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Numero do processo: 16561.720118/2014-46
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Oct 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Dec 03 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009
IRPJ. CSLL. LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR. TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS.
Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, correspondentes ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano (Lei 9.249, art. 25/26, c/c MP 2.158-35/2001, art. 74).
TRATADO INTERNACIONAL BRASIL-ÁUSTRIA.
Não há incompatibilidade entre os tratados internacionais para evitar dupla tributação e a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.158-35/2001. No caso concreto, o Tratado firmado entre Brasil e Áustria não impede a tributação na controladora no Brasil dos lucros auferidos no exterior, especialmente quando essa tributação recai sobre lucros gerados em locais onde não há tributação da renda/lucro, locais que não estão abarcados pelo Tratado Brasil-Áustria (Funchal/Ilha da Madeira e Bahamas). O fato de a contribuinte ter consolidado os lucros das controladas indiretas na controlada direta (localizada na Áustria), por si só, não neutraliza a tributação brasileira, principalmente quando não há pagamento de tributo no exterior. Isso configuraria um evidente uso indevido (abusivo) do tratado para evitar dupla tributação. Certamente, não é essa a finalidade desses tratados.
Numero da decisão: 9101-003.829
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), que lhe deram provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Cristiane Silva Costa.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo - Presidente.
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araujo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Flávio Franco Corrêa, Luis Flávio Neto, Viviane Vidal Wagner, Gerson Macedo Guerra, Rafael Vidal de Araújo, Demetrius Nichele Macei, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), Adriana Gomes Rego (Presidente).
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009 IRPJ. CSLL. LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR. TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, correspondentes ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano (Lei 9.249, art. 25/26, c/c MP 2.15835/2001, art. 74). TRATADO INTERNACIONAL BRASILÁUSTRIA. Não há incompatibilidade entre os tratados internacionais para evitar dupla tributação e a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001. No caso concreto, o Tratado firmado entre Brasil e Áustria não impede a tributação na controladora no Brasil dos lucros auferidos no exterior, especialmente quando essa tributação recai sobre lucros gerados em locais onde não há tributação da renda/lucro, locais que não estão abarcados pelo Tratado BrasilÁustria (Funchal/Ilha da Madeira e Bahamas). O fato de a contribuinte ter consolidado os lucros das controladas indiretas na controlada direta (localizada na Áustria), por si só, não neutraliza a tributação brasileira, principalmente quando não há pagamento de tributo no exterior. Isso configuraria um evidente uso indevido (abusivo) do tratado para evitar dupla tributação. Certamente, não é essa a finalidade desses tratados. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), que lhe deram AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 01 18 /2 01 4- 46 Fl. 887DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 3 2 provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Cristiane Silva Costa. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Presidente. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Flávio Franco Corrêa, Luis Flávio Neto, Viviane Vidal Wagner, Gerson Macedo Guerra, Rafael Vidal de Araújo, Demetrius Nichele Macei, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), Adriana Gomes Rego (Presidente). Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela contribuinte acima identificada, fundamentado atualmente no art. 67 e seguintes do Anexo II da Portaria MF nº 343, de 09/06/2015, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), em que se alega divergência de interpretação da legislação tributária quanto ao que se decidiu sobre a tributação de lucros no exterior. A recorrente insurgese contra o Acórdão nº 1401002.040, de 16/08/2017, por meio do qual a 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por maioria de votos, manteve o lançamento de IRPJ e CSLL sobre lucros no exterior. O acórdão recorrido contém a ementa e a parte dispositiva descritas abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009 PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. NÃO OCORRÊNCIA. A decisão recorrida foi devidamente fundamentada e enfrentou os argumentos aduzidos pela impugnação de forma clara e satisfatória. O julgador não está obrigado a responder a todas as questões suscitadas pelas partes, quando já tenha encontrado motivo suficiente para proferir a decisão. O julgador possui o dever de enfrentar apenas as questões capazes de infirmar (enfraquecer) a conclusão adotada na decisão recorrida. LUCROS OBTIDOS POR CONTROLADA NO EXTERIOR. CONVENÇÃO BRASILÁUSTRIA DESTINADA A EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO E PREVENIR A EVASÃO FISCAL EM MATÉRIA DE IMPOSTO SOBRE A RENDA. ART. 74 DA MP Nº 2.158 35/2001. NÃO OFENSA. Fl. 888DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 4 3 Não há incompatibilidade entre a Convenção BrasilÁustria e a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001, não sendo caso de aplicação do art. 98 do CTN, por inexistência de conflito. TRATADO INTERNACIONAL BRASIL ÁUSTRIA. O Tratado firmado entre Brasil e Áustria não impede a tributação na controladora no Brasil os lucros auferidos por controlada no exterior. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as arguições de nulidade e, no mérito, por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Livia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin e Daniel Ribeiro Silva. Designado o Conselheiro Abel Nunes de Oliveira Neto para redigir o voto vencedor. Declarouse impedido o Conselheiro José Roberto Adelino da Silva. No recurso especial, a contribuinte afirma que o acórdão recorrido deu à legislação tributária interpretação divergente da que foi dada em outros processos, relativamente à matéria acima mencionada. Para o processamento do recurso, ela desenvolve os argumentos descritos abaixo: A COMPROVAÇÃO DO DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL. o v. acórdão recorrido adotou posição contrária à defendida pela RECORRENTE, entendendo que a incidência do IRPJ e da CSLL sobre os lucros suas da controladas estrangeiras não ofende as disposições do tratado para prevenir a dupla tributação celebrado entre o Brasil e a Áustria, pois, segundo o Acórdão recorrido, "o que nossa lei faz é tributar a nossa empresa"; como consequência deste entendimento, conclui o v. acórdão recorrido que os lucros consolidados na controlada BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBG, domiciliada na Áustria, devem ser tributados junto à RECORRENTE no Brasil; de forma contrária ao que foi definido pela Turma a quo e em consonância com a tese defendida pela RECORRENTE, o Acórdão paradigma nº 10195.802 (DOC. 1) é categórico ao reconhecer que o art. 7° dos tratados, que seguem a Convenção Modelo da OCDE (e da ONU), impede a tributação pelo Brasil dos lucros de controladas, domiciliadas no exterior, tendo em vista que tal dispositivo estabelece competência exclusiva do país de domicílio da controlada estrangeira para a tributação de seus lucros; também de forma contrária ao que foi definido pela Turma a quo e igualmente em consonância com a tese defendida pela RECORRENTE, o Acórdão paradigma nº 110100.365 (DOC. 2) é categórico ao qualificar o lucro considerado disponibilizado ao teor do art. 74 da MP nº 2.15835/2001 como dividendo ficto. No caso em exame, como o artigo 23, parágrafo 2º (métodos para prevenir a dupla tributação) do tratado com a Áustria determina a isenção dos dividendos, inclusive fictos ou presumidos, auferidos pela controladora no Brasil, esta interpretação afasta a tributação pretendida; Fl. 889DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 5 4 em cumprimento ao disposto pelo §6º do art. 67 do Regimento Interno do CARF, procedese a seguir ao cotejo analítico entre as ementas do acórdão recorrido e dos acórdãos paradigmas: Acórdão 10195.802 [...] LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR. DISPONIBILIZAÇÃO FICTA PARA A CONTROLADORA AQUI NO BRASIL (MP n° 2.15834/2001, ART. 74, § ÚNICO) A partir da vigência do art. 74 da MP 2.15835/2001, para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior até 31 de dezembro de 2001 serão considerados disponibilizados em 31 de dezembro de 2002, salvo se ocorrida, antes desta data, qualquer das hipóteses de disponibilização previstas na legislação em vigor. LUCROS AUFERIDOS POR INTERMÉDIO DE COLIGADAS E CONTROLADAS NO EXTERIOR Na Lei 9.532/97 o fato gerador era representado pelo pagamento ou crédito (conforme definido no art. 1º da Lei 9.532/97), e o que se tributavam eram os dividendos. A partir da MP 2.158 35/2001, a tributação independe de pagamento ou crédito (ainda que fictos), deixando, pois, de ter como base os dividendos. LUCROS ORIUNDOS DE INVESTIMENTO NA ESPANHA — Nos termos da Convenção Destinada a Evitar a Dupla Tributação e Prevenir a Evasão Fiscal em Matéria de Imposto sobre a Renda entre Brasil e a Espanha, promulgada pelo Decreto n° 76.975, de 1976, em se tratando de lucros apurados pela sociedade residente na Espanha e que não sejam atribuíveis a estabelecimento permanente situado no Brasil, não pode haver tributação no Brasil. Não são também tributados no Brasil os dividendos recebidos por um residente do Brasil e que, de acordo com as disposições da Convenção, são tributáveis na Espanha. CONVERSÃO CAMBIAL A conversão dos lucros da coligada ou controlada para a moeda nacional, para fins de tributação no Brasil, obedece o disposto no §4º do art. 25 da Lei 9.249/95 e no § 3° do art. 6º da IN SRF 213/2002. Acórdão 110100.365 IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2002, 2003 DISPONIBILIZAÇÃO DE LUCROS NO EXTERIOR. TRIBUTAÇÃO. RESULTADOS APURADOS A PARTIR DE 1996. IRPJ. Os lucros auferidos por meio de coligadas ou controladas no exterior, a partir do anocalendário 1996, sujeitamse a tributação no momento em que disponibilizados. Ausente Fl. 890DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 6 5 prova da distribuição efetiva ou presumida dos lucros, o saldo de lucros acumulados até 2001 é considerado disponibilizado em 31/12/2002. Os lucros auferidos a partir de 2002 são considerados disponibilizados na data do balanço no qual tiverem sido apurados. RESULTADOS APURADOS A PARTIR DE 1999. CSLL. Somente os lucros auferidos a partir de 1° de outubro de 1999 sujeitamse a incidência da CSLL no momento de sua disponibilização. TRATADOS E CONVENÇÕES INTERNACIONAIS. Não obstante o STF tenha se posicionado no sentido de inexistência de primazia hierárquica do tratado internacional, em se tratando de Direito Tributário a prevalência da norma internacional decorre de sua condição de lei especial em relação a norma interna. CONVENÇÃO BRASILPORTUGAL PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO. PREMISSAS PARA ANALISE DO CONFLITO NORMATIVO. O art. 74 da Medida Provisória n° 215835/2001 estabelece tributação sobre dividendos percebidos por beneficiários situados no país mediante ficção de disponibilização (Ins resultados auferidos por intermédio de coligadas ou controladas no exterior). COMPATIBILIDADE COM O TRATADO INTERNACIONAL. O acordo firmado entre Brasil e Portugal autoriza a tributação de dividendos no Estado onde se situa o beneficiário dos rendimentos e somente proíbe o pais onde se situa a fonte pagadora de tributar lucros não distribuídos. CRÉDITO INDIRETO. INEXISTÊNCIA DE TRIBUTO EXIGÍVEL OU PAGO. Sendo vedada a tributação de lucros não distribuídos no pais de origem, não há porque se cogitar de dedução de imposto de renda pago no exterior em face de tributos devidos no Brasil por disponibilização ficta de lucros. TRIBUTAÇÃO SOBRE O RESULTADO ANTES DE DESCONTADOS OS TRIBUTOS INCIDENTES SOBRE O LUCRO. IMPROCEDÊNCIA. Se a incidência se dá sobre os lucros fictamente disponibilizados, a base de calculo está limitada ao montante passível de distribuição, já liquido dos tributos incidentes sobre o lucro no pais de origem. CONVENÇÃO BRASILLUXEMBURGO PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO. SEDE ANTERIOR NAS ILHAS CAYMAN. Os resultados apurados e considerados disponibilizados enquanto a empresa mantinha sede nas Ilhas Cayman não são afetados por acordo internacional firmado entre Brasil e Luxemburgo. RESULTADOS APURADOS E CONSIDERADOS DISPONIBILIZADOS EM LUXEMBURGO. HOLDING. A Convenção BrasilLuxemburgo não se aplica às sociedades "holdings" residentes em Luxemburgo. ARGUMENTAÇÃO SUBSIDIARIA PARA INAPLICABILIDADE DA CONVENÇÃO BRASILLUXEMBURGO. PREMISSAS PARA ANALISE DO Fl. 891DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 7 6 CONFLITO NORMATIVO. O art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001 estabelece tributação sobre dividendos percebidos por beneficiários situados no pais mediante ficção de disponibilização dos resultados auferidos por intermédio de coligadas ou controladas no exterior. COMPATIBILIDADE COM O TRATADO INTERNACIONAL. O acordo firmado entre Brasil e Luxemburgo autoriza a tributação de dividendos no Estado onde se situa o beneficiário dos rendimentos e somente proíbe o pais onde se situa a fonte pagadora de tributar lucros não distribuídos. CRÉDITO INDIRETO. INEXISTÊNCIA DE TRIBUTO EXIGÍVEL OU PAGO. Sendo vedada a tributação de lucros não distribuídos no país de origem, não há porque se cogitar de dedução de imposto de renda pago no exterior em face de tributos devidos no Brasil por disponibilização ficta de lucros. CONVERSÃO PARA REAIS Os lucros auferidos no exterior por intermédio de filiais, sucursais, controladas ou coligadas serão convertidos em Reais pela taxa de câmbio, para venda, do dia das demonstrações financeiras cm que tenham sido apurados os correspondentes lucros pelas filiais, sucursais, controladas ou coligadas ainda em cumprimento ao disposto pelo §6º do art. 67 do Regimento Interno do CARF, procedese a seguir ao cotejo analítico entre trechos do acórdão recorrido e dos acórdãos paradigmas: [...]; comprovado, portanto, o dissídio jurisprudencial, a RECORRENTE passará a demonstrar o prequestionamento da matéria. [...] TRIBUTAÇÃO DOS LUCROS DAS CONTROLADAS DA RECORRENTE NO EXTERIOR. a principal disposição legal invocada como fundamento do lançamento é o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 27 de julho de 2001, que dispõe o seguinte: [...]; em matéria de sociedades controladas e coligadas no exterior, o art. 25 da Lei nº 9.249/95, para o qual o art. 74 da MP 2.158/35 remete, já dispunha em seus §§ 22 e 39 que os lucros auferidos por controladas e coligadas no exterior, de pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil, serão computados na apuração do lucro real mediante adição ao respectivo lucro líquido, na proporção da participação da pessoa jurídica no capital da controlada ou da coligada; o sistema de tributação do art. 25 da Lei nS 9.249/95 manda adicionar ao lucro real da pessoa jurídica no Brasil, o lucro obtido pelas controladas ou coligadas no exterior, ainda que tais lucros tenham sido integralmente retidos e não distribuídos; assim sendo, o imposto brasileiro veio atingir a renda que não é da própria sociedade brasileira, mas renda de titularidade jurídica de sociedades estrangeiras independentes, num sistema de tributação extraterritorial, incompatível com o art. 43 do Código Tributário Nacional (CTN), que exige a disponibilidade jurídica ou econômica para a tributação da renda; Fl. 892DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 8 7 essa incompatibilidade foi reconhecida pela Administração Fiscal através da Instrução Normativa nº 38/96 que fez com que a tributação, na prática incidisse exclusivamente sobre o lucro efetivamente disponibilizado. Este regime foi posteriormente alçado à condição de lei, pela edição da Lei nº 9.532/97 que estabeleceu a tributação dos lucros de origem externa quando do seu pagamento ou crédito para o sócio no Brasil; o Governo, porém, não tinha desistido de taxar os lucros não distribuídos pelas controladas ou coligadas estrangeiras e através da Lei Complementar nº 104/01 introduziu um novo §2º ao art. 43 do CTN, segundo o qual "na hipótese de receita ou de rendimentos oriundos do exterior a lei estabelecerá as condições e o momento em que se dará sua disponibilidade, para fins de incidência do imposto referido neste artigo"; ao abrigo deste §2º do art. 43 do CTN, é que foi editado o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 27 de julho de 2001, que, na prática, reinstituiu o regime do art. 25 da Lei nº 9.249/95, para o qual o texto do art. 74 remete; O OBJETO DA TRIBUTAÇÃO DO ART. 74 DA MEDIDA PROVISÓRIA Nº 2.15835/01 E SUA QUALIFICAÇÃO FACE AOS TRATADOS. O MÉTODO ADITIVO COMO FICÇÃO PARA NACIONALIZAR O LUCRO ESTRANGEIRO. face à lei interna brasileira, o objeto da tributação de que tratam o art. 25 da Lei nº 9.249/95 e o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/01 é o próprio lucro das controladas e coligadas estrangeiras, tal como apurado nos seus balanços, tanto que o lucro "disponibilizado" segundo dispõe a própria Instrução Normativa nº 213/02, art. 1º, §7º corresponde aos valores integrais apurados pela entidade estrangeira, antes mesmo de descontados os impostos pagos no seu país de domicílio; esta tributação de lucros estrangeiros, instituída pelo art. 25 da Lei nº 9.249/95, recai sobre os lucros auferidos no exterior que são incluídos na determinação do lucro real da pessoa jurídica no Brasil, correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano. Essa "inclusão" do lucro estrangeiro dáse pela adição ou soma de seus valores ao lucro real brasileiro,segundo decorre expressamente do §2º do mesmo art. 25; logo, o objeto da tributação pelo art. 25 da Lei 9.249/95 é o próprio lucro das entidades estrangeiras (controlada ou coligada), tributado no Brasil pelo método da adição ou soma ao lucro real, tal como já ocorria com os resultados das filiais ou sucursais no exterior, que são entes desprovidos de personalidade jurídica própria; este aspecto da tributação não passou desapercebido pelo Ministro Napoleão Nunes Maia do Superior Tribunal de Justiça que bem o sublinhou em seu voto no julgamento do Resp nº 1.325.709RJ: 63. Repitase que a sistemática adotada pela Fazenda Pública, de adicionar o lucro obtido pela empresa controlada no Exterior para cômputo do lucro real da empresa controladora importa na tributação daquele mesmo lucro, em contraste com o disposto nas referidas Convenções Internacionais. ora, examinados o art. 74 da MP nº 2.15835/01 e o art. 25 da Lei nº 9.249/95, que com ele constitui uma unidade incindível, concluise que ambos dispositivos têm Fl. 893DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 9 8 o mesmo objeto: os lucros das controladas e coligadas estrangeiras, somados ao lucro líquido da controladora no Brasil; apesar da dicção clara e inequívoca do art. 74 da MP nº 2.15835/01 e o art. 25 da Lei nº 9.249/95, a decisão recorrida afirma que "o que a nossa lei faz é tributar a nossa empresa"; ora, esta afirmação do v. Acórdão recorrido é puro sofisma, pois o IRPJ e a CSLL só podem tributar o lucro. No caso em exame quem auferiu o lucro não foi a empresa brasileira, mas sim um ente estrangeiro; e tanto o que se tributa no Brasil é o lucro alienígena que o art. 26 da Lei nº 9.249/95 prevê que "a pessoa jurídica poderá compensar o imposto de renda incidente, no exterior, sobre os lucros, rendimentos e ganhos de capital computados no lucro real, até o limite do imposto de renda incidente, no Brasil, sobre os referidos lucros, rendimentos ou ganhos de capital"; a redação do referido dispositivo deixa claro que o imposto incidente sobre os lucros auferidos no exterior poderá ser compensado com o IRPJ incidente sobre esses mesmos lucros no Brasil. E nem haveria razão de ser diferente, pois não se pode conceber porque o Brasil permitiria o abatimento do imposto de um Estado estrangeiro, incidente sobre um lucro estrangeiro, contra o IRPJ brasileiro, incidente sobre lucros brasileiros; a lei brasileira permite a compensação do imposto estrangeiro com o IRPJ e a CSLL no Brasil, pois reconhece a identidade do objeto da tributação; A INTRIBUTABILIDADE DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. vejase que esses diplomas legais em momento algum estabeleceram uma tributação sobre resultados de equivalência patrimonial de controladas e coligadas no exterior. A única referência à equivalência patrimonial está no §6º do art. 25 da Lei nº 9.249/95 que determina que, sem prejuízo do regime de tributação automática de lucros dos §§ 1º, 2º e 3º anteriores, os resultados da avaliação dos investimentos no exterior, pelo método da equivalência patrimonial, devem continuar a ter o tratamento previsto na legislação vigente; o tratamento mantido em vigor pelo § 6º do art. 25 da Lei nº 9.249/95 é precisamente aquele de que trata o artigo 23 e seu parágrafo único do Decretolei nº 1.598/77 (com as modificações introduzidas pelo Decretolei nº 1.648/78), segundo o qual: "Art. 23. A contrapartida do ajuste de que trata o artigo 22, por aumento ou redução no valor de patrimônio liquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real. Parágrafo único Não serão computadas na determinação do lucro real as contrapartidas de ajuste do valor do investimento ou da amortização do ágio ou deságio na aquisição, nem os ganhos ou perdas de capital derivados de investimentos em sociedades estrangeiras coligadas ou controladas que não funcionem no País." ou seja, o §6º do art. 25 da Lei nº 9.249/95 ratifica a intributabilidade dos resultados de equivalência patrimonial quando dispõe que estes continuam sujeitos ao Fl. 894DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 10 9 tratamento da legislação em vigor, regime esse que não é alterado pelo art. 74 da MP nº 2.158 35/01, mas antes é por ele confirmado através da remissão feita ao art. 25 da Lei nº 9.249/95; o artigo 23 e seu parágrafo único do Decretolei nº 1.598/77 permanecem plenamente em vigor até os dias de hoje, não sendo possível qualquer interpretação que resulte em uma tributação de resultados de equivalência das controladas e coligadas no exterior; também o v. Acórdão recorrido afasta a equivalência patrimonial e reconhece a identidade do lucro estrangeiro com o objeto da tributação pela lei brasileira quando afirma, ao final, que: "Portanto, na presente exigência, o valor objeto da autuação é exatamente o valor do lucro consolidado em sua subsidiária integral situada na Áustria, não havendo que se falar em tributação do valor obtido via método da equivalência patrimonial." neste sentido, aliás, é a invocação da equivalência patrimonial no voto de certos Ministros da Suprema Corte que teve como propósito evidenciar a disponibilidade jurídica dos lucros das controladas estrangeiras ao nível da controladora brasileira, face à lei societária (art. 197 Lei S.A.) e sua consequente compatibilidade com o art. 43 do CTN, não tendo, porém, o alcance de considerar a equivalência como sendo o próprio objeto da tributação; na realidade, o Ministro NELSON JOBIM é categórico ao afirmar que a MP 2.15835/2001 apenas estabeleceu as condições e o momento da disponibilização, momento este que corresponde à apuração contábil do lucro da ESTRANGEIRA e que o acréscimo patrimonial da BRASILEIRA se dá a partir do momento do registro dos lucros no balanço da ESTRANGEIRA porque com o MEP "a BRASILEIRA, sujeita a esse regime, necessariamente já registrava, em seu balanço, os valores do lucro apurado por sua COLIGADA ou CONTROLADA"; não se lê em qualquer passagem de seu voto que o objeto da tributação seja o resultado de equivalência, pelo contrário, este expressamente aponta o lucro da estrangeira, incluído nos resultados da brasileira, como sendo a matéria tributável no País; posteriormente, o Ministro DIAS TOFFOLI no julgamento dos REs nºs 611.586/PR e 541.090/SC votou no mesmo sentido, afirmando que: Em síntese, o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001 deslocou o momento da incidência do imposto, adotando, entre os regimes de caixa e de competência, esse último. Não firmou presunção, mas, sim, definição de novo aspecto temporal para a regra matriz de incidência. a conclusão do STF de que a mecânica contábil de registrar no balanço do sócio os lucros auferidos por intermédio das controladas e coligadas, utilizandose o MEP, configura acréscimo disponível em nada afeta ou modifica o objeto da tributação, que é expressa e literalmente consagrado no caput do art 74 da Medida Provisória nº 2.15835/01 e no art. 25 da Lei nº 9.249/95 como lucros auferidos por controladas e coligadas no exterior; com base nestas considerações pode concluirse que o objeto da tributação, nos termos da lei brasileira, é o próprio lucro no exterior e não o resultado de equivalência Fl. 895DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 11 10 patrimonial no Brasil, resultado este que não tem existência própria, nem qualquer autonomia em relação àquele lucro, tanto que com ele não se soma, sendo um mero reflexo não tributável do lucro estrangeiro; ora, é exatamente este lucro austríaco, auferido por pessoa jurídica estrangeira com personalidade distinta, que o art. 7º do tratado com a Áustria impede seja tributado pelo Brasil, como se verá; O ART. 7º DO TRATADO COM A ÁUSTRIA: O REGIME DE COMPETÊNCIA EXCLUSIVA. antes de examinar o que dispõe o art. 7º do tratado com a Áustria, cabe primeiramente recordar que o art. 98 do CTN dispõe que "os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha"; este comando de clareza ímpar determina a prevalência dos tratados sobre a legislação interna, prevalência esta também reconhecida pelo próprio Supremo Tribunal Federal com base no critério da especialidade, no que concerne aos tratados internacionais para prevenir a dupla tributação; portanto, ainda que o art. 7º da MP nº 2.15831/01 tenha sido editado após a entrada em vigor do tratado com a Áustria, aprovado pelo Decreto Legislativo número 95/75 e promulgado pelo Decreto nº 78.107/76, as disposições da convenção internacional prevalecem e devem ser observadas pelo Fisco quer seja em face do art. 98 do CTN, quer pelo seu caráter de norma especial como determina o Supremo Tribunal Federal; por sua vez, o artigo 7º, §1º do Tratado BrasilÁustria estabelece que: "1. Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante, por meio de um estabelecimento permanente ali situado. Se a empresa exercer suas atividades na forma indicada, seus lucros podem ser tributados no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem atribuídos a esse estabelecimento permanente." o artigo 7º do tratado com a Áustria acima transcrito contempla duas situações distintas; a primeira consiste na atribuição de uma competência exclusiva ao país de residência (p. ex. Áustria) da empresa pessoa jurídica para tributar os seus lucros, excluindo, por consequência, a competência do outro país contratante (p. ex. Brasil) para tributar os lucros da empresa pessoa jurídica residente no primeiro país; é o que decorre da primeira parte do §1º do artigo 7º segundo o qual: "os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, (...)", consagradora de uma regra geral de vedação objetiva da tributação dos lucros de empresas residentes num dado território pelo outro país; a segunda consiste no reconhecimento de uma competência cumulativa de ambos os Estados em presença nos casos em que uma pessoa jurídica residente em um país (p. Fl. 896DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 12 11 ex. Brasil) exerça diretamente no território do outro país (p. ex. Áustria) suas atividades através de um estabelecimento permanente (por exemplo, filial de empresa estrangeira) ali situado; esclareçase que o conceito de estabelecimento permanente para fins do tratado encontrase expressamente previsto no artigo 5 da Convenção com a Áustria, segundo o qual este "designa uma instalação fixa de negócios em que a empresa exerça toda ou parte de sua atividade", esclarecendo no número 7 do artigo 5 que "o fato de uma sociedade residente de um Estado Contratante controlar ou ser controlada por uma sociedade residente do outro Estado Contratante, ou que exerça sua atividade nesse outro Estado (quer seja através de um estabelecimento permanente quer de outro modo) não será, por si só, bastante para fazer de qualquer dessas sociedades estabelecimento permanente da outra"; ou seja, para fins do tratado o fato de uma sociedade, domiciliada em um dos Estados (Áustria), ser controlada por outra sociedade, domiciliada no outro Estado (Brasil), não faz da primeira um estabelecimento permanente da segunda. O conceito de estabelecimento permanente instalação fixa de negócios aplicase a entes despersonificados; o art. 7º dos tratados que seguem o modelo OCDE, como é o caso do tratado com a Áustria e com a Espanha (paradigma 1), faz uma distinção de tratamento entre os entes personificados (i.e., sociedades controladas e coligadas) e os entes desprovidos de personalidade própria (i.e., estabelecimentos permanentes, filial e sucursal), dispondo que só o país de domicílio de entes com personalidade própria tem competência para tributar os lucros de suas atividades; e que tanto o país em que se localizam os entes sem personalidade (filial e sucursal), como o país em que se localiza a casa matriz à qual estão ligados tais entes têm competência para tributar os lucros das atividades que aqueles estabelecimentos geraram no primeiro Estado; resta claro, portanto, que nas relações entre duas pessoas jurídicas com personalidade jurídica própria em que uma (RECORRENTE) é controladora da outra, não pode o país de domicílio da primeira (Brasil) pretender tributar os lucros da segunda empresa, domiciliada no outro país contratante (Áustria), pois cabe a este último a competência exclusiva para a tributação dos lucros das entidades residentes em seu território. Esta competência deixa de ser exclusiva apenas no caso em que os lucros sejam auferidos através de estabelecimento permanente, ou seja, de uma instalação fixa de negócios sem personalidade jurídica própria; assim, aplicandose exemplificativamente o art. 1° ao caso de uma empresa brasileira (EB) que tenha, por exemplo, na Áustria, uma filial (FA) ou controlada (CA), podem extrairse as seguintes conclusões: a) o Brasil pode tributar os lucros da FA, por esta constituir um estabelecimento permanente no exterior (1§ frase, 2ª parte, do §1º); b) a Áustria pode tributar os lucros da FA unicamente na medida em que forem imputáveis a esse estabelecimento (2ª frase do § 1º); c) só a Áustria ("competência exclusiva") pode tributar os lucros auferidos na Áustria pela CA, pois CA é empresa austríaca (1ª frase, 1ª parte do §1º); Fl. 897DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 13 12 d) o Brasil não pode tributar os lucros auferidos na Áustria pela CA, pois só pode tributar estabelecimentos permanentes no exterior e não entidades com personalidade jurídica própria existentes no outro Estado. é precisamente porque as empresas são pessoas jurídicas distintas das dos seus sócios que a primeira parte do caput do art. 7º do tratado dispõe que apenas o Estado Contratante da empresa que aufere os lucros tem competência para tributálos. O Estado Contratante de residência do sócio controlador, por sua vez, terá competência para tributar esses lucros quando distribuídos sob a forma de dividendos. É que neste momento os lucros deixam de pertencer à sociedade que os gerou para se constituir em remuneração do sócio. Essa sistemática do tratado fica bastante claro quando se lê o art. 7º em conjunto com o art. 10 e o 23; o tratado assim distingue dois momentos segundo quem é o titular do lucro. Quando auferido este pertence à sociedade estrangeira e por isso apenas o seu país de domicílio pode tributálo. Quando distribuído, esta passa a constituir remuneração do sócio (dividendo) e aí poderá ser tributado pelo Estado de Residência do sócio, mas como incide a tributação na fonte também no Estado de que provém (de localização da empresa que os distribui), acaba se verificando uma dupla tributação, cujos efeitos são eliminados na forma do art. 23 que estabelece ou o método do crédito ou da isenção para evitar a dupla tributação; quando os lucros são auferidos por um ente desprovido de personalidade jurídica própria (como é o caso do estabelecimento permanente), o tratado (segunda parte do caput do art. 7º) de forma diferente autoriza a sua tributação por ambos os Estados Contratantes, ou seja, o Estado em que se localiza o estabelecimento e o Estado em que está localizada a sua casa matriz, pois neste caso estabelecimento e casa matriz correspondem a uma mesma pessoa jurídica, sem separação ou divisão do ponto de vista legal. Os lucros do estabelecimento, portanto, integram os resultados da pessoa jurídica desde que gerados, pois não há separação da personalidade; vêse, portanto, que o tratado distingue de forma categórica as pessoas dotadas de personalidade jurídica própria dos entes despersonificados, pois reconhece a força e efeitos da personalidade jurídica, característica que, nos termos do número 7 do artigo 5 do tratado com a Áustria, impede que as controladas sejam tratadas como simples estabelecimentos permanentes, ou seja, que as controladas (como a BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH) sejam submetidas à segunda parte do caput do art. 7º (competência cumulativa), aplicável apenas aos estabelecimentos permanentes; esse ponto foi percebido pelo Ministro do Superior Tribunal de Justiça, Ari Pargendler, que em seu voto, no acórdão relativo ao julgamento do Resp nº 1.325.709 manifestou que: [...]; o STF, por sua vez, nunca se pronunciou sobre os tratados, mesmo porque se trata de matéria de competência exclusiva do STJ, ao teor do art. 105, inciso III, alínea "a" da Constituição Federal, como, aliás, bem notou o Ministro DIAS TOFFOLI nos acórdãos dos REs nºs 611.586/PR e 541.090/SC; como bem ressaltado pelo Ministro DIAS TOFFOLI, a interpretação dos tratados compete à esfera própria (STJ). O STJ, por sua vez, já exarou sua interpretação sobre a matéria, confirmando a impossibilidade de tributação dos lucros de controlada estrangeira, à luz do art. 7º dos tratados para evitar a dupla tributação; Fl. 898DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 14 13 OS FUNDAMENTOS E OBJETIVOS DO REGIME DE COMPETÊNCIA EXCLUSIVA. O ELEMENTO HISTÓRICO DE INTERPRETAÇÃO. ora, e qual a razão do regime de competência exclusiva do Estado de residência da controlada estrangeira prevista na primeira parte do art. 7º? Precisamente impedir a aplicação de medidas como o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/01; como recorda o grande jurisconsulto Ottmar Bühler, pioneiro dos estudos de tributação internacional na Alemanha referida cláusula teve a sua origem em impedir a aplicação, no âmbito das relações internacionais, da chamada "teoria do órgão" (Organtheorie) consagrada em vários países europeus nas primeiras décadas do século XX por influência da jurisprudência e da lei alemã de 1934, que concebiam os grupos de sociedades, baseados numa relação de controle ou domínio, como uma unidade, operandose na controladora uma consolidação dos ganhos e perdas do grupo. E daí as sociedades controladas serem consideradas meros "órgãos" do conjunto, sendo desconsiderada a sua personalidade jurídica; como é natural, a tentativa de aplicação desta doutrina à esfera internacional conduziria a uma deslocalização dos poderes tributários dos Estados onde se situam as empresas controladas ou coligadas para o Estado de sociedade investidora, acarretando uma plúrima tributação dos mesmos lucros. Havia, pois, que afastála de modo categórico; assim, sobretudo por influência dos países anglosaxônicos, que sustentavam a individualidade jurídica e a tributação autônoma das subsidiárias, surgiu a regra de reconhecimento de competência exclusiva ao Estado de localização destas, constante já do Modelo Bilateral de Convenção Tributária da Liga das Nações (Modelo de Londres de 1946) como uma verdadeira "cláusula antiórgão; a cláusula de competência exclusiva vem, assim, afirmar a supremacia do "princípio da separação" (Trennungsprinzip) sobre a teoria do órgão, em matéria de controladas e subsidiárias em geral, atingindo seu objetivo de proibir imperativamente que os Estados de domicílio das controladoras tomem em consideração, por qualquer forma ou técnica legislativa, os lucros das controladas ou coligadas estrangeiras como base de cálculo dos seus próprios tributos incidentes sobre as sociedadesmãe; o Acórdão recorrido afirma que o artigo 7º não poderia ter sido criado para afastar a tributação por normas CFC, pois estas foram criadas posteriormente à criação da Convenção Modelo da OCDE. No entanto, esta afirmação é distorcida, pois como atrás se viu o art. 7º visou coibir a tributação de controladas ou coligadas com base no controle societário como mero critério de conexão, determinando o reconhecimento da personalidade jurídica distinta destas. Esta função do art. 7º, contudo, foi posteriormente relativizada pela OCDE para permitir a compatibilização especificamente com normas anti abuso; ora, as verdadeiras normas CFC (controlled foreign companies provisions) são norma anti abuso na medida em que taxam apenas as rendas de natureza passiva e oriundas de território de baixa ou nula tributação. O art. 74 da MP nº 2.15835/01, contudo, não possui qualquer elemento abusivo, pois tributa indistintamente as controladas estrangeiras, independentemente de seu país de domicílio e da natureza de suas rendas, tanto assim que este caráter meramente arrecadatório da norma foi objeto de crítica pelo Ministro Joaquim Barbosa Fl. 899DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 15 14 em seu voto proferido na ADI 2.588, o que conduziu à adoção destes critérios para certos efeitos no novo regime da Lei nº 12.973/14. Confirase: "Da forma como redigida a norma brasileira presumese indistintamente que todas as controladas ou coligadas no exterior têm esse propósito elisivo ou evasivo" "a presunção o intuito evasivo somente é cabível se a sociedade estrangeira estiver localizada em localizadas em países com tributação favorecida, ou que não imponham controles e registros societários rígidos (paraísos fiscais)". aliás, tais aspectos foram ressaltados no voto da Conselheira Sandra Faroni proferido no Acórdão paradigma, no qual esta apenas admite o afastamento do art. 7º dos tratados nos casos de comprovado abuso de tratado; o regime do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/01 é exemplo paradigmático de um modelo de tributação assente na superada teoria do órgão, modelos esses que, como se viu, estão terminantemente barrados pelo artigo 7º dos tratados contra a dupla tributação; não é demais insistir em que a cláusula de competência exclusiva do art. 7º constitui o "coração" dos tratados contra a dupla tributação. Sem ela, qualquer tratado fica privado de sentido, pois abre as portas a uma guerra fiscal entre Estados, permitindo que a riqueza tributável em um deles seja objeto de pretensões fiscais cumulativas de outros, invasivas de soberania estrangeira; o art. 7º do tratado com a Áustria apenas reconhece o "princípio da separação" entre subsidiária e sociedademãe evitando que os lucros de uma controlada possam ser tributados no país de residência da controladora como se a primeira fosse uma mera filial ou sucursal (estabelecimento permanente), sem personalidade jurídica própria; contrariamente ao que afirma o Acórdão recorrido, o art. 7º impede a tributação dos lucros não disponibilizados/distribuídos pela controlada na Áustria (BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH) pelo Brasil, sendo tal interpretação a que decorre do elemento histórico e da finalidade do art. 7º; A ILEGALIDADE DOS AUTOS DE INFRAÇÃO POR VIOLAÇÃO DO ART. 7º DO TRATADO COM A ÁUSTRIA. O LUCRO ESTRANGEIRO COMO OBJETO DA TRIBUTAÇÃO. a letra da lei interna que fundamenta a tributação (o art. 25 da Lei nº 9.249/95, para o qual remete expressamente o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/01) alude expressamente à adição ao lucro da pessoa jurídica brasileira dos próprios lucros auferidos por controladas e coligadas no exterior, independentemente de serem pagos ou creditados; que o objeto da tributação consiste no lucro da própria controlada ou coligada no exterior resulta ainda de o §7º do art. 1º da Instrução Normativa nº 213/02 estabelecer que "os lucros, rendimentos e ganhos de capital de que trata este artigo a serem Fl. 900DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 16 15 computados na determinação do lucro real e da base de cálculo de CSLL, serão considerados pelos seus valores antes de descontado o tributo pago no país de origem"; o mero fato de a legislação brasileira dispor que os lucros tributáveis são aqueles apurados antes do pagamento do imposto estrangeiro, ou seja, um valor superior ao dos próprios lucros que seriam passíveis de distribuição para o sócio no País, demonstra que o que se está tributando é o próprio lucro da entidade no exterior; SUJEITO PASSIVO BRASILEIRO: MERA MECÂNICA DE TRIBUTAÇÃO. o art. 74 da MP nº 2.15835/01 tributa os lucros da controlada e coligada estrangeira, como se estas pudessem ser sujeitos passivos do imposto de renda e da CSLL no Brasil, no mesmo regime que as filiais e sucursais no exterior, que são entes despersonificados; tal sistemática de tributação significa, pois, o Brasil desprezar a personalidade jurídica das controladas estrangeiras para submetêlas ao mesmo tratamento dos estabelecimentos permanentes, arrogandose uma competência tributária, quando o tratado, como também se viu, é expresso em atribuir competência exclusiva à Áustria, Estado de domicílio da BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH; ora, o argumento da decisão recorrida de que não se aplica o tratado porque é a RECORRENTE que está sendo tributada é um puro sofisma; é que o lucro que está sendo tributado pelos autos de infração é, como atrás se viu, o próprio lucro da controlada na Áustria, tendo a lei brasileira eleito a RECORRENTE como uma espécie de responsável, unicamente para viabilizar a tributação extraterritorial pretendida pelo Brasil que de outro modo não seria factível; é que não se vislumbra outra forma pela qual o Fisco Brasileiro conseguiria efetuar o lançamento contra a pessoa jurídica no exterior (remeter o auto de infração por avião?), nem como poderia ele exercer os seus poderes para executar este crédito em outra jurisdição. Ora, a única forma de viabilizar o regime de tributação extraterritorial em causa é fazer com que todas essas consequências recaiam sobre as pessoas que encontram sob o império da lei brasileira, em relação às quais o Fisco pode exercer em toda a sua plenitude seus poderes; NATUREZA OBJETIVA DO COMANDO DO ART. 7º. acresçase, ainda, que como atrás se afirmou "os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha" (art. 98 do CTN). Esta prevalência dos tratados é reconhecida também na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal com base no critério da especialidade; é, aliás, justamente por essa razão que o art. 7º dos tratados, diferentemente de outras disposições do texto convencional, consiste em regra que visa impedir a tributação objetiva dos lucros da empresa, não traduzindo uma regra de conteúdo subjetivo, ou seja, voltada à pessoa (fonte ou residente); INAPLICABILIDADE DOS COMENTÁRIOS DA OCDE À NORMA BRASILEIRA. Fl. 901DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 17 16 frisese novamente que a sistemática de tributação adotada pelo Brasil sequer poderia qualificarse como um regime do tipo controlled foreign companies provisions que apenas se pode falar em relação a uma classe determinada de normas antiabuso do direito internacional (também conhecidas pelo acrônimo normas CFC) aplicáveis exclusivamente em condições excepcionalíssimas que autorizam a tributação automática dos lucros de controladas ou coligadas no exterior quando: (i) os lucros destas são formados substancialmente por rendas passivas; e/ou (ii) estão elas localizadas em territórios de baixa tributação. Tal regime, contudo, jamais se aplica a controladas e coligadas domiciliadas em países que têm nível comparável de tributação; todavia, a lei brasileira, em matéria de sociedades controladas e coligadas no exterior, adotou um sistema que se afasta totalmente do tipo CFC, por não ter caráter excepcional nem finalidade antielisiva, uma vez que atinge, como regra geral, a totalidade do lucro das sociedades controladas ou coligadas no exterior, independentemente da natureza dos rendimentos que o integram e do nível de tributação do país ou território de seu domicílio; a total inexistência de um elemento "abusivo" relacionado ou com o território de domicílio ou com a natureza do rendimento demonstra que a lei brasileira não tem a natureza de uma lei "CFC", pois seu objetivo não é antielisivo, mas puramente arrecadatório; daí que mesmo os comentários da OCDE ao art. 7º apontados pelo Auto de Infração e a Solução de Consulta COSIT nº 18/13 como "autorizadores" da tributação em causa, não são aplicáveis no caso do art. 74 da MP n9 2.15835/01, tendo em vista que este não corresponde a uma "controlled foreign companies provisions" objeto dos comentários da OCDE; isso mesmo fica evidente do texto da Lei nº 12.973/14 que, apesar de introduzir os conceitos de renda ativa, os utiliza unicamente para efeito de permitir a adoção temporária (até 2017) do regime de consolidação (art. 74), continuando, contudo, a tributar automaticamente os lucros e toda e qualquer controlada estrangeira em 31 de dezembro de cada ano (art. 73), ainda que confira a opção pelo seu pagamento diferido; este sistema perverso é uma singularidade brasileira, não adotado pelos demais países, pelo que a competitividade das nossas empresas vêse seriamente abalada, pois comporta um ônus fiscal incomparavelmente mais pesado do que o das suas rivais no mercado global; a total inexistência de um elemento "abusivo" relacionado ou com o território de domicílio ou com a natureza do rendimento demonstra que a lei brasileira não tem a natureza de uma lei "CFC"; no caso, a Áustria é um país que possui tributação normal e não é qualificado como país de tributação favorecida, nem à época em que lavrado o Auto de Infração era considerado como regime fiscal privilegiado; INAPLICABILIDADE DOS COMENTÁRIOS DA OCDE ADOTADOS A PARTIR DE 2003 AO TRATADO COM A ÁUSTRIA CELEBRADO EM 1974. vejase, ainda, que os comentários da OCDE, com base nos quais a Solução de Consulta COSIT nº 18/13 pretende sustentar a suposta compatibilidade da lei brasileira com os tratados, além de inaplicáveis às normas brasileiras por não possuírem natureza de normas Fl. 902DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 18 17 CFC, só foram introduzidos em 2003, pois até então a incompatibilidade do art. 7º do modelo OCDE com as próprias normas CFC era orientação dominante da doutrina e da jurisprudência estrangeira (vejase na França o julgamento do Conselho de Estado no caso Schneider); apenas a partir de 2003 é que a OCDE passou a considerar o artigo 7º compatível com as legislações CFC, tendo introduzido um §10.1 aos seus comentários ao artigo 7º da Convenção Modelo, renumerado em 2008 para §13 e em 2010 para §14; ocorre, porém, que o tratado com a Áustria foi celebrado em 24 de maio de 1975 e promulgado pelo Decreto nº 78.107, de 22 de julho de 1976, ou seja, quando tais comentários sequer existiam, pelo que esta nova orientação não pode ser invocada para alterar o alcance e sentido de tratado celebrado sob entendimento diverso tendo em vista o princípio da boa fé (art. 31 da Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados) que tem como corolário ser aplicável interpretação e sentido vigentes à data da sua celebração dos tratados; AS CLÁUSULAS ESPECIAIS QUE AUTORIZAM A TRIBUTAÇÃO DE LUCROS DE CONTROLADAS NAS CONVENÇÕES. de todas as considerações acima, pode concluirse que, contrariamente ao que afirma o Acórdão recorrido, o artigo 7º dos tratados contra a dupla tributação é incompatível com a tributação nos termos do art. 74 da MP nº 2.15835/01, só podendo ser afastado se o tratado contiver disposição especial e específica que autorize esta exceção; e tanto tal assertiva é verdadeira que no Tratado com o México, aprovado pelo Decreto nº 6.000/2006, o Brasil houve por bem inserir um artigo 28, §3º, segundo o qual "as disposições da presente Convenção não impedirão que um Estado Contratante aplique as disposições de sua legislação nacional relativa a capitalização insuficiente ou para combater o diferimento, incluída a legislação de sociedades controladas estrangeiras (legislação CFC) ou outra legislação similar"; semelhante redação consta da alínea "d" do item 5 do protocolo anexo ao Tratado com o Peru, aprovado pelo Decreto nº 7.020/2009; estes são os únicos tratados firmados pelo Brasil que contêm tal autorização expressa. No entanto, no caso do tratado BrasilÁustria tal autorização não só inexiste, como é contrária ao sentido e interpretação da convenção vigentes à época de sua celebração, não se podendo, portanto, aceitar a interpretação pretendida pela decisão recorrida; ora, os tratados e as leis não possuem palavras sem sentido, muito menos disposições inteiras sem sentido. Fossem de fato tais acordos plenamente compatíveis com o art. 74 da MP nº 2.15835/01 nenhuma razão existiria para que o tratado com a México tivesse o artigo 28, §3º; A REJEIÇÃO AOS COMENTÁRIOS DA OCDE QUE ADMITIRAM A COMPATIBILIDADE DO ART. 7º COM NORMAS CFC POR PAÍSES MEMBROS. acresce que esta nova orientação dos Comentários da OCDE, que corresponde a uma tendência mais fiscalista que jurídica, não é sequer aceita por todos países membros, tendo sido expressamente rejeitada, dentre outros, pela Bélgica que fez consignar em suas reservas ao art. 7º da Convenção Modelo da OCDE o seguinte: [...]; Fl. 903DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 19 18 a posição externada pela Bélgica em suas reservas ao parágrafo 10.1 dos comentários ao art. 7º da Convenção modelo da OCDE é idêntica ao entendimento aqui manifestado pela RECORRENTE. Por sua vez, o Luxemburgo afirma que: [...]; se se validar o pensamento do acórdão recorrido estarseá esvaziando de conteúdo a primeira parte do §1º e art. 7º, tornandoo inócuo, desnecessário e jamais aplicável; ora, que sentido faria que os tratados tivessem então esse artigo 7º se ele de nada serve? vejase, porém, que a aplicação ao caso concreto do artigo 7º do tratado com a Áustria tem o efeito de derrogar o art. 74 da MP nº 2.15835/01 no que concerne às relações entre a RECORRENTE e sua controlada direta BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH; A CONFIRMAÇÃO DO ENTENDIMENTO DA RECORRENTE PELA JURISPRUDÊNCIA. tudo o que atrás se afirmou foi confirmado pelo Superior Tribunal de Justiça, no acórdão relativo ao julgamento do Recurso Especial nº 1.325.709RJ assim ementado: "(...) IRPJ E CSLL. LUCROS OBTIDOS POR EMPRESAS CONTROLADAS NACIONAIS SEDIADAS EM PAÍSES COM TRIBUTAÇÃO REGULADA. PREVALÊNCIA DOS TRATADOS SOBRE BITRIBUTAÇÃO ASSINADOS PELO BRASIL COM A BÉLGICA (DECRETO 72.542/73), A DINAMARCA (DECRETO 75.106/74) E O PRINCIPADO DE LUXEMBURGO (DECRETO 85.051/80). EMPRESA CONTROLADA SEDIADA NAS BERMUDAS. ART. 74, CAPUT DA MP 2.15735/2001. DISPONIBILIZAÇÃO DOS LUCROS PARA A EMPRESA CONTROLADORA NA DATA DO BALANÇO NO QUAL TIVEREM SIDO APURADOS, EXCLUÍDO O RESULTADO DA CONTRAPARTIDA DO AJUSTE DO VALOR DO INVESTIMENTO PELO MÉTODO DA EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO, PARA CONCEDER A SEGURANÇA, EM PARTE. (...) 5. A jurisprudência desta Corte Superior orienta que as disposições dos Tratados Internacionais Tributários prevalecem sobre as normas de Direito Interno, em razão da sua especificidade. Inteligência do art. 98 do CTN. Precedente: (RESP 1.161.467RS, Rel. Min. CASTRO MEIRA, DJe 01.06.2012). 6. O art. VII do Modelo de Acordo Tributário sobre a Renda e o Capital da OCDE utilizado pela maioria dos Países ocidentais, inclusive pelo Brasil, conforme Tratados Internacionais Tributários celebrados com a Bélgica (Decreto 72.542/73), a Dinamarca (Decreto 75.106/74) e o Principado de Luxemburgo (Decreto 85.051/80), disciplina que os lucros de uma empresa de um Estado contratante só são tributáveis nesse mesmo Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante, por meio de um estabelecimento permanente ali situado (dependência, sucursal ou filial); ademais, impõe a Convenção de Viena que uma parte não pode Fl. 904DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 20 19 invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado (art. 27), em reverência ao princípio basilar da boafé. 7. No caso de empresa controlada, dotada de personalidade jurídica própria e distinta da controladora, nos termos dos Tratados Internacionais, os lucros por ela auferidos são lucros próprios e assim tributados somente no País do seu domicílio; a sistemática adotada pela legislação fiscal nacional de adicionálos ao lucro da empresa controladora brasileira termina por ferir os Pactos Internacionais Tributários e infringir o princípio da boafé na relações exteriores, a que o Direito Internacional não confere abono. (...)" em voto de vista, o Ministro Ari Pargendler examina a questão com grande brilhantismo e profundidade, razão pela qual reproduzimos o seguinte trecho: [...]; o TRF4 ao examinar questão idêntica no julgamento da APELAÇÃO/REEXAME NECESSÁRIO nº 2003.72.01.0000144/SC decidiu que: [...]; no mesmo sentido, a jurisprudência administrativa do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais também confere apoio ao entendimento da RECORRENTE, como se vê do Acórdão paradigma nº 10195.802: [...]; A ISENÇÃO DOS DIVIDENDOS NOS TERMOS DO ART. 23 DO TRATADO COM A ÁUSTRIA. A IMPOSSIBILIDADE DE TRIBUTAÇÃO DOS DIVIDENDOS PELO BRASIL. ainda que não se acolha o entendimento consagrado no primeiro paradigma, cujas razões encontramse acima detalhadas, a tributação pretendida pelo Auto de Infração dos lucros de BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH é impossível nos termos do art. 23 do tratado com a Áustria, segundo entendimento consagrado no segundo paradigma; é que BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH é uma sociedade austríaca sujeita a um regime normal de tributação no país de seu domicílio. Tal entidade quando distribui dividendos para o Brasil, sujeita os mesmos à tributação na fonte na Áustria limitada a 15%, nos termos do art. 10 do tratado: ARTIGO 10 Dividendos 1. Os dividendos pagos por uma sociedade residente de um Estado Contratante a um residente do outro Estado Contratante são tributáveis nesse outro Estado. 2. Todavia, esses dividendos podem ser tributados no Estado Contratante onde reside a sociedade que os paga, de acordo com a legislação desse Estado, mas o imposto assim estabelecido não poderá exceder 15% do montante bruto dos dividendos. esses dividendos, contudo, não são passíveis de tributação pelo Brasil, tendo em vista o disposto no nº 2 do art. 23 do tratado, segundo o qual: ARTIGO 23 Método para eliminar a dupla tributação Fl. 905DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 21 20 (...)2. Os dividendos pagos por uma sociedade residente da Áustria a uma sociedade residente do Brasil que possua no mínimo 25% das ações do capital da sociedade que paga os dividendos serão isentos do imposto de sociedade no Brasil. é que o método eleito pelo tratado BrasilÁustria para se evitar a dupla tributação jurídica do sócio brasileiro foi, no caso dos dividendos, o da isenção, segundo o qual os dividendos pagos a um sócio no Brasil são tributados exclusivamente na fonte no país de que se originam, não sendo tributados uma segunda vez no país de residência deste sócio; o Acórdão recorrido, contudo, rejeita este entendimento, sob o argumento de que: [...]; ora, (i) BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH é sociedade sujeita a uma tributação normal na Áustria; (ii) a aplicação do art. 75 tratado impede a tributação dos lucros não distribuídos pela entidade austríaca; e por outro lado, (iii) o art. 23, nº 2 do mesmo tratado impede a tributação dos dividendos, ou seja, desses lucros quando disponibilizados para a RECORRENTE no Brasil; o que se conclui da leitura sistemática destes dispositivos é que o Brasil abriu mão por completo de tributar os lucros da controlada austríaca, quer seja antes de sua disponibilização/distribuição (lucros da controlada austríaca) para o controlador, quer seja depois desta disponibilização/distribuição (dividendos); a possibilidade de qualificação do objeto da tributação pela lei brasileira como dividendos (fictos ou presumidos), para efeitos dos tratados, decorre: a) do entendimento de que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/01 apenas antecipou o momento da tributação, mediante a mera alteração da sistemática de tributação caixa (momento da distribuição dos lucros/dividendos) para competência (momento do reconhecimento da receita ao período a que compete), sem alterar, contudo, o objeto (lucros disponibilizados ou dividendos); b) a sistemática de compensação do imposto pago no exterior que permitiu a compensação do imposto de renda de outro país contra o imposto de renda brasileiro não tem por intuito eliminar a dupla tributação econômica, mas sim assegurar que o montante tributado pelo Brasil seja efetivamente equivalente ao dos dividendos (lucros distribuíveis) que o sócio brasileiro perceberia caso os lucros da controlada estrangeira tivessem sido efetivamente distribuídos; c) confirmando o raciocínio acima, a lei brasileira assegura a compensação, pelas controladas estrangeiras, de seus prejuízos com lucros próprios, mas impede a compensação dos mesmos prejuízos com lucros brasileiros ou de outras controladas estrangeiras. de certo modo este é o entendimento partilhado pelo Auto de Infração quando afirma que o art. 74 da MP nº 2.15835/01 teria apenas substituído a tributação em regime de caixa pela tributação em regime de competência, como também entendeu o STF no julgamento da ADI nº 2.588; Fl. 906DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 22 21 mas se esta assertiva for correta, então pelo regime de competência deve também ocorrer o reconhecimento de receitas e despesas ao período a que competem, ou seja, no período em que ocorrerem, independentemente do seu efetivo recebimento ou pagamento; nestas circunstâncias, há que se perquirir qual seria a "receita" reconhecida no período a que compete (31 de dezembro de cada ano) que é objeto de tributação nos termos do art. 74 da MP nº 2.15835/01? Uma vez que "receita" incorrida deve corresponder a uma receita líquida e certa, apenas se pode considerar como tal os dividendos, pois a titularidade de participação acionária em outra entidade resulta para o titular em direitos econômicos consistentes justamente no direito à participação nos lucros mediante a percepção de dividendos; ora, se os lucros da controlada estrangeira "disponibilizados", nos termos do art. 74 da MP 2.15835/01, configuram "receita" reconhecida por competência, esta "receita" só pode ter a natureza de "dividendos", ergo isentos nos termos do art. 23 do tratado com a Áustria; por outro lado, se se admitir a tributação pretendida pelo Auto de Infração de lucro alienígena, não tornado disponível para o sócio no Brasil, se estará tornando inócua a isenção do art. 23 do tratado simplesmente por ter se antecipado o momento da tributação; ademais, vejase que os lucros da BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH quando distribuídos para a RECORRENTE estarão sujeitos à tributação na fonte na Áustria, limitada a 15% nos termos do tratado, sem que essa tributação na fonte seja passível de compensação com o IRPJ e a CSLL incidentes no país, uma vez que o Brasil optou pelo método da isenção como forma de eliminar a dupla tributação sobre esses dividendos; o Brasil assumiu, nos termos do tratado, a obrigação de não tributar os rendimentos do sócio brasileiro, decorrentes de sua participação no capital de empresa austríaca, consistentes tanto nos lucros diretamente produzidos na Áustria, bem como nos lucros decorrentes das participações detidas em terceiras entidades, reservando essa tributação exclusivamente para a Áustria; no entanto, se o IRPJ e a CSLL incidirem no Brasil em momento anterior ao da incidência do imposto austríaco, terseá justamente a dupla tributação, cujo objetivo do tratado era evitar (dupla tributação jurídica), já que a tributação na fonte sobre os dividendos na Áustria, que de futuro se aplicará aos lucros, tem como sujeito passivo justamente o sócio brasileiro que não terá direito de se creditar do imposto austríaco nos termos do tratado (porque este optou pelo método da isenção, não do crédito), nem nos termos da lei interna brasileira (art. 26 da Lei nº 9.249/95); a interpretação do Acórdão recorrido conduz, portanto, a um resultado contrário aos objetivos do tratado, donde logo se percebe não ser esta interpretação correta; é no mínimo desleal a tributação pelo Brasil por meio de uma interpretação do tratado contrária ao seu sentido e finalidade; aliás, esta interpretação desafia as regras de hermenêutica e os princípios consagrados na Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, segundo a qual o texto convencional deve ser interpretado segundo a sua finalidade (art. 31) e cumprido de boafé (art. 26) pelos Estadosparte; Fl. 907DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 23 22 a cláusula especial (art. 23) que considera isentos os dividendos pagos por uma empresa domiciliada no exterior (BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH) ao sócio no Brasil torna ainda mais evidente a impossibilidade de se admitir a tributação no Brasil dos lucros da empresa estrangeira, pois se o Brasil não poderia tributar os lucros da entidade austríaca quando distribuídos muito menos poderá fazêlo enquanto não distribuídos, sendo irrazoável e até menos desleal o entendimento de que tal disposição só seria aplicável a dividendos efetivamente pagos; frisese, novamente, que a negativa de aplicação do tratado celebrado com a Áustria e consequentemente da isenção prevista no seu art. 23 pela decisão recorrida conduz justamente à dupla tributação que o tratado tem por objetivo evitar. É que quando os lucros forem efetivamente distribuídos ao sócio no Brasil, tais lucros serão tributados na fonte na Áustria sob a forma de dividendos (15% de IRRF, segundo o art. 10 do tratado), mas essa tributação de fonte na Áustria não é sequer compensável com o IRPJ e a CSLL porque tais tributos incidiram em momento anterior, na apuração dos lucros no balanço, burlando, assim, o tratado no qual o Brasil tinha se comprometido a isentar tal rendimento. Afinal, que eficácia terá a isenção dos dividendos prevista no tratado, se antes da sua distribuição o imposto brasileiro já tiver incidido? mais uma vez esclarece a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (Decreto nº 7.030/09) em seu artigo 27 que "uma parte não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado". A mesma convenção também estabelece que "um tratado deve ser interpretado de boa fé segundo o sentido comum atribuível aos termos do tratado em seu contexto e à luz de seu objetivo e finalidade" (artigo 31, número 1). Logo, os EstadosParte devem se abster de praticar atos que frustrem o objetivo e finalidade do tratado, devendo ainda aplicálo de boafé; de fato, se o Brasil concordou isentar a remuneração dos sócios (dividendos), por isso qualquer tentativa espúria de unilateralmente fugir das disposições do tratado, seja pela mudança de nome ou qualificação do objeto da tributação pela lei brasileira, seja através de uma interpretação que conduza a um resultado diverso daquele pretendido pelo tratado, representa uma violação de suas disposições por parte deste Estado Contratante (Brasil) e deve ser prontamente rechaçada por esses julgadores em prol da boafé e lealdade em que se baseiam as relações internacionais; a pretendida tributação dos lucros da controlada estrangeira, antes da distribuição dos lucros sob a forma de dividendos (que são a real remuneração do sócio) é uma burla às disposições do tratado com a Áustria, pois o Brasil se comprometeu a jamais tributar tais valores, sejam enquanto lucros não distribuídos (art. 7º), seja na própria disponibilização para o sócio (art. 23), levando a um resultado contrário àquele que a Convenção objetivava; logo, a interpretação da decisão recorrida de que não são aplicáveis as disposições do tratado com a Áustria ao caso em exame é equivocada, pois conduz à total ineficácia do tratado e a um resultado contrário daquele pretendido, devendo, portanto, serem cancelados integralmente os lançamentos do IRPJ e da CSLL sobre os lucros de BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH; APLICAÇÃO DO TRATADO COM A ÁUSTRIA À CSLL. os lucros em causa foram também submetidos à tributação pela CSLL, com fundamento no art. 21 da Medida Provisória nº 2.15835/01, segundo o qual: [...]; Fl. 908DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 24 23 ocorre que artigo 2, número 2 do tratado celebrado com a Áustria dispõe que "a Convenção também será aplicável aos impostos futuros de natureza idêntica ou análoga que venham a acrescer aos impostos atuais ou a substituílos"; ora, o tratado com a Áustria foi celebrado em 24 de maio de 1975, portanto, antes da instituição da CSLL pela Lei nº 7.689/88, pelo que devem ser automaticamente aplicáveis à CSLL as suas disposições; os tratados contra a dupla tributação aplicamse, em princípio, aos tributos que revestem natureza substancial de tributos sobre a renda e/ou capital, independentemente da sua denominação (nomen iuris), da pessoa de direito público que é seu titular ou do método adotado para a sua cobrança, alcançando inclusive os tributos que forem posteriormente introduzidos, seja em substituição, seja em adição, àqueles já existentes à data da sua celebração; esta regra, constante do art. 2º, §1º, da Convenção Modelo da OCDE, encontrase reproduzida no art. 2º, §2º do Tratado com a Áustria; e, assim sendo, pode afirmarse que as convenções celebradas pelo Brasil são aplicáveis à contribuição social sobre o lucro, instituída pela Lei nº 7.689/88. É que, na verdade, ela é, na sua substância, um adicional ao imposto de renda, distinguindose apenas pela sua destinação, vinculada à finalidade específica da seguridade social. Ora, a natureza dos tributos deve identificarse no fato gerador e na base de cálculo (substancialmente idênticos aos do imposto de renda propriamente dito) e não na sua denominação ou destino, como esclarece o art. 4º do Código Tributário Nacional; a intenção do Estado brasileiro de aplicação dos tratados contra a dupla tributação à CSLL bem se revela, por exemplo, nas seguintes convenções que expressamente a aludem. [...]; tudo isso foi confirmado com a edição da Lei nº 13.202/15, cujo art. 11 dispõe expressamente que os tratados celebrados pelo Brasil para evitar a dupla tributação alcançam a CSLL: [...]; frisese que se trata de lei interpretativa, aplicandose portanto aos fatos geradores pretéritos, ex vi do art. 106, I, do CTN: [...]; assim, todas as considerações atrás desenvolvidas a respeito da inaplicabilidade da pretendida tributação ex vi dos artigos 7º e 23 do tratado com a Áustria, em matéria de IRPJ são igualmente aplicáveis à CSLL, sendo, por conseguinte, indevidas as exigências formuladas a esse título; DO PEDIDO. ante o exposto, requer a RECORRENTE sejam acolhidas as razões deste recurso para que seja aplicado o entendimento firmado nos Acórdãos paradigmas, determinandose o cancelamento integral das exigências fiscais em matéria de imposto de renda da pessoa jurídica e de contribuição social sobre o lucro líquido e o consequente arquivamento do processo administrativo instaurado. Fl. 909DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 25 24 Quando do exame de admissibilidade do recurso especial da contribuinte, o Presidente da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por meio do despacho exarado em 07/02/2018, deu seguimento ao recurso, fundamentando essa decisão na seguinte análise sobre a divergência suscitada: Da contraposição dos fundamentos expressos nas ementas e nos votos condutores dos acórdãos, evidenciase que a Recorrente logrou êxito em comprovar a ocorrência do alegado dissenso jurisprudencial, como a seguir demonstrado (destaques do original transcrito): “Impossibilidade de tributação dos lucros/dividendos em virtude da aplicação do tratado internacional” [...] Com relação a essa matéria, ocorre o alegado dissenso jurisprudencial, pois, em situações fáticas semelhantes e à luz das mesmas normas jurídicas, chegouse a conclusões distintas. Enquanto a decisão recorrida entendeu que os arts. 7 e 23 das Convenções sobre Dupla Tributação não impedem a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001 (inexiste ofensa aos artigos 7 ou 23 do Acordo BrasilÁustria, pela aplicação da norma brasileira para fins de incidência sobre os lucros auferidos pela empresa sediada no Brasil), o primeiro acórdão paradigma apontado (Acórdão nº 10195.802, de 2006) decidiu, de modo diametralmente oposto, que os arts. 7 e 23 das Convenções sobre Dupla Tributação impedem a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001 (tendo em vista o art. 7º da Convenção, não pode haver tributação no Brasil dos lucros auferidos por intermédio da Jalua [empresa espanhola], enquanto não disponibilizados e não caberá a tributação, em face do que dispõe o parágrafo 4 do Art. 23 [da Convenção]). Já no referente ao segundo acórdão paradigma apontado (Acórdão nº 110100.365, de 2010), não ocorre o alegado dissenso jurisprudencial, por inexistir divergência de entendimento passível de uniformização. Tanto na decisão recorrida, quanto no acórdão paradigma apontado (Acórdão nº 110100.365, de 2010), chegouse à mesma conclusão, de que o art. 23 das Convenções sobre Dupla Tributação não impede a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001: inexiste ofensa aos artigos [...] 23 do Acordo BrasilÁustria, pela aplicação da norma brasileira para fins de incidência sobre os lucros auferidos pela empresa sediada no Brasil (acórdão recorrido), ou seja, o art. 74 da Medida Provisória nº 2.158 35/2001 estabelece tributação sobre dividendos percebidos por beneficiários situados no país mediante ficção de disponibilização dos resultados auferidos por intermédio de coligadas ou controladas no exterior (acórdão paradigma). Por tais razões, neste juízo de cognição sumária, concluise pela caracterização da divergência de interpretação suscitada. Pelo exposto, do exame dos pressupostos de admissibilidade, PROPONHO seja ADMITIDO o Recurso Especial interposto. Fl. 910DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 26 25 Em 28/02/2018, o processo foi encaminhado à PGFN, para ciência do despacho que deu seguimento ao recurso especial da contribuinte. Nos termos do art. 23, §§ 8º e 9º, do Decreto nº 70.235/72, a PGFN seria considerada intimada ao término do prazo de trinta dias contados da data acima referida, mas antes disso, em 15/03/2018, o referido órgão apresentou tempestivamente as contrarrazões ao recurso, com os seguintes argumentos: DOS FUNDAMENTOS PARA A MANUTENÇÃO DO ACÓRDÃO RECORRIDO. REGIME DE TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS BRASILEIRO. antes de analisar especificamente os argumentos da recorrente, cabe tecer alguns comentários sobre a natureza do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, a fim de determinar se o citado dispositivo é ou não compatível com o Tratado BrasilÁustria; DA INTERPRETAÇÃO E DA QUALIFICAÇÃO DE LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR POR INTERMÉDIO DE CONTROLADAS OU COLIGADAS. considerando a existência de Tratado para evitar a dupla tributação da renda, firmado entre BrasilÁustria, o primeiro passo é examinar as normas do referido acordo internacional. Com efeito, devese buscar inicialmente os conceitos trazidos pelos tratados, tendo em vista a sua finalidade específica de regulamentar situações nas quais se verifique a possibilidade de múltipla incidência de tributos sobre o mesmo fato. A utilização do direito interno de cada um dos países contratantes fica reservada às hipóteses em que a convenção remete a ele, ou quando não se encontram os termos na própria Convenção. Nesse contexto, importante examinar os dispositivos do Tratado BrasilÁustria que tratam da tributação de lucros: Tratado BrasilÁustria Artigo 7° Lucros das Empresas 1. Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado. Se a empresa exercer sua atividade na forma indicada, seus lucros serão tributáveis no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem atribuíveis a esse estabelecimento permanente. a norma acima transcrita, claramente, limitase a definir qual o país poderá tributar de lucros das empresas. Essa é justamente a essência Acordo internacional: fixar a competência tributária quando se verifica a possibilidade de dupla ou múltipla tributação ou isenção da mesma renda. Por essa razão, o conteúdo das normas dos tratados para evitar a dupla tributação, geralmente, está relacionado à delimitação de critérios de competência tributária, às regras para diminuir ou eliminar os efeitos da dupla tributação, entre outros; diante disso, analisando o artigo 7º do Tratado BrasilÁustria, a única conclusão que se pode extrair é que os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado. Entretanto, o mencionado dispositivo não esgota a disciplina da tributação dos lucros submetidos ao poder de tributar de dois ou mais Estados. Isso porque falta um conceito essencial para se estabelecer a relação jurídicotributária, qual seja: explicitar o que pode ser considerado lucro das empresas residentes em cada país. Ora, sem esta definição, Fl. 911DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 27 26 de nada adiantam os critérios de delimitação de competência do artigo 7º, tendo em vista que ainda é preciso esclarecer o conceito do elemento material do fato gerador do tributo; seguindo a linha de raciocínio no sentido de se buscar primeiro no Tratado as definições dos conceitos, voltase a atenção para o artigo 3º, que apresenta as definições gerais: Tratado BrasilÁustria Artigo 3º Definições Gerais 1. Na presente Convenção, a não ser que o contexto imponha interpretação diferente: (...) 2. Para a aplicação da presente Convenção por um Estado Contratante, qualquer expressão que não se encontre de outro modo definida terá o significado que lhe é atribuído pela legislação desse Estado Contratante relativa aos impostos que são objetos da Convenção, a não ser que o contexto imponha interpretação diferente. inicialmente, constatase que o art. 3º dos tratados não trazem o conceito de lucro. Por sua vez, em nenhum outro artigo da Convenção BrasilÁustria foi definido o que seria lucro, para fins de incidência do imposto sobre a renda. Nessa perspectiva, importante notar que o parágrafo 2º do art. 3º prevê uma regra residual, qual seja: deve ser observada a legislação interna do Estado contratante quando não estiverem presentes, no texto do Tratado, a definição de algum termo ou expressão; percebese, portanto, que a definição do que sejam os “lucros de uma empresa de um Estado Contratante” (no caso, o Brasil) deve ser buscada no ordenamento jurídico brasileiro. Esse entendimento está em consonância com a regra de interpretação prevista no próprio Tratado BrasilÁustria. Nesse ponto, vale lembrar que para chegar a essa conclusão seguiuse a metodologia considerada pela doutrina como a mais adequada, a saber: investigar primeiro se o conceito foi trazido pelo Acordo internacional e, não havendo especificação naquela fonte, partese para o direito interno dos países; partindo dessa premissa, o próximo passo é examinar a legislação brasileira sobre a tributação de lucros auferidos no exterior. Mais precisamente, cumpre conferir o conteúdo do art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, haja vista ser a norma que fundamentou o lançamento do crédito tributário. Considerando, ainda, que o citado dispositivo remete ao art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, tornase imprescindível analisar as duas normas em conjunto. Assim, vale a pena transcrevêlas abaixo: [...]; o art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, dispõe que o lucro das empresas residentes no Brasil será composto pelos resultados auferidos no exterior. Significa dizer que, ao determinar a adição dos lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, a norma explicita que os rendimentos produzidos no exterior integrarão o lucro real das pessoas jurídicas brasileiras. Tratase da consagração do princípio da universalidade ou da tributação em bases universais, previsto no inciso I do § 2º do art. 153 da Constituição Federal de 1988; por sua vez, o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, também contempla regra de definição do elemento material do fato gerador do IRPJ e da CSLL, expresso no seguinte trecho: “determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, nos termos do art. 25 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Fl. 912DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 28 27 Provisória”. Além disso, o dispositivo ainda prevê o elemento temporal do fato gerador, ou seja, o momento em que se consideram disponibilizados os lucros para as controladoras ou coligadas brasileiras. A novidade trazida pelo art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, foi estabelecer que a tributação dos lucros das controladoras e coligadas situadas no Brasil, auferidos por intermédio de suas controladas ou coligadas no exterior, seguiria o regime de competência. O fundamento para essa inovação, é bom ressaltar, encontrase no § 2º do art. 43 do CTN, que autorizou o legislador a estabelecer o momento em que ocorrerá a disponibilização dos rendimentos oriundos do exterior. Desse modo, é possível afirmar que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, apenas complementa o regime de tributação em bases universais, para as pessoas jurídicas residentes no Brasil, inaugurado pelo art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995. Nessa perspectiva, relevante notar que os dois dispositivos apresentam o mesmo conceito para lucro real, no sentido de que a apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL levará em conta os rendimentos auferidos no exterior; assentados esses pontos, cabe agora retornar para a análise da tributação dos lucros auferidos no exterior sob a ótica do Tratado firmado entre BrasilÁustria; as normas brasileiras não extrapolaram os limites do referido Tratado internacional, uma vez que definiram o que seria o lucro da pessoa jurídica situada no Brasil – termo não especificado na Convenção. Por sua vez, também não se verifica incompatibilidade entre o disposto em normas brasileiras e nas normas da Áustria. Isso porque o art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001, apresenta preceitos que correspondem ao âmbito de competência do Brasil – ou seja, define o que deve ser entendido como lucro das empresas brasileiras e o momento em que será possível haver incidência do IR e da CSLL sobre estes lucros. Dessa maneira, resta evidente que a Fiscalização fundamentou seu trabalho no conceito de lucro fornecido pela legislação brasileira. Com efeito, a autoridade administrativa responsável pelo lançamento, tendo como parâmetro de interpretação o direito interno, constatou a existência de valores que se subsumiriam à hipótese que autoriza a tributação pelo IRPJ e pela CSLL; o principal argumento utilizado pela recorrente, para tentar afastar a tributação no Brasil, diz respeito ao critério de competência definido no art. 7º. Basicamente, alegase que as autoridades brasileiras estariam – com base no art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001 – tributando os lucros das controladas ou coligadas situadas no exterior, e que essa postura violaria o art. 7º das Convenções. Entretanto, tais afirmações não condizem com a realidade; primeiramente, conforme demonstrado acima, o objeto da Lei nº 9.249, de 1995, e do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, não é o lucro de empresa estrangeira, mas os lucros da sociedade controladora sediada no Brasil. Significa dizer que o enfoque da legislação nacional foi delimitar o conceito de lucro real, incluindo na base de cálculo do IRPJ e da CSLL os lucros auferidos no exterior por intermédio de controladas ou coligadas. Implica dizer que os valores disponibilizados pelas controladas ou coligadas estrangeiras devem ser qualificados como lucros da controladora residente no Brasil – nos termos do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001; como visto acima, compete ao aplicador do tratado buscar nas legislações de cada país contratante o significado dos termos não definidos nos tratados. A r. decisão de primeira instância respeitou tal regra, ao dar ao termo “lucro de empresa residente” um significado que está em conformidade com o ordenamento jurídico brasileiro. Isso porque Fl. 913DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 29 28 entendeu, acertadamente, que a lei brasileira estaria incidindo sobre lucros de empresa residente no Brasil, o que, evidentemente, consiste no escopo da Lei nº 9.249, de 1995, e do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Portanto, se o art. 7º do tratado dispõe que os “lucros de empresa serão tributados apenas no país de residência”, a lei brasileira não contraria o art. 7º dos tratados. Ao contrário, no caso, o lucro de empresa residente no Brasil está sendo tributado no Brasil, o que implica dizer que o art. 7º está sendo observado e respeitado pela legislação pátria; CLASSIFICAÇÃO DO ART. 74 DA MEDIDA PROVISÓRIA Nº 2.15835, DE 2001, COMO NORMA CFC. ultrapassadas as primeiras considerações acerca da aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, frente aos Tratado firmados pelo Brasil para evitar a dupla tributação, cabe analisar o tema sob outro enfoque. A partir de agora, passa a ser debatida a natureza do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, para que fique demonstrado que o citado dispositivo consiste em norma voltada para a disciplina das CFCs. Ademais, é preciso que fique claro o verdadeiro sentido da norma contida no art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, para evitar desvirtuamentos em sua aplicação – o que provocaria esvaziamento de sua finalidade; no Termo de Verificação Fiscal, a autoridade lançadora procurou delinear a atual sistemática brasileira no âmbito da tributação de lucros auferidos no exterior. Para isso, trouxe a evolução histórica da legislação sobre o assunto, merecendo destaque, primeiramente, o art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995. O mencionado dispositivo legal introduziu no ordenamento jurídico o regime de tributação universal da renda das pessoas jurídicas residentes no país, provocando uma mudança de paradigma no modelo de tributação do IRPJ e da CSLL – que antes era orientado pelo critério da territorialidade; o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, deu continuidade à mudança de paradigma iniciada com o art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995. Esse aspecto é facilmente perceptível no próprio texto do caput do art. 74, que ao fazer menção à “determinação da base cálculo do IRPJ e da CSLL” remete para o art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995; é possível afirmar, com tranquilidade, que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, visava igualmente submeter as pessoas jurídicas residentes no Brasil ao critério da universalidade da tributação da renda; feitas essas considerações introdutórias, passase às técnicas hermenêuticas que permitem qualificar o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, como norma CFC. A primeira a ser utilizada é a interpretação gramatical, efetivada mediante a simples leitura do texto normativo e a identificação do significado linguístico das palavras que o compõe. Nessa perspectiva, constatase que o dispositivo sob análise disciplina os elementos que devem compor a base de cálculo do IRPJ e da CSLL, o que é confirmado pelo seguinte trecho: “Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL”. Além disso, é preciso levar em conta a remissão feita ao art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, tendo esse dispositivo fixado que: “Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas”. Por fim, o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, traz um marco temporal para determinar o momento em que se entende disponibilizados, para a controladora ou coligada brasileira, os lucros auferidos no exterior por intermédio de sua controlada ou coligada. Isso é o que se extrai desta parte do Fl. 914DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 30 29 texto normativo: “os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento”; diante disso, apegandose apenas à literalidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, fica evidente que o parâmetro utilizado para compor a base de cálculo do IRPJ e da CSLL são os lucros obtidos por intermédio das controladas e coligadas no exterior e o momento da disponibilização destes lucros para a controladora ou coligada brasileira. Mais do que isso, já se poderia concluir que o dispositivo regulamenta a tributação da renda de pessoas jurídicas residentes no Brasil. Isso é precisamente o que justifica o termo Controlled Foreign Coorporation, vale dizer, as normas CFC buscam disciplinar a relação entre empresas controladas ou coligadas situadas no exterior e as suas controladoras ou coligadas residentes no país de origem da norma CFC, para fins de apurar os lucros passíveis de tributação auferidos por estas últimas. Dessa maneira, há que se reconhecer que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, reúne as características elementares de normas classificadas como CFC, uma vez que trata de empresas controladas ou coligadas no exterior e da disponibilização dos seus lucros para a controladora ou coligada brasileira; por seu turno, a interpretação histórica também configura ferramenta válida para definir o sentido de uma norma. Com efeito, esse método de investigação considera tanto a evolução histórica da legislação quanto as circunstâncias fáticas que motivaram ou contribuíram para a introdução de uma norma no mundo jurídico. Nessa perspectiva, cumpre salientar que, à época da edição do art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001, a atenção dos principais países do mundo estava voltada para as práticas de concorrência fiscal internacional prejudicial. Apesar da preocupação com o tema ser antiga, ela ganhou notoriedade com o relatório de 1998 da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento – OCDE, intitulado Harmful Tax Competition – an Emerging Global Issue. A partir de então, notase que os Estados intensificaram a atuação voltada para diminuir ou eliminar as condutas consideradas prejudiciais no âmbito da tributação internacional; esse contexto permitiu o fortalecimento das teorias de transparência fiscal internacional e, consequentemente, a expansão das normas CFC – estas configurando medidas internas unilaterais que poderiam ser adotadas pelos países que se sentissem prejudicados pelas práticas de concorrência tributária danosa. O Brasil claramente encampou essa linha de atuação, conforme se verifica no art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995 – apesar de ser anterior ao movimento iniciado pela OCDE – e pelo art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001. Com efeito, ambas as normas tratam da tributação em bases universais e levam em conta o lucro produzido no exterior por empresas controladas ou coligadas. Implica dizer que o país seguiu uma tendência mundial, refletindo na legislação interna a técnica de controle das relações entre empresas controladoras e coligadas e suas respectivas controladas e coligadas, ou seja, adotou as normas CFC para fins de incidência tributária; oportuno ainda utilizar a interpretação finalística para determinar o conteúdo do art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001. Nesse ponto, conforme explicitado em tópico anterior desta peça, o objetivo do art. 74 da Medida Provisória nº 2.158 35, de 2001, foi implementar a tributação universal da renda das pessoas jurídicas e, ao mesmo tempo, evitar o diferimento por tempo indeterminado da renda auferida por intermédio de controladas ou coligadas no exterior; Fl. 915DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 31 30 diante dessas informações, podese concluir que o mencionado dispositivo legal tinha por missão: a) concretizar a tributação em bases universais para as pessoas jurídicas, levando em conta a renda auferida por intermédio das suas controladas ou coligadas no exterior; b) impedir o diferimento indeterminado da tributação de lucros produzidos no exterior – prática que vinha sendo muito adotada por contribuintes para se beneficiar de sistemas tributários mais favoráveis e, ao mesmo tempo, escapar da tributação no Brasil; c) estabelecer a presunção absoluta quanto ao momento em que se realiza a disponibilização dos lucros auferidos no exterior por intermédio de controladas e coligadas; ora, não há como se negar a presença de características típicas de normas CFC no art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001. Com efeito, devese considerar que a finalidade da norma era combater a elisão fiscal, fator inegavelmente ligado ao conceito de norma CFC. Por outro lado, disciplinar a tributação de rendimentos auferidos no exterior por intermédio de empresas coligadas ou controladas e, ao mesmo tempo, impedir o diferimento da tributação são objetivos inerentes às normas CFC. Afinal, a norma permitirá ao Estado brasileiro trazer para o campo da incidência tributária os resultados obtidos por pessoas jurídicas residentes no país por meio de suas controladas e coligadas no exterior; partindo dessa premissa, convém rememorar que o art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001, apenas deu continuidade ao regime introduzido pelo art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995. Assim, é possível concluir que a mesma lógica aplicada a este dispositivo deve ser estendida para aquele. Vale dizer, se o legislador trouxe o art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001, para complementar o que havia iniciado com o art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, é perfeitamente válido assumir que as duas normas possuem o mesmo objetivo, qual seja: efetivar a tributação em bases universais e coibir o diferimento indeterminado dos rendimentos produzidos no exterior por meio de controladas ou coligadas; nesse contexto, relevante destacar que o Ministro Ayres Britto firmou posicionamento no mesmo sentido da argumentação desenvolvida acima. Isso é o que se verifica em seu voto proferido no julgamento da ADI 2.588, que analisava a constitucionalidade justamente do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Confira se: E o certo é que se cuida de norma inserida no âmbito das chamadas “regras CFC”, sigla que significa, em inglês, controlled foreign corporation , ou, em tradução livre ‘sociedade estrangeira controlada’. Dandose que essas ‘CFC rules’ são instrumentos de tributação em bases universais (TBU), ou independentemente do território desse ou daquele Estado soberano. Vale dizer: pelo regime TBU (ou world wide income taxation), certos países adotam o princípio da universalidade na tributação da renda, em desfavor da tributação fundada no princípio da territorialidade. Com isso, onera: ou a totalidade dos rendimentos obtidos por seus nacionais, pouco importando o domicílio destes (critério da nacionalidade), ou a totalidade das rendas das pessoas residentes no País (critério da residência). Tudo devido à consideração de o princípio da territorialidade não mais se revelar eficaz para assegurar aos Estados soberanos proteção contra a fuga de capitais. Fuga, sobretudo, para os chamados paraísos fiscais. (...) Fl. 916DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 32 31 Nesse diapasão, averbo que não me impressionam as alegações de que tal sistemática de tributação atua como fator de inibição das nossas empresas no processo econ6omiofinanceiro de globalização. Não me impressionam essas alegação porque parte significativa dos países desenvolvidos e em desenvolvimento, sobretudo os membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, adota alguma forma de mecanismo de tributação em bases universais – conforme pontuei linhas atrás – notadamente pela utilização de modalidades de ‘CFC rules’ Por ilustração, é o que se dá com os Estados Unidos da América (desde 1962), Inglaterra (1984), Alemanha (1972), Japão (1978), Nova Zelândia (1988), França (1980), Canadá (1976), Austrália (1990), Noruega (1992), Finlândia (1994), Espanha (1994), Portugal (1995), Dinamarca (1995), África do Sul (1997), Hungria (1997), México (1997), Argentina (1999), Itália (2000) e Israel (2000). não obstante todo o exposto acima, ainda persistem diversas críticas à qualificação do o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, como norma CFC; isso porque a OCDE teria indicado as condições que, segundo sua opinião, deveriam estar presentes para que um país adote normas CFC. Ocorre que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, não teria algumas dessas condições – daí as críticas impostas ao dispositivo e sua qualificação como norma CFC. A esse respeito, o autor João Francisco Bianco (Transparência fiscal internacional. São Paulo: Dialética, 2007. p. 2526) – tendo por referência documento elaborado pela própria OCDE – sintetiza as quatro condições elencadas pela entidade: Inicialmente, a CFC, para submeterse ao regime especial de tributação, deve ser considerada, pela legislação de residência de seus sócios, uma entidade tributária autônoma e independente. Isso porque vários países não consideram, por exemplo, as sociedades de pessoas como contribuinte de imposto separados de seus sócios, exigindo destes a tributação da renda auferida por aquelas, sob um outro tipo de regime de tributação que não o da CFC. O regime da CFC, portanto, aplicase apenas quando a entidade sediada no exterior for um contribuinte autônomo de imposto, de acordo com a legislação fiscal do país de residência de seus sócios. A segunda condição é que a CFC esteja submetida a uma influência preponderante dos sócios na condução de suas operações, caracterizada pelo controle societário. Normalmente o controle é estabelecido com a detenção pelo sócio de direitos de voto ou de participação no capital social em percentual superior a 50%. (...) A terceira condição é que a CFC esteja sediada em um país de baixa ou nenhuma tributação. Esse tipo de critério é chamado de método Fl. 917DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 33 32 jurisdicional, ou seja, é a partir da jurisdição do país de sede da CFC que irá ser determinada a aplicação ou não do regime de transparência. (...) A quarta condição para a caracterização da CFC referese ao tipo de rendimento auferido. Esse critério é chamado de método transacional, ou seja, é a partir do tipo de transação efetuada pela empresa no exterior – ou da natureza do rendimento auferido – que irá ser determinada a sua submissão ou não ao regime de transparência. o problema apontado por alguns, quando examinam o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, é que ele teria sido amplo demais. A crítica à abrangência do dispositivo enfoca, mais precisamente, o fato de o legislador não ter limitado sua aplicação aos países com regime de tributação favorecida – método jurisdicional – e por não ter havido preocupação com a espécie de rendimento submetido ao regime CFC – método transacional; apesar de pertinentes as críticas, é preciso enfatizar que essa foi a escolha feita pelo Brasil ao adotar o seu regime CFC. Implica dizer que o legislador pátrio optou por não seguir integralmente as orientações da OCDE, o que é perfeitamente normal e válido. Vale lembrar que os trabalhos, orientações, relatórios e modelos elaborados pela OCDE não tem força cogente sobre nenhum país – nem mesmo para os seus membros. Portanto, o fato de o Brasil ter escolhido não incluir o método jurisdicional e o método transacional na legislação apenas indica uma opção de política fiscal. Contudo, isso não pode servir de fundamento para afirmar que não se pretendia instituir uma norma CFC por meio do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Nesse ponto, basta lembrar os elementos examinados acima – gramatical, histórico e finalístico –, para se concluir pela natureza CFC da norma inserida no referido art. 74; ademais, cumpre rebater uma crítica que constantemente é lançada contra a norma CFC brasileira, qual seja: não seguir o “padrão internacional”, uma vez que a maioria dos países, ao adotarem normas CFC, utilizam o método transacional e o jurisdicional como parâmetro. Em relação a esse aspecto, importante ressaltar que o fato de a norma brasileira ser diferente não retira a sua natureza de norma CFC. Primeiramente, cumpre frisar que o Brasil não está obrigado a seguir nenhum modelo – ainda mais da OCDE, que consiste em organização internacional da qual o Brasil não faz parte. Implica dizer que não existe nenhuma norma cogente, interna ou externa, que imponha ao Brasil a adoção de um modelo específico de legislação CFC; por seu turno, relevante ressaltar que a essência da norma CFC foi preservada no art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, visto que estabeleceuse um regime específico para a tributação dos rendimentos auferidos por intermédio de controladas e coligadas situadas no exterior – de modo a concretizar a tributação universal da renda e impedir o diferimento por tempo indeterminado da tributação. Esse aspecto é que deve ser levado em consideração ao definir a natureza da norma CFC, e não a observância de modelos elaborados por organismos internacionais – ainda mais quando o Brasil não for integrante desta organização internacional. Nessa perspectiva, apenas para reforçar o argumento, cabe citar o exemplo das regras sobre preço de transferência adotadas pelos Brasil. A Lei nº 9.430, de 1996, ao instituir o regime de preço de transferência brasileiro, previu que o cálculo do preço parâmetro observaria a sistemática das margens fixas. Ocorre que essa metodologia é totalmente diferente da que é observada pela maioria dos países – notadamente, os países Fl. 918DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 34 33 membros da OCDE, que seguem o modelo elaborado pela referida organização internacional. Percebam, Srs. Conselheiros, que ninguém questiona a natureza das normas previstas nos art. 18 e 18A da Lei nº 9.430, de 1996, isto é, todos concordam que tratamse de regras sobre preço de transferência. Implica dizer que, mesmo o regime brasileiro de preço de transferência sendo distinto da maioria dos países, isso não serviu como justificativa para desqualificar as normas da Lei nº 9.430, de 1996. A mesma lógica deve ser aplicada, agora, à norma CFC brasileira: não obstante o legislador pátrio ter seguido caminho diferente dos demais países, isso não configura motivo legítimo para rechaçar a natureza de norma CFC do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001; diante do exposto, parece não restarem dúvidas de que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, detém a natureza de norma CFC; DA APLICABILIDADE DO ART. 74 DA MEDIDA PROVISÓRIA Nº 2.15835, DE 2001, FRENTE AO TRATADO PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO FIRMADO ENTRE O BRASIL E A ÁUSTRIA. NORMAS CFC E O ALCANCE DO ART. ART. 74 DA MEDIDA PROVISÓRIA Nº 2.15835, DE 2001. o primeiro obstáculo à tese defendida pela contribuinte situase no próprio conceito de norma CFC. Com efeito, é da essência das denominadas normas CFC o tratamento das controladas ou coligadas situadas no exterior como pessoas jurídicas distintas da controladora ou coligada residente no país que edita a norma CFC. Dessa maneira, a norma CFC brasileira reconhece e respeita a existência jurídica individual de cada empresa – tanto da residente quanto da não residente no país que elabora a norma. Ora, seguindo a sua natureza de norma CFC, o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, é direcionado para a pessoa jurídica residente no Brasil, ou seja, ele busca a tributação dos rendimentos da empresa situada no país considerando sua participação nos lucros de sua controlada que se encontra no exterior. Portanto, não procede a alegação da recorrente de que a legislação brasileira teria determinado a tributação do lucro da controlada residente em Áustria; o segundo ponto que precisa ser esclarecido é que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, constitui apenas uma técnica de tributação. Significa dizer que o propósito dessa norma CFC não é desconsiderar a personalidade jurídica da controlada ou coligada situada no exterior, mas apenas incluir na apuração do tributo devido pela empresa residente no Brasil os resultados obtidos por intermédio da subsidiária estrangeira. Tanto é assim que o caput do referido art. 74 traz somente a definição do momento da disponibilização dos lucros auferidos no exterior para a controladora ou coligada no Brasil. A percepção dessa realidade é fundamental para entender o exato conteúdo da norma, qual seja: tratase de uma regra que permite fixar um marco para a disponibilização de lucros e, com isso, sua inclusão na apuração do IRPJ e da CSLL da controladora ou coligada residente no Brasil. Esse é o núcleo da norma e é a partir dele que devem ser extraídos os efeitos tributários; nesse contexto, convém ressaltar que a alegação de que estariam sendo tributados os lucros da empresa estrangeira (VX HOLDINGS GMBH) contrasta com o próprio comando do dispositivo ora analisado. Isso porque o objeto da norma são os lucros disponibilizados aos sócios, e estes não podem ser confundidos com os lucros da própria pessoa jurídica que auferiu os resultados no país estrangeiro. Assim, ao mencionar os lucros disponibilizados pelas controladas e coligadas situadas no exterior, o art. 74 da Medida Fl. 919DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 35 34 Provisória nº 2.15835, de 2001, referese à parcela que caberia aos sócios brasileiros do lucro apurado no exterior por suas subsidiárias; essa interpretação feita acima sobre o art. 74 da Medida Provisória nº 2.158 35, de 2001, é bom frisar, coadunase com todo o cenário delineado até aqui, a saber: a) a natureza CFC da norma, com sua peculiaridade intrínseca de reconhecer a personalidade jurídica distinta da controladora residente no país e da controlada situada no exterior; b) a sua finalidade de implementar a tributação universal da renda das pessoas jurídicas residentes no Brasil – o que corrobora a tese de que o objeto da norma é tributar o lucro do contribuinte residente no país, mesmo que para isso tenhase como parâmetro a sua participação nos resultados obtidos pelas suas controladas ou coligadas residentes no exterior; c) a noção de transparência fiscal e a utilização da norma como um instrumento para evitar o diferimento indeterminado da tributação das rendas auferidas no exterior por intermédio de empresas controladas ou coligadas – daí o porquê da estipulação do momento em que se consideram disponibilizados os lucros para a empresa residente no Brasil. Diante disso, podese afirmar que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, nunca teve por objetivo tributar o lucro de pessoas jurídicas residentes em outros países; nesse ponto, importante destacar que, dentre as teorias que fundamentam a transparência fiscal internacional, existe aquela que considera possível o legislador estabelecer uma presunção absoluta quanto ao momento de disponibilização dos lucros. Ora, essa foi justamente a técnica adotada na legislação brasileira, vale dizer, estipular um momento em que se considerem disponibilizados os lucros provenientes do exterior para os sócios residentes no Brasil. Com efeito, escolheuse a data da apuração do resultado no balanço da controlada ou coligada situada no estrangeiro como marco para a distribuição presumida dos lucros. Dessa maneira, quando o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, se reporta aos lucros disponibilizados pelas controladas e coligadas situadas no exterior, devese interpretálos como a parcela que caberia aos sócios brasileiros do lucro apurado no exterior por intermédio de suas subsidiárias; partindo dessa premissa, é possível interpretar sistematicamente a legislação tributária sobre o assunto, notadamente a Instrução Normativa SRF nº 213, de 2002 – que regulamentou o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Assim, vejamos o que diz o § 7º do art. 1º da citada IN, que geralmente é utilizado como argumento para afirmar que a legislação brasileira busca alcançar os lucros da empresa residente no exterior: Art. 1º Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, por pessoa jurídica domiciliada no Brasil, estão sujeitos à incidência do imposto de renda das pessoas jurídicas (IRPJ) e da contribuição social sobre o lucro líquido (CSLL), na forma da legislação específica, observadas as disposições desta Instrução Normativa. [...] § 7º Os lucros, rendimentos e ganhos de capital de que trata este artigo a serem computados na determinação do lucro real e da base de cálculo de CSLL, serão considerados pelos seus valores antes de descontado o tributo pago no país de origem. realmente, uma leitura apressada poderia conduzir à impressão de que o ato normativo acima transcrito determina a tributação do valor integral do lucro obtido pela Fl. 920DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 36 35 controlada ou coligada no exterior. No entanto, convém lembrar que as normas devem ser interpretadas conjuntamente às demais que compõem ordenamento jurídico. Nesse caso, a necessidade de uma visão sistemática é ainda mais flagrante. Primeiro, porque se trata de uma norma que retira seu fundamento de validade de outra, isto é, o art. 1° da IN SRF nº 213, de 2002, surgiu para regulamentar a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Em segundo lugar, há que se levar em conta todas as peculiaridades que envolvem o referido art. 74, a fim de que a interpretação do ato infra legal – IN SRF nº 213, de 2002 – não destoe da própria “lei” que motivou a sua existência – Medida Provisória n° 2.15835, de 2001. Implica dizer que a interpretação do § 7° do art. 1° da IN SRF nº 213, de 2002, precisa ser compatível com a norma CFC brasileira; nessa perspectiva, devese ter em mente que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, impõe a tributação do lucro disponibilizado pela controlada ou coligada residente no exterior, de modo que essa realidade era conhecida pela Administração Pública quando fora editado o § 7° do art. 1° da IN SRF nº 213, de 2002. Ora, basta lembrar que o projeto para a Medida Provisória n° 2.15835, de 2001, saiu do próprio Ministério da Fazenda. Assim, não faz sentido que, no momento de regulamentar o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001 – por meio da IN SRF nº 213, de 2002 –, a Administração Tributária tenha se esquecido do conteúdo da norma que ela mesma havia proposto no projeto daquela Medida Provisória; feitas essas considerações, resta desvendar o significado da expressão “valores antes de descontado o tributo pago no país de origem”. Percebam, Srs. Conselheiros, que para fins da incidência do IRPJ e da CSLL, a legislação brasileira criou uma presunção absoluta de que os lucros foram disponibilizados aos sócios brasileiros na data de sua apuração no balanço da controlada ou coligada residente no exterior. Implica dizer que, no momento em que for apurado o lucro no exterior, ele será oferecido à tributação no Brasil – na proporção da participação da empresa brasileira em suas controladas e coligadas estrangeiras. Dessa maneira, para aplicar a técnica de tributação prevista no art. 74 da Medida Provisória nº 2.158 35, de 2001, nem se deve cogitar sobre a existência ou não de tributação no país de residência da controlada ou coligada estrangeira. Com efeito, se realmente houve pagamento de tributo no exterior, isso será relevante apenas em um segundo momento, vale dizer: os impostos pagos no exterior somente terão importância para fins de compensação com o tributo a ser pago no Brasil. E é por essa razão que o texto da IN SRF nº 213, de 2002, faz a ressalva quanto ao tributo pago no exterior, de modo a preservar a lógica da norma prevista no art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001; esse também foi o entendimento firmado no voto da Conselheira Edeli, no Acórdão n° 110100.365, proferido pela 1ª Turma da 1ª Câmara da 1ª Sessão do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF. Confirase: Somente se poderia cogitar da tributação integral do lucro apurado pela controlada se a incidência se verificasse sobre o próprio lucro. Contudo, por tudo até aqui exposto, o IRPJ e a CSLL incidem sobre os lucros fictamente disponibilizados, ficção esta que opera quanto ao momento da disponibilização, e não surte efeitos sobre a materialidade do fato gerador, a qual permanece limitada ao montante passível de distribuição, ou seja, ao valor líquido após dedução dos tributos incidentes sobre o lucro no país de origem. Fl. 921DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 37 36 Possivelmente quando o ato normativo tratou do cômputo de lucros, rendimentos e ganhos de capital pelo valor antes de descontado o tributo pago no país de origem, cogitavase da incidência de tributo sobre o próprio rendimento a ser oferecido à tributação no Brasil, cuja compensação, inclusive, foi expressamente trazida no art. 14 da mesma Instrução Normativa. Certamente os tributos incidentes sobre os lucros da controlada não estão contemplados nesta previsão de dedução, e assim também não integram o montante a ser oferecido à tributação na forma do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001. diante disso, fica evidente que a técnica de tributação prevista na IN SRF nº 213, de 2002, apenas reflete a sistemática brasileira de tributação em bases universais, que concede, aos residentes no Brasil, crédito referente ao tributo pago no exterior. Essa é a justificativa para os valores a serem contabilizados na controladora ou coligada situada no Brasil corresponderem ao montante dos lucros auferidos no exterior antes do pagamento de impostos. Com isso, permitese a tributação da parcela dos lucros que efetivamente pertencem à controladora ou coligada brasileira, atribuindose aos impostos pagos no exterior apenas a finalidade de créditos compensáveis com os tributos devido no Brasil. Portanto, não há qualquer fundamento para se afirmar que o lucro objeto de tributação pertence à pessoa jurídica residente no exterior; O ENTENDIMENTO DA OCDE SOBRE A EFICÁCIA DAS NORMAS CFC EM FACE DOS TRATADOS PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO. com base nas premissas firmadas no tópico anterior, passase a afastar os argumentos no sentido de que a exigência do IRPJ e da CSLL viola o art. 7º do Tratado firmado entre o Brasil e a Áustria para evitar a dupla tributação sobre a renda; o entendimento da contribuinte é no sentido de que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, determinaria a tributação dos lucros da própria controlada ou coligada residente no exterior. Segundo a recorrente, a Fiscalização teria desrespeitado a competência exclusiva da Áustria para tributar os lucros auferidos pelas pessoas jurídicas residentes naquele país; com o devido respeito à recorrente, os argumentos trazidos no decorrer desta peça tornam insubsistentes as suas alegações. Inicialmente, cumpre salientar que o auto de infração realmente tem por objeto os lucros da empresa brasileira – MARSELHA HOLDINGS LTDA. –, e não de sua controlada no exterior – VX HOLDINGS GMBH. Ora, restou demonstrado que a natureza do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, é de norma CFC. Nesse ponto, convém mais uma vez frisar que é da essência da norma CFC brasileira o reconhecimento da personalidade jurídica distinta da controladora ou coligada e das suas controladas e coligadas residentes no exterior. Dessa maneira, não existe a alegada desconsideração da personalidade jurídica das empresas situadas no exterior, para fins de tributação. Com efeito, o intuito na norma brasileira é definir o momento da disponibilização dos lucros para as pessoas jurídicas residentes no país. Significa dizer que a base material da tributação são os lucros dos sócios residentes no Brasil – apurados a partir dos lucros provenientes de suas controladas ou coligadas no exterior; importante esclarecer que a utilização de normas CFC não viola o propósito dos Tratados para evitar dupla tributação. Mais especificamente, não há qualquer incompatibilidade entre o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, e o art. 7 do Fl. 922DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 38 37 tratado firmado entre o Brasil e a Áustria. Sobre esse tema, é imprescindível conferir o entendimento da OCDE, uma vez que o tratado entre o Brasil e a Áustria, para evitar a dupla tributação sobre a renda, seguiu a estrutura da convenção Modelo elaborada pela OCDE: 23. A utilização de ‘companhias de base’ [‘base companies’ em inglês] também pode ser tratada através de normas sobre sociedades controladas no exterior [‘Controlled Foreign Corporations/CFCs’ em inglês]. Um número significativo de países membros e não membros adotou tal legislação. Enquanto o design desse tipo de legislação varia consideravelmente de país para país, um traço comum dessas regras, agora internacionalmente reconhecidas como um instrumento legítimo para proteger a base tributária local, é que elas resultam na tributação, por um Estado Contratante, de seus residentes relativamente à renda proveniente de sua participação em certas entidades estrangeiras. Argumentouse algumas vezes, com base numa determinada interpretação de dispositivos da Convenção tais como o Art. 7º, § 1º, e o Art. 10, § 5º, que esse traço comum da legislação sobre sociedades controladas no exterior estaria em conflito com tais dispositivos. Pelos motivos expostos nos parágrafos 14 dos “Comentários” ao Art. 7º e 37 dos ‘Comentários’ ao Art. 10, tal interpretação não está de acordo com o texto dos dispositivos. A interpretação também não se sustenta quando os dispositivos são lidos em seu contexto. Portanto, enquanto alguns países consideraram útil esclarecer expressamente, em suas convenções, que a legislação das sociedades controladas no exterior não está em conflito com a Convenção, tal esclarecimento não é necessário. Reconhecese que a legislação das sociedades controladas no exterior estruturada dessa forma não é contrária aos dispositivos da Convenção. (destaques não constam do original) percebese, portanto, que a própria OCDE reconhece que o modelo das regras CFC varia consideravelmente entre os países, ou seja, não há um “padrão único” de legislação CFC. O traço comum desse tipo de regra, conforme registrado nos comentários, é a tributação dos residentes de um Estado Contratante em relação à renda proveniente de sua participação em empresas estrangeiras – característica esta presente no art. 74 da MP nº 2.158 35/2001. Dessa forma, as regras CFC não estão em conflito com os tratados porque está claro, no âmbito internacional, que cada país pode dispor livremente sobre a base de cálculo do imposto de renda devido pelo residente que investe no exterior, desde que impeça a dupla tributação. Aliás, podese dizer que essa é a regra fundamental para fins de interpretação dos tratados para evitar a dupla tributação, de acordo com a conclusão que está evidenciada no parágrafo 14 dos comentários ao Art. VII da Convenção Modelo da OCDE (tradução livre): 14. O propósito do § 1º é traçar limites ao direito de um Estado Contratante tributar os lucros de empresas situadas em outro Estado Contratante. O parágrafo não limita o direito de um Estado Contratante tributar seus próprios residentes com base nos dispositivos relativos a sociedades controladas no exterior encontrados em sua legislação interna, ainda que tal tributo, imposto a esses residentes, possa ser computado em relação à parte dos lucros de uma empresa residente em outro Estado Contratante atribuída à participação desses residentes nessa empresa. O tributo assim imposto por um Estado sobre seus próprios residentes não reduz os lucros da empresa do outro Estado e não se pode dizer, portanto, que teve por objeto tais lucros Fl. 923DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 39 38 (ver também § 23 dos “Comentários” ao art. 1º e §§ 37 a 39 dos “Comentários” ao art. 10). (destaques não constam do original) diante disso, temse que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, é autêntica norma CFC e está em perfeita harmonia com o art. 7 do Tratado Brasil Áustria. Isso porque aquele dispositivo apenas estabeleceu que os lucros auferidos pelas controladas no exterior consideramse disponibilizados para a controladora brasileira na data do balanço em que tiverem sido apurados. Como os lucros da sociedade estrangeira são imputados à empresa brasileira, não há descumprimento ao art. 7 do Tratado – afinal, continuará havendo tributação dos lucros disponibilizados à controladora residente no Brasil. Assim, resta comprovada a inaplicabilidade do art. 7 da Convenção Brasil–Áustria ao caso dos presentes autos; por fim, cumpre ressaltar que o Supremo Tribunal Federal já firmou seu posicionamento em relação à constitucionalidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, no julgamento da ADI 2.588. Naquela oportunidade, a suprema corte afirmou que o dispositivo somente não poderia ser aplicável para coligadas residente em país sem tributação favorecida. Por seu turno, o STF voltou a se pronunciar sobre o tema após ter concluído o julgamento da ADI 2.588, tendo ratificado o entendimento proferido no citado precedente e avançado em alguns pontos, notadamente no que diz respeito à constitucionalidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, quando o caso envolver controladas residentes fora de “paraíso fiscal”. Tratase do julgamento de dois recursos extraordinários, pelo plenário do STF, conforme noticiado no Informativo do STF nº 701: IR e CSLL: disponibilidade de lucros de controlada ou coligada no exterior para controladora ou coligada no Brasil O Plenário concluiu julgamento de recursos extraordinários em que discutida a constitucionalidade do art. 74 e parágrafo único da Medida Provisória 2.15835/2001, que estabelece que os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento, bem como que os lucros apurados por controlada ou coligada no exterior até 31.12.2001 serão considerados disponibilizados em 31.12.2002, salvo se ocorrida, antes desta data, qualquer das hipóteses de disponibilização previstas na legislação em vigor. A repercussão geral da questão constitucional fora reconhecida no RE 611586/PR (DJe de 2.5.2012). No entanto, em virtude da identidade de temas, o RE 541090/SC fora apregoado em conjunto — v. Informativo 700. No tocante ao RE 611586/PR, por maioria, negouse provimento ao recurso, consoante o que decidido na ADI 2588/DF. Consignouse que a empresa recorrente seria controlada e situada em “paraíso fiscal”, de modo que a legislação impugnada seria aplicável ao caso. Vencido o Min. Marco Aurélio, que provia o recurso, na linha do voto proferido na ADI 2588/DF. Por outro lado, no que se refere ao RE 541090/SC, interposto pela União, por votação majoritária, proveuse parcialmente o recurso, para considerar ilegítima a tributação retroativa, haja vista a inaplicabilidade do parágrafo único do art. 74 da Medida Provisória 2.15835/2001, à luz do que decidido na ADI 2588/DF. Registrouse cuidar de empresas controladas fora de Fl. 924DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 40 39 “paraíso fiscal”. O Min. Teori Zavascki reajustou o voto anteriormente proferido, no tocante à retroatividade tributária. Vencidos os Ministros Joaquim Barbosa, relator e Presidente, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio e Celso de Mello, que desproviam o recurso. Por fim, deliberouse, por maioria, que os autos retornassem à origem para que houvesse pronunciamento acerca de eventual vedação de bitributação baseada em tratados internacionais. Considerouse que a temática, embora suscitada, não teria sido debatida na origem, que decidira apenas quanto à inconstitucionalidade de lei, questão prejudicial em relação aos tratados. Vencido o Min. Dias Toffoli, que, ao enfrentar a matéria, considerava não existir bitributação na hipótese. O Min. Marco Aurélio, tendo em vista haver desprovido o recurso, não se manifestou a respeito. [destaques não constam do original] RE 611586/PR, rel. Min. Joaquim Barbosa. RE 541090/SC, rel. orig. Min. Joaquim Barbosa, red. p/ o acórdão Min. Teori Zavascki, 10.4.2013. diante disso, resta evidente a constitucionalidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, e a sua compatibilidade com os Tratados firmados pelo Brasil para evitar a dupla tributação da renda. A única ressalva encontrase no entendimento estabelecido pelo STF, no julgamento da ADI 2.588, e diz respeito às coligadas residentes em países sem tributação favorecida. Contudo, essa última hipótese não se aplica ao caso dos autos; DO MÉTODO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. a contribuinte sustenta, ainda, que os resultados auferidos por intermédio da controlada VX HOLDINGS, residente na Áustria, não poderiam ser utilizados para fins de apurar a base de cálculo do IRPJ e da CSLL da controladora brasileira. Segundo a recorrente, a Fiscalização teria incluído como lucro da MARSELHA HOLDING LTDA. os resultados de MEP registrados em decorrência do investimento detido na VX HOLDING. Assim, para a contribuinte, apenas seriam lucros tributáveis aqueles reconhecidos pela MARSELHA HOLDING LTDA, não poder ser considerados os resultados de MEP. A tese da recorrente, portanto, consiste em afirmar que os resultados provenientes do MEP, registrados pela MARSELHA HOLDING LTDA, não podem ter o mesmo tratamento dos lucros; no entanto, a contribuinte está equivocada quanto a aplicação do MEP; a legislação brasileira determina que as pessoas jurídicas que detenham investimentos relevantes em controladas ou coligadas estão obrigadas a avaliar esses investimentos por meio do MEP. Isso acontece em virtude da própria essência do MEP, vale dizer, consiste em uma técnica de avaliação do patrimônio que resulta na consolidação dos resultados de todo o grupo empresarial. Por essa razão, todas as pessoas jurídicas que integram o grupo empresarial são consideradas como uma única unidade econômica. Esse é o posicionamento de Bulhões Pedreira, para quem “as demonstrações financeiras consolidadas informam a posição financeira e os resultados de um grupo de pessoas jurídicas, como se fossem uma única entidade.”.18 Disso decorre que, para a correta aplicação do MEP, tanto os investimentos diretos quanto os indiretos devem ser refletidos na controladora do grupo. Trata se de uma consequência lógica da aplicação do MEP. Com efeito, somente será possível avaliar Fl. 925DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 41 40 o real valor do investimento detido pela controladora se forem considerados todos os resultados obtidos pela sua controlada. Implica dizer que a determinação do resultado do grupo econômico – que consiste justamente no objetivo da avaliação por meio do MEP – apenas será obtido quando considerados todos os lucros auferidos dentro da cadeia de pessoas jurídicas que compõem o grupo empresarial; nesse ponto, é preciso esclarecer outro equívoco incorrido pela recorrente, qual seja: acreditar que a consolidação dos resultados auferidos por controladas diretas e indiretas residentes no exterior deve ser feito pela controlada direta – no caso, a VX HOLDINGS GMBH. Conforme já explicitado acima, o MEP é uma imposição da legislação brasileira, que somente obriga a pessoa jurídica residente no Brasil a realizar sua escrituração contábil observando o MEP. Nessa linha os ensinamentos de Bulhões Pedreira (Imposto sobre a renda – pessoas jurídicas. v. I. Rio de Janeiro: Justec, 1979, pp. 521522), quando afirma que: 2. Determinação pela Investidora – A determinação do valor de patrimônio líquido do investimento é procedimento de escrituração da investidora. Consiste na reunião das informações e nos cálculos necessários para determinar o ajuste no valor de patrimônio líquido do investimento a ser procedido nos registros contábeis da investidora, e não implica nenhum lançamento na escrituração das coligadas ou controladas. Cabe à investidora obter as informações, proceder aos cálculos e lançar o ajuste na sua escrituração, sem que daí resulte modificação na escrituração da controlada ou coligada. portanto, cabe à controladora brasileira o trabalho de realizar a consolidação dos resultados do grupo empresarial, levando em conta os lucros obtidos tanto pelas controladas diretas quanto pelas indiretas. Implica dizer que, mesmo que a legislação da Áustria não exija que a VX HOLDINGS GMBH utilize o MEP, isso não afeta a obrigação da sua controladora residente no Brasil registrar e oferecer à tributação os resultados auferidos por intermédio das pessoas jurídicas controladas pela empresa situada em Áustria. Com efeito, essa é a consequência da aplicação do MEP, isto é, determinar o resultado auferido por todo o grupo empresarial, que deve ser vislumbrado como uma unidade econômica; por seu turno, cabe ressaltar que a Fiscalização nunca buscou alterar ou desrespeitar a legislação da Áustria, como tenta fazer parecer a recorrente. Percebam, Srs. Conselheiros, que em nenhum momento a autoridade fiscal questionou os valores declarados pela contribuinte a título de lucro da VX HOLDINGS GMBH ou de resultados de MEP. Caso tivessem sido impugnados esses valores, pela Administração Tributária brasileira, teria razão a contribuinte. Nesse ponto, relevante salientar que a apuração do lucro na controladora brasileira em nada altera a escrituração contábil e fiscal da controlada residente no exterior – e nem poderia, pois as atribuições das autoridades fazendárias brasileiras não possuem esse alcance; o procedimento adotado pela autoridade fiscal brasileira apenas cumpriu o que determina a legislação do Brasil, vale dizer: apurar o resultado da controladora residente no Brasil por meio da aplicação do MEP. Para isso, era necessário levar em conta todos os lucros auferidos dentro da cadeia de empresas controladas pela MARSELHA HOLDINGS LTDA. no exterior, inclusive as controladas indiretas – em consonância com os ensinamentos de Bulhões Pedreira, acima transcritos. Com efeito, a correta avaliação dos investimentos detidos pela MARSELHA HOLDINGS LTDA. no exterior somente é possível se todos os Fl. 926DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 42 41 resultados do grupo empresarial forem devidamente trazidos para os balanços da controladora residente no Brasil. Tratase da essência do MEP; feitas essas considerações, passase a enfrentar os argumentos relativos à “tributação do MEP”, contra a qual se insurge a recorrente; em primeiro lugar, é preciso esclarecer que não está sendo tributado o MEP, como afirma a contribuinte. O objeto de tributação do art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, e do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15875, de 2001, é o mesmo: o resultado obtido por pessoas jurídicas situadas no Brasil, por intermédio de suas controladas ou coligadas residentes no exterior. Nesse cenário, o MEP aparece como um instrumento para determinar esse resultado, e não o objeto da tributação em si. Na linha do entendimento de Bulhões Pedreira, o MEP serve para refletir os resultados das controladas no balanço da controladora, notadamente, o lucro obtido pela controlada e que caberia à controladora na sua condição de acionista. Aliás, convém destacar que, em diversas ocasiões, o resultado relativo ao MEP corresponde integralmente aos lucros auferidos pela controlada e que são imediatamente refletidos na controladora, como ajuste do valor do investimento. Daí porque é possível que o valor do MEP seja considerado em sua totalidade para a apuração do lucro da controladora, isto é, não por ser o objeto da tributação, mas por representar os lucros auferidos pela controladora em virtude de sua participação na controlada; por outro lado, cabe rebater o argumento da contribuinte acerca do tratamento neutro do MEP e sua compatibilidade com o regime de tributação previsto no art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, e no art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Para isso, importante conferir o que dispõe o mencionado art. 25: [...]; seguindo o raciocínio explicitado acima, o MEP é o instrumento indicado pela legislação brasileira para aferir o resultado econômico obtido pelo grupo empresarial, via reflexo no balanço da controladora dos resultados obtidos por meio da controlada. Contudo, isso não quer dizer que o MEP será o objeto da tributação – conforme já explicitado anteriormente. Isso porque estão incluídos no MEP valores que não correspondem ao lucro, como o resultado das variações cambiais, que não devem ser utilizados na apuração do lucro tributável. E é por essa razão que a norma acima transcrita trouxe o tratamento da tributação dos lucros no § 2º e o tratamento do MEP no § 6º; a presença de outras riquezas distintas do lucro, nos resultados apurados via MEP, não retira a sua aptidão para servir de parâmetro no momento de definir o lucro tributável da controladora. Com efeito, para atender ao disposto no inciso II do § 2º do art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, é preciso que a controladora adicione os lucros auferidos por intermédio da sua controlada “na proporção de sua participação acionária”. Nessa perspectiva, cumpre ressaltar que os lucros auferidos por intermédio da controlada estão contidos nos valores reconhecidos por meio do MEP, razão pela qual devese extrair dos resultados do MEP a parcela referente aos lucros e adicionála ao lucro real da controladora. Ao proceder dessa forma, o contribuinte não estará oferecendo à tributação o MEP, mas tão somente adicionando ao seu lucro a parcela que lhe cabe dos lucros auferidos por intermédio de sua controlada residente no exterior, na proporção de sua participação acionária na referida controlada. Diante disso, mostrase improcedente qualquer argumentação no sentido de que a legislação brasileira estaria determinando a tributação do MEP; restaria a explicação para o comando inserido no § 6º do art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995. Alguns argumentam que este dispositivo serviria de fundamento para afastar a Fl. 927DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 43 42 utilização do MEP como parâmetro na tributação dos lucros auferidos por intermédio de controladas ou coligadas residentes no exterior. Segundo essa corrente, o mencionado § 6º do art. 25 teria assegurado a neutralidade tributária que a legislação anterior à Lei nº 9.249, de 1995, conferia aos resultados de MEP. Entretanto, essa interpretação do § 6º somente pode prevalecer se forem esquecidos os demais dispositivos do art. 25 – o que não faz nenhum sentido; novamente, importante salientar que o MEP é instrumento para a aferição do lucro tributável da controladora, mas não o objeto da tributação. Nessa linha de raciocínio, temse que a controladora apenas adicionará ao seu lucro real a parcela do MEP que corresponder ao lucro obtido em virtude de sua participação na controlada situada no exterior – devendo ser desconsiderado qualquer valor que não corresponda ao lucro. E o que acontece com os resultados de MEP que não correspondem ao lucro? Ora, permanecem tendo o tratamento previsto nas regras vigentes antes da instituição das normas de tributação em bases universais para as pessoas jurídicas – vale dizer, o art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, e o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001; daí porque o § 6º do art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, prevê que o tratamento do MEP continuará sendo o mesmo “previsto na legislação vigente, sem prejuízo do disposto nos §§ 1º, 2º e 3º”. Com efeito, ao se apurar o lucro real, os valores correspondentes ao MEP não afetarão o resultado tributável, dandose o seguinte tratamento: o resultado positivo de MEP é excluído do lucro real, enquanto o resultado negativo é adicionado. Isso atende à primeira parte do citado § 6º do art. 25. Por outro lado, a parcela do MEP correspondente ao lucro auferido por intermédio da controlada ou coligada residente no exterior deverá ser adicionada ao lucro real, conforme determinam os §§ 2º e 3º do art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995. É justamente este procedimento que justifica a parte final do § 6º do art. 25, ou seja, a expressão “sem prejuízo do disposto nos §§ 1º, 2º e 3º”. Por fim, complementando essa sistemática introduzida pelo art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, previu que os lucros seriam considerados disponibilizados da data em que apurados os balanços das controladas ou coligada no exterior. Dessa maneira, todos os lucros mensurados via MEP – sejam provenientes de controladas diretas ou indiretas – devem ser refletidos no balanço da controladora residente no Brasil e oferecidos à tributação. Nesse ponto, importante lembrar que o STF já se manifestou sobre a constitucionalidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, e firmou posicionamento no sentido da validade tributação nos moldes previstos neste dispositivo. O resultado desse julgamento foi relevante, posto que assentou duas premissas, quais sejam: (a) o reconhecimento dos resultados por meio da utilização do MEP implica disponibilidade da renda para a controladora brasileira; e (b) havendo disponibilidade, os lucros são de titularidade da pessoa jurídica residente no Brasil. Portanto, não cabe qualquer argumento sobre a ausência de disponibilidade de lucros apurados por meio da aplicação do MEP, visto que o STF apreciou esse tema ao julgar a ADI 2.588 e confirmou a constitucionalidade da tributação; DOS PEDIDOS ante o exposto, requer a União seja negado provimento ao recurso especial manejado pelo contribuinte, mantendose o acórdão proferido pela e. Turma a quo. É o relatório. Fl. 928DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 44 43 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator. Conheço do recurso, pois este preenche os requisitos de admissibilidade. O presente processo tem por objeto lançamento para a constituição de crédito tributário a título de IRPJ e CSLL sobre lucros auferidos no exterior pela contribuinte autuada, relativamente ao anocalendário de 2009. O Termo de Verificação Fiscal informa que a estrutura societária da fiscalizada no exterior no ano calendário de 2009 era a seguinte: MARSELHA HOLDINGS LTDA empresa brasileira autuada | | Bradesco Overseas Salsburg Service GMBH 100% (atual razão social da VX Holdings) Áustria | | Bradesco Overseas Funchal – Consulting Services, Sociedade Unipessoal LDA (Atual Razão social da Rodeo Drive Serviços e Marketing LDA) 100,00% Funchal | | Imagra Overseas LTD 100% Bahamas A autuação teve como base o valor que constava do Balanço Patrimonial e do demonstrativo de Resultado da controlada na Áustria (115.082.144,20 Euros, correspondente a R$ 288.548.912,62, menos o valor disponibilizado, R$ 5.089,42, que consta da ficha 09 da DIPJ do ano calendário de 2009). Fl. 929DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 45 44 Ainda de acordo com o Termo de Verificação Fiscal, todo o lucro líquido auferido no exterior em 2009 foi gerado na controlada em Funchal, no valor de 120.445.596,29 Euros, que correspondia a R$ 301.996.865,95. O lançamento foi mantido na primeira instância e também na segunda instância administrativa (acórdão ora recorrido). E nesta fase de recurso especial, a contribuinte insurgese mais uma vez contra o referido lançamento. Apesar do longo relatório, e das várias abordagens que ele apresenta, a controvérsia instaurada nos presentes autos está vinculada a uma questão fundamental, que consiste em examinar se a tributação de lucros no exterior viola ou não os tratados para evitar a dupla tributação da renda. Esta 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) examinou recentemente vários processos que traziam essa mesma questão, alguns casos envolvendo tratados firmados com outros países, mas com idêntico conteúdo. Transcrevo aqui as conclusões do Acórdão nº 9101002.332, de 04/05/2016, orientadas pelo voto do conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão, que as adoto: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007 LUCROS OBTIDOS POR CONTROLADA NO EXTERIOR. DISPONIBILIZAÇÃO. Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda da pessoa jurídica (IRPJ) e da CSLL os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior são considerados disponibilizados para a controladora no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados. Lançamento procedente. LUCROS OBTIDOS POR CONTROLADA NO EXTERIOR. CONVENÇÃO BRASILPAÍSES BAIXOS DESTINADA A EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO E PREVENIR A EVASÃO FISCAL EM MATÉRIA DE IMPOSTO SOBRE A RENDA. ART. 74 DA MP Nº 2.158 35/2001. NÃO OFENSA. Não há incompatibilidade entre a Convenção BrasilHolanda (Países Baixos) e a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/ 2001, não sendo caso de aplicação do art. 98 do CTN, por inexistência de conflito. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS DE CONTROLADA NO EXTERIOR COM OS SEUS PRÓPRIOS PREJUÍZOS. Os prejuízos apurados por uma controlada ou coligada, no exterior, podem ser compensados com lucros dessa mesma controlada ou coligada. Recurso Especial do Contribuinte Negado. [...] Voto Vencedor Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão, Redator Designado. [...] Fl. 930DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 46 45 CONCLUSÃO Desta forma, com base nas razões acima podese concluir de forma incontornável o seguinte: 1ª matéria A norma contida no art. 74 da MP n. 2.15835/2001 é norma que visa evitar o diferimento eterno do pagamento do IRPJ decorrente dos ganhos de atividades no estrangeiro das empresas brasileiras, enquadrandose no conceito de legislação de controladas no exterior (Controlled Foreign Corporations – CFC). O Supremo Tribunal Federal entendeu constitucional a cobrança do IRPJ nessa modalidade, inferindose, portanto, sua adequação ao que é preconizado pelo art. 43 do CTN, embora tenha concluído por haver restrições no caso das coligadas no exterior – matéria estranha ao presente processo. A norma contida no art. 74 da MP n. 2.15835/2001 não incide sobre o lucro da entidade estrangeira sobre o controle da entidade brasileira, mas sobre o seu reflexo no patrimônio da entidade brasileira, auferível pelo MEP e, por conseguinte, não há que se cogitar de aplicação do art. 7º das convenções modelo da OCDE ou da ONU. A norma contida no art. 74 da MP n. 2.15835/2001, ainda que considerada como incidente sobre a distribuição presumida de dividendos, o que afastaria de pronto o art. 7º das convenções modelo da OCDE ou da ONU, afasta também a incidência imediata do art. 10 daquelas convenções visto que o art. 10 só se aplica aos dividendos efetivamente distribuídos – o que não é o caso. Como a Convenção de Dupla Tributação BrasilHolanda não traz norma específica relativa à situação prevista na norma contida no art. 74 da MP n. 2.15835/2001, e não há como fazer incidir no caso o art. 7º ou o art. 10 do referido Acordo, pelas razões já expostas, concluise que não há conflito entre a norma interna e a Convenção BrasilHolanda, sendo inapropriada qualquer alegação no sentido de violação do que dispõe o art. 98 do CTN (norma de resolução de conflitos) À vista dessas conclusões, com o devido respeito às posições contrárias, ficam afastados inelutavelmente os argumentos do recorrente e do voto do i. Relator, confirmandose as conclusões do Ac. recorrido, pelo que nego provimento ao recuso especial do contribuinte em relação ao IRPJ. Como já exposto, desnecessário discutir aqui se o tratado abrange também a CSLL, tendo em vista o que dispõe o art. 11 da Lei n. 13.202, de 8 de dezembro de 2015. Assim, embora se entenda que os tratados abrangem também a CSLL, no caso presente o que não se aplica é o Convenção BrasilHolanda, por conseguinte mantémse a decorrência do lançamento em relação à CSLL. Fl. 931DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 47 46 Transcrevo também trechos do voto proferido pelo conselheiro André Mendes de Moura no Acórdão nº 9101003.088, de 13/09/2017, que acolho como razões de decidir: [...] Voltando para o caso concreto, a matéria a ser analisada é se o Tratado BrasilLuxemburgo teria repercussão na materialidade prevista pelo art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001. A assunto já foi discutido em recentes julgamentos no presente Colegiado: Acórdão nº 9101002.589 ("caso EAGLE"), nº 9101002.751 (PETROBRÁS), nº 9101002.832 (INTERCEMENT), cujas razões para decidir adoto nos presentes autos. Transcrevo o art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001: Art. 74. Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, nos termos do art. 25 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Provisória, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento. O aspecto material da norma trata dos lucros auferidos no exterior, por intermédio das controladas ou coligadas, em quantum proporcional à participação da controladora do Brasil sobre o investimento. Para operacionalizar a apuração dos lucros auferidos de controladas/coligadas (investidas) no Brasil, quanto no exterior, tomouse como base os resultados na contabilidade da investidora refletidos por meio do Método de Equivalência Patrimonial. Para investimentos no Brasil, a investidora contabiliza o resultado positivo da investida, proporcional à sua participação, e exclui o resultado na apuração do lucro real. Nesse caso, viabilizase a neutralidade porque, como o lucro auferido pela investida já foi tributado no Brasil, não cabe sua tributação no resultado da investidora. E principalmente porque a investida encontrase no Brasil, ou seja, os lucros auferidos pela investida são necessariamente oferecidos à tributação. Situação diferente ocorre quando o investimento tem sede no exterior. Nesse caso, a legislação brasileira previu, inicialmente, o mesmo tratamento em relação à contabilização do resultado positivo da investida: o lucro proporcional à sua participação é incluído no resultado da empresa brasileira, e excluído na apuração do lucro real. Contudo, dispôs uma etapa complementar: se os lucros forem auferidos de controladas e coligadas, cabe a adição no resultado tributável, na proporção de participação da investidora brasileira sobre o investimento, ao final de cada anocalendário. Partese da premissa de que os lucros são da investidora brasileira, e, por isso, a sua tributação não deve estar subordinada à política tributária adotada pelo país onde se encontra o investimento. Isso porque o país onde se encontra o investimento pode optar por tributar o lucro em bases tributáveis menores, e a controladora brasileira, Fl. 932DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 48 47 que detêm poder de decisão sobre a investida, pode optar em não receber os lucros auferidos. Tratase de situação em que a neutralidade que ocorre quando investidora e investida estão no Brasil é desvirtuada. Porque quando ambas estão no Brasil, a mesma alíquota é aplicada sobre o lucro da investida e o da investidora. Tributase o lucro de investida, e tal valor não é tributado pela investidora. Não há prejuízo no sistema. Por outro lado, se investida está em país de tributação menor, não há que se falar em neutralidade. Na realidade, operacionalizase um diferimento em tempo indeterminado da tributação. E, precisamente para se evitar tal diferimento, o art. 74 da norma em debate dispôs expressamente sobre aspecto temporal: o lucro presumese distribuído para a empresa brasileira (na condição de detentora das ações/quotas da investida), na proporção de sua participação, ao final do anocalendário. E a neutralidade, que se operacionaliza quando tanto investida quanto investidora estão no Brasil, também é tutelada ao se dispor quando a investida está no exterior. Vale transcrever o art. 26 da Lei nº 9.249, de 1995: Art. 26. A pessoa jurídica poderá compensar o imposto de renda incidente, no exterior, sobre os lucros, rendimentos e ganhos de capital computados no lucro real, até o limite do imposto de renda incidente, no Brasil, sobre os referidos lucros, rendimentos ou ganhos de capital. Como se pode observar, não se pode falar em bitributação. A neutralidade da tributação entre investida e investidora é operacionalizada por meio de outro mecanismo, mediante compensação do que a investida já recolheu aos cofres no exterior, e superase a questão do diferimento de tributação por tempo indeterminado. A tributação só se consuma se as alíquotas no exterior foram inferiores às praticadas no Brasil. Inclusive, é precisamente a situação tratada no caso concreto. Registrese que a autoridade autuante deduziu do lançamento fiscal, com correção, os valores pagos pela Contribuinte a título de imposto de renda na Luxemburgo. Por sua vez, precisamente sobre a perspectiva de que a materialidade trata dos lucros auferidos pela investidora brasileira, que não se aplica o art. 7º da Convenção BrasilLuxemburgo. Isso porque os lucros, apesar de auferidos pela empresa no exterior, pertencem, na medida da participação societária, ao seu investidor que se localiza no Brasil. Ou seja, a legislação brasileira diz respeito aos lucros auferidos pelo contribuinte, investidor, residente no Brasil. Por isso que entendo não haver reparos na interpretação conferida pela Receita Federal, por meio da Solução de Consulta Interna nº 18, da Cosit: As convenções internacionais para evitar dupla tributação que seguem o modelo da OCDE trazem uma regra de tributação exclusiva dos lucros disposta no Parágrafo 1 do Artigo 7, segundo a qual os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Fl. 933DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 49 48 Contratante por meio de um estabelecimento permanente ali situado. Se a empresa exercer suas atividades na forma indicada, seus lucros poderão ser tributados no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem atribuíveis àquele estabelecimento permanente. Transcrevese a redação do citado parágrafo: “Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só podem ser tributados nesse Estado, a não ser que a empresa exerça a sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento estável aí situado. Se a empresa exercer a sua atividade deste modo, os seus lucros podem ser tributados no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem imputáveis a esse estabelecimento estável.” 26. Assim, para entender a compatibilidade entre os acordos celebrados pelo Brasil para evitar a dupla tributação que seguem o modelo da OCDE e a legislação sobre a tributação de lucros de controladas e coligadas no exterior, é importante destacar o Comentário da própria OCDE sobre o Parágrafo 1º do Artigo 7 da Convenção Modelo (tradução livre): “ 10.1 O propósito do §1º é traçar limites ao direito de um Estado Contratante tributar os lucros de empresas situadas em outro Estado Contratante. O parágrafo não limita o direito de um Estado Contratante tributar seus residentes com base nos dispositivos relativos a sociedades controladas no exterior encontradas em sua legislação interna, ainda que tal tributo, imposto a esses residentes, possa ser computado em relação à parte dos lucros de uma empresa residente em outro Estado Contratante atribuída à participação desses residentes nessa empresa. O tributo assim imposto por um Estado sobre seus próprios residentes não reduz os lucros da empresa de outro Estado e não se pode dizer, portanto, que teve por objeto tais lucros.” 27. Conforme exposto pela OCDE, não seriam os lucros da sociedade investida tributados pelo Estado de residência dos sócios, mas os lucros auferidos pelos próprios sócios, em que pese na apuração da base de cálculo tributável seja utilizado como referência o valor dos lucros auferidos pela sociedade sediada no outro Estado. Portanto, o parágrafo 1º não visa impedir o Estado de residência dos sócios de tributar a renda obtida por intermédio de sua participação em sociedades domiciliadas no exterior. 28. O art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001, prevê a tributação da renda dos sócios brasileiros decorrente de sua participação em empresas domiciliadas no exterior. Ou seja, a norma interna incide em contribuinte brasileiro, não gerando qualquer conflito com os dispositivos do tratado que versam sobre a tributação de lucros. 29. É certo que a função primordial dos tratados é promover, mediante a eliminação da dupla tributação, as trocas de bens e serviços e a movimentação de capitais e pessoas. Esse objetivo é igualmente alcançado uma vez que o art. 26 da Lei nº 9.249, de 1995, autoriza a compensação dos tributos pagos no exterior, na hipótese de reconhecimento de lucros, rendimentos e ganhos de capital computados no lucro real. Portanto, a aplicação da norma interna Fl. 934DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 50 49 brasileira não acarreta a bitributação econômica dos lucros decorrentes de investimentos no exterior. 30. Além disso, é importante ressaltar que, segundo o Comitê de Assuntos Fiscais da OCDE, os acordos para evitar dupla tributação também têm por escopo a prevenção da elisão e evasão fiscal, já que os contribuintes poderiam ser tentados a abusar da legislação fiscal de um Estado, através da exploração das diferenças entre as várias legislações dos países ou jurisdições, de maneira a evitar a dupla não tributação. Transcrevese, por elucidativo, o parágrafo 7 dos Comentários da ConvençãoModelo: " 7. O objetivo principal das convenções para evitar a dupla tributação é promover, mediante a eliminação da dupla tributação internacional, o comércio internacional de bens e serviços, e a circulação de capitais e de pessoas. Também é objetivo das convenções evitar a fraude e evasão fiscal. 7.1 Os contribuintes podem ser tentados a abusar das leis tributárias do Estado, explorando as diferenças entre as legislações dos países ... " Assim, não se comunicam as materialidades previstas no art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001, e as dispostas na Convenção BrasilLuxemburgo para evitar bitributação de renda. Os lucros tributados pela legislação brasileira são aqueles auferidos pelo investidor brasileiro na proporção de sua participação no investimento localizado no exterior, ao final de cada ano calendário, havendo, nesse contexto, incidência do IRPJ e da CSLL. A lei brasileira, ao estabelecer a base de tributação do IRPJ e da CSLL para as empresas brasileiras, determinou que se computasse nessa base os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior. O que está em questão, portanto, é a tributação do lucro auferido por empresa brasileira no exterior e não o lucro de empresa do exterior. É oportuno novamente destacar o Comentário da própria OCDE sobre o Parágrafo 1º do Artigo 7 da Convenção Modelo (tradução livre): "[...]. O tributo assim imposto por um Estado sobre seus próprios residentes não reduz os lucros da empresa de outro Estado e não se pode dizer, portanto, que teve por objeto tais lucros.” Não há, desse modo, nenhuma incompatibilidade entre a legislação brasileira (voltada para os seus próprios residentes) e os tratados internacionais (aplicados às empresas não residentes). De qualquer forma, apesar de toda a controvérsia sobre as questões relativas à tributação de lucros no exterior e os alegados problemas de bitributação, é sempre importante lembrar que a legislação brasileira assegura à empresa brasileira que detém investimentos no exterior o direito de compensar o imposto pago no exterior, ficando, assim, eliminada qualquer chance de dupla tributação sobre a mesma renda/lucro. Em seu recurso, a contribuinte faz várias críticas à lei brasileira, no sentido de que ela incorreria em dupla tributação: "as verdadeiras normas CFC (controlled foreign companies provisions) são norma anti abuso na medida em que taxam apenas as rendas de natureza passiva e oriundas de território de baixa ou nula tributação"; "os lucros destas são formados substancialmente por rendas passivas; e/ou (ii) estão elas localizadas em territórios Fl. 935DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 51 50 de baixa tributação. Tal regime, contudo, jamais se aplica a controladas e coligadas domiciliadas em países que têm nível comparável de tributação", e "a lei brasileira, em matéria de sociedades controladas e coligadas no exterior, adotou um sistema que se afasta totalmente do tipo CFC, por não ter caráter excepcional nem finalidade antielisiva, uma vez que atinge, como regra geral, a totalidade do lucro das sociedades controladas ou coligadas no exterior, independentemente da natureza dos rendimentos que o integram e do nível de tributação do país ou território de seu domicílio". Ocorre que essa linha de argumentação da contribuinte é na verdade contraditória com sua situação específica. Conforme mencionado no início deste voto, e registrado desde o Termo de Verificação Fiscal, todo o lucro auferido no exterior em 2009, no montante de R$ 301.996.865,95, foi gerado na controlada em Funchal (Ilha da Madeira). Na verdade, uma pequena parte desse lucro corresponde ao resultado da controlada indireta Imagra, nas Bahamas. O resultado positivo da Imagra somou R$ 1.826.419,05, e foi incorporado no resultado de sua controladora (Bradesco Overseas Funchal). A decisão de primeira instância administrativa proferida nestes autos, Acórdão 1671.977 3ª Turma da DRJ/SP1, de 15/04/2016, fez a seguinte análise sobre essa situação: 42. A quase totalidade dos lucros consolidados na controlada austríaca, Bradesco Overseas Salsburg Service GMBH, foi gerada pelas atividades desenvolvidas pela investida domiciliada na Ilha Madeira, enquanto que a parte restante, significativamente menor, pela investida IMAGRA, residente nas Bahamas. [...] 47. Assim, embora a Impugnante, ao consolidar os lucros na controlada direta austríaca, tenha seguido o disposto no artigo 1º, artigo 6º, da IN SRF nº 213/02, fato confirmado pela Fiscalização, não há, no entender deste relator, que se falar em aplicar o Tratado do Brasil com a Áustria, já que não foi neste país onde ocorreram as atividades operacionais que geraram os lucros de que tratam os lançamentos tributários. 48. A Instrução Normativa SRF nº 188/2002, vigente à época dos fatos geradores, relaciona, em seu artigo 1º, Inciso XXX, a Ilha da Madeira, como sendo dependência de tributação favorecida: IN SRF nº 188/2002 Art. 1º Para todos os efeitos previstos nos dispositivos legais discriminados acima, consideramse países ou dependências que não tributam a renda ou que a tributam à alíquota inferior a 20% ou, ainda, cuja legislação interna oponha sigilo relativo à composição societária de pessoas jurídicas ou à sua titularidade as seguintes jurisdições: (...) XXX Ilha da Madeira; (...) Fl. 936DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 52 51 49. Cabe lembrar ainda que o tratado entre Brasil e Portugal reconhece a Zona Franca da Ilha da Madeira como sendo de tributação favorecida: 9. Com referência às Zonas Francas da Ilha da Madeira, da Ilha de Santa Maria e de Manaus, à SUDAM e à SUDENE Fica entendido que os benefícios desta Convenção não serão atribuídos a qualquer pessoa que tenha direito a benefícios fiscais relativos ao imposto sobre o rendimento de acordo com os dispositivos da legislação e de outras medidas relacionadas com as Zonas Francas da Ilha da Madeira, da Ilha de Santa Maria, de Manaus, a SUDAM e a SUDENE ou a benefícios similares àqueles concedidos, disponíveis ou tornados disponíveis segundo qualquer legislação ou outra medida adotada por qualquer Estado Contratante. As autoridades competentes dos Estados Contratantes notificarseão sobre qualquer legislação ou medida similar e consultarseão sobre a similaridade, ou não, de tais benefícios. 50. No tocante à controlada indireta IMAGRA, que auferiu parte pequena dos lucros de que cuidam os lançamentos tributários, ela está domiciliada nas Bahamas, país que também é considerado de tributação favorecida e com o qual o Brasil não assinou acordo para evitar a dupla tributação: IN SRF nº 188/2002 Art. 1º Para todos os efeitos previstos nos dispositivos legais discriminados acima, consideramse países ou dependências que não tributam a renda ou que a tributam à alíquota inferior a 20% ou, ainda, cuja legislação interna oponha sigilo relativo à composição societária de pessoas jurídicas ou à sua titularidade as seguintes jurisdições: (...) VI Comunidade das Bahamas; (...) 51. A corroborar com o entendimento acima exposto, observase que a Impugnante não traz aos autos imposto de renda pago no exterior, evidenciando que, se fosse acolhida a sua tese, restaria configurada a dupla não tributação, situação que os acordos para evitar a dupla tributação visam a coibir. O que se percebe é que a contribuinte, invocando tratado internacional para evitar dupla tributação, pretende ficar exonerada de tributo que nem foi pago no exterior. O que ela busca é a dupla não tributação, e os tratados internacionais não tem essa finalidade. Está bem claro que a tributação em pauta recaiu sobre lucros gerados em locais onde não há tributação da renda/lucro, locais que não estão abarcados pelo Tratado BrasilÁustria (Funchal/Ilha da Madeira e Bahamas). Não há que se alegar que o Tratado BrasilÁustria tem que ser aplicado porque a contribuinte consolidou os lucros das controladas indiretas na controlada direta (localizada na Áustria), independentemente de haver ou não pagamento de tributo no exterior. Isso configuraria um evidente uso indevido (abusivo) do tratado para evitar dupla tributação. Certamente, não é essa a finalidade desses tratados. Fl. 937DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 53 52 Correto, portanto, o posicionamento adotado pelo acórdão recorrido. Desse modo, voto no sentido de NEGAR provimento ao recurso especial da contribuinte. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 938DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 54 53 Declaração de Voto Conselheira Cristiane Silva Costa Com a devida vênia ao Ilustre Relator, por quem tenho profunda admiração, divirjo quando aos pontos tratados a seguir. O artigo 7º do Tratado BrasilÁustria (Decreto nº 78.107/1976) impede a tributação de lucros apurados pela sociedade residente na Áustria. É o teor do citado artigo 7º: ARTIGO 7 Lucros das empresas 1. Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado. Se a empresa exercer sua atividade na forma indicada, seus lucros serão tributáveis no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem atribuíveis a esse estabelecimento permanente. 2. Quando uma empresa de um Estado Contratante exercer sua atividade no outro Estado Contratante através de um estabelecimento permanente aí situado, serão atribuídos em cada Estado Contratante a esse estabelecimento permanente os lucros que obteria se constituísse uma empresa distinta e separada exercendo atividades idênticas ou similares, em condições idênticas ou similares, e transacionando com absoluta independência com a empresa de que é um estabelecimento permanente. 3. No cálculo dos lucros de um estabelecimento permanente é permitido deduzir as despesas que tiverem sido feitas para a consecução dos objetivos do estabelecimento permanente, incluindo as despesas de administração e os encargos gerais de direção assim realizados. 4. Nenhum lucro será atribuído a um estabelecimento permanente pelo simples fato de comprar mercadorias para a empresa. 5. Quando os lucros compreenderem elementos de rendimentos tratados separadamente nos outros artigos da presente Fl. 939DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 55 54 Convenção, as disposições desses artigos não serão afetadas pelas disposições deste Artigo. 6. O disposto nos parágrafos 1 a 5 também se aplica aos rendimentos recebidos pelo "Stille Gesellschafter" de uma "Stille Gesellschaft" da lei austríaca. Sobreleva considerar, ainda, que o Superior Tribunal de Justiça decidiu que os Tratados Internacionais prevalecem sobre as normas de direito interno, em razão de sua especialidade, nos termos do artigo 98, do Código Tributário Nacional, conforme acórdão cuja ementa é parcialmente transcrita a seguir: “(...) 3. A interpretação das normas de Direito Tributário não se orienta e nem se condiciona pela expressão econômica dos fatos, por mais avultada que seja, do valor atribuído à demanda, ou por outro elemento extrajurídico; a especificidade exegética do Direito Tributário não deriva apenas das peculiaridades evidentes da matéria jurídica por ele regulada, mas sobretudo da singularidade dos seus princípios, sem cuja perfeita absorção e efetivação, o afazer judicial se confundiria com as atividades administrativas fiscais. 4. O poder estatal de arrecadar tributos tem por fonte exclusiva o sistema tributário, que abarca não apenas a norma regulatória editada pelo órgão competente, mas também todos os demais elementos normativos do ordenamento, inclusive os ideológicos, os sociais, os históricos e os operacionais; ainda que uma norma seja editada, a sua efetividade dependerá de harmonizarse com as demais concepções do sistema: a compatibilidade com a hierarquia internormativa, os princípios jurídicos gerais e constitucionais, as ilustrações doutrinárias e as lições da jurisprudência dos Tribunais, dentre outras. 5. A jurisprudência desta Corte Superior orienta que as disposições dos Tratados Internacionais Tributários prevalecem sobre as normas de Direito Interno, em razão da sua especificidade. Inteligência do art. 98 do CTN. Precedente: (RESP 1.161.467RS, Rel. Min. CASTRO MEIRA, DJe 01.06.2012). 6. O art. VII do Modelo de Acordo Tributário sobre a Renda e o Capital da OCDE utilizado pela maioria dos Países ocidentais, inclusive pelo Brasil, conforme Tratados Internacionais Tributários celebrados com a Bélgica (Decreto 72.542/73), a Dinamarca (Decreto 75.106/74) e o Principado de Luxemburgo (Decreto 85.051/80), disciplina que os lucros de uma empresa de um Estado contratante só são tributáveis nesse mesmo Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante, por meio de um estabelecimento permanente ali situado (dependência, sucursal ou filial); ademais, impõe a Convenção de Viena que uma parte não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado (art. 27), em reverência ao princípio basilar da boafé. Fl. 940DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 56 55 7. No caso de empresa controlada, dotada de personalidade jurídica própria e distinta da controladora, nos termos dos Tratados Internacionais, os lucros por ela auferidos são lucros próprios e assim tributados somente no País do seu domicílio; a sistemática adotada pela legislação fiscal nacional de adicioná los ao lucro da empresa controladora brasileira termina por ferir os Pactos Internacionais Tributários e infringir o princípio da boafé na relações exteriores, a que o Direito Internacional não confere abono. 8. Tendo em vista que o STF considerou constitucional o caput do art. 74 da MP 2.15835/2001, aderese a esse entendimento, para considerar que os lucros auferidos pela controlada sediada nas Bermudas, País com o qual o Brasil não possui acordo internacional nos moldes da OCDE, devem ser considerados disponibilizados para a controladora na data do balanço no qual tiverem sido apurados. 9. O art. 7o, § 1o. da IN/SRF 213/02 extrapolou os limites impostos pela própria Lei Federal (art. 25 da Lei 9.249/95 e 74 da MP (Recurso Especial nº 1.325.709, 1ª Turma, DJe de 20/05/2014 grifamos) É importante ponderar que o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento referido, também reconheceu a ilegalidade do artigo 7º, §1º, da IN/SRF 213/2002, que trata do reflexo na contabilidade da investidora pelo Método de Equivalência Patrimonial. O artigo 7º, §1º da IN/SRF 213/2002 tem a seguinte redação: Art. 7º A contrapartida do ajuste do valor do investimento no exterior em filial, sucursal, controlada ou coligada, avaliado pelo método da equivalência patrimonial, conforme estabelece a legislação comercial e fiscal brasileira, deverá ser registrada para apuração do lucro contábil da pessoa jurídica no Brasil. § 1º Os valores relativos ao resultado positivo da equivalência patrimonial, não tributados no transcorrer do anocalendário, deverão ser considerados no balanço levantado em 31 de dezembro do anocalendário para fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Nesse sentido, destaco trecho da íntegra do acórdão (Resp 1.325.709) a respeito da ilegalidade IN/SRF 213/2002: 63. Repitase que a sistemática adotada pela Fazenda Pública, de adicionar o lucro obtido pela empresa controlada no Exterior para cômputo do lucro real da empresa controladora importa na tributação daquele mesmo lucro, em contraste com o disposto nas referidas Convenções Internacionais. (...) 66. Nesse contexto, quanto à base de cálculo, como sustentado pela recorrente, o art. 7o, § 1o. da IN/SRF 213/02 extrapolou os limites impostos pela própria Lei Federal (art. 25 da Lei 9.249/95 e 74 da MP 2.15835/01) a qual objetivou regular. Fl. 941DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 57 56 67. Com efeito, analisandose a legislação complementar ao art. 74 da MP 2.15835/01, constatase que o regime fiscal vigorante é o do art. 23 do DL 1.598/77, que em nada foi alterado quanto à não inclusão, na determinação do lucro real, dos métodos resultados de avaliação dos investimentos no Exterior, pelo método da equivalência patrimonial, isto é, das contrapartidas de ajuste do valor do investimento em sociedades estrangeiras controladas. Ressalvo que o acórdão referido não foi submetido à sistemática de recursos repetitivos (artigo 543C, do CPC/1973 e 1.036 a 1.041, do CPC/2015), não sendo obrigatória sua aplicação pelos Conselheiros do CARF (art. 62, §2º, RICARF/2015). De toda sorte, compartilho do entendimento daquela Corte Superior, pela impossibilidade de tributação dos lucros por força de Tratados Internacionais. Sobreleva considerar, ainda, que os lucros auferidos pelas controladas indiretas foram consolidados na controlada direta (Áustria), como se extrai do Termo de Verificação Fiscal: No quadro 2 – DA ESTRUTURA SOCIETÁRIA – vimos que a controladora brasileira possuía duas controladas diretas no exterior no ano calendário de 2009: na Áustria, a BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH, com 100,00% de participação A controlada direta da Áustria controla totalmente a empresa Bradesco Obverseas Funchal – Consulting Services, Sociedade Unipessoa LDA, em Funchal. A controlada indireta IMAGRA, nas Bahamas, teve sua participação societária adquirida pela Bradesco Overseas Funchal – Consulting Services, Sociedade Unipessoal LDA em Março de 2009. Seu resultado positivo (...) foi incorporado por sua controladora, compondo o lucro dessa última. A controlada austríaca e de Funchal apresentaram lucro nos seus respectivos balanços patrimoniais e demonstrativos de resultados. Por suas demonstrações financeiras, podemos ver que todo o lucro líquido do exercício em questão foi gerado na controlada em Funchal (...). Como vimos anteriormente, a controlada direta BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH, reconheceu esse resultado em seu Balanço Patrimonial, cumprindo o §6º da IN 213/2002 (...) Assim sendo, estamos aptos a determinar agora o Valor Tributável. Esse valor é aquele que deveria ter sido adicionado ao Lucro Líquido no Brasil para a determinação do Lucro Real da fiscalizada. O Valor é aquele já citado anteriormente e que consta do Balanço Patrimonial e do demonstrativo de Resultado da controlada na Austria. Exatamente porque consolidados os lucros na controlada direta, o Tratado BrasilÁustria também é aplicável aos lucros consolidados pelo auditor fiscal autuante. Até Fl. 942DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 58 57 porque a tributação – individualizada – das controladas indiretas implicaria em modificação do critério jurídico do lançamento. Pondero, ainda, que a orientação da Receita Federal do Brasil era pela necessária consolidação dos lucros das controladas indiretas na controlada direta, como se observa do artigo 1º §6º, da IN SRF 213/2002: Art. 1º Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, por pessoa jurídica domiciliada no Brasil, estão sujeitos à incidência do imposto de renda das pessoas jurídicas (IRPJ) e da contribuição social sobre o lucro líquido (CSLL), na forma da legislação específica, observadas as disposições desta Instrução Normativa. § 1º Os lucros referidos neste artigo são os apurados por filiais e sucursais da pessoa jurídica domiciliada no Brasil e os decorrentes de participações societárias, inclusive em controladas e coligadas. § 2º Os rendimentos e ganhos de capital a que se refere este artigo são os auferidos no exterior diretamente pela pessoa jurídica domiciliada no Brasil. § 3º A pessoa jurídica domiciliada no Brasil que auferir lucros, rendimentos e ganhos de capital oriundos do exterior, objeto das normas desta Instrução Normativa, está obrigada ao regime de tributação com base no lucro real. § 4º Os lucros de que trata este artigo serão adicionados ao lucro líquido, para determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da pessoa jurídica no Brasil, integralmente, quando se tratar de filial ou sucursal, ou proporcionalmente à sua participação no capital social, quando se tratar de controlada ou coligada. § 5º Para efeito de tributação no Brasil, os lucros serão computados na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, de forma individualizada, por filial, sucursal, controlada ou coligada, vedada a consolidação dos valores, ainda que todas as entidades estejam localizadas em um mesmo país, sendo admitida a compensação de lucros e prejuízos conforme disposto no § 5º do art. 4º desta Instrução Normativa. § 6º Os resultados auferidos por intermédio de outra pessoa jurídica, na qual a filial, sucursal, controlada ou coligada, no exterior, mantenha qualquer tipo de participação societária, ainda que indiretamente, serão consolidados no balanço da filial, sucursal, controlada ou coligada para efeito de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da beneficiária no Brasil. § 7º Os lucros, rendimentos e ganhos de capital de que trata este artigo a serem computados na determinação do lucro real e da base de cálculo de CSLL, serão considerados pelos seus valores antes de descontado o tributo pago no país de origem. Fl. 943DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 59 58 § 8º Os rendimentos e os ganhos de capital, decorrentes de aplicações ou operações efetuadas no exterior, integrarão os resultados da pessoa jurídica domiciliada no Brasil, e as perdas reconhecidas nesses resultados são indedutíveis e devem ser adicionadas para determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL. O §6º, acima colacionado, é bastante claro ao determinar que “os resultados auferidos de outra pessoa jurídica” (referindose à controlada indireta) “na qual a filial, sucursal controlada ou coligada, no exterior, mantenha qualquer tipo de participação societária, ainda que indiretamente” (referindose à controlada direta), “serão consolidados no balanço da filial, sucursal, controlada ou coligada” (novamente tratando da controlada direta) “para efeito de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da beneficiária no Brasil”. Tratamento distinto recebiam as controladas diretas, conforme §5º acima reproduzido. Com efeito, “os lucros serão computados na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, de forma individualizada, por filial, sucursal, controlada ou coligada, vedada a consolidação de valores”. A interpretação que concilie os §5º e §6º há de se vislumbrar a clareza do tratamento das controladas diretas pelo §5º e controladas indiretas pelo §6º. O agente fiscal autuante, portanto, consolidou os lucros das controladas indiretas na controlada direta (localizada na Áustria) observando os ditames da IN SRF 213/2002, mas equivocouse ao desconsiderar o Tratado BrasilÁustria quanto à consolidação efetuada. Nesse contexto, voto por dar provimento ao recurso especial da contribuinte, para reforma do acórdão recorrido. (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa Fl. 944DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10850.905214/2012-69
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Nov 19 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/08/2011 a 31/08/2011
CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA.
Não caracteriza cerceamento de defesa a emissão de despacho decisório eletrônico que traz o fundamento para a não homologação da compensação, em razão da inexistência de direito creditório.
PER/DCOMP. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA.
Em se tratando de compensação, o contribuinte possui o ônus de prova do seu direito aos créditos pleiteados.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3402-005.705
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Maysa de Sá Pittondo Deligne - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Renato Vieira de Avila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos. Ausente justificadamente a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, sendo substituída pelo Conselheiro Renato Vieira de Avila (suplente convocado).
Nome do relator: MAYSA DE SA PITTONDO DELIGNE
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PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR Recorrente FIDO CONSTRUTORA MONTAGENS INDUSTRIAIS, IMPORTACAO E EXPORTACAO LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/08/2011 a 31/08/2011 CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. Não caracteriza cerceamento de defesa a emissão de despacho decisório eletrônico que traz o fundamento para a não homologação da compensação, em razão da inexistência de direito creditório. PER/DCOMP. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Em se tratando de compensação, o contribuinte possui o ônus de prova do seu direito aos créditos pleiteados. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 0. 90 52 14 /2 01 2- 69 Fl. 81DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Renato Vieira de Avila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos. Ausente justificadamente a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, sendo substituída pelo Conselheiro Renato Vieira de Avila (suplente convocado). Relatório Tratase de Declaração de Compensação de crédito de COFINS Não Cumulativa, oriundo de pagamento indevido ou a maior realizado por meio de DARF recolhido em 23/09/2011 (período de apuração 31/08/2011, código de receita 5856), com débito da mesma natureza referente ao período de apuração de julho/2012, objeto da Declaração de Compensação (DCOMP) n.º 31764.20378.260912.1.3.046631 (efls. 26) Uma vez que o DARF informado já havia sido utilizado para a quitação do débito de COFINS, no mesmo valor, da competência de 31/08/2011, foi transmitido o despacho decisório eletrônico (efl. 7), com o seguinte teor: Inconformada, a empresa apresentou Manifestação de Inconformidade, julgada improcedente pelo acórdão ementado nos seguintes termos: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/08/2011 a 31/08/2011 PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. ARGÜIÇÃO DE NULIDADE. DESPACHO DECISÓRIO. MOTIVAÇÃO. Válida a decisão que expressa a inexistência de direito creditório para compensação fundada na vinculação total do pagamento a débito declarado pelo próprio interessado. DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. FUNDAMENTAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. Na medida em que o despacho decisório que não homologou a Fl. 82DF CARF MF Processo nº 10850.905214/201269 Acórdão n.º 3402005.705 S3C4T2 Fl. 82 3 compensação declarada teve como fundamento fático a verificação dos valores objeto de declaração pelo próprio sujeito passivo, não há falar em cerceamento de defesa. BASE DE CÁLCULO. CONCEITO DE FATURAMENTO. A base de cálculo das contribuições para o PIS e a COFINS é o valor do faturamento mensal, assim entendido o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil, consoante disposições das Leis nº 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003. Manifestação de Inconformidade Improcedente. Direito Creditório Não Reconhecido." (efl. 36) Intimada desta decisão pela via postal em 26/11/2013 (efl. 47), a empresa apresentou Recurso Voluntário em 16/12/2013 (efl. 49/63), alegando, em síntese: (i) preliminarmente, a nulidade do despacho decisório e da decisão recorrida por não analisarem a legitimidade do crédito de COFINS relativo à competência de agosto/2011. O despacho teria sido emitido pelo sistema de informática, sem identificar as razões para o não reconhecimento do crédito, com prejuizo ao contraditório e a ampla defesa; e (ii) a legitimidade do crédito pleiteado, vez que efetuada em conformidade com a disciplina normativa da IN RFB 900/2008. Indica, de forma geral, que "a Impugnante, ao calcular o quantum debeatur do COFINS, utilizouse de base de cálculo com valores que indevidamente a integravam, ou seja, de base de cálculo ampliada." (efl. 60). Pleiteia a produção de provas. Os autos foram direcionados a este Conselho após serem apensados ao processo n.º 10850.722580/201616, correspondente ao Auto de Infração para exigência de multa isolada por compensação indevida, incluído em pauta de julgamento nesta mesma oportunidade. É o relatório. Voto Conselheira Relatora Maysa de Sá Pittondo Deligne O Recurso Voluntário é tempestivo e deve ser conhecido. Primeiramente, sustenta a Recorrente que teria ocorrido cerceamento ao seu direito de defesa, vez que não teriam sido esclarecidas as razões para as glosas dos créditos. Contudo, conforme se depreende do despacho decisório (efl. 7), cuja cópia foi reproduzida no relatório, as razões para a negativa do crédito são claras. O contribuinte pretendia o reconhecimento de pagamento indevido ou a maior de COFINS Não cumulativa relativa ao período de apuração de 31/08/2011 com fulcro no DARF recolhido no valor de R$ 47.366,12. Contudo, este valor recolhido foi integralmente utilizado para quitar o valor da COFINS não cumulativa devida no referido período (de, repitase, R$ 47.366,12), não remanescendo crédito passível de compensação. Fl. 83DF CARF MF 4 Ora, ao contrário do que aduz a Recorrente, desde o início do processo lhe foram disponibilizadas todas as informações quanto à glosa do crédito, não tendo sido apresentado qualquer documento ou informação que pudesse afastar esse fato. Assim, inexiste nos autos a nulidade ou o cerceamento ao direito de defesa suscitado pela Recorrente. Adentrando no mérito, observase que a Recorrente não trouxe nenhum elemento fático ou jurídico capaz de afastar a conclusão do despacho decisório. Ora, como já firmado por esta turma em distintas oportunidades, como no Acórdão n.º 3402004.763, de 25/10/2017, de minha relatoria, em se tratando de Declarações de ressarcimento e de compensação, o contribuinte figura como titular da pretensão e, como tal, possui o ônus de prova quanto ao fato constitutivo de seu direito. Em outras palavras, o sujeito passivo possui o encargo de comprovar, por meio de documentos hábeis e idôneos, a existência do direito creditório, demonstrando que o direito invocado existe. Assim, caberia ao sujeito passivo trazer aos autos os elementos aptos a comprovar a existência de direito creditório, capazes de demonstrar, de forma cabal, que a Fiscalização incorreu em erro ao não homologar a compensação pleiteada, em conformidade com os arts. 15 e 16 do Decreto nº 70.235/19721. Com efeito, o ônus probatório nos processos de compensação é do postulante ao crédito, tendo este o dever de apresentar todos os elementos necessários à prova de seu direito, no entendimento reiterado desse Conselho. A título de exemplo: "Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 31/07/2009 a 30/09/2009 VERDADE MATERIAL. INVESTIGAÇÃO. COLABORAÇÃO. A verdade material é composta pelo dever de investigação da Administração somado ao dever de colaboração por parte do particular, unidos na finalidade de propiciar a aproximação da atividade formalizadora com a realidade dos acontecimentos. PEDIDOS DE COMPENSAÇÃO/RESSARCIMENTO. ÔNUS PROBATÓRIO. DILIGÊNCIA/PERÍCIA. Nos processos derivados de pedidos de compensação/ressarcimento, a comprovação do direito creditório incumbe ao postulante, que deve carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes. Não se presta a diligência, ou perícia, a suprir deficiência probatória, seja do contribuinte ou do fisco. (...)" (Processo n.º 11516.721501/201443. Sessão 23/02/2016. Relator Rosaldo Trevisan. Acórdão n.º 3401003.096 grifei) Atentandose para o presente caso, não se vislumbra qualquer fundamento fático ou jurídico trazido pela Recorrente capaz de alterar a conclusão em torno do direito ao crédito alcançada no despacho decisório e mantida pela decisão recorrida. Com efeito, sequer foram acostados aos autos a cópia da DCTF referente à competência de agosto/2011 ou qualquer outro documento fiscal ou contábil que pudesse demonstrar que o valor da COFINS Não cumulativa devida em 31/08/2011 não alcançava o montante de R$ 47.366,12, como indicado pela fiscalização no despacho. 1 “Art. 15. A impugnação, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, será apresentada ao órgão preparador no prazo de 30 (trinta) dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência. Art. 16. A impugnação mencionará: (...) III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir;" Fl. 84DF CARF MF Processo nº 10850.905214/201269 Acórdão n.º 3402005.705 S3C4T2 Fl. 83 5 Sua defesa apenas afirma, de forma geral e sem qualquer fundamento fático ou jurídico, que o crédito estaria respaldado em discussões em torno da impossibilidade de expansão do conceito de receita bruta para a COFINS, discussão essa, tradicionalmente, travada para as contribuições cumulativas (da Lei n.º 9.718/98), e não para as não cumulativas como é o caso dos autos (da Lei n.º 10.833/2003). Desta forma, inexiste qualquer documento ou alegação jurídica concreta nos presentes autos suscetível a alterar a conclusão alcançada no despacho decisório pela não homologação das compensações, que deve ser mantida. Nesse sentido, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário. É como voto. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne. Fl. 85DF CARF MF
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Numero do processo: 11516.720387/2012-72
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 06 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jan 07 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009
GANHO DE CAPITAL. BASE DE CÁLCULO.
Considera-se ganho de capital a diferença positiva entre o valor de alienação do imóvel e o respectivo custo de aquisição, observada a sistemática de cálculo da legislação tributária.
GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. DISPÊNDIOS COM A CONSTRUÇÃO.
Para fins de apuração do ganho de capital, os dispêndios com a construção podem ser incorporadas ao custo de aquisição do imóvel quando comprovados com documentação hábil e idônea avaliada no caso concreto.
GANHO DE CAPITAL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. EXIGÊNCIA PELA FISCALIZAÇÃO DE DOCUMENTAÇÃO COMPROBATÓRIA DOS DISPÊNDIOS INCORRIDOS.
O fato gerador do ganho de capital aperfeiçoa-se na data de alienação do imóvel ou, no caso de venda a prazo, no recebimento de cada parcela, quando ocorre o efetivo acréscimo patrimonial. Enquanto não escoado o prazo decadencial para lançar o crédito tributário, a fiscalização poderá examinar o custo de aquisição declarado pelo contribuinte, exigindo-lhe a apresentação da documentação comprobatória dos dispêndios incorridos com a construção do imóvel.
GANHO DE CAPITAL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. ATUALIZAÇÃO OU CORREÇÃO MONETÁRIA.
Para fins de apuração do ganho de capital, o custo de aquisição do imóvel adquirido a partir do ano de 1996 não está sujeito à atualização ou correção monetária.
GANHO DE CAPITAL. ISENÇÃO. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL RESIDENCIAL. APLICAÇÃO DOS RECURSOS NA AQUISIÇÃO DE OUTRO IMÓVEL RESIDENCIAL.
Relativamente às operações de alienação e aquisição de imóvel em parcelas, a isenção do ganho de capital auferido por pessoa física de que trata o art. 39 da Lei nº 11.196, de 2005, aplica-se somente às parcelas efetivamente utilizadas no pagamento do novo imóvel residencial, desde que dentro do prazo de cento e oitenta dias.
Numero da decisão: 2401-005.845
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário para considerar comprovados os dispêndios de construção no valor de R$ 201.838,08, relativamente ao imóvel da Rua dos Bonitos, esquina com a Rua das Manjubas.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Presidente
(assinado digitalmente)
Cleberson Alex Friess - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Matheus Soares Leite e Mônica Renata Mello Ferreira Stoll (suplente convocada).
Nome do relator: CLEBERSON ALEX FRIESS
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2007, 2008, 2009 GANHO DE CAPITAL. BASE DE CÁLCULO. Considera-se ganho de capital a diferença positiva entre o valor de alienação do imóvel e o respectivo custo de aquisição, observada a sistemática de cálculo da legislação tributária. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. DISPÊNDIOS COM A CONSTRUÇÃO. Para fins de apuração do ganho de capital, os dispêndios com a construção podem ser incorporadas ao custo de aquisição do imóvel quando comprovados com documentação hábil e idônea avaliada no caso concreto. GANHO DE CAPITAL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. EXIGÊNCIA PELA FISCALIZAÇÃO DE DOCUMENTAÇÃO COMPROBATÓRIA DOS DISPÊNDIOS INCORRIDOS. O fato gerador do ganho de capital aperfeiçoa-se na data de alienação do imóvel ou, no caso de venda a prazo, no recebimento de cada parcela, quando ocorre o efetivo acréscimo patrimonial. Enquanto não escoado o prazo decadencial para lançar o crédito tributário, a fiscalização poderá examinar o custo de aquisição declarado pelo contribuinte, exigindo-lhe a apresentação da documentação comprobatória dos dispêndios incorridos com a construção do imóvel. GANHO DE CAPITAL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. ATUALIZAÇÃO OU CORREÇÃO MONETÁRIA. Para fins de apuração do ganho de capital, o custo de aquisição do imóvel adquirido a partir do ano de 1996 não está sujeito à atualização ou correção monetária. GANHO DE CAPITAL. ISENÇÃO. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL RESIDENCIAL. APLICAÇÃO DOS RECURSOS NA AQUISIÇÃO DE OUTRO IMÓVEL RESIDENCIAL. Relativamente às operações de alienação e aquisição de imóvel em parcelas, a isenção do ganho de capital auferido por pessoa física de que trata o art. 39 da Lei nº 11.196, de 2005, aplica-se somente às parcelas efetivamente utilizadas no pagamento do novo imóvel residencial, desde que dentro do prazo de cento e oitenta dias.
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ALIENAÇÃO DE IMÓVEIS Recorrente ADEMIR HENRIQUE PEREIRA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2007, 2008, 2009 GANHO DE CAPITAL. BASE DE CÁLCULO. Considerase ganho de capital a diferença positiva entre o valor de alienação do imóvel e o respectivo custo de aquisição, observada a sistemática de cálculo da legislação tributária. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. DISPÊNDIOS COM A CONSTRUÇÃO. Para fins de apuração do ganho de capital, os dispêndios com a construção podem ser incorporadas ao custo de aquisição do imóvel quando comprovados com documentação hábil e idônea avaliada no caso concreto. GANHO DE CAPITAL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. EXIGÊNCIA PELA FISCALIZAÇÃO DE DOCUMENTAÇÃO COMPROBATÓRIA DOS DISPÊNDIOS INCORRIDOS. O fato gerador do ganho de capital aperfeiçoase na data de alienação do imóvel ou, no caso de venda a prazo, no recebimento de cada parcela, quando ocorre o efetivo acréscimo patrimonial. Enquanto não escoado o prazo decadencial para lançar o crédito tributário, a fiscalização poderá examinar o custo de aquisição declarado pelo contribuinte, exigindolhe a apresentação da documentação comprobatória dos dispêndios incorridos com a construção do imóvel. GANHO DE CAPITAL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. ATUALIZAÇÃO OU CORREÇÃO MONETÁRIA. Para fins de apuração do ganho de capital, o custo de aquisição do imóvel adquirido a partir do ano de 1996 não está sujeito à atualização ou correção monetária. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 51 6. 72 03 87 /2 01 2- 72 Fl. 700DF CARF MF Processo nº 11516.720387/201272 Acórdão n.º 2401005.845 S2C4T1 Fl. 701 2 GANHO DE CAPITAL. ISENÇÃO. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL RESIDENCIAL. APLICAÇÃO DOS RECURSOS NA AQUISIÇÃO DE OUTRO IMÓVEL RESIDENCIAL. Relativamente às operações de alienação e aquisição de imóvel em parcelas, a isenção do ganho de capital auferido por pessoa física de que trata o art. 39 da Lei nº 11.196, de 2005, aplicase somente às parcelas efetivamente utilizadas no pagamento do novo imóvel residencial, desde que dentro do prazo de cento e oitenta dias. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário para considerar comprovados os dispêndios de construção no valor de R$ 201.838,08, relativamente ao imóvel da Rua dos Bonitos, esquina com a Rua das Manjubas. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Presidente (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Matheus Soares Leite e Mônica Renata Mello Ferreira Stoll (suplente convocada). Relatório Cuidase de recurso voluntário interposto em face da decisão da 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Florianópolis (DRJ/FNS), por meio do Acórdão nº 0731.666, de 13/06/2013, cujo dispositivo tratou de considerar improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido (fls. 541/554): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2007, 2008, 2009 Fl. 701DF CARF MF Processo nº 11516.720387/201272 Acórdão n.º 2401005.845 S2C4T1 Fl. 702 3 GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE BENS E DIREITOS. TRIBUTAÇÃO. Tributa se, mensalmente, o ganho de capital auferido com a alienação de bens ou direitos de qualquer natureza. Considera se ganho a diferença positiva entre o valor da venda e o respectivo custo de aquisição. GANHO DE CAPITAL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. DECADÊNCIA. Enquanto não decaído o direito de a Fazenda realizar o lançamento relativo ao ganho de capital na alienação de bens e direitos, o sujeito passivo é obrigado a manter os documentos comprobatórios do custo de aquisição dos bens e direitos alienados. CORREÇÃO MONETÁRIA. CUSTO DE AQUISIÇÃO. Não será atribuída qualquer atualização monetária ao custo dos bens e direitos adquiridos após 31 de dezembro de 1995. AFIRMAÇÕES RELATIVAS A FATOS. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. As afirmações apresentadas pelo contribuinte, para contraditar elementos regulares de prova trazidos aos autos pela autoridade Fiscal, demandam elementos probatórios sem os quais mostram se como meras alegações, processualmente inacatáveis. Impugnação Improcedente Extraise do Termo de Verificação Fiscal, acostado às fls. 417/428, que, na origem, o processo administrativo é composto da exigência do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física (IRPF), relativamente aos anoscalendário de 2007, 2008 e 2009, acrescido de juros de mora e multa de ofício de 75%, incidente sobre omissão de ganho de capital na alienação dos seguintes imóveis: (i) casa localizada na Rua dos Bonitos, esquina com a Rua das Manjubas, em Jurerê Internacional, na cidade de Florianópolis (SC); (ii) casa localizada no Condomínio Vila Nova Granja Vianna, na cidade de Cotia (SP); e (iii) terreno designado por lote 20 da quadra 16I do Loteamento Praia de Jurerê, 6ª etapa B, cidade de Florianópolis (SC). Segundo a acusação fiscal, os três imóveis alienados são bens comuns do casal Ademir Henrique Pereira e Lisiane de Oliveira Maldonado, que vivem em regime de união estável, cabendo a exigência de 50% do imposto sobre a renda devido em nome de cada uma das pessoas físicas, relativamente aos ganhos de capital obtidos nas transações efetuadas nos Fl. 702DF CARF MF Processo nº 11516.720387/201272 Acórdão n.º 2401005.845 S2C4T1 Fl. 703 4 anoscalendário de 2007 a 2009. O Auto de Infração lavrado encontrase juntado às fls. 429/436. O lançamento em nome da Srª Lisiane de Oliveira Maldonado, equivalente a 50% do ganho de capital, faz parte do Processo nº 11516.720389/201261, incluído nesta mesma pauta de julgamento. A ciência do auto de infração aconteceu em 03/05/2012, tendo o sujeito passivo impugnado, no dia 01/06/2012, a exigência fiscal (fls. 440 e 446/458). Intimado em 19/07/2013, por via postal, da decisão do colegiado de primeira instância, o recorrente apresentou recurso voluntário no dia 14/08/2013, o qual contém, em síntese, os seguintes argumentos de fato e direito contra a decisão de piso (fls. 555/557 e 559/571): Casa na Rua dos Bonitos (i) em que pese a apresentação dos comprovantes relativos ao custo da construção da residência, que alcançou a cifra de R$ 1.114.212,80, alguns não foram considerados pela fiscalização e também na decisão de piso. A respectiva documentação foi entregue ao agente fazendário no curso do procedimento fiscal; (ii) a autoridade fiscal não poderia mais exigir os documentos relativos ao ano de 2006, por ultrapassar o lapso temporal de cinco anos; (iii) quando da apuração espontânea do ganho de capital, em 30/06/2008, o contribuinte deixou de considerar o montante de R$ 87.600,00 como despesa realizada com o corretor/imobiliária necessária à venda do imóvel. Desse modo, pleiteia a devolução do excedente do imposto de renda pago no valor de R$ 13.140,00, corrigido pela taxa de juros do governo federal; (iv) para comprovar o custo da obra, o contribuinte acostou por ocasião da impugnação um laudo técnico elaborado por empresa de engenharia idônea, que estimou um custo total de construção equivalente a R$ 1.140.000,00 (fls. 491/514); Casa no Condomínio Vila Nova Granja Vianna (v) o fiscalizado vendeu a sua residência em Cotia (SP), no dia 29/04/2008, para comprar outro imóvel residencial em Jurerê (SC), adquirido em 26/07/2008, portanto uma operação isenta, que foi efetivada dentro do prazo de 180 (cento e oitenta dias); Fl. 703DF CARF MF Processo nº 11516.720387/201272 Acórdão n.º 2401005.845 S2C4T1 Fl. 704 5 Terreno no Loteamento da Praia de Jurerê (vi) foram entregues à fiscalização as despesas com imposto de transmissão, registro e certidões que não foram consideradas; e (vii) o ganho de capital equivale à diferença positiva entre o valor da venda e o custo de aquisição, corrigido monetariamente. Todavia, o lançamento fiscal deixou de aplicar a atualização monetária sobre o capital investido no imóvel. Por intermédio da Resolução nº 2401000.627, de 18/01/2018, o julgamento do recurso voluntário foi convertido em diligência, com a finalidade de intimação do contribuinte para a juntada aos autos de cópias dos comprovantes apresentados no curso do procedimento fiscal que deixaram de ser acatados pelo agente fazendário como prova dos custos incorridos na obra de construção civil executada na Rua dos Bonitos, imóvel que posteriormente foi alienado (fls. 577/582). A diligência fiscal foi cumprida pelo contribuinte, com a anexação de planilha e documentos solicitados. Na oportunidade, o recorrente reafirmou a sua discordância com a avaliação do custo de construção da residência nos valores atribuídos pelo agente fiscal, porquanto discrepante da realidade, considerando a localização e o alto padrão do imóvel construído (fls. 587/594 e 595/695). É o relatório. Voto Conselheiro Cleberson Alex Friess Relator Admissibilidade Uma vez realizado o juízo de validade do procedimento, verifico que estão satisfeitos os requisitos de admissibilidade do recurso voluntário e, por conseguinte, dele tomo conhecimento. Julgamento em Conjunto Nesta mesma sessão do colegiado, está sendo julgado o Processo nº 11516.720389/201261, em nome de Lisiane de Oliveira Maldonado, que diz respeito aos mesmos fatos, equivalente a 50% do ganho de capital. Fl. 704DF CARF MF Processo nº 11516.720387/201272 Acórdão n.º 2401005.845 S2C4T1 Fl. 705 6 Mérito De um modo geral, o recorrente repete os argumentos de fato e direito contidos na sua impugnação. Passase à sua análise, separadamente para cada um dos imóveis alienados pelo contribuinte. a) Casa na Rua dos Bonitos Tratase do ganho de capital apurado na venda da casa localizada na Rua dos Bonitos, esquina com a Rua das Manjubas, em Jurerê Internacional (Florianópolis SC), com alienação a prazo em 18/10/2007. Segundo o ordenamento jurídico, o ganho de capital apurado e tributado pelo imposto de renda compreende o resultado positivo entre o valor da alienação do imóvel e o respectivo custo de aquisição, observada a sistemática de cálculo da legislação tributária (art. 3º, § 2º, da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988). Para fins de ganho de capital percebido por pessoa física, os dispêndios realizados com a construção, desde que comprovados com documentação hábil e idônea, são passíveis de integrar o custo de aquisição do bem imóvel. A construção da casa teve início em junho/2006 e se estendeu até o mês de outubro/2007. O fato gerador do ganho de capital aperfeiçoase na data de alienação do imóvel ou, no caso de venda a prazo, no recebimento de cada parcela, quando ocorre o efetivo acréscimo patrimonial. À vista disso, na mesma linha da decisão de piso, enquanto não decaído o direito de a Fazenda Pública lançar de ofício o tributo omitido na apuração do ganho de capital, o contribuinte é obrigado a manter os documentos comprobatórios do custo de aquisição, os quais são necessários para a delimitação da base de cálculo do imposto sobre a renda devido na operação. Tendo em conta que a venda do imóvel ocorreu em 18/10/2007, com ciência do lançamento fiscal em 03/05/2012, a fiscalização poderia exigir toda a documentação relativa às despesas de construção dos anos de 2006 e 2007, não havendo que se falar em lapso temporal superior a 5 (cinco) anos. O recorrente anexou um laudo técnico elaborado por uma empresa de engenharia com o propósito de comprovar o custo de construção do imóvel residencial, que chegaria à época da conclusão da obra ao valor de R$ 1.140.240,00, obtido com base no Custo Unitário Básico CUB (fls. 491/514). É verdade que o montante acima é um parâmetro de estimativa para o custo de construção do imóvel, haja vista o alto padrão da residência, considerando piscina, ajardinamento, fachada em mármore e infraestrutura externa e interna, localizada na Praia de Jurerê Internacional (fls. 678/695). Contudo, não serve para delimitação do custo do imóvel para fins de apuração do ganho de capital, o qual deve ser comprovado através de documentação idônea apresentada Fl. 705DF CARF MF Processo nº 11516.720387/201272 Acórdão n.º 2401005.845 S2C4T1 Fl. 706 7 pelo contribuinte. A eventual perda/extravio de comprovantes não livra o contribuinte do seu ônus probatório. Acrescento que a legislação tributária do imposto de renda não contempla a avaliação do custo de construção de imóveis com base nas tabelas do CUB, divulgadas pelos Sindicatos da Indústria da Construção Civil. Na Declaração de Ajuste Anual, no campo "Bens e Direitos", o contribuinte indicou a realização de dispêndios com a construção equivalente a R$ 195.115,30 e R$ 874.221,00, respectivamente, nos anos de 2006 e 2007, alem das despesas com a aquisição do próprio terreno onde foi construída a moradia, igual a R$ 44.876,50, o que alcança a importância total de R$ 1.114.212,80 (fls. 07/08 e 564). A fiscalização aceitou a documentação comprobatória dos custos incorridos para a construção do imóvel no valor total de R$ 505.460,40, incluindo o montante de R$ 44.876,50 relativo ao terreno (fls. 409/411). De acordo com o Termo de Verificação Fiscal, após intimada a comprovar o custo de construção do imóvel, a pessoa física apresentou em torno de 1.000 (mil) documentos, tais como notas fiscais, recibos, orçamentos e pedidos, os quais foram analisados individualmente e aceitos, em parte, para a finalidade de comprovação dos custos incorridos (fls. 106/371 e 420/422). Quanto à recusa de documentos, foi dada ciência dos motivos da falta de sua aceitação, tendo a fiscalização considerado mais alguns como comprovadamente aplicados na obra executada, após a realização de diligências em fornecedores de materiais (fls. 373/375 e 421/424). Dentre os documentos recusados, cabe qualificar, nessa fase, a documentação apresentada pelo contribuinte, em resposta à diligência fiscal, com vistas a verificar a pertinência da aceitação como dispêndios relacionados à construção do imóvel, conforme planilha elaborada pelo recorrente (fls. 592/594). Pois bem. Em diversos casos, a autoridade fiscal não validou os recibos e demais documentos apresentados porque o vendedor/prestador de serviços era uma pessoa jurídica, obrigado à emissão de nota fiscal. Após as diligências, a fiscalização acatou mais dispêndios com a construção do imóvel, especialmente para as situações em que o fornecedor promoveu a regularização fiscal das operações de venda e prestação de serviços, reconhecendo as receitas em sua escrita contábil e recolhendo os tributos correspondentes (fls. 372/375 e 421/424). Na hipótese da pessoa jurídica, a emissão de nota fiscal é uma obrigação acessória destinada a acobertar a operação, sendo necessária e fundamental para o funcionamento da fiscalização tributária. Porém, a nota fiscal não é constitutiva da relação entre as partes, apenas declaratória da operação comercial. Ao que tudo indica, o contribuinte, leigo que é, não se acautelou satisfatoriamente para fins de comprovação dos dispêndios com a obra de construção do imóvel, deixando de exigir dos fornecedores de materiais e prestadores de serviços a documentação adequada para evitar contestação da fiscalização tributária. Fl. 706DF CARF MF Processo nº 11516.720387/201272 Acórdão n.º 2401005.845 S2C4T1 Fl. 707 8 Nada obstante, mesmo na aquisição de materiais e/ou serviços de pessoa jurídica, a lei não veda a comprovação das despesas pela pessoa física com base em recibos e/ou outros elementos de convicção da efetividade e natureza dos dispêndios, tais como depósitos bancários, fichas de compensação, canhotos de cheques e orçamento detalhado, observada sempre a avaliação das circunstâncias no caso concreto. Tampouco a legislação tributária exige a regularidade fiscal do vendedor/prestador de serviço, seja no aspecto do cumprimento da obrigação principal e/ou acessória, para que a pessoa física possa deduzir os valores pagos como custo de aquisição do imóvel alienado, salvo hipótese de documento emitido por entidade cuja inscrição fiscal tenha sido declarada inapta ou baixada. Por tais motivos, entendo que o conjunto probatório carreado aos autos pelo recorrente é dotado de seriedade e convergência suficiente da realização de dispêndios com a construção da residência, no período de junho/2006 a agosto/2007, em todos os casos que se tenha: (i) identificação do fornecedor do material ou prestador do serviço, através do nome e número de inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) ou no Cadastro de Pessoas Físicas (CPF); (ii) data e valor do dispêndio com a construção do imóvel; e (iii) descrição da natureza do material ou serviço nela utilizado que mostre conexão entre o documento e a obra de construção civil. Em outras palavras, considero comprovados os seguintes dispêndios (fls. 587/594 e 595/695): (i) SS Transporte de Materiais Ltda, CNPJ 05.532.605/000147, compra de areia, brita, pedrisco e remoção de entulho, no valor total de R$ 11.422,00; 1 (ii) P. F. Comércio de Madeiras Ltda, CNPJ 07.730.613/000123, aquisição de madeira em geral e escoras, no valor total de R$ 16.720,00; 2 (iii) Jorge Paulino de Souza & Cia Ltda ME, CNPJ 02.252.461/000187, empreitada de mão de obra, no valor total de R$ 134.286,00; 3 (iv) Kupka Representações e Comerciais Ltda, CNPJ 07.823.977/000158, aquisição e instalação de aspiração central, no valor total de R$ 2.850,00; 4 1 Fls. 595, 598, 600/601, 606/607, 610/618, 631/633, 641/652, 657/659, 664/665 e 668/670. 2 Fls. 596/597, 599, 602/604, 609 e 631. 3 Fls. 597/599, 602, 605, 609, 613, 623, 634, 639/640, 653/654, 659/660, 665, 668 e 671/673). Nesse caso, o contribuinte também apresentou cópia do Contrato Particular de Empreitada de Mão de Obra, datado em 20/06/2006, às fls. 674/677. 4 Fls. 619/622. Fl. 707DF CARF MF Processo nº 11516.720387/201272 Acórdão n.º 2401005.845 S2C4T1 Fl. 708 9 (v) COMEX Representações, Comércio e Importação Ltda, CNPJ 05.913.039/000113, aquisição de motores para persianas, no valor total de R$ 2.400,00; 5 (vi) HF Sistemas de Climatização e Automação Ltda (HOTFLOOR), CNPJ 08.250.760/000169, aquisição de sistema de calefação para piso, no valor total de R$ 4.009,00; 6 (vii) José Roberto Oliveira ME, CNPJ 07.421.475/000109, compra de revestimento para pisos, no valor total de R$ 682,08; 7 (viii) Paulo Ricardo de Oliveira Haeser (PRO FLOW), CNPJ 10.323.462/000101, aquisição de sistema de irrigação automático para jardim, no valor total de R$ 2.000,00; 8 (ix) José Almir Bernardino de Almeida, CPF 767.774.641/15, material e serviço de colocação de gesso e sancas, no valor total de R$ 13.199,00; 9 (x) Madevi Madeireira Vieira Ltda, CNPJ 86.024.726/000180, compra de portas, janelas e rodapés, além do serviço de instalação, no valor total de R$ 9.500,00; 10 (xi) Botega Montagens Elétricas Ltda, CNPJ 78.850.112/000129, aquisição de materiais elétricos, no valor total de R$ 1.370,00; e 11 (xii) Pedecril Mármores e Granitos, CNPJ 79.275.012/000189, aquisição de revestimento para escadarias, no valor total de R$ 3.400,00. 12 5 Fls. 624/625. 6 Fls. 627/630. 7 Fls. 635/636. 8 Fls. 637/639. 9 Fls. 655/656. 10 Fls. 661/663 e 666. 11 Fls. 666/667. 12 Fls. 669. Fl. 708DF CARF MF Processo nº 11516.720387/201272 Acórdão n.º 2401005.845 S2C4T1 Fl. 709 10 Para melhor visualização, apresento o quadro abaixo com os valores consolidados por mês e ano da construção: Mês da construção Valor comprovado (R$) Mês da construção Valor comprovado (R$) Jun/2006 1.676,00 Jul/2006 9.323,00 Ago/2006 16.623,00 Set/2006 22.700,00 Out/2006 12.212,00 Nov/2006 15.192,00 Dez/2006 18.689,00 Total 96.415,00 Jan/2007 18.912,08 Fev/2007 14.230,00 Mar/2007 30.531,00 Abr/2007 13.900,00 Mai/2007 9.680,00 Jun/2007 12.170,00 Jul/2007 3.000,00 Ago/2007 3.000,00 Total 105.423,08 Total (2006/2007) R$ 201.838,08 Desse modo, cabe considerar comprovados os dispêndios com a construção do imóvel no valor de R$ 201.838,08. O sujeito passivo alega também que deixou de aproveitar como custo incorrido com a obra, quando da apuração espontânea do ganho de capital, a despesa com o corretor/imobiliária no montante de R$ 87.600,00. Com efeito, o § 5º do art. 123 do Regulamento do Imposto de Renda (RIR/99), veiculado pelo Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, autoriza a dedução da importância paga a título de corretagem do valor da alienação do imóvel, desde que o ônus não tenha sido transferido ao adquirente: Art. 123. Considerase valor de alienação (Lei nº 7.713, de 1988, art. 19 e parágrafo único): (...) § 5º O valor pago a título de corretagem na alienação será diminuído do valor da alienação, desde que o ônus não tenha sido transferido ao adquirente. (...) Fl. 709DF CARF MF Processo nº 11516.720387/201272 Acórdão n.º 2401005.845 S2C4T1 Fl. 710 11 Todavia, conforme assentado pela decisão de piso, não há nos autos nenhum documento comprobatório da despesa de corretagem, nem que o ônus foi suportado pelo recorrente. b) Casa localizada no Condomínio Vila Nova Granja Vianna Tratase de ganho de capital incidente na venda da unidade nº 25 do tipo "C" do Condomínio Vila Nova Granja Vianna, em Cotia (SP), alienado em 29/04/2008 pelo preço de R$ 450.000,00, recebido em parcelas. Alega o recorrente que, após a alienação do imóvel residencial, adquiriu um apartamento em Florianópolis (SC), no dia 26/07/2008, resultado da aplicação do produção da venda, fazendo opção por usufruir a isenção prevista no art. 39 da Lei nº 11.196, de 21 de novembro de 2005. O valor do novo imóvel foi de R$ 600.000,00, pago em parcelas. Pois bem. Não há reparo a fazer na decisão de piso, que analisou corretamente a situação fática em face da legislação tributária. Para melhor visualização da isenção mencionada, reproduzo o art. 39 da Lei nº 11.196, de 2005: Art. 39. Fica isento do imposto de renda o ganho auferido por pessoa física residente no País na venda de imóveis residenciais, desde que o alienante, no prazo de 180 (cento e oitenta) dias contado da celebração do contrato, aplique o produto da venda na aquisição de imóveis residenciais localizados no País. (...) § 2º A aplicação parcial do produto da venda implicará tributação do ganho proporcionalmente ao valor da parcela não aplicada. (...) § 5º O contribuinte somente poderá usufruir do benefício de que trata este artigo 1 (uma) vez a cada 5 (cinco) anos. Cuidase de benefício fiscal em que o produto da venda deve ser utilizado, no prazo de 180 dias, na aquisição de outro imóvel residencial localizado no país. Quando recebido parceladamente, como ora se cuida, somente as parcelas efetivamente aplicadas no pagamento do novo imóvel estarão abrangidas pela isenção, desde que dentro do prazo de 180 dias. Ao examinar as operações de compra e venda dos imóveis, a autoridade fiscal identificou os fluxos financeiros. Por ocasião dos pagamentos relacionados à aquisição do apartamento em Florianópolis (SC), o contribuinte havia recebido, em relação ao preço da venda da casa em Cotia (SP), apenas o valor de R$ 110.000,00. Logo, houve uma aplicação parcial do produto da venda da casa em Cotia (SP), implicando a tributação do ganho proporcionalmente ao valor não aplicado na aquisição do apartamento em Florianópolis SC (art. 39, § 2º, da Lei nº 11.196, de 2005). Nesse sentido, transcrevo o Termo de Verificação Fiscal (fls. 426/427): Fl. 710DF CARF MF Processo nº 11516.720387/201272 Acórdão n.º 2401005.845 S2C4T1 Fl. 711 12 (...) Esta autoridade lançadora observou que, logo após a venda da casa em Cotia/SP, o contribuinte adquiriu um apartamento em Jurerê/Florianópolis, e solicitou (intimação nº 061/2012) ao fiscalizado que se manifestasse sobre a opção pela isenção prevista no art. 39 da Lei 11.196/2005. O contribuinte respondeu, declarando que optou por usufruir o benefício fiscal da isenção, tendo em vista a compra do imóvel residencial em Florianópolis (fls. 390/391). Diante do argumento do contribuinte, foram examinados os contratos que ampararam a venda da casa em Cotia/SP, e a compra do apartamento no bairro de Jurerê, Florianópolis, observandose o seguinte fluxo financeiro: em 29/04/2008 o contribuinte recebeu R$ 110.000,00 pela venda da casa, cuja quitação se deu no próprio contrato (fls. 395), restou acordado que R$ 340.000,00 seriam pagos em data posterior, quando se consolidasse a propriedade do imóvel a favor do vendedor, Sr. Ademir, e quando fosse liberadas parcelas de FGTS e cata de crédito. Conforme extratos bancários apresentados pelo Sr. Ademir (fls. 402 a 404), os demais pagamentos ocorreram nas seguintes datas: 15/08/2008 R$ 150.000,00 14/11/2008 R$ 23.800,03 17/12/2008 R$ 166.199,37 A compra do apartamento foi em 26/07/2008, e os pagamentos foram assim realizados (fls. 399 e 401): R$ 50.000,00 em 26/07/2008 R$ 76.000,00 representado por um veículo TR4 Mitsubishi R$ 474.000,00 em 01/08/2008 Pelo exposto, constatase que, quando efetuados os pagamentos representativos da compra do apartamento, os contribuinte haviam recebido apenas R$ 110.000,00, sendo essa a quantia a ser considerada como aplicada na aquisição do imóvel residencial, portanto, isenta de tributação pelo imposto de Renda sobre Ganhos de Capital. c) Terreno no Loteamento da Praia de Jurerê Tratase de ganho de capital apurado na alienação de terreno pelo preço de R$ 520.000,00, em 30/04/2009, adquirido pelo contribuinte por R$ 490.000,00, em 20/02/2008. O recorrente aduz que não foram consideradas no custo de aquisição do terreno as despesas com impostos, emolumentos do cartório, registro e certidões negativas. Além disso, a simples atualização monetária do custo de aquisição já impede a verificação de qualquer ganho de capital. Fl. 711DF CARF MF Processo nº 11516.720387/201272 Acórdão n.º 2401005.845 S2C4T1 Fl. 712 13 Pois bem. Novamente, o acórdão de primeira instância bem decidiu a questão controvertida. Em primeiro lugar, o recorrente deixou de trazer aos autos algum documento comprobatório das despesas alegadas, bem como prova que suportou o ônus, o que inviabiliza a valoração de sua argumentação. Por sua vez, o custo dos imóveis adquiridos a partir do ano de 1996, como é a hipótese dos autos, não está sujeito à atualização ou correção monetária (art. 17, inciso II, da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995). A atualização monetária pretendida pelo contribuinte constitui matéria afeta à lei, que expressamente veda, não cabendo aos membros das turmas de julgamento deste Tribunal Administrativo afastar a sua aplicação sob o pretexto de tributação do próprio patrimônio, e não da renda (art. 62 do Regimento Interno deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09/06/2015). As decisões judiciais colacionadas no recurso voluntário não produzem efeitos no âmbito administrativo, porque aplicáveis somente às partes envolvidas naqueles litígios, tampouco foram proferidas em sede de repercussão geral ou na sistemática dos recursos repetitivos. Conclusão Ante o exposto, CONHEÇO do recurso voluntário e, no mérito, DOULHE PARCIAL PROVIMENTO para considerar comprovados os dispêndios de construção no valor de R$ 201.838,08, relativamente ao imóvel da Rua dos Bonitos, esquina com a Rua das Manjubas. Na execução e liquidação do acórdão, deverá ser observado o Processo nº 11516.720389/201261, em nome de Lisiane de Oliveira Maldonado, que diz respeito aos mesmos fatos, equivalente a 50% do ganho de capital. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Fl. 712DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11968.000054/2006-67
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 29 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Nov 07 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 14/02/2015
CONCOMITÂNCIA RECONHECIDA.
O recurso ao Poder Judiciário para discussão de matéria coincidente com aquela objeto do processo administrativo fiscal, importa na renúncia de discutir a matéria objeto da ação judicial na esfera administrativa, uma vez que as decisões judiciais se sobrepõem às administrativas, sendo analisados apenas os aspectos do lançamento não abrangidos pela ação mandamental.
Numero da decisão: 3201-004.179
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e não conhecer do Recurso Voluntário.
CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA - Presidente
(assinado digitalmente)
LAÉRCIO CRUZ ULIANA JUNIOR - Relator
(assinado digitalmente)
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (presidente da turma), Tatiana Josefovicz Belisário (vice-presidente), Laércio Cruz Uliana Junior, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Marcelo Giovani Vieira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima.
Nome do relator: LAERCIO CRUZ ULIANA JUNIOR
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e não conhecer do Recurso Voluntário. CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA - Presidente (assinado digitalmente) LAÉRCIO CRUZ ULIANA JUNIOR - Relator (assinado digitalmente) Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (presidente da turma), Tatiana Josefovicz Belisário (vice-presidente), Laércio Cruz Uliana Junior, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Marcelo Giovani Vieira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima.
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O recurso ao Poder Judiciário para discussão de matéria coincidente com aquela objeto do processo administrativo fiscal, importa na renúncia de discutir a matéria objeto da ação judicial na esfera administrativa, uma vez que as decisões judiciais se sobrepõem às administrativas, sendo analisados apenas os aspectos do lançamento não abrangidos pela ação mandamental. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e não conhecer do Recurso Voluntário. CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA Presidente (assinado digitalmente) LAÉRCIO CRUZ ULIANA JUNIOR Relator (assinado digitalmente) Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (presidente da turma), Tatiana Josefovicz Belisário (vicepresidente), Laércio Cruz Uliana Junior, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Marcelo Giovani Vieira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 96 8. 00 00 54 /2 00 6- 67Fl. 186DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário apresentado pelo Contribuinte em face do Acórdão proferido pela Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, que assim relatou o feito: Tratase de auto de infração lavrado no intuito de promover a cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados alegadamente devido em razão de que, quando do registro da declaração de importação n° 05/01438011, por meio da qual foi promovido o despacho de 4 (quatro) motores para propulsão de embarcações, pleiteouse beneficio fiscal incabível. Conforme consignado na peça fiscal, os motores alvo de litígio seriam incorporados a embarcações em construção e, consequentemente, não mereceriam os beneficios outorgados pelo art. 11 da Lei n° 9.493, de 1997, só aplicáveis a embarcações definitivamente inscritas no REB Registro Especial Brasileiro. Informa ainda a autoridade fiscal que a matéria foi alvo de Mandado de Segurança que tramita junto à Seção Judiciária de Pernambuco, por meio do qual foi concedida medida liminar vedando a retenção das mercadorias até o recolhimento dos tributos que se alega devidos. Após a regular ciência, inconformada, comparece a importadora ao processo para protestar pela decretação da nulidade do lançamento ou, caso superada tal preliminar, pelo reconhecimento de sua insubsistência. Preliminarmente, aduz que o auto de infração seria nulo em razão da ausência de especificação da capitulação legal. A fim de demonstrar sua tese, analisa cada um dos dispositivos legais e regulamentares enumerados no campo "Enquadramento Legal" e sustenta sua ausência de vinculação com as infrações imputadas que, ademais, não puderam ser suficientemente compreendidas. Caracterizouse, assim, o cerceamento do seu direito de defesa. De outra banda, entende descabida a alegação de que o art. 11 da Lei n° 9.493/97 alcançaria exclusivamente as partes peças e componentes destinados a embarcações registradas no REB. Ou seja, que não se aplicaria a importações de componentes destinados a embarcações em construção. Segundo sustenta, o § 9° do mesmo art. 11 afasta qualquer dúvida no sentido de que a construção de embarcações equiparase à exportação e, como tal, não poderia ser alvo de tributação pelo Imposto sobre Produtos Industrializados, sob pena de se violar a imunidade inserta no art. 153, III da Constituição Federal de 1988. Transcreve os dispositivos. Alega, ademais, que, em face da equiparação da operação à exportação, estariam presentes todos os requisitos para a concessão do regime de drawback, na modal idade isenção, Fl. 187DF CARF MF Processo nº 11968.000054/200667 Acórdão n.º 3201004.179 S3C2T1 Fl. 155 3 regulamentado, à época, pelos art. 169; 135, II, "g"; 335, II e 336, III do Regulamento Aduaneiro. Transcreve os dispositivos. Afirma, nessa esteira, que ainda que se considerasse equivocada a opção pelo enquadramento da operação no art. 11 da Lei n° 9.493/97 caberia, em observância ao principio da verdade material, solicitar a retificação do enquadramento legal. Sustenta, finalmente, que a Lei n° 9.432/97 teria como objetivo o incremento das atividades que desempenha, que restara comprovado o cumprimento As exigências legais, fato reconhecido no próprio auto de infração, bem assim que a manutenção do lançamento impugnado inviabilizaria suas atividades, que, aparentemente, teriam sido alvo de estimulo. Posteriormente, seguindo a marcha processual normal foi proferido o Acórdão assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 14/02/2005 CONCOMITÂNCIA. EFEITOS Importa renúncia às instâncias administrativas a prcipositura, pelo sujeito passivo, de ação judicial, sob qualquer modalidade processual, com o mesmo objeto do processo administrativo. Vício FORMAL. INOCORRENCIA. Demonstrado o cumprimento dos pressupostos de validade do auto de infração, não há que se falar em sua nulidade por vicio formal ou cerceamento do direito de defesa. ASSUNTO: REGIMES ADUANEIROS Data do fato gerador: 14/02/2005 DRAWBACK ISENÇÃO. CONDIÇÕES. A concessão do regime, na modalidade de isenção, é de competência da Secretaria de Comércio Exterior, devendo o interessado comprovar a exportação de produto em cujo beneficiamento, fabricação, complementação ou acondicionamento tenham sido utilizadas mercadorias importadas equivalentes, em qualidade e quantidade, àquelas para as quais esteja sendo pleiteada a isenção. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Inconformada com a r. decisão, o contribuinte apresentou Recuso Voluntário, repisando os mesmo argumentos apresentados na Manifestação de Inconformidade para DRJ. Fl. 188DF CARF MF 4 É o relatório. Voto Conselheiro Relator Laércio Cruz Uliana Junior O Recurso Voluntário é tempestivo e merece ser conhecido. Em razão da preliminar por ausência de capitulação legal, devese afastar tal preliminar, uma vez, que devidamente fundamentada no Auto de Infração. No entanto, o Contribuinte apresentou Mandado de Segurança sob no. 2005.83.00.0045339, perante a Justiça Federal de RecifePE, que foi juntado na fl. 80 e seguintes o eprocesso. Que narra em sua exordial que: Ocorre que não procedem as exigências perpetradas pela Autoridade apontada como coatora, haja vista que a importação em tela tem por cscopo a modernização de embarcação que está sendo construída e de a operação em tela ser equiparada à exportação, consoante prevê expressamente o §9°, do artigo 11, da Lei n° 9.432/97, o que impede a exigência dos tributos em comento, nos termos do inciso I, do §2°, do artigo 149, da Carta Magna Federal Sendo que seu pedido judicial foi justamente a não cobrança do IPI, vejamos: 108 — Diante de tudo que largamente comprovado e demonstrado bem como em razão da incontestável presença dos requisitos ensejadores (fumus boni juris e periculum in mora) da Medida Liminar perseguida, requerse a V. Exa que seja concedida medida liminar para determinar a liberação das mercadorias importadas, registradas na Declaração de Importação n.° 05/01438011, suspendendo a exigibilidade do IPI, do Imposto de Importação e do PIS e da COFINS incidentes sobre a importação. (...) 111 — Finalmente, com fulcro nas razões de fato e de direito acima expostas, requerse seja concedida a segurança a fim de afastar em definitivo a cobrança do Imposto de' Importação,. do IPI e das contribuições para a COFINS/Importação e o PIS/Importação, institufdas pela Lei n° 10.865/04, no que tange As mercadorias importadas constantes da Declaração Importação 05/01438011, confirmandose a liminar porventura concedida. Fl. 189DF CARF MF Processo nº 11968.000054/200667 Acórdão n.º 3201004.179 S3C2T1 Fl. 156 5 Tanto que em julgamento no TRF5, em Apelação sob no. 92662PE, do mencionado Mandado de Segurança, aborda fatos sobre a aplicação do Drawback requerido pela parte Administrativamente, com isso transcrevo trecho do Acórdão: EMENTA: TRIBUTÁRIO. COFINS. INCLUSÃO DO V ALOR CORRESPONDENTE AO ICMS NA BASE DE CÁLCULO. LEGALIDADE. I. A aquisição de motor para aplicação em embarcação em construção, registrada no REB Registro Especial Brasileiro, não se equipara à modernização prevista nos artigos 10 e 11, da Lei no 9.493/97, de modo que não se lhe concede a isenção do IPI e do Imposto de Importação. II. A equiparação à exportação da construção, conservação, modernização e o reparo de embarcações préregistradas ou registradas no REB apenas se aplica quando da saída do bem do estabelecimento industrial, não sendo oponível na aquisição de peças para a construção naval. III. Constitucionalidade da Lei no 10.865/2004, que cria a incidência do PIS e da COFINS sobra a operação de importação, exceto na parte em que alarga o conceito de valor aduaneiro para incluir a quantia correspondente ao ICMS, eis que tal procedimento vai em contrário ao disposto no artigo 149, parágrafo segundo, III, “a”, da Constituição Federal. IV. Apelações e remessa oficial improvidas. Relatório (...) Alega a parte impetrante que a importação em comento equiparase à modernização de embarcação, sendo por isso aplicáveis os benefícios fiscais previstos na Lei no 9.493/97, que mais se justificariam em virtude da equiparação da construção naval à exportacã̧o, nos termos da Lei no 9.432/97. Afirma, por fim, que a Lei no 10.865/04, que criou o PIS – Importação e a COFINS – Importação, servia eivada de inconstitucionalidade. VOTO O EXMO DESEMBARGADOR FEDERAL IVAN LIRA DE CARVALHO (Relator convocado): A parte impetrante importou um motor marítimo, de propulsão a diesel, com Fl. 190DF CARF MF 6 capacidade de 1.750 HP (um mil e setecentos e cinqüenta cavalos de força), para utilização na embarcação em construção de nome “Casco 515” registrada no Registro Especial Brasileiro sob o no 30.162 (fls. 54/57). Argumenta que, em face de que tal operação equivale à modernização de embarcacã̧o, e, nos termos da Lei no 9.432/97, a construção, conservação, modernização e o reparo de embarcações préregistradas ou registradas no REB, são equiparadas à exportação, não seria devida na hipótese a incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, Imposto de Importação – II, e as contribuições para o PIS e para a COFINS. Na verdade, destaco de logo que, em se tratando de embarcação em construção, a aquisição de motor para aparelhála, quando outro não lhe assistia anteriormente não pode se classificar tal operação como sendo de modernização, aplicandoselhe o conceito de construção naval. Nestes termos, é inviável a concessão à impetrante dos benefícios fiscais previstos na Lei no 9.493/97, artigos 10 e 11, eis que dirigidos especificamente para a conservação, modernização, conversão ou reparo de embarcações registradas no REB, nos precisos termos da norma legal: rba AMS 92662 Art. 10. Ficam isentas do IPI as aquisições de partes, peças e componentes, realizadas por estaleiros navais brasileiros, destinadas ao emprego na conservação, modernização, conversão ou reparo de embarcações registradas no REB. Parágrafo único. São asseguradas a manutenção e a utilização dos créditos do referido imposto, relativos às matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, efetivamente empregados na industrialização dos bens referidos neste artigo. Art. 11. Ficam isentos do Imposto sobre Importação Il e do IPI as partes, peças e componentes destinados ao emprego na conservação, modernização e conversão de embarcações registradas no REB, desde que realizadas em estaleiros navais brasileiros. Em relação ao PIS e à COFINS, certo que o artigo 9o do mencionado diploma legal prevê a sua não incidência, mas isso apenas sobre a receita auferida pelos estaleiros navais brasileiros nas atividades de construção, conservação, modernização, conversão e reparo de embarcações pré registradas ou registradas no Registro Especial Brasileiro – REB: Fl. 191DF CARF MF Processo nº 11968.000054/200667 Acórdão n.º 3201004.179 S3C2T1 Fl. 157 7 Art. 9o Para efeito de determinação da base de cálculo das contribuições para os Programas de Integração Social e de Formação de Patrimônio do Servidor Público PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social CONFINS, de que tratam as Leis Complementares nos 7, 8 e 70, respectivamente, de 7 de setembro de 1970, 3 de dezembro de 1970, e 30 de dezembro de 1991, o valor da receita auferida pelos estaleiros navais brasileiros nas atividades de construção, conservação, modernizacã̧o, conversão e reparo de embarcações préregistradas ou registradas no Registro Especial Brasileiro REB, instituído pela Lei no 9.432, de 8 de janeiro de 1997, poderá ser excluído da receita operacional bruta. Por outro lado, no que tange à pretensão do contribuinte em ver a aquisição em comento alcançada pelo beneplácito advindo do artigo 11, parágrafo nono, da Lei no 9.432/97, que equipara à exportação as atividades de construção, conservação, modernização, conversão e reparo de embarcações, vejo que tal intento não se concretiza, à medida em que tal equiparação apenas se materializa com a saída do bem do estabelecimento industrial, não sendo oponível ao caso em apreço, até pelo fato de que, no am̂bito geral da indústria brasileira, os benefícios fiscais para a atividade exportadora apenas ocorrem nessa fase do processo de manufatura, e não nas etapas anteriores. Por fim, resta a questão suscitada pela Fazenda Nacional, e também pelo particular, no que diz respeito à incidência da Lei no 10.865/04. Nesse particular, não verifico a ocorrência das inconstitucionalidades argüidas pela parte impetrante, haja vista a consolidada jurisprudência no sentido da desnecessidade de lei complementar para a criação das contribuições previstas no artigo 149, da Constituição Federal. Noto ainda, a não ocorrência de ofensas aos princípios da isonomia e capacidade contributiva, eis que o tratamento tributário conferido aos contribuintes da exação, nesse caso, observa as peculiaridades de cada tipo de atividade, sendo certo que tais distinções não induzem o legislador, necessariamente, a definir bases de cálculo, hipóteses de incidência e alíquotas de tributos diferenciadas para cada ramo da economia. Apenas no que tange à definição da base de cálculo das contribuições, aí sim, vislumbro inconstitucionalidade no artigo 7o, da mencionada lei, quando inclui no valor Fl. 192DF CARF MF 8 aduaneiro, especificamente para esse fim, o valor correspondente ao ICMS. Nesse caso, a jurisprudência à qual me acosto verbera entendimento no sentido de que tal alargamento de base de cálculo ofende ao disposto no artigo 149, parágrafo segundo, III, “a”, da Constituição Federal, que prevê: Art. 149. Compete exclusivamente à União instituir contribuicõ̧es sociais, de intervenção no domínio econômico e de interesse das categorias profissionais ou econômicas, como instrumento de sua atuação nas respectivas áreas, observado o disposto nos arts. 146, III, e 150, I e III, e sem prejuízo do previsto no art. 195, § 6o, relativamente às contribuições a que alude o dispositivo. § 2o As contribuições sociais e de intervenção no domínio econômico de que trata o caput deste artigo: III poderão ter alíquotas: a) ad valorem, tendo por base o faturamento, a receita bruta ou o valor da operação e, no caso de importação, o valor aduaneiro; Cito, a respeito, o seguinte precedente: AGRAVO DE INSTRUMENTO. PISIMPORTAÇÃO. COFINSIMPORTAÇÃO. LEI No 10.865/2004. RECOLHIMENTO. BASE DE CÁLCULO. VALOR ADUANEIRO. ANTERIORIDADE NONAGESIMAL. COMPENSAÇÃO. DEPÓSITO JUDICIAL. 1. As modificações efetivadas pela EC no 42/2004 no art. 195 eincisos da CF/88 autorizam o recolhimento do PIS e da COFINS na importação. 2. A sistemática de recolhimento do imposto de renda com base no lucro real diferente daquela com base no lucro presumido não ofende o princípio da isonomia e, aderindo o contribuinte a esta última, submetese a suas regras próprias. 3. A Lei no 10.865, de 30042004, respeitou a anterioridade nonagesimal, ao prever o início da vigen̂cia dos dispositivos que importavam modificacã̧o no regramento anterior, nunca inferior a três meses de sua publicacã̧o. 4. A ausência de comprovação do recolhimento das contribuições sociais nos moldes da nova norma dentro do período nonagesimal não autoriza a compensação. 5. Agravo de instrumento parcialmente provido para determinar que a base de cálculo dos tributos seja apenas o "valor aduaneiro", sem considerar, para efeitos do seu conceito, o ICMS incidente sobre o desembaraço aduaneiro, nem o valor das próprias contribuições, tal como previsto na parte final da Lei no 10.865/2004, e autorizar o depósito Fl. 193DF CARF MF Processo nº 11968.000054/200667 Acórdão n.º 3201004.179 S3C2T1 Fl. 158 9 residual, ou seja, a diferença entre o valor exigido pelo Fisco e o fixado nesta decisão. (TRF 4a Região, AGTR no 247.629/RS, Rel. Des. Federal Álvaro Eduardo Junqueira, julg. 16.02.2005, DJU 02.03.2005, pág. 297). Com tais considerações, nego provimento às apelações e à remessa oficial, mantendo na íntegra a r. sentença recorrida. É como voto A propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda de ação judicial, por qualquer modalidade processual, antes ou posteriormente à autuação, com o mesmo objeto, importa renúncia às instâncias administrativas, ou desistência de eventual recurso interposto devendo ser proferida decisão declaratória da definitividade da exigência discutida, conforme dispõe o Decreto 70.235, de 06 de março de 1972, em seu art. 62: Art.62.A propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, importa renúncia às instâncias administrativas. Parágrafo único.O curso do processo administrativo, quando houver matéria distinta da constante do processo judicial, terá prosseguimento em relação à matéria diferenciada. No mesmo sentido, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais –CARF, publicou, no DOU de 22/12/2009, a Súmula nº 01, com eficácia vinculante para o Colegiado, cujo conteúdo é reproduzido abaixo: Súmula CARF nº 1 Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Desse modo, voto em não conhecer do Recurso Voluntário. LAÉRCIO CRUZ ULIANA JUNIOR – Relator (assinado digitalmente) Fl. 194DF CARF MF 10 Fl. 195DF CARF MF
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Numero do processo: 13888.910976/2009-42
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Nov 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Dec 21 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1302-000.697
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, sobrestar o julgamento deste processo, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente.
(assinado digitalmente)
Paulo Henrique Silva Figueiredo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado.
Nome do relator: PAULO HENRIQUE SILVA FIGUEIREDO
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, sobrestar o julgamento deste processo, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente. (assinado digitalmente) Paulo Henrique Silva Figueiredo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado. Relatório Tratase de Recurso interposto em relação a Acórdão nº 1430.301 (efls. 72 a 80), proferido pela 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto/SP, que julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pelo sujeito passivo, e cuja ementa é a seguinte: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Data do fato gerador: 31/10/2000 RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 38 88 .9 10 97 6/ 20 09 -4 2 Fl. 234DF CARF MF Processo nº 13888.910976/200942 Resolução nº 1302000.697 S1C3T2 Fl. 235 2 PRESTADOR DE SERVIÇOS HOSPITALARES. PERCENTUAL DE LUCRO PRESUMIDO. REQUISITOS. Considerase prestador de serviços hospitalares, sobre cuja receita caberá a aplicação do percentual de 8% (oito por cento), para fins de determinação da base de cálculo do lucro presumido, o estabelecimento assistencial de saúde que atender aos requisitos previstos no art. 27 da IN SRF nº 480, de 2004, com a redação dada pelo art. 12 da IN SRF n 539, de 2005 e sigam os dispositivos emanados no ADI n° 19 de 10/12/2007. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada das provas hábeis, da composição e a existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. COMPENSAÇÃO TRIBUTARIA. Apenas os créditos líquidos e certos são passíveis de compensação tributária, conforme artigo 170 do Código Tributário Nacional." Por bem sintetizar a controvérsia posta nos autos, transcrevo o relatório constante do Acórdão recorrido, complementandoo, ao final: "Tratase de Manifestação de Inconformidade interposta em face do Despacho Decisório em que foi apreciada a Declaração de Compensação (PER/DCOMP) de fls. 57/62, por intermédio da qual a contribuinte pretende compensar débitos de IRPJ (código de receita: 2089), CSLL (código de receita:2372) e Cofins (código de receita: 2172) de sua responsabilidade com crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior de tributo (IRPJ: 2089). Por intermédio do despacho decisório de fl. 56, não foi reconhecido qualquer direito creditório a favor da contribuinte e, por conseguinte, nãohomologada a compensação declarada no PER/DComp de nº 10359.82413.26509.1.3.041429, ao fundamento de que o pagamento informado como origem do crédito foi integralmente utilizado para quitação de débitos da contribuinte, "não restando crédito disponível para compensação crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP". Irresignada, interpôs a contribuinte manifestação de inconformidade de fls. 01/08, acompanhada dos documentos de fls. 09/55, na qual alega, em síntese, que: a) o crédito utilizado em compensação é referente a pagamento a maior realizado pela impugnante em razão de apuração equivocada da base de cálculo do IRPJ pelo lucro presumido no percentual de 32%, quando os serviços prestados pela mesma enquadramse em serviços hospitalares, cujo percentual é de 8% para fins de aferimento do tributo;b) em 17/11/2009, retificou a DCTF do 3° trimestre do anocalendário de 2000; c) o despacho decisório não homologou a compensação sob o prisma de que o valor recolhido foi integralmente utilizado para quitação de débitos do contribuinte; d) a impugnante é sociedade empresarial formada da reunião de profissionais da medicina, todos inscritos no CRM/SP, tendo por objeto Fl. 235DF CARF MF Processo nº 13888.910976/200942 Resolução nº 1302000.697 S1C3T2 Fl. 236 3 a "Prestação de Atendimento de Apoio ao Diagnóstico e Terapia"; e) a impugnante exerce atribuição que a princípio é de competência do Poder Público, que por não cumprila eficazmente, concede benefícios ao particular para sua satisfação perante à sociedade; f) a Lei n° 9.249/95 aliviou a carga tributária quando da prestação de serviços hospitalares, visando ampliar o acesso à saúde para a população; g) prestadora de serviços hospitalares desde sua instituição, a impugnante sempre fez jus ao beneficio conferido legalmente; h) após retificação da DIPJ do anocalendário de 2000, ingressou com pedido de compensação do valor recolhido indevidamente, ora não homologado; i) para sanar qualquer omissão, em 17/11/2009, transmitiu DCTFretificadora, relativa ao 3° trimestre de 2000; j) transcreve julgados administrativos e judiciais; k) da legislação e jurisprudência arroladas, verificase perfeitamente que diante do enquadramento da impugnante, impõese a apuração da base de cálculo para o lucro presumido com a alíquota de 8%, sendo que os valores excedentes recolhidos a título de IRPJ sob a alíquota de 32% devem ser ressarcido na forma pleiteada. Ao final, requer a reforma total do despacho decisório proferido pela autoridade administrativa, com a conseqüente homologação da compensação realizada, haja vista enquadramento da requerente no artigo 15, §1°, inciso III, alínea "a" da n° 9.249/95, bem como ressalta que, caso esta Delegacia entenda imprescindível, a impugnante está à disposição para quaisquer diligências necessárias à comprovação de seu enquadramento fiscal." O Acórdão de primeira instância julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade do sujeito passivo uma vez que entendeu que a Recorrente não se enquadrava no conceito de prestador de serviços hospitalares, de modo que não lhe era aplicável o percentual de 8%, para fins de determinação da base de cálculo do IRPJ. Cientificado da decisão de primeira instância, o sujeito passivo interpôs o Recurso Voluntário de fls. 83 a 110, por meio do qual: (i) repisa os argumentos trazidos na sua manifestação de inconformidade; (ii) defende a sua natureza de sociedade empresária; (iii) sustenta a inaplicabilidade das Instruções Normativas nº 480, de 2004, e 539, de 2005, posto que posteriores ao recolhimento objeto de compensação, o que violaria o princípio da irretroatividade; e (iii) pugna pela realização de diligência. O presente processo era, originalmente, integrante de lote de repetitivos, na forma prevista no art. 47, §1º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RI/CARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015. Ocorre que, por peculiaridades que serão adiante explicitadas foi necessário desfazer o referido lote, para julgamento em separado do presente processo e conexos, conforme Despachos de fls. 231/232 e 233. É o Relatório. Fl. 236DF CARF MF Processo nº 13888.910976/200942 Resolução nº 1302000.697 S1C3T2 Fl. 237 4 Voto Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo Relator Conforme relatado, o presente processo trata de Declaração de Compensação (DComp) referente a pagamento a maior de IRPJ, por conta de a pessoa jurídica, supostamente, atuar na área de serviços hospitalares. Ocorre que, em relação ao mesmo pagamento, existe o processo nº 13888.909573/201680, que trata do Pedido Eletrônico de Restituição (PER) referente ao crédito compensado na referida DComp (além de outras DComps relativas ao mesmo crédito) e os processos nº 13888.900874/201214, 13888.900875/201269 e 13888.900873/201270, que tratam de DComps relativas ao mesmo crédito. O processo nº 13888.909573/201680 se encontra na DRF/Piracicaba, para ciência da decisão proferida pela DRJ, que, sem analisar o mérito da questão, indeferiu o Pedido de Restituição, uma vez que o crédito já teria sido totalmente utilizado nas DComps constantes daquele processo (homologadas tacitamente) e nos demais processos acima citados. Os processos nº 13888.900874/201214, 13888.900875/201269 e 13888.900873/201270 se encontram no CARF, para julgamento de Recurso Voluntário, e compunham, originalmente, lote de repetitivos, conforme previsão do art. 47, §1º, do RIR/CARF (lote desfeito conforme Despachos de fls. 231/232 e 233). Assim, diante da prejudicialidade do processo nº 13888.909573/201680 em relação ao presente processo, voto no sentido de sobrestar o presente julgamento, para que este processo seja remetido à DRF/Piracicaba, para: a) aguardar o prazo de apresentação de Recurso Voluntário no processo nº 13888.909573/201680; b) caso apresentado o Recurso em questão, ambos processos (juntamente com os conexos nº 13888.900874/201214, 13888.900875/201269 e 13888.900873/201270) devem ser remetidos ao CARF, para julgamento conjunto, conforme art. 6º, §4º, do RI/CARF; ou c) em caso de ausência de apresentação de Recurso Voluntário no processo nº 13888.909573/201680, devolução deste processo (juntamente com os conexos nº 13888.900874/201214, 13888.900875/201269 e 13888.900873/201270) ao CARF, para julgamento (conforme art. 6º, §6º, do RI/CARF) , juntamente com as informações constantes do processo nº 13888.909573/201680 necessárias para a continuidade do julgamento do presente processo. (assinado digitalmente) Paulo Henrique Silva Figueiredo Fl. 237DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13837.720455/2012-04
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Nov 20 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2010
PROCESSO ADMINISTRATIVO. IMPUGNAÇÃO. TEMPESTIVIDADE. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. IMPOSSIBILIDADE.
Uma vez reconhecida, em sede de recurso voluntário, a tempestividade da impugnação, deve o processo ser devolvido à primeira instância de julgamento, para que esta proceda à análise do mérito, com o fim de se evitar supressão de instância.
Numero da decisão: 2001-000.788
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer do Recurso Voluntário e, vencida a questão preliminar da tempestividade, encaminhar à DRJ de origem para se manifestar sobre o mérito.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Ricardo Moreira - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes (Presidente), Fernanda Melo Leal, José Alfredo Duarte Filho e José Ricardo Moreira.
Nome do relator: JOSE RICARDO MOREIRA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2010 PROCESSO ADMINISTRATIVO. IMPUGNAÇÃO. TEMPESTIVIDADE. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. IMPOSSIBILIDADE. Uma vez reconhecida, em sede de recurso voluntário, a tempestividade da impugnação, deve o processo ser devolvido à primeira instância de julgamento, para que esta proceda à análise do mérito, com o fim de se evitar supressão de instância.
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IMPUGNAÇÃO. TEMPESTIVIDADE. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. IMPOSSIBILIDADE. Uma vez reconhecida, em sede de recurso voluntário, a tempestividade da impugnação, deve o processo ser devolvido à primeira instância de julgamento, para que esta proceda à análise do mérito, com o fim de se evitar supressão de instância. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer do Recurso Voluntário e, vencida a questão preliminar da tempestividade, encaminhar à DRJ de origem para se manifestar sobre o mérito. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Presidente. (assinado digitalmente) José Ricardo Moreira Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes (Presidente), Fernanda Melo Leal, José Alfredo Duarte Filho e José Ricardo Moreira. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 7. 72 04 55 /2 01 2- 04 Fl. 99DF CARF MF 2 Tratase de Notificação de Lançamento, relativa ao Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF), por meio da qual se exige crédito tributário do exercício de 2010, anocalendário de 2009, em que foram glosadas dedução de despesas médicas no valor de R$ 19.014,00. O contribuinte apresentou impugnação, não conhecida, por intempestividade, mediante Acórdão da DRJ Brasília de f. 66/70. Cientificado, a interessada apresentou recurso voluntário de f. 76/87. . Invoca preliminar de tempestividade da impugnação, ao argumento de que a notificação de lançamento foi recebida por terceiro, enquanto o recorrente encontravase em viagem. Sustenta que o fato de estar ausente do país é suficiente para mitigar o entendimento sobre a tempestividade, haja vista que se encontrava impossibilitado de exercer ampla defesa no processo. No mérito, em síntese, alega que atendeu ao que foi solicitado pela autoridade fiscal, apresentando os respectivos recibos relativos às despesas médicas. Aduz que os recibos, por si só, fazem prova dos pagamentos realizados a este título. Argumenta que não está obrigado a apresentar seus exames médicos e laboratoriais. Sustenta ainda que não é razoável exigir a apresentação de extratos ou outros meios de prova dos pagamentos, seja porque a pessoa física não é obrigada a ter escrita fiscal, seja porque a reunião destes documentos é difícil para o contribuinte.. Pugna pela procedência do recurso e pelo cancelamento do crédito tributário. É o relatório. Voto Conselheiro José Ricardo Moreira Relator O regramento do processo administrativo fiscal estipula que somente se instaura a fase litigiosa a impugnação tempestiva (apresentada dentro do prazo de 30 dias, contados da ciência do lançamento). No julgamento do presente processo, este Relator apresentou seu voto no sentido de não conhecer do recurso voluntário, reiterando os argumentos da decisão de primeira instância sobre a intempestividade da impugnação. Na sessão de julgamento, a Conselheira Fernanda Melo Leal acompanhou o relator e os Conselheiros Jorge Henrique Backes (Presidente) e José Alfredo Duarte Filho divergiram. Desta forma, o relator restou vencido, tendo prevalecido, por voto de qualidade, o entendimento de que a impugnação deveria ser conhecida como tempestiva, em face dos argumentos apresentados pelo recorrente. Conforme Regimento deste Conselho, ao ser vencido na preliminar, deve haver a votação em relação ao mérito do processo. Ocorre que referida solução não pode ser aplicada no caso vertente, haja vista que a DRJ não apreciou o mérito do litígio, de forma que a apreciação do mesmo por este Conselho acarretaria supressão de instância, o que é vedado. CONCLUSÃO: Fl. 100DF CARF MF Processo nº 13837.720455/201204 Acórdão n.º 2001000.788 S2C0T1 Fl. 3 3 Diante de todo o exposto, uma vez conhecido do recurso e vencida a questão preliminar de tempestividade da impugnação, há que se enviar o presente processo à DRJ de origem, para proceder à análise do mérito. (assinado digitalmente) José Ricardo Moreira Fl. 101DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16327.001463/2009-92
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 09 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Nov 07 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Outros Tributos ou Contribuições
Período de apuração: 01/12/2003 a 30/06/2005
DECADÊNCIA PARCIAL DO LANÇAMENTO. OCORRÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 99.
A Súmula CARF nº 99, de observância obrigatória, que para fins de aplicação da regra decadencial prevista no art. 150, § 4°, do CTN, para as contribuições previdenciárias, caracteriza pagamento antecipado o recolhimento, ainda que parcial, do valor considerado como devido pelo contribuinte na competência do fato gerador a que se referir a autuação, mesmo que não tenha sido incluída, na base de cálculo deste recolhimento, parcela relativa a rubrica especificamente exigida no auto de infração.
SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. PARCELAS INTEGRANTES. BÔNUS RH CARROS.
Entende-se por salário de contribuição, para o empregado, a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive aqueles recebidos a título de bônus.
Somente as exclusões arroladas exaustivamente no parágrafo 9º do artigo 28 da Lei n.º 8.212/91 não integram o salário-de-contribuição.
COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32-A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35-A, penalidade única combinando as duas condutas.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14/2009, se mais benéfico ao sujeito passivo.
Numero da decisão: 2202-004.716
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher a preliminar de decadência dos fatos geradores até nov/2004, inclusive; e, no mérito, por voto de qualidade, em dar provimento parcial ao recurso para determinar que o recálculo da multa aplicada seja realizado nos termos da Portaria PGFN/RFB nº 14/2009, vencidos os conselheiros Martin da Silva Gesto (relator), Júnia Roberta Gouveia Sampaio e Dilson Jatahy Fonseca Neto, que deram provimento ao recurso em maior extensão. Designada para redigir o voto vencedor, a conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, relativo à multa.
(assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Presidente
(assinado digitalmente)
Martin da Silva Gesto - Relator
(assinado digitalmente)
Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Redatora designada
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson.
Nome do relator: MARTIN DA SILVA GESTO
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Período de apuração: 01/12/2003 a 30/06/2005 DECADÊNCIA PARCIAL DO LANÇAMENTO. OCORRÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 99. A Súmula CARF nº 99, de observância obrigatória, que para fins de aplicação da regra decadencial prevista no art. 150, § 4°, do CTN, para as contribuições previdenciárias, caracteriza pagamento antecipado o recolhimento, ainda que parcial, do valor considerado como devido pelo contribuinte na competência do fato gerador a que se referir a autuação, mesmo que não tenha sido incluída, na base de cálculo deste recolhimento, parcela relativa a rubrica especificamente exigida no auto de infração. SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. PARCELAS INTEGRANTES. BÔNUS RH CARROS. Entendese por salário de contribuição, para o empregado, a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive aqueles recebidos a título de bônus. Somente as exclusões arroladas exaustivamente no parágrafo 9º do artigo 28 da Lei n.º 8.212/91 não integram o saláriodecontribuição. COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 00 14 63 /2 00 9- 92 Fl. 218DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 219 2 ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14/2009, se mais benéfico ao sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher a preliminar de decadência dos fatos geradores até nov/2004, inclusive; e, no mérito, por voto de qualidade, em dar provimento parcial ao recurso para determinar que o recálculo da multa aplicada seja realizado nos termos da Portaria PGFN/RFB nº 14/2009, vencidos os conselheiros Martin da Silva Gesto (relator), Júnia Roberta Gouveia Sampaio e Dilson Jatahy Fonseca Neto, que deram provimento ao recurso em maior extensão. Designada para redigir o voto vencedor, a conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, relativo à multa. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Presidente (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Relator (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Redatora designada Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto nos autos do processo nº 16327.001463/200992, em face do acórdão nº 1645.632, julgado pela 12ª Turma da Delegacia Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo (DRJ/SP1), em sessão realizada em 11 de abril de 2013, no qual os membros daquele colegiado entenderam por julgar improcedente a impugnação apresentada pelo contribuinte. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da DRJ de origem que assim os relatou: “DA AUTUAÇÃO Fl. 219DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 220 3 Tratase de crédito lançado pela fiscalização contra a empresa retro identificada, por meio do Auto de Infração (AI) DEBCAD n.º 37.265.7770, no montante de R$ 218.287,95 (duzentos e dezoito mil e duzentos e oitenta e sete reais e noventa e cinco centavos), consolidado em 18/12/2009, referente a contribuições destinadas a outras entidades e fundos (terceiros) – SALÁRIO EDUCAÇÃO (FNDE – Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação), incidentes sobre valores pagos, pelo incorporado BANCO SANTANDER BRASIL S.A. – CNPJ 61.472.676/000172, aos empregados, a título de BÔNUS, não declarados em GFIP (Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social), relativas a competências de 12/2003 a 06/2005. O Relatório do Auto de Infração, de fls. 16 a 18, em suma, traz as seguintes informações: • que o Banco Santander Brasil S.A. – CNPJ 61.472.676/000172 Foi incorporado pelo contribuinte em epígrafe, conforme ata de assembléia geral extraordinária realizada em 31/08/2006; • que, em auditoria fiscal concluída no incorporado em dezembro de 2006, foi verificado que o mesmo não considerou como verba incidente de contribuições para a previdência social a remuneração paga aos segurados empregados, a seguir discriminada: levantamento BRH – BÔNUS RH CARRO – DEBCAD 37.043.5931 – competências 12/2003 a 06/2005; • que esta verba foi objeto de cobrança das contribuições previdenciárias devidas conforme Notificação Fiscal de Lançamento de Débito — NFLD com o n.° de DEBCAD acima mencionado, sendo que a contribuição para o FNDE deixou de ser cobrada naquele momento, tendo em vista as determinações contidas no art. 615 da Instrução Normativa SRP n.° 03, de 14/07/2005; • que, naquele momento, foi elaborada e encaminhada REPRESENTAÇÃO ADMINISTRATIVA — RA ao Presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação — FNDE; cadastrada na RFB sob o n.° 35464.004958/200609, tendo sido uma cópia entregue ao contribuinte; • que, devido à transferência de competência para a Secretaria da Receita Federal do Brasil – RFB, por força do Decreto n.° 6.003, de 29/12/2006, e da Lei n° 11.457, de 16/03/2007, o FNDE devolveu tal RA para o devido lançamento do crédito; • que foi considerada a mesma base lançada na NFLD retro mencionada, cujo Relatório de Lançamentos (RL) consta na RA utilizada como base deste lançamento, bem como neste AI, tendo sido aplicada a alíquota de 2,5%; • que os conceitos de remuneração e salário estão previstos nos artigos 457 e 458 da CLT, e o de saláriodecontribuição, para o empregado, está estabelecido no artigo 28, inciso I da Lei n.º 8.212/9 e no artigo 214, I do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto n.º 3.048/99; Fl. 220DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 221 4 • que, por terem os mesmos elementos de prova, este AI seria apensado à NFLD retro mencionada. Constam, no presente processo digital, entre outros, os seguintes documentos relativos ao Auto de Infração: capa do AI; RL – Relatório de Lançamentos; DD – Discriminativo do Débito; FLD – Fundamentos Legais do Débito; IPC – Instruções para o Contribuinte; Relatório de Vínculos; e, Termo de Encerramento de Procedimento Fiscal. DA IMPUGNAÇÃO Inconformada com a autuação, da qual foi cientificada em 30/12/2009 (fls. 2), a empresa apresentou, em 29/01/2010, a impugnação de fls. 25 a 38, com documentos anexos às fls. 39 a 105 (cópias de Procuração e substabelecimento, de documentos de identificação dos subscritores da impugnação, de Atas de Assembléias Gerais Ordinárias e Extraordinárias e de Reuniões do Conselho de Administração), e, em 08/02/2010, o requerimento de juntada de documentos de fls. 106, com documentos anexos às fls. 107 a 118 (cópias de guias de recolhimento do SalárioEducação), fazendo um breve relato dos fatos, e deduzindo, em sua defesa, as alegações a seguir sintetizadas. Dos fatos: Afirma, aqui, a impugnante, que foi submetida à fiscalização, tendo, desta, emanado a exigência inserta nesta notificação, segundo a qual estaria sujeita ao pagamento do débito de R$ 218.287,95, por ter deixado de recolher, nos períodos de dezembro de 2003 a junho de 2005, a contribuição para o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – FNDE, supostamente incidente sobre os pagamentos efetuados aos funcionários a título de “Bônus”. E destaca que o presente auto de infração seria complementar ao consubstanciado nos autos do P.A. n.° 35464.004932/200652 – NFLD n.° 37.043.5931, em que a autoridade fiscal teria procedido ao lançamento das verbas previdenciárias e do INCRA, supostamente incidentes sobre os valores pagos a titulo de “Bônus”, no período de janeiro de 1999 a junho de 2005. Pontua, ainda, que o lançamento referente à NFLD n.° 37.043.5931teria sido parcialmente cancelado em razão do reconhecimento da decadência argüida em sede de recurso voluntário, nos termos do artigo 150, § 4º do Código Tributário Nacional. Da decadência: Sustenta, aqui, a empresa, que parte do crédito tributário em tela estaria fulminada pela decadência. Informa que o Supremo Tribunal Federal editou a Súmula Vinculante n.º 8, declarando a inconstitucionalidade dos artigos 45 e 46 da Lei n.º 8.212/91, que determinavam que o prazo Fl. 221DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 222 5 decadencial para o lançamento das contribuições previdenciárias seria de 10 anos. Para ela, deveria ser aplicado às contribuições em tela, por se tratarem de tributo sujeito ao lançamento por homologação, o disposto no artigo 150, § 4º do Código Tributário Nacional (CTN), contandose o prazo decadencial a partir da ocorrência dos fatos geradores. Defende, no caso, que os créditos tributários apurados nos meses de dezembro de 2003 a novembro de 2004 estariam decaídos, tendo em vista que teria sido cientificada da autuação em 30/12/2009. Afasta a possibilidade de aplicação do prazo previsto no artigo 173 do CTN, em vista da ausência de pagamento do tributo, afirmando ter recolhido a contribuição devida nos meses de dezembro de 2003 a novembro de 2004, conforme guias anexas. Ressalta, então, que, em sede de julgamento do recurso interposto nos autos da NFLD n.° 37.043.5931, vinculada ao presente AI, a Autoridade Julgadora teria reconhecido a decadência do direito do Fisco em efetuar a cobrança de parte do crédito tributário, nos termos do artigo 150, § 4º do Código Tributário Nacional. Segundo ela, teria havido a antecipação do pagamento da contribuição ao Salário Educação incidente sobre a remuneração dos empregados, de modo que eventuais inexatidões no referido recolhimento, apontadas pela Autoridade Fiscal, deveriam ser formalizadas dentro do prazo previsto no artigo 150, § 4º do CTN. E conclui que o lançamento, consistente em auto de infração notificado ao contribuinte em 30/12/2009, seria parcialmente extemporâneo, razão pela qual deveria ser decretada a sua decadência, com a conseqüente anulação e cancelamento da exigência tributária referente aos meses de dezembro de 2003 a novembro de 2004. Dos bônus: Defende, aqui, a empresa, a não incidência de contribuições sociais sobre o pagamento efetuado aos empregados a título de bônus e prêmios de incentivo. Inicialmente, esclarece que os valores exigidos na presente Notificação de Lançamento Fiscal não seriam derivados do pagamento de comissões, como teria feito entender a Autoridade Fiscal, mas sim do pagamento efetuado aos empregados a titulo de ganhos eventuais. Alega que os valores desembolsados a titulo de bônus não integrariam o Saláriodecontribuição, na medida em que se configurariam como ganhos eventuais, conforme disposto na Instrução Normativa n.º 04/99 da Diretoria Colegiada do INSS. Fl. 222DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 223 6 Para ela, o simples fato do pagamento da verba enumerada, do prêmio, se perfazer em vantagem ao empregado não significaria que a mesma estaria abrangida pelo conceito de salário de contribuição, constante no art. 28, inciso I da Lei n.° 8.212/91. Afirma que o comando encerrado no § 4º do art. 201 da Constituição Federal estaria a indicar que não seria qualquer “ganho” do empregado que integraria o salário para efeito de pagamento da contribuição previdenciária. Faz menção, então, aos artigos 22 e 28 da Lei n.º 8.212/91, e alega que, para o “ganho” integrar o “salário”, ele deveria ser “habitual”, acrescido da adjetivação “útil”. Segundo ela, o pagamento do salário na forma de utilidade somente se subsumiria ao conceito de salário indireto, na hipótese desta remuneração estar substituindo uma necessidade vital do empregado. Destaca que o pagamento do referido prêmio, no caso, não se revestiria da natureza salarial, já que não contemplaria a satisfação de uma “necessidade vital”, nem substituiria parte do salário do empregado, tampouco se revestiria do caráter de habitualidade, necessários à configuração do salário indireto. Sustenta, ainda que o pagamento do Prêmio/Bônus seria despendido pelo empregador como incentivo ao alcance de metas, ou seja, para a execução do trabalho e não pela execução do mesmo, não podendo compor a base de cálculo da contribuição previdenciária. Menciona que tal prêmio/bônus, cujo valor seria estipulado pelo empregador, visaria a incentivar o trabalho dos empregados, sem contudo substituir uma despesa que os mesmos teriam, sendo concedido para que o empregado se sentisse estimulado a desenvolver seu trabalho. Para ela, existiria diferença entre o pagamento de salário indireto e o pagamento de um prêmio a titulo de estimulo para a produtividade, sendo que a linha divisória entre as duas situações estaria na constatação de haver ou não substituição de um pagamento que seria normalmente realizado pelo empregado, como uma despesa normal – existindo substituição, haveria salário indireto, e não ocorrendo a mesma, se trataria de uma despesa da empresa, que não se caracterizaria como remuneração. Entende que, como o empregado não contaria com tal numerário para a manutenção de sua vida normal, este não integraria a remuneração indireta. E conclui que a parcela paga a titulo de prêmio não constituiria acréscimo no salário dos empregados, pugnando pelo cancelamento do Auto de Infração. Do pedido: Fl. 223DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 224 7 Face às razões expostas, requer a empresa seja julgada procedente a impugnação para: a) o reconhecimento da decadência do direito do Fisco de efetuar o lançamento dos fatos geradores ocorridos nos meses de dezembro de 2003 a novembro de 2004; b) a desconstituição do auto de infração, tendo em vista não se tratar de pagamento com natureza salarial, sendo impossível a sua integração na base de cálculo da contribuição em tela. É o relatório.” A DRJ de origem entendeu pela improcedência da impugnação apresentada pelo contribuinte, mantendo, assim o crédito tributário lançado, na integralidade. O contribuinte, inconformado com o resultado do julgamento, apresentou recurso voluntário, às fls. 162/180, reiterando, as alegações expostas em impugnação. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Martin da Silva Gesto Relator O recurso voluntário foi apresentado dentro do prazo legal, reunindo, ainda, os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, dele conheço. 1. Decadência. Em relação à decadência, o contribuinte faz referência aos períodos até 11/2004 (inclusive). Isso porque só foi regularmente cientificado do lançamento em 30/12/2009. A DRJ rejeitou a alegação, porque entendeu que o contribuinte não efetuara antecipação do pagamento referente especificamente às contribuições incidentes sobre a rubrica específica, e por isso a contagem do prazo decadencial deslocarseia do § 4º do artigo 150, do CTN, para o artigo 173, I, do CTN. No entanto, a Súmula CARF nº 99, de observância obrigatória, estabelece que: Súmula CARF nº 99: Para fins de aplicação da regra decadencial prevista no art. 150, § 4°, do CTN, para as contribuições previdenciárias, caracteriza pagamento antecipado o recolhimento, ainda que parcial, do valor considerado como devido pelo contribuinte na competência do fato gerador a que se referir a autuação, mesmo que não tenha sido incluída, na base de cálculo deste recolhimento, parcela relativa a rubrica especificamente exigida no auto de infração. (grifouse) Contandose o prazo decadencial na forma do artigo 150, § 4º do CTN, a partir da ocorrência do fato gerador, e considerando a antecipação de pagamentos de contribuições, ainda que não especificamente sobre valores pagos a título de "abono único", Fl. 224DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 225 8 mas aplicando a inteligência da Súmula acima transcrita, é de ser reconhecida a decadência do lançamento em relação as competências até 11/2004, inclusive. Do bônus RH Carros A DRJ de origem, se manifestou pela incidência da contribuição ao salárioeducação sobre a rubrica Bônus RH CARROS. Por compartilhar do entendimento exarado no julgamento de primeira instância, reproduzo o voto quanto a esta matéria, adotandoo, inclusive, como parte integrante das minhas razões para manutenção do lançamento em questão: As contribuições ao SalárioEducação foram lançadas, neste AI, por meio do levantamento BR – BÔNUS RH CARROS, em competências de 12/2003 a 06/2005, considerando as mesmas bases de cálculo da NFLD n.º 37.043.5931 processo administrativo n.º 35464.004932/200652, na qual foram lançadas apenas contribuições previdenciárias e destinadas ao INCRA, e que constam, no Relatório Fiscal da referida NFLD, as informações a seguir transcritas: (...) DAS RAZÕES DO LANÇAMENTO DOS CRÉDITOS PREVIDENCIÁRIOS (...) 2. Da análise da documentação descrita no item 1 anterior, constatouse que a empresa remunerou, sob o título "Bônus RH" e posteriormente "Bônus RH Carro", segurados da Previdência Social. 3. Não foram apresentados à fiscalização, apesar de formalmente solicitados mediante TIAD de 20/09/2006, documentos que demonstrassem os critérios utilizados pela empresa para remunerar os segurados empregados, conforme descrito no item 2 supra. Porém, foi informado verbalmente à fiscalização pelo Senhor Marco Antonio de Almeida, Gerente Geral de Assuntos Fiscais da empresa, a política de pagamento do Bônus RH e do Bônus RH Carro, como segue: a) Para determinadas contratações de segurados que ocupem cargos elevados na estrutura administrativa da empresa, são oferecidos benefícios extrasalariais para concretizar as contratações; b) A concessão do Bônus RH e do Bônus RH Carro faz parte desses benefícios; c) Conforme o cargo a ser ocupado pelo segurado, determinado valor, em moeda corrente, é colocado à sua disposição; d) Esse valor é pago através de aportes de capital, em nome do segurado, em uma das seguintes empresas: Fl. 225DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 226 9 d.l) Santander Seguradora S/A CNPJ 87.376.109/000106; d.2) Icatu Hartford Seguros S/A CNPJ 42.283.770/000139. (...) DO CARÁTER REMUNERATÓRIO DO PAGAMENTO DO BÔNUS RH E DO BÔNUS RH – CARRO (...) 8. Não se constatou a exigência por parte da empresa de relatório de prestação de contas dos segurados em relação aos gastos por eles efetuados, afastandose então o aspecto de reembolso pelo uso do veículo e reforçando o aspecto remuneratório; 9. Assim, a prática reiterada de a empresa empregadora utilizarse da concessão de benefícios, entre eles o Bônus RH e o Bônus RH Carro, para concretizar a contratação de profissionais graduados no mercado, e a expectativa criada aos trabalhadores pela bonificação, conferemlhes propriedades retributivas e, consequentemente, constituemse em elementos remuneratórios do trabalho; (...) DOS CRITÉRIOS E PROCEDIMENTOS UTILIZADOS PARA O CÁLCULO DO MONTANTE DA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA DEVIDA NESTE DOCUMENTO (...) 1. Resultou infrutífera a intimação tanto para a empresa apresentar as folhas de pagamento, os Livros Diário e os Contratos de Prestação de Serviço celebrados com as empresas Santander Seguradora S/A, Santander Seguros S/A e Icatu Hartford Seguros S/A, quanto para apresentar a Relação de Beneficiários do Bônus RH e do Bônus RH Carro, ou seja, revelar a quais segurados da Previdência Social foram pagos os valores a esse título e, então, identificar esses segurados e as respectivas remunerações para o Cadastro Nacional de Informações Sociais CNIS, por meio da Guia do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações a Previdência Social GF1P, para efeito da formação dos saláriosdebenefício correspondentes. Não foram apresentados também, os documentos de suporte referentes aos lançamentos na escrituração contábil da empresa solicitados pela Fiscalização. (...) 7. Em conformidade com as disposições dos §1° e §3°, do art. 33, da LOSS/91, a base de cálculo das contribuições previdenciárias relativa aos pagamentos efetuados a título de "Bônus RH e Bônus RH Carro" esta sendo arbitrada, Fl. 226DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 227 10 neste documento, e lançada no CNPJ 61.472.676/000172 (Centralizador) pelo valor constante da Relação de Pagamentos e pelos lançamentos efetuados a débito nas seguintes contas contábeis, os quais registram a contabilização dos pagamentos do Bônus efetuados: c) COSIF 4.9.9.30.10.0 Despesas de Pessoal; Padrão 67745.3 Provisão de Bônus RH (Carro), no período 09/2003 a 12/2004, e 03/2005 a 06/2005; (...) e) COSIF 8.1.7.27.00.3 Despesas de Pessoal Benefícios; Padrão 95027.8 Desp Pess – Prev Complementar Autos, no período 12/2004; e (...) (grifos nossos) Não merece acolhida, no caso, a alegação da empresa de não incidência de contribuições sociais sobre o pagamento efetuado aos empregados a título de bônus. Cumpre destacar que, como explicitado no relatório fiscal da NFLD n.º 37.043.5931, a empresa não apresentou à fiscalização, apesar de formalmente solicitados, os documentos que demonstrassem os critérios utilizados para o pagamento das verbas em tela aos segurados empregados, sendo informado apenas verbalmente que o pagamento do “Bônus RH – Carro” era efetivado para determinadas contratações de segurados ocupantes de cargos elevados na estrutura administrativa, a fim de concretizar referidas contratações. Assim, considerando esta informação fornecida verbalmente à fiscalização, temse que as verbas pagas a título de “Bônus RH – Carro” consistiriam em uma espécie de “luvas” – bônus de contratação, se configurando como verdadeiros adiantamentos de salários aos futuros empregados contratados da empresa. É de se salientar que corresponderiam, então, a gratificações ajustadas, visando remunerar os empregados contratados pelos serviços que prestariam ao longo do contrato de trabalho, estando associadas à contraprestação de serviço. E as gratificações ajustadas integram o salário dos empregados, nos termos do §1° do artigo 457 da CLT – Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo DecretoLei n.° 5.452, de 01/05/1943, a seguir transcrito. Art. 457 Compreendemse na remuneração do empregado, para todos os efeitos legais, além do salário devido e pago diretamente pelo empregador, como contraprestação do serviço, as gorjetas que receber. (Redação dada pela Lei nº 1.999, de 1.10.1953) § 1º Integram o salário não só a importância fixa estipulada, como também as comissões, percentagens, gratificações ajustadas, diárias para viagens e abonos pagos pelo empregador. (Redação dada pela Lei nº 1.999, de 1.10.1953) Fl. 227DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 228 11 (...) (grifos nossos) Por outro lado, se fossem consideradas unicamente as alegações da impugnante, em sua defesa, de que as verbas em questão teriam a natureza de prêmios, temse que elas também continuariam integrando o saláriodecontribuição, uma vez estando o seu pagamento vinculado ao cumprimento de metas previamente fixadas, ao desempenho laboral dos empregados, comprovando o seu caráter contraprestacional. Não resta dúvida, assim, de que as verbas pagas a título de “Bônus RH – Carro” se amoldam ao conceito de saláriode contribuição previsto no artigo 28, inciso I da Lei n.° 8.212/91. No tocante à alegação da impugnante acerca da eventualidade dos pagamentos a título de “Bônus RH – Carro”, cabe observar que não há, aqui, como analisála, de forma específica, haja vista que a empresa, embora intimada para tanto, não disponibilizou à fiscalização a relação de segurados que teriam recebido tais verbas, bem como os documentos com os critérios para a realização dos pagamentos, conforme explicitado no relatório fiscal da NFLD n.º 37.043.5931. Cabe, aqui, mencionar, no entanto, que, segundo o relatório fiscal da citada NFLD, teria sido constatada, no caso, a prática reiterada de a empresa empregadora remunerar sob a forma de bônus os segurados, de utilizarse da concessão de benefícios para concretizar a contratação de profissionais graduados no mercado, criando a expectativa aos trabalhadores pela bonificação. E cumpre registrar que, para o pagamento ser considerado eventual, seria necessário que o mesmo se desse em situações claramente fortuitas, o que não se verifica no pagamento do “Bônus RH – Carro”, que é previamente ajustado, havendo o conhecimento prévio de que ele – que é vinculado à contraprestação de serviços pelos empregados durante a vigência do contrato de trabalho – seria realizado quando implementada a condição estabelecida para o seu recebimento, seja ela a assinatura do contrato de trabalho ou o alcance de metas de desempenho. Isto posto, tal qual restou compreendido pela DRJ de origem, não resta qualquer dúvida de que as verbas pagas a título de bônus RH carros, têm natureza salarial, sendo uma remuneração devida pelo trabalho, estipulada em norma interna da empresa, integrando o saláriodecontribuição, nos termos do artigo 28, inciso I da Lei n.º 8.212/91. 3. Multa aplicada Com o advento da MP nº 449, que passou a vigorar a partir 04/12/2008, data da sua publicação, e posteriormente convertida na Lei nº 11.941/09, foi dada nova redação ao art. 35 e incluído o art. 35A na Lei nº 8.212/91, in verbis: Fl. 228DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 229 12 Art. 35. Os débitos com a União decorrentes das contribuições sociais previstas nas alíneas a, b e c do parágrafo único do art. 11 desta Lei, das contribuições instituídas a título de substituição e das contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, não pagos nos prazos previstos em legislação, serão acrescidos de multa de mora e juros de mora, nos termos do art. 61 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009). (sem destaques no original) Nesse momento surgiu a multa de ofício em relação à contribuição previdenciária, até então inexistente, conforme destacado alhures. Logo, tendo em vista que o lançamento se reporta à data da ocorrência do fato gerador, nos termos do art. 144 do CTN, temse que, em relação aos fatos geradores ocorridos antes de 12/2008, data da MP nº 449, aplicase apenas a multa de mora. Já em relação aos fatos geradores ocorridos após 12/2008, aplicase apenas a multa de ofício. Contudo, no que diz respeito à multa de mora aplicada até 12/2008, com base no artigo 35 da Lei nº 8.212/91, tendo em vista que o artigo 106 do CTN positiva o princípio da retroatividade benigna, impõese o cálculo da multa com base no artigo 61 da Lei nº 9.430/96, que estabelece multa de 0,33% ao dia, limitada a 20%, em comparativo com a multa aplicada com base na redação anterior do artigo 35 da Lei 8.212/91, para determinação e prevalência da multa mais benéfica, no momento do pagamento. Conclusão. Ante o exposto, voto por reconhecer a decadência do lançamento tributário até a competência 11/2004, inclusive e, no mérito, dar parcial provimento ao recurso para determinar o recálculo da multa de mora do saldo remanescente, de acordo com o disposto no art. 35, caput, da Lei nº 8.212/91, na redação dada pela Lei nº 11.941/2009 (art. 61, da Lei no 9.430/96), prevalecendo o valor mais benéfico ao contribuinte. (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Relator Fl. 229DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 230 13 Voto Vencedor Conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Redatora Designada Com a devida vênia, divirjo do i. Conselheiro relator quanto ao seu posicionamento, no que toca ao recálculo da multa para aplicação da multa mais benéfica, nos termos do art. 106, do CTN. Entendeu o i. Relator que na aplicação da retroatividade benigna a multa deve se limitar a 20%, conforme art. 35, da Lei nº 8.212/91 com a redação dada pela Lei nº 11.941/2009. Nesse ponto tenho que discordar de tal posicionamento. Sobre a matéria, é elucidativo o voto proferido pela Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, no Acórdão CSRF nº9202004.006: Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art.35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da Fl. 230DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 231 14 declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1º Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2º Observado o disposto no § 3º deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3º A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Fl. 231DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 232 15 Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. No presente caso, conforme consta do relatório, foi feito o comparativo entre a sistemática anterior 24% e o AIOA, e a multa atual do art. 35A, justamente aplicandose aquela que fosse mais benéfica ao recorrente no momento da lavratura. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. (...) Para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. No caso destes autos, de lançamento de ofício, na autuação, não foi efetuado esse comparativo entre a sistemática anterior e a multa atual. Assim, cabe aqui fazer o comparativo das multas, da seguinte forma: Legislação anterior Legislação atual Art.35, inciso II (obrigação principal: lançamento de ofício por falta de pagamento) Art.32, §5º (obrigação acessória: falta de declaração/declaração inexata) Art. 35A (lançamento de ofício) c/c art. 44 (obrigação principal +obrigação acessória: lançamento de ofício por falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração ou de declaração inexata Com a maxima venia, entendo que não cabe a comparação da multa de 24%, da regra anterior, com a multa de 20%, da nova regra, pois são multas aplicadas em relação a fatos distintos: enquanto a multa de 24% era aplicada de ofício, por meio de uma Notificação Fiscal de Lançamento de Débito (NFLD), a multa de 20% incide sobre pagamento espontâneo, feito em atraso. Fl. 232DF CARF MF Processo nº 16327.001463/200992 Acórdão n.º 2202004.716 S2C2T2 Fl. 233 16 Dessa forma, para a aplicação da multa mais benéfica, nos termos do art. 106 do CTN, o comparativo de multas deve seguir o disposto na Portaria PGFN/RFB nº 14/2009. Pelo exposto, é de se dar provimento parcial ao recurso, determinando o recálculo a multa aplicando a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. É como voto. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Fl. 233DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13558.721037/2013-43
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Oct 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Nov 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2010
OMISSÃO DE RENDIMENTOS.
As retificações na DIRPF devem ser feitas pelo contribuinte antes de iniciada a ação fiscal, especialmente quanto aos rendimentos tributáveis e despesas.
Numero da decisão: 2002-000.461
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente.
(assinado digitalmente)
Virgílio Cansino Gil - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil e Thiago Duca Amoni. Ausente justificadamente a conselheira Mônica Renata Mello Ferreira Stoll.
Nome do relator: VIRGILIO CANSINO GIL
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As retificações na DIRPF devem ser feitas pelo contribuinte antes de iniciada a ação fiscal, especialmente quanto aos rendimentos tributáveis e despesas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente. (assinado digitalmente) Virgílio Cansino Gil Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil e Thiago Duca Amoni. Ausente justificadamente a conselheira Mônica Renata Mello Ferreira Stoll. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 55 8. 72 10 37 /2 01 3- 43 Fl. 62DF CARF MF Processo nº 13558.721037/201343 Acórdão n.º 2002000.461 S2C0T2 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fls. 57/58) contra decisão de primeira instância (fls. 48/52), que julgou improcedente a impugnação do sujeito passivo. Em razão da riqueza de detalhes, adoto o relatório da r. DRJ, que assim diz: Contra o contribuinte, acima identificado, foi lavrada Notificação de Lançamento – Imposto sobre a Renda de Pessoa Física – IRPF, fls. 21/25, relativo ao anocalendário 2010, exercício 2011, para formalização de exigência e cobrança de imposto suplementar (2904) no valor de R$ 5.957,58, multa de ofício no valor de R$ 4.468,18 e juros de mora calculados até 31/05/2013. As infrações apuradas pela Fiscalização, relatadas na Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal, fls. 23. Inconformado com a exigência, da qual foi cientificado por via postal, com Aviso de Recebimento (fls. 20), em 31/05/2013, o contribuinte apresentou impugnação em 28/06/2013, fls. 08/10, alegando o que se segue: 1 DOS FATOS: No dia 20 de abril de 2013 foi notificado o senhor GILBERTO SOUZA MOUZINHO, para prestar informações acerca da sua declaração de imposto de renda referente ao ano base 2010. Em razão disto, foi realizado e protocolado, tempestivamente, no dia 29 de abril de 2013, termo de atendimento n° 2011/10000096294 (em anexo), no qual o contribuinte explica as razões do equívoco, anexando junto ao referido termo os comprovantes de todos os rendimentos recebidos pelo mesmo e/ou seus dependentes no referido ano de 2010, bem como seus documentos de identificação, além dos documentos que demonstram despesas com empregada doméstica, plano de saúde (seu e de seus dependentes, que são inclusos na fonte pagadora SSP/BA). Ocorre que não foram consideradas as despesas com a empregada doméstica e plano de saúde (PLANSERV) e em razão disso foi emitida e recebida no dia 03 de maio de 2013 notificação de lançamento (2011/778555461280660) onde consta imposto suplementar de R$ 5.957.58. Tratase como já foi exposto acima de um simples equívoco. Como será explicado logo abaixo: 2 DO DIREITO: De fato, a declaração do imposto de renda do ano de 2010/2011, foi realizada, porém incompleta, com a omissão das despesas referentes à empregada doméstica e plano de saúde PLANSERV, não por máfé, mas fatos alheios à vontade do Fl. 63DF CARF MF Processo nº 13558.721037/201343 Acórdão n.º 2002000.461 S2C0T2 Fl. 4 3 contribuinte, que foi o falecimento de sua esposa Eunice Maria Nunes Mouzinho a qual era responsável pelo recolhimento desses documentos, mesmo assim a declaração fora feita para posterior retificação, não sendo possível, até a presente data, em razão do impedimento da declaração retificadora espontânea, pois o procedimento estava sob fiscalização. Em sua justificativa, no termo de atendimento realizado pelo contribuinte, onde consta todas as despesas e receitas do mesmo, não foram consideradas pelas autoridades competentes as deduções referentes às despesas com o plano de saúde e empregada doméstica (documentos em anexo), apesar dessas despesas serem comprovadas mediante documentos anexos no referido termo. Em razão do equívoco na análise do termo de atendimento n° 2011/10000096294 foi gerada notificação de lançamento 2011/778555461280660 onde consta o imposto de renda pessoa física suplementar no valor de R$ 5.957,58 (cinco mil novecentos e cinqüenta e sete reais e cinqüenta e oito centavos). De fato, considerando as despesas com empregada doméstica e plano de saúde (PLANSERV), o imposto justo a ser pago é de R$3.278.16 (três mil, duzentos e setenta e oito reais e dezesseis centavos) conforme comprovantes em anexo, fls. 3 DO PEDIDO: Ante o exposto requer que seja recalculado o imposto devido. Termos em que, Pede deferimento. Foram anexados os documentos de folhas 11/15. O resumo da decisão revisanda está condensado na seguinte ementa do julgamento: MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte, devendo ser declarada definitiva, na esfera administrativa, a exigência do crédito tributário lançado. COMPETÊNCIA PARA APRECIAÇÃO DE PEDIDO DE RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÃO. Por falta de competência, excetuada a situação de erro de fato, o julgador da DRJ não pode apreciar pedido de retificação de declaração, mormente se o pedido objetiva alteração de rendimentos tributáveis. Fl. 64DF CARF MF Processo nº 13558.721037/201343 Acórdão n.º 2002000.461 S2C0T2 Fl. 5 4 Inconformado, o contribuinte apresentou Recurso Voluntário, requerendo o cancelamento do débito fiscal. É o relatório. Passo ao voto. Voto Conselheiro Virgílio Cansino Gil Relator Recurso Voluntário aviado a modo e tempo, portanto dele conheço. O contribuinte foi cientificado em 27/06/2016 (fl. 55); Recurso Voluntário protocolado em 26/07/2016 (fl. 57), assinado pelo próprio contribuinte. Responde o contribuinte nestes autos, pela Omissão de Rendimentos do Trabalho Com Vínculo e/ou Sem Vínculo Empregatício. O v. acórdão houve por bem julgar improcedente a impugnação, no seguinte entendimento: “Em sua defesa, o contribuinte não contesta a infração Omissão de Rendimentos no valor de R$ 156.448,53”. Requerendo apenas que sejam considerados que sejam considerados despesas com plano de saúde e contribuição previdenciária do empregador doméstico. Assim, nesta esteira, a r. decisão revisanda julgou improcedente a impugnação, em razão da matéria não impugnada, correspondente a infração cometida. Irresignado, o recorrente maneja recurso próprio, aduzindo razões preliminares e combatendo o mérito. A preliminar lançada pelo recorrente, se confunde com o mérito e com ele será apreciada. Em sua peça de resistência, diz o recorrente, que tanto o seu rendimento (R$ 156.448,53), como as despesas (R$ 16.195,95 e R$ 7.314,96 da Previdência Oficial e Plano de Saúde – Plaserv), retidos na fonte pagadora do mesmo, não foram considerados no cálculo. Pois bem, a impugnação nº 2011/40000007426 (fl. 1) dos autos, o contribuinte diz não se conformar com a Notificação de Lançamento em referência e apresenta a impugnação nos termos dos artigos 14 a 17 e 23 do Decreto nº 70.235/72, com alterações introduzidas pelas leis nº 8.748/93 e nº 9.532/97, pelos motivos a seguir expostos: Infração: Omissão de Rendimentos do Trabalho Com Vínculo e/ou Sem Vínculo Empregatício/CNPJ: 13.937.149/000143. Valor da infração R$ 156.448,53. O documento de fl. 59 informa que a fonte pagadora é da Secretária de Segurança Pública – SSP/BA – Salvador e que os valores recebidos, são rendimentos do trabalho assalariado no valor de R$ 156.448,53, com imposto de renda retido de R$ 28.111,65. No cálculo elaborado pela Fazenda para apuração do IR após a inclusão do rendimento sonegado (fl.24) já contemplou a despesa com previdência oficial no valor de R$ 16.195,95, portanto, nada a deferir ao recorrente. Fl. 65DF CARF MF Processo nº 13558.721037/201343 Acórdão n.º 2002000.461 S2C0T2 Fl. 6 5 Quanto a suposta despesa médica com a “Planserv” no valor de R$ 7.314,96, constante do informe de rendimentos de fl. 59 no campo “Informações Complementares”, não prova nos autos que se trata de efetiva despesa médica, tampouco quem seria seu beneficiário. Assim, à mingua de prova, correta a Fazenda ao não considerar referido valor como despesa médica. Isto posto, e pelo que mais consta dos autos, conheço do Recurso Voluntário, e no mérito negase provimento. É como voto. (assinado digitalmente) Virgílio Cansino Gil Fl. 66DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10715.004977/2010-83
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Dec 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Ano-calendário: 2007
PENALIDADE. LEGISLAÇÃO ADUANEIRA. PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÕES EXIGIDAS PELA RFB. PRAZO DE REGISTRO DADOS EMBARQUE. DESCUMPRIMENTO.
A multa prescrita no art. 107, inciso IV, alínea 'e', do Decreto-Lei nº 37/66 referente ao atraso no registro dados de embarque de mercadorias, destinadas à exportação no SISCOMEX, é cabível quando o atraso for superior a 07 (sete) dias, nos termos da IN SRF nº 1.096/2010.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3402-005.881
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário para negar-lhe provimento, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente e Relator.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Cynthia Elena de Campos, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodrigo Mineiro Fernandes e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado em substituição a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz). Ausente, justificadamente, a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz.
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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ementa_s : Assunto: Obrigações Acessórias Ano-calendário: 2007 PENALIDADE. LEGISLAÇÃO ADUANEIRA. PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÕES EXIGIDAS PELA RFB. PRAZO DE REGISTRO DADOS EMBARQUE. DESCUMPRIMENTO. A multa prescrita no art. 107, inciso IV, alínea 'e', do Decreto-Lei nº 37/66 referente ao atraso no registro dados de embarque de mercadorias, destinadas à exportação no SISCOMEX, é cabível quando o atraso for superior a 07 (sete) dias, nos termos da IN SRF nº 1.096/2010. Recurso Voluntário Negado.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário para negar-lhe provimento, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra - Presidente e Relator. Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Cynthia Elena de Campos, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodrigo Mineiro Fernandes e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado em substituição a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz). Ausente, justificadamente, a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz.
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LEGISLAÇÃO ADUANEIRA. PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÕES EXIGIDAS PELA RFB. PRAZO DE REGISTRO DADOS EMBARQUE. DESCUMPRIMENTO. A multa prescrita no art. 107, inciso IV, alínea 'e', do DecretoLei nº 37/66 referente ao atraso no registro dados de embarque de mercadorias, destinadas à exportação no SISCOMEX, é cabível quando o atraso for superior a 07 (sete) dias, nos termos da IN SRF nº 1.096/2010. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário para negarlhe provimento, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente e Relator. Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Cynthia Elena de Campos, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodrigo Mineiro Fernandes e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado em substituição a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz). Ausente, justificadamente, a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 71 5. 00 49 77 /2 01 0- 83 Fl. 427DF CARF MF 2 Trata o presente processo de Auto de Infração lavrado contra a empresa SOCIÉTÉ AIR FRANCE (fls. 3/10), para constituição de crédito tributário referente à multa regulamentar no valor de R$ 35.000,00, decorrente da prestação intempestiva de informações relativas a 07 embarques aéreos realizados no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. Segundo a Fiscalização, a Recorrente registrou intempestivamente os dados de embarque de mercadorias, relativos aos Despachos de Exportação (DDE) relacionados na planilha juntada à fl. 11 (informações extraídas do SISCOMEX EXPORTAÇÃO), descumprindo dessa forma a obrigação acessória prevista no art. 37 da Instrução Normativa SRF n° 28, de 1994, com a redação dada pela Instrução Normativa SRF nº 510, de 2005, sujeitandose por essa infração à multa prevista na alínea 'e' do inciso IV do art. 107 do Decretolei n° n° 37, de 1966, com a redação dada pelo art. 77 da Lei n° 10.833, de 2003. Em seu Relatório, afirma o Fisco que a obrigação do transportador encontra se estabelecida no art. 37 do Decretolei, com observância do prazo estipulado no art. 39, inciso II, da Instrução Normativa SRF nº 28, de 1994. Que o referido prazo deveria ser observado pelo transportador, por veículo, cada um identificado pelo respectivo vôo, em que se transportaram as cargas amparadas pelas Declarações de Exportação (DDE). Cientificado do Auto de Infração, a Recorrente apresentou Impugnação e requereu o cancelamento do lançamento, alegando (i) erro na tipificação do auto de infração, (ii) ausência de prova da intempestividade, (iii) prova imperfeita em razão de indisponibilidades do Siscomex, (iv) inexistência de embaraço à fiscalização, (v) violação da finalidade do ato administrativo e (vi) violação à proporcionalidade e à razoabilidade. Na decisão de piso (prolatada pela DRJ em Florianópolis/SC), destacou o julgador administrativo que a IN RFB nº 1.096/2010, alargara para sete dias o prazo para a prestação das informações de embarque, em razão do que afastaramse as parcelas da multa exigidas com base no prazo de dois dias, tendo em vista o contido no art. 106, II, do Código Tributário Nacional (retroatividade benigna), sendo mantido o crédito tributário de R$ 15.000,00. Quanto às demais alegações do contribuinte, a Delegacia de Julgamento afastouas, ora por falta de comprovação, ora em razão da necessária observância do princípio da legalidade por parte da Administração Pública, cuja atividade é vinculada e obrigatória. Cientificado da decisão em 13/08/2012 e, não concordando, interpôs em 05/09/2012, o Recurso Voluntário em que reitera seu pedido de cancelamento total do Auto de Infração, repisando os argumentos de defesa apresentados na Impugnação, resumido nas seguintes razões: 1) o Auto de Infração foi lavrado com base em incorreta tipificação dos fatos, bem como em incorreta adequação dos fatos à norma; 2) ausência de provas, o Auto de Infração lavrado não foi instruído com qualquer documento que comprove a infração imputada à mesma, caracterizando a não ocorrência do fato gerador da multa, bem como o cerceamento do direito de defesa; 3) após alterações do §2º do art. 102 do Decretolei nº 37/1966 pela Lei nº 12.350/2010, o instituo da denuncia espontânea passou a excluir não somente as penalidades de natureza tributária, mas também as penalidades administrativas; 4) prova imperfeita, o SISCOMEX inegavelmente apresenta falhas técnicas (reproduz no corpo recurso) que, por diversas vezes, geram sua indisponibilidade por horas ou Fl. 428DF CARF MF Processo nº 10715.004977/201083 Acórdão n.º 3402005.881 S3C4T2 Fl. 428 3 mesmo dias e impedem a inserção de dados de embarque de mercadorias, não podendo a Recorrente arcar com pesadas multas em virtude de um atraso que ela não deu causa; 5) inexistência de embaraço a fiscalização e violação à finalidade do ato admnistrativo; 6) violação do princípio da proporcionalidade e da razoabilidade; e 7) a fiscalização agiu em desacordo com os dispostos nos artigos 63 e 65, da Lei nº 5.025/1966. Junto ao Recurso Voluntário, trouxe aos autos cópias de acórdãos do CARF sobre a matéria e de um Ofício do SERPRO, datado de 11/11/2011, informando sobre as indisponibilidades ocorridas no sistema SISCOMEX durante o ano 2004. Os autos, então, foram encaminhados a este CARF para análise do recurso que proferiu o Acórdão nº 3803006.275 (3ª Turma Especial), sessão de 22/07/2014 (fls. 192/198), que no voto condutor, o Relator aduz que "Considerando que as informações foram prestadas intempestivamente pelo Recorrente mas antes de qualquer atividade da fiscalização e alguns dias depois das datas dos vôos em que as mercadorias exportadas foram transportadas, temse que nenhuma das exceções acima referenciadas se aplica ao presente caso". Ao final, o Colegiado decide que no caso sob análise, no momento da prestação de informações pelo transportador, as Declarações de Exportação já haviam sido apresentadas, restringindose a obrigação acessória aos registros dos embarques no SISCOMEX, medida essa de controle meramente administrativo, o que em nada afeta o cumprimento das obrigações tributárias principais. E conclui da seguinte forma (fl. 192): "Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso, para cancelar o auto de infração. Vencido o conselheiro Corintho Oliveira Machado que negava provimento". (Grifei) Cientificada do Acórdão mencionado o Representante da Fazenda Nacional apresentou Recurso Especial suscitando divergência quanto à exoneração da penalidade em comento por aplicação da denúncia espontânea prevista no art. 102, § 2º, do Decretolei nº 37/1966, com a nova redação dada pela Lei nº 12.350/2010. Ao julgar o caso, a 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais deste CARF (Acórdão nº 9303003.764, de 26/04/2016, fls. 338/346), deu provimento parcial ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, afastando a possibilidade de aplicação do instituto da denúncia espontânea às penalidades infligidas pelo descumprimento de deveres instrumentais, como os decorrentes da inobservância dos prazos fixados pela RFB para a prestação de informações à administração aduaneira. Na mesma decisão, determinou que os autos fossem remetidos novamente às Turmas Ordinárias (TO) para apreciação e deliberação dos demais argumentos apresentados pelo Contribuinte em seu recurso. O contribuinte opôs Embargos de Declaração cuja a admissibilidade foi negada por despacho do Presidente do CARF. Fl. 429DF CARF MF 4 Por fim, cabe informar que a empresa recorreu ao Poder Judiciário e a Fazenda Nacional (PGFN) recorreu da liminar concedida, culminando que o Tribunal Regional Federal da 1ª Região TRF01, proferiu decisão no Agravo de Instrumento nº 1005165 84.2016.4.01.0000 (Processo Referência: 100696887.2016.4.01.3400), em que restou cassada a liminar concedida do MS 100696887.2016.4.01.3400, impetrada pela SOCIETE AIR FRANCE (fls. 377/425). Os autos foram distribuídos à esta Turma Ordinária, para relatoria do feito. É o relatório. Voto Conselheiro Waldir Navarro Bezerra, Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido por este Colegiado. Como se verifica no relatório, apenas o argumento relativo à aplicação da denúncia espontânea em relação a penalidades decorrentes do descumprimento de obrigações acessórias foi enfrentado no Acórdão proferido pela 3ª Turma da CSRF, justamente por ter sido o fio condutor do Acórdão proferido na Turma Especial, que deixou de deliberar sobre os demais pontos abordados, a despeito do Relator têlos citados em seu acórdão. Desse modo, cabe a este Colegiado discutir, apenas os demais argumentos aduzidos no Recurso Voluntário da Recorrente. Como relatado, a Recorrente alega em sua Impugnação e repisa no Recurso Voluntário que (i) o Auto de Infração foi lavrado com base em incorreta tipificação, bem como em incorreta adequação dos fatos à norma; (ii) falta de prova, o Auto de Infração lavrado não foi instruído com qualquer documento que comprove a infração imputada à mesma, caracterizando o cerceamento do direito de defesa; (iii) com as alterações do §2º do art. 102 do DecretoLei nº 37/1966 pela Lei nº 12.350/2010, o instituo da denuncia espontânea passou a excluir não somente as penalidades de natureza tributária, mas também as penalidades administrativas; (iv) o SISCOMEX inegavelmente apresenta falhas técnicas que impedem a inserção de dados de embarque de mercadorias; (v) inexistência de embaraço a fiscalização; (vi) violação do princípio da proporcionalidade e da razoabilidade e (vii) aplicação do disposto nos art. 63 e 65 da Lei nº 5.025/66. Ressaltase que o argumento da ocorrência de direito superveniente, autorizando a aplicação do instituto da denúncia espontânea às multas administrativas (item (iii) do tópico acima), matéria esta que já foi enfrentada e decidido pelo seu afastamento pelo Acórdão proferido pela 3ª Turma da CSRF. 1. Da alegada Nulidade do lançamento Quanto ao argumento sustentado pela Recorrente que é nulo o lançamento, ao fundamento que ocorreu erro na tipificação do Auto de Infração e também que não haveria provas do cometimento da infração, entendo que nos dois argumentos não assiste razão à Recorrente, explico. Vejase o que alega a Recorrente em seu recurso: Fl. 430DF CARF MF Processo nº 10715.004977/201083 Acórdão n.º 3402005.881 S3C4T2 Fl. 429 5 Pois bem. Verificase no Auto de Infração, no quadro "Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal" (fl. 5/6 dos autos), que a Fiscalização enquadrou a infração na alínea 'e' do inciso IV do art. 107 do Decretolei nº 37, de 1966, na redação conferida pela Lei n.º 10.833, de 2003, que tipifica a conduta de deixar de prestar as informações requeridas, na alínea “c” do mesmo dispositivo, combinado com dispositivos da IN/SRF nº 28/1994 e IN/SRF nº 510/2005. Vejase: Art. 107. Aplicamse ainda as seguintes multas: (...) IV – de R$ 5.000,00 (cinco mil reais): (...) c) a quem, por qualquer meio ou forma, omissiva ou comissiva, embaraçar, dificultar ou impedir ação de fiscalização aduaneira, inclusive no caso de não apresentação de resposta, no prazo estipulado, a intimação em procedimento fiscal; (...) e) por deixar de prestar informação sobre veiculo ou carga nele transportada, ou sobre as operações que execute, na forma e no prazo estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, aplicada à empresa de transporte internacional, inclusive a prestadora de serviços de transporte internacional expresso porta a porta, ou ao agente de carga. (Grifei) Como pode ser visto, o alegado enquadramento incorreto não se verifica. De outra forma, a multa em apreço é decorrente, tãosomente, da impontualidade da interessada quanto ao cumprimento da obrigação acessória de que trata a alínea 'e1 do inciso IV do art. 107 do Decretolei n° 37, de 1966, infração essa que, se não informada, seria passível de conhecimento pela autoridade aduaneira. Portanto, perfeitamente tipificada e enquadramento da a infração à norma. Continua a Recorrente, aduzindo que, "(...) No entanto, tal planilha não possui valor probatório algum para fins de apuração da infração imputada á Recorrente (...)". Por outro lado, vejase o consignado no texto do Auto de Infração (fl. 5): "001 NÃO PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO SOBRE VEICULO OU CARGA TRANSPORTADA, OU SOBRE OPERAÇÕES QUE EXECUTAR Fl. 431DF CARF MF 6 No exercício das funções de Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil, conforme dispõe o art. 147, do DecretoLei 37/66, regulamentado pelo art. 203, inciso VI, da Portaria MF n. 2 125, de 4 de março de 2009, com vistas à verificação do cumprimento da obrigação acessória disposta no art 37, da IN/SRF n. 2 28/1994, alterado pelo art.1º, da IN/SRF nº 510/2005, foram apurados registros de dados de embarque intempestivos, referentes aos transportes internacionais realizados em Outubro de 2007 no Aeroporto Internacional do Rio de JaneiroALF/GIG". (Grifei) Quanto a alegação de que não haveria provas do cometimento da infração, resta constatado nos autos que os dados que embasaram o lançamento, estão relacionados no demonstrativo de fl. 11, separado por numero de DDE, data do Embarque, Data da Informação e nº do Vôo, sendo que tais informações foram extraídas do Sistema Integrado de Comércio Exterior (SISCOMEX, módulo EXPORTAÇÃO), um Sistema de controle informatizado que reflete, num único ambiente, onde permanecem gravadas todas as informações relativas ao comércio exterior (incluindo o registro de embarque de mercadorias destinadas ao exterior) e no qual é exercido o controle governamental do Brasil, a partir inclusive, de informações registradas pelos próprios importadores, exportadores, depositários e transportadores, por seus empregados ou representantes legais. Alega também a Recorrente que o SISCOMEX inegavelmente apresenta falhas técnicas que, por diversas vezes, geram sua indisponibilidade por horas ou mesmo dias e impedem a inserção de dados de embarque de mercadorias, não podendo a Recorrente arcar com pesadas multas em virtude de um atraso que ela não deu causa. Ora, se houve alguma das informações relacionadas na planilha de forma incorreta, é ônus da Recorrente demonstrar, trazendo aos autos as provas documentais que comprovem o erro supostamente cometido pela Fiscalização. Afinal, conforme conhecido brocardo jurídico, alegar e não provar é o mesmo que não alegar, devendo o julgador observar as regras de distribuição do ônus probatório. Contudo, a Recorrente nada trouxe que infirmasse qualquer das informações encartadas no demonstrativo elaborado à fl. 11. Quanto ao alegado que o Auto de Infração lavrado não foi instruído com qualquer documento que comprove a infração imputada à mesma, caracterizando o cerceamento do direito de defesa, verificase que o Auto de Infração foi lavrado por autoridade competente e teve origem em auditoria realizada pela Fiscalização da RFB, detalhada no Auto de Infração, onde consta a motivação para o lançamento e as provas que conduziram a autoridade fazendária a sua lavratura. A Recorrente foi cientificada da exigência fiscal e apresentou Impugnação que foi apreciada em julgamento realizado na primeira instância. Irresignada com o resultado do julgamento da autoridade a quo, a Recorrente protocolou recurso voluntário, rebatendo as posições adotadas no acórdão recorrido, combatendo as razões de decidir daquela autoridade, portanto, as motivações para o lançamento, bem como, as do julgamento na primeira instância foram claramente identificadas. Com todo este histórico de discussão administrativa, não se pode falar em cerceamento de direito de defesa ou quaisquer outros vícios no lançamento ou no julgamento da primeira instância, uma vez que todo o procedimento previsto no Decreto nº 70.235/72, foi observado, tanto no lançamento tributário, como no curso do devido processo administrativo fiscal. Assim, a nulidade alegada pela Recorrente quanto ao possível erro de enquadramento legal da penalidade não deve prosperar, haja vista que o tipo infracional está perfeitamente descrito na norma e se coaduna com o fato ocorrido, qual seja, o atraso na Fl. 432DF CARF MF Processo nº 10715.004977/201083 Acórdão n.º 3402005.881 S3C4T2 Fl. 430 7 prestação dos dados pertinentes ao embarque da mercadoria. No mesmo sentido verificase que as informações das datas foram extraídas do Sistema de controle de exportação, o SISCOMEX. 2. Do valor da multa e da retroatividade benigna No julgamento de piso, o julgador administrativo destacou que a IN RFB n.º 1.096/2010 alargara para 07 (sete) dias o prazo para a prestação das informações de embarque, em razão do que afastaramse as parcelas da multa exigidas com base no prazo de 02 (dois) dias, tendo em vista o contido no art. 106, II, do Código Tributário Nacional (retroatividade benigna), sendo mantido o crédito tributário de R$ 15.000,00. Da análise da tabela acostada aos autos de fl. 11, temse que o lançamento só poderia vigorar em relação às Declarações de Despacho de Exportação DDE, cujos embarques foram efetuados e informados nos seguintes dias: 14/10/2007; 18/10/2007 e 30/10/2007, visto que ultrapassado o prazo de 07 dias estabelecido para o registro no SISCOMEX, conforme o estabelecido no artigo 37 da IN SRF nº 28/94 (redação dada pela IN RFB no 1.096, de 13/12/2010), sendo exoneradas as penalidades em que a prestação de informações ocorreu em prazo inferior. Assim, sem reparos a decisão a quo, uma vez que encontrase correto o critério utilizado para aplicação da penalidade, ao considerar que o valor de R$ 5.000,00 deve ser exigido em relação a cada veículo transportador, ou seja, por embarque/vôo, o que resultou em 03 vôos, no caso em apreço, resultando no valor de R$ 15.000,00. 3. Da alegada prova imperfeita falhas técnicas do SISCOMEX Aduz em seu recurso que o SISCOMEX inegavelmente apresenta falhas técnicas que, por diversas vezes, geram sua indisponibilidade por horas ou mesmo dias e impedem a inserção de dados de embarque de mercadorias. No que diz respeito ao argumento que atribui à ocorrência de problemas no SISCOMEX como sendo motivador do registro dos dados de embarque fora do prazo fixado, tenhoo como daqueles que não transcende de si mesmo, é genérico e desprovido de elementos de prova, e dessa ocorrência não se teve notícia concreta nos autos. Como já asseverado, não basta sustentar que falhas ocorreram no aludido sistema e exemplificálas descrevendo algumas que se teriam verificado inclusive em períodos anteriores ao que ocorreram os embarques das mercadorias objeto dos autos. Assim, a pretensão calçada nesse argumento não tem como prosperar no sentido de afastar a aplicação da multa ora litigada. No que se refere às alegações quanto às informações da Fiscalização de que as datas informadas como sendo do registro dos dados de embarque seriam, na verdade, as datas das averbações ou que as mesmas não refletem as tentativas de registros por parte da transportadora, também são desprovidas de comprovação nos autos. Sobre os argumentos de problemas existentes no registro das informações, as mesmas não foram comprovadas de forma que pudessem afastar a exigência do cumprimento do prazo em questão. Ainda que as decisões administrativa e judicial trazidas aos autos para sustentar sua tese não vincule o julgador, é de se destacar que as ementas aludem à necessária comprovação das falhas no SISCOMEX. Quanto a informação trazido pelo Ofício Resposta expedido pelo SERPRO, oriundo de pedidos judiciais efetuado pela Recorrente, que revela os casos de inconsistência e do desempenho da unidade de monitoração do sistema SISCOMEX, o referido Órgão de Fl. 433DF CARF MF 8 processamento de dados apresentou a relação de panes registradas ao longo do ano de 2004, ou seja, período distinto do discutido nesses autos que é referente ao ano de 2007 (fls. 184/190). Com relação às alegações no tocante à aplicação da IN RFB n.º 835/2008, que trata de normas de contingência, é de se destacar que referida norma traz em seu bojo as situações em que se aplicaria e, principalmente, os ritos para que se contingenciassem problemas de origem técnica determinando procedimentos a serem cumpridos pelos interessados. E como se vê da análise dos autos, nada consta que tais procedimentos tenham sido adotados no período da autuação em relação à autuada. Por fim, no que respeita ao encargo de se provar o que se alega, de se ver o disposto no inciso III do art. 16 do Decreto n° 70.235, de 06 de março de 1972, que diz: Art. 16. A impugnação mencionará: III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir: (redação dada pelo art. 1º da Lei n° 8.748, de 1993) Grifei 4. Da alegada inexistência de embaraço à fiscalização A Recorrente alega a inexistência de embaraço à fiscalização, desoneração às exportações e violação á finalidade do Ato administrativo. Cabe ressaltar que na vigência da IN SRF nº 28, de 1994, a inobservância da obrigação estabelecida no seu art. 37, era entendida pela RFB como caracterizadora de embaraço à atividade de fiscalização aduaneira, conforme disposto em seu art. 44. No entanto, a partir da edição da MP nº 135/2003, convertida na Lei nº 10.833, de 2003, foi estabelecida para o transportador a obrigação de “prestar à Secretaria da Receita Federal, na forma e no prazo por ela estabelecidos, as informações sobre as cargas transportadas”, como se verifica da redação emprestada ao art. 37 do Decretolei nº 37, de 1966 pelo art. 77 da Lei nº 10.833/2003: “Art. 77. Os arts. 1º, 17, 36, 37, 50, 104, 107 e 169 do DecretoLei nº 37, de 18 de novembro de 1966, passam a vigorar com as seguintes alterações: Art. 37. O transportador deve prestar à Secretaria da Receita Federal, na forma e no prazo por ela estabelecidos, as informações sobre as cargas transportadas, bem como sobre a chegada de veículo procedente do exterior ou a ele destinado". Posto isto, com a entrada em vigor dessa nova norma legal, o descumprimento da obrigação de prestar à RFB, na forma e no prazo por ela estabelecidos, as informações sobre as cargas transportadas, passou a ser cominada com a multa de R$ 5.000,00, prevista no inciso IV, “e”, do art. 107 do Decretolei nº 37/1966, e não mais aquela prevista por embaraço, que veio a ser tipificada no inciso IV, “c”. Portanto, ainda que a IN SRF nº 28/94, como alega, possa definir o atraso como embaraço, o Decreto Lei n.º 37/66, com a redação da Lei n.º 10.833/2003, previu multa específica para a intempestividade na prestação das referidas informações. Assim, para a caracterização de ilícito sujeito à aplicação da referida multa, há que ser apurado o descumprimento da obrigação, o que implica, no caso, a inobservância de Fl. 434DF CARF MF Processo nº 10715.004977/201083 Acórdão n.º 3402005.881 S3C4T2 Fl. 431 9 prazo fixado pela Administração Tributária para a apresentação dos dados relativos ao embarque. Por fim, tendo em vista o princípio da legalidade a que está sujeito o Ato administrativo, é de se afastar, também, as alegações quanto à inexistência de embaraço à fiscalização e os demais argumentos quanto à desoneração às exportações, violação à finalidade do ato administrativo e que não houve prejuízo ao interesse público, pois nenhum tributo teria deixado de ser recolhido. 5. Violação à proporcionalidade e à razoabilidade caráter confiscatório da multa O argumento de que a multa viola princípios constitucionais não pode ser apreciado pelo julgador administrativo, pois falece competência aos agentes administrativos para afastar a aplicação de dispositivos legais plenamente vigentes. Para que incida a penalidade em questão, basta que se configure a situação fática eleita pelo legislador para a sua aplicação, sendo absolutamente desnecessária qualquer consideração Além disso, quanto ao argumento de desproporcionalidade e da razoabilidade, a única possibilidade de não aplicação da multa seria pela declaração de inconstitucionalidade da mesma, o que é vedado expressamente pelo artigo 26A do Decreto nº 70.235/72 e pela Súmula CARF nº 02, de observância obrigatória por parte deste Colegiado. Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Nesse diapasão, quanto à aplicação dos princípios da proporcionalidade, da razoabilidade e do não confisco, cabe destacar que uma vez materializada a hipótese de incidência prevista na norma penal, é defeso à Fiscalização aduaneira, à luz dos mencionados princípios, mitigar a aplicação da penalidade imposta pela legislação, eis que a atividade administrativa do lançamento é vinculada e obrigatória, devendo a fiscalização aplicar a sanção em sua inteireza conforme determina a norma legal, em atendimento ao preceito contido no parágrafo único do art. 142 do Código Tributário Nacional, in verbis: Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. 6. Da aplicação do disposto nos art. 63 e 65 da lei nº 5.025/66. Por fim, em seu recurso a Recorrente sustenta que: Muito embora seja um argumento inovador no recurso, analisase a aplicabilidade dos referidos artigos da Lei nº 5.025/66: Fl. 435DF CARF MF 10 Art. 63. Ficam os órgãos responsáveis pela fiscalização de embarque obrigados a prestar os mais amplos esclarecimentos sobre os direitos e deveres dos exportadores, bem como dar a necessária assistência à realização normal das operações de exportação, tendo em vista os objetivos da presente lei. Art. 65. Quando ocorrerem, na exportação, erros ou omissões caracteristicamente sem a intenção de fraude e que possam ser de imediato corrigidos, a autoridade responsável pela fiscalização alertará o exportador e o orientará sobre a maneira correta de proceder. Repisese que encontrase correta a tipificação com base no art.107, IV, "e", do DecretoLei37/66, afinal deixaram de ser registrados os embarques no prazo normativo, por deixar de prestar informação sobre veículo ou carga nele transportada, ou sobre as operações que execute, na forma e no prazo estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, aplicada à empresa de transporte internacional, inclusive a prestadora de serviços de transporte internacional expresso porta porta, ou ao agente de carga; Portanto, não assiste razão as alegações de violação à proporcionalidade, razoabilidade ou isonomia, porquanto se tratar de obrigação de fazer, ensejando o seu descumprimento o apenamento previsto no ordenamento legal (multa de R$ 5.000,00 por fato gerador), não havendo de se falar em ausência de prejuízo ou boafé. É dever da empresa tomar conhecimento das leis e normas vigentes, e à Fiscalização cabe autuar o infrator no caso de cometimento de irregularidade encontrada, tal como ocorrido à espécie, ao passo que os invocados artigos 63 e 65 da Lei nº 5.025/66, em nenhum momento não eximem o transgressor da multa aplicada (obrigação de fazer). Em outras palavras, havendo previsão na legislação aduaneira para o registro do embarque, a omissão ou registro a destempo, por si só, têm o condão de lastrear a sanção imputada. Ademais, como citado acima, a atividade administrativa do lançamento é vinculada e obrigatória, devendo a Fiscalização aplicar a sanção em sua inteireza conforme determina a norma legal, em atendimento ao preceito contido no parágrafo único do art. 142 do Código Tributário Nacional. 6. Dispositivo Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário interposto e negarlhe provimento, mantendose hígida a decisão de piso. É como voto. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Fl. 436DF CARF MF Processo nº 10715.004977/201083 Acórdão n.º 3402005.881 S3C4T2 Fl. 432 11 Fl. 437DF CARF MF
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Numero do processo: 10183.001640/98-31
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Oct 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Dec 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/07/1997 a 30/09/1997
CRÉDITO PRESUMIDO DO IPI. AQUISIÇÕES DE PESSOAS FÍSICAS E COOPERATIVAS. POSSIBILIDADE. STJ. RECURSO REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. RESP Nº 993.164/MG.
O crédito presumido relativo a produtos oriundos da atividade rural utilizados como matéria-prima, produto intermediário ou embalagem, na produção bens exportados, será calculado inclusive em relação às aquisições efetuadas de pessoas físicas e cooperativas. Recurso Especial nº 993.164/MG, submetido ao regime do artigo 543-C.
CORREÇÃO TAXA SELIC. RESSARCIMENTO DE IPI. TERMO INICIAL.
Os ressarcimentos de IPI devem sofrer atualização pela taxa Selic quando haja oposição ilegítima do Fisco ao pedido. O Termo inicial da atualização é o 361º dia do protocolo do pedido, marco da oposição ilegítima do Fisco, cf. art. 24 da Lei 11.457/2007, quando não haja, anteriormente, manifestação da administração contrária à pretensão legítima do contribuinte.
Recurso Voluntário Provido em Parte
Numero da decisão: 3201-004.393
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para reconhecer o crédito pleiteado e a incidência da taxa Selic somente a partir de 360 (trezentos e sessenta) dias contados do protocolo do pedido, vencidos os conselheiros Tatiana Josefovicz Belisario (relatora), Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Marcelo Giovani Vieira.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente.
(assinado digitalmente)
Tatiana Josefovicz Belisário - Relatora.
(assinado digitalmente)
Marcelo Giovani Vieira - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior.
Nome do relator: TATIANA JOSEFOVICZ BELISARIO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para reconhecer o crédito pleiteado e a incidência da taxa Selic somente a partir de 360 (trezentos e sessenta) dias contados do protocolo do pedido, vencidos os conselheiros Tatiana Josefovicz Belisario (relatora), Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Marcelo Giovani Vieira. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza - Presidente. (assinado digitalmente) Tatiana Josefovicz Belisário - Relatora. (assinado digitalmente) Marcelo Giovani Vieira - Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior.
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AQUISIÇÕES DE PESSOAS FÍSICAS E COOPERATIVAS. POSSIBILIDADE. STJ. RECURSO REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. RESP Nº 993.164/MG. O crédito presumido relativo a produtos oriundos da atividade rural utilizados como matériaprima, produto intermediário ou embalagem, na produção bens exportados, será calculado inclusive em relação às aquisições efetuadas de pessoas físicas e cooperativas. Recurso Especial nº 993.164/MG, submetido ao regime do artigo 543C. CORREÇÃO TAXA SELIC. RESSARCIMENTO DE IPI. TERMO INICIAL. Os ressarcimentos de IPI devem sofrer atualização pela taxa Selic quando haja oposição ilegítima do Fisco ao pedido. O Termo inicial da atualização é o 361º dia do protocolo do pedido, marco da oposição ilegítima do Fisco, cf. art. 24 da Lei 11.457/2007, quando não haja, anteriormente, manifestação da administração contrária à pretensão legítima do contribuinte. Recurso Voluntário Provido em Parte Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para reconhecer o crédito pleiteado e a incidência da taxa Selic somente a partir de 360 (trezentos e sessenta) dias contados do protocolo do pedido, vencidos os conselheiros Tatiana Josefovicz Belisario (relatora), Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Marcelo Giovani Vieira. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 18 3. 00 16 40 /9 8- 31 Fl. 558DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente. (assinado digitalmente) Tatiana Josefovicz Belisário Relatora. (assinado digitalmente) Marcelo Giovani Vieira Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior. Relatório Tratase de Recurso Voluntário apresentado pelo Contribuinte em face do acórdão nº 1055.235, proferido pela 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre (RS), que assim relatou o feito: Tratase de manifestação de inconformidade ante o Despacho Decisório DRF/CBA Nº 525/2000 (fls. 257 a 260) que deferiu parcialmente o Pedido de Ressarcimento do crédito presumido do IPI (fl. 3) previsto na Lei nº 9.363, de 1996, relativo ao 3º trimestre de 1997. O r. despacho está vazado nos seguintes termos: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 3º Trimestre de 1997 RESSARCIMENTO DE CRÉDITO PRESUMIDO. Não farão jus ao crédito presumido do IPI as matérias primas, produtos intermediários, e materiais de embalagem adquiridos diretamente de produtores rurais, pessoas físicas e de cooperativas. Na determinação da base de cálculo do incentivo, considerase os insumos adquiridos e efetivamente consumidos no processo produtivo, não o total das aquisições. PEDIDO DEFERIDO PARCIALMENTE RELATÓRIO Pelo presente, a empresa acima identificada requer a compensação do ressarcimento em espécie de crédito presumido de Imposto sobre Produtos Industrializados IPI como ressarcimento das contribuições para o Fl. 559DF CARF MF Processo nº 10183.001640/9831 Acórdão n.º 3201004.393 S3C2T1 Fl. 559 3 Programa de Integração Social PIS e para o Financiamento da Seguridade Social COFINS, no valor de RS 255.923,15 (duzentos e cinqüenta e cinco mil, novecentos e vinte e três reais e quinze centavos), referente ao 3º trimestre de 1997. 2. A interessada, ao instruir o pedido, juntou, dentre outros, os seguintes documentos: a) Certidão Negativa de DébitoCND, emitida pelo INSS (fl. 21); b) cópias da Atas das Assembléias Gerais e Extraordinárias contendo na íntegra a redação do Estatuto Social (fls. 09/l6 e 103/110); b) cópias da Atas das Assembléias Gerais e Extraordinárias contendo na íntegra a redação do Estatuto Social (fls. 07/l6 e 12/23 e 95/99); c) cópia do recibo de entrega do Demonstrativo do Credito Presumido (fls.80/83); d) cópia de inteiro teor das folhas do Livro de apuração do IPI, modelo 8, mostrando as operações realizadas no 3º trimestre de 1997 (fls. 24/41); e) relação das notas fiscais dos insumos adquiridos de não contribuintes do PIS/PASEP (fls. 42/71); 3. Em Despacho de fl. 91, foi solicitada verificação fiscal à Seção competente (SAFIS/DRF/CUIABÁMT). visando apurar a legitimidade do pleito. 4. Assim, foi lavrado circunstanciado Termo de Verificação Fiscal de fls. 86/89, complementado pelo Termo de Verificação de fls. 126/131, o qual glosa do crédito pleiteado pela interessada o valor de R$ 34.545,06 (trinta e quatro mil, quinhentos e quarenta e cinco reais e seis centavos), referente ao crédito presumido sobre as aquisições de insumos de pessoas físicas e cooperativas. FUNDAMENTAÇÃO 5. Dispõe o artigo 1º da Lei n°9.363, de 13/12/96 D.O.U de 17/12/96, in verbis: (...)6. Conforme Termo de Verificação Fiscal de fls. 86/89, complementado pelo Termo de Verificação de fls. 126/131, elaborados pela Seção de Fiscalização desta DRF, constatase que a interessada adquiriu parte de seus insumos de pessoas físicas que não se submetem à incidência das Contribuições ao PIS c COFINS. 7. Cumpre observar a determinação contida no parágrafo segundo do artigo 2º e no caput do artigo 18, ambos da IN SRF nº 23/97, in verbis: Fl. 560DF CARF MF 4 (...)8. Desse modo, os insumos utilizados no processo produtivo que foram adquiridos diretamente de produtor pessoa física não compõem a base de cálculo do benefício instituído pela Lei 9.363/96, fato que justifica a glosa do crédito, efetuada no Termo de Verificação Fiscal de fls. 126/131. 9. Cabe ressaltar que as contribuições sociais PIS/PASEP/COFINS somente são devidas pelas pessoas jurídicas, nos termos do art. 1º da Lei Complementar 70/91, dos arts. 1º e 3º da Lei Complementar 7/70 e do art. 2º da Lei nº 9.715. de 25 de novembro de 1998, e incidem quando da venda ou faturamento dos produtos, ou seja, se o ato legal em comento se reporta às contribuições incidentes sobre as respectivas aquisições, obviamente se aplica aos insumos que, adquiridos de terceiros, a elas estivessem sujeitos. Ora, não são contribuintes do PIS/PASEP ou da COFINS as pessoas físicas, assim, não havendo incidência sobre as aquisições, não há o que ressarcir ao adquirente. 10. Da mesma forma, as aquisições de insumos de Cooperativas de Produtores não devem compor a base de calculo do incentivo. As cooperativas são formadas com o objetivo de comercializar a produção de seus associados, que a elas é entregue. As operações realizadas entre as cooperativas e seus associados não são atos mercantis, não implicando compra e venda de produtos, conforme determina o art. 79, parágrafo único, da Lei n° 5.761 de 16/12/1971, assim sendo, tais operações não sofrem a incidência das contribuições para o PIS e COFINS. 11. Apesar de contribuírem para o PIS sobre a folha de salários, as Sociedades Cooperativas não contribuem para o PIS/Faturamento, nem para a COFINS, o que faz com que os produtoresexportadores que delas adquiram os produtos que vão usar no processo produtivo não possam usar o crédito presumido sobre tais aquisições, porque o crédito presumido visa ressarcir o valor das duas contribuições incidentes sobre a aquisição das matérias primas, produtos intermediários e material de embalagem. Tratase, portanto, do ressarcimento das parcelas das referidas contribuições que incidem sobre o faturamento das empresas vendedoras, e não sobre a folha de salários. 12. Adicionalmente, ao determinar o valor do crédito presumido, a interessada não observou o disposto no art. 3º, parágrafo 1º, inciso I, da Portaria do MF n.° 38/97, inserindo na base de cálculo do incentivo o valor total das aquisições quando o correto seria o valor dos insumos utilizados. 13. O valor do crédito presumido a ressarcir é aquele calculado por esta Delegacia, conforme Termo de Verificação Fiscal de fls. 126/131, no qual consta para o 3º trimestre de 1997, as seguintes conclusões: Fl. 561DF CARF MF Processo nº 10183.001640/9831 Acórdão n.º 3201004.393 S3C2T1 Fl. 560 5 (...)14. Estes valores e todos os demais constantes deste Despacho Decisório e os métodos utilizados pela fiscalização para a apuração dos mesmos, encontramse detalhados nos demonstrativos de fls. 126/131, elaborados com base em balancetes de verificação, Notas Fiscais de compra e outros documentos fiscais apresentados pela interessada. (...)CONCLUSÃO 16. Isto posto, DEFIRO o pedido da interessada para: a) RECONHECER PARCIALMENTE O CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI como ressarcimento das contribuições para o PIS e a COFINS incidentes sobre as aquisições de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem empregados em produtos exportados, relativo ao 3º trimestre de 1997, no montante de R$ 221.378,09 (duzentos e vinte e um mil, trezentos e setenta e oito reais e nove centavos); b) DETERMINAR a utilização deste credito para compensar de ofício débitos por ventura existentes, cumprindo o disposto nos §§ 3º e 4º. do artigo 8º, e observando o art. 12, ambos da IN SRF n° 21/97, alterada pela IN SRF 73/97; c) AUTORIZAR o ressarcimento em espécie de saldo remanescente, se houver, na forma da Instrução Normativa Conjunta SRF/STN n° 117/89. (...) Insurgiuse a Interessada por meio da manifestação de inconformidade de fls. 275/281, que pode assim ser sumariada: “Houve por bem o ilustre delegado da Receita Federal em Cuiabá/MT, de reconhecer parcialmente o crédito postulado pela Impugnante, no montante de R$ 221.378,09. Sustenta a DRF/Cuiabá que devem ser excluídos da base de cálculo do incentivo o valor relativo aos insumos adquiridos de pessoas físicas e de cooperativas. Observese que a decisão “a quo” está criando restrição que não prevista pela legislação pertinente. (...)É de concluirse, pois, que se trata de um estímulo à exportação, num esforço governamental ao incremento das vendas do País ao exterior, amenizando assim o chamado “Custo Brasil”, que tanto entrave tem causado aos produtos brasileiros em competição no estrangeiro. Fica também demonstrado que as restrições impostas pela decisão impugnada não encontram abrigo na legislação pertinente. Fl. 562DF CARF MF 6 Se a lei, preocupada com o equilíbrio da balança cambial, criou um estímulo às exportações sem estabelecer as restrições impostas pela decisão impugnada, não cabe à Delegacia da Receita Federa de Cuiabá criar as referidas restrições, sob pena de a decisão ser ilegal e não produzir qualquer efeito no mundo jurídico. (...)Diante do exposto, requer que essa Delegacia da Receita Federal de Julgamento se digne de conhecer de dar provimento à presente impugnação, para o fim de deferir totalmente o "Pedido de Ressarcimento" relativo ao crédito presumido do IPI, instituido pela Lei n° 9.363/1996, como ressarcimento das contribuições para o PIS e COFINS incidentes sobre insumos empregados em produtos exportados, referente ao 3° trimestre de 1997, no valor de R$ 255.923,15, devidamente acrescido dos juros da taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia SELIC, para títulos federais, acumulada mensalmente, na forma do § 4º, do artigo 39, da Lei n° 9.250, de 25 de dezembro de 1995. É o relatório. Após exame da defesa apresentada pelo Contribuinte, a DRJ proferiu acórdão assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/07/1997 a 30/09/1997 CRÉDITO PRESUMIDO DO IPI. AQUISIÇÕES DE PESSOAS FÍSICAS E COOPERATIVAS. IMPOSSIBILIDADE. O crédito presumido relativo a produtos oriundos da atividade rural utilizados como matériaprima, produto intermediário ou embalagem, na produção bens exportados, será calculado, exclusivamente, em relação às aquisições, efetuadas de pessoas jurídicas, sujeitas às contribuições para o PIS/PASEP e COFINS. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/10/1997 a 31/12/1997 ABONO DE JUROS SELIC. DESCABIMENTO. Por falta de previsão legal, é incabível o abono de juros Selic ao ressarcimento do crédito presumido do IPI. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Inconformado, o Contribuinte apresentou Recurso Voluntário reiterando os argumentos de defesa apresentados quanto ao crédito tributário mantido. Em síntese, postula pelo reconhecimento do direito ao crédito presumido de IPI sobre as aquisições realizadas de pessoas físicas e cooperativas, bem como pela aplicação da Taxa SELIC Fl. 563DF CARF MF Processo nº 10183.001640/9831 Acórdão n.º 3201004.393 S3C2T1 Fl. 561 7 Após os autos foram remetidos a este CARF e a mim distribuídos por sorteio. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário Relatora O Recurso Voluntário é próprio e tempestivo, portanto dele tomo conhecimento. A matéria em litígio é simples e já se encontra solidificada em jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, inclusive com a prolação de Recursos Repetitivos. Conforme se extrai do relato dos fatos, a Recorrente teve seu Pedido de Ressarcimento relativo ao crédito presumido do IPI previsto na Lei nº 9.363, de 1996, relativo ao 3º trimestre de 1997, parcialmente indeferido. Houve negativa do direito aos créditos oriundos das aquisições de insumos de pessoas físicas e cooperativas. Muito embora a Autoridade Julgadora de primeira instância reconheça a existência de decisão proferida pelo STJ em sede de Recurso Repetitivo, considera que quanto "à glosa objeto do presente litígio, fundada no § 2º do art. 2º da IN SRF nº 23, de 1997, cumpre dizer que inexiste ato administrativo de caráter normativo ou mesmo interpretativo que materialize modificação da interpretação da lei tributária que permita reverter a referida glosa em primeira instância." Não obstante, no âmbito deste Conselho Administrativos de Recursos Fiscais, a decisão proferida em sede de recurso repetitivo é de aplicação obrigatória, consoante art. 62, inciso II, alínea b do Anexo II do seu Regimento Interno (aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015). Verbis: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; II que fundamente crédito tributário objeto de: a) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 103A da Constituição Federal; (...) Fl. 564DF CARF MF 8 b) Decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, na forma disciplinada pela Administração Tributária; Desse modo, deve prevalecer no presente julgamento o quanto restou decidido pelo Superior Tribunal de Justiça nos autos do Recurso Especial nº 993.164/MG, submetido ao regime do artigo 543C: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO PARA RESSARCIMENTO DO VALOR DO PIS/PASEP E DA COFINS. EMPRESAS PRODUTORAS E EXPORTADORAS DE MERCADORIAS NACIONAIS. LEI 9.363/96. INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF 23/97. CONDICIONAMENTO DO INCENTIVO FISCAL AOS INSUMOS ADQUIRIDOS DE FORNECEDORES SUJEITOS À TRIBUTAÇÃO PELO PIS E PELA COFINS. EXORBITÂNCIA DOS LIMITES IMPOSTOS PELA LEI ORDINÁRIA. SÚMULA VINCULANTE 10/STF. OBSERVÂNCIA. INSTRUÇÃO NORMATIVA (ATO NORMATIVO SECUNDÁRIO). CORREÇÃO MONETÁRIA. INCIDÊNCIA. EXERCÍCIO DO DIREITO DE CRÉDITO POSTERGADO PELO FISCO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE CRÉDITO ESCRITURAL. TAXA SELIC. APLICAÇÃO. VIOLAÇÃO DO ARTIGO 535, DO CPC. INOCORRÊNCIA. 1. O crédito presumido de IPI, instituído pela Lei 9.363/96, não poderia ter sua aplicação restringida por força da Instrução Normativa SRF 23/97, ato normativo secundário, que não pode inovar no ordenamento jurídico, subordinandose aos limites do texto legal. 2. A Lei 9.363/96 instituiu crédito presumido de IPI para ressarcimento do valor do PIS/PASEP e COFINS, ao dispor que: "Art. 1º A empresa produtora e exportadora de mercadorias nacionais fará jus a crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados, como ressarcimento das contribuições de que tratam as Leis Complementares nos 7, de 7 de setembro de 1970, 8, de 3 de dezembro de 1970, e de dezembro de 1991, incidentes sobre as respectivas aquisições, no mercado interno, de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, para utilização no processo produtivo. Parágrafo único. O disposto neste artigo aplicase, inclusive, nos casos de venda a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação para o exterior." Fl. 565DF CARF MF Processo nº 10183.001640/9831 Acórdão n.º 3201004.393 S3C2T1 Fl. 562 9 3. O artigo 6º, do aludido diploma legal, determina, ainda, que "o Ministro de Estado da Fazenda expedirá as instruções necessárias ao cumprimento do disposto nesta Lei, inclusive quanto aos requisitos e periodicidade para apuração e para fruição do crédito presumido e respectivo ressarcimento, à definição de receita de exportação e aos documentos fiscais comprobatórios dos lançamentos, a esse título, efetuados pelo produtor exportador". 4. O Ministro de Estado da Fazenda, no uso de suas atribuições, expediu a Portaria 38/97, dispondo sobre o cálculo e a utilização do crédito presumido instituído pela Lei 9.363/96 e autorizando o Secretário da Receita Federal a expedir normas complementares necessárias à implementação da aludida portaria (artigo 12). 5. Nesse segmento, o Secretário da Receita Federal expediu a Instrução Normativa 23/97 (revogada, sem interrupção de sua força normativa, pela Instrução Normativa 313/2003, também revogada, nos mesmos termos, pela Instrução Normativa 419/2004), assim preceituando: "Art. 2º Fará jus ao crédito presumido a que se refere o artigo anterior a empresa produtora e exportadora de mercadorias nacionais. § 1º O direito ao crédito presumido aplicase inclusive: I Quando o produto fabricado goze do benefício da alíquota zero; II nas vendas a empresa comercial exportadora, com o fim específico de exportação. § 2º O crédito presumido relativo a produtos oriundos da atividade rural, conforme definida no art. 2º da Lei nº 8.023, de 12 de abril de 1990, utilizados como matériaprima, produto intermediário ou embalagem, na produção bens exportados, será calculado, exclusivamente, em relação às aquisições, efetuadas de pessoas jurídicas, sujeitas às contribuições PIS/PASEP e COFINS." 6. Com efeito, o § 2º, do artigo 2º, da Instrução Normativa SRF 23/97, restringiu a dedução do crédito presumido do IPI (instituído pela Lei 9.363/96), no que concerne às empresas produtoras e exportadoras de produtos oriundos de atividade rural, às aquisições, no mercado interno, efetuadas de pessoas jurídicas sujeitas às contribuições destinadas ao PIS/PASEP e à COFINS. 7. Como de sabença, a validade das instruções normativas (atos normativos secundários) pressupõe a estrita observância dos limites impostos pelos atos normativos primários a que se subordinam (leis, tratados, convenções internacionais, etc.), sendo certo que, se vierem a positivar em seu texto uma exegese que possa irromper a hierarquia normativa sobrejacente, viciar Fl. 566DF CARF MF 10 seão de ilegalidade e não de inconstitucionalidade (Precedentes do Supremo Tribunal Federal: ADI 531 AgR, Rel. Ministro Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 11.12.1991, DJ 03.04.1992; e ADI 365 AgR, Rel. Ministro Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 07.11.1990, DJ 15.03.1991). 8. Conseqüentemente, sobressai a "ilegalidade" da instrução normativa que extrapolou os limites impostos pela Lei 9.363/96, ao excluir, da base de cálculo do benefício do crédito presumido do IPI, as aquisições (relativamente aos produtos oriundos de atividade rural) de matériaprima e de insumos de fornecedores não sujeito à tributação pelo PIS/PASEP e pela COFINS (Precedentes das Turmas de Direito Público: REsp 849287/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 19.08.2010, DJe 28.09.2010; AgRg no REsp 913433/ES, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 04.06.2009, DJe 25.06.2009; REsp 1109034/PR, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 16.04.2009, DJe 06.05.2009; REsp 1008021/CE, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 01.04.2008, DJe 11.04.2008; REsp 767.617/CE, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 12.12.2006, DJ 15.02.2007; REsp 617733/CE, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, julgado em 03.08.2006, DJ 24.08.2006; e REsp 586392/RN, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 19.10.2004, DJ 06.12.2004). 9. É que: (i) "a COFINS e o PIS oneram em cascata o produto rural e, por isso, estão embutidos no valor do produto final adquirido pelo produtorexportador, mesmo não havendo incidência na sua última aquisição"; (ii) "o Decreto 2.367/98 Regulamento do IPI , posterior à Lei 9.363/96, não fez restrição às aquisições de produtos rurais"; e (iii) "a base de cálculo do ressarcimento é o valor total das aquisições dos insumos utilizados no processo produtivo (art. 2º), sem condicionantes" (REsp 586392/RN). 10. A Súmula Vinculante 10/STF cristalizou o entendimento de que: "Viola a cláusula de reserva de plenário (CF, artigo 97) a decisão de órgão fracionário de tribunal que, embora não declare expressamente a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do poder público, afasta sua incidência, no todo ou em parte." 11. Entrementes, é certo que a exigência de observância à cláusula de reserva de plenário não abrange os atos normativos secundários do Poder Público, uma vez não estabelecido confronto direto com a Constituição, razão pela qual inaplicável a Súmula Vinculante 10/STF à espécie. 12. A oposição constante de ato estatal, administrativo ou normativo, impedindo a utilização do direito de crédito de IPI (decorrente da aplicação do princípio constitucional da não cumulatividade), descaracteriza referido crédito como escritural (assim considerado aquele oportunamente lançado pelo contribuinte em sua escrita contábil), exsurgindo legítima a incidência de correção monetária, sob pena de enriquecimento sem causa do Fisco (Aplicação analógica do Fl. 567DF CARF MF Processo nº 10183.001640/9831 Acórdão n.º 3201004.393 S3C2T1 Fl. 563 11 precedente da Primeira Seção submetido ao rito do artigo 543 C, do CPC: REsp 1035847/RS, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 24.06.2009, DJe 03.08.2009). 13. A Tabela Única aprovada pela Primeira Seção (que agrega o Manual de Cálculos da Justiça Federal e a jurisprudência do STJ) autoriza a aplicação da Taxa SELIC (a partir de janeiro de 1996) na correção monetária dos créditos extemporaneamente aproveitados por óbice do Fisco (REsp 1150188/SP, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 20.04.2010, DJe 03.05.2010). 14. Outrossim, a apontada ofensa ao artigo 535, do CPC, não restou configurada, uma vez que o acórdão recorrido pronunciouse de forma clara e suficiente sobre a questão posta nos autos. Salientese, ademais, que o magistrado não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos trazidos pela parte, desde que os fundamentos utilizados tenham sido suficientes para embasar a decisão, como de fato ocorreu na hipótese dos autos. 15. Recurso especial da empresa provido para reconhecer a incidência de correção monetária e a aplicação da Taxa Selic. 16. Recurso especial da Fazenda Nacional desprovido. 17. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 993.164/MG, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 13/12/2010, DJe 17/12/2010) Ou seja, é imperativo o reconhecimento do direito do Recorrente de se apropriar do crédito presumido do IPI previsto na Lei nº 9.363, de 1996, sobre as aquisições de insumos de pessoas físicas e cooperativas. Notase item 12 da ementa acima transcrita que o STJ, naquela assentada, reforçou seu entendimento quanto à incidência da Taxa Selic sobre os valores de IPI a serem ressarcidos ao contribuinte, quando existente de ato estatal, administrativo ou normativo, que tenha impedindo a utilização do direito de crédito de IPI. A decisão proferida no citado REsp nº 993.164/MG é vinculante em todos os seus termos, inclusive no que se refere ao direito de correção dos valores. Não obstante, aduz que tal conclusão está em consonância com o que restou decidido no REsp 1.035.847/RS, também submetido ao rito do artigo 543C, do CPC. Cito: PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IPI. PRINCÍPIO DA NÃO CUMULATIVIDADE. EXERCÍCIO DO DIREITO DE CRÉDITO POSTERGADO PELO FISCO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE CRÉDITO ESCRITURAL. CORREÇÃO MONETÁRIA. Fl. 568DF CARF MF 12 INCIDÊNCIA. 1. A correção monetária não incide sobre os créditos de IPI decorrentes do princípio constitucional da nãocumulatividade (créditos escriturais), por ausência de previsão legal. 2. A oposição constante de ato estatal, administrativo ou normativo, impedindo a utilização do direito de crédito oriundo da aplicação do princípio da nãocumulatividade, descaracteriza referido crédito como escritural, assim considerado aquele oportunamente lançado pelo contribuinte em sua escrita contábil. 3. Destarte, a vedação legal ao aproveitamento do crédito impele o contribuinte a socorrerse do Judiciário, circunstância que acarreta demora no reconhecimento do direito pleiteado, dada a tramitação normal dos feitos judiciais. 4. Consectariamente, ocorrendo a vedação ao aproveitamento desses créditos, com o consequente ingresso no Judiciário, postergase o reconhecimento do direito pleiteado, exsurgindo legítima a necessidade de atualizálos monetariamente, sob pena de enriquecimento sem causa do Fisco (Precedentes da Primeira Seção: EREsp 490.547/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.09.2005, DJ 10.10.2005; EREsp 613.977/RS, Rel. Ministro José Delgado, julgado em 09.11.2005, DJ 05.12.2005; EREsp 495.953/PR, Rel. Ministra Denise Arruda, julgado em 27.09.2006, DJ 23.10.2006; EREsp 522.796/PR, Rel. Ministro Herman Benjamin, julgado em 08.11.2006, DJ 24.09.2007;EREsp 430.498/RS, Rel. Ministro Humberto Martins, julgado em 26.03.2008, DJe 07.04.2008; e EREsp 605.921/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 12.11.2008, DJe 24.11.2008). 5. Recurso especial da Fazenda Nacional desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 1035847/RS, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 24/06/2009, DJe 03/08/2009) Pelo exposto, é imperativo o reconhecimento do direito do contribuinte a ter ressarcido os valores do crédito presumido do IPI previsto na Lei nº 9.363, de 1996, relativo ao 4º trimestre de 1997, decorrente das aquisições de insumos de pessoas físicas e cooperativas, devidamente corrigidos pela Taxa SELIC desde a data do pedido, uma vez que se considera como "ato estatal, administrativo ou normativo, impedindo a utilização do direito de crédito de IPI" a própria Instrução Normativa SRF nº 23 de 1997. Assim, voto por DAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário do contribuinte. Tatiana Josefovicz Belisário Fl. 569DF CARF MF Processo nº 10183.001640/9831 Acórdão n.º 3201004.393 S3C2T1 Fl. 564 13 Voto Vencedor Conselheiro Marcelo Giovani Vieira, Redator Designado. Termo inicial da incidência da taxa Selic nos ressarcimentos de IPI Regra geral e cediço que créditos escriturais não permitem a atualização quando de seu aproveitamento. Não obstante, o STJ firmou entendimento de que é devida atualização dos ressarcimentos de IPI quando haja oposição ilegítima do Fisco, na Súmula 411: É devida a correção monetária ao creditamento do IPI quando há oposição ao seu aproveitamento decorrente de resistência ilegítima do Fisco. No mesmo sentido, os Resp´s 993.164/MG e 1.035.847/RS. Todavia, tais decisões não marcaram o termo inicial da atualização. Nesse caso, entendese que não há oposição ilegítima do Fisco dentro do prazo regular de análise, de 360 dias, conforme estabelecido no art. 24 da Lei 11.457/2007: Art. 24. É obrigatório que seja proferida decisão administrativa no prazo máximo de 360 (trezentos e sessenta dias) a contar do protocolo de petições, defesas ou recursos administrativos do contribuinte. Assim, o termo inicial da incidência, quando não haja manifestação expressa e contrária à pretensão da recorrente anteriormente, é o 361º dia do protocolo do pedido. Precedente Acórdão Carf 9303007.425. (assinatura digital) Marcelo Giovani Vieira, Redator Designado Fl. 570DF CARF MF
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