seu embarque no exterior, cabendo tão somente para a CDV Exportação, Importação e Comércio Ltda. EPP a efetivação dos trâmites aduaneiros; (ii) a CDV estava instalada em sala comercial de 39 metros quadrados, no número 231 do Condomínio “Spot Galleria”, localizado na avenida Dr. José Bonifácio Coutinho Nogueira nº 214, em Campinas SP; Fl. 1569DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.570 4 (iii) as mercadorias, acobertadas pelas declarações de importação (DI) objeto da presente autuação, eram integralmente negociadas para a Rosas Weyh, via emissão de uma única nota fiscal de saída e, em sua maioria, na mesma data que a CDV emitia a nota fiscal de entrada, seguindo do recinto alfandegado diretamente para as instalações da Rosas Weyh; (iv) no endereço eletrônico no sítio da internet http://www.grupocdv.com.br o grupo CDV apresentase como uma holding de empresas de “serviços aduaneiros, trading, agenciamento, transporte, corretora de seguros e câmbio”, com preponderância na prestação de serviços aduaneiros; (v) analisando as notas fiscais de saída emitidas pela CDV para acobertar as supostas vendas efetuadas para a Rosas Weyh constatouse a inexistência ou exigüidade ou de margem de lucro, quando não prejuízo nas referidas operações de importação; (vi) nas declarações de importação registradas somente em nome da CDV, mais especificamente no campo “Dados Complementares” a declarante faz referência a Rosas Weyh; (vii) dos comprovantes de pagamento, boletos bancários e conhecimentos de carga fornecidos pela empresa responsável pelos fretes aéreos Kuehne+Nagel Serviços Logísticos Ltda. observase que os respectivos pagamentos dessas despesas era efetuados pela Rosas Weyh; (viii) do cotejo dos documentos financeiros apresentados pelo banco Bradesco com os constantes nas planilhas “EXTRATO CDV”, “MAD NOTAS FISCAIS COMERCIAL DE ROSAS WEYH” e “EXTRATOS CDV COMERCIAL DE ROSAS WEYH”, evidenciouse, uma vez mais, que a Rosas Weyh é adquirente oculta, pois adiantou recursos para o fechamento do câmbio e pagamento dos exportadores estrangeiros informados nas declarações de importação registradas pela CDV; (ix) perscrutando a escrituração contábil da CDV constatouse a flagrante intenção desta em dissimular o adiantamento de recursos recebidos de Rosas Weyh, relativamente às importações que realizava em momento posterior; (x) consta declaração firmada pelo senhor Rodrigo Farias onde afirma que a CDV cobrava adiantado de seus clientes, através de solicitação de numerário, os custos inerentes ao pagamento dos tributos incidentes nas operações que intermediava; (xi) a conta estoques da contabilidade da CDV possuía saldo zero nos anos de 2010, 2011 e 2012, evidenciando que a declarante CDV não mantinha qualquer mercadoria em estoque; o que permite concluir que a mercadoria por ela importada era imediatamente repassada ao adquirente predeterminado; (xii) da escrituração contábil da Rosas Weyh observase os referidos adiantamentos de recursos para CDV, assim como sua intenção de dissimular referida prática adiantamento de recursos; o que confirma sua condição de adquirente oculta nas operações de importação realizadas pela declarante CDV. Frente às constatações acima sintetizadas, a autoridade lançadora concluiu, ipsis litteris, que a CDV realizou importação por conta e ordem de terceiro, a empresa COMERCIAL DE ROSAS WEYH, deixando ambas as empresa de obedecer às normas que tratam das importações indiretas, tendo a CDV cedido seu nome Fl. 1570DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.571 5 para acobertar operações de comércio exterior de outros (...) apartir da constatação da ocultação do real responsável pela operação, tal fato implica diretamente na falsidade das DI´s (Declarações de Importação) e faturas comerciais apresentadas para despacho, no intuito de possibilitar a prática do ilícito. Portanto, havendo a ocultação, necessariamente haverá documentos que tem o seu conteúdo ideologicamente falso na tentativa de conferir um aspecto de legalidade à operação praticada. A empresa CDV Exportação, Importação e Comércio Ltda. EPP, o senhor Rogério Sarmento Pessoa e o senhor Leandro Ribas Pessoa tomaram ciência do Auto de infração em 15.12.2014 e a Comercial de Rosas Weyh Ltda. ME em 16.12.2014 (fls. 1003 a 1020). DAS IMPUGNAÇÕES Todos os autuados apresentam impugnação tempestiva. Defendem a nulidade do procedimento fiscal que resultou na presente exação, assim como também o cancelamento do Auto de infração, pelos motivos de fato e de direito a seguir sintetizados (fls. 1022 a 1048, 1060 a 1087, 1103 a 1130 e 1174 a 1201). Destacam os responsáveis solidários. Em preliminar alegam que: inexiste qualquer ato que justifique a instauração de Mandado de Procedimento Fiscal MPF. Afirmam que a prorrogação do MPF, bem assim a alteração dos nomes dos AFRFB responsáveis pelo procedimento contrariou as regras das nas Portarias SRF nº 3.077/2001 e nº 6.087/2005, posto que ocorreu sem que tenham sido comunicados no prazo legal, acarretando vício insanável do Auto de infração, tornandoo nulo de pleno direito, pois tais falhas procedimentais ocasionaramlhe prejuízo para suas defesas; o procedimento de fiscalização é nulo em face da ausência de intimação para prestar esclarecimentos, apresentar documentos e outras provas capazes de esclarecer os fatos imponíveis, no intuito de evitar a presente exação fiscal; o Auto de infração não foi instruído com todos os termos, depoimentos, laudos, diligências e demais provas indispensáveis à comprovação do ilícito, contrariando o art. 9º do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, razão pela qual deve ser declarado nulo, também por este motivo, haja vista que viola o direito de defesa do sujeito passivo, conforme art. 59, inciso II, do mesmo diploma. No mérito alegam que: não corresponde à verdade a conclusão da fiscalização acerca da ocultação da Rosas Weyh nas operações realizadas pela CDV, uma vez que, de fato, o que ocorreu foi uma relação tipicamente comercial, conforme as regras da concorrência de mercado; não pode prevalecer a lavratura de Auto de infração contra os devedores solidários quando a acusação está sustentada em infração cometida pela Rosas Weyh, ainda mais que a modalidade de importação é do tipo direta; o formulário “solicitação de numerários”, juntado às fls. 45 e seguintes do Auto de infração, se trata de documento de controle interno em que a CDV Assessoria e Comissária solicita numerários para pagar os compromissos da CDV Exportação Importação e Comércio Ltda., real importadora; Fl. 1571DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.572 6 eventuais pagamentos ou adiantamentos não são irregulares haja vista a necessária agilidade que o mercado impõe às empresas na era da globalização; não há prova que a operação entre Rosas Weyh e a CDV foi realizada na modalidade de importação por conta e ordem de terceiro, conforme dispõem os arts. 2º e 3º da Instrução Normativa SRF nº 225/2002, pois inexiste documento instrutivo dos respectivos despachos aduaneiros referindose à Rosas Weyh, o que descaracteriza a importação por conta e ordem; inexiste fundamento para a aplicação da pena de perdimento, pois não restou demonstrado o intuito doloso na operação e dano ao Erário, quando muito mera ocorrência de falha formal; é desproporcional e desprovida de razoabilidade a aplicação da multa de 100% do valor aduaneiro das mercadorias, devendo, por conseguinte, ser reduzido para o percentual de 1%, conforme art. 711 do Decreto nº 6.759/2009 Regulamento Aduaneiro; a investigação e respectiva colheita de documentos na sede da autuada ocorreu de forma vexatória e abusiva, inclusive com a quebra do sigilo bancário, violando sua intimidade e privacidade, o que tornam ilícitas referidas provas, por contrariar o art. 5º da Constituição Federal. Do exposto, os responsáveis solidários requerem o provimento das impugnações e a consequente improcedência do Auto de infração. Protestam, adicionalmente, pelo aditamento das defesas apresentadas, especialmente para apresentar novos elementos de provas. Por fim, solicitam que eventuais intimações, referentes ao presente feito, sejam endereçadas ao senhor Marcelo Vida da Silva, patrono da causa, na rua Artur de Freitas Leitão, 897, Nova Campinas Campinas SP, CEP 13.092410. Destaca a contribuinte. Em preliminar alega que: é nulo o Auto de infração por contrariar o art. 9º do Decreto nº 70.235/1972, quando a fiscalização não providencia a juntada integral de todas as declarações de importação e “Solicitações de Numerários” objeto da presente investigação. No mérito alega que: a falta de sua indicação nas declarações de importação representa, quando muito, mero erro formal, passível, tão somente, da multa de 1% do valor da mercadoria, conforme art. 711 do Regulamento Aduaneiro; não ocorreu qualquer prejuízo ao Erário em face da não indicação, na qualidade de adquirente, do nome da impugnante na declaração de importação, pois os tributos incidentes foram integralmente recolhidos, conforme exige o Siscomex para viabilizar seu registro; a fiscalização limitouse a afirmar que a não indicação do nome da impugnante na declaração de importação impediu a RFB de exercer o controle aduaneiro, causando prejuízo ao país, uma vez que não apontou qual a conduta dolosa praticada; Fl. 1572DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.573 7 a responsabilidade objetiva do art. 136 da Lei nº 5.172/1966 CTN, contraria os princípios do direito público moderno e as disposições dos arts. 108, IV, e 112 mesmo diploma, que prevêem que a interpretação da lei tributária farseá com a aplicação da equidade e do princípio in dúbio pro contribuinte; não há como responsabilizar a contribuinte, pois a fiscalização não demonstra o proveito obtido ou aponta o conluio da CDV; a fiscalização restringiuse em comprovar os adiantamentos de recursos da Rosas Weyh para a CDV; os emails e declarações juntadas ao relatório da fiscalização não confirmam que a Rosas Weyh era sabedora de eventual burla das normas legais atinentes ao comércio exterior perpetradas pela CDV. Ante o exposto, requer o acolhimento da preliminar de nulidade da autuação e, supletivamente, a declaração de insubsistência do lançamento tributário, determinandose, por fim, o arquivamento do processo. É o Relatório." A DRJ em Florianópolis (SC) julgou a impugnação improcedente e o Acórdão n° 0738.317, de 17/05/16, foi assim ementado: "ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 05/09/2011 a 30/08/2012 LEI. DESCONHECIMENTO. TRANSGRESSÃO. RESPONSABILIDADE. O desconhecimento da lei não exime o agente da responsabilidade pela transgressão de seus preceitos. A vida em sociedade não seria possível se as pessoas pudessem alegar desconhecer a lei para se escusar de cumprila. Daí o surgimento da ficção jurídica de que todos devem conhecer a lei. MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. PRAZO. PRORROGAÇÃO. CIÊNCIA FORMAL. SUJEITO PASSIVO. NÃO NECESSIDADE. O Mandado de Procedimento Fiscal é a ordem específica dirigida ao auditor fiscal para que, no uso de suas atribuições privativas, instaure o procedimento fiscal de Fiscalização, relativo aos tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Nos termos da legislação aplicável, a ciência do Mandado de Procedimento Fiscal pelo sujeito passivo darseá no sítio da Secretaria da Receita Federal do Brasil na Internet, com a utilização de código de acesso consignado no termo que formalizar o início do procedimento fiscal, sendo permitido ao sujeito passivo, sempre que desejar, acessar referido documento para tomar conhecimento de eventuais alterações, inclusive quanto à sua prorrogação. Portanto, é despicienda sua ciência formal, uma vez que referidas alterações se dão por meio de Fl. 1573DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.574 8 registro eletrônico, cuja informação estará disponível na rede mundial de computadores. INCONSTITUCIONALIDADE. ARGÜIÇÃO. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. VEDAÇÃO. No âmbito do processo administrativo fiscal, é vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação, ou deixar de observar lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade, cujo reconhecimento compete exclusivamente aos órgãos do Poder Judiciário. MULTA. PERCENTUAL APLICADO. CUMPRIMENTO LEGAL. A aplicação de percentual de multa determinado em lei não afronta os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, nem o princípio da vedação ao confisco, dado seu caráter punitivorepressivo. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM. ADMINISTRADORES. RESPONSABILIDADE. As pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador são solidariamente responsáveis pelo crédito tributário apurado. Também o são os diretores, gerentes ou representantes da pessoa jurídica de direito privado pelas obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE NA IMPORTAÇÃO. COMPROVAÇÃO. FRAUDE. O descumprimento de obrigação aduaneira pertinente à importação por conta e ordem ou por encomenda, aliado à conduta dolosa que resulta no fornecimento de informações falsas nas declarações de importação caracteriza fraude e ocultação do real adquirente das mercadorias importadas. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 05/09/2011 a 30/08/2012 INTIMAÇÃO. ENDEREÇO. PATRONO DA CAUSA. PREVISÃO NORMATIVA. AUSÊNCIA. A intimação dos atos processuais por via postal deve sempre ser dirigida para o domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo, porquanto na legislação que rege o processo administrativo federal não há disposição que autorize o uso do endereço do patrono da causa para esse fim. ADITAMENTO DA IMPUGNAÇÃO. PRAZO. PRECLUSÃO. A impugnação da exigência, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar deve ser apresentada Fl. 1574DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.575 9 no prazo de trinta dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência. Considerase precluso o pedido de aditamento solicitado depois do regulamentar para apresentação da impugnação. PEDIDO DE PRODUÇÃO POSTERIOR DE PROVAS. REQUISITOS. NÃO ATENDIMENTO. A oportunidade para a apresentação de provas é na impugnação, somente sendo admitida a juntada extemporânea quando comprovada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior, refirase a fato ou a direito superveniente, ou destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. PROCEDIMENTO DE FISCALIZAÇÃO. AUTO DE INFRAÇÃO. FORMALIDADES LEGAIS. PRESSUPOSTOS DE VALIDADE PRESENTES. NULIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. Em sede de processo administrativo fiscal são nulos somente os atos e termos lavrados por agente incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Inexiste a hipótese de nulidade do ato imponível quando se constata que o Auto de infração é revestido dos pressupostos de liquidez e certeza e das formalidades legais a ele inerente, ainda mais que apresentam motivação fática e jurídica e não se observa qualquer irregularidade que enseje prejuízo à defesa dos autuados. AUTO DE INFRAÇÃO. CIÊNCIA. APRESENTAÇÃO DE RECURSO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. A fase litigiosa do procedimento administrativo somente se instaura com a impugnação do sujeito passivo contra ao lançamento já formalizado. Tendo sido regularmente oferecida ampla oportunidade de defesa, com a devida ciência do Auto de infração, resta descabida a alegação de cerceamento de defesa. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 05/09/2011 a 30/08/2012 DADOS BANCÁRIOS. REQUISIÇÃO E UTILIZAÇÃO. AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. DESNECESSIDADE. A requisição às instituições financeiras de dados relativos a terceiros, com fulcro na Lei Complementar nº 105/2001, constitui simples transferência para a RFB e não quebra de sigilo bancário dos sujeitos passivos, não havendo, pois, falar em necessidade de autorização judicial para que a autoridade fiscal tenha acesso a tais informações. MULTA DE UM SOBRE O VALOR DA MERCADORIA IMPORTADA. CASO CONCRETO. INCABÍVEL. Fl. 1575DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.576 10 A infração apontada pela fiscalização não está incluída no rol descrito nos cinco incisos do § 1º do art. 711 do RA/2009, os quais especificam quanto às informações referidas no inciso III, desse mesmo artigo, as que poderiam suscitar a aplicação da penalidade ali prevista. Multa incabível no caso concreto. INFRAÇÃO ADUANEIRA. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. A responsabilidade por infrações da legislação aduaneira é objetiva e extensiva a quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática ou dela se beneficie. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido" Inconformados, o sujeito passivo principal (COMERCIAL DE ROSAS WEYH LTDA. ME) e os responsáveis solidários, em peça única, interpuseram recursos voluntários. Repetiram e, em alguns casos, robusteceram os argumentos contidos nas impugnações. Como as peças de defesa são muito extensas e os argumentos serão apreciados no voto, para fins de economia processual, reproduzo abaixo apenas os títulos dos tópicos: Recurso voluntário da COMERCIAL DE ROSAS WEYH LTDA. ME "ACERCA DA RESTRIÇÃO AO DIREITO DE DEFESA – AUSÊNCIA DA ANEXAÇÃO DA TOTALIDADE DAS DI’S QUE FUNDAMENTAM O VALOR CORRESPONDENTE À PENA DE PERDIMENTO CONVERTIDA EM MULTA EQUIVALENTE AO VALOR ADUANEIRO DA MERCADORIA. IMPOSSIBILIDADE DE CONFERÊNCIA. AUSÊNCIA DE ANEXAÇÃO DA ‘SOLITAÇÃO DE NUMERÁRIO’ PERTINENTE À RECORRENTE." "COM RESPEITO AO FUNDAMENTO JURÍDICO E FÁTICO DO LANÇAMENTO." "CONCEITO DE DANO AO ERÁRIO." "MERCADORIA NÃO SUJEITA AO IPI NA SAÍDA DO ESTABELECIMENTO IMPORTADOR – INOCORRÊNCIA DE QUEBRA DA CADEIA" "O DESCONHECIMENTO DA LEI:" A RECORRENTE NÃO TINHA CONHECIMENTO SOBRE POSSÍVEIS BURLAS ÀS EXIGÊNCIA LEGAIS COMETIDAS PELA CDV. "PENALIDADE APLICADA IRREDUTIBILIDADE, PROPORCIONALIDADE E RAZOBILIDADE. A MULTA DE 1%" "SOBRE A TEORIA DO DOMÍNIO DO FATO" "PROVAS:" Recurso voluntário dos responsáveis solidários Fl. 1576DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.577 11 "II.3. DA INEXISTÊNCIA DE OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE MEDIANTE SIMULAÇÃO II.3.a. DA BOA FÉ NAS INFORMAÇÕES DA DI E NAS INFORMAÇÕES PRESTADAS PELAS EMPRESAS II.3.b. DA RAZOABILIDADE E DA PROPORCIONALIDADE COMO PARÂMETRO JURÍDICO DE VALORAÇÃO DOS ATOS DESENVOLVIDOS DENTRO DO PRINCÍPIO DA BOAFÉ II.4. INEXISTÊNCIA DE APONTAMENTO DE SEQUER R$ 1,00 DE DANO AO ERÁRIO NAS OPERAÇÕES FISCALIZADAS II.4.a. ESCORÇO DAS INFRAÇÕES CONSTANTES NOS INCISOS II.4.b. SOBRE O INCISO IV E V INDICADOS NO TERMO DE VERIFICAÇÃO DA INTERPRETAÇÃO EQUIVOCADA DO ARTIGO 23 DO DL 1455/76 II.5. FALTA DE MOTIVAÇÃO DA AUTUAÇÃO – ERROS NA INTERPRETAÇÃO DA NORMA – DO NCM PARA FINS DA CADEIA DE IPI E ILEGALIDADE DA TIPIFICAÇÃO. II.6. DOS ERROS DA FISCALIZAÇÃO QUANTO À MARGEM DE LUCRO E DO PAGAMENTO DE PIS/COFINS A MAIOR NO REGIME DE CONTA PRÓPRIA DO QUE NA CONTA E ORDEM – IN 247/02 – REGIME ADOTADO PELA FISCALIZAÇÃO. II.7. DA NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO POR IMPOSSIBILIDADE DE INCLUSÃO DOS SÓCIOS COMO RESPONSÁVEIS. II.7.a. DA INOBSERVÂNCIA DO DEVIDO PROCESSO LEGAL ADMINISTRATIVO PARA EVENTUAL INCLUSÃO DOS SÓCIOS COMO RESPONSÁVEIS" É o relatório. Voto Conselheiro Marcelo Costa Marques d'Oliveira Relator Os recursos voluntários preenchem os requisitos legais de admissibilidade e devem ser conhecidos. Foi lavrado auto de infração para aplicação da pena de perdimento de mercadorias importadas, convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro, por impossibilidade de localização dos importados. O auto de infração foi capitulado nos art. 105 do Decretolei n° 37/66, art. 23 do Decretolei n° 1.455/76 e no art. 689 do Decreto n° 6.759/09 (Regulamento Aduaneiro RA). Foi atribuída responsabilidade tributária solidária à CDV EXPORTAÇÃO IMPORTAÇÃO E COMÉRCIO LTDA EPP (CNPJ 05.109.438/000126) e aos seus sócios Fl. 1577DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.578 12 SR. ROGERIO SARMENTO PESSOA (CPF 313.513.79704) e SR. LEANDRO RIBAS PESSOA (CPF 293.861.80855). Passo ao exame dos argumentos de defesa. I Recurso Voluntário da COMERCIAL DE ROSAS WEYH LTDA. ME I 1 Preliminares I 1.a)"Acerca da restrição ao direito de defesa – ausência da anexação da totalidade das DI’s que fundamentam o valor correspondente à pena de perdimento convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria. Impossibilidade de conferência. Ausência de anexação da ‘solitação de numerário’ pertinente à recorrente." Alega que o auto de infração é nulo, pelos seguintes motivos: "Ademais, a ausência de anexação, junto ao auto de infração, da totalidade das DI’s, fere a determinação contida no art. 9° da Lei 70.235/62, segundo a qual o auto de infração necessita estar instruído “com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito”, conforme expõe o artigo 9º do Decreto n° 70.235/72, sendo nulo também por esse motivo (. . .) Ainda, as aduzidas “Solicitações de Numerários” caso existentes e pertinentes às Rosas Weyh, documentos ausentes nos autos, também haveriam de constar para o fim de cotejo da prova. Na medida em que a CDV alega que solicitava recursos de todos seus clientes, mediante a confecção deste documento, natural que estivesse, no mínimo, digitalizada nos autos (constou a de outro cliente)." Adicionalmente, colacionou decisão do CARF (Acórdão n° 3402003.110, de 22/06/16), em que foi cancelado o auto de infração, por ausência de "elementos objetivos e confiáveis" que autorizassem concluir que todas as mercadorias haviam sido importadas pelo contribuinte em questão. Os argumentos da recorrente não procedem. A recorrente acusou, porém não indicou os números das DI que não teriam sido carreadas aos autos ou indicadas no auto de infração. Ao contrário do que alega, encontramse no auto de infração as datas e os correspondentes valores aduaneiros de cada uma das importações que foram utilizados para cálculo da multa. E, nas fls. 677 a 705, há diversos extratos de DI examinados pela fiscalização. O outro documento de cuja falta acusa a fiscalização "solicitações de numerário" na verdade, segundo declaração prestada à fiscalização pelo Sr. Rodrigo Farias, sócio da CDV, era o instrumento por intermédio do qual eram efetuadas transferências de numerário para a CDV para pagamento de despesas relacionadas às importações, tais como, tributos, taxa Siscomex e "comissão trading". Segundo relato constante no Termo de Verificação Fiscal (fls 43 e 44), de posse de tal informação, a fiscalização solicitou à recorrente os que teriam sido emitidos contra ela, por meio dos Termos de Intimação n° 7 ao 10. A recorrente, todavia, ignorouos. Fl. 1578DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.579 13 Diante disto, a fiscalização continuou suas investigações e identificou em outros documentos menções às "solicitações de numerário", quais sejam, nas próprias DI (campo destinado a dados complementares) e notas fiscais de venda da CDV para a recorrente. Enfim, para a fiscalização, a ocorrência de tais transferências de recursos converteuse em uma das provas indiciárias que contribuíram para a formação da convicção acerca do cometimento da infração de ocultação do real adquirente dos produtos importados. E a conclusão baseouse no resultado da inspeção dos citados documentos, aos quais faz referência no Termo de Verificação Fiscal. Isto posto, para fundamentação de seu posicionamento, não se mostrou necessária a juntada de todas as "solicitações de numerário" mesmo porque, com bem sabe a recorrente, a fiscalização não as obteve, pois os respectivos Termos de Intimação não foram respondidos . E sua falta em nada prejudicou o pleno exercício do direito de defesa. Assim sendo, nego provimento às preliminares. I 2 Mérito Abaixo, apresento sumário dos argumentos contidos em cada um dos tópicos do recurso voluntário do sujeito passivo principal: II 2.a) "Com respeito ao fundamento jurídico e fático do lançamento:" não houve importação por encomenda, mas, no máximo, compra por encomenda. As importações e vendas seguiam os contornos normais de operações com flores de corte, altamente perecíveis, A recorrente desconhecia o fato de a CDV não possuir estabelecimento armazenador e imaginava que operava segundo a legislação. II 2.b) "Conceito de dano ao erário / ausência de dolo:" não foi comprovado dolo, o que seria necessário para a aplicação da pena de perdimento. Como indícios abonadores: a CDV e a recorrente não têm sócios comuns ou que mantenham laços estreitos; e mantém suas obrigações fiscais em dia. "Mercadoria não sujeita ao IPI na saída do estabelecimento importador – inocorrência de quebra da cadeia:" não houve a apontada quebra da cadeia do IPI. A mercadoria importada não é submetida a processo de industrialização, para que houvesse incidência do IPI na segunda operação. II 2.c) "O desconhecimento da lei:" a recorrente não tinha conhecimento sobre possíveis burlas às exigência legais cometidas pela CDV. II 2.d) "Penalidade aplicada irredutibilidade, proporcionalidade e razobilidade. A multa de 1%:" : deveria ter sido aplicada a multa de 1% por falta de informação na DI e não a pena de perdimento, uma vez que não havia qualquer objetivo fraudulento ou malicioso. II 2.e) "Sobre a teoria do domínio do fato:" sob pena de ser temerária, não dispensa o dolo. II 2.f) "Provas:" o ônus da prova é da autoridade fiscal que lavra auto de infração para cobrança da pena de perdimento. Contudo, os argumentos concentraramse na Fl. 1579DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.580 14 CDV e se restringem aos adiantamentos de recursos, sem reunião de indícios que atestassem qualquer conduta reprovável da recorrente. Da leitura dos autos, concluí que realmente houve ocultação do real adquirente das mercadorias pela CDV Exportação, Importação e Comércio Ltda. EPP, qual seja, a Comercial de Rosas Weyh Ltda. ME, sendo aplicável à última a pena de perdimento das mercadorias importadas, convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, uma vez que não foi possível a apreensão dos produtos. E destaco, do minucioso trabalho de auditoria fiscal, fatos que, robustecidos por provas indiciárias, convenceramme de que, de fato, não houve importação direta pela CDV, porém a conta e ordem da Comercial de Rosas: i) a cobrança pela CDV à Comercial de Rosas de comissão por serviços de comércio exterior; ii) o resultado financeiro apurado pela Comercial de Rosas, negativo ou insuficiente para fazer frente aos demais gastos com uma operação usual de importação e revenda e ainda gerar lucros para seus sócios; iii) nos testes aplicados pela fiscalização, emergiu adiantamento de recursos da Comercial de Rosas para a CDV, para pagamento de despesas com importação, em relação ao qual, posteriormente, não houve emissão de nota fiscal de venda pela CDV ou qualquer prestação de conta, o que evidencia que a Comercial de Rosas era a real importadora; iv) omissões e incorreções nas escritas contábeis da CDV e da Comercial de Rosas, não esclarecidas pelas recorrentes, assim sintetizadas no Termo de Verificação Fiscal (fl. 79): 1. No dia da transferência de fato de valores da COMERCIAL ROSAS à CDV, é realizado um lançamento simulado como se o mesmo valor saísse do banco e fosse para o caixa, onde não é mais possível verificar o destino de fato do dinheiro. Na verdade este valor era transferido da conta bancária da COMERCIAL DE ROSAS para a conta bancária da CDV 2. No caixa, o valor real não saia no mesmo dia ou em qualquer outro. Nesse momento, sem a saída contábil deste valor, o caixa estaria com sobra de valores. 3. Para abater a sobra de valores, há outro lançamento simulado. A conta CAIXA, conta devedora do ATIVO , é creditada em contra partida do débito da conta de Resultado “Compra de Mercadoria”, nos valores e datas das Notas Fiscais 4. Conforme exaustivamente comprovado nos autos as transferências de fato não guardam relação com as Notas Fiscais, pois não houve venda de fato no mercado interno, houve simulação, na tentativa de omitir os adiantamentos de recurso. Sendo assim, da análise da escrituração contábil da COMERCIAL DE ROSAS , constatouse os adiantamentos de recursos feito a CDV. Ainda comprovouse que para os anos de 2011 e 2012 a COMERCIAL DE ROSAS tentou dissimular o adiantamento de recursos enviados à CDV. Diante desta análise contábil, comprovase novamente que a COMERCIAL DE ROSAS é a real adquirente oculta das flores importadas pela CDV. Fl. 1580DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.581 15 Com efeito, sobre o segundo fato, cumpre destacar que os responsáveis solidários, em sua defesa, apontam supostos erros na conclusão fiscal. Aduzem que a margem de lucro era de 15,8 % e que a fiscalização teria mencionado como custos tributos recuperáveis, como o PIS/COFINS Importação. Ademais, que em uma operação a conta e ordem teria pago mais PIS/COFINS, que incidiriam sobre o serviço, do que na efetivamente realizada. Informa que a margem de lucro seria de 15,8%, porém não apresenta cálculos, suportados por documentação fiscal. Isto é, alegou, mas não provou. Ademais, a fiscalização computou os tributos aduaneiros, porque os incidentes sobre a venda também no respectivo valor foram incluídos, para fins de comparação entre custo e receita com venda. E a alegação de que teria pago mais PIS/COFINS, caso realmente as importações tivessem sido a conta e ordem, em nada influencia o tema em discussão (margem de lucro negativa ou insuficiente). Para enfrentamento direto e mais específico, com inserção das provas e bases legais que motivaram o lançamento, transcrevo trechos da bem elaborada decisão recorrida (fls. 1.244 a 1.296), dos quais faço minhas razões de decidir (§1° do art. 50 da Lei n° 9.784/99): "DO FUNDAMENTO JURÍDICO E FÁTICO DO LANÇAMENTO Cuidase neste processo da apreciação de litígio instaurado relativamente à ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros, infração definida como dano ao Erário e punível com o perdimento das mercadorias. O DecretoLei nº 1.455/1976, com as alterações da Lei nº 10.637/2002 e da Lei nº 12.350, de 20 de dezembro de 2010, capitulando suas hipóteses de ocorrência de forma taxativa, dispõe, verbis: Art. 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: (...) V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) (o negrito não pertence ao original) § 1º O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) § 2º Presumese interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a nãocomprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) § 3º A pena prevista no § 1º convertese em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria que não seja localizada ou que tenha sido consumida. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) § 3º As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva Fl. 1581DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.582 16 nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972 (Redação dada pela Lei nº 12.350, de 20/12/2010) (...) Conforme acima transcrito, o art. 23 do DecretoLei nº 1.455/1976, define as infrações que representam dano ao Erário. Com o acréscimo, proporcionado pelo art. 59 da Lei nº 10.637/2002, do inciso V e de quatro novos parágrafos, positivouse a interposição fictícia de pessoas no âmbito do chamado direito aduaneiro. Com a edição da Lei nº 10.637/2002 passouse a penalizar a interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior com o perdimento da mercadoria, se constatada a ocultação do sujeito passivo, na condição de real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação (art. 23, V e § 1º); inclusive, presumindo fraude a não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados naquelas operações (art. 23, § 2º). Inferese também que a utilização de interpostas pessoas é apurada por ação direta ou indireta; por ação direta se o Fisco comprovar a ocultação fraudulenta ou simulada, mediante o rastreamento da fonte dos recursos aplicados na operação de comércio exterior, ocasião em que restará concretamente identificada a pessoa física ou jurídica responsável; por ação indireta se o importador ostensivo não comprovar a origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na operação de importação que figura como declarante. A depender da situação fática observada, o Fisco pode adotar uma das duas retrocitadas modalidades, sendo que na direta primeira o ônus de provar quem de fato é o real sujeito passivo da respectiva relação jurídica recai sobre o Fisco; já a segunda hipótese decorre da presunção legal de interposição fraudulenta de terceiros, circunstância jurídica na qual o legislador, invertendo o ônus, impôs ao importador ostensivo a obrigatoriedade provar a origem, disponibilidade e a transferência dos recursos utilizados nas operações de comércio exterior, partindose do princípio que quem não possui recursos somente pode estar operando em nome de terceiros ocultos. A situação fática delineada no lançamento tributário de que tratam os presentes autos é a ocultação, mediante simulação, da pessoa jurídica Comercial de Rosas Weyh Ltda. ME, acusada de ser a real adquirente das mercadorias importadas, cujo despacho aduaneiro de importação foi instruído com documentos que informam como importadora a empresa CDV Exportação, Importação e Comércio Ltda. EPP. DO CONCEITO DE DANO NO DIREITO ADUANEIRO De início, invoco o seguinte brocardo jurídico: “O que o legislador não restringe não cabe ao interprete fazêlo”. O caput do art. 23 do DecretoLei n° 1.455/1976, define como “dano ao Erário” um rol de condutas descritas ao longo de seus cinco incisos. Num deles o legislador estabeleceu uma presunção e dessa presunção decorre a inversão do ônus da prova. Assim, para a consumação do ilícito é suficiente a conduta omissiva por parte do infrator, sendo desnecessária a demonstração da burla aos controles aduaneiros, a Fl. 1582DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.583 17 intenção do infrator e tampouco a descrição de ganho ou vantagem auferidos, por parte do Fisco. O requisito da comprovação pelo importador/exportador da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados em operações de comércio exterior pode ser interpretado de dois modos: (i) uma inversão do ônus da prova determinada pelo próprio legislador; e (ii) outro requisito a ser demonstrado pelo importador/exportador para poder usufruir do seu direito de operar no comércio exterior, com, a título de exemplo, sua habilitação no Sistema Radar. De se ver que a interposição fraudulenta de terceiros é um ilícito que não exige a constatação de um dano efetivo material, por se tratar de infração que basta para a sua configuração a mera conduta da ocultação do sujeito passivo para a sua configuração, na medida em que a citada norma descreve uma ação que a própria lei tratou de considerar um dano ao Erário. Logo, a ocultação do sujeito passivo por si só já configuraria o ilícito, independentemente de qualquer resultado, uma vez que tal conduta implica na burla aos controles aduaneiros, ao não identificar pessoa ou empresa responsável pela importação ou exportação perante os órgãos competentes da administração do comércio exterior, sendo justamente essa a fraude ou simulação que o texto do inciso se refere, consoante dispõe o art. 72 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964. Em assim sendo, não precisa a fiscalização aduaneira apurar ou apontar qualquer ganho efetivo auferido por aqueles que perpetraram a ocultação do sujeito passivo. Corroborando esse entendimento, temse o CTN, que ao preceituar a aplicação de sanção por infrações tributárias, utilizase a expressão “independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato”, ou seja, desconsidera a intenção do agente ou responsável como pressuposto para a aplicação da punição, assim como dispensa a comprovação dos efeitos e extensão dos danos à Fazenda Pública. Assim, a alegada boafé, ainda que preponderante, por força do art. 136 do CTN, não tem o condão de afastar a responsabilidade por infrações da legislação tributária, pois o que o legislador consagra é a responsabilidade objetiva por atos infracionais tributários, dispensando a Fazenda Pública de perquirir fatos comprovadores da presença do dolo ou da culpa e elementos de materialidade efetiva para aplicar a sanção correspondente. Isto porque na seara do direito tributário, existe uma estrutura na qual se estabelece uma norma ensejadora da obrigação tributária, cujo não cumprimento por si só acarreta sanções. Compreender de modo diverso, afora os motivos já expostos, seja pelo ótica da inversão do ônus da prova atribuído pelo legislador, seja por ser essa mais uma condição necessária para operar no comércio exterior, é alijar a fiscalização aduaneira de instrumental fundamental para coibir crimes de “lavagem de dinheiro” em operação de comércio exterior, sobretudo por que exigiria a comprovação de que os recursos que a financiam é ilícito, fruto de crime antecedente, função que escapa às competências da Receita Federal do Brasil. A depender dessa comprovação, a fiscalização aduaneira simplesmente estaria impedida de agir em um campo de atuação que o próprio legislador reconheceu como sensível à área penal, conforme a Lei nº 9.613, de 3 de março de 1998 (art. 1º, § 1º, III), que dispõe, dentre outras providências, sobre os crimes de “lavagem” ou Fl. 1583DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.584 18 ocultação de bens, direitos e valores, tanto que redigiu o art. 23, § 2º, do DecretoLei n° 1.455/196 no formato em que encontrase. Portanto, a prática da interposição fraudulenta de terceiros consumase com a identificação do sujeito passivo oculto, transmutando, in casu, a situação do declarante de contribuinte, em face de uma operação de importação direta (convencional), para de responsável solidário, por figurar como sujeito passivo interposto, em uma operação por conta e ordem. Por oportuno, agreguese ainda a esta linha de raciocínio o julgado contido na Apelação em Mandado de Segurança n° 2001.72.03.0009910/SC, verbis: Origem: TRIBUNAL QUARTA REGIÃO Classe: APELAÇÃO EM MANDADO DE SEGURANÇA. MS nº 2001.72.03.0009910/SC: "Devese ter presente que dano ao erário não se configura unicamente pelo nãorecolhimento de tributos. Em matéria de controle aduaneiro, a questão não se limita aos aspectos tributários, pois a atividade alfandegária ultrapassa em muito a mera questão tributária "... não é certo considerar o Direito Aduaneiro como um ramo do Direito Fiscal. É, sim, ramo independente que com aquele não se confunde, pois não lida apenas com o fenômeno impositivo, mas sobretudo com a complexa e variada gama de fenômenos que caracterizam o comércio internacional, tanto do ponto de vista da regulação quanto do controle estatal exercido "(ob. cit. p. 52). E, como nos parece óbvio, a identificação do importador e a certeza sobre a regularidade de sua constituição e existência são aspectos que influem diretamente no controle da regularidade da própria importação, envolvendo aspectos de relevância maior, como a identificação da origem do capital empregado para a importação, a certeza da destinação das mercadorias (evitandose a importação com interposição de terceiros), o que se insere no contexto amplo da cooperação internacional no combate às fraudes aduaneiras e ao contrabando, à lavagem de dinheiro. Deste modo, a ausência de um débito tributário não importa na regularidade da importação. Deve ser declarada a legalidade da atuação da autoridade impetrada em interromper o desembaraço aduaneiro, conforme vem decidindo esta Corte." (grifos não pertencem ao original) (. . .) DA IRREDUTIBILIDADE DA PENALIDADE Reprisando, ressalto uma vez mais que a atividade administrativa do lançamento é obrigatória e vinculada, sob pena de responsabilidade funcional art. 142, § único, do CTN. Neste contexto, a autoridade fiscal não pode eximirse de cumprir seu dever legal quanto à aplicação da penalidade/multa no exato quantum previsto em lei, é o que dispõe o art. 97, inciso VI, do CTN, ao, a contrário senso, vedar à autoridade administrativa competente a prerrogativa de dispensar ou a reduzir penalidades sem previsão legal, verbis: Art. 97. Somente a lei pode estabelecer: (...) VI as hipóteses de exclusão, suspensão e extinção de créditos tributários, ou de dispensa ou redução de penalidades. Fl. 1584DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.585 19 Portanto, assentir com a pretendida redução da multa do percentual de 100% para 1% do valor aduaneiro das flores importadas, sem que para isso haja previsão legal, implicaria sustentar que a vontade da autoridade administrativa sobrepõese à da norma legal, redundando, dessa maneira, na alteração da própria obrigação tributária, em afronta ao princípio da legalidade. Anota José Afonso da Silva, ao citar Hely Lopes Meirelles, sobre legalidade e atividade administrativa, ipsis litteris: (...) Lembra Hely Lopes Meirelles que “a eficácia de toda a atividade administrativa está condicionada ao atendimento da lei”. “Na administração pública”, prossegue, “não há liberdade nem vontade pessoal. Enquanto na administração particular é lícito fazer tudo que a lei não proíbe, na Administração Pública só é permitido fazer o que a lei autoriza. A lei para o particular significa pode fazer assim; para o administrador significa deve fazer assim”. (SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo, 9ª ed., Malheiros, São Paulo, 1996, pág. 373) Ainda, ao discorrer sobre atos vinculados, Hely Lopes Meirelles ensina, ipsis litteris: Nessa categoria de atos, as imposições legais absorvem, quase que por completo, a liberdade do administrador, uma vez que sua ação fica adstrita aos pressupostos estabelecidos pela norma legal para a validade da atividade administrativa. (MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro. 17ª edição, atualizada por Eurico de Andrade Azevedo, Délcio Balesteiro Aleixo e José Emmanuel Burle Filho. São Paulo: Malheiros, 1992, pg. 149) Ressaltese que o presente julgamento também se trata de ato administrativo cuja atividade é plenamente vinculada e, assim, cingese aos ditames legais aplicáveis à espécie, o que impede a adoção de quaisquer orientações doutrinárias ou jurisprudenciais que, fundadas em argumentos de razoabilidade ou proporcionalidade, propugnam a redução ou dispensa de multas. Isso porque a exclusão ou redução de penalidade, constituindose situação excepcional, eis que desobriga que a autoridade administrativa pratique uma atividade vinculada e obrigatória, deve ser feita apenas nas hipóteses expressamente determinadas em lei, sem o que poderseia aventar a esdrúxula hipótese de a atividade ora exercida comportaria discricionariedade, quando não é. DA PROPORCIONALIDADE E RAZOABILIDADE No que concerne aos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, o seu emprego pela instância julgadora administrativa não vai a ponto de autorizar a dispensa ou redução de multas, quando expressas na lei em valor ou percentual único, sem que haja expressa previsão legal para graduação da penalidade dentro de uma faixa variável de valor, a ser fixado em cada caso pela autoridade competente, levandose em consideração certos critérios, tais como natureza ou às circunstâncias materiais do fato ou extensão dos seus efeitos. Demais disso, a norma penaltributária em comento não confere contorno de discricionariedade à autoridade administrativa lançadora ou julgadora e no tocante à dosimetria da penalidade, sendo bastante que se caracterize a situação descrita na lei para que cabia a incidência e consequente aplicação da multa no percentual previsto, razão pela qual a matéria em trato não comporta alegação de ofensa ao princípio da razoabilidade e proporcionalidade. Fl. 1585DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.586 20 É impossível a esse colegiado realizar qualquer exame acerca da proporcionalidade entre o fato infracional e o valor da multa aplicável, porquanto, como visto, a autoridade administrativa não pode apossarse da competência do legislador para modificar o quantum definido na lei, pois citado juízo de proporcionalidade foi exercido pelo legislador ao aprovar a lei fixando, in casu, o valor da multa, cuja revisão cabe ao próprio Poder Legislativo ou, em caso de inconstitucionalidade, ao Poder Judiciário, estando a autoridade administrativa fora da esfera de competência, cabendolhe tãosomente aplicar a lei. DA MULTA DE UM POR CENTO SOBRE O VALOR ADUANEIRO O art. 711 do Regulamento Aduaneiro Decreto n° 6.759/2009 assim dispõe, verbis: Art. 711. Aplicase a multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria (Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 84, caput; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 69, § 1º): I classificada incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul, nas nomenclaturas complementares ou em outros detalhamentos instituídos para a identificação da mercadoria; II quantificada incorretamente na unidade de medida estatística estabelecida pela Secretaria da Receita Federal do Brasil; ou III quando o importador ou beneficiário de regime aduaneiro omitir ou prestar de forma inexata ou incompleta informação de natureza administrativo tributária, cambial ou comercial necessária à determinação do procedimento de controle aduaneiro apropriado. § 1º As informações referidas no inciso III do caput, sem prejuízo de outras que venham a ser estabelecidas em ato normativo da Secretaria da Receita Federal do Brasil, compreendem a descrição detalhada da operação, incluindo (Lei nº 10.833, de 2003, art. 69,§ 2º): I identificação completa e endereço das pessoas envolvidas na transação: importador ou exportador; adquirente (comprador) ou fornecedor (vendedor), fabricante, agente de compra ou de venda e representante comercial; II destinação da mercadoria importada: industrialização ou consumo, incorporação ao ativo, revenda ou outra finalidade; III descrição completa da mercadoria: todas as características necessárias à classificação fiscal, espécie, marca comercial, modelo, nome comercial ou científico e outros atributos estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil que confiram sua identidade comercial; IV países de origem, de procedência e de aquisição; e V portos de embarque e de desembarque. § 2º O valor da multa referida no caput será de R$ 500,00 (quinhentos reais), quando do seu cálculo resultar valor inferior, observado o disposto nos §§ 3º a 5º (Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 84, § 1º; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 69, caput). Fl. 1586DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.587 21 § 3º Na ocorrência de mais de uma das condutas descritas nos incisos do caput, para a mesma mercadoria, aplicase a multa somente uma vez. § 4º Na ocorrência de uma ou mais das condutas descritas nos incisos do caput, em relação a mercadorias distintas, para as quais a correta classificação na Nomenclatura Comum do Mercosul seja idêntica, a multa referida neste artigo será aplicada somente uma vez, e corresponderá a: I um por cento, aplicado sobre o somatório do valor aduaneiro de tais mercadorias, quando resultar em valor superior a R$ 500,00 (quinhentos reais); ou II R$ 500,00 (quinhentos reais), quando da aplicação de um por cento sobre o somatório do valor aduaneiro de tais mercadorias resultar valor igual ou inferior a R$ 500,00 (quinhentos reais). § 5º O somatório do valor das multas aplicadas com fundamento neste artigo não poderá ser superior a dez por cento do valor total das mercadorias constantes da declaração de importação (Lei nº 10.833, de 2003, art. 69, caput). § 6º A aplicação da multa referida no caput não prejudica a exigência dos tributos, da multa por declaração inexata de que trata o art. 725, e de outras penalidades administrativas, bem como dos acréscimos legais cabíveis (Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 84, § 2º). (grifos não pertencem ao original) A Instrução Normativa SRF nº 680, de 2 de outubro de 2006, que disciplina o despacho aduaneiro de importação, estabelecendo que este será processado, pelo importador, com base em declaração formulada no Sistema Integrado de Comércio Exterior Siscomex dispõe, verbis: IN SRF nº 680/2006 (...) Art. 4º A Declaração de Importação (Dl) será formulada pelo importador no Siscomex e consistirá na prestação das informações constantes do Anexo de acordo com o tipo de declaração e a modalidade de despacho aduaneiro. (...) Anexo Único INFORMAÇÕES A SEREM PRESTADAS PELO IMPORTADOR 1 Tipo de Declaração Conjunto de informações que caracterizam a declaração a ser elaborada, de acordo com o tratamento aduaneiro a ser dado à mercadoria objeto do despacho, conforme a tabela "Tipos de Declaração", administrada pela SRF. 2 Tipo de Importador Identificação do tipo de importador: pessoa jurídica, pessoa física ou missão diplomática ou representação de organismo internacional. 3 Importador Identificação da pessoa que promova a entrada de mercadoria estrangeira no território aduaneiro. Fl. 1587DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.588 22 4 Caracterização da Operação Indica se a importação é própria ou por conta e ordem de terceiros. 5 Adquirente da Mercadoria Identificação do adquirente da mercadoria no caso de importação por conta e ordem de terceiros. (...) (grifos não pertencem ao original) No entanto, não obstante o art. 711 do RA/2009 ter também natureza claramente punitiva, por impor penalidade equivalente a um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria nos casos em que “o importador (...) omitir ou prestar de forma inexata ou incompleta informação de natureza administrativotributária, cambial ou comercial”, dentre tantas, a não indicação “se a importação é própria ou por conta e ordem de terceiros” e, por conseguinte, não identificar “o adquirente da mercadoria no caso de importação por conta e ordem de terceiros”, por se tratar de informação de extrema importância, por ser “necessária à determinação do procedimento de controle aduaneiro apropriado”, verdade é que referida norma tributária penal tem por escopo punir infrações decorrentes de erro, negligência ou imperícia do declarante, portanto, meros equívocos no preenchimento da declaração de importação. Diferentemente das hipóteses mencionadas na norma em comento, o caso sob exame visa coibir a prática de condutas fraudulentas evidenciadas em documentos básicos, aptos para concretizar e/ou instrumentalizar uma operação importação, que, consoante o caput do art. 23 do DecretoLei n° 1.455/1976, importam em “dano ao Erário” e impõe, por conseguinte, aplicação da pena do perdimento. Tanto que o antes transcrito § 6º do art. 711 do RA esclarece que sua “aplicação (...) não prejudica a exigência (...) de outras penalidades administrativas”. Como se depreende, o presente fato imponível não se subsume e/ou corresponde à norma prescrita no art. 711 do RA/2009, portanto, incabível acatar qualquer pretensão no sentido de substituir a penalidade do art. 23 do DecretoLei n° 1.455/1976 por aquela (art. 711 do RA/2009). (. . .) DA INTERMEDIAÇÃO EM OPERAÇÕES DE COMÉRCIO EXTERIOR É fato que para se concentrarem em suas atividadesfim, as empresas lançam mão da terceirização de suas atividadesmeio, objetivando a eficiência de suas operações. No âmbito do comércio exterior não é diferente; as empresas que nele operam, ao terceirizarem as atividades burocráticas relativas ao processo de importação, tais como obtenção de licenças, registros de declarações, etc., podem voltarse, com maior eficiência, às atividades dispostas em seus objetos sociais. Esse tipo de atuação, em que a operação de importação é realizada a pedido de terceira pessoa, caracteriza uma intermediação, que o legislador denominou interposição. A prática da interposição nas operações de importação, antes de 2001 era amplamente utilizada no Brasil, por não existir, à época, vedação ou restrição expressa pela legislação. As empresas a utilizavam amparadas nos princípios constitucionais da livre iniciativa e da legalidade, sem objetivar qualquer vantagem tributária. A única e suficiente vantagem obtida por elas era a terceirização em si mesma. Fl. 1588DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.589 23 Contudo, percebeuse que, ao mesmo tempo em que muitas empresas usavam a interposição sem objetivos ilícitos e/ou tributários, outras usavamna de forma a fraudar o Fisco e os controles governamentais, bem como usavamna visando à elisão tributária, à economia de tributos, ainda que sem fraude fiscal. Com esse intuito, no bojo das reformas implementadas nos controles aduaneiros das operação de comércio exterior, propiciada com a instituição do sistema informatizado Radar pela Secretaria da Receita Federal do Brasil RFB visou exercer um controle absoluto em relação à todas as empresas que importam e exportam no País, que trata de um cadastro informatizado de modo a exercer um monitoramento constante sobre todas as pessoas jurídicas que atuam no comércio exterior. Portanto, passouse a exigir habilitação no referido sistema a todo aquele que pretende importar e/ou exportar no Brasil. Contudo, na importação, o monitoramento da pessoa jurídica não cessa com sua habilitação no sistema Radar. Ela se estende à modalidade de importação adotada. Para tanto a legislação define três modalidades de importação: (i) direta disciplinada pelo DecretoLei n° 37/1966 e regulamentada pela Instrução Normativa SRF n° 680/2006; (ii) por “conta e ordem” disciplinada pelos arts. 80 e 81 da Medida Provisória n° 2.158/200135 e art. 29 da Medida Provisória n° 66/2002, regulamentada pela Instrução Normativa SRF nº 225/2002, com definição jurídica dada pelo art. 27 da Lei n° 10.637/2002, verbis; Art. 27. A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste, para fins de aplicação do disposto nos arts. 77 a 81 da Medida Provisória n° 2.15835, de 24 de agosto de 2001. (iii) por “encomenda” disciplinada e juridicamente definida pelo art. 11 da Lei nº 11.281/2006 e regulamentada pela Instrução Normativa SRF nº 634/2006, verbis; Art. 11. A importação promovida por pessoa jurídica importadora que adquire mercadorias no exterior para revenda a encomendante predeterminado não configura importação por conta e ordem de terceiros. Portanto, a pessoa jurídica que pretender importar no Brasil, com fins comerciais, além de estar habilitada no sistema informatizado Radar, deve enquadrarse necessariamente em uma dessas três modalidades. Considerando que a não existe uma definição legal, estanque, para a importação direta, para não se correr o sério risco de fazêla incompleta ou até mesmo imperfeita e assim confundir mais do que auxiliar, tomase o caminho mais seguro. Se tanto a importação por “conta e ordem” como a importação por “encomenda” possuem definições precisas dada pela lei e se apenas existem três modalidades e possibilidades de importação no Brasil, valhome do critério da complementaridade para se estabelecer que aquilo que não for importação por “conta e ordem” e importação por “encomenda” será, portanto, uma importação direta. De modo simples e direto as modalidades de importação por “conta e ordem” e importação por “encomenda”, tanto uma quanto outra, nada mais são do que Fl. 1589DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.590 24 formas permissivas pela legislação para a prática de interposta pessoa em operações de importação. Essa significação, para precisar os devidos contornos da importação por “conta e ordem” e da importação por “encomenda” na legislação aduaneira, embora singela, revela efeitos concretos ao ser confrontada com o art. 23, V, do DecretoLei n° 1.455/1976. O fato é que a disposição: Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias... V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros, defini a priori como ilícita a prática de interposição de pessoas no comércio exterior. Logo, o próprio texto de lei, e é salutar que se reafirme isso, inverte para a seara aduaneira a presunção de licitude da prática de interposição de pessoas. Assim, a única forma de exercer a prática de interposição de pessoas no comércio exterior é através dessas duas modalidades importação por “conta e ordem” e importação por “encomenda”. Contudo, para tanto, é absolutamente necessário que o importador proceda de acordo com a legislação aplicável, seguindo estritamente os ditames determinados pela RFB, sob pena de burla aos controles aduaneiros. Sendo assim, no caso em que determinada pessoa jurídica declara que realizou uma importação na modalidade direta e a fiscalização constata tratarse de importação por “conta e ordem” ou por “encomenda” por se enquadrarem nas hipóteses legalmente definidas, tanto uma quanto a outra, o referido importador incorrerá na hipótese infracional prevista no art. 23, V, do DecretoLei n° 1.455/1976. DA MODALIDADE DE IMPORTAÇÃO ADOTADA As três modalidades de importação definidas pela legislação guardam relação direta com a destinação da mercadoria importada. Na importação direta, o destinatário da mercadoria importada é o próprio importador, para revendêla, ou para consumo próprio, na importação por “conta e ordem”, o destinatário da mercadoria importada é o adquirente, por força de contrato firmado antes da importação e na importação por “encomenda”, o destinatário da mercadoria importada é o encomendante, por qualquer espécie de acordo firmado antes da efetivação da operação importação. Portando, o que se percebe é que na importação direta a “revenda” é para qualquer interessado, ou seja, para uma pessoa não predeterminada, enquanto que nas importações por “conta e ordem” e por “encomenda” a “revenda” é para terceiro predeterminado, o comprador definido antes da data do registro da declaração de importação. Outra premissa, para se definir qual modalidade de importação adotada, é verificar se a revenda das mercadorias adquiridas no mercado externo se destinam a pessoa predeterminada ou não. Nesse caso, se a resposta ao questionamento for negativa, a modalidade de importação é a direta; porém, se a resposta for afirmativa, cabe ainda averiguar quem financiou e/ou aportou os recursos utilizados para sua aquisição; se o referido aporte for proveniente do destinatário da mercadoria a importação é “conta e ordem”; porém, se daquele que importa a importação é por “encomenda”. Fl. 1590DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.591 25 Essa premissa decorre justamente do objetivo almejado pela RFB quando visa obter absoluto controle sobre o destino de todas mercadorias e bens importados por empresas nacionais. Portanto, aquele que é destinatário de mercadoria importada, já conhecido no momento do registro declaração de importação, deve obrigatoriamente ser informado, sob risco de configurar, tal qual o caso sob exame, a prática de interposição fraudulenta de terceiros, haja vista a conduta tendente a burlar os controles aduaneiros. DAS PROVAS Os principais elementos de prova que balizaram a acusação fiscal são os a seguir sintetizados: 5ª alteração do Contrato Social da CDV Exportação, Importação e Comércio Ltda., arquivada na Junta Comercial de São Paulo sob o nº 0.621.114/110, consta que (i) referida sociedade empresária mudouse para a avenida Dr. José Bonifácio Coutinho Nogueira nº 214, 2º andar, conjunto 231, no Jardim Madalena, em Campinas SP, CEP 13901611, (ii) ambos sócios, Rogério Sarmento Pessoa e Leandro Ribas Pessoa, respondem pela administração da sociedade, (iii) dentre outros, o objeto social da sociedade é a consultoria e assessoria nas áreas de importação e exportação e (iv) o capital social integralizado é de R$ 100.000,00 divididos em 10.000 quotas (fls. 208 a 241); notas fiscais emitidas pela Companhia Paulista de Força e Luz CPFL informam que no endereço sito à avenida Dr. José Bonifácio Coutinho Nogueira nº 214, nos conjuntos 214 a 231, funciona também outra empresa do Grupo CDV, denominada CDV Factoring e Fomento Mercantil Ltda. (fls. 178 a 205); resposta aos Termos nº 08 e 09, a Kuehne+Nagel Serviços Logísticos Ltda., ao preencher a planilha encaminhada pela fiscalização, informa os pagamentos de frete aéreo realizados pela Comercial de Rosas Weyh Ltda. a seu favor (fls. 1000 e arquivo não paginável, em anexo), informações corroboradas pelos comprovantes bancários de recebimento de valores “Movimentação de Títulos” do Banco Itaú S/A (fls. 744 a 875); planilha excel contendo os dados completos das 399 (trezentos e noventa e nove) DI registradas pela CDV, cujo real adquirente (oculto) é a Comercial de Rosas Weyh, cujas informações foram extraídas do DW Aduaneiro, que dentre outras, confirmando que o valor CIF, em reais, das flores importadas totaliza R$ 3.247.285,00 (fls. 998 e arquivo não paginável, em anexo); planilha excel contendo os dados extraídos das notas fiscais eletrônicas das operações da CDV com a Comercial de Rosas Weyh, cujas informações foram importadas do Sistema Contágil (fls. 1001 e arquivo não paginável, em anexo); planilha excel contendo os dados extraídos das notas fiscais eletrônicas das operações da CDV com a Comercial de Rosas Weyh, cujas informações foram importadas do Sistema Contágil, com o “batimento” entre as informações constantes das DI registradas pela CDV com as notas fiscais de saída emitidas contra a Comercial de Rosas Weyh (fls. 995 e arquivo não paginável, em anexo); planilha excel contendo os dados contábeis da CDV, extraídos do sistema Sped referentes às operações da CDV com a Comercial de Rosas Weyh, relativamente às contas 1.1.1.01.001 Caixa, 1.1.2.09.024 Adiantamento Importação, 1.1.2.01.001 Duplicatas a Receber, 1.1.2.05 Estoques, 2.1.1.01.008 Fl. 1591DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.592 26 Adiantamento de Clientes, 2.1.3.02 Fornecedores Estrangeiros e 3.1.1.01.002 Vendas de Mercadorias, dos anos de 2010 a 2012, cujas informações foram importadas do Sistema Contágil, com o “batimento” entre as informações constantes das DI registradas pela CDV com as notas fiscais de venda à Comercial de Rosas Weyh (fls. 996 e arquivo não paginável, em anexo); planilha excel contendo os dados bancários entregues pelo banco Bradesco onde consta informado todas as transferências interbancárias (DOC e TED) referentes às operações da CDV com a Comercial de Rosas Weyh, cujas informações foram também importadas do Sistema Contágil (fls. 999 e arquivo não paginável, em anexo). Esses elementos, a princípio indiciários, permitiram que a fiscalização da ALF/Aeroporto Internacional de Viracopos construísse um quadro probatório robusto. Se não vejamos: (i) mercadorias discriminadas nas DI registradas pela CDV são vendidas de uma só vez para uma única empresa; (ii) em diversas ocasiões, a venda ocorria imediatamente ou em datas muito próximas ao desembaraço aduaneiro,segundo demonstram as datas das notas fiscais de saída, emitidas pela CDV, em confronto com as datas das notas fiscais de entrada, emitidas pela Rosas Weyh, evidenciando que a CDV já sabia a quem se destinavam as flores importadas; (iii) as mercadorias depois de desembaraçadas eram encaminhadas imediatamente, do recinto alfandegado, para o estabelecimento da Rosas Weyh, pois não transitavam por qualquer estabelecimento da CDV; (iv) o Grupo CDV é um conglomerado de empresas cuja finalidade precípua é a prestação de serviços de comércio exterior, na medida em que iniciou, em 1995, com a constituição da CDV FACTORING E FOMENTO MERCANTIL LTDA. (1995), em 1998 constitui a CDV CONSULTORIA E SERVIÇOS DE COMÉRCIO EXTERIOR LTDA., em 2001 constitui a CEDVAN CONSULTORIA, ASSESSORIA E CORRETORA DE SEGUROS LTDA., em 2002 a ora autuada, CDV EXPORTAÇÃO, IMPORTAÇÃO, E COMÉRCIO LTDA. EPP e em 2004, por fim, constitui CDV ASSESSORIA E COMISSÁRIA ADUANEIRA LTDA, e se apresenta na rede mundial de computadores como sendo um pool de empresas de "serviços aduaneiros, trading, agenciamento, transporte, corretora de seguros e câmbio"; (v) o senhor Rodrigo Farias, às fls. 486 a 510, ao prestar esclarecimentos à Equipe de Fiscalização EQFIS relata que é analista de importação da CDV, com foco específico à importação de flores. Declara, relativamente à “Comissão da Trading”, que se trata da taxa cobrada pela CDV para realizar os serviços de importação, evidenciando a natureza da CDV como mera prestadora de serviços de importação de mercadorias previamente encomendadas. Ressalta que a “solicitação de numerário” é expediente utilizado para todas as importações e clientes da CDV. Quanto à informação “IMP”, constante no campo “Dados Complementares” de todas as DI objeto desses autos, afirma tratarse de uma referência que tinha por função identificar, na declaração de importação, o real adquirente dos produtos importados, ou seja um instrumento de controle da CDV. Declara que em razão de suas funções de na CDV registro de DI e análise documental, se utilizava de senhas de despachantes aduaneiros, circunstância corroborada pelos despachantes Ronaldo e Edson; Fl. 1592DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.593 27 (vi) ainda de acordo com as declarações do Senhor Rodrigo Farias “todos os clientes da CDV recebiam as Solicitações de Numerário para cobrança dos adiantamentos de tributos, da taxa Siscomex e da comissão Trading”, essa no valor de U$ 450,00, sendo a referência GRU importações realizadas via aeroporto de Guarulhos. Objetivando demonstrar a ocultação da adquirente Rosas Weyh e se reportando às planilhas antes citadas, a fiscalização traz, a título de exemplo,os dados da DI nº 11/18450975, registrada em 29.09.2011 (fls. 677 a 705), em que é possível verificar os valores cobrados de PIS e COFINS R$ 341,04 e R$ 1.570,89, da Taxa Siscomex R$ 244,00, a taxa do dólar 1,8008, resultando numa comissão Trading de aproximadamente R$ 810,36 (U$ 450 x 1,8008). Na mesma data 29.09.2011 a Rosas Weyh transfere à CDV o valor de R$ 2.966,00, mediante a Solicitação de Numerário GRU 2916/11, confirmando assim tratarse de transferência para adiantar os custos de importação da referida DI (R$ 2966,29), cobrados através da Solicitação de numerário GRU 2916/11. Dos dados complementares da citada DI consta a referência à Solicitação de Numerário GRU 2916/11 e o campo IMP”traz o nome da empresa ROSAS WEYH, comprovando assim definitivamente que mencionada operação de importação de flores foi previamente solicitada pela Rosas Weyh, bem como o valor de R$ 2.966,00, transferido no dia do registro da DI era para adiantar os recursos para custear as primeiras despesas desta importação. Outra comprovação de que as operações entre a CDV e a Rosas Weyh não são meras aquisições no mercado interno, mas prestação de serviço de importação da CDV para a empresa adquirente oculta Rosas Weyh advém do cotejo das notas fiscais emitidas por aquela e respectivas declarações de importação das mercadorias vendidas à essa última, conforme se verifica da planilha“AD NOTAS FISCAIS COMERCIAL DE ROSAS WEYH”, juntadas à fl. 1001. Para evidenciar, a título de exemplo, a fiscalização analisou as Notas Fiscais de Saída nº 1553 e nº 1552 emitidas em 30.09.2011, localizadas nas linhas 8 e 9 da citada planilha. A coluna “T” traz o nome do contribuinte emitente das notas, a CDV. A coluna “AD”identifica o participante, a Rosas Weyh. As colunas “W e X”trazem a descrição das mercadorias, onde se observa tratarse de flores. A coluna “AM” quantifica as mercadorias e a coluna “AP” traz o valor da mercadoria. Há um campo na nota fiscal denominado de “Observações”. Este campo se localiza na coluna “AE”. Tratarse de um campo de livre preenchimento do emitente da nota. A CDV utilizou este campo para indicar a respectiva nota de entrada, a DI que acobertou a operação de importação de tais mercadorias e o número da Solicitação de Numerário. No caso da Nota nº 1553 a coluna “AE” traz a seguinte informação: “Informações do fisco: REFERENTE AS NF'S DE ENTRADA NR. 1537 GRU 2916/11 DI: 1118450975”. No caso da Nota nº 1552, a coluna “AE” traz a seguinte informação: “Informações do fisco: REFERENTE AS NF'S DE ENTRADA NR. 1536 GRU 2916/11 DI: 1118450975”, extraído do sistema RFB DW Aduaneiro os dados das DI registradas pela CDV, estes foram exportados para planilha, “DW empresa COMERCIAL DE ROSAS WEYH”, juntada à fl. 998. Da aba “DI's completas”, as linhas 8 e 9 da referida planilha referese à DI nº 11/18450975, onde a coluna “E” traz a unidade, a coluna “F” a quantidade e coluna “Y” a descrição da mercadoria: Maços 3.100 124 CAIXAS COM 3.100 MAÇOS DE GIPSOFILAS CORTADAS / unidade 1.120 06 CAIXAS COM ROSAS CORTADAS. Fl. 1593DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.594 28 Com vista a demonstrar a veracidade das afirmações que faz, a fiscalização compara essas informações com as constantes no mesmo quadro extraído da planilha “MAD NOTAS FISCAIS COMERCIAL DE ROSAS WEYH”, linhas 8 e 9, referente às Notas Fiscais nº 1553 e nº 1552. Ressaltando o fato de que o campo descrição do produto importado na DI como no campo destinado à descrição da mercadoria na Nota Fiscal são campos livres para digitação, é razoável que as informações neles apostas pequenas diferenças.Referidas notas fiscais informam tratarse de comercialização de 1553 MAÇOS 3.100 GIPSOFILAS e 1552 UNIDADE 1.120 ROSAS, respectivamente. Desse confronto de dados resta confirmada a identidade nas quantidades e na descrição das mercadorias transacionadas com a Rosas Weyh através das citadas notas fiscais e, igualmente com as descritas na DI nº 11/18450975. A mesma situação emerge quando a fiscalização realiza o “batimento” para todas as notas fiscais emitidas no decorrer do período fiscalizado/autuado 2011 e 2012, relativamente a toda as notas fiscais de saída endereçadas à Rosas Weyh. Uma vez que o campo “Observações” da planilha “MAD NOTAS FISCAIS ELETRONICAS”traz a DI referente a esta mercadoria, os números das solicitações de numerário, nas quais informam a referência GRU, quando referese ao aeroporto de Guarulhos, VCP, quando referese ao aeroporto de Viracopos e STS, quando referese ao porto de Santos. Confirmada a identidade de informações entre as DI e as Solicitações de Numerário, e essas com as notas fiscais de saída da CDV, a fiscalização realizou o “batimento” dos dados de 2011 e 2012 e, por conseguinte, elaborou a planilha “BATIMENTO DI – NF COMERCIAL DE ROSAS WEYH” (fl. 995), cuja análise permite referendar a conclusão já explanada de que a Rosas Weyh era a real adquirente das flores importadas. Outra constatação que emerge é a proximidade das datas de desembaraço das DI's, corroborando as declarações do senhor Rodrigo Farias, evidenciando, uma vez mais, que as mercadorias seguiam direto do aeroporto para os “clientes” da CDV, demonstrando que tratamse de operações previamente solicitadas pela adquirente de fato Rosas Weyh. Outra circunstância que avaliza a conclusão da fiscalização e confirma a acusação fiscal da comparação do preço das notas fiscais de saída (Coluna “M” da aba Batimento da planilha “BATIMENTO DI –NF COMERCIAL DE ROSAS WEYH”), cujo total é de R$ 3.856.930,50, com os valores CIF de importação (Somatória da Coluna “B” da aba “DI’s Val Adu” da planilha “DW COMERCIAL DE ROSAS WEYH”), cujo total é de R$ 3.247.285,00, dado que praticamente não apresenta lucro nas importações de flores realizadas pela CDV. Se acrescermos ainda os valores dos tributos recolhidos nessas operações R$ 331.1017,24 ao valor CIF das respectivas DI’s chegase ao montante de R$ 3.578.392,24,ou seja, valor muito próximo dos das referidas notas fiscais. Isso sem levar em consideração que numa operação regular outros custos afetam a importação, tais como: despesas com armazenagem, despachantes aduaneiros, ICMS e frete nacional, que somados ao valor CIF das flores, mais os tributos resultaria prejuízo. Portanto, por óbvio, se a CDV agisse como uma genuína empresa importadora das mercadorias em questão, tais operações de importação, dado seu eminente risco, não se efetivavam, ao menos não com esses valores, pois sequer foram levados em consideração os demais dispêndios, tais como: com funcionários, aluguéis, etc.., para obter prejuízo na operação, pois não é crível que uma empresa seja constituída para operar com prejuízo. Fl. 1594DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.595 29 Não bastasse tudo o que já foi evidenciado, convém também atentar para a responsabilidade dos pagamentos do frete aéreo internacional. Exemplificando o que já foi afirmado anteriormente, a fiscalização elaborou a planilha eletrônica com as informações prestadas pela empresa responsável pelo frete aéreo das flores –Kuehne+Nagel Serviços Logísticos (fl. 1000), haja vista que essa informou que diversos pagamentos foram realizados diretamente pela Rosas Weyh, portanto, a verdadeira interessada nas importações, mediante a emissão de boletos bancários (fls. 744 a 875). Como exemplo, segue abaixo trecho do documento “Movimentação de Título” onde é possível verificar que foram emitidos boletos em nome da Rosas Weyh (sacado) com vencimentos em 15.08.2012 nos valores de R$ 5.864,39 e R$ 6.406,27. Destacamos o boleto no valor de R$ 5.864,39. Conforme informado pela responsável pelo transporta aéreo na planilha “FRETES KN”, o mencionado boleto se refere ao pagamento de frete aéreo da DI nº 12/14296728, cuja tela extraída do SiscomexImportação depreendese que o frete aéreo foi de U$ 2.706,04, equivalente, aproximadamente, a R$ 5.864,00. De se ver que, como bem salientado pela fiscalização, o documento apropriado para cobrar o frete aéreo é o Conhecimento de Carga (Air Waybill), que no caso foi emitido em nome do importador de direito, a CDV. Portanto, pela lógica usual/corriqueira, a cobrança deveria recair sobre essa CDV. Do somatório da Coluna “K” da planilha “FRETES KN”, a fiscalização constatou que a Rosas Weyh desembolsou R$ 411.593,05 de frete aéreo diretamente para a Kuehne+Nagel. A fiscalização, não inteiramente satisfeita com o rol de provas já coligidas aos autos, apresenta outros elementos de prova que confirmam não só a infração em si como também a deliberada intenção dos partícipes em ocultar a realidade dos fatos, ipsis litteris: DOS CONTRATOS DE CÂMBIO O Banco Bradesco entregou os contratos de câmbio em atendimento ao RMF n° 0817700.2013.000010 (fls 877 a 932). Os pagamentos aos exportadores de algumas importações das mercadorias“vendidas”à empresa COMERCIAL DE ROSAS WEYH foram realizados, de fato, pela própria empresa COMERCIAL DE ROSAS WEYH através da transferência à CDV do recurso financeiro necessário à liquidação do contrato de câmbio. É o que se constada da análise dos contratos de câmbio e de outros documentos, como os extratos bancários da CDV fornecidos em meio digital pelo banco Bradesco. Essa análise demonstra que a CDV realizou as importações com recursos da empresa ocultada empresa COMERCIAL DE ROSAS WEYH em desacordo com as normas que tratam esse tipo de operação. Conforme já informado neste termo, a fiscalização emitiu RMF (Requisição de Movimentação Financeira) nº 0817700.2013.000010 ao Banco Bradesco e obteve extrato detalhado das contas do Banco Bradesco da CDV. O RMF foi entregue pelo banco nos moldes da Carta Circular BACEN 3.454, o que possibilitou os dados serem exportados para uma planilha excel, juntada aos autos (fl. 999). Da análise desta planilha intitulada “EXTRATO CDV”, verificamos que em 17/10/2011 a empresa COMERCIAL DE ROSAS WEYH transferiu R$ 16.300,00. Da análise das Notas Fiscais da planilha “MAD NOTAS FISCAIS COMERCIAL DE ROSAS WEYH”, verificamos que não há qualquer nota fiscal neste valor. Do cotejamento dos contratos de câmbio entregues pelo Bradesco (fls. 877 a 932), verificouse que estas transferência se deram para fechamento de câmbio referente Fl. 1595DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.596 30 a diversas DI's. Segue abaixo quadro com relação dos contratos de câmbio do dia 17/10/11. (...) Conforme tabela acima, em 17/10/2011 a CDV fechou R$ 15.868,44 em câmbio e recebeu nesta mesma data R$ 16.300,00 da empresa COMERCIAL DE ROSAS WEYH. Comprovase assim que a transferência se deu para o pagamento dos diversos câmbios. A pequena diferença de R$ 432 (2,6%) provavelmente se deve a taxas bancárias que não vem descriminadas nos contratos de câmbio. Segue abaixo, como exemplo, trecho de um dos contratos de câmbio citados na tabela acima, onde verificase a data do câmbio, o valor e as DI’s e respectiva Solicitação de numerário a qual se refere. Ressaltase ainda que no contrato de câmbio há referência ao adquirente oculto, no caso a COMERCIAL DE ROSAS. Ressalta o nome “ROSAS WEYH” no campo “Outras Especificações” do contrato de câmbio, comprovando que este contrato de câmbio se refere às importações da COMERCIAL DE ROSAS WEYH. Todos os contratos mencionados abaixo como exemplo trazem o nome da ROSAS WEYH, confirmando assim que esta era responsável pelo fechamento de diversos câmbios da CDV. DA ESCRITURAÇÃO CONTÁBIL Da análise da escrituração contábil da CDV, constatouse que há provas de que a empresa sabia que receber recursos de clientes nacionais para, então, cobrir despesas decorrentes de operações de importação é irregular, embora a questão não seja saber ou não a legislação, uma vez que não se pode alegar desconhecimento da lei. A questão é que, tendo plena consciência de que adiantamento de recursos poderia caracterizar a ocultação do real adquirente, a CDV tentou dissimular o adiantamento de recursos recebidos da COMERCIAL DE ROSAS WEYH pelas importações que viriam ser realizadas. A contabilidade entregue pelo contribuinte dos anos 2010, 2011 e 2012 foi importada pelo sistema RFB/CONTÁGIL, exportada em planilha eletrônica intitulada “Contabilidade CDV 2010 a 2012 – LANÇAMENTOS COMERCIAL DE ROSAS WEYH” e juntada aos autos (fl. 996). Esta planilha contém abas listadas abaixo que se referem as seguintes contas contábeis: ABA NOME CONTA COD CONTA CONTA Caixa Caixa 1.1.1.01.001 Ativo Banco Banco Bradesco 1.1.1.02.003 Ativo Ad Imp Adiantamento Importação 1.1.2.09.024 Ativo Dup Receb Duplicata a Receber 1.1.2.01.001 Ativo Estoque Estoques 1.1.2.05 Ativo Adi Client Pas Adiantamento de Clientes 2.1.6.01.001 Passivo Fornec Est Fornecedores Estrangeiros 2.1.3.02 Passivo Venda de Merc Vendas de Mercadoria 3.1.1.01.002 Receita Fl. 1596DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.597 31 Da análise de cada aba é possível visualizar o lançamento contábil e sua contrapartida, a data, valor do lançamento, o saldo da conta, o histórico dentre outros dados. O extrato bancário da conta do Bradesco 100072/Ag 3180, conforme já abordado anteriormente foi juntado aos autos na forma de planilha eletrônica intitulada “EXTRATO CDV COMERCIAL DE ROSAS WEYH” ( fl. 999). A conta contábil referente a esta contas bancárias é a conta “BANCO BRADESCO”, Cód 1.1.1.02.003. Da análise da planilha “EXTRATOS CDV”, que retrata a realidade dos valores e datas dos recursos que a COMERCIAL DE ROSAS WEYH transferiu à CDV, passamos a analisar as operações de fato entre a COMERCIAL DE ROSAS WEYH e a CDV e a forma fraudulenta como foram contabilizadas pela CDV. Analisando a conta “Adiantamento de Clientes” constatase inexistir registro contábil com a Rosas Weyh nos anos de 2011 e 2012, o que demonstra que a CDV, de forma fraudulenta, omitiu da fiscalização o recebimento de adiantamento de recursos de seus clientes. A título de exemplo, relativamente à conta contábil Banco Bradesco, percebeuse que em 29.09.2011 não existe registro do valor de R$ 2.966,33 ou qualquer outra operação com a Rosas Weyh, na medida em que não foi localizado nenhum lançamento de recebimento desta na conta Banco Bradesco, da contabilidade da CDV. Igualmente, para a segunda transferência, também se verificou que em 30.09.2011 não há qualquer registro do valor de R$ 2.155,06 e de qualquer outra operação com a Rosas Weyh. Portanto, a CDV simplesmente omitiu este adiantamento de recurso recebido em sua conta do banco Bradesco e fraudulentamente não os registrou em sua contabilidade. Tal constatação reforça sobre maneira a tese da fraude perpetrada nas operações em comento, uma vez que a fiscalização informa que realizou “uma busca destes valores para ver se haviam sido lançados em outra data e não foi encontrado quaisquer outros lançamentos nestes valores”, confirmando tratarse de deliberada tentativa de ocultar o recebimento de recursos da Rosas Weyh e, com esse expediente, dificultar a identificação, por parte do fisco, das operações efetivamente ocorridas, ou seja, a prestação de serviços de importação. Acrescentese a essa constatação que todos os demais lançamentos, inerentes às operações de importação em causa, foram contabilizados da mesma forma, ou seja, a CDV omite que recebe adiantamentos da Rosas Weyh para fechar o câmbio. Igualmente, a conta “Adiantamento de Clientes” também não traz qualquer referência aos adiantamentos de recurso recebidos da Rosas Weyh. Para elucidar a forma fraudulenta com que a CDV contabiliza suas supostas vendas e as relaciona com as respectivas notas fiscais, trago à colação alguns lançamentos de venda da conta contábil “Vendas de Mercadorias”, ipsis litteris: Em 16/11/2011 a CDV registra a venda a vista através da Nota Fiscal 1754 no valor de R$ 14.791,79. Creditase a conta de Resultado VENDA DE MERCADORIAS e debitouse a sub conta DUPLICATA A RECEBER do ativo. Por tratarse de venda a vista, no mesmo dia, os R$ 14.791,79 deveriam entrar na conta BANCO BRADESCO, se o pagamento fosse por transferência bancária, ou CAIXA se o pagamento fosse em dinheiro. Fl. 1597DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.598 32 Verificando a planilha “EXTRATOS CDV COMERCIAL DE ROSAS WEYH”, onde verificamos as transferências de fato, verificamos que não houve nenhuma transferência de valores nesta data ou em data próxima no valor de R$ 14.791,79. O lançamento simplesmente não retrata a realidade e a COMERCIAL DE ROSAS WEYH não transferiu os R$ 14.791,79 nesta data para a CDV. Em consulta a conta contábil “CAIXA”, esta valor também não foi localizado. Analisamos mais duas “vendas” da CDV à COMERCIAL DE ROSAS WEYH, exemplificadas acima, para batimento contábil. Em 25/11/2011 foi registrada uma “venda” a vista no valor de R$ 4.829,97 referente a Nota Fiscal 1804. Em 30/11/2011 foi registrada outra “venda” no valor de R$ 11.973,32 referente a Nota Fiscal 1820. Os lançamentos contábeis se deram da mesma forma do anterior e também não foram localizados na planilha “EXTRATOS CDV” e nem na conta “CAIXA”. Analisando estas e outras vendas, verificamos que elas trazem o valor destacado na Nota Fiscal 15. Conforme já comprovado nos autos, a COMERCIAL DE ROSAS WEYH não realiza compras no mercado interno. Ela transfere recursos referentes aos gastos de importação. As transferências bancárias não guardam qualquer relação de valor ou data com as notas fiscais. Sendo assim, da análise contábil, comprovase que os lançamentos foram fraudados e não retratam a realidade das operações entre a CDV e a COMERCIAL DE ROSAS WEYH. As transferências de fato, registradas na planilha “EXTRATOS CDV COMERCIAL DE ROSAS WEYH”, não foram devidamente contabilizadas, na tentativa de omitir que tratavamse de adiantamento de importações. Os valores contabilizados pelas vendas constantes nas Notas Fiscais não foram os valores transferidos de fato. Não houve venda de fato das flores no mercado interno, e a emissão das notas fiscais tratase de simulação. A confirmação que a CDV não mantém qualquer mercadoria em estoque decorre da análise da conta contábil “ESTOQUES”, uma vez que a fiscalização demonstra que essa conta permaneceu “zerada” durante todos os anos de 2010, 2011 e 2012, ou seja, evidenciando ainda mais que mercadorias, cujas DI’s registrou como importação direta, possuíam adquirentes prédeterminados. DOS REGISTROS CONTÁBEIS DA ROSAS WEYH X CDV A fiscalização confirma que tanto a CDV quanto a Rosas Weyh não contabilizaram corretamente os adiantamentos de recursos objetivando acobertar essa última como sendo a real interessada nas importações das flores. Para tanto, a fim de demonstrar como a Rosas Weyh contabilizou os adiantamentos que fez à CDV (fato inclusive confirmado por aquela em sua impugnação), colaciono, por ilustrativo, dois exemplos de adiantamentos mencionados no item 5.1 do relatório fiscal, ipsis litteris: Em 29/09/2014 a COMERCIAL DE ROSAS adiantou à CDV R$ 2.966,33 utilizados para pagar os tributos, taxa Sixcomex e comissão da CDV para importação de flores. Deveria ter registrado contabilmente esta operação como adiantamento de recurso mas não o fez. Ao consultar a aba “Adiantamento a Fornecedores”, no ATIVO, verificamos que não consta este lançamento. Nenhum adiantamento à CDV foi contabilizado corretamente nesta conta contábil. Segue abaixo os lançamentos contábeis realizados pela COMERCIAL DE ROSAS para esta transação. Em 29/09/2011 foi creditado a conta contábil “BANCO DO BRASIL” no valor exato de R$ 2.966,33, o que ocorreu de fato. No entanto, a contra partida deste lançamento é simulada. Foi debitado a conta Fl. 1598DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.599 33 “CAIXA GERAL”, como se o dinheiro fosse para o caixa. Conforme demonstrado este ato é simulado, pois a transferência foi de fato para a CDV, e não para o caixa. Em consulta a conta contábil “CAIXA GERAL”, verificamos que foi debitada esta conta, como se o dinheiro fosse para o caixa, e não há qualquer saída deste valor na mesma data ou data próxima, e ainda não há qualquer referência a CDV. Resta claro a intenção de omitir o adiantamento de recursos à CDV e que tal lançamento não reflete a realidade. Segue abaixo o referido lançamento na conta “CAIXA GERAL”: Razão Nome: COMERCIAL DE ROSAS WEYH LTDA CNPJ: 08.259.714/000120 Conta: 110101200310008 BANCO DO BRASIL S/A Saldo inicial: 43.670,09 D Data Cód.Conta Conta D/C Valor Histórico 29/09/2011 110101100110005 CAIXA GERAL D 2.966,33 DEBITO REF. SAQUE 29/09/2011 110101200310008 BANCO DO BRASIL S/A C 2.966,33 DEBITO REF. SAQUE Outro adiantamento de recurso da CDV à COMERCIAL DE ROSAS foi comprovado no item 5.1. Também em 30/09/2011, a COMERCIAL DE ROSAS adiantou à CDV R$ 2.155,06 utilizados para pagar os tributos, taxa Sixcomex e comissão da CDV referente à importação de flores. Deveria ter registrado contabilmente esta operação como adiantamento de recurso mas não o fez. Segue abaixo os lançamentos contábeis realizados pela COMERCIAL DE ROSAS para esta transação. Em 30/09/2011 foi creditado a conta contábil “BANCO DO BRASIL” no valor exato de R$ 2.155,06, o que ocorreu de fato. No entanto, a contra partida deste lançamento é simulada. Foi debitado a conta “CAIXA GERAL”, como se o dinheiro fosse para o caixa. Conforme demonstrado este ato é simulado, pois a transferência foi de fato para a CDV, e não para o caixa. Razão Nome: COMERCIAL DE ROSAS WEYH LTDA CNPJ: 08.259.714/000120 Conta: 110101100010004 CAIXA GERAL Saldo inicial: 68.098,82 D Data Cód.Conta Conta D/C Valor Histórico Número 29/09/2011 110101100110005 CAIXA GERAL D 2.966,33 DEBITO REF. SAQUE 0000013712 29/09/2011 110101200310008 BANCO DO BRASIL S/A C 2.966,33 DEBITO REF. SAQUE 0000013712 Fl. 1599DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.600 34 Razão Nome: COMERCIAL DE ROSAS WEYH LTDA CNPJ: 08.259.714/000120 Conta: 110101200310008 BANCO DO BRASIL S/A Saldo inicial: 43.670,09 D Data Cód.Conta Conta D/C Valor Histórico Número 30/09/2011 110101100110005 CAIXA GERAL D 2.155,06 DEBITO REF. SAQUE 0000013820 30/09/2011 110101200310008 BANCO DO BRASIL S/A C 2.155,06 DEBITO REF. SAQUE 0000013820 Este e outros lançamentos contábeis se deram da mesma forma na tentativa de encobrir os adiantamentos de recurso e ocultar a COMERCIAL DE ROSAS nas operações de importação das flores. Passamos a análise de um terceiro adiantamento, referente ao fechamento de câmbio, comprovado no item 5.4. Em 17/10/2011, conforme comprovado no item 5.4, a COMERCIAL ROSAS transferiu R$ 16.300,00 à CDV a título de adiantamento para fechamento de câmbio da importação de flores. Deveria ter registrado contabilmente esta operação como adiantamento de recurso mas não o fez novamente. Segue abaixo os lançamentos contábeis realizados pela COMERCIAL DE ROSAS para esta transação. Em 17/10/2011 foi creditado a conta contábil “BANCO DO BRASIL” no valor exato de R$ 16.300,00 o que ocorreu de fato. No entanto, a contra partida deste lançamento é simulada. Foi debitado a conta “CAIXA GERAL”, como se o dinheiro fosse para o caixa. Conforme demonstrado este ato é simulado, pois a transferência foi de fato para a CDV, e não para o caixa. Em consulta a conta contábil “CAIXA GERAL”, verificamos que foi debitada esta conta, como se o dinheiro fosse para o caixa, e não há qualquer saída deste valor na mesma data ou data próxima, e ainda não há qualquer referência a CDV. Resta claro a intenção de omitir o adiantamento de recursos à CDV e que tal lançamento não reflete a realidade. Segue abaixo o referido lançamento na conta “CAIXA GERAL”: Razão Nome: COMERCIAL DE ROSAS WEYH LTDA CNPJ: 08.259.714/000120 Conta: 110101200310008 BANCO DO BRASIL S/A Saldo inicial: 43.670,09 D Data Cód.Conta Conta D/C Valor Histórico 17/10/2011 110101100110005 CAIXA GERAL D 16.300,00 DEBITO REF. SAQUE Fl. 1600DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.601 35 17/10/2011 110101200310008 BANCO DO BRASIL S/A C 16.300,00 DEBITO REF. SAQUE Ainda em consulta à conta caixa, verificamos que há algumas saídas para a CDV, mas que não retratam a realidade. Há saídas do caixa em datas e valores das Notas Fiscais, como se fossem pagamentos à estas. Conforme já comprovado nos autos, não há de fato a venda de flores no mercado interno. Os valores transferidos à CDV são de adiantamentos à importação e de fato, não guardam relação com os valores e datas das Notas Fiscais. Segue abaixo exemplo desta outra tentativa de simulação contábil da COMERCIAL DE ROSAS. Em consulta à planilha “MAD NOTAS FISCAIS COMERCIAL DE ROSAS WEYH”, verificamos que em 16/11/2011 a CDV emitiu a Nota Fiscal 1754 no valor de R$ 14.791,79. Em consulta à conta BANCO DO BRASIL, não foi verificado transferência alguma à CDV. Conforme já abordado anteriormente, para encobrir as transferências de fato, a COMERCIAL DE ROSAS transfere apenas contabilmente o dinheiro do banco para o caixa. No caixa é mais difícil de se comprovar a movimentação de fato. E posteriormente simula as saídas para a CDV como se fossem pagamentos às Notas Fiscais. A simulação de saída do caixa dos valores das Notas Fiscais tratase de “manobra contábil” para registrar suas supostas “compras” da CDV. Razão Nome: COMERCIAL DE ROSAS WEYH LTDA CNPJ: 08.259.714/000120 Conta: 110101100010004 CAIXA GERAL Saldo inicial: 68.098,82 D Data Cód.Conta Conta D/C Valor Histórico 17/10/2011 110101100110005 CAIXA GERAL D 16.300,00 DEBITO REF. SAQUE 17/10/2011 110101200310008 BANCO DO BRASIL S/A C 16.300,00 DEBITO REF. SAQUE Razão Nome: COMERCIAL DE ROSAS WEYH LTDA CNPJ: 08.259.714/000120 Conta: 110101100010004 CAIXA GERAL Saldo inicial: 68.098,82 D Data Cód.Conta Conta D/C Valor Histórico 17/11/2011 410101100150005 COMPRAS A VISTA (MIN) D 14.791,79 VALOR NF. 1754 CDV EXPORT IMPORT E COM LTDA 17/11/2011 110101100110005 CAIXA GERAL C 14.791,79 VALOR NF. 1754 CDV EXPORT IMPORT E COM LTDA Fl. 1601DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.602 36 A fiscalização resume assim o conjunto de irregularidades contábeis constatada na contabilidade de ambas empresa, ipsis litteris (sic): 1. No dia da transferência de fato de valores da COMERCIAL ROSAS à CDV, realizado um lançamento simulado como se o mesmo valor saísse do banco e fosse para o caixa, onde não é mais possível verificar o destino de fato do dinheiro. Na verdade este valor era transferido da conta bancária da COMERCIAL DE ROSAS para a conta bancária da CDV. 2. No caixa, o valor real não saia no mesmo dia ou em qualquer outro. Nesse momento, sem a saída contábil deste valor, o caixa estaria com sobra de valores. 3. Para abater a sobra de valores, há outro lançamento simulado. A conta CAIXA, conta devedora do ATIVO, é creditada em contra partida do débito da conta de Resultado “Compra de Mercadoria”, nos valores e datas das Notas Fiscais. 4. Conforme exaustivamente comprovado nos autos as transferências de fato não guardam relação com as Notas Fiscais, pois não houve venda de fato no mercado interno, houve simulação, na tentativa de omitir os adiantamentos de recurso. Sendo assim, da análise da escrituração contábil da COMERCIAL DE ROSAS, constatouse os adiantamentos de recursos feito a CDV. Ainda comprovou se que para os anos de 2011 e 2012 a COMERCIAL DE ROSAS tentou dissimular o adiantamento de recursos enviados à CDV. Diante desta análise contábil, comprovase novamente que a COMERCIAL DE ROSAS é a real adquirente oculta das flores importadas pela CDV. Portanto, não resta dúvida que os conjunto probante carreado aos autos pela fiscalização evidencia incontestavelmente que os lançamentos contábeis realizados pela CDV não decorrem de meros equívocos, mas do uso deliberado de artifícios dolosos que tinha como finalidade impedir que a autoridade fiscal responsável pela análise das operações de importação detectassem a verdadeira origem dos recursos empregados na nacionalização das flores de origem estrangeiras. Igualmente, também restou demonstrado que a CDV não operou como uma clássica empresa importadora, que atua na modalidade direta, tal como declarou, mas como uma prestadora de serviços de comércio exterior, daqueles prestados por uma trading, em favor da Rosa Weyh. Outra constatação há que se chega é que efetivamente foi a Rosa Weyh quem adiantou recursos e suportou o ônus financeiro das respectivas operações, fato inclusive confirmado por ela em sua peça de defesa. Ante o exposto e considerando tudo o mais que nos autos constam, voto no sentido de considerar improcedentes as impugnações apresentadas, por conseguinte, procedente o lançamento, de modo a manter integralmente e contra todos os autuados o presente crédito tributário. Orlando Rutigliani Berri Relator" Com base no acima exposto, nego provimento aos argumentos da recorrente. I 3 Conclusão Fl. 1602DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.603 37 Nego provimento ao recurso voluntário da COMERCIAL DE ROSAS WEYH LTDA. ME. II Recurso voluntário dos responsáveis solidários: CDV EXPORTAÇÃO IMPORTAÇÃO E COMÉRCIO LTDA EPP, LEANDRO RIBAS PESSOA (CPF 293.861.80855) e ROGÉRIO SARMENTO PESSOA (CPF 313.513.797 04) II 1 Preliminares II 1.a) "Falta de motivação da autuação – erros na interpretação da norma – do NCM para fins da cadeia de IPI e ilegalidade da tipificação." A recorrente alega que o auto de infração é nulo, porque não foi motivado. E lista as evidências que fundamentam seu argumento: i) Ambas as empresas possuíam cadastros no RADAR, não precisando se ocultar em trading company. ii) Não houve quebra da cadeia do IPI, pois tanto como importador direto quanto a conta e ordem seria contribuinte do IPI. Ademais, não houve prejuízo ao erário, pois a alíquota aplicável ao produto é zero. iii) Não se pode cogitar que havia intenção de ocultar a Comercial de Rosas, pois sua razão social figurava na DI. iv) Menciona decisão do STJ que toda fraude tem como objetivo o de reduzir ou eliminar pagamento de tributo, o que não ocorreu. v) Que o auto de infração realizou tipificação "errada e genérica". vi) Não comprovou fraude, quanto ao controle aduaneiro, à cadeia do IPI ou à legislação de preço de transferência, Afasto os argumentos dos itens "v" e "vi", remetendome as trechos da decisão recorrida acima transcritos, que demonstram que a fiscalização trouxe grande volume de elementos que comprovam a ocorrência da infração autuada e todos os dispositivos legais infringidos e os que determinam a aplicação e o valor da multa. Quanto aos demais, citada transcrição da decisão recorrida deixa claro que não é necessária a ocorrência de ganho financeiro com redução ou eliminação de carga tributária, para que reste caracterizado o dano ao erário a que se refere o inciso V do art. 23 do Decretolei n° 1.455/76. O autuante também não precisa encontrar evidências de que o contribuinte teve intenção de cometer a infração, desde que identifique qualquer uma das condutas tipificadas no caso em tela, ocultação do real adquirente das mercadorias importadas. Assim, nego provimento aos argumentos. II 1.b) "Nulidade do auto de infração por impossibilidade de inclusão dos sócios como responsáveis" Fl. 1603DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.604 38 Argumenta a recorrente: i) Não foi provado que os sócios praticaram ato com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatuto (art. 135 do CTN). Fazse necessária a comprovação da ocorrência de conduta dolosa dos sócios. ii) A fiscalização não provou que os sócios provocaram intencionalmente o ilícito e dele se beneficiaram. iii) O simples cometimento de infração não atrai responsabilidade solidária dos sócios. Colaciono excerto da decisão recorrida, do qual faço minha razão de decidir: "DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DOS SÓCIOS ADMINISTRADORES É assente que a obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador art. 113 do CTN e é o lançamento que constitui o crédito tributário art. 142 do CTN. Portanto o crédito tributário estará devidamente constituído e, por conseguinte, poderá ser exigido inclusive dos dirigentes da pessoa jurídica quando se constata a conduta intencional desses em ocultar o real responsável pela operação de importação. Diferentemente do que os sócios da CDV alegam para requererem a exclusão do polo passivo do presente lançamento, ficou configurada sim a máfé e a conduta dolosa desses na perpetração do ilícito tributárioaduaneiro que justificou a presente exigência fiscal. A CDV deliberadamente, por meio de seus administradores, ocultou a Comercial de Rosas Weyh nas operações de importação de flores que declarou à aduana brasileira como se importações direta fossem. Não obstante assistir razão aos reclamantes quando argumentam que os sóciosgerentes ou administradores só podem ser responsabilizados, na condição de responsáveis passivos solidários, quando se comprovar a ocorrência de dolo e a prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, vejamos, por primeiro, o que dispõe o CTN sobre a sujeição passiva tributária, verbis: (...) Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal dizse: I contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; II responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. (...) Art. 124. São solidariamente obrigadas: Fl. 1604DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.605 39 I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; II as pessoas expressamente designadas por lei. Parágrafo único. A solidariedade referida neste artigo não comporta benefício de ordem. (...) Ou seja, a pessoa obrigada ao pagamento de penalidade pecuniária é considerado sujeito passivo de obrigação principal. Chamase “contribuinte” aquele que possua “relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador”. A leitura do art. 121 implica a conclusão de que para o CTN o “infrator” é também “contribuinte”, se possuir “relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador”. Além disso, sendo diversos os coautores da infração sujeita a pena pecuniária, são todos responsáveis solidários, por possuírem interesse jurídico comum no ilícito que dá azo à penalidade pecuniária (obrigação principal), nos termos do art. 124, inciso I, do referido diploma legal. Em complemento às disposições do CTN, o DecretoLei nº 37/1966 definiu especificamente a responsabilidade pelas infrações aduaneiras, verbis: (...) Art. 94 Constitui infração toda ação ou omissão, voluntária ou involuntária, que importe inobservância, por parte da pessoa natural ou jurídica, de norma estabelecida neste DecretoLei, no seu regulamento ou em ato administrativo de caráter normativo destinado a completálos. § 1º O regulamento e demais atos administrativos não poderão estabelecer ou disciplinar obrigação, nem definir infração ou cominar penalidade que estejam autorizadas ou previstas em lei. § 2º Salvo disposição expressa em contrário, a responsabilidade por infração independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. Art. 95 Respondem pela infração: I conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie; II conjunta ou isoladamente, o proprietário e o consignatário do veículo, quanto à que decorrer do exercício de atividade própria do veículo, ou de ação ou omissão de seus tripulantes; III o comandante ou condutor de veículo nos casos do inciso anterior, quando o veículo proceder do exterior sem estar consignada a pessoa natural ou jurídica estabelecida no ponto de destino; IV a pessoa natural ou jurídica, em razão do despacho que promover, de qualquer mercadoria. Fl. 1605DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.606 40 (...) (grifos não pertencem ao original) Nos termos do DecretoLei nº 37/1966, comete infração toda a pessoa física ou jurídica que, por ação ou omissão, voluntária ou involuntária, não observe norma estabelecida no decretolei, em seu regulamento ou em ato administrativo de caráter normativo destinado a completálos. As empresas, malgrado possuam uma existência jurídica e sejam titulares de direitos e obrigações, não executam, por si próprias, atos jurídicos, mas valemse de seus representantes, administradores e prepostos. É evidente, portanto, que uma infração aduaneira imputável a uma empresa é consubstanciada em face de atos praticados por seus representantes, por exemplo, a assinatura de contrato, a emissão de notas fiscais, faturas comerciais, o recebimento de pagamento, o envio de mercadorias, etc. A esse propósito, vejamse as seguintes disposições da Lei nº 1.406, de 10 de janeiro de 2002, que instituiu o Código Civil, verbis: (...) Art. 44. São pessoas jurídicas de direito privado: (...) II as sociedades; (...) Art. 45. Começa a existência legal das pessoas jurídicas de direito privado com a inscrição do ato constitutivo no respectivo registro, precedida, quando necessário, de autorização ou aprovação do Poder Executivo, averbandose no registro todas as alterações por que passar o ato constitutivo. (...) Art. 47. Obrigam a pessoa jurídica os atos dos administradores, exercidos nos limites de seus poderes definidos no ato constitutivo. (...) Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica. (...) Merece destaque especial o art. 50 do Código Civil, que trata da desconsideração da personalidade jurídica, nos casos de desvio de finalidade ou confusão patrimonial. Ou seja, nos casos de abuso da personalidade jurídica de uma empresa, em favor dos sócios, empregados ou de terceiros, as obrigações são exigíveis desses beneficiários. No mesmo sentido, dispõe o Código Tributário Nacional, verbis: Fl. 1606DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.607 41 (...) Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I as pessoas referidas no artigo anterior; II os mandatários, prepostos e empregados; III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. (...) (grifos não pertencem ao original) Portanto, as infrações aduaneiras não são imputáveis indiscriminadamente a sócios, administradores, representantes ou prepostos de pessoas jurídicas. Por certo, a responsabilidade dos sócios, ao constituírem a sociedade na forma disciplinada no Código Civil, fundamentados no direito societário, limitase aos aportes que realizam para a formação do capital, seja em quotas ou ações, objetivando restringir sua participação no pagamento dos débitos sociais. Isto significa que, se o empresário ou administrador agir dentro da lei e do contrato social ou estatuto e, por circunstâncias do mercado, a empresa da qual é sócio ou administrador não cumprir com suas obrigações tributárias, seus bens particulares não respondem pela dívida tributária, desde que não pratiquem atos com excesso de mandato, violação da lei ou do contrato social. A CDV Exportação, Importação e Comércio Ltda. EPP assume a condição de contribuinte a luz do art. 121, inciso I, do CTN por ter promovido as importações de flores em questão. No caso destes autos, a ação fiscal se apóia na constatação de que as importações realizadas em nome da CDV tinha por propósito ocultar a empresa Rosas Weyh. Procedimento que consiste na interposição fraudulenta de terceiros. Demais disso, as provas carreadas aos autos pela fiscalização e que fundamentam a autuação evidenciam os esforços engendrados pelos autuados pessoas físicas na ocultação do real adquirente das flores importadas nas operações registradas pela CDV, que as declarou como se importação direta fosse, circunstância que os enquadra, em tese, nos tipos penais previstos nos arts. 71 e 73 da Lei nº 4.502/1964. Nesse contexto, configurada a infração de lei, os senhores Rogério Sarmento Pessoa e Leandro Ribas Pessoa assumem a condição de responsáveis a luz do art. 121, inciso II, do CTN, por determinação expressa do caput do art. 135 do mesmo diploma legal, haja vista que a responsabilidade pela exação tributária alcança também a pessoa dos sócios, administradores, diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado quando quaisquer desses agem com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos. Constatada a fraude, questão que será minuciosamente enfrentada no mérito, está configurada a infração de dano ao Erário tipificada no art. 689, inciso XXII, do Decreto nº 6.759/2009, com fulcro legal no art. 23, inciso V, do DecretoLei nº 1.455/1976. Fl. 1607DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.608 42 Portanto, os interessados Rogério Sarmento Pessoa e Leandro Ribas Pessoa são partes legítimas para figurar no polo passivo do lançamento em tela." Com base no acima exposto, nego provimento aos argumentos. II 2c) "Da Inobservância do devido processo legal administrativo para eventual inclusão dos sócios como responsáveis" A recorrente alega que, para a responsabilização dos sócios, primeiro terse ia de constituir o crédito tributário em nome da CDV, após a comprovação de conduta dolosa dos sócios. Que a identificação da responsabilidade pessoal de sócio é de competência exclusiva da PGFN e deve ser efetuada no âmbito da cobrança executiva. Colaciona doutrina e decisão do CARF. Pleiteia, por conseguinte, que o auto de infração seja declarado nulo. Não assiste razão à recorrente. A autoridade administrativa responsável pelo lançamento tem o dever de identificar o sujeito passivo da obrigação principal, ou seja, o contribuinte ou responsável, assim identificado em lei, como segue: "CTN Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz se: I contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; II responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei." (. . .) Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional." "Decretolei n° 37/66 Art. 95 Respondem pela infração: Fl. 1608DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.609 43 I conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie; (. . .)" (g.n.) Verificase, portanto, da leitura dos citados dispositivos legais, que a identificação dos responsáveis solidários deve ocorrer no momento do lançamento de ofício, pelo que nego provimento ao argumento. II Mérito II 1) "Da Inexistência De Ocultação Do Real Adquirente Mediante Simulação" II 1.a) "Da Boa Fé nas informações da DI e nas informações prestadas pelas empresas" II 1.b) "Da razoabilidade e da proporcionalidade como parâmetro jurídico de valoração dos atos desenvolvidos dentro do princípio da boafé" Em apertada síntese, aduz a recorrente: i) A alegada simulação tendente a ocultar o real adquirente das mercadorias estrangeiras não condiz com a realidade dos fatos. ii) Simulação "É a declaração enganosa da vontade visando produzir efeitos diversos do ostensivamente indicado, com o fim de criar uma aparência de direito, para iludir terceiros ou burlar a lei. É um ato bilateral, em que duas ou mais pessoas fingem a prática de um ato jurídico que, na realidade, nunca ocorreu ou nunca ocorrerá." E tem como requisitos: "conluio, levar a erro e vantagem certa e efetiva" iii) Não houve intuito de fraudar, posto que todas as informações ou constam nas DI ou foram entregues voluntariamente à fiscalização. iv) A formalização defeituosa pode revelar desconhecimento da legislação, porém não máfé. v) A aplicação da multa ofende os princípios da razoabilidade e proporcionalidade, posto que não há prova de prática de conduta dolosa, todos os tributos aduaneiros foram recolhidos, não houve quebra da cadeia ou redução de pagamento de IPI e as todas as partes estavam habilitadas a operar no comércio exterior. Afasto as alegações, tendo como fundamento os excertos da decisão recorrida anteriormente transcritos, notadamente os titulados "FUNDAMENTO JURÍDICO E FÁTICO DO LANÇAMENTO", "DO CONCEITO DE DANO NO DIREITO ADUANEIRO", "DA PROPORCIONALIDADE E RAZOABILIDADE" e, principalmente, "DAS PROVAS", em que são identificadas e devidamente fundamentadas as práticas dolosas, cujo objetivo era sim o de ocultar o real adquirente da mercadoria importada. Isto posto, nego provimento aos argumentos. Fl. 1609DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.610 44 II 2) "Inexistência De Apontamento De Sequer R$ 1,00 De Dano Ao Erário Nas Operações Fiscalizadas" II 2.a) "Escorço Das Infrações Constantes Nos Incisos" II 2.b) "Sobre o inciso iv e v indicados no termo de verificação da interpretação equivocada do artigo 23 do DL 1455/76" Neste tópico, foram apresentadas as seguintes alegações: i) A interpretação dada à legislação pelo autuante é flagrantemente inconstitucional, pois fere o princípio do "Livre Exercício da Atividade Econômica" (artigos 1°, 5°, inciso XII, artigo 170, caput, inciso II e § único da Constituição Federal). ii) A pena de perdimento deve restringirse aos casos em que restar comprovada fraude. iii) "(. . .) o que se deve coibir é utilização de empresas de fachada para atuar no mercado internacional de forma fraudulenta. A ocultação coibida é aquela do possuidor do dinheiro ilícito, isto é, o adquirente cujo dinheiro provém do tráfico, sequestros, terrorismo e etc..., que se utiliza um terceiro para ser ocultado, tendo como objetivo a lavagem do dinheiro." iv) A própria autuada tem cadastro no RADAR, não havendo motivo para que fosse ocultada. Tampouco a operação sofre incidência do IPI. v) Os incisos I ao IV do art. 23 do Decretolei n° 1.455/76 abrigam situações fáticas em que configurase o dano ao erário. Nada têm a ver com presunção ou ficção. Contudo, o inciso V, inserido 26 anos depois da publicação do diploma legal, inovou, ao trazer elemento subjetivo ocultação mediante fraude ou simulação. Contudo, o inciso V não pode se afastar do objetivo original do art. 23. Para que uma operação seja nele enquadrado, há que ser comprovada a ocorrência de dano ao erário, consistente em prejuízo ao erário. Colaciona doutrinas. vi) "(. . .) a acusação de falsidade documental é séria, grave e sempre que oposta desacompanhada de indício robusto é – por si só – ilegal e merece apuração juridicamente digna. Com efeito, documento falso é aquele rasurado, alterado, espelhado, duplicado com divergência e se traduz em materialidade de crime de falsidade documental. Toda a documentação utilizada na operação condiz e traduz fatos efetivamente ocorridos nos termos, qualidade e extensão das informações contidas nos documentos." vii) Colaciona decisões judiciais no sentido de que a pena de perdimento tão somente deve ser aplicada quando efetivamente houver dano ao erário e deve ser flexibilizada, quando não houver prova de máfé ou intenção fraudulenta. viii) Pelos motivos anteriormente expostos, requer sua substituição pela multa de 1% sobre o valor aduaneiro. Colaciona decisões judiciais. Fl. 1610DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.611 45 Em relação ao primeiro argumento, afasto, com a Súmula CARF nº 2:" O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária." E nego provimento aos demais, remetendome aos já reproduzidos trechos da decisão recorrida, sob os seguintes títulos: "DO FUNDAMENTO JURÍDICO E FÁTICO DO LANÇAMENTO" "DO CONCEITO DE DANO NO DIREITO ADUANEIRO" "DA IRREDUTIBILIDADE DA PENALIDADE" "DA PROPORCIONALIDADE E RAZOABILIDADE" "DA MULTA DE UM POR CENTO SOBRE O VALOR ADUANEIRO" "DA INTERMEDIAÇÃO EM OPERAÇÕES DE COMÉRCIO EXTERIOR" "DA MODALIDADE DE IMPORTAÇÃO ADOTADA" "DAS PROVAS" II 3 "Dos erros da fiscalização quanto à margem de lucro e do pagamento de PIS/COFINS a maior no regime de conta própria do que na conta e ordem – IN 247/02 – regime adotado pela fiscalização." Repiso meus contraargumentos, apostos no ínicio deste voto: "Da leitura dos autos, concluí que realmente houve ocultação do real adquirente das mercadorias pela CDV Exportação, Importação e Comércio Ltda. EPP, qual seja, a Comercial de Rosas Weyh Ltda. ME, sendo aplicável à última a pena de perdimento das mercadorias importadas, convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, uma vez que não foi possível a apreensão dos produtos. E destaco, do minucioso trabalho de auditoria fiscal, fatos que, robustecidos por provas indiciárias, convenceramme de que, de fato, não houve importação direta pela CDV, porém a conta e ordem da Comercial de Rosas: (. . .) ii) o resultado financeiro apurado pela Comercial de Rosas, negativo ou insuficiente para fazer frente aos demais gastos com uma operação usual de importação e revenda e ainda gerar lucros para seus sócios; (. . .)" Com efeito, sobre o segundo fato, cumpre destacar que os responsáveis solidários, em sua defesa, apontam supostos erros na conclusão fiscal. Aduzem que a margem de lucro era de 15,8 % e que a fiscalização teria mencionado como custos tributos recuperáveis, como o PIS/COFINS Importação. Ademais, que em uma operação a conta e ordem teria pago mais PIS/COFINS, que incidiriam sobre o serviço, do que na efetivamente realizada. Fl. 1611DF CARF MF Processo nº 11829.720079/201485 Acórdão n.º 3301004.758 S3C3T1 Fl. 1.612 46 Informa que a margem de lucro seria de 15,8%, porém não apresenta cálculos, suportados por documentação fiscal. Isto é, alegou, mas não provou. Ademais, a fiscalização computou os tributos aduaneiros, porque os incidentes sobre a venda também no respectivo valor foram incluídos, para fins de comparação entre custo e receita com venda. E a alegação de que teria pago mais PIS/COFINS, caso realmente as importações tivessem sido a conta e ordem, em nada influencia o tema em discussão (margem de lucro negativa ou insuficiente). Desta forma, nego provimento aos argumentos. II 4 Conclusão Nego provimento ao recurso voluntário dos responsáveis solidários. Conclusão Geral Nego provimento aos recursos voluntários. É como voto. (assinado digitalmente) Marcelo Costa Marques d'Oliveira Fl. 1612DF CARF MF
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Numero do processo: 19985.725449/2016-41
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Aug 15 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2012
PEDIDO DE RETIFICAÇÃO. MATÉRIAS ESTRANHAS À LIDE.
Diante dos princípios da Administração Pública e desde que devidamente comprovados, a autoridade julgadora pode, com a devida cautela, autorizar pedidos de retificação da declaração.
O pedido de retificação desacompanhado de provas não pode ser acolhido, devendo ser direcionado para a Delegacia da Receita Federal de jurisdição do contribuinte, a quem compete a análise desses pleitos.
Numero da decisão: 2002-000.218
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso, para, no mérito, negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente e Relatora
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Fábia Marcília Ferreira Campêlo, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: CLAUDIA CRISTINA NOIRA PASSOS DA COSTA DEVELLY MONTEZ
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2012 PEDIDO DE RETIFICAÇÃO. MATÉRIAS ESTRANHAS À LIDE. Diante dos princípios da Administração Pública e desde que devidamente comprovados, a autoridade julgadora pode, com a devida cautela, autorizar pedidos de retificação da declaração. O pedido de retificação desacompanhado de provas não pode ser acolhido, devendo ser direcionado para a Delegacia da Receita Federal de jurisdição do contribuinte, a quem compete a análise desses pleitos.
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DEDUÇÕES. PEDIDO DE RETIFICAÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. Recorrente IVO MOREIRA DE ARAUJO Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2012 PEDIDO DE RETIFICAÇÃO. MATÉRIAS ESTRANHAS À LIDE. Diante dos princípios da Administração Pública e desde que devidamente comprovados, a autoridade julgadora pode, com a devida cautela, autorizar pedidos de retificação da declaração. O pedido de retificação desacompanhado de provas não pode ser acolhido, devendo ser direcionado para a Delegacia da Receita Federal de jurisdição do contribuinte, a quem compete a análise desses pleitos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso, para, no mérito, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Fábia Marcília Ferreira Campêlo, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 98 5. 72 54 49 /2 01 6- 41 Fl. 82DF CARF MF Processo nº 19985.725449/201641 Acórdão n.º 2002000.218 S2C0T2 Fl. 83 2 Relatório Notificação de lançamento Trata o presente processo de notificação de lançamento – NL (fls. 41/45), relativa a imposto de renda da pessoa física, pela qual se procedeu a alterações na declaração de ajuste anual do contribuinte acima identificado, relativa ao exercício de 2013. A notificação implicou na alteração do resultado apurado de saldo de imposto a pagar declarado de R$68,11 para saldo de imposto a pagar de R$4.061,33. A notificação noticia a dedução indevida de despesas médicas, no valor de R$14.484,44, por falta de previsão legal (vacina), falta de comprovação (Clínica Rad e Imag Moura) e falta de apresentação de comprovantes do plano de saúde discriminando os beneficiários (Gama Saúde). Impugnação Cientificada ao contribuinte em 28/11/2016, a NL foi objeto de impugnação, em 20/12/2016, à fl. 2/28 dos autos, na qual o contribuinte concorda com a glosa do gasto com vacina, mas defende a dedutibilidade dos demais valores declarados. A impugnação foi apreciada na 3ª Turma da DRJ/BSB que, por unanimidade, julgou a impugnação procedente em parte (fls. 53/58) em decisão assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2013 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. GLOSA DE DESPESAS MÉDICAS (PARCIAL). Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte, sujeitandose o crédito tributário correspondente à imediata cobrança. DEDUÇÃO INDEVIDA DE DESPESAS MÉDICAS. DEPENDENTES. São dedutíveis na Declaração do Imposto de Renda as despesas médicas pagas pelo contribuinte relativas ao próprio tratamento e ao de seus dependentes. Não é considerado dependente o cônjuge que apresenta Declaração em separado ou que não constou no rol de dependentes da declaração do contribuinte. Fl. 83DF CARF MF Processo nº 19985.725449/201641 Acórdão n.º 2002000.218 S2C0T2 Fl. 84 3 A DRJ manteve a glosa dos gastos de plano de saúde relativo ao cônjuge do sujeito passivo, uma vez que não foi incluído como dependente na Declaração de Ajuste apresentada. Recurso voluntário Ciente do acórdão de impugnação em 13/9/2017 (fl. 62), o contribuinte, em 5/10/2017 (fl. 65), apresentou recurso voluntário, às fls. 65/79, no qual alega, em síntese, que: na Declaração de Ajuste original entregue, o cônjuge, senhora Maria Annete Wiegratz Araújo, teria constado como dependente, mas, por engano, ao proceder à retificação do documento, teria deixado de incluíla. o cônjuge não possui renda e constaria como sua dependente em todas as declarações de anos anteriores e posteriores a de 2013, sob exame nestes autos. a retificação não poderia ser efetuada via sistema, visto que existe processo em curso. tratariase de erro material, passível de correção. Assim, requer a retificação de sua Declaração de Ajuste, para inclusão da dependente e consequente restabelecimento da despesa médica glosada, relativa a ela. Processo distribuído para julgamento em Turma Extraordinária, tendo sido observadas as disposições do artigo 23B, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015, e suas alterações (fl.60). Fl. 84DF CARF MF Processo nº 19985.725449/201641 Acórdão n.º 2002000.218 S2C0T2 Fl. 85 4 Voto Conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Relatora Admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade, assim, dele tomo conhecimento. Mérito A autuação recaiu sobre despesas médicas informadas pelo recorrente. Entretanto, em seu recurso, ele requer a inclusão de um dependente, aos quais se refere a despesa médica glosada e que quer ter restabelecida. A autoridade não alterou o rol dos dependentes informados e, portanto, tal matéria não integra o litígio. Não obstante, entendo que, em observância de princípios da Administração Pública, os princípios da finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, interesse público e eficiência, e quando os elementos trazidos sejam evidentes, a autoridade julgadora pode, com a devida cautela, atender a pedidos de retificação efetuados em sede de impugnação e recurso. Cumpre frisar que se trata de medida excepcional, que entendo possível em casos em que a prova seja robusta e não paire qualquer dúvida acerca do direito do contribuinte ao que está sendo pleiteado. O contribuinte alega que a dependente, seu cônjuge, não constou de sua Declaração de Ajuste por um equívoco e que ela sempre consta de suas declarações, seja nos anos anteriores, seja nos posteriores. A análise de tal pleito demandaria outras informações, as quais não constam dos autos e não são passíveis de consulta por este Colegiado, tais como, por exemplo, se o cônjuge entregou declaração em separado, se constou como dependente em outra declaração ou se auferiu rendimentos tributáveis sujeitos ao ajuste. Diante disso, não há como atender ao pleito de fls.65/66 em fase recursal, cabendo ao recorrente direcionálo à Unidade da RFB do seu domicílio tributário. Quanto às despesas médicas glosadas, como são relativas a terceiro não informado como dependente, não há reparos a se fazer à decisão de piso, a qual adoto: Fl. 85DF CARF MF Processo nº 19985.725449/201641 Acórdão n.º 2002000.218 S2C0T2 Fl. 86 5 ... Despesas Médicas Art. 80. Na declaração de rendimentos poderão ser deduzidos os pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, inciso II, alínea “a”). § 1º O disposto neste artigo (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, § 2º): I aplicase, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas – CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica – CNPJ de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento; (..........) (Sublinhado) Como se depreende da legislação transcrita acima, a dedução das despesas médicas na Declaração de Imposto de Renda está sujeita à comprovação a critério da Autoridade Lançadora. A comprovação compreende, basicamente, o pagamento do serviço médico, a ser feito pelas formas indicadas no inciso III do § 1º do art. 80 do RIR/1999 e o beneficiário ser o contribuinte, seus dependentes ou alimentando, em virtude de cumprimento de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente. ... A glosa no valor de R$13.872,74 (Gama Saúde Ltda.) foi motivada pela falta de apresentação de documento com a indicação dos valores do plano de saúde por beneficiário. Na impugnação, o contribuinte alega que se trata de despesas com dependentes e que traz a comprovação tanto da relação de dependência quanto das despesas médicas em si. Para comprovar a relação de dependência, ele traz a Certidão de Casamento de fl. 14. A despeito da Srª Maria Annete ser cônjuge do contribuinte, a dedução de suas despesas médicas dependeria dela ser incluída na relação de dependentes da DIRPF/2013 do contribuinte. Todavia, de acordo com a DIRPF/2013 juntada às fls. 30/37, o contribuinte não incluiu Fl. 86DF CARF MF Processo nº 19985.725449/201641 Acórdão n.º 2002000.218 S2C0T2 Fl. 87 6 dependentes, só sendo possível a dedução de despesas médicas próprias. Quanto à comprovação das despesas médicas, ele juntou aos autos duas declaração fornecida pela Gama Saúde (fls. 21/22) e os alguns agendamentos do pagamento das mensalidades feitos no Banco Citibank (fls. 23/28). As declarações indicam que o plano de saúde é do contribuinte e do cônjuge, a Srª Maria Annete, mas não indica, expressamente, o valor pago para cada um dos beneficiários. Todavia, é possível inferir, por meio da análise da planilha contida na declaração de fl. 21, que a mensalidade de cada beneficiário corresponde à metade do valor pago a cada mês. Assim, com o intuito de não prejudicar o contribuinte, considera se que o plano de saúde do contribuinte e do cônjuge equivale a R$6.936,37, para cada um. Dessa forma, o contribuinte só poderia deduzir na sua declaração as despesas com seu próprio plano de saúde, isto é, o valor de R$6.936,37, que será restabelecido, devendo ser mantida a glosa do valor de R$6.936,37, referente aos gastos com o cônjuge. (destaques acrescidos) Conclusão Pelo exposto, voto por conhecer do recurso, para, no mérito, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Fl. 87DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13786.720226/2011-43
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 21 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2007
DESPESAS MÉDICAS GLOSADAS. DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS QUE JUSTIFIQUEM A INIDONEIDADE DOS COMPROVANTES.
Recibos de despesas médicas têm força probante como comprovante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física. A glosa por recusa da aceitação dos recibos de despesas médicas, pela autoridade fiscal, deve estar sustentada em indícios consistentes e elementos que indiquem a falta de idoneidade do documento. A ausência de elementos que indique a falsidade ou incorreção dos recibos os torna válidos para comprovar as despesas médicas incorridas.
Numero da decisão: 2001-000.500
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro Jose Ricardo Moreira, que lhe negou provimento.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente
(assinado digitalmente)
Jose Alfredo Duarte Filho - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e Jose Ricardo Moreira.
Nome do relator: JOSE ALFREDO DUARTE FILHO
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DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS QUE JUSTIFIQUEM A INIDONEIDADE DOS COMPROVANTES. Recibos de despesas médicas têm força probante como comprovante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física. A glosa por recusa da aceitação dos recibos de despesas médicas, pela autoridade fiscal, deve estar sustentada em indícios consistentes e elementos que indiquem a falta de idoneidade do documento. A ausência de elementos que indique a falsidade ou incorreção dos recibos os torna válidos para comprovar as despesas médicas incorridas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro Jose Ricardo Moreira, que lhe negou provimento. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Presidente (assinado digitalmente) Jose Alfredo Duarte Filho Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e Jose Ricardo Moreira. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 78 6. 72 02 26 /2 01 1- 43 Fl. 82DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a impugnação do contribuinte, em razão da lavratura de Auto de Infração de Imposto sobre a Renda de Pessoa Física – IRPF, por glosa de Despesas Médicas. O lançamento da Fazenda Nacional exige do contribuinte a importância de R$ 5.500,00, a título de imposto de renda pessoa física suplementar, acrescida da multa de ofício de 75% e juros moratórios, referente ao anocalendário de 2007. O fundamento básico do lançamento, conforme consta da decisão de primeira instância, aponta como elemento da decisão da lavratura do lançamento, o fato de que o Recorrente deveria ter apresentado comprovação complementar referente aos pagamentos de despesas médicas, além dos recibos apresentados. A constituição do acórdão recorrido segue na linha do procedimento adotado na feitura do lançamento, notadamente na comprovação da despesa, especialmente no que se refere a documentos suplementares aos recibos apresentados e identificação dos serviços médicos prestados e do beneficiário, como segue: A dedução de despesas médicas tem previsão legal no art. 8º, inciso II, alínea “a”, da Lei nº 9.250 de 1995, consolidado no art. 80, do Decreto 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR/1999), que assim dispõe: (...) De acordo com a Descrição dos Fatos e Enquadramento Lega (fls.7/8) foi efetuada a glosa do montante de R$20.000,00 relativos a Crisitni Rodrigues Ribeiro (R$15.000,00) e a Jamel Noronha Salomão (R$5.000,00) pela seguinte motivação: A Declaração e/ou recibos apresentados não identificam o endereço completo do emitente/profissional dos serviços prestados. A dedução dessas despesas é condicionada a que os pagamentos sejam especificados, informados na Relação de Pagamentos e Doações Efetuados da Declaração de Ajuste Anual, e comprovados, quando requisitados, com documentos originais que indiquem o nome, endereço e número de inscrição no CPF ou CNPJ de quem os recebeu. Em princípio, o recibo contendo todos os requisitos exigidos pela legislação é documento suficiente para comprovar a realização da despesa médica. Entretanto, com fundamento no artigo 73, caput e § 1°, transcrito a seguir, pode a autoridade fiscal, visando formar sua convicção sobre o assunto, solicitar elementos adicionais de provas, tais como cópia de cheque extraída imediatamente após a emissão do documento ou depois da compensação, comprovante de depósito na conta do prestador dos serviços, comprovante de transferências eletrônicas de fundos, transferência interbancárias, comprovante de transmissão de ordem de pagamento, ou, no caso de pagamento efetuado em dinheiro, extrato bancário que demonstre a realização de saque em data e valor coincidente ou aproximado em relação aos pagamentos em questão, podendo também o interessado apresentar Fl. 83DF CARF MF Processo nº 13786.720226/201143 Acórdão n.º 2001000.500 S2C0T1 Fl. 83 3 outros elementos que julgar convenientes, desde que surtam os devidos efeitos legais. (...) Como solução alternativa, o interessado poderia demonstrar a realização do serviço através de cópias de exames, laudos, requisições, prontuários, fichas de atendimento ou outros documentos de natureza similar, vinculados diretamente aos tratamentos informados, que servissem de sustentação ao conteúdo dos recibos. Nada foi juntado ao processo nesse sentido. O contribuinte limitouse a trazer os recibos (fls.12 a 16) e a“Declaração” (fl.11) prestada pela pelo cirurgião dentista Jamel Noronha Salomão (R$5.000,00), bem como os recibos emitidos pela fisioterapeuta Cristini Rodrigues Ribeiro (R$15.000,00) relativos ao seu próprio tratamento domiciliar e a de seu filho Caio Nunes Chicralla (15 anos de idade) e a Declaração (fl.17), sendo que essas despesas teriam sido pagas em moeda corrente. Em princípio, admitese como prova idônea de pagamentos, os recibos fornecidos por profissional competente, legalmente habilitado. Entretanto, havendo necessidade de convencimento por parte do Fisco, este pode solicitar provas da efetividade do pagamento e da prestação dos serviços, não bastando a simples apresentação de recibo e/ou declaração do profissional. Enfatizese que as deduções de despesas médicas admitidas em lei são as relativas aos pagamentos especificados e comprovados. A simples apresentação de recibos não comprova o efetivo pagamento dos ditos honorários pelo contribuinte. Tal comprovação é essencial e necessária para a dedução dos valores pleiteados. Dessa forma, diante da ausência de comprovação efetiva dos pagamentos e da prestação dos serviços, correto está o procedimento fiscal que glosou as deduções destas despesas médicas. Diante de todo o exposto, voto no sentido de julgar improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido. Assim, conclui o acórdão vergastado pela improcedência parcial da impugnação para manter a exigência do Lançamento em R$ 5.500,00, como imposto suplementar, mais acréscimos legais. Por sua vez, com a decisão do Acórdão da DRJ, o Recorrente apresenta recurso voluntário com as considerações e argumentações que entende justificável ao seu procedimento, nos termos que segue: (...) DESCRIÇÃO DOS FATOS E ENQUADRAMENTO LEGAL Fl. 84DF CARF MF 4 079.944.88773 – CRISTINI RODRIGUES RIBEIRO valor R$ 15.000,00 Declaração apresentada pelo contribuinte discriminando os valore pagos não identificam o endereço completo do emitente/profissional dos serviços prestados com os valores pagos. 082.828.64773 – JAMEL MIRANDA SALOMÃO valor R$ 5.000,00 recibos não identificam o endereço completo do emitente/profissional dos serviços prestados. Em data de 22.08.2011 a Secretaria da Receita Federal do Brasil nos enviou uma Notificação de Lançamento – Imposto de Renda Pessoa Física nº 2008/228193104323796, intimandonos a recolher o valor lançado no “Demonstrativo de Crédito Tributário”, no prazo de 30 (dias) contados da data da ciência deste lançamento, cujo montante será recalculado na data do efetivo pagamento, de acordo com a legislação aplicável. O valor total do crédito apurado, incluindo juros de mora e multa de ofício, importava em R$ 11.528,00 (onze mil quinhentos e vinte e oito reais). O verdadeiro fato que levou a RFB a imputar tal infração foi o de não consta o endereço completo do emitente/profissional dos serviços prestados e nada mais. Vejam bem, este foi o detalhe que ocasionou a Notificação de Lançamento acima mencionada. Em 28.11.2011 protocolamos, tempestivamente, a nossa defesa na ARF/STº ANTº DE PÁDUA/RJ sob o nº 07.1.04.022 e nela encaminhamos os comprovantes e declarações de endereços dos emitentes/profissionais dos serviços prestados, atendendo, portanto a RFB e ansiando pelo cancelamento do Auto de Infração que nos fora imputado. (...) Como podem comprovar, tudo nosso está enquadrado e dentro da especificação da Lei acima e como já demonstramos, que nos foi solicitado, por meio da intimação, enviamos a RFB, sempre em tempo hábil e legal. Sendo nada mais solicitado pelo Fisco. (...) Como apresentamos documentação idônea, comprovando o nosso direito de dedução dos valores, objeto do auto de infração, com fulcro no art. 333, inciso I do CPC, a RFB, comprovar com fatos e documentos que o que lançamos em nossa Declaração de Ajuste Anual – ano base 2007 – ano calendário 2008 não está correto. Por todo exposto e documentação anexa, demonstrada a insubsistência e improcedência da ação fiscal requer o impugnante que seja acolhida a presente impugnação para o fim de assim ser decidido, cancelandose o débito fiscal reclamado. É o relatório. Voto Fl. 85DF CARF MF Processo nº 13786.720226/201143 Acórdão n.º 2001000.500 S2C0T1 Fl. 84 5 Conselheiro Jose Alfredo Duarte Filho Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. A divergência no que ser refere à despesa médica é de natureza interpretativa da legislação quanto à observância maior ou menor da exigência de formalidade da legislação tributária que rege o fulcro do objeto da lide. O que se evidencia na contenda é que de um lado há o rigor no procedimento fiscalizador da autoridade tributante, e de outro, a busca do direito, pelo contribuinte, de ver reconhecido o atendimento da exigência fiscal no estrito dizer da lei, rejeitando a alegada prerrogativa do fisco de convencimento subjetivo quanto à validade cabal do documento comprobatório, quando se trata tão somente da apresentação da nota fiscal ou do recibo da prestação de serviço. O texto base que define o direito da dedução do imposto e a correspondente comprovação para efeito da obtenção do benefício está contido no inciso II, alínea “a” e no § 2º, do art. 8º, da Lei nº 9.250/95, regulamentados nos parágrafos e incisos do art. 80 do Decreto nº 3.000/99 – RIR/99, em especial no que segue: Lei nº 9.250/95. Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; (...) § 2º O disposto na alínea a do inciso II: I aplicase, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas – CPF ou no Cadastro Geral de Contribuintes CGC de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento; Fl. 86DF CARF MF 6 IV não se aplica às despesas ressarcidas por entidade de qualquer espécie ou cobertas por contrato de seguro; V no caso de despesas com aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias, exigese a comprovação com receituário médico e nota fiscal em nome do beneficiário. Decreto nº 3.000/99 Art. 80. Na declaração de rendimentos poderão ser deduzidos os pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias. § 1º O disposto neste artigo (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, § 2º): (...) II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica CNPJ de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento; (grifei) A exigência da legislação especificada aponta para o comprovante de pagamento originário da operação, corriqueiro e usual, assim entendido como o recibo ou a nota fiscal de prestação de serviço, que deverá contar com as informações exigidas para identificação, de quem paga e de quem recebe o valor, sendo que, por óbvio, visa controlar se o recebedor oferecerá à tributação o referido valor como remuneração. A lógica da exigência coloca em evidência a figura de quem fornece o comprovante identificado e assinado, colocandoo na condição de tributado na outra ponta da relação fiscal correspondente (deduçãotributação). Ou seja: para cada dedução haverá um oferecimento à tributação pelo fornecedor do comprovante. Quem recebe o valor tem a obrigação de oferecêlo à tributação e pagar o imposto correspondente e, quem paga os honorários tem o direito ao benefício fiscal do abatimento na apuração do imposto. Simples assim, por se tratar de uma ação de pagamento e recebimento de valor numa relação de prestação de serviço. Ocorre, neste caso, uma correspondência de resultados de obrigação e direito, gerados nessa relação, de modo que o contribuinte que tem o direito da dedução fica legalmente habilitado ao benefício fiscal porque de posse do documento comprobatório que lhe dá a oportunidade do desconto na apuração do tributo, confiante que a outra parte se quedará obrigada ao oferecimento à tributação do valor correspondente. Somese a isso a realidade de que o órgão fiscalizador tem plenas condições e pleno poder de fiscalização, na questão tributária, com absoluta facilidade de identificação, tão somente com a informação do CPF ou CNPJ, sobre a outra banda da relação pagadorrecebedor do valor da prestação de serviço. O dispositivo legal (inciso III, do § 1º, art. 80, Dec. 3.000/99) vai além no sentido de dar conforto ao pagador dos serviços prestados ao prever que no caso da falta da Fl. 87DF CARF MF Processo nº 13786.720226/201143 Acórdão n.º 2001000.500 S2C0T1 Fl. 85 7 documentação, assim entendido como sendo o recibo ou nota fiscal de prestação de serviço, poderá a comprovação ser feita pela indicação de cheque nominativo pelo qual poderia ter sido efetuado o pagamento, seja por recusa da disponibilização do documento, seja por extravio, ou qualquer outro motivo, visto que pelas informações contidas no cheque pode o órgão fiscalizador confrontar o pagamento com o recebimento do valor correspondente. Além disso, é de conhecimento geral que o órgão tributante dispõe de meios e instrumentos para realizar o cruzamento de informações, controlar e fiscalizar o relacionamento financeiro entre contribuintes. O termo “podendo” do texto legal consiste numa facilitação de comprovação dada ao pagador e não uma obrigação de fazêlo daquela forma. Descabe, assim, o rigor na exigência para a apresentação de comprovação suplementar sobre o contribuinte possuidor da documentação originária do pagamento nas condições em que a lei estabelece, especialmente porque a autoridade fiscalizadora pode obter informação de confirmação da outra parte. Razão não há para a dissociação de ambos os polos na relação e estabelecer exigência rigorosa de um e nada de outro, porque a operação é conjunta e correspondente, com reflexos constatáveis nas informações dos dois contribuintes. No caso, há que se considerar a presunção de idoneidade da comprovação apresentada em obediência ao que dispõe a legislação. Mais ainda, em razão da ausência da apresentação, por parte do fisco, de indícios que coloquem em dúvida a idoneidade dos recibos apresentados pela Recorrente. Não basta a simples desconfiança do agente público incumbido da auditoria para que se obrigue o contribuinte a apresentar prova suplementar se não há elementos desabonadores da boa fé de quem usa a documentação especificada na lei para o exercício do direito à dedução na apuração do resultado tributário da pessoa física. O Código Civil, Lei nº 10.406/2002, em seu art. 219 diz que: “As declarações constantes de documentos assinados presumemse verdadeiros em relação aos signatários.” Neste sentido, os recibos em questão presumemse verdadeiros porque aceitos pelas partes contratantes identificadas no documento, de forma que não é razoável a decisão do Fisco de rejeitar os comprovantes como prova válida, sem a indicação de elementos que os desqualifiquem. Se os documentos são válidos para o prestador dos serviços oferecer os valores à tributação, os mesmos documentos deverão ser válidos também para a dedução legal de quem os recebe como comprovação de pagamentos. Por juízo subjetivo ou simples desconfiança, sem sequer a indicação de indícios de inidoneidade da documentação, não pode a autoridade lançadora fazer exigências fora dos limites da lei. O procedimento fiscal busca amparo no que dispõe o art. 73 e seu § 1º, do Decreto nº 3.000/99, para posicionar o ônus da prova unicamente no contribuinte, nos termos em que a seguir se descreve: Art. 73. Todas as deduções estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). (grifei) § 1º Se forem pleiteadas deduções exageradas em relação aos rendimentos declarados, ou se tais deduções não forem cabíveis, poderão ser glosadas sem a audiência do contribuinte (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 4º). (grifei) No ordenamento jurídico brasileiro o decreto regulamentador é uma norma expedida pelo poder executivo que tem como função pormenorizar os preceitos fixados na lei, dentro dos limites nela insertos, sendo considerados, por isso, atos secundários. Seu alcance Fl. 88DF CARF MF 8 cingese aos limites da lei não podendo criar situações que obrigue ou limite direitos além daqueles constantes na lei que regulamenta. Neste quesito específico das deduções de despesas médicas temos o que dispõe a Lei nº 9.250/95, em seu art. 8º, § 2º, incisos II e III, que foi objetivamente regulamentado no Decreto 3.000/99, no art. 80, § 1º, incisos II e III. Assim, a regulamentação deste item de despesa dedutível aqui se esgota porque o objeto tratado foi abordado de forma direta e específica, não permitindo outras exigências porque a lei não concede extensões de procedimento fiscalizatório nem limitação quantitativa de direitos. Neste sentido descabe a utilização do art. 73 e seu § 1º, conforme citado no Lançamento, por se tratar de dispositivo genérico que aparece no Decreto Regulamentador no capítulo das Disposições Gerais de Deduções, vinculado ao longínquo DecretoLei nº 5.844 de 1943, muito distante no tempo e do contexto jurídico atual. A rigidez dos termos do art. 73 e § 1º está mais para o período em que foi concebido do que para os dias atuais. A origem do conteúdo do texto vem do período do DecretoLei acima citado, mais precisamente do ano de 1943, anterior, portanto, às quatro últimas Constituições do Brasil (1946, 1967, 1969 e 1988) e, muito distante do conceito atual de Direito do Contribuinte e do Estado de Direito. Além disso, mesmo na vigência do referido DecretoLei a austeridade do instrumento não era plena, visto que o art. 79, § 1º, do mesmo diploma legal lhe impunha limitações, no seguinte dizer: “Art. 79. Farseá o lançamento ex officio: § 1º Os esclarecimentos prestados só poderão ser impugnados pelos lançadores, com elemento seguro de provo, ou indício veemente de sua falsidade ou inexatidão.”. A Constituição Federal de 1988, em seu art. 5º, inciso II, diz que “ninguém está obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. Da mesma forma, o art. 150, inciso I, vai na mesma direção ao determinar que: “Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça;”. A verdade posta é que ao reduzir ou limitar deduções a Autoridade Lançadora estaria aumentando tributo sem lei que estabeleça. Estamos sob a égide da Constituição Federal de 1988 e, quando a Carta Magna menciona o termo “lei” ela se refere aquele instrumento jurídico emanado do Poder Legislativo, como órgão de representação do povo, nascido do devido processo constitucional. O decretolei, por sua vez, constituíase numa espécie de ato normativo com origem no Poder Executivo em caso de urgência ou de interesse público relevante. Ou seja, um decreto que fazia às vezes de lei que vigorou até a Constituição Federal de 1988. A doutrina aceita que o decreto lei tenha valor vigorante enquanto não contrariar lei posterior. Contudo, o DecretoLei nº 5.844/1943, ao não constituirse em lei, contraria a Constituição vigente, nos dispositivos antes citados (inciso II, art. 5º e inciso I, art. 150 – CF/1988). Eventual desconfiança de que o profissional teria fornecido comprovação de serviço que não prestou caracterizaria conluio entre as partes contratantes, o que não foi apontado no histórico do Lançamento. Admitirse que os recibos não representam uma verdadeira prestação de serviço conduz à conclusão lógica de que teria ocorrido conluio entre profissional e paciente, ambos contribuintes do imposto, com o objetivo de lesar o fisco, e assim estariam enquadrados em multa qualificada, o que não foi o caso de apontamento no Lançamento. Em socorro ao posicionamento que busca resguardar o direito do contribuinte tomamse emprestados os termos da doutrina que trata da necessária clareza da motivação nos atos da administração pública, trazida pelo sempre bem citado Hely Lopes Meireles, quando descreve a necessidade da motivação do ato administrativo, que assim se posiciona: Fl. 89DF CARF MF Processo nº 13786.720226/201143 Acórdão n.º 2001000.500 S2C0T1 Fl. 86 9 “Para se ter a certeza de que os agentes públicos exercem a sua função movidos apenas por motivos de interesse público da esfera de sua competência, leis e regulamentos recentes multiplicam os casos em que os funcionários, ao executarem um ato jurídico, devem expor expressamente os motivos que o determinaram. É a obrigação de motivar. O simples fato de não haver o agente público exposto os motivos de seu ato bastará para tornálo irregular; o ato não motivado, quando o devia ser, presumese não ter sido executado com toda a ponderação desejável, nem ter tido em vista um interesse público da esfera de sua competência funcional.” No mesmo sentido a Lei nº 9.784/99, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, no seu art. 50, diz que: “os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: neguem, limitem ou afetem direitos ou interesses; imponham ou agravem deveres, encargos ou sanções; decidam processos administrativos de concurso ou seleção público; decidam recursos administrativos...”. O Novo Código de Processo Civil, embora posterior aos fatos da ocorrência do lançamento, pode ser utilizado em apoio à interpretação aqui esposada, porque mais benéfico à Recorrente, contém dispositivos pertinentes que devem ser trazidos à colação, de vez que transitam na mesma linha de entendimento que aborda a observância do direito do contribuinte de forma moderna e em consideração ao Estado de Direito. O Código avança no sentido de estabelecer o equilíbrio de forças das partes no processo de julgamento, como se vê na orientação do art. 7º, como segue: “Art. 7º É assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo contraditório”. (grifei) Traz reforço ainda o CPC para esse entendimento quando suaviza o posicionamento anterior que atribuía ao contribuinte, de forma quase que exclusiva, o ônus da prova, e inaugura a possibilidade das partes atuarem em prol de uma instrução colaborativa, a fim de oferecer ao julgador melhores subsídios para proferir a decisão, sem que se faça uso da regra do ônus da prova de forma unilateral. Este novo procedimento está explicitado no § 1º, do art. 373, da seguinte forma: § 1o Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído. De forma semelhante o art. 6º do CPC reforça este entendimento colaborativo ao dizer que “Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva”. CONCLUSÃO Fl. 90DF CARF MF 10 Legítima a dedução a título de despesas médicas do valor pago pela contribuinte, comprovado mediante apresentação de nota fiscal de prestação de serviço ou recibo, este assinado por profissional habilitado, pois tais documentos guardam ao mesmo tempo reconhecimento da prestação de serviços assim como também confirma o seu pagamento. Desnecessária qualquer declaração posterior firmada pelo profissional prestador do serviço, embora apresentadas, porque aqueles comprovantes já cumprem a função legalmente exigida. De considerar plenamente admissível que os comprovantes revestidos das formalidades legais sustentam a condição de valor probante, até prova em contrário, de sua inidoneidade. A contestação da Autoridade Fiscal sobre a validade da documentação comprobatória deve ser apresentada com indícios consistentes e não somente por simples dúvida ou desconfiança. Acolhese como verdadeira a prova apresentada pelo contribuinte que satisfaça os requisitos previstos na legislação pertinente e, para eventual convicção contrária da Autoridade Lançadora, esta deverá ser posta com fundamentos consistentes que a sustentem legalmente e não subjetivamente. No caso, constatase nos autos que os serviços prestados correspondem a especialidade técnica de profissional habilitado na área médica, de acordo com as necessidades especificas do beneficiário e, com o fornecimento de comprovantes de pagamento dos serviços prestados, mediante recibos e declarações assinadas por profissionais habilitados. Assim que, no exame da documentação acostada ao processo, verificase que o Recorrente apresentou a documentação comprobatória da despesa médica realizada, correspondendo à comprovação do pagamento dos profissionais, na forma exigida pela legislação, e por isso a utilizou como dedutível na declaração de ajuste do imposto, razão porque se faz necessária a providência da exclusão da glosa das despesas médicas na sua totalidade. Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário, e no mérito DAR PROVIMENTO, restabelecendose a dedução das despesas médicas glosadas, e excluindose o crédito tributário lançado na sua integralidade. (assinado digitalmente) Jose Alfredo Duarte Filho Fl. 91DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.009166/2009-03
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jul 30 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Exercício: 2005, 2006
ITR. ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ADA. LAUDO TÉCNICO. OBRIGATORIEDADE.
A partir do exercício 2001, faz-se obrigatória, para valer-se da isenção das áreas elencadas nas alíneas "a" a "f" do inciso II do artigo 10 da Lei 9.393/96, a apresentação - tempestiva - do ADA ao IBAMA, com referidas informações, bem como, quando intimado, de laudo técnico elaborado por profissional habilitado, acompanhado de ART registrada no Crea, identificando, detalhada e especificamente, eventuais APP, não sobrepostas às ARL porventura existentes, elencadas nas alíneas "a" a "h" do artigo 2º da Lei 4.771/65.
ITR. RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO. OBRIGATORIEDADE.
A partir do exercício 2001, faz-se obrigatória, para valer-se da isenção das áreas elencadas nas alíneas "a" a "f" do inciso II do artigo 10 da Lei 9.393/96, a apresentação - tempestiva - do ADA ao IBAMA, com referidas informações. Além disso, a ARL deve ser averbada à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, após aprovada sua localização pelo órgão ambiental estadual competente ou, mediante convênio, pelo órgão ambiental municipal ou outra instituição devidamente habilitada, consoante estabelecem os §§ 4º e 8º do artigo 16 da Lei 4.771/65.
ITR. VTN. NÃO COMPROVAÇÃO.
Constatada - pelo Fisco - a flagrante subavaliação do VTN utilizado pelo contribuinte, a este cabe a apresentação de laudo de avaliação do imóvel, conforme estabelecido na NBR 14.653 da Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT com fundamentação e grau de precisão II, com anotação de responsabilidade técnica - ART registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados, com vistas a contrapor o valor obtido no SIPT.
Numero da decisão: 2402-006.231
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior que deram provimento parcial.
(assinado digitalmente)
Mario Pereira de Pinho Filho - Presidente
(assinado digitalmente)
Mauricio Nogueira Righetti - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mario Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior.
Nome do relator: MAURICIO NOGUEIRA RIGHETTI
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ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ADA. LAUDO TÉCNICO. OBRIGATORIEDADE. A partir do exercício 2001, fazse obrigatória, para valerse da isenção das áreas elencadas nas alíneas "a" a "f" do inciso II do artigo 10 da Lei 9.393/96, a apresentação tempestiva do ADA ao IBAMA, com referidas informações, bem como, quando intimado, de laudo técnico elaborado por profissional habilitado, acompanhado de ART registrada no Crea, identificando, detalhada e especificamente, eventuais APP, não sobrepostas às ARL porventura existentes, elencadas nas alíneas "a" a "h" do artigo 2º da Lei 4.771/65. ITR. RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO. OBRIGATORIEDADE. A partir do exercício 2001, fazse obrigatória, para valerse da isenção das áreas elencadas nas alíneas "a" a "f" do inciso II do artigo 10 da Lei 9.393/96, a apresentação tempestiva do ADA ao IBAMA, com referidas informações. Além disso, a ARL deve ser averbada à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, após aprovada sua localização pelo órgão ambiental estadual competente ou, mediante convênio, pelo órgão ambiental municipal ou outra instituição devidamente habilitada, consoante estabelecem os §§ 4º e 8º do artigo 16 da Lei 4.771/65. ITR. VTN. NÃO COMPROVAÇÃO. Constatada pelo Fisco a flagrante subavaliação do VTN utilizado pelo contribuinte, a este cabe a apresentação de laudo de avaliação do imóvel, conforme estabelecido na NBR 14.653 da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT com fundamentação e grau de precisão II, com anotação de responsabilidade técnica ART registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados, com vistas a contrapor o valor obtido no SIPT. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 00 91 66 /2 00 9- 03 Fl. 138DF CARF MF 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior que deram provimento parcial. (assinado digitalmente) Mario Pereira de Pinho Filho Presidente (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mario Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior. Relatório Cuida o presente de Recurso Voluntário em face do Acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento, que considerou improcedente a Impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Contra o contribuinte (espólio) foi lavrado Auto de Infração para constituição do ITR, exercícios 2005 e 2006 no valor principal de R$ 4.777,22 e R$ 6.376,64, respectivamente, acrescidos de multa de ofício (75%) e juros legais (Selic), relativo ao NIRF 3.900.3469 SUPERAGUI. Foram apuradas as seguintes infrações em ambos os exercícios: 1 Área de Preservação Permanente não comprovada; 2 Área de Reserva Legal não comprovada; e 3 VTN declarado não comprovado; Regulamente intimado do lançamento, apresentou Impugnação, que foi julgada procedente em parte pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento DRJ fls. 97/107. Em seu Recurso Voluntário de fls. 112/132 aduz, em resumo: 1 Que a área do imóvel consta do ecossistema da Mata Atlântica, inserida na Área de Proteção Ambiental APA de Guaraqueçaba, criada pelo Decreto Federal n° 90.883 de 31 de janeiro de 1.985 e declarada como área de proteção ambiental no âmbito do Estado do Paraná, conforme Decreto Estadual PR n° 1.228 de 30 de março de 1992, e o excluiria definitivamente da condição de áreas tributáveis, uma vez que proibida toda e qualquer atividade nessas áreas. Fl. 139DF CARF MF Processo nº 10980.009166/200903 Acórdão n.º 2402006.231 S2C4T2 Fl. 3 3 Que a área estaria toda dentro de mangue. Que o ADA apresentado demonstraria a integralidade da área como de interesse ecológico. Além do quê, não seria essencial para a isenção das APP; 2 Que o VTN considerado no lançamento, infundado e inconseqüente, decorreu de uma valor de terras que é varias vezes maior do que o negociado quando da aquisição do imóvel. Que não se trataria de terras mistas não mecanizáveis e sim de área de preservação formada por mangues, inserida na Baia dos Pinheiros. Que no Município de Guaraqueçaba, encontramse áreas que compõe a Serra do Mar, parte da Mata Atlântica, áreas de abrigo de animais silvestres e florestas protegidos pela legislação ambiental que não tem valor comercial. Face as restrições de utilização do solo e exploração florestal, dificilmente ocorre alguma transação negocial. 3 Que o lançamento realizado seria ilegal, eis que teria se afastado do conteúdo da obrigação tributária definida em lei, para pretender fundamento apenas na declaração prestada pelo recorrente. É o relatório. Voto Conselheiro Mauricio Nogueira Righetti, Relator O contribuinte tomou ciência do acórdão recorrido em 06.07.2010 e apresentou tempestivamente seu Recurso Voluntário em 03.08.2010. Observados os demais requisitos de admissibilidade, dele passo a conhecer. Consoante se denota do demonstrativo de apuração do ITR devido, a Fiscalização promoveu alterações na DITR do contribuinte no que toca às áreas: de preservação permanente, de reserva legal, além de no valor total do imóvel e sobre tais assuntos se desenvolverá a análise a seguir. Vejamos: Fl. 140DF CARF MF 4 As alterações promovidas de ofício pelo lançamento trazem repercussão direta na base imponível e alíquota do tributo. O artigo 10 da Lei 9.393/96 disciplina os contornos da apuração do ITR, verbis. Art. 10. A apuração e o pagamento do ITR serão efetuados pelo contribuinte, independentemente de prévio procedimento da administração tributária, nos prazos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, sujeitandose a homologação posterior. § 1º Para os efeitos de apuração do ITR, considerarseá: I VTN, o valor do imóvel, excluídos os valores relativos a: a) construções, instalações e benfeitorias; b) culturas permanentes e temporárias; c) pastagens cultivadas e melhoradas; d) florestas plantadas; Fl. 141DF CARF MF Processo nº 10980.009166/200903 Acórdão n.º 2402006.231 S2C4T2 Fl. 4 5 II área tributável, a área total do imóvel, menos as áreas: a) de preservação permanente e de reserva legal, previstas na Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965, com a redação dada pela Lei nº 7.803, de 18 de julho de 1989; b) de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que ampliem as restrições de uso previstas na alínea anterior; c) comprovadamente imprestáveis para qualquer exploração agrícola, pecuária, granjeira, aqüícola ou florestal, declaradas de interesse ecológico mediante ato do órgão competente, federal ou estadual; d) as áreas sob regime de servidão florestal.(Incluído pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) e) cobertas por florestas nativas, primárias ou secundárias em estágio médio ou avançado de regeneração; (Incluído pela Lei nº 11.428, de 2006) f) alagadas para fins de constituição de reservatório de usinas hidrelétricas autorizada pelo poder público. (Incluído pela Lei nº 11.727, de 2008) As áreas de preservação permanente APP, consoante definidas na Lei 4.771/65, coberta ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bemestar das populações humanas, podem ser classificadas como legais (art. 2º) e administrativas (art. 3º). Quanto às primeiras, as legais, temos as florestas e demais formas de vegetação natural situadas próximas a fontes de recursos hídricos e a relevos com importância a preservação dos eco sistemas, tais como: i) ao longo dos rios ou de qualquer curso d'água desde o seu nível mais alto em faixa marginal; ii) ao redor das lagoas, lagos ou reservatórios d'água naturais ou artificiais; iii) nas nascentes, ainda que intermitentes e nos chamados "olhos d'água", qualquer que seja a sua situação topográfica, num raio mínimo de 50 (cinquenta) metros de largura; iv) no topo de morros, montes, montanhas e serras; v) nas encostas ou partes destas, com declividade superior a 45°, equivalente a 100% na linha de maior declive; e vi) nas restingas, como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues. Por sua vez, as APP administrativas, declaradas por ato do poder público, são as florestas e demais formas de vegetação natural destinadas: a) a atenuar a erosão das terras; b) a fixar as dunas; c) a formar faixas de proteção ao longo de rodovias e ferrovias; Fl. 142DF CARF MF 6 d) a auxiliar a defesa do território nacional a critério das autoridades militares; e) a proteger sítios de excepcional beleza ou de valor científico ou histórico; f) a asilar exemplares da fauna ou flora ameaçados de extinção; g) a manter o ambiente necessário à vida das populações silvícolas; h) a assegurar condições de bemestar público. Percebese que há uma evidente diferença entre as duas espécies de APP. Enquanto que para as legais, já determinadas no diploma legal, a finalidade é intrínseca ao que se propõe a lei; para as administrativas, a finalidade a ser alcançada pelo administrador público está textualmente prevista nas alíneas daquele artigo 3º. Assim, indubitavelmente, a ação do poder público tornase imprescindível para a constituição dessas APP administrativas. Frisese que a supressão total ou parcial dessas áreas de preservação permanente só será admitida com prévia autorização do Poder Executivo Federal, quando for necessária à execução de obras, planos, atividades ou projetos de utilidade pública ou interesse social. Por seu turno, ainda de acordo com o diploma encimado, as reservas legais são áreas localizadas no interior de uma propriedade ou posse rural, excetuada a de preservação permanente, necessárias ao uso sustentável dos recursos naturais, à conservação e reabilitação dos processos ecológicos, à conservação da biodiversidade e ao abrigo e proteção de fauna e flora nativas, cuja vegetação não pode ser suprimida, podendo apenas ser utilizada sob regime de manejo florestal sustentável, de acordo com princípios e critérios técnicos e científicos estabelecidos. Devem ser averbadas à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, após aprovada sua localização pelo órgão ambiental estadual competente ou, mediante convênio, pelo órgão ambiental municipal ou outra instituição devidamente habilitada (§ § 4º e 8º do artigo 16 da Lei 4.771/65). A obrigatoriedade da aprovação acima citada foi introduzida na lei de regência, por conta da MP 2.16667/2001. Veja, a obrigatoriedade de se ter aprovada a localização da ARL pelo órgão ambiental estadual competente ou, mediante convênio, pelo órgão ambiental municipal ou outra instituição devidamente habilitada está diretamente relacionada à vedação a que se constitua reserva legal sobre área de preservação permanente, já dedutível, observadas as exigências legais, na apuração do imposto. Com isso, tendese a evitar a utilização da mesma área, por mais de uma vez, como dedução do ITR. Assim, podese resumir: APP Pode haver a supressão, quando assim determinar o interesse público; ARL Não pode haver a supressão, mas somente sua utilização em regime de manejo florestal sustentável. E, por fim, naquilo que interessa ao caso, temos as áreas de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que, destacase: ampliem as restrições de uso previstas para as APP e ARL. Em outras palavras: ainda que haja ato do poder público que declare determinada área como de interesse ecológico, caso não haja a imposição de efetivas restrições Fl. 143DF CARF MF Processo nº 10980.009166/200903 Acórdão n.º 2402006.231 S2C4T2 Fl. 5 7 de uso que ampliem aquelas previstas para as APP e ARL, ou seja, restrições além do manejo sustentável, tenho que sua dedução, da área tributável pelo ITR, não possui suporte legal. Confirase. ITR ÁREA DE UTILIZAÇÃO LIMITADA/ÁREA DECLARADA DE INTERESSE ECOLÓGICO NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. Para que não se tribute pelo Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR a área de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declarada mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, deve ser comprovada a ampliação às restrições de uso previstas para as áreas de preservação permanente e reserva legal, ou seja, restrições além do manejo sustentável. Acórdão nº 9202003.051 – Sessão de 12 de fevereiro de 2014 ÁREA DE INTERESSE ECOLÓGICO. ISENÇÃO. CONDIÇÕES. Para que as Áreas de Interesse Ecológico para a proteção dos ecossistemas sejam isentas do ITR, é necessário que sejam assim declaradas por ato específico do órgão competente, federal ou estadual, e que estejam sujeitas a restrições de uso superiores àquelas previstas para as áreas de Reserva Legal e de Preservação Permanente. O fato de o imóvel rural encontrarse inserido em zoneamento ecológico, por si só, não gera direito à isenção ora tratada. Acórdão nº 9202004.576 – Sessão de 24 de novembro de 2016 Reforçase: para efeito de exclusão do ITR, a Área de Interesse Ecológico deve ser assim declarada em caráter específico para determinada área da propriedade particular. Quer dizer com isso, que a área declarada em caráter geral não satisfaz, por si só, a condição legal para sua dedutibilidade. Portanto, se o imóvel rural estiver dentro de área declarada em caráter geral como de interesse ecológico, é necessário também o reconhecimento específico de órgão competente federal ou estadual para a área da propriedade particular. O reconhecimento dessas áreas depende de ato específico, por imóvel, expedido pelo Ibama (Ato Declaratório Ambiental – ADA). Prosseguindo, a alínea "e" do inciso II, § 1º do artigo 10 da Lei 9.393/96, com a redação dada pela lei 11.428/2006, autorizou a dedução, a partir de 01.01.2007, das áreas cobertas por florestas nativas, primárias ou secundárias em estágio médio ou avançado de regeneração. Notese que áreas cobertas por florestas nativas secundárias em estágio inicial de regeneração não foram contempladas pelo dispositivo.1 1 http://www.fundacaofia.com.br/gdusm/florestas_estagios.htm Fl. 144DF CARF MF 8 Malgrada a digressão acima, seja qual for a área que, ao amparo do inciso II, do § 1º do artigo 10 da Lei 9.393/96, se pretenda expurgar daquela tributável pelo ITR, o fato é que ela deve constar consignada no competente Ato Declaratório Ambiental ADA, conforme preconiza o artigo 17O da Lei 6.938/81, com a redação dada pela Lei 10.165/2000. Confirase. Art. 17O. Os proprietários rurais que se beneficiarem com redução do valor do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural – ITR, com base em Ato Declaratório Ambiental ADA, deverão recolher ao IBAMA a importância prevista no item 3.11 do Anexo VII da Lei no 9.960, de 29 de janeiro de 2000, a título de Taxa de Vistoria.(Redação dada pela Lei nº 10.165, de 2000) § 1oA. A Taxa de Vistoria a que se refere o caput deste artigo não poderá exceder a dez por cento do valor da redução do imposto proporcionada pelo ADA.(Incluído pela Lei nº 10.165, de 2000) § 1o A utilização do ADA para efeito de redução do valor a pagar do ITR é obrigatória. (...) § 5o Após a vistoria, realizada por amostragem, caso os dados constantes do ADA não coincidam com os efetivamente levantados pelos técnicos do IBAMA, estes lavrarão, de ofício, novo ADA, contendo os dados reais, o qual será encaminhado à Secretaria da Receita Federal, para as providências cabíveis. Por sua vez, o Ato Declaratório Ambiental – ADA é um instrumento legal que possibilita ao Proprietário Rural uma redução do Imposto Territorial Rural – ITR, em até 100%, sobre a área efetivamente protegida, quando declarar no Documento de Informação e Apuração DIAT/ITR, Áreas de Preservação Permanente (APPs), Reserva Legal, Reserva Particular do Patrimônio Natural, Interesse Ecológico, Servidão Florestal ou Ambiental, áreas cobertas por Floresta Nativa e áreas Alagadas para fins de Constituição de Reservatório de Usinas Hidrelétricas. É documento de cadastro das áreas do imóvel rural junto ao IBAMA e das áreas de interesse ambiental que o integram para fins de isenção do Imposto Sobre a Propriedade Territorial Rural ITR, sobre estas últimas. Deve ser preenchido e apresentado pelos declarantes de imóveis rurais obrigados à apresentação do ITR. O texto legal encimado evidencia uma atuação conjunta de órgãos autônomos no sentido de manter o controle em relação à desoneração tributária. Ademais, prevê a necessidade de pagamento de uma taxa de vistoria, a qual, em sendo realizada, e não se confirmando a existência das áreas excluídas de tributação, poderá ensejar o lançamento de ofício do tributo, sendo inequívoco que o ADA é obrigatório para aqueles que desejam se beneficiar da redução do tributo devido a título de ITR. É dizer: é instrumento eleito pelo legislador para controle, integração de órgãos e fonte de custeio da atividade de vistoria, questões absolutamente indispensáveis ao acompanhamento do cumprimento dos preceitos da legislação relativos à limitação da utilização de tais áreas, bem assim da correção no gozo da benesse fiscal. Nesse contexto, o legislador estabeleceu a forma que entendeu adequada para promover tal controle e fiscalização, não sendo possível a este Conselho deixar de aplicar comando legal válido e vigente apenas pela eventual convicção de que tal atividade poderia ser levada a termo de outra forma. Fl. 145DF CARF MF Processo nº 10980.009166/200903 Acórdão n.º 2402006.231 S2C4T2 Fl. 6 9 Reprisese. Não há esforço interpretativo que, a partir da literalidade da frase "a utilização do ADA para efeito de redução do valor a pagar do ITR é obrigatória", possa ser capaz de concluir pela desnecessidade da obrigação imposta pelo legislador. É entendimento corrente neste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais que, com o advento da lei 6.938/81, com a redação dada pela Lei nº 10.165/00, é obrigatória a apresentação do ADA protocolado junto ao IBAMA. Situação diversa da verificada em períodos anteriores ao ano de 2001, como se depreende da Súmula Carf. nº 41, segundo a qual, “a não apresentação do Ato Declaratório Ambiental (ADA) emitido pelo IBAMA, ou órgão conveniado, não pode motivar o lançamento de ofício relativo a fatos geradores ocorridos até o exercício de 2000”. No caso em tela, o que se vê é a utilização da função extrafiscal do tributo, mediante sua aplicação como instrumento de política ambiental, estimulando a preservação ou recuperação da fauna e da flora em contrapartida a uma redução do valor devido a título de Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural. Contudo, a legislação impõe requisitos para gozo de tais benefícios, os quais variam de acordo com a natureza de cada hipótese de exclusão do campo de incidência do tributo e das limitações que cada situação impõe ao direito de propriedade. Voltando às reservas legais, caso de fato existentes, há que se observar, cumulativamente, o preenchimento dos dois requisitos a seguir: sua averbação junto à matrícula do imóvel previamente ao exercício em que dela se pretenda usufruir, após aprovação do local pelo órgão ambiental e sua informação no ADA protocolizado no IBAMA, no prazo estabelecido em norma regulamentar. 2 Em suma: a existência das ARL, APP, áreas cobertas pro floresta nativa ou qualquer outra especificada naquele inciso II, § 1º do artigo 10 da Lei 9.393/96, por si só não assegura ao contribuinte a não tributação das áreas as que se refere. Há de se cumprir as exigências legais. Notem por sua vez, que os prazos acima destacados não se tratam de mera formalidade ou desprovidos de propósito razoável. Vejamos: Se por um lado é indubitável que as ARL devem ser averbadas à margem da inscrição de matrícula do imóvel, por outro, o que se questiona é se tal providência pode ser efetivada a qualquer tempo. Tenho que não. Tal averbação é condição legal para que o sujeito passivo possa, a rigor, se valer de tal isenção e não ter contra si constituído o crédito tributário a ela relacionada. Logo, todas as circunstâncias constitutivas 3 e fatos devem estar perfeitamente configurados à data do fato gerador da obrigação principal. E mais, a averbação em registro próprio possibilita a determinação dos limites e localização das ARL, viabiliza o efetivo controle de sua manutenção pelo poder público, além de dar publicidade de seus contornos à eventuais adquirentes da propriedade. Seria, a grosso modo, uma via de mão dupla. 2 Artigo 9º, § 3º, I da IN SRF 256/2002. 3 o STJ, no EREsp 1.027.051/SC, reconheceu que, para fins tributários, a averbação deve ser condicionante da isenção, tendo eficácia constitutiva. Fl. 146DF CARF MF 10 Assim dispõe o § 1º do artigo 12 do Decreto 4.382/2002, de obediência obrigatória por este colegiado: Art. 12. São áreas de reserva legal aquelas averbadas à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, nas quais é vedada a supressão da cobertura vegetal, admitindose apenas sua utilização sob regime de manejo florestal; § 1º Para efeito da legislação do ITR, as áreas a que se refere o caput deste artigo devem estar averbadas na data de ocorrência do respectivo fato gerador. Já no que toca ao prazo para o protocolo do ADA, da mesma forma de evidente obrigatoriedade legal, veja que está relacionado á viabilidade do exercício do poder de polícia a cargo do IBAMA. Admitir o protocolo a qualquer tempo conduzira, por óbvio, ao inegável prejuízo no exercício da atividade estatal, já que poderia não mais dispor de tempo hábil à tomada de eventuais providências no âmbito do lançamento de oficio do ITR. Esvaziaria, assim entendido, o propósito legal. Na mesma linha, o inciso I do § 3º do artigo 10 daquele Decreto 4.382/2002 estabelece: Art. 10. Área tributável é a área total do imóvel, excluídas as áreas: I de preservação permanente; II de reserva legal; III de reserva particular do patrimônio natural; IV de servidão florestal; V de interesse ecológico para a proteção dos ecossistemas, assim declaradas mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que ampliem as restrições de uso previstas nos incisos I e II do caput deste artigo; VI comprovadamente imprestáveis para a atividade rural, declaradas de interesse ecológico mediante ato do órgão competente, federal ou estadual.. § 1º A área do imóvel rural que se enquadrar, ainda que parcialmente, em mais de uma das hipóteses previstas no caput deverá ser excluída uma única vez da área total do imóvel, para fins de apuração da área tributável. § 2º A área total do imóvel deve se referir à situação existente na data da efetiva entrega da Declaração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural DITR. § 3º Para fins de exclusão da área tributável, as áreas do imóvel rural a que se refere o caput deverão: Fl. 147DF CARF MF Processo nº 10980.009166/200903 Acórdão n.º 2402006.231 S2C4T2 Fl. 7 11 I ser obrigatoriamente informadas em Ato Declaratório Ambiental ADA, protocolado pelo sujeito passivo no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBAMA, nos prazos e condições fixados em ato normativo; E II estar enquadradas nas hipóteses previstas nos incisos I a VI em 1º de janeiro do ano de ocorrência do fato gerador do ITR. § 4º O IBAMA realizará vistoria por amostragem nos imóveis rurais que tenham utilizado o ADA para os efeitos previstos no § 3º e, caso os dados constantes no Ato não coincidam com os efetivamente levantados por seus técnicos, estes lavrarão, de ofício, novo ADA, contendo os dados reais, o qual será encaminhado à Secretaria da Receita Federal, que apurará o ITR efetivamente devido e efetuará, de ofício, o lançamento da diferença de imposto com os acréscimos legais cabíveis. Nesse diapasão, em atenção à parte final daquele inciso I do parágrafo 3º acima, a Instrução Normativa SRF nº 256/2002, que é, na forma do artigo 100 do CTN, norma complementar às leis e, portando, de observância obrigatória por todos os contribuintes, estabelece em seu artigo 9º, o prazo para a apresentação do referido ADA, para fins do seu aproveitamento em matéria tributária. Reforçase: não se trata de criar tributo ou mesmo restringir/limitar o exercício do direito do contribuinte, que se deu por força da lei 9.393/96 e artigo 17O da Lei 6.938/81, mas sim de regulamentar seu exercício. Em outras palavras: para se valer dessa isenção condicionada, seu cumprimento deve se dar de forma a efetivamente assegurar ao Estado, por meio de seu órgão ambiental, a possibilidade de se aferir o escorreito enquadramento da área a ele declarada e que pretende ver excluída da apuração do ITR. Assim, não resta dúvida que para fins de exclusão da área tributável, aquelas áreas deverão ser obrigatoriamente informadas em ADA, protocolado pelo sujeito passivo no IBAMA, nos prazos e condições fixados em ato normativo. É o que exige o Decreto 4.382/2002, de observância obrigatória por este colegiado, a teor do artigo 62 do RICARF. Conforme se extrai do excerto abaixo, que constou do voto vencedor no acórdão 9202005753, da 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, a jurisprudência neste Conselho consolidouse no sentido de aceitar o ADA protocolizado até o início da ação fiscal. Confirase: É certo que, no caso da Área de Preservação Permanente (APP), tratase de acidentes geográficos já existentes na natureza, porém a exclusão da tributação desta área ambiental não está condicionada à criação da área e sim da sua preservação, como a própria denominação está a indicar. Como o lançamento se reporta à data de ocorrência do fato gerador do tributo (art. 144 do CTN) e, no que tange ao ITR, este foi fixado em 1º de janeiro (art. 1º da Lei nº. 9.393, de 1996), é claro que a fruição do Fl. 148DF CARF MF 12 benefício está condicionada à preservação à época do fato gerador. Nesse passo, a Receita Federal, utilizandose da prerrogativa de regulamentar a forma e os prazos para cumprimento de obrigações acessórias, estabeleceu o prazo de seis meses após a data de entrega da DITR, para que o Contribuinte providencie o protocolo do ADA. E tratandose de declarar algo que a priori já existiria na natureza, este Colegiado consolidou a jurisprudência no sentido de aceitarse o ADA protocolado antes do início da ação fiscal, em respeito à espontaneidade do Contribuinte. Não retrata, com a devida venia, o entendimento deste relator. Não seria razoável imaginar que tal informação pudesse ser prestada em data, por exemplo, próxima a da ação fiscal, porquanto a potencial vistoria pelo órgão ambiental não observaria, decerto, o lustro legal para a constituição do imposto, fosse o caso. Da mesma forma, supor que a atividade de polícia, legalmente exigida e que traria certa segurança ao considerar isentas aquelas áreas, possa ser substituída pela exclusiva atuação privada (por meio de laudos técnicos), não me parece atender ao interesse público. No mesmo sentido, como bem destacado no voto acima parcialmente colacionado, as florestas e demais formas de vegetação natural situadas, conforme estabelece a lei, em determinados locais do imóvel, são de PRESERVAÇÃO PERMANENTE existentes a época do fato gerador do tributo, consoante preceitua o inciso II do § 3º do artigo 10 do Decreto 4.382/2002. Vale dizer: as florestas e demais formas de vegetação natural devem estar em permanente preservação, sobretudo na data do fato gerador. Dito isso, como se aferir tal circunstância pelo órgão de controle ambiental, admitindose a apresentação do ADA em data significativamente distante da do fato gerador do tributo ? Em outras palavras, haveria como o IBAMA empreender alguma vistoria eficaz a partir de um ADA apresentado após 4 anos do exercício a que se referem as informações nele prestadas, ainda que tenha sido entregue antes de o início da ação fiscal ? Não basta que no imóvel existam rios ou qualquer outro curso d´água, lagoas ou reservatórios de d´ água naturais ou artificiais, topo de morros, montes ou serra, fazse necessário, aí sim, que nesses locais efetivamente haja floresta ou demais formas de vegetação natural permanentemente preservadas. Da mesma forma, não se pode imaginar que a dispensa à prévia comprovação, por parte do declarante, no que toca às APP e ARL declaradas para fins de isenção do ITR, consoante estabelece o § 7º do artigo 10 da L. 9.393/96, o estaria desincumbindo da obrigação legal imposta pelo § 1º do artigo 17O da Lei 6.938/81. Longe disso. Uma coisa é a desnecessidade da prévia apresentação da comprovação das áreas quando da entrega da DITR; outra, a obrigatoriedade de que tais informações sejam prestadas tempestivamente ao IBAMA, por meio do competente ADA e ao Fisco, quando intimado por autoridade competente no exercício de seu dever funcional. E veja, o parágrafo 7º encimado foi originalmente introduzido ao artigo 10 da Lei 9.393/96 por meio da Medida Provisória 1.95650/2000, de 26.05.2000, ao passo que aquele que impõe a obrigatoriedade do ADA, por meio da posterior Lei 10.165/2000 de 27.12.2000. Com isso, considerando o período em que ambos vigeram não há, a meu ver, como Fl. 149DF CARF MF Processo nº 10980.009166/200903 Acórdão n.º 2402006.231 S2C4T2 Fl. 8 13 entender que aquele primeiro desobrigou a apresentação do ADA. Não há, no meu entender, qualquer antinomia entre os dispositivos, na medida em que tratam de diferentes circunstâncias. Voltando ao prazo para apresentação do ADA, a IN SRF 256/2002, em sua redação original, o estabelecia como sendo "de até seis meses, contado a partir do término do prazo fixado para a entrega da DITR". Com a entrada em vigor da obrigatoriedade de sua apresentação anual, o órgão ambiental o estabeleceu como sendo de 1º de janeiro a 30 de setembro. .4 Daí a alteração naquela IN SRF 256/2002, que passou a estabelecer, a partir da IN RFB 861, de 17 de julho de 2008, ser obrigatoriamente informadas em Ato Declaratório Ambiental (ADA), protocolado pelo sujeito passivo no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), observada a legislação pertinente." Em resumo, podese dizer, no que toca à dedução das áreas elencadas nos inciso I ao VI do artigo 10 do Decreto nº 4.382/2002, que além dos requisitos de ordem formal previstos na legislação, há de se comprovar, quando intimado, sua efetiva existência, a teor do inciso II do parágrafo 3º retro citado, por meio de laudo técnico que deve, de forma clara, especificar, detalhar, dimensionar e localizar cada uma das áreas eventualmente existente à época do fato gerador. A partir do exercício 2007, a apresentação do ADA ao IBAMA passou a ser anual.5 A Ação Fiscal iniciouse em 04.08.2009, consoante se denota de fls. 6. Voltando ao caso sob análise, notase que há nos autos, às fls 38, extrato de ADA, no qual não consta a informação de qualquer ARL ou APP, mas sim de Área de Interesse Ecológico no tamanho total do imóvel (370,0 ha). Além do mais, a data de entrega lá registrada afigurase como um padrão assumido pelo sistema e não a que exprima a real data de sua entrega. Vejase: Ainda assim, a Fiscalização considerou tal informação para acatar a APP que constou do mapa anexado aos autos (17,9 ha), mantendose a glosa da área remanescente de 163,3 ha. Há, outrossim, um ADA acostado às fls. 33, transmitido a destempo em 14.09.2009, no qual informa uma ARL de 92,5 ha, APP de 17,9 e Área Coberta por floresta Nativa AFN de 259,5 ha. Confirase: 4 http://www.ibama.gov.br/imovelrural/atodeclaratorioambientalada/oqueeoada 5 http://www.ibama.gov.br/imovelrural/atodeclaratorioambientalada/oqueeoada Fl. 150DF CARF MF 14 Da mesma forma, não se localizou, nos autos, laudo técnico identificando, detalhada e especificamente, cada uma das eventuais APP existentes no imóvel à época do fato gerador (não sobrepostas às ARL porventura existentes) elencadas nas alíneas "a" a "h" do artigo 2º da Lei 4.771/65. Confirase: Florestas e demais formas de vegetação natural situadas: a) ao longo dos rios ou de qualquer curso d'água desde o seu nível mais alto em faixa marginal cuja largura mínima será: 1 de 30 (trinta) metros para os cursos d'água de menos de 10 (dez) metros de largura; 2 de 50 (cinquenta) metros para os cursos d'água que tenham de 10 (dez) a 50 (cinquenta) metros de largura: 3 de 100 (cem) metros para os cursos d'água que tenham de 50 (cinquenta) a 200 (duzentos) metros de largura: 4 de 200 (duzentos) metros para os cursos d'água que tenham de 200 (duzentos) a 600 (seiscentos) metros de largura: 5 de 500 (quinhentos) metros para os cursos d'água que tenham largura superior a 600 (seiscentos) metros; b) ao redor das lagoas, lagos ou reservatórios d'água naturais ou artificiais; c) nas nascentes, ainda que intermitentes e nos chamados "olhos d'água", qualquer que seja a sua situação topográfica, num raio mínimo de 50 (cinquenta) metros de largura: d) no topo de morros, montes, montanhas e serras; e) nas encostas ou partes destas, com declividade superior a 45°, equivalente a 100% na linha de maior declive; Fl. 151DF CARF MF Processo nº 10980.009166/200903 Acórdão n.º 2402006.231 S2C4T2 Fl. 9 15 f) nas restingas, como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues; g) nas bordas dos tabuleiros ou chapadas, a partir da linha de ruptura do relevo, em faixa nunca inferior a 100 (cem) metros em projeções horizontais; h) em altitude superior a 1.800 (mil e oitocentos) metros, qualquer que seja a vegetação. Há, sim, dois mapas de uso de solo acostados, assinados pelo Engenheiro Florestal Helio Loch, de 12/2007 e 10/2008, onde especificam: I o de 12/2007 uma APP de 17,95 ha e a Área de Proteção ambiental de Guaraqueçaba de 352,04 ha. II o de 10/2008 uma APP de 17,95 ha, ARL de 92,50 ha e uma Área de Floresta Nativa de 259,54 ha; Há ainda uma ART em nome do referido engenheiro às fls 30 e um "laudo técnico" sem data às fls. 28/9, que, em um único parágrafo, assenta que "a área da propriedade é de total preservação, obedecendo rigorosamente a legislação vigente. Pode ser observado pelas plantas de uso do solo, onde está toda inserida dentro da Baía dos Pinheiros, toda dentro do mangue, não tendo nenhuma declividade." No que toca à ARL de 92,5ha informada naquele ADA extemporâneo, cumpre destacar que não se identificou sua expressa averbação em hectares junto às matrículas a seguir detalhadas, mas sim a gravação adiante colacionada, que não traz, salvo melhor juízo, evidência de que tenha sido aprovada sua localização pelo órgão ambiental estadual Fl. 152DF CARF MF 16 competente ou, mediante convênio, pelo órgão ambiental municipal ou outra instituição devidamente habilitada, como preceitua o § 4º do artigo 16 da Lei 4.771/65: Matrícula 7.674 fls 20/2 370,0 ha No mesmo sentido, não lhe socorre a alegação de que pelo fato de a área do imóvel constar do ecossistema da Mata Atlântica, inserida na Área de Proteção Ambiental APA de Guaraqueçaba, criada pelo Decreto Federal n° 90.883 de 31 de janeiro de 1.985 e declarada como área de proteção ambiental no âmbito do Estado do Paraná, conforme Decreto Estadual PR n° 1.228 de 30 de março de 1992, ela estaria definitivamente excluída da condição de áreas tributáveis. Vejase: referida área, tida pelo recorrente como "de interesse ecológico", não constou declarada nos DIAT/DITR dos exercícios envolvidos, fazendo com que não fosse objeto da atuação fiscal. Fl. 153DF CARF MF Processo nº 10980.009166/200903 Acórdão n.º 2402006.231 S2C4T2 Fl. 10 17 Ademais, como já dito alhures, ainda que haja ato do poder público que declare determinada área como de interesse ecológico, caso não haja a imposição de efetivas restrições de uso que ampliem aquelas previstas para as APP e ARL, ou seja, restrições além do manejo sustentável, tenho que sua dedução, da área tributável pelo ITR, não é legalmente possível. É o que se denota da parte final da alínea "b", II, § 1º do artigo 10 da Lei 9.393/96. "....mediante ato do órgão competente, federal ou estadual, e que ampliem as restrições de uso previstas na alínea anterior;" Nesse sentido, à luz do disposto no artigo 6º daquele Decreto 90.883/85, infra reproduzido, não me afigura que referido ato tenha, conforme sugerido no recurso do contribuinte, "proibida toda e qualquer atividade nessas áreas", ampliando, desta forma e indiscutivelmente, as restrições de uso que se tem nas ARL e APP. Ao contrário, tratou o ato, a meu ver, de estabelecer condutas negativas mínimas para a preservação ambiental. Confirase: Art. 6º. Na APA de Guaraqueçaba ficam proibidas ou restringidas: I a implantação de atividades industriais potencialmente poluidoras, capazes de afetar mananciais de água; II a realização de obras de terraplenagem e a abertura de canais, quando essas iniciativas importarem em sensível alteração das condições ecológicas locais, principalmente das Zonas de Vida Silvestre, ande a biota será protegida com mais rigor; III o exercício de atividades capazes de provocar acelera da erosão das terras ou acentuado assoreamento das coleções hídricas; IV o exercício de atividades que ameacem extinguir as espécies raras da biota regional, principalmente o papagaioderabovermelho, macuco, jaó, jacutinga, onça pintada, jacarédepapoamarelo; V o uso de biocidas, quando indiscriminado ou em desacordo com as normas ou recomendações técnicas oficiais. Notese que o próprio contribuinte declara a utilização de 110 ha e 3,0 ha com a utilização/ocupação relacionados a produtos vegetais e benfeitorias. Já no que diz respeito à possibilidade de dedução das áreas cobertas por florestas nativas, primárias ou secundárias em estágio médio ou avançado de regeneração, cumpre destacar que tal permissão foi introduzido pela Lei 11.428, de 22.12.2006. Logo, com vigência posterior aos fatos geradores aqui tratados. VTN: Fl. 154DF CARF MF 18 No que se refere ao VTN atribuído pela Fiscalização, o recorrente alega dentre outras que aquele considerado no lançamento decorreu de uma valor de terras que é varias vezes maior do que o negociado quando da aquisição do imóvel. Todavia, no curso da ação fiscal, o autuado foi intimado a apresentar o "laudo de avaliação do imóvel, conforme estabelecido na NBR 14.653 da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT com fundamentação e grau de precisão II, com anotação de responsabilidade técnica ART registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados.". E mais, foi feito constar na intimação que a falta de apresentação do laudo de avaliação ensejaria o arbitramento do VTN, com base nas informações do Sistema de Preços de Terra SIPT, da RFB. Não obstante, o contribuinte não atendeu a intimação fiscal com vistas a infirmar o valor eleito pela Fiscalização. Prestouse, no entanto, a apresentar um Laudo Técnico fls. 28 que, ao final, assim se pronunciou quanto à avaliação do imóvel. Ora, o fato de a terra supostamente não possuir valor tributável não é justificativa para, a meu entender, não se chegar a um valor de mercado para o imóvel. Como informado pela Fiscalização, foram utilizados os valores médios por hectare na sistemática a seguir resumida: Fl. 155DF CARF MF Processo nº 10980.009166/200903 Acórdão n.º 2402006.231 S2C4T2 Fl. 11 19 O tipo de terra segue a conceituação adiante:6 INAPROVEITÁVEIS São áreas totalmente inaproveitáveis para atividades agropecuárias, constituídas de solos pedregosos, muito rasos ou inundáveis periodicamente, despenhadeiro, pirambeira, penhascos, etc., com relevo íngreme ou reserva de preservação permanente, podendo servir apenas como abrigo e proteção de fauna e flora silvestre, como ambiente para recreação ou para fins de armazenamento de água. NÃO MECANIZÁVEL São áreas cujo relevo e/ou profundidade do solo são desfavoráveis à execução de operações ou práticas agrícolas com máquinas e implementos motorizados, permitindo, porém, o plantio manual ou a tração animal. São consideradas também áreas não mecanizáveis, as reservas legais, tendo em vista que as mesmas só poderão sofrer algum tipo de desmatamento e/ou corte, mediante um plano de manejo sustentável, com projeto devidamente aprovado pelo IAP e/ou IBAMA. Note, o valor médio, por hectare, utilizado pelo autuado correspondeu a, apenas e aproximadamente, 50,20% e 40,50% daquele verificado no SIPT para os imóveis no município de Guaraqueçaba/PR, não deixando a menor dúvida quanto à sua potencial subavaliação. Por sua vez, o SIPT, aprovado pela Portaria 447/2002, é alimentado com os valores de terras e demais dados recebidos das Secretarias de Agricultura ou entidades correlatas, e com os valores de terra nua da base de declarações do ITR. Com isso, entendo que na falta de um valor de mercado apresentado por meio de um Laudo de Avaliação, na forma de como constou na intimação, o valor extraído do SIPT, embora, reconheçase, estimado, é, além de uma alternativa legal (art. 14 da L. 9.393/96), uma razoável opção no caso em tela. Alegação de erro de fato no preenchimento da DITR. Por fim, no que se refere à alegação de que o lançamento realizado seria ilegal, eis que teria supostamente se afastado do conteúdo da obrigação tributária definida em lei, para pretender fundamento apenas na declaração equivocada prestada pelo recorrente, com a devida venia, dela não compartilho. A ação fiscal foi desenvolvida e concluída a partir das informações prestadas/declaradas pelo contribuinte em sua DITR. Perceba que o lançamento do ITR regese pela sistemática legal, por meio da qual sujeito passivo tem o dever de apurar e antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa. Assim procedendo o contribuinte, 6 site: http://www.agricultura.pr.gov.br/arquivos/File/deral/Metodologia_atual.pdf Fl. 156DF CARF MF 20 a autoridade fazendária, observado o lustro legal, expressamente homologará ou não, sua atividade. O não acatamento das informações que constaram em seu DIAT/DITR será, caso regularmente questionado em recurso, objeto do contencioso administrativo. Esse é, a meu ver e como regra, o limite da lide e sobre o quê se pronunciará as instâncias julgadoras. Contudo, caso efetivamente demonstrado o patente erro de fato no preenchimento da respectiva DITR, em função do equívoco na informação, seja por sua omissão, seja por sua incorreção, entendo admissível, em sede de contencioso administrativo, à luz do princípio da verdade material, a retificação das informações originalmente prestadas naquela declaração, bem como a alteração do lançamento naquilo que dele decorreu. Eis o cenário fático que, ao meu ver, demonstra um total desencontro das informações: No caso em exame, pelo todo fundamentado, entendo pelo não acatamento do pleito do contribuinte quanto à retificação das informações em sua DITR. Frente ao exposto, voto por CONHECER do recurso e, no mérito, NEGAR LHE provimento. (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti Fl. 157DF CARF MF
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